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Entenda o que é violência simbólica

No campo onde constituímos nossa forma de ver o mundo existe uma dimensão simbólica. É nesse espaço em que a violência
simbólica é estabelecida.

Por: Henrique Nascimento 30/01/2018 - 10:01

A naturalização da dominação masculina sobre a mulher é um tipo de violência simbólica

Você está indo a uma festa de aniversário, nenhum traje foi determinado. O evento será realizado no horário da tarde, você
resolve ir de short ou bermuda, um look mais descontraído. Ao chegar no local, as demais pessoas estão usando roupas sociais,
vestidos longos, gravatas e blazers. Instantaneamente, você fica incomodado, não se sente adequado para frequentar o espaço.
Já parou para pensar por que estar trajado diferente, nesse contexto, provoca um desconforto pessoal, social e até mesmo
emocional? Isso pode ser traduzido como um simples caso de violência simbólica. Esse tipo de agressão se torna muito mais
danosa quando situado em questões de raça, gênero, etnia e classe social. Quer saber mais sobre o conceito? Vem que a gente
te explica.

O que é violência simbólica?

Para Pierre Bourdieu, sociólogo francês, os seres humanos possuem quatro tipos de capitais, são eles: 1) o capital econômico,
a renda financeira; 2) o capital social, suas redes de amizade e convívio; 3) o cultural, aquele que é constituído pela educação,
diplomas e envolvimento com a arte; 4) capital simbólico, que está ligado à honra, o prestígio e o reconhecimento. É através
desse último capital que determinadas diferenças de poder são definidas socialmente. Por meio do capital simbólico, é que
instituições e indivíduos podem tentar persuadir outros com suas ideias.

A violência simbólica se dá justamente pela falta de equivalência desse capital entre as pessoas ou instituições. O conceito foi
definido por Bourdieu como uma violência que é cometida com a cumplicidade entre quem sofre e quem a pratica, sem que,
frequentemente, os envolvidos tenham consciência do que estão sofrendo ou exercendo.

Onde está o agravante?

A ilustração do traje de festa no início da matéria é muito pequena se comparada aos níveis que a violência simbólica pode
atingir. Mais que um caso individual relacionado a uma roupa, o alcance dos meios de comunicação, por exemplo, pode ser
usado como instrumento para execução da violência simbólica em grande escala. Isso é feito através da propagação de ideias
que pertencem às camadas dominantes (que, usualmente na sociedade capitalista, são as de maior capital econômico) para as
camadas minoritárias, a fim de que a ordem social se mantenha.

Quando as questões raciais encontram a violência simbólica

Donald R. Kinder e David O. Sears, pesquisadores das universidades de Yale e da California, respectivamente, ainda na década
de 1970, indicaram a existência do racismo simbólico. Para eles, o conceito se baseava no fato de que uma das vertentes do
preconceito racial era apoiada na crença de que os negros violavam os valores da ética protestante do povo norte-americano.
Não era necessariamente uma motivação baseada na ocupação de vagas no mercado de trabalho, algo que afetaria seu capital
econômico, mas sim, que afetaria o capital simbólico da nação. No entanto, é importante ressaltar que essa ainda atual forma
de racismo é tão ou mais danosa que manifestações mais abertas. Representando um perigo constante, uma vez que pode ser
convertida em agressões físicas.

No Brasil, uma forma de violência simbólica está no uso dos estereótipos relacionados aos negros. Segundo o sociólogo
jamaicano Stuart Hall, a estereotipagem é parte da manutenção da ordem social e simbólica. Alguns estereótipos nacionais
associam a figura do negro à preguiça e a figura da mulher negra a expressão racista “mulata”, mulher feita para apenas suprir
prazeres sexuais. Uma pesquisa dos psicólogos sociais Marcus Eugênio Oliveira Lima e Jorge Vala revela que, ao contrário do
esperado, após o surgimento das leis anti-racistas, o racismo não cessou, mas tomou outras formas menos abertas e flagrantes.
É importante lembrar que o combate ao racismo pode começar na linguagem.

A dominação masculina sobre a mulher como violência simbólica

Em seu livro A dominação masculina, Pierre Bourdieu, traz uma reflexão a respeito da violência simbólica no que toca a mulher
na sociedade patriarcal. Segundo ele, é sempre esperado que o homem tenha o capital maior do que o da mulher, independente
do tipo. Isso se dá pela naturalização da dominação masculina na sociedade. Ao julgar a mulher incapaz de ocupar determinados
cargos, oferecer salários mais baixos para mulheres em mesmos cargos que homens e considerar que elas devem ganhar menos
porque engravidam, há aí um dolo simbólico que reflete nos outros campos, como o econômico.

Denuncie - Disque 180

A ideia de dominação masculina sobre o corpo da mulher é refletida nos casos de feminicídio, assassinato de mulheres pela
razão de ser mulher. O crime era anteriormente tido como algo passional (assassinato por amor), só que, na verdade, é mais
uma forma de mostrar a existência de uma noção de superioridade do homem. Os casos de feminicídio acontecem geralmente
após o término de um relacionamento. Por acreditarem que têm a propriedade sobre o corpo da mulher e por considerarem que
não têm nada a perder, são cometidos os assassinatos .

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