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O DIREITO AO MÍNIMO EXISTENCIAL NA JURISDIÇÃO DO SUPREMO

TRIBUNAL FEDERAL E DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA


The right to the existential minimum in the jurisdiction of the Supreme Federal
Court and the Superior Court of Justice

Clayton Santos do Couto1

Sumário: I. Conceito e fundamentos do direito ao mínimo existencial; II. O conteúdo


do mínimo existencial e a adoção de um critério de justiciabilidade; III. O conteúdo do
mínimo existencial e sua interpretação na jurisdição do Supremo Tribunal Federal e do
Superior Tribunal de Justiça; IV. Considerações finais.

Resumo: A noção de direito fundamental ao mínimo existencial está relacionada a um


conjunto de prestações estatais que assegure a cada pessoa uma vida condigna que não
pode ser objeto de intervenção do Estado na via dos tributos e exige prestações estatais
positivas. O fundamento jurídico do mínimo existencial está lastreado nos princípios da
dignidade da pessoa humana, da igualdade material e da solidariedade social. Com
relação ao conteúdo material do mínimo existencial, há divergências doutrinárias: parte
da doutrina defende que o seu conteúdo só pode ser delimitado diante das circunstâncias
fáticas e das necessidades da pessoa, e; outra parte afirma que, embora variável, o
conteúdo do mínimo existencial pode ser definido a partir de um elenco preferencial,
fixado com base em elementos extraídos do sistema constitucional positivo. Neste
sentido, o presente artigo tem por objetivo investigar, a partir de uma análise empírica
das decisões jurisprudenciais, se o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de
Justiça adotam balizas claras e concretas a respeito do conteúdo do mínimo existencial e
das respectivas consequências jurídicas daí advindas, de modo a delimitar o campo de
intervenção destes tribunais superiores diante de casos alusivos aos direitos sociais. O
método de pesquisa adotado é o hipotético-dedutivo, que concilia a racionalização do
método dedutivo e a experimentação do método indutivo, sendo essa experimentação as
análises quantitativa e qualitativa da jurisprudência. Os resultados obtidos permitem
concluir que não há um conteúdo fixo do mínimo existencial perante os tribunais
analisados, o que contribui para o seu uso retórico e discricionário.
Palavras-chave: Mínimo existencial; Dignidade da pessoa humana; Direitos sociais;
Supremo Tribunal Federal; Superior Tribunal de Justiça.

Abstract: The notion of fundamental right to the existential minimum is related to a set
of state benefits that ensure each person a dignified life that cannot be the object of State
intervention in the form of taxes and requires positive state benefits. The legal basis of
the existential minimum is based on the principles of human dignity, material equality
and social solidarity. Regarding the material content of the existential minimum, there
are doctrinal divergences: part of the doctrine argues that its content can only be
1
Doutorando e Mestre em Direito Econômico e Socioambiental pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - campus Londrina. Professor
dos cursos de graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, campus Londrina e da
Universidade Positivo - Faculdade Londrina. Membro do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas e
Desenvolvimento Humano da Pontifícia Universidade Católica do Paraná - NUPED. Advogado.
delimited in face of the factual circumstances and the needs of the person, and; another
part states that, although variable, the content of the existential minimum can be defined
based on a preferential list, fixed based on elements extracted from the positive
constitutional system. In this sense, this article aims to investigate, based on an
empirical analysis of jurisprudential decisions, whether the Federal Supreme Court and
the Superior Court of Justice adopt clear and concrete guidelines regarding the content
of the existential minimum and the respective legal consequences arising, in order to
delimit the field of intervention of these higher courts in the face of cases referring to
social rights. The research method adopted is the hypothetical-deductive, which
reconciles the rationalization of the deductive method and the experimentation of the
inductive method, this experimentation being the quantitative and qualitative analyzes
of the jurisprudence. The results obtained allow us to conclude that there is no fixed
content of the existential minimum before the analyzed courts, which contributes to its
rhetorical and discretionary use.
Keywords: Existential minimum; Dignity of human person; Social rights; Federal
Court of Justice; Superior Justice Tribunal.

I. Conceito e fundamentos do direito ao mínimo existencial


Os direitos sociais, assim como todos os direitos fundamentais inseridos na
Constituição Federal de 1988, determinam uma pluralidade de posições jurídicas aos
seus titulares. Significa dizer que o titular do direito pode investir-se na posição de
credor da prestação estatal (prestação positiva), como também tem direito a exigir do
Estado que não turbe o exercício do seu direito, que não lhe proíba o acesso (prestação
negativa).
Com base nesta premissa, os direitos sociais impõem também ações positivas
como, por exemplo, criar instituições dirigidas à ajuda de grupos sociais que se
encontrem em situações de desigualdade estrutural, atribuir prestações básicas para
suprir necessidades de subsistência, de educação, saúde, moradia e, além disso, impõem
o dever positivo de legislar a fim de impedir situações extremas de abuso de partes mais
poderosas nas relações contratuais entre particulares, bem como é exigido do Poder
Público a observância de regras básicas de procedimento, relacionadas ao modo de
organizar serviços e à gestão administrativa dos programas.2
Essa vertente social do Estado de Direito implica o reconhecimento de direitos
fundamentais de natureza prestacional e é decorrência direta da dignidade da pessoa
humana, núcleo axiológico do constitucionalismo democrático-social.3
2
CARVALHO, Osvaldo Ferreira de. As políticas públicas como concretização dos direitos sociais.
Revista de Investigações Constitucionais, Curitiba, vol. 6, n. 3, set./dez. 2019, p. 777-778.
3
BITENCOURT NETO, Eurico. Estado social e administração pública de garantia. In: Revista
Direito Econômico Socioambiental, Curitiba, v. 8, n. 1, jan./abr. 2017, p. 294. Na clássica lição de Ingo
Wolfgang Sarlet, a dignidade da pessoa humana constitui a “qualidade intrínseca e distintiva reconhecida
em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da
comunidade, o que implica um complexo de direitos e deveres fundamentais que asseguram a pessoa
tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as
À medida em que a dignidade humana possa ser promovida em maior ou menor
grau conforme a intensidade da proteção aos direitos fundamentais, é possível
identificar uma linha abaixo da qual não há dignidade, que pode ser alcançada não por
uma violação ativa, mas omissiva, por parte do Estado, de garantias mínimas de
existência digna.4 Significa dizer que existe um núcleo de condições materiais que
compreende a noção de dignidade humana de forma tão essencial que sua inexistência
implicará indubitavelmente uma situação de indignidade, não obstante as diversas
concepções de dignidade que se pode encontrar num Estado democrático e pluralista. É
o que a atual doutrina passou a denominar de direito ao mínimo existencial, composto
essencialmente por um “conjunto de direitos sociais de cunho prestacional suficientes
não apenas para assegurar a existência humana, mas, para além disso, uma vida com
dignidade”.5
A mínima formação do indivíduo como ser humano ultrapassa a satisfação de
suas necessidades físicas e biológicas. Deve ele ter condições elementares para a
participação na vida social e cultural do país do qual é cidadão. 6 Não se pode
negligenciar, portanto, que o princípio da dignidade da pessoa humana também implica
uma dimensão sociocultural que não pode ser desconsiderada, mas que lhe constitui
elemento nuclear a ser respeitado e promovido, razão pela qual determinadas prestações
em termos de direitos culturais.7

II. O conteúdo do mínimo existencial e adoção de um critério de justiciabilidade


Entendido o conceito de direito ao mínimo existencial, a grande dificuldade que
se apresenta é a identificação de qual é o seu conteúdo, tendo em vista o fato de que,
para que um direito seja imediatamente exigível, ele já precisa estar definido,

condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação
ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres
humanos”. SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na
Constituição Federal de 1988. 4. ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 70-71.
4
HACHEM, Daniel Wunder. A responsabilidade civil do Estado frente às omissões estatais que ensejam
violação à dignidade da pessoa humana. A&C – Revista de Direito Administrativo e Constitucional,
Belo Horizonte, ano 8, n. 34, out./dez. 2008, p. 62.
5
HACHEM, Daniel Wunder. A responsabilidade civil do Estado frente às omissões estatais que ensejam
violação à dignidade da pessoa humana..., op. cit., p. 8.
6
TOLEDO, Cláudia. Mínimo existencial: a construção de um conceito e seu tratamento pela
jurisprudência constitucional brasileira e alemã. In: MIRANDA, Jorge et al. (org.). Hermenêutica,
Justiça Constitucional e Direitos Fundamentais. Curitiba: Juruá, 2016, p. 114-115.
7
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição
Federal de 1988..., op. cit., p. 125.
especificado, não devendo passar por todo o processo ponderativo para que tenha seu
cumprimento judicialmente determinado.
A doutrina possui certa conformidade em relação à sua variabilidade no tempo e
no espaço, no sentido de que as condições necessárias para garantir uma existência
minimamente digna não são idênticas em todos os países e em todos os momentos
históricos, devendo-se levar em consideração, para identificá-las, os padrões e o
desenvolvimento econômico, social e cultural da sociedade que estiver em questão 8.
Neste sentido, o conteúdo que constitui o direito ao mínimo existencial é extremamente
fluído, mutável ao longo do tempo e cambiante de um local para o outro, sendo
determinado somente à luz do caso concreto.
No que tange ao conteúdo do mínimo existencial, Daniel Wunder Hachem
aponta que há, pelo menos, duas correntes distintas. A primeira corrente, denominada
pelo jurista de conteúdo determinável no caso concreto, prega a ideia de que o mínimo
existencial carece de conteúdo específico, e seus contornos só podem ser delimitados no
caso concreto, diante das circunstâncias fáticas e das necessidades da pessoa sob
exame.9 Na concepção de Daniel Wunder Hachem, a adoção de um critério tão vago e
ampliativo conduz ao posicionamento que rejeita a possibilidade de se exigir
judicialmente toda e qualquer prestação vinculada ao mínimo existencial, o que resulta
num retrocesso justamente em relação àquilo que a formulação desse conceito pretendia
avançar: formar uma categoria jurídica capaz de potencializar a exigibilidade imediata
da parcela dos direitos econômicos e sociais essencial à garantia de uma vida
minimamente digna.10
Por sua vez, a segunda corrente, denominada pelo autor de rol constitucional
preferencial, defende a tese de que, embora varie conforme os momentos históricos e os
diferentes Estados, o conteúdo do mínimo existencial é definido a partir de um “elenco
8
HACHEM, Daniel Wunder. Mínimo existencial e direitos fundamentais econômicos e sociais:
distinções e pontos de contato à luz da doutrina e jurisprudência brasileiras. In: BACELLAR FILHO,
Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder (Coord.). Direito público no Mercosul: intervenção estatal,
direitos fundamentais e sustentabilidade. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 213. No mesmo sentido,
TOLEDO, Cláudia. Mínimo existencial: a construção de um conceito e seu tratamento pela jurisprudência
constitucional brasileira e alemã. In: MIRANDA, Jorge et al. (org.). Hermenêutica, Justiça
Constitucional e Direitos Fundamentais. Curitiba: Juruá, 2016, p. 104.
9
Como forma de infirmar esta posição doutrinária, os adeptos dessa corrente apontam para as díspares
necessidades que cada indivíduo pode apresentar, mesmo dentro de um determinado país e em um
momento histórico temporalmente definido. É o caso de Ricardo Lobo Torres, Ingo Wolfgang Sarlet e
Mariana Filchtiner Figueiredo, Eurico Bittencourt Neto, José Carlos Francisco, Cláudia Honório e
Rogério Gesta Leal. HACHEM, Daniel Wunder. Mínimo existencial e direitos fundamentais econômicos
e sociais..., op. cit., p. 213.
10
HACHEM, Daniel Wunder. Mínimo existencial e direitos fundamentais econômicos e sociais..., op.
cit., p. 216.
preferencial”, fixado com base em elementos extraídos de cada sistema constitucional
positivo, em um contexto temporalmente determinado. A pretensão da corrente
intitulada rol constitucional preferencial é sugerir indicativos mínimos que serviriam
como parâmetros para a averiguação das condições materiais de existência digna em
cada situação concreta. Assim, nestes contornos estariam “um atendimento básico e
eficiente de saúde, o acesso a uma alimentação básica e vestimentas, à educação de
primeiro grau e a garantia de uma moradia”. 11 Porém, não há um consenso, dentre os
defensores dessa corrente, a respeito de quais direitos estariam incluídos neste rol
constitucional preferencial.12
Neste sentido, para Ana Paula de Barcellos, a corrente intitulada rol
constitucional preferencial, reúne sistematicamente quatro grupos – três de natureza
material e um de caráter instrumental - as disposições constitucionais inerentes ao
mínimo existencial: a educação básica, a saúde básica, a assistência aos desamparados e
o acesso à Justiça. 13
Quanto à educação, o mínimo existencial, para Barcellos, engloba apenas as
prestações referentes à chamada “educação básica”, compreendida pela Constituição
como obrigatória e gratuita, nos termos do art. 208, I da Constituição Federal. Por
“educação básica”, deve ser compreendida a educação infantil, o ensino fundamental e o
ensino médio.14
Em relação à saúde, a despeito da dificuldade em delimitar quais prestações
devem ser incluídas no mínimo existencial, Ana Paula Barcellos defende que integra o
conteúdo mínimo as prestações de saúde disponíveis a todos, afastando-se o critério nas
melhores ou piores condições de saúde das pessoas para determinar o que deve e o que
não deve ser concedido.15 A seu tempo, a assistência aos desamparados, é composta,
segundo a autora, pelas pretensões que visam a impedir a indignidade em termos
absolutos. Abrange, portanto, os benefícios assistenciais já previstos na Constituição
Federal, além de alimentação, vestuário e abrigo.16 Por fim, o acesso à justiça é o

11
HACHEM, Daniel Wunder. Mínimo existencial e direitos fundamentais econômicos e sociais..., op.
cit., p. 213-214.
12
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos
fundamentais na perspectiva constitucional. 10. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 321.
13
BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais: o princípio da
dignidade humana. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p.302-303.
14
BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais..., op. cit., p.262.
15
BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais..., op. cit., p. 322.
16
BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais..., op. cit., p. 337.
instrumento capaz de assegurar a postulação judicial dos direitos materiais componentes
do mínimo existencial.17

III. O conteúdo do mínimo existencial e sua interpretação na jurisdição do


Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça - uma análise
empírica.
Atualmente, há certo consenso doutrinário e jurisprudencial no sentido de que,
caso haja omissão de atendimento pelo Poder Executivo na prestação do mínimo
existencial, o prejudicado poderá obter a prestação material necessária para a garantia
do seu direito, por meio de tutela jurisdicional. 18 Neste cenário, impende analisar, pela
sua relevância, como os tribunais brasileiros responsáveis pela guarda da Constituição
Federal e pela uniformidade da legislação federal utilizam a doutrina do direito ao
mínimo existencial como fundamento nas decisões judiciais.
O método de pesquisa adotado é o hipotético-dedutivo, pois este concilia a
racionalização do método dedutivo e a experimentação do método indutivo, sendo essa
experimentação as análises quantitativa e qualitativa da jurisprudência.
Para análise dos julgados proferidos pelo Supremo Tribunal Federal e pelo
Superior Tribunal de Justiça, algumas balizas utilizadas necessitam ser explicitadas para
evidenciar os resultados obtidos. A pesquisa foi realizada no banco de dados de decisões
jurisprudenciais contido nos sítios eletrônicos de ambos os tribunais. Foi utilizado,
como parâmetro de pesquisa, a expressão “mínimo existencial”. Foram considerados
todos os acórdãos proferidos, sem delimitação quanto à data de julgamento.
De início, verificou-se qual o direito que se tinha em questão em cada decisão.
Após, procurou-se verificar se cada decisão continha a definição ou não do que é direito
ao mínimo existencial, ainda que sem grande precisão teórica. Na sequência,
questionou-se quanto à possibilidade de ponderação do mínimo existencial, de modo a
verificar se houve o estabelecimento do seu conteúdo.
Com base nestes parâmetros, foram encontrados 86 (oitenta e seis) acórdãos no
STJ e 21 (vinte e um) acórdãos no STF, nos quais o termo “mínimo existencial” consta

17
BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais..., op. cit., p. 349.
18
HACHEM, Daniel Wunder. Tutela administrativa efetiva dos direitos fundamentais sociais: por
uma implementação espontânea, integral e igualitária. Curitiba, 2014. Tese (Doutorado) – Programa de
Pós-Graduação em Direito, Universidade Federal do Paraná, p. 77. SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade
da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. 4. ed. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2006. p. 94.
na decisão judicial e foi efetivamente utilizado como argumento de convicção do juízo,
seja para concessão ou para denegação do direito pleiteado19.
Do total de decisões proferidas pelo STF, sete julgados (cerca de 33,33%) se
referem a prestações relacionadas ao direito à saúde (concessão de medicamentos de
alto custo e leitos de Unidade de Terapia Intensiva), quatro julgados (cerca de 19%)
estão relacionados ao sistema penitenciário (direito a banho de sol, banho de chuveiro
quente e situação precária dos estabelecimentos prisionais); três acórdãos (14,28%)
guardam correlação com a assistência social (Benefício de Prestação Continuada e
direitos dos idosos); duas decisões (cerca de 9,5%) versam sobre direito à educação
(criação de vagas em creches e pré-escolas); dois julgados tratam do direito ao mínimo
existencial ecológico (cerca de 9,5%); duas decisões (cerca de 9,5%) sobre acesso à
Justiça (criação de Defensoria Pública), e uma decisão (cerca de 4,7%) que trata do
direito à moradia.
Em relação ao STJ, quarenta e sete julgados (cerca de 54,65%) se referem à
limites de descontos em pagamentos consignados; onze decisões (cerca de 12,79%)
estão relacionadas à seguridade social (Benefício de Prestação Continuada,
aposentadorias e atendimento à pessoas com deficiência); oito julgados (cerca de 9,3%)
estão relacionados ao sistema penitenciário (direito a banho de sol, banho de chuveiro
quente e situação precária dos estabelecimentos prisionais); sete decisões
(aproximadamente 8,1%) versam sobre prestações relacionadas ao direito à saúde
(concessão de medicamentos de alto custo e leitos de Unidade de Terapia Intensiva);
cinco decisões (cerca de 5,8%) versam sobre direito à educação (criação de vagas em
creches e pré-escolas e reforma de estabelecimentos educacionais); três acórdãos (cerca
de 3,5%) tratam do direito à moradia; dois julgados (cerca de 2,3%) tratam do direito ao
mínimo existencial ecológico; dois julgados (cerca de 2,3%) versam sobre saneamento
básico (fornecimento de água tratada e rede de esgoto) e; uma decisão (cerca de 1,6%)
se refere ao direito ao fornecimento de energia elétrica.
Das decisões proferidas pelo STF, apenas quatro acórdãos apresentaram uma
definição conceitual do direito ao mínimo existencial. No âmbito do STJ, cinco decisões
se debruçaram na elaboração de um conceito sobre o direito em análise. Os demais

19
Esta informação é relevante e pertinente na medida em que várias decisões continham a expressão
”mínimo existencial”, mas não para fundamentar a pretensão jurídica das partes. Cite-se, a título
elucidativo, decisões que faziam menção ao mínimo existencial apenas estabelecer uma relação de
comparação com outros conceitos. As decisões que continham a expressão “mínimo existencial”, mas que
não se referia especificamente à discussão em torno da justiciabilidade ou não de direitos sociais, foram
descartadas do universo de pesquisa.
julgados se limitaram a conceder ou denegar a pretensão pleiteada usando como
fundamento o mínimo existencial, porém, sem estabelecer seu conceito.
De igual modo, a totalidade das decisões proferidas pelos tribunais não
apresentaram um juízo de ponderação, sendo que a análise do critério de justiciabilidade
do mínimo existencial em relação à pretensão contida na ação judicial se mostrou
totalmente casuística e plasmada de subjetivismo, sem a possibilidade de se esboçar o
mínimo parâmetro técnico de ponderação. Observa-se uma certa coerência em assegurar
alguns direitos como insertos no conceito de mínimo existencial, porém, sem que haja
uma definição de quais prestações fáticas inerentes a estes direitos devem ser
asseguradas sob a alcunha de mínimo existencial.
Neste cenário, a linha de entendimento constatada pela pesquisa a partir da
análise das decisões judiciais proferidas pelo STJ e STF não permite que se tenha um
posicionamento claro sobre a relação entre o núcleo essencial dos direitos sociais e o
mínimo existencial, especialmente quanto ao fato de se tratar, ou não, de categorias
fungíveis.
Os tribunais analisados a partir da pesquisa empírica parece privilegiar a ideia de
que o “conteúdo existencial” não é o mesmo em cada direito social, sendo necessário,
portanto, a devida contextualização em cada oportunidade que se pretender extrair
alguma consequência jurídica concreta em termos de proteção negativa ou positiva dos
direitos sociais e do seu conteúdo essencial,20 no mesmo sentido do que é defendido pela
corrente do conteúdo determinável ao caso concreto.
Neste contexto, Carolina Zancaner Zockun e Ingo Wolfgang Sarlet destacam que
é possível criticar um uso por vezes inflacionário e mesmo retórico da noção de mínimo
existencial, o que abre precedente para o seu uso discricionário. O risco dessa
abordagem atécnica é de se gerar o resultado exatamente oposto àquele visado pela
noção de mínimo existencial. Isto é, a destinação arbitrária, quase subjetiva, de direitos
ao conteúdo do mínimo (por vezes, atribuem-se tantos direitos que o mínimo parece
assumir o caráter de máximo), retira-lhe a força vinculante, a sua exigibilidade imediata,
que é precisamente o objetivo buscado numa ação judicial em que se pleiteia a garantia
de condições materiais básicas para o indivíduo, imprescindíveis para que se alcance
nível elementar de dignidade humana.21
20
SARLET, Ingo Wolfgang; ZOCKUN, Carolina Zancaner. Notas sobre o mínimo existencial e sua
interpretação pelo STF no âmbito do controle judicial das políticas públicas com base nos direitos sociais.
Revista de Investigações Constitucionais, Curitiba, vol. 3, n. 2, maio/ago. 2016, p. 128.
21
Não obstante, Cláudia Toledo aponta que a indefinição quanto ao conteúdo do mínimo existencial é
prejudicial tanto para o particular, quanto para a sociedade, no sentido de que a insegurança jurídica
IV. Considerações Finais.

A dignidade humana, ao constituir um princípio ou valor absoluto por se


assentar na premissa de que o ser humano é um fim e não meio, abarca aquele mínimo
irremissível inerente a qualquer direito fundamental, inclusive os direitos sociais.
O reconhecimento do direito ao mínimo existencial deve compreender o
conjunto de garantias materiais para uma vida condigna, no sentido de algo que o
Estado não pode subtrair ao indivíduo (dimensão negativa) e, ao mesmo tempo, algo
que cumpre ao Estado assegurar, mediante prestações de natureza material (dimensão
positiva). O direito ao mínimo existencial deve, portanto, ser garantido, inclusive pela
jurisdição, independentemente de prévia reserva orçamentária, por ter como fundamento
a proteção à vida, à liberdade, à cidadania e à dignidade da pessoa humana.
Conforme abordado, parte considerável da doutrina administrativista defende a
posição de que o direito ao mínimo existencial é variável no tempo e no espaço, de
modo que o seu conteúdo só pode ser delimitado diante das circunstâncias fáticas e das
necessidades da pessoa. Todavia, é necessário explicitar, diante da situação em
concreto, quais os fundamentos que permitem moldar o conteúdo do mínimo
existencial. Em outros termos, é necessário estabelecer um critério de conformidade,
que permita um grau mínimo de objetividade e impessoalidade às decisões.
A partir dos resultados obtidos através da pesquisa empírica, algumas
considerações podem ser aduzidas: as decisões proferidas não apresentam o conceito de
direito ao mínimo existencial nem o juízo de ponderação, atendo-se, tão somente, a
infirmar se a pretensão deve ou não deve ser concedida; nenhuma das decisões
proferidas no período analisado apresentou uma delimitação do conteúdo do mínimo
existencial ou , em outros termos, quais são as prestações fáticas relacionadas aos
direitos inerentes ao mínimo existencial.
No contexto delineado, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de
Justiça consideram que o conteúdo do direito ao mínimo existencial não é o mesmo em
cada direito social, sendo necessário, portanto, a devida contextualização em cada
oportunidade que se pretender extrair alguma consequência jurídica concreta em termos

ocasionada termina por lesar e enfraquecer ambos os interesses, o individual e o coletivo. TOLEDO,
Cláudia. Mínimo existencial: a construção de um conceito e seu tratamento pela jurisprudência
constitucional brasileira e alemã. In: MIRANDA, Jorge et al. (org.). Hermenêutica, Justiça
Constitucional e Direitos Fundamentais. Curitiba: Juruá, 2016, p. 105.
de proteção negativa ou positiva dos direitos sociais e do seu conteúdo essencial.
Todavia, não se observa o estabelecimento de critérios fáticos objetivos capazes de
permitir uma adequada análise da pretensão à justiciabilidade de tais direitos.
A linha de entendimento constatada pela pesquisa a partir da análise das
decisões judiciais proferidas pelos tribunais em comento, não permite que se tenha um
posicionamento claro sobre a relação entre o núcleo essencial dos direitos sociais e o
mínimo existencial, especialmente quanto ao fato de se tratar, ou não, de categorias
fungíveis. Há, portanto, um uso por vezes inflacionário e mesmo retórico da noção de
mínimo existencial, o que abre precedente para o seu uso discricionário. O risco dessa
abordagem desprovida de técnica é de se gerar o resultado exatamente oposto àquele
visado pela noção de mínimo existencial.

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