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Greene & Howard Sasportas

Os Luminares
A PSICOLOGIA DO SOL E DA LUA NO HORÓSCOPO

SEMINÁRIO SOBRE ASTROLOGIA PSICOLÓGICA, VOLUME 3

Editora ROCA
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Liz Greene e Howard Sasportas são co-fundadores do Center for Psychological Astrology.
Greene é uma analista junguiana e autora de Saturno: Os astros e o amor; Os planetas
exteriores e seus ciclos; Relacionamentos e A astrologia do destino. Sasportas foi formado em
psicologia humanística e em psicossíntese, também autor de As Doze Casas. Ambos são
co-autores de O Desenvolvimento da Personalidade e de A Dinâmica do Inconsciente, publicados
na série "Seminários sobre Astrologia Psicológica".Ambos deram palestras por toda a
América e Europa. Liz Greene é astróloga e psicoterapeuta praticante em Londres.
Howard Sasportas faleceu em maio de 1992.

ÍNDICE
Introdução 04
Parte Um: A LUA 08
Mães e Matriarcado: A Mitologia e a Psicologia da Lua
(por Liz Greene)
Primeiro Amor: A Lua como Significador de Relacionamento 41
(por Howard Sasportas)
Parte Dois: O SOL 60
O Herói de Mil Faces: O Sol e o Desenvolvimento da Consciência
(por Liz Greene)
Sol, Pai e a Emergência do Ego: O Papel do Pai no Desenvolvimento Individual (por 84
Howard Sasportas).
Parte Três: O CONJUNTO 116
O Sol e a Lua no Horóscopo: Uma Discussão Utilizando Exemplos de Mapas Astrais
(por Liz Greene e Howard Sasportas)
O Ritmo da Vida: Uma Discussão sobre o CicIo de Lunação (por Liz Greene). 139
O Centro de Astrologia Psicológica 165

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Para Alois e Elisabeth e sua: filhas gêmeas,
Artemis e Lilith, que foram concebidas na epoca
em que este seminário estava sendo realizado.

INTRODUÇÃO

A palavra luminar, segundo o Chambers Twentieth Century Dictionary, significa


simplesmente "fonte de luz". Também serve para descrever "quem ilustra algum assunto
ou instrui a humanidade". Assim, um luminar do mundo literário ou teatral seria alguém
com muito talento - um ator como Laurence Olivier ou um escritor como Thomas Mann -
que define, através da qualidade de sua obra, um padrão a que aspiramos. Um luminar é
alguém que estabelece um exemplo, incorporando as melhores e mais altas expectativas de
realização.
Na astrologia mais antiga e poética, o Sol e a Lua eram chamados de Luminares ou
Luzes. O que são esses luminares, esses exemplares "instrutores" internos, que definem
cada um em seu respectivo domínio, o padrão interno a que aspiramos como indivíduos?
No passado, a astrologia costumava interpretar as colocações planetárias como um dom
imutável, correspondente à maneira como éramos feitos. Referia-se ao Sol e à Lua como
representantes de características essenciais, destinadas a definir irrevogavelmente a
personalidade do indivíduo. Entretanto, qualquer fator astrológico pode ser também
considerado um processo pois, do ponto de vista dos "insights" psicológicos, os seres
humanos são dinâmicos, progredindo pela vida num infinito desdobramento de mudanças
e num contínuo desenvolvimento. As colocações astrológicas descrevem setas que
apontam para algum lugar, a energia criativa que gradualmente ilumina as camadas dos
ossos descobertos nos padrões arquetípicos, um movimento inteligente que, ao longo do
tempo, preenche o delineamento básico do mito essencial da vida com as discretas cores
da experiência e com as escolhas individuais. Os luminares do horóscopo são realmente
instrutores, refletindo aquilo que poderíamos nos tornar algum dia, retratando
simbolicamente o melhor que poderia ser conseguido.
Os seres humanos nascem inacabados. Comparados às outras espécies animais,
entramos no mundo prematuramente, dependendo do outros por muitos anos para nossa
sobrevivência física e psicológica. Um bebe crocodilo recém-saído do ovo já possui dentes
afiados, coordenação motora para correr e nadar e um patente instinto agressivo, fatores
que lhe permitem caçar para comer e o protegem contra outros predadores. Mas nós, o
magnum miraculum da natureza, descrito por Shakespeare como “chorando e regurgitando
nos braços da babá" - nascemos sem dentes, frágeis, sem, coordenação e incapazes de
obter nosso próprio alimento - somos vítimas em potencial, pois sem os devidos cuidados,
morremos. Saídos do Éden do útero sem possuir coisas básicas como carro, casa. ou cartão
American Express, precisamos de uma mãe ou de uma substituta dela de quem podemos
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depender, e essa dependência física imediata e absoluta dá origem a uma ligação
emocional profunda e duradoura com a principal fonte de vida, compensada apenas pelas
lutas que mais tarde enfrentamos para nos separarmos dela. Como no início a mãe
constitui todo o nosso mundo, começamos a captar o mundo à luz de nossa primeira
experiência com ela e aprendemos a cuidar de nós mesmos conforme o exemplo fornecido.
Se a mãe é um abrigo seguro que consegue suprir adequadamente nossas necessidades
básicas - mãe suficientemente boa de Winicott -, tornamo-nos adultos que confiam na vida
e que acreditam que o mundo é um lugar acolhedor porque aprendemos, através de
exemplos, a sermos bons e atenciosos conosco. Se, no entanto, nossas necessidades são
distorcidas, manipuladas ou simplesmente renegadas, tornamo-nos adultos que acreditam
que o mundo está cheio de predadores poderosos e astutos, e que a vida não favorece
nossa sobrevivência, já que nós mesmos não a favorecemos. Nossa mãe nos oferece o
primeiro modelo concreto da instrutiva característica lunar da auto-preservação - nosso
primeiro exemplo do que podemos conseguir. Mas a Lua, esse luminar que nos ensina
como cuidarmos de nós mesmos de acordo com nossas necessidades individuais, ainda está
dentro de nós, e tem a capacidade de nos mostrar - se nossas primeiras lições não forem
"suficientemente boas" - como tratar as fendas, de modo que seja possível confiar na vida,
apesar de tudo.
Nosso nascimento psicológico é anunciado pela capacidade de nos diferenciarmos
como entidades individuais e distintas da mãe embora relacionadas a ela. Existe algo dentro
de nós que luta contra a dependência e a fusão da infância, impulsionando-nos pela longa e
tortuosa estrada rumo à transformação em seres independentes, governantes de nossas
próprias vidas. Isso não é simplesmente uma questão de desenvolver os dentes e aprender
a morder os outros crocodilos. O Sol, o luminar que nos instruí através dos ritos e rituais de
separação, nos confronta com o grande mistério do "Eu", a brilhante promessa de uma
personalidade autêntica e distinta, diferente de todas as outras, possuidora não apenas do
impulso para sobreviver, mas também da capacidade de preencher a vida com significado,
propósito e alegria. A passagem da dependência da mãe para a existência independente,
tanto interna quanto externa, é cheia de medos e perigos, como retratada pela jornada do
herói. A união com a mãe significa bem-aventurança - o eterno e atemporal casulo do
Jardim do Éden, onde não há conflito, solidão, dor ou morte. Mas a autonomia e a
autenticidade são solitárias, pois não há garantias de que alguém nos ame. Por que motivo
lutar tanto, sentir tanta ansiedade, se vamos morrer um dia, como todas as outras
criaturas? Nossos instrutores internos, como o deus do fogo babilônico Marduk e sua mãe
oceânica Tiamat, parecem estar empenhados em um combate mortal. Ou então, de acordo
com as palavras do poeta Richard Wilbur, "A planta gostaria de crescer / Ainda que
permanecendo embrião/ Desenvolver-se, ainda que escapando/ do destino de tomar
forma...”*
*Richard Wilbur, "Seed Leaves" [Folhas-Semente], de The Norton Anthology of Poetry, 3ª ed.,
Alexander W. Allison et al. (Nova York: W. W. Norton, 1986), pp. 1201-1202.
Já foi dito que a História é um relato do desenvolvimento da consciência. Assim como
nossa história pessoal se inicia com a saída do bebê das águas do útero, a história
mitológica do universo começa como deus ou herói solar emergindo triunfalmente do
corpo da Grande Mãe arquetípica. Nem a batalha do herói contra a mãe-dragão, nem a
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eventual apoteose nos braços de seu pai divino, demarcam o fim da história, pois é preciso
ainda que ele desça das alturas do Olimpo para se unir humanamente à sua contra parte
feminina que, através dos esforços do herói, deixa de ser um dragão e se transforma na
criatura amada. O herói solar que há em nós, empenhado nessa luta durante algum tempo
(e às vezes por toda a vida), é representado pelo luminar interno que guia a emancipação
do ego, desenvolvendo-o a partir das cegas compulsões instintivas da natureza até a luz,
inicialmente solitária mas verdadeiramente indestrutível, do "eu".
O Sol e a Lua simbolizam dois processos psicológicos básicos mas muito diferentes que
agem dentro de todos nós. A luz lunar, que nos incita a voltarmos à fusão com a mãe e com
a segurança do recipiente ourobórico, * também é a luz que nos ensina a nos relacionarmos
uns com os outros, a cuidarmos de nós mesmos e dos outros, a participarmos das coisas e a
sentirmos compaixão. A luz solar, que nos traz ansiedade, perigo e solidão, também é a luz
que nos instrui sobre nossa divindade oculta e - como o define Pico della Mirandola no
século XV - sobre nosso direito de nos orgulharmos de participar da criação do universo de
Deus. O objetivo de uma vida é encontrar o equilíbrio entre essas duas forças, uma
coniunctio alquímica capaz de valorizar a ambas. Diferenciar o eu da fusão com o mundo da
mãe, com o mundo coletivo e com o mundo da natureza nos permite desenvolver a razão, a
vontade, o poder e a capacidade de escolha - em termos históricos, esses impulsos
ocasionaram os notáveis progressos técnicos e sociais de nossa cultura ocidental do século
xx. Podemos atribuir muito charme ao mundo matriarcal mais "natural" do passado
distante, mas quando consideramos o que ele encerrava - uma vida média de 25 anos, um
total desamparo em face à doença e às forças da natureza, e um intrínseco descaso pelo
valor da vida de cada um - seria melhor apreciarmos o dom proporcionado pelo instrutor
solar durante todo o longo percurso de nossa evolução, desde o tempo da mãe-caverna.
Ainda assim, talvez tenhamos ido longe demais, às custas dos sentimentos e dos instintos; a
cega agressão que perpetramos à mãe-terra pode nos ter levado à beira de um abismo
ecológico. Fascinados pelo brilho da luz solar, incorremos numa dissociação mítica da mãe,
em vez de apenas diferenciarmo-nos dela. Em vez de estarmos à mercê dela como no
passado, agora é ela quem depende de nós - da mesma forma que nossos corpos e nosso
planeta. Também em nossas vidas pessoais parece que ainda estamos lutando, nessa
rítmica oscilação refletida pela dança cíclica do Sol e da Lua nos Céus. Jung disse uma vez
que quando há algo errado com a sociedade, há algo errado com os indivíduos; e se há algo
errado com os indivíduos, há algo errado comigo. O conceito de "Eu" engloba tanto o Sol
quanto a Lua, os dois instrutores internos que, devido às suas colocações específicas em
cada mapa astral, fornecem tanto nossos padrões pessoais de excelência, sejam físicos,
sentimentais ou mentais, quanto nossos melhores modelos para o desenvolvimento do
espírito e da alma. Seja qual for o nível de poder dos planetas "exteriores" do mapa natal, o
Sol e a Lua ainda canalizam e incorporam essas energias, moldando-as nas experiências e
nas expressões individuais. A interpretação do Sol e da Lua como aspectos do caráter é
apenas o começo de uma compreensão astrológica; o desenvolvimento dos aspectos
simbolizados pelos Luminares, transformando-nos em veículos adequados ao potencial que
trazemos, pode ser tanto o maior desafio quanto o ápice da realização de uma vida
individual.
*O ourobouros é a serpente que morde sua própria cauda, um antigo símbolo do início da
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criação, o arquétipo oriental da evolução cíclica.

Nota: As palestras que constam deste livro constituem a primeira parte de um


seminário, com duração de uma semana, chamado 0s Planetas Interiores, realizado em
Zurique em junho de 1990. As palestras subsequentes, que tratam de Mercúrio, Vênus e
Marte, fazem parte de outro livro.

Liz Greene
Howard Sasportas
Londres, novembro de 1991.

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PARTE UM
A LUA
MÃES E MATRIARCADO
A MITOLOGIA E A PSICOLOGIA DA LUA
por LIZ CREENE

Nesta sessão, exploraremos a Lua, as mães e o matriarcado. Gostaria de mencionar


primeiro a ilustração fornecida (ver Figura 1 na página 4). Trabalharemos com os mapas
mitológicos, tanto do Sol quanto da Lua. A finalidade deste diagrama é ajudá-lo a encontrar
um caminho em meio a um grupo inter-relacionado de imagens lunares míticas. Porém,
esse diagrama não constitui uma compilação definitiva, já que foram excluídos do mesmo
muitas figuras e temas. Os elementos citados neste momento deverão servir como gatilhos
imaginários, ajudando a aprofundar a percepção do símbolo astrológico da Lua. As imagens
míticas são auto-retratos criados pela psique para refletir seus próprios processos.
Explorando essas imagens e sua influencia interna sobre as pessoas, a nível pessoal e
cotidiano, podemos captar com maior profundidade e sutileza o sentido do símbolo
multidimensional da Lua, com uma amplitude bem maior do que através de uma simples
compilação de definições.
Em primeiro lugar, gostaria que você deixasse de lado todos os conhecimentos
astrológicos sobre a Lua no horóscopo e pensasse na experiência direta da Lua física no céu.
Você já a observou regularmente, ao longo de seu ciclo mensal? Eu acho que todos os
estudantes de astrologia deveriam possuir um telescópio e um bom mapa astronômico. A
observação do ciclo lunar é maravilhosa, podendo provocar fortes reações emocionais e
imaginativas, semelhantes às que vêm ocorrendo aos seres humanos há milênios. A Lua
cheia é mágica e hipnótica, podendo algumas vezes parecer até mesmo sinistra,
semelhante a um olho misterioso que nos observa, alojado nas profundezas do céu
noturno. Quantos de nós já brincamos, na infância, de procurar o desenho de um rosto na
Lua cheia? Todos vocês? Bem, isso confirma minha tese. É quase impossível, quando
estamos conversando com alguém sob a Lua cheia, deixar de exclamar: "Veja a Lua!",
apesar de sua evidência. Você já admirou a elegante e delgada Lua crescente? Nesta fase, a
Lua contém algo de terrivelmente frágil, delicado e até mesmo comovente. Jamais parece
sinistra, como acontece com a Lua cheia. Alguém já vi um eclipse lunar? é um fenômeno
estranho e de certo modo fatal, porque a Lua escurece, adquirindo coloração vermelho-
sangue ou marrom; na antiguidade e na época medieval, esses eclipses costumavam ser
interpretados como prenúncios de acontecimentos terríveis.
Imagine como deve ter sido observar a Lua antigamente, sem nenhum conhecimento
do universo material, e será possível compreender o poder que esse símbolo tem e o
motivo de ele constituir um esplêndido gancho para nossas projeções psíquicas. Se você
vivesse no período Neolítico, o primeiro fato óbvio que notaria sobre a Lua física seria sua
eterna, ainda que cíclica, mudança. A forma da Lua muda de uma noite para outra, mas a
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repetição mensal dos seus padrões é infalível. A Lua é um paradoxo: é inconstante, apesar
de possuir um ciclo confiável. Às vezes, ela emite luz, mas em quantidade insuficiente para
clarear as coisas, e outras vezes sua luz desaparece totalmente e a noite fica negra. Se você
fosse um viajante antigo, dependendo da luz da Lua à noite, teria problemas devido ao
inexorável recrudescimento da luz. A Lua era, portanto, considerada traiçoeira, e as
primeiras deusas lunares tinham caráter paradoxal e ambíguo.

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Figura 1. A mitologia da Lua
Pode ser útil lembrar que, nas áreas urbanizadas dos países ocidentais, estamos
acostumados a ver o reflexo das luzes das cidades nos bancos de nuvens, espalhando-se
por muitos quilômetros. Vivemos na era da eletricidade e não trazemos memórias do
tempo em que as casas eram iluminadas por lareiras, velas ou lampiões a óleo. Assim, não
percebemos que o céu noturno jamais fica totalmente escuro. Muita gente da cidade
jamais viu uma noite verdadeiramente negra. A não ser que estejamos a bordo de um navio
no meio do Atlântico ou num local relativamente desabitado, como o interior da Austrália
ou o deserto do Saara, dificilmente temos oportunidade de vivenciar, como nossos
antepassados, a absoluta escuridão da Lua nova. Quando há luz da Lua, é uma
luminosidade muito peculiar, esmaecendo todas as cores. As paisagens e objetos comuns
adquirem aparência estranha e alienígena sob a Lua cheia. Se a pessoa estiver com
predisposição romântica, essa luz parece encantadora, mas se a pessoa estiver sozinha,
pode ser muito perturbadora.
As canções de ninar estão repletas da mágica da Lua - o Homem da Lua, a Lua feita de
queijo verde, a Vaca que pula sobre a Lua. As músicas populares e românticas abordam a
Lua, como "Lua Azul", "Leve-me voando para a Lua", etc. A Lua nos faz pensar tanto nos
amantes quanto nos lunáticos, palavra derivada do latim/una. Existem histórias folclóricas e
contos de fadas sobre pessoas que se transformam em lobos ou vampiros na época da Lua
cheia, e também sobre loucura provocada pelo toque de um raio de luz da Lua na face da
pessoa adormecida - daí a associação com a demência. Mesmo antes de começarmos a
examinar as figuras míticas associadas às diferentes fases da Lua, podemos perceber que a
Lua tem evocado as mais extraordinárias fantasias e projeções da imaginação humana ao
longo dos séculos. Tais fantasias relacionam-se invariavelmente ao mundo noturno das
emoções humanas - amor, loucura e feitiçaria.
O ciclo lunar, encerrando mudanças perpétuas, embora constante, adquiriu toda uma
mitologia característica, provavelmente conhecida por muitos de vocês. As divindades
lunares, geralmente mulheres (com algumas exceções), aparecem com mais frequência sob
forma de tríades ou contendo três aspectos, refletindo as três fases da Lua: nova, crescente
e cheia. Ao jogar com as imagens evocadas por essas três fases, podemos ver como a Lua
nova, essa traiçoeira Lua negra, se associa à morte, à gestação, à feitiçaria e à deusa grega
Hécate, regente dos nascimentos e da magia negra. Após o escurecimento da Lua, vinha a
Lua crescente, com sua virginal delicadeza e suas promessas, aparentemente pronta para
ser fertilizada por alguém. Sua forma é de uma tigela aberta, pronta para receber um
conteúdo vindo de fora. A Lua crescente era relacionada com a deusa virgem Perséfone,
raptada por Hades. Também era o emblema de Artemis, a caçadora virgem e mestra das
feras, que estudaremos adiante. A Lua cheia, por outro lado, tem uma aparência grávida; é
redonda e suculenta, plena e madura, e seu parto pode ocorrer a qualquer momento. É a
Lua em seu poder máximo, o ápice do ciclo lunar, associada à deusa da fertilidade Demeter,
a mãe de todos os Seres vivos. Então a Lua começa a minguar, cada vez mais etérea e
escura, e de repente desaparece. A velha Hécate retoma seu poder, oculta no submundo,
tecendo seus encantamentos e fiando o futuro na escuridão.
A tríade de divindades lunares, geralmente associada à Lua, reflete uma experiência
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humana arquetípica, projetada na Lua física do céu. O corpo representa uma importante
dimensão dessa experiência, refletindo as fases da Lua em seu próprio padrão cíclico de
desenvolvimento e mortalidade. As divindades lunares regiam, além do ciclo anual de
vegetação, o ciclo humano do nascimento e da morte. Como a Lua mitológica rege tanto os
instintos quanto o domínio orgânico do corpo, essas divindades costumavam ser femininas
- todos nós nascemos de um corpo de mulher e dele recebemos nosso primeiro alimento. O
ciclo lunar era chamado de Grande Ronda, refletindo uma ligação com O destino e com a
incessante repetição. Todas as coisas mortais estão sujeitas a algum ciclo, mais universal do
que individual, já que os indivíduos morrem, mas as espécies continuam e se regeneram.
Do ponto de vista solar, ‘o corpo só tem valor como símbolo. A consciência solar diz
respeito aos fatores eternos, e portanto desvaloriza o nascimento, o gozo, a desintegração
e a morte. A luz do dia transcende o mundo do corpo e nos oferece promessas de
imortalidade e de significado. Quando nos identificamos exclusivamente com o mundo da
luz do dia, desligamo-nos da Lua, pelo menos durante algum tempo, pois a Lua é apenas
uma "distração" que faz parte das armadilhas de Maya, conforme a tradição indiana.
Quando vivenciamos as coisas sob o ponto de vista da Lua, a vida deixa de ser constante ou
eterna, pois estamos assistindo a uma peça teatral cujo papel principal é desempenhado
pela pessoa comum encarnada. Tudo segue um fluxo, por sua vez sujeito à Roda da Fortuna
e do Tempo.
A maior ou menor sintonia dos indivíduos com o ponto de vista lunar depende da
importância da Lua em seus mapas natais: a característica dominante da vida das pessoas
com Lua forte no mapa parece ser a natureza mutável e cíclica da realidade. A segurança
proporcionada pelo calor do contato humano torna-se muito mais importante do que
qualquer busca de significado abstrato, já que é preciso lidar diariamente com os fluxos da
vida. Essas pessoas possuem o dom especial de manter os pés bem "plantados" no chão,
conseguem lidar com as pessoas e com os acontecimentos de uma maneira sensata,
assertiva e compassiva. Como a Lua está presente em todos os horóscopos, todos somos
capazes de vivenciar tanto o mundo quanto a nós mesmos através dos "olhos" da Lua.
Alguns se fixam nesse ponto de vista, tornando-se incapazes de enxergar além das
circunstâncias pessoais imediatamente próximas. Da mesma forma, alguns deixam de
perceber a natureza cíclica da realidade, tornando-se consequentemente incapazes de lidar
com a vida comum, porque ficam viciados na eternidade e se esquecem de confiar nos
instintos, deixando de agir de modo inteligente "a favor da corrente" do tempo.
Na época medieval, a Lua era associada à deusa Fortuna, que alguns identificam com a
carta do Tarô que representa a Roda da Fortuna. Você também pode conhecer os versos da
abertura da ópera Carmina Burana de Orff:

Oh Fortuna, mutável como a Lua!


Sempre crescendo ou minguando;
Odiosa vida, difícil num momento
Favorecendo o jogador em seguida.
Pobreza, poder,
Tudo derrete como gelo.
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Sempre que alcançamos algum ponto alto da vida, um momento de Lua cheia onde
tudo desabrocha, podemos ter certeza de que houve um passado que conduziu a esse
momento, um início oculto que plantou a semente na Lua nova, e em seguida uma época
de promessas e de desenvolvimento, na fase da Lua crescente. Também podemos ter
certeza de que existe um futuro onde se estabelecerá a degeneração, dando continuidade
ao ciclo até seu final inevitável, porque nada permanece igual na vida mortal. Então,
quando a Lua míngua e o momento passa, pensamos no passado, quando tudo parecia tão
promissor. Ao focalizar a vida sob o ponto de vista da Lua, sempre ocorrem lembranças do
passado. A sensação de envelhecimento corporal reflete a lembrança da juventude,
correspondente à Lua crescente, com seus potenciais desperdiçados. Sempre podemos
lembrar de uma época em que tínhamos mais energia e menos rugas, mesmo se só
tivermos 20 anos. Era uma vez, na infância, em que o corpo era jovem e inacabado. Um
tempo em que éramos ingênuos, inocentes e abertos, antes da experiência se estremecer
como a Serpente no Paraíso, dando forma às percepções e aos valores. Então, podemos
perceber a profunda melancolia e o sentimentalismo ligados à Lua. A Lua canta num tom
secundário, porque tudo passa. Não podemos permanecer para sempre no mesmo lugar,
porque vamos ultrapassá-lo algum dia e precisamos enfrentar a escuridão da Lua antes de
um novo nascimento e da aparição de novos potenciais. Quando nos identificamos com a
paisagem lunar, a morte constitui o inevitável fim do ciclo. Sob a luz da Lua, tudo na vida
segue o padrão da Grande Ronda. Os relacionamentos têm seus ciclos. Todos os artistas
sabem que a criatividade também segue ciclos. A vida familiar tem ciclos, assim como as
finanças (a deusa Fortuna rege a bolsa de valores) e a história. Tudo retorna e não existe
nada de novo sob o Sol, porque tudo já foi feito antes pela Lua. É interessante examinar as
dimensões positivas e negativas dessa experiência cíclica de vida que, na realidade,
constitui um estado psicológico de ser. Podemos chamá-lo de matriarcal, porque compõe
uma visão de vida essencialmente feminina e orgânica, que reflete os processos de
concepção, gravidez, nascimento, puberdade, maturidade, envelhecimento e morte. A
consciência matriarcal está miticamente relacionada aos ciclos naturais, priorizando a
harmonização com a Grande Ronda ao invés de com o desejo ou com o espírito humanos,
capazes de transcendê-la.
Podemos facilmente idealizar uma consciência matriarcal, expressando uma eventual
necessidade de compensação em relação ao poder destrutivo, implícito ao excesso de
racionalismo e de vontade. Neste momento, isto está muito em voga em certos círculos.
Mas é possível nos excedermos no que é bom, como acontece com todos os planetas.
Como a Lua rege os domínios da natureza, a consciência puramente matriarcal subestima
os valores individuais, dando importância primordial à família e à tribo, justificando a
supressão ou a destruição da auto-expressão individual, em caso de ameaça à segurança do
grupo. Neste campo, não existem éticas nem princípios, e nem qualquer uso disciplinado da
vontade. Tudo é justificado através da necessidade instintiva e pela preservação da espécie.
Muitas mulheres ficam indignadas ao verem que os homens projetam nelas as qualidades
obscuras da Lua, constituídas pela manipulação, a traição, a inconstância, a instabilidade e a
voracidade emocionais. Já presenciei reclamações de muitos homens sobre a dificuldade de
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trabalhar ou discutir objetivamente com mulheres, porque o bom senso e a cooperação
parecem sumir ao serem confrontados com as emoções pessoais. Contudo, tais qualidades
podem ser pronunciadas em qualquer pessoa, homem ou mulher, onde a Lua domine o
tema astrológico. Você pode começar a perceber o que representa a consciência
extremamente lunar, o motivo pelo qual as divindades lunares eram consideradas não
apenas protetoras de crianças e nutridoras, mas também engolidoras e castradoras de
crianças.
Da mesma forma, não é difícil ver o que acontece se nos mantivermos desligados da
Lua. Podemos perder nosso senso de ligação e de cuidado com o corpo, o que num sentido
mais amplo também significa desligamento e falta de cuidado para com a natureza e com a
terra viva. O corpo serve para nos lembrar de que somos mortais. Nossos corpos sofrem
dores, doenças e envelhecimento, mas também sentem prazer. Também temos estados de
humor corporais, pois nossos estados emocionais estão intimamente relacionados aos
nossos corpos. E impossível saber o que vem primeiro. Um baixo nível de açúcar no sangue
e uma hipofunção da tireoide refletem depressão, a depressão afeta o sistema imunológico
e pegamos uma gripe, que nos deprime ainda mais, às vezes, acordamos nos sentindo
péssimos e com o rosto inchado, e o clima também parece péssimo, mas como podemos
dizer o que causou o que? Será que nossos corpos, sendo componentes de um organismo
mundial interligado, simplesmente estão muito mais em harmonia com as alterações
climáticas do que poderíamos imaginar? O que comemos afeta profundamente nosso
humor, mas nosso humor também influencia o que comemos. Se estamos tristes ou
estressados, queremos alimentos "reconfortantes" como chocolate, o que, por sua vez, nos
torna tristes e estressados porque provoca uma alteração brusca do nível de açúcar no
sangue, que nos deprime. E assim por diante. Se não conseguimos dormir, sentimo-nos
muito mal; e senos sentimos mal,nãoconseguimos dormir. É um círculo vicioso. O corpo,
domínio da Lua, é que nos mantém em contato com a vida do momento, participando das
vivências, tanto a face clara quanto a escura das experiências. A expressão insuficiente da
Lua causa sofrimento ao corpo e também prejudica nossa capacidade de vivenciar o
presente. Parece então um terrível choque descobrir que a vida de algum modo passou,
sem que a tivéssemos realmente vivido. O recipiente permanece vazio, e portanto não há
nem lembranças, nem sensação de continuidade, nem sensação de aproveitamento do
passado.
Podemos examinar com mais detalhes Caia e Demeter, duas das figuras que constam
do diagrama. Ambas são antigas deusas da terra, mas Gaia é a mais velha, o princípio
feminino original, com quem o deus celeste Ouranos copula para criar o universo
manifesto. Demeter é uma versão posterior e mais humanizada da mesma figura. A deusa
da terra ou mãe-terra é realmente uma imagem do princípio anímico da própria natureza, a
inteligente e significativa força de vida dentro do universo material, associada à Lua desde a
mais remota antiguidade. Ela incorpora não apenas o mundo da natureza como forma de
vida unificada mas também o corpo humano, que é nossa primeira vivência direta dela. A
mãe-terra é, portanto, uma figuração mítica de nossa experiência da vida corporal que, por
estar além de nosso controle, parece divina e misteriosa.
Como o corpo controla a si mesmo - não pensamos em respirar, em fazer com que
nossos corações batam ou em digerir o almoço - os processos pareciam mágicos para a
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mentalidade primitiva. Ainda são mágicos, pois apesar de já termos conhecimentos
consideráveis sobre a fisiologia do corpo, a verdadeira compreensão da natureza do
princípio anímico da vida não progrediu muito, além do estágio em que se encontrava há
seis milênios. Ainda constitui um grande mistério. A complexidade e a inteligência do corpo
são extraordinárias. O corpo contém uma grande sabedoria interior, conseguindo, com
muito pouco estímulo, curar a si mesmo. Muitas abordagens classificadas como medicinas
alternativas podem portanto ser consideradas matriarcais ou lunares, já que se propõem a
estimular a sábia autocura do corpo, ao invés de intervenções forçadas por drogas ou
instrumentos. Antes de nossa era iluminada, a "sábia" da aldeia (geralmente queimada
como bruxa) receitava remédios naturais, cuja qualidade como método de cura válido ou
mesmo superior só foi reconhecida pela medicina há pouco tempo. Na linguagem mítica, a
verdadeira substância e os tecidos do corpo são feitos de terra, mas o princípio devida
inteligente operando nesses tecidos é simbolizado pela Lua.
A mãe-terra é uma imagem do poder que a natureza tem de manter e perpetuar a si
mesma. Caia, Demeter, Artemis e Hécate são retratadas nos mitos como deusas da
concepção e do nascimento, já que representam o mesmo princípio inteligente, criador e
animador dos veículos, por sua vez necessário para dar continuidade à vida física no
mundo. Eva, a primeira mulher, representa essa mesma imagem no Antigo Testamento, e
seu nome significa "vida" em hebraico. Os bebês não possuem egos capazes de pensar: "Em
primeiro lugar sou eu mesmo, apesar de encarnado num corpo". O senso do "eu interior",
independente do corpo, é refletido na astrologia pelo Sol, que desabrocha à medida em
que amadurecemos. Mas a Lua já está presente desde o início. A primeira experiência de
uma criança é o corpo, e durante as primeiras semanas de vida só existem as sensações e as
necessidades corporais. Sentimos fome e sono, precisamos ser tocados e abraçados,
necessitamos de segurança. Quando essas necessidades instintivas e básicas são
preenchidas, ficamos satisfeitos e a vida se torna um "lugar" seguro. A capacidade de
expressar a Lua significa ter possibilidade de vivenciar e expressar as necessidades e
apetites da sobrevivência corporal, sem necessidade de justificá-los pelo raciocínio ou pela
autoconsciência, derivada do ego solar.
Portanto, quando consideramos o princípio psicológico simbolizado pela Lua,
precisamos em primeiro lugar levar em conta nossas necessidades básicas de segurança e
sobrevivência. Se essas necessidades não são satisfatoriamente preenchidas, o resultado é
ansiedade - um estado que todos experimentam em algum ponto da vida, mas que aflige
algumas pessoas permanentemente. A ansiedade é realmente uma sensação de que a vida
lá fora não é segura, de que seremos contrariados ou de que algo terrível pode acontecer
conosco. A ansiedade é acionada por motivos diversos nas diferentes pessoas, mas eu
acredito que a maioria dos estados de ansiedade (que estou diferenciando da preocupação
comum, que costuma ser baseada em algo imediato e real) estão enraizados em antigas
vivências do sentimento de insegurança, seja qual for o gatilho ativador de tal estado na
vida adulta.
A ansiedade de algumas pessoas é acionada pela ameaça de rejeição ou de abandono.
Outras pessoas ficam ansiosas devido a alguma alteração no ambiente ou alguma ameaça
de deslocamento, seja de um trabalho ou de uma moradia. Quando estamos ansiosos e
precisamos recuperar nossa segurança, voltamo-nos para a Lua, a mãe-terra dentro de nós,
14
o sábio princípio instintivo capaz de manter e nutrir a vida. No mapa natal, o signo e a casa
da Lua oferecem 'uma descrição bastante detalhada do tipo de coisas que nos
proporcionam sensação de segurança.
Apesar de nossa fome lunar constituir uma necessidade humana básica, os modos de
expressá-la e de nutri-la são diferentes, e tais diferenças já são evidentes desde a mais
tenra infância. Se não soubermos como acolher e expressar nossa inata sabedoria lunar, a
Lua não consegue operar diretamente através da personalidade, expressando-se então de
maneira indireta. Os mecanismos cegos que adotamos, quando estamos
inconscientemente ansiosos e precisamos recuperar a segurança, abrangem uma enorme
faixa dos chamados padrões compulsivos de comportamento. Até certo ponto, todos
somos compulsivos, porque a vida às vezes é insegura, e ninguém consegue ter segurança
suficiente para deixar de sentir medo. A falta de medo seria uma imprudência, pois algumas
coisas precisam ser temidas, inclusive as que vêm de dentro de nós. Entretanto, às vezes
essas compulsões tomam conta de nós ou dominam nosso comportamento durante muitos
anos, frequentemente sem que o percebamos. Podemos chamar esse processo de
disfunção lunar. Não reconhecemos que alguma ansiedade básica foi ativada e não
sabemos como nos estimular para recuperara sensação de segurança, absolutamente
necessária para a liberdade e a realização emocionais.
Um exemplo óbvio de disfunção lunar seria a compulsão de comer. Há toda uma gama
de "desordens alimentares", que inclui a anorexia, a bulimia e as chamadas "alergias"
alimentares - apesar de muitas pessoas não considerarem as alergias como "desordens
alimentares". A maioria de nós chega a experimentar algum tipo de compulsão relacionada
à comida em algum momento da vida, mesmo se breve, em que buscamos alívio pelo
chocolate porque estamos temporariamente estressados. Estou inclinada a atribuir à Lua
(que regia o estômago, segundo a astrologia antiga) esses impulsos por comida apesar de,
nos casos de problemas crônicos de alimentação, geralmente aparecerem outros planetas
fazendo aspectos difíceis com a Lua. O seio da mãe constitui nossa primeira experiência de
alimentação e de segurança, assim como nosso primeiro encontro com o princípio lunar
após o nascimento. Apesar de a Lua estar verdadeiramente dentro de nós, nosso primeiro
encontro com ela é exteriorizado através da pessoa de quem nascemos, que nos alimenta e
nos protege. Se a mãe vai embora, chega a fase escura da Lua e somos possuídos pelo
pavor do abismo, representado pela extinção.
Como a psique humana é maravilhosamente versátil e criativa, as necessidades
lunares inconscientes nem sempre se expressam através de um meio tão concreto quanto a
comida. Muitas coisas podem substituir a comida, da mesma forma que a própria comida é
uma substituta da mãe, tanto a nível pessoal quanto a nível arquetípico. Ao invés de
devorarmos uma caixa inteira de bombons, podemos acumular dinheiro, pois o dinheiro
pode ser equiparado à segurança. Isto costuma acontecer quando a Lua está na casa 2 ou
10 do mapa natal ou quando está fortemente aspectada por Saturno. Se tivermos casa
própria ou certa quantia na poupança, ou pudermos ter tal carro, tal roupa ou tais joias,
sentimo-nos seguros. É possível diferenciar as atitudes sensatas das insensatas em matéria
de dinheiro, porque essas atitudes insensatas costumam estar relacionadas a um medo
irracional, ligado à perda. Em outras palavras, os procedimentos ditados pelo bom senso
são substituídos pela ansiedade. Os "talismãs" que as pessoas conservam costumam ser
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objetos sobre os quais se impõe uma projeção da Lua. Esse tipo de pensamento mágico é
típico do estrato primitivo, infantil e arcaico da psique adulta. Evidentemente, não é o
objeto que traz a sorte. Ele assumiu, de algum modo, um valor simbólico, tornando-se uma
incorporação da deusa lunar neste século XX, alienada da consciência e com sua expressão
reduzida a um biscoito de chocolate ou a um rosário de contas.
Para algumas pessoas, os relacionamentos com os semelhantes constituem alimento
lunar. Esse "alimento" pode ser representado por um amante, um cônjuge, filhos, netos, ou
mesmo um círculo social, seja um grupo profissional ou ideológico. Alguns de nós
simplesmente apreciam a companhia dos amigos ou da família, enquanto outros são
dependentes compulsivos dessa companhia, reagindo com grande ansiedade a qualquer
ameaça de expulsão do grupo ou a qualquer alteração de papéis dentro da família. Conheci
pessoas tão identificadas com a família, tão acostumadas a contar com o núcleo familiar
como provedor de seu alimento lunar, que em seu terror brutalizavam emocionalmente
qualquer familiar que ameaçasse fazer as coisas a seu próprio modo, seguindo seu caminho
individual. Isso é frequentemente chamado de "amor" ou "zelo", mas a fome lunar, como
veremos pelas outras imagens do diagrama, pode ser muitas vezes impiedosa e destrutiva.
Famílias inteiras podem sofrer devido à falta de ligação lunar entre os respectivos
membros, já que todos nós aprendemos com os pais, nossos modelos, a expressar nossos
planetas pessoais. A ansiedade permeia então todo o grupo familiar, e seus membros
alimentam doentia e inconscientemente uns aos outros, em busca de segurança.
Ao final desta palestra, gostaria que você pensasse em casa no que constitui alimento
para você. O que procura quando está ansioso? Os seres humanos não têm como evitar a
ansiedade, porque a vida é mutável e imprevisível. Mesmo um bom relacionamento com a
Lua não nos poupa da ansiedade, podendo no entanto nos oferecer a capacidade de nos
nutrirmos com o tipo adequado de alimento, que por sua vez nos permita lidar com a
ansiedade de modo mais sensato e criativo. Ninguém pode nos dizer como fazer isso, já que
é uma questão muito pessoal, dependendo tanto da colocação da Lua no mapa individual
quanto de onde ela está colocada no mapa progredido, em alguma fase específica da vida.
Acho que devemos agora examinar mais a fundo Artemis, a deusa da Lua da Anatólia,
posteriormente adotada pelos gregos. Essa deusa e altamente ambivalente e pode nos
fornecer muitos dados sobre a face escura da Lua. Repito: à medida que exploramos essas
figuras lunares, percebemos que somos diferentes uns dos outros, e portanto alguns
sentirão mais afinidade com uma figura em detrimento de outra, tanto na vida interna
quanto na externa. Num nível coletivo profundo, talvez todos nós tenhamos acesso ao
espectro completo das imagens lunares, que serão no entanto matizadas conforme a
posição ocupada pela Lua no mapa natal. Se, por exemplo, sua Lua estiver em Escorpião ou
fazendo algum aspecto forte com Plutão, você sentira mais empatia por Hécate e pela face
escura da Lua, apreciando, ao invés de temer, sua profundidade e seu mistério. Entretanto,
os domínios de Hécate podem ser muito perturbadores para alguém com Lua em Gêmeos.
A Lua em Touro pode ter grande afinidade com a imagem de Demeter e com o mundo da
natureza, mas Demeter, a mãe-terra, pode soar estranha para uma Lua em Aquário ou uma
Lua fortemente aspectada por Urano. Geralmente encontramos uma combinação de
aspectos e de imagens em qualquer mapa e sem dúvida, mais cedo ou mais tarde, a Lua
progredida entra em contato com todos os planetas natais. Portanto, a oportunidade de
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vivenciar todas as figuras jamais deixa de ser oferecida durante o curso de uma vida. Afinal
de contas, as pessoas são diferentes. Como neste seminário estaremos trabalhando
basicamente com a visão da vida através de uma lente lunar, seria uma questão de apreciar
o que precisamos aprender como indivíduos, ao invés de tentarmos nos transformar em
alguma visão ideal de totalidade.
Artemis, cujas origens são muito mais remotas que a imagem da caçadora núbil e
seminua, era conhecida como a Senhora das Feras. Suas imagens mais antigas são
provenientes da Anatólia Central, onde foi desenterrada uma estátua feita de terracota, de
7 mil anos de Idade, na localidade de Catalhöyük, retratando uma mulher extremamente
gorda que dava à luz ladeada por leões. Esses leões constituem seus mais antigos
emblemas. À medida em que essa deusa foi se desenvolvendo ao longo dos séculos,
tornou-se conhecida como Cibele, a Mãe de Todos, retratada em pé numa carruagem
puxada por leões. O centro de seu culto era Éfeso, no sudoeste da Turquia, onde existe no
museu local uma maravilhosa estátua dela, feita de mármore e esculpida no último período
romano, novamente rodeada pelos seus leões e por outras feras adornando suas vestes.
Essa estátua de mármore do museu de Éfeso é dotada de fileiras de saliências na frente do
corpo, estendendo-se dos ombros ao abdome, que podem ser seios, ovos ou mesmo
testículos: os arqueólogos ainda discutem o significado desses apêndices. Ao redor de seu
pescoço há um zodíaco esculpido, indicando sua regência sobre a Grande Ronda do destino,
escrita nos céus. A deusa Cibele-Artemis era associada a Atis, um jovem filho-amante que
se castrou para permanecer fiel a ela. Apesar de ser uma deusa da fertilidade, esta
remotíssima divindade lunar é uma imagem do coração negro da natureza selvagem, um
tanto desagradável.
Qual seria a dimensão da Lua representada por Artemis? Ela parece incorporar a face
selvagem e rebelde dos instintos. Representa também um forte argumento contra nossas
suposições astrológicas tradicionais, de que a natureza lunar ou canceriana seria
totalmente relacionada ao pão recém-saído do forno, a lindos bebês e felicidade doméstica.
Esta deusa contém uma qualidade admirável e furiosa que nos ajuda a compreender a
ligação entre luna e lunático. 'Aqui, as leoas (elas não têm jubas) são feras lunares e não
solares. Sabemos que, entre os leões, são as fêmeas que fazem tudo. Elas caçam enquanto
os machos ficam repousando e tornando-se cada vez mais belos, esperando que o jantar
lhes seja servido. A leoa é uma matriarca e seus companheiros são essencialmente "objetos
sexuais", que provavelmente prefeririam devorar-nos a admitir isso.
Essa face da Lua costuma emergir quando ficamos bêbados ou perdemos o controle da
consciência solar. Podemos vislumbrar Artemis em nossa própria selvageria emocional,
quando as necessidades instintivas são violadas ou ameaçadas. O lobo também é uma
criatura dessa deusa, e o mito do lobisomem, originalmente grego antes de entrar para o
folclore do leste europeu, também pertence a ela. O lobisomem aparece quando a Lua está
cheia e se diz que ele destrói apenas a quem ama. Quem já viu o filme O Homem Lobo da
Universal Pictures, estrelado por Lon Chaney Jr. no papel do lobisomem, deve se lembrar do
aviso do cigano:

Mesmo um homem de coração puro


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Que reza antes de dormir
Pode se tornar um lobo, quando se cumpre a maldição do lobo
E a Lua está cheia e brilhante.

A licantropia no folclore é um estado de possessão por uma força sobrenatural e


bestial, que se volta com fúria contra aqueles de quem a pessoa depende emocionalmente.
O lobisomem só pode ser destruído por uma arma feita de prata, o metal tradicionalmente
lunar - como se apenas a própria natureza pudesse domesticar ou submeter à natureza.
Apesar de termos de suportar filmes de lobisomem bem mais aborrecidos que o de Lon
Chaney (como o de Oliver Reed no papel de um aristocrata espanhol com um nariz preto
brilhante, mãos peludas e tufos de pelos nas orelhas), também existem excelentes imagens
cinematográficas, como A Companhia dos Lobos e Wolfen, este último estrelado por Albert
Finney. A eterna atração pelos filmes de lobisomem confirma tanto o poder quanto a
permanência dessa imagem.
Os livros de astrologia não costumam mencionar essa face da Lua. Seria uma dimensão
mais relacionada à Lua cheia do que à nova, quando a Lua emite luz com potência máxima
e o matriarcado domina. Representa o matriarcado em seu aspecto mais perigoso, porque
o portador da semente é anônimo e dispensável, sendo ritualmente executado para
fertilizar a terra, assegurando assim a continuidade tanto das colheitas quanto da família ou
grupo. Já ouvi mulheres verbalizando esse arcaico sentimento matriarcal - "Oh, bem, não
sou muito feliz com ele, mas afinal à noite todos os gatos são pardos, ele não é pior do que
os outros, e na verdade o que eu queria mesmo era ter filhos e uma família." Para esse tipo
de mulher, o relacionamento individual com o parceiro não é primordial; só a família
importa e justifica qualquer quantidade de martírios ou de destrutibilidade. A implicação é
de que qualquer esperma teria servido, desde que a família estivesse segura. No mito, as
Amazonas adoradoras de Artemis copulavam apenas uma vez por ano com homens cujos
nomes desconheciam e cujas faces jamais viam, com o único objetivo de engravidar; os
filhos varões dessas uniões eram eliminados, enquanto as filhas eram criadas, sendo
adotadas como membros da tribo.
Essa é uma faceta muito arcaica da Lua cheia. Quando nos identificamos com ela, os
relacionamentos individuais se tornam irrelevantes. Prevalecem os poderes da gestação, do
parto e da amamentação. Esse é o estado natural da maioria das mulheres durante a
gravidez, que desempenha poderosa função protetora em relação ao bebê recém-nascido.
No reino animal, a fêmea geralmente precisa proteger suas crias contra o macho, que
eventualmente pode querer comer seus descendentes. Isso realmente acontece entre os
leões e outros grandes felinos. Portanto, vemos tanto as dimensões positivas quanto as
negativas dessa consciência matriarcal, que protege e preserva a vida, mas que também
pode ser impiedosamente destrutiva.
No diagrama, há uma menção às bacantes. Elas também são chamadas de mênades,
vocábulo relacionado a "mania". As bacantes eram mulheres que cultuavam Dionísio, o
jovem deus dos vegetais, cujas formas mais arcaicas eram Adônis, Tamuz e Atis,
correspondentes aos jovens filhos-amantes da Senhora das Feras. Essas mulheres, quando
em transe, subiam pelas colinas tomadas pelo êxtase ou mania lunar para despedaçar
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animais selvagens. Vocês deveriam ler as Bacantes de Eurípedes, um terrível retrato do
poder dessas possessões. Nessas épocas remotas, tais mulheres não se limitavam a matar
animais, despedaçando também ritualmente o rei do ano, cujo corpo desmembrado era
então misturado à terra, com intuito de fertilizar as colheitas. A forma mais primitiva de
matriarcado é muito próxima dos sacrifícios reais, pois o macho só serve para fornecer a
semente, necessária para dar continuidade à vida. É esse o outro lado do "lar, doce lar".
Vale a pena pensar nas expressões, tanto individuais quanto coletivas, de que
dispomos no século XX para projetar tal dimensão da Lua. Onde foi parar a Senhora das
Feras? Podemos vislumbrar sua selvageria em qualquer agitação de massas, onde um bode
expiatório é metafórica ou literalmente despedaçado. Mas temos alguns rituais para contê-
la, bastante diferentes dos antigos festivais, representados pelas campanhas políticas, pela
Copa do Mundo, etc. Não há cultos religiosos como o de Dionísio, onde podemos nos
abandonar ao êxtase lunar sem violar a lei. Mesmo quando liberamos Artemis através do
álcool, perdemos nossa ligação religiosa com ela e tudo o que ganhamos é uma ressaca,
sem o correspondente renascimento. Para muitas pessoas, o êxtase sexual também perdeu
sua ligação religiosa, portanto a satisfação que proporciona permanece física, deixando a
alma intocada. Quando as divindades lunares deixam de ser devidamente honradas, são
condenadas à expressão compulsiva e inconsciente. Alguém de vocês poderia pensar em
expressões adequadas para a Senhora das Feras?
Audiência: Poderia ser a dança?
Liz: Sim, a dança pode ser um de seus veículos, especialmente se contiver "batidas"
num ritmo insistente, através do qual se possa entrar num tipo de transe. Em vez de
Dionísio, temos discotecas. As antigas deusas lunares eram cultuadas com música e dança.
Diziam que as Amazonas, que mencionei anteriormente, entravam num transe tão
profundo durante a dança sagrada que conseguiam trespassar seus corpos com espadas
sem sangrar. Poderíamos chamar esse transe de hipnótico, sabendo da possibilidade,
confirmada pela medicina, de parar ou atenuar sangramentos sob estado hipnótico. O
insistente ritmo da música tribal, assim como o da música de discoteca, pode induzir a um
tipo de estado hipnótico. Esquecemos que estamos cansados, todas as dores incômodas
desaparecem e o corpo se une a um tipo de força ou poder mais profundos. Muitos dos
chamados milagres religiosos ocorrem nesse estado e existem estranhas ligações entre as
curas milagrosas e o estado de êxtase induzido pelo canto, pela música e pela dança.
Quando essa face da Lua é renegada com suficiente violência, um dos resultados de tal
repressão pode ser a histeria. Geralmente, utilizamos a palavra "histérico/a" para descrever
um comportamento excessivamente emotivo, em que a pessoa grita, quebra pratos, chora
e perde temporariamente o controle. Mas esse tipo de comportamento também pode se
tornar crônico, transformando-se numa séria doença, clinicamente diagnosticada e
conhecida em psiquiatria pela denominação de "disfunção histérica da personalidade" - um
tipo de loucura lunar contínua e compulsiva, na qual não existe formação de
individualidade nem de consciência solares. A "persona" pode ser bem treinada, no entanto
passível de fácil deterioração, revelando a "mênade': interna. A histeria é uma doença
profundamente manipuladora e muitas vezes violentamente destrutiva, que produz todos
os tipos de sintomas físicos inexplicáveis, assim como toda uma gama de excessos
emocionais; seu meio é verdadeiramente matriarcal. Clinicamente, relaciona-se a danos
19
graves ocorridos no relacionamento inicial mãe-filho. Costuma prejudicar de forma perene
o desenvolvimento de uma personalidade independente. Apesar de poderem parecer
pessoas superficialmente adaptadas, muitas vezes aparentemente charmosas e atraentes
perante os conhecidos, tais pessoas permanecem basicamente infantis e lunares, clamando
seu alimento emocional através de uma absoluta e impotente dependência, que exerce
absoluto controle sobre a família. Essa é uma das maneiras mais insidiosas que uma Lua
ferida ou sufocada encontra como escape/ expressão através da personalidade.
Devemos agora examinar a figura de Circe no diagrama, pois a Lua também é uma
feiticeira. Hécate, que já encontramos antes, e a escura deusa lunar que rege a feitiçaria e
os encantamentos. A figura mais humanizada de Circe, que aparece na Odisseia de Homero,
transmite em maiores detalhes o poder lunar do encantamento. Circe governa uma ilha
mágica, na qual Odisseu e seus homens aportam em seu tortuoso caminho de retorno das
guerras troianas; Circe transforma toda a tripulação em porcos. Esses pobres homens ficam
presos durante algum tempo em corpos suínos, ainda capazes de pensar racionalmente,
mas incapazes de controlar tanto sua aparência quanto seu comportamento, natureza
instintiva, tomando forma de porco (outro animal associado Grande Mãe) assumiu o poder,
dominando a personalidade consciente, tornando-a inarticulada e impotente.
Não é realmente necessário nos estendermos sobre o significado de se comportar
como um porco ou um suíno - usamos ambas as palavras no sentido pejorativo, para
descrever comportamentos ofensivos e grosseiros. O tema da poderosa feiticeira ou fada
transformando pessoas em animais é bastante comum no folclore, também aparecendo
em Sonho de uma noite de verão de Shakespeare, onde o pobre Bottom adquire uma cabeça de
asno, para confirmar o fato de que ele é mesmo um asno. A divindade que lança os feitiços
é quase invariavelmente do sexo feminino (com exceção de Shakespeare), e costuma
transformar príncipes em sapos. Sob o feitiço da lua, fica-se reduzido ao nível de um
animal. Nessas fábulas, geralmente há um fundo de moral - a pessoa precisa aprender a
respeitar o poder lunar, enfurecido por ter sido ignorado, desonrado ou reprimido. Às
vezes, o feitiço ocorre por simples maldade ou capricho, elementos bastante compatíveis
com as divindades lunares, cuja moral não pertencem ao domínio solar. Em outras
palavras, a natureza pode ser aleatoriamente cruel, vingando-se de nós quando ficamos
excessivamente desligados ou arrogantes, através da imposição de um comportamento
bestial ou asinino, destinado a nos ensinar que, apesar de tudo, somos mortais. Ficamos
reduzidos à natureza corporal pelo mesmo poder instintivo que negligenciamos, em nossa
heroica subida em direção ao Sol. Pode ser que às vezes, como Bottom, necessitemos usar
uma cabeça de asno.
Antes de sair do diagrama e passar para um exemplo de mapa, devemos explorar a
figura de Hera. Essa deusa grega, regente da vida familiar, pode nos fornecer mais alguns
"insights" sobre a natureza da lua. Ela incorpora a estabilidade e a santidade do matrimônio
e da unidade familiar. Devido à sua moralidade claramente delineada, pode parecer tão
saturnina quanto lunar. Entretanto, a Lua também contém leis e estruturas, que existem
mais em função da preservação das espécies do que para otimizar o funcionamento da
sociedade. Se alguém viola as leis lunares, Hera se vinga. Essa deusa descreve nossa
necessidade de pertencer a algum lugar e de nos definirmos em termos de nossas origens.
Nosso lado lunar diz: "Este é meu nome, esta é minha família, estes são meus filhos, este é
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meu pedaço de terra, este é meu país. Aqui é meu lugar." Tais elementos nos
proporcionam uma identidade coletiva, além de sensação de segurança dentro do grupo.
Muitas pessoas têm enorme necessidade de se identificar com suas raízes históricas e
sofrem grande ansiedade quando se deslocam de sua terra natal. Preferem ficar lá
arriscando-se a ferimentos ou mesmo à morte. Muitas vezes, não entendemos porque
certas pessoas insistem em viver abaixo de vulcões ativos, sabendo das erupções
periódicas, ou em permanecer encurraladas em zonas de perigo óbvio, como a Alemanha
da década de 30. Pelo mesmo motivo, as pessoas mantêm casamentos fracassados ou se
apegam a famílias destrutivas. O terror da solidão, esse medo de vagar pelo mundo a sós, é
considerado pior que o sofrimento e a claustrofobia das situações que enfrentam. A Lua
não suporta o isolamento e frequentemente prefere se apegar a um demônio conhecido do
que perseguir um anjo independente e estranho. É esse o trabalho interior de Hera,
escolhendo os valores das origens e da tradição, em detrimento da plenitude de uma vida
individual.
Podemos observar tanto o aspecto positivo quanto o negativo dessa necessidade
arquetípica. Sem um senso de identidade em relação às origens, à família e ao país,
qualquer sociedade se torna anárquica e caótica, pois essa ausência gera uma incontrolável
ansiedade, que conduz a coletividade a comportamentos regressivos e frequentemente
destrutivos. Às vezes, surge uma caça como bode expiatório; às vezes, a sociedade prepara
o caminho para que um tirano-pai assuma o domínio, sob o pretexto de recuperar a ordem.
Ambas as reações são consequências típicas do agravamento da ansiedade. Isto já ocorreu,
historicamente, em algumas nações, quando despojadas de suas tradições e de seu orgulho
nacionalista: por exemplo, a França após a Revolução e a Alemanha após a Primeira Guerra
Mundial. O banho de sangue da Revolução Francesa conduziu inexoravelmente a Napoleão;
o desastre da Primeira Guerra Mundial causou no povo alemão duas incontroláveis
necessidades, de um bode expiatório e de um Messias, sob o pretexto de recuperar sua
dignidade e seu senso de origem perdidos. Logo apareceu um. Por outro lado, o indivíduo
se sufoca com o excesso de regras lunares, pois o domínio da Lua nos faz regredir ao
estágio matriarcal. Os atos ou pensamentos dotados de impulso criativo são proibidos,
quando ameaçam a segurança do coletivo. O indivíduo pode escolher entre se tornar um
marginal ou cair na morte em vida, que é a depressão crônica.
Às vezes, a pessoa pode achar que conseguiu se desligar de suas raízes. "Bem, sou um
cidadão do mundo", diz o sagitariano ou aquariano, "e minha família é composta pelas
pessoas com as quais compartilho valores intelectuais e espirituais." Isso pode ser verdade
para a personalidade consciente, especialmente quando Júpiter ou Urano estão fortes no
mapa natal. Mas existe um nível mais profundo, no qual ninguém escapa de Hera com
facilidade. Quando não é devidamente reconhecida, esta faceta da Lua também pode gerar
comportamentos compulsivos. Quando rejeitamos esses valores a nível consciente, nossa
necessidade de identificação pode procurar, inconscientemente, substitutos para as raízes.
Mesmo a mais iluminada e desapegada das almas pode se tornar fanática, intolerante e
vingativa, se o substituto que adotou para as raízes ficar ameaçado, apesar de fazer isto em
nome de alguma ideologia constituída por pensamentos aparentemente democráticos. Ao
invés de a família ou o país, o substituto pode ser uma filosofia política ou espiritual, que
assume uma forma curiosamente emocional e compulsiva. Um bom exemplo disso é o
21
marxismo na Rússia e na Europa oriental, adotado, teoricamente, para trazer iluminação e
liberdade do mundo arcaico (semelhante à Hera) constituído pelo Czar, pela igreja ortodoxa
e pela rígida hierarquia social russa. O marxismo, no entanto, tornou-se rapidamente um
dos mais cruéis e sufocantes substitutos para as raízes. O Partido metamorfoseou-se
inconscientemente na Família, e os filhos pródigos sejamos dissidentes individuais ou os
países recalcitrantes como a Hungria e a Tchecoslováquia, tiveram que ser submetidos
através do chicote. As dinâmicas psicológicas desse tipo - que Jung chamava de enantiodromia -
ocorrem tanto a nível individual quanto coletivo, quando essa faceta da Lua é rejeitada. A
separação das raízes pode ser muito necessária para a sobrevivência psíquica (ou mesmo
física) do indivíduo em relação às suas raízes raciais, religiosas e sociais, se essas raízes
constrangem ao invés de estimular. Mas não podemos dispensar o peso da ancestralidade
com um mero "aceno" do Intelecto. Até que o conflito e as dores que ele traz fiquem
conscientemente esclarecidos, algo ou alguém irá inevitavelmente substituir tanto as raízes
quanto a continuidade perdidas, e o dilema original é simplesmente reproduzido em outro
domínio.
Deve ser interessante perguntarmo-nos o que, em nossas próprias vidas, nos fornece
um senso de família, de raízes e de ligação com o passado. Isto pode ser especialmente
importante se rejeitamos essas coisas por motivos ideológicos ou se nossa própria família
foi um elemento sufocador, e não estimulante. Frequentemente, a Lua interior frustrada
tenta criar uma família segura e indestrutível de algum outro modo, através do apego cego
a nossos parceiros e filhos, ou através do apego igualmente cego a algum emprego ou
empresa. Quando nos falta o senso interno das raízes lunares, nós as procuramos no
mundo exterior. Se esse processo for inconsciente, podemos nos tornar viciados e
possessivos, e então não conseguimos entender porque ainda permanecemos ligados ao
trabalho entediante ou ao casamento destrutivo durante trinta anos, sufocando assim
muitos outros potenciais. Talvez necessitemos desenvolver uma genuína apreciação, tanto
dos aspectos positivos de nosso passado ancestral quanto da maneira como ele pode ser
expresso em nossas vidas atuais, para que Hera possa enfim encontrar um "lar
confortável".
Audiência: Gostaria de perguntar algo a respeito do que você chamou de atitude
matriarcal nas mulheres - a excessiva valorização da família e a sensação de que o marido é
dispensável, salvo como provedor de recursos materiais ou de esperma. Por que algumas
pessoas se sentem assim? Deve ser bom para as mulheres, mas eu não gostaria de estar no
lugar desses maridos.
Liz: Eu também não, e muitos homens só saem de casamentos assim no final de suas
vidas. Esses homens costumam estar tão identificados com o mundo matriarcal quanto
suas esposas, os cuidados de que precisam são maternais e não relacionados ao
desenvolvimento individual. Eu costumo associar à Lua, em seu nível mais primitivo, tal
atitude arquetípica, que não é intrinsecamente nem "boa" nem "má". Até certo ponto,
pode ser saudável e necessária, tanto para os homens quanto para as mulheres, pois
permite que ambos lidem melhor com os complexos aspectos da vida familiar e social. Às
vezes, é preciso colocar o coletivo antes de nossa própria gratificação individual. Isso se
identifica perfeitamente com a poderosa mensagem ecológica da atualidade. Mas se a
pessoa possui um eu individual, mesmo que tênue, a vida pode ficar muito solitária e
22
frustrante, quando se é o marido de uma mulher matriarcal ou a esposa de um homem
matriarcal (que existem!), porque o valor da pessoa enquanto indivíduo é subestimado e
apagado. Parece-se com as caricaturas de James Thurber, retratando mulheres gigantes, do
tamanho da casa, puxando seus minúsculos maridos, do tamanho de aranhas, pela coleira.
Também não é agradável ser filho num mundo matriarcal; a criança é inevitavelmente
idealizada, porque a estrutura mítica do matriarcado se assemelha à deusa partenogênica
ou autofertilizadora. Isso significa que a criança é divina, engendrada através de mágica, e
destinada a ser a heroica redentora de sua mãe. É difícil para uma criança corresponder a
tal expectativa, que pode ter como consequência muitas dificuldades emocionais na idade
adulta.
Eu acho que existem muitos motivos para que uma mulher se identifique com essa
arcaica faceta de sua personalidade, em detrimento de outras, igualmente importantes. A
causa costuma ser seu próprio histórico familiar. Uma mulher que sofreu grave
"subnutrição" emocional na Infância desenvolve muita ansiedade, procura alimento
emocional através da identificação inconsciente com essa arquetípica deusa lunar. Muitas
mulheres tentam encontrar a segurança interior da mãe lunar Incorporando-a
externamente. Quando estamos carentes de alguma coisa, há duas alternativas
humanamente possíveis para supri-Ia: ou , esperamos recebê-la de alguém, ou nos
transformamos numa versão exagerada da coisa.
Essa é apenas uma das possibilidades. Muitas vezes, a raiva contra o sexo masculino se
relaciona a um amor não correspondido pelo pai, ou um sentimento de que a mãe era tão
poderosa que negou à filha qualquer oportunidade de poder feminino. Quando nos
sentimos inadequados, podemos tomar emprestado o poder mágico do arquétipo para
compensar o que interpretamos como deficiência pessoal. O problema é que o poder
arquetípico é falso, já que não pertence à pessoa. Se não trabalhamos no sentido de
processar essas energias através das lentes de nossa própria individualidade, elas nos
dominam, aniquilando todo o nosso poder de decisão e nosso senso de responsabilidade
pessoal. Assim, uma mulher que se identifica inconscientemente com a deusa lunar pode
ser profundamente voraz e destrutiva, ainda que não se dê conta disso. Quando nos
identificamos com os deuses, compramos o "pacote" inteiro, não apenas as partes
agradáveis.
Audiência: Você poderia falar um pouco sobre os signos e aspectos da Lua com os quais
Hera tem afinidades?
Liz: A Lua em Capricórnio ou Câncer parece ter afinidade com Hera, da mesma forma
que um forte aspecto Lua-Saturno. A Lua em Touro também pode ter boa ressonância com
Hera, devido ao gosto que Touro tem pela estabilidade e pelos valores tradicionais. A Lua
em qualquer desses signos é dotada de uma conhecida resistência ao divórcio e à
dissolução das famílias, e a pessoa frequentemente suporta considerável quantidade de
infelicidades pessoais, apenas para manter intacta a estrutura familiar. A ansiedade
costuma estar relacionada à ameaça ou a frustração das necessidades da Lua, e a Lua em
Capricórnio pode se tornar excessivamente moralista e controladora, para poder lidar com
o espectro da supressão das raízes. A Lua em Touro pode se tornar teimosa, gananciosa e
malévola (o que Freud chamava "anal"), e a Lua em Câncer pode se tornar manipuladora,
patética e um tanto histérica. São reações de defesa contra a perda das raízes. Quando as
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necessidades da Lua são suficientemente atendidas, aparecem as melhores qualidades
desses signos - a profunda responsabilidade e o cuidado pelos outros de Capricórnio, a
profunda compaixão e a empatia emocional de Câncer e a serenidade, gentileza e paciência
de Touro. Hera mostra então sua face benéfica, protetora das mulheres e crianças e guardiã
do lar.
Audiência: Você mencionou aspectos de outros planetas com a Lua que mostram
afinidades com outras figuras míticas. Você poderia dizer algo sobre as conjunções da Lua
com os planetas exteriores? Seriam as necessidades pessoais da Lua menos importantes,
nesses casos?
Liz: Eu gostaria de deixara análise detalhada dos aspectos da Lua para Howard, que irá
interpretá-los mais tarde. Geralmente porém, a Lua jamais perde importância para nós,
sejam quais forem os aspectos que formar com outros planetas. Um outro planeta
acrescenta componentes adicionais, e às vezes conflitantes, às necessidades básicas e ao
modo de expressão da Lua. Mas a Lua continua a ser ela mesma, essa substância básica
sobre a qual a personalidade se desenvolve, porque descreve nossa capacidade maternal
com relação a nós mesmos.
Os planetas exteriores podem desafiar os modos mais mundanos de expressão da Lua.
Isso é particularmente verdadeiro em relação a Urano. Se a Lua faz aspecto com Urano,
será necessário incluir os valores uranianos na expressão lunar; se for um aspecto difícil,
Urano pode complicar as coisas no que diz respeito à satisfação (ou insatisfação) que o
indivíduo tem dentro de uma estrutura familiar tradicional ou identificada com a vida
retratada em Coronation Street. Entretanto, existem muitas esferas uranianas da vida onde a
Lua ainda consegue encontrar seu senso de identidade e de continuidade. Por exemplo, os
aspectos Lua-Urano costumam ser tradicionalmente associados ao estudo da astrologia e
de outros assuntos da Nova Era. Tanto a sensação de ligação com um cosmo organizado e
previsível quanto o reconhecimento das necessidades comuns que ligam todos os seres
humanos podem suprir o tipo de "família" que não é desejável ou possível num nível mais
básico. Na verdade, a astrologia, com sua longa história e sua confiabilidade absoluta,
torna-se um tipo de Grande Mãe celestial. Lembram-se da estátua de Artemis de Éfeso,
com o zodíaco esculpido ao redor do pescoço? Com os aspectos Lua-Urano, um senso de
raízes e de família pode ser encontrado na segurança da Grande Ronda, o que explica
porque tais estudos preenchem tanto as necessidades das pessoas com aspectos Lua-
Urano.
Audiência: Poderia um relacionamento afetar a expressão da Lua do mapa de alguém?
Liz: Sem dúvida. Se os planetas de seu parceiro formam aspectos fortes um sua Lua, ele
poderá ativar poderosamente seu lado lunar. Nem sempre isso é agradável, mas é sempre
produtivo, já que pode ajudar você a se tornar mais consciente das necessidades de sua
Lua. Por exemplo, você pode ter Lua em Leão fazendo oposição a Saturno em Aquário, por
sua vez embutido num mapa muito racional e cheio de autocontrole, tipo Terra-Ar. Essa Lua
ígnea, uma criança divina e brincalhona que precisa de doses regulares de alegria e de
drama, pode ter sido tristemente ignorada ou reprimida. Ou quem sabe essa Lua em Leão
esteja escondida na casa 12 e a família tenha sutilmente passado a mensagem de que é
errado ser egoísta e individualista. Então aparece alguém com Vênus em Leão fazendo
conjunção com sua Lua e você sente que, pela primeira vez na vida, consegue ser você
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mesmo. Essa pessoa valoriza sua necessidade de diversão, de romance e de auto-
expressão, você se sente emocionalmente apoiado, estimulado e valorizado.
Da mesma forma, se entra em sua vida alguém com Saturno em Touro, fazendo
quadratura com sua Lua, você também fica muito mais consciente de suas necessidades
emocionais leoninas. Mas tal descoberta pode vir através das críticas que você recebe em
relação ao seu egoísmo e à sua falta de responsabilidade. Mesmo se você tiver reprimido
seu lado leonino, o Saturno de seu parceiro com certeza irá focalizá-lo, relembrando-o ad
nauseam. Se alguém diz para você não ser do jeito que é, oferece-lhe o caminho direto para
que você descubra o que é mais importante para você. Neste caso, você talvez necessite
lutar por sua Lua ou, num caso extremo, talvez seja necessário desistir do relacionamento.
Ainda assim, você poderá compreender o que constitui seu alimento essencial, já que esse
alimento lhe será negado. Todos aprendemos muito sobre a Lua através de nossas
interações com os outros. Os aspectos da Lua entre dois mapas produzem reações
"viscerais" num relacionamento, nem sempre conscientes, mas que determinam nosso grau
de satisfação e de segurança em relação a tal pessoa. Se a Lua não estiver fortemente
aspectada pelos planetas da outra pessoa ou se ficar bloqueada por esses planetas, o
relacionamento pode ser válido e importante, mas dificilmente fornecerá "alimentação" a
nível instintivo. Precisamos então encontrar outras saídas para a Lua, ou então encontrar
outro parceiro. A maioria dos relacionamentos consegue suportar muitos golpes de outros
aspetos difíceis de sinastria quando as duas Luas estão apoiadas mutuamente em algum
nível. Se isso não acontece, podem surgir profundos sentimento de insatisfação e de
inadequação, e se não houver consciência do problema, a Lua reprimida pode vir a gerar
situações emocionais muito destrutivas para o relacionamento.
Audiência: Seria então inevitável o fracasso de um relacionamento com aspectos difíceis
da Lua em sinastria?
Liz: Não, o fracasso não é inevitável. Mas as consequências da repressão da Lua são
inevitáveis. Faz-se necessário algum grau de compreensão consciente acerca do cerne da
dificuldade. Quanto mais sabemos como nos alimentar, menos ressentidos ficamos quando
alguém não nos alimenta exatamente do modo como gostaríamos. Como a Lua é um
reflexo de nossa natureza instintiva, ela é essencialmente desarticulada, e frequentemente
a pessoa desconhece tanto sua insatisfação quanto o motivo do descontentamento. A Lua
tende a produzir estados de humor, depressão e pequenas doenças quando não temos
consciência de nossas necessidades. Humores voláteis, depressão e comportamentos
compulsivos não costumam ser úteis para que alguém consiga levar adiante um
relacionamento atormentado. É nossa responsabilidade estabelecer algum tipo de ligação
com nossa própria Lua, de modo que possamos articular ao parceiro os motivos de nosso
descontentamento, ou então descobrir outras saídas para compensar aquilo que tal
parceiro não é capaz de suprir.
Eu gostaria de deixar para trás nosso diagrama mítico e examinar a questão da mãe
pessoal em relação à Lua; em seguida, poderemos explorar a Lua nos diferentes signos e
casas do mapa. A Lua nos diz muitas coisas sobre as primeiras semanas e meses da Vida,
porque e a mãe pessoal quem primeiro intermedeia para nós o arquétipo da Grande mãe
lunar, incorporando e encarnando dimensões específicas desse arquétipo. "Interiorizamos"
tais características específicas como parte de nossa própria estrutura psíquica em
25
desenvolvimento, porque a mãe pessoal não desempenha apenas esse papel, ela também
comporta a projeção de algo que existe dentro de nós. Assim, esse relacionamento básico
dá o tom para a maneira através da qual nos relacionamos internamente com a Lua.
Nenhuma configuração lunar tem capacidade para descrever uma mãe "ruim", mas
algumas configurações descrevem energias que são inevitavelmente difíceis de serem
representadas por qualquer mãe em seu papel materno --energias que são, na verdade,
basicamente incompatíveis com as necessidades da Lua - e a mãe pode não ter sido capaz
de lidar bem com elas. Cabe então a nós fazer algo mais construtivo com essa mesma
questão arquetípica. A astrologia tem um estranho modo de descrever as coisas, tanto
objetiva quanto subjetivamente, tanto interna quanto externamente - e a Lua não constitui
apenas uma imagem subjetiva que fazemos da mãe. Ela também descreve qualidades
importantes que a mãe possui de fato, apesar de eventualmente reprimidas. Portanto,
aquilo que descreve tanto mãe e filho quanto a dinâmica da relação inicial seria uma espécie
de "substância" compartilhada por eles.
Por exemplo, sua Lua pode estar em Gêmeos, o que reflete características de
curiosidade intelectual, inquietude, apreciação estética e necessidade de constante
interação social. Essas qualidades devem se aplicar tanto à sua mãe quanto a você. Até
aqui, tudo bem - a melhor nutrição para sua Lua em Gêmeos seria a satisfação dessas
necessidades específicas e, num mundo ideal, sua mãe seria a pessoa certa para fazer isso,
porque compartilharia dessas suas características. Pode-se imaginar uma mãe atenta e
exuberante, lendo contos de fadas e contando histórias para seu exuberante e atento filho,
levando-o para passear, estimulando sua educação escolar, e assim por diante. Talvez tal
mãe não seja a mais doméstica das criaturas, mas uma criança com Lua em Gêmeos não
precisa de uma babá nem de uma enfermeira. Essa criança precisa de alguém que lhe
ofereça segurança lunar através da comunicação e da escuta.
Mas, e se sua mãe não consegue expressar suas próprias qualidades mercuriais ou só
consegue fazer esse papel de modo negativo? E se ela em perceber que detém esses
potenciais? Nesse caso, ela dificilmente vai reagir adequadamente às necessidades lunares
de seu filho mercuriano, e pode até ficar ressentida e impaciente com a natureza Inquisitiva
e inquieta da criança, devido à sua própria frustração. Você pode encontrar em seu mapa
uma configuração tal como Saturno em Virgem em quadratura com essa Lua em Gêmeos.
Isso poderia sugerir que um senso de dever superdesenvolvido, um medo de perder a
segurança ou um medo do que os outros pudessem dizer, combinaram-se para reprimir a
vivacidade natural de sua mãe, porque ela tinha muito medo de parecer leviana ou de não
ser uma "boa" mãe. Ou então, as responsabilidades a sobrecarregavam tanto que ela não
tinha tempo para brincadeiras geminianas. Inevitavelmente, você vai assimilar esse dilema
e vivenciar um conflito entre suas necessidades lunares e o que acha que o mundo espera
de você. A quadratura Lua-Saturno é um problema que você compartilha com sua mãe e
não é nada útil culpá-la por ter sido critica, séria demais ou desinteressada por suas
demandas emocionais. Provavelmente, ela estava exercendo alguma rejeição emocional,
apesar de seus esforços conscientes. Mas provavelmente é você, como adulto, que está
deixando de encontrar um equilíbrio interno entre a autonutrição e as demandas coletivas,
porque você assimilou o conflito dela e está agora tratando a si mesmo como ela tratou -
tanto a você quanto a ela mesma.
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Logo, o aspecto Lua-Saturno diz algo importante a respeito de sua mãe e do que deve
ter sido uma fonte básica da depressão ou de frustração para ela. Também revela que
havia, provavelmente, um clima de frieza emocional e de alienação em seu relacionamento
com ela, mesmo se o comportamento exterior dela fosse aparentemente responsável e
sacrificado. A revelação mais importante seria, no entanto, que você deve estar magoando
sua própria Lua com seu próprio Saturno, pela vida adulta afora. Ou então o contrário -
talvez você esteja chafurdando na dependência e na fome da Lua, em detrimento da auto-
suficiência saturnina. A aceitação do conflito interior permite a mudança e a libertação dos
efeitos mais duros dessa configuração, porque você pode trabalhar para se equilibrar
melhor caso assuma a responsabilidade por sua carência emocional. Nenhuma outra
pessoa pode fazer isso em seu lugar.
As imagens míticas que exploramos antes, pertencem tanto às nossas mães quanto a
nós mesmos. Essas imagens podem nos ajudar a compreender a base arquetípica de nossas
necessidades emocionais, bem como os temas míticos que operam na relação inicial mãe-
filho. Os aspectos lunares oferecem "insights" (visões) incrivelmente ricos sobre nossa
infância. Podem ser, do ponto de vista psicológico, muito úteis para esclarecer problemas
como ansiedade crônica e comportamento compulsivo. A Lua pode ser lida como um livro
de história, revelando importantes experiências físicas e emocionais ocorridas nos
primeiros meses de vida, de acordo com a sucessão dos aspectos lunares separativos e
aplicativos. Mas eu acho que, ao examinarmos a Lua, deveríamos examinar tanto o nível
mundano quanto o mítico dessa relação mãe-filho, para compreender tanto suas
possibilidades criativas quanto o registro que traz das mágoas passadas.
A fábula mítica descrita pelos signos e aspectos lunares é semelhante àquela registrada
na psique familiar ao longo de muitas gerações, e transmitida tanto para os filhos quanto
para os netos. Geralmente, um homem se casa com uma mulher que traz uma configuração
lunar semelhante à sua, porque muitos homens expressam tais questões maternas através
de suas parceiras e filhas. É sempre fascinante descobrir como se repetem os padrões
lunares nos horóscopos da maioria, senão de todos os membros de um grupo familiar. As
necessidades instintivas da família, que incorporam certo tema arquetípico, procuram
satisfação através de todos os seus membros, tomando formas mais ou menos destrutivas
de acordo com o nível de inconsciência e de repressão das pessoas. O trabalho sobre as
questões lunares realmente representa um trabalho sobre a substância familiar. À medida
em que esses dilemas passam de geração em geração, a mais recente delas se depara com
novas oportunidades, oferecendo soluções que seus ancestrais não tiveram capacidade
para encontrar. Deste modo, podemos dizer que, ao trabalhar na resolução dos conflitos
lunares, estamos redimindo o passado.
Quando interpretamos a Lua em relação à mãe pessoal, precisamos levar em conta
alguns fatores não-astrológicos, tais como as expectativas coletivas da geração e do grupo
social aos quais a mãe pertencia. Uma mãe que é filha de imigrantes pobres, por exemplo,
pode crescer com uma profunda ansiedade - que acaba refreando sua capacidade para
assumir riscos na vida - e esses problemas devem ser levados em conta se quisermos obter
um quadro real de nossa herança psicológica. A quadratura Lua-Saturno pode descrever
uma mãe emocionalmente distante devido a uma falha profunda de caráter, mas também
pode descrever uma mãe que começou sendo muito calorosa, mas que estava tão
27
atormentada pelos problemas materiais que não conseguiu ajudar sequer a si mesma.
Também devemos levar em conta os mecanismos psicológicos básicos, como o fato de uma
mãe naturalmente independente e espirituosa poder achar difícil desempenhar o papel da
maternidade por motivos perfeitamente justificáveis; e os filhos, afinal de contas, não se
contentam com menos que "tudo".
Ao examinarmos essa última questão, podemos fazer uma ampla generalização de que
a Lua nos signos masculinos, especialmente quando em aspecto com planetas dinâmicos
como Marte ou Urano, implica um inevitável dilema. A mãe representada por tais
configurações lunares sofrerá conflitos inevitáveis pelo simples desempenho da
maternidade. Apesar disso ser óbvio, normalmente subestimamos essa verdade simples
porque estamos muito magoados por nossas carências. Como poderia tal mulher, trazendo
dentro de si a vívida imagem arquetípica da indomável Senhora das Feras, estar totalmente
satisfeita em ficar em casa e dar de mamar? Podemos também analisar o caso da Lua em
Escorpião. Essa colocação, como já mencionei, tem afinidades consideráveis com figuras
míticas como Hécate e Circe. Existe um poderoso componente erótico nessas mulheres-
feiticeiras, e pode ser difícil conciliar tal intensidade e paixão sexuais, mesmo que
inconscientes, com o papel de mãe - especialmente se ela tem uma filha, que acaba por se
tornar sua rival. Portanto, se você é mulher e tem Lua em Escorpião, o componente de
ciúme sexual pode ter feito parte de seu relacionamento infantil com sua mãe. Isso não é
"patológico", é apenas um fato da vida. Uma mulher apaixonada não gosta de dividir a
energia emocional de seu marido com uma filha púbere e eroticamente competitiva. Esse
tipo de dilema costuma ser profundamente inconsciente porque nada sabemos do nível
plutoniano da vida familiar. Nenhum preconceito moral é apropriado nesse plano. Mas na
vida adulta, se sua Lua está em Escorpião, você precisará de muita honestidade para
enfrentar as sutis correntes emocionais de sua infância, evitando repetir inadvertidamente
os mesmos erros.
Esses cenários característicos ocorrem em relação a todas as colocações da Lua.
Constituem simplesmente as dimensões dos padrões arquetípicos, por sua vez operantes
no início da vida da pessoa. Provavelmente, todos nós precisamos passar por fases em que
ficamos furiosos com o que fizeram conosco na infância, pois a lealdade ao eu às vezes
precisa começar por uma justificada raiva, e por não existir mãe que faça tudo certo. Isso é
particularmente verdadeiro quando a idealização da mãe nos impede de enfrentar as
antigas mágoas. Mas, do outro lado do túnel da raiva e da culpa, é essencial reconhecer a
substância lunar compartilhada por mãe e filho, de modo que possamos perdoar e
prosseguir. Essa substância compartilhada pode ser distinta da face benigna e nutritiva da
Lua. Pode ser selvagem e imprevisível, ou profunda e sutil. Como vimos, a Lua nem sempre
é consoladora e maternal. Demeter é uma das divindades lunares mais seguras, ainda que
tenha sido capaz de esterilizar a terra e de matar as colheitas ao saber que sua filha havia
perdido a virgindade. Para compreender a Lua, talvez seja preciso redefinir a palavra
"maternal". As deusas lunares praticavam sexo com seus filhos, comiam sua prole e faziam
todo tipo de coisa que dificilmente encontramos nas famílias retratadas por Stephen
Spielberg. Ainda assim, todas essas imagens refletem fielmente as diferentes fases da Lua.
Eu gostaria agora de explorar os signos e casas da Lua, começando pelo Mapa 1 (ver
Figura da página 29). Neste mapa, a Lua reflete vários dos dilemas arquetípicos sobre os
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quais acabei de falar. A Lua não forma aspectos importantes, e está colocada num signo de
Fogo (Áries) e numa casa de Fogo (9). Ela é, portanto, uma Lua altamente combustível e
que não se relaciona com nenhum outro planeta do mapa, apesar de formar um trígono
com o Ascendente. Em primeiro lugar, fornecerei alguns detalhes sobre o histórico familiar
de Julian; depois, veremos o que a Lua pode dizer acerca de sua história e das dificuldades
que ele está enfrentando neste momento.

Mapa 1. Julian. Os dados de nascimento foram omitidos para preservar a privacidade. Mapa calculado pela
Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Julian é filho de um professor de Ciências Humanas altamente respeitado em


Cambridge. Quem conhece a mentalidade dominante em Oxford e Cambridge poderá
entender que a Lua em Áries, juntamente com o Sol em conjunção a Marte em Áries e um
ascendente em Leão, que alimenta as labaredas, não são os elementos mais convenientes
para alguém cujo pai poderia ser definido como uma pessoa desligada, intelectual e
impecavelmente controlada. A quadratura Mercúrio-júpiter e a conjunção Saturno-Quiron
não são exatamente úteis se todos esperam que essa pessoa siga os passos do pai,
tornando-se um erudito tipo Oxford/Cambridge. Não estou sugerindo que o pai de Julian
seja o “vilão da história". Mas antes de explorarmos as questões lunares deste mapa, já
podemos supor que Julian, com seu temperamento dramático, impetuoso, fogoso e sua
mente intuitiva e indisciplinada provavelmente nasceu num ambiente um tanto
incompatível com sua natureza essencial. As conotações de tal fato não são
necessariamente negativas. Mas podem facilmente gerar problemas, pois uma das partes
da jornada arquetípica de um homem com o Sol em Áries inclui a rivalidade com o pai.
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Mantendo em mente esse histórico, vamos analisar a Lua em Áries. Essa colocação
sugere a vocês alguma imagem mítica em particular?
Audiência: Ela me lembra a Senhora das Feras, que você mencionou, muito fogosa e
selvagem.
Audiência: E as mênades? Sempre achei que havia algum elemento muito
descontrolado numa Lua em Áries.
Liz: Acho que ambas as imagens são muito adequadas. A Lua em Áries se expressa num
nível instintivo e irracional, muito diferente da iniciativa consciente e da liderança do Sol
em Áries. Na verdade, essa Lua consiste na dimensão selvagem e combustível do signo,
cheia de vida e muito sensível. Essa Lua se parece muito com o mito das Amazonas, as
mulheres guerreiras que amavam o êxtase da batalha. Acho que sua observação sobre as
mênades também foi muito astuta, porque, conforme disse antes, essa palavra provém da
raiz grega "mania". Você poderá ver como é adequada essa imagem à medida em que eu
prossigo.
A Lua em Áries é muito calorosa e apaixonada, como a deusa egípcia Sekhmet, com
cabeça de leoa, que regia as guerras, ou como as próprias leoas que acompanhavam a
antiga Senhora das Feras da Anatólia. A mãe de Julian era dotada de muitas dessas
qualidades. Apesar dele não se lembrar muito bem de sua primeira infância, disse-me que
antes do acidente que aleijou sua mãe quando ele tinha oito anos, ela era uma pessoa
muito vivaz e "mandona", com um gênio terrível. Ele se recorda de brigas frequentes entre
seus pais, em que seu pai ficava frio e racional, enquanto sua mãe ficava tão irada que
literalmente espumava pela boca. Apesar do quadro desagradável, Julian guarda uma
lembrança positiva dela, pois a descreve como "interessante", "jamais indiferente". Ele
nunca se sentiu emocionalmente próximo dela (isto talvez reflita tanto a falta de aspectos
da Lua quanto a natureza de "amazona" desse planeta), mas sua mãe certamente o
impressionou muito com a força de sua personalidade. Então, quando ele estava com 8
anos de idade, tudo mudou de uma forma terrível.
Parece que a mãe e o pai de Julian estavam tendo uma de suas calorosas brigas
quando saíram do quarto para continuar a discutir no vão da escada. Julian estava lendo na
sala de estar no andar de baixo e viu quando sua mãe deu um tapa no rosto do pai. Então
ela perdeu o equilíbrio, cambaleou e rolou pela escada, caindo inconsciente bem aos pés de
Julian. A lesão na espinha a deixou permanentemente confinada a uma cadeira de rodas. A
mudança em sua personalidade atingiu Julian de forma pior que sua paralisia, pois ela se
tornou quieta, polida e formal, isolando-se num mundo interior que excluía tanto o marido
quanto o filho, deixando em ambos um terrível sentimento de culpa. Julian não pode deixar
de culpar seu pai acima de tudo, apesar de ter tentado lidar com o trauma raciocinando
sensatamente que o episódio, por mais horrível que fosse, tinha sido um acidente. Mas as
repercussões sobre Julian foram tão complexas e trágicas quanto o próprio evento.
Essa fábula é bastante trágica e lembra as maldições familiares gregas. Contudo, Julian
sofre de um problema bastante grave, que poderia ter indo diretamente de Ésquilo. Ele
sofre de psicose maníaco-depressiva, e como muitas pessoas que sofrem dessa doença,
toma lítio para controlar seu comportamento. Os sintomas começaram a aparecer logo
após Julian ter entrado na puberdade, e percorreram seu triste ciclo muitas vezes desde
então; seus sintomas são típicos e semelhantes aos de muitos moníacos-depressivos. Às
30
vezes, Julian se sente com os pés no chão e mentalmente são, mas de repente começa a
ficar "alto". Apesar do lítio (que dá certo alívio mas não consegue erradicar as flutuações
emocionais), seus sentimentos se alternam entre graves depressões com tendências
suicidas e estados de "voos de imaginação" maníaco-depressivos, nos quais ele se torna
parecido com as mênades. Nesses estados, ele é capaz de subir em prédios e xingar as
pessoas; ele acredita que vai viver para sempre; entra num tipo de transe estático, onde
sabe tudo,consegue penetrar em todos os mistérios e possui respostas para todas as
questões importantes. Ele costuma acabar sendo hospitalizado, já que mais cedo ou mais
tarde alguma pessoa ofendida chama a polícia; uma vez calmo no hospital através de
medicamentos fortes, mostra grande relutância em sair de lá e assumir novamente sua vida
no mundo. Sua mãe jamais o visitou no hospital, apesar dele sempre solicitar sua presença.
Eventualmente ele coloca os pés no chão e vai embora, e então o ciclo começa de novo.
A paixão ardente da Lua em Áries é muito evidente, tanto nos episódios maníaco-
depressivos de Julian quanto na perspectiva filosófica geral de sua colocação na casa 9. Esta
Lua sem aspectos eclode de forma pura e arquetípica, sem nenhuma modulação por outro
planeta. Esse é um exemplo perturbador, do que pode acontecer quando um planeta sem
aspectos, e portanto geralmente desligado do ego, penetra com sua energia na mente
consciente: ele domina durante algum tempo, como uma espécie de possessão. O próprio
Julian desaparece, tudo o que existe é uma Lua em Áries na casa 9, pura e arcaica,
enquanto durarem os ataques. Quando Julian volta a si, a Lua cai no inconsciente,
deixando-o desolado, abandonado, culpado e envergonhado.
Em signos de Fogo, a Lua reflete a profunda necessidade da pessoa se sentir especial,
de ser reconhecida como filha dos deuses. Instintivamente,a pessoa acha que não precisa
se ater aos limites normais aplicáveis aos mortais comuns. Essa necessidade lunar é inata, e
nenhum argumento racional consegue domá-la. Se essa Lua for contida e equilibrada por
fatores mais sólidos do mapa (especialmente planetas em signos de Ar, que podem lhe
fornecer estrutura sem sufocá-la), a Lua em signo de Fogo pode gerar uma imaginação
poderosa, bem como a coragem de expressar com criatividade esse rico mundo interior.
Mas no mapa de Julian, só Júpiter está colocado em signo de Ar, e Mercúrio, que refletiria a
capacidade para formulação do mundo interior, encontra-se bloqueado pela conjunção
Saturno-Quiron. Isso sugere que as faculdades de lógica e reflexão, tão naturais para o pai
de Julian, não são fáceis para ele. Como muitas pessoas intuitivas, Julian tende a vivenciar
as coisas subjetivamente, sendo incapaz de enfrentar as experiências dolorosas e limitantes
da vida - especialmente o acidente de sua mãe - com imparcialidade. A vida o magoou
pessoal e deliberadamente, portanto ele vai punir a vida e seus pais da mesma forma.
Audiência: Isso seria válido se a Lua estivesse colocada num signo de outro elemento,
apesar de estar numa casa de Fogo?
Liz: Provavelmente não. Os signos nos quais os planetas se situam simbolizam o
material de que somos feitos. As casas são as esferas da vida quais os planetas se
expressam. Se a Lua de Julian estivesse em Touro, na 9, sem dúvida ele teria a necessidade
instintiva de algum tipo de perspectiva filosófica ou cosmovisão abrangente, bem como o
anseio por viagens e aventuras. A casa 9 é uma das casas mentais, e Julían, com sua Lua em
Áries na 9, sai literalmente de sua mente e viaja interiormente a alguns portos estrangeiros
muito exóticos. Contudo, se essa Lua estives em Touro, ele teria necessidades emocionais
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diferentes, bem como uma mãe diferente - e não se comportaria como uma mênade,
extravasando sua fúria. Duvido que seu sintoma seria de um psicótico maníaco-depressivo.
Se a Lua estivesse em Áries mas na casa 6, talvez ele não escalasse prédios nem gritasse
filosofia aristotélica para as pessoas. Talvez seu corpo, tal como a mênade, expressasse sua
raiva através de sintomas físicos como febres repentinas ou enxaquecas.
A Lua em Fogo precisa ter um significado, uma conexão imaginativa com um padrão
superior, mais profundo. Como estamos lidando com a nutrição lunar, não se trata de
formularmos uma estrutura filosófica ou espiritual. Trata-se do ímpeto instintivo de dar à
vida uma dimensão mítica ou arquetípica, para que a pessoa possa se sentir parte de algo
maior e mais significativo do que o mundo material. Nesse sentido, a Lua em Fogo é uma
contradição, pois o domínio lunar é o do corpo. Mas a Lua em Áries, Leão ou Sagitário tenta
instintivamente vitalizar a realidade material com drama e imaginação. Mais do que
qualquer outra coisa, o que deprime uma Lua ígnea é a vida banal, sem cavaleiros em
montarias brancas ou damas em perigo, sem criaturas imensas e coloridas saídas
diretamente do mundo dos contos de fadas para compensar o fiscal de rendas e a conta do
supermercado.
Isso nos revela um pouco mais dos ataques maníaco-depressivos de Julian,
especialmente quando pensamos no mundo organizado e limitado em que ele foi criado.
Apesar do mundo acadêmico inglês, como qualquer outra esfera, ter seus escândalos e
dramas, eles normalmente são representados de maneira polida e bem-educada. A vida
doméstica dos professores dos círculos de Oxford e Cambridge tende a ser bastante
discreta, como a do Inspetor Morse. Se uma criança com Lua ígnea não é levada a sério quando
tenta trazer a vivacidade de seu mundo imaginário para a vida diária, isso pode fazer com
que a criança se retraia e vivencie fantasias grandiosas, isoladas do mundo cotidiano. A
pessoa pode ser um gênio, um grande artista ou um avatar espiritual, mas aquele bando lá
de fora é muito estúpido e filisteu para entender isso.
Os surtos de Julian fizeram dele o centro absoluto de seu mundo. Ele acabou
recebendo o papel principal da peça e todos à sua volta largam o que quer que estejam
fazendo para correr em seu auxílio. Essa pode ser uma das razões para suas depressões
suicidas, pois quando ele perde o contato com seu papel de brilhante e dotado filho dos
deuses, não consegue ver motivos para viver. Ele não consegue acreditar que pode ser
amado como um mero mortal. Isso é Áries atuando em um nível compulsivo e
profundamente inconsciente.
Audiência: Então, na verdade, ele está usando de chantagem inconsciente contra seus
pais.
Liz: Sim, chantagem inconsciente ou, mais especificamente, punição inconsciente. Ele
está punindo seu pai por seu "crime", como se este tivesse realmente empurrado sua
mulher escada abaixo; mais do que qualquer outra coisa porém, ele está punindo sua mãe
por tê-lo abandonado por uma cadeira de rodas e por seu silêncio. Este é um problema
grave, embora menos consciente do que a raiva pelo pai.
Audiência: E quando ele tem uma crise e vai parar no hospital, está na verdade pedindo
à mãe que cuide dele.
Liz: Sim, creio que sim. Além disso, ele se torna semelhante a ela - um inválido, incapaz
de lidar com a vida - e por ficar como ela, aproxima-se dela. Os elementos manipuladores
32
do comportamento de Julian são complicados, mas constituem-se em uma forte afirmação
simbólica. Ele pode punir o pai por não o aceitar, e por ser bom em algo a que ele não pode
esperar almejar. Ele pode punir a mãe por ela ter se retraído. Ele pode forçar o mundo a lhe
dar os caracteres maternos que ele não tem mais recebido (e que, na verdade, talvez nunca
tenha recebido). E ele pode se tornar um personagem mítico, o centro absoluto do
universo, sem ter feito nada para merecê-lo - o que é uma das características da Lua, mais
do que do Sol, em Fogo. Poderíamos passar o seminário todo falando das causas da psicose
maníaco-depressiva e de outros estados de perturbação psíquica, mas, basicamente, usei o
mapa de Julian nesta sessão por ele representar um exemplo exagerado da Lua atuando de
modo inconsciente e compulsivo. Tanto seus ataques como o relacionamento bastante
complexo com sua mãe estão ligados a essa Lua sem aspectos em Áries que, mesmo se
expressada de modo mais moderado, ainda representaria um atrito com seu pai.
Audiência: E o que você recomendaria para Julian? É de se presumir que ele não estava
tendo um ataque quando foi se consultar com você.
Liz: Não, apesar de eu ter ficado preocupada em estar lhe apresentando munição para
o próximo ataque caso falasse demais sobre mitos e arquétipos. Sugeri-lhe que se
submetesse a uma análise muito profunda frequente, digamos, quatro ou cinco sessões por
semana. Os analistas kleinianos trabalham melhor com esse tipo de personalidade
danificada, que precisa de uma boa dose de refreamento a longo prazo. A psicose maníaco-
depressiva não é "incurável", ao contrário do que a psiquiatria convencional acredita, mas é
difícil de se tratar e exige um psicoterapeuta ou analista que consegue aceitar as rupturas
periódicas que se apresentam inevitavelmente sem perder a fé. Julian também pode
precisar de um analista que possa dar vazão à dimensão saudável de sua natureza ígnea
que, nas melhores ocasiões, tende a ser teatral. A alternativa é uma vida inteira à base de
lítio, que pode fazer com que ele modere suas oscilações de humor mas não pode, por si
só, deter o ciclo.
Audiência: Você não mencionou o semi-sextil entre a Lua e Vênus. Será esta a saída do
mapa?
Liz: Não sou grande fã do método de pegar um aspecto, especialmente um menor, e
usá-lo para definir a solução de um problema que envolve tantos fatores psicológicos
complicados. Não acho que o semi-sextil com Vênus seja forte o suficiente para oferecer um
receptáculo para a Lua ariana, não importando o restante do mapa. O semi-sextil é um
aspecto delicado e exige esforço consciente e, apesar desse semi-sextil Lua-Vênus poder
descrever qualidades de suavidade e sensibilidade artística da natureza de Julian, ele ainda
não tem um ego que lhe permita usá-lo da melhor maneira. Sinto-me mais inclinada a
analisar aquilo que poderia lhe ajudar a construir um ego forte, a ponto de poder conter
aquela Lua selvagem, O Sol é provavelmente o fator mais importante nesse sentido, e sua
colocação na casa 9 sugere que quanto mais Julian conseguir compreender o seu
sofrimento em um contexto mais amplo, tanto analítica (por meio do exame de seu
ambiente familiar) como arquetipicamente (por meio da exploração do padrão profundo
que se expressa através de seus sintomas), mais equipado ele estará para lidar com a dor
que o lança em seus surtos maníaco-depressivos.
Além disso, eu daria uma boa olhada em Saturno, que forma conjunção com Quiron
em Peixes na casa 8, sugerindo um considerável medo na esfera da intimidade e da
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abertura emocional para com os demais. Esse medo, creio, está ligado a ambos os
progenitores, mas mais especificamente com o pai de Julian, que é descrito por uma
combinação paradoxal: por Sol-Marte na 9 (o universitário erudito) e por Netuno na 4. Este
Netuno, em conjunção com o Nodo Sul, sugere confusão e sensibilidade ocultas em seu pai,
e Julian, com seus três planetas em Peixes, pode estar dando vazão a isso em nome dele.
Julian ama profundamente seu pai e o idealiza, apesar da raiva que sente em função da
paralisia de sua mãe. Na verdade, pergunto-me até que ponto Julian é portador tanto da ira
de sua mãe (que ela nunca expressou desde o acidente) e da tristeza e fraqueza de seu pai
(que ele jamais expressou).
Assim, apesar de aceitar sua opinião acerca do aspecto com Vênus, que na casa 8
poderia também sugerir um canal sexual bem animado para extravazão do lado mais
selvagem da Lua em Áries, antes gostaria de explorar os sentimentos bastante confusos
que Julian nutre por seus pais. O "caminho de saída" deve, provavelmente, envolver o
mapa como um todo.
Audiência: Ele deve achar que não correspondeu às expectativas de seu pai. Será que
ele não poderia agradar seu pai por meio de alguma realização escolar, eventualmente
numa área que não o Clássico, mas ainda dentro dessa esfera?
Liz: Ele já tentou esse caminho, estudou filosofia e religião comparada na universidade.
Mas ele não conseguiu acompanhar o ritmo da demanda acadêmica. Concordo, ele precisa
de alimento mental - a casa 9 não é a chamada "casa da educação superior" à toa - e isso
pode, de fato, forjar uma ponte até seu pai. Mas também pode apresentá-lo como rival de
seu pai, e o Sol em Áries em conjunção a Marte sugere que seu pai é, inconscientemente,
bastante competitivo e não gostaria de ver o filho desafiando-o em seu próprio território.
Creio que há questões bastante complexas entre Julian e seu pai - e elas precisam vir à luz,
pois associo Áries ao mito de Édipo representado pelo clássico triângulo familiar.
Audiência: A Lua sem aspectos não significa a falta de relacionamento com a mãe?
Liz: Significa um relacionamento profundamente inconsciente e geralmente não há
muita comunicação emocional. A julgar pelo que Julian disse a respeito de sua mãe, ela não
deve ter demonstrado muitas atitudes ou sentimentos maternais, mesmo quando ele era
um bebê. Apesar de podermos justificar seu comportamento atual com o acidente, havia
algo de errado muito antes dele ter ocorrido. Para Julian, o acidente significa que jamais
haverá uma chance de redenção. Ele não tem uma imagem interior da "boa mãe" forte o
suficiente para saber como se nutrir e comportar. Como resultado, o nível arquetípico da
Lua irrompe sem qualquer mediador humano. Até a natureza cíclica da psicose maníaco-
depressíva reflete a Lua cheia, aquela que conclama as mênades à dança, enquanto suas
depressões sinistras são o escuro da Lua quando os cães negros de Hécate estão soltos.
Gostaria de deixar um pouco Julian de lado para analisar a Lua nos outros três
elementos. A Lua no signo de Terra parece ter afinidade com deusas terrestres, tais como
Gaia e Demeter, que regem a natureza e a vida do corpo. Além disso, tal como vimos com a
Lua em Capricórnio, Hera pode ser vista como uma divindade lunar terrestre por causa de
seu domínio sobre as raízes e as estruturas familiares tradicionais. São as necessidades
corporais que têm importância capital para a Lua em Terra, embora sejam muitas as coisas
que podem nos oferecer segurança corporal. Por exemplo, nossa casa é uma espécie de
corpo, de útero, no qual nos sentimos seguros e protegidos. A venda da casa e a mudança
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para um novo bairro pode ser uma experiência aterrorizante e profundamente traumática
para quem tem a Lua em Terra (especialmente se a mudança ocorre na infância), mesmo
que todos os detalhes práticos tenham sido impecavelmente organizados, que não haja
problemas financeiros e que a mudança tenha se dado sem qualquer desastre. Contudo, a
pessoa foi desalojada de seu corpo e o abismo se abre à sua frente.
Se a pessoa não tem consciência dessas necessidades da Lua em Terra, a ansiedade e
a perturbação causadas pelo arrancar-se das raízes pode se prolongar, mesmo se a
verdadeira fonte for renegada ou negligenciada. Há ainda uma faceta profundamente
ritualística da Lua em signos terrestres. Todos nós temos nossos pequenos rituais diários,
sejam eles o cuidado com as plantas no jardim, a leitura matutina do jornal, o "jogging" no
parque ou uma sequencia específica para o banho e a toalete. Esses rituais são
terrivelmente importantes para a Lua em Terra, pois dão ao corpo uma espécie de
centralização, necessária para a sensação de bem-estar. A Lua nos signos de Terra costuma
favorecer rituais ligados alimentação e a exercícios e, mesmo que estes sejam uma moda
passageira e não tragam grandes benefícios à saúde do corpo, é a segurança advinda da
repetição do ritual em si que oferece a sensação de equilíbrio.
Assim, há uma profunda resistência à mudança material na Lua terrena, além da
necessidade de uma ordem ritualística da vida cotidiana no nível físico. Essas colocações da
Lua são por vezes bastante obsessivas, especialmente se a pessoa está estressada, mas
podemos compreender a razão: se a Lua está se expressando inconscientemente, é possível
que atue de maneira compulsiva, e esses rituais oferecem proteção contra a ansiedade. A
Lua em Terra geralmente se preocupa com a segurança material e com a aceitação social,
mesmo se isso for negado em termos conscientes, e, mais uma vez, podemos entender a
causa. Objetos belos ou valiosos, dinheiro e respeitabilidade oferecem uma espécie de
abrigo seguro, uma fortaleza contra os ventos frios do caos. Quando essas necessidades
lunares básicas são negadas devido à sub-avaliação do nível intelectual ou espiritual da
vida, a Lua terrena gera sintomas corporais, bem como um comportamento compulsivo-
obsessivo.
Além disso, a Lua em Terra tem necessidade de se sentir útil. É algo diferente da meta
solar consciente de contribuir com algo de prático para a vida. Quando a Lua está em
Touro, Virgem ou Capricórnio, sente-se a necessidade instintiva de uma ocupação, de se
fazer algo ao invés de se perder tempo. Todas as coisas da natureza estão em constante
movimento, apesar deste ser por vezes um tanto lento, e se você ficar sentado observando
os insetos e minhocas do seu jardim ou a vida selvagem de uma floresta, verá que não há
nunca um instante em que não se perceba alguma atividade produtiva. As formigas estão
ocupadas levando pedaços de comida para o formigueiro, as abelhas estão ocupadas
fuçando as flores, os pulgões estão ocupados alimentando-se de folhas e os pássaros estão
ocupados à cata de minhocas. Mesmo durante a sonolência do inverno, as plantas dão
continuidade às suas próprias vidas secretas. Todo esse movimento tem como finalidade a
perpetuação da vida sobre a Terra e a Lua terrena tem uma sintonia natural com esses
ritmos. Até a Lua em Touro, o mais fixo e sereno dos signos, está em constante movimento,
embora seu ritmo seja lento.
Ademais, a Lua em signos terrenos é altamente sensual, tendo muita necessidade de
afeto físico e de estímulo dos sentidos. Apesar de Virgem e Capricórnio serem conhecidos
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por seu alto grau de controle, são signos extremamente sensuais, embora discriminem a
fonte de seus prazeres. Estou fazendo a distinção entre sensual e sexual, pois a
sensualidade não está necessariamente ligada ao sexo. A Lua em Touro pode se sentir
deliciosamente sensual ao comer sorvete de chocolate, enquanto a Lua em Áries pode
sentir forte estimulo sexual sem ser sensual. Se essa grande necessidade de contato e de
prazer físico for negada em virtude de uma família pouco demonstrativa, inibida, a Lua em
Terra pode reagir com sentimentos de profunda vergonha acerca das necessidades e
funções corporais.
Em alguns ensinamentos da Cabala, a Lua está ligada a Malkuth, o mais baixo nível da
Árvore da Vida. É a substância insensível de que o corpo e toda a realidade material são
feitos. Malkuth é uma espécie de recipiente cego no qual desce a semente do espírito, mas,
de per se, não possuí qualquer consciência. Há pouco eu estava falando do fato da Lua ter
sua própria inteligência, refletida nas imagens das antigas deusas lunares. Creio que essa é
a razão pela qual muitos ensinamentos religiosos ou esotéricos desvalorizam o nível lunar -
por ele não ser espiritual". A inteligência lunar não constitui uma meta em si, como a
consciência solar, pois ela está direcionada para a segurança, o conforto e a sobrevivência
da vida. Se alguma coisa não funciona na natureza, como o dinossauros, a linhagem se
interrompe. Mas se funciona, tal com? a nogueira-do-Japão, o modelo tende a continuar
em estoque, com melhoras mínimas, milênio após milênio. Não há a visão de uma evolução
superior baseada no ideal de perfeição potencial. Do ponto de vista solar a Lua terrena
pode parecer tola, estúpida, maçante e sem imaginação. E Justamente essa a sensação que
muita gente com Lua terrena tem no caso de seus valores conscientes serem comparados
muito rigorosamente com o reino "superior".
Todos nós sofremos quando negamos nossas necessidades lunares, por qualquer
motivo. Na verdade, para a Lua terrena e muito fácil encontrar satisfação e contentamento,
desde que a pessoa não deixe de lado os meios naturais. Geralmente, quando alguém com
a Lua em Terra me procura para análise de mapa, e essas pessoas parecem se afligir com
problemas aparentemente muito complexos, sugiro que comece pelo nível mais básico,
descobrindo o que é que agrada o corpo e da verdadeira satisfação e contentamento.
Contudo, normalmente a resposta costuma ser, "Oh, sim, mas...", pois essas necessidades
são completamente sub-avaliadas. Outras metas, mais significativas, devem ser prioritárias.
contudo se você tem a Lua em Terra e quer que a base de sua vida seja forte, deve aceitar a
realidade do corpo e de todas as coisas materiais que lhe dão alguma sensação de prazer e
segurança.
Quem sabe não poderíamos passar a analisar a Lua nos signos de Ar. Quantos de vocês
têm a Lua em Gêmeos, Libra ou Aquário? Do que precisam para se sentirem seguros e
satisfeitos?
Audiência: Preciso me comunicar com as pessoas. Detesto ficar sozinho, sem ter com
quem conversar.
Audiência: Preciso de beleza à minha volta. Não suporto ambientes feios ou rudes.
Liz: Ambos expressaram necessidades fundamentais para a lua em Ar. Em termos
conscientes, o Sol em Ar pode buscar o desenvolvimento intelectual, mas a Lua em Ar
precisa apenas do contato verbal e de estímulo a nível mental. Não há uma meta específica
de conhecimento; ao invés, a pessoa pode gostar de brincar com as ideias, o que faz com
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que a mente se sinta viva. E por isso que a Lua em Gêmeos é uma fofoqueira incurável. As
pessoas são simplesmente fascinantes, e falar sobre elas é uma diversão interminável. Os
signos de Ar são criaturas sociais, naturalmente gregárias, e até uma personalidade
introvertida com a Lua em Ar busca contato mental com os outros, apesar de fazê-lo de
maneira seletiva.
Não há nada mais doloroso para a Lua aérea do que um ambiente de infância
desprovido de comunicação ou no qual esta seja cheia de duplos sentidos, desonesta. Além
disso, o elemento Ar é dotado de um senso estético natural. Uma infância muito triste e
disciplinada, sem qualquer ocasião frívola, acaba anulando a criança, e um mundo onde a
beleza, a luz e o estilo não encontram terreno fértil esmaga a alma. O idealismo do ar,
combinado com as necessidades instintivas da Lua, produz o anseio por um mundo belo e
inteligível. Normalmente, a Lua nesses signos é excessivamente sensível, reagindo com
grande perturbação à confusão e ambiguidade costumeiras das relações humanas. Apesar
da Lua em Ar precisar do contato com os outros, ela tende a se afastar de dinâmicas
emocionais complexas devido a esse excesso de delicadeza e de sensibilidade estética. O
isolamento provoca ansiedade na Lua aérea, mas isso também ocorre diante de
sentimentos poderosos que ameaçam afogar a Lua em Ar nas sombrias correntes
subterrâneas.
Audiência: Minha Lua está em Aquário e estou sempre procurando maneiras de escapar
dos relacionamentos. Tenho medo de me atolar nas emoções.
Liz: Sim, a necessidade desse espaço para respirar dentro dos relacionamentos é algo
importante para a Lua em qualquer dos signos aéreos. Apesar de Libra adorar o romance,
este deve ser claro, luminoso e livre de contaminação por vapores ambíguos.
Audiência: Eu também tenho a Lua em Aquário e estou sempre falando de minhas
emoções. Falo tanto delas que nem tenho chance de senti-las. Depois que as analiso, não
me preocupo mais com elas.
Liz: Essa é uma linha de defesa contra as emoções bem característica de Ar. Assim
como a Lua terrena se torna compulsiva e obsessiva com seus rituais quando é ameaçada
por alguma alteração material, a Lua aérea se torna analítica, dissociada e evasiva quando
se vê ameaçada pelo excesso de intimidade.
Audiência: A Lua em Aquário também é evasiva? Eu imaginava que os aquarianos
valorizassem a sinceridade.
Liz: Aquário é altamente ético, mas não podemos ser francos com os outros sem
sermos honestos com nós mesmos. Como a Lua em Ar pode dissociar compulsivamente ao
se defrontar com conflitos emocionais ou com a vulnerabilidade, podemos nos enganar
acerca do que sentimos de fato. Neste sentido, a Lua em Aquário é tão evasiva quanto a
Lua em Gêmeos. Não é uma atitude deliberadamente desonesta, apenas uma defesa
instintiva contra a ameaça da dor emocional. O Ar precisa de clareza, e nada é tão nebuloso
e ambíguo quanto os sentimentos humanos. Apesar dos signos aéreos precisarem da
comunicação, esta pode ser muito perigosa se envolver um confronto emocional. E tão
mais fácil mudar de assunto ou reduzir assuntos complicados a meras fórmulas branco-e-
preto. As pessoas com a Lua aérea precisam criar um espaço particular dentro de seus
relacionamentos, no qual possam respirar e se nutrir com essas coisas que dão beleza, luz e
graça à vida. Isso feito, os inevitáveis confrontos emocionais não serão mais tão
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insuportáveis.
Audiência: Pode soar meio engraçado, mas percebi que a maioria dos sentimens com a
Lua em Libra não gosta de beijar.
Liz: É, de fato é engraçado. Não posso afirmar o mesmo, mas não se preocupe. Acho
melhor evitar continuarmos nessa linha!
A Lua nos signos de Ar se afasta da fusão. Há a necessidade de preservar manter
intactos os ideais, sem que estes se contaminem demais com a qualidade de uma outra
pessoa. A mente é tão boa na definição de limites quanto as emoções na sua dissolução. As
divindades mitológicas que governam o reino do Ar são criaturas extremamente
independentes. Por exemplo, Afrodite (Vênus), que rege o signo de Libra, recusa-se a ser
possuída. Ela favorece a hetaíra e os amantes, e mostra um acentuado desinteresse pela
santidade dos vínculos matrimoniais. Hermes (Mercúrio), que rege Gêmeos, é o deus dos
caminhos e do viajante, favorece o ladrão e mentiroso. Ele percorre os caminhos entre o
céu e a terra e entre o submundo e a superfície; é um mensageiro sem moradia fixa. E
Ouranos (Urano), o regente de Aquário, foi o primeiro deus do céu, antes mesmo de existir
o universo manifestado. Ele abrange a ideia antes da realidade concreta, e quando a
realidade lhe é apresentada na forma de seus filhos, os Titãs, ele é repelido e os evita.
Todas essas divindades planetárias refletem um desdém por tudo que tenha forma muito
rígida ou se relacione com a emoção. Assim, a Lua em um signo aéreo tende a encontrar
segurança nas esferas cristalinas onde a ideia da vida não é maculada pelas imperfeições da
realidade.
Se essas necessidades lunares forem bloqueadas, a Lua pode gerar sintomas corporais
tão rapidamente quanto os demais signos lunares. Mas percebi que uma das formas mais
típicas de sofrimento da Lua em Ar é a depressão. Essa depressão pode ser inconsciente,
uma vez que os signos de Ar têm propensão para a dissociação, mas se não houver ar para
respirar, a pessoa pode entrar numa espécie de apatia, de desespero, sob a máscara de
uma frágil sociabilidade. Às vezes, a característica de desapego da Lua em Ar pode não ter
sido bem-vista na infância e a pessoa vai escutando, durante a vida toda, que é fria e
desprovida de sentimentos. A Lua em Ar não é fria; contudo, por não estar sempre
demonstrando o que sente e por necessitar periodicamente de certo afastamento
emocional, a mistura resultante pode ser desagradável para um progenitor
emocionalmente exigente. Mais uma vez, eu enfatizaria que a necessidade de comunicação
não é a mesma coisa que a necessidade de fusão. Se a natureza essencial da Lua for
rejeitada na infância, então a pessoa pode crescer se sentindo profundamente culpada e
indigna de amor, uma vez que é "fria".
Agora, podemos finalmente analisar a Lua nos signos de Água antes de terminarmos a
palestra desta tarde. Quantos de vocês têm a Lua em Água? Quais são, em sua opinião,
suas necessidades essenciais?
Audiência: Mais do que qualquer outra coisa, preciso da proximidade emocional.
Audiência: Minha família é muito necessária para mim. Tenho medo do dia em que
meus filhos, já adultos, queiram sair de casa.
Audiência: Preciso ter a chance de expressar meus sentimentos. Detesto quando me
tratam como se eu fosse histérica.
Liz: Às vezes, podemos ter essa reação de um parceiro com a Lua em Ar. Mas todos
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esses comentários são bastante válidos. A Lua aquática precisa, acima de tudo, receber
reações emocionais dos outros. É a coisa mais importante do mundo, mesmo se essa
reação for o ódio ou a raiva. Isso é melhor do que sentimentos que, pura e simplesmente,
escoam pelo ralo. Para a Lua em Água, a troca de emoções é um meio de aproximar as
pessoas. Não estamos mais solitários e isolados, pois os sentimentos são o solvente que faz
com que as barreiras entre nós e a vida sejam rompidas. Nada ativa a ansiedade de uma
Lua aquática mais depressa do que a falta de reação do outro, pois isso equivale a cair no
vazio. A pessoa deixa de existir. A Lua em Água só se sente segura se a pessoa estiver
incorporada aos demais. Seu comentário referente à histeria é tristemente adequado, pois
se você não valoriza essa sua faceta, pode ser facilmente provocada a se comportar de
maneira altamente emocional por quem quer que rejeite seus sentimentos.
Audiência: Tenho a Lua em signo aquático e estou casada há vinte anos com um homem
que tem a Lua em Gêmeos. Estou sempre tentando me aproximar dele e ele está sempre
escapulindo.
Liz: Há muito da clássica atração entre opostos nisso. Cada um de vocês tem um dom
instintivo que o outro tem dificuldade de expressar. Mas eu acredito que o problema mais
importante para uma pessoa com Lua em Água é não encontrar o parceiro perfeito, aquele
que reage a cada flutuação emocional. As pessoas devem ser capazes de levar suas moções
a sério, sabendo que elas têm valor. Mesmo se o parceiro é frio distante, o que pode às
vezes ser bastante doloroso, no final das contas é a capacidade de auto-estima do indivíduo
que nutre a Lua. Nutrir a Lua aquática significa conhecer o valor e a veracidade do coração,
mesmo se outros não espelham isso. Como disse Goethe certa vez: "Se a amo, isso não é de
sua conta". Pode ser que você esteja se esforçando demais para obter respostas a seus
sentimentos porque você mesmo não os valoriza o suficiente. Pode ser que você queira que
seu marido aprove suas necessidade, mas é você que deve fazê-lo em seu íntimo. Depois,
pode ser que você não se importe muito caso ele banque Hermes e desapareça
emocionalmente.
O dilema da Lua aquática é complexo, pois se precisamos da reação do outro, como
podemos nos nutrir? Quando a Lua em Água está bloqueada, ela produz um comportamento
altamente manipulador a fim de conseguir os cuidados e atenções de que necessita.
Infelizmente, essa atitude costuma "sair pela culatra", e a pessoa acaba criando a própria
situação que mais temia. Pode ser que a pessoa tenha tido um progenitor frio, que a
rejeitasse na infância, e a criança o internalizou;na vida adulta, isso pode produzir um
grande ressentimento ao menor sinal de distanciamento do ser amado, pois reabre a antiga
ferida. Da mesma forma, pode ser que um progenitor tenha sido mais carente do que o
filho, transmitindo-lhe a seguinte mensagem: "Só há lugar para um bebê nesta casa, e não é
você". Assim, a pessoa cresce com vergonha, receando exigir demais, mas continua cheia
de raiva por estar sendo privada daquilo que deseja. Toda essa dependência emocional
parece grudenta, pegajosa e ninguém irá nos amar caso revelemos sua dimensão. Mas é
um círculo vicioso, pois quanto mais a Lua aquática se magoa ante a rejeição ou o
menosprezo, mais manipuladora fica, e mais os outros se afastam por causa das demandas
emocionais ocultas.
Creio que a chave para esse dilema está em nossa capacidade de desfrutar e apreciar a
riqueza e a importância de nossos próprios sentimentos. O anseio pela intimidade,
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expressado tão fortemente pela Lua em Água, afasta os outros caso esteja repleto de
ressentimentos dissimulados, e pode continuar assim caso esperemos inconscientemente
que os demais nos forneçam a aceitação, o amor e o perdão constantes e incondicionais
que não conseguimos dar a nós mesmos. Se pudermos aquilatar nossos próprios
sentimentos, talvez sejamos capazes de transmiti-los sem a cobrança velada para que os
outros curem as feridas que nossos pais nos causaram. Isso tende a atrair as pessoas, e não
a afastá-las. Vale a pena a pessoa com a Lua em água se perguntar: posso valorizar o que
sinto sem o carimbo da aprovação exterior? A Lua é um planeta aquático e nos signos
aquáticos exibe o nível mais arquetípico de sua natureza - a deusa-mãe primeva, a fonte da
vida. Ela contém todas as coisas em seu próprio ventre, e não precisa que alguém ou algo
de fora valorize aquilo que há dentro dela.
Audiência: Não tenho a Lua em Água, mas tenho uma pergunta. Sinto que dou valor às
minhas necessidades e gosto do signo da minha Lua. Mas tenho dificuldade para encontrar
outras pessoas que gostem delas.
Liz: Você nunca será capaz de agradar a todos o tempo todo. Às vezes, a aceitação
desse fato básico da vida pode fazer uma grande diferença, permitindo à pessoa relaxar.
Mas se você não consegue encontrar uma única pessoa que valorize esse lado de sua
natureza, pode ser válido analisar o tipo, de pessoa que você atrai, procurando um padrão
de rejeição. É possível que exista um complexo ligado à família atuando em você, e, se for
esse o caso, então você pode ter internalizado um progenitor, que o rejeitou; por isso, você
acaba se julgando mais do que admitiria. Alem disso, você pode expressar sua autocrítica
inconsciente através de projeções, fazendo com que os outros o façam por você. Isso é
muito comum e muito humano, e a maioria de nós o faz de vez em quando. Geralmente, e
isso que ocorre quando alguém diz: "Mas eu gosto desse meu lado; os outros é que não
gostam". Quem, afinal, são esses "os outros"?

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PRIMEIRO AMOR
A LUA COMO SIGNIFICADOR DE RELACIONAMENTO
por HOWARD SASPORTAS

A mãe se torna, para seu jovem bebê, uma figura de orientação; ela é a base e o lar que seu bebê tem no
mundo. Ela é o primeiro parceiro íntimo- que um dia será substituído pela figura de orientação... que é o amante, o
cônjuge. Mas é nesse primeiro relacionamento amoroso da existência que o humano imaturo terá desenvolvido o
esboço de um padrão ou matriz de relacionamento afetivo... A pessoa apaixonada não está apenas "em ressonância
com algo que lhe lembra do ser amado original, está, mais uma vez, sentindo algo daquele relacionamento.
Maggie Scarf*
*Maggie Scarf lntimaie Partners: Patterns in Love and Marriage [parceiros Íntimos: Padrões no
Amor e no Casamento] (Londres: Century, 1987; e Nova York: Random House, 1987), p. 78.
Quero iniciar chamando sua atenção para os parâmetros de interpretação da Lua, que
podem ser vistos na Tabela 1, da página seguinte. Só terei algumas horas para discutira Lua
com você, e como o tempo é curto, ser-me-á impossível lidar com todas as permutações
possíveis da Lua em casas, signos e aspectos em um mapa natal. Minha intenção com esses
parâmetros é a de ajudá-lo a desvendar o significado das colocações específicas - no
mínimo, isso deve agitar seu raciocínio e lhe dar ideias acerca da interpretação da posição
da Lua em qualquer mapa.
Liz já explorou muitas das diferentes implicações arquetípicas, psicológicas e
astrológicas da Lua, mas nesta noite eu quero examinar a Lua de um modo bem específico -
quero analisar seu papel como significador de relacionamento. Normalmente, quando
avaliamos o mapa de alguém para tentar compreender o que um relacionamento íntimo
significaria para essa pessoa, a maioria de nós procuraria - natural e imediatamente-e-
Vênus ou a casa 7 como fonte de informação e "insight" para essa área da vida. Essa é a
nossa tendência natural. Vênus é o planeta do amor, e assim nós avaliaríamos a colocação
de Vênus. A casa 7 é a esfera da vida ligada aos relacionamentos, e por isso veríamos o que
está acontecendo lá - os planetas nessa casa, o signo na cúspide, seu regente, assim por
diante. E, sem dúvida, isso tudo iria ajudá-lo a compreender aquilo que a pessoa vivência
em seus relacionamentos, os problemas, conflitos ou experiências que viriam à tona
através das parcerias. Contudo, após anos de trabalho como astrólogo, descobri que a
posição da Lua pode dizer, tanto quanto Vênus, o que o amor provoca em você – e isso se
aplica tanto aos homens quanto as mulheres. Assim, em minha opinião, a mera avaliação
de Vênus ou da casa 7 não basta para se obter um retrato completo do amor e dos
relacionamentos íntimos. Lembro-me de quando percebi isso. Eu estava analisando o mapa
de uma mulher, sua Vênus estava bem aspectada e não havia problemas com a casa 7; no
entanto, ela tinha problemas terríveis (repito, terríveis) em sua vida afetiva - ansiedades
horríveis, medos, bem como propensão a atrair a violência. Sua Vênus era linda - você
pagaria uma nota por ela caso a leiloassem na Sotheby's - e sua casa 7 não era
particularmente problemática. Sua Lua, contudo, era um caos, com aspectos terríveis: uma
quadratura com Plutão e um quincúncio em orbe estreito com Saturno e com Netuno. Sua
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Lua infeliz parecia sobrepujar suas benignas Vênus e casa 7, trazendo-lhe problemas sérios
na área dos relacionamentos e da intimidade.

Tabela 1. Parâmetros para Interpretação da Lua


Lua nos Signos
1) O signo de sua Lua lhe diz algo a respeito do modo como você experimenta ou vê a mãe,
e de como você é como progenitor ou mãe; como você provê ou gosta de ser provido. Ele
descreve a imagem da "anima" ou a imagem do feminino.
2) O signo de sua Lua descreve sua natureza emocional, o modo como você responde
instintivamente ou reage a eventos e ao ambiente. Caso a Lua não esteja excessivamente
inibida por outros aspectos (ou por um pesado condicionamento cultural em sentido
contrário), reagiremos naturalmente à vida conforme o seu signo.
3) O signo da Lua costuma mostrar a maneira de ser que nos dá conforto e segurança. Ele
mostra ainda o modo como você se afasta de tudo quando precisa descansar ou fazer uma
pausa; descreve o seu santuário. Também pode dizer alguma coisa sobre sua vida
doméstica.
Lua nas Casas
1) A casa mostra o ponto onde somos sensíveis e reativos às necessidades dos outros, mas
também onde nos deixamos influenciar pelos outros. Onde espelhamos ou refletimos os
outros - onde temos a tendência a nos misturar com aquilo que nos cerca.
2) A casa mostra onde somos facilmente moldados pelo hábito e por condicionamentos
passados. A forma como experimentamos a mãe estará, de certo modo, ligada à casa da
Lua. Além disso, é por meio dela que podemos estar limitados pelos conceitos,
expectativas, valores e padrões de nossa família ou cultura. Onde agimos de maneira
regressiva ou somos atraídos para o passado, onde podemos ser infantis ou a que nos
apegamos.
3) Temos anseios pela área da vida associada à casa da Lua porque ela faz com que nos
sintamos seguros, confortáveis ou nos dá uma sensação de participação. A casa da Lua é a
área para a qual nos retraímos quando precisamos de um descanso ou refúgio.
4) É na esfera da vida associada à casa da Lua que podemos experimentar altos e baixos,
mudanças de humor e flutuações de comportamento.
A Lua e os Aspectos
1) Os aspectos com a Lua colorem a imagem da "anima" e daquilo que experimentamos
por intermédio da mãe ou da pessoa que cuidou de nós. Por exemplo, será que nos
encontramos com Júpiter ou Saturno por meio da Lua (através das mulheres ou da mãe)?
Somos senhores de nossa imagem de "anima" ou a projetamos?
2) Os planetas em aspecto com a Lua costumam descrever o condicionamento da infância,
definindo um pouco melhor nossa natureza emocional, Somos abertos ou fechados?
Defensivos? Reagimos depressa ou devagar? A natureza do planeta em aspecto com a Lua
descreve nossas reações instintivas à vida, bem como aquilo que temos tendência a
encontrar na esfera emocional. Os aspectos da Lua também colorem o modo como
cuidamos dos outros e os nutrimos, ou como queremos ser cuidados.
3) Os aspectos com a Lua descrevem algo a respeito de nossa vida doméstica.
4) Os planetas que formam aspecto com a Lua podem se manifestar por meio do corpo e
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do modo como nos movemos. De modo específico, os aspectos com a Lua descrevem o
modo como a mulher se relaciona com seu próprio corpo.

Assim, quero explorar a Lua com você sob essa óptica, examinar como ela indica aquilo
que acontece quando nos aproximamos de alguém, como ela afeta diretamente questões
relacionadas à fusão e à intimidade em nossas vidas. A razão para a Lua ser um dos
melhores significadores do relacionamento não é difícil de se entender. A Lua é um símbolo
da mãe, e ao avaliarmos sua colocação em um mapa obtemos uma boa indicação do
relacionamento que a pessoa teve na infância com sua mãe. Já discuti isto a fundo no
capítulo "As etapas da infância" em O Desenvolvimento da Personalidade*·Por exemplo, se a sua
Lua natal forma aspecto com Saturno, então você teria encontrado Saturno de algum modo
por meio de sua mãe; se você tem um aspecto Lua-Júpiter, ter-se-ia encontrado com Júpiter
através de sua mãe, e assim por diante. Não vou entrar agora em detalhes sobre
interpretação. Contudo, o que quero enfatizar é que a mãe não é apenas a mãe. Além de ser
a mãe - a pessoa que deve amar, prover e cuidar de você -, a mãe também é o primeiro
relacionamento importante de sua vida. Ela não é apenas sua mãe, ela é o primeiro grande
amor de sua vida. Sua mãe é seu primeiro "grande romance" - e isso vale para homens e
mulheres. Todos se apaixonam desesperada e loucamente por suas mães. Seria difícil
acreditar nisso ao olhar hoje para sua mãe ou ao levar em conta tudo o que aconteceu
antes, mas é verdade. Com o tempo de que dispomos, desejo analisar a colocação da Lua
em termos daquilo que foi esse primeiro romance - de como você vivenciou a primeira
grande paixão de sua vida. E não estou fazendo isso apenas para revirar o passado; faço-o
porque aquilo que aconteceu nessa ocasião exerce uma influência inegável sobre nossos
relacionamentos íntimos posteriores.
*Líz Greene e Howard Sasportas, O Desenvolvimento da Personalidade, Volume 1 da série
Seminários sobre Astrologia Psicológica.(São Paulo: Pensamento, 1990), pp. 15-86.
Tenho certeza de que você já está familiarizado com minha opinião a respeito desse
tema e, como sabe, acredito que o passado costuma nos assombrar. Não nos recordamos
conscientemente daquilo que aconteceu entre nós e mamãe por volta do primeiro ano de
nossas vidas, mas tampouco nos esquecemos. É por isso que o mapa é tão útil. É como um
raio-X. Se você sabe ler bem um mapa, pode aprender muita coisa acerca do que aconteceu
no início da infância. Você pode tecer conjecturas razoavelmente seguras sobre aquilo que
se passou entre você e sua mãe ao avaliar a colocação natal da Lua e também ao examinar
as primeiras progressões e trânsitos envolvendo a Lua. Dito de outra forma, o mapa mostra
a "criança interior do passado" que há em todos nós. Nosso passado, especialmente nossa
infância, com todas as suas esperanças, medos e expectativas, com todas as suas alegrias e
terrores, está armazenado e registrado na memória e exibido no mapa. Sua "criança
interior do passado" ainda está dentro de você. Por mais maduro que você tenha se
tornado, por mais sofisticado e estudioso que você seja, ainda leva a criança interior dentro
de si. Cheguei a ver as pessoas mais educadas e maduras se "espatifando", agindo
amedrontadas e como crianças zangadas quando a namorada ou o namorado não
telefonou conforme tinha combinado. Os relacionamentos atuais trazem à tona emoções
fundas, originárias de vínculos do início da infância. A mãe é nosso primeiro relacionamento
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importante, é o primeiro amor de nossa vida, e aquilo que acontece nesse relacionamento
se torna o protótipo dos futuros relacionamentos íntimos. Aquilo que acontece entre você
e sua mãe estabelece um padrão, um molde ou pacote de expectativas interiores que dão
forma a aquilo que encontramos e experimentamos em nossas uniões íntimas posteriores,
influenciando-as. Em seu livro lntimate Partners, Maggie Scarf comenta o vínculo entre a mãe
e a eventual escolha um parceiro:
É a partir desse estado psicológico primitivo - de total simbiose emocional com um “outro" que reage,
compreende-nos intuitivamente e satisfaz nossas necessidades - que despertamos lentamente para o mundo
humano. E é no contexto desse despertar que começamos a formar presunções acerca da experiência do amor e
da intimidade. Mesmo quando chegamos a conhecer e Identificar aqueles que cuidam de nós - especialmente a
mãe -, desenvolvemos sentimentos de apego tão intensos que não seria exagero classificá-los como "a primeira
grande paixão da vida humana." ... Aquilo que julgamos ser o "correto’ no que diz respeito à escolha de um
parceiro é, até certo ponto, aquilo que foi e é familiar; é o que “funciona" nessa matriz interior, nesse padrão de
presunções acerca da natureza de um relacionamento íntimo.*
*Magie Scarf, Intimate Partners, pp. 73, 79.
Para enfatizar a importância do vínculo entre mães e filhos, gostaria lembrar
rapidamente um estudo feito na década de 1940 pelo Dr. Renee Spitz. Detentas grávidas
tinham de doar seus bebês após o parto. Esses bebês foram acomodados em um hospital
onde havia uma enfermeira para cada oito bebês. As enfermeiras mudavam; havia
enfermeiras diurnas e enfermeiras noturnas, de modo que os bebes não conseguiam
formar um vínculo do tipo um-para-um com as enfermeiras, tampouco suas mães naturais.
Imagine como deve ter sido confuso para os bebês - oito deles precisando de atenção, só
uma pessoa para cuidar deles de cada vez e nem sempre a mesma. As conclusões desse
estudo são bastante claras. Quando esses bebês completaram um ano de idade, mostraram
fortes sinais de retardamento físico e psicológico em comparação com bebês criados em
um relacionamento um-para-um, seja com a mãe natural, seja com uma substituta. Os
bebês do estudo de Spitz choravam muito mais do que outros bebês. Sorriam menos.
Poderíamos dizer que estavam deprimidos. Começaram a falar mais tarde, eram mais
apáticos e menos reativos do que bebês criados normalmente. Pegavam infecções com
mais facilidade; na verdade, tinham um índice de mortalidade maior do que os bebês que
recebiam cuidados exclusivamente de suas mães. O estudo demonstra, com clareza
assustadora, que um parceiro amoroso no início da vida é uma pré-condição para um
desenvolvimento saudável.* Podemos até morrer. Assim, se não tivemos um bom
relacionamento afetivo no princípio ou se tivemos uma série de problemas no contato com
nossa mãe - o primeiro amor de nossa vida - sofremos aquilo que Judith Viorst chamou, em
seu livro Necessary Losses, de "cicatrizes emocionais no cérebro", ferimentos emocionais
profundos** É o vínculo que existe entre mãe e filho que nos dá as primeiras lições sobre o
amor e que nos diz, pela primeira vez, se somos amáveis ou não.
*Maggie Scarf, Intimate Partners, p. 74.
**Judith Viorst, Necessary Losses. [Perdas Necessárias] (Nova York: Fawcett, 1986), p. 19.
Mais tarde, vou discutir um estudo sobre filhos privados de seus pais na infância e o
tipo de problemas que isso pode gerar. Agora, porém, vamos falar do significado
psicológico do seu relacionamento com sua mãe. Falando de modo geral, se sua Lua recebe
aspectos difíceis, é possível que o caso amoroso com sua mãe não tenha sido bom. Se for
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esse o caso, você provavelmente deixou de desenvolver uma confiança básica na vida ou
em você mesmo, o que pode levar ao medo e à paranóia nos relacionamentos, ansiedades
e profundas incertezas em seus relacionamentos íntimos. Creio que todos temos o direito
de sermos amados, o direito a uma mãe amorosa. Caso não os tenhamos tido, podemos
nos ferir psicologicamente, criando não só a desconfiança acerca da vida e uma auto-
imagem frágil como também raiva, uma vez que não recebemos algo que é um direito de
nascença. Por outro lado, se o vínculo com a mãe foi bem forjado (o que costuma ser
indicado por uma Lua com bons aspectos), então nos sentimos seguros e bem cuidados,
nossas necessidades básicas são atendidas e sentimo-nos compreendidos. Obviamente, isso
será uma bênção sempre que, mais tarde, nos aproximarmos de alguém. É como se já
tivéssemos uma imagem mental que mostra que a proximidade é algo OK e que o amor
trabalha a nosso favor.
Felizmente, nem tudo está perdido se nosso vínculo com a mãe não foi muito bom.
Podemos tratar da maioria desses problemas, e parte deste processo diz respeito a
conhecermos a "criança interior do passado", que ainda está viva em nós. É importante nos
relacionarmos com a criança que há em nós, fazer amizade com ela, identificar suas
necessidades e estados de humor. Desta forma, podemos começar a curar ou a fazer as
pazes com o ferimento que pode ter sido deixado em nós. Muitos ainda precisam lamentar
a perda daquele estado beatífico de união que um dia partilhamos com a mãe. Muitos
ainda precisam chorar pela mãe ideal que não tiveram; se não chorarmos e nos
desapegarmos do passado, seremos compelidos, mais tarde, a continuar procurando
aquela mãe ideal perdida nos parceiros e companheiros - uma busca fadada ao fracasso,
pois por mais que alguém nos ame e nos adore, jamais poderá satisfazer essas expectativas
impossíveis. Logo mais, vamos examinar tudo isso em termos dos aspectos astrológicos
formados pela Lua. Antes de fazê-lo, porém, gostaria de passar um rápido exercício que
pode ajudá-lo a se religar à criança que há dentro de você.
Para começar, feche os olhos.
(Se em algum momento este exercício ficar difícil, abra os olhos e escreva sobre o que
estiver sentindo.)
Relaxe, respire fundo algumas vezes para ir se livrando das tensões e depois deixe sua
mente e seu coração recordarem os sentimentos que você tem a respeito de sua mãe.
Quando você pensa nela, sente-se cálido e seguro, ou ansioso e desconfortável?
Agora, faça com que uma lembrança real venha à mente, algum evento ou situação
que aconteceu entre você e sua mãe.
Deixe que venha à tona espontaneamente.
Passe um minuto lembrando-se disso.
Agora, deixe de lado essa lembrança e traga à mente outro evento ou situação que
envolveu você e sua mãe.
Passe mais um minuto lembrando-se disso.
Veja se você consegue formar uma imagem, símbolo ou sentimento global que resume
ou descreve seus sentimentos a respeito de sua mãe.
Tendo apresentado esse exercício a diversos grupos, tem sido interessante observar a
gama de emoções que as pessoas sentem e com as quais se identificam. Algumas sentem
terror e pânico ao se lembrarem da mãe; outras se sentem seguras e protegidas. A posição
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da Lua - signo e aspecto - e a casa que associamos à mãe refletem, de algum modo, o tipo
de sentimento que temos por ela.
Eu sempre tento falar sobre o útero em minhas palestras. A maioria de vocês sabe o
que penso acerca da experiência do útero e do modo como ele pode nos afetar mais tarde
na vida, de modo que hoje não vou entrar em detalhes, apenas apresentar uma ilustração
(veja a Figura 2). No útero, e durante os primeiros seis meses após o nascimento, nossa
identidade está totalmente fundida com a mãe. Na figura 2, Mamãe é o ovo maior, e sua
identidade é um ovinho dentro desse ovo maior. Você pode observar que o seu ser está
totalmente imerso nela. Quando você completa seis meses de idade, sua tarefa de
desenvolvimento consiste em fazer com que o ovinho (que é você) se separe do ovão (que
é sua mãe); então, você tem um ovinho e um ovão que podem se relacionar, uma vez que o
ovinho não está mais imerso no ovão.

Figura 2. A necessidade de diferenciar seu" Eu" ou ego do de sua mãe.

Permitam-me explicar melhor esse ponto. Durante os primeiros meses após o


nascimento, você não tem um relacionamento com sua mãe pessoal ou específica, mas está
fundido com a Grande Mãe, alguém que é o mundo todo para você. Contudo, após seis
meses, você lentamente começa a diferenciar ou distinguir um "Eu" que não é sua mãe.
Isto está representado pelo ovinho, agora separado do ovão. Quando sua identidade não
está mais mergulhada na Grande Mãe, você passa a ter uma mãe específica, pessoal ou
"circunstancial" com quem se relacionar. Você está começando a se identificar como uma
pessoa separada, e por isso é forçado a aceitar a separação entre sua mãe e você. Assim,
por volta dos seis meses, formamos aquilo que chamam de uma ligação materna específica. É
só aí que podemos mesmo começar a manter um relacionamento um-para-um com ela - se
você é a mesma coisa que tudo o que o cerca, não pode se relacionar, pois não há
dualidade. Quando você separa o seu "Eu" do "Eu" de sua mãe, você se defronta com um
problema: como que esses dois "Eus'' (o seu e o de sua mãe) vão se relacionar. O que você
acha que acontece quando você percebe que sua mãe não é você, quando você começa a
percebê-la como uma pessoa separada e diferente de você? Se você está lidando com
alguém que não e você, uma das primeiras coisas que pode sentir é terror, medo ou pavor.
Se existe o outro, existe o medo. Se mamãe não sou eu, o que acontece se ela não gostar
de mim, não entender minhas necessidades, se decidir partir e me abandonar? A questão

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vital de nossos primeiros anos de vida é a sobrevivência. Nascemos inacabados, somos
banidos do útero sem certos detalhes essenciais, como nossa própria casa, carro e cartões
de crédito. Para sobreviver, é preciso que a mãe esteja ao nosso lado.
De acordo com muitas escolas de pensamento psicológico, na primeira vez em que
diferenciamos nossa identidade da de nossa mãe, tentamos suavizar o medo e o terror que
nos assomam fazendo com que ela se apaixone por nós, adulando-a, conquistando seu
amor e, com isso, sua lealdade e atenção especial. Se ela nos ama, deve querer nos manter
vivos a salvo. É a isso que me refiro quando falo do romance com sua mãe; você tenta
impressioná-la, tenta conquistá-la tal e qual faria quando estivesse saindo com alguém de
quem gostasse muito, com quem pudesse ter um bom futuro. Lembre-se, tudo isso
acontece uns seis meses após nascimento. Em termos do trânsito solar pelo mapa natal, o
que acontece com todo mundo aos seis meses de idade? Sim, temos a primeira oposição
entre o Sol em trânsito e o Sol natal. Creio que esse é um símbolo apropriado para o fato
de, pela primeira vez, dois eus diferentes estarem e encontrando. Se considerarmos o Sol
como um símbolo do ego em desenvolvimento, o fato dele formar uma oposição (um
aspecto que há muito associamos ao relacionamento) indica que seu ego emergente está
ficando cara a cara com o ego ou "self' de outra pessoa. Naturalmente, o processo de
diferenciação entre nossa identidade e a de nossa mãe não ocorre da noite para o dia; é um
processo gradual e costuma levar uns três anos até se completar. E ajuda imensamente se
houver um pai por perto, um outro personagem importante para nos afastar da mãe. Vou
tratar desse tema com mais profundidade quando analisarmos as maneiras pelas quais o
pai pode ajudar a romper a simbiose mãe-filho, tornando-se um forasteiro atraente e que
nos afasta de um vínculo excessivamente intenso com a mãe.
Tenho enfatizado o fato desse estágio de diferenciação alterar-se aos seis meses de vida.
Podemos entender melhor esse fato analisando um mapa. Para começo de conversa,
gostaria de examinar os aspectos recebidos pela Lua natal para obter uma visão geral do
modo como ocorreu o seu caso amoroso com sua mãe. Mas também gostaria de analisar os
trânsitos e progressões envolvendo a Lua entre os seis meses e os três anos de idade. A Lua
progredida move-se ao ritmo aproximado de um grau por mês. Dê uma olhada no que
aconteceu com ela quando você tinha seis meses. Vamos dizer que sua Lua progredida
entrou nessa época em oposição exata com Plutão, justamente quando você estava
começando a ver sua mãe como alguém diferente de você. Se é este o seu caso, então você
terá conhecido Plutão justamente quando estava entrando na arena dos relacionamentos;
assim, em sua mente, eles estarão associados a questões ou temas relacionados a Plutão.
Se, aos seis meses, sua Lua progredida formou uma conjunção ou sextil com Vênus, este
planeta terá impacto naquilo que você poderá esperar de seus futuros relacionamentos.
Eu também estudaria os trânsitos sobre a Lua. No período entre o nascimento e os
primeiros seis meses de vida, os trânsitos que Saturno e os planetas exteriores projetam
sobre a Lua serão idênticos aos aspectos natais. Contudo, se levarmos em conta o fato de
que a diferenciação pode levar até três anos para se completar, então também deveríamos
examinar os trânsitos importantes recebidos pela Lua até os três anos de idade à luz de
nossas expectativas futuras quanto a relacionamentos. Você pode ter nascido com Saturno
posicionado a 1 grau de Leão e a Lua a 29 graus de Leão. Não é uma conjunção, mas
quando você estiver com uns dois anos e meio, Saturno vai passar sobre a sua Lua. Você
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ainda vai estar muito impressionável, e por isso Saturno influenciará seus sentimentos
acerca do que significa estar próximo de alguém num relacionamento supostamente
baseado no "cuidar".
Vamos analisar mais de perto alguns aspectos natais com a Lua para ver o que eles
podem significar em termos do vínculo com a mãe e com relacionamentos futuros. Não
teríamos tempo para cobrir todos os aspectos possíveis com a Lua em profundidade.
Também desejo estudar a Lua de outra maneira - não apenas como um significador de
relacionamentos um-para-um, mas também como a medida da maneira como você se
relaciona com a sociedade em geral e de como se comporta em situações sociais.
Vamos começar com os aspectos Lua-Mercuno, examinando-os em termos do seu
caso amoroso com sua mãe, de como se desenvolveu o seu primeiro grande romance. Vou
me concentrar nos aspectos difíceis e no quincúncio, pois são os mais traiçoeiros e os mais
interessantes. Não quero ser o único a trabalhar, por isso conto com seus comentários e
ideias. Se você nasceu com a Lua formando um aspecto difícil com Mercúrio, que tipo de
problemas pode ter encontrado com sua mãe?
Audiência: Problemas de comunicação.
Howard: Sim, problemas de compreensão mútua, problemas de comunicação entre os
dois. A razão para isso é bem óbvia. A Lua está associada às suas necessidades de
segurança, à necessidade de ser alimentado, segurado e reconfortado. Mercúrio está
associado à transferência de informações. Portanto, quando você tem a Lua, o significador
da mãe, às voltas com Mercúrio, é possível que vocês tenham tido dificuldade de
compreensão mútua. Dito de modo mais simples, pode ser que ela não o tenha lido
corretamente - houve linha cruzada. Isso pode acontecer caso sua mãe tenha um
temperamento muito diferente do seu; por exemplo, sua mãe tem muito Fogo e você é
mais terreno ou aquático. Você pode estar tentando lhe dizer que precisa ser segurado ou
alimentado de uma maneira específica, mas ela não capta a mensagem, ela não percebe o
que você deseja ou pede. Para um bebê, isso pode fazer com que se sinta estúpido ou que
lhe falta alguma coisa. Essa Ideia passa a fazer parte de sua mitologia pessoal, é uma
impressão que você forma no início acerca da vida e de você mesmo e que pode assombra-
lo mais tarde. Em outras palavras, os problemas entre Lua e Mercúrio podem se manifestar
como uma insegurança a respeito de sua inteligência ou de sua capacidade de se comunicar
e de se fazer compreender. Mas não devemos examinar o passado e o início da infância só
para lamentar o que aconteceu. Queremos entrar no passado e no inconsciente para
compreender melhor o presente, para ver a conexão entre os problemas de
relacionamento mais recentes e aquilo que aconteceu entre você e sua mãe na infância.
Assim, se você teve dificuldade para se comunicar com sua mãe, quais seriam as possíveis
consequências em seus relacionamentos posteriores? Que assuntos o deixarão sensível ou
melindroso? Costumo ouvir, de pessoas com esses aspectos, queixas como "Meu cônjuge
não me compreende. Não conseguimos expressar nossas necessidades ou emoções um
para o outro". Como vimos, esse é o mesmo problema que ocorreu entre a pessoa e sua
mãe quando ela ainda não tinha saído da infância.
Agora, vamos analisar os aspectos tensos entre a Lua e Vênus. Que tipo de problemas
esses aspectos podem trazer com relação a seu caso amoroso com sua mãe?
Audiência: Minha Lua está em quadratura com Vênus, e me lembro que achava minha
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mãe feia e grosseira. Não gostava do modo como ela andava ou me tocava.
Howard: Sim, ouvi outras pessoas dizerem coisas semelhantes. Apesar de Vênus e da
Lua serem planetas pessoais e de podermos pensar que os aspectos tensos entre eles não
são problemáticos como os aspectos difíceis entre a Lua e Saturno ou algum planeta
exterior, os aspectos tensos entre a Lua e Vênus podem causar muita tensão nos
relacionamentos posteriores. O que temos é a sua necessidade de segurança, aquilo de que
você precisa para se sentir seguro e abrigado (a Lua e a mãe) às voltas com aquilo que você
julga atraente ou belo (Vênus). Mais tarde, esse conflito pode se repetir de diversas
maneiras. Você pode se casar ou se envolver com alguém que lhe oferece segurança, mas
que não traz excitação ou sensualidade à sua vida, algo venusiano. Em outras palavras,
como esses dois planetas estão em conflito recíproco, você pode acabar se casando em
nome da segurança às custas de Vênus. Ou então, pode passar pela situação contrária: a
pessoa por quem você se sente a traído (Vênus) não é aquela que poderia lhe oferecer o
tipo de segurança de que você precisa.
Também já vi os problemas entre Lua e Vênus manifestando-se de um modo bem
distinto. Quando você tem uma quadratura ou aspecto difícil entre esses dois planetas, isso
significa uma tensão ou provável incompatibilidade entre aquilo que ambos representam
em termos arquetípicos. Analisamos superficialmente, o caso de alguém que não achava a
mãe bonita. Mas o contrário também pode ocorrer - podemos achá-la excitante ou
atraente demais. Em outras palavras, há uma confusão entre o princípio maternal e o
princípio sexual ou erótico. Assim, a mãe pode tê-lo nutrido ou segurado para satisfazer
suas necessidades lunares e de sobrevivência básicas mas, na verdade, isso teve conotações
sexuais para você. Pode ser que a mãe não estivesse satisfeita com seu cônjuge em termos
venusianos e, inconscientemente, procurou excitação ou prazer junto a seu filho. O que
temos aqui é a "mãe sedutora". Mais tarde, quando o filho já for um homem adulto, isso
pode trazer problemas, uma vez que existe um tabu em relação ao sexo com a mãe. Então,
ele pode se aproximar de uma mulher, mas assim que ela se tornar muito familiar ou ,
maternal, ele se sentirá "esquisito" com relação a algum contato sexual com ela.
Em mapas femininos, os aspectos Lua-Vênus podem trazer problemas levemente
diferentes. A mãe pode ser vista como a pessoa que detém o monopólio da beleza, do
estilo e do bom-gosto, fazendo com que sua filha se sinta inferiorizada. Pode haver algum
tipo de competitividade: "Espelho, espelho meu, quem no mundo é mais bela do que eu?”
Essa sensação - de não ser tão bela quanto a mãe - pode ficar embutida na menina pelo
resto da vida, manifestando-se mais tarde através de rivalidades ou dificuldades no contato
com outras mulheres.
Audiência: Com esses aspectos, pode ocorrer de a mãe achar que o filho ou filha não é
atraente e de a criança captar isso?
Howard: Sim, em alguns casos a criança pode achar que ela não é exatamente o que a
mãe valoriza ou aprecia. Os problemas Lua-Vênus também podem ser vistos como uma
tensão ou incompatibilidade entre duas facetas diferentes do princípio feminino, entre o
maternal e o erótico. Algumas mulheres com aspectos assim, ao envelhecer, sofrem um o
conflito entre esses dois aspectos do princípio feminino. Elas podem adotar a postura
maternal e se esquecerem do lado venusiano, descuidando-se da aparência ou não se
preocupando se estão atraentes ou não, ou podem ser do tipo puella ou hetaira, que gostam
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de um flerte, de ser a namorada ou a inspiração do parceiro, mas sem muitas certezas com
relação a compromissos, casamento ou maternidade. O desafio consiste em abrir espaço no
casamento ou no relacionamento tanto para a Lua como para Vênus - por exemplo, deixar
de vez em quando os filhos com os avós durante uma semana para que você e seu marido
possam tirar umas férias românticas a dois. Já dissemos que os homens com aspectos
tensos entre a Lua e Vênus podem dividir sua "anima" em duas,a prostituta e a "madonna".
Se eles vivem com alguém, acabam vendo a parceira como sua mãe, o que dá origem a
problemas sexuais porque não é "legal" praticar sexo com a mãe. Alguns homens tentam
"resolver" essa tensão tendo casos extraconjugais ou algo parecido para satisfazer suas
necessidades venusianas. Contudo, tenho certeza de que há maneiras de lidar tanto com a
Lua como com Venus em um casamento ou relacionamento duradouro.
E a Lua em ângulo difícil com Marte? O que poderiam indicar esses aspectos em
termos do caso amoroso entre você e sua mãe?
Audiência: Podem ter ocorrido algumas batalhas.
Howard: Sim, penso imediatamente numa batalha entre dois indivíduos dotados de
personalidade forte: você quer a coisa assim, ela quer assado; você quer algo agora, ela
quer depois; ela quer que você se comporte de certa maneira e você não está com vontade
de obedecer. Você não tem capacidade verbal para discutir com sua mãe aos seis meses de
idade, mas esses aspectos podem se manifestar sob a forma de terríveis discussões e
arremessos de pratos em seus relacionamentos posteriores. Deve ter havido uma série de
problemas territoriais ou de espaço em seu caso amoroso com a mãe. A sensação é a de
que sua mãe é muito intrometida, mandona ou dominadora. Não é difícil entender a razão
se nos lembrarmos dos planetas envolvidos - a Lua é a mãe e ela está ligada a Marte, o deus
da guerra e da afirmação. Tenho ainda a imagem de um bebê querendo aventuras,
querendo explorar o ambiente imediato ou o mundo exterior, mas a mãe aparece e se
intromete. Você começa a "usar" seu Marte e afirma sua independência ou senso de
aventura, mas se ele está em ângulo difícil com a Lua, então a mãe está, de algum modo,
em seu encalço ou interferindo, impondo sua opinião acerca do que você deveria estar
fazendo ou de como deveria estar fazendo as coisas. Assim, se você tem esse tipo de
experiência em seu primeiro relacionamento importante, pode surgir a tendência de atrair
ou de ser sensível a problemas semelhantes em seus relacionamentos posteriores. Vez
após vez, ouço pessoas com aspectos tensos entre Lua e Marte reclamarem de se sentirem
invadidas ou de não terem espaço suficiente. Na verdade, acredito que o aspecto difícil
entre esses planetas significa um conflito interior, um dilema interior entre uma parte de
você que quer ser aventureira e independente e outra parte que busca a intimidade e a
segurança. O ego, porém, detesta a ambivalência, de modo que você pode se identificar
com o lado marciano e vivenciá-lo, projetando a Lua - ou seja, achando que os outros estão
tentando "grudar" em você ou detê-lo.
Audiência: Será que isso acontece com a conjunção?
Howard: Sim, geralmente. Contudo, sempre que você estiver analisando o modo de agir
de uma conjunção, deve examinar os aspectos recebidos por essa conjunção. Se você tem
uma conjunção Lua-Marte em trígono com Vênus, o problema será menor do que uma
conjunção Lua-Marte em quadratura com Vênus. Por outro lado, a conjunção entre esses
planetas une, inevitavelmente, a imagem que você tem da mãe ao deus da guerra. Sua
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visão dela será de alguém forte, poderoso ou irado. É possível que ela não mostre essa
raiva, frustração ou poder; eles podem estar fervilhando, borbulhando sob a superfície, mas
estão lá. No princípio, mamãe é todo o seu mundo; assim, tudo aquilo que acontece entre
você e ela indica com razoável precisão o modo como você verá ou se [acionará mais tarde
com o mundo em geral. Se nos sentimos seguros com a mãe, o mundo nos parecerá seguro;
se a mãe não pareceu um recipiente muito firme ou confiável, então mais tarde o mundo
nos parecerá perigoso. Se você teve de brigar com sua mãe para estabelecer seu espaço ou
independência, então mais tarde você poderá, repetidas vezes, encontrar-se em situações
em que está brigando com amigos íntimos, parceiros ou pessoas queridas para obter mais
espaço para se movimentar.
Vamos analisar agora os aspectos entre a Lua e Júpiter. Sob aspectos tensos, o
relacionamento com a mãe pode passar por mudanças visíveis - e geralmente drásticas - de
humor, do amor e beatitude à dor e desespero, tudo maravilhoso em um dia e terrível no
dia seguinte. Você a ama e acha que ela é a coisa mais incrível do mundo e depois, por
algum motivo, a situação se inverte, fazendo com que você se sinta traído e por baixo.
Percebe a causa? A Lua está associada às emoções e sentimentos, e Júpiter é um planeta
associado à expansividade e à tendência a exagerar ou a extremismos. As pessoas com a
Lua em aspecto tenso com Júpiter podem passar por relacionamentos do tipo "montanha-
russa".
Lembro-me de uma mulher que conheço e que tem uma conjunção Lua-Júpiter em
Touro, formando quadratura com Plutão em Leão. Quando pequena, seus sentimentos para
com sua mãe oscilavam entre veneração-adoração e ódio, medo e abominação - um padrão
ou protótipo que ela repete na maioria de seus envolvimentos adultos. A quadratura com
Plutão serve para realçar os extremos da conjunção Lua-Júpiter, Depois de me falar sobre
sua mãe, boa e maravilhosa, acrescentou que havia ocasiões em que sua mãe a espancava
com força ou a trancava em um armário por qualquer pequena desobediência. Em
consequência dessas experiências de infância, ela passou a associar relacionamento com
altos e baixos drásticos. Ela conheceu um homem e me telefonou para contar, toda
excitada: ele é perfeito, ele é divino, ele é a encarnação de Zeus. Geralmente, seus
relacionamentos deslancham depressa - dois dias depois de conhecê-lo, ela e seu novo
amor estão planejando sua futura vida a dois, e esses planos incluem abrirem um negócio
ou tocarem um projeto que, de maneira mágica, trará dinheiro e realização para ambos.
Estou dizendo que essa mulher funciona como um mecanismo de relógio. Sempre que ela
me chama para contar essas coisas, dou uma olhada no relógio e confiro a data. Sei que em
duas semanas eu a estarei ouvindo novamente, e ela estará se queixando do bastardo e da
decepção que teve com ele. Venho observando esse padrão nela há anos. Assim, ao avaliar
a Lua no mapa dela, você tem uma boa ideia acerca de seus relacionamentos. É isso que
desejo enfatizar - a Lua é um significador de relacionamentos tão bom quanto Vênus.
Se em seu mapa natal a Lua e Júpiter formam aspecto, isso pode também significar
que sua mãe sofreu um conflito entre a maternidade e a vontade de fazer alguma coisa no
mundo exterior que, conforme acreditava, traria mais aventura ou excitação. Ela pode ser
literalmente estrangeira ou viajar bastante, ou ter uma queda por assuntos religiosos,
filosóficos ou esportivos, qualquer coisa expansiva. Assim, a imagem de sua pessoa amada
está associada a qualidades de Júpiter. No mapa de um homem, ele pode procurar uma
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parceira que de algum modo personifique Júpiter, alguém excitante, inspirador,
aventureiro. Não há nenhum problema com isso, desde que não entre em conflito com o
outro lado, que deseja uma mulher mais pacata ou assentada como companheira.
Agora, vamos fazer alguns comentários sobre as possíveis manifestações dos aspectos
tensos entre a Lua e Saturno. O que esses aspectos indicam sobre sua relação afetiva com a
mãe?
Audiência: Você pode se deparar com alguma forma de frieza.
Howard: Sim, você pode encontrar uma pessoa toda fechada, que parece sempre
soterrada por dificuldades, ou que tem dificuldades para reagir às suas necessidades sem
deixar você pouco à vontade. Em alguns casos, sua mãe pode estar fazendo o melhor que
pode para lhe dar conforto e satisfação, mas ela pode ficar tão nervosa ao tentar fazer as
coisas direito que você acaba captando sua insegurança e suas dúvidas. Também
poderíamos analisar esse problema por outro prisma. Imagine-se com uns seis meses de
idade, querendo comida e colo; por algum motivo, porém, sua mãe deixa de atender a
essas necessidades. Você se choca contra uma parede de tijolos; pode ser que ela esteja
ocupada com outras responsabilidades, ou que tenha lido em um livro que os bebês devem
ser alimentados de acordo com um esquema de horários e não a cada vez que manifestam
o desejo de comer. Assim, você tem necessidades emocionais ou fisiológicas reais, mas elas
não serão atendidas. O que isso pode acarretar? Como irá afetá-lo?
Audiência: Você se sente frustrado e inseguro.
Howard: Sim, é bem provável. Além disso, é possível que você se sinta culpado, que há
algo de errado com você: "Ela não me dá aquilo de que preciso, logo eu devo ser mau e
indigno de amor". A isso damos o nome de “introjeção" da mãe má, ou de identificação
com o mau seio. Essas impressões da infância calam fundo. Assim, se você pensa que é
mau, que não é bom ou que é indigno de amor, que tipo de sentimentos levara a seus
relacionamentos mais tarde? Mesmo que alguém o ame de verdade, em seu nível mais
fundo você será incapaz de acreditar nisso. Geralmente, quem tem a Lua em aspecto difícil
com Saturno tem falta de autoconfiança e está convicto de que os outros não atenderão às
suas necessidades. Formam relacionamentos nervosos, melindrosos; têm dificuldade para
relaxar no relacionamento, e ansiedades e inseguranças podem, com o tempo, afastar a
outra pessoa. Deste modo, elas conseguem transformar seus piores medos e expectativas e
uma profecia real. Ou (de acordo com a doutrina da repetição compulsiva), você pode
procurar pessoas que, por natureza, têm,dificuldade para expressar amor ou para satisfazer
suas necessidades específicas. Pode haver candidatos que realmente a desejam e querem
fazê-la feliz, mas não serão eles que vão interessá-la. Ao invés, você será atraída para as
pessoas difíceis, aquelas que não conseguem corresponder a você do modo que você quer,
como se uma parte de sua psique ainda estivesse tentando transformar a "ruim" em boa.
Os aspectos Lua-Saturno também podem fazer.com que a pessoa não se sinta bem
pelo fato de sentir vontades ou necessidades. Se, na infância, teve dificuldades para
satisfazer suas necessidades, pode ser mais fácil para você parar de tê-las em vez de sofrer
por não conseguir o que deseja. Se você quis que sua mãe fosse assim ou assado e em
todas as vezes ela o decepcionou, você começa a achar que o amor e as necessidades
magoam demais. O isolamento emocional acaba sendo a estratégia ou defesa contra a dor
das necessidades insatisfeitas - é melhor não dar atenção a elas, nem exibi-las, pois dói
52
muito quando elas não são atendidas: Assim: você se isola daquilo que realmente quer,
você nega os seus sentimentos. Ao fazê-lo, torna-se - aparentemente - auto-suficiente. A
pedra não sente dor: você dá a impressão de ser forte e duro, mas no fundo sofre, tem
receios e não sente digno de amor e de satisfação.*
*Judith Viorst, Necessary Losses, p. 23.
A compensação também pode entrar em cena. Se você teve um relacionamento do
tipo Lua-Saturno com sua mãe e acabou se sentindo indigna de amor, pode ser que tente
compensar isso sendo superprodutivo e fazendo coisas para provar ao mundo seu valor.
Mas ha uma compulsão ou complexo sob esse tipo de comportamento de compensação. Se
você não estiver sendo produtivo ou fazendo coisas que considera úteis ou dignas, vai achar
que não merece amor. Você precisa continuar a se por à prova; você nunca consegue
relaxar de verdade. Para se sentir digno ou seguro, você tem de ser responsável, bem-
sucedido e empreendedor, de maneira bem saturnina. Tudo são formas de compensar seu
sentimento interior de incapacidade. Tenho certeza de que você consegue se identificar
com isso que estou colocando ou que conhece alguém que se comporta assim. Para as
pessoas Lua-Saturno, é especialmente importante lamentar a mãe ideal que nunca tiveram,
trabalhar com a dor, culpa e raiva que se formaram devido ao fracasso, à fraqueza ou à
dificuldade do vínculo com a mãe.
Agora, vamos estudar rapidamente os contatos difíceis entre a Lua e Urano em termos
de nosso romance infantil com a mãe. Tente visualizar as consequências desses dois
planetas em choque. Você está tentando formar um vínculo com sua mãe e dá de cara com
Urano; em outras palavras, você encontra algum tipo de desagregação, algo errático,
incerto ou nada convencional - características que normalmente associamos a Urano. A
mãe pode ser vista como instável; ela pode estar presente em termos físicos mas, por
algum motivo, você não se sente seguro com relação a ela. Alguma coisa em você sente que
ela é inquieta, e que pode sair e deixá-lo a qualquer momento. Ela pode estar segurando
você ou lhe dando comida, mas mesmo assim ela não parece sólida, ou suficientemente
atenta - sua mente pode estar em outro lugar, pensando em outras coisas que ela gostaria
de estar fazendo, meditando sobre teorias ou filosofias abstratas em vez de estar
totalmente presente para você. Se você tem esses aspectos no mapa, talvez ache que sua
segurança pode desaparecer a qualquer momento, que as coisas podem mudar de uma
hora para outra.
Se você passou por isso com sua mãe em seu primeiro grande romance, possivelmente
experimentará apreensões ou expectativas semelhantes, conscientes ou não, na vida
adulta. Quando estiver envolvido em um relacionamento, pode ter a incômoda sensação de
que tudo vai mudar ou acabar de repente. Por outro lado, como não teve a experiência de
um abrigo sólido e seguro, você mesmo não sabe sê-lo; portanto, pode ser você a se sentir
inquieto em um relacionamento, a se entediar ou distrair com facilidade. Ou então você
cresce e se torna aquele tipo de pessoa que parece totalmente autônomo e auto-suficiente
quando, na verdade, sua auto-suficiência é uma defesa ou armadura que esconde a criança
assustada que há sob a máscara, uma criança que tem medo de confiar no amor dos
outros.
No mapa de um homem, pode indicar uma atração quase compulsiva por mulheres de
natureza razoavelmente independente ou uraniana, quer exibam essa faceta desde o início
53
ou não. No mapa de uma mulher, indica confusão a respeito de querer realmente ser mãe
ou de manter uma vida conjugal convencional. As pessoas com esses aspectos podem ter
conflitos íntimos entre desejar um parceiro que lhes dê segurança e um lar estável e
descobrir que se sentem a traídas por pessoas que exibem um alto grau de autonomia e
independência.
Com esses dois planetas representam princípios ou arquétipos bastante diferentes,
seus aspectos tensos costumam produzir o dilema “intimidade/liberdade". A Lua busca a
intimidade e o aconchego, mas Urano gosta do espaço e da liberdade. Se o seu mapa tem
um aspecto entre a Lua e Urano, você precisa dar espaço em sua Vida para ambos os lados
dessa polaridade. Se você apenas se identificar com sua necessidade de intimidade, estará
negando sua necessidade de autonomia e individualidade. Se for esse o caso, é possível que
seu parceiro seja a pessoa que põe para fora aquilo que você reprime em si mesmo. Seu
apego ou sua faceta convencional pode afastar o parceiro, que sairá em busca de algo mais
excitante ou de uma vida mais livre e expansiva. Em outras palavras, há uma cisão que
Maggie Scarf chamou de “divisão emocional do fardo”.* Você leva a necessidade de
intimidade e a outra pessoa é que vivencia seus impulsos uranianos reprimidos. Pode
acontecer o inverso: seu parceiro é o que dá a estabilidade e você se sente instável variável.
De qualquer modo, a situação não costuma ser satisfatória, e não contribui para a
durabilidade de uma relação.
*Maggie Scarf, lntimate Partners, P: 60
Vou discutir o dilema liberdade/intimidade com maior profundidade em minha
palestra sobre Vênus.* Por ora, basta dizer que é melhor aceitarmos o fato de termos tanto
o desejo de intimidade quanto o desejo de autonomia em nós mesmos dando algum espaço
na vida e nos relacionamentos para ambas essas necessidades. A tarefa consiste em saber
ficar próximo de alguém, ter intimidade com essa pessoa e, ao mesmo tempo, manter
algum espaço para você mesmo. É possível que sua mãe tenha passado por um dilema ou
tensão interior semelhante; agora, ele faz parte sua vida e pode ser visto em seu padrão de
relacionamentos.
*A discussão sobre Vênus aperece no volume seguinte desta série: Liz Greene e Howard
Sasportas, The Inner Planets: Building Block of Personal Reality [Os Planetas Interiores:
Elementos Estruturais da Realidade Pessoal]. Volume 4 de Seminário sobre Astrologia
Psicológica (York Beach, ME: Samuel Weiser, 1992).
Vamos tratar dos aspectos Lua-Netuno e Lua-Plutão na sessão conjunta sobre o Sol e a
Lua (na Parte 3 deste livro). Agora, quero mudar levemente de assunto e ampliar nossa
análise sobre a Lua. Nós a estivemos discutindo como um dos indicadores daquilo que
encontramos ou esperamos em um relacionamento íntimo, um-para-um, com base em
nosso romance de infância com nossa mãe. Contudo, a Lua é ativada todas às vezes em que
você procura ser incluído ou fazer parte de alguma coisa. Em outras palavras, a Lua
representa suas necessidades de inclusão. Basta lembrar de todos os diferentes tipos de
situação de vida porque você passou sempre que quis participar, sempre que quis ser
incluído: pode ser em um banquete, em algum tipo de encontro social ou mesmo em seu
escritório.
Estou expandindo o significado da Lua para incluir aquilo que acontece em situações
de grupo, tal como uma festa, e para analisar aquilo de que você necessita para se sentir
54
seguro em qualquer ambiente em que você se encontre. Gostaria que você se observasse e
percebesse se consegue definir aquilo que lhe deixa seguro como você age ou se comporta
em um ambiente social. O que o faz sentir seguro e incluído? O que o faz sentir indesejado,
deslocado - o "dois de paus"?
Essas ideias não são minhas. Tomei-as emprestado a Stephen Arroyo que: em seu livro
Astrologia - Prática e Profissão, analisa a Lua como indicador do modo como você interage com o
ambiente a fim de se sentir à vontade, a fim de se sentir bem-recebido ou incluído.* Na
verdade, podemos ate brincar com esse conceito. Projete sua mente em alguma festa
vindoura e tente imaginar aquilo de que cada um dos signos lunares vai precisar ou pode
fazer para se sentir confortável nessa ocasião. Arroyo sugere um modo interessante de
fazer isso: usar a frase "Vamos..." ou :'Vamos fazer...". Vou ilustrar isso tomando como
exemplo a Lua em Áries. A menos que sua Lua em Áries esteja gravemente limitada por
planetas pesados, é possível que você se sinta melhor se puder ativar e excitar o ambiente
de algum modo, e por isso uma frase associada com a Lua e Áries pode ser: "Vamos agitar
isso aqui; vamos energizar o ambiente. Você pode ser daqueles que se impacienta ou
entedia facilmente, e por isso quer que a festa se movimente. Você pode ser aquele que
puxa conversa com pessoas que não conhece ou o primeiro a sair dançando. Para a maioria
das pessoas com a Lua em Áries, fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada: elas
se sentem confortáveis e à vontade fazendo com que as coisas aconteçam ou se agitem.
*Stephen Arroyo, Astrologia - Prática e Profissão (São Paulo: Pensamento, 1987), pp. 169-73.
Compare essa postura com a das pessoas que têm a Lua em Touro. Geralmente, elas
precisam de conforto físico ou de estabilidade para se sentirem seguras. Elas vão procurar
um espaço adequado para se sentarem ou ficarem em pé. Pode ser que procurem
segurança indo direto à mesa da comida - talvez só se sintam seguras depois que
conseguirem comer um pouco. Até certo ponto, estou brincando. Na primeira vez em que li
esse texto de Arroyo, fiquei um pouco surpreso ao ver que ele acha que a Lua em Touro se
sente segura quando exerce algum controle sobre o ambiente. Nunca tinha pensado em
Touro em termos de questões ligadas ao controle. Mas é verdade. Minha Lua está nesse
signo e eu sei que me sinto bem à vontade ou satisfeito quando as coisas não estão muito
caóticas ou descontroladas, quando estão em ordem e exerço algum comando sobre elas.
Por exemplo, se de repente eu descobrisse que manhã teríamos de trocar de auditório,
provavelmente eu teria dificuldade para dormir. Será que o novo salão terá tudo aquilo de
que necessito, será adequado? Quanto maior a familiaridade que tenho com um ambiente,
mais confortável me sinto. E a Lua em Gêmeos? Qual seria o seu "Vamos?"
Audiência: Vamos nos comunicar e trocar informações.
Howard: Exatamente, elas costumam se sentir mais confortáveis e à vontade quando
começam a conversar com as pessoas e a fazer conexões um elas. Por exemplo, vamos
dizer que uma pessoa com a Lua em Gêmeos conhece alguém numa festa e descobre que
ambos têm algo em comum, ou que ambos têm um irmão que lida com informática. Bingo!
Agora elas decolam, agora se sentem à vontade. São pessoas que podem querer
impressioná-lo com seus conhecimentos em uma vasta gama de assuntos. A Lua em
Gêmeos também gosta de observar; é quase como um "voyeur", e gosta de tirar conclusões
a respeito daquilo que vê. São essas as coisas que, instintivamente, fazem com que se

55
sintam seguras ou participantes. E a Lua em Câncer? Qual seria sua necessidade mais
óbvia?
Audiência: Mesclar-se com o ambiente, ou ser útil, cuidando das pessoas com quem
estão.
Howard: Sim, se o ambiente não as ameaçar demais, seu instinto será o de se
mesclarem, de se misturarem. Assim, se elas estiverem em uma sala cheia de "santos", seu
lado "santo" virá à tona. Mas se estiverem em uma sala cheia de criminosos, as pessoas
com a Lua em Câncer podem tentar se misturar mostrando que também podem ser más. E
isso que você disse sobre a necessidade de cuidar também é correto. Elas podem se
oferecer para ir até o bar para pegar uma bebida para você, ou são aquelas que pegam café
para todo mundo. Assim, alimentando os outros, sendo sensíveis às necessidades dos
outros, a pessoa com a Lua em Câncer sente-se também mais confortável. Mas tenho
percebido uma outra coisa: se as pessoas com a Lua nesse signo não gostarem do ambiente
ou estiverem em um dia de introspecção, sua reação instintiva é a de se retraírem, de
ficarem sentadas no canto sem conversar com ninguém, ou até de saírem da festa ou de
cena. Vão querer ir para casa e voltar para sua concha, para aquilo que lhes é familiar.
E sobre a Lua em Leão? De que essa Lua em signo ígneo necessita em situações sociais
para se sentir segura ou incluída?
Audiência: Provavelmente, precisa causar algum impacto sobre o ambiente.
Howard: Sim, sua frase seria algo como "Vamos vitalizar o ambiente, vamos nos fazer
notar, deixe-me fazer algo que me permita brilhar ou sobressair". Essas pessoas se sentem
bem quando percebem que são um pouco especiais ou únicas. Um astrólogo cármico
observou certa vez que se você tem a Lua em Leão, deve ter feito parte da realeza ou sido
alguém famoso em alguma vida passada e agora, nesta encarnação, você espera ser tratado
de modo especial, aguardando ser descoberto ou notado. Algumas pessoas com Lua em
Leão me procuraram para uma leitura de mapa e chegam com um jeito tímido, retraído;
mas quando lhes falo da necessidade instintiva de reconhecimento e admiração, elas se
sentem compelidas a admitir que esses sentimentos são fortes nelas. Além disso, notei que
têm um quê de "preciso ser melhor". Assim, se estiver em meio a um grupo de ladrões e
assaltantes, a pessoa com a Lua em Leão gostaria de poder dizer "Já roubei mais do que
vocês", ou "Tenho a melhor ideia para um assalto a banco". Se elas conseguem estar por
cima, sentem-se bem, sentem-se dignas de inclusão e amor. Quando crianças, quanto mais
especiais somos para a mamãe, mais seguros nos sentimos. Isso se aplica particularmente
bem à Lua nesse signo. E essa necessidade de ser especial para se sentir bem permanece
com a pessoa ao longo de toda sua vida, muito depois dela ter saído dos braços de sua mãe.
E sobre Lua em Virgem? É uma colocação que pode ser bastante contraditória, mas
qual seria sua impressão inicial?
Audiência: Pode ser que se sinta à vontade se estiver limpando os cinzeiros e tirando a
mesa. Ou se tiver alguém com quem conversar sobre saúde.
Howard: Sim, são colocações que se encaixam com as definições tradicionais para a Lua
em Virgem. Creio que essas pessoas precisam se sentir úteis e produtivas, qualquer que
seja o ambiente em que estejam. Assim, elas podem se oferecer para lavar os pratos ou,
antes mesmo da festa começar, podem ligar e perguntar se alguém já providenciou os
sanduíches ou se podem levar alguma coisa. Ou, como você sugeriu, vão se sentir em casa
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se encontrarem alguém com quem possam comparar o nível de colesterol - isso certamente
estaria em sintonia com a típica reocupação virginiana com o bem-estar do corpo. Para se
sentir segura, Lua em Virgem geralmente precisa medir o ambiente, analisa-lo,
"cronometrá-lo". Assim, sua frase poderia ser, "Vamos estudar o ambiente, vamos
entender como funciona e depois me sentirei mais relaxada, à vontade, segura e
confortável". Afinal, é um signo regido por Mercúrio. Se a pessoa com a Lua em Virgem for
super-sensível ou muito rígida, o que é que você acha que fará para se sentir confortável?
Provavelmente, vai instintivamente começar a criticar o ambiente, a dissecar ou a falar mal
dos outros para se sentir bem a seu próprio respeito. Pode comentar algo sobre a
decoração do salão ou fazer algum comentário a respeito do baixo nível de algumas das
pessoas presentes. Mas isso só costuma acontecer quando estão extremamente nervosas
ou pouco à vontade.
Qual a maneira mais óbvia para a Lua em Libra lidar com uma situação social?
Audiência: Sua frase poderia ser: "Vamos ser agradáveis".
Howard: Sim, geralmente a Lua em Libra expressa um forte desejo de harmonizar com
o ambiente para se sentir segura. Ou então pode querer embelezar o ambiente. Mais uma
vez porém, creio que seria errôneo pensar que a Lua em Libra só é motivada pela beleza ou
pela doçura. Esse signo também está dotado do instinto de corrigir desequilíbrios. Assim, se
estiverem em um ambiente onde todos estão sendo melosamente agradáveis uns com os
outros, algumas pessoas com a Lua em Libra podem querer - por instinto -agir de maneira
oposta sendo agressivas ou um pouco rudes, forçando as coisas, para equilibrar a falsidade
que veem à sua volta. Assim, sua frase poderia ser, "Vamos nos opor ao ambiente",
especialmente se decidiram que não vale a pena o esforço para se fazerem queridas. Nesse
sentido, há aí um toque da Lua em Virgem; elas também podem ser críticas, fazer
julgamentos, medir a festa ou as pessoas, comparando-as com seus próprios ideais e
expectativas. Há uma teoria que diz que Virgem e Libra já formaram um único signo em um
passado distante e, com certeza, já observei algumas semelhanças entre essas duas
colocações lunares. O lado sombrio de termos expectativas elevadas é a tendência a
sermos críticos quando os demais não correspondem aos nossas ideais. É algo bem
diferente do estereótipo da doce e charmosa Lua em Libra.
E a Lua em Escorpião? Como lida com o ambiente ou se comporta em uma festa para
se sentir mais seguro ou confortável?
Audiência: Talvez assuma uma atitude do tipo "esperar para ver".
Howard: Sim, eis um modo interessante de colocar a questão. Muitos dos que têm a Lua
em Escorpião querem observar atentamente aquilo que acontece à sua volta, isso faz com
que se sintam menos apreensivas e mais à vontade. Assim, elas podem, ao-menos no início,
ficar de prontidão, sem revelar muita coisa. São atentas como águias. Sua frase pode ser,
“Vamos entender o significado oculto daquilo que acontece neste ambiente, vamos
compreender as entrelinhas e as interações sutis entre as pessoas". Elas não se sentem
inclinadas a satisfazerem-se com os fatos superficiais; precisam entender os joguinhos,
quem está a fim de quem, quem está com essa ou aquela vibração e porquê. Daí em diante,
vão se sentindo mais a vontade, mais confortáveis. Se a festa estiver entediante, podem
imaginar maneiras de agitar as coisas: "A quem vou chocar ou perturbar a fim de deixar as
coisas mais interessantes?" Odeio ter de dizer isto, mas as pessoas com a Lua em Escorpião
57
costumam ter um que da diva das operas. Se a vida ou o ambiente estiver muito tolo ou
maçante, nada como uma pequena crise para animar as coisas.
O que dizer da Lua em Sagitário? Qual seria a sua frase?
Audiência: "Vamos deixar o ambiente mais animado".
Howard: Sim, "vamos tornar as coisas mais interessantes vamos estimular ou excitar o
ambiente, vamos ser expansivos ou mais' aventureiros". Poderia até ser "Vamos levar a
festa para algum lugar maior!" A menos que a Lua sagitariana esteja em tensão com
Saturno ou algum planeta exterior, as pessoas com essa colocação costumam ser bastante
gregárias. Elas se sentem bem quando aprendem com os outros, sentem-se à vontade se
estiverem ensinando ou partilhando suas ideias e seu entusiasmo, se estiverem
conhecendo pessoas interessantes. Contudo se estiverem inseguras ou pouco à vontade,
seu lado arrogante ou pernóstico vira à tona: Essa não é a minha gente, esse não é o meu
cenário. Estou acima de tudo isso, adeus".
O que você pensa a respeito da Lua em Capricórnio com relação a aquilo que a deixa
confortável em encontros sociais ou em situações sociais? Essa é outra colocação
complicada, mas quais as primeiras ideias que lhe vêm à mente?
Audiência: "Vamos usar o ambiente para progredir na vida".
Audiência: Pode ser que esperem que haja pessoas importantes na festa, pois elas se
sentem bem quando se misturam com os figurões.
Howard: Sim, um bom número de pessoas com a Lua em Capricórnio tem dificuldade
para relaxar, descansar ou brincar. Elas gostam de ser produtivas e podem ser ambiciosas, e
por isso é possível que usem atuação social para motivos ulteriores, como atingirem uma
certa meta ou progredirem na vida. Sua frase também poderia ser, "Vamos controlar e ditar
as regras do ambiente". Elas podem se sentir seguras quando as coisas são estruturadas ou
bem organizadas, se há horários e regras claras de comportamento, parâmetros bem
definidos acerca do que se pode e do que não se pode fazer. Outra frase poderia ser:
"Vamos assumir responsabilidade por este ambiente". Assim, se alguma coisa tiver de ser
feita durante a festa, tal como mudar a fita ou limpar uma bebida que caiu, a Lua em
Capricórnio pode assumir a tarefa como um dever ou responsabilidade. Mas e se ela não
conseguir se sentir à vontade? Ela pode lidar como ambiente de maneira defensiva, rígida,
traçando limites nítidos entre ela e as outras pessoas.
A Lua em Aquário tem diversas facetas. Se Urano estiver forte no mapa, sua frase pode
ser: "Vamos eletrificar o ambiente, vamos dar-lhe nova, energia e vida ou vamos bagunçar
um pouco as coisas para tornar a festa mais interessante e animada". Tal como a Lua em
Gêmeos, essa colocação costuma ter curiosidade acerca da vida, interessando-se em
observar o modo de funcionamento e operação dos demais. Há a necessidade de aprender
e de descobrir as coisas para essa pessoa se sentir satisfeita e à vontade; logo, ela vai
circular e conversar com uma vasta gama de pessoas para descobrir de onde vêm, no que
acreditam, como levam a vida. Certos indivíduos com a Lua nesse signo ficam mais felizes
quando têm a chance de expor suas opiniões ou de partilhar suas crenças sociais ou
políticas com os outros. "Agora que vocês estão aqui nesta festa, quero lhes falar dos
direitos dos animais".
A Lua em Peixes - eis uma colocação interessante e variada em termos do modo como
levam as situações sociais. Uma frase óbvia pode ser, "Vamos amar, ajudar e cuidar do
58
ambiente". Elas se sentem "na festa" quando ajudam uma pobre alma que necessita de
socorro ou atenção. O contrário também acontece. Pode ser que não se sintam à vontade
enquanto não abrirem seu coração para outra pessoa, enquanto não descobrirem alguém
que as compreende e que nutre simpatia por elas; daí podem relaxar e se divertir.
Costumam se misturar com o ambiente. Veja como isso é diferente da Lua em Áries. A Lua
em Áries não se aborrece muito se tiver de se misturar, mas a Lua em Peixes se sente bem
se isso for possível. Assim, a Lua em Peixes se comporta de um modo com um grupo ou tipo
de pessoa e de outro, completamente diferente, com outro tipo de pessoa. Ou então,
passam um tempão sonhando acordada ou tendo fantasias, imaginando que está
acontecendo isso ou aquilo.
Audiência: Conheço um monte de gente com a Lua em Peixes e sua frase é "Vamos
beber!"
Howard: Sim, é mesmo. Elas se sentem bem quando conseguem se desinibir, quando
suas barreiras se afrouxam. Há certa semelhança com a Lua em Câncer: se não conseguirem
se sentir confortáveis onde estão, encontrarão uma desculpa para sair, para fazerem a
mágica de desaparecer, e cairão fora.
Essas são apenas algumas ideias a respeito de como a Lua indica o que você precisa
saber para se sentir incluído, para se sentir seguro. Por favor, desculpem-me por ser tão
genérico e sucinto, e um pouco superficial com esse tema. Todos vocês sabem que é
preciso levar em conta a casa 11 e o mapa como um todo para se obter um retrato mais
preciso; em especial, devemos analisar os aspectos que os outros planetas formam com a
Lua.

59
PARTE DOIS
O SOL

O HERÓI DE MIL FACES


O SOL E O DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA
por LlZ GREENE

Gostaria de iniciar a palestra desta manhã falando de uma das mais antigas e
profundas representações míticas do Sol: o antigo símbolo da realeza. Até o início deste
século, os reis eram tidos como a incorporação terrena da divindade, o veículo mortal pelo
qual a vontade do divino se manifestava no mundo. Há quem julgue isso peculiar,
especialmente pelo fato da Suíça ser a mais antiga democracia da Europa e nunca ter tido
um rei. Contudo, há uma camada arcaica em todos nós que, até hoje, ainda reage ao
símbolo mágico da realeza. Em épocas remotas, o rei era ainda sacerdote e o papel da
governança de seu povo era exercido Juntamente com o papel do pontifex, o "construtor de
pontes" que fazia a mediação entre o céu e a terra. Ao explorarmos a mitologia do Sol nesta
manhã, talvez seja útil manter em mente o símbolo da realeza, pois ele congrega as
diversas figuras solares míticas.
Ontem, Howard e eu falamos da Lua como uma dimensão inata e Instintiva da
personalidade. Apesar de precisarmos trabalhar a expressão da Lua, nossa natureza lunar
tem como meta consciente o desenvolvimento de objetivos no mundo. A capacidade de
autopreservação é intrínseca em nós; só precisamos escutá-la. Além disso, a Lua tem
natureza regressiva, atraindo-nos sempre para o passado, para o vínculo mãe-filho, porque
nossas necessidades emocionais e corporais básicas não se alteram em sua essência. O Sol,
porém, é progressivo. Ele é um princípio ativo e dinâmico que se desenvolve ao longo de
uma existência. Na verdade, nós nunca acabamos de desenvolver o Sol, pois esse aspecto
da personalidade está sempre em um processo de vir-a-ser, de rumar para alguma meta ou
visão futura. Você pode estar familiarizado com aquilo que Joseph Campbell chama de
"monomito", a história do herói presente na mitologia de todos os povos. O mito do herói é
um mito solar, pois o herói está sempre prestes a se tornar algo. Ele não nasce
automaticamente como herói. Ele deve conquistar o direito de se tornar herói e rei, bem
como um veículo adequado para os deuses que são seus pais.
Neste ponto, eu deveria enfatizar que o herói, que é sempre masculino, não é uma
propriedade exclusiva dos homens, assim como a mãe lunar não é propriedade apenas das
mulheres. Há, em nossa natureza, um" dimensão lunar e uma solar. A evolução do mito do
herói através do desenvolvimento do Sol é tão relevante para as mulheres quanto a
sabedoria autonutritiva da Lua o é para os homens. Os adjetivos "masculino" e "feminino",
usados para descrever uma imagem simbólica, não se referem a nenhum dos sexos. Eles se
referem a uma qualidade da energia, receptiva ou dinâmica, para as quais as divindades
60
míticas, machos ou fêmeas, são as imagens mais apropriadas. De modo similar, como você
deverá ver mais tarde, a conjunção ou casamento mítico entre o Sol e a Lua descreve o
potencial de relacionamento interior entre esses aspectos distintos da personalidade em
cada sexo.
Agora, pode ser que você queira dar uma olhada em nosso diagrama do Sol, a Figura 3.
Boa parte do material que estarei utilizando para descrever o mito do herói solar vem de
Joseph Campbell, cujo livro, O Herói de Mil Faces, é uma das melhores explorações psicológicas
do mito.* Antes de uni-lo ao simbolismo astrológico, gostaria de esboçar os estágios
básicos da jornada do herói. Antes de mais nada, o herói nasce de maneira estranha ou
portentosa; geralmente, é fruto da união entre um deus e uma mortal. Em alguns casos,
como o do herói grego Aquiles, isso se inverte; seu pai era o mortal Peleu, mas sua mãe era
a deusa do mar, Tétis. Há ainda o herói romano Enéias, cujo pai era o mortal Anquises e a
mãe a deusa Vênus. Contudo, seja qual for o progenitor divino, uma da características do
herói é a de ele ser um híbrido entre o humano e o divino, estando assim destinado a ser
um pontífice, um pontifex.
*Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces (São Paulo: Pensamento).
Na infância, o herói não faz ideia de quem sejam seus pais verdadeiros. Ele acha que é
igual a todos, mas incomoda-lhe a sensação de que é diferente e a intuição de um destino
especial. Um dos principais temas da jornada do herói é a descoberta de sua verdadeira
origem, que é a um só tempo mortal e imortal. Nessa imagem mítica do nascimento
híbrido, podemos notar um profundo sentido de dualidade, a convicção de que não somos
apenas feitos de terra e fadados a comer, a procriar e a morrer. Cada um de nós é especial,
único e tem um destino pessoal, uma contribuição individual a dar para a vida. A Lua é
nossa vida corpórea, gerada por mortais e predestinada por nossa herança genética. É o Sol
em nós que sente que há uma busca a se encetar, uma jornada na direção do futuro
desconhecido, um mistério profundo no núcleo do "eu".
Muitas crianças têm a fantasia de que são adotadas. Essas duas pessoas comuns
zanzando pela casa não podem ser nossos pais de verdade. Tivemos como pai ou mãe
alguém especial e maravilhoso, um príncipe, princesa ou chefe de estado, mas isso foi
mantido em segredo. Essa fantasia é tão comum entre as crianças que só podemos
presumir que seja arquetípica. É um dos pontos pelos quais o mito penetra na vida
humana comum, antes da "realidade" massacrar o mundo imaginário da infância. O
mesmo motivo surge regularmente em contos de fadas, onde a madrasta ou padrasto
substitui um progenitor ausente. Apesar desse progenitor ausente não ser sempre divino,
é alguém envolto pelo mistério. Geralmente, o padrasto ou madrasta é estúpido, um
desastre, e a criança tem um destino especial; ela costuma escapar do ambiente repressor
e descobre sua verdadeira origem.
Nossa análise do Sol pode, de início, expressar-se nessa primitiva fantasia do progenitor
desconhecido e misterioso, ou de um destino "superior" à nossa espera. Nossa faceta solar
não se sente sujeita aos mesmos ciclos lunares e leis do destino a que se submetem nossas
emoções e corpos. Ela se recusa teimosamente a ser comum. Muita gente descobre isso
no meio da vida, e já ouvi clientes na faixa dos quarenta dizerem, "Tenho a sensação de
que há um propósito maior para o fato de eu estar vivo. Não estou mais satisfeito com as
velhas metas - dinheiro, segurança emocional e realização mundana". Esse despertar do
61
princípio solar pode coincidir com o início de um período de exploração interior o qual, por
sua vez, pode ter sido precipitado por alguma crise que deixa em seu rastro
descontentamento e depressão. Quantos de vocês já experimentaram esse sentimento?
Muitos já sentiram isso e sabem do que estou falando.
Audiência: De início, é bem difícil expressar isso em termos de metas concretas.
Liz: É verdade, pois o Sol não está preocupado com o mundo concreto como meta final. A
realidade material é domínio da Lua e, de modo geral, o que imaginamos como nossas
metas na primeira metade da vida é apenas o conjunto de necessidades lunares
traduzindo-se em termos materiais. As metas solares são interiores, dizem respeito à auto-
realização e à experiência da vida como algo especial e cheio de significado. Essas são
metas muito difíceis de se definir e variam de pessoa para pessoa quanto ao tipo de
expressão exterior de que precisam. Sócrates dava a essa misteriosa força propulsora
interior o nome de daemon, o - destino que impele o indivíduo a se tornar seu próprio ideal.

Figura 3. A mitologia do Sol.


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O Sol diz, "Mas não sou um mero rato velho, coelho ou couve-flor. Minha vida tem um
significado, tenho potenciais que ainda não concretizei". Como você pode perceber,
ignoramos esse impulso solar por nossa conta e risco, pois não damos o salto heroico e não
oferecemos nossa contribuição para o mundo de maneira única e criativa, por menor que
seja, estamos fadados ao incômodo tormento de um “self” não-vivido. Daí, teremos todos
os motivos para temer a morte, pois não teremos vivido de fato.
Outro elemento importante da infância do herói solar é o fato de ele geralmente ser
invejado ou perseguido sem saber o motivo. Às vezes, o inimigo é o marido de sua mãe -
seu padrasto, na verdade. Às vezes, é um rei perverso ou usurpador que ouviu falar de um
augúrio ou profecia e teme que o herói, tendo atingido a idade adulta, irá destroná-lo.
Podemos ver esse tema nas histórias de heróis gregos como Perseu, bem como na história
de Jesus, o qual, quando criança, foi perseguido pelo Rei Herodes. O tema da inveja e a
ameaça potencial que o herói representa para os governantes é algo a que vou me reportar
muitas vezes em nossa exploração da jornada solar. O Sol é especial e a expressão da
natureza especial costuma despertar uma inveja destrutiva nos outros. Se o Sol fica
inconsciente, ele pode igualmente atrair a inveja destrutiva dos outros para si. Sempre que
exploramos um mito, podemos ter certeza de que iremos encontrá-lo em todos os aspectos
da vida humana comum.
Esse problema arquetípico da inveja e da perseguição de potenciais solares
nascedouros, que pode ser visto em ação em um grande número de famílias, é uma das
razões pela qual muita gente tem dificuldade para expressar o Sol. Essas pessoas temem
que, se manifestarem seus verdadeiros "eus", os outros vão reagir com raiva e atacá-los,
verbal ou emocionalmente: Geralmente, o pai ou a mãe real de uma pessoa fez exatamente
isso, inconscientemente, pois a vida solar não-vivida do progenitor se tornou amarga e
invejosa; e a pessoa tem a experiência direta da infância de perseguições do herói mítico
em sua própria fase de formação. O jovem futuro herói pode ter contado com a proteção de
sua mãe mortal durante algum tempo mas, mais cedo ou mais tarde, terá de aprender a
lidar com o padrasto invejoso ou governante por sua própria conta. Ele precisa desenvolver
o realismo, pois a inveja é um fato da vida e uma parte indelével da natureza humana. Ele
nem sempre poderá ir correndo para casa berrando por ter sido atacado por causa de sua
natureza especial ou por ter sido questionado. Além disso, precisa adquirir firmeza,
autossuficiência, "insight", inteligência e amigos leais para sobreviver como indivíduo. Do
contrário, pode ser que sacie sua sede de luz solar e regresse rastejante para o ventre
materno. Na verdade, é isso que muitos fazem, pois encontram mães substitutas que os
protegem, tais como empregos insatisfatórios ou relacionamentos paralisantes e reprimem
seus próprios potenciais individuais para evitar o mundo competitivo lá fora.
Em algum ponto de seu processo de crescimento, o herói recebe aquilo a que
Campbell se refere como "a chamada para a aventura". Ela pode surgir sob diversas formas.
O pai divino pode aparecer em um sonho ou visão dizendo, "Tudo bem, meu filho, estique o
dedo, é hora de crescer e de ir procurar o tesouro tão difícil de se encontrar". Em outras
palavras, a chamada pode vir de dentro de nós - nosso significado e destino numa intuição
repentina - o que costuma acontecer sob ciclos dos planetas pesados, tal como o retorno
de Saturno aos 30 anos ou na meia-idade, coincidindo com o semiciclo de Urano ou com o
segundo semiciclo de Saturno. No mito, a chamada do herói também pode se dar através
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de uma aparente perturbação ou desastre exterior - problemas nas plantações, uma praga
ou invasão, o rei idoso está morrendo e não tem herdeiros conhecidos. Se você estiver
familiarizado com as lendas arthurianas, vai se lembrar de que esta última situação, quando
os saxões estão invadindo a terra e o Rei Uther Pendragon está morrendo, é o pano de
fundo para o momento em que o jovem Arthur é revelado como o legítimo herdeiro ao
arrancar da pedra a espada mágica, Excalibur. A chamada mítica para a aventura pode,
portanto, expressar-se em nossas vidas como uma grave crise que, diferentemente de
nossos dramas cotidianos, desafia-nos a mergulhar no desconhecido para descobrirmos
novos recursos que não sabíamos existir lá. Creio que é assim que a maioria das pessoas
experimenta a chamada solar para a aventura, a qual, além de ser indicada pelos ciclos dos
planetas lentos, costuma ser sinalizada por um trânsito ou progressão importante
envolvendo o Sol.
Não muitos de nós tiveram uma experiência como a de Saulo na estrada para
Damasco,onde a divindade surge numa visão e lhe anuncia seu destino especial- o de salvar
o mundo. Quando isso acontece com tanta intensidade, especialmente na juventude, é
comum encontrarmos certos elementos questionáveis, tais como profundos complexos de
inferioridade a gerar, como compensação, uma identificação com o Messias. Há uma
diferença entre a emergência adulta e real do Sol, em uma personalidade relativamente
sólida, e a fantasia messiânica global, que reflete uma estrutura de ego mal desenvolvida. A
unicidade do Sol não é incompatível com o realismo e a humildade, e o fato de se sentir
especial não o obriga a olhar Com desprezo para os mortais inferiores, a menos que tenha
se misturado com ferimentos da infância ainda não tratados.
O momento da chamada do herói para a aventura tem um quê de predeterminação
nos mitos e folclores, como um despertador programado para tocar em certo horário. É
inevitável, como o nascer do Sol. Como diz Hamlet:

Se for agora, não é para acontecer; se não é para acontecer, será agora; se não for agora,
ainda está para acontecer: a preparação é tudo.

A hora costuma ser determinada no nascimento do herói, bem no início da história.


Isso sugere o ritmo intrínseco do mapa astrológico. Teseu, por exemplo, descobre que seu
verdadeiro pai é o Rei de Atenas quando ergue a grande pedra sob a qual se ocultava a
espada do rei. Sua mãe o instrui a só fazer isso quando ele completar dezessete anos, pois
foi esse o desejo de seu pai. Há nisso um quê de destino inevitável, o que se reflete numa
sensação que muitas pessoas me contam - a de que a crise que os despertou "tinha de
acontecer" e ocorreu "na hora certa". No mito, o progenitor divino ou real costuma
apresentar um teste, que o herói deve superar antes de ele conhecer sua jornada e sua
verdadeira identidade. Assim, ele demonstra que está apto a se tornar ele mesmo.
O momento dessa chamada torna-se interessante para o estudante de astrologia
quando levamos em conta os trânsitos e progressões envolvendo o Sol. Todos nós
passamos por diversos trânsitos dos planetas pesados sobre o Sol natal e o progredido,
além de muitos aspectos de progressão sobre o Sol natal e de aspectos do Sol progredido
sobre os planetas natais, no decorrer de nossas vidas. Ao contrário do herói, temos mais de
uma chance para responder à chamada e ela pode vir em segmentos separados,
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disfarçados como situações de vida disparatadas e ligadas por um único fio de significado. A
jornada do herói não surge para nós uma única vez e ponto final. Ela parece ocorrer em
muitos níveis e se repete ao longo da vida. Pode ser que na palestra desta manhã você
pense nas maneiras pelas quais a chamada heroica para a aventura se deu em sua própria
vida, e se você a identificou então como tal. Mas tente se lembrar de que a chamada pode
ter a aparência de algo completamente diferente, apesar de seus resultados geralmente se
tornarem aparentes mais tarde. Às vezes, ela se dá por meio de um encontro importante.
Os relacionamentos podem nos oferecer nosso despertar, especialmente se eles começam
ou terminam sob situações astrológicas significativas envolvendo o Sol. A intervenção de
outra pessoa em nossas vidas, seja ela um namorado, um filho ou um professor, ou mesmo
um inimigo ou rival, pode transformar nossa consciência e fazer com que o herói solar
inicie sua jornada.
Depois de ter sido chamado, o herói geralmente arranja um ajudante, ou recebe a
assistência de fontes divinas, humanas ou animais. É interessante observar que ele não
costuma ter trabalho para conseguir essa ajuda inicial. Ela é dada pelo progenitor divino,
pelo mortal ou por divindades benignas que estão a seu lado por seus próprios motivos. Por
exemplo, quando Teseu se dispõe a matar o Minotauro, Ariadne, apaixonada por ele, dá a
ele a bola de barbante que lhe permitirá encontrar a saída do Labirinto. Jasão, ao fugir da
Cólquida com o Velocino de Ouro, é auxiliado pela sacerdotisa Medéia. Ela desvia a frota de
navios que seu pai enviou cortando seu irmão em pedacinhos e espalhando-os pela água.
Perseu - que deseja destruir a Medusa - recebe de Atena um escudo, no qual pode enxergar
o reflexo do monstro. Essa ajuda, às vezes questionável em termos morais (como no caso
de Jasão) mas sempre adequada para se ter êxito na empreitada, representa o direito
divino do herói: ele será posto à prova, mas recebe bastante colaboração, e não
indiferença, para a conquista de sua meta.
A questão da fuga ou até de erro em uma primeira tentativa (como Parsifal) pode fazer
parte da história do herói. Lembro-me de um episódio bastante divertido que vi na TV há
muito tempo, no qual Bill Cosby fazia o papel de Noé. Deus o chama para avisá-lo do
dilúvio, mas Noé, longe de ser a figura correta e humilde do Antigo Testamento, o ignora,
apresentando diversas desculpas, inclusive o equivalente religioso de "Hoje não, querida,
estou com dor de cabeça". Com isso, Deus fica tão irritado e ameaçador que Noé acaba
cedendo, mas de um modo pouco gracioso. É um comportamento extremamente contrário
ao do herói, mas retrata fielmente a maneira como muitos de nós nos sentimos quando a
vida nos conclama a procurarmos recursos heroicos. No mito, o herói nunca choraminga.
Na vida real, parece que todos precisam choramingar um pouco ante a chamada. Deve ser
a voz da Lua, que se sente com pena de si mesma ao ver que somos afastados de nosso
conforto pelas demandas de nossas próprias almas. É parecido com a velha piada judaica:
Obrigado, Senhor, por fazer de mim um dos Eleitos, mas não dava para escolher outra
pessoa, só para variar?
Naturalmente, é possível a recusa absoluta em atender à chamada; nesse caso, ela
retorna sob uma forma diferente e suas provas serão mais difíceis. O progenitor divino -
que é a imagem mítica de algo que existe em nós - não vai nos deixar em paz só porque não
estamos "a fim". Conheci muita gente que tentou escapar do destino que o Sol espelha
durante uma época de movimentos importantes no mapa e pagaram caro - em algum nível-
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por terem se recusado a se tornarem elas mesmas.
Geralmente, o resultado é a depressão profunda e a sensação de fracasso de vazio. A
prova pode também passar para a geração seguinte, e os filhos e netos da pessoa podem
sofrer ao receberem assuntos solares inacabados de seus pais ou avós, assuntos esses que
devem ficar cada vez mais intensos e exigentes a cada geração que não lida com eles. A
constelação de colapsos nervosos e de sérias enfermidades físicas pode incluir formas mais
drásticas de recusa. É possível rechaçara chamada de maneira tão violenta que a pessoa se
refugia completa e autodestrutivamente no mundo lunar, atitude que deve estar
relacionada com as pessoas cronicamente "lunáticas". O mundo está cheio de gente
perdida, que se recusou a atender à chamada solar para a aventura não uma, mas diversas
vezes. Muitas delas parecem normais em termos coletivos, só que não há "ninguém em
casa", o que me recorda o poema de T. S. Eliot:

Somos os homens ocos


Somos os espantalhos
Inclinados, juntos,
A cabeça recheada de palha ...
Aqueles que atravessaram
Com olhar direto, o outro Remo da morte
Dão-nos a impressão - se não a certeza - de serem não
Almas violentas e perdidas, mas apena
Como os homens ocos
Os espantalhos.*
*T. S. Eliot, “The Hollow Men” [Os Homens Ocos] de The Complete Poems and Plays
of T. S. Eliot [Poemas e Peças Completas de T. S. Eliot] (Londres: Faber & Faber, 1969
[p. 83]; e São Francisco: HarperCollins, 1952).
Agora gostaria de retornar à questão da assistência que o herói recebe de fontes
externas, analisando-a em termos astrológicos. Essa ajuda vem de dentro de nós, apesar de
ser ocasionalmente personificada por alguém que, milagrosamente, oferece apoio ou
alguma chave Justamente na hora certa. Nos mitos, geralmente é a mãe mortal ou uma
deusa lunar, como Hera ou Artemis, que oferece essa dádiva; e ela pode refletir a sabedoria
instintiva da Lua, com a qual podemos contar em épocas de crise porque mostra como
devemos cuidar de nós mesmos. Às vezes, quem nos auxilia interiormente são os aspectos
natais amenos - dons matos ou habilidades com as quais podemos contar a qualquer
instante. Onde quer que tenhamos aspectos harmoniosos, temos aquilo que costumamos
chamar de sorte, pois estamos em harmonia interior e portanto lidamos intuitivamente,
com a vida da maneira correta. Por exemplo, uma conjunção Vênus-Júpiter no mapa natal,
à nossa disposição quando o Sol está sendo ativado por um trânsito ou progressão difícil,
pode responder a esse desafio de uma maneira otimista e esperançosa - que passa para os
outros - ou com generosidade espontânea - que faz com que os outros queiram também ser
generosos. Um trígono entre Mercúrio e Saturno pode reagir com ousadia, realismo e
conhecimento das regras do mercado, fazendo com que a pessoa evite as armadilhas que
enredam almas mais crédulas. Todos nos temos "ajudantes" em nossos mapas - planetas em
aspecto harmonioso, exaltados ou domiciliados em signo ou casa - que podem ser os
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componentes psíquicos da equipe de apoio do herói.
A ajuda costuma aparecer logo depois que o herói aceita sua chamada. É como se
alguma coisa em nosso interior, que dá bastante apoio, fosse ativada quando nos
defrontamos e aceitamos nosso próprio caminho na Vida. E ainda bastante revelador o fato
de outros deuses se envolverem embora não estejam diretamente relacionados com o
herói. Eles têm suas próprias razões para desejarem seu sucesso. Por exemplo, quando
Perseu vai a caça da Medusa, toda uma hoste de divindades participa da brincadeira.
Perseu é filho de Zeus, mas Atena lhe confere um escudo Hades contribui com o capacete
da invisibilidade e Hermes tira um par de sandálias aladas de seu chapéu de mágico. Todos
esses deuses se beneficiam com a destruição da Medusa e acho que isso sugere, em
linguagem mítica, que o herói está na verdade resolvendo um problema maior do que sua
própria busca pessoal.
Logo, o herói solar estará fazendo algo pela coletividade, apesar de acreditar que o faz
apenas por ele mesmo. No mito de Perseu, a Medusa simboliza mais do que um dilema
pessoal. Ela é um problema da psique coletiva, uma herança humana e universal do rancor
e do veneno que geram uma depressão paralisante em meio a famílias ,grupos sociais e até
nações. Ao que parece, os deuses não conseguem cuidar direito de seus próprios negócios,
e por isso precisam de um herói que faça o serviço por eles. Assim, o inconsciente coletivo
depende da autenticidade de cada indivíduo para cumprir seu desígnio maior. Podemos
vislumbrar os vínculos entre o herói solar, o sacerdote que fala da sabedoria e das
intenções dos deuses, o artista que representa o papel de voz profética da sociedade e o rei
que personifica a vontade divina por meio da autoridade mundana. São todas imagens
míticas da função mais profunda do Sol, o qual tornando-se o canal para a autêntica auto-
expressão da pessoa, inevitavelmente transmite algo à psique maior da qual provém o
indivíduo. Mas o herói deve realizar sua tarefa pelo fato de ser impelido de dentro para
fora. Se o faz apenas para agradar os outros, por mais humanitário que deseje parecer, vai
acabar encrencado porque não está sendo sincero consigo mesmo. Ele deve encetar sua
busca por ser pressionado a ela por sua necessidade interior, não porque isso fará com que
as outras pessoas o amem. Contudo, no ato de se tornar um indivíduo ele está dando uma
contribuição aos demais. Por aí você pode ver que o Sol é profundamente paradoxal.
Quando nos tornamos nós mesmos, temos muito mais a oferecer do que se nos
esforçássemos para tentar salvar o mundo como forma de compensar um vazio interior.
O herói acaba atingindo aquilo que Campbell chama de Travessia do Limiar.
Geralmente, alguma coisa desagradável o aguarda aí, tentando impedi-lo de atingir a meta
de sua jornada. O dilema da Travessia do Limiar reflete um conflito básico de vida em nós.
Ele pode ser descrito por meio de diversos fatores do mapa astral. Até o signo solar pode
retratar um conflito inato, pois há tanto fraquezas como valores em cada signo zodiacal.
Aspectos difíceis com o Sol podem sugerir obstáculos interiores, embora projetados para o
exterior, que parecem nos impedir de crescer. Saturno também pode descrever - por signo,
casa e aspecto – a natureza da Travessia do Limiar, pois ele retrata a reação defensiva, o
medo e a relutância em nos revelarmos ao mundo. Quando analisarmos um mapa de
exemplo, mais tarde, vamos entender como outros planetas podem estar ligados aos
diversos personagens da história do herói solar.
O mito descreve algumas das formas típicas assumidas pelo inimigo na Travessia do
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Limiar. Geralmente, o oponente é um irmão sinistro, uma personificação do lado sombrio,
destrutivo ou amoral do próprio herói. Às vezes, o inimigo é uma mulher, a madrasta ou
bruxa malvada, e aqui encontramos a deusa lunar num disfarce bem pouco maternal. Isso
reflete uma situação na qual as necessidades instintivas, enraizadas na família e no
passado, lutam contra o desenvolvimento do indivíduo Independente. Às vezes, a ameaça
vem de um gigante ou monstro; são imagens de instintos grandes, cegos e primitivos. Um
bom exemplo e o herói Siegfried, que precisa matar o gigante Fafner, que tomou a forma
de um dragão antes de poder atravessar o anel de fogo e encontrar Brunhilda. Esse gigante
personifica toda a inércia, apatia e conservadorismo retrógrado dos instintos, que resistem
a qualquer forma de mudança ou transformação, em maior ou menor grau, ele existe em
todos nós.
O dragão também pode ser visto como uma imagem lunar. É uma criatura de sangue
frio, arcaica, um retrato da ourobórica mãe primitiva na forma de uma imensa cobra alada.
Muitas vezes, a mãe pode ter essa imagem para a criança, pois ela ainda é a toda-poderosa
dispensadora da vida e da morte. No limiar, a cobra-dragão pode personificar a aparência
que a Lua tem para o herói que ainda não cresceu. Nos mitos, a Lua não toma apenas a
forma de deusas: ela é também a serpente cósmica hindu, Ananda, a Grande Ronda do
útero, auto-fertilizante e geradora do mundo. Nossos Conceitos ancestrais da mãe
abrangem um amplo espectro da experiência, indo desde a benigna Deméter dos gregos
até a babilônica Tiamat, devoradora dos filhos.
Assim, o herói solar deve enfrentar a cobra-mãe, tal como Osíris - o deus egípcio do Sol
- fazia todas as noites ao descer até os infernos Na infância e adolescência, atingimos a
primeira quadratura de Saturno aos 7 anos e a primeira oposição Saturno-Saturno aos 14.
Nessas épocas, dá-se um grande conflito entre o anseio pela volta ao útero e o ímpeto de
se separar e de se tornar um indivíduo. O processo da adolescência reflete esse conflito e,
geralmente, as crises e doenças que afligem estudantes universitários refletem a terrível
colisão entre as necessidades lunares e as solares. Quando estamos lutando para nos
libertarmos das garras de nossa necessidade da mãe, também podemos senti-Ia como um
dragão. Portanto, a Travessia do Limiar é também um retrato da puberdade e da
adolescência, com seus conflitos familiares típicos. Recebemos, como entidades solares, um
forte condicionamento, e sabemos que a atração pelo passado e uma espécie de morte;
contudo, não temos força para enfrentar essas necessidades retrógradas sem uma luta
violenta.
Erich Neumann, em História da Origem da Consciência* dá a esse estágio de
desenvolvimento o nome de "Lutador". Apesar de ser um estágio arquetípico da Juventude
e um estágio inevitável da jornada do herói solar, pode ser também o lugar ao qual seremos
compelidos a retornar mais tarde na vida caso o Sol tenha permanecido subdesenvolvido.
Para o Lutador, tudo parece uma batalha, e o feminino - seja a mãe de fato, os laços
familiares, as emoções, mulheres, substitutas maternas no trabalho ou o próprio corpo
mortal - não é visto com bons olhos. Podemos compreender certos campos de batalha dos
adolescentes sob esse prisma, tal como a anorexia nervosa, pois a rejeição violenta de
comida é o repúdio violento à mãe. Ela é um dragão e deve ser derrotada. Ainda não há a
possibilidade de um relacionamento genuíno, pois ainda estão muito próximos. Nesse
estágio inicial da emergência do Sol, há uma profunda ambivalência e muita gente fica
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parada ali no limiar, combatendo a mãe-dragão durante toda a vida. Creio que todos
conhecem bem a sensação de estarmos presos entre a necessidade de sermos amados e
queridos e a necessidade de sermos leais a nossos próprios valores. A luta com o dragão
tem muitos níveis emocionais e pode ocorrer sempre que nos defrontamos com esse
conflito interior. Do ponto de vista solar, nesses momentos a Lua destrói a vida e deve ser
subjugada. Além disso, ocasiões em que é adequado nos sentirmos assim e agirmos de
acordo mesmo que o dragão conquistado possa surgir novamente mais tarde, usando o
disfarce de noiva do herói.
*Erich Neumann, História da Origem da Consciência. [The Origins and History of
Consciousness] (São Paulo: Cultrix, 1990).
Um dos mais antigos mitos que descrevem a luta contra o dragão e o mito babilônico
da criação, ilustrado como uma batalha entre o deus solar Marduk e sua mãe, Tiamat.
Tiamat, o oceano de água salgada, e a personificação da mãe primitiva e criadora do mundo
na forma de um monstro marinho. Ela é tanto aquela que dá a vida como a garra da morte
que devora tudo o que cria. Esse mito é um antigo retrato de nossos primeiros contatos
com o útero e com o processo de nascimento e separação, que tanto ameaça a vida. No
início dos tempos, antes de existir qualquer universo manifestado, Tiamat e seu consorte
Apsu (o oceano de água doce) continham todos os deuses menores, seus filhos. Tiamat fica
entediada e zangada com sua barulhenta prole e planeja liquidá-la. Mas seus filhos
descobrem o plano e Marduk - o deus-Sol, o mais forte e corajoso dentre eles - mata seu
pai Apsu e desafia Tiamat para um embate mortal. Ele arremessa suas setas flamejantes
contra a garganta dela, a destrói e com seu corpo cria a cúpula do céu e a terra. Assim, fez-
se o mundo manifestado.
Essa história antiga é um retrato cruel do processo do indivíduo solar que emerge das
sombras do útero e do inconsciente coletivo. Tal como nos sonhos, podemos imaginar que
todos os personagens dos mitos estão encenando sua história dentro de nós. Tiamat e
Marduk ainda estão bem vivos dentro da criança e do adulto que ainda lutam com o
problema da separação da mãe. Marduk, o princípio solar, deve combater a atração
retrógrada de sua própria fome lunar, e enquanto durar esse conflito, as necessidades da
natureza instintiva são sentidas como sendo amargas (água salgada), monstruosas e
ameaçadoras para a Vida. Sua vitória tem como resultado a confecção do mundo, o que
pode ser uma outra maneira de descrever a formação da realidade individual. Mitos são
imagens de sentimentos, são padrões de desenvolvimento e você talvez reconheça o
estágio de desenvolvimento descrito pela história Marduk-Tiamat: é nossa batalha
permanente contra a inércia, a apatia, a estagnação e o vício, e em escala menor,
experimentamo-la em ninharias cotidianas como a manutenção de uma dieta, de um
programa de ginástica ou de algum estudo complexo. Também a observamos na luta que é
sair de um relacionamento ou casamento insatisfatório porém compulsivo, de um emprego
seguro mas anulador ou de uma família confiável mas devoradora. Marduk é a voz do "Eu
sou", e apesar da unidade com a mãe oceânica ter sido destruída, é substituída pela criação
da realidade individual e de valores individuais.
Em alguns mitos, a Travessia do Limiar não é a luta com o dragão; ela envolve a
própria morte do herói, antes de uma transformação ou ressurreição. É o caso de Dionísio e
de Jesus, ambos destruídos e que só podem assumir suas verdadeiras formas como
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salvadores divinos através de tal desmembramento ritual. Nessas histórias, o herói se
submete a grandes sofrimentos que consomem seu aspecto mortal. Esse processo, na
realidade, é o mesmo que o da briga contra o dragão, mas é visto sob uma perspectiva
diferente, mais sofisticada. No antigo conto de Marduk e Tiamat, e a mãe-dragão que passa
por sofrimentos e desmembramentos, enquanto Marduk só experimenta a vitória. Nas
histórias de Dionísio e de Cristo, o próprio deus experimenta o sofrimento, pois a mãe-
dragão e seu próprio corpo que deve ser transformado ou libertado do jugo do apego.
Instintivo. Podemos ver aqui uma espécie de processo evolutivo; nos mitos posteriores, o
significado mais profundo da luta com o dragão é revelado.
A luta com o dragão é uma representação nobre, heroica no sentido grandioso. Sua
imagem ainda nos toca e ressurge permanentemente no cinema em filmes como Alien, para
não falar dos épicos da Casa Hammer de Horrores, onde o herói combate lobisomens, vampiros,
fantasmas e duendes do mundo infernal de Hécate. Contudo, a experiência interior e
mesmo um tipo de desmembramento ou crucificação, pois sofremos quando nos.
separamos. Entra sempre em jogo o problema do sofrimento - solidão, isolamento, culpa e
a inimizade dos outros - quando o Sol começa a emergir. Se negarmos esse processo de
sofrimento vamos sempre necessitar de um dragão externo para podermos projetar sobre
ele nossa própria dor.
A imagem mítica da crucificação é um dos mais fortes símbolos de nosso isolamento e
alienação na cruz saturnina da matéria. Nesse estado, somos criaturas sem pais,
abandonadas. Não há um lar para onde voltarmos, não há um colo reconfortante para nos
aninharmos não há grupo ou coletividade que possa nos oferecer um paliativo. Esse é o
estado nu e cru do "Eu sou”, que pode nos explicar a razão pela qual o Sol emerge de fato
na meia-idade, quando a pessoa está suficientemente forte e formada para enfrentar o
desafio. O problema da solidão, que sempre acompanha qualquer manifestação do "self"
individual, é o significado mais fundo da Travessia do Limiar no mito do herói. Essa questão
permeia maiores ansiedades, a perda e a separação, pois há sempre o risco de que, ao
emergirmos, ninguém possa nos amar. Assim, a batalha com o gêmeo sinistro, a luta com o
dragão e o desmembramento ou crucificação constituem imagens do ato de suportarmos o
fardo de nosso "self" separado, o qual é o primeiro estágio importante da jornada solar. O
herói está então equipado para sair em busca do verdadeiro objeto de sua Jornada, pois
provou que pode subsistir com seus próprios meios.
Agora, podemos explorar essa jornada "real", o prêmio ou tesouro que aguarda o
herói após tantos ordálios. Geralmente, o premio é mesmo um tesouro - ouro ou joias, a
água da vida, o domínio de um reino, o dom da cura ou da profecia. É uma meta altamente
individual, mas é sempre algo de grande valor para o herói. O Sol, corporificando o herói
mítico, luta pela recompensa final, um núcleo indestrutível de identidade que justifica e
convalida a existência. O herói e seu prêmio são, na verdade a mesma coisa. O tesouro é o
núcleo essencial do herói, seu lado divino que sempre esteve oculto em seu corpo mortal.
Isso pode soar terrivelmente abstrato. Mas o sentido inerente a sermos um "eu" real, sólido
e indestrutível é uma coisa muito preciosa e mágica, além de ser obtida a duras penas.
Todas as situações de vida em que somos chamados a nos separarmos de algo e a
defendermos nossos valores e metas forjam um pedaço desse "eu" e sofremos 'por ele a
cada vez, já que a eterna mãe-dragão deve ser combatida repetidamente em seus diversos
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disfarces.
Às vezes, o tesouro do herói é uma noiva, e o hierosgamos, o matrimonio sagrado, é o
fim da jornada. O herói divino está totalmente unido à sua outra metade, sua humanidade,
na forma de uma mulher. Depois, ele cria uma dinastia, da qual descendem reis e rainhas
famosos, todos com um pouco do sangue dos imortais por descenderem do herói divino.
Em épocas pagãs, muitos governantes diziam possuir esse sangue divino. Júlio Cesar, por
exemplo, afirmava que descendia diretamente da deusa Vênus por meio do filho desta, o
herói Enéias, fundador de Roma. Se você leu The Holy Blood and the Holy Grail,* sabe que existe
na França uma sociedade secreta.que acredita que seu postulante ao trono francês
descende de Jesus, que teria se casado com Maria Madalena. Como o tema da descida do
deus através do herói semidivino é arquetípico, até hoje é um símbolo poderoso.
*Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, The Holy Blood and the Holy Grail [O Sangue
Sagrado e o Santo Graal] (Londres: Jonathan Cape, 1982; e Nova York: Dell, 1983).
Um aspecto do matrimônio sagrado e da fundação da dinastia é, ao que parece, a
instalação da semente divina na vida mortal através da continuidade das gerações. Há
descendentes que portam o sangue do herói ao longo o tempo, o que significa que ele vive
para sempre por meio de sua linha hereditária. O que esse símbolo pode representar para
nós em termos psicológicos? Talvez reflita o impulso solar de criarmos alguma coisa que
sobrevive à nossa própria existência. O arquétipo masculino do desejo por um filho varão
expressa o nível mais básico e biológico desse impulso. Mas há também os níveis interiores.
Se vivenciamos o Sol da maneira mais completa, podemos ter a sensação de que
garantimos nosso quinhão na eternidade, uma vez que oferecemos algo de valor duradouro
ao coletivo. Demos algo de nossas próprias vidas para a vida. A casa 5, a dos filhos, é regida
pelo Sol, que oferece sua essência ao futuro para poder vivenciar o reino do eterno. A Lua
tem sua própria necessidade instintiva de gerar filhos, mas ela reflete a continuidade
natural da vida na Terra. O anseio solar pela progênie reflete a busca da imortalidade.
Para muitas pessoas porém, os filhos não são o único canal pelo qual o impulso solar
pode se manifestar. Apesar de serem talvez o nível mais "natural", alguns indivíduos
preferem não ter filhos, ou não podem tê-los. Nesse caso, torna-se extremamente
importante encontrar outra dimensão para o impulso solar. No mapa, a casa 5 reflete o
anseio do artista em criar algo indestrutível - um filho interior ou imaginário que vai
sobreviver a seu criador, levando sua contribuição na forma de sua essência e visão para as
gerações vindouras. Conheço pessoas que concretizam esse impulso plantando árvores.
Elas sabem muito bem que não estarão mais vivas quando as árvores estiverem maduras,
mas esse ato lhes dá a sensação de que estão transcendendo o tempo. Assim, o matrimônio
sagrado que gera uma dinastia é um poderoso símbolo da necessidade solar de dar ao
futuro uma pequena porção de sua essência divina.
Outra imagem da meta do herói é a reunião com o pai, ou sua redenção. Uma das
histórias que melhor ilustra esse tema é a de Parsifal, o tolo sagrado que sai à procura do
Graal. A descoberta do Graal é apenas um aspecto de sua jornada; a redenção do pai
sofredor, o rei doente do Graal, é o outro. Isso nos leva à questão do Sol como símbolo
daquilo que herdamos do pai pessoal. Se quisermos vivenciar plenamente o Sol, devemos,
nas palavras do I Ching, "trabalhar com aquilo que foi arruinado pelo pai", dando nova vida a
essas coisas. No mito, o pai doente ou ferido é uma imagem da decadência espiritual, da
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perda da esperança e da fé. Nesse contexto, é interessante levar em conta Jung, cujo Sol
estava em Leão e foi impelido a redimir a fé perdida de seu pai, que era sacerdote,
trazendo nova vida aos símbolos cristãos. O livro Resposta a Jó, de Jung, despertou bastante
confusão e até hostilidade quando foi publicado, mas é uma brilhante análise do problema
da redenção do pai, que no caso de Jó é o próprio Deus.* A tese se Jung é,
simplificadamente, que a encarnação de Cristo vem do fato de Deus Pai ter feito uma
mixórdia com Jó. O relacionamento da divindade paternal com a humanidade é errôneo e
desprovido de compaixão, e Deus admite que precisa ser redimido através do sofrimento
de Jesus, seu único filho. Assim como a Lua representa a substância essencial que
partilhamos com nossas mães no nível instintivo, o Sol reflete a visão essencial que
partilhamos com nossos pais no nível criativo e que só pode dar frutos adequados após
muitas gerações de busca solar.
*Carl Jung, Resposta a Jó. (Petrópolis: Vozes).
Por vezes, o prêmio do herói é um elixir que precisa ser furtado. Esse elixir pode conferir
a imortalidade, dons proféticos ou de cura, ou então pode salvar o reino. O tema do elixir
furtado surge com grande regularidade em contos de fadas e em mitos como o de
Gilgamesh, na Babilônia, que furtou um ramo da Árvore da Imortalidade, ou como o de
Prometeu, que furtou o fogo sagrado de Zeus, ou ainda o de Jasão, que furtou o Velocíno
de Ouro. A substância mágica costuma estar nas mãos de um monstro, dragão, feiticeiro ou
bruxa, e o herói deve surrupiá-la e trazê-la de volta para o mundo mortal. A natureza ilícita
da tarefa do herói é um tema muito interessante e devemos estudá-lo mais atentamente,
pois ele pode nos explicar melhor os conflitos e dilemas inatos inerentes à expressão do
Sol.
Tenho falado da solidão e da inimizade do coletivo como os equivalentes emocionais dos
perigos com que o herói se defronta em suas lutas. A questão da culpa (e do medo de
represália que a acompanha) em torno do furto do elixir é outro aspecto importante da
jornada solar. Há algo de ilícito em nos tornarmos nós mesmos, pois para isso é preciso
tomar algo da psique coletiva, algo que era de propriedade do inconsciente coletivo. Esse
dilema pode muito bem se disfarçar em trajes políticos, apesar de encontrarmos a essência
de todas as ideologias políticas, no final das contas, nos indivíduos que as formulam.
Quanto mais separados nos sentimos, tanto mais temos a sensação arquetípica de culpa.
Em inglês, a palavra guilt, "culpa", provém de uma raiz anglo-saxônica que significa "dívida". E
a profunda sensação de renúncia inerente a uma dívida - para com a mãe, a família e o
coletivo - é ativada por qualquer ato individual de criação que nos separa de todos eles.
Trabalhei com muitas pessoas que têm medo de expressar os potenciais que elas sabem
ter; em algum nível, elas receiam a separação da psique familiar que essa atitude de auto-
expressão provocaria. Na luta com o dragão, é muito importante sermos suficientemente
livres para ultrapassar o círculo familiar, especialmente se nossos pais foram bloqueados,
reprimidos e paralisados em suas próprias vidas. É melhor ficar onde estamos, não importa
quão frustrados, e saber que o cordão umbilical mágico não se rompeu. Afinal-diz-nos a voz
coletiva interior -, quem eu penso que sou? Que direito tenho eu de me transformar em
algo que meus pais jamais puderam ser, depois de tudo que sacrificaram em meu
benefício? Assim, a expressão do Sol é cercada de considerável dose de culpa, pois ela
implica o furto de um elixir que pertence ao coletivo - apesarde não estar sendo usado. O
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elixir não pode fazer nada a nível coletivo enquanto não surge o herói que sabe o que fazer
com ele. Contudo, o fato de um indivíduo possuí-lo significa que, ao menos inicialmente,
alguma coisa está sendo retirada das massas. É claro que uma das tarefas do herói no final
da história consiste em dar em troca alguma coisa para o coletivo. Mas isso não ameniza a
sensação inicial de pecado. No ciclo do Anel de Wagner, o gigante-dragão que guarda o
ouro e o anel dos nibelungos não quer nada com esses bens. Ele fica dormindo sobre seu
tesouro e o faria por toda a eternidade. O ouro solar é um potencial humano, comum a
todos nós; contudo, se ficar enterrado no inconsciente, ficará sempre como “potencial".
Faz-se necessário um indivíduo que torne o elixir uma realidade concreta. Contudo, ao fazê-
lo comete um furto e o herói sofre por isso. Assim, o herói deve retornar como alguém que
traz a cultura, pagando sua dívida. Creio que a etimologia é sempre algo interessante, pois
ela costuma nos apresentar o significado ou chave de uma palavra que, normalmente,
tomamos por líquido e certo. A palavra redimir vem da mesma raiz que resgate - comprar de
volta, recomprar. Assim, o herói deve se tornar o redentor de seu povo, pagando a dívida
que contraiu quando furtou o elixir. Ele não pode usá-lo só para si. Ele tem dívidas para
com a psique coletiva e deve criar algo original em troca. A culpa é a face sombria do
altruísmo e vamos sempre encontrá-la ao lado do impulso de redimir, o que constitui um
poderoso motivo inconsciente nas profissões ligadas à ajuda.
Encontramos o mesmo tema na história bíblica de Adão e Eva, pois eles também eram
personificações do herói solar. A maçã que dá o conhecimento do bem e do mal é fruto da
consciência, que acaba sempre nos separando da fusão com a mãe e com o coletivo. Adão
e Eva tinham furtado algo que antes só pertencia a Deus, um elixir que aguardava ser
colhido e comido na árvore, e por esse pecado foram banidos do Paraíso. Ademais, só
podem voltar quando o herói-redentor solar aparece- na forma de Cristo - para pagar a
dívida deles. Quando o Sol começa a brilhar, não podemos voltar a cruzar os portais do
Paraíso, a menos que também possamos descobrirem nós o estofo de que é feito o
redentor que pode resgatar nosso débito. Infelizmente, costumamos tentar descobrir esse
redentor do lado de fora.
Assim, o furto do elixir é um profundo rito de passagem, e uma vez consumado, as
coisas não podem voltar ao que eram antes da Queda. Só podemos ir para a frente e usar o
elixir, que na verdade é nossa própria preciosa unicidade. Mesmo se recuarmos um pouco e
regredirmos de vez em quando sob trânsitos pesados de Netuno, não podemos desfazer
aquilo que foi feito, pois, sob a luz do Sol, a fantasia da fusão deve cessar. Há ainda o medo
da represália, e o herói deve tentar se salvar depois de furtar o elixir, com todas as legiões
de guardiões zangados em seu encalço. A ameaça de represália também não é mera
paranoia pois o coletivo retruca de fato, o que pode ser visto claramente na variação da
dinâmica familiar quando um indivíduo se liberta de uma unidade familiar solidamente
interligada. Isso também pode ser visto em grupos políticos, religiosos e profissionais
quando um dos membros expressa uma opinião excessivamente original ou tem maior
sucesso criativo ou financeiro do que os outros membros. O mito antigo se desenrola
externamente a nós enquanto não percebemos que todos os seus personagens estão
dentro de nós.
Mais cedo ou mais tarde, o herói deve retornar, o que não é mais simples do que seu
processo de saída. Ele deve passar pela Travessia do Limiar mais uma vez, com o elixir ou a
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noiva (ou ambos), e regressar à vida comum. Como o mito do herói não acontece apenas
uma vez em nossas vidas, repetindo-se diversas vezes em níveis variados, esse difícil
processo de retorno acompanha cada ato de criação e de triunfante auto-concretização. Às
vezes, o retorno causa um período de depressão, pois a realidade mundana contrasta
dolorosamente com as grandes tarefas interiores com que estivemos ocupados. Às vezes, o
herói precisa ser salvo por seus ajudantes no último estágio da busca. Ele deve se defrontar
com mais um dragão ou bruxa (naturalmente, os mesmos) que bloqueia o caminho de
volta. E, às vezes, ele sequer deseja voltar. O temperamento ígneo, que se aplica a Leão,
regido pelo Sol, bem como a Áries e Sagitário, pode ter mais dificuldade para retornar à
vida cotidiana do que os outros, pois esta lhe parece muito maçante e o herói pode já estar
planejando sua próxima jornada antes do término da anterior.
Não é possível olharmos para um mapa astrológico e dizer, "Ah, aqui está a história de
Teseu e do Minotauro, esse é seu mito heróico". Todos os estágios da jornada do herói são
relevantes para todas as pessoas em algum momento de suas vidas, apesar de poder haver
alguma ênfase em um tema específico. Por exemplo, percebi que Gêmeos tende a se
encontrar repetidamente com o gêmeo sombrio que se manifesta de diversas maneiras,
enquanto Escorpião prefere se defrontar com dragões. Mas esses motivos podem refletir
outros fatores do mapa, tais como uma conjunção Lua-Plutão ou um Ascendente em
Gêmeos, e eles se entrelaçarão com os temas da posição do Sol. Também devemos nos
lembrar de quê, cedo ou tarde, todos os planetas em trânsito farão aspecto com o Sol, que
em progressão formará aspecto com muitos planetas ao longo de uma existência. Todos
chegamos a saber o que significa nos sentirmos como outra pessoa, mais cedo ou mais
tarde. E, como disse antes, empreendemos a jornada do herói muitas vezes e em muitas
formas diferentes - algumas tão pequenas que se completam no decorrer de uma semana
ou mesmo de um dia. Assim que damos um passo na direção da consciência ou do
autodesenvolvimento, surge outra chamada para a aventura, e lá vamos nós de novo. Na
verdade, nós nunca chegamos a concluir o processo do Sol.
O signo natal do Sol é teoricamente o mais básico dos fatores astrológicos, e costuma
ser interpretado no nível do caráter. Mas ele também pode nos dizer muito acerca de um
dos principais temas da jornada do herói. Cada signo se relaciona com um conjunto de
figuras míticas e tem ainda um regente planetário, uma divindade que o preside e que
apresenta seu próprio conjunto de histórias. O regente planetário do signo solar pode nos
dar "insights" sobre o deus que engendra o herói, pois esse planeta, mais até do que o
regente do Ascendente, descreve os potenciais interiores especiais que devemos descobrir
e desenvolver. O regente do mapa pode nos dar informações a respeito daquilo que a vida
pode exigir de nós e, em combinação com o próprio Ascendente, pode descrever os tipos
de situações que o herói vai encontrarem sua jornada. Mas o regente do Sol é a divindade
que nos preside; e o herói e seu prêmio são, no final das contas, a mesma coisa.
Podemos ver o signo solar da perspectiva do papel que somos conclamados a
representar na vida e da contribuição única que podemos fazer quando descobrimos um
canal individual para essa energia arquetípica. Por exemplo, se você nasceu em Gêmeos ou
Virgem, seu regente solar é Mercúrio. Em uma leitura em nível de caráter, você pode dizer,
“Sou geminiano, e por isso sou comunicativo, inteligente, versátil e me entedio com
facilidade". Ora, o que aconteceria se pensássemos em Hermes? Qual é o seu reino? Que
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esferas da vida governa?
Hermes tem muitos mitos, desde o furto do gado de Apolo e da invenção da lira até
seu papel como psicopompo, mago e mensageiro dos deuses. Você vai conhecer muitas
outras coisas sobre Hermes quando Howard expuser um panorama mítico mais amplo para
o planeta Mercúrio.* Em síntese, Hermes é o deus das estradas. Ele governa os caminhos e
meandros, as rotas de interligação entre diferentes domínios ou níveis da psique. Ele rege o
peregrino e o mercador, pois ele não é deste ou daquele lugar e viaja por todas as partes,
falando todas as línguas e negociando em qualquer moeda. Ele é um negociador e um
mensageiro sem ambição própria, servindo aos propósitos dos outros deuses e a seus
próprios caprichos fugazes. Todos os seus âmbitos de atividade envolvem alguma forma de
troca ou de comunicação. É possível ver essa figura como a imagem de um daemon
particular, uma chamada ou destino que, na vida comum, precisa de veículos
individualizados.
*A discussão sobre Mercúrio aparece no volume seguinte desta série: Liz Greene e Howard
Sasportas, The lnner Planets: Building Blocks of Personal Reality, Volume 4 de Seminars in
Psychological Astrology (York Beach, ME: Samuel Weiser, 1992
Há outros mitos que tratam do signo de Gêmeos e eles também serão relevantes em
termos da chamada ou destino do indivíduo geminiano. O mito geminiano mais conhecido
é o dos Gêmeos, Castor e Pólux (ou Polideuces), dos quais um é divino (filho de Zeus) e o
outro mortal. Um dos temas característicos da heroica Travessia do Limiar, como vimos, é o
confronto com o gêmeo sombrio. Esse motivo específico costuma surgir literalmente da
infância dos geminianos por meio de um relacionamento competitivo e difícil com um
irmão ou irmã que pode até ser mesmo seu gêmeo. Ou então o tema pode se expressar
como um padrão específico de amizades. A questão da rivalidade com os irmãos, seja
literal ou seja metafórica, tende a ocorrer muitas vezes na vida de muitos geminianos. No
entanto, podemos ouvir Gêmeos dizer, o tempo todo, "Oh, eu não sou competitivo, não fiz
nada para provocar essa situação, é meu irmão/irmã/amigo que começou toda a
encrenca", Mas a batalha com o gêmeo sombrio é a história do confronto com nosso
próprio lado sombrio e as pessoas a quem Gêmeos impinge essa imagem mítica são, na
verdade, portadoras de aspectos ocultos nele mesmo.
Os temas míticos refletidos pelo signo solar e por seu regente são extremamente
ricos. Eles descrevem alguns dos principais padrões arquetípicos por detrás do
desenvolvimento da pessoa como indivíduo. E o que você diria dos dois signos regidos por
Vênus, Touro e Libra? Pode tentar abordá-los sob o ponto de vista mítico, em vez de
analisá-los como traços de cará ter?
Audiência: O regente mítico é Afrodite. Ela é a deusa do amor.
Liz: Ela é a deusa de um tipo específico de amor. Todas as divindades femininas lidam
com algum tipo de relacionamento. Afrodite rege um domínio muito específico.
Audiência. Beleza.
Liz: Ela é parte de sua função; ela corporifica e preside a criação da beleza, harmonia e
prazer. Seu amor é o amor erótico, com raízes no prazer sensual e no deleite estético. Ela
não cuida dos vínculos matrimoniais ou familiares. Platão descreveu o amor como a paixão
despertada pela beleza, o que descreve muito bem o amor de Afrodite. O amor venusiano
não é aquele que se sacrifica, como o de Netuno, nem cuida da fusão, empatia ou
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segurança. O princípio de Vênus é o da autogratificação, em todos os níveis. Por meio de
Libra, Vênus dá prazer à mente em seu anseio por um mundo perfeito e harmonioso; por
meio de Touro, Vênus dá prazer ao corpo em seu anseio pela satisfação dos sentidos e pela
beleza concreta. Se você é de Libra ou de Touro, essa deusa caprichosa é sua divindade
governante e deseja receber veículos apropriados à sua natureza que lhe permitam
expressar-se de maneira criativa no mundo.
As relações convencionais de características de personalidade usadas para descrever o
signo solar podem, até certo ponto, ajustar-se a algumas pessoas; geralmente, porém, não
se ajustam nem um pouco, a ponto do leigo, confuso, presumir que a astrologia não
funciona. Já ouvi muita gente dizer, com razão, que não se "comporta" como a descrição
corriqueira de seu signo solar. Não basta que digamos "Bem, há outros fatores mais fortes
em seu mapa". O Sol é o Sol, afinal, o centro do mapa e do sistema solar. Tem de estar
escondido em algum lugar. No entanto, se pudermos entender que o Sol descreve um
processo, não um conjunto de Padrões de comportamento, e se pudermos compreender o
núcleo do impulso interior de cada signo (que é aquilo que os mitos retratam), talvez
sejamos bem mais úteis para um cliente que está lutando para expressar sua
individualidade. Talvez não nos "comportemos" como nosso signo solar, mas somos esse
signo, no sentido mais profundo da palavra. O regente do Sol é nosso progenitor divino e,
se esse anseio interior é desvirtuado ou reprimido, isso será equivalente a nos recusarmos
a atender à chamada mítica.
Se o regente do Sol não pode se expressar e se a pessoa não tem capacidade para
reconhecer o parentesco divino, o herói nunca cresce. Ele não atende à chamada para a
aventura e continua sendo sempre urna criança psicológica, não-formada e não-iniciada. Na
verdade, não há nada nela. Agora, você pode estar pensando nos signos regidos por
Saturno, Capricórnio e Aquário. Que tipo de divindade governante ele é?
Audiência: Mas não é Urano o verdadeiro regente de Aquário?
Liz: Tanto Saturno como Urano regem Aquário e nenhum dos dois é mais "verdadeiro"
do que o outro. Uma faceta da complexidade de Aquário é que seus dois regentes têm
certa animosidade mítica recíproca. Urano expulsa Saturno (Cronos) para o mundo
subterrâneo, Saturno castra seu pai e lhe rouba o trono como vingança. Essa é uma
dinâmica psicológica, uma colisão entre ideal (Urano) e real (Saturno) que tende a se
repetir de diversas maneiras ao longo da vida do aquariano. Contudo, para nos
concentrarmos em Saturno no momento, quem é esse deus? Qual sua função?
Audiência: Trabalhar de modo eficiente.
Liz: Essa é uma forma de defini-lo. Contudo, o trabalho eficiente é, na verdade, um
traço de seu caráter, não a essência desse deus. Saturno cria formas e estruturas. No mito,
ele é um Titã, um deus terrestre que governa a produtividade da terra. Ele personifica as
leis que regem o crescimento das plantações - não a receptividade fecunda do solo, mas as
estruturas imutáveis que definem a mudança das estações e ditam o ritmo do plantio e da
colheita. Ele diz aos seres humanos como obedecer às leis da natureza para poderem
sobreviver e prosperar.
Audiência. E sua destrutividade? Qual é a razão para a castração e para que tenha
engolido seus filhos?
Liz: São as consequências inevitáveis de sua função. Se você toma uma ideia ilimitada
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(Urano) e a une a uma estrutura formal, estará destruindo suas infinitas possibilidades
futuras. Você a terá privado de sua fertilidade e agora ela estará limitada pelas escolhas
que você fizer. Uma pessoa pode sonhar com um belo jardim, semelhante ao do Éden,
cheio de plantas luxuriantes florindo o ano inteiro. Na verdade, nada floresce sem cessar, e
o jardineiro deve respeitar não apenas as leis imutáveis das estações como também as
lesmas, os pulgões, as pragas, o mofo e o gato do vizinho. Você já escreveu um ensaio, uma
história ou um livro? Você começa com uma ideia e ela prolifera em sua mente. Você pode
fazer com ela um monte de coisas enquanto ela só existe no nível mental. Você pode até
imaginar-se recebendo o Prêmio Nobel de Literatura. No entanto, quando passa sua ideia
para o papel na forma de palavras e termina seu ensaio limitando-se ao número de laudas
que lhe impuseram, você a terá castrado. É o fim de sua ideia. Você pode escrever outro
ensaio sobre uma ideia similar, mas ele será diferente. Percebe que a materialização limita
e castra a ideia original, ao mesmo tempo em que a torna real e permanente? Saturno
engolindo os filhos é uma imagem semelhante. No mito, Saturno o faz porque foi avisado
de que um de seus filhos irá destroná-lo. Há sempre a possibilidade de que o ignoto futuro
destrua qualquer estrutura que construamos hoje. Saturno engole esses perigosos
potenciais futuros (seus filhos) porque eles são desconhecidos e ameaçadores para sua lei.
O tom-sentimento destrutivo dessas imagens de castração e de engolição descreve a
aparência do processo de encarnação sob o ponto de vista uraniano ou jupiteriano.
Entretanto, Saturno também era o deus da Era de Ouro da humanidade, quando a terra era
fértil, produtiva e todos viviam felizes sob a lei divina. Se você é regido por Saturno, é
importante entender as coisas sob o ponto de vista dele.
Audiência: Pelo que entendo, é o Ascendente que descreve esse tipo de jornada de que
você está falando.
Liz: Tal como você, também vejo o Ascendente como um padrão de desenvolvimento.
Mas ele não parece descrever o núcleo essencial do caráter tão bem como o Sol. O
Ascendente é como um guia que nos acompanha em nossa jornada pela vida e que nos leva
a aprender certas lições ou atributos para nos ajudar a nos tornarmos aquilo que é simbolizado pelo Sol.
Se eu procurasse uma imagem mítica para descrevê-lo, escolheria um herói como Teseu e
veria sua jornada (matar o Minotauro para redimir o reino) como o desdobramento de sua
essência (o Sol); antes, porém, ele deve desenvolver certas habilidades para levar a cabo
sua tarefa. Se você leu a maravilhosa novela de Mary Renault sobre o mito de Teseu, The
King Must Die [O Rei Deve Morrer], verá que ele recebe uma espécie de treinamento antes de
atingir seu objetivo.* Ele deve sofrer a humilhação da escravidão para aprender a controlar
sua fúria; ele deve aprender a arte da dança dos touros para disciplinar seu corpo; e deve
desenvolver a diplomacia e a estratégia para se tornar um bom líder para seu povo. Na
novela, ele é um herói típico de Áries, mas seu Ascendente deve ser Capricórnio. Creio que
o Ascendente reflete o treinamento específico a que a vida nos sujeita.
*Mary Renault, The King Must Die.(Nova York: Random House, 1988).
Uma das coisas que percebi a respeito do Ascendente é que, em algum nível profundo,
aparentemente intuímos que vamos precisar desenvolver as qualidades desse signo e nos
defrontamos com suas situações arquetípicas. Assim, usamos uma espécie de versão para
principiantes desse signo durante a primeira metade da Vida, o Ascendente como a
máscara exterior que, geralmente, é vista em todas as descrições típicas dos livros. Você
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sabe do que estou falando - Gêmeos se elevando da o tagarela, Virgem ascendendo é o
organizadinho, Aquário se elevando raciocina muito, e assim por diante. Na verdade,
porém, o Ascendente nos coloca diante de um imenso dilema, pois e muito difícil
internalizar seu significado e seus valores. Geralmente, resistimos muito, pois ele nos
parece um tanto estranho e costumamos projetá-lo no ambiente que nos cerca; assim,
vemos suas faces positiva e negativa nas pessoas mais próximas. Entretanto, o Sol não é um
estranho, a menos que tenha sido severamente reprimido; e mesmo nesses casos, após o
Indivíduo tê-lo descoberto dentro de si, sobrevém um alívio profundo e a sensação de se
estar chegando em casa.
Quando expressamos o Sol, sentimo-nos autênticos e manifestamos certa autoridade.
Howard e eu demos uma olhada no dicionário etimológico para encontrar as raízes dessas
palavras, autenticidade e autoridade, e naturalmente a raiz é a mesma - a palavra grega auto, que
significa "eu" ou "self". Há toda uma gama de palavras derivadas dessa raiz - automóvel,
automático, auto-erótico, autônomo, etc. O Sol nos da a sensação de poder e validade
pessoais. Sem essa sensação, sentimo-nos mal, um tanto vagos, e precisamos
desesperadamente do reconhecimento de terceiros. Creio que há épocas em que todos nos
perdemos nossa conexão com o Sol e ficamos vagueando em meio a bruma, a procura da
manifestação dos outros para podermos nos sentir novamente reais. O Sol diz "Por mais
que eu tenha aprontado na vida, eu sou eu e não quero ser ninguém mais" Mas quando nos
encontramos com o Ascendente, geralmente dizemos, "Oh, deve haver alguma coisa errada
em meu horário de nascimento. Eu jamais poderia ter o Ascendente em Peixes, só pode ser
em Aquário".
Audiência: Como é que o Sol se mostra se ainda não está desenvolvido? Através de suas
qualidades inferiores?
Liz: Distinções como "inferior" e "superior" não me deixam muito à vontade. Essas
avaliações são muito subjetivas, pois dependem de nossa estrutura de referência. O que
acontece é que o Sol se expressa inconscientemente. Às vezes, algumas de suas qualidades são
projetadas, o que pode acontecer com qualquer fator inconsciente do mapa natal. Antes da
palestra, alguém observou que ainda existem multas culturas onde as mulheres têm poucas
chances de expressar o Sol. O que acontece com ele? Ele é projetado sobre seus maridos e
pais, seus filhos varões e figuras de autoridade no mundo exterior. Ele também pode ser
projetado sobre outras mulheres, pois as mulheres também podem ter qualidades solares.
O senso de autoridade e de significado fica então do lado de fora, e a mulher se sente vazia
e desprovida dos objetos de sua projeção.
Audiência: Mas não é possível projetar tudo que pertence a um signo. Com certeza, a
gente retém algumas de suas qualidades.
Liz: Creio ter dito que algumas de suas qualidades são projetadas. Concordo, não é uma
questão fechada, clara. Podemos vivenciar alguns pedaços e dar outros pedaços, e isso
muda no decurso da vida. Além disso, o fato de projetarmos algo não significa que não
podemos nos compor dessa maneira. Significa que não percebemos e que preferimos
pensar que alguém o está fazendo. Uma das características peculiares acerca do
mecanismo de projeção é que a pessoa geralmente é vista pelas demais como alguém que
possui esses atributos específicos. A projeção não faz com que paremos de fazer algo, mas
cria uma espécie de autocegueira. As qualidades podem até ser "inferiores", como você
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disse - a face menos atraente do signo. Mas também podem ser "superiores", pois também
projetamos alguns de nossos melhores potenciais sobre aqueles que sentimos que têm
algo que nós não temos.
A diferença entre a expressão consciente e a inconsciente é essa autocegueira, e não
um lado "bom" ou "ruim" que se destaca no signo solar. Além disso, quanto mais
inconscientes estamos de algo dentro de nós, mais provável será que ele nos impulsione de
maneira compulsiva, privando-nos de opções. Daí, podemos criar situações onde achamos
que tudo está fora de controle, nas quais somos as vítimas passivas, quando na verdade, foi
o Sol inconsciente que trabalhou sem cessar para atingir suas metas lá em seu quartel-
general no porão. Por exemplo, algumas pessoas com o Sol em Áries podem se sentir um
tanto desligadas dele por causa de complexos de infância, pressões ambientais ou algum
fator do mapa que atue contra ele (tal como um Sol na 12 em oposição a Saturno, com um
monte de planetas em Terra). Elas terão a cota ariana normal de agressividade,
competitividade, energia ígnea, imaginação e sede de desafios, mas pode ser que não se
vejam assim. Podem ter muita agressividade inconsciente e a determinação de fazerem as
coisas a seu modo, mas tudo será discreto e a raiva pode aflorar de maneiras
manipuladoras. Essas pessoas vão lhe dizer que, na verdade, gostam de ver as coisas em
equilíbrio, que são indecisas e que os outros as empurram para lá e para cá. Isso pode ser
válido na superfície, mas as qualidades arianas ficaram na sombra e, mais cedo ou mais
tarde, se farão sentir. Haverá sempre aqueles que dão o "gancho" para a projeção desses
atributos, tanto positivos como negativos - um namorado, por exemplo, tido como
incrivelmente potente, ousado e excitante, e um pai ou empregado que é visto como
dominador, egoísta e insensível.
Nesses casos, a raiva pode voltar à pessoa através dos demais, irritados com a auto-
afirmação e impaciência inconscientes que estão se manifestando. Já ouvi um bom número
de mulheres de Áries reclamar que não conseguiam entender a razão pela qual suas amigas
se voltavam contra elas; o espírito competitivo de Áries se manifesta inconscientemente
quando tentam "roubar" os namorados das amigas, mas a ariana está completamente
inconsciente disso. Assim, você pode ver que não é apenas o caso de se projetar o signo
solar e de não sobrar nada para seu uso. A projeção é um mecanismo fascinante e
extremamente sutil. Todos nós temos dimensões do Sol que não expressamos, pois ele
reflete um processo de vir-a-ser que nunca acabamos.
O Sol subdesenvolvido pode ainda ser muito invejoso. Já mencionei este problema
antes. A inveja é uma das emoções humanas mais básicas, e pode ser transformada em
impulso criativo se formos honestos o suficiente para lidar com ela de frente. Na verdade,
invejamos nos outros aquilo que mais valorizamos e, geralmente isso inclui alguns dos
potenciais inexplorados do Sol, que são projetados com "ganchos" adequados. Pode ser
valioso trabalhar com a inveja dessa maneira, pois descobrimos muita coisa a nossa
respeito. Vênus pode admirar, mas o Sol inveja e há alta energia ao redor das pessoas sobre
as quais projetamos esse ideal - aquilo que gostaríamos de ser.
Agora, gostaria de mencionar algumas das funções do deus solar no mito, pois isso
pode ajudar a esclarecer o papel do Sol no mapa. Em algumas culturas, o Sol é
representado por uma divindade feminina, mas nesses casos os atributos da deusa são
"masculinos", no sentido de serem dinâmicos. Um exemplo é a deusa solar egípcia
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Sekhmet, filha do deus solar Ra, que foi chamada de "Olho de Ra". Ela era representada
com uma cabeça de leão coroada pelo disco do Sol, era a divindade da batalha e do
derramamento de sangue. Mas o próprio Ra, um dos mais antigos deuses solares,
representa melhor o simbolismo do Sol; ele é o criador do mundo e provedor da justiça, o
Pai-de-Tudo que gera todos os outros deuses com sua própria semente.
Apolo, o deus grego do Sol, é um personagem bem posterior e mais humanizado. Ele é
o cavalheiro do Olimpo e podemos aprender muito com ele sobre o significado mais
profundo do Sol. Mais importante ainda, porém, é o fato de Apolo ser aquele que desfaz as
maldições familiares. Se você está numa encrenca terrível, como Orestes, e herdou uma
massa fervilhante de complexos familiares que o estão deixando louco, Apolo é a única.
divindade que tem o poder de desfazer o jugo das Erínias (as Fúrias), as Justiceiras da lei
matriarcal. Outro mito referente a Apolo com significado semelhante é o da conquista da
cobra gigante, Píton. Apolo destruir a cobra, ele ergue seu templo em Delfos, sobre seu
antigo covil, e a homenageia (ou integra) dando o nome de Pítia ou Pitonisa à sua
sacerdotisa oracular. Essa função de desfazer as pragas e maldições e muito Interessante. O
que você acha que ela significa?
Audiência: O Sol nos ajuda a cuidar de assuntos inacabados com a família.
Liz: Sim, é assim que eu vejo a questão. Quanto mais nos sentimos capazes de nos
separarmos e de sermos indivíduos, menos estaremos à mercê dos conflitos e compulsões
inconscientes da psique familiar. Isso não significa que a vivência do Sol faz a pessoa rejeitar
a família. Pelo contrario, quanto mais eu me torno "eu mesma", mais eu tenho para
oferecer aos demais de maneira autêntica e desprendida. Mas são os esqueletos psíquicos
escondidos no armário que assombram as famílias - as tramas de poder para manter as
pessoas unidas, o sutil enfraquecimento dos talentos e potenciais, a inveja, o ressentimento
e o medo que vão se acumulando a traves de gerações -, e são estas coisas que a luz do Sol
tem o poder de afastar.
Na mitologia grega, as maldições familiares geralmente são iniciadas por alguém que
ofende um deus (por seu hubris ou arrogância), que então lança uma praga sobre sucessivas
gerações. Como a divindade não recebeu o devido respeito, os descendentes devem sofrer
até que a maldição seja concretizada ou desfeita. A ofensa contra um deus é um modo de
descrever a ofensa contra um princípio arquetípico, um impulso de Vida fundamental.
Negamos respeito e valor a alguma coisa e ela reage através da psique da família, causando
conflito e sofrimento transmitidos psicologicamente de pai para filho. Isso acontece o
tempo todo. É o lado sinistro da vida comunitária, sempre oculto na sombra do afeto e do
Apolo que uma família amável pode oferecer. Algumas famílias tem muito a oferecer a seus
membros em termos de afeto, apoio e respeito mútuo, e o lado sombrio, que é
perfeitamente humano, causa esses problemas comuns de relacionamento que todos
encontramos na vida. Outras famílias são realmente malfadadas, levando um vasto
reservatório de repressão, manipulação e destrutividade e todos os seus membros sofrem.
Nem sempre é fácil detectar isso, pois uma família estreitamente ligada pode exibir uma
fachada "adorável" para o mundo exterior, enquanto os problemas ficam ocultos ou são
atribuídos ao comportamento doentio ou errôneo de um indivíduo. Às vezes, todos os
membros da família, com exceção de um, parecem perfeitamente satisfeitos em
permanecerem como células inconscientes do organismo. É aquele que tem mais
80
necessidade de se expressar individualmente e que vai acabar rotulado de "doente".
Por exemplo, pode ser que não se permitam certas emoções no círculo familiar. Talvez
nunca exibam afeto abertamente, nunca conversem sobre sexo, ninguém se exalte ou se
espere que todos fiquem felizes vivendo sempre na mesma cidade do interior. Essas
famílias tem um sentimento tribal e seus membros são advertidos, de toda maneira velada
possível, de que não devem desrespeitar as regras não-escritas. Se um indivíduo tenta
desafiá-las, farão com que se sinta malvado, egoísta e indigno de afeição - ou o rotularão de
doente ou maligno. Existe alguma coisa na consciência solar, o senso de eu , que tem o
poder de desfazer o encanto que essas regras familiares veladas exercem sobre nós. Somos
todos vulneráveis à solidão, à culpa e à manipulação, pois temos todos um Netuno e
ninguém tem uma infância perfeita; a ameaça de nos sentirmos rejeitados é dolorosa para
todos os seres humanos, embora mais para alguns do que para outros. Contudo, se
pudermos acreditar que somos aquilo que devemos ser e que o desafio ao sistema
inconsciente não nos torna maus ou inúteis, podemos nos esforçar para manter um
relacionamento positivo com os membros da família enquanto preservamos nossos valores
independentes e nosso caminho de Vida.
A psicoterapia tem uma dimensão lunar - a empatia e a construção de um
relacionamento humano. Tem também uma dimensão solar, relacionada à função apolínea
de desfazer as maldições. O objetivo da análise apolínea não é apenas tentar desenterrar
todos os traumas horríveis da pessoa para que ela possa culpar seus pais por todos os seus
males. É a consciência dos padrões familiares e o modo como continuamos a respeitá-los
que desfaz a maldição familiar. A maldição é compulsiva; comportamo-nos de modo
destrutivo, mas continuamos cegos à fonte da compulsão por não termos ainda uma noção
adequada da separação entre o coletivo e a psique familiar. As Fúrias que perseguem a
vitima agressora no mito grego podem ser interpretadas de diversas maneiras. Descobri
que, para muita gente, elas surgem na forma de culpa, ansiedade e ressentimento. A culpa
nos diz que não merecemos ser felizes; a ansiedade nos torna receosos da mudança e de
potenciais futuros; e o ressentimento nos deixa destrutivos para com os outros ou conosco
mesmos. São sentimentos humanos arquetípicos e não é possível livrarmo-nos deles. Mas a
função solar de desfazer as maldições significa que, quanto mais nos valorizamos, menos
nos preocupamos em satisfazer as expectativas dos outros, menos assustados ficamos com
as obrigações da vida e menos ressentidos nos sentimos com potenciais que não
vivenciamos.
Apolo é também um profeta, Ele é chamado Apolo Vistalonga e seu Oráculo de Delfos
foi consultado durante muitos séculos como fonte sagrada de orientação e presciência. A
ideia de que se pode consultar um deus para encontrar uma linha de ação adequada ou
obter a resposta a alguma questão é bem antiga; podemos vê-la modernamente na
astrologia e no l Ching. Mas a natureza oracular de Apolo não é do tipo que chamamos de
"psíquica". O psiquismo é uma espécie de participação mística, a capacidade de nos livrarmos
de nossos limites e de nos fundirmos com a psique de outra pessoa. A profecia solar é a
previsão, e não há nisso a perda do "self". É intuitiva, não psíquica, e sua base é a
percepção do efeito das decisões tomadas no presente. O lado oracular de Apolo recebeu
ainda o nome de "Língua Dupla", pois o consulente nunca tinha certeza absoluta do
significado da resposta. Tudo dependia do nível de interpretação. Não era preditivo no
81
sentido literal da palavra, mas permitia que o querente tivesse escolha, tal como as
imagens de um sonho são multi niveladas, podendo ser interpretadas ou até vivenciadas de
diversas maneiras.
Édipo, por exemplo, consulta o Oráculo de Delfos porque começou a se perguntar se o
Rei e a Rainha de Corinto seriam mesmo os seus pais. O Oráculo lhe diz que ele será o
assassino de seu pai e o marido de sua mãe. E como a imagem de um sonho: o que
significa? Freud ensinou que, em termos simbólicos, somos todos assassinos e amantes de
nossos progenitores; é a verdade essencial do mundo infantil, surge na vida sempre que
destituímos alguma estrutura decadente de poder, interior ou exterior, e buscamos a união
com um ser amado ideal. Édipo, no entanto, entende o Oráculo literalmente e foge de
Corinto para evitar seu terrível destino. Mas Apolo tem "língua dupla" e ao fugir, Édipo cria
esse destino. Sua natureza tem um grave defeito - a fúria incontrolável - e quando ele se
encontra com seu pai sem saber de sua identidade, perde a calma e o mata. Você conhece
o resto. Aquilo que o Oráculo diz é estranhamente entremeado com a escolha da pessoa
que faz a pergunta. Há aí um padrão que não pode ser alterado; mas cabe ao consulente
compreender o nível interior do padrão e agir de acordo. Por falar nisso, Apolo é ainda o
único deus que consegue ludibriar as três Parcas, escapando de uma morte prescrita. Ele as
embriaga.
Assim, Apolo Vistalonga reflete a capacidade solar de intuir a existência de um padrão
que atua na vida e de prever as consequências de nossas escolhas. Geralmente, tomamos
decisões cegamente, levados por necessidade emocional, análise intelectual ou o desejo de
agradar. Contudo, pode ser que não consigamos compreender o pano de fundo - quem
somos de fato em relação a nosso ambiente e quais são os padrões profundos de nossa
própria jornada individual. Depois, ficamos espantados quando os frutos de nossas escolhas
passadas ficam maduros. No mito, a consulta ao Oráculo é, na verdade, uma espécie de
introspecção, um ato meditativo que nos põe em contato com um lado nosso mais
presciente. Muita gente consegue fazê-lo por meio de preces ou de meditação, e esse é um
ato sagrado no sentido mais profundo, tal como era nos tempos antigos quando a pessoa
buscava a divindade. Quanto mais sabemos quem somos, mais estaremos agindo de acordo
com nossa própria verdade, ou de acordo com aquilo que é certo para nós; mesmo que as
consequências sejam difíceis ou dolorosas, podemos nos manter íntegros e fortes. É por
isso que Apolo é um cavalheiro. Ou, como diz Polônio em Hamlet:
Acima de tudo, isto: sê leal para contigo mesmo,
E seguirá, como a noite ao dia,
Que não serás falso para com ninguém.
A função profética de Apolo está dentro de todos nós. Essa dimensão do Sol reflete
nossa visão e antevisão, bem como nossa capacidade de perceber potenciais interiores que
ainda não se tornaram maduros. O Sol também está associado à imagem da Criança Divina,
retratada em algumas versões da carta do Sol no baralho do Tarô. A Criança Divina
personifica tudo aquilo que ainda viremos a ser, mas que o tempo ainda não cristalizou
(Saturno). A experiência e as atitudes, que adquirimos como resposta à experiência,
cristalizam todos esses potenciais e moldam o adulto. A Criança Divina é a matriz solar
presente em nós como semente, mas leva uma vida inteira para se desenvolver. O Sol nos
dá a sensação de que temos um futuro, de que ele tem um sentido, de que nossas vidas
82
seguem um plano inteligente. Então, seremos capazes de manter a confiança em nós
mesmos e de jogar um pouco com o desconhecido. Mesmo se o jogo fizer com que o teto
caia sobre nossas cabeças, sabemos que vamos sobreviver para tentar outra vez. De tudo
isso, você deve agora deduzir o que significa estar desligado do princípio solar. É muito
assustador, pois não há uma visão de futuro. Só o passado e todos os seus erros e
possibilidades perdidas. Essa é a maldição familiar. No baralho do Tarô, associo tal sensação
de desespero com a carta do Diabo - o vínculo que não podemos ver, mas que envolve
nossos pescoços com uma corrente e faz com que paremos de nos mover na vida.
Finalmente, Apolo é o deus da música. Ele é também o pai das nove Musas, cada qual
representando um aspecto diferente das artes. O governo do reino criativo é diferente da
função exercida por Afrodite como deusa da beleza e da ornamentação, pois Afrodite pega
uma coisa que existe em forma bruta e a refina. Apolo, por sua vez, cria algo a partir do
nada; ele simboliza o próprio impulso criador. Por que justamente a música?
Audiência: Porque ela vem do coração.
Liz: Sim, mas outras formas de expressão criativa também. Talvez tenha mais a ver com
a natureza imediata da música. Lembro-me novamente da novela de Mary RenauIt, na qual
Teseu comenta que, se você procura Apolo com sua dor e a transforma em uma melodia,
ele afasta a dor. A música pode traduzir qualquer emoção humana no instante em que essa
emoção é sentida. Isso não é transcendência ou transformação: é o destilar de uma
essência. A música não transmite sentimentos por meio de imagens ou palavras, ambas
exigindo interpretação e distância reflexiva. É a mais espontânea das artes criativas, e deve
ter sido a primeira - imagino pessoas movendo seus corpos ritmicamente e batendo com
gravetos nas pedras muito antes de conseguirem imaginar um meio de pintar bisões na
parede das cavernas. O ritmo é um elemento básico do corpo e tem raiz no batimento
cardíaco. Neste sentido, a música é a arte mais primitiva, antecedendo o pensamento e a
percepção, emergindo das próprias origens da vida. E você não precisa de acessórios para
criar música - tudo o que necessita é bater o pé e abrir a boca. De certa forma mágica, a
música transmite sentimentos insuportáveis e permite que os suportemos. É muito difícil
ser claro acerca dessa função do Sol, mas espero que você consiga entender o que estou
dizendo. Não estou sugerindo que todos devem se transformar em músicos ou em
apreciadores da música. Contudo, quando nos expressamos espontaneamente, estamos
fazendo música. Essa dimensão do princípio solar funde vida e arte.

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SOL, PAI E A EMERGÊNCIA DO EGO
O PAPEL DO PAI NO DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL
por HOWARD SASPORTAS
A idividuação envolve as sutis mas cruciais mudanças fenomenológicas com que a pessoa começa a se ver
como separada e distinta dentro do relacionamento que ela vivencia. Na individuação está a definição crescente de
um “Eu” dentro de um "Nós".
Mark Karpel*

Esta planta gostaria de crescer


E de permanecer como embrião
Aumentar, e ainda assim escapar
Da sina de tomar forma...
Richard Wilbur**

*Mark Karpel, "Individuação da fusão até o diálogo", em Family Processes [Processos


Familiares], 15:65-82, 1976.
**Richard Wilbur, "Folhas-Semente", de The Norton Anthology of Poetry [A Antologia Norton
de Poesia], 3ª. edição, Alexander W. Allison el al, eds, (Nova York: W.W. Norton, 1986), pp.
1201-1202.
Não tenho modo de enfatizar em demasia a importância do Sol. Em minha opinião, ele
é o coração do mapa. Isso não deve surpreendê-lo se você se lembrar de que ele
compreende 99,8% do sistema solar. É o Sol que, direta ou indiretamente, fornece toda a
energia que sustenta nossa existência terrena; todos os alimentos e todos os combustíveis
de que precisamos derivam de plantas que precisam da luz solar para a fotossíntese. Assim,
o fato do Sol ter proeminência no mapa faz sentido.*
*Toni Glover Sedgwick, "O Sol", em Planets [Planetas], editado por Joan McEvers (SI. Paul,
MN: LIewellyn Publications, 1989), p.15.
Tenho certeza de que, para nos sentirmos completos e realizados, precisamos
expressar nosso signo solar; precisamos tentar nos desenvolver na esfera da vida associada
com a casa em que o Sol está colocado em nosso mapa, deveríamos tentar encontrar
maneiras construtivas de personificar, integrar e utilizar qualquer planeta que forme
aspecto com nosso Sol. Quando alguém me procura para uma leitura, procuro sempre
constatar se ela está em contato com as qualidades de seu signo solar - quero saber se as
qualidades do Sol estão sendo expressadas conscientemente e de maneira positiva,
objetiva. Se os dados natais estão corretos, acredito mais no mapa do que na pessoa
sentada ao meu lado. Creio ainda que a maioria das colunas que lidam com o signo solar
parte de uma premissa incorreta. Os autores costumam presumir que você é
automaticamente como o seu signo solar. Assim, todos os arianos são descritos como
dinâmicos, egocêntricos e impulsivos, e todos os geminianos são caracterizados como
borboletas e paqueradores incorrigíveis. Não é verdade. As colunas de signos solares nos
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jornais seriam muito mais úteis se começassem com a premissa básica de que o signo solar
representa qualidades que você precisa trabalhar e desenvolver de modo construtivo a fim
de se tornar a pessoa única que é, a fim de ser sincero para consigo mesmo e de se sentir
bem consigo mesmo. Em vez de dizer, "Você é de Áries, logo é assertivo", eles deveriam
escrever, "O seu Sol está em Áries, e isso indica que um dos seus principais propósitos na
vida é desenvolver a coragem, o dinamismo e a capacidade de se afirmar de maneira viável
e funcional". Dá para ver a diferença. Agora, os leitores têm uma meta, têm algo por que
lutar. Se levamos depois em conta o mapa como um todo, podemos analisar como os
demais fatores da natureza agem em relação ao desenvolvimento salutar das qualidades do
signo solar, se contra ou a favor.
A Figura 4 da página 86 apresenta uma lista de palavras-chave, bem óbvias, para o
princípio solar. Analise-as por algum tempo. Além disso, medite sobre o glifo ou símbolo do
Sol. É um círculo que representa o infinito e a ausência de limites, mas que contém um
ponto no meio. O glifo mostra o círculo da totalidade envolvendo o ponto da
individualidade, descrevendo, portanto, aquilo a que os junguianos se referem como o
"eixo ego-Self'. O ponto simboliza Sua individualidade, seu self individual e único, o veículo
pelo qual seu "espírito" ou seu Eu transpessoal (às vezes chamado de Eu superior) pode se
expressar. O princípio do Sol define o processo pelo qual podemos diferenciar e
desenvolver um "Eu" ou ego pessoal; contudo, em termos do maior crescimento e
evolução, chega uma hora em que o ego pessoal precisa reconhecer e respeitar algo maior
do que ele, perceber seu papel como canal pelo qual o Self transpessoal ou universal pode
se expressar. Em seu livro What We May Be (Aquilo que podemos ser), Piero Ferrucci descreve
o Self transpessoal da seguinte maneira:
O Self transpessoal, apesar de manter o senso da individualidade, vive no nível do universal, em um
reino onde planos e preocupações pessoais são obscurecidos pela visão maior do todo. A percepção do Self
transpessoal é a marca da realização espiritual.*
*Piero Ferrucci, What We May Be (Londres: Turnstone Press, 1982; e Los Angeles: Jeremy P.
Tarcher, 1982), p. 45.
Em Myth and Today's Consciousness [Mito e a Consciência Atual], o analista junguiano Ean Begg
explica como o arquétipo representado pelo Sol pode estar associado ao eixo ego/Self:
Vou resumir o modo como entendo, em termos psicológicos, o arquétipo do Sol. Esses termos são o eixo
ego-Self e as transformações no relacionamento entre o Self e o ego no decorrer do processo de individuação.
O Self é a totalidade psíquica, a potência original, inconsciente, omni-abrangente e genética, da qual, de
início em espasmos isolados no começo da infância, o ego, sujeito da consciência, emerge. Em seu caminho
heroico de realizações, o ego mata o dragão da dependência da mãe e da família, assume a responsabilidade
por ser um indivíduo em um mundo de indivíduos, joga unilateralmente suas cartas mais fortes e viaja por
lugares cada vez mais distantes de seu primeiro lar, atribuindo tudo à sua própria força e sagacidade. Em
algum instante, porém, a fascinante atração da totalidade primitiva se impõe novamente e da agonia
subsequente - despertar, morte e renascimento - surge um novo alinhamento. O ego relativizado reconhece a
existência de outros conteúdos psíquicos e se torna consciente de sua responsabilidade como expoente do Self,
sua fonte e sua meta, bem como do caminho entre eles e do impulso de trilhá-lo.*
*Ean Begg, Myth and Today's Consciousness (Londres: Coventure, 1984), p.16.
Apesar de representar o processo da definição de nossa individualidade e do senso de
separação do "self", é também nosso vínculo com aquela porção em nós que participa da totalidade
85
da vida. Ao expressarmos nossa unicidade e verdadeira individualidade, somos levados a participar
de um esquema ou plano maior através do qual a totalidade da vida se torna evidente. Tal como os
diversos instrumentos musicais de uma orquestra, cada indivíduo tem seu papel a cumprir na
composição geral da vida. Antes porém, precisamos desenvolver um forte senso de "Eu", um ego
saudável, honesto e funcional, antes de podermos ser um veículo apropriado para algo maior do
que nós mesmos.
"Não há dor mais letal do que o anseio de sermos nós mesmos"* Examinamos a Lua e a mãe;
aprendemos que, como bebês recém-nascidos, misturamo-nos e fundimo-nos com a Grande
Mãe. Agora, chegamos ao Sol e estamos prontos a nos separarmos dela, a diferenciarmos
aquilo que somos (ou devemos ser) da mãe, da pessoa que cuida, a nos mantermos sobre
nossos próprios pés e a sermos alguém. Na noite passada, falei da Lua em termos do caso
amoroso que tivemos com nossa mãe durante a primeira infância, o primeiro grande
romance de nossas vidas. Quando atingimos os nove meses, porém, estamos prontos para
manter um caso amoroso não só com a mãe, mas com o mundo. Começamos a engatinhar,
aprendemos a andar e descobrimos que existe todo um mundo lá fora para ser explorado e
dominado. Eu comparo o Sol ao impulso de nos livrarmos da simbiose com a mãe a fim e
realizarmos o desejo, que todos temos, de nos tornarmos um "self' separado e distinto, um
"Eu" particular.
*Yevgeniy Vinokuriv, citado por Judith Viorst, Necessary Losses [Perdas Necessárias] (Nova York:
Fawcett, 1986), p.7.

Impulso por autonomia básica do caráter Força


Luta pelo poder e reconhecimento Coragem
A vontade Fé e espírito
Questões do "animus'' Liderança
Criatividade, Auto-expressão Doação
Vitalidade, força vital Generosidade
Figura 4. Palavras-chave para o Sol.

Agora, vamos examinar o Sol como símbolo do ego e também como símbolo do Pai,
temas que Liz explorou anteriormente. Antes de lidarmos com eles, vamos analisar
rapidamente os parâmetros de interpretação do Sol que eu esquematizei (veja a Tabela 2
na página 87). Espero que você utilize esses parâmetros quando estiver estudando mapas.
Honestamente, se você se sentir "atolado" em um mapa, se ele não adquire vida aos seus
olhos, sugiro que você focalize primeiro o Sol e sua colocação - signo, casa e aspectos - e o
use como partida, como uma "alça" do mapa (se me perdoam o jargão). A mera análise do
Sol, em lermos daquilo que a pessoa precisa integrar e trabalhar, pode fazer com que a
leitura decole. Daí para a frente, você pode trazer outras facetas do mapa para a análise e
86
estudar como interagem com a posição do Sol. Apesar de eu estar enfatizando a
importância do Sol, há mais nove planetas para descrever outros aspectos de nossa
natureza. Certas pessoas podem estar demasiadamente identificadas com o Sol e ainda não
integraram seu signo lunar ou algum outro planeta adequadamente. Outras podem ser
como a Lua, mas seu signo solar ainda faz parte do pano de fundo e precisa ser expressado.
De qualquer modo, se você estiver com dificuldades para entrar em um mapa ou para
estudá-lo, tente começar com o Sol.

Tabela 2. Parâmetros para Interpretação do Sol


Sol nos Signos
1) O signo do seu Sol mostra o caminho que você precisa seguir para desenvolver um ego
saudável e um senso de individualidade. Desenvolvendo as qualidades positivas e
construtivas de seu signo solar, você se sente mais completo e realizado. Precisamos de
um lugar na vida para expressão e irradiação das qualidades de nosso signo solar (talvez
por meio de uma vocação ou chamamento).
2) O signo de seu Sol é o símbolo daquilo com que você precisa lutar (conscientemente) e
obter, não apenas daquilo que vem instintivamente.
Sol nas Casas
1) A casa do Sol (e a casa que tenha Leão na cúspide ou que abranja esse signo) indica uma
área da vida onde precisamos ser bem-sucedidos ou nos destacarmos de algum modo. É
nela que precisamos nos sentir especiais. Dedicando-nos às atividades associadas a essa
casa, vamos forjar uma noção mais clara de ego, de identidade. (É nessa área da vida que
nos separamos da mãe arquetípica e definimos melhor nosso eu separado.)
2) A vida pode ser uma luta na casa do Sol. Temos de travar combates com dragões que
nos detém ou que impedem nosso desenvolvimento na esfera de experiência associada
com a casa do Sol. Geralmente, sentimos que poderíamos nos sair melhor do que já nos
saímos nessa área da vida.
3) Questões ligadas ao pai ou ao "animus" podem surgir na casa do Sol.
4) A casa do Sol pode nos dar pistas quanto a vocações ou inclinações naturais.
O Sol e os Aspectos
1) Qualquer planeta em aspecto com o Sol representa uma energia ou arquétipo ligado
(positiva ou negativamente) ao desenvolvimento de sua individualidade e auto-expressão.
Você precisa encontrar maneiras construtivas de expressar e de incluir essa energia em sua
vida (talvez por meio de uma vocação ou inclinação que envolva esse planeta). Por
exemplo, uma pessoa com o Sol em aspecto com Netuno deve encontrar Netuno, de
algum modo, no processo de individuação; essa pessoa também pode dar expressão a
Netuno por meio de uma carreira "netuniana", tal como a cura, a música ou as artes.
2) Você pode lidar com os aspectos do Sol por meio de pessoas em sua vida
(especialmente no caso da oposição). Por exemplo, alguém com uma oposição entre o Sol
e Saturno pode achar que os outros são limitadores ou bloqueadores. No final das contas,
precisamos assumir e integrar essas qualidades que, normalmente, projetamos nos outros.
3) Questões relacionadas com o pai e com o "animus" serão coloridas pela natureza de
qualquer planeta que forme aspecto com o Sol.
87
Vamos brincar um pouco com esses parâmetros para ver como podem ser usados. Sei
que você pode achar isso bem elementar, mas tenho fortes razões para acreditar que é
importante começar com o básico. Com a recente expansão da astrologia psicológica,
muitos astrólogos se tornaram bem mais entendidos e sofisticados quanto à psicologia;
além de conhecerem astrologia, estão assistindo a cursos sobre aconselhamento ou
estudando as diversas escolas de pensamento psicológico. Como resultado (e devo
confessar que também sou culpado), alguns desses astrólogos podem estar inclinados a
analisar diretamente as questões psicológicas mais profundas de seus clientes, tais como
complexos de infância e outras bagagens do começo da vida que o cliente ainda leva em
seu interior - tudo isso refletido no mapa. Ao fazê-lo, porém, alguns astrólogos psicólogos
correm o risco de negligenciar ou menosprezar certos itens básicos, tais como o significado
e a importância de algo aparentemente simples e objetivo como o signo ocupado pelo Sol.
Assim, vamos começar usando o signo de Gêmeos como exemplo de como lidar com esses
parâmetros. O parâmetro número um diz que o signo solar mostra o caminho que você
precisa seguir para desenvolver um ego saudável e um senso de individualidade. Que
qualidades ou características vêm desde logo à mente quando você pensa no signo de
Gêmeos?
Audiência: A capacidade de comunicação e de trocar informações.
Howard: Sim, estamos tratando aqui de auto-expressão, seja ela verbal ou por
qualquer outro meio. Gêmeos é um signo de Ar, e por isso estamos no domínio da mente e
do intelecto, da capacidade de sermos objetivos e de analisar, da possibilidade de nos
interpretarmos, bem como as outras pessoas e a vida em geral, sob diversos ângulos, em
vez de apenas reagirmos, emocional ou instintivamente, às situações. Há ainda a
necessidade de estabelecer conexões, de ver como uma coisa influencia ou se relaciona
com outra, de explorar uma ampla gama de facetas da existência. Para nossa realização, é
essencial termos um lugar na vida onde podemos irradiar e dar expressão às qualidades de
nosso signo solar. Fico particularmente contente quando vejo uma pessoa que segue uma
vocação ou carreira que lhe oferece amplas oportunidades de uso e desenvolvimento das
características do signo onde seu Sol está situado. Há alguns anos, fui procurado por um
editor que me pediu para escrever um livro que descrevesse as carreiras mais adequadas a
cada signo solar. Deveria ser um livro comercial, de consumo rápido. Em um momento de
insanidade, concordei em ser o co-autor juntamente com um amigo e colega, e o livro foi
publicado na Inglaterra sob o título The Sun Sign Career Guide.* Essa foi a mais extensa das
minhas incursões na astrologia voltada para os signos do Sol e me senti um pouco
apreensivo ao escrevê-lo, um pouco envergonhado de assinar meu nome em um livro
assim. Como é que alguém pode avaliar uma vocação usando apenas o signo solar? O que
dizer da casa 10 ou 6 e de outras partes do mapa que, obviamente, influenciariam a
profissão ou vocação de uma pessoa? Após pensar um pouco, fiquei menos apreensivo,
pois me dei conta de que seria bom as pessoas encontrarem atividades que, de algum
modo, expressassem seus signos solares. Pense nisso: para nosso desenvolvimento, é
essencial compreendermos e vivenciarmos nosso signo solar, e também é verdade que
muitos de nós precisam passar a maior parte de suas vidas trabalhando. Assim; porque não
tentar encontrar um trabalho cuja própria natureza exige que façamos uso das qualidades
ou características associadas a nosso signo? Bem, pelo menos foi assim que me justifiquei.
88
Fico satisfeito quando os geminianos me dizem que trabalham como jornalistas ou ligados à
mídia, ou mesmo que são motoristas de táxi ou motorneiros de trem, desde estejam felizes
com o que fazem. Dá para entender a razão - são profissões que se ajustam bem com
Gêmeos, regido por Mercúrio, com sua necessidade de comunicação e de troca de
informação, de se mover e de transportar conhecimentos, pessoas ou bens de um lugar
para outro. É uma bênção exercermos uma carreira que tem relação com nossa
constituição arquetípica interior.
*Robert Walker e Howard Sasportas, The Sun Sign Career Guide [O Guia de Carreiras dos Signos
Solares] (Nova York: Avon Publishers, 1991; e Londres: Arrow Books, 1989).
Vamos passar para o segundo item dos parâmetros de interpretação do signo solar: "O
signo de seu Sol é o símbolo daquilo com que você precisa lutar (conscientemente) e obter,
não apenas daquilo que vem instintivamente". Em maior ou menor grau, a maioria de nós
precisa dar duro para desenvolver e manifestar mais plenamente a natureza de nosso signo
solar. É o signo da Lua, apesar deste poder ser reprimido ou negado, que se manifesta mais
instintivamente; mas a expressão mais plena de seu signo solar costuma exigir esforço e
determinação conscientes. Além disso, no que diz respeito ao Sol, acho que nunca estamos
satisfeitos. Se você é ariano, provavelmente acha sempre que poderia se manifestar e se
impor melhor. Se você é geminiano, provavelmente acha que poderia ser ainda mais
inteligente ou melhor comunicador. O terceiro tópico diz que o signo do Sol colore a
imagem "animus"-pai. Na parte final desta palestra, vamos examinar mais a fundo esta
ideia.
Agora, vamos estudar o Sol nas casas. O primeiro item diz que a faceta a existência
associada com a casa em que o Sol está é uma arena na qual deveríamos nos envolver
ativamente, um domínio onde precisamos nos distinguir de algum modo, sentirmo-nos
especiais. Se o seu Sol está na casa 5, você deverá se encontrar através daquilo que criar e
estou me referindo à criação em seu sentido mais amplo. Seu caminho de auto-realização
exige que você dê à luz alguma coisa, sejam filhos, seja a realização concreta de uma
inspiração ou de uma ideia brilhante que lhe ocorreu. O envolvimento com a casa em que
se acha seu Sol natal pode ajudá-lo a se encontrar. Lembro-me de uma consulta que estava
dando para uma mulher que tinha o Sol e Marte em Áries na casa 5. Ela me consultou
durante alguns anos. Quando nos conhecemos, ela era bem pacata e suave, o que me
surpreendeu, pois notei a colocação do Sol e de Marte. Alguns anos mais tarde, porém, ela
deu à luz seu primeiro filho, e você não acreditaria na diferença que isso produziu. Ela
entrava em meu escritório irradiando força e confiança; ela encontrara seu poder e
autoridade por meio dessa atividade típica da casa 5.
O segundo tópico diz que a vida pode ser uma luta na casa do Sol. Isso é semelhante
ao que eu disse acerca do desenvolvimento e refinamento das qualidades do signo solar. Se
você nasceu com o Sol na casa 7, pode, com o tempo, tornar-se bem hábil e sofisticado na
esfera dos relacionamentos; mesmo assim, provavelmente vai achar que ainda precisa
aprender e se desenvolver mais nessa área da vida. Se o seu Sol está na casa 11, você pode
chegar a exercer certo poder dentro de um grupo e, mesmo assim, pode ainda achar que
conseguiria se sair melhor nesse domínio. Por maiores que sejam nossas realizações, o Sol
sempre quer brilhar mais. O item três relaciona questões ligadas ao pai ou ao "animus" com
a casa do Sol (vamos entrar em detalhes a respeito disto mais tarde). Finalmente, o item
89
quatro diz que a casa do Sol também pode dar pistas quanto a nossa vocação ou inclinação
natural. Assim, se você nasceu com o Sol na casa 9, em que área da vida você poderia
brilhar?
Audiência: Você poderia ter facilidade para o ensino ou ser um agente de viagens inato.
Howard: Sim, essas profissões são consoantes com o significado da casa 9. Há muitos
níveis e dimensões diferentes em cada casa e, pelos motivos que apresentei anteriormente,
faz sentido encontrar uma atividade que tenha a ver com a casa. Naturalmente, você pode
querer mudar ou trocar de nível em certas épocas de sua vida, provavelmente em
sincronismo com trânsitos ou progressões que afetem o Sol. Se o seu Sol está na 12, você
pode fortalecer sua identidade e senso de si-mesmo trabalhando em alguma instituição,
sendo enfermeiro ou enfermeira, curador de museu ou guarda em presídio - pode ser algo
bastante óbvio. Naturalmente, o Sol na 12 está de certo modo em uma posição estranha,
conflitante. A casa 12 tem muito a ver com a fusão com algo maior do que você, com o
sacrifício de suas necessidades e desejos pessoais em prol de outras pessoas ou do
contexto maior do qual você faz parte. Contudo, o domínio da casa do Sol é onde devemos
desenvolver nossa autoridade, nossa característica especial e individualidade, onde
devemos brilhar, destacarmo-nos. Assim, algumas pessoas com essa colocação se dedicam
à curiosa tarefa de se encontrarem quando se sacrificam. Mas é importante lembrar que
você não pode abdicar do seu eu enquanto não tiver estabelecido um "eu" do qual abdicar.
Assim, você precisa forjar uma identidade, definir seu senso de si mesmo e depois se
preparar, sob certas circunstâncias, para abrir mão deles. Se você tem o Sol nessa casa,
diria que isso pode ser uma de suas maiores lições, tarefas ou propósitos para esta vida.
Finalmente, chegamos aos parâmetros para interpretação dos outros planetas em
aspecto com O Sol. O primeiro tópico nos lembra que qualquer planeta em aspecto com o
Sol representa uma energia ou arquétipo crucialmente ligado ao desenvolvimento de sua
individualidade. Os planetas que formam aspecto com o Sol são companheiros de viagem
em termos da rota que você precisa seguir para descobrir quem você é como entidade
distinta. Quando vejo um planeta formando aspecto com o Sol, imagino o Sol seguindo de
braços dados com aquele planeta ao longo do caminho da individuação e da auto-
realização. Assim, se você tem um aspecto Sol-Júpiter, Júpiter precisa ser incluído em sua
autodefinição. Se você tem um aspecto Sol-Saturno, precisa respeitar e incluir Saturno na
formação de sua identidade, de seu ego. Se você nasceu com um aspecto entre o Sol e
Netuno, precisa encontrar um modo de incorporar à sua identidade e auto-expressão pelo
menos uma (ou mais) das qualidades associadas a Netuno - música, arte, cura ou até
viagens marítimas podem fazer parte da formação de seu eu.
Além de mostrar qualidades ligadas à sua identidade, os aspectos com o Sol também
podem sugerir sua vocação ou trabalho mais apropriados. O Sol em conjunção com Netuno
pode se encontrar por meio da arte ou de alguma vocação que evoca Netuno. Muitas das
pessoas ligadas ao cinema ou teatro têm contatos Sol-Netuno. Lembro-me imediatamente
de Clint Eastwood e de Rock Hudson, ambos nascidos com uma quadratura Sol-Netuno - o
desenvolvimento e a auto-realização de ambos envolveu Netuno de modo bem literal, na
forma dos filmes. Apesar do contato ter sido um ângulo difícil, eles foram muito bem
sucedidos, apesar de podermos enxergar outras formas de manifestação dessa quadratura
Sol-Netuno na discrepância entre a "persona" cinematográfica de Rock Hudson e sua Vida
90
pessoal. Contudo, agrada-me ver pessoas que integram construtivamente seu trabalho,
vida ou identidade à natureza de qualquer planeta que forma aspecto com o Sol. Como
você sabe muito bem, não é difícil encontrar viciados em drogas ou alcoólatras nascidos
com contatos Sol-Netuno. Obviamente, esse não é o melhor caminho netuniano para a
auto-realização; mesmo assim, algumas pessoas podem precisar trilhar essa estrada como
parte de sua jornada de individuação, embora corram o risco de se destruírem nesse
processo. Tenho ficado impressionado como número de pessoas com aspectos Sol-Netuno
que caem nas garras do vício e conseguem se reerguer; parece que ganham algum tipo de
força, sabedoria ou conhecimento que pode não existir naqueles que não passaram pelo
difícil e desafiador processo do vício e de sua recuperação.
Os aspectos formados pelo Sol também sugerem algo acerca do ritmo ou da natureza
de seu autodesenvolvimento. Com os aspectos Sol-Netuno, e possível que você passe um
bom tempo vagueando em meio à bruma, confuso quanto à sua verdadeira identidade.
Quem nasce com o Sol em aspecto fácil com Júpiter costuma se entusiasmar em sua auto-
expressão, apesar de qualquer aspecto Sol-Júpiter ter a ver com exageros do eu. As pessoas
com contatos Sol-Saturno geralmente precisam de um prazo muito maior para chegarem
até onde precisam e costumam dar duro nesse processo. O segundo tópico dos parâmetros
para os aspectos trata da projeção, o processo no qual você nega ou repudia um planeta
que forma aspecto com o seu Sol, e consequentemente passa a experimentá-lo através de
outras pessoas. O exemplo dado é o da oposição entre o Sol e Saturno, com a qual você
pode achar que os outros limitam ou bloqueiam você quando na verdade, essa é uma
faceta de sua psique que você está projetando nos outros. Alguma coisa em você o está
refreando, mas você nega a existência desse freio e o experimenta como se ele viesse de
fora. No final das contas, o processo de se tornar inteiro vai exigir que você recupere essas
projeções. O terceiro item abrange o relacionamento entre os planetas que formam
aspecto com o Sol e a imagem que temos do pai ou do "animus".
Sei qual é a questão que passa por sua mente agora: o que acontece quando você tem
mais de um planeta em aspecto com o Sol? Em certos casos, você pode encontrar algumas
combinações bastante curiosas; por exemplo, Júpiter em conjunção ao Sol, mas com
Saturno em quadratura à conjunção. Assim, Júpiter toma um braço do Sol e o puxa em uma
direção, e Saturno toma o outro braço e o puxa em outra direção ou o influencia de modo
bastante diferente. A tarefa consiste em acomodar os princípios representados tanto por
Júpiter como por Saturno em sua auto-definição. A expansividade de Júpiter será
contrariada pelas dúvidas, inseguranças e restrições de Saturno. Isso deve produzir certa
tensão psicológica, mas há maneiras de se chegar ao equilíbrio, de fazer com que um
trabalhe com o outro, em vez de agirem um contra o outro. Peço desculpas por esses
exemplos tão simples, mas meu principal propósito ao analisar esses parâmetros foi o de
mostrar como vocês podem usá-los.
Alguém me fez uma pergunta sobre os aspectos Sol-Lua e eu prometi que iria cobri-
los; vamos discuti-los agora, antes de embarcarmos no exame do Sol em termos do pai e da
emergência do ego. Apesar de eu acreditar firmemente que a expressão e a "vivência" do
Sol são os fatores mais importantes para a satisfação pessoal, não devemos procurá-las às
custas do signo e da colocação da Lua. É preciso que sejamos o Sol sem deixar de
reconhecer a Lua que há em nós. Quando nos separamos do corpo de nossa mãe e
91
começamos a formar nossa própria identidade de ego, isso não significa abandonarmos
totalmente aquilo que nossa Lua representa. Não deveríamos negar a herança que
recebemos de mamãe ou da pessoa que cuidou de nós. Não deveríamos negar nosso
passado. Estou falando da distinção entre diferenciação e dissociação. Temos de expandir nossa
identidade sem deixar de incluir aquilo que já existia - não podemos nos afastar disso.
Falando em termos históricos e mitológicos, quando a humanidade emergiu de sua fusão
com a Natureza e com a Grande Mãe, as pessoas se tornaram mais solares - ou seja, mais
conscientes de si mesmas como entidades separadas de todas as outras coisas existentes.
Esse processo permitiu o desenvolvimento da mente, da razão e do intelecto, o que levou
aos notáveis avanços tecnológicos de nossa civilização e a um razoável grau de domínio
sobre a natureza. Contudo, parece que fomos longe demais, que nos tornamos
demasiadamente racionais e técnicos às custas do coração e do instinto. Dito de outro
modo, deu-se uma dissociação mítica da Grande Mãe e não uma diferenciação mítica.*
Dissociarmo-nos do passado significa negarmos sua existência, ou que faça parte de nós.
Diferenciarmo-nos de algo significa que ainda o aceitamos e incluímos, apesar de o termos
ultrapassado. A mesma lógica se aplica à relação entre o Sol e a Lua no mapa. A Lua mostra
como é que você age instintivamente e reage a qualquer situação ou ambiente em que se
encontre - embora, como eu disse, muitas pessoas não estejam em sintonia com ela. O Sol,
porém, tem mais a ver com a autodeterminação e a vontade, a capacidade de decidir agir
decerto modo, em vez de apenas reagir da mesma maneira instintiva que a Lua. Você
percebe como a vida é complicada se nasceu com um ângulo desafiador entre o Sol e a Lua.
*Leia, de Ken Wilber, Up From Eden: A Transpersonal View of Human Evolution [Saído do Éden:
Uma Visão Transpessoal da Evolução Humana] (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1983
[p.187J; e Boston: Shambhala Publications, 1981).
Vamos analisar um exemplo óbvio - o Sol em Aquário em quadratura com a Lua em
Escorpião. De modo geral, quais seriam as suas reações instintivas se você tivesse a Lua em
Escorpião?
Audiência: Você provavelmente reagiria de modo emocional, com fortes sentimentos, à
maioria das situações.
Howard: Sim, sua resposta instintiva provavelmente viria de uma área emocional. Mas,
se sua Lua em Escorpião está em quadratura com seu Sol aquariano, você precisa crescer,
trabalhar-se um pouco. Se o seu Sol está em Aquário, o que você acha que deve construir e
desenvolver?
Audiência: Aquário é um signo de Ar, o que significa que você precisa ser mais
objetivo, afastar-se um pouco e ver as coisas de um prisma mais amplo, em vez de apenas
reagir emocionalmente.
Howard: Justamente, está acontecendo uma luta ou guerra em sua psique. Você está
aqui para concretizar e desenvolver qualidades aquarianas a fim de atingir um senso de
"self” mais pleno; contudo, suas reações inatas são de Escorpião. Assim, eu poderia
aconselhar alguém com essa combinação da seguinte maneira: "É importante que você
reconheça, aceite e dê vazão às suas fortes emoções e sentimentos, em vez de negá-los ou
condená-los, mas, em nome do crescimento e da individuação, você precisa ir mais longe.
Seu Sol aquariano pede-lhe para trabalhar no desenvolvimento da capacidade de analisar
as situações de maneira mais imparcial ou objetiva". Dito isto, devo admitir que encontrei
92
casos em que certas pessoas como Sol em Aquário e a Lua em Escorpião, ambos em
quadratura, parecem reagir de maneira bastante fria, objetiva e desapegada, o que me leva
a concluir que elas estão em contato com o Sol aquariano, negando porém, o lado dessa
Lua escorpiana. Assim, meu conselho seria bem diferente: "Fico satisfeito em perceber a
ação das qualidades de seu Sol aquariano, mas receio que você não perceba como é
também emotivo, vingativo e escorpiano. Você já reconheceu esse lado escorpiano de sua
natureza? Ou estará simplesmente negando sua existência para dar a aparência de uma
pessoa razoável, objetiva e justa. Nunca é salutar denegrir uma faceta, especialmente a
Lua, tão Vital para a saúde, os relacionamentos e o bem-estar emocional.
Agora, vamos analisar a colocação oposta, alguém que nasceu com o Sol em Escorpião
e a Lua em Aquário. Essa já é uma outra história. Com a Lua natal em Aquário, que tipo de
reações inatas essa pessoa pode ter?
Audiência: É provável que ela reaja de modo aquariano, mais objetiva e racional do que
alguém com a Lua em um signo de água.
Howard: Sim as emoções são filtradas pela mente racional ou pelo intelecto - é esse o
modo natural de reação da Lua em Aquário. Você já percebeu como costuma ser difícil
saber o que as pessoas com Lua em Aquário estão sentindo de fato? Elas armam uma
fachada tranquila, relaxada, que lembra a "persona" que Clint Eastwood apresenta em vários
de seus filmes. A maioria dos homens daria o braço direito em troca dessa natureza
autocontrolada e inabalável. Agora, e se essa pessoa nasceu como SoI em Escorpião?
Segundo entendo, isso significa que seu crescimento e tomada de consciência fazem com
que ela aceite melhor sua natureza escorpiana, expondo-a ainda mais. É uma natureza
dotada de emoções e sentimentos mais intensos, apesar de haver muita gente com o Sol
em Escorpião que tenta desesperadamente esconder ou eliminar essas características.
Devo acrescentar que isso não significa que elas devem se entregar ao desespero, pois o Sol
em Escorpião também exige que a pessoa aprenda a administrar - ou seja, a controlar, a
direcionar, mas não a eliminar - as emoções intensas. Ainda assim, para essa pessoa, o
crescimento e a formação pessoal exigiriam que ela fosse além do mero respeito para com o
racionalismo e a objetividade, permitindo-se expor o lado mais sensível do “self” -
conforme indicado pelo Sol em signo aquático.
Assim, você percebe que, com a quadratura, a oposição, o quincúncio, a
sesquiquadratura ou até o semi-sextil entre o Sol e a Lua, você tem arquétipos ou estilos
bem diferentes em sua psiquê. São aspectos que produzem uma personalidade mais
tensa,e inquieta do que aqueles em que o Sol e a Lua estão em signos compatíveis.
Poderíamos dizer que e um conflito entre as emoções ou instintos e a vontade, a natureza
instintiva e os padrões de reação versus as qualidades que você necessita desenvolver
conscientemente a fim de concretizar o processo de individuação indicado por seu signo
solar.
Audiência: Será que você poderia falar um pouco sobre o Sol em Áries em oposição à Lua
em Libra?
Howard: Sim, é algo bastante claro. Em geral, a Lua em Libra possui uma inclinação
natural para o entendimento, a harmonia e o equilíbrio, apesar de eu não entender com
isso que todas as pessoas com essa colocação sejam meigos e charmosos pacificadores. No
entanto, se o Sol está em Áries formando oposição com a Lua em Libra, essas pessoas
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precisam, na verdade, aprender que não há mal em lutarem em nome de seus ideais,
desejos e crenças, mesmo se isso causar discórdia e magoar os outros. Experimente
imaginar o contrário, o Sol em Libra em oposição à Lua em Áries, A maior parte das pessoas
com a Lua em Áries tem facilidade para expressar suas necessidades e sentimentos;
entretanto, se o Sol está em Libra, é possível que estejam aqui para desenvolver a
capacidade de entrar em acordo com os outros e de equilibrar suas vontades, crenças ou
desejos com a das outras pessoas que as cercam. O semi-sextil e o quincúncio entre o Sol e
a Lua são particularmente interessantes e desafiadores porque sugerem que você acate ou
inclua modos de vida arquetípicos que, por natureza, são bem diferentes. Quando esses
ângulos ocorrem entre planetas essenciais como o Sol e a Lua, realçam a colisão entre dois
signos incompatíveis não apenas por elemento como também por quadruplicidade, coisa
que você não encontra na quadratura ou na oposição. O Sol em Áries e a Lua em Touro têm
necessidades completamente diferentes; o Sol em Touro pode não se sentir muito à
vontade com os impulsos de uma Lua sagitariana.
Trígonos e sextis puros entre o Sol e a Lua (estou usando a palavra puro para indicar
que os planetas em aspecto estão em signos de natureza igual ou harmoniosa) são
benéficos no sentido de que sua vontade e suas emoções são energias compatíveis, de
modo que não há uma discrepância muito grande, nem se faz necessário um ajuste entre as
reações lunares instintivas e a autodeterminação e as escolhas solares conscientes. Uma
pessoa com o Sol em Câncer e a Lua em Peixes terá respostas e reações inatas mais de
acordo com aquilo que a jornada solar requer dessa pessoa. A vida pode transcorrer com
mais suavidade, se for o caso, pois há menos conflito em seu interior; consequentemente,
pode ser que você não encontre tanta oposição ou desafios externos-criados pelo mundo
exterior que reflete seu próprio conflito ou torvelinho interior de volta para você. Percebe?
Naturalmente, você poderia argumentar que não há ganho sem dor; em outras palavras,
sem o estresse e a tensão inerentes a um contato difícil entre Sol e Lua, talvez você não
consiga passar pelo tipo de transformação positiva que um suculento conflito interior
costuma provocar.
Vejo alguns braços estendidos. Nem precisa dizer-tenho uma boa ideia de qual será
uma pergunta: "E se o Sol e a Lua estiverem no mesmo signo?"
Ótimo, vejo cabeças acenando. Essa pergunta sempre aparece. Acho que vou mandar
gravá-la em minha lápide junto com outra clássica, "O que acontece quando a casa está
vazia?", que é uma pergunta ridícula, uma vez que, como vocês sabem muito bem, uma
casa nunca está vazia - há sempre um signo ali, bem como o regente desse signo, para se
analisar. Mas essa já é uma outra palestra e espero que vocês nem ousem fazer essa
pergunta hoje. É sempre difícil falar de maneira incisiva sobre qualquer conjunção (bem
como qualquer aspecto ou colocação planetária), pois o modo como ela se manifesta
depende de sua relação com o restante do mapa. Uma conjunção Sol-Lua em quadratura
com Plutão e em oposição a Saturno é uma história bem diferente da que contaríamos caso
tivéssemos apenas a conjunção Sol-Lua em trígono com Júpiter. Por ora, podemos dizer o
seguinte: todo signo gera muitos níveis ou dimensões diferentes de expressão, tal como a
nota de um acorde. Podemos comparar um arquétipo a um elevador de uma loja: quando
para em um andar, você está diante de moda feminina; em outro, encontra sapatos
masculinos; e, se você estiver com fome e dispuser de tempo e dinheiro, pode ir
94
diretamente ao restaurante do último andar.
Vamos dizer que você nasceu com o Sol e a Lua em Touro; depois, iremos fazer disso
uma conjunção, mas por enquanto o simples fato de ambos os luminares estarem no
mesmo signo é o que importa. O signo de Touro tem numerosas facetas. É claro que todas
essas facetas estarão ligadas por algum fio arquetípico comum, mas mesmo assim estão em
níveis bem distintos. Provavelmente, a Lua em Touro significa que certas dimensões do
signo serão instintivas em você, mas como o Sol também está em Touro, isso sugere que há
outras dimensões desse signo que requerem atenção em termos do processo solar de
construção do ego e da formação pessoal. Instintivamente, você sabe como criar estrutura
e segurança em sua vida (a Lua em Touro), mas como o Sol também está lá, poderíamos
esperar que o lado sensual, criativo e artístico de Touro, regido por Vênus, cobra maiores
atenções. Por outro lado, digamos que tanto o Sol como a Lua estão em Virgem em seu
mapa. Pelo fato de a Lua estar lá, poderíamos dizer que, para você, ser crítico e analítico é
algo instintivo - são qualidades inatas, intrínsecas. Contudo, se o seu Sol também está em
Virgem, há outras dimensões desse signo nas quais você terá de se concentrar para
conseguir se desenvolver plenamente nesta vida. Virgem é o signo do artífice ou do
especialista, e por isso é provável que você tenha de dar duro em alguma atividade e se
tornar altamente capacitado nessa área escolhida para poder construir um ego saudável,
um senso forte de "Eu" - ou para se sentir plenamente satisfeito como indivíduo. Tudo bem,
chega de aspectos Sol-Lua. Pelo menos já liquidamos alguns dos assuntos pendentes desde
a palestra anterior.
Até aqui, a discussão geral serviu de introdução a um exame mais profundo do Sol
como símbolo da formação do ego e do papel que o pai representa nesse processo. Agora,
vamos mergulhar. Gostaria de começar citando algumas estrofes de A Odisseia de Homero,
Livro XVI:
Eu sou o pai pelo qual sua infância clamou
e que sofreu por minha ausência. Sou ele.
Não é digno, ser tomado de espanto
pela presença do pai.
Nenhum outro Ulisses jamais virá
pois ele e eu somos um, o mesmo.*
Para mim, esse trecho é bem comovente. Ulisses esteve entretido com suas aventuras
e provas durante a maior parte do tempo em que seu filho, o príncipe Telêmaco, estava
crescendo. Quando ele voltou, Telêmaco não reconheceu seu pai, há tanto desaparecido. É
aí que Ulisses diz, "Eu sou o pai pelo qual sua infância clamou e que sofreu por minha
ausência. Sou ele", e assim por diante. Estou tentando mostrar que muitos não chegaram a
conhecer direito seus pais e que para um bom número de crianças, tanto meninos como
meninas, o pai foi, e talvez ainda seja, uma presença um tanto misteriosa, desconhecida e
possivelmente até assustadora. Quão bem você conhece o seu pai? Há um ano, mais ou
menos, eu estava preparando uma nova palestra sobre o tema de pais e filhos. Passei
tantos anos lidando com o útero e com as mães que achei que já era hora de me dedicar ao
relacionamento pai-filho; nesse processo porém, também aprendi um pouco mais sobre o
relacionamento pai-filha. Contudo, vou começar falando de pais e filhos antes de tratar de
pais e filhas.
95
*Homero, A Odisseia, trad. ingl. de Robert Fitzgerald (Nova York: Anchor, 1963), pp. 295·296.
De acordo com diversos estudos, é provável que se você for um homem adulto com
idade entre 20 e 55 anos, criado nos Estados Unidos ou Inglaterra (e suspeito que essas
estatísticas se aplicam a uma boa parte dos países europeus), você não deve ter tido um pai
significativamente envolvido com o processo de sua educação; ele não deve ter sido
abertamente afetuoso, nem forte; não o orientou de maneira salutar, positiva.* Quando eu
estava reunindo informações para a palestra Pais e Filhos, conversei com muitos homens a
respeito de seus pais e explorei mais a fundo o meu próprio relacionamento com meu pai.
Como disse, ficou claro que o pai é uma figura misteriosa e que o relacionamento pai-filho
é, de modo geral, enganosamente complexo. Quer estejam descrevendo heróis, santos,
pecadores, vilões ou personagens intermediários, a maioria dos homens (e muitas mulheres
também) conhece muito mal a vida íntima de seus pais – o que o pai sente e pensa como
pessoa, como ser humano." Para a maioria de nós, ele ainda é um enigma.
*Ver, de Andrew Merton, "Fome de Pai", em New Age Journal, Set/Out, 1986, p.24.
Agora, as coisas estão começando a mudar. Freud e seus seguidores geraram uma
vasta literatura acerca do inegável papel da mãe no desenvolvimento dos filhos, mas até
bem pouco tempo não era fácil encontrar alguma coisa sobre o relacionamento pai-filhos e
o papel vital que os pais desempenham no processo de desenvolvimento e
amadurecimento de seus filhos e filhas. Poder-se-ia dizer que o pai era o progenitor
esquecido. Atualmente, porém (pelo menos nos Estados Unidos e Inglaterra), os pais estão
ficando mais visíveis, mais presentes. Falando de modo geral, estamos observando o
aparecimento gradual de um novo tipo de homem - o homem dos anos 70, dos anos 80,
dos anos 90: um homem que não tem vergonha de ser visto como uma pessoa sensível e
atenciosa, que tem menos medo de mostrar seus sentimentos e que quer ter um papel
mais ativo no relacionamento, na educação e no cuidado de seus filhos. Que diferença do
estereótipo masculino-paternalista da década de 1950, quando os homens que eram pais
ficavam relegados à posição do macho que leva o dinheiro para casa. Eles eram rotulados
de protetores e provedores da família, mas não deviam ser abertamente emotivos ou
chorar; tampouco podiam se comportar com os filhos do modo como a progenitora podia.
Há certas razões sociológicas bem claras para essa mudança no papel dos homens e
dos pais. Curiosamente, elas derivam do Movimento Feminista, que se expandiu
rapidamente ao longo das últimas décadas. À medida em que as mulheres mudam e
crescem, ficam mais aptas a se manifestarem por conta própria, a rejeitarem os
estereótipos e as projeções que os homens e a sociedade lançaram à sua volta durante
séculos. Os homens de há muito vêm projetando nas mulheres facetas que não vivenciaram
ou não desenvolveram - a mulher é que alimenta, a mulher é que sente. Agora, um número
cada vez maior de mulheres contesta a rotulação com base apenas nesses papéis. A mulher
pode cuidar ou nutrir, mas ela está começando a exigir mais espaço e tempo para explorar
e concretizar outras facetas de sua natureza. Por isso, os homens estão sendo como que
forçados a descobrir em si mesmos aquilo que incumbiram às mulheres vivenciar ao longo
de tantos anos. Em qualquer sistema, se um de seus componentes se altera, os demais
precisam mudar para que o sistema possa sobreviver. Apesar de eu viver na Inglaterra e de
ela estar um pouco atrás da América nesse particular (dizem, "Quando a América espirra, a
Inglaterra acaba ficando resfriada"), visitei bastante os Estados Unidos entre os anos 1970 e
96
1980. Quando assisti aos programas de TV de lá, observei pela primeira vez o índice de
mudanças sociológicas dentro da família; anúncios de talco para bebês, por exemplo, agora
mostravam o pai trocando o bebê. Cada vez mais pais querem observar o nascimento de
seus filhos; você vê pais saindo com os filhos e a mãe não está à vista.
*Samuel Osherson, Finding Our Fathers [Descobrindo Nossos Pais] (Nova York: Fawcett,
1986), p.20.
Assim como não é preciso pesquisar muito para detectar as novas imagens da
paternidade, não é preciso se esforçar para descobrir as razões astrológicas para esses
novos modelos. Atualmente, passamos por um congestionamento celeste no signo de
Capricórnio, um dos signos tradicionalmente associados ao pai. Netuno está em Capricórnio
desde 1984 e vai ficar lá até o final de 1998. Poderíamos mesmo dizer que Netuno está
dissolvendo uma série de coisas relacionadas com Capricórnio, suavizando parte da rigidez
desse signo e pedindo que o princípio capricorniano (que envolve a paternidade) se torne
mais maleável, tenha mais empatia. Urano reuniu-se a ele em 1988 e vai permanecer lá até
meados de janeiro de 1996, simbolizando novos ideais e novas imagens a desafiar as
estruturas capricornianas. Em 1988, Saturno também chegou em Capricórnio e representou
seu papel até fevereiro de 1991. É como se Saturno estivesse dizendo que chegou a hora de
concretizar essas novas imagens do pai instigadas pelos movimentos de Netuno e Urano.
Podemos encontrar no signo de Leão, um signo que há muito está associado com o
arquétipo do pai e do herói, uma outra correlação astrológica com as mudanças no papel
do pai. Tanto Leão quanto Capricórnio representam aspectos da paternidade; se esses
signos estiverem proeminentes em um mapa, com certeza eu vou querer examinar com o
cliente algumas questões relacionadas com o pai, tal como eu discutiria a mãe se me
aparecesse um cliente com sete planetas em Câncer. Atualmente, a geração que nasceu
quando Plutão estava em Leão está atingindo a meia-idade, uma época de auto-exame e
reavaliação. O mero fato de se ter nascido com Plutão em Leão sugere complexos em torno
do pai. Hoje, Plutão está atravessando Escorpião e você sabe o que isso significa - mais cedo
ou mais tarde, essas pessoas que nasceram com Plutão em Leão vão experimentar o
trânsito de Plutão em quadratura com Plutão natal. Esse trânsito é muito bom para fazer
aflorar aquilo que está enterrado, para iluminar complexos ainda não resolvidos e que têm
influenciado insidiosamente as escolhas que você faz na vida e o tipo de complicação que
você atrai em seus relacionamentos. A julgar por meus contemporâneos, sei que hoje
muitos homens e mulheres estão descobrindo questões e sentimentos relacionados a seus
pais e que até agora ainda não tinham sido aceitos conscientemente. Há muito mais livros
que tratam da paternidade e parece haver um grande número de filmes sobre pais e filhos.
A seguir, vamos examinar o Sol como significador do pai e como indicador do que pode ter
se passado entre você e ele; no momento, porém, gostaria de continuar a analisar o pai sob
um ponto de vista mais psicológico ou sociológico.
No início da década de 1980, um psicanalista da Universidade de Harvard, James
Herzog, criou a expressão fome de pai para descrever o estado psicológico das crianças que
foram privadas do pai por causa de separação, divórcio ou morte.* As pesquisas mais
recentes reavaliaram e ampliaram essa definição, fazendo com que incluísse os filhos de
pais fisicamente presentes, mas psicologicamente distantes ou inadequados. Eu definiria a
fome de pai como o anseio subconsciente por um pai ideal perdido, pelo pai que você não
97
tem, pelo pai que não estava lá da maneira como você esperava desesperadamente que ele
estivesse. Herzog descobriu que as crianças afetadas por esse problema (especialmente os
filhos, embora muito disso também se aplique às filhas) têm dificuldades em quatro áreas
básicas da vida adulta. Primeiro, com a criação - é muito difícil dar algo que você não
recebeu. Se você passou pela privação paterna, é provável que ache que o papel de pai será
mais difícil quando chegar sua vez de representá-lo. A segunda área em que Herzog
detectou problemas com relação à falta da figura do pai é à capacidade de se estar próximo
aos outros na vida adulta, de ser íntimo, quer com outro homem, quer com outra mulher. O
pai é o primeiro modelo do princípio masculino, a primeira ideia que temos de como são os
homens. Se ele foi distante e remoto, o filho vai presumir que os homens devem ser assim;
a filha pode deduzir que é isso que deve esperar dos homens. Tais imagens influenciarão
quem e o que encontramos ao longo da vida, para não falar do modo como reagimos ao
comportamento das outras pessoas e o interpretamos. Creio que foi o psicólogo humanista
Jean Houston quem disse certa vez que a vida tem um modo de forçar nossas expectativas.
*Ver, de Andrew Merton, "Fome de Pai", p.24.
Terceiro, Herzog observou que a falta de uma imagem adequada de pai poderia levar a
problemas com a agressão e a afirmação. É interessante notar que o perfil psicológico da
infância de criminosos presos costuma revelar a ausência de um pai, ou um relacionamento
difícil com ele. Se você foi muito agressivo ou hostil na infância, será bom ter um pai que
lhe ensine a lidar com limites. As mães também podem fazer isso, mas os relacionamentos
triangulares ativam questões importantes sobre limites e afirmação (como o complexo de
Édipo), e temos a escolha de aprender lições valiosas na vida ao nos defrontarmos com
esses conflitos. Se você não foi muito agressivo, um bom pai pode servir de modelo para
sua extroversão, para fazê-lo mais corajoso. O quarto ponto levantado por Herzog trata
daquilo que acabei de discutir: crianças privadas de pai costumam ter dificuldade para lidar
com a realização e com o domínio prático do cotidiano. Por falar nisso, pode ter havido
alguém por perto que não foi um pai biológico, mas que serviu de pai substituto no que diz
respeito a todas as questões de que tratamos até agora.
Acho maravilhoso saber que um número cada vez maior de homens está procurando
desempenhar um papel mais ativo como pai. No entanto, como estava dizendo, nem
sempre é fácil dar algo que você não recebeu. E quase um desafio ser um pai adequado
quando não se tem o registro de imagens positivas do pai na memória. Além disso, quando
um pai tenta nutrir e cuidar de seu filho recém-nascido e indefeso, pode reavivar
sentimentos perturbadores de sua própria infância - dor, frustração e raiva, até então
profundamente enterradas. O ressurgimento dessas emoções pode interferir com o desejo
sincero que o pai tem de ser um bom progenitor. Assim, para que o "novo homem" possa
satisfazer seu desejo de participar no processo de criação, talvez tenha de fazer uma boa
faxina psicológica antes, principalmente lidando com questões ainda não esclarecidas entre
ele e seu próprio pai. A mesma lógica se aplica às mães e seus filhos e, naturalmente, às
mães e suas filhas.
Há uma relação clara entre a formação do ego e o tipo de interação que você teve com
seu pai. Isso pode ser ilustrado de modo simples por meio de um diagrama (veja a Figura 5
na página 99), que é uma extensão do diagrama que eu usei na palestra sobre mães e
amantes ontem à noite. No princípio, sua identidade está fundida com a de sua mãe, como
98
mostra o Ovo A, no qual o seu ego ou "Eu" incipiente está envolto pelo dela. A tarefa de
desenvolvimento da idade de seis meses em diante consiste em libertar o ego (ou aquilo
que também poderia ser chamado de "sensação de ser um 'self’ distinto") do Ovo A, para
que ele seja diferente da mãe. Nem é preciso dizer que esse é um processo ambivalente e
coberto de ansiedade devido à separação, pois uma parte de você gostaria de continuar
fundida com ela naquele estado ourobórico. O impulso de se individualizar, porém, é
poderoso e natural; e o ponto que desejo enfatizar é que o processo de individuação é criado
quando há um pai por perto (Ovo B) para o qual você pode se dirigir - quando há outro
progenitor com quem interagir. Podemos dizer que um dos papéis do princípio do pai é o
de servir como um forasteiro atraente que ajuda você a romper com a fusão ou simbiose
que você tem com sua mãe.* O importante é que o pai é um outro. Pelo menos, esta é a
maneira tradicional de ver o problema. Obviamente, uma família será diferente de outra
em diversas áreas e há uma série de alternativas ao esquema convencional de família
nuclear. Contudo, por enquanto vamos falar em termos genéricos. Assim, se a mãe
representa a proximidade, a fusão e a segurança (aquilo que é conhecido), o pai representa
algo que não é mamãe - ele nos permite desenvolver um senso de "self" que não está atado
ao corpo da mãe; nesse sentido, ele representa o espírito, a autoconsciência, a aventura e o
crescimento. Repito: o pai pode representar um papel importante, ajudando-o a obter uma
identidade separada e distinta da de sua mãe. Isso se aplica tanto a filhos como a filhas.
*Arthur Colman e Libby Colman, The Father: Mythology and Changing Roles [O Pai: Mitologia
e Mudança de Papéis] (Wilmette, IL: Chiron Publications, 1988), p.78.

Figura 5. O pai como um forasteiro atraente para o qual podemos nos dirigir no processo de diferenciação da
mãe.
A base astrológica disso é bem óbvia: o Ovo A representa a Lua e a Mãe, enquanto o
Ovo B é o Sol, simbolizando o pai e o processo de definição do "eu" individual. Somos
atraídos para ele no momento em que estamos prontos para romper nosso vínculo
ourobórico com mamãe, quando começamos a estabelecer um "Eu" diferente do dela.
Portanto, aquilo que encontramos quando nos aproximamos do pai tem grande impacto
sobre nosso senso de identidade individual. Não é à toa que a tradição astrológica associa o
Sol com o pai e com o anseio pela identidade. Gostaria de dar um toque pessoal ao tema
apresentando um exercício simples:
Relaxe, inale profundamente algumas vezes e limpe a mente.
Agora, durante alguns minutos, imagine como seria uma aproximação
com seu pai.
99
Pense nisso.
Seu pai estava lá?
Ele exercia a tração suficiente para estimulá-lo a se separar de sua mãe?
Quando você está com ele, sente-se melhor ou pior do que quando está
com sua mãe?
O que vem à sua mente, ou qual a sensação que você tem, quando se
imagina interagindo com ele ou próximo a ele?
Os aspectos natais com o Sol dão uma indicação daquilo que você encontra por
intermédio de seu pai, e devido à conexão entre o pai e a formação do "self", os aspectos
natais com o Sol também indicam qualidades intimamente associadas com aquilo que você
acha que significa ser um "Eu" separado e distinto da mãe. Podemos brincar um pouco com
alguns exemplos para ampliar esse conceito. E se você nasceu com o Sol e júpiter em
trígono? Obviamente, pode ser que o Sol de seu mapa tenha outros aspectos além desse,
mas quero manter o exemplo básico e objetivo por enquanto. Imagine-se naquela fase da
infância em que sua tarefa de desenvolvimento consiste em desemaranhar sua identidade
da identidade de sua mãe. De certo modo, você está se afastando da Lua e se
encaminhando para o Sul. Assim, se o seu Sol está em trígono com Júpiter, o que essa
aproximação com o pai poderia significar para você?
Audiência: Daria uma sensação de expansão.
Howard: Sim, é provável que fizesse com que você se sentisse muito bem recebido, pois
você teria imagens jupiterianas positivas em aspecto com o Sol: "Puxa, a separação de
mamãe não é tão má assim. É bem interessante aqui fora. Papai é legal e, nossa, quantas
coisas novas eu estou descobrindo e sentindo com ele". Assim, se você encontra Júpiter por
meio do pai na época em que seu ego começa a tomar forma, sua noção de quem você é,
seu "Eu", será colorida por qualidades como espírito aventureiro, bom humor e
expansividade. Tal experiência contribuirá para que você tenha ainda mais vontade de
expressar sua individualidade, para que você tenha alegria, entusiasmo e gosto pela vida. E
bem verdade que você deve voltar correndo para a mãe se as coisas começarem a ficar
difíceis; pode ser que entre em contato com ela de vez em quando para saber se ela ainda
está lá. Contudo, os dados foram lançados; você já provou algumas das delícias que existem
para além do alcance da saia de sua mãe e não há como voltar. Agora, apenas a título de
discussão, vamos dizer que você nasceu com o Sol em quadratura com Saturno. Visualize-se
ao se afastar de sua mãe, indo na direção de seu pai e você dá de cara com uma quadratura
de Saturno. O que isso lhe diz a respeito da sensação de se aventurar para longe de sua
mãe, de enfrentar o mundo por conta própria?
Audiência: Terá dificuldades, problemas, bloqueios.
Howard: Sim, é como se você se chocasse contra uma parede de tijolos. Lá está você,
quase formando um conceito de eu-separado e se encontra com Saturno por meio de seu
pai - um pai que pode ser meio distante, frio ou remoto, que pode estar sempre longe de
casa, trabalhando, ou que lhe passa uma imagem de rigidez, autoritarismo, crítica, controle
e punição. Você pensa então, "Isso não é lá muito divertido, não estou sendo bem
recebido, não tenho conforto, é melhor voltar para mamãe". Como resultado, o
desenvolvimento do ego poderia ser atrasado; você não se sente muito seguro quanto a se
virar sozinho, seu ego tem um início falho, essa insegurança precoce e essas dúvidas bem
100
claras a respeito de si mesmo (dúvidas acerca de ser um "eu") devem preocupá-lo e
desafiá-lo em suas tentativas subsequentes de dar forma à sua individualidade e de
expressá-la. Espera-se que, apesar de Saturno, você acabe conseguindo chegar onde quer,
mas leva mais tempo e requer mais esforço porque você não tem a mesma segurança ou
satisfação do que o proporcionado por um contato Sol-Júpiter.
Audiência: E se você nasceu com a Lua recebendo aspectos difíceis e o Sol com aspectos
fáceis?
Howard: Boa pergunta. Pode ser que, desde o início, mamãe nunca tenha se sentido
segura ou nunca tenha servido como um abrigo sólido, como fornecedora de suas
necessidades. Como resultado, desde que você nasceu, papai foi o preferido; foi por ele
que você se sentiu atraído - estar próximo a ele ou em seus braços era melhor do que estar
perto de mamãe. Assim, nesse caso, papai é mamãe. Não tenho muita certeza do que isso
pode significar em termos de separação e individuação, mas posso dizer que, mais cedo ou
mais tarde, em nome da saúde e integridade psicológicas, você vai precisar lidar com os
danos causados pelo fracasso do vínculo materno. Contudo, entristecem-me ainda mais as
crianças que não encontraram segurança e apoio em nenhum dos progenitores - algo que
pode surgir nos mapas quando o Sol e a Lua recebem aspectos tensos ou se os luminares
formam um T-quadrado de orbe estreito com Marte, Saturno, Quiron ou algum dos
planetas exteriores (o que também pode indicar problemas graves de relacionamento entre
os próprios pais. Imagine só se você se afasta de uma mãe "má", busca o pai e também
acaba encontrando nele a dor e a rejeição. Isso não vai facilitar os seus relacionamentos
futuros e, com certeza, não vai contribuir para a formação de seu "Eu", pelo menos não um
"eu" dotado de um senso salutar de auto-estima. Será necessário trabalhar o "self” -
psicológica, terapêutica ou espiritualmente - para que você possa chegar a se sentir bem
como fato de estar em seu corpo e neste planeta. Já encontrei adultos bem-sucedidos e
razoavelmente felizes, que nasceram com esse tipo de aspecto solar e lunar, e que
conseguiram se entender com seus ferimentos de infância, aprendendo com eles; e
conheço pessoas que não conseguiram - algumas delas estão trancafiadas em alguma
instituição (ou deveriam estar) e outras estão aí fora, mas ainda têm dificuldade para lidar
com a vida. Louvo todos eles, com exceção daquele que decide me atacar com uma faca
por causa de alguma coisa que seus pais "fizeram" com ele na infância. Mesmo assim, se eu
sobrevivesse ao ataque e levantasse seu tema astrológico, poderia entender a razão pela
qual isso aconteceu. A astrologia pode nos ensinar um bocado sobre aceitação e tolerância.
Como é que podemos julgar alguém que nasceu com aspectos desafiadores? Os
reencarnacionistas dizem que essas situações se originaram de maneira cármica em nossas
vidas anteriores e há os que digam que o Eu mais profundo escolhe o mapa de acordo com
as lições e com o tipo de crescimento de que você precisa nesta vida.
Vamos continuar a explorar mais alguns aspectos natais com o Sol tendo em mente o
pai e a formação do ego. E se você nasceu com o Sol em bom aspecto com Marte?
Audiência: O pai transmite uma imagem de força, confiança, assertividade ou estímulo,
e isso molda a maneira como você acha que um indivíduo deve ser.
Howard: Exatamente, justo quando você está estabelecendo a identidade de seu ego,
você encontra em seu pai uma figura marciana positiva, algo que deve ajudá-lo a se equipar
com um senso de potência e poder. Contudo, e se você tem em seu mapa natal uma
101
quadratura entre o Sol e Marte, especialmente em signos cardinais ou fixos?
Audiência: Você pode considerá-lo agressivo, rude demais ou entrar imediatamente em
um conflito de vontades.
Howard: Sim, ele pode parecer irado, rude, violento, descontrolado ou até com
problemas sexuais. De que modo isso pode afetar um filho?
Audiência: Ele deve crescer com problemas relacionados à agressividade.
Howard: Sim, vamos analisar isso. Lembre-se, imaginamos que o pai seja nosso primeiro
modelo masculino. Um garoto que experimenta em seu pai a violência ou a agressividade
repetidas vezes pode tranquilamente imaginar que essas qualidades é que definem um
homem. A filha que tem um pai assim pode concluir que os homens são uns brutos e você
pode imaginar o que isso pode causar quando ela for mais velha: E interessante observar
que já conheci pessoas de ambos os sexos que tem contatos Sol-Marte difíceis e que
parecem dóceis, meigas, afáveis, que se esforçam para controlar sua raiva e para não
darem a impressão de que forçam as coisas ou de que são exigentes. E como se elas
tivessem sofrido com um pai abusivo ou tirânico e decidissem que nunca iriam ser como
ele. No entanto, quando colocamos Marte em uma camisa-de-força pelo fato de só termos
visto suas expressões negativas, deixamos de lado também o potencial de desenvolvimento
das coisas positivas que Marte tem para oferecer-tais como o poder de afirmar sua
identidade através da manifestação de sua vontade e de ir em busca daquilo que queremos
no mundo. É como jogar fora o bebê junto com a água do banho.
O pai é um modelo para o "animus", e podemos tanto adotar os modelos como
rejeitá-los. Podemos idealizá-lo como um herói ou rotulá-lo como um vilão. De qualquer
maneira, ele é uma força que deve ser levada em conta, pois é a manifestação de algo que
existe em seu interior, quer goste ou não. Acredito que a colocação - por signo, casa e
aspecto - dos planetas pessoais em seu mapa mostra predisposições arquetípicas inatas, o
tipo de imagens ou de expectativas com que você nasce (seja por que motivo for) e que
influenciam aquilo que você experimenta com relação às diversas facetas da existência
associadas ao Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus e Marte. Assim, se você “veio” com uma imagem
negativa de “animus”, simbolizada pela quadratura entre Sol e Marte, isso reflete algo em
seu interior que você pode projetar em seu pai: seja ou não ele uma “tela” adequada.
Talvez seu pai se fato não seja tão marcial, mas você está predisposto a notar ou a registrar
o fato de ele estar agindo assim: ou então algo na química ou no ritmo entre vocês ative um
Marte negativo nele. Bem, pode ser que ele tenha mesmo esse jeito e isso se ajuste
exatamente à sua imagem interior. Você pode ler mais a respeito dessas e de outras
premissas básicas da astrologia psicológica em meu livro As Doze Casas* e no capítulo "As
etapas da Infância" em O Desenvolvimento da Personalidade**
*Howard Sasportas, As Doze Casas (São Paulo: Pensamento, 1988).
**Liz Greene e Howard Sasportas, O Desenvolvimento da Personalidade - Seminários sobre
Astrologia Psicológica (São Paulo: Pensamento, 1990), pp.15-86.
Vamos prosseguir com mais alguns aspectos solares. Como poderíamos definir um
ângulo tenso entre o Sol e Plutão em termos da influência do pai na formação do ego?
Audiência: Daria a impressão de ameaça e perigo?
Howard: Sim, poderia muito bem se manifestar assim. Um contato difícil entre o Sol e
Plutão poderia dar origem a uma série de problemas em torno do pai. Antes de mais nada,
102
Plutão é o deus do mundo subterrâneo, o qual, como todos sabem, equivale ao
inconsciente no Jargão psicológico. Portanto, você não pode entendê-lo apenas pela
aparência. Não importa o que ele diga ou faça exteriormente, ou como se pareça: é
provável que você seja mais sensível àquilo que ele está ocultando. O que acontece depois
depende da natureza das emoções ou impulsos imersos em seu inconsciente. Talvez ele dê
a impressão de satisfação ou de felicidade, mas esteja deprimido por dentro. Você vai
registrar a depressão, não a fachada. E se ele parece agir de modo amável gentil com você,
mas por dentro se sente zangado ou explosivo por causa de algum problema no trabalho ou
em seu relacionamento conjugal? Você irá registrar seus sentimentos destrutivos,
ameaçadores, não necessariamente de modo consciente ou mental, mas por meio de
vibrações interiores que vão afetá-lo ou mexer com seu estômago quando você estiver
perto dele. Tal como certos animais, você possui um olfato aguçado que lhe permite
pressentir o que está no ar, captar aquilo que não fica imediatamente visível ou aparente.
No caso de uma filha, uma certa conotação sexual poderia complicar o relacionamento com
o pai e ambos se sentiriam mal, culpados ou escusos por causa desses sentimentos.
Percebe? Lembre-se, tudo isso pode estar acontecendo justamente quando você começa a
se definir como um "Eu". Assim, se você topa com Plutão no meio do processo,
provavelmente vai concluir que sua existência como um "self” separado significa estar de
prontidão, o que também torna a vida mais complexa. O pai plutoniano pode ser visto
como alguém todo-poderoso, onipotente. Se você quer estar seguro e não se arrepender,
terá de ser profundamente observador e consciente, pisando sobre ovos, tomando cuidado
com aquilo que revela ou com o que permite acontecer. Você vai querer se controlar
bastante, bem como ao seu ambiente, a fim de garantir que as coisas saiam a seu modo - se
não, os riscos são grandes. Terá problemas como lutas pelo poder, jogos sutis e assim por
diante. Cheguei a ver esses padrões em pessoas que tem o Sol em sextil ou em trígono com
Plutão, apesar de elas parecerem melhor equipadas para se adaptarem aos problemas que
surgem, bem como para lidarem e a prenderem com eles, do que alguém que nasce com
uma conjunção, quadratura, oposição ou quincúncio.
O contato Sol-Plutão também sugere que você deve ser bastante sensível às ocasiões
em que seu pai passa por um processo de mudança ou de transformação, ou quando ele
está lutando com questões complexas em seu íntimo. Novamente, isso leva você a associar
a identidade com coisas como crise, auto-exame e autoconhecimento, e à necessidade
periódica de trocar de pele - a propensão de criar situações que exigem mais mortes e
renascimentos psicológicos do que qualquer outro aspecto solar pode exigir de alguém.
Falando de maneira bem literal, Plutão é o deus da morte e algumas pessoas nascidas com
aspectos Sol-Plutão experimentam a morte ou o desaparecimento do pai enquanto jovens.
Os eventos que experimentamos no início da vida deixam suas marcas, por maior que seja
sua habilidade para ocultá-las.
Audiência: Conheci várias pessoas com o Sol em conjunção a Vênus e muitas delas
odiavam o pai. Não compreendo isso.
Howard: Também percebi isso, mas tenho certeza de que o enredo é mais complexo.
Ter o símbolo do pai associado ao amor e a beleza deve significar que, em algum estágio,
você o adorou ou o idealizou. Daí, por algum motivo, ele o decepcionou ou traçou limites
mais nítidos entre vocês, talvez por sentir que o relacionamento estava ficando muito
103
"quente" ou porque mamãe estava com ciúmes e criou caso. Sol-Vênus sugere ainda que
você tenha nascido com elevadas expectativas em relação ao arquétipo paterno, que ele
devesse ter personificado tudo que há de charmoso e maravilhoso, oferecendo-lhe amor e
afeto imaculados. Quando o pai real e corpóreo cometeu erros e deixou de satisfazer suas
expectativas pouco realistas, você pode ter ficado desapontado e zangado com ele. Já vi
dinâmicas semelhantes em contatos Sol-Netuno. Em termos de formação do ego, um
contato Sol-Vênus que funciona bem deve traduzir-se como o encontro do amor e do
reconhecimento através o pai, isso vai aumentar seu senso de amor-próprio e de auto-
estima. No final das contas, porém, creio que precisamos aprender a nos amarmos a nos
valorizarmos por aquilo que somos, sem dependermos da avaliação dos outros.
Vamos falar de Sol-Urano. Você está se afastando do corpo de sua mãe, dirigindo-se
para seu pai e para uma autodefinição mais clara, mas existe, em seu mapa natal, uma
conjunção, quadratura, oposição ou quincúncio entre o seu Sol e Urano.
Audiência: Talvez ele não esteja por perto.
Howard: Urano é um planeta complexo e pode se expressar de maneiras contrastantes.
Mas é correto dizer que os aspectos de Urano podem se manifestar como desagregação,
separação e originalidade, por isso a estrutura familiar talvez não seja a tradicional ou passe
por abalos significativos que o perturbam e desarmam justo quando você achava que
estava assentado na vida. Se a sua família é diferente do normal, seu senso de identidade é
colorido pela ideia de que você não é como os outros garotos que conhece - você pode ter
vindo de um lar desfeito ou talvez seus pais não sejam legalmente casados. Seu pai pode
refletir Urano no fato de ser inquieto, saindo de casa e voltando depois de algum tempo até
a oportunidade de mudança chamá-lo novamente; ou então trabalha longe e só volta para
casa nos finais de semana. Você não consegue ter muita certeza em relação a ele: ele é um
número desconhecido, mutável e errático. A ideia que o filho tem acerca de si mesmo e do
que significa ser um homem pode refletir aquilo que ele vê em seu pai e, mais tarde, pode
ser que ele mesmo se comporte assim. A menina cujo Sol forma aspecto com Urano, que se
identifica fortemente com o pai ou o prefere à mãe, pode crescer refletindo seus atributos
ou pode presumir que, de modo geral, os homens não são confiáveis, apesar de poderem ser
até divertidos ou estimulantes quando estão por perto.
Na mitologia grega, Ouranus era um deus do céu e podemos associar a vastidão dos
céus estrelados com a mente e o intelecto, com crenças, teorias, filosofias, sistemas, tudo
que for abstrato e conceitual. Por este motivo, as pessoas fortemente uranianas
(dependendo do resto do mapa) às vezes se desligam ou se dissociam de seus corpos e do
reino dos sentimentos. Geralmente, elas pensam ou decidem que "devem" se sentir deste
ou daquele modo e tentam ser assim, em vez de deixarem as emoções à solta, de modo
natural. É ótimo conversar com elas, têm princípios e fortes crenças políticas ou sociais,
provocam ideias em você e vice-versa; mas, se você precisa de apoio, conforto ou
estabilidade e lhes pergunta se elas realmente o amam, a resposta pode ser, "Bem, o que é
o amor?", após o que se põem a fazer uma análise abstrata do assunto. Não é muito
consolo nos momentos em que tudo o que você deseja é calor físico ou emocional, ou
mesmo um carinho. Se você é uma criança cujo mapa exibe um contato Sol-Urano e seu
mapa tem como elementos predominantes Fogo e Ar, talvez o pai uraniano seja o seu
negócio. Você se identifica rapidamente com ele, e desde que ele não seja o tipo uraniano
104
excessivamente dogmático, certo de que sua verdade é a verdade de todo mundo, você irá
desenvolver um "Eu" que precisa de espaço e liberdade para agir. Se o seu mapa apresenta
um aspecto Sol-Urano de orbe estreito mas o restante do mapa é formado basicamente por
Água e Terra, talvez o pai uraniano não seja capaz de satisfazer suas necessidades físicas ou
emocionais. No processo de separação da mãe, você ruma na direção dele e descobre que
ele é excitante e estimulante, chega até a gostar de seu senso de humor e de sua
imprevisibilidade. Mas quando você precisa de intimidade ou calor, tal como discutimos há
pouco, vai achar que ele é um pouco distante e frio, que reage pouco e que não é muito
confiável. Ele pode ser bom e generoso com você em muitas coisas, no entanto você sente
que ele provavelmente também é assim com os filhos do vizinho. Ele é justo, trata a todos
com equanimidade. Isso é bom, mas você quer sentir que é especial para ele. Se você tem o
tipo de mãe que pode oferecer a proximidade emocional e o apoio de que precisa, vai
voltar para ela. No entanto, você se aborrece com as coisas já conhecidas, começa a se
sentir sufocado ou confinado por ela e busca seu pai para respirar livremente, para obter
um tipo diferente de estímulo. Perceba como isso cria um padrão de idas e voltas. Mais
tarde, você começa um projeto, entra em um emprego ou em um relacionamento na
esperança de que ele lhe traga satisfação ou até uma realização duradoura; porém, quando
perceber que ele não está de acordo com seus ideais ou expectativas, ou que você começa
a se sentir entediado com tudo, vai pôr o pé na estrada e tentar algo diferente.
Para discutir com você os aspectos Sol-Netuno, gostaria de usar o mapa de um homem
a quem vamos chamar de "Paul". (Veja o Mapa 2 na página 107). Na verdade, vamos lidar
agora com um caso razoavelmente extenso, pois temos não apenas o mapa de Paul, como
também o de seu pai, "Bill", e de seu filho, o qual vamos chamar de "Max". Agora, vamos
nos concentrar no mapa de Paul; mais tarde (veja pp. 119-125), Liz e eu vamos discutir o
mapa de Paul em relação aos mapas de seu pai e de seu filho. Estudar uma linhagem como
essa é um bom modo de aprender algo sobre os tipos de problemas que podem surgir
entre pais e filhos. Quando eu lhe contar suas histórias, você verá como os complexos de
infância e outros assuntos inacabados do passado são transmitidos de geração para
geração e com que precisão nós os observamos nos três mapas em questão. A astrologia é
um excelente instrumento para detectarmos e compreendermos as intricadas dinâmicas
familiares.
Quando procuro o pai no mapa, começo examinando o Sol em função de signo, casa e
aspectos. Concentro-me em particular nos aspectos mais exatos formados pelo Sol, sejam
aspectos importantes ou secundários. Você sabe do que estou falando quando me refiro a
um aspecto "exato" – é aquele onde o ângulo é o mesmo da definição do aspecto ou com
uma variação mínima. E impressionante o poder de influência que um aspecto "secundário"
exato, tal como uma semiquadratura ou uma sesquiquadratura, exerce sobre a psique e a
vida de uma pessoa. Por isso, não ignore os aspectos secundários caso eles tenham um
orbe bem estreito. Além disso, você precisa examinar o que acontece na casa natal
associada ao pai. Tal como Liz, e por motivos que não vou comentar porque muitos já
conhecem, para mim a casa 4 funciona como significador do pai, embora muitos prefiram
usar a casa 10. Na verdade, vou falar um pouco sobre isso mais tarde. Por enquanto,
porém, vou começar a análise pela colocação do Sol no mapa de Paul. Podemos vê-lo a 0
graus de Câncer na casa 8. Que planeta forma o aspecto de orbe mais estreito com o Sol?
105
Audiência: Netuno está bem perto de uma quadratura exata.
Howard: Sim, O Sol está a 0 graus e 22 minutos de Câncer e Netuno a 29 graus e 19
minutos de Virgem. Está fora do signo "certo", mas a apenas um grau e pouco da
quadratura exata. Lembre-se dos aspectos secundários: no mapa de Paul você encontra
uma semiquadratura bem estreita entre Vênus e o Sol. Estávamos falando disso há pouco,
quando me referi a esse aspecto em termos do amor que buscamos no pai e às elevadas
expectativas que nutrimos por ele. Agora, quero focalizar o significado da quadratura entre
o Sol e Netuno. Antes de revelar a história de Paul, o que você acha dos aspectos entre
Netuno e o Sol no que diz respeito à formação da identidade do ego e à interação com o
pai?
Audiência. Netuno é tão nebuloso que talvez o pai não esteja por perto.
Howard: Sim, foi justamente o que aconteceu no caso de Paul. No estágio de
desenvolvimento, quando ele estaria se afastando naturalmente da mãe e estabelecendo
sua noção de separação do eu, não contou com um pai que facilitasse ou detivesse o
processo: Paul deu de cara com Netuno relacionando-se com o Sol, e Netuno pode ser bem
intangível - talvez não tenha algo a que possamos nos agarrar. Falando genericamente, os
aspectos tensos entre o Sol e Netuno podem se manifestar de diversas maneiras.
Netuno é o planeta associado ao sacrifício e, quando ligado ao Sol, ele relaciona o
sacrifício com o arquétipo paterno. Isso pode se dar de modo bem literal - o pai vai embora,
morre ou não está presente por algum motivo e a pessoa tem de abrir mão dele. O direito
inato de termos um bom pai continua sendo um anseio não-realizado. Mesmo se o pai
estiver fisicamente presente, ele pode ser fraco, doente ou enfermiço; ele pode ter um
vício como o alcoolismo, passando mais tempo no bar do que em casa ou então bebendo
demais e causando problemas à família. Também pode ser um marinheiro, sempre
navegando, ou alguém que trabalha em uma plataforma petrolífera na costa - o mar e o
petróleo estão associados a Netuno. Lembro-me de dois casos que ajudam a ilustrar os
modos de manifestação de Netuno. Ambos os mapas exibem uma quadratura estreita
entre o Sol e Netuno. No primeiro caso, temos uma mulher cujo pai foi um cantor de ópera
de fama mundial e ela esteve longe dele enquanto crescia, pois ele se apresentava em
muitos lugares. O segundo exemplo é o do filho de um pastor: papai estava tão ocupado
cuidando de seu rebanho que não teve tempo suficiente para dar atenção a seus próprios
filhos. Veja como, nos dois casos, o pai teve de ser sacrificado: ele pertencia ao mundo, não
aos filhos. Obviamente, podemos encontrar manifestações positivas do aspecto Sol-
Netuno. O pai pode ser um artista, um curador, uma pessoa bastante imaginativa, poética,
inspirada e sensível. Uma pessoa com quem nos sentimos tranquilos, em paz. Porém,
observei ao longo dos anos que mesmo com um trígono ou sextil entre esses dois planetas,
especialmente se o aspecto tiver orbe estreito, a pessoa precisa fazer uma série de ajustes
para lidar com o pai. Mencionei antes que as pessoas Sol-Netuno podem idealizar o pai
desde o início e se desapontarem mais tarde, quando ficarem um pouco mais velhos e
sábios, e o enxergarem de maneira mais realista. É como uma bolha que explode: seu pai o
deixa "na mão" ou o decepciona por algum motivo.
Vamos nos concentrar no mapa de Paul. Paul nasceu em junho de 1943, o que significa
que foi concebido uns nove meses antes, lá pelo final de setembro de 1942, entre o final de
Virgem e o começo de Libra. (Conhece a piada contada pelo astrólogo americano Michael
106
Lutin? Ele disse que as pessoas que fazem sexo quando o Sol está em Virgem são punidas
nove meses mais tarde, dando à luz a Gêmeos) Paul nasceu no comecinho de Câncer.
Podemos presumir que o pai de Paul esteve por perto na época da concepção; porém, logo
depois Bill foi convocado pela Royal Air Force, foi para o Canadá e só voltou para a
Inglaterra quatro anos depois. Paul passou seus quatro primeiros anos de vida sem pai, o
que está coerente com a quadratura entre o Sol e Netuno. Paul também tem um trígono
entre seu Sol em Câncer, sua Lua em Peixes e, em alguns casos onde há contato entre o Sol
e a Lua, a mãe (Lua) acaba tendo de fazer o papel do pai (Sol) também. Não tome isso como
regra geral. Além disso, Paul nasceu com o Sol na casa 8, domínio natural de Escorpião,
outra pista que nos leva a questões complexas, tons negativos ou temas sombrios ou
misteriosos entre Paul e seu pai.

Mapa 2. Paul. Os dados de nascimento foram omitidos para preservar a privacidade. Mapa calculado pela
Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Tanto Freud como Jung presumiram que o pai não fosse muito importante para os
filhos senão a partir dos três ou quatro anos de idade. Contudo, as pesquisas mais recentes
mostraram que a ausência do pai nos primeiros quatro anos de vida exerce sobre os filhos um
efeito mais desastroso do que sua ausência após o quarto ano. Em um dos estudos que
analisei, estudantes universitários cujos pais tinham estado na guerra ou no exército
durante os três ou quatro primeiros anos de suas vidas foram comparados a outros

107
universitários que contaram com a presença do pai desde que nasceram.* Os homens que
foram privados do pai na infância tiveram enorme dificuldade para se ajustarem ao retorno
do pai quando ele apareceu. Para alguns, foi mesmo impossível criar um vínculo com o pai;
ele foi visto como um invasor ou intruso, um estranho que perturbou a vida que tinham
com a mãe. Esse estudo se encaixa exatamente com a experiência de Paul. Não estou
inventando nada.
*Anthony Stevens, Arhetypes [Arquétipos] (Nova York: Quill, 1983), p.105.
Entrevistei Paul em junho de 1989 especificamente para explorar o relacionamento
que ele teve com seu pai e para ver como essa relação o estaria afetando como pai.
Coloquei os três mapas na minha frente e ouvi sua história, fazendo-lhe diversas perguntas.
Uma das primeiras coisas que ele disse foi, "Só conheci meu pai com quatro anos e não me
lembro de quase nada sobre ele até meus seis ou sete anos de idade". Achei isso estranho.
Bill (pai de Paul) reapareceu quando ele tinha quatro anos, mas ainda assim havia essa
lacuna de memória de dois ou três anos. Não quero dar a impressão de ser um adivinho,
mas essa frase me deixou intrigado; não consegui aceitá-la com facilidade. Era mais
provável que Paul tivesse achado difícil aceitar a presença do pai recém-regressado; havia
nesse retorno algo tão doloroso ou desconfortável que ele preferiu esquecer o mais que
pudesse a respeito dos primeiros anos de contato com Bill. Assim, quando alguém lhe
disser "Não me lembro bem do começo da infância", é bem provável que essa época não
tenha sido fácil e que haja muitos sentimentos soterrados aguardando uma descoberta.
Naturalmente, você deve estar preparado para respeitar aquilo que as pessoas estiverem
prontas para ouvir - não use o "insight" que o mapa lhe dá como se fosse uma marreta...
mas tampouco se deixe enganar.
Sondei Paul de leve. Ele disse que não se lembrava de "quase nada", então eu lhe pedi
que tentasse se lembrar do pouco que pudesse. Ele prosseguiu: "Lembro-me de ter me
perguntado, mas quem é esse sujeito e o que quer aqui? Talvez eu tenha me sentido um
pouco traído por minha mãe, que o deixou entrar. Hoje, tenho a tendência de me isolar dos
outros". A bola estava rolando e o próprio Paul começou a fazer ligações entre o caos
gerado pelo retorno de seu pai e seu eu "adulto". Ele continuou, "Sabe, em termos
emocionais eu sou um solitário. Não tenho amigos íntimos. Não gosto que as pessoas se
aproximem de mim. Talvez isso venha desse período. Minha mãe, a pessoa em que achei
que podia confiar, me aparece com esse sujeito. Até bem pouco antes da morte dele eu
nunca me aproximei de fato de meu pai, e mesmo nessa época, a distância ainda era
grande." A história de Paul acabou se tornando um bom exemplo dentre os estudos sobre
pais e filhos que estive apresentando - isso de ele não conseguir aceitar o pai após uma
ausência de quatro anos. Obedecendo ainda à pesquisa de Herzog sobre "fome de pai",
Paul confessou que tem problemas quando tenta se aproximar das pessoas. Quando
passamos a discutir o relacionamento com seu filho, Max, ele disse algo que achei
comovente: "Às vezes, olho para o Max quando ele está dormindo e me sinto meio piegas.
Essas coisas, sabe? O quanto amo meu filho, tudo o que quero dar para ele. Mas quando
ele está acordado e estou mantendo contato com ele, temos muita dificuldade para nos
relacionarmos. Às vezes, fico tão zangado com ele que eu mesmo me surpreendo." Ainda
hoje eu falei sobre isto. Um pai pode, com toda sinceridade, querer dar a seu filho o tipo de
amor que ele próprio nunca chegou a receber, mas se ele não ganhou esse amor de seu pai,
108
então sua mente não dispõe do cenário ou das imagens que o equipariam naturalmente
para que pudesse agir assim. No caso de Paul, seu pai esteve ausente durante seus
primeiros quatro anos de vida; quando Bill voltou, era um inimigo, um intruso. A atmosfera
entre Paul e seu pai tinha sido extremamente sombria - pouco amor, quase nada a
partilhar, exceto a rivalidade pela mãe. E agora, apesar de Paul gostar de verdade de Max
(que é seu único filho), ele sente que a paternidade não é nada fácil.
Ontem, comentei que os trânsitos e progressões envolvendo a Lua podem nos ajudar a
entender os acontecimentos envolvendo mãe e filho. A mesma lógica se aplica ao Sol. Dê
uma olhada no Sol de Paul em relação a seu Saturno - o Sol a 0 graus de Câncer e Saturno a
17 graus de Gêmeos. Segundo os padrões da maioria dos astrólogos, é um orbe muito
grande para uma conjunção. Contudo, Saturno está um pouco atrás do Sol. O que isso
significa em termos dos trânsitos de Saturno sobre o Sol de Paul em seus primeiros e
cruciais anos de vida?
Audiência: Saturno vai passar sobre o Sol enquanto ele ainda é bem jovem.
Howard: Sim, no caso de Paul, Saturno leva mais ou menos um ano para chegar lá.
Lembra-se de como aparece um impulso inato de desenvolvimento depois dos seis meses
de idade, um impulso para separar o seu "Eu", sua identidade, da identidade da mãe, um
processo que costuma levar três anos para se concretizar e que o pai pode facilitar? Pois
bem, logo quando Paul precisa do "outro" representado pelo pai para ajudá-lo a trilhar o
caminho da individuação, ele recebe Saturno sobre o seu Sol - uma indicação astrológica da
privação por que passou. De certo modo, o Sol de Paul foi reprimido e paralisado na época
de seu primeiro aniversário; ele perdeu a primeira chance de construir seu ego. Isso não o
condena a passar a vida sem direção ou sob uma névoa, mas mais tarde, ele terá de se
esforçar um pouco mais do que o normal para chegar a uma autodefinição. Talvez isso não
seja tão ruim, pois como Saturno costuma nos ensinar, quanto mais você se esforça para
conseguir alguma coisa, quanto mais você precisa suar, "malhar" e esperar, mais valor você
dará a essa coisa. Pelo menos é assim na maioria dos casos. A força e o poder solares de
Paul podem ter tido um desenvolvimento retardado ou perturbado, mas não lhe foram
negadas pela eternidade.
É interessante analisar mais alguns trânsitos importantes ocorridos nos anos de
formação de Paul. Paul nasceu em 1943 e seu pai retornou quando ele estava com quatro
anos, o que nos leva a 1947. Durante nossa entrevista, fiquei curioso por saber que
trânsitos ocorreram no mapa de Paul no ano em que seu pai voltou. Você conhece alguém
que nasceu em 1947? Aposto que você sabe do que vou falar. Nesse ano, Plutão entrou em
Leão (um dos signos naturalmente associados ao princípio do pai e do herói). Se você der
uma olhada nas efemérides, verá que o trânsito de Saturno o levou a uma conjunção com o
Plutão do mapa de Paul em junho de 1947, entrando em conjunção com seu Vênus em
agosto (dois meses depois). Enquanto isso, Plutão adentrava ainda mais o signo de Leão,
aproximando-se lenta e inexoravelmente do Vênus natal de Paul, chegando a 1 grau dele
em 1947, fazendo um contato direto inicial em 1948 e continuando a molestar a deusa do
amor até junho de 1950. Com Saturno e Plutão passando sobre seu Vênus, não é de se
espantar que Paul tivesse dito de cara que não se lembrava muito bem dos dois anos
iniciais do regresso de seu pai. Deve ter sido algo muito doloroso para ele - toda sua vida
em pandarecos. Lembre-se, trânsitos e progressões mostram o significado interior dos
109
eventos que ocorrem sob sua égide. Quando Saturno e Plutão passaram sobre seu Vênus,
Paul se defrontou com um desafio duplo: ele teve de se entender em casa com um
estranho mandão - que por acaso era seu pai - e teve de lidar com o abalo cataclísmico do
relacionamento com sua mãe, pois surgiu em cena um rival. Alguém aqui já teve a "sorte"
de receber um trânsito de Plutão sobre Vênus natal? Pense no que aconteceu com você
nessa ocasião. Como regra geral, os trânsitos de Plutão em relação a Vênus - incluindo o
trígono e o sextil - prenunciam um período em que você é testado, desafiado, destroçado e
(com sorte e esforço) reconstruído ou transformado de maneira positiva por meio daquilo
que você é forçado a encarar na arena dos relacionamentos. Tal como sucede em qualquer
trânsito importante de Plutão, seus efeitos podem ser devastadores-até ele passar e você
ser capaz de perceber que a mudança e a confusão que Plutão traz têm sentido e propósito
em termos de seu autodesenvolvimento e crescimento psicológico.
Em termos freudianos, estamos nos encaminhando para o Complexo de Édipo de Paul.
Alguns psicólogos põem em dúvida a validade da teoria edipiana, mas estou inclinado a
pensar que Freud tinha certa razão. No mito grego, Édipo mata o pai e se casa com a mãe;
na vida real, a maioria das crianças passa por um estágio em que deseja a mãe ou o pai só
para si, vendo o outro progenitor como um rival. A tese central de Freud dizia que o filho
deseja a mãe para si e, portanto, gostaria de se livrar do pai; a filha se apaixona pelo pai e
quer eliminar a mãe do mapa. São desejos onde há boa dose de culpa. E se o progenitor
rival descobre o que você estava tramando ou desejando? Do ponto de vista do
inconsciente, esses desejos "proibidos" acabam levando a alguma forma de punição. Além
disso, pode ser que você também ame ou precise de seu rival; assim, se você destrói essa
pessoa, está eliminando alguém a quem você na verdade ama. É complicado.
Vamos usar o exemplo do garoto que quer a mãe para si e que vê no pai um rival para
estudar, um pouco mais detalhadamente, o rumo que o conflito de Édipo costuma tomar. O
que acontece é que o menino se sente culpado (inconscientemente) por seus anseios
proibidos e teme represálias por parte do pai. Contudo, ele se esforça por competir com o
pai numa tentativa de provar para sua mãe que ele (o filho) é o melhor dos dois. Ele quer
dar à sua mãe-amante a impressão de que ele pode se sair tão bem quanto seu pai, se não
melhor, na satisfação das necessidades dela. Na realidade, porém, ele não se sai bem.
Afinal, é apenas um menino de três ou quatro anos. Papai é maior e mais forte, papai pode
sair pelo mundo sem a companhia de um adulto e conseguir dinheiro para comprar roupas
e abrigo - em suma, papai está de várias maneiras melhor equipado para "sustentar" e
satisfazer a mamãe. Geralmente, o menino resolve o dilema desistindo da disputa, apesar
de eu questionar se realmente abrimos mão dela - o desejo de afirmação, de nos sairmos
melhor do que os concorrentes, juntamente com o medo oculto e as dúvidas incômodas de
que talvez não sejamos suficientemente bons ou de que o castigo recaia sobre nós caso
sejamos bem-sucedidos, assusta a maioria de nós pelo resto da vida, em maior ou menor
grau. Quando o garoto abre mão do desejo de ter sua mãe só para si e desiste da
competição, ele conclui (de acordo com o conceito freudiano de uma resolução satisfatória
para o dilema edipiano) que é bom ele seguir o pai como modelo, pois este parece ter as
qualidades necessárias para se obter aquilo que se deseja na vida. Assim, o pai não é mais
um rival e sim um aliado, alguém que tem algo para lhe ensinar. Obviamente, isso não vai
funcionar tão bem se o pai for um verdadeiro schlep, uma palavra iídiche que significa um
110
estúpido, um fracassado. Mas essa já é uma outra história e não teremos tempo para
discuti-la agora. (Você pode ler em detalhes o que escrevi sobre isto no capítulo "As Etapas
da Infância" de O Desenvolvimento da Personalidade.) Para a menininha, a situação se inverte,
mas segue um padrão muito parecido: ela quer se casar com papai e se livrar de mamãe,
ela receia que mamãe a castigue caso descubra o que está acontecendo e depois, tendo se
comparado com sua mãe, decide abandonar a luta e passa a se espelhar em sua mãe -
claro, desde que a mãe não seja uma verdadeira schlep. Pergunto-me: e se os dois forem
schleps? Adoro essa palavra.
A abordagem de Freud diante do complexo de Édipo se concentrou no fato de que
Edipo matou seu pai, Laio, e se casou com Jocasta, sua própria mãe. Édipo é visto como
culpado. Arthur e Libby Colman, em seu livro The Father, interpretam o mito sob uma
perspectiva diferente.* Gostaria de examinar sua interpretação porque ela ilustra algo que
os pais precisam estudar em si mesmos, e ajuda a compreender um problema que tem
relação direta com o estudo de caso que estou apresentando. O mito de Édipo não começa
com o assassinato de Laio por Édipo: na verdade, começa quando Laio (o pai) tenta se livrar
de Édipo. Laio fora avisado por um oráculo de que morreria nas mãos de seu filho por causa
de uma maldição lançada sobre ele em virtude de malfeitorias do passado. Quando Jocasta,
a mulher de Laio, tem um filho, Laio (temendo a profecia) decide matar o bebê recém-
nascido deixando-o ao relento nas montanhas. O plano sinistro não dá certo; Édipo é salvo
por um pastor, sobrevive e atinge a idade adulta. Certo dia, enquanto viajava, chega a uma
encruzilhada e tem seu caminho interrompido por um velho montado em uma carruagem.
Este tem a petulância de dar uma bordoada na cabeça de Édipo com seu chicote. Édipo se
zanga com esse ataque gratuito e, para se defender, reage atingindo o velho com seu
bastão, matando-o acidentalmente. Ele continua a viagem sem saber que foi seu pai que
acabou de matar, sem saber que cometeu parricídio; em sua cabeça, ele acaba de se vingar
de um velho resmungão que estava obstruindo seu caminho.
*Arthur e Libby Colman, The Father, p.96.
Dá para perceber aonde quero chegar - foi Laio quem antes tentou se livrar de Édipo,
deixando-o à morte no ar frio das montanhas. Sua justificativa foi o aviso do oráculo de que
sua morte viria nas mãos de seu próprio filho. Os Colman afirmam algo Interessante
quando dizem que, para os gregos antigos, "o oráculo era uma voz profética exterior,
apesar de ser mais fácil acharmos que o oráculo é algo que existe em nós, dando voz a
nossos próprios medos e esperanças inconscientes".* Em outras palavras, o pai pode temer
inconscientemente que, algum dia, seu filho vá matá-lo. O complexo de Édipo se concentra
no filho que se livra do pai a fim de ir para a cama com a mãe; contudo, analisando o mito
sob um prisma levemente diferente, chegamos ao "complexo de Laio" - o pai que tem
medo (inconsciente) de ser despejado ou destruído por seu filho e por isso quer matá-lo ou,
no mínimo, bloquear seus avanços e desenvolvimento (tal como Laio impediu Édipo de
passar pela encruzilhada). Talvez você ache essa história meio difícil de engolir - tenho
certeza de que poucos pais admitiriam abertamente que têm impulsos e sentimentos tão
pouco agradáveis. Apesar disso, não é difícil entender a razão para que esses medos
existam na psique do pai: na maioria dos casos, o filho estará atingindo seu maior poder e
potência mais ou menos na mesma época em que a capacidade do pai estará se esvaindo
em função da idade.
111
*Arthur e Libby Colman, The Father, p.96.
A rivalidade pai-filho não diz respeito apenas ao ciúme que o filho tem do pai por este
estar com a mãe; trata também do pai se sentir ameaçado pelo filho, imaginando que este
vai acabar por superá-lo e dominá-lo, usurpando sua posição e poder. Dá para ver como o
relacionamento pai-filho pode ser complexo: um pai pode achar que o filho é a pessoa que
vai assegurar sua imortalidade levando adiante seu nome e linhagem, e ainda o nascimento
de um filho pode fazer com que ele fique mais consciente de sua própria idade e
mortalidade. Essa ideia do filho como rival pode começar com a gravidez da esposa,
especialmente se for o primeiro descendente do casal. Pense nisso: a maior parte do foco
da grávida recai sobre a nova vida que cresce nela; ela não está mais preferencialmente
ocupada com o parceiro ou marido. A maioria dos recém-nascidos se torna o centro das
atenções e a mulher será tanto a mãe do bebê quanto a esposa. O seio terá de ser
partilhado. De acordo com os receios inconscientes do pai, o bebê de fato o suplantou.
Não é à toa que alguns pais e filhos acham que é mais fácil terem raiva e serem hostis
um com o outro do que se manterem próximos e afetuosos. Disse antes e vou repetir -
pode ser que um pai realmente queira proteger e cuidar de seus filhos da melhor maneira,
mas antes de fazê-lo terá de se entender com as tendências ocultas, com a hostilidade e a
rivalidade inconscientes que podem surgir à sua frente. Mais tarde, vamos analisara
sinastria entre Paul e seu pai, Bill, e você verá que Plutão aparece de modo proeminente em
seus interaspectos, realçando as diversas formas de rivalidade inconsciente que podem
existir entre um pai e seu filho. Bill e Paul ilustram bem aquilo que estivemos discutindo. E
quando trouxermos à baila o mapa do filho de Paul, Max, você poderá detectar um padrão
dinâmico similar, embora não tão intenso.
Discutimos principalmente o Sol como significador do pai, mas também deveríamos
falar das casas 4 e 10 como tais. Só que temos um problema: devemos atribuir ao pai a casa
4 ou a 10? Esse é um ponto que atrapalha muitos astrólogos e talvez não tenhamos uma
regra clara para dar; contudo, vamos explorar esta questão por alguns minutos. No início
desta palestra, aprendemos que um dos papéis básicos do pai é o de servir de chamariz,
atraindo o bebê de um vínculo ou de uma simbiose intensa com a mãe. Tradicionalmente, o
pai também pode ser útil para o crescimento e o desenvolvimento da criança ao agir como
uma ponte para o mundo exterior. Na estrutura convencional (e devemos nos lembrar de
que há muitas exceções a esta regra, que cada família é um pouco diferente das outras), a
mãe fica em casa com os filhos pequenos e o pai vai trabalhar - é o arranjo típico, mãe
terra/pai céu. Hoje em dia, naturalmente, temos o fenômeno das famílias em que ambos
seguem suas carreiras, bem como um número crescente de famílias com um só progenitor
e, em alguns casos (geralmente por causa de recessão econômica e taxa de desemprego), o
pai pode estar em casa sem emprego, cuidando dos filhos, enquanto a mãe é quem ganha o
pão - o progenitor que está "no mundo". Contudo, vamos nos ater à disposição tradicional.
Como seu pai trabalha e fica longe de você (o bebe) na maior parte do dia, quando ele
volta à noite, traz para o lar um "ar" de mundo exterior. Pode até ser que ele tenha
histórias para contar a respeito do seu dia e de como é o mundo fora do lar. Você ficou
perto de mamãe o dia todo, de modo que você sabe o que ela fez. Aquilo que o pai esteve
fazendo, no entanto é mais misterioso, algo sobre o que você deve estar curioso. É deste
modo que o pai pode atuar como uma ponte entre a vida familiar e a sociedade em geral,
112
possibilitando à criança ver que há outras coisas na vida além daquilo que acontece em
casa. Prosseguindo nessa linha, o pai então serve de modelo para o modo de agir no
mundo, para o modo de lidar com o mundo - a pessoa que pode ditar regras de
comportamento para o modo de lidar com as pessoas de fora do círculo familiar. Neste
sentido, ele pode ser associado com Júpiter (aquele que amplia nossa visão) e também é
bastante semelhante a Saturno (aquele que estabelece as regras, as leis, aquele que ensina
como podemos nos ajustar à sociedade). Se o pai pode ser associado desta maneira com
Saturno, ele se ajusta muito bem à casa 10 (cujo regente natural é Saturno).
Contudo, posso perguntar: será que a vida real é sempre assim, mesmo em uma
família tradicional? Se passamos tanto tempo ao alcance da mãe, seria lógico supor que
seria ela a nos ensinar como devemos nos comportar, a estabelecer as regras. Nisso, mamãe
personifica Saturno e, por este motivo, talvez a casa 10 deva ser reservada para ela. Já
ouviu falar de Robert Bly? Ele é bem conhecido nos Estados Unidos como poeta e filósofo da
Nova Era. Ele fez um comentário que ficou gravado em minha mente: ele acredita que a
unidade amorosa mais danificada pela Revolução Industrial foi o relacionamento pai-filho.*
Pelo menos em tese, antes dos profundos efeitos trazidos pela Revolução Industrial, o filho
geralmente assumia o trabalho do pai - era um aprendiz do pai. No século 20, esse
esquema não é tão comum. No século passado, o. pai costumava trabalhar bem perto de
casa - mamãe dava uma passadinha por lá com o filho para vê-lo e o petiz tinha a
oportunidade de observá-lo em ação. Se o pai é um carpinteiro em uma oficina próxima,
aquilo que ele estará fazendo quando você for visitá-lo é bem óbvio. Contudo, se ele for um
empregado de um grande escritório situado a quilômetros de distância de casa, seu
trabalho e aquilo que ele faz durante o dia são coisas bem mais obscuras e abstratas. Pode
ser difícil para um pai explicar sua atividade caso ele se dedique à informática ou tenha de
lidar com papéis burocráticos. Com isso, sua influência talvez seja menor do que a exercida
por sua mãe no que concerne ao modo como, mais tarde, você agirá no dia-a-dia.
*Robert Bly e Keith Thompson, "O Que os Homens Realmente Desejam", em Challenge of the
Heart [Desafio do Coração], editado por J. Welwood (Boston: Shambhala Publications, 1985),
pp.100-116.
Normalmente, vejo a casa 10 como ligada ao progenitor que mais nos moldou, que
exerceu influência dominante sobre nós. O progenitor menos conhecido e mais misterioso
recebe a casa 4. Na prática, procuro saber de meus clientes como veem cada progenitor, o
que me ajuda a decidir a casa de cada um. E vou fazer uma confissão: às vezes leio ambas
as casas para cada progenitor. Tomando por base o meu próprio mapa - e você pode
observar isso no seu - se eu considerar a casa 10 como a da mãe, obterei muitas
informações interessantes sobre minha mãe e sobre mim mesmo. Nesse caso, lendo a casa
4 como sendo a do pai, posso estabelecer relações e entender melhor a maneira como vejo
o meu pai e meus problemas com ele. Se me der na telha, mudo a colocação, estudando a
10 como meu pai e a 4 como minha mãe, e noto "insights" adicionais que fazem muito
sentido para mim. Estarei fugindo da arena e sendo um fraco por não assumir uma
posição? Prefiro dizer que se trata de flexibilidade. Pode haver uma razão psicológica para a
intercambiabilidade das casas 4 e 10: elas formam uma polaridade e em qualquer
polaridade ou oposição um dos lados se transforma no outro e vice-versa. Mãe e pai podem
ser vistos como uma polaridade. Talvez os pais tenham se sentido atraídos um pelo outro
113
pelo fato de um vivenciar aquilo que está latente no outro, juntos, eles formam um todo.
Esse tipo de divisão emocional do trabalho não é raro em casais. Aquilo que está oculto ou
latente em um progenitor é expressado ou vivido de maneira mais clara pelo outro, mas, na
verdade, os dois possuem as mesmas características. Neste sentido, eles são
intercambiáveis e podem até fazer um revezamento de papéis - daí a reversibilidade das
casas dos pais, 4 e 10. São coisas para se pensar. Como vê, não tenho uma resposta
definitiva para o dilema dessas casas. Ele pode incomodar certas pessoas, mas não me
importo de deixar a questão semi-aberta.
O mapa de Paul é um exemplo excepcionalmente bom de como pode ser confuso
decidir que casa atribuir a cada progenitor. Em seu caso, considerei a casa 4 como sendo a
do pai e, no devido momento, vou explicar meus motivos. Contudo, você consegue
perceber a razão para que essa confusão aconteça?
Audiência: O regente da 4 (Netuno) está na 10.
Howard: Sim, justamente. Quando o regente de uma das casas parentais está na outra
casa parental, às vezes um dos progenitores representou o papel de pai e de mãe. Isso se
aplica ao mapa de Paul não apenas até os quatro anos, mas a bem depois. Um dos motivos
pelos quais eu coloquei a mãe de Paul na 10 é que ela era muito mais óbvia e presente do
que seu pai, tendo exercido influência direta sobre Paul em seu começo de vida. Ela o
moldou, ela estabeleceu as regras para seu comportamento no mundo. Na verdade, ela
chegou a lhe dar aulas em casa por algum tempo, influenciando a carreira que ele mais
tarde iria seguir. Vou explicar a situação mais detalhada mente.
Como sabemos, Bill reapareceu quando Paul estava com quatro anos, mas Paul nunca
chegou a aceitá-lo. Ele continuou a usar sua mãe como modelo de atuação no mundo e
passou muito mais tempo com ela do que como pai. Isso me inclinou a adotar a casa 10
para ela. Logo, a 4 ficou para o pai, e vemos a Lua em Peixes bem na cúspide, A Lua rege
Câncer, signo sob a cúspide da 9 de Paul, o que está coerente com o pai ter passado vários
anos no exterior, e também com o fato de seu pai ser um personagem de fantasia. Paul
sabia que ele existia em algum lugar, mas não era visível, concreto. Sei que vocês podem
argumentar que isso também se aplicaria a Netuno a 10, caso quisessem defender a adoção
da casa 10 como significadora de Bill. Mesmo assim, outros fatores ainda me levam a
associar a casa 10 à sua mãe. O regente da 10 é Mercúrio e podemos ver que Mercúrio e
Urano estão em conjunção no mapa de Paul – o que torna a 10 um pouco uraniana. Sua
mãe é de Aquário (cujo regente é Urano) e tem a Lua em Gêmeos, regido por Mercúrio;
assim, os regentes de seu Sol e Lua estão ligados à casa 10 de Paul. Além disso, se a mãe
está associada à 10, Netuno está nessa casa, uma indicação da fusão entre ela e Paul -
apesar disso também poder ser explicado pela Lua em Peixes no IC, caso você queira insistir
em atribuir a casa 4 à mãe. Contudo, vou lhe dizer o que me levou a decidir. Pedi a Paul
para que me descrevesse seu pai e foi isto o que ele respondeu:
Meu pai foi o caçula de oito irmãos e foi sempre o bebê da família (Lua no IC).
Todos cuidavam dele, todos estavam sempre fazendo alguma coisa para ele. Ele
continuou assim pelo resto de sua vida. Não fazíamos muita coisa juntos, mas uma das
poucas coisas que fazíamos era pescar (Peixes na 4). Contudo, mesmo quando íamos
pescar, era eu quem tinha de amarrar seus anzóis. Ele nem sabia pôr uma isca!
Associo essa colocação - seu pai como um bebê - com a Lua de Paul na cúspide da 4. E
114
pescar era uma das poucas coisas que faziam juntos - isso me chocou, é tão pisciano.
Quando ele se refere a "pôr uma isca" - bem, arquetipicamente, o pai deve lhe mostrar
como lidar com o mundo, mas neste caso é o filho que ensina o pai a pôr a isca, a lidar com
o mundo! Não me lembro se Paul estava consciente disto, mas ele me contou isso com um
tom muito claro de condescendência. Se não conseguimos aquilo que precisamos do pai,
talvez fiquemos (como era o caso de Paul) muito zangados com ele. Você ficou zangado (ou
magoado, ou triste) com o contato que manteve com seu pai? Pense nisso.
Agora, vamos deixar as coisas como estão. Na sessão seguinte, Liz e eu vamos dar
continuidade ao caso, analisando os mapas de Bill e de Max. Tenho certeza de que Liz terá
comentários pertinentes para acrescentar a esse estudo.

115
PARTE TRÊS
O CONJUNTO

O SOL E A LUA NO HORÓSCOPO


DISCUSSÃO UTILIZANDO EXEMPLOS DE MAPAS ASTRAIS
por LlZ CREENE E HOWARD SASPORTAS

Howard: Vamos começar a palestra de hoje com a continuação da história de Paul,


trazendo à baila os mapas de Bill (seu pai) e de Max (seu filho). (Veja os Mapas 3 e 5, pp.
119 2 125). Além disso, vamos dedicar algum tempo à discussão dos aspectos lunares dos
quais ainda não falamos.
Tenho mais algumas observações gerais a fazer sobre a questão da rivalidade pai-filho.
Analisamos esse conflito sob dois ângulos: o filho no estado edipiano que deseja se livrar do
pai, e o pai que sente a ameaça de que seu filho possa superá-lo e subjugá-lo em termos de
poder, autoridade, status ou desempenho - fazendo com que o pai tenda a se isolar do
filho, a competir com ele ou a impedir seu crescimento e desenvolvlmento. Apesar de ser
natural e bem humano o fato de pais e filhos terem essas vibrações ocultas uns pelos
outros, acho isso um pouco triste. Todo filho deseja ser amado, reconhecido e admirado
por seu pai; contudo, muitos fatores podem impedir que isso aconteça. O filho pode
precisar da bênção do pai, mas com que frequência a consegue? Uma vez mais lembro-me
da mitologia grega. Os primeiros mitos gregos são, em sua maioria, histórias a respeito de
famílias, e algumas das coisas que pais e filhos fazem uns com os outros são de arrepiar os
cabelos. Veja o caso de Ouranus, que empurrou seus filhos recém-nascidos de volta para o
ventre de sua esposa, desejando que nunca tivessem existido. Cronos (Saturno), um de
seus filhos, planeja com sua mãe a castração do pai. Eu acho isso típico de jornais
populares. Cronos, porém, não se sai muito melhor como pai. Ele receia que um de seus
filhos o afaste de sua posição de poder, por isso os engole vivos. Ele não quer que eles
vejam a luz, não quer que existam e cresçam (o que também pode indicar o tipo de pai que
não quer que seus filhos e filhas se separem dele, que não abre mão deles ou que não
aceita a hipótese de que pensem de modo diferente do dele - um problema que se torna
crítico quando um filho atinge a puberdade). Zeus já se saiu um pouco melhor como pai: ele
odiava vários de seus filhos, mas estimulou e orientou muitos deles. Dionísio foi um destes.
Semele estava grávida de Dionísio quando foi morta por um dos truques malvados da
vingativa Hera. Zeus tirou o feto do ventre de sua falecida mãe e o costurou em sua própria
perna, vindo mais tarde a dar à luz ao próprio Dionísio. Assim, vemos algum progresso na
mitologia grega; comparado com Ouranus e Cronos, Zeus mostra-se mais justo - pelo
menos no que diz respeito a alguns de seus filhos. Em seu livro Gods in Everyman [Deuses em
Todos Nós], Jean Shinoda Bolen sugere que a participação ativa de Zeus no nascimento de
Dionísio foi um prenúncio do pai moderno, que quer participar do parto de seus filhos e

116
desempenhar um papel mais ativo em sua educação e orientação.*
*Jean Shinoda Bolen, Gods in Everyman (San Francisco: HarperCollins, 1989), p. 295.
Vamos prosseguir com a história de Paul. Antes de seu pai voltar do Canadá, Paul e sua
mãe moraram em um confortável chalé na periferia de uma cidade ao norte da Inglaterra.
Tendo de ganhar a vida para aumentar o soldo que seu marido recebia da Royal Air Force, a
mãe de Paul cuidava de uma horta. Paul adorava viver sozinho com sua mãe no campo e ela
estava se saindo surpreendentemente bem sem seu marido. Depois, quando Saturno e
Plutão em trânsito acertaram Vênus de Paul, seu pai voltou e suas vidas mudaram
drasticamente. Paul suspeita que Bill (um leonino orgulhoso, por falar nisso) não deve ter
gostado daquilo que encontrou ao regressar, que tenha ficado magoado com a
independência da esposa e de como esta se saíra bem sem ele. Por algum motivo, enfim,
Bill decidiu que deviam vender o chalé e a horta e se mudarem para a cidade próxima a fim
de abrirem uma mercearia. Dá para imaginar como Paul se sentiu. Não podia mais viver
sozinho com a mãe, não podia mais morar no campo; os três acabaram morando em um
pequeno apartamento situado sobre a mercearia, bem no meio de uma cidade industrial.
Contudo, foi sua mãe quem impeliu a loja; apesar da volta de seu pai, ela continuou a ser o
modelo proeminente de Paul para a vida no mundo. Disse-me ele:
Mamãe dava duro e Papai saía para beber de noite. A cena de minha juventude
de que mais me recordo é a de ficar sentado à noite diante da TV com minha mãe. Ele
está no bar, bebendo com seus amigos. Ele nunca, nunca está em casa. (A quadratura
Sol-Netuno do mapa de Paul, e Peixes em sua 4.)
Se não conseguimos aquilo que desejamos com papai, é possível que, para preencher
sua lacuna, busquemos substitutos para ele. Paul descobri u alguns - um vizinho que não só
lhe ensinou a pescar, como também lhe apresentou à música, uma paixão que perdura até
hoje em Paul. Não resta dúvida de que Netuno e Peixes estão fortes no mapa de Paul. Na
verdade, quando ele era adolescente, mostrou talento para o desenho e um professor o
incentivou a pô-lo em prática através do estudo da arquitetura. Sua facilidade para as artes
são realçadas por Marte em Áries na casa 5 em trígono com uma conjunção Vênus-Nodo
Norte em Leão. Corria a década de 1950 e os homens tinham de ser "homens" naquela
região da Inglaterra, o que excluía algo tão pouco másculo quanto a dedicação à arte-
apesar de David Hockney, pintor de renome internacional, ter nascido e vivido naquela
região, conseguindo se rebelar contra essas restrições. Além disso, o primeiro namorado da
mãe de Paul (antes de ela ter conhecido Bill) tinha se tornado um rico e próspero arquiteto,
e Paul imagina que ela ainda teria uma quedinha por ele. Talvez a decisão de seguir essa
profissão tenha sido um modo de se vingar de seu pai. (Afinal, o ascendente de Paul é
Escorpião - um signo que costuma saber o lugar exato de enfiar a faca.)
Paul abandonou o ensino formal no meio da adolescência para trabahar como
aprendiz em um escritório de arquitetura. Sua mãe lhe deu aulas em casa para que ele
adquirisse as qualificações necessárias. Como trabalhava de dia, Paul costumava passar a
noite estudando ou desenhando em seu quarto. Ouça o que Paul tem a dizer acerca da
reação de seu pai quanto ao caminho que estava seguindo:
Enquanto eu estudava em casa, meu quarto era o meu escritório. Em especial no
inverno, eu costumava ficar acordado até tarde e meu pai ficava aborrecido com isso
porque, segundo dizia, eu gastava muita energia elétrica. O único interruptor
117
disponível ficava do lado de fora da minha casa. Meu pai voltava cambaleante do bar
e, antes de entrar em casa, cortava a energia para que meu aquecedor e minha
lâmpada se apagassem. Depois, discutíamos feio. Aconteceu muitas vezes - ele achava
que eu era efeminado por me interessar pela arquitetura. Mais tarde, quando entrei
na faculdade de arquitetura, ele teve um ataque e ficou gritando, "Vou tirar você
dessa escola de maricas e lhe dar um emprego de verdade!"
Nada como um pai que abençoa o filho. Não é possível encontrar-se um exemplo
muito mais concreto do que esse de um pai que, literalmente, tenta minar o poder de seu
filho. Não resta dúvidas de que o complexo de Édipo de Paul ainda estava em ação, mas
quando fiquei sabendo da tentativa de obstrução de seu progresso e do bloqueio de seu
caminho de individuação por parte de seu pai, só posso concluir que Bill sofria de um
enorme e galopante "complexo de Laio".
Bem, é hora de nos voltarmos para o mapa de Bill (ver Mapa 3, p. 119). O Circulo
exterior mostra as progressões para o dia 1° de agosto de 1943, logo após o nascimento de
Paul. Além disso, não se esqueça de que os trânsitos sobre o mapa de Bill na época do
nascimento de seu filho são as posições natais do mapa de Paul (ver Mapa 2, p. 138). No
início, fiquei surpreso com algumas das progressões e trânsitos sobre o mapa de Bill na
época do nascimento de Paul. Se você os analisar bem, entenderá o que quero dizer. Há um
"stelium''progredido em Virgem; o SoI progredido está a 12 graus de Virgem, Mercúrio
progredido a 11 graus de Virgem e Vênus progredido a 9 graus de Virgem. No mapa de Bill,
qual a casa atingida por eles?
Audiência: A cúspide da casa 5.
Howard: Sim, a casa dos filhos. Concentre-se em Vênus progredido na cúspide da 5. Ele
forma algum aspecto com o mapa de Bill?
Audiência: Um trígono exato com Urano na casa 8 de Bill.
Howard: E como você interpretaria esse trígono progredido?
Audiência: Está acontecendo alguma coisa nova na vida de Bill, algo estimulante e
positivo. Como é Vênus que entra na casa 5, a dos filhos, e forma um trígono com Urano,
sugere que Bill está contente ou excitado com o nascimento de Paul.
Howard: Concordo, apesar de poder ter sido um novo e tórrido "caso" amoroso. Quem
sabe o que Bill andou aprontando no Canadá? Talvez ele tenha conhecido alguém que não
resistiu ao uniforme da Royal Air Force. Mas não é disso que quero falar. As progressões
mostram o significado interno de um evento, e esta é uma das melhores progressões que
alguém poderia ter na época do nascimento de seu primogênito - ainda por cima, um
menino. O Sol progredido de Bill em sua casa 5 também está se aproximando de um sextil
com seu Netuno na 2, o que me levou a imaginar que Bill deva ter se valorizado mais, agora
que tinha um filho. E veja o ascendente progredido de Bill a 22 graus de Câncer: bem em
cima de seu Nodo Norte natal. O signo do Nodo Norte mostra as qualidades que
deveríamos tentar desenvolver em nome do crescimento e da evolução. O ascendente
progredido está ativando seu Nodo Norte em Câncer. Eu interpretaria isto como uma
oportunidade que Bill teve para aprofundar o contato com sua capacidade de cuidar e de
proteger. Não rotularia essa progressão como "ruim"; é uma oportunidade para que os
sentimentos de Bill se abram e se expandam. Sabendo das dificuldades mútuas que Bill e
Paul tiveram mais tarde, fiquei surpreso por encontrar essas “boas" progressões para Bill na
118
época do nascimento de Paul.

Mapa 3. Bill, pai de Paul. Os dados de nascimento foram omitidos para preservar a privacidade. Mapa
calculado pela Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Agora, preste atenção nos trânsitos sobre o mapa de Bill quando Paul nasceu, que
também consiste na sinastria entre os dois. Há uma série de contatos que eu veria como
positivos. Paul tem Júpiter em 28 graus de Câncer, bem perto de Vênus, Júpiter e Mercúrio
natais de Bill, formando trígono com Saturno do pai e, em termos de trânsitos, a uma
distância de apenas seis semanas, se tanto, do Sol deste. Assim, Paul nasceu durante o
retorno de Júpiter de Bill, em Câncer. Esses trânsitos e interaspectos me fazem acreditar
que alguma parte da psique de Bill se sentiu alegre com o fato de ser pai, indicando a
possibilidade de um bom relacionamento entre pai e filho. Expliquei tudo isto para Paul e
ele me forneceu outros detalhes. Segundo me contou, seus pais tentaram engravidar
durante quinze anos antes de "acertarem" e terem Paul. Além disso, como disse antes, Bill
era o mais novo de oito irmãos (a casa 3 de seu mapa, a dos irmãos, está lotada), mas
nenhum de seus irmãos e irmãs chegou a ter filhos. Bill, com 36 anos, foi o primeiro a fazê-
lo. O fato de seus sete irmãos (todos mais velhos) não deixarem descendência é em si
curioso - fico imaginando como devem ter sido seus pais para não terem tido netos antes.
De qualquer maneira, pense em como o leonino Bill deve ter ficado orgulhoso por se sair
119
melhor do que os irmãos e ter gerado o primeiro neto de seus pais. Paul me contou uma
história bastante interessante. Depois da morte de Bill, ele encontrou o diário que seu pai
tinha na época em que Paul nasceu. Nele, havia uns desenhos feitos por Bill, que Paul
chamou de "retratos alegres e emotivos" de um pai com seu bebê. Minha mente se encheu
de perguntas. Por quê, se o nascimento significou tanto para Bill, ele demorou quatro anos
para voltar para a Inglaterra? É lógico que ele poderia ter combinado algo nesse sentido
com a Royal Air Force. E a grande questão: Por quê, quando ele voltou, não foi capaz de
mostrar o amor e os sentimentos positivos gerados pelo nascimento de Paul?
Os outros trânsitos sobre o mapa de Bill, na época em que Paul nasceu, oferecem
algumas respostas a essas perguntas. Dê uma olhada no Saturno de Paul a 17 graus de
Gêmeos - está perto de algum elemento do mapa de Bill?
Audiência: Do Ascendente.
Howard: Sim, o Saturno de Paul está a 4 graus do Ascendente de Bill e a 7 graus de seu
Plutão-orbes que eu levaria em conta em uma sinastria. A casa por onde Saturno transita é
a área em que temos "trabalho" a fazer, isso pode significar a necessidade de ficarmos
conscientes de nossa vulnerabilidade ou de pontos fracos e de fazermos o que for preciso
para nos fortalecermos ou aprofundarmos nessa área. O fato de Saturno estar
atravessando a casa 12 de Bill sugere que o nascimento de Paul deve ter mexido com
emoções inconscientes do passado de Bill; de algum modo, elas devem ter facetas
geminianas. De modo análogo, Saturno (que equivale ao Saturno natal de Paul) está se
dirigindo para o Plutão de Bill, outra indicação de que aquilo que estava oculto ou obscuro
na psique de Bill esta querendo chamar sua atenção. Decidi bancar o detetive astrológico.
Minha principal pista era o fato de tudo isso estar acontecendo no signo de Gêmeos, o que
sempre me faz pensar em relacionamentos entre irmãos. Estava imaginando a possibilidade
de uma conexão entre a chegada de Paul e assuntos inacabados que Bill poderia ter com
um ou vários de seus irmãos. Paul tinha me dito que Bill ficara muito contente com o fato
de ter sido o primeiro dos irmãos a ser pai. Perguntei a Paul se ele se sabia como Bill se
dava com seus irmãos e ele me descreveu uma rivalidade intensa entre Bill e um irmão
específico. Os dois eram ciumentos e competitivos; eles chegaram a jogar críquete em
times rivais (repare que o Sol na casa 3 em Leão de Bill forma quincúncio com Marte em
Capricórnio, outra indicação de batalhas com um irmão). Como você sabe, Bill era dono de
uma pequena mercearia, mas o irmão em questão estava envolvido com uma rede de
supermercados, muito grande e muito lucrativa. Devido aos contatos geminianos entre os
mapas de Paul e de Bill, suspeitei que Paul seria o catalisador que agitou os problemas que
BIII tinha com o Irmão; o nascimento de Paul significou mais um homem na família, o que
poderia reativar a rivalidade entre Bill e esse irmão.
Você pode achar que a transferência da rivalidade fraternal para um filho é um
exagero, mas tenho certeza de que ela acontece. E, caso não pareça a fonte mais clara dos
problemas entre Bill e Paul, basta analisar o Plutão natal de Paul, que é o trânsito que
Plutão fazia sobre o mapa de Bill quando seu filho nasceu. O que você vê?
Audiência: O Plutão de Paul está a 5 graus de Leão, bem perto do Sol de Bill em 7 graus
de Leão, o que significa que Plutão passou bem perto do Sol de Bill quando Paul nasceu.
Howard: Certo, muito bom comentário. Quando um pai tem seu primeiro filho, ele
morre como filho e renasce como pai - é um dos modos de interpretar o trânsito de Plutão
120
sobre o Sol de Bill. Contudo, os trânsitos de Plutão sobre o Sol também despertam emoções
e questões que têm relação com o próprio pai - o que não deve surpreender, tendo em
vista que Bill tinha acabado de se tornar pai. Paul não sabe descrever direito o
relacionamento entre Bill e seu pai (avô de Paul), mas tenho lá minhas suspeitas. Havia oito
filhos na família de Bill, o que só pode significar que deve ter havido muita competição pela
atenção do pai. Bill pode ter sofrido de fome de pai, bem como a dor e a raiva que ela
causa. Como o Plutão de Paul está sobre o Sol de Bill (o significador do pai), é possível que
Paul tenha reativado sentimentos negativos que Bill nutria por seu pai. Estes podem ter
obstruído o vínculo entre Bill e Paul, apesar do fato dos desenhos "alegres e emotivos"
representando pai e filho no diário de Bill indicarem que ele esperava manter um bom
relacionamento com o filho recém-nascido, há tanto esperado.
O Plutão de Bill está a 24 graus de Gêmeos e o Sol de Paul a 0 graus de Câncer. Não
estão no mesmo signo, mas ainda considero isso uma conjunção. Assim, não só o Plutão de
Paul forma conjunção com o Sol de Bill, como o Plutão de Bill forma conjunção com o Sol de
Paul. Eles não conseguem ficar longe de Plutão! Falamos do Sol em termos de individuação
e da vontade de desenvolvermos nossa identidade, poder e autoridade - enfim, de brilhar
de algum modo. Se o Sol de Paul ativa o Plutão de Bill, isso indica que a tentativa de Paul se
individuar e crescer suscita complexos em Bill - complexos ligados à rivalidade de Bill com o
irmão ou à sua fome de pai. Assim, qualquer coisa que Paul faça para concretizar seu
potencial solar não deixará Bill à vontade, pois este o vê como um rival ou ameaça -para
não falar do fato de que Paul religa em Bill a mágoa e a dor que este nutre pelo pai.
Liz: Esses mapas são muito interessantes mesmo, e eu gostaria de tratar de alguns
pontos referentes ao Sol e à Lua; Uma coisa de. que fico me lembrando quando você fala
de Bill e de Paul é o ambiente mitológico do herói solar, representado, como geralmente
sucede, por um pai invejoso (Sol mal vivido em Leão) que tentou bloquear o potencial do
filho pelo fato de ele mesmo não ter conseguido se realizar.
Há outros aspectos entre esses dois mapas que ainda não foram mencionados, mas
que julgo serem bastante importantes. O Saturno de Bill forma uma quadratura (embora
fora de signo) com o Sol de Paul. Tenho pensado no Sol de Paul em Câncer e no tipo de
indivíduo que ele é – alguém regido pela Lua e que obviamente possui uma imaginação
fértil e criativa, grande sensibilidade e sentimentos profundos. Esse aspecto parece ser o
ponto focal da inveja que Bill sente de Paul. Pelo que pude notar, quando o Saturno de um
progenitor forma conjunção ou aspecto tenso com o Sol de um filho, quase sempre existe
inveja por parte daquele, pois Saturno tende a sufocar a energia vital do signo onde está
situado. A inveja destrutiva costuma derivar daquilo que mais temos dificuldade para
vivenciar. No mapa de Bill, Saturno em Peixes implica que ele tem dificuldade para
expressar sua dependência pelos demais, e a natureza canceriana de Paul, emocional e
dependente, deve ter feito com que Bill se sentisse retraído, estranho, incomodado. Além
disso é provável que Bill tenha tido dificuldade para valorizar corretamente o seu próprio
mundo imaginativo interior, e talvez ficasse apavorado se soubesse que Paul viu seus
desenhos "alegres e emotivos". Saturno em Peixes é extremamente sentimental, mas
preferiria que ninguém soubesse disso - nem mesmo a própria pessoa. A facilidade que Paul
teve para seguir uma carreira criativa deve ter magoado Bill, fazendo com que este se
lembrasse de seu complexo de inferioridade. É muito triste ver esses desenhos
121
"sentimentais", pois eles deixam claro que Bill tinha algum talento artístico. Ele foi um
verdadeiro netuniano.
Howard: O que se revela por seu alcoolismo.
Liz: Em geral sim, se o mundo de fantasias de Netuno não encontrar outros canais de
expressão. Assim, toda a frustrada natureza imaginativa de Bill reage à forma aberta de
expressão que Paul dá à própria coisa que mais magoa Bill - embora de modo inconsciente.
De certo modo, Bill é o "vilão" desse drama. Contudo, se analisarmos a história sob outro
prisma, veremos que ela não é tão simples assim. Apesar do Saturno de um progenitor
poder criticar e inibir, ele também pode ter um efeito poderosamente positivo sobre o Sol
do filho, embora o método possa ser doloroso. A melhor forma de ficarmos conscientes
daquilo que somos consiste em alguém nos dizer para não sermos assim. Diria que as
tentativas de Bill para obstruir seu filho têm muito a ver com a determinação de Paul em se
desenvolver, apesar disso ter lhe custado um bocado. Ele encontra aquilo que realmente
preza, aquilo que realmente deseja ser, em virtude do estardalhaço que fizeram em torno
do assunto. Mais uma vez, vemo-nos diante do mito - o herói solar torna-se um herói
justamente porque é obstruído, e não por causa de mimos e afagos. O Sol precisa de uma
autoridade-pai exterior na qual se apoie para que possa crescer. Se alguém fica nos dizendo
que não devemos fazer isso ou aquilo, começamos a suspeitar que talvez valha a pena
tentar. Pode apostar que Adão e Eva não teriam tocado no fruto caso não lhes tivessem
dito para ficarem longe dele.
Há outros aspectos entre esses dois mapas que me interessam porque sustentam os
aspectos "felizes" ocorrendo no mapa de Bill quando Paul nasceu. Tenho a impressão de
que existe um amor muito profundo, embora inconsciente, entre Bill e Paul. É muito triste
pensar que se querem tão bem mas que não conseguem expressar nada além de inveja e
de mágoa. O Vênus de Paul forma conjunção com o Sol e com a casa 4 de Bill - mais um
interaspecto que ainda não foi discutido. Ele sugere afeto e identificação profundos. Não
importa o que diga, Paul gosta de quem seu pai e em essência, em segredo admira e dá
valor à sua orgulhosa natureza leonina, sem se preocupar muito com os aspectos
desagradáveis do comportamento de Bill. Contudo, o interaspecto Sol-Saturno, bem como
as conjunções Sol-Plutão entre os mapas, fizeram com que esse vínculo afetivo não se
manifestasse.
Gostaria de analisar o mapa composto para o relacionamento entre Bill e Paul (ver
Mapa 4, p. 123). As posições do Sol e da Lua no mapa composto, bem como os aspectos
entre o mapa composto e as posições do Sol e da Lua de Bill e de Paul também são muito
interessantes. Há uma conjunção Sol-Plutão no composto. Como você disse, Howard, esses
dois não conseguem ficar longe de Plutão. Essa conjunção sugere uma intensidade e paixão
emocional terríveis, bem como a possibilidade de uma batalha pelo poder: um tenta mudar
ou aniquilar o outro. Um é obcecado pelo outro. Podemos interpretar o Sol do mapa
composto do mesmo modo como analisamos o Sol de um mapa natal - é a identidade
essencial do relacionamento. E podemos aplicar a ele a totalidade do mito do herói,
entendendo o Sol composto como um processo de vir-a-ser que nunca termina. No nível
mais básico, o Sol composto em Câncer descreve um relacionamento baseado em profunda
necessidade emocional e em talento criativo partilhado.
Além disso, há uma conjunção Vênus-Nodo no composto, praticamente exato (estão a
122
quatro minutos de arco de distância), e esse par está, por sua vez, em trígono com a Lua
composta em Áries. Mais uma vez, percebo amor e admiração intensos encerrados sob
camadas de inveja e mágoa.

Mapa 4. Mapa composto para Paul e BiII, seu pai. Mapa calculado pela Astrodienst utilizandoo o sistema
Placidus de casas.

Howard: O potencial para o amor está presente. O que você acha que o inibe?
Liz: A inveja, com todas as suas complexas raízes. E o medo da vulnerabilidade e da
dependência que o amor intenso acaba trazendo. Mas eu acho que esse amor é mais do
que um potencial. É um fato. Quando as pessoas repetem ad nauseun que tiveram um
progenitor terrível, pode ter certeza de que há um amor muito ferido por trás disso. Caso
contrário, não seria necessário acusar esse progenitor de modo tão veemente. As pessoas
só podem nos magoar de verdade se gostamos delas, e o trígono Vênus-Nodo e Lua do
mapa composto, bem como a conjunção entre o Vênus de Paul e o Sol de Bill, refletem esse
amor.
Também é interessante notar que o trânsito de Plutão sobre o Sol de Bill quando Paul
nasceu (que é também o Plutão natal de Paul) estava afetando diretamente a conjunção
Vênus-Nodo do mapa composto e formando um trígono com a Lua composta. Os trânsitos
sobre os planetas compostos são sempre bastante reveladoras, pois refletem uma época
em que aquela qualidade específica do relacionamento é ativada. O amor profundo entre
esses dois nasceu na hora em que Paul nasceu. Não há muito mais a dizer sobre esse
123
trânsito sobre o mapa composto, exceto olhar para ele e dizer, "Nossa, observe, os mapas
compostos funcionam".
No composto, Saturno está a 7 graus de Touro. Saturno composto reflete a área da
vida onde o relacionamento é desconfortável, doloroso e restritivo, e neste caso está na
casa das comunicações, a 3. Assim, esses dois têm grande dificuldade para dizer aquilo que
sentem um pelo outro. São mutuamente desonestos, o que deriva do orgulho, da
defensividade e do medo saturninos. Os dois nunca dariam o braço a torcer e não
conseguem admitir qualquer vulnerabilidade ou necessidade um para o outro. Isto também
é parte do problema entre eles. Se Bill tivesse dito, "Admiro mesmo o seu talento. Sempre
quis fazer alguma coisa artística, mas a vida me impediu, e eu o invejo..." Ou então, se Paul
pudesse ter dito, "Preciso muito de seu reconhecimento e amor, e me sinto mal quando
você fica me criticando..." Mas nada disto poderia ter acontecido com esse Saturno na casa
3 do mapa composto. Nele, Saturno forma ainda uma quadratura com Vênus, de modo que
há fortes sinais de rejeição, o amor e as necessidades ficam enclausurados, algo de que
ambos partilham.
Esse Saturno composto a 7 graus de Touro está em conjunção quase exata com a Lua
natal de Bill. Agora, estamos no domínio lunar. O que você acha que essa Lua em Touro na
12 de Bill poderia refletir? Quais são as suas necessidades emocionais básicas?
Audiência: Segurança.
Liz: Sim, ele precisa de segurança e de estabilidade material. Ele também precisa de
muito afeto físico, esteja ou não consciente disto. A Lua em Touro adora ser tocada,
mimada e segurada. Como o caçula dentre oito irmãos, as coisas devem ter sido difíceis
para Bill, pois ele precisava esperar na fila. E a Lua fica meio perdida na 12, sugerindo que a
necessidade de proximidade e de contato físico foi um problema durante toda sua
convivência familiar. Os planetas na 12 costumam representar necessidades que não
conseguem canal de expressão por meio da psique familiar e que ficam sob a superfície do
indivíduo, criando profundas vontades inconscientes que sempre ameaçam emergir e
perturbar a vida exterior. Tenho a impressão de que em sua família ninguém se tocava ou
abraçava, nem admitia a necessidade de contato físico.
Howard: Liz, posso dar um aparte? Dê uma olhada no mapa de Max (veja o Mapa 5 na
p. 125), que mostra os planetas natais de Paul no círculo externo. Emocionou-me ouvir Liz
falar do amor recíproco entre Bill e Paul, apesar de nenhum deles ter sido capaz de
expressar essas emoções com facilidade. Paul me disse que ele ficou muito mais emotivo
depois que Max nasceu. Um fator astrológico para isto é o fato do Urano de Max estar
conjunto ao Ascendente de Paul em Escorpião - em outras palavras, na época em que Max
foi concebido e nasceu, Urano transitava e agitava o aquático Ascendente de Paul. Lembra-
se do que Paul disse sobre Max? Já falei disso antes, mas agora vou ler a frase toda:
Desde o nascimento de Max, tudo ficou ampliado, mais assustador e, no
entanto, mais valioso. Procuro ser um bom pai para ele. Quero cuidar de Max da
melhor maneira possível, mas isso não me é instintivo. Não é o que tenho por
dentro. Às vezes, olho para o Max quando ele está dormindo e me sinto meio
piegas. Essas coisas, sabe? O quanto amo meu filho, tudo que quero dar para ele.
Mas quando ele está acordado e estou mantendo contato com ele, temos muita
dificuldade para nos relacionarmos. Às vezes, fico tão zangado com ele que eu
124
mesmo me surpreendo.

Mapa 5. Max, filho de Paul. Os dados de nascimento foram omitidos para preservar a privacidade. Mapa
calculado pela Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Imagino que Bill teria dito algo bem parecido acerca de Paul. Este é um bom exemplo
da repetição de padrões, de sua transmissão de uma geração para outra.
Bill estava com 35 anos e onze meses quando Paul nasceu. Paul tinha 36 quando Max
nasceu. Pode ser mero acaso, mas de certo modo é curioso que Bill e Paul tenham sido pais
pela primeira vez com a mesma idade. E tem uma outra coisa que acho muito interessante.
O Sol progredido de Paul estava a 5 graus de Leão quando Max nasceu o que significa que
seu Sol progredido passava nessa época sobre seu Plutão natal em Leão. Nesta tarde, eu
disse que Plutão em Leão sugere problemas com o pai, pois Plutão tem relação com a
profundidade, com as sombras e com a complexidade, e Leão é um signo associado ao pai.
O Sol progredido sobre Plutão natal em Leão é uma indicação segura de que a paternidade
estava em "alta" para Paul quando Max nasceu. O Sol natal de Bill está a 7 graus de Leão;
logo, durante os dois primeiros anos de vida de Max, o Sol progredido de Paul foi se
aproximando do mesmo lugar onde está o Sol natal de seu pai. Deve haver uma conexão
entre seus problemas quanto a pais e paternidade. Além disso, o Marte natal de Max esta a
7 graus de Leão, o grau exato do Sol de seu avô, e a apenas dois graus do Plutão de Paul e
125
da posição do Sol progredido deste durante os primeiros anos de formação de Max. Para
coroar o processo, isto acontece sobre a conjunção Vênus-Nodo em 5 graus de Leão que
encontramos no mapa composto para Bill e Paul. Acaba de me ocorrer uma coisa - é bem
óbvia, mas ainda não tinha pensado nisso. Quando Bill voltou para a Inglaterra em 1947,
sua presença desagregou a confortável dupla formada por Paul e sua mãe. De modo
análogo, Max foi o primogênito de Paul e, apesar de ter sido muito bem recebido, deve ter
perturbado a paz e a rotina que Paul e sua mulher tinham estabelecido em sua vida a dois.
Agora, Paul tinha de partilhar sua mulher com Max, tal como no passado ele teve de
aprender a partilhar sua mãe com Bill.

Mapa 6. Mapa composto para Paul e seu filho, Max. Mapa calculado pela Astrodienst utilizando o sistema
Placidus de casas.

Tenho mais uma coisa a acrescentar. Conversei com Paul no dia 23 de junho de 1989,
um dia após o seu 46° aniversário. Quando Paul chegou, comentou que seria interessante
estar me visitando naquele dia para discutir seu relacionamento com seu pai e seu filho
pois, na noite anterior, ele teve uma séria discussão com Max. Ouvi com atenção a história
que ele tinha para contar - lembrei-me do modo como alguns terapeutas iniciam sua
primeira sessão com um novo cliente, ou seja, perguntando qual teria sido o seu sonho na
noite anterior. Quando você sabe que vai visitar um astrólogo ou um terapeuta
semelhante, é comum acontecer de aflorarem questões importantes durante a semana
anterior. Bem, Paul me disse que Max queria passear sozinho pelas lojas da vizinhança e
que recusara seu pedido porque já estava escuro e perigoso, levando-se em conta o bairro
126
em que viviam. Max ficou zangado por não conseguir fazer as coisas a seu modo e gritou,
"Seu sacana filho da mãe!" para seu pai. Paul reagiu com raiva, exclamando, "Ninguém me
chama de sacana filho da mãe no meu aniversário", e as comemorações da noite foram
arruinadas. Conferi as efemérides e percebi que Marte estava praticamente em 4 graus de
Leão quando a discussão teve lugar. Lá estava Marte, tão perto do Plutão de Paul, não
muito longe do Marte natal de Max e do fantasma do Sol de Bill. Claro que isso não foi
coincidência. Só posso sentir reverência e admiração por aquele (ou aquilo) cuja tarefa
consiste em organizar a distribuição de mapas para quem vai nascer de modo que as coisas
aconteçam com essa precisão! Quem estuda profundamente a astrologia nota a ação de
uma impressionante inteligência superior.
Liz: Você sabe o que torna as coisas ainda mais impressionantes? Adivinhe o lugar
ocupado por Saturno no mapa composto para Paul e Max. Ele está em 4 graus de Leão, com
Marte transitando bem sobre ele na noite da discussão. Onde mais poderia estar? (Ver
Mapa 6, pág. 126).

Howard: Nem todos os casos astrológicos são tão claros quanto este, apesar de eu
dever admitir que já vi muitos assim. O que também é notável nas interligações entre Bill,
Paul e Max é o destaque com que Plutão e Escorpião aparecem. Bill nasceu quando Plutão
se elevava; Paul tem Ascendente em Escorpião e o Plutão junto ao Sol de seu pai e ao
Marte de Max. Max nasceu com uma conjunção Sol-Plutão e Ascendente em Escorpião. No
mapa composto de Bill e Paul, o Sol está conjunto a Plutão em Câncer e o composto para
Paul e Max tem, mais uma vez, Ascendente em Escorpião. Com Plutão e Escorpião assim
ativos nessa linhagem masculina, não é de surpreender que estejamos falando de vibrações
invisíveis densas, rivalidades inconscientes, raiva e amor profundos, coisas que não são
fáceis de se expressar. A história de Paul põe em realce essas questões, mas eu acho que
você vai encontrar dificuldades e frustrações semelhantes e em diversos graus em muitos
relacionamentos pai-filho.
Liz: As dificuldades fazem parte do pano de fundo do arquétipo e eu concordo quando
você diz que elas costumam ser encontradas na relação pai-filho. Neste estudo de caso, os
temas míticos parecem girar em torno do simbolismo de Plutão, o do mundo inferior. Leão
também está carregado, de modo que as questões da expressão criativa individual e da
batalha do herói contra os demônios dos infernos também estão acentuadas como um mito
dessa família masculina. No mapa de Bill, o Sol está em Leão no Fundo do Céu. Apesar de
estar tecnicamente na casa 3, está dentro do orbe de conjunção da cúspide da 4 e, como
aspectos importantes, forma apenas uma quadratura com a Lua e alguns quincúncios. 0 Sol
na cúspide do FC, simbolizando a relação com o pai e com a linhagem paterna, faz-me
pensar na história de Parsifal ou Percival, o mais leonino dos heróis míticos.
Nessa história, encontramos o tema da redenção do ferimento do pai e a
transformação de sua força vital debilitada. Percival não é um herói no sentido
habitualmente dado à palavra, pois não é um guerreiro. Ele se defronta com um mistério - o
Rei do Graal está velho, doente e tem um ferimento que não sara, e seu reino se encontra
devastado. Essa é uma imagem da força vital debilitada, da fé, da esperança e do
crescimento que se esvaneceram. Percival é um tolo sagrado. Ele não faz ideia do que
encontrou e deixa de se fazer a pergunta certa: o que é o Graal e a quem serve? No final
127
das contas, sua compaixão pelo Rei do Graal ferido, o pai injuriado, é que lhe permite
redimir a si mesmo, ao rei e ao reino. Ele só consegue encontrar a pergunta correta após se
identificar bastante com seu pai, o que só consegue fazer depois de reconhecer que ele se
encontra ferido do mesmo modo.
Tenho a impressão de que esse tema se acha declarado duas vezes no mapa de Bill -
uma pelo fato de seu Sol estar em Leão, e outra pela conjunção com o FC, sugerindo que o
dilema teria sido herdado.
Howard: Estou morrendo de vontade de falar.
Liz: Tudo bem, deixe-me só acabar de falar de Percival. Você teria à mão o mapa de
Bill?
Howard: Não, sinto muito. Contudo, com base no que sabemos sobre Bill, Paul e Max,
não teríamos muito trabalho para levantá-lo agora.
Liz: Sim, tenho certeza. É quase inevitável que mostre algo em 5 graus de Leão.
Howard: Mas tenho algo interessante para acrescentar assim que você terminar.
Liz: Tudo bem. O tema da redenção do pai perdido ou ferido é um tema familiar que
atravessa as três gerações. Apesar de Paul não ser leonino, ele tem um "stellium" de Plutão,
Vênus, Nodo Norte e Quiron nesse signo. No mapa composto Bill-Paul, Vênus e o Nodo
estão em Leão. Surge Max e o Sol composto para Paul e Max está, naturalmente, em Leão.
E isso se repete. Esses pobres homens são, todos eles, tolos sagrados às voltas com a busca
do Graal, mas não compreendem que ele só pode ser identificado caso consigam ter
compaixão pelos ferimentos de seus pais. Sua vez.
Howard: Gostaria de acrescentar algo que acabei de perceber. Liz mencionou a Lua de
Bill em 6 graus de Touro, e o fato de suas necessidades taurinas de segurança - contato
físico e proximidade - não terem sido saciadas devido ao tamanho de sua família natal.
Você está vendo algo em torno de 6 graus de Touro no mapa de Max? Sim, a Lua está a 5
graus e 59 minutos de Touro - muito perto da Lua de Bill. Os mesmos tipos de necessidade
que Bill tinha estão presentes em Max, e Paul é o mediador. Se ele puder ajudar a
concretizar a Lua taurina de Max dessa maneira, estará compensando por aquilo que seu
pai anelava e não conseguiu. É interessante notar que a Lua de Max está dentro do orbe de
conjunção com Quiron - o planeta que mostra que há um ferimento. Aquele grupo em Leão
do qual falamos há pouco (o Sol de Bill, o Plutão de Paul e o Marte de Max) está em
quadratura com as colocações em Touro, criando mais tensão e trazendo à tona questões
relacionadas com orgulho, idiossincrasias e outras necessidades e problemas ligados ao
ego. Liz também observou que, no tema composto entre Bill e Paul, Saturno está a 7 graus
de Touro.
Liz: Creio que isso é muito importante, pois o Saturno composto entre Bill e Paul está
situado sobre a Lua de Bill. Planetas compostos que formam aspectos de orbe estreito com
os planetas natais de um dos indivíduos indicam uma área em que o relacionamento, como
entidade, impõe-se poderosamente sobre esse indivíduo. Existe alguma coisa nesse
relacionamento - o bloqueio da comunicação - que restringe Bill e faz com que este fique
desconfortavelmente consciente dessas necessidades taurinas que ficaram insatisfeitas e
que ele sempre soube esconder muito bem. Talvez ele nem soubesse que precisava tanto
de contato e de afeto, e o nascimento de um filho ativou essa necessidade. O dilema de
todo esse contato físico frustrado vai acabar envolvendo Max, de algum modo.
128
Howard: Exatamente, Max suscita assuntos inacabados entre Bill e Paul.
Liz: Será que podemos fazer uma breve pausa até Max ter um filho?
Howard: Sim, voltamos daqui a quinze anos!
Liz: É bem estranho o modo como essas questões inacabadas vão e vêm ao longo de
gerações sucessivas. Tem certeza de que você não inventou esses mapas?
Howard: Para ser franco, não, mas às vezes eu penso que sim, pois descobri muita coisa
quando mergulhei profundamente neles. Você pode aprender muita coisa se dedicando
algum tempo a analisar o maior número de mapas de membros de uma mesma família que
puder, mesmo se forem somente mapas solares. E olhe que nem vimos os mapas da mãe
de Paul, de sua mulher ou da irmã menor de Max. A mulher de Paul tem um mapa
interessante (veja o Mapa 7, p. 130), pois seu Marte (em 5 graus de Touro) forma
conjunção com Vênus (em 11 graus de Touro) e ambos estão em quadratura com Plutão,
em 8 graus de Leão.
Liz: Claro, tem mesmo. O que será que Paul fez, encontrou-a em um catálogo de
compras pelo correio? É possível ver com clareza os temas míticos dominantes nessa
família. A ênfase em Leão sugere o tema da redenção do espírito ferido do pai. A ênfase em
Touro sugere questões relacionadas com a retenção e a possessividade (lembre-se da
história do Minotauro). A ênfase em Plutão sugere a necessidade de uma viagem pelo
mundo subterrâneo e de um confronto com as dimensões mais sombrias da personalidade.
Tanto Touro como Escorpião tendem a não perdoar e há todo um histórico de mágoa e de
retenção de afeto por causa da dignidade ferida. Além disso, há uma ênfase em Câncer
entre Bill e Paul, que parece se referir à emersão de imagens do mundo interior e de sua
fixação em alguma forma criativa.
Howard: Mais uma coisa, Liz.
Liz: Diga.
Howard: Paul e Max têm o mesmo signo no FC. Para Paul, a imagem do pai é colorida
por Peixes, e a imagem que Max tem do pai também é pisciana, caso determinemos que a
casa 4 representa o pai.
Liz: Temas familiares recorrentes podem aparecer até por meio de fatores como
elementos faltantes. Neste caso, vemos signos e planetas específicos que se repetem. Às
vezes, porém, os mitos herdados podem se manifestar de outras maneiras.
Howard: Como tanto Bill como Max têm a mesma Lua, o mapa composto para Bill e
Paul, e para Max e Paul, têm a mesma Lua - 4 graus de Áries. Quando Paul e eu combinamos
um encontro no ano passado para começarmos a explorar todas essas coisas, Urano estava
retrógrado sobre 4 graus de Capricórnio, formando quadratura com essa Lua composta.
Urano é o planeta que normalmente associamos à astrologia, seus trânsitos têm a fama de
despertarem as pessoas e de anunciarem inovações. A quadratura entre Urano em trânsito
e 4 graus de Áries foi um momento interessante para que Paul, por meio do "insight" e da
autocompreensão gerados pelo simbolismo astrológico, ficasse mais consciente dos
sentimentos e complexos não-resolvidos derivados de sua experiência com seu pai. Ele
pôde ainda relacioná-los com algumas das dificuldades que está tendo no relacionamento
com seu próprio filho.

129
Mapa 7. A mulher de Paul. Os dados de nascimento foram omitidos para preservar a privacidade. Mapa
calculado pela Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Agora, gostaria de concluir o tema sobre pais e filhos, e depois podemos passar para
outros assuntos. É importante que você se defronte e lide com as questões e problemas
externos que existem ou existiram entre você e seu pai; é ainda mais importante tentar
curara imagem interna ou o quadro interior de seu pai que você leva em seu íntimo. Em outras
palavras - e isso se aplica tanto a homens quanto a mulheres - precisamos fazer as pazes
com nosso "pai ferido" interior e curá-lo.* Um dos passos deste processo consiste em
explorar o passado, limpando-o, mas acho que não termina aí. Também devemos criar
imagens positivas e novas daquilo que um pai pode ser, uma imagem mais completa do
homem como alguém que protege e cuida. Anteriormente, nesse sentido, falei do
significado de Urano e Netuno atravessando Capricórnio: é um momento adequado para
novas imagens da paternidade. Gostaria de concluir minha parte falando da imagem que
tenho da paternidade positiva, uma imagem da qual não tenho conseguido me livrar.
Wilham Sloan Coffin (ironicamente, ex-reitor de um dos redutos do patriarcalismo, a
Universidade de Yale, nos Estados Unidos) disse certa vez que "a mulher que mais precisa
de liberação é a mulher que existe em todo homem.** Concordo com ele, embora eu
talvez me expressasse de um modo um pouco diferente, dizendo que o homem precisa
integrar ou se relacionar com sua anima, ou que o homem pode crescer quando respeita e
aceita o lado sensível de sua natureza, em vez de se identificar apenas com a razão ou com
o intelecto. Além disso, tenho como imagem de pai alguém que se sente à vontade com

130
suas emoções, que não tem medo de sua "anima". Se um homem não aceitou "o feminino",
vai menosprezá-lo; foi o que o homem típico da década de 1950 fez. Muitos de nós tiveram
pais que se encaixam nessa descrição. Permita-me criar um cenário e comparar o modo
como um pai típico dos anos 50 lidaria com ele com o modo como "o novo homem" trataria
da mesma situação. Imagine um garotinho que está com medo porque vai para a escola
pela primeira vez e está chorando e fazendo birra. O pai ao estilo dos anos 50
provavelmente o provocaria: "Pare de bancar o nenezinho, para de ser maricas. Homens
não choram nem fazem manha. Estou muito envergonhado com seu comportamento.
Cresça, encare a situação como um homem de verdade." Ao fazê-lo, ele está
menosprezando ou subavaliando as reações instintivas do menino, bem como seus medos
produzidos por ter de se defrontar com o novo e com o desconhecido. Agora, vamos supor
que esse garoto tem um pai dos anos 90 - um homem que sabe aceitar as emoções, que
está disposto a encará-las em vez de negá-las ou de correr de medo delas. O menino está
apavorado com essa história de ir para a escola, está chorando sem parar. Seu pai "novo-
estilo" o consolaria: "Sim, compreendo, eu também tive medo. Não é errado sentir-se
assim: Você não é um mau menino por estar emocionado." Como ele esta familiarizado
com o lado emocional de sua própria natureza, ele não menospreza, nem ridiculariza as
reações emocionais de seu filho. Um pai assim poderia dizer, "Eu entendo, é assustador sair
no mundo para enfrentar o desconhecido, mas ainda há um tigre que deve ser abatido, há desafios
que você deve aceitar e coisas que deve superar para que possa crescer e se desenvolver."
Na verdade, o pai está dizendo ao filho que não há nada de mais ter esses medos, mas que
ele não precisa se deixar sufocar por eles. Ele está mostrando ao filho que ele tem escolhas,
que há alternativas, que ele pode admitir que tem medo sem se envergonhar, mas que
também pode decidir ir"lá fora" para se defrontar com aquilo que teme. Estou sendo claro?
*Ver, de Samuel Osherson, Finding Our Fathers [Descobrindo Nossos Pais) (Nova York:
Fawcett, 1987), capítulo 7.
**William Sloam Coffin, citado no livro de Bolen, Gods in Everyman, p.159.
O "novo pai" aprendeu a aceitar suas emoções e a conviver com elas, mas ele não
perdeu de vista o valor do princípio solar ou "masculino", a imagem "animus" do herói ou
do guerreiro. Ele mostra ao menino que, apesar de sentir medo ou de estar apreensivo,
ainda é possível ser heroico ou corajoso, sair por aí e assumir seus riscos com dignidade.
Seu filho não se humilhou nesse processo, tal como sucedeu no cenário do pai típico da
década de 1950. Desse modo, o menino está bem encaminhado no sentido de conseguir
equilibrar razoavelmente suas facetas "masculina" e "feminina". (As mulheres também
deveriam tentar obter o equilíbrio entre a "anima" e o homem interior. A mulher
compromete sua unidade quando se identifica apenas com "seu animus" às custas de sua
natureza emocional.) Assim, esta é a imagem que faço da paternidade positiva: cuidar,
educar e proteger seus filhos sem fazer com que permaneçam pequenos. Esse tipo de pai
não é daqueles que tem dó do filho e permite que fique em casa sem ir à escola; ele lembra
o filho de que ainda existe um tigre que precisa ser abatido. Ou, como observou Samuel
Osherson em Finding Our Fathers, ele pode abrigar e orientar seus filhos sem fazer com que
continuem a ser bebês, transmitindo-lhes "o conhecimento seguro e tranquilo de que tanto
os homens como as mulheres são forças doadoras de vida na Terra.*
*Samuel Osherson, Finding Our Fathers, p.229.
131
Acredito que o melhor modo de começar a resolver seus problemas paternais é
levantar o mapa de seu pai - mesmo se você não tiver o horário exato de nascimento,
mesmo se for apenas um tema solar. Estudando o mapa natal de seu pai, você vai
compreender como ele era como pessoa por dentro, o que se passava dentro dele na
qualidade de ser humano. Isso deve ajudá-lo a aceitar e a compreender melhor o seu pai.
Liz: Calcule o mapa de sua mãe também. Na verdade, Howard, você está falando
daquilo que a alquimia descreve como a conjunção entre o Sol e a Lua. Gostaria de tomar
emprestado o seu tema, usando as imagens alquímicas para amplificá-lo. Quis mencionar a
alquimia porque sua imagem central é a coniunctio do Sol e da Lua, o casamento místico Ou
hierosgamos, e achei que seria um toque final adequado para nosso material sobre o Sol e a
Lua.
Para cada pessoa, o equilíbrio ideal entre Sol e Lua será inevitavelmente diferente.
Não existe um equilíbrio normal ou "bom" entre masculino e feminino; ademais, pode ser
que esse equilíbrio se altere para cada um em diferentes momentos da vida. Talvez o
equilíbrio adequado esteja de algum modo ligado aos signos ocupados pelo Sol e pela Lua
no mapa natal, e com a forma e a mescla dos fatores do mapa. Seja qual for nossa opus
alquímica pessoal, ninguém pode nos dizer como realizá-la. A meta da obra, o ouro
alquímico (que os alquimistas sempre afirmaram que não seria "ouro comum"), é uma
imagem da combinação entre o Sol e a Lua, representando a pessoa completa, total.
Inevitavelmente, surgirá a pergunta, depois do estudo que estamos fazendo sobre o
simbolismo do Sol e da Lua na astrologia: "Ótimo, mas como é que junto esses dois? Por
onde devo começar?"
Vimos como o Sol e a Lua precisam de confirmação e expressão conscientes para que a
pessoa se sinta real e satisfeita. Contudo, e se ambos brigam? E se estiverem em
quadratura ou oposição no mapa, ou se seus signos não se derem bem? Vão acabar
brigando, mesmo se estiverem em trígono, pois os instintos e as metas conscientes, mais
cedo ou mais tarde, vão colidir quando nosso herói interior tentar se libertar do mundo
seguro da infância e do passado, e a criança interior tentar manter aquilo que é seguro e
conhecido. Isso pode ser visto no mapa por movimentos como a Lua progredida que entra
em quadratura ou oposição com o Sol natal, ou vice-versa. Às vezes, é bom dar prioridade a
um deles, sem perder de vista os dois. É algo que pode ser visto por meio de aspectos
formados por trânsitos ou progressões: se o seu Sol progredido formou conjunção com
Marte, digamos, e ambos recebem oposição de Urano em trânsito, a prioridade deverá ser
dada ao Sol, pois é um momento adequado para ele.
Percebi que o alambique, o recipiente alquímico, é uma imagem útil, pois retrata o
recipiente onde o processo de conjunção do Sol e da Lua tem lugar. Na literatura alquímica,
esse trabalho é descrito como crítico e conflituoso, e creio que, nestes dois últimos dias de
seminário, você deve ter visto como essa crise e esse conflito são típicos do processo de
nossas vidas. A obra alquímica e a jornada do herói são duas imagens diferentes do mesmo
processo, que se desenrola em estágios, alguns de ação e movimento, outros de gestação e
espera. Mas todos esses estágios - essas fases importantes de nossas vidas em que estamos
anormalmente conscientes de que somos tanto espírito como corpo, tanto coração como
mente, e nas quais percebemos mais conscientemente como é difícil fazer com que
mantenham diálogo - têm lugar dentro da estrutura segura do alambique. Assim, como é
132
que isso se processa em nós e como pode ser visto no mapa?
De certo modo, o alambique é o próprio ego, o senso de "Eu" que é a somatória de
nossos valores individuais e que nos dá o senso de consistência e de continuidade que pode
abrigar nossos conflitos. Por outro lado, o alambique é a sensação de um significado coeso,
um fio de Ariadne que passa por todos os diversos capítulos da vida, um tema repetitivo de
vida que, apesar de usar várias roupagens, sempre consegue mobilizar nossos recursos
mais profundos. Associo essa dimensão do alambique com o Ascendente do mapa natal.
Existe algo de muito profundo no modo como o Ascendente reúne a dicotomia entre o Sol e
a Lua. Seu signo parece personificar um conjunto de valores ou uma gama de experiências
de vida que estão sempre a nos desafiar, e às quais devemos reagir tanto com a sabedoria
instintiva da Lua como com as metas conscientes do Sol. A vida fica nos golpeando na
cabeça com problemas ligados ao Ascendente, ao desenvolvermos os valores de seu signo,
tanto em nosso interior como em nosso comportamento, podemos fortificar gradualmente
o Sol e a Lua e descobrir que eles podem agir em conjunto, fazendo o Ascendente o papel
de elo unificador.
Se analisarmos o mapa de Paul, podemos considerar seu Ascendente em Escorpião
como um indicador que mostra como ele poderia combinar seu Sol em Câncer com sua Lua
em Peixes. No caso de Paul, o Sol e a Lua estão em trígono. Mas isto não significa
obrigatoriamente que ambos estarão agindo no sentido profundo da união alquímica. Os
dois luminares estão em água, por isso a base de suas reações instintivas e de suas metas
conscientes será o reino do sentimento e da imaginação. Por outro lado, esse trígono Sol-
Lua não nos diz que Paul será capaz de se expressar como uma pessoa coesa, cujas
necessidades instintivas e metas conscientes trabalham em harmonia. Vimos que ele tem
muita dificuldade para expressar seus sentimentos e imaginação, e que tem tido muita
dificuldade para lidar com seu ambiente familiar natal e com o relacionamento com seu
filho.
Howard: Sabe, faz vinte anos que estudo e pratico astrologia, mas ainda me pergunto se
consegui entender plenamente o significado do Ascendente. No entanto, concordo com
você - o eixo Ascendente-Descendente nos diz algo acerca do caminho que você precisa
seguir para alquimizar o Sol e a Lua. Mas também acredito que Mercúrio, o planeta que
Jung associaria com a função transcendente, desempenha uma função nesse processo.
Audiência: E se o Sol não formar aspectos?
Liz: Vou lhe apresentar minha metáfora - já bastante usada - do planeta inaspectado.
Imagine que você tem uma casa bem grande, na qual mora um monte de gente. Todas
essas pessoas se conhecem, todos sabem qual é seu dormitório e todas se reúnem na sala
de visitas para ficar fofocando e conversando. Contudo, sem que ninguém saiba, tem
alguém morando no porão. Este é o planeta inaspectado. Esta pessoa desconhecida mora
na casa, mas seus movimentos, atividades, motivos e necessidades não são comunicados
aos demais. Ninguém se preocupou em explorar a casa para saber se há nela lugares
ocultos, e o morador solitário do porão continua isolado e trancafiado em seu próprio
mundo de fantasia.
Você assistiu ao filme O Enigma de Kaspar Hauser? Ele trata de um jovem que, desde a
infância, foi mantido em completo isolamento, sem qualquer contato com seres humanos.
Quando ele é levado para o mundo civilizado, seu comportamento e aparência chocam os
133
demais e todas as pessoas, por sua vez, o chocam. O planeta sem aspectos vive em total
isolamento, não teve o benefício do intercâmbio com outros fatores do mapa que
modificassem e integrassem sua natureza. Se alguma coisa permanece tão inconsciente,
tende a manter-se arcaica e primitiva. É o contato com a consciência e com o mundo
exterior que "civilizam" os diversos impulsos da psique e humanizam aquilo que Freud
chamou de id. A natureza do planeta inaspectado é crua e arquetípica; ele ainda não foi
humanizado. Um dia, surge um trânsito ou uma progressão importante ou aparece uma
outra pessoa que tem um planeta natal que toca o planeta inaspectado, o morador
desconhecido do porão faz explodir uma granada sob a sala e vai parar nos andares
superiores da casa. Daí, todos saem de seus quartos, gritando "Meu Deus, de onde veio
isso?" e há um período de caos em que cada um deve se entender com uma nova e
importante faceta de si mesmo.
Se o Sol estiver inaspectado, precisamos pensar no mito do herói solar para
compreendermos como essa energia se manifesta em sua forma mais primitiva. A
dimensão mais criativa é a poderosa e crua força criativa; se puder ser canalizada, é
imensamente fértil e poderosa. A dimensão mais sombria é a sensação de arrogância
messiânica, presente enquanto o herói arquetípico ainda não se humanizou, não se tornou
uma pessoa comum. Além desses, há outros níveis. O relacionamento inicial com o pai
costuma ser fraco, e, normalmente, pouco consciente. A pessoa pode sentir-se
completamente desconectada dele, o que faz com que não haja uma imagem interior sadia
de pai para mediar o poder divino do Sol. Talvez haja problemas com autoridades, com a
paternidade e com a maneira como a pessoa capta o masculino de modo geral.
Além disso, o Sol é nosso senso de realidade individual, que também pode estar
bastante inconsciente. Por isso, talvez a pessoa não se sinta real, a menos que outras
pessoas à sua volta lhe sirvam de espelho. Quando o Sol não forma aspectos, seu poder
auto-gerador não se expressa com facilidade e a pessoa fica vagando e perguntando a
todos, Diga-me quem eu sou".
Audiência: Existe alguma chance de que isso melhore?
Liz: Claro. Todos os meses, a Lua em trânsito entra em conjunção com esse Sol natal
inaspectado. Além disso, mais cedo ou mais tarde, os garotões vão aparecer e formar
aspectos fortes. Saturno forma um aspecto tenso a cada sete anos, mais ou menos. São
muitas as chances.
Howard: Ou, como disse Liz, você encontra alguém com uma colocação planetária que
traz seu Sol à tona. Já fiz mapas para muita gente com Sol inaspectado e, em muitos desses
casos, elas não chegaram a conhecer o pai - ele morreu quando elas eram pequenas, ou ele
sumiu nessa época. Também já observei o fenômeno do arquétipo solar não-mediado em
certos casos onde o Sol forma aspecto tenso ou conjunção com Netuno. Paul tem uma
quadratura Sol-Netuno e gostaria de poder mostrar uma foto dele - ele lembra uma estátua
viva de Poseidon a personificação desse arquétipo masculino específico.
Liz: Ele está todo coberto de algas?
Howard: Sério, Liz.
Audiência: E o que você pode falar a respeito dos vínculos duplos, que podem ser
criados pelo Sol e pela Lua? Papai envia uma mensagem, mamãe outra. O cliente começa a
andar em círculos e não sabe como sair disso.
134
Liz: 0 Sol e a Lua criam um vínculo duplo inato, presente em todos nós. Há um nível em
que o ímpeto pela consciência e pela individualidade acaba colidindo com o apelo da
segurança. Às vezes, porém, é mais crítico. Coincidentemente, Bill tem esse problema,
sugerido pela quadratura entre seu Sol e sua Lua. Os aspectos tensos entre eles - até a
conjunção - implicam que o conflito humano básico entre ego e instinto se aguça nesse
indivíduo específico. Esse conflito agudo costuma estar presente no casamento dos pais.
Howard: Quando o Sol e a Lua formam aspectos difíceis, é bem provável que os
progenitores tiveram dificuldades de relacionamento e a criança se viu entre fogos
cruzados. Isso me lembra de algo que ia comentar há pouco. Pode surgir com aspectos Sol-
Lua difíceis Ou de diversas outras maneiras; para citar um exemplo, é o caso em que a mãe
não quer que seu filho se ligue a seu pai, como se ela estivesse revindicando direitos
exclusivos sobre o filho. Sua necessidade de se sentir especial e amada pode ser a causa
disso. Assim, a mãe pode tentar impedir a aproximação entre pai e filho. Ela pode contar
para o filho coisas terríveis a respeito do pai numa tentativa de aliena-lo deste. Ela pode
ficar intrometida e atrapalhar sempre que pai e filho começam a se relacionar melhor. Os
triângulos costumam dar origem a esse tipo de problema.
Liz: Uma outra coisa que eu acho que você pode fazer, além de levantar os temas de
seu pai e de sua mãe, é analisar o mapa composto formado pelos dois (o que pode ser feito
até com um mapa solar, apesar de você só obter planetas e aspectos compostos, e não o
Ascendente ou as cúspides). Analise o intercâmbio entre esse composto e seu próprio mapa
natal, pois isso vai lhe dizer muito sobre o modo como o relacionamento deles afetou você.
Além disso, você pode explorar o composto entre você e seu pai, e ver como ele contata o
mapa de sua mãe; depois, verifique o composto entre você e sua mãe, e como ele afeta o
mapa de seu pai. Este tipo de investigação revela muito sobre sua dinâmica familiar.
Howard: A gente fica acordado a noite toda, claro.
Liz: Bem, na verdade, a gente fica acordado durante semanas.
Howard: Não acabei de explicar os aspectos Lua-Netuno e Lua-Plutão. Porque você não
termina?
Liz: Eu? O que foi que eu disse para merecer isso?
Howard: Bem, vamos fazer isso juntos. Mas por que você não começa? Estávamos
examinando os aspectos lunares à luz do caso amoroso com a mãe no início da infância.
Liz: Tudo bem. Lá vamos nós com Lua-Netuno. Como a Lua descreve a substância que
você e sua mãe partilham, as qualidades que sua mãe parecia possuir e que lhe causaram
maior impacto na infância, então este aspecto vai descrevê-la como netuniana. Isso sugere
que, em algum nível ela carecia de limites. Talvez sua identidade não estivesse
suficientemente formada e pode ser que ela tenha precisado se fundir emocionalmente
com as pessoas que a rodeavam. A dimensão mais criativa desta "porosidade" é sua
empatia e imaginação naturais. Seu lado mais difícil é que Lua-Netuno pode representar a
mãe que não tolera a solidão ou ,o isolamento e que pode ter permitido que abusassem
dela por medo de se tornar uma entidade independente. Todos os temas arquetípicos do
sacrifício, do sofrimento e da impotência podem permear a imagem da mãe, pois Netuno é
aquele aspecto em nós que vai perambulando pela vida à procura de redenção. É o anseio
por voltarmos ao Éden, por purgar o pecado de uma existência de isolamento. Assim, a mãe
netuniana pode buscar a redenção em seu filho, que assume o papel de redentor, embora,
135
na verdade, a mãe seja a criança emotiva. Às vezes, vemos um estado inconsciente de fusão
entre mãe e filho muito profundo, envolto em imagens de vitimização e de redenção. Além
disso, na busca de unidade emocional, a mãe pode virtualmente vampirizar a criança,
minando, através da culpa e de maneira inconsciente, todos os esforços incipientes que
esta faz para se expressar. É um aspecto que ocorre com muita frequência na situação que
você descreveu antes, Howard, em que a mãe reivindica o filho para si e exclui o pai - como
se a criança fosse fruto divino, concebida imaculadamente com o único propósito de
redimir a mãe. Formar um relacionamento com o pai (o Sol) vai significar ter de abdicar da
identificação com o redentor arquetípico (um papel de difícil representação para o mortal
comum). A experiência de um primeiro amor através de Lua-Netuno é, portanto, um estado
de fusão paradisíaca entre mãe e filho, algo que vicia e sufoca ao mesmo tempo.
Howard: Tenho visto pessoas com aspectos Lua-Netuno que, quando crianças, foram
impelidas a se sentirem culpadas por quererem se separar - da mãe. Mencionei a fase em
que as crianças atingem na idade de uns nove meses, uma fase em que começam a manter
um caso amoroso com mundo, não só com a mãe. Com Lua-Netuno, você pode querer
explorar ambiente, você pode querer se afastar um pouco da mãe, mas fazem com que
você se sinta mal ou culpado por sair do lado dela. É como se ela estivesse lhe pedindo para
sacrificar a si mesmo e às suas necessidades por ela. Numa outra hipótese, seu impulso
para se manter unido à sua mãe se sobrepõe a seu ímpeto natural de crescer ao se tornar
mais independente dela, ou a uma autodefinição diferente da dela. Forma-se um padrão, e
mais tarde pode ser que você ainda esteja buscando uma espécie de fusão divina com uma
pessoa amada, ou que esteja disposto a se contorcer para conquistar amor, adaptando-se
ao modelo que você imagina que os outros gostariam que você representasse. Sem dúvida,
você se perde nesse processo, o que, em algum nível, fará com que você se magoe ou sinta
raiva pela outra pessoa.
Liz: Os contatos Lua-Netuno costumam apresentar problemas relacionados com limites.
Em vez de tentar mudar a natureza do aspecto (o que seria impossível), talvez seja mais útil
lidar com seu lado positivo - a empatia e a capacidade de "entrar" no estado emocional da,
outra pessoa - e tentar desenvolver limites mais claros nas pequenas áreas da vida
cotidiana. Por outro lado, a característica mais desagradável desse aspecto é sua propensão
a chantagens emocionais. "Eu me sacrifiquei tanto por você e abri mão da oportunidade de
viver de maneira independente. Agora, você me deve sua alma, nada menos". Às vezes, é
essa a mensagem silenciosa e inconsciente da mãe, e a pessoa vai levar a tendência a
repeti-la na vida adulta. Uma das tendências congênitas de Netuno é abominar os limites
cotidianos, essa coisa de Virgem e da casa 6. Algo simples como "Não, eu não quero ir a
essa festa, mas não tenho nada contra se você quiser ir sozinho", é incrivelmente difícil
para o netuniano. Ele não conhece direito o "Eu" - para ele, só existe o "Nós". Contudo,
quando a pessoa se anula em prol da fusão, gera muito ressentimento interior, pois mesmo
se você tiver uma conjunção Lua-Netuno exata no mapa, também tem oito planetas e mais
Quiron, e eles não têm nenhuma intenção de se fundirem. O Sol e Marte, em particular,
começam a exalar odores sulfurosos, geralmente inconscientes mas inegáveis, conhecidos
nos meios especializados como "atmosfera". Assim, é preciso que saibamos criar alguns
limites sem nos transformarmos em virginianos triplos. Aprendera dizer não de vez em
quando ajuda bastante. A gente descobre que não morre depois.
136
Howard: Ou que a outra pessoa não morre nem a odeia por causa disso.
Liz: É bem assim. Além disso, ninguém vai puni-lo com a expulsão permanente do
paraíso. Temporariamente, talvez; por outro lado, se você não for capaz de enfrentar uma
temporada fora de seus muros, dificilmente conseguirá lidar com a vida. Quanto maior a
confiança que desenvolvemos na capacidade que um relacionamento tem de ultrapassar os
limites e de fazer com que nos fundamos ao outro, mais estaremos curando os ferimentos
netunianos da culpa e do ressentimento que rodeiam a mãe.
Howard: Com os aspectos Lua-Plutão, você se encontra com Plutão por meio de sua
mãe - o que ocorre através de diversos cenários. Alguma coisa em você capta
instintivamente os sentimentos mais sombrios ou ocultos de sua mãe, alguma frustração,
destrutividade ou raiva que ela esteja abrigando. Com isso, você se sente ameaçado Por
ela, como se a pessoa que você ama fosse também a pessoa que poderia destruí-lo, que
poderia matá-lo ou abandoná-lo sem aviso prévio. Mais tarde, você inconscientemente
atrai ou forma relacionamentos que repetem esse padrão, pois foi essa a experiência com
sua mãe - o primeiro modelo daquilo que o amor e a intimidade serão para você. Talvez
você se sinta atraído por um parceiro dotado de natureza explosiva ou de fortes impulsos
destrutivos, que você provocou sem querer; pode ser também que, para você, "amor" seja
equivalente a "problemas". Você (consciente ou inconscientemente) acredita que o amor
será a causa de sua queda. Não dá para se sentir à vontade em um relacionamento se você
aguarda o dia em que seu parceiro vai se enfezar, vai abandoná-lo ou traí-lo. Talvez você se
torne extremamente divergente, controlador ou manipulador como meio de tentar evitar a
ocorrência de seus piores receios.
Às vezes, ocorre o inverso: você receia que você destrua aqueles que ama. Na infância,
em alguma ocasião, todos tivemos vontade de matar nossas mães por elas terem nos
causado alguma frustração. Naturalmente, esse não é um sentimento confortável, pois se
você pusesse em prática esses impulsos, estaria destruindo a própria pessoa que você ama,
estaria eliminando a pessoa de quem você necessita para garantir sua sobrevivência. As
pessoas com configurações Lua-Plutão precisam se entender com a tensão inerente a essa
ambivalência. Acredito que o amor e o ódio caminham lado a lado em um relacionamento
íntimo. Há uma série de explicações para isso. Pode ser que um dos dois comece a se sentir
sufocado pelo relacionamento e por isso se sinta magoado com o outro por lhe negar o
espaço ou a liberdade de que necessita para se expressar em sua plenitude. Então, o
quanto se ama alguém, se tem felicidade e desempenho, depende dessa pessoa. Portanto,
se o outro o decepciona, talvez você fique muito bravo ou simplesmente se aborreça como
fato de alguém exercer tanto poder sobre você. Os melhores relacionamentos são aqueles
que podem tanto suportar as emoções negativas que, de tempos em tempos, você sentirá
pelo outro, como as coisas positivas, amáveis e pacíficas. Na maioria dos casos, as pessoas
Lua-Plutão são bem intensas e parecem querer que o relacionamento seja permeado de
intensidade, drama e intriga, por mais que neguem veementemente a veracidade dessa
afirmativa. Inconscientemente, elas igualam intimidade e proximidade com transformação,
como se um relacionamento devesse ser o catalisador por meio do qual somos
desmontados e reconstruídos.
Liz: A emoção intensa ou compulsiva acaba tendo um efeito transformador, pois seu
ímpeto acaba queimando quaisquer regras ou acordos conscientes estabelecidos entre
137
duas pessoas e o sofrimento acaba por se seguir. A palavra que costumo associar com
Plutão é paixão, e a paixão pode ir desde o ódio apaixonado até o amor apaixonado,
passando pelo desejo e pelos sentimentos eróticos. Contudo, a palavra-chave para Plutão é
sempre "paixão". Esta palavra tem raízes no latim e significa "sofrer" - daí a expressão
"Paixão de Cristo". Os aspectos Lua-Plutão indicam a paixão da mãe. Já ouvi muita gente
com Lua-Plutão dizer, "Minha mãe era muito fria e fechada, ela nunca mostrava suas
emoções". Vejo o contato Lua-Plutão no mapa natal e penso com meus botões, "Sim, tenho
certeza de que ela aprendeu a agir assim para se proteger, tal como todos os bons
plutonianos fazem com seu feroz orgulho luciferino, mas deve ter havido um vulcão que
acumulava pressão em seu interior". Essa constante repressão das emoções na mãe pode
gerar raiva, ciúmes e o desejo inconsciente de matar o filho que, pelo mero fato de existir,
parece ser o responsável por frustrar seus sonhos de vida. Ou pode refletir um fascínio
sexual obsessivo, embora inconsciente, pelo filho, caso o objeto real- o marido - a tenha
abandonado ou esteja (ou seja) inacessível.
Howard: O caso amoroso que você teve com sua mãe torna-se o protótipo daquilo que,
mais tarde, você espera da proximidade e da intimidade, a imagem interior daquilo que
você espera encontrar quando estiver tentando saciar suas necessidades emocionais
básicas. Assim, mais tarde, você procura pessoas complexas, profundas ou passionais,
pessoas com quem você acaba mantendo relacionamentos complicados e intensos. Pura e
simplesmente, você não se sentirá atraído por alguém que não se encaixa nessa descrição.
Ou então, caso você se una a uma pessoa que lhe pareça demasiadamente fácil, segura ou
descomplicada, esse relacionamento pode não durar para sempre ou talvez você mantenha
casos - que lhe darão a intriga e a intensidade que sua imagem plutoniana de intimidade
tanto deseja.

138
O RITMO DA VIDA
UMA DISCUSSÃO SOBRE O CICLO DE LUNAÇÃO
por LIZ CREENE

Achei que poderia ser adequado encerrar nossas sessões estruturadas com algum
material acerca daquilo que conhecemos como o ciclo de lunação. É uma forma de analisar
o Sol e a Lua que leva em conta sua interação cíclica recíproca, em vez de estudar seus
signos natais, suas colocações por casa ou seus aspectos; e pode nos dar "insights" sob
diversas perspectivas. Uma delas foi a que Dane Rudhyar apresentou em seu livro O Ciclo de
Lunação,* e trata principalmente da fase da Lua sob a qual nasceu o indivíduo e das
características psicológicas dessa fase. Não vou perder tempo falando desta abordagem
porque Rudhyar o faz muito bem e tenho pouco a acrescentar. Você deveria ler o livro dele.
Contudo, existem outras maneiras de analisar a interação entre o Sol e a Lua que podem
nos oferecer perspectivas adicionais.
*Dane Rudhyar, O Ciclo de Lunação (São Paulo: Pensamento, 1986).
Uma abordagem interessante é o ciclo da Lua progredida no horóscopo individual.
Para quem não está familiarizado com o movimento da Lua progredida, ele é um ciclo de
uns 28 anos, usando a analogia simbólica de um dia de movimento planetário por ano de
vida. A lua percorre uns 13 graus de arco zodiacal diariamente ou, em termos simbólicos,
13 graus por ano; com o movimento progredido, ela abrangerá todos os 360 graus do
zodíaco em mais ou menos 28 anos (este cálculo deve ser feito para cada mapa, pois o
movimento diário da Lua varia). À medida em que a Lua progredida se desloca pelo mapa,
cobrindo cada signo de 30 graus em uns dois anos e meio, ela vai formar aspectos com o Sol
natal e com o Sol progredido, o qual, por sua vez, se desloca à razão aproximada de um
grau de movimento real por dia ou, simbolicamente, de um grau por ano por progressão.
Esses aspectos lunares progredidos com o Sol natal e progredido são cíclicos - eles ocorrem
em intervalos regulares e os mais importantes são as luas Nova e Cheia progredidas -
quando a Lua progredida atinge a conjunção ou a oposição com o Sol natal e depois com o
progredido. É interessante acompanhar esse ciclo de lunação progredido e mais tarde
podemos dar uma olhada nele. Os anos nos quais acontecem as lunações progredidas são,
invariavelmente, extremamente importantes, em especial se a Lua progredida e o Sol
progredido formam conjunção ou oposição ao mesmo tempo em que atingem um planeta
natal com um aspecto forte.
Também podemos analisar o ciclo de lunação como um Ciclo comum de trânsito, pois a
cada mês a Lua retorna a seu próprio lugar natal. Esta é a base do mapa de retorno lunar,
que muitos astrólogos estudam para avaliar as tendências do mês vindouro. À medida em
que a Lua transita pelo zodíaco, forma uma série de conjunções e de oposições com o Sol
em trânsito - em termos astronômicos, são as luas Nova e Cheia - e, se uma dessas lunações
recai dentro da distância de um grau de um planeta ou ângulo natal, pode ser um poderoso
detonador dos trânsitos e dos aspectos progredidos dos outros planetas, especialmente
dos lentos. Contudo, mesmo que a Lua Nova ou Cheia em trânsito não atinja diretamente
139
nenhum ponto do mapa natal, ainda assim é interessante analisar a casa onde ela cai. As
lunações se seguem ao longo das casas no decorrer do ano: se uma Lua Nova, por exemplo,
cai na casa 4, a Lua Cheia seguinte atinge o eixo 4/10; depois, a próxima Lua Nova pode cair
na 5 e a Cheia subsequente ocupará o eixo 5/11, e assim por diante, ao longo do ciclo solar
de 365 dias pelo zodíaco. Assim, cada uma das casas do mapa natal é ativada em ordem
consecutiva por uma Lua Nova e uma Cheia durante o ciclo anual. Muitos dos astrólogos
que têm colunas de previsão nos jornais usam essas lunações como base para suas previsões
mensais, dependendo da casa do mapa solar em que caem e dos aspectos que formam com
os outros planetas em trânsito.
No decorrer de um ano, as lunações mais poderosas são os eclipses, que podem ser
localizados nas efemérides quando a lunação forma conjunção com um dos Nodos. Isto
significa que o Sol e a Lua em transito estão alinhados não só na longitude como também
na latitude. Discute-se muito o significado dos eclipses e a duração de seus efeitos; mas não
se discute seu poder de ativar os planetas e ângulos natais, os trânsitos lentos e os aspectos
progredidos, que podem ficar dentro do orbe por um longo tempo e que costumam
"amadurecer" quando um eclipse os aciona. Geralmente, há dois pares de eclipses por ano,
dois solares (Lua Nova) e dois lunares (Lua Cheia), cada par distanciado de uns seis meses.
São os pontos altos da energia do ciclo anual, sendo que as lunações menores formam um
ritmo intermediário discreto. Na astrologia da antiguidade, antes do mapa natal individual
ser visto como um elemento importante, os eclipses eram a principal ferramenta preditiva
de eventos mundiais.*
*Um bom exemplo é a Guerra do Golfo, em 1991. O palco para essa guerra foi montado
quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait logo após a eclipse solar do final de julho de
1990; esse eclipse caiu em 29 graus de Câncer, a 4 graus do Ascendente do Iraque. A data-
limite dada pelos aliados para que ele saísse do Kuwait fui 15 de janeiro de 1991, no dia do
eclipse solar seguinte, em 25 graus de Capricórnio - que caiu exatamente sobre o
Descendente do Iraque. Qualquer astrólogo babilônico competente teria avisado Saddam
de que não seria uma boa ideia invadir outro país sub tais auspícios, e ficamos nos
perguntando se ele teria recebido algum aconselhamento astrológico em janeiro, pois ele
tentou mudar a data final - sem sucesso e com o desastre que se seguiu.
Finalmente, outra abordagem ao ciclo de lunação, ou ao relacionamento móvel entre o
Sol e a Lua, é o eixo dos Nodos Lunares. O eixo nodal tem um ciclo de 18 anos,
aproximadamente, e é o eixo formado pelos pontos em que a órbita da Lua cruza a do Sol.
Os Nodos se movem em retrocesso pelos signos e seu eixo é extremamente poderoso em
trânsitos e progressões, como se sabe. Há muitas maneiras diferentes de se interpretar os
Nodos Lunares, que vão desde a postura hindu fatalista (Rahu, o Nodo Norte, e Ketu, o
Nodo Sul, são vistos como energias demoníacas que sempre causam desastres) até a leitura
de "vidas passadas" através deles (a área em que você se deu mal na encarnação mais
recente e que precisa trabalhar para acertar na presente). Nesta manhã, gostaria de
explorar uma abordagem mais psicológica dos Nodos, vendo-os como reflexo do
relacionamento entre o Sol e a Lua.
Para encontrar um suporte em meio a essas diferentes dimensões do ciclo de lunação,
creio ser importante definir, com o máximo de clareza, os significados básicos do Sol e da
Lua. Howard e eu falamos da Lua em relação às mudanças e à vida material, bem como dos
140
ciclos do corpo e da natureza instintiva. A Lua é nosso veículo de incorporação física e nosso
instrumento de recepção; é nossa ligação com o mundo temporal. Por meio da Lua,
reagimos à vida através do corpo, dos sentimentos e instintos; e, mais importante, é por
meio da Lua que nos ligamos ao ritmo mutável do mundo físico do qual fazemos parte.
Enquanto a Lua reflete um princípio mutável em nós, o Sul - embora se desenvolva - é
uma constante. O Sol simboliza o eu essencial, cuja consciência, espera-se, aumenta no
decorrer de uma existência (como o herói mítico), mas que mantém um núcleo de
"eudade" imutável e nos dá nosso sentido de continuidade e de identidade permanente.
Enquanto a Lua faz com que tenhamos a sensação do tempo e da mudança, o Sol faz com
que nos sintamos como poderosos criadores. Devido à sua constância, o Sol nos dá a
sensação de eternidade - sentimos essa "eudade" indestrutível como a criança divina, a
centelha de espírito encarnada na forma física lunar. Por meio da Lua, experimentamo-nos
como "mera" carne e, por isso, sujeitos às flutuações da vida mortal. Por meio do Sol,
experimentamo-nos como algo essencialmente maior do que - ou capaz de transcender a -
o interminável ciclo lunar que o Tarô retrata como a Roda da Fortuna.
Portanto, a Lua - nossa antena voltada para o drama da vida, perpetuamente mutável -
sai, acumula um pouco de experiência. e depois volta para oferecer suas reações ao Sol,
que as processa. Depois, a Lua se aventura novamente e outra porção da vida é absorvida e
trazida de volta para casa. Os encontros lunares com a vida, à medida em que a Lua
progride pelas doze casas do horóscopo, acabam formando um reservatório de experiência
que o Sol pode transformar gradualmente em "minha" visão de vida, "minha" cosmovisão e
"minha" identidade. Há uma interação constante entre o princípio mutável e receptivo e o
princípio radiante e constante. O eu interior solar depende da experiência da Lua,
provocada pela necessidade emocional; sem a Lua, não haveria ligação com a vida ou com
as outras pessoas. Na verdade, não haveria relacionamentos e portanto não haveria
crescimento, pois o Sol não é um princípio relacional.
O Sol se desenvolve por meio da aventura lunar - ir à vida e retornar com inúmeras
reações emocionais a se experimentar. A Lua, por sua vez, depende do Sol, pois sem ele a
Lua ficaria inteiramente à mercê do corpo e da natureza. Ela seria impelida pelo instinto
cego, sem qualquer noção de significado da vida, sem qualquer sentimento de valor e de
poder individuais. A interpretação básica do relacionamento entre os princípios solar e
lunar é, creio, muito importante, caso desejemos compreender qualquer das diferentes
facetas do ciclo de lunação. Por exemplo, quando analisamos o ciclo de progressão da Lua
individual, estamos tendo uma visão intensamente concentrada das incursões da Lua na
vida segundo o seu signo, casa e aspectos com os outros planetas natais e progredidos.
Quando a Lua progride por uma casa específica, ela colhe experiências naquele domínio da
vida. Quando ela toca outros planetas, ela encontra pessoas ou situações que personificam
esses planetas. Quando a Lua progredida entra em conjunção com o Sol progredido (em
intervalos de 30 anos), a Lua voltou para casa com toda sua pilhagem, ganha a duras penas,
e um novo ciclo de experiência está prestes a começar.
Em nível mais global, a viagem cíclica da Lua é refletida pelos trânsitos da Lua Nova e
Cheia, com ápice na época dos eclipses. Assim, o mundo coletivo do qual fazemos parte
tem o mesmo ritmo que experimentamos em nossa vida pessoal. No decorrer de um mês,
ocorrem eventos "lá fora" que constituem a base dos noticiários da TV e quem quer que
141
fique de olho neles percebe que esses eventos acontecem em lotes. Pode ser que um
eclipse solar forme conjunção com Saturno, por exemplo, ou que uma Lua Nova esteja em
quadratura com Marte e passando sobre Urano, acontece um acidente ferroviário seguido
por um terremoto na Armênia e seguido por um assassinato em massa em Paris.
É assim, portanto, que sinto que deve ser o relacionamento essencial entre o Sol e a
Lua: mudança, mortalidade e o ciclo lunar de nascimento, frutificação e decadência, que
sempre extrai seu significado (e atende aos propósitos) de algo constante e eterno que há
por trás. 0 Sol ganha forma por meio da Lua, que é uma possível explicação para que, no
simbolismo tradicional, o Sol e a Lua representem macho e fêmea, o masculino ganha
forma por meio do feminino, enquanto o feminino extrai significado do masculino.
Obviamente, não estou falando de homens e mulheres, mas de um par de princípios em
todos nós. Em termos arquetípicos, o princípio masculino depende do feminino para poder
habitar efetivamente a Terra e se relacionar com ela. Lembro-me de uma passagem da
novela de Mary Renault, The Bull from the Sea [O Touro do Mar],* em que Teseu ouve sua mãe
- uma sacerdotisa da deusa - lhe dizer que, apesar de ser adequado que Teseu peça
conhecimento em suas preces a Apolo, é ela (a deusa) que, no frigir dos ovos, o deus Sol
conhece. Assim, a consciência solar não se ergue sobre conceitos abstratos acerca da vida,
mas sobre a própria vida, e a experiência da vida depende do instinto lunar e do contato
emocional. A busca de significado vem do Sol, mas o sentido só pode ser encontrado
através da autenticidade da imersão da Lua na forma humana.
*Mary Renault, The Bull from the Sea (Nova York: Random House, 1975).
Audiência: Você poderia falar um pouco da definição que Rudhyar dá para o ciclo de
lunação?
Liz:Tudo bem, mas muito sucintamente. Você entende quando falo da fase da Lua em
que você nasceu?
Audiência: Não muito bem.
Liz: Acho que os astrólogos deveriam estudar princípios básicos da astronomia. Não
sou muito boa em astronomia, mas algumas visitas ao planetário podem mostrar a
tridimensionalidade do sistema solar até para o pensador menos concreto. Receio que, nos
círculos astrológicos, estejamos excessivamente acostumados com a análise de mapas
bidimensionais.
Vamos dizer, para simplificar, que o seu Sol está em 0 graus de Áries. Se você nasceu
coma Lua entre 0 e 10 graus de Áries, você nasceu sob uma Lua Nova, pois ambos
formavam conjunção quando você nasceu. Nos dias que se seguiram, a Lua mostrou seu
formato crescente no céu ao se afastar do Sol, começando a refletir sua luminosidade. Ela
acabou formando uma quadratura, um ângulo de 90 graus, que é o primeiro quarto da Lua.
Como Sol em 0 graus de Áries, você teria nascido sob uma Lua Crescente se ela estivesse
situada entre 0 e 10 graus de Câncer. Se você nasceu com o Sol em 15 graus de Touro, teria
nascido sob uma Lua Nova caso a Lua estivesse posicionada entre 0 e 10 graus de Touro, e
sob uma Lua Crescente caso esta se localizasse entre 0 e 10 graus de Leão. Até aqui, tudo
bem?
Depois, a Lua vai ganhando luminosidade até atingir a oposição ao Sol, que é a Lua
Cheia. Se o seu Sol está em 0 grau de Áries, você teria nascido sob a fase da Lua Cheia caso
a Lua estivesse entre 0 e 10 graus de Libra. Em outras palavras, todos que têm o Sol em
142
oposição à Lua nasceram sob uma Lua Cheia. Aí, a Lua começa a minguar, a refletir menos
luz, tornando a se aproximar do Sol, e atinge seu segundo quarto, o Quarto Minguante, que
também é um ângulo de 90 graus em relação ao Sol, mas aproximando-se da conjunção. Lembre-
se de que o primeiro quarto da Lua aproxima-se da oposição. Essas duas quadraturas entre o Sol
e a Lua têm natureza bem diferente. Tente imaginar que a Lua é um princípio inteligente -
se preferir, uma pessoa. Ela se afasta da segurança de sua conjunção com o Sol e viaja pela
vida, atingindo o máximo de poder e de intensidade na Lua Cheia, fazendo depois suas
malas e saindo de seu hotel para retomar a viagem de volta ao lar, à próxima Lua Nova. A
quadratura do primeiro quarto é cercada de excitação e de ingênuo entusiasmo, enquanto
que a quadratura do segundo quarto tem natureza meditativa e filosófica, pois está
voltando para casa.
Enquanto a Lua se afasta de seu segundo quarto e volta à conjunção com o Sol, ela dá
a aparência de estar um pouco desanimada no céu. Rudhyar dá a ela o nome de Lua
Balsâmica. Dá para imaginar como ela se sente se você lembrar da sensação que temos ao
cabo de uma viagem ou de um feriado. Suas malas estão cheias de roupas que precisam ser
lavadas e você já não tem mais dinheiro. Está cansado de comer coisas diferentes, começa
a achar que a viagem foi bárbara mas que seria ótimo ir para casa, ver rostos familiares e
falar novamente sua própria língua. A Lua Balsâmica começou a se desfazer de sua parcela
de experiência, temos nessa fase lunar a melancolia, o sacrifício, quase que uma fadiga.
A julgar por essa breve descrição, podemos ver que a fase lunar pode se sobrepor aos
signos onde o Sol e a Lua estão situados. Uma Lua Nova em Peixes, por exemplo, pode ser
dotada de tremenda energia e vida criativa, podendo até se comportar mais como uma Lua
em Áries do que uma Lua Crescente em Áries, pois a receptividade lunar da Lua Nova é
obscurecida pela luz brilhante do impulso solar. Uma pessoa nascida sob uma Lua Cheia,
não importa em que signo, será altamente sensível aos outros, como se essa pessoa tivesse
a Lua em Libra, pois o princípio lunar de relacionamento está em seu ápice nessa fase. A Lua
Crescente, com seu espírito aventureiro alternado com a timidez, pode se comportar de
modo bem semelhante à Lua em Câncer, pois a Lua está explorando novos terrenos, busca
novas sensações e, ao mesmo tempo, preocupa-se em saber se essa foi uma boa ideia. A
Lua Minguante pode se comportar de modo bem semelhante ao de uma Lua em
Capricórnio, desgastada pelo mundo, experiente, meditativa e um pouco cínica, pois a Lua
passou por seu estágio de plenitude e está digerindo toda essa experiência, tornando-a
concreta.
Bem, creio que isso basta sobre o ciclo de lunação tradicional. Agora, você pode sair e
comprar o livro de Rudhyar. É um material muito útil, apesar de não ser exatamente essa a
primeira coisa que eu analiso quando estudo um mapa. Estou mais interessada no
movimento da Lua progredida em função do modo fiel como ela reflete os fluxos e refluxos
da vida. A Lua progredida nos oferece a chance de experimentarmos e sentirmos a energia
de cada casa e signo do zodíaco, pois ela completa sua volta em 28 anos. Além disso,
experimentamos cada planeta em intervalos cíclicos, pois a Lua forma todo tipo de aspecto
com todos eles no decorrer de 30 meses; finalmente, experimentamos todos os pontos
médios, pois ela os percorre em apenas 45 meses. É fascinante observar o modo como as
pessoas refletem o deslocamento da Lua progredida através dos signos. Elas começam a se
vestir com cores diferentes, a ganhar ou a perder peso, começam a se encontrar com
143
pessoas cujos mapas ostentam esse signo de modo proeminente e descobrem que seus
interesses mudam e gravitam na direção dos temas desse signo. Para uma pessoa
fortemente lunar (Câncer em destaque ou uma Lua angular), essa passagem da Lua
progredida por um signo a cada dois anos pode ser bem marcante.
É muito interessante estudar a posição de sua Lua progredida em um determinado
período e o tipo de pessoa e de evento presentes em sua vida nessa mesma época. A
função relacional da Lua costuma atrair pessoas que personificam as qualidades que a Lua
está "aprendendo" em sua passagem por um signo específico. Além disso, a casa é muito
importante, pois os movimentos da Lua pela esfera parecem pôr em relevo, no mundo
exterior, questões que devem ser tratadas ou experimentadas naquela época. Se você
trabalha com um sistema quadrante de casas, porém, elas têm tamanhos desiguais, de
modo que a Lua não gasta o mesmo tempo em cada casa, tal como faz com os signos. Ela
pode passar muitos anos em uma casa onde existe um signo interceptado e "voar" por
outra que contém apenas 15 graus de um signo que recebe duas cúspides. Contudo,
mesmo esse ritmo irregular constitui um ritmo, pois as casas alternam-se entre ativas
(casas de Fogo e Ar) e receptivas (casas de Terra e de Água), e isso é um tipo de ritmo -
expiração e inspiração. As casas de Fogo e de Ar são dotadas de natureza nitidamente
extrovertida enquanto as casas de Terra e de Água têm natureza nitidamente introvertida.
A Lua progredida que percorre a casa 12, por exemplo, quase sempre descreve um período
de recolhimento e de profunda introversão, em que o indivíduo pode estar se sentindo
muito perdido e confuso. É um período de gestação, e se a pessoa estiver sintonizada com
seu ritmo lunar natural, vai aceitar a espera silenciosa e trabalhar as questões internas
(geralmente familiares) que surgirem, sem sair por aí tentando forçar coisas que ainda não
estão maduras. Depois, quando a Lua atinge o Ascendente, é hora de agir na vida exterior,
dando a sensação de um novo nascimento. Podem ocorrer mudanças importantes quando
a Lua passa pelos ângulos e a passagem da casa 12 para a 1 é especialmente marcada por
decisões que afirmam o "self" e alteram o ambiente da pessoa.
Depois, a Lua passa para a casa 2 e o movimento é novamente introvertido, com
ênfase na segurança, na estabilidade e na formulação de valores pessoais. A 3 é outra casa
extrovertida, a pessoa pode querer fazer novos contatos e estudar novos assuntos. 0,1 para
ver onde estou querendo chegar. A Lua mergulha nos assuntos de uma casa específica,
especialmente se forma conjunção com um planeta dessa casa, e coleta experiências por
meio de seus contatos emocionais com os outros. A Lua também forma aspectos tensos
(conjunção, quadratura e oposição) com ela mesma a cada sete anos, e por isso tem um
ciclo em relação à sua posição natal, tal como os trânsitos de Saturno. Na juventude, há
uma certa superposição entre os ângulos tensos formados pelos trânsitos de Saturno e sua
posição natal, e os ângulos tensos formados pela Lua progredida e sua posição natal, apesar
dessa superposição cessar com a idade, pois o ciclo de Saturno dura um ano e meio mais.
Poderíamos passar mais uma semana falando da relação entre os ciclos de Saturno e da Lua
progredida, mas receio que isso nos afastaria muito de nossa discussão sobre os planetas
interiores.
À medida em que a Lua progredida se desloca, o Sol progredido também se
movimenta. O ano em que ambos formam conjunção varia de indivíduo para indivíduo,
dependendo do arco que os separa no mapa natal (a fase lunar). Se o seu Sol está em 0
144
grau de Áries e a Lua em5 graus de Peixes, a Lua progredida vai atingir o Sol natal pela
primeira vez ao redor dos 2 anos de idade, e depois, pela segunda vez, aos 30. Com a idade
de 2 anos, o Sol progredido terá chegado a 2 graus de Áries, de modo que a Lua Nova
progredida aconteceria dois meses depois de a Lua progredida ter atingido o Sol natal. Esse
intervalo entre as conjunções que a Lua progredida forma, primeiro com o Sol natal, depois
com o Sol progredido, vai aumentando à medida em que envelhecemos, pois o Sol
progredido se desloca à razão de 1 grau por ano. Aos 30 anos, a pessoa teria o Sol
progredido perto de 0 grau de Touro, de modo que a Lua progredida levaria dois anos e
meio para se deslocar do Sol natal para o Sol progredido. E assim por diante.
Essas lunações progredidas são indicadores de vida terrivelmente importantes. Percebi
que a conjunção entre a Lua progredida e o Sol progredido é especialmente marcante em
termos exteriores, pois o mapa progredido indica a pessoa que somos agora, e aquilo que
está acontecendo em nosso mundo nesse momento. Geralmente, os eventos importantes,
exteriores e interiores, ocorrem na casa progredida onde recai a lunação: contudo, se ela
formar algum aspecto forte com um planeta natal, irá ativar as questões da casa natal onde
está situado esse planeta. Geralmente, dá-se o plantio da semente de uma mudança radical
de vida na época da Lua Nova progredida.
Alguém consegue se lembrar daquilo que aconteceu na época de uma Lua Nova
progredida?
Audiência: Eu passei por uma crise de saúde. A Lua Nova progredida formava oposição a
meu Saturno natal.
Audiência: A Lua Nova progredida se deu em meu Descendente e foi uma época terrível.
Meu casamento ruiu.
Liz: Não há nada intrinsicamente negativo em uma Lua Nova progredida. Contudo,
também devemos analisar cuidadosamente os planetas natais sendo aspectados, bem
como os trânsitos que estão afetando a lunação. Uma Lua Nova progredida que forma
conjunção com Plutão em trânsito no Descendente e quadratura com a Vênus natal, por
exemplo, pode indicar uma época lastimável de seu casamento. Entretanto, também vai
assinalar uma nova fase da vida, que pode começar com dificuldades, mas que se
desenvolverá com criatividade à medida em que prossegue o ciclo lunar.
Os eclipses também não são intrinsicamente negativos. Eles refletem um foco de
energia intenso e servem de estopins para qualquer coisa que tenha se acumulado e
chegado a um ponto de maturação. Se houver uma quadratura entre Marte progredido e
Saturno, Plutão em trânsito tiver sobrevoado a região com um orbe de 1 ou 2 graus e
depois um eclipse recair sobre esse Marte progredido, a pessoa pode esperar que aconteça
alguma crise no prazo de uma quinzena após o eclipse; mas não é o eclipse que traz energia
negativa. Mesmo que o eclipse não forme um aspecto direto com um planeta natal, pode
agitar os assuntos ligados à casa onde recai. Além disso, pode provocar um planeta
progredido, mesmo que não exista um aspecto forte entre esse planeta progredido e um
planeta natal nesse momento. Creio que damos muito pouca atenção aos eclipses, mas se
alguma coisa estiver sendo acumulada e ainda não tenha vindo à tona, pode ter certeza de
que um eclipse vai ter a função de auxiliar o processo. Isso se aplica em especial aos
eclipses lunares, pois como a Lua Cheia representa o máximo poder da Lua, eles tendem a
se manifestar em termos de eventos físicos e de encontros emocionais com outras pessoas.
145
Acho que é bastante valioso dedicarmos algum tempo a nosso próprio mapa,
detectando esses movimentos cíclicos em ocasiões importantes de nossas vidas. Não
devemos fazê-lo para prever eventos, os quais, de toda forma, costumam nos surpreender
de maneira desagradável; fazemo-lo para compreender melhor nossos próprios ritmos,
para que a continuidade da vida comece a fazer mais sentido. Você irá notar, caso se
dedique aos ciclos do Sol e da Lua, que nada é aleatório na vida. As coisas que acontecem
conosco são o retrato fiel daquilo em que estamos nos transformando em termos
interiores, ocorrem como parte de um contínuo movimento cíclico que dá a volta sobre si
mesmo e nos traz de volta os mesmos personagens da peça, vestidos com outras roupas. T.
S. Eliot trata com elegância disso em Little Gidding [Leve Vertigem]:

Jamais deixaremos de explorar


E o término de nossa exploração
Será retornar ao ponto de onde partimos
Como se víssemos esse Iugar pela primeira vez.*

*T. S. EIiot, "Little Gidding", de The Complete Poemsand Playsof T. S. Eliot [poemas e Peças Completas
de T. S. Eliot) (Londres: Faber & Faber, 1969 [p. 97); e São Francisco: Harper Collins, 1952).
Aquilo que "acontece" conosco na vida não o faz sem um padrão inteligente, nem
estamos tanto à mercê de algum "destino" exterior e impessoal como poderíamos
ocasionalmente supor. Todas as nossas experiências têm um cordão de significado que as
conecta, e é ele que aparece quando estudamos os movimentos contínuos do ciclo Sol-Lua.
Audiência: O que é mais importante na lunação progredida, a casa natal onde ela recai
ou a casa progredida?
Liz: Creio ter mencionado que a lunação progredida tende a se manifestar
externamente de acordo com a casa progredida em que recai e com os planetas
progredidos com que forma aspecto. Você percebe que o horóscopo progredido inclui não
apenas posições planetárias progredidas, como também cúspides progredidas? O
significado mais profundo da lunação, porém, com suas implicações de frutificação (Lua
Cheia) ou de términos e começos (Lua Nova), pode ser visto pela casa natal em que recai e
pelos planetas natais com que forma aspecto. Ambos são importantes e, às vezes, ambos
são ativados em termos de eventos materiais. Apesar de parecer um pouco complexo, você
acaba compreendendo o sistema se examinar as lunações progredidas em seu mapa
pessoal, tanto nas casas natais como nas progredidas.
Seria interessante tratarmos agora dos Nodos Lunares. Gostaria de falar deles pelo
restante da palestra, pois acredito que o eixo nodal cristaliza a relação entre o Sol e a Lua e
reflete a esfera da vida em que o coniunctio - a mescla interior desses dois princípios - deve se
manifestar. Geralmente, as pessoas se espantam com todas essas informações técnicas
sobre as luas novas e cheias progredidas. E preciso estudar um pouco em casa. Contudo,
você terá mais facilidade com os Nodos Lunares caso saibam o lugar que estes ocupam em
seu mapa.
Acho que já mencionei o fato de que, na astrologia hindu tradicional, os Nodos da Lua
têm uma reputação um tanto nefasta. São vistos como demônios malignos, porque eles
"engolem" o Sol ou a Lua na época de um eclipse solar ou lunar e são associados ao
146
destino. Não há nada demais nisso se você é hindu, pois é uma filosofia bastante fatalista,
mas não e assim que vemos a astrologia no Ocidente. O indivíduo ocidental tem uma
formação arquetípica diferente, e ela tende a refletir a ênfase que atribuímos ao livre
arbítrio e aos valores individuais. Essa abordagem não é nem melhor nem pior do que a
hindu; é apenas diferente, e está profundamente enraizada na psique ocidental. Assim,
devemos trabalhar com aquilo que somos.
A meu ver, não há nada intrinsicamente maligno no eixo nodal, nem nos eclipses.
Contudo, ele parece refletir um ponto de manifestação, onde aquilo que somos
interiormente é destilado e encarnado fora de nós, encontrando-nos como um "destino".
Como o eixo nodal é o ponto de Intersecção entre as órbitas do Sol e da Lua, é uma espécie
de portal para a encarnação, um ponto de encontro entre o princípio solar da consciência e
do significado e o princípio lunar da corporificação. Não percebi nenhuma diferença entre o
Nodo Norte e o Sul quanto aos efeitos de ambos em trânsito ou progressão; eles se movem
como um eixo e qualquer coisa que aspecte um deles estará automaticamente formando
aspecto com o outro. Diria o mesmo a respeito das posições natais dos Nodos. Você precisa
trabalhar com um par de casas e os temas de ambas essas casas - onde se opõem e onde se
complementam - serão sempre ativados em conjunto. Às vezes, um Nodo parece causar
mais problemas do que o outro, mas o truque para entender qualquer polaridade consiste
em buscar um equilíbrio prático. Se um dos extremos recebe ênfase excessiva, o outro vai
acabar agindo. Precisamos pensar em termos de polaridade, não em termos do Nodo Norte
ser "melhor" ou "pior" do que o Nodo Sul.
Como tenho dito, a função solar de significado e a função lunar de corporificação
ocorrem juntas no eixo nodal, e creio ser este o motivo pelo qual há a tendência de ocorrer
nele experiências concretas que, ao mesmo tempo, ressoam em nível interior profundo. Já
ouvi gente me dizer, "Isto tinha de acontecer!", quando algo importante transita pelos
nodos ou quando o eixo nodal transita por um ponto importante do mapa natal. Se eu
tivesse de atribuir uma palavra-chave ao eixo nodal usaria "manifestação", e quando ele
está envolvido, por trânsito ou progressão, com alguma posição natal, ocorrem questões
externas que geralmente têm um significado profundo para nosso desenvolvimento (Sol) e
para nossa expressão emocional e física (Lua).
Fico surpresa com o fato de muitos astrólogos negligenciarem o trânsito do eixo nodal,
muito embora estejam preocupados como biquintil formado entre Vesta natal e Ceres em
trânsito. O trânsito mais poderoso é, naturalmente, a conjunção entre o eixo nodal em
trânsito e um planeta natal. A sensação de "destino", de que aquilo "tinha" de acontecer,
que costuma acompanhar esses trânsitos, é vista por muitos como o reflexo de um carma
que se concretizou. Contudo, não me sinto confortável em apresentar suposições desse
tipo para um cliente, mesmo se ele acredita encarnação. O destino ou o carma também
podem ser vistos sob um prisma psicológico, e esta postura mais neutra livra o cliente do
fardo do julgamento moral que normalmente acompanha nossa interpretação sobre a
reencarnação. Tenho minhas suspeitas quanto a esse tipo de julgamento moral, pois os
valores mudam conforme as culturas e as épocas da história; além disso, nenhum indivíduo
está em posição de poder saber de fato a razão para uma pessoa ter agido de determinada
maneira, nem as repercussões finais que o ato pode ter. Precisamos de uma moral pessoal
para nela basearmos nossas escolhas ao longo da vida, mas não creio que ela deve ser
147
imposta a um cliente, cujos valores interiores podem ser bem diferentes - e tão válidos
quanto os nossos.
Assim, prefiro interpretar a manifestação do eixo nodal como um reflexo do impulso
interior voluntário de combinar os princípios do Sol e da Lua no mapa natal, em vez de vê-lo
como o reflexo do carma devidas passadas. De qualquer maneira, não são pontos de vista
mutuamente excludentes; são apenas maneiras diferentes de expor as coisas. Se alguma
coisa acontece no nível concreto (a Lua) mas o evento não evoca nenhum senso interior de
significado ou crescimento (o Sol), então ele nos dá a impressão de acaso, de um encontro
com a realidade exterior, que pode parecer agradável ou desagradável naquela ocasião mas
que não ocasiona qualquer mudança com sua passagem. Do mesmo modo, podemos ter
um "insight" profundo ou uma sensação de identidade muito intensa, sem ter como causa
um fator exterior. Mas o eixo nodal combina ambos os níveis de experiência. Por exemplo:
neste momento, Saturno está passando por 22 graus de Capricórnio. Se você tem o eixo
nodal no vigésimo-segundo grau de um signo cardinal, estará recebendo um trânsito de
Saturno por seus nodos, o que deve ativar eventos e realizações interiores nas duas casas
em que os nodos estão situados. O ativador pode ser bem saturnino-pressões materiais,
problemas financeiros, coisas como separação, desafios no trabalho ou algum compromisso
permanente - mas o impacto será sentido no lugar onde estiver situado o eixo nodal.
Audiência: Todos os planetas progridem com a mesma velocidade?
Liz: Só se você usar aquilo que chamamos de progressão por arco solar, na qual cada
ponto do mapa, inclusive os ângulos e cúspides, percorrem simbolicamente um arco em um
ano igual ao arco efetivamente percorrido pelo Sol em um dia. Contudo, no sistema de
progressão chamado "secundário", cada planeta percorre por ano e simbolicamente um
arco igual ao que percorre de fato em um dia. Essa velocidade varia muito, especialmente
se o planeta estava retrógrado no mapa natal ou se estava reduzindo sua velocidade para
voltar ao movimento direto. Creio que ambos esses métodos de progressão têm seu valor
e, como é normal em astrologia, geralmente os aspectos fortes produzidos por ambos o
métodos coincidem nas épocas mais importantes da vida.
Assim sendo, não deixe de analisar os trânsitos importantes que percorreram seu eixo
nodal natal, bem como os trânsitos do eixo nodal sobre seus planetas natais. Alguns
astrólogos associam o eixo nodal a questões ligadas ao relacionamento, especialmente
Ebertin. Em seu COSI, * ele se refere ao eixo nodal como uma "união, associação ou aliança",
e tenho visto que as interpretações que ele dá para os pontos médios envolvendo os Nodos
são extremamente precisas. Esta interpretação dos Nodos é coerente com a ideia da
coniunctio ou mescla do Sol e da Lua, que combina relacionamento (Lua) e desenvolvimento
individual (Sol). Quando o eixo nodal está envolvido, a pessoa tem encontros "fadados" ou
profundamente significativos. Em geral, as outras pessoas fazem parte do conjunto de
fatores envolvidos na atividade nodal, e por causa do componente solar essas pessoas
normalmente são muito importantes para nosso crescimento como indivíduos. Elas estão
ligadas, de algum modo misterioso, com nosso significado e propósito de vida. (O mesmo
pode ser dito de interaspectos - aspectos em sinastria - entre o eixo nodal de uma pessoa e
os planetas natais da outra.) A Lua progredida pode nos trazer relacionamentos
interessantes, apaixonados, divertidos e excitantes; contudo, quando analisamos nossas
vidas e vemos quem causou um impacto realmente importante no desenvolvimento de
148
nossos verdadeiros "eus" (mesmo que o relacionamento tenha sido de curta duração),
vamos perceber que o eixo nodal costuma estar envolvido na época do encontro, quer por
seu trânsito sobre um planeta natal, quer por um aspecto planetário (trânsito ou
progressão) com sua posição natal.
Se você se lembra de nosso material sobre a jornada do herói solar, vai se recordar dos
diversos personagens que o herói vai encontrando - o irmão gêmeo invejoso, o dragão no
portal do limiar, a dama em perigo, o animal que o ajuda e assim por diante. Esses
personagens simbólicos, que fazem parte do deslocamento do Sol pelo mapa, tendem a
entrarem em nossas vidas quando o eixo nodal é ativado por trânsito ou progressão. É
possível encontrarmos, no decorrer de uma existência, mais de uma pessoa que incorpora
um papel mítico similar para nós. O gêmeo sinistro, por exemplo, pode surgir inicialmente
como um parente, e depois como um colega de trabalho ou como nosso melhor amigo. É
por isso que vale a pena analisar os períodos da vida em que um trânsito repetitivo (como o
ciclo de 12 anos de Júpiter) atinge os Nodos - pois mesmo se surgirem novas pessoas em
nossas vidas, o significado que terão para nós pode estar ligado a alguma experiência
anterior com alguém totalmente diferente, alguém a quem, de início, não identificamos
como o mesmo personagem mítico.
*COSl é a abreviatura de The Combination os Stellar Influences [A Combinação das Influências
Estelares], de Reinhold Ebertin (Aalen, Alemanha: Ebertin Verlag, 1960).
Audiência: Você acha que os Nodos são mais importantes do que outros componentes
do mapa?
Liz: Não, eu não acho que alguma coisa seja "mais importante" do que qualquer outra.
Tudo depende apenas de qual seja a lente que lhe oferece o foco mais útil naquele
momento. Quando você aprecia uma paisagem, vê um todo integrado; você não pode dizer
que aquela árvore é a característica mais importante, ou aquela parede, ou aquela nuvem.
Contudo, se você se concentra na árvore durante alguns momentos, depois na formação de
nuvens e depois na parede, estará aprofundando sua compreensão dos componentes que
constituem a paisagem. Depois, quando você analisa novamente sua aparência geral,
percebe que ela está mais rica, tocando-o em muitos outros níveis. Você nota que está
olhando para um bosque de pinheiros, não um de carvalhos, que as nuvens são uma
formação de cúmulo-nimbo e que a parede é feita de tijolos de barro.
Ao longo desta semana, estivemos nos concentrando no desenvolvimento da
personalidade por meio das funções do Sol e da Lua. O eixo nodal é uma parte muito
importante desse foco específico, pois ele filtra a relação Sol-Lua e a representa como uma
esfera específica da vida - onde o crescimento individual deve ocorrer, muito
provavelmente, através da ação de relacionamentos externos significativos. Como os Nodos
não são planetas, não refletem impulsos ou necessidades em nós, e nesse sentido não são
"pessoais". No entanto, indicam onde nossos impulsos pessoais mais importantes - o lunar
que precisa do relacionamento e o solar que precisa da auto-realização - se fundem e se
manifestam.
Audiência: Qual o orbe que você considera nos trânsitos dos Nodos?
Liz: O mesmo que eu usaria para os trânsitos planetários. Creio que há algo como um
orbe de 10 graus de cada lado em trânsitos lentos sobre posições natais, tal como ocorre
com um aspecto natal importante. Leva tempo até que os planetas em trânsito se
149
aproximem; não pulamos da cama na manhã de quinta-feira só porque o trânsito de
Saturno passou sobre o nosso Sul. Os trânsitos representam processos e ocorrem em
estágios: acúmulo, liberação e integração. Naturalmente, o trânsito fica mais forte quando
está dentro de um orbe de um grau, mas mesmo a três ou quatro graus de distância, um
trânsito menos importante ou uma lunação já pode fazer efeito. Isso é particularmente
válido no caso dos lentos planetas exteriores, com seus intermináveis ciclos de
retrogradação, que podem ter diversas épocas de "pico" durante um período de dois anos,
em que trânsitos menos significativos e lunações os ativam. Mais importante ainda: um
trânsito (do eixo nodal ou de qualquer outra coisa) vai ativar mais do que uma coisa no
mapa natal, pois a maioria das posições natais forma configurações de aspecto.
Como exemplo, talvez pudéssemos pensar em alguém que tem uma Cruz-T natal, com
o Sol em 3 graus de Áries, Netuno em 7 graus de Libra e Marte em 4 graus de Câncer. A Lua
progredida vai acabar chegando a Áries e, quando estiver perto do primeiro ou segundo
grau desse signo, estará começando a ativar o Sol natal. Depois, ela vai formar uma
quadratura com Marte um mês depois de ter ficado em conjunção exata com o Sol natal, e
vai formar oposição com Netuno três meses depois disso. E ainda estará reverberando, até
se afastar a mais de dois graus da oposição com Netuno dois meses depois. Assim, temos
uma faixa de tempo de uns oito ou nove meses na qual a Lua progredida está ativando toda
a Cruz-T natal. Em vez de dizer, "Ah, ela estará sobre o Sol exatamente em 27 de julho e
depois, em 31 de agosto, vai formar quadratura com Marte", e assim por diante, seria mais
preciso ler a configuração como um todo - Sol-Marte-Netuno - pois todos os temas
envolvidos (a necessidade de auto-afirmação, o anseio pela fusão com os outros, a busca
do significado individual) serão ativados ao mesmo tempo, dentro daquele período de nove
meses.
Também lidaria dessa maneira com o trânsito do eixo nodal. Tal como a Lua
progredida, ele começa a mostrar seu efeito mais intenso quando atinge o grau de Áries/Libra
(até antes, para uma semeadura inicial), e não termina seu processo principal de ativar a
Cruz-T senão após ter passado pelo décimo ou décimo-primeiro grau de Áries/Libra.
Devemos aprender a pensar em termos de tríades quando trabalhamos com pontos
médios, e geralmente há três ou mais fatores envolvidos em uma configuração natal
importante.
Audiência: Você poderia falar um pouco dos aspectos entre os planetas natais e os
nodos natais?
Liz: Se entendermos o eixo nodal natal como o ponto onde os princípios do Sol e da Lua
se mesclam e se manifestam na vida, então os planetas natais vão ajudar ou prejudicar esse
processo segundo seus aspectos. Se Saturno, por exemplo, estivesse em conjunção com um
dos nodos, então os principais encontros da vida a gerar crescimento seriam,
provavelmente, acompanhados de questões como separação, restrição e a necessidade de
nos entendermos com os limites do mundo material. Se Vênus estivesse em trígono ou
sextil com o eixo nodal, então os valores do indivíduo e o senso do que é belo e útil na vida
se harmonizariam com (e causariam) os relacionamentos que geram crescimento. Creio que
você pode deduzir isso por si mesmo, caso compreenda os princípios envolvidos.
Tenho um mapa que vou usar como exemplo do eixo nodal e gostaria que você o
analisasse. Alguma pergunta antes de o fazermos?
150
Audiência: Você usa o mesmo orbe tanto para um planeta progredido quanto para um
trânsito?
Liz: Achei que já tinha deixado isso claro com o exemplo da Lua progredida. Sim,
sempre uso um orbe de alguns graus de cada lado e até uns 10 graus - com todos os
aspectos importantes de planetas progredidos e em trânsito, bem como com o trânsito do
eixo nodal. O processo é o mesmo. Há experiências sendo plantadas em nossas vidas sem
que percebamos no momento; geralmente, quando percebemos a coisa, ela já assentou
raízes há muito tempo. Quando você se envolve com o trabalho psicoterapêutico profundo,
nota que as questões pessoais são inicialmente formuladas nos sonhos da pessoa durante
meses, às vezes até anos, antes de amadurecerem e atingirem a consciência. Algumas
dessas questões são mais transitórias - podem refletir o movimento da Lua progredida ou
os trânsitos de Marte e lidam com as camadas "superiores" da personalidade. Um sonho
que formule uma dessas questões pode ter um período de uns três meses de integração na
consciência e na vida. Outras questões são temas de vida mais profundos, que atingem o
núcleo central da personalidade, podem ter correspondência com o movimento do Sol
progredido sobre uma configuração natal (durando vários anos, de modo geral), ou com um
trânsito de Plutão (que pode ficar "pairando" sobre um planeta natal por três ou quatro
anos). Depois, os sonhos da pessoa começam a prenunciar o funcionamento de um
processo profundo, anos antes das mudanças efetivas ocorrerem na vida real. Jung acha
que os primeiros sonhos do começo da infância costumam encapsular o mito da totalidade
da vida, e de certo modo isso reflete o mapeamento natal, que depende do tempo e da
cadeia de escolhas e consequências para se concretizar na forma de vida individual.
Contudo, só costumamos notar essas mudanças profundas quando elas nos afetam de
perto, não quando estão sendo plantadas ou gestadas. Isso se dá quando os ativadores
astrológicos-eclipses, lunações secundárias, trânsitos de planetas, energéticos como Marte,
estações* de planetas interiores como Mercúrio e Vênus - trazem à nossa atenção aquilo
que estava fermentando na psique há um bom tempo. Marte é bem conhecido pelo efeito
ativador que exerce sobre configurações mais lentas e o mesmo se pode dizer dos eclipses,
como já disse. Entretanto, sempre admirei o conceito dos estoicos sobre o Heimarmene, o fio
invisível que é tecido graças a escolhas baseadas nos efeitos de outras escolhas baseadas
nos efeitos de outras escolhas e assim por diante, chegando ao passado impenetrável de
nossos progenitores e de seus ascendentes. Se lançarmos luzes sobre esse fio no momento
em que ocorre um evento crítico talvez tenhamos a impressão de que o evento brotou do
nada; todavia, na verdade, nada vem do nada e sim dos resíduos de algo que já existiu. A
ideia dos estoicos e parecida com o conceito oriental do carma, mas não requer a crença na
reencarnação. Talvez a mente humana não consiga captar a totalidade do fio de
Heimarmene, que abrange o todo da vida; no entanto, devemos manter seu conceito em
mente quando analisarmos o significado dos trânsitos e progressões, que são o efeito de
todos os trânsitos e progressões precedentes e do modo como o indivíduo lidou com eles
na época. Eventos são como as pontas dos "icebergs". Não são isolados nem
independentes; têm raízes profundas e interligadas.
*N. do T.: Época em que os planetas parecem se imobilizar no espaço, entre o
movimento direto e o retrógrado ou vice-versa .
Os aspectos formados pelos trânsitos dos planetas lentos sempre abrangem um
151
período maior de plantio e gestação do que os dos planetas interiores, envolvendo
questões familiares e coletivas mais amplas e mais profundas. No entanto, devem ser
processados por meio dos planetas interiores, que são os órgãos da personalidade
individual. Leva tempo até que isso ocorra e é isto que entendo como um orbe - ele reflete
a duração do processo com todos os seus estágios, desde o plantio em nível inconsciente
até a integração ao nível da personalidade consciente.
Audiência: Eu gostaria de saber alguma coisa sobre o efeito de Quiron com relação aos
Nodos Lunares, tanto em termos natais como no caso de trânsitos ou progressões.
Liz: Quiron parece refletir a área onde o indivíduo se sente ferido ou inadequado. Ele
se parece com Saturno, como dissemos, mas ao contrário deste, Quiron parece exigir mais
compreensão e tolerância, pois temos nele a sensação de que a ferida nunca sara ou
desaparece. Se reunirmos este princípio ao dos nodos, que são o portal pelo qual as outras
pessoas afetam nosso crescimento e autodesenvolvimento, o relacionamento que surge
quando Quiron e o eixo nodal estão envolvidos terá, provavelmente, elementos
irreconciliáveis de conflito, dor contínua e um aumento potencial da compreensão e da
compaixão. Em suma, é possível que haja um elemento terapêutico no relacionamento,
mesmo se for um caso amoroso apaixonado e não um vínculo analista-paciente.
Quando um planeta natal forma aspecto com o eixo nodal, os relacionamentos
importantes costumam incluir o componente simbolizado por esse planeta. Os elos Quiron-
Nodos refletem a tendência permanente de envolvimento em relacionamentos que fazem
aflorar os mais profundos elementos de dor, medo e mágoa, para então serem
compreendidos e integrados. Nossas atitudes quanto a relacionamentos são
profundamente coloridas pelos planetas que formam aspecto com os Nodos, pois é aí que o
padrão tende a se repetir. A pessoa com uma conjunção Quiron-Nodo pode achar que
todos os encontros profundos envolvem a dor e a exposição de sua faceta mais vulnerável, e
que todos os encontros profundos contribuem igualmente para o aprofundamento de sua
cosmovisão (a dimensão filosófica de Quiron, que emerge quando se tenta lidar com o
ferimento). Um trânsito de Quiron pelos Nodos pode produzir um desses encontros; uma
configuração natal reflete um padrão,
Todos nós temos nossa própria visão particular sobre o que é a vida, e quando somos
mais jovens, é muito difícil compreender que os outros podem ver as coisas de modo
diferente. Presumimos que todos veem o mesmo mundo e o avaliam do mesmo modo - ou
que ao menos deveriam fazê-lo. Como o eixo nodal reúne a experiência e o significado,
exerce uma influência muito importante sobre a cosmovisão de cada um, e uma
cosmovisão colorida por Quiron terá, como fundamento arquetípico, o tema da sabedoria
adquirida através do sofrimento contínuo ou de se aprender a acomodar um conflito
insolúvel. Como temos a tendência de criar no exterior aquilo que existe interiormente,
quando Quiron está envolvido com os Nodos, tende a esperar e a buscar relacionamentos
complicados e que causam sofrimento, além de prazer; e, se um relacionamento for muito
agradável e superficial, pode haver a tendência a criar crises ou a acabar com ele. Pode
haver um pouco dessa mesma característica quando Quiron está na casa 7, em Libra ou em
aspecto forte com Vênus; contudo, acho que ele exerce uma influência extremamente
poderosa sobre a visão.que o indivíduo tem da vida quando está alinhado com os Nodo .
Agora, gostaria de dedicar algum tempo a este mapa de exemplo. (Ver Mapa 8 na p.
152
154.) Não foi um mapa criado especialmente para a palestra sobre o eixo nodal; Nigel
nasceu mesmo sob um eclipse total do Sol, com o Sol e a Lua em conjunção com o Nodo
lunar Norte. Trata-se de uma personalidade extremamente poderosa, pois tem muita
ênfase em Leão na casa 1. Plutão e Júpiter estão em conjunção de orbe pequeno, e este
último faz conjunção com o Sol, a Lua e o Nodo Norte. Ademais, Mercúrio está em
conjunção com Quiron, que acaba de entrar em Virgem. Essa conjunção Sol-Lua é uma Lua
Nova, naturalmente, além de ser um eclipse solar, pois ambos estão em paralelo em
latitude, além de formarem conjunção em longitude.
Lembro-me de ter lido em algum texto astrológico antigo, há muito tempo, que as
crianças nascidas sob um eclipse solar tendem a morrer. Nigel não morreu; poucas pessoas
têm sua energia vital. Não sei de onde veio essa asneira sobre os eclipses, mas creio que ela
provém de nossa herança recebida da astrologia medieval, que acolheu a ideia hindu de
que o eixo nodal é demoníaco. Esse homem pode ser qualquer coisa, menos um sujeito
fraco ou debilitado. Contudo, você verá que essa Lua Nova causou certos problemas à sua
vida emocional.
Talvez devêssemos estudar a interpretação que Rudhyar dá à fase da Lua Nova, pois
ela se aplica independentemente do signo em que se situa a Lua Nova. Obviamente, com
uma conjunção assim ígnea em uma casa de Fogo, Nigel é extremamente intenso e
preocupado com a expressão de seus dons criativos. Entretanto, a Lua Nova tem mesmo
alguns desses atributos, pois a receptividade lunar aos outros é sobrepujada pela ardente
necessidade solar de realizar o "self". Nada e ninguém se põem no caminho de uma Lua
Nova, mesmo se ela estiverem Peixes – que dirá se em Leão. A conjunção Júpiter-Plutão
pode ter exagerado a intensidade de Nigel e sua necessidade concentrada de estar sempre
procurando novos veículos pelos quais possa expressar sua imaginação. Plutão adora
destruir o velho para construir algo novo, por isso uma conjunção Sol - Plutão pode ser
profundamente inquieta e insatisfeita, embora neste caso isso não aconteça como
ocorreria nos signos mutáveis - de maneira nervosa. Além disso, precisamos nos lembrar da
mitologia do herói solar, particularmente relevante por causa da ênfase que este mapa tem
em Leão.
Vou falar um pouco do perfil da família de Nigel. Seu pai era um alcoólatra e eles
raramente conversavam. Todas as negociações da família eram conduzidas por sua mãe,
despótica e "sofredora". Creio que isto é interessante em termos do tema mítico
característico de Leão - a busca do Graal empreendida por Percival e a redenção do pai,
acometido de doença espiritual. Boa parte da busca perene de Nigel, a criação de um ideal
interior no mundo exterior, vem da necessidade desse leonino arquetípico de encontrar um
significado, um Santo Graal que possa abrigá-lo e protegê-lo como um pai na devastada
terra espiritual em que ele nasceu. Tendo emergido de um ambiente natal obscuro e difícil,
Nigel conseguiu, aos 28 ou 29 anos (época do retorno de Saturno e da Lua progredida),
produzir um filme que recebeu diversos prêmios em festivais cinematográficos
internacionais e que teve um grande sucesso de bilheteria. Esse filme lhe proporcionou
uma bela fortuna e ele usou o dinheiro para abrir sua própria produtora, criando a
reputação não apenas de produzir bons filmes comerciais como também por usar atores
desconhecidos cujo talento potencial ainda não fora descoberto.

153
Mapa 8. Nigel. Os dados de nascimento foram omitidos para preservara privacidade. Mapa calculado pela
Astrodienst utilizando o sistema Placidus de casas.

Esse dom específico de identificar de modo intuitivo o talento potencial dos outros e
de fazê-lo desabrochar é, creio, um reflexo da combinação Sol-Lua-Júpiter-Plutão, o que dá
um excelente Pigmalião. Nigel começou a construir sua reputação contratando
desconhecidos bêbados e marginalizados e fazendo deles celebridades, criando carreiras
duradouras e, naturalmente, mantendo a baixo custo o orçamento de seus filmes por não
contratar estrelas de altos salários. Foi esta a maneira pela qual seus dons criativos se
manifestaram. Naturalmente, poderíamos especular sobre se Nigel, com sua Lua Nova na
casa 1 em Leão, não deveria estar também na frente das câmeras; e não tenho dúvidas de
que, se ele tivesse mais autoconfiança (ou então um Ascendente diferente do tímido e
inseguro Câncer), teria feito isso.
Entretanto, os produtores cinematográficos de sucesso também são estrelas. Esse
surto inicial de sucesso ocorreu, como disse, mais ou menos na época dos retornos de
Saturno e da Lua progredida; além disso ocorreu quando o trânsito do eixo nodal estava
percorrendo o par Leão/Aquário, passando sobre todos esses planetas da casa 1. Assim,
ficamos conhecendo a ação dos Nodos e nunca poderíamos chamar esse sucesso de
maléfico ou demoníaco. Poderíamos dizer que o eixo nodal cristalizou todos, os Impulsos
criativos de Nigel e fez com que ele os manifestasse através dos outros - seus atores e seu
público. Aquilo que as pessoas à sua volta chamam de sorte, o próprio Nigel identifica como
uma espécie de destino interior que ganha forma – ele jamais daria um passo em falso caso
agisse de acordo com sua intuição e instinto com relação às pessoas. Ele acha que tudo

154
estava "predestinado".
Uma das características interessantes sobre a vida de Nigel é que ele é uma espécie de
ciclo lunar progredido ambulante. Talvez isso se deva ao fato de ser a Lua o regente de seu
mapa (tendo Câncer no Ascendente), bem como a sua posição de destaque junto ao Sol e
ao Nodo na casa 1. Seu grande surto inicial de realização ocorreu sob o retorno da Lua
progredida e sob o trânsito do eixo nodal pela Lua Nova natal. Contudo, tendo isto
acontecido e tendo os Nodos em trânsito se alinhado com o eixo Ascendente/Descendente,
as coisas começaram a sair errado. Nigel manteve reuniões extremamente difíceis com seus
associados e no final acabou perdendo sua produtora e boa parte de seu dinheiro,
passando algum tempo na obscuridade. Todos achavam que ele estava acabado e que logo
estaria trabalhando como garçom em algum lugar. Durante os catorze anos seguintes
ninguém soube dele; ele tinha desaparecido, pura e simplesmente, tal como costuma
acontecer na indústria cinematográfica - que dizem ser regida por Netuno.
Entretanto, a Lua progredida de Nigel atingiu a cúspide da casa 7 em direção a uma
oposição com sua Lua natal e ao mesmo tempo, como Sol natal (uma Lua Cheia
progredida). De repente, Nigel voltou à cena. Consta que passou esses catorze anos criando
carneiros em algum lugar da Escócia, enquanto a Lua progredida percorria o espaço sob a
linha do horizonte natal, e lidando ainda com investimentos imobiliários, o que lhe permitiu
restabelecer a solidez financeira. Quando a Lua progredida finalmente entrou em Aquário e
formou a oposição com o Sol, Lua e eixo nodal natais, Nigel fundou uma nova produtora
cinematográfica e voltou a seu campo original de trabalho criativo. E quando o trânsito do
eixo nodal retornou a Leão/Aquário (desta vez ao contrário e se alinhou uma vez mais com
a Lua Nova natal na casa 1, o primeiro filme que ele fez em sua nova produtora foi, para o
espanto e inveja de seus colegas, um tremendo sucesso. É raro o fenômeno da Fênix no
mundo cinematográfico, pois nele, depois que as pessoas tropeçam, costumam ficar no
chão. No entanto, ninguém deve subestimar a combinação Sol-Lua-Plutão-Júpiter, que tem
o poder de se erguer das cinzas para brincar novamente de Pigmalião.
Dá para perceber a razão pela qual chamei Nigel de ciclo lunar progredido ambulante.
Além disso, ele é um excelente exemplo do modo como as pessoas de Fogo transformam
suas próprias vidas em mitos. Os orbes estreitos do eclipse natal estão refletidos na
natureza profundamente cíclica de sua vida, pois quando surge um trânsito recorrente,
atinge todos ao mesmo tempo. Para a maioria das pessoas, os ciclos lunar e nodal não são
óbvios assim. Naturalmente, há muitas outras coisas que podemos analisar neste mapa,
mas achei que ele daria um exemplo particularmente claro do funcionamento da Lua
progredida e do eixo nodal. Ele também é um bom exemplo dos atributos da fase da Lua
Nova, na qual a Lua fica oculta pela luz do Sol. Há, em Nigel, uma qualidade interessante
que uma série de pessoas que o conhecem me descreveram usando pratricamente as
mesmas palavras. Quando estão em sua companhia, ele parece muito atraente, poderoso e
magnético (como poderíamos esperar); entretanto, elas se afastam achando que não têm
ideia alguma de quem ele realmente é, ao menos no nível pessoal e comum. O nível lunar
da personalidade, que é a função que nos liga aos demais, está um tanto oculto ou
obscurecido em Nigel; as pessoas ficam na presença de uma personalidade de estatura
mística, mas não conseguem lidar facilmente com o ser humano por meio de emoções e
instintos comuns.
155
A Lua situada na casa 1 ou 10 tem sido tradicionalmente interpretada como um
planeta com o dom de "manipular" as pessoas por causa da sensibilidade aos sentimentos e
necessidades dos outros. Segundo vi, isso se aplica à maioria dos casos, e a Lua na 10 pode
até fazer desse dom uma carreira em áreas como o palco, relações públicas e profissões
terapêuticas. No caso de Nigel, porém, a Lua na casa 1 é uma Lua sombria, a Lua de Hécate.
Ele expressa a combinação curiosamente paradoxal de ser muito hábil em intuir os dons
subdesenvolvidos dos outros enquanto mantém, ao mesmo tempo, sua própria vida
emocional longe deles. Nigel causa um tremendo impacto solar nas pessoas que o rodeiam
e, graças a seus filmes, no mundo como um todo. Contudo, ele é virtualmente inacessível e
difícil de ser conhecido como pessoa, apesar disso passar despercebido a olhos menos
perceptivos devido ao "glamour" que o rodeia e ao charme natural que se pode esperar de
todo esse Leão na casa 1 e da conjunção Lua-Júpiter. Fica-se com a vaga e desconfortante
sensação de que o homem real não se mostrou; mas, por outro lado, ele o fez em termos
de expressão solar e de uma contribuição criativa altamente individual para o mundo.
Também poderíamos analisar o Marte de Nigel, proeminente devido às quadraturas
formadas com o Sol, a Lua e o eixo nodal, bem como por sua colocação no MC (Meio do
Céu).
Audiência; Ele precisa chegar em algum lugar na vida.
Liz: Sim, é bem por aí. Esse Marte em culminação reflete a ambição incansável e a
necessidade de conquista de Nigel. Ele precisa "acontecer", ser o primeiro e o melhor em
seu ramo. Marte ali também indica que ele pode ter herdado essas qualidades de sua mãe,
cuja personalidade certamente parece bastante marciana, mas que pessoalmente não
realizou nada no mundo material. Ela queria que seu filho fosse bem-sucedido e ele
conseguiu isso. Parte de seus anseios materiais provém da necessidade de satisfazer as
expectativas de sua mãe, apesar de também serem suas próprias expectativas. Nigel usou
seu Marte conscientemente e bem, sua estatura profissional e seu sucesso refletem este
fato. E o que dizer de Marte em Touro?
Audiência: É bastante lento e persistente.
Liz: Sim, é o princípio conhecido como "destruir a concorrência". Marte em Touro pode
ter um início meio vagaroso, mas depois que a coisa embala, nada pode detê-lo. E ele
precisa de realizações práticas; o instinto competitivo se expressa por meio de formas
terrenas como ganhar dinheiro e atingir um elevado "status" profissional. Nigel não faz as
coisas por acreditar que elas serão boas para sua evolução espiritual. Ele quer resultados
concretos. Além disso, sinto que seu Marte diz alguma coisa sobre sua capacidade de
trabalhar muito sem se cansar. Ele não é meramente "sortudo" ou intuitivamente
oportunista, como seus sucessos repentinos poderiam dar a entender. Ele trabalhou muito
para conseguir cada pedacinho do que conquistou, com paciência e cautela, apesar de sua
necessidade leonina de apresentar uma personalidade maior do que a realidade poder ter
feito com que ele atenuasse seu lado persistente e trabalhador, pois não é dos mais
glamourosos.
Audiência: Marte em Touro também é bastante sensual. Tem um forte impulso sexual.
Liz: Sim, reflete um poderoso impulso físico. A carreira romântica de Nigel é, para usar
um eufemismo, bastante animada. Como seria de se esperar, ele teve um grande número
de mulheres em sua vida. O homem com Marte em Touro tende a identificar seu senso de
156
poder e de potência com o prazer e a conquista sexuais, coisa bem diferente de um Marte
em Ar, que poderia identificar o poder com a realização intelectual ou com a capacidade de
organizar.
Audiência: Gostaria de saber um pouco mais sobre sua mãe. Você disse que Nigel
precisava satisfazer a expectativa de sucesso que sua mãe nutria por ele, algo que ela
mesma não conseguiu. Será que Marte no MC sempre reflete isso?
Liz: Não, nem sempre significa que a mãe impele seus filhos impiedosamente para o
sucesso. Qualquer planeta no MC reflete uma substância compartilhada entre mãe e filho,
que pode ser expressada criativamente por ambos. Conheci muita gente com Marte no MC
cujas mães tiveram sucesso no mundo e que personificavam modelos positivos de
realização e energia para seus filhos. A mera análise do mapa não nos permite dizer se a
mãe foi capaz de expressar suas próprias qualidades, nem mesmo se ela chegou a ter
consciência delas. Se elas ficaram inconscientes, então é possível que ocorram problemas
entre mãe e filho, pois este sofre uma forte e velada pressão para se realizar materialmente
por ambos. No caso de Nigel, podemos fazer algumas suposições com base em seu
histórico familiar. Sabemos que sua mãe teve de "cuidar" do marido alcoólatra, que ela era
possessiva, dominadora e que fez o melhor que pode para impedir que seu filho mantivesse
qualquer relacionamento com o pai. Ela nunca trabalhou, mas expressou suas qualidades
marcianas de modo indireto e inconsciente, pois quem banca o mártir costuma acobertar a
agressividade e a manipulação. Acho que ela contribuiu para o problema que seu marido
tinha com a bebida ou anuiu com ele, pois ela teria uma justificativa para o "auto-sacrifício"
que disfarçaria sua incapacidade de fazer alguma coisa por sua própria conta. Um marido
com um "problema" - seja ele o alcool, as mulheres, o fracasso financeiro, etc - pode ser um
bode expiatório muito útil para se culpar pelo fato da vida não ter satisfeito gratuitamente
os sonhos da esposa.
Para ser justa, também devemos levar em conta a geração em que nasceu a mãe de
Nigel, pois em sua época havia bem menos estimulo e apoio a uma mulher marciana do que
hoje em dia. Assim, a dificuldade entre Nigel e sua mãe, sugerida por Marte no MC,
provavelmente refletia uma combinação entre os valores coletivos de sua época (esperava-
se que toda mulher fosse uma esposa e mãe dedicada), seu próprio caráter (que optou por
um modo desonesto, e não positivo, de vivenciar seu Marte) e sua formação familiar, que
embora não por sua culpa destruiu cedo sua autoconfiança, tornando-lhe ainda mais difícil
expressar seu Marte de modo aberto e sadio.
Se reunirmos todos esses fatores (e alguns não são descritos pelo mapa), poderemos
supor que a mãe de Nigel o empurrou para que ele se "tornasse" alguém. Mas Nigel
também se impeliu, e devemos manter isto em mente antes que nos dediquemos a culpar
em demasia seus pais. Uma das questões mais importantes com que Nigel teve de, se
defrontar foi a diferenciação entre aquilo que ele queria por conta própria e aquilo que ele
queria a fim de satisfazer sua mãe. É a diferença entre compulsão e escolha. Se Nigel for
dono de seu próprio Marte, poderá ir em busca de suas próprias metas e desejos. Se ele se
identificar inconscientemente com a vida que sua mãe não vivenciou, terá de se
transformar em algo que é mais um sonho dela do que seu e sentirá que está trabalhando
para terceiros o tempo todo, sem ser capaz de relaxar e de aproveitar os frutos de seu
trabalho. Em parte, este elemento esteve presente no currículo amoroso de Nigel, pois
157
quando jovem tinha tendência a se envolver com mulheres que o idolatravam e que
queriam receber seus cuidados, sem que nada contribuíssem para o relacionamento,
financeira ou criativamente. É uma repetição do padrão de relacionamento que Nigel
mantinha com sua mãe.
Audiência: É possível que a mulher não expresse sua Lua ou que o homem não expresse
seu Sol?
Liz: Certamente. Fico um pouco preocupada com generalizações desse tipo - homens
vivenciam o Sol e mulheres vivenciam a Lua. O Sol e a Lua são significadores arquetípicos
do macho e da fêmea, mas o modo como as pessoas expressam essas qualidades varia
muito. Às vezes, noto que a Lua está meio inconsciente no mapa de uma determinada.
mulher. Ela pode tentar encontrá-la por meio de um homem lunar, assim como o homem
que não está muito bem ligado ao seu Sol pode tentar encontrar o fogo criativo por meio
de uma mulher solar. Não há nada intrinsecamente "errado" ou patológico nisto, apesar de
eu achar que, mais cedo ou mais tarde, somos levados por nossas próprias psiques a
vivenciar da melhor maneira possível aquilo que existe em nós, incluindo-se aí todos os
planetas. Entretanto, as posições de um mapa são altamente individuais e uma mulher com
um Sol angular, uma Lua confinada na casa 12 e com poucos aspectos deve, a princípio,
relacionar-se com mais facilidade com o princípio solar. Às vezes, são os complexos
familiares, e não os significadores do mapa, que desconectam uma mulher da Lua ou um
homem do Sol. Ademais, essa questão costuma ser dolorosa, pois a pessoa reage de
maneira compulsiva em vez de expressar aquilo que provém dela de maneira natural. Já
houve um tempo em que os papeis definidos dos homens e das mulheres eram inevitáveis
e naturais, ditados pela biologia e pelas demandas do ambiente. Porém, após muitos e
muitos séculos e à medida em que fomos nos tornando mais complexos, sofisticados e
individualizados, esses papéis arquetípicos se tornaram muito menos rígidos no nível
exterior. Entretanto, o fato de estarmos desligados de algum planeta vai causar problemas
mais cedo ou mais tarde, pois aquilo que está inconsciente em nós é compulsivo e nos leva
a sermos vítimas de nossos complexos - e portanto da vida.
Gostaria também de analisar as quadraturas entre Marte e a conjunção Sol-Lua. Vimos
um bom número dessas quadraturas no decorrer da semana. Você gostaria de fazer algum
comentário sobre esses aspectos no mapa de Nigel?
Audiência: Na maior parte do tempo, ele deve ser uma pessoa bastante irritadiça e
irada.
Liz: Na verdade, o estranho é que ele nunca fica zangado. Este é um bom exemplo
daquilo que às vezes acontece com as quadraturas - uma de suas extremidades é
empurrada para o inconsciente e a pessoa a encontra do lado de fora. Se Nigel se vê em
uma situação que poderia causar raiva em pessoas menos controladas, ele faz uma sutil
inferência canceriana, sai discretamente e a pessoa nunca mais o vê. Se ele precisa despedir
algum de seus funcionários, ele manda outro funcionário fazê-lo e desaparece por algum
tempo, pois detesta o confronto direto. Apesar de sua ambição e de buscar a realização,
não dá para imaginar uma pessoa menos marciana em contatos pessoais. O resultado de
tanta evasiva é que muita gente acaba ficando com raiva de Nigel. Ele tem muitos inimigos
que estão à espera para encurralá-lo e "acertar as contas" com ele.
Assim, uma manifestação dessas quadraturas é que o Marte de Nigel - a dimensão do
158
planeta que simboliza a objetividade, a confrontação com os outros, a defesa de sua posição
pessoal, a agressividade salutar - é bem inconsciente. Ele é projetado exteriormente e se
encontra com Nigel por intermédio das pessoas, geralmente as que estão envolvidas
profissionalmente com ele. Tenho visto muito disso com a quadratura Sol-Marte, pois o
senso de "self" (que inclui a auto-imagem) está em conflito com o impulso agressivo, a
pessoa fica com medo de sua própria fúria e não gosta de ser vista pelos outros como
alguém bruto e impositivo. Além disso, acho que essa quadratura tem algo a ver com o fato
de Nigel estimular o talento dos demais sem subir pessoalmente no palco, apesar de isto
ser de se esperar de alguém com tantos planetas em Leão na casa 1.
Audiência: Dá a impressão de que ele não conseguiu separar seu Marte de sua mãe.
Liz: Exatamente. Eu também penso assim. Nigel consegue expressar certos atributos de
Marte como ambição e espírito competitivo, mas esses são os atributos que sua mãe queria
que ele expressasse em nome dela. O que não lhe permitiram expressar na infância foi sua
própria agressividade, a expressão direta de seus próprios desejos. A vontade de Nigel
colidiu com a vontade de sua mãe (sendo ambos excessivamente voluntariosos) e, neste
sentido, sua mãe tomou posse de seu Marte. Dito de maneira mais brutal, ela efetuou nele
uma espécie de castração psicológica. Não diríamos isso se o julgássemos apenas com base
em seu sucesso material ou junto às mulheres, mas é algo que, em parte, pode explicar a
qualidade compulsiva que o impele a ficar reafirmando seu poder. Além disso, poderia
explicar sua incapacidade de ser direto com as outras pessoas em um contexto pessoal.
Audiência: Dá para se extrair algum sentido do fato de Leão estar interceptado na casa I?
Liz: Quando um signo está interceptado, ele não está ligado diretamente a uma cúspide
de casa, e por isso não tem um canal direto de vazão para o mundo. Cada casa rege uma
esfera específica da vida concreta e tem um regente planetário que é seu fio condutor.
Porém, um signo interceptado em uma casa é como um inquilino que deve satisfação a seu
locador - a Lua, regente de Câncer. Assim, para que a energia de Leão possa se expressar,
deve ser direcionada através da Lua, o que significa que a grande sensibilidade de Nigel em
relação às pessoas - apesar de inconsciente - torna difícil o seu "brilho" mais explícito. Isso
também deve ter relação com o fato de ele incentivar o talento dos outros, em vez de
fomentar sua própria necessidade de ser visto e reconhecido.
Audiência: Ele tem filhos?
Liz: Sim, e parece se dar extremamente bem com eles. Creio que ele é um pai bastante
generoso e atencioso, algo que poderíamos esperar da combinação Câncer-Leão e do fato
de ele saber o que significa ser completamente ignorado pelo pai. Ele teve filhos com várias
mulheres, o que parece estar refletido na conjunção Sol-Júpiter - o prolífero Zeus, pai de
semideuses com muitas mulheres mortais. Zeus também teve problemas com seu pai.
Audiência: O que mais você poderia dizer acerca da faceta emocional de quem tem uma
Lua Nova natal?
Liz: Ela tem uma forte tonalidade ariana. No caso de Nigel, isto poderia ser explicado
pelo fato de sua Lua Nova cair na casa natural de Áries, a 1; mas tenho visto essa mesma
característica com luas novas em casas mais obscuras. A pessoa é bastante sensível a seu
próprio respeito, mas não é muito sensível aos sentimentos dos outros. Este já é o dom da
Lua Cheia, que pode ser tão preocupada com os outros que acaba ficando indecisa e tensa.
A Lua Nova tende a se preocupar tanto com suas próprias metas criativas que a função
159
lunar acaba em segundo plano. No entanto, qualquer coisa inconsciente é sempre
enormemente poderosa, mas de maneira velada - e é disto que provém a
hipersensibilidade com relação a não querer ferir seus próprios sentimentos. De vez em
quando, a gente precisa gritar três vezes "Oi, estou aqui!" para as pessoas da Lua Nova,
enquanto que com a Lua Cheia basta você piscar sem querer que ela fica imediatamente
preocupada em saber se ofendeu você.
Apesar da poderosa intuição de Nigel e de sua habilidade na manipulação das pessoas,
ele costuma se atrapalhar com suas emoções – apesar desse Ascendente em Câncer. Ele é
sensível, como seria de se esperar, mas basicamente com relação a si mesmo. Ele é
facilmente magoado pelas pessoas, mas não consegue perceber quando reduz alguém s
zero.
Ele vê o potencial criativo dos outros sem identificar seus sentimentos, a menos que
elas o digam muito claramente. Isto é válido para os signos de Fogo, de modo geral - podem
captar corretamente o potencial dos outros, mas não têm muita capacidade para reagir aos
matizes do ritmo e das necessidades alheias. É por isto que muita gente se sente
pressionada pelos tipos ígneos, que ficam atônitos com essas acusações porque estavam,
autêntica e desprendidamente, tentando incentivar os talentos da outra pessoa sem
perceber que ela precisava de mais tempo ou de um tratamento mais suave. Naturalmente,
a atitude tipicamente ígnea de Nigel consiste em deixar a tarefa de reclamar para a outra
pessoa, e se ela não o fizer Nigel dá de ombros e diz, "Como é que eu poderia saber? Não
tenho o dom da telepatia".
Agora, vamos dar uma olhada no Vênus de Nigel? E um Vênus meio complicado, creio
eu, pois apesar desse belo trígono com Marte, está em seu signo de queda e em quadratura
com Saturno e Urano, além de estar em seu ponto médio. Ebertin descreve Vênus =
Saturno/Urano* como "Tensões e estresses no relacionamento afetivo". Além disso, Vênus
entrou em retrogradação quando Nigel estava com uns 14 anos, o que sugere uma série de
frustrações no campo do amor e da sexualidade em uma idade particularmente sensível. Se
adotarmos Vênus como símbolo do senso de auto-estima de Nigel, veremos que ele está
sendo desafiado ou ferido pela sensação de isolamento de Saturno em Gêmeos na casa 11,
a do grupo, do coletivo. A casa 11 é a experiência de se fazer parte da grande família
humana, e Saturno na 11 pode sugerir alguém que é meio "solitário", que se sente, de
algum modo, dolorosamente diferente. Em Gêmeos, Saturno causa o medo de ser mal
compreendido e visto como tolo, podendo representar não apenas o início da infância -
Nigel era filho único e por isso não tinha irmãos com quem conversar - mas também uma
qualidade de profundidade e de seriedade intelectual que pode criar problemas de
comunicação no nível comum dos "papos furados" sociais.
*Esta é a forma adequada de designar um planeta em um ponto médio. Vênus = Saturno/
Urano pode significar que Vênus está em quadratura, oposição, semiquadratura ou
sesquiquadratura com esse ponto médio.
Geralmente, Saturno em Gêmeos tem problemas com a "conversa mole" (sem se levar
em conta a compensação), pode ser muito tímido a se sentir pouco à vontade em situações
sociais comuns, como festas. Assim, o forte sentimento saturnino de isolamento, de se
sentir diferente, interfere com o senso de valor pessoal de Nigel, especialmente com o fato
de ele se sentir interessante e atraente a nível físico (Vênus na casa 2 em Virgem). Ele
160
precisa tentar encontrar um modo de valorizar seu próprio corpo, além de se defrontar
com a questão da integridade interior e de não estar "à venda" a fim de conquistar o amor
dos outros. Essa quadratura de Satumo fica lhe dizendo, "Mas as outras pessoas não vão
gostar de você". Com certeza, Nigel não dá a impressão inicial de pouca confiança e de
timidez, pois ele desenvolveu excelentes camuflagens (Câncer no Ascendente); e sua
capacidade de criar um mito a seu próprio respeito também tende a desorientar os outros.
Audiência: Mas o fato de ele se sentir pouco adequado seria muito mais evidente nos
relacionamentos íntimos. Saturno rege a casa 7 de seu mapa.
Liz: Sim, fica mais evidente e tenho certeza de que é por meio de seus contatos íntimos
que ele experimenta a maior parte do medo e da timidez da quadratura Vênus-Saturno.
Contudo, as pessoas Vênus-Saturno costumam escolher (inconscientemente) parceiros
"seguros" - pessoas que não atingiram seu nível de competência em termos emocionais,
intelectuais ou sociais - porque assim se sentem menos ameaçadas. Logo, talvez as
mulheres que Nigel escolhe não percebam seu medo velado de não ser amado.
Provavelmente, devem achar que ele é frio e insensível.
Outra coisa que descobri sobre Vênus em signos de Terra é que eles precisam ser
capazes de vivenciar a dimensão discreta e calada da Terra. Tenho ouvido muita gente com
Vênus em Terra expressar o medo de se sentirem entediadas, pois o elemento Terra reflete
o mundo sereno e silencioso da natureza. A Terra não fica tagarelando a seu lado,
bancando a esperta. Ela é, pura e simplesmente. As qualidades positivas da imobilidade, da
serenidade e da harmonia com os ritmos naturais costumam ser subestimadas ou
negligenciadas se a ênfase do mapa recai em Fogo, ou se os pais do bebê esperavam
diversão pelo resto da vida. Contudo, se isso acontece quando Vênus está em Terra, a
pessoa perde seu senso de auto-estima tentando brilhar e ser excitante o tempo todo. Não
há dúvida de que Nigel se assusta ao imaginar que, se a exibição cessar e ele se revelar
menos do que mítico, carismático e brilhante, as pessoas vão achar que ele é estúpido e
maçante. Lembro-me de ter lido uma entrevista com John Malkovich, que disse que sua
definição de fim de semana excitante era ficar em casa à mesa. Não sei se ele tem Vênus em
algum signo de Terra, mas acho que poderíamos afirmar algo semelhante sobre Nigel. Ele,
no entanto, provavelmente teria muita dificuldade para admitir isto.
Quando Vênus está desvalorizado e em Terra, a pessoa pode ter receio de que seu
corpo seja desengonçado, maçante e pouco interessante. Diria que a quadratura entre
Saturno e Vênus em Virgem na casa 2 do mapa de Nigel reflete seu temor, profundo e
velado, de que seu físico seja pouco atraente e maçante - apesar de suas conquistas
eróticas. O trígono com Marte no MC é de grande valia, pois o sucesso material e a
capacidade sexual ajudam a compensar os sentimentos mais vulneráveis. Quanto maior o
sucesso de Nigel, mais ele pode se esquecer dessas questões desconfortáveis. Entretanto,
creio que ele precisa se conscientizar mais do reino venusiano, que pode servir como uma
espécie de ponte para abrir mais aquela Lua obscurecida.
Sei que nosso tempo está acabando, de modo que seria bom lidarmos com quaisquer
dúvidas ou questões relativas aos ciclos do Sol da Lua e do eixo nodal.
Audiência: Se alguma coisa é projetada, como o Marte de Nigel, será que isso significa
que ele não chega a vivenciá-la?
Liz: Não creio que a separação seja tão nítida. Todo planeta tem suas facetas e
161
podemos estar conscientes de algumas, capazes de expressá-las de maneira adequada,
enquanto temos dificuldade para lidar com outras, ou talvez nem estejamos conscientes
delas. Sabemos que Nigel expressa Marte no MC em Touro de diversas maneiras - ele é
rico, é uma pessoa de sucesso, conquistou um espaço bastante individual em uma profissão
extremamente competitiva e pode ser bastante agressivo ao tratar de negócios com os
outros. Em termos materiais, ele é um vencedor. Assim, ele está "vivendo" muitas das
facetas de Marte. Contudo, ele tem dificuldade para expressar Marte nos contatos
individuais e sua agressividade nesta área fica velada e inconsciente. Em vez de reagir à
raiva do outro, ele recua, desaparece e não atende ao telefone. É muito desagradável
tentar se abrir diretamente com uma pessoa que nunca está disponível. É um modo de
dizer não me incomodem" e é esta a razão por que muita gente fica furiosa com Nigel.
Não é normal encontrar um planeta totalmente inconsciente na personalidade.
Geralmente, algumas de suas facetas são vivenciadas, enquanto outras não. De certo
modo, um planeta é como uma pessoa, complexa e multifacetada, desenvolvemos e
aprofundamos a expressão de cada planeta no decorrer de uma existência. Quando
estamos lidando com questões psicológicas como a projeção, devemos ser cautelosos para
não a interpretarmos de modo excessivamente literal e nítido, pois ela costuma ser uma
mescla de fatores. A quadratura Sol-Marte pode não ter nenhum problema para assumir a
imagem sexual do macho, mas pode ter enorme dificuldade para ser direta nos contatos
emocionais. Além disso, a expressão positiva do Marte de Nigel - sua realização material -
lhe dá um canal de vazão para a raiva que ele não consegue expressar a nível pessoal. Ele
pode vencer os concorrentes embora não possa gritar com sua mãe, e isso o mantém
saudável pelo fato de ter uma saída, por mais que ela esteja contaminada por problemas
familiares inconscientes. Nenhum fator de um mapa está sempre totalmente consciente e
manifestado a ponto de não restar nada para se descobrir.
Audiência: Você poderia discutir mais detalhadamente os signos e planetas
interceptados? Acho que entendi o tema, mas não o suficiente.
Liz: Vou lhe oferecer uma de minhas analogias puras. Os signos podem ser vistos como
campos de energia que tingem a expressão do impulso básico de um planeta. As cúspides
das casas são como pára-raios que exteriorizam os impulsos planetários e as energias dos
signos, fazendo com que se manifestem no mundo. As cúspides das casas de um mapa
definem a realidade concreta em que vive o indivíduo e os limites dentro dos quais os
planetas devem funcionar. Se um planeta estiver situado em um signo no qual não há uma
cúspide planetária a permitir sua manifestação, ele age como um inquilino que aluga um
apartamento do proprietário (o regente da cúspide). Se você é dono do seu próprio imóvel,
pode fazer quase tudo o que quiser com ele: pode pintar as paredes de púrpura e plantar
trepadeiras mortíferas no jardim, pois ninguém vai interferir. Contudo, se você é inquilino,
precisa antes pedir permissão ao seu locador. Pode ser que ele diga, "Desculpe, mas todos
os apartamentos desta cidade devem ser brancos". E seu apartamento tem de continuar
pintado de branco. Naturalmente, você pode se mudar, mas um planeta em um signo
interceptado não pode. Tudo o que os planetas no signo interceptado de Leão do mapa de
Nigel podem fazer é pedir permissão à Lua (que também está em Leão) antes de se
expressarem por meio da casa l.
Audiência: Você diria que toda essa concentração em Leão faz com que Nigel seja
162
narcisista?
Liz: Eu acho que precisamos tomar cuidado com o modo como utilizamos essa palavra.
O narcisismo é usado de duas maneiras: uma é um termo clínico e a outra é a expressão
que as pessoas empregam para ofender alguém que não lhes dá o que desejam. Lembra-se
da definição de egoísta de Ambrose Bierce? Podemos pular esta segunda maneira, a mais
comum, pois ela se refere à pessoa que faz a acusação e não tem base objetiva. Quanto à
definição clínica, o narcisismo é um estado psicológico no qual o "self" individual ainda não
está suficientemente desenvolvido para interagir com o mundo exterior como organismo
distinto. Freud usou a expressão "narcisismo primário" para descrever o ponto de vista de
um bebê que só tem consciência de suas necessidades prementes e que começa a chorar
de raiva quando essas necessidades não são satisfeitas. O bebê é todo-poderoso, o centro
do universo, e não entende o significado de "outra pessoa". O adulto que é narcisista neste
sentido, por mais que pareça ser hábil e adaptado em termos sociais ao olhar do leigo,
geralmente foi bastante magoado na infância e ainda não desenvolveu o seu "self” o
suficiente para perceber a realidade das pessoas à sua volta. Tudo e todos existem como
uma "parte-objeto", uma extensão de si mesmo, como se fosse um braço ou uma perna. A
pessoa toma por líquido e certo que sempre estará recebendo aquilo que deseja, assim
como tomamos por líquido e certo o fato de que nossos braços e pernas vão se mover
quando desejarmos; e, se essa premissa for posta em cheque pelos limites de uma outra
pessoa, o narcisista ficará furioso. Todos nós temos bolsões de narcisismo e os de algumas
pessoas são maiores. E algumas estão demasiadamente apegadas a esse estado infantil, a
ponto de os outros não serem mais do que objetos que as nutrem, mesmo se o
comportamento superficial for aparentemente amável e dado a sacrifícios pessoais.
Bem, os signos de Fogo se concentram mais em seu mundo imaginativo interior do
que nas necessidades dos outros. Mas isso não é narcisismo no sentido clínico. Na pior
hipótese, é mera insensibilidade. O Fogo é teatral e cria mitos a seu próprio respeito; é
preferível viver a vida como um grande espetáculo, mesmo que difícil, do que viver como
um mortal obscuro e comum. Logo, os signos de Fogo tendem a chamar a atenção para si
mesmos - quando isso é inconsciente, pode assumir proporções de manipulação ou até de
histeria - mas o narcisismo clínico reflete um ferimento profundo na estrutura da
identidade, algo que pode acontecer com qualquer um, independentemente do signo. Todo
signo zodiacal reage ao conflito e ao ferimento à sua própria maneira, e uma pessoa ígnea
que sofreu dessa maneira pode ser narcisista de um modo particularmente óbvio e
charmoso. No entanto, os signos de Terra ou Água podem ser igualmente narcisistas no
sentido clínico, expressando o problema através de sintomas físicos ou do martírio.
Até certo ponto, diria que a personalidade de Nigel exibe elementos narcisistas, mas
não a ponto de ele ser totalmente incapaz de funcionar; e eu não atribuiria isto ao fato de
ele ser leonino, mas a seu ambiente familiar. Como disse, todos nós temos bolsões onde
não fomos formados de modo adequado, e com certeza a família de Nigel minou sua
vontade e identidade devido aos esforços exercidos por sua mãe para controlá-lo.
Contudo, a forma pela qual este ferimento narcisista se expressa é leonina no caso de
Nigel, o que significa que ele precisa da aprovação do público (especialmente o feminino)
para se sentir real.

163
O narcisismo é um estado solitário que produz ansiedade, pois a pessoa se sente vazia
e irreal por dentro, a menos que encontre algum fator exterior que sirva de espelho para
sua identidade. Lembra-se do mito de Narciso? Ele não podia ver o reflexo de seu rosto,
pois sua mãe o proibiu de fazê-lo. Quando ele finalmente o contemplou na superfície da
lagoa, apaixonou-se por ele e não conseguia nem se afastar de seu rosto, nem aceitar o
amor de outra pessoa (Eco). Este é um mito profundo e nos explica bastante bem o
problema. Se a mãe não se conscientiza do florescente estado de "si-mesmo" de seu filho e
exige que ele espelhe as necessidades e as insatisfações de sua vida, está negando a Narciso
a contemplação de seu rosto. Depois, a criança vai crescer procurando espelhos por toda a
parte, tornando-se dependente da confirmação do mundo exterior para preencher o vazio
de seu interior. O Fogo pode depender da forma como o mundo exterior o percebe como
um símbolo maior do que a vida; a Terra pode depender da exibição de riqueza e "status"
exteriores; o Ar pode depender de que os outros confirmem sua sagacidade; e a Água
talvez dependa de uma unidade familiar, através da qual pode vivenciar seu sofrimento.
Mas quando a tragédia do narcisismo é grave, o indivíduo é, na verdade, uma criança
pequena que não consegue se adaptar à realidade exterior pois esta não existe. A única
coisa que existe é o lugar vazio no interior de onde o "self", o tesouro do herói, foi furtado
por uma mãe que era narcisisticamente ferida e que precisava de seu filho para preencher
seu próprio vazio. Assim, o narcisismo grassa nas famílias. O único antídoto para ele é o
tema de nossa conversa ao longo desta semana: a lenta elaboração de um senso de
identidade independente por meio do desenvolvimento das funções do Sol e da Lua.

164
O CENTRO DE ASTROLOGIA PSICOLÓGICA

O Centro de Astrologia Psicológica oferece um excelente programa de workshops e de


treinamento profissional destinado a incrementar a contribuição recíproca entre os campos
da astrologia e da psicologia profunda, humanística e transpessoal. O programa tem dois
aspectos. Um deles é uma série de seminários e aulas, que vão desde cursos de introdução
à astrologia até seminários de interpretação avançada do mapa. Os seminários incluídos
neste volume representam estes últimos, embora um dado seminário nunca seja
apresentado exatamente da mesma maneira, já que o conteúdo varia conforme a natureza
dos componentes do grupo e de novas pesquisas e desenvolvimentos que acontecem
constantemente no campo da astrologia psicológica. Todos esses seminários e cursos, para
principiantes ou avançados, estão abertos ao público. O segundo aspecto do programa é um
treinamento estruturado e profundo com três anos de duração, com direito a um Diploma
em Astrologia Psicológica para aqueles que concluírem o curso satisfatoriamente. As
principais metas e objetivos desse treinamento profissional de três anos são:
- Dotar os alunos de uma base sólida e ampla de conhecimentos no âmbito do
simbolismo astrológico tradicional e de suas técnicas, bem como na área da psicologia,
de modo que o mapa astrológico possa ser entendido com sensibilidade e
interpretado à luz do moderno pensamento psicológico.
- Oferecer aos alunos psicologicamente qualificados a supervisão de casos, bem como
o treinamento em técnicas de aconselhamento que elevam o nível e a eficiência da
consulta astrológica.
- Incentivar a investigação e a pesquisa dos vínculos existente entre a astrologia, os
modelos psicológicos e as técnicas terapêuticas, contribuindo assim para o avanço do
atual corpo de conhecimentos astrológicos e psicológicos.
o programa de treinamento profissional profundo não pode ser oferecido pelo correio,
uma vez que o trabalho de supervisão de casos é parte integrante do curso. Normalmente,
são necessários três anos para completá-lo, embora esse período possa ser ampliado, caso
necessário. O treinamento inclui aproximadamente cinquenta seminários (quer de um dia,
quer em aulas noturnas semanais), bem como cinquenta horas de participação em grupos
de supervisão de casos. As aulas e os seminários se dividem em duas categorias básicas:
simbolismo e técnicas astrológicas (história da astrologia, análise psicológica dos signos,
planetas, casas, aspectos, trânsitos, progressões, sinastria, etc.), e teoria psicológica
(história da psicologia, mapas e patologia psicológicos, simbolismo mitológico e arquetípico,
etc.), Os grupos de supervisão de casos se reúnem em noites da semana e são constituídos
por não mais do que doze pessoas cada. Todos os supervisores são psicoterapeutas e
astrólogos treinados. Cada aluno tem a oportunidade de apresentar, a titulo de discussão,
algum material extraído dos mapas que esteja estudando. Ao cabo do terceiro ano, exige-se
um relatório de 15 mil a 20 mil palavras. Ele pode versar sobre qualquer assunto - material
de casos, pesquisa, etc. - sob o domínio da astrologia psicológica. Muitos desses relatórios
podem ter qualidade digna de publicação e o Centro facilitará a divulgação desse material

165
na área astrológica.
O término dos requisitos de seminário e de supervisão dá ao estudante um certificado
de conclusão. A aceitação da tese dá a ele o Diploma em Astrologia Psicológica do Centro e
o direito ao uso das letras D. Psych. Astrol. [Doutor em Astrologia Psicológica]. O formando
bem-sucedido será capaz de aplicar as técnicas e princípios aprendidos no curso a suas
atividades profissionais, seja como consultor astrológico, seja como auxílio a outras formas
de aconselhamento psicológico. As perspectivas de carreira são boas, pois há uma demanda
cada vez maior pelos serviços de astrólogos competentes e de terapeutas com orientação
astrológica. A fim de completar o treinamento profissional, o Centro pede que todos os
alunos se submetam a alguma forma reconhecida de psicoterapia com o terapeuta, analista
ou conselheiro de sua preferência por um ano, no mínimo. O motivo desta exigência é que
acreditamos que nenhum conselheiro responsável, qualquer que seja a sua orientação
pessoal, pode querer lidar com a psique de outras pessoas de maneira sensível e sábia sem
ter passado pessoalmente pela experiência.
Os seminários apresentados neste livro são apenas seis dos cinquenta workshops
oferecidos pelo Centro. Os volumes anteriores da Série de Seminários sobre Astrologia
Psicológica são O desenvolvimento da personalidade (Vol. I) e A dinâmica do inconsciente (Vol. II),
ambos da Editora Pensamento. O Volume 4 desta série, Os Planetas Interiores: Elementos
Estruturais da Realidade Pessoal, da Editora Roca, focaliza a mitologia e a psicologia de Mercúrio,
Vênus e Marte. Como foi dito antes, esses seminários nunca se repetem exatamente do
mesmo modo, pois as contribuições e o material de casos varia de grupo para grupo, e há
sempre novos e constantes desenvolvimentos oferecidos pelo trabalho contínuo de líderes
de seminário e de outras pessoas da área. Se o leitor estiver interessado em conhecer
melhor os seminários públicos ou o treinamento profissional oferecido pelo Centro, queira
por favor escrever para:

The Centre for Psychological Astrology


P. O. Box 890, London, NW5, 2NE
ENCLAND

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