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BUSCAR O REINO, VIVER O REINO, SER O REINO

Por Ocimar Ferreira de Andrade

“Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão
acrescentadas.” Mt 6:33

Constantemente ouvimos irmãos e irmãs dizerem: "primeiro temos que fazer as coisas
pra Deus...depois é que devemos nos preocupar em fazer as coisas para nós". No
entanto, continuam vivenciando uma ansiosa solicitude por suas vidas.

Tal afirmação, ou coisa parecida, denota uma certa rigorosidade e busca de


autojustificação em cumprir o que Jesus ordenou no texto acima,além de apresentar um
desvio da verdade implícita naquele ensino.

Leia o texto de Mateus 6: 25-34 e faça a si mesmo a seguinte pergunta: "qual a coisa
mais importante desse texto?".

Abaixo transcreverei apenas os versículos 25,33 e 34:

“Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer,
ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não
é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? (...)Mas buscai
primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não
vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo.
Basta a cada dia o seu mal.”

Somos levados quase que instantaneamente a dizer: "buscar o reino de Deus é a coisa
mais importante desse texto", mas, permita-me emitir uma segunda opinião.

É verdade que a importância desse esclarecimento do Senhor sobre o que devemos


buscar não encontra paralelos na literatura universal. Até porque é só na Bíblia que a
origem e a natureza de tal reino são esclarecidas primordialmente. No entanto, pergunte-
se: o que motivou Jesus a falar tais palavras durante o "sermão do monte"?

Entendo que Ele introduz tais palavras com o que deva ser observado como a
"principal" idéia motivadora de empreendermos a busca do reino: " Por isso vos digo:
Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que
haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir."

Isso é tão importante que dá a tônica de todo o restante dessa parte de seu discurso.
Inclusive, termina-a com a mesma ênfase: " Não vos inquieteis, pois, pelo dia de
amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”(v
34).

Ansiedade! O mal que mais assola a alma da humanidade (que caminha junto com o
mal que mais assola o corpo físico: a cefaléia ou a dor de cabeça considerada "o mal do
século"). Este post, no entanto, não tem finalidade de esclarecer origem e efeitos da
ansiedade. Desejo apenas auxiliar aos leitores a compreender esse maravilhoso texto
bíblico, e qual, realmente, é sua aplicação para nossas vidas.

Se entendo que Jesus percebia os motivos - doenças, dívidas, religiosidade, possessões


demoníacas, curiosidade, inveja, ciúmes etc. além da ansiedade de ver resolvida toda a
conjuntura política da época - que levavam a maioria dos que faziam parte daquela
multidão a buscá-lO, posso entender também que falava a pessoas que O viam como "o
reino" que Ele e João anunciavam. Para isso abandonavam tudo o que faziam e o que
amavam, passando dias ao seu lado e dos discípulos ( a multiplicação de pães foi
motivada devido ao tempo que estavam naquele lugar isolado da civilização). Então,
por que Jesus dizia "buscai em primeiro lugar o reino..." a pessoas que o buscavam?
Estava Ele reforçando ou aprovando o que estavam fazendo?

Ao refletir profundamente sobre isso, à luz da Palavra de Deus, pelo Seu Espírito, você ,
possivelmente, chegará à mesma conclusão que cheguei. Por isso, se quiser parar a
leitura aqui e aprofundar-se em suas meditações faça-o imediatamente. De qualquer
forma continuarei a apresentar o que o Senhor, por seu misericordioso Espírito, me fez
concluir.

O erro de interpretação e, logicamente de conduta quanto ao que é ordenado, decorre


das palavras "primeiro lugar" (v 33). Opiniões, textos, pregações, conselhos, muitas
coisas já foram ditas sobre o assunto, mas em sua maioria dizendo exatamente como na
minha introdução: " busque primeiro as coisas de Deus..." induzindo aos leitores ou
ouvintes a separar o que é de Deus e o que não o é no seu pensar, falar e agir. Como se
o Caminho do Senhor fosse dicotômico (partido em dois), ou seja, num momento
estamos nele, no outro não.

O texto é claro, mas quando o explicamos com interpretações que levam as pessoas a
praticarem aquilo que ele não ensina torna-se um argumento falso. O apóstolo Paulo
chama a isso de "sofisma"* e creio que, intencionalmente, alguém introduza tais coisas
no ensino cristão, e daí permanecendo como verdade, para que a igreja seja uma
praticante de aparências sem qualquer verdade em sua vida diária.

O Espírito Santo opera então, de tempos em tempos, naqueles que amam o Senhor e a
igreja triunfante para que tais argumentos sejam derrubados, pois eles atendem a
interesses particulares e clientelistas de religiosos inescrupulosos ou desatentos da
verdade, gente boa, mas que cedem a apelos reprováveis do mercantilismo cristão. E
derrubar tais coisas cabe a cada um de nós fazer, como esclarece o texto abaixo:
"Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne, pois as armas da
nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para demolição de fortalezas;
anulando nós sofismas e toda altivez [orgulho, arrogância] que se ergue contra o
conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo..." 2Co
10: 3-5
Por isso fazer valer a prioridade da busca do reino sobre "todas" as outras coisas como
ato religioso é meramente sofismático. Vejamos:

Onde está escrito naquele texto que devemos buscar alguma coisa em "segundo lugar"?
Leia-o de novo. Não está, não é mesmo? Ao contrário, Jesus diz que "TODAS ESTAS
COISAS", ou seja, tudo o que Ele descrevera como necessidade humana: trabalhar,
vestir, comer, cuidar da aparência pessoal e familiar, serão , todas, ACRÉSCIMOS na
vida daquele que tivesse fé em Deus, pois só os gentios (os que não professavam a fé no
Deus criador e unico anunciado pelo judaismo) é que buscavam saciar suas
necessidades sem Deus.

Se não é para buscarmos nada em "segundo lugar", posso concluir que o "primeiro
lugar" que Jesus anuncia ali é um estado contínuo de vida em Deus. Ou seja, em tudo o
que eu fizer, o reino não pode estar em outro lugar senão dentro de mim, fazendo
comigo, necessitando comigo, imaginando comigo, desejando comigo, trabalhando
comigo...

Isso se torna mais claro quando fazemo-nos a pergunta "onde está o reino? " que é o
questionamento mais comum quando Jesus tocava no assunto. Ao buscar a resposta, em
Jesus, encontramos:
"Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu-
lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo
ali! pois o reino de Deus está dentro de vós."
O súdito do Senhor tem seu coração transformado e vivificado pelo Seu Espírito. Se crê,
o espírito do súdito-servo-amigo-filho vive! É na liberdade que Cristo nos oferece que
vivemos o reino intimamente, sem sofismas, sem religiosidade, sem" fazeres pra Deus",
sem "melhores pra Deus". Somos o que somos em Deus, não no que fazemos ou
buscamos.

Buscar é um início, os "sem fé" devem fazê-lo até receberem-na. Por isso "buscar" é o
único ato sem fé que as pessoas devem ter. depois disso , com fé, devem viver o
reino e ser o reino.
Viver o reino passa a ser um estado contínuo de gratidão e louvor em meio às
tempestades que assolam a vida humana e de regozijo no Senhor quando elas dão uma
trégua, na esperança de que "não podem ser comparadas com a glória futura que há de
ser revelada em nós...a redenção de nossos copos" (conf. Rm 8:13ss).

Ser o reino torna-se um testemunho contínuo dele em nós, atraindo os nossos próximos
para Jesus, não com falácias e obrigações religiosas de evangelismos, mas com
demonstrações de amor no Espírito Santo que em nós habita.

Falar, fazer, desejar, trabalhar, vestir, comer, cuidar passam a ser necessidades saciadas
em meio ao que somos em Jesus Cristo, em Seu reino, mediante o agir de Seu Espírito
em nós.

Quando dizemos que precisamos ir primeiramente à igreja (templo), ou ler a Bíblia,


orar, evangelizar, para depois vivermos nossa vida cotidiana, estamos afirmando aquilo
que mais repudiamos: o reino de Deus está em outro lugar que não dentro de nós.
Ou seja, quando participar de atividades na igreja representa o esforço para lá buscar o
Senhor, concebe-se então que não somos santuário do Espírito Santo (conf. 1 Co6:19),
onde, numa relação vertical permanente, adentramos o santíssimo lugar estabelecido em
nossos corações, e, ali , falamos com Deus continuamente. A importância daquele lugar
construído para comunhão está exatamente na oportunidade periódica da lembrança, um
ao outro, da prática do amor do nosso Deus que se relaciona sim com um povo, mas ,
primeiramente, com cada um individualmente. No entanto, a maior prática do
Evangelho não se dá ali dentro, mas fora, sendo "luz" e "sal" no mundo.

Quando ler a Bíblia representa buscar o reino em primeiro lugar, estendemos que não se
aprendeu que o Espírito Santo ministra diretamente ao nosso coração e mente fazendo
com que a letra lida seja gravada neles para vivermos o reino diuturnamente; que, se tal
forma de "busca" sugere que aprendemos e falamos com Deus de vez em quando e não
incessantemente em espírito (conf.Ef 6:18; Jd 1:20)

Se evangelizar domingo às 15 h deve ser considerado como o que Jesus quer dizer como
"primeiro lugar" , então não concebemos que o testemunho do Senhor deve exalar por
nossos olhos, palavras, sorrisos, carinhos, conselhos de paz...

Se considerarmos que trabalhar, estudar, comprar, comer, cuidar, devem ser buscados
DEPOIS de termos buscado o reino, então o reino não está em nós.

Alguém religioso perguntou a Jesus que mandamento deveria ser considerado como
principal. Supreendente (para os fariseus, sacerdotes e escribas) foi a resposta do
Senhor:
"Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e
fora dele não há outro; e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de
todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os
holocaustos e sacrifícios.

E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino
de Deus. E ninguém ousava mais interrogá-lo." Mc 12:32-34

Na afirmação acima feita pelo escriba a Jesus, denota-se o vínculo religioso cumpridor
de mandamentos, diferentemente do que Jesus anunciava como "reino". O escriba
achava que, por ensinar aquilo que Jesus afirmava e que havia endossado, poderia ser
encarado como "participante do reino" anunciado.

Cada um, cumprindo o que entende como religião, não amando a Deus e ao próximo
sobre todas as coisas que existem por fazer, não estará no reino. Com sua resposta,
derrubando "sacrifícios e holocaustos "como veículos de entrada no reino, o escriba
estava "próximo" de alcançá-lo, como afirmou Jesus, mas ainda não estava nele.
Precisava ainda empreender uma busca que renegaria todo orgulho e altivez de seus
cumprimentos religiosos como substitutivos do amor de Deus e ao próximo em suas
ações,em seus pensamentos , em seus sentimentos e ensinos.

Todo aquele que busca encontrar o reino, e ,encontrando-o, vive e passa a sê-lo, faz
toda e qualquer coisa sem separar-se dele. Buscar viver separadamente do reino seria
a mesma coisa que tentar separar o azul do céu , o azul ou o verde da água do oceano, a
beleza da flor, o doce do açúcar, o sabor do sal, o brilho da luz...Coisas inseparáveis! Se
de alguma forma mudarmos a natureza de uma a outra também perde sua manifestação.
"...porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e
na alegria no Espírito Santo. Pois quem nisso serve a Cristo agradável é a Deus e aceito
aos homens." Rm 14:17

Buscar o reino é um ato para os que ainda não o encontraram; viver o reino é um estado
de vida contínuo inseparável do que necessitamos; ser o reino é testemunhar a todos ao
nosso redor ( muitas vezes não são necessárias palavras) em que o Espírito Santo nos
transformou: um servo da paz de Deus, um filho do reino do Seu Amor.

Despeço-me com as palavras do apóstolo Paulo:

"Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por
vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a
sabedoria e entendimento espiritual a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o
seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de
Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a
perseverança e longanimidade; com alegria,dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à
parte que vos cabe da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do império das
trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a
redenção, a remissão dos pecados." (Colossensses1:13)
Paz em Jesus que nos liberta de dogmas enganosos e sofismas destruidores da
verdadeira comunhão em Cristo com aqueles que O amam acima de tudo.

Ocimar
*Sofisma : segundo a Pequena Enciclopédia Bíblica de O.S. Boyer, é "um argumento falso
intencionalmente feito para induzir outrem em erro."