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COMO ENTENDERAM O FASCISMO EM SUA ÉPOCA

A Internacional Comunista e o fascismo: da “classe contra classe” ao Informe de


Dimitrov

“Não se pode, evidentemente, falar do fascismo sem falar da


classe operária, e também não se pode falar desta, para o
período compreendido entre as duas guerras mundiais, sem
tratar da política da Internacional”

Quando Nicos Poulantzas inicia sua apreciação do fascismo enquanto objeto de


um estudo pautado no materialismo histórico, são três os aspectos principais que ele
aponta para sua construção: primeiro, de apreendê-lo enquanto um fenômeno político,
isto é, como algo que não se limita a uma experiência histórica específica mas que se
repete, sob circunstâncias distintas que compartilham uma série de elementos que as
unificam; segundo, de considerá-lo como uma “forma particular de regime da forma de
Estado capitalista de exceção”, quer dizer, como parte de uma teoria política que ao
mesmo tempo o insira no bojo dos horizontes de um Estado de exceção no capitalismo e
o diferencie de outros regimes congêneres como o bonapartismo e a ditadura militar. O
terceiro elemento, e aqui o mais importante, é que qualquer coisa que se diga sobre o
fascismo no contexto do período entre guerras não pode ignorar o seu oposto mais
decidido: a agremiação internacional da classe proletária, a Internacional Comunista,
ainda mais levando em consideração que dentro de sua existência entre 1919 e 1943 foi
justamente o fascismo o problema com que mais teve de fazer frente (POULANTZAS,
1972, pp. 7-10).

É importante não interpretar a política da Internacional como um bloco


monolítico que permanece o mesmo independentemente da época, do local e da
correlação de forças. Faz sentido, portanto, o argumento de Del Roio (2008, 1-12) de
que embora se pretendesse um organismo de alcance e escopo internacionais, a IC
trabalhou, ao longo das décadas de 1920 e 1930, com focos de atuação para os quais
elaborava políticas e que, na medida que se mudavam os eixos estratégicos da
revolução, essas práticas eram reordenadas para atender a novas demandas políticas e
correlações de forças de cada período.
Desta forma, por exemplo, o entendimento da tática da Frente Única,
intrinsecamente ligada ao combate ao fascismo – embora não o fosse em sua origem – é
um no período dos levantes operários da Alemanha até 1923, quando a esperança da
revolução no ocidente dava o tom dos debates acerca do futuro do socialismo e da
própria União Soviética; outro quando o eixo estratégico se volta para a China com as
idas e vindas do PCCh e o Kuomitang que faziam daquela região um pavio de pólvora
da luta de classes em 1926-27; e ainda outro após a vitória de Hitler na Alemanha
fazendo que a Europa ocidental voltasse a ser uma região de sumária importância, tendo
como expoentes as Frentes Populares na França e na Espanha.

O VI Congresso da Internacional Comunista em 1928 ocupa um lugar


importante nessa história com a elaboração da política da “classe contra classe”, um
primeiro esforço feito pela IC para fazer frente ao fascismo – já em plena ascensão –
baseado na apreciação de que a socialdemocracia evoluía naturalmente para o fascismo
por seu próprio caráter de classe, tese essa que ficou expressa no conceito de
socialfascismo. No entanto, segundo Del Roio, aquele momento foi marcado por uma
nova guinada do eixo estratégico da Revolução para a própria União Soviética, como a
“força propulsora mais importante da revolução mundial”, fazendo com que “o
entendimento sobre questões particulares como o significado do fascismo e a posição de
classe efetiva que ocupava a socialdemocracia” ficassem em suspenso diante do
objetivo estratégico maior de defesa da ditadura proletária na União Soviética contra a
pressão externa e em seus desafios econômicos imediatos pós-NEP (ibid, p. 6).

Desta maneira, não é estranho que uma política de combate à socialdemocracia


como ala do fascismo tenha se forjado em um período marcado por derrotas atrás de
derrotas nos dois eixos estratégicos anteriores: a Alemanha de Weimar que ceifara Rosa
Luxemburgo, Karl Liebknecht e o movimento operário alemão, bem como a China
como palco da virada contrarrevolucionária definitiva do nacionalismo burguês contra
os comunistas sob a liderança de Chiang Kai-Shek. Ainda segundo Del Roio, a
polarização ao campo do “socialfascismo” parecia até ser desejável em uma conjuntura
em que se previa que uma crise do capitalismo de graves proporções levaria a uma
polarização social tal que o destino da humanidade estaria entre a revolução proletária
ou a guerra contra a URSS, o que fazia necessário, pois, desencadear uma guerra de
movimentos contra o capitalismo e todos os inimigos da construção acelerada das
condições de defesa da URSS e da transição socialista.
A marca que fica, contudo, é a de uma concepção mecanicista da evolução
gradual e orgânica da democracia burguesa ao fascismo, como já era aventado por
partidos como o PCI de Bordiga e mesmo por bolcheviques de primeiro escalão como
Manuilski (POULANTZAS, op. cit., pp. 63-65). Poulantzas vai além ao dizer que um
catastrofismo economicista era característico da IC até 1935 na sua avaliação do
fascismo na medida que subestimava a luta de classes como primado no
desenvolvimento do ritmo de tendências históricas (ibid, pp. 40-44). Concepções como
a tendência inelutável do capitalismo até a putrefação, a marcha inevitável da
humanidade até o comunismo ou o colapso do capitalismo com a baixa tendencial da
taxa de lucro levavam a uma noção de que, se por um lado o fascismo era o destino final
da democracia burguesa, o destino final do fascismo só poderia ser sua derrubada e a
passagem ao socialismo. Tal encadeamento de ideias dá sentido à desejada polarização
da qual Del Roio se referia.

O isolamento das forças produtivas das relações sociais de produção, concepção


tipicamente economicista, também estava na base de diversos outros dos equívocos que
o relatório de Dimitrov ao VII Congresso da Internacional Comunista de 1935 – do qual
voltaremos mais adiante – aponta como marcantes do período anterior do movimento
comunista internacional. Pode-se falar de três deles:

Primeiro, a própria tese do socialfascismo, a socialdemocracia como ala do


fascismo. Dimitrov falava que a subida ao poder do fascismo é resultado de uma luta
recíproca com a própria democracia burguesia, vitória essa facilitada pela debilidade
dos partidos socialdemocratas europeus ao buscar reprimir a classe mais interessada no
combate ao fascismo e perder o controle dos meios tradicionais do Estado burguês, ao
mesmo tempo que conciliava com um setor da burguesia cada vez menos interessado
em arcar com os custos da crise econômica (DIMITROV, 2014, pp.). A tese do
socialfascismo padece, portanto, de uma identificação economicista entre dominação
econômica e hegemonia política, negando as contradições inerentes à própria burguesia
(LOUREIRO; PRATES, 2019, 11-12).

Segundo, a subestimação do perigo fascista na Alemanha e na Itália na medida


que o caráter atrasado do capitalismo nestes países impediria o domínio do setor mais
avançado do capitalismo, o capital financeiro, tido como o principal agente da ditadura
fascista. Isto significa que para explicar a forma política do Estado burguês, bastava
verificar o que o estágio de desenvolvimento de suas forças produtivas determinava.
Mais uma vez se toma a infraestrutura econômica separada das relações sociais de
produção e o papel que a luta de classes possui, seja qual for o estágio das forças
produtivas, em determinar o caráter do Estado (ibid, 12-13).

Terceiro, a ideia do fascismo como ação desesperada da burguesia contra uma


situação ofensiva do proletariado revolucionário, isto é, considerar o fascismo sempre
como contrarrevolução. O próprio exame da história mostra como o fortalecimento do
fascismo na década de 1920 surge, como diz Clara Zetkin, mais como “punição pelo
fato de que o proletariado não tenha sustentado e aprofundado a revolução que foi
iniciada na Rússia” (ZETKIN, 2019, p. 18-19), isto é, como ofensiva geral
empreendida pela burguesia mundial que coloca, pois, o proletariado na defensiva.

Seja na chave de uma virada tática direitista proposta por uma corrente única do
oportunismo europeu e soviético (RODRIGUES, 2ª ed, 2008, 136-143) ou na da
recuperação dimitroviana da análise leninista na política da Internacional (chave que
perpassa toda a obra citada de Poulantzas), o fato é que o VII Congresso da
Internacional Comunista em 1935 e o informe proferido por George Dimitrov intitulado
“A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo” são verdadeiros divisores de
águas na conceitualização do fascismo pela IC, bem como as táticas para enfrenta-lo.

Dimitrov reinvoca o 13º Pleno do Comitê Executivo da Internacional Comunista


para definir o fascismo como “a ditadura descarada dos elementos mais reacionários,
mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro” (DIMITROV, op. cit., p.
14). Já fazendo um balanço crítico de demais concepções que surgiram no seio do
movimento operário, Dimitrov rechaça a tese de Otto Bauer – já criticada por Clara
Zetkin desde 1923 – do fascismo como poder que se ergue acima das classes, bem como
de que seria a sublevação da pequena-burguesia que se apodera do aparelho do Estado,
como propunha o socialista inglês Henry Noel Brailsford.

Outra mudança importante está na ascensão do fascismo ao poder. Como a


própria palavra “ascensão” sugere, não se trata de mera troca de um governo burguês
por outro, mas a substituição da própria forma estatal, do “regime” como definiria
Poulantzas, da democracia burguesa pela ditadura terrorista do capital financeiro em sua
sanha de descarregar o peso da crise nas costas dos trabalhadores, escravizar os povos
débeis para resolver os problemas do mercado, aumentar a opressão colonial e realizar
uma nova partilha do mundo por meio da guerra. Substituição essa que, novamente, não
prescinde de uma luta encarniçada com os demais partidos burgueses da ordem,
inclusive da socialdemocracia.
Por fim, antes de entrar nos aspectos táticos, Dimitrov traz à tona um aspecto
teórico de pretensões práticas de suma importância: a influência do fascismo sobre as
massas. Diz Dimitrov:

De onde nasce a influência do fascismo sobre as massas? O fascismo


consegue atrair para si as massas porque apela de forma demagógica para
suas necessidades e exigências mais candentes. O fascismo não só instiga os
preconceitos profundamente arraigados nas massas, como especula também
com os melhores sentimentos destas, com sua sede de justiça e, às vezes, até
com suas tradições revolucionárias. Por que os fascistas alemães, esses
lacaios da grande burguesia e inimigos mortais do socialismo, se fazem
passar perante as massas por “socialistas” e apresentam sua subida ao poder
como uma “revolução”? Porque se esforçam em explorar a fé na revolução, a
atração pelo socialismo que vive no coração das amplas massas trabalhadoras
da Alemanha. (DIMITROV, 2014, p. 16)

Segundo Loureiro e Prates, neste ponto Dimitrov se aproxima de Togliatti ao


propor que, na medida que se entende o fascismo como um fenômeno de massas, e
tendo em vista a contradição que decorre disso uma vez que seus apelos populares não
passam de demagogia dado seu caráter de classe, as massas organizadas pelo fascismo
são plenamente disputáveis (LOUREIRO; PRATES, 2019, 13-17). Para Togliatti, “os
sindicatos fascistas não podem ser vistos como um bloco sem conflitos, sem
contradições. Os sindicatos fascistas representam um terreno onde podemos ver
contínuas lutas, onde podemos ver uma constante modificação das relações de classe e
de formas de organização” (TOGLIATTI, 1976, p. 64), apreciação essa que carrega uma
consideração importante ao trabalho de massas dos partidos comunistas da Europa: a
necessidade de realizar a propaganda revolucionária dentro das organizações laborais
controladas pelo fascismo e expor a contradição às massas trabalhadoras.
Por fim, compreender o fascismo para a Internacional Comunista nunca foi
apenas uma questão de atuar na conjuntura italiana, mas antes, se considerou aquele um
fenômeno de projeções europeias – senão mundiais – de rapina do capital financeiro
sobre os povos oprimidos e seus principais instrumentos de luta, os partidos comunistas.
O fenômeno desencadeado na Itália de Mussolini é uma declaração de guerra contra a
própria União Soviética, é um fator decisivo para o desenvolvimento da luta de classes
na Europa ocidental (cujo futuro era visto como determinante para a revolução mundial)
e que, portanto, demandava da IC uma rápida compreensão e intervenção. Pode-se dizer
que essa demanda não foi suprida e, de fato, a interpretação de Clara Zetkin do fascismo
como uma ofensiva da burguesia que coloca o proletariado na defensiva, havia se
concretizado. A vitória de Hitler na Alemanha é o corolário para uma nova tentativa de
compreender o fascismo, já nos anos 1930 e à luz de duras experiências para os
comunistas, e que tem em Dimitrov seu principal articulador ao levar à tese da “ditadura
terrorista do capital financeiro com influência de massas” ao plano de uma nova atitude
dos partidos comunistas, substituindo a tática da “classe contra classe” por Frentes
Populares antifascistas com a socialdemocracia ao passo que desenvolvia o trabalho de
agitação e propaganda revolucionárias no seio das massas, inclusive daquelas
influenciadas pelo fascismo.

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