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IS BN 9788547231668

Abrão, Nelson
Direito bancário / Nelson Abrão. – 17. ed. – São Paulo : Saraiva Educação, 2018.
1. Direito bancário 2. Direito bancário - Brasil I. Título.
17-1360 CDU 347.734
Índices para catálogo sistemático:
1. Direito bancário : Direito comercial 347.734
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Presidente Carlos Ragazzo
Consultor acadêmico Murilo Angeli
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Concursos Rob erto Navarro
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Edição Iris Ferrão
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Arte e digital Mônica Landi (coord.) | Claudirene de Moura Santos Silva | Guilherme H. M. Salvador | Tiago Dela Rosa
| Verônica Pivisan Reis
Planejamento e processos Clarissa Boraschi Maria (coord.) | Juliana Bojczuk Fermino | Kelli Priscila Pinto | Marília
Cordeiro | Fernando Penteado | Tatiana dos Santos Romão
Novos projetos Laura Paraíso Buldrini Filogônio
Diagramação (Livro Físico) Markelangelo Design e Projetos Editoriais
Revisão Markelangelo Design e Projetos Editoriais
Comunicação e MKT Elaine Cristina da Silva
Capa Brief Comunicação
Livro digital (E-pub)
Produção do e-pub Guilherme Henrique Martins Salvador
Data de fechamento da edição: 27-11-2017
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OBRAS DO AUTOR
Sociedades limitadas. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.
Síndico na falência. 2. ed. São Paulo: LEUD, 1999 (esgotada).
Os credores na falência. 2. ed. São Paulo: LEUD, 1998 (esgotada).
A continuação do negócio na falência. 2. ed. São Paulo: LEUD, 1998 (esgotada).
Curso de direito falimentar. 5. ed. São Paulo: LEUD, 1997 (esgotada).
Da ação revocatória. 2. ed. São Paulo: LEUD, 1997 (esgotada).
O novo direito falimentar. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1985 (esgotada).
Da franquia comercial: “franchising”. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1984 (esgotada).
Temas de direito empresarial. São Paulo: Saraiva, 1978 (esgotada).
Transformação da S/A em sociedade limitada. São Paulo: Saraiva, 1977 (esgotada).
PREFÁCIOS DA 1ª À 5ª EDIÇÃO

Debruçando-nos sobre o trabalho, e, igualmente, em relação às apresentações, sentimos a necessidade de uma


condensação dos prefácios, na medida em que, até a 3ª edição, foram feitos pelo idealizador da obra, e,
posteriormente, por nós, enfeixando assim, numa única circunstância, o aspecto essencial do Direito Bancário.
Fala-nos o saudoso Professor Nelson Abrão, nos três primeiros prefácios, o seguinte:
“Sensível às dificuldades dos alunos de Direito Bancário do 5º ano do Curso de Graduação da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo, em virtude da ausência, até agora imperante, de sistematização da disciplina
entre nós, resolvemos ampliar os textos das aulas que ali ministramos, possibilitando, assim, o encontro de toda a
matéria em um livro único (primeira edição)”.
“Dando ênfase aos procedimentos administrativos, a partir de 1982, no que toca às instituições financeiras, em
estado de crise (leis de 1986 e decretos-leis de 1987), trouxemos à baila tema mais relevante, qual seja o sigilo
bancário, tornando a obra a única do gênero (prefácio à segunda edição).”
“A receptividade dos estudiosos a esta obra deu-nos a comprovação de que seu interesse transcende o campo
curricular para projetar-se no largo círculo de todos os que tratam com a matéria bancária (prefácio à terceira
edição).”
Assumimos a partir da quarta edição a responsabilidade pela desenvoltura do tema e o preenchimento de
assuntos paralelos que desafiavam a complementação do trabalho e sua extensa análise, daí por que a paginação se
transforma e os assuntos se revelam próprios da modernidade do Direito Bancário.
Elucidamos a crise do setor bancário, os conglomerados estrangeiros, as taxas de juros, a posição do STJ e a
função e responsabilidade do Banco Central, de modo atualizado e revisado.
E na quinta edição ousamos afirmar que mais de 35% dos processos judiciais envolviam matéria bancária,
enfrentando as ações coletivas, diploma 6.024/74, os meios eletrônicos, aspectos da Internet, ainda a Lei n. 9.613/98,
lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, e o papel do COAF, afora medidas provisórias editadas para maior
dinamismo e especificidade do sistema bancário.
Destarte, percebe-se nitidamente que hoje o Direito Bancário, mais do que nunca, está incorporado à realidade
das atividades econômicas, ladeado do crescimento e seu desenvolvimento, donde subministramos o fator da política
pública a cargo do BNDES, e assim discorremos hoje, na 11ª edição, sobre temas palpitantes que fazem deste ramo
do direito um dos mais estudados, analisados e discutidos da atualidade.
São Paulo, no início da primavera do ano de 2007.
Carlos Henrique Abrão
Juiz de Direito — SP
APRESENTAÇÃO DA 17ª EDIÇÃO

A fenomenologia do Direito Bancário concentra aspectos nitidamente de conotação de Direito Empresarial, a


serem enfrentados diante da crise e perante uma economia globalizada.
Com o mesmo escopo que pautou o idealizador da obra, o saudoso mestre Nelson Abrão, ao se debruçar sobre
esse vital ramo do Direito Empresarial, coube-nos a árdua missão, em homenagem ao jurista, de manter atualizada e
ampliar sua obra.
Inúmeras matérias pautam contemporaneamente as implicações do moderno Direito Bancário: desde a
reformulação do uso dos magnéticos, aplicativos de pagamento, fixação de taxas de juros pelo Copom, acessos dos
vários setores econômicos, principalmente do agronegócio, até a liberação de créditos e, notadamente, o volume
crescente participado por meio das cooperativas.
O diálogo, que é crucial para a superação de qualquer impasse, tem sido protagonizado pela visão da relação de
consumo e pela tendência maior de abertura do diálogo para se encontrar um denominador comum a fim de
uniformizar os julgamentos.
As operações eletrônicas disparam, agora trazendo como ferramentas os aplicativos nos telefones móveis
celulares, reduzindo-se o número de agências e de funcionários e a necessidade de deslocamento pelo consumidor.
O Nível III de Basileia de segurança tem sido uma constante preocupação, mas a crise iniciada nos EUA e
alastrada pela Europa ainda permite concluir que vários bancos médios e pequenos irão precisar de auxílio, inclusive
do Banco Central europeu.
Não se desconhecem ainda o teste fundamental de segurança contra fraudes e o significado da Súmula 479 do
Superior Tribunal de Justiça no encadeamento da questão.
Milhões de consumidores fazem uso dos empréstimos consignados, e essa matéria se renova cada vez mais nos
tribunais para se estabelecer um teto de desconto e enfrentar o grave problema da margem consignável por
intermédio do cartão de crédito.
Desafoga-se o número de agências, reduzem-se as filas e os serviços se tornam digitais, traduzindo, assim, que o
próprio cliente consumidor possa planejar e programar as suas operações.
Com o deflagrar de operações anticorrupção, a quebra dos sigilos bancário e fiscal traz conhecimentos com
riqueza ímpar, além de se estabelecerem convênios com instituições financeiras estrangeiras para o repatriamento
dos valores.
As tentativas de repatriar dinheiro, ainda renovadas com a prorrogação do prazo, não trouxeram os recursos
financeiros esperados pelo Governo Federal, mas permitiram o privilegiamento dos Estados e Municípios
aquinhoados com o recolhimento dos recursos.
Muitos desafios ainda serão enfrentados na seara do Direito Bancário, na perspectiva de uma concentração
maior e do papel assumido pelas instituições públicas a fim de alocar recursos destinados ao agronegócio e, ao
mesmo tempo, às exportações, para a melhoria da balança comercial.
Não se pode descartar também que, em todo o contexto moderno do Direito Bancário, existe uma interface da
crise fiscal, da dívida pública, a meta inflacionária e a real função a ser desempenhada pelo órgão regulador, o
Banco Central do Brasil, para reduzir o grau de insolvência e de risco das instituições financeiras e, assim,
proporcionar, dentro do prisma de visão da desbancarização, a normalidade das operações, com segurança e
transparência.
Esse leque crescente, associado ao rumo tomado pelos aplicativos, permite concluir que haverá acesso ao
crédito dentro da lógica da desbancarização com o surgimento de alternativas além de cooperativas de crédito e
financiamentos por meio dos fundos, acarretando uma redobrada circunstância permeada pela securitização do
crédito.
São Paulo, 15 de novembro de 2017.
(129º Ano da Proclamação da República)
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
APRESENTAÇÃO DA 16ª EDIÇÃO

Ao término da edição anterior, e também da tiragem que se fez necessária, a oportunidade permite, com o
mesmo espírito que nos impele à revisão, a ampliação e atualização do moderno Direito Bancário, ferramenta
indispensável na concessão do crédito e no setor da economia globalizada.
Devotado sempre o mesmo tributo ao idealizador do trabalho, saudoso mestre Nelson Abrão, ao permear esse
ramo do Direito Empresarial, coube a tarefa dificultosa de mantê-lo atualizado e ampliado em homenagem ao jurista,
que palmilhou os primeiros passos na edificação do trabalho.
Diversos e inovadores temas surgem: independência do Banco Central, regulação do mercado, concentração
bancária, flexibilização do acesso ao crédito, taxa primária de juros, incidência de relação de consumo, contratos de
venda, carta de conforto e tantos outros que permeiam, nacional e internacionalmente, as operações bancárias.
Essencialmente, a jurisprudência tem procurado amenizar a falta de diálogo entre consumidor e instituição
financeira, sem descurar da conciliação ou mediação para a uniformização dos pronunciamentos.
Avivam-se as operações eletrônicas, o banco à distância, redesenhando as instituições financeiras do futuro, cuja
maioria das operações é feita não dentro, mas fora da agência, rotinizando-se o interesse do cliente e a chave de
segurança destinada ao consumidor.
Realizado o teste de estresse na Europa, 25 agências foram reprovadas, evidenciando-se com isso que a crise de
2008, da subprime, ainda não está completamente debelada, naquilo que se costumou chamar de crise sistêmica.
A explosão de cartões de crédito revela a grandiosidade do consumo, porém há uma preocupação de se
diferenciar os preços na aquisição à vista e parcelada, reduzindo-se assim eventual bolha detrimentosa à política do
crédito.
Superada a fase do acesso fácil ao crédito, mediante consignado ou outra modalidade qualquer, o
superendividamento levou à reflexão e à redução dos descontos ao teto de 30%, conforme jurisprudência construída.
Ponto preocupante diz respeito ao aumento vertiginoso de ações, não apenas revisionais, monitórias ou
declaratórias, mas, fundamentalmente, cautelares, de exibição de documentos, rotina essa que precisa ser vista de
frente, para evitar o congestionamento e não se criar uma patologia, na versão de industrialização de modelos
processuais.
A nova lei anticorrupção entra no cenário e revela maior eficiência e transparência, além do dever de informar
dos bancos, quebrando paradigmas, inclusive em relação à sujeição às reprimendas legais.
A inovação tecnológica lança mão dos meios eletrônicos de pagamento, cuja ferramenta do celular indica que
temos mais de 65 milhões de brasileiros não bancarizados, os quais representam, aproximadamente, gasto superior a
R$ 600.000.000,00, o que exige dos bancos maior entrosamento com a classe consumidora.
O scoring do crédito, declarada sua legalidade pelo STJ, suscita discussões e também a atividade das agências
de crédito, a fim de que os estabelecimentos comerciais, de forma fundamentada o recusem, sem qualquer
particularidade ou subjetivismo, o que não afasta, por si só, o dano extrapatrimonial.
Enfim, este vasto cenário globalizado das instituições financeiras tem sido uma constante na visão do governo e
das autoridades monetárias para equilíbrio do câmbio, da balança comercial, do superávit e, principalmente, das
metas a serem alcançadas, inflacionárias e da dívida pública.
Renova-se, com tal desiderato, o compromisso de levar aos interessados o que de mais moderno, desenvolvido e
tecnologicamente consagrado o Direito Bancário atual destina aos milhões de clientes e consumidores, progresso
que deve gerar desenvolvimento e crescimento com sustentabilidade.
São Paulo, Natal de 2015.
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
APRESENTAÇÃO DA 15ª EDIÇÃO

Renovado o espírito centrado na moderna análise do direito bancário contemporâneo, propusemo-nos a atualizar,
revisar e ampliar o trabalho, sempre pontuando a importância vital do modelo na realidade de alavanca da concessão
do crédito e no espírito da economia globalizada.
Aplaudindo a iniciativa que coube ao saudoso professor Nelson Abrão, na introdução nesse ramo de direito
empresarial, coube-nos a honrosa, porém difícil tarefa de mantê-lo sempre atualizado, em reverência à memória do
jurista.
Temas palpitantes sempre ressoam, desde o controle da taxa de juros, a posição do Conselho Monetário
Nacional, a crise bancária, discutidas a independência do Banco Central e a incidência da relação de consumo nos
contratos entabulados.
Papel relevante se traduz na jurisprudência, em especial o Superior Tribunal de Justiça, com a edição de
inúmeras súmulas, procurando com isso diminuir o gargalo do posicionamento e ampliar a uniformização do
entendimento.
Transparece, claro e inequívoco, o volume de operações por meio eletrônico, no desenho digital, traduzindo assim
ágil acesso e ferramenta indispensável, a qual participa do cotidiano do cliente e do consumidor de forma geral.
Os bancos centrais mundiais convergiram para o rastreamento da crise, seu monitoramento e injeção de
recursos, procurando com isso minimizar aspectos sociais inerentes.
O aumento vertiginoso do número de cartões de crédito é o retrato inconteste da atração pelo consumo, porém
não se pode descartar a bolha, em razão do elevado endividamento.
Inovou-se com a roupagem do crédito consignado, articulada para prestigiar servidores, aposentados e
pensionistas com redução da taxa de juros e desconto proporcional, não superando o teto de 30% para conservar o
princípio da dignidade humana.
Disputas relativas às ações revisionais, consignatórias e execuções têm sido constantes na esfera do Poder
Judiciário, além daquelas que envolvem execução extrajudicial e o enfrentamento da constitucionalidade e respectiva
legalidade.
A presença dos fundos de investimentos se rotiniza não só no âmbito nacional, mas também internacional,
criando larga frente para a inclusão de novos negócios e também modificações no que diz respeito aos princípios de
controle societário.
Revelada essa faceta, com o enxugamento do número de bancos em funcionamento e ao mesmo tempo o viés
da concentração bancária, exige-se fiscalização e constante autorregulação, evitando, com isso, desarranjos que
possam colocar em risco o sistema.
A modelagem de um novo capitalismo ancorado em parcerias também ressoa na descrição da função bancária,
haja vista o movimento do governo no sentido de estabelecer infraestrutura nos portos, aeroportos e transportes de
forma geral, o que corrobora os investimentos de fundos locais e internacionais.
Finalizado e alcançado o objetivo do Proer, com o enquadramento das instituições financeiras que foram à
liquidação, acenou o governo também com o refinanciamento tributário, a fim de que as instituições priorizem o
pagamento dos tributos, sem nenhuma sobrecarga.
E no cenário contemporâneo fundamental da atividade bancária, todos esses aspectos são examinados e
oportunizados paulatinamente para o conhecimento do dileto público interessado nesse ramo do direito.
São Paulo, 19 de março de 2014 (dia de São José).
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do TJSP
APRESENTAÇÃO DA 14ª EDIÇÃO

Encerrado o ciclo da edição anterior, com nova tiragem, sentimo-nos impulsionados em relação à atualização,
revisão e ampliação do trabalho, nos moldes do moderno capitalismo financeiro e da realidade sempre palpitante da
globalização econômica.
O pioneirismo do trabalho coube ao saudoso Professor Nelson Abrão, na prospecção desse ramo do moderno
direito empresarial, cabendo-nos a honrosa e difícil tarefa da respectiva atualização e divulgação do memorável
trabalho.
Vimos que a autonomia e a independência do Banco Central foram essenciais para as políticas desenvolvidas na
última década, com reflexos diretos no mercado, política regulatória, em relação às taxas de juros, spreads e a
calibração do consumo.
O papel, ao mesmo tempo, do Superior Tribunal de Justiça no enfrentamento das matérias relacionadas à
atividade bancária marcou-se fundamental, com a edição de várias súmulas, principalmente aquela de n. 297, na
tutela do consumidor.
Fundamental também assinalar o volume maciço de operações eletrônicas e digitais, e também dos cheques
apresentados à câmara de compensação, denotando o crescimento econômico e a participação sempre intensa das
classes sociais.
Os dados mostram o crescimento do financiamento imobiliário, da garantia fidejussória, do sustentáculo
hipotecário, ao lado de programas sociais, permitindo a essencial aquisição da casa própria.
O consumidor busca o acesso ao crédito, e a utilização de cartões é frequente, com taxa de juros maiores e o
risco se houver a utilização do crédito rotativo contraído.
Inegável, por outro lado, que aposentados, pensionistas e servidores foram, em certa medida, contemplados com
o crédito consignado, descontando-se dos valores e suas remunerações.
Estabeleceu-se o limite de 30%, como teto, em prol da dignidade humana, para evitar abusos e reduzir o grau de
endividamento de consumidores sem prática de mercado.
O Poder Judiciário tem sido chamado com muita frequência para solucionar causas bancárias, envolvendo
responsabilidade, dano moral, revisão de contratos, execução hipotecária, cartões de crédito, cédulas e todas as
demais operações que fazem parte do cotidiano.
Erige-se, plenamente, em pleno século XXI, fortalecido, o moderno e ao mesmo tempo renovado direito bancário,
de largo espectro, derramando sobre a sociedade os custos do acesso ao crédito, porém carreando maior conforto e
facilidades na aquisição de bens e serviços.
Desperta a sociedade para um novo amanhã, mais seguro, quando as instituições financeiras reduzem os riscos,
experimenta maior fiscalização pela autorregulação, colaborando decisivamente para o desenvolvimento e
crescimento nacionais.
São Paulo, 23 de junho de 2011 (Corpus Christi).
Carlos Henrique Abrão
Desembargador — TJSP
APRESENTAÇÃO DA 13ª EDIÇÃO

Exaurida a última edição, sobrevinda a primeira tiragem, logo em seguida debruçamo-nos para atualizar, ampliar
e rever o trabalho diante dos novos aspectos ligados ao capitalismo financeiro, sedimentado na globalização, e do
inestimável papel representado pelo sistema financeiro moderno.
Desenvolvendo a temática, fruto do pensamento característico do idealizador da obra, Professor Nelson Abrão,
procuramos delinear a pesquisa, e sempre manter em dia as regras que permitem o funcionamento do modelo
situado nas empresas bancárias.
Definida a inexorável importância, no conceito de política monetária, a cargo do Banco Central, eventual inflexão
do mercado suscita reflexos inimagináveis, com altas das taxas de juros, dos spreads, afetando a relação de
consumo.
Inserida a relação de consumo no contexto plural das operações bancárias, cuja compreensão se baseia na
Súmula 297 do STJ, a ela se incorpora a posição do STF, isto porque procura-se equilibrar a relação, interpretando-a
de maneira harmônica.
Bem se observa a real melhoria das condições de vida das classes menos favorecidas, amparadas com acesso
ao crédito, no propósito de permitir qualificação do poder aquisitivo e inserção social.
No entanto, busca-se uma regulamentação do funcionamento dos cartões de crédito, em razão do elevado
volume de endividamento e o risco assumido quando da utilização do crédito rotativo, neutralizando a folha de
consumo.
Em contrapartida, perpassando modelo hipotecário, se preocupa o governo em lançar programas destinados à
aquisição da casa própria, fortalecendo o setor e propagando repasse de recursos.
Encontramos, a passos largos, a frutificação, pelo fortalecimento dos meios eletrônicos, usufruindo o consumidor
das interligações com senhas, para a prática de operações imunes a fraudes e qualquer tipo de anomalia.
Os delitos cibernéticos incorporam-se à circunstância de uma legislação que atenda à realidade, e ao mesmo
tempo, sem dúvida alguma, permita a identificação e a punição dos infratores.
Tomam porte relevante, no seio do Judiciário, as questões bancárias, com progressão geométrica e volumes
substanciais de processos que permeiam a primeira e segunda instância e, principalmente, o Superior Tribunal de
Justiça.
Renova-se o debate em torno do custo bancário, em especial a cobrança de tarifas e as contrapartidas
oferecidas, dentro do âmbito de propiciar ao cliente serviço adequado.
Engrenam-se as instituições financeiras procurando ofertas atraentes, porém, o mercado concorrencial atrai o
capital estrangeiro, inclusive mediante ofertas públicas, constatando-se, assim, instrumentos de liquidez e espaços
destinados a novos arranjos financeiros.
Na catalogação divisada, o momento de crise permite o reencontro de forças, para melhor reestruturação do
sistema, a perspectiva que realça o lucro, na tônica da responsabilidade, e o papel desempenhado englobadamente
pelas instituições.
Por fim, o BNDES, à frente do seu tempo, em conjunto com as demais instituições públicas, e também
particulares, reescreve a imprescindível ferramenta de diagnosticar rarefação de crédito e, concomitantemente,
propiciar recursos voltados para a livre concorrência no âmbito da atividade empresarial.
Esculpe-se no século XXI, de forma pioneira, não apenas pela sua tecnologia incomum mas, sobretudo, pelos
momentos de crise que tornaram as instituições financeiras sujeitas a um maior controle e fiscalização, na
consecução de seus propósitos incorporados ao bem-estar e à dignidade humana no contexto democrático social.
São Paulo, 15 de novembro de 2009 (Data da Proclamação da República).
Carlos Henrique Abrão
Magistrado — Tribunal de Justiça
São Paulo/SP
APRESENTAÇÃO DA 12ª EDIÇÃO

O esgotamento da edição pretérita, em poucos meses, é prova ineliminável da imprescindível manifestação


concreta do direito bancário, a respectiva preponderância em todos os segmentos da economia, na tipificação do
capitalismo financeiro, diante da globalização e no contexto de uma incrível dependência do sistema na dinâmica dos
negócios.
Reincorporando a temática o pensamento do saudoso desbravador do caminho, e idealizador da obra, Professor
Nelson Abrão, mantivemos o espírito de pesquisa, da otimização do assunto, em função do voluntarismo expressivo
que permeia o sistema financeiro contemporâneo.
Visualizado o sistema financeiro concretamente na síntese do instrumento da política monetária, a cargo do
Banco Central, qualquer nervosismo do mercado reflete diretamente na sua estrutura e coloca em relevo a sintonia
fina entre as instituições financeiras e o setor de consumo.
Aprendeu-se a lição da submissão plural do sistema à relação de consumo, por meio da Súmula 297 do STJ e da
decisão proferida na ADIN pelo STF, de tal molde que hodiernamente não campeia dúvida, a par de respeitada
polêmica em alguns negócios e operações bancárias.
O engrandecimento do setor veio corporificado na facilitação do acesso ao crédito e desmesurado número de
financeiras, a par da taxa de juros e dos escaninhos próprios de uma melhora no poder aquisitivo das classes menos
favorecidas.
A estabilidade da moeda é uma realidade; o processo inflacionário tenta ressurgir das cinzas; e a posição do
Banco Central é extremamente singular para influenciar todo o mecanismo de controle, pois o surto rápido da bolha
de consumo disparou preços e acendeu sinal de alerta para a crise internacional.
Com efeito, no enraizamento da crise habitacional americana (sub- prime) e de alguns bancos que se
ressentiram de mecanismos de controle, os efeitos foram contabilizados pela economia mundial de imediato.
Relevante ponderar o avanço dos meios eletrônicos e a vinda de uma legislação que coíba os delitos cibernéticos,
a par de uma forte alavanca de banco de dados, combinados com senhas, no intuito de eliminar fraudes e ataques
aos sistemas bancários.
Discute-se o calibre das imposições de tarifa bancária e sua customização no horizonte do cliente e das agências
que se espalham amiúde ao longo do território nacional, em particular no atendimento de clientes preferenciais.
Sinaliza-se a proliferação de súmulas editadas sob a responsabilidade do STJ, as quais modernizam o
enfrentamento de plúrimas questões em nível judicial, notadamente na aplicação de taxa de juros capitalizados,
fatores de indexação, ações de revisão, registro negativo, banco de dados, enfim, numa gama de serviços prestados
integrativos entre cliente e bancos.
Estados da Federação, na percepção do volume de causas, saem na frente e criam varas especializadas, no
enfrentamento do tema e efetividade na solução do litígio, diante da especificidade e redundância, sobretudo nas
milhares de ações versando expurgo inflacionário.
Tema palpitante diz respeito aos serviços bancários junto ao Judiciário, na privatização de instituições, e ao
destino dos depósitos que atingem somas expressivas e aguardam definição das ações.
Enfim, o momento é propício e muito avantajado para a concorrência, o aprimoramento do mercado, o
desencadeamento de políticas destinadas ao consumidor e o manuseio de aparato de controle na depuração da
prática de ilícitos perpetrados, mediante diagnóstico, fiscalização constante e comunicação aos órgãos responsáveis.
O sistema financeiro consolida-se na visão de um singular exemplo que abre espaço, amplia sua tecnologia,
melhora sua ferramenta, eleva seu lucro, tudo mediante a responsabilidade e o papel fundamental de instrumento
voltado para o bem-estar e a dignidade social da pessoa em pleno século XXI.
São Paulo, 11 de agosto de 2008 (Fundação dos Cursos Jurídicos).
Carlos Henrique Abrão
Juiz de Direito — SP
APRESENTAÇÃO DA 11ª EDIÇÃO

Consubstanciado no dinâmico campo do Direito Empresarial, instrumento indispensável à consecução do crédito


e fenômeno que se espalhou enormemente com o modelo da globalização, revigora-se o Direito Bancário no cenário
nacional e internacional, demonstrando a força do crédito, a repercussão da moeda e o conteúdo de infinitas
operações processadas por meio eletrônico rotineiramente.
A integração entre os campos economia e direito passa a ser uma constante não apenas sob a ótica da
interdisciplina, mas também para o conhecimento sistemático de regras e uma interpretação amiúde dos contratos.
Valoriza-se sobremodo o preconizado no Código Civil em vigor, em atenção aos contratos de adesão, em massa,
municiando proteção ao economicamente mais fraco — desprotegido —, evitando-se a onerosidade excessiva e o
desequilíbrio, fatores aparentes de lesão.
A rápida acolhida da décima edição, em menos de um ano esgotou-se o trabalho, somente incorpora o espírito de
relevância do Direito Bancário e ao mesmo tempo nos fortalece na diretriz de maior responsabilidade, tendo como
destinatário o seleto público que é o incentivo primeiro de toda nossa concentração.
Com a estabilidade da moeda — fruto do Plano Real — ainda persistem problemas das mais variadas espécies
ligados aos expurgos inflacionários, sem que o STJ e STF tenham editado súmulas, sobressai capenga a Justiça
Nacional abarrotada de milhares de procedimentos, repetitivos, sem custo-benefício aparente e, ainda mais grave,
alguns Estados da Federação trilharão uma década sem resultado prático.
A economia mundial ligada ao sistema do capitalismo financeiro tem como braço direito o mecanismo das
operações bancárias, mas o excesso de liquidez traz, em contrapartida, crises que podem permear o cenário de
forma imprevisível, concernentes à grave realidade do mercado financeiro imobiliário americano e à injeção maciça
de recursos dos Bancos Centrais.
Neste passo, a economia brasileira deu importante passo na obtenção de salvaguardas, fez sua lição de casa
junto ao FMI, Clube de Paris, aumentou substancialmente as reservas, estabeleceu metas de inflação, calibrou a
taxa Selic, mas, inquestionavelmente, no sistema capitalista, as contas são normalmente pagas pelos países
emergentes ou em desenvolvimento, porquanto aqueles com mais gordura têm proteções seguras.
Vivenciando esta realidade, o direito bancário avança por intermédio dos serviços eletrônicos, o uso da Internet,
a par das fraudes e da necessidade de uma legislação específica. Contudo, a integração permite a feitura de
operações em tempo real, e os negócios podem experimentar um crescimento integrado.
O novo paradigma de micro e pequenos empresários, na regra do Supersimples — Lei Complementar n.
123/2006 —, infelizmente não apresenta resultados favoráveis, pois que, ao invés de se proceder à reforma
tributária, priorizamos aumentar a base da incidência e a grita fora geral. Urge revisão pelo Congresso Nacional.
Novamente em discussão a permanência da CPMF, o Governo Federal não admite sua repartição, e o
fundamental é saber se a respectiva contribuição apresentou finalidade prática e a radiografia de melhoria dos
serviços públicos, notadamente na capenga área da saúde.
Inolvidável que o leque maior de temas foi abordado pelo Superior Tribunal de Justiça, consolidando uma
favorável relação de julgados, formando súmulas, principalmente na análise contratual, incidências de indexadores,
encargos da mora, a chamada Lei de Usura, e tantos aspectos relevantes neste campo.
Entretanto, indiscutível importância na revisão do contrato o depósito do valor reputado incontroverso, porquanto,
e com razão, não se pode cogitar de processos caminhando por longos anos e o devedor moroso na posse da coisa
sem qualquer risco, na maioria das vezes sob o beneplácito da gratuidade processual.
Elogiável, em parte, a microrreforma do Código de Processo Civil, agilizando assim a execução extrajudicial,
modernizando execução judicial, incentivando o uso do bloqueio Bacen eletrônico e criando uma empatia forte no
sentido de regras padronizadas em termos da cobrança do crédito bancário.
O suporte do setor bancário é imprescindível no comércio, na indústria e substancialmente no campo, setor
agrícola, agronegócio, a motivação inspiradora da Lei n. 11.076/2004, criadora de diversidade de títulos rurais,
aguarda regulamentação, e maior confiança do sistema bancário para desatar o nó do financiamento e expandir o
PIB agrícola, fato que seguramente ajuda a balança comercial e traz importantes dividendos para a economia do
Brasil.
Aglutinando tecnologia, riqueza de criatividade, aliada à infraestrutura de ponta e o desafio de grandes
conglomerados que fazem parte do cotidiano empresarial nacional, o Direito Bancário projeta, nos albores do século
XXI, indissociável sinalização de enorme terreno a ser pavimentado, cuja estrada dirigirá os destinos da sociedade
sob a égide constante do crescimento e desenvolvimento, pois, sem ambos, a justiça social se tornará panaceia.
São Paulo, no início da primavera do ano de 2007.
Carlos Henrique Abrão
Juiz de Direito — SP
APRESENTAÇÕES DA 5ª À 10ª EDIÇÃO

Condensamos as apresentações feitas desde a 5ª até a 10ª edição, extraindo e pinçando de cada uma delas o
sumo escrito por notáveis e brilhantes juristas que prestigiaram o tema, a fim de facilitar a compreensão, a
respectiva didática, na percepção da evolução do trabalho ao lado das atualizações realizadas.
“Num país em que o Direito Bancário representa uma parte substancial dos conflitos em curso nos tribunais e no
qual a nossa bibliografia sobre a matéria continua a ser relativamente diminuta, a reedição da obra do Prof. Nelson
Abrão é das mais oportunas, pois contém os princípios básicos aplicáveis à matéria, sem excesso de citações,
permitindo um acesso de todos os interessados às lições dadas pelo mestre, cuja completa atualização foi muito útil,
importante e oportuna” (Professor Arnoldo Wald — 5ª edição).
E, na mesma direção, a apresentação feita à 6ª edição pelo Ministro Ruy Rosado de Aguiar destaca:
“O destino permitiu, porém, que a obra do Prof. Nelson Abrão pudesse ser renovada pela mão de um jovem
mestre, com a mesma competência do autor, que se dedicou à complementação do escrito, introduzindo nele tudo o
que se exigiria para uma obra à altura do seu tempo.
É por isso que a 6ª edição vem com três novos capítulos, sendo um destinado às implicações jurídicas do bug do
milênio, fato presente em uma sociedade informatizada, outro para estudar a responsabilidade dos grupos bancários
estrangeiros pelas filiais no Brasil, matéria de maior relevo após as privatizações e aquisições de controle na área
bancária, e um último, relativo ao Código de Defesa do Consumidor, em especial a interpretação do seu art. 51, que
versa sobre contratos e cláusulas abusivas”.
Pontuando a apresentação da 7ª edição, o Ministro Sidney Sanches afirmou:
“Chega-se, agora, à 7ª edição, na qual, além dos cuidados anteriores, introduz, o fiel seguidor do pai, dois novos
capítulos, dedicados à Concentração Bancária e Tutela dos Acionistas Minoritários e Teoria da Aparência no Direito
Bancário”.
Com o brilho inexcedível ditado pela propriedade do seu conhecimento, o Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira,
na sua apresentação da 8ª edição, assim se expressou:
“Da excelência da obra e da qualidade do seu Autor, e respectivo filho, melhor disseram as edições anteriores.
Desejo, no entanto, consignar as muitas inovações desta edição, que dá especial ênfase a novos aspectos do tema,
focalizando, com elogiáveis rigor e precisão a influência do Código de Defesa do Consumidor, a inversão do ônus da
prova, o significado da reparação do dano moral, as restrições do crédito, a ação de prestação de contas, a
pretendida autonomia do Banco Central, os contratos eletrônicos e meios magnéticos, o saneamento da empresa
bancária, além das referências aos posicionamentos da jurisprudência. Por todos os motivos, recomenda-se esta
nova edição, que tenho a honra de apresentar, atendendo a amável convite”.
Na 9ª edição, a qual apresentamos, marcamos firme presença do Código Civil na interpretação dos contratos em
massa, de adesão, em prol do elo mais fraco em detrimento do poder econômico; além disso, mencionamos as
diversas Súmulas introduzidas pelo Superior Tribunal de Justiça, dentre as quais as de número 283, 284, 286, 287,
288, 293, 294, 295, 296 e 297, e a efetiva importância no contexto das operações bancárias.
De seu turno, na apresentação que fizemos na 10ª edição realçamos a EC n. 40/2003, a importância da Lei n.
11.101/2005, de recuperação de empresas em crise, a criação de varas especializadas em matéria bancária, o salto
de quantidade dos processos em tramitação, e a nova roupagem descortinada pela presença maciça do sistema na
economia liberal, em termos de globalização.
Enfim, em síntese, consolidadas as apresentações de modo direto, objetivo e presente, sua permanência apenas
destaca o relevo da obra, cujos signatários refletem a imprescindibilidade de sua leitura, em razão do mecanismo
vivo e didático em prol dos operadores do Direito Bancário.
São Paulo, no início da primavera do ano de 2007.
Carlos Henrique Abrão
Juiz de Direito — SP
1
DIREITO BANCÁRIO

Sumário: 1. Caracteres. 2. Conceito. 3. Fontes. 4. Importância.

1. Caracteres
Ramo do Direito Empresarial, incrustado no segmento do Direito Privado, pela qualidade das partes, cujas
relações regula, o Direito Bancário, por outro lado, impregna-se de acentuada conotação pública, dada a importante
repercussão, no interesse coletivo, do exercício da atividade bancária, atualmente sob controle estatal. Com efeito, o
Estado mantém hoje órgãos encarregados de “formular a política da moeda e do crédito, objetivando o progresso
econômico e social do País” (v. art. 2º, parte final, da Lei n. 4.595, de 31-12-1964). Portanto, o primeiro caráter a
assinalar no Direito Bancário é a sua submissão às normas do Direito Privado e, também, do Direito Público,
representado pelo Direito Econômico1. Em segundo lugar, esse conjunto de regras compreendidas por nossa
disciplina diz respeito às operações de banco e a quem as pratica de modo reiterado, dentro do plano econômico da
prestação de serviços. Consequentemente, é um direito profissional, reunindo especificamente as normas
reguladoras de um determinado tipo econômico e de seus agentes.
As operações que o Direito Bancário tem por escopo disciplinar processam-se em série, em massa, visando ao
público em geral, revestindo-se, pois, de um certo tecnicismo, mecanicidade, formalismo e repetitividade, pelo que
surge, como sua terceira característica, a de ser um direito técnico.
Finalmente, e refletindo uma tendência que se revela no próprio Direito Empresarial, graças ao fato de terem as
atividades mercantis transposto fronteiras para se inserirem hoje num plano universal, por força da facilidade dos
meios de comunicação e transporte, o Direito Bancário alinha regras extraídas da prática do comércio internacional.
Corporifica-se, ganhando relevo, uma maior autonomia emprestada ao Direito Bancário, que assume
peculiaridade nos princípios de especificidade, na materialização de regras internacionais, na segurança operacional,
no próprio risco, revelando uma trajetória indispensável na facilitação do crédito, no contexto das operações
negociais.
A roupagem desse modelo inerente à atividade bancária tem sua pedra de toque no papel desempenhado pelo
banqueiro, no ritmo crescente das operações interligadas, notadamente por causa da informatização, dos meios
eletrônicos, cujo aspecto principal simboliza conotação de realce social.
Nota-se, com maior facilidade, o significado do risco empresarial, permeado da larga margem de
responsabilidade, no seu tecnicismo em sintonia com o crédito, simbolizando um parâmetro de extrema utilidade na
sociedade de consumo.
Depara-se mais facilmente com essa inversa atomização do setor bancário, fruto de sua crise, na
operacionalização dos aspectos societários da fusão e cisão, permeados na plasticidade do investimento feito pelo
capital estrangeiro, fazendo um saneamento e provocando um realinhamento no qual aquelas instituições com
dificuldade no equilíbrio de suas contas preferem a transferência do controle à sujeição da administração temporária
ou liquidação extrajudicial a cargo do Banco Central do Brasil.
Defende-se uma maior autonomia no procedimento de intervenção do Banco Central, para efeito de
monitoramento do setor, em caráter preventivo, com menor grau de risco, e aumento das chances dos credores no
recebimento dos valores confiados à instituição em processo de dificuldade financeira.
Com o advento da Emenda Constitucional n. 40, promulgada em 29 de maio de 2003 pelo Congresso Nacional,
revogando os dispositivos do art. 192 (caput mantido) da Lei Magna, participou-se maior prestígio e autonomia à
posição ocupada pelo Banco Central, notadamente em relação à sua consecução de natureza operacional, excluindo
da Constituição Federal o cânone da fixação dos juros reais, implicando a garantia da meta inflacionária e
estabilidade da moeda.
Aos poucos, a exemplo do cenário externo, ganha corpo a tese que incorpora uma autonomia crescente e
desvinculação do Banco Central das políticas macroeconômicas governamentais, atribuindo um papel
contingenciador e ao mesmo tempo preventivo de buscar debelar adversidades conjunturais.
Tema recorrente diz respeito à autonomia do Banco Central e sua política pública de contingenciar capacidade e
lastro no cenário econômico, notadamente em tempos de crise, na dimensão dos países desenvolvidos, e o papel
crucial de injetar recursos nos mercados diante de espasmos de iliquidez isolada ou conjuntural.

2. Conceito
Postas, assim, as linhas fundamentais sobre as quais se assenta o Direito Bancário, podemos conceituá-lo como
o ramo do Direito Empresarial2 (ainda que o art.119 do CCom tenha sido revogado pelo Código Civil em vigor) que
regula as operações de banco e as atividades daqueles que as praticam em caráter profissional.
Ensinando a Lógica que o “definido não pode estar na definição”, importa explicitar o que seja banco, para a
melhor compreensão do conceito de Direito Bancário. Banco é espécie do gênero instituição financeira, sendo esta,
por definição legal, a pessoa jurídica pública ou privada que tenha “como atividade principal ou acessória a coleta,
intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a
custódia de valor de propriedade de terceiros” (Lei n. 4.595, de 31-12-1964, art. 17). Como se vê, o dispositivo legal
brasileiro equipara o gênero à espécie, não prescrevendo qualquer diferença entre instituição financeira e banco.
Entretanto, mister se faz distingui-los, analisando as imprecisões conceituais do suprarreferido art. 17. Em primeiro
lugar, não se pode caracterizar um tipo de empresário, e a instituição financeira o é, sem sombra de dúvida, não por
sua atividade acessória, mas pela essencial, a menos que se considere que a segunda atividade prevista pelo
dispositivo, ou seja, a custódia de valor de propriedade de terceiros, possa ser a principal, o que, evidentemente, não
se compadece com a função precípua dos bancos.
Dessarte, o preceito é repetido, com modificações e acréscimos, pela Lei n. 7.492, de 16 de junho de 1986, que
define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, onde, no art. 1º, se prescreve que, ao lado do exercício da
atividade, principal ou acessória, cumulativamente ou não, de captação, intermediação ou aplicação de recursos
financeiros de terceiros (não mais se fala em “próprios”), a instituição financeira pode ser caracterizada pela
custódia, emissão, distribuição, negociação, intermediação ou administração de valores mobiliários. Assim é que, à
guisa de explicação daquele dispositivo, asseverou-se: “consideram-se instituições financeiras as empresas que
desempenham, no mercado, as funções de intermediárias entre os que têm recursos ou economias disponíveis e os
que necessitam de financiamento para seus gastos de consumo ou de investimento. Essas empresas servem de
caixa única para a comunidade (depósitos bancários) e efetuam o transporte financeiro da produção, provendo os
recursos necessários ao processo produtivo, através de financiamentos para aquisição de matérias-primas, para
vendas a prazo de bens de consumo etc.”3.
É verdade que tal apreciação, conforme assinalou Fábio Konder Comparato em seu aludido comentário, parece
ter-se referido apenas aos bancos, “pois a caixa única da comunidade, a que aludiu, seria constituída pelos depósitos
bancários”, porém “mais adiante estabelece a distinção entre instituições financeiras bancárias propriamente ditas —
que criam moeda escritural — e instituições financeiras não bancárias, que apenas influem na velocidade de
circulação da moeda”. E, na visão do mestre da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco — USP —, a
“instituição financeira, na definição do art. 17 da Lei Bancária, é a que faz da negociação de créditos sua atividade
principal ou acessória”. E, de fato, é o que se dessume da referida norma, embora entendamos se deva expungi-la
da expressão “atividade acessória”.
Em segundo lugar, é pacífico, na doutrina, que a distinção entre banco e instituição financeira “se opera segundo
os fundos de que dispõem esses dois tipos de organismos, e não segundo as operações executadas para fazer
frutificar esses fundos. Essas operações são, com efeito, as mesmas para os bancos e as instituições financeiras;
mas os bancos utilizam para essas operações, além de seus próprios capitais, os fundos que eles recebem
profissionalmente do público sob forma de depósito ou outra; as instituições financeiras não podem utilizar senão
seus próprios capitais ou fundos que profissionalmente não recebem do público sob forma de depósito ou outra.
Somente os bancos podem receber, de modo habitual, fundos do público e utilizá-los por sua própria conta. As
instituições financeiras poderiam, então, receber do público tais fundos sob condição de não utilizá-los por sua
própria conta e de agir como intermediárias, corretoras ou comissárias.
A jurisprudência se mostra, todavia, mais severa: se as instituições financeiras não desejam infringir os
dispositivos legais, não devem, em momento algum, ter a livre disposição dos fundos; não é suficiente que elas não
disponham deles, mas é preciso ainda que não tenham a possibilidade de dispor deles”4. Entretanto, o diploma legal
francês — Lei n. 84/46, de 22 de janeiro de 1984 — reagrupou todas as instituições existentes sob a denominação
genérica de “estabelecimentos de crédito”, acabando com a distinção retromencionada entre instituições financeiras
e banco, definindo, em seu art. 1º, estabelecimentos de crédito como “pessoas jurídicas que efetuam a título de
profissão habitual operações de banco” e prescrevendo que estas compreendem “a recepção de fundos do público,
as operações de crédito, bem como a colocação à disposição da clientela ou a gestão de meios de pagamento”. É
verdade que mantém restrições quanto às instituições financeiras que não sejam bancos (estes podem praticar todas
as operações de banco descritas no art. 1º), consistindo em que elas não podem receber do público depósitos à vista
ou a menos de dois anos de prazo, salvo se autorizadas a título acessório, nas condições definidas pela Comissão de
Regulamentação Bancária.
Com os elementos supradescritos, podemos concluir que “banco é a empresa que, com fundos próprios ou de
terceiros, faz da negociação de créditos sua atividade principal”, de onde se dessume competir-lhe, dentro de suas
prerrogativas profissionais, também o exercício das acessórias, que, não se contendo dentro das creditícias, atendem
à finalidade de atrair o cliente para elas. Lidando, precipuamente, com fundos de terceiros, fica implícita a atividade
de captação dos bancos, sendo que, no estágio atual de nosso Direito, a principal distinção entre banco e instituição
financeira lato sensu está em que aquele cria a moeda escritural.
Dentro dessa esquematização, os bancos aparecem imbuídos de múltiplas funções, daí por que a definição
específica, inserindo-se naquelas atividades ligadas aos planos de saúde, seguro de vida, profissional, arrendamento
mercantil, corretagem de valores, fundos de aposentadoria etc. Este mare magnum da atividade disciplinada pelo
leque ditado pelos bancos deixa uma dificuldade essencial na regulamentação e consequente aplicação de diretrizes
inibidoras de condutas, a ponto de responsabilizar os administradores em casos de malversação do dinheiro e nas
operações de risco.
A profissionalidade ínsita à atividade desenvolvida pelo banqueiro pede uma regulamentação mais eficiente e
categórica sob o plano de sua responsabilidade, uma vez que o Banco Central somente descobre eventuais
irregularidades depois de muitos anos da respectiva ocorrência, além, é óbvio, do crescente problema de liquidez que
abala o mercado e reduz a confiabilidade do consumidor no segmento fundamental à consolidação e segurança na
estabilidade das relações negociais.
Há uma década, desde a introdução do Plano Real, que permitiu maior flexibilização dos preços e recomposição
salarial, garantindo parâmetros concretos de inflação, essa circunstância imprimiu mais liquidez às instituições
financeiras.
A concepção da inflação descontrolada do período anterior e as múltiplas aplicações com investimentos, tudo
isso levou um grande número de instituições financeiras ao procedimento de liquidação, conservando algumas suas
carteiras diante do processo de alienação do controle, ou procedimento societário que se implementou da aquisição
de ativos por outra entidade.
Consequentemente, se houve maior transparência, principalmente em relação aos bancos, outros segmentos
regulados pelo Banco Central experimentaram forte crise, a exemplo de consórcios, seguradoras, cooperativas de
crédito, a demonstrar que a capacitação para o exercício profissional necessita amplo monitoramento e completa
fiscalização de natureza permanente.

3. Fontes
Fonte é todo o órgão revelador do direito. No que concerne particularmente ao Direito Bancário, há que se
distinguir entre as fontes genéricas e específicas. Espécie do Direito Comercial que é, o Direito Bancário não pode
deixar de ter, num sentido lato, os veículos informativos do gênero. Concernente ao Direito Civil, à lume do novo
Código, não pode deixar nossa disciplina de recorrer supletivamente às suas normas, não propriamente como fonte,
porém como “direito comum que é aplicável a todo direito privado, quando não for afastado pelas regras do direito
especial, em face da lacuna ou omissão deste”5. É inegável a serventia subsidiária do Direito Civil no que concerne
aos contratos e obrigações, núcleo do Direito Bancário.
O vigente Código Civil conferiu uma disciplina integrada, de conotação aglutinada da obrigação como um todo,
sem diferenciar a sua circunstância, possibilitando regência material da parte primeira do Código Comercial, por ele
revogada.
Encontrando-se atualmente a atividade bancária sob o regime de controle estatal, é mais acentuada sobre o
Direito Bancário que sobre o próprio Direito Comercial a influência do Direito Público6. As decisões que
manifestam a intervenção do Estado nas operações bancárias colocam nossa matéria sob a égide do Direito
Administrativo.
Finalmente, a “atividade bancária encarada como um todo submete-se a um feixe de regras originárias de um
ramo novo do Direito, chamado Direito Econômico, do qual cada especialista dá uma definição diferente e que
parece ser para a maioria o direito de organização econômica pelos poderes públicos”7.
Pelo exposto, vemos que as fontes genéricas do Direito Bancário são: I — o Direito Comercial; II — o Direito
Administrativo; III — o Direito Econômico, aparecendo o Direito Civil como pressuposto, por ser a base sobre a
qual se apoia todo o Direito Privado. Ao lado dessas fontes, tem o Direito Bancário seus princípios informativos
próprios, específicos, consubstanciados em: leis sobre matéria bancária, decisões dos órgãos reguladores e os usos e
costumes bancários, sujeitos estes últimos a assentamento na Junta Comercial para terem força probante (Lei n.
8.934, de 18-11-1994, art. 8º, VI).
Quanto às convenções internacionais, como por exemplo as de Genebra, relativas à letra de câmbio e à nota
promissória (1930) e ao cheque (1931), são mais propriamente fontes do Direito Comercial, dado o fato de as
relações que regulam transcenderem o campo das operações bancárias a que se sujeitam esses títulos de crédito. E
as “práticas internacionais unificadas”, bastante relevantes, como por exemplo “as regras e usos uniformes em
matéria de crédito documentado”, não são, a rigor, fontes de direito: “sua força obrigatória é aquela dos contratos
entre particulares; não se aplicam a uma operação determinada senão na medida em que o banqueiro e o cliente
assim o decidem, ao menos tacitamente; todavia, os bancos se empenham em aplicar tais normas e é excepcional
que um cliente a isso se oponha”8, em virtude do aspecto por adesão que, como veremos, caracteriza os contratos
bancários.

4. Importância
Regulando, fundamentalmente, o Direito Bancário à atividade praticada pelos bancos, sua relevância decorre
naturalmente dos reflexos daquela na comunidade socioeconômica. Assim é que, no plano do interesse geral, “a
importância da atividade bancária é tal, que o Estado teve que assegurar seu controle e direção e se tornar
banqueiro ele próprio. Os bancos desempenham igualmente um papel primordial de intermediários nos pagamentos: a
moeda escritural ocupa um lugar mais importante que a manual”9. Mas sua tarefa não consistiria em mera
intermediação, erigindo-se em verdadeiros mobilizadores do crédito, “agindo sempre como sujeitos das operações e
dos contratos que realizam, procurando obter capitais disponíveis e os aplicando, em seu próprio nome, tendo
sempre, nessa interme​diação, o intuito de lucro”10.
E, no plano dos interesses particulares, não é menor a significação das operações bancárias: “parece que
nenhum indivíduo, nenhuma empresa, pode renunciar ao concurso de um banco, seja para efetuar seus pagamentos,
seja para obter créditos”11.
Assinalou-se uma rápida evolução do volume e da estrutura dos recursos bancários, ocorrida a partir da década
de 60, tudo isso bafejado pelos progressos técnicos carreados para as atividades bancárias.
“Mas, sem dúvida, encontramo-nos de novo em um período de transição: os rápidos progressos da informática,
as pesquisas realizadas de todos os lados para generalizar o emprego dos novos modos de circulação da moeda
escritural (cartas de pagamento, transferências e avisos de desconto automatizados) preparam e anunciam esta nova
feição do banco12.”
A nova roupagem do sistema é proporcional ao investimento que se busca na obtenção de linhas informatizadas
e programas que atendam aos clientes, além de regras de segurança na relação contratual inibindo fraudes ou
práticas danosas.
De fato, polpudas somas são alocadas na projeção de mecanismos que libertem o cliente das amarras e dos
próprios erros que não podem ser extintos, porém, se de um lado a informatização e a opera​cio​nalização, inclusive no
domicílio do usuário, se fazem constantes, doutro as tarifas também apresentam aumento e servem para equilibrar a
contabilidade, que em tempos de moeda estável registra um balanço de pouco lucro.
A par disso notamos um momento crescente em que se instalam serviços ininterruptos (24 horas), outro no qual
o cliente acessa terminais dentro do próprio veículo e, com o simples digitar de sua senha, entra no sistema em
qualquer parte do globo, mostrando ineludível e cristalinamente que a presença física na agência se torna algo do
passado.
Ademais, a tendência nesse estágio da economia é a redução do quadro de pessoal, o enxugamento do número
de agências, o aperfeiçoamento dos serviços, na busca da melhoria e reunião de condições mínimas na competição
concorrencial com outras instituições que participam mais de perto como acionistas em diversas empresas, inclusive
no programa de privatização.
Enfim, a tecnologia e a cibernética impuseram regras sempre interessantes ao consumidor, que é o grande
beneficiado pela integração do sistema, e, nesse incessante evoluir das coisas, a trajetória no final do milênio assenta
quadro próprio, avivando o lado criativo e da maior funcionalidade possível.
O acesso aos meios tecnológicos equivale à inovação e completa revolução no sistema operacional bancário, na
medida em que os serviços priorizam duplo caminho da eficiência e menor custo, sem prejudicar consultas, saques,
pagamentos, descontos, tudo on-line, numa clara demonstração de que a Internet tem seu espaço progressivo, tanto
na função de garantir ao cliente melhor trabalho à distância como no processo eletrônico, que se torna cada dia mais
familiarizado com a modernidade.
Consequentemente, na multiplicação constante dos instrumentos disponibilizados, também é preciso cercar-se de
meios garantidores da segurança e redução das fraudes, haja vista a invasão disciplinada pelo acesso ilícito no
sistema, e uma mobilidade maior na administração de recursos visando clonar, transferir, sacar e realizar atividades
com o escopo da ilegalidade.
Natural, por tal caminho, que os bancos múltiplos contenham nas respectivas carteiras a pluralidade de tarefa,
num conjunto escolhido pelo cliente, na certeza da transparência e de condições favoráveis perante a concorrência.
Interessante observar que o dinheiro em magnético plastificado vem ganhando força, e seu mecanismo obedece
a um limite razoável de garantia nas operações, mediante um crédito existente e o gasto na feitura dos negócios,
simplificando consultas e o uso de cheques nas preocupações em relação à falta de fundos.
A radiografia presente sintoniza uma rápida mudança nos hábitos e costumes, dês que o sistema bancário é
dinâmico, e, de modo harmônico, na tessitura de caixa de ressonância, o Banco Central envida esforços no
monitoramento das informações, preocupando-se com crises sistêmicas, abrindo campo operacional à concorrência,
flutuando os valores dos depósitos compulsórios, taxas de juros, subministrando os subsídios da política financeira
macroeconômica.
A dinâmica da manifestação expressa pela sociedade de consumo, sem a menor dúvida, posiciona a relevância
do crédito como elemento essencial da vida humana, dês que significativa e representativa parcela da população
adquire a prazo, cuja condição é de não apresentar restrição, ou registro negativo, razão pela qual a criação de um
cadastro positivo, de certa forma, estimula e indiretamente preconiza uma diminuição das taxas de juros praticadas
livremente.
O primeiro passo em torno da aprovação do cadastro positivo fora dado pela Câmara, aprovando o respectivo
dispositivo que passará a ser obrigatório no banco de dados das entidades de crédito, minorando o “spread” e
intencionando com isso a prática de uma política de juros mais flexível, livremente negociável.
Com razão, o fornecimento de crédito mediante desconto em folha de pagamento, ao menos no campo da
empresa privada, é fonte que alimenta o mercado de consumo, enquanto se debate a legalidade fundamental no caso
de se tratar de servidor público, ante o pronunciamento do Superior Tribunal de Justiça, contrário à adoção da
medida na órbita do funcionalismo, existente norma própria na dimensão da iniciativa privada.
Criaram-se os bancos postais, e mesmo aqueles de fomento popular, integrados às loterias, com espaço para
essencialmente permitir a realização de algumas operações, pagamento de contas, saques, utilização dos cartões, no
sentido de aumentar o raio de facilitação dos negócios, divisando que, por força das tarifas bancárias e outras
circunstâncias, em termos programáticos, da faixa ativa dos trabalhadores, um respeitável universo não tem
vinculação com o sistema financeiro.
Efetivamente, na moderna conjuntura do contexto, os bancos modelam os negócios, realizando ou delegando as
operações com propósitos de, antes de tudo, alavancar o fomento e permitir um desenvolvimento rápido e gradual do
crescimento interno e externo da economia.
Também não se pode perder de vista o papel que se atribui às instituições na rolagem da dívida pública, servindo
de substrato para desenvolver, sob o critério da taxa de juros, uma política incrementando a viabilidade do Estado na
condução dos caminhos de sua política de menor intervenção e gradual acompanhamento do exercício da atividade
empresarial.
No processo revisto e ponderado com a internacionalização setorial do sistema financeiro, enxugou-se o número
de bancos no Brasil, em torno de 163, cuja preponderância cerra fileiras no aspecto do intercâmbio e redução do
risco sistêmico havido no passado em plena administração das dificuldades do Plano Real.
Se houve uma redução drástica em relação ao número de instituições em atividade, o aumento do lucro, de
algumas delas, também mereceu destaque, apresentando-se tecnicamente superior ao faturamento de bancos nos
Estados Unidos, a denotar evidente concentração da riqueza, notadamente por meio de múltiplas operações, sem que
haja uma incidência tributária de envergadura a permitir o caráter distributivo e o escopo social visado.
Enfim, os bancos evoluem com extrema rapidez, ladeados do instrumento sólido que perpassa simplesmente o
âmbito nacional, alojando suas forças no elemento mundial que sedimenta o setor.
2
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO COMÉRCIO BANCÁRIO

Sumário: 5. Antiguidade. 6. Idade Média. 7. Idade Moderna. 8. Controle. 9. Comércio bancário no Brasil.

5. Antiguidade
Certas práticas bancárias já eram conhecidas na Antiguidade. Assim é que o empréstimo em dinheiro realizava-
se com frequência na Babilônia, Egito e Fenícia, a partir do século VI a.C. Foi, porém, no mundo greco--romano que
se “tornou conhecida grande parte das operações em uso no banco moderno, como aceitar depósitos de moeda ou
de valores; fazer empréstimos a juros, garantidos ou a descoberto; interpor-se nos pagamentos também sobre praças
distantes; assumir obrigações por conta dos clientes etc., embora tais operações não fossem praticadas em série,
devido às condições econômicas de um mundo no qual a poupança decorria dos investimentos dos proprietários de
terras e modesto era o porte industrial, tendo sido os templos dos deuses o verdadeiro berço das operações
bancárias, como o atestam os negócios em Delos, Delfos e Artêmis”13.
Essas atividades foram próprias, na Grécia, dos “trapezistas” e, em Roma, dos argentarii, que ganharam
fabulosas fortunas e se tornaram árbitros na circulação do dinheiro, por suas funções de trocadores, depositários e
emprestadores de moeda.

6. Idade Média
Com o florescimento do comércio, graças às feiras das cidades italianas, surgiram os campsores ou
cambiatores, que praticavam a troca manual de moedas. Com o aperfeiçoamento de suas atividades, que evoluíram
da simples troca de moedas para a creditícia propriamente dita, tornaram-se conhecidos por banqueiros, “nome esse
que surgiu no século XII, e que depois se confundiram com os grandes mercadores e cujos nomes permaneceram na
história”14.
Ainda na Itália, foi marcante o papel desempenhado pelos “montes”, encarregados de receber contribuições
compulsórias em favor dos órgãos públicos (empréstimos forçados), os quais reaplicavam com juros, fazendo-os
frutificar. O mais antigo deles foi o Banco de Veneza, que, fundado em 1171, funcionou até 1797.
Também na Idade Média foi notória a original atuação dos templários, que financiavam as Cruzadas, e “suas
célebres cisões em relação a Felipe, o Belo (rei de França, que, sucedendo a seu pai, Felipe III, em 1285, com o
título de Felipe IV, ficou famoso por seus atritos com a Igreja), não tiveram outras causas, senão as de ordem
financeira”15.
Outro banco que se tornou notório na época medieval foi a “Casa di San Giorgio”, fundada em Gênova, em 1408,
que se constituiu na primeira sociedade anônima conhecida.
A arregimentação dessa experiência, somada à formação de capitais e articulações no período medievo foram
as raízes mais propícias à criação de grandes instituições, que se desenvolveram na técnica da constituição de
empresas, atuando em áreas locais e depois, a partir do surto da Revolução Industrial, ingerindo investimentos em
diversos territórios.
Sobreditas instituições fizeram o canal ligando o lado do crescimento com aquele do desenvolvimento áureo, duas
facetas da mesma moeda (cara e coroa) que resplandeceram por longo período na busca de experiência,
sedimentando o mercado e todos aqueles que mantinham estreitas relações de negócios.

7. Idade Moderna
A descoberta de novas terras pelas expedições marítimas, e com ela a intensificação do tráfico mercantil, a
multiplicação das feiras, a abundância de metais preciosos e o aumento do apelo dos Estados ao crédito fizeram com
que se alterasse a função dos bancos, passando de mera “cobrança, pagamento e câmbio para intermediária de
crédito, chegando-se assim ao banco moderno, cuja função essencial é de tomar a crédito dos depositantes os
fundos monetários por esses poupados para distribuí-los a crédito aos seus clientes”16. Multiplicou-se o número de
bancos na Itália, França e Alemanha.
Com o advento da Revolução Industrial, consolidou-se o capitalismo liberal, fazendo com que os bancos
atingissem a era de seu pleno desenvolvimento no século XIX, marcado pelo aparecimento de grandes banqueiros e
pela extensão de seus serviços ao nível internacional.
Vislumbra-se uma renovação do sistema, consolidado por meio de técnicas mais influentes no
redimensionamento do estabelecimento bancário, notadamente no papel das concentrações, tudo no desenrolar do
século XX, abrindo desdobramentos bem interessantes na reabsorção dos tipos profissionais nos albores do século
XXI, diante da cibernética e meios eletrônicos.

8. Controle
Desde as origens, os banqueiros foram estreitamente associados ao poder. Na era moderna, contudo, ou seja, a
partir do século XIX, instaura-se o regime de livre iniciativa, tanto para a criação como para o funcionamento dos
bancos. Entretanto, a insolvência de certos bancos e os apelos feitos ao crédito pelo Estado levaram à colocação
dessas instituições sob o controle de organismos estatais.
“O escopo precípuo de tal lei (a bancária), sendo o de tutelar a poupança colhida junto ao público, esta tutela se
exerce não com normas de polícia que controlem o momento da coleta, mas intervindo no momento do emprego de
tal coleta, sujeitando a particular disciplina o exercício da função creditícia17.” Outros, contudo, entendem que essa
atuação estatal vai além de simples controle, tocando as raias de um dirigismo: “Assim é quando os bancos devem
obedecer a prescrições individuais, ou gerais, de ordem positiva, prescrições que lhes são impostas do exterior.
Quando, hoje, o Conselho Nacional de Crédito ordena a um banco fechar tal ou qual sucursal, o controle é superado.
Há direção de empresas bancárias que não por seus proprietários”18.
De observar, contudo, que essa manifestação acentuadamente intervencionista do órgão estatal na vida dos
bancos só ocorre excepcionalmente, ou seja, quando periclita o princípio da liquidez bancária. O regime realmente
vigorante nas legislações hodiernas é o de controle ou tutela (vejam-se leis: italiana, de 1938; francesa, de 1941, e
modificações; brasileira — Lei n. 4.595, de 31-12-1964).
Os maus exemplos dos bancos públicos levaram à privatização destes. Consequentemente, o Estado mostrou a
incapacidade dessa ferramenta, salvando-se muito poucos; daí se fazer necessária uma ingerência de supervisão e
fiscalização a cargo do Banco Central no cumprimento de seu papel institucional.

9. Comércio bancário no Brasil


Entre nós, o primeiro banco foi fundado, ainda na fase colonial, aos 12 de outubro de 1808, com o nome de
Banco do Brasil. No art. VII dos estatutos enumeraram-se as suas operações, a saber, desconto de letras de
câmbio, sacadas ou aceitas por negociantes de crédito nacionais ou estrangeiros, depósito geral de prata, ouro,
diamantes, ou dinheiro, saques por conta de terceiros ou do Real Erário, cobranças etc., sendo ainda definidas no n.
4 deste artigo, que lhe imprimia o caráter de banco de emissão, nos seguintes termos: “emissão de letras, ou bilhetes
pagáveis ao portador à vista ou a um certo prazo de tempo, com a necessária cautela para que jamais estas letras ou
bilhetes deixem de ser pagos no ato da apresentação”19.
Havendo prestado relevantes serviços ao Governo e propiciado razoáveis dividendos a seus acionistas, teve a
sua liquidação aprovada pela assembleia geral de 11 de abril de 1835.
A Lei n. 59, de 8 de outubro de 1833, estabeleceu no Rio de Janeiro um banco de circulação e de depósitos,
denominado Banco do Brasil, mas que não chegou a ser formado.
Entretanto, o Decreto n. 801, de 2 de julho de 1851, aprovou os estatutos do Banco do Brasil, o segundo a operar
efetivamente sob esse nome. Fundiu-se esse banco com o Banco Comercial, em 31 de agosto de 1853, sob a
denominação Banco do Brasil, constituindo-se no terceiro com este nome.
Nova fusão verificou-se, dessa feita com o Banco da República dos Estados Unidos do Brasil, aos 17 de
dezembro de 1892, prevalecendo a denominação deste último. Aos 17 de setembro de 1900 suspendeu os seus
pagamentos, tendo o Governo vindo em seu auxílio, em troca da entrega da administração. Reunidos em assembleias
de 29 de julho e 9 de agosto de 1905, todavia, seus acionistas cuidaram de reorganizá-lo, vindo os respectivos
estatutos a ser aprovados pela Lei n. 1.455, de 30 de dezembro de 1905, tomando a nova sociedade anônima o nome
de Banco do Brasil, o quarto da série.
Além do banco oficial, grande número de empresas bancárias surgiu entre nós, a partir dos meados do século
passado, culminando a intensificação desse comércio bancário, sobretudo com a multiplicação de agências e a
extensão da rede, a partir da lei que disciplinou o Sistema Financeiro Nacional (Lei n. 4.595, de 31-12-1964), que
será apreciado em capítulo especial deste livro.
A radiografia histórica registra os acontecimentos e revela a primazia que marcou o tempo do surgimento do
Banco do Brasil, tipicamente uma sociedade de economia mista, ao lado de mecanismos voltados para a
padronização do setor habitacional, a exemplo das Caixas Econômicas e mais tarde da preocupação social na
formulação das políticas públicas.
O perfil mais próximo desvenda um circuito interligado entre as instituições que não cuidam tão somente do lado
econômico, mas fundamentalmente se munem de meios destinados à realização de serviços na articulação do
desenvolvimento e na expansão do progresso, cuja principal concretização passa pela adequação das atividades às
regras do Banco Central.
A tendência que se revela é uma maior participação nas carteiras de acionistas, em sintonia com o nivelamento
das grandes instituições, na busca por entidades menores, acentuando o interesse na aquisição de bancos de
pequeno porte, ou mesmo de algumas agências espalhadas em setores considerados lucrativos, e, como preconizou o
antigo Presidente do Banco Central alemão, Ernst Welteke, a tonalidade evidenciará fusões e procedimentos
societários de grandes grupos estrangeiros.
Atentos a tudo isso e ao cenário internacional, com a legislação moderna sobre companhias, a proteção do
consumidor e o mundo globalizado, a macrovisão permite cunhar um mercado de grandes grupos predominante
corroborando a tendência de diversas atividades além das fronteiras territoriais.
Bem por esse ângulo, e concentrado no dinamismo que aprimora e aperfeiçoa, cada vez mais, o direito bancário,
as alterações se fazem numa velocidade impressionante, demonstrando como a tecnologia e arregimentação de
capital produzem efeitos na desenvoltura da atividade bancária.
Com a implementação da moeda única europeia e a direção, por igual, do Banco Central, estamos assistindo a
uma transformação nas políticas monetária e de câmbio, inserindo, portanto, os países-membros, que ditam 25
nações em torno de um regimento cujo procedimento estabelece metas e mecanismos de incremento ao mercado.
Naturalmente, há um fortalecimento intenso de cadeias bancárias, tanto que em alguns países, por causa da
concentração, fora impedida a fusão entre setores financeiros, querendo assim manter uma maior participação dos
grupos acionários.
Relevante ponderar o papel social que as instituições financeiras conferem na modelagem de regras e no
planejamento de linhas de crédito, capacitando setores e minorando as desigualdades.
Cogitamos da grande utilidade e dimensão da recente legislação denominada Sarbanes & Oxley, a qual confere
maior fiscalização, transparência e repercussão no seio da companhia, em especial bancos encapsulados na
compreensão de operações consolidando demonstrativos em consonância com o risco exposto.
3
ATIVIDADE BANCÁRIA. BANCOS: CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO

Sumário: 10. Conceito de banco. 11. Organização dos bancos. 12. Classificação. 13. Bancos e casas
bancárias. 14. Bancos e Caixas Econômicas. 15. Cooperativas de crédito.

10. Conceito de banco


Embora variem na forma, as conceituações do que seja banco são coincidentes no fundo, dado que têm como
fulcro o tipo de atividade exercitada por ele. Destarte, já o insigne Vivante ensinava que “o banco é o
estabelecimento comercial que recolhe os capitais para distribuí-los sistematicamente com operações de crédito”20.
Com base nessa conceituação, J. X. Carvalho de Mendonça definiu bancos como sendo “empresas comerciais,
cujo objetivo principal consiste na intromissão entre os que dispõem de capitais e os que precisam obtê-los, isto é, em
receber e concentrar capitais para, sistematicamente, distribuí-los por meio de operações de crédito”21.
E, comentando o enunciado, acrescentou o emérito comercialista pátrio: “Criam assim (os bancos) um especial
mercado, no qual servem de intermediários entre os capitais que desejam emprego e o trabalho que os procura, ou,
conforme se diz com maior elegância, servem de intermediários do crédito”22.
No sentido da intermediação está também a lei bancária italiana, de 1938: “A função de intermediação no
crédito, essencial do ponto de vista econômico, à noção do banco moderno, é assumida na lei bancária de 1938, para
sujeitar a uma disciplina particular os estabelecimentos de crédito que, qualquer que seja sua natureza (pública ou
privada) ou dimensão, recolhem do público a poupança a curto prazo e exercitam o crédito assim chamado
ordinário”23.
Idêntica é a lei francesa de 1941: “São considerados bancos as empresas ou estabelecimentos que fazem
profissão habitual receber do público toda forma de depósitos ou mantêm fundos que empregam por sua própria
conta, em operações de desconto, crédito ou financeiras”, definição legal esta que é referendada pela doutrina:
“De modo geral, a atividade bancária consiste no papel de intermediária nas cobranças (serviço de caixa) e de
distribuidora de crédito (serviço do crédito), à qual se acrescentam certos serviços comerciais anexos”24. Conforme
vimos, a lei francesa específica — Lei n. 84/46, de 24 de janeiro de 1984 — conceituou banco como sendo o
estabelecimento de crédito capaz de praticar sem restrições todas as operações de banco arroladas em seu art. 1º.
Fran Martins entende que a função dos bancos supera a de simples intermediários de crédito: “Chamados de
intermediários do crédito, na realidade os bancos são mobilizadores do crédito, agindo sempre como sujeito das
operações e dos contratos que realizam”25. E, assim sendo, conceitua-os como “empresas comerciais que têm por
finalidade realizar a mobilização do crédito, principalmente mediante o recebimento, em depósito, de capitais de
terceiros, e o empréstimo de importâncias, em seu próprio nome, aos que necessitam de capital”26.
Na terminologia do moderno Direito Comercial, os bancos são empresa (organização harmônica de capital e
trabalho para o exercício de uma atividade econômica de produção ou de troca de bens ou serviços), e não mero
estabelecimento (complexo de bens, materiais e imateriais, de que dispõe o empresário para o exercício de sua
atividade). Por isso, há uma imprecisão técnica na lei italiana, quando adota a expressão “estabelecimento de
crédito” com referência ao banco, a qual “tem um significado técnico, para indicar uma determinada categoria de
empresas bancárias que perseguem a coleta da poupança a curto prazo”27.
Sem nos afastarmos dos elementos informativos que levaram às conceituações supra, podemos, com base na
análise da atividade que constitui seu objeto, definir banco como sendo a empresa que, com fundos próprios, ou de
terceiros, faz da negociação de crédito sua atividade principal (cf. n. 2 retro).
Daí resulta que o banco é: a) uma organização empresária; b) que se utiliza de recursos monetários próprios, ou
de terceiros; c) na atividade creditícia (toma e dá emprestado). A mobilização dos recursos, as respectivas
aplicações e o direcionamento das importâncias para uma pulverização acentuada explicam em parte a relevância
social que identifica as instituições financeiras, donde subministra a preponderância do público sobre o privado, nessa
multissecular relação diagnosticada entre o consumidor e a atividade desenvolvida pelo banqueiro.
Configurada a atividade principal do banco como de intermediação segundo uns, ou de mobilização do crédito,
segundo outros, não deixa ele, como veremos no estudo particularizado de cada uma de suas operações, de praticar
outras acessórias, mas sempre almejando viabilizar a principal.
Evidente, portanto, que os bancos desenvolvem duplicidade de atividades, que têm color de meio e fim, ao
mesmo tempo, fator que se pontua com mais relevo no momento em que se discute eventual subordinação tributária,
na realização de operações que redundam numa prestação de serviços.
As próprias administradoras de cartão de crédito atreladas às instituições financeiras, naquelas operações
mantidas com os aderentes do sistema, descortinam uma atividade muito ligada à prestação de serviços, donde surge
a discussão sobre a tributação pela incidência do ISSQN, de competência municipal.

11. Organização dos bancos


Por imposição de preceito legal específico (art. 17 da Lei n. 4.595, de 31-12-1964), a atividade bancária é
reservada apenas às pessoas jurídicas públicas ou privadas28.
Para funcionarem, os bancos, pessoas jurídicas nacionais, necessitam de autorização do Banco Central; se
estrangeiras, de decreto do Poder Executivo (art. 18 da Lei n. 4.595/64), que vem disciplinando o setor, tanto quanto
necessário, sem descaracterizar o conjunto de medidas provisórias e aquelas de caráter emergencial na solução de
crises econômicas, onde serve o capital externo não somente de termômetro, mas essencialmente para dissipar
boataria infundada que circule pelo mercado e atinja os demais que funcionam como vasos comunicantes.
Para poderem funcionar, as pessoas jurídicas que se constituem para o exercício da atividade bancária deverão
dirigir requerimento ao Banco Central, consoante regras estabelecidas no Manual de Organização do Sistema
Financeiro (Sisorf), elaborado pelo Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf) e instituído pelo
Comunicado n. 14.150, de 6 de fevereiro de 2006, que tem por objetivo fornecer meio de consulta às informações
sobre os aspectos legais, regulamentares e operacionais relativos aos atos que dependem de autorização do Banco
Central do Brasil (BCB), de instituições financeiras, de demais instituições autorizadas a funcionar pelo BCB e de
administradoras de consórcio.
A regra que disciplina o depósito compulsório tem sido flexibilizada, mas, por causa dos aspectos exógenos que
provocam abalos sísmicos do tipo terremoto no mercado globalizado, sempre se vaticina o aumento dessa
importância, não apenas para revelar solidez da instituição, mas para proteção dos consumidores, que sinalizam a
posição de clientes dessas corporações, as quais, por maior tradição que apresentem, não estão livres dos percalços
e dos dissabores que atingem indeterminadamente grupos nascidos por mais de século.
O remanescente do capital inicial subscrito será integralizado no prazo máximo de um ano da data da solução do
respectivo processo (art. 27, § 2º, da Lei n. 4.595/64). Por essa razão, tanto o prazo como as condições deliberadas,
relativas a essa integralização, deverão constar, expressamente, da respectiva ata da assembleia ou escritura
pública.

12. Classificação
Embora alinhando a classificação clássica dos bancos, devemos advertir que, historicamente, a distinção entre
eles está desaparecendo, partindo-se para a configuração do banco universal, isto é, daquele que pratica todas as
operações bancárias, como sucede na Alemanha.
É impossível observar um critério rígido quando se pretende elencar as espécies de banco, porquanto elas variam
em função de seu objeto, isto é, da atividade desempenhada, razão pela qual já assinalara J. X. Carvalho de
Mendonça: “Classificar os bancos é entrar no campo arbitrário. O processo diversificaria conforme os diferentes
pontos de vista a que se desejasse atender”29.
Portanto, de acordo com o critério da atividade, ou operação praticada, e ainda levando-se em conta o elemento
histórico, podemos estabelecer a seguinte classificação dos bancos: I — de emissão; II — comerciais ou de
depósitos; III — de investimento; IV — de crédito real; V — de crédito industrial; VI — agrícolas.
I — Bancos de emissão. Chamados de “bancos dos bancos”, além das operações bancárias que fazem
“exclusivamente com as instituições financeiras públicas e privadas” (art. 12 da Lei n. 4.595/64), comete-lhes a lei a
tarefa privativa de “emitir moeda-papel e moeda metálica, nas condições e limites autorizados pelo Conselho
Monetário Nacional” (art. 10, I, da referida lei). Trata-se do Banco Central do Brasil:
“A circulação das notas ou bilhetes bancários tem sido submetida a três regimes ou cursos:
1º — Curso livre ou ordinário. O credor pode recusar a nota em pagamento.
2º — Curso legal. O credor é obrigado a aceitar a nota em pagamento nas mesmas condições que a moeda, mas
pode reembolsar-se em espécie e à vista, apresentando a nota ao banco.
3º — Curso forçado. O credor é obrigado a aceitar o bilhete em pagamento. O banco está dispensado de
reembolsar. O curso forçado, que é concedido pelo Estado ao banco de emissão para proteger sua existência
metálica quando as circunstâncias fazem recear uma afluência súbita de pedidos de reembolso, é medida
excepcional usada somente em períodos críticos, épocas de crise ou guerra. O curso forçado torna a nota bancária
verdadeiro papel-moeda”30. Por isso é que sua efetivação depende de disposição do Congresso Nacional, com
sanção do Presidente da República (CF, art. 48, XIV).
II — Bancos comerciais ou de depósitos. São os mais comuns e encontradiços. A lei francesa de 2 de
dezembro de 1945, modificada pelo decreto de 25 de janeiro de 1966, no art. 5º, I, define-os como aqueles “cuja
atividade principal consiste em efetuar operações de crédito, em receber do público depósitos de fundos à vista e a
termo”. Portanto, realizam operações de crédito a curto prazo, como atividade precípua, tais como: descontos,
antecipações, aberturas de crédito, além dos serviços auxiliares de cobranças, transferência de fundos, custódia de
títulos e valores, locação de cofres de segurança, câmbio manual e trajectício.
III — Bancos de investimento. Empresas bancárias especializadas em financiamentos a médio e longo prazos,
empregando capitais próprios ou de terceiros, ou, na conceituação oficial, “são instituições financeiras privadas,
especializadas em operações de participação ou de financiamento, a prazos médio e longo, para suprimento de
capital fixo ou de movimento, mediante aplicação de recursos próprios e coleta, intermediação e aplicação de
recursos de terceiros” (item II da Resolução n. 18, de 18-2-1966, do Banco Central, na forma de deliberação do
Conselho Monetário Nacional). Suas operações no campo creditício consistem em:
“a) empréstimos a prazo mínimo de um ano para financiamento de capital fixo;
b) empréstimos, a prazo não inferior a um ano, de capital de movimento, inclusive para financiamento de
produção e embarque de bens destinados à exportação;
(...)
d) repasse de empréstimos obtidos no exterior” (item XIV da Resolução n. 18/66).
Além dessas operações, poderão manter serviços de:
“a) distribuição, ou colocação no mercado, de emissões de títulos ou valores mobiliários;
b) intermediação nas operações relativas a valores mobiliários, em Bolsa de Valores ou fora dela;
c) emissão e atos de registro ou averbação de ações e obrigações normativas, ou nominativas endossáveis;
d) administração de carteira, custódia e recebimento de rendimentos de títulos ou valores mobiliários” (item XVI
da resolução suprarreferida). Acrescente-se, ainda, “a aquisição de ações, obrigações e quaisquer outros títulos ou
valores mobiliários, para investimento ou revenda no mercado de capitais” (letra c do item XIV).
Uma vez que tenham prazo mínimo de um ano, as operações creditícias dos bancos de investimento poderão
conter cláusula de correção monetária (item XV da aludida resolução).
Note-se que essa resolução usa as expressões “investimento” e “desenvolvimento” como sinônimas. Entretanto,
embora tendo natureza privada (empresa pública e sociedade de economia mista) e sujeitando-se, destarte, ao
Direito Comercial, os bancos de desenvolvimento são forma privada de serviço público:
“As considerações preliminares visam enquadrar o Banco de Desenvolvimento, na atual legislação brasileira,
como forma privada de serviço público, que pressupõe, sempre, um equilíbrio entre as virtudes da iniciativa particular
(velocidade, sigilo, eficiência) e os padrões do serviço público (moralidade, igualdade de tratamento, prestação de
contas)”31.
Padrão de banco de desenvolvimento entre nós é o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, empresa
pública, segundo a Lei n. 5.662, de 21 de junho de 1971, “principal instrumento de execução de política de
investimentos do Governo Federal” (art. 23 da Lei n. 4.595/64); teve seu nome alterado para Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social — BNDES pelo Decreto-lei n. 1.940, de 25 de maio de 1982.
O BNDES tem desempenhado um papel de peculiar relevância nos investimentos sociais e de toda ordem,
auxiliando empresas e diversos segmentos das atividades econômicas, sendo importante órgão na política pública e
social do Governo, cuja capacitação e recurso adquirido ao longo dos anos se lhe permite a manutenção da pesquisa
e a exploração de áreas que dependem fundamentalmente do incentivo dessa organização.
Bastante dizer que na crise das Bolsas alavancou recursos, que foram disponibilizados para que as empresas
recomprassem seus próprios papéis, evitando com isso maior especulação e queda livre, aumentando a carteira e a
confiança do investidor.
Dentro do papel estrutural do BNDES, situam-se as políticas de diminuição das diferenças entre as regiões,
incentivando algumas áreas da economia que sofrem determinadas restrições, com investimentos nos setores
industrial, agrícola, de serviços, sendo imprescindível instrumento que alavanca recursos e define localidades
prioritárias em termos de injeção de capital na transformação visando o bem-estar social.
Com razão, estima-se que o BNDES possua em carteira quase 20 bilhões de reais para dotação de sua política
instrumental de investimento, participando nos processos de privatização, nos casos de crise de empresas, além de
seu papel na didática da guerra fiscal, mas é interessante destacar que o fim social perpassa ângulos subjetivos na
consecução de sua linha de ação, razão pela qual os serviços e planos ligados à comunidade têm encaminhamento
prioritário em relação aos caminhos de setores que isoladamente batem às portas da instituição buscando auxílio
financeiro.
As taxas de financiamento do BNDES são mais favoráveis do que as cobradas pelas instituições do mercado,
mas é essencial que a colaboração procedida esteja dentro do seu objeto social, porque se trata de apresentar um
plano bem estruturado que será submetido à aprovação daquela entidade, haja vista se cuidar de recurso público,
cuja destinação precisa ser fiscalizada na aplicação das verbas aprovadas.
Aflora indesmentível a relevância do papel assumido pelo BNDES, mas é de elementar natureza sublinhar que o
apoio às pequenas e médias empresas, além do setor agrícola, tudo isto se alinha à política governamental, que não
tem sido exercida com bastante efetividade, criticando-se alguns empréstimos e liberações de verbas feitos pela
instituição, onde o interesse público e o bem-estar comum não aparecem consistentemente demonstrados.
Constata-se que muitas empresas privadas, em dificuldades, pretendem conseguir verbas do BNDES para
alavancar os processos produtivos, ou rolar dívidas e até mesmo para pagamento de importâncias referentes às
privatizações, sem deixar de lado empenho para efeito de implantação de indústrias e outros setores, nas regiões
menos desenvolvidas do País.
Conquanto haja forte carga política na consideração de ordem procedimental, na concessão do empréstimo, não
é menos interessante destacar que tudo necessita de maior transparência e o bom caminho na administração das
verbas, com a prestação de contas à sociedade, até porque empresas lucrativas não podem ter prioridade na linha de
crédito, e a questão se afigura de maior amplitude, diante do papel social que deve presidir a atividade da instituição
financeira.
Consequentemente, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social é o principal agente da política
governamental no cumprimento das metas estabelecidas e na busca de alternativas que se coadunam com o
crescimento econômico, não se admitindo favorecimentos de alguns Estados na guerra fiscal desenhada, e muito
menos apatia no combate à recessão à custa da moeda forte.
Submetido ao Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio, o BNDES participa direta e decisivamente
na sinalização da situação de crescimento e incremento das regiões, com projetos, planejamento e fundamentalmente
viabilizando recursos que são repassados na dinâmica de concretizar a finalidade social perseguida.
No entanto, a forma de agir da instituição financeira precisa acomodar uma válvula de escape para tratar de
frente a crise temporária de médias e grandes empresas, com a disponibilização de recursos e o levantamento
seguro de dados que sejam capazes de recuperar a atividade, viabilizando a reorganização societária.
Demais disso, não é irrelevante anotar que a circunstância gerada pela constante multiplicação de recursos numa
determinada atividade faz com que os investimentos fiquem centralizados e, como consequência, experimentem uma
rápida concentração nada interessante ao campo plural da produção empresarial.
Cogita-se, por assim dizer, uma indagação: caberia ao BNDES auxiliar na implantação de empresa
automobilística, ou investir aquele recurso na ampliação das redes de transporte público de grandes cidades?
Definitivamente, por mais que se invista no transporte particular e nas limitações existentes, por ausência de malha
compatível, denotar-se-á que é indispensável um denominador comum, cuja fulcral razão de ser encontra respaldo
nos meios públicos de locomoção, inexistindo quaisquer justificativas que elidam esta ponderação.
O desenvolvimento integrado é a meta a ser alcançada, de todas as regiões e das diversas localidades, nos
setores agrícola, industrial, de prestação de serviços, mas é deveras essencial uma interligação entre os agentes
públicos financeiros, que devem traçar as suas previsões em conjunto, visando atingir a finalidade de melhorar o
crescimento econômico, gerando capacidade de autofinanciamento, não encerrando seu papel de colaborar, mas sim
de imprimir participação na administração dos negócios.
Com efeito, nos Países desenvolvidos existe um planejamento organizado pelas instituições com escopo social, e
ainda uma aproximação maior entre o empresariado e os setores do governo, numa comunhão de interesses e
esforços em torno do bem-estar comum; a despeito de todo o viés concentrado, cabe ao Governo e ao BNDES
basearem suas políticas concretas na determinação de reduzir os contrastes sociais, evitar o surgimento de regiões
geográficas marginais, impondo diretrizes que obedeçam aos limites de competência, sem individualismo, mas com o
espírito pluralista que significa visão coletiva da realidade.
O programa indispensável de crescimento econômico e o equilíbrio do desenvolvimento regional pedem uma
política pública mais efetiva do BNDES, porque desempenha um papel reputado chave na administração da vontade
governamental, e o gerenciamento competente de níveis de produção reclama um acompanhamento bastante direto
e a intervenção visando compartilhar a responsabilidade social que repercute em prol do interesse coletivo.
Completada a etapa primeira do processo de privatização e com a diminuição ou eliminação das participações
em sociedades, empresas, organizações, cabe ao BNDES, na formulação de sua política, gerir os capitais destinados
ao bem-estar social, inclusive ao nível de cooperação com bancos internacionais na captação de recursos e
aplicação regional.
Efetivamente, o apoio faz-se indispensável ao pequeno e microempresário e mais ainda naquelas hipóteses da
empresa em crise, no sentido de conservar carteiras especiais, com garantias próprias, na consecução do
fortalecimento dessa massa disposta a agregar esforços e ter capital de giro, para que as taxas de juros não
provoquem a ruptura do equilíbrio e o estado de insolvência irreversível.
No cotidiano destaca-se uma excepcional lucratividade conseguida pelo BNDES, porém a reforma da legislação
falimentar, a despeito dos esforços concentrados, não logrou disciplinar linha de crédito para o grave problema que
aflige pequenas e microempresas, atravessando estado transitório de crise.
IV — Bancos de crédito real. Também chamados de hipotecários, por força da operação que constitui sua
atividade principal, muito embora possam praticar as peculiares aos bancos comerciais ou de depósito. Concedem
empréstimos a longo ou curto prazos, mediante garantia de imóveis. Foram regulamentados pelos Decretos n. 169-
A, de 19 de janeiro de 1890, e 370, de 2 de maio do mesmo ano. Instrução do ministro da Fazenda, de 19 de agosto
de 1935, transferiu sua fiscalização para o respectivo ministério, tendo em conta a emissão e a circulação das letras
hipotecárias resultantes dos empréstimos garantidos com primeira hipoteca. As operações dos bancos de crédito real
realizam-se a benefício da lavoura e indústrias conexas, sendo bastante frequentes hodiernamente quanto à
aquisição da casa própria.
V — Bancos de crédito industrial. São definidos pelo Decreto n. 24.575, de 4 de julho de 1934, como sendo
aqueles que têm por escopo “exclusivamente auxiliar a indústria nacional, por meio de empréstimos a prazo longo,
com os seus próprios recursos e por emissões de obrigações, colocadas nos mercados nacionais ou estrangeiros, em
nome das empresas que a eles recorrem” (art. 1º).
A teor do mesmo decreto, esses empréstimos devem ser garantidos por warrants de matérias-primas. Já a
Carteira de Crédito Agrícola e Industrial, do Banco do Brasil, efetua financiamentos lastreados em hipoteca ou
penhor de máquinas ou mercadorias. Por aí se vê que a agilização operacional imposta pelas necessidades
econômicas da atualidade tem levado à criação de setores de atendimento especializados dos bancos, sendo, pois,
rara sua figura, atuando apenas em uma determinada área.
VI — Bancos agrícolas. São os instituídos para conceder crédito para aqueles que exercem atividade no
campo, seja na lavoura, seja na pecuária, com financiamento para a própria atividade em si ou para a aquisição de
máquinas e instrumentos. A garantia pode ser hipotecária ou pignoratícia. Coincidindo as operações desses bancos
com os de crédito real e as da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, fácil compreender sua
rara existência.
De fato, forçoso dizer que as dificuldades encontradas na operacionalização da atividade no setor agrícola, de
sua feita, fizeram surgir cooperativas firmemente atravessando crises e bancos populares, naquelas regiões menores,
onde há um conhecimento local entre tomadores e administradores, com taxas de juros reduzidas, e o grau de
confiança selado, sem comprometimento da safra ou das vicissitudes durante a sua produção.
O incremento de bancos populares é sentido em centros urbanos, nas atividades profissionais de toda a espécie,
mediante a intermediação de créditos contendo linhas de acesso frequentes, por causa de taxas de juros menores e
grau de solvência elevado.
Concretamente as entidades buscam definir um padrão-teto da negociação e os mais distintos casos e
circunstâncias flexibilizando a negociação e mobilizando o acesso ao crédito, de tal forma a eliminar uma progressão
geométrica que torna impossível a liquidação da obrigação na hipótese de maior dificuldade.
Existem ainda mitigações de participações entre o capital público e privado, na definição de uma finalidade
considerada essencial, num determinado espaço geoeconômico, inclusive nos distritos industriais em formação, na
perspectiva de arregimentar desenvolvimento e crescimento do nível de emprego.
Demonstrada essa faceta, tem-se que a disponibilidade do crédito agrícola encontra sérios empeços,
prejudicando o desenvolvimento do setor e, por uma questão de preço final, inibindo o estímulo e o próprio
incremento na diretriz de centrar produção e abastecimento coerentes com o financiamento.
Conveniente destacar ainda a concorrência de empresas que monopolizam algumas áreas de plantio e colheita e
provocam artificialmente uma disparada nos preços, ou na eliminação das chances de produção, quando não
destinam as mercadorias de boa qualidade à exportação.
A concessão de crédito agrícola como subsídio destinado à atividade da agricultura tem-se revelado deficitária.
Por mais que as instituições se empenhem, não se pode monitorar o setor, sendo certo que as taxas e acessórios
exigidos se mostram maiores do que as forças do mutuário, mormente quando se parte do princípio equacionador da
produção, que, sem a cobertura indispensável, conduz ao endividamento e à necessidade da renegociação
permanente da dívida.
Contudo, diversos bancos têm-se preocupado com investimentos no agronegócio, mediante cédula do produtor
rural (CPR), financiamento de maquinário, linhas voltadas para a exportação e múltiplas oportunidades, que passam
a fazer parte integrante das políticas globais das instituições financeiras.
Entidades públicas financeiras permitem-se fazer empréstimos consideráveis do BNDES para alocação dessa
economia de escala no agronegócio, haja vista a boa lucratividade e o acompanhamento setorial dos negócios.
Enquanto alguns bancos diversificam carteiras de investimentos, outros preferem o ramo exportação, e ainda
existem aqueles dedicados aos pequenos e médios produtores, refletindo bem a versatilidade implementada no
agronegócio e sua intensa concorrência, por meio de competição, com as políticas econômicas de nações
desenvolvidas.

13. Bancos e casas bancárias


Incluindo-se, como os bancos, no rol das instituições financeiras, as casas bancárias deles se distinguem, seja
pelo seu menor capital, seja, consequentemente, pelo número mais reduzido de serviços prestados. Justamente por
isso é que sua existência ocorreu em uma época de menor pujança econômica, havendo desaparecido ou se
transformado em bancos. Devemos registrar, exclusivamente por interesse histórico, que o Decreto n. 14.728, de 16
de março de 1921, prescreveu que:
“Para os efeitos do presente regulamento, considera-se banco a pessoa natural ou jurídica que, com capital
superior a quinhentos mil cruzeiros, realizar as operações especificadas neste artigo, e casa bancária a que, com o
mesmo objetivo, tiver o capital igual ou inferior a quinhentos mil cruzeiros”. Observe-se, porém, que esse critério foi
modificado:
“O art. 6º do Dec.-lei 6.419, de 13-4-44, que reorganizou a Caixa de Mobilização Bancária, estatuiu que esta,
com anuência do Conselho Administrativo, submeteria à aprovação do Ministro da Fazenda os limites mínimos que
deveriam ser observados para o funcionamento das casas bancárias, atendendo à importância econômica das praças
em que tenham de ser localizadas, à existência, ou não, de outros bancos, agências ou casas bancárias e a outros
fatores que, a seu juízo, possam influir na fixação dos critérios a adotar. Esses limites mínimos foram aprovados pelo
Ministro e postos em prática mediante o Ofício 2.643, de 10-8-54, verificando-se da relação que acompanhou o
referido ofício que o limite mínimo de Cr$ 250,00 (sic, moeda da época), a que se refere o Dec.-lei 1.880, de 14-12-
39, foi conservado, não sendo, contudo, fixado o máximo, como fez o Dec. 14.728, de 16-3-21. Mesmo assim, o
limite mínimo ficou a depender da importância das praças em que a casa bancária está sediada”32.

14. Bancos e Caixas Econômicas


São as Caixas Econômicas empresas bancárias destinadas precipuamente a recolher e movimentar a poupança
popular. Têm seu modelo nos bancos populares ingleses (saving banks). Atualmente, erigem-se sob a forma de
empresas públicas, existindo a federal, com patrimônio próprio, vinculada ao Ministério da Fazenda, conforme o
Decreto-lei n. 66.303, de 6 de março de 1970, e as estaduais, em cada unidade da Federação. A primeira é
garantida pelo Governo Federal e, as últimas, por esse e pelos governos estaduais.
A Caixa Econômica Federal vem em terceiro lugar, como alternativa para os depósitos judiciais, nas leis que
tratam desse tipo de recolhimento, sobrepondo-se a ela apenas o Banco do Brasil e o BNDES. As Caixas
Econômicas, em geral, possuem uma função social na destinação de seus recursos financeiros, principalmente no
que concerne aos órgãos oficiais, emprestando-lhes dinheiro a juros subsidiados para a realização de obras de
interesse da comunidade. Excepcionando as regras de capacidade fixadas nas leis civis, o Decreto n. 24.427, de
1934, em seu art. 53, facultava aos menores com mais de 16 anos fazer e movimentar depósitos na Caixa
Econômica Federal, independentemente de qualquer autorização.
Consolidam as Caixas Econômicas poderoso instrumento de crédito na política governamental, com os recursos
advindos das aplicações e depósitos fundiários, possuindo instrumentos destinados à redução dos contrastes, isso
sem contar com as importâncias advindas dos concursos lotéricos.
De se observar, no traço superficial, que a Caixa Econômica Federal, em virtude da natureza jurídica que
apresenta, tem seus conflitos de interesse submetidos à competência da Justiça Federal; portanto, as lides somente
poderão ser dirimidas naquela sede, relativamente aos interessados e à instituição, ao passo que as Caixas
Econômicas Estaduais, ao contrário, por não possuírem foro privilegiado, palmilham o campo da Justiça Comum.
Os programas sociais e assistenciais governamentais encontram nessas entidades um ponto de equilíbrio na
dinâmica que procura, mediante a captação de recursos, a destinação prioritária em prol do bem comum.
Consistente dizer que sempre essas instituições fazem incrementos no setor habitacional, não apenas na visão de
financiamentos, mas de planos que priorizam quitações com descontos, conforme a categoria e o comprometimento
de renda. A par disso, os recursos dos depósitos fundiários merecem tratamento de flexibilidade, inclusive na
aquisição de ações e fundos procurando conferir grau maior na participação do mercado acionário, em face dos
volumes de depósitos existentes com o intuito de abertura do capital das empresas nacionais.
Demais disso, a integração de instituições públicas apresenta conotação singular na área operacional
informatizada, com o surgimento de sites e outros serviços colocados à disposição dos clientes, enveredando por um
campo concorrencial, notadamente por causa da presença de bancos estrangeiros, demonstrando que as inovações
são molas propulsoras do progresso e atenção da clientela.
Não se podem esquecer de igual modo a injeção de recursos nos arrendamentos imobiliários e a parceria mais
frequente no sentido de facilitar aquisição da casa própria, como opção, de tal sorte que as instituições
governamentais realizam uma função destacada e cumprem meta programática na direção de alcançar o bem-estar
coletivo.
Enormemente tem crescido a participação da Caixa Econômica não apenas como fator de política
governamental, mas sobretudo no campo de sua atividade, no mais das vezes com disciplinas envolvendo loterias e
demais aspectos que têm delegações específicas de alguns serviços, no horário de funcionamento bancário.

15. Cooperativas de crédito


A teor do art. 1º do Decreto n. 60.597, de 19 de abril de 1967, “as cooperativas são sociedades de pessoas com
forma jurídica própria, de natureza civil, sem finalidade lucrativa, não sujeitas à falência, organizadas para prestação
de serviços ou exercício de outras atividades de interesse comum dos associados”. São, pois, organizações que têm
por escopo desenvolver a chamada mutualidade. No setor creditício, sua finalidade consiste em propiciar
empréstimos a juros módicos a seus associados, estando subordinadas, na parte normativa, ao Conselho Monetário
Nacional e, na parte executiva, ao Banco Central (Dec.-lei n. 59, de 21-11-1966, art. 8º). É proibido às cooperativas
“realizar com estranhos operações que sejam peculiares às relações entre os cooperados e a sociedade” (art. 26, n.
12, do Dec. n. 60.597) e, ainda que tendo por escopo as operações creditícias, não podem usar a palavra “banco”
em sua denominação social.
Além de às normas supraenumeradas, as cooperativas de crédito se subordinam à disciplina da lei que dispõe
acerca das instituições creditícias (Lei n. 4.595/64).
As cooperativas de crédito representam relevante instrumento na alocação de recursos voltados para o setor
habitacional, cujos programas veiculam aproximação com as classes menos favorecidas da população, no
rastreamento de subsídios diretamente supervisionados, ou pela própria ação integrada dos interessados, que
assumem as responsabilidades na consecução de suas tarefas, as quais não perseguem o lucro.
Naturalmente, as cooperativas têm uma função importante na captação e execução de sua política interna, sendo
alcançadas pelo programa de recuperação fiscal (Lei n. 9.964, de 10-4-2000), no que diz respeito ao Refis, para
efeito de revitalização de cooperativas de produção agropecuária, fruto da Medida Provisória n. 1.961-27, de 22 de
setembro de 2000, de acordo com o parágrafo único do art. 16 do mencionado diploma legal.
De implicação no setor rural, sem dúvida alguma, a Lei Complementar n. 93, de 4 de fevereiro de 1998,
regulamentada pelo Decreto n. 3.475, de 19 de maio de 2000, atualmente pelo Decreto n. 4.892, de 25 de novembro
de 2003, estabelecendo o Banco da Terra, com a finalidade essencial de financiar programas de reordenação
fundiária e assentamento rural.
Bem nesse campo agrícola, portanto, a prevalência de inúmeras alternativas visando sobretudo amparar as
cooperativas, facilitar o processo de concessão de crédito e situar preceitos impregnados da reforma agrária,
faltando apenas maior estímulo e uma consentânea fiscalização dos recursos, mormente quando da liquidação dessas
entidades.
Os respectivos assentamentos e permanência do estímulo à atividade no campo passam pelo acesso ao crédito, e
garantia da safra, com a pluralidade de cooperativas que congreguem as necessidades, na alavancagem de políticas
públicas setorizadas.
A disposição cooperada na sistemática do crédito é um forte remédio que prioriza vantagens na construção de
uma situação identificada com o mesmo objetivo comum, numa administração gerencial em harmonia com diversas
atividades que possam produzir riqueza.
Esse método incorpora-se à linha do microcrédito, aos bancos populares e demais que intencionam chegar às
comunidades de menor poder aquisitivo, notadamente facilitando a atividade de micro e pequenas empresas.
4
ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL. AS
ATRIBUIÇÕES DO CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL E DO BANCO
CENTRAL. O BANCO DO BRASIL

Sumário: 16. Organização do Sistema Financeiro Nacional. 17. As atribuições do Conselho Monetário
Nacional e do Banco Central. 18. O Banco do Brasil. 19. As instituições financeiras públicas. 20. As instituições
financeiras privadas.

16. Organização do Sistema Financeiro Nacional


Conforme vimos no item 8, supra, sujeitam-se atualmente os bancos a um regime de controle estatal. Sendo
esse controle uma forma de intervenção na atividade privada, portanto, medida constitucionalmente excepcional, tem
ele que ser regulado por preceitos legais específicos. O sistema intervencionista em matéria de bancos, entre nós,
data de 1921, tendo sido implantado pelo Decreto n. 14.728, de 16 de março33. Sucedeu-o o Decreto-lei n. 7.923, de
2 de fevereiro de 1945, que criou a Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), alterado pelo Decreto-lei n.
9.140, de 5 de abril de 1946, até chegar-se à atual Lei n. 4.595, de 31 de dezembro de 1964, que “dispõe sobre a
Política e as Instituições monetárias, bancárias e creditícias, cria o Conselho Monetário Nacional”. Transformou a
antiga Superintendência da Moeda e do Crédito em autarquia federal, sob a denominação de Banco Central do
Brasil. Essa lei, que rege o Sistema Financeiro Nacional, constituiu-o basicamente do Conselho Monetário Nacional,
do Banco Central do Brasil, do Banco do Brasil S/A, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e
das demais instituições financeiras públicas e privadas.
Conquanto tenha revitalizado o setor financeiro e o próprio mercado, o diploma n. 4.595/64, depois de quatro
décadas de vigência, revela um descompasso com a evolução da economia, as relações internacionais e o papel
essencial que dita a política monetária.

17. As atribuições do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central


A) Conselho Monetário Nacional
É um órgão integrado pelos: ministro de Estado da Fazenda, na qualidade de seu presidente, ministro de Estado
do Planejamento e Orçamento e presidente do Banco Central do Brasil. Junto a ele funciona a Comissão Técnica da
Moeda e do Crédito, assim composta: presidente e quatro diretores do Banco Central do Brasil, presidente da
Comissão de Valores Mobiliários, secretário executivo do Ministério do Planejamento e Orçamento e secretário
executivo e secretários do Tesouro Nacional e de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Compete à Comissão Técnica da Moeda e do Crédito: I — propor a regulamentação das matérias tratadas na lei
que dispõe acerca do Sistema Monetário Nacional, de competência do Conselho Monetário Nacional; II —
manifestar-se, na forma prevista em seu regimento interno, previamente, sobre as matérias de competência do
Conselho Monetário Nacional, especialmente aquelas constantes da Lei n. 4.595/64; III — outras atribuições que lhe
forem cometidas pelo Conselho Monetário Nacional.
Funcionam, também, junto ao Conselho Monetário Nacional, as seguintes Comissões Consultivas: “I — de
Normas e Organização do Sistema Financeiro; II — de Mercado de Valores Mobiliários e de Futuros; III — de
Crédito Rural; IV — de Crédito Industrial; V — de Crédito Habitacional, e para Saneamento e Infraestrutura
Urbana; VI — de Endividamento Público; VII — de Política Monetária e Cambial” (art. 11 da Lei n. 9.069, de 29-
6-1995).
Cabe ao Conselho Monetário Nacional “formular a política da moeda e do crédito (...) objetivando o progresso
econômico e social do País” (art. 2º da Lei n. 4.595/64). Essa política consiste em: adaptar o volume dos meios de
pagamento às reais necessidades da economia nacional e em processo de desenvolvimento; regular o valor interno e
o externo da moeda e o equilíbrio do balanço de pagamento do País, tendo em vista a melhor utilização dos recursos
em moeda estrangeira; orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras, públicas ou privadas; propiciar
o aperfeiçoamento das instituições e dos instrumentos financeiros; zelar pela liquidez e solvência das instituições
financeiras; e coordenar as políticas monetária, creditícia, orçamentária, fiscal e da dívida pública, interna e externa
(art. 3º).
Ao mesmo órgão compete privativamente, segundo diretrizes estabelecidas pelo Presidente da República (art.
4º):
I — autorizar as emissões de papel-moeda (vetado), que ficarão na dependência de autorização legislativa
quando se destinarem ao financiamento direto, pelo Banco Central, das operações de crédito com o Tesouro
Nacional;
II — estabelecer condições para que o Banco Central emita papel--moeda (vetado) de curso forçado;
III — aprovar os orçamentos monetários preparados pelo Banco Central, por meio dos quais se estimarão as
necessidades globais de moeda e crédito;
IV — determinar as características gerais (vetado) das cédulas e das moedas;
V — fixar as diretrizes e normas da política cambial, inclusive quanto à compra e venda de ouro e quaisquer
operações em direitos especiais de saque e em moeda estrangeira;
VI — disciplinar o crédito em todas as suas modalidades, bem como as operações creditícias;
VII — coordenar sua política com a de investimentos do Governo Federal;
VIII — regular a constituição, funcionamento e fiscalização dos que exercerem atividades subordinadas à lei que
rege o Sistema Financeiro Nacional, bem como a aplicação das penalidades previstas;
IX — limitar, sempre que necessário, as taxas de juros, descontos, comissões e qualquer outra forma de
remuneração de operações e serviços bancários ou financeiros, assegurando taxas subordinadas para
financiamentos que se destinam a benefício de zona rural;
X — determinar a percentagem máxima dos recursos que as instituições financeiras poderão emprestar a um
mesmo cliente ou a um grupo de empresas;
XI — estipular índices e outras condições técnicas sobre encaixes, mobilizações e outras relações patrimoniais a
serem observadas pelas instituições financeiras;
XII — expedir normas gerais de contabilidade e estatística a serem observadas pelas instituições financeiras;
XIII — delimitar, com periodicidade não inferior a dois anos, o capital mínimo das instituições financeiras
privadas, levando em conta sua natureza, bem como a localização de suas sedes e agências ou filiais;
XIV — determinar recolhimento de até 60% do total dos depósitos das instituições financeiras ao Banco Central,
na forma e condições destinadas pelo Conselho Monetário Nacional;
XV — estabelecer para as instituições financeiras públicas a dedução dos depósitos de pessoas jurídicas de
direito público que lhes detenham o controle acionário, bem como dos das respectivas autarquias e sociedades de
economia mista, no cálculo do recolhimento a que se refere o inciso anterior;
XVI — enviar obrigatoriamente ao Congresso Nacional, até o último dia do mês subsequente, relatórios e mapas
demonstrativos da aplicação dos recolhimentos compulsórios (vetado);
XVII — regulamentar, fixando limites, prazos e outras condições, as operações de redesconto e de empréstimo,
efetuadas com quaisquer instituições financeiras públicas e privadas de natureza bancária;
XVIII — outorgar ao Banco Central o monopólio das operações de câmbio quando ocorrer grave desequilíbrio
no balanço de pagamentos ou houver sérias razões para prever a iminência de tal situação;
XIX — estabelecer normas a serem observadas pelo Banco Central em suas transações com títulos públicos e
de entidades de que participe o Estado;
XX — autorizar o Banco Central e as instituições financeiras públicas federais a efetuar a subscrição, compra e
venda de ações e outros papéis emitidos ou de responsabilidade das sociedades de economia mista e empresas do
Estado;
XXI — disciplinar as atividades das Bolsas de Valores e dos corretores de fundos públicos;
XXII — estatuir normas para as operações das instituições financeiras públicas;
XXIII — fixar, até quinze vezes a soma do capital realizado e reservas livres, o limite além do qual os
excedentes dos depósitos das instituições financeiras serão recolhidos ao Banco Central ou aplicados de acordo com
as normas que o Conselho estabelecer;
XXIV — decidir de sua própria organização, elaborando o seu regimento interno;
XXV — decidir da estrutura técnica e administrativa do Banco Central;
XXVI — conhecer dos recursos das decisões do Banco Central;
XXVII — aprovar o regimento interno e as contas do Banco Central, sem prejuízo da competência do Tribunal
de Contas da União;
XXVIII — aplicar aos bancos estrangeiros que funcionem no País as mesmas vedações ou restrições
equivalentes que vigorem, nas praças de suas matrizes, em relação a bancos brasileiros ali instalados ou que nelas
desejam estabelecer-se;
XXIX — colaborar com o Senado Federal na instrução dos processos de empréstimos externos dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, em obediência ao preceito constitucional (art. 52, V, da CF/88);
XXX — expedir normas e regulamentação em relação às comissões que funcionam junto a ele;
XXXI — baixar normas que regulem as operações de câmbio, inclusive swaps34, fixando limites, prazos, taxas e
outras condições;
XXXII — regular os depósitos a prazo entre instituições financeiras, inclusive entre as sujeitas ao mesmo
controle acionário ou coligadas.
B) Banco Central
O Banco Central do Brasil é uma autarquia federal, com personalidade jurídica e patrimônio próprios,
administrado por uma diretoria de cinco membros, sendo um presidente, escolhidos pelo Conselho Monetário
Nacional. De um modo geral, cabe ao Banco Central cumprir as prescrições legais e as normas expedidas pelo
Conselho Monetário Nacional no que diz respeito à política financeira.
Privativamente, compete-lhe emitir papel-moeda e moeda metálica, nas condições e limites autorizados pelo
Conselho Monetário Nacional; executar os serviços do meio circulante; determinar o recolhimento de até 100% do
total dos depósitos à vista e de até 60% de outros títulos contábeis das instituições financeiras, seja na forma de
subscrição de Letras ou Obrigações do Tesouro Nacional ou compra de títulos da dívida pública federal, seja através
de recolhimento em espécie, em ambos os casos entregues ao Banco Central do Brasil, a forma e condições por ele
determinadas, podendo adotar percentagens diferentes em função das regiões geoeconômicas, das prioridades que
atribuir às aplicações ou da natureza das instituições financeiras e determinar percentuais que não serão recolhidos,
desde que tenham sido reaplicados em financiamentos à agricultura, sob juros favorecidos e outras condições por ele
fixadas; receber os recolhimentos compulsórios dos depósitos à vista e de outros títulos contábeis e, ainda, os
depósitos voluntários à vista das instituições financeiras (MP n. 32, de 15-1-1989, atual Lei n. 7.730, de 31-1-1989);
realizar operações de redesconto e empréstimo a instituições financeiras bancárias; exercer o controle de crédito
sob todas as suas formas; efetuar o controle dos capitais estrangeiros, na forma da lei; ser depositário das reservas
oficiais de ouro, de moeda estrangeira e de direitos especiais de saque e fazer com estas todas e quaisquer
operações previstas no Convênio Constitutivo do Fundo Monetário Internacional; exercer a fiscalização das
instituições financeiras e aplicar as penalidades previstas em lei; conceder autorização às instituições financeiras
para que possam funcionar no País, instalar ou transferir suas sedes, ou dependências, inclusive para o exterior, ser
transformadas, fundidas ou incorporadas, praticar operações de câmbio, crédito real e venda habitual de títulos da
dívida pública, ações, debêntures, letras hipotecárias e outros títulos de crédito, ter prorrogados os prazos de seu
funcionamento, alterar seus estatutos e alienar ou, por qualquer outra forma, transferir o seu controle acionário;
estabelecer condições para a posse e para o exercício de quaisquer cargos de administração de instituições
financeiras privadas, assim como para o exercício de quaisquer funções em órgãos consultivos, fiscais e
semelhantes, segundo normas que forem expedidas pelo Conselho Monetário Nacional; efetuar operações de
compra e venda de títulos federais; determinar que as matrizes das instituições financeiras registrem os cadastros
das firmas que operam em suas agências há mais de um ano (art. 10 da Lei n. 4.595/64).
E, em caráter não privativo (outras instituições públicas também poderão fazê-lo), cabe ao Banco Central:
entender-se, em nome do Governo, com as instituições financeiras estrangeiras e internacionais; promover, como
agente do Governo Federal, a colocação de empréstimos internos ou externos; atuar no sentido de funcionamento
regular do mercado cambial, da estabilidade relativa das taxas de câmbio e do equilíbrio do balanço de pagamento;
efetuar a venda de títulos de sociedades de economia mista e empresas do Estado; emitir títulos de responsabilidade
própria, de acordo com as condições estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional; regular a execução dos
serviços de compensação de cheques e outros papéis; exercer permanentemente vigilância nos mercados financeiro
e de capitais sobre empresas que, direta ou indiretamente, interfiram nesses mercados e em relação às modalidades
ou processos operacionais que utilizem (art. 11).
O relacionamento do Banco Central se dá exclusivamente com as instituições financeiras, públicas ou privadas,
não operando com o público em geral, salvo com as pessoas jurídicas expressamente autorizadas por lei, e na
disponibilização de informes oriundos de reclamações e outros procedimentos feitos pelo cliente-consumidor, como
entidade regulamentadora do mercado.
A independência e autonomia do Banco Central marcam a discussão, que ganha corpo, no estabelecimento da
política livre e dirigida por profissionais que saibam o momento certo de intervir no mercado, muitas vezes o menor
erro poderá desembocar no risco de toda a estruturação da economia e, consequentemente, na perda de recursos
guardados na missão de manter estável a moeda.
Daí por que as etapas que cercam o mecanismo de intervenção do Banco Central não podem ser resumidas
numa avaliação superficial e distante do cenário local; na agudeza da crise, dispara o relógio do tempo e a decisão
deve ser tomada, vendendo-se dólares, para manutenção da estabilidade, e diminuição da especulação, na venda ou
compra de títulos públicos e no rearranjamento da economia, motivando a presença de grupo altamente
especializado, para se evitar o menor sintoma que provoque instabilidade e irracionalidade na dinâmica das
operações.
Nesse campo é perfeitamente ponderável admitir uma espécie de responsabilidade objetiva, que situa a presença
do Banco Central na condução de sua política e na tomada de decisões que prejudiquem o mercado em geral e o
consumidor individualmente, de tal sorte a se estabelecer uma circunstância ajustada ao tipo nevrálgico do nexo
causal, independente da subjetividade, cuja apuração depende de fatores longe do alcance das pessoas interessadas.
Maior transparência nas suas políticas públicas e fiscalização mais direta das instituições públicas e privadas,
com o saneamento do mercado, no fundo são atividades que deveriam ser priorizadas pelo Banco Central na difícil
missão que se lhe atribui, mas que demanda operacionalidade e capacitação técnico-profissional.
Debate-se, à larga, a criação de uma agência fiscalizadora do sistema financeiro, dotando o Banco Central de
autonomia e da eleição do respectivo Presidente, a exemplo de nações desenvolvidas, com a duração do mandato e
a instrumentalização de políticas de resultado, sem as influências decorrentes da instabilidade no cargo, gerando
assim uma determinante mais clara na fiscalização e adoção de medidas sancionatórias em relação às entidades
controladas.
Consequência disso, o Banco Central também exerce o controle de atividades e das operações bancárias como
um todo, prestando informações, regulando a entrada e saída do capital, a presença de instituições estrangeiras,
suscitando metodologia de calibre preventivo na situação de crise, higienizando o mercado e sociedades desprovidas
do bom funcionamento na administração de recursos.
É fundamental nessa dinâmica vital de realinhar o papel de ponta do Banco Central sinalizar sua atividade-meio,
distinguindo da atividade-fim, interpretando melhor a sua responsabilidade, mesmo de ordem objetiva, e imprimindo
inexcedível transparência nas atribuições e contato com todo o mercado, sem excluir clientes e consumidores que
buscam informações mais precisas sobre as instituições que operam no Brasil.
E essa clareza fica mais nítida no papel dos títulos públicos, inclusive da dívida, visando melhor negociação,
redução do risco e determinação de livre mercado, aumentando com isso a credibilidade externa e diminuindo a
rolagem interna que permite securitizar volumes acentuados que compõem a carteira em circulação.
Como administrador e principal gestor da política implementada, cumpre ao Banco Central um papel de suma
importância, com independência e visão integrada de mercado.
Hoje, mais do que nunca, com a tecnologia da informática e seu monitoramento de operações on-line, o Banco
Central exerce fiscalização e tem seus olhos voltados para o cumprimento da estabilidade da moeda e contenção do
processo inflacionário.

18. O Banco do Brasil


A lei que implantou o Sistema Financeiro Nacional introduziu importantes modificações na estrutura e na atuação
do Banco do Brasil. A função precípua que lhe é cometida é a de agente financeiro do Tesouro Nacional,
competindo-lhe, nesse caráter: receber, a crédito do Tesouro Nacional, as importâncias provenientes de arrecadação
de tributos ou rendas federais e o produto das operações de crédito da União por antecipação da receita
orçamentária ou a qualquer outro título; realizar os pagamentos e suprimentos necessários à execução do orçamento
geral da União e leis complementares que lhe forem transmitidas pelo Ministério da Fazenda; conceder aval, fiança
e outras garantias, consoante expressa autorização legal; adquirir e financiar estoques de produção exportável; ser
agente pagador e recebedor fora do País e executar o serviço da dívida pública consolidada (art. 19, I, da Lei n.
4.595/64).
Cabe-lhe, também, como principal executor dos serviços bancários de interesse do Governo Federal, inclusive
suas autarquias, receber em depósito, com exclusividade, as disponibilidades de quaisquer entidades federais,
compreendendo as repartições de todos os ministérios civis e militares, instituições de previdência e outras
autarquias, comissões, departamentos, entidades em regime especial de administração e quaisquer pessoas físicas e
jurídicas responsáveis por adiantamentos, os quais podem, entretanto, ser depositados na Caixa Econômica Federal,
nos limites e condições fixados pelo Conselho Monetário Nacional. Incluem-se, ainda, entre suas atribuições:
arrecadar os depósitos voluntários das instituições financeiras; executar os serviços de compensações de cheques e
de outros papéis (destes ainda não usuais entre nós); receber, com exclusividade, os depósitos relativos às entradas
de 10% das ações subscritas em dinheiro nas sociedades anônimas (art. 80, III, da Lei n. 6.404/76); realizar, por
conta própria, operações de compra e venda de moeda estrangeira e, por conta do Banco Central, nas condições
estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional; realizar recebimentos ou pagamentos e outros serviços de
interesse do Banco Central, mediante contratação; dar execução à política do comércio exterior; financiar a
aquisição e instalação da pequena e média propriedade rural; financiar as atividades industriais e rurais a juros
subsidiados; difundir e orientar o crédito, inclusive as atividades comerciais, suplementando a ação da rede bancária:
no financiamento das atividades econômicas, atendendo às necessidades creditícias das diferentes regiões do País, e
no financiamento das exportações e importações (art. 19, II a XI, da Lei n. 4.595/64).
Conquanto sociedade de economia mista, sujeita ao controle da União, o Banco do Brasil tem pulverizado seu
capital no mercado de títulos mobiliários, permitindo com isso o acesso de investidores nacional e estrangeiro, para
redução do endividamento e maior número de recursos destinados aos serviços prestados.
A diminuição da participação acionária da União, na verdade, não compromete o controle acionário e a
implementação de políticas públicas correspondentes aos anseios do fornecimento de crédito e o principal
incremento no setor rural.
Dessa forma, permite-se à administração pública colher o resultado de sua transparência e participação junto ao
mercado, haja vista o lançamento encetado com o objetivo de captar fonte de receita voltada para a solidez, sem que
possa se valer da emissão para capitalização por meio do Tesouro.
Sem sombra de dúvida, o Banco do Brasil encontra na sua conjuntura uma adversidade que diz respeito ao
volume do endividamento, fruto da política sem maiores análises, transformando sua atividade numa alavancagem de
ideologias e métodos que desservem o interesse público. Cogita-se até mesmo de sua privatização, sob pena de se
tornar inviável dentro de pouco tempo, diante das distorções que afetam a credibilidade e tornam exíguas as
possibilidades de conseguir reaver as somas empenhadas.
Peculiar sociedade de economia mista, constituído sob a forma de companhia, contando com a participação
majoritária do Governo Federal, o Banco do Brasil persegue a lucratividade, mas amarga operações que lhe
experimentam prejuízos, dentro da conotação política de agir, mas tem sido importante ferramenta do Governo na
condução de sua diretriz e linhas de crédito concedidas aos diversos setores da economia, adaptando-se à realidade
do modelo eletrônico da Internet com a preparação de pessoal e infraestrutura.
Remanesce, certamente, a questão de sua privatização, ou a médio prazo a diminuição da participação da União,
haja vista uma mutação generalizada no papel do Estado, o incremento à desestatização e controles fiscais das
despesas mais rigorosos.
Nada obstante, continua sendo o Banco do Brasil uma instituição renomada, pelo passado, em que situou o
desenvolvimento, perante o presente, em face das constantes técnicas mercadológicas, cujo futuro dependerá da
capacidade gerencial e do poder governamental em ditar políticas coerentes com o endividamento público.
Diversas entidades municipais realizam convênios e parcerias com o Banco do Brasil, cujo escopo é trazer
repasse de verbas, fomentar investimentos e participar do desenvolvimento regional.
Com o advento da parceria público-privada, realça-se ainda mais a presença do Banco do Brasil no cenário
nacional, como entidade pública, sob a forma de sociedade de economia mista, com ações no mercado, adotando
programas que melhorem sua rentabilidade e reduzam seus custos.
Ao lado dos demais bancos, ele prioriza determinadas políticas, e sua constante participação em diversas
localidades é fator positivo que incrementa uma variante no campo, no agronegócio e na pecuária, a título de
contratos e financiamentos para a produção interna e o mercado internacional.

19. As instituições financeiras públicas


O que a Lei n. 4.595/64 assim denomina, empregando o gênero pela espécie, são os bancos públicos, mantidos
pelos Governos Federal ou estaduais, encarregados da execução da política creditícia dos respectivos Governos, se
bem que os não federais ficam sujeitos às disposições relativas às instituições financeiras privadas, além de se
dedicarem às operações dos bancos comer​ciais comuns.
As Caixas Econômicas Estaduais equiparam-se, no que couber, à Caixa Econômica Federal, gozando das
mesmas isenções legais.
A prática da atividade bancária pelas instituições financeiras públicas é a manifestação mais concreta do
intervencionismo estatal no setor.
O principal agente da política de investimentos do Governo Federal é o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, a que nos referimos no item 12.
Atua por meio de fundos específicos, que são os seguintes:
I — Fundepro: Fundo de Desenvolvimento da Produção, criado pela Resolução n. 284/67;
II — Finame: Agência Especial de Financiamento Industrial, instituída pelo Decreto n. 59.170, de 2 de setembro
de 1966;
III — Fungiro: Fundo Especial para o Capital de Giro, implantado pela Resolução n. 318/68;
IV — Fipeme: Programa de Financiamento da Pequena e Média Empresa, regulado pela Resolução n. 166/65.
De toda sorte, o papel crucial das instituições públicas representa maior autonomia na realidade de políticas
destinadas aos diversos setores para efeito de crescimento da atividade empresarial e com volume de recursos
disponíveis em carteira.
A interface das entidades públicas financeiras é fundamental para a consecução dessa política do crédito e para
temperar o interesse concentrado na relativização da taxa de juros e redução dos spreads bancários.
No atual estágio, o elemento público cede espaço à parceria com o aspecto privado, e ambos conjugadamente
realizam as tarefas em nítida melhoria do desempenho e alcance de objetivos delineados.

20. As instituições financeiras privadas


Finalmente, compõem o Sistema Financeiro Nacional, implantado pela Lei n. 4.595/64, as instituições financeiras
privadas, destacando-se, entre elas, os bancos comerciais em geral, constituídos obrigatoriamente sob a forma de
sociedades anônimas. Compreende, também, as cooperativas de crédito, que possuem forma jurídica própria,
conforme já exposto no item 15.
As instituições financeiras privadas têm uma dinâmica mais adequada ao momento da economia, mas não estão
livres das tempestades que afetam seu gerenciamento, afastando o princípio no sentido de que somente as
organizações públicas estavam sob o regime de insolvência, afigurando-se inúmeros casos, a partir do Banco
Nacional, Econômico e Bamerindus, fazendo com que o governo criasse um programa para capitalização e
incremento, ao lado das fusões e incorporações, para que não houvesse colapso generalizado e se expusesse toda a
política de contenção da inflação sem retorno conhecido.
Na realidade, a concessão irrestrita de autorização, sob a antiga denominação de carta-patente, às instituições
sem lastro ou equilíbrio financeiro, por motivos que não vêm a pelo enfatizar, no processo de marcante concorrência,
cria uma indefectível manifestação da debilidade do sistema, cujos recursos de tomadores, poupadores e investidores
podem ser diluídos sem a menor responsabilização, ou existência da cobertura securitária adequada.
O saneamento somente fora iniciado, dependendo de meios mais eficientes que permitam prever análises de
balanços e outros instrumentos ligados à política de crédito, no sentido de restringir o número de instituições e
penalizar seus administradores que foram introduzidos no mercado por razões de evidente sinal político.
Efetivamente, os desmandos merecem total apuração por meio de investigação determinando os desvios e
abusos do controlador, mas o que se denota é uma redução do quadro de instituições em virtude das alterações
econômicas e da dificuldade de acesso ao crédito.
Salutar o estabelecimento da concorrência livre e aberta, com políticas de transparência e consecução do
objetivo junto à clientela, inaugurando um novo período durante o qual as instituições privadas espalham suas forças
e contingenciam o modelo operacional.
A instrumentalidade que preside o custo-benefício da atividade bancária coloca em evidência, na atual
conjuntura, informes precisos, vantagens nas respectivas operações, grau de satisfação do cliente, e uma
informalidade que se apega ao padrão de menor burocracia ao longo dos negócios empresariais.
Independentemente da estrutura bancária, o momento pugna pelo acertamento desse setor, por intermédio de
uma concentração supervisionada, pela observação permanente e fundamentalmente pela qualidade do serviço
prestado ao consumidor.
Naturalmente, o elemento tecnológico em sintonia com a redução do custo operacional e a inclusão da Internet,
tudo isso faz com que o contato cliente/banco navegue pela ótica virtual, fazendo com que desapareça a necessidade
do deslocamento até a instituição.
Entretanto, cabe implementar uma revisão dos conceitos com o propósito de reduzir o entrechoque de interesses
e o elevado número de reclamações que influenciam no grau de confiança e segurança.
Com efeito, atuando em todos os segmentos, os bancos têm vasto predicado na participação de várias operações
e devem seguir à risca a regra da relação de consumo, buscando com isso maior transparência e harmonia nas
relações com a clientela.
5
OPERAÇÕES BANCÁRIAS

Sumário: 21. Conceito. 22. Características. 23. Classificação.

21. Conceito
Colimando a realização de seu objeto, os bancos desempenham, em relação a seus clientes, uma série de
atividades negociais, que tomam o nome técnico de operações bancárias35. A expressão é, há muito, consagrada no
nosso direito positivo; assim é que o vetusto e já revogado Código Comercial falava em “operações chamadas de
Banco” (art. 119), e o Regulamento n. 737, de 25 de novembro de 1850, enumera-as entre os atos de comércio por
natureza. Inserem-se, pois, as operações bancárias na atividade empresária, como sendo aquela economicamente
organizada para a prestação de serviços, a lume do art. 966 do Código Civil vigente.
Bom sublinhar que a revisão deve vir acompanhada de uma demonstração, ainda que indiciária, sobre o
desequilíbrio e as condicionantes, sem o que o decurso considerado lapso temporal comprovará a circunstância
quase que exclusiva de uma dificuldade de ordem financeira.
A inversão do ônus em situações proclamadas acontece na hipótese de uma hipossuficiência técnica, de
compreensão do texto e não na órbita de recursos financeiros.
Cumpre destacar, d’outro ângulo, a presença do elemento boa-fé, a fim de que o interessado na revisão,
recolhendo o valor incontroverso, possa evidenciar que a discussão percorre o caminho do razoável, no clima da
viabilidade debatida.
Consoante a moderna concepção de empresário, consagrada legislativamente de modo primeiro pelo Código
Civil italiano, de 1942, estão sujeitos à inscrição do registro das empresas, correspondente ao nosso Registro do
Comércio, entre outros, os empresários que exercem uma atividade bancária (arts. 2.082 e 2.195, n. 4).
Dois são, portanto, os aspectos da operação bancária: o econômico e o jurídico.
Economicamente, há que se considerar a prestação de serviços no setor creditício que redunda em proveito tanto
para o banco como para o cliente36.
Juridicamente, a operação bancária, para se ultimar, depende de um acordo de vontades entre o cliente e o
banco, razão pela qual se diz que se insere no campo contratual, conforme, aliás, prescrição da própria lei:
“As operações de Banco serão decididas e julgadas pelas regras gerais dos contratos estabelecidos neste
Código...” (CCom, art. 120). “Mas, força é reconhecer que, no exercício profissional bancário, essas operações
assumem colorido específico, destacando-se das realizadas, também, pelos comerciantes em geral. Eis por que se
denominam bancárias as operações dos banqueiros. Operação aqui é sinônimo, conforme já dissemos, de negócio
jurídico37”. É por isso que na redação original do Projeto de Código Civil n. 634/75, ao contrário do vetusto Código
Comercial, bastante parcimonioso sobre o tema, tinha dedicado dois dispositivos (arts. 119 e 120), enquanto os
contratos bancários foram disciplinados nos arts. 866 a 889, objetivando realçar as operações econômicas, contudo
houve supressão na redação final da Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil)38.
Lamenta-se, contudo, que o Código Civil, legislação supramencionada, sancionado aos 10 de janeiro de 2002, em
vigor desde 2003, não manteve a matéria referente aos contratos bancários, mostrando-se, pois, excessivamente
tímido e muito cauteloso na sua arquitetura, sem delinear regras específicas mais comuns e próprias que governam o
giro das operações bancárias.
Prevalente a defasagem entre o texto e o aspecto da realidade, donde toda regulamentação em sede de
operação bancária, em pouco tempo, experimenta as consequências da inadaptação e da falta de sintonia com a
progressão do avanço técnico-científico.
No atual estágio da modernidade, os traços marcantes encontrados no diploma mencionado dizem respeito à
interpretação do contrato de adesão em prol do aderente, diante de cláusulas ambíguas ou contraditórias, além da
possibilidade de estipulação de contrato atípico.
Concretamente, o texto aprovado do Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) não inovou no seu conteúdo do
moderno direito bancário, e muito menos na administração de elementos convergentes à formação do negócio
jurídico.
Com efeito, o Código Civil menciona expressão de conotação excessiva, onerosa, do equilíbrio contratual,
resvalando na lesividade do negócio jurídico subjacente, donde tem sido constante o número de processos nos quais
os aderentes visam realinhar a dívida, diminuir seu valor de face, notadamente quanto à capitalização dos juros,
índice de atualização, taxa de juros e demais encargos que revelam o custo elevado do dinheiro numa economia em
estágio de expansão lenta e gradual.
Foram editadas diversas súmulas a cargo do Superior Tribunal de Justiça, dentre as quais a 286, afirmando que a
renegociação de contrato bancário ou a confissão da dívida não impede a discussão sobre eventuais ilegalidades dos
contratos anteriores.
Bem assim, a maior dificuldade tem sido a incidência pura e transparente das cláusulas e condições da relação
de consumo às operações bancárias, de modo a interferir nos contratos de massa, ou de adesão, mas para tanto é
condição indispensável fato superveniente e que esteja o devedor em dia com as respectivas prestações, nos termos
do art. 476 do Código Civil em vigor.
Em que pese a boa-fé objetiva que deve nortear a formação e celebração do contrato, fato é que não pode
tornar-se rotina o debate acerca da operação bancária, haja vista a pluralidade de opção no contratar e prévio
conhecimento das taxas e encargos cobrados.
No mais das vezes, como nas regras da economia prevalecem um aquecimento de preços e um engessamento
salarial, seguro concluir que a grande maioria dos consumidores examina superficialmente as normas do contrato, e,
passando por dificuldades financeiras, questiona em ações isoladas ou coletivas as cláusulas, a fim de não perder o
bem e descaracterizar eventual estado de mora.
Embora a regulamentação no campo bancário seja dificultosa, ante o dinamismo e transformação marcantes,
nada inibiria incursionasse o legislador pela reengenharia do modelo em atenção à estrutura dos meios eletrônicos e
informatizados próprios das operações negociais.
Das duas expressões, a econômica — operação — e a jurídica — contrato —, a primeira é mais usual, dado não
só o seu caráter dinâmico, como também o fato de os contratos bancários serem por adesão39, isto é, daqueles em
que a margem de discussão das cláusulas contratuais pelo cliente é bastante reduzida, uma vez que, destinando-se a
grande número de pessoas, feitos em série, são padronizados.
Comumente conhecidos como contratos de adesão, proliferando, à saciedade, nas operações bancárias,
discriminam os valores que se reportam ao negócio jurídico subjacente, estipulando as taxas de juros, de índice da
correção monetária, multas e quejandos, abrindo-se uma discussão a respeito da matéria, com apoio na relação de
consumo, súmulas existentes, questão constitucional, tudo refletindo o desequilíbrio entre as partes, cuja lesividade há
de ser traduzida em cada caso concreto.
Inconteste a dificuldade de uma interpretação harmônica que se coadune com a estandartização dos contratos
em massa, no trato de adesão, dês que a hipótese materializada não disciplina mecanismo seguro de abrangência
genérica.
Visando minimizar os efeitos dessa circunstância, as normas disciplinam uma faculdade ditando proteção ao
consumidor, veri​ficada a lesividade, com a possibilidade do ônus da prova invertido.
Manifestada a situação da vulnerabilidade correlata ao economicamente mais fraco, sublinha-se a necessidade
da revisão do contrato se distante de suas bases essenciais do ato jurídico, tudo no propósito de se manter o
equilíbrio real entre as partes.

22. Características
Dos elementos expostos no item anterior, quando procuramos conceituar as “operações bancárias”, resulta que
elas se caracterizam por terem conteúdo econômico e por serem praticadas em massa.
O conteúdo econômico se revela pelo fato de promoverem a circulação da riqueza, estando nele ínsitos os
elementos organização e habitualidade ou reiteração.
Visando ao público em geral, a operação bancária é uma atividade em série, de massa, “com um número
indeterminado de pessoas, segundo tipos negociais estandartizados, nas assim chamadas normas bancárias
uniformes e nos regulamentos internacionais formados pelas categorias interessadas”40.
Mas, a característica principal das operações bancárias, porque específica, é a da sua interdependência:
“Elas se coligam em uma relação de recíproca interdependência, pela qual às operações chamadas passivas, nas
quais o banco assume a veste de devedor, que não se limitam àquelas típicas, com as quais recolhe depósitos,
correspondem operações chamadas ativas, nas quais assume ao invés a veste de credor, que não se limitam
igualmente àquelas típicas, com as quais faz crédito. É nesta coligação de operações passivas e ativas que são
possíveis efeitos jurídicos e econômicos que não seriam cogitáveis se as operações da empresa fossem avulsas”41.
“Uma lei econômica inflexível coliga a natureza das operações passivas àquelas das operações ativas42.”
Sob o aspecto jurídico, diz-se que as operações bancárias se consubstanciam em contratos revestidos de
características não comuns aos outros: “De serem de duração, no sentido de que dão origem a uma relação
destinada a durar no tempo, seja de execução continuada ou periódica, seja de tempo determinado ou
indeterminado, mas não faltam contratos, de prestação instantânea; de serem contratos consensuais, mas não faltam
os de natureza real, que se aperfeiçoam com a entrega da coisa; de serem contratos de prestação de uma só parte,
mas não faltam contratos de prestação correspectiva; de serem contratos de forma livre, mas não faltam os
contratos de documentação obrigatória; de serem, enfim, contratos onerosos, mas não faltam atos jurídicos que o
banco desempenha a título gratuito, quais sejam os orientados a conservar a clientela”43.
Embora a massificação materialize a gama de serviços e o somatório que envolve a substância da operação
bancária, não se desconhece a correlação que tem acentuado perfil no Código de Defesa do Consumidor, querendo
com isso significar uma necessidade de adaptação e atendimento, quer na formulação, quer no cumprimento de
cláusulas e condições, coadunando-se com a autonomia relativa de vontade que exterioriza o ato de adesão.
Dessa forma, para a tutela protetiva dos consumidores seguem sujeições às categorias que preconizam direitos
adequados, no exercício de ações coletivas, as quais têm efeito erga omnes e servem para o balizamento das
entidades, tanto na responsabilização como na prestação dos serviços.
Nessa circunstância, o cliente é o principal produto com o qual as instituições financeiras necessitam lidar e
manter um tratamento de cordialidade, porque a competição e os benefícios anunciados pelos concorrentes são
sinais visíveis da redução dos lucros, sendo indispensável a certeza de que para o funcionamento regular uma
carteira organizada e ativa é o melhor ingrediente.
Consequentemente, milhares de consumidores que se valem dos serviços prestados pelos bancos são pessoas
que desconhecem regras elementares, não tendo o cuidado de examinar os contratos e, municiados pela precaução,
exigir esclarecimentos inarredáveis à concre​tização das operações bancárias.
O esquecimento não é apenas do cliente, mas também do banco, que, pelo mecanismo da informatização, perde
o contato direto e simplesmente massifica o relacionamento, sem maiores benefí​cios práticos.
Na era da informática, dos contratos eletrônicos, cujos meios facilitam o acesso ao sistema, em grandes centros
urbanos, perde-se a noção do relacionamento entre o cliente e a instituição. Consequentemente, mencionada
impessoalidade governa os instrumentos das operações bancárias.
Cumpre enfatizar que uma boa parte da população não possui vínculo contratual algum com os bancos, valendo-
se dos chamados postais ou casas lotéricas, haja vista o custo-benefício, além da possibilidade do menor contato com
a agência, por meio do serviço eletrônico e instituições administradoras de cartão de crédito e financeiras operando
conjuntamente em setores mais distintos do fomento ao consumidor.
Com o enxugamento do sistema bancário e a redução das agências, muitas das quais, por disposição do Banco
Central, vendendo seu patrimônio imobiliário e tornando-se locatárias, houve toda uma reestruturação dinâmica a
favor do aumento da liquidez, correspondência de carteira e proteção ditada ao mercado.
Reveste-se, por assim dizer, o caráter da operação bancária, de responsabilidade do banqueiro, de enorme leque
que preside as circunstâncias do mercado interno, que incentiva aquele externo e sobretudo concilia a política de
fortalecimento do setor, com a redução do risco provocado pelo descontrole gerencial e da fiscalização.
23. Classificação
Em alguns critérios classificatórios das operações bancárias, levam-se em conta os elementos coleta e aplicação
de fundos, razão pela qual certos autores as dividem simplesmente em passivas e ativas44.
Parece-nos, entretanto, melhor a orientação que leva em conta a importância do ato praticado, consoante a
doutrina de Ferri: “A atividade atual dos bancos resulta de uma dúplice categoria de operações: aquelas essenciais à
função que é própria dos bancos (exercício do crédito), e que consistem, de um lado, na coleta dos capitais junto aos
poupadores (operações passivas) e, de outro lado, na distribuição dos capitais (operações ativas); aquelas que
consistem na prestação de determinados serviços (chamados serviços bancários) a favor do público e que, não
obstante a notabilíssima relevância assumida na prática, econômica e juridicamente desempenham uma função
apenas acessória e complementar”45.
No mesmo sentido está Giacomo Molle: “Devemos porém distinguir entre os contratos bancários aqueles que
são típicos da empresa bancária e aqueles que tal não são, não obstante conexos com a atividade profissional dela
(as chamadas operações acessórias). Vem, assim, a campo a distinção feita há tempo pela doutrina entre operações
bancárias típicas ou fundamentais e operações bancárias acessórias”46.
Destarte, podemos classificar as operações bancárias em essenciais, ou fundamentais, e acessórias. Pelas
primeiras, os bancos exercitam sua negociação de crédito; por meio das segundas, “o banco não concede nem
recebe crédito, mas presta serviços”47.
São operações essenciais: o depósito, o redesconto, a conta corrente (passivas); o empréstimo, o desconto, a
antecipação, a abertura de crédito, o crédito documentário etc. (ativas).
São operações acessórias: a custódia de valores, o serviço de cofres de segurança, a cobrança de títulos, a
prestação de informações etc.
Na multiplicidade de sua atividade, os bancos perseguem indesmentivelmente o lucro; no entanto, têm
proporcionado um raio mais crescente de serviços na preocupação de conservar e ampliar sua clientela, assumindo
uma posição de nítido destaque em relação às empresas ou perante a grande quantidade de usuários, refluindo
numerário na tentativa de melhorar e aperfeiçoar o sistema, interligando-o, tudo isso somado ao fato de delimitarem
suas atividades em vários setores, de molde a ser configurada uma típica relação que se reveste da necessidade
suportada em virtude da consolidação patrimonial, tudo aliado na confluência de fatores regrados destinados à
progressão dos núcleos de atendimento e facilitação dimensionada aos usuários.
Os espaços foram sendo abertos, e os bancos souberam preenchê-los, fazendo publicidade que se adequasse à
captação da clientela e ampliação dos serviços, numa verdadeira centralização, que recebe invariavelmente a
passagem obrigatória pelas instituições financeiras.
Predominantemente, durante vários anos receberam os benefícios diretos da moeda instável e, com a elevada
inflação, puderam aumentar os lucros e dinamizá-los para setores que não são essencialmente ligados às atividades
bancárias, como a participação acionária no modelo de privatização, no lançamento de títulos sob a forma de
debêntures, na transferência do controle acionário e muitos outros que o conhecimento técnico privilegiou.
A modernidade do nosso tempo e a imperativa relação custo/benefício fazem com que os clientes racionalizem
os serviços, evitando com isso desgastes e gastos que não se identificam com o momento, de tal sorte que o
planejamento também exige uma cooperação mútua para que haja um estreitamento, e desse proveito nasça uma
perene estabilização que possibilite o máximo de atividade com o mínimo de esforço.
Ingressam as instituições investindo em segmentos paralelos, como química, petroquímica, aço, telefonia celular,
digital, de tal sorte que estruturam modelos programáticos que cercam os principais tipos voltados para o controle e
direção das grandes companhias; mais do que isso, empresas sem condições de liquidar seus débitos ou renegociá-
los acabam deixando o patrimônio com o credor, que disso se aproveita, provocando uma aquisição indireta
direcional da entidade, quando o ideal seria sua reorganização interna.
A principal dificuldade no conhecimento do controle de empresas e grupos econômicos consiste especificamente
na pluralidade das participações recíprocas ou de ações em mãos das instituições financeiras, sem a administração
da atividade produtiva.
De fato, no plano empresarial o aspecto é tanto mais predominante nas tipificações operacionais do BNDES,
donde se pode demonstrar a imprescindibilidade do descasamento de ações, a fim de que os processos societários
efetivamente evidenciem transparência e clareza ao mercado.
Não se pode esquecer ainda do contexto a participação de fundos de pensão das instituições financeiras que
gravitam com facilidade em inúmeros empreendimentos, a ponto de consubstanciar uma relevante alteração
societária, pontuando informações que interessam ao mercado e seus investidores.
Os relevantes processos de pulverização das carteiras acionárias e a reunião da concentração do poder
permitem que um grupo se associe e exerça o seu comando na direção das companhias, cujo desenho internacional
cunha uma empresa sem fronteiras, mediante parcerias, a fim de aumentar o ganho, reduzir a despesa e otimizar a
produção.
A larga disseminação da participação do setor bancário e financeiro nas empresas, quer para investimento, quer
como destaque na tendência de simples e pura operação de crédito, tudo isso revela a necessidade de uma apuração
de responsabilidade, quando da crise da empresa.
Explica-se o volume de negócios realizados com bancos às vésperas do estado de crise, muitos deles fundados
em artificialismos contábeis de papéis sem correspondente avaliação, deixando perplexo o mercado.
Dessa forma, a participação dos bancos nas empresas é salutar, na medida em que serve de substrato ao
negócio, observando-se transparência em harmonia com o risco e a posição acionária definida.
6
O SIGILO BANCÁRIO

Sumário: 24. Origem. 25. Fundamentos. 26. Sistemas legais. 27. Extensão e oponibilidade. 28. A conta
bancária numerada. 29. As derrogações. 30. O sistema legal brasileiro do sigilo bancário.

24. Origem
Por mais que perscrutemos os horizontes da História, não conseguiremos lobrigar temporalmente determinada
época para o surgimento do sigilo bancário. É por isso que alguns autores pretendem situá-lo em tempos imemoriais,
afirmando que “o segredo bancário tem raízes profundas na tradição”48. Dessa imprecisão temporal se dessume
que, metodologicamente, é inviável a adoção da disquisição histórica para atingir-se o nascedouro do instituto, pelo
que remanesce o critério lógico ou dogmático como o único a balizar a via investigatória. Por ele verificamos que o
sigilo surgiu com o próprio dealbar das atividades bancárias, que, por seu caráter de discrição, dele não podem se
separar, salvo em hipóteses excepcionais expressamente previstas em lei, quando se pretenda resguardar o bem
comum e a ordem pública. Tal se prende à conotação mística que impregnou a origem dos bancos, nascidos que
foram dentro dos templos, no exercício de uma atividade que emanava dos próprios deuses, representados por seus
sacerdotes. Segundo nos informa A. Dauphin Meunier: “Os estabelecimentos bancários eram templos, dos quais os
mais antigos e conhecidos eram os de Eridon, Agades, Sippar, depois Babilônia. O mais antigo estabelecimento
bancário foi o de Orouk, situado entre o Tigre e o Eufrates, datando de 3400 a 3200 a.C.”49.
As operações bancárias precederam a existência da moeda, desenvolvendo-se, então, in natura. A mais antiga
referência ao sigilo bancário é encontrada no vetusto Código de Hamurabi, rei da Babilônia, o qual mencionava a
possibilidade que tinha o banqueiro de desvendar seus arquivos em caso de conflito com o cliente. A contrario
sensu, interpreta-se que, fora daí, o banco estava adstrito à obrigação do segredo.
Constitui consenso que a atividade bancária, como profissão especializada, surgiu na Grécia. Mas, ainda assim,
não inteiramente desligada dos umbrais dos templos, seus berços: os de Delfos, Samos e Éfeso foram os principais.
Os banqueiros, além de propiciarem guarda segura aos valores de seus clientes, redigiam instrumentos negociais e
orientavam a respeito de negócios, graças aos conhecimentos que tinham dos textos legais.
A moeda teria surgido aos 268 a.C., segundo Tito Lívio, cunhada que fora no templo de Juno, a Conselheira
(Moneta). O banqueiro romano — argentarius — deveria possuir um livro secreto de “dever e haver”, o Codex,
conservado em segredo e só exibível na Justiça em caso de litígio com o próprio cliente.
Impregnada que fora de profundo misticismo nas suas origens, a atividade bancária, surgida dentro do próprio
templo, deveria revestir-se de um caráter sagrado. É por isso que se chega a assemelhar as expressões léxica e
ontologicamente: sagrado e segredo50.
A característica sigilosa da atividade bancária foi cuidadosamente observada na Idade Média, consolidando-se
nos tempos modernos não apenas como decorrência de sua natureza, mas também como convenção tácita entre
banco e cliente.

25. Fundamentos
É instintivo à natureza humana o desejo de manter certa discrição no que concerne à posse e disponibilidade dos
bens materiais. Quando não for para evitar o aguçamento das pretensões do Fisco, será, pelo menos, para não
provocar sentimentos nocivos nos inferiormente dotados de bens. Ostensiva nos primeiros tempos, a titularidade da
riqueza foi-se dissimulando: do homem rico com os bens à mostra, chegou-se à pessoa jurídica em que os grandes
detentores de ações não são conhecidos do público em geral; os títulos ao portador cristalizam esse sigilo51.
Nesse respeito à discrição quanto à posse e ao manejo dos bens materiais, vê-se um fundamento filosófico e
humanitário da proteção à privacidade. Além desse, haveria outro de natureza política: no plano interno, o de afirmar
os princípios liberais e democráticos; no plano externo, seria uma autoafirmação de um Estado em relação aos
outros. Em se tratando de depósitos de fundos provenientes do estrangeiro, o sigilo bancário passaria a identificar-se
com os do próprio Estado52. Nesse particular, aponta-se como paradigma a atitude tomada pelos banqueiros suíços
na contingência da Segunda Guerra Mundial, que resistiram aos vários artifícios adotados pelas autoridades do III
Reich para descobrirem os capitais depositados por seus jurisdicionados. Ao final da guerra, a mesma atitude foi
adotada para com as autoridades dos países aliados, que pressionavam no sentido de saber o montante do capital
alemão depositado nos bancos suíços. Só que aí houve revide: os fundos suíços foram bloqueados em Londres e
Nova Iorque e congelado o transporte de matéria-prima e de inflamáveis para a Confederação Helvética. Chegou-
se a um consenso, mas sempre mantendo-se a essência do sigilo bancário: pelo “acordo de Washington”, de 1945,
entre a Suíça e as potências interessadas, persistindo a recusa em desvendar a existência e a identidade dos
depósitos individuais, as autoridades suíças revelaram apenas “o montante dos capitais”, fixado em cem milhões de
dólares.
Sob o aspecto econômico, o sigilo bancário é embasado numa chamada “técnica de captação”: adotaram-na,
com pleno êxito, particularmente a Suíça, com sua lei federal sobre bancos e caixas econômicas, de 8 de novembro
de 1934, e o Líbano, com o diploma legal de 3 de setembro de 1956. Nos tempos modernos, assumindo o serviço de
caixa dos clientes, especialmente dos comerciantes, pelo contrato de conta corrente, o banco conhece o bem-estar
econômico-financeiro de uma empresa, com base na pontualidade de seus pagamentos e na amplitude de seus
negócios. Daí que “comerciantes e industriais dão grande valor ao fato de que as operações a que se entregam não
sejam conhecidas por seus concorrentes. Os simples particulares não admitiriam que a importância de sua fortuna e
disponibilidades em banco fossem reveladas a terceiros”53.
Destarte, o sigilo bancário se caracteriza como sendo a obrigação do banqueiro — a benefício do cliente — de
não revelar certos fatos, atos, cifras ou outras informações de que teve conhecimento por ocasião do exercício de
sua atividade bancária e notadamente aqueles que concernem a seu cliente, sob pena de sanções muito rigorosas,
civis, penais ou disciplinares54.
Duplo motivo leva à relativização do modelo destinado ao sigilo bancário: a segurança do Estado no
conhecimento de dados específicos e o rastreamento das informações, pela rede interligada; a macrocriminalidade
organizada, com os ares do terrorismo nefasto que assola as nações, fazendo com que ocorra uma reviravolta no
segredo e na disposição do subsídio em atenção ao interesse coletivo de países signatários de pactos definindo
auxílio e colaboração contra as desconfianças geradas a partir dos ataques vivenciados em pleno século XXI.
Demais disso, as incredulidades da política governamental e os elevados gastos de campanhas eleitorais, tudo
isso propugna uma revisão dogmática para relativizar o padrão do sigilo bancário em harmonia com o de natureza
fiscal.
Vimos que a própria Suíça está descaracterizando a regra absoluta do sigilo e procedendo às investigações, não
apenas para se assegurar sobre os depósitos, mas para enfrentar a macrocriminalidade crescente.
Nessa situação, e diante da realidade atual, na qual milhares de operações se processam eletronicamente, o sigilo
não pode ser empecilho à necessidade de investigação e apuração de responsabilidades.

26. Sistemas legais


Delineado o que seja o segredo bancário, insta relatar como se comportam as várias legislações no tratamento
do instituto. Neste particular, podemos assinalar três grupos: I — o anglo-saxão, em que o sigilo bancário não
encontra amparo legal; II — o dos países da Europa continental, em que o sigilo bancário é contemplado nos vários
diplomas legais que protegem o segredo profissional; III — o da Suíça e do Líbano, no qual se pode falar do sigilo
bancário reforçado.
I — Grupo anglo-saxão. Empenham-se os autores em assinalar o contraste ocorrente em matéria de sigilo
bancário nos sistemas legais norte-americano e inglês. Enquanto de um lado se timbra em preservar a garantia da
liberdade dos direitos individuais, de outro se despreza o princípio do sigilo bancário. Nos Estados Unidos, ocorrendo
conflito entre a apuração dos fatos e o respeito à intimidade das partes (privacy) e das testemunhas, prevalece a
primeira. Mais ainda: o relacionamento dos comerciantes com os bancos, longe de estabelecer o sigilo bancário,
serve ostensivamente como fonte de informações em favor de terceiros. Por seu turno, o direito inglês obriga o
banqueiro a revelar o segredo. O Banker’s Book Evidence Act, de 13 de maio de 1879, prescreve que o banqueiro
deve expedir certidões, extraídas dos livros que usa no comércio e que merecem fé até prova em contrário, mesmo
não sendo parte em determinado processo.
Não obstante, o direito anglo-saxão sanciona civilmente toda indiscrição injustificada de parte do banco em
relação a seu cliente.
A Inglaterra remanesceu como um dos poucos países onde os Poderes Públicos não intervêm no funcionamento
dos estabelecimentos privados de crédito, o que concorre para debilitar o poder investigatório e os pedidos de
informações da Administração Pública.
II — Grupo da Europa continental. Nesses países, a legislação erige um sistema de proteção ao sigilo
bancário. Não se trata, evidentemente, de segredo de ofício, ou seja, daquele que deve ser observado por funcionário
público, ou por um exercente de um serviço público, isto porque, como bem assinalado55, se assim fosse, o cliente
não poderia dispensar o banco de observá-lo. Trata-se, desenganadamente, de sigilo profissional, sendo
desarrazoada a objeção dos autores que acabamos de mencionar, no sentido de que “a forma impessoal da atividade
bancária tira do estabelecimento de crédito a qualidade de confidente necessário”. Isto porque, embora os bancos
sejam necessariamente pessoas jurídicas, há um grupo de indivíduos obrigatoriamente circunscrito ao dever do sigilo
bancário. É verdade que, no sistema legal caracterizado como sendo o dos países da Europa continental, com o qual
se identifica o brasileiro, o instituto do segredo comporta derrogações, especialmente na esfera penal e, em alguns
casos, no campo civil, mas a regra consiste em cominar sanções de natureza criminal para a violação do sigilo
(Código Penal francês, art. 378; Código Penal italiano, art. 622; Código Penal brasileiro, art. 154).
Com a unificação da moeda e a escrita de texto constitucional que abriga os países incorporados à Comunidade
Econômica Europeia, a tradição absoluta do sigilo vai perdendo força para o intercâmbio e ao mesmo tempo uma
adequação às necessidades do Estado.
A própria Suíça, que não faz parte da Comunidade, em vista dos escândalos e investigações existentes, tem
divulgado o fim do sigilo absoluto das contas numeradas para um modelo aperfeiçoado de identificação e origem do
dinheiro.
Não se esqueça ainda a quantidade de paraísos fiscais, sabendo que brasileiros mantêm depositados mais de 50
bilhões de dólares, cuja lavagem de dinheiro mundial perfaz cerca de 2,8 trilhões de dólares, conforme dados
colhidos em pesquisa feita pela Unicamp de São Paulo.
III — O sistema do sigilo bancário reforçado. Na Suíça, foi após a crise causada pelo fechamento do Banco
de Genebra (11-7-1931) que se procedeu à votação da lei federal de 8 de novembro de 1934, dispondo acerca dos
bancos e caixas econômicas e prescrevendo punições de natureza civil e penal para a violação do sigilo bancário, em
seu art. 47, b:
“Aquele que intencionalmente... b) na qualidade de membro de um órgão ou de empregado do banco, de revisor
ou ajudante de revisor, de membro da comissão de banco, de funcionário ou empregado do secretariado, viola a
discrição à qual esteja obrigado em virtude da lei ou do sigilo profissional, ou que incita a cometer esta infração ou
tenta incitar, é passível de uma multa de até 20.000 francos ou de prisão de até 6 meses, podendo ser cumuladas as
duas penalidades. Se o autor agiu com negligência, a pena de multa é de até 10.000 francos”.
Logicamente, essa realidade hoje se expressa na moeda-padrão, o próprio euro, cuja legislação foi adaptada,
inclusive no aspecto de sanção, traduzida no âmbito da multa incidente.
Na esteira da Suíça, o Líbano promulgou a lei de 3 de setembro de 1956, em vigor a partir de 5 de novembro do
mesmo ano, disciplinando o sigilo bancário reforçado, que, no entendimento da doutrina, se caracteriza por ensejar
sanções morais, civis e penais a seus violadores. Tanto o suíço como o libanês são sistemas rígidos, comportando
derrogações apenas em casos impostos pela organização da atividade creditícia e bancária ou pela própria lei.
A tradição do sistema cerrado propriamente dito da Suíça, que espalhou efeitos nos demais países, experimentou
uma diversificação quando a imprensa estrangeira, em colaboração com órgãos de repressão aos abusos cometidos
no período da Segunda Guerra Mundial, exigiu que fossem divulgados os nomes das vítimas e seus familiares, cujos
bens e valores teriam sido “depositados” sob a tutela do formalismo que disciplinava o sigilo.
Em virtude da pressão havida e das manifestações que polemizaram o tema, os bancos suíços vieram a público e
deram explicações, divulgando as listagens contendo os nomes de várias pessoas que mantiveram valores em
depósito, permitindo dessa maneira que os beneficiários, comprovado o vínculo de parentesco, pleiteassem o
recebimento daquelas importâncias, sem incorrer em caducidade ou prescrição, por causa da origem e da não
preclusão de direitos em período de manifesta exceção.
A grande vantagem ou desvantagem que deita raízes e profundos sulcos nesse sistema rígido e de completa
situação de privacidade repousa no fato da falta de acesso ao banco de dados, onde há uma numeração específica
que identifica as contas. Porém, não se pode negar que convenções e tratados internacionais se preocupam com
essa realidade, posto que polpudas somas oriundas de atividades ilícitas se destinam ao benefício daquela ausência
de constatação dos dados adstritos aos montantes recebidos, possibilitando, no trânsito constante e diário, a lavagem
e o desvio entre nações, com uma velocidade espantosa.
Nessa linha de raciocínio, o Brasil não resta isolado, procurando normatizar regras de conduta que situem a
lavagem de dinheiro e coibir o grande acesso de valores incomprovados que circulam livre e impunemente, a motivar
o Parlamento na adoção de parâmetros que busquem minimizar os efeitos negativos da tipificação, que não pode
remanescer isenta de sanção.
Numa realidade dos nossos aspectos principais e bastante contemporânea, o conceito rígido do sigilo bancário
experimenta tendências de maleabilidade, diante da conjuntura da globalização, do enfrentamento da lavagem de
dinheiro e acentuadamente no combate aos grupos terroristas.
Existe, por certo, um concurso entre os países no trato dessa matéria, permitindo um levantamento de contas e
monitoramento dos investimentos, com pedidos de bloqueio e transferências, a fim de serem apuradas as
irregularidades e ilicitudes.
Desaparecendo o formalismo central que desenha o conteúdo fundamental do sigilo bancário, em virtude da
insegurança internacional, da recessão econômica e da criminalidade em alta, a descoberta de subsídios acerca de
operações ilícitas perpassa a proteção do indivíduo e alcança respaldo na segurança dos Estados.

27. Extensão e oponibilidade


Cumpre, sob esse aspecto, examinar três elementos: I — os fatos objeto do segredo; II — as pessoas a ele
sujeitas; III — os que dele podem compartilhar.
I — Os fatos objeto do segredo. Quanto a eles, a doutrina suíça propõe os critérios objetivo e subjetivo para
caracterizá-los. Sob o aspecto objetivo, o banco está obrigado a observar o sigilo sobre os fatos decorrentes da
relação interna de negócios com o cliente. Assim, excluem-se do segredo os fatos levados ao conhecimento do
banco por meio de terceiros e sem referência com as relações que o ligam ao seu cliente56. Esse o critério do
sistema do sigilo bancário reforçado. Já para o sistema continental europeu, objeto do segredo são apenas as
informações consideradas de caráter confidencial, tais como: conteúdo do balanço e montante ou movimento da
conta corrente, excluindo-se os dados sobre pagamentos regulares, vencimentos difíceis, protestos, cheques não
pagos; mesmo assim, o banco terá que agir com a necessária discrição, sem quebrar as regras usuais da profissão57.
Ainda de acordo com a doutrina suíça, sob o prisma subjetivo, os fatos que o segredo deve abranger ficam na
dependência da manifestação da vontade do cliente. Destarte, podem eles ter natureza tanto patrimonial como moral
(o pagamento de quantia única, ou periódica, pelo banco a uma terceira pessoa, que poderia ser até mesmo
concubina do cliente). O banco é obrigado a guardar secretos os nomes dos correntistas e as cifras por eles
mantidas em haver, mas a revelação destes dados sem a identidade do titular não constitui violação de sigilo.
II — Pessoas sujeitas ao sigilo. Neste particular, tanto o sistema do sigilo reforçado (Suíça e Líbano) como o
continental europeu são unânimes em admitir que todos os funcionários do banco, desde o mais categorizado diretor
até o mais simples empregado, estão adstritos a guardar o segredo (a matéria se encontra bem explicitada no art. 2º
da lei libanesa de 3-9-1956 acerca do sigilo bancário).
III — Os que podem compartilhar do segredo. Em princípio, só o banco por todos os seus dirigentes e
funcionários ligados às operações do cliente e este próprio podem do sigilo compartilhar. Deste modo, mesmo os
familiares mais íntimos — pais, filhos e cônjuge — a ele não têm acesso, a menos que expressamente autorizados
pelo cliente ou que fundadas razões façam presumir que eles integram sua “esfera de discrição”, como no direito
suíço (no direito libanês só com autorização escrita). É óbvio que os representantes legais (dirigentes de pessoas
jurídicas, tutores, curadores e pais de menores) compartilham do sigilo. Em se tratando de cliente pessoa jurídica, o
sigilo não pode ser oposto a seus representantes legais e administradores; quanto aos sócios, em princípio, não têm
eles acesso ao segredo bancário; seu direito de informação é exercido segundo os preceitos legais que regem a
disclosure (entre nós, o revogado art. 18 do antigo CCom e atuais arts. 1.021 e 1.121 do CC, na esteira da Súmula
260 do STJ e art. 105 da Lei das Sociedades por Ações).
Também, em princípio, o sigilo bancário é oponível aos Poderes Públicos, especificamente o Fisco e o Judiciário,
sofrendo, contudo, exceções expressamente previstas em lei. A matéria comporta nuanças, conforme se trate do
sistema do sigilo comum, continental europeu ou reforçado (Suíça e Líbano).
1. O banco e o Fisco. No sistema continental europeu, em que podemos tomar como padrão a França, os
agentes do Fisco têm o direito de obter do banco toda a documentação necessária, mas não o de constrangê-lo a
fornecer informações a respeito do cliente58. Compreende-se o dever do banco de exibir os documentos comuns ao
cliente: é que, por força de dispositivos legais, o banco foi erigido em colaborador do Fisco, ao ser obrigado a
recolher os impostos a que estão sujeitas certas operações bancárias59. Já o sistema do sigilo reforçado oferece
obstáculos ao próprio Fisco. Na Suíça, o art. 47 da lei bancária veda aos agentes tributários proceder a investigações
em um estabelecimento bancário. Se eles exigem do contribuinte documentos que só o banco pode propiciar, em se
recusando este, o cliente não pode constrangê-lo a fornecê-los e, então, será lançado ex officio. No Líbano, as leis
de 27 de julho e 14 de dezembro de 1959 dispensaram os bancos submetidos ao sigilo bancário de toda a obrigação
de informar o Fisco e qualquer outra autoridade, donde não poder contar aquele com qualquer colaboração do banco,
para efeito de lançamentos.
2. O banco e o Poder Judiciário. Sob este aspecto, podemos dizer que a matéria do sigilo bancário comporta
algumas exceções, ou seja, em certas circunstâncias expressamente previstas em lei, ele não pode ser invocado em
relação ao Poder Judiciário. No sistema continental europeu, o banco não pode se eximir de depor na Justiça
Criminal, estando, via de regra, dispensado de fazê-lo na jurisdição cível; quanto às medidas de constrição (penhora,
arresto, sequestro) sobre a conta, o banco não está obrigado a revelar a existência dela, nem o seu quanto, mas não
pode se recusar a efetivar a ordem judi​cial, desde que ela se contenha nos limites do saldo existente.
Quanto ao sistema do sigilo reforçado, notamos que, no Líbano, o banco pode escusar-se de depor mesmo na
Justiça Criminal, o que não impede que os tribunais tirem todas as presunções das circunstâncias do litígio. Na Suíça,
é preciso distinguir o que ocorre na Justiça Federal e na cantonal. Perante a primeira: a) na Justiça Cível, geralmente
o juiz concede dispensa; b) na Justiça Criminal, o banco é obrigado a depor. Na esfera cantonal, há três tendências
em matéria cível: a) os cantões onde o banco é dispensado de depor; b) os que deixam ao juiz a faculdade de
dispensar a testemunha de responder; c) onde o banco não pode invocar o art. 47 da lei bancária para se recusar a
depor. Na Justiça Criminal, apenas dois cantões dispensam o depoimento do banco: os de Neuchatel e Valois.
Quanto à penhora de fundos disponíveis, no direito libanês, se faltar a autorização do cliente, o banco deve
recusar-se a efetivá-la; no direito suíço, não havendo a legislação federal imposto a terceiro detentor de bens do
devedor o dever de declará-los ao juízo ou de informar a este, a doutrina conclui no sentido da manutenção da
obrigação do segredo60.
No que concerne às medidas cautelares (sequestro, arresto), o direito libanês não possui norma específica a
respeito, mas os princípios genéricos da lei de 3 de setembro de 1956 levam a crer que, igualmente ao que ocorre em
relação à penhora, o banco deve opor-se. No direito suíço, um acórdão do Tribunal Federal de 3 de junho de 1937
deixou assente que: a) o sequestro, recaindo sobre valores mobiliários mencionados no art. 98, da Lei de Execuções
e Falências, é válido, mesmo que o juízo não tenha tomado posse desses títulos; b) escapam aos efeitos do sequestro
os valores ou créditos pertencentes a terceiro não mencionados no processo.
Enfim, excepcionam a regra do sigilo bancário as informações que os bancos estão legalmente obrigados a
prestar aos órgãos de controle do sistema financeiro, tanto nas legislações continentais europeias quanto nas do sigilo
bancário reforçado, as quais estão ligadas ao próprio funcionamento do sistema.
Em verdade, na delimitação precisa do assunto, diante dos Tratados e Convenções Internacionais, superando
meras expectativas relativas aos negócios jurídicos subjacentes, a macrovisão propugna por um cenário de
estabilidade na demonstração da culpabilidade.
De efeito, as contas reputadas ilícitas podem ser bloqueadas naqueles países, normalmente paraísos fiscais,
porém para o repatriamento e utilização da nação solicitante existem critérios que se prendem ao procedimento
comprobatório da responsabilidade da pessoa natural ou jurídica.
Exigem muitos países uma decisão que manifeste a ilicitude do recurso com força executória, para efeito de
legitimar o retorno do numerário à origem, e a respectiva demora não permite que o bloqueio da conta, do fundo ou
do investimento permaneça indeterminadamente, o que dificulta, ainda mais, o repatriamento do dinheiro depositado
no exterior.
Essencialmente, sobreditas operações ilegais e marcantemente ilícitas perseguem engenhosa manobra na qual
são utilizados artifícios e manipulações de nomes de fantasia, tudo para dissimular e dificultar ao máximo a
respectiva localização e restituição às vítimas da clandestinidade singular.
Não bastam, apenas e tão somente, regras internacionais convencionando a forma de retorno dos valores, mas é
da essência do procedimento, mais do que o provimento cautelar de bloqueio, a análise de mérito, a teor da exigência
do país encarregado de cumprir a ordem judicial expedida.

28. A conta bancária numerada


Não obstante consagrarem os sistemas legais da Suíça e do Líbano o sigilo bancário reforçado, com alguma
flexibilização a nível de relativização, busca-se enormemente a redução dos riscos de violação do segredo, cuja
prática corrente naqueles países divulga o uso de contas correntes sob números, e não nomes, também chamadas
“contas bancárias anônimas”, e a locação de cofres-fortes numerados. O titular da conta só é conhecido pelo diretor
do banco ou seu adjunto. Sua identidade é revelada apenas autorizando ele ou seus herdeiros e legatários, post
mortem, por escrito, ou em caso de falência, a menos que ocorra litígio em relação a uma operação bancária entre
ele e o banco. O cliente, em vez de seu nome, assina o código e o número, e, para prevenir contra violações, nenhum
extrato de conta lhe é remetido.
Na Suíça, “as comunicações são conservadas pelo banco e recolhidas pelo próprio cliente ou seu representante
autorizado; o banco pode convencionar com ele que nenhum pagamento será feito por meio de sua conta, salvo se
ele o pede pessoalmente, ou se completa sua assinatura indicando igualmente o número da conta ou algumas
palavras do código combinado”61.
Outros cuidados são tomados para preservar o sigilo: as operações têm lugar na sala do diretor, de seu adjunto
ou de pessoa credenciada para esse fim; os cofres-fortes são dispostos de modo a evitar encontros fortuitos ou a
identificação pelos empregados das câmaras fortes.
A existência da conta de depósito ou da locação do cofre-forte numerado é justificada pelo fato de que, mesmo
subordinada ao segredo, a conta comum não elimina inteiramente os riscos de uma eventual revelação da identidade
do cliente. Aponta-se, como exemplo, a seguinte situação: um terceiro faz um pagamento a crédito de uma conta
qualquer, na qual está interessado e supõe existir; o banco se encontra perante o seguinte dilema: se aceita o
pagamento, reconhece a existência real da conta; se não, assume o risco de recusar um pagamento normal a crédito
de um cliente62.
Em se tratando de conta numerada, isso dificilmente poderia acontecer, porquanto o seu número é desconhecido
por qualquer terceiro, inclusive pelos funcionários encarregados de recebimentos.
Imprescindível assinalar que os depósitos não dizem respeito exclusivamente ao dinheiro, mas se ligam aos
variegados objetos valiosos, como joias, pedras preciosas, diamantes, de modo que se dificultam sobremodo a
identificação e a localização que pudessem possibilitar, em casos de constatação de ilícitos penais, a rápida e
imediata obtenção de fonte segura de informação, no alvo de se fazer o bloqueio e o consequente repatriamento
daqueles valores.
Notadamente, a operação nucleariza uma disponibilidade na oportunização de diversos enfoques, a confundir as
autoridades encarregadas das investigações, com a mudança dos nomes, de valores, de praças, e quaisquer meios
visando evitar o alcance da fiscalização.
No dinamismo exacerbado que permeia essa capacidade de fuga de capitais repousa a habilidade de bloqueio e
recuperação dos valores, com o descartar da lesividade ao erário público.
Não basta a simples ordem de bloqueio, que é insuficiente à recuperação do valor em depósito, muitos exigem
uma determinação judicial amparada pela decisão a respeito do assunto, mas é fundamental o estreitamento de
relações internacionais facilitando o intercâmbio e a política de dissipar o espírito da impunidade.
Essa tipologia exige um esforço concentrado das autoridades e principalmente daqueles que fazem a
investigação, dada a natureza do COAF e suas restrições, mas cabe ao Estado o repatriamento de valores.
Reflexo disso é a solução eficaz, com medidas efetivas e que permitam, sem maiores transtornos, a recuperação
de valores ilicitamente transferidos ou que pertençam à soberania do Estado.

29. As derrogações
No item 27, supra, examinando a extensão do sigilo bancário, enumeramos hipóteses excepcionais em que ele
sequer chega a operar, por força de disposições legais expressas (caso do Fisco, do Poder Judiciário), embora, sob
certos aspectos, continue oponível a esses mesmos órgãos. Na exceção, há uma exclusão a priori do segredo.
Situações, porém, existem em que a superveniência de certos fatos acarreta a derrogação da regra do segredo. A lei
libanesa de 3 de setembro de 1956 (arts. 3 e 7) previu quatro hipóteses neste sentido, as quais se harmonizam com o
espírito das legislações, tanto do sistema continental europeu como do sigilo reforçado, podendo comportar a última
alguma extensão: I — consentimento do cliente, seus herdeiros ou legatários; II — litígio entre o cliente e o banco;
III — na falência; IV — enriquecimento ilícito.
I — Consentimento do cliente. Deve ser sempre por escrito, podendo expedir-se quantas vezes o entender o
interessado, não tendo o banco a faculdade de recusá-lo, donde ter o caráter de receptivo. Em se tratando de pessoa
física particular, considera-se que as relações entre o cliente e o banco se circunscrevem à esfera pessoal, pelo que
o cônjuge, auxiliares e outros interessados só podem ser informados mediante autorização expressa. Se for
comerciante, a doutrina suíça admite em favor do mandatário, com poderes gerais, uma presunção para penetrar o
segredo; já os autores libaneses exigem poderes especiais.
As sociedades por ações manifestam uma autorização por seus órgãos representativos; já as chamadas
sociedades de pessoas fá-lo-ão por mandato expresso, com poderes especiais outorgados pela maioria deliberante,
de vez que se considera que a autorização para renúncia ao segredo transcende os poderes de gerência.
Herdeiros e legatários sucedem o cliente no direito de autorizar o levantamento do segredo. Este pode ser
determinado em favor de qualquer pessoa, sendo que no direito suíço, conforme vimos quando tratamos da extensão
e da oponibilidade ao sigilo, se presume que certas pessoas ligadas de perto ao cliente, como familiares, empregados
etc., se encontram “na esfera de discrição”, dispensando, pois, qualquer autorização expressa que é exigida pelo
outro sistema do sigilo reforçado — o libanês.
A autorização genérica para liberação do segredo, ou seja, sem a designação de beneficiário, é interpretada
como renúncia ao próprio segredo.
II — Litígio entre banco e cliente. Havendo conflito de interesses, o banco está automaticamente liberado de
guardar o sigilo, podendo usar todos os dados relativos ao cliente de que dispõe como elemento probatório. O termo
“litígio” é interpretado pela doutrina em sua acepção ampla, ou seja, de controvérsia, dissenso, disputa, em qualquer
esfera e não apenas na judiciária.
III — Falência do cliente. Afastado da posse e da administração de seus bens, o falido é substituído por um
síndico, a quem todas as informações deverão ser prestadas pelo banco como se o fossem àquele. Nos
ordenamentos jurídicos como o francês, por exemplo, nos quais existem outros procedimentos concursais, em que
nem sempre o devedor é afastado da posse e da administração dos bens, ainda assim deve cair o segredo, porquanto
o juízo necessita conhecer a situação econômico-financeira daquele e, nesse caso, o banco é legalmente obrigado a
prestar todas as informações.
É óbvio que, se se tratar da falência do banco, e não do cliente, é impossível manter o segredo pelo fato de a lei
falimentar determinar uma ampla divulgação do rol dos credores. Inelutavelmente, embora forçoso reconhecer a
excepcionalidade da hipótese, a liquidação proveniente da decretação da quebra traz dentre outras consequências
aquela relativizando o segredo, publicizando o seu conteúdo, na linha de raciocínio do próprio procedimento, que
hospeda uma abertura e o conhecimento dos subsídios pelos interessados, independentemente da postulação de
eventual crédito.
A simples falência do banco, que está disciplinada na Lei n. 11.101/2005, deve revelar dupla finalidade, a
transparência de todas as operações e o enfrentamento da investigação que atinja o grupo de direito ou de fato, de
conotação econômica, sob pena de manter o controlador poder detrimentoso aos investidores, aos clientes e ao
mercado.
Não faz o menor sentido simplesmente formalizar a quebra da instituição sem operacionalizar sua
responsabilidade, donde a importância de ser demarcada a posição do controlador.
Necessário ainda dissipar o conflito entre as Justiças Estadual e Federal na apuração dos fatos, na percepção
dos acontecimentos e na sinalização específica das responsabilidades dos ex-administradores.
IV — Enriquecimento ilícito. Trata-se de situação jurídica aplicável aos funcionários públicos.
A lei do sigilo bancário libanesa, em seu art. 7º, dispôs que ele “não pode ser oposto às informações solicitadas
pelas autoridades judiciais nas ações relativas aos enriquecimentos ilícitos, introduzidas para aplicação do Decreto-lei
38, de 18 de fevereiro de 1953, e da lei de 14 de abril de 1954”. Por “autoridades judiciais”, no caso, entende-se
naquele país uma jurisdição de exceção, composta de três magistrados especialmente para apurar enriquecimento
ilícito de funcionários. Tratando-se de figura penal, nos demais sistemas legais, a matéria se comporta dentro das
jurisdições repressivas comuns, que estabelecem derrogações à regra do sigilo.
Denota-se mesmo nas legislações estrangeiras, sem a menor dúvida, que o sigilo bancário perde sua substância
intangível, de mistério, e passa a encerrar regras mais aceitas de flexibilidade em sintonia com as necessidades do
interesse público e da própria sociedade, determinando o Estado o escopo da abrangência de sua intervenção.
Consubstanciado o mercado comum europeu e as normas alojadas nos tratados internacionais, muitos países
abdicam de regras formais e passam a adotar um estilo mais aberto que favoreça ao interesse coletivo.
A relativização do sigilo bancário é predominante nas nações desenvolvidas e serve como instrumento de
responsabilidade e forte ferramenta em busca da apuração da verdade.
Cumpre ao Estado o papel decisivo e enérgico de reduzir as brechas e determinar o grau de apuração, haja vista
inúmeros aspectos que privilegiam a migração ilícita dos recursos extraídos dos cofres públicos, pertencentes à
sociedade.

30. O sistema legal brasileiro do sigilo bancário


Conforme afirmamos na classificação dos sistemas legais em geral (item 26, supra), enquadramo-nos, em
matéria de sigilo bancário, no grupo dos países da Europa continental, que dão à matéria tratamento de segredo
profissional. Assim, no que concerne a depoimento, o Código Civil (art. 229, I), o Código de Processo Civil (art. 448,
II) e o Código de Processo Penal (art. 207) vedam-no aos que conhecem de fatos por força de função, ministério,
ofício ou profissão. E o art. 154 do Código Penal capitula como delito a revelação desses fatos sem justa causa. Por
justa causa devem-se entender as hipóteses em que a matéria, objeto do segredo, pode ser revelada, por força de
permissivos legais. No referente à exibição de documento, o art. 404, IV, do Código de Processo Civil resguarda o
sigilo profissional.
Quanto à matéria do sigilo bancário, outrora regulada pela Lei n. 4.595, de 31 de dezembro de 1964, e pela
Resolução n. 469, de 7 de abril de 1978, do Banco Central, com prescrição de medidas repressivas na Resolução n.
1.065, de 5 de dezembro de 1985, do mesmo órgão, temos que, de um modo geral, a Resolução n. 469 se limitava a
reproduzir o contido nos arts. 37 e 38 da Lei n. 4.595, haja vista a entrada em vigor, com nova característica e
conceituação, do diploma normativo repousando na Lei Complementar n. 105, de 10 janeiro de 2001, estabelecendo
premissas e avanços significativos.
O art. 38 afirmava a regra do sigilo bancário. O § 1º estabelece exceção quando se tratar de “informações e
esclarecimentos ordenados pelo Poder Judiciário... e a exibição de livros e documentos em juízo”. Note-se que não
há levantamento de sigilo quanto a depoimento do juízo cível. No que tange a informações e exibição de livros e
documentos, devem cingir-se estritamente ao ponto objeto da controvérsia, não sendo permitido desvendar outros
aspectos das relações do cliente com o banco. É por isso que entendemos que não há dispositivo legal expresso no
sentido de obrigar o banco a informar sobre eventuais fundos disponíveis do cliente para efeito de penhora, arresto
ou sequestro. Emanada, porém, a ordem de medida constritiva, e em se contendo ela nas disponibilidades do cliente
no banco, não há como não ser acatada por este.
Na realidade, as operações realizadas que envolvem grandes somas, quer nas concorrências públicas, quer nos
procedimentos de privatização, alienação de controle, aportes de capital no mercado financeiro e de capitais,
repercutem decididamente na órbita econômica, sendo que a revelação dessas circunstâncias preside a necessidade
de averiguação dos subsídios concretos, no sentido de minimizar irregularidades, ou malversação, mormente com a
presença de fundos de pensão, desnaturando o aspecto que orienta o sistema da livre-iniciativa.
Cogita-se, em termos legislativos, de alteração em torno do princípio norteador de que somente em casos
excepcionais permite-se a quebra do sigilo, uma vez que, diante de atos ilícitos ou mesmo na dúvida na apreciação
de um determinado tipo de negócio, sem a perspectiva concreta de melhores informações, certamente o prejuízo
disso resultante implicará a ausência do exame mais detalhado sobre o assunto.
Na linha de pensamento existente, somado aos aspectos fundamentais e às limitações que se faziam no espírito
de conotação normativa, na luta entre o Estado e os capitais impuros ou de difícil origem comprovada, surgiu a Lei
Complementar n. 105, de 10 de janeiro de 2001, disciplinando regras a respeito do sigilo bancário, eliminando o perfil
estático do art. 38 da Lei n. 4.595/64, elencando as hipóteses ensejadoras da quebra diante do interesse público
acima da privacidade do cliente.
Sobredita legislação apresenta dupla finalidade: repressão ao crime organizado, incluindo lavagem de dinheiro e
tráfico de drogas; d’outro ângulo revela a sua preocupação na diretriz de coibir delitos contra a ordem tributária e
previdência social, sumariando os critérios objetivos que resultam no modelo operacional da quebra do segredo.
Com a nova roupagem normativa inexiste a propalada rigidez de princípios em torno do segredo bancário, cuja
primazia ressoa a atividade maior do Estado no enfrentamento do crime organizado, à lavagem do dinheiro, delitos
afetando a ordem tributária, previdenciária, em hipóteses próprias numerus clausus, conferindo a iniciativa à
Administração Pública.
Relativamente ao palmilhar da jurisprudência, sem sombra de dúvida, há uma crescente corrente de opinião que
vaza seu ponto de vista na maior transparência, porém preservando a interpretação normativa.
Como exemplo, cite-se o julgado estampado na RT, 719:96, onde, por maioria de votos, o Tribunal de Justiça de
São Paulo entendeu que o sigilo bancário é dever jurídico imposto às instituições financeiras de não revelar a
terceiros, sem motivo plausível, os dados da clientela, mantendo, destarte, rígido o preceito da quebra em hipóteses
excepcionais.
O palpitante tema ganhou contorno próprio e singular por ocasião da cobrança do imposto sobre operação
financeira — CPMF, cuja validade não fora mais prorrogada, sobressaindo, ante a negação ditada pelos bancos no
fornecimento de informes à Receita Federal, a entronização no sentido da proteção dada ao segredo. Com efeito,
nessas condições, o caso foi submetido à apreciação do Colendo Supremo Tribunal Federal, que de seu turno houve
por bem considerar o princípio hermético da quebra, posicionando-se, naquela oportunidade, favorável à mantença
do perfil assumido pelas instituições financeiras.
Uma coisa é absolutamente inadiável na conjuntura moderna: um desenho mais adequado a respeito do sigilo
bancário e o mecanismo que determina sua quebra, sem o que nada acontecerá capaz de inverter o quadro do
anonimato, que tanto ajuda nas negociatas efetuadas, tudo em consonância com a Lei Complementar n. 105/2001,
cuja efetividade é um teste de validade na eficácia de manter a transparência e o conhecimento das operações que
maculam a legalidade e afrontam o papel do Estado.
Cogita-se inclusive, na modernidade, da quebra do sigilo das informações eletrônicas, haja vista operações
realizadas nos mercados financeiro e de capital, quando os dados constantes das fontes informatizadas, armazenados
nos aparelhos utilizados pelos usuários investigados, foram capazes de revelar o volume dos negócios, seus valores,
privilégios de subsídios na concatenação dos contratos, notadamente quando houve a desvalorização da moeda e
mudança cambial.
Bem nesta sistemática, a própria Justiça determinou a quebra de sigilo do banco de dados eletrônicos,
autorizando que os técnicos disponibilizassem todos os elementos que gravitavam em torno das negociações,
demonstrando a evolução do segredo e a competência na concentração de imprescindíveis aspectos na
responsabilização dos culpados.
De fato, todas as operações em série, paralelas, envolvendo pessoas física e jurídica foram divulgadas de molde
a sofrer uma melhor investigação, na perspectiva de possibilitar ao Ministério Público a certeza da ilicitude dos
negócios e as transgressões às legis​la​ções disciplinadoras da matéria.
Com razão, o contingenciamento de múltiplos elementos extravasa a simples pesquisa local, obtida mediante
informe encaminhado pelo Banco Central, porque inclusive há uma fiscalização de todo o conjunto dentro e fora do
País, entre as corretoras, instituições financeiras, fundos de pensão, objetivando com isso pormenores que não
seriam assimilados no manuseio de subsídios bancários.
Interligam-se, portanto, neste horizonte, sem discórdia, o sigilo bancário, o telefônico, o eletrônico e o fiscal, que
implicam a robusteza dos meios de prova à disposição da autoridade que preside a investigação, permeando-se o
prisma das comissões parlamentares de inquérito, que somente podem ser instauradas para colher exame de fatos
determinados e objetivos, cujos poderes equiparados aos jurisdicionais foram postos em leque, na circunstância
ditada pelos casos concretos levados ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal.
Sinaliza-se uma evolução tecnológica e científica, sem precedentes, na quadra de exteriorizar todos os meios
voltados para a realidade estrutural daquela revelação das operações marcadas pelo privilégio do informe sigiloso, na
presença de atos ilícitos, no combate aos delitos tributários, numa macrovisão que beneficia a coletividade e permite
dotar os órgãos fiscalizadores de efetivos instrumentos essencialmente indispensáveis à materialização da verdade.
Quanto ao Fisco, vimos que no sistema continental europeu, que guarda mais semelhanças com o nosso, o banco
pode ser constrangido a propiciar aos agentes fiscais os documentos comuns ao cliente, mas não a prestar
informações. Já a lei brasileira obriga também à prestação de esclarecimentos e informes às autoridades fiscais (LC
n. 105/2001, art. 5º, § 4º). Temos que esta norma, dispondo de maneira genérica, infringe os princípios que
resguardam o sigilo bancário (CC, art. 229, I; CPC, art. 448, II; CP, art. 154), que, aliás, constituíram também motivo
de preocupação do próprio legislador fiscal (cf. CTN — Lei n. 5.172, de 25-10-1966, art. 197, parágrafo único).
O endividamento dos Estados palpitante e a dificuldade com que se deparam na cobrança da dívida ativa são
preocupações constantes, primeiro pela diminuição da receita dos tributos, segundo pela sonegação e sua
metodologia aperfeiçoada e, por derradeiro, em razão da demora e das vicissitudes encontradas no procedimento de
execução fiscal.
Sem peculiaridade ímpar, comum se torna vislumbrar empresas encerradas, com patrimônio esvaziado, daí a
necessidade da desconsideração da personalidade, do atingimento dos membros pessoas físicas e, particularmente,
da quebra do sigilo bancário para esmorecer as técnicas que se mostram cada vez mais voltadas para o não
recolhimento da obrigação tributária.
Dessa forma, numa decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, cuja transcrição se acha na RT,
716:261-2, pôde aquela Corte mostrar o seu entendimento no sentido de que é lícito ao magistrado, embora de forma
excepcional, quebrar o sigilo bancário, colimando subsídios a respeito dos ativos financeiros.
Reduziu-se, enormemente, o percentual ante às execuções fiscais, que redundam num resultado positivo em prol
do Fisco. A par de não achar um patrimônio in bonis de muitas empresas, as situações revelam definhamento dos
ativos, causando perda à Receita ou parcelamento alongado do perfil do débito.
Frise-se que o Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial n. 37.566-5-RS, funcionando como relator o
Ministro Demócrito Reinaldo, sustentou ponto de vista sobre a inviabilidade de ser quebrado o sigilo bancário
diretamente pela administração tributária, impondo-se a interveniência do Poder Judiciário para garantia ao acesso
das informações monitoradas pelas instituições financeiras. Saliente-se, em particular, na voz do referido Ministro,
parte desta​cável e de relevo contida no julgado:
“Segundo entendo, a exegese integrada do art. 197, II e § 1º, do CTN concede à autoridade fiscal o poder de
solicitar as informações que repute necessárias à instrução ou apuração de débito tributário, desde que as mesmas
não se abriguem sob o manto inviolável do sigilo bancário”.
Conquanto a posição revelada tenha fomento legal, entendemos que na priorização da função pública desenhada
por intermédio do Fisco seria baldar seus esforços fechar a porta na conduta daquele contribuinte que simplesmente
sonega informes relevantes, ademais a demora da medida no âmbito do Poder Judiciário daria amplo campo à
margem de manobra. Assim, é de se temperar a regra fechada com a excepcionalidade do caso concreto, quer por
meio de convênios firmados entre o Poder Público e o Banco Central, quer através da demonstração inequívoca de
que o prejuízo ensejaria óbice intransponível ao lançamento tributário.
Enfim, dois mecanismos que precisam ser aperfeiçoados no ordenamento jurídico pátrio concernem ao sigilo
bancário e ao fiscal. Enquanto o legislador não se orientar para uma visão detalhada e ampliada das hipóteses que
permitem a quebra dos segredos, invariavelmente, não apenas na cobrança comum, mas naquela fiscal, os
obstáculos serão palpáveis e aumentará a maneira de esconder o patrimônio, inclusive pela evasão, subfaturamento,
remessa e outros aspectos negativos. Nota-se que o aparelho está desmantelado, e nada se faz em termos naturais
para que haja uma reviravolta em todo o esquema existente.
Com o advento da Lei Complementar n. 105, de 10 de janeiro de 2001, é inevitável reconhecer um avanço na
adoção de medidas que simbolizem, de forma emblemática, a macrovisão dos problemas referentes à quebra dos
sigilos bancário e fiscal.
De modo geral, a quebra do sigilo bancário fica adstrita ao predomínio do interesse público, coletivo, que atenda
aos ditames do bem comum, vez que o segredo conservando o seu aspecto tutelar individual cederia espaço à
quebra, por envolver a natureza na qual o Estado teria no seu comando a manutenção da ordem e do equilíbrio na
participação das atividades correspondentes ao fim exclusivo da comunidade.
Fundamentalmente, a Lei Complementar n. 105, de 10 de janeiro de 2001, traça as circunstâncias que permitem
a quebra do sigilo, destacando-se o seguinte:
“Art. 1º
§ 4º A quebra do sigilo poderá ser decretada, quando necessária para apuração de ocorrência de qualquer ilícito,
em qualquer fase do inquérito ou do processo judicial, e especialmente nos seguintes crimes:
I — de terrorismo;
II — de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins;
III — de contrabando ou tráfico de armas, munições ou mate​rial destinado a sua produção;
IV — de extorsão mediante sequestro;
V — contra o sistema financeiro nacional;
VI — contra a Administração Pública;
VII — contra a ordem tributária e a previdência social;
VIII — lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos e valores;
IX — praticado por organização criminosa”.
Respigando as hipóteses descritas nas alíneas V, VIII e IX nos estritos moldes das operações bancárias,
consequência disso é observar uma escalada forte do Estado em coactar com as possibilidades de negócios escusos
e que lesem o sistema financeiro nacional.
Milhões de cobranças da dívida ativa ficam anos a fio paralisadas pelos fatores de não localização dos
devedores, ausência de patrimônio excutível, mudança da razão social, sem que exista um sistema unificado, do tipo
banco de dados, para que se possa cogitar da viabilidade técnica do excutir. A análise que se deve fazer diz respeito,
outrossim, ao proveito econômico que poderia advir dessa execução, com eventual quebra do sigilo, se compensaria
para o Fisco saber quais os aspectos exteriores permitiriam chegar à conclusão segura.
Em outras palavras, a concepção formada em torno do seguro causa polêmica e discussão; de um lado as
instituições financeiras querem a proteção da clientela, doutro surge o interesse de se quebrar o dogmatismo e
avançar na realidade subjacente dos fatos.
A preocupação com o sigilo bancário foi reiterada por meio da Resolução n. 1.065, do Banco Central do Brasil,
de 5 de dezembro de 1985, que, no item IV, d, da Seção 4, prescreveu penas de multa para o banco que “não
conservar sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados”.
Conforme assinalamos, as quatro hipóteses de derrogação de sigilo, especificamente previstas na lei libanesa —
consentimento do titular, litígio entre este e o banco, falência e enriquecimento ilícito do cliente —, encontram
respaldo na legislação brasileira (CPP, art. 207; CPC, art. 773, parágrafo único; Lei de Falências n. 11.101/2005, art.
108; e CP, art. 154).
Finalmente, a regra do sigilo bancário deve ser conciliada com as exigências do controle dos bancos pelo órgão
respectivo, isto é, devem eles fornecer ao Banco Central os informes necessários ao exercício de sua função
fiscalizadora, mas sem violar o sigilo.
Destarte, não pode o Banco Central penetrar nos detalhes de conta particular, a não ser nos casos de existência
de alguma alteração que infrinja as normas bancárias (cf. o disposto no item 13 da Seção 8 da Resolução n. 1.065,
de 5-12-1985, o qual, porém, só se aplica às instituições financeiras, não operando em relação aos outros
comerciantes, por força do contido no art. 1.190 do atual CC).
Inegavelmente todo o mapeamento em torno da quebra dos sigilos bancário e fiscal não se funda num dado
abstrato, mas na técnica que se vincula ao procedimento na apuração de irregularidades ou atos ilícitos que
forneçam dados seguros na consecução do objetivo específico.
A conservação do sistema hermético que basifica nossa legislação e faz dela uma eterna dependente da
intervenção do Judiciário precisaria ser definitivamente equacionada, por intermédio de preceitos flexíveis, que,
malgrado sua natureza, delimitariam a responsa​bi​lização no caso de excesso, abuso ou desvio de poder.
Torna-se manifesto o desagrado tanto do Legislativo como do Executivo em relação ao monopólio da quebra do
sigilo bancário, dentro da esfera de competência do Poder Judiciário; este entrechoque se revela patente e bastante
visível nas investigações administrativas para conotação de improbidade e outrossim nas comissões parlamentares
de inquérito.
Interessante ponderar que o Projeto de Lei sob o número 219/95, nascido no Senado, fora por ele aprovado no
dia 21 de janeiro de 1998, transformado na Lei Complementar n. 105/2001, cujo principal escopo foi de alterar, para
oportunizar flexibilização, o art. 38 da Lei n. 4.595/64. Embora não consolide uma modificação substancial do
sistema financeiro, como desejado, indica sua ótica um divisor de águas, porquanto confere amplo leque de quebra
na tônica do Legislativo e do Executivo; ambos os poderes se munem da capacidade determinante do segredo, em
casos específicos, cabendo asseverar o conteúdo primitivo da dicção do art. 4º do projeto:
“Art. 4º O Banco Central do Brasil e as instituições financeiras, mediante requisição, fornecerão ao Poder
Legislativo Federal, ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público Federal as informações e documentos
sigilosos que se fizerem necessários ao exercício de suas respectivas competências constitucionais e legais, podendo
na ocorrência de motivos relevantes, devidamente justificados, solicitar que sejam mantidos sob reserva ou sigilo”.
Encontraria a norma ressonância em relação ao Legislativo Estadual, do Distrito Federal e demais Municípios,
também às Cortes de Contas, evidenciando valor de quinze mil reais para efeito de se questionar a operação
financeira desta importância ou superior, o que por via oblíqua se transmudou na regulamentação da legislação sobre
lavagem de dinheiro, embora em soma menor, no importe de dez mil reais.
Neste diapasão, sobreditas operações financeiras poderiam ser objeto de questionamento, ficando os envolvidos
com a obrigação de prestar esclarecimentos, justificando a origem e o destino dos recursos aplicados.
Contemporaneamente, vigorando há mais de 4 décadas, a Lei n. 4.595/64 não se coaduna com a realidade e a
modernidade das operações efetuadas no mercado financeiro e de capitais, sobretudo em relação à motivação que
enseja a quebra, nada obstante a Lei Complementar n. 105/2001, uma vez que o ideal seria uma reforma plural e não
situada no plano pontual da matéria. Se de um lado o sigilo prestigia a preservação da privacidade, d’outro não pode
esconder ilicitudes em detrimento do bem-estar coletivo, razão pela qual a alteração merece encômios.
Reveste-se a tônica de se balizar um denominador comum que atenda aos interesses dos Poderes, que precisam
manter harmonia e independência no rastreamento de informações e mapeamento das circunstâncias onde os
favorecimentos e manipulações sejam definitivamente descartados, no qual cesse o entrechoque e se priorize o bem
coletivo. As mazelas incessantes também ganham corpo pela dificuldade do formalismo existente, acompanhado da
inadaptação da máquina administrativa aos avanços de operações nos mercados futuro, a termo, de opções, dado o
grau de peculiaridade e a ausência de preparo de pessoal ou infraestrutura nesta disciplina.
As transformações encetadas pelo diploma normativo n. 105/2001 apontam um norte de razoabilidade e de bom
senso, muito embora seja criticado por alguns que sustentam um aparente entrave ao desenvolvimento econômico do
País, na diretriz do fluxo de capital estrangeiro, agregado ao timbre da incidência tributária nas operações,
desmotivando a vinda de recursos, alimentando a cadeia de novos empregos e manutenção da expectativa de
crescimento das empresas; muitas das quais suscitam benefícios fiscais para fixação de projetos e arquitetura
concernente à região de seu interesse.
Bem de se notar que o sigilo bancário foi alvo de uma disciplina dupla, no senso da Lei n. 10.174, de 9 de janeiro
de 2001, e da Lei Complementar n. 105/2001, a primeira mudando o art. 11 da Lei n. 9.311, de 1996, a outra
configurando um novo aspecto ao art. 38 da Lei n. 4.595/64, respectivamente.
Seguro ponderar que o meio-termo deva ser estabelecido na adequação da fonte de investigação e na obtenção
do sigilo da operação, de fato relevante para a apuração das responsabilidades, mas é fundamental que seja mantido
o prisma do conhecimento restritivo aos interessados diretamente naquele subsídio, no âmbito da competência
específica do Executivo ou do Legislativo.
Identifica-se, desta forma, uma modalidade que ganhou espaço e teve conotação adjetivada pela quebra do sigilo
em segundo grau, ou simplesmente a quebra da quebra, ou seja, quando uma comissão processante ou determinada
autoridade administrativa consegue junto à instituição financeira o dado solicitado, ato contínuo divulga a imprensa
aquele aspecto, expondo pessoas e pondo em risco toda a efetividade da aplicação legal.
Consequentemente, para se evitar esta circunstância irregular que traria potencial dano, o sigilo ficaria restrito ao
diretor ou autoridade que preside a investigação, cujos terceiros envolvidos estariam proibidos da divulgação, com
estrito manuseio interna corporis, sob pena de responsabilização.
A partir desta configuração, uma vez divulgado indevidamente o informe por intermédio de terceiro, em tese
haveria possibilidade de a indenização incidir na espécie, pelo campo objetivo, posto que, se não houvesse
identificação do culpado, ao Estado cumpriria o papel de ressarcir os prejuízos, forma profilática e ao mesmo tempo
propedêutica, na consecução de melhor escolher os representantes e exercer fiscalização direta sobre aqueles
causadores de intranquilidade e desassossego no ambiente da apuração administrativa.
Destarte, o sigilo bancário se coaduna com o marco divisório que permeia uma relação, colimando coligir dados
palpáveis no andamento dos trabalhos; assim, todos aqueles exercendo as funções específicas devem manter
serenidade, espírito público e substancialmente dissipar precipitadas informações exploradas a caráter pela mídia.
Arrematando o pensamento disposto na visão do conjunto, merecem considerações o sigilo eletrônico como meio
à quebra daquele bancário e o poder disciplinado pelas Comissões Parlamentares de Inquérito — CPI, na colheita de
subsídios, apuração de ilícitos e responsabilidades por eventuais desmandos.
De efeito, a febre que se espalhou Brasil afora, tipificada pelo número crescente de CPI’s instauradas, bem
demonstra o grau de mazelas e as dificuldades que o Poder Judiciário encontra na depuração dos fatos e punição
aos responsáveis, mas, em vez de aparelhado, o legislador não mede esforços para realizar funções judiciais, sem o
mínimo aspecto de consciência, objetivando manter dados especiais, a fim de que qualquer suspeita não se
transforme em verdade absoluta.
Conquanto o sigilo bancário não se revista de forma absoluta, necessários o predicado de eventual certeza e o
aspecto da discricionariedade na consecução do informe, uma vez que o interesse público é prevalente e inadiável
como primado da coletividade.
Nessa direção sinalizou o Supremo Tribunal Federal, Rel. Octávio Gallotti (RT, 770:174-5), ponderando o
seguinte:
“Não tem caráter absoluto a garantia do sigilo bancário, cuja dispensa se acha regulada pelo § 1º do art. 38 da
Lei 4.595/64, sendo facul​tada ao Juiz a providência, em caso de relevante interesse público”.
Repousa nessa premissa toda a atividade das CPI’s, porquanto, sendo temporárias, com prazo certo de duração,
devem apurar fatos concretos e objetivos, inerentes às funções investigatórias judiciais, presente a liberdade na
dicção amparada na quebra do sigilo bancário.
Consoante externamos em singelo trabalho, a CPI não se pode balizar por conjecturas ou fatos hipotéticos,
cabendo responsabilidade do Estado se o sigilo bancário vier a ser divulgado e comprometer a própria meta
desenhada na sua instauração, respingando na imagem da pessoa investigada, trazendo inequívocos sinais de
prejuízo, a proclamar reparação pela via adequada, compatível com o grau do dano experimentado63.
Referente à quebra do sigilo eletrônico visando o de natureza bancária, na avaliação da realidade fática e na
pressuposição de elementos mínimos de certeza e segurança, essa operação pode suceder tanto em relação ao
investigado quanto diretamente na instituição financeira, se os meios usados caminham na direção específica de se
conseguir dado relevante.
Fortemente no aspecto assinalado, correto dizer que a expressão maior das operações via on-line, digitalizando
dados, impondo a técnica da Internet, apesar dos avanços, sempre permite a fraude e ilícitos que lesam clientes e
consumidores, donde a natural preocupação de se manter armazenado aquele informe na apuração dirigida à
responsabilização dos culpados.
Dentro desse balizamento, bancos de dados, disquetes e registros eletrônicos temperam a realidade do progresso,
mas não descartam anomalias que necessitam pontual investigação, no aspecto plural de evidenciar esforços
voltados para a descoberta de atos ilícitos, improbidade administrativa, fraudes contra o sistema bancário, na
catalogação das etapas e dos agentes que intervieram no processo de apuração.
Congruentemente, por tal lineamento, é possível examinar a culpa do cliente, da instituição financeira, a de
natureza concorrente e a participação de terceiro, prevalecendo-se daqueles elementos, no propósito de realizar
atividades ilícitas, tudo sendo plausível me​diante o ingresso no âmbito operacional do sistema.
A realidade demonstra, pelo aperfeiçoamento legislativo, a tendência cada vez menor de proteção ao sigilo, mas
é fundamental que haja mínimo respaldo na técnica de administrar sua flexibilização, repensando o seu modelo em
direção do interesse comum.
Matéria de conotação relevante fora decidida pelo Supremo Tribunal Federal, concernente à possibilidade de
quebra do sigilo a cargo do Banco Central quando fiscalizava entidade do mercado, objetivando apuração de
irregularidades; porém, vedou-se o acesso à informação de natureza administrativa.
Compreendeu o STF, e com seu viés de propriedade, que não pode o Banco Central, ainda que no seu papel de
fiscalização, proceder à quebra — necessário se faz uma autorização judicial.
Evita-se com isso abuso, desvio e muitas especulações em torno da higidez, liquidez e solidez das instituições,
uma vez que, para efeito de quebra, é fundamental se demonstre um mínimo de veracidade no cometimento da
ilegalidade.
Dessa forma, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal consagra o entendimento:
“Se é certo que o sigilo bancário, que é espécie de direito à privacidade, que a Constituição protege — artigo 5º,
X — não é um direito absoluto, que deve ceder diante do interesse público, do interesse social e do interesse da
Justiça, certo é, também, que ele há de ceder na forma e com observância de procedimento estabelecido em lei e
com respeito ao princípio da razoabilidade” (RE 2/9.780-5-PE, 2ª T., Rel. Min. Carlos Velloso, j. 13-4-1999).
A praticidade da quebra precisa ser justificada, tanto assim que o Superior Tribunal de Justiça frisou que não é a
hipótese de, para localização de bens a serem penhorados, oficiar-se ao Banco Central, cuidando-se apenas de
situações especiais, em que se evidencie relevante o interesse da administração da justiça (AgRg no AgI 469.275-
DF, 4ª T., Rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, j. 25-2-2003, DJU, 28 abr. 2003, RT, 818:185-6, dez. 2003).
Compreende-se, por tal ângulo, um especial interesse no proclamar a regra da quebra com ressonância na
técnica de fragilizar operações ilegais, cujas ilicitudes mapeiam um quadro de submissão de grupos marginais
visando espalhar seus domínios sem fronteiras.
Influente no aspecto articulado, o fluxo de capitais em paraísos fiscais com privilégios e demais regalias obedece
à forma intransponível de um controle eletrônico das remessas e seguramente de regras rígidas que inibam
apontadas condutas, notadamente o perfil da velocidade de entrada e saída de recursos, talvez um dos tópicos mais
preocupantes da era globalizada.
Defendem alguns que a regularização dessa clandestinidade de numerário em paraísos fiscais ganharia
importância na posição do Estado em fixar um pequeno tributo, cuja alíquota mínima, independentemente do
montante, não autorizaria investigar a origem e sua circulação.
Salutar seria desestimular a remessa de somas elevadas, porém a legalização por intermédio da simples
cobrança pelo Estado de uma determinada importância, longe de solucionar o problema, aplaudiria, por prestigiar,
grupos que perpetraram irregularidades e poderiam respirar o ar da moralidade.
Nessa tessitura, com o afluxo de bancos estrangeiros, a participação de empresas nos processos de privatização
e o aumento de irregularidades assente no sistema, diante da conjuntura analisada, a quebra do sigilo requer
aperfeiçoamento legislativo inadiável.
Propugna-se, consistentemente, pela revisão do modelo em sintonia com a regra da mundialização e do afluxo de
recursos, no sentido de permitir maior transparência e facilidade na comunicação, adjetivando responsabilização dos
culpados.
Catalisando recursos mundiais que fazem parte do fluxo de entrada e saída do País, a legislação que disciplina o
sigilo bancário deve estar atenta à evolução dos fatos, antenada com a dinâmica dos acontecimentos e, sobretudo,
refletir uma opinião comum de proteção coletiva mais próxima à da própria sociedade.
7
O MÚTUO MERCANTIL

Sumário: 31. Mútuo. 32. Mútuo mercantil. 33. Caracteres. 34. Efeitos. 35. Prazo. 36. Forma e prova. 37.
Fluência de juros. 38. Vedações legais ao mútuo bancário.

31. Mútuo
Dispõe o atual Código Civil, em seu art. 586, que: “O mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis. O mutuário é
obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisas do mesmo gênero, qualidade e quantidade” —
reproduzindo o revogado art. 1.256 do Código Civil de 1916. Forma de empréstimo, na própria conceituação legal, o
mútuo tem por objeto coisas fungíveis, isto é, substituíveis por outras da mesma espécie. Assim, segundo Orlando
Gomes, “o mútuo é empréstimo de consumo. A coisa emprestada, sendo fungível ou consumível, não pode ser
devolvida, pelo que a restituição se faz por equivalente, tantundem eiusdem generis et qualitatis”64.
Ainda de acordo com o mesmo autor: “São requisitos do mútuo: a) gratuidade; b) a fungibilidade da coisa; c)
temporariedade. Ao contrário do comodato, a gratuidade não é da essência do mútuo, mas, sim, de sua natureza. Em
Direito Civil, só não é gratuito, se for expressamente estipulado o contrário. Tal estipulação se permite. Toma, então,
o nome de mútuo feneratício ou frugífero, sendo normalmente oneroso o mútuo de dinheiro. Recai em coisas
fungíveis. Seu objeto mais comum é o dinheiro”65.

32. Mútuo mercantil


Tendo por objeto o dinheiro, que, entre nós, há várias décadas vinha sofrendo desvalorização, o que fez com que
se editasse uma verdadeira legislação sobre a correção monetária, principiando pela Lei n. 3.337, de 12 de dezembro
de 1957, até a Lei n. 9.069, de 29 de junho de 1995, e, havendo a lei específica reservado a negociação de crédito às
instituições financeiras (art. 17 da Lei n. 4.595/64), praticamente o mútuo deixou de ser gratuito e civil para tornar-se
oneroso e mercantil. Dispunha o Código Comercial, em seu art. 247, que:
“O mútuo é empréstimo mercantil, quando a coisa emprestada pode ser considerada gênero comercial, ou
destinada a uso comercial, e pelo menos o mutuário é comerciante”. Ora, dada a qualidade de empresário do
mutuante (instituição financeira ou equiparado) e a inevitável incidência de juros e correção monetária no mútuo,
tornou-se ele figura eminentemente mercantil:
“Por outro lado, aparecem casos em que o mútuo é mercantil, ainda que somente o mutuante seja comerciante, o
que parece contrariar o art. 247 do CCo., nas suas últimas palavras; exemplo: o mútuo em que figure o banco como
mutuante e pessoa não comer​ciante como mutuária, tendo por objeto o ato de comércio”66.
Revogada a parte primeira do Código Comercial, pelo art. 2.045 do atual Código Civil, a disposição do art. 247 se
insere naquele contexto, cogitando o legislador, no art. 591 do Código Civil, do mútuo destinado a fins econômicos.
Constitui o mútuo mercantil a principal operação ativa dos bancos: “O empréstimo, no genérico sentido, contrato
do qual promana um débito em dinheiro, ou de cousa fungível, é, pode-se dizer, o núcleo central do sistema
creditório, ou, na expressão de Carabellese, o centro de gravitação do comércio bancário”67.
Fácil a compreensão, portanto, numa economia de escala que durante longo tempo fora assolada com a
tendência da inflação endêmica, mas que mesmo durante seu controle, ainda assim, não favorece as relações de
crédito, obrigando os empresários à busca permanente do capital de giro; por isso recorrem aos bancos, a quem
tomam dinheiro em mútuo, operação vantajosa para ambas as partes: para o banco, na medida em que rende juros e
correção monetária, conquanto de expressão menor; para o empresário, porque a quantia mutuada possibilita a
elaboração de produtos que poderão proporcio​nar lucros acima das taxas de juros e correção ou comissão.
Na fenomenologia do mercado e nas determinantes que o sistema apresenta, com a respectiva redução do limite
de lucro e a constante presença de concorrência, inclusive desleal, tudo indica que o mutuário, ao precisar do
socorro financeiro do banco, se coloca em posição desfavorável e, ao enfrentar a menor crise operacional, terá uma
dívida em progressão geométrica, e seu patrimônio nem sequer apresentará uma variação aritmética.
Essa defasagem entre aquilo mutuado e o que se aplica na destinação de bens e/ou serviços é a razão principal
que desencadeia um processo de aniquilamento das forças produtivas, solapadas pela excessiva taxação do capital
financiado, da incidência de impostos, outrossim, pela dificuldade de acesso ao consumo, em sintonia com a política
de achatamento salarial e obstaculização ao crédito fácil.
E a expressão do art. 192, § 3º, da Lei Maior, com a inserção da Emenda Constitucional n. 40/2003, sempre
debatida, demonstra como nações do primeiro mundo vêm reduzindo a taxa de juros aceleradamente, enquanto na
economia local isso não se verifica, porque sempre serve como regulação do consumo e do endividamento no trato
dos negócios.
Fundamental destacar um apoio à iniciativa produtiva, mediante alavancagem de recursos locais e setoriais das
instituições financeiras, as quais cumprem um papel social e descomportam desconsiderar condições essenciais de
crescimento e desenvolvimento.
O contingente ditado pelo contexto com o pé no breque da atividade econômica, numa conjuntura mundial, e um
excesso de recursos em mãos do setor financeiro, sem qualquer margem de dúvida, demonstram uma preocupação
com a aplicação de recursos em setores e segmentos que garantam à sociedade emprego, estabilidade e a geração
de renda.

33. Caracteres
O mútuo mercantil se caracteriza por ser unilateral e real.
É unilateral porque gera obrigações apenas para o mutuário, consistente na devolução do principal, juros,
correção ou comissão. O mutuante a nada se obriga, porque já cumpriu sua prestação.
É real porque só se aperfeiçoa com a efetiva entrega do dinheiro ou creditação na conta do mutuário. “No
entanto, tal como se verifica no comodato, algumas legislações o têm como contrato consensual. Entre nós, como
para a maioria dos códigos, a obrigação de entregar pode ser objeto de pré-contrato denominada promessa de
mútuo, que pode ser unilateral ou bilateral. O contrato, propriamente dito, só se perfaz com a tradição da coisa68.”
Bem por isso, o formalismo que impregna o contrato de mútuo, a partir de seu escrito, traz na sua arquitetura o
perfil da relação ne​gocial e as características operacionais.
As considerações se aplicam na restituição da coisa e o predicado de sua manutenção e conservação, nas
mesmas condições, para efeito de timbrar o ato jurídico encerrado no mútuo revestido de garantia.
Com razão, a garantia real ou fidejussória empenhada na negociação é o traço singular que se aperfeiçoa para
assegurar um mínimo de certeza na hipótese eventual do inadimplemento obrigacional.

34. Efeitos
1. Com a entrega da coisa a propriedade desta se transfere ao mutuário (CC, art. 587); por esse efeito, o mútuo
se distingue do comodato:
“O mútuo é ato de alienação. Alienação, no sentido jurídico, é a transferência da propriedade. O mutuante deve
ter capacidade para alienar. Qualquer reserva do domínio por parte do mutuante ou de terceiro é incompatível com o
mútuo. Desde a tradição, todos os riscos correm por conta do mutuário”69.
2. O mutuário tem a obrigação de devolver, não as mesmas coisas, mas coisas do mesmo gênero, qualidade e
quantidade:
“Por gênero, na nomenclatura clássica, entende-se o complexo de indivíduos com os mesmos característicos
principais ou secundários. Qualidade aqui é o grau de utilidade econômica que se encontra nos indivíduos
pertencentes ao mesmo gênero, ou a sua bondade.
No empréstimo em dinheiro, a restituição faz-se na mesma soma numérica, não se atendendo ao valor que tinha
o dinheiro na época do contrato etc.”70.
De efeito, a distinção que se encerra na efetiva restituição se prende à consideração em torno dos consectários,
mas é preciso que a discussão não tome o rumo distorcido, obrigando o devedor ao depósito do principal.
Frise-se que o compasso de espera no adimplemento da soma mutuada leva ao debate sobre as circunstâncias e
o perfil da dívida, alimentando um clima de instabilidade que pode influenciar o contrato como um todo.

35. Prazo
O mútuo mercantil, especialmente em sua forma de empréstimo bancário, se convenciona a prazo certo. O fator
temporal é fundamental, porquanto serve de base para a incidência dos juros e correção ou comissão do banco,
razão pela qual é praticamente inconcebível a omissão de prazo.
Admitindo-se, contudo, que isso venha a suceder, incidirá a regra do art. 592 do Código Civil em vigor, ainda que
se trate de obrigação peculiarmente mercantil, isto porque o dispositivo cuida das obrigações de fazer, e não das de
dar, entre as quais se inclui o reembolso do mútuo71.
Dessarte, na ausência de dispositivo expresso na legislação, forçoso aplicar-se o comando do citado art. 592, II,
do Código Civil, estabelecendo o prazo mínimo de 30 dias se o mútuo for em dinheiro, não se concebendo prazo
inferior. Portanto, decorrido esse lapso de tempo, o credor “pode exigir o pagamento imediatamente” (CC, art. 394),
mas, para constituir o devedor em mora, deverá interpelá-lo (CC, art. 397, parágrafo único).
O novo Código Civil mantém a presunção do prazo de trinta dias se o mútuo envolver dinheiro, quando as partes
não conven​cionarem de forma expressa, contendo a regra relacionada com a duração da operação.
Outra questão debatida na doutrina consiste em saber se o mutuário pode devolver a importância mutuada antes
do vencimento do prazo. Radicalizam-se as correntes em favor do credor e do devedor, respectivamente. Assim,
para a primeira:
“Para chegarmos a uma solução adequada do problema, devemos notar primeiramente que o prazo implica juros,
já que estes constituem o preço de cada unidade de tempo, em que o bem emprestado permanece em gozo do
prestatório. A vantagem do banco está nos juros. Quando o banco faz um empréstimo, visa, obviamente, ao lucro,
levando em conta o tempo avençado no contrato. Consequentemente, a devolução do dinheiro antes do vencimento
da dívida traduz-se para o banco numa perda, num prejuízo, num lucro previsto em contrato e que ele deixa de
perceber, por força da antecipação do pagamento”72. Já os que propendem em favor do devedor sustentam que:
“O devedor, no entanto, não sofre qualquer limitação ao seu direito de restituir em qualquer momento, cumprindo
a obrigação quando repute conveniente, restrição que se fizesse a esse direito seria contrária aos bons costumes,
mas, evidentemente, nenhuma vantagem pode pretender com o pagamento antecipado”73.
Na combinação dos arts. 313 e 333 do Código Civil em vigor, não é possível obrigar ao credor receber o
pagamento antes do vencimento, por ser fundamental o fator temporal, não se coadunando com as regras
estipuladas e seus encargos.
No mútuo mercantil, o benefício visado é em favor das partes: para o banco, consiste na fruição de juros e
comissões; para o cliente, na disponibilidade de capital de giro. Nesse diapasão, a devolução antecipada da
importância mutuada pode ser feita desde que não prejudique os interesses do banco:
“O mutuário deve igualmente respeitar o termo estipulado. Em teoria, estando o termo estipulado tanto no seu
interesse, como no do mutuante, ele não pode exigir liberar-se por antecipação para evitar ter que pagar juros; na
realidade, é excepcional que um banqueiro se oponha a um tal reembolso antecipado. Certos contratos de mútuo
contêm uma cláusula, segundo a qual o mutuário deve, em caso de pagamento antecipado, pagar uma multa de 1 a
2% da soma restante devida”74.
Pensamos que a inserção dessa cláusula poderá conciliar a necessidade do cliente quitar antecipadamente a
dívida com os interesses do banco na percepção dos rendimentos já esperados.
Por outro lado, costuma-se pactuar o direito do mutuante exigir, de imediato e por inteiro, a dívida em aberto, nos
casos de infração contratual e mudança do estado econômico-financeiro do mutuário.
Deveras dificultoso delimitar o compasso que determina o estado de crise econômico-financeira da empresa que
se permite emprestar numerário destinado ao seu capital de giro. E, não raro quando o empresário atravessa
momento de iliquidez, com a sugestão que se abre no sentido da antecipação do vencimento da obrigação,
certamente não reunirá condições mínimas de conseguir se desvencilhar do passivo, quando o mais correto e salutar
seria uma rene​gociação a permitir a continuidade dos negócios.
Hodiernamente, com a implantação de regras que disciplinam a relação consumidor e instituição financeira,
mediante a inserção de um código, contempla o dispositivo normativo a possibilidade da antecipação do pagamento
da obrigação ainda não vencida, mediante o desconto.
Com razão, pagar antes de vencer a obrigação representa incidir um deságio previamente estipulado, haja vista a
regra de prestação fixa e variável, embutindo juros e demais encargos da obrigação.
Na hipótese de liquidação antecipada de crédito ou financiamento, os bancos ficam obrigados a dar um desconto
proporcional às parcelas que seriam pagas parcialmente, calculado em valores atualizados.
Dessarte, se no mútuo bancário o cliente-consumidor se interessar em antecipar o valor da obrigação, fazendo
sua liquidação antes do seu vencimento, caberá à instituição, a exemplo de um deságio, retirar acréscimos de
expectativas inflacionárias e consectários que não se coadunam com o pagamento havido.
Se houver recusa do credor, o caminho a seguir sinalizará ação de consignação extrajudicial, ao alcance do
devedor, e, não sendo aceita, sua convolação em judicial, nada impedindo que se proponha, de imediato, a ação,
formando-se a relação litigiosa.

36. Forma e prova


Não há forma especial para o contrato de mútuo mercantil, porquanto não solene, devendo, para fins probatórios,
reduzir-se a escrito. O instrumento particular é a forma mais comumente adotada, surgindo o público apenas quando
for da substância do ato, ou seja, envolver garantia hipotecária. Muitas vezes o instrumento particular, assinado pelas
partes e duas testemunhas, é complementado ou preterido por um título de crédito, geralmente nota promissória,
dadas as suas literalidade, autonomia, negociabilidade e executividade, além de possibilitar a garantia por terceiro,
mediante aval.
Interessante ponderar que as garantias não possuem muitas vezes um grau de liquidez capaz de lhes permitir
uma classificação própria, nas operações de natureza bancária influenciadas pelo contrato principal.
Nessa senda, a Súmula 258 do STJ denota que a promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não
goza de autonomia em razão da iliquidez do título que a originou, razão pela qual a garantia padece dessa restrição.
Bem por essa característica, cumpre cogitar o negócio nuclear e sua formatação, para efeito de se permitir uma
executoriedade coe​rente com a eventual inadimplência e a presença de sua garantia.
Os usos e costumes comerciais e a disciplina dinâmica dos negócios instrumentalizam a simplicidade da forma e
a previsão do seu conteúdo, querendo com isso externar eficiência na operação bancária e menor grau de
formalismo.
Ademais, na realidade as operações se marcam eletrônicas e comprovadas pelos elementos constantes dos
extratos, circulação e descontos dos valores, fazendo com que tudo isso admita a demonstração do negócio jurídico
empresarial.
A classificação do mútuo divisa seu fito econômico, a teor do art. 591 do Código Civil, cuidando de estabelecer
previsão de juros à taxa Selic — da dívida ativa, e permitir a capitalização anual, em harmonia com o art. 406 do
mesmo diploma legal.
37. Fluência de juros
Conforme dissemos anteriormente, o mútuo mercantil sujeita-se à cobrança de juros e comissão ou correção
monetária. Trata-se dos juros compensatórios ou retributivos, devidos em matéria mercantil desde o tempo do
desembolso, ainda que não estipulados, em todos os casos permitidos pelo Código Civil (art. 591). Dado o caráter
mercantil do contrato, aceita-se a convenção tácita dos juros. O art. 1º do Decreto n. 22.626, de 7 de abril de 1933,
também chamado de Lei de Usura, veda a estipulação de juros superiores ao dobro da taxa legal, que é de 12% ao
ano (art. 406 do CC). Entretanto, em matéria de mútuo bancário, atribuindo o art. 4º, IX, da Lei n. 4.595/64
competência ao Conselho Monetário Nacional para fixar taxas de juros de operações ou serviços bancários, tem-se
que esse dispositivo revogou, ao menos parcialmente, a redação do art. 1º da Lei de Usura. Nesse sentido têm
decidido os Tribunais:
“Desde que determinou a Lei 4.595, de 1964, que ao Conselho Monetário Nacional competirá limitar, sempre
que necessário, as taxas de juros, descontos, comissões e qualquer outra forma de remuneração de operações e
serviços bancários, tem-se como derrogada a chamada Lei de Usura” (TACSP, Pleno, Revista 156.428, Boletim
AASP, n. 766).
“O art. 1º do Dec. 22.626/33 está revogado não pelo desuso ou pela inflação, mas pela Lei 4.595/64, pelo menos
ao pertinente às operações com as instituições de crédito, públicas ou privadas, que funcionam sob o estrito controle
do Conselho Monetário Nacional” (STF, Plenário, RE 78.953, RTJ, 72:916).
“Lei de Usura — Sua inaplicabilidade às operações e serviços bancários ou financeiros. Desde o advento da Lei
4.595, de 31.12.64, os percentuais dos juros, descontos, comissões, taxa remuneratória de serviços e outras formas
de remuneração de operações e serviços dos estabelecimentos bancários e financeiros não estão mais sujeitos aos
limites fixados pela Lei de Usura (Dec. 22.626/33), devendo fidelidade exclusiva aos percentuais estabelecidos pelo
Conselho Monetário Nacional, conforme a Decisão Plenária deste E. Supremo Tribunal Federal em julgamento do
RE 78.953, em 5-3-1975” (STF, 1ª T., RE 81.488, RTJ, 76:930).
É, pois, fora de dúvida que as restrições impostas pelas leis comuns às taxas de juros não se aplicam aos bancos,
que estão sujeitos às fixações pelo Conselho Monetário Nacional.
De se observar o conteúdo encerrado na Súmula 596 do Supremo Tribunal Federal, cuja disposição fundamental
descarta as disposições do Decreto n. 22.626/33 para as instituições públicas ou privadas integrantes do sistema
financeiro nacional.
A liberdade de pactuar os juros obedece ao termômetro da economia, a solidez da instituição que contrata, a
realidade da ina​dimplência, enfim aos predicados objetivos e subjetivos que se mesclam em cada operação bancária.
Entretanto, o abuso na exigência de juros elevados não se justifica diante da conjuntura dos negócios, da redução
que está sendo feita no exterior, e principalmente por causa do desaquecimento gradual do mercado, impondo ao
investidor, aplicador e consumidor um convite à normalidade das atividades.
No que diz respeito a juros, é importante atentar para as seguintes normas prescritas pelo Código Civil: “Sendo a
quitação do capital sem reserva dos juros, estes presumem-se pagos” (art. 323).
O princípio se baseia na regra acessorium principalem sequitur: o acessório segue o principal.
Dessarte, vigoraria o princípio da vedação de se contarem juros de juros, não compreendendo a acumulação de
juros vencidos que integram os saldos liquidados na conta corrente ano a ano, na dinâmica da capitalização anual
(CC, art. 591), em sintonia com o art. 406 do mesmo diploma. Consagra-se aqui tradicional orientação no campo do
direito, que repele o anatocismo.
A capitalização desordenada e desenfreada dos juros tem sido uma das piores consequências que irradiam seus
efeitos sobre o total devido, mesmo diante das amortizações ou reduções com os abatimentos. O princípio que
secunda o anatocismo é desabridamente desrespeitado e serve algumas vezes de simulacro para a inserção de
aspecto financeiro do empréstimo, onde procura a instituição financeira se assegurar na eventual falta de satisfação
da obrigação a ser cumprida.
Para pôr cerce a essa prática que se difundiu com larga tendência, os Tribunais começaram a perfilhar o
entendimento no sentido da vedação quanto à capitalização, porque se apresentava num efeito em cascata,
alongando o valor da dívida e se traduzindo num verdadeiro enriquecimento sem causa justificadora.
Adveio, baseado nisso, o preceito insculpido na Súmula 121 do Superior Tribunal de Justiça, a qual disciplinou em
linhas gerais o assunto, proibindo a atitude no diapasão do anatocismo, cujo teor é o seguinte:
“É vedada a capitalização de juros, ainda que expressamente convencionada”.
A disposição sumular serviu para desestimular as instituições financeiras à prática reiterada e alertar os
consumidores sobre os reflexos dessa situação, mormente em razão das taxas de juros elevadas, dificultando o
acesso ao crédito e inibindo, por outro ângulo, a capitalização por instrumento de operação bancária.
Enquanto o legislador não agir consonante à previsão ditada pela Lei Maior, sinalizando a taxa legal dos juros, na
dependência de lei complementar, sem o preenchimento desta lacuna, cujo vazio completou quase uma década,
naturalmente o comodismo e a anemia centrada na timidez do processo legislativo interferirão na política
macroeconômica, com os índices percentuais perversos que governam as taxas de juros. A se permitir o anatocismo,
seguramente, as circunstâncias seriam imorais e violariam a Lei de Usura, que, apesar de vetusta, é o sistema de
peso e contrapeso que se destaca do conteúdo da realidade, a sinalizar limite que possa refrear o desequilíbrio entre
os contratantes.
No entanto, quando se cogitava de uma ação mais enérgica para efeito de expungir do sistema a capitalização
dos juros, eis que o próprio Governo, fruto de medidas provisórias — n. 2.160-25/2001 (revogada pela Lei n. 10.931,
de 2-8-2004) e 1.963/99 (atual 2.170-36/2001) —, disciplinou a validade da cobrança das taxas capitalizadas,
naquelas operações bancárias inferiores a um ano, relativas à cédula de crédito bancário, cheque especial, contratos
e outros negócios, dando margem à dúvida sobre a legalidade e seu confronto com a Súmula 121 do Superior
Tribunal de Justiça e o Código Civil em vigor.
Estreme de dúvida, haja vista o teor da medida, faltam coerência e força de vontade ao Governo para
implementar uma verdadeira reforma bancária, sem meias-verdades, deixando de privilegiar uma minoria,
vaticinando um sistema de pesos e contrapesos, em que a igualdade dimane como regra e os abusos sejam coibidos.
Sob o pálio de refrear o consumo, de praticar política de juros elevados, vem o Governo mantendo uma situação
recessiva, preconizando vantagens ao sistema financeiro, tanto em matéria de lucro como fundamentalmente no
recolhimento do imposto de renda, estabelecendo contradições e conflitos, impondo sacrifícios inúmeros à classe
produtiva e assalariada.
Define-se o direito bancário moderno na linha do direito público, cuja conotação proclama uma adequação de sua
tessitura aos ditames da relação de consumo, e proteção na dicção dos créditos disponibilizados às micro e pequenas
empresas.
Com efeito, mostra-se na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, na aplicação da norma aos casos
concretos, uma tendência de emprestar color público ao Direito Bancário.
Nessa percepção, o sistema financeiro nacional necessita de maior segurança, fato que aconteceu na
interpretação feita em relação ao Fundo Garantidor de Créditos, já que o Supremo Tribunal Federal decidiu conceder
maior tranquilidade aos poupadores, admitindo-se que tal fundo já tenha desembolsado em torno de 4 bilhões de
reais, a favor de depositantes e poupadores, importante inclusive para a finalidade da própria Caixa Econômica
Federal.

38. Vedações legais ao mútuo bancário


A fim de evitar indevido favorecimento de pessoas ligadas, por vínculo de parentesco ou econômico, às
instituições financeiras, proíbe a lei o mútuo ou qualquer modalidade de concessão de crédito em seu prol. Assim,
não podem elas dar em mútuo:
“I — a seus diretores e membros dos conselhos consultivo ou administrativo, fiscais e semelhantes, bem como
aos respectivos cônjuges;
II — aos parentes, até segundo grau, das pessoas a que se refere o inciso anterior;
III — às pessoas físicas ou jurídicas que participem de seu capital, com mais de 10%, salvo autorização
específica do Banco Central do Brasil, em cada caso, quando se tratar de operações lastreadas por efeitos
comerciais resultantes de transações de compra e venda ou penhor de mercadorias, em limites que forem fixados
pelo Conselho Monetário Nacional, em caráter geral;
IV — às pessoas jurídicas de cujo capital participem, com mais de 10%;
V — às pessoas jurídicas de cujo capital participem com mais de 10%, quaisquer dos diretores ou
administradores da própria instituição financeira, bem como seus cônjuges e respectivos parentes, até o segundo
grau” (art. 34 da Lei n. 4.595/64).
Compreende-se perfeitamente a circunstância transplantada para a realidade, no visualizar atividades
incompatíveis com o exercício das operações bancárias, podendo configurar delitos contra o sistema e o
enquadramento na legislação do colarinho branco, razão pela qual no mútuo bancário são indispensáveis a mantença
da moralidade e o distanciamento no trato da moeda, sob pena de incidirem diretores e responsáveis em sanções e
punições, sem prejuízo da culpabilidade a ser comprovada.
Escândalos e favorecimentos que marcaram o último lustro de instituições do mercado, no sentido de plúrimas
irregularidades e famigerados prejuízos, advertem para um rigoroso controle e o monitoramento paulatino, isso
porque em certas circunstâncias apenas na mudança do controle, ou processos societários, amparados em auditorias
neutras, logra-se descobrir a rede de intrigas e as artimanhas perpetradas durante a gestão bancária.
Com ressonância na legislação existente, também procede o Governo, por causa de medidas provisórias, ao
aprimoramento das vedações legais nas operações bancárias, repercutindo na essencialidade do negócio, com o
objetivo de sanear o sistema e impedir a prática de fraudes e irregularidades.
Essencialmente, a proibição busca aumentar o grau de segurança e transparência da operação, sem beneficiar
de forma direta, pelo favorecimento, pessoas impedidas, as quais manteriam um privilégio frente ao mercado.
De fato, nas empresas financeiras públicas, bastante ver a falência dos bancos estaduais, operações vieram à
baila sem o menor lastro, e com a perspectiva de revelar absurdos e nítidas garantias defasadas, em detrimento do
erário público e ineludivelmente do contribuinte.
Forte nesse passo, a responsabilidade em casos desse jaez desborda o linde da culpa para exteriorizar sua
natureza objetiva, de ilimitação, comprovado o nexo etiológico e identificado o causador do prejuízo.
Efetivamente, a vedação se coloca como regra de ética, antes de tudo, de transparência, evidentemente, e, ainda,
para evitar operações irregulares, notadamente entre grupos financeiros e econômicos, cujos favorecimentos se
marcam notórios, inclusive para efeito de contingenciamento de impostos, além de permitir uma análise direta e
segura por parte do público em geral.
Essa operação envolve as empresas do grupo societário ou de fato, segundo a forma de participação,
proclamando uma coerência e normalmente a ressonância negativa, em termos da liquidez do sistema financeiro.
Bem por tudo isso, as empresas financeiras devem estar cercadas de regras efetivas e que contribuam para o
aprimoramento de suas disciplinas internas e com o público consumidor.
O aparecimento de inúmeras empresas financeiras que visam facilitar o acesso ao crédito, na realidade,
representa enorme risco, haja vista o desconhecimento dos interessados e a desinformação que os cerca, na
ambição do empréstimo, na dicção da capitalização e taxa de juros exigida.
Bem se percebe o grau de flexibilidade na condução de políticas que permeiam o crédito concedido, na
facilitação normalmente às classes de menor poder aquisitivo.
Nasce um consumo irreal que se funda nas linhas de crédito e põe em atenção todas as variantes, pois a
inadimplência se acentua, o crescimento do lucro igualmente e as características peculiares das garantias acenadas.
8
O DEPÓSITO PECUNIÁRIO

Sumário: 39. Conceituação. 40. Natureza jurídica. 41. Sentido econômico. 42. Características. 43.
Modalidades. 44. Formas anômalas de depósito bancário. 45. Capacidade do depositante. 46. Abandono.

39. Conceituação
Constituindo a principal operação passiva dos bancos, o depósito pecuniário, ou simplesmente depósito, é objeto
de várias definições. Assim é que o Código Civil italiano, em seu art. 1.834, dispõe: “Nos depósitos de uma soma de
dinheiro em um banco, este lhe adquire a propriedade e é obrigado a restituí-la na mesma espécie monetária, no
vencimento do prazo convencionado, ou à solicitação do depositante, com observância do período de pré-aviso
estabelecido pelas partes ou pelo uso”.
Não discrepa dessa noção o fundamento do negócio jurídico que pode ser assim explicitado: contrato de depósito
bancário é a operação por intermédio da qual o banco recebe uma quantia em dinheiro e se obriga a restituir ao
depositante o valor correspondente na mesma espécie.
“Para os juristas, o depósito de fundos em banco é o contrato pelo qual uma pessoa entrega certa soma de
dinheiro a seu banqueiro, que se obriga a lhe restituir, a seu pedido, nas condições previstas75”.
“Costuma-se chamar ‘depósito’ os fundos deixados pela clientela dos bancos” 76, o que, em confronto com os
demais e com a própria extensão do instituto, constitui uma noção incompleta.
Da doutrina nacional trazemos as definições mais recentes: “Entende-se por depósito pecuniário, ou
simplesmente depósito, a operação bancária segundo a qual uma pessoa entrega ao banco determinada importância
em dinheiro, ficando o mesmo com a obrigação de devolvê-la no prazo e nas condições convencionadas”77.
“Contrato pelo qual alguém entrega em propriedade valores monetários ao banco para que este restitua a
importância equivalente no prazo e nas condições avençadas78.”
Segundo nosso modo de sentir, pode ser prestigiada a definição que representa emblematicamente o perfil do
depósito pecuniário, com a necessária complementação. Destarte, deve-se entender por depósito pecuniário ou
bancário o contrato pelo qual uma pessoa entrega quantias em dinheiro a um banco, que se obriga a restituí-las, por
solicitação do depositante, nas condições estipuladas.
O fator condição, não constante do seu núcleo, é aspecto principal para a plena configuração do contrato de
depósito pecuniário (se à vista, prazo fixo ou mediante pré-aviso).
A noção dissecada, ainda que de forma genérica, preserva a natureza desse contrato e destaca sua
essencialidade, atribuindo-lhe um complexo de relações, onde as partes convencionam a soma e a importância a ser
restituída dentro de um determinado lapso temporal.
Não se está a cuidar mais diretamente de aplicações pré ou pós-fixadas, onde pelas regras de mercado se
preocupam os interessados envolvidos no negócio em afastar qualquer nível de risco na operação, cercando-se das
cautelas que ditam princípios de minorar o grau aleatório do rendimento.
O aumento das receitas governamentais não implica necessariamente o repasse dos recursos ao destinatário
final — a sociedade —, donde é fundamental que haja revisão do sistema tributário, com redução das incidências
contributivas, mera percepção para impingir ao contribuinte sacrifícios sem retornos almejados.

40. Natureza jurídica


Controvertem os autores acerca da natureza jurídica do depósito bancário, alinhando, pelo menos, três teorias: a
do depósito irregular, a do mútuo e a do contrato inominado original ou sui generis.
De depósito irregular não se trata, porquanto nele o elemento essencial é a guarda da coisa fungível (CC, art.
645), e, no bancário, o propósito do depositante não é tanto a custódia do dinheiro, mas o de estabelecer uma relação
creditícia com o banco, donde haver interesse deste, na qualidade de depositário.
E a diferenciação com o mútuo se estabelece, porquanto neste a fixação de prazo em favor do mutuário é
essencial, enquanto no depósito bancário o depositante pode sacar total e imediatamente (salvo nas modalidades pré-
aviso e a prazo fixo), “sendo o uso, que do dinheiro depositado pode fazer o banco, puramente conexo à
transferência de propriedade do próprio dinheiro”79. Ademais, no mútuo o interesse é do mutuário e, no depósito
bancário, do depositante.
Entretanto, como veremos adiante, essa controvérsia acerca da natureza jurídica do depósito pecuniário é
puramente acadêmica: “Esta controvérsia nada apresenta de interesse prático: os usos bancários precisaram o
conteúdo do contrato e não é útil prosseguir no debate. Ademais, pode frisar-se que a análise do contrato em um
depósito se aproxima da psicologia das partes e do espírito do serviço de caixa: o cliente se desonera da guarda dos
fundos e o banco sustenta a caixa do cliente”80.
Repelidas as teses do depósito irregular e do mútuo, convergem os autores para a do contrato inominado original
ou sui generis.
“Como já assinalamos alhures, o que caracteriza o depósito bancário e o distingue claramente do depósito
irregular e do mútuo é a intervenção do banco, na qualidade de depositário.
É a própria natureza da relação que solicita a intervenção do banco. O depósito bancário, com efeito, para que
possa alcançar o feito conexo com a possibilidade e uso do dinheiro de parte do banco, de conceder crédito,
pressupõe um sujeito organizado em empresa, tem o caráter da operação de massa, cuja disciplina, como dissemos,
é dominada pelo conceito de que cada uma dessas é ligada a uma série infinita de outras81.”
“Predomina, entretanto, a opinião de que constitui contrato típico, misto, formado pela conjunção de prestações
características de outros contratos.
Será um misto de depósito e mútuo, mas com tais particularidades que se torna impraticável aplicar-se-lhe as
disposições concernentes aos dois contratos. Rege-se, realmente, por normas próprias82.”
De relevo sublinhar o aspecto peculiar revelado na plasticidade do mútuo contratual, no qual as partes pactuam
obrigações e disciplinam direitos respeitantes às operações bancárias, na concessão do crédito, a forma de liberação,
na ótica do mutuante e na perspectiva do mutuário, cercando-se cada qual do conhecimento em torno do negócio
jurídico e das cláusulas estipuladas.

41. Sentido econômico


Na realidade, o aspecto pragmático do depósito pecuniário possui maior importância que as concepções de
ordem jurídica sobre o instituto, porquanto atenta mais para o resultado da operação.
“Os economistas, isto é, os clientes dos bancos, têm uma concepção mais extensa do depósito de fundos em
banco. Para eles, os fundos depositados não consistem unicamente nos fundos que o cliente entrega a seu banco,
mas igualmente em toda a soma de que o cliente é credor e que figura a crédito de sua conta. Sob certa ótica, os
‘fundos depositados’ se confundem com o saldo credor da conta. Esta concepção ampliada do depósito de fundos
traduz a realidade econômica, contábil e psicológica. Para o cliente, o depósito busca a livre disposição de um haver
nos livros do banco, pouco importa o processo de constituição desse haver. Sob o aspecto contábil só existe uma
realidade: o lançamento a crédito e o saldo credor. Este saldo credor constitui a moeda escritural83.”
O cliente visa com o depósito bancário três resultados fundamentais: a guarda ou custódia de seu dinheiro; o
investimento, com a consequente percepção dos frutos, como juros e correção monetária; e a disponibilidade pela
criação da moeda escritural ou bancária.
Definitivamente, portanto, o depósito espelha uma defesa contra o ataque da instabilidade da moeda, em sintonia
com a circulação e a destinação emprestada pela instituição financeira, posto que o rendimento é calculado em
projeções do mercado e seguramente superior ao patamar inflacionário.
Conveniente destacar, por outro ângulo, que o depositário tem um título que materializa e simboliza o ato do
depósito e delimita seu vinculum juris com a instituição financeira, a formatar a legitimidade entre as partes que
entabularam o negócio diante de quaisquer fatores interferentes, muito embora, na contingência do Plano Collor, de
malbaratada memória, houvesse uma diretriz a imputar responsabilização a cargo do Banco Central, que teria
recolhido valores e ditado as regras para estrito seguimento e obediência do mercado.
O título que resulta no ato-fato próprio do depósito é passível de transmissão e não se sujeita ao cunho de
pessoalidade, podendo circular livremente com as variantes do negócio jurídico subjacente.
Reportamo-nos ao assunto da polemizada questão pertinente à devolução dos valores depositados e investidos
nas instituições. Por força de medidas governamentais adotadas, ocorreu um bloqueio, assemelhado ao confisco,
sobressaindo a limitação da disponibilidade dos valores e a gradual devolução, escamoteada, porém, a correção
monetária integral daquele período.
Debates e discussões foram travados na visualização da matéria e no apontar o responsável, na categoria de
sujeito passivo da obrigação. Após várias situações conflitantes, o Superior Tribunal de Justiça tornou pacífico caber
a responsabilidade pelo malsinado ato gerador de efeitos na esfera patrimonial ao Banco Central do Brasil, ficando
apenas um ponto tangente ao índice a ser aplicado naquela época de indisponibilidade dos recursos, se maior ou
menor, de acordo com a medição da inflação naquela oportunidade.
Confiram-se a propósito os arestos julgados pelo Superior Tribunal de Justiça, nos Recursos Especiais n.
101.119-RS (j. 1º-10-1996), 102.316-PR (j. 10-12-1996) e 103.424-PR (j. 5-11-1996), todos eles unânimes ao
apontar a responsabilidade do Banco Central como articulador daquele artificioso mecanismo criado, cabendo-lhe
indenizar os poupadores e investidores que mantinham aplicações e contratos com as instituições financeiras. A
indenização, todavia, não obedeceu ao livre ajuste de vontades e à previsão inflacionária incorrida.
Coube ao STF participar no enfrentamento do assunto com índole diferente, considerando a legalidade e
constitucionalidade em relação ao Plano Cruzado, perante os Recursos Especiais n. 136.901 e 141.190, validando a
tablita e sua conceituação no universo do direito monetário atual.
De fato, a transferência dos recursos se fundou no diploma normativo n. 8.024/90, resultado da conversão da
Medida Provisória n. 168/90, cujos saldos foram destinados ao Banco Central, apropriando-se desses importes na
própria dicção do legislador que proclamou o bloqueio de importâncias que naquela ocasião fossem superior à moeda
da época de NCz$ 50.000,00, a representar violação da ordem legal e grave arrepio à Constituição Federal.
Superada uma década do malsinado e inconstitucional bloqueio governamental, as decisões começam a perfilhar
plano de visão na diretriz da responsabilidade do Banco Central, excluindo, por tal situação, a posição discutida na
conduta das instituições financeiras particulares, as quais agiram de conformidade com as determinações do órgão
controlador e fiscalizador.
No diapasão concernente à matéria, o Superior Tribunal de Justiça, por meio do Rel. Min. Ruy Rosado de
Aguiar, no Recurso Especial n. 242.082/SP (j. 2-3-2000), de forma categórica, assinalou na demanda que visava o
pagamento das diferenças da caderneta de poupança, impagas durante o Plano Collor, ser a responsabilidade do
Bacen, em face dos reajustes dos saldos que lhe foram transferidos, porquanto a Lei n. 8.024/90 extinguiu os
contratos, sendo por nenhuma a obrigação do banco comercial.
Numa fase posterior, no entanto, a jurisprudência hospedou fundamento da responsabilidade do banco privado e
público pela relação depósito, devendo restituir a coisa no mesmo gênero, qualidade e quantidade, conforme o teor
do contrato e sua natureza.
Dessa forma, pois, estaria a competência afeta à Justiça Estadual, sob a responsabilidade daqueles bancos que
não restituíram integralmente os expurgos dos sobreditos planos econômicos.
Obedecida a quinzena de aplicação e o valor da rentabilidade auferida, sem a menor dúvida, faz jus o consumidor
ao indexador integral do período inflacionário, nos termos do contrato, como fator de equilíbrio das posições entre as
partes.
Inequivocamente, profliga-se a demora na solução dessa quaestio iuris, cujo mecanismo ditado pela
instrumentalidade reclama do próprio Supremo Tribunal Federal uma decisão definitiva, quer a título de avocatória,
quer como efeito de vinculação à sua tutela jurisdicional, posto que desse embate um sem-número de ações estaria
sendo pres​tigiado no enfrentamento do conflito de interesses, de conotação e repercussão coletivos.
Os reflexos daí decorrentes alcançaram todos os setores, tanto públicos como privados, porque de ambos os
lados os percentuais foram questionados, fazendo-nos acreditar que somente o pronunciamento jurisdicional
definitivo colocará de vez pá de cal nessa disputa gerada pela inexperiência jurídica e falta de visão nos seus
aspectos futuros.
Assim, se o rendimento deve espelhar a componente básica do contrato de depósito e se não se admite que a
remuneração seja unilateralmente modificada no curso da vigência da operação bancária, a proteção que se
empresta ao consumidor e ao economicamente mais fraco não pode ser derreada por regras de exceção.
Decidido o responsável pela contingência do não pagamento desses valores, apega-se o debate ao índice, que,
num primeiro momento, foi declarado de 84,32% para, depois de novos cálculos e medições, ser timbrado em apenas
41,28%, cuja opinião de maior repercussão partiu do Ministro Sálvio de Figueiredo, antevendo-se muita divergência,
até porque aqueles percentuais fizeram parte de cálculos judiciais pretéritos, depósitos fundiários, correção de
balanços mercantis, pagamento de precatórios e toda uma gama enorme que acompanhou o timbre dessa relevante
questão.
Decisiva e definitivamente, a questão despertará o interesse para efeito de posicionamento do Supremo Tribunal
Federal, cujo julgamento relacionado com a matéria retira do aplicador a possibilidade de recebimento integral da
inflação escamoteada do período, diferindo o entendimento do próprio Superior Tribunal de Justiça.
Ressalva deve ser anotada em relação à demora na adoção do patamar exato e do responsável pela obrigação;
em casos dessa natureza de complexos aspectos, a iniciativa decorrente do fato estaria concentrada numa ação
coletiva, ou civil pública, cujos efeitos se desenhariam erga omnes e se evitariam lides repetidas e ainda a
circunstância da competência entre as Justiças Estadual e Federal, no ponto assinalado a atividade no sentido da
busca de responsabilização visando tranquilizar o entrechoque de interesses.
Advieram, por certo, múltiplos prejuízos atrelados às mudanças de regras no procedimento relativo às aplicações
e depósitos bancários, mas o exagero havido era injustificado e lesou um número bastante elevado de pessoas que
não desconfiavam, minimamente, daquela possibilidade e tinham seus rendimentos voltados para as necessidades
básicas.
A incerteza chegou a ser vivamente combatida pelo brilhante Ministro do Supremo Tribunal Federal, Sydney
Sanches, que chegou a dizer que no Brasil a dúvida se fazia não só em relação ao futuro, mas também quanto ao
passado, cogitando os planos econômicos malsucedidos e as implicações no estabelecimento da justiça comutativa,
nota​damente diante da ruptura do preceito do pacta sunt servanda.
Apesar do dirigismo econômico vislumbrado pelo domínio da técnica e do suporte financeiro, não se pode
descartar a autonomia de vontade na livre negociação. Contudo, para que não haja um privilégio indevido, urge que a
concorrência se mostre vital na competição entre os agentes do mercado.
Consequentemente, na adoção de políticas públicas de envergadura e projeção salientes, compete ao Governo
examinar todas as peculiaridades e também os reflexos emergentes, porque, além do próprio endividamento público
sucedido, a postergação da obrigação eleva seu valor e torna o Estado refém de sua própria teoria, que na prática se
marcou ineficiente.
Enfim, a quebra da normalidade que preside o punctum saliens dos contratos privados necessita inteira cautela,
dado o cumprimento a ele sujeito, como as consequências lesivas surgidas no curso do ato jurídico perfeito, impondo
a responsabilidade na recomposição do dano provocado.
42. Características
O contrato de depósito bancário tem como características essenciais ser real e unilateral. Real, porque só se
aperfeiçoa com a efetiva entrega do dinheiro ou seu equivalente ao banco.
“Tal entrega é o elemento constitutivo do negócio, iniciando-se com ela os efeitos próprios do contrato, a
transferência de propriedade do dinheiro do depositante ao banco e a obrigação deste último à restituição.
Feita, portanto, a hipótese de que o cliente se empenhe a depositar uma certa soma e o banco a recebê-la, ter-
se-á um pactum de contrahendo, não um contrato de depósito, com a consequência de que enquanto não tenha
lugar a numeratio pecuniae o risco da perda do dinheiro remanesce a cargo do depositante84.”
É unilateral, porquanto gera obrigações apenas da parte do depositário.
“Foi dito que o depósito bancário é um contrato unilateral porque à obrigação do banco de restituir o dinheiro
depositado não se contrapõe qualquer obrigação a cargo do depositante85.”
Nem se veja nos cuidados a que se obriga o depositante na realização dos saques uma bilateralidade do contrato,
porquanto essa obrigação não decorre do contrato de depósito, mas do direito aos levantamentos.
Como característica acessória, diz-se que o contrato de depósito bancário é oneroso ou gratuito, conforme haja,
ou não, pagamento de juros e outros benefícios para o depositante (para o depositário, a vantagem é sempre
existente e consiste na aplicação que o banco faz do dinheiro, embora haja quem entenda que, “derivando ela da
massa de operações que o banco executa, ela se realiza fora da estrutura do simples contrato e não há, assim,
influência para determinar a onero​sidade”)86.

43. Modalidades
Podemos classificar as várias modalidades de depósito bancário conforme o objetivo “econômico”, a forma e a
titularidade.
I — Quanto ao objetivo, ou seja, o escopo econômico visado pelo depositante, o depósito pode ser: à vista, a
prazo e de poupança.
Depósito à vista é aquele que fica à disposição do depositante para ser sacado a qualquer momento.
Depósito a prazo é o suscetível de retirada só depois de decorrido um certo termo prefixado no contrato (a prazo
fixo) ou estabelecido posteriormente pelo depositante em uma notificação ao banco (aviso prévio), que, conforme o
item 10 da Resolução n. 15, do Banco Central, de 28 de janeiro de 1966, é de 30 a 120 dias. Nas duas formas de
depósito a prazo, o depositante tem direito a juros, e à correção monetária no de prazo fixo, levando-se em conta a
certeza que o banco tem acerca do lapso de que pode dispor das quantias para as suas aplicações.
Os depósitos a prazo fixo são feitos contra simples recibo ou emissão de certificado de depósito bancário (art. 30
da Lei n. 4.728, de 14-7-1965), título de crédito equiparado à nota promissória (art. 30, § 5º), negociável, transferível
por endosso (§ 2º).
O depósito de poupança é um sistema de captação de recursos populares, incentivado pelo governo, com a
finalidade de possibilitar o financiamento de bens móveis de uso durável ou de imóveis. A esse tipo de depósito se
creditam, a cada 30 dias, juros e correção monetária, computada esta de acordo com a variação do valor da Taxa
Refe​rencial (TR).
De fato, procurando minimizar a industrialização de medidas provisórias governamentais, a Emenda
Constitucional n. 32 trouxe ao art. 62, II, da CF a proibição de sua edição nos casos de detenção ou sequestro de
bens, de poupança popular ou qualquer outro ativo financeiro.
A preocupação se liga ao passado para que não haja campo de manobra para o governante inovar regra do jogo
em detrimento do poupador.
Vedada a edição de medida provisória que invista contra a contratação do depósito em poupança, sob o prisma
de congelamento e respectivo sequestro, inclusive de qualquer outro ativo financeiro.
Os depósitos de poupança são também beneficiados por deduções no imposto de renda.
II — Quanto à forma, pode o depósito ser: simples ou de movimento. O simples, atualmente superado pela
realidade econômica, é aquele em que é única a operação de ingresso e retirada e apenas se coaduna com o
depósito a prazo fixo.
O depósito de movimento é o que permite um fluxo contínuo de ingressos e retiradas, pelo que se diz que o
cliente movimenta a conta, daí o seu nome. As retiradas são feitas por ordem de pagamento ou cheques.
III — Quanto à titularidade, levando-se em consideração a pessoa do titular, o depósito pode ser: individual e
conjunto. Depósito conjunto é aquele constituído em benefício de várias pessoas, podendo ser simples e solidário.
Simples é aquele em que o beneficiário pode retirar sozinho apenas o correspondente à sua quota, sendo que o
total do depósito só pode ser levantado por todos os titulares. Mais usual, porém, é o depósito conjunto solidário, em
que cada titular pode, sozinho, fazer retiradas, tendo o direito de exigir do banco a importância total, e esse, a
entregando, se libera em relação a todos.
Interessante examinar alguns efeitos jurídicos do depósito conjunto solidário: “Essa forma de cotitularidade é
naturalmente preferida àquela simples, porque confere a cada titular um direito que não é limitado em seu exercício
pelo igual direito dos outros, e que sobrevive à morte ou à superveniente incapacidade de agir de um dos
cobeneficiários. Qualquer que seja a natureza da obrigação solidária ativa, é certo que a morte de um dos
cocredores não faz desaparecer a solidariedade (do lado ativo) em relação aos cocredores supérstites como dos
herdeiros, tomados unitariamente. De fato, apenas quando os herdeiros ajam singularmente, o crédito solidário se
divide em partes iguais entre esses herdeiros.
No caso de penhora de parte do credor de um dos titulares de um depósito conjunto desta natureza, a medida
atinge não a inteira soma do depósito, mas apenas a quota atribuível a seu devedor, porque a solidariedade do lado
ativo, que vem a se constituir entre os vários beneficiários do depósito, não dá lugar a um único crédito, de que sejam
contemporaneamente titulares os mesmos beneficiários, mas a uma série de relações obrigatórias claramente
distintas. Ora, o credor de um dos beneficiários, pela conexão que vem a estabelecer-se entre o seu direito e aquele
dos outros beneficiários, não pode referir-se a facultas exigendi atribuível a seu devedor, para pretender alcançar
junto ao banco o inteiro importe da prestação devida a todos os cobeneficiários solidários; mas pode atingir apenas a
quota atribuível a seu devedor”87.
44. Formas anômalas de depósito bancário
O que alguns autores denominam depósitos vinculados88 ou especiais89 são, na realidade, como bem anotou
Giacomo Molle90, formas anômalas de depósito bancário, porque não se reduzem aos elementos da conceituação
desse contrato, que formulamos no item 39, retro.
Assim, “os chamados depósitos transitórios ou contas de passagem, formados por somas que o banco detém por
conta do cliente em razão de peculiares relações de mandato, comissão etc., somas que permanecem confiadas às
suas mãos como bens de terceiros, e que portanto não podem receber uma destinação diversa daquela própria da
relação que lhe dá causa.
Não dão, igualmente, lugar à constituição de depósitos bancários as somas que sejam versadas ao banco para
obterem a emissão de cheques circulares (bancários).
O mesmo deve dizer-se dos assim chamados depósitos caucionários de dinheiro, que não mudam sua natureza
de penhor irregular, pelo fato de que venham constituídos junto a um banco.
Enfim, também os depósitos com escopo de cumprimento extrapolam do âmbito dos depósitos bancários, em
razão da função que lhes é impressa pelo depositante”91.
A transitoriedade de conotação provisória é o fundamento que caracteriza esse tipo de depósito bancário, na
medida em que as partes pactuam o negócio e conhecem de antemão o destino, analogamente à fiança bancária,
cujo enfoque obedece ao contrato principal.
Dessarte, por tal ângulo e na esteira desse raciocínio, pois, emerge um vínculo no que toca de perto ao numerário
e sua consecução, na forma de sua utilidade, sem poder alterar na causação, para efeito de não desnaturar seu
conteúdo.
Celebrada a operação bancária, no cogitar seu aspecto de tipicidade, na modalidade específica, contratam as
partes um negócio que evidencia o mapeamento ditando repercussão transitória para um determinado escopo, no
gerenciamento do recurso.

45. Capacidade do depositante


Inserindo-se no campo contratual, o depósito bancário se submete às regras da capacidade previstas no Código
Civil. De concreto, na realidade, da ótica do Código Civil de 1916, somente os maiores de 21 anos, ou os legalmente
emancipados na forma do § 1º do art. 9º do mesmo diploma legal, bem como as pessoas jurídicas podiam efetuar
depósitos e manter contas em bancos. Ainda sob o Código de 1916, os menores entre 16 e 21 anos, a teor do art.
384, V, deveriam ser assistidos pelos pais ou tutores (art. 426, I). Entretanto, o Decreto n. 24.427, de 1934, autorizou
os menores com, pelo menos, 16 anos a abrir e movimentar depósitos, exclusivamente na Caixa Econômica Federal.
Não vemos por que a permissão, por uma questão de equidade, não devesse ser estendida às demais entidades
bancárias. Entrementes, uma solução de ordem prática existia, consistente na autorização dada pelos pais, por carta,
para que os menores, nessa faixa etária, movimentassem livremente os depósitos, dado que, premidos pelas
necessidades da vida hodierna (trabalho, estudo), muitas vezes não residem eles com os pais.
O atual Código Civil (Lei n. 10.406, de 10-1-2002) modificou substancialmente essa realidade em virtude de a
maioridade ser contemplada aos 18 anos e seus reflexos nos atos da vida civil.
Modernamente o preceito recebeu maleabilidade a ponto de autorizar que as instituições financeiras de modo
geral trabalhem com as contas de menores contando 16 anos de idade, singularmente assentidos pelos pais ou
responsáveis, na estruturação de haver saldos que justifiquem as despesas, com vinculação direta à conta titular, que
segue como matriz e a outra sua filial, associando-se ambas na eventual circunstância de contabilização de saldo
negativo, para que o credor mediante extrato pormenorizado tenha condições de aforar a cobrança.
Conceitualmente, as contas bancárias são entabuladas com os genitores ou responsáveis, entretanto, os menores
podem livremente circular e emitir os cheques, considerando o saldo e os limites impostos, na medida em que os
extratos chegam às mãos dos titulares, que podem manter um controle mais direto com relação aos gastos.
Cuida-se de espécie de conta conjunta na essencialidade de prover recursos aos menores e estabelecer a
responsabilidade da pessoa na circunstância de qualquer litígio ou inadimplemento obrigacional, de modo a
contemplar as garantias que cercam a operação mantida pela instituição financeira.
Aduza-se à guisa de subsídio o enorme contingente de menores que ingressam no mercado de trabalho e
movimentam valores, fazendo parte das relações de consumo, dispensando as instituições financeiras maior atenção
à categoria, na real dimensão da fatia que incide e na repercussão do bom relacionamento com a clientela jovem.

46. Abandono
Tratando-se de obrigação pessoal, o direito de reclamar os haveres em depósito deveria prescrever em 10 anos,
conforme disposição do art. 205 do Código Civil em vigor. Entretanto, norma especial, qual seja, a Lei n. 370, de 4
de março de 1937, e seu regulamento, o Decreto n. 1.508, de 17 de março de 1937, prescreve que se consideram
abandonados os valores em depósito quando a conta ficar sem movimento durante 30 anos, devendo ser recolhidos
ao Tesouro Nacional.
A matéria relativa à prescrição dos depósitos bancários é destituída de interesse prático, porquanto
frequentemente se praticam atos interruptivos, como a remessa periódica de extratos de conta, pagamento de juros
etc.
Consabido, no entanto, que as contas inativas geram consequências inexploradas, haja vista o acontecimento que
analogamente sucedeu aos depósitos com o FGTS, milhares de clientes deixam saldos em conta corrente, ou mesmo
depósitos em poupança, mas não movimentam aquelas importâncias, que são batizadas pelas instituições e recebem
denominação de inativas.
Geram evidentemente despesas para os correntistas, aplicadores e poupadores, sendo que é de bom contorno
uma disciplina específica ditada pelo Banco Central, posto que os responsáveis não emitem extratos e simplesmente
deixam desinformados os interessados, não sendo raro que a contabilização verta para o mesmo caixa valores das
instituições e dos clientes em casos de igual jaez.
Salutares neste instante, e para que não haja maior prejuízo, a normatização e a transparência sobre as contas
inativas, o período durante o qual haveria a mantença e quais as providências a serem tomadas passado o lapso legal
sem movimentação junto às instituições financeiras, para que o numerário seja efetivamente destinado ao Tesouro, e,
numa verdadeira prestação de contas, amanhã qualquer informe possa ser precisado sem rodeios.
A legislação europeia mais contemporânea vem fixando um prazo de meio século, no aspecto de considerar a
conta inativa e plausível da respectiva destinação pela instituição financeira, inclusive atrelando o depósito de valores
e de objetos, no contexto das operações bancárias entabuladas entre o cliente e o estabelecimento, como forma de
incentivar a movimentação, ou de normatizar uma finalidade, decorrido intervalo de tempo reputado bastante
razoável.
Com razão, contas inativas geram para o estabelecimento e para a entidade de fiscalização diversos problemas,
haurindo dessa relação probabilidade de fraudes, lavagem de dinheiro, depósitos decorrentes de ilícitos, tudo a
proteger uma maior segurança na relação bancária.
Dentro do contexto nacional, portanto, uma previsão acerca da matéria viria ao encontro de marcar um
balizamento bem próximo dos interesses disciplinados, mantendo informado o Banco Central, priorizando destinação
consentânea por causa do manifesto abandono, transcorrido o espaço de tempo desenhado normativamente.
Com efeito, as contas timbradas pelo selo da inatividade, na realidade, representam um custo às próprias
instituições, que, muitas vezes, não cuidam, com a cautela necessária, de atualizar os dados cadastrais dos clientes,
permitindo assim uma solução de continuidade no canal de comunicação com o consumidor do serviço.
De fato, a movimentação da conta, e qualquer outro tipo de operação a ela vinculada, certamente, por questão
de segurança, demonstrando coerência, autoriza a concluir a respeito do interesse do cliente e de um critério
modelando as respectivas manifestações negociais entre as partes.
Além do dever que cerca a atividade da instituição financeira no proceder o informe ao cliente, também não
pode movimentar contas, sem autorização expressa, em sintonia com o código bancário que protege o consumidor.
Comumente, as instituições bancárias procediam à retirada de valores das contas e mantinham aplicações que
sinalizavam uma nova realidade, independentemente do consentimento ou da contratação do cliente, a pretexto de
produzir um rendimento, mas com aspecto contábil-escritural a favor do banco.
Cessada essa possibilidade, e sem levar em conta os valores em depósito bancário, cumpre à instituição manter o
respeito à disciplina do código que entabula com o cliente e solicitar dele autorização, sob pena de ficar sujeita à
sanção.
Contingenciado o valor que o cliente mantém depositado, e sendo de pequena importância, decerto a instituição
apresenta um custo elevado na manutenção, e as despesas com a prestação de serviço, com o decorrer do tempo,
experimenta a perspectiva de logo estarem zeradas, evidenciando uma relação custo-benefício prejudicial ao
correntista.
Não se pode esquecer de mencionar as contas judiciais inativas que permanecem longos anos sem
movimentação, daí por que as agências bancárias devem manter um cadastro atualizado e proceder à remessa do
relatório para que o juízo tome conhecimento e as eventuais providências cabíveis à espécie.
Deve-se cogitar de uma senha eletrônica de acesso para efeito de consulta e manutenção de banco de dados
que permita conferir o andamento e o tempo durante o qual a conta permaneceu inativa.
Bem se percebe que a instituição bancária continua tendo rentabilidade na importância depositada e não
movimentada, aumentando seus depósitos, margem de manobra visando realizar operações, afora a lucratividade que
se denota por meio das taxas de mercado praticadas.
Nesse diapasão, muitos bancos, ao receberem os respectivos depósitos, de forma hábil, procedem à
transferência na consecução de caderneta de poupança, investimento ou fundo, no propósito de manter um resgate
automático e aumentar sensivelmente suas carteiras, podendo ensejar a redução do risco e do depósito compulsório
junto ao Banco Central.
Enquanto o dinheiro da conta corrente não pode ser cogitado na dimensão das operações, aquele outro da
poupança, fundo ou qualquer tipo de investimento tem uma estrutura diferenciada; apresenta categoria própria e sua
razão de ser é vinculada à oportunidade do lucro.
Ressalte-se, outrossim, os valores das tarifas bancárias, que oneram sobremodo o cliente-consumidor, além de
outras despesas que são exigidas, gerando alta rentabilidade para os bancos no tocante aos seus serviços realizados.
Conquanto haja uma tabela relativa a cada assunto, tem-se o leque no qual o próprio banco cobra determinada
soma e os extratos bancários acusam os respectivos descontos.
Compete à fiscalização também o recolhimento a cargo das instituições financeiras, uma vez que, na
multiplicidade de operações e serviços prestados, oneram ao consumidor.
Dessa forma, muitas instituições dão prioridade aos investidores, de tal modo a incentivar o aumento de
participação e arrecadação na captação de sua clientela.
Consequência de tudo isso, nada impediria que as instituições trimestralmente enviassem um relatório do total em
relação aos clientes, a fim de que ficassem inteirados das incidências e dos recolhimentos entabulados.
9
ANTECIPAÇÃO BANCÁRIA

Sumário: 47. Conceituação. 48. Natureza jurídica. 49. Características. 50. Modalidades. 51. Obrigações do
banco. 52. Obrigações do devedor. 53. Extinção do contrato. 54. Antecipação e financiamento.

47. Conceituação
Lexicalmente, a palavra “antecipação” significa adiantamento. Na linguagem jurídica em geral, corresponde à
acepção de ato praticado quando ainda não se chegou ao fim do respectivo termo.
No campo do direito bancário, segundo Giacomo Molle, “a operação de crédito conhecida como antecipação
bancária, que o legislador disciplina nos arts. 1.846-1.850 (Código Civil italiano), pela qual o banco entrega ao cliente
o chamado adiantamento, uma determinada soma, mediante prévia constituição de uma garantia em títulos,
mercadorias ou documentos representativos dessas, cujo valor está em relação constante com dita soma, tem
precedentes longínquos. É, porém, à prática dos empréstimos a juro alto, com garantia de coisas móveis de valor,
introduzida cerca do fim do undécimo século pelos hebreus, a respeito dos quais não valia a proibição da usura,
prática seguida pelos cambiadores italianos que fugiam a tal proibição, por autorizações especiais recebidas do
príncipe, do prefeito, ou da própria Igreja, considerando-se o exercício do empréstimo como uma regalia do qual se
concediam o uso e o monopólio por alguns anos, contra a entrega de uma soma, que se deve a origem da
antecipação bancária”92.
Dois elementos ressaltam dos dados supraexpostos: a antecipação consiste numa oferta de garantia real (I)
visando a um adiantamento pecuniário (II). Donde podemos conceituá-la como sendo o contrato pelo qual o banco
adianta uma importância pecuniária contra a garantia real de certos bens.

48. Natureza jurídica


A três figuras contratuais costuma se assemelhar a antecipação bancária: ao mútuo com garantia pignoratícia, à
abertura de crédito e ao desconto. Se é verdade que ela tem em comum com esses três contratos o fato de tratar-
se, em última análise, de um empréstimo, deles diverge em pontos fundamentais. Assim, no mútuo com garantia
pignoratícia e na abertura de crédito, o penhor aparece como figura acessória, enquanto na antecipação é essencial;
no desconto, há uma cessão de crédito com a transferência da propriedade dos títulos representativos desses
créditos, enquanto na antecipação os títulos dados em garantia remanescem de propriedade do cliente. Tem, pois, a
antecipação aspecto de contrato autônomo pelo fato de consistir na entrega de bens contra a obtenção de um
adiantamento em dinheiro, de valor proporcional (sempre inferior) ao dos bens ofertados, para que assim o banco se
forre a uma eventual depreciação deles:
“A garantia é ingênita a essa negociação, ao contrário do que ocorre nas outras operações ativas, normalmente
baseadas na confiança que inspiram o devedor ou os coobrigados. Recebem-se as mercadorias e os títulos por valor
inferior ao corrente no mercado. Esta operação, se realizada sobre títulos, difere do desconto; neste, transferem-se
os títulos, ainda que pro solvendo, naquela, a verdadeira base da operação é o penhor”93.
Espelha o contrato de faturização um aspecto assemelhado à antecipação, com a entrega dos títulos e, mediante
o deságio, a liberação do numerário, no interesse do empresário que necessita de capital de giro para manter sua
atividade.
Evidente que a garantia permeia toda e qualquer operação atrelada ao desconto timbrado na antecipação
bancária, como instrumento de assegurar uma permanente relação de causa e efeito, até em vir​tude da insolvência.
Revelam as instituições financeiras em suas carteiras com os clientes dados relativos às antecipações bancárias,
contendo as datas de vencimento, garantias e garantes envolvidos, e a espécie obrigacional, descrevendo os valores,
tudo na dinâmica de se lhes assegurar sucesso na hipótese de inadimplência.

49. Características
O contrato de antecipação bancária apresenta as seguintes características: é real, bilateral e oneroso. É real,
porque só se perfaz com a entrega de soma em dinheiro pelo banco ao cliente, contra o penhor de mercadorias ou
títulos: “configurada através dos tempos como uma subespécie de mútuo pignoratício, esta (a antecipação bancária)
tem natureza de contrato real, implicando, para sua constituição, na dação, em adiantamento, da soma
convencionada, mediante prévia entrega das garantias, representadas por valores ou mercadorias”94. É bilateral,
porque gera obrigações para ambas as partes: o banco fica obrigado à guarda e à conservação da coisa dada em
garantia, assumindo os deveres de verdadeiro depositário, bem como à sua devolução, após cumprida a obrigação de
pagamento pelo alienante, na mesma coisa (in idem corpus).
Finalmente, a antecipação bancária é contrato oneroso, porquanto traz vantagens para ambas as partes: o banco
percebe juros e comissões do cliente, e este consegue, sem alienar seus bens, dinheiro: “Os comerciantes que,
necessitados de fundos, não querem vender as mercadorias, ou alienar os títulos, esperando melhor cotação,
preferem a antecipação, meio fácil para lhes proporcionar disponibilidade monetária”95.
De se anotar que na antecipação bancária, com a oferta de mercadorias empenhadas em prol da instituição
financeira, são incogitáveis a não constatação dos bens e a respectiva avaliação que resultará no preço de mercado.
Dessa maneira, de modo seguro, o banco estará cercado dos elementos necessários, se houver o inadimplemento da
obrigação, para que não seja tomado de surpresa e, ao pugnar por eventual garantia, venha a saber sobre a
inexistência, diferente qualidade ou menor quantidade ou ainda estado de conservação que não justificaram o
importe entregue em mãos do devedor.
Não se discute sobre a possibilidade da eventual ocorrência referente à tradição real ou simbólica, que prioriza
uma linha de bom relacionamento e a permanência dos bens com o devedor, de tal forma a descaracterizar qualquer
simulação ou intuito diverso do contrato.
Bem nessa direção, a instituição financeira tem a obrigação insopitável de elaborar no seu quadro de fiscalização
um relatório detalhado a respeito das garantias que lhe foram oferecidas, inclusive com as características e demais
individualizações dos produtos, no inescondível objetivo de sinalizar a responsabilidade do mutuário.
Dito isso, não se faz menos interessante ponderar sobre a situação do depositário da coisa, sua natureza e as
condições referentes aos encargos que presidem a formalização do negócio, quer a mercadoria permaneça com o
credor, quer seja transferida diretamente de modo simbólico.
No prisma de visão divisado, portanto, subsiste clara a obrigação de manter e conservar a coisa no estado em
que se encontra. Por tal ângulo é imprescindível que haja uma constatação e nela sobressaia uma radiografia
especificando as peculiaridades na hipótese do eventual descumprimento obrigacional.
É resultante dessa relação que marca o fomento jurídico entre as partes que se desenvolve o contrato de
antecipação bancária, seguramente no sentido de poder o interessado angariar recurso destinado à sua atividade
empresarial.
Conquanto a mercadoria deva ser traduzida na sua forma curial, nada impede que suceda substituição ou
complementação da coisa, uma vez presentes os seus pressupostos legais, donde se alinha um estereótipo ajustável
às vontades manifestadas, que frutifica o negócio jurídico e tem relevo entre o valor antecipado e a garantia
ofertada.
Seguindo parâmetro harmônico com os usos e costumes, as instituições financeiras, normalmente, pugnam pela
duplicidade das garantias: real e fidejussória, na conjunção de manter uma proporcionalidade efetiva entre a
importância empenhada e o quadro revelado a partir dos bens destinados à segurança do credor, levando em
consideração as adversidades de mercado e o estado in bonis da empresa mutuária.
E, no que toca de perto ao ativo circulante ou fixo, compete ao credor proceder dentro dos exatos limites
contratuais, observando variação de mercado, alteração das condições, complementação das reservas, no intuito de
alinhar o equilíbrio contratual, sob o prisma garantidor da obrigação.
Demais, frequente acontecer que na iminência de crise financeira o devedor comece a ter constrição sobre
determinados bens, a gerar maior preocupação da instituição, no sentido de arregimentar meios que superem os
embaraços, na consecução de harmonizar créditos e garantias de maneira bastante consentânea.

50. Modalidades
As formas de antecipação bancária estão em função dos objetos sobre os quais recaem as garantias. Assim,
pode incidir: I — sobre mercadorias; II — sobre títulos de crédito em geral; III — sobre títulos representativos das
mercadorias; IV — sobre direitos.
I — Antecipação sobre mercadorias. Não é a forma mais usada, pelos óbvios inconvenientes que oferece com
o ônus de guarda e conservação, que refoge à atividade específica dos bancos, que, por isso, teriam que confiá-las a
terceiros especializados, aumentando, assim, os custos da operação. Quando ocorre, porém, recai sobre mercadorias
que tenham um preço facilmente apurável, por serem cotadas em Bolsa. Refere-se a doutrina à possibilidade de
serem oferecidas coisas fungíveis, com o poder do banco delas dispor livremente, constituindo o chamado penhor
irregular96; reconhece-se que não é, porém, frequente na prática.
O contrato descreverá minuciosamente as mercadorias dadas em garantia, suas condições e especificidades e,
se possível, conterá um perfil acerca do valor de mercado, ademais o crédito concedido, o prazo de reembolso, juros,
comissões e formas de pagamento, nada impedindo sua renegociação e o realinhamento das cláusulas originais
pactuadas.
II — Antecipação sobre títulos de crédito em geral. Trata-se, evidentemente, de títulos de fácil
negociabilidade, como os valores mobiliários, isto é, representativos de direitos de sócios ou de emprestadores a
longo prazo, chamados de em massa ou em série, facilmente negociáveis em Bolsa, como as ações e debêntures das
sociedades anônimas, títulos da dívida pública etc. É claro que o prazo de vencimento dos títulos dados em garantia
deve ser superior àquele para o reembolso da antecipação.
No contrato celebrado entre as partes, além das cláusulas usuais relativas a todas as modalidades de
antecipação, deverá constar a in​di​vi​duação dos títulos dados em garantia e seus respectivos valores.
Fácil entender a vantagem que os títulos oferecem para os bancos em relação à garantia consistente em
mercadorias: sua guarda e conservação, bem como eventual alienação, se coadunam muito mais com a atividade
profissional das instituições financeiras.
III — Antecipação sobre títulos representativos das mercadorias . Formalmente, esse tipo de garantia não
difere daquele representado pela própria mercadoria, porquanto esta, depois de armazenada, ou entregue ao
transportador, passa a ser representada pelo título, sobre o qual recai o penhor, produzindo efeitos em relação à
própria coisa:
“Na categoria das mercadorias é compreendida aquela dos títulos representativos das mercadorias, porque o
penhor sobre esses é, como resulta do art. 2.786, penhor não dos títulos de crédito, mas da coisa representada.
Títulos representativos são aqueles que, emitidos por transportadores ou depositários públicos em relação a
mercadorias a eles confiadas para o transporte ou guarda, atribuem a seus possuidores o direito à entrega das
mercadorias neles especificadas, a posse dos mesmos e o poder de delas dispor mediante a transferência do
título”97.
Os títulos representativos de mercadorias mais frequentemente oferecidos em garantia à antecipação bancária
são os chamados “armazeneiros”, isto é, sobre mercadorias levadas aos armazéns-gerais: warrant e conhecimento
de depósito. Pode também o conhecimento de transporte marítimo, cujo tempo útil de representatividade da
mercadoria é suficiente, servir de objeto de penhor na antecipação bancária.
IV — Antecipação sobre direitos . Trata-se, agora, de garantia, não mais representada por mercadoria ou
título, mas sobre créditos líquidos e certos do cliente, tais como o direito à devolução do imposto de renda e a cessão
dos créditos relativos aos contratos de financiamentos imobiliários (Lei n. 4.864, de 29-11-1965). É claro que este
tipo de antecipação recebe em contrapartida mais do que uma garantia: trata-se de um verdadeiro pagamento sujeito
a termo, pelo que consideramos esse tipo de operação mais semelhante ao desconto bancário.

51. Obrigações do banco


A principal obrigação do banco consiste em entregar ao cliente a quantia em antecipação, proporcional ao valor
das mercadorias ou títulos dados em garantia. Em relação a estes, deve zelar pela sua guarda e conservação até o
momento de sua devolução ao cliente:
“Tratando-se de títulos de crédito, a custódia devida pelo banco implica que este tem a obrigação (e o direito) de
receber os juros, dividendos e outras prestações periódicas produzidas pelo título”98.
Se em garantia foram dadas ações, o direito de voto é exercido pelo acionista; “todavia, será lícito estabelecer,
no contrato, que o acionista não poderá, sem consentimento do credor pignoratício, votar em certas deliberações”
(art. 113 da Lei n. 6.404/76).
Perfeitamente assimilável na prática a outorga de procuração feita pelo acionista em prol do credor, para que
este o represente na assembleia, não exercendo o direito de voto contrário aos interesses inerentes à matéria
discutida e ao teor ditado pela outorga. Comumente, o absenteísmo que predomina nas assembleias não deve ser
supresso pela possibilidade que tem o acionista de se fazer representar em uma deliberação com alguma relevância
e interesse na dinâmica dos negócios, inclusive na sua diretriz caberá eventual situação favorável à empresa, que, de
seu turno, ainda que indiretamente, interferirá no preço do papel dado em garantia.
Admitamos que suceda assembleia para subscrição do capital acionário e bonificação dada como preferência em
relação às ações possuídas; evidente que nesta conjuntura o acionista receberá um benefício em face da condição
que o vinculava diretamente com o credor, sem descurar de eventual oscilação do papel na livre negociação.
Sinteticamente, o outorgado deve respeitar o interesse do mandante; nada obstante tenha em mãos o título que
na realidade sedimenta valor mobiliário, a expressão da participação na deliberação assemblear se faz por causa da
delegação, e tudo reflete a vontade, que não pode se afastar da posição do acionista na empresa, independentemente
da dívida assumida.
A dicção atual da lei sobre companhias procurou minimizar o problema em torno do conflito de interesses no
exercício do direito de voto, muito embora sempre predomine na sua técnica uma prevalência do controlador, acena
o texto em vigor para a possibilidade da convocação de assembleia para dirimir a controvérsia.
Com a maior participação de minorias e proporcionalidade na emissão de ações, para as empresas constituídas e,
portanto, novas, busca-se reduzir o conflito em harmonia com o absenteísmo, na diretriz de maior participação dos
não controladores.
Entretanto, a prática atada aos usos e costumes, de seu turno, privilegiou outorgas a favor das instituições
financeiras, na medida das representações, do exercício do direito de voto e, fundamentalmente, para facultar um
terreno propício à formação do bloco de maioria na capacitação da atividade empresarial.
Ofertadas em garantia mercadorias, e normalmente não dispondo o banco de dependências para guardá-las, o
mais comum e consentâneo com a natureza jurídica da operação é confiar sua custódia a armazenagem geral, às
expensas do cliente, dada a representação das mercadorias em títulos negociáveis (conhecimento de depósito e
warrant) de fácil conversão em pecúnia, se for o caso. É verdade que, nesse caso, a modalidade de antecipação se
converte em sobretítulos. Mas poderá o banco simplesmente manter a mercadoria guardada em dependência
comum, que não seja armazenagem geral, locada para esse fim, às expensas do cliente, hipótese em que é efetuado
um seguro da mercadoria, durante o prazo da antecipação, pelo próprio cliente ou pelo banco, às custas daquele,
devendo constar da respectiva apólice, como beneficiário, o nome do banco.
Com efeito, para não encarecer o custo da mantença em depósito da coisa, visando proporcionar sua
rentabilidade e possibilitar uma utilização satisfatória, invariavelmente as instituições financeiras, a exemplo do
constituto possessório, permitem que os devedores fiquem na posse direta, enquanto o credor naquela indireta da
coisa, sinalizando comunhão de interesses entre ambos.
Objetivamente, pois, quando houver alteração ou transformação, mesmo perdimento da coisa, insta seja a
instituição avisada, para efeito de haver substituição e não ser rompido o equilíbrio contratual entre as partes
participantes do negócio.
Expirado o prazo do contrato, já assinalamos implicitamente, deve o banco restituir ao cliente as coisas recebidas
em penhor.
Bastante importante mencionar que a descrição dessas mercadorias segue a lógica da cédula de crédito, na
configuração do penhor mercantil, detalhando sua origem, forma, quantidade e qualidade, a fim de propiciar meios
seguros na identificação da coisa.
Substancialmente, integrantes os bens do ativo financeiro da empresa, a produção em toda a sua cadeia poderá
utilizar a mercadoria e fazer sua transformação, daí por que a necessidade de se coadunar a garantia com sua real
existência.
Dessarte, oportunizada a extinção contratual, retomando as partes para o estágio anterior, se os bens estiverem
na posse do credor serão restituídos, e a documentação pertinente à operação, na tônica de transcender o negócio
jurídico subjacente finalizado.

52. Obrigações do devedor


Ao devedor, cliente ou antecipado, cumpre, preliminarmente, entregar os bens objeto da garantia. Na vigência do
contrato, cumprir-lhe-á, eventualmente, complementar a garantia, se os bens inicialmente ofertados diminuírem de
valor. Expirado o prazo do contrato, incumbe-lhe restituir ao banco o principal, juros, comissões e despesas com a
custódia das coisas ofertadas em penhor, inclusive as do seguro.
Bastante relevante realçar que, na sua especificidade, a coisa poderá permanecer na posse direta do devedor,
numa modalidade de constituto possessório, ou depósito impróprio, haja vista a necessidade imperativa de
operacionalizar sua atividade com aquele patrimônio, sem óbice à conservação, manutenção e guarda condizentes
com a natureza contratual.
Concretamente, o credor não interessado em onerar mais o devedor com ele consente no predicado de viabilizar
a mantença do penhor em mãos do obrigado, na consecução de haurir meios imprescindíveis ao próprio negócio e
lucratividade compatível com a remuneração tendente a pagar as importâncias devidas.

53. Extinção do contrato


Em matéria de antecipação bancária, o prazo se presume convencionado em favor do cliente devedor,
interessado que está em desembaraçar de ônus, o quanto antes, os bens ofertados em penhor. Por isso, não precisa
ele aguardar o advento do termo originariamente convencionado para pagar o que deve, podendo efetuar antes.
Extingue-se o contrato, também, pelo perecimento ou diminuição do valor da coisa, sem reposição, em tempo
oportuno, pelo devedor. A falta de pagamento de juros, comissões e despesas, quando convencionados para terem
lugar durante a vigência do contrato, e a falência do devedor (Lei de Falências n. 11.101/2005, art. 77) provocam,
igualmente, a extinção prematura do contrato, o mesmo ocorrendo com a sujeição do banco a liquidação extrajudicial
ou falência. Pela inexistência de previsão legal expressa e por ser a antecipação contrato de natureza real, a morte
do devedor não lhe provoca a extinção.

54. Antecipação e financiamento


Possuindo em comum com a antecipação o fato de consistir em um adiantamento ao cliente, o financiamento
dela se distingue, muito embora a Resolução n. 19, do Banco Central, haja disciplinado apenas este último como
prática bancária. É que, no financiamento, o numerário é adiantado pelo banco ao cliente para um empreendimento
determinado, previamente conhecido por aquele, podendo o fornecedor do dinheiro fiscalizar a aplicação dos fundos,
enquanto na antecipação é livre a destinação do dinheiro: “Por esse contrato (financiamento), adianta o banco ao
cliente recursos necessários a certo empreendimento, reservando-se a faculdade de receber de devedores do
financiado os créditos que este lhe cedeu, ou caucionou”99.
Portanto, antecipação é gênero de adiantamento de dinheiro pelo banco, de que o financiamento constitui
espécie.
Naturalmente, o financiamento para ser concedido e automaticamente liberado depende do exame previamente
realizado pela instituição financeira acerca das condições implícitas do negócio, querendo com isso representar uma
avaliação da realidade, na viabilidade que disponibiliza o crédito.
Mais claro e tecnicamente, se determinado empresário precisa do financiamento para a produção de matéria-
prima, antes de qualquer providência, caberá à instituição financeira solicitar pronunciamento da área especializada,
que demonstrará a plausibilidade ou o risco que atine à concretização daquela tarefa.
Na realidade, o banqueiro irá monitorar a saída do capital financiado e sua destinação, para que não aconteça
qualquer modificação ou transformação do plano apresentado e aumente o risco da iliquidez no momento do
cumprimento da obrigação.
Um certo dirigismo que modela o financiamento é suficiente e independente na consecução da autonomia da
vontade, porém o contrato entabulado se reveste do formalismo essencial e se torna indispensável o detalhamento
sobre a alocação do recurso, para que não paire a menor dúvida se houver discussão a respeito das obrigações
havidas nesta circunstância.
Poderá o financiamento se adstringir à sorte da operação para a qual se destina de modo facultativo, sob o
prisma da relação do proveito auferido, ou simplesmente nessa premissa assentar os descritivos componentes do
principal e os acessórios incidentes para efeito da liquidação daquela obrigação.
Haverá o vencimento antecipado da dívida se as garantias se tornarem insuficientes ou os bens forem
penhorados em outra execução pelo credor, a teor do art. 333, II e III, do Código Civil em vigor.
Nessa correlação entre o núcleo da antecipação bancária e o elemento que define o financiamento, tem-se uma
situação unívoca em relação ao proveito econômico emergente a favorecer o tomador, posto que, de posse daquele
numerário liberado, terá a perspectiva de direcionar a atividade produtiva, sempre atento ao vencimento anotado no
contrato entabulado, em atenção ao principal acompanhado dos acessórios que integram a dívida contraída.
Comprovado que o valor financiado não teve a destinação prevista, será antecipado o vencimento do contrato e,
consequentemente, deverá ocorrer o cumprimento da obrigação, inclusive com a possibilidade de multa.
Essa preocupação deveria nortear a separação entre o joio e o trigo, na medida em que, nas diversas
modalidades de financiamento, não é incomum aos tomadores se referirem à especificidade, deturpando sua
finalidade, e no propósito de beneficiamento exclusivo.
De fato, solicitando o empréstimo para uso na propalada atividade agrícola, de plantio, o interessado passa a
fazer uso distinto e mina a possibilidade de terceiros fazerem utilização do valor, complicando a perspectiva de sua
credibilidade.
Nesse diapasão, compete à instituição credora, antes de tudo, uma triagem na rigidez criteriosa do procedimento,
mantendo sempre a informação atualizada e, mais do que isso, comparecendo in loco para uma análise minuciosa
sobre a liberação do recurso e seu efetivo uso conforme a contratação.
As instituições financeiras públicas que confundem a atividade de liberação de reservas com influências políticas
não podem deixar de responder pelos abusos, inclusive na modalidade estatutária, sem as garantias que respaldam a
operação e o sentido lógico do negócio.
Se de um lado existe um abuso manifesto preconizado na situação típica do desvio na conduta do tomador,
d’outro ângulo, forçoso destacar, uma facilidade que denota liberalidade acima da média, comprometendo a
lucratividade do banco, expondo um passivo maior, e principalmente resvalando na impropriedade daquela operação
entabulada.
Bem assim é condição imprescindível em determinadas circunstâncias do financiamento superar o campo formal,
e incursionar no realce do próprio negócio, investigando seu conjunto, para evitar surpresas e o aumento do risco
natural da inadimplência.
Normalmente, quando o financiamento sofre repasse, diante do valor do crédito concedido e seu limite, natural
cogitar a liberalidade havida, haja vista que a instituição financeira não poderá ultrapassar os limites reais da
operação.
Explica-se, por exemplo, um cliente que tenha limite de seu cheque especial no valor de cinco mil reais, e o
banco libere soma muito superior, correndo o risco do inadimplemento.
De modo bastante singular, o refinanciamento da dívida e seu alongamento não impedem a rediscussão dos
contratos anteriores, nos termos da Súmula 286 do Superior Tribunal de Justiça.
As graves vicissitudes do agronegócio implicam a revisão do modelo, cujo impacto no produto interno bruto é
relevante, haja vista a necessidade de alongamento das dívidas e a posição firme do Governo, evitando quebradeira
geral e recuos na produção.
De fato, com a redução das expectativas, menor valorização das divisas, queda do câmbio, intempéries e
financiamentos, os agricultores experimentaram muitas adversidades, e o pacote lançado pelo Governo mostra-se
insuficiente para a cobertura dos prejuízos.
Nessa toada, com a Lei n. 11.076/2004 nasce uma nova esperança de financiamento, o que resvala na livre-
iniciativa, para que o setor privado se componha com a lacuna e a deficiência do recurso público no financiamento
da safra e sua mecanização.
10
O DESCONTO BANCÁRIO

Sumário: 55. Conceituação. 56. Elementos. 57. Natureza jurídica. 58. Características. 59. Ações do banco.
60. O redesconto.

55. Conceituação
Operação bancária ativa típica, o desconto, num sentido lato, pode ser conceituado, com base no art. 1.858 do
Código Civil italiano, como sendo “o contrato pelo qual o banco, com prévia dedução do juro, antecipa ao cliente a
importância de um crédito para com terceiro, ainda não vencido, mediante a cessão do próprio crédito”.
Parte tal conceituação do pressuposto de que todo e qualquer crédito possa ser cedido em troca do adiantamento
pecuniário que o banco faz ao cliente. A prática bancária revela, contudo, que o desconto é feito contra títulos de
crédito, representando soma líquida e certa, portanto de fácil recuperação pelo banco: “Segundo a prática bancária
usual, o portador de um efeito de comércio (títulos que representam obrigações comerciais vencíveis a curto prazo)
o endossa a título de propriedade a seu banqueiro, que lhe entrega imediatamente o montante nominal sob reserva de
recebimento no vencimento. Em teoria, senão na prática, a operação do desconto pode ter por objeto um outro que
não o efeito de comércio (bônus do Tesouro, cupões, por exemplo) ou simples crédito. Deixaremos de lado estas
hipóteses excepcionais para tratarmos apenas do desconto dos efeitos de comércio”100.
“Qualquer crédito em dinheiro, contanto que ainda não vencido, pode ser objeto de desconto. Na prática, porém,
não é assim. O banco, pela própria organização de seus serviços, e pela necessidade de premunir-se contra o perigo
de que o devedor cedido não satisfaça o débito no vencimento, normalmente não desconta senão os assim chamados
créditos cartulares, aqueles incorporados a um documento, cuja posse atribui, de maneira exclusiva, o direito de
crédito, no sentido de que somente quem tem a posse do documento pode fazer valer o direito de crédito. Na
realidade, de todos os créditos que possam ser objeto de desconto, só aqueles resultantes de efeitos cambiários dão
verdadeiramente matéria à atividade do banco101.”
Nasce uma relação jurídica entre o descontante e o descontário, com perfil nitidamente vinculado ao sistema que
incorpora e materializa o título num documento, sendo operação de larga e proveitosa utilização no comércio ou na
indústria, porque significa a provisão de numerário na capitalização dos negócios, oxigenando aquela empresa e
dando condições para que prossiga na consecução do objeto social, sem interferir na qualidade do serviço ou do bem
produzido.
Com a implementação dos meios magnéticos, o aperfeiçoamento da cibernética e o campo de serventia da
informática, passa-se à fase de emissão de títulos que não se corporificam nos documentos cartulares, a exemplo da
conceituação ditada por Vivante e retomada por Tullio Ascarelli.
Naturalmente, e como costuma acontecer na modernidade, efeito da desmaterialização que se concentra nos
conceitos dos meios eletrônicos, a literalidade, cartularidade e autonomia, por força da circulação, concepções
assentes na caracterização dos títulos de crédito perdem a respectiva substância na fenomenologia de um modelo
mais coerente com a velocidade dos negócios e dinâmica da vida empresarial.
Efetivamente, tanto na criação pela emissão como na própria constituição da obrigação cambial, a partir da
cibernética a relação tem um formato de conotação abstrata, mas a inadimplência representa um tipo de documento
apto à exigibilidade.
Pretende-se demonstrar que a existência formal da cambial traça seu relevo mais presente e acentuado no
momento em que o obrigado principal e aqueles solidários deixam de adimplir a obrigação, surgindo a necessidade do
protesto ou da cobrança a cargo do titular legitimado.
De fato, o trabalho se concentra na imediata feitura da ordem magnética, que transfere ao banco, na qualidade
de cessionário, a possibilidade de cobrança, ficando o descontário creditado na sua conta corrente da importância
que emblematicamente desenvolve o negócio empresarial.
Paralelamente se delineia a faturização, que tem conotação própria e dimana uma especificidade ímpar, na
venda da produção, de modo antecipado, quando o faturizador libera a favor do faturizado, feitos os descontos da
operação, a importância correspondente, sem deslembrar eventual risco que poderá suscitar perante a falta de
adimplemento do sacado.
No pomo da discussão, portanto, o desconto bancário apresenta semelhanças com outras operações que
identificam a forma singular pela qual a instituição financeira catalisa recurso destinado à atividade empresarial,
tanto na sua produção como na venda, antecipando aquilo que fora alienado pro solvendo.
“O banco antecipa ao credor a importância de um título de crédito de soma líquida e vencimento breve,
recebendo em transferência e deduzindo do valor nominal os juros pelo espaço de tempo intercorrente desde a data
da antecipação até à do vencimento102.”
“Uma outra operação ativa nos bancos é o desconto bancário, contrato pelo qual uma pessoa recebe do banco
determinada importância, para isso transferindo ao mesmo um título de crédito de terceiro103.”
Do exposto, podemos concluir que, num sentido estrito, que é aquele seguido pela prática bancária, o desconto é
o contrato pelo qual o banco, com prévia dedução do juro, comissão e despesas, antecipa ao cliente a importância
representada por um título de crédito, não vencido, contra terceiro, mediante endosso do próprio título.
O termo “desconto” tem, pois, um duplo sentido: designa a operação bancária (contrato no plano jurídico), bem
como a dedução feita sobre o valor representado pelo título.

56. Elementos
Adotado o conceito supra, verificamos que o desconto se desdobra nos seguintes elementos: I — trata-se de
contrato que tem por objeto o adiantamento de quantia em dinheiro pelo banco ao cliente, contra um título
representativo de crédito, ainda não vencido, para com terceiro; II — perfaz-se o contrato com a entrega do dinheiro
ao cliente ou com o lançamento a crédito deste; III — o cliente endossa o título (cambiário ou cambiariforme) ao
banco, sem, contudo, exonerar-se, o que se coaduna com a própria natureza do endosso104: “A cessão do crédito
tem, como se viu, o escopo de colocar em condição o banco de pagar-se da antecipação feita ao descontário. A
existência, assim, de um crédito para com um terceiro tem no contrato relevância causal, pelo que, se o crédito
cedido não existe, o contrato é nulo por falta de causa”105.
Embora referido na doutrina estrangeira106, o desconto de cheques não é usual na prática bancária brasileira: por
meio dele, o banco adiantaria importância mediante a transferência a seu favor de crédito já vencido (porque de
outra natureza não pode ser o representado por cheque). Ficaria, pois, afastado um dos elementos básicos do
contrato de desconto, isto é, a incidência sobre créditos ainda não vencidos; mas aí, então, a distantia temporis seria
substituída pela distantia loci, ou seja, o cheque descontado seria pagável em outra praça (para tal hipótese, os
bancos brasileiros aplicam a operação cobrança, e não o desconto).
IV — Finalmente, da importância total representada pelo título descontado, o banco deduz uma certa quantia, a
título de juros, comissões e despesas: “O desconto é um elemento essencial da espécie fática, na falta do qual ter-se-
á uma venda de créditos ou um mandato para receber, mas não um contrato de desconto”107.
Desnecessário dizer que numa época cercada de alta taxa de juros, o desconto bancário não deixa de sofrer a
influência referente à sua incidência quando a operação é concretizada e dela debitados os valores pelo descontante.

57. Natureza jurídica


As várias teorias acerca da natureza jurídica do desconto bancário podem ser reduzidas a duas fundamentais: I
— a da compra e venda de títulos de crédito, ou de créditos; II — a do empréstimo.
Os argumentos contra a primeira teoria se nos afiguram irrespondíveis:
a) “A compra de título ou de crédito tem um aspecto especulativo; ora, o banqueiro não compra barato para
revender (ou receber) mais caro; ele realiza uma operação de crédito e entende dela retirar a remuneração normal
do capital adiantado”108.
b) “Mas é sobretudo frente à noção do art. 1.858 que a teoria, aqui combatida (a da compra e venda), se revela
inaceitável. Diz tal artigo que o descontador (banco) ‘antecipa’ ao descontário o importe do crédito. Como se notou
outra vez, o termo ‘antecipação’ é usado pelo legislador em mais significados, jamais porém no significado de
pagamento de um correspectivo ou de preços de uma contraprestação. Seria, então, estranho que neste sentido, em
contraste com a linguagem bancária, se não com a linguagem normal, figure no art. 1.858. O artigo fala, depois, de
‘deduções de juros’, usa um termo que tem um preciso significado técnico-jurídico, de correspectivo, isto é, ‘do gozo
que outrem tenha... dos capitais’ (art. 820). Seria, igualmente, estranho que, referindo-se ao desconto, como preço, o
legislador tenha usado um termo de tão diverso significado109.”
“O desconto constitui operação de crédito; prevalecesse a aludida teoria (a da compra e venda), ele converter-
se-ia em venda à vista, a dinheiro de contado, desde que o descontário receba desde logo a soma. Sobreleva que não
se compreenderia a venda, com a obrigação do vendedor passar a devedor principal, pagando ao comprador soma
igual ao preço recebido e mais os juros, o que se viria a dar no caso do devedor direto e principal do título não
satisfazê-lo na época do vencimento110.”
Refutada, assim, cabalmente a teoria da compra e venda, remanesce a do empréstimo: “O contrato de desconto,
importando a dação de uma soma com obrigação de restituição, é um contrato de empréstimo, semelhante ao mútuo,
porque tem com esse em comum o escopo de conceder o gozo de um certo capital contra uma compensação (juro).
Dele se diferencia, todavia, porque o desconto se apresenta como uma forma de empréstimo qualificado pela
intenção de antecipar ao mutuário o importe de um seu crédito para com terceiro”111.
“O desconto é um empréstimo. A dedução feita pelo banqueiro é o juro do empréstimo. Esta é a tese geralmente
adotada, ou, na frase de Thaller, mais recomendável. O descontador, escrevem Lyon-Caen e Renault, adianta uma
soma para lhe ser restituída em determinada época, a do vencimento do título. Assim procede o mutuante, pouco
importando que receba de terceiro a importância do título, tanto mais que o descontário fica responsável
solidariamente pelo seu endosso112.”
Mas, é preciso salientar que o desconto é espécie de empréstimo, mútuo coligado a uma cessão de crédito:
“Característica, pois, do contrato é a coligação funcional, feita pela lei, entre empréstimo e cessão de crédito; a
transferência atual de uma determinada soma tem como sua causa a atribuição de uma soma futura, que no ato da
cessão de crédito tem caráter obrigatório, tornando-se real quando o crédito será recebido”113.
As nuanças entre o desconto e o mútuo foram magistralmente assinaladas por Angeloni, em sua obra Lo
Sconto, mencionada por J. X. Carvalho de Mendonça:
“a) O desconto é o contrato de mútuo que pressupõe normalmente no mutuário a qualidade de possuidor de um
título de crédito (especialmente cambial), ou de credor, quirografário de uma soma em dinheiro, com vencimento
determinado contra terceiro.
b) O desconto é o contrato de mútuo, no qual a concessão do crédito a prazo, efetuada mediante a dação de uma
soma em dinheiro, baseia-se essencialmente sobre a prestação de idôneas garantias pessoais oferecidas pelo
mutuário para a restituição da soma e o pagamento dos juros constituídos mediante dação pro solvendo ao
mutuante de um crédito documental (especialmente bancário) ou quirografário do qual o mutuário seja titular.
c) O desconto é o contrato de mútuo, no qual a soma a emprestar e a dos juros calculam-se em função da soma
do crédito do qual o descontário é titular e com essa dação pro solvendo assegura ao mutuante a restituição da
antecipação e compensação de modo que uma represente o capital, que, junto aos juros e aos juros dos juros pelo
tempo que falta para o vencimento, perfaça, depois desse tempo, a soma do crédito referida, e a outra represente a
soma dos juros daquele capital e do seu anatocismo”114.
Sendo a cessão do crédito do descontário feita pro solvendo ao banco, este, “tornando-se titular do crédito
cedido, recebe-o em seu interesse e tem direito de utilizar o recebido para satisfazer ao seu crédito, em pagamento
do qual teve lugar a cessão; mas a obrigação de restituição do descontário não se extingue se não for satisfeito o
crédito cedido, não podendo ele pretender sua liberação perante o banco pela antecipação recebida, porque dá uma
coisa diversa daquela devida, isto é, um crédito seu para com terceiro”115.

58. Características
O desconto é contrato real, bilateral e oneroso.
Real, porque se aperfeiçoa com a entrega da importância ao descontário: “O art. 1.858, dizendo que o banco
antecipa a importância de um crédito, usa uma fórmula típica de todos os contratos reais, em contraposição àquela
‘se obriga’, usada para os contratos consensuais; além do mais, a condição de endosso prescrita pelo art. 1.859 para
o desconto dos títulos de crédito contradiz o princípio de transferência consensual da propriedade”116.
“O desconto pertence à família dos contratos reais; é variedade do mútuo. Perfaz-se, ou melhor, completa-se,
desde que a soma descontada se entregue ao descontário em dinheiro, ou seja, inscrita a seu crédito em conta
corrente. Nesta última hipótese, efetua-se igualmente a passagem da soma do descontador para o descontário,
porque fica na plena disponibilidade deste117.”
É contrato bilateral o desconto, porquanto remanescem ônus para ambas as partes: o cliente descontário ficará
com a obrigação residual de pagar ao banco o principal, juros e custos da operação, caso não o faça o devedor
cedido; o banco deve diligenciar o recebimento junto a este último, como pressuposto para fazer-se pagar pelo
descontário, na omissão do cedido: “Na falta da qual (solicitação de pagamento) esse (o banco) não poderá agir com
a ação de restituição contra o descontário. Este, de fato, poderá excepcionar tal falta como ausência de um dos
pressupostos da ação”118.
Na realidade, nesse ponto reside a diferença fundamental entre o mútuo e o desconto: enquanto naquele, salvo
garantia solidária, o mutuário é o principal devedor, no desconto, a cessão do crédito, pro solvendo, do descontário
ao banco cria para este o direito e, ao mesmo tempo, o dever de diligenciar a cobrança do título junto ao devedor
cedido, antes de voltar-se contra o cedente.
A onerosidade do desconto reside em que redunda ele em proveito econômico para ambas as partes: para o
cliente, em possuir a disponibilidade de quantias correspondentes a créditos ainda não vencidos; para o banco, na
percepção de juros e comissões.

59. Ações do banco


Operando-se o desconto, geralmente, mediante a cessão de títulos cambiários ou cambiariformes (na prática
bancária brasileira, ele se faz mais frequentemente sobre duplicatas), consequentemente o banco se torna
endossatário, legitima-se pelo protesto, cuja disciplina vem dada pelo diploma normativo n. 9.492, de 10 de setembro
de 1997, com as alterações sobrevindas, ao exercício da ação cambial, que é a mais conveniente na espécie, por
estar dotada de força executória, contra o devedor cedido, o cedente e qualquer outro coobrigado, para a
formatação da relação dos devedores solidários inadimplentes.
Além da ação cambial, forrada no título, fazem os autores119 menção à ação nascida do contrato de desconto ou
causal.
Tratar-se-ia de ação de direito comum e dirigida somente contra o descontário e destituída de rito executivo.
Destarte, teria lugar apenas no caso de prescrição da ação cambial, invalidade da obrigação cambial do devedor
principal ou nulidade do título. Tem, pois, como se vê, maior amplitude que a ação de locupletamento ilícito,
exercitável em consequência da prescrição da ação cambiária120.
Interessante se faz mencionar que o contrato e a obrigação cartular têm uma relativa interdependência, sem
óbice no que diz respeito à possibilidade de firmar a executoriedade isolada, dado o contexto da operação bancária.
Uma coisa é a obrigação que tem lastro na situação específica gerada a partir da garantia fornecida, outra é o
fundamento que se assenta no contrato, que, se estiver dotado dos requisitos de forma e de fundo, suscitará a via
comum e não o caminho da execução.

60. O redesconto
O redesconto é a operação pela qual o banco, não desejando aguardar o vencimento do título sobre o qual
operou o desconto, para encaixar o seu montante, por sua vez, desconta-o junto a outro banco, recuperando o
próprio capital. Tem a mesma natureza que o desconto, sendo realizável apenas entre bancos, razão pela qual os
juros e as comissões são menores, dada a melhor garantia que oferece o descontador redescontário. Por força de
dispositivo legal expresso (Lei n. 4.595/64, art. 10, IV), compete privativamente ao Banco Central realizar operações
de redesconto.
O redesconto representa a possibilidade de o banco se desvencilhar do título que possui na sua carteira sem
esperar o respectivo vencimento, valendo-se doutra instituição para efeito de liberar o numerário.
Típica operação interbancária que pode situar a circunstância envolvendo banco particular e outro oficial ou de
economia mista, mas é preciso dimensionar o horizonte no intuito de sublinhar a necessidade do exame de fundo da
atividade, posto que, se desenvolvida com o intuito desviado e contrário à finalidade legal, responde o administrador
pelo prejuízo causado à instituição financeira.
Conquanto seja uma operação bastante conhecida e antiga, o redesconto permite uma confusão que merece
maior análise, no sentido de aparar arestas e frutificar o consenso em torno do denominador comum, haja vista a
respectiva classificação.
De fato, o redesconto pode ser denominado seletivo, e de modo distinto conceituado de liquidez ou assistência,
conforme a operação e a inerente modalidade que o disciplina.
As operações de redesconto obedecem ao trato normativo do Banco Central e delas não se aproveitam as
instituições financeiras em estado de iliquidez ou sujeitas ao procedimento de saneamento, posto que contam com
patrimônio líquido negativo e não fazem jus à categoria específica de negociação.
Concernente ao redesconto de assistência financeira ou igualmente conhecido por redesconto de liquidez, a
regulamentação tem respaldo no diploma normativo n. 4.595/64, Resolução n. 2.949/2002 e Circulares 2.712/96,
2.727/96 e 2.869/99, do Bacen.
Normal, forçoso destacar, que as instituições que utilizam o sistema de redesconto de liquidez ou assistência
mantêm um contrato com o Banco Central de crédito rotativo, que implica a tipificação como devedora, sendo por
prazo indeterminado, havendo uma taxa de juros que é fixada.
Diretamente, as taxas de juros fundam-se na média dos ajustes dos financiamentos com fomento na avaliação
feita pelo Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) com a definição do Copom (Comitê de Política
Econômica).
Discutida a validade do Selic em algumas espécies de cobranças, por causa de sua natureza, mormente em
dívidas fiscais, a posição que vem sendo adotada pelo Supremo Tribunal Federal revela incongruência entre o
modelo e sua finalidade.
De fato, a remuneração não estaria dentro da prioridade da variação monetária do período e simbolizaria um
conceito financeiro de perspectiva escrita na unilateral visão do credor.
Bem assim, a maioria das lides, na contemporaneidade, tem-se batido pelo aspecto de índices, consectários,
importâncias, acessórios, no fundamento que sinaliza um substrato da realidade inflacionária menor do que a relação
entre credor e devedor, mesmo que numa ponta o Estado, em sentido amplo, tenha a receber.
As instituições financeiras em crise que não operam o redesconto comum ficam adstritas ao programa de
estímulo à reestruturação e fortalecimento do sistema financeiro nacional (Proer), tendo como diretriz as taxas de
juros, que se comportam bem superiores à previsão regular operacional.
Referente ao redesconto seletivo, atinge de forma global determinados setores da economia, tanto industrial,
comercial como agrícola, nos quais a instituição financeira, antes do vencimento do título em carteira, simplesmente
procede ao desconto junto ao Banco Central do Brasil, visando a recuperação do capital.
Em face do lucro operacional esse se faz inconteste, na medida em que o cálculo permeia a diferença entre as
taxas de aplicação e a incidência do banco em relação ao Bacen. Assim, na primeira ordem o cômputo atrela o
cliente e a instituição; num segundo estágio o estabelecimento e o Banco Central.
Colima o redesconto seletivo canalizar investimentos e recursos setoriais, cujos custos avaliatórios seriam
inferiores à taxa de captação sinalizada pelo mercado, mas também apresenta conotação de política monetária
governamental, notadamente com títulos rurais; logo, toda a instrumentalidade ganha corpo e materializa-se nos
ajustes destinados a minimizar diferenças e contrastes, donde é mais visível a mão do Estado na alocação e
implementação de recursos.
Na visão mencionada, pois, o redesconto afigura-se como mecanismo seguro e de capitalização ao alcance dos
interessados e na dinâmica de representar o contrato para liberação antecipada de valores, destinados aos setores
produtivos, onde antes do vencimento há o pagamento, ou no redesconto seletivo endereçado a fortalecer alguns
setores mais priorizados pela política governamental.
As operações revestem uma perspectiva bastante segura de ambicionar o lado interbancário, na mudança do
perfil da carteira da instituição, no dinamismo da negociação, em sintonia com a rea​lidade de mercado, para efeito de
gerar uma posição ocupada de menor risco.
O acesso ao crédito na operação bancária sedimenta a necessidade primária das empresas em contarem com
um polo atrativo e que seja sensível à conjuntura de fornecer o suficiente capital de giro à atividade desenvolvida
livre de amarras.
Remanesce uma engenhosidade que se curva à necessidade estrutural das empresas e ao forte apelo dos
bancos, a fim de que ambos se convirjam no ferramental indispensável na alimentação de produção, manutenção em
escala de serviços e mercadorias, gerando riqueza.
11
CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO E SUAS MODALIDADES

Sumário: 61. Conceituação. 62. Natureza jurídica. 63. Características. 64. Modalidades. 65. Utilização. 66.
Extinção.

61. Conceituação
As várias definições de “abertura de crédito” não se afastam da significação lexical do instituto:
“A abertura de crédito é a promessa do banqueiro de consentir em uma operação de crédito determinada. O
crédito é prometido, não está ainda concedido, mas o será, se o cliente o solicita”121.
“A maior parte dos clientes solicita empréstimos ou antecipações em conta no momento em que vão ter
necessidade, mas sucede que industriais ou comerciantes procuram uma promessa de colaboração da parte de seu
banqueiro.
O banqueiro chamado a prometer sua colaboração deve delimitar bem a extensão de suas obrigações. Ele fixará
a duração da validade da abertura de crédito e indicará o modo de realização122.”
“Tem-se, ao invés, uma abertura de crédito em sentido técnico quando o banco se obriga a manter à disposição
do creditado dada soma por um certo tempo ou por tempo indeterminado, com a faculdade do próprio creditado de
utilizar tal soma segundo modalidades convencionadas ou de uso123.”
“A abertura de crédito é o contrato mediante o qual um dos contratantes (o creditador) se obriga a pôr à
disposição do outro (o creditado) fundos até determinado limite, durante certa época, sob cláusulas previamente
convencionadas, obrigando-se este último a restituí-los no vencimento com juros, eventuais comissões e
despesas124.”
“Entende-se por abertura de crédito o contrato segundo o qual o banco se obriga a pôr à disposição do cliente
uma soma em dinheiro, por prazo determinado ou indeterminado, obrigando-se este a devolver a importância,
acrescida dos juros ao se extinguir o contrato125.”
Em todas as noções supra, nota-se a constante de que a abertura de crédito consiste em o banco colocar certa
soma em dinheiro à disposição da outra parte, que poderá dela se utilizar, ou não, mediante certas contraprestações.
Assim sendo, podemos conceituá-la como sendo o contrato pelo qual o banco se obriga a manter à disposição da
outra parte certa quantia em dinheiro, por tempo determinado ou não.
Pela expressão “outra parte” se compreende quem seja cliente do banco ou outrem que com ele ainda não
mantenha vínculos operacionais habituais.

62. Natureza jurídica


Das assemelhações que se faz da abertura de crédito aos vários contratos típicos, sem dúvida a que oferece
maior analogia é o mútuo, não se confundindo, entretanto, com ele, por possuir sua essência própria:
“De outra parte, se se quisesse admitir em nosso ordenamento a figura do mútuo consensual, a esta não poderia
jamais reportar-se a abertura de crédito, porque diversa é a causa em um e em outro negócio; enquanto que na
abertura de crédito a falta de utilização da soma creditada não tem significado de inadimplemento contratual, o
mesmo não se pode dizer se o mutuário omitisse de fazer próprias as somas mutuadas, porque o contrato faltaria à
sua função”126.
Também não tem procedência a doutrina do mútuo seguido de depósito, porquanto: “Esta construção que,
proposta anteriormente por alguns autores, no século passado Bonelli havia definido ‘artificiosa’, se choca contra a
noção de contrato que dá o art. 1.842, o qual considera a abertura de crédito um contrato único e não um contrato
complexo, resultante da combinação de diversos negócios unitariamente considerados com base em única causa e
finalidade objetiva127. Ademais, isso colide com o disposto no art. 1.844, o qual, no caso em que a garantia se torna
insuficiente, dá a faculdade ao banco de reduzir o crédito proporcionalmente ao valor diminuído da garantia; como se
choca contra o disposto no art. 1.845 pelo qual a rescisão da parte do banco, do contrato, suspende imediatamente a
utilização do crédito: normas todas essas que pressupõem que a soma creditada permaneça, enquanto não seja
utilizada, de propriedade do banco e não passe ao creditado etc.”128.
Na realidade, a essência da abertura de crédito repousa no fato de o banco manter a soma à disposição do
creditado, que poderá dela se utilizar, ou não. Trata-se, pois, de contrato sui generis: “Para estabelecer qual seja a
natureza jurídica da abertura de crédito, isto é, sua essência, é preciso ir à definição que lhe dá o art. 1.842, como
aquele contrato ‘com o qual o banco se obriga a manter à disposição da outra parte uma soma de dinheiro por um
dado período de tempo ou por tempo indeterminado’. Como se põe em relevo, falta em tal definição qualquer ligação
entre o colocar à disposição a soma e a utilização da mesma”129.
Também a doutrina nacional assinala a tipicidade contratual da abertura de crédito: “Distinto de qualquer outro e
individuado, o contrato de abertura de crédito permite ao comerciante ter sempre à disposição somas para solver
compromissos etc.”130.
“Trata-se de contrato típico. Sua essência consiste na atribuição ao creditado do poder de pretender do banco a
prestação de certa soma etc.131.”
E é justamente a atribuição ao creditado de um tal poder, assinala Giacomo Molle, “que constitui a conotação
essencial da abertura de crédito e a distingue dos outros contratos de crédito”132.

63. Características
A abertura de crédito é um contrato consensual, oneroso, bilateral, de execução continuada e não solene.
Vejamos cada uma dessas características.
I — Diferentemente do mútuo, que é a figura contratual típica com a qual a abertura de crédito guarda maior
afinidade, esta não requer a efetiva entrega do dinheiro ao creditado para que se repute nascido o contrato; basta o
consenso das partes. Segundo Giacomo Molle: “A abertura de crédito é um contrato consensual porque, como se
disse, para seu aperfeiçoamento não se requer a dação da soma creditada e possui efeitos obrigacionais, e não reais,
porque o banco, embora deva manter à disposição do creditado a soma na importância convencionada, permanece,
todavia, proprietário da mesma até o momento da utilização”133.
Deste princípio decorrem importantes consequências de natureza prática, conforme assinala o mesmo autor:
“enquanto o creditado não manifesta a vontade de utilizar o crédito na forma por ele escolhida, mesmo no âmbito
contratual, nada é devido pelo banco, o qual cumpriu sua obrigação com o colocar à disposição do creditado a soma
convencionada. Não é assim concebível que um credor do creditado possa sub-rogar-se a ele, a teor do art. 2.900 do
CC, para efetuar levantamentos em lugar dele; nem tampouco podem constituir objeto de sequestro ou de penhora
as somas que possam ser solicitadas pelo creditado”134.
II — É contrato oneroso, porquanto implica deveres e direitos para ambas as partes: a) o banco tem a obrigação
de colocar a soma à disposição do creditado, fazendo jus, simplesmente por isso, à comissão e mais aos juros, em
caso de efetiva utilização da quantia; b) o creditado, em troca da comissão e eventuais juros que paga, fica com a
disponibilidade do dinheiro alheio.
III — Da onerosidade do contrato decorre a sua bilateralidade: o banco tem a obrigação de manter a soma à
disposição e de entregá-la ao creditado; este deve reembolsar o que recebeu, a comissão e juros.
IV — A abertura de crédito é contrato de duração ou de execução continuada, porquanto, destinando-se a cobrir
as necessidades econômicas do creditado, durante um certo tempo, vai esse se utilizar do crédito mediante retiradas
parceladas, não se compadecendo com a função própria da avença a retirada única.
V — Finalmente, é contrato não solene, porque não requer, para sua constituição, forma especial.
“É de uso, todavia, dos bancos, que o cliente requeira o crédito em modelos para tal predispostos e que o banco o
conceda em um documento que contenha as condições do contrato135.”
Inadmite-se a possibilidade do banco se lhe permitir a outorga de procuração que resulte na emissão de cambial,
voltada para a cobrança dos valores devidos pelo cliente.
A propósito, necessário trazer à colação o decidido pelo Extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil de São Paulo
(EC n. 45/2004), de modo expresso:
“A nota promissória emitida pelos próprios prepostos da exequente, em decorrência de procuração a eles
outorgada pelo devedor, segundo o contrato de adesão, não serve de sustentação para a execução, pois não pode ser
considerada como título executivo extrajudicial” (RT, 737:263-6).
Nem se cogite de qualquer possibilidade disciplinada anteriormente à vigência do Código de Defesa do
Consumidor, porque se trata de cláusula leonina, de cunho sibilino, que dispensa tratamento desigual, desequilibrando
a isonomia que seria salutar, pendendo o negócio para o economicamente mais forte. Enfocando o tema de forma
precisa, o Tribunal de Justiça de Goiás delineou o seguinte ponto de vista:
“A disposição da Lei 8.078/90, Código de Defesa do Consumidor, que declara nula cláusula contratual leonina
que permite a emissão de cambial por procurador do contratante, tem aplicação imediata, alcançando inclusive
contratos firmados anteriormente ao advento, não havendo que se falar em direito adquirido ou escudar-se atrás do
princípio do pacta sunt servanda” (RT, 739:360-2).
De modo parelho, também se faz comum na abertura de conta, mormente de pessoas jurídicas, a sujeição ao
procedimento que busca uma imediata aplicação financeira, circunstância essa destoante da realidade inerente à
operação, cuja finalidade é proporcionar à instituição financeira interesse maior dentro das dificuldades enfrentadas
pelo correntista-empresário.
Visualiza-se, pois, uma conotação que financeiramente se mostra propensa à instituição, que, naquela situação,
descapitaliza o futuro cliente e se mune de cautelas acima das necessárias.
A clareza do pensamento resta manifesta a partir da Portaria n. 3, de 15 de março de 2001, da Secretaria de
Direito Econômico, em fina sintonia com o código do consumidor bancário, oferecendo garantias, restringindo o raio
de ação das instituições, evitando lesividade e desequilíbrio contratual.
Em consequência, as premissas que elucidam o negócio jurídico subjacente reacendem a liberdade consistente
na autonomia, impedindo que a instituição se valha de cambial em branco assinada previamente pelo cliente,
acionando o devedor na caracterização de sua mora.
O deslocamento da emissão por empresa coligada ou que tenha alguma participação, de modo parelho, não elide
a impossibilidade da cobrança, porquanto presente vício que macula o título ab ovo, impondo sua desconsideração,
ausente liquidez e correlatamente certeza.
Nessa esteira, o Código Civil atual denomina a boa-fé objetiva das partes, na manutenção do justo equilíbrio do
contrato, sem onerosidade ou excesso que leve à lesividade, motivo pelo qual não há necessidade de o credor agir
em nome do devedor, ou aparentemente se cercar de inúmeras garantias supérfluas.
Aos contratos celebrados anteriormente à entrada em vigor do Código Civil aplica-se o direito intertemporal
consagrado no art. 2.035, quando fala na produção dos efeitos depois da regra do mencionado diploma legal,
resvalando no art. 2.045 das Disposições Finais e Transitórias do estatuto civil.
Com razão, os contratos pretéritos, cujos efeitos serão produzidos sob o ambiente do atual Código Civil, seguem
a mesma disciplina e própria eficácia, no sentido da adaptação ao equilíbrio e proteção ao aderente, tido por
consumidor na relação bancária.
Se houver oneração excessiva da prestação, nos termos do art. 478 do Código Civil, válida será a resolução do
contrato e a decisão retroagirá seus efeitos à data da citação.
Decorre maior controle da atividade pelas entidades que defendem os interesses do consumidor, do sistema, por
força da transparência e da pressão havida para uma aplicação de taxas e encargos correspondentes à realidade do
tomador.
A participação de entidades que representam os interesses dos consumidores tem sido uma constante nas
demandas de natureza coletiva, de tal forma a espelhar uma dinâmica global que atinja os contratos de adesão e
reduza os conflitos existentes.
De fato, o interessado, ao tomar pé da situação, não conhece o enorme descompasso das variantes aplicadas às
taxas de juros, capitalização e demais encargos, quedando-se moroso.
Na interpretação do Código Civil, e a incidência da relação de consumo, conforme manifestações do STJ e do
STF, aguarda-se polemização mais adiante no sentido de encarar um lineamento comum que atenda aos reclamos
dos mutuários e às exigências do sistema financeiro para que os spreads não oscilem e o Banco Central dinamize
com eficiência taxas compatíveis com o desejado crescimento.

64. Modalidades
A abertura de crédito pode ser qualificada levando-se em conta dois critérios: o da movimentação contábil e o da
garantia. Sob o primeiro aspecto, ela pode ser: simples ou em conta corrente.
I — Na simples, o creditado se limita a retirar as importâncias à sua disposição, em uma ou várias vezes, sem,
contudo, fazer qualquer cobertura ou reposição: “Na abertura de crédito simples, o creditado tem a faculdade de
retirar fundos até o limite concedido. O creditador não é obrigado a receber o reembolso total ou reembolsos parciais
antes do vencimento do contrato”136.
“Na abertura simples, tem o creditado direito a utilizar o crédito sem possibilidade de reduzir parcialmente, com
entradas, o montante da dívida137.”
Na abertura de crédito em conta corrente, a par das retiradas que faz, pode o creditado efetuar reposições, de
molde a restabelecer a disponibilidade em seu favor: “A abertura de crédito é em conta corrente quando o creditado
pode utilizar várias vezes o crédito e, com sucessivas reposições, repristinar a disponibilidade”138.
“Mas, se abertura de crédito é acompanhada de conta corrente, o creditado goza da faculdade de efetuar
entradas parciais, quer em espécie, quer em títulos comerciais circulantes, como de letras de câmbio, notas
promissórias, cheques etc., endossando-os ao banco creditador, sendo definitivamente apurados quando cobrados, e
pode, na vigência do contrato, reclamar novos adiantamentos até o valor do crédito aberto. Terá ao mesmo tempo
conseguido o serviço de caixa e diminuído o encargo dos juros, se dispuser de valores para levar a seu crédito139.”
“Na abertura de crédito conjugada à conta corrente, o creditado tem o direito de efetuar reembolso, utilizando
novamente o crédito reintegrado140.”
II — Quanto à garantia, a abertura de crédito pode ser: a descoberto e garantida.
Na abertura de crédito a descoberto, por caixa ou em branco, o banco se louva exclusivamente na confiança que
o creditado lhe inspira.
“Neste caso, a base do negócio é a confiança entendida como ponderada valoração da situação objetiva e
subjetiva do creditado, enquanto o banco confia nas suas solvabilidade e correção, sendo a única garantia, em
concurso com os outros credores, o seu patrimônio. O crédito a descoberto é concedido normalmente a
comerciantes que vendem sob fatura, cujo preço é realizado em dia, ou a industriais que têm necessidade de capitais,
para a aquisição das matérias-primas e a manipulação dos produtos141.”
É verdade que, frequentemente, o banco exige promissórias para a recuperação ou desmobilização de seu
eventual crédito; mas, como bem assinalou Giacomo Molle, elas não representam nenhuma ulterior garantia àquela
pessoal do próprio creditado, único signatário dos títulos, porém permitem ao banco viabilizar a recuperação das
somas entregues ou desmobilizar o seu crédito.
Abertura de crédito garantida é aquela acompanhada de garantias reais (hipoteca, penhor) ou fidejussórias (aval,
fiança). As garantias podem ser oferecidas tanto pelo próprio creditado como por terceiro a favor dele, podendo ser
isoladas ou cumulativas.
Importante precisar o momento em que deve estar presente a garantia, isto é, quando deve nascer e se extinguir.
“O que a garantia cobre é o débito que se constitui com os simples atos de utilização, seja na abertura de crédito
simples ou em conta corrente, porque, inseparável a tais atos, esta cobre todos os créditos que surgem em execução
do contrato, ainda que dependente de atos de utilização subsequentes ao repristino da disponibilidade. Tendo, porém,
o banco direito à restituição das somas utilizadas somente no encerramento da conta, qualquer que seja o modo pelo
qual tal encerramento aconteça, a garantia se torna atual no momento de tal encerramento e sobre o saldo a débito
do creditado.
Tem-se, pois, uma garantia para um débito futuro142.”
Assim, pois, a garantia deve preexistir ao surgimento do débito, que ocorre com a efetiva utilização das quantias
pelo creditado.
Quanto ao termo final da garantia, tem-se que “essa não se extingue antes do fim da relação jurídica principal,
pelo simples fato de que o creditado deixe de ser devedor do banco. Não tem relevância o fato de que, durante o
curso da relação, as retiradas sejam reduzidas ou igualadas, ou mesmo superadas, por sucessivos suprimentos, os
quais, tendo o efeito de repristinar a disponibilidade, não implicam a extinção da própria relação”143, ensina Giacomo
Molle, com base no art. 1.844 do Código Civil italiano. No mesmo sentido está a doutrina pátria:
“A garantia, real ou fidejussória, não se extingue senão quando cessa a relação principal. Permanece íntegra até
se extinguir o contrato, prestada, como é, para assegurar o pagamento de débitos cujo montante somente se define
no momento da extinção. Pouco importa, assim, que o creditado efetue reembolsos para recuperação da
disponibilidade; a garantia real não se reduzirá proporcionalmente”144.
Com razão, uma coisa é o caráter leonino que se faz sentir na abertura; outra distinta é a estipulação da garantia,
que se destina a preservar a relação do crédito e, diante do seu inadimplemento, permite que a instituição financeira
exija a importância constante da obrigação.
O Superior Tribunal de Justiça, analisando o assunto, teve a oportunidade de ferir um ponto de suma finalidade
prática, da maneira contida na dicção da ementa oficial disposta:
“A doutrina firmou-se no sentido de que a autonomia do título de crédito não se abala pelo fato de estar preso a
contrato. Assim, não se teria inexecutável a cambial ao argumento de que esta esteja presa a contrato de abertura
de crédito, eis que também o entendimento pretoriano realça a sua autonomia e executoriedade, ostentando sua
eficácia no direito material que regula quanto a sua constituição e for​ma​​lidades extrínsecas” (3ª T., REsp 77.115-PE,
Rel. Min. Waldemar Zveiter, RT, 739:227-8).
Entretanto, insta ponderar que a Súmula 258 do STJ determinou a seguinte visão acerca do assunto:
“A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomia em razão da iliquidez do
título que a originou”.
Consequentemente, tem sido o contrato de abertura de crédito, com o demonstrativo de débito, mero instrumento
hábil à propositura de ação monitória (Súmula 247 do STJ) e desprovido de executoriedade, faltante sua
imprescindível liquidez.
Abraçado o procedimento monitório pelo credor, na expectativa de cobrança do valor fruto da operação
bancária, evidenciando de forma clara e segura as importâncias que revelam o inadimplemento, e diante do rumo
permeado na sua plasticidade, nada impede que se estabeleça uma revisão plural do contrato no ajuste desde o
nascimento do negócio jurídico subjacente.
Na realidade, essa situação poderia fazer parte da defesa do devedor ou até mesmo da reconvenção, sendo
cabível no procedimento monitório, convertendo-se em rito ordinário, na dicção da Súmula n. 292 do Superior
Tribunal de Justiça.
Delimitada a matéria e reputando o devedor ter eventual diferença numa prestação de contas ainda que indireta,
nada inibe que seja feita por intermédio da reconvenção, aparando arestas e definindo de forma singular a realidade
contratual.

65. Utilização
De várias maneiras pode o creditado utilizar-se do crédito posto à sua disposição, condicionadas às necessidades
de seu relacionamento. Em se tratando de contrato, a matéria deve ser prevista no instrumento respectivo: “A
abertura de crédito tem larga amplitude. Tudo depende da vontade dos contratantes. Assim, o crédito aberto pode
ser utilizado de acordo com as modalidades indicadas no próprio contrato e aconselhadas no negócio moderno, entre
os quais podemos enumerar: fornecimentos diretos pelo creditador ao creditado, ordinariamente retirados por meio
de cheques; saques deste contra aquele, obrigado a honrá-los, aceitando pagamentos por conta do creditado,
prestação de garantia, inclusive aval, provisão de fundos para o desempenho do mandato ou comissão”145.
“A utilização do crédito faz-se pelo modo convencionado etc.” 146, do que se dessume da doutrina, na ausência
de texto expresso de lei, que não se admite qualquer outro modo de utilização do crédito afora os previstos no
contrato. Mesmo o direito positivo consagrado no atual Código Civil parece ater-se ao rigorismo contratual, quando
se refere às formas de obrigação que podem ser assumidas pelo creditador, cuja redação do antigo projeto (art. 877,
parágrafo único) acabou supressa. Há quem entenda, contudo, que: “No silêncio do contrato, o creditado somente
fará jus à prestação pecuniária, o dinheiro”147.
A doutrina estrangeira controverte a respeito. No sentido da estrita observância dos termos contratuais estão
Rodière e Rives-Lange: “A convenção precisa o objeto do engajamento do banqueiro, isto é, as operações de crédito
futuras; ela determina a natureza destas operações: empréstimo, descoberto em conta, desconto etc. O cliente não
pode exigir que o banqueiro lhe conceda um crédito sob uma outra forma não prevista pela convenção: o que é
prometida, com efeito, é uma categoria de operações de crédito e não um crédito sob uma forma indeterminada”148.
Giacomo Molle, porém, desenvolve mais longamente a matéria, oferecendo, a nosso ver, solução mais
consentânea com as necessidades técnicas e as exigências jurídicas: “Como se disse, o contrato confere ao
creditado o direito de utilizar o crédito, segundo determinadas modalidades. Tais modalidades são remetidas ao
pactuado pelas partes, de modo que a norma do art. 1.843, que faz referência às ‘formas de uso’, tem uma função
meramente supletiva. Não sendo, porém, frequente que as partes convenham como o creditado possa utilizar o
crédito, é importante verificar o que o legislador entendeu falando de ‘formas de uso’”149.
E depois de entender o que o texto legal quer significar, com a expressão “usos”, praxe bancária, conclui o
referido autor: “Nesta situação, retenhamos que, além obviamente dos pagamentos diretos em dinheiro, e dos
lançamentos a débito pelas mais diversas causas, entram nas ‘formas de uso’, assim entendidas, os pagamentos a
terceiros por ordem do creditado, recebendo assim aplicação o quanto disposto no art. 1.289 do CC, que obriga
aquele, que seja delegado, a pagar a um terceiro, a aceitar o encargo, se existir um uso nesse sentido”150.
Destarte, quando o modo de utilização do crédito à disposição não estiver previsto no contrato, dele poderá
lançar mão o creditado, desde que conforme os usos e costumes bancários. Assim, é consentânea com a praxe
bancária a utilização da abertura de crédito para os seguintes fins: entrega efetiva de dinheiro; pagamento de
cheques sacados pelo creditado; pagamento de dívidas deste, representadas, principalmente na atualidade, por
carnês; aceitação de letra de câmbio em que o creditado conste como tomador, para facilitar o seu desconto em
outro banco ou praça; prestação de aval ou fiança ao creditado.
A diversidade que marca o contrato de abertura de crédito em conta corrente deflui de diversas peculiaridades,
de acordo com a necessidade circunstancial da operação e da sua consecução. Dito isso, para que se apresente de
forma a levar à execução, insta que a credora mostre transparência, exibindo os extratos comprovando as
respectivas diretrizes do negócio.
Secundados pelo entendimento vigorante, os Tribunais sustentam a permanente realidade de título executivo
extrajudicial, posto que acompanhado dos extratos e saldos (RT, 704:125, 722:250 e 730:195).
Não se desconhece, por outro lado, posicionamento diferente, por não estar ao alcance da instituição financeira a
faculdade de criação dos seus títulos (RT, 734:488), onde se afastou a executoriedade haurida no contrato e nos
documentos alicerçados na vestibular.
As disposições sumulares do Superior Tribunal de Justiça, estreme de dúvida, alcançam o norte no sentido de
infirmar a natureza executória do contrato de abertura de crédito em conta corrente, sedimentando a diretriz de
obrigação passível de cobrança, inclusive pela via monitória.
Salutar a diretriz, porquanto espanca o dissenso e melhor orienta na costumeira necessidade da aplicação da
norma ao caso concreto, evitando assim discussão inócua sobre o principal e acessórios da obrigação.
Destarte, abstraída a possibilidade do manejo da execução da obrigação impaga, resta ao credor acenar com o
procedimento monitório ou simplesmente a cobrança, alicerçando para tanto o demonstrativo de débito capaz de ser
compreendido e timbrando a operação como um todo.
Essa circunstância poderá ser trazida à baila por meio da exceção de pré-executividade, independentemente de
garantir ao juízo, mostrando o devedor a inexistência de título executivo destinado à cobrança, mas percorrendo a via
processual adequada (ação monitória ou ordinária de cobrança).

66. Extinção
De várias maneiras se extingue o contrato de abertura de crédito:
I — se celebrado por tempo determinado, pela superveniência do termo;
II — se por tempo indeterminado, mediante notificação de qualquer das partes, revelando seu intento;
III — pela insolvência ou falência do creditado, que acarretam o vencimento antecipado da dívida e sua
exigibilidade (Lei de Falências n. 11.101/2005, art. 77);
IV — pela morte ou incapacidade superveniente do creditado, dado o caráter intuitu personae do contrato;
V — pela ocorrência do factum principis, isto é, quando o banco não possa, por causa objetiva a ele estranha,
cumprir a prestação, como, por exemplo, no caso de proibição do Banco Central;
VI — pela falta de pagamento de juros e comissões, pelo creditado, nas ocasiões previstas;
VII — pela exaustão do crédito causada pelo uso total que o creditado dele fez;
VIII — pela falta de efetivação da garantia prometida, ou pelo perecimento da ofertada.
Inequívoco que o fator determinante da extinção se divide naquele de cunho natural e numa circunstância
envolta na dinâmica do negócio, com a própria intenção que resulta da manifestação de vontade das partes
interessadas. De qualquer maneira, o seu panorama espalha efeitos tanto em relação ao cliente como propriamente
no tocante à instituição financeira, diante da causa provocando a ruptura do negócio e delimitando o retorno ao
estado anterior ou no pressuposto do inadimplemento, utilizada a via adequada colimando a cobrança.
A má utilização do crédito concedido em conta corrente, por si só, não autoriza o encerramento do contrato
estipulado, mas é preciso que se demonstre à instituição a falta de capacidade inerente ao cliente na assunção de
sua responsabilidade, não significando a tomada de posição ao arrepio da legislação.
Dessa performance assinale-se que não é dado a instituição financeira, sob o argumento de estar negativa a
conta, proceder ao desconto dos vencimentos do correntista ou pugnar na circunstância divisada pela ruptura do
contrato.
Nesse diapasão, salutar invocar os julgados que desenham a perspectiva de maneira específica, dando disciplina
própria ao tema, na sua concatenação, em que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal salientou ser indevida a
retenção de vencimentos do devedor pelo banco credor, valendo-se da inteligência dos arts. 6º, LIV, e 7º, X, da
Constituição Federal (RT, 737:342-5), e, ainda, de se consignar o perfil tonificado pelo Primeiro Tribunal de Alçada
Civil de São Paulo, sustentando que a simples mantença de saldo negativo não enseja o pedido do banco no
vencimento antecipado do contrato, com o respectivo encerramento da conta, mormente se for de empresa que faz
uso do cheque especial, cuja finalidade é a de cobrir despesas acima do limite normal dos saques (RT, 740:304-5).
Inexoravelmente, a pressão feita pela instituição financeira não pode ser isolada do contexto do contrato e das
situações que comportaram eventual descumprimento, podendo ser prestigiado o acontecimento que marca a sua
rescisão fundada em fato denotador do inadimplemento, sem exteriorizar cláusula leonina ou excessivamente
prejudicial, desvinculada do equilíbrio desejado a pontuar o contrato, ainda que seja de adesão.
Imprescindível assinalar, fruto da Portaria n. 3 da Secretaria de Direito Econômico, datada de 15 de março de
2001, regulando o art. 51 do Código de Defesa do Consumidor, dupla situação de realce: a primeira concernente à
impossibilidade de negativação do nome do devedor, enquanto perdurar a discussão judicial; a outra no sentido de
evitar a interpretação do negócio, emprestando validade mediante o silêncio do consumidor.
Forçoso mencionar assim que a negativação dependerá simultânea e inexoravelmente do desenlace da ação
judicial, ao passo que o silêncio não convola declaração não prestada em contrato presumidamente proclamado pelo
consumidor.
Ambas as regras visam evitar abuso das instituições, ou de terceiros que recebem a incumbência da cobrança,
visto que é de respeitar o amplo contraditório na eliminação das incertezas, ademais para que se trave formal e
validamente o contrato é condicio sine qua non a manifestação de vontade livre e soberana.
Debrucemo-nos um pouco mais a fundo nas premissas que se referem à negativação e à contratação sem
expressa manifestação de vontade da parte interessada, dês que a matéria, com muita fluência, aparece nos litígios.
Concretamente, a negativação feita pelos órgãos encarregados, a exemplo do SPC e Serasa, não administra a
nesga de ilegalidade, ou irre​gularidade, na medida em que recebem e processam os dados que lhes são fornecidos.
Nesse diapasão, por razão de convênio mantido entre o Poder Judiciário e órgãos de crédito, processada
demanda de cobrança judicial, o informe constante do registro do distribuidor chega ao conhecimento das entidades,
que o lançam nos respectivos cadastros, mas tal procedimento não confere à parte envolvida uma ação específica,
ou pretensão à retirada do próprio nome.
Cumpre distinguir o registro durante o curso da ação, que não deve ser mantido, e aquele feito por terceiro, a
pedido do credor, situação deveras distinta e que não pede remédio processual contra o sistema de registro dos
dados.
A contratação somente se aperfeiçoa com a livre manifestação de vontade, cujo silêncio não tem o condão de
celebrar o ato jurídico, mormente diante das condições e cláusulas ditadas pela parte economicamente mais forte,
acarretando prejuízo sem igual ao consumidor.
A formalização do contrato torna indispensável a manifestação de vontade, consubstanciando-se a prática de
aderir ao negócio e aperfeiçoar sua natureza em virtude do interesse, sendo o silêncio e a aceitação tácita exceções
à regra, mormente sobre o enfoque da relação de consumo e da Súmula 297 do STJ.
Com razão, a noticiada súmula foi um avanço que trouxe direto benefício e de modo indireto influenciou na
decisão do STF na direção da aplicação da relação de consumo na totalidade das operações bancárias.
Assim, não podem mais as instituições presumir o contrato no silêncio do aderente, muito menos utilizar do
expediente da remessa de cartões que não foram solicitados, ou de qualquer serviço inconsentido pelo cliente.
Estamos diante de uma nova realidade, cuja roupagem descortina o aperfeiçoamento das relações entre a
instituição e o consumidor final, a partir do enfoque mencionado pela forma interpretativa capilarmente a cargo do
STF.
12
OPERAÇÕES DE CRÉDITO DOCUMENTADO

Sumário: 67. Origem e importância. 68. Conceituação. 69. Natureza jurídica. 70. Modalidades. 71. Estrutura
e partes. 72. Obrigações. 73. Extinção das obrigações. 74. Transferência do crédito. 75. Regras e usos
uniformes relativos aos créditos documentados.

67. Origem e importância


Se atentarmos para os riscos que oferece a compra e venda internacional, torna-se fácil compreender a origem e
a importância da operação de crédito documentado ou documentário, tanto para o exportador (vendedor) como para
o importador (comprador). O primeiro se depara, “além do risco comercial ordinário (insolvabilidade do comprador),
com os acontecimentos políticos (nova legislação aduaneira, revolução), naturais (inundações), monetários
(desvalorização da moeda, falta de transferência de fundos), que são suscetíveis de privá-lo do recebimento de seu
crédito”151.
Da parte do comprador, “há o interesse de pagar só na medida em que ele esteja certo da boa execução do
contrato pelo vendedor”152.
A origem do crédito documentado “remonta à atividade dos merchant bankers, os quais operavam em Londres
já no século XVIII, intrometendo-se nos negócios de importações, com o obrigar-se perante o vendedor estrangeiro,
na vez e lugar do comprador nacional, por meio de cartas (commercial letters of credit ), que representavam uma
adaptação da carta de pagamento, que intervinha no contrato de câmbio, à assim chamada carta dos viajantes
(traveller’s letter of credit) já em uso na Idade Média”153.
Donde se verifica que o crédito documentado é operação bancária consistente em uma técnica que assegura o
cumprimento recíproco das obrigações na compra e venda internacional, eliminando os riscos do pagamento e da
entrega da mercadoria.
Diversas instituições financeiras acenam com a feitura do contrato de crédito documentado em valores elevados,
assegurando com isso a garantia do cumprimento da obrigação e mantendo o equilíbrio entre as partes na tradução
empresarial do próprio negócio.
Esses verdadeiros fomentos estimulam as relações internacionais e ao mesmo tempo permitem um ambiente de
confiança que se desenvolve com base na certeza do fechamento da operação.
Funcionando como terceiro garantidor da celebração do negócio, a instituição realiza o seu papel de aprimorar o
comércio exterior e concomitantemente manter linhas de crédito disponíveis à feitura das operações.

68. Conceituação
Segundo o texto das Normas e Usos Uniformes relativos aos Créditos Documentados, elaborado em Congresso
realizado no México, em 1962, e revisto em 1970 e 1974, entende-se pelas expressões “crédito documentário” e
“crédito” qualquer estipulação pela qual um banco (emitente), operando a pedido e conformemente às instruções de
um cliente (ordenante), é incumbido de pagar a um terceiro (beneficiário) ou à sua ordem, ou de aceitar ou negociar
letras de câmbio sacadas pelo beneficiário, ou de autorizar outro banco a fazer tais pagamentos, ou a pagar, aceitar
ou negociar tais saques, contra documentos convencionados e conforme termos e condições estipulados.
Acreditamos poder resumir da maneira seguinte o conceito deste ins​tituto: operação pela qual o banco, de acordo
com instruções do comprador de uma mercadoria, se compromete a pagar, por este, ao terceiro vendedor, contra a
entrega dos documentos, o respectivo preço.
Embora perfeitamente possível no comércio interno, tal operação ocorre mais na compra e venda internacional,
devido à distância que separa as partes, ao tempo necessário para a entrega da mercadoria e à diferença de
moedas.
Necessário frisar que a sinalização exportadora torna a cada dia mais próximo o efeito do comércio exponencial
da venda e compra, em que a participação da instituição é requisito fundamental.
De fato, a política governamental de incremento à exportação, mediante metodologia desburocratizante, pede
passagem ao aumento do afluxo de pleitos junto às instituições financeiras, no intercâmbio de moeda na concretude
de formatar a operação.
Essa circunstância poderá consubstanciar a ajuda na operação de venda ao exterior ou simbolizar o meio que
serve de recurso à instrumentalização do negócio, diante das condições objetivas, e na visão subjetiva que desenrola
a situação dos interessados.

69. Natureza jurídica


Várias são as teorias acerca da natureza jurídica da operação de crédito documentado, sendo que a dificuldade
que todas oferecem para sua aceitação consiste em pretenderem reduzir o instituto a uma modalidade contratual
única.
Assim, são formuladas as teorias da delegação novatória ativa (o vendedor substitui o comprador em sua posição
em relação ao banco); da delegação novatória passiva (o banco substituiria o comprador em sua obrigação para com
o vendedor); de cessão do crédito para com o banco de parte do comprador; de mandato de crédito conferido pelo
comprador ao banco. Porém, a sustentação que encontra maior número de seguidores é a da delegação cumulativa
passiva, porque se tem a atribuição ao credor (vendedor) de um devedor (banco), sem que o devedor originário
(comprador) seja liberado, com o ônus para o credor de não poder voltar-se contra o devedor, se antes não solicitou
o cumprimento ao novo devedor, doutrina essa perfeitamente respaldada nos arts. 1.268 e 1.530 do Código Civil
italiano. Mais recentemente, no direito italiano, sustentou-se que “a tese preferível é aquela que reconduz o crédito
documentário a um negócio plurilateral típico do direito consuetudinário e, assim, a um contrato sui generis, cuja
função causal é representada pela troca contextual do preço com os documentos preestabelecidos”154.
No direito positivo brasileiro, entretanto, inexiste qualquer dispositivo a respeito, sendo que, na omissão legal, nos
resta ver na operação de crédito documentado um feixe de contratos interdependentes: I — há um contrato de
compra e venda com pacto adjeto de pagamento por meio de banco, contra a apresentação de documentos; II —
um contrato de prestação de serviço baseado na abertura de crédito ou transferência de fundos entre o comprador e
o banco emissor; III — no crédito irrevogável, uma promessa inderrogável de pagamento do banco, ou de seu
correspondente, em favor do bene​ficiário; IV — mandato do banco emissor a seu correspondente.

70. Modalidades
As operações de crédito documentado podem ser de natureza diversa, conforme seu elemento essencial.
Destarte, temos o crédito revogável e o irrevogável; este, por sua vez, subdivide-se em confirmado e não
confirmado.
Crédito revogável, a teor das Normas e Costumes Uniformes relativos aos Créditos Documentados (art. 2º), é o
“que pode ser modificado ou cancelado a qualquer momento, sem prévio aviso ao beneficiário”. Ressalve-se, porém,
que, como a revogação só pode ocorrer após o recebimento do aviso, o banco emissor, no caso de cumprimento da
ordem por um seu correspondente, fica obrigado a reembolsá-lo.
A falta de garantias, tanto para o vendedor como para o banco emissor em caso de pagamento por
correspondente, faz com que essa modalidade seja desusada.
O crédito irrevogável é, ainda conforme o texto das Normas e Costumes Uniformes (art. 3º), aquele que
constituir para o banco emissor um compromisso firme:
— de pagar ou providenciar o pagamento do crédito, se este for disponível contra remessa de um saque, ou não;
— de aceitar os títulos, se o crédito for disponível para aceite do banco emissor, ou de assumir a
responsabilidade de aceite dos títulos e de seu pagamento no seu vencimento, se o crédito for disponível para aceite
de títulos sacados contra o ordenante ou outro sacado mencionado no crédito;
— de comprar/negociar, sem recurso contra os sacadores e/ou portadores de boa-fé, os títulos sacados à vista
ou a prazo, pelo beneficiário, sobre o ordenante ou qualquer outro sacado mencionado no crédito, ou de assegurar a
compra/negociação por um outro banco, se o crédito for disponível para compra/negociação.
Trata-se, pois, de modalidade de crédito que não pode sofrer contraordem, seja de parte do ordenante, seja de
parte do banco: “O crédito irrevogável prepara a máxima segurança para o beneficiário, porque, ao lado da
obrigação do adquirente da mercadoria, se põe, sem excluí-la, aquela do banco, a qual, pelo tempo de validade do
crédito, permanece empenhada em relação a ele, ou em relação a eventuais cessionários do próprio crédito, quando
lhe seja admitida a transferibilidade, a de retirar os documentos, exigidos no crédito”155.
O crédito irrevogável diz-se confirmado quando o banco correspondente, sito na praça do pagamento, se obriga
diretamente para com o beneficiário no sentido de fornecer-lhe a soma convencionada contra a entrega de
determinados documentos. Ou, consoante os Usos Uniformes (art. 3º, b), “quando um banco emissor autoriza ou
pede a um outro banco para confirmar seu crédito irrevogável e este último assim procede, esta confirmação
constitui, para o banco que confirma, e desde que as condições de crédito sejam respeitadas, um compromisso firme,
adicionalmente ao do banco emissor”.
O crédito irrevogável confirmado nasceu da exigência de um reforço de garantia de pagamento a ser oferecido
pelo correspondente do banco emissor: “A origem da confirmação do crédito irrevogável é de buscar-se na prática
inglesa dos tempos do predomínio da esterlina no comércio internacional. Quando, então, um operador americano
devia acertar uma importância em esterlinas, fazia emitir por seu banco uma carta de crédito irrevogável, realizável
junto a um correspondente de Londres; mas, não oferecendo a assinatura do banco americano suficiente garantia ao
exportador, tornou-se oportuno fazer confirmar o crédito por esse correspondente, o qual acrescentava seu empenho
àquele do banco americano; segundo a praxe americana, com efeito, quando intervém a confirmação do banco
correspondente, o beneficiário tem para consigo o empenho de dois bancos, daquele que emitiu a carta e daquele
que confirmou o crédito”156.
Chama-se crédito irrevogável não confirmado aquele em que não se verifica o empenho direto do banco
correspondente, que se restringe a notificar o beneficiário do crédito disponível a seu favor: “um crédito irrevogável
pode ser notificado ao beneficiário por intermédio de um outro banco (banco avisador), sem compromisso por isto”
(Normas e Costumes Uniformes, art. 3º, b).
Limita-se, pois, o banco correspondente a avisar o beneficiário da existência do crédito em seu prol: “Um banco
intermediário pode ser encarregado simplesmente de avisar (to advise, to notify) o crédito, isto é, de levar ao
conhecimento do beneficiário que foi aberto um crédito a seu favor por um determinado banco e em condições
determinadas; tem-se, então, um crédito irrevogável não confirmado e o banco avisador não assume qualquer
obrigação para com o bene​ficiário”157.

71. Estrutura e partes


A operação de crédito documentado se baseia fundamentalmente na carta de crédito, instrumento assinado pelo
banco, onde este, por conta de seu cliente comprador, se obriga para com o beneficiário vendedor a pagar, aceitar
ou negociar letras de câmbio, contra a entrega dos documentos convencionados (relativos à compra e venda em si,
os de transporte e seguro). A carta de crédito obedece a uma redação padronizada, devendo transcrever o nome e a
qualificação das partes, o valor do crédito e o modo de sua utilização, o prazo de validade, a relação dos documentos
a serem apresentados pelo bene​ficiário e demais condições contratualmente requeridas.
Partes no contrato de crédito documentado são: o ordenante (importador), o banco emissor e o beneficiário
(exportador); pode surgir uma quarta figura, que é o banco intermediário.
O ordenante é o comprador em prol do qual o banco intervém, abrindo um crédito realizável contra a entrega de
documentos relativos à mercadoria adquirida no estrangeiro.
Banco emissor é a instituição financeira que, mediante instruções do comprador (ordenante), comunica ao
vendedor (beneficiário), diretamente, ou por meio de um banco correspondente, ter à sua disposição, em sua agência
ou correspondente na praça do vendedor, uma determinada quantia em dinheiro, utilizável contra a apresentação de
documentos determinados, com a assunção, ou não, de obrigação própria para o pagamento das quantias, ou de
aceite das cambiais por ele sacadas, conforme o crédito seja irrevogável ou revogável.
O beneficiário é o vendedor (exportador) das mercadorias, em favor do qual o crédito é aberto, e que deve
apresentar os documentos convencionados ao banco emissor, a fim de receber o preço.
Como quem abre o crédito é o banco da praça do comprador, o qual nem sempre possui agência na praça do
vendedor, surge a necessidade da atuação de um banco intermediário. Este pode assumir dentro da operação de
crédito documentado os seguintes encargos: “O banco intermediário pode, logo de início, ter simplesmente por
missão transmitir a abertura de crédito ao vendedor, dando-lhe um caráter de autenticidade quanto à sua origem; ele
não subscreve qualquer empenho pessoal em proveito do vendedor; age como simples intermediário, mandatário do
banco que abre o crédito.
Este mandato de notificar a abertura de crédito se duplica com o mandato de realizar o crédito por conta do
banco emissor (mandato de pagar ou de aceitar a letra de câmbio emitida pelo vendedor). Aqui, ainda, ele não
subscreve qualquer empenho pessoal em proveito do beneficiário: ele realiza simplesmente o crédito por conta de
seu mandante.
Em seguida, quando o crédito aberto é irrevogável, o banco intermediário pode confirmar o crédito. Pela
confirmação ele se empenha pessoal e diretamente para com o beneficiário nos termos da abertura de crédito. Suas
obrigações são idênticas àquelas do banco que abriu o crédito irrevogável. O beneficiário de um crédito
documentado confirmado é, então, titular de dois empenhos bancários, diretos e autônomos um em relação ao outro:
o do banco que abre, o do banco que confirma”158.
A operação de crédito documentado se desenrola em três etapas: “Quando da conclusão da venda, o vendedor
exige e o comprador promete a intervenção de um banco (a convenção entre o comprador e o vendedor). Na
execução desta convenção, o comprador dá a ordem a seu banco para abrir um crédito documentado a benefício do
vendedor. Conformemente a esta ordem, o banco emite uma carta de crédito comercial (creditamento) a benefício
do exportador. Estas operações constituem a abertura de crédito documentado (a abertura do crédito documentado).
Na execução do contratado, o exportador organizará os diversos documentos solicitados e os remeterá ao banco.
Após a verificação dos documentos, o banco pagará ou aceitará a letra de câmbio sacada pelo exportador contra si
(a realização do crédito documentado)”159.

72. Obrigações
I — Do ordenante, comprador ou importador. A ele incumbe fornecer ao banco a provisão necessária para
que efetue o pagamento no exterior: “Normalmente, o ordenante, especialmente se for cliente ocasional do banco,
fornece ao mesmo tais fundos, a menos que esse já não os detenha por outro título (depósito, conta corrente
bancária, transferência de conta etc.)”160.
“A provisão pode ser também constituída de um crédito aberto para esse fim161.” Nesse caso incidem as regras
da abertura de crédito, ou seja, fica o ordenante sujeito ao pagamento da comissão bancária, ainda que não se utilize
do crédito. Feito o pagamento pelo banco, ou seu correspondente, no exterior, deve o ordenante reembolsar ao
emissor tudo o que este despende, no ato da retirada dos documentos, ou seja, o principal, comissão e despesas.
Pagará também juros, se tiver recorrido à abertura de crédito.
II — Do banco emissor. A este cabe proceder à abertura de crédito ou de conta, se se tratar de fundos
previamente fornecidos pelo cliente; notificar o beneficiário vendedor da existência da disponibilidade creditícia em
seu favor; pagar-lhe, ou prometer pagar-lhe; aceitar a cambial, ou descontá-la, se a operação de crédito for
irrevogável; assegurar-se, em qualquer caso, do exato cumprimento, de parte do vendedor, das obrigações para com
o comprador, examinando os documentos por aquele apresentados; entregar esses documentos ao ordenante,
mediante o reembolso do principal e despesas.
III — Do beneficiário. Cinge-se a obrigação do beneficiário a entregar em ordem ao banco emissor ou a seu
correspondente os documentos exigíveis na operação de crédito documentado.
IV — Do banco intermediário. Quando se torna necessária a intervenção deste, suas obrigações vão desde a
simples notificação, pagamento, aceite ou negociação da cambial em nome do banco emissor, quando age em nome
deste, até o empenho pessoal e direto, se se tratar de crédito irrevogável confirmado.

73. Extinção das obrigações


Tivemos oportunidade de dizer que a operação de crédito documentado consiste num feixe de modalidades
contratuais. Entretanto, a realização do crédito documentado propriamente dito ocorre no momento em que o banco
emissor, ou o intermediário, em troca dos documentos descritos no contrato e devidamente verificados, paga, ou
aceita a letra de câmbio contra ele sacada, ou desconta a sacada contra o comprador.
As demais relações contratuais se exaurem do seguinte modo:
I — Entre o banco emissor e o cliente ordenante . Quando aquele entregar os documentos relativos à
mercadoria a este, em se tratando de antecipação de fundos pelo cliente, ou de acordo com as normas que regem o
contrato de abertura de crédito, se for o caso.
II — Entre o banco pagador e o beneficiário do crédito. As obrigações do banco se extinguem no momento
em que paga o valor da compra, haja, ou não, saque de cambial contra si, ou quando desconta a cambial sacada
contra o ordenante comprador; o beneficiário do crédito, por sua vez, se exonera quando entrega os documentos
relativos à compra e venda, seguro e frete ao banco pagador.
III — Entre o banco intermediário e o banco emissor. Chega ao fim o relacionamento contratual quando o
primeiro entrega os documentos suprarreferidos ao segundo, e recebe dele o que despendeu.

74. Transferência do crédito


O crédito originariamente aberto pelo banco emissor em favor do exportador beneficiário, por ordem do
comprador importador, pode ser transferido ao fornecedor do exportador, garantindo-se, assim, um pagamento
seguro ao primeiro e a obtenção de crédito ao segundo. Entretanto, a medida depende de prévia convenção: “Um
crédito documentado é transferível apenas se foi estipulado, como tal, pelo banco emissor. Ele é então transmissível
uma única vez, no todo ou em diversas frações, sendo o fracionamento subordinado a que as expedições parciais
sejam autorizadas.
Para operar a transferência solicitada pelo primeiro beneficiário, o banco que deve realizar o crédito emite uma
segunda carta de crédito em proveito do fornecedor, chamado segundo beneficiário; trata-se de uma nova delegação
criando um direito direto em proveito deste segundo beneficiário, e não de uma cessão de crédito”162.

75. Regras e usos uniformes relativos aos créditos documentados


As operações de crédito documentado desenvolveram-se a partir da Primeira Guerra Mundial, quando os
exportadores norte-americanos passaram a exigir empenho dos bancos europeus por conta dos importadores
europeus. Sentiu-se, pois, a necessidade de uma regulamentação internacional da matéria. Assim, em 1920, por
ocasião da Conferência sobre crédito dos banqueiros de Nova York, 35 bancos adotaram regras comuns. Na
ausência de disposições legisla​tivas, os práticos elaboraram uma regulamentação. Fruto da Conferência realizada em
Viena, em 1933, surgiram as Regras e Usos Uniformes relativos aos Créditos Documentários, adotadas em muitos
países. O texto foi revisto pela Conferência da Câmara de Comércio Internacional, realizada em Lisboa, em 1951.
Finalmente, Congresso da mesma entidade, que teve lugar no México, em 1962, aprovou as Normas e Costumes
Uniformes para os Créditos Documen​​tários, em vigor presentemente com as revisões de 1970 e 1974.
Embora não tendo força de lei, os Usos Uniformes aplicam-se nos contratos em que as partes a eles fizeram
referência expressa; quando assim não seja, o texto é invocável a título de uso, quando não colida com dispositivo
expresso de lei.
O fortalecimento do mercado numa economia globalizada, com a respectiva flexibilização e regionalização dos
setores empresta validade à utilização das práticas que refletem o estágio avançado das relações comerciais, sem
esbarrar na previsão erigida na disciplina normativa, não é menos certo que cada ramo observa um conjunto de
regras que tem penetração na realidade subjacente da operação de crédito documentado.
Inegável reconhecer que se abriu um caminho vasto e largo que repercute sensivelmente na fronteira territorial,
abrigando margem crescente na importação de produtos, não apenas em função da situação monetária, mas fruto da
aproximação dos mercados, com o estabelecimento de condições e preços mais favoráveis.
A abertura não é estática, mas permanente e dinâmica, no relacionamento internacional com os mercados e
respectivos países, acarretando interferência na balança comercial, merecendo atenção do governo na fixação duma
política que seja condizente com a produção nacional e em nada atrapalhe a meta planejada de preservar
consolidada a posição da economia no cenário internacional.
Conclui-se nessa retrospectiva que a operação bancária está fundada no fator confiança e na situação agregada
à documentação na negociação entre importador e exportador, com as adversidades naturais e imprevisíveis que
podem desestabilizar o adimplemento da obrigação, razão forte e suficiente para que a instituição financeira exerça
seu poder no exato termo da contratação, saldando aquela importância no sentido de evitar qualquer alarde
prejudicial ao intercâmbio progressivo.
Criam-se linhas de crédito destinadas exclusivamente às exportações, alocando recursos vinculados às
operações realizadas pelas empresas de pequeno e médio porte, ao mesmo tempo que se enraízam os padrões de
importação no plano setorial e mundial, na profissionalização e capacitação de empresas exclusivamente
res​pondendo no aproximar as partes e facilitar a dinâmica do próprio negócio.
Questão interessante que se coloca à luz do novo código que regula a relação entre banco e cliente, na tipologia
de consumidor, diz respeito à possibilidade de o tomador do recurso se interessar pelo antecipado pagamento da
obrigação.
Conquanto o código bancário do consumidor priorize a dívida em moeda nacional, para efeito de permitir sua
liquidação antecipada, não é menos certo que em tempos de crise e forte oscilação cambial a incerteza e o grau de
risco do empresário se afiguram cons​tantes.
E dependendo do recurso empenhado na operação, na dicção do negócio, tudo implica uma mudança de rumo,
na medida em que a manifestação do devedor se apresenta desinteressante para a instituição credora, mormente no
compasso de espera do câmbio.
A reação primeira é concernente ao prisma genérico de toda e qualquer operação bancária, sem ambages,
donde se pode dessumir que o devedor de espécie em moeda estrangeira, por si só, não está descartado dessa
realidade.
Contando com recursos próprios e achando inconveniente aguardar mais tempo pelo agravamento da situação e
a instabilidade da moeda, nada inibe que o devedor antecipe o pagamento e obtenha um desconto, a teor do contrato
celebrado e do período cujo vencimento fora destacado para impor uma nova circunstância favorecendo a extinção
da relação obrigacional.
Se é certo que o tipo de operação experimenta uma relativa complexidade, d’outro ângulo, para obter liquidez e
segurança na continuidade do negócio, comporta ao exportador ter definida uma posição contratual, e na medida em
que consegue romper com o avanço da espiral de seu endividamento, tudo isso gera característica de cunho ditando
eficiência e maior competitividade.
Importante frisar, nesse sentido, que o texto relativo ao código bancário do consumidor simboliza a expressão de
liquidação antecipada nas operações de financiamento, obrigando os bancos ao desconto proporcional às parcelas
que seriam pagas parcialmente, conforme cálculo em valores atualizados.
Existe apenas um diferencial no cálculo, consoante o tipo de operação e sua abrangência do câmbio, para aplicar
um redutor e mostrar a respectiva vantagem de sua liquidação antecipada.
A par do Código que disciplina a relação consumerista, temos um outro que diz respeito à concretude do cliente,
para efeito de sua defesa, disciplinando o Banco Central por meio de resoluções e circulares, haja vista o interesse
de promover transparência e erradicar as dúvidas nas práticas bancárias.
Dessarte, não apenas o devedor, mas também o terceiro interessado podem antecipar o pagamento, nos moldes
do art. 304 do Código Civil em vigor, na conformidade da operação realizada.
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AS CARTAS DE CRÉDITO.OS CARTÕES DE CRÉDITO

Sumário: I — AS CARTAS DE CRÉDITO: 76. Conceituação. 77. Requisitos. 78. Espécies. 79. Relações
jurídicas. II — OS CARTÕES DE CRÉDITO: 80. Conceituação. 81. Integrantes. 82. Mecanismo. 83.
Espécies. 84. Extinção do contrato. 85. Uso abusivo do cartão de crédito.

I — AS CARTAS DE CRÉDITO

76. Conceituação
Sem preocupação quanto à definição, o Código Comercial fazia menção descritiva às cartas de crédito, no art.
264, atualmente revogado, como devendo “necessariamente contrair-se a pessoa ou pessoas determinadas, com
limitação da quantia creditada; o comerciante que as escreve e abre o crédito fica responsável pela quantia que em
virtude delas for entregue ao creditado até a concorrência da soma abonada”. Daí se dessume tratar-se de um
escrito pelo qual um comerciante manda a uma outra pessoa que ponha à disposição de terceiro certa quantia em
dinheiro, por prazo determinado ou não. Ou de documento pelo qual uma pessoa, chamada de subscritor, manda a
outra (pagador) que ponha à disposição de terceiro (tomador ou portador) quantia em dinheiro, dentro de um
determinado prazo.
Pressupõe a carta de crédito a distantia loci, porquanto o beneficiário se louva no crédito que o dador da ordem
goza em outra praça para aí receber o dinheiro de que necessita.
Embora o revogado art. 264 do Código Comercial ditasse a regra da carta de crédito passada por qualquer
comerciante, referido documento tem-se restringido à área bancária. Trata-se, assim, de ordem que um banqueiro dá
a seu correspondente de outra praça para que coloque à disposição de uma ou mais pessoas certa quantia, por
tempo determinado.
Como muito bem assinalou Fran Martins: “Para que seja concedida uma carta de crédito, pode o beneficiário
possuir ou não provisão no banco creditador. No primeiro caso, a abertura de crédito ficará vinculada à provisão e
em essência se desnatura o contrato, pois o banco nada mais faz do que autorizar aos seus correspondentes a
entrega de determinadas importâncias que estão em seu poder; aproxima-se, neste caso, a carta de crédito, mais a
uma ordem de pagamento do que a uma operação puramente creditícia. Quando, entretanto, o creditado ou
beneficiário não dispõe de provisão em poder do banco creditador dá-se uma abertura de crédito a seu favor, com a
diferença, apenas, de que esse crédito será usufruído em praça diversa daquela em que está sediado o banco,
entregues as importâncias por terceiros que não o banco creditador”163.

77. Requisitos
O art. 264 do Código Comercial, revogado pelo Código Civil em vigor, sem disciplina específica a respeito do
assunto, prescrevia que a carta de crédito: I — “deve contrair-se a pessoa ou pessoas determinadas”: o que significa
que deve conter expressamente o nome do creditado, não podendo ser ao portador ou à ordem. Destarte, não se
aplica a ela a disciplina dos títulos de crédito, sendo intransferível por endosso ou qualquer outro meio. “Elas se
constituem de simples documentos bancários que podem apresentar-se sob a forma de simples carta missiva”164.
II — “com limitação da quantia creditada”: se não houver “determinação do máximo, presumem-se meras cartas
de recomendação, sem responsabilidade de quem as escreveu”. A fixação do máximo opera como um direito do
beneficiário, e não um dever, porquanto: “A pessoa a quem o banco abre o crédito não se obriga a servir-se dos
fundos até esse limite máximo; não é mandatário de cobrança do creditador”165.
Não é de rigor legal a imposição do prazo de disponibilidade do crédito, entretanto, a prática bancária adota esse
requisito, que se considera como garantia para os contratantes.
Salutar ponderar que o documento relativo à carta de crédito serve de estímulo e propicia larga margem de
negociação nas operações, notadamente para assegurar posição e credibilidade na atividade.

78. Espécies
Considerando-se a finalidade a que atendem, as cartas de crédito classificam-se em duas espécies:
I — a comercial, que constitui o documento básico da abertura de crédito documentado do comércio
internacional (v. n. 71, supra): “Neste tipo de letra de crédito, o banqueiro se obriga a aceitar ou a pagar uma letra
de câmbio sacada sobre si pelo terceiro, sob reserva de que certas condições sejam preenchidas”166.
II — a turística, que consiste no pedido que o banco faz a um de seus correspondentes para colocar fundos ou
abrir crédito a seu cliente. “É mais um instrumento de transferência de fundos a distância, pouco usado aliás, do que
um instrumento de crédito propriamente dito”167.
Haveria, ainda, uma terceira espécie — a carta de crédito confirmada, mas não passa de modalidade da letra de
crédito comercial. Quanto ao destinatário da ordem, essa pode ser: simples ou individual, quando é endereçada a um
correspondente único; e circular ou open, isto é, dirigida a uma rede de correspondentes, cujo rol é entregue ao
cliente.

79. Relações jurídicas


Quatro tipos de relações jurídicas existem na carta de crédito: I — entre o banco emissor e o cliente subscritor;
II — entre o banco emissor e o terceiro beneficiário; III — entre o portador da carta de crédito e o banco
correspondente; IV — entre o banco emissor e o correspondente.
I — Relações entre o banco emissor e o cliente subscritor. A carta de crédito pode ser emitida com ou sem
prévio fornecimento de fundos pelo cliente, ocorrendo, nesta segunda hipótese, uma abertura de crédito.
II — Relações entre o banco emissor e o terceiro beneficiário da carta de crédito . A obrigação do emissor
é, em princípio, revogável, como acontece em toda abertura de crédito, a não ser que se trate de crédito irrevogável,
quando terceiro adquire um direito direto para com o banco emissor.
III — Relações entre o portador da carta de crédito e o banco correspondente . Tratando-se de crédito
confirmado, o correspondente deve cumprir sua obrigação; se não for confirmado, o beneficiário nada poderá exigir
diretamente do correspondente, mas com a faculdade de exercitar as ações que incumbiram ao banco emissor
contra este.
IV — Relações entre o banco emissor e o correspondente . Regulam-se pelo contrato de mandato, mas, no
caso de assunção de obrigação direta do correspondente para com o beneficiário, não pode ele opô-las a este último.
O correspondente deve ser reembolsado pelo emissor.

II — OS CARTÕES DE CRÉDITO

80. Conceituação
Larga faixa de consumidores é constituída de assalariados, que recebem seus vencimentos em única e
determinada ocasião do mês, pelo que sua disponibilidade em matéria de dinheiro de contado pode sofrer oscilações
de molde a não permitir a pronta aquisição de bens e serviços.
Houve um salto de qualidade, e vertiginoso, no uso de cartão de crédito, tanto pela administradora como pelos
bancos, ou ainda aqueles típicos de empresas que privilegiam seus fornecedores e identificam a respectiva clientela,
na medida em que a parte substancial faz suas operações por meio do magnético e com isso tem a possibilidade de
dividir em várias parcelas, dando fôlego e terminando a dúvida sobre a solvabilidade, já que a responsabilidade se
transfere entre o aderente e o fornecedor da linha creditícia, no limite de contratação.
O ambiente da sociedade de consumo encontra facilidades na oferta de crediário, com a pluralidade de cartões,
visando não apenas aumento do leque em prol do aderente, mas a perspectiva de inserção de datas distintas, no que
concerne ao vencimento das faturas, provocando uma sensação maior do poder aquisitivo, notadamente quando a
massa dos assalariados encontra barreiras nos reajustes de vencimentos, funcionários públicos de modo semelhante,
ao lado dos percen​tuais do desemprego e das necessidades que se fazem presentes.
De todo ângulo, a familiaridade do cartão de crédito é de tal sorte que se cogita em implementar aquele de
natureza pré-datada, a exemplo do cheque, no aspecto de maior segurança, identidade dos dados e abertura mais
plural do mercado de consumo.
Concentrado na tipologia do cartão de crédito, passa o consumidor pela situação bastante plasmada na
concessão de valores, alcance da utilização, capital rotativo, saques, pagamentos, numa circunstância favorável e
bastante interessante ao aderente.
Por outro lado, a organização de crediários tem alcance limitado, cingindo-se ao âmbito de uma determinada
empresa. Com o intuito de atender às necessidades de financiamento do consumidor e, ao mesmo tempo, de garantir
ao fornecedor um reembolso seguro, surgiu o cartão de crédito, que, materialmente, constitui uma pequena peça de
matéria plástica, contendo o nome do emissor, o número em código do portador, a data da emissão, o período de
validade, o nome e a assinatura do portador, encerrando, porém, formalmente, um feixe de contratos, conforme
veremos adiante. O cartão, que identifica o portador, habilita-o a adquirir bens e serviços, para pagamento posterior
a ser efetuado por terceiro. A essas comodidades acrescentaram-se ultimamente as de retirar fundos em bancos e o
gozo de um seguro de vida pelo portador.
O uso significativo dos cartões de crédito começou nos Estados Unidos na década de 20, emitidos por grandes
empresas comerciais (magazines, cadeias de hotéis, companhias petrolíferas) para assegurar a constância de certos
clientes, oferecendo-lhes facilidade de pagamento. Entretanto, em sua feição definitiva, tais quais hoje são
conhecidos, os cartões de crédito surgiram nos Estados Unidos na década de 50 (Diners Club e American Express),
permitindo a aquisição a prazo de bens e serviços no setor de hotelaria, turismo e transporte. Nos fins da década
(1958-1959), os bancos ingressaram no sistema com a emissão dos cartões bancários: “esses cartões de crédito de
origem bancária apresentam uma dupla vantagem. De uma parte, permitem ao portador conseguir uma gama de
bens muito extensa e merecem seu nome de cartões universais. De outra parte, o banco emissor mantém igualmente
a conta de depósito ou a conta corrente do cliente e se reembolsa por débito de conta; o mecanismo é
simplificado”168.
Dos Estados Unidos, o uso dos cartões de crédito transplantou-se para a Europa e daí para todo o mundo. No
Brasil, foram introduzidos na década de 60, propiciando hoje a aquisição de uma grande série de bens e serviços a
prazo, além da disponibilidade de fundos em bancos.
Pela descrição supra, podemos chegar a conceituar o cartão de crédito como um documento comprobatório cujo
titular goza de um crédito determinado perante certa instituição financeira, o qual o credencia a efetuar compras de
bens e serviços a prazo e saques de dinheiro a título de mútuo.
Essas operações se efetuam em observância a um feixe de contratos, conforme veremos adiante.

81. Integrantes
O sistema de cartão de crédito compreende o emissor, o titular do cartão ou aderente e o fornecedor.
O emissor, geralmente uma instituição financeira lato sensu, ou banco, é intermediário entre o titular do cartão e
o fornecedor de bens ou serviços, possibilitando a aquisição destes por aquele. O emissor, em troca de um
determinado percentual, se compromete a efetuar os pagamentos pelo titular do cartão.
O titular, beneficiário ou aderente é aquele habilitado pelo emissor a se utilizar do cartão para suas aquisições de
bens ou serviços. Sendo individualizada essa habilitação, torna-se inviável a emissão em nome de pessoa jurídica, a
não ser que esta designe uma pessoa física para utilizar-se do cartão, o que, evidentemente, faz desaparecer o
interesse na emissão em tais moldes. Ademais, o uso do cartão de crédito veio ao encontro de necessidades
eminentemente pessoais do titular: “O titular deve usar o cartão apenas para suas necessidades pessoais e dos
membros de sua família”169.
“Um cartão de crédito é um documento nominativo que estabelece a abertura, pelo emissor, de um certo crédito
a seu proprietário170.”
Terceiro integrante do sistema do cartão de crédito é o fornecedor ou o vendedor de bens ou serviços, “que se
obriga a não recusar, honrar um cartão de crédito e a conceder o mesmo preço ao portador do cartão” 171. Entre o
fornecedor e o titular do cartão desenrola-se uma operação comum de compra e venda ou prestações de serviços,
com a diferença apenas de que a remuneração não é feita diretamente pelo adquirente, mas pelo emissor do cartão,
que mantém um contrato com o fornecedor, nesse sentido. O adquirente, por sua vez, deve pagar ao emissor, e não
ao fornecedor, pelo que ele não é considerado devedor deste, não podendo opor ao banco as eventuais exceções que
tenha contra o vendedor.
A cada ano é de rigor a renovação automática do magnético, que se concretiza por meio da cobrança de taxa
que oscila conforme o tipo de cartão, vantagens e benefícios, ao lado do tempo de filiação, e os riscos projetados,
mas há ampla margem de negociação, pelo interesse de se manter o aderente naquela circunstância de recebedor do
crédito, preservando o serviço por mais tempo.

82. Mecanismo
Para a obtenção do cartão de crédito, o pretendente formula um pedido escrito ao emissor, no qual transcreve
uma série de informações de caráter pessoal e patrimonial, vindo, no verso da fórmula impressa, as cláusulas
contratuais que deverão vigorar entre as partes. A entrega do cartão pelo emissor induz sua aceitação ao pedido.
Pela aceitação das cláusulas preestabelecidas pelo emissor diz-se que se trata de contrato por adesão. Tem-se,
também, que o banco pode enviar espontaneamente o cartão a seu cliente, sendo que a aceitação por este último
decorre de sua utilização, ficando adstrito às cláusulas do contrato tipo do estabelecimento emissor, reproduzidas no
impresso publicitário que acompanha o cartão.
As administradoras de cartões de crédito costumam exigir dos clientes, a título de manutenção do sistema, uma
taxa anual, que geralmente é parcelada em três vezes; mas a partir do seu princípio, ao lado da finalidade, e na
análise constante do Código do Consumidor, tem-se que a despesa decorrente do uso somente poderia ser cobrada
em dois momentos distintos, a saber: na feitura do contrato de adesão e consequente emissão do cartão, ou no
respectivo vencimento de sua validade, caso contrário haveria um ônus sem contraprestação correlata.
Inegavelmente, o valor da taxa de anuidade, que custeia o tipo de serviço inerente ao cartão, oscilará em função
de alguns predicados, dentre os quais a assiduidade de uso, tempo do contrato, situação de bom pagador, e os limites
que são oferecidos, pretende-se assim significar a possibilidade de negociação entre a administradora e o cliente.
Natural que o usuário de longo tempo e com a menção de pagador pontual experimente algumas vantagens, e
taxa de anuidade é uma delas, na medida em que possibilita considerar a relação custo-benefício e o menor grau de
inadimplência.
No substrato visado e no divisar da matéria, as administradoras, expondo suas regras, procuram sensibilizar o
usuário em razão de valores e custos financeiros, mas é de levar em conta o concurso de fatores tonificando uma
circunstância que privilegie o bom consu​midor.
Hodiernamente, os cartões de crédito ganharam coloração especial e fazem parte da grande maioria das
compras e vendas, servindo mesmo para aquelas de financiamentos a médio e longo prazos, uma vez que o governo
esticou o período de validade no consumo de mercadorias e bens de serviço; em contrapartida os juros continuam
em patamares impraticáveis e prejudiciais aos gastos a prazo.
Ninguém poderia imaginar a grande utilidade e validade sem fronteiras dos cartões de crédito nas compras
eletrônicas e diversas operações, em que o usuário-aderente, mediante simples fornecimento dos dados, estabelece o
negócio jurídico, revestido de forma e característica, disponibilizando quanto à forma de pagar, cuja certeza e
segurança circundam o crescimento das atividades on-line.
No mundo da avançada tecnologia representada pelo progresso, impende ponderar que os contratos eletrônicos e
os negócios feitos na rede adquirem um crescente mercado, em que o uso do cartão de crédito é questão
imprescindível para a segurança dos atos de venda e compra.
Disponibiliza-se, por esse caminho, a tônica das vendas por intermédio de telemarketing, acelerando o acesso ao
consumo e com a respectiva segurança do instrumento de crédito emblematicamente repousando no cartão.
Encurtando as distâncias, minimizando os riscos, transportando produtos e serviços, os cartões de crédito
temperam a necessidade de consumo, e espalham seus efeitos, na circunstância de verdadeiramente plastificar o
termômetro que consolida o negócio e revitaliza a certeza da liberação do numerário no campo da operação
entabulada.
Consolidado o aparado, descansando na diversidade de negócios eletrônicos, consequência disso, um número
indeterminado de usuários que manuseia a rede diariamente tem a oportunidade, sem deslocamento, de efetuar
aquisições de bens e serviços, com inúmeras vantagens, atendendo aos requisitos do conforto, escolha da coisa e
prazo de entrega.
Importa considerar que grandes cadeias no exterior começam a operacionalizar os sistemas de vendas por meios
digitalizados, inclusive com a validade do reconhecimento da assinatura, donde o encarregado poderá, a gosto do
cliente, mediante uma câmera local, exibir o produto de maneira detalhada, a fim de se consumar o ato jurídico,
revelando atenção para se evitar reclamação e a impressão da coisa se houver necessidade de troca, defeito ou
algum litígio.
Comporta ainda assinalar que no perfil próprio do cartão não basta quantificar as despesas; os demonstrativos
que são remetidos ao cliente-consumidor devem especificar o local, a data e os preços, com a ressalva do envio com
data suficiente para exame e eventual impugnação, ao contrário do que vem acontecendo com algumas
administradoras, que remetem os documentos às vésperas do vencimento da fatura.
Constituindo-se o sistema de cartão de crédito num feixe de contratos, cumpre examinar as diversas relações
jurídicas entre as partes:
I — Entre o banco emissor e o titular. O emissor se obriga a pagar as despesas feitas pelo titular com o uso
do cartão, até um certo limite, ficando com o direito de ser reembolsado por esse. Daí decorrem duas
consequências: a) o portador não pode se opor a que o emissor pague ao fornecedor; b) ele não pode se recusar a
reembolsar o emissor alegando as exceções que teria contra o fornecedor.
Não é da essência do mecanismo do cartão de crédito que o emissor pague as despesas do portador, além do
convencionado, entendendo-se que tal atitude configura um mandato172.
Pelo encargo de pagar as despesas efetuadas pelo titular, o emissor tem o direito de receber deste uma
retribuição anual.
Pode também o emissor obrigar-se a abrir um crédito ao titular do cartão, ou seja, em vez de pagar-lhe as
despesas, fornecer-lhe dinheiro em espécie, o que lhe proporciona certa comodidade, principalmente quando se
tratar de suprimentos em outras cidades ou agências que não a sua. “Trata-se de um crédito revolving, que não
ultrapassa geralmente o triplo dos ganhos mensais, e é reembolsável por frações mensais iguais, no mínimo, a dez
por cento do débito em aberto173.”
Interpreta-se a obrigação de o emissor pagar as despesas do portador do cartão como resultante da promessa de
cessão do crédito que o fornecedor lhe faz. Dela o titular tem prévio conhecimento, equivalente à notificação a teor
do art. 397, parágrafo único, do Código Civil, no contrato assinado entre ele e o emissor.
Em conclusão, em troca da retribuição anual que lhe paga o titular, o emissor lhe fornece o cartão, mantém à sua
disposição um serviço de caixa, a fim de pagar as despesas tidas com o uso do cartão, eventualmente pode habilitá-
lo a saques em dinheiro em suas agências, além de credenciá-lo à aquisição de bens e serviços junto a fornecedores
determinados.
II — Entre o emissor e o fornecedor. O emissor assina um contrato com o fornecedor, pelo qual se obriga a
pagar as despesas efetuadas pelo portador, até um certo montante, independentemente de falta de provisão,
insolvência ou oposição do titular do cartão. Como o uso deste só pode ser feito perante um rol de fornecedores
selecionados, incumbe ao emissor indicá-los aos futuros compradores. Esse contrato entre o emissor e o fornecedor
tem uma duração determinada, sendo, entretanto, admissível a renovação por recon​dução tácita.
Consequentemente, o fornecedor se obriga a aceitar os cartões, efetuando as vendas ou prestação de serviços,
sem qualquer acréscimo no preço, dando quitação ao portador, no ato em que este assina a nota de venda ou
serviços. Cede seu crédito ao emissor, que o recebe do portador do cartão. Pelos serviços prestados pelo emissor,
tais como indicação de fregueses e pagamento dos débitos do titular do cartão, o fornecedor lhe paga uma comissão.
Cumpre ao fornecedor verificar a validade e autenticidade do cartão.
III — Entre o titular do cartão e o fornecedor. Vinculam-se eles por um contrato normal de compra e venda
ou de prestação de serviços, modificado, no que tange ao pagamento, pelo uso do cartão. Vimos que o fornecedor
cede o crédito que tem para com o portador do cartão ao emissor, em troca da promessa que este lhe faz de pagar
os débitos daquele. Trata-se, pois, de uma cessão condicionada, pelo que entendemos assistir razão a quem sustenta
que, “se por qualquer razão o emissor se recusa a pagar ao fornecedor, este poderá agir diretamente contra o titular
do cartão para se fazer pagar”174. Em contrapartida, remanescem íntegras as exceções que o comprador (portador
do cartão) tiver contra o vendedor (fornecedor) consequentes do respectivo contrato entre eles.

83. Espécies
Os cartões de crédito são de credenciamento ou de bom pagador e verdadeiros ou stricto sensu. Estes, por sua
vez, se dividem em não bancários e bancários. Os bancários podem ser: de pagamento e de crédito real.
I — Os de credenciamento não são propriamente cartões de crédito, na acepção que tem hoje o instituto, de vez
que habilitam seu titular a aquisições a prazo apenas em determinada empresa, que é a própria emissora.
II — Os cartões de crédito verdadeiros ou stricto sensu credenciam seu portador à compra de bens e serviços
numa plu​ralidade de empresas filiadas ao sistema.
Oferecem vantagens aos três integrantes do sistema: emissor, fornecedor e titular do cartão. O primeiro se
beneficia das comissões que percebe (uma pequena, fixa do portador, e uma proporcional, do fornecedor). Para o
fornecedor, o fato de o emissor (instituição financeira) assumir a obrigação de pagar constitui uma garantia. E o
titular do cartão aufere a comodidade de pagar apenas no fim do mês.
Os cartões de crédito não bancários são os emitidos por organizações outras que não os bancos (Diners Club
etc.), mas que não deixam de ser financeiras, porquanto fazem do crédito sua negociação principal.
O surto natural dos convênios com as instituições de crédito, notadamente para facilitar a confiança e tornar
segura a operação, trouxe à baila enorme evolução dos cartões com entidades não financeiras, como os clubes de
futebol, empresas, planos de assistência médica, e muitos outros, mais recentemente aquele que visa preservar a
imagem de Ayrton Senna, a projetar a grande penetração das mantenedoras desses empreendimentos, e minimizar o
uso do papel-moeda.
Elemento pontual que se agrega aos cartões não bancários é a perspectiva sempre direta de se angariar uma
clientela com o fornecimento de produtos a preços menores, conhecendo as características e exigências do
consumidor, fixando uma linha de proximidade entre o estabelecimento e o interessado em se valer de bens ou
serviços.
Correto ponderar que as grandes cadeias de lojas e áreas congêneres procuram fazer prevalecer a linha de
crédito consubstanciada no cartão do próprio estabelecimento, apresentando pontos de relevo não apenas pelos
descontos atribuídos aos produtos, mas em razão de se criar o hábito mais frequente da compra daqueles bens
oferecidos pelo interessado.
Somado ao ângulo de visão desenhado, tem-se também que os centros interessados estabelecem concorrência e
fazem promoções, concedem prêmios e brindes, na medida em que os cartões não bancários personalizados
sinalizam um perfil estreito e de confiança nas relações entre as partes dispostas nas respectivas operações.
Um punhado cada vez maior de cartões de crédito aflora na praça, e não raras vezes o consumidor possui
vários, não somente pela data de vencimento da fatura, mas para responder às necessidades prementes de consumo,
notadamente quando pretende sair do país, cuja facilidade no manuseio do cartão se lhe permite inclusive fazer
saques e demais operações que colocaram a moeda em segundo plano.
Já os cartões bancários constituem hoje os mais em voga, dividindo-se em: de pagamento e de crédito real. Os
de pagamento possibilitam a seu titular adquirir bens e serviços a pagamento diferido. Os de crédito real, além dessa
vantagem, asseguram o direito de sacar quantias em dinheiro determinadas nas agências do banco emissor.
Não se pode deixar de lado os cartões de fidelidade que se apresentam familiarizados com as empresas que
revestem sua imagem, aproximando a clientela, fomentando o consumo e abrindo forte espaço na oferta de regalias,
promoções, compreendendo um raio de ação significativo.
Considerando a tendência que marca a desconfiança no uso do cheque e demais meios de pagamento, suscitam
os cartões de crédito flexibilidade correspondente à técnica de segurança e limites ao crédito que modelam as
operações.

84. Extinção do contrato


O contrato entre o emissor e o portador do cartão é celebrado por tempo determinado, constante do documento,
admitindo-se a renovação por recondução tácita, caso em que uma nova peça deve ser expedida. Extingue-se o
contrato antes do prazo fixado toda vez que o portador não gozar mais da confiança do emissor, por não cumprir as
suas obrigações, tais como não reembolsar nas ocasiões previstas ou fazer uso indevido do cartão, sendo que o
banco pode retirá-lo e pôr fim à avença. É óbvio, também, que outros eventos respeitantes ao estado e à capacidade
do portador podem antecipar o fim do contrato, como morte, interdição, falência.
A perda antecipada de vigência do cartão não prejudica direito adquirido de terceiros (fornecedores), que devem
ser pagos pelo emissor, se anteriormente feitas as aquisições; o mesmo ocorre se o uso do cartão foi feito
posteriormente à resilição, se esta não foi oportunamente notificada ao fornecedor.
De sua parte, o titular pode, unilateralmente, resilir o contrato, mesmo inexistindo justa causa, renunciando aos
benefícios do cartão antes do prazo de sua vigência, uma vez que este é instituído a seu favor.
A insegurança e o cometimento de ilícitos nos grandes centros urbanos obrigam à contratação de um seguro,
cujo valor é descontado mensalmente, para efeito de furto do magnético, ou até mesmo de seu roubo; resta saber se
responde o aderente na hipótese de despesas efetuadas em sintonia com a comunicação havida.
Nesse diapasão, necessário pesquisar o teor da boa-fé objetiva e os aspectos delimitados pela comunicação à
administradora para mapear o bloqueio; porém, despesas constantes dentro do mesmo estabelecimento e com
intervalos mínimos de dias, naturalmente, levam à irregularidade da liberação do cartão na consulta, daí por que se
exime o aderente subsistindo a responsabilidade da administradora.
Ademais, forte no sentido esclarecido, sem qualquer margem à dúvida, trata-se de cogitar do limite do crédito
concedido, para que se estabeleça eventual conivência do estabelecimento empresarial, haja vista ultrapassar a soma
contratada.

85. Uso abusivo do cartão de crédito


Pode ocorrer em duas hipóteses: I — pelo próprio titular; II — por terceiro que o encontrar ou furtar.
I — No caso de uso ardiloso do cartão além do limite do crédito, ou de vigência exaurida, o emissor não fica
responsável pelo pagamento das despesas; cabe ao fornecedor acionar civilmente o comprador fraudulento para se
fazer pagar, além de poder processá-lo por estelionato.
II — Em caso de extravio ou furto, o titular deve avisar imediatamente o emissor. A partir do momento em que
este recebe o aviso, o portador se exonera (confira-se RE 81.931, RTJ, 76:943).
“As despesas efetuadas pelo ladrão, posteriormente ao aviso, são suportadas pelo estabelecimento emissor tanto
que este último não tenha, por sua vez, notificado a perda ou furto aos diferentes fornecedores credenciados. Uma
vez que a notificação chegou aos diferentes fornecedores, estes últimos são os únicos responsáveis pelas despesas
efetuadas ulteriormente com a utilização fraudulenta do cartão.
Se o cartão é utilizado pelo ladrão antes que o estabelecimento emissor seja avisado, o titular desapossado
suporta, em princípio, as consequências da utilização do cartão, mas o fornecedor é responsável, mesmo antes de
receber o aviso, se não conferir a conformidade da assinatura figurando no cartão com a aposta na fatura ou se
efetuou vendas além do montante garantido pelo emissor175.”
Substrato que veio a ser consolidado nessa premissa e funciona como predicado concerne à disciplina do art. 51
do Código de Defesa do Consumidor, mediante a mencionada Portaria n. 3, de 15 de março de 2001, da Secretaria
de Direito Econômico, realçando a conduta pertinente à relação negocial do cartão de crédito.
Resta vedado à instituição financeira retirar da conta corrente do consumidor ou tentar cobrar valores usados
por terceiros que, de forma ilícita, estejam de posse de seus cartões bancários ou cheques, depois da comunicação
de roubo, furto ou desaparecimento suspeito ou requisição de bloqueio ou final de conta.
Correta e precisamente, a disposição disciplina a impossibilidade de a instituição efetuar algum desconto nas
circunstâncias relacionadas com a perda, extravio, furto do cartão, porquanto isso levaria ao cometimento de lesão,
até porque, se remanescer dúvida, o procedimento normal seria de cobrança.
Compatível à conscientização do negócio envolvendo cartão de crédito, as empresas colocam à disposição
seguro, que visa cobrir as hipóteses de ilicitude quando o magnético plastificado fica na posse de terceiro; isso se
viabiliza por um valor módico e que interessa ao usuário mais de perto.
Proclama-se que os bancos lançaram no mercado cartões em nítida concorrência com as administradoras,
procurando com esse procedimento exercer influência na escolha do cliente, facilitar o pagamento e manter
acessível uma linha de crédito.
Surge com a informática e a cibernética a tendência de aprimorar o campo da utilização dos cartões de crédito.
Não se pode desconhecer que o delito contra o patrimônio em qualquer localidade virou rotina. O consumidor, na
hipótese de roubo, se vê desapossado do seu documento de crédito, e se faz frequente o praticante do ato ilícito
exigir a presença da vítima para efetuar vários saques, num curto intervalo de tempo, e exaurir o limite do benefício
concedido ao cliente, quando não costuma logo após a ocorrência fazer compras em lojas e shoppings, privando o
interessado da liberdade ou de comunicar o fato à administradora, no sentido de evitar perda patrimonial
considerável.
Devem, portanto, os comerciantes e vendedores de serviços, quando recebem mediante cartões de crédito,
verificar os dados e exigir maior segurança, acautelando-se contra inevitáveis prejuízos do uso do documento por
terceiros de má-fé. O descuido na observação serena dos informes e a maneira pela qual se esgota em pouco tempo
o limite do crédito presente no cartão podem aparentar, ainda que em tese, um conluio entre o comprador (possuidor
ilegítimo) e o vendedor, a ponto de possibilitar ao prejudicado reparação integral do dano, cujo ônus da prova fica ao
seu alcance.
Não se mostra supérfluo exigir documento ou conferir a assinatura da nota de fatura com aquela do próprio
cartão, na objetividade de maior segurança e no espelho da concretude de minar eventual intenção fraudulenta.
Verdadeiras quadrilhas ramificadas conseguem fazer cartões de crédito bastante assemelhados aos originais,
com o uso dos dados e os nomes dos clientes; dessa maneira prejuízos vultosos foram experimentados por diversos
empresários e prestadores de serviços. Para que isso não mais se repita urge uma fórmula que torne mais seguro o
uso do cartão, talvez mediante magnetização de sua forma, senha secreta ou qualquer outro instrumento que evite
locupletamento ilícito.
As empresas que administram esse universo de cartões têm perseguido mais amiúde o caminho da segurança,
embora a imaginação e o senso do ilícito sejam mais presentes, porém é peculiar o encaminhamento do magnético
com bloqueio, quando então qualquer extravio implica sua ineficiência, e se vier a cair em mãos de terceiro o efeito
prático seria nenhum.
Evidente que a insegurança que ronda as cidades e o usuário de forma geral levaram à tomada de providência
de saque, limites e horário de uso, mas mesmo assim é elevado o número de ocorrências que demonstram a ilicitude
da operação com a presença do cliente mediante submissão à violência e força armada.
Imprevisível o comportamento assumido no uso inadequado e ilícito do magnético, cumpre ter maior cautela, se
possível o seguro, e além de tudo o conhecimento exato na comunicação da ocorrência, para o fito de transmitir
informe seguro acerca do desapossamento.
A pulverização dos cartões, como uma onda massificadora, está a exigir maior cautela, quer do usuário, quer do
empresário que aceita sua penetração, na modalidade de pagamento, uma vez que é preciso romper conceito
estático e buscar um dinâmico, compatível com as operações que se sucedem no moderno Direito dos Negócios.
Bem por isso, nada impede que futuramente seja estudado um seguro que venha inserido no contexto do contrato
de adesão do cartão de crédito, para minimizar os percalços da subtração e utilização ilícita, simbolizando assim uma
criação que viria ao encontro dos interesses do consumidor, ao menos pela redução do seu prejuízo.
Hoje é uma realidade comum e muito necessária a presença do seguro que permeia o cartão de crédito,
oferecendo menor risco ao usuário, maior possibilidade da utilização sem o prejuízo, e sobretudo o dispêndio de soma
bastante baixa se comparada à vantagem trazida.
Acima de tudo é fundamental conceber no contexto do crédito sua prioridade, na tessitura de fornecer ao usuário
uma certeza que retira a probabilidade, por menor que seja, de perder o magnético e ter o nome negativado.
Os dissabores encontradiços numa operação ilícita podem desbordar do simples e estreito caminho do negócio,
implicando projeção de fatores adversos e que direta ou indiretamente culminam por arranhar a boa imagem do
consumidor.
Verdadeiramente, a semente lançada germinou de forma positiva, existindo algumas administradoras de cartões
de crédito que utilizam o mecanismo de seguro, na proteção do aderente, cobrando uma quantia que pressupõe a
anuência do interessado e serve para coibir o uso indevido, principalmente em mãos de terceiros que se apossam
daquele magnético mediante violência ou ardil, a comprometer a livre manifestação de vontade do usuário.
A despesa envolvida no contrato de seguro do cartão de crédito envolve a cobertura feita nos casos de extravio,
perda, furto, roubo, no cometimento de ilícitos por terceiros, dentro da regra e da própria finalidade que se hospeda
na tutela protetiva ao aderente, a permitir uma desvinculação e a responsabilidade efetiva da administradora.
Na essencialidade, as circunstâncias do seguro ficam nos lindes do grupo econômico prestador do serviço,
porquanto as entidades revelam ligações de controle verticalizado, tanto por causa da hierarquia, mas sobretudo
diante do poder de controle, de molde a ser regrada a situação do benefício na hipótese do pagamento da
indenização.
Acontece, porém, que algumas administradoras enviam a fatura do seguro e fazem exigência do desembolso
mensalmente, cujos valores são irrisórios, apesar do custo-benefício, fazendo com que o aderente se mobilize no
pagamento; melhor e mais concreta tecnicamente a concordância em face dos termos do contrato de seguro e do
pagamento à vista, ou semestral, pois, nas hipóteses de cessação do negócio, as compensações e eventuais
restituições seriam feitas sem quaisquer embaraços.
De efeito, o contrato de seguro, que em termos de despesas pouco ou quase nada representa, não se afigura na
modalidade contratual tácita, necessitando o expresso consentimento do usuário-aderente, sob pena de implicar a
responsabilidade da administradora e destratar regra específica protetiva do consumidor.
Natural e normalmente, a maioria destas entidades se mostra vinculada às instituições financeiras, participando
de grupos econômicos que se permitem remeter cartões extras, pessoas jurídicas, de empresas, efetuar,
independentemente da anuência do usuário, o seguro das operações, além da cobrança de anuidades sempre
elevadas, de tal modo a romper o equilíbrio contratual entre as partes interessadas.
Trata-se da prestação de serviço que não desponta inserida no modelo e na roupagem do uso e funcionamento
do cartão de crédito, classificação extraordinária que sempre apresenta um custo e mobiliza recursos dos aderentes.
Diante disso é inexplicável que propostas passem a vigorar ao talante das administradoras, que de seu turno insistem
no oferecimento de seguros, pacotes promocionais, alardeando algumas vantagens, porém em contraponto
conseguem lucros operacionais de milhões de indivíduos que dependem do crédito concedido para acesso aos bens
de produção.
A responsabilidade das administradoras de cartões de crédito e das instituições formadoras dos grupos
econômicos sempre é plausível na comprovação do nexo causal entre o serviço e o dano verificado, nas condições
insuficientes demonstrando a culpa no relacionamento com o respectivo cliente.
Inevitável sublinhar que o desconto automático nos cartões de serviços e outras ofertas, mesmo que em situação
de parceria com empresas ou fornecedores de seus produtos, sem a anuência direta e inequívoca do usuário
representa grave violação dos predicados contratuais, e o ressarcimento não se faz tão somente pela restituição
daquele valor, mas em razão de cláusula ou condição abusiva lesiva ao consumidor.
Demais disso, muitas associações concedentes dos créditos, na proposta de colheita de dados relativos aos
clientes, fazem verdadeiros questionários, repassando aspectos da vida privada e o consumo de bens ou serviços. Se
a operação revela um risco na expressão de sua formalidade, evidente que a escolha do cliente é um ato agregado
aos fatores de apresentação ou levantamento cadastral.
A comercialização da mala-direta pela empresa ou por outra contratada, sem a autorização do cliente-
consumidor, peca pela falta de anuência e leva a uma série de complicações na administração de recursos e dos
próprios subsídios.
De fato, naturalmente os dados que integram a contratação se revestem do sigilo entre a administradora e seu
cliente, de tal modo que a transmissão em mãos de terceiros crava situação não consentida e pode significar a
violação da privacidade, cuja intimidade se posiciona nos direitos individuais de personalidade.
Com efeito, o trânsito de informes pertencentes ao cliente causam inconvenientes com o fornecimento de
propagandas e serviços, cartões de afinidade, promoções, ingressos para eventos, enfim tudo no propósito de
catalisar uma adesão do consumidor na abertura de um canal que permita ampliar o número de usuários.
Os dados inseridos no contrato entabulado que precede a proposta aceita guardam as características, resvalando
nos elementos formadores do ato jurídico válido, dentro das peculiaridades que envolvem as partes na atribuição de
responsabilidades e assunção dos encargos.
Nessa conjuntura, ainda que menor venha a contratar, revelada atipicidade não o desonera do pagamento das
despesas efetuadas, uma vez que não poderá invocar aquele aspecto como meio de se isentar da responsabilidade,
notadamente quando é dele a iniciativa da obtenção do cartão, além disso, o preenchimento dos subsídios parte do
pressuposto da boa-fé e de correlata transparência.
Descansando no ponto evidenciado, a jurisprudência imputou culpa ao menor contratante de cartão de crédito, a
lume do art. 155 do Código Civil (de 1916), uma vez que buscou aderir ao sistema, mesmo sabendo da
impossibilidade, e ao efetuar despesas cabe responder pela obrigação adstrita ao uso do magnético, conforme
decisão estampada na RT, 764:341-8.
Compreensível a preocupação externada pelas administradoras em querer atrair um maior número de usuários e
ao mesmo tempo reduzir os processos de fraudes e técnicas de abuso, mas tudo dentro do preceito normativo, que
tem disciplina genérica, porque se nota ausente uma legislação radiografando o modelo, que se tornou, indispensável
dos cartões de crédito.
Enfim, como há milhões de usuários diariamente deste instrumento de crédito, paradoxalmente inovam-se as
técnicas de fraude e abuso na utilização, cujo hiato normativo deve ser disciplinado, visando preencher lacuna
detrimentosa ao consumidor.
Importante, por derradeiro, frisar que a temática do cartão de crédito impulsiona um ritmo de consumo forte,
numa bolha a causar a explosão, e por que não a preocupação do Governo em criar algumas barreiras na maneira
do usuário se comportar, elevando juros, impedindo a renovação do prazo, impondo em ocasiões especiais restrição
ao uso, na compra de produtos importados.
Contudo, é de se ponderar que uma boa parte desconhece o princípio fundamental que disciplina a prática do
uso, e quando acontece alguma adversidade sequer cuidaram os interessados da leitura das cláusulas padronizadas,
as quais devem se adaptar ao Código do Consumidor, sem ferir o espírito da compreensão e livre curso no comércio.
Forçoso reconhecer nessa situação que o Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial n. 71.578, do Rio
Grande do Sul, por meio do Ministro Relator Nilson Naves, em lapidar decisão se manifestou:
“Cartão de crédito. Contrato de adesão. Segundo o disposto no § 3º do art. 54, do Cód. de Def. do Consumidor,
‘os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com caracteres ostensivos e legíveis, de modo a
facilitar sua compreensão pelo consumidor’. Caso em que o titular não teve prévia ciência de cláusulas estabelecidas
pela administradora, não lhe podendo, portanto, ser exigido o seu cumprimento. Ademais, há falta de
prequestionamento e é deficiente a fundamentação do recurso, quanto à questão principal (Súmulas 282 e 284/STF).
2. Embargos declaratórios manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório:
(Súmula 98). 3. Recurso conhecido em parte e assim provido”.
Não se torna despiciendo assinalar ainda que o cartão constitui um acesso ao crédito, e não uma mercadoria, não
possibilitando, portanto, que as administradoras o remetam sem qualquer manifestação expressa do interessado,
avantajando benefícios e outras peculiaridades, o que transmudaria a essência do negócio em simples operação
banalizada, longe de sua principal característica, revelada na fruição da fidúcia que se entabula perante a concessão
de soma dentro dos parâmetros objetivos do beneficiário.
Essa modalidade de proceder não guarda forma nem cunho sintonizado com a origem do cartão de crédito,
sendo por tal lineamento vedada a cobrança de quaisquer despesas, sob o pálio da conferência da vantagem, como
se fosse algum privilégio especial que o usuá​rio do sistema não tivesse acesso.
No descontrole da utilização de indeterminado número de cartões de crédito, acaba o usuário perdendo a noção
sobre o gasto, entrando num caminho perigoso, que por certo o conduzirá a um estado de dificuldade, não
conseguindo saldar a dívida e comprometendo sua imagem, podendo sofrer abalo maior.
Acertadamente, medidas adotadas tiveram o escopo de parar esse verdadeiro processo de bola de neve que é o
envio sistemático de cartões pelas administradoras, sem maiores acenos sobre o crédito e sua utilização, por
eventual quebra do preceito de sua segurança.
Com base nisso, é vedada a remessa voluntária dos magnéticos a pessoas que não solicitaram seus serviços ou
sequer se mostraram interessadas na contratação do sistema de crédito, sujeitos os infratores às penalidades na
órbita pecuniária, tudo visando desincentivar a conduta e impor limites nessa insuperável corrida atrás do ávido
consumidor.
Normal ponderar que a contratação não pode ser forçada ou interpretada conforme os usos e costumes
disciplinados pelo poder econômico, porque muitas vezes as administradoras exercem uma espécie de pressão
psicológica, a desestabilizar o consumidor, com a remessa de magnéticos, para os familiares, de uso da empresa,
numa corrida para simplesmente usufruir benefícios e maiores lucros.
Catalise-se no horizonte desenhado a impossibilidade de contratação presumida, ou de aquiescência implícita, a
ponto de gerar obrigação, vedando-se que a administradora proceda à negativação do nome no sistema protetivo ao
crédito, porquanto não defluíram os elementos preponderantes à concretização do contrato.
Nesse sentido, firme a decisão da jurisprudência ao responsabilizar a administradora com base no dano moral
advindo, ante a não contratação, os dissabores provocados e a nenhuma participação do consumidor naquela cadeia
de consumo.
Interessante prestigiar a ementa da decisão estampada na RT, 769:234-6, do Primeiro Tribunal de Alçada Civil
de São Paulo:
“A falta de recusa expressa de cartão de crédito enviado por administradora não caracteriza aceitação tácita do
fornecimento de seus serviços, mormente se o suposto contratante não praticou qualquer ato positivo capaz de
configurar adesão implícita, razão pela qual deve a empresa indenizar o dano moral suportado pelo consumidor que
teve seu nome incluído em serviços de proteção ao crédito pelo não pagamento de encargos do contrato”.
Inexiste assim o vinculum iuris determinante do nascimento da obrigação, uma vez que o próprio contrato não
fora implementado de forma livre e consentida, com o simples propósito unilateral da empresa no sentido de revelar
sua intenção, a qual não se mescla com o trato de adesão, sendo fundamental a expressão de harmonia do usuário,
por conduta e comportamento projetando essa realidade, princípio hoje acolhido pelo Código Civil, inadmitindo a
contratação pelo silêncio, de forma não expressa.
Um outro aspecto não menos importante que também merece pequena observação diz respeito ao envio de
magnéticos pelo correio, sem maiores cautelas, ou registros de remessa em atenção à pessoa que procede à
assinatura naquele momento, de molde a permitir inúmeros problemas e atos ilícitos por causa de clonagem ou até
uso em partes distintas do território nacional.
Bem por tudo isso e na escala diagnosticada, comporta uma segurança especial da administradora no trato do
cartão de crédito e na concessão coerente com a realidade de mercado, não introduzindo matéria ou mecanismo
estranho ao pacto de adesão, na certeza do livre querer do interessado, contemplado controle direto até a efetiva
entrega.
Concatenando as adversidades, a remessa tem sido feita com o bloqueio do cartão, cuja senha de acesso
compete exclusivamente ao usuário-aderente, mas isso não significa que o extravio durante o percurso, a subtração
ou coisa assemelhada inibam a manipulação por elementos preparados na tática de copiar o modelo e migrar as
informações reputadas sigilosas.
Evidenciando os pontos positivos e negativos do cartão de crédito, fator consumo, taxas de juros, as
administradoras deveriam manter nas respectivas carteiras informes atualizados para reciclar o tipo de adesão, não
quantificando a massificação, mas sim qualitativamente permitindo acesso às linhas de consumo, sem demonstrar
excessivo interesse atrelado à sua posição econômica dominante.
Evidente que bilhões de reais são injetados diretamente na economia por causa da livre circulação dos cartões de
crédito, que têm alto grau de confiabilidade e aceitação, mas também há uma preocupação com o aumento do
número de usuários e o fator inadimplência, decorrente da elevada taxa de juros, ocasionando um prejuízo, que será
repassado no custo operacional do negócio.
Explica-se com razoável facilidade a penetração eficiente do meio de crédito: à medida que se estabilizou a
moeda e os salários foram mantidos no mesmo patamar, um número representativo das camadas menos favorecidas
começou a ter acesso ao consumo, e, nesse clima de forte competição, as administradoras passaram a ter
comportamento ofensivo, entrando em campo para conquistar o maior número de adeptos possível e angariar largas
fatias do mercado.
A prática abusiva fere o Código do Consumidor e cria uma operação artificial no ânimo e no próprio espírito
daquele que não tem acesso ao crédito, sendo que a possibilidade do bloqueio do sistema a critério pessoal do
usuário em nada altera o quadro, já que constitui um mecanismo meramente de segurança. A opção pelo sistema
cabe apenas ao interessado, que assim não fica atado ao crivo mercado​lógico das administradoras.
Ninguém proíbe a propaganda, que é meio salutar de divulgar um produto, mas daí a impingir ao consumidor um
determinado serviço sobre o qual nem ao menos tem noção ou suficiente capacidade econômica para suportá-lo vai
uma distância considerável.
É uma operação de risco, porque assalariados de baixa renda são alcançados pela suposta promoção, com
limites de liberação de crédito fixados em valores pouco elevados; todavia, na massa de beneficiados indiretamente
pelo sistema, sobrepuja uma inadimplência progressiva, reflexo das taxas de juros e da pequena disponibilidade de
recursos para as despesas efetuadas.
Bem por isso, entre o acesso e o crédito fácil existe um trajeto que é da livre escolha do consumidor, único
responsável por sua iniciativa, em razão das circunstâncias que a concorrência determina.
A inadimplência no setor tem sido ponto de relevo, na medida em que os usuários, desconhecendo as taxas
vigentes e alheios ao valor da operação, tornam-se vinculados à obrigação, sem recursos para efeito de sua
liquidação.
Com efeito, na medida em que as administradoras permitem, conforme trato contratual, uma quitação parcial,
pelo valor mínimo, isso implica um financiamento do débito, que continua sendo taxado por somas elevadas, impondo
ao cliente uma obrigação composta pelo principal e as circunstâncias exigidas pela credora.
Insta destacar que é bastante comum a divergência entre ambos em relação aos valores da cobrança, por não
reunir o contrato e o demonstrativo apresentado característica de típica liquidez, encetando diligências normais à
consecução da relação crédito-débito.
Fundamental pronunciar o entendimento sufragado pela jurisprudência no exame do caso concreto, visto que
pontua a necessidade da assinatura do contrato como meio idôneo à propositura da monitória.
Nesse diapasão, o proclamado pela jurisprudência no enfrentamento do exame de matéria subsumida ao cartão
de crédito:
“O contrato de emissão e utilização de cartão de crédito, sem assinatura do suposto devedor e acompanhado de
extratos produzidos de forma unilateral, não constitui prova escrita hábil a dar ensejo à ação monitória, por não ser
possível apurar a certeza do crédito cobrado, diante da ausência de reconhecimento da verossimilhança dos fatos,
pelo eventual devedor, ainda que de forma tácita” (RT 782:396-400).
De se ponderar que a administradora do cartão precisa conjugar as provas imprescindíveis à cobrança de seu
crédito, sem se esquecer dos documentos comprobatórios das despesas, respectivos valores, identificando as
operações negociais.
No contexto assinalado, portanto, a demonstração desses requisitos repousa no predicado primeiro de haver
prova segura da existência do contrato, mediante a assinatura do responsável-cliente, como forma de vincular ao
reclamo da cobrança.
Embora seja dispensada a notificação para constituição em mora, necessário deixar bastante claro que a
exigência do crédito nasce da relação contratual, inclinando-se a administradora pela exibição dos elementos que
formam a relação jurídica e denotam a utilização do magnético.
Demais, as incorreções nas operações com a inclusão de valores indevidos ou quitados ensejam um prejuízo ao
consumidor final do serviço, isso porque há uma dificuldade crescente de se comunicar com a empresa e fazer com
que ela seja expedita na corrigenda e eliminação de dúvidas, tudo capaz de gerar um dano psicológico, moral, que
possa merecer um reparo.
Demonstrada essa variedade de aspectos, ninguém pode desconhecer a importância assumida pelo meio de
crédito e sua força ligada aos diversos segmentos sociais, com atributos e vantagens específicos, incrementando o
consumo, reduzindo barreiras e permitindo negócios sem fronteiras.
Impede-se a possibilidade de a administradora obter, em nome do aderente, mandato para o fito de contratar ou
renegociar os valores daquelas prestações parceladas e não pagas à vista no cartão, pela interessante qualificação
do abuso incorrido.
Não está legitimada a administradora a negociar valores em nome do devedor, taxas e respectivos encargos,
refugindo de sua órbita a sinalização na percepção de esclarecer ao mercado, de modo geral, e como um todo, os
tipos normativos, conforme previsão do Banco Central.
Consequentemente, tem sido frequente o ingresso de ações visando à prestação de contas das administradoras,
demonstrando como chegaram ao valor do débito e os encargos exigidos, conferindo ao consumidor transparência e
facilidade para efeito de sua defesa.
Invariavelmente, as faturas que traduzem as importâncias exigidas dizem respeito às taxas de juros capitalizadas,
e o fato da não sujeição à Lei da Usura, por si só, não desobriga às administradoras de buscarem clareza, resultando
redução do conflito, criando um panorama identificado com as regras de consumo.
De fato, a Súmula de número 283 sustenta o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, no sentido de
admitir o fato de serem as administradoras de cartão de crédito instituições financeiras, daí por que os juros que
cobram não se sujeitarem às limitações da Lei de Usura.
De igual sempre se recorre à ação judicial na percepção de revisão do contrato de adesão, de cláusulas
desenhadas como lesivas, excessivamente onerosas, ou que transformam o pacto de adesão num desequilíbrio em
prol do lado economicamente mais forte.
A perspectiva tem-se repetido com frequência, notadamente para barrar o exagero, a capitalização de juros, e as
taxas muito avançadas exigidas, tudo conforme a relação de consumo e a previsão específica do Código Civil em
vigor.
A grande problemática reside na utilização do crédito rotativo, com taxas abusivas e valores que extrapolam a
capacidade econômico-financeira do consumidor, como realçamos em escrito a respeito do tema176.
Bem por tudo isso, numa sociedade de consumo, a técnica de utilizar diversos cartões deve servir a uma
conscientização profunda sobre os artificialismos do mercado e as intenções perseguidas.
Cumpre, por derradeiro, salientar que várias operadoras de cartões de crédito foram adquiridas pelo setor
bancário, justificando a liberdade na fixação da taxa de juros e exponenciais capitalizações, na dimensão dos
empréstimos do crédito rotativo.
Faltante uma legislação acerca do tema, cuja disciplina é bastante frequente na quantidade de revisões de
contratos e cobranças deduzidas daqueles que excedem os limites e se mostram inadimplentes.
Fundamental, com o posicionamento do STF, em termos da regra de consumo, a perspectiva do consumidor,
utente do cartão de crédito, de obter informações mais precisas que lhe permitam conhecer a realidade e o contexto
da operação177.
Enumera-se, por tal ângulo, a determinante que serve de parâmetro a dirimir o conflito de interesses, a prestigiar
divulgação dos informes e um rápido atendimento prestado, congruente com a evolução do magnético e seu grau de
segurança, na perspectiva da responsabilidade.
Realçamos, na vertente expressa, que, intentada a ação revisional de contrato de cartão de crédito, fator
primordial é aquele relativo à parte incontroversa da obrigação, a teor da exigência legal, a fim de que se proceda ao
depósito e possa então se cogitar de eventual discussão, inclusive desnegativação.
Não é admissível simples propositura e a manutenção da mora, mediante anos a fio, e a cômoda posição do
utente, titular do cartão, na expectativa de uma decisão e inadimplente, mais do que isso, a boa-fé prioriza o
recolhimento da importância cujo débito reconhece.
Essencial desenhar por tal ângulo a complexidade de se padronizar juros do rotativo, quando o usuário não paga
à vista e se submete ao financiamento, verdadeira bola de neve que se irradia evidenciando salto qualitativo da
obrigação, alvo de embates nas lides forenses.
14
O CONTRATO DE CONTA CORRENTE.A CONTA CORRENTE BANCÁRIA

Sumário: I — O CONTRATO DE CONTA CORRENTE: 86. Conceituação de conta corrente. 87.


Contrato de conta corrente e conta corrente comum. 88. Propriedade das remessas. 89. A cláusula “salvo
embolso”. 90. Encerramento da conta. 91. Extinção do contrato. II — A CONTA CORRENTE BANCÁRIA:
92. Conta corrente ordinária e conta corrente bancária. 93. Movimentação da conta. 94. Características do
contrato. 95. Modalidades. 96. Encerramento e extinção.

I — O CONTRATO DE CONTA CORRENTE

86. Conceituação de conta corrente


Segundo Giacomo Molle, a expressão “conta corrente” foi introduzida pelos banqueiros venezianos do século XII
nas contas que abriam a seus correspondentes do levante, provavelmente referindo a existência de uma relação de
negócios durável entre as partes, isto é, metaforicamente, de uma corrente de negócios que a conta espelha178.
Trata-se, pois, de contrato encontrado pelos comerciantes como recurso técnico-jurídico para facilitar não só a
verificação da situação creditícia adveniente da manutenção de relações negociais diversas entre as partes, como
também incrementá-las: “Pode conceber-se, por exemplo, que um proprietário, que tem como locatário um
empresário, encarregue este último de efetuar certos trabalhos com a intenção de acertá-los por meio dos alugueres
que serão devidos ulteriormente por este empresário. Para evitar que o mencionado empresário exija um pagamento
antes que se vençam os alugueres sobre os quais deve ser descontado o preço dos trabalhos, o proprietário haverá
por bem de concluir com o seu locatário uma convenção de acerto em conta corrente. Tal convenção poderia
igualmente ser útil ao empresário locatário, se o proprietário, também comerciante, incidisse em falência, porque ele
evitará ter que pagar aluguéis vencidos posteriormente ao julgamento declaratório e, ao mesmo tempo, declarar na
falência o seu crédito”179.
Portanto, em vez de procederem a um acerto a cada operação negocial, os empresários lançam o crédito e o
débito dela decorrentes em forma contábil, verificando-se o saldo no encerramento, que pode ocorrer no prazo
convencionado ou no fixado em lei.
É, pois, um contrato pelo qual dois empresários resolvem lançar sob representação contábil os créditos dos
valores que um presta ao outro, em decorrência de atos negociais, no seu todo, ou em parte, sejam eles bens ou
serviços, verificando-se o saldo no encerramento convencional, ou legal, o qual, só a partir daí, se torna exigível.
Daí resulta que: a) se as partes não convencionaram colocar todas as operações de conteúdo econômico que
praticam entre si em uma só conta, podem levar certos valores, oriundos das operações, particulares, a contas
separadas; b) as partes podem estipular um prazo de duração do contrato, ou então que ele se finde após abranger
operações predeterminadas; c) é lícito convencionar o limite máximo de obrigações que uma das partes assume
perante a outra, mas não que uma opere com vantagem em relação à outra, porque, então, “não surgiria a conta
corrente”180; d) na vigência da conta, nenhuma das partes pode considerar-se credora da outra.
Finalmente, no contrato as partes podem convencionar os juros a incidir durante a fluência da conta e sobre o
saldo a ser apurado no encerramento.
A rotina dos usos e costumes nas atividades bancárias dinâmicas, até para efeito de cobrança de tarifas, estipula
uma série de classificação, conforme o tipo de utilização da conta, limite, vantagens em harmonia com a prestação
dos serviços, sem esquecer a via eletrônica, cujas operações se processam on-line.
Esta simbiose se estabelece de forma detalhada e repercute como acertamento entre as partes, na medida em
que protagoniza uma operação bastante transparente de entradas e saídas, consentâneas com o volume de negócios.
Na modernidade e na escassez do tempo livre, a realidade indicativa do priorizar o entabular da operação mostra
vantagem de ambos os lados, pois enquanto o tomador tem data certa de aprazar o pagamento, o credor, sem outras
formalidades, dispõe do mecanismo de recebimento catalogado.

87. Contrato de conta corrente e conta corrente comum


O fato de o contrato de conta corrente ser escriturado em forma contábil não o identifica com a conta corrente
comum ou de “deve e haver”. O contrato de conta corrente é celebrado entre dois comerciantes ou empresários,
porquanto obrigados a “seguir uma ordem uniforme de contabilidade e escrituração, e a ter os livros para esse fim
necessários”, no sentido de, em vez de satisfazerem de imediato, ou por intermédio de títulos de crédito, as
importâncias de que um se torna devedor do outro, em decorrência de negócios jurídicos, representarem
graficamente esses valores em seus livros, por um tempo ajustado, ou de duração conforme a lei, incidindo sobre
eles, de imediato, juros, sendo o saldo apurável apenas no encerramento.
Já a conta corrente comum ou de “deve e haver” se desenvolve entre empresários, ou entre um empresário e
um não empresário, devedor civil, não legalmente obrigado a manter livros contábeis, sendo que o primeiro faz
fornecimentos de bens ou serviços, anotando esses valores em seus livros, figurando como credor, enquanto o
segundo não lhe faz os adequados suprimentos em dinheiro, única maneira pela qual alimenta a conta. Em relação às
parcelas anotadas, não fluem juros de imediato, mas na apuração do saldo. Do fato de uma das partes limitar-se a
fazer apenas suprimentos em dinheiro resulta que jamais será ela credora, uma vez que o faz para cobrir seus
débitos.
Não é incomum acontecer que as somas existentes nos depósitos em conta corrente sejam deslocadas pela
instituição para efeito de constarem de fundos de aplicação, operação de conotação contábil, sem muitas vezes
espelhar a livre manifestação de vontade do cliente, razão pela qual a entidade fiscalizadora buscou disciplinar o
assunto, evitando, portanto, o entrechoque de interesses.
Inaugura o código bancário do consumidor uma nova etapa, considerando a proibição de movimentação sem
autorização do cliente, de tal modo qualquer retirada é feita no interesse e na conformidade com a manifestação de
vontade do usuário, a fim de se evitarem discrepâncias nos informes durante a vigência do contrato.
Veda-se, por corolário, a movimentação pura e simples, de caráter unilateral e exclusivo, de modo desautorizado,
haja vista a proteção emprestada ao consumidor na quadra do relacionamento com a instituição financeira,
implicando uma tutela que colima evitar o abuso.
Pontuando o modelo especificado na diretriz do contrato e na sintonia da operação bancária, tem-se que a
revelação dos saldos é consonante com as atividades realizadas pelo usuário, sem surpresa, expondo os dados, com
ingressos e saídas, mas de acordo com o cliente, proibindo-se que a instituição, a seu bel-talante e na consecução de
seu lucro, desenhe um cenário destoante do interesse do consumidor.
É bastante peculiar acontecer que a instituição financeira, no concurso ou na insolvência do devedor, se pague
liquidando posições unilateralmente, fato que não pode merecer acolhida, haja vista preferência e tratar-se de
execução coletiva, donde é fundamental verificação para efeito de restituição ou declaração de ineficácia do ato.
Com efeito, além de fazerem o provisionamento, as instituições financeiras, extrapolando os limites da relação
contratual, se permitem efetuar cobrança independente do ajuizamento da demanda, por mero cálculo e ingresso
eletrônico de recursos em conta do favorecido, o que se inadmite em concurso ou mesmo na quebra, ainda da
recuperação judicial.

88. Propriedade das remessas


Chamam-se remessas as parcelas que representam valores, com os quais os contratantes alimentam as contas,
tornando-se, por isso, delas credores. Ou, como prelecionou Vivante, “por remessa entende-se toda operação que dá
direito àquele que a faz de creditar-se na conta corrente”181.
“Mais juridicamente, o termo remessa designa o crédito destinado a ser acertado em conta182.”
Aquele que a faz chama-se remetente, é o credor; quem a recebe é o recipiente, devedor.
Transfundindo-se na conta, as remessas perdem sua individualidade: “Todas (as remessas), tendo contribuído
para formar o saldo, estão de tal modo indissoluvelmente fundidas entre si que não se saberia extrair qualquer dessa
amálgama para devolver-lhe sua individualidade”183.
Constituem elas um bloco unitário, desaparecendo as garantias e desfazendo-se o direito de ação de que cada
uma estiver munida originariamente em virtude da relação contratual típica que lhe deu causa: “Se, por acaso,
pudesse o correntista dispor livremente das remessas feitas, o instituto perderia sua razão de ser, constituindo cada
remessa um simples depósito de valor em poder de terceiro, que seria movimentado de acordo com os interesses do
seu proprietário”184.
Da transfusão em conta e da perda da individualidade resulta que a remessa se torna irrevogável: “É o que se
denomina a irrevogabilidade das partidas, significando a transformação imediata das remessas, que, inscritas na
conta corrente, passam a simples fatores ou elementos integrantes e inseparáveis desta, para, no encerramento, ser
verificado o saldo final”185.
Evidente que o conjunto retratado pelo portifólio das operações consta do histórico e registro feito para fins de
consulta e demais aspectos de relevância.
89. A cláusula “salvo embolso”
Vimos que as remessas que alimentam a conta podem consistir em serviços e bens. Entre estes podem se
encontrar títulos de crédito não vencidos que, por conseguinte, constituem valores sujeitos à condição resolutiva,
consistente no seu futuro e incerto pagamento. Daí por que ingressarem na conta com a cláusula “salvo embolso” ou
“salvo recebimento”, representada abreviadamente por “s.e.”. Não obtido o recebimento dos valores de tais títulos, o
recipiente deduzi-los-á mediante estorno, isto é, creditando-se a seu favor e debitando-os ao remetente. A cláusula
“salvo embolso” é ínsita nas remessas de títulos vincendos, não havendo necessidade de ser convencionada. A
hipótese contrária — a da definitividade da remessa —, sim, deve ser ajustada expressamente: “Neste caso, o
recipiente toma sobre si os riscos da cobrança. A operação condicional converte-se em operação aleatória”186.
Efetivamente, tais operações se encontram na carteira dos negócios que periodicamente se realizam, mormente
com empresas e demais entidades, no propósito de um adiantamento da soma em conta, porém, acaso não se
confirme, automaticamente se permite o estorno, no sentido de conferir a liquidez do título e sua respectiva
obrigação.

90. Encerramento da conta


A apuração do saldo na conta corrente se desenvolve pelo encerramento, que, como observamos, pode ser
fixado convencionalmente ou decorrer de previsão legal, como fazia o antigo Código Comercial, no seu art. 253,
consistindo num balanço de parcelas a débito e a crédito: “Tais encerramentos ou balanços periódicos ou parciais
mostram o saldo nas épocas determinadas, o qual é levado à correspondente coluna, como elemento da conta que
segue. Começa ele, assim, imediatamente a correr juros, como as remessas, pois representa, no novo período da
conta, o balanço das remessas do pe​ríodo precedente”187.
O correntista que recebe o extrato correspondente ao encerramento deverá reclamar sobre sua exatidão no
prazo fixado no contrato, ou, se não previsto, em período de tempo razoável, a contar do recebimento, parecendo
justa a aplicação, por analogia, do art. 137 do vetusto e revogado Código Comercial, que prescrevia para tanto o
prazo de dez dias.
A falta de reclamação nos prazos supra torna líquido o saldo apurado, que “pode ir de novo para a conta
corrente, constituindo a primeira partida da nova conta. Pode, igualmente, por acordo das partes, manter-se fora da
conta e, por conseguinte, exigir-se, ceder-se, compensar-se ou novar-se e ser objeto de penhora e prescrever a
respectiva ação”188.
Característica relevante diz respeito ao encerramento da conta, fruto do período inativo, ou do saldo ali
depositado, diante da manifestação do interessado na extinção do contrato e apuração das contas existentes, tanto
na espécie de saldo como no que concerne aos débitos em relação à situação do cliente.
Um dos cuidados fundamentais a serem tomados por ocasião do encerramento da conta, ao lado da devolução
dos talonários, cartões e documentos de operações bancárias, diz respeito aos futuros débitos, em lançamento, que
ainda não aconteceram, e porventura a incidência de tarifas, de molde a não deixar a descoberto o cliente.
Afora isso, importante lembrar as contas pagas por meio de débito automático. Assim, quando do encerramento,
será fundamental conservar fundos suficientes a fim de que o cliente possa saldar os compromissos assumidos, além
de, estando com saldo negativo, ter noção dos encargos que lhe serão exigidos. Com razão, uma vez encerrada a
conta, e vindo a ser apresentada alguma cambial, a providência da agência será certificar o motivo, uma vez que se
cuida de relação extracontratual, para efeito de sinalizar a responsabilidade, ou algum ilícito praticado por terceiro.
Independentemente do lapso que possa sobrevir no interstício entre a manifestação de vontade dirigida para o
fechamento e alguma operação pendente, correto se faz destacar a transparência da operação, evitando-se
dissabores e possíveis desconfortos provenientes da negativação do nome.
Indesmentível, por tal sentido, assinale o cliente, dentro do prazo legal, impugnação ao extrato que lhe fora
remetido, a fim de que sejam precisadas as importâncias, a incidência de consectários, de forma discriminada, sob
pena de se tornar plausível a ação de prestação de contas.
A ação de prestação de contas é de natureza típica para clarear o cenário e demonstrar no horizonte as razões
objetivas e pontuais, no interesse de futura propositura de ação pelo cliente, munindo de todos os subsídios que
evidenciem as operações e as respectivas divergên​cias.
Entretanto, não basta simples discrepância a servir de fundamento à ação de prestação de contas; insta um
elemento maior que repousa na dualidade do contrato e os valores exigidos, não podendo servir o remédio processual
de mero aspecto, colimando desnega​tivação ou infirmação do estado de mora.
Se, de um lado, há uma obrigação legal de prestar contas, que se materializa quando da remessa do extrato, o
silêncio do correntista, na condição de consumidor, presume sua anuência às importâncias lançadas.
Dessarte, a dúvida suscitada no espírito do interessado deve permear revisão do contrato como um todo, ou
algumas cláusulas e condições relativas à incidência, de modo a preservar o equilíbrio, acompanhado da segurança
indispensável.

91. Extinção do contrato


Muito mais substanciais que os do encerramento são os efeitos da extinção do contrato, porque fazem cessar
definitivamente o curso da conta corrente. Extingue-se o contrato: pelo implemento do prazo ajustado ou verificação
da condição resolutória a que estivesse sujeito, por mútuo consenso, haja, ou não, prazo estipulado; por vontade de
um dos correntistas, se por prazo indeterminado; pela falência, morte ou interdição de uma das partes.
Num caso que tivemos a oportunidade de analisar, a cliente, extinta a conta corrente, permaneceu com
talonários, sobrevindo emissão por terceiro (ato ilícito), a resultar na negativação do respectivo nome junto às
entidades protetivas do crédito, buscando a indenização por dano moral, a qual fora desacolhida, haja vista a
inexistência de culpa do estabelecimento, conquanto irrisório o valor do título, dês que a relação contratual se
marcara de há muito extinta.
Destarte, com a relação contratual rompida, decretada típica situação que demonstra inexistente o ato jurídico
negocial, cabe a cautela no tocante à devolução de dados na posse do cliente, a exemplo de talões, cartões,
eventuais senhas e a documentação forrada no respectivo contrato resolvido de comum acordo.
É de se notar como preocupação a presença de algum saldo quitatório de cheques emitidos durante período
próximo, e outrossim decorrente de débitos automáticos, ainda da contribuição provisória, para efeito de não se
permitir a falta de fundos detrimentosa ao cliente, causando dissabores e possível anexação do nome junto à Serasa,
SPC e demais instituições que presidem o fornecimento das informações em torno do crédito.
Não se pode desconsiderar ainda a possibilidade de eventual protesto formalizado, em decorrência da
apresentação de cambial, cuja conta corrente fora ditada como extinta, numa presunção de má-fé, ou que possa
banhar o campo da ilicitude.
A tirada do protesto, como ato notarial, pontua e caracteriza a mora, demonstrando a impontualidade do devedor
na satisfação da obrigação, conduzindo, sem interromper a prescrição cambial, ao direito de ação em atenção aos
obrigados solidários.
Prudente haja uma cautela maior do estabelecimento bancário quando da compensação do título, para registrar a
alínea correspondente, uma vez que a simples extinção da conta pode priorizar furto, extravio ou oposição, a impedir
seja feito o protesto, causando dissabores ao interessado.
Bem assim, antes do encerramento propriamente dito, cumpre ao cliente verificar a existência de eventual
pendência e recolher alguma tarifa radiografando o contexto da relação com o banco.
A extinção do contrato pressupõe o término da relação negocial a ponto de não mais haver continuidade, ou
qualquer circunstância que possa ensejar desdobramento para ambos os lados.

II — A CONTA CORRENTE BANCÁRIA

92. Conta corrente ordinária e conta corrente bancária


A conta corrente bancária apresenta uma série de diferenças em relação ao contrato de conta corrente
ordinária, decorrentes da própria finalidade visada pelas partes na instauração da avença. Assim, “na base da conta
corrente bancária, existe indubitavelmente um mandato, ainda que de conteúdo indeterminado, pelo qual o banco,
assumindo o serviço de caixa do cliente, se obriga ao cumprimento dos atos e negócios jurídicos solicitados pelo
correntista”189.
É óbvio que o banco assume esse serviço de caixa do cliente, mas em troca da prestação de fundos necessários.
Esses fundos são obtidos por depósitos do cliente ou de terceiros em seu favor, ou pelas operações ativas que o
banco realiza a benefício daquele, como cobranças, recebimento de juros, dividendos etc. Mas “na conta corrente
bancária falta aquilo que é o elemento essencial do contrato de conta corrente, a ‘reciprocidade das remessas’,
porque a faculdade de dar impulso à relação é do correntista, e não do banco, o qual se limita a cumprir as ordens
dele recebidas; nem os creditamentos que ele faz em conta têm caráter de ‘remessa’ em sentido técnico, porque os
pagamentos são feitos pelo banco a título de restituição das somas recebidas (depósito) ou de cumprimento do
crédito concedido”190.
Outra diferença entre a conta corrente bancária e a conta corrente ordinária está em que, nesta, “os créditos
anotados na conta se tornam inexigíveis e indisponíveis até o encerramento da própria conta, sendo destinados à
compensação com eventuais créditos da contraparte. Na conta corrente bancária, contrariamente, o crédito
resultante da conta é sempre disponível sobre a base do saldo diário”191. É o que a doutrina chama de “saldo
provisório”: “Muitas vezes a jurisprudência tomou em consideração a posição credora ou devedora do cliente do
banco e deu as soluções que impunha a análise jurídica do saldo provisório em um crédito certo, líquido e exigível.
Assim, o cliente do banco pode sacar um cheque até a concorrência do montante do saldo credor. É uma
possibilidade da qual a prática jamais duvidou e que os tribunais confirmaram”192.
A configuração jurídica da independência do saldo provisório assume contornos definitivos quando se chega a
admitir sua penhora: “Os credores do titular de uma conta, cuja posição é credora, podem, sob certas reservas,
penhorar e estancar o saldo provisório credor. Um aresto da Corte de Cassação, de 13-11-73, veio consagrar esta
solução que a doutrina almejava: ‘o saldo provisório da conta corrente não pode ser separado da garantia geral do
credor penhorante; cumpre ao juiz procurar quais sejam as disponibilidades da conta no dia da penhora’”193.
“Se é verdade que o cliente pode dispor do saldo provisório e terceiros usarem, em relação a ele, de medidas
constritivas, não pode o banco exigir o porventura existente em seu prol, porquanto só é exigível no encerramento,
graças à ocorrência simultânea de um contrato de abertura de crédito em favor do cliente, como bem acentuou
Martorano em Il Conto Corrente Bancario 194.”
O espelho desse acertamento sobre a conta é feito por meio magnético e controle eletrônico, com os
lançamentos das operações diárias, como numa contabilidade que se realiza, administrando às partes o conhecimento
da realidade e da própria natureza.

93. Movimentação da conta


Como no contrato de conta corrente bancária é colocado um serviço de caixa à disposição do correntista, pode
ele, de várias maneiras, movimentar a conta. No que concerne à alimentação desta, ocorre ela, como vimos, pelas
operações ativas que o banco faz a benefício do cliente, tais como cobranças, recebimentos etc. Pode o correntista
efetuar o depósito de somas em dinheiro, mas este não possui as características do contrato típico de depósito, que
tem natureza real, perfazendo-se com a entrega do dinheiro, enquanto a conta corrente é consensual. Ademais, os
depósitos feitos pelo correntista são considerados como entrega de dinheiro para a execução do mandato que ele
confere ao banco. Quanto ao desfrute pelo cliente do serviço de caixa, pode dar-se de várias maneiras: seja pelos
pagamentos que o banco faz, conforme o contrato, em favor do cliente, seja por meio de cheques:
“Sendo função da conta corrente bancária pôr em prática um serviço de caixa no interesse do correntista não é
necessário, para nela fazer entrar as disposições do cheque constituindo modo normal de pagamento, um acordo
particular com o banco. Este é obrigado, pelo simples fato da conclusão do contrato, a entregar ao cliente o talão de
cheques”195.
Nota-se que, com a inserção da conta investimento ao lado da conta corrente, progride-se na direção de evitar a
imposição de tributos, cuja função é limitada no tempo e no espaço.
Bem por tudo isso, a movimentação conta corrente e investimento deve ser muito transparente e no extrato
dissipar qualquer dúvida porventura existente entre cliente e banco.
Verdadeiramente, sem sombra de dúvida, houve substancial aumento do número de golpes aplicados na praça,
com abertura de contas por meio de documentos originais ou fabricados, constrangendo aquele cujo nome é lançado
no cadastro negativo, daí por que responde o banco pelo ato do preposto lesivo à tutela do consumidor.
Destarte, imprescindível conserve a instituição financeira todos os dados da conta, as alterações e os
documentos que deram ensejo à sua abertura, para que numa eventual demanda possa comprovar ter agido dentro
dos limites normativos e da regulação do Banco Central do Brasil.

94. Características do contrato


Conforme já assinalamos, o contrato de conta corrente é:
I — consensual, perfazendo-se com o simples acordo das partes;
II — informal, porque não requer forma própria para a sua constituição; pode ser convencionado tacitamente,
embora se proceda mais frequentemente por escrito: “Contrato consensual, ela (a conta corrente) dá lugar, às vezes,
à redação de um escrito; o banco solicita ao cliente a assinatura de uma carta de abertura de conta, precisando as
modalidades de funcionamento e sua natureza. A convenção de abertura da conta é frequentemente tácita: sua
conclusão é estabelecida pelo próprio funcionamento da conta, concluída a primeira operação, ou seja, o depósito de
um espécime da assinatura do titular”196;
III — um contrato normativo, porque serve para regular as relações futuras entre as partes: “por isso, quando
não tenha sido convencionado diferentemente, são incluídas na conta todas as partidas a crédito do banco, ainda que
seguidas de disposições que tenham implicado desembolso a descoberto”197;
IV — de duração ou de execução continuada, porquanto, no desempenho do mandato que o cliente lhe confere,
o banco deve praticar uma série de operações, que se estendem no tempo;
V — bilateral, cumprindo ao banco prestar serviços e ao cliente a obrigação de alimentar a conta;
VI — oneroso, beneficiando-se o banco com a percepção de juros e comissões, e o cliente auferindo vantagens
com a prestação de serviços e a disponibilidade de caixa.
Exigências ditadas pelo Banco Central do Brasil visando o rastreamento das contas correntes bancárias e a
multiplicação de dados de identificação que não se coadunavam com a realidade, na facilitação de fraudes e
transferências irregulares de vultosas somas, além de delitos de ordem fiscal, impuseram a obrigatoriedade da
relação do cadastro de identificação, ao lado da data de abertura da conta corrente, isto porque muitos correntistas,
com depósitos de importâncias pequenas, comprometiam o sistema na situação de segurança e transparência,
exercendo o papel na tipificação dos ilícitos.
Objetivando minorar este aspecto desfavorável à circulação das cártulas repousando nos cheques regularmente
preenchidos, algumas instituições financeiras inserem inclusive foto do titular da conta, no propósito de bem fixar a
imagem do correntista e na circunstância de levar ao conhecimento de terceiros quaisquer informações que o
serviço poderia não fornecer, com o documento próximo daquele recebedor do crédito.
Ressalta-se a imperativa maneira de fiscalizar o mercado e o número excessivo de cheques em circulação, dado
o elevado conceito produzido pela estabilidade da moeda, gerando condições melhores na perspectiva de ser aberta
conta corrente, mantendo-se em depósito valores, ainda que provenientes de salários, ou programas sociais de
participação dos assalariados.
Malgrado o cunho formalista que caracteriza a especificidade da abertura da própria conta corrente, não se
elimina a relação de fraude e atos ilícitos, ao lado de incontáveis cheques desprovidos de fundos, alimentados por
motivos de somenos importância na observação da sustação dos pagamentos, donde é fundamental a moralização do
instrumento e outrossim limites mínimos da contratação.
Expressa-se, por tal ângulo, um recadastramento que levou em consideração um número bem razoável de contas
correntes com dados de identificação sem corresponder ao plano real de sua apuração, isto é, com duplicidade de
elementos e mesmo a falsidade, de tal forma que compete ao órgão fiscalizador do mercado prevenir as diretrizes,
submetendo os operadores às regras rígidas em proveito daqueles que possuem crédito.
Bem na direção divisada, os subsídios exigidos melhoram, mas não encerram a polêmica de se traduzir maior
certeza e segurança ao mercado, no uso, circulação e meio de pagamento, sob o prisma da emissão contida nos
cheques.
As medidas encetadas pelo Governo e Conselho Monetário Nacional, sob a ótica do Banco Central, visam maior
solvabilidade do meio de pagamento, redução das fraudes, coadunação com a política monetária e taxa de juros, a tal
visão de se cogitar da redução do talonário para apenas dez folhas, querendo assim reprimir a emissão desabrida e
os malsinados efeitos.
Na vertente discutida, torna-se inadiável a discussão sobre valores mínimos de emissão e circulação, na senda de
minimizar os percalços e emprestar maior credibilidade ao cheque como meio de transferência do crédito.
Indesmentível aclarar que na modernidade o número de cheques desprovidos de fundo é verdadeiramente
elevado e causa muita preocupação no comércio e nos estabelecimentos em geral, havendo dificuldade em aceitar o
documento, mormente quando expressa importância maior, uma vez que a restrição encontra eco na inadimplência,
cuja perspectiva é coerente com a situação econômica e os índices de produção.
A gravidade da situação chegou a tal ponto, sem dúvida, que hoje a maior parte dos cheques se materializa pré-
datado, enquanto a menor segue a forma à vista, daí por que virou comércio de circulação e troca com o escopo de
antecipação, desconto e negociação com empresas de faturização.
Convergente com o panorama descrito, é fundamental resvalar numa solução que passa necessariamente pelo
mínimo valor da cambial, situando as sanções aos responsáveis e uma exclusão do mercado, com a eliminação do
crédito, ensejando um salutar procedimento de mapear a circunstância, eliminando os maus pagadores.

95. Modalidades
Costuma-se classificar os tipos de conta corrente bancária, conforme a titularidade do correntista, em unipessoal
e coletiva. Unipessoal é aquela que possui titular único, que a movimenta por si ou por meio de procurador bastante.
Conta coletiva é aquela em nome de várias pessoas. Pode ser: indivisível e conjunta. Conta corrente coletiva
indivisível é aquela, em princípio, movimentável só por todos os titulares, salvo mandato outorgado a um ou a alguns
para fazê-lo: “Trata-se, mais frequentemente, de pessoas que têm bens indivisos, notadamente de co-herdeiros antes
da partilha, de pessoas que empreendem atividades ou operações em comum, ou que formam uma sociedade de fato
ou em conta de participação”198.
É ajustada a solidariedade passiva para com o banco. Em caso de omissão, aquela também prevalece, por força
da regra contida no art. 275 do Código Civil.
Conta corrente coletiva conjunta é aquela que pode ser movimentada por qualquer dos titulares, regendo aí o
princípio da solidariedade, tanto ativa, quanto passiva.
Na dimensão da conta conjunta implementa-se forma de atingir o patrimônio dos correntistas, de maneira
solidária, ainda que a emissão proceda de único, objetivando encontrar maior certeza e boa segurança na
transmissão cambial e seu meio de pagamento.
Entrementes, sem embargo dessa solidariedade, algumas circunstâncias negativas emergem do cheque sem
provisão de fundos, abalando o crédito daquela pessoa não responsável diretamente pela emissão, ou desprovida de
conhecimento em torno da situação verdadeira da conta conjunta.
Seguindo a linha de raciocínio, decisão proveniente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo acerca do
assunto impôs responsabilidade por dano moral à Associação Comercial, haja vista a negativação do nome de
pessoa estranha à emissão da cambial.
Bem divisado o tema, que gera polêmica e causa um traço de incerteza na sinalização da responsabilidade
integral dos clientes, evidencia-se a ótica da culpa para ingressar no campo da responsabilidade, objetivando marcar
o ponto da obrigação.
Analisando o caso concreto, o TJSP pôde dissecar a questão jurídica, sob o plano seguinte:
“Embargos infringentes. Dano moral. Conta bancária conjunta. Cheque sem fundos emitido por um dos
correntistas. Comunicação ao SPC dos nomes de ambos correntistas. Inadmissibilidade. Solidariedade ativa e não
passiva. Ação procedente. Apelação provida apenas em parte. Embargos da ré. Rejeição” ( JTJ, Ed. Lex, 227:241-
5).
Vaticinou a decisão colegiada ser descabida a comunicação ao SPC quando a emissão da cambial aconteceu por
ex-mulher do autor, também titular da conta conjunta. Isso explica a solidariedade em atenção à instituição
financeira, não em face de terceiros, dês que competiria à signatária e somente a ela responder pela obrigação
assumida.
Admite-se a penhora das contas coletivas, tanto indivisível quanto conjunta, pelo credor individual de um dos
titulares: “Em princípio, a penhora deveria afetar apenas o saldo pertencente ao devedor penhorado; porém, com
mais frequência, o banqueiro ignora o montante desta parte e não pode, senão, bloquear a totalidade da conta.
Cumpre, então, aos demais titulares solicitar o fracionamento, provando seus direitos”199.
A morte de um dos titulares da conta coletiva não põe fim ao contrato, senão quanto ao falecido, continuando a
funcionar em relação aos sobreviventes. Podem, entretanto, os herdeiros ingressar na conta, se aqueles consentirem.
Outra questão de grande interesse prático na conta coletiva é a referente às consequências da emissão do
cheque sem fundos por um por um dos titulares. Segundo a lei francesa, de 3 de janeiro de 1975 (arts. 65-4 e 68, 3ª
alínea), os efeitos do ato se estendem a todos os titulares. Entendemos, porém, muito rigorosa a medida, devendo
figurar como responsável apenas o sacador do cheque, que, com seu ato, assume obrigação para com terceiro, e não
para com o banco.
Consciente dessa circunstância, a responsabilidade deve estar adstrita à pessoa do emitente, ainda que se trate
de conta coletiva, evitando assim que um nome comprometa o outro. Mesmo que se possa cogitar de
responsabilidade solidária, o ato notarial, por si só, incumbe ao devedor, que faz lançar sua assinatura no título.
A questão se torna frequente quando da separação do casal, ou extinção da sociedade conjugal, permanecendo a
cambial em mãos de um dos cônjuges, uma vez que a situação deveria ser cuidada preventivamente, colimando
evitar incidentes futuros.

96. Encerramento e extinção


A exemplo do que ocorre na conta corrente ordinária, na bancária dá-se o encerramento no prazo
convencionado, ou no termo legal, para apurar-se o saldo. Quanto à extinção, isto é, a ruptura do liame contratual,
além de pelos mesmos motivos da conta ordinária, a bancária se extingue pelo uso indevido do cheque (emissão sem
sufi​ciente provisão), nos termos da Circular n. 559, do Banco Central, de 29 de julho de 1980.
A respeito, o Bacen, no seu poder disciplinar, procura estabelecer por meio de padrão criterioso o mecanismo de
extinção na tipologia do cheque desprovido de fundos, cuja tessitura significa proteção ao crédito e um tempo
durante o qual o cliente não poderá abrir contas, medida que tem conotação moralizadora e de soerguer a estrutura
repousando no mercado, em face da liquidez.
Embora a presença da autoridade monetária seja de rigor, ao contrário do esperado, não se tem notado um surto
de redução dessa realidade consubstanciada na emissão de cheques sem fundos, alimentando uma zona cinzenta e
nebulosa, na medida em que a descrença na cambial obriga uma triagem e sempre gera uma desconfiança.
Bem no campo analisado, a atividade a cargo do Banco Central necessita de um aperfeiçoamento, cuja função
primacial consiste em estabelecer critério rígido na concessão do crédito e sanção rigorosa no indevido uso do
cheque.
Existentes os cadastros negativo e positivo ditando o conhecimento acerca da clientela de forma geral, tem-se
que o afastamento dos maus usuários do sistema é modalidade inadiável na preservação do crédito e na
confiabilidade destinada ao mercado.
O volume de cheques desprovidos de fundos consiste num elemento de peso, no sentido de sua recusa por
diversos estabelecimentos comerciais, fazendo uma série de exigências, e colocando o bom pagador numa situação
delicada e às vezes constrangedora.
Diagnosticado esse aspecto de fundamental relevância na tessitura abordada, a realidade chéquica comprova
que a simples abertura de conta corrente deve ser marcada por melhor técnica, que não se restringe a mero ponto
de formalidade.
Imprescindível que, ao se atender às normas do Banco Central, e na visão do conjunto, explore o
estabelecimento por meio do seu preposto todo o ângulo da relação, consultando a documentação, vendo os originais,
conferindo as assinaturas e revelando interesse para minorar fraudes.
Essencialmente, portanto, a prática tem demonstrado que furtos, extravios e roubos de documentos são
suficientes para que grupos que escolhem o caminho da ilicitude se prevaleçam da abertura de conta, sujando o
nome do verdadeiro titular, com a negativação e invariavelmente protestos, donde é imprescindível maior rigor e
depuração, até para evitar a responsabilidade objetiva da instituição financeira.
Há exigência de maior controle, fiscalização e rigor na abertura de conta, feitura de contrato e conferência
interna pelo banco. Não foge da rotina uso de documentos fabricados, espelhos de identidades e ainda de pessoas
falecidas, o que evidencia a ausência de um cadastro unificado informatizado de fácil acesso para efeito de consulta.
15
OPERAÇÕES DE CÂMBIO

Sumário: 97. Conceituação. 98. Razão de ser. 99. Conversão. 100. Espécies. 101. Controle de câmbio.

97. Conceituação
O termo “câmbio” pode ser tomado em duas acepções: uma genérica e outra específica. Genericamente, câmbio
significa a troca de duas ou mais moedas entre si, sentido este ligado às origens medievais da operação: “Esse
(negócio de câmbio) toma o seu nome, como negócio de câmbio da antiguidade, da permuta de somas de dinheiro, a
qual, naturalmente, sendo na Idade Média de valores diversos as moedas nos vários lugares, é, ao mesmo tempo,
uma permuta de espécies de dinheiro (moeda)”200. Já num sentido específico, câmbio vem a ser a troca de moeda
estrangeira pela nacional. Compra-se e se vende a moeda como se mercadoria fosse, dando-se à estrangeira a
deno​minação de “divisa”, seja ela representada por bilhetes, peças metálicas, ou mesmo escritural.

98. Razão de ser


Fácil compreender a importância das operações de câmbio se atentarmos para a necessidade de fazer-se
coexistir o internacionalismo do comércio com o nacionalismo da moeda. Tanto necessitam da moeda estrangeira o
importador a fim de efetuar ao exportador o pagamento das mercadorias que adquire como o turista que vai a um
país de moeda diferente.
Inevitável que o acesso à moeda nas operações de câmbio permite, de um lado, o maior equilíbrio da balança
comercial, na tendência de aumentar o fluxo das exportações e moderar aquele das importações, ao mesmo tempo o
ingresso de turistas significa a presença de divisas no termômetro e fonte segura de proporcionar ao País e também
ao comércio de forma geral um nível de receita adequado.
Ultrapassado o instante do câmbio repousando no poder de circulação da moeda interna, costumeiramente
haverá um braço de ferro na integração dos blocos de mercado, uma vez que as nações realizam processos de
enxugamento de setores improdutivos e tendem a desestatizar serviços públicos, colocando na iniciativa privada o
cerne da respectiva exploração.
Simboliza a riqueza do mercado na técnica de crescimento interno, balança comercial favorável e afluência de
recursos, uma projeção das reservas que oscilam de acordo com essa realidade, mas o processo de independência
mostra-se necessário e vital, diferentemente da escolha de dolarizar a economia, porque o retrato isolado constata
uma mudança nada satisfatória dentro dos padrões das nações em desenvolvimento.
Correto se torna afirmar que os contratos de adiantamento de câmbio demonstram a capacidade de riqueza e a
competição no mercado internacional, consequência dos resultados de constantes superávits na balança
evidenciando fluxo maior de exportação e menor de importação de produtos.

99. Conversão
A troca de moedas dá-se conforme o “curso do câmbio”, que exprime o valor de uma em relação à outra. Num
sistema de livre mercado e em sendo a moeda equiparável à mercadoria, a fixação do “curso do câmbio” deveria
dar-se pela lei da oferta e da procura. Entretanto, a relevância desse tipo de operação levou não só à sua
oficialização pelos órgãos governamentais, como também a que ficasse a eles reservada a função de fixar o “curso
do câmbio”. Assim é que, entre nós, “compete privativamente ao Banco Central do Brasil conceder autorização às
instituições financeiras, a fim de que possam praticar operações de câmbio etc.” (art. 10, IX, d, da Lei n. 4.595, de
31-12-1964). Ao mesmo órgão compete “atuar no sentido de funcionamento regular do mercado cambial, da
estabilidade relativa das taxas de câmbio e do equilíbrio no balanço de pagamentos, podendo para esse fim comprar
e vender ouro e moeda estrangeira etc.” (art. 11, III, da mesma lei). Destarte, o Banco Central enfeixa as
atribuições de autorizar as operações de câmbio e de fixar as respectivas taxas, ou seja, “o curso do câmbio”.
Entretanto, nos chamados países de “moeda fraca”, isto é, em que o valor das importações supera o das
exportações, viceja o mercado livre, ou paralelo, onde, na realidade, o “curso do câmbio” é estabelecido pela lei da
oferta e da procura.

100. Espécies
Há duas espécies fundamentais de operações de câmbio: a manual e a escritural.
Operação de câmbio manual é a que consiste na troca imediata da moeda nacional por estrangeira. Esse tipo de
operação atende geralmente às necessidades das pessoas que se deslocam para o estrangeiro, as quais, em troca da
moeda de seu país, recebem bilhetes de banco ou cheques de viagem em moeda alienígena. Trata-se, como se
percebe, de operação de menor vulto, atendendo às necessidades de turismo ou de negócio.
As operações de câmbio mais numerosas, e envolvendo importâncias maiores, são as escriturais, destinadas à
exportação e à importação, e que se perfazem por lançamentos contábeis: “... os bancos negociam haveres em
conta, isto é, vendem a seus clientes nacionais somas descontadas sobre seus haveres no estrangeiro e recebem, em
contrapartida, francos. Em sentido contrário, quando se trata de ‘repatriar divisas’ (em seguida a uma exportação,
por exemplo), a conta do banqueiro francês mantida no estrangeiro recebe o equivalente em francos”201.
Portanto, o banco vende ao interessado do país somas tiradas de seus haveres no estrangeiro, recebendo moeda
nacional, nos casos de importação, ou compra a moeda estrangeira, pagando ao vendedor em moeda nacional,
quando se trata de exportação.
Se, como vimos, as operações de câmbio manual se aperfeiçoam instantaneamente, ou seja, à vista, as
escriturais, praticadas pelos importadores e exportadores, são geralmente a termo, nas quais “o curso do câmbio é
determinado no dia em que a ordem é dada, mas a realização material permanece em suspenso: a entrega das
divisas e seu pagamento são reportados a uma data ulterior determinada”202.
Com esse procedimento, os importadores e também exportadores, sem dúvida, se forram a uma eventual alta, ou
baixa, na cotação da moeda estrangeira, cujo impacto é sempre notado na conjuntura das divisas e mercadorias, por
causa das oscilações em nações que estão em desenvolvimento, contrastando com a situação mais estável de países
do primeiro mundo.
De fato, a aparente dolarização dos mercados, técnica de economias dependentes de fluxos de capital, obriga a
um investimento mínimo numa receita de balança favorável permanente, na qual a via da exportação é
imprescindível para contenção da dívida pública.
Entretanto, manter em alta a exportação num cenário recessivo da economia sedimenta uma incógnita, na
medida em que vários mercados se fecham, e se impõe um protecionismo muito maior, refreando qualquer
aproximação, departamentalizando os segmentos em blocos que monitoram as necessidades em razão do consumo
que paulatinamente é reduzido.
No caso de inadimplemento do contrato de câmbio por parte do exportador que conseguiu adiantamento do
banco, o instrumento, devidamente protestado, servirá para a propositura de execução contra aquele, desde que as
importâncias correspondentes estejam averbadas no contrato, com anuência do devedor (art. 75 da Lei n. 4.728/65).
De seu lado, o banco incorre em responsabilidade se não se houver com a devida exação: “Mas o câmbio é
também um serviço que o banco fornece a seu cliente; na medida em que ele aceitou fornecer esse serviço, o banco
assume uma obrigação de prudência e de diligência: assim, um banco deve reparar o prejuízo resultante para seu
cliente, do fato da diferença das taxas de câmbio quando ele não executou prontamente a ordem recebida”203.
Sustentamos que a restituição nessa hipótese é regra excepcional que não se aplica aos processos de
recuperação judicial homologada, porquanto o fator econômico é fundamental e serve de embasamento para a
reestruturação da empresa em crise; tomar medidas paralelas de retirar o fôlego da sociedade, cujo oxigênio
representa sua negociação, significa contrastar com o desencadeamento do plano chancelado.
Dessa forma, qualquer posição extraída da Lei n. 11.101/2005 leva à conclusão no sentido de que a restituição
seria princípio assente na quebra, não mais na recuperação, diante da circunstância presente de saneamento e
soerguimento da empresa em estado transitório de crise.

101. Controle de câmbio


Conforme expusemos no item 99, supra, as operações de câmbio encontram-se atualmente sob controle oficial,
cumprindo ao Banco Central do Brasil não só autorizá-las, como também fixar as respectivas taxas. O fenômeno da
regulamentação é de âmbito universal, variando seu rigor de país a país. Com ele se objetiva preservar o valor da
moeda nacional, conforme disposto no art. 11, III, da Lei n. 4.595/64, não só pelo estabelecimento do “curso do
câmbio”, como também zelando pelo equilíbrio no balanço de pagamento. Por isso é que se diz que “a
regulamentação do câmbio não preenche seu papel, se não comportar o controle de todas as relações econômicas e
financeiras com o estrangeiro. Para poder efetuar um tal controle, o Estado se arroga o monopólio das operações de
câmbio. A regulamentação do câmbio exerce uma ação profunda sobre a economia do país: as trocas de moeda são,
essencialmente, motivadas pelas importações e exportações; a regulamentação do câmbio conduz o governo a frear
umas e a estimular as outras”. O turismo, os transportes, os seguros, são igualmente afetados por esta
regulamentação. Assim, “... não se trata mais nos textos de controle ou regulamentação do câmbio, mas de controle
das relações financeiras com o estrangeiro”204. Nesta ordem de procedimento têm sido uma constante, nas
legislações do mundo inteiro, as restrições à importação de divisas, de mercadorias, ou de ambas, desde 1931, em
consequência da grave crise financeira irrompida em 1929.
Finalisticamente, a política do câmbio atende à realidade do mercado e às circunstâncias da estabilidade da
moeda, sendo que compete ao Banco Central monitorar o setor e impor as regras que gerem maior segurança e
condução para a funcionalidade do sistema. Nesse aspecto, ampliou-se o limite de compra de câmbio para minimizar
a atuação nefasta do mercado paralelo; a respectiva aquisição de divisa sintoniza um momento de grande
deslocamento provocado pelo barateamento indireto dos preços, à medida que se disponibiliza uma quantidade de
reserva interessante à conservação do planejamento econômico.
De qualquer maneira, a penetração maciça dos cartões de crédito de nomenclatura e uso internacionais e as
práticas comerciais fizeram com que diminuísse um pouco o interesse direto na compra de câmbio, preferindo-se
uma forma mais segura e evitando-se ainda eventual rejeição dos cheques de viagem nos países que se recusam à
negociação de moeda que se intitula não ter regular curso.
Cada vez mais a mundialização dos mercados trouxe à baila a relação de inexorável dependência dos afluxos e
investimentos dos capitais estrangeiros, cujo suporte reduz as crises sistêmicas, projeta desenvolvimento escalonado,
cria empregos diretos e indiretos, realinhando o papel do Estado no situar as regras de incentivos fiscais.
O surgimento do euro na sinalização do direito comunitário europeu e tratados entre as nações signatárias
possibilitaram uma inevitável circunstância permeada por causa de participações constantes de empresas europeias
no Brasil, inclusive em termos de contrato de câmbio, em que é plausível a aquisição, e delimita um novo caminho
entre os mercados.
De fato, funcionando as economias como vasos comunicantes, a troca do câmbio entre as nações desenvolvidas
traz repercussão naquelas em desenvolvimento, na medida em que forja um tipo de relacionamento comercial, tanto
na balança de pagamento como na atração de empresas, objetivando o exercício de suas atividades, e por todo o
conjunto é visível a relevância do equilíbrio das contas, cuja finalidade é causar a menor dependência externa
possível.
Forte considerar que, com a crise da Argentina e a derrocada do Mercosul, a política monetária debateu a
melhor técnica do câmbio livre ou monitorado, na espécie de banda fixa ou flutuante, diante das consequências
inevitáveis na conjuntura e os reflexos diretos nos mercados.
No retrato presente, mostra a vizinha Argentina enorme vontade de se recuperar, inclusive à custa de sua dívida
externa, aplicação do default aos contratos e restrição à concorrência, abalando o relacionamento já embrionário em
termos de Mercosul, ensejando frequentes crises e um clima pouco amistoso que desconforta as empresas e
preocupa os empregados.
E a manutenção dessa relação tem sido custosa para o Governo, diluindo reservas e intervindo com frequência
no mercado, mormente para desinstalar a boataria e impedir que crises sistêmicas decolem em direção às nuvens o
câmbio.
Muitas medidas paralelas foram adotadas, inclusive com o aumento do depósito compulsório pelos bancos,
política agressiva de exportação com menor burocracia, socorro financeiro do estrangeiro no contexto de tornar
estável a moeda nacional com surtos inflacionários aceitáveis.
A grande verdade na era da incerteza que experimentamos mostra de um lado uma dependência extremada dos
afluxos de capital, d’outro ângulo uma atividade produtiva em declínio e diversas organizações com
reestruturamento, ambicionando adaptação do negócio aos padrões de consumo.
O desafio de persistir em relação ao alcance de um câmbio flutuante encontra o respaldo de mostrar uma
circunstância próxima do tempo que evidencia diversos aspectos contrapostos, em que é fundamental esgrimir
alternativas, dinamizar a produção, mantendo aceso o consumo, eliminando a dependência externa de capital e dos
fluxos de organismos internacionais, para um planejamento a longo prazo do cenário nacional.
Reconhece-se que o grande erro do Plano Real foi manter fixa a banda cambial, fazendo com que
posteriormente o mercado reagisse de forma imprevista, mas devemos melhorar a poupança interna, nossas próprias
reservas e reduzir a dependência do capital estrangeiro.
Com os pagamentos feitos junto ao FMI e ao Clube de Paris, pudemos sair da mesmice da submissão às
entidades internacionais, mas comporta aumentar as reservas e conseguir fluxos para mantença do superávit
primário e uma balança comercial duradoura favorável, em escala correspondente ao crescimento e
desenvolvimento do mercado interno.
Demais disso, a derrocada do câmbio, no fator dólar norte-americano, desincentivou os empresários, afetou o
agronegócio e trouxe fator de incerteza, pois o poder aquisitivo interno é bem restrito e não compete com as nações
desenvolvidas.
Identifica-se com tal premissa a perspectiva de um cruzamento de dados, completos e absolutamente
informadores a respeito da posição do contribuinte, cujo retrato tributário pode ensejar diagnóstico preciso em termos
de gastos.
O mapeamento destes informes pela autoridade fiscal, manipulando dados da contribuição informados pelos
bancos, tudo isso tem alterado o cenário e aberto no seu arcabouço o estado de dúvida, obrigando explicações do
contribuinte.
Naturalmente, a contribuição é parasitária e sua destinação não logrou atender à sua criação, porém se o
Governo Federal enxergasse mais o horizonte, faria uma repartição com Estados e Municípios, visando dotar o País
de infraestrutura adequada.
Essencial dizer que a mensuração entre contribuição, ganho patrimonial e ajuste de capital tem possibilitado à
Receita Federal verdadeira incursão pela vida das empresas e dos cidadãos, num campo minado de regras que
entrecruzam os sigilos fiscal e bancário.
16
OPERAÇÕES DE CUSTÓDIA DE VALORES E TÍTULOS

Sumário: 102. Conceituação. 103. Espécies. 104. O depósito em simples custódia. 105. O depósito de títulos
em administração. 106. O depósito cerrado. 107. Extinção do contrato.

102. Conceituação
A custódia de valores e títulos se inclui no rol das atividades acessórias exercidas pelos bancos, uma vez que a
principal é, como vimos no item 10, supra, a negociação de crédito. É um serviço prestado aos clientes com o
propósito de mantê-los no círculo de seu relacionamento profissional, potencialmente interessados em suas
operações financeiras. A custódia ou guarda pressupõe a disponibilidade pelo banco de instalações e serviços
adequados, perfeitamente encontrados na atualidade, caracterizando uma nova atividade bancária: “O banco, ainda
recentemente mercador de dinheiro, tornou-se prestador de serviços. Como tal, ele assegura a manutenção do
serviço financeiro, e participa, mais ou menos ativamente, do cumprimento de ‘operações financeiras’”205.
Trata-se, pois, de mais uma forma pela qual o banco pode ser útil a seus clientes, que se insere no rol dos
contratos bancários, consistente na guarda e conservação física e jurídica de coisas.

103. Espécies
Três são as espécies de custódia de valores e títulos: o depósito de títulos e valores em simples custódia, o
depósito em administração e o depósito cerrado. Passemos a examinar os elementos básicos de cada um.

104. O depósito em simples custódia


Consiste o contrato em o banco receber títulos e valores simplesmente para guardá-los e restituí-los ao
depositante no prazo convencionado, ou quando este os reclamar. Essa restituição se dá in individuo, isto é,
abrange as próprias coisas entregues à custódia. Trata-se do depósito voluntário, ao qual se aplica a disciplina do art.
627 do atual Código Civil, gerando obrigações para ambas as partes. Senão vejamos.
I — Obrigações do banco depositário. O banco depositário está adstrito a duas obrigações de fazer e a uma
de não fazer. As duas primeiras consistem em: a) custodiar e preservar a coisa; b) devolvê-la no prazo
convencionado ou quando reclamada. A última reside na vedação de usar a coisa (c).
a) Obrigação de custódia e preservação da coisa. É o dever fundamental de todo depositário: “Custodiar os
títulos e valores significa que o banco é obrigado a desenvolver a atividade de vigilância necessária à conservação
física ou econômica desses, colocando-os em locais que apresentem caráter de idoneidade para o fim de segurança
colimado e organizando um serviço de inspeção que exclua o perigo de alteração ou de subtração dos próprios
títulos. Entra no conceito de ‘conservação’ econômica dos títulos a percepção dos juros e dividendos devidos”206.
Visando o depositante com o contrato obter segurança para seus títulos e valores, conjugada com sua fácil e
pronta disponibilidade, não nos parece decorrer implicitamente da avença o direito do banco de, a seu alvedrio,
mudar o local do depósito. Teria, para tal, que obter o consentimento do depositante. O depositário é obrigado a
aplicar toda diligência na guarda e conservação da coisa, incorrendo em responsabilidade no caso de culpa in
vigilando (confira-se art. 629 do CC).
b) Obrigação de devolver a coisa. Não convencionado o prazo do depósito, fica o banco obrigado a restituir a
coisa nos termos da notificação que o depositante lhe enviar. No depósito em simples custódia, o depositário está
adstrito à devolução in individuo, ou seja, das próprias coisas em espécie, não podendo ser invocada sua
fungibilidade para restituição de outras, embora do mesmo valor e espécie. Entende-se, porém, que, “se o
depositante, para o qual possa ser sem interesse o ter títulos portando outros números, consente receber um título
diverso daquele que entregou, o banco fica liberado da obrigação de restituir pela datio in solutum”207.
A devolução deve ser feita ao depositante ou a seu procurador bastante. Em se tratando de contrato, não é de se
exigir a qualidade de dominus do depositante no ato da restituição, mesmo que seja invocada por terceiro (CC, art.
632). O depositário só não lhe fará a entrega “se tiver o direito de retenção a que se refere o art. 644, se o objeto for
judicialmente embargado, se sobre ele pender execução, notificada ao depositário, ou se houver motivo razoável de
suspeitar que a coisa foi dolosamente obtida” (art. 633 do CC). Nessa hipótese, ele se liberará, requerendo o
depósito judicial da coisa ao depositário público (art. 634 do CC).
De ressaltar que o Código Civil em vigor cuidou da matéria acerca do depósito voluntário e necessário a partir
do art. 627, com imposição de sanção na modalidade de perdas e danos, na hipótese de não restituição, abolindo-se
do contexto a prisão de natureza civil, já que se coaduna com o pensamento da doutrina e majoritário da
juris​prudência, ainda que previsto no art. 652 do Código Civil.
Essa equação de ocorrer devolução nos moldes do primitivo negócio jurídico subjacente tem sido um desafio, por
causa dos aspectos negativos dos planos econômicos, a pluralidade de índices e o braço de ferro para que a
jurisprudência encontre um denominador comum.
Consequentemente, as instituições financeiras que lidam com as poupanças e o conjunto dos recursos aplicados
sempre defendem índices menores ou aqueles que se amoldam aos seus interesses, protelando uma definição acerca
da matéria.
Em caso de ter que indenizar, por falta de restituição, o ressarcimento deverá ser feito na base “não do dia da
constituição do depósito, mas daquele do pedido da restituição feita pelo depositante; sendo função do ressarcimento
a de recolocar o depositante na mesma condição em que se encontraria se tivesse recebido os títulos em condições
inalteradas em seguida a exata execução do contrato e assim no momento em que a execução teria tido lugar”208.
Remanesce o dispositivo constitucional excepcional que prescreve a prisão do depositário infiel (art. 5º, LXVII),
disciplinado pelo antigo Código Civil de 1916, art. 1.287, e contemplado no revogado Código Comercial de 1850, no
art. 284, porém sem tratamento específico no atual Código Civil, sendo prevalente o entendimento no sentido do
descabimento da prisão civil por dívidas.
As determinações quanto ao cabimento do decreto prisional vieram mantidas no novo Código Civil, embora seja
acesa a discussão sobre a impossibilidade de prisão por dívida civil, em torno do Pacto de San Juan, e na
interpretação da Lei Maior.
Efetivamente, as hipóteses restritas que desencadeiam a prisão administrativa resultam não só em casos de
maior gravidade e proteção de interesses tutelados, mas na dicção de componente financeiro, pois inegável
considerar os interesses de empresas a demover os devedores da mora ou apropriação do bem.
Fundamentalmente, a prisão civil serve como meio de pressão psicológica para um acertamento entre as partes,
com a respectiva responsabilidade e o conhecimento real sobre as consequências da não restituição da coisa
conforme entregue à posse direta do ina​dimplente.
c) Dever de não usar a coisa. Prescreve o art. 640 do atual Código Civil: “Sob pena de responder por perdas e
danos, não poderá o depositário, sem licença expressa do depositante, servir-se da coisa depositada, nem a dar em
depósito a outrem”, donde se infere, conforme o parágrafo único do citado artigo, sem dúvida alguma, que se estiver
autorizado e confiar a coisa a terceiro, mesmo assim ficará responsável se agiu com culpa na respectiva escolha.
Autorizado a fazer uso da coisa, cuidar-se-á de comodato. Nesse caso, configura-se o comodato, uma vez que o uso
da coisa é gratuito. Convencionada, contudo, uma retribuição, tem-se uma locação, “sem, contudo, deslocar-se o
resultado prático sobre a pertinência do direito de propriedade do título”209.
Sustentou-se que, “se um dado título ao portador pode ser considerado igual a um outro do mesmo tipo, ainda que
se distinga pelo fato de trazer um número ou sinal diverso, não se sai do âmbito do comodato, quando o banco,
tomando os títulos em empréstimo, concretize a restituição com outros da mesma espécie. Nesta forma anômala de
comodato, chamada comodato impróprio, ou irregular, ter-se-ia distinguido um tertium genus entre o comodato
ordinário e o empréstimo (mútuo) de títulos, chamado ‘comodato bancário de títulos’, por ter sido introduzido na
prática dos bancos, os quais têm a possibilidade de manobrar massas homogêneas de títulos de crédito ao portador,
como, por exemplo, os bônus do tesouro. Não existe, em verdade, uma figura autônoma de comodato bancário,
porque, se ao banco é facultado dispor dos títulos depositados com a obrigação de restituir outros da mesma espécie,
o contrato é de depósito irregular ou de mútuo, não de comodato”210.
II — Obrigações do depositante. “O depositante é obrigado a pagar ao depositário as despesas feitas com a
coisa, e os prejuízos que do depósito provierem” (CC, art. 643).
Transplantada a espécie para o plano bancário, temos que o depósito se arrola entre as atividades profissionais
dos bancos, possuindo eles direito não só às verbas enunciadas no artigo suprarreferido, como também às usuais
comissões. Cabe ao depositário exigir pela guarda da coisa depositada, sendo oneroso o depósito, uma retribuição.
Caso não conste da lei ou do próprio ajuste, a importância será determinada pelos usos do lugar e, na falta destes,
por arbitramento (art. 628, parágrafo único, do CC). Possuindo o depositante conta no banco, não vemos
impedimento a que este possa debitar aquelas verbas. Até que delas seja pago, pode o depositário reter a coisa
depositada (art. 644 do CC).

105. O depósito de títulos em administração


É o tipo da custódia de títulos mais em voga na atualidade. Por essa modalidade contratual, o banco assume a
obrigação não só de guardar os títulos, mas também de administrá-los, isto é, de tomar medidas conservatórias e de
representação produtiva. Os títulos sujeitos a essa espécie de depósito são os de massa, como as ações de
sociedade anônima e os valores mobiliários em geral. Em nosso direito, encontra regulação a “custódia de valores
mobiliários”, assim definida pelo parágrafo único do art. 24 da Lei n. 6.385, de 7 de dezembro de 1976: “Considera-
se custódia de valores mobiliários o depósito para guarda, recebimento de dividendos e bonificações, resgate,
amortização ou reembolso, e exercício de direitos de subscrição, sem que o depositário tenha poderes, salvo
autorização expressa do depositante em cada caso, para alienar os valores mobiliários depositados ou reaplicar as
importâncias recebidas”. E o art. 41 da Lei n. 6.404/76 dispõe que a Comissão de Valores Mobiliários autoriza a
instituição financeira a prestar serviços de custódia de ações fungíveis, podendo “contratar custódia em que as ações
de cada espécie, classe e companhia sejam recebidas em depósito como valores fungíveis”. Ao lado dessa
obrigação de custódia, fica o banco investido de um dever de gestão ou de representação: “A instituição financeira
representa, perante a companhia, os titulares das ações recebidas em custódia nos termos do art. 41, para receber
dividendos e ações bonificadas e exercer direito de preferência para subscrição de ações” (art. 42 da Lei n.
6.404/76). Está, pois, o banco investido, para o exercício dessas funções, de um mandato legal.
Todas as espécies de ações podem ser objeto do contrato: “Ambas as espécies de ações podem ser objeto de
custódia geral (ordinárias e preferenciais) e podem sê-lo nas formas nominativa (registrada), endossável e ao
portador”211.
Para exercer o direito de preferência que lhe comete o art. 42 da Lei das Sociedades por Ações, o banco deve
dispor de numerário em tempo oportuno, se não existir entre as partes uma conta corrente: “Existe, pois, uma
obrigação do banco de informar tempestivamente o depositante para a execução de determinados atos e existe um
ônus a cargo do próprio depositante de dar as instruções oportunas para que o banco esteja em condições de
executar tais atos, colocando à disposição dele os fundos necessários etc.”212.
Não pode, portanto, no que concerne à subscrição de novas ações, agir o banco sem a colaboração do
depositante. Porém, para receber dividendos e ações bonificadas, dela prescinde, ainda que sob o aspecto de
instruções.
Tudo quanto se disse até agora a respeito do depósito de títulos em administração explicitou as obrigações do
banco, que, na realidade, constituem o principal aspecto do contrato. Isto porque as obrigações do depositante são as
mesmas que no depósito em simples custódia, ou seja, de pagar ao banco as despesas com a coisa e os prejuízos
provindos do depósito e mais as comissões. Reconhece-se ao depositário o direito de se fazer pagar por operações
que praticar a benefício do cliente que ultrapassarem a simples custódia e administração: “O banco tem, além do
mais, o direito às comissões usuais para as operações que, fora daquelas devidas pela custódia e administração dos
títulos, sejam cometidas pelo depositante, como vender os títulos, dá-los a reporte, sujeitá-los a penhor e assim por
diante”213.
Comumente, as instituições financeiras acenam para a qualidade de representantes dos acionistas, entabulando
participação nas assembleias, colimando o exercício do direito de voto, na forma de prestigiar o mandato e conferir a
instrumentalidade.
Demais, as empresas de crédito desempenham um papel fundamental com a emissão, lançamentos e aportes de
capital de variadas formas, mantendo custodiados os títulos e conhecendo a realidade a respeito da composição da
carteira e o voto.
A iniciativa facilita o relacionamento da entidade com o acionista, na atribuição de dividendos, no depósito de
valores, nos esclarecimentos sobre alterações, demais avisos, importando na capacidade técnico-profissional de
assumir responsabilidade nos moldes da manifestação de vontade do interessado.

106. O depósito cerrado


É aquele em que a coisa é entregue fechada, colada, selada ou lacrada, e nesse mesmo estado se manterá, e, se
for devassada, incorrerá o depositário na presunção de culpa (art. 630 do CC). Isso significa que o banco não tem
conhecimento das coisas contidas no invólucro. Dessarte, a norma deve ser interpretada com teleologia e espírito de
coerência, posto que o banco pode, mediante o concurso do depositante, tomar conhecimento acerca do conteúdo:
“É verdade que o banco tem o direito, seja no ato de constituição, seja sucessivamente, de verificar, com o concurso
do depositante, o conteúdo; mas isso não modifica a natureza da relação, transformando-a em depósito aberto; como
não a modifica a circunstância de que o banco venha a ter conhecimento do exato conteúdo.
Com efeito, os eventuais controles do banco são dirigidos a garantir-lhe que o envoltório não contenha coisas
perigosas que possam trazer prejuízo ou incômodo e a permitir-lhe pedir (e isto vale para quando o banco veio a
conhecer o exato conteúdo do invólucro) a resolução antecipada da relação, assim como pode pedi-la quando o
invólucro contenha bens de proveniência ilícita”214.
Desconhecendo o banco o conteúdo do depósito, e estando impedido de devassar o invólucro, deve apenas
garantir a integridade do fecho (cola, selo ou lacre) e impedir sua violação. Ocorrendo esta, poder-se-á proceder a
uma verificação judicial, ou mesmo lavrar-se uma escritura pública de verificação das coisas encontradas, em
seguida a uma descrição escrita do conteúdo pelo depositante. Do mesmo modo se agirá quando o banco,
pretendendo controlar o conteúdo, não contar com a necessária cooperação do depositante.
O espírito que marcou a nova ordem encerrada no Código Civil preserva seus conceitos fundamentais, em
relação ao depósito, quando vier fechado, colado, selado ou lacrado, impondo a obrigação de ser feita a restituição
em condições idênticas.
A realidade ganha corpo e singular atenção quando se discute a origem ilícita da coisa e possível alcance da
fiscalização dentre as normas sob a competência do COAF, a fim de evitar a lavagem de dinheiro e circulação de
recursos ilegais.
Conquanto haja um método que se coaduna com o sigilo na operação bancária, resulta inequívoco que a Lei
Complementar n. 105, de janeiro de 2001, pôde fortalecer a flexibilização, dando maleabilidade à investigação,
relevando o formalismo de cercar o negócio de um segredo intocável.

107. Extinção do contrato


O contrato de custódia de valores e títulos, em qualquer de suas três espécies supraenumeradas, se extingue:
pela expiração do prazo avençado, pelo reclamo das coisas pelo depositante e pela denúncia do banco. Neste último
caso, não atendendo o depositante ao chamamento do banco para retirar as coisas, pode este requerer o depósito
judicial (CC, art. 635).
Sobredito procedimento judicial visa sobretudo desonerar a instituição financeira da respectiva responsabilidade
de guarda e conservação da coisa, enfeixada na disposição de cessar sua atividade, quando o interessado não revela
a mínima vontade de retirada.
De acordo com a natureza do depósito e sobrevinda extinção, na lide que busca o fim da relação e a
transferência da responsabilidade, torna-se possível a fixação de data com o escopo da abertura do local e o
recolhimento dos bens que se acham depositados.
Simplesmente, não constando uma discriminação detalhada da lista de bens depositados, conveniente que a
instituição financeira, uma vez extinto o contrato, proceda ao depósito judicial e se livre de consequências
desagradáveis, mesmo na esfera da responsabilidade, posto que a demanda previne esse efeito e com a decisão
formaliza o término do negócio jurídico.
No exame da demanda que prioriza o depósito judicial da coisa ou de bens fruto do contrato, competirá ao
depositário esclarecer os motivos da relação de direito material, municiando o juízo de subsídios tocantes à
localização e possível quantificação.
Inocorre obrigatoriedade do banco em manter contrário à sua vontade o contrato, porque infringiria os princípios
da liberdade e da própria autonomia; assim, no trato das relações e considerando o desinteresse na continuidade, a
ação de depósitos se apresenta consentânea ao desiderato perseguido e desdobramentos no sentido de isenção de
responsabilidade.
Se não convier mais à instituição financeira a mantença do contrato, num primeiro momento urge comunicar ao
seu cliente para que formalize a extinção contratual; acaso não tome providência alguma, correto seria o depósito
judicial da coisa, estabelecendo o marco da isenção de qualquer risco no trato da custódia havida.
Admitamos que certa instituição financeira, mediante comunicado ao público em geral e particular à sua
clientela, resolva fazer cessar o serviço prestado em relação aos cofres de segurança, porém determinados
interessados não se manifestam e, por questão de sua responsabilidade, resolvendo livrar-se do encargo, procede ao
depósito judicial.
De observar que não incorrerá em violação do contrato, pelo selo do aspecto sigiloso, na medida em que não
poderá manter por prazo indeterminado a coisa, excepcionalmente ao princípio da solução de continuidade
significando um alcance prático.
Nesse diapasão, para evitar qualquer alegação de eventual dano, mais consentâneo seria que fosse aberto o
cofre na presença da parte citada, ou do oficial de justiça, lavrando-se auto circunstanciado, ensejando a
transferência para efeito de depósito judicial.
Dessa forma, a responsabilidade do banco se marcará cessada quando fizer o depósito judicial da coisa, em toda
a sua inteireza, de maneira a satisfazer o preceito normativo da restituição e conferir por meio de um provimento
específico o cumprimento de sua obrigação.
Considerando o sinalagma e sua situação de formalidade, comporta, para efeito de sua extinção, a prévia
notificação, no propósito de fixar o elemento da mora e traduzir eventual responsabilidade.
No desenho da hipótese descrita, a extinção da obrigação decorre do reconhecimento do vínculo e segurança
diante do provimento acerca da circunstância concreta.
A efetividade do depósito faz cessar a responsabilidade do banco, para efeito de liberação de sua obrigação e
consequente satisfação do valor pago, representado pelo depósito existente nos cofres de segurança.
Não é estranho que a família também desconheça a realidade e a instituição, o falecimento do titular, daí por que
a movimentação é determinada por meio de ordem judicial.
Incidente relação de consumo no contrato especificado, não se fará sua prorrogação automaticamente, ou por
intermédio do simples silêncio, cabendo à parte interessada renovar o propósito e manter atualização dos dados junto
à instituição bancária.
Rareiam as instituições que lidam com esse tipo de contrato de cofre de segurança, a uma por força da parca
remuneração, a duas pelo elevado risco, por último pela cobertura em função da contratação de um serviço seguro,
evitando surpresas e atos ilícitos.
Via de regra, o contrato endereça-se ao cliente e não a terceiro, como serviço disponível dentro das regras do
padrão da instituição, a critério do consumidor, mas a título oneroso e com salvaguarda, na hipótese de ser feita a
declaração coeva com o seguro.
17
O SERVIÇO BANCÁRIO DOS COFRES DE SEGURANÇA

Sumário: 108. Conceito. 109. Natureza jurídica. 110. Características. 111. Obrigação das partes. 112.
Abertura compulsória do cofre. 113. Extinção do contrato.

108. Conceito
Contrato de cofre de segurança, ou de cofre-forte, é aquele pelo qual o banco coloca à disposição do utente um
compartimento ou cavidade para a guarda de dinheiro, objetos preciosos ou documentos, mediante remuneração.
Esse serviço se reveste de dois aspectos fundamentais: “a vigilância e o segredo”215.
Tal compartimento é dotado de uma portinhola, “munida de fechadura, a qual não pode ser aberta ou fechada
senão com o concurso, separado ou simultâneo, de duas diferentes chaves, uma que pode ser comum a muitas
fechaduras (a chamada chave mestra), mantida pelo banco, e outra em único exemplar (ou em duplo exemplar),
mantida pelo usuário. Assim, a cooperação do banco é necessária, seja na abertura, seja no fechamento do cofre, o
que leva a limitar seu uso ao horário fixado pelo banco, que, normalmente, não coincide com o horário mais restrito
das operações nos guichês”216.
A insegurança dos grandes centros urbanos, ao lado da violência, tem feito com que haja um relativo aumento do
número de usuários do respectivo serviço prestado pelas instituições financeiras, mas sem o aspecto de
responsabilidade, na hipótese de furto, roubo ou perda do objeto depositado naquele compartimento específico.

109. Natureza jurídica


Controverteu-se acerca da natureza jurídica deste contrato. Dentre os sistemas legislativos de tradição
romanística, encontramos sua disciplina nos arts. 1.839 a 1.842 do Código Civil italiano. Não obstante, mesmo depois
da codificação, sustentou-se sua semelhança com o depósito ou com a locação de coisa. De depósito não se trata,
porquanto não se configura o aspecto real desse contrato, por não haver entrega das coisas pelo usuário e
consequente recebimento pelo banco (CC, art. 627): “O banco, de fato, fora do controle que lhe incumbe para a
segurança comum, não conhece, pela privacidade do serviço, o conteúdo do cofre; e a denúncia do valor das coisas
depositadas, que lhe seja feita unilateralmente pelo usuário, vale apenas para determinar preventivamente o
montante do dano ressarcível, e não para pô-lo em relação com a própria coisa, e ainda menos para substituir a
materialidade da entrega. Deve, pois, acrescentar-se que a colocação à disposição, do cofre, prescinde do efetivo
gozo que dele faça o usuário, pelo que, se ele timbra em deixá-lo vazio, ainda que intervaladamente, não se saberia,
com a qualificação de depósito, quais as obrigações a configurar a cargo do banco”217.
E o contrato de locação não tem elementos para explicar o dever de vigilância, assumido pelo banco, não só em
relação ao local onde se situa o compartimento, como também quanto à necessidade de sua colaboração nos
momentos de abertura do cofre.
Persistindo a dificuldade em classificar o contrato de cofre de segurança entre as figuras preexistentes, o que,
aliás, reputamos desnecessário, pois se trata de modalidade nova, nominada, fixa-se a atenção em precisar as
responsabilidades do banco, concordando a doutrina e a jurisprudência modernas que se trata “de uma obrigação
particular de vigilância e de tomar todas as medidas necessárias para assegurar, salvo força maior, a salvaguarda do
cofre e dos objetos que ele contém”218.
Com razão, não havendo declaração sobre a natureza e o conteúdo dos bens que fazem parte do acervo
encerrado no cofre de segurança, a grande dificuldade tem sido a fixação do dano material, em compasso com
aquele de espectro moral, diante de joias e demais bens que conservam valor sentimental, e o âmbito da prova passa
por um caminho específico e de sinalização dificultosa.

110. Características
O serviço dos cofres de segurança é um contrato consensual, porquanto para sua formação basta o encontro de
vontades, não sendo necessário o uso efetivo do compartimento, mas sim sua disponibilidade em favor do usuário,
mesmo que este o conserve vazio. É por adesão, devido à predisposição das cláusulas contratuais pelo banco. Não
nos parece intuitu personae, não obstante, como ocorre em todos os contratos bancários, o banco colha as
informações de praxe a respeito da idoneidade moral do cliente, considerando que ele terá acesso a uma
dependência onde devem imperar o sigilo e a segurança. É contrato bilateral, porque implica obrigações para ambas
as partes. É oneroso, pois compreende prestações recíprocas, que propiciam proveito econômico para os dois lados
interessados.
Finalmente, trata-se de um contrato de execução continuada, ou de duração, porquanto se prolonga no tempo por
meio de atos reiterados e, não obstante o prazo convencionado, remanesce até a efetiva retirada dos objetos
guardados.
Nota-se o traço da duração indeterminada do contrato. Na medida em que as partes pactuam solene e
formalmente a guarda de um objeto e a coisa representa o interesse maior do cliente, mais nada impede venha a
cessar a relação mediante comunicação.
Substancial afirmar o ponto nevrálgico do risco de que se reveste o contrato em relação ao uso do cofre de
segurança, pertinente ao acervo patrimonial não declarado, visto que há cobertura limitada, e invariavelmente os
clientes-locatários experimentam prejuízos nas circunstâncias do desaparecimento da coisa.
Mantida a natureza sigilosa da operação, na qual à instituição compete preservar a máxima de guardar os
objetos, debelando as adversidades em virtude do negócio, comporta ponderar que as medidas adotadas pelas
empresas refogem dos padrões de maior segurança, por não administrarem um monitoramento específico, a
evidenciar menor perigo gerencial na responsabilidade do locador.
Desperta elevada suspeita a existência dos chamados cofres de segurança, a uma, pela realidade que por si só
representa, a duas, pelo valor sentimental (bens de estimação), por último e singularmente importante, no relevo
universal, por conferir um produto destinado à parcela mínima e privilegiada da população, cuja finalidade é de
proteger o patrimônio contra a insegurança reinante.
Cresceu enorme e violentamente hoje em dia o aparato de meios eletrônicos, técnicos, de rastreamento, para
objetivar uma esquematização completa em torno do padrão de serviço oferecido, na disposição de evitar surpresas
e prejuízos à clientela.
Evidente que uma parcela usufrui da qualidade do serviço, outra se permite depósito no exterior, e ainda uma
terceira se vale de países nos quais inocorre intercâmbio, sendo fechado o sigilo, de modo a assegurar tranquilidade
na movimentação, sem declaração de remessa e incidência dos devidos impostos.

111. Obrigação das partes


I — Obrigações do usuário. O cliente, além de ter que pagar pelo uso do cofre a retribuição convencionada,
está adstrito a dele usar para os fins e pelo modo avençados, abstendo-se de guardar substâncias perigosas, nocivas
ou molestadoras, submetendo-se, outrossim, a todas as regras de procedimento, no que tange ao uso do cofre,
impostas pelo banco, visando ao segredo e à segurança da operação.
II — Obrigações do banco. Consistem em: a) garantir ao cliente a disponibilidade e o livre acesso ao cofre; b)
garantir sua vigilância e integridade.
a) Da garantia de livre uso e acesso ao cofre decorrem: “a) que o cofre deve apresentar os necessários
requisitos de solidez e garantia. Os materiais empregados devem suportar os riscos normais de arrombamento,
incêndio e inundação. Também, a chave deve ser incomum e de difícil imitação; b) o cofre deve ser colocado à
disposição do usuário em bom estado de manutenção, dado que o desfrute poderia ser impedido pelo mau
funcionamento da fechadura; c) o cofre deve ser mantido em estado de servir ao uso convencionado. Portanto, o
banco deve prover a todos os reparos que se tornem necessários, sem distinguir entre os de pequena e de grande
monta. Se as exigências do serviço o requerem, como, por exemplo, para consertos urgentes, o banco pode colocar
à disposição do usuário, no próprio local, outro cofre. Se mais graves são essas exigências, pode aquele transferir o
serviço para outro local do mesmo imóvel, avisando o usuário. Em todos esses casos, é ressalvada ao usuário a
faculdade de resilir o contrato; d) deve o banco garantir o uso pacífico do cofre, inclusive contra turbação de
terceiros; e) responde o banco pelos defeitos e imperfeições do cofre que possam deteriorar ou destruir os valores
nele contidos”219.
b) Na garantia da vigilância e integridade do cofre se compreendem a custódia do local onde se encontra o cofre
e a integridade externa deste.
“Responder pela custódia do local significa que o banco deve diligenciar os meios idôneos para assegurar a
vigilância dos próprios locais, para impedir que outrem, que não seja o usuário, possa abrir o cofre.
Responder pela integridade do cofre significa que o banco é responsável pelos danos sofridos pelo usuário
quando se verifique uma lesão externa do cofre220.”
Eventual estipulação de cláusulas de não responsabilidade de parte do banco não pode neutralizar sua obrigação
de vigilância, que é da essência do contrato; “seu efeito limitar-se-ia a exonerar o banco de sua culpa leve, por
exclusão da culpa grave”221.
A responsabilidade do banqueiro tem sido temperada com a falta de norma disciplinando o tema e pela limitação
de valores, na vertente de surgir como obrigatória a relação de bens e coisas depositados nos cofres de segurança,
sob pena de ser tarifada a indenização, exceto se for contratado seguro complementar, ou houver demonstração
quantum satis da exclusiva culpa da instituição financeira na guarda daqueles objetos.
Há um dano sentimental experimentado pelo depositante, de natureza moral, na medida em que joias e objetos
familiares são dispostos nas caixas de segurança da instituição financeira, possuindo valor inestimável, dificultando
tradução concreta numa importância compatível com o preço de mercado.
No entanto, a desídia, a falta de zelo e o mínimo de cautela da entidade responsável pela guarda dos objetos
sinalizam culpa grave, que permite questionar o limite da indenização e o grau dos danos acontecidos em relação ao
usuário deste sistema.
Costumeiramente, aquele interessado na contratação leva em linha de pensamento uma exclusividade de sua
privacidade, porque retira as coisas do seu contato direto, mantendo-as na posse da instituição, sob o manto do sigilo
de não revelar ao próprio depositário a circunstância em que conseguiu ingressar no seu patrimônio, dado o móvel
que agita o interesse de nada declinar, sendo o silêncio a pedra de toque do sucesso de manter o segredo.
Indaga-se, em termos de indenização, se é plausível a comprovação idônea da coisa ou sua titularidade para se
chegar ao valor do ressarcimento, na hipótese de ter condições para fazer jus àquilo pleiteado e também se
apresentar desta forma nas declarações de rendimentos.
Com razão, sempre que acontece uma ilicitude e o cliente é desapossado daquelas coisas, vem à baila o
predicado da máxima de experiência ditado pela avaliação pontual do padrão do contratante, na medida em que se
veda o enriquecimento sem causa.
Desta forma, desenvolvendo-se procedimento litigioso colimando o ressarcimento integral dos prejuízos havidos,
nas órbitas material e moral, eventual solicitação de fundamentação comprobatória poderá suscitar a imperativa
ordem de exibição dos documentos de rendimentos e as declarações enviadas ao Fisco, de tal modo que isto balize o
convencimento na formação do juízo valorativo.
Contudo esta realidade não é de todo imprescindível, quando a coisa é proveniente de herança, legado, ou
mesmo tem valor pessoal superior ao material, cabendo análise e indícios probatórios que assegurem o nexo causal
em prol do indenizado.
Matéria de real importância e que repercute no cerne dessa debatida diz respeito à aplicação das regras do
consumidor, tanto que possível, quer na inversão do ônus ou da maneira pela qual a responsabilidade poderia ser
mitigada, de molde a não onerar sobremodo o prejudicado.
Proferindo o Superior Tribunal de Justiça manifestação no sentido de que, em matéria de operação bancária, a
incidência da regra de relação de consumo tem conotação abrangente, geral e sua repercussão converge para a
manutenção desse equilíbrio, na situação ditada pela locação de cofre de segurança é fundamental temperar o
predicado com sua interpretação.
Inexiste, por assim dizer, uma culpa objetiva, ou presumida, a deliberar uma inversão da prova, na quantificação
da coisa, porém mero suavizar da circunstância que engendra um quadro delimitado por zona cinzenta, em que o
nexo causal é exigido e a comprovação real do dano, tanto material, emocional, psicológico e de conotação moral,
expressa uma soma compatível com os elementos objetivos concretizados na demanda.
Efetivamente, a decisão se desenhará caso a caso, na sua concretude, podendo o juízo fundar-se numa perícia
indireta, na prova oral, e todos os demais subsídios que concorram direta ou indiretamente para a demonstração em
torno do objeto confiado à instituição financeira.
Deve existir uma lógica e coerência entre a demanda, seu fundamento e a situação peculiar do indenizado,
compatível com as regras que presidem o contrato, para que não se alcance um enriquecimento sem causa ou se
revista a decisão de caráter aleatório, verdadeira presunção inconsentânea com o dano patrimonial e a força que
repercute na essência daquele moral.
Dentro desse âmbito delimitado e pelo contorno resvalando no fundamento da pretensão, tudo giza a
comprovação do respectivo nexo causal, na previsão do art. 186 combinado com o art. 927, ambos do Código Civil
em vigor.

112. Abertura compulsória do cofre


Dispõe o art. 1.841 do Código Civil italiano, que, na ausência de preceito legal expresso no direito brasileiro, pode
ser tomado como subsídio pela doutrina, que, “vencendo-se o contrato, o banco, mediante prévia intimação ao titular,
e decorridos seis meses da mesma, pode pedir ao juiz autorização para abrir o cofre. A abertura se procede com a
presença de um tabelião para tal designado e com as cautelas que o magistrado entende oportunas”.
A doutrina peninsular admite também a abertura forçada no caso de falta de pagamento da retribuição devida
pelo usuário, ou em qualquer outra hipótese de recusa de devolução ou extravio das chaves.
Em todos esses casos de abertura compulsória do cofre, o juiz deve prover à guarda e conservação dos objetos,
podendo determinar a venda dos necessários ao pagamento da remuneração e das despesas havidas pelo banco.
Nos contratos de cofre de segurança entre nós, os bancos soem inserir cláusula autorizadora de abertura
compulsória por eles no caso de, finda a locação, o locatário não restituir as chaves. A medida é procedida perante
duas testemunhas, colocando-se os bens num invólucro lacrado, rubricado pelo banco e testemunhas. Entendemos
que a orientação do art. 1.841 do Código Civil italiano é mais consentânea com a natureza sigilosa desse tipo de
contrato, razão pela qual a abertura forçada deve ser feita mediante controle judicial.
Demais disso, a presença de um elemento neutro trará maior garantia e certificará a realidade da coisa,
mediante termo a ser reduzido no escrito lavrado, diante do qual farão assinar e terá eficácia como meio de prova a
ser apreciada pelo juízo.

113. Extinção do contrato


O contrato de cofre de segurança se extingue: I — pelo término do prazo, se não houver recondução tácita por
parte do cliente; II — no de prazo indeterminado, por notificação do interessado, com antecedência de dez dias, por
aplicação analógica, a contrario sensu, do art. 627 do Código Civil; III — pela rescisão, em virtude de infração
contratual cometida por qualquer das partes.
A falência e a morte do usuário não extinguem o contrato, passando seus direitos à massa ou aos herdeiros.
Comunicada a instituição financeira a respeito da quebra e acerca do óbito, ou tomando conhecimento por meio
distinto, compete-lhe regularizar o escrito particular, na tessitura de prosseguir na relação e adequação com o prisma
de direito material, inclusive para eventual prestação de contas ou dissenso entre os interessados em face dos bens
depositados.
Sobressai presunção implícita a propósito da continuidade contratual tanto na falência como no óbito do
depositante, exceto se houver expressa manifestação sinalizando vontade contrária, no aspecto de solução
contratual, e a retirada dos valores colocados no cofre de segurança, até para efeito de tutelar os interesses da
massa e ainda dos herdeiros no inventário e partilha de bens.
De fundamental relevo o conhecimento pela massa ou comunheiros da relação contratual, sua natureza, e o
quadro transparente da operação, a ressalvar direitos de terceiros e dos próprios interessados.
Comporta sublinhar que, diante da morte ou falência decretada, a realidade contratual ganha corpo, cuja
substância não permite a movimentação, exceto de forma autorizada, não apenas para proteção de terceiros,
credores, mas visando conservar a coisa até determinação que permita alterar essa circunstância observada.
Sufragamos ponto de vista na direção de um cadastro geral junto ao Banco Central para permitir fiscalização,
monitoramento e maior liquidez na mora ou insolvência do depositante, compatível com o risco da operação e para
evitar, em definitivo, que se prevaleça desse instrumento para burlar a vigilância e mesclar a regra de aparente
legalidade com a realidade da ilicitude relativa aos bens em depósito.
A partir desse cadastramento encaminhado ao Banco Central para registro mecânico, ou eletrônico, abrir-se-ia
um importante espaço direcionado à supervisão e conhecimento em torno desse mapeamento, sem fraudar terceiros,
o Fisco, ou comprometer o fim específico da operação.
Não haveria necessidade de ser declarado o conteúdo, por óbvio, mas simplesmente de enviar ao Banco Central
a relação dos clientes que possuem à disposição o cofre, para com isso manter melhor observação, até para fins
judiciais de bloqueio via on-line direcionados à entidade.
Existisse um cadastro junto ao Banco Central do Brasil referente aos usuários dos cofres de segurança, sem a
declaração do conteúdo, preservado o sigilo, melhor seria administrar e permitir que credores e terceiros
interessados pudessem obter o informe no sentido de eventual constrição.
Banco de dados cadastrando o período da operação repercutiria favoravelmente e exploraria nuances da
realidade, inclusive nas ocasiões de falecimento, e de imediato a retirada dos pertences, sem conhecimento do banco
e à revelia dos demais herdeiros.
A penetração dos cofres de segurança cai em desuso, notadamente em regiões de maior insegurança e grave
risco dos centros urbanos, uma vez que as instituições financeiras repudiam, na maioria das vezes, a enorme
responsabilidade, preferindo outros serviços, mais rentáveis e menos onerosos.
18
OUTRAS OPERAÇÕES ACESSÓRIAS DOS BANCOS COMERCIAIS

Sumário: I — O SERVIÇO DE COBRANÇA E ACEITAÇÃO DE TÍTULOS: 114. Finalidade. 115.


Natureza. 116. Direitos do banco. 117. Deveres do banco. II — AS CONVENÇÕES DE
CORRESPONDÊNCIA: 118. Escopo. 119. Projeção jurídica. III — O FORNECIMENTO DE
INFORMAÇÕES: 120. Características. 121. Responsabilidade do banco para com o solicitante. 122.
Responsabilidade para com aquele a respeito de quem as informações são solicitadas.

I — O SERVIÇO DE COBRANÇA E ACEITAÇÃO DE TÍTULOS

114. Finalidade
A venda a prazo constitui o modo mais frequente de operar dos empresários, que fazem representar seus
respectivos valores por títulos de crédito ou simples “carnês” pagáveis nos bancos onde eles possuem conta
corrente, de modo que “a cobrança e o pagamento dos créditos das empresas é hoje inconcebível sem a intervenção
dos bancos ou dos estabelecimentos financeiros, que por sua rede de sucursais, correspondentes, por sua
organização administrativa e técnica são aptos a efetuá-los a menor custo”222.
Tal serviço apresenta diversas vantagens para o cliente. Em primeiro lugar, evita o acúmulo em seus arquivos de
papéis, obrigando-o a um serviço de alerta em relação à sua guarda e datas de vencimento.
Depois, por intermédio do banco, “poderá exercer uma pressão sobre o comprador, obtendo o pagamento do
preço que lhe é devido, ou a assunção, em forma cambiária, da obrigação de tal pagamento”223.
Efetivamente, a incumbência atribuída ao banco de receber, ou simplesmente obter, o aceite de um título
cambiário tranquiliza o cliente, graças à organização e pontualidade com que age aquele, obtendo a importância do
crédito ou tomando medidas conservatórias em favor do direito representado no título. A cobrança de “carnês”, hoje
muito em voga, graças à convenção de multa moratória neles inserta, é também um meio eficaz de obter o encaixe
pretendido pelo empresário.
Em se tratando de obter o pagamento ou o aceite de título em praça diversa do domicílio do credor, o banco o
remete a sua agência ou sucursal ou, em não a possuindo, a um correspondente, que toma o nome de cessionário,
sendo “cedente” o que confere a incumbência; o mesmo nome tem sempre o cliente.
A concentração do serviço em mãos do sistema bancário tem sido alvo de remodelações, com a flexibilização de
praças de pagamento em atividades que exerceriam a respectiva atividade, a exemplo de lotéricas e do próprio
correio, cujas críticas são contundentes, além da insegurança, alvo dessa função.
De fato, a modernização das praças de pagamento, com operacionalização on-line, do banco 24 horas e
circunstâncias que, em linhas gerais, facilitam a vida do cliente, colocam nos centros urbanos os problemas de
locomoção, horário e, acima de tudo, da in​segurança.
Paralelamente, a comprovação de pagamento nessas agências que receberiam uma delegação não envolve uma
chancela eletrônica, mas documento em papel que formaliza o valor e a data de liquidação, o que poderia suscitar
maior dúvida no que concerne à concretização da viabilidade sem sobressaltos.

115. Natureza
A incumbência recebida pelo banco para cobrar ou obter a aceitação de títulos configura um mandato, ou, mais
exatamente, um “mandato de exigir”224. Assim prescreve o art. 1.856 do Código Civil italiano; destarte, no serviço a
ser prestado, devem ser observadas todas as regras desse contrato, inclusive a revogação, em caso de falência (Lei
de Falências n. 11.101/2005, art. 120). Porém, entre “o cliente e o banco correspondente não se constitui qualquer
relação, operando este último em nome e por conta do banco cedente, sendo mesmo usual que o nome do cliente
não seja comunicado; nem pode o cliente interferir no relacionamento entre o banco cedente e o
correspondente”225.
Cumpre ao cliente fornecer ao banco, de maneira clara e minuciosa, as instruções para o desempenho de seu
encargo, “suportando o risco de instruções contraditórias, imprecisas, defeituosas ou, ainda, de apenas difícil leitura
no que diz respeito particularmente ao nome do devedor, à importância a cobrar, ao prazo de vencimento, ao lugar
de pagamento etc.”226.
Os títulos entregues à cobrança, para legitimar-se a atuação do banco, deverão trazer o endosso-mandato ou
procuração, que lhe conferem todos os direitos emergentes, a teor do acenado art. 18 da Lei Uniforme e art. 917 do
Código Civil em vigor.
Essencial a distinção entre o endosso-mandato e aquele translativo nesse tipo de operação, a uma pela
titularidade do crédito, a duas em razão da legitimidade ativa da cobrança e no referente às eventuais medidas
cautelares, por último naquilo conhecido a título de causa debendi, no aspecto da transmissão e circulação da
cambial ao resvalar no preceito da inoponibilidade das exceções.
A conferência da outorga em prol da instituição financeira apenas atesta autorização que representa o poder de
cobrança da dívida, formalizada na cambial, sem transferir a titularidade do crédito ou os direitos pertencentes à
literalidade e autonomia cambiais.
Essa distinção é relevante, na medida em que nas demandas judiciais existe uma dificuldade muito grande no
divisar, normalmente frente aos procedimentos cautelares preparatórios, surgindo uma ilegitimidade passiva
concreta.
O encargo correspondente à cobrança significa o papel a ser desempenhado pela instituição no exercício do
mandato que lhe diz respeito, sendo atividade de índole remunerada e conforme o grau de entrelaçamento entre
cliente e agência, de molde a fixar um expediente que evita exposição do credor em proporção aos gastos por causa
da mora.

116. Direitos do banco


Pelo serviço de recebimento, ou de aceitação, prestado ao cliente faz jus o banco a uma comissão, fixada de
acordo com a praxe bancária e ao reembolso das despesas tidas com a expedição de coisas ao devedor e, se for o
caso, com a adoção de medidas conservatórias dos direitos emergentes do título. Pela instintiva resistência que os
compradores a prazo costumavam oferecer ao aceite do título específico representativo da venda da mercadoria,
conferiu-se, entre nós, executividade à duplicata sem aceite, contanto que “protestada, acompanhada de documento
hábil comprobatório da entrega e recebimento da mercadoria e o sacado não tenha, comprovadamente, recusado o
aceite, no prazo e nas condições da lei” (art. 15, II, da Lei n. 5.474, de 18-7-1968). Justamente por isso, o serviço de
aceitação por parte dos bancos se esvaziou, remanescendo apenas em relação aos títulos no crédito documentário,
que, conforme vimos, constitui operação bancária autônoma (v. Capítulo 12), não se contendo nos simples limites do
serviço de cobrança.
Inescondível que o protesto pode ser tirado por falta de aceite do título, ou quando a operação de venda e
compra estiver documentada com a demonstração inequívoca da entrega da mercadoria.
Constitui responsabilidade do sacador, portador ou terceiro legitimado, na conferência do título, ou na sua
transferência, examinar a cadeira de endosso e concomitantemente ter elemento capaz de endereçar a cambial a
protesto.
Ressalte-se situação bastante comum em relação à duplicata desprovida de aceite, ou na própria triplicata
autorizada no saque, para efeito de ter razão comprobatória do negócio jurídico subjacente.
Ao ser efetuado o protesto, incumbe provar a circunstância, assumindo a responsabilidade que repercute na
caracterização da mora, e no aspecto da obrigação impaga, no sentido de configurar o descumprimento retratado no
título.
Nota-se que o Código Civil inseriu o protesto cambiário como causa interruptiva da prescrição, enquanto em
relação aos títulos rurais o legislador procurou retirar a sua necessidade, haja vista a possibilidade de cobrança,
considerando a natureza extrajudicial cartulária.

117. Deveres do banco


Ao banco incumbe apresentar tempestivamente os títulos ao sacado, ou a seu representante legal, para aceite ou
pagamento. Não obstante a lei cambial obrigue o portador à efetiva apresentação do título ao aceite, ou ao
pagamento (arts. 21 e 38 da Lei Uniforme), tornou-se praxe bancária incontestada o envio de “avisos para que o
sacado compareça a seus guichês” a fim de cumprir aqueles atos. Compete, também, ao banco tomar as medidas
con​servatórias de direito, tais como o protesto cambiário e o interruptor da prescrição.
Tomadas as medidas que lhe cabem, deve o banco, em caso de obter o pagamento, remeter a importância ou
creditá-la na conta do cliente, o que é mais comum. Na hipótese de tratar-se de título para aceite, esgotadas as
providências para a obtenção deste e, ainda, no caso de malogrado pagamento, se essa for a incumbência recebida
pelo banco, deve ele devolver o título ao cedente.
Entretanto, “se existir avalista, o banco não deve, nem antes, nem depois do protesto, apresentar-lhe o título, se
não tiver recebido instruções expressas para isso e o avalista resida na mesma praça do devedor principal; tem,
entretanto, a obrigação de apresentar o título ao aceitante por intervenção ou ao indicado na mesma localidade”227.
Conveniente destacar que o estado patrimonial do devedor principal não afeta a exigibilidade da obrigação
solidária, no que toca de perto à figura do avalista, daí por que o protesto é meio idôneo ao respectivo exercício do
regresso e delimitação da confirmação da mora.
Note-se por igual ângulo que se o devedor principal estiver submetido ao procedimento de insolvência ou
falimentar, nada inibe a cobrança do valor em relação ao avalista; se houver remanescente, ele poderá ser habilitado
no processo concursal.
Característica principal do aval é sua forma própria que envolve os títulos cambiais e cambiariformes, inclusive
atrelando sua funcionalidade à realidade cibernética, como segurança disposta ao credor e no resultado prático da
executoriedade.
O aval foi objeto de tratamento específico no atual Código Civil, não podendo ser parcial, valendo após o
vencimento do título, ensejando no seu pagamento regresso, podendo ser lançado no verso ou anverso do próprio
título, cuja nulidade da obrigação não elimina a responsabilidade do avalista, exceto se provier de vício de forma, tudo
disciplinado nos arts. 897 e s. do mencionado diploma legal.
Ponto interessante, cumpre analisar, se refere à escrituração eletrônica do título e à pessoa do dador do aval, de
tal modo que impregna a cadeia e sua transferência, respondendo de forma solidária, cabendo ao credor executar
qualquer um deles, sem a percepção do chamamento vedado no procedimento executivo, sob a égide da Lei n.
11.382/2006.
Discute-se a interlocução entre o representante legal da empresa que corporifica o aval, na medida em que,
proposta a ação de cobrança, plausível uma demonstração do esvaziamento patrimonial, a permitir aplicação da
teoria da desconsideração da personalidade jurídica.
Na categoria de garantia fiduciária, integra o aval eminente relação cambial, permeando o título formal ou
escritural, assegurando no conjunto maior perspectiva de solvência e redução do grau de risco.

II — AS CONVENÇÕES DE CORRESPONDÊNCIA

118. Escopo
Da eventualidade de, no serviço de cobrança de títulos, ser o banco incumbido de proceder a recebimentos em
praças diferentes de sua sede, onde não possua agência ou sucursal, surge a necessidade das convenções de
correspondência. Trata-se de relação entre bancos, ou seja, em que um se porta como cliente do outro. Pela
convenção de correspondência, “os bancos permutam serviços, compreendendo não só o recebimento de títulos que
combinam remeter reciprocamente, quando pagáveis em praças servidas por um só deles, mas também a cobrança
de cheques, emitidos a cargo dos dois institutos contratantes, ou de outros estabelecimentos de crédito, o
cumprimento de ordens de pagamento e outros serviços de recíproca colaboração que inspira os bancos
contratantes”228.
Em suma, a convenção possibilita ao banco operar, a serviço de seus clientes, em praça onde não possua
agência ou sucursal.
Cuida-se na espécie de modalidade ímpar que representa um sistema que busca, por si só, facilitar a
comunicação entre cliente e a agência responsável pela feitura da coisa, independentemente de sua localização
geográfica ou simplesmente territorial.
A distinção entre praça de pagamento e local de cobrança muitas vezes não apresenta uma correlata concepção,
porquanto os bancos também trabalham com outras agências que, em regiões diversas, prestam os serviços
necessários à efetivação da medida.
O intercâmbio na área referente à atividade bancária serve para estimular a migração dos negócios, mostrar um
ambiente de informações recíprocas, e compartilhar um sistema de subsídios que se prestam à consecução daquela
realidade.

119. Projeção jurídica


No plano jurídico, as convenções de correspondência consubstanciam-se em um contrato de conta corrente (v.
Capítulo 14), me​diante remessas recíprocas, apresentando-se o saldo no encerramento convencional ou legal.
“Enquanto no serviço de cobrança o crédito do banco chamado cedente é imediatamente exigível, na convenção
de correspondência, ao revés, falta essa exigibilidade do crédito, enquanto as partidas ativas e passivas se
compensam no encerramento da conta, por ser exigível a diferença resultante de tal encerramento, o assim chamado
saldo229.”
No que concerne às operações particulares que os bancos desempenham em cumprimento à convenção, melhor
que a doutrina de Messineo, que nela vislumbra um contrato atípico, inominado230, nos parece o ensinamento de
Giacomo Molle, segundo o qual os atos praticados se ligam à figura do mandato231.
Razão, porém, assiste ao primeiro quando assevera que, em virtude da convenção de correspondência, cada
banco assume (perante o outro) a obrigação de contratar, ou seja, de negociar os títulos do outro, carregando sobre
si a respectiva responsabilidade, em caso de negativa ilegítima. Essa obrigação de contratar resulta evidentemente
do mandato reciprocamente outorgado pelos bancos, ao qual é estranho o portador do título.
Há uma espécie de submandato que confere à agência o poder inerente à outorga, sem que o mandante dele
participe ou consinta expressamente, plasmando entre ambos circunstância atípica, porque eventual deslize ou
incorreção não desonera da responsabilidade o mandatário, visto que o vínculo ali presente em face do outorgante é
res inter allios, cuja obrigação primeira é a de resultado na consecução da soma constante da cambial, ou
documento cambiariforme.

III — O FORNECIMENTO DE INFORMAÇÕES

120. Características
Operando no campo financeiro, graças aos reiterados contatos que os bancos mantêm com seus clientes, e
mesmo com terceiros, penetrando os meandros de suas atividades, vão eles armazenando uma série de dados a
respeito de cada um, os quais, salvaguardado o sigilo profissional, podem ser fornecidos à comunidade, a título de
premonição contra os riscos de crédito. Trata-se de serviço acessório, geralmente prestado a preço módico, com o
intuito próprio de atrair ou manter clientes. No concernente aos pedidos de informações, pode o banco ver-se em
situações as mais diversas. Assim, “a um pedido de informações, sobre um terceiro, o banqueiro poderá sempre
responder. Inversamente, se o pedido concerne a um cliente, uma recusa será sempre possível. Este último pedido
colocará o banqueiro diante de um dilema, porque sua recusa poderá ser interpretada como uma confissão da
situação desfavorável de seu cliente: ele deve escolher entre o risco de violar o sigilo bancário e o de desacreditar
seu cliente. O banco tem, pois, interesse nos casos críticos em solicitar acordo de seu cliente. Se foi este que
solicitou a seu banco informar um terceiro sobre sua conta, o banqueiro deverá informar o solicitante sob pena de
responsabilidade”232.

121. Responsabilidade do banco para com o solicitante


Em relação ao solicitante das informações, sendo o serviço prestado a título oneroso, fica caracterizada uma
avença, razão pela qual o banco responde contratualmente pelos eventuais prejuízos causados aos que pedem as
informações, pelo fato da incúria do banco. Sendo, entretanto, gratuito o serviço, costuma-se distinguir entre
solicitante cliente e não cliente; para com o primeiro, a responsabilidade é sempre contratual, de vez que o
atendimento se insere entre as demais operações executadas pelo banco em prol daquele. Quanto ao não cliente,
aventa-se a possibilidade de tratar-se de responsabilidade delitual, mas aí também fica plenamente configurado o
contrato, uma vez que precede um acordo de vontades.
De qualquer modo, é pacífico que a responsabilidade do banco decorre da inexecução de uma obrigação de
meio, e não de resultado, isto é, da falta de diligência233. Isto significa que o banco não pode garantir a exatidão das
informações prestadas, mas deve haver-se com o necessário empenho: “A culpa do banqueiro não decorre ipso
facto de toda a inexatidão. A vítima da informação equivocada deve demonstrar que o banqueiro não despendeu a
diligência requerida para chegar à exatidão. Sob esse aspecto, o banqueiro responde por sua culpa leve”234.
Nem mesmo o caráter gratuito da prestação do serviço exime o banco da sua culpa leve: “Não se poderia
invocar o caráter gratuito do serviço para sustentar que o banqueiro só é responsável por sua culpa grave; o
fornecimento de informações, mesmo não retribuído, é todavia um ato interessado”235.
No caso de inserção de uma cláusula de “não responsabilidade”, não pode ela elidir o objeto essencial (main
purpose, do direito anglo-saxão) do contrato, que consiste em fornecer informações corretas; nesse caso, o banco
se exoneraria da culpa leve. Se esta é atribuível ao correspondente que deu a informação, o banco só responde pela
culpa in eligendo.
Em sintonia com a legislação que cuida da relação do consumidor, a eliminação de responsabilidade ou sua
exclusão, pura e simplesmente, não pode ser aceita, inclusive nos aspectos resvalados no Código Civil em vigor.
Referida cláusula acarretaria o desequilíbrio, impondo lesividade e sendo alvo de questionamento, porquanto
apenas haveria uma relação unilateral a favor do aderente.
Bem assim, as circunstâncias perfilhadas na intromissão do banco na relação do crédito e seu fomento, tudo isso
dimensiona uma posição que se coaduna com as vantagens auferidas no procedimento exteriorizando sua
participação direta ou indireta no negócio, fruto da operação bancária.

122. Responsabilidade para com aquele a respeito de quem as informações são solicitadas
Não possuindo qualquer vínculo contratual com a pessoa objeto das informações, que é, portanto, estranha, por
sua conduta incorreta, difamatória, ou pela quebra do sigilo profissional, a responsabilidade do banco é de natureza
delitual.
Desvendando o prisma de visão atrelado ao informe, a instituição financeira pode valer-se do cadastro presente
no banco de dados, como garantia de assegurar-lhe maior confiabilidade no próprio subsídio, ou preconizar apenas
alguns elementos que se somam aos demais para a complementação sobre o interessado.
O campo da responsabilidade, por lógico, refoge da seara contratual, haja vista a insubsistência negocial de
qualquer enfoque, e descansa no caso concreto no território delitual, mas isso não implica reconhecer eventual
inversão do ônus probatório, mesmo da culpa presumida, coerente com o procedimento; é de se demonstrar algum
nexo causal e o dano sobrevindo.
Importante destacar que todo o sistema de proteção ao crédito funciona monitorado por meio de observações e
dados que se acham pouco a pouco atualizados. Assim, as instituições financeiras estabelecem entre elas uma
espécie de pacto de colaboração, tanto mais no que toca de perto à constatação real da situação patrimonial de
terceiro não cliente.
Em suma, bastante fundamental esteja a instituição financeira cercada de evidências, evitando com isso qualquer
deslize de conduta e a possibilidade de sujeição à indenização ao prejudicado, ense​jando responsabilidade.
Naturalmente, as empresas que militam na área de crédito, entre elas, trocam informações e dados pertencentes
aos clientes, mas é fundamental cogitar de qualquer violação à regra do sigilo, se o dado vier à divulgação
confirmando o levantamento e contra o interesse do consumidor, a ensejar eventualmente uma responsabilização na
modalidade indenizatória.
Exige-se, antes de tudo, que se comprove o nexo causal a preconizar o dano extrapatrimonial, pois simples
informe desprovido de resultado, por si só, não é suficiente ao questionamento do prejuízo declarado.
Cite-se a hipótese de ex-mulher que conseguiu o extrato do ex-marido comprovando restrição ao crédito, mas
sua destituição da guarda adveio do não pagamento de pensão aos filhos, e, por tal ângulo, a imputação do dano não
pode ter como concausa fato absolutamente independente, cuja conduta direta se deveu ao próprio interessado.
Comum que o sistema financeiro como um todo se valha dos informes determinados pelas entidades prestadoras
de serviços; de tal modo, há um registro de natureza positiva, mas também escorado nesse ângulo outro de caráter
positivo, tudo na percepção de redução do spread, na sinalização de maior ou menor grau de risco.
Não estão os informes revestidos do sigilo, transmitidos e tipificados pela operação bancária, no conjunto,
visualizando um contexto que apure até pelo próprio sistema a solidez do negócio.
Suscita-se uma demonstração confidencial, mas ao mesmo tempo prestigiando a autonomia e preservando o
crédito.
19
OPERAÇÕES DE CRÉDITO HIPOTECÁRIO

Sumário: 123. Generalidades. 124. A cédula hipotecária. 125. Requisitos. 126. Valor. 127. Forma. 128.
Disciplina.

123. Generalidades
A disciplina da mobilização dos créditos garantidos por hipoteca data, entre nós, de 1890. Com efeito, o Decreto
n. 169-A, de 19 de janeiro daquele ano, em seu art. 13, prescreveu que, “constituída a hipoteca conforme o art. 4º, §
6º, ou cedida conforme este artigo, uma vez que a inscrição fique em primeiro lugar e sem concorrência, podem
sobre ela as sociedades especialmente autorizadas pelo Governo emitir, com o nome de letras hipotecárias, títulos
transmissíveis e pagáveis pelo modo que se determina nos parágrafos seguintes”. Instituiu-se, pois, a letra
hipotecária, título de crédito causal, lastreado nos empréstimos com garantia hipotecária feitos pelas sociedades de
crédito real. Em relação a esse título, sobre não se inserir na esfera bancária, não teve aceitação e caiu em desuso.

124. A cédula hipotecária


Criada pelo Decreto-lei n. 70, de 21 de novembro de 1966 (art. 10), compreende-se ela dentro das operações
bancárias, uma vez que, nos termos da Resolução n. 228, do Banco Central, de 4 de julho de 1972, poderão ser
emitidas por bancos de investimentos, pela Caixa Econômica Federal e pelos bancos de desenvolvimento. Dispõe o
aludido art. 10: “É instituída a cédula hipotecária para hipotecas inscritas no Registro Geral de Imóveis, como
instrumento hábil para a representação dos respectivos créditos hipotecários, a qual poderá ser emitida pelo credor
hipotecário nos casos de: ... II — hipotecas de que sejam credores instituições financeiras em geral, e companhias
de seguro; III — hipotecas, entre outras partes, desde que a cédula hipotecária seja originariamente emitida em
favor das pes​soas jurídicas a que se refere o inciso II supra”.
Ainda de acordo com o supra-aludido art. 10 (§ 1º), “A cédula hipotecária poderá ser integral quando
representar a totalidade do crédito hipotecário, ou fracionária, quando representar parte dele, entendido que a soma
do principal das cédulas hipotecárias fracionárias emitidas sobre uma determinada hipoteca e ainda em circulação
não poderá exceder, em hipótese alguma, o valor total do respectivo crédito hipotecário em nenhum momento”.

125. Requisitos
De acordo com o art. 15 do decreto-lei que a instituiu (n. 70, de 21-11-1966), a cédula hipotecária deve revestir-
se dos seguintes requisitos:
“I — no anverso: a) nome, qualificação e endereço do emitente, e do devedor; b) número e série da cédula
hipotecária, com indicação da parcela ou totalidade do crédito que represente; c) número, data, livro e folhas do
Registro Geral de Imóveis em que foi inscrita a hipoteca e averbada a cédula hipotecária; d) individualização do
imóvel dado em garantia; e) o valor da cédula..., os juros convencionados e a multa estipulada para o caso de
inadimplemento; f) o número de ordem da prestação a que corresponder a cédula hipotecária, quando houver; g) a
data do vencimento da cédula hipotecária ou, quando representativa de várias prestações, os seus vencimentos de
amortização e juros; h) a autenticação feita pelo oficial do registro geral de imóveis; i) a data da emissão, e as
assinaturas do emitente, com a promessa de pagamento do devedor; j) o lugar de pagamento do principal, juros,
seguros e taxas;
II — no verso, a menção ou locais apropriados para o lançamento dos seguintes elementos: a) data ou datas de
transferência por endosso; b) nome, assinatura e endereço do endossante; c) nome, qualificação, endereço e
assinatura do endossatário; d) as condições do endosso; e) a designação do agente recebedor e sua comissão”.

126. Valor
Conforme dito, o valor expresso na cédula hipotecária pode corresponder ao todo ou a parte do crédito
hipotecário, não podendo ultrapassá-lo em momento algum. Deve ser expresso em Real e corrigido pelos índices
oficiais do Governo.

127. Forma
A cédula hipotecária é sempre nominativa e endossável em preto, sujeitando-se, por isso, à disciplina cambiária;
destarte, o emitente, cuja posição equivale à do sacador da letra de câmbio, e o endossador permanecem
solidariamente obrigados pela boa liquidação do crédito, a menos que avisem o devedor hipotecário e o segurador,
quando houver, de cada emissão ou endosso, até 30 dias após sua realização, por carta expedida por Cartório de
Títulos e Documentos ou por meio de notificação judicial, caso em que a transferência do título produzirá meros
efeitos de cessão.

128. Disciplina
A Resolução n. 228, de 4 de julho de 1972, do Conselho Monetário Nacional, disciplinou as cédulas hipotecárias,
dispondo que elas podem ser emitidas ou endossadas por bancos de investimentos, cujo capital e reservas livres
sejam iguais ou superiores a 30 milhões de cruzeiros pela Caixa Econômica Federal e bancos de desenvolvimento, os
quais, também por imposição do Conselho Monetário Nacional, permanecem solidariamente responsáveis nos casos
de emissão em favor de terceiros, ou de endosso quando forem beneficiários originais.
A Circular n. 184, de 4 de julho de 1972, do Banco Central, criou modelos de cédulas hipotecárias para serem
observados pelos bancos, salvo para aquelas que tenham sua origem e circulação restritas ao Sistema Financeiro da
Habitação.
Com a implementação de reformas no setor de financiamento imobiliário e na roupagem buscada pelo Governo,
no sentido de aprimorar o mecanismo de proteção, e proporcionar menor lesividade aos clientes, natural considerar a
abrangência da letra de crédito imobiliário e a cédula de crédito imobiliário.
De efeito, inova-se na criação do título ditado pela letra de crédito imobiliário que procura ser incremento na
captação de recursos, cuja emissão é da competência dos bancos. De outro ângulo, a cédula de crédito imobiliário
tonifica a concessão do crédito e pode visua​lizar sua negociação entre a instituição e as seguradoras.
Nesse leque típico do panorama enfrentado no setor imobiliário, onde a escassez do crédito não pode colher
prestígio, as expressões de títulos e operações padronizadas vislumbram dinamismo, no color de alavancar recursos
e diminuir a distância entre os agentes de crédito e os mutuários.
Conquanto o extinto 1º Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo expresse sentimento sumulado no
sentido da impossibilidade de execução extrajudicial hipotecária, com base no Decreto-Lei n. 70/66 (Súmula 39), ao
contrário, o Supremo Tribunal Federal sinaliza a constitucionalidade da norma, não preterindo a posição do credor,
contendo celeridade e efetividade, para efeito de não paralisar a continuidade do negócio empresarial, assegurando
perspectiva identi​ficada com a realidade do procedimento.
Tem sido frequente a vinda do mutuário na tentativa de discutir os encargos da obrigação, mas o fundamental é
destacar o cunho aparente social imobiliário, na medida em que não se cogita do Fundo de Compensação de
Variação Salarial, de há muito extinto, mas de carteira hipotecária relativa à concessão de crédito sujeito ao risco e
imprevistos do mercado.
Nota-se, por tudo isso, que o enquadramento na classe ou categoria do empregado nada reflete de positivo, uma
vez que o reajuste nem sequer segue o curso da obrigação, na ótica dos juros e demais subsídios inerentes à
contratação.
Criou-se o patrimônio de afetação na perspectiva de se proteger o mutuário, evitando que o bem imóvel seja
destacado da sua vinculação, fazendo com que o credor se submeta ao seu regime e cobre eventual dívida da
empresa incorporadora ou construtora.
Dessarte, imperativo se obedeça à cadeia de negociação imobiliária, cujo esforço maior é de conferir conotação
social e prestigiar o setor, possibilitando condições adequadas de financiamento, dentro do mercado, sem patamares
incoerentes com os mutuários.
A partir da interpretação favorável do STF no sentido já estabelecido pela Súmula 297 do STJ, no direcionar a
incidência da aplicação do Código de Defesa do Consumidor às instituições financeiras, a expectativa formada é em
torno de um desencadeamento maior de demandas.
Bem se revela que os contratos pactuados, constantes do ato jurídico perfeito e da livre autonomia de vontade,
fundada na cláusula pacta sunt servanda, não poderão retroagir seus efeitos conforme diretriz do STF; em outras
palavras, a relação estabelecida se mantém, exceto se durante seu desenrolar e nas fases subsequentes houver
onerosidade excessiva, lesividade e se demonstrar o desequilíbrio do contrato.
Nessa sintonia, o setor imobiliário vive seu crescimento, mas, em contrapartida, a escassez de recursos dos
mutuários, o grave déficit habitacional alinhado à burocracia do financiamento imobiliário e os riscos da
inadimplência concentrados também no gravame hipotecário, redundando numa incerteza maior ao cliente-
consumidor do financiamento.
O setor da construção civil permeia um crescimento em razão de diversos fatores, dentre os quais alocação de
recursos via mercado acionário, estabilidade da moeda, facilidade de acesso ao crédito financeiro e um conjunto de
livre concorrência que molda a estrutura de forma a permitir um encurtamento da distância entre o imóvel e seu
consumidor.
No entanto, a forte carteira imobiliária precisa ser dimensionada para não acarretar falsas expectativas e
refinanciamentos duvidosos; nos EUA a débâcle aconteceu em razão desta leniência que irradiou, como não
poderia deixar de ser, amplos reflexos para o mercado mundial.
Financiamentos a longo prazo e com taxas menores de juros podem criar indicadores preocupantes; assim, o
fundamental é o equilíbrio entre oferta de imóveis e procura de capital, mas cumpre aos bancos uma função social
ideal, visando a minimizar os percalços acarretados pela quebra do Sistema Financeiro da Habitação, emoldurado
pelo fundo de compensação de variação salarial (FCVS), cujo resíduo ficava para a ordem de responsabilidade do
extinto BNH.
Cumpre, assim, ao BNDES alimentar uma política habitacional lógica e constante, na qual os segmentos das
instituições financeiras — público e privado — participem e insiram camadas da população distantes deste perfil e
com rendimentos abaixo do padrão considerado para efeito de obtenção do financiamento.
O mecanismo da execução hipotecária, muito criticado, também mescla sua realidade com o surgimento da
alienação fiduciária no campo imobiliário, sempre no contingenciamento de preparar o maior número de
lançamentos, com liquidez e nivelamento dos mutuários.
20
OPERAÇÕES DE CRÉDITO INDUSTRIAL

Sumário: 129. Disciplina do crédito industrial. 130. Contrato. 131. Cédula de crédito industrial. 132. Nota de
crédito industrial.

129. Disciplina do crédito industrial


O Decreto-lei n. 413, de 9 de janeiro de 1969, dispôs que: “O financiamento concedido por instituições
financeiras a pessoa física ou jurídica que se dedique à atividade industrial poderá efetuar-se por meio da cédula de
crédito industrial” (art. 1º). E o art. 15 do mesmo decreto-lei instituiu a nota de crédito industrial também para
instrumentar financiamento à indústria, feito por instituições financeiras ou, mais especificamente, por bancos,
embora esse diploma legal não a mencione explicitamente, mas a admita de forma implícita em seu art. 18.

130. Contrato
Como pressuposto para a emissão dos títulos de crédito industrial supra, o banco abre um crédito ao emitente,
que ficará obrigado a aplicar a importância dada em financiamento para os fins ajustados, devendo comprovar essa
aplicação na forma e tempo exigidos pelo financiador, sujeitando-se à fiscalização deste quanto ao emprego das
somas em relação aos fins prescritos pelo contrato. É justamente por esses dois requisitos (aplicação determinada do
dinheiro e fiscalização do emprestador) que o financiamento se distingue do mútuo comum. O crédito assim aberto
será movimentável pelo financiado por meio de cheques, saques, recibos, ordens, cartas ou quaisquer outros
documentos. As importâncias fornecidas pelo financiador vencem juros e correção monetária, calculados sobre os
saldos devedores da conta vinculada à operação e exigíveis a 30 de junho, 31 de dezembro, no vencimento, na
liquidação da cédula ou em outras datas convencionadas. Responde ainda o financiado por todas as despesas
havidas pelo financiador com a fiscalização do emprego da verba financiada.
Espelha a concessão do crédito, por si só, a forma natural destinada ao financiamento da operação produtiva,
visando incrementar os negócios, numa linha que permita ao empresário um canal direto com a instituição, mediante
o prisma de garantias.
Na verdade, busca-se com essa supervisão, acima de tudo, e com muita transparência, destacar a utilização do
crédito e a respectiva finalidade, temperando qualquer desvio em harmonia concatenada à realidade da atividade.
Sem refugir desse ângulo, portanto, o empresário traça a sua política e obtém o crédito necessário e
imprescindível à formalização de recursos que propaguem o desencadeamento de uma visão consentânea com as
regras entre as partes.

131. Cédula de crédito industrial


Trata-se, conforme a própria definição legal, de “promessa de pagamento em dinheiro, com garantia real,
cedularmente constituída” (art. 9º). A garantia real pode consistir em: penhor, alienação fiduciária ou hipoteca e ser
oferecida por terceiro, vindo descrita no próprio título, dispensado documento à parte, inclusive a própria hipoteca
que, numa derrogação ao direito comum, não exige escritura pública. A cédula de crédito industrial é, consoante o
art. 10 do decreto-lei que a regula, “título líquido e certo, exigível pela soma dela constante ou do endosso, além dos
juros, da comissão de fiscalização, se houver, e demais despesas que o credor fizer para segurança, regularidade e
realização de seu direito creditório”.
São os seguintes os requisitos que deve conter a cédula de crédito industrial: “I — denominação ‘Cédula de
Crédito Industrial’; II — data do pagamento; se a cédula for emitida para pagamento parcelado, acrescentar-se-á
cláusula discriminando valor e data de pagamento das prestações; III — nome do credor e cláusula à ordem; IV —
valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, e a forma de sua utilização; V — descrição dos bens
objeto do penhor, ou da alienação fiduciária, que se indicarão pela espécie, qualidade, quantidade e marca, se houver,
além do local ou do depósito de sua situação, indicando-se, no caso de hipoteca, situação, dimensões, confrontações,
benfeitorias, título e data de aquisição do imóvel e anotações (número, livro e folha) do registro imobiliário; VI —
taxa de juros a pagar e comissão de fiscalização, se houver, e épocas em que serão exigíveis podendo ser
capitalizadas; VII — obrigatoriedade de seguro dos bens objeto da garantia; VIII — praça do pagamento; IX —
data e lugar da emissão; X — assinatura do próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais”
(art. 14).
Permite a lei a descrição, em documento à parte, dos bens vinculados, assinado pelo emitente e pelo credor.
Para sua validade em relação a terceiros, a cédula de crédito industrial deve ser registrada no Cartório de
Registro de Imóveis do local de situação de bens garantidores da dívida. Antes do registro, vale apenas entre as
partes.
Admissível a transferência do crédito entre instituições financeiras, mediante a formalidade solene, consistente
na cessão de direitos, consubstanciada na escritura pública, a confirmar a própria legitimidade na hipótese de
execução, haja vista eventual inadim​plemento.
De fato, a transferente por instrumento público, repousando na cessão de crédito, simplesmente legitima a
relação com determinada instituição, com a possibilidade de ver adiantada a soma, antes do vencimento, ou por
interesses diante das circunstâncias negociais entre os bancos.
Na direção visualizada, o Superior Tribunal de Justiça, em 28 de março de 2000, por meio do Min. Aldir
Passarinho Júnior, no Recurso Especial n. 133.188, Ceará, pela 4ª Turma, teve oportunizado pronunciamento no
sentido de que não afeta a legitimidade ativa ad causam, a teor do art. 567, II, do Código de Processo Civil, simples
transferência por escrito público de crédito industrial, operacionalizada entre as instituições financeiras, não sendo
cabível a extinção do processo.
A ação de cobrança do crédito decorrente de cédula de crédito industrial é de rito especial, semelhante à
execução do Código de Processo Civil, mas com prazos mais curtos, sendo os recursos desprovidos de efeito
suspensivo (cf. art. 41 do Dec.-lei n. 413, de 9-1-1969).
Contudo, forte a experiência que se descortina no alcance de recursos disciplinados pelo Código de Processo
Civil, na maior viabilidade o agravo de instrumento, podendo ser recebido no seu duplo efeito, sem conflitar com a lei
do rito, ou especificidade, eis que não é incomum alegar o devedor concordatário a sujeição da cobrança ao favor
legal, simplesmente por querer protelar ou desconhecer a natureza do crédito legitimado pela preferência na
obtenção e consequente formalismo na concretização do negócio.
Em relação ao índice de correção do título, é princípio assente que a correção monetária ganha respaldo na
substituição da TR pelo INPC, a partir de fevereiro de 1991, visto que simboliza e reflete a variação havida e não
simplesmente o custo primário da captação.
Hospedado no ponto vislumbrado, o Superior Tribunal de Justiça, em decisão datada de 3 de fevereiro de 2000,
por meio da 4ª Turma, Rel. Min. Barros Monteiro, no Recurso Especial n. 182.349, São Paulo, destacou a
desnecessidade de ser averbado o endosso à margem da inscrição, sendo computada a correção monetária, a partir
de fevereiro de 1991, por intermédio do INPC, dês que a TR não exprimia o imprescindível indexador naquela
vertente, exceto naqueles meses em que tiver sido mais benéfica ao devedor.
As operações bancárias com as cédulas industriais significam importante incremento na atividade empresarial,
sem embaçar a executoriedade do título quando da situação de crise ditada pela iliquidez, porque a moratória
somente se adstringe aos quirográficos, daí por que a liberdade do banco para exigir o crédito.
Bem de ver, na conjuntura descrita, que a execução não sofre solução de continuidade, e a constrição se desloca
para o acervo patrimonial da garantia que pontuou a contratação, não havendo óbice ou fator contrário ao
desencadear da questão; porém, se houver pluralidade de credores, mas unicidade da coisa empenhada, não sendo
suficiente à solvência, impor-se-á eventual rateio até o limite da contra​tação do negócio.
A propalada impenhorabilidade do título de crédito, que se coaduna com a garantia dispensada, sofre
relativização no que concerne ao crédito tributário, por não haver restrição ou qualquer limitação no sentido de se
permitir ao Fisco o respectivo concurso.

132. Nota de crédito industrial


Também garantidora do crédito proveniente de financiamento industrial, a nota de crédito industrial é promessa
de pagamento em dinheiro, mas sem garantia real. São seus requisitos: “I — denominação ‘Nota de Crédito
Industrial’; II — data do pagamento; se a nota for emitida para pagamento parcelado, acrescentar-se-á a cláusula
discriminando valor e data de pagamento das prestações; III — nome do credor e cláusula à ordem; IV — valor do
crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, e a forma de sua utilização; V — taxa de juros a pagar e
comissão de fiscalização, se houver, e épocas em que serão exigíveis, podendo ser capitalizadas; VI — praça de
pagamento; VII — data e lugar da emissão; VIII — assinatura do próprio punho do emitente ou de representante
com poderes especiais” (art. 16).
A nota de crédito industrial não oferece garantia real, aspecto que a diferencia da cédula de crédito industrial,
não estando, pois, sujeita a registro no Cartório de Registro de Imóveis. Confere, porém, privilégio especial sobre os
bens enumerados no art. 1.563 do Código Civil. Tirante a matéria relativa à garantia e ao registro, segue, em tudo o
mais, a nota de crédito industrial a regulação legal da cédula de crédito industrial.
Estilizado o mecanismo que instrumentaliza a nota de crédito, na categoria divisada no campo da literalidade,
autonomia e para o principal efeito de circulação, a negociação ritma conforme o interesse, mas na temática de sua
expressão monetária.
Objetivamente, pois, nasce um título de crédito que independe de formalidades, consolidando sua aparência e
materialização, na medida em que tem enraizamento na operação bancária e mostra sua autonomia na respectiva
negociação com terceiros, nos princípios causais que se lhe retiram o efeito da abstração.
De fato, a negociação pode ser encetada pelo credor com instituição diante da vantagem apresentada, ou com
terceiro que pretenda assegurar o recebimento no vencimento, destacando no horizonte as prestações em sintonia
com o objeto do ato jurídico original.
Desprovida de garantia real, a nota de crédito industrial, a exemplo dos títulos cambiários e cambiariformes,
encerra um valor determinado e as somas que repercutem no vencimento da obrigação, traduzindo a operação de
natureza lucrativa.
Embora incomum, mas forte no aspecto disciplinado pela relação de consumo, o interesse que marca a
liquidação antecipada pelo devedor ou terceiro intercala na sequência, por óbvio, a exclusão de consectários
inseridos no futuro por causa da desvalorização da moe​da e demais acessórios no contexto da cambial.
Considera-se privilegiado o crédito resultante da nota industrial, tanto na sua cobrança individual como no
atinente ao concurso universal de credores, cogitando-se da respectiva impenhorabilidade dos bens que asseguram a
garantia em face da emissão do título, sobressaindo forte fator de estímulo à atividade produtiva.
Necessário adotar um detalhe que se apegue ao encargo da obrigação, com a menor volatilidade e redução da
vulnerabilidade do devedor, haja vista a presença da garantia e uma quase certeza da cobrança.
Essas linhas podem ser feitas por intermédio dos bancos comerciais e renegociadas por meio do próprio
BNDES, na situação de aprimorar o relacionamento com a indústria, e situar a presença em determinados setores
considerados essenciais ao crescimento econômico.
Integrando o capital de giro comum à atividade da empresa, o valor empenhado constitui poderoso incremento à
consecução dos negócios, atrelado à capacidade de investimento e ao prazo previsto de pagamento.
Na adequação de polos industriais e regionalização desses setores, os bancos de fomento têm desenvolvido
políticas de alto grau de parceria que espelham a preocupação com índices de produção e a redução do grau de
risco, seja por reflexo da taxa de juros, seja pela construção harmoniosa de uma vinculação salutar entre a empresa
e a própria instituição financeira.
21
OPERAÇÕES DE CRÉDITO RURAL

Sumário: 133. Generalidades. 134. Características das cédulas de crédito rural. 135. Cédula rural
pignoratícia. 136. Cédula rural hipotecária. 137. Cédula rural pignoratícia e hipotecária. 138. Nota de crédito
rural.

133. Generalidades
O Decreto-lei n. 167, de 14 de fevereiro de 1967, dispôs que o financiamento rural fosse executado mediante a
emissão de cédulas de crédito rural. Em seu art. 2º, referido diploma legal prescreve que o emitente da cédula fica
obrigado a aplicar o financiamento para os fins ajustados, devendo comprovar tal circunstância perante a “instituição
financiadora”. Embora use o termo “financiadora” e não financeira, tem-se, no art. 1º, que o financiamento é
concedido pelos órgãos integrantes do sistema nacional de “crédito rural”, pelo que se compreende dentro das
operações bancárias. Em se tratando de financiamento, o banco tem o direito de fiscalizar a aplicação da quantia
financiada, a qual vencerá juros conforme as taxas fixadas pelo Conselho Monetário Nacional, exigíveis a 30 de
junho e 31 de dezembro, ou no vencimento das prestações, se acordado pelas partes. Quando o financiamento for
concedido para utilização parcelada, o financiador abrirá com o valor do financiamento conta vinculada à operação,
que o financiado movimentará, por meio de cheques, saques, recibos, ordens, cartas ou quaisquer outros
documentos.

134. Características das cédulas de crédito rural


As cédulas de crédito rural são promessas de pagamento com ou sem garantia real cedularmente constituída,
isto é, no próprio título, dispensando documento à parte. A garantia poderá ser ofertada pelo próprio financiado, ou
por um terceiro (art. 68). Embora o art. 10 considere a cédula de crédito rural título civil, é evidente sua
comercialidade, por sujeitar-se à disciplina do Direito Cambiário (art. 60). Constituindo-se cedularmente a garantia,
ou seja, por incorporação no próprio título, quando se tratar de hipoteca, ocorrerão derrogações ao direito comum,
com a dispensa de escritura pública e da outorga uxória, mas, em virtude da ausência desta última, o cônjuge obriga
apenas seus bens particulares e os comuns até o limite de sua meação (art. 3º da Lei n. 4.121, de 27-8-1962).
Para ter eficácia contra terceiros, as cédulas de crédito rural devem ser registradas no Cartório de Registro de
Imóveis. Sua cobrança se processa mediante ação de rito especial (execução), com a originalidade de permitir a
venda pelo credor, após a penhora, dos bens dados em garantia, contestada, ou não, a ação, podendo, desde logo,
mediante caução idônea, levantar o produto líquido de tal alienação. Em se tratando de cooperativas rurais,
instituições financeiras públicas e do Banco do Brasil, não há necessidade de caução.
Faz-se mister destacar que, no inadimplemento contratual revestido da cédula de crédito rural, sobressai a
incidência do disposto no art. 5º, parágrafo único, do Decreto-lei n. 167/67, operando-se a elevação da taxa de juros
para 1% ao ano (STJ, 4ª T., REsp 109.962, Rel. Min. Barros Monteiro).
Manifestação oriunda do Superior Tribunal de Justiça na análise do crédito rural invocou preceito da limitação da
taxa de juros, restrita a 12% ao ano, para incentivar o produtor e não malferir a expressão constitucional,
notadamente pela atividade levada a efeito e pela proteção que o legislador ordinário descurou de fazer.
Sensato e bastante salutar a restrição, sob o ponto de vista jurisprudencial, em tipificar o crédito agrícola, nas
dificuldades do mercado, principalmente nas etapas sazonais, na entressafra e sem uma garantia padrão.
Consabido que o substrato do crédito agrícola ganha corpo na liberação de índices acima das expectativas do
mercado, razão pela qual a imposição limitada da taxa de juros vem ao encontro de reivindicação que se faz com
extrema justeza.
Visualmente, na linha de pensamento sufragada, pois, o devedor tem um caminho mais sedimentado, cuja diretriz
sinaliza um termômetro na hipótese do inadimplemento, para estímulo do produtor, como a liberação de recursos e
manutenção de áreas agroindustriais, que dinamizam os negócios como um todo.

135. Cédula rural pignoratícia


É um título que consubstancia uma promessa de pagamento com garantia de bens, que, no entanto, permanecem
na posse do devedor. Dessa forma, a disposição dos arts. 1.442 e s. do Código Civil (penhor agrícola ou pecuário),
repetindo-se o preceito com maiores detalhes no art. 17 do Decreto-lei n. 167, de 14 de fevereiro de 1967. O
formalismo do título impõe-lhe os requisitos seguintes: “I — denominação ‘Cédula Rural Pignoratícia; II — data e
condições de pagamento; havendo prestações periódicas ou prorrogações de vencimento, acrescentar: ‘nos termos
da cláusula Forma de Pagamento abaixo’ ou ‘nos termos da cláusula Ajuste de Prorrogação abaixo’; III — nome do
credor e a cláusula à ordem; IV — valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, com indicação
da finalidade ruralista a que se destina o financiamento concedido e a forma de sua utilização; V — descrição dos
bens vinculados em penhor, que se indicarão pela espécie, qualidade, quantidade, marca ou período de produção, se
for o caso, além do local ou depósito em que os mesmos bens se encontrarem; VI — taxa dos juros a pagar, e da
comissão de fiscalização, se houver, e o tempo de seu pagamento; VII — praça do pagamento; VIII — data e lugar
da emissão; IX — assinatura do próprio punho do emitente ou de representante com poderes espe​ciais” (art. 14).

136. Cédula rural hipotecária


Podem os bancos também conceder financiamentos mediante a emissão pelo devedor de cédula com garantia
hipotecária. Conforme o art. 1.474 do Código Civil, “a hipoteca abrange todas as acessões, melhoramentos ou
construções do imóvel. Subsistem os ônus reais constituídos e registrados, anteriormene à hipoteca, sobre o mesmo
imóvel”. A lei específica (Dec.-lei n. 167, de 14-2-1967) faz com que a garantia seja prestada não só pelo imóvel e
suas acessões, mas também pelos bens originariamente móveis, mas que se incorporam ao imóvel devido à sua
destinação, tais como máquinas, aparelhos e instalações, sejam os existentes no momento da constituição da
hipoteca, sejam os adquiridos com os recursos financeiros que o banco fornece ao devedor.
A cédula rural hipotecária deverá conter os seguintes requisitos: “I — denominação ‘Cédula Rural Hipotecária’;
II — data e condições de pagamento; havendo prestações periódicas ou prorrogações de vencimento, acrescentar:
‘nos termos da cláusula Forma de Pagamento abaixo’ ou ‘nos termos da cláusula Ajuste de Prorrogação abaixo’; III
— nome do credor e a cláusula à ordem; IV — valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, com
indicação da finalidade ruralista a que se destina o financiamento concedido e a forma de sua utilização; V —
descrição do imóvel hipotecado com indicação do nome, se houver, dimensões, confrontações, benfeitorias, título e
data de aquisição e anotações (número, livro e folha) do registro imobiliário; VI — taxa dos juros a pagar e a da
comissão de fiscalização, se houver, e tempo de seu pagamento; VII — praça do pagamento; VIII — data e lugar
da emissão; IX — assinatura do próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais” (art. 20 do
Dec.-lei n. 167).
A cédula rural hipotecária confere direito real inter partes desde a sua emissão, conforme preceitua o Decreto
n. 62.141, de 18 de janeiro de 1968. Destarte, o registro se torna necessário para ter eficácia em relação a terceiros.
Embora destinada a servir de garantia de financiamentos para fins rurais, essa pode constituir-se cedularmente
por imóveis rurais ou urbanos.

137. Cédula rural pignoratícia e hipotecária


Aqui a garantia é prestada por bens imóveis e também móveis, só que estes, diferentemente do que ocorre com
a cédula rural hipotecária, não são apenas aqueles incorporados ao imóvel pela sua destinação (máquinas, aparelhos
e instalações), mas também os existentes em local diferente do imóvel, por isso se caracterizando o penhor e a
hipoteca.
Os requisitos do título são: “I — denominação ‘Cédula Rural Pignoratícia e Hipotecária’; II — data e condições
de pagamento; havendo prestações periódicas ou prorrogações de vencimento, acrescentar: ‘nos termos da cláusula
Forma de Pagamento abaixo’, ou ‘nos termos da cláusula Ajuste de Prorrogação abaixo’; III — nome do credor e a
cláusula à ordem; IV — valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, com indicação da finalidade
ruralista a que se destina o financiamento concedido e a forma de sua utilização; V — descrição dos bens
vinculados em penhor, os quais se indicarão pela espécie, qualidade, quantidade, marca ou período de produção, se
for o caso, além do local ou depósito dos mesmos bens; VI — descrição do imóvel hipotecado com indicação do
nome, se houver, dimensões, confrontações, benfeitorias, título e data de aquisição e anotações (número, livro e
folha) do registro imobiliário; VII — taxa dos juros a pagar e da comissão de fiscalização, se houver, e tempo de seu
pagamento; VIII — praça do pagamento; IX — data e lugar da emissão; X — assinatura do próprio punho do
emitente ou de representante com poderes especiais” (art. 25 do Dec.-lei n. 167).
Cuidam as especificidades da matéria da singularidade do procedimento de cobrança, que deve se pautar na
realidade do contrato e não inserir metodologia estranha à sua formação.
Bem neste norte, o Superior Tribunal de Justiça reputou ilícita a cláusula contratual estipulando taxa ANBID,
cuja manifestação destaca o arbítrio da parte economicamente forte, além do que situou a existência na hipótese de
mora da taxa de juros de 1% ao ano (3ª T., REsp 108.956-RS, Rel. Min. Waldemar Zveiter, j. 28-4-1997).
Na resenha dessa previsão ditada pelo interesse que leva à contratação, impossível a inserção de parâmetros
que refogem da ratio essendi, desconforme o prisma originário, em detrimento da parte menos favorecida, de tal
forma a não produzir efeito uma cláusula desta natureza.
Caminhando nessa direção, o Superior Tribunal de Justiça frisou uma análise conjuntural da evidência que
desponta o título, no seguinte aspecto:
“Cédula de crédito rural. Correção monetária não pactuada. Alteração da base do negócio, cabendo ao banco a
revisão do contrato e não a estipulação de importância sem expressa previsão” (4ª T., REsp 32.488, Rel. Min. Ruy
Rosado de Aguiar).
Em suma, a pacta sunt servanda não dimensiona um horizonte destoante daquele que situou o pacto firmado
entre as partes, servindo como agente agregador limitante, no sentido de resvalar no equilíbrio, que é a principal
finalidade do contrato.

138. Nota de crédito rural


É também um título destinado ao financiamento rural, mas desprovido de qualquer garantia real, conferindo,
entretanto, ao credor privilégio especial sobre os bens enumerados no art. 964 do Código Civil. São seus requisitos:
“I — denominação ‘Nota de Crédito Rural’; II — data e condições de pagamento; havendo prestações periódicas
ou prorrogações de vencimento, acrescentar: ‘nos termos da cláusula Forma de Pagamento abaixo’ ou ‘nos termos
da cláusula Ajuste de Prorrogação abaixo’; III — nome do credor e a cláusula à ordem; IV — valor do crédito
deferido, lançado em algarismos e por extenso, com indicação da finalidade ruralista a que se destina o
financiamento concedido e a forma de sua utilização; V — taxa dos juros a pagar e da comissão de fiscalização, se
houver, e tempo de seu pagamento; VI — praça de pagamento; VII — data e lugar de emissão; VIII — assinatura
do próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais” (art. 27 do Dec.-lei n. 167).
Não obstante destituída de garantia real, a nota de crédito rural está sujeita a registro no Cartório de Registro de
Imóveis da circunscrição em que esteja situado o imóvel a cuja exploração se destina o financiamento cedular.
Compreende-se a exigência para o fim de estabelecer-se sua eficácia em relação a terceiros (art. 27).
Consequentemente, o efeito gerado é erga omnes e tem o condão de dirimir dúvida, estabelecendo um critério
preferencial que pulveriza simulacro na tentativa de esvaziar o patrimônio e criar condições desfavoráveis à
cobrança, na hipótese do inadimplemento verificado.
Exatamente por isso, quando aparece pressuposto da execução, presentes seus aspectos básicos, o credor estará
revestido de parâmetro e ligado à própria natureza da garantia, a qual, de seu turno, entrará na seara da constrição,
guardando relação de causa e efeito na viabilidade do recebimento da importância não honrada.
Demais disso, sufraga-se um cerceio à liberdade na defraudação da garantia, fato esse possível de alegação e
eventual reconhecimento na diretriz do procedimento de execução.
O título de crédito se reveste de todas as formalidades que timbram a característica de executoriedade, na
hipótese de inadim​plemento obrigacional.
A atividade rural, devido ao crescimento explosivo do agronegócio e considerando a destinação de 25% dos
depósitos ao crédito agrícola, tudo isso fez com que houvesse uma modernização na atividade empresarial e a
conquista de títulos facilitando a vida do produtor rural.
Dessarte, a cédula do produtor rural, na espécie de nota promissória, visa a antecipação do crédito, ao lado do
financiamento endereçado à compra de maquinário; outrossim, vamos observar fundos de investimento voltados para
o setor específico.
Naturalmente, o agronegócio sempre cada vez mais crescente supera 30% do PIB nacional, e os bancos
materializam os meios por intermédio de recursos instrumentalizando uma política de parceria, inclusive por meio de
empréstimos destinados exclusivamente à compra de maquinários com menor taxa de juros, colimando a
modernização da frota. A Lei n. 11.076, de 30 de dezembro de 2004, alterada pela Lei n. 13.331/2016, criou diversos
títulos rurais: CDCA (certificado de direitos creditórios do agronegócio), CRA (certificado de recebíveis do
agronegócio), CDA (certificado de depósito agropecuário), LCA (letras de crédito agrícola) e WA ( warrant
agropecuário), revelando a política e o incremento ao agronegócio como maneira de exportação e produção interna.
Revelado esse ângulo e com o dinamismo empresarial dos negócios no campo, as instituições financeiras
modernizam-se na conquista do segmento, por causa da repercussão e da carteira do comércio exterior, prestigiando
extremamente o produtor, quer na compra de insumos e maquinários, quer ainda financiando a safra de modo
antecipado.
Efetivamente, o Código Civil em vigor, ao descrever a natureza das operações, os respectivos títulos e suas
garantias, não evoluiu a ponto de atravessar o período de produção não organizada para a verdadeira reforma que
sedimenta um espaço macro da economia agrícola.
Inevitável que a dinâmica venha paralelamente desenhada com a nova roupagem ditada pelos títulos ou ainda por
razão da cibernética, incrementando a produção, desenvolvendo a empresa e compartilhando o crescimento do setor
rural.
Bem por tudo isso, na dinâmica dos títulos rurais, acende crescente interesse na relação do custo-benefício, com
amparo na produção-safra e, consequentemente, uma realidade ditada pelo mercado externo, qual seja, o preço das
commodities.
22
AS RESOLUÇÕES DO BANCO CENTRAL E O PROBLEMA DE SUA
JURIDICIDADE

Sumário: 139. A velocidade dos fatos e a lentidão legislativa. 140. A lei do Sistema Financeiro e a técnica
legislativa do Direito Econômico. 141. Principais métodos dos sistemas legislativos.

139. A velocidade dos fatos e a lentidão legislativa


A extraordinária rapidez com que se desenrolam os fatos da vida econômica e financeira dificilmente pode ser
acompanhada pela edição de normas reguladoras pelo Poder Legislativo. Uma absentia legis seria de todo
indesejável: “A vida associativa exige que qualquer sistema jurídico ofereça a solução a qualquer caso que possa ser
proposto; a própria recusa de solução constituiria em verdade uma solução, porque importaria, pelo menos, na falta
de um desconhecimento da legitimidade da situação existente”236.
Justamente na esfera financeira, onde está envolvido o interesse público, a norma reguladora necessita
acompanhar os fatos. Daí a premência da edição de leis menores, de elaboração mais rápida e menos complexa:
“Como já foi destacado, a criação de uma norma inferior através de uma norma superior pode ser determinada em
duas direções. A norma superior pode não só fixar o órgão pelo qual e o processo no qual a norma inferior é
produzida, mas também determinar o conteúdo desta norma. Mesmo quando a norma superior só determine o órgão,
isto é, o indivíduo pelo qual a norma inferior deve ser produzida, e deixe à livre apreciação deste órgão tanto a
determinação do processo, como a determinação do conteúdo da norma a produzir, a norma superior é aplicada na
produção da norma inferior”237.
A diversidade dos diplomas normativos faz com que se perca um pouco da efetividade em relação à supervisão
e monitoramento do mercado, sendo de todo salutar a intervenção preventiva do Banco Central na determinação do
problema e na dimensão de sua solução.
Costumeiramente, funcionando o mercado em sistema de vasos comunicantes, a tomada de posição em razão de
um determinado entrave não é de molde a espalhar efeitos negativos na administração das instituições financeiras,
uma vez que os interessados, conhecendo o pulso da realidade, não se precipitarão.
Seguindo a linha de averiguar o momento da eclosão da circunstância, a modernidade contempla, em seu
contexto, a pluralidade de situações que um sistema financeiro, por si só, é capaz de evidenciar, no ângulo das
concentrações, fusões, alterações de controle, participações recíprocas, distribuição de dividendos, e todos aqueles
de uma complexa natureza que demandam pronta observação na resposta.

140. A lei do Sistema Financeiro e a técnica legislativa do Direito Econômico


Consoante a orientação supra dos juristas e filósofos do Direito, a Lei n. 4.595, de 31 de dezembro de 1964, que
dispõe acerca do Sistema Financeiro Nacional, atribuiu ao Conselho Monetário Nacional a finalidade de formular a
política da moeda e do crédito, podendo, para tal, tomar deliberações a respeito da matéria financeira, com base nas
quais o Banco Central baixa resoluções com efeito cogente em relação às instituições financeiras em geral, e aos
bancos em particular, visando adaptar o volume dos meios de pagamento às necessidades da economia nacional,
regular o valor interno e externo da moeda, orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras, zelar por
sua liquidez e solvência etc. A constitucionalidade das resoluções do Banco Central, com base nas deliberações do
Conselho Monetário Nacional, nunca foi posta em xeque. Isto porque a referida Lei n. 4.595 editou verdadeiras
normas em branco, cujo conteúdo deve ser preenchido pelas deliberações do Conselho Monetário Nacional:
“É esta uma técnica legislativa do chamado ‘direito econômico’, à qual os nossos magistrados ainda não se
afeiçoaram de todo, e que costuma passar despercebida nas exposições acadêmicas e dissertações doutrinárias. Ela
representa, no entanto, um instrumento indispensável de atuação do Poder Público no sentido de acompanhar e
influenciar a evolução da conjuntura. Tais Resoluções não constituem, como acima se frisou, um simples ato
administrativo regulamentar, mas sim o preenchimento de uma norma legal em branco, atuando portanto como o
necessário momento integrativo do seu conteúdo, e participando da sua natureza”238.
Esboçado esse quadro, a conotação emprestada ao diploma normativo n. 4.595/64 se afigura de caráter
tipicamente direcionado à natureza de lei complementar, dada sua relevância e projeção destacada em relação aos
demais aspectos que regulamentam a atividade funcional do Banco Central, de forma programática, suscitando
princípios e diretrizes, numa verdadeira posse de condutas rígidas que determinam o cumprimento pelo mercado,
dado o perfil de norma cogente.
Realçamos a necessidade de essa propalada lei complementar estabelecer uma diretriz consentânea com o perfil
que congrega o mercado na sua economia de escala, nas dimensões do seu crescimento e, fundamentalmente, na
adaptação à realidade de parâmetros atualizados.
Incogitável administrar a real visão de todos os aspectos mediante a introdução de mecanismo desambientado do
seu tempo e sujeito às incursões de inúmeras mudanças no ordenamento jurídico.
O questionamento é de caráter legal, mas isso manteria acesa a necessidade de sua revisão global, estrutural,
por uma tessitura que fosse capaz de permitir uma gradual tendência de eliminar sequelas e minimizar os conflitos de
interesse.

141. Principais métodos dos sistemas legislativos


Não cabendo, por um lado, a norma legal “adaptar-se com precisão e oportunidade às mutáveis situações
conjunturais que demandam a intervenção estatal, por ser, por natureza, genérica, abstrata e constante; por outro
lado, o Poder Legislativo não podendo e não devendo, pela sua própria estrutura, ser chamado a acompanhar
diuturnamente as mutações da conjuntura, editando regras técnicas, de cunho analítico, resolveu-se o impasse, nos
sistemas legislativos contemporâneos, através de dois métodos principais. O primeiro deles, cujo exemplo nos é dado
pelo sistema constitucional francês de 1958, consiste em reservar à lei um certo número de matérias que dizem
respeito aos princípios da organização política, social e econômica, e de atribuir ao Poder Executivo a faculdade de
disciplinar tudo o mais por meio de ordenações. O segundo método consiste na criação de órgãos executivos
autônomos, aos quais a lei atribui poderes normativos específicos em setores determinados. Foi este último o
caminho seguido nos Estados Unidos com as independent regulatory Comissions. É esta também a trilha adotada
pelo legislador brasileiro, durante o Estado Novo e também a partir de 1964”239.
Assinale-se, todavia, que em França, no que concerne à matéria creditícia e aos problemas financeiros em geral,
se adotou não o primeiro, mas o segundo método, ou seja, o da atribuição de poderes normativos a certos órgãos.
Assim é que a Lei n. 84/46, de 24 de janeiro de 1984, instituiu como órgãos de direção: o Conselho Nacional de
Crédito e a Comissão de Regulamentação Bancária. O primeiro é dotado de função consultiva, emitindo orientações
acerca da política monetária e de crédito e estudando as condições de funcionamento do sistema bancário e
financeiro, principalmente em relação à clientela. A Comissão de Regulamentação Bancária estabelece as
prescrições de ordem geral aplicáveis aos estabelecimentos de crédito, no quadro das orientações definidas pelo
Governo. Concentra o poder regulamentar, que, na vigência da lei anterior, pertencia ao Conselho Nacional de
Crédito.
A diferença importante entre as resoluções da Comissão de Regulamentação Bancária na França e as do Banco
Central, entre nós, está em que aquelas estão sujeitas à homologação do ministro encarregado da economia e das
finanças e são suscetíveis de recurso perante a jurisdição administrativa.
Respeitante ao assunto e na importância que transcende os limites de tempo e espaço, na vertente direcionada
pelo Banco Central são contabilizados aspectos que invariavelmente demandam correção de rumo, mas a
responsabilização na análise do resultado da política pública deixa e muito a desejar, à medida que se suplanta a
causação do malsinado efeito por razões de ordem pública que secundariamente passam ao largo do órgão diretivo.
A macrovisão do conjunto permite sustentar a imprescindível projeção da autonomia que deve governar o
modelo exercido pela autoridade do Banco Central, não se fechando às explicações ou esclarecimentos que o
mercado exige, mais de perto quando instituições financeiras, durante as crises de iliquidez, apresentam balanços
falaciosos para ilaquear a boa-fé do investidor e vislumbrar desvio de recursos destinados às atividades fora do
contexto bancário.
Mantido o distanciamento entre o Banco Central e o mercado em todas as suas circunstâncias, vivemos
momento de indagação sobre a necessidade fundamental de reforma legislativa e modernização que ultrapasse o
funcionamento do serviço e atinja a organização como um todo, sob o ponto de vista estrutural.
O aumento do depósito compulsório, da carga tributária e dos impostos indiretos sobre a atividade bancária porfia
caminhos que não elucidam solidez no configurar da modalidade opera​cional. Desta maneira o enxugamento do setor
passa obrigatoriamente pelos procedimentos societários e não se sustenta sem uma alavancagem plasmada na
atitude atenta e séria do governo para prevenir males incontroláveis.
Com os olhos voltados para este cenário de dificuldades e repletos efeitos colaterais, o Governo baixou diversas
medidas provisórias acenando procedimento de reestruturação das instituições financeiras, cujo saneamento
dependeria da alavancagem de recursos e processos interligados de aspecto societário, na delimitação de
incorporações, fusões e cisões, ou mesmo a participação do capital estatal, a exemplo de federalizações ocorridas,
tudo na repercussão experimentada e nos próprios riscos advindos de eventual desestabilização da entidade.
Estarrecido com o insucesso dos bancos estaduais e a forte sujeição aos procedimentos de saneamento ou
liquidação, o Governo preconizou medida provisória tendente ao incremento da desestatização, pelo caminho da
iniciativa privada, e demais preceitos que objetivam evitar o endividamento das contas e o repasse à União.
Substancialmente, a Medida Provisória n. 2.192-70, de 24 de agosto de 2001, visou estabelecer mecanismos para
que houvesse a redução do setor público estadual na atividade financeira bancária, e concomitante desenhou o
caminho no sentido da privatização e lançou mão de providências correlatas.
Dentre as principais circunstâncias delineando a posição de incentivo e a retirada do setor estadual da atividade
financeira, sem sombra de dúvida, possível se faz ressaltar:
a) compra do controle pela União;
b) mudança da instituição para não financeira;
c) financiamento dos ajustes visando privatização;
d) aquisição de créditos em desfavor do controlador e entidades por ele controladas, colimando refinanciamento;
e) financiamento de programa de saneamento;
f) prestação de garantia a financiamento concedido pelo Banco Central;
g) criação de agências de fomento para as unidades da Federação que ultimarem contratos de financiamento ou
refinanciamento com atenção à medida provisória.
Preocupante d’outro ângulo o papel assumido pela União no desdobramento da forte crise que abalou as
instituições financeiras estaduais, na medida em que se permitiu a responsabilidade pelo passivo junto ao público em
relação às entidades financiadas.
Com apoio numa subversão do fim privatizável, assume a União, embora provisoriamente, o controle da própria
instituição e o respectivo passivo, de modo a sair de sua atividade e provocar uma situação estatizante.
Evidente, portanto, que o processo de federalização bancário é uma medida extrema dotada de repercussão
negativa, criando inúmeras relações de instabilidade, porque quase numa intervenção branca o Governo Federal, em
cooperação com o Banco Central, buscará o saneamento financeiro, mas a duração é incerta, e diante disso os
preços das ações tendem à oscilação, acirrando a disputa na hipótese de venda e ainda eventuais determinações
judiciais afetando a pri​vatização.
Ademais o peso político dessa federalização que envolve determinados bancos causa uma tensão na técnica
visando a privatização, porque ainda que indiretamente a responsabilidade recai sobre a União, e quaisquer
incorreções ou deslizes observados são de molde a resvalar na administração que causou prejuízo à instituição.
O entrechoque de interesses na fiscalização é aparentemente dimensionado, na medida em que um banco
federal passa pelo crivo do controle de supervisão e monitoramento de uma entidade sem a respectiva autonomia.
Com efeito, o Banco Central, ao controlar uma instituição que veio a ser federalizada, deve manter sua hígida
política de independência, mesmo formal, para dissecar problemas, impor responsabilidades, e ditar o regular
prosseguimento da atividade.
Pensar numa agência regulamentadora em nível de mercado é algo ainda que se coaduna com um projeto
inacabado e de difícil previsão, na metodologia de um interesse em conflito e ditado pela economia em crise.
O mais certo e correto na hipótese seria responsabilizar aqueles administradores que levaram as instituições
financeiras estaduais ao descalabro, com gerenciamento irregular, concessão de empréstimos duvidosos às
empresas em crise, incidindo em disposições das leis do anonimato e mercado financeiro, despontando a
indisponibilidade de bens com a demonstração do nexo causal.
Na verdade, o ingresso tardio da União no aspecto da federalização, em caso extremo, somente materializa a
ideia da falta de ação preventiva na diretriz de instrumentalizar uma radiografia acerca da instituição, com o imediato
saneamento e afastamento dos administradores responsáveis.
Esta falta de intervenção preventiva do Banco Central é agravada pela ausência de melhor transparência no
procedimento destinado ao resgate da instituição financeira em situação de crise, mas é fundamental redimensionar
o papel e o modelo de atuação da autarquia na sua atividade de ditar a política monetária e conseguir autonomia,
com independência suficiente à eliminação das interferências de ordem externa.
Primordial seria que houvesse uma reforma na competência interessando à coletividade, no respeitante à
capacidade de ditar políticas e imprimir comandos ao mercado, uma vez que o Banco Central, além de provocar
conflitos no âmbito de sua responsabilidade, em casos mais rumorosos compartilhou o privado com o público, cujos
administradores fazem uso das informações privilegiadas em detrimento da neutralidade fundamental ao mercado.
Bem por isso, esta promiscuidade comportaria um enquadramento tal e qual fosse repelida e responsabilizada
qualquer tentativa de privilegiamento de informes que pudessem assinalar conteúdo distante da realidade da simples
fiscalização e supervisão das operações, a começar do estabelecimento de um código de conduta forrado na ética
dos administradores públicos, passando pela profissionalização de seus dirigentes, para alcançar o estágio de
quarentena indispensável ao padrão de confiabilidade e dada a natureza do cargo ocupado.
Independentemente de ser ou não remunerado o período de licenciamento, não pode servir a direção como fonte
primária de obtenção de informes ou privilégios na prestação de consultorias, ou mesmo na abertura de empresas
participantes dos mercados de capital e financeiro, de tal modo que o ostracismo forçado, ainda que compulsório, é
salutar e tem funcionado de maneira dinâmica para afastar em definitivo aqueles investidores de ocasião ou
operadores de oportunidades.
Raramente, insta ponderar, a administração do Banco Central determina inculpação formal em relação à
irregularidade, ou no trato da questão preponderante que desembocou na ruína da instituição financeira, deixando um
espaço forte na consecução do resultado favorável.
Soma-se uma imprecisão técnica que pode ser haurida na fórmula aplicada pelo Banco Central e no exame de
sua responsabilidade no auxílio concedido e nas adversidades sobrevindas. Em vista disso, é sumamente relevante
considerar a forma de comportamento do agente público.
Começa-se um lento procedimento que mantém um controle direto sobre a atividade dos agentes do Banco
Central, no sentido de impor condenação, perda do cargo e a restituição de valores empenhados a título de
reerguimento da empresa financeira em crise.
As transformações sucedidas no mercado e a passagem pela etapa do saneamento de bancos e instituições
financeiras fizeram com que surgisse uma nova estrutura do setor, com a diminuição de estabelecimentos,
participação plural, forte prestação de serviços, mas a concentração precisa reordenar melhor sua técnica e ampliar
a concorrência, de sorte a partilhar destinação a todos os setores, inclusive às classes menos favorecidas, análise
esta que passa pelo ângulo da lucratividade, em compasso com o papel social da empresa bancária como um todo.
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RESPONSABILIDADE CIVIL DOS DIRETORES DE BANCO

Sumário: 142. Forma jurídica das empresas bancárias. 143. Responsabilidade dos administradores pela lei
genérica das sociedades por ações. 144. Responsabilidade decorrente de leis específicas. 145. Sanções
administrativas e judiciais. 146. Responsabilidade civil dos bancos. 147. Responsabilidade penal.

142. Forma jurídica das empresas bancárias


Os bancos, na qualidade de instituições financeiras privadas, só podem se constituir sob a forma de sociedade
anônima (art. 25 da Lei n. 4.595/64).
O diploma normativo que rege atualmente esse tipo societário — Lei n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976 —,
com as alterações provenientes da Lei n. 9.457, de 5 de maio de 1997, em alguns pontos específicos, prescreve que
a administração da companhia compete ao Conselho de Administração e à diretoria, ou somente a esta (art. 138),
delineando-se um órgão tipicamente coletivo, que exerce sua função no interesse da companhia.
O Conselho de Administração é composto, no mínimo, por três acionistas eleitos pela assembleia geral e a
diretoria, por dois ou mais membros, acionistas, ou não, eleitos pelo Conselho de Administração, ou, se inexistente,
pela assembleia geral. Os bancos, pela sua importância e amplitude, seja no plano econômico, seja no jurídico, soem
ter Conselho de Administração e diretoria. Ora, conselheiros e diretores, em virtude de sua qualidade comum de
administradores, são responsáveis perante a sociedade, conforme veremos a seguir.

143. Responsabilidade dos administradores pela lei genérica das sociedades por ações
Os administradores dos bancos (membros do conselho ou da diretoria) respondem civilmente pelos prejuízos
causados ao seu patrimônio. O administrador responde pelos atos normais de gestão quando obrar com culpa ou
dolo: “Essa responsabilidade pelo procedimento ilícito, dentro das atribuições e poderes do administrador, demanda
para a sua caracterização três elementos: o ato do administrador, a lesão causada à companhia e o nexo causal
entre o ato e a consequência. O ônus da prova cabe, na espécie, à companhia, que, para tanto, deverá evidenciar a
ocorrência daqueles três requisitos: a lesão material ou jurídica, a conduta antijurídica do administrador e a relação
de causalidade entre uma e outra”240.
Responde o administrador, mesmo quando tenha agido dentro de suas atribuições, se praticar abuso ou desvio de
poder. No abuso de poder, o administrador exorbita de suas prerrogativas, provocando prejuízos à sociedade, aos
acionistas e a terceiros. Comete desvio de poder aquele que dele usa para fim estranho à gestão da sociedade.
Dado que diretores e conselheiros, no exercício de suas atribuições, atuam de maneira diversa, diferente é a
aquilatação de suas responsabilidades. Os diretores manifestam, dentro dos estatutos e da lei, sua vontade individual,
que se erige em vontade da sociedade. No Conselho de Administração, porém, a vontade do órgão é manifestada
pela maioria de seus membros, sendo, pois, coletiva. Do exposto decorrem as seguintes consequências: “Salvo
conluio ou negligência, nenhum diretor torna-se responsável por ato de terceiro, ou seja, de outro diretor. Já no que
respeita ao conselho administrativo, a responsabilidade será sempre de todos os membros, salvo se os discordantes
fizerem consignar em ata sua divergência ou se utilizarem dos restantes procedimentos exoneradores de
responsabilidade previstos em lei. Isto porque não há ato individual eficaz em termos de competência do conselho de
administração”241.
Além de responder pelos atos praticados com culpa, dolo ou violação da lei ou dos estatutos, os administradores
serão responsáveis quando, por omissão, não assegurarem o funcionamento normal da sociedade, isto é, deixarem de
cumprir os atos que se inserem dentro de sua competência funcional. Nas companhias fechadas essa
responsabilidade é solidária, e, nas abertas, é individual, a menos que provada a conivência: “Nas companhias
fechadas, sendo todos os administradores solidariamente responsáveis pelos danos, terão aqueles condenados, que
não participarem da fraude à lei, ação regressiva para se ressarcirem do valor da reparação.
Nas companhias abertas, a lei presume que, em face de sua dimensão e da especialização estatutária das
funções administrativas, a solidariedade somente se estabelece por conivência ou negligência. Deve, então, a
companhia estabelecer o nexo de causalidade, com base na culpa do outro administrador”242.
As inovações introduzidas na lei de companhias procuraram democratizar sua administração, e trazer a classe
dos minoritários para o seio da sociedade, com um conjunto ampliado de direitos, descansando na possibilidade do
voto, da eleição de membros do conselho, da divisão igualitária da classe de ações, no acordo de acionista, alienação
e oferta pública, no aspecto de assegurar um fluxo maior de investimento no mercado acionário.
Entretanto, cabe determinar a responsabilidade tanto na omissão como na ação, naqueles atos que representam o
deslocamento da regra encerrada na administração regular da companhia, incorrendo no prejuízo e mostrando um
quadro distinto daquele preconizado pelos acionistas.
Preservou-se a matéria vinculada à responsabilidade em relação aos membros do conselho fiscal, igualada aos
administradores, pelos danos provenientes de omissão, ainda culpa ou dolo, com violação da lei ou do estatuto.

144. Responsabilidade decorrente de leis específicas


Os diretores de banco, além daquela fixada na Lei das Sociedades por Ações, têm sua responsabilidade regulada
em leis específicas. Destarte, a Lei n. 4.595/64, no art. 42, dispõe que eles respondem pelo risco criado por abuso de
poder no exercício da administração ordinária: “Nesse dispositivo, elimina-se o elemento subjetivo de culpa ou dolo,
configurando-se a responsabilidade dos administradores de instituições financeiras por quaisquer atos de gestão e
administração, pelo risco criado”243.
A Lei n. 6.024, de 13 de março de 1974, que trata da intervenção e liquidação das instituições financeiras,
disciplina de maneira sistemática essa responsabilidade. Assim é que:
I — prescreve a indisponibilidade dos bens dos administradores das instituições financeiras em intervenção,
liquidação extrajudicial ou falência até a liquidação final de suas responsabilidades, contanto que tenham estado no
exercício do cargo nos últimos doze meses anteriores à decretação da medida corretiva (art. 36);
II — dispõe que os administradores e membros do Conselho Fiscal respondem, a qualquer tempo, pelos prejuízos
por eles causados, salvo prescrição (art. 39);
III — fixa a responsabilidade solidária dos administradores pelas obrigações assumidas em sua gestão até que se
cumpram (art. 40);
IV — torna possível, a pedido do representante do Ministério Público, o sequestro dos bens, no inquérito judicial
instaurado, dos administradores não atingidos pela indisponibilidade (art. 45), sujeitos aqueles que administraram nos
últimos cinco anos (art. 43).
Preocupado com as consequências desastrosas da má administração de instituições financeiras públicas e
privadas, o Governo não mediu esforços para recompor o setor e aumentar o leque direcionado à responsabilização
dos integrantes do corpo diretivo. Medida provisória do Executivo disciplinou a responsabilidade solidária de
controladores de instituições submetidas aos regimes de que tratam a Lei n. 6.024, de 13 de março de 1974
(intervenção e liquidação extrajudicial de instituições financeiras), e o Decreto-lei n. 2.321, de 25 de fevereiro de
1987 (que instituiu, em defesa das finanças públicas, regime de administração especial temporária nas instituições
financeiras privadas e públicas não federais), sobre a indisponibilidade de seus bens, sobre a responsabilização das
empresas de auditoria contábil ou dos auditores contábeis independentes e sobre a privatização de instituições cujas
ações sejam desapropriadas, na forma do diploma mencionado.
Deflui com nítida clareza que o Governo estendeu os aspectos referentes à indisponibilidade dos bens dos
administradores que agirem à margem da legislação e causarem dano à instituição, além de permitir a extensão do
alcance, para efeito de ressarcimento, às empresas de contabilidade, sob a forma de auditoria independente, quando
lançarem dados e denotarem informes levados ao mercado que não refletem a situação correspondente.
É preciso ainda o aperfeiçoamento centrado na rápida apuração dessa responsabilidade, no intuito de não se
provocar um bloqueio patrimonial indeterminado, que invariavelmente paralisará a vida pessoal e os negócios dos
gestores envolvidos.
Os diretores estatutários se submetem aos pressupostos da Resolução n. 2.692, regulada pela Circular n. 2.972,
datadas de 24 de fevereiro e 23 de março de 2000, ambas do Banco Central do Brasil, obrigando às instituições
financeiras a reserva de parcela do capital próprio para cobertura de operações que apresentam o descasamento
entre ativo e passivo, por causa da volatilidade das taxas de juros.
Consequentemente, os diretores estatutários terão seus nomes lançados nos registros do Banco Central e
responderão com o patrimônio individual; além disso, se subordinarão às infrações definidas na legislação
disciplinando os crimes de colarinho branco, cujo modo e aspecto exteriorizam um grau maior de responsabilidade
em face das exigências, repercutindo no mecanismo de segurança para minorar os riscos.
Bastante interessante anotar que a Resolução n. 2.692 tem diretriz ampla, na medida em que engloba as
empresas de arrendamento mercantil, corretoras e distribuidoras de valores, evidenciando uma fórmula de cálculo
matemático a distinguir o maior e o menor grau de risco na exposição da instituição financeira às perdas com taxas
de juros em permanente mudança.
Implica a determinação normativa a obrigação da instituição financeira em destacar uma soma que será
destinada na alocação das operações envolvendo o próprio risco, tudo sedimentado na variação das taxas de juros e
na diferença timbrada entre o divórcio distinguindo o ativo do passivo.
Resvalando no modelo contemplado pelo diploma normativo n. 6.024/74, na dicção da responsabilidade dos
administradores, a análise da regra oriunda do Banco Central indicaria que não houve significativa alteração no
panorama geral, mas simplesmente definição em torno dos elementos capazes de medir e valorar o protótipo da
operação e sua identidade com o patrimônio da instituição.
Substancialmente, quando os diretores estatutários violassem as regras de risco, os patrimônios individuais
conteriam restrições, por falta de alocação do capital de cobertura, na circunstância inegável de malferir a
volatilidade das taxas de juros.
Correto, portanto, frisar que coube ao Banco Central sistematizar subsídios visando descartar a iliquidez das
operações realizadas pelas instituições financeiras, suprindo riscos acima da média tomada ou aceita, ainda porque
secundado pelo acordo da Basileia, cujo percentual mínimo de capital próprio de 11% incide sobre os ativos
ponderados pelo risco, equação que passa diante das adversidades do crédito cambial e da oscilação da taxa de
juros.
Importante destacar que o acordo da Basileia, a partir de 2007, sem conflitar com aquele em vigor, disciplinando
o capital mínimo correspondente a 11% dos ativos ponderados pelo risco, com êxito das instituições financeiras,
colima obediência aos parâmetros de capital mínimo, revisão e normas adaptáveis ao mercado.
As adversidades causadas pelos impactos externos e de mercado interno podem fazer oscilar o grau de
segurança operacional, dessa forma Basileia 2 surge como mecanismo mais sólido por sinalizar com maior
transparência o risco dos bancos.
Essas regras aumentam a concorrência, disparam a competição entre o sistema financeiro, alargando o produto
traduzido no crédito, embora muito se reclame em relação à taxa de juros real e às previsões oficiais.
Na flutuação da taxa de juros em face da relatividade de política macroeconômica, assegura o Banco Central
trato preventivo obrigando diretores estatutários à cobertura de operações e minoração do grau de risco.
Não tem sido incomum uma confusão patrimonial que sedimenta o procedimento de administradores de
companhias, no sentido da negociação entre as empresas do grupo, em detrimento do mercado.
Bem por isso, e na visão delimitada, o enquadramento se sujeita à aplicação da legislação do colarinho branco e
das regras específicas que cuidam do assunto, não apenas na responsabilidade de reverter a situação, mas, em
particular, no delito tipificado.
Malgrado os instrumentos disponibilizados pelo Banco Central na observação de diversas instituições financeiras
que vieram à bancarrota, e deram com isso o surgimento do Proer, tem-se pequena a circunstância de comprovação
dos desvios, fraudes e violações ao diploma normativo, implicando uma crescente cobrança da sociedade e presente
acompanhamento do Ministério Público.
É essencial a criação de uma força tarefa, a exemplo de Nações desenvolvidas, que concentram esforços na
apuração total de responsabilidade, patrimônio no exterior, empresas de fachada e inúmeras operações realizadas
em detrimento da massa de credores.
145. Sanções administrativas e judiciais
Pelos atos culposos, dolosos, com abuso ou desvio de poder ou danosamente omissivos podem os diretores de
bancos, na esfera administrativa, ser punidos pelo Banco Central, com as penas de multa, advertência, suspensão e
até inabilitação, conforme processo instaurado de acordo com o art. 44 da Lei n. 4.595/64. Se o banco estiver
estruturado sob a forma de sociedade anônima de capital aberto, ficam os diretores passíveis também de aplicação
dessas penalidades pela Comissão de Valores Mobiliários (art. 11 da Lei n. 6.385/76).
Devemos ter em mente o funcionamento da CVM como agência reguladora, com premissas e prerrogativas
ímpares, na autonomia, independência e política pública de mercado, sinal de uma evolução, com a sujeição de
mandato aos diretores na função, evitando pressão e posição de constrangimento.
Na roupagem específica que traz à baila o papel da CVM, podemos identificar uma composição de modernidade
e atribuição de poderes que perpassam o mero quadro estrutural-institucional, gerindo, prevendo impasses, impondo
soluções de imediato.
A responsabilidade inerente à atividade da Comissão de Valores Mobiliários concentra um poder maior e
também uma responsabilidade na administração dos conflitos de mercado, visto que aos membros da autarquia cabe
uma visão mais definida, um horizonte preciso, e a eliminação pontual de tudo que contraria o funcionamento regular
do mercado.
No plano judicial, a apuração da responsabilidade dos diretores de banco e aplicação da consequente sanção
indenizatória se dá por ação a ser proposta, em primeiro plano, pela própria pessoa jurídica, na qualidade de
sociedade anônima, e, supletivamente, caso ela não o faça dentro de três meses da deliberação da assembleia geral
nesse sentido, por qualquer acionista. Entretanto, se a assembleia manifestar-se contrária à propositura da ação,
representantes de 5% do capital social poderão fazê-lo (art. 159, § 4º, da Lei n. 6.404/76). No caso de ação proposta
por acionista, os proveitos dela resultantes reverterão em benefício da pessoa jurídica, que deverá indenizar o
proponente de custas e honorários de advogado, com correção monetária e juros (art. 159, § 5º).
Se por ato do administrador houver lesão a direitos individuais de terceiro, acionista ou não, cabe a este a
iniciativa da ação reparatória (art. 159, § 7º).
Portanto, para a apuração da responsabilidade civil dos diretores de banco, nossa legislação admite a ação pela
pessoa jurídica uti universi e pelo acionista uti singuli, além daquela de parte do terceiro lesado: “O sistema jurídico
pátrio acolhe a multiplicidade de pretensões de natureza individual e social, envolvendo a companhia, seus acionistas
e terceiros. Temos, assim, duas espécies de ações: 1) a ação social, em que a companhia (banco) tem prioridade, a
qual, se não exercida, sê-lo-á substitutivamente por qualquer acionista. O fundamento dessa preferência de ordem é
de que o ato ilícito do administrador tem repercussão direta no direito ou no patrimônio dos acionistas; 2) a ação
individual, que pertence privativamente aos acionistas, pois a proteção jurisdicional interessa apenas a eles. Será a
ação para reparação dos prejuízos diretos”244.
Casos há em que a legitimidade desse tipo de ação compete ao Ministério Público, que pleiteará o ressarcimento
do dano cometido pelo administrador, notadamente quando a lesão atingir um número indeterminado de pessoas,
abrangendo área de exploração na qual os investidores, poupadores e aplicadores, independentemente da forma ou
da maneira de se concretizar o dano, recebem os malefícios que circundam a falta de transparência, ao lado do
intuito de desviar recurso, con​tra​ria​mente ao objeto social especificado na constituição da sociedade.
Ação individual, ou social, tem como meta a reparação do dano provocado no exercício inexato das funções
administrativas dentro da companhia, declinando-se um grau de ilimitação de responsabilidade, desde que se
comprove a forma culposa ou dolosa que marcou a direção da empresa.
Nesse momento dificultoso, cabe à Comissão de Valores Mobiliários refazer o preceito essencialmente delineado
na lei do anonimato para que os balanços das instituições financeiras tenham informes mais precisos e detalhados,
alcançando um grau de transparência e compreensão por todos os interessados.
É fundamental uma aproximação maior entre a Comissão de Valores Mobiliários e o público investidor, para que
não apenas conheça os seus mecanismos endereçados à fiscalização e supervisão do mercado, mas essencialmente
se consiga um conjunto de regras com o escopo de prevenir o mercado e efetivamente punir os responsáveis pelas
operações irregulares, revelando ilicitude, com o espírito especulativo, de ambicionar lucros desproporcionais e numa
velocidade incompatível com a realidade conjuntural.
Forçoso reconhecer que a CVM vem ampliando seu instrumento de atividade, nas instruções que têm sido
ditadas, quer pelo ângulo de conseguir eficiência, ou mesmo de encontrar soluções compatíveis com a globalização
do mercado financeiro e de capitais, donde os balanços não poderão ser efetuados por empresas de auditorias
independentes por mais de cinco anos, obrigando à feitura de um rodízio, além de informações mais precisas e um
controle mais direto sobre o administrador controlador.
De fato, as penalidades disciplinadas na Lei n. 6.385/76 foram modificadas, cuja conotação denota maior
severidade e rigorismo na punição, no tocante às multas aplicadas, podendo atingir a casa de quinhentos mil reais no
referente às penas pecuniárias, nas hipóteses de reincidência, e, naturalmente, os valores poderão ser triplicados.
Demais disso, o aspecto relevante da transformação consiste na possibilidade da concretização de
compromissos, mediante assinatura de termos, revelando os importes indenizatórios às partes lesadas, sem a
necessidade de socorro da intervenção do Poder Judiciário, tornando mais ágil a resposta e efetiva na reparação do
dano existente.
Não se pode desconhecer a validade e eficácia revestidas nas medidas implementadas pela autarquia federal,
mas é preciso sublinhar que a cautela e precaução devem pautar ações preventivas que inibam práticas
detrimentosas à regularidade do mercado. Bem nesta ótica, esta autorregulamentação tem conotação de impedir
abusos, desvios ou especulações não refletindo a realidade das operações; mais do que isso é preciso exigir
regularidade nos balanços, demonstrações financeiras, e a imediata suspensão das negociações em bolsa ou balcão
com as ações das empresas que destratam normas em vigor.
A intervenção da CVM não pode ser precipitada e muito menos retardatária no seu efeito, sob pena de agravar
uma situação, dês que o pulso é fundamental no enfrentamento da adversidade. Assim, as oscilações e alterações de
curso dos papéis em negociação necessitam uma atenção redobrada, estruturando o investidor sem pairar dúvidas ou
surpresas.
Interessante ponderar que o dever de diligência do administrador é imprescindível à consecução das atividades
da companhia, do relacionamento com o mercado, segurança do investidor, e principalmente o conhecimento de
dados naturais à situação operacional da empresa, mediante balanços e demonstrações isentos de irregularidades.
Note-se que as companhias abertas devem revelar as suas operações, preservando apenas o sigilo de algumas,
para que o princípio da full disclosure seja cumprido e dele brote a relação de compromisso com o mercado, sem
inverter a ordem jurídica, ou subverter o espírito de liquidez da empresa.
Mascarar a realidade ou impor inverdades no balanço significa grave violação dos direitos da companhia,
cabendo responsabilidade civil, administrativa e ainda na ótica penal, porque o aspecto tem conotação particular e
interfere na catalogação do empreendimento, provocando dúvida no comportamento dos acionistas, a arremeter a
empresa de uma situação in bonis para eventual contingência de insolvabilidade.
Inadmissível que a agência reguladora apenas imponha sanção administrativa, sem punir mais efetivamente a
companhia que se desgarra das normas de mercado, a exemplo de companhias que anos a fio desafiam a
fiscalização e não apresentam seus balanços ou pagam dividendos.
D’outro bordo, o canal entre a CVM e o investidor direto ou institucional necessita de um contato mais
sincronizado, no sentido de um permanente aprimoramento na solução das irregularidades e adoção de providências,
na tendência de não espalhar o temor aos demais que negociam no mercado.
Revela-se a perspectiva de um cuidado mais eficaz na apreciação dos caminhos a serem seguidos, com isso se
pretende constituir um ponto de equilíbrio que governe a ação da CVM perante o interessado, até porque muitos
desses órgãos ainda mantêm escritórios na antiga capital da República, a cidade do Rio de Janeiro, dificultando uma
conversação de melhor resultado.
O aumento de companhias no mercado acionário implica a implementação de uma política de infraestrutura da
Comissão de Valores Mobiliários, a uma, para acompanhar passo a passo a movimentação, a duas, para assegurar
tranquilidade ao mercado, e, por derradeiro, para analisar os procedimentos que se relacionem com o preço artificial
do papel negociado.

146. Responsabilidade civil dos bancos


Ao lado da responsabilidade dos diretores de banco, na sua qualidade de administradores de sociedades
anônimas, assume relevância a dos próprios bancos, na qualidade de pessoas jurídicas, seja em relação a seus
clientes (contratual), seja no que concerne a terceiros, conforme sustentam a doutrina e a jurisprudência francesas,
com base nos arts. 1.382 e s. do Código Civil e 180 da lei de 25 de janeiro de 1985, que disciplina os procedimentos
concursais.
A responsabilidade contratual dos bancos pode ser invocada no caso de “inexecução ou revogação injustificada
de uma abertura de crédito”245.
A responsabilidade delitual dos bancos se configura, segundo o sistema legal francês: a) na imprudente
concessão de créditos que possam comprometer a segurança das relações comerciais: “Os riscos são reais. Um
crédito concedido a uma empresa cuja situação está comprometida tem, frequentemente, por efeito único aumentar
o número de seus credores e a importância de seu passivo. O crédito permite à empresa continuar sua exploração e,
criando uma aparência de solvabilidade, fazer novas vítimas. Os credores do creditado, vítimas dessa falsa
aparência, perderão finalmente o seu crédito na desaparição inelutável da empresa; eles podem legitimamente pedir
a reparação desse prejuízo com base no art. 1.382 do CC; b) quando o banco exerce um controle sobre a empresa e
o síndico, sustentar que ele se tornou um dirigente de fato dela e que, a esse título, deve suportar a totalidade ou
parte da insuficiência do ativo, em aplicação do art. 99 da Lei de 13-7-1967”246.
Evidente, por outro lado, que se torna deveras difícil a simples apuração da responsabilidade e do grau de
culpabilidade do banco na realização de alguma operação, mas é induvidoso que, se descumpriu ordens internas ou
contrariou a legislação, concedendo empréstimos para empresas em estado de crise, procedendo a abertura de conta
sem qualquer lastro, conferindo cheque especial a cliente inadimplente, tudo deve ser apreciado sob a ótica do poder,
cujo exercício foi reprochável.
Hodiernamente, tem o Banco Central implementado medidas baixadas numa espécie de fórmula matemática, na
qual estabelece um vetor a revelar o risco da operação, a cobertura a resguardar o negócio e o desencadeamento da
relação dos diretores para efeito de responsabilização direta.
Na conjuntura assinalada, pois, compete a cada instituição financeira manter em seus quadros os informes
necessários, a priorizar eventual irregularidade ou contributo ao processo de crise da entidade, com fundamento nas
taxas de mercado e reservas próprias do porte do banco, sem olvidar o depósito compulsório existente.
Essa necessidade de se revelar, um a um, os nomes dos administrados, especificando o conjunto de bens
individualizados, sem margem de dúvida, obedece ao duplo mecanismo de poder a entidade fiscalizadora bem
conhecer aquela realidade e ter meios ao seu alcance se houver procedimento específico contra os responsáveis.
Notadamente, a flutuação de diretores e administradores nos cargos e períodos obriga a fiscalização a redobrar o
aspecto sobre o tempo das operações bancárias no desencadeamento do nexo causal e sujeição ao patrimônio
individual dos responsáveis.
Disciplinado o mapeamento do mercado e o monitoramento da instituição financeira, subministrados por dados e
subsídios transmitidos por meios eletrônicos, repercutindo na fiscalização, compete ao Banco Central detectar falhas
e operacionalizar medidas que contornem a situação antes de se debelar a crise irreversível.
Para que isso se materialize de forma rápida, necessário o intercâmbio do Banco Central com o mercado, na
exploração da informação, na colheita da prova e, fundamentalmente, na dicção do inquérito que determinará as
responsabilidades e as causas essenciais.
A demorada espera nesse tipo de operação inquieta o mercado, provoca o desassossego entre os investidores, e
coloca margem de manobra, no sentido de que, com a cessação da atividade, o patrimônio experimenta correção,
enquanto o passivo remanesce congelado.
Caberia repensar o modelo, na ótica do depósito compulsório e sob a garantia de cobertura oferecida pelo Banco
Central aos terceiros, na medida em que isso vem sendo interpretado pela Justiça nos processos destinados à
decretação da quebra de instituições.
A primazia do cliente-consumidor consubstancia fazer jus ao recebimento dos valores mantidos na instituição que
veio à quebra, sem entrar na habilitação ou fila, dada a natureza extraconcursal do crédito.
Destarte, se os meios instrumentais dispostos pelo Governo se mostram tímidos, para conter o impasse, cabe à
Justiça, nos casos concretos, minorar os dissabores desse público investidor que assume o papel de consumidor,
suscitando condições necessárias à recuperação do capital em mãos da empresa financeira falida.
O lastro de resgate a título de garantia ditado pelas câmaras de compensação ainda se mostra mínimo se
comparado com o fundamento relativo ao aspecto do banco múltiplo, mesmo se considerarmos o fator de
indisponibilidade patrimonial.
Uma grande contradição encerra-se quando o passivo, no momento da intervenção, é congelado, enquanto os
ativos dos administradores flutuam. De forma peculiar temos diversos escândalos financeiros nos quais o prejuízo
coletivo fora robusto (consumidor/clientela), enquanto os responsáveis vivenciam nababescamente o clima de
impunidade pela letargia do procedimento e a devida apuração do ativo.
Consequentemente, a exemplo do novo modelo do direito concursal, substancial que o ativo venha composto para
efeito de responder imediatamente com a situação do endividamento, não logrando prosperar indefinida e
indeterminadamente a consecução do passivo desconhecido ou a descoberto.
Bem, nessa dimensão, sendo líquidos, certos e determinados os créditos exigidos, não há que se cogitar na
demora em relação à avaliação do ativo que servirá como moeda de pagamento de responsabilidade do
administrador da instituição financeira.
Ao lado das sanções de natureza administrativa, civil e até de formato penal, com o afastamento do mercado,
garantia patrimonial dos bens, e condenação pela lesividade provocada, o ressarcimento do dano deve ser medida
mais efetiva que se coadune com os longos anos de irregularidades.
Enfim, o encaminhamento da questão requer a própria reforma legislativa, com o saneamento da empresa
financeira em crise, depuração da responsabilidade, pagamento das dívidas e sanções aplicadas aos antigos
administradores.

147. Responsabilidade penal


Ainda de acordo com a lei francesa que dispõe acerca dos procedimentos concursais (n. 85/98, de 25-1-1985),
considera-se cúmplice do delito de bancarrota simples o banco que: a) fornece créditos que venham a constituir
meios ruinosos no sentido de retardar a verificação do estado de cessação de pagamentos do devedor comum (arts.
197, 3º, e 131, 2º, da lei supracitada); b) tenha obtido um pagamento preferencial durante o período suspeito (arts.
128, 6º, e 203, 3º, da mesma lei). Tais figuras caracterizariam, entre nós, os chamados crimes falimentares.
Difícil, porém, em qualquer sistema legal, em se tratando de responsabilidade de pessoa jurídica, “determinar a
que escala da hierarquia se deva procurar o culpado. Qualquer que seja a infração, o banco é civilmente responsável
pelas consequências indenizatórias dos delitos cometidos por seus prepostos”247.
Nessa visão ditada pela presença da pessoa jurídica, não se pode descartar a responsabilidade penal dos agentes
das instituições financeiras quando favorecem operações irregulares, reduzem o lastro do depósito, efetuam negócios
a descoberto ou trabalham com numerário fruto de ilícito. Nessa situação definida é que surgiu a Lei n. 9.613, de 3
de março de 1998, que cuida da lavagem de dinheiro, retratando as diversas espécies do tipo, no concatenar de
medidas vigorosas que coíbam o uso dos bancos e casas bancárias com propósitos escusos.
Invocável, ainda que de passagem, a famosa lei disciplinando os crimes do colarinho branco, cuja prova se torna
complexa, mas que invariavelmente transporta um prejuízo sem limites ao mercado, mas que o tipo penal deixa a
desejar, além da morosidade na sua apuração, constantemente mais depurado o fato nas hipóteses de administração
temporária e liquidação extrajudicial.
A concatenação de fraudes e ilicitudes por meio da pessoa jurídica é uma razão determinante para que seja
aplicada a teoria da desconsideração da personalidade, e o pensamento em torno da responsabilidade penal do ente
moral, na medida em que não se consegue diagnosticar o direto agente culpado pela operação, ou se demonstrar
quantum satis o nexo causal com o dano provocado.
Profliga-se a exposição do mercado e de um número indeterminado de usuários ao sistema da absoluta falta de
transparência, ou atitude que plasme a responsabilidade do infrator, com lesão repercutindo na própria credibilidade
do sistema, isto porque o funcionamento agregado das entidades, como vasos comunicantes, pode fazer prosperar
grau de insegurança, agitando a normalidade e revelando incerteza no que toca de perto ao interesse público
tutelado.
Neste diapasão, vários pontos merecem ser reformulados na legislação, o principal deles em atenção ao seu
momento de elaboração, em desuso com a modernidade, não alcançando os modelos que são instrumentalizados nas
operações, cuja agilidade e discernimento na consolidação do negócio não têm infraestrutura e pessoal treinados nas
investigações relacionadas aos ilícitos cometidos por intermédio da pessoa jurídica.
Isto não quer significar, em absoluto, a característica inerente ao risco da operação, mas a certeza da
materialização do resultado e aplicação de sanção que afaste o responsável e puna com rigor a instituição que
descumprir regra integrada ao desenvolvimento de todo o sistema, posto que a pessoa jurídica comporta um
balizamento orgânico no alcance de seu objetivo social, cuja constituição é feita no interesse do mercado e não
contrariamente ao perfil coletivo dos que buscam levar recursos com o escopo de retorno lucrativo.
O encadeamento desta multiplicidade operacional é dificultado pela demora na racionalidade de se buscar os
ingredientes necessários à articulação da culpa, daí por que a pessoa jurídica, como técnica utilizada, pode ter um
enquadramento duplo no que diz respeito à indenização e submissão penal, nas circunstâncias da falta de
indivi​dua​lização do agente direto daquele prejuízo.
Efetivamente, todas as legislações modernas das Nações desenvolvidas fazem uma inovação na sujeição penal
das pessoas jurídicas; com isso fica diluída a possibilidade de se descartar a culpa, eliminado o grau de risco maior
dos investidores, e, mais importante, desenha-se um cenário promissor na perspectiva das autoridades levarem
adiante suas conclusões, haja vista a dicotomia entre a responsabilidade secundária do membro da sociedade e
principal da empresa que realizou a respectiva operação.
Há uma diagramação segura que implica a responsabilização dos administradores da instituição financeira pelos
atos praticados interna corporis, haja vista o delito tipificado e o dano trazido, mas fundamental estar atento à
prescrição e ao fiel cumprimento da pena.
De fato, nas Nações desenvolvidas a reprimenda é rigorosa e provoca o afastamento do gestor do mercado por
um tempo razoável, e implica a indenização dos danos em virtude de sua conduta, tanto omissiva como por ação,
detrimentosa aos investidores-consumidores.
A lesividade projetada pelos crimes de colarinho branco encerra uma especificidade que alastra as
consequências, exigindo rigor na investigação do caso noticiado, mediante amplo contraditório, e o indispensável
exame de provas, a diagnosticar o enquadramento.
Nesse contexto, a delituosidade que abriga administração correspondente aos negócios e repercute no mercado,
teria a marca do dano invocado, mas seria de rigor a perda dos direitos, na subordinação da pena, e seu
cumprimento em regime fechado.
Na cultura que a civilização inculcou ainda permanece falha na memória a obrigação do encarceramento para
delitos desse jaez, além da dificuldade que cerca todo o quadro, da morosidade na formação da culpa e seu trânsito
em julgado, vicissitudes essas que não inibem uma reforma conjuntural em prol da sociedade civil.
A tipicidade penal configurada tem traços característicos da gestão fraudulenta que pode desencadear o estado
de insolvência da instituição financeira, ou de empresas autorizadas a funcionar junto ao mercado; nessas hipóteses
é fundamental, a par do afastamento dos antigos administradores, o levantamento do acervo em função da
circunstância do enquadramento, principalmente quando se tem o grande prejudicado, que é o próprio consumidor.
Na realidade, a criação de varas especializadas em crimes de lavagem de dinheiro ainda é muito incipiente.
Malgrado o panorama, temos notícias de que os depósitos em paraísos fiscais vêm aumentando, elevando aquele
número de 40 bilhões de dólares, motivo pelo qual são essenciais a repatriação desse numerário, acordos
internacionais, e outrossim o rastreamento preventivo que possibilite a tomada de providência com o resultado
desejado.
Não é sem razão que várias instituições financeiras possuem filiais, sucursais em regiões sabidamente
conhecidas como de facilitação ao enclausuramento do dinheiro, na dinâmica de assegurar a própria movimentação,
sem qualquer desconfiança, ou livre da fiscalização governamental.
Escândalos de grandes grupos financeiros na Europa e nos Estados Unidos mobilizam os órgãos de investigação
imediatamente, provocando restrição à liberdade de ir e vir dos ex-administradores, com rigorosas e severas
punições, inclusive alijamento do mercado por vários anos.
Efetivamente, no campo ditado pela insolvência da instituição financeira, a situação é mais grave na composição
do dano, na reparação do prejuízo e no delito falimentar, por força da posição assumida e as consequências advindas
da respectiva gestão.
De concreto, cabe a tomada de posição em relação aos ex-administradores, com efetiva penetração na massa
dos negócios empresariais praticados dentro do grupo de direito ou de fato, com presta-nome ou esquematizando
fugir da responsabilidade.
Essencialmente, diagnostica-se na sinalização específica a necessidade de manter convênio com diversos países
e equipes treinadas para recuperação dos haveres transferidos ilegalmente.
Não se pode manter neutralidade diante da falência fraudulenta de instituições financeiras que se valem das
facilidades existentes e dos mecanismos utilizados para driblar a fiscalização, retirar patrimônio e qualquer
expectativa dos credores de alcançar recursos disponíveis à respectiva obrigação.
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PROCEDIMENTOS EXTRAJUDICIAIS APLICÁVEIS ÀS INSTITUIÇÕES
FINANCEIRAS EM CRISE

Sumário: I — A ADMINISTRAÇÃO ESPECIAL TEMPORÁRIA: 148. Disciplina legal. 149.


Particularidades do novo regime. 150. Pressupostos. 151. Efeitos da decretação. 152. Procedimento. 153.
Cessação. 154. Crítica ao novo regime. II — A LIQUIDAÇÃO: 155. Alcance e cabimento da medida. 156.
Termo legal. 157. O liquidante. 158. Efeitos da liquidação quanto aos direitos dos credores. 159. O processo da
liquidação extrajudicial. III — ADMINISTRADORES E MEMBROS DO CONSELHO FISCAL DAS
INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS: 160. Efeitos do despacho de administração especial temporária e de
liquidação quanto aos administradores e conselheiros fiscais. 161. Extensão da responsabilidade. 162. A
responsabilidade civil solidária dos ex-administradores e das pessoas vinculadas. 163. A indisponibilidade dos
bens. 164. A responsabilidade penal. 165. A restrição à locomoção. 166. O inquérito administrativo.

I — A ADMINISTRAÇÃO ESPECIAL TEMPORÁRIA

148. Disciplina legal


A Lei n. 6.024, de 13 de março de 1974, prescreveu dois procedimentos extrajudiciais para serem aplicados às
instituições financeiras privadas e às públicas não federais em condições de funcionamento anômalo, que
comprometesse sua solidez e credibilidade para com o público: a intervenção e a liquidação. Estendiam-se às
cooperativas de crédito, não alcançando as instituições públicas federais, pelo fato de já se encontrarem
estruturalmente sob a direção dos órgãos fiscalizadores pertencentes à respectiva esfera, não havendo, pois,
necessidade de intervenção de elementos estranhos, processando-se interna corporis as medidas cabíveis.
Com a edição do Decreto-lei n. 2.321, de 25 de fevereiro de 1987, a intervenção foi substituída pelo regime da
“administração especial temporária”. Duas questões de técnica legislativa aí se põem, preliminarmente: a primeira é
acerca da propriedade de se regular a matéria por decreto-lei; a segunda diz respeito à ponderação de normas
jurídicas, ou seja, se um decreto-lei pode revogar uma lei.
O art. 55 da anterior Constituição Federal (1969) dispunha, em seu inciso II, que o Presidente da República, “em
casos de urgência ou de interesse público relevante”, podia expedir decretos-leis sobre “finanças públicas”. Ora, é
óbvio que as instituições financeiras sob regime de empresa, mesmo as públicas, se inserem na órbita do Direito
Privado, não havendo que cogitar se tratar de matéria de “finanças públicas”, que são aquelas que dizem respeito ao
Estado como pessoa jurídica de Direito Público. Nem se diga que o fato de ter o Decreto-lei n. 2.321/87 instituído
como regra a utilização da reserva monetária para o saneamento econômico-financeiro da instituição compreenda as
“finanças públicas” elencadas no dispositivo constitucional permissivo da edição de decretos-leis (art. 55, II).
Conforme bem lembrado pelo saudoso jurista George M. Coelho de Souza, na ocasião de sua palestra proferida
em maio de 1987, junto ao Instituto Brasileiro de Direito Comercial Comparado, inexiste no preceito qualquer
princípio protetor das “finanças públicas”, além de que o uso das reservas monetárias na assistência a instituições
financeiras já era previsto no art. 12 do diploma que as instituiu — Lei n. 5.143, de 20 de outubro de 1966. Daí
forçoso deixar bem claro que o enfrentamento das situações de distúrbio no funcionamento das instituições
financeiras deve ser regulado por norma plena — a lei, não só por isenta de casuísmo, como também em obediência
ao princípio constitucional.
Rejeitando-se a legitimidade da legislação no trato da matéria por decretos-leis, exsurge evidente que é
atentatório aos mais elementares princípios de axiologia jurídica a pretensão de revogar-se, ainda que parcialmente,
lei por decreto-lei, como parece pretender fazê-lo o aludido édito em seu art. 19, ao admitir aplicáveis “à
administração especial temporária... as disposições da Lei n. 6.024, de 13 de março de 1974, que com ele não
colidirem”.
Complementando o Decreto-lei n. 2.321/87, que, como vimos, implantou a administração especial temporária das
instituições financeiras privadas e públicas não federais em substituição à intervenção, baixou-se o de n. 2.327, de 24
de abril de 1987, alterando seus arts. 11 e 14, para colocar entre as atribuições do Banco Central do Brasil a de
“decretar a liquidação extrajudicial da instituição”.
Destarte, remanescem disciplinando os procedimentos extrajudiciais das instituições financeiras: a) o Decreto-lei
n. 2.321, de 25 de fevereiro de 1987, regulando a administração especial temporária, aditado pelo de n. 2.327, de 24
de abril de 1987, aplicável exclusivamente aos casos de tentativa de recuperação; b) a Lei n. 6.024, de 13 de março
de 1974, dispondo acerca da liquidação, mas com preceitos não colidentes aplicáveis também à administração
especial temporária.
Uma das maiores vicissitudes adstritas ao regime de administração temporária concerne ao prazo de sua
duração. O Governo tem usado e abusado de medidas provisórias para procurar disciplinar o assunto, mas, quanto
maior a demora, pior o reflexo, deixando o mercado na incerteza, reduzindo a perspectiva de recuperação da
organização, sem o fornecimento detalhado de seu balanço ou do horizonte previsível da venda do controle, à míngua
de qualquer metodologia societária, sem desvencilhar a expropriação que a União, caso repute necessária, poderia
implementar, no tocante às ações da companhia.
Nesse diapasão, o trato normativo compreende uma abordagem correspondente ao tipo de medida adotada pelo
Banco Central, na tentativa de recuperação, ou nos moldes de extinção da empresa, mas é preciso não perder de
vista os rearranjos que permitem alienação e transferência do controle, na pendência dessa realidade.
Com razão, para manter em atividade as carteiras de instituições quebradas, o Governo lançou mão de estruturas
jurídicas disponibilizando ativos para separação dos passivos, e, em vez de encorajar uma reforma legislativa,
palidamente incursionou por um monstrengo na assimilação da responsabilidade do controlador.
E secundado por esse prisma de visão, diversos aspectos flutuam no horizonte, com a dificuldade de
harmonização entre medidas provisórias e a tônica das empresas financeiras, revelando um prejuízo ao cliente, e
contornos de preservação que culminam com a circunstância de eventual irresponsabilidade em atenção ao pretérito.
Analogamente ao procedimento de recuperação de empresa prestadora de serviços ou que exerça atividade
comercial, o mecanismo de reorganização da instituição financeira sempre deve vir acompanhado de um
levantamento seguro baseado no demonstrativo operacional.
A simples imposição do regime de intervenção temporária, para efeito de saneamento, é essencialmente uma
medida política, mas de conotação técnica, dessarte imprescindível se torna ao color do Banco Central ter dados que
revelem os instrumentos de recuperação da instituição financeira.
Categoricamente, portanto, o regime especialíssimo de intervenção para o denominado sistema de administração
provisória, sem sombra de dúvida, faz reconhecer um prazo exíguo, a capacidade gerencial-operacional e a proteção
fundamental aos consumidores.

149. Particularidades do novo regime


Embora não o mencionando expressamente, o Decreto-lei n. 2.321/87 substituiu o regime da intervenção pelo da
administração especial temporária, de vez que o processamento e os efeitos desta são diferentes.
Entre os principais caracteres distintivos dos dois institutos podemos apontar, desde logo, os seguintes:
I — no novo procedimento, assume a administração um conselho diretor, órgão colegiado, em vez de um
interventor, gestor único;
II — na intervenção, o funcionamento normal da instituição era interrompido, o que ora não ocorre;
III — no regime anterior, os administradores e membros do Conselho Fiscal eram apenas suspensos, ao passo
que agora perdem a sua qualidade;
IV — finalmente, e esta constitui a principal distinção entre os dois regimes, com a decretação da administração
especial temporária, fica o Banco Central autorizado a usar recursos da reserva monetária na tentativa de recuperar
econômica e financeiramente a instituição.
Importante salientar que o uso do termo “administração”, em lugar de intervenção, demonstra uma certa
compreensão do princípio fundamental hoje prevalecente no trato com as empresas em crise, isto é, do esforço na
preservação das viáveis, mediante um novo gerenciamento, dado que a má administração tem sido detectada como
principal causadora do descalabro econômico-financeiro. Destarte, a atuação estatal não é mais encarada como
sendo de ordem punitiva e preparadora da fatal liquidação, mas recuperadora. Daí a garantir-se o resultado medeia
grande distância, mas não se pode negar que se agiu com inteligência quando se procurou assegurar a continuidade
da empresa e defender o complexo de interesses que ela concentra, via do instrumento encontrado pelos mais
avançados sistemas jurídicos, que é a mudança de gestão.
Na realidade, o regime de administração especial temporária (RAET) configura um monitoramento feito pela
fiscalização de atribuição da equipe determinada pelo Banco Central, com o escopo de reengenharia financeira,
objetivando colocar a instituição em crise no caminho da normalidade.
Se de um lado a administração especial temporária surge como forma de temperar o estado de crise e ministrar
as receitas que cuidam de implementar uma política de liquidez, d’outro bordo é fundamental destacar o tempo de
duração e os balanços dessa gestão.
Concerne a etapa de regime temporário a um conjunto de medidas visando comunicar e informar ao mercado,
mas tudo isso gera incerteza e dúvida no espírito do cliente-investidor; por isso, é de imprescindível calibre dotar o
órgão fiscalizador de profissionais técnicos autônomos e independentes.
Em Países desenvolvidos, os problemas nevrálgicos nesse tipo de operação consistiam no cruzamento dos dados
e no poder de influência, no favorecimento, visando o benefício do grupo que fazia a intervenção e não propriamente
da instituição em recuperação.
Em definitivo, quanto maior a independência e o grau técnico-profissional dos administradores, proporcional será
a capacidade de recuperação, nível de imparcialidade e substancialmente um distanciamento de políticas menores de
benefícios particulares.
A legislação à época dos fatos se apresentava apressada e casuística via de decreto-lei, contudo, deixava à
mostra a eiva de inconstitucionalidade ao lesionar a regra da proibição do aumento de despesa, inscrita no caput do
art. 55 da Constituição Federal de 1969, vigente à data, que facultava ao Banco Central utilizar recursos da reserva
monetária e, na sua inexistência, adiantá-los de seus próprios cofres, consignando-os na proposta da lei orçamentária
do exercício seguinte (art. 9º e parágrafo único do Dec.-lei n. 2.321/87).
A realidade fora contornada com a atribuição de um programa intitulado de auxílio e colaboração para reerguer
instituições em situação de penúria, provocada pelo descalabro da administração, donde se preconiza o PROER na
esteira de contribuição que visa fundamentalmente manter a segurança e a estabilidade das relações, sem o que o
sistema financeiro e monetário poderia entrar em colapso.
Tudo isso está a indicar, conforme dito, a necessidade de uma lei regular, disciplinando em todas suas
implicações o grave problema dos distúrbios das instituições financeiras.
Muito embora seja grande o dissenso em torno da matéria, na consubstanciação d’uma legislação mais amoldada
à realidade do mercado e funcionamento da economia no seu papel globalizado, inequívoco dizer que, depois de
quase três décadas de vigência, o diploma legal n. 6.024/74 completou seu ciclo de aproveitamento, porque não
evidencia soluções e aspectos imprescindíveis à moralização da atividade do capital, permitindo um formalismo
inócuo do Banco Central, excesso infundado no cumprimento de prazos, à exiguidade da cobertura ditada por valor
irrelevante, ao lado do tempo de duração do procedimento administrativo.
Aglutinados estes fatores, que constituem as grandes vicissitudes do modelo institucional, cogita-se da revisão do
diploma normativo aludido, com a junção de todos os mecanismos num único texto legal, criando-se uma agência
nacional de fiscalização das instituições financeiras para regulamentar o mercado em substituição ao Banco Central,
com a eliminação dos fundos garantidores dos créditos e o próprio programa de estímulo à reestruturação e ao
fortalecimento do sistema financeiro nacional (Proer), de tal sorte que esta iniciativa teria o condão de, também,
disciplinar o art. 192 da Constituição Federal, hoje revisto pela Emenda Constitucional n. 40/2003, e outrossim
regulamentar o art. 163, V, da Lei Maior, revogando as disposições da Lei n. 6.024/74.
Num primeiro momento, a retirada do Banco Central desta matéria surte efeitos bem alentadores, mas a grande
questão que se coloca é no sentido da interferência do Poder Judiciário nos procedimentos endereçados à
reorganização, intervenção e liquidação das instituições financeiras, isto porque os técnicos seriam afastados, e toda
a competência incidiria na função jurisdicional de levar adiante aquele instrumento e todos os aspectos marcantes do
saneamento das entidades de crédito.
Coube a proposta de reforma ao então Senador Paulo Hartung, no sentido de definir uma nova realidade para
ser aplicada ao sistema financeiro, com o escopo de diluir o grau de risco, minorar o lado da volatilidade das
aplicações e criar um instrumento mais sólido na recuperação das empresas financeiras em estado de crise.
Conquanto a propositura não delineie, de forma clara, a função e o papel do agente nacional fiscalizador e nem
motive valor maior do risco coberto, que ultrapasse aquele em vigor, timbram-se vários pontos positivos que devem
merecer discussão com a sociedade, no aperfei​çoamento e aprimoramento legislativo.
Naturalmente, sem sombra de dúvida, a redução inflacionária experimentou grande influência no setor financeiro,
fazendo com que muitas instituições revelassem as suas restrições e limitações operacionais, mas a Lei n. 6.024/74 é
tímida e distante de suscitar técnica de recuperação, intervenção e notadamente prevenção à altura da realidade
contemporânea.
A cotização entre instituições públicas e privadas, mais um fundo de reserva, aparentemente, teriam o grande
mérito de reduzir os riscos, melhorar a transparência e vislumbrar uma garantia maior que viria ao encontro do
mercado, dotando-o de capacidade funcional mais congruente.
Compete afirmar em linhas gerais que a nomenclatura destinada à renovação pela modernidade, no aspecto da
criação de um modelo de agência reguladora do mercado financeiro, ainda é insuficiente para que possamos
delimitar as efetivas funções institucionais em prol do consumidor.
Numa conjuntura na qual o mercado integra blocos e pulveriza concentração de poderes, melhor seria criar uma
série de dispositivos que afinassem a posição sobranceira com a eliminação das crises bancárias.
As transformações provocadas pela mundialização na economia preconizam o fortalecimento dos instrumentos
da política monetária, e a maior liquidez do setor, por meio de processos societários.
De fato, bancos que compõem carteiras superiores a 1 trilhão de dólares, em nações desenvolvidas, cogitam de
fusão, por causa do lado operacional e redução do risco.
Cada vez mais se denota uma concentração diante da forte circunstância de diluir a concorrência, tornando fator
de projeção aquele descrito na presença de poucos bancos grandes que ditam suas regras no interesse do mercado,
secundando o perfil de articular maior fomento na instrumentalidade da liquidez do crédito.
Vencida a etapa do aspecto de condução das instituições às inovações da ordem econômica, possibilitou o
modelo uma lucratividade ímpar, o fortalecimento do sistema bancário, como um todo, a redução do número de
estabelecimentos, e ainda o avanço dos bancos nacionais, inclusive em relação aos estrangeiros, pela projeção, fruto
também da aquisição de carteiras ou do amplo trabalho em nível de Brasil por longos anos.
Bancos grandes, médios e pequenos multiplicam-se no panorama nacional, na facilitação do crédito, na expansão
de suas carteiras e no rating internacional, para redução do risco e implementação de melhor conceito avaliatório,
até em razão de possuírem papéis negociados internacionalmente.
Demonstra-se assim uma concretização do processo societário, amparado na responsabilidade de minorar o grau
de risco e criar, paralelamente, um predicado que proteja a clientela, divise transparência ao consumidor e sobretudo
imponha segurança nas relações bancárias.
No entanto, o simples fato da adjetivação do termo legal, obedecido o lapso de 90 dias, não deve servir de
empecilho à investigação no biênio legal, para efeito de responsabilização, na medida em que as operações
sedimentam harmonia entre a função e o resultado alcançado.
Contingenciando os atos praticados e o desvirtuamento da conduta dos ex-administradores, incluindo o
controlador, tudo deve nortear além da indisponibilidade do patrimônio — situações outras ligadas à verificação do
devido processo legal no qual se prestigiem a transparência e o acertamento.
Devem ser tomadas todas as medidas voltadas ao engrandecimento do volume da massa falida, sob a ótica da
recuperação de recursos, e na dinâmica do reconhecimento de tudo levado a efeito, ainda que o Banco Central
tenha se mostrado leniente na averiguação ao tempo da liquidação extrajudicial.

150. Pressupostos
Representando a administração especial temporária uma verdadeira ingerência estatal nas instituições
financeiras privadas e nas estaduais, terá ela de ser efetuada nos casos taxativamente enunciados em lei. É óbvio
que espelham eles fatos anormais, mas presumivelmente sanáveis, sem o que caberia diretamente a liquidação.
Portanto, a teor dos arts. 1º do Decreto-lei n. 2.321/87 e 2º da Lei n. 6.024/74, cabe a imposição do regime da
administração especial temporária quando, nas referidas instituições financeiras, ocorrer: a) prática reiterada de
operações contrárias às diretrizes de política econômica ou financeira traçadas em lei federal; b) existência de
passivo a descoberto; c) descumprimento das normas referentes à conta de reservas bancárias mantida no Banco
Central do Brasil; d) gestão temerária ou fraudulenta de seus administradores; e) prejuízo decorrente de má
administração que sujeite a risco seus credores; f) reiteradas infrações a dispositivos da legislação bancária, não
regularizadas após as determinações do Banco Central do Brasil, no uso de suas atribuições de fiscalização; g) fatos
mencionados no art. 94 da Lei n. 11.101, de 9 de fevereiro de 2005 (Lei de Falências), ou seja, impontualidade ou
prática dos chamados atos de falência, havendo possibilidade de evitar-se a liquidação.
A nova legislação que disciplinará a recuperação da empresa em crise somente permitirá abertura do
procedimento de quebra, comprovando-se crédito isolado ou coletivo no valor de 40 salários mínimos, sendo hipótese
de impontualidade, mantida a presunção de insolvência em relação à prática de atos ruinosos ao patrimônio da
sociedade.
De parte os pressupostos da impontualidade e dos chamados atos falimentares ou ruinosos, contidos em lei
específica, podemos assinalar que os outros seis elencados pelo Decreto-lei n. 2.321/87 dizem respeito à má gestão,
quer eles se caracterizem por conduta conflitante com as regras da política econômica ou financeira federais e com
a legislação bancária, quer por causarem prejuízos à instituição e, consequentemente, a seus credores. E por eles
são responsáveis os administradores, conforme já assinalamos.
Certo sublinhar que a decretação da falência poderá ser tomada como medida futura, sem eventual vínculo com
o procedimento anterior, aberta a possibilidade da responsabilização dos administradores que malversaram o
patrimônio e não souberam gerir a coisa, gerando grau de prejuízo, com dano indiscutível.
O procedimento falimentar destinado à instituição financeira irrecuperável é um termômetro do qual não se pode
abrir mão, significando a imediata conferência do estado patrimonial, para ser formulado o pedido, visto que a
demora na sua concretização desencadeia diversas anomalias, desde a dificuldade na responsabilização dos
administradores, atingimento patrimonial e o acentuado endivida​mento sem minimizar os prejuízos advindos.
Denota-se, portanto, uma extrema dificuldade em relação ao estado de insolvência da instituição financeira.
Dessa forma, a respectiva decretação da quebra feita delongadamente em razão do tempo no qual fora requerida
desserve ao tipo no aspecto da consecução de classificação do quadro geral de credores e incidência patrimonial dos
gestores.
Consequentemente, a modernidade traça um caminho bastante sensível, no indicar a finalidade essencial de
prazos menores nos regimes excepcionais, com a transparência do balanço, e avaliação inicial, no visualizar o estado
de insolvência, desencadeando, por imperativa, a ordem que descansa no pedido falimentar.
Analogamente ao que acontece numa empresa privada que impetra concordata e apresenta estado falimentar,
no caso da imposição do regime de administração provisória é fundamental que haja um espelho normal da situação
de imediato, no aspecto de permitir a convolação em liquidação.
Ditando transparência e acima de tudo coerência na medida de seu agir, o Banco Central não pode empurrar
para as calendas situação ruinosa, aumentando o passivo e colocando em risco o mercado, se efetivamente o
comando gravita em torno da liquidação e não há como descartá-la, sob pena de responsabilidade solidária.
O agrado político da medida que primeiro visa reequilibrar as finanças e em seguida mostrar a viabilidade do
negócio muitas vezes não alcança seu ponto de equidistância suficiente à expressão de um controle independente,
gerando maiores transtornos.
Diante desse contexto, os prazos precisam ser definidos, a capacidade econômico-financeira de recuperação
analisada e examinada a real posição da instituição no cenário, para, disso tudo, se cogitar sobre a liquidação ou
continuidade.
A zona de neutralidade permeia um descompasso entre os desacertos da instituição e uma vigorosa medida que
torne seu futuro certo, mesmo em virtude de um remédio amargo da própria liquidação.

151. Efeitos da decretação


Não acarretando a decretação da administração especial temporária a interrupção das atividades da instituição
financeira, como ocorria no regime da intervenção, ficam afastadas as consequências que esta última ocasionava, ou
seja: a) suspensão da exigibilidade das obrigações vencidas; b) suspensão da fluência do prazo das obrigações
vincendas anteriormente contraídas; c) inexigibilidade dos depósitos já existentes à data de sua decretação (art. 6º da
Lei n. 6.024/74, ora revogado).
Como se vê, a substituição dos antigos administradores e membros do Conselho Fiscal é o único efeito
atualmente subsistente, perdendo eles não os seus mandatos, como impropriamente diz o Decreto-lei n. 2.321/87, em
seu art. 2º, mas suas funções, já que, pela teoria hoje prevalecente, são considerados órgãos. Em seu lugar ingressa
um conselho diretor nomeado pelo Banco Central.
Esses membros diretivos indicados pelo Banco Central, de modo semelhante, desempenham as respectivas
atividades e ficam sujeitos às responsabilidades decorrentes de irregularidades e à prova da culpa, na dicção do nexo
causal ante prejuízos causados à instituição, respondendo com o patrimônio individual se divisada a ilegalidade.
Essencialmente o corpo que assume a direção na hipótese do regime (RAET) responde pelos erros e infrações
cometidos ao longo da gestão, sem qualquer ressalva, porquanto ocupam a principal função da entidade e dinamizam
atos próprios destinados à atividade financeira.
Fundamental que esse corpo técnico mantenha informado o mercado, transmitindo todos os dados dos
levantamentos, sem privilégios, visando incorporar subsídio na atividade gerencial, fixando metas.
A indeterminação da gestão provisória causa sérias consequências no empreendimento e coloca em risco a
sobrevida da instituição; motivos sobram para um realinhamento desse papel e explicações diretas ao mercado e
notadamente à CVM, colimando espancar dúvidas sobre a viabilidade do negócio.

152. Procedimento
A administração especial temporária é decretável pelo Banco Central, juiz único de seu cabimento, não se
admitindo sequer a provocação pelos administradores da instituição, como o fazia a Lei n. 6.024/74 (neste ponto
revogada) quando se tratasse de intervenção (art. 3º).
O ato que a decretar fixa o prazo de sua duração, que poderá ser prorrogado por período não superior ao
originário, se absolutamente necessário. Verifica-se que, diferentemente do que ocorria na intervenção, prevista por
seis meses, prorrogáveis por outro tanto, não há prazo fixado em lei, ficando tanto o primitivo como a prorrogação,
contanto que não excedente do primeiro, ao inteiro arbítrio do Banco Central, o que, se para alguns é considerado
um bem, sob a alegação de atender às circunstâncias peculiares à situação da instituição administranda, pode
redundar numa das maiores mazelas que maculam os procedimentos administrativos, ou seja, a maleabilidade dos
prazos. Para agravar o casuísmo nesse particular, o Decreto-lei n. 2.321/87 impõe, para a prorrogação, o fato de ser
“absolutamente necessária”, o que aumenta a dose de discricionariedade do Banco Central.
Decretada a administração especial temporária, conforme dito, os administradores e membros do Conselho
Fiscal são destituídos, sendo nomeado um conselho diretor, cujo número de membros também fica ao arbítrio do
Banco Central, dotado de poderes de gestão ordinária (art. 3º), uma vez que os que os excederem dependerão de
prévia e expressa autorização do órgão decretador da medida (art. 3º, § 3º). O conselho diretor tem as mesmas
prerrogativas atribuídas ao Conselho de Administração e à diretoria pela Lei das Sociedades Anônimas, inclusive a
de convocar a assembleia geral. Assumindo suas funções, os membros do conselho diretor devem: a) eleger, dentre
seus membros, o presidente; b) estabelecer as atribuições e poderes de cada um deles, bem como as matérias que
serão objeto de deliberação colegiada; e c) adotar as providências constantes dos arts. 9º, 10 e 11 da Lei n.
6.024/74.
Em princípio, a expressão “ao assumir suas funções”, do art. 5º, do Decreto-lei n. 2.321/87, pode induzir que as
providências a serem tomadas pelo conselho diretor devem ser imediatas, mas, referindo-se a dispositivos da Lei n.
6.024/74, terão que se coadunar com os prazos nela previstos.
Mantém o decreto-lei o poder judicante, assegurado na lei anterior, do Banco Central, ao prescrever, no art. 6º,
que, das decisões do conselho diretor, caberá recurso para o Banco Central, em única instância. Embora lacônico o
dispositivo, quer-nos parecer que o recurso pode ser intentado tanto em referência às deliberações colegiadas do
conselho quanto às individuais asseguradas no art. 5º, b, do Decreto-lei n. 2.321/87, de vez que é princípio assente
em Direito que “quem pode o mais pode o menos”.
O art. 8º contém um preceito suscetível de causar controvérsias — “poderá o Banco Central do Brasil atribuir a
pessoas jurídicas especializadas na área a administração especial temporária”. Porém, a impressão que temos é de
que se deseja confiar a administração da instituição em crise a outra “com especialização na área” que esteja in
bonis, ou seja, em condições normais de funcionamento. Ora, como se trata, no caso, de matéria de ingerência
estatal, fácil compreender que tanto uma instituição pública como uma particular poderiam atender às determinações
do poder con​trolador exercitado pelo Banco Central.
Ponto omisso no decreto-lei é o respeitante à remuneração do Conselho de Administração, o que reforça a
conclusão de inserir-se a questão em mais um elemento dos poderes de arbítrio do Banco Central.
O punctum saliens do decreto-lei é, sem dúvida, a prescrição do art. 9º, no sentido de que “fica o Banco Central
do Brasil autorizado a utilizar recursos da Reserva Monetária visando ao saneamento econômico-financeiro da
instituição”.
O uso da expressão “fica autorizado” o Banco Central do Brasil é mero eufemismo, porquanto ela se
consubstancia não em uma faculdade, mas em uma obrigação, pois não poderia aquela autarquia federal aplicar
reservas em favor de uma e não de outra instituição, uma vez que a recuperação delas depende fundamentalmente
da injeção de recursos financeiros alheios, a menos que a administração especial tivesse sido implantada por motivos
de sanção disciplinar, o que raramente ocorre.
O princípio legal da cobertura do passivo das instituições financeiras pelo Banco Central remonta ao Decreto-lei
n. 1.342, de 28 de agosto de 1974, que, alterando o art. 12 da Lei n. 5.143/66 (reguladora da aplicação da receita
líquida do imposto sobre operações financeiras na intervenção nos mercados de câmbio e títulos), prescreveu que a
autarquia, mediante autorização do Conselho Monetário Nacional, em casos excepcionais, use recursos das reservas
monetárias: a) na recomposição do patrimônio de instituições financeiras e de sociedades integrantes do sistema de
distribuição no mercado de capitais, com o saneamento de seus ativos e passivos; b) no pagamento total ou parcial
do passivo de qualquer das instituições e sociedades referidas anteriormente, mediante as competentes cessões e
transferências dos correspondentes créditos, direitos e ações, a serem efetivados pelos respectivos titulares ao
Banco Central.
Oficializa-se, destarte, em caráter definitivo, o suprimento dessa autarquia às instituições financeiras públicas não
federais, ou particulares, em situação de distúrbio. As medidas de caráter jurídico previstas no art. 10 do Decreto-lei
n. 2.321/87 não constituem garantia de que o Banco Central será satisfatoriamente ressarcido, tudo dependendo da
situação em que a administranda tiver sido encontrada e da eficiência da nova gestão.
A legislação, que já atingiu quase duas décadas de vigência, está a revelar sua fragilidade e a imprescindível
necessidade de mudança em pontos básicos, somando-se ao fato de que dificilmente o Banco Central conseguirá
recursos para ser reembolsado das despesas havidas durante o procedimento de administração provisória,
consignando-se por corolário que os técnicos da autarquia também respondem no exercício anômalo das funções e
se acarretarem prejuízos outros à instituição em estado de crise.
Matéria de peculiar interesse se refere à sujeição judicial da administração provisória, no sentido de buscar o
controlador reverter aquela situação e retornar à direção da instituição financeira, ou, no estado de liquidação,
impedir que o liquidante pugne pela quebra. As hipóteses consagram competência dos atos inerentes à autarquia, daí
por que a Justiça Federal é competente, mas cremos dificultosa a análise, mormente em provimento de antecipação
de tutela, uma vez que o Banco Central se cerca de meios e cautelas destinados à demonstração da situação de
crise temporária ou definitiva inviabilidade da instituição.

153. Cessação
A administração especial temporária cessa, nos termos da redação original do art. 14 do referido Decreto-lei n.
2.321/87: a) se a União Federal assume o controle acionário da instituição, na forma do art. 11, b; b) nos casos de
transformação, incorporação, fusão, cisão ou transferência do controle acionário da instituição; c) quando, a critério
do Banco Central, a situação da instituição se tenha normalizado.
As hipóteses de cessação do regime especial previstas no dispositivo legal (Dec.-lei n. 2.321/87), salvo a
normalização da instituição, não esgotavam as situações que poderiam ocorrer. Em sendo inviáveis a assunção do
controle acionário pela União, ou a transformação, incorporação, fusão, cisão ou transferência de controle acionário
para terceiros, cair-se-ia numa indesejada absentia legis. Daí a razão da edição do Decreto-lei n. 2.327, de 24 de
abril de 1987, emendando o anterior, para autorizar o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial,
acrescentando uma alínea ao art. 11 (letra c) e outra ao art. 14 (letra d).
Do exposto se verifica que, se, de um lado, os decretos-leis que estabeleceram a administração especial
temporária das instituições financeiras primaram por uma orientação marcante de intervencionismo estatal, por
outro, não dispuseram acerca do afastamento de seus efeitos, o que seria conseguido com a previsão da volta da
instituição, depois de saneada, à iniciativa particular, como soem proceder, nesse particular, os sistemas jurídicos
mais avançados no Direito Comparado.
Nas instituições financeiras públicas a administração provisória se revela no sentido de permitir o saneamento e
a entrega do controle, que dependerá das condições de liquidez da empresa, não dissociando dessa ideologia a
aquisição feita pela União, em casos esporádicos, para normalidade do mercado e troca do endividamento pelo seu
prolongamento.
Explica-se de modo fácil que, decorrente do rombo existente à data da medida que determinou o regime de
administração provisória, a demora do saneamento será relativizada por causa dos fatores adversos, como a taxa de
juros e os elevados importes pagos na rolagem da dívida.
Apresentado o retrato fiel desse aspecto, consumam-se os interesses do Banco Central de mapear toda a
situação da instituição e da União no propósito da aquisição do controle, mas é fundamental que durante o período
em que persiste esta intervenção as informações sejam divulgadas e o mercado não fique em compasso de espera.
Elucida-se na pontuação da questão o custo que representa o regime de administração provisória, não somente
do lado financeiro para recuperação e saneamento da entidade, mas prioritariamente marcado na disponibilização de
pessoal e aparato destinados à solução da crise.
Focalizado o período que encerra a dificuldade pela qual passa a organização, sem sombra de dúvida, remota se
torna a possibilidade de reaver o controle o administrador afastado por tais circunstâncias, cuja responsabilidade fica
mais próxima de ser atestada, impedindo o retorno, que premiaria, depois de saneada a empresa, a volta à sua
direção.
Na sinopse deste estudo, de forma simples, a recondução ao cargo somente poderia surgir se mediante a
demonstração cabal e insofismável que o administrador não deu causa direta ou indireta à situação dificultosa e
ruinosa da empresa, fato bastante difícil, porque o manuseio de valores impõe maior cautela e imprescindível grau de
zelo no trato com o público consumidor.
Constata-se amiúde o questionamento judicial feito pelos ex-controladores, na circunstância da venda do
controle, perda de recursos, e a necessidade da intervenção, pois a dissociação entre empresa viável (instituição
financeira) e empresário culpado é naturalmente fundada nos atos praticados que se consubstanciam em algum tipo
de gestão fraudulenta, sendo inaceitável que o saneamento da atividade possa de qualquer modo privilegiar antigo
administrador, ainda que indiretamente, pelo correspondente no fator de avaliação do preço do papel no mercado.
Essas disputas judiciais mostram-se longas e complexas, demandando um cenário cujo panorama sinalize a
robusta integração probatória e a análise plural desses aspectos, no sentido de legitimar o comportamento do Banco
Central e eximi-lo de qualquer responsabilidade.
Evidente que algum excesso ou prática de irregularidade, submetida ao crivo judicial, descortina a catalogação da
realidade e a mitigação dos princípios da legislação especial em harmonia com o Código Civil atual, a fim de
possibilitar eventual ressarcimento.

154. Crítica ao novo regime


Substituindo a intervenção pela administração especial temporária, o Decreto-lei n. 2.321/87 inequivocamente
adotou uma dinâmica mais consentânea com as finalidades dos hodiernos procedimentos concursais. Conforme
asseveramos supra, deixou-se, porém, lamentavelmente, de prever a devolução da instituição recuperada pelo
Banco Central à iniciativa privada. Por outro lado, a consolidação do princípio legal do saneamento de instituições
financeiras à custa dos recursos da reserva monetária e de programas destinados à finalidade específica,
arrecadando valores que partem das contribuições da sociedade civil (PROER), sem muita dúvida, poderá
representar mais uma sangria para os cofres públicos. Salutar seria dotá-las de mecanismos de alerta e de
observação, de natureza preventiva, a exemplo do seguro contra a própria insolvência, o que denotaria operação em
seu prol, favorecendo a poupança coletiva.
Cabe ponderar na oportunidade que o reclamo a ambos os regimentos pode ser suscitado pelos ex-controladores
da empresa que veio a sofrer as consequências, sendo normal o ingresso de ações para o fito indenizatório e a prova
da desnecessidade das medidas.
Efetivamente, se a incidência do regime temporário e da liquidação, por si só, exteriorizam carga de natureza
político-administrativa, nada impede que os antigos administradores comprovem a desnecessidade da fiscalização
havida, caracterizando a responsabilidade do Banco Central.
Naturalmente, o procedimento se afigura complexo na demonstração da prova que solidifica o enraizamento da
tese sustentada pelos ex-controladores, mas tudo isso fica entrosado com o mérito, e, se houver alguma evidência
denotada a princípio, a antecipação da tutela, ou medida de conotação liminar, simboliza um caminho de refrear o
prejuízo.
Comporta ao detentor do poder de controle, ou terceiro legitimado, por força da substituição, contestar a forma
do regime de administração provisória e a própria liquidação, no intuito de reclamar ressarcimento dos prejuízos e
desbloqueio patrimonial.
Não se cuida de mera conjectura, basta observar o caso concreto de simples administração provisória quando
seria necessária e inafastável a liquidação. Na hipótese desafiada, responderia o Banco Central pela culpa?
Concretamente, se interveio para administrar e deveria fazê-lo para liquidar, normalmente sua ação foi tímida e
insuficiente a afastar do mercado o risco.
Estabelecido o nexo causal, o reclamo judicial tornar-se-á possível, competindo o ônus da prova no estrito
mecanismo de atividade utilizado e sua ineficiência demonstrada, na plasticidade de aferir o dano causado pelo
Banco Central.

II — A LIQUIDAÇÃO

155. Alcance e cabimento da medida


A liquidação extrajudicial é medida administrativa saneadora aplicável à instituição financeira, acarretando a
paralisação de suas atividades e a eliminação do campo empresário, conduzindo aos mesmos resultados do
procedimento concursal judicial, que é a falência.
Decreta-se a liquidação extrajudicial (Lei n. 6.024/74, art. 15): “I — ex officio: a) em razão de ocorrências que
comprometam sua situação econômica ou financeira especialmente quando deixar de satisfazer, com pontualidade,
seus compromissos ou quando se caracterizar qualquer dos motivos que autorizem a declaração de falência; b)
quando a administração violar gravemente as normas legais e estatutárias que disciplinam a atividade da instituição,
bem como as determinações do Conselho Monetário Nacional ou do Banco Central do Brasil, no uso de suas
atribuições legais; c) quando a instituição sofrer prejuízo que sujeite a risco anormal seus credores quirografários; d)
quando, cassada a autorização para funcionar, a instituição não iniciar, nos noventa dias seguintes, sua liquidação
ordinária, ou quando, iniciada esta, verificar o Banco Central do Brasil que a morosidade de sua administração pode
acarretar prejuízo para os credores; II — a requerimento dos administradores da instituição — se o respectivo
estatuto social lhes conferir esta competência” — ou à vista de relatório ou de proposta do conselho diretor (cf.
alteração introduzida ao art. 11 do Dec.-lei n. 2.321/87 pelo art. 1º do Dec.-lei n. 2.327 do mesmo ano).
Ao Banco Central compete aquilatar a gravidade dos fatos determinantes da liquidação, quando requerida pelos
administradores, e deliberar proceder pela administração especial temporária, se considerá-la medida suficiente para
a normalização dos negócios e preservação dos interesses dos mercados financeiro e de capitais. O uso da
expressão “em liquidação extrajudicial” é de rigor, assim como para a liquidação convencional a cláusula “em
liquidação” (Lei n. 6.404/76, art. 212, e, analogamente, o CC, art. 1.103, parágrafo único).

156. Termo legal


No próprio despacho que decreta a liquidação extrajudicial é fixada a data em que se tenha caracterizado esse
estado. Analogamente e de forma semelhante com o disposto na Lei de Falências n. 11.101/2005 (art. 99, II), esse
termo legal não poderá retrotrair a mais de 90 dias, contados do pedido de falência, de recuperação judicial ou do
primeiro protesto por falta de pagamento, excluindo-se aqueles que tenham sido cancelados. Entretanto, não
enxergamos a possibilidade de retificação desse termo, como ocorria no regime falimentar (art. 22 do revogado
Dec.-lei n. 7.661/45), como ocorria no regime falimentar (art. 22 do revogado Dec.-lei n. 7.661/45), visto que na
atual (Lei n. 11.101/2005) ampliam-se os fundamentos e o prazo da revocatória (arts. 130 e 132 da nova legislação).
Dessarte, a importância da fixação do termo legal ou “período suspeito” na liquidação extrajudicial é a mesma que
ocorre na falência, ou seja, serve para ensejar a propositura da ação revocatória dos atos praticados pelos
administradores da liquidanda.
E bem se observa que a reforma do diploma falimentar, com a introdução da recuperação da empresa, tudo isso
projeta termo legal de 90 dias, no sentido de se ocupar daqueles atos fraudulentos e praticados com o propósito do
esvaziamento patrimonial.
Na visão da nova legislação, o termo legal abrangerá retroação até no máximo 90 dias contados do pedido de
falência, daquele de recuperação judicial, ou do primeiro protesto por falta de pagamento, excluindo-se eventuais
protestos que tenham sido cancelados.
É de capital importância fixar o termo legal no momento de liquidação extrajudicial, a fim de separar os atos
praticados, de modo a precaver terceiros que agiram com boa-fé, e mostrar a linha divisória responsável pela
ineficácia dos negócios realizados.
Bastante comum que o ex-administrador tenha praticado um conjunto de atos que esvaziou o patrimônio, ou
operacionalizou negócios em tempo proibido, tudo a gerar contaminação das circunstâncias.
Exato no ponto timbrado, o marco que adstringe o termo legal habilita a revogação dos atos praticados, sem
prejuízo da comprovação de outras irregularidades existentes, na tentativa de recuperação do ativo em favor da
massa.

157. O liquidante
Ainda no mesmo ato decretatório da liquidação, o Banco Central nomeia um liquidante, de sua livre escolha,
incumbindo-lhe, mutatis mutandis, as mesmas atribuições do síndico na falência. Não há qualquer exigência legal
expressa acerca da escolha do liquidante, sendo implícito, contudo, que deva satisfazer aos requisitos de idoneidade
moral e técnica. Por isso, têm sido designadas pessoas exercentes da atividade bancária de conduta e habilitação
profissional conhecidas. Percebe o liquidante honorários fixados pelo Banco Central, pagáveis pela instituição
liquidanda. Sendo de puro arbítrio da autarquia a nomeação do liquidante, poderá ser ele destituído de ofício, não
reconhecendo a lei a quem quer que seja o direito de requerer a medida. Tem o liquidante, geralmente nomeado
entre funcionários bancários, plenos poderes de administração e liquidação, especialmente os de verificação e
classificação de créditos, podendo nomear e demitir funcionários, fixando-lhes os vencimentos, outorgar e revogar
mandatos, propor ações e representar a liquidanda em juízo ou fora dele. Entretanto, para ultimar os negócios
pendentes e onerar ou alienar bens, sempre mediante venda pública, deverá possuir autorização expressa do Banco
Central. Censura Rubens Requião o uso do termo “massa” pelo art. 16 para designar a instituição financeira
liqui​danda248. Não vemos inconveniente na terminologia adotada se com ela se quer significar o conjunto de bens,
patrimônio especial (sentido objetivo).
Uma série de denúncias em relação aos liquidantes designados aflora no privilegiamento e benefícios concedidos
no período do exercício da atividade, tudo está a revelar a necessidade de impedir que antigos funcionários do Banco
Central sejam nomeados e procurem administrar sem o mínimo de transparência.
Competiria prover o quadro mediante habilitação ou concurso de profissionais credenciados, sem nenhuma
vinculação com funcionários inativos ou desligados da autarquia, para que se mantivesse absoluta imparcialidade na
metodologia seguida.
Não é suficiente apenas a experiência, mas é imprescindível formação profissional e, antes de tudo, o grau de
reputação moral ilibada, porque, ao manusear importâncias e negócios financeiros, fica o liquidante sujeito aos
efeitos negativos desse envolvimento.
O pensamento leva em consideração a necessidade de terceirização ou no mínimo de profissionalização do
serviço, em caráter de maior responsabilidade, ensejando relatório e transparência capaz de evidenciar qualquer
anomalia, abreviando etapas, prosseguindo na apuração das irregularidades, e sobressaindo o conhecimento
inescondível, uma vez que o poder atribuído ao Banco Central envolve o rastreamento das operações e o
levantamento do sigilo.
Na realidade, quando se cogita da reforma da legislação, também se raciocina na direção de haver uma caução
no desempenho das funções do liquidante indicado pelo Banco Central, garantia que atende não apenas a esse
estágio, mas sobretudo ao que for delineado na etapa de quebra.
Sabemos da dificuldade da transparência, mas mantido o liquidante no posto de Administrador Judicial, ter-se-á o
caminho na dicção de melhor respaldar o passado se se conhecer acerca do presente e definir o futuro da instituição
bancária.

158. Efeitos da liquidação quanto aos direitos dos credores


Poucas alterações em relação à falência têm os efeitos da decretação da liquidação extrajudicial. Assim, de
modo semelhante, temos que o despacho que a instaura:
I — Suspende as ações e execuções iniciadas acerca dos direitos e interesses relativos ao acervo da entidade
liquidanda, não podendo ser intentadas quaisquer outras enquanto durar a liquidação. A constitucionalidade desse
dispositivo é posta em dúvida, porquanto um despacho administrativo não teria força para obstaculizar a via judicial.
Porém, os Tribunais têm rejeitado a arguição 249, e até o momento não houve qualquer decretação de
inconstitucionalidade.
II — Provoca o despacho liquidatório o vencimento antecipado das obrigações da liquidanda.
III — As cláusulas penais dos contratos unilaterais não são atendíveis.
IV — Não correm juros contra a liquidanda, mesmo os contra​tuais, enquanto não integralmente pago o passivo.
V — Não são reclamáveis as penas pecuniárias por infração das leis penais ou administrativas. Diferentemente
do que ocorre na falência, na liquidação extrajudicial: a) há interrupção, não suspensão, da prescrição das obrigações
da liquidanda. Com o despacho liquidatório, o curso da prescrição já iniciado fica prejudicado, começando a correr já
no dia seguinte, isto é, a partir da causa interruptiva (CC, art. 202), que é o despacho da liquidação; b) a correção
monetária das dívidas da instituição financeira, expressamente vedada pela redação original da Lei n. 6.024/74,
passou a ser admitida pelo Decreto-lei n. 1.477/76 em favor dos créditos do Banco Central do Brasil, do então
existente Banco Nacional da Habitação e dos fiscais até a data da decretação da liquidação, suspendendo-se por um
ano, a partir daí, mas reincidindo em sua plenitude se não satisfeitos nesse prazo. Mais amplamente, o Decreto-lei n.
2.278, de 19 de novembro de 1985, instituiu definitivamente a correção monetária “sobre a totalidade das obrigações
de responsabilidade das entidades sujeitas à Lei n. 6.024/74”.
O bloqueio de bens e aplicações em conta e fundos em relação aos clientes e investidores afigura-se medida
necessária e dentro das atribuições do liquidante, porquanto há um limite de responsabilidade, bastante pequeno,
diga-se de passagem, de tal sorte que exsurge obri​ga​tório o concurso para recebimento de complementos.
Destarte, não ofende o direito de propriedade o bloqueio relativo às contas de clientes, sem violação de regra
constitucional, mera circunstância afeta à administração excepcional e para ensejar quadro geral, aplainando o
passivo e o ativo.
No diapasão esgrimido, no Recurso Extraordinário n. 202.875-4/RN, pela 2ª Turma, o Supremo Tribunal Federal,
julgando o processo em 2 de março de 1999, pelo Rel. Min. Marco Aurélio, teve a oportunidade de evidenciar que o
bloqueio de depósitos bancários determinado por interventor e liquidante da instituição financeira, com arrimo no
diploma legal n. 6.024/74, não arranha o direito de propriedade consagrado constitucionalmente.

159. O processo da liquidação extrajudicial


Assinado o termo de posse, o liquidante imediatamente arrecadará todos os livros da entidade e os documentos
de interesse da administração e levantará o balanço geral e o inventário de todos os livros, documentos, dinheiro e
demais bens da entidade, ainda que em poder de terceiros, a qualquer título. Os antigos administradores, removidos
pelo despacho liquidatório, estão obrigados, em cinco dias de sua posse, a entregar-lhe declaração assinada por todos
eles, de que conste: a) nome, nacionalidade, estado civil e endereço dos administradores e membros do Conselho
Fiscal que estiveram em exercício nos últimos doze meses anteriores à decretação da medida; b) os mandatos que,
porventura, tenham outorgado em nome da instituição, indicando o seu objeto, nome e endereço do mandatário; c) os
bens imóveis, assim como os móveis, que não se encontrem no estabelecimento; d) a participação que, por acaso,
cada administrador ou membro do Conselho Fiscal tenha em outras sociedades, com a respectiva indicação.
Isso feito, cumpre-se a primeira fase do processo, que tem caráter de averiguação. Com os elementos nela
colhidos e providências tomadas, fica o liquidante habilitado a oferecer o relatório ao Banco Central, o que deve ser
cumprido em 60 dias de sua posse, sendo esse documento de grande relevo, porquanto de seu conteúdo dependerá o
prosseguimento, ou não, da liquidação, nele exarando o liquidante seu próprio parecer acerca dos destinos da
instituição. O relatório, na liquidação, consta dos mesmos elementos daqueles da intervenção, ou seja: a) do exame
da escrituração, da aplicação dos fundos e disponibilidade e da situação econômico-financeira da instituição; b) da
indicação, devidamente comprovada, dos atos e omissões danosos que eventualmente tenha verificado; c) da
proposta justificada da adoção das providências que lhe pareçam convenientes à instituição.
À vista do relatório, ou mesmo antes dele, por proposta que o liquidante está habilitado a apresentar, o Banco
Central autorizá-lo-á a: prosseguir na liquidação ou a requerer a falência da entidade, quando o ativo da instituição
não for suficiente para cobrir, pelo menos, a metade do valor dos créditos quirografários, ou quando houver fundados
indícios de crimes falimentares. Portanto, revelando-se uma situação patrimonial altamente deficitária, que não daria
direito sequer a uma recuperação judicial, caso a instituição financeira não estivesse proibida de pleiteá-la, ou
delineando-se, em tese, a configuração de delitos falimentares, não há alternativa senão requerer a falência, que é
atribuição exclusiva do liquidante, quando já instaurado o procedimento liquidatório, não podendo formular o pedido
os acionistas e os credores. Estes últimos, contudo, poderão pleitear a cessação da liquidação extrajudicial, propondo
um plano de recuperação financeira da entidade, cabendo ao Banco Central aprová-lo ou rejeitá-lo, conforme as
garantias oferecidas e as conveniências de ordem geral.
Determinado o prosseguimento da liquidação, o liquidante fará publicar, no Diário Oficial da União e em jornal
de grande circulação do local da sede da instituição, aviso aos credores para declararem os respectivos créditos. Da
obrigação de declarar estão dispensados os credores por depósitos ou por letras de câmbio de aceite da instituição
financeira liquidanda, porquanto seus créditos devem estar comprovados nos livros e demais assentamentos da
liquidanda; por isso, o liquidante manterá, na sede da liquidanda, relação nominal dos depositantes e respectivos
saldos, bem como das letras de câmbio de seu aceite. É óbvio que, se não constar do rol o nome do credor por
depósito ou aceite de cambial, este poderá reclamar e, não atendido, formalizará o seu pedido de habilitação.
O prazo para tal deverá constar do aviso que o liquidante faz publicar para conhecimento dos credores em geral,
variando de 20 a 40 dias, conforme os interesses envolvidos na liquidação. Os credores sujeitos à declaração terão
que juntar a ela os respectivos comprovantes; para a formação de sua prova, estará o liquidante obrigado a
fornecer-lhes informações, extratos de contas, saldos e outros elementos necessários à defesa dos seus interesses.
A declaração de crédito será apresentada em uma só via; dela e dos documentos que a instruírem o liquidante dará
recibo ao apresentante.
Cada declaração será informada pelo liquidante, que consignará o que extraiu do exame dos livros, papéis e
assentamentos da entidade, quanto à pretensão declarada, bem como seu parecer acerca de sua legitimidade, valor e
classificação. Para habilitá-lo a informar a declaração de crédito, poderá o liquidante exigir subsídios dos ex-
administradores.
Da informação desfavorável do liquidante nas declarações dos créditos os credores poderão recorrer ao Banco
Central, no prazo de dez dias, a contar de sua notificação a respeito.
Terminado o prazo para a declaração dos créditos e julgados estes, o liquidante organizará o quadro geral dos
credores, publicando aviso, no Diário Oficial da União e em outro jornal de grande circulação de onde é sediada a
liquidanda, de que o quadro, juntamente com o balanço geral, se acha afixado na sede e demais estabelecimentos da
entidade. O quadro geral de credores deverá revestir-se dos requisitos intrínsecos, ou seja, mencionar as
importâncias dos créditos e a sua classificação.
No prazo de dez dias da publicação do aviso da afixação do quadro geral de credores, qualquer interessado
poderá impugnar a legitimidade, valor ou a classificação dos créditos nele constantes. A impugnação, que deverá ser
fundamentada e documentada, será entregue ao liquidante, com recibo em duas vias, indo uma para o processo. O
liquidante notificará o declarante do crédito impugnado para que, em cinco dias, ofereça alegações e provas em
defesa de seus direitos. Esgotado o prazo, o liquidante informará as impugnações e encaminhá-las-á com os
documentos que as instruírem ao Banco Central para que este as aprecie. Julgadas as impugnações, ter-se-á o
quadro geral dos credores definitivo, que também será publicado com as mesmas formalidades do anterior.
Os credores que não se conformarem com o julgamento da im​pugnação poderão prosseguir nas ações suspensas
por força da decretação da liquidação ou iniciar as cabíveis. Estando a instituição sob liquidação e afastados os seus
administradores, terá legitimidade para representá-la em juízo o liquidante, que deverá ser notificado para reservar
fundos suficientes para a eventual satisfação dos pedidos. O direito de propor a ação ficará precluso em 30 dias da
publicação do quadro geral definitivo dos credores; não se tratando de prescrição, não comporta interrupção.
A exemplo do que sucede na falência, na liquidação podem ser pedidas, até o seu encerramento, a exclusão, a
reclassificação ou a retificação de qualquer crédito mandado incluir por obra de falsidade, dolo, simulação, fraude,
erro essencial ou se descobertos documentos ignorados na época do julgamento do crédito que provem contra a
pretensão já acolhida. Cabe ao liquidante ou a qualquer credor admitido a iniciativa do pedido. O impugnado será
notificado para, em cinco dias, oferecer defesa e juntar documentos. Vencido, ficar-lhe-á assegurado, no prazo de
30 dias, contado do recebimento da notificação, o exercício de ação contra a liquidanda e a reserva, se solicitada, de
fundos para sua satisfação.
Aplicando-se as disposições da Lei de Falências à liquidação extrajudicial, no que couber e não colidir (art. 34),
enquanto não for aprovada lei específica (nos termos do art. 197 da Lei n. 11.101/2005), não vemos inconveniente à
admissão de declaração de crédito retardatária, isto é, fora do prazo do art. 22, § 1º. Lamentavelmente, contudo, os
prazos da Lei de Falências, na omissão da de concurso extrajudicial, não têm sido aplicados no que concerne ao
início da realização do ativo e liquidação do passivo, nem quanto ao encerramento do procedimento administrativo.
Tudo é deixado ao arbítrio do órgão liquidador, o Banco Central. Sem a fixação de qualquer prazo, faculta a lei ao
liquidante autorizado por aquela autarquia “adotar qualquer forma especial ou qualificada de realização do ativo e
liquidação do passivo, ceder o ativo a terceiros, organizar ou reorganizar sociedade para continuação geral ou parcial
do negócio ou atividade da liquidanda”, toda vez que a atividade dela colidir com os interesses da economia pública,
da poupança privada e da segurança nacional (art. 31 da Lei n. 6.024/74). “Tem-se em mira a preservação da
continuidade da empresa, princípio salutar, desde que executado sem o sacrifício dos cofres públicos (consta que
desde o primeiro caso concreto de intervenção, em abril de 1974, o do Grupo Halles — até junho de 1977, o Banco
Central aplicou 24,2 bilhões, em valores de 30-6-1977” (Diá​rio Comércio & Indústria, 23 dez. 1997, p. 4).
Os atos liquidatórios praticados consoante a forma supra produzem efeitos, mesmo em relação a terceiros,
“independentemente de formalidades ou registros” (art. 31, § 1º), parecendo, com isso, desejar garantirem-se a
rapidez e o sigilo das medidas. Os registros correspondentes serão procedidos, no prazo de 15 dias, pelos oficiais dos
Registros de Imóveis e pelos Registros do Comércio, bem como pelos demais órgãos da Administração Pública,
quando for o caso, à vista da comunicação formal que lhes tenha sido feita pelo liquidante.
A prestação de contas pelo liquidante ao Banco Central é feita quando ele deixa suas funções ou, a qualquer
tempo, se solicitado pela autarquia, respondendo civil e criminalmente por seus atos.
No procedimento de liquidação extrajudicial cabe ação revocatória pelos atos ineficazes ou revogáveis
praticados pelos administradores da instituição financeira anteriormente ao decreto de liquidação. A finalidade da
ação é a proclamação de ineficácia em relação à liquidanda; imprópria, pois, a terminologia do art. 35, que fala em
declaração de nulidade, que deve ser objeto de ação pauliana. A propositura da revocatória cabe, em primeiro lugar,
ao liquidante, nos primeiros 30 dias do aviso do início da liquidação, e, depois, a qualquer credor.
Incumbe, também, ao liquidante, caso apure seguros elementos de prova, mesmo indiciária, da prática de
contravenções penais ou crimes pelos antigos administradores e membros do Conselho Fiscal, o dever de
encaminhá-los ao representante do Ministério Público, para a instauração da ação penal.

III — ADMINISTRADORES E MEMBROS DO CONSELHO FISCAL DAS INSTITUIÇÕES


FINANCEIRAS

160. Efeitos do despacho de administração especial temporária e de liquidação quanto aos


administradores e conselheiros fiscais
Nos termos da lei reguladora das sociedades anônimas, os administradores e membros do Conselho Fiscal
responderão civilmente pelos prejuízos que causarem quando agirem, dentro de suas atribuições ou poderes, com
culpa, dolo ou violação da lei ou dos estatutos (arts. 158, I e II, e 165).
Nas instituições financeiras públicas não federais e nas privadas, tanto a administração especial temporária como
a liquidação extrajudicial acarretam a perda das funções dos administradores (lato sensu, pois as públicas poderão,
pela ressalva do art. 24 da Lei n. 4.595/64, revestir-se de forma não anônima) e dos membros do Conselho Fiscal
(nas sociedades anônimas).
Também como consequência do despacho de administração especial temporária ou de liquidação, os
administradores ficarão com os seus bens indisponíveis, até efetiva apuração e liquidação de suas responsabilidades,
podendo ser essa indisponibilidade estendida a conselheiros fiscais, gerentes e outros.
Na dicotomia do modelo e sua finalidade ao abrigo da situação de cada instituição financeira, o requisito da
indisponibilidade patrimonial é determinante de segurança para recuperação do prejuízo e imobilização de recursos,
ainda que inferiores, na tentativa de se evitar dano maior.
Consequentemente, a extensão dos efeitos das medidas dependerá da análise sumária que será realizada, mas
isso não descortina uma possibilidade de alienação nesse tempo, instalando uma provável fraude ou diminuição do
ativo com o escopo de causar prejuízo aos investidores e ao próprio mercado.
Oportunizando o tema, teve o Tribunal Regional Federal da 1ª Região entendimento acerca da indisponibilidade
dos bens, no enfrentamento da Apelação Cível 1998.01.00.050914-6/DF, cujo julgamento sucedeu em 17 de março
de 1999, balizando a questão:
“A indisponibilidade dos bens dos ex-administradores de instituição financeira liquidada extrajudicialmente pelo
Banco Central do Brasil é efeito legal, imediato e acautelatório, a fim de que eventuais danos decorrentes de gestão
ruinosa possam ser reparados (arts. 41 e seguintes da Lei n. 6.024/74)”.
Há competência do Ministério Público para requerimento do arresto de bens dos administradores, cujo prazo de
30 dias visando a ação principal começa a correr depois de exaurida contra todos a medida, e, mesmo que ocorra a
fluência do aludido prazo, por si só, não se lhe retira a legitimidade de promover ação de responsabilidade.
Interessante notar a finalidade desse bloqueio com a medida cautelar de arresto, para inclusão de bens
particulares, no sentido de ampliar as garantias e reduzir os prejuízos, mas essa restrição não pode ser indeterminada
ou indefinida, mas vinculada ao procedimento que apura as responsabilidades.
Mapeado nesse aspecto, a dificuldade maior tem sido manter o acervo patrimonial, na dicção do depósito e no
levantamento regrado da coisa; isto quer significar a distância como fator de muita adversidade no procedimento
preparatório.
De fato, se os ex-administradores possuírem patrimônio longe da jurisdição, tal assunto provocará a constante
fiscalização, além da constatação para efeito de serem utilizados os frutos próprios da exploração do bem.
Na realidade, o termo de depósito é essencial, sob pena de incorrer em depositário público ou haver a nomeação
de terceiro que assuma o encargo e preste contas ao juízo.

161. Extensão da responsabilidade


Muito se discutiu na vigência das leis anteriores acerca da possibilidade de ser presumida solidária e coletiva a
responsabilidade dos administradores e membros do Conselho Fiscal das instituições financeiras, ou seja, se todos
responderiam pela falta ou omissão de qualquer deles. A legislação, porém, corta cerce a controvérsia, na disciplina
do anonimato, estabelecendo que “os administradores e membros do Conselho Fiscal de instituições financeiras
responderão, a qualquer tempo, salvo prescrição extintiva, pelos atos que tiverem praticado ou omissões em que
houverem incorrido” (art. 39 da Lei n. 6.024/74). Deixou, pois, bem delimitada a responsabilidade de cada um por
suas ações ou omissões danosas, no que foi referendada pela Lei das Sociedades Anônimas: “o administrador não é
responsável por atos ilícitos de outros administradores, salvo se com eles for conivente, se negligenciar em descobri-
los ou se, deles tendo conhecimento, deixar de agir para impedir a sua prática” (art. 158, § 1º)250.
Com efeito, coube à Lei n. 9.447, de 14 de março de 1997, dentre outras coisas, dispor sobre a indisponibilidade
dos bens, tanto da pessoa natural como jurídica, detendo o controle direto ou indireto das instituições submetidas aos
regimes de intervenção, liquidação extrajudicial ou administração temporária.
Manteve-se na estrutura atual do diploma normativo sobre companhia a responsabilidade de natureza solidária
para os membros do conselho fiscal, em razão da omissão no cumprimento de seus deveres, exceto frente ao
dissidente que fizer consignar a divergência em ata da reunião do órgão e fizer comunicar aos órgãos da
administração e à assembleia geral.
De se observar na concretude da norma uma visão mais depurada tanto na ação como na omissão do membro
do conselho, no intuito de respaldar a atividade que o mercado espera e dotar de recursos na digressão patrimonial.
Alcançando lastro na sedimentação da sua função de atingir o patrimônio de molde a assegurar a indenização,
com isso se procura alargar o conceito de solidez na certeza do retorno aos legitimados na consecução das medidas.
De fato, sublinha-se o caráter que se revela na preocupação de eliminar as dificuldades patenteadas na alocação
de recursos ou malversação, em razão das garantias tomadas, que, na maioria das vezes, se apresentam sem nexo
de causa e efeito com o empréstimo concedido.
Neste diapasão, a política utilizada pelas instituições financeiras públicas causou um precedente perigoso, à
medida que as liberações dos créditos continham análises superficiais da solvabilidade dos tomadores e parcas
garantias, que eram inferiores ao capital de giro empenhado.
Os interesses difusos ou coletivos, que são dos próprios aplicadores, ficam desconsiderados pelas ações
desabridas dos administradores, provocando descapitalização, pouca possibilidade de reaver aquilo emprestado, além
dos valores elevados, que prejudicam a alavancagem de capital para atividades de relevância social.

162. A responsabilidade civil solidária dos ex-administradores e das pessoas vinculadas


O espírito da Lei de Sociedades Anônimas não considera o administrador pessoalmente responsável pelas
obrigações contraídas em nome da sociedade e em virtude de ato regular de gestão (art. 158, caput). Entretanto, no
que concerne à administração especial temporária, à liquidação extrajudicial ou à falência das instituições
financeiras, essa responsabilidade é solidária, isto é, respondem os administradores pelas obrigações por elas
contraídas, ainda que por meio de outros administradores, até que se cumpram e no montante dos prejuízos
causados.
Justifica-se a norma pelo abuso dos administradores na manipulação da pessoa jurídica em proveito próprio: “Os
ex-sócios proprietários desses grupos de instituições possuem hoje, de acordo com técnicos da Receita Federal,
dinheiro em bancos, imóveis, títulos de rendimento fixo, ações, objetos de arte, cavalos de raça, carros importados e
participações até majoritárias em indústrias e empresas comerciais” (O Estado de S. Paulo, 4 mar. 1997, p. 26).
No caso da administração especial temporária, ampliou-se a responsabilidade, estendendo-se ao controlador,
considerando o § 1º do art. 15 do Decreto-lei n. 2.321/87 existir vínculo de controle quando: a) alternativa ou
cumulativamente, a instituição financeira administranda e outras pessoas jurídicas estiverem sob controle comum; b)
sejam, entre si, controladoras ou controladas; c) qualquer uma delas, diretamente ou através de sociedades por ela
controladas, seja titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas
deliberações sociais e poder de eleger a maioria dos administradores da instituição.
Temos a impressão no sentido de que o decreto-lei foi incompleto na menção dos subsídios caracterizadores da
noção de “controlador”, devendo, dessa forma, recorrer-se ao art. 116 da Lei de Companhias e alterações havidas
(Lei n. 6.404/76), que assim considera também “aquele que usa efetivamente seu poder para dirigir as atividades
sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da companhia” (letra b).
Quer nos parecer que a corresponsabilidade do controlador, embora prevista apenas na administração especial
temporária, seja cabível, com muito mais razão, na liquidação, porquanto nela o passivo a descoberto é bem mais
frequente, avultado e difícil de ser coberto.
A maior dificuldade nessa atividade significa alcançar os patrimônios que podem responder pelo desfalque da
empresa financeira, alimentando a esperança de dissipar zona nebulosa, conferindo ao mercado uma perspectiva de
recuperação.
Diante da solidariedade estabelecida, sem arremedo ou ambages, inclusive na hipótese de saída, observado o
tempo legal, urge um rastreamento e a localização de empresas que artificialmente fizeram uso do capital, a servir
de biombo à ação dos credores.
Operacionalizar os ditames dessa vinculação entre o dano e sua recuperação, na delimitação patrimonial, isso
constitui ponto de extrema complexidade, notadamente na obtenção dos subsídios e informes prestados pelos órgãos
públicos.

163. A indisponibilidade dos bens


A indisponibilidade a que nos referimos no n. 160, supra, consequente da decisão que decreta a administração
especial temporária, a liquidação extrajudicial, ou, ainda, a falência, atinge os bens dos administradores,
automaticamente, atuais e os que tenham estado no exercício das funções nos 12 meses anteriores ao ato, além dos
controladores.
Por proposta do Banco Central, aprovada pelo Conselho Monetário Nacional, essa indisponibilidade poderá,
supervenientemente, ser estendida aos bens de gerentes, conselheiros fiscais, aos de todos aqueles que, até o limite
da responsabilidade estimada de cada um, tenham concorrido, nos últimos 12 meses, para a decretação da
administração especial temporária ou da liquidação extrajudicial (art. 36, § 2º, a, da Lei n. 6.024/74) e aos de
pessoas que, nos 12 meses imediatamente anteriores, os tenham adquirido, a qualquer título, de administradores da
instituição, ou das pessoas suprarreferidas, desde que haja seguros elementos de convicção de que se trata de
simulada transferência com o fim de evitar os efeitos da lei (art. 36, § 2º, b).
Entretanto, da mesma forma disposta pela Lei de Falências, os bens inalienáveis e os impenhoráveis estão livres
de qualquer medida constritiva. E a indisponibilidade não atinge os bens já alienados, ou cujos direitos foram cedidos
a terceiros, desde que os respectivos instrumentos tenham sido levados ao competente registro público anteriormente
à data da decretação da administração especial temporária, da liquidação judicial ou da falência. A fim de tornar
concreta a indisponibilidade decorrente do decreto intervencionista, liquidatório ou falimentar, o conselho diretor
liquidante ou o escrivão, conforme o caso, comunicá-la-á ao registro público e às Bolsas de Valores. Recebida a
comunicação, os órgãos públicos encarregados de formalizar as alienações não mais farão: transcrições, inscrições
ou averbações de documentos públicos ou particulares; arquivamento de atos ou contratos que importem em
transferência de quotas, ações ou partes beneficiárias; operações ou respectivo registro destas e de títulos de
qualquer natureza; transferência de veículos automotores. A eficácia da indisponibilidade é impugnada no plano
doutrinário, por dar margem a burlas consistentes na colocação de bens em nome de outrem, apontando-se como
medida, de um lado, mais justa para um indiciado, cuja inocência poderá ser proclamada a final, e, de outro, mais
eficiente, a incidência da ineficácia dos atos praticados dentro de determinado período, como sói acontecer na
falência.
A indisponibilidade é princípio salutar que atende ao reclamo da reparação do dano causado pela má
administração e nas consequências do controle irregularmente exercido, porém a amplitude do bloqueio muitas vezes
desperta uma válvula de escape sem o pretendido resultado.
Priorizando o ponto de vista, quando há a extensão da indisponibilidade de bens, um contingente enorme de
pessoas fica adstrito à restrição patrimonial, resultado disso é a probabilidade de reclamos e recursos processuais,
além do controle de monitoramento, com uma verdadeira técnica de administração.
Singularmente, comporta frisar que a pluralidade de bens indisponíveis fora do local onde tramita o procedimento
principal implica o conhecimento e a administração do negócio, com os frutos e vantagens a favor dos interessados;
isso concentra esforços no acompanhamento de pessoal e infraestrutura imprescindível.

164. A responsabilidade penal


A Lei n. 7.492, de 16 de junho de 1986, dispôs acerca dos crimes contra o sistema financeiro nacional.
Conforme bem assinalado por Manoel Pedro Pimentel, “as figuras penais nela previstas devem ser entendidas com
sentido amplo, de mercado financeiro, mercado de capitais, abrangendo os seguros, o câmbio, os consórcios, a
capitalização, ou qualquer outro tipo de poupança que, na verdade, situam-se no campo do Direito Econômico, e não
do Direito Financeiro” (RDM, jul./set. 1987, p. 8). Ainda consoante o referido professor, “estes crimes deveriam ser
denominados contra a ordem econômica, pois os delitos contra a ordem financeira são aqueles que atentam contra a
ordem financeira propriamente dita, a política financeira do Estado, o emprego irregular de verbas públicas, o
excesso de exação, a violação do sigilo ou fraude em concorrência pública, os contratos irregulares de serviços ou
de obras públicas, e outros semelhantes, muitos deles já no Código Penal vigente como crimes praticados contra a
Administração”. Nesse particular, porém, cabe ponderar que os delitos previstos pela mencionada lei não são contra
a “ordem financeira” referente às finanças públicas e à política financeira do Estado, mas contra o “sistema
financeiro nacional”, que, ex vi legis, compreende as instituições públicas ou privadas alinhadas no art. 1º da Lei n.
4.595/64, apenando, entre outros, o controlador, administradores, ex-administradores, membros do conselho diretor,
liquidante e síndico que atuarem, respectivamente, na fase in bonis (os dois primeiros), na administração especial
temporária (os terceiros e quartos nomeados) e na liquidação ou falência (os últimos).
A imputação penal passa pela descrição das condutas no panorama da crise detectada na instituição financeira,
com o propósito de alcançar seus responsáveis e lhes possibilitar amplo contraditório, na concretização de tipificação
atrelada aos delitos de colarinho branco.
Invulgarmente, nesse tipo de delito, acontece um sobressalto de questões refugindo da seara do ilícito e da
finalidade de se preconizar celeridade, haja vista eventual prescrição, no resultado prático embasado na conclusão do
relatório havido no inquérito a cargo do Banco Central do Brasil.

165. A restrição à locomoção


Estando administradores, gerentes, conselheiros fiscais e terceiros sujeitos à indisponibilidade obrigados a prestar
informações no inquérito destinado a apurar sua responsabilidade, não poderão se ausentar da cidade onde elas são
colhidas sem autorização prévia e expressa do Banco Central ou do juiz falimentar. É claro que mediante
justificativa cabal a autoridade competente deverá consentir no deslocamento pleiteado, desde que não prejudique o
andamento do inquérito. Modus in rebus, necessitando as pessoas indicadas realizar uma viagem urgente e por
motivos relevantes, a explicação a posteriori sanará a falta de autorização.
Coerente com o motivo que fundamenta a locomoção, interna ou externamente, deve-se preponderar elementos
de segurança e certeza no retorno e, outrossim, na solvabilidade patrimonial, com vistas à cobertura dos prejuízos
advindos.
Dessa maneira, se o interessado na realização da viagem não justifica sua imprescindibilidade, tampouco
demonstra razões relevantes para o deslocamento, o indeferimento eclodirá como medida acertada, até para não
dinamizar hipóteses assemelhadas entre os demais corresponsáveis.
Bem nessa determinação, ocorre observar sobre a nacionalidade do administrador e a eventual circunstância de
não ser extraditado, confiando no Governo que alberga seu destino uma impunidade lesiva ao mercado, fruto do
plano engendrado e do artifício utilizado, cuja probabilidade de regresso seria mínima ou nenhuma.
Fundamental asseverar o caráter excepcional do deslocamento no curso do procedimento, a merecer ampla
divulgação, e a necessidade de criteriosa análise, sob pena de se permitir ao administrador culpado um beneplácito
inaceitável.
Se a prisão preventiva nessas hipóteses é aplicada com espírito de exceção, da mesma forma a licença para
viajar merece ser encarada, sob o ponto de vista da irremovível questão, da conveniência e oportunidade, mais ainda
da certeza do retorno, a não forjar meio de impunemente abandonar o cenário do processo.

166. O inquérito administrativo


Assim como na falência se instaura o inquérito judicial para apurar suas causas, o procedimento do devedor e a
eventual prática de crimes falimentares por ele ou por terceiros, na administração especial temporária, na liquidação
extrajudicial e na falência das instituições financeiras, procede-se a inquérito administrativo para a apuração das
causas da ruína financeira e da responsabilidade de seus administradores e membros do Conselho Fiscal. Na
falência em geral, a finalidade do inquérito é de natureza penal. Na administração especial temporária, na liquidação
extrajudicial e na falência de instituição financeira não se menciona expressamente esse escopo, havendo
referências apenas a medidas de caráter patrimonial. Admite Rubens Requião que a “responsabilidade apurada é
tanto a civil como a criminal” e que o “objetivo principal do inquérito é aferir a responsabilidade de cada
administrador, conselheiro ou de terceiros, tendo em vista a finalidade de ressarcimento dos prejuízos causados por
seus atos culposos e dolosos”251. Ora, no que concerne à responsabilidade criminal, não se pode esquecer o disposto
no art. 32 da Lei n. 6.024/74, onde se prescreve que, apurados elementos, ainda que indiciários, a esse respeito, no
curso da liquidação, caberá ao liquidante encaminhá-los ao representante do Ministério Público para que este
promova a ação penal. Não constitui, pois, finalidade do inquérito administrativo, que deve ser concluído no prazo de
120 dias, prorrogável por outro tanto, enquanto o procedimento da liquidação não tem prazo, cogitar da
responsabilidade criminal. Mas, sendo imprecisa a redação do dispositivo, que determina a instauração do inquérito
(art. 41) se, eventualmente, no exíguo espaço de tempo que a lei prescreve para a sua elaboração, for apurada
matéria penal, a comissão deverá comunicar o fato ao liquidante para que este, consoante o art. 32, encaminhe os
elementos ao representante do Ministério Público.
Decretada a falência, porém, a matéria criminal já estará sub judice, sendo dispensável qualquer medida da
comissão do inquérito ou do liquidante a respeito. Por isso é que o escrivão do processo deverá comunicar o fato ao
Banco Central dentro de 24 horas.
A abertura do inquérito deve ser determinada pelo Banco Central imediatamente após a decretação da
administração especial temporária, da liquidação extrajudicial ou o recebimento da comunicação da falência. Cumpre
assinalar, por oportuno, que a instauração do processo administrativo se ultima com a prática de atos destinados a
apurar a responsabilidade e detectar os problemas que determinaram aquela situação diagnosticada. Destarte,
poderá o Banco Central do Brasil, de modo cautelar, ordenar o afastamento dos indiciados enquanto durar a
apuração e impedir que assumam cargos de direção ou administração, mesmo como mandatários ou prepostos de
diretores ou administradores, consignando restrições às atividades das instituições financeiras. Todas as decisões
tomadas na órbita do Banco Central darão ensejo ao recurso destinado ao Conselho de Recurso do Sistema
Financeiro Nacional, no prazo de cinco dias. Como se disse, o prazo para a conclusão do inquérito é de 120 dias,
prorrogável por outro tanto.
O poder investigatório da comissão designada pelo Banco Central para apurar as irregularidades que levaram a
instituição ao descalabro financeiro é pleno, podendo: “a) examinar, quando e quantas vezes julgar necessário, a
contabilidade, os arquivos, os documentos, os valores e mais elementos das instituições; b) tomar depoimentos
solicitando para isso, se necessário, o auxílio da polícia; c) solicitar informações a qualquer autoridade ou repartição
pública, ao juiz da falência, ao Ministério Público, ao síndico, ao liquidante ou ao interventor; d) examinar, por pessoa
que designar, os autos da falência e obter, mediante solicitação escrita, cópias ou certidões de peças desses autos; e)
examinar a contabilidade e os arquivos de terceiros com os quais a instituição financeira tiver negociado e no que
entender com esses negócios, bem como a contabilidade e os arquivos dos ex-administradores, se comerciantes ou
industriais sob firma individual, e as respectivas contas junto a outras instituições financeiras” (art. 41, § 3º, da Lei n.
6.024/74). Após esses exames e diligências da comissão de inquérito é que os antigos administradores serão
convidados, por carta, a apresentar, por escrito, sua defesa, em 5 dias, prazo esse comum para todos. Expirado ele, o
inquérito será encerrado com um relatório, do qual constarão a situação da instituição financeira, as causas de sua
queda, o nome, a qualificação e a relação dos bens particulares dos que, nos últimos 5 anos, geriram a sociedade,
bem como o montante ou a estimativa dos prejuízos apurados em cada gestão.
Concluindo pela inexistência de dano, será o inquérito, em caso de administração especial temporária ou
liquidação extrajudicial, arquivado no próprio Banco Central ou, em caso de falência, remetido ao juiz competente,
que o mandará apensar aos respectivos autos e, ainda, a requerimento de qualquer interessado, determinará a
cessação da indisponibilidade de bens decorrente do decreto de administração especial temporária, liquidação ou
falência.
Dando pela existência de prejuízos, a comissão processante remeterá o inquérito e seu relatório ao Banco
Central, ao juiz da falência ou ao que tiver, em tese, competência para decretá-la, o qual dará vista ao representante
do Ministério Público, que, em 8 dias, sob pena de responsabilidade, requererá o arresto dos bens dos
administradores que ainda não tenham sido atingidos pela indisponibilidade consequente ao despacho de abertura,
suficientes para a efetivação de sua responsabilidade, visando-se obter uma garantia para o ressarcimento dos
terceiros lesados; é óbvio que, da mesma forma, assim como podem ficar sujeitos à indisponibilidade inicial os bens
dos gerentes, conselheiros fiscais e de todos aqueles que tenham concorrido, nos últimos 12 meses, para a
decretação da administração especial temporária, da liquidação extrajudicial, submetam-se eles ao arresto. Lavrado
o auto de arresto, os bens serão depositados em mãos do conselho diretor do liquidante ou do síndico, conforme o
caso.
O arresto, como sabido, é medida cautelar. Deve a ele seguir-se a ação principal do processo de conhecimento,
donde se faz a confirmação judicial da constatação da responsabilidade já apurada administrativamente, deverá dar-
se a condenação no pagamento dos danos. O juízo competente para dele conhecer é o da falência, ou não estando
ainda esta requerida, aquele a quem, em tese, o pedido poderia ser dirigido.
Incumbe, em primeiro lugar, ao representante do Ministério Público a propositura da ação de responsabilidade
civil, em 30 dias da efetivação do arresto. Não o fazendo, os autos respectivos ficarão em cartório para que qualquer
credor tome a iniciativa. Não sendo, ao cabo desses prazos, instaurada a ação de responsabilidade, levantam-se o
arresto e a indisponibilidade.
A superveniência da falência não prejudica o arresto ou a ação de responsabilidade já proposta: a consequência
é que aquele se converte em arrecadação, porque, sendo o administrador solidariamente responsável, a falência da
instituição acarretará a sua insolvência e o síndico, em 30 dias do compromisso, assumirá a autoria do feito por
substituição processual.
Não vemos sentido no art. 48 da Lei n. 6.024/74, que prescreve que, “independentemente do inquérito e do
arresto, qualquer das partes, a que se refere o parágrafo único do art. 46, no prazo nele previsto, poderá propor a
ação de responsabilidade dos ex-administradores, na forma desta Lei”. É que a lei faz depender do inquérito o prazo
para a interposição do arresto, e, deste, o da ação, de modo que não se compreende um ato sem o outro.
Com o pedido de arresto, que é medida cautelar típica, nele se transforma a indisponibilidade de bens, medida
atípica. De modo que, transitando em julgado a sentença que deu pela procedência da ação de responsabilidade, o
arresto se convola automaticamente em penhora, seguindo-se a execução. É nesse sentido que deve ser
compreendida a norma contida no art. 49 da Lei n. 6.024/74, de redação confusa. Vendidos os bens em hasta
pública e pagas as custas, o líquido será entregue ao conselho diretor, ao liquidante ou ao síndico, conforme o caso,
para rateio entre os credores. É claro que, em havendo falência, os bens são vendidos no respectivo processo, sendo
que as custas e os encargos da massa vêm depois dos créditos trabalhistas e tributários.
Por outro lado, se pendente a ação de apuração de responsabilidade ou se, já no curso da execução, encerrar-se
a administração especial temporária ou a liquidação extrajudicial, o conselho diretor liquidante comunicará o fato ao
juiz, solicitando sua substituição como depositário dos bens arrestados ou penhorados e fornecendo a relação nominal
e respectivos saldos dos credores, a serem pagos me​diante rateio.
O inquérito administrativo procedido pelo Banco Central sinaliza peça importante, espalhando seus efeitos para o
momento da apuração da responsabilidade dos ex-administradores. Embora sem força vinculante na discussão do
tema sob o pálio jurisdicional, interessante dizer que a investigação é a obtenção de subsídios norteadores que
servem de apoio no relacionar os fatos e desencadear a tomada de providências para reparação dos danos.
Descortina de suma preponderância anotar que a responsabilidade objetiva pode ser reconhecida naquele
período de gestão, com base no art. 46, parágrafo único, da Lei n. 6.024/74, no que diz respeito ao prazo, tendo seu
fundamento legal no art. 36 do mesmo diploma legal.
Examinando o tema em questão, o Tribunal de Justiça de São Paulo teve a oportunidade de salientar algumas
circunstâncias ligadas à responsabilização dos ex-administradores, validando inclusive a citação por edital e
prestigiando o julgamento antecipado da lide, por estritamente jurídica a matéria sub cogitatione, sublinhando:
“Liquidação Extrajudicial — Instituição financeira — Ação de responsabilidade de ex-administradores julgada
procedente — Equiparação a administrador na forma da letra a do § 2º do art. 36 da Lei 6.024, de 1974 — Falta de
prova de responsabilidade direta (ação ou omissão) ou solidária (mesma gestão) em relação a dois deles, tanto no
inquérito do Banco Central como na ação — Alcance da apuração de responsabilidades na referida lei —
Provimento apenas dos recursos dos administradores não responsabilizados” (AC 5.342-4-SP, j. 9-5-1996, JTJSP,
Ed. Lex, 194:89-93).
Afigura-se, portanto, consentânea com a realidade denotada pela prática de irregularidade na gestão a
consequente responsabilização do administrador, servindo de termômetro o relatório consubstanciado no bojo do
inquérito administrativo efetuado pelo Banco Central, com a coloração objetiva dessa subordinação em função do
período de exercício e assentada na relação inerente ao dano causado.
Comumente o arresto de bens individuais que preside o período da apuração das responsabilidades na esfera
administrativa reforça a tese no sentido de que a indisponibilidade no fundo é uma precaução tomada, podendo ainda
ser apurada uma eventual fraude ou dilapidação patrimonial, ou mesmo a transferência de bens em nome de
terceiros, com o intuito de fugir da incidência onerativa da condenação.
Decretado o arresto de bens, como típica medida cautelar preventiva, no sentido de ser feito verdadeiro
arrolamento patrimonial dos administradores que têm responsabilidade pela má gestão ou irregularidades apuradas
pelo órgão de fiscalização na direção do inquérito, questiona-se a circunstância da prestação de contas em razão do
ato de indisponibilidade.
Caberia a nomeação de um administrador judicial que teria o papel de gerir a coisa arrestada, ou bastaria que o
sujeito passivo da medida providenciasse os esclarecimentos indispensáveis diante de eventuais frutos, rendas e
benefícios auferidos, dês que a manutenção do modo de conseguir resultado satisfatório é uma característica de
assegurar aos credores integral possibilidade reparatória do dano.
Não se cuida de preocupação meramente jurídica, mas de preceito econômico-gerencial, porque quando são
diversos os administradores das instituições financeiras, contendo um acervo patrimonial de bens fora da
circunscrição onde sucedeu o arresto, decorre a inviabilidade quase completa do administrador judicial conhecer a
realidade e dinamizar uma melhor prestação de contas.
A princípio tudo indicaria ser salutar a nomeação de administrador, cujas despesas seriam rateadas em
proporção entre os devedores da instituição financeira, os quais têm a indisponibilidade decretada, retirando-se o
numerário da própria receita que é extraída dos frutos colhidos por força da gestão, mas esta providência poderá ser
inócua diante do número dos integrantes da administração da instituição e da localidade na qual estão os bens a
serem administrados.
Nesta hipótese, para que o juízo tenha um controle e o Ministério Público fique inteirado da realidade que se
processa na demanda, bom seria que houvesse expressa determinação de prestação de contas durante razoável
intervalo de tempo, porque não seria improvável que o titular da coisa ou do bem se desinteressasse pelo negócio,
expressando uma aparente situação da redução patrimonial.
Fundamentalmente, o arresto como medida isolada, sem uma consequente visão mais profunda da situação
patrimonial, pode ter configuração extremamente dificultosa, se na ação principal houver condenação dos
responsáveis, chegando-se à conclusão que, devido ao decurso de tempo, aqueles bens foram paulatinamente
desvalorizados, não respondendo pelas dívidas apuradas.
A tônica acentua a conveniência e oportunidade da conservação, manutenção e guarda dos bens, de tal sorte
que preservem as mesmas condições anteriores à decretação do arresto, sem que suscite depreciação ou redução
patrimonial divorciada da própria consecução de efeito preventivo.
Seguindo o raciocínio, a quebra do sigilo bancário e fiscal porfia um caminho natural, porquanto o valor do
prejuízo é condicio sine qua non da eficiente intervenção, e, quando as somas transmigram as fronteiras, o
rastreamento é o meio fundamental para a descoberta, sem esquecer a contribuição das autoridades locais e no
exterior.
Critica-se a delonga na apuração dessa responsabilidade, que na realidade se deve ao número reduzido de
pessoal somado ao aparato da máquina administrativa, por causa de escassos recursos e meios tecnológicos que
permitam um rápido encontro a respeito dos desvios acontecidos ao longo do período da direção da instituição
financeira.
Não pode o Banco Central ser genérico e indeterminar o rol das pessoas e o montante estimado do prejuízo,
consignando-se que a moralidade pública está em jogo e por isso é de se pautar visando depurar os fatos da melhor
maneira possível.
Em relação ao procedimento administrativo, eventual apuração de responsabilidade acarreta numa categoria
acessória imposta ao administrador a impossibilidade de gerir entidades privadas ou públicas, temporariamente, sem
emprestar conotação duradoura, porque afrontaria o comando constitucional e destoaria da regra falimentar de
conteúdo análogo à respectiva incidência.
Bem nessa dicção, o Supremo Tribunal Federal acenou sobre a impossibilidade da inabilitação permanente, por
ferir o disposto no art. 5º, XLVI e XLVII, b e § 2º, da Constituição Federal. O Recurso Extraordinário n. 154.134-
2/SP, da 1ª Turma, foi examinado dia 15 de dezembro de 1998, pelo Rel. Min. Sydney Sanches, mencionando que a
interdição de direitos e a suspensão são medidas transitórias, com definida duração; assim, a recuperação, numa
forma de reabilitação, sucede com o decurso implementado.
Concretamente, portanto, afigura-se ilegal a reprimenda que diz respeito à proibição permanente ao exercício do
cargo em instituição financeira, porque transgride predicado constitucional e arranha a finalidade normativa da
sanção de caráter provisório, pois, temporário.
Crucial destacar que a apuração deve ser ampla e abrangente por comportar o conjunto de atividades durante
um período determinado, podendo espalhar seus efeitos para diversas localidades, inclusive no exterior, cujo cuidado
maior será de manter o numerário bloqueado até sua devolução.
Na contingência de desvio de bens e patrimônio em sede de paraísos fiscais, cumpre apuração minuciosa,
mediante a quebra dos sigilos bancário, telefônico e fiscal, com a comunicação à autoridade que deposita o
numerário e o pleito de seu bloqueio.
Invariavelmente, todo esse predicado pede uma correlata comprovação do pedido formulado, diante do nexo
causal, haja vista demonstração primordial da ilicitude da remessa, cujo aspecto essencial é de retornar à massa e
servir ao pagamento dos credores. Bem assim, forte manter convênios e tratados internacionais que autorizem as
providências e promovam a volta do numerário depositado em terras estrangeiras.
A catalogação das circunstâncias permite consulta aos organismos internacionais, rastreamento de dados e
mapeamento das atividades da instituição, das filiais e sucursais, com o propósito de recuperação das somas
remetidas ilicitamente.
Não se afasta a possibilidade sempre natural da colaboração como forma de se estipular um benefício que
aproveite o antigo administrador culpado pela prática delituosa, afetando ao mercado, clientela e consumidores.
Esse espírito de contribuição, muito comum em legislações avançadas, ainda é muito tímido no cenário nacional,
embora disciplinado, haja vista o receio e as diversas implicações da delação, porém é uma salvaguarda e potente
salvo-conduto, identificando a boa vontade na disposição de subsídio visando responsabilidade.
Referido aspecto pode ter enorme prestígio na repercussão e no comando da aferição do grau de
responsabilidade, uma vez que se equiparam gerentes, diretores, prepostos, aos demais administradores, donde
somente uma exploração detalhada poderá ser metodologia interessante à fixação maior ou menor da culpabilidade.
Os aspectos marcantes da medida se fazem depois de muito tempo dos fatos, experimentando um intervalo
prejudicial aos interesses do mercado e dos próprios consumidores atingidos.
A dificuldade na apuração e a demora na recuperação fazem com que se desacreditem as medidas encetadas
na direção da localização de patrimônio, à míngua da carência de recursos do Judiciário, em sintonia com as técnicas
impregnadas pelos ex-administradores.
Nesse comando, a delação premiada poderia ser importante elemento a temperar o grau da responsabilização
com a identificação do informe e seu grau de repercussão no cenário da insolvência.
Registra-se que os depósitos feitos em países considerados não signatários dos tratados — paraísos fiscais — na
verdade desenham impunidade detrimentosa à sociedade organizada.
Em resumo, a tendência de especialização de varas sobre o tema também traz à baila a necessidade de uma
polícia financeira extremamente treinada e aparelhada, sem os contornos da Polícia Federal, que rotinizou seus
expedientes, mas vinculando-se ao conhecimento, à destinação dos recursos, e, mais do que isso, à repatriação como
pano de fundo, notadamente quando a burocracia impele à impunidade do chamado colarinho-branco.
25
DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA E SUA LEGITIMIDADE

Sumário: 167. A proteção aos clientes e investidores. 168. Disciplina normativa e o Ministério Público. 169.
Ação pública, sua indisponibilidade e restrição. 170. A responsabilização dos administradores e o ônus da prova.
171. O limite da indenização e os efeitos da decisão.

167. A proteção aos clientes e investidores


Invariavelmente, os procedimentos vinculados à administração temporária, intervenção e liquidação extrajudicial
causam um prejuízo maior ao mercado indiretamente e aos investidores e clientes mais perto, em primeiro lugar, pela
demora na conclusão das responsabilidades e causas determinantes da ação do Banco Central, em segundo, em
virtude da falta de transparência para conhecimento dos interessados e, por fim, em razão da expectativa da ação de
reparação de danos, a ser proposta pelos lesados ou por todos os legitimados nas deno​minadas ações coletivas.
Os capitais aplicados e depositados nas agências que estão sob a égide do regime monitorado pelo Banco
Central não repercutem de forma incisiva na respectiva cobertura, e, assim mesmo, o depósito compulsório mantido
pela entidade é insuficiente ao pagamento dos clientes e dos próprios investidores.
Nesse norte, o primeiro passo será a ampla divulgação do relatório fornecido pelo Banco Central, no qual se
revelarão a situação real da instituição financeira e os predicados negativos que provocaram sua insolvabilidade.
É importante distinguir o conteúdo ditado pelo procedimento de saneamento da instituição daquele envidado para
simplesmente acarretar sua extinção, donde foram criadas plúrimas alternativas na tentativa de manutenção de
diversos bancos, sobretudo de instituições públicas que não exteriorizaram uma boa administração e combaliram de
tal forma suas finanças que precisaram do controle mais rigoroso do Banco Central do Brasil.
Diante dos particulares que mantêm contratos e negócios com as instituições em fase de crise econômica
acentuada, as medidas poderão ser adotadas individualmente, ou em conjunto, no sentido de responsabilizar a
administração pela malversação dos valores, incidindo o reclamo na restituição das importâncias aplicadas, com as
correções de praxe.
Dúvida poderia haver quando o procedimento acenado pelo Banco Central, por si só, representasse o bloqueio
dos bens particulares dos gestores, já que, nos moldes do diploma normativo n. 6.024/74, todo o patrimônio ficará
indisponível até final levantamento do ato; no entanto, sem as providências dinamizadas pelos interessados na
recuperação de seus investimentos ou contas em depósito, arrastada a solução dessa etapa, certamente os volumes
financeiros terão expressões monetárias ímpares, e a possibilidade de restituição será diminuta.
É nesse contexto que a ação civil pública visa demonstrar o desacerto na gestão da atividade bancária e
responsabilizar solidária e conjuntamente os administradores para que ressarçam todos os prejuízos a que deram
causa.

168. Disciplina normativa e o Ministério Público


A preocupação cada vez mais assente do Ministério Público em relação à saúde do setor financeiro e de capitais
encontra um balizamento em atenção à invasão da esfera privada, no sentido de aparecer uma contingência
marcante para refrear sua atuação quando inexistentes os pressupostos à tutela dos interesses coletivos ou difusos.
Com razão, partindo da Lei n. 7.347/85, passando pelo diploma normativo n. 7.913/89 e chegando ao Código do
Consumidor (Lei n. 8.078/90), a mescla dos três regramentos jurídicos evidencia a legitimidade do Ministério Público,
visando evitar prejuízos ou reclamar seu ressarcimento, em relação ao mercado de valores mobiliários, identificadas
as situações de operação fraudulenta, prática não equitativa, manipulação de preços, utilização de informações
privilegiadas, tudo na diretriz de caracterizar a responsabilidade dos sócios controladores na administração da
empresa.
A importância dessa intervenção é ainda mais crescente quando nos deparamos com os recursos públicos sendo
desperdiçados e com a constante técnica de burlar a legislação, distante da moralidade que deve cercar a conduta
do administrador e higienizar o mercado daqueles interessados exclusivamente nos próprios lucros.
Bastante invocar a macrovisão do órgão do Ministério Público na requisição de dados, nos pedidos de
providências, na análise dos relatórios, no acompanhamento das situações por pessoal de sua confiança, tudo na
radiografia da irregularidade e punição do faltoso, sempre na possibilidade de recuperação do numerário dilapidado.
Essa participação mais influente do Ministério Público reaviva o preceito constitucional, na disciplina de sua
competência, consoante a visão objetiva de Hugo Nigro Mazzilli252, naturalmente identificadas as condições da ação,
dentro do pressuposto da legitimidade, em matéria de responsabilização dos administradores nas hipóteses de
intervenção ou liquidação extrajudicial de instituições financeiras.
Quando a instituição financeira não alcança seu objeto social, exerce atividade que extrapola seus estatutos
sociais, realiza operação de risco, manipula seu balanço e ainda mostra tendência de pulverizar os recursos de seus
clientes e poupadores, transferindo-os ou simplesmente colocando-os em paraísos fiscais, nada mais acertado do que
a conduta do Ministério Público na agilização do procedimento de responsabilização, identificando uma a uma as
operações e o montante do dano causado ao mercado, sem prejuízo da incidência da norma penal.
Efetivamente, enquanto perdurar o regime da administração temporária, da liquidação ou da própria intervenção,
todos disciplinados pelo Banco Central, sucederá evidente a legitimidade, que se concretiza na ação, do Ministério
Público para resgatar a moralidade do mercado, punir os responsáveis e buscar o ressarcimento aos lesados.
Naturalmente, o Ministério Público poderá estabelecer um sistema de investigação paralelo, sem interferir na
atividade do Banco Central, cujo inquérito administrativo elaborado servirá de respaldo para centralizar sua ação e
reclamar o ressarcimento dos danos cometidos pelos administradores, mas dados faltantes e subsídios incompletos
poderão ser colhidos durante a instrução, principalmente pela estrutura técnica pouco aparelhada da justiça no que
concerne à presença de especialistas na depuração das fraudes vivenciadas no mercado.
Concretamente, a posição do Ministério Público é de se basear nos elementos trazidos ao procedimento, durante
a fase do inquérito administrativo, cujo responsável apontará as irregularidades, e o cometimento, em tese, dos
delitos que mostram enquadramento na legislação.
Nada obsta, contudo, seja instaurada a medida destinada à abertura e consequente instauração do inquérito civil
público, a fortalecer e reunir elementos probatórios, para dirimir as dúvidas, na etapa da apuração das respectivas
responsabilidades.
Melhor será ter o controle seguro e plural de toda a situação, por intermédio dos relatórios a cargo do Banco
Central, das análises técnicas, dos pontos elencados no inquérito, e consequentemente alargar a investigação, no
pressuposto de forrar a ação civil pública de requisitos de forma e de fundo.

169. Ação pública, sua indisponibilidade e restrição


Compete o exercício da ação civil pública privilegiadamente ao Ministério Público, que, baseado nos elementos
hauridos na etapa administrativa pelo Banco Central, ingressará com a respectiva demanda. Apesar de as
associações de classe também se encontrarem legitimadas processualmente para a propositura dos litígios coletivos,
beneficiando diretamente todos os integrantes de seus quadros, nada indica qualquer conflito na assunção daquele
papel em conjunto, figurando a última como litisconsorte facultativa.
A atividade do Ministério Público no zelo e trato da coisa de interesse metaindividual poderá determinar
englobadamente a presença do órgão tanto na esfera estadual como federal, sinalizando a medida adotada, sem
deixar de lado aquelas circunstâncias típicas adstritas às instituições federalizadas, sob a ótica da legitimidade.
Pontuando o modelo de modo plural, Rodolfo de Camargo Mancuso253 assinala a possibilidade de intervenção
simultânea dos dois órgãos como maneira de atender a uma necessidade, na somatória de forças em prol dos
interesses tutelados, dando maior eficiência à ação do Ministério Público e proporcionando fecundo entrosamento
institucional.
Nascida a ação civil pública, e normalmente precedida daquela cautelar preparatória do arresto efetuado no
acervo de bens dos antigos administradores, tem-se que o decurso do trintídio legal flui da efetividade global da tutela
concedida, não representando eventual decadência do direito ou ausência de requisito legal que impeça a propositura
da lide principal, pois, além de a prescrição geral, consagrada no Código Civil atual, ser de dez anos, existiriam lapsos
de três anos, em casos concretos, sendo impossível confundir os efeitos da medida de natureza cautelar específica
com o prazo esquematizado para o ingresso da demanda cabível à espécie.
De fato, em razão do cunho de especificidade da Lei n. 6.024/74, o ingresso da lide principal não se equipara aos
casos ditados para outras medidas cautelares, porque o arresto tem força na circunstância de liquidação extrajudicial
e determinadas situações sujeitas ao comando do Banco Central. Assim, somente após o último bloqueio de bens é
que começará a fluir o prazo de 30 dias, na desti​nação da ação de ressarcimento dos danos e punição dos faltosos.
Afigura-se peculiar o aspecto radiografado na indisponibilidade da ação civil pública, em que a conciliação e a
transação que visem elidir a responsabilidade não têm nenhum alcance; assim, ao Ministério Público compete ultimar
as providências de maneira a enquadrar os responsáveis e alcançar os patrimônios individuais, única forma de
reduzir o prejuízo causado aos clientes e demais investidores, impelidos pela boa-fé no relacionamento com a
instituição finan​ceira.
Não nos parece acertada a posição anunciada quanto à ilegitimidade da intervenção do Ministério Público nas
circunstâncias moldadas pelo regime de administração temporária imposto pelo Banco Central, a exemplo do que
acontece na liquidação e intervenção extrajudiciais e dos pressupostos acenados na Lei n. 6.024/74 e Decreto-lei n.
2.321/87. Nada permitiria fosse retardada a preservação dos interesses que se tornaram fundamentais para o
resguardo do mercado como um todo, exceto se derreado o preceito da presença do Banco Central, caso em que se
apresentará descabida a presença do Ministério Público.
Em palavras mais diretas, o Ministério Público também exerce papel de prevenção: quanto maior for sua demora
na intervenção, menores serão os recursos e a probabilidade de recebê-los. Portanto, de inestimável colaboração a
presença do parquet, ainda porque a prorrogação do regime de administração temporária provisória nada delimita
quanto ao saneamento sem riscos ou prejuízos da instituição financeira enquadrada nessa regra específica.
Consistente dizer que a legitimidade do Ministério Público, em termos de ação civil pública, se apega à tutela dos
interesses e direitos individuais homogêneos, de tal forma quando houver esta relação bem marcante para que se
possa invocar proteção ao consumidor, ou efetivamente priorizar sua função institucional.
Desta forma, a legitimidade do Ministério Público se assenta na premissa de cuidar de interesses sociais difusos
ou coletivos e não para patrocinar direitos individuais privados disponíveis.
Matéria de sumo relevo diz respeito à cessação do estado de administração provisória e a consequente
operacionalidade da medida preventiva hospedada no arresto, sob o ângulo de aferir a legitimidade do Ministério
Público, ou considerar sua origem atrelada ao poder investigatório do Banco Central.
Uma coisa é asseverar que a perda da legitimidade decorreria da capacidade de agir no tempo concomitante ao
inquérito administrativo, outra bastante diferente diz respeito à perda do objeto diante da tutela cautelar concedida
em sede de arresto preparatório, fazendo-se indispensável uma melhor análise para dissipar entrechoque ou
compreensão afoita desta realidade.
Com razão, se houver a cessação do regime de administração provisória, e o Ministério Público não propuser a
medida cabível, desta forma o lapso temporal decorrido teria inviabilizado o procedimento, isto porque ou se tornou
plausível a reorganização da instituição, com afastamento de seus administradores, caso contrário se preferiu a
liquidação diante da impossibilidade de prosseguimento do negócio.
Na interpretação sistemática e lógica do art. 129, III, da Constituição Federal, o Ministério Público estaria
impossibilitado de mover ação civil pública, na circunstância de cessação do regime especial; no entanto, se o
procedimento estiver em curso, o interesse a ser tutelado será do mercado como um todo e dos investidores e
aplicadores especificamente, não importando a presença de credores reivindicantes.
A interpretação jurisprudencial cede espaço à consideração da realidade, na fixação de cláusulas que legitimam
a forma de agir do Ministério Público, acoroçoando um balizamento ditado pelo papel do Banco Central entre a
atividade-meio e aquela típica atividade-fim, na versão que sustenta o órgão que procura apurar responsabilidades.
Seguindo essa premissa, o Supremo Tribunal Federal, no Recurso Extraordinário n. 166.766-1/SP, julgado no dia
2 de março de 1999, por meio do Ministro Relator Maurício Corrêa, fixou a seguinte manifestação:
“A legitimidade do Ministério Público para fiscalizar os atos de instituição financeira perdura enquanto couber ao
Banco Central do Brasil, por intermédio de liquidante, a responsabilidade pela administração da entidade liquidanda.
Exaurido o regime de intervenção extrajudicial, cessa também a legitimidade ‘ad causam’ do Parquet, quer
como custos legis, quer na condição de autor, visto que a empresa retoma a autogestão de seus negócios”.
Essa impossibilidade interventiva, aduzida em função da retirada do Banco Central do cenário da instituição
financeira, implica a consequência de tolher o raio de ação do Ministério Público; independentemente disso, tal não
serve como margem de manobra a respaldar a irresponsabilidade dos antigos administradores.
Consabido que foram gastos cerca de 60 bilhões na injeção de recursos para bancos públicos, via Proer, cujo
contribuinte final é o próprio cidadão, daí por que é falaciosa a premissa de que, não havendo credores particulares,
estaria o Ministério Público de mãos atadas na promoção da ação civil. Demais desta circunstância os causadores
dos prejuízos lesaram número indeterminado de pessoas, expressão bem maior do que um contingente de credores
particulares, porquanto gerenciavam e lidavam com numerário da coletividade.
A expressão “Ministério Público” proclama qualquer entidade ou associação civil de proteção ao interesse
coletivo ou difuso, significando que a aparente falta de legitimidade do MP, no eventual aspecto da demanda contra
ex-controladores, pelo argumento da cessação da intervenção do Banco Central ou a inexistência de quadro de
credores, tais fatos não levam à presunção absoluta da falta de responsabilidade.

170. A responsabilização dos administradores e o ônus da prova


Emerge claro, na medida que decreta a função do Banco Central na administração da instituição financeira em
crise, o primado da responsabilidade dos gestores do negócio que tenham exercido suas funções no prazo de 12
meses anteriores à prática do ato ao qual ficam subordinados.
Se de um lado o prazo se mostra inconteste para priorizar o alcance dos responsáveis administradores das
instituições financeiras, o debate que se revela mais aceso fica circunscrito ao cargo exercido, à retirada da empresa
e a nenhuma influência quanto ao desmando que irradiou efeitos negativos na direção da entidade sob os auspícios
do Banco Central.
Na realidade, o contingenciamento dos subsídios numa primeira etapa, que se desenrola na fase administrativa,
identificará as causas e, mais adiante, definirá os responsáveis pela situação de ruína da entidade; no entanto,
diretores e conselheiros que exercem papéis de menor grau de poderes, com influência mínima na direção dos
negócios, questionam até que ponto estariam sujeitos à indisponibilidade dos próprios bens e à plausibilidade de
suportar os prejuízos com o patrimônio próprio.
Dada a conotação da matéria e sendo certo que nas instituições financeiras públicas sempre existem cargos
espalhados pelos diversos segmentos da diretoria, os contrastes não são meramente aparentes ou virtuais, à medida
que a colaboração maior ou menor é interferente no resultado negativo, cujo deslocamento do ônus da prova dirá
respeito ao interessado.
Resta conclusivo, portanto, que compete ao Ministério Público, quando da propositura da ação civil pública,
arrolar todos os administradores presentes e os que exerceram gestão no prazo de um ano da data do ato que
determinou a liquidação ou intervenção extrajudicial, à semelhança da regra da administração especial temporária,
cabendo ponderar que todas as demais entidades que se subordinam ao controle do Banco Central ficam, de modo
idêntico, também sujeitas à exploração da responsabilidade individual, como administradoras de consórcios, de
fundos de participação, entidades de seguros etc.
Deflagrada a ação civil pública, que tem seu resvalar nos elementos colhidos durante o inquérito administrativo
levado a efeito pelos responsáveis nomeados na política fiscalizatória e de apuração de seus desvios afeta ao Banco
Central, os administradores das instituições financeiras figurarão no polo passivo como litisconsortes necessários, e o
amplo contraditório será estabelecido, na direção do procedimento e na circunstância das provas documentais e
outras afins, visando a depuração da verdade formal.
Envereda-se pelo campo da objetivação da responsabilidade dos administradores, comprovado o nexo causal
entre a derrocada da instituição financeira e a lesão causada aos terceiros que mantinham relação de negócios com
a entidade. Assim, não se examina a conduta na perspicácia do seu resultado, mas o dano como fator aglutinante de
toda a atividade empresarial malsinada.
Essencial distinguir nesta relação processual a dualidade da responsabilidade, de um lado a de conteúdo objetivo,
nos termos do art. 40 da legislação, d’outro aquela disciplinada pelo art. 39 da Lei n. 6.024/74, de conteúdo subjetivo,
uma divisando os atos de gestão (objetiva) e a culpa que decorre do prejuízo causado a terceiro.
Com bastante propriedade, o Superior Tribunal de Justiça discerniu a questio iuris, no Recurso Especial n.
21.245-9, de São Paulo, sendo Relator o eminente Ministro Ruy Rosado de Aguiar, deixando estampado o seguinte
entendimento:
“A responsabilidade dos administradores das instituições financeiras é de dupla natureza: pelo artigo 39 da Lei
6.024/74, respondem segundo os princípios da teoria subjetiva da culpa, pelos prejuízos que tiverem causado em
razão de sua ação ou omissão; a sua responsabilidade tem como pressuposto o ato ilícito; ela é direta e pessoal; não
subsidiária, nem solidária; pelo artigo 40 da mesma lei, respondem objetivamente, em razão do simples fato de serem
administradores, pelas obrigações da instituição, assumidas no tempo limitado de sua gestão; é uma responsabilidade
solidária e subsidiária”.
Restou ainda ressaltado neste aresto que a perda do prazo processual para o ingresso da ação principal não
exclui a legitimidade do Ministério Público, tão somente faz cessar a indisponibilidade patrimonial preteritamente
concedida, remanescendo incólume o direito de ação, por força legal e ditame de ordem constitucional.
Por tal balizamento, na investigação da responsabilidade dos administradores das instituições financeiras, uma
coisa é a respectiva culpa atribuída por fato ou ato lesivo aos interesses de terceiros, sendo deveras distinta aquela
de conotação exclusivamente objetiva, disposta no art. 40 da Lei n. 6.024/74, de caráter subsidiário, mas de força
solidária, em virtude do elemento probatório decorrente do exercício da gestão, permanecendo no tempo e no espaço
durante o período de seu desempenho na companhia.
Bipolarizada a esquematização ao derredor da responsabilidade dos administradores, para que não haja eiva
insanável, faz-se mister que o Ministério Público, no articular a demanda civil pública em consonância com a
investigação, descreva os fatos e relate as hipóteses dentro da culpabilidade subjetiva e objetiva, não apenas para
possibilitar o contraditório, ínsito ao devido processo legal, mas sobretudo na dimensão de separar o joio do trigo, em
termos de gestão e danos advindos.

171. O limite da indenização e os efeitos da decisão


Consabido que o marco irradiador dos relevantes aspectos firmados na responsabilização dos administradores
representa o indevido exercício do poder de controle, suas peculiaridades devem vir à tona no relatório deduzido pelo
Banco Central e nas demais investigações tomadas paralelamente pelo Ministério Público, enfeixadas numa variante
quantificada do dano e qualificada dos respectivos responsáveis.
Imobilizado o patrimônio dos administradores, em razão do efeito da medida abraçada pelo Banco Central, a
indisponibilidade gerará uma limitação, em atenção à obrigação exteriorizada no limite da indenização que será
vertida ao patrimônio dos lesados, porquanto a contabilidade exercida determinará a diferença entre o passivo e o
ativo da instituição financeira.
A demonstração inequívoca do prejuízo, embora toque de perto à autoridade responsável do Banco Central que
dirige o procedimento na órbita administrativa, poderá comportar maiores investigações na busca de chegar-se a um
resultado definitivo. Com efeito, várias instituições financeiras em crise sugerem, no momento da intervenção, um
passivo bem menor do que o efetivamente existente e depois divulgado pelos responsáveis na perquirição dos dados.
Assim, nada impede que a própria fase processual probatória reúna informes que delimitem o horizonte, repousando
no prejuízo.
Se é certo que a prova oral na ação civil pública que envolva número expressivo de administradores pode
acarretar um aniquilamento no seu contexto e o próprio enfraquecimento do quadro necessário, não é menos correto
afirmar que a situação radiografada exige maior respeito quanto aos documentos e talvez até um suporte técnico que
possa elidir quaisquer dúvidas. A mitigação dos preceitos imporá o sopesar das provas e a atribuição de valor
superior àquelas relacionadas com o conteúdo da verdade objetivada.
O atingimento da soma apurada no dano imposto aos investidores e aplicadores da instituição financeira é o
levantamento seguro de todos os aspectos colhidos na fase de instrução, sem esquecer outras obrigações assumidas
e eventuais créditos a serem cobrados.
Repita-se que o prejuízo a ser fixado em sentença não pode ser estimado e muito menos superficial, devendo
estar representado por cálculo que legitime a responsabilidade solidária dos administradores, cujos patrimônios
indisponíveis, ainda que não permitam a cobrança, manterão os sujeitos obrigados ao pagamento, com as restrições
das funções voltadas para os mercados financeiro e de capitais.
A eficácia do ato decisional empresta efeitos erga omnes, logo, nessa conjuntura, dele dimanará a veiculação
dos beneficiados e a imposição solidária de responsabilidade aos condenados.
Esclareça-se, à guisa de subsídio, que, repousando o procedimento no aspecto da federalização da entidade, nada
impede que o Ministério Público da União encete as medidas objetivando responsabilizar os administradores, em
colaboração com o órgão estadual, para que possam reduzir os prejuízos experimentados pelo mercado,
concentrando esforços no alcance patrimonial de bens assentados nos gestores que não se conduziram a contento.
Na verdade, o cálculo do dano não pode ser aparente e sim real, compatível com a perspectiva concreta,
traduzida no balanço, nos aportes supervenientes, na relação com o mercado em harmonia com os investidores e
aplicadores.
O rastreamento de contas e investimentos em nome dos administradores ou terceiros considerados testas de
ferro é imprescindível, com bastante agilidade, sendo necessário fora do território e albergando paraísos fiscais,
todas as demais localidades, evidenciando o desvio do numerário e cristalizando uma transparência e um resultado
muitas vezes não atingido pelo Banco Central.
Compondo esse quadro elucidativo na fundamentação e levantamento de dados seguros, pode o Banco Central
terceirizar contratação de empresas que procedam ao exato pesquisar dos subsídios dentro e fora do País,
decorrendo uma prestação de serviços que visa ampliar as facilidades no manuseio de deliberações seguras.
As restrições que encampam o procedimento não podem tolher a principal finalidade de perquirir ao máximo as
informações e recuperar o patrimônio desviado da empresa, em detrimento dos acionistas e próprio mercado.
De conseguinte resta muito dificultoso o exame na realidade da circunstância que forma o nexo causal relativo
ao prejuízo e sua importância; tudo isso necessita estar demonstrado, na medida da relevância frente ao quadro geral
de credores, responsabilidades, inclusive para algum processo societário na modalidade de incorporação, aquisição
do controle, ou mecanismo outro que transfira a carteira para entidade bancária diversa.
Resvalamos no aspecto da auditoria que de independente nada tem, donde o rodízio que vem sendo priorizado
pela CVM na feitura dos balanços é regra salutar para o encontro de diferenças, apontamento de discrepância e
substancialmente para a realização de uma verificação ordenada dos elementos empresariais.
O mapeamento de expedientes irrigando ilícitos no color de fraudes e irregularidades pede maior transparência e
cunho de controle vinculado às práticas de contabilidade.
26
A INSTABILIDADE DOS BANCOS, A RESPONSABILIDADE DO BANCO
CENTRAL E AS RESTRIÇÕES DE ORDEM FISCAL

Sumário: 172. A macrovisão do Sistema Financeiro e sua instabilidade. 173. Saneamento das instituições em
dificuldade. 174. A responsabilidade real do Banco Central. 175. As restrições fiscais impostas às instituições
financeiras.

172. A macrovisão do Sistema Financeiro e sua instabilidade


As instituições financeiras marcaram época no País, atravessando período áureo, no qual investiram pouco
capital e obtiveram polpudos recursos, sob a forma de lucro, conseguindo assim dinamizar a atividade, abrindo
agências em diversas localidades, transformando-se, por tal razão, em bancos múltiplos, realizadores de tarefas as
mais diversas, desde a simples abertura de conta corrente até a parti​​cipação em planos de seguro de vida ou saúde.
Registrou-se, no passado, por outro ângulo, um vasto número de concessão de registro na modalidade de carta-
patente, numa ocasião política propícia para ampliação do mandato presidencial, ensejando espaço para o surgimento
de inúmeros bancos de menor porte, com um capital verdadeiramente reduzido diante de instituições financeiras
tradicionais e seculares no mercado.
Somente com a implementação do Plano Real e com o retorno das instituições financeiras às suas funções
precípuas foi possível diagnosticar o defeito na estabilidade das contas e a ameaça sempre presente à continuação
da higidez que permeou durante muito tempo a preservação da imagem desse setor da economia nacional.
Não havia alternativa milagrosa: ou o Governo Federal deixava que o mercado sofresse o impacto da
intervenção ou liquidação, ou apresentava um programa de reorganização das empresas em estado de dificuldade,
sob pena de acontecer uma quebradeira em cadeia.
Operações nebulosas, dividendos fantasmas, créditos fictícios, empréstimos sem contraprestação de garantias à
altura, investimentos duvidosos em alguns setores desfavorecidos pela política, consequentemente, levaram várias
instituições financeiras a experimentar o remédio amargo da atuação um tanto quanto retardatária do Banco Central
do Brasil, visando preservar o conjunto e manter acesa a estabilidade proclamada na razão de ser do Plano Real.
Instituições financeiras públicas e privadas revelaram as mazelas imperadas no seio societário, demonstrando a
inabilidade dos administradores que as expuseram ao risco desmesurado, corolário imediato da adoção de medidas
provisórias tomadas pelo Executivo para minorar os efeitos perversos da fraqueza constatada em diversos bancos
que realizavam negócios no mercado.
Projetou-se, nessa linha de planejamento, a real situação de insol​va​bilidade de algumas instituições, as quais eram
obrigadas a tomar dinheiro emprestado diariamente, socorrendo-se desta prática bancária para honrar compromissos
assumidos. Diante de evidências marcantes, revelou-se um setor debilitado e prestes a entrar em colapso, exceto se
o governo se lançasse a campo para bloquear as ações que po​deriam minar seu plano de estabilização econômica.
O enxugamento provocado pela desindexação da economia e a redução gradual das atividades bancárias
solaparam diversas instituições financeiras públicas e privadas, dando os primeiros sinais inequívocos de que não se
encontravam in bonis, a partir de um quadro de insolvência, temperando uma contabilidade incorreta, agregada à
desestruturação reinante. Esse quadro alcançou várias instituições, como Banco Nacional, Banco Econômico,
Banespa, Banerj, Banorte, Bamerindus, Comind, Banco Santos e tantos outros que se mostraram refratários aos
critérios de transparência e racionalização no exercício das atividades, priorizando por essa vicissitude uma tática de
recuperação rápida, no propósito de evitar pânico ao mercado e fuga de investidores de capital externo, o que em
grande parte foi perdido na essência da crise, atacando a Bolsa de Valores, a partir da derrocada asiática,
espalhando-se pela Rússia e países emergentes.
O cenário mundial apresenta uma realidade de crise que deixa combalido o sistema de globalização, por fortes
exclusões sociais, fissura no tecido de conjugação da sociedade, e fluxos constantes de retiradas de capitais,
causando um esfacelamento na administração do modelo econômico.
Bem nesse pressuposto, agrega-se um período de forte instabilidade nos mercados, panorama vivido de acordo
com a recessão, restrição ao consumo, endividamento de países emergentes, além de um pretexto monetário que
derrui os pilares dos blocos grupais continentais.
E nem se justifica emprestar, sob o apanágio da crise sistêmica financeira, um alicerce aos valores empenhados
em pequenas instituições com o pressuposto de salvaguarda do mercado; a uma poderia ter sido melhor decretada a
liquidação, em segundo lugar o grau de contágio seria imperceptível, e por derradeiro a responsabilidade do Banco
Central é de ser chamada para explicar motivos subjacentes e de conotação subjetiva.
Transposta a primeira década do Plano Real, com pontos positivos e negativos, alcançou-se uma relativa
estabilidade da moeda e consequentemente do setor financeiro, abrangendo os bancos, com muitas privatizações,
incorporações e transferências dos ativos em carteira, fazendo com que houvesse um realinhamento geral da
atividade empresarial.
Os acordos internacionais visando solidez e as regras internas permitem uma amplitude conjuntural em torno da
realidade das instituições financeiras, indispensáveis ao crescimento e singularmente emblemáticas na política de
incremento ao crédito, ao lado do fomento de empresas.

173. Saneamento das instituições em dificuldade


O Plano Real, com o registro de sua primeira década, repita-se uma vez mais, ainda que não tenha sido seu
objetivo primordial, teve o grande mérito de revelar a fraqueza do Sistema Financeiro Nacional: bastou cortar o lucro
inflacionário, imaginário da abrupta correção monetária, típico fator da ciranda financeira, e reduzir a emissão de
papel-moeda, com a menor circulação, para se detectar como os bancos não são tão sólidos como se imagina
abstratamente.
A intervenção e a liquidação das instituições financeiras provocam uma indeterminada gama de problemas,
desinteressantes ao Governo Federal, diante das repercussões negativas sentidas, donde se conclui pela necessidade
de se agilizar um contexto normativo que fale em prol da recuperação dessas empresas em dificuldade, mesmo
porque não se subordinam diretamente ao regime de quebra, na linha de causa determinante da insolvência, mas ao
relatório final da administração imprimida pelo Banco Central, como fator inerente ao regime especial adotado.
Cogitou-se, dessa forma, na capitalização da instituição financeira, na transferência do controle acionário,
buscando a largos passos uma melhor reorganização societária, mediante os aspectos fundamentais da incorporação,
fusão ou cisão.
Envidou o Governo Federal esforço dedicado para que não acontecesse uma fratura no seu plano de
estabilização, e, dentro deste perfil, o próprio Banco do Brasil se viu na contingência de recuperar o capital perdido
com empréstimos e aplicações sem retorno, por meio das chamadas de aporte de capital, via subscrição, diante do
prejuízo que o balanço elaborado foi capaz de expressar.
Deu-se muita ênfase na preservação da empresa, mais no interesse mostrado pelo Governo do que propriamente
em uma política voltada para o cenário geral da atividade econômica. Surgiu o Programa de Estímulo à
Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER), sendo certo que o mecanismo
implementado foi de vital importância para a reorganização das instituições financeiras. Polpudas somas foram
gastas pelo Governo Federal, vários bilhões de reais, simplesmente com o desiderato de permitir a sobrevida das
empresas em crise, tornando-as aptas à agregação societária, sem esquecer da desapropriação como forma de
alienação do controle societário, preconizada na já citada Lei n. 9.447/97, que disciplina o assunto enraizado na
recuperação das instituições financeiras desaparelhadas no momento de crise.
Desde que se procure solucionar o problema sem desgaste de investimento e da poupança pública, a medida se
torna salutar, mas os reflexos emergentes imputam boa parte da responsabilidade ao Banco Central do Brasil, que
necessita de realinhamento na projeção da sua função e destaque primordial no papel da autonomia diretiva,
excluindo interferência e possível malogro decorrente de pressão política ou contrária aos interesses do mercado.
O deslocamento maciço de numerário para cobrir o rombo das imprecauções ditadas pela má gestão das
instituições financeiras repercute, sem sombra de dúvida, no endividamento interno, fazendo com que grandes
esforços sejam tentados, na elevação das restrições monetárias e no aumento das incidências fiscais,
comprometendo a produção e esvaziando o consumo.
Solucionar essa fenomenologia redunda na execução de medidas que consolidem o princípio que orientou a
omissão ou a ação prejudicial, dado que o instituto tem uma meta de recuperação, e a autarquia que supervisiona e
fiscaliza o mercado possui uma responsabilidade formal, a qual passa por um instante de remodelação e ajuste,
exigindo descentralização compatível com o rastro operacional.
Ao se deparar com a crise de instituições financeiras, principalmente públicas, o Governo tem lançado mão de
recursos para minimizar ou debelar a crise, e de perto o Banco do Brasil se permite adquirir o controle e, com isso,
alargar sua carteira com maior retorno, visando rentabilidade.
Naturalmente, as instituições públicas, bancos ou caixas precisam de parcerias, abertura de capital via oferta
pública, posto que não podem repousar ganhos fundados na folha de pagamento de servidores — reserva de
mercado — quando na realidade se divisam operações bancárias além das fronteiras.
Cumpre deixar claro que o padrão de risco é medido por normas internacionais, da Basileia, e cabe ao Banco
Central monitorar de perto este contexto, sem tensão, mas com o ritmo voltado para acompanhar eventuais
instabilidades, dando solução imediata, sem provocar reação em cadeia.

174. A responsabilidade real do Banco Central


O Banco Central do Brasil exerce o comando da política econômica e monetária, monitorando o mercado,
intervindo quando preciso, determinando um conjunto de medidas que se compatibilizem com o mecanismo de
estabilização da moeda e preservação sistemática dos interesses dos investidores.
Entrementes, os técnicos do Banco Central têm demonstrado letargia e falta de pulso na verificação do
problema, resultando em uma tomada de ordem que instabiliza o mercado ou privilegia determinada entidade. Não
cabe descer a detalhes, por não ser esse o objetivo específico deste estudo, mas a evidência denota que múltiplos
fatores pretéritos, do conhecimento direto do Banco Central, interferiram marcantemente na situação ruinosa de
algumas instituições financeiras, bastando para tanto invocar os casos do Banco do Estado de São Paulo (Banespa)
e do próprio Banco Nacional, sociedade anônima.
Conquanto tenha crescido o número de punições e multas aplicadas aos diretores e responsáveis pelo Banco
Central, inclusive impedimentos, não se materializou uma melhoria palpável, na verdade, a quantificação expressa
nos procedimentos administrativos é insuficiente na diretriz qualitativa da boa maneira de fiscalizar preventivamente
e poupar clientes e investidores dos maiores percalços.
Quando age contemplando operação prejudicial, ou quando se omite, na realidade deve o Banco Central
responder pelos prejuízos causados, dentro da relação de causa e efeito, em face do dano que permite infundir aos
investidores e poupadores. Cresce a tendência de se imputar ao Banco Central conotação de responsabilidade
objetiva, isto é, mesmo que indemonstrada a culpabilidade, estaria obrigado a indenizar pelo simples fato de ser
agenciador e autoridade incumbida de rastrear os dados recebidos, evitando instabilidade ou intranquilidade, que
certamente causa quando demora em imple​men​tar as medidas inadiáveis para sanear as empresas em dificuldade.
Se é certo que o convívio com a total irresponsabilidade das autoridades do Banco Central é nefasto e prejudicial
ao funcionamento sadio das instituições financeiras, o nascedouro d’uma responsabilidade objetiva serviria como
poderoso remédio para vitalizar a importância do papel que desempenha e colocar o mercado em estado constante
de alerta. A situação não se aplica somente às instituições financeiras, pela proliferação em demasia das cartas-
patentes, sem um critério mais objetivo, porém aos consórcios e a todas as demais entidades que para o respectivo
funcionamento dependem da sua autorização. Destarte, se a fiscalização e a vigilância tardam injustificadamente,
em detrimento do consumidor e do mercado que confiou naquela empresa, indiscutível ponderar que a causa do dano
proveio da conduta da autarquia federal. Cite-se o Plano Collor quando a correção monetária real foi escamoteada e
os julgados proferidos pelo Superior Tribunal de Justiça indicaram ser a responsabilidade do Banco Central e não das
instituições financeiras depositárias, provocando perda de tempo e de dinheiro dos poupadores que intencionavam
reaver seus investimentos ilegalmente deflacionados.
Em suma, o papel crucial desenvolvido pelo Banco Central no monitoramento das instituições financeiras e na
relevância que lhe é peculiar impõe uma tendência apta a lhe conferir, sob tal roupagem, típica responsabilidade
objetiva, cujo Código do Consumidor, na inversão do ônus da prova, traçaria obrigação de reparar o dano cometido
por ação ou omissão em relação a terceiros.
A imagem que se apresenta do Banco Central em relação ao usuário do sistema dinamiza uma estratificação
distante e abstrata, longe do seu campo de atividade prática, principalmente da divisão setorial de suas tarefas e das
medidas tomadas na condução de sua política destinada a preservar o sistema e apagar o incêndio, sabendo debelá-
lo, mas agindo preferencialmente de maneira preventiva.
Brota desse papel que divisa a posição teleológica do Banco Central maior aproximação com o consumidor,
determinando o cliente que se interessa pelos serviços prestados e a incompatibilidade com as regras estabelecidas.
Nesse sentido, nasceu um código bancário do consumidor que se entrelaça com o diploma normativo n. 8.078/90,
colocando em evidência predicados que enalteçam a posição do cliente no relacionamento com a instituição
financeira, abrindo um canal de comunicação.
Ramifica-se, por corolário, uma central de atendimento ao público do Banco Central que visa sobretudo
acompanhar o aperfeiçoamento das regras entre o mercado e o consumidor, dirimindo o conflito de interesse,
situando uma nova etapa de conquista em catalisar melhor resultado.
Bastante destacar que o Código de Defesa do Consumidor ladeado daquele de natureza bancária, ambos
disciplinam, sem exclusões ou conflitos, o novo campo de atividade que prioriza o comportamento da instituição
frente ao seu cliente.
Consequentemente, ganha corpo um típico conceito que realça as limitações, de um lado, e os direitos
paralelamente dispostos, de outro, no desafio de reduzir os entrechoques, ganhar maior transparência nas operações
bancárias e, principalmente, estabelecer um controle acentuado de um contexto em que os preceitos evoluem na
dinâmica de uma moderna e insuperável tecnologia.

175. As restrições fiscais impostas às instituições financeiras


A derrubada da crônica inflação e a redução drástica da remuneração aplicada ao capital, além de dotarem as
instituições financeiras de maior transparência, fizeram com que os balanços refletissem seu real estado econômico,
sem meias-verdades ou falácias que maquiavam seus levantamentos contábeis. Dito isso, sobreveio o diploma
normativo n. 9.249, de 26 de dezembro de 1995, que contemplou disciplina específica relativa à legislação do imposto
de renda das pessoas jurídicas, vedando a utilização de qualquer sistema de correção monetária de demonstrações
financeiras, mesmo para fins societários.
Destarte, supresso o lucro inflacionário, rapidamente as instituições financeiras puseram cerce à prática nociva
de ingredientes perversos que apenas continham dados imprecisos de um virtuosismo irreal.
Demais disso, recentemente o Supremo Tribunal Federal vedou que as instituições financeiras declarassem
créditos duvidosos de empresas em dificuldade econômica, fazendo com que tal possibilidade fosse exclusiva diante
da decretação da quebra dos tomadores do capital.
Essas duas medidas refletem uma nova realidade que não pode ser interpretada sem a reinserção no cenário da
possível restrição aos cheques, mediante aprovação do imposto que traria uma alocação de recursos destinados à
saúde pública.
Chegamos a um estágio onde os privilégios de setores estanques devem ser cortados, não se justificando mais
uma política fiscal que priorize a atividade financeira e menospreze a produtiva, cujo entrechoque abre séria dúvida
sobre o propósito abraçado pelo Governo, a par de ter injetado recursos incontáveis na reorganização de diversos
bancos, em detrimento dos programas sociais.
Bem de ver que restam ainda diversas medidas a serem tomadas, a começar pelo aumento dos depósitos das
instituições financeiras junto ao Banco Central, passando pelo gradual enxugamento via incorporação, cisão, fusão,
ou mesmo liquidação, chegando à diretriz segura na imposição de maior taxação dos lucros financeiros, única forma
de redistribuição da riqueza na conquista e na esperança de um porvir onde se anseia por maiores igualdades sociais.
Cogita-se ainda do aumento da tributação do imposto de renda das instituições financeiras, na parcela de
participação e no empenho de cobrir o grande endividamento do governo e, outrossim, para alavancar recursos
inevitavelmente indispensáveis aos programas de finalidade social.
É prioritário que a tributação seja considerada sob duplo aspecto: de um lado, agregando a atividade, e, de outro,
na considerada remessa de lucro e fruição do benefício, diante da cotização do capital estrangeiro, que integra o
sistema bancário e desperta uma nova realidade, tanto na modelagem como na definição das regras que dizem
respeito à concorrência.
A massa de recursos alocados e os investimentos que simbolizam uma fatia maior do mercado refletem a
dinâmica das regras da livre concorrência, porém o crescimento sustentado impõe um resguardo compatível e
conciliável com os interesses, donde se pode acenar com os encargos sociais que incidem na prestação do serviço,
além daquilo que se convencionou chamar participação nos resultados, cabendo pôr em prática a posição do
comando, sem reaplicação ou distribuição dos dividendos desarmônicos com o alcance e a grandeza da instituição
financeira.
Induvidoso ponderar que promanam das reformas fiscal e tributária os fundamentos dos subsídios voltados para
que o sistema financeiro como um todo seja arejado e atinja sua finalidade social, cujo lucro obtido deve ser
realocado no interesse maior da coletividade, reduzindo-se aquele percentual reinvestido sem qualquer retorno em
prol do bem comum.
Os interesses políticos, uma vez, falaram mais alto, não desencadeando a pretendida e propalada reforma
tributária; afora isso, os ganhos das instituições financeiras se mostraram extremamente vultosos, pelo aumento
desmesurado da cobrança de tarifas, expondo o consumidor a uma situação sem opção, afora diversas demandas
judiciais que significativamente discutem contratos, responsabilidade e o próprio aspecto da vulnerabilidade.
Com a edição da Emenda Constitucional n. 40/2003, conseguiu-se atribuir maior autonomia e independência de
política monetária e fiscal ao Banco Central; entretanto, por si só, é indispensável que sua reforma alcance condição
suficiente para se desvincular, por completo, das diretrizes governamentais.
Com razão, a taxa de juros é reflexo direto e determinante do medo de não se alcançar a meta inflacionária, ao
lado do perfil da dívida pública, somado à gravidade da conjuntura interna e externa, reduzindo o patamar de
crescimento, em detrimento da criação de condições favoráveis à expansão do crédito.
O Brasil, nas últimas duas décadas, vem perdendo, de forma sistemática, terreno propício ao crescimento e
desenvolvimento, em função da elevada taxa de juros e de um programa nada flexível a cargo da autoridade
monetária, cuja posição intransigente leva ao congestionamento e respectivo engessamento da economia.
Na dialética de juros elevados e mercados abertos, tudo indica o financiamento da dívida pública, cujos gastos
não são controlados, introduzindo um viés contrário à fonte de receita, daí por que, sem melhor contenção da
máquina administrativa, muito pouco se conseguirá em termos macroeconômicos.
A prática dessa política cega de juros permanentes, a custo de manter inflação controlada e plano de metas, ao
lado de os spreads também se encontrarem em idêntico patamar, tudo isso faz com que os investimentos na
produção se mostrem decrescentes.
Enquanto nações desenvolvidas investem pesadamente no crescimento, os bancos não diluem seus lucros para
as empresas e estas ficam sem capital de giro destinado à tecnologia e desenvolvimento, engessando a liquidez e
comprometendo o futuro.
Conquanto tenha o Governo limitado a taxa de juros no empréstimo consignado, sob protesto das instituições, a
medida deveria servir de parâmetro para o mercado e termômetro das iniciativas do Banco Central em prol da
atividade empresarial.
É muito intrigante abrir as torneiras para o financiamento indeterminado e indiscriminado de todas as faixas da
população, não se praticando mais o salutar consumo à vista, porquanto os departamentos, cadeias e lojas, amiúde se
transformaram em financeiras interessando-se pelo parcelamento a médio e longo prazos.
Dicotomicamente, com o esfacelamento lento e gradual da classe média — opção governamental — a política
pública encampa uma frenética campanha adjetivando ao consumo que se alimenta de taxas de inadimplência cada
vez mais fortes.
Romper o imobilismo significa desviar e reduzir o poder da moeda em capital produtivo, no sentido de haver
proporção substancial entre aquilo que as instituições financeiras lucram e o resultado prático drenado para a
atividade empresarial.
27
A CRISE BANCÁRIA E SUA REGULAMENTAÇÃO

Sumário: 176. Sinais da crise e o risco do mercado. 177. Privatização e internacionalização do setor. 178.
Disciplina normativa societária. 179. Regulamentação e flexibilização estatal. 180. Medidas administrativas e o
Judi​ciário.

176. Sinais da crise e o risco do mercado


Num primeiro momento, quando todos acreditavam que as dificuldades apresentadas pelo sistema financeiro
eram localizadas, numa dimensão particularizada do caso, fortes impactos advieram da instabilidade do mercado
internacional, provocando auxílios e colaborações de agentes econômicos, no superamento dessa realidade que inibe
os investimentos e dinamiza seus efeitos como uma ação sem precedentes.
O exemplo com o crédito hipotecário americano subprime, comprova que o excesso de liquidez do sistema pode
ser confundido concretamente na obtenção de repasses aos consumidores finais, desprovidos de suporte, e os fundos
podem ser afetados, na tomada rápida de posição no resgate das aplicações.
Sobreditas operações bancárias, em particular, e o quadro geral moldam a preocupação maior de transparência,
fiscalização e soluções imediatas conhecidas para redirecionar a crise e minorar sua impactação.
Não fossem os posicionamentos eficientes, imediatos e diretos dos Bancos Centrais para situarem menor risco,
alavancando recursos e drenando as falhas do excesso de liquidez, o estouro da bolha poderia ter consequências
imprevisíveis.
Nada pior do que a derrocada do banco e sua situação falimentar, que gera efeito cascata, atinge outras
instituições e leva risco e insegurança para todo o mercado, fazendo crescer a preocupação internacional no ditar
regras que eliminem o pânico de imprevisíveis impactos da falta de liquidez, tanto em países desenvolvidos como
naqueles nessa direção.
E não importa o porte do Banco insolvente, uma vez que a probabilidade de contaminação do setor é muito
grande e, com isso, ocorre o esvaziamento da credibilidade do cliente, no sentido de reduzir investimentos e
aplicações, em razão da instabilidade correlata à desconfiança presente.
As regras delineadas pelo Comitê da Basileia começam a experimentar modificações e flexibilizações mais
apropriadas ao mercado, ponderando que a metodologia se concentra no aspecto do risco. Sobressai evidente o
perigo de que tomadores cada vez mais não possam pagar os juros e não consigam sequer adimplir o principal. O
padrão de segurança previa uma reserva de contingência de, no mínimo, 8%, referente ao global das carteiras de
empréstimo, índice contudo que passou a revelar inconsistência.
Naturalmente, os empréstimos realizados junto ao mercado europeu são de menor risco do que os destinados aos
países em vias de desenvolvimento; porém, a partir da década de 90, com o atingimento de situações delicadas, em
que grandes conglomerados financeiros quase foram à bancarrota, houve maior cuidado na administração das
carteiras de valores empenhados, a partir de novas mudanças com outras incursões vindas da Ásia, o que fez com
que o Comitê da Basileia, formado pelos presidentes dos principais Bancos Centrais do Mundo, diagnosticasse que
inúmeros bancos identificam os empréstimos de baixo risco na carteira dos ativos, fugindo dos padrões
estabelecidos. Todavia, a bem da verdade isso não se apresenta exato.
O risco de menor implicação é um aspecto mutável e de significação indefinida na conjuntura atual. Alguns
bancos operam com uma reserva de três vezes o valor da carteira recomendado na substanciação das regras
internacionais, mas as influências na descentralização dos recursos e no aumento da inadimplência parecem ter color
específico no setor local.
Com razão, o mercado bancário brasileiro não escapou dessa realidade. Grandes instituições que buscaram o
caminho da popularidade na captação de maior clientela não lograram êxito na reengenharia das finanças, havendo
uma implosão do fator ina​dim​plência, sem falar ainda nas administrações destoantes da finalidade principal, nas quais
as mazelas somente vieram a público depois da constatação pelas autoridades do Banco Central.
Essa renegociação da carteira ligada ao surto do inadimplemento é o grande desafio, tendo-se realizado leilões e
promovido a recompra desses passivos para que pelo menos uma parte seja cobrada judicialmente da maneira mais
rápida, eficiente e com bons resultados.
Vista a matéria sob o ângulo nacional, o Governo foi obrigado a criar um programa que contivesse recursos para
soerguer com injeção financeira as instituições que estavam à deriva; bilhões de reais se destinaram à finalidade
exclusiva de evitar um efeito cascata, priorizando o saneamento a curto prazo em função da circunstância e do
interesse de transferir o controle acionário.
A normatização da matéria é bastante deficiente, motivando a edição de inúmeras medidas provisórias que
disciplinassem o assunto; porém, sem uma completa reforma bancária e a revisão do modelo de administração
provisória e de intervenção na liquidação extrajudicial, continuarão os problemas a fazer uma caixa de ressonância,
cujas dimensões ainda são desconhecidas.
Concretamente, o estado de dificuldade econômico-financeira dos setores público e privado se desvencilhou da
correta e tempestiva supervisão do Banco Central; por tal fato, os balanços nada dispunham que pudesse inspirar
credibilidade, plúrimas contas eram fictícias, além das operações no mínimo duvidosas no sentido de favorecimento
pessoal dos administradores.
Dissemos que o Plano Real teve uma virtude substancial ao colocar o dedo na ferida e revelar essa marcante
vicissitude, mas, ao querer reduzir lucros provenientes da aplicação de princípios contábeis, seguramente o governo
não poderia marcar passo e assistir sem uma intervenção mais enérgica e que produzisse resultados eficientes,
valendo-se dos exemplos de outras nações que naufragaram quando o sistema bancário entrou em colapso.
Os indicativos desta crise se agitam na expectativa dos investidores realizarem seus lucros, os poupadores
zerarem suas contas, os acionistas minoritários assinalarem o recesso, e uma série de medidas que perdem
substância diante do procedimento de administração especial provisória ou, em último caso, da própria liquidação, se
impossível o saneamento da empresa.
Evidente, portanto, que o mercado se comporta nervoso em razão da dúvida, e quando o Banco Central não age
ou o faz tardiamente é o governo que, com o dinheiro do contribuinte, aparecerá para o pagamento da conta. Define-
se, pois, a crise como sendo uma situação pela qual a instituição financeira se depara, cuja liquidez fica relegada e
ocorrem variantes internas que pedem o empenho interbancário ou do Banco Central, consequente do socorro para
o fechamento diário das contas, contratos e demais negócios.
A manutenção delongada da paridade cambial encontrou seu limite de sustentação quando sucedeu a
desvalorização da moeda e as reações do mercado foram as mais imprevisíveis possíveis, na discussão entre banda
fixa e flutuação; enquanto as autoridades lutavam para encontrar um denominador comum, a maxidesvalorização
assustou o mercado, e as instituições financeiras, alegando prejuízo incontornável, solicitaram auxílio do Banco
Central.
Esta situação pendular, em nada modificada ao longo dos tempos, e despontando como marco das relações entre
público e privado, demonstraram que instituições financeiras sem porte ou peso no cenário nacional receberam
privilégios, por informações e ajudas efetivas, ao passo que outras, valendo-se das observações dos dados obtidos,
compraram moeda estrangeira, na expectativa da súbita valoração, prejuízo que amargou o mercado e ressoou na
economia, que ainda ressente os respingos, invariavelmente pelos riscos dos Países emergentes.
Definitivamente, a ausência de planejamento e da previsão de objetivos claros, na catalisação de subsídios,
provoca reações inconscientes dos investidores, enquanto o Banco Central não revela a capacidade estrutural e
demonstra seu papel insubstituível na política monetária.
Contudo, a anomalia e a mudança da direção administrativa trouxeram à baila o grave problema da informação
interna que é vazada e transmitida aos que ganham com a especulação e vestem a capa da desfaçatez no momento
da responsabilidade, sendo inadiável uma reforma do papel do Banco Central, sua autonomia e um código de ética
na visão do administrador público.
Impotente para debelar o pânico e lerdo na aplicação de medidas preventivas, toda a desorganização do Banco
Central implicou a instabilidade proveniente e a séria rediscussão das atividades desenvolvidas, com maior margem
de incidência da responsabilidade, inclusive de ordem objetiva, em razão dos interesses coletivos e difusos
pulverizados.
Um conjunto de medidas somado aos impactos emergentes e instrumentos de controle, toda esta circunstância
indica um papel de antecipação dos resultados na dicção de priorizar metas, estabelecendo compromissos sociais.
Consequentemente, salutar seria se pudesse a autoridade regulamentadora do mercado exercer seu poder de
forma preventiva, ou pelo menos dentro dos limites que minimizassem as circunstâncias do acentuado prejuízo, que é
uma realidade imutável, tanto pelo afastamento dos administradores como pelas restrições de créditos, proibição de
rolagem da dívida e obtenção de empréstimo no exterior.
Ao tomar pulso da situação numa ocasião em que a iliquidez é gritante, com a dilapidação patrimonial, nada resta
ao Banco Central exceto monitorar o grau de endividamento e, no menor espaço de tempo possível, conseguir a
transferência do controle, mediante fusão, incorporação, ou qualquer outra técnica societária, ou então liquidar de
vez aquela instituição inviável.
As medidas de regulação do mercado como um todo, sem sombra de dúvida, dizem respeito ao contexto nacional
e internacional da economia, com a oferta de novos produtos, ou serviços, mantendo o grau de concorrência, e
proclamando, ao mesmo tempo, uma competição salutar que permita escolha e dimensão precisa em torno da
clientela.
Discute-se a desregulamentação para diversos segmentos e o impacto das medidas que engessariam o mercado,
mas no setor financeiro, e bancário, principalmente, quando se lança mão de meios complexos, na realidade o que
acontece é uma preocupação que penaliza o interessado na consecução do serviço ou produto.
Numa visão macro é perfeitamente admissível pontuar aspectos que norteiam a política monetária, e no ângulo
micro sinalizar algumas variantes que se referem à modernidade do sistema, não emperrando o desempenho do
papel funcional em atenção à clientela.
As chamadas políticas de curto prazo mostram-se exigentes, mas aquelas adequadas de longo prazo fazem-se
indispensáveis, no sentido de amealhar definição, conotação da realidade, e principalmente preconizar uma
metodologia estabelecida independentemente das oscilações provocadas pelas crises.
Naturalmente, protegem-se as operações bancárias, criam-se mecanismos de transferência em tempo real,
acesso à rede informatizada, os contratos eletrônicos ganham corpo, os bancos postais, convênios se enraízam, tudo
isso para demonstra