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Meios Alternativos de

Soluções de Conflitos
Material Teórico
Conhecendo o Conflito

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Tercius Zychan

Revisão Textual:
Prof. Esp. Claudio Pereira do Nascimento
Conhecendo o Conflito

• O Conflito;
• Como os Conflitos Podem se Apresentar;
• Regime dos Conflitos;
• Análise do Conflito;
• Espiral do Conflito;
• Desenhando o Conflito.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
• Entender o que vem a ser um conflito, como ele pode se apresentar e ser caracterizado;
• Conhecer os meios de identificação dos conflitos, inclusive antes de se exteriorizar,
quais são os fatores que geram o conflito e como se dá a busca de satisfação de inter-
esses diversos entre os envolvidos;
• Veremos quais são os mecanismos de solução dos conflitos e como podemos em-
pregá-los de modo satisfatório na solução de um conflito.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam-
bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE Conhecendo o Conflito

O Conflito
Não resta dúvida que o ser humano, por ser social, vive em constantes conflitos,
sejam consigo, os denominados conflitos internos, seja com outros da mesma es-
pécie, os externos.

Em uma sociedade, onde a maior parte das pessoas procuram suas satisfações
pessoais, familiares, profissionais, entre outras, os conflitos entre pessoas físicas e
até pessoas jurídicas, que disputam seus interesses, são normais.

Assim, podemos dizer que o conflito é um fenômeno social.

Imagine que você esteja conduzindo um automóvel e acaba se envolvendo em


uma colisão com outro veículo, a necessidade de se imputar responsabilidade e a
consequente reparação do dano darão origem a um conflito.

Figura 1
Disponível em: Pixabay

Da mesma forma, os conflitos se instalam dentro das famílias, quando, por


exemplo, da ruptura de uma relação matrimonial, onde as partes em conflito se
digladiam em busca da divisão de propriedades, com relação a guarda e visita aos
filhos ou outras intercorrências advindas deste conflito familiar.

O conflito surge principalmente das diferenças entre as pessoas, é mais ou me-


nos a máxima: “ninguém é igual a ninguém”. Essas diferenças partem da carga de
formação que cada indivíduo carrega consigo, seus valores, resultantes das infor-
mações que absorve durante a vida, ou seja, de suas próprias experiências.

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Geralmente o conflito tem origem em intenções diversas ou podemos dizer inte-
resses opostos, assim, podemos nominá-lo de conflito de interesse.

INTERESSE INTERESSE
DE INTERESSE DE
“A” “B”

CONFLITOS

Figura 2 - Conflito de interesse

Podemos dizer que o conflito se trata de uma crise entre indivíduos, seja ela
afetiva, profissional ou de qualquer outra forma, desde que surja das relações que
mantemos com outras pessoas, conhecidas ou não.

É possível que as pessoas resolvam as suas divergências entre si, ou seja, promo-
vam a composição de seus interesses, sem a necessidade de recorrer a uma terceira
pessoa para pacificar a relação conturbada em que se encontram.

Como vimos, o conflito surge de uma crise, seja ela oriunda de uma relação anta-
gônica de um relacionamento profissional, afetiva ou de puro interesse patrimonial.

Não podemos afirmar que um conflito é uma situação puramente negativa, pois,
como dito, ele faz parte da natureza humana, até porque em razão do conflito é
possível nascer uma situação favorável a todas as partes, como uma reconciliação
familiar que nasce da discussão proveniente de um conflito.

João conduzia seu veículo por determinada via pública, quando se envolveu em um
acidente com o outro veículo conduzido por José.
Os dois condutores, ao saírem, enfurecidos, dos seus veículos, começam a discutir
a responsabilidade pelos danos, cada um atribuindo a responsabilidade ao outro.
Depois de muita conversa, o clima entre João e José foi se amenizando, fazendo com
que ambos reconhecessem parte de sua responsabilidade.
Ao final do diálogo, ficou decidido que cada um assumiria o dano provocado ao
seu veículo.

Importante citar Antônio Carlos Ozório Nunes, ao falar sobre a composição


entre as partes, esclarecendo:
Essa forma de resolução possibilita a construção da lógica “e/e”, pois as
soluções são elaboradas pelas próprias partes, através do fortalecimento
e do empoderamento pessoal, que permitem levar ao diálogo assertivo,
com recursos transdisciplinares com o objetivo de chegar ao consenso.
(OZORIO NUNES 2016, n.p.)

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

Podemos entender que o emprego de recursos transdisciplinares para a composi-


ção e solução de um conflito, sem a interferência de terceiros, depende da habilidade
pessoal de cada parte, o senso de justiça que cada um carrega consigo, delimitando a
pacificação do conflito para se obter um êxito com a extinção das avenças.

A autocomposição, sem dúvida, é um meio salutar para que os conflitos deixem


de existir.

Via de regra, a solução pela autocomposição pode se dar pelas seguintes formas:
• Desistência;
• Submissão;
• Transação.

A desistência, ocorre quando uma das partes desiste da sua pretensão em favor
da parte contrária. Seria, com relação ao acidente automobilístico que tratamos
no exemplo anterior, onde João “abre mão” de seu direito em favor de José, não
querendo ampliar qualquer discussão, João decide arcar com todas as despesas dos
danos provocados aos dois veículos.

No caso da submissão, uma parte renuncia a sua pretensão em favor da parte


contrária. Com relação ao mesmo exemplo, João desiste das suas pretensões e
cede as de José, assumindo as despesas.

E, por fim, a transação, onde as partes promovem concessões recíprocas de suas


pretensões para solução do conflito, ainda sob o mesmo exemplo, seria João assu-
mindo as despesas dos danos causados em seu veículo e José fazendo o mesmo.

Quando as partes se encontram em conflito na defesa dos próprios interesses, po-


demos dizer que elas se encontram, no que a Ciência do Direito denomina, de Lide.

Na visão do doutrinador Francesco Carnelutti, tecnicamente a lide corresponde:


[...] a um conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida.
Trata-se do núcleo essencial de um processo judicial civil, o qual visa,
em última instância resolver a Lide (conflito) apresentada perante o juízo.
(CARNELUTTI, 1999, p.108)

O importante é destacar que o conceito de lide não se trata somente de uma definição
aplicada ao processo, como ciência do direito, a lide também existe mesmo fora dele.

Como os Conflitos Podem se Apresentar


Uma ciência de caráter multidisciplinar relativa aos estudos dos conflitos é deno-
minada de “conflitologia”. Esta surge na década de 1950 e seu objetivo é estudar,
sob um foco multidisciplinar, a origem e formas de solução dos conflitos.

Para compreendermos um conflito, devemos ter por base duas premissas, a


primeira é a “dimensão”, ou seja, a constatação de qual o número de pessoas que

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estão envolvidas em um conflito, já a segunda leva em consideração a intensidade
do conflito.

Com relação à intensidade, leva-se em conta a aparente predisposição das par-


tes, envolvidas em um conflito, de negociar ou não uma solução harmoniosa para
todos os envolvidos.

Para a avaliação de um conflito, segundo uma visão resumida da ciência, deve


ser levada em consideração a utilização de duas bases significativas: a interna (in-
trapsíquica) e uma externa (interpessoal).

Com relação ao aspecto interno, podemos dizer que o ser humano se encontra
rotineiramente em constantes conflitos, pois a todo momento deve decidir qual
caminho trilhar.

O ser humano diante de seus conflitos internos é levado a decidir a todo momento,
por exemplo:
• Conduzindo um veículo, escolhe o melhor local a seguir em um dia de engarrafa-
mento de trânsito;
• Como romper um relacionamento;
• Qual presente comprar para presentear um membro da família;
• Se aceita ou não uma nova oportunidade de emprego;
• Qual curso superior se matricular. um exemplo onde o conflito foi resolvido pelas
partes, por intermédio de um diálogo.

Na maior parte das vezes, para a solução dos conflitos internos, a pessoa aciona
seus valores e conhecimentos e consegue lidar com eles com maior facilidade.

Outros, porém, diante de determinados temas, demandam uma maior dificulda-


de para decidir, pois, alguns conflitos internos podem evolver questões mais sensí-
veis ao indivíduo, produzindo um desconforto para um posicionamento.

Para estes, o tempo de reflexão é um pouco maior e, por vezes, mesmo com
uma decisão, é possível pairar uma situação de dúvida, no sentido de questionar o
posicionamento adotado, se esta foi realmente a melhor escolha.

No caso dos conflitos mais complexos, é comum o indivíduo procurar um con-


fidente, ou seja, uma pessoa que tenha sua amizade, respeito e confiança para
buscar um aconselhamento ou, até mesmo, um profissional, por exemplo, da área
de psicologia, na busca de um direcionamento de sua decisão.

No tocante ao aspecto externo de um conflito, denominados também de inter-


pessoais, estaremos diante de uma outra dimensão do conflito, pois estarão diver-
gindo dois ou mais interesses dos indivíduos.

Nesta hipótese, o conflito depende, para sua solução e harmonização social, da


interação de no mínimo mais uma pessoa, que conduza tomada de decisões conjuntas.

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

Podemos dizer que para existirem os conflitos externos, os conflitos internos


de uma pessoa devem se exteriorizar. Esta exteriorização influencia os padrões de
conhecimento e de interesses de uma das partes, que entra em conflito com no
mínimo uma pessoa.

Sem dúvida, são os de aspecto externo os mais audazes para serem solucionados,
pois o conflito se evidencia pela satisfação de interesses e valores pessoais diversos.

Pode-se afirmar, na compreensão de Carlos Eduardo Vasconcelos (VASCON-


CELOS, 2008, p.20), que um conflito interpessoal é formado por elementos dis-
tintos, são estes:
• relação interpessoal;
• problema objetivo;
• trama ou processo.

Todos os requisitos se completam, o que significa que a ausência de um deles irá


banir o conflito como um todo.

A “relação interpessoal” tem por premissa dizer que um conflito existe e es-
tará instalado quando no mínimo duas pessoas divergem uma das outras, isso
ocorre em virtude da diferença de valores, sentimentos e posicionamentos que
cada ser carrega consigo, o que influencia a forma pela qual certo interesse é
visto e pretendido.

No tocante ao “problema objetivo”, é certo que a sua identificação decorre da


capacidade que cada parte do conflito a enxerga, pode-se dizer que se trata de um
desejo, um objeto material.

Por fim, a “trama ou processo” onde são expostas as contradições entre as partes
de um conflito.

Regime dos Conflitos


Quando o conflito está ainda sob o domínio interno da pessoa, ainda existe uma
esperança, mesmo que remota, de que ele não se exteriorize, mas na maior parte
das vezes esta situação é impossível de acontecer.

Diante desta dificuldade, a partir do momento que os conflitos individuais efeti-


vamente se exteriorizam e são antagônicos, estaremos diante de um empasse entre
as partes, as quais buscam a satisfação de interesses diversos.

Daí, a solução deste conflito dependerá da aplicação de valores individuais que


cada indivíduo reunir ou do nível dos interesses sob objeto do conflito.

Assim, poderá a pacificação ser feita pela autocomposição ou haverá a necessi-


dade da busca de um terceiro para auxiliar na solução e harmonização do conflito.

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Vejamos um exemplo de conflito instalado, que representa estas ideias:
Dois sócios de uma empresa enfrentam grande dificuldade de relacionamento, um
deles pretende romper com a sociedade, diante da falta de perspectiva de continui-
dade dos negócios.
A contar do momento que o sócio reflete sua pretensão, o conflito é interno, ou seja,
o indivíduo avalia qual a estratégia que empregará para comunicar e estabelecer o
fim da sociedade.
A partir do momento que este sócio exterioriza a sua intenção, o outro integrante
da sociedade se contrapõe a forma indicada pelo primeiro, não concordando com a
ruptura do contrato, nos termos apresentados.
Ou seja, está aqui estabelecido um conflito ou, como vimos, uma lide!.

Análise do Conflito
Podemos dizer que o conflito pode ser dividido em etapas. Preliminarmente,
pode-se afirmar que qualquer conflito se inicia de maneira interna para depois se
exteriorizar como se germinasse de dentro para fora.

Antes mesmo de exteriorizar o conflito, é possível, na maioria das vezes, veri-


ficar a mudança do ânimo que certa situação causa a uma pessoa, alterando seu
comportamento. Aqui, o conflito encontra-se enclausurado a ponto de “explodir”.

É possível, nesta situação, que a percepção do incomodo produza um comporta-


mento de um terceiro observador, fazendo com que este intervenha antes de haver
a exteriorização do conflito.

Vejamos um exemplo para esta situação:


Um casal que se encontra com dificuldades de relacionamento, onde o comporta-
mento de um tende a desagradar o do outro, o que pode gerar, dependendo do nível
do desagrado, a ruptura de um casamento.
Assim, percebendo a situação de desconforto do cônjuge, o outro sede, assumindo
uma postura para apaziguar o conflito, impedindo sua exteriorização.

Mas, não sendo possível a contenção do conflito, este se exterioriza, assim,


uma intenção ou um interesse passa a ser enfrentado por outro indivíduo, ou seja,
estamos diante de um conflito que, como visto, pode ser resolvido entre as partes,
com a autocomposição, ou existe a necessidade de se procurar um terceiro para
auxiliar na solução do conflito.

A partir da exteriorização, surge a necessidade de uma avaliação sistêmica do


conflito, observando todos os fatores que possam ter lhe dado origem, como cada

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

um destes fatores contribuiu para formação do conflito, permitindo a busca da


melhor forma de solucioná-lo.

Descoberto os fatores, antes mesmo de se ter uma solução, é possível a adoção


de posturas que permitam a sua contenção, assim inibindo a sua ampliação.

Por exemplo, quando do emprego da mediação, além de se verificar os fatores


que deram causa ao conflito, é fundamental perceber os fatores positivos que o
conflito possa vir a produzir.

Relevando os aspectos positivos que podem vir a surgir com relação as causas
do conflito, sendo possível a sua solução, podem ser retirados proveitos positivos
da situação, possibilitando, até, por exemplo, tornar uma relação mais forte.

Vejamos um exemplo, para esta situação:


Um casal está em constantes conflitos, quando um deles resolve romper a relação.
O casal, decide procurar um terceiro para auxiliar na solução deste conflito, por
exemplo, um mediador.
O mediador, usando das técnicas de mediação, conduz o casal a perceber que ambos
possuem uma grande compatibilidade para ficarem juntos e que a relação se encon-
tra arranhada por situações indesejadas, que eram praticadas de uma maneira não
intencional, por parte de ambos ou por qualquer um deles.
Caso o mediador obtenha êxito na solução deste conflito, a relação deste casal pode
perdurar de uma maneira mais sólida.

O importante é sempre levar em conta que a solução do conflito pode ser for-
mada pelos próprios conflitantes, quando conduzida de forma hábil e permita reco-
nhecer que cada um pode ceder e exterminar o conflito, retirando, quando possível,
pontos positivos para uma relação.

Os conflitos internos “armazenados” podem dificultar a solução quando estes se


exteriorizam, pois, existindo interferências externas, estas podem potencializar a
questão conflituosa, tornando a solução mais difícil.

Assim, podemos, ao analisar um conflito, dividi-lo em três partes:


• Conflitos latentes – estes são insatisfações que podem ainda não ter sido
percebidos por outras pessoas, estão internalizados no indivíduo.
• Conflitos emergentes – é o que podemos dizer “a ponto de explodir”, o con-
flito começa a transparecer, podendo haver uma tentativa de apaziguamento.
• Conflito manifesto – inicia-se a disputa pelos interesses de cada uma das par-
tes, a lide está instaurada.

LATENTE EMERGENTE MANIFESTO

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Espiral do Conflito
Dois autores (RUBIN, 1986, p.42) e (KRIESBERG, 1998, p. 96), de forma si-
milar, concordam que os conflitos podem ser ampliados diante de uma constância
de ação e reação.

Os autores concordam ao afirmarem que, diante de um movimento de rotação,


os conflitos se ampliam, no sentido em que a reação a um conflito pode aumentá-
-lo, tornando-o maior que o anterior, ou seja, ampliando o conflito inicial que, na
maior parte das vezes, deixa de ser a questão mais importante.

Nesta hipótese, denominada de espiral, o conflito se amplia e a solução torna-se


cada vez mais difícil.

Vejamos um exemplo para esta situação:


Dois motoristas transitam por uma avenida qualquer, quando um deles promove
uma manobra brusca, entrando inadvertidamente na frente do outro condutor.
O motorista que foi “fechado” começa a buzinar, demonstrando sua ira.
No primeiro semáforo, os dois veículos se emparelham e os condutores iniciam
uma discussão.
Um dos condutores sai do interior do seu veículo e começa a bater na lataria do
veículo de seu opositor, fazendo com que este também abandone o seu veículo e
retribua os danos no veículo de seu “adversário”. Até que chega a polícia e põe fim
as agressões.

Assim, o passado é interessante para uma avaliação do conflito, o certo é que


todos acabam tendo uma participação na construção e no próprio desenvolvimen-
to do conflito.

Principalmente nos conflitos familiares, a progressão e a aplicação da espiral


dos conflitos quase sempre ocorre, pois o movimento cíclico dos conflitos acaba
potencializando-os.

Para evitar sua expansão, é preciso dar um “breque” e estancar os desconfortos.

O que pode partir da conduta de todas as partes envolvidas, mesmo aquelas que
dizem que em nada fizeram para o surgimento do conflito, mas que na verdade,
podem sim ter um ponto de participação.

A solução deste conflito carece de uma visão prospectiva, ou seja, quais os pos-
síveis cenários futuros causados em razão do conflito, o que facilita a busca de um
melhor desfecho.

Como na situação familiar citada, a solução paira na visualização do futuro da


relação, sem buscar culpas e culpados, mas dando um desfecho positivo que o
conflito possa produzir.

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

Figura 3
Fonte: Pixabay

Desenhando o Conflito
Desenhar um conflito é a forma de se verificar todas as causas e consequências
que este pode gerar, assim, retratando o conflito é possível se estabelecer uma
forma para sua solução.

Como uma proposta de solução de conflitos, surge uma técnica denominada de


“Desenho de Sistema de Solução de Disputa” (DSD – Dispute System Design), esta
trata-se de uma técnica utilizada para projetar a solução de um conflito ou demais,
advindo de uma relação. O DSD procura ser um sistema participativo entre os in-
teressados juntamente com o designer.

Podemos dizer que o desenho do conflito não será elaborado para as partes do
conflito, mas será elaborado por elas. Neste ponto, o designer utilizará técnicas de
retirar das partes envolvidas no conflito as informações necessárias para tracejá-lo.

Para tracejar o conflito, o designer necessita de algumas informações prévias


que se tornam transparentes ao analisar as características próprias daquele confli-
to, relativas:
• as partes envolvidas;
• a qual relação existe entre as partes, ou seja, o que as ligam ao conflito;
• ao objeto sob conflito.

Um conflito pode ser formado por vários vetores, como já dissemos, existem
vários conflitos latentes que contribuem para formação do conflito.

Nesta hipótese, o conflito poderá ter como solução o tratamento que deve ser
dispendido a todas as questões emergentes.

O DSD deve ser empregado em conflitos conhecidos e que abram a possibilida-


de de serem solucionados em razão de suas próprias características. Dessa forma,
pode-se dizer que não existe um modelo melhor para a solução de um conflito de

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interesses, vez que o designer, junto com as partes, avalia o conflito e cria-se a me-
lhor maneira de solucioná-lo.

Na busca da harmonização das partes, o DSD deve apresentar as melhores for-


mas de solução, sempre observando alguns fatores:
• Eficiência.
• Menor custo.
• Perda de oportunidades.
• Participação das partes na construção dos resultados.

No tocante a eficiência, o meio escolhido para solução do conflito deve ser o


melhor, ou seja, que ele possa encaminhá-lo para a melhor forma de solução, sem
o emprego de um esforço desnecessário que pode inclusive piorar a situação con-
flituosa, não encerrando o conflito da melhor forma, criando a possibilidade deste
se restabelecer ou até surgirem outros conflitos, isto é, o caminho escolhido para a
solução do conflito primário foi errado.

O menor custo não está ligado somente à questão financeira da solução de um


conflito, tais como o gasto com indenizações, advogados, reparos etc., deve-se
levar em conta o custo emocional que o conflito gera.

O tempo que a solução pode levar para seu desfecho ou mesmo o tempo dis-
pendido para se chegar a uma solução deve ser levado em consideração.

A perda de oportunidades para a solução dos conflitos deve ser evitada, pois ,
por exemplo, quando se parte para uma solução processual, pode esta nem sem-
pre ser a melhor oportunidade, vez que o processo não procura abordar questões
mais profundas do conflito, somente apreciando preceitos legais que nem sempre
serão a melhor solução, mas com certeza poderá ser a mais drástica.

Neste passo, o DSD é fundamental para evitar a perda da melhor oportunidade


de solução do conflito, indicando uma saída menos “dolorosa” para sua solução.

A busca da participação das partes para se chegar a solução dos conflitos, trata-
-se de uma possibilidade que se encontra em consonância com o atual Código de
Processo Civil, que em sua exposição de motivos indica a participação das partes
como a melhor forma para se construir uma solução de um conflito. Por isso, da
previsão no código como os institutos da mediação, conciliação e do negócio jurí-
dico processual, estabelecendo, estes, como a melhor forma para uma satisfação
na solução do conflito.

Obviamente, não se parte da premissa que um juiz não dará uma boa solução
ao conflito, mas que as partes, mais do que ninguém, conhecem o conflito e como
são as suas relações diante deste.

Daí a necessidade de se definir o tipo de processo, não efetivamente um proces-


so judicial, mas um processo que associe diversos mecanismos, que sejam aptos a
solução do impasse.

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

Este processo de solução de conflito deve ser:


• Adequado a solução daquele conflito.
• Efetivo a solução do conflito desenhado.
• Ser eficiente a solução do conflito.
• Satisfação das partes envolvidas no conflito, daí a necessidade de escolha do
meio mais eficaz para sua solução.

Para o emprego do DSD, é importante saber se a solução do conflito permite a


autonomia das partes para solucioná-lo, ou se o conflito somente pode ser resolvi-
do com a interveniência do Poder Judiciário.

No DSD é fundamental conhecer o principal interesse do conflito, às vezes o


principal interesse pode estar mascarado, ou seja, pode ser uma disputa por deter-
minado objeto, que na verdade esconde o real interesse de uma das partes.

Vejamos um exemplo para esta situação:


Um casal que está se separando, durante a partilha dos bens, um exige ficar com
determinado presente recebido por um dos padrinhos do casamento.
Neste caso, a intenção de uma das partes está ampliando a discussão, que é o objeto
principal do conflito, ou seja, a própria ruptura do casamento.

Meios alternativos de solução de conflitos - MARC

Atualmente, conhecido como Meios Alternativos de Resolução de Conflitos –


MARC, é oriundo da doutrina internacional em que é conhecido como Alternative
Dispute Resolution - ADR.

Trata-se de meios de solução do conflito que procuram evitar sua jurisdicionali-


zação, retirando ao máximo uma solução por parte do Poder Judiciário.

As formas conhecidas para o emprego do MARC são:


• Autocomposição - esta deve ser a mais rápida das formas de solução, pois,
para ela, somente as partes envolvidas em um conflito definem uma solução,
não existindo a necessidade de um terceiro;
• Conciliação – a solução do conflito parte da busca de um terceiro, o “conci-
liador”, aquele que irá conduzir as partes para que a solução seja mais eficaz e
satisfatória, segundo os interesses das partes envolvidas;
• Mediação – o mediador é empregado em conflitos mais complexos, ele não apon-
ta uma saída, somente conduz as partes na busca de uma solução para o conflito;
• Arbitragem – nesta modalidade, as partes em conflito procuram um arbitro
que indicará a solução do conflito, ou seja, nesta modalidade o terceiro decide
o conflito e não as partes. Trata-se de uma decisão muito similar a dada pelo
Poder Judiciário, a solução é dada por uma Câmara Arbitral, onde nem sem-
pre quem decide é um bacharel em direito.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Leitura
Meios alternativos de solução de conflito
https://goo.gl/Qo4FhR
Um breve histórico sobre a mediação
https://goo.gl/gAadL3
Código de Processo Civil Brasileiro
https://goo.gl/jBJQ4V
Lei nº 9307, de 23 de setembro de 1996: Lei da Arbitragem
https://goo.gl/qS259E
Mediação: um novo olhar para o tratamento de conflitos no Brasil
https://goo.gl/xjU5m6

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UNIDADE Conhecendo o Conflito

Referências
CARNELUTTI, Francesco. Teoria geral do direito. São Paulo: Ed. Lejus, 1999.

FACCHINI NETO, Eugênio. A outra justiça: ensaio jurídico de direito comparado


sobre os meios alternativos de resolução de conflitos. Revista da Ajuris, Porto Ale-
gre, v. 36,. 2009.

KRIESBERG, Louis. Constructive Conflicts: From Escalation to Resolution.


Londres: Sage.1998.

NETO, Antônio A. et al. Negociação e administração de conflitos. 3. ed. São


Paulo, FGV, 2012.

NUNES, Antônio Carlos Ozório. Manual de Mediação. Revista dos Tribunais.


E-Book: ISBN 9788520365915.

PRUITT, Dean; RUBIN, Jeffrey. Social Conflict: Escalation, Stalemate and Se-
ttlement.Ed: McGraw-Hill: 1986.

REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 7. ed. São Paulo: Saraiva. 1980.

SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991.


VASCONCELOS, Carlos Eduardo. Mediação de conflitos: práticas restaurativas.
1. ed. São Paulo: Método. 2008.

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