JAQUES, André Porto; Orientação de HEIDRICH, Álvaro Luiz.

A GEOGRAFIA DO BATUQUE: ESTUDOS SOBRE A TERRITORIALIDADE DESTA RELIGIÃO EM PORTO ALEGRE – RS.

ANDRÉ PORTO JAQUES

Monografia apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Geografia junto ao Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Orientador: Professor Dr. Álvaro Luiz Heidrich. Banca examinadora: Professora Dra. Rosa Maria Vieira Medeiros Professor Dr. Nelson Rego.

Porto Alegre, julho de 2005.

Dedico este trabalho aos meus Orixás Ogum Onira e Oyá Niké. Pai, Olodum não poderia ter feito melhor escolha, obrigado por tudo.

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AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer a minha esposa, Yalorixá Tânia de Oxum, por todo empenho, esforço e dedicação. Sem teu carinho, tua força e tua sabedoria religiosa, este trabalho não teria sido concretizado. A Mãe Oxum, toda paz e alegria do meu lar, e aos meus filhos e afilhados, por todo amor e felicidade que me proporcionam a cada dia. Meus pais e familiares que incentivaram meus sonhos, e acreditaram que uma criança nascida numa família de pequenos agricultores e de pai chofer de ônibus, poderia ser acadêmico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pai Artidor, tuas noites em claro ao volante de um ônibus, e tua concepção de que o lugar dos seus filhos era dentro da escola, e não trabalhando em sub-empregos; fizeram do senhor mais que um pai para mim, que temia vê-lo vítima do trânsito, és meu pai-herói. Tio Artino (póstuma), foram as aulas sobre mapas, na luz fraca de um lampião, naquela casinha no interior de Boa Vista do Cadeado, que despertaram em teu sobrinho o gosto pela Geografia, lamento não receber o teu abraço neste dia. Professor Eloir Calegari, por permitir que eu freqüentasse as aulas no seu cursinho pré-vestibular, mesmo sabendo que eu não teria dinheiro para lhe pagar. Babalorixá Gelsinho de Xangô, eu então com 17 anos, morando na Casa do Estudante da UFRGS e longe da família, não teria vencido sem o apoio teu e deste maravilhoso Orixá que te rege. Mãe Sueli de Xangô, tua mão e de meus padrinhos Jorginho de Oxalá e Nanci de Oxum, foram leves, e me fizeram forte para o mundo; obrigado por me acolherem no seu Ilê, e ao Pai Xangô Aganjú por me guiar através do seu Axé, teu filho-de-santo há de te trazer muito orgulho. Agradeço ao Prof. Álvaro Heidrich que aceitou o convite e o desafio de me orientar neste trabalho, abrindo os caminhos da Geografia Cultural na UFRGS. Em especial ao Prof. Nelson Gruber, que foste mais que um incentivador, foste um grande amigo que não permitiu que seu aluno, então cobrador de ônibus, abandonasse o curso. Hoje profissionalmente colho os frutos de teus ensinamentos meu amigo. Ao meu colega de profissão na época, motorista Teixeira e sua esposa Vera, que muito me incentivaram e ajudaram, também o meu agradecimento. Por fim, agradeço a todos os meus verdadeiros amigos, pessoas a quem eu amo também e que me ajudaram não apenas a superar barreiras, mas a acreditar que eu era capaz de vencer, que eu saberia como fazer. A todos que me acompanharam e que hoje não mais convivemos diariamente, e que sinto saudades. Ter cursado a disciplina de Geografia Cultural pode não ter sido mera coincidência, pois foi justamente nesta disciplina que me realizei como futuro geógrafo, somando a ciência a minha religiosidade.
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SUMÁRIO

LISTA DE ILUSTRAÇÕES INTRODUÇÃO O BATUQUE VISÃO ESTRUTURAL DO BATUQUE As Nações Bacias OS ORIXÁS A Casa de Batuque A Praia Orixá Bará Orixá Ogum Orixá Oyá Orixá Xangô Orixás Odé e Otim Orixá Ossanha Orixá Obá Orixá Xapanã Orixá Oxum Orixá Yemanjá Orixá Oxalá Quadro de Elementos dos Orixás no Batuque Gêge-Ijexá

06 07 09 09 09 10 10 12 13 15 16 17 17 18 19 20 20 21 22 22 24

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O ESPAÇO AOS OLHOS DO BATUQUEIRO O Passeio Os caminhos e as encruzilhadas A praia como espaço sagrado do Batuque A TERRITORIALIDADE DO BATUQUE O Mercado Público de Porto Alegre – RS Casas de Batuque, as igrejas desta religião Os morros, as pedreiras, os campos, as matas e as cachoeiras no Batuque Rios, Lagos e Mares. As praias na territorialidade do Batuque Os cemitérios, e a territorialidade proibida do Batuque O PROBLEMA DA POLUIÇÃO AMBIENTAL DECORRENTE DA DEPOSIÇÃO DAS OFERENDAS AOS ORIXÁS CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA GLOSSÁRIO ANEXOS

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 – Quarto-de-Santo preparado para receber as oferendas aos Orixás, no momento que antecede o ritual. Figura 2 – Quarto-de-Santo após serem depositadas as oferendas aos Orixás. Figura 3 – Animais utilizados nos rituais, sendo limpos, para serem consumidos Figura 4 – No sincretismo afro-católico, Xangô Aganjú é São Miguel Arcanjo Quadro de Elementos dos Orixás no Batuque Gêge-Ijexá. Figura 5 – Adeptos batem-cabeça em uma das igrejas visitadas no passeio Figura 6 – Porta de entrada do Mercado Público de Porto Alegre – RS, que dá início a travessia com a saída na porta de acesso a Avenida Mauá. Figura 7 – Feirante do M Público, doa alguns peixes, que serão depositados no quarto-de-santo simbolizando a fartura. Figura 8 – Mercado Público de Porto Alegre, disposição arquitetônica forma uma encruzilhada no seu centro. Figura 9 – Velas são acesas por batuqueiros na Praia da usina do Gasômetro em Porto Alegre – RS. 49 46 29 28 12 13 17 18 24 27

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Introdução. Em maio de 2003, foi aprovada a Lei NO 11.915 que instituiu o Código Estadual de Proteção aos Animais no Rio Grande do Sul. O que seria um grande avanço no que diz respeito à questão da preservação ambiental tomou, porém, outros rumos diante da sociedade gaúcha. O preconceito, a intolerância e o racismo fizeram com que esta lei fosse utilizada para restringir e, até mesmo proibir, a prática das religiões de matriz africana no Estado. Ressuscitando um problema que os africanistas acreditavam já ter sepultado com a publicação na Constituição Federal de 1988, que diz: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias1” (do Cap I, Art 5o, Inciso VI). Foi justamente baseado em leis que proibiam as liturgias das religiões africanas - como o toque dos tambores e o sacrifício de animais -, que terreiros foram fechados e seus líderes levados a sentar no banco dos réus. No gabinete do político gaúcho que encaminhou, naquela época, um Projeto de Lei, visando a regulamentar e a garantir a liberdade de culto dos africanistas (que utilizam animais em suas liturgias), mais de 500 e-mails relatavam, conforme publicação, não apenas a discriminação e a xenofobia presentes na sociedade gaúcha, mas também opiniões emitidas por pessoas desinformadas, mostrando o desconhecimento de boa parte da população do que realmente são e quais as práticas litúrgicas que envolvem as religiões de matriz africana comumente encontradas no Estado. São textos como estes a que me refiro: “Aprovado recentemente o Código Estadual de Proteção aos Animais já sofre o primeiro atentado! Querem legalizar os sacrifícios de animais em rituais religiosos... Macabros, Sinistros, fúnebres... imagine um animal sendo degolado, alguém bebendo seu sangue e imaginando que vai para o Céu?”, “É lamentável que o senhor já pretenda fazer alterações no Código de Defesa dos Animais. A alteração proposta pelo senhor é ilegal porque fere legislação federal. Liberdade de crença tem limite e a lei é esse limite. O que diria o senhor se as seitas que sacrificam meninos de 6 anos alegassem liberdade de crença?”. (PORTILHO, 2003, P.20-21)2. Ouvi também as opiniões de outros colegas, menos
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Grifo do autor. Publicação de gabinete do Deputado Edson Portilho. Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. A pontuação e grafia dos e-mails foi mantida.

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ofensivas que as descritas acima, mas que contrastavam com tudo que eu havia aprendido dentro das Casas de Batuque. Essa desinformação é fruto do pequeno número de publicações acadêmicas nessa área e de informações equivocadas, trazidas pelos meios de comunicação, como jornais e televisão. Principalmente nos canais de domínio de outras religiões institucionalizadas, que vêem nos deuses das religiões africanas, entidades associadas ao demônio por eles pregado. Como futuro geógrafo, senti a necessidade de contribuir através da geografia, produzindo um trabalho que pudesse ser utilizado não apenas para o esclarecimento desta questão, mas também como fonte de informação para a solução de muitos outros problemas que envolvem esta temática: a religião. Para Roberto Lobato Corrêa:
“A temática da religião tem sido objeto de um pequeno interesse por parte dos geógrafos, particularmente dos geógrafos brasileiros. Este desinteresse vincula-se, basicamente, à pequena importância atribuída à cultura em geral pelos geógrafos brasileiros. Particularmente vincula-se ao peso do positivismo entre nós e a uma visão socialmente crítica, ancorada no marxismo que ignoram a religião como objeto de estudo, esquecendo que ela é parte integrante de qualquer formação social, tendo, necessariamente, uma nítida dimensão geográfica.” (CORRÊA, 1996, P.5)

Visando a diminuir a escassez de trabalhos, por parte da geografia, voltados ao estudo da religião e elucidar muitas dúvidas e mistificações produzidas pela sociedade no que se refere ao Batuque, minimizando o preconceito gerado pela falta de informação. Busco no trabalho que segue, descrever o espaço produzido através dos tempos e a territorialidade da religião Batuque na cidade de Porto Alegre – RS.

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O Batuque. Como a maioria das religiões de matriz africana no Brasil, o Batuque foi trazido pelos escravos negros, oriundos do Continente Africano. Não imaginavam os colonizadores, que, junto com os negros, viria esta gama de cultura que sobreviveu à diáspora e à escravidão. Semelhante ao Candomblé, ao Tambor de Mina e aos Xangôs Recifenses na sua essência, o Batuque difere destas em algumas práticas litúrgicas, sendo que estas também diferem entre si da mesma maneira. E esta foi a designação que recebeu o culto afro, que se popularizou no Sul do país: Batuque.

Visão Estrutural do Batuque. As Nações: Como os negros aprisionados eram de lugares diferentes no Continente Africano, havia diferenças nas suas forma de culto. Aqueles com maior semelhança étnica constituíram subgrupos, que se denominavam Nações (ou Lados). De acordo com Norton Corrêa (1992, P.50-56), são sete as nações “trazidas” (cultuadas) no Rio Grande do Sul: Gêge, Ijexá, Nagô, Oyó, Cabinda, Maçambique e Oyá. Pessoalmente, nunca conheci alguém que pertencesse as duas últimas citadas, provavelmente Lados já extintos no Batuque. Com o passar do tempo, as nações foram se misturando. Um sacerdote de Gêge, que por questões pessoais, se desligasse de sua Casa de Religião, buscando ajuda em outra Nação, e obtivesse o seu Aprontamento3 nesta última, se denominaria de “Lado GêgeIjexá”. Passando a realizar na sua Casa de Religião Afro (Ilê), um culto (Batuque) que possuísse elementos de ambos os Lados, muito comum nos dias de hoje, pois dificilmente se exime a herança cultural da primeira Nação à qual se pertenceu. Cabinda e Oyó, são cidades do Continente Africano, sendo Cabinda uma cidade litorânea de Angola e Oyó uma cidade da Nigéria. Segundo Eduardo Fonseca Júnior (1983,P.447), os Ijexás também teriam vindos da Nigéria. Como os negros escravos em
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Ato de fazer o assentamento de no mínimo seus Orixás ditos de corpo e cabeça, além do seu Bará. Aos filhos que irão ser Babalorixás, devem ser assentados os demais Orixás constituintes do Orumalé. Os filhos que possuem seus Orixás assentados, passam a ser chamados de “Prontos”. 9

geral, eram prisioneiros de guerra, entregues aos traficantes de escravos em troca de armas ou outros produtos. Possivelmente, diversos foram trazidos escravos em meio a grupos étnicos diferentes dos quais realmente pertenciam, passavam então a adotar, no Brasil, a identidade do grupo no qual eles haviam sido trazidos. Soma-se a este fato, as alterações e adaptações liturgicas pelas quais o Batuque passou no sul, onde a fauna e a flora encontrada diferenciava-se da africana. Existem algumas diferenças ritualísticas sutis, por assim dizer, dentro de uma mesma Nação. Havendo, então, outra divisão a qual denominamos Bacia. Bacias: Dissidência hereditária de culto a que o adepto pertence. Como exemplo, o Legendário Príncipe Custódio, conforme Corrêa (1992, P.53-54), que pertencia a Nação de Gêge. Há, porém, Babalorixás que pertençam a este Lado, mas que possivelmente descendam de algum escravo trazido para o Brasil antes da chegada do Príncipe, no fim do Século XIX. Logo seriam Babalorixás4 da Nação de Gêge de bacias diferentes e, certamente, teriam algumas variações ritualísticas entre seus cultos. Há de se levar em consideração a história e, com isso, a árvore genealógica de muitos destes grupos étnicos que não chega a culminar no negro que a trouxe para o Brasil. Este tema é um vasto campo para pesquisa. Explicarei, assim, o Batuque com maior influência da visão da Nação e Bacia à qual pertenço; o Gêge-Ijexá da Bacia do saudoso Babalorixá Manoelzinho do Xapanã, meu bisavô (de Religião), saudoso Antoninho da Yemanjá meu Avô (de Religião), minha Yalorixá Sueli de Xangô Aganjú e a Yalorixá Tânia de Oxum Pandá (minha esposa). Os Orixás. No Batuque cultua-se um Deus maior denominado Olodum, e a partir deste, os Orixás que seriam basicamente doze: Bará, Ogum, Yansan, Xangô, Odé, Otim, Ossanha, Obá, Xapanã, Oxum, Yemanjá e Oxalá. Mas estes Orixás se subdividem já que, existem mais que um Bará, mais que um Ogum e assim por diante, denominados Olodê, Adiolá,

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Da língua Yorubah, Babá = Pai, Olo = Senhor e Orixá é como são chamados os Deuses no Batuque. Babalorixá quer dizer, Pai Senhor do Orixá. Popularmente chamam-se os Orixá, de Santo, logo babalorixá se tornou Pai Senhor do Santo e posteriormente apenas Pai-de-santo. Simplificando, Babalorixá quer dizer em yorubah pai-de-santo, assim como Yalorixá quer dizer mãe-de-santo. 10

Epandá, etc, resultando em soma acima de trinta. Entretanto não é necessário neste trabalho descrevermos tal nível de diferenciação entre os Orixás. Para Olodum não são feitas oferendas porque é através dos Orixás que se chega a Ele e, estes, aceitam de bom grado comidas, flores, frutas e determinados animais. Antes que se confunda os Orixás do Batuque com entidades de cultos espíritas, é preciso fazer a seguinte distinção, apesar de muitas vezes as fronteiras entre estes serem bem estreitas, como na Umbanda5. No batuque os espíritos são chamados de Eguns e constituem uma categoria à parte, pois são espíritos de seres humanos e portanto estão ligados à estrutura da sociedade. Já os Orixás constituem divindades da natureza, são entidades divinas associadas ao cosmo. Dentro desta cosmovisão, tudo que lhes é ofertado nos terreiros de Batuque, de certa forma, deve retornar à natureza. Este processo é feito de forma metódica, de acordo com a característica de cada Orixá, por isso a existência dos popularmente chamados “despachos”. As oferendas também podem ser realizadas diretamente na natureza. Enfatizamos aqui a relação estreita entre esta Religião e a natureza como um todo. Porém de forma especifica, cada lugar está relacionado a um determinado Orixá, constituindo uma territorialidade ímpar repleta de simbolismos, fronteiras e conflitos que tentaremos geograficamente explicar neste trabalho. Para isto precisaremos entender um pouco mais da cosmovisão do adepto da religião Batuque, popularmente e, às vezes, de forma racista chamado de batuqueiro. Falaremos individualmente, de maneira sucinta, sobre os seus deuses: os Orixás. Os batuqueiros, na sua relação com os orixás, necessitam de lugares. Ao me referir a lugar, utilizo o conceito de Milton Santos: “Lugar constitui a dimensão da existência que se manifesta através de um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas, firmas, instituiçõescooperações e conflito são a base da vida em comum” (SANTOS, 1997, P.25) Como geógrafo, preciso situar primeiramente os Orixás no espaço, para que consiga explicar de forma didática, os Deuses cultuados no Batuque, retornando ao tema da espacialidade, posteriormente.
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Religião de origem brasileira, criada pelo médium Zélio de Moraes, a qual soma elementos do cristianismo, do kardecismo e de religiões de matriz africana.

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A Casa de Batuque, entendida como um lugar, conforme o conceito acima, também chamada de Ilê, Casa de Nação, Casa de Religião Africana ou apenas Casa de Religião, é um lugar comum a todo Orumalé (conjunto de todos Orixás). O estabelecimento do Ilê, em seu espaço interno, além das acomodações dos residentes, possui uma divisão voltada para o Culto constituída de cozinha, salão e quarto-de-santo. A cozinha, proporcionalmente mais espaçosa que uma cozinha de residência comum, assume extrema importância, porque nela serão preparadas as comidas sagradas a serem ofertadas. O salão constitui o espaço onde se realiza a parte mais ativa das cerimônias públicas. Localizado sempre junto ao salão, o quarto-de-santo, ou Pejê é o local mais importante, nele são guardados os objetos sagrados (tambores, facas, colares, etc.), depositadas oferendas e trabalhos, e em prateleiras cobertas por cortinas, os segredos dos assentamentos de cada um dos Orixás.

Figura 1 – Quarto-de-Santo preparado para receber as oferendas aos Orixás, no momento que antecede o ritual.

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Figura 2 – Quarto-de-Santo após serem depositas as oferendas aos Orixás.

As Casas de Religião Africana, muitas vezes, sequer possuem uma placa ou letreiro indicativo de que aquele local se destina ao batuque, mas são facilmente identificadas pelas popularmente chamadas “casinhas”, que ficam na entrada do terreno. Estas são comumente pintadas de vermelho, porque ali fica o assentamento de no mínimo três Orixás, um Bará, um Ogum e uma Yansã, sendo o vermelho a cor consagrada ao Orixá Bará, hierarquicamente, neste caso, superior aos demais Orixás assentados na frente do templo. Há também Orixás que possuem seu assentamento nos fundos do templo, constituindo assim, do ponto de vista espacial, uma divisão em três classes de Orixás: os ditos “de rua, ou frenteiros”, os “de casa” (que são maioria) e os “dos fundos”. A praia é outro lugar comum a todo Orumalé, sendo ela de água-doce ou salgada. Todos os Orixás “respondem” na praia, ou seja, há pelo menos um Bará, um Ogum, uma Oyá, um Xangô e vários Oxalás que possuem-na como um de seus lugares consagrados. Diz-se então, na linguagem do batuqueiro, que todos os Orixás “respondem” na praia; pois se a um Orixá é ofertado algo em lugar que não lhe é consagrado, o presente não será aceito, podendo em alguns casos, constituir até mesmo em ofensa, estando a pessoa que fez a oferta sujeita a cobranças por parte do Orixá em questão. Um exemplo seria fazer uma oferenda ao Orixá Xangô (cujos lugares consagrados são a pedreira e a praia), em uma encruzilhada (entroncamento de duas ruas, denominado pelos batuqueiros de cruzeiro). Essa oferenda não seria aceita e provavelmente a pessoa que fez a foerta estaria sujeito a um castigo por parte deste Orixá.
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A praia também torna-se comum a todos os Orixás, no momento em que nela são feitas certas práticas como a “lavagem de cabeça”, que têm como finalidade “desligar” um iniciado de seu pai ou mãe-de-santo, seja por um desentendimento ou caso de morte do babalorixá. Todos (não importando qual seja o Orixá “de cabeça”6 do filho-de-santo), podem ter sua cabeça lavada , se necessário. É, igualmente nela, que são despachados os assentamentos dos Orixás, e numa cerimônia denominada Aresun, os pertences Axós (roupas), de um religioso que tenha falecido. Também os Axés, como as Inhalas (algumas poucas partes dos animais sacrificados, não consumidos no batuque e preparados fritos, ofertados no Pejê, despachados ao término do ciclo ritual), como também, flores que enfeitaram o quarto-desanto, etc. Tudo que foi ofertado aos Orixás passa a ser considerado sagrado. Se não puder ser consumido, ou não possuir outra finalidade específica deve ser despachado. Em certa festa na casa da Mãe Sueli, um dos bolos, oferecidos no quarto-de-santo, devido ao forte calor, azedou. Prontamente, mãe Sueli ordenou que este fosse despachado, na praia, junto com os demais axés. Uma vez ofertado aos Orixás, a Eles pertencem; se não consumido, seria uma quebra do ritual, uma falta grave, uma ofensa à Orixá Oxum a quem o bolo fora ofertado, se este fosse simplesmente colocado no lixo. Mas nem tudo que não foi consumido numa festa, acaba despachado na praia. Alimentos preparados, que sobram, ainda em condições de consumo, são distribuídos aos vizinhos e à comunidade em geral. Segundo a Mãe Tânia de Oxum “Quanto mais distribuímos às pessoas, mais alegramos aos Orixás, e na mesma proporção, eles trarão fartura para a casa. Moro num bairro de muitas crianças carentes. Minha Mãe Oxum, que rege as crianças, não aprovaria receber na praia, um bolo que pode ser consumido pelas crianças dela”.

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“Orixá de cabeça” é como é chamado o Orixás maior que rege um indivíduo, estaria ligado direto a sua consciência, chamado de Eledá, às vezes chamado de “santo de cabeça” e também de “Anjo-de-guarda”. A partir dele viria o “Orixá do corpo”, que seria o “casamento” do Orixá de cabeça, chamado de Adjuntó, e a partir destes os demais constituintes do Orumalé. No batuque as pessoas são conhecidas pelo seu nome de batismo, mais o do Orixá de Cabeça, ou simplesmente pelo nome do Orixá de cabeça, exemplo: Babalorixá Jorge de Oxalá Belerun, chamado apenas de Belerun pelos amigos mais próximos. 14

Figura 3 – Animais utilizados nos rituais, sendo limpos, para serem consumidos.

Outro fato importante no que se refere à praia, é que uma vez utilizada determinada praia para o despacho do Aresun, esta não será mais utilizada para outras finalidades como o despacho dos Axés de uma festa, ou oferendas por pessoas que pertencerem à bacia do falecido(a). Desta forma, todos os batuqueiros necessitam de mais de um local de praia para fazer suas obrigações ritualísticas, sendo este um dos fatores que contribui para que não seja completa a concentração de oferendas realizadas no espaço destinado ao culto, na praia de Ipanema em Porto Alegre-RS, onde foi construída uma estátua em homenagem ao Orixá Oxum. Orixá Bará é o dono dos caminhos e das encruzilhadas; rege o movimento e as oportunidades, por isso tem como uma de suas ferramentas-símbolo a chave, que, para os adeptos, é com ela que (Ele) abre as portas do sucesso, mas que também pode fechá-las. Suas oferendas devem ser depositadas à beira de um caminho, preferencialmente na encruzilhada, sendo que há um Bará que rege a praia, chamado de Bará Agelú, e suas oferendas são depositadas neste lugar. Seu dia consagrado é a segunda-feira e para algumas Nações, também a sexta-feira. Os Barás não toleram a água (exceto Agelú), basta ter chovido horas antes de maneira que as ruas estejam molhadas, para que Bará não aceite as oferendas. Como Bará é o primeiro Orixá a ser cultuado, não é de costume fazer oferendas após uma chuva, mesmo que ela não seja dirigida a este Orixá, o que dificulta em muito o culto nos períodos chuvosos do ano. Outro dado interessante, é que como as pedras de uma forma geral pertencem ao Orixá Xangô, acredita-se que uma oferenda para Bará será mais
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bem aceita se não for depositada sobre esta, ou seja, em uma encruzilhada que não tenha sido pavimentada, chamada pelos batuqueiros de “cruzeiros de chão batido”. Por ser o Orixá do movimento, o batuqueiro também prefere depositar sua oferenda em encruzilhadas que possuam grande fluxo de veículos e pessoas, exceto viadutos e elevadas, pois quando uma via passa por sobre a outra, do ponto de vista do batuque, não constitui um cruzeiro. Outro lugar de culto ao Bará é o mercado público de Porto Alegre-RS, pois conforme relatos, é nesse lugar que o Príncipe Custódio teria feito o assentamento de um Bará para que trouxesse movimento e clientes para o comércio local, sendo atribuída à arquitetura do local - que possui um cruzeiro ao centro - este fato. Sua cor é o vermelho, número é o 7, e o sincretismo afro-católico7 com Santo Antônio, São Benedito e São Pedro. Orixá Ogum é o senhor da guerra, dos trabalhos manuais e das vitórias. Seus elementos são o ferro e o aço, e por conseqüência os ofícios associados a estes elementos como a metalurgia, por exemplo. Tido como guerreiro destemido e imbatível, rege também as profissões militares e o emprego de forma geral. Por isso na linguagem popular do batuque e dos Axerês8, chama-se o ato de trabalhar, realizar algum trabalho, de “fazer ferrinho”. A popularidade deste Orixá se deve, também, ao fato de ser para Ogum que os escravos rezavam pedindo a sua libertação. Os lugares de culto a este Orixá são, preferencialmente, os relacionados aos campos de batalha, ou seja, um campo próximo à entrada de uma mata, uma vez que a mata, o interior desta e as folhas pertencem a outro Orixá. Mas Ogum também aceita as oferendas no interior da mata, pois era no interior desta que, muitas vezes, os guerreiros se refugiavam após os combates. Assim como Bará, também se cultua Ogum nas encruzilhadas, em especial, um Ogum chamado de Avagã, melhor aceito se esta encruzilhada constituir um cruzamento com uma via ferroviária, muito raro nestes tempos de metrôs movidos a eletrecidade. Junto com os Orixás, Bará e Yansã guarnecem os portões dos cemitérios para que os Eguns lá permaneçam e não fujam para sair pelo mundo, atrapalhando a vida das pessoas como um todo. Ogum também é cultuado na praia assim como os demais Orixás (explicados anteriormente). Suas cores são
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Sincretismo afro-católico foi uma maneira encontrada pelo negro escravizado de burlar as imposições do opressor. Sendo assim cada um dos deuses do dominador foi relacionado a um de seus Orixás, conforme algumas características semelhantes entre ambos, que lhes permitiam rezar para os Orixás quando forçado a participar de um culto que não éra o da sua Religião. Sendo assim Orixá também passou a ser chamado de Santo ou Anjo-da-guarda, Axé de Reza e São Pedro que tem em mãos na sua imagem esculpida uma chave, de Bará Olodè. 16

a combinação do verde com o vermelho e no caso de Ogum Adiolá acrescenta-se o branco. Seu número é o sete, dia da semana a quinta-feira e seu sincretismo afro-católico, São Jorge. Muito comum nas procissões de 23 de Abril em meio aos gritos de “viva São Jorge!”, ouvir-se gritos de “Ogunhê!”, que é sua saudação no batuque. Orixá Oyá como é chamada sua manifestação jovem, é o mesmo Orixá Yansã, em sua forma mais madura. É o primeiro Orixá feminino a ser cultuada na hierarquia GêgeIjexá. Está associada aos ventos, raios e tempestades. Muito comum entre os batuqueiros ao se perceber uma forte ventania, dizer-se que a Oyá está “abanando a saia”. Também rege a sexualidade feminina e, por conseguinte, a sedução e as paixões; é a “dona do teto” e da panela, portanto para os batuqueiros, quem tem Oyá nunca fica desabrigado, e nem passa fome. Pelo fato de dominar os Eguns, é sempre invocada quando o problema se trata de uma possível perturbação causada por estes espíritos não evoluídos. Por ser um Orixá diretamente associado a Ogum, é cultuada nos mesmos lugares e em companhia deste Orixá, sendo que aceita melhor suas oferendas, se depositadas junto a uma pitangueira, que é uma árvore consagrada a este Orixá feminino. Suas cores são a combinação do vermelho com o branco, dando ênfase ao vermelho. Seu número é sete, seu dia da semana a Quintafeira e a Terça-feira por estar também associada a Xangô; seu sincretismo afro-católico é Santa Barbara. Orixá Xangô é associado à figura de um rei. Rege a justiça, as leis, a sabedoria, o equilíbrio, o trovão e, por conseguinte, o som. Por isso a ele estão associados a música, o rufar dos tambores, a capacidade de tomar decisões sábias e justas; por isso Xangô é o Rei do batuque, sendo consagrado a ele uma dança chamada Alujá. É no momento do Kasun9, regido por Xangô também, é que tudo o que foi feito em uma obrigação é avaliado por todos os Orixás. Seus elementos na natureza são o fogo, os trovões e as rochas. A ira deste Orixá é comparada à erupção de um vulcão. Seus lugares de culto são a pedreira, as rochas expostas no topo dos montes e a praia. Quanto mais alta for a localização da pedra onde for
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Axerê é a forma assumida às vezes pelo Orixá após a possessão, diz-se ser a sua manifestação infantil, criança, às vezes também chamado de Erê. 9 Kasun também chamado de “Balança”, é uma dança do batuque, em que apenas os adeptos que são Prontos podem participar. Forma-se uma roda com os Prontos de mão dadas voltados para o centro do semicirculo, onde ao rufar dos tambores muitas possessões são provocadas. É um momento de extrema seriedade para os batuqueiros pois acaso nenhuma possessão ocorra é considerado que as oferendas não foram aceitas, algo saiu errado e deverá ser refeito. E acaso as mãos se soltem antes do término dos toques, diz-se que a Balança “rebentou”, e é indicativo de que um dos presentes ao batuque morrerá em breve. 17

depositada a sua oferenda, melhor para o batuqueiro. É um orixá que não utiliza a bandeja como recipiente para sua oferenda, devendo esta ser servida em uma gamela de madeira, sendo que, algumas nações também o fazem em um alguidar de barro. Aos Orixás Xangô e Oxum são atribuídos os Orixás Ibejis ou Bejis (pronuncia-se Bedis), que são os filhos destes Orixás, portanto, Orixás criança. Xangô de Ibeji, o masculino e Oxum de Ibeji, o feminino; as oferendas a estes dois Orixás, além da praia, podem ser feitas também em uma praça. Seu número é seis, suas cores o branco e o vermelho, dando ênfase ao branco. Uma vez ouvi do meu amigo, Babalorixá Gelson de Xangô Aganjú (Nação Cabinda), que se usa o branco e o vermelho, porque não há como representar materialmente a luz de um raio associado à cor do fogo. Para Xangô de Ibeji usa-se o colorido, lembrando muitos confetes em uma festa de criança. Seu sincretismo afro-católico: São Cosme e Damião, São Jerônimo e São Miguel Arcanjo.

Figura 4 – No sincretismo afro-católico, Xangô Aganjú é São Miguel Arcanjo.

Orıxás Odé e Otim: São um casal de Orixás jovens, não-crianças como os Ibejis, porém, não-adultos como os demais. Como o próprio nome da língua yorubah diz, Odé é caçador, sendo a entidade masculina e tendo Otim como sua companheira. Segundo a lenda, Odé caça, mas fica com pena dos animais que abateu, então os dá para Otim, que muito gulosa, os devora no ato. Por isso dizem ser Otim uma jovem gordinha, e como é o Orixá Adjuntó de Odé, a maioria de seus filhos tende a serem rechonchudos. Dificilmente

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Odé tem outro Adjuntó que não Otim, mas há Bacias que também cultuam Oxum Epandá como Adjuntó também de Odé. Não se costuma entregar o Orí de um filho-de-santo para Otim, permanecendo sempre esta como Orixá Adjuntó, sendo sempre Odé o Orixá de “cabeça” da pessoa, salvo quando “casa-se” com Oxum, podendo, neste raro caso, ser Ele o Orixá Adjuntó. Pessoalmente não conheço pessoas que sejam filhos de Otim, tampouco vi este Orixá manifestado em alguma cerimônia religiosa; porém, alguns irmãos de religião me relataram existir tais filhos de Otim. Como estes Orixás são cultuados como sendo jovens, não há neste caso uma subdivisão como no caso dos Barás e dos Xangôs. Odé, filho mais jovem de Yemanjá, destemido e curioso como os jovens, acompanhado de Otim, embrenhou-se na mata em longas expedições, desbravando horizontes nunca antes visitados. Por isso é tido como o Orixá da prosperidade, pois se Bará é o Orixá que “abre os caminhos”, Odé é quem sabe onde estes caminhos irão chegar, tendo assim como o restante do Orumalé, fundamental importância no Batuque. Odé e Otim também regem a fertilidade e a reprodução de toda a fauna. Têm como símbolos: o arco e flecha e o cântaro. Seu local de culto, além da praia, é a mata, preferencialmente o interior desta, sendo a fauna regida por este Orixá. Suas cores são o azul escuro, e a soma do Azul escuro com o branco (as consagradas a Otim). Seu dia da semana é a quarta-feira, e seu sincretismo afro-católico: São Sebastião (Odé) e Santa Efigênia (Otim). Orixá Ossanha: é o senhor das folhas. A este Orixá pertencem todas as folhas e ervas utilizadas no culto. A lenda diz que foi Oyá que abanou a saia e fez com que os ventos espalhassem as folhas, para que, desta forma, os demais Orixás pudessem apoderarse de algumas, mas que, de maneira geral, pertencem mesmo é a Ossanha. Também se conta que este Orixá teve uma das pernas amputadas, por isso na maioria das vezes, quando manifestado, ele dança e se movimenta numa só perna. Logicamente que Ossanha rege a flora, e devido ao poder de cura das plantas, sendo ele o detentor do conhecimento sobre a eficácia de cada uma delas, é um dos Orixás “médicos” do Orumalé. Estando ligados a Ossanha além da homeopatia, o conhecimento de cura das doenças ligadas ao esqueleto ósseo humano. As oferendas a Ossanha devem ser entregues no interior da mata, sendo o coqueiro a árvore consagrada a este Orixá. Como se torna cada vez mais difícil encontrar áreas de mata dentro da cidade, é muito comum depositarem suas oferendas em áreas gramadas junto a coqueiros ou palmeiras, (praças, por exemplo), ou até mesmo junto a

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figueiras, que é uma árvore consagrada a outro Orixá “médico”, mas que mesmo assim, é aceito de bom grado por Ossanha. Suas cores são a soma do verde e do amarelo, e a mistura destas, que resulta em um verde bem clarinho. Seu dia da semana é a sexta-feira e o seu sincretismo afro-católico, São José. Orixá Obá é um Orixá guerreiro assim como Oyá. A lenda diz que este Orixá não possui uma das orelhas (que ela própria a teria decepado), pois ludibriada por Oxum, teria oferecido sua orelha em um Amalá10, para conquistar o amor de Xangô, cujo Orixá ambas disputavam. Logicamente que Xangô a repudiou, casando-se então com Oxum. Quando manifestada, é facilmente identificada, pois costuma dançar com uma das mãos tapando a orelha que decepou. É um Orixá que não costuma possuir “cavalos de santo”11 homens. Pessoalmente, nunca vi Obá manifestada em um homem. A Obá está atribuída a revolta, e se Ogum é o dono da espada, é Obá quem rege a Lâmina em si. Portanto, é sempre este Orixá que anuncia, junto com os Orixás “médicos”, no jogo de búzios, se uma pessoa irá submeter-se a uma intervenção cirúrgica, por exemplo. A Obá é atribuída a praticidade, as máquinas de uma forma geral, sendo um de seus símbolos a roda. Dizemos que “é Obá que faz a vida do batuqueiro andar, seguir adiante”. Portanto, este Orixá rege o mundo automobilístico, e, ao lado de Bará, os caminhos. Como Obá é guerreira, pertence ao grupo dos Orixás ditos “frenteiros”, e os lugares onde recebe suas oferendas são o cruzeiro, a mata e a praia. Sua cor é o rosa, seu dia da semana, a segunda-feira, e o sincretismo afrocatólico deste Orixá, Santa Catarina. Orixá Xapanã: é um Orixá médico do batuque. A ele estão associadas as enfermidades e pestes que costumam atacar as pessoas. É o Orixá da varíola, das doenças de pele e da cólera. Conta a lenda que este Orixá quando nasceu era uma criança feia e doente, com o corpo tomado de feridas; então foi abandonado à beira da praia por sua mãe Nanã Burukú. Yemanjá que assistiu tudo teve pena da criança, a qual levou consigo para o Oceano, curando-a de todas as suas doenças. Xapanã cresceu e se tornou mestre na arte da cura e no conhecimento das poções utilizadas para estes fins, por isto rege os médicos e os
Amalá é a comida preferida de Xangô, preparado a base de um pirão de farinha de mandioca, onde se adicionam um molho de carne de peito bovina com mostarda, servido em uma gamela junto com bananas e maçã. Pode sofrer muitas variações na sua forma de preparo, chegando a mais de trinta pratos diferentes de Amalá.
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farmacêuticos. Costuma-se dizer que os filhos de Xapanã são exímios feiticeiros. É o ultimo Orixá do dendê na hierarquia mítica, considerado bravo e impertinente. Todos se levantam em sinal de respeito quando iniciam os toques de tambor homenageando este Orixá. Seus lugares de culto são o cruzeiro e a mata, devendo nesta, sua oferenda ser entregue em uma figueira (árvore que lhe pertence), portanto, sagrada para os batuqueiros. Abençoadas são, as Casas de Nação que possuem uma figueira em seu terreno, pois nela podem ser feitos muitos Axés de cura, fato que é muito raro, uma vez que se trata de uma árvore de grande porte que ocuparia vasto espaço dentro do terreno. Suas cores são o roxo, ou a combinação do vermelho e preto. É cultuado na Quinta-feira, mas há Lados que o cultuam na quarta-feira, e seu sincretismo afro-católico é São Lázaro e Cristo Senhor dos Passos (Imagem de Jesus carregando a cruz). Orixá Oxum: é quem rege a fecundidade feminina, os recém nascidos, o ouro e, por conseguinte, as riquezas, a fortuna. É o Orixá dos doces, das guloseimas, sendo o quindim seu predileto. Se Oyá é o Orixá que rege as paixões, é Oxum quem rege o amor. Além da Oxum de Ibeji, cultua-se outras três qualidades de Oxum, que vão da jovem à velha. Há Nações que cultuam uma quinta qualidade de Oxum, denominada Olobá. É Oxum a esposa preferida de Xangô, com quem se casou. Junto com Yemanjá e Oxalá, constitui-se o grupo dos “Orixás do mel”, portanto não são Orixás guerreiros. Oxum é a dona das águas doces, portanto seus lugares de culto são as praias de rios e lagos; no mato serve-se as oferendas a Oxum junto a uma cachoeira. Tida como a mais vaidosa dos Orixás, em suas manifestações no batuque, é comum na coreografia de sua dança, Oxum pentear seus cabelos enquanto olha-se num espelho. Adora flores e perfumes e, durante os cânticos em sua homenagem, este Orixá costuma colocar perfumes em todas as pessoas que estiverem presentes na festa. Oxum é muito popular. Cultuada na data de 8 de Dezembro em Porto Alegre - RS, as margens do Rio Guaíba, costumam ficar repletas de oferendas dedicadas a este Orixá, tendo a secretaria de cultura da capital, inaugurado na praia de Ipanema, zona sul desta cidade, um monumento em homenagem a Oxum. Sua cor é o amarelo, seu número, oito e o dia da semana, sábado. O sincretismo afro-católico de Oxum são as diversas Nossas Senhoras, sendo Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Rosário, as mais difundidas.
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"Cavalo de santo" é como são chamadas as pessoas que sofrem possessão de seus Orixás de cabeça. No batuque estas pessoas não sabem que sofreram tal possessão, e é proibido que se conte a elas tal fato, sobe pena de sofrer severo castigo por parte dos Orixás quem infringir esta regra. 21

Orixá Yemanjá é a rainha do mar. Está associada à figura materna da mãe educadora que rege as crianças, numa idade posterior a de recém nascido, portanto, é uma mãe severa quando seus filhos aprontam alguma bobagem. Mas como é mãe os perdoa facilmente. Mãe dos Orixás Bará, Ogum e Odé, foi Yemanjá quem curou e criou Xapanã, sendo que Nanã Burukú é cultuada no batuque como uma qualidade de Yemanjá velha. Na língua Yorubah Yemanjá quer dizer “mãe dos filhos peixe”, por isso muitas vezes a figura de Yemanjá está associada a uma sereia. Orixá de grande popularidade no Brasil e, também, em Porto Alegre – RS, demonstrado pelo fato de a cidade ser banhada por águas doces e realizar a popular procissão de Nossa Senhora dos Navegantes no dia 02 de Fevereiro (feriado na capital gaúcha), que agrega um enorme numero de pessoas e barcos. Também, são muito conhecidas as festas de Yemanjá, nas cidades de Tramandaí – RS e Rio Grande – RS. Seu lugar de culto é a praia de mar, mas também aceita oferendas nas praias de águas doces como os demais Orixás. Seu dia da semana é a Sexta-feira e suas cores, o azul claro e a combinação deste com o branco. Seu número é o oito, e o sincretismo afrocatólico é Nossa Senhora dos Navegantes. Orixá Oxalá é o patriarca dos Orixás. O maior na hierarquia mítica de culto, estando acima dele apenas Olodum. Oxalá é considerado pai dos Orixás; portanto, pai de todos os mortais. As decisões tomadas por este Orixá, por todos os demais devem ser acatadas (inclusive o perdão). Logo Oxalá também vem a ser o Orixá da misericórdia, a quem todos recorrem quando desejam obter perdão por algum erro cometido. Oxalá é calmo e pacificador, associado à paz e à luz. Seu elemento na natureza é o Sol e seus lugares de culto são os mesmos de Yemanjá e Oxum. Como Oxalá é o patriarca dos Orixás e pai de todos mortais, se um filho é consagrado a este Orixá, mesmo que não seja Oxalá o “Orixá de cabeça” deste; Oxalá tomará conta e não mais devolverá ao Orixá original, fato que não acontece com os demais Orixás. Por exemplo, se uma pessoa for filho de Xangô, e vier a ser acometido por uma doença grave, que lhe tragam problemas mentais e Oxalá decidir que passará a tomar conta da cabeça deste filho, tal pessoa será consagrada a Oxalá e provavelmente alcançará a cura. A partir de então, esta pessoa será filho de Oxalá, e não mais, de Xangô como de início. Porém, para isso, Oxalá precisa ter requerido a cabeça deste filho. Mas se a cabeça deste mesmo filho fosse entregue a qualquer outro Orixá,

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Xangô imputaria ao filho e ao babalorixá que cometeu tal ato, diversos castigos e perturbações, até que obtivesse de volta o posto de “Anjo de guarda” desta pessoa. É uma das qualidades de Oxalá, chamado de Ifá, que rege o Jogo de Búzios, que vem a ser o instrumento pelo qual o Babalorixá ou Yalorixá se comunica com os Orixás. Quando Oxalá se manifesta em uma festa, é logo coberto com um Alá12, e conduzido a sentar-se em um banquinho, próximo ao quarto-de-santo, pois é velho e locomove-se com dificuldade, além de enxergar muito pouco. Mas há duas qualidades de Oxalá que são jovens e, portanto, não precisam ser cobertos por Alás e acomodados em banquinhos, pois dançam no centro da roda de batuque com os demais Orixás. Seu dia da semana é o Domingo, dia no qual, por pertencer ao Pai maior, devemos todos descansar. Somente em situações emergênciais se recorre aos Orixás neste dia. Seu número é o oito. Suas cores são o branco e combinação deste com o preto e o sincretismo afro-católico é a Santíssima Trindade, ou seja, Pai (Deus), Filho (Jesus) e Espírito Santo.

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Alá é um pano branco que simboliza a paz, o perdão, a misericórdia e a sabedoria, caracterizações que são atribuídas a Oxalá. 23

Quadro de Elementos dos Orixás no Batuque Gêge-Ijexá *
Orixá Caracterização (Axé) Lugares na Natureza Elementos e Fenômenos Naturais Bará
As oportunidades e os negócios financeiros. A sexualidade masculina Encruzilhadas. O movimento, a cinética. Cachorro Manga Segunda-feira Vermelho

Animais

Frutas

Dia da Semana

Cores

Ogum

As batalhas, o trabalho e as vitórias.

Os campos, as matas e as encruzilhadas

Ferro, metais em geral.

Cobras e marimbondos

Laranja, butiá e abacate

Quinta-feira

Mistura de Vermelho, verde e branco

Oyá

As paixões, a união, a sexualidade feminina

Os campos, as matas e as encruzilhadas

O raio e os ventos

Baratas e vespas

Pitanga, maçã e ameixa

Quinta-feira e Terça-feira

Mistura de vermelho (predominante) com branco

Xangô

O equilíbrio e a justiça

Pedreira, topo de morros e praças

As pedras, o fogo e o trovão.

Rato

Banana

Terça-feira

Mistura de vermelho com branco (predominante)

Odé e Otim

A prosperidade humana, fertilidade e reprodução da fauna

Interior das matas

A floresta

Javali e passarinho

Cana-deaçúcar e coco

Quarta-feira

Mistura de azul escuro (predominante) e branco

Ossanha

A cura pelas plantas e a traumatologia

Interior das matas (coqueiro, palmeira)

As folhas e as ervas em geral

Tartarugas

Figo

Sexta-feira

Verde limão, e a mistura de verde com amarelo

Obá

As mudanças da vida, as revoltas e revoluções

As matas, os caminhos e as encruzilhas

A transformação

Cabrita Mocha

Abacaxi e Romã

Segunda-feira

Rosa

Xapanã

Enfermidades e suas curas

As matas (figueira) e encruzilhadas

A morte, a doença e a cura

Moscas e formigas

Uva roxa

Quarta-feira

Roxo ou a mistura homogênea de preto com vermelho

Oxum

Amor, a fortuna, os recém nascidos, a fecundidade feminina e a vaidade

Cachoeiras e praias de rios e lagos (águas doces) Praias de mar

Os rios e a chuva

As aranhas e as abelhas

Mamão, melão e bergamota

Sábado

Amarelo ou amarelo com um pouco de vermelho ou branco

Yemanjá Oxalá

O pensamento, o zelo materno pelos filhos A cura, a vidência, o perdão e a paz

O mar

Os peixes

Melancia e uvas verdes

Sexta-feira

Azul claro, ou azul claro com branco

Praias de mar

O sol

Caramujos e pombos

Morango e pêra

Domingo

Branco, ou branco (predominante) com preto

* Dados coletados da sinopse de Norton Corrêa (1992, P.179-199), e ampliados com dados específicos da Nação de Gêge-Ijexá.

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O Espaço aos Olhos do Batuqueiro. Tendo-se as informações elementares a respeito dos Orixás, os Deuses do Batuque, podemos ver como é o espaço aos olhos de um batuqueiro. Antes, porém, é importante tomar por referência algumas considerações sobre espaço, a fim de sustentar estas observações em bases científicas. Tomamos como referência para nossas finalidades o conceito expresso por Milton Santos, como: “... formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como um quadro único no qual a história se dá.” (1997, p 51). Para Kant o espaço não possui existência real: “... é considerado como a condição de ocorrência de fenômenos, não como uma determinação dependente deles, e constitui uma representação a priori que serve de fundamento, de uma maneira necessária, aos fenômenos exteriores” (KANT, 1972, P.66). Ao nos referirmos ao espaço denominado Mercado Público de Porto Alegre, citamos os fenômenos ligados ao Batuque (que lá acontecem), a utilização deste espaço, sua relação com o tempo e os aspectos míticos que o envolvem, pois o lugar existe independentemente desses fenômenos. Para um melhor entendimento desta mítica do espaço, citamos Reynaud: “Tempo e espaço têm um poder de fascinação ao qual quase sempre é difícil escapar: o tempo enobrece tudo e confere aos eventos passados uma grandeza, um atrativo, um embelezamento que eles não têm no presente. Também o espaço favorece o desenvolvimento dos sonhos e dos mitos” (REYNAUD, 1986, P.19). O fato histórico do Assentamento do Orixá Bará no mercado público, aliado às disposições arquitetônicas deste espaço, que é uma cruz (cruzeiro), a concentração de um comércio voltado para as Religiões de Matriz Africana13, remetem ao uso deste espaço pelos batuqueiros, considerando-o sagrado. Conforme Rosendahl o sagrado é absolutamente diferente do profano, relaciona-se a uma divindade enquanto o profano não, e a manifestação do sagrado chama-se de hierofania. “O ser humano, ao aceitar a hierofania, experimenta um sentimento religioso em relação ao objeto sagrado. Não se trata de uma veneração do objeto enquanto tal, e sim da adoração de algo sagrado que ele contém e que o distingue dos demais” (ROSENDAHL,
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Batuque, Umbanda, Quimbanda e Candomblé, entre outras.

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1996, P.27). Se pensarmos no lugar, ao invés do objeto, compreenderemos que a presença do divino (Orixá Bará), no Mercado Público, o diferencia dos demais mercados da capital, e o remete ao sagrado. Para o batuqueiro, os Orixás estão presentes também nas praias, nas matas, nas praças e outros; o que fará com que cada um desses lugares, seja considerado sagrado de uma maneira que os diferenciem uns dos outros. “Para o homem religioso, a natureza não é exclusivamente natural, está sempre carregada de um valor sagrado” (ROSENDAHL, 1996, P.64). Para Chowbart de Lauwe (Paris, 1952) o espaço social está dividido em objetivo e subjetivo, sendo o espaço social subjetivo definido como o “espaço tal como o percebem os membros de grupos humanos particulares”14; e esta visão subjetiva do espaço social é claramente perceptível quando nos referimos aos espaços sagrados do batuque, no texto que segue. Quando uma pessoa começa a freqüentar uma Casa de Batuque, vai incorporando ao seu cotidiano, passo a passo, todo o simbolismo que envolve esta Religião, sendo que o ritual onde o mundo será “apresentado” ao batuqueiro será o chamado Passeio. É o encerramento de um ciclo ritual de uma Obrigação. O passeio inicia na Casa de Batuque onde o filho fez a Obrigação e será realizado no ultimo dia do ciclo ritual, caso neste dia não esteja chovendo. Pela manhã, em jejum, os iniciados15 saem da Casa de Batuque, acompanhados do Babalorixá ou de um de seus Padrinhos, e vão deslocar-se primeiro a uma igreja, onde irão rezar. Durante o deslocamento o grupo não pode passar em frente a cemitérios e evitam, também, os Hospitais, porque são lugares considerados negativos devido à presença dos Eguns16. Note que estes lugares, também, são considerados sagrados; porém, no sentido de serem evitados. O ato de ir a uma igreja durante o passeio, representa além do respeito à Religião praticada por outras pessoas, o aprendizado do sincretismo, que foi muito utilizado pelos negros escravos. Normalmente, visita-se uma igreja, mas podem ser visitadas mais de uma,
LAUWE, P. H. Chombart de et alii. Paris et l’agglomération parisienne. Op. Cit. Também LAUWE, P. H. Chombart de. Essais de sociologie. Paris, 1966. In: SANTOS, M. e SOUZA, M. A. de. (orgs.). O espaço interdisciplinar. São Paulo: Nobel, 1986. 15 Iniciado é como chamamos a pessoa que fez a obrigação, que assumiu o sacerdócio, que se tornou filho-desanto ou até mesmo Babalorixá. Fará este ritual todas as vezes que fizer obrigação. 16 Espíritos dos mortos que não vão para o Orun, ficam vagando pelo mundo, tentando importunar as pessoas. 26
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sendo elas: as Igrejas de São Jorge, Santo Antônio e de Nossa Senhora do Rosário, com maior freqüência pelos batuqueiros.

Figura 5 – Adeptos batem-cabeça em uma das igrejas visitadas no passeio.

Os participantes do passeio, normalmente, estarão vestidos com seus Axós17 e quando não for possível, estarão vestindo roupas comuns, porém, nunca roupas pretas ou muito escuras. Estarão com a cabeça coberta por uma trunfa ou lenço claro, sendo que na falta destes, podem ser utilizados bonés ou semelhantes. O segundo local a ser visitado em Porto Alegre é o Mercado Público, localizado no centro da cidade. Conta a história do Batuque, que neste mercado foi feito o assentamento de um Orixá Bará pelo Príncipe Custódio18, sendo que a disposição arquitetônica deste prédio, que forma uma encruzilhada no seu centro, é atribuída pelos adeptos a este fato histórico. Muitos políticos importantes da época da inauguração desta obra, conforme relatos populares, estariam ligados religiosamente as este príncipe africano. Segundo Verardi: “E nesses dias o príncipe recebia a visita da gente mais ilustre da cidade, inclusive do presidente do Estado, Borges de Medeiros que, conhecendo a ascendência daquele homem sobre a população de cor, ia felicitá-lo, talvez mais por motivos políticos do que por outra coisa” (VERARDI, 1990, P.90).

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Em Yorubah = roupa, que é a roupa típica utilizada pelo batuqueiro nas Festas de Batuque. José Custódio Joaquim de Almeida (1832 a 1934), de São Batista de Ajudá no Daomé, chegou no RS em 1864 e viveu em Porto Alegre até o fim de seus dias. Jorge Verardi (1990, P.87 – 92). 27

No interior do mercado, os iniciados pegam feijão, milhos, erva-mate, arroz, peixes e outras especiarias, simbolizando a fartura que desejam para suas vidas, ao término daquela obrigação. Junto às entradas e na encruzilhada central do mercado, depositam milho torrado, pipocas, balas de mel e moedas; que são itens que constituem uma oferenda ao Bará. Na parte central beijam simbolicamente o chão. Algumas Bacias têm por prática bater-cabeça19 neste local, sempre ao som da sineta que é tocada pelo Babalorixá. Atravessa-se o mercado saindo na porta oposta que dá acesso à Avenida Mauá, pois antigamente não havia o muro que separa o rio, próximo local a ser visitado. Com a construção do muro, muitos passaram a ingressar no mercado pela porta que dá acesso à Praça Parobé, saindo pela porta da Avenida Siqueira Campos, seguindo em direção à praia do gasômetro. Há Bacias que fazem das duas formas, executando um trajeto em forma de cruz. Percebemos que a mudança da disposição geográfica em torno do Mercado Público, influenciou uma adaptação do ritual ao uso do espaço sagrado. Pois uma barreira física fez com que o grupo mantivesse o culto, porém altera-se em parte a sua forma de ritual.

Figura 6 – Porta de entrada do Mercado Público de Porto Alegre – RS, que dá inicio a travessia com saída na porta de acesso a Avenida Mauá.

O grupo segue à praia do gasômetro e cumpre de forma geral o seguinte ritual: pede-se licença ao Bará Agelú, que é o Orixá que controla o fluxo de pessoas na praia, em

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Ato de deitar-se ao chão, colocando a testa junto ao solo, simbolizando um respeito maior, uma grande adoração, uma grande gratidão também. Eqüivale ao ato de curvar-se diante do rei. 28

seguida, cumprimenta-se junto à água os Orixás que pertencem a esta, ou seja, Oxum, Yemanjá e Oxalá. Acendem-se velas e alguns depositam flores na praia. Depois seguem de volta à Casa de Batuque, e na chegada, pedem licença ao Bará Olodê, e batem-cabeça no quarto-de-santo, depositando sobre um Alá estendido no chão, todos os Axés que adquiriram no mercado (milho, peixe, etc...). Somente a partir de então os iniciados poderão voltar a sentar-se à mesa, e lhes serão servidos um vasto banquete para que “quebrem” o jejum. Este ritual simbólico também representa a fartura, a prosperidade, e muitas vezes é realizado um intercâmbio entre Casas de Batuque que possuam ligação litúrgica direta, ou simplesmente amizade. Muitas vezes os iniciados que fazem obrigação em um Ilê, quebram o jejum em outro Ilê, e vice-versa, representando uma troca mútua do desejo de fartura, de um bom Axé; ou apresentando os iniciados a outra Casa de Batuque, que representa neste caso o ato de apresentar os novos Filhos a Comunidade do Batuque.

Figura 7 – Feirante do Mercado Público, doa alguns peixes, que serão depositados no quarto-de-santo, simbolizando a fartura.

Durante o passeio, muitos ensinamentos que foram passados antes e durante a Obrigação aos iniciados, serão postos em prática. Dentre eles, podemos citar: - A evitação20 a lugares negativos como os cemitérios; - Evitar também andar ao sol sem um boné, trunfa ou similar que lhe cubra a cabeça, expondo assim o seu Orí 21 aos raios solares intensos;
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Aquilo que não constitui uma proibição total, mas que deve ser evitado. Orí em yorubah, quer dizer cabeça.

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- Saudar aos Orixás sempre que se chegar a um lugar sagrado antes de adentrar neste (a praia, a mata, o Mercado Público, uma Casa de Batuque...). - O uso do Sincretismo Religioso acaso se esteja vivendo em uma sociedade que não lhe permita cultuar seus Orixás livremente. Também podemos observar durante o passeio, diversas manifestações de apoio e de repúdio ao Batuque, o que vai despertando junto ao iniciado uma nova visão do espaço onde ele habita. Cito o meu passeio, pois, enquanto padrinho depositava ao chão do Mercado Público os Axés e uma senhora que passava pelo local proferia o seguinte comentário “...relaxado sujando o chão do mercado”. Enquanto um comerciante postado à frente da sua banca, esfregava as mãos e fazia gestos solicitando que meu padrinho jogasse um pouco de Axé junto a sua porta, e quando ele o fez, proferiu as seguintes palavras “... Alupo22 meu Pai, trazendo um bom Axé p’ra mim e p’ros meus negócios”. É claro o entendimento de que o “ser batuqueiro”, não se dá apenas após a realização de uma obrigação, ou seja, da oficialização de um sacerdócio. Há muitas pessoas que são por crença batuqueiros, não assumiram o sacerdócio, não fizeram uma obrigação, mas estão ligadas as Casas de Batuque por sua fé. Estes freqüentam as Festas como espectadores e consultam os búzios das Yalorixás e Babalorixás para se aconselharem diante das dificuldades do seu dia a dia. É muito comum pessoas baterem à porta dos Ilês trazendo flores, presentes ou pedindo que seja feita uma oferenda para que elas a entreguem em agradecimento a uma graça alcançada. Às vezes, trazem imagens de santos católicos, anéis, pulseiras e colares para serem bentos e usados no seu cotidiano. Como recusar benzer uma imagem de São Jorge, trazida por uma pessoa que fez uma promessa a Ogum e alcançou a graça? Jorge da Capadócia é um santo católico, e Ogum um Orixá, mas certamente, aquele momento não seria o ideal para explicar àquela pessoa a diferença entre ambos. A identidade religiosa está relacionada à historicidade daquela religião, portanto ao tempo e também, à “espacialidade” desta. “Todavia ao destacarmos a identidade religiosa, também estamos diante de uma construção que remete à materialidade histórica, à memória coletiva, à “espacialidade” da própria revelação religiosa processada sob determinada cultura.” (GIL, 2001, P.48-49).

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Alupo é a saudação ao Orixá Bará.

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Como os fiéis do Batuque não possuem uma dedicação exclusiva a esta religião, nem os Babalorixás e Yalorixás, às vezes, possuem tal exclusividade. Muitas vezes ocorrem certas “inversões” sociais dentro da comunidade do Batuque. Na Casa de Batuque a hierarquia é ditada conforme seu grau de Iniciação religiosa, apesar de todos respeitaremse como Irmãos perante Olodum, em primeiro lugar. Então, sempre pedimos uma benção a nossa Yalorixá e nossos Padrinhos, beijando-lhes as mãos em sinal de respeito a seus Orixás, não importando se somos Médicos e eles trabalhadores da construção civil, por exemplo. Em uma comunidade, quase todos conhecem os Pais e Mães-de-santo da localidade. Os Ilês são freqüentados por pessoas de diversas classes sociais e não há distinção entre raças, sexo e opção sexual. Inúmeros são os Babalorixás que não são afro-descendentes neste país. E, por ser uma Religião que não restringe opção sexual, talvez seja a Religião com maior número de homossexuais no Brasil. Para que fique mais claro, explico que há restrições quanto ao sexo, mas não quanto à opção sexual, pois o sexo é algo impuro. Um Babalorixá não pode ser pai-de-santo de sua companheira, ou seja, da pessoa com quem tem relações sexuais, mas se a pessoa com quem irá se casar será do mesmo sexo ou não, é de sua livre escolha. Como existem Orixás que são crianças na crença Yorubah (como os Orixás Ibejis sincretizados com os Santos católicos, São Cosme e São Damião e representados por imagens em gesso que figuram dois homens), no Batuque, estatuetas construídas em madeira para simbolizá-los, irão figurar os Ibejis como um menino e uma menina. “Estes e outros detalhes contribuem para mostrar que a cosmovisão batuqueira, apesar de todo o processo chamado sincretismo, das pressões culturais da sociedade dominante, conserva um substrato tradicional africano, que embasa todo o patrimônio cultural do grupo e se opõe, mais do que possa parecer à primeira vista, a cosmovisão ocidental.” (Corrêa, 1992, P.185). Então os mesmos parques e praças, utilizados pelos filhos dos batuqueiros, serão espaços utilizados para culto a estes Orixás, sendo comum encontrarmos oferendas, depositadas junto às cadeiras-de-balanço e, às vezes, junto aos escorregadouros. Então, facilmente, perceberemos que bairros, com uma estrutura, que contenham praças, gramados (verde) e um traçado regular com muitas encruzilhadas, serão espaços muito procurados pelas religiões de matriz africana, para a deposição de oferendas. Cito,

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como exemplo, o bairro Intercap, zona leste de Porto Alegre, que possui as características espaciais descritas. Um batuqueiro, no verão, prefere as praias da Lagoa dos Patos23, ou as piscinas dos clubes, pois não pode lavar sua cabeça com água-salgada. Logo, se vai ao litoral, usa sempre um boné cobrindo seu Orí. Saúda os Orixás logo que chega à areia, e, se entra no mar, ou não mergulha, ou usa uma touca destas utilizadas pelos atletas em competições esportivas. Porque a cabeça, como se pode ver, é um elemento sagrado, pois é no Orí o local onde reside o Orixá da pessoa e ele não pode ser lavado com água salgada. Portanto, se vai ao cabeleireiro, observa se este não está embriagado e se for mulher a profissional que irá trabalhar com seus cabelos (mexer em sua cabeça), se esta não está menstruada; porque as mulheres quando estão menstruadas são consideradas impuras. Logo, é comum chegar um batuqueiro a um salão de beleza, a cabeleireira dizer “Hoje não posso cortar o seu cabelo”, e os demais clientes não entenderem o porquê da profissional não poder atendê-lo nesse dia. Depois de cortados os cabelos, estes não devem ir para o lixo, serão recolhidos e levados junto para serem despachados. No caso da minha Bacia de Religião coloca-se debaixo de uma pedra nas dependências da Casa de Religião. Sendo assim, o batuqueiro evita cortar o seu cabelo em um salão de beleza que seja de seu completo desconhecimento. Lógico que se um mergulhador ou marinheiro tornar-se batuqueiro ou vice-versa, não precisa abandonar sua profissão, aos Orixás cabe o julgamento se determinada regra foi quebrada por simples desleixo ou fundamentada necessidade de seu filho. Os caminhos e as encruzilhadas, espaços sagrados do Batuque, porque nesses lugares podem ser cultuados boa parte dos Orixás do dendê24. Como vimos anteriormente, o Orixá Bará é o primeiro a ser cultuado, portanto o de maior hierarquia quando nos referimos ao espaço denominado encruzilhada. É muito comum encontrarmos nas esquinas, oferendas enfeitadas com papeis vermelhos, contendo milho, pipoca, batata assada, balas de mel e outros Axés que são atribuídos a este Orixá. Também podemos encontrar, porem em menor quantidade, oferendas contendo Axés consagrados a outros Orixás do dendê, como
Nome popular da Laguna Costeira dos Patos, situada na Planície Costeira do litoral sul do Brasil. “No Rio Grande do Sul, houve a formação de litoral amplo, baixo e retilinizado, com extensas restingas que barram as lagunas costeiras dos Patos, Mirin e Mangueira.” (JUSTUS, 1986, P.55) 24 Azeite de dendê é utilizado como tempero nas oferendas dos Orixás de Bará a Xapanã, conforme ordem da hierarquia mítica do Gêge-ijexá. 32
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Ogum, Yansã e Oba. Mas freqüentemente estes espaços são divididos, com oferendas feitas pelos Umbandistas à Entidade Exu, que contém Axés, consagrados a estes, muito semelhantes aos do Bará; porém contendo bebidas de álcool, cigarros, rosas e até chocolate. Encruzilhadas, próximas a lugares, como cemitérios e hospitais, não costumam ser utilizadas para culto ao Orixá Bará, por estarem relacionadas aos Eguns. Sendo, estes espaços, comumente mais utilizados por Umbandistas e Quimbandistas para culto à Entidade Exú. Todas as Casas de Batuque possuem na parte frontal do terreno o Orixá Bará Olodê25, que fica assentado nas casinhas à frente do templo, conforme explicado anteriormente. E as oferendas para este Orixá são despachadas na encruzilhada mais próxima à Casa de Batuque. Nesta mesma encruzilhada, também são despachados os Ecós26, ritual realizado em todas as festas de batuque, e, semanalmente, às segundas-feiras, dia da semana consagrado ao Orixá Bará. Sendo assim, constituem estes espaços, lugares sagrados para o batuqueiro, evitando este, de ficar postado nas esquinas conversando ou farreando junto destes locais. Existe um simbolismo e um respeito religioso associado a elas. “A cruz, como símbolo, está para o ethos do Ocidente como, diria eu, a encruzilhada para o Batuque. Porque o “dono” da encruzilhada é o Bará, orixá do movimento, o princípio dos princípios, o primeiro da hierarquia mítica que subjaz a toda a ordem cósmica. O movimento também está para a encruzilhada como a ação ritual para a liberação e transmissão do “Axé”, a “força que assegura a existência dinâmica, que permite o acontecer e o devir”.(SANTOS, 1976, P-39). A praia, como espaço sagrado do Batuque, deve possuir a seguinte particularidade: o batuqueiro necessita de, no mínimo, dois locais de praias distintos. E, preferencialmente, não muito próximos para a realização de suas atividades religiosas, porque conforme sua crença, a praia, onde se despacha o Aresun27, não pode ser a mesma onde será despachada a

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Do Yorubah, Olo = Senhor + Òdê = Rua, Bará Olodê é o Orixá que possui o domínio das ruas. Axés que funcionam na crença como uma espécie de pára-raios, ou seja, absorvem todas as coisas ruins que poderiam perturbar a Casa de Batuque. 27 Aresun, é o ritual funerário do Batuque. 33

obrigação, ou os trabalhos que forem feitos em prol dos adeptos, já que, uma vez o local relacionado à morte (portanto, algo negativo), não mais estará relacionado à vida. A relação sagrada com a praia dá-se primeiramente pelos Orixás relacionados diretamente com o elemento água: Oxum, Yemanjá e Oxalá. Posteriormente, estende-se ao restante do Orumalé, pois a crença do batuqueiro diz que todos os Orixás devem ir onde está Oxalá, Orixá maior hierarquicamente, a quem se pode fazer oferendas, uma vez que não existem oferendas que possam ser entregues a Olodum. As praias são também amplamente utilizadas como espaço onde são realizados diversos trabalhos no Batuque. É este conjunto de simbolismos e práticas que irão construir a visão do espaço vivenciado pelo batuqueiro, orientando suas escolhas. Onde cortar o seu cabelo, onde confeccionar suas roupas, qual a praia que vai veranear, em qual praia irá cultuar sua religião, onde comprar flores e até mesmo o bairro onde irá morar. Todas estas escolhas geográficas, sociais, econômicas e culturais, serão influenciadas pela sua religião. E por sua vez ,quando ocorre uma “apropriação” destes espaços vivenciados pelos batuqueiros (como é o caso do Mercado Público de Porto Alegre), torna-os partes integrantes da Territorialidade do batuque, conforme Rosendahl: “Os espaços apropriados efetiva ou efetivamente são denominados territórios. Territorialidade, por sua vez, significa o conjunto de práticas desenvolvido por instituições ou grupos, no sentido de controlar um dado território. É nesta poderosa estratégia geográfica de controle de pessoas e coisas, ampliando muitas vezes o controle sobre espaços, que a religião se estrutura enquanto instituição, criando territórios seus” (ROSENDAHL, 1996, P.58). A Territorialidade do Batuque. “No centro da cidade e nas zonas mais antigas, algumas casas de Religião cultuam seu acervo religioso. Na periferia, quase todo quarteirão tem sua casa ou seu terreiro próprio. Alguns pontos são fundidos em suas funções comuns e revalorizados como espaços sagrados: o Mercado Público Municipal, algumas igrejas, as margens do Rio Guaíba, o Parque da Redenção, sem falar nas encruzilhadas, as esquinas de nossas casas e das ruas maiores, as pedreiras e matas que servem como verdadeiros santuários para as

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oferendas batuqueiras. Há quem já tenha referido uma” geografia sagrada “.(PÓLVORA, 1994, P.22-23)”. A questão da territorialidade vai se tornando mais perceptível, ao passo que o iniciado percebe nestes gestos singulares, quem são os seus irmãos de religião28, em que lugares do seu habitat eles costumam estar presentes em maior concentração (como no Mercado Público, por exemplo) e lugares onde lhe será vetada a entrada (como no caso de algumas igrejas). Perceberá que outras religiões também possuem modos singulares de se vestir e portar, quando poderá existir a possibilidade de ser discriminado por sua crença, e, quando lhe será necessário disfarçar ou contrapor-se a este tipo de situação. São formas peculiares de comportamento de uma minoria religiosa, diante da maioria cristã. O Mercado Público de Porto Alegre – RS. No caso do Mercado Público é interessante que, apesar do ritual do passeio existir a mais de meio século, às vezes, não é bem-visto por freqüentadores deste espaço, e até mesmo por comerciantes locais, que pasmem, muitas vezes possuem seus comércios voltados a este público como é o caso das diversas Floras. Podemos atribuir esta antipatia à prática ritualística do passeio, pelo fato de que outras religiões (de matriz africana) não o fazem, como é o caso da Umbanda e do Candomblé recém chegado ao Rio Grande so Sul. Algumas Nações de Batuque o fazem de maneira diferente da descrita neste trabalho. No passeio, enquanto os iniciados ingressam no Mercado Público por uma das portas, para atravessá-lo até a outra extremidade, atrás dele seguem seus irmãos e padrinhos, entoando cânticos ao Orixá Bará e jogando o Axé deste pelo chão do Mercado. Junto às portas e na parte central, também são depositadas moedas. Ocorre que o chão fica repleto de grãos de milho, pipocas e balas de mel; e muitos protestam dizendo que se está sujando o chão do Mercado Público. Ao mesmo tempo outros pedem para que se jogue o Axé aos seus pés ou em sua banca, para que o Bará lhes traga sorte nos negócios. Temos então um conflito entre batuqueiros e não batuqueiros. Afirma Zeny Rosendahl que a interação de sistemas religiosos, o comportamento estratégico das minorias diante de maiorias religiosas dominadoras, e a mistura destas comunidades em áreas de transições, produzirão territorialidades específicas.

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Demais batuqueiros, pessoas que têm a mesma crença.

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“A territorialidade desses sistemas religiosos pode advir de três tipos comportamentais:
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por coexistência pacífica, por instabilidade e competição, e por intolerância e exclusão.”(ROSENDAHL, 1996, P.61).

No caso do Mercado Público de Porto Alegre – RS, temos uma territorialidade de sistema religioso de coexistência pacífica, tanto entre batuqueiros e demais religiões de matriz africana, como entre outras religiões. Soluções para casos como o do passeio que “sujam” o chão do mercado público com os Axés que lá são depositados, requer apenas organização e vontade do poder público. Como sugestão a secretaria de cultura e o departamento de limpeza urbana do município, poderiam organizar horários em que este ritual pudesse ser realizado, além de uma sala no próprio Mercado onde pudessem ser comunicadas pelos religiosos, às empresas responsáveis pela limpeza do lugar, sobre a realização do passeio. Afinal não há nada de “outro mundo” nisto, pois depois de efetuado o passeio, é só varrer. Milhos, pipocas, moedas...não precisam permanecer lá por várias horas, incomodando a sociedade não batuqueira que divide aquele espaço. Quanto à convivência pacifica com outras religiões de matriz africana no Mercado Público, pode-se afirmar que todos recorrem a este lugar para adquirir as diversas iguarias utilizadas no preparo das oferendas aos Orixás. São artigos que variam de velas, perfumes e mel, passando pela aquisição de estátuas de gesso diversas, a ervas, legumes e frutas. O Candomblé, recentemente chegado ao Rio Grande do Sul, interage neste espaço de uma forma mais participativa do que a Umbanda. Porém esta Religião, o Candomblé, possui diferenças ritualísticas de culto que se contrapõem ao Batuque em alguns aspectos como: Dançar para os Orixás sem estar com os pés descalços, possessão por mais de um Orixá e permissão para que estes sejam fotografados e filmados quando manifestados em alguém; são exemplos de contraposição ritualística. Esta inserção na territorialidade do batuque registrou-se no dia 08 de Dezembro de 2004, no centro do Mercado Público, quando um babalorixá de Candomblé disponibilizou um barco dedicado a Oxum, e lá permaneceu da manhã à noite. E no decorrer do dia, o

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público interessado pôde presentear a Oxum e ouvir o som de Atabaques desta religião. Ao término, o barco cheio de presentes, foi conduzido à praia29. Esta foi uma iniciativa que muitos se perguntaram porque não havia sido realizada antes, por babalorixás do batuque. Mas se analisarmos o contexto histórico, veremos que o Candomblé se desenvolveu na sociedade baiana, com maior número de negros que, por sua vez, não oprimiu práticas não-cristãs com a mesma intensidade que o fizeram aqui no sul. Logo, o Candomblé se popularizou, notoriamente, contando com personagens importantíssimos para esta divulgação como o escritor Jorge Amado, o Antropólogo francês Pierre Verge, e artistas como Gilberto Gil, Clara Nunes, Caetano Veloso e outros. Além dos fundamentos religiosos do Batuque, como a proibição de fotos e filmagens dos Orixás manifestados (o que é permitido no Candomblé), fizeram do Batuque uma religião muito mais restrita, e menos aberta à mídia. Então, percebemos que culturalmente o Candomblé sabe divulgar de forma melhor a sua religião do que o Batuque, que se encontra na fase inicial deste processo e que muito tem aprendido, com o Candomblé neste aspecto. A presença de um barco de Oxum no Mercado público atraiu a fé da comunidade de religião, de matriz africana, que passava por lá, mas pode ser visto também pela comunidade do Batuque como uma situação conflitiva se analisarmos aspectos como: A presença de uma barco dedicado a Oxum, que é um Orixá de praia, num cruzeiro sagrado dedicado ao Orixá Bará, e A possibilidade deste evento, ser o precursor de outros eventos que possam se contrapor aos preceitos do Batuque. Poderiam não ser bem vistas pela comunidade do Batuque, e conduzir a conflitos futuros, se os batuqueiros viessem a sentir ferida sua condição de territorialidade. Neste caso, porém, nada se registrou além de alguns breves comentários a respeito do fato. Para melhor entendimento do que vem a ser a comunidade do Batuque, cito Norton Corrêa. “Denomino de “comunidade do Batuque” ao conjunto formado pelos praticantes mais efetivos do culto, isto é, aqueles que, ou cumpriram pelo menos iniciações rituais menores, ou freqüentam mais regularmente os templos, sendo produtores do ethos batuqueiro: em outras palavras, que têm em comum um conjunto articulado de crenças e símbolos que lhe são próprios. A comunidade se estabelece como uma grande rede de
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Conforme publicado no Jornal Hora Grande (Hora Grande, 2005, p. 3).

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relações sociais composta, por sua vez, pelas redes similares menores que cada templo estende em torno de si e nas quais os indivíduos se movem.”(CORRÊA, 1992, P.65). As Igrejas, o cristianismo e o espaço religioso sincrético. Quando nos referimos às igrejas, aqui tratadas como territórios da Igreja Católica institucional, nos referimos à territorialidade sincrética do Batuque, pois neste caso, diversos Orixás foram sincretizados com Santos Católicos, a fim de que se permitissem cultuar os Orixás, contornando as dificuldades impostas pela opressão da sociedade cristã dominante. “Do ponto de vista geográfico, o espaço religioso sincrético pode ser produzido por meio do comportamento dos adeptos e/ou pode ser percebido na organização da idéias religiosas. Igualmente, é possível que este surja num determinado âmbito das relações de poder entre as diversas instituições religiosas.” (SAHR, 2001, P.59). Na década de 80, o Candomblé começou a romper com as práticas religiosas que pudessem estar associadas ao Catolicismo. Porém, aqui no Rio Grande do Sul, este processo tem se dado, sob minha percepção, de maneira mais branda e lenta. Provavelmente não se chegue à totalidade desta ruptura. Práticas como a visitação a um determinado número de igrejas durante o passeio, a comemoração de festas destinadas a Orixás, atreladas ao calendário do santo católico sincretizado, e as cerimônias da Semana Santa; são passadas aos adeptos do culto, como sendo fundamentos religiosos e, portanto, devem ser preservados. Jacqueline Pólvora explica que, “O fundamento para as Religiões de origem africana em geral é a forma “fundamental” que as constitui. Pode-se pensar nesta noção desde o seu significado etimológico: “fundamentum” em latim deriva de “fundus” e quer dizer “a parte mais interior, o âmago de um objeto”, neste caso, da Religião. Sendo assim, os fundamentos a que me refiro no trabalho são atitudes tradicionais, preceitos e concepções rituais de base religiosa, exclusivos de cada modalidade das Religiões de origem africana. Cabe dizer que estes preceitos foram “importados” à força junto com as populações africanas para o Brasil, e que, num esforço de preservação de suas culturas, estas populações mantiveram suas tradições vivas.”(PÓLVORA, 1994, P.110). E, “O fundamento está representado também no segredo, arma inconteste das Religiões de origem africana, confirmando assim que o sagrado tem que ter seu componente hermético e

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oculto.” (PÓLVORA, 1994, P.111). Então, como expliquei anteriormente, faz parte do fundamento do passeio, a visitação a um determinado número de igrejas. Acredito que esta prática, apesar de haver uma busca das raízes africanas do culto, deverá ser mantida pela comunidade do Batuque. Porém esta relação de coexistência pacífica tem tomado novos rumos nos últimos anos. Em algumas igrejas, como é o caso da Igreja da Nossa Senhora do Rosário, no centro da capital, apesar de ainda permitirem a entrada de batuqueiros no seu recinto, não permitem mais que estes batam cabeça30 para os santos no altar. Há relatos de igrejas onde os batuqueiros foram expulsos pelo padre, que disse: “Rua daqui! Vão buscar conforto na terreira de vocês, que aqui não é lugar disto”, como relatou Anderson de Oxalá, um afilhado meu. Mas nas três igrejas que selecionei para o passeio deste mesmo afilhado, no dia 13 de Junho de 2005, não tivemos problema algum, além dos olhares curiosos de católicos que observavam nossa movimentação. Um fato que me chamou a atenção na segunda igreja visitada, a igreja de Santo Antônio: havíamos esquecido que este era o dia dedicado a este santo. Havia muitas pessoas na igreja e, na saída, como meu afilhado usava uma trunfa branca na cabeça, uma senhora aproximou-se e perguntou-lhe se ele estava de obrigação. Diante de sua resposta positiva, ela beijou-lhe as mãos, pedindo sua benção, sob os olhares estarrecidos de alguns religiosos, que certamente não entenderam do que se tratava. Outro acontecimento a ser observado ocorre no dia 02 de Fevereiro de cada ano, pois, no calendário Católico, é dia de Nossa Senhora dos Navegantes, sincretizada com a Orixá Yemanjá. E, de acordo com o modelo descrito a seguir por Zeny Rosendahl, isto também acontece junto à igreja deste santo, no bairro navegantes, onde muitas melancias, uma das frutas destinadas a Orixá dos oceanos pelo batuqueiros, são fartamente consumidas. É constatada a presença de Umbandistas nos arredores da igreja. “Pode ocorrer também a construção de mais de um espaço sagrado. No mesmo tempo sagrado, dia 15 de agosto, na Igreja de Nossa Senhora da Glória, no Rio de Janeiro, coexistem dois espaços sagrados. No alto da colina, o espaço sagrado do catolicismo com seus rituais e práticas devocionais. Nas alamedas de acesso ao alto da colina, na parte inferior do terreno, os devotos do candomblé criam seus espaços sagrados com seus rituais

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e práticas religiosas. O sincretismo religioso é vivenciado pelos devotos num tempo sagrado comum.” (ROSENDAHL, 1996, P-79). Quanto às cerimônias da Semana Santa, são citadas nos estudos de Norton Corrêa (1992) e Jacqueline Pólvora (1994) “à volta dos Orixás da guerra”, e o toque no Sábado de Aleluia, realizado às 10:00hs da manhã. Fato que me chamou a atenção, foi que Pólvora (1994, P.62) cita como sendo cerimônias apenas da tradição de Oyó (uma nação muitíssimo diferente do Gêge-Ijexá ao qual pertenço). Conforme a descrição desta antropóloga, é idêntica a cerimônia realizada na minha bacia de religião, o que me remete a uma provável origem única para ambas as nações, uma vez que esta tradição está presente conosco desde os antepassados do meu bisavô-de-santo31. Com as demais igrejas cristãs (luteranas, protestantes...) não há esta relação de coexistência. Existe, sim, uma relação de intolerância e exclusão muito mais por parte dos Evangélicos do que dos Africanistas, que agridem as religiões de matriz africana diariamente em suas pregações, inclusive nos canais de TV, culpando a entidade de Umbanda denominada Exu, pelos diversos males que assolam o mundo. É muito comum encontrarmos em frente as nossas casas, depositadas ao chão, cruzes de sal; perdemos por assim dizer, alguns amigos, que após se converterem a estas religiões neopentecostais, não mais nos visitam, por serem proibidos de entrar em nossas casas, que vêm a ser o “lar do demônio”. Esta intolerância religiosa, às vezes, é aberta como os carros-de-som que desfilam nos bairros, convidando as pessoas a participarem dos cultos nas igrejas e que permanecem algum tempo parados em frente nossas casas de Batuque, enquanto o locutor inflama um discurso sobre o demônio bíblico e como obter a salvação. Isso, às vezes, aparece de modo disfarçado, como na política, ao exemplo de encaminhamentos de Projetos de Lei com dupla interpretação e, portanto, dupla finalidade. Como foi o caso em 2003, de um episódio relacionado ao Código Estadual de Proteção aos Animais. O projeto que deu origem ao mesmo, encaminhado pelo deputado estadual e pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Manoel Maria (PTB), estabelecia o término do sacrifício de animais por meio da proibição de “dar morte por outros métodos que não os preconizados pela
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Bater cabeça é o ato de debruçar-se ao chão, postando a testa ao solo, simbolizando um respeito enorme a Entidade (Orixá, Santo ou pessoa) para quem se está dirigindo, se referindo. 31 Pai-de-santo do Pai-de-santo, da minha Mãe-de-santo. 40

Organização Mundial da Saúde” (OMS). Esta Lei, que atingiria a base do fundamento das religiões de matriz africana, revelava-se contraditória ao fato de práticas culturais como os rodeios e as touradas (onde os animais com suas vísceras apertadas por uma cinta de couro, corcoveiam enquanto são surrados em meio a um espetáculo) não terem sido mencionados na Lei. Após longa batalha no legislativo, que se estendeu ao judiciário, uma emenda apresentada pelo deputado estadual Edson Portilho (PT), foi aprovada em 2005, autorizando o sacrifício de animais nas religiões de matriz africana. Não existe um discurso anticristo nas Casas de Batuque, nem tampouco encontramos palavras como Satanás, Lúcifer ou sinônimos nos cânticos yorubás32; e as poucas referências cristãs que encontramos, como a crença na existência do inferno pósmorte é por influência do próprio cristianismo. Inclusive o sincretismo Umbanda-Católico, da Entidade Exú com o capeta. Acrescento que, certamente, discursos de intolerância religiosa como os que atualmente se manifestam em igrejas neopentecostais são as bases do ódio que sustentam diversos conflitos étnicos no mundo. Casas de Batuque, as igrejas desta religião. Como expliquei no principio deste trabalho, a Casa de Batuque, também recebe outras denominações como Ilê, ou Casa de Religião Africana, e na gíria é chamada simplesmente de Casa de Religião. É o local onde se realiza a grande maioria das cerimônias religiosas e serviços. O quarto-de-santo é o local dentro do Ilê, onde estão os assentamentos dos Orixás e, portanto, território incontestável do Batuque. A casa é constituída de peças que servem de aposentos para os seus moradores com uma cozinha bastante ampla para o preparo dos Axés, alimentos e um amplo salão, que normalmente serve também de sala de visitas. À frente, logo na entrada do terreno, fica uma pequena casinha, onde estão os assentamentos dos Orixás, chamados de “Orixás da rua”; e nos fundos, em outra casinha, os assentamentos dos Orixás ligados à morte, ou ao culto dos Eguns33. Um destes Orixás é o Bará Elégba, que não está associado ao demônio cristão, como muitos batuqueiros são levados a crer, por influência do catolicismo. O Babalorixá Paulo Ferreira afirma em sua obra que: “O Bará Elégba é um Orixá cultuado somente na Nação de Cabinda” e que, “O Orixá Bará Elégba deve ser assentado sempre na frente do Templo Religioso, dentro do pátio” (FERREIRA, 1994, P.101). No lado de Gêge-Ijexá ao
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Língua africana na qual a maior parte dos cânticos do Batuque são cantados.

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qual pertenço, cultuamos também esse Orixá. A posição espacial dele dentro do pátio, onde está situada a Casa de Batuque, é nos fundos, o que mostra a diversidade cultural entre estas Nações e o risco da mistura dos fundamentos de duas nações muito diferentes como afirma o autor citado: “Não existe a possibilidade de se praticar duas Nações Religiosas de Fundamentos diferentes. Tal ato deixaria margem às dúvidas ou, até mesmo erros graves. Por exemplo: há determinada Nação que serve ovos de galinha ao Orixá Bará e outras que, se for servido ovos, incidirá em grave erro, pois tal ato implicará em quizila com este Orixá” (FERREIRA, 1994, P.37). A Casa de Batuque possui uma intensa movimentação social, tanto por parte dos filhos-de-santo, familiares e irmãos de religião, quanto por parte dos clientes da casa. Jacqueline Pólvora em sua obra, faz menção a pouca movimentação que havia na Casa de Batuque de Mãe Laudelina do Bará34, atribuindo-a certamente, à sua avançada idade. “Assim, de alguma forma, esta casa está rompendo com a tradição das casas batuqueiras, que é a constante movimentação da familia-de-Santo em torno de rituais privados e mais freqüentes.” (PÓLVORA, 1994, P.187-188). Acrescentamos a esta intensa movimentação, a ocorrência de diversas festas brasileiras que ocorrem no Ilê; que são as comemorações festivas que não possuem ligações religiosas com o Batuque, como aniversários, formaturas, rodas de pagode e outras. Mas boa parte dos Ilês na atualidade divide seu território com outras religiões, como a Católica e a Umbanda. Um dos motivos é que antigamente, antes de iniciarem suas obrigações na Nação, os adeptos eram primeiramente batizados na Igreja Católica. A princípio não encontrei fundamento religioso nesta prática, além da lógica que me foi explicada por minha mãe biológica, que é católica e batuqueira. Assim, se por acaso quando adulto o familiar vir a se casar com uma cristã, a Igreja Católica não permitiria o casamento de uma pessoa não-batizada, e como o sonho de toda moça tradicional é entrar vestida de branco na igreja, isto poderia ser um entrave. Porém, por não haver um fundamento religioso reconhecido, o batismo cristão tem sido cada vez menos freqüente entre filhos de famílias batuqueiras.

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Eguns são espíritos de pessoas que já morreram. Mãe “Lina” do Bará, como era carinhosamente chamada por seus Filhos-de-Santo, faleceu há alguns anos atrás. 42

Nos Ilês onde os chefes familiares pertenciam a outras religiões e foram convertidos ao Batuque, geralmente há este tipo de convivência. Então, é comum um número maior de estátuas de santos católicos presentes no quarto-de-santo, crucifixos e imagens em quadros nas paredes. Com as religiões neopentecostais desconheço esta convivência em Casas de Batuque, mas acredito não ser possível uma convivência harmoniosa, o que poderia resultar em uma ruptura familiar. O maior exemplo de coexistência pacífica dentro das Casas de Batuque, sem dúvida é com outra religião que adota preceitos das religiões africanas, como a Umbanda. Porém antes de falar sobre a Umbanda é importante considerar o argumento de Sylvio e Ana Gil.
“Portanto, categorizar o sagrado não é uma tarefa fácil, pois qualquer resposta que obtivermos estará vinculada a uma cultura e subcultura à qual pertencemos. Sendo assim, corremos o risco de vincular uma série de preconceitos ancestrais à interpretação do fato religioso.” (GIL, 2001, P.41).

Dessa forma, os argumentos que seguem, estão alicerçados pelo olhar de um adepto do batuque, portanto, vinculados a esta cultura. Se houver uma mistura dos fundamentos do Batuque com as Leis da Umbanda, esta casa passará a desenvolver uma terceira religião, chamada popularmente de Linha Cruzada ou simplesmente Cruzada. Os batuqueiros mais rigorosos, apenas por existir paralelamente em uma mesma casa, a Umbanda e o Batuque, classificam este Ilê como sendo da Cruzada, mesmo que seu Babalorixá ou Yalorixá mantenha organizadamente separadas as duas religiões e seus fundamentos. Isto é possível pela própria característica da Umbanda, que é um religião brasileira, que mistura preceitos do catolicismo, espiritismo e de religiões afro-brasileiras. Espacialmente, estas Casas de Religião Africana terão uma disposição um pouco diferente das Casas de Batuque, em função da duplicidade de crenças. Teremos então duas casinhas à frente do templo, uma para o Orixá Bará e outra para a Entidade Exu; ou a mesma casinha dividida em duas peças, com portas separadas. Haverá também dois quartos-de-santo, um para os Orixás e outro para as Entidades da Umbanda. Estes dividirão o mesmo salão de rituais religiosos, porém, nunca ao mesmo tempo. Exemplo: não se realiza uma gira de Exu, na mesma noite em que se toca uma festa de Batuque. Quanto ao culto aos mortos, à parte dos fundos35,
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Referência espacial que também designa o culto aos Eguns.

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poderá ser dividida entre o Orixá Bará Elégba e os Exus de Almas; porque do ponto de vista da Umbanda, por influência herdada do espiritismo, os Eguns seriam Espíritos Atrasados, uma vez que suas Entidades seriam Espíritos Evoluídos. “A grande maioria das casas de culto no Rio Grande do Sul, pertencem a Linhacruzada. Sua característica principal é reunir, no mesmo templo, mas ocupando divisões espaciais separadas, e cultuadas em momentos também separados, entidades da Umbanda e do Batuque, acrescentando ainda a”parte dos Exus” da própria Linha-cruzada, de possível inspiração na Macumba do Rio de Janeiro.”(CORRÊA, 1992, P.61) Um outro fator que, certamente, permite esta convivência harmoniosa entre estas duas religiões em um mesmo território, é o fato de as Entidades de Umbanda designarem os Orixás do Batuque como sendo Santos, e eles, como Seres a serviço dos Orixás, estabelecendo uma relação de superioridade dos Orixás do Batuque. A Cruzada é uma prática relativamente nova, de cerca de 60 anos atrás, sendo que não é bem-vista pelos antigos Babalorixás e Yalorixás, como minha Mãe-de-Santo (Mãe Sueli de Xangô Aganjú36), especialmente pelo fato do culto aos Exus e por não haver fundamento religioso que impeça a prática do Batuque sem que haja uma prática da Umbanda. Seja como for a Cruzada está presente em cerca de 80% dos terreiros do Rio Grande do sul e esta prática se propagou por vários motivos. Entre eles destaco: A migração de diversos religiosos da Umbanda para o Batuque, sendo muitas vezes incentivados, conforme relatos deles próprios, pelas suas Entidades de Umbanda. Porém muitos não abandonam sua religião de origem, mantendo sua terreira de Umbanda, e sendo filho-de-santo no Batuque. Quando se aprontam37, desenvolvem em suas casas, as duas religiões. “O Batuque como recurso ritual é visto como mais “forte” do que a Umbanda na concepção êmica.38 Um templo de Linha-cruzada, assim, consegue valer-se simultaneamente da força mística do Batuque, mas associada ao baixo custo de manutenção da Umbanda.”(CORRÊA, 1992, P.62). Um exemplo é a
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No dia 06 de Junho de 2005, a Mãe Sueli completou 44 anos como Yalorixá da Nação Gêge-Ijexá. Consagração do indivíduo aos seus Orixás, tornando-o Babalorixá (se homem) ou Yalorixá (se mulher). 38 Grifo do autor Norton F. Corrêa.
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substituição do culto aos Eguns, pelo culto aos Exus, sendo o primeiro, caro, minucioso e difícil, pelo segundo que é mais simples e barato. Aceito do ponto de visto ritualístico, porque o Exu aceita ter seu assentamento localizado nos fundos da Casa de Religião Africana. Desconheço pessoalmente Casas de Batuque associadas a outras crenças que não as citadas acima: Catolicismo e Umbanda. Principalmente as causas sócio-econômicas, levaram alguns religiosos a aderirem a outras culturas como o esoterismo. Anúncios que oferecem serviços como Regressão, Numerologia, Tarô, Quiromancia e Terapia Reikian, associados ao Jogo de Búzios, aumentam sua participação na página de classificados dos jornais que circulam na capital. Astrólogos e numerólogos relacionam o Jogo de Búzios a análises combinatórias matemáticas, que passam pela análise de um Xamã, e publicam suas conclusões em revistas e sites da internet, que se multiplicam pelo mundo afora, confundindo as pessoas e profanando assim a nossa religião. Mas a Casa de Batuque não possui apenas uma territorialidade restrita a fronteira física dos limites do terreno, onde ela está situada. Ela estende sua área de influência religiosa no que diz respeito aos adeptos ao culto e, também, em torno, onde se pode escutar o rufar dos tambores quando das festas anuais no caso do Batuque, ou quando das seções, no caso da Umbanda. O barulho dos tambores, aliado às vozes dos cânticos, é o foco de muitas situações de conflito com a sociedade não batuqueira. Pois, ao contrário da Umbanda que admite ter suas festas e seções realizadas durante o dia, o ciclo ritual das festas de Batuque só pode ser realizado, conforme a crença, à noite. Isto faz com que em alguns casos, as festas de Batuque sejam interrompidas pela polícia, sobre queixa de algum vizinho que se sinta incomodado com os toques. Como o ciclo ritual das festas de Batuque é realizado uma, no máximo, duas vezes por ano, existe uma boa relação de tolerância com a vizinhança da Casa de Batuque, exceto quando há entre os vizinhos, um que possua uma crença que se opunha no seu fundamentalismo à prática do Batuque: as religiões neopentecostais. Nestes casos, os rituais costumam ser realizados a portas fechadas, para que não ultrapassem os níveis máximos de intensidade de som, previstos no Código de Postura de Porto Alegre39. Em relação às Casas de Umbanda e Quimbanda40, a intolerância
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Cf Código de Postura de Porto Alegre, Lei Complementar N.12 de 07 de Janeiro de 1975 (CORAG, 2000).

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é muito maior, pois estas religiões realizam seções semanais de culto, e permitem além do uso dos tambores e ajês41 do Batuque, microfones e amplificadores de som. Como não possuem começo e fim ritualístico como o Batuque, programam seus horários conforme determinação e bom senso dos líderes da casa. Quando há intolerância, esta indubitavelmente, reflete-se nas Casas de Batuque, porque nossa sociedade ocidental não sabe distinguir as religiões de matriz africana, uma das outras. Classifica a todas como sendo Umbanda, religião que ela própria criou. São muitos fatores envolvidos nessa questão, como a musicalidade dos rituais, a necessidade da obtenção de ervas e animais, que podem ser adquiridos a preços exorbitantes nas casas especializadas ou criados no próprio terreno do templo; as acomodações para os adeptos que trabalham durante todo o ciclo ritualístico, o salão de festas, a cozinha, o galpão onde serão tirados o couro e limpos os animais sacrificados; uma área restrita para culto aos Eguns, e o valor imobiliário. São fatores geográficos e sócioeconômicos que fazem com que as Casas de Batuque estejam situadas, comumente, em áreas periféricas da cidade. Tendem a ocupar grandes terrenos por não poderem situar-se em apartamentos ou condomínios fechados. Os batuqueiros se deslocam a distâncias maiores, para cumprir determinados rituais que serão realizados em praça, encruzilhadas, Cemitérios, Mercado Público ou praias e matas, como trataremos a seguir.

Figura 8 – Mercado Público de Porto Alegre, disposição arquitetônica forma uma encruzilhada no seu centro.42
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Quimbanda assemelha-se a Macumba do Rio de Janeiro, e tem por Entidade centralizadora o Exú. Instrumento musical feito basicamente de um poromgo envolto por contas, que emite o som e um chocalho. 42 Foto de Carla Guimarães, fonte: http://www.sogipa.esp.br/wm11/POA.htm.

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Os morros, as pedreiras, os campos, as matas e as cachoeiras no Batuque. O Batuque possui Orixás diretamente relacionados às matas e campos, como Ogum, Ossanha, Odé e Otim. Mas não existe no Batuque um ciclo ritual de festas, conhecido por mim, que seja realizado no interior da mata. Ao contrário da Umbanda que realiza freqüentemente os chamados Trabalhos de Mata, que são ciclos rituais de uma festa religiosa realizados neste lugar. O Batuque utiliza este espaço temporariamente, em períodos mais curtos, para a realização de alguns trabalhos e despachos de Axés que foram consagrados aos Orixás relacionados à mata. É característica desta Região do Brasil, possuir matas intercaladas por campos e, é no interior destas matas, que normalmente encontramos as pedreiras, rios e cachoeiras, que possuem Orixás associados; portanto, rituais específicos também. O parque Santi Hilaire na divisa da capital com o município de Viamão – RS, é muito utilizado para rituais referentes a Orixás da mata. Um convênio da AFROBRAS (Federação da Religião Afro-brasileira) com a direção do parque, permite a utilização deste, mediante uma licença obtida junto à federação, para que os religiosos possam fazer suas Obrigações, de maneira não clandestina. Este parque florestal possui além da área florestada, uma represa de água doce, que permite o culto aos Orixás de praia. Como afirma Zeny Rosendahl, “Ressaltamos que um dado lugar pode ser usado como um território em um dado tempo e não mais em outro período” (ROSENDAHL, 1996, P.60). As matas, campos, pedreiras e cachoeiras, constituem sim, territorialidades do batuque. Em relação às pedreiras e morros, estão estes relacionados mais diretamente ao Orixá Xangô, sendo as pedras de forma genérica, elementos da natureza que lhe são consagrados. Em Porto Alegre, os lugares mais comuns onde podemos encontrar afloramentos rochosos, são as partes altas dos morros, onde comumente afloram matacões de rochas, utilizados para a deposição de oferendas a este Orixá. “As rochas cristalinas apresentam alguns traços morfológicos característicos decorrentes de condições específicas de estrutura e textura. (...) c – Vertentes de matacões que se podem constituir em caos de blocos paralelepipédicos ou de elementos arredondados.” (PENTEADO, 1974, P.60). Os

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morros Santana, da Polícia, e APAMECOR, entre outros, são lugares bastante visitados pelos batuqueiros. Na atualidade, em razão do aumento da criminalidade e a dificuldade de acesso a estes lugares é comum que outros lugares sejam “adaptados” para estes fins. Cito, uma pequena vertente de água que jorra, na face norte do morro localizado na Avenida Bento Gonçalves, do lado oposto ao antigo prédio da Agronomia (UFRGS), onde seguidamente há Africanistas43 depositando oferendas a Xangô. Outro local seria no próprio Campus da UFRGS (Anel Viário), que logo após o pórtico de entrada possui uma gigantesca pedra, junto a qual muitas vezes tínhamos que afastar os alguidares e gamelas, que ali permaneciam deteriorando-se ao tempo, para fixarmos os teodolitos durante as aulas de topografia. Esta tarefa sempre me era incumbida pelos colegas de disciplina. Espantoume o fato de encontrar nas rochas que foram cortadas e permaneceram à beira do novo anel viário do Campus do Vale, inaugurado este ano, a presença destas oferendas, o que mostra que, rapidamente, após a abertura do acesso, os Africanistas incorporaram a sua territorialidade mais este espaço. Há também um componente visual, de interpretação simbólica associada a estes territórios: a paisagem cultural sob a ótica dos batuqueiros. Denis Cosgrove refere-se ao simbolismo da paisagem da seguinte forma:
“Todas as paisagens possuem significados simbólicos porque são o produto da apropriação e transformação do meio ambiente pelo homem. O simbolismo é mais facilmente apreendido nas paisagens mais elaboradas – a cidade, o parque e o jardim – e através da representação da paisagem na pintura, poesia e outras artes. Mas pode ser lida nas paisagens rurais e mesmo nas mais aparentemente não-humanizadas paisagens do meio ambiente natural” (COSGROVE, 1998, P.108).

Portanto o fator paisagístico de uma mata pode diferenciá-la no que se refere a sua utilização por parte do Batuque. Exemplificando, uma mata mais densa, seria utilizada para um trabalho de “desligamento de Egun”44, enquanto que uma mata mais “limpa”, “clara”, utilizada para a realização de oferendas a Ogum. “Paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre o homem e a natureza” (SANTOS,
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Denominação de pessoas que cultuam religiões de matriz africana (Umbanda, Quimbanda, Batuque,,Candomblé...). 44 Cerimonia religiosa que tem por objetivo, afastar um espírito mal, que esteja importunando uma pessoa. 48

2000, P.21). Certamente o batuqueiro ao ver os diversos matacões rochosos que afloram nas vertentes graníticas dos morros de Porto Alegre, interpreta a paisagem de acordo com sua cultura, visualiza naquela paisagem a possibilidade de exercer sua religiosidade; e a presença dos amalás45 depositados sobre estas rochas, a expressão desta relação cultural do homem com a natureza.

Figura 9 – Velas são acesas por batuqueiros na Praia da Usina do Gasômetro em Porto Alegre – RS. Rios, Lagos e Mares. As praias na territorialidade do Batuque. A praia do Gasômetro na área central da capital, constitui historicamente uma das mais importantes territorialidades do Batuque. Está incluída no passeio, mas também é utilizada em outros rituais e assim como nas demais praias, ali se praticam rituais como o despacho de obrigações, Aresun e a realização de trabalhos de Batuque. Mas a intenção do poder público municipal, de que esta área fosse utilizada mais intensamente, para eventos festivos e o turismo levou à proibições eventuais desses rituais. Essa situação conflitiva, levou a Prefeitura Municipal de Porto Alegre – RS, numa iniciativa de um vereador adepto do Batuque, a inaugurar no dia 08 de Dezembro de 1999, na praia de Ipanema, zona sul, uma estátua da Orixá Oxum. Conforme divulgado no Jornal Zero Hora, o objetivo foi concentrar neste local, práticas religiosas afro-brasileiras as quais eram efetuadas em outras
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Comida que é oferendada ao Orixá Xangô.

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praias da capital, como Usina do Gasômetro, e Lami na zona sul de Porto Alegre (1999, p.72). Porém, a localização geográfica deste espaço, somado ao fundamento religioso de não se utilizar praias destinada ao despacho do Aresun para outras práticas ritualísticas, fez com que não ocorresse o total abandono da utilização das demais áreas de praia da orla do Guaíba. E também, os batuqueiros que se deslocam do eixo Porto Alegre – São Leopoldo para utilizarem estas praias para suas Obrigações religiosas têm seu percurso aumentado em mais de uma hora, caso tenham que se deslocar até a praia de Ipanema para efetuá-las. Isto compreende tempo e dinheiro, porque, às vezes, os veículos utilizados para este fim, são fretados, e os demais rios da região metropolitana, como o Gravataí, têm suas águas muito poluídas, o que impossibilita sua utilização. Outras praias do litoral gaúcho, como Cassino, Tramandaí, e Atlântida Sul, criaram espaços destinados às práticas religiosas de matriz africana. Neste caso, o Orixá homenageado foi Yemanjá, que é a rainha dos mares. Com interesse nas procissões que ocorrem, principalmente, no dia 02 de Fevereiro de cada ano, e no turismo associado a este fenômeno migratório, constroem-se estes espaços com o objetivo de tornar seus municípios Cidades-santuário do Batuque.
“Refere-se às cidades que possuem uma ordem espiritual predominante e marcadas pela prática religiosa da peregrinação ou romaria ao lugar sagrado. Pelo simbolismo religioso que estes locais possuem e pelo caráter sagrado atribuído ao espaço, podemos chamar esses locais de hierópolis ou cidades-santuário. (...) Este arranjo singular e repetitivo pode ser de natureza permanente ou apresentar uma periodicidade marcada por tempos de festividades, próprios de cada centro de peregrinação.” (ROSENDAHL, 1996, P.82).

As festas de religiões de matriz africana, realizadas nestes lugares, têm presença muito maior de religiosos ligados a Umbanda. Isto por razões do Fundamento do Batuque, que não permite que as pessoas sejam fotografadas ou filmadas, quando estas estiverem manifestadas com seu Orixá e porque normalmente, nestas datas, estão sendo tocadas festas nas Casas de Batuque. Isto porque por herança do sincretismo afro-católico, atrelouse ao calendário católico, as festas de Batuque, pois para que pudessem tocar uma festa da religião Yorubah sem serem interrompidos pela polícia, disfarçadamente os religiosos, o

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faziam no dia do Santo Católico, dizendo estarem homenageando à maneira africana o referido Santo. Mas estas praias ainda não constituem centros de peregrinação anual constante. Isto pelo fato de que o Batuque, não é uma religião institucionalizada como o é a Católica e outras religiões cristãs. Assim, não possui estrutura hierárquica como muitas igrejas. Portanto, a construção de uma área em volta destas estátuas que possam acomodar rituais litúrgicos como simples seções periódicas de Umbanda, agregando-se um comércio voltado a estes devotos, são iniciativas com as quais as secretarias de cultura e turismo de muitos desses municípios ainda não sabem como desenvolver. Os cemitérios, e a territorialidade proibida do Batuque: O corpo é apenas matéria, e como todo o Axé, também retornará à natureza, permanecendo o espirito que é eterno. Não existe o inferno tão pregado pelos ocidentais. Falar em cemitério para o batuqueiro é falar em algo negativo, pois é o oposto da vida; e ao contrário do que a visão da religião do “escravizador” impôs ao negro-escravo, não se trata de uma dualidade do bem e do mal. O fundamento nos ensina que o Orixá dever ser servido no local que lhe é atribuído pelo culto e que determinados lugares constituem insultos a certos Orixás, caso sejam servidos nestes locais. A exemplo disto, é que apesar de Oxalá ser considerado o Orixá patriarca na hierarquia do Batuque é considerado um insulto servi-lo em uma encruzilhada, que é um espaço de domínio do Orixá Bará e outros. Portando, sendo o cemitério um território dos Espíritos (Eguns), não constitui, certamente, local de bom grado para que sejam servidos os Orixás. Porém, os Eguns possuem seu lugar na hierarquia do Batuque; eles existem para os adeptos e assim são cultuados e respeitados por nós. O Batuque, em termos estruturais, se desenvolveu de forma um tanto diferente do Candomblé e dos povos que permaneceram na África. Se nestes existe um grau de compartimentação maior no que diz respeito às funções litúrgicas, porque estes possuem religiosos que se especializam apenas em uma das funções, como é o caso dos Babalaôs46, e de Ilês na África que se dedicam a um único Orixá. No Batuque estas se concentram em torno de um número menor de pessoas. Um Pai-de-Santo joga búzios, corta para os seus
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do Yorubah, Babalawo = Pai senhor do mistério, sacerdote dedicado ao Jogo-de-Búzios.

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Orixás e se tiver aptidão musical, pode também ser ele próprio tamboreiro. Este modelo reflete-se na estrutura das Casas de Religião, pois se na Bahia há o culto de Babá-Egum, em casas que se dedicam, quase que exclusivamente a esta prática; no Batuque, o Igbalé ou Balé é a cerimônia ritualística dedicada a este culto, dentro da Casa de Batuque. Nesta lógica, se tudo que foi ofertado no quarto-de-santo deve ser despachado na natureza (praia, mato, encruzilhada...), o que se referir a Egun deverá seguir ao cemitério. Por razões espaciais e muitas vezes sócio-econômicas, muitas Casas de Batuque ficam impedidas de possuir tal estrutura. Às vezes, por razões de crença, também ficam impossibilitadas de ter em seu espaço um Igbalé, pois este culto requer muitos cuidados e está associado a algo negativo. Neste caso o Babalorixá ou Yalorixá necessita consultar os Orixás através do jogo-de-búzios para ver se pode ou não possuir o Igbalé em sua Casa de Batuque. Possuindo ou não um Balé nos fundos da referida casa, todos precisarão, em dado momento, fazer uso da territorialidade proibida dos cemitérios para a realização do culto aos Eguns. O cemitério constitui-se em territorialidade proibida sob dois aspectos: pela liturgia e pela sociedade. No que se refere à liturgia, não é o cemitério um espaço de convívio harmônico do batuqueiro. Nas cerimônias de Balé e Aresun, somente são permitidas as participações dos prontos47, sendo também proibido a presença de pessoas que estiverem em Obrigação, como no caso do já mencionado passeio. Portanto, serão feitas apenas as cerimônias que forem exigidas no culto a Egun, quando estas forem necessárias, pois quem cultua os Orixás, não deve ficar recorrendo aos Eguns para buscar a solução dos seus problemas. Logicamente que na Umbanda e Quimbanda, que possuem uma influência espíritakardecista, esta relação com os Eguns dá-se sobre outra ótica religiosa, pois são considerados entidades espiritas não evoluídas, havendo infelizmente na Cruzada, uma “confusão” destes preceitos religiosos. Há relatos orais de festas de Quimbanda, realizadas dentro de cemitérios afastados dos grandes centros urbanos, o que certamente não ocorre no Batuque. No que se refere à sociedade em geral, o acesso aos cemitérios é vetado por razões lógicas. São inúmeros os relatos de depredações a túmulos, além do furto de peças de

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metais, mármore e outras de valor, além de serem lugares escuros, comumente utilizados por foragidos da polícia e viciados em drogas. Mas o que é feito em seu interior, não é visto pela sociedade, que vê, junto aos portões de acesso e muros laterais, depositadas as oferendas destinadas a Eguns, na impossibilidade e na ausência, de um lugar destinado a elas. Uma pequena área para essa prática asseguraria maior facilidade aos administradores no que diz respeito à limpeza, segurança e acessibilidade aos religiosos, que hoje o fazem na completa clandestinidade e uma possível fonte de arrecadação para os cemitérios administrados pela iniciativa privada. Há Bacias que relacionam o culto aos Eguns às áreas de mata. Isso possui fundamento histórico, pois por ser uma religião milenar, para a maioria das populações nômades, não havia cemitérios e estes enterravam seus mortos, nos locais por onde passavam. O problema da poluição ambiental decorrente da deposição das oferendas aos Orixás. Explicamos que na crença desta religião, as oferendas devem ser feitas nos espaços sagrados, consagrados a cada um dos Orixás cultuados. Mesmo as oferendas feitas no interior das Casas de Batuque devem, depois, seguir para a natureza, a fim de serem despachadas nestes lugares. Portanto, não se pode, após uma obrigação, recolher todas as comidas, flores e doces que foram ofertados aos Orixás, e colocá-las no lixo. Levar o Axé até o local da natureza, consagrado ao Orixá a quem foi destinada a oferenda, constitui um dos fundamentos do Batuque, e, portanto, não pode ser alterado (muito pelo contrário), deve ser mantido, preservado. Porém, é inegável o problema ambiental que, às vezes, esta prática causa, sendo mais visível nos lugares onde há uma maior concentração. Como vimos, estas oferendas não podem ser realizadas em qualquer lugar, nem tampouco, todos lugares atendem as condições ritualísticas exigidas, ou dispõem de acessibilidade aos religiosos. Quando a sociedade ocidental questiona, muitas vezes indignada, “por que estes macumbeiros colocam estas coisas (oferendas) aqui neste local, e não o fazem lá a naquele lugar?” Certamente ficaríamos horas explicando todas as questões antropológicas e
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Grau de iniciação que o diferencia do Babalorixá, principalmente pelo fato de não possuir uma Casa de

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geográficas, que descrevemos neste trabalho. É o desconhecimento destas razões, e carência no Brasil de estudos destinados à geografia cultural, que induzem a problemas como a discriminação religiosa, ou a proibição do acesso aos espaços sagrados do Batuque. Os batuqueiros também não querem fazer o uso indiscriminado destes espaços, fundamentados em suas crenças para poluírem o meio-ambiente. O Batuque é, por fundamento, uma religião que preserva a natureza. Dependemos não apenas das praias, rios, e matas no sentido espacial, para a realização das nossas obrigações, mas também das ervas, plantas, pedras, águas limpas e tudo o mais para a preparação das oferendas que serão destinadas aos Orixás. Conviver harmoniosamente, sem precisar constituir Guetos a margem dos núcleos urbanos, e fazer o uso sustentável destes espaços naturais são desejos, hoje, consolidados na Comunidade do Batuque. Mas conscientizar uma comunidade, oprimida historicamente, politizando-a na conquista de seus direitos, tem sido uma tarefa constante e difícil, realizada pelas federações, ONG’s e principalmente pelos religiosos que tiveram acesso a um ensino de qualidade. A religião do negro escravo não é institucionalizada, apesar das federações existentes, que hoje não possuem uma atuação de grande representatividade. Também não é bem-vista aos olhos da religião dos senhores colonizadores, que tentaram submetê-la à força e hoje buscam na desinformação e despolitização que impuseram a estas comunidades, uma forma de inviabilizarem seus cultos, tentando criar leis com duplas interpretações, voltando-as contra a opinião pública e privando-as de projetos que tornem acessíveis sua livre prática religiosa e liturgica. Trabalhos conjuntos entre antropólogos, ecólogos, economistas e geógrafos podem constituir-se em saída para muitos problemas, pois o poder público ainda não conseguiu criar e organizar espaços voltados às religiões de matriz africana, permitindo acessibilidade e seu uso racional. Tampouco a iniciativa privada despertou para este público, ofertando espaços que possam ser alugados, ou nas possibilidades de desenvolvimento turístico que esta religião possui, tendo seu foco turístico, hoje, na Bahia. Limitando-se a Porto Alegre, apenas a exploração da venda direta dos artigos utilizados no Batuque. Melhores resultados no que se refere à difusão têm obtido as ONG’s, que surgiram na ultima década e

Batuque sob sua direção. Existem diferentes graus de aprontamento, dependendo a que Bacia se pertence. 54

utilizando-se de serviços como a internet, têm conseguindo difundir informação e cultura, que são levadas aos Ilês, semeando a mudança da sociedade em que vivemos.

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CONCLUSÃO: Verificamos ao longo do trabalho, que boa parte do preconceito atribuído ao Batuque, provém da desinformação da sociedade em geral e que, mesmo na ultima década, com o avanço das comunicações, esta religião, carece da publicação de trabalhos fundamentados em bases científico-filosóficas, que desmistifiquem diversas questões que a envolvem, como a utilização de animais nos seus rituais litúrgicos e a necessidade de espaços urbanos voltados a esta prática. A criação destas áreas voltadas ao Batuque e o livre acesso aos espaços necessários às liturgias que envolvem esta religião, ajudariam não somente a tirá-la da “clandestinidade”, mas também, a melhorar a organização do espaço urbano. Ao serem impedidos de acessar os espaços sagrados para a realização de seus cultos, optam, estes religiosos, por fazerem-no de forma clandestina, ou por alternativas que se contrapõem aos seus preceitos religiosos, gerando muitas vezes situação conflitivas não apenas entre os batuqueiros, mas com a sociedade como um todo. A religiosidade do Batuque está muito presente na sociedade de Porto Alegre e suas manifestações culturais são encontradas não apenas nos fenômenos sociais, como o carnaval, mas também, na paisagem, quando ao encontrarmos uma oferenda, nos questionamos porque “aquilo” foi colado justamente naquele lugar. De acordo com Zeny Rosendahl e Roberto Lobato Corrêa, a temática da religião, requer uma maior atenção por parte dos geógrafos, pois é parte integrante de qualquer sociedade; portanto, é um fenômeno cultural que ocorre espacialmente. Existe toda uma dinâmica no espaço urbano, resultante do fenômeno cultural religioso e, portanto, não deve ser tratado apenas como fato social, permanecendo esta temática, sendo abordada apenas por sociólogos e antropólogos. As religiões estão relacionadas aos lugares e ao uso destes, havendo também uma relação de posse, mesmo que periódica, ocasionando em disputas pelo domínio destes territórios. Com base em fundamentos religiosos, diversos povos lançaram-se em grandes batalhas, que modificaram inclusive o mapa político do planeta, persistindo muitas dessas batalhas até os dias de hoje. O Batuque, assim como as demais religiões, possui todas estas relações com o espaço; porém, encontrei dentro do seu fundamentalismo religioso, algumas relações que o

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aproxima ainda mais da geografia, como a sua relação íntima com a natureza, estando seus deuses atrelados aos lugares, havendo inclusive classificações geográfica (destes deuses), dentro do fundamentalismo religioso. Pois, se perguntarmos a um batuqueiro, mesmo que este não possua uma formação escolar fundamental, saberá dizer quais são os Orixás de praia, quais os de mata, quais os de cruzeiro e assim por diante. Portanto suas liturgias estarão ligadas a esta relação dos Orixás com os lugares, que claramente está impregnada de geografia. A Xenofobia e a discriminação religiosa não serão erradicadas com a publicação deste trabalho, mas acredito ter munido os leitores deste, de boas informações, que lhes permitirão repensar a questão da intolerância religiosa, identificar quais as religiões de matriz africana presentes em Porto Alegre, perceber suas territorialidades, e diferenciar religiosos de falsos profetas criadores de seitas que exploram a boa fé das pessoas.

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SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. “Espaço geográfico uno e múltiplo”. In: SUERTEGARAY, D. M. A.; BASSO, L. A. e VERDUM, R. (orgs). Ambiente e Lugar no urbano. A grande Porto Alegre. Porto Alegre, Ed da UFRGS, 2000. VERARDI, Jorge – Axés dos Orixás no Rio Grande do Sul. Porto Alegre-RS, Ed Jan, 1990.

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GLOSSÁRIO ADIOLÁ - No batuque seria o Ogum mais "jovem", tanto que seu adjuntó mais comum seria sua própria mãe, Orixá Yemanjá. ALGUIDAR DE BARRO - São cerâmicas semelhantes aos vasos de flores, porém com a boca bem mais larga que a base e bem mais rasos que os vasos de flores. ALÁ - É um pano branco, bordado ou não, pertencente ao Orixá Oxalá, e simboliza a Paz e também um pedido de misericórdia. ALUJÁ - É uma dança típica, cujo ritmo dos tambores é dedicado a Xangô. ALUPO - É a saudação em yorubah ao Orixá Bará. AMALÁ - Comida preparada a base de pirão de farinha de milho, molho de carne, mostarda, maçã e bananas, dedicadas a Xangô. Existem muitas variedades de amalá, que podem ter seus ingredientes variados substituindo a carne por camarão por exemplo. ANJO DE GUARDA - Seria o adjetivo da cultura ocidental que mais se assemelha ao conceito de ORIXÁ. APRONTAMENTO - É o ato de tornar-se Babalorixá ou Yalorixá, uma cerimônia que oficializa esta condição, o novo titulo conquistado. ASSENTAMENTO – Diversos objetos relacionados aos Orixás, que são diferentes entre si, dispostos normalmente dentro de um alguidar de barro ou porcelana, e que após imolados irão representar simbolicamente a presença do Orixá onde estiver localizado este “Assentamento de Orixá”. AXÉS – Tudo que pode ser dado ao Orixá ou recebido deste, como comidas, flores, frutas, bênçãos, etc. Também é sinônimo dos cânticos entoados em homenagem aos Orixás. AXÓS - Em yorubah quer dizer roupa, no batuque é a roupa que se veste para participas das cerimônias litúrgicas do Batuque. BABÁ-EGUN - Cultos aos Eguns conforme denominação de algumas nações de Candomblé. BARÁ AGELÚ – Seria o Bará mais “jovem”, tão jovem que costuma fazer adjunto com suas mães, Yemanjah e Oxum. Seu local de culto é a praia, mas como todo Bará, também pode ser cultuado na encruzilhada. CRUZEIRO – No Batuque, o mesmo que encruzilhada.

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DENDÊ – Fruto do dendezeiro, na linguagem do Batuque muitas vezes chama-se o Azeite de Dendê, ou Óleo de Dendê, apenas de Dendê. DESPACHO – As oferendas entregues nos locais de culto aos Orixás, que não seja a Casa de Batuque, são popularmente chamadas de despacho. Também aquilo que se vai “devolver” a natureza, que não necessariamente constituem oferendas, como os Ocutás de um religioso que tenha falecido. EPANDÁ – É um tipo de Oxum, jovem, porém não é criança como a Oxum de Ibeji, mas mais jovem que as demais. EVITAÇÃO – Aquilo que não se deve fazer. IFÁ – É uma das qualidades ou tipos de Oxalá, o qual rege o Jogo de Búzios. INHALAS - Algumas poucas partes dos animais sacrificados, não consumidos no batuque e preparados fritos, ofertados no Pejê, despachados ao término do ciclo ritual JORGE DA CAPADÓCIA – Santo Católico chamado de São Jorge. NEOPENTECOSTAIS – Pentecostais da terceira geração, diferem dos pentecostais tradicionais por dividirem o mundo entre as coisas e Deus e do diabo, sendo que não se apegam a roupas, televisão e outros costumes. No Brasil a maior seria a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). OBRIGAÇÃO – Ciclo ritualístico, pode variar de uma grande festa, a um simples Bori. OGUM AVAGÃ – É um Ogum cultuado na rua, seu assentamento fica na parte frente do templo junto com os demais Orixás Frenteiros. ORI – Em yorubah quer dizer cabeça, equivale a parte mais importante do ser humano, a consciência. ORIXÁ ADJUNTO – Ou Adjunto, seria o segundo Orixá da pessoa, aquele que “casa” com o Orixá da Cabeça, por isto costuma-se dizer que este comanda o corpo da pessoa. ORIXÁ DE CABEÇA – è o Orixá mais importante na hierarquia do indivíduo, aquele comanda a sua consciência. ORUMALÉ – Conjunto de todos os Orixás cultuados no Batuque. XENOFOBIA – Aversão a coisas ou pessoas estrangeiras.

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Anexos

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