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TEMPO DE SEMEADURA

Isabel Barroso

Orar diante do quadro de Vincent Van Gogh entitulado “O semeador”, “Camponês


semeando” ou “Semeador ao pôr do sol”, pintado em Arles (França) durante o outono de
1888 (museu da Holanda)

1o. passo: olhar--- admirar


Coloque o quadro diante de você de maneira que possa contemplá-lo
desde uma postura cômoda e relaxada. Você é convidado a olhá-lo atentamente, sem pressa.
Comece por reconhecer os diversos planos. Identifique os elementos significativos. Observe a
tonalidade das cores. Fixe-se em todos os detalhes. Quê observa? Em que se detém o seu olhar?
* O primeiro que atrai nosso olhar é um resplandecente e amarelado sol que preside a composição. A luminosidade do céu no fundo
capta nossa atenção; todo o céu está banhado por esta luz que irradia com tremenda força. Os raios, com seus tons amarelados e
alaranjados, cobrem todo o horizonte; não há lugar para o acostumado céu azul.
Amanhece? Entardece? Não podemos dizer com certeza. A intensidade desta luz nos convida a descansar por um momento aqui.
Queremos que o calor do sol nos banhe, desejamos empapar-nos dessa energia que se irradia a partir de dentro.

* Depois de um tempo, olho o campo semeado. Ocupa dois terços da paisagem.


O efeito da terra se consegue por meio de pequenas pinceladas em forma de aspas, unidas ou superpostas, que seguem o ritmo dos
montinhos de terra. Sua cor é uma mistura de amarelo, ocre, azul e cinza.
Parece uma terra bastante endurecida.

* Na metade superior da cena se situa o único personagem: um homem semeando.


O camponês avança para a direita sustentando com sua mão esquerda o saco de sementes e, com seu braço direito parece estar
espalhando sementes na terra.
Leva consigo um chapéu e suas roupas foram pintadas com as mesmas cores que a terra.

* O campo arado, pronto para a semeadura, poderia estender-se até o horizonte, mas, curiosamente, no fundo se percebe uma franja de
terreno com espigas amareladas. Parece um campo de trigo pronto para a colheita.
A justaposição dos dois campos nos parece estranha, pois sabemos que só se costuma semear vários meses depois da colheita.

* Para estabelecer um corte entre o campo amarelado e o amarelo do céu, o pintor coloca à esquerda uma casa e umas árvores, e à
direita as copas de um pequeno bosque de árvores.

Uma vez analisada a composição do quadro, detenhamo-nos novamente a admirar esta cena rural
passeando o olhar pelos diferentes elementos significativos. Pouco a pouco deixemos que a imagem
nos habite e que a beleza desta cena vá calando em nós.
2o. passo: evocar
As imagens costumam evocar recordações; elas produzem associações que nos
levam a reviver momentos de nossa história.
-Quê experiências brotam em sua memória ao contemplar este camponês percorrendo o campo e semeando?
Recorde experiências do campo, em épocas de plantio ou colheita.
Faça memória do contato próximo com a natureza e a possibilidade de conhecer de perto outro ritmo
de vida ligado à terra. Acolha as vivências que vão se despertando em sua memória.
- Quê sentimentos estas recordações suscitam em você?

3o. passo: deixar ressoar a Palavra


Ao contemplar o quadro, vêm em nossa memória muitos textos
da Escritura. Vamos acolher alguns deles:
a) “Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará” (Lc. 1,78)

* Volte a fixar o seu olhar no sol que brilha tão intensamente neste quadro. Ao contemplá-lo, ressoam em você as palavras do
“Benedictus”. Admirando o resplendor desta luz solar, surge em você o desejo de meditar no significado destas palavras proclamadas
pelo velho Simeão.

* Contemple novamente com calma a imagem, repetindo o versículo 78.


Lentamente, uma e outra vez, acompanhando as palavras com o ritmo de sua respiração.

* O sol é símbolo de vida, de felicidade, de alegria, frente às trevas que são símbolo de morte.
No entanto, na Escritura o sol tem ainda um significado mais profundo (Is. 9,1; Is. 60,1; Ml 3,20).

* Esta grande luz que surge no horizonte, este astro que banha com seu resplendor todo o firmamento, este sol que ilumina aos que estão
nas trevas, e nos guia pelos caminhos de paz, é Jesus, o Salvador.
“Eu sou a luz do mundo” (Jo. 8,12).
Pelo grande amor que Deus nos tem, Jesus nos visita como Sol que ilumina o caminha para Deus e nos traz salvação.

* Pergunte-se a você mesmo:


- Em quê medida deixo que minha vida seja plenamente iluminada por Ele?
- Quais são as sombras que co-existem em minha vida e que ainda não assumo? Quais são minhas zonas
escuras?
- Em quê medida vivo como “filho(a) da luz” (1Tes. 5,4-5; Ef. 5,8-9).

b) “Debaixo do céu há tempo para tudo...tempo para plantar e tempo para arrancar a planta” (Ecle 3,1)

Uma das coisas surpreendentes deste quadro é ver como o artista faz coincidir na mesma cena duas
reali-dades que, na vida cotidiana, não acontecem simultaneamente: no fundo há um campo de espigas
amare- las, pronto para ser colhido e, no primeiro plano, uma terra lavrada que está a ponto de ser
semeada.
Na vida cotidiana, estes dois momentos, o de plantar e o de colher, se alternam, são tarefas que se
realizam em momentos diferentes do ano.
- Quê levou o pintor a plasmar ambas realidades no mesmo quadro?

Não há uma análise do quadro que justifique este fato. No entanto, parece sugestivo
meditar/contemplar esta imagem na qual semeadura e colheita se apresentam juntas.
É possível que no campo de nossas vidas ambas experiências possam viver simultaneamente.
Pode ser que encontremos parcelas de nossa vida que já produziram fruto abundante, e que coexistem
junto a outras que estão ainda como terra lavrada.
Pode ser que seja um convite a deixar para trás o campo que já produziu seu fruto, confiando a outros a
colheita, e arriscar-se a começar em novo terreno que ainda não acolheu a semente da Palavra.
Contemplando as espigas do fundo, eu me pergunto:
- Quê entendo por uma vida fecunda?

Jesus nos disse: “Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça” (Jo. 15,16)
Quero deter-me para meditar quão fecunda está sendo minha vida, minha missão...
- Em quê medida me identifico com o campo de espigas?

Podemos recordar o significado bíblico do conceito de fecundidade, diferente do conceito apresentado


pela sociedade de consumo baseado no êxito e no triunfo.
Na vida cotidiana, normalmente identificamos o “ser fecundos” com ter êxito, pois vivemos em um
ambiente impregnado pela ansiedade de rendimento. Sou eu que consigo e, conseqüentemente o fazer
muito, o fazer muitas coisas, pode sutilmente introduzir-se como critério para discernir se produzo ou
não, se há muita ou pouca colheita.
Entre a fecundidade com sentido evangélico e o resultado, a produtividade que a economia de
mercado nos propõe, há uma tênue fronteira. Tanto a fecundidade como o resultado exigem esforço,
disciplina, trabalho duro. No entanto, há diferenças relevantes entre ambos:
Na fecundidade há espaço para o “mistério” (Mc. 4,26-29). A fecundidade tem lugar no oculto, nas
entranhas da terra. A fecundidade supõe, portanto, confiança e abandono, uma atitude aberta e serena.
Estamos como que atentos, colaborando, lançando as sementes, mas sem ansiedade nem tensão, sem
deixar-nos desanimar pela insignificância dos primeiros resultados (Mc. 4,30-32).
Por sua vez, o êxito requer ter tudo sob controle e ver claramente os resultados de uma forma imediata.
Viver em chave de fecundidade supõe aceitar ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As
plantas necessitam tempo para florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.
O êxito, por sua vez, requer eficácia imediata, resultados tangíveis e palpáveis a cada minuto. Não sabe
de espera nem de esperança. O importante é o momento presente; custa assumir os prazos longos.
A fecundidade tem a ver com nossa capacidade para acolher o gratuito, com a capacidade para assumir
que, por muito que tenha trabalhado, o resultado é dom gratuito. Em chave de êxito, todos os resultados
nós os atribuímos como fruto de nosso esforço, de nossa capacidade pessoal.
A natureza tem imperfeições e fracassos; nem todos os frutos que produz são os melhores. No campo,
junto ao trigo, aparece a cizânia e ambos co-existem até o final (Mt. 13,24-30). Nem todos os frutos são
de primeira categoria. O espírito de fecundidade acolhe as debilidades pois não cabe a nós julgar.
Por sua vez, a ansiedade pelo êxito e pelo rendimento não tolera a debilidade, a fraqueza; tende a deixar
de lado e excluir do sistema quem não é produtivo.
A chave da fecundidade nos situa como colaboradores mais que como protagonistas (1Cor. 3,6-9).
A fecundidade perdura e aumenta com os anos, embora as força se debilitem. Em troca, numa cultura do
descartável, as coisas duram pouco; só vale o novo, o jovem e os mais velhos são deixados de lado.

À luz destes critérios de discernimento, eu me pergunto:


- Em quê medida sinto que minha vida atual é fecunda?

c) “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica infecundo; mas se morre dará fruto abundante”
(Jo. 12,24)
Detenho-me finalmente a contemplar o semeador. Ele está em movimento, percorrendo o campo,
lançando as sementes na terra.
Procuro colocar-me em seu lugar e identificar-me com ele. Ao observá-lo, eu me pergunto:
- “Onde estou semeando? Onde me situo nesta terra, cenário de profundas transformações sócio-culturais?”
Nesta realidade tão distinta e complexa, impõe-se uma séria reflexão encaminhada a revisar nossas
presenças e nossa missão evangelizadora. Somos convidados a abrir-nos ao novo, a semear em outros
lugares... Onde semear neste momento da história?
- “Que semear?”
Ao contemplar nossa terra, com suas injustas e sangrentas desigualdades, facilmente surge em nós a
sen- sação forte de impotência. Quê podemos fazer para que a justiça triunfe sobre o sofrimento e a
miséria?
Sabemos que, para ter amanhã uma nova colheita, uma terra que produza alimento abundante para
todos, é necessário semear hoje. E se não semearmos não haverá colheita. É necessário ter uma visão
ampla e de longo alcance: para que algo novo germine em nossa terra, temos de discernir o que vamos
semear hoje.
E agora me detenho a pensar nas sementes.
São muito pequenas, são colocadas na terra e desaparecem. No entanto, contém uma vitalidade oculta
que as leva a germinar. O fundamental não é seu tamanho senão a enorme força transformadora que
contém e sua grande fecundidade.
Deus, o Semeador por excelência, nos recorda que o Reino se faz presente na história a partir do
pequeno e do insignificante. O “novo” sempre nasce pequeno, frágil, oculto e a partir de baixo.
Hoje, mais do que nunca, é preciso essa confiança na força do pequeno em meio a um sistema que nos
faz valorizar com convicção que só as grandes multinacionais são produtivas e triunfam.
Como as sementes na terra, percebo que somos convidados a atuar a partir de dentro, transformando a
realidade a partir de meios simples, mas com criatividade e audácia.
Submergidas na terra as sementes vivem um lento processo até poder liberar uma vida nova e abundante.
Mas para que isto aconteça sofrem uma certa morte: para gerar vida entregam sua vida.

Não basta discernir quê fazer, quê tipo de semente plantar. A pergunta mais radical que brota em meu
interior é outra:
- Em quê medida estou disposto a ser como a semente: uma vida doada até as últimas conseqüências para
que surja nova vida?

4o. passo: contemplar


Acolho tudo o que foi surgindo em mim ao contemplar esta cena.
Procuro fazer silêncio centrando meu olhar novamente no quadro.
E a partir daqui me dirijo ao Senhor em oração.

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