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QUE FAREMOS DE JESUS CHAMADO CRISTO?

O título original deste capítulo é What Are We to Make of Jesus


Christ? e foi extraído da antologia The Essential C. S. Lewis, Lyle W.
Dorsett, ed., Collier Books, Macmillan Publishing Company, NY, 1988.
Tradução: Paulo Zacarias.

"O que faremos de Jesus Cristo?" Esta é uma questão que tem, de uma
certa forma, seu lado cômico: Porque a verdadeira questão não é o que
faremos de Cristo, mas o que Ele fará de nós? O quadro de uma mosca
pousando no dorso de um elefante e decidindo o que fará com ele ilustra
bem os elementos cômicos da questão. Mas talvez quem faz esta pergunta
queira dizer o que faremos com Ele no sentido de Como resolveremos o
problema histórico que nos apresenta através dos escritos e atos
registrados deste Homem?

O problema então se resume em reconciliar duas coisas. Por um lado você


tem a maioria das pessoas que admite a profundidade e sanidade de seus
ensinos morais, os quais não são seriamente questionados, até mesmo por
aqueles que se opõem ao cristianismo.

Na verdade, o que descubro com pessoas que nem querem ouvir falar de um
Deus, são evasivas como: "estou inteiramente de acordo com os
ensinamentos morais do cristianismo". Desta forma, parece haver um
consenso geral nos ensinamentos deste Homem e seus seguidores imediatos,
de que a verdade moral é apresentada em sua mais pura qualidade.
Concordam, também, que não é idealismo barato mas está cheio de
sabedoria e integridade, o resultado de uma mente sã. Isto é um fenômeno!

O outro fenômeno é a natureza estarrecedora das observações teológicas


deste Homem. Todos vocês sabem o que quero dizer e enfatizar. Não são
momentos de declarações e clamores esparsos que deixam as pessoas
estupefatas, mas uma atitude constante em seu ministério. Há aquele
momento, por exemplo, perto da sua morte. É o momento no qual o sumo
sacerdote disse a Ele: "Quem é você?" "Eu sou o Ungido, o Filho do Deus
Eterno, sem princípio nem fim, e você Me verá aparecendo no fim de toda
a história como o Juiz do Universo". Mas esta declaração não repousa
apenas neste momento dramático. Se você observar seus diálogos
descobrirá esta declaração permeando toda situação. Ele diz ao povo: "Eu
perdôo seus pecados". Perdoavam-se e perdoamos pequenas trapaças, mas
pecados... só Deus podia fazê-lo. Era o início de um tumulto.

Certa ocasião este homem está parado sobre as colinas de Jerusalém,


olhando para baixo sobre a cidade e, subitamente, ouvimos uma declaração
extraordinária: - "Eu a mantive enviando-lhes profetas e sábios".
Ninguém ousava fazer qualquer comentário. E logo em seguida, Ele está
afirmando ser o poder que enviou todos estes sábios e líderes ao mundo,
durante séculos. Aqui há outro detalhe curioso: em quase toda religião
há observâncias desagradáveis como o jejum. Este Homem também declara:
"Ninguém precisa jejuar enquanto Eu estou aqui". Quem é este Homem que
afirma que Sua mera presença suspende todas as regras? Quem é essa
pessoa que pode subitamente dizer à sinagoga que eles podem ter meio dia
no sábado?

Algumas vezes estas afirmações deixam transparecer que Ele, o


Interlocutor, está completamente sem pecado ou falha. Esta é atitude de
sempre. "Vocês, a quem estou falando, são todos pecadores", e Ele nunca
sugere, mesmo remotamente que a mesma reprovação pudesse ser aplicada
contra Ele. Novamente ele declara: "Eu sou o Único gerado de Deus, antes
que Abraão existisse, EU SOU". Lembre-se do peso e do significado que as
palavras "Eu sou" tinha para os hebreus. Elas eram utilizadas para o
nome de Deus, as quais nunca poderiam ser pronunciadas por qualquer ser
humano, sendo passíveis de morte.

Assim, temos de um lado ensinamentos morais definidos e de outro,


declarações as quais, se não verdadeiras, foram pronunciadas por um
megalomaníaco, comparadas com elas Hitler foi o mais são e humilde dos
homens. Não há meio termo e não há paralelo em outra religião. Se você
peregrinasse até Buda e lhe perguntasse: "Você é o filho de Brahma?",
ele teria dito: "Meu filho, você ainda está no vale das ilusões". Se
procurasse Sócrates e perguntasse: "Você é Zeus?" ele teria dado uma boa
gargalhada na sua frente. Se você se encontrasse com Maomé e perguntado,
"Você é Alá?" ele primeiro rasgaria suas roupas para depois cortar sua
cabeça. Se você perguntasse a Confúcio, "Você é o Paraíso?", penso que
Ele teria provavelmente replicado: "Afirmações que não estão de acordo
com a natureza são de mau gosto". A idéia de um grande mestre de moral
fazendo as declarações que Cristo fez está fora de cogitação. Na minha
opinião, a única pessoa que pode dizer estas coisas é o próprio Deus ou
um lunático com surtos de paranóia.

Podemos confirmar pelo relato bíblico que Ele nunca foi admirado como um
mero professor de moral. Ele não produziu este efeito sobre qualquer
pessoa que realmente O encontrou. A presença dEle manifestava três
efeitos característicos: ódio, terror e adoração. Não houve nenhum
indício de pessoas expressando aprovação ou meio termo. E então, o que
faremos para reconciliar os dois fenômenos contraditórios? Uma tentativa
consiste em dizer que o Homem não fez realmente estas coisas, mas que
seus seguidores exageraram a história e assim a lenda de que Ele havia
dito estas coisas cresceu exageradamente no meio deles. Isto parece
difícil, porque Seus seguidores eram todos judeus; isto é, eles
pertenciam àquela nação na qual todos eram convencidos de que havia
apenas um Deus - e que não poderia haver outro.

É muito estranho que esta invenção sem sentido sobre os líderes


religiosos crescesse entre o único povo em toda a terra unicamente para
cometer tal erro. Pelo contrário, temos a impressão de que nenhum de
seus seguidores imediatos ou mesmo os escritores do Novo Testamento
abraçariam esta doutrina com facilidade. Outro detalhe é que sob este
ponto de vista você teria que considerar os relatos deste Homem como
sendo lendas. Como historiador de literatura, estou perfeitamente
convencido de que os livros que formam os Evangelhos podem ser quaisquer
coisas, menos lenda. Tenho lido muitas lendas e estou certo de que elas
não fazem o mesmo gênero dos Evangelhos. Eles não apresentam
característica artística suficiente para serem lendas. De um ponto de
vista literário eles são desajeitados, não concorrem para um clímax
organizado dos acontecimentos, como num romance ou lenda. Muito da vida
de Jesus é totalmente desconhecido de todos nós, como é a vida de alguém
que tenha vivido em seu tempo. Mesmo uma pessoa engendrando uma lenda
não permitiria estes vãos na história. Excetuando-se os raros diálogos
platônicos, não há conversações que eu saiba, de uma literatura antiga,
como a do Quarto Evangelho.

Não há nada, nem mesmo na moderna literatura, até a introdução do


realismo nas novelas há aproximadamente 100 anos. Na história em que uma
mulher foi surpreendida em adultério, somos informados que Cristo estava
encurvado e rabiscava no chão com seu dedo. Nada mais que isso. Ninguém
baseou qualquer doutrina sobre isso. E a arte de inventar detalhes pouco
irrelevantes para fazer uma cena imaginária mais convincente é puramente
arte moderna. Certamente a única explicação para esta passagem é que o
relato realmente aconteceu. O autor inseriu este fato simplesmente
porque o tinha presenciado.

Finalmente, chegamos a mais estranha história já contada, a história da


Ressurreição. É extremamente necessário que a história fique bem clara.
Certa vez, ouvi um homem dizer: "A importância da Ressurreição é que ela
apresenta evidência de sobrevivência, evidência de que a personalidade
humana sobrevive após a morte". Conforme este ponto de vista, o que
aconteceu a Cristo seria o mesmo que sempre tinha acontecido a todos os
homens, a diferença é que no caso de Cristo, somos privilegiados de ver
o acontecimento. Com certeza não era isso que os primeiros escritores
cristãos pensavam.

Alguma coisa perfeitamente nova na história do Universo tinha


acontecido. Cristo tinha derrotado a morte. A porta que sempre estivera
trancada, agora, pela primeira vez, foi forçada a abrir. Isto é algo
muito distinto da mera sobrevivência como fantasma ou zumbi. Não quero
dizer que eles não acreditavam em fantasmas. Pelo contrário, eles
acreditavam com tanta firmeza que, em mais de uma ocasião, Cristo tinha
assegurado a eles que ele não era um fantasma. A questão é que enquanto
eles acreditavam em sobrevivência eles ainda consideravam a Ressurreição
como algo totalmente diferente e novo.

As narrativas da Ressurreição não são um quadro de sobrevivência após a


morte; elas registram como um modo totalmente novo de ser tem surgido no
universo. Alguma coisa nova tinha aparecido no universo: tão nova quanto
a vinda da primeira vida orgânica. Este Homem, após a morte, não foi
dividido em "fantasma" e "cadáver". Um novo modo de ser surgiu. Esta é a
história. O que faremos com ela?

A questão que levanto é a seguinte: se existe qualquer outra hipótese


que demonstre tão bem os fatos como a hipótese cristã. A hipótese de que
Deus desceu ao seu Universo criado, desceu à completa varonilidade - e
voltou novamente, levando isso consigo. A hipótese alternativa não é
lenda, nem exagero, nem aparição de fantasma. É simplesmente ilusão,
loucura e mentira. Ao menos que alguém se aproprie da segunda
alternativa (e eu não posso) a primeira passa a ser a teoria cristã. "O
que faremos de Cristo?" Na verdade, não existe a questão do que podemos
fazer com ele, isto é uma questão inteiramente do que ele pretende fazer
de nós.

Em vista disso, você só tem uma escolha: aceitar ou rejeitar a história.


As palavras que Ele disse são muito diferentes do que qualquer outro
mestre tem dito. Eles dizem, "Esta é a verdade sobre o Universo. Este é
o caminho que você pode trilhar", mas Ele diz, "Eu sou o Caminho, e a
Verdade, e a Vida". Ele diz, "Nenhum homem pode alcançar a realidade
absoluta, se não for através de mim. Tente salvar a sua própria vida e
você estará inevitavelmente arruinado. Mas se você se despojar do seu
ego e deixar que Eu reine em você, você será salvo". Ele diz, "Se quando
você ouvir o meu chamado, você se envergonhar de Mim virando seu rosto,
Eu também olharei para outro lado quando voltar novamente como Rei, na
glória de meu Pai. Se alguma coisa, não importa o que seja, está
mantendo você longe de Deus e de Mim, qualquer que seja ela, atire-a
para bem longe. Se for os seus olhos, arranque-os. Se for a sua mão,
corte-ª Se você colocar a si m esmo em primeiro lugar, você será o
último. Venha a Mim qualquer um que está carregando um fardo pesado, Eu
carregarei por você. Seus pecados, todos eles, estão aniquilados, Eu
posso fazer isso. Eu sou o Re-nascimento, Eu sou a Vida. Coma-Me,
beba-Me, Eu sou seu Alimento. E finalmente, não tenha medo. Eu venci o
Universo inteiro". Esta é a questão.