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Disciplinas

Para a Vida

D
Cristã
onald S. W hitney
D is c ip lin a s
E s p iritu a is
P ara a
Vida
C R I S T Ã

Donald S. Whitney

EDITORA BATISTA REGULAR


* “ C O N STR U IN D O V ID A S NA PA LA VRA D E D E U S”

Rua Kansas, 770 - Brooklin - CEP 04558-002 - São Paulo - SP


DISCIPLIN AS ESPIRITU A IS
PARA A VIDA CRISTÃ
© 1991 por Donald S. Whitney

Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, arm azenada em sistem a de
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eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro - exceto para citações
resumidas com o propósito de rever ou comentar, sem prévia autorização dos Editores.

Todas as citações bíblicas, são extraídas da Bíblia Sagrada, traduzida por João Ferreira
de Almeida, versão Revista e Atualizada no Brasil, 2a edição, São Paulo: Sociedade
Bíblica do Brasil, 1993; e Nova Versão Internacional (NVI) (traduzida pela Comissão
de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional), São Paulo, Editora Vida, 2000.
Utilizada com permissão. Todos os direitos reservados.

Título original: Spiritual Disciplines For The Christian Life


Tradução: Talita Rose Baulé
Supervisão de produção: Edimilson Lima dos Santos
Diagrantação/Capa: Edvaldo Matos

Primeira edição em português: 2009

ISBN 978-85-7414-024-7

Publicado no Brasil com a devida autorização


e com todos os direitos reservados pela:
EDITORA BATISTA REGULAR DO BRASIL
Rua Kansas, 770 - Brooklin - CEP 04558-002 - São Paulo - SP
Telefone: (011) 5561-3239 - Site: www.editorabatistaregular.com.br
C o n teú d o

PREFÁCIO 5
Capítulo Um
AS DISCIPLINAS ESPIRITUAIS...
COM O OBJETIVO DE ALCANÇAR A PIEDADE
Capítulo Dois
ABSORÇÃO BÍBLICA (PARTE 1) 27
Capítulo Três
ABSORÇÃO BÍBLICA (PARTE 2) 46
Capítulo Quatro
ORAÇÃO 80
Capítulo Cinco
ADORAÇÃO 105
Capítulo Seis
EVANGELISMO 124
Capítulo Sete
SERVIÇO 148
Capítulo Oito
MORDOMIA 169
Capítulo Nove
JEJUM 209
Capítulo Dez
SILÊNCIO E SOLIDÃO 240
Capítulo Onze
DIÁRIO (ANOTAÇÕES) 272
Capítulo Doze
APRENDIZADO 296
Capítulo Treze
PERSEVERANÇA NAS DISCIPLINAS 313
Para a glória de meu Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
A semelhança com Ele é o objetivo das Disciplinas Espirituais

Para Don e Dollie Whitney,


que primeiro me ensinaram sobre Cristo e sobre muitas
Disciplinas Espirituais

e para Caffy,
que sempre me encoraja nas Disciplinas Espirituais
P r efá cio
❖ ❖ ❖

Pediram-me para escrever um prefácio para este livro antes


mesmo que eu o visse. Agora, porém, que já o li, constato que
teria me voluntariado para fazê-lo de qualquer maneira, para
poder oficialmente conclamar todos os cristãos a lerem o que
Don Whitney escreveu; na verdade, ao ler esta obra três vezes,
observando um intervalo de um mês (certamente não mais e,
idealmente, creio que não mais) entre cada leitura. Isto não só
fará com que o livro seja absorvido, como também dará a você
uma idéia realista de sua seriedade, ou da falta dela, como
discípulo de Jesus. A primeira leitura mostrará várias coisas
específicas que você deve começar a fazer. Na segunda e na
terceira leituras (para cada uma delas, deve-se escolher uma
data para concluir a leitura anterior), você irá rever o que tem
feito e como tem se saído. Isto será muito bom para você, mesmo
que a descoberta seja um pouco chocante no início.
Desde que Richard Foster nos despertou com a obra
"Celebration of Discipline" (1978), discutir as várias disciplinas
espirituais tem se tornado o principal elemento das discussões
cristãs conservadoras na América do Norte, o que é de fato
muito bom. A doutrina das Disciplinas (do latim disciplinae, que
significa cursos de aprendizado e treinamento) é realmente uma
reafirmação e uma extensão do ensino protestante clássico sobre
os meios da graça (a Palavra de Deus, oração, comunhão e Ceia
do Senhor). Com pés espirituais abençoadamente cimentados
na sabedoria bíblica, conforme muito bem exposto pelos mestres
evangélicos puritanos e mais antigos, ele traça o caminho da
disciplina com um toque certeiro. Os fundamentos por ele
6 Prefácio

lançados são evangélicos, e não legalistas. Em outras palavras,


ele nos chama a buscar a Piedade por meio da prática das
Disciplinas em gratidão pela graça que nos salvou, não como
esforço de autojustificação ou de autopromoção. O que ele
edifica sobre tais fundamentos é tão benéfico quanto sólido.
Ele, na verdade, nos mostra o caminho da vida."
Assim, se como cristão você deseja ser realmente verdadeiro
com o seu Deus, ir além do estágio de ser evasivo consigo
mesmo e com Ele, este livro fornece um auxílio prático. Um
século e meio atrás, o professor escocês "Rabbi" Duncan iniciou
os seus alunos na leitura de John Owen, o Puritano, sobre o
pecado que habita em nós, com a advertência: "Mas,
cavalheiros, estejam preparados para a faca". Ao conduzir você,
leitor, a Don Whitney, eu diria: "Agora, amigo, esteja preparado
para o e x ercíc io E achará saúde para a sua alma.

-J.I. PACKER
A g r a d ecim en to s

A o vencer os 100 metros rasos nas Olimpíadas de Moscou,


em 1980, o escocês Allan Wells disse: "Dedico esta vitória a
Eric Liddel". Ao fazê-lo, ele reconheceu a inspiração e a
influência que Liddel havia sido para ele e para todos os
escoceses desde as Olimpíadas de Paris, em 1924. Foi quando
Liddel abriu mão de uma grande chance de vencer a prestigiosa
competição dos 100 metros porque o dia escolhido para a
corrida conflitava com as suas convicções cristãs, mas acabou
por bater um recorde em outro dia, ao ganhar a medalha de
ouro nos 400 metros.
Assim como Wells reconheceu a influência de alguém morto
havia quase quarenta anos, desejo reconhecer a influência dos
homens a quem nunca conheci, senão por meio de seus escritos
e biografias. Foram homens cujos pensamentos e vidas têm
mudado profundamente a minha forma de viver.
Agradeço aos Puritanos. Nos dias de hoje, eles são
freqüentemente difamados tanto por cristãos quanto por não-
cristãos, que muitas vezes pouco ou nada sabem sobre eles. As
percepções estereotipadas que temos deles revelam falta de
consciência de suas profundas contribuições à vida espiritual
e piedosa. Eles são gigantes espirituais em cujos ombros me
apóio.
Agradeço a Jonathan Edwards, C. H. Spurgeon e Martyn
Lloyd-Jones. Minha vida e ministério são imensuravelmente
melhores por causa dos deles.
Também quero demonstrar gratidão àqueles que têm, no
presente, enriquecido minha vida de maneiras que
8 Agradecimentos

influenciaram este livro diretamente.


Agradeço a Emie Reisinger por sua visão sobre reforma e
reavivamento, por sua disposição em ajudar um jovem pastor
a quem não conhece, e pelos livros.
Agradeço a John Armstrong, Jim Elliff e Tom Nettles, pela
amizade e por me desafiarem a pensar.
Agradeço a J. I. Packer por escrever sobre teologia de forma
tão clara e por comunicar tão cativantemente o fruto de tantos
anos de estudo sobre os Puritanos.
Agradeço a Jim Rahtjen por seu entusiasmo genuíno e
altruísta em relação ao livro e pela grande alegria que é tê-lo
como companheiro de trabalho.
Agradeço a Beth Mullins pela ajuda na inserção de dados e
pela assistência em relação a tantos detalhes.
Agradeço a David Larsen pelo seminário doutoral que
primeiro me impeliu a organizar grande parte deste material.
Agradeço a Roger e Jean Fleming pela amizade e
encorajamento sem os quais este livro provavelmente não teria
sido escrito e publicado.
Agradeço a Traci Mullins por ser um editor tão positivo,
do começo ao fim.
Agradeço à Igreja Batista de Glenfield por orar por mim e
por me apoiar com amor extra durante todo o processo de
escrita deste livro.
Agradeço a Caffy, que resistiu pacientemente a tantas coisas
para que este livro pudesse ser escrito.
S obreo o A uto r

Desde 1995, Don Whitney tem sido professor assistente de


formação espiritual no Midwestern Baptist Theological
Seminary em Kansas City, Missouri. Esta é uma posição pio­
neira em um dos seis Seminários Batistas do Sul.
Don cresceu em Osceola, Arkansas, onde veio a crer em
Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Foi atuante nos esportes
durante todo ensino médio e faculdade e trabalhou na estação
de rádio que seu pai gerenciava. Após formar-se na Universi­
dade do Estado do Arkansas, Don planejou terminar a facul­
dade de direito e fazer carreira em locução esportiva. Na Uni­
versidade de Arkansas, durante o curso de Direito, ele sentiu o
chamado de Deus para o ministério cristão vocacional. Então,
matriculou-se no Seminário Teológico Batista em Fort Worth,
Texas, obtendo o grau de Mestre em Divindade, em 1979. Em
1987, Don concluiu o curso de Doutorado em Ministério na
Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, Illinois. An­
tes de ir para a Midwestern, Don foi pastor em na Igreja Batista
de Glenfield, em Glen Ellyn, Illinois (subúrbio de Chicago) por
quase quinze anos. Ele é autor de Spiritual Disciplines for the
Christian Life (Disciplinas Espirituais para a Vida Cristã) e do
guia de discussão que acompanha a obra (NavPress, 1991), How
Can I Be Sure I'm a Christian (Como Ter Certeza de que Sou Cris­
tão) (NavPress, 1994) e Spiritual Disciplines Within the Church
(Disciplinas Espirituais dentro da Igreja) (Moody Press, 1996).
A esposa de Don, Caffy, ministra de seu lar em Kansas City
como artista e ilustradora freelance. O casal Whitney tem uma
filha: Laurelen Christiana.
A V id a N unca
F o i T ranq uila

Disciplina é uma daquelas coisas que parecem maravilho­


sas no papel. A idéia de progredir, especialmente na área de
seu relacionamento com Deus, é altamente motivadora. O pro­
blema é que aplicar a disciplina é difícil. Envolve esforço. A
disciplina nunca parece se encaixar naturalmente numa agen­
da.
Muitas vezes nos pegamos pensando: "Quando minha vida
ficar um pouco mais tranqüila, eu vou..." Mas, a esta altura, já
era para termos aprendido que a vida nunca fica tranqüila.
Aquilo que desejamos realizar, devemos fazê-lo com a vida
agitada. Da mesma forma, se pretendemos disciplinar a nós
mesmos com vistas à piedade, temos de fazê-lo com a vida as­
sim como ela se encontra no momento.
Quer você já tenha tentado, sem conseguir, aplicar as Dis­
ciplinas, quer esteja apenas em busca de um curso de reciclagem
que traga nova vitalidade a seu relacionamento com Deus, Dis­
ciplinas Espirituais para a Vida Cristã fornecerá a inspiração e a
orientação de que você irá precisar, bem como o meio e o dese­
jo de prosseguir com êxito.
Após tomar claro o propósito por trás das Disciplinas Es­
pirituais: crescer em piedade, Whitney simplifica o objetivo,
dividindo-o em partes. "Disciplina sem direção é servidão",
diz ele. Mas, ao começar a experimentar os frutos da discipli­
na, você se descobrirá apaixonadamente vivo. E ávido por con­
tinuar.
Exercite-se na piedade.
I Timtóteo 4:7
CAPÍTULO UM

A s D isciplin a s E spir itu a is ...


C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e
♦♦♦

Nossa era é uma era de indisciplina. As disciplinas de outrora


entraram em colapso... Sobretudo, a disciplina da graça divina,
tratada como legalismo ou desconhecida por inteiro de uma geração
que ignora grandemente as Escrituras. Precisamos da austera força
do caráter cristão que só pode advir da disciplina.
V. Raymond Edman
As Disciplinas da Vida

D isciplina sem direção é servidão.


Imagine Kevin, um menino de seis anos matriculado pelos
pais numa escola de música. Todas as tardes, depois da escola,
ele se senta na sala de estar e dedilha sem vontade 1"Home on
the range" no violão, enquanto observa seus colegas jogando
baseball no parque, do outro lado da rua. Isso é disciplina sem
direção. É servidão.
Agora imagine que, numa tarde, ao estudar violão, Kevin
receba a visita de um anjo. Na visão, ele é levado ao Camegie
Hall, onde aparece como um grande concertista. Normalmente
enfadado com a música clássica, Kevin fica maravilhado com o
que vê e ouve. Os dedos dos músicos dançam animadamente
sobre as cordas, com fluidez e graça. Kevin pensa no quanto as
suas próprias mãos parecem bobas e desajeitadas quando
tocam, vacilando e tropeçando nas cordas. O concertista
/Is Disciplinas Espirituais 13

combina notas perfeitas, sublimes, em um aroma musical que


flui de seu violão. Kevin se lembra do som áspero, inexpressivo
e irritante que, tropegamente, ele produz.
Mas Kevin fica encantado. Sua cabeça pende ligeiramente
para o lado enquanto ouve e ele absorve tudo com deleite.
Jamais imaginara que alguém pudesse tocar violão daquela
forma.
"O que você acha, Kevin?" pergunta o anjo.
A resposta é um brando e lento "U-A-U!", típico de uma
criança de seis anos.
A visão se dissipa e o anjo se põe novamente diante de Kevin
em sua sala de estar. "Kevin", diz o anjo, "o músico maravilhoso
que você viu é você daqui a alguns anos". Então, apontando
para o violão, o anjo declara: "Mas você tem que estudar!"
De repente, o anjo desaparece e Kevin fica sozinho com
seu violão. Você acha que a atitude dele em relação à prática
do instrumento será diferente agora? Contanto que se lembre
daquilo que ele irá se tomar, a disciplina de Kevin terá direção,
um objetivo que o conduza ao futuro. Sim, isso envolverá
esforço, mas certamente não será servidão.
Ao falarem sobre disciplina na vida cristã, muitos crentes
se sentem como Kevin em relação à prática do violão: é
disciplina sem direção. A oração pode se tornar servidão. O
valor prático da meditação nas Escrituras parece incerto. O
verdadeiro propósito de uma Disciplina como o jejum muitas
vezes não é claro.
Primeiro, devemos entender o que havemos de ser. Sobre
os eleitos de Deus, Romanos 8:29 diz: "Pois aqueles que de antemão
conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de
seu Filho". O plano eterno de Deus garante que, ao final, todo
cristão será conformado à semelhança com Cristo. Seremos
14 /4s Disciplinas Espirituais

transformados "quando ele se manifestar" para que "[sejamos]


semelhantes a ele" (1 João 3:2). Não se trata de uma visão; trata-
se de você, cristão, daqui a alguns anos.
Assim, por que tanta discussão sobre a disciplina? Se Deus
predestinou nossa conformidade com Cristo, onde a disciplina
se encaixa?
Embora Deus vá nos tomar semelhantes a Cristo quando
Jesus voltar, até lá, Ele pretende que nós desenvolvamos a busca
de tal semelhança. Não devemos simplesmente esperar pela
santidade, devemos buscá-la. "Esforcem-se para viver em paz com
todos e para serem santos", ordena-nos Hebreus 12:14, pois "sem
santidade ninguém verá o Senhor".
Isso nos leva a fazer a pergunta que deveria ser feita por
todo cristão: "Como buscar a santidade? Como ser semelhante
a Jesus Cristo, o Filho de Deus?"
Encontramos uma resposta clara em 1 Timóteo 4:7:
"Exercite-se na piedade".
O versículo é o tema de todo este livro. Neste capítulo, o
autor tenta extrair o seu significado e o restante do livro é um
esforço para aplicá-lo de forma prática. O autor denominará
"Disciplinas Espirituais" as maneiras escriturísticas de os
cristãos disciplinarem a si mesmos em obediência ao versículo
acima. O autor sustenta que o único caminho para a maturidade
cristã e a Piedade (termo bíblico sinônimo de semelhança com
Cristo e santidade) passa pela prática das Disciplinas
Espirituais. Enfatiza que a Piedade é o objetivo das Disciplinas,
e quando nos lembramos disso, as Disciplinas Espirituais se
tomam um deleite, e não servidão.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 15

DISCIPLINAS ESPIRITUAIS:
O CAMINHO PARA A PIEDADE

Disciplinas Espirituais são as disciplinas pessoais e


corporativas que promovem crescimento espiritual. São hábitos
de devoção e cristianismo experimental que têm sido praticados
pelo povo de Deus desde os tempos bíblicos.
Este livro examina as seguintes Disciplinas Espirituais:
absorção bíblica, oração, adoração, evangelismo, serviço,
mordomia, jejum, silêncio e solidão, anotações (diário) e
aprendizado. Esta não é, de forma alguma, contudo, uma lista
exaustiva das Disciplinas da vida cristã. Uma pesquisa feita
em outra literatura sobre este assunto revelaria que confissão,
responsabilidade (prestação de contas), simplicidade,
submissão, direção espiritual, celebração, confirmação,
sacrifício, "observação" e outras também poderiam ser
qualificadas como Disciplinas Espirituais.
Qualquer que seja a Disciplina, sua característica mais
importante será o propósito. Assim como há pouco valor em
praticar escalas no violão ou no piano separadamente do
propósito de tocar músicas, há pouco valor na prática das
Disciplinas Espirituais aparte do único propósito que as une
(Colossenses 2:20-23, 1 Timóteo 4:8). O propósito é a piedade.
Portanto, a ordem de 1 Timóteo 4:7 é que nos exercitemos
(disciplinemos) na "piedade", ou com o propósito de alcançar a
piedade.
As Disciplinas Espirituais são o meio provido por Deus para
usarmos em nossa busca, plena do Espírito, da Piedade.
Povo piedoso é povo disciplinado. Sempre foi assim.
Recorde-se de alguns heróis da história da igreja, como
Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, John Bunyan,
16 /4s Disciplinas Espirituais

Susanna Wesley, George Whitefield, Lady Huntingdon,


Jonathan e Sarah Edwards, Charles Spurgeon e George Muller
- todos eles eram pessoas disciplinadas. Em minha própria
experiência cristã pastoral e pessoal, posso dizer que nunca
conheci alguém que tenha chegado à maturidade espiritual sem
disciplina. A piedade vem pela disciplina.
Na verdade, Deus usa três catalisadores básicos para nos
mudar e nos conformar à semelhança de Cristo, mas somente
um pode ser amplamente controlado por nós. Um catalisador
que o Senhor usa para nos mudar são as pessoas. "Assim como
o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro" (Provérbios
27:17). As vezes, Deus usa nossos amigos para tornar-nos
"afiados" num viver mais semelhante a Cristo, e, às vezes, Ele
usa nossos inimigos para aparar nossas ásperas e ímpias arestas.
Pais, filhos, cônjuges, colegas de trabalho, clientes, professores,
vizinhos, pastores - Deus nos molda por meio deles.
Outro agente de mudança usado por Deus em nossas vidas
são as circunstâncias. O texto clássico referente a isso é Romanos
8:28: "Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles
que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito".
Pressões financeiras, condições físicas, e até o tempo são usados
nas mãos da Divina Providência para estimular os Seus eleitos
à santidade.
Depois vem o catalisador das Disciplinas Espirituais. Este
catalisador difere dos dois primeiros porque, ao usar as
Disciplinas, Deus opera de dentro para fora. Quando Ele nos
muda por meio das pessoas e das circunstâncias, o processo se
dá de fora para dentro. As Disciplinas Espirituais também
diferem dos outros dois métodos de mudança porque Deus nos
concede uma medida de escolha a respeito do envolvimento
com elas. Nós muitas vezes temos pouca escolha em relação às
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 17

pessoas e circunstâncias que Deus traz a nossas vidas, mas


podemos decidir, por exemplo, se iremos ler a Bíblia ou jejuar
hoje.
Assim, por um lado, reconhecemos que mesmo a
autodisciplina mais ferrenha não nos fará mais santos, pois o
crescimento em santidade é dom de Deus (João 17:17; 1
Tessalonicenses 5:23; Hebreus 2:11). Por outro lado, podemos
fazer algo para favorecer o processo. Deus nos deu as
Disciplinas Espirituais como meio de receber a Suã» graça e
crescer em Piedade. Por elas, colocamo-nos diante de Deus para
que Ele opere em nós.
O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego. A
palavra traduzida por "disciplina" na versão New American
Standard da Bíblia em inglês é a palavra grega gumnasia, da
qual derivam as palavras ginásio e ginástica.
Pense nas Disciplinas Espirituais como exercícios
espirituais. Ir a seu lugar favorito para orar ou tomar notas,
por exemplo, é como ir à academia e se exercitar em um
aparelho com pesos. Assim como as disciplinas físicas desse
tipo promovem a força, as Disciplinas Espirituais também
promovem a Piedade.
Há duas histórias bíblicas que ilustram outra maneira de
pensar a respeito do papel das Disciplinas Espirituais. Lucas
18:35-43 nos conta a história de um mendigo cego chamado
Bartimeu e seu encontro com Jesus. Sentado à beira da estrada
próxima a Jericó, Bartimeu percebeu aproximar-se uma
multidão de número e agitação incomuns. Quando perguntou
o que estava acontecendo, disseram-lhe que Jesus de Nazaré
passava por ali. Até mesmo um homem socialmente
marginalizado como Bartimeu tinha ouvido as incríveis
histórias de Jesus vindas de todo o Israel durante os últimos
18 As Disciplinas Espirituais

dois ou três anos. Imediatamente, ele começou a gritar: "Jesus,


filho de Davi, tem misericórdia de mim!" Aqueles que iam à
frente da procissão, possivelmente homens de elevada posição
naquele local, sentiram vergonha do comportamento
perturbador do mendigo e, duramente, mandaram que se
calasse. Mas ele gritou ainda mais alto: "Filho de Davi, tem
misericórdia de mim!" Para surpresa de todos, Jesus parou e
pediu que lhe trouxessem aquele que O chamava. Em resposta
à fé daquele pobre homem, Jesus, milagrosamente, curou
Bartimeu de sua cegueira.
A segunda história bíblica encontra-se no parágrafo
seguinte das Escrituras, Lucas 19:1-10. Trata-se do conhecido
relato da conversão de Zaqueu, o cobrador de impostos. Talvez
o fato tenha ocorrido somente alguns minutos após a cura de
Bartimeu. Por ser de estatura muito baixa, Zaqueu não
conseguiria ver Jesus em meio à multidão. Então, ele correu
adiante e subiu em uma figueira brava para poder ver Jesus
quando Ele passasse por ali. Chegando ao local, Jesus olhou
para cima, chamou Zaqueu pelo nome e disse a ele que descesse
da árvore. Os dois seguiram para a casa do cobrador de
impostos, onde este creu em Cristo para a salvação e decidiu
doar metade de seus bens aos pobres e devolver com juros todo
o dinheiro de impostos que, indevidamente, havia tomado para
si.
Pense nas Disciplinas Espirituais como maneiras de
podermos nos colocar no caminho da graça de Deus e buscá-
Lo, assim como Bartimeu e Zaqueu se colocaram no caminho
de Jesus e O buscaram. Da mesma forma que eles, nós O
encontraremos disposto a mostrar misericórdia por nós e a ter
comunhão conosco. Com o passar do tempo, nós seremos
transformados por Ele de um nível a outro de semelhança com
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 19

Cristo (2 Coríntios 3:18).


As Disciplinas Espirituais também são, portanto, como
canais da graça transformadora de Deus. Quando nos firmamos
nelas para buscar comunhão com Cristo, a Sua graça flui até
nós e somos transformados. É por isso que as Disciplinas devem
se tomar prioridade para nós se pretendemos ser Piedosos.
Charles Spurgeon, o grande pregador britânico batista do
século XIX, enfatizou a importância das Disciplinas da seguinte
maneira: "Devo cuidar, acima de tudo, de cultivar a comunhão com
Cristo, pois embora ela não possa jamais ser a base de minha paz,
observe, ainda assim, ela será o canal pelo qual a paz irá fluir".2 As
Disciplinas Espirituais são os canais da paz e de tudo aquilo
que Cristo nos concede, que nos leva à santidade.
Tom Landry, treinador do time de futebol americano Dallas
Cowboys por quase três décadas, disse: "A tarefa de um treinador
de futebol é fazer com que os jogadores façam aquilo que não desejam
fazer para alcançar o que sempre quiseram ser".3 Da mesma forma,
os cristãos são chamados a fazer algo que naturalmente não
fariam: buscar as Disciplinas Espirituais, a fim de se tomarem
o que sempre desejaram ser, isto é, semelhantes a Jesus Cristo.
"Exercite-se", dizem as Escrituras, "na piedade".

AS DISCIPLINAS ESPIRITUAIS - O SENHOR


ESPERA QUE AS PRATIQUEMOS

A linguagem original das palavras "exercite-se na piedade"


torna evidente que este é um mandamento de Deus, e não
simplesmente uma sugestão. A santidade não é uma opção para
aqueles que se dizem filhos do Santo (1 Pedro 1:15-16), assim
como o meio para se atingir a santidade, ou as Disciplinas
Espirituais, não são uma opção.
20 As Disciplinas Espirituais

O conselho inspirado de Salomão em Provérbios 23:12 é:


"[Aplique] Dedique à disciplina o seu coração, e os seus ouvidos às
palavras que dão conhecimento" (NVI). (Embora a disciplina em
Provérbios normalmente se refira à correção do Senhor,
versículos como esse se aplicam às Disciplinas Espirituais
quando percebemos que o Senhor nos disciplina para fazer com
que disciplinemos a nós mesmos). A idéia relacionada à palavra
aplicar é a de aplicar um decalque ou adesivo ao pára-brisa ou
ao pára-choque de um carro. Em outras palavras, o Senhor
espera que nós adiramos permanentemente às práticas
devocionais que promovem a Piedade.
A expectativa da espiritualidade disciplinada está implícita
no convite de Jesus em Mateus 11:29: "Tomai sobre vós o meu
jugo e aprendei de mim". O mesmo é verdadeiro em seu convite
ao discipulado: "Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si
mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me" (Lucas 9:23).
Esses versículos nos dizem que ser discípulo de Jesus significa
nada menos do que aprender Dele e segui-Lo. Aprender e seguir
envolve disciplina, pois pessoas que só aprendem
acidentalmente e seguem incidentalmente não são verdadeiros
discípulos. Gálatas 5:22-23, diz que a auto-disciplina espiritual
(ou "auto-controle") é uma das marcas mais evidentes do que
é controlado pelo Espírito, confirma que a disciplina está no
coração do discipulado.
O Senhor Jesus não só espera que pratiquemos as
Disciplinas, como foi exemplo delas para nós. Ele aplicou Seu
coração à disciplina e disciplinou-Se com o propósito de
alcançar a Piedade. Portanto, se pretendemos ser como Cristo,
devemos viver como Ele viveu.
Esta é a mensagem do livro O Espírito das Disciplinas, de
Dallas Willard:
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 21

Minha principal alegação é que nós podemos ser como Cristo ao


fazermos um a coisa: seguindo-O de acordo com o estilo geral de
vida que ele escolheu para si mesmo. Se temos fé em Cristo,
devemos crer que ele sabia como viver. Podemos, por fé e graça,
tornar-mos como Cristo pela prática dos tipos de atividades em
que ele se envolvia, organizando nossas vidas inteiram ente
conform e as atividades que ele m esm o p raticava, a fim de
p erm an ecer con stan tem en te aco stu m ad os / n atu ral na / à
comunhão de seu P a i.4

Assim, muitos cristãos professos são tão indisciplinados


espiritualmente, que parecem ter pouco fruto e poder em suas
vidas. Tenho visto homens e mulheres que se disciplinam com
o propósito de se destacarem em suas profissões, mas
disciplinarem-se muito pouco com o propósito de alcançar a
piedade. Tenho visto cristãos fiéis à igreja de Deus, que
freqüentemente demonstram entusiasmo genuíno pelas coisas
de Deus e que amam verdadeiramente a Palavra de Deus,
banalizarem a sua eficácia para o Reino de Deus por falta de
disciplina. Espiritualmente, eles são enormes em comprimento,
mas rasos em profundidade. Não há canais profundos ou muito
habituais de disciplina de comunhão entre eles e Deus. Eles se
envolvem em tudo, mas não se disciplinam em nada.
Pense nas pessoas que se esforçam muito para aprender a
tocar um instrumento, sabendo que adquirir habilidades leva
anos, que praticam muito para se dar bem no golfe ou para
melhorar seu desempenho nos esportes, sabendo que tornar-
se proficiente leva anos, que se disciplinam por toda a carreira
porque sabem que o sucesso exige sacrifício. As mesmas pessoas
desistem rapidamente quando descobrem que praticar as
Disciplinas Espirituais não é fácil, como se tomar-se semelhante
a Jesus fosse algo que não deveria exigir tanto esforço.
22 /4s Disciplinas Espirituais

Os indisciplinados são como o autor de peças teatrais


George Kaufman, que estava assistindo pacientemente a uma
apresentação de um promotor de vendas de uma mina de ouro.
O vendedor estava elogiando a produtividade da mina com
esperanças de persuadir Kaufman a comprar ações dela. "Ora,
a mina é tão rica que é dá para pegar pedaços de ouro no chão".
"Você quer dizer", perguntou Kaufman, "que eu vou ter
que me abaixar?" 5
O ouro da Piedade não é encontrado na superfície do
cristianismo. É necessário escavá-lo nas profundezas, com as
ferramentas das Disciplinas. Mas para aqueles que perseveram,
os tesouros são mais do que compensadores.

MAIS APLICAÇÃO

Negligenciar as Disciplinas Espirituais é perigoso. Uma


famosa seleção dos escritos de William Barclay ilustra
poderosamente o perigo. Tecendo comentários sobre a
diferença entre a disciplina e a indisciplina, ele escreveu:

Nada jamais foi alcançado sem disciplina; e muitos atletas e


homens têm sido arruinados por abandonar a disciplina e relaxar.
Coleridge é a suprema tragédia da indisciplina. Nunca uma mente
tão grande produziu tão pouco. Ele saiu da Universidade de
Cambridge para ingressar no exército; mas deixou o exército
porque, apesar de toda a sua erudição, não conseguia tratar de
cavalos; ele voltou a Oxford e saiu sem se graduar. Ele lançou um
jornal chamado The Watchman (O Observador), que sobreviveu a
dez números e depois foi extinto. Sobre ele disseram: "Ele se
p erd eu em visões de trab alh o s a e x e cu ta r, que sem p re
permaneciam por ser realizados. Coleridge tinha todos os dons
poéticos, exceto um: o dom do esforço constante e concentrado".
Em sua cabeça e em sua mente, ele tinha todos os tipos de livros,
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 23

com o ele m esm o dizia, "co m p le ta m e n te g u a rd a d o s p ara


transcrição". "Estou prestes a", disse ele, "enviar aos editores dois
volumes em oitavo". Mas os livros nunca foram compostos fora
da mente de Coleridge, porque ele não se sujeitava à disciplina
de sentar-se para escrevê-los. Ninguém jamais atingiu a eminência
e ninguém que a atingiu conseguiu mantê-la sem disciplina.6

Ao negligenciar as Disciplinas Espirituais, enfrentamos o


perigo de produzir pouco fruto espiritual. Apenas alguns de
nós têm o intelecto e os dons poéticos de Coleridge, mas a todos
os crentes foram dados dons espirituais (1 Coríntios 12:4-7). A
simples presença dos dons espirituais, porém, não garante uma
produção abundante de frutos mais do que os dons mentais de
Coleridge garantiram a produção de poesia. Assim como os
dons naturais, os dons espirituais precisam ser desenvolvidos
pela disciplina para que haja produção de frutos espirituais.
Há liberdade no engajamento nas Disciplinas Espirituais.
A obra Celebration of Discipline (Celebração da Disciplina), de
Richard Foster, foi o livro mais popular sobre Disciplinas
Espirituais na última metade do século XX. A grande
contribuição dessa obra é o lembrete de que as Disciplinas
Espirituais, a que muitos vêem como restritivas e impositivas,
são, na verdade, o caminho para a liberdade espiritual. Ele
chama corretamente as Disciplinas de "Porta da Liberação".
Podemos ilustrar este princípio observando a liberdade que
vem pelo domínio de qualquer disciplina. Quando vemos os
violonistas Christopher Parkening ou Chet Atkins tocando,
temos a impressão de que o instrumento já fazia parte de seus
corpos quando nasceram. Eles têm tamanha intimidade e
liberdade com o violão que fazem parecer fácil tocar. Qualquer
pessoa que já tenha tentado tocar violão percebe que a liberdade
musical desses mestres resulta de décadas de prática
24 As Disciplinas Espirituais

disciplinada. A liberdade por meio da disciplina é vista não


somente em músicos proficientes, mas também em atletas bem
treinados, especialistas em carpintaria, executivos de sucesso,
estudantes com bom preparo e mães que tão bem administram
o lar e a família todos os dias.
Elton Trueblood demonstra o relacionamento entre
disciplina e liberdade ao afirmar:

Não teremos avançado muito emnossas vidas espirituais se ainda


não encontramos o paradoxo básico da liberdade...que somos mais
livres quando estamos sob imposição. Mas nem toda forma de
imposição será suficiente; o que importa é o caráter do que nos é
imposto. Aquele que poderia ser um atleta, mas que não está
disposto a disciplinar o seu corpo com exercícios regulares e
abstinência, não está livre para se destacar no campo ou na pista.
A falta de treino nega rigorosamente a ele a liberdade de correr
com a velocidade e a resistência desejadas. Com vozes em
uníssono, os gigantes da vida devocional aplicam o mesmo
princípio à vida como um todo: Disciplina é o preço da liberdade.7

Enquanto Trueblood está certo em chamar a disciplina "o


preço" da liberdade, Elisabeth Elliot nos lembra que "liberdade
e disciplina passaram a ser consideradas mutuamente exclusivas,
quando na verdade a liberdade não é deforma alguma o oposto, mas a
recompensafinal, da disciplina".8 Ao enfatizarmos que a disciplina
é o preço da liberdade, não nos esqueçamos de que a liberdade
é a recompensa da disciplina.
O que é a liberdade da Piedade? Pense novamente em
nossas ilustrações. Por exemplo, um virtuoso do violão, é "livre"
para tocar um arranjo difícil de Segovia, ao passo que eu não
sou. Por quê? Por causa dos anos de prática disciplinada que
ele teve. Semelhantemente, as pessoas que são "livres" para
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 25

citar as Escrituras decoradas são aquelas que disciplinaram a


si mesmas para memorizar a Palavra de Deus. Nós podemos
experimentar uma medida de liberdade da insensibilidade
espiritual por meio da Disciplina do jejum. Uma liberdade do
egoísmo é encontrada em Disciplinas como adoração, serviço
e evangelismo. A liberdade da Piedade é a liberdade de fazer o
que Deus nos chama para fazer por meio das Escrituras e a
liberdade de expressar as qualidades do caráter de Cristo por
meio de nossa própria personalidade. Este tipo de liberdade é
a "recompensa" ou o resultado da bênção de Deus sobre nosso
engajamento nas Disciplinas Espirituais.
Mas nós temos que nos lembrar que as liberdades totais da
Piedade nutrida pela disciplina não se desenvolvem da noite
para o dia ou durante um seminário de fim de semana. A Bíblia
nos lembra que o autocontrole, tal como aquele expresso por
meio das Disciplinas Espirituais, deve perseverar antes que o
fruto maduro da Piedade amadureça. Observe a seqüência de
desenvolvimento em 2 Pedro 1:6: "ao domínio próprio a
perseverança; à perseverança a piedade". A Piedade é uma
busca permanente.
Há um convite para que todos os cristãos desfrutem as
Disciplinas Espirituais. Todos em quem o Espírito de Deus
habita são convidados a experimentar a alegria do estilo de
vida nas Disciplinas Espirituais.
Lembra-se de Kevin e seu violão? Sua prática diária
assumiria um espírito totalmente novo se ele percebesse aonde
isso o levaria. A disciplina da prática gradualmente se tomaria
o caminho para um dos grandes prazeres de sua vida.
Disciplina sem direção é servidão. Mas as Disciplinas
Espirituais nunca irão significar servidão se nós as praticarmos
com o objetivo da Piedade em mente. Se sua idéia de cristão
26 As Disciplinas Espirituais

disciplinado é a de um ser robotizado, carrancudo, sisudo e


sem alegria, então você não entendeu bem o ponto. Jesus foi o
Homem mais disciplinado que já existiu e, ao mesmo tempo, o
mais alegre e apaixonadamente vivo. Ele é o nosso Exemplo
de disciplina. Sigamo-Lo para obter alegria por meio das
Disciplinas Espirituais.

1 Nota da Tradutora: "Home on the Range" é o hino, em ritmo country, do estado


norte-am ericano do Kansas e também um longa-m etragem de anim ação dos
estúdios Disney.
2 C.H. Spurgeon, "Peace By Believing", em Metropolitan Tabernacle Pulpit
(Londres: Passmore and Alabaster, 1864; reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim
Publications, 1970), vol. 9, página 283.
3 Tom Landry, citação de Ray Stedman em Preaching Today (Carol Stream , IL:
Christianity Today, n.d.), fita número 25.
4 Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas (São Francisco, CA: Harper and Row,
1988), página ix.
5 George Kaufman, citação em The Little, Brown Book of Anecdotes (Boston, M A: Little,
Brown and Company, 1985, página 321.
6 William Barclay, The Gospel of Matthew (O Evangelho de Mateus) (Filadélfia, PA:
Westminster, 1958), vol. 1, página 284.
7 Elton Trueblood, citado em Leadership (Liderança), vol. 10, n° 3, verão de 1989,
página 60.
8 Elisabeth Elliot, citada em Christianity Today (Cristianismo Hoje), 4 de novembro
de 1988, página 33, ênfase do autor.
CAPÍTULO DOIS

A b s o rç ã o B íb lica a* partek.
C om o P ro p ó s ito d e
A lc a n ç a r a P ied a d e
♦♦♦ ♦♦♦ ♦♦♦

A alternativa à disciplina é o desastre.


Vance Havner
Citação em John Balnchard, compilador,
"More Gathered Gold" (Juntando Mais Ouro)

E m agosto de 1989, tive o privilégio de participar de uma


viagem missionária para o sertão do leste africano. Éramos
quatro, eu e três membros da igreja que pastoreio, dormindo
em tendas em frente ao prédio da minúscula igreja inacabada,
de pau-a-pique, a quase dez quilômetros do acampamento mais
próximo.
Eu já havia estado em outros países o suficiente para saber
que muitos hábitos que passei a identificar com o cristianismo
conflitam em alguns pontos com a cultura de nossos anfitriões.
Minha experiência me ensinou a prever ter que engolir com
dificuldade algumas de minhas expectativas americanas (isso
sem falar em algumas outras coisinhas!) sobre como os cristãos
devem viver. Mas eu estava despreparado para alguns dos
encontros que tive com muitos cristãos professos daquele
cenário equatorial. Mentira, roubo e imoralidade eram práticas
comuns e normalmente aceitas, até entre a liderança da igreja.
Ali, o conhecimento teológico era escasso como a água e a
doença do erro doutrinário, tão comum quanto a malária.
28 Absorção Bíblica (Parte 1)

Logo descobri uma das principais razões para aquela igreja


parecer ter sido fundada por missionários de Corinto. Ninguém
tinha Bíblia, nem o pastor, nem o diácono, ninguém. O pastor
possuía apenas uma meia dúzia de sermões, todos meio-
preparados sobre as brasas de algumas recordações de histórias
bíblicas. A cada seis semanas, o mesmo sermão se repetia. O
único verdadeiro contato com as Escrituras acontecia com a
visita ocasional de um missionário (o mais próximo ficava a
mais de cem quilômetros dali) ou quando algum obreiro
denominacional da área pregasse. Para quase todos da igreja,
essas pinceladas infreqüentes e substitutivas da Bíblia eram
tudo o que sabiam. Somente um homem apresentava alguma
medida de maturidade espiritual, e isso porque ele havia
morado a maior parte de sua vida em outros lugares e
freqüentado uma igreja que ensinava a Bíblia.
Nós quatro reunimos os recursos que tínhamos e
compramos Bíblias baratas para vários membros da igreja. Após
visitas evangelísticas a cada dia, conduzíamos estudos bíblicos
para a igreja à tarde e novamente à noite, à luz de lanternas.
Saímos dali orando para que o Espírito Santo fizesse com que a
Palavra de Deus criasse profundas raízes naquele ajuntamento
árido e sertanejo.
A maioria de nós chacoalha a cabeça de dó diante de
condições tristes assim. E difícil imaginar que há mais Bíblias
nos lares de muitos de nós do que em certas igrejas inteiras do
Terceiro-Mundo. Mas uma coisa é desconhecer as Escrituras
por não possuir a Bíblia; outra é desconhecê-la quando se tem
uma estante cheia delas.
Nenhuma Disciplina Espiritual é mais importante do que
a absorção da Palavra de Deus. Nada pode substituí-la.
Simplesmente não pode haver cristão saudável aparte de uma
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 29

dieta de leite e came das Escrituras, e as razões para isso são


óbvias. Na Bíblia, Deus nos fala sobre Si mesmo, e especialmente
sobre Jesus Cristo, a encarnação de Deus. A Bíblia revela a Lei
de Deus para nós e mostra como todos a infringimos. Nela,
descobrimos como Cristo morreu como Substituto, voluntário
e sem pecado, daqueles que infringem a Lei de Deus, e como
devemos nos arrepender e crer Nele para sermos justos diante
de Deus. Na Bíblia, aprendemos os caminhos e a vontade do
Senhor. Nas Escrituras, descobrimos como viver de maneira
agradável a Deus e também melhor e mais satisfatória para
nós mesmos. Nenhuma dessas informações eternamente
essenciais pode ser encontrada em qualquer outro lugar, exceto
na Bíblia. Portanto, se pretendemos conhecer a Deus e ser
Piedosos, devemos conhecer a Palavra de Deus intimamente.
Contudo, muitos que já o sabem muito bem e fazem sinal
afirmativo com a cabeça em concordância com essas declarações
não gastam mais tempo com a Palavra de Deus num dia típico,
do que aqueles que nem possuem a Bíblia. Minha experiência
pastoral é testemunha da validade de pesquisas que
freqüentemente revelam que um grande número de cristãos
professos conhece pouco mais da Bíblia do que cristãos do
Terceiro-Mundo, os quais não possuem nem mesmo uma
pequena parte das Escrituras.
Alguém comentou que a pior tempestade de poeira da
história aconteceria se todos os membros da igreja que
estivessem negligenciando suas Bíblias tirassem a poeira delas
ao mesmo tempo.
Assim, mesmo que honremos a Palavra de Deus com nossos
lábios, devemos confessar que nossos corações, bem como
nossas mãos, ouvidos, olhos e mentes, muitas vezes estão longe
dela. Independentemente de quão ocupados nos tornemos com
30 Absorção Bíblica (Parte 1)

tantas coisas, cristão, devemos nos lembrar de que a prática


mais transformadora disponível a nós é a absorção disciplinada
das Escrituras.
A absorção bíblica não só é a Disciplina Espiritual mais
importante, como também a mais ampla. Na verdade, ela
consiste em várias subdisciplinas. Seria como uma
universidade, que é composta de muitas faculdades, cada qual
especializada em uma disciplina diferente, porém, todas unidas
sob o nome geral da universidade.
Examinemos as "faculdades", ou subdisciplinas, da
absorção bíblica, desde a menos até a mais difícil.

OUVINDO A PALAVRA DE DEUS

A mais fácil das Disciplinas relacionadas à absorção da


Palavra de Deus é simplesmente ouvi-la. Por que considerar
esta uma Disciplina? Porque se não disciplinarmos a nós mesmo
para ouvir a Palavra de Deus regularmente, poderemos ouvi-
la apenas acidentalmente, só quando tivermos vontade de ouvir,
ou podemos jamais ouvi-la. Para a maioria de nós, disciplinar-
se a si mesmo para ouvir a Palavra de Deus significa
desenvolver a prática de freqüentar firmemente uma igreja neo-
testamentária onde a Palavra de Deus seja pregada com
fidelidade.
Jesus disse uma vez: "Antes, bem-aventurados são os que ouvem
a palavra de Deus e a guardam!" (Lucas 11:28). Não se trata
simplesmente de ouvir as palavras inspiradas por Deus. O
propósito de todos os métodos de absorção da Bíblia é a
obediência ao que Deus diz e o desenvolvimento de semelhança
com Cristo. Mas o método que Jesus encoraja neste versículo é
ouvir a Palavra de Deus.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 31

Outra passagem que enfatiza a importância de ouvir é


Romanos 10:17: "E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela
palavra de Cristo". Isso não significa que alguém possa vir a ter
fé em Cristo tão-somente por ouvir as Escrituras, pois multidões
de pessoas têm se tornado crentes como Jonathan Edwards,
por meio da leitura da Bíblia. Mas este versículo fala sobre ouvir.
Podemos acrescentar, contudo, que a maioria que, como
Edwards, foi convertida ao ler as Escrituras, também são como
ele, pois ouviram a proclamação da Palavra de Deus antes da
conversão. Além disso, enquanto esta passagem ensina que a
fé inicial em Cristo vem de ouvir a Palavra inspirada sobre Jesus
Cristo, também é verdade para os cristãos que muito da fé que
precisamos para a vida diária vem de ouvir a mensagem bíblica.
De uma palavra escriturística sobre a provisão de Deus pode
vir a fé que uma família com problemas financeiros precisa.
Ouvir um sermão baseado na Bíblia sobre o amor de Cristo
pode ser o meio de Deus para conceder segurança de fé a um
crente abatido. Recentemente, ouvi uma mensagem gravada
em fita que o Senhor usou para me conceder a fé para perseverar
em determinado assunto. Dons de fé são muitas vezes
concedidos àqueles que se disciplinam em ouvir a Palavra de
Deus.
Há outras formas de nos disciplinarmos para ouvir a
Palavra de Deus, além da mais importante que é ouvi-la pregada
como parte do ministério de uma igreja local. (Digo isto
percebendo que alguns não têm oportunidade de ouvir a
Palavra de Deus por meio do ministério de uma igreja local.) A
mais óbvia delas é por rádios e fitas cristãos. Tais recursos
podem ser usados de modo criativo, enquanto nos vestimos,
cozinhamos, viajamos etc. Se nenhum desses meios estiver
disponível em sua área, considere os rádios de ondas curtas e
32 Absorção Bíblica (Parte 1)

as bibliotecas de empréstimo de fitas por pedido postal. Embora


o rádio de ondas curtas seja comum fora dos Estados Unidos, a
maioria dos americanos não tem um e raramente pensam nesse
meio. Mas a maioria dos melhores professores da Bíblia das
estações tradicionais de AM e FM dos Estados Unidos também
pode ser ouvida praticamente em qualquer lugar do mundo
(inclusive nos Estados Unidos) nas poderosas, sem sinal de
qualidade inferior, estações de ondas curtas. E há várias
bibliotecas de empréstimos de fitas em todo o país, cada qual
com milhares de sermões gravados. Normalmente, elas exigem
pagamento somente para cobrir despesas com frete ou uma
taxa de aluguel nominal por fita. Verifique os anúncios
classificados de publicações cristãs, entre em contato com o
escritório de ministérios que distribui fitas-cassete, ou verifique,
junto às várias igrejas locais, os nomes e endereços de algumas
dessas bibliotecas de fitas.
Um outro texto digno de nota sobre o assunto é 1 Timóteo
4:13, onde o Apóstolo Paulo instrui a seu jovem amigo no
ministério: "Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da
Escritura, à exortação e ao ensino". Embora muitas outras
explicações pudessem ser dadas, é suficiente dizer que era
importante para o ministério de Paulo e importante para o
Senhor, que inspirou tais palavras, para o povo de Deus ouvir
a Palavra de Deus. Já que é assim, deve se tornar uma
prioridade disciplinada para nós ouvi-la. Se alguém diz: "Não
preciso ir à igreja para adorar a Deus; posso adorá-Lo
igualmente ou até melhor do que na igreja estando no campo
de golfe ou no lago", podemos concordar que Deus pode ser
adorado nesses locais. Mas a adoração contínua de Deus não
pode se dar aparte da Palavra de Deus. Devemos nos disciplinar
para ir e ouvir a Palavra de Deus.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 33

Um comentário se faz apropriado aqui sobre nos


prepararmos para ouvir a Palavra de Deus. Se você entrar numa
igreja evangélica típica dois minutos antes de o culto começar,
vai parecer que você entrou num estádio dois minutos antes
do jogo de futebol. Parte de meu coração pastoral aprecia as
boas coisas representadas pelas pessoas que ficam felizes em
ver e falar umas com as outras. Há um espírito de reunião de
família no ar quando a família de Deus se reúne. Contudo, acho
que uma parte maior de meu coração anseia por reverência e
espírito de busca de Deus dentre aqueles que vêm para ouvir a
Sua Palavra.
Por um tempo, uma congregação de cristãos coreanos usou
o prédio de nossa igreja para realizar os cultos do meio da
semana. Eu ficava impressionado com a maneira como eles
entravam no centro de adoração. Quer fossem os primeiros a
chegar ou chegassem após o culto já ter começado, eles
imediatamente se prostravam em oração por vários momentos
antes de ajeitar seus pertences, desabotoar o casaco ou
reconhecer a presença de qualquer outra pessoa. Isso servia
como um efetivo lembrete a seus próprios corações e a todos
os demais, sobre o principal propósito daquele tempo. A maioria
das igrejas que conheço bem poderia ter mais momentos assim.
Em 1648, Jeremiah Burroughs, um puritano inglês, escreveu
as seguintes palavras de conselho a respeito da preparação para
a disciplina de ouvir a Palavra de Deus:

Primeiro, quando se ouve a Palavra, para santificar o nome de


Deus, você deve possuir/encher sua alma com o que vai ouvir.
Isto é, o que você vai ou vir é a P alavra de D eu s...A ssim ,
percebemos que o Apóstolo, ao escrever para os Tessalonicenses,
fornece o motivo pelo qual a Palavra fazia tanto bem a eles: é que
eles realm ente a ouviam com o a Palavra de Deus. "Também
34 Absorção Bíblica (Parte 1)

agradecemos a Deus sem cessar o fato de que, ao receberem de nossa


parte a palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como palavra de homens,
mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de Deus" (1
Tessalonicenses 2:13). 1

Assim, ouvir a Palavra de Deus não é apenas ouvir


passivamente, mas sim, uma Disciplina a ser cultivada.

LENDO A PALAVRA DE DEUS

Se você ainda duvida que os cristãos precisam ser exortados


a se disciplinarem para ler a Bíblia, considere o seguinte: "Uma
pesquisa do jornal USA Today revelou, apenas três meses antes deste
livro ser publicado, que somente 11% dos americanos lêem a Bíblia
todos os dias. Mais de metade a lê menos de uma vez por mês ou
simplesmente não a lê" . 2
Evidentemente, tentamos nos consolar observando que a
pesquisa inclui todos os americanos, não somente cristãos
professos. Lamentavelmente, pode-se encontrar pouco consolo.
Uma pesquisa realizada menos de um ano antes pelo grupo de
pesquisa Barna, dentre aqueles que se diziam ser "cristãos
nascidos de novo" revelou os seguintes números
desalentadores: somente 18%, menos de dois a cada dez, lê a
Bíblia diariamente. Pior de tudo, 23%, quase um entre quatro
cristãos professos, diz que nunca lê a Palavra de Deus.3
Considere estas estatísticas à luz de 1 Timóteo 4:7: "Exercite-se
na piedade" (NVI).
Jesus muitas vezes fazia perguntas a respeito do
entendimento do povo sobre as Escrituras, começando com as
palavras: "Vocês não leram...?" Ele presumia que aqueles que
diziam ser o povo de Deus tinham lido a Palavra de Deus. E há
boas razões para se dizer que esta pergunta implica
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 35

familiaridade com toda a Palavra de Deus.


Quando Jesus disse: "Nem só de pão viverá o homem, mas de
toda palavra que procede da boca de Deus " (Mateus 4:4), certamente
Ele pretendia, no mínimo, que lêssemos "cada palavra".
Uma vez que "toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para
o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na
justiça" (2 Timóteo 3:16), não é certo que deveríamos lê-la?
Apocalipse 1:3 nos diz: "Feliz aquele que lê as palavras desta
profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito,
porque o tempo está próximo". Deus promete que aqueles que
lêem e observam a Sua Palavra serão abençoados. Mas apenas
aqueles que se disciplinam a fazê-lo receberão tais bênçãos.
A principal razão, lembre-se, para nos disciplinarmos é a
Piedade. Aprendemos que as Disciplinas Espirituais são
caminhos escriturísticos em que podemos esperar encontrar a
graça transformadora de Deus. A Disciplina mais crucial é a
absorção da Palavra de Deus. Uma pesquisa realizada em 1980
por Christianity Today e Gallup Poli confirmou isto ao concluir
que nenhum fator influencia mais a formação do
comportamento moral e social de uma pessoa do que a leitura
regular da Bíblia.4 Se você deseja ser mudado, se você quer se
tomar mais semelhante a Jesus Cristo, discipline-se na leitura
da Bíblia.
Com que freqüência nós a lemos? O pregador britânico John
Blanchard, em seu livro How to Enjoy Your Bible ("Como
Desfrutar Sua Bíblia"), escreveu:

Certamente nós só temos que ser realistas e honestos conosco


mesmos em saber com que regularidade precisamos nos voltar
para a Bíblia. Com que freqüência enfrentam os problem as,
te n taçõ es e p ressão ? Todos os dias! A ssim , q u an tas vezes
precisamos de instrução, orientação e mais encorajamento? Todos
36 Absorção Bíblica (Parte 1)

os dias! Reunindo todas essas necessidades em algo ainda maior,


quantas vezes precisamos ver a face de Deus, ouvir a sua voz,
conhecer o seu poder? A resposta a todas essas perguntas é a
mesma: todos os dias! Como colocou o evangelista americano D.
L. Moody: "Assim como um homem não consegue comer o
suficiente para seis meses, ou inspirar de uma vez ar bastante
para encher seus pulmões e mantê-lo vivo por uma semana, ele
também não consegue armazenar graça para o futuro". Devemos
fazer uso do suprimento ilimitado de graça um dia após o outro,
conforme necessitamos dela.5

A seguir, são mencionadas as três sugestões mais práticas


para se obter sucesso consistente na leitura da Bíblia. Primeira:
encontre tempo. Talvez uma das principais razões pelas quais
os cristãos nunca lêem a Bíblia toda seja o desânimo. A maioria
das pessoas nunca leu um livro de mil páginas antes e desanima
só de ver o volume da Bíblia. Você notou que as gravações de
leitura bíblica nunca provaram que é possível ler a Bíblia toda
em setenta e uma horas? Em média, os americanos gastam esse
mesmo tempo vendo televisão em menos de duas semanas.
Em quinze minutos por dia, não mais, é possível ler a Bíblia
toda em menos de um ano. Somente cinco minutos por dia é o
suficiente para você ler toda a Bíblia em menos de três anos.
Contudo, a maioria dos cristãos nunca leu a Bíblia inteira em
suas vidas. Assim, voltamos à idéia de que é essencialmente
uma questão de disciplina e motivação.
Discipline-se para encontrar tempo. Tente reservar sempre
o mesmo período todos os dias. Procure separar um tempo que
não seja apenas aquele antes de dormir. É válido ler a Bíblia
antes de adormecer, mas se este for o único tempo em que você
lê as Escrituras, você deverá encontrar outro. Há ao menos duas
razões para isso. Primeira, você irá reter muito pouco do que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 37

leu estando tão cansado e sonolento. Segunda, se for como eu,


você provavelmente fará muito pouco mal durante seu sono.
Você precisa encontrar Cristo nas Escrituras quando isso ainda
possa ter um impacto em seu dia.
A segunda sugestão prática é ter um plano de leitura bíblica.
Não é de admirar que as pessoas que simplesmente abrem a
Bíblia ao acaso todos os dias logo deixem a disciplina. Há planos
de leitura bíblica baratos disponíveis em todas as livrarias
cristãs. Muitas Bíblias de estudo contêm um programa de leitura
em algum lugar entre as suas páginas. A maioria das igrejas
locais também fornece guias de leitura diária.
Aparte de um plano específico, ao ler três capítulos todos
os dias e cinco aos domingos, você cobrirá toda a Bíblia em um
ano. Leia três do Antigo Testamento e três do Novo Testamento
todos os dias, e terá lido o Antigo Testamento uma vez e o Novo
Testamento quatro vezes num período de doze meses.
Meu plano favorito envolve a leitura diária de cinco partes
diferentes da Bíblia. Começo em Gênesis (a Lei), Josué
(História), Jó (Poesia), Isaías (Profetas) e Mateus (Novo
Testamento) e leio um número igual de capítulos de cada seção.
Uma variação deste plano é a leitura diária de três partes,
começando em Gênesis, Jó e Mateus, respectivamente. As três
seções têm extensão praticamente igual, assim, pode-se terminá-
las ao mesmo tempo. A grande vantagem desse tipo de plano é
a variedade. Muitas pessoas que pretendem ler a Bíblia toda
em sua seqüência ficam confusas em Levítico, desanimam em
Números e desistem completamente em Deuteronômio. Mas
quando lemos partes variadas todos os dias, fica mais fácil
manter o ritmo.
Mesmo que você não leia a Bíblia toda em um ano,
mantenha um registro de quais livros foram lidos. Ponha uma
38 Absorção Bíblica (Parte í)

marca ao lado do capítulo que ler ou do título do livro, no índice,


ao concluir sua leitura. Assim, independentemente de quanto
tempo leve, ou da ordem em que eles forem lidos, você saberá
quando leu todos os livros da Bíblia.
A terceira sugestão é escolher ao menos uma palavra, frase
ou versículo para meditar todas as vezes que você ler. Falaremos
mais sobre meditação no próximo capítulo, mas você deve
admitir agora que sem meditação você pode fechar a Bíblia e
não ser capaz de se lembrar de uma única coisa que leu. E se
isso acontecer, é provável que a sua leitura bíblica não produza
mudança em você. Até com um bom plano, ela pode se tomar
um afazer mundano em vez de uma Disciplina de alegria.
Considere ao menos uma coisa que você leu e pense
profundamente sobre ela por alguns momentos. Sua visão nas
Escrituras irá se aprofundar e você entenderá melhor como elas
se aplicam à sua vida. E quanto mais você aplicar a verdade
das Escrituras, mais você se tomará semelhante a Jesus.
Todos nós devemos ter a mesma paixão pela leitura da
Palavra de Deus que o homem da história a seguir. O evangelista
Robert L. Sumner, em seu livro The Wonder of the Word of God
("A Maravilha da Palavra de Deus"), fala sobre um homem na
cidade de Kansas que foi gravemente ferido em uma explosão.
Seu rosto ficou bastante desfigurado e ele perdeu a visão e
ambas as mãos. Ele acabara de se tornar cristão quando o
acidente aconteceu, e uma de suas maiores decepções foi que
ele não mais poderia ler a Bíblia. Então, ele soube de uma
senhora na Inglaterra que lia braile com os lábios. Esperando
poder fazer o mesmo que ela, ele encomendou alguns livros da
Bíblia em braile. Mas descobriu que os terminais nervosos de
seus lábios haviam sido lesados demais para distinguirem os
caracteres. Um dia, ao levar uma das páginas em braile aos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 39

lábios, sua língua tocou alguns caracteres em relevo e ele pôde


senti-los. Como um flash, ele pensou: "Consigo ler a Bíblia com
a língua". Na época em que o livro de Robert Sumner foi escrito,
o homem havia lido a Bíblia toda por quatro vezes.6 Se ele foi
capaz disso, será que você consegue se disciplinar para ler a
Bíblia?

ESTUDANDO A PALAVRA DE DEUS

Se ler a Bíblia pode ser comparado a cruzar um lago límpido


e brilhante em um barco a motor, estudar a Bíblia é como cruzar
lentamente o mesmo lago em um barco com fundo de vidro.
A travessia no barco a motor fornece uma visão geral do
lago e uma percepção rápida e passageira de sua profundidade.
O barco com fundo de vidro do estudo, entretanto, o leva abaixo
da superfície das Escrituras para uma observação serena da
clareza e dos detalhes que normalmente aqueles que
simplesmente lêem o texto deixam de perceber. Como o autor
Jerry Bridges coloca: "A leitura nos dá amplitude de vista, mas o
estudo nos dá profundidade".7
Vejamos três exemplos do coração voltado ao estudo da
palavra de Deus. O primeiro é Esdras, personagem do Antigo
Testamento: "Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a
Lei do SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus
estatutos e os seus juízos" (Esdras 7:10). Há um significado
instrutivo na seqüência deste versículo. Esdras (1) "tinha
decidido dedicar-se", (2) "a estudar a Lei do SENHOR", (3) "e
a praticá-la", (4) " e a ensinar os seus decretos e mandamentos
aos israelitas". Antes de ensinar a Palavra de Deus ao povo de
Deus, ele praticou o que aprendeu. Mas o aprendizado de
Esdras veio do estudo das Escrituras. Antes de estudar, contudo,
40 Absorção Bíblica (Parte 1)

ele primeiro "tinha decidido dedicar-se" ao estudo. Em outras


palavras, Esdras disciplinou-se no estudo da Palavra de Deus.
Um segundo exemplo é encontrado em Atos 17:11. Os
missionários Paulo e Silas mal haviam escapado vivos de
Tessalônica após obterem êxito no trabalho evangelístico que
provocara ciúmes nos judeus do local. Quando eles repetiram
o mesmo curso de ação em Beréia, os judeus dali reagiram de
forma diferente: "Os bereanos eram mais nobres do que os
tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse,
examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim
mesmo". De acordo com o versículo seguinte, o resultado foi:
"E creram muitos dentre os judeus". Aqui, a disposição de
examinar as Escrituras é considerada como caráter nobre.
Meu exemplo favorito de coração voltado ao estudo da
verdade de Deus está em 2 Timóteo 4:13. Da prisão, o Apóstolo
Paulo escreve o capítulo final de sua última epístola do Novo
Testamento. Antecipando a vinda de seu amigo mais jovem
Timóteo, ele escreve: "Quando vieres, traze a capa que deixei em
Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os
pergam inhosE quase certo que os pergaminhos e livros que
Paulo pede incluíam cópias das Escrituras. Naquele
confinamento frio e miserável, o piedoso apóstolo pedia duas
coisas: a capa para usar, a fim de que seu corpo pudesse ser
aquecido, e a Palavra de Deus para estudar, a fim de que sua
mente e coração pudessem ser aquecidos. Paulo havia visto os
Céus (2 Coríntios 12:1-6) e o Cristo ressurreto (Atos 9:5), havia
experimentado o poder do Espírito Santo em milagres (Atos
14:10) e até para escrever as Sagradas Escrituras (2 Pedro 3:16);
entretanto, continuou a estudar a Palavra de Deus até morrer.
Se Paulo precisava, certamente você e eu precisamos e devemos
nos disciplinar para fazer isso.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 41

Então, por que não o fazemos? Por que tantos cristãos


negligenciam o estudo da Palavra de Deus? R. C. Sproul o disse
dolorosamente bem: "Eis, então, o verdadeiro problema de
nossa negligência. Não cumprimos nossa obrigação de estudar
a Palavra de Deus nem tanto por ela ser difícil de entender e
nem tanto porque estudá-la seja tedioso e enfadonho, mas
porque dá trabalho. O problema é que somos preguiçosos".8
Além de preguiça, parte do problema para alguns pode
ser insegurança em relação a como estudar a Bíblia ou mesmo
por onde começar. Na verdade, começar não é tão difícil. A
diferença básica entre leitura bíblica e estudo bíblico é
simplesmente um lápis e um pedaço de papel. Ao ler, escreva
observações sobre o texto e registre as perguntas que vêm a
sua mente. Se sua Bíblia tiver referências cruzadas, procure
aquelas que se relacionam com os versículos que instigam suas
perguntas, depois registre suas idéias. (Se você não souber bem
o que são referências cruzadas ou como usá-las, pergunte a seu
pastor ou a outro cristão maduro.) Encontre uma palavra-chave
em sua leitura e use a concordância que se encontra no final da
maioria das Bíblias para rever as outras referências onde a
palavra é usada e observe novamente suas descobertas. Outra
maneira de começar é resumir um capítulo, parágrafo por
parágrafo. Quando terminar o capítulo, vá para o próximo até
que tenha resumido o livro todo. Em pouco tempo, seu
entendimento de uma determinada parte das Escrituras será
muito mais profundo do que o que você obteve somente pela
leitura.
Ao avançar no estudo do Livro de Deus, você perceberá o
valor dos vários estudos em profundidade, como o de palavras,
de personagens, tópicos e de livros. Você descobrirá uma nova
riqueza nas Escrituras ao entender melhor como a gramática, a
42 Absorção Bíblica (Parte 1)

história, a cultura e a geografia que cercam um texto afetam a


sua interpretação.
Não deixe que o senso de impropriedade o prive do prazer
de aprender a Bíblia por si mesmo. Há livros, grossos e finos,
em abundância sobre como estudar a Bíblia. Eles podem
fornecer mais orientação sobre métodos e recursos do que eu
neste capítulo. Não se contente apenas com o alimento espiritual
que foi "pré-digerido" por outras pessoas. Experimente a
alegria de descobrir as visões bíblicas em primeira mão por
meio de seu próprio estudo bíblico!

MAIS APLICAÇÃO

Se seu crescimento em Piedade fosse medido pela qualidade


de sua absorção bíblica, qual seria o resultado? Essa é uma
pergunta importante, pois a verdade é que seu crescimento em
Piedade é grandemente afetado pela qualidade de sua absorção
bíblica. Em Sua magnificente oração Sacerdotal de João 17, Jesus
pediu isto ao Pai por nós: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é
a verdade" (João 17:17). O plano de Deus para nos santificar,
isto é, para nos tomar santos e Piedosos, é realizado por meio
da "verdade": a Sua Palavra. Se nós nos contentamos com uma
absorção de baixa qualidade ouvindo, lendo e estudando a
Palavra de Deus, restringimos gravemente o principal fluxo da
graça santificadora de Deus a nós.
Como eu digo, percebo que seria fácil causar sentimento
de culpa em todos nós (inclusive em mim) pelas falhas do
passado a respeito da absorção da Palavra de Deus. Sobretudo,
lembre-se de que a porta do Céu está aberta para nós não pelas
obras que praticamos (como a absorção da Palavra de Deus),
mas pela obra de Deus em Jesus Cristo. Além disso, apliquemos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 43

a mensagem de Filipenses 3:13 a qualquer inconsistência


anterior com a absorção bíblica, "esquecendo das coisas queficaram
para trás e avançando para as que estão adiante" nesta área.
Isso nos leva a uma pergunta final de aplicação.
O que você pode fa zer para melhorar sua absorção da
Palavra de Deus? Amenos que providencialmente impedido a
tal, unir-se a um grupo de crentes com quem você se identifique
para ouvir a Palavra de Deus pregada todas as semanas deve
ser o mínimo.
Muitas igrejas que crêem na Bíblia oferecem mais de uma
oportunidade semanal para se ouvir a Palavra de Deus. Pode
ser que você deseje considerar a aquisição de gravações da
Bíblia, sermões ou exposição bíblica no rádio como opções para
ouvir mais da Palavra de Deus. Estabeleça objetivos de tentar
honestamente ler a Bíblia todos os dias e concluir o Livro todo.
Também há livros de atividades e guias de estudo sobre todos
os livros da Bíblia e centenas de tópicos disponíveis nas livrarias
cristãs. Além de começar individualmente, junte-se a um grupo
de estudo bíblico em sua igreja ou comunidade ou até mesmo
comece um estudo em grupo.
Independentemente do meio escolhido, discipline-se na
Piedade comprometendo-se com pelo menos uma maneira de
melhorar sua absorção da santa Palavra de Deus. Pois aqueles
que usam pouco suas Bíblias na verdade não se saem muito
melhor do que aqueles que não a usam nunca.
Finalizaremos este capítulo com uma substancial palavra
de encorajamento, extraída do útil livreto chamado Reading the
Bible ("Lendo a Bíblia"), de um pastor galês chamado Geoffrey
Thomas. No texto abaixo, sempre que a expressão ler a Bíblia
for mencionada, pense também em ouvir e estudar.
44 Absorção Bíblica (Parte 1)

Não espere dominar a Bíblia em um dia, um mês ou um ano.


Espere, sim, ficar muitas vezes confuso com seu conteúdo, que
não é to d o ig u alm en te claro . G ran d es h om en s de D eus
freqüentemente se sentem absolutamente novatos ao lerem a
Palavra. O apóstolo Pedro disse que havia algumas coisas difíceis
de se entender nas epístolas de Paulo (2 Pedro 3:16). Fico feliz
que ele tenha escrito essas palavras porque eu pensei o mesmo
v árias vezes. A ssim , não espere obter sem p re um a carg a
emocional ou sentir paz alentadora ao ler a Bíblia. Pela graça de
Deus, você pode esperar que isso seja uma experiência freqüente,
mas muitas vezes você não obterá reação emocional alguma. Deixe
a Palavra transbordar em seu coração e mente vez após vez
enquanto os anos passam, e imperceptivelmente, virão grandes
m udanças em sua atitude, ponto de vista e conduta. Você
provavelmente será o último a reconhecê-las. Muitas vezes você
se sentirá tão pequeno, minúsculo, porque cada vez mais o Deus
da Bíblia se tom ará maravilhosamente grande para você. Assim,
continue a lê-la até não poder mais, e daí você não precisará mais
da Bíblia, porque quando seus olhos se fecharem pela última vez,
em sua m orte, e nunca m ais lerem a P alavra de Deus nas
Escrituras, você irá abri-los para a Palavra de Deus em carne, o
mesmo Jesus da Bíblia, a quem você conheceu por tanto tempo,
bem diante de você para levá-lo para sempre a Seu lar eternal.9

1 Peter Lewis, The Genius of Puritanism ("O Caráter do Puritanismo") (Haywards


Heath, Sussex, Inglaterra: Carey Publications, 1979), página 54.
2 Princeton Religious Research Center, 100 Questions and Answers: Religion in America
("Cem perguntas: A Religião nos Estados Unidos") (1989), citação em USA Today,
I o de fevereiro de 1990.
3 Bookstore journal, citação em Discipleship Journal ("Jornal do Discipulado"), edição
52, página 10.
4 Harold O.J. Brown, "What's the Connection Between Faith and and Works?" ("Qual
é a Relação entre a Fé e as Obras?") Christianity Today ("Cristianismo Hoje"), 24 de
outubro, 1980, página 26.
5 John Blanchard, How to Enjoy Your Bible ("Como Desfrutar Sua Bíblia") (Colchester,
Inglaterra: Evangelical Press, 1984), página 104.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 45

6 Robert L. Sumner, citado em "Treasuring God's Word" ("Apreciando a Palavra de


Deus"), Our Daily Bread ("Pão Diário"), 5 de outubro de 1988.
7 Jerry Bridges, Tlte Practice of Godliness (A Prática da Piedade") (Colorado Springs,
CO: NavPress, 1983), p. 51.
8 R. C. Sproul, Knowing Scripture ("Conhecendo as Escrituras") (Downers Grove, IL:
InterVarsity Press, 1977), página 17.
9 Geoffrey Thomas, Reading the Bible (Lendo a Bíblia) (Edimburgo, Escócia: The Banner
of Truth Trust, 1980), página 22.
CAPÍTULO TRÊS

A bso rção B íblica a* parte)...


C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied a d e
Ǥ> <$>

O crescimento cristão envolve disciplina.


A rapidez com que um homem cresce espiritualmente
e a medida até onde ele cresce depende desta disciplina.
E a disciplina do caminho.
Richard Halverson
Em D.G. Kehl
"Controle a si mesmo! Praticando a Arte da Autodisciplina"

D o i s irmãos andavam pelas terras extensas e cobertas de


bosques de seu pai, quando encontraram uma jovem árvore
carregada de frutos. Ambos se deliciaram com aqueles frutos
tanto quanto desejaram. Quando decidiram voltar, um homem
juntou todos os frutos restantes e levou-os consigo para casa.
Seu irmão, contudo, levou a árvore toda e plantou-a em sua
propriedade. A árvore floresceu, produzindo regularmente
fartas colheitas, de modo que o segundo irmão sempre tinha
frutas quando o primeiro não tinha nenhuma.
A Bíblia é como a árvore que produz fruto desta história.
Simplesmente ouvir a Palavra de Deus é ser como o primeiro
irmão. Você pode colher muito fruto daquilo que ouviu e até
levar para casa o suficiente para alimentá-lo por alguns dias,
mas no longo prazo, isso não se compara a ter sua própria
árvore. Por meio das Disciplinas de ler e estudar, a árvore toma-
Absorção Bíblica (Parte 2) 47

se nossa e aproveitamos os seus frutos. Dentre as Disciplinas


Espirituais, também encontramos os recursos de memorização,
meditação e aplicação, que aumentam abundantemente nossa
colheita dos frutos da árvore.

BENEFÍCIOS E MÉTODOS DA MEMORIZAÇÃO


DA PALAVRA DE DEUS

Muitos cristãos vêem a Disciplina Espiritual da


memorização da Palavra de Deus como algo equivalente a
martírio da modernidade. Peça que memorizem versículos
bíblicos, e eles reagirão com tanta avidez quanto a um pedido
de voluntários para encarar os leões de Nero. Por quê? Talvez
porque muitos associem todo tipo de memorização aos esforços
de memória exigidos deles nos tempos de escola. Dava trabalho
e a maior parte era sobre algo que não despertava interesse e
tinha valor limitado. Também freqüentemente ouvida é a
desculpa de se ter memória ruim. Mas, e se eu oferecesse a
você mil dólares por versículo memorizado durante os
próximos sete dias? Você acha que sua atitude em relação à
memorização das Escrituras e sua habilidade de memorizar
melhorariam? Qualquer recompensa financeira seria mínima
quando comparada ao acúmulo de valor do tesouro da Palavra
de Deus depositado no interior de sua mente.

A Memorização Produz Poder Espiritual


Quando armazenadas na mente, as Escrituras ficam
disponíveis ao Espírito Santo para que Ele as traga à sua atenção
quando você mais precisar. É por isso que o autor do Salmo 119
escreveu: "Guardei no coração a tua palavra para não pecar contra
ti", (versículo 11). Uma coisa é, por exemplo, assistir ou pensar
48 Absorção Bíblica (Parte 2)

em algo quando se sabe que não se deveria, mas há mais poder


contra a tentação quando um versículo específico é trazido à
sua mente, como Colossenses 3:2: "Mantenham o pensamento nas
coisas do alto, e não nas coisas terrenas".
Quando o Espírito Santo traz um versículo específico à
mente dessa forma, isso ilustra o que Efésios 6:17 pode significar
quando se refere à "espada do Espírito, que é a palavra de
Deus". Uma verdade escriturística pertinente, trazida a seu
conhecimento pelo Espírito Santo no momento exato, pode ser
a arma que faz a diferença em uma batalha espiritual.
Não há ilustração melhor do que a confrontação de Jesus
com Satanás no deserto solitário da Judéia (Mateus 4:1-11). Toda
vez que o Inimigo impunha uma tentação a Jesus, Ele se
defendia com a espada do Espírito. Ela ajudava Jesus a
experimentar vitória. Uma das maneiras pelas quais podemos
obter mais vitórias espirituais é fazer como Jesus fez: memorizar
as Escrituras para que ela fique disponível ao Espírito Santo
para que Ele a acenda dentro de nós quando for necessário.

A Memorização Fortalece a nossa Fé


Você deseja que sua fé seja fortalecida? Que cristão não
desejaria? Uma coisa que você pode fazer para fortalecê-la é
disciplinar-se na memorização das Escrituras. Vejamos
Provérbios 22:17-19, que diz: "Preste atenção e ouça os ditados dos
sábios, e aplique o coração ao meu ensino. Será uma satisfação guardá-
los no íntimo e tê-los todos na ponta da língua. Para que você confie
no SENHOR, a você hoje ensinarei" (NVI). As expressões "Aplique
o coração" aos "ditados dos sábios" e "guardá-los no íntimo"
certamente se referem à memorização das Escrituras. Observe
a razão dada aqui para guardar as palavras sábias das Escrituras
em seu íntimo e "na ponta da língua". É "para que você confie
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 49

no Senhor". Memorizar as Escrituras fortalece a sua fé porque


elas reforçam a verdade repetidamente, muitas vezes
exatamente quando você precisa ouvi-la.
Nossa igreja está construindo um novo centro de
adoração. Sentimos que honraríamos mais a Deus se
construíssemos um prédio sem contrair dívidas. Houve vezes
em que minha fé na provisão do Senhor começou a afundar.
Muito freqüentemente, o que renovava a minha fé era o
lembrete da promessa de Deus em 1 Samuel 2:30: "Honrarei
aqueles que me honram". Memorizar as Escrituras funciona como
aço de reforço para uma fé esmorecida.

Memorização, Testemunho e Aconselhamento


No Dia de Pentecostes (a festa judaica celebrada quando o
Espírito Santo veio pela primeira vez para habitar nos cristãos),
o Apóstolo Pedro foi repentinamente inspirado por Deus a le­
vantar-se e pregar à multidão sobre Jesus. Muito do que ele
disse consistiu de citações do Antigo Testamento (veja Atos 2:14­
40). Embora haja uma diferença qualitativa entre o sermão es­
pecialmente inspirado de Pedro e as nossas conversações guia­
das pelo Espírito, a experiência ilustra como memorizar as Es­
crituras pode nos preparar para as oportunidades inesperadas
de testemunhar ou aconselhar que aparecem em nossas vidas.
Recentemente, ao apresentar a mensagem de Cristo a um
homem, ele disse algo que me trouxe à mente um versículo
memorizado. Citei o verso e isso foi decisivo para a conversa,
que culminou com a profissão de fé em Cristo por parte da­
quele homem. O mesmo tipo de coisa acontece freqüentemente
em conversas de aconselhamento. Mas até que sejam guarda­
dos no coração, os versículos não estarão disponíveis para uso
com a boca.
50 Absorção Bíblica (Parte 2)

O Caminho da Orientação de Deus


O salmista escreveu: "Os teus testemunhos são o meu prazer,
eles são os meus conselheiros" (Salmo 119:24). Assim como o
Espírito Santo traz a verdade escriturística de nossos bancos
de memória para usarmos no aconselhamento a outras pessoas,
assim também Ele a trará a nossas próprias mentes, provendo
orientação oportuna a nós mesmos.
Muitas vezes, ao tentar decidir se digo ou não aquilo que
estou pensando em uma situação específica, o Senhor traz
Efésios 4:29 a minha mente: "Não saia da vossa boca nenhuma
palavra torpe, e sim unicamente a quefor boa para edificação, conforme
a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem". Estou certo
de que às vezes entendo mal a voz do Espírito Santo, mas a Sua
orientação dificilmente poderia ser mais clara do que quando
Ele traz à mente um versículo como esse! Mas isso é resultado
de memorização disciplinada das Escrituras.

A Memorização Estimula a Meditação


Um dos benefícios mais subestimado da memorização das
Escrituras é que ele provê combustível para a meditação.
Quando memorizou um versículo das Escrituras, você pode
meditar nele em qualquer lugar e a qualquer hora do dia ou da
noite. Se você ama a Palavra de Deus o suficiente para
memorizá-la, você pode se tomar como o escritor do Salmo
119:97, que exclamou: "Como eu amo a tua lei! Medito nela o dia
inteiro". Quer esteja dirigindo no trânsito, andando de metrô,
esperando no aeroporto, na fila, ninando um bebê ou fazendo
uma refeição, você poderá se beneficiar da Disciplina Espiritual
da meditação se tiver feito os depósitos da memorização.
A Palavra de Deus é a "espada do Espírito", mas o Espírito
Santo não pode lhe dar uma arma que não foi armazenada no
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 51

arsenal de sua mente. Imagine-se em meio a uma decisão e


precisando de orientação ou em luta com uma tentação difícil
e carecendo de vitória. O espírito Santo corre para seu arsenal
mental, abre impetuosamente a porta, mas tudo o que encontra
é João 3:16, Gênesis 1:1 e a Grande Comissão. Essas são grandes
espadas, mas não foram feitas para todo tipo de batalha. Como
começar a encher nosso próprio arsenal espiritual com um
suprimento de espadas para o Espírito Santo usar?

Você pode Memorizar as Escrituras


A maioria das pessoas acha que tem má memória, mas não
é verdade. Como já descobrimos, na maior parte das vezes,
memorizar é essencialmente um problema de motivação. Se
você sabe a data de seu aniversário, seu número de telefone e
endereço e consegue se lembrar dos nomes de seus amigos,
então é capaz de memorizar as Escrituras. A questão passa a
ser se você está disposto a se disciplinar para tal.
Quando Dawson Trotman, fundador da organização cristã
chamada The Navigators ("Os Navegantes"), se converteu à fé
em Cristo em 1926, começou a memorizar um versículo bíblico
por dia. Ele trabalhava como motorista de caminhão para um
depósito de madeiras em Los Angeles na época. Enquanto
dirigia pela cidade, ele pensava no versículo daquele dia.
Durante seus três primeiros anos de vida cristã, memorizou
mil versículos. Se ele conseguiu memorizar mais de trezentos
versículos por ano dirigindo, certamente nós podemos
encontrar maneiras de memorizar alguns versos.

Estabeleça um Plano
Nas livrarias cristãs, podem ser encontrados muitos planos
bons de memorização das Escrituras já prontos. Mas você pode
52 Absorção Bíblica (Parte 2)

preferir selecionar versículos sobre um tópico específico onde


o Senhor esteja trabalhando em sua vida neste momento. Se
sua fé for fraca, memorize versículos sobre fé. Se estiver em
conflito com um hábito, encontre versículos que o ajudem a
obter vitória sobre ele. Um homem contou a Dawson Trotman
que tinha medo de que seguir o seu exemplo de memorização
das Escrituras pudesse deixá-lo arrogante. Trotman respondeu:
"Então, que seus primeiros dez versículos sejam sobre
humildade!" Outra opção é memorizar uma parte das
Escrituras, como um salmo, em vez de versículos isolados.

Escreva os Versículos
Faça uma lista dos versículos em uma folha de papel ou
escreva cada um deles em um cartão separado.

Desenhe Lembretes em Forma de Figuras


Não precisa ser nada sofisticado, apenas umas poucas
linhas ou figuras adesivas ao lado de cada verso. Isso torna o
versículo "visual" e faz com que o princípio figura que vale mil
palavras funcione para você. Uma mera figura pode fazer você
se lembrar de dúzias de palavras. Isso acontece especialmente
se o desenho ilustrar uma ação descrita no versículo. Por
exemplo, para o Salmo 119:11, você pode fazer o desenho
grosseiro de um coração com uma Bíblia dentro para lembrá-
lo de entesourar a Palavra de Deus no coração. Para Efésios
6:17, um esboço de espada é lembrete óbvio. Você descobrirá
que este método é especialmente útil quando memorizar uma
seção de versículos consecutivos. Admito que, assim como eu,
você provavelmente não é um artista, mas ninguém mais precisa
ver suas figuras e elas podem facilitar a memorização das
Escrituras.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 53

Memorize os Versículos Palavra por Palavra


Há uma grande tentação, especialmente logo que se
aprende um versículo, de se baixar o seu padrão. Não se
contente com o sentido aproximado ou com a "idéia principal".
Memorize palavra por palavra e aprenda a referência também.
Sem um padrão objetivo de medida, o objetivo não fica claro e
é possível que você tenda a continuar baixando o padrão até
desistir totalmente. Além disso, se o versículo não for
memorizado exatamente como é, você perderá a confiança em
usá-lo ao conversar e testemunhar. Assim, embora memorizar
"tintim por tintim" seja mais difícil no começo, é mais fácil e
mais produtivo no longo prazo. A propósito, versículos que
você conhece tintim por tintim são mais fáceis de rememorar
do que aqueles que você não conhece tão precisamente.

Adote um Método de Prestação de Contas


Por causa de nossa tendência à preguiça, é necessário que
a maioria de nós preste mais contas na memorização das
Escrituras do que em outras Disciplinas. E quanto mais
ocupados somos, maior é a tendência a nos escusarmos desse
compromisso. Alguns, como Dawson Trotman, desenvolveram
meios personalizados de prestar contas em relação à Disciplina
que os mantém fiéis. A maioria dos cristãos, contudo, é mais
consistente quando encontra ou conversa com outra pessoa,
nem sempre outro cristão, com quem rememoram os versículos.

Rememore e Medite Diariamente


Nenhum princípio de memorização das Escrituras é mais
importante do que o princípio da rememoração. Se não houver
uma rememoração adequada, você eventualmente irá perder a
maior parte do que memorizou. Porém, uma vez que realmente
54 Absorção Bíblica (Parte 2)

tenha aprendido um versículo, você pode rememorá-lo


mentalmente em uma fração do tempo que levaria para dizê-
lo. E quando souber o versículo bem, você não precisa
rememorá-lo senão uma vez por semana, uma vez por mês ou
mesmo uma vez a cada seis meses para mantê-lo afiado. Não é
incomum, contudo, atingir um ponto em que se gaste 80% do
tempo de memorização rememorando. Não se ressinta em
devotar tanto tempo ao polimento de suas espadas. Mas alegre-
se por ter tantas!
Um ótimo horário para se rememorar os versículos mais
conhecidos é antes de dormir. Já que não precisa ter uma cópia
escrita dos versículos diante de si, você poderá repeti-los e
meditar neles enquanto cochilar ou mesmo quando tiver
problemas para dormir. E se você não conseguir ficar acordado,
tudo bem, já que, de qualquer modo, você deveria estar
dormindo. Se não conseguir dormir, você estará preenchendo
sua mente com as informações mais proveitosas e pacíficas
possíveis, além de estar fazendo bom uso do tempo.
Ao concluirmos esta parte sobre a Disciplina de
memorização das Escrituras, lembre-se de que memorizar
versículos não é um fim em si mesmo. O objetivo não é ver
quantos versículos você consegue memorizar, o objetivo é a
Piedade. O objetivo é memorizar a Palavra de Deus para que
ela possa transformar nossas mentes e nossas vidas.
Sobre este assunto, Dallas Willard disse: "Como pastor,
professor e conselheiro, tenho visto repetidamente a
transformação de vida, exterior e interior, que resulta da simples
memorização e meditação nas Escrituras. Pessoalmente, eu
jamais me incumbiria de pastorear uma igreja ou de orientar
um programa de educação cristã que não incluísse um plano
contínuo de memorização das maravilhosas passagens das
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 55

Escrituras para pessoas de todas as idades".1

BENEFÍCIOS E MÉTODOS DE MEDITAÇÃO


NA PALAVRA DE DEUS

Uma característica ruim de nossa cultura moderna é que a


meditação passou a ser mais identificada com sistemas não
cristãos de pensamento do que com o cristianismo bíblico.
Mesmo dentre os crentes, a prática da meditação é muitas vezes
mais associada com yoga, meditação transcendental, terapia
de relaxamento ou Movimento Nova Era. Por ser tão
proeminente em muitos grupos e movimentos espiritualmente
enganosos, alguns cristãos se sentem desconfortáveis com
respeito à meditação e desconfiados daqueles que se envolvem
nela. Mas devemos nos lembrar que a meditação é tanto
ordenada por Deus quanto exemplificada por homens Piedosos
nas Escrituras. Só porque uma seita usa a cruz como símbolo,
isso não significa que a Igreja deva parar de usá-la. Da mesma
forma, não devemos descartar ou ter medo da meditação
escriturística simplesmente porque o mundo a adaptou para
seus próprios propósitos.
O tipo de meditação encorajado na Bíblia difere de muitas
maneiras dos outros tipos de meditação. Enquanto alguns
defendem um tipo de meditação em que se faz de tudo para
esvaziar a mente, a meditação cristã envolve o preenchimento
da mente com Deus e a verdade. Para alguns, a meditação é
uma tentativa de alcançar completa passividade mental, mas a
meditação bíblica requer atividade mental construtiva. A
meditação do mundo emprega técnicas de visualização com
intenção de se "criar a própria realidade". Embora a história
cristã sempre tenha dado espaço ao uso santificado da
56 Absorção Bíblica (Parte 2)

imaginação concedida por Deus na meditação, a imaginação é


nossa serva, ajudando-nos a meditar nas coisas que são
verdadeiras (Filipenses 4:8). Além disso, em vez de "criar nossa
própria realidade" por meio da visualização, nós unimos a
meditação à oração a Deus e à ação humana responsável e cheia
do Espírito, para realizar mudanças.
Além das diferenças mencionadas, vamos definir meditação
como o pensamento profundo nas verdades e realidades
espirituais reveladas nas Escrituras visando ao entendimento,
aplicação e oração. A meditação vai além de ouvir, ler, estudar
e até memorizar como meio de assimilar a Palavra de Deus.
Uma simples analogia seria uma xícara de chá. Você é a xícara
com água quente e a absorção das Escrituras é representada
pelo saquinho de chá. Parte do sabor do chá é absorvido pela
água, mas não tanto como ocorre quando o saquinho é
totalmente embebido. Nesta analogia, ler, estudar e memorizar
a Palavra de Deus são representados por imersões adicionais
do saquinho de chá na xícara. Quanto mais o chá mergulha na
água, mais efeito ele tem. Meditação, contudo, é como imergir
o saquinho completamente e deixá-lo encharcar até que todo o
rico sabor do chá tenha sido extraído e a água quente fique
totalmente tingida de marrom avermelhado.

Josué 1:8 e a Promessa de Êxito


As Escrituras fazem uma conexão específica entre o êxito e
a prática da meditação na Palavra de Deus em Josué 1:8. Ao
comissionar Josué para suceder a Moisés como líder de Seu
povo, o Senhor disse a ele: "Não cesses de falar deste Livro da Lei;
antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado defazer segundo
tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e
serás bem-sucedido".
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 57

Devemos nos lembrar de que a prosperidade e o êxito de


que o Senhor fala aqui é a prosperidade e o êxito aos Seus olhos,
e não necessariamente aos do mundo. De uma perspectiva do
Novo Testamento, sabemos que a principal aplicação desta
promessa seria à prosperidade da alma e ao êxito espiritual
(embora também ocorra alguma medida de êxito em nossos
esforços humanos quando vivemos de acordo a sabedoria de
Deus). Tendo feito tal qualificação, entretanto, não percamos
de vista o relacionamento entre a meditação na Palavra de Deus
e o êxito.
O verdadeiro êxito é prometido àqueles que meditam na
Palavra de Deus, que pensam profundamente nas Escrituras,
não apenas uma vez ao dia, mas em momentos no decorrer do
dia e da noite. Eles meditam tanto, que suas conversas são
saturadas das Escrituras. O fruto da meditação deles é a ação.
Eles fazem o que encontram escrito na Palavra de Deus e, como
resultado, Deus prospera o caminho deles e lhes concede êxito.
Como a Disciplina da meditação nos modifica e nos coloca
no caminho da bênção de Deus? No Salmo 39:3, Davi disse:
"Meu coração ardia-me no peito e, enquanto eu meditava, o fogo
aum entavaA palavra hebraica traduzida aqui por "meditava"
está intimamente relacionada à traduzida por "meditar" em
Josué 1:8. Quando ouvimos, lemos, estudamos ou
memorizamos o fogo (Jeremias 23:29) da Palavra de Deus, a
adição da meditação se toma como um fole sobre aquilo que
absorvemos. Ao chamejar mais resplandecente, o fogo emite
tanto mais luz (visão e entendimento) quanto calor (paixão pela
ação obediente). "Então", diz o Senhor, "os seus caminhos
prosperarão e você será bem-sucedido".
Por que a absorção da Palavra de Deus muitas vezes nos
deixa frios e por que não temos mais êxito em nossa vida
58 Absorção Bíblica (Parte 2)

espiritual? O pastor puritano Thomas Watson tem a resposta:


"A razão de sairmos tão frios da leitura da palavra é que não
nos aquecemos no fogo da meditação".2

Salmo 1:1-3 - As Promessas


As promessas de Deus em Salmo 1:1-3 a respeito da
meditação são iguais às de Josué 1:8:

Bem-aventurado é o homem
que não anda no conselho dos ímpios,
não se detém no caminho dos pecadores.
Antes, o seu prazer está
Na lei do SENHOR,
e na sua lei medita de dia e de noite.
Ele é como árvore plantada
junto a corrente de águas,
Que no devido tempo, dá o seu fruto,
e cuja folhagem não murcha;
E tudo quanto ele faz será bem sucedido.

Pensamos naquilo de que gostamos. O casal que encontrou


prazer romântico um no outro pensa um no outro o dia todo. E
quando nos deleitamos na Palavra de Deus, pensamos nela,
isto é, meditamos nela, às vezes durante todo o dia e toda a
noite. O resultado de tal meditação é estabilidade, produção
de fruto, perseverança e prosperidade. Um escritor o disse
claramente: "Normalmente quem se dá melhor é quem medita
mais".3
A árvore de sua vida espiritual se desenvolve melhor com
meditação porque ela ajuda você a absorver a água da Palavra
de Deus (Efésios 5:26). Simplesmente ouvir ou ler a Bíblia, por
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 59

exemplo, pode ser como uma breve chuva sobre o chão duro.
Independentemente da quantidade ou intensidade da chuva,
a maior parte escoa e pouco penetra o solo. A meditação abre o
solo da alma e permite que a água da Palavra de Deus se infiltre
profundamente. O resultado é uma produção extraordinária
de frutos e prosperidade espiritual.
O autor do Salmo 119 estava confiante de que era mais sábio
do que todos os seus inimigos (versículo 98). Além disso, ele
disse: "Tenho mais discernimento que todos os meus mestres,
pois medito nos teus testemunhos" (versículo 99). Seria porque
ele ouvia, lia, estudava ou memorizava a Palavra de Deus mais
do que cada um de seus inimigos e seus mestres?
Provavelmente não. O salmista era mais sábio, não
necessariamente porque tivesse uma maior absorção, mas
porque tinha mais visão. Mas como ele adquiriu mais sabedoria
e visão do que qualquer outro? Sua explicação foi:

Os teus mandamentos me tornam mais sábio que os meus


inimigos,
porquanto estão sempre comigo.
Tenho mais discernimento
Que todos os meus mestres,
Pois medito nos teus testemunhos. (Salmo 119:98-99)

É possível encontrar uma quantidade torrencial de


verdades divinas, mas sem absorção você ficará pouco melhor
para a experiência. Meditação é absorção.
Creio que, em nossos dias, a meditação seja até mais
importante para a produção de frutos e a prosperidade
espirituais do que foi no Israel antigo. Mesmo que o inserir da
Palavra de Deus fosse igual, nós somos atingidos por uma
60 Absorção Bíblica (Parte 2)

avalanche de informações que o salmista jamais poderia ter


imaginado. Associe isso a mais algumas de nossas
responsabilidades modernas e o resultado será uma distração
e uma dissipação mentais que sufocam nossa absorção das
Escrituras. Dizem que, devido à explosão de informações, que
dobra a soma total de conhecimento humano a cada poucos
anos, nós agora atingimos um ponto em que uma edição média
do New York Times em um dia de semana contém mais
informações do que Jonathan Edwards teria obtido em sua vida
inteira no século XVIII. É certo que ele tinha muitas
responsabilidades que consumiam tempo (como cuidar de seu
cavalo) com que nós não temos que nos preocupar. Por outro
lado, ele não teve que atender a um só telefonema em toda a
sua vida! Apesar de suas inconveniências, sua mente, assim
como a do salmista, não ficava tão distraída com notícias
mundiais instantâneas, televisão e rádio, telefones celulares e
de carros, estéreos pessoais, transportes rápidos,
correspondências inúteis e assim por diante. Por causa dessas
coisas, é mais difícil para nós hoje concentrarmos nossos
pensamentos, especialmente em Deus e nas Escrituras, do que
jamais foi.
Isso é parte de um antigo mistério que começa a se
esclarecer para mim. Muitas vezes me pergunto como os
homens que viveram centenas de anos atrás sempre foram
capazes de produzir mais à caneta do que a maioria dos homens
modernos é, com máquinas de escrever e computadores.
Recentemente, recebi uma cópia de Christian Directory
("Catálogo Cristão") de Richard Baxter, um guia prático
relacionado a simplesmente todo aspecto imaginável da vida
cristã. Este admirável livro consiste em quase mil páginas de
impressão em letras miúdas e contém 1.250.000 palavras. Se
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 61

isso não é suficiente para impressioná-lo, pense que Baxter


pesquisou e escreveu, à mão, a maior parte do livro em menos
de dois anos (1664-1665). E isso sem ajuda de luzes elétricas,
menos ainda de máquinas de escrever elétricas ou de
processadores de textos. Admito que ele não tinha outras
responsabilidades exceto sua família durante esse período de
dois anos, mas ainda assim, essa foi uma realização
maravilhosa. Já imaginei a mim mesmo, sem ter
responsabilidade alguma exceto pesquisar e escrever por dois
anos, mas ainda não sei se eu conseguiria chegar a um resultado
próximo do de Baxter. Além disso, não estou certo se conheço
outra pessoa que consiga. Como ele o fez? As pessoas nascidas
à época têm mais capacidade mental do que todas as gerações
posteriores? Não acho que isso seja verdade.
O que realmente acho é que homens como Baxter foram
exceções mesmo em seu próprio tempo. E creio que a unção do
Senhor estava sobre ele para realizar esta longa tarefa, assim
como esteve com Handel quando este compôs o Messias em
menos de um mês. Mas também creio que haja uma diferença
prática entre pessoas como Baxter e nós. Sua mente não tinha
tantas distrações quanto a nossa, sendo exposta a menos
informações gerais e menos fatos para desordenar seu
pensamento.
O que fazer, então? Não podemos voltar à época de Richard
Baxter a menos que nos mudemos para as selvas de Papua Nova
Guiné. E mesmo assim nós já teremos vivido tempo demais na
era da informação para escapar de sua influência. Mas podemos
restaurar a ordem a nosso pensamento e recapturar um pouco
da habilidade de nos concentrarmos - especialmente na
verdade espiritual - por meio da meditação bíblica.
Na verdade, é exatamente assim que homens como Baxter
62 Absorção Bíblica (Parte 2)

e Edwards disciplinaram a si mesmos. Em sua cativante


biografia de Sara Edwards, Elisabeth Dodds disse o seguinte
sobre Jonathan:

Q uando m ais jovem , Edw ards havia refletido sobre com o


aproveitar o tempo durante suas viagens. Depois de mudar-se
para Northampton, ele traçou o plano de prender um pequeno
pedaço de papel a uma certa parte de seu casaco, atribuindo ao
papel um número e fazendo sua mente associar um assunto àquele
pedaço de papel. Após três horas de viagem, retornando de
Boston, ele chegava cheio de papéis. De volta a seu estúdio, ele
tirava os papéis m etodicam ente, e escrevia a su cessão de
pensamentos que cada papelzinho trazia à sua memória.4

Não temos que andar por aí cheios de papeizinhos, mas


podemos ser transformados pela renovação de nossas mentes
(Romanos 12:2) por meio da meditação disciplinada nas
Escrituras. Podemos não produzir de forma tão frutífera quanto
Richard Baxter ou não ser tão bem-sucedidos espiritualmente
quanto Jonathan Edwards, mas podemos ser mais sábios do
que nossos inimigos, ter mais visão do que nossos mestres,
experimentar todas as promessas de Josué 1:8 e Salmo 1, e ser
mais Piedosos se meditarmos biblicamente.
Como, então, meditar de maneira cristã?

Selecione uma Passagem Adequada


A maneira mais fácil de decidir sobre o que meditar é
escolher o(s) versículo(s), a frase ou a palavra que mais tocar
você durante seu encontro com as Escrituras. Obviamente, este
é um método subjetivo, mas qualquer método será um pouco
subjetivo. Além disso, a meditação é essencialmente uma
atividade subjetiva, um fato que enfatiza a importância de
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 63

baseá-la nas Escrituras, o recurso perfeitamente objetivo.5


Nossa visão do ministério do Espírito Santo também nos
leva a crer que muitas vezes Ele, como Autor do Livro, nos faz
ficar tocados com certo trecho das Escrituras por ser exatamente
a parte em que Ele deseja que meditemos naquele dia. Sem
dúvida este método pode ser usado incorretamente ou levado
ao extremo. Devemos usar de sabedoria e nos certificar de que
não deixaremos de meditar freqüentemente na Pessoa e na obra
de Jesus Cristo e nos grandes temas da Bíblia.
Versículos visivelmente relacionados com seus interesses
e necessidades pessoais são claramente alvos de meditação.
Embora não devamos abordar a Bíblia simplesmente como um
sumário de conselhos sábios, uma coleção de promessas ou um
"livro de respostas", é vontade de Deus que prestemos atenção
àquelas coisas que Ele escreveu que dizem respeito diretamente
a nossas circunstâncias. Se você tem conflitos com sua vida de
pensamentos e ler Filipenses, então você provavelmente
precisará meditar em 4:8: "Finalmente, irmãos, tudo o que é
verdadeiro, tudo o que respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é
puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boafama, se alguma virtude
há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento".
Você tem se preocupado com a salvação de um amigo ou
membro da família? Se ler João 4, o que deve fazer é meditar na
forma de comunicação de Jesus ali e traçar paralelos a sua
própria situação. Você sente distância de Deus ou sequidão em
sua condição espiritual? Buscar indícios do caráter de Deus e
basear-se neles é uma boa escolha.
Uma das formas mais consistentes de se selecionar uma
passagem para meditação é discernir a mensagem principal de
uma parte específica de seu encontro com as Escrituras e
meditar em seu significado e aplicação. Por exemplo,
64 Absorção Bíblica (Parte 2)

recentemente eu li Lucas 11. Esse capítulo tem dez parágrafos


na versão que eu usei. Escolhi uma parte, os versículos de 5 a
13, cujo tema principal é a persistência na oração. Refleti nessa
idéia, especialmente em como ela é exposta nos versículos 9 e
10, que falam sobre pedir, buscar e bater. Isso é mais difícil de
fazer em livros como Provérbios, onde um versículo individual
é muitas vezes um conceito em si mesmo e não parte de um
parágrafo. Em trechos assim, você deve adotar um dos métodos
mencionados acima para selecionar seu texto para meditação.

Repetir de Diferentes Modos


Neste método, "vira-se" o versículo ou frase das Escrituras,
que é examinado em cada faceta, como um diamante.
Uma meditação nas palavras de Jesus no começo de João
11:25 pareceria assim:

"Eu sou a ressurreição e a vida."


"Eu sou a ressurreição e a vida."
"Eu sou a ressurreição e a vida."
"Eu sou a ressurreição e a vida."
"Eu sou a ressurreição e a vida."
"Eu sou a ressurreição e a vida."
"Eu sou a ressurreição e a vida."

Evidentemente, o ponto não é simplesmente repetir cada


palavra do versículo de forma vã, até que todas elas tenham
sido enfatizadas. O propósito é pensar profundamente na luz
(verdade) que cintila em sua mente cada vez que o versículo é
"virado". É simples, mas eficiente. Considero-o especialmente
útil quando tenho problemas para me concentrar em uma
passagem ou quando as idéias vêm vagarosamente dela.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 65

Reescrever em suas Próprias Palavras


Desde seus primeiros dias de educação em casa, o pai de
Jonathan Edwards o ensinou a pensar com a caneta na mão,
um hábito que ele manteve por toda a sua vida. Esta prática
ajuda você a focar a atenção no que importa no momento,
enquanto estimula seu fluxo de pensamento. Parafrasear o(s)
versículo(s) que está considerando é também uma boa forma
de garantir o entendimento de seu significado. Tenho um amigo
que diz que parafrasear versículos à maneira da Bíblia Ampliada
é o método mais produtivo de abrir um texto para ele. O próprio
ato de pensar em sinônimos e outras formas de reformular o
significado inspirado de uma parte da Palavra de Deus é uma
forma de meditação em si.

Procure Aplicações para o Texto


Pergunte a si mesmo: "Como irei reagir a este texto? Como
Deus quer que eu aja como resultado de meu encontro com
esta parte de Sua Palavra?"
O resultado da meditação deve ser a aplicação. Assim como
mastigar sem engolir, a meditação fica incompleta se não houver
algum tipo de aplicação. Ela é tão importante, que a próxima
parte deste livro é inteiramente dedicada à aplicação da Palavra
de Deus.

Ore a Respeito do Texto


Este é o espírito de Salmo 119:18: "Abre os meus olhos para
que eu veja as maravilhas da tua lei". O Espírito Santo é o Grande
Guia para a verdade (João 14:26). A meditação é mais do que
mera fixação da concentração humana ou energia mental
criativa. Orar durante o meditar em um versículo das Escrituras
submete a mente à iluminação do texto pelo Espírito Santo e
66 Absorção Bíblica (Parte 2)

intensifica a sua percepção espiritual. A Bíblia foi escrita sob


inspiração do Espírito Santo; ore por Sua iluminação quando
meditar.
Recentemente, meditei em Salmo 119:50: "Este é o meu
consolo no meu sofrimento: a tua promessa dá-me vida". Orei pelo
texto destas linhas:

Senhor, Tu sabes a aflição que estou passando neste exato


momento. A Tua Palavra promete me confortar na aflição. A Tua
Palavra pode me restaurar em minha aflição. Eu realmente creio
que isso é verdade. A Tua Palavra me restaurou na aflição no
passado, e eu confesso minha fé em Ti que ela me restaurará nesta
experiência. Oro para que o Senhor me restaure agora por meio
do conforto de Tua Palavra.

Enquanto orava a respeito do texto, o Espírito Santo


começou a trazer a minha mente verdades das Escrituras a
respeito da soberania de Deus sobre Sua Igreja, da Sua
providência sobre as circunstâncias em minha vida, do Seu
poder, da Sua presença e amor constantes e assim por diante.
Naquele tempo prolongado de meditação e oração, minha alma
foi restaurada e senti-me confortado pelo Consolador.
A meditação deve sempre envolver duas pessoas: o cristão
e o Espírito Santo. Orar a respeito de um texto é convidar o
Espírito Santo a manter Sua luz divina sobre as palavras das
Escrituras para mostrar a você aquilo que você não consegue
ver sem Ele.

Não tenha pressa, gaste tempo!


Que valor há em ler um, três ou mais capítulos da Bíblia, se
depois você não conseguir se lembrar de uma só coisa que leu?
E melhor ler uma pequena porção das Escrituras e meditar nela
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 67

do que ler uma parte extensa sem meditar.


Em 1990, da Escócia, Maurice Roberts escreveu as
seguintes palavras:

Tristemente, nossa era tem sido deficiente no que pode ser


chamado grandeza espiritual. Na raiz disso está a doença moderna
da superficialidade. Somos impacientes demais para meditar na
fé que proferimos... Não é o diligente exame superficial de livros
religiosos ou a descuidada presteza nos deveres religiosos que
faz uma forte fé cristã, mas é a meditação sem pressa nas verdades
do evangelho e a exposição de nossas mentes a essas verdades
que produz o fruto do caráter santificado.6

Leia menos (se necessário) para meditar mais. Embora


muitos cristãos precisem encontrar tempo para ler mais a Bíblia,
é possível que haja alguns que estejam gastando todo o tempo
que podem ou devem lendo a Bíblia. Se não for viável
acrescentar mais tempo a sua programação devocional para
meditar na leitura das Escrituras, leia menos para que possa
dedicar à meditação algum tempo sem pressa. Mesmo que
possa encontrar momentos ao longo do dia quando você medita
na Palavra de Deus (leia o Salmo 119:97), a melhor meditação
geralmente ocorre como parte de seu principal encontro diário
com a Bíblia.
Que sua experiência na meditação escriturística seja tão feliz
e produtiva quanto a de Jonathan Edwards, que registrou estas
linhas em seu diário logo após converter-se. "Eu parecia ver
sempre tanta luz em cada sentença e receber alimento tão
revigorante, que não conseguia ir adiante na leitura; muitas
vezes permanecendo por longo tempo em uma frase para ver
as maravilhas contidas nela, e quase todas as sentenças
pareciam estar cheia de maravilhas".7
68 Absorção Bíblica (Parte 2)

APLICANDO A PALAVRA DE DEUS -


BENEFÍCIOS E MÉTODOS

Em um estudo patrocinado por Holman Bibles, adultos


foram questionados sobre sua principal dificuldade em ler a
Bíblia. A resposta foi: "aplicar as Escrituras a situações
concretas".8 Apesar de lutarmos ocasionalmente para entender
algumas partes das Escrituras, entendê-las não é nosso
problema mais importante. A maior parte das Escrituras é
abundantemente clara. Nossa dificuldade reside muito mais
em saber como aplicar as partes claramente entendidas da
Palavra de Deus à vida diária. O que ela diz sobre a educação
de meus filhos? Como as Escrituras devem influenciar minhas
decisões e relacionamentos no trabalho? Qual é a perspectiva
bíblica sobre a escolha que estou prestes a fazer? Como posso
saber qual é o melhor de Deus? Esses são os tipos de perguntas
que os leitores da Bíblia fazem freqüentemente; eles comprovam
a urgência de se aprender a Disciplina da aplicação da Palavra
de Deus.

O Valor da Aplicação da Palavra de Deus


A Bíblia promete a bênção de Deus sobre aqueles que
aplicam a Palavra de Deus a suas vidas. A clássica declaração
da Nova Aliança sobre o valor de integrar o espiritual com o
concreto é Tiago 1:22-25: "Tornai-vos, pois, praticantes da palavra
e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se
alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem
que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se
contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua
aparência. Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei
da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 69

operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar".


Substancial e poderosa é a declaração semelhante de Jesus: "Ora,
se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes" (João
13:17).
Esses versículos nos dizem que pode haver engano em
ouvir a Palavra de Deus. Sem minimizar a suficiência das
Escrituras nem o poder do Espírito Santo para trabalhar até
por meio da mais casual "pincelada" da Bíblia, podemos ser
freqüentemente iludidos quanto ao impacto das Escrituras
sobre nossas vidas. De acordo com Tiago, podemos
experimentar a verdade de Deus tão poderosamente, que o que
o Senhor deseja que façamos toma-se tão evidente quanto a
nossa face no espelho. Mas se nós não aplicamos a verdade
como a encontramos, enganamo-nos pensando que ganhamos
valor prático, independentemente de quão maravilhosa foi a
experiência da descoberta da verdade. Aquele que "será feliz
naquilo que fizer" é aquele que faz o que as Escrituras dizem.
Ser "feliz naquilo que fizer" equivale às promessas de
bênção, sucesso e prosperidade dadas em Josué 1:8 e Salmo
1:1-3 àqueles que meditam na Palavra de Deus. E por isso que
a meditação deve definitivamente levar à aplicação. Quando
Deus instruiu Josué a meditar em Seu Livro de dia e de noite,
disse que o propósito da meditação era "para que você cumpra
fielmente tudo o que nele está escrito". A promessa "os seus
caminhos prosperarão e você será bem-sucedido" seria
cumprida, não como resultado da meditação apenas, mas como
bênção de Deus sobre a aplicação moldada pela meditação.

Espere Descobrir uma Aplicação


Por ser desejo de Deus que sejamos praticantes da Sua
Palavra, você pode confiar que Ele quer que você encontre uma
70 Absorção Bíblica (Parte 2)

aplicação sempre que se aproximar das Escrituras. Pela mesma


razão, você pode crer que o Espírito Santo está disposto a ajudá-
lo a discernir uma forma de desenvolver suas idéias. Portanto,
abra o Livro com expectativa. Anteveja a descoberta de uma
resposta prática à verdade de Deus. E muito diferente abrir a
Bíblia com fé de encontrar uma aplicação e abri-la crendo que
isso não ocorrerá.
O ministro e escritor puritano Thomas Watson, cuja
influência foi tão grande a ponto de ele ser chamado "a mãe
adotiva de gigantes teólogos evangélicos", encorajou a
expectativa da aplicação ao dizer:

Considerem toda palavra como dita a si mesmos. Quando a


palavra "trovejar" contra o pecado, pense assim: "Deus está se
referindo a meus pecados"; quando ela insistir em algum dever:
"Deus quer que eu faça isso". Muitos se esquivam das Escrituras,
como se elas se referissem somente àqueles que viveram à época
em que foram escritas; mas se você pretende tirar proveito da
palavra, traga-a para perto de si: um remédio não faz bem algum
a menos que seja aplicado.9

Porque as Escrituras foram inspiradas por Deus, creia que


o que está lendo também foi escrito para você, além de para os
primeiros destinatários da mensagem. Sem tal atitude, você
raramente perceberá a aplicação de uma passagem das
Escrituras a sua situação pessoal.

Entenda o Texto
Um mal entendido a respeito do significado de um versículo
leva a aplicações errôneas. Por exemplo, algumas pessoas têm
aplicado a injunção de Colossenses 2:21: "Não manuseie!, Não
prove!, Não toque!" para proibir quase tudo o que se possa
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 71

imaginar. Embora possa haver boas razões para nos abstermos


de algumas das coisas contra as quais este versículo tem sido
usado, o texto é mal aplicado quando usado de tal forma porque
seu significado não é bem entendido. Quando considerado o
contexto, fica claro que essas palavras na verdade eram o slogan
de um grupo ascético que o Apóstolo Paulo estava denunciando
como inimigo do evangelho. Assim, se você leu o versículo e
pensou que ele poderia se aplicar a sua necessidade de perder
peso, pode ficar tranqüilo em saber que tal aplicação é inválida
porque parte de uma interpretação incorreta. (Contudo, uma
dieta diferente pode ser a aplicação pessoal a que o Espírito
Santo o levaria a partir de 1 Coríntios 9:27.)
Watson estava certo quando disse: "Considere toda palavra
como se fosse dita a si mesmos". Porém, não podemos fazer
isso até que entendamos o que ela quis dizer àqueles que a
ouviram primeiro. Se você considerar todas as palavras do
chamado de Deus a Abraão em Gênesis 12:1-7 como ditas a
você, logo estará se mudando para Israel. Mas se você entender
aquele chamado específico como exclusivo a Abraão, você pode
ainda descobrir as verdades eternas dentro dele e aplicar cada
palavra a si mesmo. Você seguiu o chamado de Deus para vir a
Cristo? Está disposto a obedecer à voz de Deus e ir para onde
quer que Ele o envie - um novo emprego, novo local, campo
missionário etc.?
Temos que entender como uma passagem se aplicava
quando foi primeiramente proferida antes de podermos
entender como ela se aplica hoje. Quando Jesus disse: "Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:43), a
aplicação foi para o ladrão na cruz. Porque essas palavras fazem
parte das Escrituras, contudo, e já que "toda a Escritura é
inspirada por Deus e útil", o Senhor quis que elas tivessem
72 Absorção Bíblica (Parte 2)

aplicação a todos os crentes. Obviamente, a aplicação


contemporânea não é que todo cristão morrerá hoje e estará
com Jesus no Paraíso. Uma maneira de aplicarmos este texto é
em termos de preparação para a morte. Percebemos que é
possível que a morte chegue hoje e depois examinamos a nós
mesmos quanto à nossa prontidão para ela. Também podemos
aplicá-la com relação à presença de Cristo. Como cristãos, Cristo
está sempre presente dentro de nós, então Ele está conosco hoje,
mesmo que ainda não estejamos no Paraíso. Como uma
consciência renovada da presença de Cristo afeta as nossas
orações ou o nosso panorama do resto do dia?
A promessa de Jesus ao ladrão é um exemplo de como nem
toda promessa foi proferida para ser aplicada hoje exatamente
da mesma maneira que foi originalmente. Por outro lado, muitas
outras promessas são genéricas, universais e perpétuas em sua
aplicação. Um exemplo óbvio é João 3:16. Outro é 1 João 1:9.
Como podemos saber quais passagens devem ser aplicadas de
modo diferente do que quando foram primeiramente
colocadas? E neste ponto que um conhecimento crescente das
Escrituras, adquirido por ouvir, ler e, especialmente, estudar a
Bíblia rende dividendo. Quanto mais entendemos a Bíblia, mais
equipados ficamos para aplicá-la.
Tendo dito tudo isto, ainda defendo que muito das
Escrituras é simples e direto em seu significado. Nosso
problema continua a ser mais falta de ação do que de
compreensão. As palavras das Escrituras devem ser entendidas
para serem aplicadas, mas até que as apliquemos, nós na
verdade não as entendemos.

Meditar para Discernir a Aplicação


Já percebemos que a meditação não é um fim em si mesmo.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 73

Pensar profundamente nas verdades e realidades espirituais


das Escrituras é a chave para colocá-las em prática. É por meio
da meditação que os fatos das informações bíblicas se
transformam em aplicação prática.
Se lemos, ouvimos ou estudamos a Palavra de Deus sem
meditar nela, não surpreende que "aplicar as Escrituras a
situações concretas" seja tão difícil. Talvez possamos até treinar
um pássaro a memorizar todos os versículos das Escrituras que
nós memorizamos, mas se não os aplicarmos à vida, eles não
terão para nós valor muito mais duradouro do que para o
pássaro. Como a Palavra memorizada se toma Palavra aplicada?
Por meio da meditação.
A maior parte das informações, até mesmo as informações
bíblicas, flui por nossa mente como água por uma peneira.
Normalmente são tantas informações novas a cada dia, e elas
entram tão rapidamente, que nós retemos muito pouco. Mas
quando meditamos, a verdade permanece e se infiltra. Podemos
sentir mais plenamente o seu aroma e degustá-la melhor.
Enquanto ela fermenta em nosso cérebro, as idéias surgem. O
coração é aquecido pela meditação e a verdade fria é fundida
em ação passional.
Salmo 119:15 o coloca da seguinte forma: "Meditarei nos teus
preceitos e darei atenção às tuas veredas". Foi por meio da meditação
na Palavra de Deus que o salmista discerniu como considerar
os caminhos de Deus para a vida, isto é, como ser praticante
deles. Não é diferente conosco. A maneira de se determinar
como um texto das Escrituras se aplica a situações concretas da
vida é a meditação naquele texto.

Faça Perguntas ao Texto com Vistas à Aplicação


Fazer perguntas ao texto é uma das melhores maneiras de
74 Absorção Bíblica (Parte 2)

meditar. Quanto mais perguntas você fizer e responder sobre


um versículo das Escrituras, mais o entenderá e com mais
clareza verá como aplicá-lo.
Eis alguns exemplos de perguntas dirigidas à aplicação que
podem ajudá-lo a se tornar praticante da Palavra de Deus:

® Este texto revela algo que eu deva crer a respeito de Deus?


® Este texto revela algo por que eu deva louvar, agradecer ou
confiar em Deus?
o Este texto revela algo por que eu deva orar para mim mesmo
ou outras pessoas?
o Este texto revela algo por que eu deva tomar uma nova atitude?
o Este texto revela algo por que eu deva tomar uma decisão?
• Este texto revela algo que eu deva fazer por causa de Cristo,
de outros ou de mim mesmo?

Algumas vezes um versículo das Escrituras terá aplicação


tão evidente a sua vida, que irá virtualmente saltar da página e
implorar a você que pratique o que está escrito. Na maioria das
vezes, porém, você terá que entrevistar o versículo, fazendo
perguntas a ele pacientemente até que uma resposta realista se
tome clara.

R e a ja E sp e cifica m e n te
O encontro com Deus por meio de Sua Palavra deve resultar
em ao menos uma reação específica. Em outras palavras, após
concluir o tempo de absorção bíblica, você deverá ser capaz de
mencionar ao menos uma reação que teve ou terá àquilo que
absorveu. Tal reação pode ser um ato explícito de fé, adoração,
louvor, gratidão ou oração. Pode tomar a forma de pedido de
perdão a alguém ou de proferimento de uma palavra de
encorajamento. A reação pode envolver o abandono de um
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 75

pecado ou a demonstração de um ato de amor.


Independentemente da natureza da reação, comprometa-se
conscientemente a realizar ao menos uma ação seguindo a
absorção da Palavra de Deus.
Qual a importância disso? Quantas vezes você tem fechado
a Bíblia e percebido, de repente, que não consegue lembrar-se
de uma só coisa que leu? De quantos estudos bíblicos você tem
participado e quantos sermões tem ouvido, dos quais não ficou
marca alguma das Escrituras sobre sua vida? Conheci pessoas
que faziam seis estudos bíblicos por semana e que cresceram
apenas em conhecimento, e não em semelhança com Cristo,
por não aplicarem o aprendido. A vida de oração delas não era
forte, elas não influenciavam as pessoas perdidas com o
evangelho, a vida familiar delas era tensa. Se começarmos a
nos disciplinar para determinar ao menos uma reação específica
ao texto antes de nos afastarmos dele, cresceremos muito mais
rapidamente em graça. Sem este tipo de aplicação, não somos
praticantes da Palavra de Deus.

MAIS APLICAÇÃO

Você vai iniciar um plano de memorização da Palavra de


Deus? Se for cristão há muito tempo, você provavelmente já
terá memorizado muito mais versículos do que imagina. Um
dos versículos que talvez saiba é Filipenses 4:13: "Tudo posso
naquele que me fortalece". Você crê que esse versículo é
verdadeiro? Crê que a palavra "tudo" do versículo engloba a
memorização das Escrituras? Uma vez que você pode
memorizar, você irá memorizar? Quando irá começar?
Você vai cultivar a Disciplina da Meditação na Palavra de
Deus? Pensamentos ocasionais sobre Deus não são meditação.
76 Absorção Bíblica (Parte 2)

"Um homem pode pensar em Deus todos os dias", disse


William Bridge, "e não meditar em Deus dia algum".10 Deus
nos chama por meio das Escrituras para desenvolver a prática
de vivermos Nele em nossos pensamentos.
Agora tenho certeza de que você entende que cultivar a
Disciplina da meditação envolve um comprometimento de
tempo. Bridge, um dos mais antigos, porém o melhor escritor
evangélico sobre meditação de todos os tempos, previu o
problema de se separar tempo para a meditação.

"O ", disse alguém, "eu pensaria em Deus de todo o meu coração,
mas meditação é uma tarefa que requer tempo, e custa tempo.
Eu não disponho de tempo, minhas mãos estão tão
atarefadas, e tão cheias de afazeres, eu não tenho tempo para tal
tarefa. Meditação não é um pensamento momentâneo, mas é uma
tarefa que requer tempo e irá demandar tempo, e eu não disponho
de tempo". Atente, portanto, para o que [o salmista] diz no Salmo
119: " Inclina o meu coração aos teus testemunhos", mas como? "desvia
os meus olhos de contemplarem a vaidade". O caminho para ter o
coração inclinado para os testemunhos de Deus é desviar os olhos
dessas vaidades exteriores. Você meditaria, portanto, em Deus e
nas coisas de Deus, e depois teria o cuidado de que seu coração
e mãos não estivessem cheios demais do mundo e das atividades
d ele... A m igos, há um a arte, e um a habilidade divina da
meditação, que ninguém a não ser Deus pode ensinar. Você a
deseja, então vá a Deus e implore essas coisas a Ele.11

Eis a questão que naturalmente tendemos a fazer neste


ponto: "A Disciplina da meditação compensará o
comprometimento de meu tempo?" Minha resposta não é
melhor do que a de Bridge.

É um a ajuda ao conhecimento, por meio dela seu conhecimento


aumenta. Por meio dela sua memória é fortalecida. Por meio dela
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 77

seu coração é aquecido. Por meio dela você será libertado de


pensamentos pecaminosos. Por meio dela seu coração estará em
sintonia com toda responsabilidade. Por meio dela você crescerá
em graça. Por meio dela você preencherá todas as frestas e fendas
de sua vida, e saberá como gastar seu tempo livre e aproveitá-lo
para Deus. Por meio dela você extrairá o bem do mal. Por meio
dela você irá conversar com Deus, ter com unhão com Ele e
desfrutar Dele. E me diga, isso não é benefício suficiente para
adocicar a viagem de seus pensamentos em m editação?12

Quando você considera o que as Escrituras dizem sobre a


meditação e quando pesa os testemunhos de alguns dos homens
e mulheres mais piedosos da história da Igreja, a importância e
o valor da meditação cristã para o progresso no crescimento
cristão é inegável.
Reflita em mais uma citação sobre o assunto. Ela apresenta
um desafio sobre a meditação. É de Richard Baxter, o mais
prático de todos os escritores puritanos. Uno-me a ele em
desafiar você quanto ao cultivo da Disciplina da meditação.

Se, por este meio, tu não encontrares aumento de todas as tuas


graças e não cresceres além da estatura dos cristãos comuns e
não te fizeres mais útil em teu lugar e mais precioso aos olhos de
todas as pessoas de discernimento; se a tua alma não desfrutar
maior comunhão com Deus e a tua vida não for mais cheia de
conforto e não te fizer mais preparado na hora da morte: então,
lança fora estas orientações e chama-me para sempre enganador.13

Você irá provar que é “aplicador" da Palavra? Você leu


muitos versículos da Palavra de Deus neste capítulo. O que
fará em resposta a essas passagens das Escrituras?
A maioria de nós nos consideramos praticantes da Palavra
e não meros ouvintes. Mas lembre-se de que Tiago 1:22 começa
78 Absorção Bíblica (Parte 2)

dizendo "Sejam". O verso diz a nós: "Sejam praticantes da palavra"


(NVI). Como você vai demonstrar ser praticante da Palavra de
Deus conforme ela foi apresentada a você aqui?
A Disciplina da absorção bíblica, especialmente a Disciplina
da aplicação da Palavra de Deus sempre será difícil por muitas
razões, e a menor delas não será oposição espiritual. J. I. Packer
o afirmou da seguinte maneira:

Se eu fosse o demônio, um de meus primeiros alvos seria impedir


as pessoas de vasculharem a Bíblia. Sabendo que ela é a Palavra
de Deus, ensinando homens a conhecer, amar e servir o Deus da
Palavra, eu faria tudo o que pudesse para cercá-la de equivalente
espiritual de fossos, rebordo de espinhos e armadilhas de homens,
para amedrontar as pessoas...A todo custo, eu desejaria impedi-
las de usar suas mentes de forma disciplinada para obter a medida
de sua mensagem.14

Apesar da dificuldade e da oposição espirituais, você está


disposto, a todo custo, a começar a usar sua mente "de forma
disciplinada" para se alimentar da Palavra de Deus com o fim
de alcançar a Piedade?

1 Dallas W illard, The Spirit of the Disciplines (O Espírito das Disciplinas) (São
Francisco, CA: Harper and Row, 1988), página 150.
2 Thomas Watson, "How We May Read the Scriptures with Most Spiritual Profit"
(Como Podemos Obter o Máximo Benefício Espiritual da Leitura das Escrituras),
em Puritan Sermons (Sermões Puritanos) (1674; reimpressão, Wheaton, IL: Richard
Owen Roberts, 1981), vol. 2, página 62.
3 Thomas Brooks, conforme citação em The Banner of Truth (A Bandeira da Verdade),
fevereiro de 1989, página 26.
4 Elisabeth D. Dodds, Marriage to a Difficult Man (Casada com um Homem Difícil)
(Filadélfia, PA: Westminster Press, 1971), páginas 67-68.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 79

5 A Bíblia menciona quatro objetos gerais de meditação. O objeto mais mencionado


é a meditação no conteúdo da própria Escritura. Um segundo objeto de meditação
é a criação de Deus. E nós até nem temos que ter uma Bíblia nas mãos para parar
para pensar na glória de Deus em um pôr-de-sol ou na habilidade criativa de
Deus em um girassol, nossa meditação na criação deve sempre ser informada pelas
Escrituras. A Bíblia também fala da meditação na providência de Deus e em Seu
caráter. Ambos podem ser observados nas circunstâncias, mas são revelados
infalivelmente apenas nas Escrituras. Com isso, desejo mostrar que a Bíblia não
limita a meditação somente a princípios bíblicos. Entretanto, toda meditação deve
ter seu foco ou naquilo que está revelado nas Escrituras ou ser informada pelas
Escrituras. O quadro a seguir exibe todos os versículos bíblicos que mencionam
explicitamente os objetos de meditação:

Palavra de Deus: Josué 1:8: "nele"


Salmo 1:2: "na lei do SENHOR"
Salmo 119:15: "nos teus preceitos"
Salmo 119:15: "tuas veredas"
Salmo 119:23: "nos teus decretos"
Salmo 119:48: "nos teus decretos"
Salmo 119:78: "nos teus preceitos"
Salmo 119:97: "tua lei"
Salmo 119:99: "teus testemunhos"
Salmo 119:148: "nas tuas promessas"
Criação de Deus: Salmo 143:5: "o que tuas mãos têm feito"
Providência de Deus: Salmo 77:12: "todos os teus feitos"
Salmo 77:12: "em todas as tuas obras"
Salmo 119:27: "nas tuas maravilhas"
Salmo 143:5: "em todas as tuas obras"

Salmo 145:5: "nas maravilhas que fazes"


Caráter de Deus: Salmo 63:6: "em ti"
Salmo 145:5 "o glorioso esplendor da tua majestade"

6 Maurice Roberts, "O the Depth!" (Ó Profundidade!) The Banner of Truth, julho de
1990, página 2.
7 Jonathan Edwards, The Works ofJonathan Edwards (As Obras de Jonathan Edwards),
rev. Edward Hickman (1834; reimpressão, Edinburgh, Escócia: The Banner of Truth
Trust, 1974), vol. 1, página xiv.
8 Conforme citado por Philip Yancey em "Breaking the Bible Barrier" (Quebrando
a Barreira da Bíblia), Moody, julho/agosto de 1986, página 30.
9 Watson, página 65.
10 William Bridge, The Works of the Reverend William Bridge (As Obras do Reverendo
William Bridge) (reimpressão, 1845; reimpressão, Beaver Falls, PA: Soli Deo Gloria,
1989), vol. 3, página 126.
11 Bridge, página 152.
12 Bridge, página 135.
13 Richard Baxter, The Practical Works of Richard Baxter: Select Treatises (Obras Práticas
de Richard Baxter: tratados selecionados) (Grand Rapids, MI: Baker Book House,
1981), página 90.
14 J. I. Packer, prefácio a R. C. Sproul, Knowing Scripture (Conhecendo as Escrituras)
(Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1979), páginas 9-10.
CAPÍTULO QUATRO

O ra çã o ...
C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e

Nós, protestantes, somos um povo indisciplinado.


Eis a razão, em grande parte, da falta de discernimento
espiritual e da grave falta de poder moral.

Albert Edward Day


Citação em How to Keep a Spiritual Journal
(Como Manter um Diário Espiritual), de Ronald Klug

A maior receptora de rádio da terra está no Novo México.


Os pilotos a chamam "campo de cogumelos", mas seu
verdadeiro nome é Very Large Array (Formação Muito Grande).
O "VLA" é uma série de enormes discos de satélites em trinta
e oito milhas de estradas de ferro. Juntos, os discos imitam um
único telescópio do tamanho de Washington D.C. Os
astrônomos vêm de todas as partes do mundo para analisar as
imagens ópticas do céu compostas pela VLA a partir dos sinais
de rádio que recebe do espaço. Por que um aparato tão
gigantesco é necessário? Porque as ondas de rádio, muitas vezes
emitidas de fontes a milhões de anos luz de distância, são muito
fracas. A energia total de todas as ondas de rádio já registrada
mal se iguala à força de um único floco de neve ao cair no chão.1
Que imensas distâncias as pessoas percorrem em busca de
uma débil mensagem do espaço, quando Deus já falou tão
Oração 81

claramente por Seu Filho e pela Sua Palavra! Esforçando-se por


meio dos olhos de telescópios e dos ouvidos eletrônicos do VLA,
elas vasculham a escuridão infinita do universo a procura de
uma palavra. E o tempo todo: "Temos, assim, tanto mais confirmada
a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia
que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva
nasça em vosso coração" (2 Pedro 1:19).
Mas Deus não só tem falado clara e poderosamente a nós
por meio de Cristo e das Escrituras, como também tem um
Ouvido Muito Grande continuamente aberto para nós. Ele ouve
toda oração de Seus filhos, até quando nossas orações são mais
fracas do que um floco de neve. É por isso que, de todas as
Disciplinas escriturísticas, a oração ocupa somente o segundo
lugar em importância seguindo a absorção da Palavra de Deus.
O relacionamento dinâmico da oração com a absorção da
Palavra de Deus e sua proeminência sobre todas as outras
Disciplinas Espirituais é ilustrada a partir da história cristã por
Cari Lundquist:

A igreja do Novo Testamento acrescentou duas outras disciplinas


à oração e ao estudo bíblico: a Ceia do Senhor e os pequenos
grupos de células. John Wesley enfatizou cinco obras de piedade
ao acrescentar o jejum. Os místicos medievais escreveram sobre
nove disciplinas agrupadas a três experiências: purgação do
pecado, iluminação do espírito e união com Deus. Mais tarde, a
abordagem da Convenção Keswick à santidade prática girou em
torno de cinco exercícios religiosos diferentes. Hoje, o livro
Celebration of Discipline (Celebração da Disciplina), de Richard
Foster, relaciona doze disciplinas, todas elas relevantes para o
cristão contem porâneo. Mas sejam quais forem os variados
exercícios religiosos que pratiquemos, sem os dois básicos de
Em aús - oração e leitura da Bíblia - os outros são vazios e
ineficazes.2
82 Oração

Se Lundquist estiver certo, como eu creio que esteja, então


uma das principais razões para a falta de Piedade é a falta de
oração.
Durante a década de 1980, enquanto freqüentavam
seminários sobre oração por despertamento espiritual, mais de
dezessete mil membros de uma importante denominação
evangélica foram entrevistados a respeito de seus hábitos de
oração. Por freqüentarem tal tipo de seminário, podemos
presumir que essas pessoas tinham um interesse acima da
média pela oração. Entretanto, as pesquisas revelaram que elas
oravam em média menos de cinco minutos por dia. Havia dois
mil pastores e esposas nos mesmos seminários que, conforme
eles próprios admitiram, oravam menos de sete minutos por
dia. É muito fácil fazer as pessoas se sentirem culpadas com
relação à falta de oração, e esta não é a intenção deste capítulo.
Mas é preciso aceitar o fato de que, para sermos como Jesus,
temos que orar.

É PRECISO ORAR

Dizer que é preciso orar pode mexer um pouco com os filhos


de uma era não conformista e anti-autoridade. Aqueles que têm
se colocado sob a autoridade de Cristo e da Bíblia, contudo,
sabem que a vontade de Deus é que oremos. Mas também
cremos que a vontade Dele é perfeita.

Jesus Espera que Oremos


Não pense na oração como uma necessidade impessoal.
Observe que ela é uma Pessoa, o Senhor Jesus Cristo, com toda
autoridade e com todo amor, que espera que nós oremos. Esses
excertos de Suas palavras mostram que Ele mesmo espera que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 83

oremos:

o Mateus 6:5: "E quando vocês orarem..."


o Mateus 6:6: "Mas quando você orar..."
© Mateus 6:7: "E quando orarem..."
© Mateus 6:9: "Vocês, orem assim..."
© Lucas 11:9: "Por isso lhes digo: Peçam...; busquem...; batam..."
0 Lucas 18:1: "Então Jesus contou aos seus discípulos...que eles deviatn
orar sempre..."

Suponha que Jesus aparecesse a você pessoalmente, assim


como Ele fez ao Apóstolo João na Ilha de Patmos em Apocalipse
1, e dissesse que espera que você ore. Você não se tomaria mais
fiel na oração sabendo especificamente que Jesus espera isso
de você? Bem, as palavras de Jesus citadas acima são a Sua
vontade para você tanto quanto se Ele falasse seu nome e as
dissesse a você face a face.

A Palavra de Deus o Toma Claro


Além das palavras de Jesus, a inequívoca expectativa de
Deus no restante do Novo Testamento é que oremos.
Colossenses 4:2: " Dediquem-se à o r a ç ã o Todos nós nos
dedicamos a algo. A maioria de nós, a muitas coisas. Sabemos a
que somos dedicados quando para algo damos prioridade,
dispomo-nos a fazer sacrifícios e a dedicar tempo. Deus espera
que os cristãos sejam dedicados à oração.
1 Tessalonicenses 5:17: "Orem continuamente." Enquanto
"Dediquem-se à oração" enfatiza a oração como atividade,
"Orem continuamente" nos traz à mente que a oração é também
um relacionamento com o Pai.
Assim, este versículo, não significa que nada façamos senão
orar, pois a Bíblia espera muitas outras coisas de nós além da
84 Oração

oração, inclusive períodos de descanso quando não podemos


orar conscientemente. Significa, na verdade, que, se falar e
pensar em Deus não é algo que possa estar na parte dianteira
de sua mente, deve sempre estar à espreita para tomar o lugar
daquilo em que você está se concentrando. Você pode entender
que orar sem cessar é comunicar-se com Deus em uma linha
enquanto também recebe chamadas em outra. Ainda que esteja
falando na outra linha, você nunca perde a consciência da
necessidade de voltar a atenção para o Senhor. Assim, orar sem
cessar significa que você nunca pára realmente de conversar
com Deus; mas simplesmente é interrompido com freqüência.
Eu poderia ter escolhido outras passagens da Nova Aliança
que indicassem que Deus espera que nós oremos, mas essas
duas são especialmente significativas por serem ordens diretas.
Isto significa que ter pouco tempo, muitas responsabilidades,
muitos filhos, trabalho demais, pouco desejo, pouca experiência
etc., não nos isenta da expectativa de orar. Deus espera que
todo cristão seja dedicado à oração e ore sem cessar.
Martinho Lutero, um homem de oração bem como
reformador da igreja, expressou a expectativa divina em relação
à oração da seguinte forma: "Assim como a tarefa dos alfaiates
é fazer roupas e a dos sapateiros, consertar sapatos, a tarefa
dos cristãos é orar".3
Mas devemos ver a expectativa de orar não só como um
chamado divino, mas também como convite excelente. Como
o escritor de Hebreus nos diz, "Assim, aproximemo-nos do trono
da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e
encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade" (4:16).
Podemos ser pessimistas em relação à oração e ver a expectativa
de orar meramente como obrigação, ou podemos ser otimistas
que vêem a ordem de orar como oportunidade de receber
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 85

misericórdia e graça de Deus.


Minha esposa Caffy espera que eu telefone para ela quando
viajo. Mas essa expectativa é uma expectativa de amor. Ela pede
que eu ligue porque ela quer saber como estou. A expectativa
de Deus para que oremos é assim também. A Sua ordem de
orar é de amor. Em Seu amor, Ele deseja comunicar-se conosco
e nos abençoar.
Deus também espera que oremos assim como um general
espera ouvir notícias de seus soldados na batalha. Um escritor
nos lembra de que "a oração é um walkietalkie para a luta
armada, e não um interfone doméstico para aumentar nossas
conveniências". 4 Deus espera que usemos o walkietalkie da
oração porque esse é o meio que Ele ordenou não só para a
Piedade, mas também para a batalha espiritual entre o Seu
Reino e o reino de Seu inimigo. Abandonar a oração é, na melhor
das hipóteses, lutar com nossos próprios recursos, e na pior, é
perder interesse pela batalha.
O que sabemos é que Jesus orou. Lucas nos diz: "Mas Jesus
retirava-se para lugares solitários, e orava" (Lucas 5:16). Se Jesus
precisou orar, quanto mais nós precisamos? A oração é esperada
de nós porque nós precisamos dela. Sem ela, não seremos como
Jesus.
Por que, então, tantos crentes confessam que não oram
como deveriam? Às vezes o problema é basicamente falta de
disciplina. Nunca se planeja orar; nunca se reserva tempo
somente para a oração. Enquanto externamente se ressalta a
prioridade da oração, na realidade, ela sempre parece ser
sufocada por coisas mais urgentes.
Muitas vezes nós não oramos porque duvidamos que algo
realmente irá acontecer se orarmos. Obviamente, não
admitimos isso publicamente. Mas se tivéssemos certeza de
86 Oração

resultados visíveis no período de sessenta segundos de cada


oração, as calças de todo cristão no mundo teria furos nos
joelhos! Evidentemente, a Bíblia nunca promete isso, ainda que
seja promessa de Deus responder as orações. A oração envolve
comunicação no reino espiritual. Muitas orações são
respondidas de formas que não podem ser vistas no reino
material. Muitas orações são respondidas de formas diferentes
daquilo que pedimos. Por várias razões, após abrirmos nossos
olhos, nem sempre vemos evidências tangíveis de nossas
orações. Quando não vigiamos, isso nos tenta a duvidar do
poder de Deus na oração.
A falta de senso de proximidade de Deus também pode
desencorajar a oração. Há aqueles momentos maravilhosos
quando o Senhor parece tão próximo que quase esperamos
ouvir uma voz audível. Ninguém precisa ser incitado a orar
nesses tempos de preciosa intimidade com Deus. Normalmente,
porém, não nos sentimos assim. Na verdade, às vezes nem
conseguimos sentir a presença de Deus! Embora seja verdade
que a oração (bem como todos os aspectos de nossa vida cristã)
deva ser governada pela verdade das Escrituras e não por
nossos sentimentos, a fragilidade de nossas emoções
freqüentemente corrói o nosso desejo de orar. Quando o desejo
de orar enfraquece, podemos encontrar muitas outras coisas
para fazer.
Quando há pouca consciência da real necessidade, há pouca
oração verdadeira. Algumas circunstâncias nos levam a dobrar
os joelhos. Mas há períodos em que a vida parece bastante
controlável. Embora Jesus tenha dito: "Sem mim vocês não podem
fazer coisa alguma" (João 15:5), esta verdade é mais eficazmente
absorvida em algumas épocas do que em outras. Em orgulho e
auto-suficiência, podemos viver por dias como se a oração fosse
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 87

necessária apenas quando acontece algo grande demais para


enfrentarmos sozinhos. Até que vejamos o perigo e a tolice desta
atitude, a expectativa de Deus de que oremos pode parecer
irrelevante.
Quando nossa consciência da grandeza de Deus e do
evangelho é vaga, nossa vida de oração também será pequena.
Quanto menos pensamos na natureza e no caráter de Deus, e
quanto menos nos lembramos do que Jesus Cristo fez por nós
na Cruz, menor é nosso desejo de orar. Dirigindo meu carro
hoje, ouvi um programa de rádio onde o convidado, um
astrofísico, falou sobre os bilhões de galáxias do universo. Em
apenas um momento de meditação nisso, automaticamente
passei a louvar e orar. Por quê? Eu adquiri uma nova consciência
de quão grandioso Deus realmente é. E quando penso naquilo
de que Cristo me salvou, quando relembro a vergonha que Ele
passou tão voluntariamente por minha causa, quando me
lembro de tudo o que a salvação significa, a oração não é penosa.
Quando este tipo de pensamento é infreqüente, a oração
significativa também se torna infreqüente.
Outra razão porque muitos cristãos oram tão pouco é que
eles não aprenderam sobre a oração.

ORAR É ALGO QUE SE APRENDE

Se você estiver desanimado com a ordem de orar porque


sente que não sabe como orar bem, o fato de a oração ser
aprendida deve dar-lhe esperanças. Isso significa que não há
problemas em se iniciar a vida cristã sem qualquer
conhecimento ou experiência em oração. Não importa quão
fraca ou forte sua vida de oração esteja neste momento, você
pode aprender a fortalecê-la ainda mais.
88 Oração

Existe um entendimento de que a oração não precisa ser


ensinada a um filho de Deus mais do que um bebê precisa ser
ensinado a chorar. Mas chorar por necessidades básicas é
comunicação mínima, e nós logo temos que passar dessa
infância. A Bíblia diz que devemos orar para a glória de Deus,
em Sua vontade, em fé, no nome de Jesus, com persistência e
mais. Um filho de Deus aprende gradualmente a orar dessa
forma assim como uma criança em crescimento aprende a falar.
Para orar como é esperado, para orar como cristão maduro e
para orar efetivamente, devemos dizer como os discípulos em
Lucas 11:1: “Senhor, ensina-nos a orar".

Orando
Se você já aprendeu uma língua estrangeira, sabe que
aprender é melhor quando você realmente tem que falar o
idioma. O mesmo é verdadeiro com a "língua estrangeira" da
oração. Há muitos bons recursos para se aprender a orar, mas
o melhor jeito de aprender a orar é orando.
Andrew Murray, ministro sul-africano e autor de With
Christ in the School ofPrayer ("Com Cristo na Escola da Oração"),
escreveu: "Ler um livro sobre oração, ouvir palestras e falar
sobre o assunto é muito bom, mas não vai ensinar você a orar.
Não se adquire nada exceto exercício sem prática. Posso ouvir
um professor de música tocar a música mais bonita por um
ano, mas isso não irá me ensinar a tocar um instrumento".5
O Espírito Santo ensina as pessoas de oração a como orar
melhor. Essa é uma das aplicações de João 16:13, onde Jesus
diz: "Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a
verdade". Assim como um avião é guiado mais facilmente
quando está no ar do que no chão, com seu motor desligado, o
Espírito Santo nos guia em oração melhor quando estamos na
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 89

prática da oração do que quando não estamos.

Meditando nas Escrituras


Este é um dos conceitos de oração mais convincentes que
já aprendi. A meditação é o elo perdido entre a absorção bíblica
e a oração. Os dois são freqüentemente separados, quando
deveriam ser unidos. Lemos a Bíblia, fechamo-la, e depois
tentamos mudar a marcha para entrar em oração. Mas muitas
vezes, parece que a marcha entre as duas não engrena. Na
verdade, após algum avanço em nosso tempo na Palavra, mudar
para a oração às vezes é como voltar repentinamente para
ponto-morto ou até mesmo dar marcha à ré. Em vez disso,
deveria haver uma transição suave, quase imperceptível, entre
a absorção das Escrituras e a produção de oração, para que nos
aproximássemos ainda mais de Deus naqueles momentos. Isso
acontece quando há o link da meditação as une.
Ao menos dois textos das Escrituras ensinam isso por
exemplo. Davi orou em Salmo 5:1: "Escuta, SENHOR, as minhas
palavras, considera o meu gemer". A palavra hebraica traduzida
por "gemer" pode também ser traduzida por "meditação". Na
verdade, a mesma palavra é usada com esse significado em
outra passagem, Salmo 19:14: "Que as palavras dos meus lábios e a
meditação do meu coração sejam agradáveis a ti, SENHOR, minha
Rocha e meu Resgatador". Observe que os dois versículos são
orações e ambos se referem a outras "palavras" faladas em
oração. Contudo, em cada caso, a meditação foi um catalisador
que catapultou Davi da verdade de Deus para o falar com Deus.
Em 5:1 ele estava meditando e agora ele pede que o Senhor dê
ouvidos e o considere. Em Salmo 19, encontramos uma das
declarações mais conhecidas já escritas sobre as Escrituras,
começando com as famosas palavras do versículo 7: "A lei do
90 Oração

SENHOR é perfeita, e revigora a alma". O texto continua até o


versículo 11 e depois Davi ora no versículo 14, como resultado
dessas palavras e de sua meditação.
O processo funciona da seguinte maneira: Após a absorção
de uma passagem das Escrituras, a meditação permite que
pensemos profundamente naquilo que Deus nos disse, o
digiramos e depois falemos com Deus em expressiva oração
sobre o que foi mostrado. Como resultado, oramos sobre o que
encontramos na Bíblia, agora personalizado por meio da
meditação. E não somente temos algo substancial a dizer em
oração, e a confiança de que estamos orando os pensamentos
de Deus a Ele, mas fazemos suavemente a transição à oração
com paixão por aquilo que estamos orando. Então, ao
continuarmos orando, não cambaleamos porque já tivemos uma
parte de nosso momento espiritual.
Parece que aqueles que melhor conheceram este segredo
foram os Puritanos Ingleses que viveram de 1550 a 1700.
Permita-me citar vários escritores puritanos, não apenas para
mostrar quão notavelmente comum era esta agora incomum
conexão entre meditação e oração dentre eles, mas também para
prender a sua verdade firmemente em sua vida de oração. Há
muito a ser retido desta coleção de pregos bem fixados.
Richard Baxter, pastor e autor do clássico ainda impresso
The Reformed Pastor (O Pastor Reformado), escreveu:

Assim, em nossas meditações, entremear monólogo e oração; às


vezes falando a nossos próprios corações, e às vezes, a Deus, é,
eu reconheço, o degrau mais alto que podemos alcançar nesta
tarefa celestial. Nem devemos imaginar que isso será também
apegar-se à oração somente, e deixar de lado a meditação; pois
elas são incumbências distintas, e ambas devem ser cumpridas.
Precisamos de uma tanto quanto da outra, portanto, causaremos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 91

males a nós mesmos se negligenciarmos alguma delas. Além disso,


a mistura delas, assim como a música, será mais atraente; já que
uma serve para dar vida à outra. E nosso falar conosco mesmos
em meditação deve ocorrer antes de nosso falar com Deus em
oração.6

John Owen, capelão de Oliver Cromwell e o maior teólogo


dos Puritanos, disse: "Ore ao pensar. Abrace conscientemente
com o seu coração todo vislumbre de luz e verdade que vier a
sua mente. Agradeça a Deus e ore sobre tudo o que causar
impacto forte em você".7
Pastor puritano e comentarista da Bíblia, Matthew Henry
advertiu sobre Salmo 19:14: "As orações de Davi não foram suas
palavras apenas, mas suas meditações; como a meditação é a melhor
preparação para a oração, assim a oração é a melhorfonte da meditação.
Meditação e oração andam juntas".8
Um dos mais prolíficos escritores-pregadores puritanos foi
Thomas Manton. Em uma mensagem sobre a meditação de
Isaque no campo (em Gênesis 24:63), ele aponta diretamente a
meditação como o elo entre a absorção bíblica e a oração. Ele
escreveu:
A meditação é um tipo intermediário de incumbência entre a
palavra e a oração, e diz respeito a ambas. A palavra alimenta a
meditação e a meditação alimenta a oração. Tais incumbências
devem estar sempre intimamente relacionadas; a m editação deve
seguir o ouvir e anteceder a oração. O uvir e não m editar é
improdutivo. Podemos ouvir e ouvir muitas vezes, mas será como
colocar algo em um saco furado...E temerário orar e não meditar.
O que absorvem os pela palavra digerim os pela m editação e
liberam os pela oração. Essas três incum bências devem ser
ordenadas para que uma não atropele a outra. Os homens ficam
estéreis, áridos e desvigorados em suas orações por não se
exercitarem em pensamentos santos.9
92 Oração

William Bates, chamado "o mais clássico e culto dos últimos


pregadores puritanos", disse: "Por qual razão nossos desejos,
assim como uma flecha arremessada por um arco fraco, não
atingem o alvo? simplesmente esta: não meditamos antes de
orar...A maior razão por que nossas orações são ineficazes é
que não meditamos antes fazê-las".10
Dentre os melhores dos escritos práticos puritanos está o
de William Bridge, que fez a seguinte declaração sobre a
meditação:

Tal como a irmã da leitura, assim é a mãe da oração. Embora o


coração do homem seja muito indisposto a orar, se tão-somente
ele puder entrar em meditação sobre Deus e as coisas de Deus,
seu coração logo começará a orar...Comece lendo ou ouvindo.
Prossiga m editando; termine em oração...Ler sem m editar é
improdutivo; meditar sem ler é lesivo; meditar e ler sem orar em
ambos é deixar de ser abençoado.11

Em seu livro From Mind to Heart (Da Mente para o Coração),


Peter Toon, um escritor britânico moderno, resume o ensino
dos puritanos sobre essas coisas:

Ler a Bíblia e não meditar foi visto como um exercício infrutífero:


melhor é ler um capítulo e meditar após a leitura do que ler vários
capítulos e não meditar. Semelhantemente, meditar e não orar
foi como se preparar para uma corrida e nunca sair da linha de
largada. As três incumbências de ler as Escrituras, meditar e orar
e stã o lig a d a s e, em b ora cad a um a p ossa ser re a liz a d a
ocasionalmente em separado, como incumbências formais a Deus
elas foram melhor realizadas juntas.12

Aproximadamente duzentos anos depois dos puritanos,


destacou-se o homem reconhecido como um dos homens de
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 93

oração mais ungidos por Deus que o mundo já viu: George


Muller. Por dois-terços do último século, ele dirigiu um orfanato
em Bristol, Inglaterra. Unicamente em oração e fé, sem anunciar
sua necessidade ou entrar em dívida, ele cuidou de dois mil
órfãos de uma só vez e apoiou a obra missionária em todo o
mundo. Milhões de dólares vieram por suas mãos
espontaneamente, e são conhecidas as suas dezenas de milhares
de respostas de oração de que se tem registro.
Qualquer pessoa que tenha ouvido a história de George
Muller irá ponderar sobre o segredo de sua eficácia na oração.
Embora alguns argumentem que o "segredo" de Muller seja
uma coisa, e outros argumentam que é outra, creio que devamos
definitivamente atribuir sua incomum e bem-sucedida vida de
oração à soberania de Deus. Mas se procurarmos algo a
transferir de sua vida para a nossa, meu voto vai para algo que
nunca ouvi ser considerado como seu "segredo".
Na primavera de 1841, George Muller fez uma descoberta
sobre o relacionamento entre a meditação e a oração que
transformou a sua vida espiritual. Ele descreveu sua nova visão
da seguinte maneira:

Minha prática foi, por ao menos dez anos, colocar-me em


oração depois de me vestir pela manhã. Porém, vi que o mais
im portante era dedicar-m e à leitura da Palavra de Deus, e à
meditação nela, p ara que en tão m eu c o ra ç ã o p u d esse ser
confortado, encorajado, aquecido, reprovado, instruído; e para
que, assim, por meio da Palavra de Deus, ao meditar nela, meu
coração pudesse ser trazido à comunhão experimental com o
Senhor.
Comecei, portanto, a meditar no Novo Testamento desde o
início, logo pela manhã. A primeira coisa que fazia, após ter pedido
em poucas palavras a bênção do Senhor sobre Sua preciosa
Palavra, era começar a meditar na Palavra de Deus, buscando obter
94 Oração

bênção em cada versículo; não por causa do ministério público


da Palavra, nem para pregar sobre aquilo que havia meditado,
mas a fim de obter alimento para minha própria alma.
O resultado obtido era que, quase invariavelmente, após
alguns minutos, minha alma era levada à confissão, ou à ação de
graças, ou à intercessão, ou à súplica, de forma que, embora eu
não, por assim dizer, me colocasse em oração, mas em meditação,
isso resultava quase imediatamente em algum grau de oração.
Depois, então, de ter estado por um tempo em confissão ou
intercessão ou súplica, ou dado graças, vou para as próximas
palavras ou versículo, levando tudo, ao prosseguir, em oração
por mim mesmo ou por outros, conforme a Palavra conduza a
isso, m as ainda continuam ente m antendo ante m im que o
alimento para minha própria alma é o objeto de minha meditação.
O resultado é que há sempre uma boa parte de confissão, agradecimento,
súplica ou intercessão associada a minha meditação, e meu homem
interior quase que invariavelmente é até nutrido e fortalecido de
forma perceptível, e, antes do café da manhã, com raras exceções,
estou em um estado pacífico, senão feliz, de coração.
A diferença, então, entre a prática anterior e a atual é o
seguinte: antigamente, quando me levantava, eu começava a orar
logo que possível e geralmente passava em oração todo o tempo
que tinha, ou quase, até o café da manhã. Acontecesse o que
a co n te ce sse , eu quase in v ariav elm en te co m e ça v a com
oração...Mas qual era o resultado? Muitas vezes eu passava de
quinze minutos a meia hora, chegando até a uma hora, de joelhos
antes de estar consciente de ter obtido consolo, encorajamento,
humilhação de alma etc.; e muitas vezes, somente depois de sofrer
bastante vaguear de mente, após os primeiros dez ou quinze
minutos, ou até meia hora, é que eu realmente começava a orar.
Quase nunca sofro assim hoje em dia. A razão é que, meu
coração estando nutrido pela verdade e sendo trazido à comunhão
experimental com Deus, falo com meu Pai e com meu Amigo
(embora indigno eu seja, e não merecedor dele) sobre as coisas
que Ele tem trazido diante de mim, em Sua preciosa Palavra. Hoje
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 95

fico abismado por não ter percebido esse ponto antes...Agora,


desde que Deus me ensinou este ponto, ficou muito evidente para
mim que a primeira coisa que o filho de Deus tem que fazer manhã
após manhã é alimentar o seu espírito interior.
Mas, o que seria alimento para o espírito? Não a oração, mas a
Palavra de Deus; e digo novamente, não a mera leitura da Palavra de
Deus, para que apenas passe por nossas mentes, assim como a água
passa por um cano, mas considerando o que lemos, ponderando e
aplicando a nossos corações.
Quando oramos, falamos com Deus. Agora a oração, para
ser continuada por qualquer período de tem po de qualquer
maneira que não seja formal, requer, falando em termos gerais,
uma medida de força ou desejo piedoso, e a momento, portanto,
em que tal exercício da alma pode ser mais efetivamente realizado
é após o espírito ter sido nutrido pela meditação na Palavra de Deus,
onde encontramos nosso Pai falando a nós, para nos encorajar,
consolar, instruir, humilhar, reprovar. Podemos, assim, meditar
proveitosamente com a bênção de Deus, em bora sejamos tão
fracos espiritualmente; ou antes, quanto mais fracos somos, mais
necessitamos da meditação para fortalecimento do nosso espírito
interior Assim, há muito menos a se temer em relação ao vaguear
da mente do que se nos dedicamos à oração sem ter tido tempo
para meditação antes.
Estendo-me tão especificamente neste ponto por causa do
imenso proveito e revigoramento espiritual que estou consciente
de ter particularmente obtido dele e gentil e solenemente rogo a
todos os meus companheiros crentes que ponderar sobre este
assunto. Pela bênção de Deus, eu atribuo a esta fórmula a ajuda e
a força que eu tenho obtido de Deus para passar em paz pelas
provações mais profundas, de várias maneiras, do que eu jamais
obtive antes, e tendo eu, agora por mais de quatorze anos, posto
em prática este método, posso mais plenamente, no tem or de
Deus, recomendá-lo.13

Como aprendemos a orar? Como aprendemos a orar como


96 Oração

Davi, como os puritanos e como George Muller? Aprendemos


a orar meditando nas Escrituras, pois a meditação é o elo
perdido entre a absorção bíblica e a oração.

Orando com outras Pessoas


Os discípulos aprenderam a orar não somente ouvindo
Jesus ensinar sobre a oração, mas também estando com Ele
quando Ele orava. Não nos esqueçamos de que as palavras:
"Senhor, ensina-nos a orar" não foram proferidas simplesmente
como idéia casual. O pedido seguiu um período em que os
discípulos acompanharam Jesus em oração (Lucas 11:1).
Semelhantemente, podemos aprender a orar orando com outras
pessoas que podem servir de exemplo de oração verdadeira
para nós.
Com isso, não quero dizer simplesmente escolher novas
palavras e frases para usar em oração. Assim como acontece
com todo aprendizado por exemplos, podemos adquirir maus
hábitos tanto quanto bons hábitos. Certas pessoas parecem
nunca ter uma oração original. Toda vez que oram dizem as
mesmas coisas. E fica óbvio que elas estão meramente usando
frases empoladas, colhidas das orações de outras pessoas aqui
e ali ao longo dos anos. Jesus disse: "E, orando, não useis de vãs
repetições" (Mateus 6:7). Esses tipos de orações raramente fluem
do coração. Não é a Deus que a oração é dirigida. Na realidade,
tais orações são feitas para impressionar as pessoas que as
ouvem.
Há sempre outros crentes que podem nos ensinar muito
quando oramos com eles. Mas devemos orar com eles para
aprender princípios da oração, e não frases para nossas orações.
Um cristão pode dar razões bíblicas ao Senhor porque uma
oração deva ser respondida. Outro pode nos mostrar como orar
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 97

baseados em passagens das Escrituras. Ao orarmos com um


intercessor fiel, podemos aprender a orar por missões. Orar
regularmente com outros pode ser uma das aventuras mais
enriquecedoras de sua vida cristã. A maioria dos grandes
movimentos de Deus teve início com um pequeno grupo de
pessoas a quem Ele reuniu para começar a orar.

Lendo sobre a Oração


Ler sobre a oração em vez de orar simplesmente não resolve.
Mas ler sobre a oração além de orar pode ser uma forma valiosa
de aprender. "Assim como oferro afia oferro", como diz Provérbios
27:17, "o homem afia o seu companheiro". Leia as lições aprendidas
pelos veteranos das trincheiras da oração e deixe que eles afiem
suas armas da guerra da oração. "Aquele que anda com os sábios
será cada vez mais sábio" é o ensino de Provérbios 13:20. Ler os
livros dos sábios da oração nos dá o privilégio de "andar" com
eles e de aprender o que Deus revelou a eles sobre como orar.
Aprendemos por experiência como as outras pessoas
conseguem ver coisas em uma passagem das Escrituras que
nós não conseguimos, ou como elas são capazes de explicar
uma doutrina conhecida de uma nova maneira, que aprofunda
nosso entendimento. Da mesma forma, ler o que outros
aprenderam sobre a oração com base no que estudaram das
Escrituras e em sua peregrinação na graça pode ser o
instrumento de Deus para nos ensinar o que de outra forma
não aprenderíamos. Quem não aprendeu sobre a oração de fé
depois de ler sobre a vida de oração de George Muller, ou quem
não ficou motivado a orar após ler a biografia de David
Brainerd? Espero que a leitura deste capítulo sobre a Disciplina
da oração o convença de que é possível aprender a orar lendo
sobre oração!
98 Oração

Permita-me acrescentar uma palavra de encorajamento.


Não importa o quanto você ache difícil orar no momento, se
perseverar em aprender a orar, você sempre terá a esperança
de uma vida de oração até mais forte e mais produtiva pela
frente.

ORAÇÕES SÃO ATENDIDAS

Gosto muito da forma como Davi se refere ao Senhor em


Salmo 65:2: "Ó tu que ouves a oração".
Talvez nenhum princípio de oração seja mais tomado como
certo do que este: de que a oração é atendida. Tente ler esta
promessa de Jesus como se fosse pela primeira vez: "Pedi, e
dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que
pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á."
(Mateus 7:7-8).
Andrew Murray comenta ousadamente, mas penso eu, de
forma certa, a promessa de Cristo.

"Peçam e lhes será dado; todo aquele que pede, recebe." Esta é a lei
etem a estabelecida do reino: se você pedir e não receber, deve
ser porque há algo errado ou faltando na oração. Espere; deixe a
Palavra e o Espírito ensinarem você a orar corretamente, mas não
abandone a confiança que Ele busca despertar: Todo o que pede
recebe... Que cada aprendiz da escola de Cristo, portanto, receba
a palavra do M estre em toda sim plicidade... Que tom em os
cuidado para não enfraquecermos a Palavra com nossa sabedoria
humana.14

Já que Deus responde as orações, quando nós "pedimos


e não recebemos", devemos considerar a possibilidade de haver
"algo errado ou faltando" em nossa oração. Pode ser, lembre-
se, que Deus tenha de fato respondido, mas de uma forma não
Com o Propósito de Alcançar a Piedade
99

tão óbvia para nós. E é possível que nada esteja errado em nossa
oração, mas que ainda não tenhamos visto a resposta só porque
Deus pretende que perseveremos um pouco mais em oração
sobre o assunto. Mas temos também que aprender a examinar
nossas orações. Estamos pedindo coisas que estejam fora da
vontade de Deus ou que não O glorificam? Estamos orando
com motivação egoísta? Estamos deixando de lidar com o tipo
de pecado ruidoso que faz com que Deus coloque todas as
nossas orações em espera? Apesar do que vemos em resposta a
nossas orações, contudo, não devemos ficar tão acostumados a
nossas falhas na oração e à percepção de pedir sem receber, a
ponto de nossa fé na força da promessa de Jesus ser diminuída.
Orações são respondidas.
Minha esposa, Caffy, ministra como artista e ilustradora
free-lancer em um pequeno estúdio de nossa casa. Embora ela
tenha produzido centenas de ilustrações para várias
organizações cristãs, todos os seus trabalhos são ocasionais.
Freqüentemente oramos para que o Senhor abra portas de
oportunidade para seu trabalho artístico. Como ela não tinha
nada em sua mesa de desenho, eu recentemente disse que
começaríamos a orar por novos projetos. Antes do almoço na
manhã seguinte, Caffy me chamou e disse: "Por favor, pare de
orar para que o Senhor me dê mais trabalhos! Tive tantos
pedidos esta manhã, que vou levar meses para concluir tudo!"
Ela nunca teve tanto trabalho entrando tão depressa. Havia
várias coisas pelas quais eu estava orando (não apenas por mim
mesmo, mas pela igreja e outros) que o Senhor poderia ter
escolhido responder. Não sei por que a Ele agradou responder
aquele pedido específico. Aquelas oportunidades múltiplas
eram realmente respostas de oração ou apenas uma coleção de
coincidências providenciais? Somente Deus sabe ao certo. Mas
100 Oração

eu concordo com o homem que disse: "Se for coincidência,


certamente acontecem mais coincidências quando oro do que
quando não oro".
Deus não zomba de nós com Suas promessas de responder
orações. C. H. Spurgeon disse:

N ão con sigo im aginar um a pessoa ato rm en tan d o o filho,


estimulando-o a um desejo que não se pretende gratificar. Seria
muito mesquinho oferecer esmola aos pobres e depois, quando
eles estendessem as mãos para apanhá-la, zombar de sua pobreza
com uma negativa. Seria um acréscimo cruel às misérias dos
enfermos se eles fossem levados ao hospital e deixados lá para
morrer, sem atendimento ou cuidado. Se Deus leva você a orar
por algo, Ele pretende que você o receba.15

Pelos textos sobre oração contidos nas Escrituras e por Seu


Espírito, Deus realmente nos leva a orar. Ele não nos conduz à
oração a fim de nos frustrar, batendo a porta dos céus em nossa
face. Disciplinemo-nos em orar e em aprender sobre a oração
para que possamos ser mais parecidos com Jesus ao
experimentar a alegria da oração respondida.

MAIS APLICAÇÃO

Já que a oração é algo que se espera, você irá orar? Desafio


você a isso diretamente porque acho que precisamos tomar
decisões conscientes sobre a nossa vida de oração. Já é tempo
de as intenções gerais relativas à oração se tomarem planos
específicos. Um pastor que concorda com isso escreveu o
seguinte:

A menos que eu esteja muito enganado, uma das principais razões


porque tantos filhos de Deus deixam de ter uma vida de oração
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 101

significativa não é tanto a falta de vontade de tê-la, mas a falta de


planejamento. Quem deseja tirar um mês de férias não se levanta
uma bela manhã de verão e diz: "Hei, vamos viajar hoje!" Você
não tem nada pronto. Você não saberá para onde ir. Nada foi
planejado. Mas é assim que muitos de nós tratamos a oração.
L ev an tam o -n o s dia após dia e p erceb em os que p erío d o s
relevantes de oração deveriam fazer parte de nossas vidas, mas
nada nunca está pronto. N ão sabem os aonde ir. N ad a foi
planejado. Nem o tempo. Nem o lugar. Nem o procedimento. E
todos sabemos que o oposto do planejamento não é um fluxo
maravilhoso de experiências de oração profundas e espontâneas.
O oposto do planejam ento é um a enfadonha rotina. Se não
planejar suas férias, você provavelmente ficará em casa vendo
TV. O fluxo natural não planejado de vida espiritual afunda ao
nível mais baixo de vitalidade. Há uma corrida a ser corrida e
uma luta a ser travada. Se você deseja renovar sua vida de oração,
deve planejar para ver resultados.16

Com o propósito de alcançar a Piedade, você irá orar? Hoje?


Você planejará orar amanhã? E nos dias seguintes?
Já que a oração pode ser aprendida, você irá aprender a
orar? Aprender mais sobre como orar sempre ajuda a melhorar
sua vida de oração. Mas assim como a prática da oração,
aprender sobre oração também requer um pouco de
planejamento. Você irá aprender a orar interligando a leitura
bíblica à oração via meditação? Você planeja orar com outras
pessoas? Está disposto a aprender mais sobre oração lendo
sobre o assunto? O que você irá ler? Há livros sobre o tema,
bem como biografias de grandes guerreiros da oração, em
abundância. Além de considerar algumas das fontes citadas
neste capítulo, peça recomendações ao seu pastor ou a
funcionários de uma livraria cristã. Agora, quando você irá
começar?
102 Oração

J á que as orações são respon didas, você irá orar


persistentemente? Lembre-se de que, na língua original do texto,
as palavras pedir, buscar e bater de Mateus 7:7-8 estão no presente,
tempo contínuo. Isso significa que nós devemos orar sempre
com persistência antes de recebermos respostas. Começando
em Lucas 18:1, Jesus conta uma parábola toda "para mostrar [a
nós] que [nós] devemos orar sempre e nunca desanimar". Às vezes,
deixar de persistir em oração prova que, em primeiro lugar,
não levamos o nosso pedido a sério. Outras vezes, Deus quer
que persistamos em oração a fim de fortalecer a nossa fé Nele.
A fé jamais cresceria se todas as orações fossem respondidas
imediatamente. A oração persistente tende a desenvolver uma
gratidão mais profunda também. Como a alegria do nascimento
de um bebê é maior por causa dos meses que o antecedem,
assim também é alegria de uma resposta de oração após oração
persistente. E tanto quanto uma geração que mede o tempo e
em segundos odeia admitir sua necessidade de tê-la, Deus
molda em nós a paciência semelhante a de Cristo quando requer
persistência na oração.
George Muller observou:

O grande erro dos filhos de Deus é que eles não continuam a orar;
eles não prosseguem em oração; eles não perseveram. Se desejam algo
para a glória de Deus, devem orar até conseguir. O, quão bom,
quão suave e quão gracioso e condescendente é Aquele com quem
temos de lidar! Ele me deu, mesmo em minha indignidade,
infinitamente mais do que tudo o que pedi ou pensei.17

Talvez a razão de tais testemunhos serem incomuns seja


por tão poucos perseverarem em oração. Mas buscar a Deus
em oração vale a pena. Vale a pena qualquer parcela de
frustração e desânimo com oração. Não deixe o Inimigo tentar
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 103

você a se tomar silenciosamente cínico a respeito da disposição


e da habilidade de Deus em responder. Deixe o amor por Deus
fazer com que você prevaleça em oração a Ele, que o ama,
mesmo quando os Seus juízos forem insondáveis e Seus
caminhos, inescrutáveis (Romanos 11:33).
Façamos uma pausa e verifiquemos nossas conexões. Por
que tamanho apelo a nos disciplinarmos a orar? Por causa do
"propósito de alcançar a piedade". Onde há Piedade, há oração.
Tipicamente pitoresco, Spurgeon o disse da seguinte forma:
"Como a lua influencia as marés, assim a oração...influencia as
marés de piedade".18
Homens e mulheres de Deus são sempre homens e
mulheres de oração. Considerando minha experiência pastoral,
concordo com as palavras de J. C. Ryle: "Qual é a razão para
alguns crentes serem tão mais vivazes e santos do que outros?
Creio que a diferença, dezenove entre vinte casos, surge de
diferentes hábitos de oração particular. Creio que aqueles que
não são eminentemente santos oram pouco e aqueles que são
eminentemente santos oram muito".19
Você seria como Cristo? Então, faça como Ele fez: discipline-
se para ser uma pessoa de oração.
104 Oração

1 De um program a de janeiro de 1990, "In fin ite Voyage" (Viagem Infinita),


transmissão da WTTW, estação de televisão pública em Chicago.
2 Cari Lundquist, boletim The Burning Heart (O Coração em Chamas) (St. Paul,
MN: Evangelical Order of the Burning Heart, novembro de 1984), página 2.
3 John Blanchard, comp.. Gathered Gold (Ouro Ajuntado) (Welwyn, Hertfordshire,
Inglaterra: Evangelical Press, 1984), página 227.
4 Do livro Desiring Gold: Meditations of a Christian Hedonist (Desejo por Ouro:
M editações de um C ristão H edonista), de John Piper, cop yrigh t 1986 por
Multnomah Press, Publicado por Multnomah Press, Portland, Oregon 97266. Usado
com permissão, página 147.
5 Andrew Murray, conforme citação em Christianity Today (Cristianismo Hoje), 5 de
fevereiro de 1990, página 38.
6 Richard Baxter, The Practical Works of Richard Baxter: Select Treatises (Obras Práticas
de Richard Baxter: Tratados Selecionados) (Grand Rapids, MI: Baker Book House,
1981), página 103.
7 John Owen, conforme citado em The Banner of Truth (O Estandarte da Verdade),
agosto-setembro de 1986, p. 58.
8 Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible (Comentário de Toda a Bíblia) Old
Tappan, NJ: Revell, n.d.), vol. 3, página 255.
9 Thomas Manton, The Works of Thomas Manton (As Obras de Thomas Manton)
(reimpressão, Worthington, PA: Maranatha Publications, n.d.), páginas 272*273.
10 William Bates, The Whole Works of the Rev. W. Bates (Obras Completas do Rev. W.
Bates), arr. e ver. W. Farmer (reimpressão, Beaver Falls, PA: Soli Deo Gloria, 1989),
vol. 3, página 130.
11 William Bridge, The Works of the Reverend William Bridge (Obras do Reverendo
William Bridge) (reimpressão, 1845; reimpressão, Beaver Falls, PA: Soli Deo Gloria,
1989), vol. 3, páginas 132, 154.
12 Peter Toon, From Mind to Heart: Christian Meditation Today (Da Mente para o
Coração: Meditação Cristã Hoje) (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1987),
página 93.
13 Extraído de Spiritual Secrets of George Muller (Segredos Espirituais de George
Muller), © 1985, de Roger Steer. Direitos americanos concedidos por Harold Shaw
Publishers, Wheaton, IL 60189. Páginas 60-62, ênfase do autor.
14 Andrew Murray, With Christ in the School of Prayer (Com Cristo na Escola da Oração)
(Old Tappan, NJ: Spire Books, 1975), página 33.
15 C. H. Spurgeon, "Thought-Reading Extraordinary" "Leitura de Pensamentos
Extraordinários", Metropolitan Tabernacle Pulpit (London: Passmore and Alabaster,
1885; reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1973), vol. 30, páginas 539­
540.
16 Piper, páginas 150-151, usado com permissão.
17 Roger Steer, George Muller: Delighted in God! (George Muller: Deleitado em Deus!)
(Wheaton, IL: Harold Shaw, 1975), p. 310.
18 C. H. Spurgeon, "Prayer - The Forerunner of M ercy" (Oração: Precursora da
Misericórdia), em New Park Street Pulpit (London: Passmore and Alabaster, 1858;
reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1981), vol. 3, página 251.
19 J. C. Ryle, A Call to Prayer (Chamado à Oração) (Grand Rapids, MI: Baker Book
House, 1979), página 35.
CAPÍTULO CINCO

A d o r a çã o ...
C o m o P r o pó sito d e
A lcançar a P ied a d e

A verdadeira autodisciplina espiritual estabelece


limites aos crentes, mas nunca os acorrenta;
seu efeito é ampliar, expandir e liberar.

D.G. Kehl
Controle a si mesmo! Praticando a Arte da Autodisciplina

U r n a das experiências mais tristes de minha infância ocorreu


durante meu aniversário de dez anos. Os convites para a festa
haviam sido enviados a oito amigos dias antes. Aquele seria o
melhor de meus aniversários. Todos vieram a minha casa direto
da escola. Jogamos futebol e basquete no quintal até escurecer.
Meu pai fez cachorro-quente e hambúrguer enquanto minha
mãe dava os toques finais no bolo de aniversário. Após termos
comido toda a cobertura, o sorvete e a maior parte do bolo,
chegou a hora dos presentes. Honestamente, hoje não consigo
me lembrar de um só daqueles presentes, mas com certeza
lembro-me do quanto estava me divertindo com os meninos
que os haviam dado a mim. Já que eu não tinha irmãos, a melhor
parte de todo o evento foi simplesmente estar com outros
meninos.
O clímax daquela grande celebração foi um presente meu
a eles. Nada era bom demais para meus amigos. O custo era
106 Adoração

imaterial. Eu ia pagar para que eles fossem ao evento mais


contagiante da cidade: o jogo de basquete do colégio. Ainda
posso ver-nos saltando do carro de meus pais, rindo, naquela
noite fresca, e correndo até o ginásio. Em pé na bilheteria,
pagando pelos nove tickets de 25 centavos e cercado de amigos:
foi um daqueles momentos simples, mas impagáveis, da vida.
A cena em minha mente era o final perfeito do aniversário
perfeito de um menino de dez anos. Quatro amigos de um lado
e quatro de outro, eu me sentaria no meio deles, comeríamos
pipoca barulhentamente e ficaríamos cutucando uns aos outros
e torcendo por nossos heróis do colégio. Ao entrarmos, lembro-
me de ter me sentido mais feliz do que Jimmy Stewart na cena
final do filme "A Felicidade não se Compra".
Foi então que meu mundo caiu. Chegando ao ginásio, todos
os meus amigos se dispersaram e eu não os vi mais pelo resto
da noite. Ninguém me agradeceu pelo divertimento, pela
comida ou pelos tickets. Nenhum deles disse: "Desejo a você
um feliz aniversário, mas vou me sentar com outra pessoa".
Sem uma só palavra de gratidão ou adeus, todos eles saíram
sem olhar para trás. Assim, passei o resto de meu décimo
aniversário sozinho na arquibancada, passando, solitário, para
a próxima idade. Em minha mente, ficou a lembrança de que
aquele foi um jogo deplorável.
Conto essa história não com o intuito de ganhar
comiseração por uma memória de infância dolorosa, mas
porque ela me faz lembrar a forma como muitas vezes tratamos
Deus na adoração. Embora compareçamos a um evento onde
Ele é o Convidado de Honra, é possível dar a Ele presentes de
rotina, cantar algumas canções costumeiras para Ele e depois
negligenciá-Lo totalmente enquanto focamos em outros e
desfrutamos a performance daqueles que estão à nossa frente.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 107

Assim como os meus amigos de dez anos, podemos sair sem a


mínima dor na consciência e sem qualquer percepção de nossa
insensibilidade, convencidos de que cumprimos uma obrigação
bem.
O próprio Jesus reenfatizou e obedeceu à ordem do Antigo
Testamento "Adore o Senhor, o seu Deus" (Mateus 4:10). É
obrigação (e privilégio) de todas as pessoas adorar seu Criador.
"Venham! Adoremos prostrados", diz Salmo 95:6, "e ajoelhemos
diante do SENHOR, o nosso Criador". Deus claramente espera
que nós adoremos. E o nosso propósito! Piedade sem a adoração
a Deus é impensável. Mas aqueles que buscam a Piedade devem
perceber que é possível adorar a Deus em vão. Jesus citou outra
passagem do Antigo Testamento para advertir sobre a adoração
vã: "Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe
de mim. Em vão me adoram" (Mateus 15:8-9).
Como podemos adorar a Deus sem adorar em vão?
Devemos aprender algo que é essencial ao aprendizado da
semelhança com Jesus: a Disciplina Espiritual da adoração.

ADORAR É...FOCAR EM DEUS E RESPONDER


POSITIVAMENTE A ELE

É difícil definir bem a adoração. Primeiro, vamos observar.


Em João 20:28, quando o Jesus ressurreto aparece a Tomé e
mostra as cicatrizes em Suas mãos e lado, ocorre adoração
quando Tomé diz: "Senhor meu e Deus meu!" Em Apocalipse
4:8, é-nos dito que quatro criaturas ao redor do trono adoram a
Deus dia e noite sem cessar dizendo: "Santo, santo, santo é o
Senhor Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir". Depois,
no versículo 11, somos informados que os vinte e quatro anciãos
ao redor do trono de Deus nos Céus O adoram lançando suas
108 Adoração

coroas a Seus pés e prostrando-se diante Dele e dizendo: "Tu,


Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder,
porque criaste todas as coisas, e por tua vontade elas existem e foram
c r ia d a s No capítulo seguinte, milhares e milhares de anjos,
anciãos e criaturas viventes ao redor do trono celestial de Jesus
Cristo, o Cordeiro de Deus, adorando, clamam em alta voz:
"Digno é o Cordeiro quefoi morto de receber poder, riqueza, sabedoria,
força, honra, glória e louvor!" (5:12). Imediatamente a seguir vem
a adoração de toda criatura, dizendo: "Àquele que está assentado
no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o poder, para
todo o sempre!" (5:13).
Agora, vamos descrever o que vimos. A palavra worship
(adoração em inglês) vem da palavra saxônica weorthscype, que
depois se tomou worthship. Adorar a Deus é atribuir a Ele o
devido valor, magnificar a Sua dignidade de louvor, ou melhor,
aproximar-se e referir-se a Deus porque Ele é digno. Como Deus
Santo e Todo-poderoso, o Criador e Sustentador do Universo,
o Juiz Soberano a quem devemos dar contas, Ele é digno de
todo o mérito e honra que possamos dar a Ele e infinitamente
mais. Observe, por exemplo, como aqueles ao redor do trono
de Deus em Apocalipse 4:11 e 5:12 se referiram a Deus como
"digno" de tantas coisas.
Quanto mais focamos em Deus, mais entendemos e
apreciamos a Sua dignidade. Quando a entendemos e
apreciamos, torna-se inevitável reagir a Ele. Assim como um
indescritível pôr-do-sol ou uma estonteante vista do topo de
uma montanha evoca uma reação espontânea, nós não podemos
descobrir a dignidade de Deus sem reagir em adoração. Se
pudesse ver Deus neste momento, você entenderia tão
plenamente quão digno Ele é de adoração, que instintivamente
se prostraria e O adoraria. E por isso que lemos em Apocalipse
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 109

que quando aqueles que se colocam ao redor do trono O vêem,


prostram-se em adoração e aquelas criaturas mais próximas
Dele ficam tão maravilhadas com Sua dignidade, que por toda
eternidade O adoram sem cessar, respondendo com: "Santo,
santo, santo". Assim, adorar é focar em Deus e reagir a Ele.
Mas ainda não estamos no Céu para ver o Senhor desta
forma. Como Deus é revelado a nós aqui para que nós possamos
focalizar Nele? Ele tem Se revelado pela Criação (Romanos 1:20),
assim, a reação certa diante do estonteante pôr-do-sol ou da
espetacular vista da montanha é a adoração ao Criador. Mais
especificamente, Deus tem revelado a Si mesmo perfeitamente
por Sua Palavra, a Bíblia (2 Timóteo 3:16,2 Pedro 1:20-21) e Sua
Palavra, Jesus Cristo (João 1:1, 14; Hebreus 1:1-2). Portanto,
nossa responsabilidade é buscar a Deus por meio de Cristo e
da Bíblia. Quando o Espírito Santo abre os olhos de nosso
entendimento, vemos Deus revelado nas Escrituras e reagimos.
Por exemplo, suponha que acabamos de ler na Bíblia que Deus
é santo. Quando meditamos nisso e começamos a descobrir mais
do que o fato de Deus ser santo significa, o desejo de adorá-Lo
nos domina. Mas Deus é mais claramente revelado em Jesus
Cristo, pois Jesus é Deus. Se por meio da meditação, nós
focalizarmos a Pessoa e a obra de Cristo conforme reveladas
na Bíblia, entenderemos a Deus, pois Jesus "o tornou
conhecido" (João 1:18). E à medida que verdadeiramente
compreendemos a Deus, nossa reação passa a ser adorá-Lo.
É por isso que a adoração a Deus, tanto pública quanto
privada, deve ter como base e incluir muito da Bíblia. A Bíblia
revela Deus a nós para que possamos adorá-Lo. A leitura e a
pregação da Bíblia são centrais na adoração pública por serem
a apresentação mais clara, mais direta e mais extensa de Deus
na reunião. Pelas mesmas razões, a absorção e a meditação
110 Adoração

bíblica são o coração da adoração privada. Os salmos e hinos e


cânticos espirituais são cantados ou para expressar verdades
sobre Deus ou em reação de adoração a Deus. A oração é uma
reação a Deus como Ele é revelado nas Escrituras, assim como
ofertar.
Já que adorar é focar e reagir a Deus, independentemente
do que mais estejamos fazendo, não estaremos adorando se
não estivermos pensando em Deus. Você pode estar ouvindo
um sermão, mas sem pensar em como a verdade de Deus se
aplica a sua vida e afeta o seu relacionamento com Ele, você
não estará adorando. Você pode estar cantando: "Santo, santo,
santo", mas se não estiver pensando em Deus enquanto canta,
você não estará adorando. Você pode estar ouvindo alguém
orar, mas se não estiver pensando em Deus e orando com a
pessoa, você não estará adorando. Considera-se que todas as
coisas feitas em obediência ao Senhor, mesmo as coisas do dia-
a-dia no trabalho e no lar, sejam atos de adoração. Mas essas
coisas não substituem a adoração direta a Deus.
A adoração inclui sempre palavras e ações, mas as
ultrapassa, chegando ao foco da mente e coração. A adoração é
o foco e a reação do homem interior centrados em Deus; é ter
Deus como ocupação principal. Assim, não importa o que esteja
dizendo, cantando ou fazendo a qualquer momento, você estará
adorando a Deus somente quando estiver focado Nele e
pensando Nele. Mas quando estiver realmente focado no valor
infinito de Deus, sua reação será adorar tão certo quanto a lua
reflete o sol. Este tipo de adoração não é em vão. O mesmo
acontece quando...
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 111

ADORAÇÃO É...FEITA EM ESPÍRITO E EM VERDADE

A passagem mais profunda sobre adoração no Novo


Testamento é João 4:23-24. Ali, Jesus diz: "No entanto, está
chegando a hora, e defato já chegou, em que os verdadeiros adoradores
adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o
Pai procura. Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o
adorem em espírito e em verdade".
Antes de podermos adorar em espírito e em verdade,
devemos ter dentro de nós Aquele cujo nome é Espírito Santo
e o "Espírito da verdade" (João 14:17). Ele vive somente dentro
daqueles que se voltaram para Cristo em arrependimento e fé.
Sem Ele, não ocorre adoração verdadeira. Em 1 Coríntios 12:3,
lemos que "ninguém pode dizer: 'Jesus é Senhor', a não ser pelo
Espírito Santo". Isso não significa que ninguém seja capaz de
dizer tais palavras sem o Espírito Santo, mas que ninguém pode
dizê-las como ato de verdadeira adoração, a menos que
motivado pelo Espírito Santo. É Ele quem revela Deus a nós e
torna Cristo irresistível, quem nos ensina a verdade das
Escrituras, quem toma vivos corações que estavam mortos em
relação a Deus. Ele é quem faz corações que eram frios quanto
à adoração se inflamarem de paixão por Cristo.
Ter o Espírito Santo habitando em nosso interior não
garante que sempre adoraremos em espírito e em verdade, mas
sim que isso pode acontecer. Adorar a Deus em espírito é adorar
de dentro para fora. Significa ser sincero nos atos de adoração.
Não importa quão espiritual seja a música que você canta, e
independentemente de quão poética seja a oração que você faz,
se não for de coração sincero, não será adoração, mas hipocrisia.
O equilíbrio da adoração em espírito é adorar em verdade.
Devemos adorar de acordo com a verdade das Escrituras. Nós
112 Adoração

adoramos a Deus segundo Ele é revelado na Bíblia, e não como


talvez desejemos que Ele seja. Nós O adoramos como Deus tanto
de misericórdia quanto de justiça, de amor tanto quanto de ira,
um Deus que tanto recebe nos Céus quanto condena ao inferno.
Devemos adorar em resposta à verdade. Se não o fizermos,
nossa adoração será vã.
Tendo argumentado anteriormente sobre a adoração a Deus
em resposta à verdade das Escrituras, desejo dizer mais aqui
sobre adoração em espírito. Quer estejamos considerando a
adoração pública ou privada, precisamos perceber que, a menos
que o coração esteja conectado, não haverá energia para a
adoração. Um pastor e escritor contemporâneo é direto em dizê-
lo: "Onde os sentimentos por Deus estão mortos, a adoração é
morta".1
Ele ilustra isso efetivamente da seguinte forma:

A adoração é uma maneira de refletir com alegria de volta


para Deus a radiação de Seu valor. Isso não pode ser feito pela
mera realização de obrigações. Isso pode ser feito apenas quando
um am or espontâneo desperta no coração.
Considere a analogia de um aniversário de casamento. O meu
é 21 de dezembro. Suponha que nesse dia eu traga uma dúzia de
rosas de galho longo para Noël. Quando ela me encontra à porta,
eu ofereço as rosas e ela diz: "Johnny, que lindas! Obrigada", e
me dê um grande abraço. Depois suponha que eu sustente minha
mão e diga simplesmente: "De nada; é minha obrigação".
O que acontece? O exercício de uma obrigação não é algo
nobre? Não honramos aqueles que servem zelosamente? Não
muito. Não se o coração não estiver nisso. Rosas zelosas são uma
contradição em termos. Se eu não for motivado por um amor
espontâneo por ela como pessoa, as rosas não a honrarão. Na
verdade, elas a depreciam. Elas são uma cobertura muito fina do
fato de que ela não tem o valor ou a beleza aos meus olhos para
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 113

despertar afeição. Tudo o que posso exibir é um a expressão


calculada de obrigação marital.
A verdadeira obrigação da ad oração não é a obrigação
exterior de dizer ou fazer a liturgia. É a obrigação interior, o
mandamento: "Deleite-se no Senhor!" (Salmo 37:4).
A razão porque essa é a verdadeira obrigação da adoração é
que isso honra a Deus, enquanto o desempenho vazio do ritual
não o faz. Se eu levar minha esposa para sair à noite em nosso
aniversário de casamento e ela me perguntar: "Por que você faz
isso?" a resposta que mais a honrará será: "Porque nada me fará
mais feliz hoje à noite do que estar com você".
"É minha obrigação" é uma desonra para ela.
"E minha alegria" é uma honra.
Como nós honraremos a Deus em adoração? Dizendo: "É
minha obrigação?" Ou dizendo: "E minha alegria"?2

Assim, devemos adorar tanto em espírito quanto em


verdade, tanto com o coração quanto com a mente, tanto com
as emoções quanto com os pensamentos. Se adorarmos demais
somente pelo espírito, ficaremos muito sentimentais na
verdade, adorando de acordo com os sentimentos. Isso pode
levar a tudo, de uma tolerância letárgica a qualquer coisa na
adoração em um extremo, a uma labareda espiritual
incontrolável no outro. Mas se adorarmos pela verdade sem
espírito, então nossa adoração será tensa, penosa e gelidamente
previsível.
Na realidade, essas verdades sobre o equilíbrio na adoração
em espírito e em verdade são complementares. E importante
perceber isso porque, francamente, às vezes todos nós tentamos
nos envolver na adoração pública ou privada sem encontrar
fogo algum no altar de nossos corações. Inversamente, o tipo
certo de coração por Deus anseia ser guiado pela verdade.
Devemos ter ambos. Jesus disse que o maior de todos os
114 Adoração

mandamentos envolve amar a Deus de todo o coração e de todo o


entendimento (Marcos 12:30). Se assim não for, nossa adoração é
vã.
Devemos parar de participar da adoração ou interromper
nossos devocionais diários se parecer que não somos capazes
de manter o devido equilíbrio entre espírito e verdade? E se
estivermos passando por a um longo período de sequidão
espiritual onde na prática cada experiência de suposta adoração
pareça ser pouco mais do que um exercício de hipocrisia? Por
que continuar se estamos simplesmente adorando em vão?
Não, não devemos parar de nos envolver em formas de
adoração mesmo que não tenhamos sentimentos de adoração.
Há algumas coisas em que devemos perseverar até quando não
temos vontade, simplesmente porque é a coisa certa a se fazer.
Lembre-se de que até nossa "melhor" adoração é imperfeita
de certa forma, apesar de as imperfeições poderem ser
minúsculas. Entretanto, não defendemos a cessação da adoração
nessas ocasiões por ela ser, de alguma forma, falha. E, mais
importante, é provável que a "grande descoberta" na
restauração da alegria e da liberdade da adoração aconteça no
contexto da adoração. As pessoas muitas vezes me dizem que
não sentiam vontade de ir à igreja em determinada ocasião,
mas algo aconteceu durante o culto, que os renovou e restaurou
sua perspectiva espiritual.
Todo crente deve cruzar alguns desertos espirituais em sua
peregrinação à Cidade Celestial. Alguns lugares áridos podem
ser atravessados em uma hora ou em alguns dias.
Ocasionalmente, contudo, você pode ter que viajar por semanas
com uma alma quase definhada. Insista na adoração. Clame a
Deus por uma consciência renovada dos "rios de água viva"
(referência ao Espírito Santo) que Jesus prometeu em João 7:38
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 115

que fluiriam em cada crente. Mas não pare de adorar. Nunca


desista no deserto. Você não sabe quão grande ele é, e pode ser
que já esteja bem no fim da travessia.

A ADORAÇÃO, TANTO PÚBLICA QUANTO


PRIVADA, É...ESPERADA DO CRISTÃO

Encontramos a ordem que os crentes devem participar


regularmente da adoração corporativa em Hebreus 10:25: "Não
deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns
O primeiro exercício da Disciplina da adoração é desenvolver
o hábito de fielmente se reunir com outros crentes em reuniões
onde o principal propósito seja adorar a Deus.
O cristianismo não é uma religião isolacionista. O Novo
Testamento descreve a Igreja com metáforas como corpo (1
Coríntios 12:12), edifício (Efésios 2:21) e família (Hebreus 2:19),
cada uma fala do relacionamento entre unidades individuais e
um todo maior. Expressar e experimentar o cristianismo quase
sempre no nível individual (isto é, à exclusão do nível grupai),
significa que você irá desnecessariamente e pecaminosamente
perder muito da bênção e do poder de Deus. Este versículo
ensina que aqueles que "desistem" do "hábito" disciplinado
de se reunir com outros crentes desenvolveram um hábito que
não é cristão.
E inegável que nos "reunirmos como igreja" significa adorar
a Deus na presença física de outros crentes. As próprias palavras
não só impedem qualquer outra interpretação, mas quando a
carta foi escrita aos hebreus, não havia outra forma pela qual
elas pudessem ser explicadas. Assim, não podemos nos
persuadir de que estamos "reunidos como igreja" com outros
cristãos ao os assistirmos adorando na televisão. Há bons
116 Adoração

motivos para se transmitir e gravar a adoração congregacional,


mas nenhum inclui a idéia de substituir o ministério da mídia
pela freqüência à igreja por aqueles que são habilitados.
Também é verdade que a qualidade de sua vida devocional
privada não o isenta de adorar com outros crentes. Você pode
ter a vida devocional de George Muller, mas precisa da adoração
corporativa tanto quanto ele e aqueles hebreus precisavam. Há
um elemento da adoração e do cristianismo que não podem
ser experimentados na adoração privada ou pelo assistir à
adoração. Há algumas graças e bênçãos que Deus dá somente
na "reunião como igreja" com outros crentes.
O pregador puritano David Clarkson explica isso no sermão
instrutivo: "A Adoração Pública Prestada Antes da Privada".
As coisas m ais m aravilhosas que agora são feitas na terra
acontecem nas ordenações públicas, embora a simplicidade e
a e s p ir itu a lid a d e d e la s as fa ça p arecer m en o s
m aravilhosas...Aqui o Senhor ordena que haja vida nos ossos
secos e levanta as alm as m ortas do túm ulo e sepulcro do
pecado,...A qui os mortos ouvem a voz do Filho de Deus e Seus
mensageiros, e aqueles que ouvem vivem. Aqui Ele faz ver os
que nasceram cegos; é o efeito do evangelho pregado para abrir
os olhos dos pecadores, e para transportá-los das trevas para a
luz. Aqui Ele cura as almas enfermas com um a palavra, aquelas
que não se pode curar pela máxima ajuda de homens. Aqui
Ele esconjura Satanás e expulsa espíritos imundos das almas
de pecadores há m uito possuídos por eles. Aqui Ele abate
principados e potestades, subjuga o poder das trevas e faz com
que Satanás caia dos céus com o raio. Aqui Ele m uda todo o
curso da natureza nas almas dos pecadores, faz passar as coisas
antigas, e todas as coisas se tornam novas. São maravilhas essas
coisas e seriam assim consideradas, não fossem obra com um
do ministério público. E realmente fato, o Senhor não se limitou
a operar tais m aravilhas somente em público; mas o ministério
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 117

público é o único meio com um pelo qual Ele as opera.3

Por outro lado, não importa quão satisfatória ou suficiente


nossa celebração de adoração pública pareça ser, há
experiências com Deus que Ele concede somente em nossa
adoração privada. Jesus participava fielmente da adoração
pública a Deus na sinagoga todos os sábados e nos ajuntamentos
solenes de Israel no Templo em Jerusalém. Além disso, contudo,
Lucas observou que "Jesus retirava-se para lugares solitários, e
orava" (5:16). Como coloca o conhecido comentarista Matthew
Henry, "A adoração pública não nos exime da adoração
secreta".4
Como é possível adorar a Deus publicamente uma vez por
semana quando não O adoramos em particular durante toda a
semana? Podemos esperar que as chamas de nossa adoração a
Deus queimem reluzentes em público no Dia do Senhor, quando
elas mal tremulam por Ele em secreto nos outros dias? Não é
porque não adoramos bem em secreto que nossa experiência
de adoração corporativa muitas vezes não nos satisfaz? "De
forma alguma", diz o batista galês Geoffrey Thomas, "aqueles
que negligenciam a adoração secreta poderão ter comunhão
com Deus nos cultos públicos do Dia do Senhor".5
Não devemos nos esquecer, contudo, de que Deus espera
que adoremos em secreto para que Ele possa nos abençoar.
Minimizamos nossa alegria quando negligenciamos a adoração
diária a Deus em particular. É uma das grandes bênçãos da
vida que Deus não limite a um dia por semana o nosso acesso a
Ele e o desfrute de Sua presença! A força, a orientação e o
encorajamento diários estão disponíveis a nós. Um convite ao
crescimento em intimidade com o próprio Jesus Cristo está
aberto todos os dias.
118 Adoração

Pense nisto: O Senhor Jesus Cristo está disposto a


encontrar-Se com você em secreto sempre que você quiser, e
Ele está disposto, e até ansioso, por encontrar você todos os
dias! Suponha que você tivesse sido um dos milhares que
seguiram a Jesus durante boa parte dos últimos três anos de
Sua vida terrena. Pode imaginar quão entusiasmado você teria
ficado se um de Seus discípulos dissesse: "O Mestre quer que
nós digamos a você que Ele está disposto a ficar sozinho com
você todas as vezes que você quiser, e por todo o tempo que
você desejar, e Ele estará à sua espera todos os dias"? Que
privilégio! Quem se queixaria desta expectativa? Bem, tal
privilégio e expectativa são sempre seus. Exerça o privilégio e
satisfaça a expectativa para a glória e o deleite de Deus para
sempre.

ADORAÇÃO É...UMA DISCIPLINA A SER CULTIVADA

Jesus disse: "Adore o Senhor, o seu Deus" (Mateus 4:10).


Adorar a Deus por toda a vida requer disciplina. Sem disciplina,
nossa adoração a Deus será pobre e inconsistente.
Quando digo que adorar é focar e reagir a Deus, espero
comunicar minha convicção de que a verdadeira adoração vem
sempre coberta com as marcas do coração. A adoração não pode
ser diagramada ou calculada, pois é resposta de um coração
apaixonado por Deus. Entretanto, nós também temos que ser
capazes de pensar na adoração como uma Disciplina, uma
Disciplina que deve ser cultivada assim como todos os
relacionamentos devem ser para permanecerem saudáveis e
crescer.
A adoração é uma Disciplina Espiritual na medida em que
é tanto um fim quanto um meio. A adoração a Deus é um fim
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 119

em si mesma porque adoração, como a temos definido, é focar


em e reagir a Deus. Não há objetivo mais elevado do que focar
e reagir a Deus. Mas a adoração é também um meio no sentido
de que é um meio para se alcançar a Piedade. Quanto mais
verdadeiramente adoramos a Deus, mais nos tornamos como
Ele.
As pessoas tomam-se como os seus focos. Esforçamo-nos
por igualar ou exceder aquilo em que pensamos. As crianças
fingem que são os heróis com quem sonham. Os adolescentes
se vestem como os astros dos esportes ou como os músicos de
sucesso a quem devotam tanta atenção. Mas tais tendências
não desaparecem com a idade adulta. Aqueles que se
concentram em "chegar ao topo" lêem os livros daqueles que
estão "no topo", depois copiam seu estilo nos negócios e hábitos
pessoais. Para ilustrar o ponto num nível mais tosco, aqueles
que focam na pornografia imitam o que vêem. Focar no mundo
mais do que no Senhor nos torna mais mundanos do que
Piedosos. Mas se pretendemos ser Piedosos, devemos focar em
Deus. A Piedade requer adoração disciplinada.
"Mas, eu tentei", podem exclamar alguns, frustrados, "e
não funciona comigo! Eu freqüento fielmente a igreja e
experimentei uma rotina diária de leitura bíblica e oração, mas
não obtive os resultados que esperava. Apesar de tudo que estou
fazendo, não pareço estar crescendo muito em Piedade." Passar
por uma rotina não é o mesmo que praticar corretamente uma
Disciplina Espiritual. Ler a Bíblia todos os dias não me toma
automaticamente Piedoso, assim como ler o caderno de
negócios dos jornais não me toma automaticamente um homem
de negócios. E deixar de experimentar o que desejamos quando
o desejamos não prova que os meios de Deus para a semelhança
com Cristo sejam ineficientes. Aconselhe-se com quem está
120 Adoração

crescendo em Piedade por meio da adoração pública e privada.


Fale com um cristão maduro que tenha uma vida devocional
significativa. Revise alguns dos capítulos anteriores deste livro,
especialmente aqueles sobre meditação e oração. O
desenvolvimento de qualquer disciplina, desde a prática de um
esporte até tocar piano, muitas vezes requer auxílio externo de
pessoas mais experientes. Assim, não se surpreenda pelo fato
de precisar de ajuda durante o desenvolvimento das Disciplinas
que levam à semelhança com Cristo, e não tenha medo de pedir
auxílio.
Descrevendo o homem moderno, alguém escreveu: "Ele
venera o seu trabalho, trabalha durante o lazer e brinca com a
adoração". A despeito disso, você irá cultivar a Disciplina da
adoração?

MAIS APLICAÇÃO

Você se comprometerá com a Disciplina da adoração diária?


Se você não adora a Deus os sete dias da semana", disse A. W.
Tozer, "você não O adora um dia por semana." 6 Não nos
enganemos. A adoração não é um evento que ocorra uma vez
por semana. Não podemos esperar que a adoração flua de
nossos lábios no Dia do Senhor se a mantemos encerrada em
nossos corações durante toda a semana. As águas da adoração
nunca devem parar de fluir de nosso coração, pois Deus é
sempre Deus e sempre digno de adoração. Mas o fluxo da
adoração deve ser canalizado e destilado ao menos uma vez
todos os dias para uma experiência diferenciada de adoração.
Existem aqueles que desejam considerar as Disciplinas
Espirituais e praticamente se isolar de outros crentes. Eles crêem
que sua vida devocional pessoal seja superior a tudo o que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 121

experimentam na adoração corporativa, e então desconsideram


o ministério público da Palavra de Deus. Devemos estar alertas
para o perigo de nos tomarmos desequilibrados nesse ponto.
Em meu ministério pastoral, contudo, tenho encontrado muito
mais cristãos professos que caem no extremo oposto. Eles se
disciplinam fielmente na freqüência à adoração corporativa,
mas negligenciam a prática regular da adoração a Deus em
secreto. Essa é uma das armadilhas mais comuns do caminho
para a Piedade. Muitos progridem pouco na semelhança com
Cristo porque deixam de se disciplinar exatamente nessa parte.
Não deixe que isso aconteça com você.
Você incluirá ad ora çã o verdadeira em seus a to s de
adoração? O que David Clarkson diz sobre adoração pública
se aplica a todos os atos de adoração, tanto pública quanto
privada.

O que você faz na adoração pública, faça com toda a sua força.
Sacuda aquela índole preguiçosa, indiferente e morna, que é tão
odiosa a Deus. ...Pense não ser suficiente apresentar seus corpos
perante o Senhor. ...A adoração do corpo não é senão a carcaça da
adoração; a adoração da alma é que constitui a alma da adoração.
Aqueles que se aproximam somente com lábios encontrarão Deus
longe; não apenas lábios, boca e língua, mas mente, coração e
emoções; não apenas joelho, mão e olho, mas coração, consciência
e memória devem ser compelidos a se dispor a Deus na adoração
pública. Davi diz, não somente "minha carne anseia por Ti", mas
"m inha alma anseia por Ti". Então o Senhor Se aproxim ará,
quando nosso homem inteiro esperar por Ele; depois o Senhor
será encontrado, quando O buscarmos de todo o nosso coração.7

O ato de adorar que não inclui a verdadeira adoração é


lastimoso. Assim, se a adoração o fatiga, você não está realmente
adorando. Imagine uma das criaturas adorando ao redor do
122 Adoração

trono de Deus e dizendo: "Estou cansado disso!" É um


pensamento que nunca passou pela cabeça Delas por toda a
eternidade passada, e que jamais passará em toda eternidade
por vir. Em vez disso, lemos que elas são tão infinitamente
dominadas pela glória de Deus, que O adoram "dia e noite...sem
cessar" (Apocalipse 4:8). Obviamente, não podemos ainda ver
e experimentar na adoração tudo o que elas têm o privilégio de
gozar, mas podemos aprender com elas que a adoração
inexpressiva é uma contradição em termos. Já que o objeto de
nossa adoração é o glorioso e majestoso Deus dos Céus, quando
a adoração se torna vazia, o problema está com o sujeito (nós),
não com o objeto (Deus). Ele é digno de toda adoração, a melhor
e mais sincera adoração, que você possa dar a Ele.
A Disciplina Espiritual da adoração pública e privada a
Deus é um dos meios que Ele nos deu para recebermos a graça
de crescer em semelhança com Cristo. Quando nos fortalecemos
na adoração a Deus, nos fortalecemos também na semelhança
com Cristo. Talvez o Presidente Calvin Coolidge tenha dito
muito mais do que pôde perceber quando afirmou: "É somente
quando os homens começam a adorar que eles começam a
crescer". 8
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 123

1 Do livro Desiring God: Meditations of a Christian Hedonist (D esejando Deus:


M editações de um H edonista C ristão), de John Piper, cop yrigh t 1986 por
Multnomah Press. Publicado por Multnomah Press, Portland, Oregon 97266. Usado
sob permissão, página 70.
2 Piper, páginas 72-73, usado sob permissão.

3 David Clarkson, The Works of David Clarkson (As Obras de David Clarkson)
(Londres: James Nichol, 1864; reimpressão, Edinburgh, Escócia: The Banner of
Truth Trust, 1988), vol. 3, páginas 193-194.
4 John Blanchard, comp., Gathered Gold (Juntando Ouro) (Welwyn, Hertfordshire,
Inglaterra: Evangelical Press, 1984), página 342.
5 Geoffrey Thomas, "Worship in Spirit" (Adoração em Espírito), The Banner of Truth,
agosto-setembro 19878, página 8.
6 John Blanchard, com p., More Gathered Gold (Juntando M ais O uro) (Welwyn,
Hertfordshire, Inglaterra: Evangelical Press, 1984), página 344.

7 Clarkson, página 209.


8 Lewis C. Henry, Ed., 5000 Quotations for All Occasions (5000 Citações para Todas
as Ocasiões (Filadélfia, PA: The Blakinston Company, 1945), página 319.
CAPÍTULO SEIS

E vangelism o ...
C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied a d e

O benefício presente da disciplina espiritual é uma vida plena,


abençoada por Deus, produtiva e útil. Se você se envolver na
ginástica espiritual, as bênçãos da piedade prosseguirão até a
eternidade. Embora muitos gastem muito mais tempo exercitando
seus corpos do que suas almas, o servo excelente de Jesus Cristo
percebe que a disciplina espiritual é uma prioridade.

John MacArthur, Jr.


Qualidades do Servo Excelente

5 omente o puro deleite de estar absorto em adoração a Deus


é tão estimulante e inebriante quanto falar de Jesus Cristo a
alguém.
Alguns dos períodos mais recompensadores de minha vida
têm sido durante as viagens missionárias quando nada faço
senão falar de Cristo nas ruas e nos lares, a uma pessoa ou
grupo após outro, o dia inteiro. O mesmo acontece em meu
próprio ambiente - nada me anima tanto quanto uma conversa
sobre Cristo com alguém que não O conheça. Esta pode ser
uma experiência igualmente compensadora para qualquer
crente.
Por outro lado, nada causa uma desconfortante e
desconcertante ansiedade mais rapidamente dentre um grupo
Evangelismo 125

de cristãos, no qual me incluo, do que falar sobre nossa


responsabilidade de evangelizar. Conheço muitos crentes que
se sentem confiantes de serem obedientes ao Senhor quando
se trata de sua absorção das Escrituras ou do ato de dar ou
servir, mas tenho certeza de que não conheço um único cristão
que possa dizer ousadamente: "Sou tão evangelista quanto
deveria ser".
Evangelismo é um assunto amplo, e há muitas coisas
relacionadas a ele que não serão abordadas neste capítulo. A
idéia principal que desejo comunicar aqui é que a Piedade
requer que nos disciplinemos na prática do evangelismo. Dentre
as razões porque não falamos mais de Cristo está o medo.
Refletiremos juntos sobre isso mais tarde. Mas estou convencido
de que a principal razão porque muitos de nós não
testemunhamos de Cristo de forma eficiente e relativamente
isenta de medo seja simplesmente o fato de não nos
disciplinarmos para tal.

O EVANGELISMO É ALGO QUE SE ESPERA DO CRISTÃO

A maioria dos leitores deste livro não precisará se convencer


de que o evangelismo é esperado de todo cristão. Não se espera
que todos os cristãos usem os mesmos métodos de evangelismo,
mas sim que todos os cristãos evangelizem.
Antes de prosseguirmos, definiremos alguns termos. O que
é evangelismo? Se quisermos definir o termo de forma
abrangente, podemos dizer que evangelizar é apresentar Jesus
Cristo no poder do Espírito Santo às pessoas pecadoras, para
que elas possam vir a depositar sua confiança em Deus por
meio Dele, a recebê-Lo como seu Salvador e a servi-Lo como
seu Rei na comunhão de Sua Igreja.1 Se desejarmos definir o
126 Evangelismo

termo de maneira simplificada, podemos dizer que o


evangelismo do Novo Testamento é a comunicação do
evangelho. Qualquer pessoa que relata fielmente os elementos
essenciais da salvação de Deus por meio de Jesus Cristo está
evangelizando. Isto é verdadeiro quer suas palavras sejam
faladas, escritas ou gravadas, e quer sejam ditas a uma pessoa
ou a uma multidão.
Por que o evangelismo é esperado de nós? O Próprio Senhor
Jesus Cristo ordenou que testemunhássemos. Considere a Sua
autoridade nos textos a seguir:
"Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-
os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a
obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês,
até o fim dos tempos" (Mateus 28:19-20).
"E disse-lhes: 'Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a
todas as pessoas'" (Marcos 16:15).
"e que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão
de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém" (Lucas 24:47).
"Novamente Jesus disse: 'Paz seja com vocês! Assim como o Pai
me enviou, eu os envio" (João 20:21).
"Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês,
e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria,
e até os confins da terra" (Atos 1:8).
Esses mandamentos não foram dados somente aos
apóstolos. Por exemplo, os apóstolos nunca vieram a esta nação.
Para que a ordem de Jesus fosse cumprida e para que este País
ouvisse sobre Jesus, o evangelho teve que chegar aqui por
intermédio de outros cristãos. E os apóstolos nunca irão à sua
casa, a seu bairro ou ao lugar onde você trabalha. Para que a
Grande Comissão seja cumprida ali, para que Cristo tenha um
testemunho nos "confins da terra", um cristão como você tem
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 127

que se disciplinar a fazê-lo.


Alguns cristãos crêem que o evangelismo seja um dom,
responsabilidade apenas daqueles que o possuem. Eles alegam
ter apoio em Efésios 4:11: "E ele designou alguns para apóstolos,
outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores
e mestres". Embora seja verdade que Deus dote alguns para o
ministério como evangelistas, Ele chama todos os crentes a
serem Suas testemunhas e fornece a eles tanto o poder para
testemunhar quanto uma poderosa mensagem. Todo
evangelista é chamado a ser uma testemunha, mas somente
algumas poucas testemunhas são chamadas para o ministério
vocacional de um evangelista. Assim como todo cristão,
independentemente de dom espiritual ou ministério, deve amar
aos outros, assim, cada crente deve evangelizar quer tenha ou
não o dom de evangel/sta.
Pense em nossa responsabilidade de evangelismo pessoal
da perspectiva de 1 Pedro 2:9: "Vocês, porém, são geração eleita,
sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus". Muitos cristãos
que conhecem esta parte do versículo não têm noção do que
diz o restante dele. O versículo prossegue dizendo que tais
privilégios são seus, cristão, "para anunciar as grandezas
daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz".
Normalmente pensamos neste versículo como estabelecendo a
doutrina do sacerdócio de todos os crentes. Mas é igualmente
apropriado dizer que ele também nos exorta a um tipo de
ministério de profeta de todos os crentes. Deus espera que cada
um de nós "[anunciemos] as grandezas" de Jesus Cristo.

O EVANGELISMO É REVESTIDO DE PODER

Se é tão óbvio para quase todos os cristãos que devemos


128 Evangelismo

evangelizar, por que quase todos os cristãos parecem


desobedecer a esse mandamento com tanta freqüência?
Alguns crêem que precisam de muito treinamento
especializado para testemunhar efetivamente. Receiam falar
sobre Cristo até que se sintam confiantes de que têm
conhecimento bíblico adequado e até que possam lidar com
quaisquer potenciais perguntas ou objeções. O problema é que
a confiança nunca chega. E se o homem cego que Jesus curou
em João 9 tivesse pensado dessa maneira? Será que ele teria se
sentido pronto para testemunhar aos fariseus eruditos e
críticos? No entanto, algumas horas, talvez minutos, depois do
encontro com Jesus, ele contou bravamente o que sabia sobre
Jesus.
As vezes ficamos incapacitados de falar de Cristo por
temermos que as pessoas pensem que somos estranhos e nos
rejeitem. Quando estava cursando Direito, fiz amizade com um
colega em minha classe de propriedade. Logo percebendo que
ele não era cristão, conscientizei-me de minha responsabilidade
de compartilhar o evangelho com ele. Fiz o melhor que pude
para ser exemplo do caráter de Cristo à sua volta e orei por
oportunidades de testemunhar. Um dia, próximo ao fim do ano
escolar, bem quando o primeiro sinal tocou, ele me surpreendeu
ao perguntar: "Por que você está sempre tão feliz?" Embora a
aula estivesse para começar, eu poderia ter dado a meu amigo
um testemunho claro, mesmo que fosse apenas uma frase. Eu
poderia ter respondido: "Por causa de Jesus Cristo". Ou poderia
ter dito: "Gostaria de responder isso a você depois da aula".
Mas quando a oportunidade pela qual orei finalmente veio,
fiquei paralisado de medo de que ele pudesse me menosprezar
por causa de minha fé e disse: "Eu não sei".
Em alguns casos, o método de testemunhar requerido de
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 129

nós nos causa evangelhofobia. Se o método exigir que nos


aproximemos de alguém a quem nunca vimos antes e iniciemos
uma conversa sobre Cristo, a maioria das pessoas ficará
terrificada e a ausência delas indicará isso. Embora alguns o
apreciem, a maioria treme só de pensar em levar o evangelho
de porta em porta. Até métodos que requeiram testemunhar a
amigos ou familiares, se envolver em uma aproximação forçada,
que inclua confronto ou meios antinaturais, nos enchem de
medo de compartilhar as melhores novas do mundo com as
pessoas a quem mais amamos.
Nunca ouvi isso expresso antes, mas acho que a seriedade
do evangelismo é a principal razão pela qual ele nos assusta.
Percebemos que, quando conversamos com alguém sobre
Cristo, o Céu e o inferno estão em jogo. Trata-se do destino
eterno da pessoa. E até quando nós corretamente cremos que
os resultados do encontro estão nas mãos de Deus e que não
somos responsáveis pela reação da pessoa ao evangelho, ainda
assim sentimos uma obrigação solene de comunicar a
mensagem fielmente unida a um temor santo de dizer ou fazer
qualquer coisa que seria uma pedra de tropeço à salvação da
pessoa. Muitos cristãos se sentem despreparados demais para
este tipo de desafio, ou simplesmente têm fé pequena demais e
ficam terrificados de entrar numa situação assim, de
importância eterna.
O pesquisador George Barna explica o temor do cristão em
relação ao evangelismo de outra forma:

Uma razão dominante por trás da crescente relutância dos cristãos


em compartilhar sua fé com não cristãos tem a ver com a própria
experiência de compartilhar a fé. Ao inquirirmos os cristãos sobre
suas atividades em relação ao testemunho, descobrimos que nove
entre dez pessoas que tentam explicar sua fé e teologia a outras
130 Evangelismo

pessoas saem da experiência sentindo como se tivessem falhado.


A realidade do comportamento humano é que a maioria das
pessoas evita tais atividades nas quais que se consideram falhas.
Como criaturas que buscam prazer e conforto, enfatizamos as
dimensões e atividades em que somos mais capazes e seguros.
Assim, apesar da ordem divina de propagar a Palavra, muitos
cristãos red irecion am suas energias às áreas de ativid ad e
esp iritu al que são m ais satisfa tó ria s e em que há m aio r
probabilidade de que se saiam bem.2

O que é o êxito no evangelismo? É quando a pessoa a quem


se testemunha vem a Cristo? Isso certamente é o que desejamos
que aconteça. Mas se é assim, isso significa que fracassamos
quando compartilhamos o evangelho e as pessoas se recusam
a crer? Jesus era um "fracassado no evangelismo" quando
pessoas como o jovem rico davam as costas a Ele e à Sua
mensagem? É óbvio que não. Então nós também não o somos
quando apresentamos Cristo e a Sua mensagem e as pessoas se
afastam, incrédulas. Precisamos aprender que compartilhar o
evangelho é obter êxito no evangelismo. Devemos ter obsessão
por almas e suplicar sentidamente a Deus que vejamos mais
pessoas convertidas, mas conversões são frutos que somente
Deus pode dar.
Neste aspecto, somos como o serviço postal. O êxito é
medido pela entrega cuidadosa e precisa da mensagem, e não
pela resposta do destinatário. Sempre que compartilhamos o
evangelho, (que inclui o chamado ao arrependimento e à fé),
temos êxito. No sentido mais verdadeiro, todo evangelismo
bíblico é bem-sucedido, independentemente dos resultados.
O poder do evangelismo é o Espírito Santo. No instante em
que Ele passa a habitar em nós, Ele nos dá o poder de
testemunhar. Jesus enfatizou isso em Atos 1:8 quando disse:
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 131

"Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e


serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria,
e até os confins da terra". Espera-se que todo cristão evangelize
porque todo cristão está habilitado a evangelizar. Contudo, o
poder de testemunhar que Jesus prometeu em Atos 1:8 é muitas
vezes mal entendido. Não estamos todos habilitados a
evangelizar da mesma maneira, mas todos os crentes receberam
o poder de serem testemunhas de Jesus Cristo. A evidência de
que você recebeu o poder para testemunhar é a mudança de
vida. O poder do Espírito Santo que mudou a sua vida para
Cristo é o mesmo poder de testemunhar por Cristo. Assim, se
Deus por Seu Espírito mudou a sua vida, esteja confiante disso:
Deus deu a você o poder de Atos 1:8. Isso significa que, de
formas e métodos que sejam compatíveis com sua
personalidade, temperamento, dom espiritual, oportunidades
etc., você realmente tem o poder de compartilhar o evangelho
com as pessoas. Ter o poder de Atos 1:8 também significa que
Deus habilitará a sua vida e as suas palavras no compartilhar
do evangelho de modo que você muitas vezes não perceberá.
Em outras palavras, o Espírito Santo pode conceder muito poder
a seu testemunho em um encontro evangelístico sem dar a você
qualquer sentimento ou sensação de poder.
O evangelho que compartilhamos tem em si o poder do
Espírito Santo de Deus também. "Não me envergonho do
evangelho", diz o Apóstolo Paulo em Romanos 1:16: "porque é o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do
judeu, depois do grego". E por isso que as pessoas podem se
converter quer ouçam o evangelho por um professor
adolescente de uma classe de escola bíblica de férias, quer de
um mestre evangelista formado em seminário, quer o leiam
em um livro de algum erudito de Oxford, como C. S. Lewis,
132 Evangelismo

quer em um simples folheto. É o evangelho que Deus abençoa


como nenhuma outra palavra.
Isso não significa que o evangelho seja um tipo de vara
mágica que podemos ondular sobre os descrentes e o poder de
Deus se lança e converte automaticamente a todos eles. Você é
provavelmente como eu, que ouvi o evangelho muitas vezes
antes de ser salvo. Você sem dúvida conhece várias pessoas
que ouviram o evangelho repetidamente e não experimentaram
o novo nascimento. Deus tem que conceder também a fé (Efésios
2:8-9) com o ouvir do evangelho "porque é o poder de Deus
para a salvação de todo aquele que crê". Mas é por meio do
evangelho que Deus dá o poder de crer. Este é o significado de
Romanos 10:17: "Conseqüentemente, a fé vem por se ouvir a
mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo
Ao pregar o evangelho, você está compartilhando "o poder
de Deus para a salvação de todo aquele que crê". Pregar o
evangelho é como andar por aí durante um temporal
distribuindo pára-raios. Não se sabe quando o raio vai cair ou
quem ele atingirá, mas sabe-se o que ele vai atingir: o pára-
raios do evangelho. E quando o fizer, o pára-raios da pessoa
vai estar carregado com o poder de Deus e ele ou ela vai crer.
É por isso que nós podemos estar confiantes de que alguns
crerão se nós formos fiéis e tenazmente pregarmos o evangelho.
O evangelho é que é o poder de Deus para a salvação, e não o
nosso próprio poder de eloqüência ou persuasão. Deus tem os
Seus eleitos, a quem Ele chamará e a quem Ele escolheu para
chamar por meio do evangelho (Romanos 8:29-30,10:17). De outra
forma, nos desesperaríamos por aqueles que rejeitam o
evangelho e os veríamos como razões para não mais
evangelizar. Entretanto, o poder para que as pessoas sejam feitas
justas com Deus vem por meio da mensagem de Seu Filho. Se
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 133

nós a propagarmos, podemos estar certos de que alguns


responderão.
Também há um poder para o evangelismo nas pessoas que
vivem uma vida cristã sincera. Tal poder, por mais estranho
que pareça, pode ser ilustrado por uma churrascaria de beira
de estrada, cuja melhor propaganda não é a variedade de mídia
típica focada na visão ou na audição. Sua melhor propaganda
é direcionada ao olfato. A carne de vaca e de porco temperada é
assada onde o vento possa levar a sua fumaça fortemente
aromática por toda a rodovia de quatro pistas. Todos os dias,
as pessoas que por ali trafegam, as quais nem estão
considerando estar com fome, ficam interessadas na
"mensagem" do restaurante por causa de seu fragrante aroma.
Paulo descreve o poder da Piedade da seguinte forma em 2
Coríntios 2:14-17: "Mas a graça de Deus, que sempre nos conduz
vitoriosamente em Cristo e por nosso intermédio exala em todo lugar
a fragrância do seu conhecimento; porque para Deus somos o aroma
de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo.
Para estes somos cheiro de morte; para aqueles, fragrância de vida.
Mas quem está capacitado para tanto? Ao contrário de muitos, não
negociamos a palavra de Deus visando lucro; antes, em Cristofalamos
diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus".
O Senhor habilita a vida (versículos 14-16) e as palavras
(versículo 17) do crente fiel com um poder de atração espiritual.
É o poder de um aroma fragrante que Deus usa para atrair as
pessoas à mensagem sobre Seu Filho.
O mais poderoso testemunho cristão contínuo sempre foi
a pregação da Palavra de Deus por quem vive a Palavra de
Deus. Em meados dos anos 80, Caffy iniciou um grupo de
estudos bíblicos para mulheres em nossa casa, incentivada por
duas novas crentes. Ao segundo encontro, elas trouxeram Janet,
134 Evangelismo

uma amiga em comum que era muito cínica com relação a tudo.
Em uma música sobre sua peregrinação espiritual, ela escreveu
mais tarde: "Sexo, drogas e rock-and-roll (eram) minha
trindade". Seu pensamento fora mais obscurecido ainda pelo
envolvimento no culto est.3 Entretanto, algo começou a
acontecer naquela noite que por muito tempo somente Janet
sabia. Meses depois, ela disse que desde o primeiro encontro
ali, um aroma da vida cristã de Caffy, especialmente em seu
próprio lar, combinado com o alimento da Palavra de Deus no
estudo bíblico, a fez querer mais. Ela desejava cada vez mais
aquela mensagem aromática que havia mudado as vidas
daquelas pessoas de forma tão bela. Hoje, Janet é um novo e
vivo "aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que
estão perecendo".
Por causa da natureza do Espírito Santo e das Santas
Escrituras, o evangelismo é revestido de poder.

O EVANGELISMO É UMA DISCIPLINA

O evangelismo é o transbordar natural da vida cristã. Todos


nós devemos ser capazes de falar sobre o que o Senhor fez por
nós e o que Ele significa para nós. Mas o evangelismo também
é uma Disciplina, pois devemos nos disciplinar para entrar no
contexto do evangelismo, isto é, não devemos simplesmente
esperar que as oportunidades de testemunhar ocorram.
Em Mateus 5:16, Jesus disse: "Assim brilhe a luz de vocês diante
dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de
vocês, que está nos céus". Fazer brilhar a sua luz perante as outras
pessoas significa mais do que simplesmente "Não fazer nada
que impeça que sua luz brilhe". Pense em Sua exortação como:
"Que a luz das boas obras brilhe em sua vida, que haja evidência
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 135

de mudança que honra a Deus radiando de você. Que isso


aconteça! Dê ocasião a isso!"
Por que nós não testemunhamos mais ativamente?
Conforme mencionado anteriormente, alguns dizem que é
principalmente porque muitos cristãos não são adequadamente
treinados para compartilharem sua fé. Há um pouco de verdade
nisso. Há vantagens em se obter orientação sobre aspectos
específicos da pregação do evangelho. Mas quando pensamos
novamente no homem cego a quem Jesus curou em João 9:25,
deve ficar evidente que não podemos atribuir nossa falha em
testemunhar à falta de treinamento. Embora fosse crente em
Jesus há apenas alguns minutos e não tivesse, obviamente,
treinamento algum em evangelismo, ele estava disposto a contar
aos outros o que Jesus havia feito por ele ("Uma coisa sei: eu
era cego e agora vejo!"). Além disso, qualquer cristão que tenha
ouvido pregações bíblicas, participado de estudos bíblicos ou
lido as Escrituras e literatura cristã por qualquer período de
tempo terá ao menos entendimento da mensagem básica do
cristianismo que baste para compartilhá-la com outra pessoa.
É certo que, se nós mesmos já entendemos o evangelho bem o
suficiente para nos convertermos, também devemos conhecê-
lo bem o suficiente (mesmo que até o momento não saibamos
nada mais sobre a fé) para dizer a outro alguém como se
converter.
Devemos também reconhecer a comum objeção da falta de
tempo. Entre trabalho, família e responsabilidades da igreja,
simplesmente não há tempo suficiente para "sair
testemunhando". Antes de adotarmos esta objeção ao
evangelismo, pensemos no seguinte: Nós realmente queremos
dizer que estamos ocupados demais para cumprir a Grande
Comissão de Jesus Cristo de fazer dos descrentes discípulos
136 Evangelismo

(Mateus 28:19-20)? Esperamos que no Julgamento Jesus nos


desculpe por dizermos que "não tivemos tempo" para realizar
a única e mais importante responsabilidade que Ele nos deu?
Partamos do pressuposto de que a maioria, ou mesmo todas
as responsabilidades que nós crentes temos e que demandem
tempo sejam instituídas por Deus. E, por hipótese, aceitemos a
explicação de que não temos tempo para uma atividade
programada com mais regularidade em nossa agenda. Mas se
Deus é o Autor de tudo isso, Ele também é o Autor da Grande
Comissão; e ainda pretende que cada um de Seus seguidores
encontre maneiras de compartilhar o evangelho com os
descrentes. Qualquer que seja o contexto em que o Senhor nos
inseriu para vivermos nossas vidas, Deus nos chama para
encontrarmos formas de cumprirmos a Grande Comissão
naquele contexto, mesmo que com limitações. Educar filhos
"segundo a instrução e o conselho do Senhor" (Efésios 6:4) é um
modo de cumprirmos a Grande Comissão. Sustentar o trabalho
de uma igreja e seus missionários financeiramente é outro. Mas
e os descrentes fora de nossas famílias? E quem vai realizar o
ministério evangelístico de uma igreja, senão as pessoas como
você, que compõem a membresia da igreja?
A principal razão de não testemunharmos não seria a falta
de nos disciplinarmos para fazê-lo? Sim, existem aquelas
oportunidades maravilhosas e não planejadas de "responder a
qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês"
(1 Pedro 3:15), que Deus traz inesperadamente. Mas eu sustento
que há uma razão para que a maioria dos cristãos torne o
evangelismo uma Disciplina Espiritual.
Como pastor, posso gastar as vinte e quatro horas do dia e
os sete dias da semana com cristãos, sem jamais terminar meu
trabalho. No preparo de pregações, em aconselhamento, em
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 137

reuniões de liderança, em estudos bíblicos, em visitas a hospitais


e em outras atividades, eu poderia gastar todo o meu tempo
ministrando somente a crentes (exceto por ambientes de grupos
grandes ou em casos onde descrentes pedem para me encontrar
em particular). E, uma vez que meu ministério com o povo de
Deus nunca está concluído, eu poderia "justificar" tão
facilmente com qualquer pessoa a minha falta de contato
individual com não cristãos. Mas qual é o meu potencial para
evangelismo pessoal se nunca estou com descrentes? Nenhum.
Quando irei pregar o evangelho a uma pessoa perdida, exceto
se for parte de meu trabalho? Nunca. Isso não está certo.
A dona de casa cristã que raramente está com alguém senão
seus filhos e amigos da igreja está na mesma situação.
"Isso não é problema meu\" alguém dirá. "No trabalho, fico
cercado o dia inteiro pelos pagãos mais mundanos que se possa
imaginar". Presumindo que você não tente pregar o evangelho
a eles durante o expediente, quando o fará? O ponto não está
tanto em quantos descrentes você vê todos os dias, mas na
freqüência com que você está com eles em contexto apropriado
para pregar o evangelho. A despeito das importantes conversas
relacionadas ao trabalho ao longo de todo o dia, quantas vezes
você tem tipos de conversas significativas com seus colegas de
trabalho onde questões espirituais possam ser levantadas? Se
você nunca tem oportunidade de falar sobre Cristo, não importa
quantos não cristãos estejam à sua volta, seu potencial para
evangelismo não será melhor do que o meu poderia ser.
É por isso que digo que o evangelismo é uma Disciplina
Espiritual. A menos que nos disciplinemos para evangelizar, é
muito fácil nos justificarmos por nunca pregarmos o evangelho
a ninguém.
Observe em Colossenses 4:5-6 a terminologia que indica
138 Evangelismo

que deve haver pensamento e planejamento disciplinados no


evangelismo: "Sejam sábios no procedimento para com os de fora;
aproveitem ao máximo todas as oportunidades. O seu falar seja sempre
agradável e temperado com sal, para que saibam como responder a
cada um" (ênfase do autor). Devemos pensar no evangelismo
sempre que falarmos com os que são de fora, sabiamente
aproveitando ao máximo toda oportunidade. Saber como
responder às pessoas como indivíduos implica reflexão e
preparo. Estes princípios podem ser aplicados de tantas formas
específicas quanto há oportunidades de testemunhar. Mas em
geral eles suportam a idéia de que em adição a seu elemento
espontâneo, o evangelismo é uma Disciplina Espiritual.
Para mim, isso significa que disciplino a mim mesmo para
estar com descrentes. Às vezes Caffy e eu programamos uma
refeição com vizinhos que não conhecem a Cristo. Certificamo-
nos de levar algum alimento ou presente para a casa de uma
nova família da rua e gastamos tempo tentando conhecê-la.
Procuro me voltar para os que são de fora em eventos sociais
de nossa igreja, mesmo que eu tenha mais em comum com os
cristãos presentes e normalmente obtenha mais conversando
com eles. Novamente, a chave não é simplesmente socializar
com os descrentes, mas dialogar com eles de forma que seus
corações e mentes possam se abrir para o evangelho.
O evangelismo disciplinado também pode envolver
almoçar privativa e periodicamente com vizinhos ou colegas
de trabalho e aprender a fazer boas perguntas sobre o lado
pessoal de suas vidas. Os mesmos tipos de oportunidades
surgem em eventos esportivos ou sociais patrocinados por
empresas ou durante os períodos de informalidade das viagens
a negócios. Conversando e ouvindo atentamente, você
descobrirá as necessidades deles e, esperançosamente,
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 139

explorará com eles a mais profunda delas: a necessidade de


Cristo.
Quer esteja com alguém que você sempre vê, ou com
alguém que acaba de conhecer, a melhor maneira que encontrei
para fazer a conversa convergir para assuntos espirituais é
perguntar à pessoa por que motivo você poderia orar por ela.
Embora seja quase rotina para o cristão, a maioria dos não
cristãos não sabe de ninguém que esteja orando por eles.
Descobri que muitas vezes os descrentes são profundamente
tocados por essa incomum expressão de consideração. Tive um
vizinho por mais de sete anos com quem minhas tentativas de
discutir sobre as coisas de Deus haviam sido altamente
infrutíferas. Mas na primeira vez que eu disse que orava por
ele com freqüência e gostaria de saber como poderia orar mais
especificamente, ele começou a revelar alguns problemas
familiares que eu nunca soube que existiam. Uma vez, eu
percorri meu bairro perguntando quais eram as necessidades
pelas quais nossa igreja poderia orar naquela noite em um culto
especial. Em quase toda casa eu fiquei surpreso com a reação
das pessoas e a abertura sem precedentes demonstrada por elas
para conversar sobre assuntos espirituais.
Mas o importante em todas essas possibilidades é que você
terá de se disciplinar para fazê-las acontecer. Elas não
acontecerão por acaso. Você terá que se disciplinar para
perguntar a seus vizinhos como poderá orar por eles ou quando
poderá compartilhar uma refeição com eles. Você terá que se
disciplinar para se juntar a seus colegas de trabalho durante as
horas de inatividade. Muitas dessas oportunidades de
evangelismo nunca virão se você esperar que elas ocorram
espontaneamente. O mundo, a carne e o Diabo farão tudo o
que puderem para impedi-las. Você, todavia, suportado pelo
140 Evangelismo

poder invencível do Espírito Santo, pode se certificar de que


tais inimigos do evangelho não vençam.
Como mencionei anteriormente, não desejo deixar a
impressão de que a Disciplina do evangelismo requeira que
todos nós preguemos o evangelho exatamente da mesma
maneira. Neste capítulo todo, você pode ter tido uma visão de
certos métodos de evangelismo que lhe pareçam aterradores.
Mas o estilo preconcebido de evangelismo que talvez você tema
não é necessariamente o melhor modo de você ajudar a fazer
discípulos para Cristo.
Em uma de suas cartas, o Apóstolo Paulo divide todos os
dons espirituais em duas amplas categorias de dons de serviço
e dons de línguas (1 Pedro 4:10-11). Algumas pessoas acham
que evangelizam mais por meio do serviço, outras, mais pela
língua. O serviço evangelístico pode envolver convidar pessoas
para uma refeição e viver o evangelho na frente dos convidados.
Ao verem as diferenças em seu lar e vida familiar,
oportunidades imediatas ou eventuais de verbalizar o
evangelho podem surgir. Talvez você mesmo possa preparar
uma refeição a fim de abrir as portas para que seu cônjuge
compartilhe a sua fé. Dizem que toda família passa por uma
"crise" a cada seis meses. Durante esse tempo de doença, perda
de emprego, dificuldades financeiras, nascimento, morte etc.,
ser um servo semelhante a Jesus para aquela família
freqüentemente demonstra a realidade de sua fé de maneira
que desperte interesse. Servindo, você pode ter oportunidades
de oferecer literatura evangelística ou cumprir a Grande
Comissão de formas mais imaginativas.
Nos últimos anos, as pessoas de minha igreja têm aberto
seus lares para reuniões de evangelismo. Convidam vizinhos,
colegas de trabalho e amigos para virem a suas casas com o
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 141

propósito expresso de ouvir um convidado falar sobre Jesus


Cristo e responder suas perguntas sobre o cristianismo e a
Bíblia. Os anfitriões podem não se sentir confiantes quanto a
sua habilidade de articular o evangelho, especialmente para
grupos de pessoas, mas ao servir pela hospitalidade, fornecem
uma oportunidade de evangelismo por alguém cujo forte seja
apresentar verbalmente o evangelho. Ao abrirem seus lares e
trabalharem com outro crente, ocorre um evangelismo que de
outra forma não aconteceria. Mas este tipo de serviço
evangelístico ainda requer tanta disciplina quanto qualquer
outro. E preciso ter disciplina para marcar uma data, para
convidar as pessoas, para preparar a refeição, para orar pelo
encontro e assim por diante. Sem tal disciplina, o serviço
evangelístico nunca acontece.
Por outro lado, alguns são mais adeptos da comunicação
direta do evangelho. Como já destaquei, se você se sai melhor
falando do que servindo, talvez possa trabalhar com alguém
especializado em serviço evangelístico de formas que
propiciarão mais oportunidades de testemunhar do que você
jamais teve. Contudo, assim como servos podem precisar servir
a fim de abrir portas para falar do evangelho, aqueles cujo forte
seja falar podem precisar se disciplinar para servir mais a fim
de terem oportunidades de falar. Em resumo, quem fala muitas
vezes precisa servir para poder falar do evangelho e os servos
evangelísticos devem eventualmente falar do evangelho.
Independentemente de quão tímidos ou inábeis possamos nos
sentir quanto ao evangelismo, não devemos nos convencer de
que não podemos ou não iremos compartilhar verbalmente o
evangelho sob quaisquer circunstâncias.
Ouvi a história de um homem que se tomou cristão durante
um programa de ênfase evangelística em uma cidade no
142 Evangelismo

noroeste do Pacífico. Quando contou ao seu chefe sobre a


conversão, o empregador disse: "Que bom! Eu sou cristão e
tenho orado por você há anos!"
Mas o novo crente ficou desconcertado. "Por que você
nunca me disse?" perguntou. "Você foi exatamente a razão pela
qual não me interessei pelo evangelho antes".
"Como isso é possível?" o chefe perguntou. "Fiz tudo o
que pude para viver a vida cristã perto de você".
"Aí é que está", explicou o empregado. "Você vivia uma
vida exemplar, mas nunca me disse que era Cristo que fazia a
diferença. Então eu me convenci de que se você podia viver
uma vida tão boa e feliz sem Cristo, eu também poderia".
A Bíblia diz em 1 Coríntios 1:21 que: "Agradou a Deus salvar
aqueles que crêem por meio da loucura da pregação". Muitas vezes é
a mensagem da Cruz vivida e demonstrada que Deus usa para
abrir um coração ao evangelho, mas é pela mensagem da Cruz
proclamada (por palavra ou página) que Deus salva aqueles que
crêem em seu conteúdo. Não importa quão bem vivamos o
evangelho (e devemos vivê-lo bem, ou impediremos que seja
recebido), mais cedo ou mais tarde devemos comunicar o
conteúdo do evangelho para que a pessoa possa se tomar um
discípulo de Jesus.
Antes de encerrar esta parte, quero enfatizar que a
Disciplina do evangelismo também se aplica ao sustento de
missões. Pelas mesmas razões que devemos nos disciplinar para
pregar a mensagem de Cristo àqueles que estão ao nosso redor,
também devemos nos disciplinar para ajudar aqueles que estão
cumprindo a Grande Comissão em lugares distantes.
Disciplinar-mos para sustentar missões ofertando, orando, nos
informando e estando abertos para ir se Deus nos chamar (ou
deixando nossos filhos irem se Deus os chamar) são ações que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 143

Jesus certamente praticaria.

MAIS APLICAÇÃO

Já que se espera que o crente evangelize, você obedecerá ao


Senhor e testemunhará? Em certo sentido, claro, todo cristão
está sempre testemunhando. Por nossas palavras e vidas, a todo
momento somos um testemunho - bom ou ruim - do poder de
Jesus Cristo. Mas estou falando agora de testemunhar
intencionalmente, não por omissão.
Você está disposto a obedecer a Jesus Cristo e a começar a
testemunhar intencionalmente? O evangelismo intencional
necessariamente será personalizado por seu dom espiritual,
talentos, personalidade, agenda, situação familiar, localização
etc. Mas tendo levado tudo isso em consideração, todo crente
deve perceber que há pecado em não buscar maneiras de
propagar a mensagem sobre nosso Senhor Jesus.
Por favor, não fique com a impressão de que, por ter escrito
este capítulo e compartilhar algumas experiências, eu seja uma
super-testemunha. Envergonho-me de dizer que houve muitas
vezes em que eu deveria ter falado de Cristo e não falei, em
geral, por medo. Mas creio que possamos encontrar uma
solução de longo prazo para nossas falhas e freqüente omissão
em testemunhar se nos disciplinarmos para evangelizar.
Já que o evangelismo é revestido do poder de Deus, você
crerá que Deus pode usar suas palavras na salvação de outras
pessoas? Deus abençoa as palavras, as palavras do evangelho.
Foram as palavras do Senhor Jesus, as palavras de Pedro e as
palavras de Paulo que Deus abençoou na conversão das pessoas
nos tempos do Novo Testamento, e ainda abençoa hoje. Ele
abençoará as suas palavras quando elas forem as palavras do
144 Evangelismo

Seu poderoso evangelho.


Alguns temem testemunhar porque não se sentem
confiantes o suficiente em seus poderes persuasivos ou em sua
habilidade de responder a todas as objeções imagináveis ao
evangelho. Contudo, o poder para evangelizar não está em
nossa habilidade; mas em Seu evangelho. Você pode nunca ter
imaginado que um descrente pudesse realmente nascer de novo
ao ouvir de Cristo por seus lábios. Mas isso não é humildade. E
dúvida, uma recusa da bênção de Deus sobre o Seu evangelho
simplesmente porque ele é falado por você. Não duvide do
poder de Deus de derramar a Sua bênção sobre as suas palavras
quando você falar de Cristo.
Por toda a sua vida, John Bunyan, autor de O Peregrino,
ressaltou que a conversa de algumas mulheres pobres, sobre
as coisas de Deus, sentadas em um portal iluminado pelo sol,
foi fundamental para a sua vinda a Cristo. Creia que o Senhor
pode usar o que você diz como catalisador em uma conversão.
Eu argumento que muitos cristãos desejam falar aos outros
sobre o Senhor, mas não o fazem por temerem que o pecado
observável e diário de suas vidas seja contraditório demais para
eles testemunharem. "Como posso testemunhar a meu chefe",
o pensamento segue, "depois de me irar tanto contra ele?" Ou,
"Jamais serei capaz de contar a minha vizinha sobre o poder
de Cristo agora que ela me viu gritar com meus filhos".
Se Deus não usa pessoas como essas - como nósl- para Suas
testemunhas, não haverá testemunhas humanas. Já que não há
pessoas perfeitas, não há testemunhas perfeitas. Isso não muda
o fato de que quanto mais semelhantes a Cristo forem as nossas
vidas, mais convincentes serão as nossas palavras sobre Cristo.
Precisamos fazer todo o possível para eliminar qualquer pecado
que faça nossas palavras parecerem inconsistentes. Mas
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 145

enquanto tentamos fazer isso, temos que estar convencidos de


que não podemos esperar até atingirmos a pura perfeição a
fim de dar testemunho. De outra forma, jamais falaremos do
evangelho! Parte da beleza de nossa mensagem é que Deus salva
os pecadores, pecadores como nós. Na verdade, o Espírito Santo
pode transformar uma ocasião de pecado em oportunidade de
falar sobre o Salvador. Conheci cristãos que procuraram as
pessoas que viram ou que foram vítimas de seu pecado e, ao
confessarem e pedirem perdão, puderam dar um poderoso
testemunho. Esta é a evidência de uma vida transformada que
chama a atenção do descrente. Há muitas pessoas iradas contra
aquele chefe e aquela vizinha vê muitas mulheres gritarem com
seus filhos, mas quando você se humilha e reconhece o erro, a
diferença é demonstrada. Você percebe? A prática de uma vida
cristã consistente de fato reveste o evangelismo de poder, mas
o cristão que se recupera de seu próprio estilo de vida não-
cristão fortalece o seu testemunho de outra maneira, muito
crível. Por meio de suas falhas e fraquezas, pessoas podem ser
fortalecidas.
Já que o evangelismo é uma Disciplina, você planejará
evangelizar? Ao pregar para sua congregação em Londres em
1869 sobre a responsabilidade do evangelismo, C. H. Spurgeon
disse:

Se eu nunca tivesse ganhado almas, anelaria por elas até ganhá-


las. Meu coração se quebrantaria se não pudesse fazer com que
seus corações fossem quebrantados. Embora eu consiga entender
a possibilidade de um semeador cuidadoso ficar contente em não
ceifar, não compreendo nenhum de vocês, povo cristão, que tente
ganhar almas sem obter retomo, e fique satisfeito sem resultados.4

Se não estiver contente com sua colheita de almas por amor


146 Evangelismo

de Cristo, você planejará uma semeadura mais disciplinada?


Marcará uma data que será devotada ao evangelismo? Você
agendará um almoço com colegas no trabalho ou com um
vizinho? E quanto a programar uma reunião evangelística em
casa? Onde você poderá adquirir literatura evangelística para
distribuição? A quem você poderá se oferecer para orar? Você
se comprometerá com ao menos uma maneira de evangelizar
intencionalmente no futuro próximo?
O parágrafo a seguir é uma paráfrase de 1 Coríntios 13
escrita por Dr. Joseph Clark, citada em Today's Evangelism
(Evangelismo Hoje) por Emie Reisinger.

Ainda que eu fale as línguas do conhecimento, e ainda que


use métodos aprovados de educação, mas deixe de ganhar outros
para Cristo ou de edificá-los no caráter cristão, tom o-m e como o
gemido do vento em um deserto sírio.
E ainda que eu tenha o melhor dos métodos e entenda todos
os mistérios da psicologia religiosa, e ainda que eu tenha todo
conhecimento bíblico, mas não me envolva demais na tarefa de
ganhar outros para Cristo, tomo-me como uma nuvem em meio
ao m ar aberto.
E ainda que eu leia toda a literatura da Escola Dominical e
freqüente as suas convenções, institutos e escola de férias, mas
esteja satisfeito com menos do que ganhar almas para Cristo e
estabelecer outras pessoas no caráter e no serviço cristão, de nada
me valerá.
O servo ganhador de almas, o servo que edifica caráter, é
longânimo e gentil; não tem inveja de outros que sejam livres da
tarefa de servos e não se vangloria, nem fica envaidecido de
orgulho intelectual.
Tal servo não se comporta inconvenientemente nos períodos
entre dom ingos, não busca seu próprio b em -estar e não é
facilmente provocado. Suporta todas as coisas, crê em todas as
coisas e espera todas as coisas.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 147

E a g o ra su b sistem o co n h e cim e n to , os m é to d o s e a
Mensagem, essas três coisas: mas a maior delas é a Mensagem.5

Quanto mais semelhantes a Cristo formos, mais falaremos


de Cristo e de Sua mensagem. Mas devemos nos disciplinar
para fazê-lo. Que nos disciplinemos para viver de forma que
possamos dizer com o Apóstolo Paulo: "Faço tudo isso por causa
do evangelho, para ser co-participante dele" (1 Coríntios 9:23).

1 Veja J. I. Packer, Evangelism and the Sovereignty of God (O Evangelismo e a Soberania


de Deus) (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1979), páginas 37-57.
2 Conforme citação em Discipleship Journal (Diário do Discipulado), edição 49, página
40.
3 Nota da Tradutora: Erhard Seminars Training (ou apenas "est", normalmente grafado
com letras minúsculas), um sistema de filosofia experimental desenvolvido por
Wemer Erhardé e mundialmente conhecido nos anos 70-80 (fonte: Answers.com).
4 C. H. Spurgeon, "Tearful Sowing and Joyful Reaping" ("Semeando com Lágrimas
e Colhendo com Alegria") em Metropolitan Tabernacle Pulpit (London: Passmore
and Alabaster, 1869; reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1970), vol.
15, página 237.
5 Conforme citação em Ernest C. Reisinger, Today's Evangelism: Its Message and
Methods (Evangelismo Hoje: Sua Mensagem e Seus Métodos) (Phillipsburg, NJ:
Craig Press, 1982), páginas 142-143.
CAPÍTULO SETE

S erviço ...
C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e
❖ ❖ ❖
As disciplinas espirituais não devem ser vistas como pretexto
para separação e isolamento do mundo. Antes, devem ser
consideradas um meio de vencer o mundo. Não a renúncia ao
mundo, mas o serviço no mundo: esse é o propósito
das disciplinas do espirito conforme a visão bíblica.

Donald G. Bloesch
A Crise da Piedade

A empresa já não existe há mais de um século. Mesmo assim,


não fossem os comerciais de TV, a Pony Express provavelmente
seria mais conhecida entre as pessoas do que a Federal Express.
A Pony Express era uma empresa privada de transportes
rápidos que utilizava um organizado revezamento de homens
a cavalo para entregar correspondências. O extremo leste era
St. Joseph, Missouri, e o terminal oeste, Sacramento, na
Califórnia. O custo do envio de uma carta pela Pony Express
era de US$2,50 por 28g. Se o tempo permitisse, os cavalos
agüentassem e os índios se mantivessem à distância, a carta
completaria toda a viagem de 3200 quilômetros em rápidos dez
dias, assim como foi com o relatório do Discurso Inaugural do
Presidente Lincoln.
Pode surpreender que a Pony Express somente tenha se
Serviço 149

mantido operante de 3 de abril de 1860 até 18 de novembro de


1861 - apenas dezessete meses. Quando a linha de telégrafo
entre duas cidades foi concluída, o serviço tornou-se
desnecessário.
Trabalhar para a Pony Express era uma tarefa árdua.
Esperava-se que o cavaleiro percorresse de cento e vinte a cento
e sessenta quilômetros por dia, trocando de cavalo a cada 24 a
40 quilômetros. Além da correspondência, a única bagagem
permitida incluía alguns suprimentos como farinha, fubá e
bacon. Em caso de perigo, também se levava uma bolsa de
socorros médicos com terebintina, bórax e creme de tártaro.
Para viajar sem muito peso e aumentar a velocidade da
mobilidade durante os ataques dos índios, os homens sempre
cavalgavam vestindo apenas camisa, mesmo durante o rigoroso
inverno.
Como era possível recrutar voluntários para tarefa tão
arriscada? Em 1860, um jornal de São Francisco publicou o
seguinte anúncio para a Pony Express: "PROCURAMOS:
Rapazes jovens, magros e resistentes, de até dezoito anos.
Devem ser peritos cavalgadores, e de preferência órfãos."
Essa era a honesta verdade relacionada ao serviço
solicitado, mas a Pony Express nunca teve falta de funcionários.
Precisamos ser honestos com as verdades da Disciplina do
serviço a Deus. Assim como ocorria com a Pony Express, servir
a Deus não é tarefa para os casualmente interessados. E um
serviço custoso. Deus pede a sua vida. Deus pede que o serviço
a Ele se tome prioridade e não passatempo. Ele não quer servos
que Lhe dêem as sobras dos compromissos de suas vidas. Servir
a Deus também não é responsabilidade de curto prazo. Ao
contrário da Pony Express, o Seu Reino nunca sucumbe,
independentemente dos avanços tecnológicos de nosso mundo.
150 Serviço

O quadro mental que temos da Pony Express é


provavelmente muito parecido com o imaginado pelos jovens
de 1860 que leram o anúncio daquele jornal. Cenas de alvoroço,
camaradagem e a emoção da aventura preenchiam suas mentes
ao entrarem orgulhosamente no escritório da Express para se
inscrever. Contudo, poucos deles anteviam que tal excitação
pontuaria apenas ocasionalmente a rotina das longas, difíceis
e solitárias horas de trabalho.
A Disciplina de servir é assim. Embora o chamado de Cristo
ao serviço seja a forma espiritualmente mais grandiosa e nobre
de viver a vida, ele é tipicamente tão corriqueiro quanto lavar
os pés de alguém. Richard Foster coloca tal verdade aridamente:
"Até certo ponto, seria preferível ouvir o chamado de Jesus para
negar pai e mãe, casas e terras por causa do evangelho, do que
a Sua palavra para lavar os pés. A autonegação radical dá a
sensação de aventura. Se abandonarmos tudo, até teremos a
chance do martírio glorioso. No serviço, entretanto, somos
banidos para o mundano, o ordinário, o trivial". 1
O ministério de serviço pode ser tão público quanto o da
pregação ou ensino, mas na maioria das vezes, será tão isolado
quanto cuidar do berçário. Pode ser tão visível quanto cantar
um solo, mas normalmente passará tão despercebido quanto
operar o equipamento de som para amplificar o solo. Servir
pode ser tão apreciado quanto um bom testemunho em um
culto de adoração, mas tipicamente é tão ingrato quanto lavar
os pratos depois da programação social na igreja. A maioria
dos serviços, até aquele que parece mais glamoroso, é como
um iceberg. Somente os olhos de Deus vêem a parte maior e
oculta dele.
Além das paredes da igreja, servir é tomar conta das
crianças dos vizinhos, levar refeições para famílias em processo
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 151

de transição, realizar tarefas externas para pessoas impedidas


de saírem de casa, fornecer transporte para alguém cujo carro
quebrou, alimentar animais domésticos e regar plantas daqueles
que estão em férias e, - o mais difícil de tudo - ter um coração
de servo no lar. O ato de servir é tão trivial quanto as
necessidades práticas que procura suprir.
É por isso que servir deve se tornar uma Disciplina
Espiritual. A carne conspira contra a falta de notoriedade e a
mesmice de servir. Dois dos nossos pecados mais mortais - a
preguiça e o orgulho - são totalmente antagônicos ao serviço.
Eles embaçam nossos olhos e colocam correntes em nossas mãos
e pés para que não sirvamos da forma como sabemos que
devemos, ou até como queremos, servir. Se não nos
disciplinarmos para servir por causa de Cristo e de Seu Reino
(e para alcançar a Piedade), "serviremos" ocasionalmente,
quando for conveniente ou quando se tratar de um "auto-
serviço". O resultado será uma quantidade e uma qualidade
de serviço de que nos arrependeremos quando chegar o Dia
da Prestação de Contas.
Em The Spirit ofthe Disciplines (O Espírito das Disciplinas),
Dallas Willard acertadamente diz que nem todo serviço é, nem
mesmo deve ser, serviço disciplinado. Contudo, aqueles que
desejam ser treinados na espiritualidade em semelhança com
Cristo descobrirão que este é o meio mais certo e mais prático
de crescer na graça.

Nem todo ato que pode ser realizado como disciplina precisa ser
realizado com o disciplina. Muitas vezes é possível servir aos
outros simplesmente como ato de amor e justiça, sem considerar
como isso poderá aumentar minhas habilidades de servir a Cristo.
Certamente não há nada de errado em fazê-lo, e isso pode, de
modo incidental, me fortalecer também espiritualmente. Mas eu
152 Serviço

posso servir aos outros com o exercício para me afastar da


arrogância, da possessividade, da inveja, do ressentimento ou da
cobiça. Nesse caso, meu serviço é assumido como disciplina para
a vida espiritual.2

Mas a fim de não começarmos a pensar que servir é


meramente uma opção, vamos talhar isso na pedra angular de
nossa vida cristã:

ESPERA-SE QUE TODO CRISTÃO SIRVA

Ao chamar os Seus eleitos para Si, Deus não chama


ninguém à ociosidade. Quando nascemos de novo e nossos
pecados são perdoados, o sangue de Cristo purifica a nossa
consciência, de acordo com Hebreus 9:14, para que "sirvamos
ao Deus vivo!" "Prestem culto ao SENHOR com alegria" (Salmo
100:2) é a comissão de todo cristão. Não existe desemprego ou
aposentadoria espiritual no Reino de Deus.
Obviamente, as razões importam no serviço que oferecemos
a Deus. A Bíblia menciona ao menos seis razões para servirmos.

Motivados pela Obediência


Em Deuteronômio 13:4, Moisés escreveu: "Sigam somente o
SENHOR, o seu Deus, e temam a ele somente. Cumpram os seus
mandamentos e obedeçam-lhe; sirvam-no e apeguem-se a ele". Tudo
neste versículo se refere à obediência a Deus. Em meio a este
conjunto de mandamentos sobre obediência encontra-se a
ordem "sirvam-no". Devemos servir ao Senhor porque
queremos obedecer a Ele.
John Newton, o mercador de escravos que se tomou pastor
depois de sua conversão a Cristo e escreveu hinos como
"Amazing Grace", ilustra o serviço obediente da seguinte
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 153

maneira:

Se dois anjos fossem receber ao mesmo tempo uma comissão de


Deus, um para descer e governar sobre o maior império da terra,
o outro para ir varrer as ruas de seu mais insignificante vilarejo,
seria uma questão de indiferença total para eles qual serviço lhes
fosse atribuído, o cargo de governante ou o cargo de gari, porque
a alegria dos anjos está somente na obediência à vontade de Deus.3

Você pode imaginar um daqueles anjos recusando-se a


servir? É impensável. Foi a indisposição para servir a Deus que
fez alguns anjos se transformarem em demônios. Então, como
pode qualquer cristão professo pensar que é correto sentar-se
nos "bancos de reserva" espirituais e observar outros fazerem
o trabalho do Reino? Qualquer cristão verdadeiro diz que deseja
obedecer a Deus. Mas desobedecemos a Deus quando não O
estamos servindo. Deixar de servir a Deus é pecaminoso.

Motivados pela Gratidão


O profeta Samuel exortou o povo de Deus a servir com as
palavras: "Tão-somente, pois, temei ao Senhor e servi-o
fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas
coisas vos fez". (1 Samuel 12:24). Não é pesado servir a Deus
quando consideramos que grandes coisas Ele tem feito por nós.
Você está lembrado do que é não conhecer a Cristo e estar
sem Deus e sem esperança? Lembra-se do que é encontrar-se
culpado diante de Deus e sem perdão? Lembra o que é ter
ofendido a Deus e ter a Sua ira queimando em relação a você?
Lembra-se do que é estar a apenas um passo do inferno? Agora,
você se lembra do que é ver Jesus Cristo com os olhos da fé e
entender pela primeira vez quem Ele realmente é e o que Ele
fez por meio de Sua morte e ressurreição? Lembra-se do que é
154 Serviço

experimentar perdão e libertação do juízo e do inferno? Lembra-


se de como foi ter pela primeira vez a certeza do Céu e da vida
eterna? Quando o fogo do serviço a Deus esfriar, considere que
grandes coisas o Senhor fez por você.
Ele jamais fez algo maior por alguém, nem poderia fazer
algo maior por você, a não ser trazê-lo para Si. Suponha que
Ele colocasse dez milhões de dólares em sua conta bancária
todas as manhãs pelo resto de sua vida, mas não salvasse você.
Suponha que Ele desse a você o corpo e o rosto mais bonitos de
toda humanidade, um corpo que não envelhecesse por mil anos,
mas então, quando morresse, Ele impedisse você de entrar no
céu, confinando-o ao inferno pela eternidade? O que Deus já
deu a alguém que possa ser comparado à salvação que Ele lhe
deu como crente? Você percebe que não há nada que Deus possa
fazer ou dar a você que seja mais do que Ele mesmo? Se não
podemos ser servos gratos a Ele, que é tudo e em quem temos
tudo, o que nos fará ser gratos?

Motivados pela Alegria


A ordem inspirada de Salmo 100:2 é: "Prestem culto ao
SENHOR com alegria". Não devemos servir a Deus de má
vontade ou carrancudamente, mas com alegria.
Nas cortes dos antigos reis, servos eram executados pelo
simples fato de parecerem tristes ao servirem ao rei. Neemias,
em 2:2 do livro que leva seu nome, se entristeceu por causa das
notícias que ouvira, de que Jerusalém ainda estava em ruínas
apesar do retomo de muitos judeus do exílio babilónico. Ao
servir uma refeição ao rei Artaxerxes certo dia, o rei disse a ele:
"Por que seu rosto parece tão triste, se você não está doente? Essa
tristeza só pode ser do coração!" Por causa do que isso poderia
significar para ele, Neemias diz estar: "Com muito medo". Não
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 155

se age com desânimo nem se fica amuado ao servir a um rei.


Isso não apenas dá a impressão de que você não deseja servir
ao rei, mas é uma declaração de insatisfação com a forma com
que ele está administrando as coisas.
Algo vai mal se você não consegue servir ao Senhor com
alegria. Posso entender por que a pessoa que serve a Deus só
por obrigação não serve com alegria. Posso entender por que a
pessoa que serve a Deus tentando ganhar o céu não serve com
alegria. Mas o cristão que gratamente reconhece o que Deus
tem feito por ele pe!a eternidade deve ser capaz de servir a
Deus com alegria e ânimo.
Para o crente, servir a Deus não é um peso, mas um
privilégio. Suponha que Deus perm ita que você sirva em
qualquer posição política ou comercial do mundo, mas não o
deixe servir em Seu Reino, Suponha que Ele o deixe escolher
qualquer pessoa do mundo para servir e conhecer intimamente,
mas não deixe que você O sirva. Ou suponha que Ele deixasse
você servir a si m esm o, fazendo de sua vida tudo o que
desejasse, sem necessidades ou preocupações, mas você jamais
p u desse con h ecer a D eus. A té a m elh or d essas coisas é
escravidão miserável em comparação com o grato privilégio
de servir a Deus. E por isso que o salmista pôde dizer: "Melhor
ó lun dia nos teus átrios do que mil noutro lugar; prefiro ficar à porta
da casa do meu Deus a habitar nas tendas dos ímpios" (Salmo 84:10).
Você serve na igreja com alegria ou com desânimo? Você
serve a seus vizinhos de boa vontade ou com relutância? A
impressão que seus filhos têm é que você realmente gosta de
servir a Deus ou simplesmente tolera?

Motivados pelo Perdão, não pela Culpa


Na conhecida visão que Isaías teve de Deus, observe a sua
156 Serviço

reação uma vez que Deus o perdoa: "Então, um dos serafins voou
para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com
uma tenaz; com a brasa tocou a minha boca e disse: Eis que ela tocou
os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o teu pecado.
Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e
quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim" (Isaías
6:6-8). Assim como um cão na coleira, Isaías se esforçava ao
máximo para servir a Deus de alguma forma, de qualquer forma.
Porque se sentia culpado? Não! Porque Deus havia tirado a sua
culpa!
C. H. Spurgeon, o leão londrino dos púlpitos, tocado com a
emoção de Isaías, disse em um sermão em 8 de setembro de
1867:

O herdeiro dos céus serve a seu Senhor movido simplesmente


p o r g ra tid ã o ; ele não tem salv ação a g an h ar, nem céu a
perder;...agora, por amor ao Deus que o escolheu e que pagou
preço tão alto por sua redenção, ele deseja dispor-se inteiramente
a serviço de seu Mestre. Você, que busca a salvação pelas obras
da lei, que vida miserável deve ser a sua! ... você a terá se
diligentemente perseverar em obediência, você poderá quem sabe
obter vida eterna, contudo, ai de mim! Nenhum de vocês ousa
fingir que a obteve. Você labuta, labuta, labuta, mas nunca obtém
aquilo por que labuta, e jamais obterá, pois: "ninguém é justificado
pela prática da L e i" ...O filho de Deus não se empenha para ganhar
a vida, mas porque tem a vida; não se empenha para ser salvo, mas
porque é salvo.4

Nós, o povo de Deus, não O servimos a fim de sermos


perdoados, mas porque somos perdoados. Quando crentes
servem somente porque se sentem culpados se não o fizerem,
é como se servissem com uma bola e corrente presa a seus
tornozelos. Não há amor nesse tipo de serviço, apenas trabalho.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 15 7

Não há alegria, apenas obrigação e servidão. Mas os cristãos


não são prisioneiros que devem servir no Reino de Deus de má
vontade por causa da culpa. Podemos servir de boa vontade
porque a morte de Cristo nos libertou da culpa.

Motivados pela Humildade


Jesus foi o Servo perfeito. Sua grandiosidade é vista na
"baixeza" que Ele estava disposto a experimentar a fim de servir
às necessidades mais básicas de Seus doze amigos.

Quando terminou de lavar-lhes os pés, Jesus tom ou a vestir sua


capa e voltou ao seu lugar. Então lhes perguntou: "Vocês entendem
o que lhes fiz? Vocês me chamam 'Mestre' e 'Senhor', e com razão, pois
eu o sou. Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os
pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o
exemplo, para que vocês façam como lhes fiz. Digo-lhes verdadeiramente
que nenhum escravo é maior do que o seu senhor, como também nenhum
mensageiro é maior do que aquele que o enviou." (João 13:12-16)

Com espantosa humildade, Jesus, o seu Senhor e Mestre,


lavou os pés de Seus discípulos, dando exemplo de como todos
os Seus seguidores deveriam servir com humildade.
Nesta vida, sempre haverá uma parte de nós (que a Bíblia
chama de carne) que dirá: "Se tenho que servir, quero conseguir
algo em troca. Se posso ser recompensado, ou ganhar reputação
pela humildade, ou de alguma forma obter vantagem com isso,
então darei a impressão de humildade e servirei". Mas este
serviço não expressa semelhança com Cristo. E hipocrisia.
Richard Foster o chama de "serviço farisaico".

O serviço farisaico requer recompensas externas. Ele precisa saber


que as pessoas vêem e apreciam o esforço. Busca o aplauso
humano, com a devida modéstia religiosa, é claro. O serviço
158 Serviço

farisaico se preocupa muitíssimo com os resultados, e deseja


avidamente ver se a pessoa servida irá retribuir da mesma forma.
A carne se queixa contra o serviço, mas grita contra o serviço feito
às ocultas. Ela faz de tudo para obter honra e reconhecimento.
Ela irá tram ar meios sutis e religiosamente aceitos de chamar a
atenção para o serviço prestado.5

Pelo poder do Espírito Santo devemos rejeitar o serviço


farisaico como motivação pecaminosa, e servir
"humildemente", considerando "os outros superiores" a nós
mesmos (Filipenses 2:3).
Você consegue servir a seu chefe e a outros no trabalho,
ajudando-os a serem bem-sucedidos e felizes, mesmo quando
eles são promovidos e você passa despercebido? Consegue
trabalhar para fazer os outros parecerem bem sem que a inveja
ocupe seu coração? Consegue ministrar às necessidades
daqueles que Deus exalta e os homens honram quando você
mesmo é negligenciado? Consegue orar para que o ministério
de outros prospere quando isso poderia lançar o seu nas
sombras?
Na Disciplina do serviço, a questão nem sempre é quão
bem você serve, pois até o mundo serve bem quando isso leva
ao lucro. Mas o cristão serve com humildade porque isso leva à
semelhança com Cristo.

Motivados por Amor


No coração do serviço, de acordo com Gálatas 5:13, deve
haver amor: "Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas
não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário,
sirvam uns aos outros mediante o amor".
Não há melhor combustível para o serviço que queime por
mais tempo e forneça mais energia do que o amor. Há coisas
Com o Propósito de Alcnnçnr n Piedade 159

que faço no serviço de Deus que não faria por dinheiro, mas
disponho-me a fazê-las por amor a Deus e aos outros. Li sobre
um m issio n ário na Á frica a quem foi p erg u n tad o se ele
realm ente gostava do que estava fazendo. Sua resposta foi
chocante: "Se gosto deste trabalho?" disse ele. "N ão. Minha
esposa e eu não gostamos de sujeira. Temos sensibilidades
razoavelmente refinadas. Não gostamos de rastejar até cabanas
imundas em meio a refugo de bode". ...Mas um homem não
deve fazer nada do que não goste para Cristo? Deus tenha
misericórdia dele, se não. Gostar ou não gostar não tem nada a
ver com isso. Temos ordens para 'Ir ' e vamos. O am or nos
constrange a isso".
Q uando o am or de C risto controla ou con stran g e os
homens, o resultado é que eles "já não [vivem] mais para si
mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou"
(2 Coríntios 5:14-15), Eles servem a Deus e aos outros, mas o
serviço é motivado pelo amor. Jesus disse em M arcos 12:28-31
que o maior mandamento era amar a Deus com todo o seu ser
e o segundo mandamento mais importante era amar ao próximo
como a si mesmo. A luz destas palavras, certamente quanto
mais amarmos a Deus, mais viveremos para Ele e O serviremos,
e quanto mais amarmos aos outros, mais os serviremos.

TODO CRISTÃO TEM O DOM DE SERVIR

Dons Espirituais
No momento da salvação, o Espírito Santo, quando passa a
habitar em seu interior, traz Consigo um dom. Em 1 Coríntios
12:4, 11, somos informados de que há muitas variedades de
dons, e o Espírito Santo determina, por Sua soberana vontade,
que dom é dado a cada crente. "Há diferentes tipos de dons, mas o
160 Serviço

Espírito é o mesmo...Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo


mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada
um, como quer". Até mais específico é 1 Pedro 4:10, que certifica
que cada cristão é especialmente dotado e que o propósito do
dom é o serviço: "Cada um exerça o dom que recebeu para servir os
outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas
formas".
Talvez você já saiba que os dons espirituais têm sido alvo
de contínua controvérsia em muitas partes da Igreja. Minha
convicção particular é que todo cristão tem um dos sete dons
espirituais relacionados em Romanos 12:4-8. Os próprios
ministérios que Deus nos dá são dons de Deus (1 Coríntios 12:5,
Efésios 4:7-13) e, ao ministrarmos com nosso dom espiritual,
os efeitos benéficos que o Espírito Santo opera nas vidas de
outros são para eles outro tipo de dom espiritual (1 Coríntios
12:6-11). Outras passagens importantes sobre dons espirituais
são 1 Coríntios 12:27-31,1 Coríntios 14 e 1 Pedro 4:11. Encorajo
você a lê-las em espírito de oração.
Independentemente de sua teologia sobre dons espirituais,
os dois pontos mais relevantes sobre eles continuam sendo
aqueles revelados em 1 Pedro 4;10, a saber, (1) se você é cristão,
tem definitivamente um dom espiritual, e (2) o propósito de
Deus ao dar a você o dom é que com ele você sirva para o Seu
Reino.
Se você estiver apenas começando a aprender sobre dons
espirituais, provavelmente não terá idéia de qual seja o seu dom.
Relaxe. Muitos cristãos servem a Deus fiel e produtivamente
por toda uma vida sem determinar o seu dom específico. Não
estou sugerindo que você não deva tentar identificar seu dom;
estou dizendo que você não é relegado ao status de esquentador
de banco no Reino de Deus até que possa definir seu dom.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 161

Estude o material bíblico sobre dons espirituais e escolha


cuidadosamente alguns dos melhores livros da torrente de
tomos escritos sobre o assunto. Mas de forma alguma se deixe
desanimar em servir, pois é possível servir bem mesmo sem
saber nomear o seu dom. J. I. Packer nos lembra: "Os dons mais
significativos na vida da igreja de todas as eras são habilidades
naturais corriqueiras santificadas".6
Permaneça equilibrado. Deus deu a você um dom espiritual
e este não é o mesmo que uma habilidade natural. Aquele
talento natural, adequadamente santificado para o uso de Deus,
sempre aponta em direção à identidade de seu dom espiritual.
Contudo, você deve descobrir que dom especial Deus lhe deu
servindo tão diligentemente quanto possível sem aquelas
informações definitivas. Na verdade, além do estudo das
Escrituras, a melhor forma de descobrir e confirmar que dom
espiritual é o seu será por meio do serviço. Se você tem
inclinação para ensinar, pode nunca vir a saber que seu dom é
ensino até que assuma uma classe e tente. Você pode descobrir,
por um ministério de pessoas em sofrimento, que o seu dom é
misericórdia. Por outro lado, ao se envolver em um ministério
específico, você pode confirmar qual não é o seu dom. Há alguns
anos, eu pensei que tivesse um dom até que, servindo, ficou
dolorosamente claro que eu tinha um dom inteiramente
diferente.
Encorajo você a se disciplinar para servir em um ministério
regular e contínuo de sua igreja local. Não necessariamente em
uma posição reconhecida ou escolhida. Encontre uma maneira
de derrotar a tentação de servir somente quando for
conveniente ou estimulante. Isso não é serviço disciplinado.
Aqueles que têm coração e olhos de servo serão compelidos
pelo amor a servir de formas e tempos que ultrapassem os
162 Serviço

limites de seu ministério oficial, mas não negligenciarão o


ministério contínuo do Corpo de Cristo local.
Você pode se sentir ignorado, talvez esteja limitado por ter
uma agenda incomum, ou pode estar fisicamente incapacitado,
mas ainda assim existirá um modo de você servir. Aqueles que
têm agendas incomuns ou limitações físicas muitas vezes se
tomam poderosos intercessores em um ministério de oração.
Apesar de suas limitações, os que têm o coração no serviço
sempre encontram uma maneira de servir.
Uma comissária de bordo de nossa igreja trabalha em rotas
internacionais e quando está em serviço, passa vários dias fora.
Ela não tem uma agenda normal de segunda a sexta, mas
sempre escreveu cartas de encorajamento e doou livros como
ministério. Contudo, ao se unir a nossa comunhão, buscou uma
forma disciplinada de servir com outros crentes ao invés de
apenas individualmente. Mas como fazer isso com a sua
agenda? Logo ficou claro que seu dom espiritual era servir, isto
é, suprir necessidades práticas. Ela também se sobressai na
hospitalidade. Agora ela faz parte de uma equipe ministerial
de nossa igreja que é especializada em hospitalidade. Por ser
um ministério de grupo, ela não tem que estar presente todas
as vezes que servem. Quando ela não está fora, ela faz a sua
parte.
Dons espirituais devem ser usados para servir. Se Deus não
pretendesse que seu dom fosse usado, não haveria mais
propósito para sua vida. Por que Deus permitiria que
vivêssemos senão para sermos úteis a Ele? Em Sua sabedoria e
providência, Ele dotou cada crente para servir e manteve cada
um de nós vivo para servir.
O intuito deste capítulo, contudo, é despertar os crentes
para o serviço disciplinado, com o objetivo de podermos ser mais
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 163

semelhantes a Jesus. Alguns dons espirituais pendem em


direção a ministérios que estão fora dos holofotes e muitas vezes
não são apreciados pelas massas. Entretanto, como Jesus, não
importa quanto reconhecimento público ganhemos no
ministério, somos chamados igualmente para tempos de serviço
"nos bastidores". "Alguns têm o dom do auxílio, e essas ações
vêm mais naturalmente", escreve Jerry White. "Para a maioria
dos cristãos, servir requer um esforço consciente".7 Ele poderia
ter dito isso da seguinte maneira: "servir requer disciplina".

Servir Sempre é Trabalho Árduo


Alguns ensinam que uma vez descoberto e empregado o
dom espiritual, servir se torna nada mais do que alegria passiva.
Mas isto não é o cristianismo do Novo Testamento. Em Efésios
4:12, o Apóstolo Paulo escreveu sobre "preparar os santos para
a obra do ministério" (ênfase do autor). As vezes, servir a Deus
e aos outros nada mais é do que trabalho árduo.
Nas Escrituras, os cristãos são chamados não apenas de
filhos de Deus, mas também de servos de Deus. Recorde como
Paulo normalmente inicia as suas cartas, referindo-se a si
mesmo como servo de Deus (como em Romanos 1:1). Todo
cristão é servo de Deus, e servos trabalham.
Paulo descreve o seu serviço a Deus com estas palavras em
Colossenses 1:29: "Para isso eu me esforço, lutando conforme a sua
força, que atua poderosamente em mim". A palavra esforço significa
trabalho ao ponto de exaustão, enquanto a palavra grega
traduzida por "lutando" vem da palavra "agonizar". Assim, para
Paulo, servir a Deus era "agonizar ao ponto de exaustão". Isso
não significa que era uma labuta infeliz; na verdade, a razão
porque Paulo trabalhava tanto era que a única coisa a que ele
amava mais do que servir a Deus era o próprio Deus. Deus nos
164 Serviço

fomece o poder de servi-Lo. Nós lutamos em serviço "conforme


a sua força, que atua poderosamente" em nós. O verdadeiro
ministério nunca é movido pela carne. Mas o resultado de Seu
poder operando poderosamente em nós é "esforço".
Isso significa que servir ao Senhor em uma igreja local ou
em qualquer tipo de ministério sempre será difícil. Se você for
como Paulo, às vezes será agonizante e exaustivo. Levará tempo.
Sempre haverá coisas mais divertidas que você poderia estar
fazendo. E, se não houver outra razão, servir a Deus é trabalho
árduo porque significa servir as pessoas.
Entretanto, lembre-se de que o serviço que nada custa
também nada produz. E mesmo que servir a Deus possa ser
trabalho agonizante e exaustivo, é também o tipo de trabalho
que mais realiza e recompensa. Em João 4:34, lemos a passagem
em que Jesus fala com a mulher de Samaria. Ele andara o dia
todo. Estava cansado, com sede e fome. E tudo isso porque Ele
estava servindo a Seu Pai. Enquanto Ele descansa perto do poço
próximo a Sicar, a mulher samaritana chega ao poço. Eles
conversam e a vida dela é transformada para sempre. Quando
ela volta a Sicar para contar aos outros sobre Jesus, Seus
discípulos voltam da cidade, onde haviam ido comprar
alimento. Quando oferecem comida a Jesus, Ele diz: "A minha
comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a
sua obra" (ênfase do autor).
A obra de servir a Deus produzia tanta satisfação e
realização em Jesus, que Ele a chamava de comida. Servir a
Deus muitas vezes O deixava tão cansado que Ele pegava no
sono durante a tempestade em um barco aberto. Certa vez, a
tarefa implicou quarenta dias sem comer. Serviço para Jesus
significava dormir fora e no chão. Significava levantar-se antes
do dia clarear para ter algum tempo para si mesmo. Mas em
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 165

meio de toda exaustão, fome, sede, dor e inconveniência, Jesus


disse que a obra de servir a Deus era tão importante que era
como comidal Ela O nutria, O fortalecia, O satisfazia e Ele a
devorava!
Servir a Deus é trabalho, mas não há trabalho mais
recompensador.
O serviço disciplinado é também o tipo mais duradouro de
trabalho. Diferentemente de algumas coisas que possamos
fazer, o serviço para Deus nunca é feito em vão. O mesmo Paulo
que agonizou o ponto de exaustão ao servir a Deus nos lembra:
"Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre
abundantes na obra do Senhor; sabendo que, no Senhor; o vosso
trabalho não é vão". (1 Coríntios 15:58).
Não será preciso servir a Deus por muito tempo para ser
tentado a pensar que seu trabalho é vão. Pensamentos virão
que o serviço que você presta é uma perda de tempo. Resultados
são difíceis de ser encontrados. Independentemente do que você
pense e veja, Deus promete que seu trabalho nunca será em
vão. Isso não significa que um dia você irá ver todo o fruto de
seu trabalho que esperaria ver, ou que não irá sentir muitas
vezes que nada se aproveitou de todo o seu esforço. Mas
significa que mesmo que você não consiga ver a prova, o seu
serviço para Deus nunca é em vão.
Deus vê e sabe de seu serviço para Ele e jamais Se esquecerá
dele. Ele irá recompensar você no Céu porque é um Deus fiel e
justo. Gosto muito de Hebreus 6:10: "Porque Deus não é injusto
para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes
para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos".
O serviço disciplinado a Deus é trabalho, e às vezes esforço
árduo e custoso, mas irá durar por toda eternidade.
166 Serviço

MAIS APLICAÇÃO

A adoração habilita o serviço; o serviço expressa adoração.


A Piedade requer um equilíbrio disciplinado entre as duas
coisas. Aqueles que podem manter o serviço sem adoração
regular pessoal e conjunta estão servindo na carne. Não importa
quanto tempo eles estejam servindo dessa forma ou quão bem
outros achem que eles sirvam, eles não estarão se empenhando
de acordo com o poder de Deus, como Paulo fez, mas em seu
próprio poder.
Na adoração renovamos os motivos e o desejo de servir.
Isaías não diz: "Eis-me aqui. Envia-me" até ter uma visão de
Deus. Esta é a ordem: adoração, depois o serviço movido pela
adoração. Como A. W. Tozer coloca, "a comunhão com Deus
leva diretamente a obediência e boas obras. Esta é a ordem
divina e ela nunca pode ser invertida".8 O trabalho requerido
pelo serviço fica árduo demais sem o poder que recebemos para
realizá-lo por meio da adoração.
Ao mesmo tempo, uma medida de autenticidade da
adoração (novamente, tanto pessoal como conjunta) é se ela
resulta em desejo de servir. Isaías é o exemplo clássico aqui
também. Tozer mais uma vez o diz da melhor forma: "Ninguém
pode desejar adorar a Deus em espírito e em verdade antes
que a obrigação com o serviço santo se tome forte demais para
que se resista a ela".9
Assim, devemos asseverar que para sermos Piedosos, temos
que nos disciplinar tanto para a adoração quanto para o serviço.
O emprego de um sem o outro, na realidade, significa não
experimentar nenhum deles.
Espera-se que você sirva e você é dotado para servir; mas
está disposto a servir? Os israelitas não tinham dúvida de que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 167

Deus esperava que eles O servissem, mas Josué uma vez olhou
para eles nos olhos e os desafiou quanto à disposição que tinham
para servir: "Se, porém, não lhes agrada servir ao SENHOR,
escolham hoje a quem irão servir... Mas, eu e a minha família
serviremos ao SENHOR" (Josué 24:15).
Quando penso em disposição fiel para servir, lembro-me
de um homem quieto e pequeno de uma igreja da qual fiz parte
da diretoria. Aos domingos, ele chegava sempre
despercebidamente, pois vinha muito antes de qualquer outra
pessoa. Contudo, ele enrustia seu velho carro em algum canto
obscuro do estacionamento para deixar os melhores lugares
para os outros. Ele destravava todas as portas, pegava os
boletins e depois esperava do lado de fora. Quando alguém se
aproximava, ele oferecia um boletim e um grande sorriso. Mas
ele não falava e ficava envergonhado quando visitantes lhe
faziam perguntas. Algo havia acontecido a sua voz há muitos
anos. Quando o conheci, ele tinha sessenta e poucos anos e
morava sozinho. Quando o carro dele tinha algum problema, o
que muitas vezes acontecia, ele nunca contava nada a ninguém
e então andava mais de um quilômetro e meio até a igreja. Por
causa de sua vulnerabilidade, ele tinha sido assaltado e
espancado várias vezes, ao menos duas vezes durante os três
anos em que estive naquela igreja. Alguns membros antigos da
igreja me contaram que suspeitavam que ele tivesse perdido a
voz após ter sido espancado alguns anos antes. Uma artrite
extensiva curvara seus ombros e impedia que ele virasse o
pescoço. Já era muito esforço destravar as portas e entregar
boletins. Mas ele estava sempre ali, sorrindo, mesmo que não
pudesse dizer uma única palavra. Tudo em sua vida cooperava
para mantê-lo na obscuridade e em segundo plano, até seu
nome: Jimmy Small. Contudo, apesar de suas desvantagens,
168 Serviço

reveses, deficiências e uma pletora de potenciais desculpas, ele


servia a Deus de boa vontade. E servia de forma disciplinada,
o que aos olhos de Deus, não era nem pequena, nem em vão.
O Senhor Jesus sempre foi o servo, o servo de todos, o servo
dos servos, o Servo. Ele disse: "Mas eu estou entre vocês como
quem serve" (Lucas 22:27). Se pretendemos ser semelhantes a
Cristo, temos que nos disciplinar para servir como Jesus serviu.

PROCURADOS: Voluntários dotados para o serviço difícil na


expressão local do Reino de Deus. A motivação para servir deve
ser obediência a Deus, gratidão, alegria, perdão, humildade e
amor. O serviço raramente será glorioso. A tentação de abandonar
o posto de serviço às vezes será forte. Os voluntários deverão ser
fiéis apesar das longas horas dedicadas ao trabalho, da obtenção
de poucos ou de nenhum resultado visível e, possivelmente, de
nenhum reconhecimento exceto por parte de Deus na eternidade.

' Richard Foster, Celebration of Discipline (Celebração da Disciplina) (São Francisco,


CA: Harper and Row, 1978), página 110.
2 Dallas W illard, The Spirit of the Disciplines (O Espírito das Disciplinas) (São
Francisco, CA: Harper and Row, 1989), página 182.
3 E. M. Bounds, The Essentials of Prayer (Elementos Essenciais da Oração) (Grand
Rapids, MI: Baker Book House, 1979), página 19.
4 C. H. Spurgeon, "Serving the Lord with Gladness", em Metropolitan Tabernacle
Pulpit (Servindo ao Senhor com Alegria) (Londres: Passmore and Alabaster, 1868;
reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1989), volume 13, páginas 495­
496.
5 Foster, páginas 112, 114.
6 John Blanchard, comp., More Gathered Gold (Juntando M ais Ouro) (Welwyn,
Hertfordshire, Inglaterra: Evangelical Press, 1986), página 291.
7 Jerry White, Choosing Plan A in a Plan B World (Escolhendo o Plano A em um
Mundo de Plano B) (Colorado Springs, CO: NavPress, 1986), página 97.
8 Harry Verploegh, comp., Signposts: A Collection of Sayings from A. W. Tozer (Postes-
letreiros: Coleção de Ditos de A. W. Tozer) (Wheaton, IL: Victor Books, 1988), página
183.
9 Verploegh, página 183.
CAPÍTULO OITO

M o rd o m ia ...
C o m o P r o pó sito d e
A lcançar a P ied a d e
❖ ❖ ❖
Quantas vezes ouvimos sobre a disciplina da vida cristã nos dias de
hoje? Quantas vezes falamos sobre ela? Quantas vezes ela pode
realmente ser encontrada no coração de nossa vida evangélica?
Houve uma época em que ela esteve bem no âmago
da igreja cristã, e creio profundamente ser por causa de nossa
negligência dela que a igreja esteja em sua presente posição. Na
verdade, não vejo esperança alguma de haver qualquer
reavivamento verdadeiro e novo despertar até que voltemos a ela.

D. Martyn Lloyd-Jones
Fé: Experimentada e Triunfante

Pense por um momento. Que eventos produziram o maior


estresse em sua vida hoje? E na semana passada? Eles não
fizeram você se sentir sobrecarregado de responsabilidades no
lar, no trabalho, na escola, na igreja ou em tudo isso junto? O
pagamento de contas? O atraso para um compromisso? O
balanço do talão de cheques? A espera no congestionamento
da cidade ou de uma estrada? O enfrentamento de coisas
inesperadas como o conserto de um carro ou despesas médicas?
O descanso insuficiente? O dinheiro, que acabou antes do dia
do pagamento?
Cada um desses causadores de ansiedade tem a ver com
170 Mordomia

tempo ou dinheiro. Pense agora em quantas questões do dia-a-


dia envolvem o uso de uma destas duas coisas. O relógio e o
real são fatores substanciais demais em tantas partes da vida,
que o papel deles deve ser considerado em qualquer discussão
séria sobre a vida Piedosa.

O USO DISCIPLINADO DO TEMPO

Piedade é resultado de uma vida espiritual disciplinada.


Mas no coração de uma vida espiritual disciplinada está a
Disciplina do tempo.
Se pretendemos ser como Jesus, temos que ver o uso de
nosso tempo como uma Disciplina Espiritual. Tendo ordenado
os Seus momentos e Seus dias tão perfeitamente, no final de
Sua vida terrena, Jesus pôde orar ao pai: "Eu te glorifiquei na
terra, completando a obra que me deste parafazer" (João 17:4). Assim
como foi com Jesus, Deus nos dá tanto o dom do tempo quanto
a obra a ser realizada durante este tempo. Quanto mais
semelhantes a Cristo formos, mais entenderemos por que o uso
disciplinado do tempo que Deus nos dá é tão importante. Dez
razões bíblicas serão mencionadas abaixo (muitas das quais
foram esclarecidas a mim com a leitura do sermão de Jonathan
Edwards sobre "A Preciosidade do Tempo e a Importância de
Remi-lo").1

Use o Tempo Sabiamente "Porque os Dias São Maus"


Usar o tempo sabiamente porque os dias são maus é uma
frase curiosa incrustada na linguagem inspirada do Apóstolo
Paulo em Efésios 5:15-16: "Portanto, vede prudentemente como
andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque
os dias são maus". Paulo pode ter exortado os cristãos de Éfeso a
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 171

aproveitar ao máximo o tempo deles porque ele e/ou os efésios


estavam enfrentando perseguição ou oposição (assim como em
Atos 19:23-20:1). De qualquer forma, precisamos usar cada
momento com sabedoria "porque os dias são maus" ainda.
Até sem o tipo de perseguição ou oposição conhecidas pelos
cristãos dos dias de Paulo, o mundo em que vivemos não tem a
tendência de usar o tempo de maneira sábia, especialmente com
propósitos de espiritualidade e Piedade. Na verdade, nossos
dias são dias de mal ativo. Há grandes ladrões de tempo que
são os favoritos do mundo, da carne, e do Diabo. Eles podem
ser classificados em forma de preocupações de alta tecnologia,
socialmente aceitáveis, a conversas simples e ociosas ou
pensamentos desgovernados. Mas o curso natural de nossas
mentes, nossos corpos, nosso mundo ou nossos dias nos leva
em direção ao mal, não em direção à semelhança com Cristo.
Os pensamentos devem ser disciplinados, senão, como água,
eles tenderão a fluir para baixo ou a permanecer estagnados. E
por isso que em Colossenses 3:2 a ordem a nós é que
"Mantenham[os] o pensamento nas coisas do alto". Sem este
conjunto de direção consciente, ativa e disciplinada de nossos
pensamentos, eles serão improdutivos, na melhor das hipóteses,
e maus, na pior. Nossos corpos são inclinados a comodidade,
prazer, glutonaria e preguiça. A menos que pratiquemos o
autocontrole, nossos corpos tenderão a servir mais ao mal do
que a Deus. Devemos nos disciplinar cuidadosamente em como
"andamos" neste mundo, ou nos conformaremos com os
caminhos dele e não com os de Cristo. Por fim, nossos dias são
dias de mal ativo porque toda tentação e força maligna é ativa
em si. O uso do tempo é importante porque é de tempo que os
dias são feitos. Se não disciplinarmos a nossa forma de usarmos
o tempo com o propósito de alcançar a Piedade nestes dias
172 Mordomia

maus, estes dias maus nos impedirão de nos tornarmos


Piedosos.

O Uso Sábio do Tempo é a Preparação para a Eternidade


Você deve se preparar para a eternidade a tempo. Essa
declaração pode ser entendida de duas maneiras, ambas são
verdadeiras. Ela significa que durante o tempo (isto é, nesta
vida), você deve se preparar para a eternidade, pois não haverá
segunda chance para se preparar uma vez que você tenha
cruzado a porta de entrada infinita da eternidade.
Recentemente, tive um sonho inesquecível que me fez
lembrar seriamente desta realidade. (Eu não atribuo ao sonho
grande peso ou valor profético; menciono-o somente porque
ele ilustra o meu ponto.) Juntamente com alguns outros cristãos,
eu estava num local de perseguição. Após um julgamento,
fomos conduzidos a uma sala onde nossos perseguidores
estavam levando cada crente à morte por injeção letal. Enquanto
esperava minha vez, fui tomado pela consciência de que em
alguns momentos eu estaria para entrar na eternidade, e toda
a minha preparação para aquele evento agora havia terminado.
Caí de joelhos e comecei a fazer minhas últimas orações desta
vida, entregando meu espírito ao Senhor Jesus Cristo. Naquele
ponto do sonho, eu acordei sobressaltado e com o nível de
adrenalina de um homem prestes a ser executado. Meu primeiro
pensamento consciente após perceber que aquilo era apenas
um sonho foi que um dia isso não seria sonho. Há um dia
específico no calendário, quando toda a minha preparação para
a eternidade estará encerrada. E já que aquele dia pode ser
qualquer dia, devo usar meu tempo de maneira sábia, pois é
todo o tempo que tenho para me preparar para onde estarei
perpetuamente além do sepulcro.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 173

Você percebe que, o experimentar alegria infinita ou agonia


eterna depende daquilo que acontece em momentos da vida
tais como este? O que, então, será mais precioso do que o tempo?
Pois como um pequeno leme determina a direção de um grande
navio oceânico, assim aquilo que é feito no tempo influencia a
eternidade.
Isto nos leva a outro significado de preparar para eternidade
a tempo, isto é, preparar para ela antes que seja tarde demais.
O alerta escriturístico clássico é: "Agora é o tempo favorável, agora
é o dia da salvação" (2 Coríntios 6:2). Agora mesmo é o tempo
certo de se preparar para onde você irá passar a eternidade. Se
esta é uma questão incerta ou indefinida para você, agora é
tempo de defini-la. Você não tem garantia de que terá qualquer
outro tempo para se preparar para a eternidade, nem deve
deixar de responder Àquele que o fez e que lhe dá o tempo.
Prepare-se para a eternidade indo em fé ao Filho Eterno de
Deus, Jesus Cristo. Vá a Ele a tempo, e Ele o trará para Si mesmo
na eternidade.

O Tempo é Curto
Quanto mais escasso algo é, mais valioso. Ouro e diamantes
nada valeriam se pudessem ser encontrados tão facilmente
quanto pedras ao longo de uma estrada. O tempo não seria tão
precioso se nunca morrêssemos. Mas já que nunca estamos mais
distantes do que um passinho da eternidade, a maneira como
usamos o tempo tem significado eterno.
Mas até se você tem décadas de vida pela frente, o fato é:
"Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois,
apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa" (Tiago
4:14). Mesmo a vida mais longa é breve em comparação com a
eternidade. Apesar de todo tempo que passou, você
174 Mordomia

provavelmente conseguirá se lembrar de eventos felizes ou


trágicos de sua infância ou adolescência tão vividamente quanto
se eles tivessem acontecido ontem. A razão não é simplesmente
a força de sua memória, mas também porque na verdade não
aconteceram há tanto tempo assim. Quando se pensa em uma
década toda como 120 meses, uma grande fatia de vida de
repente parece curta. Até quando chega a seu máximo alcance,
a vida nunca é longa. Assim, independentemente de quanto
tempo você tenha reservado para desenvolver mais semelhança
com Cristo, não será muito. Use-o bem.

O Tempo está Passando


Não só o tempo é curto, mas o que realmente resta dele é
fugaz. O restante de sua vida não é como um pequeno cubo de
gelo que você pode tirar do freezer e usar quando quiser. Ao
contrário, o tempo é muito parecido com a areia em uma
ampulheta; o que resta está passando rapidamente. O Apóstolo
João o coloca claramente: "O mundo e a sua cobiça passam" (1
João 2:17).
Falamos de poupar tempo, comprar tempo, fazer tempo e
assim por diante, mas é tudo ilusão, pois o tempo está sempre
passando. Devemos usar nosso tempo sabiamente, mas até o
melhor uso do tempo não pode colocar de volta as folhas de
um calendário.
Quando eu era criança, o tempo parecia se arrastar. Agora,
cada vez mais me pego dizendo aquilo que me lembro que meus
pais diziam: "Não acredito que mais um ano acabou! Para onde
o tempo foi?" Quanto mais envelheço, mais sinto como se
estivesse remando no Niágara: quanto mais me aproximo do
fim, mais rápido ele vem. Se não disciplinar meu uso do tempo
com o propósito de alcançar a Piedade agora, não será mais
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 175

fácil fazê-lo depois.

O Tempo Restante é Incerto


O tempo não somente é curto e está passando, mas nós
nem mesmo sabemos quão curto ele realmente é ou quão
rapidamente passará. É por isso que a sabedoria de Provérbios
27:1 é: "Não se gabe do dia de amanhã, pois você não sabe o que este
ou aquele dia poderá trazer". Há milhares de pessoas que entraram
na eternidade hoje, inclusive milhares que eram mais jovens
do que você, e que ontem não tinham idéia de que hoje seria o
seu último dia. Se soubessem, o uso do tempo teria sido muito
mais importante para elas.
A morte repentina de um promissor jogador novato do time
de futebol americano Chicago Bears chocou o mundo reluzente
dos esportes profissionais esta semana. No mês passado, os
alunos dos últimos anos do ensino fundamental de nossa igreja
foram sacudidos pela incerteza do tempo de vida com a morte
de um amigo próximo. Nem juventude nem força, estrelato ou
tamanho obrigam Deus a nos dar mais uma hora.
Independentemente de quanto tempo desejamos viver ou
esperamos viver, nosso tempo está em Suas mãos (Salmo 31:15).
Obviamente, devemos fazer certos tipos de planos como
se fôssemos viver por muitos e muitos anos. Mas há um
entendimento muito real de que devemos usar nosso tempo
com o propósito de alcançar a piedade como se fosse incerto
que viveremos até amanhã, pois esta é uma incerteza muito
certa.

O Tempo Perdido não Pode ser Recuperado •


Há muitas coisas que são perdidas, mas recuperadas depois.
Muitas pessoas que declararam falência acabam acumulando
176 Mordomia

uma fortuna ainda maior posteriormente. Com o tempo é


diferente. Uma vez passado, ele se vai para sempre e nunca
pode ser recuperado. Se você mobilizasse todas as pessoas da
terra para o propósito, nem os esforços, a riqueza e a tecnologia
do mundo todo conseguiriam trazer um minuto sequer de volta.
Deus ofereceu a você este tempo para se disciplinar com o
propósito de alcançar a Piedade. Jesus disse, em João 9:4:
"Enquanto é dia, precisamos fazer realizar a obra daquele que me
enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar". O
tempo para as obras de Deus, isto é, a vida piedosa, é agora,
enquanto é "dia". Para cada um de nós "a noite se aproxima",
e nenhum de nós é Josué, que possa parar o sol e prolongar
seus dias (Josué 10:12-14). Se você usa mal o tempo que Deus
lhe oferece, Ele nunca oferece o mesmo tempo novamente.
Muitos, ao lerem estas linhas, podem estar lamentando ter
desperdiçado alguns anos. Embora possa ter feito mau uso do
tempo no passado, você pode melhorar o tempo que ainda resta.
A vontade de Deus para você agora é encontrada nas palavras
do Apóstolo Paulo: "Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo
alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para
trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para
o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus"
(Filipenses 3:13-14). Por meio da obra de Cristo aos crentes
arrependidos, Deus está disposto a perdoar cada milésimo de
segundo de tempo mal usado no passado. E é agradável a Ele
que você discipline o equilíbrio de seu tempo com o propósito
de alcançar a Piedade.

Você Tem que Prestar Contas a Deus pela Forma Como Usa o
Tempo
Creio que não há declaração que produza mais sobriedade
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 177

nas Escrituras do que Romanos 14:12: "Assim, cada um de nós


prestará contas de si mesmo a Deus". As palavras "cada um de
nós" aplicam-se a cristãos e a não cristãos, semelhantemente. E
embora crentes sejam salvos pela graça e não por obras, uma
vez no Céu, nossa recompensa lá será determinada com base
em obras. O Senhor "provará a qualidade da obra de cada um",
e para cada um será ou que "esse receberá recompensa" ou
"esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que
escapa através do fogo" (1 Coríntios 3:13-15). Assim, não só
teremos que prestar contas pelo uso do tempo, mas nossa
recompensa eterna estará diretamente relacionada ao uso
terreno que fizemos de nosso tempo.
O fato de Deus, no Julgamento, nos considerar responsáveis
por nosso uso do tempo ao nos disciplinarmos com o propósito
de alcançar a Piedade pode ser ilustrado em Hebreus 5:12. Nesta
passagem, Deus castiga aqueles cristãos judeus por deixarem
de usar o tempo de maneira que teria levado à maturidade
espiritual: "Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês
precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios
elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de
alimento sólido!" Se Ele considera os crentes responsáveis na
terra por não disciplinarem o seu tempo com o propósito de
alcançar a Piedade, Ele sem dúvida irá fazê-lo no Julgamento
no Céu.
Jesus disse: "Digo-vos que de toda palavrafrívola que proferirem
os homens, dela darão conta no Dia do Juízo" (Mateus 12:36). Se
devemos prestar contas a Deus por cada palavra falada,
certamente devemos prestar contas por cada hora gasta
descuidadamente (isto é, com desperdício, negligentemente).
E Ele disse em Mateus 25:14-30 que temos que prestar contas
por todos os talentos que recebemos e pela maneira como os
178 Mordomia

usamos por amor a nosso Mestre. Se Deus nos considera


responsáveis pelos talentos que nos deu, então certamente Ele
nos considerará responsáveis pelo uso de um talento tão
precioso quanto o tempo.
Responder sabiamente a esta verdade é avaliar o seu uso
do tempo agora e gastá-lo conforme o que você gostaria de ouvir
no Julgamento. E se você não puder responder à sua consciência
a respeito de como usa seu tempo no crescimento da semelhança
com Cristo agora, como poderá responder a Deus naquele dia?
Jonathan Edwards sugeriu viver cada dia como se ao final do
dia você tivesse que prestar contas a Deus de como usou o
tempo.
Decidir se disciplinar a usar seu tempo com o propósito de
alcançar a Piedade não é uma questão para demora e
deliberação. Cada hora que passa é outra pela qual você deverá
prestar contas.

É tão Fácil Perder Tempo


Exceto pelo "tolo", nenhum outro personagem do livro de
Provérbios é objeto de tanto desprezo nas Escrituras quanto o
"preguiçoso". A razão? Seu uso vagaroso e desperdiçador do
tempo. Quando se trata de encontrar desculpas para evitar suas
responsabilidades e deixar de aprimorar seu tempo, o
brilhantismo criativo do preguiçoso é insuperável: "O
preguiçoso diz: 'Lá está um leão no caminho, um leão feroz
rugindo nas ruas! Como a porta gira em suas dobradiças, assim
o preguiçoso se revira em sua cama". O preguiçoso moderno é
a pessoa que não vai ao trabalho ou à igreja, dizendo: "Milhares
de pessoas são mortas nas estradas todos os dias, eu poderia
ser morto se fosse até lá!" Ou ele pode dizer: "Se eu disciplinar
meu tempo com o propósito de alcançar a Piedade, posso perder
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 179

coisas interessantes na TV ou ficar tão ocupado, que não poderei


descansar o suficiente!" E ele rola na cama.
O preguiçoso nunca parece ter tempo para as coisas que
realmente importam, especialmente as coisas que requerem
disciplina. Mas antes que ele o perceba, seu tempo e
oportunidades são perdidos. Como Provérbios 24:33-34
observa: "'Vou dormir um pouco', você diz. "Vou cochilar um
momento; vou cruzar os braços e descansar mais um pouco', mas a
pobreza lhe sobrevirá como um assaltante, e a sua miséria como um
homem armado". Note que foi o dormir "um pouco", o cochilar
"um momento" o cruzar os braços e descansar "mais um pouco"
que trouxe a ruína da perda de tempo e de oportunidade. É tão
fácil perder tanto. Você não tem que fazer nada para perder
tempo.
Muitas pessoas valorizam o tempo como a prata era
apreciada nos dias de Salomão. Dele é dito em 1 Reis 10:27: "O
rei tornou a prata tão comum em Jerusalém quanto as pedras". O
tempo parece ser tão abundante, que perder muito dele parece
não ter conseqüências. Mas o dinheiro é facilmente
desperdiçado também. E se as pessoas jogassem dinheiro fora
tão irrefletidamente quanto jogam o tempo, pensaríamos que
são insanas. Contudo, o tempo é infinitamente mais precioso
do que o dinheiro porque dinheiro não pode comprar tempo.
Mas você pode minimizar a perda e o gasto de tempo
disciplinando-se com o propósito de alcançar a Piedade.

Valorizamos o Tempo na Morte


Assim como a pessoa que está sem dinheiro o valoriza mais
quando o perde, também nós, na morte, valorizamos mais o
tempo quando ele já passou.
Esta avaliação vem mais tragicamente para alguns do que
180 Mordomia

para outros, especialmente no caso daqueles que rejeitaram a


Cristo. Em suas últimas palavras, o famoso francês descrente
Voltaire disse a seu médico: "Darei a você metade daquilo que
valho se você me der mais seis meses de vida". Seus gritos foram
tão desesperados quando sua hora chegou, que a enfermeira
que o atendeu disse: "Nem por toda riqueza da Europa eu veria
outro descrente morrer". 2 Semelhantemente, as últimas
palavras do cético inglês Thomas Hobbes foram: "Se eu tivesse
o mundo todo, eu o daria para viver mais um dia".3
O mais importante a se aprender com cenas de morte como
estas, segundo foi mencionado anteriormente, é vir a Cristo
enquanto ainda há tempo. Mas para aqueles que já deram suas
vidas a Cristo, devemos entender o seguinte: Se mais alguns
anos nos fossem adicionados em nossa morte, eles de nada
valeriam a menos que mudássemos a forma como usamos o
tempo. Assim, o momento de valorizar o tempo é agora, e não
somente na morte. O tempo de buscar a Piedade é agora, e o
caminho que Deus proveu para aqueles que estão perdoados
pela graça é o da diligência nas Disciplinas Espirituais.
A Bíblia adverte aos crentes que buscam um rumo baseado
mais em prazer do que na alegria encontrada no caminho das
Disciplinas de Deus, que eles terão remorso quando seu tempo
findar. Imagine a angústia de morrer assim: "No final da vida
você gemerá, com sua carne e seu corpo desgastados. Você dirá:
'Como odiei a disciplina! Como o meu coração rejeitou a
repreensão! Não ouvi os meus mestres nem escutei os que me
ensinavam'" (Provérbios 5:11-13). Se percebesse de repente que
não tem mais tempo, você se arrependeria de como gastou seu
tempo no passado? Como você o gastaria agora? A maneira
como usou o tempo pode ser um grande conforto para você em
sua última hora. Você pode não estar contente com o modo
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 181

como algumas vezes usou seu tempo, mas não ficará feliz então,
por todos os momentos em que viveu cheio do Espírito, por
todas as ocasiões em que obedeceu a Cristo? Não ficará alegre
por aqueles tempos de sua vida que você passou nas Escrituras,
em oração, adoração, evangelismo, serviço, jejum etc., com o
propósito de se tomar mais semelhante Aquele perante Quem
você irá se colocar no julgamento (João 5:22-29)? Que grande
sabedoria há em viver assim como Jonathan Edwards resolveu
viver: "Resolvido, Que vou viver assim, da forma como hei de
desejar que tivesse feito quando vier a morrer".4
Por que não fazer algo a respeito enquanto você ainda tem
tempo?

O Valor do Tempo na Eternidade


Se houver arrependimentos no Céu, serão apenas por não
termos usado o tempo terreno mais para a glória de Deus e
para o crescimento em Sua graça. Se for assim, esta pode ser a
única semelhança entre o Céu e o inferno, que será alimentada
com lamentos agonizantes pelo tempo tão tolamente esbanjado.
Em Lucas 16:25, a Bíblia retrata esta angústia pelo
desperdício de tempo de uma vida na história do rico que foi
ao Hades e de Lázaro, que foi para o "seio de Abraão". Jesus
conta como o rico, estando em tormento, ergueu os olhos e viu
Lázaro à distância, vivendo em alegria com Abraão. O rico pede
a Abraão que Lázaro seja enviado com água, "Mas Abraão
respondeu: 'Filho, lembre-se de que durante a sua vida você
recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más.
Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em
sofrimento".
Que valor aqueles semelhantes a este homem, que
perderam toda oportunidade de vida eterna, colocam no tempo
182 Mordomia

que agora temos? Richard Baxter, pastor e teólogo inglês,


perguntou: "Não corta seus próprios corações para sempre
pensar quão loucamente consumiram suas vidas, e perderam
o único tempo que foi dado a eles para se prepararem para a
salvação? Aqueles que estão no Inferno agora consideram sábios
os que vadeiam ou desperdiçam seu tempo na terra?" 5 Se
aqueles do lado sem misericórdia da eternidade possuíssem
mil mundos, eles os dariam todos (se pudessem) por um de
nossos dias. Eles aprenderam o valor do tempo por experiência.
Aprendamos por encontrar a verdade, e disciplinemos nosso
tempo com o propósito de alcançarmos a Piedade.

O USO DISCIPLINADO DO DINHEIRO

A Bíblia relata não apenas o uso do tempo, mas também o


uso do dinheiro para nossa condição espiritual. O uso
disciplinado do dinheiro requer que o administremos de tal
forma que nossas necessidades e as de nossa família sejam
supridas. Na verdade, a Bíblia denuncia qualquer cristão
professo que deixe de cuidar das necessidades físicas de sua
família por irresponsabilidade financeira, má administração
indolente, ou gasto hipócrita. "Ora, se alguém não tem cuidado
dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior
do que o descrente", 1 Timóteo 5:8 diz firmemente, "negou a fé e
é pior que um descrente". Assim, como usamos o dinheiro para
nós mesmos, para outros e especialmente por amor ao Reino
de Deus é totalmente uma questão espiritual.
Por que o uso bíblico de nosso dinheiro e recursos é tão
crucial a nosso crescimento em Piedade? Primeiro, é uma
questão de pura obediência. Uma surpreendente quantidade
de textos escriturísticos se refere ao uso da riqueza e dos bens.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 183

Se ignorarmos ou não dermos a eles a devida importância, nossa


"Piedade" será uma ficção. Mas tanto quanto qualquer outra
coisa, a razão pela qual o uso do dinheiro e das coisas que ele
compra é um dos melhores indicadores de maturidade
espiritual e Piedade é que nós trocamos parte tão grande de
nossas vidas por ele. Porque investimos a maioria de nossos
dias trabalhando em troca de dinheiro, há um entendimento
muito real de que nosso dinheiro nos representa. Portanto, a
forma como o usamos expressa quem somos, quais são nossas
prioridades e o que ocupa os nossos corações. Ao usarmos o
dinheiro e os recursos que possuímos de modo cristão,
provamos nosso crescimento em semelhança com Cristo.
Tudo o que tem sido dito sobre o uso disciplinado do tempo
também se aplica ao uso do dinheiro e dos bens (com a exceção
de que, diferentemente do tempo, essas coisas quando perdidas
podem ser substituídas). Rever cada uma das verdades sobre o
tempo e mencioná-las aqui em referência ao uso geral do
dinheiro seria redundante. Em vez disso, vamos considerar
como as Escrituras nos levariam a nos disciplinarmos "com o
propósito de alcançarmos a piedade" na área específica de dar
nosso dinheiro para a causa de Cristo e Seu Reino.
O crescimento em Piedade se expressará em um
entendimento crescente destes dez princípios neo-
testamentários sobre contribuição.

Tudo o que Possuímos Pertence a Deus


Em 1 Coríntios 10:26, o Apóstolo Paulo cita Salmo 24:1, que
diz: "Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe". Tudo pertence a
Deus, inclusive tudo o que você tem, porque Ele criou todas as
coisas. "Embora toda a terra seja minha...", o Senhor diz em Êxodo
19:5, e o afirma novamente em Jó 41:11: "Tudo o que há debaixo
184 Mordomia

dos céus me pertence".


Isto significa que somos administradores ou, para usar o
termo bíblico, somos mordomos das coisas que Deus nos deu.
Quando escravo, José foi colocado como mordomo da casa de
Potifar. Ele não possuía nada, pois era escravo, mas
administrava em benefício de Potifar tudo o que este possuía.
A administração dos recursos de Potifar incluía o uso destes
para suprir suas próprias necessidades, mas a principal
responsabilidade de José era usá-los para os interesses de
Potifar. E é isso que devemos fazer. Deus quer que usemos e
desfrutemos as coisas que Ele permitiu que tivéssemos, mas
como mordomos delas devemos lembrar que elas pertencem a
Ele e devem ser usadas primeiramente para o Seu Reino.
Assim, a casa ou apartamento em que você mora é a casa
ou o apartamento de Deus. As árvores de seu quintal pertencem
a Deus. A grama que você apara é de Deus. O jardim que você
plantou é o jardim de Deus. O carro que você dirige é de Deus.
As roupas que você está vestindo agora, bem como aquelas
que estão penduradas em seu armário pertencem a Deus. A
comida de sua despensa pertence a Deus. Os livros em sua
estante são livros de Deus. Toda a sua mobília e tudo o mais
que houver no interior de sua casa pertence a Deus.
Nós nada temos, tudo pertence a Deus; nós somos os Seus
administradores. No caso da maioria de nós, a casa que agora é
chamada de "minha casa" já foi chamada de "minha casa" por
outra pessoa no passado. E daqui a alguns anos, outro alguém
chamará a mesma casa de "minha casa". Você possui terras?
Daqui a alguns anos, alguém irá chamá-las de "minhas terras".
Somos apenas mordomos temporários das coisas que
pertencem a Deus. Você provavelmente já crê nisso em teoria,
mas seu ato de contribuir será um reflexo de quão
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 185

genuinamente você crê nisso.


Deus disse especificamente que Ele possui não apenas as
coisas que são nossas, mas até o dinheiro que temos no banco e
o dinheiro de nossas carteiras. Ele disse em Ageu 2:8: "Tanto a
prata quanto o ouro me pertencem', declara o SENHOR dos
Exércitos".
Portanto, a pergunta não é: "Quanto do meu dinheiro devo
dar a Deus?", mas "Quanto do dinheiro de Deus devo guardar
para mim mesmo?"
Quando colocamos um cheque ou dinheiro no gazofilácio,
devemos dá-lo crendo que tudo o que temos pertence a Deus e
com o compromisso de que usaremos tudo conforme Ele desejar.

Contribuir é um Ato de Adoração


Em Filipenses 4:18, o Apóstolo Paulo agradece aos cristãos
da cidade grega de Filipos pela oferta financeira que deram
em apoio a seu ministério missionário. Ele escreve: "Recebi tudo
e tenho abundância; estou suprido, desde que Epadrodito me passou
às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício
aceitável e aprazível a Deus". Ele chama o dinheiro doado de
"oferta de aroma suave, um sacrifício aceitável e agradável a
Deus", comparando-o a um sacrifício que as pessoas do Antigo
Testamento faziam em adoração a Deus. Em outras palavras,
Paulo diz que seu ato de doar para a obra de Deus foi um ato
de adoração a Deus.
Você já pensou em dar como uma forma de adoração? Você
sabe que cantar louvores a Deus, orar, dar graças e ouvi-Lo
falar por meio de Sua Palavra são todos atos de adoração, mas
você pensa em contribuirfinanceiramente como uma das maneiras
bíblicas e tangíveis de cultuar e adorar a Deus?
Em seu livro The Gift of Giving (O Dom da Contribuição),
186 Mordomia

Wayne Watts escreve:

Ao pesquisar os princípios bíblicos da contribuição, considerei o


assunto da adoração. Honestamente, nunca havia estudado a
adoração em detalhes para descobrir o ponto de vista de Deus.
Cheguei à conclusão de que contribuir, juntamente com ação de
graças e louvor, é adoração. No passado, fiz com prom issos
financeiros com minha igreja a serem pagos anualmente. Uma
vez por mês, eu fazia um cheque enquanto estava na igreja e o
colocava no gazofilácio. As vezes eu colocava o cheque no correio,
de meu escritório. Meu objetivo era que a igreja cumprisse o
compromisso total antes do final do ano. Embora eu já tivesse
experimentado a alegria de contribuir, o ato de dar tinha pouca
relação com a adoração. Enquanto eu escrevia este livro, Deus
me convenceu a começar a contribuir todas as vezes que fosse à
igreja. O versículo que falou a mim sobre isso foi Deuteronômio
16:16: “...Porém não aparecerá de mãos vazias perante o Senhor".
Quando comecei a fazer isso, se um cheque não estivesse à mão,
eu contribuía em dinheiro. No com eço, pensei em m anter a
quantia doada. Então Deus me convenceu novamente. Ele parecia
dizer: "Você não precisa manter a mesma quantia. Dê a Mim
simplesmente com um coração de amor e veja o quanto você
desfruta do culto". Fiz esta mudança nos hábitos de contribuição
e isso aum entou grandem ente minha alegria nos cultos de
adoração.6

É comum em minha tradição que as pessoas que


freqüentam um pequeno grupo de estudo bíblico antes do culto
de adoração dêem durante o estudo em vez de na hora da
adoração. Se este tem sido o seu padrão, você poderá descobrir,
como eu, que sua contribuição parece ser mais adoração quando
feita durante o culto de adoração.
A maioria das pessoas contribui tantas vezes por mês
quanto é paga. Em outras palavras, se recebem seus salários no
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 187

primeiro dia do mês, contribuem uma vez por mês, no primeiro


domingo do mês. Se são pagas no dia primeiro e no dia quinze,
elas contribuem duas vezes por mês. Em consideração à palavra
do Senhor quanto a não aparecer diante Dele de mãos vazias,
talvez você queira dar uma parte de sua oferta por semana, e
não a oferta toda apenas no domingo imediatamente posterior
ao recebimento de seu salário. Evidentemente, o perigo em não
dar tudo de uma só vez é gastar parte do dinheiro que você
pretendia dar no próximo domingo. Algumas pessoas evitam
isso fazendo de uma única vez todos os cheques de que
precisarão para aquele período de pagamento e colocando-os
em suas Bíblias ou carteiras até o domingo em que serão
entregues. Depois, todos os domingos, elas têm algo tangível
nas mãos para dar como parte de sua adoração ao Senhor.
Contribuir é muito mais do que um dever ou obrigação, é
um ato de adoração ao Senhor.

Contribuir Reflete Fé na Provisão de Deus


A proporção de sua renda que você devolve a Deus é uma
indicação clara do quanto você confia que Ele irá suprir as suas
necessidades.
Em Marcos 12:41-44, lemos a história da contribuição e da
fé incomum de uma senhora pobre e bastante simples.

"Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo


lançava ali o dinheiro. Ora, muitos ricos depositavam grandes quantias.
Vindo, porém, uma viúva pobre, depositou duas pequenas moedas
correspondentes a um quadrante.
E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo
que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram
todos os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela,
porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento".
188 Mordomia

Aquela pobre viúva estava disposta a dar "tudo o que


possuía para viver" porque cria que Deus proveria para ela.
Daremos na proporção em que crermos que Deus proverá
para nós. Quanto mais cremos que Deus proverá por nossas
necessidades, mais estaremos dispostos a arriscar dar a Ele. E
quanto menos confiarmos em Deus, menos daremos a Ele.
Certo mês, um amigo meu, que é pastor, e sua esposa
decidiram dar todo o salário de ambos ao Senhor e confiar que
Ele supriria as suas necessidades. Eles estavam quase sem
comida quando uma mulher apareceu com vários pacotes de
alimentos. "Como você soube?" eles perguntaram, já que não
haviam contado a ninguém. Mas ela não sabia de nada. Ela
simplesmente sentiu que o Senhor queria que ela levasse
aquelas compras a seu pastor.
Sua contribuição pode ser e é uma indicação tangível de
quanta fé você tem que Deus irá suprir as suas necessidades.

Contribuir Deve ser um Ato de Sacrifício e Generosidade


A viúva que Jesus elogiou ilustra que contribuir para a
obra de Deus não é simplesmente para pessoas que, como o
mundo colocaria, "podem". O Apóstolo Paulo dá outra
ilustração em 2 Coríntios 8:1-5 quando fala sobre como os
cristãos pobres da Macedônia se sacrificaram para dar
generosamente a ele:

"Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às


igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação,
manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles
superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles,
testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se
mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de
participarem da assistência aos santos. E não somente fizeram como nós
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 189

esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor,


depois a nós, pela vontade de Deus".

Estes macedônios eram pessoas que Paulo descreveu como


vivendo em "extrema pobreza". E contudo, "...e a extrema
pobreza deles transbordaram em rica generosidade". Eles
deram não apenas "tudo quanto podiam", mas "até além do
que podiam". Assim como essas pessoas, a nossa contribuição
deve ser sacrificial e generosa.
Mas deixe-me lembrá-lo que contribuir não é sacrificial a
menos que seja um sacrifício. Muitos cristãos professos dão
apenas quantias simbólicas à obra do Reino de Deus. Um
número bem menor contribui bem, enquanto talvez somente
alguns verdadeiramente contribuem de maneira sacrificial.
Uma pesquisa Gallup de outubro de 1988 revela que quanto
mais dinheiro os americanos ganham, menos sacrificiais as suas
contribuições se tomam. Aqueles que ganham menos de US$
10.000 ao ano dão em média 2,8% de sua renda anual às igrejas,
instituições de caridade e outras organizações sem fins
lucrativos. Aqueles que ganham de US$ 10.000 a US$30.000 dão
em média 2,5%, os que ganham de US$ 30.000 a US$ 50.000 dão
2,0%, e aqueles que ganham de US$ 50.000 a US$ 75.000 dão
um total de apenas 1,5% de sua renda a suas igrejas e todos os
outros grupos sem fins lucrativos.7
Você não concorda que, se estivermos ganhando mais
dinheiro do que nunca, porém contribuindo com uma quantia
menor ou até com a mesma porcentagem de antes, não
estaremos contribuindo sacrificialmente? Podemos estar
contribuindo com quantias maiores do que nunca, mas na
verdade, estaremos sacrificando menos financeiramente para
o Reino de Deus.
190 Mordomia

Jamais conheci alguém que tenha contribuído


sacrificialmente - quer por meio de uma oferta sacrificial única,
quer por meio de ofertas sacrificiais consistentes - que tenha
se arrependido. Certamente, eles perderam algumas das coisas
que poderiam ter tido se tivessem gasto o dinheiro consigo
mesmos, mas a alegria e a realização que ganharam
contribuindo com algo que definitivamente não poderiam reter
foram mais do que compensadoras. Estes são os tipos de pessoas
que dizem: "Nunca fiz sacrifício. Sempre obtive algo maior do
que dei".
Imagine uma mãe ou pai vendo seu filho se formar no
ensino médio ou na faculdade, ou se casando com um cônjuge
piedoso, ou assistindo ao filho realizando algo que faz os olhos
marejarem com lágrimas de alegria. Se você disser àquela mãe
ou pai: "Ei, pense em todas as noites em claro que você passou
com esse filho, todas as fraldas sujas, as dezenas de milhares
de reais que esse filho lhe custou quando você poderia ter
gastado com o que queria, todo o tempo que o filho lhe custou
quando você poderia ter feito o que desejasse", ela ou ele diria
a você: "Cada suposto sacrifício que fiz valeu a pena, porque o
que obtive em troca compensa tudo". Também é assim quando
você contribui sacrificial e generosamente. Você nunca se
arrepende.

Contribuir Reflete Fidedignidade Espiritual


Esta é uma percepção surpreendente dos caminhos do
Reino de Deus que Jesus revela a nós em Lucas 16:10-13:

"Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no


pouco também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na
aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira
riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 191

dará o que é vosso?


Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se
de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro".

Observe novamente o versículo 11, que diz que a sua


contribuição reflete sua fidedignidade espiritual: "Se, pois, não
vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem
vos confiará a verdadeira riqueza?"
Se não formos fiéis no uso de nosso dinheiro, e certamente
isso inclui dar do nosso dinheiro para o Reino de Cristo, a Bíblia
diz que Deus determinará que não somos fidedignos para
lidarmos com as riquezas espirituais.
A idéia é a seguinte: o desejo do proprietário de uma
empresa madeireira é que, um dia, um empregado específico
assuma a direção de seu negócio. Evidentemente, o proprietário
vai querer descobrir se seu empregado é capaz de lidar com o
negócio da forma correta. Então, ele dá uma parte do negócio
para que o empregado administre: o pedido e a inspeção de
novos materiais, para ver se ele consegue tomá-lo lucrativo.
Ele observa bem de perto a maneira como o empregado
administra aquela parte do negócio por vários meses, não
exatamente por causa do dinheiro, mas para determinar sua
fidedignidade e habilidades. Se ele não provar ser fidedigno
com esta pequena parte da empresa, o proprietário não lhe
confiará a empresa toda. Mas se ele provar que é fidedigno em
relação à parte, o proprietário confiará a ele as verdadeiras
riquezas da propriedade da empresa.
A forma como você usa e dá o seu dinheiro é um dos
melhores meios de avaliar seu relacionamento com Cristo e
sua fidedignidade espiritual. Se você ama a Cristo de todo o
coração, sua contribuição refletirá isso. Se você ama a Cristo e a
192 Mordomia

obra de Seu Reino mais do que qualquer outra coisa, sua


contribuição mostrará isso. Se você for verdadeiramente
submisso ao senhorio de Cristo, se estiver disposto a obedecer-
Lhe completamente em todas as áreas de sua vida, sua
contribuição revelará isso. Faremos muitas coisas antes de
concedermos a alguém, até mesmo a Cristo, os direitos sobre
cada dólar que temos e que venhamos a ter. Mas se você já fez
isso, sua contribuição o expressará.
É por isso que diz-se que seu talão de cheques fala sobre
você quase mais do que qualquer outra coisa. Se após sua morte,
um biógrafo ou seus filhos fossem verificar seus cheques
cancelados para obter uma noção de que tipo de cristão você
foi, a que conclusão eles chegariam? O que os cheques
revelariam sobre a sua vida com Cristo? Eles seriam uma
evidência tangível de sua fidedignidade espiritual?

Contribuir: Ato de Amor, e não Legalismo


Deus não manda a conta para você. A igreja não envia a
conta para você. Não se dá a Deus e em apoio à obra de Seu
Reino em cumprimento de um "décimo primeiro
mandamento". A contribuição deve ser motivada por seu amor
a Deus. Quanto você dá daquilo que possui deve ser reflexo de
quanto você ama a Deus.
Em 2 Coríntios 8, o Apóstolo Paulo conta aos primeiros
destinatários de sua carta, o povo de Corinto, sobre como alguns
de seus companheiros gregos na Macedônia haviam sido
contribuintes tão bons e fiéis. No versículo 7, ele diz aos
coríntios: "Como, porém, em tudo, manifestais superabundância,
tanto na fé e na palavra como no saber, e em todo cuidado, e em nosso
amor para convosco, assim também abundeis nesta graça". Em outras
palavras, "destaquem-se neste privilégio de contribuir assim
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 193

como os macedônios fizeram". Mas observe o que ele diz no


versículo 8: "Não vosfalo naforma de mandamento, mas para provar,
pela diligência de outros, a sinceridade do vosso amor". Ele não usou
sua autoridade como apóstolo (mensageiro especial) de Jesus
para ordenar que os coríntios contribuíssem. Em vez de impor
uma lei de contribuição, ele disse que contribuir deveria ser
uma forma de provar o amor que se tem a Deus.
Ele tornou este princípio ainda mais claro no capítulo
seguinte. Observe que não há exigência religiosa como razão
para contribuir na primeira parte de 2 Coríntios 9:7 quando
Paulo diz: "Cada um contribua segundo tiver proposto no coração".
Ele disse praticamente o mesmo a eles em 1 Coríntios 16:2
ao dizer a eles que cada pessoa deve dar "conforme a sua
prosperidade".
Paulo nunca forneceu um padrão externo, mensurável de
contribuição. Paulo disse a eles que a contribuição a Deus
deveria ser medida no coração e o padrão era o amor deles a
Deus.
Permita-me adaptar uma ilustração usada anteriormente e
aplicá-la desta vez para nossa motivação em contribuir.
Suponha que eu me aproxime de Caffy no Dia dos Namorados
e a surpreenda com uma dúzia de suas rosas amarelas favoritas,
dizendo: "Feliz Dia dos Namorados!" E ela responda: "Ó, que
lindas! Obrigada! Você não deveria ter gastado tanto dinheiro".
Então eu reajo neutramente a sua alegria, dizendo: "Imagine!
Hoje é Dia dos Namorados e, como seu marido, é minha
obrigação dar-lhe um presente". Como ela se sentiria?
Provavelmente teria vontade de enfiar cada rosa no meu nariz,
com espinhos e tudo! Agora, suponha que eu procedesse da
mesma forma, mas dissesse: "Não há nada que eu goste mais
de fazer com meu dinheiro do que usá-lo com você porque eu
194 Mordomia

a amo muito". O mesmo dinheiro, o mesmo presente. Mas um


presente é motivado pela lei, o outro, pelo amor. E isso faz toda
a diferença do mundo.
Deus é como nós nesta parte. Ele deseja que sua
contribuição seja uma expressão do amor que você tem por
Ele, e não de legalismo.

Contribuir de Boa Vontade, com Gratidão e Alegria


Novamente, cito 2 Coríntios 9:7: "Cada um contribua segundo
tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque
Deus ama a quem dá com alegria".
Deus não quer que você contribua de má vontade, isto é,
que você dê sem desejar dar, com ressentimento, com atitude
de coração incorreta, não importando quanto você dê. Ele não
é um proprietário celestial de mãos estendidas, ganancioso,
exigindo o Seu pagamento. Deus não quer que você dê a Ele de
má vontade, só porque sabe que, de qualquer forma, Ele é
mesmo o dono de tudo. Ele quer que você dê porque deseja dar.
Um homem disse: "Há três tipos de contribuição: de má
vontade, por obrigação e com gratidão. Quem dá de má vontade
diz: 'Eu tenho que dar'; por obrigação diz: 'Eu sou obrigado a
dar' e com gratidão diz: 'Eu quero dar"'.8
Deus quer que você goste de contribuir.
Algumas pessoas dão a Deus assim como dão ao Imposto
de Renda depois de uma auditoria. Outras dão a Deus como à
companhia de energia elétrica. Mas poucas pessoas dão a Deus
da mesma forma como dariam um anel de noivado à noiva ou
como dariam ao filho extasiado de quatro anos de idade em
uma manhã de Natal.
Alguns dão porque dizem que não podem reter. Outros
dão porque dizem ser devedores. Mas há sempre aqueles que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 195

dão porque dizem que não podem evitarl


Percebo que precisamos de uma razão para dar com
gratidão e alegria. Caso contrário, isto soará como uma pessoa
que chega quando você está triste e diz: "Vamos, alegre-se!"
Bem, quando está triste, você precisa de um motivo para se
alegrar. Mas você não deve ter que pensar por muito tempo ou
se esforçar muito para achar razões para contribuir com
gratidão e alegria. Quando pensa que Deus deu a você o maior
presente possível em Seu Filho, Jesus Cristo, quando pensa na
misericórdia e graça que Ele lhe deu, quando pensa que Ele
proveu tudo o que você tem, e quando pensa que está dando a
Deus, você deve ser capaz de dar com gratidão e alegria.
Se, numa manhã de domingo, na igreja, o pastor anunciar:
"O chefe de um dos maiores cartéis de drogas está aqui hoje e
vamos levantar uma oferta para o seu exército", você
provavelmente não daria de boa vontade nem com alegria. Mas
se você ouvisse: "O Senhor Jesus Cristo está lá fora, no átrio, e
tudo o que você der hoje será apresentado a Ele e usado por
Ele para o Seu Reino", provavelmente a única coisa mais leve
do que seu coração depois disso será a sua carteira, porque
você perceberia que está dando a Deus.
Você não dá de má vontade ou por compulsão quando
percebe que está dando a Deus. Ao contrário, você dá de boa
vontade, com gratidão e alegria.

Contribuir: Reação Correta às Necessidades Reais


Há vezes em que é correto que necessidades genuínas sejam
conhecidas por meio da igreja e que os membros da igreja dêem
espontaneamente em resposta a essas necessidades.
Existem ao menos três exemplos no livro de Atos onde os
cristãos dão por meio da igreja em resposta a necessidades
196 Mordomia

específicas.
O primeiro aconteceu nos dias logo após o surgimento da
igreja. Em Atos 2:43-45, lemos: "Em cada alma havia temor; e muitos
prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os
que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as
suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida
que alguém tinha necessidade".
No Dia de Pentecoste, quando o Espírito Santo desceu sobre
os crentes em Cristo e a Igreja surgiu de repente, milhares de
pessoas se encontravam em Jerusalém, de todas as partes do
Império Romano, para celebrar aquela festa judaica. Três mil
pessoas, muitas delas visitantes na cidade, tomaram-se cristãs
no Domingo de Pentecoste. Logo outros milhares de pessoas
foram acrescentados à Igreja. Muitos desses visitantes ficaram
inesperadamente em Jerusalém por causa de sua nova fé em
Cristo. Eles não tinham casa ou trabalho em Jerusalém, e nem
meios de prover suas necessidades. Então, para suprir aquela
carência especial e imediata, todos os que creram reuniram seus
recursos, venderam propriedades e supriram as necessidades.
A situação é semelhante em Atos 4:32-35.

"Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém


considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo,
porém, lhes era comum. Com grande poder, os apóstolos davam
testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia
abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto
os que possuíam terras ou casas, venvendo-as, traziam os valores
correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía
a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade".

Era a reação correta as pessoas da Igreja contribuírem para


suprir aquelas reais necessidades.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 197

Há outro exemplo em Atos, mas desta vez a necessidade


não é local. Desta vez, os que deram na verdade não podiam
ver as pessoas necessitadas. Leia Atos 11:27-30: "Naqueles dias,
desceram alguns profetas de Jerusalém para Antioquia, e,
apresentando-se um deles, chamado Ágabo, dava a entender, pelo
Espírito, que estava para vir grande fome por todo o mundo, a qual
sobreveio nos dias de Cláudio. Os discípulos, cada um conforme as
suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na
Judéia; o que eles, com efeito, fizeram, enviando-o aos presbíteros por
intermédio de Barnabé e de Saído". Os cristãos de Antioquia,
quatrocentos e oitenta quilômetros ao norte de Jerusalém,
contribuíram para ajudar a alimentar e a suprir outras
necessidades de seus companheiros cristãos desconhecidos em
Jerusalém.
Eis uma base bíblica para o levantamento de ofertas na
igreja, como ofertas para missões internacionais e nacionais,
pela fome no mundo e assim por diante, para o levantamento
de ofertas espontâneas para qualquer necessidade pertinente.
Observe que em nenhum desses casos, as pessoas foram
compelidas a contribuir nem contribuíram de acordo com
porcentagens ou quantias estipuladas.
Há outras orientações para a contribuição em resposta a
necessidades especiais que não teremos tempo para discutir
aqui, como conhecer realmente os fatos, saber até que ponto o
dinheiro será usado de modo responsável e assim por diante.
Ainda que esta contribuição espontânea seja legítima, a maior
parte de nossa contribuição talvez não devesse ser desse tipo.

Contribuir Deve ser Algo Planejado e Sistemático


Observe como o Apóstolo Paulo orienta os cristão a
contribuir em 1 Coríntios 16:1-2: "Quanto à coleta para os santos,
198 Mordomia

fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia


da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua
prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu
for".
Esta "coleta para o povo de Deus" era uma oferta especial
para os cristãos pobres que estavam sofrendo em Jerusalém
por causa da fome. Mas embora a oferta fosse para uma
necessidade específica, Paulo disse para eles contribuírem para
aquela necessidade semanalmente por bastante tempo antes
de sua chegada. Ele sabia que era melhor contribuir de forma
planejada e sistemática do que casualmente, quando alguma
necessidade surgisse. Já que muitas necessidades são contínuas,
como as referentes a missões, aos que sofrem fome e à
manutenção do ministério de uma igreja local, é melhor dar
sistematicamente e ter ofertas especiais ocasionalmente do que
sempre ter ofertas especiais.
Observe rapidamente três coisas sobre a contribuição
planejada e sistemática. Paulo disse para eles darem "no primeiro
dia da semana". Aquelas pessoas eram pagas provavelmente por
dia, não por semana. A maioria de nós recebe salários
semanalmente, ou a cada duas semanas, ou uma vez ao mês.
Mas não poderia ser que aqui houvesse uma justificativa bíblica
para todos nós contribuirmos "no primeiro dia da semana" a
fim de que não apareçamos de mãos vazias diante do Senhor
quando formos adorá-Lo? Isto poderia significar dividir
sistematicamente a sua contribuição pelo número de domingos
por período de pagamento e contribuir em quantias iguais a
cada domingo, ou contribuir com uma pequena quantia de
dinheiro aos domingos quando você não estiver fazendo a sua
principal contribuição.
Segunda, observe que ele diz: "cada um de vocês separe uma
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 199

quantia". Todos os que se dizem crentes devem expressar a


mordomia do dinheiro de Deus desta forma. Isto significa que
não podemos nos justificar por darmos nosso tempo ou talentos.
Fazê-lo indica uma boa e certa mordomia dessas coisas, mas
isso não ensina a mordomia do dinheiro. Isto significa que não
nos justifica o fato de estarmos vivendo um período de
dificuldade financeira, de sermos aposentados, de sermos
adolescentes ou de trabalhamos somente meio-período.
Lembre-se: Deus é dono de tudo o que possuímos, mesmo que
Ele não nos tenha dado muito para administrarmos, e Ele é
quem nos diz como fazer uso do que temos. E lembre-se
também: Seremos mais felizes quando usarmos o que temos à
maneira de Deus. E a maneira de Deus é que contribuamos de
forma planejada e sistemática.
Terceira, ele diz que cada um deve dar "de acordo com a
sua renda", ou "conforme tiver prosperado"9 Quanto mais você
prospera, mais alta deve ser a proporção de sua contribuição.
Não há meta de porcentagem na contribuição. Dar 10% de sua
renda bruta não significa necessariamente que você cumpriu a
vontade de Deus. Este não é um teto máximo de contribuição,
mas a base de onde se deve partir.
Nunca vejo o que as pessoas dão, mas por conversas
pessoais, sei de uma família de nossa igreja que dá quase 20%
de sua renda bruta ao Senhor, e de outra que dá regularmente
entre 20 e 25%. Nenhuma dessas famílias seria considerada
abastada por seus vizinhos ou outras pessoas da igreja. Eu diria
que há alguns outros membros que também contribuem nessa
faixa. Eles têm filhos, pagam as prestações de sua casa e todas
as contas comuns à maioria de nós. Nem sempre contribuíram
com o valor atual, contudo. Mas com o passar dos anos,
determinaram aumentar sistematicamente a porcentagem de
200 Mordomia

sua contribuição ao prosperarem.


Uma tia de Caffy não possuía muitos bens, mas também
não tinha muitas contas a pagar; assim, ela eventualmente
passou a viver com 10% de sua renda e a dar 90%. R. G.
LeTourneau, um cristão de Peoria, Illinois, prosperou muito
negociando e fabricando equipamentos de terraplenagem. Mas
enquanto o Senhor continuava a prosperá-lo, ele foi
contribuindo até chegar a dar 90% de sua renda para a obra do
Reino de Deus. Você pensa que algum deles, lá no Céu, se
arrepende de ter feito isso?
George Muller perguntou:

Você tem contribuído sistematicamente para a obra do Senhor, ou


está deixando isso por conta de um sentimento, de uma impressão
causada em você por meio de circunstâncias específicas ou apelos
extraordinários? Se nós não contribuirmos desde o princípio de
forma sistemática, haveremos de descobrir que nossa única e breve
vida se foi antes que tivéssemos consciência, e que, em troca,
fizemos pouco para Aquele que é digno de adoração, que nos
comprou com o Seu precioso sangue, e a quem pertence tudo o
que temos e somos.10

Quando receber um aumento salarial, a menos que sob


circunstâncias excepcionais, planeje contribuir com uma
porcentagem maior do que a que você dá hoje. O aumento
percentual pode ser pouco ou pode ser muito, mas você deve
ter como objetivo dar sistematicamente mais para Deus toda
vez que sua renda aumentar.
Eu era pequeno quando meus pais me ensinaram a
contribuir por porcentagem, quando passaram a me dar uma
quantia semanal de quinze centavos. Eles me deram três caixas:
uma com os dizeres: "contribuir", outro com os dizeres:
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 201

"economizar" e na terceira estava escrito: "gastar". Toda


semana uma moeda ia para a caixa "economizar", uma para a
caixa "contribuir", onde ficava até que eu a levasse para a igreja,
e a outra moeda nunca ia para a caixa "gastar". Eu
imediatamente pegava minha bicicleta e ia até a loja Sterling,
no centro da cidade, e comprava um pacote de cartões de
baseball! Mas eu aprendi a contribuir sistematicamente.
Ouça o que Muller diz novamente:

Portanto, eu posso ternamente implorar e suplicar a meus amados


amigos cristãos que levem isso a sério e considerem que até agora
eles têm privado a si mesmos de numerosas bênçãos espirituais
p orq u e não têm seg u id o o p rin cíp io de co n trib u ir
sistematicamente, e de dar quando Deus os faz prosperar, e de
acordo com um plano; não sim plesm ente por im pulso, não
quando são tocad os por um serm ão m issionário ou sobre
carid ad e, m as sistem ática e hab itu alm ente con trib u ir por
princípio, na proporção em que Deus os capacita. Se ele confia a
eles um real, dar uma proporção adequada; se a eles é deixada
uma herança de mil reais, dar de acordo com ela; se ele confia a
eles d ez mil reais, ou o q u an to q u er que seja, d ar
proporcionalmente. O, meus irmãos, creio que se percebêssemos
a bênção, então daríamos por princípio; e, se assim fosse, daríamos
cem vezes mais do que agora.11

Contribuir Generosamente Resulta em Bênção Abundante


Nosso Senhor Jesus disse em Lucas 6:38: "Dai, e dar-se-vos-
á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos
darão; porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão
também".
Esta não é uma idéia isolada no Novo Testamento. Volte
para 2 Coríntios 9:6-8. A promessa de Deus ali é: "E isto afirmo:
aquele que semeia pouco pouco também ceifará; e o que semeia com
202 Mordomia

fartura com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo


tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque
Deus ama a quem dá com alegria. Deus pode fazer-vos abundar em
toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência,
superabundeis em toda boa obra".
Se você der a Deus, Deus dará a você. Se você der
abundantemente a Ele, Ele dará abundantemente a você.
Considero a "teologia da prosperidade" atual uma heresia.
Não creio que se você der muito para Deus Ele o fará
financeiramente rico aqui na terra. Mas creio que essas
passagens e outras indiquem que bênçãos terrenas de natureza
não especificada serão dadas àqueles que forem mordomos fiéis
do dinheiro de Deus. O fim do versículo 8 fala diz: tendo sempre,
em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra". Isto
fala claramente de bênção terrena. Deus nunca afirma que se
você contribuir fielmente Ele dará a você muito dinheiro ou
alguma outra bênção terrena específica. Mas Ele diz de fato
que irá abençoá-lo nesta vida se você O amar o suficiente e
confiar Nele o suficiente para ser generoso em suas
contribuições.
Se Deus realmente nos ama como diz amar (e Ele
demonstrou na Cruz a profundidade de Seu amor), então temos
que crer que Ele irá nos dizer como usar nosso dinheiro de
forma que definitivamente nos beneficie ao máximo e nos traga
alegria maior do que a que receberíamos usando o dinheiro à
nossa maneira. Mas o mundo quer o dinheiro de Deus. Os
comerciais deixam isso claro. Nós também temos o mesmo
desejo que todo mundo tem - a Bíblia o chama de desejo da
carne - de gastar dinheiro de forma egoísta. E o Diabo nos fará
gastar dinheiro porque ele é nosso Inimigo e Inimigo do Reino
de Deus; ele quer arruinar a nossa vida e a obra de Deus. Mas
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 203

Deus nos diz como administrar o Seu dinheiro de forma que


definitivamente nos beneficiará ao máximo e nos trará alegria
maior do que se usarmos o dinheiro à nossa moda.
A maior parte das bênçãos de Deus referentes a nossa
contribuição, contudo, não virá nesta vida. E é preciso ter fé
para crer que dar dinheiro aqui na terra armazena tesouro no
Céu. É preciso ter fé para crer que Jesus disse corretamente:
"Mais bem-aventurado é dar que receber" (Atos 20:35). Mas se essas
passagens são verdadeiras (e são!), podemos crer que virá um
tempo definido em um lugar real em que Deus irá de fato nos
recompensar abundantemente por aquilo que demos generosa
e alegremente.
Independentemente de sua interpretação dessas passagens,
independentemente de quanto Deus o recompense aqui e no
Céu por sua contribuição, o essencial é claro: Deus irá abençoá-
lo abundantemente se você der generosamente.

MAIS APLICAÇÃO

Você está preparado para o fim dos tempos? Jim Croce foi
um compositor e músico popular no início dos anos 70. Uma
de suas gravações mais conhecidas era "Time in a Bottle"
(Tempo em uma Garrafa), uma canção de amor sobre o seu
desejo de guardar tempo em uma garrafa para gastá-lo mais
tarde com alguém que amava. O fato estranho em relação à
composição foi que na época em que ela chegou às paradas,
Jim Croce já estava morto. Se ele tivesse conseguido guardar
tempo em uma garrafa, tenho certeza de que ele o teria usado
para prolongar sua vida. Mas é claro que ele não conseguiu
fazê-lo. E, de qualquer forma, mesmo que tivesse conseguido,
ele teria sido usado há muito tempo.
204 Mordomia

Há um número finito de grãos de areia na ampulheta de


todo o mundo e mais cedo ou mais tarde todos eles acabam.
Até ao escrever este capítulo eu fui chamado à casa de alguém
cujo pai havia acabado de falecer. Se Cristo não vier antes, um
dia seu tempo virá e irá também, e você irá com ele.
Você está preparado? Você pode ter feito o seu testamento,
planejado e pago pelo seu funeral e ter muitos seguros, mas
você não estará preparado a menos que a conta de seus pecados
diante de Deus tenha sido acertada. Você não está preparado,
na verdade você não pode estar preparado, para prestar contas
pelo tempo que perdeu vivendo para si mesmo e não para Deus,
pelo tempo que gastou em desobediência a Deus, pelo tempo
que desperdiçou buscando coisas mundanas que estão
destinadas a perecer com o próprio mundo, pelo tempo que
você poderia ter gasto investindo na obra do Reino de Deus.
Você não está preparado para se apresentar diante de Deus
a menos que tenha tomado tempo para ir a Cristo e confessado
o mau uso que fez de toda a sua vida. Você não está preparado
para a morte até que tenha pedido que Deus o perdoe com
base na morte de Cristo. Você não está preparado para que o
tempo pare a menos que tenha entregado o controle do resto
de seu tempo ao Cristo ressurreto.
"Hoje, se ouvirdes a sua voz", diz Hebreus 4:7, "não endureçais
o vosso coração". O inferno está repleto de pessoas que
endureceram seus corações enquanto ainda tinham tempo para
se arrepender e crer em Cristo. O inferno está repleto de pessoas
que endureceram seus corações porque pensaram que ainda
tinham muito tempo ou porque pensaram que poderiam ir a
Cristo em outra época. O inferno está repleto de pessoas que
não endureceriam seus corações se tão somente tivessem tido
a oportunidade que você tem agora mesmo. O inferno está
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 205

repleto de pessoas que dariam o mundo se pudessem ter mais


uma oportunidade como você, de aceitar o evangelho. O inferno
está repleto de pessoas que clamam em concordância com
Hebreus 4:7 àqueles que estão longe de Cristo: "Hoje, se ouvirdes
a sua voz, não endureçais o vosso coração".
Você está usando o tempo como Deus gostaria que você o
usasse? Avalie o uso que você faz do tempo em cada área e
pergunte a si mesmo se está dedicando a elas o tempo que Deus
gostaria (lembre-se de que há extremos em ambos os lados):
trabalho, serviço doméstico, passatempos, TV, esportes, Dia do
Senhor, família, exercícios físicos, recreação, sono, absorção
bíblica, oração, banho e vestimenta diária.
Talvez o seu uso do tempo requeira alguns pequenos
ajustes. Talvez Deus esteja exigindo para uma grande mudança.
Mas, lembre-se de que uma vida disciplinada é impossível sem
a Disciplina do tempo. Não perca as implicações positivas
dessas questões. Uma vida disciplinada é possível por meio da
Disciplina do tempo.
Permita-me inserir uma palavra aqui para corrigir alguns
possíveis equívocos. O uso disciplinado do tempo descrito
nestas páginas não deve ser entendido como a promoção de
um estilo de vida implacável, de inquietude e tendência à
exaustão. Após ler a biografia de Jonathan Edwards, estou
convencido de que ele viveu consistentemente de acordo com
os princípios bíblicos em relação ao uso do tempo descrito neste
capítulo. Entretanto, seu biógrafo nunca o retrata como homem
perturbado e esbaforido, correndo agitado no decorrer de seu
dia, sempre atrasado para alguma atividade. Tampouco era ele
homem indiferente e calculista, menos preocupado com as
pessoas do que com a "produção". Seu hábito na maioria dos
dias era fazer longos passeios com Sarah e também sozinho,
206 Mordomia

toda noite até a mata para orar. Ele passava tempo com seus
muitos filhos e sabia como se divertir com eles. Fazia todas
essas coisas porque eram corretas e agradava a Deus que ele as
fizesse.
No âmago da Disciplina bíblica do tempo está fazer a
vontade de Deus quando ela precisa ser feita. "Para tudo há
uma ocasião certa", diz Eclesiastes 3:1, "há um tempo certo para
cada propósito debaixo do céu". Há um tempo para os tipos
específicos de Disciplinas mencionados neste livro, mas
também há um tempo para nos disciplinarmos para descansar,
para reabastecer nossos recursos físicos e emocionais por meio
dos tipos certos de recreação e para cultivar relacionamentos.
Jesus muitas vezes ministrou por longas horas e freqüentemente
sob condições que demandavam grandemente Dele, contudo,
era um Homem que descansava, se divertia (talvez enquanto
andava por todos os lugares aonde ia) e cultivava
relacionamentos. Ele nunca gastou uma hora inutilmente e não
há textos que o revelem agindo apressadamente. Ele é nosso
Modelo no uso disciplinado do tempo.
É possível ter uma vida mais semelhante a Cristo por meio
de uma Disciplina do tempo plena do Espírito. Deus não balança
o crescimento em graça diante de você como um chamariz
espiritual que sempre atrai, mas nunca é desfrutado. Ele disse
que o verdadeiro progresso na Piedade é possível e as
Disciplinas Espirituais são o meio. E o passo prático por trás de
cada uma das Disciplinas Espirituais é a Disciplina do tempo.
Você está disposto a aceitar os princípios divinos da
contribuição? Você leu e pensou sobre eles, mas crê neles e os
aceita como vontade de Deus para você?
Você está contribuindo como pretende? O uso que você faz
do dinheiro - aquele pelo qual você dedica tanto de sua vida -
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 207

deixa claro que você está seguindo a Cristo ou buscando a


Piedade? Você decidirá que de hoje em diante sua contribuição
irá mostrar que Jesus Cristo está no centro de sua vida?
Na Edição Centenária do The Wall Street Journal (de 23 de
junho de 1989) foi publicada a matéria "A Galeria dos Maiores".
Era sobre vários homens que o Journal considerava grandes
sucessos nos negócios e nas finanças, nomes como Andrew
Camegie, Henry Ford, J. P. Morgan e outros. Apesar de seus
múltiplos milhões, e apesar de todos os usos benevolentes e
filantrópicos que fizeram de seu dinheiro, a maioria dos homens
citados no artigo não usou o dinheiro como Deus queria. Mas
você pode fazê-lo. É tarde demais para eles, mas não para você.
Não importa se tem muito ou pouco, como crente, você pode
se disciplinar para usar seu dinheiro para os maiores propósitos
da terra: para a glória de Deus e "com o propósito de alcançar
a piedade".
208 Mordomia

1 Jonathan Edwards, The Works of Jonathan Edivards (As Obras de Jonathan Edwards),
rev. Edward Hickman (1834; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth
Trust, 1974), vol. 2, páginas 233-236.
2 Herbert Lockyer, Last Words of Saints and Sinners (As Últimas Palavras de Santos e
Pecadores) (Grand Rapids, MI: Kregel, 1969), página 132.
3 Lockyer, página 132.
4 Edwards, vol. 1, página xxi.
5 Richard Baxter, The Practical Works of Richard Baxter in Four Volumes, A Christian
Directory (Obras Práticas de Richard Baxter em Quatro Volumes, Um Guia Cristão)
(1673; reimpressão, Ligonier, PA: Soli Deo Gloria Publications, 1990), vol. 1, página
237.
6 Wayne Watts, The Gift of Giving (O Dom da Contribuição) (Colorado Springs, CO:
NavPress, 1982), páginas 35-36.
7 "Plain Talk" ("Conversa Simples"), USy4 Today, 23 de dezembro de 1988.
8 Robert Rodenmeyer, conforme citação em John Blanchard, comp., Gathered Gold
(Ouro Ajuntado) (Welwyn, Hertfordshire, Inglaterra: Evangelical Press, 1984)
página 113.
9 Nota da Tradutora: tradução livre do versículo na versão NASB (New American
Standard Bible) da Bíblia em inglês.
10 Roger Steer, Ed., The George Muller Treasury (O Tesouro de George M uller)
(Westchester, IL: Crossway Books, 1987), página 183.
11 Roger Steer, Ed., Spiritual Secrets of George Muller (Segredos Espirituais de George
Muller) (Wheaton, IL: Harold Shaw; and Robesonia, PA: OMF Books, 1985) página
103.
CAPÍTULO NOVE

J eju m ...
C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied a d e

♦♦ a ^

A auto-indulgência é inimiga da gratidão, e a autodisciplina,


normalmente sua amiga e geradora. E por isso que a
glutonaria é um pecado mortal. Os antigos pais do deserto
criam que os apetites de uma pessoa estão ligados:
estômagos cheios e palatos muito usados enfraquecem
nossa fome e sede de justiça. Eles estragam o apetite por Deus.

Comellius Plantinga Jr.


Citação em The Reformed Journal (Novembro de 1988)

F ale rápido, como são as pessoas que jejuam? Que tipos de


pessoas vêm a sua mente? Elas parecem um tanto estranhas?
São do tipo João Batista? Legalistas? Malucas por saúde?
Jesus vem a sua mente quando você pensa em jejum e nos
"jejuadores"? Jesus tanto praticou quanto ensinou o jejum, você
sabe. E mesmo assim, o jejum é a mais temida e incompreendida
de todas as Disciplinas Espirituais.
Uma razão pela qual o jejum é temido é que muitos crêem
que ele nos transforma em algo que não queremos ser e faz
acontecer coisas que não queremos que aconteçam. Tememos
que o jejum nos torne fanáticos de olhos encovados ou
excêntricos por Deus. Temos medo de que ele nos faça sofrer
horrivelmente e nos proporcione uma experiência, em geral,
210 Jejum

negativa. Para alguns cristãos, o jejum com propósitos


espirituais é tão impensável quanto raspar todo o cabelo da
cabeça ou andar descalço por um fosso de fogo.
O motivo pelo qual o jejum é tão incompreendido está
relacionado à falta de consciência contemporânea dele. Mesmo
que exista mais interesse no jejum hoje do que durante a última
metade do século XIX e primeira metade do século XX, quantas
pessoas você conhece que praticam o jejum regularmente?
Quantos sermões você tem ouvido sobre o assunto? Na maioria
dos círculos cristãos, raramente se ouve a palavra jejum, e
poucos terão lido algo a respeito. Entretanto, ele é mencionado
nas Escrituras mais vezes até do que algo tão importante quanto
o batismo (aproximadamente setenta e sete vezes para jejum e
setenta e cinco para batismo).
Cristãos em uma sociedade glutona, auto-indulgente, onde
ninguém se nega nada, podem ter dificuldade para aceitar e
começar a praticar o jejum. Poucas disciplinas são tão radicais
contra a carne e a corrente de pensamento prevalecente da
cultura quanto esta. Mas não podemos menosprezar o seu
significado bíblico. Evidentemente, algumas pessoas, por razões
médicas, não podem jejuar. Mas a maioria de nós não ousa
menosprezar os benefícios do jejum na busca disciplinada de
uma vida semelhante a Cristo.

EXPLICAÇÃO DO JEJUM

Uma definição bíblica de jejum é a abstinência voluntária


de alimentos, pelo cristão, com propósitos espirituais. Pelo
cristão, pois o jejum feito pelo não-cristão não tem valor eterno
algum porque os motivos e propósitos da Disciplina são centrar-
se em Deus. É voluntário porque o jejum não é coercivo. O jejum
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 211

é mais do que simplesmente a dieta radical definitiva para o


corpo; é a abstinência de alimentos com propósitos espirituais.
Há uma visão mais ampla do jejum que é freqüentemente
ignorada. Esta é a abordagem adotada por Richard Foster ao
definir jejum como "negação voluntária de uma função normal
devido a intensa atividade espiritual".1 Assim, então, o jejum
nem sempre lida com abstinência de alimentos. Às vezes
podemos precisar jejuar de algum envolvimento com outras
pessoas, da mídia, do telefone, de conversas, de sono etc., a fim
de nos tornar mais absortos em um período de atividade
espiritual.
Martyn Lloyd-Jones concorda com esta definição mais
ampla de jejum:

P ara co n clu ir o assu n to , a d icio n a ría m o s que o jejum , se


verdadeiramente o concebemos, não deve apenas estar confinado
à questão da comida e da bebida; o jejum deve realmente incluir
a abstinência de qualquer coisa que seja legítima em si e de si
mesma por causa de algum propósito espiritual especial. Há
m u itas fu n ções o rg â n ica s que são c o rre ta s , n o rm ais e
perfeitamente legítimas, mas que, por razões peculiares especiais,
em certas circunstâncias, devem ser controladas. Isto é jejum. Este,
sugiro, é um tipo de definição geral do que o jejum deve ser.2

Estritamente falando, contudo, a Bíblia só se refere ao jejum


em termos de seu sentido primário, isto é, abstinência de
alimentos. Neste capítulo, limitarei minhas observações a tal
tipo de jejum.
A Bíblia distingue entre vários tipos de jejuns. Embora não
use os rótulos que freqüentemente empregamos hoje para
descrever esses jejuns, podem ser encontrados os seguintes:
O jejum normal envolve abstinência de todos os alimentos,
212 Jejum

mas não de água. Mateus 4:2 nos diz: "Depois de jejuar quarenta
dias e quarenta noites, [Jesus] tevefome". Nada é mencionado sobre
Ele ter tido sede. Além disso, Lucas 4:2 revela que Ele "não comeu
nada durante esses dias", mas nada diz sobre Ele ter bebido
alguma coisa. Uma vez que o nosso corpo funcione
normalmente por não mais do que três dias sem água,
presumimos que Ele tenha bebido água durante esse período.
Abster-se de alimentos, mas beber água, ou talvez suco de
frutas, é o tipo mais comum de jejum cristão.
O jejum parcial é uma limitação da dieta, mas não abstenção
de todos os alimentos. Por dez dias Daniel e os três outros jovens
judeus tiveram apenas "vegetais para comer e água para beber"
(Daniel 1:12). Diz-se do rústico profeta João Batista, que "seu
alimento era gafanhotos e mel silvestre" (Mateus 3:4).
Historicamente, os cristãos têm observado jejuns parciais
ingerindo porções de comida muito menores do que as
habituais por um certo período e/ou comendo apenas alguns
alimentos simples.
O jejum absoluto é a abstinência de todos os alimentos e
líquidos, até de água. Esdras nos conta que: "não comeu nem
bebeu nada, lamentando a infidelidade dos exilados" (Esdras 10:6).
Ao pedir aos judeus que jejuassem e orassem por ela, Ester
disse: "Vá reunir todos os judeus que estão em Susã, e jejuem em
meu favor. Não comam nem bebam durante três dias e três noites"
(Ester 4:16). Após a conversão do Apóstolo Paulo na estrada de
Damasco, Atos 9:9 nos diz: "Por três dias ele esteve cego, não comeu
nem bebeu".
A Bíblia também descreve um jejum sobrenatural. Há duas
ocasiões em que ele ocorreu. Ao escrever sobre seu encontro
com Deus no Monte Sinai, Moisés diz: "fiquei no monte quarenta
dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água" (Deuteronômio
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 213

9:9). Primeiro Reis 19:8 pode estar dizendo que Elias fez o
mesmo quando foi ao local do jejum milagroso de Moisés:
"Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida,
viajou quarenta dias e quarenta noite, até chegar a Horebe, o monte de
Deus". Esses jejuns requerem a intervenção sobrenatural de
Deus nos processos orgânicos e não são repetidos aparte do
chamado específico e da provisão milagrosa do Senhor.
O jejum particular é aquele que será mencionado na maioria
das vezes neste capítulo e é a ele que Jesus se refere em Mateus
6:16-18, quando diz que nós devemos jejuar de forma que outras
pessoas não o percebam.
Os jejuns congregacionais são do tipo encontrado em Joel 2:15­
16: "Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai
uma assembléia solene". Ao menos uma parte da congregação da
igreja de Antioquia estava jejuando juntamente em Atos 13:2,
como evidenciam as palavras de Lucas: "Enquanto adoravam o
Senhor e jejuavam ".
A Bíblia também fala de jejuns nacionais. Em resposta a uma
invasão, em 2 Crônicas 20:3, o Rei Josafá conclama um jejum
nacional: "Alarmado, Josafá decidiu consultar o SENHOR e
proclamou um jejum em todo o reino de Judá". Os judeus são
chamados a um jejum nacional em Neemias 9:1 e Ester 4:16, e o
rei de Nínive proclamou um jejum em resposta à pregação de
Jonas (3:5-8). A propósito, durante os primórdios da nação, o
Congresso dos Estados Unidos proclamou três jejuns nacionais.
Os presidentes John Adams e James Madison conclamaram
todos os americanos a jejuar, e Abraão Lincoln o fez em três
diferentes ocasiões durante a Guerra Entre os Estados.3
Havia um jejum regular que Deus ordenou sob a Antiga
Aliança. Todo judeu deveria jejuar no Dia da Expiação (Levítico
16:29-31). Enquanto eles estavam na Babilônia, os líderes dos
214 jejum

judeus instituíram quatro outros jejuns anuais (Zacarias 8:19),


o fariseu de Lucas 18:12 se congratula em oração por manter a
tradição dos fariseus quando diz: "Jejuo duas vezes por semana".
Embora sem respaldo bíblico, sabe-se bem que John Wesley
não ordenava um homem ao ministério metodista se ele não
jejuasse toda quarta e sexta-feira.
Por fim, a Bíblia menciona os jejuns ocasionais. Estes ocorrem
em ocasiões especiais conforme surge a necessidade. Este era o
tipo de jejum que Josafá, assim como Ester, conclamaram. Este
é o tipo de jejum que Jesus deixa implícito em Mateus 9:15:
"Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto
o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o
noivo, e nesses dias hão de jejuar".
O jejum mais comum dentre os cristãos atualmente seriam
os das categorias normal (abstendo-se de alimentos, mas
bebendo água), particular e ocasional.

ESPERA-SE QUE O CRISTÃO JEJUE

Para aqueles que não têm familiaridade com o jejum, a parte


mais surpreendente deste capítulo pode ser a descoberta de
que Jesus esperava que Seus seguidores jejuassem.
Atente para as palavras de Jesus no início de Mateus 6:16­
17: "Quando jejuarem. ...Ao jejuar...". Ao nos instruir sobre o que
fazer e o que não fazer quando jejuamos, Jesus presume que
nós jejuemos.
Esta expectativa fica até mais óbvia quando comparamos
tais palavras com as Suas declarações sobre contribuição na
mesma passagem, Mateus 6:2-3:"Quando você der.... Mas quando
você der. ..." Compare também as Suas palavras sobre oração
na mesma parte, Mateus 6:5-7: "E quando vocês orarem. ...Mas
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 215

quando você orar. ... E quando orarem." Ninguém duvida que nós
devamos contribuir e orar. Na verdade, é bastante comum usar
esta passagem para ensinar os princípios de Jesus sobre
contribuição e oração. E já que não há nada aqui ou em qualquer
outro lugar das Escrituras indicando que não precisemos mais
jejuar, e já que sabemos que os cristãos do livro de Atos jejuaram
(9:9,13:2,14:23), podemos concluir que Jesus ainda espera que
os Seus seguidores jejuem hoje.
Mais claras ainda são as palavras de Jesus em Mateus 9:14­
15. Imediatamente após chamar Mateus, o coletor de impostos,
para segui-Lo, Jesus fez uma refeição na casa dele como
convidado. Os fariseus vieram e perguntaram como Jesus podia
comer com tamanho pecador. Os discípulos de João tinham
problemas com isso também. Assim como João, eles eram
homens de firme propósito, com dietas simples e rústicas. Eles
compartilhavam um ministério que chamava as pessoas ao
arrependimento, e o jejum fazia parte dele. Se eles deviam
direcionar pessoas a Jesus como João fazia, confundia-os como
Ele podia banquetear quando eles deveriam jejuar. Então, eles
se aproximaram Dele e perguntaram: "Por que nós e os fariseus
jejuamos, mas os teus discípulos não?'Jesus respondeu: 'Como podem
os convidados do noivo ficar de luto enquanto o noivo está com eles?
Virão dias quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão'" (ênfase
do autor).
Jesus disse que chegará a hora em que Seus discípulos
"jejuarão". E a hora é agora. Até Jesus, o Noivo da Igreja
retomar, Ele espera que jejuemos.
As únicas instruções que Ele deixou além das já
mencionadas estão em Mateus 6:16-18, onde Jesus nos dá uma
ordem negativa, uma positiva e uma promessa. A ordem
negativa vem primeiro: "Quando jejuarem, não mostrem uma
216 Jejum

aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do


rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes
digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa".
Ao jejuar, você não deve parecer que jejua. Não demonstre estar
fraco. Não cause impressão de sofrimento. E não negligencie a
sua aparência.
A ordem positiva vem em seguida: "Ao jejuar, arrume o cabelo
e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando,
mas apenas a seu Pai, que vê em secreto". Em vez de parecer um
animal faminto, apresente-se tão bem que ninguém desconfie,
por sua aparência, que você está jejuando. O único Observador
de seu jejum deve ser aquele que é o Secreto. Ninguém mais
deve saber que você está jejuando a menos que seja
absolutamente inevitável ou necessário.
A seguir, Jesus faz uma promessa sobre o jejum: "E vosso
Pai, que vê em secreto, o recompensará". Tão segura e tão certa
quanto qualquer promessa das Escrituras é a promessa de que
Deus o abençoará e recompensará o seu jejum quando este for
feito de acordo com a Sua Palavra.
É interessante que Jesus não nos dá nenhuma ordem sobre
a freqüência ou a duração do jejum. Assim como todas as outras
Disciplinas Espirituais, o jejum não deve ser uma rotina
legalista. É um privilégio e uma oportunidade de buscar a graça
de Deus que está aberta a nós tantas vezes quanto desejarmos.
Por quanto tempo devemos jejuar? Depende de você e da
liderança do Espírito Santo. Na Bíblia há exemplos de jejuns
que duraram um dia ou parte de um dia (Juizes 20:26; 1 Samuel
7:6; 2 Samuel 1:12, 3:35; Neemias 9:1; Jeremias 36:6), um jejum
de uma noite (Daniel 6:18-24), jejuns de três dias (Ester 4:16,
Atos 9:9), jejuns de sete dias (1 Samuel 31:13, 2 Samuel 12:16­
23), um jejum de quatorze dias (Atos 27:33-34), um jejum de
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 217

vinte e um dias (D aniel 10:3-13), jeju ns de q u aren ta dias


(Deuteronômio 9:9,1 Reis 19:8, Mateus 4:2) e jejuns de duração
não especificada (Mateus 9:14; Lucas 2:37; Atos 13:2, 14:2-3).

O JEJUM DEVE TER UM PROPÓSITO

O jejum bíblico á mais do que abstenção de alimentos. Sem


um propósito espiritual, seu jejum será apenas jejum de perda
de peso. Você será tal como o homem que contou a um escritor:

Jejuei em várias ocasiões e n ad a aco n teceu . Só p assei fom e.


...M uitos anos atrás, ouvi alguns pastores con versan d o sobre o
jejum. Por recom endação deles, tentei jejuar pela prim eira vez.
Eles disseram que era uma ordem bíblica e deveria ser p raticada
p or todo cristão. Sendo cristão, decidi tentar. D epois de adiá-lo
por vários dias, reuni forças suficientes para com eçar. N ão pude
sentar-m e à mesa de café da manhã com m inha fam ília porque
achei que não teria força de vontade suficiente para m e abster de
com er, então fui para o trabalho. A pausa p ara o café foi quase
intolerável, e eu contei uma pequena m entira branca sobre por
que não me juntei ao grupo. Tudo o que conseguia p ensar era o
quanto estava faminto. Disse a mim m esm o: "Se eu resistir até ao
fim do dia, nunca mais tentarei novam ente". A tarde foi pior ainda.
Tentei me con cen trar no trabalho, m as tudo o que ouvia era o
meu estôm ago roncar. Minha esposa preparou u m a refeição para
si mesma e nossos filhos, e o arom a da com ida foi tudo o que eu
pude suportar. Imaginei que se conseguisse ch egar à m eia-noite,
teria jejuado o dia todo. E consegui —m as assim que deu meia-
noite, avancei na com ida. Acho que aquele dia de jejum não me
ajudou nem um p ou co.-1

É claro, ele provavelmente estava certo. Aquele homem não


estabeleceu um propósito para o jejum. E sem propósito, o jejum
pode ser uma experiência infeliz e egocêntrica.
218 Jejum

Há muitos propósitos para o jejum nas Escrituras.


Condensei-os em dez principais categorias. Quando jejua, você
deve fazê-lo por ao menos um destes propósitos. (Observe que
nenhum dos propósitos é ganhar favor de Deus. Não podemos
usar o jejum como forma de impactar Deus e de ganhar a Sua
aceitação. Tornamo-nos aceitáveis a Deus por meio da obra de
Cristo Jesus, não pela nossa. O jejum não terá benefício eterno
para nós até que nos aproximemos de Deus em arrependimento
e fé. Veja Efésios 2:1-10 e Tito 3:5-7.)

Para Fortalecer a Oração


"Quando os homens tiverem de orar a Deus a respeito de
alguma grande questão", escreveu João Calvino, "seria
conveniente indicar o jejum juntamente com a oração." 5
Há algo no jejum que aguça as nossas intercessões e dá
paixão a nossas súplicas. Assim ele tem sido muitas vezes usado
pelo povo de Deus quando há alguma urgência especial sobre
os assuntos que eles elevam ante o Pai.
Quando estava para conduzir um grupo de exilados de
volta a Jerusalém, Esdras proclamou um jejum a fim de que o
povo buscasse fervorosamente ao Senhor para ter uma
passagem segura. Eles iriam enfrentar muitos perigos sem
proteção militar durante a jornada de quase 1500 quilômetros.
Este não era um assunto comum para ser levado a Deus em
oração. "Por isso jejuamos e suplicamos essa bênção ao nosso Deus",
diz Esdras 8:23, "e ele nos atendeu".
A Bíblia não ensina que jejum é um tipo de greve de fome
espiritual que compele Deus a cumprir a nossa ordem. Se nós
pedirmos algo fora da vontade de Deus, o jejum não O fará
reconsiderar. O jejum não altera a audição de Deus tanto quanto
muda a nossa oração. Em seu livro God's Chosen Fast (O Jejum
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 219

Escolhido por Deus), Arthur Wallis observa:

O jejum é talhado para trazer um toque de urgência e insistência


à nossa oração, e para dar força à nossa petição no tribunal do
céu. O homem que ora com jejum está notificando ao céu de que
é verdadeiramente resoluto. ...Não somente isso, mas ele está
expressando sua seriedade de uma maneira divinamente dirigida.
Ele está usando um meio que Deus escolheu para fazer sua voz
ser ouvida no alto.6

Deus sempre Se agrada de ouvir as orações de Seu povo.


Mas Ele também Se agrada quando escolhemos fortalecer
nossas orações de um modo que Ele ordenou.
Neemias (em 1:4) "jejulou] e or[ou] ao Deus dos céus". Daniel
(em 9:3) devotou-se a instar com Deus "com orações e súplicas,
em jejum". Em uma ordem direta por meio do profeta Joel, Israel
ouviu: "Agora, porém', declara o SENHOR, 'voltem-se para mim de
todo o coração, com jejum, lamento e pranto"' (Joel 2:12). Não foi
senão depois de "jejuar e orar", que os crentes da igreja em
Antioquia "impuseram-lhes as mãos" (sobre Bamabé e Saulo de
Tarso) e "os enviaram " a sua primeira viagem missionária (Atos
13:3).
O aspecto mais importante desta Disciplina é a sua
influência sobre a oração. Você notará que de uma forma ou de
outra, todos os outros propósitos bíblicos do jejum estão
relacionados à oração. O jejum é um dos melhores amigos que
podemos introduzir em nossa vida de oração. Apesar de seu
potencial poder, contudo, parece que pouquíssimos crentes
estão dispostos a desfrutar seus benefícios. Citando Wallis
novamente:

Ao dar-nos o privilégio de jejuar, assim com o de orar, Deus


220 Jejum

acrescentou uma poderosa arma ao nosso arsenal espiritual. Em


sua insensatez e ignorância, a Igreja, em grande parte, o tem
considerado obsoleto. Ela o jogou em algum canto escuro para
enferrujar, e ele tem jazido ali, esquecido por séculos. Uma hora
de crise iminente para a Igreja e o mundo exige a sua volta.7

Para Buscar a Orientação de Deus


Existe precedente bíblico para jejuar com o propósito de
discernir mais claramente a vontade de Deus.
Em Juizes 20, as outras onze tribos de Israel se prepararam
para guerrear contra a tribo de Benjamim. Os soldados se
reuniram em Gibeá por causa de um chocante pecado cometido
pelos homens daquela cidade benjamita. Eles buscaram ao
Senhor antes de ir para a batalha, e mesmo que fossem em maior
número do que os benjamitas, a quinze por um, eles perderam
a batalha e vinte e dois mil homens. No dia seguinte, eles
buscaram ao Senhor com oraçãò e lágrimas, mas novamente,
tinham perdido a batalha e com milhares de perdas. Confusos,
da terceira vez eles não só buscaram orientação do Senhor em
oração e com lágrimas, mas também "jejuaram até a tarde"
(versículo 26). "Sairemos de novo ou não, para lutar contra os nossos
irmãos benjamitas?" perguntaram. Então o Senhor tornou a Sua
vontade clara: "Vão, pois amanhã eu os entregarei nas suas mãos"
(versículo 28). Somente depois de O buscarem com jejum o
Senhor deu a Israel a vitória.
De acordo com Atos 14:23, antes de Paulo e Barnabé serem
designados presbíteros nas igrejas que fundaram, eles primeiro
oraram com jejum para receber a orientação de Deus.
David Brainerd orou com jejum pela liderança do Senhor a
respeito de seu ingresso no ministério. Na segunda-feira, 19 de
abril de 1742, ele registrou em seu diário: "Separei este dia para
jejuar e orar a Deus por Sua graça; especialmente para me
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 221

preparar para a obra do ministério, para me prover auxílio


divino e direção em meus preparativos para a grande obra, e
em Seu devido tempo me enviar a Sua colheita".8 Sobre a sua
experiência durante aquele dia, ele disse:

Senti o poder da intercessão por almas preciosas imortais; pelo


avanço do reino de meu querido Senhor e Salvador no mundo e
ademais, a mais doce resignação e até consolação e alegria nos
pensamentos relativos ao sofrimento de dificuldades, aflições e
até a própria morte, na promoção d ele.... Minha alma se estendeu
muito para o mundo, para multidões de almas. Eu pensei ter mais
abrangência por pecadores do que pelos filhos de Deus, embora
sentisse como se pudesse passar minha vida em clamores por
ambos. Desfrutei grande doçura em comunhão com meu querido
Salvador. Creio que nunca em minha vida senti desapego tão
completo deste mundo e conformidade tão grande com Deus em
tudo.9

O jejum não garante o recebimento de orientação clara de


Deus. Uma vez praticado de modo correto, porém, ele
realmente nos torna mais receptivos Àquele que tem prazer
em nos orientar.

Para Expressar Tristeza


Três das quatro referências bíblicas a jejum o associam a
uma expressão de tristeza. De acordo com Juizes 20:26, uma
das razões por que os israelitas choraram e jejuaram diante do
Senhor foi - não apenas para buscar Sua orientação - mas para
expressar tristeza pelos quarenta mil irmãos que eles haviam
perdido na batalha. Quando o Rei Saul foi morto pelos filisteus,
os homens de Jabes-Gileade andaram a noite toda para
recuperar os corpos do rei e de seus filhos. Após o enterro, 1
Samuel 31:13 diz que eles prantearam quando "jejuaram durante
222 Jejum

sete dias". O capítulo seguinte dá a resposta de Davi e de seus


homens quando ouviram a notícia: "Então Davi rasgou suas
vestes; e os homens que estavam com ele fizeram o mesmo. E se
lamentaram, chorando e jejuando até o fim da tarde, por Saul e por
seu filho Jonatas, pelo exército do SENHOR e pelo povo de Israel,
porque muitos haviam sido mortos à espada" (2 Samuel 1:11-12).
A tristeza causada por eventos que não sejam a morte
também podem ser expressos pelo jejum. Cristãos têm jejuado
de tristeza por causa de seus pecados. Não temos que pagar
por nossos pecados, porque não temos capacidade de fazê-lo e
porque Cristo já o fez uma vez por todas (1 Pedro 3:18). Deus
prometeu que "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo
para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça" (1
João 1:9). Mas isso não significa que a confissão seja algo leve e
fácil, um simples declamar de palavras, um ritual verbal. A mera
admissão não é confissão. Cristo é desonrado pela visão frívola
da confissão que não reconhece o quanto o nosso pecado custou
a Ele. Embora não seja autoflagelação, a confissão bíblica
envolve de fato ao menos algum grau de tristeza pelo pecado
cometido. E, visto que o jejum pode ser uma expressão de
tristeza, nunca será inapropriado que ele seja uma parte
voluntária e profundamente sentida da confissão. Houve
algumas ocasiões em que eu fiquei tão triste por causa de meu
pecado, que as palavras, somente, pareciam ser incapazes de
transmitir a Deus o que eu queria. E embora isso não tenha me
tomado mais digno de perdão, o jejum comunicou a tristeza e
a confissão que minhas palavras não puderam comunicar.
O jejum também pode ser um meio de expressar tristeza
pelos pecados de outras pessoas, como pelos pecados de pessoas
de sua igreja ou pelos pecados de seu país. Quando o invejoso
Rei Saul estava tentando injustamente matar Davi, a resposta
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 223

de seu filho Jonatas, segundo 1 Samuel 20:34, foi que "naquele


segundo dia da festa da lua nova ele não comeu, entristecido porque
seu pai havia humilhado Davi".
Caffy e eu temos uma amiga, é cristã há apenas alguns anos.
Quando ela se desviou de sua profissão de fé, expressamos
nossa tristeza e oramos por ela por meio de um jejum mútuo
de vários dias. Embora nós a tivéssemos confrontado quanto à
sua situação por várias vezes, ela disse, após ter sido restaurada,
que saber que jejuamos por ela foi uma dos principais motivos
para sua volta à comunhão. Nossa igreja tem observado alguns
jejuns ocasionais, em parte para expressar tristeza ao Senhor
pelos pecados de nossa nação.
Já que o jejum é muitas vezes um meio de expressar a Deus
a profundidade de nossos sentimentos, é apropriado que as
orações acometidas de tristeza sejam acompanhadas por jejum,
bem como por lágrimas.

Para Buscar Libertação ou Proteção


Um dos jejuns mais comuns dos tempos bíblicos era o jejum
para buscar a salvação dos inimigos ou circunstâncias.
Depois de ser notificado que um vasto exército estava vindo
contra ele, o Rei Josafá temeu e "decidiu consultar o SENHOR e
proclamou um jejum em todo o reino de Judá. Reuniu-se, pois, o povo,
vindo de todas as cidades de Judá para buscar a ajuda do SENHOR"
(2 Crônicas 20:3-4).
Nós já lemos sobre o jejum proclamado por Esdras quando
este conduzia um grupo de exilados de volta a Jerusalém. No
texto, notamos que eles jejuaram a fim de fortalecer a sua oração.
Mas observe, a partir do contexto mais amplo de Esdras 8:21­
23, que a razão porque eles oraram com jejum foi a proteção de
Deus:
224 Jejum

Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos
perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para
nossosfilhos e para tudo o que era nosso. Porque tive vergonha de pedir
ao rei exército e cavaleiros para nos defenderem do inimigo no caminho,
porquanto já lhe havíamos dito: “A boa mão do nosso Deus é sobre todos
os que o buscam, para o bem deles; mas a sua força e a sua ira, contra
todos os que o abandonam". Nós, pois, jejuamos e pedimos isto ao nosso
Deus, e ele nos atendeu.

O jejum cooperativo mais conhecido das Escrituras é


provavelmente o de Ester 4:16. Ele foi proclamado pela Rainha
Ester como parte de seu apelo a Deus por proteção da ira do
rei. Ela planejou entrar na corte do Rei Xerxes sem ser convidada
a fim de apelar a ele pela proteção dos judeus do extermínio
em massa. Ela disse a seu tio Mardoqueu: "'Vá reunir todos os
judeus que estão em Susã, e jejuem em meu favor. Não comam nem
bebam durante três dias e três noites. Eu e minhas criadas jejuaremos
como vocês. Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu
tiver que morrer, morrerei"'.
Quando nossa igreja institui um dia de jejum em tristeza
pelos pecados do país, também incluímos orações pedindo ao
Senhor que nos proteja e liberte dos inimigos que podem
resultar de nossos pecados. Observamos que Ele disciplinava
Israel por seus pecados com freqüência, permitindo que
inimigos nacionais ganhassem vantagem sobre a nação militar
e economicamente. Talvez não pensemos na realidade do
pecado nacional tanto quanto deveríamos, nem em como os
cristãos irão experimentar parte de qualquer julgamento
nacional que venha, mesmo que não tenhamos contribuído
diretamente para ele.
Mas nem todos os jejuns que buscam libertação ou proteção
divinas são jejuns corporativos. Davi escreveu o Salmo 109 como
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 225

apelo para obter alívio pessoal de um grupo de inimigos e,


particularmente, do líder deles. Um jejum particular
acompanhava a sua oração, conforme indica o versículo 24: "De
tanto jejuar os meus joelhos fraquejam e o meu corpo definha de
magreza". Aparentemente, aquele foi um jejum
excepcionalmente longo.
O jejum, e não esforços carnais, deve ser um de nossas
primeiras defesas contra a "perseguição" de familiares, colegas
de escola ou vizinhos ou equipe de trabalho, por causa de nossa
fé. Em geral, somos tentados a revidar com ira, abuso verbal,
contra-acusações e até processando-os. Mas em vez de articular
manobras políticas, fofocar e imitar as táticas mundanas de
nossos inimigos, devemos clamar a Deus com jejum por
proteção e libertação.

Para Expressar Arrependimento e Retomo a Deus


Jejuar com este propósito assemelha-se a jejuar com o
propósito de expressar tristeza pelo pecado. Mas como o
arrependimento é uma mudança de mente resultante em
mudança de ação, o jejum pode representar mais do que
simplesmente tristeza pelo pecado. Ele também pode ser um
sinal de comprometimento à obediência e a uma nova direção.
Os israelitas expressaram arrependimento por meio do
jejum em 1 Samuel 7:6, quando "eles...tiraram água e a derramaram
perante o SENHOR. Naquele dia jejuaram e ali disseram: 'Temos
pecado contra o SENHOR'".
Em Joel 2:12, o Senhor ordenou especificamente a Seu povo
que indicasse arrependimento e volta a Ele por meio do jejum:
"'Agora, porém', declara o SENHOR, 'voltem-se para mim de todo o
coração, com jejum, lamento e pranto"'.
Certamente o jejum mais completo registrado é o de Jonas
226 Jejum

3:5-8; um jejum para expressar arrependimento. Depois que


Deus abençoou a pregação de Jonas com um grande
despertamento espiritual,

Os ninivitas creram em Deus. Proclamaram um jejum, e todos


eles, do maior ao menor, vestiram-se de pano de saco. Quando as
notícias chegaram ao rei de Nínive, ele se levantou do trono, tirou
o manto real, vestiu-se de pano de saco e sentou-se sobre cinza.
Então fez uma proclamação em Nínive; "Por decreto do rei e de seus
nobres: Não é permitido a nenhum homem ou animal, bois ou ovelhas,
provar coisa alguma; não comam nem bebam! Cubram-se de pano de
saco, homens e animais. E todos clamem a Deus com todas as suasforças.
Deixem os maus caminhos e a violência".

O jejum não só pode expressar arrependimento, como


também pode ser em vão sem arrependimento. Assim como
com todas as Disciplinas Espirituais, o jejum pode ser pouco
mais do que uma "obra morta" se tivermos endurecido
persistentemente o coração ao chamado de Deus para lidarmos
com um pecado específico de nossas vidas. Jamais devemos
tentar imergir em uma Disciplina Espiritual como tentativa de
abafar a voz de Deus quanto ao abandono de um pecado. É
uma perversão do jejum tentar usá-lo para equilibrar a
autopunição por uma parte pecaminosa da vida que queremos
continuar a alimentar. Thomas Boston, um dos intrépidos
pastores-escritores puritanos, disse:

Em vão jejuareis, e fingireis ser humilhados por nossos pecados,


e fareis confissão deles, se nosso am or ao pecad o não for
transformado em aversão; o nosso gosto por ele, em abominação;
e nosso apego a ele, em desejo de livrarmo-nos dele; com pleno
propósito de resistir aos impulsos dele em nosso coração, e às
insurreições dele em nossas vidas; e se não nos voltarmos para
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 227

Deus como nosso justo Senhor e Mestre e retom arm os aos nossos
deveres novamente.10

Para Humilhar-se Diante de Deus


O jejum, quando praticado pelos motivos corretos, é uma
expressão física de humildade perante Deus, assim como
ajoelhar-se ou prostrar-se em oração também pode refletir
humildade diante Dele. E assim como há vezes em que você
sente a necessidade de expressar humildade orando de joelhos
ou com o rosto em terra diante do Senhor, há vezes em que
você pode desejar expressar senso de humildade perante o
Senhor em todas as atividades ao longo do dia, jejuando.
Muitos que estão acostumados a expressar humildade em
oração ajoelhando-se podem perguntar por que desejaríamos
expressar humildade o dia todo jejuando. Inversamente, João
Calvino fez uma pergunta melhor: Por que não? "Pois já que
isto [o jejum] é um exercício santo tanto para a humilhação
quanto para confissão de humildade dos homens, por que
devemos usá-lo menos do que os antigos usaram em
necessidade semelhante? ...Que razão há por que não devamos
fazer o mesmo?"11
Um dos homens mais iníquos da história judaica, o Rei Acabe,
eventualmente se humilhou diante de Deus e o demonstrou por
meio de jejum: "Quando Acabe ouviu essas palavras, rasgou as suas
vestes, vestiu-se de pano de saco e jejuou. Passou a dormir sobre panos de
saco e agia com mansidão. Então a palavra do SENHOR veio ao tesbita
Elias: 'Você notou como Acabe se humilhou diante de mim? Visto que se
humilhou, não trarei essa desgraça durante o seu reinado, mas durante o
reinado de seu filho"' (1 Reis 21:27-29).
Por outro lado, um dos homens mais piedosos de Israel se
humilhou diante do Senhor exatamente da mesma maneira. O
228 Jejum

Rei Davi escreveu: "Contudo, quando estavam doentes, usei vestes


de lamento, humilhei-me com jejum e recolhi-me em oração" (Salmo
35:13).
Lembre-se de que o jejum em si mesmo não é humildade
diante de Deus, mas deve ser uma expressão de humildade. Não
houve humildade no fariseu de Lucas 18:12, que se vangloriou
a Deus em oração que jejuava duas vezes por semana. O escritor
David Smith nos faz lembrar, em Fasting: Uma Disciplina
Negligenciada:

Com isto, não devemos concluir que o ato de jejuar tenha algum
poder virtuoso, e que nós nos tornamos mais humildes; não há
virtude no homem decaído por meio da qual ele possa tom ar a si
m esm o m ais p ied o so ; há, co n tu d o , v irtu d e no cam in h o
divinamente estabelecido da graça. Se nós, pelo poder do Espírito
Santo, mortificarmos as obras da carne (pelo jejum), cresceremos
em graça, mas a glória de tal mudança será somente de Deus.12

Para Expressar Preocupação com Obra de Deus


Assim como um pai ou mãe pode jejuar e orar pela obra de
Deus na vida de um filho, os cristãos podem jejuar e orar porque
se sensibilizam pela obra de Deus em uma esfera mais ampla.
O cristão pode se sentir compelido a jejuar e orar pela obra
de Deus em uma área em que tenha experimentado tragédia,
decepção ou aparente derrota. Este era o propósito do jejum de
Neemias quando ele ouviu que apesar do retomo de muitos
exilados judeus a Jerusalém, a cidade ainda não tinha muro
para defendê-la. "E eles me responderam: 'Aqueles que sobreviveram
ao cativeiro e estão lá na província passam por grande sofrimento e
humilhação. O muro de Jerusalém foi derrubado, e suas portas foram
destruídas pelo fogo'. Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei.
Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus"
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 229

(Neemias 1:3-4). Depois de jejuar, Neemias foi fazer algo


tangível e público a fim de fortalecer aquela obra de Deus.
Daniel também foi sensibilizado com relação ao retomo dos
judeus do exílio e à restauração de Jerusalém e expressou isso
jejuando: "Por isso me voltei para o Senhor Deus com orações e
súplicas, em jejum, em pano de saco e coberto de cinza" (Daniel 9:3).
Crente devotado nesta Disciplina, a preocupação de David
Brainerd com a obra de Deus freqüentemente encontrava
expressão no jejum e na oração. O registro do dia 14 de junho
de 1742 de seu diário revela a preocupação que tinha com a
obra que ele cria que Deus o tinha chamado para fazer.

Separei este dia para jejuar e orar em secreto, para rogar que Deus
me oriente e abençoe com relação à grande obra que tenho em
vista, de p regar o evangelho. ...D eus me cap acitou a lu tar
ardentemente em intercessão por amigos ausentes. ...O Senhor
me visitou de forma maravilhosa em oração; creio que minha alma
nunca esteve em tamanha agonia antes. Não senti reserva alguma,
pois os tesouros da divina graça foram abertos para mim. Lutei
por amigos ausentes, pela colheita de almas, por multidões de
pobres almas e por muitos que pensei serem filhos de Deus,
pessoalmente, em muitos lugares distantes.13

Obviamente, não podemos jejuar continuamente, mas que


o Senhor ao menos ocasionalmente nos faça ter preocupação
tão grande com a Sua obra, que a nossa preocupação normal
com a comida pareça ser secundária.

Para Ministrar às Necessidades de Outras Pessoas


Aqueles que pensam nas Disciplinas Espirituais promovem
tendências à introspecção ou independência devem considerar
Isaías 58:6-7. Na passagem mais extensa das Escrituras que lida
230 Jejum

exclusivamente com jejum, Deus enfatiza o jejum com o


propósito de suprir as necessidades de outros. As pessoas
originalmente mencionadas no texto reclamavam ao Senhor que
tinham jejuado e se humilhado diante Dele, mas que Ele não
havia respondido. Porém, a razão por que Ele não as havia
ouvido era a desobediência. Suas vidas estavam em contraste
com o jejum e oração. "Contudo, no dia do seu jejum " diz o Senhor
nos versículos 3-4, "cuidais dos vossos próprios interesses e exigis
que se faça todo o vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e
rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje,
não se fará ouvir a vossa voz do alto". O jejum não pode ser
"compartimentalizado" do restante de nossas vidas. As
Disciplinas Espirituais não subsistem sozinhas. Deus não
abençoa a prática de qualquer Disciplina, inclusive do jejum,
quando rejeitamos a Sua Palavra quanto a nossos
relacionamentos com os outros.
O que devemos fazer? Como Deus quer que jejuemos? O
Senhor pergunta nos versículos 6-7: "Porventura, não é este o
jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as
ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo
jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com ofaminto,
e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e
não te escondas do teu semelhante?" Em outras palavras, o tipo de
jejum que agrada a Deus é aquele que resulta em preocupação
com os outros e não apenas consigo mesmo.
"Mas", alguém poderia objetar, "estou tão ocupado
suprindo minhas necessidades e as de minha família, que não
tenho tempo para ministrar a outras pessoas". É aí que você
pode jejuar com o propósito de ministrar às necessidades de
outros. Jejuar por uma refeição ou por um dia e usar esse tempo
para o ministério. Assim você não perderá nenhuma parte do
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 231

tempo que diz que deve dedicar a seus outros compromissos.


Vários meses atrás, comecei a programar um jejum regular por
semana e a dedicar o período de uma refeição durante aquele
dia a reuniões de aconselhamento ou discipulado. Fiquei
admirado com o fato de o período do fim da tarde ser tão
conveniente e preferível para muitas pessoas. O resultado é
que esse tempo de jejum se tornou minha única brecha mais
produtiva e provedora de necessidades de ministério homem-
a-homem a semana toda.
Há outras maneiras de jejuar para suprir necessidades de
outros. Muitos jejuam para que possam dar aos pobres ou a
algum ministério o dinheiro que teriam gasto em alimentos
durante aquele período. Como você poderia ministrar às
necessidades de outros com o tempo ou o dinheiro extra que o
jejum poderia prover?

Para Vencer a Tentação e Dedicar-se a Deus


Peça aos cristãos que citem o jejum de algum personagem
bíblico, e a maioria provavelmente pensará primeiro no jejum
sobrenatural de Jesus antes de Sua tentação em Mateus 4:1-11.
O versículo dois desta conhecida passagem nos diz que Jesus
jejuou "quarenta dias e quarenta noites". Na força espiritual
daquele jejum prolongado, Ele foi preparado para vencer uma
investida direta de tentação do próprio Satanás, a mais forte
que Ele enfrentaria até o Getsêmani. Também foi durante aquele
jejum que Ele dedicou-Se particularmente ao Pai para o
ministério público que começaria logo depois disso.
Não há, em nenhum lugar das Escrituras, uma ordem para
jejuarmos por quarenta dias ou por qualquer período específico
de tempo. Mas isso não quer dizer que não haja nada da
experiência singular de Jesus para nós aplicarmos a nós
232 Jejum

mesmos. Um princípio que aprendemos do exemplo de Jesus é


o seguinte: Jejuar é uma maneira de vencer a tentação e de
renovarmos nossa dedicação ao Pai.
Há vezes em que lutamos com a tentação, ou prevemos
batalhar com ela, quando precisamos de força espiritual extra
para vencê-la. Talvez nós (ou nossos cônjuges) estejamos
viajando e as tentações à infidelidade mental e sensual sejam
muitas. Quando começamos as aulas ou um novo emprego ou
ministério, pode haver novas tentações, ou talvez seja
recomendável dedicarmo-nos ao Senhor novamente.
Freqüentemente, enfrentamos decisões que colocam tentações
incomuns diante de nós. Aceitamos um novo emprego que
significará ganhar muito mais dinheiro, mas passar menos
tempo com a família? Aceitamos a promoção que inclui uma
transferência que colocaria fim a um importante ministério de
nossa igreja local ou quando isso significa ir aonde o
crescimento espiritual de nossa família possa sofrer dano? Em
tempos de tentação excepcional, medidas excepcionais se fazem
necessárias. O jejum com o propósito de vencer a tentação e de
renovação da nossa dedicação a Deus é uma resposta que revela
semelhança com Cristo.

Para Expressar Amor e Adoração a Deus


Neste momento, você pode ter associado o jejum somente
a circunstâncias extremas e grandes problemas. Mas a Bíblia
também diz que o jejum pode ser um ato de pura devoção a
Deus.
Em Lucas 2 há uma inesquecível mulher cujos oitenta e
quatro anos são totalmente exibidos diante de nós em apenas
três rápidos versículos. Seu nome é Ana. O resumo de sua vida
encontra-se em Lucas 2:37: "Nunca deixava o templo: adorava a
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 233

Deus jejuando e orando dia e noite". Embora a história de Ana


tenha seu significado primário no contexto de Maria e José
apresentando o recém-nascido Jesus no Templo, a forma como
ela viveu dia após dia é o que nos interessa aqui. Ana havia
estado casada por apenas sete anos antes de enviuvar.
Presumindo que ela tenha se casado jovem, essa mulher piedosa
devotou ao menos meio século, dia e noite, a uma adoração a
Deus caracterizada por "jejum e oração".
O jejum pode ser uma expressão de se encontrar em Deus
o maior prazer e satisfação na vida. Este é o caso quando
disciplinar a si mesmo para jejuar significa que você ama mais
a Deus do que a comida, que buscá-Lo é mais importante para
você do que comer. Isto honra a Deus e é uma forma de adorá-
Lo como Deus. Significa que seu estômago não é o seu deus
como o é para alguns (veja Filipenses 3:19). Em vez disso, ele é
servo de Deus, e o jejum o prova porque você está disposto a
sublimar seus desejos aos do Espírito.
Os cristãos de toda história têm jejuado com este propósito
na preparação para a Ceia do Senhor. Além dos elementos de
arrependimento e humildade diante de Deus neste tipo de
jejum, ele também tem o intuito de ajudar a pessoa a se
concentrar na adoração Daquele que é representado na Ceia.
Outra forma de jejuar para expressar amor e adoração a
Deus é gastar o tempo de sua refeição em louvor e adoração.
Uma variação disso é demorar a fazer uma refeição específica
até que você tenha concluído seu tempo diário de absorção
bíblica e oração. Apenas lembre-se de que seu jejum é um
privilégio, e não uma obrigação. É a aceitação de um convite
divino para experimentar a Sua graça de modo especial. Se você
não puder jejuar tendo a fé de que irá obter mais satisfação e
alegria naquele momento do que em atrasar uma refeição, então
234 Jejum

coma livremente em fé primeiro (Romanos 14:22-23). Mas que


possamos ansiar por dias em que Deus nos fará almejar o
banquete espiritual da adoração mais do que qualquer
smorgasbord.
Para que o Senhor abençoe o nosso jejum, este deve sempre
ter um propósito espiritual - um propósito centrado em Deus,
e não na própria pessoa. Os pensamentos em alimentos devem
levar a pensamentos para Deus. Eles não devem nos distrair,
mas nos trazer à mente o nosso propósito. Em vez de nos
concentrarmos na comida, devemos usar o desejo de comer
como lembrete para orar e reconsiderar nosso propósito.
Não há dúvidas de que Deus tem muitas vezes coroado o
jejum com bênçãos extraordinárias. Testemunhos bíblicos,
históricos e contemporâneos comprovam o deleite de Deus em
prover bênçãos incomuns àqueles que jejuam. Mas devemos
tomar cuidado para não termos o que Martyn Lloyd-Jones
chamou de visão mecânica do jejum. Não podemos manipular
Deus para atender a nossa solicitação ao jejuar, tanto quanto
não podemos fazê-lo por qualquer outro meio. Assim como a
oração, jejuamos na esperança de que, por Sua graça, Deus irá
nos abençoar como desejamos. Quando nosso jejum tem a
motivação correta, podemos estar certos de que Deus nos
abençoará, mas talvez não da forma que desejávamos.
Mais uma vez, David Smith o coloca da maneira certa:

Qualquer bênção que seja conferida pelo Pai a Seus filhos indignos
deve ser considerada um ato de graça. Deixamos de apreciar a
misericórdia do Senhor se achamos que, por fazermos alguma coisa,
forçamos (ou coagimos) Deus a conceder a bênção que pedimos.
...Todo o nosso jejum, portanto, deve se basear nisso; devemos
usá-lo como meio escriturístico pelo qual nosso ser se integra
numa constatação mais plena dos propósitos do Senhor em nossa
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 235

vida, igreja, comunidade e nação.14

Ao jejuar recentemente devido à preocupação com a obra


de Deus na igreja que pastoreio, comecei a orar sobre vários
assuntos importantes. De repente, percebi que embora eu
achasse que estava orando na vontade de Deus, talvez meu
entendimento das coisas precisasse ser reajustado. Então pedi
ao Senhor que me mostrasse como orar de acordo com a Sua
vontade sobre aqueles assuntos e que me concedesse
contentamento com as Suas providências. Isso, acho, é o que
Smith quis dizer com o jejum sendo um " meio escriturístico
pelo qual nosso ser se integra numa constatação mais plena
dos propósitos do Senhor". O jejum deve sempre ter um
propósito, e nós devemos aprender a elevar os Seus propósitos
sobre os nossos.
O jejum centrado em Deus é ensinado em Zacarias 7:5. Uma
delegação foi enviada de Betei a Jerusalém para inquirir acerca
do Senhor. O assunto era a continuação de dois jejuns que os
judeus haviam realizado por causa da destruição do Templo.
Por setenta dias, eles haviam mantido aqueles jejuns no quinto
e no sétimo meses, mas agora queriam saber se Deus queria
que eles continuassem os jejuns, já que tinham sido restaurados
à sua terra e estavam construindo um novo templo. A resposta
do Senhor foi: "Pergunte a todo o povo e aos sacerdotes: Quando
vocês jejuaram no quinto e no sétimo meses durante os últimos setenta
anos, foi de fato para mim que jejuaram?" Na verdade, aqueles
jejuns haviam se tornado rituais vazios, não experiências
centradas em Deus. Os comentários de Matthew Henry sobre
a passagem são úteis para nosso próprio jejum.

Que todos eles observem que, embora pensassem que haviam


tom ado Deus muito devedor a eles por causa daqueles jejuns,
236 jejum

estavam bastante equivocados, pois os jejuns não eram aceitáveis


a Ele, a menos que tivessem sido observados de uma maneira
melhor, e com um propósito melhor. ...Eles não seriam acusados
de omissão ou negligência da obrigação. ...mas não a haviam
conduzido corretamente. ... Eles não haviam mantido os olhos
em Deus ao jejuar. ...Quando isto faltava, todo jejum não era senão
zombaria. Jejuar e não jejuar para Deus, era escarnecer Dele e
provocá-Lo, e não poderia ser agradável a Ele. ...Se as solenidades
de nosso jejum, embora freqüentes, longas e rigorosas, não servem
para aguçar o fervor, para reanimar a oração, aumentar a contrição
piedosa e para alterar a disposição de nossas mentes e o curso de
nossas vidas, para melhor, eles não respondem absolutamente a
intenção e Deus não as aceitará como realizadas para Ele.15

Antes de jejuarmos, devemos ter um propósito, um


propósito centrado em Deus. Mas mesmo em nossa melhor
forma, não merecemos o que desejamos, nem podemos forçar
a mão de Deus. Tendo dito isto, contudo, equilibremos essa
verdade com a promessa incontestável de Jesus em Mateus 6:17­
18: "Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o
fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto;
e teu Pai, que vêem secreto, te recompensará". Deus abençoa o jejum
bíblico feito por um filho Seu. E se você vai ou não receber a
bênção que espera, uma coisa é certa: Se você soubesse o que
Deus sabe, daria a você mesmo bênção idêntica à que Ele dá. E
nenhuma de Suas recompensas é desprezível.

MAIS APLICAÇÃO

Você irá confessar e se arrepender de qualquer medo de


jejuar? Por algum motivo, dizer: "Não vou comer hoje" causa
ansiedade em muitos cristãos. Parece que a maioria dos crentes
preferira dar uma oferta em dinheiro a se abster de alimentos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 237

por um dia. Você sofre de fobia a jejum? Isto é tolice quando


colocado em perspectiva. Pensamos em perder uma refeição
ou duas para nos tomarmos mais semelhantes a Jesus e ficamos
ansiosos. Por outro lado, às vezes perdemos refeições de boa
vontade ao fazermos compras, trabalharmos, nos divertirmos
ou estando ocupados com alguma outra coisa. Quando cremos
que outra atividade naquele momento é mais importante,
ficamos sem comida e não tememos e nem nos queixamos.
Precisamos aprender que às vezes pode não ser apenas mais
importante, mas muito mais compensador nos banquetearmos
em Deus do que nos alimentos (Mateus 4:4). Não devemos
temer as bênçãos do jejum.
Você jejuará quando o Espírito Santo o orientar para fazê-
lo? Está disposto a obedecer a Deus quando Ele o chamar para
jejuar? Como Jesus esperava que Seus seguidores jejuassem,
creio que de vez em quando o Seu Espírito nos guia a jejuar.
Você irá determinar com antecedência que será obediente à Sua
voz?
Uma das maneiras usadas pelo Espírito Santo para nos
chamar para o jejum é por meio de uma necessidade em nossas
vidas. Se você está precisando de oração mais forte em relação
a algum problema, este é um convite do Senhor para jejuar. Se
você precisa de libertação ou proteção, é hora de jejuar. Você
vai jejuar? Ou vai perder as oportunidades ímpares de obter a
graça que Ele estenderia a você por meio do jejum?
Lembre-se de procurar orientação médica quando
necessário. Se você estiver planejando fazer um jejum
prolongado, ou se estiver grávida, amamentando, for diabético
ou tiver alguma doença que dependa de uma dieta regular,
fale com seu médico antes de começar a jejuar. E se você nunca
jejuou antes, comece com um jejum de uma, duas ou no máximo
238 jejum

três refeições. Mas comece! Não procure escapatórias para evitá-


lo. Procure maneiras de experimentar a graça de Deus por meio
do jejum. Lembre-se de que Deus o considerou bom o suficiente
para ordenar que todo israelita jejuasse por um dia inteiro a
cada ano, no Dia da Expiação, e isso incluiria pessoas de todas
as condições e circunstâncias.
Como todas as Disciplinas Espirituais, o jejum iça as velas
da alma em esperanças de experimentar o vento gracioso do
Espírito Santo. Mas jejuar também acrescenta uma dimensão
única à sua vida espiritual e ajuda você a crescer em semelhança
com Cristo de maneiras que não estão disponíveis por nenhum
outro meio. Se não fosse assim, não teria havido necessidade
de Jesus exemplificar e ensinar o jejum.
Você irá planejar um jejum de dedicação agora , como
expressão de sua disposição para jejuar de agora em diante?
Antes de ir adiante, por que não estabelecer logo um tempo de
jejum que simbolize a sua dedicação ao Senhor e a sua
disposição a disciplinar-se para jejuar no futuro?

1 LaVonne Neff, et al, ed., Practical Christianity (Cristianismo Prático) (Wheaton, IL:
Tyndale House, 1987), p. 300.
2 D. Martyn Lloyd-Jones, Studies in the Sermon on the Mount (Estudos sobre o Sermão
do Monte (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1960), vol. 1, página 38.
3 R. D. Chatham, Fasting: A Biblical-Historical Study (Estudo Bíblico-Histórico do
Jejum) (South Plainfield, NJ: Bridge, 1987), páginas 96-97, 161-181.
4 Andy Anderson, Fasting Changed My Life (O Jejum Mudou Minha Vida) (Nashville,
TN: Broadman, 1977), páginas 47-48.
5 João Calvino, Institutes of the Christian Religion (As Institutas da Religião Cristã),
ed. John T. McNeil, trans. e indexado por Ford Lewis Battles (Filadélfia, PA:
Westminster, 1960), vol. 2, página 1242.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 239

6 Arthur Wallis, Cod’s Chosen Fast (O Jejum Escolhido por Deus) (Fort Washington,
PA: Christian Literature Crusade, 1968), página 42.
7 Wallis, página 43.
8 Jonathan Edwards, ed., The Life and Diary of David Brainerd (A Vida e o Diário de
David Brainerd), edição revisada ed. Por Philip E. Howard, Jr. (Chicago: Moody
Press, 1949), página 80.
9 Edwards, página 81.
10 Thomas Boston, The Works of Thomas Boston (As Obras de Thomas Boston), ed.
Samuel M cm illan (Londres: W illiam Tegg and Company, 1853; reim pressão,
Wheaton, IL: Richard Owen Roberts, 1980), vol. 11, página 347.
11 Calvino, páginas 1243-1244.
12 David R. Smith, Fasting: A Neglected Discipline (Fort Washington, PA: Christian
Literature Crusade, 1954; American ed., 1969), páginas 46-47.
13 Edwards, página 88.
14 Smith, página 44.
15 Matthew Henry, A Commentary on the Whole Bible (Comentário da Bíblia Toda)
(Nova Iorque: Funk and Wagnalls, n.d.), vol. 4, página 1478.
CAPÍTULO DEZ

S ilêncio e S olidão ...


C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e
♦♦♦

A palavra disciplina desapareceu de nossas mentes,


de nossas bocas, de nossos púlpitos e de nossa cultura. Mal
sabemos o que disciplina significa na sociedade moderna.
Contudo, não há outra maneira de se alcançar a piedade;
a disciplina é o caminho para a piedade.

Jay Adams
Godliness Through Discipline (Piedade por meio de Disciplina)

eu conto favorito é "A Aposta", de Anton Chekhov, um


escritor russo da última metade do século XIX. A trama envolve
uma aposta entre dois homens cultos a respeito do
confinamento solitário. Um banqueiro rico de meia-idade cria
que a pena de morte era uma pena mais humana do que o
confinamento solitário porque "o executor mata de uma vez, e
o confinamento solitário mata gradualmente". Um de seus
convidados da festa, um jovem advogado de vinte e cinco anos,
discordou, dizendo: "Viver sob quaisquer condições é melhor
do que simplesmente não viver".
Irado, o banqueiro impulsivamente respondeu, com uma
aposta de dois milhões de rublos, que o jovem não poderia durar
cinco anos em confinamento solitário. O advogado estava tão
convencido de sua resistência, que anunciou que ficaria quinze
Silêncio e Solidão 241

anos sozinho, em vez de apenas cinco.


Fizeram todos os preparativos e o jovem mudou-se para
um prédio separado, no terreno da grande propriedade do
banqueiro. Ele não podia receber visitas nem jornais. Ele podia
escrever cartas, mas não lhe era permitido receber nenhuma.
Havia guardas vigiando para garantir que o acordo não fosse
violado, mas eram colocados de modo que o jovem jamais
pudesse ver outro ser humano de sua janela. Ele recebia
alimentos em silêncio através de uma pequena abertura por
onde não podia ver quem o servia. Tudo o mais que ele quisesse
- livros, certos alimentos, instrumentos musicais etc. - era
concedido a ele por meio de solicitações especiais por escrito.
A história se desenvolve com uma descrição das coisas que
o advogado pedia ao longo dos anos e a observação dos guardas,
que ocasionalmente furtavam um olhar pela janela. Durante o
primeiro ano, o piano pôde ser ouvido a quase toda hora, e ele
pediu vários livros, a maioria romances e outros de leitura fácil.
No ano seguinte, a música parou e ele solicitou obras de vários
autores clássicos. Em seu sexto ano de isolamento, ele começou
a estudar línguas e logo passou a dominar seis delas. Após o
décimo ano de confinamento, o prisioneiro sentou-se imóvel à
mesa e leu o Novo Testamento. Depois de mais de um ano de
saturação da Bíblia, ele começou a estudar a história da religião
e obras de teologia. Durante os dois últimos anos, sua leitura
se expandiu, abrangendo vários assuntos além da teologia.
A segunda metade da história mostra a noite anterior ao
dia-limite, quando o advogado iria ganhar a aposta. O
banqueiro está agora no final de sua carreira. Suas especulações
arriscadas e impetuosidade tinham gradualmente arruinado o
seu negócio. O milionário autoconfiante de outrora era agora
um banqueiro medíocre e pagar a aposta o destruiria. Bravo
242 Silêncio e Solidão

por causa de sua tolice e com ciúmes do homem que logo seria
rico, e que tinha agora apenas quarenta anos, o velho banqueiro
determina matar seu oponente e incriminar o guarda pelo
assassinato. Sem ser notado, ele entra no quarto do homem,
encontra-o adormecido à mesa e percebe a carta que o advogado
havia escrito a ele. Ele a pega e lê o seguinte:

Amanhã ao meio-dia, estarei livre, ...mas antes de deixar este


quarto, ...considero necessário dizer-lhe algumas palavras. Com
a consciência limpa, e diante de Deus, que me vê, declaro que
desprezo a liberdade, a vida, a saúde e tudo o que os seus livros
chamam de alegria deste mundo. Por quinze anos, tenho estudado
atentamente a vida deste mundo. É verdade que eu nem vi a terra
nem as pessoas, mas em seus livros eu vivi. ...Cantei canções,
cacei o cervo e o porco-do-mato nas florestas. ...Em seus livros,
escalei o cume de Elburz e o Mont Blanc, e vi daquelas alturas o
sol nascer de manhã, e à noite irradiar seu fulgor sobre o céu, o
oceano e o topo das montanhas. Vi abaixo de mim os raios de luz
atravessarem as nuvens. Vi os campos verdes, as florestas, os rios,
lagos e cidades. Ouvi a canção das sirenes e a música dos tubos
de palheta do pastor. Senti o toque das asas de lindos [anjos] que
voaram até mim para falar sobre Deus. ...Seus livros me deram
sabedoria. Tudo o que foi realizado pelo cérebro incansável do
homem durante longos séculos está armazenado em meu cérebro
em uma pequena massa comprimida. ...Sei que sou mais sábio
do que todos vocês. ...E desprezo todos os seus livros, desprezo
todas as bênçãos e a sabedoria terrenas. Tudo é sem valor e falso,
vazio e enganoso como a miragem. Você pode ser orgulhoso, sábio
e bonito, mas a morte irá removê-lo da face da terra assim como
os ratos que moram abaixo de seu piso; e seus herdeiros, sua
história, seus gênios imortais congelarão ou queimarão com a
destruição da terra. Você enlouqueceu e não está seguindo o
caminho correto. Você toma falsidade por verdade, deformidade
por beleza. Para provar como desprezo tudo o que você valoriza,
renuncio aos dois milhões que uma vez vi como a abertura do
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 243

paraíso para mim, e que agora desdenho. Para me destituir do


direito de receber o dinheiro, deixo minha prisão cinco horas antes
do horário designado e, ao fazê-lo, infrinjo os termos de nosso
acordo.

O banqueiro leu aquelas linhas, colocou o papel de volta


na mesa, beijou o estranho adormecido e, com lágrimas nos
olhos, saiu silenciosamente da casa. Chekhov escreve: "Nunca,
nem mesmo depois de resistir a sérias perdas ou mudanças,
ele havia desprezado a si mesmo como fez naquele momento".
Suas lágrimas o mantiveram acordado durante o restante da
noite. E às sete horas da manhã seguinte, o vigia informou-lhe
que haviam visto o homem rastejar por uma janela, ir até o
portão e depois desaparecer.1
Não recomendo que nos isolemos dessa maneira e não
concordo com todas as conclusões do advogado, mas realmente
creio que Chekhov descreve um quarto em que todo cristão às
vezes sonha morar.
Há algo tanto apelativo quanto transformador no silêncio
e na solidão. Além de Jesus Cristo, talvez os maiores homens
sob as Alianças - Moisés e o Apóstolo Paulo - foram
transformados pelos anos de isolamento virtual em um deserto
remoto. E há momentos em nossas vidas de estresse e ansiedade
em que os anos de fuga para lugares escondidos parecem
desejosamente imperiosos ao espírito do cristão.
Quando pensamos com equilíbrio, percebemos que não
seria nem correto nem desejável ficarmos apartados de nossas
responsabilidades instituídas por Deus que envolvem outras
pessoas. A realidade bíblica nos chama a família, comunhão,
evangelismo e ministério por amor a Cristo e a Seu Reino.
Entretanto, por meio do Espírito Santo, "Abismo chama abismo"
(Salmo 42:7) de tal maneira que há uma parte de nosso espírito
244 Silêncio e Solidão

que roga por silêncio e solidão. Assim como devemos nos


envolver com outras pessoas para algumas das Disciplinas da
vida cristã, há épocas em que devemos nos retirar
temporariamente para nos inserir nas Disciplinas do silêncio e
da solidão. Neste capítulo exploraremos o que esta Disciplina
dupla é, encontrar razões bíblicas para a prática dela e concluir
com algumas sugestões sensatas para começar.

EXPLICAÇÃO DE SILÊNCIO E SOLIDÃO

A Disciplina do silêncio é a abstenção voluntária e


temporária de falar para que certos objetivos espirituais possam
ser buscados. Às vezes o silêncio é observado para ler, escrever,
orar e assim por diante. Embora não haja voz audível, há
diálogos internos consigo mesmo e com Deus. Isto pode ser
chamado "silêncio externo". Outras vezes o silêncio é mantido
não apenas por fora, mas também interiormente para que a
voz de Deus possa ser ouvida de forma mais clara.
A solidão é a Disciplina Espiritual de retirar-se voluntária
e temporariamente à privacidade com propósitos espirituais.
O período de solidão pode durar somente alguns minutos ou
dias. Assim com o silêncio, a solidão pode ser buscada a fim de
participar sem interrupção de outras Disciplinas Espirituais,
ou apenas para estar a sós com Deus.
Três pensamentos breves antes de prosseguirmos com
profundidade: Primeiro, pense no silêncio e na solidão como
Disciplinas complementares à comunhão. Sem silêncio e
solidão, somos superficiais. Sem comunhão, ficamos
estagnados. O equilíbrio precisa de tudo isso.
Segundo, o silêncio e a solidão são normalmente
encontrados juntos. Embora possam ser distinguidos, neste
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 245

capítulo pensaremos neles como um par.


Terceiro, reconheça que a cultura ocidental nos condiciona
a nos sentirmos bem em meio a barulho e multidões, não em
silêncio e solidão. Em seu livro Finding Focas in a Whirlwind
World (Tentando se Concentrar em um Mundo Tempestuoso),
Jean Fleming observou: "Vivemos em um mundo barulhento e
agitado. O silêncio e a solidão não são palavras do século XX.
Eles se encaixam melhor na era da renda vitoriana, sapatos de
cano alto com botões e lampiões de querosene do que na nossa
era de televisão, vídeo e pessoas que se exercitam com fones
de ouvido. Nós passamos a ter aversão à quietude e sentimos
desconforto quando estamos sós".2 Portanto, tome cuidado para
não deixar o mundo induzir você a preconceito contra o
testemunho bíblico quanto a esses assuntos. "Quem tem ouvidos,
ouça!" (Mateus 11:15).

RAZÕES VALIOSAS PARA BUCAR


O SILÊNCIO E A SOLIDÃO

Há muitas razões bíblicas para tornar prioridades as


Disciplinas do silêncio e da solidão.

Para Seguir o Exemplo de Jesus


As Escrituras ensinam que Jesus praticou o silêncio e a
solidão. Observe as quatro referências a seguir:
1.Mateus 4:1: "Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto,
para ser tentado pelo Diabo". O Espírito Santo levou Jesus àquele
prolongado período de jejum e solidão. No relato de Lucas desta
experiência, é interessante observar que o texto diz que Jesus
estava "cheio do Espírito Santo" (Lucas 4:1) quando Ele foi guiado
a esta Disciplina específica, mas que depois Ele voltou à Galiléia
246 Silêncio c Solidão

"no poder do Espírito" (Lucas 4:14).


2. Mateus 14:23: "Tendo despedido a multidão, subiu sozinho a
um monte para orar. Ao anoitecer, ele estava ali sozinho". Ele enviou
tanto as multidões que O buscavam quanto os Seus discípulos
embora para que pudesse ficar a sós com o Pai.
3. Marcos 1:35: "De madrugada, quando ainda estava escuro,
Jesus levantou-se, saiu de casa efoi para um lugar deserto, onde ficou
orando". Os versículos anteriores nos contam que depois de
anoitecer, "toda a cidade" se reuniu à porta da casa onde Jesus
estava hospedado. Ali Ele curou muitas pessoas e expulsou
demônios. Mas antes que fosse dia novamente, Ele foi passar
um tempo sozinho. Jesus sabia que se esperasse até as horas da
manhã, não teria mais tempo para ficar em silêncio e solidão.
4. Lucas 4:42: "Sendo dia, saiu e foi para um lugar deserto; as
multidões o procuravam, e foram até junto dele, e instavam para que
não os deixasse". Coloque-se no lugar de Jesus por um momento.
As pessoas estão clamando por sua ajuda e têm muitas
necessidades reais. Você pode suprir todas as elas. Você
conseguiria se sentir justificado em afastá-las para estar
sozinho? Jesus o fez. Nós amamos nos sentir queridos. Nós
amamos o senso de importância/poder/indispensabilidade
(escolha um) que resulta de fazermos algo que ninguém mais
consiga fazer. Mas Jesus não sucumbiu a tais tentações. Ele
conhecia a importância de Se disciplinar para estar sozinho.
Agora deve estar óbvio: Para ser como Jesus, devemos nos
disciplinar para achar tempos de silêncio e solidão. Depois
podemos encontrar força espiritual por meio dessas Disciplinas,
como Jesus fez. Dallas Willard discute o assunto quando diz:

Devemos reenfatizar, o "deserto" ou "arm ário" é o local primário


de força para o iniciante, como o foi para Cristo e para Paulo. Eles
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 247

nos mostram pelo exemplo que deram, o que devemos fazer. Em


completa solidão é possível ter silêncio, estar parado e saber que
Jeová realmente é Deus (Salmo 46:10), colocar o Senhor diante
de nossas mentes com intensidade e duração suficiente para que
fiquemos centrados Nele - nossos corações firmes, estabelecidos
em confiança (Sl. 112:7-8) - até quando voltar ao escritório, loja
ou lar.3

Para Ouvir Melhor a Voz de Deus


Uma das razões mais óbvias para nos afastarmos do barulho
terreno e das vozes humanas é ouvir a Voz do Céu melhor.
Exemplos bíblicos disso incluem a ida de Elias ao Monte
Horebe, onde ele ouviu a brisa suave da voz de Deus (1 Reis
19:11-13), Habacuque no posto de sentinela, aguardando para
ver o que o SENHOR iria dizer a ele (Habacuque 2:1) e a partida
do Apóstolo Paulo para a Arábia depois de sua conversão a fim
de poder estar a sós com Deus (Gálatas 1:17).
Evidentemente, não é absolutamente necessário ir para
longe dos barulhos e das pessoas a fim de ouvir Deus falar, de
outra forma, nunca perceberíamos seus chamados no curso da
vida diária, ou até em cultos de adoração onde há outras
pessoas. Mas há tempos de eliminar as vozes do mundo para
ouvir, sem distrações, a voz de Deus.
De acordo com Jonathan Edwards, este era o segredo da
piedade de Sarah, sua esposa. Em seu primeiro registro dela,
escrito enquanto sua futura esposa ainda era adolescente, ele
escreveu: "Ela quase não se preocupa com outra coisa, exceto
meditar Nele. ...Ela ama estar sozinha, andando pelos campos
e bosques, e parece que há alguém invisível sempre
conversando com ela".4 Sarah tinha "campos e bosques", mas
nós podemos fazer um passeio no parque, em volta do
quarteirão ou achar outro local para nossa solidão cotidiana.
248 Silêncio e Solidão

Seja onde for, precisamos encontrar um lugar para estarmos


sozinhos a fim de ouvir a voz Dele, cuja presença é invisível
porém mais real do que qualquer outra.
Muitos de nós precisamos perceber que somos viciados em
barulho. Uma coisa é ouvir televisão, toca-fitas ou rádio ao
passar roupa ou executar outra tarefa, mas é outra coisa ligar
habitualmente um desses aparelhos imediatamente ao entrar
em um cômodo só para ouvir algum som. Pior ainda é sentir
necessidade de ter som de fundo durante a absorção bíblica ou
oração. Creio que a conveniência do som tem contribuído para
a superficialidade espiritual do cristianismo ocidental
contemporâneo. O advento dos aparelhos de som acessíveis e
portáteis, por exemplo, tem sido uma bênção mista. O lado
negativo é que agora não temos que ir a lugar algum sem vozes
humanas. Como resultado, ficamos sozinhos com nossos
próprios pensamentos e com a voz de Deus com menos
freqüência. Por causa disso, e porque somos a geração mais
urbana e poluída sonoramente de todos os tempos, temos uma
necessidade sem precedente de aprender as Disciplinas do
silêncio e da solidão.

Para Expressar Adoração a Deus


A adoração a Deus nem sempre requer palavras, sons ou
ações. Às vezes a adoração consiste em quietude e silêncio
focados em Deus. Temos precedentes escriturísticos para isso
em textos como Habacuque 2:20: "O SENHOR, porém, está em
seu santo templo; diante delefique em silêncio toda a terra" e Sofonias
1:7: "Calem-se diante do Soberano, o SENHOR". Não é
simplesmente um silêncio imposto, mas um silêncio "diante
dele", "diante do Soberano". Este é o silêncio da adoração. Há
tempo de falar a Deus e há tempo de simplesmente contemplá-
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 249

Lo e adorá-Lo em silêncio.
Registrado nos diários de George Whitefield está um
incidente de adoração silenciosa que ele teve certa vez na
solidão de seu lar. Ele o escreveu na experiência "Deus Se
agradou de derramar em minha alma um grande espírito de
súplica, e um senso de Sua irrestrita e notável misericórdia me
encheu tanto de amor, humildade, alegria e santa confusão, que
pude por fim apenas derramar meu coração diante Dele em
um aterrador silêncio. Fiquei tão pleno, que não conseguia falar
direito".5
A adoração silenciosa a Deus pode ocorrer porque seu
coração, como o de Whitefield aqui, está tão pleno, que palavras
não podem expressar o seu amor por Ele. Outras vezes, você
pode sentir exatamente o oposto, estar tão impassível, que toda
palavra parece ser hipócrita. Independentemente do estado de
suas emoções, há sempre um lugar para a adoração sem
palavras.

Para Expressar Fé em Deus


O simples ato de fazer silêncio diante do Senhor, em
oposição a vir a Ele em um tormento verbal, pode ser uma
demonstração de fé Nele.
Por duas vezes no Salmo 62, Davi demonstra este tipo de
fé. Nos versículos 1-2, ele afirma: "Somente em Deus, ó minha
alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Só ele é a minha
rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei muito
abalado". Depois, nos versículos 5-6, ele diz novamente: "Somente
em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha
esperança. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto
refúgio; não serei jamais abalado".
Um dos versículos favoritos de muitos, Isaías 30:15, associa
250 Silêncio e Solidão

o silêncio diante de Deus com a fé Nele: "Porque assim diz o


Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes,
está a vossa salvação; na tranqüilidade e na confiança, a vossa força,
mas não o quisestes". A fé é muitas vezes expressada por meio
da oração. Mas às vezes ela é revelada pela não verbalização
de palavras diante do Senhor o que, por sua quieta ausência de
ansiedade, comunica confiança em Seu controle soberano.
Descobri uma ilustração verídica disto na vida de David
Brainerd, americano outrora missionário entre os índios. Seu
diário, no registro de quarta-feira, dia 28 de abril de 1742, diz:

Retirei-me para meu lugar habitual de isolamento em grande paz


e tranqüilidade; passei aproximadamente duas horas em deveres
secretos e me senti como ontem pela manhã, apenas mais fraco e
mais superado. Pareci depender completamente do meu querido
Senhor, in teiram en te d e sap eg ad o de to d as as o u tra s
dependências. Eu não sabia o que dizer a meu Deus, mas apenas
como se recostasse em Seu seio, exalei meus desejos de perfeita
conformidade com Ele em todas as coisas. Desejos sedentos e
anseios insaciáveis por perfeita santidade possuíram minha alma.
Deus foi tão precioso a minha alma, que o mundo com todos os
seus prazeres era infinitamente vil. Eu não tinha mais valor para
todo o favor dos homens do que seixos. O Senhor era meu TUDO;
e sentir que Ele controlava tudo grandemente me deleitou. Acho
que minha fé e dependência de Deus nunca devem ter se elevado
tanto. Eu O vi como tamanha fonte de bondade, que me pareceu
impossível duvidar Dele novamente ou ficar de algum modo
ansioso por algo que deva acontecer a mim.6

Talvez não sejamos capazes de nos expressar em um diário


tão bem quanto Brainerd, mas por meio de períodos de
eloqüentes silêncios, podemos expressar a nossa fé a Deus de
maneiras belas.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 251

Para Buscar a Salvação do Senhor


O período de silêncio e solidão com o fim de buscar a
salvação do Senhor tanto pode se aplicar à busca do não-cristão
pela salvação do pecado e da culpa em Cristo quanto à busca
do crente pela salvação de Deus para certas circunstâncias. As
palavras de Jeremias em Lamentações 3:25-28 são apropriadas
em qualquer dos casos: "Bom é o Senhor para os que esperam por
ele, para a alma que o busca. Bom é aguardar a salvação do SENHOR,
e isso, em silêncio. Bom é para o homem suportar o jugo na sua
mocidade. Assente-se solitário efique em silêncio; porquanto esse jugo
Deus pôs sobre ele".
Em um sermão sobre este texto, C. H. Spurgeon disse o
seguinte sobre este método de buscar a Deus:

Recomendo a solidão a qualquer que esteja buscando a salvação,


primeiro, para que possam estudar bem o caso à vista de Deus.
Poucos homens conhecem verdadeiramente a si mesmos como
são na realidade. A maioria das pessoas se olha no espelho, mas
há outro espelho, que emite reflexos verdadeiros, no qual poucos
homens olham. Estudar o próprio ser à luz da Palavra de Deus e
avaliando cuidadosamente a própria condição, examinando tanto
os pecados interiores quanto exteriores, e usando todos os testes
que nos são dados nas Escrituras, seria um exercício bastante
saudável; mas quão poucos cuidam em passar por ele!"7

Desde o tempo de Spurgeon, alguns têm aparentemente


vindo a crer que a única época em que uma pessoa irá
seriamente buscar a salvação é durante um hino após um
sermão quando houver o som de um órgão ou piano e uma
congregação que canta. Não devemos minimizar o valor do
silêncio diante de Deus para ajudar a evitar distrações quando
considerando o estado da alma. A solidão e o silêncio podem
252 Silêncio e Solidão

nos ajudar a lidar com as realidades de nosso pecado, da morte,


do juízo etc., temas que são freqüentemente desalojados de
nossa consciência pelos sons da vida diária. Precisamos
encorajar aqueles que buscam a ficar mais "a sós com Deus" e,
nas palavras de Spurgeon, a "estudar o próprio ser à luz da
Palavra de Deus".

Para ser Fisicamente e Espiritualmente Restaurado


Todas as pessoas têm uma necessidade habitual de restaurar
seus recursos, tanto internos quanto externos. Isto foi verdade
até para aqueles que viveram mais intimamente com Jesus.
Depois de se desgastarem durante vários dias, em produção
física e espiritual, observe o meio de reabastecimento que Jesus
prescreveu a Seus discípulos: "Vinde repousar um pouco, à parte,
num lugar deserto" (Marcos 6:31).
Todos nós precisamos de tempos para afrouxar o arco de
nossas tensões rotineiras e desfrutar a restauração que o silêncio
e a solidão podem prover a nosso corpo e alma.
Uma noite de outubro de 1982, ouvi uma notícia sobre a
vida e recente morte do pianista Glenn Gould. Ele foi descrito
como músico-milagre ao estourar no cenário musical quando
adolescente durante os anos 50. Fez turnês pelo mundo e
surpreendeu os ouvintes com suas habilidades. Mas em 1964,
ele parou de tocar em público. Depois disso, mesmo sendo um
dos maiores pianistas do mundo, Gould tocou apenas
privadamente e para gravação. E até suas sessões de gravação
eram feitas em total privacidade. Ele estava convencido de que
o isolamento era a única maneira de criar. Há uma característica
monástica na prática de Gould que não desejaríamos imitar
completamente. Contudo, não menospreze as qualidades física
e espiritualmente re-criativas do silêncio e da solidão que são
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 253

profundamente terapêuticas.

Para Recobrar Perspectiva Espiritual


Não há melhor maneira de recuar e obter uma perspectiva
mais equilibrada, menos mundana, em relação às coisas do que
por meio das Disciplinas do silêncio e da solidão.
Quando Zacarias ficou sabendo, pelo anjo Gabriel, que ele
e sua esposa idosa teriam um filho de forma milagrosa, ele
duvidou. Em resposta, Gabriel disse: "Todavia, ficarás mudo e
não poderás falar até ao dia em que estas coisas venham a realizar-se"
(Lucas 1:20). E o que aconteceu com a perspectiva de Zacarias a
respeito dessas coisas durante o período de silêncio forçado?
Quando o bebê nasceu, Lucas 1:63-64 diz: "Então, pedindo ele
uma tabuinha, escreveu: João é o seu nome. E todos se admiraram.
Imediatamente, a boca se lhe abriu, e, desimpedida língua, falava
louvando a Deus". Uma ilustração negativa, talvez, mas que
mostra o quanto fechar a boca pode ajudar a abrir a mente.
Um dos eventos mais conhecidos e transformadores da vida
de Billy Graham aconteceu em agosto de 1949, imediatamente
antes da cruzada de Los Angeles que o colocou em
proeminência nacional. Muitos que não estavam por perto
naquela época podem não saber que por um curto período de
tempo o título extra-oficial do evangelista mais proeminente
da América do Norte incidiu sobre um homem chamado Chuck
Templeton. Contudo, à época, Templeton estava sendo
influenciado por homens que duvidavam da inspiração das
Escrituras, e isso eventualmente o levou a negar completamente
a fé. Ele começou a compartilhar com Graham os livros e idéias
que o estavam moldando. E apenas uns dias antes de Graham
ir para a Califórnia, Templeton disse a ele que ao continuar a
crer na Bíblia, o jovem evangelista estava cometendo suicídio
254 Silêncio e Solidão

intelectual.
Ao falar em uma conferência de jovens nas Montanhas San
Bemardino, Graham sabia que tinha que obter a perspectiva
de Deus sobre o assunto, e ele a encontrou por meio da solidão.
Eis como ele descreve aquela noite: "Voltei sozinho para o chalé
e li a Bíblia por um tempo; depois decidi andar pela floresta".
Ali, ele lembrou que frases como "a Palavra do Senhor veio" e
"assim diz o Senhor" foram usadas mais de duas mil vezes nas
Escrituras. Ele meditou na atitude de Cristo, que cumpriu a lei
e os profetas, que os citou constantemente, nunca indicando
que eles pudessem estar errados. Ao andar, disse: "Senhor, o
que devo fazer? Qual será a direção de minha vida?" Ele viu
que somente o intelecto não poderia resolver o problema da
inspiração e da autoridade da Bíblia. Mais do que isso, o assunto
se tomou definitivamente uma questão de fé. Ele pensou na fé
que tinha em muitas coisas corriqueiras que não entendia, como
aviões e carros, e perguntou a si mesmo por que tal fé era
considerada errada apenas nas coisas do Espírito. "Então, voltei
e peguei minha Bíblia", ele continua, "e saí à luz do luar. Peguei
um toco e coloquei a Bíblia sobre ele, ajoelhei e disse: 'Ó Deus,
não posso provar certas coisas. Não sou capaz de responder
algumas das perguntas que Chuck está levantando, mas aceito
este Livro pela fé como a Palavra de Deus7". 8 E por meio
daquele tempo de solidão e da perspectiva espiritual que ele
ganhou aquela noite, Billy Graham se tornou o homem que o
mundo tem conhecido desde então.
A experiência de Graham demonstra o que John Owen,
prolífico teólogo puritano, disse sobre a nossa solidão: "O que
somos nela é o que somos na verdade, nada mais. Ela é ou o
melhor ou o pior de nossos períodos de tempo, na qual o
princípio que predomina em nós se mostrará e agirá".9
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 255

Para Buscar a Vontade de Deus


Talvez uma das razões mais comuns porque os crentes têm
um período de silêncio e solidão com Deus, ao menos
ocasionalmente, seja o discernimento da Sua vontade sobre um
determinado assunto. Jesus fez isso em Lucas 6:12-13 ao decidir
quem escolheria como discípulos que viajariam com Ele:
"Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a
noite orando a Deus. E, quando amanheceu, chamou a si os seus
discípulos e escolheu doze entre eles, aos quais deu também o nome de
apóstolos".
O cristianismo está repleto de memoráveis histórias de
homens e mulheres que se apartaram de todas as outras pessoas
a fim de buscar a vontade Dele, que é Quem mais importa.
Uma das histórias favoritas envolve Hudson Taylor, um jovem
e exausto missionário na China. Em 1865, de volta à Inglaterra
para descansar e continuar alguns estudos de medicina, ele
lutou com uma decisão. Ele sentia que Deus poderia estar
dirigindo-o a iniciar uma nova obra missionária que ninguém
mais estava fazendo - levar o Evangelho aos vastos milhões de
inalcançados do interior da China. Por décadas, quase todos os
missionários trabalharam apenas nas cidades da costa,
raramente indo para o interior. Mas Taylor temia liderar
tamanho empreendimento, sabendo que a responsabilidade de
alistar missionários, bem como de buscar e manter seu sustento
financeiro, pesaria sobre os seus ombros.
Naquele quieto domingo de verão, dia 25 de junho, Hudson
Taylor não pôde mais suportar a incerteza. Desgastado e doente,
ele havia ido descansar com amigos em Brighton. Mas em vez
de desfrutar a companhia deles, ele sabia que precisava ficar
em silêncio e solidão, e saiu a vaguear pelas areias deixadas
pelo recuo da maré. Embora a cena fosse pacífica, ele estava
256 Silêncio e Solidão

em agonia. Uma decisão tinha que ser tomada. Ele tinha que
saber qual era a vontade de Deus. Enquanto andava, o
pensamento veio:

"Ora, se estamos obedecendo ao Senhor, a responsabilidade é


Dele, não n ossa! Tu, Senhor, Tu hás de a ssu m ir tod a a
responsabilidade! Por Tua ordem, como Teu servo eu vou adiante,
deixando os resultados Contigo". "Com o voltei tranqüilo das
areias", disse, relembrando a libertação daquela hora. "O conflito
terminou, tudo era alegria e paz. Senti como se pudesse voar até
a colina da casa do Sr. Pearse. E como dormi aquela noite". Minha
esposa querida pensou que Brighton tinha feito maravilhas por
mim, e tinha m esm o".10

E assim, no ponto crítico da busca da Sua vontade por meio


do silêncio e da solidão, Deus abriu a porta para as Missões no
Interior da China. Aquele mesmo trabalho continua a ser usado
por Deus e se transformou na Sociedade Missionária Oriental
(OMF - Overseas Missionary Fellowship), um dos maiores
esforços missionários do mundo.
Deus muitas vezes torna a Sua vontade clara a nós em
público, mas há vezes em que Ele a revela somente em
particular. Descobri-la requer as Disciplinas do silêncio e da
solidão.

Para Aprender a Controlar a Língua


Aprender a manter-se em silêncio por períodos longos de
tempo pode nos ajudar a controlar nossa língua o tempo todo.
Não há dúvida de que aprender a controlar a língua seja
crucial para a semelhança com Cristo. A Bíblia diz que a religião
da pessoa que não controla a língua é sem valor (Tiago 1:26).
Provérbios 17:27-28 relata as qualidades para semelhança com
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 257

Cristo do conhecimento, do entendimento, da sabedoria e do


discernimento piedosos para o poder de deter as palavras:
"Quem retém as palavras possui o conhecimento, e o sereno de espírito
é homem de inteligência. Até o estulto, quando se cala, é tido por
sábio, e o que cerra os lábios, por sábio".
Há precedente na Velha Aliança para períodos
disciplinados de silêncio solitário em Eclesiastes 3:7, que diz
que há "tempo de calar e tempo de falar". Aprender a Disciplina
do primeiro pode ajudar você a desenvolver controle do último,
pois aquele que não sabe como ou quando ficar em silêncio
não sabe como ou quando falar.
No Novo Testamento, Tiago 1:19 também indica uma
relação entre aprender a fazer silêncio e aprender a controlar a
língua: "Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois,
seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar".
Como podem as Disciplinas do silêncio e da solidão ensinar
controle da língua? Em um jejum longo você descobre que, na
verdade, boa parte da comida que normalmente ingere é
desnecessária. Quando pratica o silêncio e a solidão, você
descobre que não precisa falar muitas das coisas que acha que
tem que dizer. Em silêncio aprendemos a confiar mais no
controle de Deus em situações onde normalmente nos
sentiríamos compelidos a falar, ou a falar demais. Descobrimos
que Ele é capaz de conduzir as situações em que uma vez
consideramos que nossa intervenção fosse indispensável. As
habilidades de observação e audição também são aguçadas
naqueles que praticam o silêncio e a solidão para que quando
eles realmente falarem, haja mais novidade e profundidade em
suas palavras.
Em uma passagem final das Escrituras, Tiago 3:2,
encontramos o ensino: "Todos tropeçamos de muitas maneiras. Se
258 Silêncio e Solidão

alguém não tropeça nofalar; tal homem é perfeito, sendo também capaz
de dominar todo o seu corpo". A prática da Disciplina do silêncio
leva à semelhança com Cristo porque ela ajuda a desenvolver
o controle da língua. E aqui vemos que o controle da língua
também promove um controle semelhante a Cristo do "todo o
corpo". Por causa deste potencial impacto em todas as áreas da
vida, não surpreende que Dallas Willard se refira ao silêncio e
à solidão como "as mais radicais das disciplinas para a vida no
espírito".11
Uma razão por que a disciplina dupla do silêncio e da
solidão pode ser tão completamente transformadora é que ela
pode nos ajudar com as outras Disciplinas Espirituais.
Normalmente ela deve ser uma parte, por exemplo, da absorção
bíblica e da oração individual. Ela é um componente necessário
da adoração privada. Em silêncio e solidão, podemos maximizar
o tempo para Disciplinas como aprender e tomar notas. É
comum praticar o jejum durante os tempos de silêncio e solidão.
Mas mais do que qualquer outra coisa, as Disciplinas do silêncio
e da solidão podem ser muito transfiguradoras porque
fornecem tempo para pensar sobre a vida e para ouvir a Deus.
O fato é que a maioria de nós não as pratica o suficiente.
Gerações atrás, a maioria de nossos antepassados passava os
dias trabalhando nos campos e no lar, onde os únicos outros
sons eram os da natureza ou das vozes humanas. Sem mídia
eletrônica havia poucas distrações da voz da consciência e da
suave e baixa voz de Deus. A intenção não é tomar glamorosos
os supostos "bons tempos" (uma prática pecaminosa; veja
Eclesiastes 7:10) ou sugerir que tentemos voltar a eles. Estou
simplesmente reafirmando o que dissemos desde o começo
deste capítulo: Um dos custos do avanço tecnológico é o
aumento da tentação de se evitar a quietude. Embora tenhamos
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 259

muito mais acesso a notícias e a informações de todos os tipos,


essas vantagens podem comprometer a profundidade de nossa
espiritualidade se não praticarmos o silêncio e a solidão.
Lembre-se de que o grande propósito de nos envolvermos
nestas Disciplinas é alcançarmos a Piedade, que possamos ser
como Jesus, que possamos ser mais santos. Em The Still Hour
(Hora Silenciosa), Austin Phelps escreve:

Já tem sido dito que nunca nenhuma obra literária ou científica


foi escrita por alguém que não am asse a solidão. Podem os
estabelecer como princípio elementar da religião que nenhum
grande crescimento em santidade foi jamais obtido por alguém
que não reservasse tempo para estar, muitas vezes durante um
longo período, sozinho com Dens.u

' SUGESTÕES PARA A PRÁTICA DO


SILÊNCIO E DA SOLIDÃO

Algumas pessoas gostam das Disciplinas do silêncio e da


solidão assim como gostam de ler e de assistir a alguma grande
aventura. Em vez de desenvolver tais práticas para si mesmas,
envolvem-se apenas de modo indireto e as admiram à distância.
Elas sonham com estas Disciplinas, mas não as praticam. A
seguir, veja algumas sugestões práticas para tornar o silêncio e
a solidão mais reais e habituais.

"Minutos de Retiro"
Uma estação de rádio cristã da região onde moro tem um
spot de trinta segundos que enfatiza os benefícios do silêncio.
Depois, são feitos dez segundos de silêncio para mostrar o que
se pretende. Por mais que isso soe simples, o impacto daquele
momento silencioso inesperado é extraordinário.
260 Silêncio e Solidão

É possível ter o mesmo tipo de refrigério de quando em


quando, ao longo de todo o seu dia. Os momentos de parada
no semáforo, no elevador ou na fila do banco podem se
transformar em "minutos de retiro" quando você os consagra
como tempo de silêncio e solidão. Use o tempo de oração na
refeição para uma pausa espiritual. Ao telefone, veja quão
quietos os seus pensamentos podem ficar enquanto "esperam".
Não posso dar sugestões para as circunstâncias de todas as
pessoas. Mas posso encorajar você a encontrar maneiras de
converter a rotina em algo santo, de descobrir aqueles "minutos
de retiro" que podem pontuar e investir de poder até os dias
mais agitados.
Evidentemente, a chave não é simplesmente tomar fôlego
e acalmar, por mais importante que isto seja. A idéia que estou
defendendo é olhar para Cristo e ouvir o Seu Espírito. É praticar
o que cantamos no hino: "Tome meus momentos e meus dias, e
que eles fluam em louvor incessante" (ênfase do autor).
Aproveite estas oportunidades inesperadas dadas a você e
concentre-se Nele e na vida no Espírito. Mesmo que você tenha
apenas uns poucos segundos, mesmo que o local não seja
absolutamente quieto ou completamente solitário, desfrute a
restauração encontrada na presença consciente de Jesus Cristo.

Estabelecer Períodos de Silêncio e Solidão Diários


Sem exceção, os homens e mulheres que conheço que
tiveram o crescimento em semelhança com Cristo mais rápido,
consistente e evidente são aqueles que reservam um período
diário para estar a sós com Deus. Este tempo de silêncio exterior
é o tempo de absorção bíblica e oração diárias. Nesta solidão
reside a oportunidade para a adoração privada.
Não é fácil desenvolver este hábito do devocional diário
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 261

porque levamos vidas agitadas e temos um Inimigo consciente


dos prêmios envolvidos. O mártir missionário Jim Elliot
conhecia a batalha: "Acho que o diabo assumiu a tarefa de
monopolizar três elementos: barulho, pressa, multidões.
...Satanás está bastante ciente do poder do silêncio".13 Nossos
dias normalmente são repletos de barulho mais do que
suficiente, de muita pressa e de pessoas fazendo exigências. A
menos que planejemos períodos diários de silêncio solitário
diante de Deus, essas outras coisas virão rapidamente
preencher o nosso tempo como água no Titanic.
Estes períodos diários são a alma das Disciplinas do silêncio
e da solidão. Quem pratica o silêncio e a solidão bem numa
base diária tem maior probabilidade de disciplinar a si mesmo
para desfrutá-los ocasionalmente nos "minutos de retiro", no
Dia do Senhor e em períodos longos. A pessoa que raramente
faz exercícios físicos tem problemas tanto com um breve subir
de escadas quanto com uma corrida de um quilômetro e meio.
Aquela que faz caminhadas em ritmo acelerado todos os dias
não tem dificuldade com nenhuma das atividades. Da mesma
forma, a pessoa que tem um período de exercícios espirituais
diários é aquela que mais desfruta tanto os "minutos de retiro"
quanto os períodos longos de silêncio e solidão.

Retirar-se para ficar em Solidão e Silêncio


"Retirar-se" a fim de ficar em silêncio e solidão por um
período prolongado pode ser nada mais do que passar uma
tarde, noite ou um sábado em alguma sala vazia de sua igreja.
Ou pode envolver passar uma noite ou fim de semana em um
acampamento, pousada ou chalé.
Para alguns lugares, talvez você não deseje levar nada além
da Bíblia e um caderno. Em outros, você pode querer devorar
262 Silêncio e Solidão

um livro que acredite que irá ter um impacto dramático em


sua vida. Tais retiros são uma boa oportunidade para planejar
e avaliar seus objetivos.
Se você nunca passou toda a noite, metade do dia ou mais
tempo em silêncio e solidão, pode estar se perguntando o que
faria com todo esse tempo. Eu o aconselharia a fazer uma
programação com antecedência, ou logo que chegar ao local,
porque você vai ficar surpreso com a rapidez com que o tempo
passará. Não se sinta obrigado a aderir servilmente à sua
programação. Mesmo que não seja um evento com pernoite,
durma se precisar. Mas um plano pode ajudar você a usar o
tempo com os propósitos pretendidos em vez de desperdiçá-lo
inadvertidamente.
Embora essas escapadas para pernoitar em locais distantes
sejam maravilhosas, não espere até poder ir como Elias ao
Monte Horebe por quarenta dias antes de começar a praticar o
silêncio e a solidão. Lembre-se de que, falando em termos gerais,
todas as Disciplinas Espirituais, inclusive estas duas, devem
ter sua prática comum no lugar onde vivemos nossas vidas
diárias.

Lugares Especiais
Localize lugares especiais onde você possa estar em silêncio
e solidão. Encontre-os dentro ou perto de sua casa ou a poucos
minutos de carro. Busque também aqueles que podem ser
usados para retiros de dois ou mais dias.
O pregador profético galês Howell Harris, amigo de George
Whitefield, tinha um lugar especial para ficar em silêncio e
solidão no prédio de uma igreja. Escrevendo sobre o período
anterior ao ministério evangelístico Welshman, o biógrafo de
Whitefield, Amold Dallimore, disse:
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 263

Naqueles dias, o conhecimento de Harris sobre as coisas divinas


era pequeno. Ele sabia simplesmente que amava ao Senhor e que
queria am á-Lo mais, e em sua busca, ele procurou lugares
silenciosos onde pudesse ficar isolado com Ele em oração. Um
de seus retiros favoritos era a igreja de Llangasty, uma vila em
que ele lecionava na época, e da qual em uma ocasião, pouco
tempo depois de sua conversão, ele escalou a torre para estar mais
a sós com o Senhor. Ali, ao perm anecer em intercessão por
algum as horas, ele experim entou um senso arreb atad or da
presença e do poder de Deus. Aquela solitária torre da igreja
tornou-se para ele um santo dos santos, e depois ele escreveu:
"De repente senti meu coração derretendo dentro de mim, como
cera diante do fogo, de amor a Deus meu Salvador; e também
senti, não apenas amor e paz, mas um desejo de ser dissolvido
com Cristo. Havia um clamor no mais íntimo de minha alma, o
qual eu desconhecia totalmente, 'Aba, Pai!' ...Soube que eu era
Seu filho, e que Ele me am ava e ouvia. Minha alm a sendo
preenchida e saciada, gritou: 'Chega! Estou satisfeita! Dê-me força
e seguirei a Ti por fogo e ág u a'".14

Jonathan Edwards encontrou solidão em um campo aberto.


Ao viajar pelo rio Connecticut ele registrou: "Em Saybrook,
desembarcamos no sábado para nos hospedar em algum lugar
e guardamos o sabá; ali tive um tempo doce e de refrigério,
andando sozinho pelos campos".15 O mais comum era ele se
retirar na mata para ficar em silêncio e solidão com Deus:
"Cavalguei até a mata por minha saúde, ...tendo desmontado
de meu cavalo em um lugar retirado, como havia sido meu
hábito comum, para andar em contemplação divina e oração".16
Talvez você não more perto de campos ou matas, mas talvez
haja um parque não muito distante que poderia fornecer um
lugar para andar e pensar e orar com poucas distrações. Um
farmacêutico de minha igreja, que tem quatro filhos pequenos,
264 Silêncio e Solidão

freqüentemente pára num parque a duas quadras de onde mora


para ficar uns minutos em silêncio e solidão antes de ir para
casa à noite. Meu lugar favorito é o Jardim Botânico Morton,
perto de minha casa.
Dawson Trotman rotineiramente ia até um outeiro no final
de sua rua. "Aqui ele passou preciosas horas sozinho, orando
em voz alta, cantando louvores ao Senhor, citando versículos
de promessas e desafio que inundavam sua mente - ora lutando
em oração urgente, ora percorrendo a encosta em silêncio".17
Um de meus melhores amigos pega os cartões index com os
seus motivos de oração e anda vários quarteirões por seu bairro
enquanto derrama silenciosamente seu coração diante de Deus.
Susanna Wesley, mãe de John e Charles, tinha uma família
muito grande e por muitos anos, os períodos de isolamento
físico foram escassos. É fato conhecido que quando precisava
ficar em silêncio e solidão, ela cobria a cabeça com o avental e
lia a Bíblia e orava debaixo dele. Obviamente isso não bloqueava
todo o barulho, mas servia como sinal para seus filhos de que
durante aqueles minutos ela não deveria ser incomodada e os
mais velhos deveriam cuidar dos mais novos.
Assim como o de Susanna Wesley, talvez o seu lugar não
seja ideal e tenha que mudar de tempos em tempos, mas é
possível identificar um cantinho singular para você buscar a
Piedade por meio do silêncio e da solidão. Onde fica o seu lugar
especial?

"Negocie" as Responsabilidades Diárias


Planeje um sistema de "negociação" de responsabilidades
diárias com seu cônjuge, ou com um amigo quando necessário,
a fim de ter liberdade para passar períodos mais longos em
silêncio e solidão.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 265

Sua reação inicial à sugestão de períodos mais longos nestas


Disciplinas pode ter sido: "Você não sabe qual é a minha
situação! Tenho uma família para alimentar e cuidar. Não posso
simplesmente deixá-los e sair sozinha por horas de uma só vez".
A maioria das pessoas, incluindo aquelas que praticam o
silêncio e a solidão, têm obrigações semelhantes que não podem
ser negligenciadas. O método mais prático e barato de superar
este problema é pedir a seu cônjuge ou amigo que
temporariamente assuma as suas responsabilidades para
permitir que você fique um tempo sozinho. Depois, retribua o
favor provendo o mesmo ou outro serviço. As mães de filhos
pequenos me disseram que este é o melhor e mais viável meio
que encontraram para ter mais tempo para estas Disciplinas.
Uma palavra de advertência: Pode ser especialmente difícil
encarar a realidade quando você voltar para casa. Uma mãe de
cinco filhos me contou que amortece o choque preparando uma
refeição com antecedência para o microondas ou em fogo baixo.
Se as coisas pela casa estão em desordem ao retornar, ela pode
fazer seus ajustes sem ter que se preocupar imediatamente com
a comida. Por mais difícil que seja voltar para casa às vezes, os
rigores da realidade só provam o quanto precisamos do
refrigério do silêncio e da solidão.

MAIS APLICAÇÃO

Você irá procurar ter períodos diários de silêncio e solidão?


Quando o templo de Salomão foi erigido, "não se ouviu no templo
nenhum barulho de martelo, nem de talhadeira, nem de qualquer outra
ferramenta de ferro durante a sua construção" (1 Reis 6:7). De
maneira semelhante, nosso templo pessoal do Espírito Santo
(1 Coríntios 6:19) precisa ser construído com interlúdios de
266 Silêncio e Solidão

silêncio e solidão. Programe um retiro para todos os dias.


Quanto mais ocupado você é e mais agitado o seu mundo fica,
maior se torna a necessidade de planejar períodos diários de
silêncio e solidão.
A. W. Tozer expandiu essa idéia, dizendo:

Retire-se do mundo a cada dia para algum local privado, mesmo


que seja somente o quarto (por algum tempo eu me retirei para a
sala da fornalha por não haver lugar melhor). Fique no lugar
se cre to até que os ru íd os circu n d an tes com ecem a ficar
gradualmente inaudíveis a seu coração e a sensação de presença
de Deus o envolva. ...Ouça a Voz interior até aprender a reconhecê-
la. Pare de tentar competir com os outros. Entregue-se a Deus e
depois seja aquilo que você é e quem você é sem se importar com
o que outros pensam. ...Aprenda a orar interiormente a todo
mom ento. Depois de um tempo, você poderá fazer isso até
enquanto trabalha. ...Leia menos, mas mais do que é importante
para a sua vida interior. Nunca deixe sua mente permanecer
dispersa por muito tempo. Alinhe os seus pensamentos errantes.
Contem ple a Cristo com os olhos de sua alm a. Pratique a
concentração espiritual. Tudo isso depende de uma relação correta
com Deus por meio de Cristo e da meditação diária nas Escrituras.
Na falta destes, nada irá nos ajudar; na presença destes, a
disciplina recomendada fará muito para neutralizar os efeitos
nocivos do externalismo e para tomar-nos conhecedores de Deus
e de nossa própria alm a.18

Assim como o sono e o descanso diários são necessários ao


corpo, a cada dia o silêncio e a solidão são necessários à alma.
Estas disciplinas têm uma forma de arejar a mente e alisar as
rugas da alma. Planeje estar em quietude para encontrar a Deus
em Sua Palavra e por meio da oração.
Você procurará ter períodos longos de silêncio e solidão?
Planeje-os. Coloque-os no calendário. A rotina e as
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 267

responsabilidades da vida diária se expandirão até preencher


todo o seu tempo e o impedirão de prolongar seus períodos a
sós com Deus a menos que você aja decisivamente.
Você pode precisar de mais tempo para esclarecer suas
dúvidas ou restabelecer suas âncoras espirituais. Foi o que o
recente Francis Schaeffer fez durante o período crítico de
silêncio e solidão em 1951. Ele passou por uma crise sobre a
realidade que tinha duas partes. Ele descreveu seu conflito da
seguinte maneira:

Prim eiro, pareceu a mim que dentre m uitos daqueles que


defendiam a posição ortodoxa, que se viu pouca realidade nas
coisas que a Bíblia tão claramente dizia que deveria ser resultado
do cristianismo. Segundo, ficou gradualmente mais evidente para
mim que minha própria realidade era menos do que havia sido
nos primeiros dias após eu ter me tornado cristão. Reconheci em
honestidade que tinha que voltar e repensar toda a minha
posição.19

Esta crise foi suficientemente importante para justificar


longos períodos de silêncio e solidão. Sobre este período de
dias e dias, ele disse: "Eu andava pelas montanhas enquanto
estava claro e quando chovia eu caminhava para frente e para
trás no celeiro de feno do velho chalé onde morávamos. Andei,
orei e refleti no que as Escrituras ensinam, e também revi as
minhas próprias razões para ser cristão".20 Gradualmente ele
começou a ver que seu problema era falta de entendimento do
que a Bíblia diz sobre o significado da obra consumada de Cristo
em nossas vidas atuais. E pouco a pouco, Schaeffer disse, o som
apareceu novamente e a canção voltou. Aqueles dias de silêncio
e solidão foram decisivos para a sua vida e para a fundação
sobre a qual foi edificado o restante de seu ministério singular,
268 Silêncio e Solidão

hoje famoso, em L'Abri, Suíça.


Talvez você precise ficar a sós com Deus para lidar com
algumas dúvidas e indagações. É possível que você esteja
passando por uma crise de fé e precise de tempo para oração,
reflexão profunda e bastante sondagem da alma. Há muito em
risco para se negligenciar o assunto ou para se lidar com ele
superficialmente. Se houvesse uma situação de emergência com
seu corpo, você gastaria o tempo que fosse necessário para lidar
com ele. Não faça nada menos por uma emergência da alma.
Mas não pense nos períodos longos de silêncio e solidão
como temporadas de retiro somente para lidar com dúvidas
ou para cuidado espiritual urgente. A biografia do primeiro
missionário da América, Adoniram Judson, conta a seguinte
história:

Uma vez, quando estava esgotado de traduções e realmente


precisava descansar, ele foi pelas colinas até a densa mata, muito
além de toda habitação humana. ...Àquele local ele levou a Bíblia
e sentou-se sob as árvores da mata selvagem para 1er, meditar e
orar e à noite voltou ao seu "eremitério" [uma casa de bambu
que ele havia construído às margens da floresta].21

Judson passou quarenta dias incríveis como aquele na


perigosa mata de Burma. Mas sobre seu estilo de vida, contam-
nos: "Ele só o adotou por um tempo". Por que ele interromperia
a sua rotina para viver um período prolongado de silêncio e
solidão? Seu biógrafo revela que aquele foi "um meio de
aprimoramento moral pelo qual a totalidade de sua vida futura
pudesse ser traduzida em maior harmonia com o exemplo
perfeito do Salvador a quem ele adorava".22 Judson se envolveu
naquele longo período de silêncio e solidão com propósitos de
descanso, utilidade de sua vida no futuro e "com o propósito
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 269

de alcançar a piedade". Você não deveria procurar fazer o


mesmo (ainda que ache que quarenta horas possam parecer
mais realísticas do que quarenta dias)?
Você com eçará agora? O período de silêncio e solidão
raramente será fácil de talhar de sua agenda. O mundo, a carne
e o Inimigo de nossa alma se encarregarão disso. Mas se você
se disciplinar para fazê-lo, seu único arrependimento será não
ter começado antes.
Não espere que todo tempo de silêncio e solidão tenha o
mesmo efeito sobre sua vida que alguns que foram citados aqui,
da história cristã. Nem sempre há resultados dramáticos ou
emoções intensas envolvidos. Na maior parte das vezes, eles
são emocionalmente simples e serenos. Contudo, assim como
acontece com todas as Disciplinas Espirituais, o silêncio e a
solidão são proveitosos mesmo que às vezes você conclua que
foram "normais". Por que não começar essas Disciplinas
revigorantes agora?
Estas palavras de Jonathan Edwards são um lembrete
conclusivo oportuno:

Alguns são grandemente afetados quando em companhia; mas


não experimentam nada que sequer se assemelhe a isso quando
em secreto, em íntima meditação, oração e conversa com Deus
quando sós, e separados do mundo. Um cristão verdadeiro sem
dúvida tem prazer na comunhão religiosa e em conversas cristãs,
e encontra muito que afete seu coração nela; mas às vezes ele
também tem prazer em períodos de retiro de toda a humanidade,
para co n v ersar com Deus em solidão. E isto tam bém tem
vantagens peculiares para prender seu coração e envolver suas
afeições. A verdadeira religião dispõe as pessoas a estarem muito
mais sozinhas em locais solitários para santa meditação e oração.
...E a natureza da verdadeira graça; conquanto se deleite na
comunidade cristã, onde quer que esteja, se alegrar de maneira
270 Silêncio e Solidão

particular, em retirar-se para conversar com Deus em segredo.23

Você irá se comprometer com as Disciplinas do silêncio e


da solidão? Se já experimentou a graça salvadora de Deus, então
o silêncio e a solidão serão, nas palavras de Edwards, um
"prazer", uma fonte fiel de refrigério, alegria e transformação.
Se eu os tivesse, eu poderia apostar dois milhões de rublos
que sim.

1 Anton Chekhov, "The Bet" ("A Aposta"), em Introduction to Literature (Introdução


à Literatura) (Nova Iorque: Rinehart and Company, 1948), vol. 2, páginas 474-480.
2 Jean Fleming, Findind Focus in a Whirlwind World (Tentando se Concentrar em um
Mundo Tempestuoso) (Dallas: Roper Press, 1991), página 73.
3 Dallas Willard, The Spirit of the Disciplines (O Espírito das Disciplinas) (São
Francisco, CA: Harper and Row, 1988), página 161.
4 Iain Murray, Jonathan Edwards: A Neiv Biography (Jonathan Edwards: Uma Nova
Biografia) (Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth Trust, 1987), página 92.
5 George Whitefield conforme citação de seus Diários, em Arnold Dallimore, George
Whitefield: The Life and Times of the Great Evangelist of the Eighteen-Century Revival
(George Whitefield: A Vida e a Época do Grande Evangelista do Reavivamento do
Século XVIII) (Westchester, IL: Cornerstone Books, 1979), página 194.
6 Jonathan Edwards, ed., The Life and Diary of David Brainerd (A Vida e o Diário de
David Brainerd), edição revisada ed. por Philip E. Howard, Jr. (Chicago: Moody
Press, 1949), páginas 83-84.
7 C. H. Spurgeon, "Solitude, Silence, Submission" ("Solidão, Silêncio e Submissão"),
em Metropolitan Tabernacle Pulpit (Púlpito do Tabernáculo Metropolitano) (Londres:
Passmore and Alabaster, 1896; reimpressão, Pasadena, TX: Pilgrim Publications,
1976), vol. 42, página 266.
8 John Pollack, Billy Graham: The Authorized Biography (Billy Graham: A Biografia
Autorizada) (Londres: Hodder and Stoughton, 1966), página 80-81.
9 John Owen, The Works of John Owen (As Obras de John Owen) (Londres: Johnstone
and Hunter, 1850-1853; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth
Trust, 1965), vol. 5, página 455.
Com o Propósito cie Alcançar a Piedade 271

10 Dr. and Mrs Howard Taylor, Hudson Taylor and the China Inland Mission: The Growth
of a Work of God (Hudson Taylor e as Missões no Interior da China: O Crescimento
de uma Obra de Deus) (Singapura: China Inland Mission, 1918; ed especial de
aniversário, Singapura: Overseas Missionary Fellowship, 1988), páginas 31-32.
11 Willard, página 101.
12Austin Phelps, The Still Hour or Communion with God (Hora Silenciosa ou Comunhão
com Deus) (1859; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth Trust,
1974), página 64.
IJ John Blanchard, comp., More Gathered Gold (Juntando M ais O uro) (Welwyn,
Hertfordshire, Inglaterra: Evangelical Press, 1986), página 295.
14 Dallimore, página 239.
15 Murray, página 53.
16 Murray, página 100.
17 Betty Lee Skinner, Daws: The Story of Dawson Trotman, Founder of the Navigators
(Daws: A História de Dawson Trotman, Fundador de Os Navegantes) (Grand
Rapids, MI, Zondervan, 1974), página 257.
,HWarren Wiersbe, comp., The Best of A. W. Tozer (O Melhor de A. W. Tozer) (Grand
Rapids, MI: Baker Book House, 1978), páginas 151-152.
19 Francis Schaeffer, True Spirituality (A Verdadeira Espiritualidade) (Wheaton, IL:
Tyndale House Publishers, 1971), página ix.
2,1 Schaeffer, página ix.
21 Francis Wayland, A Memoir of the Life and Labors of the Rev. Adoniram Judson (Registro
da Vida e Obra do Rev. Adoniram Judson), D. D. (Londres: James Nisbet and
Company, 1853), vol. 1, página 435.
22 Wayland, página 437.
21Jonathan Edwards, The Works of Jonathan Edwards (As Obras de Jonathan Edwards),
rev. Edward Hickman (1834; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth
Trust, 1974), vol. 1, páginas 311-312.
CAPÍTULO ONZE

A n o ta çõ es ...
Com o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e

Não se pode negar que há um clamor pelo resgate da vida


devocional. Se existe algo que caracterize o Protestantismo
moderno, é a ausência de disciplinas espirituais ou exercidos
espirituais. No entanto, tais disciplinas são a essência
da vida de devoção. Não é exagero afirmar que esta é a
dimensão perdida no Protestantismo moderno.

Donald Bloesch
A Crise da Piedade

M ais do que quase qualquer outra Disciplina, as anotações


exercem um fascinante apelo sobre a maioria das pessoas que
ouvem falar delas. Uma razão é a forma como as anotações
combinam doutrina bíblica com vida diária, tal qual a
confluência de dois grandes rios em um. E já que a jornada de
todo crente pelo rio da vida envolve curvas e riscos
anteriormente inexplorados por eles no caminho para a Cidade
Celestial, existe algo em se fazer anotações desta viagem que
apela ao espírito aventureiro do crescimento cristão.
Embora a prática das anotações não seja ordenada nas
Escrituras, ela é exemplificada. E Deus tem abençoado o uso
de anotações desde os tempos bíblicos.
Anotações 273

EXPLICAÇÃO DE ANOTAÇÕES

Livro de anotações (em geral um termo sinônimo de diário) é


um livro no qual uma pessoa escreve várias coisas. Como
cristão, seu diário é um lugar para anotar as obras e caminhos
de Deus em sua vida. Seu livro de anotações também pode
incluir relatos de eventos cotidianos, diário de relacionamentos
pessoais, um caderno de insights sobre as Escrituras e uma lista
de pedidos de oração. E onde pensamentos devocionais
espontâneos ou extensas meditações teológicas podem ser
preservados. O livro de anotações é um dos melhores locais
para conferir seu progresso nas outras Disciplinas Espirituais
e para mantê-lo fiel em relação a seus objetivos.
Entrelaçados por todo o seu tecido de registros e eventos
estão os cordões coloridos de suas reflexões e sentimentos sobre
eles. A forma como você reage a eles, e como você os interpreta
a partir de sua própria perspectiva espiritual, está também na
alma das anotações.
A própria Bíblia contém muitos exemplos de diários
inspirados por Deus. Há muitos salmos registrados que tratam
da jornada espiritual pessoal de Davi com o Senhor. Chamamos
de livro de Lamentações o diário dos sentimentos de Jeremias
sobre a queda de Jerusalém.
Ao ler este capítulo, pense e ore a respeito de juntar-se a
esses e a outros dentre o povo de Deus, que assumiram a
Disciplina escrita das anotações "com o propósito de alcançar
a piedade". Lembre-se, o objetivo de tomar-se mais semelhante
a Jesus deve ser a principal razão para começar qualquer
Disciplina Espiritual, inclusive esta. Com isso fresco em mente,
considere as palavras de Maurice Roberts, do Reino Unido,
sobre o hábito de fazer anotações.
274 Anotações

A lógica desta prática é inevitável uma vez que homens têm sido
impelidos a se tornarem moldados, em coração e vida, ao padrão
de Cristo. N inguém m anterá um registro de seus gem idos,
tem ores, p ecad os, experiências, p rovidências e asp irações
interiores a menos que esteja convencido do valor da prática para
seu próprio progresso espiritual. Foi esta mesma convicção que
a tornou uma prática comum anteriormente. Sugerimos que a
prática seja restaurada e algo precisa ser dito em sua defesa.1

O VALOR DAS ANOTAÇÕES

O uso das anotações não só promove crescimento espiritual


por meio de suas próprias virtudes, como é uma valiosa ajuda
a muitos aspectos da vida espiritual também.

Ajuda no Entendimento e na Avaliação de Si Mesmo


Em Romanos 12:3, somos encorajados a ter uma auto-
imagem equilibrada: "Porque, pela graça que me foi dada, digo a
cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém;
antes, pense com moderação". A prática das anotações certamente
não é garantia nem contra o convencimento nem contra o auto-
rebaixamento. Mas a simples disciplina de registrar eventos
do dia e observar minhas reações a eles faz com que eu examine
a mim mesmo de forma muito mais completa do que de outro
modo.
Este não é um ponto menor ou uma necessidade pequena
de nossas vidas. Nunca houve teólogo mais centrado em Deus
do que João Calvino, contudo, até ele escreveu na primeira
página de seu monumental Institutes: "Sem conhecimento de
si mesmo não há conhecimento de Deus".2 Por meio do
conhecimento de nós mesmos e de nossa condição, ele explicou,
somos incitados a buscar a Deus. A prática de anotações pode
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 275

ser o meio pelo qual o Espírito Santo nos mostre áreas de pecado
ou fraqueza, a frivolidade de um caminho que escolhamos,
percepção em relação a nossa motivação ou outras coisas que
podem transformar a página de anotações em altar de busca a
Deus.
Em 1803, durante um encontro da "Sociedade Eclética",
onde ministros evangélicos de Londres se encontravam toda
semana para aguçar suas mentes e aprofundar sua comunhão
discutindo questões teológicas, Josiah Pratt observou o valor
das anotações no auto-exame:

Manter um diário promoveria vigilância. Muitos vivem sob um


tipo de risco. Caem em certos hábitos religiosos: e talvez não
estejam sob fortes tentações. São assíduos na igreja e nos
sacramentos, e em suas famílias. Lêem a Bíblia e oram diariamente
em secreto. Mas é só. Eles pouco sabem sobre o progresso ou
declínio do homem interior. São cristãos, portanto, de muito baixa
consecução. A atuação do pecado não é percebida, como deveria
ser, portanto, a graça não é buscada contra ela: e as emoções
benévolas da graça não são observadas, e assim não são nutridas
e cultivadas. Agora, um diário tenderia a elevar o padrão de tais
pessoas, incitando a vigilância.3

Uma forma de perceber o "progresso ou declínio do homem


interior" por meio das anotações é observando os padrões de
sua vida que você não havia visto antes. Quando reviso as
anotações de meu diário por um mês, seis meses, um ano, vejo
a mim mesmo e aos eventos mais objetivamente. Posso analisar
meus pensamentos e ações separadamente dos sentimentos que
tive na época. Dessa perspectiva, fica fácil observar se fiz
progresso espiritual ou se reincidi em erro em uma área
específica.
276 Anotações

Fazer anotações não é ocasião para contemplar a si mesmo,


contudo. Nem é desculpa para se ficar auto-centrado à custa
de um mundo carente. Escrevendo sobre os puritanos e seu
relacionamento com a sociedade, Edmund S. Morgan cita um
registro do diário de um jovem piedoso cuja doença o matou
no final dos anos 1600. Nele, o jovem avalia se havia
demonstrado amor suficiente aos outros. Depois diz Morgan:

O fato de muitos puritanos manterem diários desse tipo ajuda a


explicar a sua busca da virtude social: diários eram os livros de
avaliação nos quais eles verificavam os ativos e passivos de suas
almas em fé. Quando abriam os livros, eles registravam os lapsos
de moralidade com expressões adequadas de arrependimento e
as equilibravam contra as evidências da fé. Cotton Mather fez
questão de ter ao menos uma boa ação a considerar em seu diário
a cada dia da semana.4

Usado adequadamente, em vez de nos atrair mais para nós


mesmos, o diário pode na verdade se tornar um meio de nos
propelir a agir em benefício de outras pessoas.
O diário pode ser um espelho nas mãos do Espírito Santo
no qual Ele revela a Sua perspectiva sobre nossas atitudes,
pensamentos, palavras e ações. Já que teremos que prestar
contas por cada um deles no Juízo, avaliá-los de qualquer forma
é sábio.

Ajuda na Meditação
Parece que os cristãos estão mais interessados na meditação
bíblica (cf. Josué 1:8; Salmo 1:1-3) do que nunca. Contudo, a
meditação significativa requer uma concentração nem sempre
desenvolvida em nossa sociedade agitada e distraída pelos
meios de comunicação.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 277

Li o conto de um homem da Nova Inglaterra convencido


de que em nenhum lugar do mundo a neblina era mais espessa
do que em seu lar na costa. Uma vez, ao colocar telhas no
telhado de sua casa, ele afirmou estar em uma nuvem tão densa
que, sem perceber, ultrapassou o beiral do telhado, "indo
colocar telhas neblina adentro". Sem caneta nas mãos, posso
ficar tão distraído na meditação que começo a ir de um
pensamento desconexo ao outro, até que estou colocando telhas
na neblina dos devaneios em vez de pensar à luz das Escrituras.
A disciplina de escrever meditações em meu diário ajuda a
minha concentração.
Sentar-se com caneta e papel também eleva minha
expectativa de ouvir a voz de Deus ao pensar Nele e em Suas
palavras contidas na passagem que está diante de mim. Na
escola, eu sempre ouvia melhor quando tomava notas. Sou da
mesma maneira quando ouço um sermão; presto mais atenção
quando escrevo os pensamentos mais importantes da
mensagem. O mesmo princípio se transfere para o ato de fazer
anotações. Quando registro minhas meditações sobre uma
passagem das Escrituras em um diário, posso seguir mais
intimamente a voz suave e baixa de Deus enquanto Ele fala
por meio do texto.

Ajuda na Expressão de Pensamentos e Sentimentos ao Senhor


Não importa quão próxima a sua amizade ou quão íntimo
o seu casamento, nem sempre podemos contar aos outros aquilo
que pensamos. Contudo, às vezes nossos sentimentos são tão
fortes e nossos pensamentos tão dominantes, que temos que
achar uma maneira de expressá-los. Nosso Pai está sempre
disponível e disposto a ouvir, "derrame diante dele o coração" diz
o Salmo 62:8.
278 Anotações

Um diário é um lugar onde podemos dar expressão à


fonte do coração, onde podemos derramar nossa paixão diante
do Senhor sem reservas.
Já que os pensamentos humanos e emoções variam entre
os extremos de hilaridade a abatimento, podemos esperar
encontrar ambas dentro das páginas de nosso diário. Isso
acontece em todos os diários mais conhecidos da história da
igreja. Observe a profundidade em que David Brainerd se
encontrava neste registro:

Dia do Senhor, 16 de dezembro de 1744. Fiquei tão inundado de


melancolia que nem sabia como viver. Desejei a morte ao extremo;
minha alma mergulhou em águas profundas e o aguaceiro estava
pronto para me afogar. Fui tão oprimido, que minha alma estava
num a esp écie de p avor. N ão con segu ia co n ce n tra r m eus
pensamentos em oração pelo espaço de um minuto, sem alvoroço
e distração. Fiquei excessivamente envergonhado pelo fato de não
viver para Deus. Eu não tive dúvidas aflitivas sobre meu próprio
estado, mas teria alegremente me aventurado (tanto quanto
poderia possivelmente saber) na eternidade. Enquanto ia pregar
aos índios, minha alma ficava angustiada. Fui tão dominado pelo
desânimo, que me desesperei de fazer qualquer bem, e fiquei
completamente desnorteado. Não sabia o que dizer, nem que
direção seguir.5

Pouco tempo depois, por outro lado, seu diário revelou uma
profunda expressão de alegria:

Dia do Senhor, 17 de fevereiro de 1745. Creio quase nunca ter


sido capacitado para oferecer a graça gratuita de Deus aos
pecadores que perecem com mais liberdade e singeleza em minha
vida. Depois, fui veementemente capacitado para convidar os
filhos de Deus a virem renovadamente e beberem desta fonte de
água da vida, de onde eles têm até agora obtido indizível
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 279

satisfação. Foi um tempo bastante satisfatório para mim. Houve


muitas lágrimas no ajuntamento e eu não tenho a menor dúvida
de que o Espírito de Deus esteve ali, convencendo os pobres
p ecadores de sua necessidade de C risto. À noite, senti-m e
composto e satisfeito, embora bastante cansado. Tive uma doce
sensação da excelência e da glória de D eus; e m inha alma
regozijou-se no fato de Ele ser "Deus sobre todas as coisas, bendito
para sem pre"; mas estava com muitas companhias e conversas e
desejei estar mais a sós com Deus. O, que eu possa retribuir a
Deus pela misericórdia deste dia, que "respondeu-me na alegria
de meu coração".6

Talvez você tenha lido as palavras de Brainerd com a mesma


sensação de distância de sua própria experiência que eu. Ele
era estranho? Vivia em algum plano espiritual mais elevado,
inacessível a cristãos como eu? A diferença entre as experiências
dele com Deus e as minhas podem ser explicadas
exclusivamente pela diferença de nossas épocas? Porque sou
incapaz de expressar por escrito os tipos de emoções em relação
a Deus que ele expressou, eu é que sou estranho?
Acho que é possível a todo filho de Deus experimentar mais
daquilo que Brainerd expressa aqui, e um diário pode ajudar a
fazer a diferença. Maurice Roberts explica:

Um diário espiritual tende a aprofundar e a santificar a vida


emocional de um filho de Deus. É de grande valor para nós nos
tom arm os mais profundamente emocionais quanto aos grandes
temas de nossa fé. Nossa era não é profunda o suficiente em
sentimentos. Os homens bíblicos são retratados como pessoas que
d e rra m a ra m co p io sas lág rim as, s u sp ira ra m , g e m e ra m , e
ocasionalmente se alegram com êxtase. Eles ficavam embevecidos
com a mera idéia de Deus. Tinham paixão por Jesus Cristo, Sua
pessoa, ofícios, nomes, títulos, palavras e obras. É uma vergonha
que sejamos tão frios, insensíveis e sem emoções apesar de tudo
280 Anotações

o que Deus fez por nós e para nós em Cristo. ...Manter um diário
pode ajudar a nos corrigir neste aspecto também.7

Ao nos desacelerar e nos conclamar a pensar mais


profundamente sobre Deus, o ato de fazer anotações nos ajuda
a termos sentimentos mais profundos (e bíblicos) em relação a
Deus. Isto provê uma oportunidade para que as áreas cinzas
intangíveis de atividade da mente e do coração destilem
claramente em preto e branco. Depois, ficamos mais capazes
de falar com Deus tanto com a mente quanto com o espírito.

Ajuda a Lembrar os Feitos do Senhor


Muitas pessoas acham que Deus não as abençoa com muitas
coisas até que tenham que mudar para um novo endereço! Da
mesma forma, tendemos a esquecer as tantas vezes que Deus
respondeu a orações específicas, supriu necessidades
oportunamente e fez coisas maravilhosas em nossas vidas. Mas
ter um lugar para coletar todas essas memórias evita que as
esqueçamos.
Um diário nos ajuda a ser como Asafe no Salmo 77:11-12,
que diz: "Recordo os feitos do SENHOR, pois me lembro das tuas
maravilhas da antiguidade. Considero também nas tuas obras todas e
cogito dos teus prodígios". O Senhor exigiu até que os reis de Israel
que escrevessem para si mesmos uma cópia da Lei de Moisés
para ajudá-los a lembrar o que Deus havia dito e feito nas vidas
dos Patriarcas (Deuteronômio 17:18).
O testemunho de Luci Shaw, viúva do recente editor
cristão Harold Shaw, ilustra como um diário não só é útil como
essencial ao recordar que os feitos do Senhor são importantes
para você.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 281

Durante toda a minha vida pensei que deveria escrever um diário.


Mas nunca o fiz até alguns anos atrás, quando a descoberta de
que meu esposo, Harold, tinha câncer de repente nos lançou no
meio de uma experiência de intenso aprendizado, enfrentando
coisas que jam ais havíam os enfrentado. C onfrontados com
decisões agonizantes, clamávamos ao Senhor: "Onde está você
em meio a tudo isto?" De repente me ocorreu que, a menos que
eu fizesse um registro do que estava acontecendo, eu esqueceria.
Os eventos, detalhes e as pessoas daqueles dolorosos dias
poderiam facilmente se tom ar uma névoa. Então passei a escrever
tudo.8

Francis Bacon o coloca de forma clara: "Se o homem escreve


pouco, necessita de grande memória".9
Um dos grandes benefícios de se manter um registro dos
feitos do Senhor é o encorajamento que ele pode ser à fé e à
oração. C. H. Spurgeon, o corajoso pregador batista britânico
da última metade dos anos 1800, disse: "Às vezes digo, quando
tenho me tornado a presa dos pensamentos de dúvida, 'Bem,
agora, não ouso duvidar que Deus existe, pois posso olhar para
trás em meu Diário e dizer: no dia tal, nas profundezas dos
problemas, dobrei joelhos a Deus, e antes mesmo de me erguer
novamente, a resposta havia sido dada a mim'".10
"Quão precioso é lembrar os antigos benefícios", disse
Stephen Charnock, autor do clássico TJte Existence and Attributes
of God (A Existência e os Atributos de Deus) "quando vimos a
implorar por outro".11 O diário é uma das melhores maneiras
de manter a memória fresca em relação aos "antigos benefícios"
do Senhor.

Ajuda na Criação e Preservação de Herança Espiritual


Fazer anotações é uma maneira eficaz de ensinar as coisas
de Deus a nossos filhos e transmitir nossa fé para o futuro
282 Anotações

(conforme Deuteronômio 6:4-7, 2 Timóteo 1:5).


Talvez nunca saibamos qual será o impacto espiritual futuro
de algo que escrevemos hoje. Meu pai morreu repentinamente
em 20 de agosto de 1985. Ele era gerente de uma estação de
rádio em uma pequena cidade e todas as manhãs comandava
um programa de trinta minutos de música e notícias locais. Em
sua mesa, encontrei o material devocional que ele havia usado
para começar sua última transmissão. Ele havia lido as palavras
do hino de William Cowper: "Deus Age de Maneiras
Misteriosas". Encontrar suas iniciais e a data "19/8/85" escritas
ao lado dessas linhas de fé me deu mais consolo e força
espiritual do que qualquer coisa dita a mim por qualquer outra
pessoa. Após sua morte, seu velho violão tomou-se um de meus
bens mais preciosos. Os primeiros dias vividos por ele como
locutor aconteceram numa época em que quase tudo no rádio
era transmitido ao vivo. Ele tinha seu próprio programa popular
em que tocava o seu violão e cantava. Em meu primeiro Dia de
Ação de Graças sem meu pai, fiquei mexendo no estojo do
violão. Nele, encontrei mais de uma dúzia de velhas cartas cujo
carimbo de correio datava de alguns dias após meu nascimento.
Todas haviam sido escritas por seus ouvintes a fim de se
alegrarem com ele porque minha mãe e eu havíamos
sobrevivido a um parto difícil. Eles observavam que era óbvio
que meu pai estava muito orgulhoso de mim e mencionavam
os comentários que ele havia feito no ar sobre sua gratidão ao
Senhor por minha chegada a salvo. Sentei no chão ao lado do
estojo aberto com esses fragmentos de minha herança e chorei
lágrimas de gratidão ao Senhor por aquele remanescente de
sua vida. Quão precioso seria houvesse mais de sua vida com
Deus registrado para mim em um diário.
Nunca subestime o poder de um registro de fé escrito
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 283

agindo como uma cápsula de tempo espiritual. O escritor de


Salmo 102:18 reconheceu isso quando disse de sua experiência
com Deus: "Ficará isto registrado para a geração futura, e um povo,
que há de ser criado, louvará ao SENHOR".

Ajuda em Esclarecer e Articular Insights e Impressões


Um antigo adágio diz que os pensamentos se
desembaraçam quando passados pelos lábios e por entre as
pontas dos dedos. Ao passo que ler toma o homem pleno e o
diálogo torna o homem preparado, de acordo com Francis
Bacon, escrever toma o homem exato. Descobri que se eu escrever
as meditações de minha hora silenciosa com o Senhor, essas
impressões ficam comigo por muito mais tempo. Sem fazer
anotações, ao final do dia eu normalmente consigo lembrar
pouco de meu tempo devocional.
George Muller, o grande campeão da oração e da fé, usou
este diário para articular insights nas Escrituras e impressões
espirituais.

22 de julho de 1838. Esta noite, estava andando em nosso pequeno


jardim, meditando em Hebreus 13:8: "Jesus Cristo, ontem e hoje, é o
mesmo e o será para sempre". Enquanto meditava em Seu imutável
amor, poder e sabedoria, e transformando tudo isso em oração
em meu favor; enquanto aplicava também Seu imutável amor,
poder e sabedoria tanto a minhas circunstâncias espirituais quanto
temporais naquele momento - todas de uma vez as necessidades
presentes dos orfanatos vieram a minha m ente. Fui levado
imediatamente a dizer a mim mesmo: "Jesus em Seu amor e poder
tem até agora me suprido aquilo que necessitei para os órfãos e,
no mesmo imutável amor e poder, Ele me proverá o que talvez
precise no futuro". Uma corrente de alegria encheu a minha alma
enquanto percebi então a imutabilidade de nosso adorável Senhor.
Aproximadamente um minuto depois, recebi uma carta com um
284 Anotações

cheque de vinte libras. Nela estava escrito: "Aplique a quantia do


cheque anexo aos objetos de sua Sociedade de Conhecimento das
Escrituras, ou de seu Estabelecimento para Órfãos, ou na obra e
causa de nosso Mestre de qualquer maneira que Ele mesmo, em
sua aplicação para Ele, indique a você. Não é uma grande soma,
mas é uma provisão suficiente para as demandas de hoje; e é para
as exigências de hoje que o Senhor normalmente provê. O amanhã,
ao trazer suas demandas, encontrará seu suprimento".12

Quando os insights de minha hora silenciosa estão


claramente fixos em minha mente por meio das anotações,
também os encontro prontos para usar depois em conversas,
aconselhamento, encorajamento e testemunhos (veja 1 Pedro
3:15).

Ajuda no Monitoramento de Objetivos e Prioridades


O diário é uma boa maneira de manter diante de nós as
coisas que queremos fazer e enfatizar. Alguns colocam uma
lista de objetivos e prioridades no diário e a revisam todos os
dias. Eu desenho um retângulo pequeno no começo de cada
registro do diário. Com uma linha horizontal e duas verticais,
divido a caixa em seis pequenos quadrados. Cada quadrado
representa uma atividade espiritual em particular que desejo
fazer todos os dias, como encorajar ao menos uma pessoa. Antes
de fazer as anotações do dia, volto ao registro do dia anterior e
coloro os quadrados correspondentes aos objetivos diários que
cumpri. Alguns podem ver isso como legalismo. Para mim, é
um modo de me trazer à mente as coisas que desejo fazer com
vistas a prosseguir em direção ao objetivo de ser mais
semelhante a Cristo (Filipenses 3:12-16).
As resoluções feitas pelo jovem Jonathan Edwards ainda
são bem conhecidas de muitos cristãos da atualidade. Elas
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 285

incluem a determinação de sua alma em relação ao uso do


tempo, moderação ao comer, crescimento em graça,
responsabilidade, autonegação e outras questões tratadas em
setenta resoluções. Essas eram muito mais do que as atuais
indiferentes resoluções de Ano Novo. Elas se tornaram os
objetivos e prioridades espirituais de toda a vida de Edwards.
O que não é tão conhecido é o modo como ele avaliava sua
conduta diariamente por meio dessas resoluções e anotava os
resultados em seu diário. Na véspera do Natal de 1722, ele
escreveu: "Pensamentos mais elevados do que normal da
excelência de Cristo e de seu reino. Concluí, observando, ao
final de cada mês, o número de violações de resoluções, para
ver se elas aumentam ou diminuem, a começar de hoje,
computando a partir dessa contagem semanal meu aumento
mensal, e a partir do todo, meu aumento anual, começando
dos dias do novo ano".13 Um exemplo deste uso de seu diário é
encontrado no registro do dia 5 do janeiro seguinte: "Um tanto
redimido do longo e terrível enfado da leitura das Escrituras.
Esta semana, infelizmente a contagem semanal tem estado
baixa: - e quais são as razões disso? - abundância de apatia e
preguiça; e, se isso continuar por muito mais tempo, percebo
que outros pecados começarão a se descobrir".14
George Whitefield, o evangelista atravessador de oceanos
do Grande Despertamento, é mais lembrado por sua pregação
inimitável e passional. Como seu contemporâneo Edwards, o
Diário de Whitefield revela que sua espiritualidade era pelo
menos tão profunda quanto era ampla a sua influência. O livro
começa com uma lista de critérios que ele usava toda noite como
base para examinar a si mesmo.
286 Anotações

Eu:
1. Fui fervoroso na oração?
2. Usei as horas estabelecidas de oração?
3. Usei a oração exclamatória a cada hora?
4. Após ou antes de cada conversa ou ação deliberada,
considerei como ela pode tender para a glória de Deus?
5. Depois de qualquer prazer, dei graças imediatamente?
6. Planejei negócios para o dia?
7. Fui simples e senhor de mim em tudo?
8. Fui zeloso em empreender e ativo em fazer todo o bem
que posso?
9. Fui manso, alegre, afável em tudo o que disse ou fiz?
10. Fui orgulhoso, vaidoso, incasto ou invejoso?
11. Fui senhor de mim ao comer e beber? Grato?
Moderado no dormir?
12. Gastei tempo para dar graças de acordo com as regras
de (William) Law?
13. Fui diligente nos estudos?
14. Pensei ou falei duramente de alguém?
15. Confessei todos os pecados?15

Cada registro do Diário de Whitefield tem duas partes, uma


página por parte. Na primeira página ele relacionava as
atividades específicas de seu dia, depois avaliava cada uma com
base em suas quinze perguntas. Na segunda parte, de acordo
com seu biógrafo, Arnold Dallimore, "Ele registra qualquer
atividade incomum ao longo do dia, mas, sobretudo, dá
expressão a seu homem interior. Desejos de sua alma, sondagem
de suas motivações, severa auto-reprovação pelo menor erro e
explosões de louvor a Deus, tudo está registrado sem
inibição".16
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 287

De que forma homens como Edwards e Whitefield se


tomaram tão extraordinariamente conformados à imagem de
Cristo? Parte do segredo deles era a forma como usavam a
Disciplina Espiritual das anotações para dar conta de seus
objetivos e prioridades espirituais. Antes de darmos todas as
razões por que não podemos ser o tipo de discípulos que eles
foram, vamos tentar fazer o que eles fizeram.

Ajuda na Manutenção de Outras Disciplinas Espirituais


Meu diário é o lugar onde registro o progresso que faço em
todas as Disciplinas Espirituais. Por exemplo, eu também uso
alguns dos pequenos quadrados para dar conta de Disciplinas
como memorização das Escrituras. Para mim, é muito fácil ficar
preguiçoso e escapar de memorizar a Palavra de Deus, que a
Bíblia diz ser tão essencial à santidade (Salmo 119:11). Uma
vez que volto ao hábito de não memorizar as Escrituras, perco
o ritmo. Contudo, quando tenho um prompter constante como
meu diário, onde encontro o lembrete para "me disciplinar com
o propósito de alcançar a piedade", posso recobrar o ritmo mais
facilmente.
A carne, nossa inclinação natural para o pecado, não
contribui para nosso crescimento espiritual. A menos que nos
esforcemos para fazer morrer as iniqüidades do corpo (Romanos
8:13), nosso progresso em Piedade será muito lento. A menos
que encontremos maneiras práticas de cooperar com o Espírito
Santo contra nossa tendência congênita à preguiça espiritual,
não nos edificaremos na fé (Judas 20); mas seremos arrastados
em direção à entropia espiritual.
Este fato foi afirmado por Maurice Roberts em uma matéria:
"Para Onde Foram os Santos?"
288 Anotações

Não haverá crescimento destacado em santidade cristã se não nos


esforçarm os para superar nossa indisposição natural para os
exercícios espirituais secretos. Nossos antepassados mantiveram
diários honestos onde as batalhas da alma foram registradas.
Thom as Shepherd, Pai da Pilgrim e fundador da H arvard,
escreveu em seus papéis particulares: "As vezes está tão em mim
que prefiro morrer a orar". Assim ocorre com todos nós. Mas
esta honestidade não é comum. Tais homens voaram alto apenas
enquanto se esforçaram com suor e lágrimas para cultivar a alma.
Nós também temos que "nos exercitar na piedade" (1 Timóteo
4:7).17

O missionário Jim Elliot usou seu diário, hoje famoso, para


irrigar a prática das Disciplinas em sua vida quando a maré de
zelo por elas baixou. Em 20 de novembro de 1955, menos de
dois meses antes de ser morto pelos índios Auca no Equador,
ele escreveu:

Também li partes de Behmd the Ranges e estou decidido a fazer


algo sobre isso em meu devocional privado e vida de oração. Ao
estudar espanhol, deixei de ler a Bíblia em inglês, e meu padrão
de leitura devocional foi rompido. Nunca o restaurei. Traduzir e
preparar lições diárias da Bíblia não basta para encher minha alma
de poder. Orar sozinho era difícil, eu me lembro, porque minha
mente sempre se voltava para Betty. Agora é difícil demais sair
da cama de manhã. Tomei decisões a respeito disso antes, mas
não as cumpri. Amanhã vou: estar pronto antes das 6h e estudar
as epístolas antes do café da manhã. Com a ajuda de Deus.18

Aparentemente, o desejo de revitalizar sua vida devocional


havia permeado a mente e as emoções de Elliot muitas vezes
antes. Transferir o desejo para o papel, contudo, pareceu
canalizá-lo como água em uma turbina, para que o outrora mero
desejo fluido começasse a produzir poder.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 289

Outra maneira pela qual o diário ajuda a manter meu


envolvimento com as Disciplinas Espirituais é lembrando-me
das alegrias e da liberdade que experimento por meio delas.
Quando reviso as anotações e leio em minha própria caligrafia
sobre o inexprimível prazer de levar o evangelho a pessoas
idosas do sertão do Quênia que nunca ouviram falar de Jesus,
ou de pregar e ver adolescentes brasileiros se arrependerem
do envolvimento com o espiritismo, decido manter a Disciplina
do evangelismo em projetos de missões internacionais
independentemente do custo. Rever a sensação de vitória que
registrei durante um dia de jejum provoca em mim sede de ter
outro dia assim de banquete espiritual.
A vida cristã é, por definição, viva. Se pensarmos na
Disciplina da absorção bíblica como seu alimento e na oração
como sua respiração, muitos cristãos fizeram das anotações o
seu coração. Para eles, elas bombeiam a cada Disciplina ligada
a elas o sangue mantenedor da vida.

MEIOS DE SE MANTER UM DIÁRIO

Como se faz um diário? "A maneira correta de se manter


um diário é a sua maneira. ...Não há regras para mantê-lo!"19
Estive hoje em uma livraria cristã e notei ao menos uma
dúzia de livros para serem usados como diários. Havia volumes
com capa de tecido e brochuras. Alguns tinham pensamentos
devocionais ou citações inspirativas em cada página. Outros
simplesmente continham páginas em branco com cabeçalhos
como "Pedidos de Oração" e "lnsights das Escrituras" no topo.
Muitas livrarias vendem livros de páginas em branco,
lindamente encadernados e de ótima qualidade, que funcionam
bem como diários.
290 Anotações

Muitos cristãos acham que o mais prático é usar papel de


caderno todos os dias. Embora alguns prefiram cadernos
espirais, acho as páginas soltas mais manipuláveis. Além de
ser menos caro, o papel simples também não força você a
confinar seus registros ao espaço designado de um diário pré-
impresso. Por outro lado, alguns acham que escrever em um
livro atraente confere ao diário um apelo especial que estimula
a fidelidade na Disciplina. (Esta motivação produz efeito
inverso nas pessoas quando elas têm a sensação de que seus
registros são muito mundanos para depositório tão fino. Elas
começam a escrever com menos freqüência e logo param
totalmente.)
Outra razão por que prefiro o formato de folha solta é a
conveniência. Embora seja prático carregar um livro ou caderno
espiral para fazer suas anotações, é até mais fácil levar apenas
algumas folhas de papel. As páginas de meu diário medem 22
cm por 14 cm e cabem facilmente em minha Bíblia, maleta, num
livro, ou em quase qualquer coisa que eu leve comigo. Na
verdade, mantenho pacotes de papel em minha maleta, no
escritório de casa e também no da igreja. Assim consigo registrar
qualquer lampejo repentino de insight, impressão, conversação,
citação etc., que eu tenha, tão logo ele aconteça. Normalmente
deixo as páginas acumularem por aproximadamente um mês.
Quando está para iniciar um novo mês, pego as folhas e coloco-
as em um fichário, que é guardado em casa. Isso traz duas outras
vantagens sobre o método do livro ou do caderno espiral: (1)
se eu perder meu diário atual, nunca perco mais do que o
equivalente a um mês, e (2) posso facilmente voltar e inserir
novas páginas, cópias etc., que se refiram a registros anteriores.
Mas tendo dito isso, volto à máxima: "A maneira correta de se
manter um diário é a sua maneira". Utilize o método que
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 291

funcionar melhor para você.


O meio que você usar para colocar de fato as palavras no
papel também afetará o formato que escolher. Gosto de fazer
anotações em um processador de textos. Isto porque digito mais
depressa do que escrevo, e também porque o registro parece
mais organizado quando impresso. Muitas vezes, entretanto,
faço minhas anotações quando estou no escritório da igreja e
não em casa, então uso uma máquina de escrever. Ainda outras
vezes é preciso escrever à mão. Alguns têm convicção de que
devem escrever somente à mão, que é mais espontâneo e
expressivo. Não é verdade, em meu caso. Creio que a velocidade
do processador de textos ou da máquina de escrever realmente
permite que eu tenha mais liberdade de expressão do que a
letra cursiva.
Com o avanço da tecnologia provavelmente virá o aumento
do uso de seus recursos para tomar notas. Uma matéria do
Chicago Tribune informou que agora há uma empresa japonesa
que usa a tecnologia para ajudar pessoas ocupadas a manter
diários. Aquelas que se consideram ocupadas demais para
escrever suas anotações ao final do dia simplesmente digitam
um número e dizem o que querem que fique registrado no
diário. Isto é gravado. No fim de cada mês, o cliente recebe
uma cópia impressa de seu diário em um bonito fichário. Talvez
isto funcione para quem só deseja registrar os fatos e eventos
do dia. Mas parece um pouco impessoal demais para usar como
meio de interação com o Senhor e de crescimento espiritual
significativo. Ainda acho difícil conceber e/ou expressar meus
pensamentos e sentimentos mais profundos ao Senhor por
telefone, muito menos fazê-lo enquanto a conta fica mais alta a
cada minuto! Isto nem mesmo considera o fato de que alguém
deve transcrever as intimidades de seu diário da gravação para
292 Anotações

a forma impressa. Apesar dos avanços tecnológicos, na


manutenção de um diário sempre haverá lugar para
ferramentas simples como caneta e papel.
Quem usa um meio que não seja caneta e papel deve tomar
cuidado para não confinar as anotações apenas aos momentos
em que se tem acesso ao computador ou máquina de escrever.
Muitos dos melhores registros são feitos em tempos de solidão,
longe das circunstâncias típicas. Muitos dos meus registros mais
memoráveis são feitos quando estou viajando e só posso
escrever à mão. Eles não ficam tão organizados quanto os
registros digitados, mas posso tolerar a diferença no aspecto
das páginas pelo valor do que há nelas. O aviso geral é: Não
fique preso a apenas um método de fazer anotações.
Para iniciar o registro a cada dia, tente relacionar o versículo
ou o pensamento que mais o tocou em sua leitura bíblica. Medite
nele por alguns minutos, depois registre seus insights e
impressões. Depois considere acrescentar eventos recentes de
sua vida e seus sentimentos e reações a eles, orações breves,
alegrias, sucessos, fracassos, citações etc.
Não pense que manter um "diário oficial" (não existe isso!)
significa ter que escrever determinado número de linhas todos
os dias, ou mesmo ter que escrever todos os dias. Tento fazer
anotações diárias, mas se não escrevo, me recuso a sentir culpa.
Quando pareço me contentar com lapsos longos desnecessários
em minhas anotações, disciplino-me a escrever ao menos uma
frase por dia. Inevitavelmente, aquela frase de pronto se
transforma em parágrafo ou página.

MAIS APLICAÇÃO

Assim como todas as Disciplinas, as anotações podem ser


Com o Propósito de Alcançar a Piedade 293

produtivas em qualquer nível de envolvimento com elas. Fazer


anotações é proveitoso independentemente de quão bem você
ache que escreve, compõe ou soletra. Quer escreva todos os
dias ou não, quer escreva muito ou pouco, fazer anotações o
ajudará a crescer em graça.
Assim como todas as Disciplinas, as anotações requerem
persistência durante os tempos de sequidão. A sensação de
novidade das anotações logo passa. Haverá dias em que você
terá uma versão espiritual de "bloqueio de escritor". Em outras
épocas, você não terá qualquer insight das Escrituras ou de sua
experiência com Deus que pareça digno de nota. Embora seja
aceitável escrever pouco ou nada num determinado dia ou
durante um período de tempo mais longo, lembre-se de que
você deve eventualmente transpor essa barreira a fim de
desfrutar os benefícios de longo prazo das anotações. Em outras
palavras, não desista completamente da Disciplina só porque
o entusiasmo do primeiro dia eventualmente se desgasta. Isso
irá acontecer. Prepare-se. Mas também planeje persistir.
Assim como todas as Disciplinas; você deve começar afazer
anotações antes de experimentar o seu valor. O irlandês TTiomas
Houston foi pastor de uma igreja presbiteriana em
Knockbracken, County Down (perto da Belfast atual), por
cinqüenta e quatro anos durante os anos 1800. No começo de
seu ministério ali, ele começou um diário, a que chamou "Diário
dos Procedimentos e Providências de Deus a um tão Indigno
Pecador". Em seu registro do dia 8 de abril de 1828, ele revela
o conflito interior que finalmente resultou no nascimento de
sua Disciplina Espiritual das anotações:
Por um considerável período de tempo, tenho estado decidido a
manter um registro dos procedimentos e providências de meu
Pai Celestial em relação a mim, m as, por falta daquilo que
294 Anotações

considerei ocasião oportuna, e pelo que era, temo, uma causa


maior, preguiça espiritual, até agora o tenho negligenciado.
Quando comecei a pensar no assunto, várias objeções apareceram
a mim para mentir totalmente contra escrever diários. Ele daria
lugar a orgulho espiritual, ele levou pessoas a se medirem por si
mesmas; e, como não é fácil determinar entre o mover do espírito
e as defesas naturais da consciência não renovada ou os artifícios
do Enganador, há o perigo de formar juízos incorretos. Estas e
outras razões me impediram por um bom tempo de me decidir
pela idéia. Recentemente superei essas objeções por completo, e
sou agora da opinião de que tal registro pode ser de muita valia a
um indivíduo, suprindo-lhe material para oração e auto-exame,
e para ser um monumento à fidelidade de Deus.20

Talvez você possa se identificar com o conflito de Houston.


Assim como milhões de pessoas desejam começar a caminhar,
correr, andar de bicicleta ou algum outro tipo de exercício mas
nunca o fazem, assim há muitos que têm desejado começar o
exercício espiritual das anotações mas nunca o fizeram. Parece
interessante e você está convencido de seu valor, mas as
palavras nunca chegam até o papel. Nunca parece ser a hora, a
"ocasião oportuna" como Houston a chamou. Mas no íntimo
sabemos que a "causa maior" é provavelmente a mesma
"preguiça espiritual" que se apegou entorpecidamente à
vontade do pastor irlandês. Considere manter um diário, não
apenas "com o propósito de alcançar a piedade", mas também
como forma de erigir um "monumento à fidelidade de Deus"
em sua vida.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 295

1 Maurice Roberts, "Are We Becoming Reformed M en?" ("Estamos nos Tomando


Homens Reform ados?") The Banner of Truth (A Bandeira da Verdade), número
330, março de 1991, página 5.
2 João Calvino, Institutes of the Christian Religion (As Institutas da Religião Cristã),
ed. John T. McNeil, trans. e indexado por Ford Lewis Battles (Filadélfia, PA:
Westminster, 1960), vol. 2, página 35.
3 Josiah H. Pratt, ed.. The Thought of the Evangelical Leaders (O Pensamento dos Líderes
Evangélicos) (James Nisbet, 1856; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner
of Truth Trust, 1978), página 305.
4 Edmund S. Morgan, The Puritan Family (A Família Puritana) (Nova Iorque: Harper
and Row, 1966), página 5.
5 Jonathan Edwards, ed., The Life and Diary of David Brainerd (A Vida e o Diário de
David Brainerd), edição revisada ed. por Philip E. Howard, Jr. (Chicago, IL: Moody
Press, 1949), página 186.
6 Edwards, página 193.
7 Roberts, página 6.
8 LaVonne Neff, et al., ed., Practical Christianity (Cristianismo Prático) (Wheaton,
IL: Tyndale House, 1987), p. 310.
9 Ralph Woods, ed., A Treasury of the Familiar (O Tesouro do Familiar) (Chicago, IL:
Peoples Book Club, 1945), p. 14.
10 C. H. Spurgeon, Autobiography (Autobiografia), Volume 1: The Early Years (Os
Primeiros Anos), 1834-1859, ed. rev. em 2 vols., comp. Susanna Spurgeon e Joseph
Harrald (Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth Trust, 1962), página 122.
11 Stephen Chamock, The Existence and Attributes of God (A Existência e os Atributos
de Deus) (Robert Carter and Brothers, 1853; reimpressão, Grand Rapids, MI: Baker
Book House, 1979), vol. 1, página 277.
12 Roger Steer, ed., The George Muller Treasury (O Tesouro de G eorge M uller)
(Westchester, IL: Crossway Books, 1987), páginas 55-56.
13 Jonathan Edwards, The Works of Jonathan Edwards (As Obras de Jonathan Edwards),
rev. Edward Hickman (1834; reimpressão, Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth
Trust, 1974), vol. 1, página xxiv.
14 Edwards, página xxiv.
15 Arnold Dallimore, George Whitefield: The Life and Times of the Great Evangelist of the
Eighteenth-Century Revival (George W hitefield: A Vida e a Época do Grande
Evangelista do Reavivamento do Século XVIII) (Westchester, IL: Crossway Books,
1979), vol. 1, página 80.
16 Dallimore, páginas 80-81.
17 Maurice Roberts, "Where Have the Saints Gone?" (Para Onde Foram os Santos?)
The Banner of Truth (A Bandeira da Verdade), Outubro de 1988, página 4.
18 Elisabeth Elliot, ed., The Journals of Jim Elliot (Os Diários de Jim Elliot) (Old Tappan,
NJ: Fleming H. Revell, 1978), página 474.
19 Ronald Lug, How to Keep a Spiritual Journal (Como Manter um Diário Espiritual)
(Nasville, TN: Thomas Nelson, 1982), página 58.
20 Edward Donnelly, ed., "The Diary of Thomas Houston of Knockbracken" ("O
Diário de Thomas Houston de Knockbracken"), The Banner of Truth (A Bandeira
da Verdade), agosto-setembro de 1989, páginas 11-12.
CAPÍTULO DOZE

A pren d izad o ...


C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied ad e

Precisamos admitir o fato de que muitos hoje vivem de maneira


sabidamente descuidada. Esta forma de vida se infiltrou na igreja.
Temos liberdade, dinheiro, vivemos em relativo luxo. Como
resultado, a disciplina tem praticamente desaparecido. Como soaria
um solo de violino se as cordas do instrumento do músico estives­
sem todas frouxas, sem firme estiramento, sem "disciplina"?

A.W. Tozer
Citação em Christianity Today (20 de novembro de 1987)

]\^[ais de uma década atrás, pastoreei uma igreja perto de


uma cidadezinha onde havia duas pequenas universidades.
Uma escola era a principal instituição de ensino da maior
denominação evangélica do estado. Conhecida por produzir
alunos zelosos pelo Reino de Cristo, esta universidade
consistentemente liderou as dúzias de outras escolas de sua
denominação em número de alunos formados no campo
missionário. Uma queixa que eu ouvia com freqüência dos
alunos no departamento de religião, entretanto, era em
referência à aparente falta de zelo de dois ou três dos
professores. Para muitos alunos, aqueles eram homens de
cérebros teológicos gigantescos, mas de corações pigmeus e
Aprendizado 297

impassíveis. Todos havíamos ouvido professores ou pregadores


que poderiam ancorar um Clube Mensa Teológico, mas cujo
cristianismo parecia árido e deteriorado como o interior de uma
bola de basquete. Mas isso simplesmente não tem nada a ver
com o Senhor Jesus, ou mesmo com o Apóstolo Paulo, tem?
Neste mesmo pastorado, um homem que era diácono de
sua igreja uma vez me disse: "Jamais gostei de ir à escola, e não
quero aprender nada quando venho à igreja". De certa forma,
algo difere de Jesus nisso também, não é?
Por que parecemos pensar que devemos escolher entre os
dois? Por que muitos cristãos vivem como se alguém tivesse
dito a eles: "Escolha hoje a quem você servirá: o saber ou a
devoção"? Afirmo que um cristão biblicamente equilibrado tem
tanto a mente quanto o coração preenchidos, radiando ambos
luz e calor espirituais.
Se absolutamente forçados a ter somente um ou o outro,
devemos escolher um coração ardente. Se a verdade estiver em
nossas mentes, mas nossos corações não estiverem em retidão
diante de Deus, uma consciência da verdade irá apenas
aumentar a nossa culpa diante Dele no Juízo. Mas se tivermos
respondido devidamente ao evangelho de coração, no fim
seremos salvos mesmo que o restante de nosso entendimento
doutrinário seja superficial ou confuso. Não só eu escolheria
esta opção para mim mesmo, mas a preferiria para aqueles a
quem pastoreio também. E muito mais difícil tirar um navio
do porto do que corrigir, no mar, um que tenha saído do curso.
Mas que estejamos tanto fora do porto quanto no curso certo.
Os cristãos devem perceber que, assim como o fogo não acende
sem combustível, os corações ardentes não são inflamados por
mentes sem instrução. Não devemos nos contentar em ter zelo
sem conhecimento.
298 Aprendizado

Isto significa que temos que ser brilhantes para sermos


cristãos? Absolutamente. Mas significa que para sermos como
Jesus, devemos estudar mesmo que Ele o tenha feito apenas
até os doze anos, "sentado entre os mestres, ouvindo-os e fazendo-
lhes perguntas, todos os que o ouviam ficavam maravilhados com o
seu entendimento e com as suas respostas" (Lucas 2:46-47). Isto
significa que temos que ter vários diplomas na parede para
sermos cristãos de primeira linha? Certamente que não. Mas
significa que devemos nos disciplinar para sermos aprendizes
intencionais como Jesus, que causou espanto: "Como foi que este
homem adquiriu tanta instrução, sem ter estudado?" (João 7:15).
Um exame da palavra discípulo revela que ela significa
ser não apenas "seguidor" de Cristo, mas também "aprendiz".
Para seguirmos a Cristo e nos tomarmos mais semelhantes a
Ele, devemos nos comprometer com a Disciplina Espiritual do
aprendizado.

APRENDER CARACTERIZA A PESSOA SÁBIA

De acordo com o livro da Bíblia escrito especificamente para


nos dar sabedoria, uma das características do homem sábio é o
desejo de aprender. Lemos em Provérbios 9:9: "Instrua o homem
sábio, e ele será ainda mais sábio; ensine o homem justo, e ele aumentará
o seu saber". Pessoas sábias e justas nunca se cansam de adquirir
sabedoria e conhecimento. Aquelas que resistem ao ensino ou
são orgulhosas quanto a seu aprendizado somente revelam
quão superficiais na verdade são. Há humildade naquele que é
verdadeiramente sábio, porque ele sabe que ainda tem muito a
aprender. Este versículo diz que os sábios e justos são
ensináveis. Eles aprendem com qualquer pessoa,
independentemente de idade. Dê a um deles instrução e "ele
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 299

será ainda mais sábio e aumentará o seu saber". Aqueles que são
sábios estão sempre procurando aprender.
Provérbios 10:14 nos diz que "os sábios acumulam
conhecimento". A palavra hebraica aqui significa acumular como
um tesouro. Os sábios amam aprender porque percebem que o
conhecimento é como um tesouro precioso.
Imagine não ter acesso à grande massa de conhecimento.
Durante a viagem missionária para o Quênia que mencionei
no capítulo 2, conheci um professor de trinta e poucos anos
chamado Bemard. Ele morava nos fundos de uma loja que era
um dos quatro prédios da comunidade Kilema. Ele andava
muitos quilômetros ou até mais no sertão todos os dias até a
escola fundamental de pau-a-pique onde dava aulas. Depois
ele voltava para seu "cubo", um cômodo de 2,5m/2,5m/2,5m,
onde ele morava com a esposa e um filho pequeno. Havia um
beliche encostado na parede com um lençol preso ao telhado
para separar o "quarto" do resto do cubo. Apenas uma pequena
mesa e uma cadeira ocupavam a metade da frente. O que mais
me interessou foi o que havia nas paredes de cimento. Em toda
parede, várias páginas de revistas antigas ou figuras de
calendários dos anos anteriores. Ele explicou que eram tudo o
que ele tinha para ler. Embora fosse cristão há muitos anos, era
pobre demais até para possuir uma Bíblia. Os únicos livros que
chegavam até ele eram alguns exemplares de segunda mão que
os professores usavam na escola.
Enquanto carrega o filho para fazê-lo dormir, ele lê os textos
das revistas pela "zilionésima" vez. Ao comer em sua mesa ou
deitado na cama, ele olha as figuras de pessoas e lugares
distantes e se pergunta como eles são. Em pé, no cubo de
concreto, olhando para algumas dúzias de figuras desbotadas
e amareladas, percebi que diante de mim estava um homem
300 Aprendizado

sábio. Bernard entende que o conhecimento realmente é como


um tesouro raro e, embora seja mais escasso do que o ouro,
aquele homem havia acumulado tudo o que podia. Esta será a
atitude de todo sábio, pois "os sábios acumulam conhecimento".
(Incidentalmente, desde então, algumas pessoas de nossa igreja
têm enviado caixas de livros a Bernard e passaram a assinar
algumas revistas para ele.)
Observe Provérbios 18:15: "O coração do sábio adquire o
conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber". Os sábios não
só "adquirem" conhecimento, como o "buscam". Eles desejam
aprender e disciplinar-se para buscar oportunidades de
aprender.
Outro versículo de Provérbios merece nossa atenção. Em
23:12 lemos a ordem: "Aplica o coração ao ensino e os ouvidos às
palavras do conhecimento" . Não importa quanto saiba,
especialmente sobre Deus, Cristo, a Bíblia e a vida cristã, você
ainda precisa aplicar seu coração ao aprendizado, pois ainda
não aprendeu tudo. E não importa quão inteligente ou lento
você ache que é, de acordo com este versículo, deve aplicar
diligentemente o seu coração e ouvidos ao aprendizado.
Aprender é uma Disciplina vitalícia, uma Disciplina
Espiritual que caracteriza a pessoa sábia. Samuel Hopkins, um
dos primeiros biógrafos de Jonathan Edwards, disse que
quando conheceu Edwards, ficou impressionado com o fato de
que um homem já há vinte anos no ministério ainda tivesse
"uma incomum sede de conhecimento ... ele lia todos os livros,
especialmente sobre teologia, que estivesse a seu alcance".1 A
superioridade da mente de Edwards era inegável, mas ele nunca
parava de aplicá-la ao aprendizado. Era isso, aliado a um zelo ■
devocional igualmente forte, que o tornava sábio e muito
versado no Reino de Deus.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 301

O anseio permanente pelo aprendizado é o que caracteriza


todos aqueles que são verdadeiramente sábios.

CUMPRINDO O GRANDE MANDAMENTO

Parte do que Jesus disse ser o maior mandamento de Deus


diz: "Ame o SENHOR, o seu Deus ... de todo o seu entendimento"
(Marcos 12:30). O que Deus mais quer de você é o seu amor. E
uma das formas pela qual que Ele deseja que você demonstre
amor e obediência a Ele é por meio do aprendizado Piedoso.
Deus é glorificado quando usamos a mente que Ele fez para
aprendermos sobre Ele, os Seus caminhos, a Sua Palavra e o
Seu mundo.
Lamentavelmente, muitos cristãos não associam
aprendizado a amor a Deus. Na realidade, vivemos em uma
era muito anti-intelectual. Isso pode soar estranho numa época
em que todo o corpo de conhecimento do mundo duplica a
cada poucos anos, em que há mais graus acadêmicos avançados
sendo conferidos do que nunca, e em que tudo se move em
direção à "alta tecnologia". Talvez seja precisamente por causa
de tais eventos que as pessoas, inclusive as cristãs, estão mais
avessas a coisas intelectuais. Adolescentes inteligentes podem
ser impopulares simplesmente pelo fato de serem inteligentes.
Eles são os " nerds", e os "medíocres" recebem a atenção social.
Nossa cultura louva o físico e o material. Ninguém vende posters
dos maiores engenheiros ou arquitetos do software, muito
menos dos melhores teólogos. Em vez disso, vendemos posters
de jogadores de futebol, alguns dos quais podem fazer qualquer
coisa com a bola, exceto ler o que está escrito nela. Alguns
candidatos políticos agora são conhecidos como
demasiadamente intelectuais para serem elegíveis, quase como
302 Aprendizado

se não quiséssemos ter pensadores no governo. Na Igreja,


queremos que tudo seja "relevante" e tendemos a considerar
teologia e doutrina muito irrelevantes.
Há um intelectualismo que é errado, mas também é errado
ser anti-intelectual. Devemos amar a Deus tanto com nossa
mente quanto com nosso coração, alma e força. Como juntar
tudo isso? Já colocou o pensador cristão contemporâneo R. C.
Sproul: "Deus nos fez com harmonia entre coração e mente,
pensamento e ação. ...Quanto mais O conhecemos, mais somos
capazes de amá-Lo. Quanto mais O amamos, mais buscamos
conhecê-Lo. Para estar no centro de nossos corações, Ele deve
vir em primeiro lugar em nossas mentes. O pensamento
religioso é pré-requisito para a afeição religiosa e a ação
obediente".2
Se não amarmos a Deus com uma mente em
desenvolvimento, seremos como versões cristãs dos
samaritanos a quem Jesus disse: "Vocês, samaritanos, adoram o
que não conhecem" (João 4:22).

APRENDIZADO - ESSENCIAL PARA CRESCER


EM PIEDADE

De que forma é que devemos ser transformados em


semelhança com Cristo? A Bíblia indica que um dos elementos
cruciais do processo é o aprendizado quando diz: "E não vos
conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da
vossa mente" (Romanos 12:2, ênfase do autor). O crescimento
em piedade envolve uma renovação mental que não pode
acontecer sem o aprendizado. E a alternativa à transformação
por meio do aprendizado é a conformidade com o mundo.
Pense nisso da seguinte maneira: Como a fé é exercida? A
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 303

fé é um dom de Deus expresso somente após se ouvir com


entendimento uma mensagem em particular, a saber, o
evangelho. Daí Romanos 10:14 dizer: "Como crerão naquele de
quem não ouviram falar?" Assim como não podemos crer e amá-
Lo, de quem não ouvimos falar, não podemos crescer em fé e
em amor a Ele se não aprendermos mais sobre Ele. Não
cresceremos tanto em Piedade se não soubermos tanto do que
significa ser Piedoso. Não nos tornaremos mais semelhantes a
Cristo se não soubermos mais a respeito de quem Cristo é.
O recente pregador londrino Martyn Lloyd-Jones nos
lembrou: "Que jamais nos esqueçamos de que a mensagem da
Bíblia é dirigida em primeiro lugar à mente, ao entendimento".3
Ninguém muda por meio de uma Bíblia não lida. Ninguém
cresce em uma Piedade a respeito da qual não se sabe nada. A
Palavra de Deus deve passar por nossa mente, para poder
mudar nosso coração e nossa vida.
A ausência da Disciplina do aprendizado explica por que
muitos crentes professos parecem crescer tão pouco em
Piedade. Richard Foster enfatiza o mesmo ponto, referindo-se
ao aprendizado como Disciplina do estudo.
M uitos cristãos permanecem cativos a tem ores e ansiedades
simplesmente porque não se aproveitam da Disciplina do estudo.
Eles podem ser fiéis na freqüência à igreja e diligentes no
cumprimento de suas obrigações religiosas, mas mesmo assim
não são transformados. Não estou falando aqui somente daqueles
que realizam meras formalidades religiosas, mas daqueles que
buscam genuinamente adorar e obedecer a Jesus Cristo como
Senhor e Mestre. Eles podem cantar com satisfação, orar no
E sp írito , v iv e r de m od o o b ed ien te na m ed id a de seu
conhecimento, ... e ainda assim o teor de suas vidas permanece
inalterado. Por quê? Porque eles nunca abraçaram um dos
principais meios que Deus usa para nos mudar: o estudo.4
304 Aprendizado

Além de mais conformidade com o mundo e falta de


crescimento em Piedade, aqueles que não são ouvintes
disciplinados têm pouco discernimento espiritual e tornam-se
alvos fáceis das seitas, da influência da Nova Era e de outros
falsos profetas.
A Bíblia nos diz para sermos como Cristo, mas também nos
adverte a não sermos insensatos, iletrados, ingênuos ou
ignorantes. Juntos, esses dois cordões da verdade nos dizem
que devemos aprender a ser como Jesus.

O APRENDIZADO SE DÁ MAIS POR DISCIPLINA,


NÃO POR ACIDENTE

Assim como acontece com todo amontoado de poeira, que


quanto mais tempo rola debaixo da cama maior fica, toda mente,
quanto mais tempo "rola" sobre a terra capta ao menos um
pouco de conhecimento. Mas não devemos presumir que
aprendemos a verdadeira sabedoria simplesmente por
envelhecer. A observação encontrada em Jó 32:9 é: "Os de mais
idade podem não ser sábios".5 Somente idade e experiência não
aumentam a maturidade espiritual. Tomar-se como Jesus não
acontece incidentalmente ou automaticamente com o passar
dos aniversários. Piedade, conforme 1 Timóteo 4:7 diz, requer
uma disciplina deliberada.
Aqueles que não estão tentando aprender só irão obter
conhecimento espiritual e bíblico por acidente ou conveniência.
Ocasionalmente, eles ouvirão um fato ou princípio bíblico de
alguém e se beneficiarão com isso. Uma vez ou outra, terão
uma breve explosão de interesse em um assunto. Mas este não
é o caminho para a Piedade. A Disciplina do aprendizado nos
ajuda a sermos aprendizes intencionais, não acidentais.
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 305

É muito mais fácil ser um aprendiz acidental e um aprendiz


por conveniência do que um aprendiz intencional. Nós
nascemos assim. E a televisão alimenta essa inclinação em mega
doses. Assistir à televisão é tão mais fácil do que escolher um
bom livro, ler palavras, criar suas próprias imagens mentais e
relacioná-lo a sua vida. A televisão decide por você o que será
apresentado, fala as palavras para você, mostra a você as suas
próprias imagens e diz a você que impacto ela quer ter em sua
vida, se é que haverá algum. Os livros exigem muito da mente
moderna. Ah, como é preciso ter disciplina para se tornar um
aprendiz intencional!
No livro What Every Christian Should Know: Combating the
Erosion of Christian Knowledge in our Generation (O que Todo
Cristão Deveria Saber: Combatendo a Erosão do Conhecimento
Cristão em nossa Geração), Jo H. Lewis e Gordon A. Palmer
demonstram a necessidade de que os aprendizes acidentais e
de conveniência se tornem aprendizes disciplinados e
intencionais.

Os jovens de hoje conhecem Gênesis como nome de uma banda


de rock ou projeto planetário de um filme Jornada nas Estrelas,
mas não como o primeiro livro da Bíblia. Eles conhecem a Pepsi
e a nova geração, mas não o céu e a geração eterna; "L.A . L aw "6,
mas não a Lei de Deus. Eles sabem quem faz 280 Z's, mas não
conhecem o Alfa e o Omega que os fez. Eles conhecem Nikes e o
time vencedor, mas não a vitória em Jesus. Eles sabem como voltar
os olhos para "Days of Our Lives"7, mas não como olhar para
dentro de suas vidas.8

Recentemente, deparei com uma ilustração trágica disso


na vida real. O "Center for Science in the Public Interest"9
realizou uma pesquisa envolvendo 180 meninos e meninas de
306 Aprendizado

oito a doze anos que morassem na região de Washington D.C.


Na pesquisa escrita, as crianças tinham que mencionar tantas
marcas de cerveja e tantos presidentes americanos quantos
lembrassem. Os resultados mostraram que essas crianças,
criadas no ou perto do capitólio de nossa nação, com todos os
seus memoriais de presidentes internacionalmente conhecidos,
conseguiram escrever mais nomes de bebidas alcoólicas do que
de presidentes. Uma menina de dez anos só conseguiu escrever
"George Wash" no espaço para presidentes, mas lembrou-se
de Michelob, Jack Daniels e Heineken. Um menino de nove
anos citou "gorge Bush" e "prestent ragen" [escrita errada para
presidente Reagan] dentre os presidentes, mas escreveu
corretamente Molson Golden. Outro menino de nove anos
conseguiu mencionar apenas quatro dos presidentes
americanos mais famosos, mas completou todos os quinze
espaços disponíveis para listar nomes de cervejas.10 Isso pode
parecer chocante, mas como os seus filhos se sairiam num teste
assim? Como você se sairia? O aprendizado que é, em sua maior
parte, por acidente não leva à Piedade. Devemos nos tomar
aprendizes disciplinados e intencionais se pretendemos ser
como Jesus.
Jo Lewis e Gordon Palmer prosseguem mostrando que a
razão por que os jovens não são aprendizes intencionais é que
seus pais também não o são.

Os jovens não lêem. Isto não surpreende já que seus pais


raramente apreciam a leitura. Em uma faculdade cristã, um quinto
dos alunos disse que seus pais nunca leram para eles. A falta de
leitura resulta em parte da forte orientação vocacional dos
americanos: Os pais não lêem porque não lhes parece prático ler.
Eles estão mais preocupados em saber: "Meu filho é capaz de
operar computadores e de conseguir um emprego?" Isso faz o
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 307

encaixe da obsessão americana com o ponto principal. Esses pais


nunca aprenderam por desejar aprender, então seus filhos também
não o fazem. Desta forma, o valor da educação passou a ser
atenuado e relativizado pelo mercado. Então, sucede que os jovens
que lêem um pouco de alguma coisa não lêem a Bíblia. Um
pesquisador descobriu que "nas igrejas evangélicas mais vivazes",
as p essoas têm forte con vicção de que devem ler a Bíblia
diariamente, mas aproximadamente 15% delas, apenas, o fazem".
Os adultos, devemos salientar também, são afetados por muitas
das m esm as pressões que os jovens. Se assistirem televisão,
ouvirem rádios populares e forem a cinemas populares, irão
absorver esses valores que são dirigidos aos adolescentes. O
resultado é que a habilidade de ler e entender a Bíblia de muitos
jovens adultos de vinte ou trinta anos são, assim como os mais
jovens e até certo ponto, fica embotada.11

A Bíblia diz: "Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia,


sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos" (1
Coríntios 14:20).

APRENDENDO DE VARIADOS MODOS

Já que algumas pessoas têm dificuldades de ler genuínas,


apresentarei uma lista de outros métodos de aprendizado. Além
disso, a pessoa que tem vontade de aprender pela leitura,
normalmente deseja aprender por todos os meios disponíveis.
Considere ouvir livros gravados. Este mercado está crescendo
rapidamente tanto nas livrarias cristãs quanto seculares. A
maioria das bibliotecas públicas tem uma seleção de livros
gravados em fita cassete agora e há várias organizações de
encomenda postal com centenas de livros gravados que podem
ser alugados. Ouça as fitas. Além das livrarias cristãs e de
algumas poucas grandes bibliotecas que trabalham com
308 Aprendizado

empréstimo gratuito de livros espalhadas pelo país, sua igreja


ou pastor pode ter fitas que você pode ouvir enquanto se veste
pela manhã, ao dirigir ou ao fazer serviços domésticos. Para
assistir a fitas de vídeo, o sistema é praticamente o mesmo.
Quase todas as livrarias cristãs os alugam agora. E é claro, você
pode ouvir os programas de ensino bíblico das estações de rádio
cristãs. É preciso ter discernimento para se certificar de que
está ouvindo um ministério honrado. Mas, se assim for, esta
pode ser uma ótima maneira de aprender. Não se esqueça de
usar os guias de estudo. Estes são encontrados nas livrarias
cristãs e permitem que você estude qualquer livro da Bíblia,
bem como muitos tópicos doutrinários e práticos.
Um de meus meios favoritos de aprender é planejar um
significativo diálogo com perguntas preparadas a cristãos
maduros espiritualmente. Por duas vezes nas últimas semanas,
tive o privilégio de andar de carro o dia inteiro com alguns
homens Piedosos e experientes a quem admiro. Antes de cada
viagem, preparei uma lista de perguntas a serem discutidas.
Em ambas as excursões, aprendi valiosas lições e me senti
confiante de que estava "remindo o tempo" (Efésios 5:16, ERC)
muito bem. Faço isso freqüentemente com algumas pessoas por
correio também. Isso torna a correspondência bem mais
interessante e proveitosa do que o típico frete postal.
Obviamente, isto pode ser feito por telefone também, e eu tenho
um amigo que conduz um estudo/discussão da Bíblia com dois
outros homens em uma conference call de longa distância todas
as segundas-feiras às 8h da noite. É caro, mas eles se revezam
para fazer as chamadas e dizem que o benefício pessoal sempre
compensa o custo.
Tendo dito isto, ainda quero voltar a enfatizar o
aprendizado por meio da leitura. Sempre soube ser verdade
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 309

que cristãos que crescem são cristãos que lêem. Alguns a


consideram um hábito difícil de desenvolver. Outros gostam
muito de ler, mas por causa das demandas do emprego ou por
terem filhos pequenos em constante movimento, parecem não
encontrar para isso. Mas deixe-me encorajá-lo a encontrar
tempo para ler de qualquer forma, mesmo que não seja mais
de uma página por dia e um livro por ano. Jean Fleming, autora
de Finding Focus in a Whirlwind World e mãe de três filhos
crescidos, me contou que, segundo tem observado, as mulheres
que não desenvolvem disciplinas devocionais, inclusive a
leitura, quando têm filhos jovens raramente tendem a
desenvolvê-las quando passam de fato a ter tempo. Lembro-
me de quatro mulheres que pastoreei. Elas tinham ao menos
quatro filhos pequenos cada uma e cultivavam o hábito da
leitura. Uma delas decidiu encontrar tempo para ler no mínimo
uma página por dia e, embora tenha levado várias semanas,
acabou de ler Spirit of the Disciplines, de Dallas Willard com
muito proveito para sua vida espiritual. Outra leu as mais de
novecentas páginas dos dois volumes da vida de George
Whitefield, escritas por Arnold Dallimore. A terceira leu uma
constante sucessão de valiosos livros todos os anos e até
escreveu um manual para nossa escola bíblica de férias, sobre
como pregar o evangelho a crianças de maneira centrada em
Deus. Considerando-se que cada mulher assumiu o
compromisso de educar seus filhos em casa, o que consome
muito tempo, percebe-se que é possível a quase todo mundo,
com a disciplina necessária, progredir espiritualmente por meio
da leitura.
Estudos mostram, ainda, que 45% dos americanos dizem
que nunca leram um livro. Pior que isso, a Comissão Nacional
de Excelência em Educação relatou, em 1983, que a média dos
310 Aprendizado

universitários formados não lê nem um livro sério no curso de


um ano.12 Você tem muito a perder se não lê, e muito a ganhar
pela leitura disciplinada.
Discipline-se a aprender por meio da leitura e escolha bem
seus livros. Pode ser que você consiga ler relativamente poucos
livros durante sua vida, então leia os melhores. Suponha que
você leia dez livros por ano, contando de agora até quando
morrer, quantos livros você terá lido em um período de vida
razoável? Mesmo que você leia um pouco mais ou um pouco
menos do que isso, ainda não somarão muitos livros,
especialmente quando se considera que, nos Estados Unidos,
1500 livros são publicados todos os dias. Não perca tempo com
livros que você vá se arrepender de ter lido quando olhar para
trás e se lembrar deles da perspectiva da eternidade. Creio em
leitura recreativa. Não defendo que todo volume que você lê
deva ser didático ou até teológico. Há livros cuja leitura visa
simplesmente ao relaxamento e à distração. Mas até esses
devem ser edificantes e ajudar você de alguma forma, a amar a
Deus com sua mente.

MAIS APLICAÇÃO

Você irá se disciplinar para ser um aprendiz intencional?


Em Discipleship Journal li um pequeno relato do famoso
"matemático grego Euclides, que escreveu um texto formidável
de treze volumes para o estudo da geometria. Mas Ptolomeu I,
Rei do Egito, desejou aprender o assunto sem ter o trabalho de
passar por tantos livros. Como rei, estava acostumado a ter as
coisas facilitadas pelos servos, então perguntou se havia algum
atalho para dominar a geometria. A resposta de Euclides ao
trono foi sucinta: 'Não há caminho real para o aprendizado'".13
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 311

O mesmo acontece com a Piedade. Ela requer disciplina, a


disciplina de um aprendiz intencional. Você está disposto a orar
por graça e a fazer o esforço que requer quebrar os hábitos de
um aprendiz acidental e de conveniência?
Por onde você irá começar? Como você irá começar a
"aplicar seu coração à instrução" e a "acumular conhecimento"?
Que hábito você irá deixar e que hábito irá iniciar? Há lugar
em sua vida para um método de aprendizado que você
desconsiderou anteriormente? E quanto à leitura? Existe algo
que você deva parar de ler por não ser edificante ou por não
merecer lugar na lista de leitura de sua vida? Você precisa fazer
o compromisso de ler "uma página por dia" para que não perca
a Disciplina do aprendizado?
Quando você irá começar? Quando o seu plano começa?
Apliquemos o princípio de Provérbios 13:4 aqui: "O
preguiçoso deseja e nada consegue, mas os desejos do diligente são
amplamente satisfeitosO versículo diz que todas as pessoas têm
anseios, mas somente as almas dos diligentes são satisfeitas
porque eles se disciplinam a fazer algo enquanto os preguiçosos
não o fazem. Há um consenso em se dizer que todos "anseiam"
por aprender e que todo cristão quer ser mais parecido com
Jesus. Mas somente aqueles que diligentemente se disciplinam
para aprender irão satisfazer seus desejos.
Acima de tudo, lembre-se de que o aprendizado tem um
objetivo. O objetivo é a semelhança com Cristo. Jesus disse em
Mateus 11:28-29: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim". Existe o conhecimento falso ou superficial que
"traz orgulho" (1 Coríntios 8:1), mas o aprendizado Piedoso
leva à vida Piedosa. John Milton, o poeta inglês do clássico
"Paraíso Perdido", escreveu: "A finalidade do aprendizado é
312 Aprendizado

conhecer a Deus, e a partir desse conhecimento amá-Lo e imitá-


L o ".14 Deus nos dê um insaciável desejo de obter o
conhecimento que nos leve a amá-Lo mais e que nos torne mais
parecidos com Jesus Cristo.

Citado em Iain Murray, Jonathan Edwards: A Nexv Biography (Nova Biografia de


Jonathan Edwards) (Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth Trust, 1987) página
184.
R. C. Sproul, "Burning Hearts Are Not Nourished by Empty Heads" ("Corações
Ardentes não são Nutridos por Mentes Vazias), Christianity Today, 3 de setembro
de 1982, página 100.
John Blanchard, comp., Gathered Gold (Ouro Ajuntado) (Welwyn, Hertfordshire,
Inglaterra: Evangelical Press, 1984), página 203.
Richard Foster, Celebration of Discipline (Celebração da Disciplina) (São Francisco,
CA: Harper and Row, 1978), página 54.
Nota da Tradutora: tradução livre do versículo na versão NASB da Bíblia em inglês.
Nota da Tradutora: "L.A. Law" é uma série de televisão norte-americana de drama
veiculada durante os anos de 1986 a 1994. (fonte: pt.wikipedia.org/wik)
Nota da Tradutora: "Days of our Lives", novela norte-americana transmitida quase
todos os dias de semana desde 8 de novembro de 1965, na rede NBC dos Estados

Jo H. Lewis e Gordon A. Palmer, What Every Christian Should Know (O que Todo
Cristão Deveria Saber) (Wheaton, IL: Victor Books, 1990), página 74.
Nota da Tradutora: Center for Science in the Public Interest é uma Organização
não governamental (ONG) americana que defende os direitos dos consumidores.

Bob Greene, "A Controversy Abrewing" Chicago Tribune, 23 de julho de 1990, sec.
5, página 1.
Lewis e Palmer, páginas 80-82.
Conforme citação em Discipleship Journal (Diário do Discipulado), número 23 (1984),
página 27.
Paul Thigpen, "N o Royal Road to Wisdom", Discipleship Journal, número 29 (1984),
página 7.
Conforme citação em Discipleship Journal, número 23 (1984), página 16.
CAPÍTULO TREZE

P er sever a n ç a ...
C o m o P ro pó sito d e
A lcançar a P ied a d e
♦♦♦

Devemos disciplinar nossas vidas, mas devemos fazê-lo


o ano todo, e não simplesmente em determinados períodos.
Devo disciplinar-me a todo o tempo.

Martyn Lloyd-Jones
Estudos sobre o Sermão do Monte

( Z omo sempre, a semana de trabalho começa segunda-feira


quase ao amanhecer. Há pouquíssimo tempo flexível
incorporado à rotina de tomar banho, me vestir, comer, aprontar
as crianças e sair de casa. Daí para frente, a maior parte do dia
passa correndo. As crianças são levadas à escola e tarefas
domésticas são realizadas dentro e fora de casa até o exato
minuto de ter que buscar as crianças na escola. Senão isso, tem-
se que enfrentar o trânsito até o trabalho, aonde você chega
bem na hora de começar e mergulha implacavelmente em
atividades até a hora de enfrentar o rush novamente.
Tendo chegado à casa, muitas vezes depois de uma ou duas
paradas impetuosas, mas necessárias, você descobre que é cada
vez mais comum jogar uma refeição no microondas enquanto
troca de roupa apressadamente para assumir suas
responsabilidades da noite. Uma ou duas noites por semana,
314 Perseverança

há alguma atividade relacionada à escola com as crianças. Outra


noite, a família inteira pode se encontrar num culto de meio de
semana na igreja. Ainda outra noite reserva uma
responsabilidade de comitê para alguém. Além disso, inclua
uma noite ou outra para fazer horas-extras ou trabalhar em
casa, viajar a trabalho, ou realizar tarefas domésticas. Não se
esqueça das noites de pagamento de contas, balanço do talão
de cheques, ajuda com lição de casa, envolvimento comunitário,
aulas, hobbies e socialização.
Para complicar isso tudo, podem vir as pressões de ser pai
ou mãe sem cônjuge, conflito familiar, doença, estresse no
trabalho, um segundo emprego, tensão financeira e assim por
diante.
Você se identifica com isso? Sua vida é testemunha das
pesquisas que nos dizem, apesar de todas as nossas facilidades
e avanços tecnológicos, que o tempo de lazer tem diminuído
dramaticamente na última geração?
Então você lê este livro, que o encoraja a praticar todas essas
Disciplinas Espirituais. E faz com que você se sinta como um
malabarista cansado, titubeante na corda bamba, tentando
manter doze ovos no ar com outra pessoa tentando jogar para
você mais meia dúzia.
Cheguei à conclusão de que, com raras exceções, a pessoa
Piedosa é uma pessoa ocupada. O Piedoso é devotado a Deus e
às pessoas, e isso leva a uma vida atarefada. Embora nunca
tenha levado uma vida frenética, Jesus era um Homem ocupado.
Leia o evangelho de Marcos e observe quantas vezes a palavra
imediatamente descreve a transição de um evento da vida de
Jesus para o outro. Lemos sobre algumas vezes em que Ele,
depois de ter ministrado o dia todo e até depois de escurecer,
levantou-se antes de amanhecer para orar e viajar para o
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 315

próximo local de ministério. Os evangelhos contam sobre certas


noites em que Ele conseguiu dormir em um barco aberto, levado
pela tempestade. Multidões de pessoas o assediavam todos os
dias. Todos queriam passar tempo com Ele e clamavam por
Sua atenção. Ninguém de nós conhece "estresse relacionado
ao trabalho" como o que Ele continuamente experimentava. Se
a vida de Jesus, bem como a de Paulo, fossem comparadas à
vida "balanceada" visionada por muitos cristãos da atualidade,
eles seriam considerados "maníacos por trabalho" que
negligenciavam pecaminosamente os seus corpos. As Escrituras
confirmam o que a observação percebe: a preguiça nunca leva
à Piedade.
Tudo isso é dizer que as Disciplinas Espirituais têm sido
sempre aquilo que pode transformar a pessoa ocupada em
pessoa Piedosa. As Disciplinas Espirituais não foram criadas
para cristãos que têm muito tempo livre nas mãos (onde estão
eles?). Elas são o meio dado por Deus pelo qual os crentes
ocupados se tornam como Cristo. Deus estende a Sua graça
transformadora de vidas a mães que dirigem o tempo todo,
que fazem compras e executam tantas outras tarefas domésticas;
a alunos ocupados com atividades extracurriculares; a solteiros
de agendas lotadas, a mães e pais sem cônjuges e
sobrecarregados de responsabilidades, resumindo, a todo
crente, por meio das Disciplinas Espirituais.
Mas como podemos manter o ritmo? Para começar, ouvimos
melhor a voz de Deus a respeito das prioridades ao praticarmos
as Disciplinas Espirituais. Quanto mais velho você fica, mais
tende a acumular responsabilidades como sarna. Ter filhos e
acompanhar o crescimento deles requer o aumento da atenção
a suas vidas na escola, nos esportes e no transporte. Progredir
no emprego traz mais comprometimento e também mais
316 Perseverança

oportunidades. O acúmulo de bens e propriedades ao longo


dos anos tende a aumentar o tempo que você tem que devotar
à manutenção deles. Tudo isso significa que periodicamente, a
sua vida irá requerer uma avaliação de prioridades. Talvez por
meio da Disciplina da absorção bíblica, Deus possa falar a você
sobre que atividades são "sarnas" que devem ser extirpadas.
Em vez de ver as Disciplinas Espirituais como peso extra, elas
são na verdade um dos meios usados por Deus para ajudar a
aliviar a carga que você leva e a facilitar a sua navegação.
Mesmo com a avaliação consistente de prioridades, o
Piedoso continuará a ser uma pessoa ocupada. Entretanto, a
pessoa ocupada também é a mais tentada a deslizar na prática
das mesmas Disciplinas que levam à Piedade. Sem praticar as
Disciplinas Espirituais, não seremos Piedosos, mas também não
seremos Piedosos se não perseverarmos na prática das
Disciplinas. Até mesmo uma perseverança morosa e diligente
nas Disciplinas Espirituais é melhor do que uma prática às vezes
espetacular, mas geralmente inconsistente.
Como podemos ser mais perseverantes nas Disciplinas da
Piedade? Quando as emoções que normalmente acompanham
o início de uma Disciplina Espiritual declinarem, como
poderemos permanecer fiéis? Há três coisas que raramente têm
sido mencionadas até agora que, quando melhor entendidas,
ajudarão você a perseverar na prática das Disciplinas
Espirituais. Elas são o papel do Espírito Santo, o papel da
comunhão e o papel da luta na vida cristã.

O PAPEL DO ESPÍRITO SANTO

Onde quer que o Espírito Santo habite, a Sua presença


produz sede de santidade. Sua missão é glorificar a Cristo e é
Com o Propósito cie Alcançar a Piedade 317

Ele quem dá ao crente o desejo de ser semelhante a Cristo. O


homem natural não tem tal paixão. Mas no cristão, o Espírito
de Deus começa a realizar a vontade de Deus para tornar os
filhos de Deus como o Filho de Deus (Romanos 8:29). E Ele,
que começou esta boa obra na vida do crente "vai completá-la
até o dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1:6).
Assim, é papel do Espírito Santo produzir em nós o desejo
e o poder para praticar as Disciplinas que levam à Piedade.
Segunda Timóteo 1:7 evidencia que Ele desenvolve isso em cada
crente: "Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de
amor e de equilíbrio". Portanto, não importa se o seu
temperamento ou personalidade natural tem ou não inclinação
para os hábitos ordeiros e disciplinados, a presença do Espírito
Santo em seu interior irá equipá-lo suficiente e sobrenatu­
ralmente com "espírito de...equilíbrio" para que você obedeça
à ordem: "exercite-se na piedade".
E por isso que apesar de haver dias em que você é tentado
a desistir do cristianismo todo, a renunciar ao povo de Deus ou
a abandonar as Disciplinas Espirituais como se considerados
perda de tempo, você não o faz. É o Espírito Santo que o faz
perseverar. Naquelas épocas em que você fica preguiçoso e sem
entusiasmo para qualquer Disciplina Espiritual, ou em que você
abandona a prática de uma Disciplina específica que
habitualmente pratica, é o Espírito Santo que o leva a começar
de novo apesar de seus sentimentos. Se deixado por sua conta,
você abandonaria esses meios de graça mantenedora há muito
tempo, mas o Espírito Santo preserva você concedendo graça
para perseverar nelas.
O autocontrole, de acordo com Gálatas 5:23, é um produto
direto, ou "fruto", do controle do Espírito na vida do crente. E
quando o cristão expressa este autocontrole, que o Espírito
318 Perseverança

produz, pela prática das Disciplinas Espirituais, o resultado é


progresso em Piedade.
A fim de ilustrar o papel do Espírito Santo ao ajudar o filho
de Deus a perseverar nas Disciplinas da Piedade, um escritor
contemporâneo conta a sua história de luta e sucesso com a
Disciplina da oração.

Recentemente, li novamente sobre uma mulher que simplesmente


decidiu um dia fazer tal compromisso com a oração, que minha
consciência foi afligida. Mas eu me conhecia bem o suficiente para
saber que outra coisa que não decisão estava sendo exigida.
Comecei a orar a pela oração. Expressei a Deus meus desejos
fru strad os, m eu exau sto senso de cautela quanto a tentar
novam ente, minha sensação de fracasso em relação a meus
esforços para ser mais disciplinado e constante. Percebi algo
surpreendente acontecer dessa oração tão simples: fui levado para
a presença Daquele que tinha, muito mais do que eu, o poder de
me manter próximo. Percebi meu foco mudar sutilmente de meus
esforços para os de Deus, de rigor para graça, de rigidez para
relacionam ento. Logo percebi que isso estava acontecendo
reg u la rm e n te . Eu estava oran d o m ais. T orn ei-m e m enos
preocupado com a mecânica e os métodos, e em troca fiquei mais
motivado. E Deus Se importa tanto conosco, percebi novamente,
que Ele mesmo nos ajuda a orar. Quando "não sabemos como orar...o
próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis"
(Romanos 8:26).1

A Bíblia não explica a mecânica do mistério do ministério


do Espírito a nós. Como a oração (ou a prática de qualquer
outra Disciplina Espiritual), por um lado, é incitada e produzida
por Ele e, por outro, contudo, existe a nossa responsabilidade,
é insondável. Mas estas duas coisas são claras: (1) Ele será
sempre fiel em ajudar cada um dos eleitos de Deus a perseverar
até o final nas coisas que nos farão semelhantes a Cristo e (2)
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 319

não devemos endurecer os nossos corações, mas responder as


Suas chamadas, se pretendemos ser Piedosos.

O PAPEL DA COMUNHÃO

Ninguém deve ler estas Disciplinas e imaginar que ao


praticá-las em isolamento de outros crentes poderá ser tão
semelhante a Cristo, talvez até mais, do que os cristãos que são
membros ativos de um Corpo local de Cristo. Nada pode estar
mais longe da verdade do que pensar que as Disciplinas
Espirituais são uma parte da vida cristã dissociada da
comunhão dos crentes.
A medida do progresso em semelhança com Cristo somente
em termos de crescimento em comunhão com Deus é
incompleta. A maturidade espiritual também inclui crescimento
em comunhão com os filhos de Deus. O Apóstolo João justapôs
essa dupla comunhão em 1 João 1:3: "Nós lhes proclamamos o que
vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco.
Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo". A
comunhão no Novo Testamento é tanto com o Deus Triúno
quanto com o Seu povo. Tal como a maturidade de Jesus incluiu
crescimento em favor tanto com Deus quanto com os homens
(Lucas 2:52), assim é com a maturidade espiritual daqueles que
buscam ser como Jesus por meio das Disciplinas Espirituais.
Uma razão óbvia porque não devemos pensar em aderir às
Disciplinas Espirituais e nos tomarmos reclusos é que algumas
Disciplinas não podem ser praticadas na ausência de outros
cristãos: a adoração pública, a oração em grupo, o serviço a
outros discípulos e assim por diante. Além disso, um dos
propósitos de Deus na comunhão é suplementar as Disciplinas
Espirituais e estimular o nosso crescimento em Piedade por
320 Perseverança

meio delas. Por exemplo, assim como estudar a Palavra sozinho


é uma Disciplina que Deus nos deu para crescermos em graça,
estudar a Palavra com outros crentes também o é. As Disciplinas
Espirituais definitivamente têm aplicações particulares, mas
jamais foram concebidas para serem praticadas separadamente
da comunhão na comunidade da Nova Aliança.
Os cristãos de culturas ocidentais esquecem-se facilmente
do papel desempenhado pela comunhão na teologia e na prática
das Disciplinas Espirituais. Uma causa dessa inadvertência é o
intenso individualismo apregoado em nossa sociedade "cuide
do que é seu", "seja seu próprio chefe", "faça o que é melhor
para si mesmo".
Mas há uma razão mais sutil: a comum falha cristã em
distinguir entre socialização e comunhão. Embora socializar
faça parte da comunhão e seja sempre o contexto dela, é possível
socializar sem ter comunhão. Socializar envolve compartilhar
sobre a vida humana e terrena. A comunhão cristã, a koinonia
do Novo Testamento, envolve compartilhar a vida espiritual.
Não entenda mal, socializar é um bem valioso para a igreja e
algo necessário para uma vida equilibrada. Mas damos à
socialização um lugar além do que ela merece. Nós nos
tomamos propensos a aceitá-la como substituta da comunhão,
quase nos defraudando de todo o direito cristão à comunhão
verdadeira. Quando isso acontece, nossa prática das Disciplinas
Espirituais sofre e nosso crescimento na graça pára.
Parece que acontece o seguinte: dois ou mais cristãos podem
ficar juntos por horas, falando apenas das notícias, do tempo e
de esportes, ignorando completamente a necessidade de
abordarem diretamente os assuntos espirituais. Não estou
dizendo que toda conversa entre cristãos tenha que incluir
referências a versículos bíblicos, respostas recentes de orações
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 321

ou insights do período devocional do dia. Mas tenho observado


que muitos chamados cristãos comprometidos são tão
independentes em sua prática das Disciplinas Espirituais, que
quase nunca falam sobre ela com profundidade. E sem interação
sobre interesses mútuos, problemas e aspirações do
discipulado, nossas vidas espirituais ficam empobrecidas.
Então, ao final do dia, tendo meramente socializado, pensamos
que tivemos comunhão. Somente cristãos podem ter o rico
banquete da koinonia, mas muito freqüentemente nos
contentamos com pouco mais do que o tipo de fast-food da
socialização que até o mundo pode experimentar.
Assim como precisamos praticar a Disciplina de imitar a
Cristo e falar Dele a descrentes, é necessário que pratiquemos
uma Disciplina semelhante com os crentes. Diferentemente da
Disciplina do evangelismo, onde compartilhar a vida de Cristo
é unidirecional, a comunhão envolve uma comunicação
bidirecional da vida espiritual. J. I. Packer define comunhão
como "a busca de compartilhar com os outros o que Deus
revelou sobre Si mesmo, como meio de encontrar força,
revigoramento e instruções para a própria alma".2 A comunhão
pode acontecer sempre que os cristãos puderem estar juntos
socialmente, adorando, servindo, comendo, se divertindo,
fazendo compras, testemunhando, indo e vindo do trabalho,
orando etc. Qualquer que seja a situação em que a comunhão
ocorre, dela deve fazer parte compartilhar a vida de Cristo tanto
por palavra quanto por ação. Ao vivermos como Cristo quando
juntos, encorajamos uns aos outros na vida cristã. Ao falarmos
como Cristo e sobre assuntos espirituais, também estimulamos
uns aos outros à Piedade.
Esta edificação mútua é descrita em Efésios 4:16, que fala
que: "todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas,
322 Perseverança

cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte


realiza a sua função". Ao crescermos em graça, podemos
contribuir adequadamente para "cada parte realiza[r] a sua
função". Quando o corpo de crentes "edifica-se a si mesmo em
amor", cada cristão é edificado individualmente em Piedade
também. Colocando diretamente, quando o crente se disciplina
com o propósito de alcançar a Piedade, seu crescimento
espiritual individual ajuda a edificar o corpo local de crentes
quando aquele crente está em comunhão com eles. Quando o
corpo de cristãos é edificado coletivamente, o fortalecimento
dessa comunhão contribui para o crescimento espiritual do
indivíduo e encoraja a sua busca da Piedade por meio das
Disciplinas Espirituais. Praticar as Disciplinas biblicamente
fortalece a comunhão dos crentes. A comunhão bíblica fortalece
a prática das Disciplinas Espirituais.
No entanto, sem comunhão verdadeira, até o cristão que
tem praticado ardentemente as Disciplinas Espirituais não se
desenvolverá de modo espiritualmente equilibrado. O escritor
de Hebreus 3:13 adverte: "Pelo contrário, exortai-vos mutuamente
cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, afim de que nenhum de
vós seja endurecido pelo engano do pecado". A comunhão é
necessária para que os crentes "encorajem-se uns aos outros".
Quando estamos fora da proteção espiritual que Deus planejou
que nós obtivéssemos por meio da comunhão, fica muito mais
fácil sermos ludibriados pelo pecado. Algumas das pessoas mais
ludibriadas pelo pecado praticam rigorosamente muitas das
Disciplinas. Conheço pessoas que estudaram a Bíblia e oraram
tanto sozinhas, que se convenceram de que não precisavam de
nenhuma das pessoas "não espirituais" da igreja. Sem a
influência moderadora dos crentes com diferentes dons, eles
sustentaram confiantemente visões distorcidas das Escrituras,
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 323

proferiram "palavras de Deus" a todos e foram capazes de


justificar até o pecado flagrante por causa de sua suposta
espiritualidade. Obviamente, esses são casos extremos, mas eles
ilustram como até as pessoas que mais rigorosamente se
exercitam nas Disciplinas Espirituais precisam daquilo que
Deus planejou que elas obtivessem apenas por meio da
comunhão.
"Associe-se a pessoas santificadas", foi a recomendação do
puritano Thomas Watson, "elas podem, por seu conselho,
orações e exemplo santo, ser um meio de tomar você santo".3

O PAPEL DA LUTA

Há um elemento de luta na vida cristã. Muitas forças


combatem o progresso espiritual de quem ainda está deste lado
dos Céus. Agora, o caminho de Cristo não é sempre uma luta
interior, a todo momento uma batalha, mas nem é sem oposição
pela vida toda. Portanto, não se engane em pensar que se você
beber da graça que Deus oferece por meio das Disciplinas
Espirituais, a vida cristã será fácil.
Por estranho que pareça, estou incluindo esta parte sobre o
papel da luta na esperança de que você seja encorajado a seguir
a Cristo e a praticar as Disciplinas Espirituais quando for difícil
fazê-lo. Ao escrever o parágrafo acima, recebi o telefonema de
uma jovem que se tomara cristã há aproximadamente três anos.
Ela expressou frustração por ter cometido uma falha espiritual
recentemente e queria saber se outros membros da igreja que
pareciam tão maduros espiritualmente tinham enfrentado
alguma das lutas pelas quais ela estava sofrendo. O lembrete
novo e oportuno de que todos os crentes lutam, na maioria das
vezes, do mesmo modo que ela, trouxe conforto e esperança.
324 Perseverança

Que seja assim com você também.


Evite aquelas pessoas que ensinam que, se seguir certos
passos ou tiver uma determinada experiência, você poderá ser
liberto de toda luta contra os pecados que impedem a sua
santidade. Tais promessas funcionam como a "cenoura na ponta
da vareta", que sempre atraem você, mas nunca satisfazem.
A idéia de que a prática das Disciplinas Espirituais e o
progresso em Piedade serão acompanhados de luta é
confirmada no contexto de nosso versículo-tema. Referindo-se
à Piedade mencionada em 1 Timóteo 4:7-8, o Apóstolo Paulo
escreve no versículo 10: [Por ela] "trabalhamos e lutamos". As
palavras trabalhamos e lutamos nos dizem que ser semelhante a
Cristo envolve muito mais do que "deixar estar e deixar Deus
fazer". A palavra grega traduzida por "trabalhamos" significa
trabalhar até ficar fatigado. A palavra agonizar vem do mesmo
termo traduzido aqui como lutar. Ele significa literalmente
"combater". Isso soa como uma teologia de obras ao invés de
graça? Estou dizendo que embora tenhamos começado a vida
cristã pelo Espírito, devamos nos tomar santos pelas obras da
carne (Gálatas 3:3)? De modo algum! Trata-se do mesmo
equilíbrio encontrado em todo o ensino do Novo Testamento
sobre o crescimento espiritual. O avanço na vida cristã acontece
não somente pela obra do Espírito Santo, nem somente pelas
obras, mas pela nossa resposta e cooperação com a graça que o
Espírito Santo inicia e sustém. Nossa experiência em
desenvolvimento na semelhança com Cristo acontecerá como
foi com Paulo, que disse: "Para isso eu me esforço, lutando conforme
a sua força, que atua poderosamente em mim" (Colossenses 1:29).
Observe que o próprio Paulo trabalhou e lutou, mas foi
conforme o poder do Espírito Santo trabalhava (literalmente
"agonizava") dentro dele. Já falamos sobre o papel do Espírito
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 325

Santo em nos manter fiéis na prática das Disciplinas e em


produzir o caráter de Cristo em nós por meio delas. Manter
uma visão equilibrada de como o progresso espiritual acontece
significa que devemos também lembrar a realidade de luta que
homens ou mulheres perdoados, embora manchados pelo
pecado, terão ao se tomarem como Jesus Cristo.
Isto é ensino incisivo do Novo Testamento. Ele nos adverte
sobre o mundo, a carne e o Diabo e sobre como eles guerreiam
constantemente contra nós. A Bíblia diz que, enquanto
estivermos neste corpo, por causa dessa trindade de oposição,
nós teremos que lutar para vencer o pecado.
Enquanto estivermos no mundo, sofreremos a sua
incessante pressão. Jesus nos faz lembrar que o mundo O odiava
(João 15:18-19). João nos exorta: "Não amem o mundo" (1 João
2:15), e então prossegue dizendo que a cobiça da carne, a cobiça
dos olhos e a ostentação dos bens fazem parte do mundo. E
não há experiência que possa dar livramento permanente de
cada uma dessas tentações mundanas, exceto a experiência de
deixar o mundo.
Uma das mais óbvias passagens sobre a realidade da luta
espiritual se refere a nossa guerra contra a carne, aquela
inclinação ao pecado que habita em nós. A realidade árida de
Gálatas 5:17 é que "Porque a carne milita contra o Espírito, e o
Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não
façais o que, porventura, seja do vosso querer Às vezes, não há
empecilho algum para se fazer o que é certo, para se obedecer
a Deus. Há dias em que sua maior alegria é penetrar na Palavra
de Deus. Ocasionalmente, você tem experiências de oração que
gostaria que nunca terminassem. Porém, sabe que há muitas
vezes em que é uma batalha praticar qualquer Disciplina
Espiritual. O Espírito o move em direção à semelhança com
326 Perseverança

Cristo e à prática das Disciplinas, e sua carne se ergue em


resistência ante a proposta. Isto ocorre porque "eles estão em
conflito um com o outro". Mas mesmo que disciplinar a si
mesmo seja difícil às vezes e envolva luta, autodisciplina não é
autopunição. Ao contrário, é uma tentativa de fazer o que,
levado pelo Espírito, você realmente deseja fazer em seu
coração. A luta começa quando "a carne deseja o que é contrário
ao Espírito". Mas em vez de pensar em entrar nesta batalha
como forma de autopunição, é mais bíblico ver a prática das
Disciplinas Espirituais como forma de "[semear] para o
Espírito" que Gálatas 6:8 encoraja. Mas o fato bíblico de que a
carne deseja o que é contrário ao Espírito confirma que,
enquanto estivermos neste corpo, não haverá experiência
espiritual que nos liberte permanentemente dessa tensão.
É claro, você tem um Inimigo pessoal comprometido em
impedir que você pratique as Disciplinas: o Diabo. O Apóstolo
Pedro nos lembra: "Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso
adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém
para devorar" (1 Pedro 5:8). Se há alguma experiência que nos
permita jamais ter que entrar em batalha espiritual, por que
não somos informados sobre ela, mas a ordem é para que
fiquemos alertas? Por que Efésios 6 nos comanda a vestir a
armadura do Espírito Santo? É porque estamos em uma batalha,
um conflito, uma luta. E não há férias da luta que faz parte da
vida cristã.
Onde, então, está a vitória? A vitória sobre o mundo, a carne,
e o Diabo foi há muito tempo decidida e eternamente ganha
por Jesus Cristo. A vitória é transmitida a nós pelo Espírito
Santo. De Sua parte, Ele nos preserva na graça de Deus. Mas
parte dessa preservação inclui conceder-nos a graça de sermos
fiéis. De nossa parte, nós assumimos a luta de nossa cruz e
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 327

seguimos a Cristo, vivendo como Ele viveu pelas Disciplinas


Espirituais. A vitória que nós verdadeiramente experimentamos
sobre as forças opostas a nosso progresso nas Disciplinas virá,
a bem dizer, por meio da prática das Disciplinas. Em outras
palavras, é pela perseverança nas Disciplinas Espirituais que
experimentamos mais consistentemente a vitória sobre os
inimigos da prática das Disciplinas. Se nos rendermos a esses
inimigos de nossa alma e abandonarmos as Disciplinas, a vitória
nunca virá. Mas se utilizarmos essas armas espirituais, a nós
serão concedidas a graça e a força para conquistarmos até mais.
Um dia, toda luta cessará, todas as promessas serão cumpridas
e as Disciplinas Espirituais não mais serão necessárias, pois
finalmente "seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é" (1
João 3:2). Assim, enfrentemos esta luta com determinação
inflamada pelo Espírito, pois será para nós como foi para os
puritanos cujo moto era " Vincit qui patitur: aquele que sofre
conquista".4
"Assim, precisamos nos lembrar", adverte Packer, "que
qualquer idéia de ir além do conflito, exterior ou interiormente,
em nossa busca pela santidade neste mundo é um sonho
escapista que somente pode ter efeitos de desilusão ou
desmoralização sobre nós como a experiência de despertamento
diariamente o refuta. O que devemos perceber, em vez disso, é
que qualquer santidade real em nós estará sob fogo hostil o
tempo todo, assim como a de nosso Senhor ".5 O autor de
Hebreus (12:3-4) nos diz: "Considerai, pois, atentamente, aquele
que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para
que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma. Ora, na vossa luta
contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue".
O Espírito Santo, a comunhão verdadeira e o
reconhecimento de que há uma luta constante na vida do cristão
328 Perseverança

ajudarão você a perseverar na prática das Disciplinas


Espirituais. Sem perseverança, as Disciplinas serão incompletas
e ineficientes. Observe como a perseverança associa a disciplina,
ou o autocontrole, à Piedade em 2 Pedro 1:6: "ao domínio próprio
a perseverança; à perseverança a piedade". Sem perseverança entre
os dois, o relacionamento entre a prática autocontrolada das
Disciplinas Espirituais e a Piedade é como a pilha carregada de
energia, mas mal conectada à lâmpada. A luz tremula
inconsistentemente e não traz proveito. Mas quando há uma
conexão perseverante entre as duas, a luz brilha intensamente.
Da mesma forma, a luz da vida de Cristo brilhará de modo
mais constante por seu intermédio à medida que você
perseverar mais na prática das Disciplinas Espirituais.

MAIS APLICAÇÃO

Você pretende ser Piedoso? Então pratique as Disciplinas


Espirituais à luz da eternidade. Disseram-me que Jonathan
Edwards oraria assim: "Ó, Deus, cunhe a eternidade em meus
globos oculares!" Imagine como seria diferente a forma com
que gastamos o nosso tempo e fazemos as nossas escolhas na
vida se víssemos tudo da perspectiva da eternidade. Boa parte
do que parece vital agora de repente se tomaria trivial. E muitas
coisas que ficam relegadas à coluna "quando eu tiver mais
tempo" de nossa lista de prioridades rapidamente assumiriam
uma nova e dramática importância. A prática das Disciplinas
Espirituais, quando vista pelos olhos cunhados pela eternidade,
toma-se uma prioridade valiosíssima por causa de sua íntima
conexão com a Piedade.
Praticar as Disciplinas Espirituais com a eternidade em vista
sempre tem sido o plano de Deus. As palavras de 1 Timóteo 4:7
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 329

sobre as quais este livro foi baseado, "exercite-se na piedade",


são seguidas no versículo 8 por estas: "O exercido físico é de pouco
proveito; a piedade, porém, para tudo é proveitosa, porque tem promessa
da vida presente e da futura". A visão das Disciplinas Espirituais
apenas da perspectiva pragmática e temporal é muito limitada.
Precisamos pensar mais alto a respeito delas e não indagar
somente o que elas podem fazer por nós hoje ou mesmo nesta
vida. A Piedade cultivada pela disciplina certamente "tem
promessa" digna de busca na "vida presente". Mas o valor da
Piedade e a prática de suas Disciplinas Espirituais apensas é
mais bem visto à luz da eternidade.
Quer perceba ou não, tudo o que você faz é para a
eternidade. Nada tem impacto somente nesta vida. Isto fica
evidente pelo ensino bíblico de que no fim iremos dar conta
diante de Deus de como vivemos nossas vidas (veja Romanos
14:12) e teremos recompensa ou perda com base em cada uma
de nossas obras nesta vida (1 Coríntios 3:10-15). Já que o peso
de toda a eternidade, nas palavras do puritano Thomas Brooks,
jaz sobre o estreito fio do tempo, usemos nosso tempo de
maneiras que sejam proveitosas não apenas nesta vida, mas
que nos preparem melhor para a eternidade também. Nada
fornece um preparo mais equilibrado para a vida nesta terra e
para a nova vida que virá quanto a prática fiel das Disciplinas
Espirituais.
Você quer ser Piedoso? Não há outra maneira que não por
meio das Disciplinas Espirituais. O caminho bíblico para a
Piedade é claro. Você quer ser Piedoso? Então, diz o Senhor em
1 Timóteo 4:7: "Exercite-se na piedade". Este é o caminho e não
há outro.
Não há atalhos para a Piedade. Mas a carne se preocupa
em achar um caminho mais fácil do que por meio das
330 Perseverança

Disciplinas Espirituais. Ela protesta: "Por que a vida do cristão


não pode ser mais espontânea e natural? Toda essa conversa
sobre me disciplinar parece legalista, sistemática e mais difícil
do que pensei que seria parecer-me com Cristo. Eu só quero
ser espontâneo'.”
O evangelista John Guest responde bem a essa tentação:

"Disciplina" tem se tom ado uma palavra ofensiva em nossa


cultura......Sei que estou falando heresias em vários círculos, mas
a espontaneidade é grandemente supervalorizada. A pessoa
"espontânea" que despreza a necessidade de disciplina é como o
fazendeiro que saiu para pegar os ovos. Ao andar pela fazenda
em direção à granja, ele notou que a bomba estava vazando. Então
parou para consertá-la. Uma nova arruela era necessária, então
ele foi até o celeiro a fim de pegá-la. Mas no caminho, viu que o
palheiro precisava ser organizado, então foi buscar o forcado.
Pendurado perto do forcado havia uma vassoura com o cabo
quebrado. 'Preciso escrever um lembrete a mim mesmo para
comprar um cabo de vassoura da próxima vez que for à cidade',
ele pen sou ....
Neste ponto, fica claro que o fazendeiro não vai pegar os
ovos, e provavelmente não vai realizar nenhuma outra coisa que
tenha a intenção de realizar. Ele é absoluta e gloriosamente
espontâneo, mas dificilmente será livre. Ele é, no máximo, um
prisioneiro de sua espontaneidade desenfreada.
A verdade é que a disciplina é o único caminho para a
liberdade; é necessário haver contexto para espontaneidade.6

O dia do fazendeiro o faz lembrar-se de sua vida espiritual


- espontânea, mas esporádica? Você se agita de uma coisa para
outra com aparentemente pouco efeito ou crescimento em
graça? Certamente que desejamos espontaneidade, mas a
espontaneidade sem disciplina é superficial. Tenho vários
amigos que podem improvisar belas melodias no teclado ou
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 331

no violão. Mas a única razão por que eles podem tocar tão
"espontaneamente" é que eles passaram anos nas disciplinas
de tocar escalas musicais e outros exercícios fundamentais. Jesus
pôde ser tão "espontâneo" espiritualmente porque Ele foi, na
realidade, o homem mais disciplinado espiritualmente que já
viveu. Não faça nada e você viverá espontaneamente. Mas se
você deseja espontaneidade efetiva na vida cristã, ela deverá
ser fruto de uma fé disciplinada espiritualmente.
Para muitos crentes, a prática das Disciplinas Espirituais
não tem tanto a ver com a luta contra o desejo de
espontaneidade, mas com a luta contra a falta de tempo.
Contudo, se você deseja ser Piedoso, tem que encarar o fato de
que estará sempre ocupado. O que Deus mais deseja, isto é,
que você O ame de todo o seu coração, alma, mente e força e
ame seu semelhante como ama a si mesmo (Marcos 12:29-31),
não pode ser feito em seu tempo de folga. Amar a Deus e aos
outros em ação e em palavra resultará em uma vida ocupada.
Não o digo porque Deus queira que tenhamos vidas confusas,
mas sim para afirmar que o povo de Deus jamais será um povo
preguiçoso.
Assim, se você estiver simplesmente esperando até ter mais
tempo para as Disciplinas Espirituais, você jamais conseguirá.
Em um cartão dado a minha esposa e a mim, Jean Fleming
escreveu: "Pego-me pensando: 'Quando a vida ficar mais
tranqüila, vou../ Mas eu já deveria ter aprendido, a esta altura,
que a vida nunca fica tranqüila por muito tempo. Aquilo que
desejo fazer, devo fazê-lo com a vida agitada mesmo". Acho
esse um insight maravilhoso para o mundano. Já que a vida na
verdade nunca vai ficar tranqüila, e já que nós sempre teremos
muitas coisas a fazer, se pretendemos algum dia progredir em
Piedade por meio das Disciplinas Espirituais, isso deve ser feito
332 Perseverança

com a vida tal qual está agora.


Durante meus anos de ensino fundamental e médio,
qualquer pessoa que se interessasse por basquetebol queria ser
como Pete Maravich. O "Pistol Pete" [Pete Pistola], como era
conhecido, marcou mais pontos do que todos na história da
faculdade e era o jogador de entusiasmo mais contagiante de
sua época. Antes dele, o drible entre as pernas e os passes por
trás das costas eram considerados somente para se mostrar.
Maravich os tornou comuns. Após sua carreira profissional,
ele entrou para a Galeria da Fama da Associação de Basquetebol
Nacional. Ele tomou-se cristão aos trinta e cinco anos e morreu
repentinamente em janeiro de 1988, de ataque cardíaco, com
apenas quarenta anos de idade.
Um ano antes de morrer, Maravich disse o seguinte em
uma entrevista:

A chave de minha habilidade era a repetição. Eu praticava,


praticava e praticava novamente. Era totalmente comprometido
com o esporte. Tentei fazer tudo o que pude, de todas as formas
possíveis, para aperfeiçoar minhas habilidades. Foi como uma
obsessão. Tudo compensou para mim como jogador, mas não
tenho tanta certeza se para a vida em geral. Se eu tivesse me
dedicado da mesma maneira à minha fé, que é o que faço agora,
eu teria sido uma pessoa melhor afinal de contas.7

Disciplinando-se para praticar arremessos, passes e


dribles, Pete Maravich tomou-se um dos maiores jogadores de
basquete de todos os tempos. Apesar de todo o dinheiro e fama
que o esporte lhe rendeu, ele acabou se arrependendo de ter
dedicado uma disciplina tão produtiva a outra coisa que não à
sua fé em Cristo. Você está disposto a disciplinar-se com o
propósito de alcançar a piedade tanto quanto ele esteve disposto
Com o Propósito de Alcançar a Piedade 333

a se disciplinar com o propósito de ser bem-sucedido no


basquetebol? A Piedade significa tanto para você quanto o
basquete significou para Pete Maravich?
Assim como o único caminho para Deus é por meio de
Cristo, o único caminho para a Piedade é por meio da prática
centrada em Cristo das Disciplinas Espirituais. Você irá
disciplinar-se com o propósito de alcançar a piedade? Onde e
quando você irá começar?

1 Timothy K. Jones, "What Can I Say?" ("O que Posso Dizer?") Christianity Today, 5
de novembro de 1990, p. 28.
2 J. I. Packer, Cod’s Words: Studies of Key Bible Themes (Palavras de Deus: Estudos de
Temas-Chave da Bíblia) (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1981), página 195.
1 Thomas Watson, A Body of Divinity (Um Corpo de Divindade) (1692; reimpressão,
Edimburgo, Escócia: The Banner of Truth Trust, 1970), página 249.
4 John Geree, The Character of an Old English Puritane or Nonconformist (O Caráter
de um Velho Puritano ou Não-Conformista Inglês) (1646), conforme citação em J.
I. Packer, A Quest for Godliness: The Puritan Vision of the Christian Life (A Busca da
Piedade: A Visão Puritana da Vida Cristã) (Wheaton, IL: Crossway Books, 1990),
p. 23.
5 J. I. Packer, Keep in Step with the Spirit (Ande pelo Espírito) (Old Tappan, NJ: Fleming
H. Revell, 1984), p. 111.
6 John Guest, conforme citação em Christianity Today, 23 de abril de 1990, página 33.
7 USA Today, 18 de janeiro de 1988.
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LIBERDADE: A RECOMPENSA DA DISCIPLINA

Não é incomum um músico proficiente ser capaz de sentar-se


diante de uma nova partitura e tocá-la do começo ao fim sem
apresentar um a dificuldade sequer, fazendo parecer que é fácil,
como se nenhum esforço fosse necessário. Contudo, a "liberdade"
de tocar com tais habilidades vem somente após anos de prática
disciplinada.
Da m esm a form a, a liberdade de crescer em santidade - de
expressar naturalm ente o caráter de Cristo por m eio de nossa
própria personalidade - depende, em grande parte, do cultivo
deliberado das Disciplinas Espirituais.
Longe de serem legalistas, restritivas ou im positivas, com o
quase sem pre são vistas, as Disciplinas Espirituais são, na verd ade, o
meio para se obter incom parável liberdade espiritual.
Assim , se você deseja em barcar em um a exp ed ição vitalícia
pela santidade, Disciplinas Espirituais para a Vida Cristã o ajudará em
sua jornada. Extraído da rica herança deixada a nós pelos pais da
igreja primitiva, os autores puritanos, e pelo próprio Jesus Cristo,
Disciplinas Espirituais para a Vida Cristã o orientará por meio de um a
série de Disciplinas cuidadosam ente selecionadas que inclui:

• Leitura das Escrituras • Mordomia


• Oração • Aplicação das Escrituras
• Adoração • Jejum
• Meditação nas Escrituras • Silêncio e Solidão
• Evangelismo • Diário (anotações)
• Serviço • Aprendizado

Ilustrando a razão da im portância das Disciplinas, m ostran d o


com o cada um a delas o ajudará a crescer em santidade e oferecendo
sugestões práticas para cultivá-las no longo prazo, Disciplinas
Espirituais para a Vida Cristã fornecerá a você um a oportu nid ad e
revigorante de abraçar a m aior busca da vida, a busca da santidade,
por meio de um deleite perm anente nas Disciplinas.

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