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Rui Costa

Governador

João Leão
Vice governador

José Geraldo dos Reis Santos


Secretário do Meio Ambiente

Iara Martins Icó Sousa


Chefe de Gabinete

Márcia Cristina Telles de Araújo Guedes


Diretora Geral do INEMA

Aderbal de Castro Meira Filho


Superintendente de Políticas e Planejamento Ambientais - SPA

Luiz Antônio Ferraro Junior


Superintendente de Estudos e Pesquisas Ambientais - SEP

Kitty de Queiroz Tavares


Diretora de Estudos Avançados em Meio Ambiente - DEAMA/SPA

Jabson Machado Prado


Diretor Geral

Eva Cristina de Castro Borges


Assessoria de Planejamento e Gestão - APG

Ivone Maria de Carvalho


Coordenadora do PDA e Assessoria Especial

Rodolfo Souza Araujo Neto


Coordenação de Gestão Organizacional e de TIC - APG

Ana Paula Porto Santos


Coordenadora de Comunicação da Assessoria de Comunicação Ascom/SEMA

Equipe da Deama
Alexsandro Silva Santos, Cassiana Marchesan, Felipe Bastos Lobo Silva, Ilyuska Makarya
Rodrigues Barbosa, Isabela Souza Santana, Luís Fabrício Moura Viana Santos, Maíra Alves
dos Santos, Patrícia Rabelo Nunes da Silva, Zoltan Romero. Estagiários: Yanka Schramm
Oliveira, Talita Jesus da Silva, Veronisse Leite De Oliveira. Colaboradores: Carlos Augusto
Costa Dos Santos Junior, Tiago Jordao Porto Santos, Luzia Luna Pamponet Vilas Boas, Larissa
Cayres De Souza, Joseval Souza De Almeida, Adriano Cassiano Dos Santos, Lorena de Jesus
Barbosa.

Elaboração
Carolina Marques Guilen Lima e Dan de Oliveira Lima
2.2. Dinâmica de Sistemas ................................................................................................................. 13

3. AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL - AIA ............................................................................... 17


3.1. Conceitos importantes em AIA ................................................................................................... 18
3.2. Metodologia Geral de AIA........................................................................................................... 19
3.3. Ferramentas para aplicação de AIA ............................................................................................ 21
3.4. Atributos mais usados ................................................................................................................. 21
3.4.1. Natureza ......................................................................................................................... 22
3.4.1.1. Expressão .......................................................................................................... 22
3.4.1.2. Origem ............................................................................................................... 22
3.4.1.3. Cumulatividade e Sinergismo ............................................................................ 23
3.4.2. Dimensão temporal........................................................................................................ 24
3.4.2.1. Prazo .................................................................................................................. 24
3.4.2.2. Frequência ......................................................................................................... 25
3.4.2.3. Duração ............................................................................................................. 25
3.4.2.4. Reversibilidade .................................................................................................. 25
3.4.3. Dimensão espacial ......................................................................................................... 26
3.4.3.1. Abrangência ...................................................................................................... 26
3.5. Áreas de influência ...................................................................................................................... 27
3.5.1. Roteiro para delimitação conjunta de áreas de Influência: ........................................... 30
Secretaria do Meio Ambiente Sema
Superintendência de Estudos e Pesquisas Ambientais SEP 3.6. Indicadores Ecológicos ................................................................................................................ 31
Diretoria de Estudos Avançados em Meio Ambiente Deama
3.6.1. Meio Físico ..................................................................................................................... 33
Av. Luis Viana Filho, 3ª Avenida, n° 390, Plataforma IV, Ala Norte, 4º andar Centro Administrativo
da Bahia - 41.745-005 - Salvador Bahia 3.6.2. Meio Biótico ................................................................................................................... 33
Telefone: (71) 3115-9813/3801 - Fax: (71) 3115-3891 3.6.3. Meio Antrópico .............................................................................................................. 34
http://www.sema.ba.gov.br // e-mail: deama@sema.ba.gov.br

4. IMPACTOS CUMULATIVOS E SINÉRGICOS................................................................................... 35


4.1. Tragédia dos comuns .................................................................................................................. 35
2017
4.2. Conceitos e terminologia ............................................................................................................ 37
SUMÁRIO 4.2.1. Impacto cumulativo ....................................................................................................... 38
4.2.1.1. Perda de biodiversidade por desmatamento: .................................................. 38
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 8
4.2.1.2. Bioacumulação de mercúrio: ............................................................................ 38

2. O MEIO AMBIENTE VISTO COMO UM SISTEMA ......................................................................... 10 4.2.2. Impacto sinérgico ........................................................................................................... 38

2.1. Conceitos de pensamento sistêmico .......................................................................................... 12 4.2.2.1. Ozônio troposférico........................................................................................... 38

2.1.1. Limites ............................................................................................................................ 12 4.2.2.2. Emissão de dioxinas e outras substâncias tóxicas ............................................ 39

2.1.2. Hierarquia ...................................................................................................................... 12 4.2.2.3. Expansão urbana desordenada ......................................................................... 39

2.1.3. Complexidade ................................................................................................................ 12 4.3. Modelo conceitual de impactos cumulativos ............................................................................. 40


5. avaliação integrada de IMPACTOS socioambientais ................................................................... 46
1. INTRODUÇÃO
5.1. Fundamentação jurídica ............................................................................................................. 47
5.2. Aplicação da Avaliação de Impactos Integrada .......................................................................... 50 Grandes questões ambientais da atualidade, como a perda de biodiversidade e as
5.3. Métodos empregados na Avaliação Integrada ........................................................................... 52 mudanças climáticas, são resultado de uma combinação de efeitos de ações humanas
5.4. Ferramentas disponíveis para Avaliação Integrada .................................................................... 54 sobre a natureza. Quando tomadas pontualmente, essas ações não parecem oferecer
5.5. Roteiro para Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais ............................................... 58 dano grave ao meio ambiente. Porém, quando seus impactos se combinam aos de
5.5.1. Delimitação do sistema ambiental a ser estudado: ....................................................... 59 outras atividades, as consequências ambientais tornam-se seriamente prejudiciais.
5.5.2. Diagnóstico e classificação das informações ambientais disponíveis:........................... 60
5.5.3. Mapeamento dos impactos individuais e cumulativos e sinérgicos: ............................. 61 Nesse contexto, criou-se o termo Avaliação Ambiental Integrada, estudo que busca
5.5.4. Valoração dos impactos: ................................................................................................ 61 analisar a interação entre os impactos de diversas atividades em conjunto, ao que
chamamos de impactos cumulativos e sinérgicos, ou seja, impactos que se sobrepõem
5.5.5. Comunicação de Resultados: ......................................................................................... 63
e que interagem uns com os outros de diversas maneiras.
6. CONCLUSÃO ................................................................................................................................ 64
Trata-se de um campo de estudo ainda recente, a terminologia ainda é ambígua e a
7. Referências Bibliográficas ........................................................................................................... 65 metodologia incipiente. Ainda há um longo caminho a ser percorrido, tanto no
aprofundamento teórico quanto no desenvolvimento de métodos e ferramentas
8. ANEXOS ....................................................................................................................................... 68
desenhados especificamente para avaliar impactos cumulativos e sinérgicos. Não
8.1. ANEXO I ....................................................................................................................................... 68
obstante, alguns estudos de caso podem ser usados para ilustrar e inspirar novos
8.1.1. Modelos de Matrizes de AIA .......................................................................................... 68 trabalhos na área. Métodos de avaliações multicritério para apoio a decisões e
8.2. ANEXO II ...................................................................................................................................... 72 ferramentas como sistemas de informação geográfica e softwares de modelagem
8.2.1. Critérios conceituais para aferição de magnitude de impactos. ................................... 72 ambiental já estão disponíveis e têm sido testados com sucesso para a avaliação
socioambiental integrada.

O Licenciamento Ambiental no Brasil poder ser considerado bastante completo,


porém, apesar de a legislação prever a necessidade de se fazer a avaliação de impactos
cumulativos e sinérgicos, enfoques integrados em Estudos de Impacto Ambiental (EIA)
são raros. Quando existem, são em sua maioria abordagens qualitativas, escritas pelos
técnicos ou coordenadores do estudo, buscando uma avaliação global com base nos
impactos identificados para um empreendimento específico. Enfoques quantitativos,
baseados em metodologias próprias, ainda são escassos.

É importante que os sistemas de licenciamento incorporem processos que exijam


avaliações integradas dos impactos de sinergia externa, ou seja, aqueles derivados da
instalação de vários empreendimentos num determinado local ou região (Figura 1).
Atividades estão sendo licenciadas com base em avaliações individuais de cada
empreendimento, sem que haja uma análise sistemática dos impactos cumulativos e
sinérgicos. Nesta apostila, buscamos reunir as principais informações e o

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conhecimento técnico acumulado ao redor do tema de Avaliação Integrada de
Impactos Socioambientais, de forma a permitir o estudo sobre o assunto e uma 2. O MEIO AMBIENTE VISTO COMO UM SISTEMA
introdução às principais tecnologias e métodos disponíveis para aplicá-lo.
A ecologia é a ciência que estuda os seres vivos, o ambiente que os abriga e as
interações entre eles. Com esse objetivo desafiador, a ecologia empresta conceitos da
Figura 1. Polo industrial de Camaçari, exemplo de conjugação de empreendimentos que causam
Teoria de Sistemas para investigar a natureza, como vamos ver a seguir.
impactos sinérgicos, demandando avaliação ambiental integrada.

A teoria de sistemas procura enxergar o mundo como constantes trocas de matéria,


energia e informação, consistindo assim num modelo interessante de representação
da realidade que permite encontrar padrões e tendências nos sistemas naturais e
humanos. De fato, o meio ambiente pode ser considerado um sistema, em vários
níveis. Sistemas são unidades formadas por elementos que interagem entre si de
forma organizada. Dessa forma, uma população é um sistema cujos elementos são
indivíduos da mesma espécie, comunicando-se, competindo por recursos e se
reproduzindo (interações organizadas). Um ecossistema, por sua vez, é um sistema
formado pelas comunidades (sub-sistemas) compostas por várias espécies interagindo
entre si e com o meio físico (abiótico) que as abriga. A vida, em vários níveis, de célula
à biosfera, pode ser entendida como sistemas dentro de sistemas (Figura 2, Figura 3).

Figura 2. Hierarquia dos sistemas ecológicos.

Fonte: http://www.coficpolo.com.br/

Fonte: NUNES, www.faqbio.blogspot.com

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Figura 3. Diagrama dos níveis de organização na ecologia. 2.1. Conceitos de pensamento sistêmico
Biosfera
A seguir são apresentados alguns conceitos de pensamento sistêmico importantes na
Biomas avaliação de impactos cumulativos e sinérgicos.

Paisagens
2.1.1. Limites
Ecossistemas
Ao se estudar um modelo complexo como os sistemas naturais, é importante definir
Comunidades quais são os limites espaciais e temporais que estão sendo considerados. Por exemplo,
na avaliação de impactos ambientais de uma mina, estão sendo analisados impactos
Meta-populações
na extensão da bacia hidrográfica, do município, ou apenas um buffer em torno da
Populações mina? E os impactos estão sendo previstos em que horizonte de tempo? Cinco anos?
Trinta anos? Impactos cumulativos e sinérgicos tendem a acontecer em escalas
Indivíduos maiores, portanto a avaliação integrada de impactos deve ser feita numa área de
estudo e num horizonte temporal maiores que aqueles da avaliação de impactos
Fonte: elaboração própria.
tradicional.

Na realidade, os sistemas naturais são em geral sistemas complexos, pois são


compostos por grande quantidade de componentes em interação constante, capazes 2.1.2. Hierarquia
de trocar informações interna e externamente (com outros sistemas vizinhos). São
capazes, ainda, de adaptar sua estrutura interna em consequência de perturbações Como dito anteriormente, na natureza vemos sistemas funcionando dentro de
externas, como no caso de impactos ambientais. Por exemplo, quando um rio recebe sistemas maiores. Essa hierarquia ajuda a definir a abrangência espacial e temporal da
pequenas quantidades diárias de poluente, os microorganismos daquele ecossistema, análise, bem como o nível de complexidade e abordagem a ser utilizada. Por exemplo,
-o em avaliações de impactos tradicionais costumam envolver levantamentos de campo, que
moléculas menos prejudiciais. Essa capacidade de ajustar-se voltando ao equilíbrio é buscam caracterizar populações, comunidades e ecossistemas. Já para avaliações de
chamada homeostase, e ocorre em todos os sistemas vivos, incluindo nosso próprio impactos cumulativos e sinérgicos, tais como perda de biodiversidade e extinção de
corpo. A homeostase é uma das características dos sistemas complexos vivos, que espécies, é necessário analisar níveis hierárquicos superiores, como meta-populações,
pode ser encontrada em todos os níveis, desde o organismo até a biosfera. paisagens e bioma. Nesses níveis hierárquicos, o levantamento de dados em campo
pode ser inviável, sendo necessário empregar outras técnicas, como sensoriamento
Essa e outras características de sistemas são estudadas à luz da matemática, física, remoto e modelagem ambiental.
química e biologia. Admite-se que nesses sistemas a probabilidade, a aleatoriedade e o
caos atuam de forma a tornar difícil prever o seu comportamento. Se antes entendia- 2.1.3. Complexidade
se o universo de forma mecanicista e linear, a teoria de sistemas complexos permite
estudar a natureza e seus sistemas de modo mais realista, ou seja, como sistemas não- A complexidade de um sistema é definida pela quantidade de interações e feedbacks
lineares, dinâmicos e caóticos. que ocorrem entre seus elementos. Assim, paisagens, biomas e biosfera (sistemas de
níveis hierárquicos maiores) são mais complexos que ecossistemas, comunidades e
populações individualmente. Impactos sobre sistemas mais complexos podem
interferir em diversos elementos e processos ao mesmo tempo, causando mudanças

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funcionais e estruturais difíceis de serem analisadas. Por isso, a avaliação de impactos de auto-regulação (homeostase) do sistema receptor foi ultrapassada, e o sistema
integrada é mais desafiadora que a avaliação de impactos tradicional. entrará em um novo estado, o de uma área degradada.

2.2. Dinâmica de Sistemas Figura 5. Desflorestamento por queimada.

A Dinâmica de Sistemas estuda o comportamento dos sistemas, em especial os


complexos. Conceitos como auto-organização, estabilidade, resistência, resiliência e
limiar crítico são derivados dessa área do conhecimento. Todos os sistemas possuem
um estado, que é a dinâmica natural de um sistema em equilíbrio (Figura 4). Por
exemplo, uma floresta tropical não perturbada pode ser considerada em equilíbrio
dinâmico. O tempo todo estão ocorrendo interações entre seus elementos
(fotossíntese entre atmosfera e as plantas, teias alimentares entre os seres vivos, ciclo
do nitrogênio, etc.), e ocasionalmente pequenas perturbações podem ocorrer, como a
abertura de uma clareira pela queda de uma árvore ou pequenos incêndios acionados
por raios em tempestades. Mesmo com todos esses processos que caracterizam a
floresta como um ecossistema vivo, ela continua a ser o que é: uma floresta tropical
não perturbada. Fonte: Antonio Cruz @ccommons

Nesse exemplo, o incêndio florestal age como uma perturbação do equilíbrio do


Figura 4. A floresta tropical é um exemplo de um sistema em equilíbrio dinâmico.
sistema florestal, a um ponto além de sua capacidade de se reequilibrar. Há diversas
outras perturbações possíveis, como poluição do ar, da água e do solo, fragmentação
de habitat, dentre outros, com efeitos de diferentes intensidades sobre os sistemas
ambientais receptores. Dependendo da sua intensidade e da vulnerabilidade do
sistema que os recebe, esses impactos podem levar ou não ao desequilíbrio desse
sistema. Isso ocorre porque perturbações podem afetar sistemas naturais de diversas
formas:

Absorção: o sistema absorve a perturbação sem se mover de seu estado de


equilíbrio

Adaptação: o sistema sofre ajustes em seus processos para se adaptar à


perturbação, mas mantém sua estrutura geral, e portanto continua no mesmo
Fonte: Mario C. Bucci. Vista Parque Naciona e Histórico do Monte Pascoal @Ccommons
estado.

Porém, vamos imaginar que num período de estiagem o proprietário de uma terra
Assimilação: quando a perturbação ultrapassa um limiar crítico, sendo mais
vizinha à floresta provoca um incêndio, que foge ao seu controle (Figura 5). A
intensa do que a capacidade do sistema resistir ou se adaptar, então o sistema
queimada pode causar tantas perturbações ao ecossistema (carbonização do solo
muda completamente, entrando em um novo estado de equilíbrio.
superficial, prejuízos à fisiologia das plantas, morte de mudas e animais, etc.) que
vários processos e elementos serão mudados irreversivelmente. Então, a capacidade

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Para entender esses processos, é importante destacar dois termos da Dinâmica de Todas essas características estão presentes nos sistemas ambientais, que, em sua
Sistemas muito usados para se estudar questões ambientais sob a ótica do essência, correspondem aos sistemas que envolvem a vida no planeta.
pensamento sistêmico:
De forma genérica, esses sistemas que suportam e incluem a vida são conhecidos
Resistência: é a capacidade de um sistema sofrer perturbações sem se alterar Na legislação brasileira, meio ambiente é conceituado como
(Erro! Fonte de referência não encontrada.). Por exemplo, a Mata Atlântica é mais
esistente a queimadas do que o Cerrado, já que sua umidade interna repele o fogo. (Lei Federal
6.938/1981). Apesar de dar ênfase aos processos e regras que regem o sistema, está
Resiliência: é a capacidade de um sistema, ao sofrer perturbações que interfiram claro que a definição engloba também os elementos que participam desse sistema,
nos estados de seus elementos internos, retornar a seu equilíbrio original (Erro! sejam eles abióticos (solo, rochas, etc.) ou bióticos (seres vivos em todas as suas
onte de referência não encontrada.). Por exemplo, o Cerrado é mais resiliente a formas).
fogo que a Mata Atlântica, pois, apesar de pegar fogo facilmente, as plantas desse
bioma regeneram-se rapidamente após um incêndio. Para o estudo dos impactos sinérgicos, consideramos que meio ambiente engloba o
chamado tripé da Sustentabilidade, que inclui os aspectos abióticos, bióticos e
antrópicos (toda a cultura material e imaterial da sociedade humana). Neste contexto,
Figura 6. Gráfico que ilustra a resistência e a resiliência de um sistema diante de perturbações.
sempre que nos referirmos a impactos sinérgicos estaremos considerando as três
Perturbação dimensões bem como os processos e interações entre essas três faces dos sistemas
Amplitude normal ambientais.
de operação
FUNÇÃO DO ECOSSISTEMA

Resistência
Medida da

Medida da
Resiliência

TEMPO
Fonte: Elaboração própria adaptado de Odum, 2007

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3. AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL - AIA 3.1. Conceitos importantes em AIA

A avaliação de impactos ambientais (AIA), em inglês Environmental Impact Assessment AA I A processo de exame
(EIA), é o termo dado à análise e mensuração das consequências de atividades (Sanchez, 2006). Esse
humanas sobre o ambiente. Trata-se de um instrumento de gestão ambiental termo foi cunhado nos Estados Unidos, pelo National Environmental Policy Act NEPA,
incorporado pelos governos de diversos países nas políticas públicas voltadas para a que constitui a legislação pioneira nesse assunto mundialmente, datada de 1969. A
conservação do meio ambiente. A AIA é geralmente feita para um empreendimento partir dessa lei, outros países adotaram o mesmo modelo conceitual e metodológico,
único, dentro de um processo de licenciamento ambiental (AIA de projeto). destacando-se o Canadá, Reino Unido e Austrália.

No Brasil, a AIA foi incorporada na legislação principalmente por pressão internacional, Pode-se dizer que a AIA tornou-se uma ciência, na medida que adotou conceitos,
após a repercussão de impactos das atividades de desenvolvimento econômico da teorias e métodos de outras áreas para desenvolver um modelo conceitual e
década de 1970. A AIA foi então instituída legalmente em 1981, pela Política Nacional metodológico para permitir a análise dos impactos das atividades humanas sobre o
de Meio Ambiente (Lei Federal 6938/81), que a lista como um de seus instrumentos. ambiente.
Em seguida, a AIA foi regulamentada dentro do processo de licenciamento ambiental,
pela Resolução CONAMA 01/86. Essa Resolução instituiu o Estudo de Impacto A norma ISO 14001/04 adicionou à Avaliação de Impactos Ambientais o termo aspecto
Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). A exigência de elaboração ambiental elemento das atividades, produtos ou serviços de
destes estudos foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988 nos seguintes uma organização que pode interagir com o meio ambiente (item 3.3). Nesse sentido,
termos: Art. 225. § 1º, IV exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou aspecto ambiental pode ser entendido como o mecanismo pelo qual uma atividade
atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, humana causa impacto sobre o meio ambiente. Por exemplo, dada a atividade
estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade.
redução da disponibilidade hídrica.
O EIA é um estudo multidisciplinar, composto pela 1. Caracterização do
empreendimento, 2. Diagnóstico do ambiente a ser afetado, dividido entre meio físico, Definição semelhante é a adotada para o termo efeito ambiental, nome que se dá à
biótico e antrópico, 3. Avaliação de Impactos Ambientais e 4. Proposta de Medidas
Mitigadoras e Compensatórias. O RIMA corresponde a uma síntese do EIA, em (Sanchez, 2006), como a erosão, a dispersão de poluentes, etc. Nesse caso, trata-se da
linguagem acessível para qualquer público, em especial comunidades afetadas pela própria mudança causada pela atividade humana, porém sem ainda configurar um
atividade, poder entendê-lo. A Resolução CONAMA 01/86 incorpora ainda a impacto ambiental. Dessa forma, aspecto e efeito ambientais podem ser vistos como
participação ativa da sociedade no processo de licenciamento e avaliação de impactos, interfaces entre a ação e a consequência sobre o meio receptor (impacto).
ao instituir a Audiência Pública.
Se aspectos e efeitos ambientais tratam da ponte
Dentro de um EIA/RIMA, a Avaliação de Impactos pode ser considerada a etapa mais consequência no ambiente, referindo-se a processos, impacto ambiental pode ser
importante. Cruzando-se as informações levantadas sobre o empreendimento e o alteração da qualidade ambiental que resulta da modificação de
ambiente em que ele se insere, é possível identificar quais ações e aspectos terão processos naturais ou sociais provocada por ação humana S I
interface com o meio, e quais as fragilidades desse meio (sistema natural) receptor. ambiental, portanto, é o resultado da ação humana sobre o ambiente.
Dessa forma, os impactos podem ser quantificados em termos de magnitude,
abrangência espacial e temporal, como vamos ver a seguir. Por exemplo, entre as atividades de uma indústria automobilística (empreendimento)
(Figura 7), há a pintura de peças metálicas (atividade / ação), que provoca a emissão
de compostos orgânicos voláteis (aspecto ambiental). Esses compostos concentram-se

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na atmosfera do entorno do pátio de pintura (efeito ambiental), causando evitar que essa subjetividade prejudique a confiabilidade da análise, alguns pontos
deterioração da qualidade do ar (impacto ambiental). devem ser considerados:

Figura 7. Linha de montagem automobilística de indústria do Pólo Industrial de Camaçari.


Os dados de base (diagnóstico ambiental) devem ser confiáveis.

Deve ter sido feita uma caracterização detalhada do empreendimento, permitindo


identificar as principais atividades que o compõem em todas as suas fases
(instalação, operação e desativação).

A AIA deve ser feita coletivamente tanto quanto possível, envolvendo os técnicos
que coletaram as informações ambientais, e que portanto conhecem a realidade
da área, bem como o técnico conhecedor das atividades do empreendimento.

É necessário um coordenador mediador para elaboração da AIA, que tenha a visão


geral do estudo, facilite a quantificação coletiva dos impactos e tenha habilidade
em produzir consenso.
Fonte: http://www.coficpolo.com.br/
O seguinte questionário pode ser usado para orientar o processo de AIA:
Na realidade, é muitas vezes difícil delimitar onde começa e onde termina o aspecto, o
Questionário
efeito e o impacto ambiental. Apesar de serem termos do vocabulário da gestão
ambiental, aspecto e efeito ambiental têm caído em desuso na prática de AIA por falta
de clareza entre seus limites conceituais. Por esse mesmo motivo, aplicaremos daqui Quais as atividades do empreendimento em cada fase (instalação, operação e
em diante apenas a definição de impacto ambiental, que, a nosso ver, é suficiente para desativação)?
estudar a relação entre as ações humanas e suas consequências ambientais.
Quais os aspectos / impactos gerados por cada atividade listada, em cada meio
(físico, biótico, antrópico)?
3.2. Metodologia Geral de AIA
Como podem ser mensurados os impactos levantados?
Sabendo que o meio ambiente é sempre um sistema complexo, e que os impactos de
atividades humanas poderão ser sentidos em diversos níveis de organização e escalas,
Quais impactos previstos podem ser prevenidos? Propor medidas de prevenção.
é de se imaginar que avaliar os impactos de um empreendimento não é tarefa fácil.
Felizmente, há um conhecimento internacional acumulado a respeito, e foram
Quais impactos que não podem ser prevenidos, mas podem ser mitigados
desenvolvidas algumas ferramentas metodológicas para auxiliar os analistas nesse
(atenuados)? Propor medidas mitigadoras.
desafio.

Os impactos que não podem ser adequadamente mitigados, podem ser


Em qualquer abordagem que seja utilizada, é importante destacar que a Avaliação de
compensados? Propor medidas compensatórias.
Impactos Ambientais inclui necessariamente um aspecto subjetivo, pois a mensuração
dos impactos depende da visão do analista que estiver coordenando o trabalho. Para

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3.3. Ferramentas para aplicação de AIA 3.4.1. Natureza

As ferramentas mais comuns para dar suporte à AIA são as listas de verificação (check- 3.4.1.1. EXPRESSÃO
lists) e as matrizes de AIA. As primeiras correspondem a listas de impactos ambientais,
podendo estar divididas e organizadas por meio, por fase do empreendimento e por Positivo impacto benéfico, ou seja, alteração positiva na qualidade ambiental ou
aspecto ambiental das atividades. Há várias listas de referência que podem ser social. Ex.: aumento da oferta de empregos num município.
utilizadas, como a do Livro de Consulta sobre Avaliação Ambiental do Banco Mundial1.
Negativo impacto adverso, ou seja, que reflete prejuízo na qualidade ambiental ou
A outra ferramenta, esta mais comum nos EIA de empreendimentos de alto impacto social. Ex.: degradação da qualidade do ar (Figura 8).
no Brasil, são as matrizes de AIA. Sua vantagem sobre a lista de verificação é que, além
de permitir a listagem organizada de impactos, permite mapear relações entre Figura 8. Exemplo de degradação da qualidade do ar por emissões cumulativas na China.
atividades e impactos e ainda a valoração dos impactos, como ficará claro nos
exemplos a seguir. Há vários modelos disponíveis, que podem ser adaptados segundo
a necessidade de cada projeto. O Anexo I apresenta alguns modelos adotados.

Para facilitar a análise, as listas de verificação e as matrizes de AIA podem estar


divididas
(componentes abióticos, ou seja, recursos hídricos, clima, atmosfera, solo, cavidades,
etc.), meio biótico (componentes vivos, ou seja, comunidades de animais, plantas,
fungos e microorganismos) e meio antrópico (universo humano, incluindo aspectos
sociais, políticos, econômicos, culturais e arqueológicos). Para empreendimentos
complexos, que envolvem várias etapas de instalação, operação e desativação
(descomissionamento, no caso de minerações), também recomenda-se separar os
impactos em matrizes por etapa.

3.4. Atributos mais usados


Fonte: High Contrast @ccommons

Um dos maiores desafios da AIA é mensurar os impactos, ou estimar sua magnitude


3.4.1.2. ORIGEM
em diversos aspectos: intensidade, abrangência temporal e espacial. Buscando
critérios para quantificação dos impactos ambientais, a literatura lista diversos
Direto impactos que decorrem diretamente de atividades do empreendimento. Ex.:
atributos que devem ser valorados um a um antes de se atribuir a magnitude total dos
aumento da poluição visual (Figura 9).
impactos. Os atributos mais usados são:

Indireto impactos que decorrem dos impactos diretos do empreendimento, muitas


vezes devido a interação com impactos de outros empreendimentos ou atividades. Ex.:
diminuição do estoque pesqueiro de uma bacia devido à poluição da água.
1 Environmental Assessment Sourcebook and Updates. Disponível em: http://web.worldbank.org/WBSITE/

EXTERNAL/TOPICS/ENVIRONMENT/EXTENVASS/0,,contentMDK:20282864~pagePK:148956~piPK:216618~theSitePK:407988,

00.html

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 21 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 22
Figura 9. Times Square, exemplo típico de poluição visual em centro urbano. Figura 10. Figura 1: Exemplo de loteamentos vizinhos para habitação popular, causando impactos
cumulativos de perda de habitat.

Fonte: MH Wade @ccommons

Fonte: Mateus Záccaro @ccommons

3.4.1.3. CUMULATIVIDADE E SINERGISMO


3.4.2. Dimensão temporal
Não cumulativo: impacto que ocorre de forma isolada e direta. Ex.: aumento na
concentração de particulados dentro do pátio de estocagem.
3.4.2.1. PRAZO

Cumulativo: impacto que se adiciona a outro impacto, de atividade do mesmo


Curto Prazo: de ocorrência imediata e pontual. Ex.: prejuízo da comunicação entre
empreendimento ou de outro na mesma região, somando-se. Ex.: perda de habitat grupos de primatas por ruído.
para a fauna por desmatamentos graduais para abertura de loteamentos (Figura 10).
Médio Prazo: de ocorrência menos imediata, que pode perdurar por dias ou meses.
Sinérgico: impacto que interage com outro impacto, de atividade do mesmo Ex.: aumento nos sedimentos em um rio por assoreamento (Figura 11).
empreendimento ou de outro, de forma que a consequência dos impactos é maior que
a sua soma. Ex.: poluição por composto tóxico gerado pela interação química entre Longo Prazo: cuja ocorrência é mais demorada, havendo defasagem entre o momento
efluentes de duas indústrias vizinhas. da ação e a expressão do impacto (frequente para impactos cumulativos), porém que
perdura por mais tempo, como anos. Ex.: diminuição da variabilidade genética de
populações de mamíferos pela fragmentação do habitat.

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Figura 11. Rio exposto a assoreamento, exemplo de impacto de médio prazo. Irreversível: impossível de ser revertido. Ocorre quando o impacto causa um dano
irreversível no meio ambiente, alterando-o de tal maneira que o sistema não consegue
se recuperar. Ex.: diminuição das reservas de petróleo (o recurso não pode ser reposto
porque é não-renovável, Figura 12), extinção de espécies (uma vez extinta, a espécie
não ressurgirá).

Figura 12. Exploração de petróleo, que causa o impacto irreversível de diminuição das reservas do
recurso.

Fonte: HVL @ Wikimedia Commons.

3.4.2.2. FREQUÊNCIA

Constante impacto que perdura 24 horas por dia, todos os dias do ano. Ex.: aumento
da vulnerabilidade do solo após retirada da vegetação.

Intermitente impacto que sofre picos e pausas. Ex.: aumento do ruído do ambiente
Fonte: Petrobras, Plataforma P51: Abr Agência Brasil
causado pelo funcionamento de máquinas durante horário comercial.

3.4.2.3. DURAÇÃO 3.4.3. Dimensão espacial

Temporário: enquanto duram as atividades do empreendimento. Ex.: aumento da 3.4.3.1. ABRANGÊNCIA


poluição sonora.
ADA: impacto pontual, na Área Diretamente Afetada, restrito à área de ocupação do
Permanente: duram mesmo após desativado o empreendimento. Ex.: perda e habitat. empreendimento. Ex.: perda de cobertura vegetal.

3.4.2.4. REVERSIBILIDADE AID: impacto local, sentido na Área de Influência Direta, ou seja, na área de ocupação
e sua imediata adjacência. Ex.: aumento da concentração de material particulado na
Reversível: pode ser revertido com ou sem intervenção humana. Por ex.:, poluição de atmosfera.
um lago, que pode ser despoluído por depuração natural ou projeto de recuperação
ambiental. AII: impacto regional, correspondente à Área de Influência Indireta, onde são sentidos
impactos indiretos e onde, muitas vezes, ocorrem impactos cumulativos com outros

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empreendimentos. Pode se estender sobre o município, bacia hidrográfica ou outra I - Contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de
unidade geográfica nessa escala ou maior. Ex.: aumento na oferta de empregos e projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto;
incremento na renda da população, diminuição no estoque pesqueiro de uma bacia
hidrográfica. II - Identificar e avaliar sistematicamente os impactos ambientais gerados
nas fases de implantação e operação da atividade;

III - Definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente


Geralmente são atribuídas notas para cada um desses
atributos, de 1 a 3 ou de 1 a 5, sendo 1 o grau menos afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto,
impactante do atributo, e 5, o mais impactante. considerando, em todos os casos, a bacia hidrográfica na qual se localiza;

lV - Considerar os planos e programas governamentais, propostos e em


implantação na área de influência do projeto, e sua compatibilidade.
Por fim, os impactos são mensurados quanto à sua magnitude, atribuindo-se a eles
notas ou conceitos, correspondentes a
Parágrafo Único - Ao determinar a execução do estudo de impacto
F ambiental o órgão estadual competente, ou o IBAMA ou, quando couber, o
compreensão das matrizes, os impactos insignificantes são excluídos. Outras notas
Município, fixará as diretrizes adicionais que, pelas peculiaridades do
podem ser adotadas, de acordo com a escala de mensuração que se julgar necessária projeto e características ambientais da área, forem julgadas necessárias,
para caracterizar o grau de importância dos impactos. Essas notas são dadas inclusive os prazos para conclusão e anál
subjetivamente, por meio da avaliação de especialistas (geralmente os mesmos
técnicos que realizaram o diagnóstico ambiental da área) considerando-se os atributos Como se pode ver, a Resolução CONAMA 01/86 busca salientar que os EIA considerem
dos impactos, ou com auxílio de fórmulas que utilizam as notas dos atributos para
uma avaliação sistemática de impactos, bem como a possibilidade de cumulatividade e
calcular a magnitude final.
sinergia com impactos de planos e programas governamentais. E, ainda, sugere como
unidade geográfica de referência a bacia hidrográfica (Figura 13).
No Anexo II, são apresentadas tabelas que orientam conceitualmente a mensuração de
impactos ambientais por avaliação de especialistas, segundo modelo adotado por A opção por recomendar a bacia hidrográfica como área de influência (inciso III) tem
Mariano (2007).
fundamentação técnica, já que impactos sobre os recursos hídricos e biota aquática
tendem a se estender nessas unidades. Além disso, como a bacia hidrográfica é
3.5. Áreas de influência delimitada pela linha de cumeada de morros, o relevo também leva a impactos como
ruídos, poeira e impactos sobre polinização e dispersão serem limitados a essa
Outro desafio da Avaliação de Impactos Ambientais é a definição geográfica da unidade.
abrangência dos impactos. Um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) consistente deve
apresentar em mapa os limites das áreas onde ocorrerão os impactos.

A Resolução CONAMA 01/86 procura orientar esse processo. Em seu artigo 5º, diz:

Artigo 5º - O estudo de impacto ambiental, além de atender à legislação,


em especial os princípios e objetivos expressos na Lei de Política Nacional
do Meio Ambiente, obedecerá às seguintes diretrizes gerais:

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Figura 13. Exemplo de bacia hidrográfica baiana. Comumente adotam-se três níveis de áreas de influência, com fundamentação legal e
técnica (CONAMA 1/86, Sanchez 2006):

Área Diretamente Afetada (ADA): área onde haverá ocupação efetiva pelo
empreendimento / atividade.

Área de Influência Direta (AID): área adjacente à ADA, que sofrerá o que se pode
chamar de impactos diretos da atividade, como ruído, poeira, afugentamento de
fauna, poluição no solo ou recursos hídricos, etc.

Área de Influência Indireta (AII): área adjacente à AID, que sofrerá impactos
indiretos do empreendimento, como oferta de empregos, alteração no regime
hídrico subterrâneo, aumento na competição por recursos em populações de
animais, etc.

Cada uma dessas áreas de influência deve ser delimitada geograficamente, em um


mapa, de forma a ser facilmente visualizada e compreendida por todos os públicos.
Fonte: Franco et al, 2012. Revista Brasileira de Geociências.
A ADA é fixa para todos os meios, porém podem-se delimitar diferentes AID e AII para
Entretanto, nem sempre a bacia hidrográfica pode ser considerada com uma das áreas cada meio (físico, biótico e antrópico). A AID e a AII de cada meio podem ser
de influência do empreendimento. Por exemplo, se o empreendimento é muito delimitadas procurando-se estabelecer uma média entre as áreas de abrangência dos
pequeno e situa-se numa bacia hidrográfica grande, ou se os impactos previstos têm impactos individuais (diretos e indiretos) sobre aquele meio, ou considerando-se a
uma extensão potencial diferente, como no caso de impactos sociais que afetam todo abrangência dos impactos que serão sentidos em maior extensão (área máxima).
um município ou região metropolitana. Dessa forma, o Artigo 5 inciso III da Resolução
CONAMA 1/86 deve ser interpretado como uma referência, e não regra, para aplicação Após definir qual desses critérios será adotado (área média ou máxima), uma forma
das áreas de influência. prática e tecnicamente satisfatória de se definir tais áreas de influência é por meio de
um workshop ou oficina, que permita uma avaliação conjunta dos impactos e suas
Como então delimitar os impactos na prática? Bem, partimos do fato de que cada prováveis áreas de abrangência.
impacto identificado para um empreendimento possui uma extensão espacial. Por
exemplo, a instalação de uma mina irá aumentar a arrecadação de impostos no 3.5.1. Roteiro para delimitação conjunta de áreas de Influência:
município (abrangência municipal), irá intensificar o trânsito na região (abrangência
regional e dependente da malha rodoviária, tipo e trajetos de transporte usados pelo Reunir todos os técnicos que trabalharam no diagnóstico e avaliação de impactos
empreendimento), elevar o nível de ruído (abrangência local). Como seria na prática do empreendimento.
muito complexo, e pouco visualizável, ter uma área de influência para cada impacto, é
comum adotar-se áreas de influência genéricas para todo o empreendimento, ou para Proceder a um alinhamento conceitual, explicando sucintamente os critérios de
cada meio. avaliação de impactos e delimitação de áreas de influência a serem utilizados.

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Dividir os técnicos em grupos por meio (físico, biótico e antrópico), para oficinas Figura 14. Organismos bentônicos bioindicadores de três estados ambientais: ecossistemas naturais,
temáticas de delimitação das áreas de influência. alterados e impactados.

Um mediador participante de cada oficina fornece um mapa e auxilia os técnicos a


definirem as áreas de influência (ADA, AID e AII), de acordo com os impactos
previamente identificados.

Os resultados das oficinas são apresentados em uma última reunião envolvendo


novamente todos os técnicos, para validação e ajustes que se fizerem necessários
devido a interação entre impactos sobre os diferentes meios.

3.6. Indicadores Ecológicos

A etapa de Diagnóstico da situação do ecossistema antes dos impactos é crucial para


garantir uma avaliação de impactos consistente. Não adianta colocar todos os esforços
numa AIA consistente, se a caracterização dos meios físico, biótico e antrópico não
estiver bem feita. Nesse sentido, o uso de indicadores ecológicos para avaliação das
condições do meio ambiente antes e após a instalação dos empreendimentos é muito
importante. Além de auxiliar na valoração dos impactos, permite comparar o estado
original do ecossistema ao estado posterior à instalação do empreendimento, através
de dados de diagnóstico e monitoramento.

Há ainda os chamados bioindicadores, ou indicadores biológicos (Figura 14). São


espécies sensíveis a determinados poluentes químicos ou outra perturbação
ambiental, de maneira que a presença ou ausência de representantes da espécie, ou
ainda sua quantidade, permitem estimar o nível desses impactos no meio em que
vivem. Fonte: ICB UFMG.

Indicadores ecológicos são elementos e processos dos sistemas ambientais que podem
ser facilmente quantificados, funcionando assim como índices de qualidade (estado)
ambiental. Por exemplo, pode-se contar o número de indivíduos de espécies
ameaçadas presentes num fragmento florestal (elemento quantificável), que irá
traduzir o nível de conservação daquele ecossistema. De forma semelhante, podem-se
usar taxas de mortalidade (processo quantificável) de populações animais para se
estimar a saúde ambiental daquela comunidade de fauna. Os indicadores ecológicos
podem ser considerados como correspondentes ao termo valued ecosystem
components - VECs (componentes ecossistêmicos valorados, em tradução livre).

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Para selecionar bons indicadores, recomenda-se levar em conta os seguintes critérios: Figura 15. Embaúba (Cecropia pachystachya), espécie indicadora de regeneração florestal.

Disponibilidade de fontes e/ou métodos de aferição confiáveis


Poder oferecer informações relevantes sobre o meio que será impactado
Permitir mensurar magnitude, duração e abrangência do impacto
Estar relacionado com mensuração de limites e capacidade de suporte do
ecossistema
Ser sensível às alterações decorrentes das ações humanas

Vários indicadores ecológicos já se tornaram referência em estudos ambientais, por


serem de mensuração relativamente fácil. A AIA teria muito a ganhar com a
padronização do uso desses indicadores, o que facilitaria a comparação e integração
entre EIAs de diferentes projetos numa mesma área. Seguem alguns dos indicadores
mais freqüentes, para cada meio.

3.6.1. Meio Físico

Qualidade do ar: concentração de SOx e NOx, concentração de gases de efeito estufa,


concentração de material particulado, outros indicadores químicos que possam ser Fonte: Forest & Kim Starr @ CCommons

comparados com padrões de qualidade estabelecidos em legislação.


3.6.3. Meio Antrópico
Qualidade da água: oxigênio dissolvido, demanda química e biológica de oxigênio
(DQO e DBO), sólidos suspensos, coliformes, turvação, outros indicadores químicos Econômico: arrecadação de tributos, PIB municipal, valor agregado, índices
que possam ser comparados com padrões de qualidade estabelecidos em legislação. econômicos, geração de empregos.

Qualidade do solo: erodibilidade, taxa de erosão liminar, acidificação, salinização, Demográfico: taxa de natalidade, mortalidade, imigração e emigração, pirâmide etária,
substâncias conservativas. densidade populacional.

3.6.2. Meio Biótico

Ecossistema: presença e densidade de organismos de espécies indicadoras (Figura 15),


indicadores de eutrofização, indicadores de biomagnificação, densidade populacional,
taxas de natalidade e mortalidade, tamanho dos indivíduos, saúde biológica, taxa de
recrutamento.

Paisagem: composição e configuração da paisagem, índice de fragmentação, efeito de


borda, área núcleo, índices de conectividade, quantidade de habitat e matriz,
mudanças do uso e cobertura do solo, dinâmica de meta-populações.

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4. IMPACTOS CUMULATIVOS E SINÉRGICOS gases de efeito estufa é acirrada em grande parte por esse modelo mental. Cada nação
quer responsabilizar outras por seu papel nas mudanças climáticas, querendo manter
Apesar de toda a metodologia disponível para subsidiar as Avaliações de Impactos sua taxa de emissões o mais alta possível, para poder continuar a poluir.
Ambientais, muitas vezes elas têm se mostrado insuficientes para prever impactos em
escalas maiores. As AIA que chamamos tradicionais, ou seja, aquelas comumente
Figura 16. Diagrama de relações causais na Tragédia dos Comuns.
encontradas nos EIA em processos de licenciamento ambiental, costumam analisar
apenas os aspectos e impactos de um empreendimento único, sem considerar outras
atividades e projetos vizinhos, atuais e futuros, que possam interagir com suas
atividades. É comum tratar alguns impactos isolados como insignificantes, muitas
vezes até excluindo-os da AIA, e no futuro observar-se que os vários impactos
aparentemente insignificantes de diversas atividades combinam-se, causando
impactos relevantes e até mesmo catastróficos. São o que chamamos impactos
cumulativos e sinérgicos.

4.1. Tragédia dos comuns

Esse fenômeno de acumulação e interação de impactos pontuais levando a um


impacto resultante maior remete à Tragédia dos Comuns, termo criado por Garrett
Hardin em 1968. Essa teoria explica por que os indivíduos, ao usar um bem comum,
tendem a sobreexplorá-lo, ao contrário do que aconteceria caso o bem fosse privado
(Figura 16 e Figura 17). Para explicar esse fenômeno, Hardin usou o exemplo de
pastores que utilizam um pasto comum para seu gado. Cada pastor pensa que,
aumentando uma cabeça, irá ter maior renda, sem afetar de forma significativa o
pasto comum. O problema é que, uma vez que esse raciocínio seja o mesmo de todos
os pastores, o número de cabeças de gado aumentará drasticamente, diminuindo
assim a pastagem disponível para cada animal. Esse modelo de pensamento reflete-se
também nas contas de restaurantes: quando um grupo resolve dividir a conta de
forma igual, cada participante pensa em pedir um prato mais caro do que pediria se
fosse pagar sua conta individualmente. Afinal, pensa ele, o adicional do seu prato será Fonte: Passuello, Oliveira e Mendes em Ambiente Jurídico.

diluído pelo grupo todo. E, se ele escolher o prato mais barato, sairia no prejuízo, pois
comeria algo mais simples e pagaria pelas contas maiores dos colegas. Por fim, a mesa
toda pede pratos caros, gerando uma conta final exorbitante. Quem nunca passou por
uma situação semelhante?

A Tragédia dos Comuns é uma metáfora para o gerenciamento de recursos comuns,


tais como os recursos naturais. Recursos pesqueiros, por exemplo, são facilmente
sobre-explotados por causa de um pensamento individualista de cada pescador. No
nível global, a negociação entre as nações sobre metas de redução na emissão de

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 35 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 36
Figura 17. Evolução temporal dos ganhos na Tragédia dos Comuns. análise não estão regulamentados. De forma prática, adotaremos definições simples,
apoiadas pela literatura técnica e corroboradas por casos de aplicações concretas.

Quando a combinação de impactos individuais gera um impacto total de maior


magnitude, têm-se impactos cumulativos e/ou sinérgicos. A combinação dos impactos
individuais pode se dar de diversas maneiras:

4.2.1. Impacto cumulativo

É aquele gerado pela soma dos impactos individuais de várias fontes. Exemplos:

4.2.1.1. PERDA DE BIODIVERSIDADE POR DESMATAMENTO:

O desmatamento causado por um empreendimento, quando tomado pontualmente,


pode parecer insignificante. Porém ao se avaliar os desmatamentos de vários
Fonte: Passuello, Oliveira e Mendes em Ambiente Jurídico.
empreendimentos na mesma paisagem, observa-se que eles se somam, gerando uma
perda de biodiversidade de maior magnitude, que não poderia ser notado na escala
Na geração de impactos cumulativos e sinérgicos ocorre algo semelhante. Tomemos
individual.
como exemplo várias indústrias instaladas à beira de uma lagoa, todas devidamente
licenciadas ambientalmente. Essas indústrias produzem diversas substâncias nocivas
4.2.1.2. BIOACUMULAÇÃO DE MERCÚRIO:
em seus efluentes, porém cada uma dentro dos parâmetros máximos permitidos pela
legislação. Entretanto, ao se somar a concentração dos efluentes, e ao interagirem as
O mercúrio é um metal pesado que não é depurado pelos organismos. Num
substâncias químicas presentes nos efluentes, o nível de poluição global no lago
ecossistema marinho contaminado por esse metal, a cadeia alimentar acumulará
aumenta de forma exponencial, causando eutrofização ou intoxicação de toda a biota
progressivamente esse poluente. Os animais do topo da cadeia alimentar, por se
aquática.
alimentarem de grande quantidade de peixes já contaminados e viverem mais tempo,
acumularão as maiores taxas de concentração de mercúrio. Esse pode ser considerado
4.2. Conceitos e terminologia um impacto de acumulação temporal.

Há cerca de 40 anos a comunidade científica começou a perceber a necessidade de


4.2.2. Impacto sinérgico
uma estrutura de conhecimento para avaliar os impactos ambientais cumulativos e
sinérgicos. Com objetivo de criar uma terminologia padronizada, em 1985, foi realizada
Quando a interação entre os impactos se dá não pela soma, mas por interações que
uma conferência entre instituições dos dois países líderes na Avaliação de Impactos
criam um impacto novo. Exemplos:
Ambientais: o Conselho Canadense de Pesquisa em Avaliação Ambiental (CEARC) e o
Conselho Americano de Pesquisa (US NRC). Embora vários avanços foram obtidos, até
4.2.2.1. OZÔNIO TROPOSFÉRICO
hoje ambiguidades e divergências conceituais continuam constantes na literatura
sobre o tema. No Brasil, a legislação ambiental cita com certa frequência os termos
Os poluentes atmosféricos, com relação à sua origem, podem ser classificados
impactos cumulativos e sinergia entre impactos, porém seus conceitos e métodos de
basicamente em dois grupos: primários e secundários. Os primários são aqueles
emitidos diretamente das fontes. Os secundários são exemplos típicos de impactos

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sinérgicos, pois são formados na atmosfera devido às reações químicas dos compostos Quadro 1. Exemplos de impactos cumulativos
ali presentes. Via de regra são mais agressivos e nocivos ao meio ambiente que os
reagentes originais. Um dos principais exemplos de poluentes secundários é o ozônio,
formado a partir de reações fotoquímicas entre os compostos orgânicos voláteis (COV) concentração de SO2 acumulada, devido a várias indústrias numa
e os óxidos de nitrogênio (NOx). A principal fonte de emissão desses compostos mesma área
voláteis e dos óxidos de nitrogênio são os motores veiculares. A concentração de O³ na Cumulativos simples redução de vazão acumulada pela retirada de água para várias
atmosfera traz sérias consequências à saúde humana principalmente causando (aditivos, lineares) atividades em um rio (irrigação, abastecimento, uso industrial)
cânceres além de contribuir para o efeito estufa. mortalidade de tamanduá-bandeira dentro de uma área prioritária,
por caça, atropelamentos e destruição de habitat
4.2.2.2. EMISSÃO DE DIOXINAS E OUTRAS SUBSTÂNCIAS TÓXICAS

Há casos em que uma indústria emite um poluente que individualmente causa pouco fragmentação de habitat devido à remoções de vegetação para
dano, mas outra indústria vizinha emite outra substância que, ao interagir com a expansão urbana e criação de rodovias
Sinérgicos (multiplicativos,
primeira, pode tornar-se tóxica. As substâncias mais tóxicas hoje conhecidas são da exponenciais e outros) redução do estoque pesqueiro por degradação da qualidade da
família das dioxinas, compostos gerados pela interação entre substâncias contendo água e pela fragmentação de rios por barragens
Cloro e moléculas orgânicas quando aquecidas a uma alta temperatura. A geração de alterações de microclima pela instalação de grande quantidade de
dioxinas é comum na incineração de resíduos provenientes de indústrias diversas. prédios numa região

4.2.2.3. EXPANSÃO URBANA DESORDENADA


Exemplos reais, elencados no estudo de caso teste realizado pela CEPEL (2003) para
Quando a abertura de vários loteamentos em uma região não é acompanhada do identificar parâmetros de avaliação de impactos cumulativos de projetos hidrelétricos
incremento na infraestrutura urbana local, diversos impactos diretos e indiretos nos rios Araguaia e Tocantins:
poderão ser percebidos: aumento do trânsito, da poluição sonora, especulação
imobiliária, defasagem nos serviços públicos de saúde e educação, etc. Esses impactos Avanço na fronteira agrícola associado a processos erosivos
combinam-se, gerando um impacto final de degradação da qualidade de vida da Impactos sobre a qualidade da água
região. Comprometimento do regime hídrico
Alteração do ambiente fluvial
Na literatura internacional é frequente a consideração de que os impactos sinérgicos Alteração da cobertura vegetal
são um tipo específico de impacto cumulativo. Sob esse enfoque, existem inúmeros Fragmentação de habitats
outros tipos de interações definidos na literatura: interações lineares, exponenciais, Especulação imobiliária
cíclicas, multiplicativas, catalíticas, de composição, surpresa estrutural , Perda de potencial turístico
multimeios, transfronteiriças dentre outras. Apesar de interessante para o Perda de recursos minerais, florestais e pesqueiros
desenvolvimento teórico compreender a complexidade dos caminhos que levam aos
impactos cumulativos, determinar qual tipo de interação está realmente acontecendo
4.3. Modelo conceitual de impactos cumulativos
é muitas vezes inviável na prática.

De forma simplificada, podemos usar o seguinte modelo conceitual para os impactos


cumulativos (considerando-
vários tipos de interações, inclusive as de sinergia):

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Figura 18. Fluxograma do processo de geração de impactos cumulativos. Acumulação temporal: um impacto se repete com frequência superior ao tempo
necessário para o ecossistema se recuperar, causando, assim, a acumulação dos
efeitos. O fenômeno da bioacumulação também pode ser considerado um impacto
cumulativo temporal. Corresponde ao aumento da concentração de tóxicos num
Fontes Forma de
organismo por repetição frequente da exposição a determinado poluente (vide
acumulação impacto
ENTRADA geradoras de PROCESSO SAÍDA
cumulativo material complementar sobre intoxicação por Hg).
impacto (Pathway)

Acumulação espacial: os impactos ocorrem muito próximos, sobrepondo-se e


amplificando sua intensidade sobre o meio ambiente.

Os impactos podem se combinar de variadas formas, e não há consenso na literatura


Como entrada do sistema, temos a própria atividade humana, parte ou não de um sobre como classificar essas formas de interação. Aqui propomos a adoção das
empreendimento, que corresponde à fonte geradora do impacto isolado. Para gerar o seguintes classificações, para orientar a compreensão do processo de geração de
impacto cumulativo, essa atividade estará combinada a outras diretamente impactos cumulativos:
relacionadas ou não. Nesse sentido, podemos elencar diversos tipos de atividades:
Mudanças aditivas ou lineares (Figura 19) adição ou remoção gradual de energia ou
matéria no meio, de forma que cada adição / remoção tem o mesmo efeito da
Formada por evento único
Atividade simples anterior.
Ex.: Construção de uma casa.

Ex.: lançamento de pequenas quantidades diárias de poluentes num lago. Podem ser
Formada por dois ou mais eventos relacionados que
Atividade multicomponente ocorrem simultaneamente ou em sequência. ilustradas pelo gráfico:
Ex.: Complexo minerário: cava, acesso, pilha, UTM

Figura 19. Gráfico que ilustra a forma de acumulação de impactos linear ou aditiva.
Vários eventos não diretamente relacionados
(empreendimentos diferentes) em mesma região
Atividades múltiplas 4,5
Ex.: construção de estrada, adensamento urbano
marginal, aumento da caça 4

Eventos dispersos no espaço e no tempo; fonte não 3,5


identificável de forma isolada

Magnitude
Atividade global 3
Ex.: consumo de combustíveis fósseis, poluição de rio
por fertilizantes agrícolas.
2,5

2
Entre a entrada (atividade) e a saída (impacto cumulativo), temos o processo pelo qual
1,5
os efeitos e impactos das atividades combinadas irão interagir. Na literatura
internacional, costuma-se chamar esse processo de pathway (caminho). É esse 1

processo que determina o tipo de impacto cumulativo, e sua definição auxiliará na 0,5
caracterização e dimensionamento do impacto final. 0
Impacto 1 Impacto 2 Impacto 3 Impacto 4
A forma de acumulação dos impactos pode ser temporal ou espacial.

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Mudanças amplificadas ou exponenciais (Figura 20) adição ou remoção gradual de Como os impactos não ocorrem num espaço ilimitado, mas num sistema que tem
energia ou matéria no meio de forma que cada adição / remoção é maior que a limites, quando o impacto ultrapassa um limiar crítico (em inglês threshold), o
anterior. ecossistema entra em desequilíbrio, podendo não ser capaz de voltar ao seu estado
original (Figura 22). Nesse caso, o sistema entrará em outro estado (de área
Ex.: concentração de CO2 na atmosfera. Podem ser ilustradas pelo gráfico: degradada, por exemplo). Por exemplo, quando a concentração de poluentes
orgânicos num lago chega a uma concentração muito alta, algas proliferam-se
causando a chamada eutrofização, que é um novo estado do ecossistema, em que
Figura 20. Gráfico que ilustra a forma de acumulação de impactos amplificada ou exponencial.
grande parte dos peixes e outros organismos respiradores morrem. O ecossistema não
35
foi capaz de se resistir ao impacto (impacto > resistência), nem de retornar ao seu
30
equilíbrio (resiliência), e acabou se desestabilizando num estado de degradação.
25
Magnitude

20
Figura 22. Ilustração da acumulação de impactos de forma exponencial até atingir um limiar, a partir
15
do qual o sistema muda de estado.
10
5 35
limiar
0 30
Impacto 1 Impacto 2 Impacto 3 Impacto 4 Impacto 5 25
20
15
Mudanças descontínuas (Figura 21) incrementos desiguais em intensidade,
10
frequência ou abrangência, que acumulam-se de formas distintas gerando o impacto
5
cumulativo.
0
Impacto 1 Impacto 2 Impacto 3 Impacto 4 Impacto 5 Impacto 6 Impacto 7 Impacto 8

Ex.: Compactação do solo por pisoteamento em trilhas ecoturísticas. Podem ser


ilustradas pelo gráfico: Magnitude do impacto Estado de equilíbrio do ecossistema

Figura 21. Gráfico que ilustra a forma de acumulação de impactos descontínua.

5 Por fim, temos a saída do sistema, que são os próprios impactos cumulativos, ou seja,
4,5 as alterações provocadas na qualidade do ambiente. São o resultado da acumulação
4 dos impactos gerados pelas atividades por meio de uma das diversas formas de
3,5 interação (pathways) possíveis. Assim como os impactos ambientais tradicionalmente
3 avaliados em EIAs, podem ser classificados de acordo com atributos referentes à sua
Magnitude

2,5
natureza e abrangência temporal e espacial.
2
1,5
Além dos atributos clássicos, impactos cumulativos podem ser classificados pela
1
0,5
natureza de sua sinergia:
0
Impacto 1 Impacto 2 Impacto 3 Impacto 4

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 43 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 44
De influência - impactos de causas distintas interagem gerando um novo impacto 5. AVALIAÇÃO INTEGRADA DE IMPACTOS
(propriedade emergente). Ex. combustão de compostos contendo Cl que sob SOCIOAMBIENTAIS
temperatura e pressão reagem e criam dioxinas gases altamente poluentes.
A Avaliação que aqui chamam
De dependência ou causalidade - quando impactos de mesma natureza interagem completo sobre os impactos ambientais incidentes em uma paisagem, sem se ater a
reforçando-se. Ex. canalização de efluentes com lançamento em um único ponto. um empreendimento isolado. Dessa forma, a Avaliação Integrada de Impactos estuda
principalmente os impactos cumulativos e sinérgicos, decorrentes da interação entre
Interna - quando interagem impactos de uma mesma atividade. as diversas atividades humanas sobre um mesmo sistema ambiental. É importante
ressaltar que as avaliações integradas não substituem ou eliminam a necessidade de
Externa - quando interagem impactos de atividades distintas. avaliações de impacto de projetos específicos e, consequentemente, o processo de
licenciamento ambiental. Pelo contrário, a avaliação integrada de impactos
Compensação - quando interagem impactos negativos e positivos, anulando-se complementa a abordagem por projeto, podendo ser solicitada para dar mais
total ou parcialmente. consistência ao EIA de um empreendimento cuja localização é ambientalmente crítica,
ou ainda podendo ser usada para subsidiar planos governamentais de
Acumulação ou saturação - quando interagem impactos de mesmo sinal, desenvolvimento regional e/ou setorial.
reforçando-se mutuamente.
Dentro dessa abordagem, há a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), em inglês
Strategic Impact Assessment (SEA), que é uma AIA frequentemente usada para se
avaliar potenciais impactos de políticas, planos e programas públicos (PPP), dentro de
um processo de planejamento estratégico de uma região. A AAE lida com os conceitos
de impactos cumulativos e sinérgicos, podendo ser considerada uma forma de
avaliação integrada com enfoque em planejamento regional. Por avaliar impactos
derivados de diferentes projetos previstos para o futuro próximo, é frequente a
necessidade de modelos conceituais, matemáticos e geográficos, com simulações de
diferentes cenários (implantação ou não dos projetos), para se procurar estimar os
impactos conjuntos.

No Brasil, tem sido incorporado também o termo Avaliação Ambiental Integrada (AAI),
para estudos que se propõem a avaliar impactos de aproveitamentos hidrelétricos
(AHE) diversos em uma bacia hidrográfica. Esses estudos são exigidos pelo Estado, por
meio de seus órgãos ambientais, para empreendedores ou entidades do setor de
energia hidrelétrica. O objetivo das AAI é a avaliação de potenciais impactos
cumulativos e sinérgicos decorrentes de instalações de diversas barragens e usinas
hidrelétricas numa mesma bacia.

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5.1. Fundamentação jurídica III - Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas
os equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos,
Segundo a legislação ambiental vigente, a avaliação de impactos ambientais avaliando a eficiência de cada uma delas.
cumulativos e sinérgicos já deveria estar incorporada aos processos de licenciamento.
A Resolução CONAMA 01/86, é uma norma de natureza regulamentadora que explicita lV - Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento (os
essa preocupação: impactos positivos e negativos, indicando os fatores e parâmetros a serem
considerados. (grifos nossos)
Artigo 6º - O estudo de impacto ambiental desenvolverá, no mínimo, as
seguintes atividades técnicas: No Estado da Bahia, a Lei Estadual 7.799/2001 também traz a necessidade de se
incorporar as avaliações integradas de impacto ambiental no âmbito do licenciamento
I - Diagnóstico ambiental da área de influência do projeto completa de empreendimentos potencialmente poluidores:
descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como
existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da Art. 37 - Quando a localização ou natureza dos projetos a serem licenciados
implantação do projeto, considerando: assim o recomendarem, e na forma a ser disciplinada em regulamento, os
Estudos Ambientais deverão contemplar, dentre outros aspectos, os
a) o meio físico - o subsolo, as águas, o ar e o clima, destacando os recursos impactos cumulativos da implantação e operação de várias atividades e
minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d'água, o empreendimentos em uma bacia hidrográfica, segmento dela ou região,
regime hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas; prevendo condicionantes e medidas mitigadoras ou compensatórias a
serem adotadas conjuntamente por todas as atividades e
b) o meio biológico e os ecossistemas naturais - a fauna e a flora, empreendimentos envolvidos.
destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de valor
científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de (...)
preservação permanente;
Art. 42 - As licenças e autorizações de que trata esta Lei serão concedidas
c) o meio sócio-econômico - o uso e ocupação do solo, os usos da água e a com base em análise prévia de projetos específicos e levarão em conta os
sócio-economia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, objetivos, critérios e normas para conservação, preservação, defesa e
históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência entre a melhoria do ambiente, os possíveis impactos cumulativos e as diretrizes de
sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização futura planejamento e ordenamento territorial do Estado. (grifos nossos)
desses recursos.
A lei baiana demonstra a preocupação de se incluir os potenciais impactos cumulativos
II - Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, no processo de AIA, levando-se em conta o ordenamento territorial do Estado e
através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da delimitando-se área de influência suficientemente grandes para abranger esses
importância dos prováveis impactos relevantes, discriminando: os impactos impactos.
positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e
a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de Pode-se citar ainda o Decreto Federal 4.339/2002, que institui princípios e diretrizes
reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição para a implementação da Política Nacional da Biodiversidade. Esse Decreto cita a
dos ônus e benefícios sociais. necessidade de se realizarem estudos de impacto ambiental em projetos e
empreendimentos de larga escala, devido ao potencial de gerar impactos agregados

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(item 13.2.19 do Anexo do Decreto). Além disso, o Decreto trata da integração entre o ambiental de AHE ou outro (s) tipo (s) de empreendimento (s) que
Zoneamento Ecológico-Econômico e as ações de licenciamento ambiental, por meio de impliquem em obras ou estruturas que alterem o regime hidrológico no
avaliações de impactos em uma escala regional (item 13.2.4 do Anexo). leito ou a continuidade fluvial, em uma mesma Bacia Hidrográfica;

Fica claro na norma estadual que caberá ao empreendedor o ônus de realizar a AAI,
No Brasil, os casos de avaliações integradas de impacto quando estiver propondo projeto de aproveitamento hidroelétrico em local onde
poderá haver sobreposição de impactos com outro empreendimento da mesma
quase sempre correspondem a AAI e AAE do setor
hidrelétrico, que necessitam avaliar a combinação de natureza. Essa Resolução orienta ainda a elaboração da AAI, recomendando que ela
impactos decorrentes de diversas barragens numa seja baseada na espacialização das áreas de influência do empreendimento proposto,
sobrepostas às áreas de influência dos demais empreendimentos hidrelétricos da
mesma bacia hidrográfica.
bacia. Dessa forma seria possível somar os impactos (ou realizar outro cálculo de
combinação), que deverão então ser comparados à capacidade de suporte do sistema
ambiental receptor. A Resolução traz ainda um termo de referência para os meios
A Avaliação Ambiental Estratégica já conta com algumas disposições normativas,
físico, biótico e antrópico, incluindo a modelagem de cenários como ferramental
dentre elas os Decretos 6.101/2007 e 6.678/2008, que incluem a AAE como necessário para conclusão do estudo.
instrumento para avaliação de impactos de Mudanças Climáticas e recursos minero-
energéticos, respectivamente. Porém ainda faltam normas de regulamentação de AAE
a um nível executivo, que poderão alavancar o uso desse instrumento de forma mais
5.2. Aplicação da Avaliação de Impactos Integrada
corrente na realidade brasileira.
Em processos de licenciamento, os termos impactos cumulativos e sinérgicos são
A Avaliação Ambiental Integrada é regulamentada em normas estaduais. No Estado da encontrados com relativa frequência. Porém, sua aplicação em EIAs ainda é muito
Bahia, a Resolução CEPRAM nº 4.145/2010, que aprova a Norma Técnica NT 03/2010, limitada.
dispõe sobre o tema. Em seu Artigo 7º, determina:
Dentro de um mesmo empreendimento, é comum que haja interação entre os
impactos de diferentes atividades e estruturas. Por exemplo, a combinação da perda
7.1 A AAI deverá ser avaliada no âmbito da análise do processo de
licenciamento ambiental dos empreendimentos de AHE, nas seguintes de vegetação para abertura de um acesso e para limpeza da área de cava. A
situações: incorporação dessa abordagem dos EIAs é perfeitamente viável, porém muitas vezes
os impactos de atividades distintas do mesmo empreendimento são tratadas de forma
7.1.1 - Nos casos de novos processos: separada. Outra situação que poderia ser melhor contemplada nos estudos ambientais
é a combinação de impactos de um mesmo empreendimento em mais de um meio.
Por exemplo, uma indústria retira a mata ciliar e lança poluentes químicos na água do
a) Quando, na abertura de novo processo de licenciamento ambiental de
Aproveitamentos Hidrelétricos - AHE, já existirem, na mesma bacia rio. Os impactos não se restringem à perda das plantas das margens e degradação da
qualidade física da água. Comunidades de anfíbios, por exemplo, serão prejudicadas
hidrográfica, outros AHE ou outro (s) tipo (s) de empreendimento (s) que
impliquem em obras ou estruturas que alterem o regime hidrológico no simultaneamente pela perda de abrigo da vegetação ciliar e pela toxicidade de
elementos na água
leito ou a continuidade fluvial, em operação, em implantação ou com
conectividade dentre outros impactos..
Licença de Localização emitida;

Numa análise mais ampla, também seria necessário incorporar aos EIAs a avaliação da
b) Quando, na inexistência de AHE em operação, em implantação ou
licenciados, forem abertos dois ou mais processos para o licenciamento interação entre impactos de diversos empreendimentos na mesma região. Embora isso

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seja corroborado pela legislação, exigir essa abordagem ampla no processo de Para incorporar de forma efetiva a avaliação de impactos sinérgicos no processo de
licenciamento encontra diversos obstáculos. Talvez o principal motivo é que impactos licenciamento ambiental e planejamento sócio ambiental, ainda há caminho a ser
cumulativos demandam uma abordagem mais complexa e abrangente, elevando o percorrido. Serão necessárias discussões entre governos, órgãos ambientais, indústria,
preço dos estudos bem como da adoção de medidas compensatórias e mitigadoras ONGs, universidades e órgãos de pesquisa para coletivamente e de maneira
mais amplas e dispendiosas. No Brasil, é o empreendedor quem arca com os custos colaborativa, se definir os limites e as obrigações entre os estudos de impactos
das avaliações de impactos ambientais, não sendo do seu interesse encarecer o ambientais individuais e os estudos de impactos cumulativos.
processo arcando com a análise de empreendimentos vizinhos.

5.3. Métodos empregados na Avaliação Integrada


Para se avaliar a interação entre esses impactos, talvez necessário que o órgão
ambiental faça a mediação entre diversos empreendedores e coordene os estudos
A Avaliação Integrada de Impactos pressupõe a análise simultânea de um conjunto de
ambientais para que contemplem metodologia e área de estudos compatíveis, empreendimentos delimitados num determinado espaço geográfico e período de
permitindo uma análise conjunta por parte dos técnicos do órgão licenciador. tempo (existentes e/ou em projeto).

Mas não é só no Brasil que há muito que se avançar em avaliação integrada de


Nesse tipo de avaliação, deve-se reunir os estudos elaborados para cada
impactos. Nos Estados Unidos, que pode ser considerado o país que criou a avaliação empreendimento. Em seguida, todos os impactos identificados nos estudos devem ser
de impactos cumulativos, de 30 estudos ambientais analisados por Burris & Canter listados. Aqueles que se sobreporem ou convergirem demandarão uma análise
(1997), 47% citavam diretamente AIC (Figura 23). Porém, desses, apenas 3 (10%) os conjunta, tendo em vista a possível ocorrência de impactos sinérgicos e cumulativos.

tratavam quantitativamente. No Canadá e Reino Unido, estudos sobre a aplicação da


Como diretrizes gerais, o Guia Prático de Avaliação Ambiental da Escócia enumera uma
avaliação integrada tiveram resultados semelhantes.
série de recomendações que devem reger a avaliação de impactos sinérgicos e
cumulativos, dentre os quais destacamos:
Figura 23. Proporção de estudos ambientais usando conceitos de AIX. Fonte: Ilustrado a partir dos
dados de Burris & Canter (1997)
Não restrição a limites administrativos: O diagnóstico do meio ambiente, extensão
e sensibilidade dos sistemas receptores, tais como ecossistemas e as comunidades
Estudos analisados devem evitar restringir-se a limites administrativos.

33% Interação entre empreendimentos públicos e privados: Deve-se levar em


47% consideração os efeitos que podem surgir a partir da interação entre
empreendimento privados e programas de Estado (bem como de outros
empreendimentos que estejam previstos para a área).

Observação do limiar crítico: É importante avaliar se os impactos cumulativos


20% poderão levar os sistemas receptores a ultrapassar o limiar crítico.

mencionavam AIC diretamente mencionavam AIC indiretamente não citaram Consideração do nível de incerteza: Na avaliação de impactos cumulativos e
sinérgicos deve-se considerar um nível de incerteza dos impactos futuros, e sempre
que possível ser estabelecida uma margem de erro que deve ser quantificada e
explicitada no estudo.

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Além destas recomendações, o Guia reforça a necessidade de se dar a atenção 5.4. Ferramentas disponíveis para Avaliação Integrada
necessária aos impactos antrópicos, que muitas vezes são relegados a segundo plano
nas avaliações de impacto. Destaca, ainda, a importância de se avançar no Listas de verificação (checklists): análogas às usadas para a AIA tradicional. Podem
desenvolvimento de metodologias de avaliação de impactos sinérgicos com especificar uma lista de parâmetros ou impactos relevantes a serem levados em
abordagens analíticas, seguindo sistemática consistente e previamente definida. consideração na avaliação integrada de impactos sinérgicos e cumulativos. Existem
listas para consulta, com impactos comuns para determinados tipos de atividades,
Se os conceitos sobre impactos cumulativos e sinérgicos ainda estão em como a do Banco Mundial1. A desvantagem é que listas de verificação não
desenvolvimento, as metodologias para a identificação, caracterização a valoração requerem o estabelecimento de relações de causa e efeito.
desse tipo de impacto estão em fase embrionária. Porém, mesmo sem existir ainda
uma metodologia unificada, existem ferramentas úteis para a avaliação integrada. A Matrizes de interação e de Avaliação de Impactos: também análogas às usadas na
mais usual é o método conhecido como ad hoc. Nesse método, a análise dos impactos AIA tradicional, existem matrizes de diversos tipos (Anexo I). Dependendo do
cumulativos e sinérgicos é feita de maneira qualitativa, baseando-se no conhecimento modelo adotado, permitem traçar a interação entre impactos de duas ou mais
de especialistas. Vale destacar que esse método não é sistemático, e pelo fato de atividades, valorar os impactos e estabelecer relações de causa e efeito.
basear-se no conhecimento de especialistas, está sujeito a incertezas e subjetividade.
Questionários, entrevistas e painéis podem ser usados para tornar este método mais Redes de interação: permite mapear causas e efeitos através de diagramas (Figura
sistemático e seguro. 24 e Figura 25), sendo muito úteis para a identificação de impactos indiretos
cumulativos. Têm a vantagem de permitir uma visualização rápida e clara dos
Para reforçar o método ad hoc e reduzir o grau de subjetividade, pode-se usar o diversos empreendimentos, atividades, impactos e receptores envolvidos.
método Delphi, que tem como objetivo balizar o parecer técnico de especialistas para
a obtenção de convergência de opiniões. Em linhas gerais, esse método baseia-se no
Figura 24. Exemplo de rede de interação simplificada para AIA. Fonte: Modificado de Canter, 1983 in
pressuposto de que as estimativas e opiniões de um grupo estruturado de especialistas
Santos, s.a.
são mais consistentes do que aquelas de grupos não estruturados, ou de indivíduos
isolados. O método funciona elencando-se uma lista de especialistas no assunto em
análise. A esse grupo é enviado um questionário estruturado para obtenção das
opiniões de cada especialista. Após a obtenção das respostas, sempre de forma
anônima, elas são compiladas e devolvidas para que os especialistas revisem suas
opiniões após observarem as demais. Se necessário pode-se repetir o processo até se
obter um alinhamento de idéias ou até o consenso. Na avaliação de impactos, o
Método Delphi pode ser usado para validar listas de impactos e sua valoração, por
exemplo.

Existem outras ferramentas, derivadas de diversas áreas do conhecimento, que


também têm sido usadas com sucesso para subsidiar avaliações qualitativas e
quantitativas de impactos cumulativos. Essas ferramentas e métodos serão
apresentados a seguir.

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Figura 25. Exemplo de rede de interação de Sorensen para AIA. Fonte: Modificado de Canter, 1983 in Figura 26. Camadas de informações geográficas que compõem um SIG.
Santos, s.a

Fonte: Camargo @ Wikimedia.

Figura 27. Interface GvSIG.

Combinação mediada por computador: desenvolvida para dar suporte á avaliação


ambiental de projetos governamentais, usa uma combinação dos métodos
anteriores e métodos analíticos numa abordagem sistemática mediada por
computador. Tem como etapas: a) identificar atividades associadas com a
implementação de projetos e programas, b) identifica impactos potenciais, c)
disponibiliza modelo de relação causa e efeito para quantificar os impactos
potenciais, e d) orienta a proposição de medidas mitigadoras.

Sistema de Informação Geográfica SIG: esta técnica baseia-se em uma


sobreposição de mapas das diferentes características ambientais da área de estudo
(relevo, hidrografia, biomassa etc) (Figura 26 e Figura 27). Com a sobreposição é
possível observar a interação entre os aspectos ambientais e assim visualizar os
pontos de confluência propícios a gerar impactos cumulativos e sinérgicos.

Fonte: Fernández @ CCommons.

Álgebra de mapas: é uma metodologia que se baseia em sistemas de informações


geográficas SIG agregando pesos a cada um do mapas sobrepostos onde cada pixel
recebe um valor conforme a relevância daquela característica ambiental para a
análise. Ao se cruzar as diferentes informações dos mapas o valor dos pixels são

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somados chegando-se a um mapa síntese onde são apontados os pontos de concentrações de ozônio. Ao longo das décadas esse sistema passou por melhorias e
convergência com maior valor (Figura 27). Esses pontos podem indicar locais de incorporação de novas tecnologias, estando atualmente na versão UAM V.
ocorrência de impactos sinérgicos e cumulativos.
O UAM-V é um modelo fotoquímico de grade tridimensional projetado para calcular as
concentrações de poluentes inertes e de poluentes quimicamente reativos, pela
Figura 28. Esquema demonstrando o funcionamento da álgebra de mapas (no exemplo, soma de
pixels).
simulação de processos físicos e químicos que afetam as concentrações dos poluentes
na atmosfera.

Além dessas ferramentas, podemos citar ainda algumas abordagens metodológicas


próprias da ecologia, tais como: Análise da capacidade de suporte, que identifica os
limites e o comportamento do ecossistema afetado; e Análise de ecossistemas, onde
se avalia a sustentabilidade da biodiversidade e do ecossistema usando indicadores,
como índices de paisagem, de biodiversidade, etc.

Fonte: Elaboração própria.


5.5. Roteiro para Avaliação Integrada de Impactos
Modelagem Ambiental: existem diversos tipos de modelos que permitem Socioambientais
representar os sistemas e processos ambientais, podendo auxiliar na avaliação de
impactos ambientais. Uma de suas vantagens é permitir simular o Para orientar os processos de avaliação integrada de impactos, sugerimos a seguir um
desenvolvimento desses sistemas em vários cenários (com e sem o roteiro.
empreendimento proposto, por exemplo). Existem desde modelos simples, de
avaliação multicritério até complexos modelos matemáticos, econométricos e I) Delimitação do sistema ambiental a ser
espacialmente explícitos (SIG). estudado

Modelos matemáticos são úteis para a avaliação de impactos específicos, bem II) Diagnóstico ambiental
conhecidos cientificamente e para os quais já haja equação para descrever e
quantificar processos (ex. erosão, dispersão atmosférica, acumulação de poluentes,
etc.). III) Mapeamento dos impactos individuais,
cumulativos e sinérgicos
Modelos baseados em avaliação multicritério podem ser úteis para estimar impactos
menos conhecidos ou para fazer a integração final de impactos. Os modelos
IV) Valoração dos impactos cumulativos e
sinérgicos
espacialmente explícitos, por sua vez, têm a vantagem de propiciar a visualização de
padrões no espaço territorial estudado.
V) Comunicação dos resultados
Há diversos modelos que já foram desenvolvidos especificamente para alguns tipos de
impacto. Por exemplo, o Urban Airshed Model (UAM). Originalmente desenvolvido
pela Systems Applications International (SAI) na década de 70, trata-se de um software
para a investigação das questões envolvendo a qualidade do ar, especificamente as

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5.5.1. Delimitação do sistema ambiental a ser estudado: integradas de impactos cumulativos e sinérgicos, auxiliem na delimitação do sistema
ambiental a ser estudado, com base em sua experiência no assunto. A área, o nível e o
Em primeiro lugar, é necessário definir quais atividades e/ou empreendimentos serão horizonte temporal do estudo devem ser maiores do que aqueles previamente
considerados na avaliação integrada. Por exemplo, todas as hidrelétricas previstas para estimados para receber os impactos dos empreendimentos definidos no escopo de
uma bacia hidrográfica, o conjunto de minerações presentes numa região, todas as análise. As escalas de análise das avaliações de impactos integradas sempre são
atividades relacionadas a logística (transporte por rodovias e ferrovias, maiores do que aquelas utilizadas na AIA tradicional, já que impactos cumulativos
armazenamento) num raio de atuação. expressam-se por áreas maiores, tempos maiores e em níveis hierárquicos mais altos
dos sistemas ambientais, como já discutido.
Em seguida, delimita-se a área de estudo, que subsidiará o planejamento das próximas
fases, em especial o levantamento de dados. Recomenda-se, com base na Resolução
5.5.2. Diagnóstico e classificação das informações ambientais disponíveis:
CONAMA 1/86, que se trate a bacia hidrográfica como unidade de análise, não apenas
pela fundamentação legal, mas também técnica, como discutido anteriormente. Avaliação das informações disponíveis em estudos ambientais já existentes e
Porém, de acordo com o objetivo da avaliação integrada, podem-se adotar outros
realizados para o licenciamento de empreendimentos instalados na mesma área de
limites, de acordo com a extensão dos impactos imaginada, ou mesmo administrativos, estudo. Nessa fase deve-se buscar todos os dados secundários, incluindo mapas já
no caso de Avaliações Ambientais Estratégicas, para fins de planejamento de Estado.
existentes. Feito esse levantamento, deve-se avaliar a necessidade da realização de
estudos complementares, bem como validações em campo.
Também é necessário estipular qual horizonte temporal será considerado. Por
exemplo, para tratar de impactos decorrentes de minerações, pode ser necessário
Nesta etapa, os sistemas ambientais delimitados na fase anterior devem ser
realizar simulações que envolvam todo o período de atividade e descomissionamento caracterizados, tendo como unidade de análise a área de estudo previamente definida.
da mina, até a recuperação da área degradada, obrigatória por lei. Nesse caso, a AIA
Para isso, poderão ser usados dados primários (levantados em campo) ou secundários
deve ser maior que a vida útil do empreendimento, dependendo da reserva mineral
(bibliográficos).
disponível.
Como avaliações integradas de impactos são geralmente feitas em escalas maiores,
Faz parte da delimitação da análise, ainda, identificar quais níveis de sistemas frequentemente se utilizam dados já levantados nos EIAs dos projetos envolvidos.
ecológicos serão considerados. Para isso, deve-se procurar antever quais serão os
Esses estudos possuem valiosas informações obtidas in loco, como listas de espécies,
sistemas receptores dos impactos cumulativos e sinérgicos. Por exemplo, os impactos
caracterização da qualidade da água e entrevistas com a comunidade local. Embora os
sociais afetarão toda a população de um município, ou região metropolitana? Os EIAs tenham um escopo padronizado, determinado pela legislação ambiental, uma
impactos bióticos poderão ultrapassar o nível de ecossistemas, sendo expressos em
dificuldade recorrente é que cada um possui metodologias e abordagens um pouco
paisagens (mosaicos de ecossistemas e unidades de uso do solo), ou até mesmo no distintas. Frequentemente, até mesmo os indicadores utilizados são diferentes, o que
nível de bioma (alteração do status de ameaça de extinção de espécies, por exemplo)?
dificulta a comparação e integração dos dados entre os estudos. A padronização de
metodologias de Diagnóstico Ambiental nos EIAs, com georreferenciamento dos
A área de estudo não deve ser confundida com as áreas de influência, assim como a pontos de coleta de dados e uso dos mesmos indicadores, certamente facilitariam
definição do sistema e período a serem considerados não necessariamente
muito as avaliações de impactos cumulativos e sinérgicos entre os empreendimentos,
correspondem àqueles que serão de fato impactados. A influência dos impactos só permitindo uma efetiva integração dos dados levantados em cada estudo.
poderá ser delimitada de fato após a AIA, quando os impactos estiverem identificados
e mensurados. Por outro lado, é imprescindível definir quais os limites do estudo, para
Ferramentas muito utilizadas para o Diagnóstico Ambiental de avaliações integradas
planejar o escopo do trabalho e o levantamento de dados. O que se recomenda é que são o sensoriamento remoto e os Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Elas
analistas com experiência em AIA, se possível com experiência em avaliações
permitem a obtenção de diversas informações (topografia, cobertura vegetal, uso do

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 59 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 60
solo, hidrografia, etc.) a partir de imagens de satélite e mapas já disponíveis para ferramentas que podem ser utilizadas para auxiliar na valoração dos impactos
grandes escalas de análise. Além disso, permitem uma visualização de fácil cumulativos e sinérgicos.
compreensão das diversas camadas de dados e a identificação de padrões espaciais
entre os atributos ambientais. Assim como na AIA tradicional, os impactos cumulativos e sinérgicos devem ser
quantificados quanto a cada um de seus atributos (abrangência, prazo, duração,
Por fim, é importante destacar a utilidade de se realizar visitas a campo para validar as frequência, reversibilidade, magnitude). Os atributos dos impactos cumulativos e
informações obtidas por meios secundários. Sistemas ambientais são dinâmicos, e EIAs sinérgicos devem ser quantificados levando-se em conta os impactos individuais que
realizados alguns anos atrás podem ficar defasados conforme o uso e ocupação do os formam. Assim, se um impacto cumulativo é formado pelos impactos isolados A, B e
solo se expandem, novos desmatamentos e reflorestamentos ocorrem e outros C, que afetam, respectivamente, ADA, AID e AII, deve-se considerar que o impacto
projetos são implantados. Conhecer o ambiente in loco permite ainda obter um cumulativo resultante terá efeito sobre a AII. Tomemos como exemplo dois
conhecimento de características do lugar e da comunidade local, que muitas vezes é empreendimentos que causam ruído, um de forma intermitente, e outro de forma
imperceptível em relatórios e mapas. contínua. Caso esses impactos se combinem formando um impacto cumulativo de
ruído, deverá ser considerada a frequência maior, ou seja, impacto de ruído constante.
5.5.3. Mapeamento dos impactos individuais e cumulativos e sinérgicos:
Para valorar a magnitude dos impactos cumulativos e sinérgicos, deve-se levar em
Com base nos estudos e dados obtidos na fase anterior, inicia-se a fase de análises conta qual o tipo de combinação dos impactos individuais que o formam. Se é um
impacto cumulativo simples (aditivo ou linear), o cálculo de sua magnitude será a soma
multidisciplinares, buscando identificar os impactos individuais de cada
das magnitudes dos impactos individuais que o compõem. Já se tratamos de impacto
empreendimento e como eles podem interagir. Utilizando-se listas de verificação,
matrizes de aspectos e impactos ambientais e redes de interação, devem ser sinérgico, com combinação diversa (multiplicativas, exponenciais, etc.), deve-se usar a
fórmula que melhor represente essa interação.
identificados pontos de convergência e impactos comuns aos empreendimentos, e, a
partir daí, a identificação de impactos cumulativos e sinérgicos, sendo que os últimos
podem se originar da inter-relação entre dois outros impactos aparentemente de A fase de valoração dos impactos deve considerar, ainda, o potencial de mitigação ou
compensação, e os prejuízos ou ganhos ambientais a eles relacionados. Se possível,
menor relevância.
deve também ser levado em consideração o padrão espacial dos impactos, utilizando-
se álgebra de mapas. O mesmo SIG utilizado para a etapa de Diagnóstico Ambiental
Assim como na AIA tradicional, devem-se cruzar as atividades de cada
pode servir de base para o mapeamento dos impactos cumulativos, delimitando o
empreendimento analisado e as características do meio receptor. O uso de diagramas
para traçar as relações de causa e efeito, bem como a espacialização de impactos em gradiente de intensidade desses impactos sobre as áreas de influência dos projetos em
análise. Ao se analisar os mapas dos impactos isolados de cada empreendimento, é
mapas, auxilia muito essa tarefa. Ao visualizar os impactos de diversas atividades num
mesmo sistema receptor, fica fácil identificar os impactos cumulativos. Esta etapa de possível ver onde os impactos irão se sobrepor. Os mapas de impactos isolados
poderiam ser obtidos diretamente no respectivo EIA, mas, na prática são raros os
mapeamento é importante, ainda, para se definir a parcela de responsabilidade de
estudos que delimitam impactos. Geralmente são usados mapas de influência por
cada empreendimento na geração do impacto cumulativo global.
meio, como discutido no capítulo anterior. De qualquer forma, é possível gerar mapas
dos principais impactos a partir da descrição dos impactos disponível no EIA. Também
5.5.4. Valoração dos impactos:
é possível atribuir uma nota a cada pixel do mapa, baseada na definição de magnitude
desse impacto na AIA do empreendimento. Em seguida, por meio de álgebra de
Uma vez identificados os impactos individuais, cumulativos e sinérgicos, inicia-se a fase mapas, essas magnitudes podem ser somadas pixel a pixel para todos os
de valoração de cada impacto, que deve ser feita de forma multidisciplinar,
empreendimentos, permitindo a visualização de zonas de maior ou menor intensidade
preferencialmente com a participação do corpo técnico que participou da fase anterior de impactos cumulativos.
de diagnóstico. Sistemas de Informação geográfica e modelagem ambiental são

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5.5.5. Comunicação de Resultados:
6. CONCLUSÃO
Nesta etapa final, faz-se a comunicação de resultados para um público geral, por meio
de um relatório e de meios de visualização eficientes, como infográficos, mapas e A avaliação integrada de impactos socioambientais cumulativos e sinérgicos é uma
fluxogramas. Para o diagnóstico ambiental e visualização dos impactos, podem ser evolução da avaliação de impactos ambientais tradicional, na medida em que analisa
usados mapas temáticos. A relação entre atividades dos empreendimentos, seus impactos de grande magnitude, não observáveis em análises individuais. Esse tipo de
impactos cumulativos e sinérgicos podem ser desenhadas na forma de um fluxograma avaliação de impactos oferece ao Estado mecanismos eficientes para a definição de
(modelo conceitual da AIA), permitindo ao público interessado entender como são as políticas públicas na área ambiental e linhas de ação, pois extrapola a visão individual
interações (Figura 29). de um empreendimento, ampliando a escala de análise.

Figura 29. Exemplo de modelo de interações entre empreendimentos, em forma de fluxograma.


Apesar de estar prevista na legislação ambiental, ainda são poucas as experiências de
avaliação integrada. Os conceitos e metodologias para a avaliação de impactos
cumulativos e sinérgicos ainda estão em construção. Todavia, com o auxilio de
Mineração Mineração Mineração
1 2 3 métodos e ferramentas auxiliares, é possível identificar, quantificar e mapear esses
impactos.

Buscamos, nesta apostila, fornecer o embasamento teórico tanto para a avaliação de


impactos ambientais tradicional, quanto para avaliação de impactos cumulativos e
Aumento na sinérgicos. Apresentamos também as ferramentas auxiliares existentes para subsidiar
Rebaixamento de
Captação de água Desmatamento arrecadação de
lençol freático
impostos essas análises integradas.

Redução da
Fragmentação Aumento da renda
disponibilidade Perda de habitats
florestal municipal
hídrica

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7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Energético. Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do
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ambientais.Artigo elaborado para a aula de Metodologia de Avaliação de Impacto
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report: SC020061/SR4. Disponível em : http://www.staffs.ac.uk/schools/ http://www.ebah.com.br/content/ABAAAA13MAC/artigo-redes-interacao. Acesso em:
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df
THE NEW JERSEY OFFICE OF STATE PLANNING. Cumulative Impact Assessment: A.
MARIANO, J. B. Proposta de Metodologia de Avaliação integrada de Riscos e Impactos Catalogue of Techniques to Assess Cumulative Impacts. Prepared under contract for:
Ambientais para Estudos de Avaliação Ambiental Estratégica do Setor de Petróleo e The Pinelands Comission. 39 pp. 1993.
Gás Natural em Áreas Offshore. Tese de Doutorado em Ciências em Planejamento

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TUCCI, C.E.M & MENDES, C.A. Curso de Avaliação ambiental integrada de bacias. Slides 8. ANEXOS
em PDF, 30 lides, color., sem data.

8.1. ANEXO I
VALERA, C.A. Avaliação ambiental integrada dos impactos cumulativos sinérgicos dos
empreendimentos minerários. Grupo Nacional de Membros do Ministério Público
8.1.1. Modelos de Matrizes de AIA
GNMP. Disponível em: http://www.gnmp.com.br/publicacao/147/a-avaliacao-
ambiental-integrada-dos-impactos-cumulativos-sinergicos-dos-empreendimentos-
Exemplo de matriz de atividades, aspectos e impactos utilizadas para AIA de área de
minerarios#sthash.M6U2FKPL.dpuf . Acesso em: 18 de julho de 2014.
transbordo e triagem da empresa GR2, Santa Maria, RS.

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 67 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 68
Outro exemplo de matriz de AIA, separada por ação e meio receptor do impacto. Proposta de matriz para AIA de pequenas centrais hidrelétricas (Barbosa & Dupas,
Modelo proposto por Mota & Aquino (2002). 2006).

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 69 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 70
Modelo de matriz de AIA adotado por algumas empresas, como a mineradora Vale 8.2. ANEXO II

8.2.1. Critérios conceituais para aferição de magnitude de impactos.

Critérios gerais ou conceituais para definição de magnitude de impactos ambientais


(Mariano, 2007).

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Critérios específicos, sob o ponto de vista legal e ecossistêmico, para definição de Critérios específicos para definição de magnitude de impactos socioeconômicos
magnitude de impactos ambientais (Mariano, 2007). (Mariano, 2007).

Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 73 Formar EAD Avaliação Integrada de Impactos Socioambientais - Página 74
Critérios específicos para definição de magnitude de impactos e riscos ambientais de
acordo com o modelo de probabilidade e consequências (Mariano, 2007).

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