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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..........................................................................................5

2 A CRIANÇA NO CONTEXTO SOCIAL .....................................................6

2.1 Definições de criança, primeira infância e adolescência ....................7

2.2 Determinantes de morbimortalidade infantil e juvenil no Brasil ..........8

3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE ATENÇÃO Á SAÚDE DA CRIANÇA ........... 12

4 PNAISC – POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO Á SAÚDE DA CRIANÇA


14

4.1 Eixos da PNAISC ............................................................................. 15

5 SAÚDE DA CRIANÇA NA ATENÇÃO BÁSICA – PROGRAMAS DE


ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA. ...................................................................... 25

5.1 Programa Nacional de Imunização – PNI......................................... 27

5.2 Programa Saúde na Escola – PSE .................................................. 28

5.3 Atenção à Saúde Bucal .................................................................... 29

5.4 Saúde da Criança nas Redes Temáticas ......................................... 30

5.5 Saúde da Criança na Rede de Atenção Materna, Neonatal e Infantil –


Rede Cegonha..................................................................................................... 33

5.6 Saúde da Criança na Rede de Atenção às Urgências ..................... 35

5.7 A Organização dos Pontos de Atenção da RUE para o Cuidado com


a Criança 36

5.8 Saúde da Criança na Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência


– RCPD 37

5.9 Saúde da Criança na Rede de Atenção Psicossocial – Raps .......... 39

5.10 Saúde da Criança na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com


Doenças Crônicas ............................................................................................... 40

5.11 A Organização dos Pontos de Atenção para o Cuidado de Crianças


na Rede 42

6 CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO INFANTIL ............................ 43

2
6.1 Fatores Intrínsecos e Extrínsecos .................................................... 44

6.2 O Crescimento Pós-neonatal ........................................................... 45

6.3 Instrumentos de Avaliação do Crescimento Infantil .......................... 45

6.4 O Desenvolvimento Infantil............................................................... 47

6.5 Avaliação do Desenvolvimento Infantil ............................................. 48

6.6 Alimentação da criança .................................................................... 52

6.7 Aleitamento Materno ........................................................................ 53

6.8 Alimentação Complementar ............................................................. 55

6.9 Desnutrição infantil ........................................................................... 56

6.10 AIDPI – Atenção Integrada a Doenças Prevalente na Infância ..... 59

6.11 PNI – Programa Nacional de Imunização ..................................... 60

7 A ATENÇÃO PSICOSSOCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES –


SAÚDE MENTAL .................................................................................................... 64

7.1 A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)......................................... 66

8 SAÚDE DO ADOLESCENTE.................................................................. 67

8.1 Definições de adolescência e juventude .......................................... 68

8.2 Estratégia Iman – Integração de Manejo dos adolescentes e suas


necessidades. ...................................................................................................... 69

8.3 Caderneta de Saúde de Adolescentes ............................................. 71

8.4 Famílias com adolescentes .............................................................. 71

8.5 Atenção Integral à Saúde de Adolescentes no Contexto da


Socioeducação .................................................................................................... 74

8.6 Crescimento e desenvolvimento do adolescente ............................. 76

8.7 Desenvolvimento físico..................................................................... 77

8.8 Crescimento ..................................................................................... 77

8.9 Problemas no Desenvolvimento Puberal.......................................... 81

8.10 Alimentação e Nutrição ................................................................. 88

8.11 Aspectos comuns e frequentes na alimentação e nutrição ........... 88

3
8.12 Avaliação nutricional de adolescentes .......................................... 89

9 ATENÇÃO INTEGRAL SAÚDE DO ADOLESCENTE ............................ 91

9.1 Consulta ........................................................................................... 91

9.2 Saúde mental ................................................................................... 95

9.3 Planejamento Reprodutivo ............................................................... 95

9.4 Cuidado Integrado na Atenção Básica frente às IST/HIV/aids e


Hepatites Virais.................................................................................................... 97

9.5 Gravidez na adolescência ................................................................ 99

9.6 Acompanhamento pré-natal da adolescente .................................. 102

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................... 105

BIBLIOGRAFIA ........................................................................................... 108

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1 INTRODUÇÃO

Prezado (a) aluno (a)!

O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante


ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro quase improvável, um
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma
pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum
é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão
a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as
perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão
respondidas em tempo hábil.
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da
nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à
execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da
semana e a hora que lhe convier para isso.
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser
seguida e prazos definidos para as atividades.

Bons estudos!

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2 A CRIANÇA NO CONTEXTO SOCIAL

Fonte: revistacrescer.globo.com

A criança, ao longo dos anos, evidenciou inúmeras transformações e ocupou


diferentes posições na sociedade. Essas transformações a levou a enfrentar
diversas situações de vida e de saúde para, finalmente, depois de muitos anos, ser
considerada sujeito social com características particulares. (ARIÉS, 2011 apud
ARAÚJO et al., 2014).
No século XI, a criança era mundialmente percebida apenas como um adulto
em miniatura, sem características ou particularidades individuais, principalmente
pelo fato de não possuir a linguagem bem desenvolvida.
Sua imagem, por volta do século XV, começou a ser retratada por pintores da
época, não por fazer parte de um grupo que necessitasse de atenção específica da
sociedade, mas por sua beleza e graciosidade. (SILVA; CHRISTOFFEL e SOUZA,
2005; ARIÉS, 2011 apud ARAÚJO et al., 2014).
De acordo com Marcílio (1998) e Ribeiro (2006):
No Brasil, essa realidade não se mostrou diferente. O período colonial, por
exemplo, foi marcado por muitas barbáries que contribuíram efetivamente
para os altos índices de Mortalidade Infantil (MI), os quais se mantinham
próximos a 70%. As crianças eram vistas como um instrumento para as
famílias, agentes passivos, amedrontadas pelos cruéis castigos físicos,
permanecendo constantemente submetidas ao serviço e ao poder paternos,

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quando não abandonadas em casas de caridade ou hospitais. (apud
ARAÚJO et al., 2014)

Para Silva, Christoffel e Souza (2005 apud SILVA, 2013), as crianças eram
submetidas à indiferença e crueldades e como se não bastasse, as condições
sanitárias e sociais eram precárias, colaborando com o processo de adoecimento.
Muitas dessas crianças viviam em um único cômodo, sem arejamento ou sol e, como
consequência, o quadro da morbimortalidade infantil tornava-se ainda mais crítico.
As precárias condições nutricionais e de vestimenta a que as crianças eram
submetidas, era outro agravante. A alimentação e o vestuário adulto eram prioritários
entre as comunidades da época. E isso colaborava para agravar o processo de
adoecimento infantil e, quando isso acontecia, as crianças eram levadas tardiamente
aos médicos. (ARAÚJO et al., 2014).
Somente no século XVII que a criança começou a ocupar espaço no âmbito
social, pois é neste período que as famílias demonstraram sentimentos de carinho e
amor ao infante. A sociedade passou a perceber que a criança representava o centro
para as famílias, inclusive plausível de mudanças físicas e mentais. Nessa mesma
época foram encontrados os primeiros registros da linguagem infantil. (ARIÉS, 2011
apud ARAÚJO et al., 2014).

2.1 Definições de criança, primeira infância e adolescência

Atenção à Saúde da Criança representa uma área prioritária no âmbito dos


cuidados à saúde das populações. Para que se desenvolva de forma adequada,
além do conhecimento sobre as características relacionadas aos indicadores de
morbimortalidade, é necessário compreender os aspectos biológicos, demográficos
e socioeconômicos, bem como os demais determinantes sociais no processo de
saúde-doença.
Os direitos da criança estão consagrados na Constituição Federal de 1988 e
reafirmados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), através da Lei nº 8.069,
de 13 de julho de 1990, que considera a criança, a pessoa até 12 anos incompletos,
e o adolescente, a pessoa entre 12 e 18 anos de idade. (BRASIL, 2018).
A Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) de 1989 considera a criança
todo ser humano com menos de 18 anos de idade.

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Para efeitos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança
(PNAISC), o Ministério da Saúde considera criança, a pessoa na faixa etária de 0 a
9 anos, ou seja, até completar os 10 anos, sendo que a Primeira Infância, é
considerada aquela de 0 a 5 anos, também, até completar 6 anos. (BRASIL, 2015b,
art. 3º).
De acordo com Brasil (2016), a definição de primeira infância está alinhada
com o Marco Legal da Primeira Infância, Lei n. º 13.257, de 8 de março de 2016.
Para atendimento em serviços de Pediatria no SUS, a Política abrange
“crianças e adolescentes de zero a 15 anos, ou seja, até completarem 16 anos ou
192 meses, sendo este limite etário passível de alteração de acordo com as normas
e rotinas do estabelecimento de saúde responsável pelo atendimento. ” (BRASIL,
2015b apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018).
A divisão em ciclos de vida, adotada pelo Ministério da Saúde (MS), visa a
atender às especificidades nas fases de crescimento e desenvolvimento da criança
e o início da puberdade (UNA-SUS/UFSC, 2013 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE,
2018).
Trata-se de uma conquista para os adolescentes nos serviços de Pediatria da
rede de saúde do País, pela possibilidade de eles continuarem a usufruir do vínculo
já construído com estes serviços e seus profissionais, especialmente quando se trata
de adolescentes com doenças crônicas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) define como campo de atuação do
pediatra o ser humano entre zero e 20 anos. No entanto, considerando que não
existiam parâmetros definidos pelo MS anteriormente, entendeu-se que, no atual
momento, diante do perfil de formação dos pediatras e da estrutura dos serviços
pediátricos do país, não seria viável responsabilizá-los por faixa etária a partir de 16
anos. (BRASIL, 2016a apud MINISTÉRIO DA SAÚDE,2018).

2.2 Determinantes de morbimortalidade infantil e juvenil no Brasil

A taxa de mortalidade infantil é considerada como um dos melhores


indicadores não só do estado de saúde infantil como também do nível
socioeconômico de uma população. Quanto mais baixa for a taxa de mortalidade
infantil de uma população, melhor é a condição social e econômica dessa.

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Pesquisas realizadas durante o período 1970 – 2000 por diversos órgãos,
como IBGE e Ministério da Saúde, apontam questões sobre os determinantes da
redução da mortalidade infantil no Brasil. Há diferentes fatores socioeconômicos
determinantes na diminuição da taxa de mortalidade infantil que varia de acordo com
a região geográfica e o tempo.
Entre os anos de 1980 e 2000, a mortalidade de crianças com menos de um
ano de idade reduziu-se em um ritmo bastante acelerado. Alguns programas e ações
adotados neste período como: Programas de Atenção Integral à Saúde da Mulher,
Terapia de Reidratação Oral, Programa Nacional de Imunização e atenção ao pré-
natal, contribuíram para o declínio acentuado dos óbitos infantis. (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2004 apud PAIXÃO e FERREIRA, 2012).
As ações no sentido de diminuir significativamente a mortalidade infantil estão
muito ligadas à atuação de políticas públicas como saneamento básico, educação,
acesso aos recursos da saúde e outros componentes de condições de vida.
De acordo com Oliveira et al. (2004), a taxa de mortalidade infantil tem a
seguinte definição:

A taxa de mortalidade infantil é definida como o número de óbitos de


menores de um ano de idade (por mil nascidos vivos), em determinada área
geográfica e período, e interpreta-se como a estimativa do risco de um
nascido vivo morrer durante o seu primeiro ano de vida.

Altas taxas de mortalidade infantil refletem, de maneira geral, baixos níveis de


saúde, de condições de vida e de desenvolvimento socioeconômico. As taxas de
mortalidade infantil são geralmente classificadas em altas (50 ou mais), médias (20
- 49) e baixas (menos de 20), em função da proximidade ou distância dos valores já
alcançados pelas sociedades mais desenvolvidas ao longo do tempo. No entanto,
mesmo quando as taxas de mortalidade infantil são baixas no conjunto, podem ser
verificadas pronunciadas variações entre distintos segmentos da população.
Vários estudos foram feitos para se concluir quais seriam os fatores que
influenciam na mortalidade infantil. Os autores Sousa e Maia (2004) exploraram os
fatores determinantes das taxas de mortalidade infantil no Nordeste durante o
período de 1990 a 2001.
Dos resultados obtidos, concluíram que o acesso à água tratada tem efeitos
positivos para redução da mortalidade infantil, também foram significativos os
indicadores como a taxa de fecundidade e a taxa de alfabetização, bem como a

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renda per capita, gastos com saúde e saneamento. Para os autores, a inclusão social
a partir do acesso à educação, saneamento, saúde e programas de planejamento
familiar confirmam a necessidade de uma ação governamental para diminuir as taxas
de mortalidade infantil para a região. (PAIXÃO e FERREIRA, 2012 apud SOUSA e
MAIA, 2014)
Um estudo realizado em 2008, por Irffi et al, para identificar os fatores que
determinam a diminuição da mortalidade infantil, na região do Nordeste, identificou
que os fatores determinantes foram: a educação e em seguida o nível de renda.
Como ponto de grande importância, os autores do estudo focaram as políticas de
melhoria que visem o aumento do nível de educação e no aumento da renda para o
combate à taxa de mortalidade infantil na região. (PAIXÃO e FERREIRA, 2012).
Com o intuito de diminuir a taxa de mortalidade infantil, o Brasil assumiu, na
Constituição Federal de 1988, a garantia do direito universal à saúde, com a criação
do Sistema Único de Saúde (SUS) e, em 1990, a proteção integral da criança, com
o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Além disso, ratificou os mais importantes pactos, tratados e convenções
internacionais sobre os direitos humanos da criança. Desde então, a saúde da
criança vem apresentando melhora significativa.
O País conquistou grande diminuição nas taxas de mortalidade infantil
(menores de 1 ano) e de mortalidade na infância (menores de 5 anos), tendo com
isso cumprido o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM) número quatro para
2015, com três anos de antecedência e com redução de 77%, uma das maiores do
mundo. Também se observa admirável controle da morbimortalidade por doenças
imunopreveníveis e diarreia, grande diminuição dos índices de desnutrição e
melhora crescente nos indicadores de aleitamento materno.

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Fonte: estudopratico.com.br

Por outro lado, o Brasil vem enfrentando novos desafios. A identificação de


novos agentes infecciosos e o ressurgimento de doenças, até então consideradas
sob controle, ao lado dos efeitos do envelhecimento populacional e da violência
urbana, estão hoje como centro das atenções de profissionais da saúde,
acadêmicos, gestores, agentes e atores de políticas públicas, das instituições
governamentais e não governamentais.
Os mesmos determinantes que, acreditava-se, reduziriam as doenças
infecciosas também podem atuar na direção inversa, propiciando o surgimento e a
disseminação de novas e antigas doenças infectoparasitárias.
As altas taxas de parto cesáreo e da prematuridade, ao mesmo tempo em
que crescem a prevalência da obesidade na infância e os óbitos evitáveis por causas
externas (acidentes e violências), além das doenças em razão das más condições
sanitárias, apontam a complexidade sociocultural e de fenômenos da sociedade
contemporânea que afetam a vida das crianças.
Segundo a Organização das Nações Unidas (2015), conforme citado por
Ministério da Saúde (2018):

Apesar dos avanços nos indicadores de saúde infantil e dos investimentos


nas políticas públicas federais voltadas à saúde da criança, como a Rede
de Atenção à Saúde Materna, Neonatal e Infantil (Rede Cegonha), o
Programa Intersetorial Brasil Carinhoso e o Programa Criança Feliz, fica
evidente a necessidade de ampliar o enfrentamento das iniquidades
relacionadas às condições de saúde e, ao mesmo tempo, universalizar
todos os avanços para grupos de maior vulnerabilidade, tais como as

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crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas, com deficiências e as com
doenças raras, além de garantir não só a sobrevivência, mas o
desenvolvimento integral de todas as crianças, condição essencial para o
exercício da cidadania e a garantia do desenvolvimento nacional, bem como
para o cumprimento dos compromissos do País diante das metas dos
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2015-2030 (ODS).

3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE ATENÇÃO Á SAÚDE DA CRIANÇA

Fonte: primeirainfancia.org.br

A Atenção Primária à Saúde (APS) na concepção mais abrangente e


contemporânea pode ser compreendida como estratégia de reorganização do
sistema de atenção à saúde. A partir deste entendimento a APS desempenha papel
singular com potencial de reordenar recursos do sistema de saúde para satisfazer
as demandas da população, condição que implica em considerá-la como parte
coordenadora de uma Rede de Atenção à Saúde (RAS). (MENDES, 2015 apud
DAMASCENO, 2016)
Nesse contexto, destacam-se importantes instrumentos legislativos, a
exemplo da portaria n° 2.488 de 2011, que aprova a Política Nacional de Atenção
Básica, definindo a organização das Redes de Atenção à Saúde (RAS), como
estratégia para um cuidado integral e direcionado às necessidades de saúde da
população, em cada fase da vida.

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Fonte: pscriancaeadolescente.blogspot.com

No tocante à saúde da criança, em 2015, o Ministério da Saúde instituiu a


Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) com a Portaria
n° 1.130, a qual sintetiza de maneira clara e objetiva os eixos de ações que compõem
a atenção integral à saúde da criança. (BRASIL, 2015 apud DAMASCENO, 2016)
O documento aponta estratégias e dispositivos para a articulação das ações
e dos serviços de saúde, a fim de facilitar sua implementação pelas gestões estadual
e municipal e pelos profissionais de saúde.
A elaboração da PNAISC foi fruto de amplo e participativo processo de
construção coletiva, com início no ano de 2012, liderado pela Coordenação Geral de
Saúde da Criança e Aleitamento Materno (CGSCAM), do Ministério da Saúde, e com
apoio conceitual e metodológico da Estratégia Brasileirinhas e Brasileirinhos
Saudáveis (EBBS), do Instituto Fernandes Figueira (IFF) e da Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz). (ALMEIDA, 2013 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018).
Nessa perspectiva, a PNAISC se organiza a partir das redes de atenção à
saúde e de seus eixos estratégicos, na qual a APS configura-se como coordenadora
do cuidado à criança e ponto central desse processo.

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4 PNAISC – POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO Á SAÚDE DA CRIANÇA

A PNAISC passou por discussão e aprovação no Conselho Nacional dos


Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e no Conselho Nacional de Saúde
(CNS), possibilitando que fosse publicada a Portaria GM/MS n. º 1.130, de 5 de
agosto de 2015, instituindo a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da
Criança (PNAISC).
De acordo com o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do
Adolescente Fernandes Figueira (IFF):

A Pnaisc está estruturada em princípios, diretrizes e eixos estratégicos. Tem


como objetivo promover e proteger a saúde da criança e o aleitamento
materno, mediante atenção e cuidados integrais e integrados, da gestação
aos nove anos de vida, com especial atenção à primeira infância e às
populações de maior vulnerabilidade, visando à redução da
morbimortalidade e um ambiente facilitador à vida com condições dignas de
existência e pleno desenvolvimento.

Fonte: slideshare.net

Dentre os eixos estratégicos destacam-se: aleitamento materno e alimentação


complementar saudável; promoção e acompanhamento do crescimento e
desenvolvimento integral; atenção a crianças com agravos prevalentes na infância e
com doenças crônicas; atenção à saúde de crianças com deficiência ou em situações
específicas e de vulnerabilidade; vigilância e prevenção do óbito infantil, fetal e
materno. (BRASIL,2015 apud DAMASCENO, 2016).

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4.1 Eixos da PNAISC

Fonte: slideplayer.com.br

A PNAISC se estrutura em 7 (sete) eixos estratégicos, com a finalidade de


orientar e qualificar as ações e serviços de saúde da criança no território nacional,
considerando os determinantes sociais e condicionantes para garantir o direito à vida
e à saúde, visando à efetivação de medidas que permitam o nascimento e o pleno
desenvolvimento na infância, de forma saudável e harmoniosa, bem como a redução
das vulnerabilidades e riscos para o adoecimento e outros agravos, a prevenção das
doenças crônicas na vida adulta e da morte prematura de crianças.(BRASIL, 2015)

1) Eixo Estratégico I – Atenção Humanizada e Qualificada à Gestação, ao Parto,


ao Nascimento e ao Recém-Nascido

A atenção integral à gestação, ao parto e ao nascimento inicia-se com a visão


abrangente de saúde integral da mulher (Paism) e promoção da saúde sexual e
reprodutiva, desde a adolescência. Enfoca a fisiologia, o protagonismo e autonomia

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da mulher neste processo, contrapondo-se à abordagem predominante de
medicalização com intervenções excessivas e, muitas vezes, prejudiciais para a
saúde da mulher e do bebê. Deve incluir situações especiais como atenção às
mulheres em situação de violência, a prevenção e abordagem da gravidez não
planejada e a de alto risco, a assistência à infertilidade e atenção diferenciada a
situações de risco, as doenças ou problemas com identificação e os tratamentos
oportunos para prevenção de complicações. (BRASIL, 1984 apud BRASIL, 2018).
De acordo com Ministério da Saúde (2015, art. 7º) da PNAISC, são ações
estratégicas do eixo de atenção humanizada e qualificada à gestação, ao parto, ao
nascimento e ao recém-nascido:

 A prevenção da transmissão vertical do HIV e da sífilis.


 A atenção humanizada e qualificada ao parto e ao recém-nascido no
momento do nascimento, com capacitação dos profissionais de enfermagem
e médicos para prevenção da asfixia neonatal e das parteiras tradicionais.
 A atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso, com a utilização do
“Método Canguru”.
 A qualificação da atenção neonatal na rede de saúde materna, neonatal e
infantil, com especial atenção aos recém-nascidos graves ou potencialmente
graves, internados em Unidade Neonatal, com cuidado progressivo entre a
Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), a Unidade de Cuidado
Intermediário Neonatal Convencional (UCINCo) e a Unidade de Cuidado
Intermediário Neonatal Canguru (UCINCa).
 A alta qualificada do recém-nascido da maternidade, com vinculação da
dupla mãe-bebê à Atenção Básica, de forma precoce, para continuidade do
cuidado, a exemplo da estratégia do “5º Dia de Saúde Integral”, que se traduz
em um conjunto de ações de saúde essenciais a serem ofertadas para a mãe
e bebê pela Atenção Básica à Saúde no primeiro contato após a alta da
maternidade.
 O seguimento do recém-nascido de risco, após a alta da maternidade, de
forma compartilhada entre a Atenção Especializada e a Atenção Básica.
 As triagens neonatais universais.

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2) Eixo Estratégico II – Aleitamento Materno e Alimentação Complementar
Saudável

Estratégia ancorada na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno,


iniciando na gestação, considerando-se as vantagens da amamentação para a
criança, a mãe, a família e a sociedade, bem como a importância de estabelecimento
de hábitos alimentares saudáveis (BRASIL, 2015b, art. 6º, item II).
O aleitamento materno tem se constituído em tema fundamental para a saúde
e a qualidade de vida da criança. Evidências científicas comprovam que a
amamentação, quando praticada de forma exclusiva até os 6 meses e
complementada com alimentos apropriados até os 2 anos de idade ou mais,
demonstra grande potencial transformador no crescimento, no desenvolvimento e na
prevenção de doenças na infância e idade adulta e promoção não apenas da
sobrevivência infantil, mas do pleno desenvolvimento do ser humano.
As políticas públicas de aleitamento materno do Brasil, historicamente, têm
trabalhado sob a ótica da promoção, da proteção e do apoio à mulher, começando
no início da gestação, considerando as vantagens da amamentação para a criança,
a mãe, a família e a sociedade, constituindo-se em prioridade para o País (ESPIRITO
SANTO; MONTEIRO; ALMEIDA, 2017 apud BRASIL, 2018).
As ações, iniciativas e estratégicas do eixo de aleitamento materno e
alimentação complementar saudável são: (BRASIL, 2015b, art. 8º apud BRASIL,
2018)
 A Iniciativa Hospital Amigo da Criança (Ihac).
 Estratégia Nacional para Promoção do Aleitamento Materno e Alimentação
Complementar Saudável no SUS – Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil
(EAAB).
 A ação de apoio à Mulher Trabalhadora que Amamenta (MTA).
 A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH).
 A implementação da Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para
Lactentes, para Crianças de Primeira Infância, Bicos Chupetas e Mamadeiras
(Nbcal).
 A mobilização social em aleitamento materno.

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3) Eixo Estratégico III – Promoção e Acompanhamento do Crescimento e do
Desenvolvimento Integral
Consiste na vigilância e estímulo do pleno crescimento e desenvolvimento da
criança, em especial do “Desenvolvimento na Primeira Infância (DPI) ”, pela Atenção
Básica à saúde, conforme as orientações da Caderneta de Saúde da Criança,
incluindo ações de apoio às famílias para o fortalecimento de vínculos familiares
(BRASIL, 2015b, art. 6º, item III apud BRASIL, 2018).
Este eixo estratégico da Pnaisc constitui uma das preocupações mais
tradicionais da saúde pública nacional quando se trata da saúde da criança.
Segundo Brasil (2018):

A primeira infância (período de vida entre zero a 5 anos ou até completar 6


anos, equivalente a 72 meses), é decisiva para o desenvolvimento saudável
do ser humano. É um ciclo de grande promessa e, ao mesmo tempo, de
ameaças consideráveis. As evidências mostram que as suas experiências
familiares e sociais, quanto mais precoces, ficam incorporadas
biologicamente, podendo ter influências nas etapas ao longo da vida, tanto
positivas quanto negativas, pois afetam as bases da aprendizagem, do
comportamento e da saúde.

A seguir, destacam-se as ações estratégicas do eixo de promoção e


acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento integral: (BRASIL, 2015b,
art. 9º apud BRASIL, 2018)

 A disponibilização da Caderneta de Saúde da Criança, com atualização


periódica de seu conteúdo.
 A qualificação do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento
da primeira infância pela Atenção Básica à Saúde.
 O Comitê de Especialistas e de Mobilização Social para o
Desenvolvimento Integral da Primeira Infância, no âmbito do Sistema
Único de Saúde (SUS).
 O apoio à implementação do Plano Nacional pela Primeira Infância.

4) Eixo Estratégico IV – Atenção Integral a Crianças com Agravos Prevalentes


na Infância e com Doenças Crônicas

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Consiste em estratégia para o diagnóstico precoce e a qualificação do manejo
de doenças prevalentes na infância e ações de prevenção de doenças crônicas e de
cuidado dos casos diagnosticados, com o fomento da atenção e internação domiciliar
sempre que possível (BRASIL, 2015b, art. 6º, item IV apud BRASIL, 2018).
Nas últimas décadas, tem-se observado importante mudança no perfil de
morbimortalidade da população brasileira, denominada de “transição
epidemiológica”, caracterizada pela redução das doenças infectocontagiosas,
aumento das doenças crônicas não transmissíveis e, mais recentemente, o aumento
de casos de anomalias congênitas. A transição epidemiológica ocorre devido a
fatores como a urbanização, o acesso aos serviços de saúde, os meios de
diagnóstico e as mudanças culturais expressivas.
No Brasil, porém, esta transição apresenta características particulares,
decorrentes das diferenças sociais, econômicas e regionais, e o envelhecimento da
população, apresentando assim um modelo de transição onde ainda temos
significativa ocorrência de agravos causados por doenças infectocontagiosas e, ao
mesmo tempo, o crescimento da morbimortalidade por doenças crônicas não
transmissíveis.
Tais mudanças criaram novas demandas para o sistema de saúde, que
precisa assistir as crianças que apresentam condições crônicas de saúde com uma
gama variada de etiologias e prevalências distintas, que vão desde doenças como
problemas alérgicos, obesidade, diabetes, hipertensão, distúrbios neurológicos,
câncer e problemas de saúde mental até doenças raras como síndromes genéticas
e metabólicas, lembrando ainda, que as condições crônicas de saúde apresentam
um largo espectro de gravidade (MOREIRA; GOMES; SÁ, 2014).
São ações estratégicas do eixo de atenção integral a crianças com doenças
crônicas: (BRASIL, 2015b, art. 10 apud BRASIL, 2018)

 A Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (Aidpi).


 A construção de diretrizes de atenção e linhas de cuidado.
 O fomento da atenção e internação domiciliar.

19
 Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância – Aidpi
A estratégia “Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância” (Aidpi)
tem por objetivo diminuir a morbidade e mortalidade de crianças entre zero a 5 anos
de idade, por meio da melhoria da qualidade da atenção prestada à criança por
profissionais de saúde, em especial na Atenção Básica à Saúde, promovendo ações
de promoção e prevenção em saúde infantil, diminuindo a mortalidade por estas
doenças, não apenas investindo na sobrevivência das crianças, mas também no seu
pleno desenvolvimento infantil (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE,
2005 apud BRASIL, 2018).
Trata-se de uma abordagem da Atenção Integral à Saúde da Criança,
desenvolvida originalmente pela Organização Pan-Americana da
Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS) e pelo Fundo das Nações
Unidas para a Infância (Unicef), que teve início no Brasil no ano 1996.
Caracteriza-se pela consideração simultânea e integrada do conjunto de
doenças de maior prevalência na infância, em vez do enfoque tradicional que busca
abordar cada doença isoladamente, como se ela fosse independente das demais
doenças que atingem a criança e do contexto em que ela está inserida.
Segundo o Ministério da Saúde (2018), o Aidpi:

Propõe-se melhor organização dos serviços de saúde, ações de prevenção


de agravos e promoção da saúde, além da melhora do acompanhamento
do crescimento e do desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Estes são
primordiais para criarmos condições que visam garantir futuras gerações de
adultos e idosos mais saudáveis.

5) Eixo Estratégico V – Atenção Integral à Criança em Situação de Violências,


Prevenção de Acidentes e Promoção da Cultura de Paz

Consiste em articular um conjunto de ações e estratégias da rede de saúde


para a prevenção de violências, acidentes e promoção da cultura de paz, além de
organizar metodologias de apoio aos serviços especializados e processos formativos
para a qualificação da atenção à criança em situação de violência de natureza
sexual, física e psicológica, negligência e/ou abandono, visando à implementação de
linhas de cuidado na Rede de Atenção à Saúde e na rede de proteção social no
território (BRASIL, 2015b, art. 6º, item V apud BRASIL, 2018).

20
Para efeito da política, considera-se como violência “quaisquer atos ou
omissões dos pais, responsáveis, instituições e, em última instância da sociedade
em geral, que redundam em dano físico, emocional, sexual e moral” (BRASIL, 2010d,
p. 28), abrangendo ainda a negligência e/ou abandono.
O termo acidente é consagrado pelo uso, contudo, podemos assumir que tais
eventos são, em maior ou menor grau, previsíveis e preveníveis, retirando-lhes,
assim, a conotação fortuita e casual que lhe pode ser atribuída (BRASIL, 2001a).
Para ambos os agravos, tanto os acidentes como as violências, devem-se
investir em ações de prevenção e de promoção da cultura de paz, considerando-se
que são eventos evitáveis.
As medidas normativas, especialmente o Estatuto da Criança e do
Adolescente, repudiam a violência, definindo, no Art. 5º da Lei, que “Nenhuma
criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer
atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. ” (BRASIL, 1990).
De acordo com a Lei n. º 13.010, de 26 de junho de 2014, “A criança e o
adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou
de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação
ou qualquer outro pretexto [...] ” (BRASIL, 2014).
A Pnaisc define como ações estratégicas do eixo de atenção integral à criança
em situação de violências, prevenção de acidentes e promoção da cultura de paz:
(BRASIL, 2015b, art. 11 apud BRASIL, 2018)

 O fomento à organização e qualificação dos serviços especializados para


atenção integral a crianças e suas famílias em situação de violência sexual.
 A implementação da “Linha de Cuidado para a Atenção Integral à Saúde de
Crianças, Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violências”.
 A articulação de ações intrassetoriais e intersetoriais de prevenção de
acidentes, violências e promoção da cultura de paz.
 O apoio à implementação de protocolos, planos e outros compromissos sobre
o enfrentamento às violações de direitos da criança pactuados com instituições
governamentais e não governamentais, que compõem o sistema de garantia de
direitos.

21
Destacam-se ações a serem desenvolvidas, nas três esferas de gestão do
SUS, para o estímulo à cultura de paz, a direitos humanos e a não violência:

 Realização de campanhas informativas e educativas sobre a prevenção de


violências contra crianças e estímulo à cultura de paz, articuladas de forma
intra e intersetorial, direcionadas às famílias, mas também para a comunidade
escolar.
 Articulação de ações intersetoriais para o desenvolvimento integral da criança
e a promoção da cultura de paz, visando ao empoderamento e fortalecimento
das competências familiares para bom vínculo afetivo e para educação com
limites, mas sem violência.
 Capacitação permanente dos profissionais das políticas sociais básicas
(educação e assistência) para o desenvolvimento de competências
necessárias para a prevenção, a identificação de sinais e sintomas de
violências e para o cuidado dessas situações.

6) Eixo Estratégico VI – Atenção à Saúde de Crianças com Deficiência ou em


Situações Específicas e de Vulnerabilidade

Consiste na articulação de um conjunto de estratégias intrassetoriais e


intersetoriais, para inclusão dessas crianças nas redes temáticas de atenção à
saúde, mediante a identificação de situação de vulnerabilidade e risco de agravos e
adoecimento, reconhecendo as especificidades deste público para uma atenção
resolutiva. (BRASIL, 2015b, art. 6º, item VI apud BRASIL, 2018).
Para esta política, as crianças com Deficiência ou em Situações específicas
e/ou de Vulnerabilidade são as que demandam ações estratégicas e serviços de
saúde prioritários, que em regra geral devem ser articulados com outras políticas
públicas.
Crianças com deficiência são aquelas que nascem ou adquirem algum tipo de
deficiência de natureza física, mental, intelectual ou sensorial – com alguma
repercussão no desenvolvimento neuropsicomotor.

22
São consideradas crianças em situações específicas as crianças indígenas,
quilombolas, do campo e da floresta, ribeirinhas e/ou das águas, entre outras. Em
situação de vulnerabilidade as crianças em serviços de acolhimento institucional,
filhos e filhas de mães privadas de liberdade (com atenção especial para as mães
adolescentes), em situação de rua (incluindo famílias com crianças, mulheres e
adolescentes gestantes), famílias e crianças em áreas de risco de desastres.
O trabalho infantil, um grave problema social, expõe a criança às mais
diversas situações de vulnerabilidade, que afetam o seu desenvolvimento biológico,
social e psicológico.
A atenção à saúde de crianças com Deficiência ou em Situações Específicas
e de Vulnerabilidade dispõe das seguintes ações estratégicas: (BRASIL, 2015b, art.
12 apud BRASIL,2018)

 A articulação e a intensificação de ações para inclusão de crianças com


deficiências, indígenas, negras, quilombolas, do campo, das águas e da floresta,
e crianças em situação de rua, entre outras, nas redes temáticas.
 O apoio à implementação do protocolo nacional para a proteção integral de
crianças e adolescentes em situação de risco e desastres.
 O apoio à implementação das diretrizes para atenção integral à saúde de
crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil.

7) Eixo Estratégico VII – Vigilância e Prevenção do Óbito Infantil, Fetal e


Materno
Consiste na contribuição para o monitoramento e investigação da mortalidade
infantil e fetal e possibilita a avaliação das medidas necessárias para a prevenção
de óbitos evitáveis. (BRASIL, 2015b, art. 6º, item I apud BRASIL, 2018).
A Vigilância do óbito infantil, fetal e materno é considerada uma estratégia
importante para a gestão e para a clínica na saúde da mulher e da criança. Contribui
para o monitoramento da mortalidade infantil e fetal, para a melhoria dos registros
dos óbitos, orienta as ações de intervenção para a prevenção de óbito e subsidia a
avaliação e ação sobre o contexto social e econômico da família.

23
Por meio de suas múltiplas etapas possibilita ainda a avaliação das ações e
dos serviços de saúde e contribui no processo formativo permanente dos
profissionais envolvidos por meio de ações de sensibilização e estudos de caso.
A vigilância do óbito infantil, fetal e materno é de responsabilidade do gestor
municipal e deve ser realizada pela equipe de Atenção Básica para levantamento
dos possíveis problemas que envolveram a morte de uma mulher, um feto ou uma
criança por causa evitável na sua área de responsabilidade, considerado evento-
sentinela. Também deve ser feita pelas maternidades e hospitais onde são
realizados partos. Possibilita a avaliação das medidas necessárias para a prevenção
de óbitos evitáveis pelos serviços de saúde e redução da mortalidade materna,
infantil e perinatal. (BRASIL, 2008a, 2010b apud BRASIL, 2018)
A interface entre a vigilância do óbito infantil, fetal e materno se faz necessária,
na medida em que os problemas relacionados a estes óbitos são semelhantes e as
ações de prevenção podem beneficiar a mulher e a criança. Ainda, é importante
destacar a repercussão de um óbito materno sobre a vida da criança que sobrevive
(BRASIL, 2008a, 2010b apud BRASIL, 2018).
Devem ser realizadas:
 Identificação, levantamento dos dados da atenção ambulatorial, urgência e
hospitalar, entrevista domiciliar e análise dos óbitos de mulheres em idade
fértil e óbitos maternos, fetais e infantis da área de abrangência da
unidade/município/regional/estado; utilização dos instrumentos
recomendados pelo MS.
 Análise da evitabilidade dos óbitos maternos fetais e infantis, em reuniões
locais, e identificação das medidas necessárias para prevenção de novas
ocorrências.

24
5 SAÚDE DA CRIANÇA NA ATENÇÃO BÁSICA – PROGRAMAS DE ATENÇÃO
À SAÚDE DA CRIANÇA.

Fonte: atarde.uol.com.br

O cuidado da criança demanda visão de integralidade em todos os aspectos,


contemplando postura acolhedora com escuta qualificada, olhar zeloso e
estabelecimento de vínculo e responsabilização. Da mesma maneira, é necessária
a visão integral dos demais pontos da Rede de Atenção à Saúde, potencializando os
recursos disponíveis para oferecer a resposta mais adequada, completa e resolutiva
à necessidade da criança. O foco dos profissionais deve ser a criança, dentro do
contexto da sua família e sociedade.
Segundo o Ministério da Saúde (2018):

A organização da atenção à saúde em linhas de cuidado, a partir da Atenção


Básica, é uma estratégia que favorece a tão desejada atenção integral, com
a continuidade do cuidado, desde as ações de promoção da saúde,
prevenção de doenças e agravos, até as medidas de tratamento, cuidado e
reabilitação, com um fluxo ágil e oportuno em cada nível de atenção, com
referência e contra referência responsável, até o alcance de uma situação
satisfatória (apud BRASIL, 2005a).

A Política Nacional de Atenção Básica (Pnab) tem na Estratégia de Saúde da


Família (ESF) sua âncora prioritária para expansão e consolidação deste nível de
atenção. A qualificação da ESF e de outras ações, iniciativas e programas seguem
as diretrizes da Pnab e do SUS, configurando um processo progressivo e singular,

25
considerando as especificidades locorregionais. (BRASIL, 2012f apud BRASIL,
2018)
O Ministério da Saúde (2018) discorre sobre os problemas de saúde das
crianças atendidas na atenção básica:

Parte significativa dos problemas de saúde da criança atendidos na Atenção


Básica, complexos e multifatoriais, como obesidade e outras doenças
crônicas, agravos psicossociais/comportamentais, dificuldades escolares,
situações familiares de violência, uso de drogas etc., não é passível de
enfrentamento sem abordagem multiprofissional e em rede intrassetorial na
saúde (com suporte de Nasf e serviços de referência especializados e
outros) e intersetorial, abrangendo envolvimento da escola (ofertado pelo
PSE) e de outros equipamentos públicos frequentados pela criança e sua
família, como parques, praças de esportes, espaços culturais etc. (apud
ALMEIDA, 2008)

A Atenção Básica caracteriza-se como conjunto de ações de saúde, no âmbito


individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção
de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a
manutenção da saúde, com o objetivo de desenvolver uma atenção integral, contínua
e organizada, que impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas e nos
determinantes e condicionantes de saúde das coletividades. (BRASIL, 2012f apud
BRASIL, 2018)
Como prevê a Pnab, além da atenção à demanda espontânea, é fundamental
que a ESF a equilibre a com o desenvolvimento de ações de saúde integral para a
criança e também para a mulher, em especial na saúde sexual e reprodutiva, e para
a gestante.
Além da oferta das ações programáticas tradicionais, como o
acompanhamento do crescimento e o desenvolvimento da criança (puericultura) e
do pré- -natal, outros grupos de maior risco/vulnerabilidade, como crianças com
agravos sociais, nutricionais (obesidade/desnutrição), psicossociais (crianças com
dificuldades escolares, famílias com dificuldades relacionais afetando a criança),
clínicos (asma e outros problemas crônicos e agravos de importância epidemiológica
local, priorizados pela ESF), podem e devem ser selecionados para
acompanhamento longitudinal, seja em atendimentos individuais, pelo médico ou
profissional de enfermagem ou ainda grupais.

26
5.1 Programa Nacional de Imunização – PNI

Fonte: agrolandia.sc.gov.br

As ações de vacinação são coordenadas pelo Programa Nacional de


Imunizações (PNI), com o objetivo de erradicar, eliminar e controlar as doenças
imunopreveníveis no território brasileiro.
Os registros, na Caderneta de Saúde da Criança, das vacinas do Calendário
Nacional de Vacinação recebidas pela criança, devem ser sempre observados pelos
profissionais da Atenção Básica e mesmo de outros serviços de saúde que venham
a ter contato com ela, com objetivo de que esteja sempre com a vacinação
atualizada. (BRASIL, 2014i apud BRASIL, 2018)
De acordo com a Portaria n 1.533 de 18 de agosto de 2016, o calendário
de vacinação para crianças indígenas, foi adaptado para atender as
especificidades daquela população e respeitando também os aspectos
culturais envolvidos. Também é adaptado às circunstâncias operacionais e
epidemiológicas das crianças comprovadamente infectadas pelo HIV. (BRASIL,
2016)
Os serviços devem garantir o funcionamento contínuo da sala de vacina, sem
restrição de horários, de forma a não perder oportunidades de vacinar todas as
crianças. As atividades da sala de vacinação são desenvolvidas pela equipe de
Enfermagem treinada e capacitada para o manuseio, a conservação, o preparo e a

27
administração, o registro e o descarte dos resíduos das atividades de vacinação. A
vacinação segura é fator determinante para o sucesso dessa iniciativa e todos os
possíveis eventos adversos devem ser notificados para possibilitar a avaliação e a
investigação de suas causas.
O PNI disponibiliza Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais
(CRIE) distribuídos nas 27 unidades federadas, com infraestrutura e logística
específica, profissionais especializados e destinados ao atendimento de pessoas
com quadros clínicos especiais, ou seja, grupos populacionais com condições que
justificam a utilização dos imunobiológicos especiais, como por exemplo, os recém-
nascidos, especialmente prematuros, crianças com imunodeficiências congênitas,
crianças expostas ou infectadas pelo HIV e outras crianças em situações específicas.
(BRASIL, 2006b apud BRASIL, 2018)

5.2 Programa Saúde na Escola – PSE

Fonte: educacao.rs.gov.br

A nova concepção em saúde na escola foi incorporada nos Parâmetros


Curriculares Nacionais (PCN) em 1997, consagrando o tema da saúde como
transversal às disciplinas e às ações no contexto escolar, nas dimensões da
promoção da saúde, de prevenção de doenças e agravos e de atenção e cuidados
à saúde de crianças e adolescentes.

28
As Políticas de Saúde e de Educação investiram no Programa Saúde na
Escola (PSE), instituído pelo Decreto Presidencial n. º 6.286, de 5 de dezembro de
2007 (BRASIL, 2007c apud BRASIL, 2018), tendo como principais desafios o uso de
estratégias pedagógicas coerentes com a produção de educação e saúde integral,
fundamental para produzir autocuidado, autonomia e participação dos escolares de
acordo com a idade que se encontram.
A organização das ações do PSE, por meio das equipes das Unidades
Básicas de Saúde e das escolas, está estruturada de forma intersetorial, segundo os
seguintes componentes: avaliação das condições de saúde, promoção da saúde e
prevenção de doenças e agravos, e formação de profissionais de saúde e educação.
A gestão do PSE é centrada em ações intersetoriais, que requerem a
articulação das redes de Saúde, de Educação e dos demais setores, por meio de
Grupos de Trabalho Intersetorial (GTI), nas três esferas de governo: federal, estadual
e municipal.

5.3 Atenção à Saúde Bucal

Fonte: ptnosenado.org.br

A Política Nacional de Saúde Bucal, intitulada Brasil Sorridente, pauta-se nos


princípios e nas diretrizes do SUS. Na Atenção Integral à Saúde da Criança essa
política se insere de forma transversal, integral e intersetorial nas linhas de cuidado

29
direcionadas à mulher e à criança, com o objetivo de promover a qualidade de vida
desse público, por meio das ações de promoção, prevenção, cuidado, qualificação e
vigilância em saúde (BRASIL, 2004a apud BRASIL, 2018).
O acesso à saúde bucal deve ter início no pré-natal e será incorporado no
acompanhamento do crescimento e no desenvolvimento da criança. A equipe de
saúde deve trabalhar de forma articulada, encaminhando a gestante para a consulta
odontológica ao iniciar o pré-natal. Deve-se garantir ao menos uma consulta
odontológica durante o pré-natal, com agendamento das demais consultas,
conforme as necessidades individuais da gestante. A equipe de Saúde Bucal deverá
efetuar os registros das ações realizadas nas Cadernetas de Saúde da Criança e da
Gestante (BRASIL, 2004a, 2008b apud BRASIL, 2018).
Nas ações de saúde direcionadas à criança, recomenda-se que todos os
profissionais da equipe de saúde incorporem, em sua rotina, o exame da cavidade
bucal das crianças e orientações aos pais e responsáveis sobre prevenção de
doenças e agravos e de promoção da saúde bucal, enfatizando a importância do
acompanhamento da saúde bucal e direcionando a criança para as consultas
odontológicas periódicas, evitando assim que o acesso ocorra tardiamente devido à
doença já instalada (COMISSÃO NACIONAL SOBRE DETERMINANTES SOCIAIS
DA SAÚDE apud 2008BRASIL, 2018).
O ambiente escolar é também um espaço eficiente para o desenvolvimento
de atividades de prevenção de doenças e promoção da saúde bucal, desenvolvido
pelo Programa Saúde na Escola (PSE).
Os profissionais de saúde devem desenvolver, com os educandos, atividades
de escovação supervisionada, aplicação de flúor nos casos necessários e atividades
educativas em sala de aula, com o envolvimento de outros temas de saúde
(alimentação saudável, autoestima, autocuidado, entre outros) e no próprio território,
além da realização anual da avaliação da saúde bucal dos escolares (BRASIL,
2004a, 2012h apud BRASIL, 2018).

5.4 Saúde da Criança nas Redes Temáticas

As Redes de Atenção à Saúde (RAS) são arranjos organizativos de ações e


serviços de saúde, de diferentes densidades tecnológicas que, integradas por meio

30
de sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade
do cuidado. Reúne um conjunto de ações e serviços de saúde articulados em níveis
de complexidade crescente, com a finalidade de garantir a integralidade da
assistência à saúde, em consonância com as diretrizes para a organização da RAS,
no âmbito do Sistema Único de Saúde (BRASIL,2010).
A Portaria n. º 4.279, de 30 de dezembro de 2010, “Estabelece diretrizes para
a organização da Rede de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde
(SUS). ” São atributos da RAS, essenciais ao seu funcionamento, de acordo com a
portaria:

 População e território definidos com amplo conhecimento de suas


necessidades e preferências que determinam a oferta de serviços de saúde.
 Extensa gama de estabelecimentos de saúde que prestam serviços de
promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento, gestão de casos,
reabilitação e cuidados paliativos e integram os programas focalizados em
doenças, riscos e populações específicas, os serviços de saúde individuais
e os coletivos.
 Atenção Básica à Saúde estruturada como primeiro nível de atenção e porta
de entrada preferencial do sistema, constituída de equipe multidisciplinar
que cobre toda a população, integrando, coordenando o cuidado, e
atendendo às suas necessidades de saúde.
 Prestação de serviços especializados em lugar adequado.
 Existência de mecanismos de coordenação, continuidade do cuidado e
integração assistencial por todo o contínuo da atenção.
 Atenção à saúde centrada no indivíduo, na família e na comunidade, tendo
em conta as particularidades culturais, gênero, assim como a diversidade
da população.
 Sistema de governança único para toda a rede com o propósito de criar
missão, visão e estratégias nas organizações que compõem a Região de
Saúde; definir objetivos e metas que devam ser cumpridos no curto, médio
e longo prazos; articular as políticas institucionais; e desenvolver a
capacidade de gestão necessária para planejar, monitorar e avaliar o
desempenho dos gerentes e das organizações.

31
 Participação social ampla.
 Gestão integrada dos sistemas de apoio administrativo, clínico e logístico.
 Recursos humanos suficientes, competentes, comprometidos e com
incentivos pelo alcance de metas da rede.
 Sistema de informação integrado que vincula todos os membros da rede,
com identificação de dados por sexo, idade, lugar de residência, origem
étnica e outras variáveis pertinentes.
 Financiamento tripartite, garantido e suficiente, alinhado com as metas da
rede.
 Ação intersetorial e abordagem dos determinantes da saúde e da equidade
em saúde.
 Gestão baseada em resultados.
Fonte: PNAISC, 2018

A elaboração de protocolos clínicos assistenciais e também de Linhas de


Cuidado, definindo as ações e os serviços que devem ser desenvolvidos nos
diferentes pontos de atenção de uma rede e os fluxos assistenciais a serem
percorridos pelos usuários, constitui outra estratégia que, além de organizar e facilitar
o percurso terapêutico destes usuários, sendo formulados conjuntamente por
profissionais destes diferentes serviços, também pode servir de importante elemento
de integração entre eles.
A partir de pactuação tripartite, em 2011, baseada na necessidade de
enfrentamentos de vulnerabilidades, agravos ou doenças mais prevalentes, foi
priorizada a estruturação de Redes Temáticas, tendo sido criadas as seguintes:
 Rede Cegonha, abrangendo a atenção à gestante e atenção à criança até
24 meses.
 Rede de Atenção às Urgências e Emergências.
 Rede de Atenção Psicossocial (com prioridade para o enfrentamento do
álcool, crack, e outras drogas).
 Rede de Atenção às Doenças e Condições Crônicas: iniciando-se pelo
câncer (a partir da intensificação da prevenção e controle do câncer de
mama e colo do útero).
 Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência.

32
5.5 Saúde da Criança na Rede de Atenção Materna, Neonatal e Infantil – Rede
Cegonha

Fonte: redehumanizasus.net

Conceitua-se que a saúde da criança se inicia na gravidez, há muitas


décadas, conforme o Decreto-Lei n. º 2.024, de 17 de fevereiro de 1940 (BRASIL,
1940), e, mais recentemente, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), Lei n. º 8.069, de 13 de julho de 1990.
Em 2011, o Ministério da Saúde, lançou a Rede de Atenção Materna, Neonatal
e Infantil – Rede Cegonha (RC), Portaria n.º 1.459, de 24 de junho de 2011 (BRASIL,
2011a), com o objetivo de garantir o acesso oportuno, com resolutividade e
qualificação da assistência, com a implementação de um novo modelo de atenção à
gestação, ao parto e ao nascimento e à criança, visando promover a saúde neste
ciclo da vida e reduzir a morbimortalidade materna, fetal e infantil, com ênfase no
componente neonatal (BRASIL, 2011a apud BRASIL, 2018).
Trata-se de uma estratégia para fortalecer a integração entre as ações de
saúde da mulher e da criança até os 2 anos, momento da vida de grande
vulnerabilidade e maior necessidade de proteção, colocada como prioridade para as
políticas públicas de saúde. Assim como as mortes maternas, as mortes infantis
concentram-se nas primeiras 24 a 48 horas após o parto, e a RC visa à redução de
mortes evitáveis por ação dos serviços de saúde.

33
Do ponto de vista da criança, a Rede Cegonha tem por objetivo a promoção
da gravidez saudável e do respeito à fisiologia dos processos da transição da vida
intra para a vida extrauterina, às suas necessidades de maturação, ao seu tempo e
à sua capacidade de desenvolvimento pleno. Incentiva a preservação desta fisiologia
humana em que o trabalho de parto exerce influências profundas e positivas sobre
o bebê:
 A liberação de ocitocina endógena e cortisol da mãe que promove a
maturação final da criança, do sistema nervoso e respiratório;
 A liberação de líquidos pulmonares pela passagem pelo canal de parto e a
colonização bacteriana que estimula o sistema imunológico e aponta
associação com menor redução de risco de obesidade, diabetes,
hipertensão, asma e autismo, maior interação mãe-filho e melhores
resultados perinatais de forma geral.

Trata-se de ação de promoção da saúde e de prevenção de agravos na vida


adulta, de problemas de grande dimensão e impacto na saúde da população.
 Conforme preconizado na legislação, nas políticas e nas diretrizes
nacionais e baseada nos direitos e nas evidências científicas, a Rede
Cegonha se estrutura com:
 Acesso em tempo oportuno a todos os níveis de atenção: básica,
especializada ambulatorial e hospitalar, na gestação, no parto e no
cuidado à puérpera e à criança, com a regionalização e hierarquização
do cuidado segundo planejamento local.
 Atenção qualificada baseada em evidências.
 Regulação da atenção de saúde com implementação das centrais de
internação e outros dispositivos para priorização, organização e
promoção de equidade.
 Controle social e incentivo a dispositivos para implementação da
cogestão: trabalho colaborativo multidisciplinar e participação social nos
processos de decisão e assistencial, apoio à informação adequada e
exercício de direitos de cidadania e de autonomia, fomento à constituição
dos Fóruns Perinatais (distritais/municipais/regionais e estaduais) para o

34
planejamento, a avaliação e a tomada de decisão transparente e
participativa, envolvendo os diversos atores.

5.6 Saúde da Criança na Rede de Atenção às Urgências

Fonte: edisciplinas.usp.br

A organização da Rede de Atenção às Urgências (RUE) tem a finalidade de


articular e integrar todos os equipamentos de saúde, objetivando ampliar e qualificar
o acesso humanizado e integral aos usuários em situação de urgência e emergência
nos serviços de saúde, de forma ágil e oportuna (BRASIL, 2011b apud BRASIL,
2018).
Entre as diretrizes da Rede de Atenção às Urgências temos:
 A ampliação do acesso e acolhimento, contemplando a classificação de
risco e a intervenção adequada aos diferentes agravos;
 A garantia da universalidade, equidade e integralidade no atendimento às
urgências;
 A humanização da atenção, garantindo efetivação de um modelo centrado
no usuário e baseado nas suas necessidades de saúde;
 A regulação articulada entre todos os componentes da RUE, com garantia
da equidade e integralidade do cuidado; o bem como a qualificação da
assistência por meio da educação permanente das equipes.

35
5.7 A Organização dos Pontos de Atenção da RUE para o Cuidado com a
Criança

A Rede de Atenção às Urgências é constituída pelos seguintes pontos de


atenção:
Atenção Básica: Funciona como coordenadora do cuidado no território,
atuando especialmente no atendimento a traumas de baixa complexidade e na
continuidade do cuidado de crianças que estão em processo de recuperação de
traumas.
SAMU 192: Desempenha papel importante no atendimento primário e
secundário em situações de Urgência e Emergência, tendo a Regulação das
Urgências como elemento transversal do processo, de forma que o componente
móvel mantenha interação com os demais componentes da rede e demais redes, a
fim de proporcionar o encaminhamento adequado aos pacientes após sua
estabilização. Todas as Centrais de Regulação do Samu devem possuir pelo menos
uma incubadora de transporte de recém-nascido, adaptada para uso nas
ambulâncias, quando necessário.
Central de Regulação Médica de Urgências: Estrutura física constituída por
profissionais (médicos, telefonistas auxiliares de regulação médica e rádio- -
operadores) capacitados em regulação dos chamados telefônicos que demandam
orientação e/ou atendimento de urgência, por meio de uma classificação e
priorização das necessidades de assistência em urgência, além de ordenar o fluxo
efetivo das referências e contra referências dentro de uma Rede de Atenção, que
cumprem determinados requisitos estabelecidos pelas normativas do Ministério da
Saúde (BRASIL, 2013s apud BRASIL, 2018).
Sala de Estabilização: Espaço que presta assistência temporária e
qualificada para estabilização de pacientes críticos/graves, após a avaliação clínica
com internação no ambiente hospitalar e/ou encaminhamento para as portas de
urgência referenciadas pela Central de Regulação Médica das Urgências, ou outros
pontos da Rede de Atenção à Saúde, conforme as diretrizes da Portaria n. º 2.338,
de 3 de outubro de 2011 (BRASIL, 2011i apud BRASIL, 2018).
Unidade de Pronto Atendimento – UPA 24h: é um estabelecimento de
saúde de complexidade intermediária, situado entre a Atenção Básica de Saúde
(ABS) e a Atenção Hospitalar e articula-se com a ABS, Samu 192, unidades

36
hospitalares, unidades de apoio diagnóstico e terapêutico e com outros serviços de
atenção à saúde, por meio de fluxos lógicos e efetivos de referência e contra
referência, ordenados pelas Centrais de Regulação Médica de Urgências e
complexos reguladores instalados na região (BRASIL, 2013u; BRASIL, 2013s apud
BRASIL, 2018).
Atenção/Internação Domiciliar: Tem importante papel, no sentido de
abreviar o período de observação ou internação de crianças em situação de U/E, já
estabilizadas, mas que ainda demandam cuidados. Produz impactos na
humanização do atendimento à criança, no seu lar, com a sua família, o que traz
conhecidos benefícios à sua recuperação, bem como favorece a disponibilização de
leitos nas portas de urgências.
A Rede também é integrada por outros serviços de urgência 24 horas, do
componente hospitalar: portas hospitalares de urgência, leitos clínicos de
retaguarda, leitos de UTI, unidades de cuidados prolongados e tranversalizada por
uma linha do cuidado em trauma.

5.8 Saúde da Criança na Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência –


RCPD

Com o lançamento do Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência:


Viver Sem Limite, Decreto n. º 7.612, de 17 de novembro de 2011 (BRASIL, 2011j
apud BRASIL, 2018), o Ministério da Saúde instituiu a Rede de Cuidados à Saúde
da Pessoa com Deficiência, no âmbito do SUS, Portaria n. º 793, de 24 de abril de
2012 (BRASIL, 2012k). Esta estabeleceu diretrizes para o cuidado às pessoas com
deficiência, temporária ou permanente, progressiva, regressiva ou estável,
intermitente ou contínua. O eixo de Atenção à Saúde tem como foco a organização
do cuidado integral em rede, contemplando as áreas de deficiência auditiva, física,
visual, intelectual, ostomia e transtorno do espectro do autismo.

Sinais de Alerta e Identificação Precoce de Deficiência:


 A identificação de sinais iniciais de problemas possibilita a instauração
imediata de intervenções extremamente importantes, uma vez que os
resultados positivos em resposta a terapias são tão mais significativos
quanto mais precocemente instituídos. A maior plasticidade das estruturas

37
anátomo-fisiológicas do cérebro nos primeiros anos de vida e o papel
fundamental das experiências de vida de um bebê, para o funcionamento
das conexões neuronais e para a constituição psicossocial, tornam este
período um momento sensível e privilegiado para intervenções.
 Nas ações de assistência materna e infantil da Atenção Básica, por
exemplo, as equipes profissionais são importantes na tarefa de
identificação de sinais iniciais de problemas de desenvolvimento.
 Assim, em toda visita domiciliar ou atendimento da criança, a equipe de
saúde deve estar atenta a alguns sinais de alerta, como atraso nas
aquisições neuropsicomotoras, comportamentos estereotipados e
repetitivos, apatia frente a estímulos do ambiente, dificuldade em fixar
visualmente o rosto da mãe e objetos do ambiente, ausência de resposta
aos estímulos sonoros, entre outros.
 Outro importante ponto a ser considerado são os casos de violência e/ou
negligência. Tendo em vista que mulheres e meninas com deficiência
estão frequentemente expostas a maiores riscos, tanto no lar como fora
dele, de sofrer tratamento negligente, violência física, psicológica e sexual.
Para o enfrentamento desse tipo de situação é fundamental o preparo da
equipe na identificação, na notificação e na comunicação ao Conselho
Tutelar, além da intervenção e cuidados terapêuticos e/ou psicossociais
para a criança e orientação às famílias. Para saber mais, consultar o eixo
estratégico, sobre a Linha de Cuidado para a Atenção Integral à Saúde de
Crianças, Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violências.
Fonte: PNAISC, 2018

A Organização dos Pontos de Atenção para o Cuidado de Crianças com


Deficiências Para melhor orientação da família, a equipe deverá conhecer os Pontos
de Atenção da Rede e os níveis de atenção, oportunizando o encaminhamento e o
atendimento da criança com deficiência, tais como:
Atenção Básica: As Unidades Básicas de Saúde; Nasf; Academia da Saúde;
PSE; Melhor em Casa.

38
Atenção Especializada: Estabelecimentos de saúde habilitados em apenas
uma das modalidades de reabilitação; os Centros Especializados em Reabilitação
(CER); Oficinas Ortopédicas e Centros de Especialidades Odontológicas (CEO).
Centro Especializado em Reabilitação (CER): É um ponto de atenção
ambulatorial, especializado em reabilitação, que realiza diagnóstico, tratamento,
concessão, adaptação e manutenção de tecnologia assistiva, constituindo-se em
referência para a Rede de Atenção à Saúde no território. Com 4 modalidades
diferentes – física, intelectual, auditiva e visual – que indicam o porte do CER, tipo II,
III ou IV, classificado a depender do número de modalidades que atende.
Oficina Ortopédica: Constitui serviço de dispensação, confecção, adaptação
e manutenção de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção (OPM), e têm
como referência um serviço habilitado em reabilitação física integrando a Rede de
Cuidados da Pessoa com Deficiência no Estado.
Centro Especializado em Odontologia (CEO): É o estabelecimento de
saúde que oferta atendimento especializado odontológico e ao integrar a Rede PCD
recebe qualificação para o atendimento da pessoa com deficiência.

5.9 Saúde da Criança na Rede de Atenção Psicossocial – Raps

A Raps tem por finalidade promover cuidado em saúde às pessoas com


sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes
do uso de álcool e outras drogas, mediante a criação, ampliação e articulação de
pontos de atenção à saúde no âmbito SUS. A rede destaca como um dos objetivos
essenciais a promoção do cuidado para grupos mais vulneráveis, especialmente
crianças adolescentes, jovens, pessoas em situação de rua e populações indígenas,
com sofrimento ou transtorno mental e crianças que sofreram violências (BRASIL,
2011d apud BRASIL, 2018).
Os cuidados com a saúde mental da criança devem ocorrer desde o
desenvolvimento intrauterino ao nascimento saudável, e a estimulação precoce nos
primeiros anos de vida exerce uma função importante no desenvolvimento
emocional, cognitivo e social da criança.
É parte da Atenção Integral à Saúde da Criança estimular o vínculo com sua
família e com os serviços de saúde, propiciando oportunidades de abordagem para
a promoção da saúde, amamentação e alimentação complementar saudável, hábitos

39
de vida saudáveis, vacinação, prevenção de doenças e agravos, provendo o cuidado
em tempo oportuno.
As ações de cuidado para crianças no campo específico da atenção à saúde
mental devem seguir as diretrizes operacionais pautadas pelo reconhecimento e
acolhimento da demanda de cada um, com Projeto Terapêutico Singular (PTS),
levando em conta (BRASIL, 2005b apud BRASIL, 2018):

 Adoção de medidas voltadas para o cuidado, seja por meio de recursos


próprios do serviço, seja em outro dispositivo da saúde ou de outra política
social, caso em que deve ser feito o encaminhamento responsável.
 Gestão do cuidado, de modo a sustentar, em todo o processo, a condição da
criança como sujeito de direitos e de responsabilidades, em sua dimensão
subjetiva e social.
 Comprometimento dos responsáveis pela criança a ser cuidada, tanto os
familiares como os agentes institucionais.
 Produção do cuidado, fundamentado nos recursos teórico-práticos e de
saberes disponíveis aos profissionais, técnicos ou equipe atuantes no serviço,
envolvendo a discussão com os demais membros da equipe.
 Manutenção de canais abertos de articulação com outros equipamentos do
território, de modo a operar com a lógica da rede ampliada de atenção;
especialmente nos casos de alteração de comportamento.
 Orientação para que as ações sejam tomadas em sua dimensão territorial, ou
seja, considerando as múltiplas e singulares configurações delineadas em
seus trajetos de vida.
Fonte: PNAISC, 2018

5.10 Saúde da Criança na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças
Crônicas

A garantia da integralidade da atenção, almejada pela PNAISC, tem nas


doenças crônicas um dos maiores desafios, pela variedade e complexidade de
patologias e agravos crônicos que hoje afetam as crianças que a cada dia morrem
menos de agravos agudos e, por outro lado, a exigência que estas trazem à gestão

40
e à atenção do SUS, de articulação em rede, da ampla gama de serviços e
profissionais necessários para seu cuidado integral.
A Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas, instituída
pela Portaria n. º 483, de 1º de abril de 2014 (BRASIL, 2014d apud BRASIL, 2018),
tem como finalidade realizar a atenção de forma integral às pessoas, neste caso às
crianças com doenças crônicas, em todos os pontos de atenção, com oferta de ações
e serviços de promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico,
tratamento, reabilitação, redução de danos e manutenção da saúde.
O objetivo dessa rede é fomentar a mudança do modelo de atenção, com
fortalecimento da Atenção Básica, por meio da qualificação da atenção integral às
crianças com doenças crônicas e da ampliação das estratégias para promoção da
saúde e para prevenção do desenvolvimento dessas doenças e suas complicações,
entre elas o câncer, que dispõe de uma Política Nacional de Prevenção e Controle
do Câncer, segundo a Portaria n.º 874, de 16 de maio de 2013 (BRASIL, 2013b),
bem como de critérios e parâmetros para habilitação de estabelecimentos de saúde
especializados em Oncologia, inclusive Oncologia Pediátrica, redefinidos na Portaria
n.º 140, de 27 de fevereiro de 2014 (BRASIL, 2014b apud BRASIL, 2018).
Para superar os desafios das doenças crônicas no Brasil, no ano de 2013 o
MS definiu as “Diretrizes para o cuidado das pessoas com doenças crônicas nas
redes de atenção à saúde”. Alguns atributos são indispensáveis na organização dos
processos de trabalho, voltados para o cuidado da criança com doença crônica,
ressaltando: o acolhimento, a atenção centrada na criança e na família, o cuidado
continuado e a atenção programada, a equipe interdisciplinar, o Projeto Terapêutico
Singular e o fomento do autocuidado.
Tal organização dos serviços precisa se dar por regiões de saúde, entre outros
motivos, pelo fato da maior parte dos municípios brasileiros ser de pequeno porte,
possuindo apenas serviços de Atenção Básica, havendo a necessidade de se
organizar a Rede de Atenção à Saúde (RAS) na região, com definição de serviços
de referência regionais.
Inclusive, sempre que possível, com a estruturação destes serviços em locais
de vazio assistencial, ampliando a cobertura populacional de atenção especializada
para as doenças crônicas. Os diferentes níveis de cuidado devem ter uma efetiva
organização regionalizada, para ampliar acesso e relação solidária de profissionais
da Atenção Básica e de especialistas, facilitando a prestação de serviços de saúde

41
de qualidade, definição de responsabilidades, comunicação e a transferência segura
quando necessária.

5.11 A Organização dos Pontos de Atenção para o Cuidado de Crianças na


Rede

A Atenção Básica (AB) deve dar respostas às necessidades que as crianças


com doenças crônicas apresentam na vida familiar, social e escolar. Tem papel-
chave como coordenadora do cuidado, com a responsabilidade de realizar a atenção
integral e contínua e de ser a porta de entrada prioritária. A AB deve realizar ações
de promoção à saúde, de prevenção de agravos e também articular com a atenção
especializada a oferta do diagnóstico, do tratamento e da reabilitação para que a
atenção seja resolutiva no cuidado às crianças com doenças crônicas, tais como as
respiratórias, as endócrinas, as cardiovasculares e as oncológicas, sendo que muitos
se beneficiam de um seguimento compartilhado entre AB e os serviços
especializados.
A Atenção Especializada é traduzida como conjunto de diversos pontos de
atenção com diferentes densidades tecnológicas para a realização de ações
específicas: como serviços de urgência e emergência, ambulatórios especializados
e serviços hospitalares.
Deve apoiar e complementar os serviços da Atenção Básica de forma
resolutiva e em tempo oportuno, níveis:

Ambulatorial: Serviço especializado com ações eletivas de média e alta


complexidade.
Hospitalar: Ponto de atenção estratégico voltado para as internações eletivas
e/ou de urgência de pacientes agudos ou crônicos agudizados.
Urgência/Emergência: Ponto de atenção com ações voltadas aos usuários
que necessitam de cuidados imediatos em caráter de urgência, inclusive
pacientes com agudização das condições crônicas.
Fonte: PNAISC, 2018

Na Atenção Hospitalar, com serviços de internação pediátrica, devem ser


levadas em consideração as peculiaridades da criança e a importância do lúdico

42
como contribuição ao processo terapêutico, socioafetivo e educativo, de acordo com
a faixa etária. Esses estabelecimentos devem dispor de brinquedotecas nas suas
dependências de acordo com a Lei n. º 11.104, de 21 de março de 2005, espaços
de lazer e de convivência da criança com a família, conforme a RDC n. º 50, de 21
de fevereiro de 2002, e a RDC n. º 307, de 14 de novembro de 2002 (BRASIL, 2002a;
2002b; 2005e apud BRASIL, 2018).
A Atenção Domiciliar constitui oferta essencial na Rede de Atenção à Saúde
para se garantir uma atenção integral e humanizada às crianças com agravos
crônicos que dificultam sua mobilização do domicílio ou, muitas vezes, até do leito,
seja aquela atenção realizada pelas equipes de Atenção Básica/equipes de Saúde
da Família, com apoio, se necessário, por profissionais dos Nasfs, seja aquela de
maior complexidade, cujo cuidado é feito por Equipes Multidisciplinares de Atenção
Domiciliar (Emad).
No caso de crianças acometidas por doenças crônicas complexas, como
aquelas que, em grande número, ainda ocupam leitos de UTI/UCI Neonatal ou UTI/
UCI Pediátrica pelo País, seja em longas internações, ou mesmo por tempo
indeterminado, como “moradoras”, a Atenção Domiciliar, substituindo a Internação
Hospitalar, constitui importante alternativa a ser perseguida, considerando a
humanização do atendimento à criança, no seu lar, junto a sua família, o que traz
conhecidos benefícios à sua recuperação. Além disso, favorece a disponibilização
de caros e frequentemente disputados leitos intensivos ou semi-intensivos, com
significativa diminuição de custos da assistência final.

6 CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO INFANTIL

43
Fonte: minutocrianca.com

Avaliar o crescimento e desenvolvimento infantil é uma das atribuições do


enfermeiro na Estratégia Saúde da Família e parte integrante da consulta de
enfermagem à criança. Nesta seção vamos discutir conceitos, fatores
influenciadores e atuação do enfermeiro.

6.1 Fatores Intrínsecos e Extrínsecos

Os fatores intrínsecos ou internos são aqueles relacionados às determinações


genéticas ou à herança que as crianças recebem de seus antepassados. Esse
potencial genético pode ou não ser atingido em plenitude, desde que as influências
do meio ambiente onde a criança vive possam contribuir para tal.
A criança pode ter, por exemplo, potencial genético para atingir a altura
correspondente a 1.90m quando adulta (fator intrínseco), porém, caso seu
desenvolvimento seja influenciado por fatores extrínsecos, como alimentação
deficiente, baixa renda familiar, baixo grau de escolaridade dos pais, condições
precárias de saneamento básico, doenças recorrentes na infância, esse potencial
pode não ser alcançado, e a altura final será, pois, inferior àquela esperada.
Crescimento Intrauterino É importante para o enfermeiro conhecer as
condições de vida que podem interferir negativamente no peso de nascimento. Na
sua área de abrangência, provavelmente existem mulheres gestantes nestas
condições:
 Com doenças maternas infecciosas
 Com doenças sexualmente transmissíveis
 Com hipertensão arterial na gestação
 Com baixo peso ou sobrepeso
 Menores de 15 e maiores que 35 anos
 Com altura materna inferior a 1.50m
 Usuárias de drogas lícitas e ilícitas
 Fumantes.

44
6.2 O Crescimento Pós-neonatal

Fonte: ufpel.edu.br

O acompanhamento do crescimento pós-neonatal faz parte da consulta de


enfermagem à criança. Na vida intrauterina, a cabeça da criança é a parte do corpo
que mais cresce e representa 50% do tamanho total do corpo. Já na fase pós-
neonatal, o desenvolvimento do tronco e das pernas é maior. Em alguns tecidos, o
crescimento é contínuo, em outros, ocorre por estágios, como o da puberdade, por
exemplo. O crescimento ósseo termina assim que a maturidade do esqueleto estiver
completa. Uma das características da criança é que o crescimento é acelerado até
os dois anos de idade e sofre desaceleração entre os dois e cinco anos.

6.3 Instrumentos de Avaliação do Crescimento Infantil

A avaliação do crescimento e desenvolvimento infantil é parte essencial da


consulta de enfermagem. Para avaliar o crescimento infantil, é necessário pesar a
criança, medir sua altura e registrar esses dados em gráficos, que vão mostrar se
peso, altura e perímetro cefálico estão adequados para a idade.
Registre os dados aferidos nas curvas de peso, estatura e perímetro cefálico
e verifique o crescimento da criança. A utilização das curvas de referência permite:

45
Fonte: slideshare.net

Índices antropométricos e suas características:

Fonte: Caderno Crescimento e Desenvolvimento NESCON

O Ministério da Saúde (2011) recomenda um calendário mínimo de consultas


exclusivas para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Um
dos profissionais que realiza esse tipo de acompanhamento é o enfermeiro.

46
Fonte: Caderno Crescimento e Desenvolvimento NESCON

6.4 O Desenvolvimento Infantil

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (2005):

Desenvolvimento infantil é um processo que vai desde a concepção,


envolvendo vários aspectos, indo desde o crescimento físico, passando
pela maturação neurológica, comportamental, cognitiva, social e afetiva da
criança. Tem como produto tornar a criança competente para responder às
suas necessidades e às do seu meio, considerando seu contexto de vida.
(APUD FIOCRUZ 2011)

Sendo assim, sustentar a cabeça, sentar-se com ou sem apoio, engatinhar,


caminhar, falar, sorrir, aprender a pular com um pé só, interagir com as pessoas que
a cercam, aprender a ler e escrever são exemplos atribuídos ao desenvolvimento
infantil, uma vez que a criança está sempre em constante transformação e apresenta
uma sequência previsível de desenvolvimento neuropsicomotor.
Levando-se em conta que o desenvolvimento infantil está diretamente
relacionado ao biológico e ao meio ambiente onde a criança vive, qualquer
intercorrência neste aspecto pode representar fator de risco. Como exemplos de
risco para o desenvolvimento infantil, destacam-se estes: síndromes genéticas,
hipóxia neonatal, infecções pré, peri e pós-natais, violência intrafamiliar, condições
precárias de vida, baixa escolaridade dos pais, falta de afeto das pessoas que
cuidam da criança.
Padrões de Desenvolvimento
O desenvolvimento segue tendências direcionais, de acordo com a maturação
cerebral. Sendo assim, podemos classificar três padrões de desenvolvimento:

47
Padrão céfalo-podálico: demonstra que o desenvolvimento segue o sentido
cabeça para os pés. Primeiro a criança sustenta a cabeça, para depois sustentar
o tronco.
Padrão proximal-distal: de perto para longe, da região proximal para a distal, ou
seja, primeiro controla os ombros, para depois controlar os braços; primeiro pega
um objeto com toda a mão, para depois pegar um objeto com o polegar e o
indicador (movimento de pinça).
Padrão da diferenciação: das atividades mais simples para as mais complexas.
Primeiro brinca sozinha, para depois socializar a brincadeira.

6.5 Avaliação do Desenvolvimento Infantil

Para avaliar o desenvolvimento, é necessário fazer perguntas para quem


cuida da criança em sua rotina. As respostas e observações da mãe ou do cuidador
nunca devem passar despercebidas ou serem consideradas sem importância, pois
é essa pessoa que conhece melhor a criança.
No decorrer da avaliação, é fundamental observar se há ou não interação
entre a criança e a mãe, se a criança se sente segura, se observa o ambiente onde
está, ou se tenta pegar objetos que estejam ao seu alcance durante a consulta.
Dessa forma, é possível conhecer um pouco sobre o seu desenvolvimento.
As perguntas devem ser amplas e bem formuladas para que não deem opção
simples de resposta, como SIM ou NÃO, mas respostas que forneçam explicações
com detalhes sobre o assunto questionado, no caso, abrangendo o período pré-natal
e nascimento. É importante saber se a mãe:
 Fez o mínimo de 6 consultas de pré-natal
 Fez uso drogas lícitas ou ilícitas na gestação
 Teve alguma doença infecciosa, pressão alta (pré-eclâmpsia,
eclampsia) durante a gestação
 Como se deu o parto
 Quanto tempo durou
 Em caso de parto normal: se a criança chorou logo ao nascer, qual foi
o valor do ápgar, o peso de nascimento, se teve algum problema de

48
saúde logo após o nascimento, como infecções ou icterícia, se precisou
ficar internada no berçário ou UTI neonatal.

O enfermeiro, ao avaliar a criança durante a consulta de enfermagem, poderá


detectar precocemente possíveis dificuldades no cumprimento dos marcos do
desenvolvimento e proporcionar à criança e à sua família opções diversas para
estimulá-lo, ou tomar outras medidas necessárias como, por exemplo, o
encaminhamento da criança ao médico da equipe, ou centros especializados de
referência.
Para avaliar o desenvolvimento, também se faz necessário o uso de
instrumento de registro. A Ficha de Acompanhamento do Desenvolvimento Infantil é
uma forma prática e simples para realizar esse acompanhamento:

49
Fonte: Caderno de Atenção Básica, nº11. MS

50
O enfermeiro é membro essencial da Equipe de Saúde da Família. Suas
atribuições são complexas e demandam conhecimento científico acerca das várias
interfaces que permeiam a Estratégia Saúde da Família. Diante de tantas atribuições,
sejam estas comuns a todos os membros da equipe, sejam específicas do
enfermeiro, sempre é necessário planejar a assistência.
O uso do SAE – Sistematização da Assistência de Enfermagem, é essencial
para o desenvolvimento do trabalho do enfermeiro no acompanhamento pueril,
sendo necessário, muitas vezes, recorrer às terminologias empregadas em
enfermagem e sua incorporação na prática profissional.
Um exemplo de como seria as intervenções, no diagnóstico de enfermagem:
desenvolvimento inadequado de uma criança:

Intervenções Responsável
Brincar com a criança Usuário
Conversar com a criança Usuário
Demonstrar carinho à criança durante os cuidados Usuário
Encaminhar para consulta médica Enfermeiro
Esclarecer mãe/cuidador sobre as fases do desenvolvimento Enfermeiro
de acordo com a idade da criança
Estimular a criança a movimentar-se livremente Usuário
Estimular mãe/cuidador a demonstrar carinho durante os Enfermeiro
contatos com a criança
Investigar a expectativa da mãe/cuidador frente ao Enfermeiro
desenvolvimento da criança em relação à idade
Investigar possibilidade de negligência à criança Enfermeiro
Orientar mãe/cuidador a conversar com a criança Enfermeiro
Programar monitoramento domiciliar Enfermeiro
Retornar no dia e horário agendados Usuário

51
6.6 Alimentação da criança

Fonte: saudebrasil.saude.gov.br

A infância é um período em que se desenvolve grande parte das


potencialidades humanas. Os distúrbios que incidem nessa época são responsáveis
por graves consequências para indivíduos e comunidades.
De acordo com o Ministério da Saúde:

O aleitamento materno é a mais sábia estratégia natural de vínculo, afeto,


proteção e nutrição para a criança e constitui a mais sensível, econômica e
eficaz intervenção para redução da morbimortalidade infantil. Permite ainda
um grandioso impacto na promoção da saúde integral da dupla mãe/bebê e
regozijo de toda a sociedade. Se a manutenção do aleitamento materno é
vital, a introdução de alimentos seguros, acessíveis e culturalmente aceitos
na dieta da criança, em época oportuna e de forma adequada, é de notória
importância para o desenvolvimento sustentável e equitativo de uma nação,
para a promoção da alimentação saudável em consonância com os direitos
humanos fundamentais e para a prevenção de distúrbios nutricionais de
grande impacto em Saúde Pública. Porém, a implementação das ações de
proteção e promoção do aleitamento materno e da adequada alimentação
complementar depende de esforços coletivos intersetoriais e constitui
enorme desafio para o sistema de saúde, numa perspectiva de abordagem
integral e humanizada.

52
6.7 Aleitamento Materno

O hábito alimentar já é adquirido na infância, e o fator cultural é muito


importante neste processo. O aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses
de vida é fator contribuinte para a redução da mortalidade infantil.
A recomendação prioritária é que a criança receba exclusivamente o leite
materno até que complete seis meses de idade.
Segundo Ministério da Saúde (2015), a Organização Mundial da Saúde (OMS)
adotou e definiu o aleitamento materno em:
Aleitamento materno exclusivo: quando a criança recebe somente leite
direto da mama ou ordenhado, ou leite humano de outra fonte, sem outros líquidos
ou sólidos, com exceção de gotas ou xaropes contendo vitaminas, sais de
reidratação oral, suplementos minerais ou medicamentos.
Aleitamento materno predominante: quando a criança recebe, além do
Aleitamento materno predominante leite materno, água ou bebidas à base de água
(água adocicada, chás, infusões), sucos de frutas e fluidos rituais.
Aleitamento materno: quando a criança recebe leite materno (direto da
mama Aleitamento materno ou ordenhado), independentemente de receber ou não
outros alimentos.
Aleitamento materno complementado: quando a criança recebe, além
Aleitamento materno complementado do leite materno, qualquer alimento sólido ou
semi-sólido com a finalidade de complementá-lo, e não de substituí-lo. Nessa
categoria a criança pode receber, além do leite materno, outro tipo de leite, mas este
não é considerado alimento complementar.
Aleitamento materno misto ou parcial: quando a criança recebe leite
Aleitamento materno misto ou parcial materno e outros tipos de leite.

Observação: Fluidos rituais. Embora a OMS não reconheça os fluidos rituais


(poções, líquidos ou misturas utilizadas em ritos místicos ou religiosos) como
exceção possível inserida na definição de aleitamento materno exclusivo, o
Ministério da Saúde, considerando a possibilidade do uso de fluidos rituais com
finalidade de cura dentro de um contexto intercultural e valorizando as diversas
práticas integrativas e complementares, apoia a inclusão de fluidos rituais na

53
definição de aleitamento materno exclusivo, desde que utilizados em volumes
reduzidos, de forma a não concorrer com o leite materno.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde
recomendam aleitamento materno exclusivo por seis meses e complementado até
os dois anos ou mais. Não há vantagens em se iniciar os alimentos complementares
antes dos seis meses, podendo, inclusive, haver prejuízos à saúde da criança, pois
a introdução precoce de outros alimentos está associada a:
 Maior número de episódios de diarreia;
 Maior número de hospitalizações por doença respiratória;
 Risco de desnutrição se os alimentos introduzidos forem
nutricionalmente inferiores ao leite materno, como, por exemplo,
quando os alimentos são muito diluídos;
 Menor absorção de nutrientes importantes do leite materno, como o
ferro e o zinco;
 Menor eficácia da lactação como método anticoncepcional;
 Menor duração do aleitamento materno.

Segundo o Ministério da Saúde (2009):

No segundo ano de vida, o leite materno continua sendo importante fonte


de nutrientes. Estima-se que dois copos (500ml) de leite materno no
segundo ano de vida fornecem 95% das necessidades de vitamina C, 45%
das de vitamina A, 38% das de proteína e 31% do total de energia. Além
disso, o leite materno continua protegendo contra doenças infecciosas. Uma
análise de estudos realizados em três continentes concluiu que quando as
crianças não eram amamentadas no segundo ano de vida elas tinham uma
chance quase duas vezes maior de morrer por doença infecciosa quando
comparadas com crianças amamentadas (APUD WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2000).

Para que a amamentação seja eficaz, é preciso que o bebê consiga a pega
adequada. Caso isso não ocorra, ele não ficará saciado, e a mãe poderá apresentar
várias intercorrências que podem culminar com o fim da amamentação, como por
exemplo, o ingurgitamento mamário, fissura mamilar, mastite. Erros na pega podem
determinar o sucesso ou insucesso na amamentação, por isso, os profissionais de
saúde devem estar atentos em orientar e ajudar a mãe em relação ao
posicionamento correto.
Os sinais que indicam que a pega está adequada são os que seguem:

54
 Boca do bebê abocanhando toda a aréola e não apenas o mamilo;
 Barriga do bebê encostada na barriga da mãe;
 Lábios bem abertos, lábio inferior voltado para fora (boca de peixinho);
 Queixo do bebê encostado no seio da mãe.

Quando a pega é correta, a amamentação transcorre sem traumas, o bebê


fica saciado por mais tempo, consegue esvaziar a mama de forma adequada,
consequentemente ganha peso e diminui ou anula o risco de problemas na
amamentação.
Na criança em aleitamento materno, o ganho de peso deve ser superior a 20
gramas/dia.

6.8 Alimentação Complementar

Fonte: sophiederam.com

Os alimentos complementares são oferecidos às crianças após os seis meses


de idade, uma vez que até então ela estará recebendo o leite materno. É importante
que a introdução dos novos alimentos seja realizada após essa data, uma vez que a
criança já terá adquirido habilidades importantes para que a aceitação desses
alimentos ocorra de forma mais rápida e prazerosa. Como o próprio nome indica, a
alimentação é complementar, ou seja, a partir desta idade a criança continuará

55
recebendo leite materno e terá a complementação de outros alimentos a fim de suprir
suas necessidades em relação às proteínas, sais minerais, energia, vitaminas, água
e gordura. É fundamental que seja respeitado o hábito alimentar da família e que os
alimentos sejam oferecidos com segurança.
A introdução de alimentos complementares após o sexto mês de vida deve
ser gradual, respeitando-se a aceitação da criança. Quando uma criança não aceita
determinado alimento, é necessário oferecê-lo até dez vezes para se ter certeza de
que ela não aprova aquele sabor. Mesmo que não o aceite, é importante colocá-lo
no prato, pois isso pode estimulá-la a comê-lo, principalmente se outros membros da
família o fazem.
As frutas devem ser amassadas ou raspadas e não devem ter adição de
açúcar. Os sucos devem ser naturais e não artificiais e não devem substituir uma
refeição, mas sim atuar como um complemento. O consumo de frutas da estação
deve ser estimulado, principalmente devido à facilidade de acesso em relação à
disponibilidade e preço.
A refeição salgada deve conter tubérculos, cereais, verduras e carne,
principalmente a vermelha. Nunca deve ser batida no liquidificador ou passada pela
peneira. Os alimentos devem ser cozidos com água sufi ciente para cobri-los. Após
o seu cozimento, devem ser amassados com um garfo. A consistência correta é a
de purê e não de sopa.
A criança pode também, nesta idade, receber duas papas de frutas (uma no
intervalo da manhã e outra no intervalo da tarde) e uma papa salgada no almoço. O
leite materno deve continuar sendo oferecido no restante do período.
A partir dos sete meses a criança recebe também a papa salgada no jantar e,
aos oito meses, a consistência do alimento já pode ser semelhante à dos alimentos
da família para que, aos doze meses, a criança já possa se alimentar com a mesma
refeição ofertada às pessoas que convivem com ela.

6.9 Desnutrição infantil

A Desnutrição é uma doença de natureza clínico-social e multifatorial, cujas


raízes se encontram na pobreza. A desnutrição grave acomete todos os órgãos da
criança, tornando-se crônica e levando a óbito, caso não seja tratada
adequadamente.

56
Pode começar precocemente na vida intrauterina (baixo peso ao nascer) e,
frequentemente, cedo na infância, em decorrência da interrupção precoce do
aleitamento materno exclusivo e da alimentação complementar inadequada nos
primeiros 2 anos de vida, associada, muitas vezes, à privação alimentar ao longo da
vida e à ocorrência de repetidos episódios de doenças infecciosas como a diarreia e
infecções respiratórias agudas (BRASIL, 2005).
Entende-se que a desnutrição é multifatorial, pois não ocorre apenas devido
à falta de alimento, ela pode ser causada por várias razões, como por exemplo: falta
de alimentos, oferta de alimentos de baixa qualidade, doenças que dificultam a
absorção, processos infecciosos de repetição, vínculo fraco entre mãe e filho. As
crianças que não são adequadamente nutridas podem ter carências específicas
como a hipovitaminose A e a carência de ferro. A deficiência de vitamina A pode
levar a criança ao risco de cegueira (cegueira noturna, xeroftalmia ou
queratomalácia).
A vitamina A protege a visão, evita a diarreia e diminui o risco de sarampo. Já
a deficiência de ferro é a causadora da anemia ferropriva, que acomete muitas
crianças brasileiras.
Crianças com idade entre 6 a 12 meses merecem cuidado especial em relação
à ingesta de alimentos que contenham ferro. Na falta deste, a criança fica vulnerável
ao desenvolvimento de anemia por deficiência desse micronutriente, o que prejudica
o seu crescimento e desenvolvimento. O consumo diário de carne, miúdos (no
mínimo uma vez por semana) e suco de fruta natural, fonte de vitamina C, após o
almoço e jantar, aumenta a absorção do ferro não heme.
Crianças de 6 a 18 meses devem receber o suplemento de ferro disponível
nas Unidades Básicas de Saúde e de Saúde da Família de forma preventiva. A
criança com desnutrição grave pode apresentar características muito peculiares,
como o emagrecimento acentuado visível, quando os ossos ficam aparentes, o
abdômen proeminente, os cabelos quebradiços e sem brilho e o glúteo e pernas com
“sinal da calça larga”, ou seja, a gordura corporal desaparece, e a pele fica enrugada
como se a criança estivesse vestindo uma calça larga. O edema também indica
desnutrição grave, embora a criança possa apresentar uma aparência física de estar
mais gordinha.
De acordo com a estratégia da AIDPI, o enfermeiro, mediante avaliação da
criança, pode realizar as seguintes classificações:

57
Classificação para crianças de 2 meses a menor de 5 anos de idade:

Sinais Classificação Tratamento


Emagrecimento acentuado DESNUTRIÇÃO  Dar vitamina A.
visível ou edema em ambos GRAVE  Tratar a criança para evitar hipoglicemia.
os pés;  Recomendar à mãe a manter a criança
agasalhada.
 Referir URGENTEMENTE para
tratamento.
Peso muito baixo para a PESO MUITO  Avaliar a alimentação da criança e
idade (abaixo da linha BAIXO ensinar a mãe a tratar a criança com
inferior do espelho do peso muito baixo em casa.
cartão).  Para crianças menores de 6 meses, se
tiver problemas com a amamentação,
marcar retorno para dois dias.
 Marcar retorno em cinco dias
Peso baixo para a idade PESO BAIXO  Avaliar a alimentação da criança e
(entre a linha inferior e a OU GANHO orientar a mãe.
linha média do cartão) ou INSUFICIENTE  Para crianças menores de 6 meses, se
ganho de peso insuficiente. tiver problemas com a amamentação,
marcar retorno para dois dias.
 Marcar retorno em 30 dias.
Peso para a idade não é O PESO NÃO É  Se a criança tiver menos de 2 anos de
baixo e nenhum outro sinal BAIXO idade, avaliar a sua alimentação e
de desnutrição. orientar a mãe
Fonte: BRASIL, 2003b.

Marasmo
O marasmo, tipo de desnutrição mais comum no Brasil, é decorrente da falta
total de alimentos, levando ao quadro de desnutrição proteico-calórica. Nesse caso
a criança apresenta os sinais de emagrecimento acentuado visível. Quando a
desnutrição se dá devido às condições precárias de vida, como a falta do alimento,
por exemplo, é possível que toda a família da criança esteja desnutrida. O marasmo

58
é sinal de miséria. É muito triste ver uma família nessa situação. O apetite da criança
é preservado no marasmo.

Kwashiorkor
O kwashiorkor também é um tipo de desnutrição grave e caracteriza-se
principalmente pelo edema em ambos os pés da criança. Está relacionado à defi
ciência proteica. Nesse caso, o cabelo é fi no e ralo, a pele é ressecada e a criança
tem um olhar triste, conhecido como olhar de miséria. O apetite da criança é
diminuído no kwashiorkor. Utilizamos o termo “Desnutrição” quando o caso é
considerado grave pela estratégia AIDPI (Marasmo ou Kwashiorkor); nas demais
classificações, utilizaremos os termos Baixo Peso, Muito Baixo Peso.

6.10 AIDPI – Atenção Integrada a Doenças Prevalente na Infância

A AIDPI tem por finalidade promover uma rápida e significativa redução da


mortalidade na infância. Trata-se de uma abordagem da atenção à saúde na infância,
desenvolvida originalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo
Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência (UNICEF),
caracterizando-se pela consideração simultânea e integrada do conjunto de doenças
de maior prevalência na infância, ao invés do enfoque tradicional que busca abordar
cada doença isoladamente, como se ela fosse independente das demais doenças
que atingem a criança e do contexto em que ela está inserida (BRASIL, 2003a apud
MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009).

59
6.11 PNI – Programa Nacional de Imunização

Fonte: portalarquivos.saude.gov.br

O êxito das Campanhas de Vacinação contra a varíola na década dos anos


sessenta, mostrou que a vacinação em massa tinha o poder de erradicar a doença.
O último caso de varíola notificado no Brasil foi em 1971 e, no mundo em 1977 na
Somália.
Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, tem como missão
organizar a Política Nacional de Vacinação, contribuindo para o controle, a
eliminação e/ou erradicação de doenças imunopreviníveis. Está vinculado ao
Sistema Único de Saúde, sendo coordenado pelo Ministério da Saúde de forma
compartilhada com as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde.
O PNI passou a coordenar, as atividades de imunizações desenvolvidas
rotineiramente na rede de serviços e, para tanto, traçou diretrizes pautadas na
experiência da Fundação de Serviços de Saúde Pública (FSESP), com a prestação
de serviços integrais de saúde através de sua rede própria.
O PNI é, hoje, parte integrante do Programa da Organização Mundial de
Saúde, com o apoio técnico, operacional e financeiro da UNICEF e contribuições do
Rotary Internacional e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD).

60
A consolidação da missão do PNI ocorre nas salas de vacinas que dependem
dos processos logísticos aplicados à conservação dos imunobiológicos,
disponibilizados nacionalmente na Rede de Frio do PNI.
As Centrais de Rede de Frio (CRF) são as estruturas físicas que
proporcionam efetivamente as condições adequadas à manutenção da Cadeia de
Frio, têm foco na segurança e na qualidade dos processos de armazenamento,
distribuição e transporte. Organizam-se nas três esferas, dispõem de estruturas
físicas similares, com fluxos operacionais semelhantes, variando seus
dimensionamentos em função do perfil epidemiológico e da consequente demanda
onde se inserem.
Prevenir a doença é melhor do que tratá-la. E a vacinação é uma das medidas
mais importantes e eficazes de prevenção. A vacina estimula o sistema imunológico
a produzir anticorpos que destroem os micro-organismos invasores (bactérias ou
vírus) tornando a pessoa, assim, imunizada. A Secretaria da Saúde do Ceará reforça
a importância de a população ficar atenta ao calendário vacinal e manter a rotina de
imunização, atualizando a caderneta de vacinação.
Cada faixa etária tem sua vacina específica e todas as vacinas, com exceção
da Influenza, ficam disponíveis fora do período de campanhas. Quanto mais pessoas
são imunizadas, mais comunidades são protegidas contra doenças e menor é a
chance de contaminar outras pessoas. Conforme o Calendário Nacional de
Vacinação, as vacinas estão disponíveis para crianças, adolescentes, adultos,
idosos e gestantes.

61
Calendário nacional de vacinação de 2019

Idade Vacinas

– BCG (dose única)


Ao nascer
– Hepatite B

– Pentavalente 1ª dose (Tetravalente +


Hepatite B 2ª dose)
2 meses – Poliomielite 1ª dose (VIP)
– Pneumocócica conjugada 1ª dose
– Rotavírus 1ª dose

3 meses – Meningocócica C conjugada 1ª dose

– Pentavalente 2ª dose (Tetravalente +


Hepatite B 2ª dose)
4 meses – Poliomielite 2ª dose (VIP)
– Pneumocócica conjugada 2ª dose
– Rotavírus 2ª dose

5 meses – Meningocócica C conjugada 2ª dose

– Pentavalente 3ª dose (Tetravalente +


Hepatite B 3ª dose)
6 meses
– Poliomielite 3ª dose (VIP)
– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

– Febre Amarela (Dose única)


9 meses
– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

– Pneumocócica conjugada reforço


– Meningocócica C conjugada reforço
12 meses
– Tríplice Viral 1ª dose
– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

– DTP 1º reforço (Incluída na


pentavalente)
15 meses – Poliomielite 1º reforço (VOP)
– Hepatite A (1 dose de 15 meses até 5
anos)

62
– Tetra viral (Tríplice Viral 2ª dose
+ Varicela)
– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

– DTP 2º reforço (Incluída na


pentavalente)
4 anos – Poliomielite 2º reforço (VOP)
– Varicela (1 dose)
– Influenza (1 ou 2 doses anuais)

– HPV 2 doses ((9-14 anos meninas e 11-


14 anos meninos)
9-14 anos – Meningocócica C (Reforço ou dose
única - meninos e meninas de 11- 14 anos)

– Hepatite B (3 doses a depender da


situação vacinal)
– Febre Amarela (Dose única p/ não
vacinados ou sem comprovante de vacinação)
– Tríplice Viral (2 doses até os 29 anos ou
Adolescentes, Adultos e Idosos
1 dose em > 30 anos. Idade máxima: 49 anos)
– DT (Reforço a cada 10 anos)
– dTpa (Para gestantes a partir da 20ª
semana, que perderam a oportunidade de
serem vacinadas)

Fonte: https: pebmed.com.br

Em 2017, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação da vacina contra o


HPV, incluindo a mesma, como parte da rotina do Calendário Nacional de Vacinação
do Sistema Único de Saúde (SUS), para a população masculina na faixa etária de
12 a 13 anos (THEES, 2017).
No mesmo ano, o governo anunciou a ampliação da vacina para meninos de
11 a 15 anos incompletos. Além da vacina contra o HPV contribuir reduzindo a
incidência do câncer de colo de útero e vulva, também contribui prevenindo o câncer
de pênis, ânus, verrugas genitais, boca e orofaringe (CRISTALDO, 2017).

63
7 A ATENÇÃO PSICOSSOCIAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES – SAÚDE
MENTAL

Fonte: educacao.estadao.com.br

Não há produção de saúde sem produção de saúde mental. Logo, é preciso


levar em conta que, ao se receber cuidados em saúde, devem ser consideradas as
dimensões biológica, psíquica e social dos indivíduos. Se uma criança ou um
adolescente apresenta algum grau de sofrimento (com angústias, medos, conflitos
intensos, por exemplo), não será possível tratar sua saúde sem considerar esse
componente emocional/relacional significativo. Muitos sintomas físicos têm origem
em situações de sofrimento psíquico de origens diversas (na relação com
instituições, com a família e consigo mesmo, entre outras). Em muitos casos, por
exemplo, o uso de álcool e outras drogas pode estar associado à tentativa pessoal
de manejo de um sofrimento.
Ao falarem sobre si e ao se identificarem com suas próprias histórias, a
criança e o adolescente veem possibilidades de encontrar novos significados e novas
formas de inserção na sociedade e na família. Posto isso, uma política de saúde
mental infanto-juvenil deve considerar como diretrizes (BRASIL, 2005 apud BRASIL,
2014):

A) A criança e o adolescente são sujeitos e, como tal, são responsáveis


por sua demanda e seu sintoma. São sujeitos de direitos e detentores de
lugares autênticos de fala. A noção de sujeito implica também a de

64
singularidade, ou seja, não é possível pensar em tratamentos e abordagens
terapêuticas de forma homogênea e prescritiva, pois vale a máxima de que
“cada caso é um caso”. Nessa linha, é preciso reconhecer voz e escuta de
cada criança e adolescente. Cumpre alertar que, mesmo na ausência de
pais ou responsáveis, crianças e adolescentes têm direito ao atendimento
eventual ou não eventual.
B) Acolhimento universal: significa que as portas dos serviços devem
estar abertas a todos aqueles que chegam com alguma necessidade de
saúde e de saúde mental. É bastante comum neste campo da atenção à
saúde mental infanto-juvenil que os profissionais do serviço não se sintam
aptos a realizar o atendimento com base na alegação de que um
determinado tipo de paciente “não tem perfil” para tal serviço (sobretudo
quando se trata de usuários de álcool e outras drogas e ainda mais tendo
cometido algum ato infracional). É preciso reconhecer as resistências e
dificuldades dos profissionais de saúde em atender esta clientela e pensar
em estratégias para superá-las, mas é imprescindível que se garanta o
acolhimento da demanda (que deve ser recebida, ouvida e respondida).
O acolhimento universal não significa que os serviços de saúde e de saúde
mental tenham que atender e acompanhar todos os casos que até ali
chegam, mas deve fazer uma abordagem para identificar as necessidades
de cada situação, propor alguma intervenção inicial e, quando couber,
oferecer outras estratégias e lugares de tratamento.
C) Encaminhamento implicado e corresponsável: no caso de haver
outro serviço que melhor se ajuste às necessidades do usuário, os
profissionais que fizeram o acolhimento devem, de maneira implicada e
corresponsável, promover o acompanhamento do caso até a sua inclusão
e o seu atendimento em outro serviço (muito diferente de um procedimento
administrativo e burocrático de preencher uma guia de encaminhamento
para outro serviço). Muitas vezes, é preciso fazer um trabalho conjunto entre
os serviços para o melhor atendimento do caso. Este primeiro acolhimento,
aonde quer que chegue o usuário, pode ser determinante nos
desdobramentos e na adesão ao tratamento.
D) Construção permanente da rede e da intersetorialidade: a partir da
noção de clínica ampliada e da complexidade das intervenções em saúde
mental, álcool e outras drogas, é fundamental a construção cotidiana de
uma rede de profissionais, ações e serviços para a garantia do acesso de
crianças, adolescentes e jovens aos cuidados nesta área. Neste sentido, é
imprescindível a convocação dos atores intersetoriais, sem os quais não
será possível uma resposta potente aos problemas de saúde mental, álcool
e outras drogas apresentados pela citada população.
E) Trabalho no território: trata-se de um conceito que extrapola os
sentidos meramente geográficos ou regionais, mas tem relação com as
redes de relações e afetos e com as redes sociais daquele que é cuidado,
que inclui a família, os vizinhos, a escola, a praça, o clube, os lugares de
lazer etc.
F) Avaliação das demandas e construção compartilhada das
necessidades de saúde mental: as demandas que chegam aos serviços
de saúde mental (vindas do sujeito, da família, da escola e dos serviços da
rede de saúde ou da rede intersetorial) devem ser discutidas e elaboradas
em conjunto pelas equipes, pelos familiares e pelos usuários. No imaginário
social há muitas demandas direcionadas à saúde mental, mas nem sempre
elas ajudarão a construir intervenções potentes, porque não correspondem
às necessidades reais dos usuários. Em algumas situações não existe
nenhuma evidência de efetividade para o caso concreto.

65
7.1 A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)

Instituída pela Portaria MS/GM nº 3.088, de 23/12/2011,4 a Raps prevê a


criação, a ampliação e a articulação de pontos de atenção à saúde para pessoas
com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de
crack, álcool e outras drogas no âmbito do SUS.
Conforme descrição do Ministério da Saúde (2014), a RAPS tem os objetivos
gerais de:

(i) ampliar o acesso à atenção psicossocial da população em geral;


(ii) promover a vinculação das pessoas com transtornos mentais e com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas e de suas
famílias aos pontos de atenção;
e (iii) garantir a articulação e a integração dos pontos de atenção das redes
de saúde no território, qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do
acompanhamento contínuo e da atenção às urgência
Objetivos específicos:
a) promover cuidados em saúde especialmente a grupos mais vulneráveis
(crianças, adolescentes, jovens, pessoas em situação de rua e populações
indígenas);
b) prevenir o consumo e a dependência de álcool e outras drogas e reduzir
os danos provocados pelo consumo;
c) promover a reabilitação e a reinserção das pessoas com transtornos
mentais e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas
por meio do acesso ao trabalho, à renda e à moradia solidária;
d) produzir e ofertar informações sobre os direitos das pessoas, as medidas
de prevenção e cuidado e os serviços disponíveis na rede;
e) regular e organizar as demandas e os fluxos assistenciais da Rede de
Atenção Psicossocial; e
f) monitorar e avaliar a qualidade dos serviços mediante indicadores de
efetividade e resolutividade da atenção.

A RAPS encontra-se organizada nos seguintes componentes:


Atenção Básica em  Unidade básica de saúde
Saúde  Núcleo de apoio à saúde da família
 Consultório na rua
 Centros de convivência e cultura.
Atenção Psicossocial  Centros de atenção psicossocial (nas suas
Estratégica diferentes modalidades).
 SAMU 192
Atenção de Urgência e  Sala de estabilização
Emergência

66
 UPA 24 horas e portas hospitalares de atenção à
urgência/pronto socorro, unidades básicas de
saúde.
Atenção Residencial  Unidade de acolhimento
de Caráter Transitório  Serviço de atenção em regime residencial.
Atenção Hospitalar  Enfermaria especializada em hospital geral
 Leitos de SM no hospital geral
Estratégias de  Serviços residenciais terapêuticos
Desinstitucionalização  Programa “De Volta para Casa”
Estratégias de  Iniciativas de geração de trabalho e renda
Reabilitação  Empreendimentos solidários e cooperativas sociais
Psicossocial
Fonte: Ministério da Saúde, 2014

8 SAÚDE DO ADOLESCENTE

Fonte: pim.saude.rs.gov.br

Nas últimas décadas, houve uma importante modificação demográfica


relacionada à queda da mortalidade infantil e da fecundidade, ao aumento da
expectativa de vida e aos movimentos migratórios e de urbanização. Houve, ainda,
uma desaceleração no ritmo de crescimento da população adolescente e jovem com
a expectativa de que este segmento continue crescendo (IBGE, 2010 apud
MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).

67
Adolescentes e jovens constituem um grupo populacional que exige novos
modos de produzir saúde. Seu ciclo de vida particularmente saudável evidencia que
os agravos em saúde decorrem, em grande medida, de modos de fazer “andar a
vida”, de hábitos e comportamentos, que, em determinadas conjunturas, os
vulnerabilizam.
As vulnerabilidades produzidas pelo contexto social e as desigualdades
resultantes dos processos históricos de exclusão e discriminação determinam os
direitos e as oportunidades de adolescentes e jovens brasileiros.
Iniciativas na Atenção Básica à Saúde devem incluir a melhoria de condições
sanitárias no ambiente físico, e a atenção às necessidades nutricionais, biológicas,
psicológicas e sociais em todas as etapas do desenvolvimento humano, dentro do
ciclo da vida. A integralidade da atenção nos serviços de Atenção Básica a Saúde é
entendida como a integração das ações de promoção da saúde, de prevenção de
agravos e enfermidades, de assistência e de controle de doenças, sempre pautada
nos determinantes e condicionantes da saúde.

8.1 Definições de adolescência e juventude

O Ministério da Saúde segue como definição de adolescência a prescrita pela


Organização Mundial da Saúde (OMS), que caracteriza o período de 10 e 19 anos e
compreende como juventude a população dos 15 a 24 anos (BRASIL, 2010, p. 46
apud MNISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
O Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013) define
juventudes a partir de faixas etárias. Dos 15 a 17 anos são adolescentes-jovens; dos
18 a 24 anos de jovens-jovens e entre os 25 a 29 anos são denominados jovens-
adultos. Portanto, nessas definições há uma interseção entre a metade da
adolescência e os primeiros anos da juventude. Essa população, entre 10 a 24 anos,
representa um contingente expressivo de mais de 50 mil pessoas no Brasil (IBGE,
2010a apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
Segundo o Ministério da Saúde (2017 apud LEÓN, 2005, p. 16):

Os marcadores etários têm relevância no planejamento e na implantação


de políticas públicas. As diferentes particularidades que cada idade interpõe
aos sujeitos adolescentes e jovens no momento do ciclo da vida têm
singularidades e aspectos psicobiológicos, socioculturais e
socioeconômicos importantes e distintos, que ora os aproximam e ora os

68
distanciam. “Não existe somente uma cultura adolescente ou juvenil” são
culturas variadas e formas de agrupamentos e estilos de vidas
diversificados.

8.2 Estratégia IMAN – Integração de Manejo dos adolescentes e suas


necessidades.

Fonte: saefw.blogspot.com

Em 2005 a Organização Pan-Americana da Saúde criou a Estratégia de


Integração de Manejo dos Adolescentes e suas Necessidades (Iman). Trata-se de
um conjunto de algoritmos e textos que tem por objetivo oferecer informações
rápidas e concisas para que os profissionais possam prestar um atendimento integral
aos adolescentes de ambos os sexos, com idades entre 10 a 19 anos. Pode ser
usado em uma Unidade Básica de Saúde ou em um departamento ambulatorial
hospitalar de referência.
Essa estratégia abarca assuntos técnicos selecionados pela importância ou
pela prevalência para que a equipe de saúde adquira competências e habilidades
para a prestação do atendimento integral a este grupo populacional.

Objetivos propostos pela estratégia do IMAN:


Perguntar: todo adolescente ou jovem, por meio da anamnese, com o próprio
ou seu responsável (quando o adolescente esteja impedido de se expressar), deve
ser inquirido sobre as queixas que o motivaram à vinda ao serviço de saúde e sobre

69
os antecedentes: perinatal, pessoal e familiar. Assim, será possível perceber como
se encontra sua adaptação sob o ponto de vista biopsicossocial.
Observar: inclui um exame físico o mais completo possível, a determinação
do estágio de desenvolvimento puberal, a obtenção de medidas antropométricas e a
identificação de alguma condição patológica. Deve-se qualificar o processo de
crescimento e desenvolvimento do adolescente, normal ou com algum distúrbio, e
diagnosticar problemas de saúde que estejam presentes. Verificar sua relação com
o grupo de pares, com a família e com adultos de referência. Identificar
vulnerabilidades, no sentido de antecipar problemas que possam ser evitados.
Avaliar, determinar ou diagnosticar: abordar, da melhor forma possível, as
questões psicossociais dos adolescentes e, se necessário, referir a serviços de maior
complexidade. Em caso de não necessitar referência, indicar ou aplicar o tratamento
correspondente e explicar como prosseguir com ele e as consequências caso não
siga as instruções adequadamente. Embora já esteja recebendo tratamento, explicar
quais são os sinais de alarme pelos quais deverá voltar ao serviço de saúde
imediatamente para reavaliação.
Tratar: Uma vez identificada uma doença ou uma situação de risco no
adolescente, é necessário iniciar o tratamento pertinente para estabilizar suas
condições antes de referi-lo para outro serviço ou hospital para o prosseguimento do
tratamento. No caso de não haver necessidade de referência para outro serviço,
indicar-se-á o tratamento correspondente e deve-se explicar claramente em que
consistem as alternativas terapêuticas. É fundamental assegurar a compreensão das
medidas terapêuticas e decidir com o adolescente as alternativas mais convenientes.
Acompanhar: de acordo com a condição identificada. Se for um adolescente
saudável, é conveniente uma avaliação, se possível, duas vezes ao ano.
Aconselhar ou orientar: escutar o adolescente e sua família em suas
inquietações, manejando-as sem preconceitos e refletindo, em conjunto, as
melhores alternativas para o melhor encaminhamento possível dos problemas
apresentados e prevenção de riscos desnecessários.

70
8.3 Caderneta de Saúde de Adolescentes

Fonte: poder360.com.br

O art. 11 do Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o atendimento


integral à saúde da criança e do adolescente, por intermédio do Sistema Único de
Saúde, garantindo o acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para
promoção, proteção e recuperação da saúde. (ECA, 1990 apud MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2017)
A Caderneta de Saúde de Adolescente, masculina e feminina, contém
informações a respeito do crescimento e desenvolvimento, da alimentação saudável,
da prevenção de violências e promoção da cultura de paz, da saúde bucal e da saúde
sexual e saúde reprodutiva desse grupo populacional. Traz ainda método e espaço
para o registro antropométrico e dos estágios de maturação sexual, das intervenções
odontológicas e o calendário vacinal.

8.4 Famílias com adolescentes

Com relação ao desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, o esforço


familiar será no sentido de prover as condições necessárias de alimentação,
vestimenta, afetividade, educação, segurança, desapego autoestima e autonomia
progressiva. O primeiro desafio familiar no cuidado de uma criança é sua constituição

71
física e esforço para promover o desenvolvimento de sua dimensão psicológica como
eu.
Na adolescência, a influência da família no processo de desenvolvimento
perde espaço para outras fontes de fatores de risco e fatores de proteção. Os fatores
internos (condição emocional, valores, talentos, habilidades, desejos, projetos,
autoestima, humor etc.) ganham força, assim como os fatores oriundos da
comunidade onde está inserido o jovem.
O papel da família como parte da rede de apoio de um adolescente poderá
significar mais proteção ou mais risco, dependendo do vínculo adulto
provedor/cuidador com adolescente, da capacidade de comunicação entre eles, do
estilo de parentalidade e da relação que as forças oriundas da comunidade e escola
(grupos de amigos, relações com o desempenho escolar, segurança do bairro em
que vivem, oportunidades de acesso à cultura e ao lazer etc.) intervêm no processo.
O grau de conflito entre adultos e jovens na família está relacionado em boa
parte ao estilo de relação e comunicação entre eles. Diana Baumrind (1991) propõe
uma classificação dos estilos de parentalidade, que se associam a diferenças no
comportamento social dos adolescentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
Estilos de Parentalidade: (BAUMRIND, 1991 apud MISTÉRIO DA SAÚDE,
2017)
Estilo parental predominante Comportamento social do
adolescente
Autoritário: estilo restritivo e punitivo Pouco criativo; com pouca habilidade de
no qual o adulto provedor/cuidador decidir com autonomia; poucas
persuade o adolescente a seguir suas habilidades comunicativas; ansiedade
orientações. Os limites e controles são frequente em relação às comparações
rígidos e há pouca troca comunicativa sociais.
Autoritativo: estilo que encoraja o Criativo, flexível, autoconfiante e
adolescente a ser independente e responsável; com boas habilidades
progressivamente autônomo. Os limites comunicacionais e respeito aos adultos;
e controles fazem parte da relação de capacidade de escolha com consciência
autoridade que o adolescente respeita e de seus efeitos.
reconhece em seus adultos cuidadores/
provedores. O diálogo e a negociação

72
são centrais na comunicação entre
estes adultos e jovens
Negligente: que se envolve pouco com Pouco autocontrole; dificuldade para
o processo de adolescer do jovem. lidar com a independência e pouca
Pouco interesse nas atividades e assertividade nas escolhas;
escolhas dos jovens. Há pouco ou necessidade de pertencimento a grupos
nenhum controle ou limite e a que se interessem e o ajudem a
monitoração do desenvolvimento é enfrentar o processo de adolescência.
mínima. A comunicação é muito
insuficiente
Indulgente: alto envolvimento dos Pouco autocontrole e alta frustração
adultos provedores/cuidadores com os quando contrariados, tanto por adultos
jovens, porém com poucos limites e como pelos pares; dificuldade para se
controle sobre o processo de adolescer incluírem em grupos, pouca habilidade
deles. A comunicação é pouco eficiente. comunicativa.

Esses estilos de parentalidade e comunicação, assim como os


comportamentos sociais associados aos adolescentes, devem ser encarados como
tendências, pois da mesma maneira que o estilo não é algo tão definido e rígido,
seria simplista atribuir o comportamento social do adolescente apenas à tendência
de um estilo parental. É necessário sempre considerar diferenças contextuais,
divergências de estilos entre os adultos provedores/cuidadores, processo anterior ao
período de adolescência etc.
Entre as forças que podem participar da rede de apoio das famílias, crianças
e adolescentes tem fundamental importância a Rede de Atenção Primária em Saúde.
Em situações de conflito no ambiente familiar, escolar e, até mesmo, comunitário
(outros níveis de atenção à saúde, conselhos tutelares, vara da infância e da
adolescência etc.), a rede de atenção básica quase sempre é a primeira porta de
entrada para a busca de uma compreensão, seja do comportamento, de um sintoma
ou de uma necessidade de orientação específica (anticoncepção, uso de substância
psicoativa, violência doméstica ou sexual etc.).

73
8.5 Atenção Integral à Saúde de Adolescentes no Contexto da Socioeducação

Com o intuito de mudar a realidade da socioeducação no Brasil, a Secretaria


de Direitos Humanos da Presidência da República e o Conselho Nacional dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) instituíram o Sistema Nacional de
Atendimento Socioeducativo (Sinase), uma política pública que articula a “efetiva
participação dos sistemas e políticas de educação, saúde, trabalho, previdência
social, assistência social, cultura, esporte, lazer, segurança pública, entre outras,
para a efetivação da proteção integral de que são destinatários todos adolescentes”
(BRASIL, 2006b, p. 15 apud MIISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
Articula, ainda, os três níveis de governo para o desenvolvimento dos
programas de atendimento, considerando a intersetorialidade e a
corresponsabilidade da família, da comunidade e do Estado.
De acordo com o Ministério da Saúde (2017):

Assumindo o seu papel no sistema de garantia de direitos, o Ministério da


Saúde em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, publicou a
Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes em Conflito
com a Lei (PNAISARI) pela Portaria MS/GM nº 1.082, de 23 de maio de
2014, tendo como objetivo geral “garantir e ampliar o acesso aos cuidados
em saúde dos adolescentes em conflito com a lei em cumprimento de
medidas socioeducativas em meio aberto, fechado e semiliberdade”

A Atenção Básica é a responsável pela articulação e pela coordenação do


cuidado dos adolescentes na Rede de Atenção à Saúde do município. Na
organização da atenção integral serão contemplados os seguintes eixos: promoção
da saúde e prevenção de agravos; ações de assistência e reabilitação da saúde e a
educação permanente.
E, ainda, as linhas de ação:
 Acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento físico e
psicossocial.
 Saúde sexual e a saúde reprodutiva.
 Saúde bucal.
 Saúde mental.
 Prevenção ao uso de álcool e outras drogas.
 Prevenção e controle de agravos.
 Educação em saúde.

74
 Direitos humanos, a promoção da cultura de paz e a prevenção de
violências e assistência às vítimas.
No âmbito do atendimento aos adolescentes em situação de privação de
liberdade, a atenção integral à saúde será realizada, prioritariamente, por uma
equipe da Atenção Básica. Dessa maneira, todas as unidades socioeducativas terão
como referência uma dessas equipes. As equipes de referência deverão estar em
consonância com as atribuições indicadas na Política Nacional da Atenção Básica
(BRASIL, 2011b, p. 48 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017)
O Ministério da Saúde (2017) orienta quando houver equipe de saúde dentro
da unidade socioeducativa:

Quando houver equipe de saúde dentro da unidade socioeducativa, esta


deverá ser cadastrada no Sistema de Cadastro Nacional de
Estabelecimentos de Saúde (SCNES). A equipe de saúde da Atenção
Básica de referência articular-se-á com essa equipe interna do
socioeducativo para, de modo complementar, inserir os adolescentes na
Rede de Atenção à Saúde e realizar ações de promoção e de proteção à
saúde, na lógica do SUS. Essa estratégia favorece a permeabilidade da
instituição socioeducativa à comunidade, atendendo aos princípios,
previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Sinase, da
incompletude institucional e da reinserção social dos adolescentes em
situação de privação de liberdade.

Para a atenção em Saúde Mental de adolescentes em situação de privação


de liberdade, cada equipe de saúde da Atenção Básica de referência para esta
população será acrescida de profissionais de Saúde Mental, que podem ser: médico
psiquiatra, psicólogo, assistente social, enfermeiro ou terapeuta ocupacional, sendo
necessário que os três últimos tenham especialização em Saúde Mental. Esses
profissionais deverão ser cadastrados no SCNES da equipe de saúde da Atenção
Básica de referência.
Segundo o Ministério da Saúde (2017),

É evidente a necessidade de tratamento adequado aos adolescentes com


transtornos mentais ou com problemas recorrentes do uso de álcool e outras
drogas, além do acompanhamento psicossocial, conforme indicação dada
pelo art. 64 da Lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012, que institui o Sinase,
e da Portaria MS/GM nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Atendendo a
estas indicações, os profissionais de Saúde Mental que integrarão as
equipes de saúde de referência para o socioeducativo têm papel estratégico
na garantia da produção de saúde dos adolescentes, trabalhando na lógica
do matriciamento, com as equipes de saúde e do socioeducativo, e não na
lógica do atendimento ambulatorial e nem avaliações de demandas do
judiciário.

75
Por matriciamento entende-se:
 Discussão de casos clínicos.
 Participação na elaboração do Projeto Terapêutico Singular, integrado
ao PIA.
 Atendimento psicossocial com outros profissionais da unidade
socioeducativa e da rede intersetorial.
 Colaboração nas intervenções terapêuticas da equipe de Atenção
Básica de referência e de outros serviços de saúde necessários.
 Agenciamento dos casos de saúde mental na rede, de modo a garantir
a atenção integral à saúde.
 Realização de visitas domiciliares conjuntas

8.6 Crescimento e desenvolvimento do adolescente

Fonte: claudiabragaendocrinologia.com.br

A adolescência é marcada por um complexo processo de crescimento e


desenvolvimento biopsicossocial. Os grupos etários são explicados pelos diferentes
parâmetros usados na sua concepção, como por exemplo, o crescimento e
desenvolvimento, as questões sociais e econômicas e aquelas relacionadas à
inimputabilidade penal. O importante é que essas faixas etárias estejam

76
representadas nos sistemas de informação para que cada setor possa ter dados
confiáveis sobre esse grupo populacional.

8.7 Desenvolvimento físico

O termo puberdade deriva do latim pubertate e significa idade fértil; a palavra


pubis (lat.) é traduzida como pelo, penugem. A puberdade expressa o conjunto de
transformações somáticas da adolescência, que, entre outras, englobam:
 Aceleração (estirão) e desaceleração do crescimento ponderal e
estatural, que ocorrem em estreita ligação com as alterações puberais.
 Modificação da composição e proporção corporal, como resultado do
crescimento esquelético, muscular e redistribuição do tecido adiposo.
 Desenvolvimento de todos os sistemas do organismo, com ênfase no
circulatório e respiratório.
 Maturação sexual com a emergência de caracteres sexuais
secundários, em uma sequência invariável, sistematizada por Tanner
(1962).
 Reorganização neuroendócrina, com integração de mecanismos
genéticos e ambientais.

8.8 Crescimento

As velocidades de crescimento da criança e do adolescente normais têm um


padrão linear previsível. Durante a puberdade, o adolescente cresce um total de 10
a 30 cm (média de 20 cm). A média de velocidade de crescimento máxima durante
a puberdade é cerca de 10 cm/ano para o sexo masculino e 9 cm/ano para o sexo
feminino.
A velocidade máxima de crescimento em altura ocorre, em média, entre 13 e
14 anos no sexo masculino e 11 e 12 anos no sexo feminino. Atingida a velocidade
máxima de crescimento, segue-se uma gradual desaceleração até a parada de
crescimento, com duração em torno de 3 a 4 anos. Após a menarca, as meninas
crescem, no máximo, de 5 a 7 cm.

77
Fonte: pt.slideshare.net

O Ministério da Saúde (2017), salienta:

As curvas de crescimento individual seguem um determinado percentil


desenhado no gráfico de crescimento. É importante salientar que, tanto na
infância quanto na adolescência, podem ocorrer variações no padrão de
velocidade de crescimento, ocasionando mudanças de percentil de
crescimento, mas nem sempre refletem uma condição patológica. De um
modo geral, o adolescente termina o seu desenvolvimento físico com cerca
de 20% da estatura final do adulto em um período de 18 a 36 meses.

Idade óssea:
A idade óssea ou esquelética corresponde às alterações evolutivas da
maturação óssea, que acompanham a idade cronológica no processo de
crescimento, sendo considerada como um indicador da idade biológica. Ela é
calculada por meio da comparação de radiografias de punho, de mão e de joelho
com padrões definidos de tamanhos e forma dos núcleos dessas estruturas. A idade
óssea pode ser utilizada na predição da estatura final do adolescente, considerando
a sua relação com a idade cronológica.

78
Composição e proporção corporal
Todos os órgãos do corpo participam do processo de crescimento da
puberdade, exceção feita ao tecido linfoide e à gordura subcutânea que apresentam
um decréscimo absoluto ou relativo. Há acúmulo de gordura desde os 8 anos até a
puberdade, sendo que a diminuição deste depósito de tecido adiposo coincide com
o pico de velocidade do crescimento.
Desenvolvimento muscular: Na puberdade, chama atenção a hipertrofia e
a hiperplasia de células musculares, mais evidentes nos meninos. Este fato justifica
a maior força muscular no sexo masculino.
Medula óssea: Durante a puberdade, ocorre uma diminuição da cavidade da
medula óssea, mais acentuada nas meninas. Este acontecimento explica um volume
final maior da cavidade medular para os meninos, que somado à estimulação da
eritropoetina pela testosterona pode representar, para o sexo masculino, um número
maior de células vermelhas, maior concentração de hemoglobina e ferro sérico.

Sequência do crescimento
O crescimento estatural inicia-se pelos pés, seguindo uma ordem invariável
que vai das extremidades para o tronco. Os diâmetros biacromial e biilíaco também
apresentam variações de crescimento durante a puberdade, sendo que o biacromial
cresce com maior intensidade no sexo masculino. Nas meninas, observa-se também
um alargamento da pelve.
Os pelos axilares aparecem, em média, dois anos após os pelos pubianos. O
pelo facial, no sexo masculino, aparece ao mesmo tempo em que surge o pelo axilar.
O crescimento de pelos pubianos pode corresponder, em algumas situações, às
primeiras manifestações puberais.
Durante a puberdade, alterações morfológicas ocorrem na laringe; as cordas
vocais tornam-se espessas e mais longas e a voz mais grave. A este momento, mais
marcante nos meninos do que nas meninas, chamamos de muda vocal. Na maioria
dos indivíduos a mudança completa da voz se estabelece em um prazo de
aproximadamente seis meses. O crescimento dos pelos da face indica o final deste
processo, quando a muda vocal deve estar completa.
Adolescentes com uma alteração na voz, que persista por mais de 15 dias, a
Equipe de Saúde da Família deve procurar o Núcleo de Apoio à Saúde da Família
(Nasf) que dispõe de um profissional fonoaudiólogo para realizar uma interconsulta

79
ou uma avaliação multidisciplinar entre os profissionais visando solucionar o
problema em questão. É de suma importância que o profissional de saúde saiba
orientar os adolescentes quanto a comportamentos nocivos a sua saúde, como o
uso de tabaco.

Maturação sexual
A eclosão puberal dá-se em tempo individual por mecanismos ainda não
plenamente compreendidos, envolvendo o eixo hipotálamo-hipofisário-gonadal. Em
fase inicial da puberdade, o córtex cerebral transmite estímulos para receptores
hipotalâmicos, que, por meio de seus fatores liberadores, promovem na hipófise
anterior a secreção de gonadotrofinas para a corrente sanguínea.

SEXO MASCULINO SEXO FEMININO


 As gonadotrofinas, ou seja, os hormônios  Os hormônios folículo-estimulante e
folículo-estimulante e luteinizante (FSH e luteinizante (FSH e LH) atuam sobre o
LH) atuam aumentando os testículos. ovário e iniciam a produção hormonal de
 Os túbulos seminíferos passam a ter luz e estrógeno e progesterona, responsáveis
promover a proliferação das células pelas transformações puberais na menina.
intersticiais de Leydig, que liberam a
testosterona e elevam os seus níveis
séricos. Esses eventos determinam o
aumento simétrico (simultâneo e
semelhante) do volume testicular, que
passa a ter dimensões maiores que 4 cm³,
constituindo-se na primeira manifestação
da puberdade masculina.
 Segue-se o crescimento de pelos
pubianos, o desenvolvimento do pênis em
comprimento e diâmetro, o aparecimento
de pelos axilares e faciais e o estirão
pubertário.
 O tamanho testicular é critério importante  A primeira manifestação de puberdade na
para a avaliação das gônadas e da menina é o surgimento do broto mamário.

80
espermatogênese, que costuma ocorrer,  É seguido do crescimento dos pelos
mais frequentemente, no estágio 4 de pubianos e pelo estirão puberal.
Tanner.  A menarca acontece cerca de um ano
 Avalia-se o volume testicular de forma após o máximo de velocidade de
empírica ou utilizando-se o orquímetro e crescimento, coincidindo com a fase de
orquidômetro de Prader. Estes sua desaceleração.
instrumentos contêm elipsoides de  A ocorrência da menarca não significa que
volumes crescentes de 1 ml a 25 ml. O a adolescente tenha atingido o estágio de
tamanho testicular adulto situa-se entre função reprodutora completa, pois os
12 ml e 25 ml. ciclos iniciais podem ser anovulatórios.
Por outro lado, é possível acontecer
também a gravidez antes da menarca,
com um primeiro ciclo ovulatório.
Pelos pubianos: A evolução da distribuição de pelos pubianos é semelhante nos dois
sexos, de acordo com as alterações progressivas relativas à forma, espessura e
pigmentação
Fonte: Ministério da Saúde, 2017

8.9 Problemas no Desenvolvimento Puberal

Puberdade precoce e puberdade tardia


A puberdade, precoce e tardia, refere-se ao aparecimento de características
sexuais secundárias em idades cronológicas que podem ser consideradas
prematuras ou atrasadas para este desenvolvimento. É importante, também,
observar a velocidade com que os eventos puberais estão se sucedendo.
a) Sexo feminino: É considerado precoce qualquer sinal de maturação
sexual antes dos 8 anos de idade. No caso da puberdade atrasada, considera-se
tardia a telarca e pubarca que ocorrem em idades superiores a 13 e 14 anos,
respectivamente, e a menarca em idades maiores de 16 anos.
b) Sexo masculino: É considerada puberdade precoce, quando ocorre o
aumento do volume t esticular e dos pelos pubianos antes dos 9 anos de idade. A
puberdade atrasada refere-se à persistência do estágio pré-puberal após a idade
cronológica de 16 anos.

81
Baixa estatura
Adolescentes de ambos os sexos com estatura de dois desvios padrões
abaixo da média ou abaixo do 3º percentil são considerados de baixa estatura. Deste
grupo, 20% têm baixa estatura patológica e os 80% restantes serão divididos entre
os de baixa estatura constitucional e familiar. Aqueles com estatura de três desvios
padrões abaixo da média têm baixa estatura, certamente, patológica. Os achados
das medições de altura e peso deverão ser plotados nas curvas de crescimento
encontrados nas Cadernetas do Adolescente do sexo masculino e feminino.
Regra do cálculo da estatura final de adolescentes baseado na estatura dos
pais:
Sexo masculino = AP+ (AM – 12 cm) limite ± 10
––––––––––––––––––––––––––
2
Sexo feminino = AM+ (AP – 12 cm) limite ± 9 2
––––––––––––––––––––––––––––
2
AP = Altura do pai
AM = Altura da mãe

Hirsutismo: Trata-se do aparecimento anormal de pelos no corpo feminino,


em quantidade excessiva. Assim, a presença de pelos faciais, torácicos e
abdominais pode ser normal, como pode ser devida a manifestações clínicas de
doenças virilizantes e estar associadas a doenças endócrinas e ovários policísticos.
Conduta: Acompanhar os casos em que a experiência clínica sugere que
estejam dentro dos critérios de normalidade (constitucionais). Referenciar para
serviço especializado aquelas condições que exijam atenção especial.

82
Fonte: msdmanuals.com

Ginecomastia:
A ginecomastia consiste no aumento visível ou palpável da glândula mamária
do adolescente do sexo masculino. Pode ser uni ou bilateral, aparecendo em torno
dos 13 e 14 anos, durante o estirão puberal, regredindo, naturalmente, em 12 a 18
meses. Portanto, pode ser considerada uma condição frequente e normal da
puberdade, podendo ocasionar transtornos de autoimagem, com repercussões na
vida social do adolescente.
Conduta: Diferenciar de obesidade e lipoma. Nas circunstâncias em que
houver necessidade de se fazer um diagnóstico diferencial mais acurado, deve-se
referenciar para serviço especializado.

Fonte: drricardoamim.site.med.br

83
Micropênis
Considera-se micropênis sempre que, em qualquer idade, o tamanho peniano
for menor que 1,9 cm, medido da base até a ponta e esticado.
Conduta: Considerando a amplitude dos fatores etiológicos, deve-se
referenciar para serviço especializado. Oferecer suporte psicológico.
Observação: Os adolescentes de ambos os sexos que, no acompanhamento
por profissional de saúde, sejam constatadas dúvidas quanto ao processo de
crescimento e desenvolvimento devem ser referenciados a serviços de maior
complexidade para avaliação clínica e laboratorial.

Avaliação pondero estatural: Avaliar o crescimento segundo o peso e a


estatura do adolescente.

PERGUNTAR OBSERVAR DETERMINAR


 Estatura dos pais e peso das  Sinais de desnutrição,  Calcular o Índice de Massa
pessoas da família. anemia e obesidade. Corporal (IMC):
 Peso e comprimento ao  Satisfação com peso/altura².
nascer e progressão do imagem corporal.  Anotar no gráfico Estatura
peso na infância.  Peso, estatura e idade por Idade da Caderneta do
 Doenças crônicas, atual. Adolescente a estatura e
infecções recorrentes, uso e  Estágio de maturação determinar sua classicação
abuso de drogas e fármacos sexual (Tanner) (OMS, 2007).
(especialmente esteroides),  Anotar o IMC no gráco IMC
vômitos induzidos, uso de por Idade na Caderneta do
laxantes. Adolescente e determinar a
 Padrão alimentar, número classicação (OMS, 2007).
de refeições, consumo  Vericar se, no caso de
excessivo de refrigerantes, sobrepeso ou baixo-peso,
chás, chocolates e pode haver relação com o
suplementos dietéticos. estágio de maturação
 Sedentarismo, exercícios sexual. Em caso positivo,
extenuantes informar e acalmar o
adolescente.

84
CLASSIFICAR SEGUNDO A ESTATURA/IDADE, PESO/IDADE e SEXO
Estatura adequada Muito baixa estatura: Avaliar:
Escore-z: ≥ -2 Escore-z < -3  Risco bulimia/anorexia.
IMC adequado (Eutrofia) Baixa estatura  Presença de alguma doença
Escore-z: ≥ -2 e ≤ +1 Escore-z < -2 e ≥ -3 aguda ou crônica.
 Avaliar o peso e a estatura e  Gravidez.
registrar nos gráficos nas Magreza:  Endocrinopatia/doenças
consultas subsequentes; Escore-z < -2 e ≥ -3 genéticas.
 Indicar atividades de Magreza acentuada:  Edema generalizado.
promoção da saúde Escore-z <-3  Elaboração de Projeto
existentes no território. Terapêutico Singular.
Sobrepeso:  Referência ao serviço
Escore-z > +1 e ≤ +2 especializado (depois de
Obesidade: discussão com a equipe).
Escore-z > +2 e ≤ +3
Obesidade grave:
Escore-z > +3
Fonte: Ministério da Saúde

Orientações:

 Orientar o adolescente a respeito da postura adequada, alimentação,


exercícios permitidos etc.
 Acompanhar o crescimento periodicamente, cada 4-6 meses.
 Responder às perguntas que preocupam o adolescente a respeito de
seu crescimento: Continuarei crescendo?

Perguntas frequentes dos pais:

 Por que este filho não cresce igual aos meus outros filhos?
 Tem a mesma idade da prima, mas ele está menor…

85
Inquietações dos adolescentes:

 Sou o menor de minha turma, vou ficar assim?


 Até quando vou crescer?
 Vou ficar mais alto do que meus pais?

Avaliação da puberdade
Avaliar e classificar a maturação sexual de adolescentes entre 10 e 19 anos.
PERGUNTAR OBSERVAR AVALIAR
 Antecedentes: menarca da  Caracteres sexuais  Estagio de Tanner (em cada
mãe, avós, tias, irmãs etc. secundários e consulta).
 Idade de início dos odores características da  Características da mama.
desagradáveis das axilas, genitália externa.  Presença de ginecomastia.
aparecimento dos pelos  Aspecto nutricional.  Volume testicular,
pubianos.  Sinais clínicos características do escroto,
 Desenvolvimento mamário compatíveis com tamanho do pênis.
e menstruações. patologia crônica.  Velocidade do crescimento.
 Polução noturna.  Atitude do adolescente  Idade óssea (se
 História nutricional. frente às mudanças necessário).
 Doenças crônicas. puberais.  Tempo de permanência em
 Inquietações dos pais ou um determinado estágio de
responsáveis frente ao maturação (seguimento).
desenvolvimento do
adolescente (ambos os
sexos).
 Inquietações do
adolescente (ambos os
sexos) sobre seu
desenvolvimento.
Fonte: Ministério da Saúde, 2017

86
Fonte: Ministério da Saúde

Inquietações dos pais:

 Não está muito cedo (muito tarde) para meu filho iniciar o seu
desenvolvimento? Meu outro filho não era assim.
 Os seios dela estão crescendo e doendo… está normal?
 Os seios estão de tamanho diferente, é normal?
 Está com corrimento vaginal, acho que já vêm as menstruações…
 Se a menstruação vier já, ela vai ficar baixinha...

Inquietações de adolescentes de ambos os sexos:

 Meu pênis está pequeno ou está normal?


 Vou ficar com mamas? Isto é devido à masturbação?
 Meus músculos vão aumentar?

87
 Meus seios vão continuar crescendo?
 Vou ficar igual a minha irmã ou a minha mãe?
 Vou continuar crescendo depois do início das menstruações?

8.10 Alimentação e Nutrição

A atenção nutricional ao adolescente deve fazer parte do cuidado integral na


Rede de Atenção à Saúde (RAS) e na Atenção Básica, por sua capilaridade e
capacidade de identificação das necessidades de saúde da população sob sua
responsabilidade.
A promoção da alimentação adequada e saudável é uma diretriz da Política
Nacional de Alimentação e Nutrição (Pnan), fundamentando-se nas dimensões de
incentivo, apoio, proteção e promoção da saúde para combinar iniciativas focadas
na criação de ambientes saudáveis, no desenvolvimento de habilidades pessoais e
na reorientação dos serviços de saúde na perspectiva da promoção da saúde
(BRASIL, 2012a apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).

8.11 Aspectos comuns e frequentes na alimentação e nutrição

O crescimento, especificamente o estirão, e as demais mudanças fisiológicas


relacionadas à puberdade, levam a alterações das necessidades nutricionais. A
alimentação insuficiente ou inadequada nessa fase pode retardar o crescimento,
bem como a maturação sexual (FARIA et al., 2010 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE,
2017).
A adolescência também é um período crítico para o desenvolvimento da
obesidade, que tende a se perpetuar na vida adulta. Doenças como diabetes tipo 2,
dislipidemias e hipertensão arterial, que no passado não eram tão frequentes nessa
faixa etária, são cada vez mais comuns e elevam o risco de eventos cardiovasculares
no futuro (LAMOUNIER et al., 2010 apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
Em relação à alimentação, a Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil
(POF 2008- 2009) apontou que os adolescentes consumiam mais alimentos não
saudáveis como macarrão instantâneo, biscoitos recheados, sorvetes, refrigerantes,
pizzas, salgados fritos/assados, salgadinhos de pacote e sanduíches que adultos e

88
idosos. Em contrapartida consumiam menos frutas, legumes e verduras (IBGE, 2011
apud MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017).
Além das informações referentes ao consumo alimentar, é muito importante
que as equipes de Atenção Básica conheçam os hábitos e o estilo de vida dos
adolescentes, principalmente daqueles de seu território, para verificar os caminhos
adequados e viáveis para intervenções individuais ou atividades coletivas de
promoção da saúde.
A infância e a adolescência são as fases em que se consolidam os hábitos
alimentares, portanto é importante que se entenda os seus fatores determinantes.
Entre os fatores relacionados à preferência alimentar individual, que começa a se
desenvolver na infância, destacam-se a experiência pessoal e a interação social.

8.12 Avaliação nutricional de adolescentes

Antropometria

Fonte: slideplayer.com.br

Os dados antropométricos são importantes e valiosos para o


acompanhamento do crescimento e desenvolvimento, apesar de mais difíceis de
obter, devido à característica única do estirão puberal e da velocidade rápida de
mudanças corporais que ocorrem nesse período. O adolescente tem um crescimento

89
de cerca de 20% a 25% da sua estatura final e de 40% a 50% do seu peso final
nesse período.
Estes parâmetros são alcançados, em média, durante o intervalo de três a
cinco anos no estirão da puberdade. Assim, o profissional deve avaliar a
Estatura/Idade, Índice de Massa Corporal (IMC) /Idade e os Estágios Puberais de
Tanner de todos os adolescentes que comparecerem à unidade de saúde.
Avaliação antropométrica do adolescente

Fonte: Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde (2017) orienta:

Ao avaliar a antropometria do adolescente, também é importante considerar


a Velocidade de Crescimento (VC/ano) e o possível aspecto de excesso de
peso no período anterior ao estirão pubertário, que não deve ultrapassar
20% em relação ao peso esperado para a altura/idade. Em outros
adolescentes, no início do estágio de estirão, pode-se observar um aspecto
longilíneo e emagrecido, que não deve ser confundido com o diagnóstico de
baixo peso.
A avaliação antropométrica deve ser realizada anualmente e, em caso de
identificação de alterações, recomenda-se acompanhar o adolescente a
cada 2-3 meses. O profissional tem na Caderneta de Saúde do Adolescente
um importante instrumento para registro e acompanhamento dos dados. A
Caderneta ainda possui a função didática de possibilitar a interpretação dos
dados coletados de forma mais interativa e facilitada pelo próprio
adolescente.

90
9 ATENÇÃO INTEGRAL SAÚDE DO ADOLESCENTE

9.1 Consulta

Consentimento livre e esclarecido


A todos os usuários dos serviços de saúde, inclusive adolescentes, deve ser
solicitado que assinem o consentimento livre e esclarecido para a realização de
qualquer procedimento clínico. No consentimento livre e esclarecido, a decisão só
deve ser tomada depois que o adolescente receber informações detalhadas e
esclarecidas sobre seu estado de saúde e o tratamento a ser realizado. Caso seja
verificada sua incapacidade para a decisão, deve ter a assistência de seus pais ou
representantes legais.

Consentimento nas urgências


Se o (a) adolescente não pode dar o seu consentimento, é imprescindível que
um familiar/ responsável seja localizado para a obtenção do mesmo. Não
conseguindo esse contato, e havendo a restrição do tempo para a tomada da
decisão, o profissional de Saúde executor assume o papel de protetor natural do
adolescente por meio de ações positivas em favor da vida e da saúde. Assim, nas
urgências aceita-se a noção de existência de consentimento informado presumido
ou implícito. O profissional deverá registrar essa condição no prontuário e no
impresso de consentimento institucional.
Ações preventivas como componentes da consulta de acordo com a
Associação Médica Americana (1997), as visitas de rotina de adolescentes e jovens
e suas famílias aos serviços de saúde configuram-se como oportunidades para:
 Reforçar mensagens de promoção de saúde.
 Identificar adolescentes que estejam sujeitos a comportamentos de
risco.
 Promover imunização adequada.
 Desenvolver vínculos que favoreçam um diálogo aberto sobre questões
de saúde.

91
 Sensibilizar adolescentes homens para o autocuidado e na
corresponsabilização pela saúde sexual e saúde reprodutiva sua e de
sua parceria.

Todos os adolescentes deverão receber esclarecimentos a respeito de seu


crescimento físico e desenvolvimento psicossocial e sexual. Deve ser enfatizada a
importância de se tornarem ativamente participantes nas decisões pertinentes aos
cuidados de sua saúde.
As vantagens da realização de atividade física regular deverão ser
reforçadas, incluindo seu papel na promoção da saúde física e mental e como fator
de socialização. No entanto, deve-se alertar quanto à necessidade do adequado
condicionamento físico antes de exercícios ou práticas esportivas, bem como do uso
de equipamentos de proteção no caso da prática de esportes radicais.
Os adolescentes deverão receber esclarecimentos sobre cuidados com a
saúde oral e sobre hábitos nutricionais adequados, incluindo os benefícios de uma
alimentação saudável e da manutenção do peso ideal. As consultas são momentos
privilegiados para o aconselhamento de práticas sexuais responsáveis e seguras.
O uso de preservativo deve ser enfatizado como prática indispensável na
prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e de infecção pelo HIV. Essa é
também uma oportunidade de esclarecimento de dúvidas, de conversar sobre a
importância do afeto e do prazer nas relações amorosas e para alertar sobre
situações de risco para violência e/ou exploração sexual.

Anamnese
O profissional de Saúde não deve ficar restrito a obter informações sobre o
motivo focal que levou o adolescente ao serviço de saúde, e sim conhecer o
adolescente como um todo, seguindo um roteiro de anamnese. Isto inclui a avaliação
de como ele está se sentindo em relação às mudanças corporais e emocionais pelas
quais está passando, seu relacionamento com a família e com seus pares, a forma
como usa as horas de lazer, suas vivências anteriores no serviço de saúde,
expectativas em relação ao atendimento atual e seus planos para o futuro.

92
Anamnese do adolescente
PERGUNTAR OBSERVAR ESPECIFICAR
 Motivo da consulta: do  Condições gerais: higiene  Crescimento.
adolescente e do pessoal, aparência, tatuagem  Desenvolvimento.
responsável (quando e piercings. Atitude durante a  Estado emocional.
presente). consulta, rejeição/aceitação.  Estado nutricional.
 Antecedentes pessoais e Comunicação.  Estágio puberal.
familiares.  Sinais de depressão, de  Acuidade visual.
 Educação. ansiedade.  Saúde bucal.
 Trabalho.  Sinais de  Imunizações.
 Vida social. desnutrição/obesidade.  Capacidade de resiliência.
 Hábitos.  Satisfação com sua imagem  Vulnerabilidades.
 Alimentação. corporal.  Patologias
 Uso de álcool, tabaco e Obs. O exame físico pode ser clínicas/psicossociais.
outras substâncias realizado em mais de uma  Inserção na família,
psicoativas. consulta, de acordo com a
escola, trabalho e
 Acidentes. necessidade ou aceitação do
comunidade.
 Sexualidade. adolescente

 Situação emocional
 Imagem corporal
 Projeto de vida
 Aparelhos e sistemas
orgânicos.
 Segurança ambiental no
território.
Fonte: Ministério da Saúde

Exame físico
O exame físico é o procedimento que apresenta o mais elevado grau de
dificuldade para o profissional de Saúde pouco habilitado. Isso decorre do fato de
que, na formação do médico ou enfermeiro, não existem disciplinas que
desenvolvem essa habilidade, levando em consideração o desconforto causado ao
profissional pela necessidade de manipulação do corpo de um indivíduo em pleno
desenvolvimento físico e sexual. O adolescente tem o direito de optar pela presença
de um familiar durante a realização do exame físico. Dependendo da situação, o

93
profissional deve solicitar a presença de um componente da equipe durante o
procedimento.

PERGUNTAR OBSERVAR DETERMINAR


 Deseja ser acompanhado  Condições gerais  Dermatite seborreica.
por um familiar durante o  Iniciar o exame físico no Acne
exame físico? sentido da cabeça para os  Distúrbios na
 Você está insatisfeito com pés. acuidade visual e/ou
algum aspecto de seu  Examinar a pele. auditiva.
corpo?  Vericar acuidades visual e  Síndrome do
 Você tem alguma doença auditiva. respirador bucal.
ou problema clínico em  Respiração bucal. Palidez  Sinusite e/ou rinite.
tratamento? de mucosa nasal.  Amidalite.
 Tem problema com os Rinorréia.  Cáries, tártaro e/ou
cabelos?  Voz anasalada. Muda placas dentárias.
 Dificuldade visual e/ou vocal.  Anorexia, Bulemia
auditiva? Tem exposição  Hipertroa de amídalas.  Anemia.
prolongada a ruídos  Arcada dentária.  Doenças do aparelho
excessivos? Posicionamento dos respiratório e/ou
 Ronca quando dorme? dentes. Manchas e perdas cardiovascular
Tem mau hálito? Dor de dentárias.  Visceromegalia
garganta frequente?  Exame cardio-respiratório.  Estágio puberal
 Faz sua higiene bucal de Fígado, baço etc. (critérios de Tanner).
rotina?  Postura. Exame da  Ginecomastia/
 Tem hábitos alimentares coluna. Estágio de problemas mamários.
peculiares? Tanner. Altura, peso e  Escoliose ou outro
 Tem o hábito de induzir pressão arterial problema de coluna
vômitos?
 Tem dores, mal-estar,
desmaios etc.?
 Como são suas
menstruações/ poluções
noturnas, atividades
sexuais?
Fonte: Ministério da Saúde

94
9.2 Saúde mental

Durante a adolescência, alguns transtornos da saúde mental podem ocorrer


e devem ser detectados precocemente para uma intervenção eficaz. Alguns
problemas envolvem também doenças sistêmicas e, portanto, faz-se necessária uma
abordagem multidisciplinar para um manejo adequado.
O Ministério da Saúde diz (2017):

(...) os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Capsi), foram


criados em 2002 com a função de prover atenção em saúde mental,
baseados na integralidade do cuidado de crianças e adolescentes no
território de abrangência, de natureza pública, ou seja, financiados
integralmente com recursos do SUS. Foram planejados inicialmente para as
cidades com 200 mil habitantes ou mais, com duas finalidades principais:
atender casos de maior gravidade e ordenar a demanda em saúde mental
infantil e juvenil.

A equipe dos Capsi é composta por profissionais de várias disciplinas, com no


mínimo um psiquiatra, neurologista ou pediatra com formação em Saúde Mental
infantil, um enfermeiro, e outros profissionais de nível superior (entre: psicólogo,
assistente social, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, pedagogo) e cinco
profissionais de nível médio.
Os Capsi têm como prioridade o atendimento a autistas, psicóticos e a todos
aqueles cuja problemática apresente prejuízos psicossociais severos, e são
encarregados de desenvolver ações para ordenação das diferentes demandas
relativas à saúde mental da infância e adolescência no território sob sua
responsabilidade. Importante lembrar que também atendem crianças e adolescentes
com necessidades decorrentes do uso de drogas.

9.3 Planejamento Reprodutivo

Adolescentes têm direito ao atendimento no planejamento reprodutivo sem


discriminação de qualquer tipo, com garantia de privacidade, sigilo e consentimento
informado. Os serviços de saúde devem garantir esse atendimento, antes mesmo do
início da atividade sexual e reprodutiva, para ajudá-los a lidarem com a sua
sexualidade de forma positiva e responsável, incentivando-se comportamento de
prevenção e de autocuidado. Na faixa etária de 10 a 19, podem ser atendidos sem
a presença dos pais, se assim preferirem.

95
Adolescentes de 10 a 14 anos de idade devem ser orientados sobre os
cuidados específicos e adequados ao seu desenvolvimento psicossexual, com a
proteção integral necessária, buscando identificar se já têm atividade sexual e se as
circunstâncias apontam para violência ou para o exercício da sexualidade. Havendo
confirmação ou suspeita de violência sexual, notificar conforme os trâmites
preconizados pelo Ministério da Saúde, apoiar emocionalmente esses adolescentes
e suas famílias e referenciar para outros níveis de atenção à saúde e da rede de
garantia de direitos e de proteção.
O Ministério da Saúde (2017) orienta:

É importante que as recomendações abaixo, preconizadas na publicação


Cuidando da saúde sexual e saúde reprodutiva de Adolescentes:
orientações básicas, sejam observadas pelos profissionais da Atenção
Básica no atendimento em planejamento reprodutivo para adolescentes:

 No acolhimento aos adolescentes os profissionais devem focar: a


dimensão humana, individual e ética do atendimento, os direitos e a
identificação das especificidades de desenvolvimento daqueles
adolescentes que estão sendo atendidos.
 Dispensar com acesso facilitado o preservativo nos espaços da Unidade
Básica de Saúde (UBS), independente de apresentação de
documentação, local de residência ou qualquer outra forma que dificulte
este acesso.
 Incluir, no planejamento reprodutivo de adolescentes, um forte e
sistemático componente educativo, com enfoque de gênero, dos direitos
sexuais e direitos reprodutivos e da corresponsabilidade masculina nos
eventos sexuais e reprodutivos, respeitando a diversidade sexual.
 Proporcionar na UBS consulta, informada e esclarecida, com
médico/enfermeiro para a escolha do método contraceptivo pela
adolescente e seu parceiro, aproveitando todas as oportunidades que
surgem quando estão nas UBS.
 Orientar e esclarecer sobre todos os métodos contraceptivos
disponíveis, inclusive os naturais, para que possam fazer escolhas livres
e bem informadas, incluindo o respeito às suas concepções religiosas.
 A idade ginecológica (tempo pós-menarca) não deve ser fator limitante
para a orientação e a prescrição de métodos contraceptivos adequados,
levando-se em consideração o direito à saúde, pois em casos
específicos, uma possível gravidez pode se configurar como um risco à
saúde da adolescente.
 Orientar e refletir sobre as questões envolvidas na situação, apoiando
adolescentes que têm relações homoafetivas e que desejam engravidar.

Na discussão sobre os métodos anticoncepcionais (MAC) pressupõe-se o uso


de técnicas de grupos educativos, onde todas as possibilidades de métodos
anticoncepcionais são apresentadas e discutidas amplamente com os adolescentes
de ambos os sexos. Deve ter enfoque de gênero, das diferentes orientações sexuais,

96
e uma abordagem positiva da sexualidade, incentivando a construção de relações
igualitárias e respeitosas entre as pessoas.
Na consulta individual e nas atividades de grupo, entre outros, abordar os
seguintes temas, conforme orientações do Ministério da Saúde (2017):
Promover o autoconhecimento do corpo como facilitador para o uso
dos métodos contraceptivos.
Informar e orientar sobre a interação de alguns métodos
contraceptivos com o uso de drogas lícitas e ilícitas.
Valorizar os argumentos sobre as vantagens do uso dos
preservativos que, se usados corretamente em todas as relações, pode
prolongar o prazer feminino, retardar a ejaculação e proporcionar segurança
para ambos.
Esclarecer, orientar e apoiar adolescentes que são soropositivos,
para o exercício da sexualidade e da vida reprodutiva.
Esclarecer e orientar sobre os efeitos iniciais do uso do Dispositivo
Intrauterino (DIU) e ressaltar a importância do acompanhamento e da
avaliação periódica da posição do DIU, além de sinais de infecção que
podem levar à doença inflamatória pélvica.
Informar e orientar quando é recomendada a utilização da
anticoncepção de emergência.

9.4 Cuidado Integrado na Atenção Básica frente às IST/HIV/aids e Hepatites


Virais

Estudos apontam para o aumento da infecção pelo HIV/aids entre as pessoas


jovens, assinalando que a utilização do preservativo em todas as relações sexuais é
baixa. Essa constatação induz também à preocupação com outras doenças
sexualmente transmissíveis, levantando a necessidade do desenvolvimento de
estratégias que envolvam adolescentes, como o aumento da cobertura vacinal
contra a hepatite B e a oferta da vacina do HPV para as adolescentes de 10 a 13
anos de idade.
Tal situação ressalta a responsabilidade do setor Saúde para o
desenvolvimento de ações de proteção à saúde na atenção básica, que incidam na
diminuição da vulnerabilidade desse grupo populacional às IST/HIV/aids e no
aumento da prática do sexo seguro.
É imprescindível o envolvimento de toda a sociedade e a reestruturação da
governança da resposta nacional em saúde, partindo-se da disponibilidade do teste

97
rápido de HIV/aids e de hepatites virais na rede básica como uma estratégia de
fortalecimento das UBS no cuidado à saúde da população em geral, muito importante
para os adolescentes.
Como ações complementares, mas fundamentais na proteção à saúde desse
segmento, é preciso que as equipes da Atenção Básica conheçam os riscos e as
vulnerabilidades da população adstrita e identifiquem as medidas de prevenção
viáveis no contexto de vida de cada adolescente que os procurar.
Oferecer o teste rápido e o aconselhamento também são oportunidades para
facilitar o atendimento preventivo e o início do cuidado com a saúde de adolescentes
que estejam com IST ou infectados pelo HIV.
Para qualquer situação em que o exame de HIV/aids for requerido para
menores de 18 anos, devem ser realizadas ações para detectar situações que
possam violar a dignidade sexual dessas pessoas. Os casos de violação, que é uma
violência contra a pessoa, requerem o desenvolvimento de ações já determinadas
pelo Ministério da Saúde, para as pessoas em situação de violência.
De acordo com as normativas do Ministério da Saúde, os testes rápidos para
HIV e sífilis na Atenção Básica são ofertados aos adolescentes em geral. As
adolescentes devem realizar os testes rápidos na primeira consulta de pré-natal. Se
a gestante obtiver resultado reagente em qualquer dos testes, seu parceiro também
deverá ser aconselhado à realização das testagens.
Segundo o Ministério da Saúde (2017):

Caso o adolescente decida realizar o teste de HIV sozinho, o profissional de


saúde deve avaliar se ele é capaz de entender o seu ato, qual a sua
motivação para a testagem e se seria capaz de conduzir-se por seus
próprios meios após o resultado do teste, incluindo a adesão ao tratamento.
O adolescente deve ser estimulado a compartilhar o que acontece com os
seus responsáveis ou com adulto(s) em quem confie e que possa servir-lhe
de suporte (apud BRASIL, 2013j, p. 53).

São indissociáveis da testagem as partes discriminadas abaixo: (Ministério da


Saúde,2017)
O aconselhamento antes  Informar e esclarecer sobre IST, HIV/aids e as hepatites
do teste virais.
 Avaliar os riscos de transmissão em cada caso, as formas de
prevenção e redução da transmissão vertical.

98
 Explicar a importância do teste e seus resultados e solicitar
o consentimento pessoal para realização
O aconselhamento pós-  Valorizar a oportunidade para reforçar hábitos de prevenção
teste, com resultado para as IST, a percepção, a diminuição ou a eliminação de
negativo riscos, considerando as práticas sexuais e as práticas de uso
de álcool e de outras drogas, específicas de cada caso.
O aconselhamento pós-  Compreender as necessidades e as preocupações de
teste, com resultado adolescentes relacionadas às IST/HIV/aids para reduzir seu
positivo, segundo o nível de estresse.
Aconselhamento em IST,  Reduzir o impacto do diagnóstico positivo e o estresse na
HIV e Aids: diretrizes e convivência com o HIV e a aids.
procedimentos básicos,  Possibilitar a percepção dos riscos e das vulnerabilidades e
preconiza que identificar medidas de prevenção positiva viáveis no contexto
de vida de cada adolescente.
 Facilitar a comunicação e realização do diagnóstico para a
parceria (s) sexual (is) e parceria (s) de uso de drogas se for
o caso.
 Auxiliar adolescentes e suas parcerias no processo de
adesão ao tratamento.
 Fortalecer capacidades de enfrentamento das adversidades
no viver com HIV/aids e outras IST e estimular a manutenção
dos projetos de vida.
Fonte: Ministério da Saúde

9.5 Gravidez na adolescência

A gravidez na adolescência, hoje, constitui-se como uma questão polêmica


por ligar aspectos relacionados ao exercício da sexualidade e da vida reprodutiva às
condições materiais de vida e às múltiplas relações de desigualdades que estão
presentes na vida social do País. Nesse sentido, é mais apropriado que a gravidez
na adolescência seja vista como um ponto de inflexão que resulta de uma pluralidade
de experiências de vida, com diferentes significados, abordado de várias maneiras e
que adota diversos desfechos.

99
Tradicionalmente, a ocorrência da gravidez na adolescência é enfocada como
não planejada, indesejada e decorrente do desconhecimento de métodos
anticoncepcionais. Estes aspectos nem sempre estão presentes e sinalizam que a
análise da gravidez e da maternidade nessa faixa etária não pode ser desvinculada
das motivações individuais, nem descontextualizada das condições sociais em que
as adolescentes estão inseridas, considerando-se a influência de fatores
sociopolíticos, culturais e psicológicos implicados na escolha de ser mãe.
Para a saúde pública, a gravidez na adolescência tem sido um desafio. Visto
que muitas destas gestações terminam em abortos provocados, realizados em
condições adversas, que evoluem com problemas obstétricos como hemorragia,
infecção ou perfuração uterina, contribuindo para o aumento da mortalidade materna
neste grupo etário.
Outro aspecto de destaque é a possibilidade de risco biológico dessa
gravidez, quando associada a outros fatores, como desnutrição e acompanhamento
tardio, entre outros. Se presente, esse risco não está especificamente ligado ao fato
de a gestante ser adolescente, pois pode ser minimizado por meio de um
acompanhamento pré-natal adequado e iniciado o mais cedo possível.
Outro risco apontado é o risco psicossocial, uma vez que a maternidade pode
influenciar no abandono escolar e dificultar o acesso ao mercado de trabalho. No
entanto, a análise desta questão é complexa, já que outros fatores também
participam na evasão escolar e na exclusão social de adolescentes.

Teste rápido de gravidez (TRG)


Para que a gravidez na adolescência transcorra sem intercorrências é
importante que a captação para o início do pré-natal seja realizada o mais
precocemente possível. Dessa forma, o momento do diagnóstico da gestação é de
fundamental importância.
Para facilitar a captação precoce da adolescente gestante no pré-natal
(primeiro trimestre) deve-se ter disponível o TRG. A entrega do insumo TRG pela
equipe de AB pode ser feita à adolescente ou à parceria sexual, o teste pode ser
realizado dentro ou fora da UBS, respeitando o direito da autonomia e sigilo.
Em qualquer das circunstâncias o acolhimento deve ser feito pelo profissional
de Saúde no sentido de garantir informação qualificada e fortalecer o vínculo com a

100
usuária. Caso o teste seja feito na UBS o profissional de Saúde deverá agendar de
imediato a consulta para o planejamento reprodutivo ou o início do pré-natal.
É imprescindível facilitar o acesso de adolescentes ao TRG na atenção
básica, especialmente as que estão na faixa etária entre 10 a 16 anos, devido às
singularidades destas idades e por estarem em situação peculiar de
desenvolvimento, necessitando de maior apoio e proteção. O profissional deve estar
atento às situações de violência sexual, e seguir as normas técnicas do Ministério da
Saúde e legais, se for o caso.
A solicitação do teste de gravidez por adolescentes deve estar vinculada à
realização de acolhimento que faça a orientação pré-teste e informe sobre a
disponibilidade, também, dos testes rápidos para sífilis, HIV/aids e a orientação para
o planejamento reprodutivo.
Na orientação pré-teste, acolher a adolescente para que se sinta segura em
conversar sobre seus sentimentos e seja informada de que o atendimento é sigiloso
e confidencial, para que ela possa retornar à unidade independente do resultado.
É preciso verificar sempre a data da última menstruação e da última relação
sexual para avaliar a possibilidade do uso da anticoncepção de emergência e
informar que o teste rápido pode dar falso negativo na fase inicial da gravidez. No
caso de dúvida, usar o preservativo masculino ou feminino ou não ter relações
sexuais até a realização de novo exame.
No caso de TRG negativo, é importante enfatizar a necessidade de
acompanhamento de contracepção e prevenção da gravidez não planejada.
O Ministério da Saúde (2017), faz as seguintes orientações, no caso de TRG
positivo:

No caso de TRG positivo e a adolescente deseja a gravidez:


• O teste é de triagem, porém, a partir dele, a adolescente já pode ser
vinculada ao pré- natal. O beta HCG, quando indicado, poderá ser realizado
posteriormente, com os demais exames.
• Iniciar a rotina de pré-natal e reforçar o convite para participação da
parceria sexual durante as consultas, favorecendo o engajamento da
parceria em ações educativas e preventivas.

No caso de TRG positivo e a adolescente não deseja a gravidez:


• Orientar sobre os direitos acerca da gestação: atenção ao pré-natal,
assistência ao parto e ao nascimento, rede de proteção social com
condições diferenciadas para continuidade dos estudos, licença-
maternidade, programas específicos para famílias de baixa renda, utilização
de creche e encaminhar para orientações com assistente social da rede de
saúde local, se for o caso.

101
• Ofertar mediação de conflitos familiares decorrentes da gravidez não
planejada, em que o fator familiar é determinante para a não aceitação da
gravidez.
• Orientar sobre possibilidades de adoção, caso opte(m) pela continuidade
da gestação e não haja desejo ou condições de permanecer com a criança.
• Informar que a legislação brasileira permite a interrupção da gestação
para os casos previstos em lei (violência sexual, risco de morte para a
mulher, anencefalia fetal).
• Informar acerca do risco de práticas caseiras para a interrupção da
gravidez.
• Orientar sinais e sintomas de alerta, caso haja interrupção da gravidez de
modo inseguro: febre, calafrios, hemorragia, dor abdominal, dor no baixo
ventre, secreção vaginal com odor fétido, dor ao urinar. Ressaltar a
importância de procurar o hospital mais próximo caso apresente quaisquer
desses sintomas.

9.6 Acompanhamento pré-natal da adolescente

A equipe de saúde deve atuar garantindo atendimento integral, físico,


emocional e social, usando recursos que aumentem a capacidade dos envolvidos na
situação para buscarem as melhores alternativas de lidar com a adolescente.
É preciso identificar no território todas as adolescentes que estão grávidas e
em especial as que estão em situação de maior vulnerabilidade (vivendo na rua, em
conflito com a lei, usuárias de álcool e outras drogas, indígenas, quilombolas,
ribeirinhas, de famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família) para que sejam
acolhidas e recebam cuidados diferenciados, de acordo com as suas necessidades
e demandas de saúde.
Na avaliação do risco gestacional em todas as adolescentes grávidas,
realizar o diagnóstico precoce e de intercorrências incluindo as variáveis
psicossociais para a prevenção de situações de risco.
Entre os aspectos importantes a serem abordados pela equipe de saúde
durante o acompanhamento pré-natal e nas ações educativas, principalmente para
adolescentes de 10 a 16 anos, estão:
 A importância do pré-natal para a saúde dela e de seu filho.
 O desenvolvimento da gestação e as modificações corporais e
emocionais na gravidez.
 Orientar sobre os hábitos saudáveis de nutrição e cuidados pessoais,
e sobre os medos e fantasias referentes à gestação e ao parto.
 Esclarecer sobre a atividade sexual, incluindo a prevenção de
IST/HIV/aids.

102
 Informar sobre sintomas comuns da gravidez e orientações para as
queixas mais frequentes.
 Orientar sobre sinais de alerta e o que fazer nessas situações
(sangramento vaginal, dor de cabeça, transtornos visuais, dor
abdominal, febre, perdas vaginais, dificuldade respiratória e cansaço).
 Preparar para o parto, informando sobre os sinais e sintomas do início
das contrações e do trabalho de parto.
 Orientar e incentivar para o parto normal, resgatando-se, como
processos fisiológicos, a gestação, o parto, o puerpério e o aleitamento
materno.
 Esclarecer à adolescente gestante em que situações é necessário o
parto cesariano, uma vez que a sua condição de adolescente, por si
só, não justifica a indicação desse procedimento.
 Orientar a adolescente gestante sobre a importância do contato pele a
pele logo após o nascimento, para o recém-nascido e para a mãe,
principalmente na criação do vínculo entre ela e o bebê.
 Informar sobre a importância da consulta puerperal e do recém-nascido
na primeira semana após o parto.
 Orientar sobre os cuidados com o recém-nascido e sobre a importância
do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança.
 Facilitar o futuro exercício da paternidade e da maternidade
adolescente, acolhendo as adolescentes grávidas e seus parceiros
adolescentes, e preparando-os para esse exercício. Envolver também
os seus familiares.

Pela possibilidade de vulnerabilidade em adolescentes grávidas na faixa


etária de 10 a 14 anos, deve-se promover assistência qualificada, com abordagem
diferenciada, considerando a necessidade de um maior número de consultas e as
questões éticas e legais. Nesta faixa etária, as principais comorbidades a serem
rastreadas são as doenças hipertensivas específicas da gravidez, da anemia, de
infecções e da prematuridade (MINSITÉRIO DA SAÚDE, 2017, apud BOUZAS;
CADER; LEÃO, 2014).

103
É fundamental monitorar no pré-natal os fatores de risco, mas que não
configuram uma gravidez de alto risco, tais como:
 Idade menor do que 15 anos.
 Altura menor do que 1,45 m.
 Peso menor do que 45 Kg ou maior que 75 Kg.
 Dependência de drogas lícitas ou ilícitas.
 Baixa escolaridade (menor do que cinco anos de estudo regular).
 Não aceitação da gravidez.
 Situação familiar ou conjugal insegura (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017
apud BRASIL, 2012b).

104
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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políticas e perspectivas, Rev. Bras. Enferm., v. 67, p. 1000-7, nov-dez 2014.

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Diretoria de Pesquisas -


DP/Coordenação de População e Indicadores Sociais - COPIS. PROJEÇÃO DA
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Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente),
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REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.


Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.
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REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016.


Dispõe sobre as políticas públicas para a primeira infância e altera a Lei nº 8.069, de
13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Decreto-Lei nº 3.689,
de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), a Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, a Lei nº
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106
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2015. Institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC)
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REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Portaria nº 1.533, de 18 de agosto de


2016. Redefine o Calendário Nacional de Vacinação, o Calendário Nacional de
Vacinação dos Povos Indígenas e as Campanhas Nacionais de Vacinação, no
âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em todo o território nacional.
Diário Oficial da União, n. 160, p. 55, Brasília, DF. 19 ago. 2016.

SILVA, Leila Rangel da; CHRISTOFFEL, Marialda Moreira; SOUZA, Kleyde Ventura
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HPV; veja quem pode ser imunizado. Portal PEBMED, 3 jan. 2017.

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BIBLIOGRAFIA

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AIDPI – Atenção Integral às Doenças Prevalentes na Infância.

PNAISC – Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança.

108

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