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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 2

I – FORMAS DE GESTÃO E CONTROLE DA FORÇA DE TRABALHO........ 5

1. O Trabalho.............................................................................................................. 5

1.1. O Trabalho sob as Relações Capitalistas de Produção..................................... 6

1.2. Da Manufatura à Maquinaria............................................................................. 7

2. A Origem do Fordismo............................................................................................ 11

2.1. O Fordismo............................................................................................................ 14

2.2. Crise do Fordismo e do Estado de Bem-Estar Social........................................ 19

II – ORIGEM DO TOYOTISMO OU GESTÃO FLEXÍVEL................................. 22

1. A Origem do Toyotismo........................................................................................... 22

1.1. Especificidades....................................................................................................... 24

2.O Toyotismo............................................................................................................... 24

3. Reestruturação Produtiva e Inserção do Toyotismo como “Momento


Predominante”............................................................................................................... 33

III – A GESTÃO FLEXÍVEL E A IMPLICAÇÃO NOS TRABALHADORES..... 35

1. CCQ’S......................................................................................................................... 37

2. Processo de Formação/Qualificação – Investimento em Capital Humano........ 40

3. Outros Mecanismos de Dominação Ideológica..................................................... 45

CONCLUSÃO................................................................................................................. 47

BIBLIOGRAFIA………………………………………………………………………. 48

1
INTRODUÇÃO

“A história de todas as sociedades que já existiram é a história da


luta de classes. [...]
A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da
sociedade feudal, não aboliu os antagonismos das classes.
Estabeleceu novas classes, novas condições de opressão, novas
formas de luta no lugar das antigas”. (MARX, 1999:9)

Ao longo de toda sua história a burguesia buscou tomar o controle sobre o processo de
produção e, assim, também sobre o trabalhador. O trabalhador apenas vende a sua força de
trabalho, pois não encontra outra maneira de subsistir diante das condições sociais dadas.
No entanto, resiste à exploração burguesa e, assim, a obriga a renovar constantemente suas
formas de controle social. Desta maneira, nas diferentes fases históricas do capitalismo -
indo do seu início com a cooperação e a manufatura, aos tempos atuais, com o capitalismo
transnacional em uma economia globalizada – podemos perceber seus esforços no sentido
de controlar o trabalho através de diferentes mecanismos, e a conseqüente resistência à
desigualdade e opressão empunhada pelos trabalhadores.
O sistema metabólico social sob a égide do capitalismo é instável por excelência e,
portanto, exige que a burguesia revolucione constantemente os instrumentos de produção e,
desse modo, as relações de produção e, consequentemente, todas as relações da sociedade.
No entanto, não podemos perder de vista um dos fatores determinantes dessas
transformações nas relações sociais: a resistência da classe trabalhadora e, portanto, a luta
entre as duas classes.
O capital tem como necessidade a constante reestruturação organizacional, devido a uma
contradição interna na qual os objetivos do capital, de acumulação, aparecem como
estranhos ao trabalhador, que tem como meta a reprodução de sua existência. A
acumulação não é uma busca do trabalhador, e, portanto, não há razões que o motivem a se
esforçar para atingir a maior produtividade e ganhos para a empresa.

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Procuramos explicitar como as mudanças nas formas de gerenciamento capitalistas não se
dão aleatoriamente, nem apenas pelo mero reflexo da inserção da ciência e tecnologia no
processo produtivo, já que essa visão mascara os verdadeiros fatores que determinam a
dominação e o aumento da produtividade. Como adquirir nova maquinaria com tecnologia
mais avançada está a alcance da maioria das empresas em competição, o fator primordial é
como é aplicada essa tecnologia no processo produtivo, ou seja, como se dá a organização
do trabalho. Como explica M. P. Leite (1994:95):
“A comparação entre a produtividade alcançada em firmas que
utilizam uma tecnologia equivalente, mas formas de organização
do trabalho diferentes, despontaram como uma comprovação
importante no papel central que adquirem as inovações
organizacionais no contexto das modificações tecnológicas”.

Assim, quando uma empresa desenvolve uma nova forma de organização do trabalho que
se apresenta como mais produtiva que a precedente, no seu esforço individual inserido na
liberdade de empreender, acumula mais depressa que suas concorrentes. Ganha, a partir
disto, fatias de mercado – cada vez mais escassas – até que se dissemine a nova forma de
organização desenvolvida para as outras empresas do setor. (GOUNET, 1999)
Quando a base técnica está estabilizada, a correlação de forças inserida no contexto
imediato da produção põe em questão a organização do trabalho e conduzem, de diferentes
maneiras, à rigidificação das condições de emprego, de remuneração e de trabalho.
(FREYSSENET, 1989) As crises periódicas do capitalismo estão, portanto, diretamente
relacionadas à disseminação das formas organizacionais do processo de trabalho - onde, a
partir de um determinado momento todas as concorrentes diretas possuem mais ou menos a
mesma velocidade de acumulação - e o conseqüente desenvolvimento de meios de
resistência por parte da classe operária. Portanto, nota-se o porque da necessidade do
capital de constantes reestruturações organizacionais, pois é determinante que cada empresa
consiga ter rápidas elevações de produtividade e, ainda, cooptar a classe trabalhadora,
mesmo que por um breve período, convencendo-os das melhorias de suas condições de vida
através dessas mudanças. INSERIR NO ARTIGO
Através desse trabalho, buscaremos explicitar como se dão as principais mudanças
organizacionais realizadas por empresas de importantes setores da economia mundial no
séc. XX, e a conseqüente tentativa de controle da classe operária por parte da burguesia.

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Buscamos, no primeiro capítulo, definir quais são os principais mecanismos de controle do
processo produtivo e as técnicas de aumento de produtividade do sistema Fordista de
acumulação. Elucidando também o importante papel do Estado neste processo de produção
e consumo em massa, e a participação da classe operária, seja na sua aceitação, ou na
tentativa de resistência.
No segundo capítulo, explicitaremos a origem e técnicas do que se convencionou chamar
de sistema “toyotista” de produção, mostrando como este é um aprimoramento do primeiro
- pois mantém a mesma lógica de racionalização do trabalho utilizada por H. Ford na
fábrica fordista - e como este novo sistema se dissemina pelo mundo por sua singular
capacidade de operar a produção em momentos de baixa expansão do mercado mundial. E
ainda, como é capaz de aprimorar as técnicas, iniciadas pelo fordismo, de cooptação do
subjetivo dos trabalhadores, que será mais bem explicitado no terceiro e último capítulo
dessa dissertação.
Para isso, demos especial enfoque as indústrias automobilísticas, já que, a fabricação de
carros exige uma organização complexa, sendo um produto de alto valor agregado,
necessita de todo um sistema para sua produção. Essas indústrias são consideradas
estratégicas na maioria dos países capitalistas centrais por representar uma importante
percentagem do comércio interno e externo. Os governos buscam, portanto, atrair para seu
território essas empresas, já que criam muitos empregos, favorecem o desenvolvimento de
um tecido composto por fabricantes de autopeças, e possibilitam uma grande arrecadação
de impostos.

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CAPÍTULO I
FORMAS DE GESTÃO E CONTROLE DA FORÇA DE
TRABALHO

1. O Trabalho

O trabalho é a atividade em que o homem altera o material retirado da natureza


para melhorar sua utilidade, ou seja, é a interação do homem com o a mesma; e ao atuar na
natureza, modificando-a, altera e modifica a si próprio, desenvolvendo suas potencialidades
adormecidas.
“O processo de trabalho [...] é a atividade dirigida com o fim de
criar valores-de-uso, de apropriar os elementos naturais às
necessidades humanas; é condição necessária do intercambio
material entre o homem e a natureza; é condição eterna da vida
humana, sem depender, portanto, de qualquer forma dessa vida,
sendo antes comum a todas suas formas sociais.”(MARX,
1890:208)

O que distingue o homem dos outros animais é o fato de ele, antes de iniciar seu
trabalho, projetar mentalmente o que pretende fazer. Depois de concluído o processo de
trabalho, aparece, portanto, um resultado que já existia idealmente na imaginação do
trabalhador. Ele não apenas transforma o material no qual trabalha, como imprime nele o
projeto que já existia idealmente, ou seja, o homem não age apenas instintivamente como
os outros animais, seu trabalho é consciente e proposital.
Assim, esse trabalho que ultrapassa a mera atividade instintiva e que é capaz de
uma infinita variedade de funções e divisão de funções, é a força pela qual a humanidade
criou o mundo como conhecemos. O trabalho humano é, portanto, um recurso exclusivo da

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humanidade para enfrentar a natureza, seja ele diretamente exercido ou incorporado em
objetos sobre o qual o homem atuou, como ferramentas, máquinas, etc.
Por ser um ser social, ou zoon politikon1, todo homem é o proprietário de uma
porção da força de trabalho total da comunidade, da sociedade e da espécie.A única forma
de confundir força de trabalho com qualquer outro meio de executar uma tarefa, portanto, é
sendo senhor do trabalho de outros indivíduos, transformando estes em “fator de
produção” ao passo que são vistos como equivalentes a um cavalo ou uma máquina.
(BRAVERMAN, 1987)
Não sendo apenas instintivo, o trabalho humano pode, portanto, ter infinitas
variações dentro de seus diversos determinantes que são produtos das complexas interações
entre natureza e relações sociais, ferramentas, tecnologia e sociedade.
Desta maneira, o ser humano é o único animal que comporta a separação entre a
força motivadora de trabalho e o trabalho em si, ou seja, entre concepção e execução, pois
não é possível que um joão-de-barro faça um ninho para outro passarinho, mas um
trabalhador pode executar uma idéia que não foi concebida por ele.

1.1. O Trabalho Sob as Relações Capitalistas de Produção

Uma das especificidades das relações capitalistas é a compra e venda de força de


trabalho. Assim:
“O processo de trabalho, quando ocorre como processo de
consumo da força de trabalho pelo capitalista, apresenta dois
fenômenos característicos:
O trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem
pertence seu trabalho. O capitalista cuida em que o trabalho se
realize de maneira apropriada e em que se apliquem
adequadamente os meios de produção, não se desperdiçando
matéria-prima e poupando-se o instrumental de trabalho, de modo
que só se gaste deles o que for imprescindível à execução do
trabalho. Além disso, o produto é apropriado pelo capitalista, não
do produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por
exemplo, o valor diário da força de trabalho. Sua utilização como
a de qualquer outra mercadoria, por exemplo, a de um cavalo que
alugou por um dia, pertence-lhe durante o dia.” (MARX, 1890,
209-210)

1
ARISTÓTELES apud MARX, 1978:104.

6
O trabalhador aceita o contrato que estabelece as condições de venda da sua força
de trabalho porque não encontra outra alternativa diante das condições sociais dadas; o
capitalista a compra porque deseja ampliar uma unidade de capital que possui e para isso
converte parte desse capital para o salário. Assim, o processo de trabalho torna-se
especificamente um processo para a expansão desse capital, criando o lucro.
Como o trabalho é um atributo inalienável do homem, o capitalista não pode
apenas comprar o trabalho, precisa comprar também a força que o executa e, portanto,
contrata essa força de trabalho por um período de tempo. Esse processo, no entanto, é
apenas rentável para o capitalista por causa da capacidade humana de produzir além do
tempo necessário à sua reprodução e ainda, por sua capacidade criativa que lhe dá grande
adaptabilidade e produz as condições sociais de ampliar sua própria produtividade, de
modo que seu produto excedente pode ser continuamente ampliado.
Essa potencialidade humana é vista pelo capitalista como a base de sua
possibilidade de ampliação do capital, que se utiliza, para isso, da extensão da jornada de
trabalho e do emprego de instrumentos que tornem o trabalho cada vez mais produtivo.
Como os trabalhadores, mediante as circunstâncias, são obrigados a vender sua
força de trabalho, perdem o interesse pelo mesmo, e, assim, se torna responsabilidade do
capitalista lograr extrair a maior produtividade possível, diante da resistência dos primeiros.
Pela incerteza dos resultados dessa compra, diferente de quando se compra maquinaria ou
ferramentas (capital constante), já que os interesses dos trabalhadores são opostos aos do
capitalista e há inúmeras variações e determinações entre os seres humanos, esse capital é
chamado de capital variável. (BRAVERMAN, 1987)

1.2. Da Manufatura à Maquinaria

A produção capitalista só começa realmente quando reúne em um só espaço os


artesãos que costumavam trabalhar por conta própria, ampliando a escala do processo de
trabalho e fornecendo produtos em maior quantidade. Assim, a diferença inicial é
puramente quantitativa do ponto de vista do modo de produção, já que os artesãos se
mantinham dominando todo o processo produtivo.

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A cooperação, segundo Marx, é uma forma de trabalho onde muitos trabalham
juntos, de acordo com um plano, no mesmo processo de produção ou em processos
diferentes, mas conexos; assim, se dá a criação de uma força produtiva nova, a força
coletiva.
“Mesmo não se alterando o método de trabalho, o emprego
simultâneo de grande número de trabalhadores opera uma
revolução nas condições materiais do processo de trabalho.
Construções onde muitos trabalham, depósitos de matéria-prima
etc., recipientes, instrumentos, aparelhos etc., que servem a muitos
simultânea e alternadamente, em suma, uma parte dos meios de
produção é agora utilizada em comum no processo de trabalho.”
(MARX, 1890:373)

Assim, a administração dessas cooperativas, mesmo que de forma rudimentar, já


se tornava necessária e a medida que a produção industrial foi se complexificando, as
funções de coordenação se tornaram essenciais na forma de gerência. Isso porque, o
objetivo do capitalista é sempre a maior expansão do seu capital, ou seja, a maior extração
de mais-valia e, portanto, a maior exploração da força de trabalho. No entanto, com o
aumento do número de trabalhadores reunidos também cresce a resistência dos mesmos, o
que acaba por exigir o desenvolvimento de mecanismos de controle por parte do capitalista.
Existiam formas de controle de grande contingente de trabalhadores sob uma única
direção, anteriores ao capitalismo, como na Idade Média, por exemplo, no entanto, esses
casos diferem da cooperação capitalista por dois motivos: em geral a cooperação em larga
escala no mundo antigo se dava em relações diretas de domínio e escravidão, ao passo que
na cooperação capitalista existe o pressuposto dos assalariados venderem livremente sua
força de trabalho; e, ainda, não existia, nos casos anteriores, a necessidade de valorização
de unidades de capital investido sendo, portanto, diferente da administração capitalista.
“A transformação que torna cooperativo o processo de trabalho é
a primeira que esse processo experimenta realmente ao
subordinar-se ao capital. [...] Seu pressuposto, emprego
simultâneo de numerosos assalariados no mesmo processo de
trabalho, constitui o ponto de partida da produção capitalista.
Esse ponto de partida marca a existência do próprio capital.”
(MARX, 1890:384)

A partir da concentração de trabalhadores em um mesmo espaço, o capitalista


percebe, através de circunstâncias externas - como a necessidade de fornecer mais
mercadorias em um determinado prazo – a possibilidade de utilizar a simultaneidade do

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trabalho e a concentração dos trabalhadores de uma forma mais eficiente. Assim, redistribui
o trabalho, retirando do trabalhador o ofício de produzir um mesmo produto por inteiro,
fazendo com que ele passe a realizar a mesma e única tarefa parcial ininterruptamente.
Quando este sistema revela as suas vantagens peculiares, se instaura a divisão sistemática
do trabalho.
A partir de então, a mercadoria deixa de ser um produto individual de um artífice
independente pra se tornar um produto social de um conjunto de artífices que agora
realizam operações parciais do processo de produção de um único produto. Cada operação
foi sendo cada vez mais subdividida e cada nova subdivisão isolada e transformada em
função de um único trabalhador.
No entanto, segundo Marx (1890:389):
“Complexa ou simples, a operação continua manual, artesanal,
dependendo, portanto da força, da habilidade, rapidez e
segurança do trabalhador individual, ao manejar seu instrumento.
O ofício continua sendo a base. Essa estreita base técnica exclui
realmente a análise científica do processo de produção, pois cada
processo parcial percorrido pelo produto tem de ser realizável
como trabalho parcial profissional de um artesão. É justamente
por continuar sendo a habilidade profissional do artesão o
fundamento do processo de produção, que o trabalhador é
absorvido por uma função parcial e sua força de trabalho se
transforma para sempre em órgão dessa função parcial.
Finalmente, a divisão manufatureira do trabalho é uma espécie
particular de cooperação, e muitas de suas vantagens decorrem
não dessa forma particular, mas da natureza geral da
cooperação.”

A maior produtividade do trabalho na manufatura ocorre, desta forma, primeiro


pela diminuição das interrupções durante o período de trabalho, já que o trabalhador,
sempre executando a mesma operação, não precisa mais mudar de local ou de ferramenta.
Em segundo lugar porque, à medida que ele realiza apenas algumas operações repetidas, se
torna cada vez mais especializado, e, em conseqüência, mais ágil. A partir da divisão do
processo de trabalho na manufatura, portanto, o trabalhador passa a realizar suas funções de
forma muito mais rápida e precisa, ou seja, eleva-se a força produtiva do trabalho. No
entanto, este trabalhador se torna inapto a acompanhar qualquer processo de produção em
sua totalidade. Segundo Braverman (1987:72):
“Enquanto a divisão social do trabalho subdivide a sociedade, a
divisão parcelado do trabalho subdivide o homem, e enquanto a

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subdivisão da sociedade pode fortalecer o indivíduo e a espécie, a
subdivisão do indivíduo, quando efetuada com menosprezo da
capacidades e necessidades humanas, é um crime contra a pessoa
e contra a humanidade.”

Por cada operação parcelar exigir qualidades distintas da força de trabalho, na


manufatura se desenvolve também a hierarquia no trabalho. Diante de especificidades de
cada operação, uma escala de salários é definida, no entanto, essa hierarquia está ainda
atrelada às habilidades naturais e adquirida do trabalhador.
Aqui, é importante ressaltar a relevância das ferramentas no processo de aumento
da produtividade da força de trabalho no período manufatureiro. Ferramentas da mesma
espécie eram antes utilizadas para diferentes processos de trabalho, mas, a partir da maior
especialização do trabalho, elas são também aperfeiçoadas e diversificadas, sendo
adaptadas às funções exclusivas do trabalhador parcial. Desta maneira, se tornam mais
eficientes, criando as condições materiais para a existência da maquinaria que consiste,
segundo Marx (1890), em uma combinação de instrumentos simples.
“A máquina-ferramenta é, portanto, um mecanismo que, ao lhe ser
transmitido o movimento apropriado, realiza com suas ferramentas
as mesmas operações que eram antes realizadas pelo trabalhador
com ferramentas semelhantes.”(MARX, 1890:426)

Assim, a primeira diferença entre a utilização da máquina ao invés do homem com


suas ferramentas para a realização de determinadas operações, consiste na impossibilidade
humana de operar grande número de instrumentos ao mesmo tempo, por determinações
naturais, ou seja, seus órgãos físicos. Desta maneira, o homem é substituído pela máquina,
já que esta pode operar ao mesmo tempo um grande número de ferramentas, no entanto,
esta ainda tem como força motriz o próprio homem.
Com o desenvolvimento do motor a vapor o homem deixa também de ter seu valor
como força motriz, pois é muito imperfeito pra produzir um movimento uniforme e
contínuo. A cooperação de muitas máquinas é substituída por um sistema de máquinas,
onde um motor maior é responsável por um mecanismo de transmissão que assume grandes
proporções.
Assim, segundo Marx (1890:480):
“Com a ferramenta que se transfere à máquina segue a
virtuosidade do trabalhador em seu manejo. A eficácia da
ferramenta emancipa-se dos limites pessoais da força humana.

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Desse modo, desaparece a base técnica em que se fundamentava a
divisão manufatureira do trabalho.”

Agora, o trabalhador coletivo que aparecia como sujeito de uma relação na qual a
máquina era o objeto, se transforma ele no objeto, órgão consciente coordenado por órgãos
inconscientes, a máquina, e ambos subordinados a uma mesma força motriz central. Quem
dá o ritmo ao trabalho é a máquina, transformando o trabalhador em apêndice,
complemento vivo de um mecanismo morto, que existe independente dele.
O trabalho na fábrica passa a confiscar toda a atividade livre do trabalhador, física
e espiritual, retirando todo interesse deste com relação ao seu trabalho. As forças
intelectuais do processo de produção passam a ser poderes de domínio do capital ao
materializarem-se na máquina em oposição ao trabalho manual do homem. O capitalista
consegue seu objetivo subordinando o trabalho vivo ao trabalho morto realizando, assim, a
subordinação real do trabalho ao capital.
“A luta entre o capitalista e o trabalhador remonta à própria
origem do capital. Ressoa durante todo o período manufatureiro.
Mas, só a partir da introdução da máquina, passa o trabalhador a
combater o próprio instrumental de trabalho, a configuração
material do capital. Revolta-se contra essa forma determinada dos
meios de produção, vendo nela o fundamento material do modo
capitalista de produção.”(MARX, 1890:489)

Ao mesmo tempo, quanto mais o trabalho se torna mecânico e, portanto,


desinteressante para o trabalhador, maior devem ser os mecanismos de controle exercidos
pelo capital, que cria postos de supervisão e códigos de fábrica, legislando, assim,
arbitrariamente sobre o processo e a organização do trabalho, onde penalidades como
multas e reduções salariais tornam muitas vezes a transgressão às regras mais rentável para
o capitalista do que a obediência. (MARX, 1890)

2. Origem do Fordismo

Apesar do capital haver tornado o trabalhador um complemento da máquina,


segundo Gomes e Silva (2004) isso não se dá de forma homogênea em todos os âmbitos da

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produção social, havendo ainda limites objetivos e subjetivos inerentes à força de trabalho
que continuavam se apresentando como determinantes da produtividade.
“Podemos afirmar que o avanço geral da ciência e sua aplicação
tecnológica, o progresso técnico, não acontece na história do
capitalismo de forma súbita. Isso significa dizer que, ao abrir
novas frentes de acumulação, o capital gera formas de produção
ainda não integradas totalmente aos princípios avançados da
automação.” (GOMES E SILVA, 2004:27)

Isso significa que, em alguns ramos da produção – neste caso, principalmente a


metal-mecânica - apesar dos trabalhadores estarem desapropriados dos meios de produção e
subordinados ao capital, ainda conseguem algum espaço de manobra, onde buscam
diminuir a exploração deixando mais lento o ritmo de trabalho.
Para lograr o aumento de produtividade na indústria automobilística, portanto, em
1913, H. Ford se empenha em aplicar o método de “Gerência Científica” de F. W. Taylor,
no qual o maior parcelamento das tarefas, através do controle e da intensificação do
trabalho, era a principal meta. O fordismo desenvolve a proposta taylorista organizando o
trabalho a partir de uma linha de montagem, além de realizar o parcelamento e a
racionalização ao máximo da produção. Para isto recorre à padronização das peças e
automatização das fábricas com a inserção de novas máquinas.
“Por meio dos estudos dos tempos e dos movimentos necessários à
realização do trabalho – eliminação dos gestos humanos
considerados supérfluos – e da conseqüente determinação da única
maneira certa de executar as tarefas (one best way), a produção
padronizada será realizada em grandes séries. Para administrar a
vontade operária por intermédio dos incentivos monetários, da
supervisão cerrada, do estabelecimento dos intervalos de descanso
[...] e das ameaças de demissão, o capital desenvolverá a
“organização científica do trabalho”.”(GOMES E SILVA,
2004:31)

Diminuindo ainda mais os gestos necessários para realização do trabalho, estes se


2
tornam cada vez mais precisos e rápidos reduzindo o “tempo morto” e, principalmente,
simplificando o trabalho, fazendo com que qualquer indivíduo pudesse operar as máquinas,
já que o conhecimento dos artesãos é nelas incorporado.

2
Tempo que o trabalhador perdia ao trocar de instrumento de trabalho ou deslocando-se de um lugar a outro,
o que não mais ocorre após a inserção da esteira rolante na linha de produção, que o obriga a manter-se no
mesmo local realizando sempre a mesma função.

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Ford se encarrega de aprofundar a separação entre concepção e execução da
produção, ou seja, a divisão capitalista do trabalho. Desta maneira, uns poucos
trabalhadores são encarregados de conceber instrumentos, mecanismos, automatismos e
modos operatórios em detrimento da maioria que deve apenas executar funções repetitivas
e enfadonhas. No entanto, os trabalhadores diretos continuam sendo os únicos capazes de
garantir a fabricação a despeito da separação jurídica que define os donos dos meios de
produção e os que os utilizam para realizar a mesma, deixando claro que a divisão
capitalista do trabalho é a expressão e o instrumento de uma luta pelo poder concreto
sobre a produção. (FREYSSENET, 1989)
A maquinaria, além do controle sobre os trabalhadores, tem como função principal
aumentar a produtividade do trabalho operário e baratear a produção, assim, Ford
transformou o progresso científico em instrumento de poder a serviço da expansão
uniforme do valor3. Segundo S. Weil4, isso significa que, a mudança gerada pelo fordismo
se deu pela utilização científica da matéria viva, não incorporando aos dispositivos
mecânicos os movimentos das mãos humanas, o que seria próprio ao desenvolvimento da
maquinaria. Ou seja, a mais importante mudança feita pelo fordismo através das idéias
tayloristas não foi o desenvolvimento técnico das máquinas e sim o desenvolvimento do
método organizacional, que permite que a gerência tenha total controle do tempo de
trabalho operário. Assim, o que S. Weil e F. L. Gomes e Silva buscam explicitar é que a
racionalização do trabalho segundo a “Gerência Científica”, não deve ser considerada como
forma inevitável de aumento da produtividade industrial, já que é inerentemente despótica.
Poderemos entender melhor porque se trata de uma técnica de controle social se
considerarmos a União Soviética e sua dificuldade em desenvolver o socialismo após a
introdução do método taylorista-fordista em suas fábricas, segundo C. Bettelheim
(1979:24):
“[...] o principal obstáculo a uma política socialmente unificada
[...] encontra-se não no nível de desenvolvimento das forças
produtivas, mas na natureza das relações sociais dominantes, isto
é, simultaneamente, na reprodução da divisão capitalista do
trabalho e nas relações ideológicas e políticas, as quais são um
efeito dessa divisão mas constituem as condições sociais dessa
reprodução [...].”

3
SOUZA apud MARCELINO, Paula, 2004:50.
4
WEIL apud GOMES E SILVA 2004.

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Assim, segundo Gomes e Silva, é essencial a superação do padrão fordista de
organização e gestão da força de trabalho para se poder alcançar a emancipação dos
trabalhadores, já que a base de sua elevação da produtividade está na intensificação do
ritmo de trabalho e na tentativa de controle do elemento subjetivo, buscando transformar do
homem em máquina5. Portanto, é importante não confundir a aplicação do padrão fordista
de gerenciamento com o desenvolvimento tecnológico da ciência, no sentido da automação,
ao passo que, ainda segundo Gomes e Silva, o progresso técnico da produção material
caminha no sentido da abolição da especialização do trabalho na esfera industrial e não da
sua intensificação.

2.1. O Fordismo

Assim, o fordismo torna-se “momento predominante”6, ou seja, surge a partir de


um vanguardismo tecnológico, onde uma empresa ou uma rede de empresas – neste caso
companhia Ford - investe em pesquisas para o desenvolvimento de uma nova organização
da produção, que obtenha um maior controle sobre o operariado e assim, garanta maior
produtividade. A nova organização, sendo mais produtiva e rentável do que a forma
dominante de organização precedente gera, em um primeiro momento, o aumento das fatias
de mercado dominadas pelas empresas inovadoras e, posteriormente, a disseminação das
técnicas utilizadas para as outras fábricas do ramo, e mais ainda, para a produção social
como um todo.
As transformações na organização da produção é que tornam o sistema de uma
empresa diferenciado, pois novas maquinarias quase todas as concorrentes são capazes de
adquirir com certa facilidade. Porém, mudar a forma de organizar a fábrica, buscando
aumento da produtividade através da extração de maior mais-valia e ainda lograr manter o
controle sobre o operariado é o verdadeiro desafio para o capital e a única forma de fazer
com que ele sobreviva à suas crises cíclicas.

5
BRAVERMAN, apud GOMES E SILVA, 2004
6
Aqui nos utilizamos de uma expressão cunhada por Hegel, utilizada por Lukács (1990:229) e posteriormente
usada por Giovanni Alves. Segundo Alves a expressão serve para caracterizar um dos elementos de um
processo que constitui, dinamicamente, em determinação predominante do sentido a da direção do processo
como tal (ALVES, 2000:29).

14
No entanto, a adaptabilidade de cada país à nova organização do trabalho varia
diante de suas particularidades econômicas, sociais, políticas e ideológicas e ainda, diante
da inserção de cada um na divisão internacional do trabalho, aos tipos de sindicatos
correspondentes e às condições do mercado de trabalho.
A separação entre concepção e execução do trabalho se torna a base da
constituição do operário-massa7, isto é, do trabalhador homogeneizado e parcelar. É este
trabalhador que se torna o trabalhador coletivo das grandes empresas verticalizadas e
fortemente hierarquizadas; e com a escassez de produtos e a exigência de mais variedades
no período posterior às duas grandes guerras, se viabilizou a impressionante expansão da
capacidade produtiva industrial e o nascimento do consumo em massa.
“Na realidade, o sistema de fábrica significava não só um aumento
da eficácia tecnológica e uma maior produtividade, mas também
uma iniciativa do capital, que obedecia a uma necessidade
organizativa visando estabelecer novas relações de poder
hierárquicas e autoritárias com o trabalho, que assegurassem seu
controle e apropriação do saber operário”. (LEITE, 1994:53)

As melhorias salariais, conquistadas nesse período, demonstram a busca de maior


controle do capitalista sobre os trabalhadores e, ainda, a necessidade de criação de um
mercado comprador. A crise de 1929 e 1930 comprovou essa necessidade, pois em um
momento de expansão dos métodos de organização propostos por Ford, o mercado acabou
ficando saturado de produtos, já que as outras ramificações da produção social ainda não
haviam se desenvolvido tanto e os trabalhadores não possuíam poder aquisitivo suficiente
para a compra dos automóveis e outros produtos de alto valor agregado 8. Segundo Bihr
(1998:42).:
“[...] essa crise, que ia se estender fundamentalmente até logo
após a Segunda Guerra Mundial, colocava bem em evidência que
um regime de acumulação como aquele só era viável com a
condição expressa de que o crescimento dos lucros possibilitado
pelos ganhos de produtividade seja acompanhado de um
crescimento proporcional dos salários reais (portanto do \“poder
de compra” dos assalariados); em outras palavras, com a
condição de que os ganhos de produtividade se dividam
“eqüitativamente” entre salários e lucros.”

7
Ver BIHR, 1998: 56-59.
8
Sobre a crise de superprodução de 1929 ver BIHR, 1998:41 e suas referências.

15
Essa maior divisão de ganhos, ainda segundo Bihr, demandava algumas mudanças
importantes na relação salarial. Para tanto, era primordial garantir um salário mínimo aos
trabalhadores, que possibilitasse um consumo suficiente para a manutenção do regime; um
crescimento dos salários mais ou menos conforme os ganhos de produtividade, variando
segundo o aumento dos preços; a instituição da prática de negociações coletivas por ramos
e de caráter nacional, para que os sindicatos pudessem representar o proletariado como uma
força real em relação ao patronato (onde o Estado faria a mediação do compromisso); e, por
fim, instituir um salário indireto, ou seja, um subsídio do Estado à reprodução da força de
trabalho, financiado por impostos e taxas estatais.
Portanto, segundo Bihr, sob um acordo imposto9, os operários renunciaram ao
sonho socialista em favor desse aumento salarial e do subsídio da reprodução de sua força
de trabalho pelo Estado, tendo assim, maior facilidade de acesso à educação, saúde,
transporte, entre outros benefícios, possibilitando que seu salário se convertesse
principalmente para o consumo, suprindo a necessidade do capital de grandes mercados
compradores. Nasce assim o tripé Capital – Estado – Trabalho, onde o Estado cumpre um
papel de mediador e ao mesmo tempo parte interessada em fornecer as condições para a
expansão do capital, ou seja, o Estado de bem-estar social10.
9
Para Bihr, não foi imposto por uma das partes, mas sim pela lógica do desenvolvimento que vinha tomando
o capitalismo e pelo “equilíbrio relativo na relação de forças entre burguesia e proletariado que acabou se
instaurando no final de décadas de lutas [...].” BIHR, 1998: 36-39.
10
Trata-se de forma estatal constituída no pós II Guerra Mundial e que atribui ao Estado capitalista funções
econômicas que se estendem desde a constituição de empresas públicas, planificação e redistribuição de
benefícios sociais, tais como salário desemprego, escola e saúde pública, auxílio velhice, entre outros. Assim,
o Estado é alçado à condição de regulador das relações sociais conflituosas existentes no interior da sociedade
capitalista através da instituição de sistemas de proteção social, controle dos salários e do mercado de trabalho
assim como elemento de mediação nos conflitos envolvendo o capital e o trabalho.
O Estado Providência aparecia no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial, como o caminho a ser
seguido pelas economias capitalistas dos países desenvolvidos com a finalidade de domesticar os conflitos de
classe e garantir um novo ciclo de acumulação do capital. Assim: “Aquilo que se denominou por Estado
‘social’, Estado ‘keynesiano’ ou Estado ‘Providência’ está fundado sobre a perenidade de um compromisso
entre os empregadores, os assalariados e os poderes públicos. Os termos deste compromisso são simples:os
assalariados aceitam de não questionar as relações de produção em troca do desenvolvimento da proteção
social e de um sistema de negociação que assegura a estabilidade do emprego e do crescimento dos salários.
De sua parte, os empregadores consentem em renunciar a uma parte de seus lucros em troca de uma relativa
paz social [...] O Estado keynesiano é o garantidor do compromisso: ele deve garantir a estabilidade da
troca e se dotou para isto de um certo número de instrumentos de intervenção: o Estado controla de fato os
mecanismos de fixação dos salários e dos rendimentos, ele vigia o mercado do emprego, ele intervém de
forma crescente na reprodução da força de trabalho e na sua gestão (educação, saúde, sistemas de
aposentadoria ...); Para realizar esta tarefa, ele desenvolve um vasto sistema de instituições públicas,
instrumento do Estado Providência (segurança social, comitês de emprego ...), e reconhece as organizações
sindicais como parceiras institucionais, representando os interesses dos assalariados [...] Garantidor da
estabilidade da relação salarial, o Estado torna-se, por conseqüência, o lugar privilegiado da gestão das

16
“Assim, se instalam progressivamente as condições de um novo
regime de acumulação do capital. O regime anterior era de
característica dominante extensiva, baseado essencialmente na
formação da mais-valia absoluta: na extração do trabalho
excedente pelo simples prolongamento da duração do trabalho
além do tempo de trabalho necessário e pelo aumento de sua
intensidade. A ele sucede um regime com características
dominante intensiva, prioritariamente orientado para a formação
da mais-valia relativa: o aumento do trabalho excedente pela
diminuição do tempo de trabalho necessário à reprodução da força
de trabalho do proletariado, graças ao aumento contínuo da
produtividade média do trabalho social.” (BIHR, 1998:40).

Contudo, Ricardo Antunes11 defende a idéia de que esse compromisso só era


viável porque sustentado pela enorme exploração da classe operária nos países periféricos,
ou Terceiro Mundo, que estavam excluídos do compromisso social-democrata. Já Boito Jr.
(2005)12 procura demonstrar que o Estado de bem-estar também foi implantado nos países
subdesenvolvidos como, por exemplo, no Brasil, apenas não de forma estritamente igual à
sua implantação nos países centrais.
Segundo esse autor:

“Os direitos sociais são parte do direito burguês. O Estado de


bem-estar é um tipo particular de política social do Estado
burguês. Os direitos sociais podem ser universalistas e igualitários
no plano da ideologia, mas a regulamentação e o usufruto de tais
direitos comporta, ainda que com variações de país para país,
importantes desigualdades. O grau e o tipo dessa desigualdade
dependem da natureza e da composição da frente de classes que
assegurou a implantação e expansão de tais direitos.”13 (BOITO,
2005:177)

Com a participação dos sindicatos no compromisso com a burguesia, este acaba


por tornar-se uma parte da engrenagem do poder capitalista, possuindo certa autonomia,

contradições. Contradições que se exprimem sob a forma de conflitos sociais: o Estado deve então intervir
para estabilizar o sistema, de onde decorre o papel eminente que ele desempenhou na ampliação
considerável que houve no direito do trabalho” dos países da Europa Ocidental. Além disto, as
“contradições têm também desdobramentos financeiros: à medida em que os atores sociais reivindicam um
controle elevado do progresso social, o estado deve ampliar suas capacidades de intervenção e,
consequentemente, multiplicar seus instrumentos de regulação” social de modo que, ao longo do tempo, “o
Estado keynesiano, chefe de orquestra das relações econômicas e sociais, se revela um grande gastador. Ele
vive sobre um equilíbrio que pode perdurar somente em período de crescimento econômico sustentado”
(MORVILLE: 1985: 23-24). apud SANTOS, 2007 (mimeo)
11
ANTUNES, 1999: 38.
12
Ver também Minayo, 2004:34.
13
Neste ponto, Boito Jr. faz referência à Gosta Esping-Andersen: “As três economias políticas do Welfare
State”, revista Lua Nova, n° 24, set. 1991.

17
mas subordinado ao seu comando e, portanto, mediando o controle do capital sobre o
proletariado. Os sindicatos passam, desta forma, a defender objetivos, metas e
posicionamentos que não correspondiam as reais necessidades dos operários de superação
do capitalismo, e sim a favor do regime instaurado pela classe dominante.
O próprio proletariado, mesmo que contraditória e parcialmente, colaborou com a
introdução do compromisso. Para Bihr, portanto, houve uma “estratégia de integração”
(BIHR, 1998) na qual participaram uma parte do proletariado ocidental, que direcionaram
suas lutas no sentido de aprofundar as conquistas na divisão dos ganhos da produtividade
diante do novo regime de acumulação.
Nesse sentido, as frações do proletariado que buscavam ainda lutar contra a
expropriação do controle do processo de trabalho por parte da burguesia eram
“enquadradas” dentro dos limites do compromisso pelos próprios sindicatos que
respondiam com reivindicações salariais, de planos de carreira, melhorias nas condições de
trabalho, etc.
A conseqüência direta de tal “estratégia de integração” é um movimento operário
de caráter social-democrata, onde ocorre a maior legitimidade do estatismo, e ainda, onde a
busca pelo poder do Estado é vista como uma das estratégias fundamentais para a melhoria
das condições sociais da classe operária. Assim:
“Simultaneamente, o compromisso fordista terá acentuado os
aspectos mais detestáveis dessas organizações, ao transformar a
negociação em finalidade exclusiva de sua prática e
“instrumentalizando-as” como engrenagem do comando
capitalista sobre o proletariado. Assim, por supor uma
centralização da atividade sindical em todos os níveis; porque, por
definição, somente os dirigentes sindicais negociam; enfim, por
implicar uma tecnicidade e um profissionalismo cada vez maiores
dos negociadores (em matéria jurídica, contável ou econômica), a
prática sistemática da negociação só poderia favorecer as
tendências à separação entre a base e o topo inerentes a essas
organizações, a crescente autonomia das direções e a conseqüente
redução das iniciativas da base, em síntese, a burocratização das
organizações sindicais. Do mesmo modo, a prática de negociações
necessariamente favorecia o corporativismo, uma vez que tinha
tendência a se efetuar empresa por empresa, ramo por ramo.”
(BIHR, 1998:48).

2.2. Crise do Fordismo e do Estado de Bem-Estar Social

18
No entanto, o compromisso fordista se sustentou apenas enquanto sua base
material também se mantinha. Para Bihr, o enfraquecimento desse sistema se deu por
quatro motivos principais (BIHR, 1998:69-73):
- Após o desenvolvimento dos métodos fordista de produção, estes são estendidos
aos demais setores da sociedade, por serem mais eficientes do que os métodos
anteriores no ganho de produtividade. No entanto, esse processo de expansão
invariavelmente chega ao seu limite, causando grande diminuição desses ganhos, e
ainda, a reação dos trabalhadores, pela tentativa de aprofundamento dessas técnicas e o
alto nível de exploração, mediante greves, turn-over, absenteísmo, dilapidação, etc.
- O constante aumento de produtividade tem por conseqüência a elevação do capital
fixo (instalações, maquinaria, etc.) em detrimento do capital variável (de onde se retira
mais-valia), ou seja, aumenta a composição orgânica do capital, diminuindo a
lucratividade.
- Os grandes ganhos de produtividade saturaram os mercados de produtos
diminuindo a circulação drasticamente no momento em que o fordismo mais precisava
aumentar sua produção para recuperar as taxas de lucro decadentes.
- A expansão do trabalho improdutivo, ou seja, o trabalho que garante a circulação
do capital (gestão, comercialização, bancos e seguros) e o conjunto das condições
sociais, institucionais e ideológicas da reprodução do mesmo (principalmente o
aparelho do Estado), mas que não geram valor. A existência desse trabalho
improdutivo (conceito) é essencial, porém limita a acumulação do capital e sua
valorização.
“O conjunto dos quatro fatores vão se conjugar, para provocar
uma redução da taxa média de lucro. O movimento começou mais
cedo em alguns países (Grã-Bretanha, Estados Unidos) do que em
outros (Japão, ex-Alemanha Ocidental, França), mas o movimento
é geral no Ocidente, no início da década de 70, significando
claramente o enfraquecimento da dinâmica do regime de
acumulação estabelecido no final da Segunda Guerra Mundial.”
(BIHR, 1998:73).

É importante destacar a atuação do movimento operário nesse processo, ao passo


que o declínio da produtividade do trabalho passa a ser entendido também como uma forma

19
de expressão da luta de classes. Isso porque, a crise do modelo de acumulação fez com que
as empresas buscassem aumentar suas taxas de lucro com a maior exploração dos
trabalhadores, que por sua vez, tentam restringir a produção através de sabotagens, aumento
do absenteísmo e do turnover, e no trabalho descuidado, que aumentavam a freqüência de
peças defeituosas e o desperdício. Assim, os trabalhadores logram causar sérios problemas
à produção, desarticulando o planejamento das empresas, devido à imprevisibilidade de sua
atuação, e elevando substancialmente os custos da produção. (LEITE, 1994)
“[...] foi-se evidenciando que a tentativa do capital de eliminar a
iniciativa e a decisão operárias no processo produtivo era um
objetivo inalcançável, e que a racionalização capitalista das
relações de produção era apenas uma aparência. Não só o capital
não havia conseguido eliminar os fatores imprevisíveis durante o
processo produtivo [...], como a própria resistência operária
criava continuamente fatos novos e invalidavam os rígidos
planejamentos, elaborados pormenorizadamente pela
administração das empresas”. (LEITE, 1994:63)

Os trabalhadores rechaçam não apenas a repetitividade e o embrutecimento do


trabalho parcelar, como também a depreciação dos salários, devido ao aumento da divisão
do trabalho e do parcelamento das tarefas. Desta maneira, o movimento operário emerge
como conseqüência da contradição surgida no cerne do modelo de acumulação, ou seja, a
constante depreciação dos salários em oposição ao aumento da dependência dos
trabalhadores em relação às mercadorias produzidas em condições tipicamente capitalistas,
exigidas para sua manutenção e reprodução. (LEITE, 1994)
Diante desse quadro de crise, os governos das principais economias ocidentais
buscam medidas de intervenção que aliviem a situação da burguesia, principalmente
lutando contra as altas taxas de inflação, o que acaba resultando em arrocho salarial e
recessão, e privatizando empresas estatais. Com a necessidade de aumentar as taxas de
lucro e recompor o controle sobre o proletariado, a empresas enxugam seus quadros,
criando um alto índice de desemprego, e ainda, diante arrocho salarial daqueles que ainda
possuíam trabalho remunerado, a capacidade de compra da população como todo diminui
significativamente e, portanto, deixando latente uma crise de superprodução.

20
O Estado de bem-estar social já é, neste momento, em boa parte rechaçado pela
burguesia, que passa a pregar o modelo neoliberal como a única saída para a crise que se
instaurava. Segundo Boito Jr. (2005:179):
“O núcleo do neoliberalismo é a crítica à idéia de igualdade
socioeconômica, qualificada de utópica, contrária à natureza e
destruidora da liberdade. Os neoliberais defendem a desigualdade
de riqueza supostamente oriunda do talento e do mercado. Mas,
além dessa afirmação de princípios discrepantes dos princípios do
Estado de bem-estar, os neoliberais desenvolvem uma crítica
interna à proposta desse tipo de Estado, consistente em afirmar
que esse tipo leva, ao contrário do que proclamariam seus
defensores, a um aumento da desigualdade. Para poder exportar o
neoliberalismo às classes populares, é essa parte do discurso que a
mídia, os políticos e os sindicalistas de direita mais divulgam para
o grande público.”

Assim, a queda da taxa de lucro das principais empresas automobilísticas se tornou


epidêmica, causando uma grave crise no capitalismo mundial. Tornava-se necessário o
desenvolvimento de formas de exploração mais intensas, que possibilitassem o aumento
rápido das taxas de lucro.

21
CAPÍTULO II

ORIGENS DO TOYOTISMO OU GESTÃO FLEXÍVEL

1. Origem do Toyotismo

No imediato pós-II Guerra Mundial, o Japão, arrasado pela guerra, se encontrava


sob embargo econômico, político e militar. A realidade econômica do país era
completamente diferente da norte-americana, pois sofria uma grave crise interna, com falta
de mão-de-obra, matérias-primas, desenvolvimento tecnológico e mercado consumidor.
Suas indústrias haviam sido destruídas e, segundo Eurenice Oliveira, existiam entre 5 e 10
milhões de desempregados para uma população ativa de 35 milhões de trabalhadores.
A guerra civil na China, de 1946 a 1949 e, principalmente, a Guerra da Coréia, em
1950, contribuíram para a recuperação japonesa, pois aumentaram consideravelmente a
produção diante das encomendas feitas pelo exército norte-americano. Os setores de que
haviam sido arrasados pela guerra, como siderurgia, carvão, máquinas e bens de produção,
tornaram-se prioridade para o governo japonês. E ainda, para proteger suas recém-criadas
indústrias automobilísticas, em 1950 edita uma lei que protege as mesmas dificultando as
importações através de barreiras alfandegárias, e principalmente proibindo a produção de
fábricas estrangeiras em território nacional, o que faz com que as indústrias norte-
americanas já instaladas no país desde os anos 20 tivessem que se retirar.
No entanto, segundo Oliveira (2004:21):
“A tentativa japonesa de se recuperar do atraso da indústria
automobilística e os esforços de reconstrução do país passam ao
largo do desenvolvimento social, concentrando-se no
desenvolvimento econômico, como se este, por si só, implicasse na
inserção do trabalhador nos benefícios resultantes de seu trabalho.
O desemprego e a miséria da população nipônica são

22
determinações fundamentais na introdução do “toyotismo”.
Questões como moradia poluição e qualidade de vida continuam,
até hoje, na ordem do dia, mas sempre desprezadas em razão de
outras prioridades”.

Durante a década de 50 houve enfrentamentos incisivos entre as duas principais


montadoras do país, a Toyota e a Nissan, e os trabalhadores, com greves e demissões em
massa14, mas as montadoras, apoiadas pelos principais bancos do país atingiram seus
objetivos, diminuindo significativamente o contingente de suas fábricas e criando o
“sindicato de empresa”, de forma a cooptá-los e eliminar os sindicatos classistas de
inspiração socialista. Não obstante, houve algumas compensações para os operários que
lograram manter os seus empregos, como a garantia do emprego vitalício. Segundo Gounet
(1999:31):
“Assim, os fabricantes usam a cenoura e o chicote, a garantia de
emprego vitalício e o sindicato totalmente atrelado ao patrão, para
impor a seus empregados as mudanças nas condições de trabalho.
Isso é fundamental para o novo sistema..”

Para que as empresas japonesas pudessem se tornar competitivas, portanto, era


necessário recuperar a economia e buscar a adaptação do modelo de acumulação fordista às
especificidades do mesmo, já que este havia se tornado “momento predominante” - sendo o
seu modelo de acumulação, de origem Norte Americana, exportado para todos os países
desenvolvidos e em desenvolvimento do mundo – e principalmente, buscar novas medidas
de controle sobre o operariado.
Não obstante, algumas características do fordismo não eram compatíveis com as
especificidades do arquipélago e sua população: o fordismo foi criado para a produção
padronizada e em grande escala, possuindo gigantescas fábricas que, entre outras funções,
armazenavam os produtos que seriam vendidos posteriormente. No arquipélago não se
possuía todo esse espaço de produção e armazenagem, nem tantos compradores como nos
Estados Unidos.

1.1. Especificidades

14
Ver David DYER, Malcolm SALTER e Alan WEBBER. Changing Alliances. Harvard Business School
Press, Boston, 1987, p. 104 apud GOUNET, 1999:31.

23
O Japão é um arquipélago de tamanho reduzido que, em conseqüência, não possui
espaço físico para a produção em massa e para a armazenagem de excesso de produtos. Sua
população possuía, naquele momento histórico específico, um poder de compra reduzido, e
suas necessidades e desejos também acabavam por exigir produtos diferenciados.
Para, portanto, adaptar o sistema fordista de acumulação às condições específicas
do país, foram necessárias modificações significativas no modo de produzir. Para isso, o
governo japonês cria o MITI: Ministério do Comércio Internacional e da Indústria em 1951.
Este tinha como uma das principais metas a defesa da indústria automobilística e mais
tarde, em 1956, também passa a considerar a indústria de autopeças como prioridade para a
economia nacional. Para tanto, inicia um programa de incentivo a pesquisas em tecnologia,
subsidia as empresas e estimula a concentração, pois assim seria mais fácil enfrentar a
concorrência internacional, traça planos de metas e desenvolve a infra-estrutura necessária
para a utilização dos automóveis, ou seja, a malha rodoviária.

2. O Toyotismo

O “toyotismo” ou “ohnismo”15, portanto, foi desenvolvido por três motivos


principais: a necessidade de desenvolver a indústria automobilística japonesa de forma que
pudesse concorrer com as indústrias americanas e européias e, em conseqüência da
diferenciação do espaço físico e do mercado consumidor japonês, lograr a adaptação do
fordismo no Japão e ainda, aumentar significativamente o controle sobre a classe operária.
Segundo Paula Marcelino (2004:79):
“[...] surgem, ainda no decorrer da década de 1940, as primeiras
iniciativas modernizadoras, cuja pioneira foi a de um engenheiro
da Toyota Motor Co., Taiichi Ohno. Suas propostas ofereciam
soluções para a necessidade do capital de aumentar seus lucros
por meio da diminuição gradativa da força de trabalho, da
reorganização do espaço produtivo, da desconstrução da
autonomia sindical e dos direitos dos trabalhadores.”

15
Recebe essas denominações por ter sido desenvolvido por um engenheiro da Toyota Motor Co., Taiichi
Ohno.

24
O sistema, que é denominado just-in-time, se baseia em estoques mínimos e
produção enxuta, onde esta é realizada a partir da demanda e o crescimento a partir do
fluxo (GOUNET, 1999). Ou seja, buscando se apropriar das técnicas de gestão dos
supermercados estadunidenses, as montadoras apresentam estoques mínimos ao
consumidor que opta pelo modelo mais desejado, estes modelos, então, são fabricados
novamente16. Dessa forma, a lógica do fordismo é invertida, ao invés de ir da produção ao
consumo, prioriza o consumo e este determina a produção. Segundo T. Ohno (1988:10):
“Todos os tipos de desperdício ocorrem quando tentamos produzir
o mesmo produto em quantidades grandes, homogêneas. No fim, os
custos se elevam. É muito mais econômico produzir cada item de
cada vez”.

A função do just-in-time é manter a produção em uma sintonia quase perfeita entre


estratégia de produção e estratégia de mercado. Dessa forma, é possível manter o objetivo
de zero-estoques, zero-atrasos, zero-defeitos e zero-desperdícios. Isso acelera o ciclo de
valorização do capital, por ter a realização imediata de cada mercadoria produzida, e é
também visível o controle que esse sistema gera sobre os trabalhadores, já que, se torna
muito simples encontrar os gargalos na produção e conseqüentemente eliminar os tempos
mortos. Em contrapartida, a responsabilização de todo o funcionamento da produção, sem
estoques, nas mãos dos trabalhadores, pode significar perdas enormes se caso estes
resolverem parar qualquer um dos setores da produção, ou seja, objetivamente aumenta o
controle dos operários sobre a produção (OLIVEIRA, 2004).
Portanto, para minimizar os riscos de interrupção, foram desenvolvidos sistemas
de bonificação, onde o trabalhador recebe um salário mínimo e, segundo os ganhos de
produtividade da empresa, pode receber um excedente, ou mesmo garantir seu plano de
carreira. Metas altíssimas são traçadas pela gerência, fazendo com que o trabalhador esgote
todas as suas forças na tentativa de aumentar seu salário. No entanto, essas bonificações
são parte de um acordo implícito que não garante realmente a contrapartida, um suposto
momento de crise, por exemplo, pode facilmente explicar a fim do repasse para os
trabalhadores.

16
Essa técnica da origem ao kanban.

25
Para Oliveira esse processo, em conjunto com os círculos de controle de qualidade
(CCQ’s), tem como resultado uma “dependência invertida”17, onde há uma unificação das
metas dos trabalhadores com as da empresa, criando ainda uma tentativa individual de
melhoria das condições materiais por parte dos trabalhadores às custas dos seus colegas
diretos de trabalho e de uma forma ainda mais agressiva para os que trabalham fora das
empresas centrais. (OLIVEIRA, 2004) Nesse contexto, a solidariedade de classe afrouxa, e
o alto índice de desemprego e a busca das empresas para se instalarem em locais com
remuneração salarial baixa e de sindicatos cooptados, reforça ainda mais o individualismo
incitado pelo patronato.
Deve-se levar em consideração também, que a “qualidade total”, pregada pelos
administradores das fábricas toyotistas, não passa de um engodo, de uma expressão
fenomênica que mascara uma das principais necessidades do capital: a diminuição
gradativa do tempo útil das mercadorias, para que haja maior consumo e, assim, maior
circulação da economia. Mészáros chama esse processo de taxa de utilização decrescente
do valor de uso das mercadorias, segundo ele:
“A necessidade imperiosa de reduzir o tempo de vida útil dos
produtos, visando aumentar a velocidade do circuito produtivo e,
assim, ampliar a velocidade da produção de valores de troca, faz
com que a “qualidade total” seja, quase sempre, a aparência ou o
aprimoramento do supérfluo.” (MÉSZÁROS, VER ANO, 575)

Aqui é importante lembrar que, sendo o capital um modo de metabolismo social


totalizante, ou seja, que se expande por todos os âmbitos da vida social, acaba por assumir
uma lógica cada vez mais destrutiva, já que, além de afetar tanto a produção de bens de
consumo e serviços, como também as instalações, a maquinaria e a própria força humana
de trabalho; ao reduzir a vida útil das mercadorias, destrói em ritmo cada vez mais
acelerado os recursos naturais disponíveis, na relação homem – tecnologia –natureza.
“Assim, é descartado aquilo que deveria ser preservado, tanto
para o atendimento efetivo dos valores de uso sociais, quanto para
evitar uma destruição incontrolável da natureza, na relação
metabólica entre homem e natureza. Isso sem mencionar o enorme
processo de liofilização organizativa18 da “empresa enxuta”.”
(ANTUNES, 1999:51)

17
Neste caso Oliveira cita Humphrey em Castro 1995:120.
18
Eliminação, transferência, terceirização e enxugamento de unidades produtivas. Castillo, apud Antunes,
1999:50.

26
Segundo Oliveira, a fábrica é enxuta no sentido de que a solução encontrada por
Taiichi Ohno para aumentar a produtividade sem grande aumento na produção seria a
redução constante do contingente de trabalhadores, sem que isso signifique
necessariamente um momento de crise, ou seja, é uma prática estrutural. Desta forma, o
toyotismo seria uma “máquina de produzir desempregados” (OLIVEIRA, 2004).
Assim, nesse sistema a exploração dos trabalhadores atinge seu ponto máximo, ao passo
que, além da subcontratação pelas empresas terceirizadas, onde os salários são de 30 a 50%
menores (GOUNET, 1999), se busca diminuir a força de trabalho atingindo o mínimo
possível, utilizando o máximo de horas extras, muitas vezes não desejadas. Como nos
esclarece Oliveira (2004:24):
“A trajetória de consolidação do “toyotismo” se relaciona com
tentativas de potencializar ao máximo o “rendimento do trabalho
vivo”, aperfeiçoando os equipamentos, a fábrica, procedendo à
máxima flexibilidade da organização do trabalho e da linha
automatizada, até a tensão máxima da linha de produção, elevando
o desgaste da força de trabalho até níveis considerados
desumanos. A exploração máxima do trabalho é uma marca do
capitalismo no aprofundamento de suas relações fundamentais,
porém, a exploração no sistema japonês não tem paralelo na
história. Esse é o sentido que orientou a gênese da fábrica
“ohnista”. Os desenvolvimentos posteriores demonstram que esse
princípio permanece presente nas fábricas japonesas da
atualidade19”.

Para poder se adaptar às variações da produção diante das exigências do consumo


era necessário que, o aparato produtivo e, portanto, também as relações de trabalho, se
flexibilizassem. Ohno busca, então, na Tecelagem Toyota, onde uma única mulher
controlava 40 teares automáticos, a modificação da estrutura fordista, de 1 homem/1
máquina para o trabalho flexível, ou seja, 1 equipe/1 sistema. Cada trabalhador passa a
operar em média 5 máquinas, carregando e descarregando uma enquanto as outras
trabalham e ao precisar de auxílio, seu colega deverá estar preparado para manusear estas
máquinas com a mesma habilidade, o que cria a necessidade de polivalência de cada um
dos trabalhadores da empresa (GOUNET, 1999).
T. Ohno chama esse processo de “autonomação”, ou seja, a combinação de
“autônomo” com “automação”. Segundo ele, essa prática permitiu a integração das

19
Shimizu, 1999 e 2004 apud OLIVEIRA, 2004:24

27
operações de controle de qualidade, de manutenção das máquinas e até de limpeza, às
funções tradicionais de operação das máquinas. O trabalhador passa a atuar em equipe,
diante de um sistema automatizado, não mais de forma individualizada como no fordismo,
e ainda, dele é exigido que tome decisões, como no momento em que há necessidade de
parar a produção para a realização de concertos e reajustes, ou seja, além da sua capacidade
manual, sua capacidade intelectual também passa a ser exigida.
Deste modo, o sistema se baseia na flexibilização do trabalho e também dos
trabalhadores. Destes é exigida uma maior qualificação e a polivalência, que possibilita a
capacidade de trabalho em vários setores da produção, sem que com isso haja o aumento
salarial equivalente.
Como as empresas japonesas tinham a necessidade de produzir pelo menos ao
mesmo custo que as principais empresas do mundo no setor e ainda pela carência de espaço
físico do arquipélago, o desperdício era combatido de forma incisiva.20 Assim, ao invés de
trabalhar a idéia fordista da concentração de todas as etapas da produção em um único
espaço físico, a fabrica passa a ser decomposta em transporte, produção e estocagem. Nesse
caso, a única etapa que agrega valor é a produção, portanto, as outras, embora essenciais,
deveriam ser limitadas ao mínimo necessário para realizar suas funções (GOUNET, 1999).
“A fábrica também deve ser mínima – idéia igualmente central no
novo padrão produtivo – reduzida aos efetivos e equipamentos
estritamente necessários para satisfazer a demanda diária ou
semanal. Além de mínima, a fábrica deve ser flexível, para
absorver a demanda flutuante em quantidade e qualidade. Todo
processo deve ser passível de se administrar com os olhos; tudo
deve estar visível para que se possa enxugar ao máximo a
produção. Tais elementos combinados conseguem garantir a
flexibilidade da fábrica, portanto, uma lean production (produção
enxuta)”. (MARCELINO, 2004:85)

Para diminuir os custos, as fábricas de autopeças são terceirizadas. Com a


participação no capital dessas empresas, as montadoras podem estipular os preços, a
qualidade, a forma de organização da produção e do fornecimento, tudo baseado na
organização flexível. Além disso, elas devem se instalar não mais do que 20 km de
distancia, para reduzir os encargos com transporte.

20
Aprofundando, nesse caso, o que Ford já havia buscado na implantação do fordismo.

28
“Aproveitando as condições mais penosas de trabalho nas
subcontratadas [...], a montadora fixa as condições de preço,
prazo e qualidade dessas empresas, de modo a produzir veículos
de baixo custo, just-in-time e de qualidade impecável. É um
aspecto fundamental da vantagem dos fabricantes japoneses na
concorrência.”.(GOUNET, 1999:28).

Segundo Oliveira, o objetivo da “hierarquia horizontalizada” é, principalmente,


fazer com que os gastos salariais diminuam, manipulando os subcontratados de forma a
exigir menores custos. Assim, a empresa central concentraria apenas 25% da produção em
suas instalações, mantendo operações como montagem e a manufatura de partes essenciais,
tais como motores, design e marketing. Os 75% restantes são realizados por empresas
terceirizadas ou subcontratadas, que podem ser medianas, pequenas ou minúsculas21. Em
geral, a montadora, que fica no cume da pirâmide, possui ações da fábrica diretamente
abaixo dela, que produz componentes estratégicos, esta possui ações da fábrica de segundo
nível e assim por diante, terminando por formar o que se denomina no Japão de keiretzu22,
ou seja, a própria forma da sua estrutura industrial. Assim, essa rede de subcontratação, o
keiretzu, acaba por formar a base da concorrência e competitividade das empresas
japonesas no mercado mundial.
As subcontratadas firmam contratos temporários com as empresas centrais, e
quando este expira, são postas em competição novamente com outras fábricas do mercado.
Através desse processo, as montadoras conseguem baixar os preços dos produtos
comprados, já que obriga as contratadas a sempre buscarem melhorias tecno-
organizacionais que possibilitem a diminuição dos custos e a melhoria do sistema como um
todo. Ou seja, elas devem sempre ter sua produção adaptada à produção flexível das
matrizes, funcionando sob o sistema toyotista e ainda, buscando melhora-lo com inovações
de produzam mais ganhos de produtividade e menor custo de produção.
“O toyotismo se estrutura preservando dentro das empresas
matrizes um número reduzido de trabalhadores mais qualificados,
multifuncionais e envolvidos com seu ideário, bem como
ampliando o conjunto flutuante e flexível de trabalhadores com o
aumento das horas-extras, da terceirização dentro e fora das
empresas, da contratação de trabalhadores temporários [...].”
(ANTUNES, 1999:57)
21
Watanabe, 1993:20 apud OLIVEIRA, 2004:39.
22
Segundo José Pastore (1995:45), os keiretzu são cadeias de empresas afiliadas entre si, nas quais fazem
parte acionistas do setor produtivo, bancos e seguradoras, onde estrangeiros não são bem-vindos.

29
Para a Toyota Motor Co., por exemplo, só é possível oferecer aos trabalhadores
mais estabilidade e, em alguns casos, emprego vitalício, porque durante crises muito
aguçadas mandam o staff “excedente” para a empresa diretamente abaixo dela na
hierarquia, esta, também transfere temporariamente seus empregados para a fábrica
diretamente abaixo e assim sucessivamente, até que os operários das fábricas da base da
pirâmide percam seus empregos. Desta forma, é possível, ainda, manter os investimentos
em “Capital Humano”, ou seja, os investimentos feitos na formação do quadro de
funcionários da empresa.
O gerenciamento by stress (por tensão) passa ser uma das principais armas no
combate ao “ócio operário” na busca do aumento da produtividade e do controle da classe
operária. Uma das formas de colocarem em prática esse tipo de gerenciamento é o sistema
andon, uma espécie de semáforo que as montadoras instalam por toda linha de produção
com sinalização verde, laranja e vermelha. Verde significa que está tudo bem, laranja que
há superaquecimento e vermelho que há um problema grave e é necessário parar a
produção e reparar o dano.
O sistema, aparentemente inofensivo, no entanto, não foi feito para se manter com
a luz verde acesa, já que, desta forma os problemas na linha de produção ficariam
invisíveis. O objetivo é que as luzes oscilem entre verde e laranja, acelerando o fluxo da
cadeia até seu ponto de ruptura para que os problemas apareçam e possam ser corrigidos.
Assim, o aumento no ritmo da linha de produção e, consequentemente da produtividade, é
constante (GOUNET, 1999).O andon serve ainda, juntamente com a fábrica mínima, para
possibilitar a administração pelo olhar e o controle de todo o processo produtivo e sobre os
trabalhadores por parte da chefia.
Desenvolve-se os sistemas kanban23 e SMED – single minute echange die. O
kanban é um método simples mais bastante eficiente: um tipo de placa que avisa quando
uma peça foi utilizada e, portanto, está em falta na área de montagem e precisa ser reposta.
O sistema, que foi importado dos supermercados americanos, significa para Paula
Marcelino e para o próprio Taiichi Ohno, a possibilidade de inversão do sistema produtivo
fordista, como explica a primeira:

23
Placa em japonês.

30
“[...] o kanban revolucionou as técnicas de controle da produção,
pois fez com que esta partisse das encomendas já feitas e dos
produtos já vendidos e estabelecesse um fluxo de informação
invertido, que fosse do fim da cadeia produtiva para o início da
produção, permitindo que o processo ocorresse sem interrupções
para repor peças ou alimentar máquinas. Mais do que um
dispositivo meramente organizacional – tal como o andon – o
kanban pode ser definido como a forma como o sistema Toyota de
produção é administrado, como a gerência controla a produção.”
(MARCELINO, 2004:86-87)

Além disso, foi possível, a partir do kanban, integrar o controle de qualidade e


descentralizar algumas das tarefas do processo de fabricação, não havendo mais
necessidade de funcionários específicos para essas atividades, como ocorria no fordismo.
O SMED foi desenvolvido por Shigeo Shingo em 1969 para resolver um dos
grandes problemas da produção flexível: a produção de veículos de modelos diferentes em
uma mesma linha de montagem e em um curto espaço de tempo. Ou seja, para que a
produção se baseasse no consumo era preciso que a linha de montagem fosse modificada
rapidamente assim que um automóvel diferente fosse exigido no estoque. No começo a
mudança das máquinas demorava tempo demais, o que inviabilizava o processo, mas
Shingo se utilizou da idéia de que era necessário deixar tudo preparado para a mudança
antes de parar as máquinas e dessa forma conseguiu diminuir o tempo da alteração das
mesmas de 4 horas para 3 minutos (GOUNET, 1999).
“Os jogos de luzes (andon) sobre os locais de trabalho, impondo
aos trabalhadores um ritmo de trabalho sempre no limite da
cadência e do esforço físico, não são os únicos responsáveis pelo
estresse no “toyotismo”. Colaboram, neste sentido, uma linha de
montagem marcada pela ausência de estoques, que tem de mudar
de produto na velocidade do crescimento da demanda, exigindo
adaptações constantes a novas situações. Mais ainda, de acordo
com o crescimento das encomendas, a gerência pode continuar a
diminuir o tempo, mesmo quando os trabalhadores acham que já
estão trabalhando no limite de suas capacidades corpóreas e
psíquicas, tornando o trabalho tão duro quanto possível. Aqui,
combinam-se crescimento da demanda, pressão da gerência e
pressão da equipe; o trabalho alcança ritmos de pressão e
desgaste físico que esgotam o trabalhador.” (OLIVEIRA, 2004:30-
31).

Oliveira ressalta que esta situação não é, como se poderia imaginar, uma exceção
em momentos específicos de alta demanda, e sim uma constância na produção toyotista,

31
fazendo parte da própria essência do sistema. Como já foi dito, o crescimento da
produtividade não é calculado através trabalho, e sim, pela quantidade de trabalhadores,
assim cada equipe deve, constantemente, trabalhar mais e ainda buscar a redução do
número de integrantes como própria condição de manter seu posto.
Para Antunes (1999), os resultados imediatos do sistema flexível de produção no
mundo do trabalho foram a enorme desregulamentação dos direitos trabalhistas, o aumento
da fragmentação no interior da classe trabalhadora, a precarização e terceirização, e a
destruição do sindicalismo de tipo classista que acaba por se converter em sindicatos
dóceis, de parceria, ou mesmo em “sindicatos de empresa”.
Além de todas essas técnicas, implementadas com o objetivo de aumentar os
ganhos de produtividade da fábrica, uma das questões essenciais no toyotismo é o
gerenciamento participativo. Este foi criado para que os trabalhadores deixassem suas
próprias necessidades de lado, se envolvendo com o processo produtivo e, principalmente,
adotando os objetivos da fábrica para si, de forma a buscar a maior produtividade através de
sugestões para a melhoria no desenvolvimento das técnicas e das relações de trabalho. Para
tanto, foram criados os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ’s), onde os trabalhadores
devem sugerir melhorias de todos os tipos, desde a administração até o chão-de-fábrica.
Através do CCQ’s o patronato busca modificar a relação do operário com a
fábrica, possibilitando um suposto rompimento com a separação fordista do trabalho
manual e intelectual, mas voltando este último para os seus interesses específicos. Desta
forma, dá a “autonomia” e a “autogestão” tão desejadas pelos operários e reivindicadas
durante décadas, desarticulando sua organização sindical e, ainda, logrando aumentar o
individualismo causado pela sociedade de consumo, dando vantagens para aqueles que
mais participam e que buscam dar boas idéias, mesmo que esta vantagem seja unicamente
conseguir manter o posto de trabalho.
A empresa transfere para o trabalhador a obrigação de melhoria do processo de
produção e das relações de trabalho apresentando a eles como uma melhoria em suas
próprias vidas, assim, consegue abolir o controle explícito em troca do controle mais sutil,
já que, as sugestões de idéias são ditas como voluntárias, no entanto, são medidas utilizadas
para definir o envolvimento do operário com as necessidades da empresa, se tornando
critério para promoções, planos de carreira e aposentadorias.

32
3. Reestruturação Produtiva e Inserção do Toyotismo como “Momento
Predominante”

Com a crise econômica mundial a partir dos anos 1960 e 1970, tornava-se
necessária uma forma de aumentar as taxas de lucro em uma economia de recessão, ou seja,
onde o consumo se dava não mais como no pós-guerra, de forma rápida e abrangente, mas
ao contrário, de forma lenta e dificultosa. A saturação dos mercados ainda exigia a
diferenciação dos produtos, já que, como os novos consumidores se limitavam a uma
pequena parcela da população, era crucial chamar a atenção mesmo dos que já possuíam
veículos, para que os trocassem por veículos novos e mais modernos.
Ao mesmo tempo buscava-se a intensificação da extração de mais-valia, pois, à
medida que o capital fixo se tornava maior que o capital variável, com a introdução de
novas tecnologias através da maquinaria e diminuição dos quadros de trabalhadores, as
taxas de lucro também decaíam.
Era preciso, assim, uma forma de extrair maior mais-valia com menor quantidade
de trabalhadores, aumentando a produtividade e o exército de reserva, já que as greves e,
portanto, a falta de controle sobre a força de trabalho, estavam dificultando o aumento da
extração de mais-valia absoluta, ou seja, a maior produtividade pelo aumento do tempo de
jornada de trabalho.
No cenário mundial as empresas automobilísticas tradicionais perdiam grande
parcela do seu mercado consumidor para as empresas japonesas, como a Toyota e a Nissan.
Estas possuíam mais variedade de produtos e os vendiam mais baratos e, portanto,
conquistavam fatias significativas do mercado mundial.
“O enorme salto tecnológico que então se iniciava constituiu-se já
numa primeira resposta do capital à confrontação aberta do
mundo do trabalho e, por outro lado, respondia às necessidades da
própria concorrência intercapitalista na fase monopólica.”
(ANTUNES, 1999:44)

Assim, diante da crise do fordismo e do Estado de bem-estar social, e da


necessidade de aumento do controle sobre a classe operária por parte do capital, o
toyotismo passa a ser a principal via da reestruturação produtiva dos anos 1970 e 1980 no

33
Ocidente. Esse sistema, portanto, se torna “momento predominante” do capitalismo
globalizado, sendo o modo de produção flexível e suas formas de dominação, introduzidas
e adaptadas nas principais multinacionais do mundo.
No próximo capítulo esclareceremos como se dá especificamente a dominação
político-ideológica sobre o proletariado a partir da análise mais pormenorizada da gestão
flexível toyotista.

CAPITULO III

34
A GESTÃO FLEXÍVEL E A IMPLICAÇÃO NOS

TRABALHADORES

Os trabalhadores, desde a Revolução Industrial, recusam-se a modelos


organizacionais de produção no qual sejam objetos (meios de produção) e não sujeitos. Para
aumentar a produtividade, o Fordismo teve que recorrer a medidas extremamente
autoritárias no controle do processo produtivo, fato que estimulava revoltas operárias,
greves, e fortalecia as organizações sindicais. As greves e as quedas das taxas de lucro,
devido a salários "bons" e direitos trabalhistas conquistados, eram constantes no fordismo,
e proporcionais à autoridade existente no controle do trabalho.
“Convém lembrar também [...], que o advento da máquina, assim
como a organização do processo de trabalho que ela propiciou,
permitiu ao capital expropriar o saber operário incorporando-o na
maquinaria, como forma de aumentar seu controle sobre a força
de trabalho. É importante ressaltar, contudo, que nesse momento a
expropriação é ainda bastante parcial, tendo em vista que embora
parte dos conhecimentos dos artesãos estivessem sendo
incorporados nas máquinas, novos conhecimentos relacionados ao
funcionamento das próprias máquinas se tornavam necessários”.
(LEITE, 1994:55-56)

Segundo Gramsci24, houve, por parte dos industriais do período fordista, uma
tentativa de “educar” o trabalhador para que houvesse uma adaptação psicofísica do
coletivo operário ao trabalho repetitivo. H. Ford, reconhecendo a potencialidade da
organização operária, cria o Departamento Social, que tem como objetivo controlar o
movimento sindical e as condições sobre as quais a força de trabalho se reproduz, incluindo
o ambiente doméstico-familiar. Uma das principais armas, nesse sentido, eram os salários
elevados. No entanto, o aumento salarial padronizado em uma relação de autoridade
hierárquica, acaba por não satisfazer as expectativas de auto-realização dos trabalhadores,

24
GRAMSCI, apud GOMES E SILVA, 2004:62-63.

35
mesmo com o aumento da capacidade de consumo, diante de um trabalho mutilado e sem
sentido.
Ou seja, no fordismo existiu uma espécie de “racionalização inconclusa”, pois
todo âmbito da produção se modificara a partir dos princípios racionais, mas estes lograram
um controle bastante limitado das variáveis psicológicas do comportamento operário. No
sistema flexível essas variáveis passam a ser cooptadas de maneira mais incisiva, através de
mecanismos ideológicos de comprometimento aos objetivos da empresa como bonificações
financeiras e simbólicas individuais, participação nos lucros, sugestões e idéias, etc.
Portanto, esse sistema tem como finalidade principal a captação da subjetividade operária,
buscando promover uma nova via de racionalização do trabalho. (ALVES, 2000)
Conseqüentemente, o ponto primordial para compreendermos a importância da
organização flexível é saber porque e como se dá a aceitação e, mais ainda, a participação
do proletariado neste processo. Desta forma, entenderemos porque o toyotismo é
considerado uma forma superior do fordismo, um aprimoramento deste, já que passa a ser
introduzido justamente porque o proletariado ocidental já não mais aceitava a forma de
dominação criada pelo sistema fordista.
Assim, os CCQ’s, ou Círculo de Controle de Qualidade, e a flexibilidade das
relações de produção, são duas das principais armas político-ideológica do sistema flexível
toyotista, no sentido do controle do proletariado e, ainda, de maior extração de mais-valia
com consentimento dos mesmos. Procuraremos, portanto, explicitar como se dá essa
dominação através dos CCQ’s e da flexibilização das relações de produção, levando em
conta que estes tomam formas diversas a partir de sua disseminação para outras empresas
do ramo automobilístico e de outros ramos da produção social mundial.

1. CCQ’s

A integração do trabalhador na gestão da fabrica, através dos CCQ´s, tenta


satisfazer uma antiga exigência dos trabalhadores pelo controle da produção, que esteve em
pauta nos movimentos sindicais ao longo de todo o século XX e que motivou muitas
greves. O sistema se apresenta como de caráter autogestionário, transmitindo uma idéia de
que o bom desempenho produtivo e a organização do trabalho são responsabilidades dos

36
trabalhadores. Entretanto, o faz de forma aparente:
“É preciso lembrar, no entanto, que esse modelo que exige dos
trabalhadores a energia mental, e não apenas a força física, limita
sua participação ao mundo concreto da atividade produtiva. Estão
fora de seu alcance, o planejamento estratégico e os rumos da
empresa, de seus lucros e de suas decisões, entregues a um núcleo
dirigente, representante de acionistas. Um muro de informações,
decisões privilegiadas e de processos que se realizam a partir de
seu trabalho, quando retornam a eles, vêm totalmente filtrados,
codificados e mascarados, apresentando apenas os frágeis vínculos
de algum interesse tido como comum e que possa mantê-los
ideologicamente motivados”. (MINAYO, 2004:37)

Ou seja, é essencial ter em conta que o controle da produção por parte dos
trabalhadores no toyotismo é um engodo, já que possui finalidade exclusiva de aumento da
produtividade, sem nunca possibilitar aos operários nem mesmo o conhecimento do que
está sendo concebido por parte da administração antes que os objetivos estejam totalmente
delimitados. Percebe-se, desta forma, que não só existe a possibilidade da separação de
concepção e execução do trabalho, como também a separação dentro da própria concepção,
onde a administração traça as metas e os operários apenas sugerem melhorias no processo
produtivo, logrando atingi-las com mais facilidade e menos gastos.
Portanto, com a simples separação entre concepção e execução do trabalho, os
trabalhadores enxergavam sua condição como um mero meio de produção, sua criatividade
e subjetividade estavam excluídas do processo produtivo. Quando, através dos CCQ´s,
passam a fazer uso de sua criatividade através de sugestões refletidas de sua prática, o
trabalho deixa de ter como característica apenas o "fazer'' e incorpora novamente um
"saber", o que acaba por modificar toda a estrutura das relações fabris.
O capital tem como necessidade a constante reestruturação organizacional, devido
a uma contradição interna na qual os objetivos do capital, de acumulação, aparecem como
estranhos ao trabalhador, que tem como meta a reprodução de sua existência. A
acumulação não é uma busca do trabalhador, e, portanto, não há razões que o motivem a se
esforçar para atingir a maior produtividade e ganhos para a empresa. Assim, o sistema
flexível tem implicações muito mais profundas no embate existente entre capital e trabalho
pelo controle do processo produtivo.
Com a introdução da idéia de autonomia e autogestão dos trabalhadores, e com
estímulos como bonificações por produtividade e por participação na gestão, incentiva-se a

37
concepção de que o trabalhador é parte viva da empresa, ele sente-se como realmente
pertencendo a esta: quanto mais esforçado for o trabalhador, melhor desempenho a empresa
terá, e conseqüentemente, melhor será a sua condição de vida. Essa motivação certamente
traz aumentos de produtividade, e, se não resolve, ao menos atenua uma das contradições
internas do capitalismo. Gerando no trabalhador um sentimento de pertencimento à
empresa, de modo a conceber o desempenho desta como atrelado a suas condições de
existência, torna comum entre trabalho e capital o objetivo que sempre foi só do capital, a
necessidade de acumulação, o que representa uma nova forma de controle do capital sobre
o operariado.
“Tanto os ideólogos dessas novas formas de gerenciamento quanto
os dirigentes de empresas que as praticam tentam nos convencer
de que estas empresas funcionam segundo o modelo das
cooperativas. Todo um esforço é realizado para nos convencer de
que os princípios e valores próprio às estruturas cooperativas
como a participação, a iniciativa, o espírito de equipe, a
solidariedade, o apelo à criatividade, a responsabilidade e a
possibilidade de compartilhar um projeto comum, estão também
presentes nas empresas capitalistas contemporâneas.”(LIMA,
1996:51)

Desta maneira, o objetivo de acumulação aparentemente deixa de ser imposto por


um ''inimigo" e passa a ser uma busca consensual. Na organização flexível, tem-se a
impressão que os objetivos do operário são comuns aos objetivos da empresa, o que torna
possível para o capitalista controlar a produção sem precisar de medidas autoritárias, como
costumavam ser utilizadas no sistema fordista, no qual eram necessários capatazes que
supervisionavam toda linha de produção.
“O resultado desse processo é um controle mais sutil do que o
despotismo taylorista das fábricas, o que torna a empresa
contemporânea um lócus mais eficiente para modelar as
aspirações dos trabalhadores em consonância com os objetivos do
capital”. (WOLFF e CAVALCANTE, 2006:249)

Assim, apesar do toyotismo manter a mesma lógica de racionalização do trabalho,


ele busca ainda, desenvolver mais profundamente o controle do elemento subjetivo da
produção capitalista, o que geraria, segundo Giovanni Alves (2000), uma nova subsunção
real do trabalho ao capital, que Rui Fausto (1989) denominou subordinação formal-
intelectual do trabalho ao capital. Na manufatura a subsunção era apenas formal, pois os

38
artesãos possuíam o conhecimento necessário à produção, mas não o acesso livre aos meios
para a mesma, que já eram dominados pela burguesia; e no taylorismo-fordismo a classe
dominante, através da parcelização do trabalho e da maquinaria, expropria não apenas os
meios de produção, mas principalmente o conhecimento que a permitiria. E ainda, através
do aumento salarial e do subsídio da reprodução do trabalhador por parte do Estado de
bem-estar social, o aumento do poder de compra e a melhoria da qualidade de vida acabam
por cooptar o trabalhador, minando em boa parte sua capacidade de resistência e a busca
pelo ideal socialista.
Assim, diante da nova organização flexível do trabalho, segundo Fausto, se daria a
subsunção formal-intelectual, na qual os trabalhadores possuem conhecimento da utilização
das máquinas devido à automação, no entanto, têm sua subjetividade direcionada para os
interesses burgueses, em conseqüência dos mecanismos político-ideológicos utilizados para
tanto. É importante ressaltar também, que o acesso ao conhecimento da produção não é
suficiente para a libertação do trabalhador caso os mecanismos ideológicos não sejam
superados. Deste modo, se torna primordial desvendarmos quais são esses mecanismos e de
que forma atuam sobre a classe trabalhadora.
“Assim, longe de essa nova qualificação representar uma ruptura
com a lógica de simplificação do trabalho inaugurada pelo
maquinismo, o novo maquinário digital resulta em uma
continuidade da reificação do trabalho vivo de uma forma
qualitativamente acrescida, isto é, não mais como referência à sua
destreza manual, mas às capacidades cognitivas. Esta diz respeito
à subsunção da capacidade de abstração, de lidar com símbolos
(comandos de computador), de prever e se antecipar a problemas,
em detrimento das habilidades de cunho empírico e sensorial. Uma
subsunção que igualmente remete à expropriação e reificação do
saber tácito operário, isto é, aquele nascido da experiência
cotidiana na produção e, dessa forma, mais competente para gerar
idéias relevantes à otimização da produtividade”. (WOLFF e
CAVALCANTE, 2006:248)

A hierarquia rígida, postulada pelo taylorismo através dessa separação entre


concepção e execução do trabalho, é aparentemente anulada pela nova forma de gestão, no
qual os trabalhadores participam e são considerados como essenciais para o aumento da
produtividade. O trabalhador adquire conhecimentos em sua experiência cotidiana com a
maquinaria que lhe possibilita, segundo M. P. Leite (1994:64):
“resolver problemas não previstos no processo produtivo, e, mais

39
ainda, [...] a resistência se apoiava precisamente no conhecimento
que os trabalhadores continuavam a deter sobre a organização do
processo de trabalho”.

Desta maneira, esconder do capitalista as melhorias que introduziam no processo


produtivo, advindas do conhecimento empírico era uma das formas de resistência do
trabalhador ao controle rígido da produção. Com as novas formas de gestão, no qual o
operário participa da administração, esse conhecimento empírico desenvolvido por ele é
apropriado pelo capitalista, e não de forma explicitamente autoritária, mas através do
consentimento, já que essa lógica de gestão faz com que o trabalhador se sinta responsável
pelo desempenho e competitividade da empresa, colocando seu conhecimento a serviço
dela. Portanto, o conhecimento que ele desenvolvia empiricamente e que lhe era útil como
forma de resistência individual frente ao controle do capitalista, perde esse caráter de
resistência e assume um caráter de colaboração.
Assim, a construção de uma idéia de autonomia e autogestão, tem implicações
estruturais no processo de controle do trabalho pelo capital e no processo de captação da
subjetividade operária, satisfazendo necessidades de produtividade e de atenuação no
conflito entre o trabalhador e o capitalista.

2. Processo de Formação/Qualificação do Trabalhador – Investimento em Capital


Humano

Sob o novo sistema flexível, a atenção é mais voltada para o corpo de funcionários
e a conquista da sua implicação aos objetivos da empresa, do que às condições de trabalho
propriamente dita. Disto decorre que os controles explícitos e autoritários do fordismo
cederam lugar ao controle exercido pelos trabalhadores, uns sobre os outros. Os
trabalhadores passam a ser os gerentes de si mesmos, atendendo assim às necessidades da
acumulação.
Segundo Maria Elizabeth Antunes Lima (1996:19):
“Para convencer os trabalhadores da coerência e integridade da
empresa, conhecimentos sobre psicologia e sociologia são usados,

40
fazendo com que os indivíduos sejam controlados através da
interiorização das exigências que agora são de ordem política,
econômica, ideológica e psicológica. Portanto, a diferença no
sistema de gerenciamento está principalmente na abrangência da
sua aplicação”.

Tais mudanças são freqüentemente explicadas por seus defensores como mero
reflexo do avanço da ciência, dando uma aparência mais coerente e lógica ao processo.
Contudo, essa interpretação mascara os verdadeiros motivos, pois naturaliza a inserção da
ciência e tecnologia no universo do trabalho e as colocam de forma fetichizada como
elementos determinantes da superação da sociedade de classes. Além disso, as estratégias
utilizadas para persuadir os trabalhadores sobre a coerência e integridade da empresa são
evidentemente mais sofisticadas, pois recorrem a descobertas da psicologia e sociologia, o
que Lima considera como a união de duas escolas rivais: a “escola das relações humanas”
com a “escola clássica”. Segundo M. Tragtenberg25:
“No plano metodológico, a Escola das Relações Humanas é
behaviorista, procura por intermédio de estímulos adaptar o
indivíduo ao meio sem transformar o meio. Há ênfase, nos testes
psicológicos aplicados pelos conselheiros, na adaptabilidade como
categoria básica para medir o comportamento operário. [...] Essa
escola procura acentuar a participação do operário no processo
decisório, quando a decisão já é tomada de cima, na qual ele
apenas reforça”.

Para Gomes e Silva (2004), sob a doutrina de relações humanas a burocracia


moderna passa a preencher, ao mesmo tempo, a função econômica de produção de mais-
valia e a função política de dominação ideológica dos trabalhadores, negando os conflitos
de classe e preservando a hierarquia de poder. A psicologia, aplicada à técnica do trabalho,
busca extrair maior rendimento do trabalho humano com o mesmo ou menor dispêndio de
energia, seja ela física ou mental.
Para isso muito dos investimentos são feitos nos recursos humanos (RH) da
empresa. Esses investimentos servem para valorizar tanto as exigências materiais, como a
bonificação salarial, quanto às de ordem psicológica, como o incentivo à tomada de
iniciativa, por exemplo, conciliando assim recompensas econômicas com recompensas
simbólicas, aspectos formais e informais da organização. Um dos aspectos importantes é o

25
TRAGTENBERG, apud GOMES E SILVA, 2004:77.

41
investimento em “capital humano”26. Este passa a significar um dos determinantes básicos
para o aumento da produtividade e elemento de superação do atraso econômico. As
empresas passaram a investir muito mais na formação dos trabalhadores, porém não para
melhorar suas condições de vida, mas para aumentar os lucros da própria empresa. Segundo
José dos Santos Souza (2003:185):
“Esses investimentos em formação/qualificação da força de
trabalho, no contexto da produção capitalista não se materializam
para atender os interesses da classe trabalhadora, no sentido de
melhorar sua vida, com potencial emancipador, mas sim para
tornar ainda mais eficazes as relações de dominação. Vistos no
contexto da reprodução ampliada, os investimentos em educação
devem ser concebidos como investimentos em capital variável para
otimizar os investimentos em capital constante e, desse modo,
garantir o aumento na produtividade, além de funcionar como um
eficiente mecanismo de conformação do conflito de classe no
campo da política educacional [...]”.

Essa forma de gestão e organização é chamada por seus idealizadores de “filosofia


da empresa”, ou seja, retiram todo o caráter emancipador da filosofia, colocando-a ao
contrário, como instrumento de dominação do homem. Isso se torna importante para
compreendermos que os investimentos em qualificação se restringem apenas aos
conhecimentos técnicos, relacionados à tecnologia investida nas empresas e, portanto,
subordinado ao controle do capital. Assim, a educação e a formação humana passam a ter
as necessidades, as demandas do processo de acumulação do capital como sujeito definidor,
ou seja, passam a ser subordinadas e reguladas pela esfera privada e à sua reprodução.
(FRIGOTTO, 1996)
Segundo Júlio (2003), as novas máquinas de tecnologia microeletrônica
possibilitam que o tempo de treinamento necessário para operá-las seja reduzido
drasticamente, já que exige muito menos da destreza do trabalhador. Assim, o trabalhador
de oficio se torna cada vez mais supérfluo para a empresa, que pode agora substituí-los por
outros operários sem tantos gastos com treinamento, diminuindo em grande proporção a

26
“[...] de acordo com os teóricos do capital humano, a formação ou qualificação da força de trabalho
constitui um dos fatores fundamentais para explicar economicamente as diferenças de capacidade de
trabalho e, consequentemente, as diferenças de produtividade e renda. Se, do ponto de vista
macroeconômico, o investimento no “fator humano” passa a significar um dos determinantes básicos para o
aumento da produtividade e elemento de superação do atraso econômico, do ponto de vista microeconômico,
tal investimento constitui o fator explicativo das diferenças individuais de produtividade e de renda e,
consequentemente, de mobilidade social”. FRIGOTTO, apud SOUZA 2003:181.

42
capacidade de barganha do operariado em geral.
Com a extinção dos antigos ofícios, os conhecimentos da produção são
substituídos por novos conhecimentos que, no entanto, são formais e voláteis,
possibilitando a transformação do trabalhador em um indivíduo polivalente, capaz de
operar máquinas com diferentes funções, mas perdendo, na realidade, todo o conhecimento
da realização da produção. As transformações nos meios de produção passaram a ter uma
nova dinâmica, muito mais acelerada, que exigem do trabalhador a constante busca por
cursos de qualificação profissional e formação técnica. Esses conhecimentos adquiridos são
caracterizados como voláteis, pois, na mesma velocidade em que se transformam os meios
de produção, eles devem ser renovados. Assim, se inserem na mesma “lógica de produção
destrutiva”27, onde as máquinas, os valores-de-uso e também o conhecimento dos
trabalhadores se tornam descartáveis, sendo substituídos constantemente pelo acelerado
desenvolvimento tecnológico.
Desta forma, o trabalhador, além de ter uma jornada de trabalho estafante, busca
no seu tempo livre a constante requalificação, para não ser substituído por um trabalhador
mais “atualizado”. Ou seja, o desenvolvimento da tecnologia, sob o domínio do capital, não
apenas não possibilita mais tempo livre, como na verdade, aumenta a carga de trabalho
necessária para que o trabalhador se mantenha qualificado e, consequentemente, tenha
menos chances de perder seu posto de trabalho. Assim, o potencial da informática passa a
significar uma exploração extrema do trabalho vivo, sem que para isso haja necessidade de
uma coerção explícita por parte da empresa. Esta é substituída pela concorrência dos
próprios trabalhadores entre si, ou seja, a coerção da livre concorrência do mercado.
“[...] podemos observar [...] novas formas de exploração que
combina mais-valia absoluta e mais-valia relativa. A primeira –
mais-valia absoluta – se manifesta na extensão da jornada de
trabalho via treinamento de qualificação, visto que essa
qualificação é volátil e não traz nenhum retorno ao trabalhador a
não ser sua conservação em seu posto de trabalho, o produto
desenvolvido no interior da atividade de treinamento se caracteriza
por um produto abstrato e pode ser transportado para o interior da
jornada formal de trabalho. Uma forma inédita de recriação de
formas passadas de exploração do trabalho que vem (mais-valia
absoluta subsumida à mais-valia relativa) alimentar o processo de
exploração sob a forma predominante de mais-valia relativa no
interior da jornada formal de trabalho”. (JÚLIO, 2003:135)

27
MÉSZÁROS, apud JÚLIO 2003:133.

43
O processo de treinamento e qualificação, portanto, seria uma forma de estender a
jornada de trabalho não remunerada, ao passo que atendem unicamente às necessidades do
capital, não aumentando o poder de barganha do trabalhador e nem o aproximando de uma
possível emancipação. Para Marx (1978:92-93):
“O tempo é o campo do desenvolvimento humano. O homem que
não dispõe de nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrupções
puramente físicas do sono, das refeições, etc., está toda ela
absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma
besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e
espiritualmente animalizada, para produzir riqueza alheia. E, no
entanto, toda a história da moderna indústria demonstra que o
capital, se não se lhe põe um freio, lutará sempre,
implacavelmente, e sem contemplações, para conduzir toda classe
operária a este nível de extrema degradação”.

Quando a educação do homem se subordina às leis do mercado, à sua


adaptabilidade e funcionalidade, ele deixa de desenvolver as condições omnilaterais
(condições físicas, mentais, afetivas, estéticas e lúdicas), que são capazes de ampliar a
capacidade de trabalho como condição de satisfação das múltiplas necessidades do ser
humano no seu devenir (vir a ser) histórico. O trabalho como pressuposto fundante do
devenir histórico, portanto, é o princípio educativo por excelência, assim, sob as relações
capitalistas de produção, ao invés do trabalho ser criador da vida humana, se transforma em
alienador da vida do trabalhador. (FRIGOTTO, 1996)

3. Outros Mecanismos de Dominação Ideológica

Por último, ressaltamos alguns elementos desse processo que busca captar a
subjetividade do trabalhador, como as principais características atribuídas ao sistema de
gerenciamento flexível por diferentes autores28 :
- Bonificações econômicas conciliadas com recompensas simbólicas, estas últimas
tendo importância central para a manutenção do sistema, devem ser “imprevisíveis”
e “intermitentes”29, podendo tomar a forma de medalhas, diplomas, certificados de
excelência, etc.
28
ALVES, 2000; LIMA, 1996; SENNETT, 1999, etc.
29
PETERS E WATERMAN, 1983 apud LIMA, 1996.

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- Melhores salários, no entanto, quase exclusivamente para trabalhadores das
matrizes.
- Planos de carreira e estabilidade no emprego, possibilitando oportunidade de
promoções verticais e horizontais, mas novamente variando conforme o tipo de
contratação e a posição da empresa na pirâmide de subcontração.
- Concentração de poder sem centralização, permitindo que os próprios operários
controlem uns aos outros.
- Forte competição entre os trabalhadores. O trabalho em equipe permite que os
indivíduos compitam dentro do seu grupo e fora dele, através de duelos de
produtividade entre as equipes. Desta maneira, se torna visivelmente mais fácil o
controle sobre os operários, já que estes mesmos o fazem.
- Grande aumento no fluxo de informações, decorrente principalmente das novas
tecnologias microeletrônicas, buscando, assim, detectar problemas ou insatisfações
antes que estas possam se disseminar, causando um dano maior.
- Exigência de polivalência e capacidade de adaptação dos trabalhadores para
poderem acompanhar as mudanças e renovações constantes, gerando uma forte
pressão sobre os mesmos. Assim, ao invés dos trabalhadores se dedicarem a uma
função se dedicarão à empresa como um todo.
- Ordens e proibições são substituídas por normas e princípios, o controle se dá pela
adesão e interiorização das regras, assim, busca-se ainda, criar uma relação de
confiança entre o patronato e os trabalhadores, em detrimento da relação de classe.
- A função dos chefes passa a ser principalmente interpretar as regras da empresa,
explicando e motivando os trabalhadores, o que aparentemente elimina seu caráter
autoritário.
- Valorização do consenso e adoção de dispositivos que buscam antecipar os
conflitos, evitando o descontentamento do trabalhador.
- Objetivos econômicos são raramente mencionados, em seu lugar os
administradores se referem à qualidade, eficiência, iniciativa, etc. como se estes
não tivessem como resultado necessário o aumento da lucratividade.
- Tentativa de evitar as reivindicações coletivas através de políticas individualizadas.

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- Adaptação dos trabalhadores às elaborações de estratégias de curto prazo no lugar
da programação.
- Para se adaptar às mudanças constantes a qualificação dos trabalhadores é
priorizada, no entanto, uma formação voltada principalmente para as necessidades
da empresa.
- Histórias e mitos são difundidos por toda empresa com a função de utilizar modelos
heróicos com valores e princípios considerados como guia.
- As empresas buscam criar áreas de entretenimento como clubes, academias, etc.
dentro de suas próprias instalações, criando, assim, um vínculo maior, não apenas
com o trabalhador, mas com sua família também.

Segundo Sennett (1999), com planos de carreira em um trabalho fixo durante a


vida inteira - como era costumeiro para a maioria dos operários no período fordista e antes
dele - o trabalhador possuía uma história de vida que mantinha uma narrativa linear,
gerando conquistas e experiências cumulativas. Isso permitia segurança para que ele
realizasse planos em longo prazo e, assim, desenvolvesse um caráter pessoal através de
virtudes duráveis como lealdade e confiança, típico desse tipo de planejamento.
Em geral, a disseminação do sistema flexível de produção, onde o trabalhador
raramente se mantém trabalhando em uma única empresa ao longo de todo sua vida
produtiva, gera relações muito mais instáveis e passageiras. Isto também decorre de metas
de curto prazo às quais os trabalhadores são submetidos pelas empresas. Tais exigências
geram mudanças profundas nas relações familiares e de classe, já que impedem a formação
de laços estáveis entre seres humanos.
“Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de
identidade e história de vida numa sociedade composta de
episódios e fragmentos? [...] Diria que o capitalismo de curto
prazo corrói o caráter dele (trabalhador), sobretudo aquelas
qualidades de caráter que ligam os seres humanos uns aos outros,
e dão a cada um deles um senso de identidade sustentável”.
(SENNETT, 1999:27)
.

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CONCLUSÃO

Observamos durante nosso estudo que o capital busca, ao longo do século XX e início do
século XXI, desenvolver técnicas cada vez mais arrojadas de captação da subjetividade do
trabalhador, como forma de controle do capital sobre o trabalho. Ao longo da história, o
capital sempre concentrou esforços com a finalidade de obter maior controle sobre o
trabalho, criando diferentes mecanismos para isso. No entanto, essas formas de dominação
não são assimiladas passivamente pelos trabalhadores que desenvolvem formas de
resistência coletiva ou individual. Esse se torna um dos motivos primordiais que exigem
transformações constantes na forma de gerenciamento capitalista.
Como vimos anteriormente, à medida que estas modificações gerenciais vão se
consolidando em ramos específicos da produção social ou nela como um todo, a
organização do trabalho conduz a uma rigidificação das condições de emprego,
remuneração e de trabalho. Desta forma, as crises do processo de trabalho começam a se
tornar mais constantes, já que a classe operária passa a desenvolver novos mecanismos de
resistência frente à sua opressão.
Principalmente com referência ao modo de acumulação toyotista, este estudo se restringiu a
delimitar de maneira crítica seus princípios organizativos, mecanismos de dominação
ideológica, e algumas das suas conseqüências na vida prática do trabalhador. Ou seja, a
forma em que se apresenta hoje o embate histórico entre capital e trabalho pelo controle do
processo produtivo.
O objetivo deste trabalho foi, portanto, desenvolver um estudo teórico sobre as
transformações do mundo do trabalho para que, posteriormente, se torne a base de um

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estudo de caso em uma indústria automobilística ainda não delimitada. Assim, poderemos
analisar como a classe operária tem resistido a esse processo de intensificação da
racionalização do trabalho no interior da fábrica.

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