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HIPNOTERAPIA COGNITIVA

Elaboração

Karla Gracielle Machado de Melo Peres

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ............................................................................................................................................................................
.......... 4

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ................................................................................................. 5

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................................
............. 7

UNIDADE I
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) ..................................................................................................................................................
9

CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO À TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) ................................................................................................ 9

UNIDADE II
A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL ........................................................................................................................... 30

CAPÍTULO 1
RECONHECENDO A HIPNOSE NO PROCESSO DA TCC ..................................................................................................................... 30

CAPÍTULO 2
A HIPNOSE E AS
COGNIÇÕES ....................................................................................................................................................................... 34

UNIDADE III
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA......................................................................................................................................... 45

CAPÍTULO 1
PROCESSOS
INDEPENDENTES .................................................................................................................................................................... 45

UNIDADE IV

SONHOSCAPÍTULO 1..........................................................................................................................................................................................96

A HIPNOSE DOS SONHOS.......................................................................................................................................................................96

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................................................................................108

APRESENTAÇÃO

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e
qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu
conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal,
adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade


dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a
evolução científicotecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso,


de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida
pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na
carreira. Conselho Editorial

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ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE
ESTUDOS E PESQUISA

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades,


subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão
abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros
recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão
indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras
e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na


organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa.

Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado
assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho
pertinente para o autor conteudista.

Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno
faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o
ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus
conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto
de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar


Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para
aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros
presenciais quando for o caso.

Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que
contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado.
ORGANIzAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESqUISA

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Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/
conclusões sobre o assunto abordado.

Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo,
facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar


Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a
continuar a aprendizagem ou estimula ponderações
complementares sobre o módulo estudado.
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INTRODUÇÃO

Meus queridos alunos, sejam bem-vindos à disciplina Hipnoterapia Cognitiva!

Na Unidade I, teremos uma visão geral da terapia cognitivo-comportamental.


Conceituaremos a tríade cognitiva do pensamento e entenderemos melhor sobre
os princípios fundamentais do modelo cognitivo-comportamental. Falaremos
sobre a construção do pensamento e reconheceremos os pensamentos
automáticos, as crenças limitantes e os vários tipos de intervenções
comportamentais.

Na Unidade II, falaremos da relação entre a hipnose e a terapia cognitivo-


comportamental, de como elas se complementam na junção dessas duas técnicas
no trabalho de reestruturação das cognições e no fortalecimento da relação
terapeuta-paciente.

Na Unidade III, falaremos sobre a respiração, a psicologia positiva, os


condicionamentos, as visualizações, as meditações e os processos
neurolinguísticos que são mecanismos de automação que, juntamente com a
hipnose, estimulam a ampliação da percepção e compreensão de
comportamentos e atitudes que auxiliam o paciente a enxergar seu potencial
cognitivo, enriquecendo o processo terapêutico de forma independente.

Por fim, na Unidade IV, falaremos sobre a correlação entre os sonhos e a


hipnose por meio de seus conteúdos inconscientes.

Objetivos
» Ter uma visão geral sobre a teoria cognitivo-comportamental.

» Compreender como é formado o pensamento.

» Entender como se dá a completude entre a hipnose e a teoria cognitivo-


comportamental.

» Reconhecer os mecanismos de automação e complementação da hipnose.

» Constatar os conteúdos inconscientes dos sonhos.

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» Aprender a interpretar os sonhos.
TERAPIA COGNITIVO-
COMPORTAMENTAL UNIDADE I
(TCC)

Nesta unidade, teremos uma visão geral da terapia cognitivo-comportamental.


Conceituaremos a tríade cognitiva do pensamento e entenderemos melhor sobre
os princípios fundamentais do modelo cognitivo-comportamental. Falaremos
sobre a construção do pensamento e reconheceremos os pensamentos
automáticos, as crenças limitantes e os vários tipos de intervenções
comportamentais.

CAPÍTULO 1
Introdução à Terapia

Cognitivo-Comportamental (TCC)

A prática clínica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) baseia-se em um


conjunto de teorias manifestadas usualmente para desenvolver planos de
tratamento e conduzir a dinâmica terapêutica. Ela propõe que a distorção ou
disfunção do pensamento é um fenômeno comum em todas as doenças mentais,
sendo muito efetiva em situações diferenciadas, como fobias de todos os tipos,
transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares e transtorno de
estresse pós-traumático, em que as avaliações realistas e as mudanças de
pensamento irão melhorar o humor e o comportamento. Essa melhora
permanente vem da mudança de crenças disfuncionais do paciente. Entretanto,
se associada com tratamento medicamentoso, sua efetividade estende-se ao
tratamento de transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia, transtorno de ansiedade
generalizada, transtornos de pânico, transtorno depressivo, abuso de substâncias,
dores crônicas, hipertensão, colite, dores lombares e até mesmo problemas de
casais e aprendizagem.

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

Sua finalidade é relatar a natureza dos conteúdos (resultados de processos


cognitivos) envolvidos em psicopatologia específica para que possam ser
descritos como mal-adaptados ou disfuncionais, quando ativados em um
ambiente específico; e oferecer programas capazes de corrigir esses conteúdos
incomuns e até mesmo impróprios. Os significados cognitivos de pensamentos
são conceituados em três planos: o pensamento sobre si mesmo, o mundo e o
futuro.
Figura 1. Tríade cognitiva.

si mesmo

pensamento

futuro mundo
(objetivos) (os outros)

Fonte: elaborada pela autora.

Aaron T. Beck foi o pioneiro nos estudos de desenvolvimento de teorias e


técnicas na aplicação de tratamentos cognitivos e comportamentais aos
distúrbios emocionais. Suas pesquisas estavam voltadas à elaboração de
processos voltados ao comportamento desadaptativo nos transtornos de
depressão e ansiedade. Já os elementos comportamentais começaram a ser
pesquisados a partir de seu uso, idealizado por Pavlov, Skinner e outros
behavioristas experimentais.

Para entendermos melhor sobre essa teoria, vamos falar dos princípios da terapia
cognitivo-comportamental (BECK, 1997). Eles se baseiam em duas premissas: a
primeira diz que nossas cognições têm uma influência controladora sobre nossas
emoções e sobre nosso comportamento; e a segunda fala que o modo como
agimos ou nos comportamos pode afetar profundamente nossos padrões de
pensamento e nossas emoções.

» A terapia cognitiva baseia-se em uma formulação em contínuo


desenvolvimento do paciente e de seus problemas em termos
cognitivos. O terapeuta utiliza-se das informações fornecidas pelo
paciente em seu primeiro contato para conceituar dificuldades e

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IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

identificar os pensamentos que implicam em comportamentos


problemáticos ao paciente para que, ao decorrer da terapia, esses
eventos-chave sejam reformulados.

» A terapia cognitiva requer uma aliança terapêutica segura. Ao expressar


respeito e empatia ao seu paciente, o terapeuta está demonstrando
compaixão pelo sofrimento que lhe é apresentado, sintetizando e trazendo
uma nova e possível visão positiva para o alívio daquele paciente.

» A terapia cognitiva enfatiza colaboração e participação ativa. Cabe ao


terapeuta incentivar o tratamento como um trabalho em equipe, em que
ambos buscam os mesmos objetivos. O terapeuta direciona as sessões
ativamente com temas e atividades, enquanto o paciente executa as
atividades sugeridas permeando sua melhora progressiva.

» A terapia cognitiva é orientada em metas e focalizada em problemas. No


estágio inicial, o terapeuta pedirá ao paciente para listar suas angústias para
que sejam definidas metas específicas.

» A terapia cognitiva, inicialmente, enfatiza o presente. O tratamento, em


grande parte dos pacientes, concentra-se nos dilemas atuais ou em angústias
específicas que têm incomodado no aqui e agora. Raras são as vezes que o
terapeuta busca sintomas no passado: quando o tratamento não gera
mudança emocional, cognitiva ou comportamental; quando o terapeuta
acredita ser significativo entender as raízes do pensamento disfuncional; e a
pedido do paciente.

» A terapia cognitiva é educativa, visa ensinar o paciente a ser seu próprio


terapeuta e enfatiza a prevenção de recaída. Em seu primeiro encontro com
o paciente, o terapeuta realiza uma psicoeducação sobre o transtorno
apresentado pelo paciente, de forma que ele seja capaz de identificar os
sintomas e métodos de controle da doença. Nesse caso, é importante que o
terapeuta conheça as características do transtorno e, caso o paciente esteja
tomando alguma medicação, tenha o mínimo de conhecimento quanto ao
seu funcionamento na intervenção.

» A terapia cognitiva visa ter um tempo limitado. A terapia cognitiva-


comportamental é uma terapia breve e depende dos traços de personalidade
de cada indivíduo. Portanto, sua duração e seu foco de tratamento é de cinco

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

a vinte sessões, todavia, podem ocorrer situações em que o paciente


necessite de acompanhamento mais longo, como sintomas crônicos,
comorbidades ou quando apresentar resistência ao tratamento.

» As sessões de terapia cognitiva são estruturadas. No decorrer da sessão,


o terapeuta cognitivo inclina-se a avaliar a semana do paciente, obter
feebdback e fazer apontamentos quanto à sessão anterior, discutir
ações estabelecidas como dever de casa e estudar nova proposta de
agenda a ser seguida nas próximas semanas.

» A terapia cognitiva ensina os pacientes a identificar, avaliar e


responder a seus pensamentos e crenças disfuncionais. O terapeuta
ajuda seus pacientes a projetar um plano de ação para se concentrar
em um problema específico e identificar seu pensamento disfuncional
a fim de avaliar a eficácia desse pensamento.

» A terapia cognitiva utiliza uma variedade de técnicas para mudar


pensamento, humor e comportamento. Entretanto, o terapeuta é aberto
à utilização de outras técnicas para melhor resultado na terapia,
podendo utilizar modelos gestálticos, comportamentais e outras
abordagens para contribuição do caso clínico.

De acordo com o modelo cognitivo-comportamental descrito por Wright (2008),


os humanos avaliam constantemente a relevância dos eventos internos e dos
acontecimentos à sua volta, pois as cognições geralmente estão relacionadas às
respostas emocionais advindas de eventos estressantes, memórias passadas,
sensações corporais, apreciação ou falta de apreciação dos outros. O terapeuta
deverá olhar o funcionamento patológico levando em consideração o modelo
básico da TCC que consiste em cognições, emoções e comportamentos.
Figura 2. Modelo cognitivo-comportamental básico.

Evento

Avaliação
cognitiva

Comportamento

Emoção

Fonte: Wrigth, Basco e Thase (2008, p. 17).

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IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

Muitos terapeutas, ao começarem a estudar a TCC, encantam-se por suas


técnicas e intervenções rápidas e eficientes, porém é importante ressaltar que
existem outras etapas que não podem ser ignoradas para que não se perca a
essência da TCC. Grande parte dos mecanismos comportamentais usados nessa
abordagem destina-se a ajudar o paciente a romper os padrões de evitação ou de
desesperança; enfrentar gradativamente situações temidas; desenvolver
habilidades de enfrentamento; e diminuir emoções dolorosas ou excitação
autonômica, em que a aquisição das habilidades pode reduzir o risco de recaídas,
aprendendo a reconhecer e mudar os pensamentos automáticos que, muitas
vezes, são as causas dos problemas recorrentes.

Construção do pensamento e seus conceitos

Consciência é o maior nível da cognição em que as decisões podem ser feitas de


maneira responsável e cautelosa. Essa atenção cautelosa, diante das decisões,
nos faz acompanhar e avaliar as interações com o meio/local em que vivemos;
interligar memórias passadas às vivências atuais; e idealizar e controlar
comportamentos futuros (WRIGTH, 2008).

Na TCC, o terapeuta estimula o paciente a compreender e mudar o pensamento


patológico em dois graus de informações relativamente independentes por meio
do pensamento automático e do esquema.

Pensamentos automáticos são cognições que rapidamente passam por nossa


psique quando estamos lembrando ou vivenciando algum acontecimento. Seja
privado, seja não declarado, eles acontecem rapidamente quando avaliamos a
representatividade dos acontecimentos em nossas vidas. Pessoas com doenças
mentais (como depressão ou ansiedade) costumam ter um pensamento
automático de má adaptação ou distorção. Esses pensamentos acabam
produzindo reações emocionais dolorosas e comportamentos disfuncionais.
Emoções fortes são evidências de que um pensamento automático distorcido
pode estar a acontecer, e um tema muito recorrente nessas horas é o medo de
morrer, o fracasso, a baixa autoestima e a falta de esperança. Ainda, é
importante ressaltar que todos nós temos pensamentos automáticos, não é
somente pessoas com distúrbios mentais.

Para reconhecer os pensamentos automáticos, primeiramente o terapeuta ajuda o


paciente a identificar esses pensamentos e, em seguida, são ensinados métodos

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

para modificar os pensamentos negativos de forma que estes se tornem mais


adaptativos/positivos. A identificação e a modificação dos pensamentos ocorrem
aos poucos. Eles podem ser reconhecidos por meio das mudanças de humor, da
psicoeducação, da descoberta guiada, do registro de pensamentos, dos exercícios
de imagens mentais, dos exercícios de role-play e do uso de inventários.
Figura 3. Método de reconhecimento dos pensamentos automáticos.

mudanças
de humor

uso de
Psicoeducação
inventários

Pensamentos
Automáticos
exercícios descoberta
de role-play guiada

exercícios
registro de
de imagens
pensamentos
mentais

Fonte: elaborada pela autora.

» A mudança de humor é uma forma particularmente acertada de


descobrir pensamentos automáticos, pois frequentemente geram
cognições cheias de emoções imediatas e altamente pessoais. É uma
rica oportunidade para se conectar com as expressões emocionais
fortes e impulsivas podendo até mesmo causar impacto emocional na
memória, trazendo lembranças de acontecimentos.

» Psicoeducação ocorre normalmente na primeira sessão, em que o


terapeuta orienta e tira dúvidas quanto ao processo terapêutico e
explica as diversas formas que podem ocorrer os pensamentos
automáticos e suas influências no comportamento e nas emoções.

» Descoberta guiada é uma técnica que utiliza perguntas simples, como


um guia, utilizado pelo terapeuta para facilitar a identificação dos
pensamentos automáticos. Nos casos em que houver suspeita de
transtorno de pânico, pode-se empregar perguntas para descobrir
pensamentos automáticos acerca de situações em que ocorrem lesões

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IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

corporais ou perda de controle; já em ocorrência de depressão, levanta-se


o questionamento quanto à autoestima, aos medos e à falta de esperança.

» Registro de pensamentos ajuda a rever e corrigir cognições desadaptativas. É


uma forma de indagar-se em relação às suas emoções e ao seu
comportamento. Orienta também o terapeuta no que se refere às intervenções
específicas utilizadas. Esse registro pode ser feito da seguinte forma: relembre
algum acontecimento atual que abalou seu emocional. Feche os olhos e reviva
esse acontecimento e descreva abaixo qual foi a situação, o pensamento
automático e as emoções vivenciadas. Vamos lá?!
Tabela 1. Registro de pensamento automático.

Situação Pensamento Emoção


automático
Meu cachorro destruiu meu “eu mato esse cachorro!” raiva
sofá.
1.

2.

3.

Fonte: Adaptada de Wrigth, Basco e Thase (2008).

» Imagens mentais ajudam o paciente a reviver acontecimentos importantes em


sua memória para que sejam acessados os pensamentos e sentimentos daquele
momento. No entanto, é primordial que o terapeuta esteja confiante para
conduzir essa intervenção e prepare o paciente para esse momento, pois ele
poderá reviver situações nem sempre agradáveis. Para tanto, deve-se explicar
como é o método, passar segurança com um tom de voz incentivador e
demostrar acolhimento. Conforme as cenas são descritas, vá estimulando-o a
se lembrar dos pensamentos automáticos.

» No role-play, o terapeuta faz o papel de um personagem presente na vida do


paciente, seja um filho, seja um pai, seja uma mãe, seja uma situação, com o
qual o paciente é estimulado a interagir. Esse método auxilia o paciente na
percepção de pensamentos automáticos úteis para a elaboração de novas
posturas diante das situações conflitivas.

» Inventário para pensamentos automáticos é usado para medir as


modificações dos pensamentos automáticos. É composto por

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

pensamentos positivos e negativos em que o paciente vai identificar a


frequência em que eles correm numa escala de zero (nunca) a quarto
(o tempo todo).
Tabela 2. Inventário de pensamentos automáticos.

Assinale um X ao lado de cada pensamento automático negativo que você tenha vivenciado na
última semana.
_____ Eu sempre estrago tudo.
_____ Não consigo lidar com isso.
_____ Devo ter algo de errado.
_____ Isso é demais para mim.
_____ Nunca serei feliz.
_____ Não vou dar conta, o prazo é curto.
_____ Sempre faço tudo errado.
_____ Ninguém gosta de mim.
Fonte: Adaptada de Wrigth, Basco e Thase (2008).

Esquemas são crenças centrais ou nucleares que servem como matriz básica ou
regras inconscientes de elaboração de uma informação. Eles desempenham um
papel vital para os seres humanos, que os torna possível identificar, filtrar,
codificar e atribuir sentido às informações do ambiente, estando em posição
subsequente da superficialidade dos pensamentos automáticos. Esquema é um
princípio de pensamento duradouro formado desde a primeira infância,
influenciada por experiências vividas por pais e familiares que agora são
reproduzidas por seus filhos, por exemplo, repetição de traumas, sucessos e
habilidades. Isso, muitas vezes influencia a autoestima e o comportamento.

Nós precisamos fazer planos todos os dias para lidar com grande número de
informações e precisamos tomar decisões apropriadas para não nos arrepender
depois. Muitas vezes, criamos hábitos inconscientes que acabam se tornando
regras de sobrevivência ou de controle. Quem nunca imaginou uma viagem,
porém ela só se tornou uma realidade após se programar para que nada saísse
fora do previsto? Você seria capaz de fazer uma viagem sem algum tipo de
programação? Simplesmente olhar para o seu relógio ou ver aquele dia
ensolarado e dizer para si mesmo: “Vou pegar a estrada para o paraíso!”. Para
algumas pessoas, isso seria uma loucura, pois aprenderam e carregam consigo
uma crença de que uma viagem sempre teria que ser programada, preparada,
vista e revista mil vezes antes de acontecer, capaz até mesmo de criar cenários

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IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

para lidar com possíveis intercorrências, pois, como diz o ditado, “seguro
morreu de velho”.

As crenças são pensamentos e conceitos mais profundos e elementares acerca


de nós, das pessoas e do mundo. Elas fazem parte dos esquemas e são divididas
em crenças intermediárias ou subjacentes e crenças centrais.

Crenças intermediárias ou subjacentes relacionam-se às ideias de segundo


plano, não se ajustando diretamente com a situação, mas derivam e reforçam as
crenças centrais por meio das suspeitas, regras, antecedentes e atitudes que
adotamos e que guiam o nosso modo de agir. Geralmente, são identificadas na
forma condicional (se...então...).

Usualmente, as normas são evidenciadas na forma afirmativa “tenho que”;


“devo”.

A intenção condicional é modelar a relação entre os artifícios comportamentais e


as crenças nucleares.

Crenças centrais concebem o grau mais profundo da formação cognitiva e são


compostas por ideias globais, rígidas e absolutas sobre si mesmo (autoestima),
sobre terceiros e sobre o mundo. Ideias que são reforçadas sistematicamente sem
ao menos questioná-las, simplesmente são aceitas (RANGÉ, 2001).

As crenças nucleares são nossas ideias mais íntimas, são definições


estabelecidas em alto grau sobre nós, sobre os outros e sobre o mundo.
Acontecem ainda na infância, consolidando e fortalecendo a vida, moldando,
assim, o nosso modo de vida e o nosso comportamento. Conteúdo que não foi
modificado ou corrigido durante o estágio desadaptativo, no caso de disfunção,
pode ser cultivado como uma verdade absoluta (KNAPP, 2004).

Judith Beck (1997) propõe que as crenças centrais disfuncionais podem ser
divididas em três grupos:

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

Figura 4. Crenças centrais disfuncionais de Judith Beck.

Crenças centrais
disfuncionais

Crenças nucleares de Crenças nucleares de Crenças nucleares de


desamparo desamor desvalor

Crenças sobre ser indesejável, Crenças sobre ser incapaz,


Crenças sobre ser impotente, incapaz de ser gostado, incompetente, inadequado,
frágil, vulnerável, carente, incapaz de ser amado, sem ineficiente, falho, defeituoso,
desamparado, necessitado. atrativos, rejeitado, enganador, fracassado, sem
abandonado, sozinho. valor.

Fonte: elaborada pela autora.

Muitos de nós também temos crenças disfuncionais sobre os outros (ex.: as


pessoas são más, desleais) e sobre o mundo (ex.: o mundo é injusto, perigoso).

Erros cognitivos são lapsos ou erros típicos dos pensamentos automáticos e


outras lógicas cognitivas de pessoas com transtornos mentais. Isto é, todos
percebem o equívoco do pensamento, menos a própria pessoa, que, muitas
vezes, usa de pensamentos absolutistas e acaba ignorando os próprios pontos
fortes. Pesquisas realizadas por Beck, LeFebvre, Watkins e Rush descrevem que
os erros cognitivos são mais comuns em pessoas deprimidas do que em pessoas
saudáveis, e eles descreveram seis classes fundamentais de erros cognitivos
(WRIGTH; BASCO; THASE, 2008, p. 22):

» Abstração seletiva (às vezes chamada de ignorar as evidências ou


filtro mental): verifica-se apenas uma pequena parte das informações
para tirar sua conclusão, ignorando ou descartando dados importantes
para confirmar a visão tendenciosa que se tem do cenário do qual se
encontra. Ex.: um homem deprimido com baixa autoestima não recebe
um cartão de boas-festas de um velho amigo. Ele pensa: “ninguém se
importa mais comigo”.

» Interferência arbitrária: a pessoa tira suas conclusões com base em


impressões contraditórias ou em nenhuma evidência, por exemplo, uma
mulher com medo de elevador é solicitada para prever as chances de um

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IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

elevador cair com ela dentro. Ela responde que as chances são de 10% ou
mais de o elevador cair até o chão e ela se machucar. Muitas pessoas
tentaram.

» Supergeneralização: suas conclusões são tiradas sobre incidentes isolados e,


em seguida, essa conclusão é estendida de maneira irracional a uma ampla
área de funcionamento, por exemplo, um universitário deprimido tira nota B
em uma prova. Ele considera insatisfatório e supergeneraliza quando tem
pensamentos automáticos, como: “estou com problemas nessa aula; estou
ficando para trás em todas as áreas da minha vida; não consigo fazer nada
direito”.

» Maximização e minimização: a relevância dos atributos, eventos ou


sensações são exageradas ou minimizadas, por exemplo, uma mulher com
transtorno de pânico começa a sentir tonturas durante o início de um ataque de
pânico. Ela pensa: “vou desmaiar; posso ter um ataque cardíaco ou um
derrame”.

» Personalização: acontecimentos exteriores relacionados a si mesmo quando há


pouco ou nenhum motivo para isso. Reconhece-se excessivamente
responsável ou culpado por momentos negativos, por exemplo, houve um
revés econômico e um negócio anteriormente de sucesso e passa por
dificuldades para executar a estimativa anual. Idealiza em fazer demissões.
Uma série de fatores levou à crise no orçamento, mas um dos gerentes pensa:
“é tudo culpa minha; eu deveria saber que isso iria acontecer e ter feito
alguma coisa; falhei com todos na empresa”.

» Pensamento absolutista (dicotômico ou do tipo tudo ou nada): as críticas


sobre si mesmo, as experiências pessoais ou com os outros são separadas em
duas categorias, por exemplo, totalmente mau ou totalmente bom, fracasso
total ou sucesso, cheio de defeitos ou completamente perfeito.

Já a modificação dos pensamentos automáticos pode ocorrer por meio do


questionamento socrático, intensificando a relação terapêutica, estimulando o
questionamento do seu paciente quanto ao problema e trazendo melhor
entendimento de cognições (emoções, sentimentos e sensações) e
comportamentos importantes e engajamento ativo do paciente à terapia. Nesse
método, as perguntas induzem o paciente a uma mudança no pensamento para

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

que haja diminuição da carga emocional e dolorosa para o enfrentamento da


situação. Orienta-se buscar perguntas que trazem resultados para que a emoção
negativa se torne positiva, pois um dos objetivos dessas perguntas é ajudar o
paciente a olhar as situações com um olhar diferente, enxergando novas
perspectivas e, para isso, faça perguntas simples e abertas e que o façam pensar
de forma criativa.

Ao instruir seus pacientes a manifestar pensamentos lógicos e otimistas, é


importante enfatizar que a teoria cognitivo-comportamental não é a “força do
pensamento positivo”, pois pode parecer um pensamento ilógico e incoerente,
especialmente se o paciente tiver experimentado perdas ou tramas reais, até
mesmo se estiver passando por um problema com grande possibilidade de
respostas adversas. Nessas ocasiões, não é aconselhado “mascarar” o problema
para minimizar suas dores, mas, sim, ajudá-lo a encarar e enxergar as
circunstâncias de forma mais branda para que seja mais fácil lidar com elas.

Exame de evidências é um método que consiste em formular uma lista das


evidências a favor e contra a legitimidade de um pensamento automático ou
outra cognição, apurar essas evidências e, por fim, tratar a modificação do
pensamento para que seja coerente com as evidências pré-descobertas. O
exemplo abaixo foi retirado e adaptado de Wrigth; Basco; Thase, 2008, p. 93.
Tabela 3. Exame das evidências.

Pensamento automático: “serei demito do


emprego”.
Evidencias a favor Evidencias a favor
» A produtividade na minha linha de produção » A fábrica está com poucos funcionários, não vão
caiu. mandar mais gente embora por enquanto.
» Recebi uma advertência. » Estou lá há dez anos e minha ficha é boa.
» Não atingimos nossa meta. » Não estamos muito atrás nas metas de produção.
Fonte: Retirada e adaptada de Wrigth, Basco e Thase (2008, p. 93).

Descatastrofização: são as previsões catastróficas em relação ao futuro


influenciadas por distorções cognitivas, normalmente acometidas por pessoas
ansiosas e depressivas, gerando pensamentos automáticos de medo e tragédias.
Pacientes com fobias sociais, quando expostas, criam pensamentos automáticos
negativos de que algo trágico pode dar errado ou até mesmo criam medos
relativos à possibilidade de julgamentos ou vexação. Porém, o terapeuta pode
ajudá-lo a reduzir essas previsões com algumas perguntas do tipo: “qual a pior
coisa que poderia acontecer se você fosse à festa?”; “o que há de terrível em não
ter o que dizer?”; “você conseguiria aguentar isso por pelo menos 15 minutos?”;
21
IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

“em comparação com outras coisas, como ter uma doença séria ou perder o
emprego, como é se sentir ansioso em uma festa?”. A força motriz dessas
perguntas está em ajudar os pacientes a desenvolverem a confiança de que eles
conseguem lidar com situações temidas.

O ensaio cognitivo é normalmente incluído em uma sessão depois de o paciente


já ter feito algum tratamento com outros recursos para alterar pensamentos
automáticos. Essas tentativas preliminares estimulam o paciente para “lançar
mão de tudo” ao combinar uma resposta adaptativa a uma situação
eventualmente estressante. Uma maneira de fazer o ensaio cognitivo é solicitar
ao paciente que siga estes passos:

» pensar sobre o evento com antecedência;

» identificar possíveis pensamentos automáticos e comportamentos;

» modificar os pensamentos automáticos fazendo um RPD (Registro dos


Pensamentos Disfuncionais) ou realizando outra intervenção da TCC;

» ensaiar a forma mais adaptativa de pensar e se comportar em sua mente;

» implementar nova estratégia.

Evidentemente, isso geralmente possibilita novo treino aos pacientes em


métodos que os ajude a aumentar as chances de alcançar seus objetivos.
Realizando um questionamento socrático com eles, é possível auxiliá-los a
enxergar novas alternativas, mini-intervenções didáticas podem ser usadas para
ensinar-lhes habilidades, e experimentos podem ser tentados para testar
possíveis soluções. No entanto, a técnica geralmente mais útil é ensaiar em uma
sessão antes de experimentar o novo plano ao vivo.

Os cartões de enfrentamento podem ser um recurso produtivo para auxiliar os


pacientes a realizarem as principais intervenções da TCC aprendidas na terapia.
Podem ser utilizados cartões maiores ou cartões menores (como um cartão de
visitas) para registrar orientações que os pacientes desejariam de dar a si
mesmos para facilitar no enfrentamento das possíveis dúvidas ou dos episódios
importantes. Quando bem utilizados, os cartões de enfrentamento identificam
uma situação ou um problema específico e depois detalham sucintamente uma
estratégia de enfrentamento com alguns itens que focalizem os fundamentos do
plano. Para desenvolver os cartões de enfrentamento, deve-se:

22
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

» escolha uma situação que seja relevante para o paciente;

» planeje intervenções na terapia com o propósito de produzir cartões de


enfrentamento;

» avalie se o paciente está pronto para implementar estratégias com um


cartão de enfrentamento. Tente não realizar muitas coisas
rapidamente. Inicie com tarefas administráveis. Deixe para trabalhar
mais tarde com preocupações ou questionamentos muito grandes até
que o paciente esteja pronto para encarar esses desafios;

» seja detalhista na definição da situação e nas etapas a serem seguidas para


o enfrentamento do problema;

» escolha orientações que sejam fáceis e realizáveis. Orientações facilmente


memorizadas têm maior probabilidade de se solidificarem;

» seja prático. Sugira estratégias que tenham grande probabilidade de


sucesso;

» sugira constantemente o uso do cartão de enfrentamento em


acontecimentos da vida real.

Reatribuição são os significados que as pessoas dão aos eventos que


aconteceram em suas vidas.

Na reatribuição, destacamos a possibilidade de conceder um novo ponto de vista


aos acontecimentos, muitas vezes negativos, desenhando numa folha de papel
tais opções de mudança para que seja facilmente visualizada todas as suas
dimensões. Em seguida, são formuladas perguntas que estimulem o paciente a
explorar e possivelmente modificar seu estilo atributivo, pois a ideia é incentivar
os pacientes a fazerem atribuições mais saudáveis a acontecimentos importantes
em suas vidas. Para visualizar melhor uma condição, pode-se criar um gráfico
para avaliar efeitos positivos e negativos para uma visão mais sensata do que se
deve reatribuir. Observe o exemplo abaixo: Joana encontra-se com problemas no
casamento e acredita ser um fracasso. Listamos os principais pontos para
avaliarmos o principal motivo de ela estar cabisbaixa.

Atribuições: baixa autoestima – 15%; dupla jornada de trabalho – 30%; falta de


diálogo – 40%; influência externa – 10%; problemas financeiros – 5%.

23
IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

Figura 5. Reatribuição dos eventos.

Falhas no casamento de Joana

Baixa autoestima Dupla jornada Falta de diálogo Influências externas Finanças

Fonte: Retirada e adaptada Wrigth, Basco e Thase (2008, p. 93).

A TCC concentra-se em reconhecer e modificar o pensamento automático, pois


essas cognições têm grande influência nas emoções e no comportamento. No
estágio inicial de uso do pensamento automático, o terapeuta ensinará ao
paciente esse processo cognitivo privado, muitas vezes irreconhecível, e o
ajudará a estabelecer contato com esse diálogo interno. A descoberta guiada é
o método mais importante usado para revelar pensamentos automáticos, mas existem muitas
outras técnicas. Reconhecer as mudanças de humor é uma maneira eficaz de mostrar aos
pacientes o impacto do pensamento automático e de seus sentimentos. Outros métodos
valiosos para estimular pensamentos automáticos incluem o registro de pensamentos, gerar
imagens mentais, o role-play e o uso de inventários.

A partir do momento que o paciente aprende a reconhecer seus pensamentos


automáticos, o tratamento pode passar a usar intervenções para mudar essas
percepções. O questionamento socrático torna-se peça principal para o processo de
mudança. Os registros de mudança de pensamento também são amplamente usados na
TCC para ajudar os pacientes a desenvolverem estilos de pensamentos mais lógicos e
adaptáveis. O terapeuta pode escolher entre uma variedade de técnicas úteis, como o
exame de evidências, a descatastrofização, a reatribuição, o ensaio cognitivo e os cartões
de enfrentamento para reavaliar os pensamentos automáticos. À medida que a terapia
vai caminhando, os pacientes vão dominando as habilidades para modificarem seus
pensamentos, podendo utilizá-los por conta própria para reduzir sintomas e chances de
recaídas.

Métodos comportamentais e suas funcionalidades

Veremos, ainda, que os métodos cognitivo-comportamentais incluem


intervenções comportamentais específicas que alteram níveis de atividade para
tratar transtornos psiquiátricos, como ansiedade, transtornos alimentares e
transtornos de personalidade e depressão, podendo diminuir a perda da
capacidade de sentir prazer (anedonia), aumentando a capacidade de concluir
tarefas ou resolver problemas e elevando o nível de energia do paciente.

24
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

Ao colocar em prática alguma estratégia comportamental, é importante lembrar


que uma mudança comportamental, seja ela positiva, seja negativa, pode estar
relacionada a uma forma de pensamento mais adaptativo para o paciente. Dessa
forma, quando combinamos os métodos comportamentais com as técnicas
cognitivas, mais fácil fica para atingirmos nossos objetivos no tratamento.

Ativação comportamental é um processo em que o paciente é envolvido em um


processo de mudança e estimulado a um movimento positivo e à esperança de
recuperação. O terapeuta ajuda o paciente a decidir entre dois comportamentos
que poderiam causar diferença no modo de se sentir e, posteriormente, orienta o
paciente a trabalhar em um plano breve para executar a atividade. Ela pode ser
utilizada em qualquer momento da terapia, porém, nas primeiras sessões, ajuda a
definir e realizar análises ou intervenções comportamentais mais específicas
para uma ação comportamental mais objetiva, como programações de
atividades, tarefas graduais. Habitualmente, os pacientes estão interessados em
realizar mudanças na primeira sessão, buscam se movimentar positivamente e
querem todos os tipos de soluções para que a mudança ocorra o quanto antes.
Incrivelmente, as sugestões do terapeuta são bem recebidas nas primeiras
sessões, demonstrando forte interesse em movimentar-se positivamente na
obtenção de ganhos e solução de seus problemas, rompendo com a inércia e a
ociosidade, mostrando-se capazes de realizar progressos.

Programação e avaliação de atividades é mais frequentemente aplicada em


pacientes com depressão, mas também pode ter seu espaço no tratamento de
outros pacientes com dificuldade para organizar seus dias ou se envolver em
atividades produtivas. A programação de atividades foca na avaliação de ações e
no aumento de habilidades e de prazer. Como os pacientes com depressão
tendem a desvalorizar suas experiências positivas, enfatizar as opiniões
negativas e se manter focados mais nas experiências de fracassos do que nos
sucessos, os autorrelatos podem não ser tão relevantes quanto seria em um
quadro de atividades de uma semana preenchida entre um e outro encontro
terapêutico. Esse quadro pode ser feito listando atividades diárias para avaliar o
grau de satisfação e prazer de cada atividade de acordo com uma escala que
pode ser criada juntamente com o paciente. Porém, em alguns casos, veremos
que atividades rotineiras podem receber uma avaliação baixa por não serem
consideradas atividades importantes. Caso isso ocorra, é interessante incentivar
o paciente a relacionar de forma positiva suas pequenas vitórias, afinal, “é de
grão em grão que a galinha enche o papo”.
25
IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

Foi proposto a um paciente que ele criasse seu quadro de monitoramento de


atividades e avaliação de cada uma delas. Você também pode sugerir aos seus
pacientes que o façam para que possam enxergar e, se for o caso, reorganizar seu
dia a dia com atividades que lhes tragam algum tipo de prazer. Vocês podem
realizar esse monitoramento da seguinte forma:

» peça que eles listem tarefas diárias e avaliem o grau de prazer que cada
tarefa transmite, numa escala de 0 a 5, em que zero não transmite
prazer algum, e cinco transmite muito prazer;

» pode ocorrer de algumas tarefas se repetirem na semana, não tem


problema;

» quando a pessoa está deprimida, geralmente são listadas apenas tarefas


que lhe causam desprazer, oriente-os a relacionar tarefas que trazem
sensação de realização;

» questione-os sobre atividades que traziam prazer e disposição no passado


e que poderiam ser retomadas novamente.
Tabela 4. Programa e avaliação das atividades.

segunda-feira terça-feira quarta-feira quinta- sexta-feira sábado domingo


feira
8h Acordar e Acordar e Acordar e Acordar e Acordar e Acordar e Acordar e
tomar café (1- tomar café (1- tomar café tomar café tomar café tomar café tomar café (1-
2-3-4-5) 2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) 2-3-4-5)

10h Estudar e Natação Estudar e Natação Estudar e Lavar Andar de bicicleta


trabalhar (1-2- (1-2-3-4-5) trabalhar (1- (1-2-3-4-5) trabalhar (1- roupas (1-2-3-4-5)
3-4-5) 2-3-4-5) 2-3-4-5) (1-2-3-4-5)
12h Arrumar a casa Preparar o Almoçar com Preparar o Preparar o Preparar o Preparar o
almoço um amigo (1- almoço almoço almoço almoço
(1-2-3-4-5)
(1-2-3-4-5) 2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5)
14h Ler um livro Aula de inglês Descansar Terapia Aula de Fazer um Ir ao cinema
(1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) inglês bolo (1-2-3- (1-2-3-4-5)
(1-2-3-4-5) 4-5)

16h Conversar com Passear com o Lanchar Caminhar no Lanchar Conversar Jogar videogame
um amigo (1-2- cachorro parque com um
(1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5)
3-4-5) amigo
(1-2-3-4-5)
(1-2-3-4-5)
18h Caminhar no Testar Andar de Descansar Passear com Descansar Descansar
parque receitas bicicleta (1-2- (1-2-3-4-5) o cachorro (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5)
(1-2-3-4-5) gostosas (1-2- 3-4-5) (1-2-3-4-5)
3-4-5)
20h Assistir TV Jogar Jantar com a Ler um livro Jantar Assistir TV Espiritualização

26
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

(1-2-3-4-5) videogame (1- família (1-2-3- (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5)


2-3-4-5) 4-5)
22h Dormir Meditar Dormir Dormir Meditar Dormir Meditar
(1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5) (1-2-3-4-5)
Fonte: elaborada pela autora.

O Planejamento de Tarefas Graduais (PTG) é um método que, ao dividir


tarefas maiores em pequenas partes, elas serão mais fáceis de serem concluídas e
é uma forma de torná-las mais gerenciáveis. Pode ser aplicado juntamente com o
registro de atividades para melhorar a percepção de suas habilidades,
especialmente útil quando o paciente estiver com seu tempo curto e suas tarefas
atrasadas ou quando os objetivos desejados forem complicados e requererem
esforços continuados, como realizar uma faxina em casa – não precisa fazer tudo
de uma só vez, o ideal seria fazer por partes; hoje arruma o quarto e lava o
banheiro, amanhã arruma a sala e outro cômodo – de forma que as tarefas
propostas sejam concluídas pouco a pouco, sem “dor de cabeça”. Caso a
percepção da grandiosidade das tarefas estiver impedindo os pacientes de agir, o
planejamento de tarefas graduais pode funcionar.

O ensaio comportamental é usado para avaliar se o que foi proposto em terapia


será seguido pelo paciente fora do setting terapêutico e, para isso, iremos ensaiar
junto com ele na sessão para verificarmos sua capacidade de realizar tarefas;
praticar suas habilidades comportamentais; dar feedbacks de como pode ser
feito; identificar possíveis obstáculos para a realização daquela tarefa; e treinar o
paciente para garantir que o plano terá um resultado positivo. Observe este
exemplo adaptado de Wright (2008) para ilustrar melhor o conceito:

Ana, mãe solteira, gostaria de ser mais assertiva na criação de seu filho, João, de
5 anos. Ana e sua família se penalizavam por ele, pois o pai os deixara quando
João ainda era um bebê. Eles, então, exageravam no amor em relação a ele para
tentar compensar a ausência do pai. Porém, João era muito esperto e sabia que,
se sua mãe não desse o que ele quisesse, seu avô daria. Caso sua mãe não lhe
desse um pirulito, ele sabia que, se pedisse por favor para o avô e começasse a
chorar, o avô lhe daria o pirulito. Ana tentava, de todas as formas, manter-se
firme, mas percebeu que seu pai sempre lhe dava o que queria, mesmo sabendo
que Ana não permitia tal atitude. No passado, Ana até acabaria cedendo aos
apelos de João, mas tinha se empenhado em estabelecer limites mais
consistentes. Ela precisava que seu pai fizesse o mesmo, mas não sabia como
falar com ele sobre isso sem deixá-lo triste ou colocá-lo na defensiva. Ela, então,
27
IDADE I | TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)

não disse nada e permitiu que seu filho continuasse a manipular a situação e a
manter um padrão duplo de comportamento.

Então, após algumas sessões ensaiando sua conversa com José, ela teve a
seguinte conversa com o pai: “Papai, quero conversar sobre o hábito de João de
querer as coisas sem limites. Você sabe como ele é. Acho que não deveríamos
sempre dar o que ele quer”.

Embora esse discurso descreva parte do problema, ela evita dizer diretamente
que é seu pai quem precisa mudar de comportamento. Quando ela tentou essa
abordagem no passado, seu pai respondeu com um: “Está bem, querida.
Concordo”. Depois de trabalhar mais em suas habilidades de comunicação, Ana
chegou a uma mensagem que transmitia seus principais pontos:

“Papai, quero conversar com você a respeito de minha nova estratégia para lidar
com o João quando ele quiser fazer coisas que não gostaríamos que ele fizesse,
por exemplo, pedir um doce ou pular no sofá. Quero dizer ‘não’ e ficar firme,
mesmo se ele choramingar ou implorar. Ele precisa aprender a respeitar o que eu
digo nessa idade, de modo que, quando for crescendo, já tenhamos estabelecido
um padrão de educação, mas eu preciso de sua ajuda para isso funcionar.
Sempre que me ouvir estabelecendo limites para o João, preciso que você me
apoie e o trate da mesma maneira, mesmo se não concordar comigo ou se achar
que estou sendo muito dura. Você está disposto a fazer isso?”.

Ana sabia que não era boa ideia levantar tópicos difíceis com seu pai quando ele
estava com fome ou com pressa. Ela planejou conversar com ele depois do
almoço de sábado, quando estaria mais relaxado, e, João, dormindo. Se não se
saísse bem, ela pediria desculpas por aborrecê-lo, agradeceria por ser um avô tão
bom e sugeriria conversar novamente mais tarde.

Métodos de solução de problemas podem ajudar os indivíduos que possuem


algum tipo de dificuldade para solucionar seus problemas. Nem todas as pessoas
têm facilidade para enxergar o que pode ser feito para sair de uma situação ou
mesmo enxergar-se nela devido a um deficit de habilidades ou de desempenho.
Alguns podem possuir deficits devido à depressão, à ansiedade ou a qualquer
outro sentimento de desamparo. Ao buscarmos a solução de problemas, podem
surgir alguns empecilhos para que isso ocorra, portanto, devemos destacar:

28
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) | UNIDADE I

» Comprometimento cognitivo: baixa concentração, pensamento lento,


tomada de decisão comprometida.

» Sobrecarga emocional: sentir-se sobrecarregado, disfórico, ansioso.

» Distorções cognitivas: pensamentos automáticos negativos, erros


cognitivos (por exemplo: catastrofização, pensamento do tipo tudo ou
nada, maximização, desesperança, autocrítica).

» Evitação: procrastinação, esquecimento.

» Fatores sociais: conselhos contraditórios dos outros, críticas, falta de


apoio.

» Problemas práticos: tempo insuficiente, recursos limitados, o problema


está além do controle.

» Fatores estratégicos: tentar encontrar a solução perfeita, buscar uma solução


geral que resolva vários problemas relacionados.

Vocês podem estar se perguntando o que farão com as informações e técnicas apresentadas nesta
unidade, porém verão que a hipnose cognitiva está baseada nas técnicas que vocês acabaram de
conhecer.
Caso tenham o interesse de aprofundar nos estudos da teoria cognitivo-comportamental, sugiro a
leitura do livro Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado, e outros livros
identificados nas referências.

29
A HIPNOSE E A
TERAPIA COGNITIVO- UNIDADE II
COMPORTAMENTAL

Veremos, nesta unidade, a relação entre a terapia cognitivo-comportamental e a


hipnose, de como elas se complementam na junção dessas duas técnicas no
trabalho de reestruturação das cognições e no fortalecimento da relação
terapeuta-paciente.

CAPÍTULO 1
Reconhecendo a hipnose no processo da TCC

Como já vimos nas disciplinas anteriores, qualquer pessoa pode ser hipnotizada,
desde que queira, que tenha capacidade de usar sua imaginação e que seja
cognitivamente saudável, ou seja, capaz de identificar e prever associações
complexas entre eventos (acontecimentos) de forma a favorecer a adaptação aos
ambientes passíveis de mudança.

Veremos que a hipnose clínica juntamente com a teoria cognitivo-


comportamental estabelecem a imaginação como instrumento principal para
obter melhores resultados terapêuticos nos pacientes com transtornos
emocionais, sobretudo quando associadas ao tratamento medicamentoso, para
que sejam gerenciadas e identificadas as imagens mentais, memórias e
pensamentos disfuncionais para torná-las mais adaptativas.

A hipnose cognitiva apropria-se de todas as técnicas e de todas as fases da


hipnose clássica e Ericksoniana para acessar o inconsciente com mais facilidade,
associando as técnicas da TCC com o uso de relaxamento no tratamento dos
sintomas, com o uso de imagens na forma de memórias, uso dos sentidos para
ativação emocional e nas técnicas vivenciais. Isso facilita a avaliação das
crenças disfuncionais e de esquemas desadaptativos, na investigação das
necessidades básicas não supridas na infância e na adolescência, por meio da
hipnose, para uma boa reestruturação cognitiva. Pois, quando uma pessoa

30
A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

recorre a um tratamento hipnótico, ela já passou conscientemente por vários


outros tipos de tratamento para atingir a mudança desejada, e não obteve sucesso
(SILBERFARB, 2011).
Figura 6. Recapitulando as fases da hipnose clássica.

1- Pré-talk 2- Ensaios 3- Induções 4- Aprofundamento 5- Sugestão 6- Despertar

Preparação do Âncora e Contagem


terapeuta e do Teste de Rápidas/instantâneas Respiração
signo sinal regressiva
ambiente suscetibilidade

Contagem
Anamnese/Rapport Choque Pós-hipnótica
Regressiva

Imaginação
Progressivas
guiada

Fracionamento
de Vogt

Metrônomo

Fonte: elaborada pela autora.

A hipnoterapia complementa a intervenção terapêutica com a TCC, apropriando-


se principalmente das imagens mentais e dos ensaios cognitivos de forma a
vivificar e interpretar como reais algumas situações, possibilitando a
dessensibilização de modo efetivo e regulando as respostas de medo
rapidamente. Uma vez que, pela hipnose, é possível que o cliente reduza muito a
sua autocrítica e o seu juízo de valor em relação às sugestões e às experiências
das imagens mentais reprogramadas, fortalecendo crenças e formando novos
valores para enfraquecer esquemas desadaptativos, favorecendo mudanças
cognitivas, comportamentais e emocionais. Sua finalidade é identificar os
conteúdos cognitivos (as memórias, a imaginação, as sensações e os
sentimentos) e transformá-los em imagens, intensificando as emoções para que
mudanças mais adaptativas possam ocorrer. Por meio dela, é possível
reconhecer os pensamentos automáticos; verificar distorções cognitivas,
permeando cenários e emoções; idealizar e prever probabilidades de realização
de tarefas aparentemente complexas; por meio do transe, é possível avaliar
esquemas mentais primitivos da infância e desconstruir crenças limitantes; é
possível ter uma reorganização cognitiva por meio de imagens mentais,
auxiliando nas intervenções terapêuticas; e a apresentação de cartões de
enfrentamento para melhor assertividade.
UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

31
Alguns autores consideram que a terapia clássica por si só já não se basta e que
podem beneficiar o tratamento de seus pacientes dando abertura para outras
técnicas, como a hipnose, por ela possuir uma forma de controle rápida para
sintomas, como os da ansiedade e da depressão – doenças que afetam grande
número de pessoas. De acordo com a OMS, são mais de 322 milhões de pessoas
que sofrem desses transtornos no mundo.

Assim como em qualquer especialidade de saúde, a relação terapêutica para que


o processo tenha êxito precisa ter um estilo colaborativo, simplista e voltado
para a ação. A empatia tem um papel importante na relação terapêutica e
precisamos ter a capacidade de nos colocar no lugar do outro de modo a não ser
invasivo e buscando compreender sua forma de sentir e pensar sobre o tema em
destaque. Mostre que você é capaz de se comunicar naturalmente e
emocionalmente conectado ao seu paciente, demonstrando que entende e acolhe
sua dor, e busque apresentar sempre feedback construtivo, porém não esconda a
verdade do pensamento desadaptativo, caso haja. Cuidado para não prejudicar a
terapia com sugestões e opiniões superficiais ou com comentários
excessivamente didáticos, dando pouca atenção à relação terapêutica, e não se
apegue às técnicas de forma mecânica.

Não crie expectativas em relação aos avanços terapêuticos, lembre-se de que


cada pessoa é um ser subjetivo e que nem sempre suprem nossas expectativas,
porém, os que suprem, nos deixam um sentimento de alegria e dever cumprido.
Como dito anteriormente, quando uma pessoa procura um tratamento com
hipnose, muitas vezes, ela já passou por outros tipos de tratamento que não
obtiveram o resultado esperado. Para que a pessoa não chegue a seu consultório
apostando todas as esperanças nesse tratamento, é importante tirar todas as suas
dúvidas e, se for o caso, apresentar-lhe um contrato terapêutico, deixando claro
que cada pessoa reage à hipnose de forma diferente, não sendo possível apontar
quantas sessões são necessárias para tratar determinada queixa ou, ainda, que
seu trabalho só é possível com a cooperação do paciente. É comum acontecer de
pessoas sem alguma formação acadêmica na área de saúde realizarem um curso
de final de semana e se intitularem hipnoterapeutas, prometendo curar
transtornos de ansiedade, pânico e depressão com apenas quatro sessões. Isso é
muito perigoso e devemos estar alertas a essa situação para orientar nossos
pacientes.
Tabela 5. Modelo de contrato terapêutico.

32
A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

ACORDO TERAPÊUTICO
TRATAMENTO:
O acompanhamento terapêutico não tem uma duração pré-definida. Os resultados variam de acordo com a
predisposição de cada pessoa às técnicas aplicadas e conforme o seu nível de engajamento, não sendo
possível estabelecer número de sessões necessárias. A realização das atividades propostas em terapia é de
máxima importância para o seu bom desenvolvimento.
HORÁRIO:
O encontro terapêutico tem duração de ___ minutos, sendo realizado em horário de comum acordo com o
cliente antecipadamente, estando o terapeuta à disposição do cliente naquele período. Como o trabalho é
realizado com horário marcado, a pontualidade é fundamental, não sendo possível estender o horário para
além dos ___ minutos previstos, mesmo em caso de atraso do cliente. Em casos de atrasos do terapeuta,
ocorrerá a compensação para além do horário acordado ou conforme acordado com o paciente.
FALTAS:
Deverão ser avisadas com, no mínimo, 24 horas de antecedência. As sessões em que o cliente faltar ou
desmarcar com menos de 24 horas de antecedência serão cobradas normalmente.
O bom desenvolvimento da terapia depende da frequência e adesão do cliente às sessões. No caso de faltas
excessivas (quatro ou mais faltas intercaladas ou consecutivas), a terapia deverá ser reconsiderada.
DESMARCAÇÕES OU MUDANÇAS DE HORÁRIO:
Em caso de desmarcações com até 24 horas de antecedência, o cliente não arcará com o valor da sessão.
Caso a ausência seja avisada no dia da consulta, ou não seja avisada, a sessão será paga normalmente. Essas
sessões poderão ser remarcadas com o terapeuta. Mudanças de horário deverão ser discutidas com o
terapeuta e serão realizadas quando possível.
ALTA:
O término do tratamento pode ocorrer por escolha do cliente ou por alta dada pelo terapeuta. Caso exista a
necessidade de interrupção do tratamento, é necessário o aviso com uma semana de antecedência para que
seja realizada uma sessão de fechamento da terapia.
Declaro que estou ciente e de acordo com as informações e regras supracitadas.
Brasília, _____ de _____________ de ________.
NOME DO CLIENTE OU RESPONSÁVEL:
_________________________________________________
CPF: _________________________________ TELEFONE:
___________________________________
NOME DA CRIANÇA/ADOLESCENTE:
____________________________________________________
ASSINATURA DO RESPONSÁVEL:
_______________________________________________________
ASSINATURA DO PSICÓLOGO:
_________________________________________________________
Fonte: elaborada pela autora.

Para melhor engajamento do paciente ao tratamento, busque, juntamente com o


paciente, habilidades que possam modificar cognições, controlar estados de
humor e fazer mudanças produtivas em seu comportamento para evitar recaídas
após o término da sessão. Sugerir exercícios de escrita criativa, leituras de
livros, treino de habilidades, exercícios de respiração e testes que fazem o
paciente a utilizar sua imaginação, colocando nela todos sentidos, emoções e

33
sentimentos de forma intensa e vivificadas, são bons exemplos para incentivá-
los em sua melhora, além das técnicas ensinadas na Unidade I.

CAPÍTULO 2
A hipnose e as cognições

Neste capítulo, falaremos sobre as cognições, mas vocês já pararam para se


perguntar o que são cognições? É o conjunto de funções mentais características
do conhecimento que reconhecem, organizam e compreendem as informações
dos cinco sentidos sensoriais de modo que sejam utilizados para facilitar a
adaptação a ambientes passíveis de mudança por meio da emoção, da atenção,
da memória, do comportamento e da imaginação.

Quando falamos em imagens mentais, estamos falando em memória e


imaginação. Quando falamos em memória, associamos processos de
automatizações na forma de pensar, de sentir e de se comportar. Já pensaram se
tivéssemos de aprender a caminhar cada vez que levantamos de uma cadeira, ou
andar de bicicleta? As memórias são imagens carregadas de emoção. A hipnose
Clínica, como agente terapêutico, trabalha exatamente neste espectro do sentir,
do vivenciar emoções, do promover mudanças nas memórias e dos cenários
disfuncionais para configurações mais adaptativas.

A memória é a nossa capacidade de guardar, armazenar e reproduzir


informações ou lembranças que, com o passar do tempo, podem ser resgatadas e
apresentadas à consciência. São informações que podem ser depositadas em
circuitos neurais e que têm influência no desempenho do cérebro depois de
terem sido “anexadas” na psique. Elas carregam significados bons, ruins,
divertidos, aleatórios, de acordo com o entendimento de cada pessoa e o
estímulo empregado em cada uma delas, pois carregam consigo uma bagagem
histórica de acontecimentos vividos ou presenciados.

Ao codificar uma memória, somos informados sobre a quantidade de esforço


que atribuímos ao acontecimento, caso seja marcado por um intenso esforço
mental, tendemos a interpretá-lo como algo que imaginamos. Se atribuirmos
pequeno esforço mental, tendemos a interpretá-lo como algo que ocorreu. Uma
pessoa hipnotizada pode confundir um evento imaginário com algo que
aconteceu tempos atrás, por exemplo, relatar seus primeiros anos de vida com
detalhes emocionantes mesmo que o evento não tenha acontecido

34
A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

especificamente daquela forma, embora alguns adultos não consigam se lembrar


dos primeiros anos de vida. Quando sugestionados a regressarem à infância,
pessoas que são altamente hipnotizáveis se comportam como crianças e
apresentam-se muito emotivas por terem revivido momentos de sua infância,
repetindo comportamentos, pensamentos, emoções e até a linguagem de uma
criança. Vale ressaltar que, em uma regressão, nem toda pessoa regride e
algumas memórias podem ser construídas.

Assim como costumamos esquecer nossos sonhos, a amnésia pode acontecer


para eventos que ocorrem durante o estado hipnótico. Ela pode ser sugerida com
objetivos terapêuticos, como aumentar a efetividade de uma sugestão pós-
hipnótica, proteger o paciente de uma emoção desagradável ou pode ocorrer
espontaneamente sem sugestão do terapeuta. Pode acontecer de alguns pacientes
se lembrarem de tudo o que aconteceu na sessão com todos os detalhes, outros
não se recordarem de nada e outros irem se recordando aos poucos e apagarem
completamente de sua memória conforme os estímulos evocados por cada
imagem mental. Em situações terapêuticas, o paciente pode ser ensinado a
esquecer de velhos hábitos ou sintomas que trazem algum desconforto.

Na hipnoterapia, usamos muitas imagens mentais e seu principal elemento é a


imaginação. Ela é uma forma de elaboração do pensamento que ordena e
coordena, em múltiplas combinações, os elementos já existentes no cognitivo
evocados, quando necessário pela memória, para dar vida às ideias novas,
resultando em criações geniais. A imaginação pode reproduzir cognições já
vivenciadas e transformar seus conteúdos emocionais por meio de suas
variações. Segundo Silberfard (2011), a diferença entre a imaginação e a
memória evocada é que a memória tenderia a reproduzir o conteúdo com
fidelidade, que também não é verdade em função dos nossos processamentos
cognitivos. Segundo Lynn & Rhue (1989) e Hilgard (1979), as pessoas
altamente suscetíveis ao fenômeno são muito mais propensas ao exercício
mental da fantasia. A imaginação é a criação e manipulação de modelos
cerebrais quando não existe um “estímulo” no ambiente atual. Os achados
recentes da neurociência propõem que a imaginação tenha valor
neurofisiológico semelhante com o que desempenhamos em comportamentos
objetivos (WILLIAMNSON et al., 2001).

35
UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Weinberg e Gould (2001) conceituam a visualização ou mentalização como a


criação ou recriação mental de uma experiência. A visualização é uma recriação da
experiência sensorial (ver, sentir e ouvir), porém ocorrida apenas na mente. A
visualização pode também criar imagens de situações que ainda não foram vividas.
Apesar de a imaginação se basear intensamente na memória, é possível construir
imagens a partir de diversas partes da memória. Os autores afirmam, ainda, que a
mentalização, mesmo quando é chamada de visualização, deve conter o máximo de
sentidos possível (cinestésico, tátil, auditivo, olfativos, por exemplo).

Para que vocês tenham uma ideia, a utilização das imagens mentais como forma
terapêutica vem desde os primeiros estudos realizados na Europa no final do século
XIX, com os pacientes “histéricos” no Salpêtrière, em Paris, por Pierre Janet no
ano de 1898. Carl Gustav Jung reconheceu a visualização mental como um
mecanismo criativo para a psique humana para atingir o crescimento individual,
interpessoal e a integração espiritual. O psiquiatra Gerard Epstein foi um dos
pioneiros na pesquisa e na aplicação das imagens mentais para curar e manter a
saúde. Para ele, a característica mais fascinante do trabalho com imagens é a de
poder ser acompanhado por mudanças fisiológicas, ou seja, a mente pode alterar o
corpo, sendo um processo natural e inerente ao ser humano, como sonhar e acordar
taquicardíaco ou imaginar situações catastróficas e ter sudorese. Para ele, a
imagem mental é a mente pensando por meio de imagens. Em seu livro, Imagens
que curam, o psiquiatra ensina práticas de visualização para a saúde física e
mental, utilizado hoje por milhões de terapeutas e pacientes pelo mundo todo. Ele
conta que Pierre Janet desenvolveu um procedimento chamado substituição
imaginária para ajudar os pacientes a experienciarem novamente e substituírem
imagens perturbadoras por imagens mais adaptativas, que foi a mais rápida
reestruturação cognitiva documentada com imagens ansiosas ao paciente. Seu foco
era fazer os pacientes aprenderem a lembrar e reviver as imagens e reformular as
suas imagens negativas substituídas por novos cenários construídos na intervenção
terapêutica, com a intenção de, pelo menos, colocar o paciente em dúvida sobre
suas crenças mais limitantes. Segundo esse mesmo autor, o processo de
imaginação envolve a participação de todos os sentidos e não somente da visão. A
conexão entre sensações, emoções e imagens mentais fundamenta seu trabalho. Ao
mudar uma imagem, a sensação e a emoção também mudam – processo também
utilizado na programação neurolinguística.

36
A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

Gerald Epstein orienta que os exercícios de visualizações não substituem as


medicações prescritas por um médico, mesmo que os sintomas das doenças e dos
distúrbios diminuam com o tempo. Ele recomenda que os exercícios sejam feitos
em ciclos de 21 dias com intervalo de 7 dias, conforme estudos feitos nos
laboratórios de psicologia da Universidade do Texas, em Austin, onde os
pesquisadores descobriram que o ser humano demora cerca de 21 dias para perder
e adquirir novos hábitos. Segue, abaixo, alguns exemplos de visualizações
sugeridas pelo médico. Fique à vontade para realizar o ciclo de 21 dias quantas
vezes quiser ou até atingir sua meta.
ALÍVIO DA CULPA

Nome: A Fita Vermelha e Falando o que Pensa

Intenção: Eliminar sentimentos de culpa.

Freqüência: Uma vez por dia, de 3 a 5 minutos (para o Falando o que


Pensa somente até 3 minutos), durante 7 dias. Se você sentir que precisa
continuar, faça-o por mais 14 dias.

Muito fala-se em relação aos sentimentos de culpa constantemente


correlacionados à nossa consciência. Verdadeiramente, a consciência está
presente em alguns de nós (embora não em todos) para impedir os
comportamentos destrutivos para com nós mesmos ou para com outras
pessoas. Teoricamente, o que sentimos depois de realizarmos um ato
desfavorável à nossa consciência é o remorso, embora, geralmente,
digamos que é culpa. A consciência impede que cometamos estes atos de
antecipadamente. O remorso, bem como os “sentimentos de culpa”, é um
reflexo a um fato consumado. Como quer que você chame esta reação,
estes sentimentos reprimem o crescimento pessoal, pois são uma maneira
de se fugir da responsabilidade por nosso comportamento, seja ele
assumido ou não. Em outras palavras, nós não só nos sentimos culpados
pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer. Em qualquer
um dos casos, não fique aprisionado ao passado. Responsabilize-se pelo
que fez ou deixou de fazer. Saiba que existem conseqüências para os seus
atos que você terá que agüentar; perdoe-se e peça perdão à pessoa a quem
você magoou ou ofendeu. Compense-a de alguma forma, se for o caso, e
continue a viver no presente, agindo tão eticamente quanto for possível.

Os exercícios que se seguem têm funcionado como aliados poderosos na luta em que muitos de
meus pacientes se engajaram para se libertar do domínio paralisante dos sentimentos de culpa.

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UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Descubra qual dos exercícios lhe é mais adequado e fique com ele. E impressionante o que você
descobrirá sobre si mesmo ao explorar a culpa deste modo.
A Fita Vermelha

Feche os olhos. Respire três vezes. Veja uma fita vermelha à sua frente. Escreva nesta fita as
características das quais você quer se livrar, inclusive a culpa. Liste estas características na
ordem da importância que têm para você. Coloque a fita ao redor do pescoço. Respire uma vez e
vá da cidade para um deserto que você já tenha visto ou lido a respeito. Encontre uma cachoeira
próxima a uma grande rocha. Na frente da rocha, cave um buraco. Pegue todas as características
na fita e as expulse, uma a uma, respirando e dizendo o nome de cada uma (não em voz alta, mas
lá no deserto). Depois disso, coloque a fita em cima da rocha e queime-a. Coloque as cinzas no
buraco, encha-o e coloque a rocha em cima. Respire uma vez e vá até a cachoeira. Escale a
cachoeira até o alto, subindo através da própria água. Veja e sinta a força da água passar por
você, limpando-o e carregando todos os resíduos de culpa. Depois de chegar ao topo, estique as
mãos, as palmas voltadas para cima, para o sol, e absorva-o um pouco em suas mãos, colocando-
as então sobre qualquer parte de seu corpo para gerar saúde e bem-estar. Respire uma vez e saia
da cachoeira. Deixe o sol secá-lo. Coloque uma roupa limpa e volte para sua cadeira, sentindo a
culpa desaparecer. Então abra os olhos. Falando o que Pensa

Feche os olhos. Respire três vezes. Imagine-se falando com a pessoa com quem você está em
conflito exatamente sobre o assunto pelo qual se sente culpado. Expresse seu pensamento
diretamente, dizendo o motivo pelo qual você se sente culpado. Então troque de lugar com a
outra pessoa. Torne-se este outro e fale com você como se fosse ele. Respire uma vez. Então seja
você novamente e expresse o ressentimento que há por trás da culpa. Respire uma vez. Agora
troque de lugar e responda ao que você sentiu. Respire uma vez. Torne-se você novamente e
expresse as exigências por trás do ressentimento. Não disfarce suas exigências com perguntas ou
acusações. Respire uma vez. Seja a outra pessoa e responda às exigências que você acabou de
fazer. Repare como você se sente quando troca de lugar. Quando você é a outra pessoa, o que
diz? Então abra os olhos. (EPSTEIN, 2009, p. 88)

Outra importante contribuição nessa área foi dada pelo Dr. Simonton, dos EUA,
que desenvolveu, juntamente com outros cientistas, um programa com sessões de
relaxamento, afirmações positivas, visualizações de imagens mentais adaptativas,
exercícios físicos e outras técnicas específicas. Os pacientes são incentivados a
exercitarem as técnicas de relaxamento e visualização por meio de imagens
mentais três vezes ao dia, durante 15 minutos, assim como é ensinado na auto-
hipnose. No Brasil, a psicóloga Dra. Maria Margarida Carvalho foi responsável
pela implantação e divulgação do Programa Simonton e do treinamento de
profissionais de saúde de atendimento psicossocial aos pacientes com câncer. Para
ela, o tratamento médico aliado à técnica da visualização possibilita uma
participação ativa no processo de doença e de saúde.

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A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

Se pararmos para pensar, existe uma cultura de guardamos mais as imagens


negativas do que as positivas. As imagens mais tristes são mais carregadas de
conteúdos fortes tanto afetivamente como emocionalmente. Elas trazem sensação
mais intensa, como o choro compulsivo ou sofrido, o aperto no peito, que muitas
vezes são mais fáceis de serem gravados na memória do que as imagens de
felicidade, bem-estar, sensações de leveza e tranquilidade. Um ditado árabe diz que
“as imagens agradáveis são gravadas na areia e as imagens ruins são gravadas na
pedra”.

Na hipnose, por exemplo, o paciente acessa as memórias impressas e pode adaptar


seus cenários imaginários às conotações mais agradáveis em nível adaptativo,
melhorando o seu aspecto. É comprovado que as imagens são impressas quando
piscamos os olhos. Para fixarmos mais uma imagem, basta que pisquemos
lentamente várias vezes, fitando-a. Mesmo dormindo, piscamos na retomada das
memórias diárias durante o sono REM. Dowd (2000) reforça a questão de que a
fase de vigília e o sono REM encarregam-se de consolidar as memórias durante os
movimentos oculares no sono e justifica de alguma forma a eficácia no manejo de
imagens mentais nos estados hipnoidais, produzidos nas mesmas faixas de onda
cerebrais. Segundo Schultz (1991), a origem do treinamento autógeno no estado
hipnoidal favorece o trabalho com imagens mentais durante os processos de
relaxamento nos tratamentos terapêuticos. Todavia, um dos principais valores das
imagens mentais reside em serem recursos eficientes para o acesso a conteúdos
mais profundos do sujeito, bem como o incentivo e a motivação à criatividade para
o enfrentamento de problemas. Seu emprego está sempre associado a grande
envolvimento emocional e mesmo fisiológico, exemplificado e comprovado
empiricamente nos processos de ansiedade.

A prática da visualização de imagens mentais remonta ao homem das cavernas,


que a utilizava como forma de expressar suas percepções do mundo real,
associando-as a sentimentos e fenômenos para os quais não tinha explicação. Essa
prática perpassa por quase todos os períodos da civilização, sendo que hoje recebe
importantes aportes científicos oriundos das neurociências e das aplicações nos
vários campos da psicoterapia. No início do século XX, foi desenvolvida uma
variedade de intervenções terapêuticas que combinavam imagens com a linguagem
como um meio de ajudar os pacientes no processo de dissociação, transformando
imagens angustiantes em retratos mais favoráveis, facilitando as intervenções para
a reestruturação cognitiva, ressignificando memórias, promovendo mudanças.

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UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Dentre muitos estímulos que estamos em contato em nosso cotidiano, respondemos


predominantemente àqueles que nos são mais significativos, inibindo outros. A
atenção é o nome dado ao caráter seletivo, focal e direcional dos processos mentais
organizados, fundamental para as técnicas de indução aos estágios hipnóticos ou
hipnoides. Isso envolve o alerta, a seleção, a concentração e a exploração
(BRANDÃO, 1995). Considerando a atenção como um fenômeno multifatorial, ela
pode ser dividida sob vários pontos de vista: quanto à natureza, ela pode ser
voluntaáia ou espontânea. A voluntária envolve atenção ativa e intencional do
sujeito em uma determinada atividade (DALGALARRONDO, 2000). A
espontânea é suscitada pelas características dos estímulos, tais como intensidade,
tamanho, cores, novidade, movimento e, especialmente, repetição, que caminha a
passos largos para a habituação. Quanto à direção da atenção, ela pode ser externa
ou interna. Na externa, os estímulos sensoriais são dirigidos para fora do corpo; e,
na interna, a atenção está voltada para os pensamentos, memórias, na resolução de
problemas matemáticos. Quanto à sua amplitude, a atenção pode ser seletiva
(focal) ou dividida (dispersa). A primeira nos interessa muito para o uso de
técnicas indutivas. Portanto, a atenção é um processo de seleção em que as
prioridades da atividade mental consciente e a sua manutenção (sustentação do
foco) permitem a realização de tarefas (DALGALARRONDO, 2000). Dessa
forma, a concentração é um dos atributos da atenção, e quanto mais seletiva e
concentrada na hipnose, melhor. Segundo Fadiman & Frager (1979), a
concentração é sintetizada em dois aspectos principais. Primeiro, a retirada da
atenção de objetos de distração, e, segundo, o enfoque da atenção sobre uma coisa
de cada vez.

A emoção é essencial para que se promovam mudanças cognitivas e


comportamentais. A emoção é o produto de uma interação entre um estado de
ativação fisiológica e um processo cognitivo de percepção e atribuição causal de
tal ativação, as craves emocionais do ambiente. A ativação fisiológica determina a
qualidade emocional. Ambos os componentes são necessários de forma interativa:
se não houver ativação fisiológica, não há emoção, mas, se não há cognição,
tampouco haverá emoção. A ativação fisiológica é inespecífica, sendo semelhante
nas diferentes emoções e seu principal mecanismo de ação é a ativação do sistema
nervoso simpático, responsável pelas alterações fisiológicas presentes nas emoções
caracterizadas principalmente por expressões faciais em que é possível perceber
sinais visuais de medo, ira, tristeza, alegria etc.

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A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

Alguns estudos apontam que a harmonia de similaridade de situações entre


pensamento e emoção proporciona melhor desempenho na memória em contextos
em que o estado emocional pode ter um efeito significativo na memória, pois um
estado emocional alegre, feliz e eufórico faz recordar mais facilmente situações
favoráveis do que situações desfavoráveis. Entretanto, pessoas desmotivadas e
deprimidas tendem a se recordar primeiramente de fatos desastrosos, eventos de
insucessos, vexações e fracassos com mais facilidade. Hoje em dia é comum
encontrarmos na internet áudios e vídeos de auto-hipnose e meditações guiadas
que estimulem nossas emoções com imagens mentais e frases motivacionais, que
muitas vezes são buscadas por pessoas que querem modificar seus estados
emocionais com variados objetivos. Acredito que vocês já tenham ouvido falar que
a água tem memória. Existe um experimento que demonstra que o poder dos
nossos pensamentos e emoções podem afetar as moléculas de água. Se levarmos
em consideração que 70% do nosso corpo é constituído por água, imagine como
somos afetados! Nesse experimento, foram colocados dois copos com água; para o
copo 1 foram ditas palavras bonitas, de amor e alegria, palavras positivas; e no
copo 2 foram ditas palavras negativas, xingamentos, injúrias e ofensas. Em
seguida, os copos foram colocados no freezer para congelar. Ao serem
desenformados, foi observado que os desenhos formados nos gelos eram
completamente diferentes. O copo 1 formou cristais com uma imagem bonita e o
copo 2 formou cristais com imagens feias, estranhas. A mesma coisa acontece com
as músicas que ouvimos. Determinadas vibrações podem causar sensações boas ou
ruins e isso pode ficar na nossa memória. O mesmo experimento foi realizado por
crianças utilizando grãos de arroz cozidos, em que os potes ficaram fechados por
aproximadamente dois meses. No pote que recebeu palavras de amor, o arroz
fermentou naturalmente, já nos que receberam palavras negativas o arroz
apodreceu rapidamente.
Figura 7. Cristais de água.

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UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Ameaça de morte Amor e admiração Antes de uma oração

Depois de uma oração Rio poluído Heavy metal


Fonte: http://3.bp.blogspot.com/-W_5RfRO2T9s/Vo1u71j5QRI/AAAAAAAACiw/2LM1fwtw5co/s1600/cristaisbadwords.jpg.

Figura 8. Grãos de arroz.

Fonte: https://s2.glbimg.com/NSV9rdRxP93zWSuS86EGTeTzKtM=/0x0:620x465/984x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59
edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2017/W/P/J1ZUsYSxGFJDUpuZSBEw/untitled.jpg.

Quando tratamos de pessoas em estado de depressão, observamos que suas


memórias guardam lembranças negativas de características autorreferenciadoras,
sugerindo que esses pacientes estão presos em um círculo vicioso. Assim, o estado
emocional depressivo ativa mais memórias negativas e, por sua vez, essas
recordações negativas agravam seu estado emocional. Alguns estudos relatam que
sujeitos deprimidos revelam uma condição contrária de memória quando revivem
palavras aparentemente ameaçadoras para sua autoestima. Eles vivem uma guerra
interior e, por sua vulnerabilidade, acreditam que tudo é feito para atingi-los,
pensamento esse que é contrário de pessoas saudáveis. Para se observar um
pensamento harmônico, é interessante que se induza o paciente a um estado
emocional alegre ou depressivo e depois apresente uma lista de palavras neutras
para verificar quais recordações ele traz de lembranças passadas. Quando
depressivos, é comum o sujeito apresentar lembranças de episódios do mesmo

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A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL | UNIDADE II

estado emocional no qual se encontram, porém, em determinado momento do dia,


é possível observar picos em que suas lembranças podem ser mais agressivas e
dolorosas. Assim, a depressão estaria associada a um esquema negativo de sua
imagem e a ansiedade estaria associada a um esquema exagerado de perigo. Nesse
sentido, as pessoas com esquemas autodepreciativos prestam atenção e se
recordam mais das informações negativas de natureza depressiva, enquanto que as
pessoas com esquemas de perigo exagerado atendem e recordam mais rapidamente
dos estímulos ameaçadores. Num caso e no outro, as desordens cognitivas vão
exacerbando o controle emocional, pois tanto as pessoas deprimidas quanto as
ansiosas revelam alteração em sua atenção, em sua memória e em seu pensamento.
Desse modo, as pessoas ansiosas recordarão mais informações relacionadas com
perigo e ameaças, e pessoas deprimidas recordarão mais informações relacionadas
com perdas, fracassos e separação.

Alguns valores de intensidade podem demonstrar uma relação complexa entre


emoção e memória, isso, porque, se avaliarmos o emocional, as pessoas tendem a
buscar caracteristicamente memórias boas de seu passado, e até se esquecem de
algumas não tão relevantes, provocando uma anamnésia funcional, supressão ou
dissociação, como se aquele evento não tivesse acontecido consigo. Porém, se
buscarmos mais profundamente, algumas memórias que aparentemente estavam
esquecidas podem vir à tona. A emoção é um fator facilitador da memória, mas
não garante uma recordação perfeita e nem isenta de erros. Elas caracterizam-se
por súbitas rupturas no equilíbrio afetivo de curta duração, com repercussões
consecutivas sobre a integridade da consciência e sobre a atividade funcional de
vários órgãos. As emoções podem estar ligadas ao instinto de sobrevivência, que
representam ameaça ao indivíduo; uma emoção colérica, anulando um objeto que
represente algo incômodo; e uma emoção afetuosa, inclinando-se ao prazer.
Também existem os estados afetivos sensoriais relacionados à sensibilidade
corporal, que trazem sensações de dor e prazer; e os estados afetivos vitais,
relacionados às sensações de bem-estar, mal-estar, ânimo e desânimo.

Já os sentimentos são estados afetivos mais estáveis e duráveis, provavelmente


provindos das emoções. Existem os sentimentos anímicos e espirituais, que são
estados afetivos tidos como qualidades do self, atribuindo-lhes algum valor. Os
sentimentos anímicos são a tristeza e a alegria, o amor e o ódio, a felicidade e o
desespero. Os sentimentos espirituais tendem a princípios e valores atribuídos à
estética, à intelectualidade, aos valores morais e religiosidades. Dessa forma,

43
UNIDADE II | A HIPNOSE E A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

podemos constatar que os sentimentos, por serem mais duradouros que as


emoções, uma emoção de choque, como o pânico, surgem de emoções mistas de
espanto, pavor, susto, bem como de sentimentos de insegurança, desconfiança e
medo.

44
MECANISMOS DE
AUTOMAÇÃO NA UNIDADE III
HIPNOTERAPIA

Nesta unidade, vamos discorrer sobre a respiração, a psicologia positiva, os


condicionamentos, as visualizações, as meditações e os processos
neurolinguísticos, que são mecanismos de automação que, juntamente com a
hipnose, estimulam a ampliação da percepção e a compreensão de comportamentos
e atitudes que auxiliam o paciente a enxergar seu potencial cognitivo,
enriquecendo o processo terapêutico de forma independente.

CAPÍTULO 1
Processos independentes

Atualmente, muitos pacientes buscam por psicoterapias breves. Estamos em um


momento em que as pessoas querem tudo para ontem, querem que seus problemas
sejam solucionados em um passe de mágica. Os processos tecnológicos tomam
conta de tudo, sistemas de automação que realizam de tudo, enquanto,
antigamente, décadas atrás, não tão longe assim, nosso modo de comunicação era
por meio das cartas. Tínhamos que escrever hoje para daqui três meses o
destinatário receber notícias de um familiar e mais três meses para uma resposta ao
remetente; hoje, tudo está mais fácil, mais simples. Com um simples e-mail,
mensagem por celular ou uma ligação é mais fácil obter uma solução quase que
imediata e instantânea. Da mesma forma ocorre com os tratamentos terapêuticos.
Os pacientes não estão em busca de preços, querem simplesmente a solução de
seus problemas, independentemente do modo proposto. Sem deixar de lado a
questão da ansiedade e da correria do dia a dia, as pessoas não querem perder
tempo com nada que considerem prolongado e ineficaz, tanto que, no presente
momento, é possível até mesmo uma consulta online.

A seguir, estudaremos algumas técnicas breves que por si só já apresentam eficácia


e bons resultados. Técnicas simples que, associadas à hipnose, podem ajudar o
paciente a perceber seu potencial cognitivo e alcançar resultados admiravelmente

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UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

positivos em seu tratamento. Peço que estudem profundamente cada uma dessas
técnicas em livros e sites especializados, pois são técnicas que irão ajudá-los não
só no consultório, mas também no dia a dia.

Respiração
Respirar é uma função do sistema nervoso autônomo e está no inconsciente.
Portanto, a respiração é a ponte do inconsciente para o consciente.

A respiração é algo que simplesmente acontece. Não precisamos nos esforçar para
respirar, ela é produzida pela inteligência inerente ao corpo e é o nosso primeiro e
último ato na vida. Como não exige atenção ou esforço, acabamos por respirar de
forma automática e, muitas vezes, superficial, fazendo uma respiração curta, tanto
na inspiração como na expiração. Como o ato de respirar está intimamente ligado
aos estados mentais e emocionais, acabamos nos desequilibrando por não
sabermos respirar corretamente.

Com os hábitos da vida moderna, em que passamos horas sentados em frente ao


computador ou à televisão, em ambientes fechados com ar-condicionado ou micro-
ondas, com excesso de trabalho e compromissos, enfim, tudo isso gera deficiência
de energia vital em nosso organismo. Temos grande dificuldade com a expiração, o
“soltar” o ar. Como não esvaziamos bem os pulmões, eles ficam cheios de ar
viciado (gás carbônico), e, assim, quando tentamos inspirar o oxigênio – que é a
fonte de energia para o nosso cérebro – não temos espaço.

Os seres humanos só inspiram 30% do ar que deveriam colocar para dentro do


corpo para nutrir as células do corpo físico, e também para nutrir de energia vital o
nosso corpo energético – que é o responsável pelos pensamentos e sentimentos.
Dessa forma, com falta de oxigênio e energia vital, e sobrando gás carbônico,
temos um corpo intoxicado e desvitalizado, propenso a doenças e desequilíbrios
emocionais.

Quando respiramos conscientemente de forma leve e tranquila, os pensamentos, os


sentimentos e o corpo também se tornam leves, tranquilos e lúcidos. Por isso, é tão
importante observar nossa respiração, inspirar e expirar calmamente. Podemos
utilizar a respiração para controlar as emoções negativas, dissolver o estresse,
ativar ou sedar a mente, liberar tensão, limpar o corpo energético, ou seja,
promovemos uma verdadeira transformação em nossas vidas quando respiramos
conscientemente.

46
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Na respiração, temos três movimentos básicos a considerar: a inspiração, a


expiração e a retenção.

» A inspiração leva o ar para os pulmões, enchendo-os. Exceto por algumas


indicações especiais, durante os exercícios, a inspiração deve acontecer
naturalmente, sem puxar, deixando fluir o movimento natural que o
corpo tem de ir buscar o ar. Sua finalidade, do ponto de vista energético,
é captar fluidos vitais.

» Na expiração, a mesma naturalidade é indicada para a inspiração, soltar o


ar sem forçar, suavemente. Alguns exercícios pedem uma expiração
mais vigorosa. A finalidade da expiração, do ponto de vista energético, é
eliminar fluidos indesejáveis por serem negativos.

» A retenção do ar, que consiste em parar de respirar por alguns momentos,


representa, nos exercícios, um ponto de intervalo entre uma inspiração e
uma expiração. A retenção pode acontecer com os pulmões vazios ou
cheios. Sua finalidade, do ponto de vista energético, é dupla. A retenção
com os pulmões vazios destina-se a preparar o perispírito para receber e
transformar os fluidos que receberá. A retenção com os pulmões cheios
destina-se a dar tempo ao perispírito para agregar os fluidos que irá
eliminar por meio da expiração que acontecerá em seguida.
Figura 9. Inspiração e expiração.

Inspiração Expiração
Ar inspirado Ar expirado
O difragma contrai-se e O diafragma relaxa e
baixa: músculo Inter-costai
s seleva-se: os músculos
contraem-se e elevam as onter-costais relaxam e
costelas; o volume da caix
a baixam as costelas o volume
toráxica aumenta da caixa toráxica diminui

Os pulmões Os pulmões contraem-se


distendem-se

A pressão dentro dos


A pressão dentro dos
pulmões aumenta
pulmões diminui
relativamente à pressão
relativamente à
atmosférica
pressão atmosférica

O ar atmosférico O ar que encontra-se nos


entra nas vias pulmões sai para o exterior,
respiratóias e chega Diafragma passando pelas vias
respiratórias
aos pulmões
Inspiração Expiração
Fonte: http://s2.glbimg.com/Jq46LFHGOOcLvFfHsdh5hA34SSE=/0x0:637x373/620x363/s.glbimg.com/po/ek/f/original/2014/02/14/ mod_33_2.png.

A contagem é um recurso usado quando já se domina a técnica de cada exercício


respiratório. Ela está destinada a dar ritmo e a ocupar a mente, evitando que

47
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

pensamentos negativos ou dispersivos perturbem a absorção de energia durante a


prática da respiração.

Cada exercício apresentado aqui tem registrado no final o ritmo mais adequado de
execução. Esse ritmo pode ser alterado pelo praticante de acordo com sua
capacidade pulmonar, sem problemas, desde que observadas a relação entre
inspiração e expiração, que costuma ser de 1 para 2. Ao praticante só convém
preocupar-se com o ritmo quando já estiver com o exercício memorizado e
praticando respiração há pelo menos um ou dois meses. Os exercícios respiratórios
dão ênfase à respiração nasal, principalmente na inspiração. Quem observar vai ver
que nunca se inspira pela boca nos exercícios indicados e que a boca só às vezes é
usada para expirar em alguns exercícios de limpeza.

Devemos justificar essa característica para que o praticante entenda porque deve
respirar preferencialmente pelo nariz. Ao entrar no organismo, o ar está mais frio
que o corpo, fato que pode gerar alguma reação no organismo. O ar que entra pelo
nariz é aquecido naturalmente, mas o ar que entra pela boca não consegue se
aquecer antes de chegar à garganta e entra pelas vias respiratórias frio, o que causa
alergias e outras doenças.

O nariz tem mais função, que é reter os micro-organismos e elementos, como a


poeira, dispersos no ar, impedindo que cheguem ao interior do corpo, trazendo
doenças, uma vez que o nariz possui pelos e umidade que fazem esse trabalho de
retenção. Nos exercícios, é muito usado o recurso de tapar uma narina e respirar
apenas pela que ficou livre. Quando estiver indicado tapar uma narina, a obstrução
é feita com o dedo médio de uma das mãos, colocando a ponta do dedo do lado de
fora da narina, lateralmente, fazendo pressão apenas suficiente para impedir a
passagem do ar, mas sem machucar os tecidos ou entortar o nariz.

Há outras maneiras de posicionar a mão, tal como usar alternadamente indicador e


polegar da mesma mão. O indicador é usado para obstruir a narina esquerda, e o
polegar para obstruir a narina direita. Deve-se fazer essa obstrução da forma que
ficar mais fácil, pois a posição da mão é o menos importante durante o exercício, o
que interessa é que ela aconteça naturalmente e no ritmo adequado. Quem aprecia
saber o motivo de cada coisa vai achar interessante saber que há muito tempo, bem
antes que os cientistas descobrissem, a yoga já ensinava que cada lado do cérebro
influi sobre o lado oposto do corpo. Assim sendo, a prática de respirar com uma

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MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

narina só se destina a ativar um dos hemisférios cerebrais por vez. Aprendemos


também que a respiração realizada pela narina esquerda nos liga ao mundo interior.

A respiração é um meio de conexão do ser consigo mesmo e, consequentemente,


com seus medos inconscientes, abrindo caminhos para o reequilíbrio interior.
Assim, a partir da libertação dos padrões mentais e emocionais e das tensões
musculares associadas (couraças), a capacidade de troca com o outro (o dar e
receber) se amplia, ocorrendo de forma livre e plena. Além disso, uma respiração
adequada proporciona inúmeros benefícios, como: aumento da capacidade vital;
redução dos distúrbios respiratórios; massagem dos órgãos internos; aumento da
expectoração; redução da prisão de ventre; regularização da pressão arterial;
prevenção e tratamento das cardiopatias; purificação do corpo; redução da
ansiedade e tranquilização; regularização do funcionamento glandular; redução de
insônias; aumento da irrigação sanguínea; repouso; regularização das funções
vegetativas; redução do cansaço mental; melhoria do funcionamento do aparelho
digestivo; aumento da resistência; defesa orgânica, dentre outros.

Existem alguns tipos de exercícios de respiração que podem ajudar no dia a dia.

» Respiração glandular – Esse exercício ativa a tireoide e estimula o bulbo


raquídeo.

Realizada sempre com a boca fechada.

Para começar, inspira-se pelo nariz, levando a cabeça para trás como quem
quer olhar o teto. Reter o ar. A seguir, expira-se pelo nariz, trazendo a
cabeça para frente até encostar o queixo no peito. Tentar pressionar com
o queixo esse ponto, no qual está localizada a tireoide. Reter o ar.

Reinicia-se, a partir dessa posição, inspirando e levando a cabeça para trás.

Repetir 3 a 5 vezes.

Ritmo – Inspira em 4 tempos – retém 2 tempos, expira em 8 tempos e


retém 2 tempos. Ritmo – 4/2/8/2

» Respiração polarizada simples – Exercício de equilíbrio.

Fazer sempre com a boca fechada.

49
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Tapar a narina direita e fazer 3 respirações completas (inspira e expira) pela


narina esquerda, que está livre. Terminado...

Trocar – tapar a narina esquerda e fazer 3 respirações completas pela narina


direita.

Tenha sempre o cuidado de respirar o mesmo número de vezes com cada


narina para não gerar desequilíbrio energético.

Ritmo – Inspira em 3 tempos, retém 2 tempos, expira em 6 tempos, retém 2


tempos.

Ritmo – 3/2/6/2

» Respiração de limpeza com sopro sem parada

Com a boca fechada, inspirar sem forçar a entrada do ar, não reter.

Soltar o ar em um sopro suave longo. No final, um último sopro para


expulsar o restinho de ar dos pulmões.

Esse exercício é bom para situações de perda energética por medo e raiva.

Ritmo – Inspirar em 4 tempos, soltar o ar em 12 tempos.

Ritmo – 4/0/12/0

É comum que uma pessoa adoecida respire muito mal. Na maior parte das vezes,
mal tem consciência de sua respiração, pois nunca se atentou para ela. Quando
falamos inspire, retenha ou expire às vezes, a pessoa nem sabe o que é que estamos
pedindo a ela; ou, então, sabe o que desejamos que fizesse, mas não tem controle
sobre o ato de respirar, até se sufocando nas primeiras tentativas. Na indicação dos
exercícios respiratórios, tudo deve, portanto, ser feito calmamente, sem forçar ou
deixar a sensação de que estamos propondo algo difícil, senão o doente pode
desistir antes mesmo de começar.

Para a pessoa que está sem consciência da sua respiração ou que tem dificuldade
em dominar os movimentos respiratórios, deve-se iniciar procurando uma condição
de percepção. Deite-a e peça que vá respirando normalmente, tentando apenas
acalmar seu ritmo respiratório. Quando o ritmo estiver tranquilo, peça que coloque
uma das mãos sobre a barriga e a outra sobre o peito, fazendo com que observe seu
movimento de encher e esvaziar os pulmões. Tente verificar se a respiração

50
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

movimenta mais o peito ou a barriga, se ela é curta ou longa, alta ou clavicular,


média ou intercostal, baixa ou abdominal, ou simplesmente completa.

» Respiração alta ou clavicular: usa a parte superior do peito e dos pulmões,


fazendo erguer as clavículas e os ombros. Essa respiração exige muito
esforço e traz poucos benefícios.

» Respiração média ou intercostal: é feita movimentando costelas, peito e


região do estômago. Essa respiração é melhor que a alta, mas também é
defeituosa, pois usa toda a capacidade pulmonar.

» Respiração baixa ou abdominal: absorve maior quantidade de ar, mas tem


a falha de não usar a parte superior dos pulmões, cujos tecidos se
atrofiam.

» Respiração completa: movimenta todo o sistema de respiração por igual.


Nessa respiração, começamos a encher os pulmões pela parte inferior e
vamos ascendendo até chegar à parte mais alta. A inspiração é feita ao
contrário, com movimento que vem de cima para baixo.

Como vimos, a respiração é o principal recurso usado para estimular com rapidez o
aumento das vibrações positivas do corpo adoecido. Como um fluido curativo, a
respiração é classificada como um fluido vibrante, vista como capaz de refazer o
corpo físico e recuperar também os corpos sutis. A prática diária de exercícios
respiratórios recompõe o corpo e a mente, modificando emoções, sentimentos e
sensações rapidamente.

Outro tipo de respiração muito utilizada na hipnose é a respiração cíclica ou


circular. Por meio dela, é possível que o paciente entre em um relaxamento
profundo. Esse tipo de respiração é muito utilizada para aquelas pessoas que
possuem dificuldade de entrar em transe por meio de outras técnicas. Os processos
de regressão e de rebirthing (renascimento) geralmente são induzidos por esse tipo
de respiração por proporcionar maior interação entre mente e corpo, levando a
pessoa a experimentar emoções fortes, sensações físicas ou ativar memórias
esquecidas, até mesmo relacionadas ao seu nascimento biológico, de forma
curativa e reveladora.

O tempo de respiração pode variar de pessoa pra pessoa, aproximadamente uns 20


minutos. O paciente inicia a respiração, ativa as sensações por si ou estimulado

51
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

pelo terapeuta, é convidado a aceitar as sensações e permitir passar pelas barreiras


(crenças limitantes), quando acontece o que chamamos de integração ao êxtase,
ficando evidente que um ciclo de respiração se completou. Após esse período, é
sugerido que o paciente vá se acalmando, mantendo uma respiração tranquila e
devagar para que possa aproveitar o momento de relaxamento para perceber tudo
aquilo que seu inconsciente tem para ser ressignificado durante o processo.

A respiração circular pode ser pela boca ou pelo nariz, porém, se a inspiração
acontece por meio do nariz, a expiração também se dá pelo nariz. Se a inspiração
ocorrer por meio da boca, a expiração deve ser pela boca. Recomenda-se que seja
feita pela boca, tendo em vista que o volume de ar que passa pelos pulmões seja
maior.

A respiração circular estabelece uma condição no corpo que permite a ativação de


padrões bioquímicos e oferece a oportunidade para atingir o equilíbrio e alcançar a
integração corpo e mente. Existem três combinações principais de volume e
velocidade e cada uma apresenta uma aplicação específica. Elas podem ser:

» Lenta e profunda: a respiração lenta e profunda talvez possa ser mais


recomendada nas seguintes situações: quando estiver começando a
sessão ou quando o processo de integração de energia estiver no final e
outro ciclo estiver começando. O grande volume de ar o torna mais
consciente do padrão e a lentidão permite focalizá-lo mais facilmente.

» Rápida e superficial: a respiração circular rápida e superficial talvez possa


ser a mais indicada quando uma constância surge. A superficialidade
respiratória torna mais fácil estar com o padrão e a velocidade da
respiração acelerando a integração. Quando utilizar esse tipo de
respiração, o mais importante é estar atento aos sintomas de transe
apresentados pelo paciente.

» Rápida e profunda: a respiração rápida e profunda talvez possa ser


utilizada quando o padrão que surge o coloca com o foco fora de seu
corpo, como exemplo: sudorese e tremores pelo corpo. O grande volume
de ar inspirado permite que tenha a tendência de conservá-lo com o foco
em seu corpo. Sugira que o paciente busque seu lugar seguro e continue
o processo calmamente, sugerindo um relaxamento de seu corpo e
mudança de posição nos momentos em que o paciente apresentar rigidez
muscular e inquietação.

52
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Ao despertar o paciente, utilize todos os cuidados necessários para que ele volte do
transe com segurança e bem-estar, pois ele acaba de sair de um transe profundo,
beirando o sonambúlico. Deixe sempre um copo de água ao lado do paciente.

Psicologia positiva
É a área da Psicologia que estuda a felicidade e os fundamentos psicológicos do
bem-estar, tal como os pontos fortes e as virtudes humanas (SELIGMAN, 2011).
Essa ciência começou com Dr. Martin Seligan, psicólogo americano que inventou
essa abordagem apontando que é necessário sair do modo problema para o modo
solução. A psicologia positiva começou a ser estudada após a Segunda Guerra
Mundial dando atenção ao sofrimento psíquico da população e dos trabalhadores
devido às dificuldades emocionais geradas após esse período. Muitos estudos
científicos acerca dos problemas psicológicos e do efeito negativo de ambientes
estressores no mercado de trabalho surgiram nos anos de 1970, gerando, nas
organizações, os programas de qualidade de vida.

Entretanto, a proposta da psicologia positiva era a de que a Psicologia deveria focar


na construção das forças do sujeito para tratar e prevenir as desordens psicológicas
(SELIGMAN, 2002). Desde então, diversos estudos são realizados nessa área em
temáticas, como felicidade, otimismo, resiliência, emoções positivas, experiências
de flow e, em especial, o tema do bem-estar, que é o tema central da psicologia
positiva (SELIGMAN, 2011).

De acordo com Seligman e Csikszentmihalyi (2000), a psicologia positiva possui


três campos de pesquisa localizados nos níveis subjetivo, individual e grupal. No
nível subjetivo, o interesse está focado no estudo das experiências subjetivas de
valor, tais como bem-estar subjetivo e contentamento na vida (no passado),
otimismo e esperança (no futuro), felicidade e flow (no presente). No nível pessoal,
buscamos entender as características positivas relacionadas às individualidades e
ao desempenho de cada pessoa, como a capacidade de amar, seus talentos,
habilidades interpessoais, generosidade, perdão e sabedoria. No nível grupal, são
consideradas as virtudes cívicas e as instituições que ajudam os indivíduos a se
tornarem melhores cidadãos, com foco em suas competências, compaixão,
tolerância e ética profissional.

53
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Figura 10. Psicologia positiva.

Psicologia posi va

Nível básico
ou Nível individual Nível grupal
subje vo

Refere-se a virtudes cívicas e


Diz respeito ao estudo dos ins tuições com caracterísc as e
Diz respeito a traços e
elementos da felicidade, do traços de funcionamento
caracterísc as
bem-estar e de outros posi vos, que induzem os
individuais posi vas.
construtos relacionados. indivíduos à felicidade.

Fonte: elaborada pela autora.

Atualmente, muitos são os estudiosos dessa ciência em busca da felicidade e do


bem-estar e podemos conferir que essa nova abordagem tem seu lugar ao sol no
mundo moderno. Uma gama de estudos nos mostra que podemos mudar nossa
mente para nos tornar um ser humano mais otimista e feliz, modificando até
mesmo nossos genes para evitar doenças crônicas causadas pela força do
pensamento negativo.

Há pessoas que acreditam que, para ter uma vida feliz, é necessário o ter e se
esquecem de ser. Esquecem-se de quem são, de seus valores, dos ensinamentos de
seus pais e dos seus antepassados aprendidos na infância e que, para serem aceitos
e admirados por um grupo de pessoas, muitas vezes, sequestram suas origens para
vivenciar e agir como “manda o figurino” ou “dançam conforme a música”. No
entanto, no fundo, sentem-se ultrajados e feridos por dentro por não demonstrar ser
quem verdadeiramente são. Certamente, vocês já devem ter se deparado com
pessoas que acreditavam ser felizes se tivessem mais dinheiro e, quando o teve,
permaneceram no mesmo marasmo; ou, então, que seriam mais felizes se
morassem em outro país e, quando realizou esse sonho, permaneceu no mesmo
sentimento de infelicidade. Quanta gente busca realizar determinados sonhos de ter
ou ser determinada coisa em busca de uma felicidade fria e inexistente por algo
fantasioso, sem dar o verdadeiro valor ao que importa.

Martin Seligman iniciou suas pesquisas, por volta de 2002, estudando milhares de
pessoas felizes e a sua conclusão foi impressionante. Elas não precisavam ser
milionárias, nem comer chocolates e também não precisavam ter a melhor saúde

54
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

do mundo, bastavam poucas coisas, que eram comuns, para serem mais felizes –
coisas simples que tomamos como certo e garantido e que não prestamos mais
atenção na correria do dia a dia. Ele estudou as pessoas felizes e observou que esse
comportamento poderia ser aprendido.

Ao estudar as pessoas felizes, Martin Seligman – pai da psicologia positiva – teve a


constatação de que qualquer pessoa pode aprender os comportamentos, as
habilidades e as atitudes das pessoas otimistas simplesmente modelando-as ou
copiando seus passos. Também constatou que metade da população já nasce
otimista de forma inata, acreditando e vendo o mundo de forma mais feliz.
Figura 11. Atitude das pessoas felizes.

Mais chances de
ter um
Tem mais relacionamento
estável. Mais amigos
imunidade,
e mais apoio
adoecem
social.
menos.

São mais
Pessoas Mais
generosas e
felizes longevidade.
altruístas.

Ganham mais
dinheiro e Mais
fazem mais criatividade.
sucesso. Melhor
desempenho
no trabalho.

Fonte: elaborada pela autora.

O caráter científico enfatizado pela psicologia positiva não deve ser misturado com
autoajuda ou com declarações fundamentadas no misticismo ou com qualquer tipo
de religião. A psicologia positiva não é uma compreensão atualizada do
pensamento positivo, ela é um convite para o cuidado: ocupar-se mais com as
competências positivas do que com suas fragilidades. Sua finalidade é auxiliar na
construção de vidas melhores do que restaurar o que está insuportável, focaliza
seus interesses em fazer com que a vida seja mais harmônica e leve de se viver.

Nesse sentido, é essencial enfatizar que a psicologia positiva não desconsidera o


sofrimento humano e os contratempos que as pessoas vivenciam, muito menos
desmerece ou declara que o estudo das psicopatologias, sejam elas patologias

55
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

mentais e/ou comportamentais e, por isso, devam ser desprezadas ou modificadas.


Ao orientar os estudos científicos para as propriedades pessoais positivas, como
forças e virtudes, a psicologia aprenderá a prevenir doenças mentais e físicas e
proporá exercícios teóricos e metodológicos para guiar as perspectivas das pessoas
sobre os fenômenos estudados pela psicologia. O aspecto do desenvolvimento
saudável visa focar a prevenção no tratamento. Seu papel é ajudar os indivíduos a
construir uma vida agradável, envolvente e significativa.

Muitos autores defendem a psicologia positiva. Abaixo, seguem algumas dicas do


Professor Tal Ben-Shahar “Para se tornar mais feliz”:

» Relacionamentos: somos instruídos que é importante manter boas


conexões emocionais com a família e com os amigos. Sair, dar boas-
vindas às pessoas que vão à sua casa, viajar e almoçar com amigos.
Participar de grupos sociais nos dá motivação para viver, nos deixa mais
felizes.

» Gratidão: Martin Seligman e pesquisadores viram que escrever um diário


de gratidão nos permite focar no que faz bem. Quando valorizamos
coisas bonitas, focamos em solução, abrimos caminhos e nos
fortalecemos. Anote cinco coisas boas que aconteceram com você em
seu caderninho todos os dias. Após dois meses, você perceberá a
quantidade de coisas maravilhosas aconteceram contigo, simplesmente
porque estava focado no que é bom.

» Apreciar o belo: valorizar e apreciar o que é bonito favorece a busca por


soluções. Orienta nosso cérebro a desenvolver uma nova rede neural
mais otimista. Reverencie os ganhos e acertos ocorridos em sua vida.
Permita-se tomar um bom banho, satisfazer sua sede com um copo de
água. Enxergar, andar, ouvir, respirar e inclusive apreciar as coisas
lindas que estão a nossa volta, como o mar, o sol, as montanhas, os
pássaros, o céu azul. Faça isso diariamente, vá à busca da harmonia, da
natureza! E seu cérebro vai descobrir como solucionar rapidamente os
impasses com imaginação ativa, com pensamento assertivo e bom-
humor.

» Permissão para ser humano: quem nunca sentiu raiva, tristeza ou medo?
Naturalmente, vamos sentir e devemos sentir, pois somos humanos. O
que não devemos fazer é preservar esses sentimentos ruins por toda
56
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

eternidade. Precisamos nos desapegar e deixar ir, afinal de contas, tudo


passa. Os budistas ensinam a deixar o sofrimento ir embora, assim como
tudo é passageiro na vida, os pensamentos, as dores, os momentos, os
sofrimentos. Ao conservarmos as emoções negativas, eventualmente
adoecemos.

» Propósito de vida: todos precisam expressar seus talentos para viver uma boa
vida. Para que serve sua vida? O que sabe fazer de melhor para você e para os
outros? Você é capaz de ajudar o mundo com seus talentos? Todos nós temos
talentos especiais que podem servir para se ajudar e para ajudar o mundo. Esse é
o propósito da sua vida. Faça algo bom. Quando nos permitimos fazer algo que
pode ajudar alguém ou alguma causa, sentimos nossa vida brilhar. Acenda as
luzes e vibre com a vida. Encontre o significado da vida e você terá uma vida
cada vez mais feliz!

» Estabelecer metas realizáveis: precisamos aprender a realizar nossos sonhos. Para


isso, precisamos definir metas alcançáveis. Podemos dividir uma grande meta –
um sonho – em diversas metinhas e, então, lentamente, atingir metas mais
rápidas. Não adianta apenas sonhar, vá em frente e realize. Para chegar lá, é
necessário treino, determinação, iniciativa, arriscar e seguir rumo aos seus
objetivos. Os desafios vão existir, mas eles serão apenas o gás que te fará
realizar seus sonhos.

» Bom o bastante: errar para acertar, afinal, você não precisa ser perfeito o tempo
todo para ser feliz. Precisa fazer! O bom o bastante é suficiente. Feito, está
perfeito. Errar nos ensina muito. Por isso, precisamos aprender a errar para
acertar. Erre muitas vezes, faz parte, mas erre rápido! Conserte e siga em frente.
Não há pecado algum em cometer erros. É assim que aprendemos! Não tenha
vergonha, comece agora a fazer o que acredita que só poderia fazer se fosse
perfeito. Comece devagar e uma hora você se tornará um expert nisso.

» Exercícios físicos: são essenciais para se manter saudável. Eles nos ajudam a
manter equilibrados os hormônios da felicidade e estimulam bons hábitos.
Qualquer atividade faz bem, correr, pular corda, caminhar, remar, puxar peso, o
importante é se exercitar e manter a boa forma.

» Yoga e meditação: os orientais estão certos. Nossa mente, inevitavelmente,


necessita de tempo para descansar. Ao praticarmos a yoga e a meditação,
mantemos em equilíbrio nosso corpo e nossas cognições – corpo são, mente sã.

57
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Respiramos compassadamente com foco e atenção, além de proporcionar


inúmeros benefícios para a saúde. Medite sempre que puder, é um exercício de
autoconhecimento.

» Praticar o bem: pratique boas ações. Seja caridoso consigo e com os


outros. Praticar uma boa ação é um exercício de benevolência, é como
uma sementinha plantada, pois a pessoa que recebe esse carinho
certamente se sentirá querida e sentirá a vontade de transmitir isso a
outras pessoas, e você se sentirá tão feliz que não se caberá em si. É uma
corrente de amor que produz efeito cascata com um simples sorriso ou
mesmo com pequenos gestos.

Louise Hay (2012) conta que escreveu o livro Você pode curar sua vida a pedido
de seus inúmeros pacientes que, por meio de seus ensinamentos, se beneficiaram a
cada sessão ou a cada seminário dos quais participaram. Ela relata que se utilizava
de várias técnicas para auxiliar na mudança cognitiva (comportamento,
sentimentos e pensamentos) de seus pacientes e, dentre elas, estava a hipnose,
como ferramenta de mudança de padrão, fazendo seus pacientes deixarem um
padrão negativo por outro positivo. Em seus estudos, ela descobriu que algumas
doenças eram criadas e descriadas por padrões cognitivos, por exemplo, que o
ressentimento pode produzir amarguras e estas podem provocar os problemas
nervosos, insônia, esgotamento, artrite, pressão alta e úlceras. Também descobriu
que, por meio de um pensamento positivo e com a repetição diária de afirmações
positivas, a doença acometida poderia ser sarada por meio da descoberta dos
padrões que a criaram, transformando um corpo doente em um corpo são.
Tabela 6. Novo padrão de pensamento.

Doença Causa provável Novo padrão de pensamento


Alergias A quem você é alérgico? O mundo é seguro e fraterno. Estou
Negação do próprio poder. seguro. Estou em paz com a vida.

Ansiedad Sem confiança no fluxo e no processo da Eu me aceito e me aprovo. Confio no


e vida. processo da vida. Estou seguro.
Artrite Sentindo-se sem amor. Crítica. Eu sou amor. Eu agora escolho me amar
Ressentimento. e me aprovar. Vejo os outros com amor.
Asma Amor sufocante. Incapacidade de respirar Agora é seguro para eu tomar conta de
por si. Sentindo-se contido. Choro minha vida. Escolho ser livre.
reprimido.
Doença Causa provável Novo padrão de pensamento
Câncer Mágoa profunda. Ressentimento antigo. Com amor, perdoo e liberto todo o
Grande segredo ou pesar comendo o eu. passado. Escolho encher meu mundo de
Carregando ódios. alegria. Eu me amo e me aprovo.

58
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

O que adianta?
Colesterol Obstruindo os canais da alegria. Medo de Escolho amar a vida. Meus canais de
aceitar a alegria. alegria estão bem abertos. É seguro
receber.
Coma Medo. Fugir de algo ou de alguém. Nós o cercamos de segurança e amor.
Criamos um espaço para você se curar.
Você é amor.
Diabetes Sonhando com o que poderia ter sido ou Este instante está cheio de alegria. Agora
tido. Grande necessidade de controlar. escolho vivenciar a doçura do hoje.
Tristeza profunda. Não resta nenhuma
doçura.
Doenças Recusar em mudar. Medo do futuro. Estou disposto a mudar e evoluir. Agora
crônicas Sensação de insegurança. crio um novo e seguro futuro.
Inflamaçõ Medo. Vermelho de raiva. Pensamento Meu pensamento é calmo, pacífico e
es inflamado. centrado.
Insônia Medo. Não confia no fluxo da vida. Culpa. Com amor, deixo ir o dia e entro num
sono tranquilo, sabendo que o amanhã
cuidará de mim.
Labirintite Medo. Medo de não estar no controle. Estou sempre no controle dos meus
pensamentos. Eu me amo e me aprovo.
Nódulos Ressentimento, frustação e o ego ferido por Liberto o padrão da procrastinação
causa da carreira. dentro de mim e agora deixo o sucesso
ser meu.
Psoríase Medo de ser magoado. Amortecendo os Estou vivo para as alegrias da vida.
sentimentos e o eu. Recusando-se a Mereço e aceito o melhor que existe na
assumir responsabilidade pelos próprios vida. Eu me amo e me aprovo.
sentimentos.
Vícios Fugindo de si. Medo. Não sabe como se Agora descubro o quanto sou
amar. maravilhoso.
Escolho me amar e encontrar prazer em
mim.
Fonte: Adaptada de Louise Hay (2012, p. 176).

Louise Hay (2012) sugere ao paciente que, antes de começar, procure uma causa
mental para a enfermidade, avalie se faz sentido para você. Se não fizer, sente-se
em silêncio, tranquilize-se e faça o seguinte questionamento: “quais os
pensamentos que criaram esse padrão em mim?”. Em seguida, repita afirmações
positivas para um novo padrão de pensamento, várias vezes por dia, ou sempre que
se lembrar da doença, até que você sinta ter introjetado a cura em sua vida.

Lembrem-se, para tratar seu paciente, é importante que vocês também estejam
bem! Então, faça afirmações positivas para si. Trabalhe suas crenças, esvaziem
suas xícaras, façam uma faxina mental e escolham exercícios para que vocês não
confundam crenças e padrões de seus pacientes com os seus.

Existe um ditado que diz: “tudo o que alimentamos, cresce!”.

59
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Vocês já pararam para pensar quais crenças, pensamentos, sentimentos e


comportamentos estão alimentando? Quantas vezes nos lamentamos por dia? Isso
realmente trouxe algum resultado? Para quê e para quem serviram as lamentações?

Aquilo que você dedica sua atenção cresce e se torna permanente, seja um
pensamento bom, seja um pensamento ruim. Que tal, então, pensar somente em
coisa que realmente pode trazer resultados positivos? Criar pensamentos positivos
pode ser a chave para muitos segredos. Comecem a fazer declarações positivas
sobre vocês, sobre o trabalho, sobre a família, sobre os sonhos e os desejos, sobre
como você vê a sua vida a partir deste momento e ensine seus pacientes a fazerem
o mesmo. Use sempre afirmações no tempo presente, como “eu sou”, “eu tenho”,
“eu posso”. Dessa forma, seu inconsciente não tardará em aceitar suas sugestões,
porém, se vocês fizerem afirmações em um tempo futuro, ele não entenderá que
você quer isso no agora e seu desejo ficará fora do seu alcance.

Afirmações positivas:

» Eu sou inteligente.

» Eu sou responsável e tenho responsabilidade pelos meus atos.

» Eu sei articular os meus sentimentos.

» Eu sou benevolente.

» Eu sou confiante.

» Eu sou perspicaz.

» Eu tenho uma família que amo.

» Eu sei como perdoar e eu sei que é possível me perdoar e perdoar os outros.

» Eu sou imune à toxidade das pessoas e somente me relaciono com pessoas


emocionalmente saudáveis.

» Estou mudando para um lugar melhor.

» Eu sou eternamente jovem.

» Estou disposto a libertar dentro de mim os padrões que criaram em mim essas
condições.

60
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

» Eu cocrio um maravilhoso emprego novo.

» Aprecio o que eu faço.

» Recebo amor aonde quer que eu vá.

» Estou mudando ativamente.

» Tenho uma casa perfeita.

» Sou saudável e sinto a cura dentro de mim.

» Tudo à minha volta está funcionando dentro da Divina Ordem.

» Sempre fui muito aberto e disposto a aceitar mudanças.

» Tudo o que toco se transforma em sucesso.

» Sou um imã que atrai abundância e prosperidade.

Na minha vida ilimitada, tudo é perfeito, pleno e completo.


Vejo os padrões de resistência dentro de mim somente como algo mais de que
devo me livrar.
Eles não têm poder sobre mim.
Eu sou o poder no meio do mundo.
Fluo com as mudanças que estão ocorrendo em minha vida da melhor forma
que posso.
Aprovo-me e aprovo o modo como estou mudando.
Estou fazendo o melhor possível.
Cada dia fica mais fácil.
Alegro-me por estar no ritmo e no fluxo de minha vida sempre em mutação.
Hoje é um dia maravilhoso.
Escolho torná-lo assim.
Tudo está bem no meu mundo. (HAY, 2012, p. 95)

Agora que vocês já conhecem um pouco sobre a psicologia positiva e a


importância das afirmações positivas em nossas vidas, é hora de fazerem a
mudança acontecer na vida daqueles que lhes buscarem!

61
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Condicionamentos

Apesar de inúmeros relatos sobre a utilização e os benefícios da hipnose no setting


terapêutico, ela ainda apresenta-se como desconhecida por muitos profissionais.
Poucos a conhecem somente pelo que é apresentado nas telas da televisão e as
consideram como charlatanismo e até mesmo como algo místico, informação esta
que precisa ser esclarecida no pré-talk e na “hipnoeducação” (psicoeducação) para
que ela deixe de ser rejeitada por muitos.

Quando o terapeuta já tem o conhecimento dessa ferramenta, ele já não se


surpreende mais com seus resultados, pois com ela é possível simplificar algumas
ações terapêuticas para que paciente e terapeuta possam focar nos possíveis
resultados. O rapport na hipnose é uma relação de confiança entre ambos.
Sundberg e Tyler (1962) observaram que uma das particularidades frequentes entre
todos os processos de psicoterapia é a possibilidade de criar um forte vínculo de
relacionamento como instrumento de mudança.

Barrios (1969), em seus escritos sobre hipnose, afirma que a capacidade das
palavras produzirem mudanças facilita a compreensão como se estivéssemos
habituados com os fundamentos do condicionamento, visto que as palavras podem
se comportar como estímulos condicionados.

Pavlov reconheceu esse fato quando disse que:


[...] para o ser humano a fala fornece estímulos condicionados que são
tão reais como qualquer outro estímulo. A fala, levando-se em conta toda
a vida precedente do adulto, está ligada com todos os estímulos internos e
externos que podem alcançar o córtex pré-frontal, sinalizando todos eles
e substituindo-os, podendo trazer à tona todas aquelas reações do
organismo que normalmente são determinadas pelos próprios estímulos
reais. (PAVLOV, 1960, p. 407)

De acordo com os princípios do condicionamento clássico, estímulos neutros


repetidamente pareados a um estímulo incondicionado geram a mesma resposta
alcançada pelo estímulo incondicionado. Ivan Pavlov realizou um experimento
com cães no qual observou a modificação de alguns comportamentos por meio de
condicionamento. Ele observou que cães salivam naturalmente por comida. Então,
resolveu associar o toque de uma sineta todas as vezes que colocasse comida para
os cães. Após alguns dias, ele observou que, todas as vezes que os cães ouviam o
toque da sineta, salivavam independentemente de ter comida ou não.

62
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Estímulo neutro (sineta)

Estímulo incondicionado (comida)

__________

Resposta (salivação)

O toque do sino estimula a salivação, que se torna um estímulo condicional, e a


salivação se torna uma resposta condicional quando o sino é tocado.

Cordioli (2008) sugere, em seus estudos, que esse fenômeno pode esclarecer o
aparecimento de sintomas, como as reações de medo a estímulos neutros em fobias
específicas, como agorafobia em pacientes com pânico, especialmente, ao reviver
os sintomas fóbicos e sua generalização no estresse pós-traumático e a “fissura”
em drogaditos. Todavia, no condicionamento operante, a consequência de um
comportamento pode estabelecer uma alta ou baixa frequência, exemplificando a
esquiva fóbica que alivia os sintomas de ansiedade, e acredita-se que, por esse
motivo, seja adotada sistematicamente. Os sintomas de ansiedade podem ter seu
início por um condicionamento clássico (fobia), sendo posteriormente mantidos
por um condicionamento operante (esquiva fóbica).

Na aprendizagem social, o comportamento torna-se possível pela experiência


vivenciada por outros indivíduos, como o uso de drogas, álcool e outros vícios
comportamentais. A habituação é um fenômeno natural entre os seres vivos e
ocorre em razão das reações aumentarem ou abrandarem com o passar do tempo,
de acordo com o estímulo provocado. Estudos realizados por comportamentalistas
radicais como Watson, Skinner e Wolpe definem que, para eles, o mais importante
para a avaliação de um comportamento é exatamente se o estímulo gerou alguma
atividade muscular voluntária, alguma atividade verbal ou alguma alteração
fisiológica, enquanto os comportamentais-cognitivos ou cognitivos-
comportamentais se interessavam também pelas alterações advindas dos processos
cognitivos.

Levando em consideração que um estímulo pode ser sugestionado, o


condicionamento, entretanto, pode ser aceito ou rejeitado. Será aceito quando a
sugestão for condizente com suas crenças ou será rejeitado caso seja incongruente
com suas crenças e normas de conduta. Devemos lembrar que cada pessoa é um
ser individual, o que poderia ser obviamente natural para você, pode não ser para
outros indivíduos. Para tanto, é imprescindível que sejam respeitadas as

63
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

individualidades. Perceberemos que, por meio da hipnose, as crenças, as


percepções e as atitudes incongruentes deixam de intervir nas sugestões e, dessa
forma, o condicionamento será aceito com facilidade.
O comando do hipnotista, em correspondência com a lei geral, concentra
a excitação no indivíduo (que está numa condição de inibição parcial) em
alguma região clara e distintamente estreita, ao mesmo tempo
intensificando (por indução negativa) a inibição do resto do córtex. Dessa
maneira vai abolindo todos os efeitos conflitantes dos estímulos
contemporâneos (percepções atuais) e sinais deixados por aqueles
anteriormente recebidos (crenças e atitudes prévias). Isto explica a
grande e insuperável influência das sugestões como um estímulo durante
a hipnose, bem como logo após esta. (PAVLOV, 1960, p. 407)

Suponhamos que queremos ajudar uma pessoa com autoestima baixa a se tornar
mais confiante. Em condições normais, se sugerirmos apenas que ela se torne
confiante, ela certamente se recusará a aceitar a sugestão, uma vez que
possivelmente tenha ocorrido uma estimulação constantemente negativa em seu
passado a qual permaneceu registrada em sua memória e que a fez acreditar que
isso seja uma inverdade sobre ela, não permitindo que aceite essa nova realidade.
Mas, no estado hipnótico em transe profundo, as condições são diferentes. Essa
ideia de autoestima baixa pode ser inibida para que possamos despertar uma
imagem diferente da anterior, mais assertiva por meio da sugestão. Como resposta,
o condicionamento poderá aparecer e novas combinações poderão ser feitas. A
pessoa pode verdadeiramente idealizar-se se sentindo autossuficiente em variadas
ocasiões, e essas novas combinações condicionadas, em verdade, poderão reverter-
se em um novo comportamento. Esse novo jeito de se enxergar e de viver poderão,
a partir desse momento, se tornar permanentes por meio do autorreforço e da auto-
hipnose, da mesma forma que foram reforçados os estímulos negativos no passado.
Contudo, a pessoa, ao se tornar mais confiante, certamente tenderá a acreditar mais
em si e aceitar elogios a seu respeito.
De alguma forma, a entrada verbal da repetição de palavras ecoa como uma nova
memória, mesmo que incialmente temporária, gravada no intuito de enfraquecer
outras memórias disfuncionais, carregadas de emoções negativas. A repetição que
muitas vezes ocorre nas sessões acaba reforçando as inserções positivas de
cenários mais adaptativos, que serão usados para a reestruturação cognitiva nesse
novo processo de mudança. Não podemos nos esquecer da importância do uso de
técnicas que promovam uma ativação emocional no paciente. Lembre-se que a
repetição de estímulos gera a habituação, uma forma de aprendizagem

64
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

automatizada mais rápida na qual o habito pode ser modificado, melhorado ou até
mesmo extinto.

Agora que vocês já entenderam como funcionam os estímulos condicionativos,


imagine como seria mudar algum hábito desadaptativo? Deixar de lado aquela
mania incômoda ou adquirir novos e bons hábitos à sua rotina. Seria incrível, não
acha? Vamos, então, aprender a criar essas sugestões condicionadas.

Ensinarei um passo a passo que pode ajudar. 1.

Você precisa estabelecer uma frequência

“Sempre que...”.

“Toda vez que...”.

“Todo dia que...”.

2. Ação condicionada

Percepção: ver, ler, enxergar, olhar, ouvir, escutar, degustar, saborear, comer,
sentir, tocar, cheirar...

Comportamento/mobilidade: sentar, levantar, deitar, andar, correr, entrar,


sair, abrir, fechar, pular, segurar, pegar, vestir, nadar, lavar, enxugar,
perceber, dar...

Reação ao meio: receber, sentir-se, convidar, oferecer, ofender, incomodar,


magoar, induzir, agredir, sorrir, elogiar...

Relógio biológico: “sentir vontade de”, “chegar o horário de”, “estiver no


horário de”, “o relógio marcar X horas...”

3. Estímulo/gatilho

Um impulso emocional que acessa lembranças de eventos marcantes na vida


de uma pessoa. Pode estar relacionado às sensações negativas ou positivas
na vida de alguém. Ex.: um livro, o carro vermelho, o cheirinho de casa
nova, aquele lugar especial, o meio-dia, o pôr do sol, a lua reluzente, o céu
azul...

4. Ordem/comando

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UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Sinta-se, permita-se, corra, faça, tome, acorde, levante, pense, recuse, abra,
mergulhe, concentre-se, confie...

5. Sensação/sentimento

“Vontade de...”, “muita calma e tranquilidade...”, “muita felicidade e paz...”,


“muita energia e vitalidade...”, “motivado e disposto...”, “muito seguro e
confiante...” etc.

6. Meta/objetivo condicionado

“Para”, “para que...”, “para ter...”, “para que tenha...”, “para que sinta...”,
“para sentir-se...”.

7. Ganho/reação

“Com isso ganha...”, “sente-se...”, “tem...”, “consegue...”, “torna-se...”.

Vamos vê na prática como é isso.


Tabela 7. Condicionamentos.

Frequência AC Gatilho Comando SS Meta Ganhos


Sempre que saborear uma coxinha perceberá muita e não precisará manter-se no
saciedade de outras para peso ideal.
Toda vez que levantar da cama de abra os olhos e fique para não e não se
madrugada bem acordado esbarrar em machucar.
nada
Todas as vezes sentir magoado permita-se tranquilizar para ter controle e não sair da
que se de si razão.
quando sentir vontade de pegará um copo sentindo e poderá ficar pois sua saúde
fumar d’água e um prazer e tranquilo lhe
canudinho e beberá satisfação agradecerá.
água
Sempre que o relógio 7 horas da acorde sentindo-se para realizar aproveitará
marcar manhã alegre e bem sua caminhada seu dia feliz e
disposto matinal e realizado.
Fonte: elaborada pela autora.

Com essa técnica, você pode reestruturar sugestões para auto-hipnose e


condicionamentos mais específicos. Vamos relembrar que, para fixação de um
condicionamento, é necessário que se repita por, no mínimo, 21 dias consecutivos,
assim como ocorre em um processo de reeducação alimentar ou em uma mudança
de mentalidade.

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MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Visualizações, relaxamento e meditações

As técnicas de relaxamento são uma série de programas de intervenções benéficas


para a saúde. Por exemplo, desde os séculos XVIII e XIX, há uma importante
conexão histórica entre as técnicas de relaxamento propostas e as primeiras
tentativas de tratar doenças mentais baseadas nos efeitos magnéticos e nas
sugestões hipnóticas. O desenvolvimento de técnicas de relaxamento no século XX
e sua consolidação como um programa de intervenção psicológica eficaz pode ser
atribuída em grande parte ao grande impulso que ganhou nas terapias. A integração
das técnicas de relaxamento ocorre porque existe uma estrutura conceitual derivada
das pesquisas experimentais sobre os processos emocionais e motivacionais, a
partir da qual podemos compreender a natureza e o mecanismo dessas técnicas.

O processo motivacional, o estudo do estresse, é, sem dúvida, o arcabouço


conceitual mais relevante para o estudo do relaxamento. Atualmente, o estresse é
muitas vezes conceituado como uma resposta orgânica às ameaças que são
percebidas e avaliadas como ameaçadoras e com as quais o organismo não tem
recursos suficientes para lidar. Essa forma de entender o estresse destaca o
componente biológico da resposta, mas, ao mesmo tempo, destaca a importância
de duas variáveis psicológicas intermediárias: a avaliação cognitiva da situação e a
capacidade do sujeito de enfrentá-la. Por outro lado, além de acompanhar
componentes subjetivos e comportamentais, as respostas biológicas também
incluem componentes neurofisiológicos, neuroendócrinos e neuroimunes.

O relaxamento é conhecido como uma resposta biologicamente contrária à resposta


de stress, que pode ser compreendida e motivada por uma reação pessoal de se
contrapor aos impactos negativos do stress. As variadas técnicas de relaxamento
têm por objetivo facilitar a aprendizagem do padrão de resposta orgânica do corpo,
todavia, as técnicas de relaxamento não dispõem de tornar explícitos os
mecanismos de aprendizagem atrelados em cada uma delas.

Certamente, vocês já devem conhecer várias técnicas, sendo a maioria destas


principiadas pela respiração. Dessa forma, acontece nas auto-hipnoses, nas
meditações e visualizações ativas ou guiadas, na yoga, nas técnicas de mindfulness,
no Ho’oponopono, dentre outras.

Hoje, sabemos que o ato de meditar causa bem-estar. Que tal experimentar essa
sensação? Dizem que a meditação é uma prática tão antiga quanto a humanidade,
algo que está ao nosso alcance há tanto tempo e mal utilizamos. Quem medita pode

67
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

discorrer sobre os benefícios da prática por horas, melhorando sua qualidade de


vida, diminuindo as tensões, buscando autoconhecimento. Meditar pode ser um
processo natural e tranquilamente fácil. É necessário simplesmente observar seus
pensamentos, acolhê-los e deixá-los ir, descomplicando o ato de pensar, sem
julgamentos.

Eu gosto muito da metáfora do rio: meditar é estar sentado à beira de um rio,


observando o correr da água, sem se distrair com os galhos e com as folhas que
correm pelo rio, apenas observando a água e deixando-a ir rio abaixo. Sem pressa.
No começo, pode parecer difícil, mas é só pensar que não vai pensar...
O pensamento vem, você o recebe e o deixa ir.

Vou dar algumas dicas para que vocês possam meditar melhor.

Fechar os olhos externos e olhar você lá dentro, manter um estado introvertido,


cuidando de sentir você, focando no momento presente, observando os
pensamentos sem retroalimentação. Permita-se absorver por sensações positivas de
conforto e paz. Se for muito difícil desligar-se dos pensamentos, concentre-se em
um, talvez fazer uma contagem regressiva mentalmente ou recitar o mantra em
repetição, a concentração facilitará a iniciação. Além disso, existem outros
elementos disponíveis em sites ou livros que ajudam nessa prática inicial, por
exemplo, praticar sempre a mesma técnica meditativa diariamente; usar um tapete
ou um apoio confortável para meditar; manter a coluna ereta (essa é uma boa coisa
para se concentrar); encontrar um local seguro e livre de movimentos ou barulhos;
evitar incensos, velas ou qualquer outro elemento que possa causar algum tipo de
acidente; respirar praticando a respiração concentrada; estipular o tempo que
deseja ficar no estado e programar-se para retornar com calma; talvez um
despertador com música doce e suave seja útil, mas evite sons estridentes e altos
para que você retorne da prática e mantenha a paz interior e, ao final, permaneça
por algum tempo sentado em silêncio conscientizando-se dessa paz.

Abaixo, veremos algumas técnicas que vocês poderão autoaplicar e aplicar, no


consultório, em seus pacientes. Lembro-lhes que todas elas podem ser iniciadas
por qualquer uma das técnicas de respiração ensinadas anteriormente.

» Vamos iniciar com um exercício de respiração que faremos juntos!

Peço que escolha uma posição confortável para o seu corpo e, com os olhos
fechados, coloque uma das mãos na barriga e a outra no peito e experimente uma

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MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

respiração bem suave e profunda inspirando ar até expandir completamente o seu


abdômen, sem distender o peito. e então, segure esse ar e conte lentamente até três,
soltando ar pela boca até sentir sua barriga totalmente vazia, inspirando novamente
pelo nariz contando até três, segure o ar na sua barriga contando mais três e solte
pela boca, se possível contando até seis.

Sem abrir os olhos, repita por três vezes essa respiração e, durante todo esse
processo, permita que os pensamentos passeiem por sua mente, sem julgamentos e
no seu tempo, tranquilamente. Permita-se alterar o estado de controle da respiração
por apenas senti-la, percebê-la desfrutá-la.

Ainda com os olhos fechados e retornando a uma respiração confortável e


tranquila, perceba o seu coração, sinta-o bater, ouça o ritmo suave das batidas e
pense: “como seria se eu pudesse fazer meu coração bater mais tranquilo?”.

Deixe, então, o pensamento ir e vir e sinta as batidas compassadas do seu coração.


Agora, com a respiração gostosamente tranquila, com coração batendo também
mais cadenciado, ouça os ruídos à sua volta, encontre-se em meio aos ruídos que já
existem e permita que qualquer ruído ajude você a se concentrar mais e mais em si
mesmo. E, então, somente depois de situar com seu eu mais profundo, abra os
olhos se sentindo muito melhor do que estava antes, com todos os reflexos e
pensamentos organizados. Perceba suas sensações, calibre seu estado e perceba
quão melhor você pode ficar cada vez que praticar essa técnica de respiração.

Quantas vezes você se atentou à sua respiração? Pense comigo e faça as contas de
quanto tempo faz que você não se permite sentir a sua respiração. Apreciar o ato de
respirar. Muitos podem estar respondendo: “nunca”! E eu não me surpreenderia,
pois eu mesma, até conhecer as técnicas de hipnose, não respirava aproveitando
essa dádiva.

» Do livro Imagens que curam, do Dr. Gerald Epstein, apresentarei algumas


visualizações que têm ajudado muitos pacientes em meu consultório.
TERMINANDO UM RELACIONAMENTO

Nome: As Areias do Tempo

Intenção: Terminar um relacionamento (com uma pessoa específica).


Freqüência: Duas vezes ao dia (de manhã cedo e ao entardecer), em até 3
minutos, durante 7 dias.
Nome: Separando-se e partindo

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UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Intenção: Cessar a influência de uma pessoa em sua vida; terminar com a


relação.
Freqüência: Todas as manhãs, de 3 a 5 minutos, durante 7 dias.

Uma das situações que encontro frequentemente em minha clínica é a do


sofrimento por não se conseguir terminar uma relação. Esta é uma
situação na qual, embora desejável, a ruptura dos laços é, por uma série
de razões, inalcançável. Aqui estão dois caminhos já testados para ajudá-
lo a conseguir isso. O segundo pode ser considerado mais severo que o
primeiro. Use o que achar mais conveniente.
As Areias do Tempo

Feche os olhos. Respire três vezes e veja-se caminhando por uma praia,
de mãos dadas com a pessoa com a qual você está rompendo. Vocês
estão dançando, pulando e brincando na praia. Então você solta as mãos,
diz adeus e refaz seus passos, para trás, limpando completamente tudo o
que vê à sua frente. Veja e sinta seu esforço. Finalmente você alcança a
beira do mar. As ondas lavam a praia, apagando todos os resíduos da
relação que permanecem. Nade então de frente em direção ao horizonte e
veja seus braços e pernas se tornarem muito longos e seu torso se
alongar. Vá até o horizonte e volte, nadando de costas, com os braços
esticados para bem além da cabeça e suas pernas esticadas à sua frente,
batendo firmes. Seu torso também está alongado. Continue a inspirar o ar
puro do horizonte. Quando chegar à praia, saia da água e deixe o sol
secá-lo. Coloque uma roupa de praia que você encontra por lá e volte
para casa. Então abra os olhos.
Separando-se e partindo

Feche os olhos. Respire três vezes e visualize-se em uma praia. A pessoa com quem você quer
romper está lá deitada. Você traz consigo cordas douradas com pesos de chumbo nas pontas.
Com elas, você amarra a pessoa. Há perto um grande barco a remo. Você empurra o barco para a
água e coloca a pessoa nele; entre no barco e reme até a fossa das Marianas, perto das Filipinas,
um dos locais mais fundos do mundo. Fique em pé no barco, levante o corpo amarrado daquela
pessoa e jogue-o para fora do barco, sentindo que está se livrando da influência desta pessoa.
Observe o corpo desaparecer à medida que afunda formando um pequeno redemoinho. Sinta que
está indo para o fundo para nunca mais voltar. Depois que ele sair de sua vista, sente-se no barco
e reme de volta para a praia com uma nova atitude e sentimento em relação a você. Quando
chegar à praia, guarde os remos e volte para casa sozinho. Então abra os olhos. (EPSTEIN, 2009,
p. 185)

DEPRESSÃO

Nome: Uma Gota de Esperança

Intenção: “Lavar” o desespero.

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MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Freqüência: Três vezes ao dia, de 1 a 3 minutos, durante 21 dias.

Nome: A Escada da Vida

Intenção: Superar os pensamentos obsessivos ligados à depressão. Freqüência: A cada 2 horas,


mas não mais de seis vezes por dia, durante 2 ou 3 minutos, até sentir alívio.

Nome: Desfazendo as Nuvens Escuras

Intenção: Parar de ficar “para baixo”.

Freqüência: Quando for preciso, durante até 1 minuto.


Nome: Atravessando a Ponte

Intenção: Livrar-se do pesar.


Freqüência: Duas vezes ao dia, de 2 a 3 minutos, durante 21 dias.
Nome: Reenterrando os mortos

Intenção: Aliviar o luto excessivo pela morte de uma pessoa querida. Freqüência: Uma vez por
dia, de 2 a 3 minutos, durante 7 dias.

Nomes: Limpando um Espaço, Pintura a Dedo e Espiral de Energia Intenção: Recobrar a


energia perdida ou se dar uma nova energia.

Freqüência: Três vezes ao dia, de 2 a 3 minutos, em ciclos de 21 dias por 7 de descanso até que a
energia esteja restaurada.
Nome: Navegando para Fora da Calmaria

Intenção: Sair do enfado, da melancolia.

Freqüência: 2 ou 3 vezes ao dia, durante 1 minuto, até 21 dias, ou menos, se o estado emocional
tiver passado.
Nome: Fora do Limbo

Intenção: Ultrapassar a depressão ligada a um sentimento de perplexidade.


Freqüência: Três vezes ao dia, de 1 a 2 minutos, durante 21 dias.
Nome: Engolindo o Arco-íris

Intenção: Ultrapassar a depressão ligada a sentimentos de desesperança ou isolamento ou a


mudanças de humor internas que não estejam ligadas a circunstâncias externas.
Freqüência: Quatro vezes por dia, durante 1 minuto, durante 21 dias.

A depressão, em suas várias facetas – pesar, luto, melancolia, tristeza, mau humor, mudanças
repentinas de humor e assim por diante – é certamente a desordem emocional crônica mais
disseminada do mundo. Em um grande número de casos, estas várias formas estão diretamente
relacionadas a uma perda e/ou à raiva direcionada para si mesmo. Todos nós perdemos algo
quase todos os dias – uma pessoa, um ideal, um objeto, um plano, um sonho de sucesso, uma
esperança. Dependendo do grau e intensidade da perda, muitos de nós reagimos com um dos

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UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

estados mencionados acima, tal como pesar e luto. Se este estado persiste por um tempo
demasiadamente longo (certamente mais de três meses) e a atividade da pessoa começa a
diminuir, junto com o apetite, o sono, o interesse na vida e o desejo sexual, então estamos nos
defrontando com uma depressão instalada. Há muitas outras tendências ou sintomas que podem
expressá-la. É por isso que apresento aqui uma vasta gama de exercícios. Você deve encontrar
um ou mais exercícios que sirvam para o seu caso.

A onipresença dos estados depressivos revela a universalidade da perda. Quase ninguém está
isento da experiência da depressão. Ela é precursora da morte e requer nossa total atenção e
preocupação. Do meu ponto de vista, nada no mundo exige mais nossa atenção, na medida em
que todos passarão pela experiência em algum momento. Paradoxalmente, esta experiência
universal deve ser encarada com serenidade e não com consternação. A perda, como nos afeta a
todos, representa para nós a chance contínua de nos confrontarmos com a fragilidade da vida
física.

Uma Gota de Esperança (dois exercícios)

1. Feche os olhos. Respire três vezes e visualize-se segurando um copo com água pura e
límpida. Veja o que acontece quando uma gota de tinta preta cai de repente na água. Veja e ouça
a queda da gota, o ritmo e as pequenas ondulações na água. Ouça o que a água lhe diz quando é
atingida ou agitada pela gota preta. O que é que você está sentindo? Vivencie estes sentimentos
profundamente, deixando que eles lhe preencham. Então limpe-se bebendo um copo de água
pura e límpida. Abra seus olhos, sentindo que o desespero foi embora.

2. Feche os olhos. Respire três vezes. Deixe cair uma gota pesada de tinta branca na água.
Veja e ouça a queda da gota, o ritmo e as pequenas ondulações na água. Ouça o que a água lhe
diz quando é atingida ou agitada pela gota branca. O que é que você está sentindo? Vivencie
estes sentimentos profundamente, permitindo que eles lhe preencham. Então limpe-se bebendo
um copo de água pura e limpa. Abra os olhos, sentindo que a depressão se foi.

A Escada da Vida (para depressão ligada a pensamentos obsessivos


[incessantemente repetitivos])
Feche os olhos. Respire três vezes. Veja-se em uma enorme mansão. Veja-se descendo pela
escada dos fundos. Repare em tudo que você vir ou sentir. Então veja-se subindo pela escada da
frente. Novamente repare em tudo que vir e sentir e, ao chegar ao topo, o que você encontra?
Abra os olhos.
Dissipando as Nuvens Negras (para um sentimento geral de tristeza)

Feche os olhos e veja nuvens negras acima de você. Enquanto está sob as nuvens, visualize-se
soprando-as para a esquerda com três respirações (nas imagens e não fisicamente). Então olhe
para o céu acima e à direita e observe o sol entrar no céu por sobre você. Quando terminar, sinta
que a tristeza desapareceu e abra os olhos.
Atravessando a Ponte (para a depressão ligada ao pesar)

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MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Feche os olhos e respire três vezes. Veja-se atravessar uma ponte andando para trás. Diga adeus
às pessoas a quem amou e que não o machucaram. Enquanto você atravessa a ponte para o outro
lado, ignore as que o machucaram ou fizeram mal. Quando alcançar o outro lado, destrua a ponte
entre o agora e o passado. Então vire-se e veja seu novo território. Ande por esse lugar até achar
um canto confortável. Examine esta nova habitação, se quiser. Então abra os olhos.
Reenterrando os Mortos (para a depressão associada ao luto por uma pessoa querida que foi
enterrada)
Feche os olhos. Respire três vezes e veja-se no cemitério recuperando o corpo da pessoa querida.
Visualize a família e os amigos em torno de você enquanto enterra novamente o corpo e coloca
flores sobre o túmulo. Então diga uma pequena oração, uma meditação ou uma palavra boa.
Então vire-se e visualize-se saindo do cemitério, feliz e contente, recitando uma pequena oração,
uma meditação ou uma palavra boa. Depois disso, respire e abra os olhos. (Fim)

Atenção: Os exercícios que se seguem para depressão associada à perda de energia e motivação
utilizam atividades físicas em vez de imagens. Eu os inclui aqui porque são fáceis de fazer e são
muito eficazes no alívio deste tipo de depressão.
Limpando um Espaço

Limpe fisicamente um espaço em sua casa – uma pia, um espelho, janela, chão, mesa etc. Limpe-
o com a intenção de limpar-se por dentro e, ao mesmo tempo, de seu desalento, morbidez ou
qualquer outra coisa que você escolher.
Pintura a Dedo

Pegue um bloco de desenho com páginas brancas. Usando tinta para pintura a dedo amarela,
laranja e vermelha, pinte livremente, sentindo que seu humor está melhorando.

Espiral de Energia

Em um bloco de desenho, usando um lápis, desenhe espirais de dentro para fora, como no
diagrama, qualquer número de vezes, com a intenção de se dar energia.

Navegando para Fora da Calmaria (para depressão ligada ao enfado)

Você já deve ter ouvido a expressão “estou numa calmaria”, significando que a pessoa está triste
ou melancólica. Se você sente isso, então, do ponto de vista das imagens, você está com sorte.
Isto porque as calmarias realmente existem. (Em inglês, enfado e calmaria podem ser expressos
por uma mesma palavra, doldrum. /V. doE.) Elas se localizam no Oceano Indico, perto da costa
da África, em uma área de pouca atividade onde basicamente não há vento nem qualquer outra
forma de turbulência. Agora que você já sabe onde se encontra, já pode sair daí. Feche os olhos,
respire três vezes e visualize-se navegando na calmaria. Você é o capitão do seu barco. Saiba que
quando você tiver guiado seu barco para fora da calmaria, sentir-se-á melhor. Veja e sinta como
você encontra seu caminho. Então abra os olhos.

Fora do Limbo (para depressão ligada a um sentimento de perplexidade)

Feche os olhos. Respire três vezes e veja-se no limbo. Respire uma vez e suba para fora do
limbo. Não pare até conseguir. Use todas as formas que encontrar. Lembre-se de que isso é

73
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

imaginação e que tudo pode acontecer. Então, sabendo que você não está mais se sentindo
perplexo, abra os olhos.

Engolindo o Arco-íris (para a depressão ligada a sentimentos de desesperança, isolamento ou


mudanças internas de humor não associadas a circunstâncias externas)

Feche os olhos. Respire três vezes e veja-se engolindo um arco-íris. Sinta a melhora no humor
que isso propicia. Saboreie esta sensação durante um minuto. Então abra os olhos. (EPSTEIN,
2009, p. 90)

» O mindfulness é uma predisposição que nos autoriza a sermos mais


passivos e/ou reativos ao que está ocorrendo no momento. Isso é uma
forma relacionada a qualquer atividade positiva, negativa ou neutra com
a finalidade de amenizar o sofrimento global e de aumentar a sensação
de felicidade.

Mindfulness significa atenção plena, ou seja, concentrar-se na tarefa em questão.


Quando percebemos, nossa atenção não tem nada a ver com o passado ou com o
futuro, e não rejeitaremos ou nos ateremos à situação atual. Estaremos presentes de
forma plena e completa. Esse tipo de foco desenvolve energia e clareza mental. Por
ventura, ela é uma habilidade que pode ser desenvolvida por qualquer pessoa.

Grande parte das pessoas está preocupada eventualmente com o passado ou com o
futuro. Sentimentos como remorso, tristeza e culpa em relação ao passado podem
ser características associadas às pessoas deprimidas, e indivíduos ansiosos tendem
a angustiar-se com o futuro. Quando nossos pensamentos são absorvidos pelas
funções mentais, é comum sentirmos a necessidade de remoer sentimentos, sem
consciência de que estamos remoendo diariamente, podendo se tornar efetivamente
um lamento, como se estivéssemos dentro de um filme no qual as cenas
perturbadoras repetidamente acontecessem à nossa frente, sem termos forças para
fugir. O mindfulness pode nos ajudar a atravessar esse condicionamento de
vivenciar, o tempo todo, uma cena perturbadora e, por meio dela, enxergar as
coisas como elas verdadeiramente são.

Mindfulness é estar atento, estar com toda a atenção focada. Diferentemente do


piloto automático que é o contrário de devanear, é manter o foco ao que é saliente
no instante presente; também se refere a se recordar, mas não viver de recordações.
Lembrar-se de redirecionar nosso foco e estar atento às vivencias do momento de
modo receptivo e absoluto. Essa realização demanda o objetivo de desobstruir

74
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

nosso foco das nossas fantasias e vivenciar inteiramente o momento presente –


estar atento ao aqui e ao agora.

Podemos praticar a qualquer momento do nosso dia, basta somente termos a


oportunidade de nos sentar por um bom tempo com os olhos fechados, em um
local silencioso, e direcionar nosso foco em algum objeto, por exemplo, na nossa
respiração, percebendo sua atividade mental. Essa prática nos libera do
pensamento repetitivo que, por outro lado, nos autoriza enxergar o quanto nossas
realidades são efetivamente abundantes e variáveis abrangendo também o nosso
sentido de identidade.

Assim como na auto-hipnose e na meditação, o mindfulness requer prática diária.

Ele pode ser aperfeiçoado por meio de exercícios formais ou informais. Sua prática
formal subentende-se à meditação, e é uma possibilidade de vivenciar o momento
presente em um grau mais profundo, como se fizesse uma ginástica mental. A
introspecção contínua e disciplinada pode chamar a atenção do praticante e
observar sistematicamente as temáticas do pensamento e entender seu
funcionamento. A prática informal também se refere à aplicação de habilidades de
atenção plena na vida diária. Qualquer evento mental pode ser objeto de atenção.
Somos capazes de voltar nossa atenção para a respiração e ouvir os sons do
ambiente, identificar nossas emoções e perceber sensações do corpo ao escovar os
dentes.

Existem três tipos de meditação mindfulness.

Atenção focada ou meditação de concentração

A meditação de concentração ajuda a desenvolver uma mente calma, tranquila.


Nossa atenção torna-se permanentemente relaxada, uma vez que a mente é
envolvida em um único objeto ininterruptamente e afastada das muitas
inquietações, sejam elas reais, sejam elas imaginárias, que nos chamam atenção ao
decorrer de todo dia. Essa meditação poder útil sempre que você perceber sua
mente divagando lentamente, nessa situação, ancore sua mente para o objeto da
atenção (sua respiração, o canto dos pássaros). Como vocês já devem estar
cansados de saber, a melhor técnica de meditação de concentração é a de
respiração. Vocês podem usar as técnicas já apresentadas ou usar a técnica que irei
ensinar agora.

75
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Meditação da Respiração

Encontre um lugar silencioso estende-se em uma postura ereta e relaxada.


Respire algumas vezes lenta e suavemente para acalmar seu corpo e sua
mente. Então, feche seus olhos vagarosamente, total ou parcialmente.

Explore seu corpo com sua percepção e tente descobrir onde você pode
sentir sua respiração mais facilmente. Algumas pessoas sentem-na em
torno das narinas, talvez como uma brisa fria sobre o lábio superior.
Outras percebem mais facilmente o peito subindo e descendo, e outras
ainda sentem a respiração no abdômen quando a barriga se expande e se
contrai.
Apenas sinta as sensações físicas da inspiração e da expiração.

Quando você notar que sua mente está vagando, apenas sinta a respiração
novamente. Não há necessidade de controlar a respiração.
Deixe seu corpo respirar por você, como ele faz naturalmente.

Não se preocupe com que frequência sua mente vagueia. Cada vez que
você notar que sua atenção está em outro lugar, simplesmente retorne
para a respiração, tal como você redirecionaria uma criança ou um
cachorrinho que se perdeu.
Quando você desejar terminar sua meditação, abra os olhos suavemente.
(GERMER; SIEGEL; FULTON, 2016, p. 32)

Monitoramento aberto

A meditação de monitoramento aberto pode ser equiparada a um holofote, que


clareia uma diversidade de objetos enquanto que eles aparecem na consciência, um
por vez. O som mais aparente em um ambiente adequado, seja qual for o momento,
é um exemplo de monitoramento aberto, ao mesmo tempo em que ouvir
intencionalmente o tocar de sinos é considerado atenção focalizada.

Podemos usar o monitoramento aberto para distinguir nossa intuição, nossas


sensações, nossas emoções, nossos pensamentos e nossos comportamentos. O
monitoramento aberto amplifica a aptidão para a compreensão mais tranquila, na
qual a atenção consciente se movimenta espontaneamente entre os elementos
alternantes da experiência. Com o passar do tempo, ela nos auxilia a estabelecer
uma compreensão dos condicionamentos pessoais e do desempenho de nossa
psique. Enquanto a concentração acalma o espírito, focalizando em um único
objetivo, o monitoramento aberto cria uma equivalência em meio aos
acontecimentos da vida de modo aleatório e inesperado.
Exercício para monitoramento das emoções no corpo

76
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Comece encontrando uma posição confortável feche os olhos total ou


parcialmente e faça três respirações relaxantes.

Localize sua respiração onde você a sente mais facilmente. Sinta como
ela se move no corpo, e quando sua atenção se desviar, suavemente volte
a sentir seu movimento.

Após alguns minutos, comece a notar as sensações físicas de estresse que


você está conservando em seu corpo, talvez em seu pescoço, maxilar,
barriga ou testa.

Também perceba se você está conservando quaisquer emoções difíceis,


tais como preocupação sobre o futuro ou inquietação sobre o passado.
Entenda que todo corpo humano suporta estresse e preocupação ao longo
do dia.

Veja se você pode nomear a emoção e seu corpo. Talvez um sentimento


de tristeza, raiva, medo, solidão ou vergonha. Repita o rótulo dado
algumas vezes para você mesmo, com uma voz suave, gentil e então
volte para a respiração.

Agora escolha um único local em seu corpo onde o estresse pode estar se
expressando mais fortemente, talvez como uma dor na região do coração
ou tensão no estômago. Em sua mente, incline-se suavemente na direção
daquele ponto como você se inclinaria para uma criança recém-nascida.

Continue a respirar naturalmente, permitindo que a sensação esteja lá,


exatamente como ela é. Sinta sua respiração no meio de suas outras
sensações corporais.

Permita que o movimento delicado e rítmico da respiração suavize e


acalme seu corpo. Se desejar, coloque sua mão sobre seu coração
enquanto continua a respirar.

Quando você estiver pronto, abra os olhos suavemente.


(GERMER; SIEGEL; FULTON, 2016, p. 32)

Amor-bondade e compaixão

Amor-bondade e compaixão descrevem mais a característica do estar alerta, atitude


ou emoção, do que a direção do alerta. Considere diferenciar a luz da sala de
cirurgia e a luz de velas no jantar. O amor-bondade aquece a vivência da
meditação, acompanhando as características de ternura, calma, conforto, alívio,
cuidado e conexão. Essas características são especialmente consideráveis quando

77
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

lidamos com emoções árduas, que diminuem nossa percepção e estimulam nossas
defesas. Um exemplo de meditação de
amor-bondade é a repetição vagarosa de sentenças como “estou seguro” ou “estou
feliz e sem dor”. A finalidade de uma meditação de amor-bondade é semear
sementes de bondade para si e para os outros continuamente, tornando-se, em
última instância, pensamentos, emoções e comportamentos positivos. Em termos
gerais, qualquer meditação que rememore sensações de felicidade e amabilidades
pode ser caracterizada como uma meditação de amor-bondade.

Amor-bondade é um estado de espírito que deseja felicidade para todos aqueles


que possuem empatia, enquanto a compaixão é a vontade de que todos os seres
sensíveis de se livrarem da angústia e da aflição. Quando o amor-bondade encontra
as aflições, ele produz compaixão. Amor-bondade e compaixão são emoções
positivas que podem melhorar nossa saúde e nossa felicidade. Elas modificam
nossa consciência, desfocando uma preocupação para um olhar mais generoso e
complacente, abrindo o caminho da percepção, ajudando-nos a aumentar a
consciência.
Meditação de amor-bondade e compaixão

Esse exercício visa trazer cordialidade e boa vontade à nossa vida. Sente-
se em uma posição confortável, feche os olhos total ou parcialmente e
permita que sua mente e seu corpo se acalmem com algumas respirações
profundas.

Coloque suas mãos sobre seu coração para lembrar-se de que você está
trazendo não apenas atenção, mas atenção amorosa, à sua experiência.
Por alguns minutos, sinta o calor de suas mãos e a pressão suave que elas
fazem sobre o seu coração. Permita-se ser acalmado pelo movimento
rítmico de sua respiração sobre suas mãos.

Agora pense em uma pessoa ou outro ser vivo que naturalmente o faça
sorrir. Pode ser uma criança, sua avó, seu gato ou seu cão – quem quer
que traga felicidade ao seu coração. Sinta como é estar na presença
daquele ser. Permita-se desfrutar da boa companhia.

Em seguida, reconheça o quanto esse ente querido é vulnerável –


exatamente como você – sujeito a muitas dificuldades na vida. Além
disso, perceba que ele deseja ser feliz e livre de sofrimento, exatamente
como você e todos os outros seres vivos. Repita suave e delicadamente o
significado de suas palavras para que ressoem esse seu coração.
“Que você esteja seguro.”

78
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

“Que você esteja em paz.”


“Que você seja saudável.”
“Que você viva com tranquilidade.”

Caso você note que sua mente está vagando, volte pagar a imagem de seu
ente querido. Saboreie todos os sentimentos calorosos que possam surgir.
Vá devagar.

Agora, visualize seu próprio corpo com os olhos da sua mente e sinta as
sensações, dele exatamente como elas são. Note qualquer desconforto ou
intranquilidade que possa estar lá. Ofereça bondade para si mesmo.

Se desejar usar frases diferentes, que falem de forma mais autêntica a


você, fique à vontade para usar. Você pode se perguntar: “O que eu
preciso ouvir agora?”. Use uma linguagem que incline seu coração com
ternura para você mesmo, como se estivesse se relacionando com um
filho amado ou um amigo querido.

Se, e quando surgir resistência emocional deixa em segundo plano e


retorne às frases, ou volte a focalizar em seu ente querido ou em sua
respiração.
Quando estiver pronto, abra os olhos suavemente.
(GERMER; SIEGEL; FULTON, 2016, p. 32)

Técnicas de programação neurolinguísticas

A Programação Neurolinguística (PNL) é um conjunto de técnicas criadas por John


Grinder e Richard Bandler, em meados dos anos de 1970, que ajudam o ser
humano a criar e a recriar suas experiências, assim como acontece na hipnose,
observando a forma como o ser humano se enxerga e enxerga o mundo à sua volta,
tal como enxerga suas reações independentemente de sua realidade e como
estruturamos nosso mundo interno (pensamentos) a partir de nossas crenças e
valores dando-lhes um significado. Dizemos, na PNL, que “mapa não é território”,
isso quer dizer que, conforme a experiência de cada indivíduo, um mesmo evento
pode associar significados iguais ou diferentes. Todavia, a programação
neurolinguística abrange três áreas do conhecimento:

79
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Figura 12. Programação neurolinguística.

Como Como
sequenciamos A mente e usamos a
nossas ações Neurologia como Linguística linguagem e
Programação para alcançar pensamos como ela nos
metas afeta

Fonte: elaborada pela autora.e baseada em O’Connor (2015, p. 2).

Fiquem atentos às pressuposições da programação neurolinguística, como o


próprio autor ressalta, é uma pressuposição. Elas podem até não serem verdadeiras,
mas agiremos como se fossem:

» As pessoas respondem à sua experiência, e não a realidade em si.


Nossas cognições (pensamentos, sentimentos e sensações) nos dão um
mapa padrão do qual conseguimos lidar de forma que seja congruente
com nossas crenças, emoções e vivências. Porém, ele jamais terá
exatidão num todo, faltando-lhe a capacidade de apontar quais caminhos
se deve seguir sem que haja perigos.

» Ter uma escolha ou opção é melhor do que não ter uma escolha ou
opção. Procure estratégias que lhe dê maior número de possibilidades,
busque formas de aumentar suas opções de escolha, pois, quanto mais
opções tiver, mais liberdade terá.

» As pessoas fazem a melhor escolha que podem no momento. Nem


sempre as escolhas são as melhores. Elas podem parecer estranhas,
engraçadas e até as mais improváveis, mas, para a pessoa que se
encontra em determinada situação, pode parecer o melhor caminho a
seguir diante das circunstâncias. Ela vai agir de acordo com o que
acredita ser satisfatório. Contudo, podemos apresentar outros pontos de
vista para que a faça refletir na decisão a ser tomada.

» As pessoas funcionam perfeitamente. Independentemente da forma com que


fomos criados, tudo o que fazemos é perfeito. Ninguém é melhor ou pior, todos
nós executamos nossas estratégias com perfeição, porém alguns métodos
podem ser ineficazes ou até mal projetados, mas assim mesmo buscando a
perfeição. Observe-se e descubra como é o seu funcionamento para que seu
plano seja modificado para algo mais atraente.

80
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

» Todas as ações têm um propósito. Mesmo que a gente não perceba, estamos
sempre na tentativa de realizar algo, embora seja inconscientemente.

» Todo comportamento tem uma intenção positiva. Nossas ações têm por
finalidade nos beneficiar proporcionando bem-estar. Sua intenção é escolher
comportamentos positivos que nos valorizem e nos favoreçam.

» A mente inconsciente contrabalança a consciente; ela não é maliciosa.


Nosso inconsciente possui recursos que nos ajudam a viver em equilíbrio, sem
que nossa mente consciente perceba.

» O significado da comunicação não é simplesmente aquilo que você


pretende, mas também a resposta que obtém. As respostas são feedbacks do
que foi comunicado, mas nem toda resposta que recebemos é o que esperamos,
visto que o interlocutor possa não ter a mesma compreensão do que
comunicamos. Caso não obtenha a resposta desejada, mude sua estratégia, a
responsabilidade é sua.

» Já temos todos os recursos de que necessitamos ou então podemos criá-los.


Todas as pessoas possuem recursos próprios, o que as difere são seus estados
mentais.

81
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Mente e corpo formam um sistema. São expressões diferentes da


mesma pessoa. Mente e corpo estão interligados e um influencia o
outro. Para que a mudança ocorra, o pensamento e o sentimento devem
estar em congruência com o comportamento e vice-versa. Quando
estamos felizes (sentimento), nosso corpo age de forma mais espontânea
(comportamento), e, quando estamos tristes, ficamos mais retraídos.

» Processamos todas as informações por meio de nossos sentidos. Para


pensar de forma mais clara, nossos sentidos tendem a se apresentar mais
aguçados. Por meio deles, as informações tornam-se mais notáveis.

» Modelar desempenho bem-sucedido leva à excelência. Acredito que já


tenham escutado a seguinte frase: “tudo o que um ser humano consegue
fazer, eu também consigo!”. E isso é pura verdade! Inicialmente,
tendemos a pensar que não vamos dar conta de algo, porém, essa é nossa
primeira reação diante de uma situação nova, seja por medo de errar, seja
por não querer se expor, motivos não faltam. Todavia, se queremos ser
excelentes em algo que não temos habilidades, o ideal é modelar quem o
faça com excelência, repetir seus passos até que se alcance o objetivo.

» Se quiser compreender, aja. O aprender está no fazer, treine, treine mil


vezes se for possível, até que a conquista seja alcançada.

Leitura do livro O corpo fala – a linguagem silenciosa da comunicação não verbal,


de Weil, P. e Tompakow, R., da Editora Vozes.

Por meio das técnicas que serão aprendidas aqui, será possível uma
mudança de crenças, quebra de padrões antes não reconhecidos como
insatisfatórios, mudança de estados emocionais, dentre outras. Na PNL, o
“inconsciente” refere-se a tudo que está na consciência do momento presente, e o
inconsciente indica tudo que não seja consciente, um “contentor” para muitos
pensamentos, sentimentos, emoções, recursos e possibilidades diferentes nos quais
não está no momento presente (O’CONNOR, 2015, pp. 10-11). Podemos levar em
conta que algumas crenças e valores aprendidos estão armazenados no
inconsciente e estes possuem um poder de regência das nossas vidas sem que ao
menos a gente perceba. Todos nós temos recursos para alcançar os nossos

82
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

»
objetivos, entretanto, nem todos sabem como acessar esses recursos e os que
sabem não os utilizam, os deixam de lado por não acreditar que são capazes de
mudar suas vidas por meio de técnicas tão simples e sutis. Geralmente, as pessoas
com autoestima baixa não acreditam possuir tais recursos porque não têm
consciência deles no contexto específico no qual necessitam. Porém, pesquisas
neurofisiológicas apontam que todas as experiências que já tivemos podem estar
armazenadas em algum lugar, podendo ser acessadas por meio do transe hipnótico
ou por qualquer outra técnica que induza um pensamento divagador, por exemplo,
uso de medicações ou artifícios que estimulem o inconsciente.

Devemos ter em mente que a PNL tem seu foco nos resultados. Para tanto,
observa-se o estado atual e o estado desejado. Entretendo, para se chegar aos
resultados desejados são utilizados recursos, tais como estratégias mentais,
linguagem, fisiologia, estados emocionais, crenças, valores e perguntas
direcionadas, como: “onde quero chegar?”, “por que quero chegar?”, “como
chegarei lá?” e “o que farei se algo der errado?”.

A figura abaixo aponta como ocorre o processo de mudança.


Figura 13. Processo de mudança.

Estado atual Estado desejado

Recursos

Aonde quero chegar? Por que quero chegar?

MUDANÇA

Como chegarei lá? O que farei se algo der errado?

Fonte: Adaptada de O´Connor (2015, p. 14).

Uma técnica muito utilizada para mudança de estado na programação


neurolinguística é o modelo criado por Robert Dilts chamado níveis neurológicos,
em que cada nível atua em uma área da vida.

Ambiente: onde e quando – lugar, momento e pessoas envolvidas.

» Comportamento: o quê – seu comportamento visto do lado de fora.

83
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

» Capacidade: como – suas habilidades.

» Crenças e valores: o porquê – princípios que guiam suas ações.

» Identidade: quem – o senso de si mesmo.

» Espiritualidade: conexão – seu lugar no mundo.

Figura 14. Níveis neurológicos.

Espiritualidade

Idend ade

Crenças e valores

Capacidade

Comportamento

Ambiente

Fonte: Adaptada de O´Connor (2015, p. 36).

Alinhamento de níveis neurológicos

Utilizando-se da estrutura acima, o exercício abaixo, para um melhor


aproveitamento, pode ser feito em transe leve para que o paciente vivencie cada
processo mentalmente e fisicamente.

» Oriente-o a ficar de pé em um lugar onde ele possa dar cinco passos. Sugira
uma situação na qual o paciente deseje sua mudança.

» Leve-o a um estado de transe leve e inicie pelo nível ambiente, no qual


normalmente é vivenciado o problema a ser solucionado, por exemplo, a
casa, o trabalho. Faça perguntas sobre o ambiente: onde está, como é o
local, se tem alguém à sua volta.

» Dê um passo à frente e passe para o nível comportamento. Peça-o para visualizar


o que está fazendo, pensar em suas ações, pensamentos e sentimentos e oriente-o
a verificar se seu comportamento condiz com o ambiente onde está.

84
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

»
» Dê mais um passo para o nível capacidade. Perceba suas habilidades e enumere
as que você utiliza no seu dia a dia. Quais habilidades você utiliza bem em
qualquer contexto? Quais habilidades podem ser úteis para ressignificar o
contexto que estamos trabalhando? Lembre-se que nesta ocasião é apresentado
apenas um terço de sua capacidade.

» Dê outro passo e reflita sobre suas crenças e seus valores. Quais são importantes
para você? Você acredita valer a pena mantê-las? Que princípios potencializam
suas decisões?

» Como você não é o que você faz nem o que acredita, dê mais um passo e reflita
sobre sua identidade. Quem é você? Perceba-se! Qual é sua missão? Veja-se
realizando seus objetivos.

» Dê o próximo passo, e respirando profundamente, sentindo-se mais leve, entre


em conexão com o espiritual, no que você acredita como força superior, com a
natureza, o universo, com o todo. Use o tempo que for necessário e busque seu
melhor sentido. Vá respirando profundamente e deixe que sua força superior
tome conta de você, lhe fortalecendo como um personagem que vai se
transformando. Qual personagem você se transformaria?

» Agora que você é esse personagem, com seus sentimentos e suas forças
intensificadas, volte ao nível identidade e perceba a diferença: quem você era e
quem você se tornou.

» Volte mais um passo para o nível crenças e valores e reveja o que é importante
para você a partir de agora. Quais crenças e valores expressam sua identidade
agora?

» Pegue suas verdadeiras crenças e valores e vá para o nível capacidade. Sinta


como seu corpo reage ao perceber que suas habilidades foram transformadas e
potencializadas. Visualize-se utilizando suas habilidades da melhor forma
possível.

E, por fim, retorne ao nível ambiente para que sejam percebidas as


mudanças neurocognitivas no local onde havia os conflitos, agora sob
uma nova perspectiva.

85
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

» Lembre-se de reforçar e ancorar no paciente todas as mudanças.

Modalidades e submodalidades

Suas imagens mentais, seus sons e seus sentimentos possuem características


preestabelecidas. Por exemplo, sua imagem tem cor e brilho, o som tem ritmo e
tom, seu sentimento tem textura e temperatura específicas. Na programação
neurolinguística, essas características são chamadas de submodalidades. Os
sentidos são a maneira como pensamos, portanto, a qualidade da experiência
sensorial é submodal. Embora sejam chamados de submodalidades, eles não são
modos inferiores, subordinados ou insubordinados, mas parte integrante deles. Sem
essas características, você não terá uma experiência sensorial.

As modalidades ou os sistemas representacionais são os nossos cinco sentidos


principais: visual, auditivo, cinestésico, olfativo e gustativo. As submodalidades
são as peculiaridades relacionadas a cada um dos sentidos. Para cada uma dessas
modalidades, podemos ter algumas diferenciações. Uma imagem pode ser descrita
como colorida, preta e branca, inclusive, apresentar-se escurecida ou brilhante. Os
sons podem ser suaves ou altos ou oriundos de direções particulares. As sensações
podem caminhar por diversas partes do corpo ou apresentar temperaturas distintas.
Os cheiros podem manifestar-se forte ou fraco, agradável ou penetrante. O paladar
pode advir de sabores doce, amargo, forte ou suave. Essas diferenças mais
refinadas são conhecidas como submodalidades e conceituam as características das
nossas representações intrínsecas.

A submodalidade visual associada/dissociada é a mais importante, pois indica se


você pode se ver na imagem (representação visual interna). Se você não se vê na
imagem, você está associado. Normalmente, chamamos isso de ver com os
próprios olhos. Se você se vê na foto, então dizemos que você está dissociado. Se
você estiver associado a uma memória, então seus sentimentos sobre ela (alegria,
tristeza, medo) serão mais fortes. Se você estiver dissociado, é como assistir a um
filme da sua própria vida, ao invés de estar lá (em cena), qualquer sentimento vai
ficar menos intenso.

Algumas submodalidades podem ter grandes ou poucos efeitos, no entanto, podem


fazer muita diferença. Podemos observar quando pedimos para uma pessoa
aumentar ou dar mais brilho às cores de uma imagem. Se a pessoa estiver

86
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

»
associada ou dissociada à imagem, esta trará grandes impactos ao emocional,
todavia, é possível que se altere completamente o significado daquela imagem. À
medida que a pessoa lhe informar que o problema foi solucionado, tire a prova
verificando se as submodalidades do problema foram alteradas.

87
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

Como usar a submodalidade na prática:

» Coloque a pessoa em um transe médio, leve-a para seu lugar seguro e ancore
segurança.

» Sugira que ela busque em sua memória a situação que quer resolver. Caso
ela não consiga buscar a imagem, faça-a imaginar: “se você pudesse ver
uma imagem, como seria?” ou “faça de conta que existe uma e, sendo
assim, como ela seria?”.

» Ao encontrar a imagem, ajude a pessoa a ver, ouvir e sentir as distinções


de submodalidades e vá estimulando a mudança de experiência a cada
tópico indicado por ela. Dê liberdade para que ela perceba as mudanças.

» Para finalizar, retire do transe e verifique as mudanças ocorridas.

quaisquer das técnicas de programação neurolinguística aprendidas nesta disciplina


podem ser feitas fora de transe, porém, quando realizadas em transe leve a médio,
os resultados podem ser mais satisfatórios.

Swish

É uma técnica de mudança de comportamento e hábitos que estipula uma nova


reorientação por meio das submodalidades. Quando passamos por uma experiência
dolorosa, tendemos a lembrar dela de forma associada. É possível lembrarmos-nos
do momento em todos os seus detalhes, cheiro, voz, temperatura ambiente, posição
do acontecimento, pessoas presentes e até a cor da roupa que estávamos usando. A
dor é tão grande que acabamos carregando esse sentimento por anos sem falar dele
por medo de sofrermos novamente. Quantas lembranças guardamos no fundo do
baú, não é mesmo? Por meio dessa técnica, podemos neutralizar os sentimentos e
relembrar o acontecimento sem carregar toda a bagagem emocional associada a
ela, podendo limpar todo tipo recordação dolorosa.

» Identifique o problema ou hábito que deseja mudar.

» Estabeleça uma âncora de segurança, caso a experiência ou lembrança seja


intensa.

88
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

» Verifique a imagem que aciona o problema. Busque seus gatilhos e os


considere como uma imagem associada.

» Quebre o estado – peça a pessoa que se levante da poltrona ou conte uma


piadinha.

» Crie, juntamente com a pessoa, uma autoimagem desejada. Pergunte-lhe


como seria se não existisse esse problema ou o que mudaria em sua vida.
Com a palma da mão esquerda, peça que veja uma imagem equilibrada,
coerente, motivadora, atraente e que faça sentido com o que deseja
deixando a imagem pequena e escurecida. Torne-a uma imagem
dissociada.

» Quebre o estado.

» Na mão direita, volte à imagem do problema. Use as submodalidades que


desejar. Você pode tornar a imagem grande e brilhante, porém, assegure-
se de que seja uma imagem associada.

» Faça o swish das duas imagens rapidamente convertendo a imagem


pequena e escurecida (mão esquerda) em uma imagem grande e brilhante
e a amplifique até que fique enorme. Ao mesmo tempo, faça com que a
imagem problema (mão direita) fique escura e diminua até que
desapareça. Faça todo o movimento rapidamente ao som de “s-w-i-s-h!”.

» Quebre o estado visual com uma pergunta aleatória, nada a ver com o que
acabou de fazer ou levante a pessoa da cadeira.

» Repita o swish por mais três vezes sempre quebrando o estado entre cada
swish.

» Verifique se ainda existe o problema com as características anteriores.


Não se assuste se a pessoa se referir ao problema como algo distante.

» Faça ponte ao futuro e finalize.

Ponte ao futuro

Nossos sistemas representacionais são utilizados para nos lembrar do passado e


também para imaginarmos o futuro. Chamamos de ponte do futuro o recurso de

89
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

imaginarmos como desejamos o nosso futuro, ou melhor, é o estado que desejamos


estar ao alcançar nossas metas lá no futuro. Por meio da ponte ao futuro, é possível
visualizar todas as possibilidades para alcançar seus objetivos. Você consegue
perceber os obstáculos pelo caminho e antecipar a mudança essencial para a
solução do problema. Nada mais é do que um ensaio mental voltado para a
melhoria, seja de uma habilidade, seja de um desempenho.

» Relaxe a um transe leve a médio.

» Visualize sua meta de forma que ela esteja bem clara.

» Foque no processo a ser percorrido com todos os seus detalhes, passo a


passo, cada uma das fases.

» Use todos os sentidos, veja, ouça, perceba.

» Abuse das submodalidades para potencializar as habilidades necessárias.

» Veja-se já tendo realizado sua meta.

» Realize o processo sempre que desejar.

Estratégia de criatividade Disney

Modelada por Robert Dilts, essa estratégia foi baseada em Walt Disney para gerar
pensamentos criativos e eficazes para obtenção de resultados. É muito utilizada
também para sessões em grupo.

Nessa estratégia, estimule a pessoa a imaginar o resultado ou a situação que deseja


explorar. Ela funciona bem em qualquer situação em que precise formular um
plano de ação para se sobressair em alguma situação, por exemplo, fobia social –
apresentação em público.

É preciso ancorar três estados espacialmente: o sonhador, o realista e o crítico.


Dentro do possível, marque um espaço para cada posição no chão, pode ser
conforme a figura abaixo.

90
MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA | UNIDADE III

Figura 16. Estratégia Disney.

REALISTA
SONHADOR Nesta posição, você realiza
*Nesta posição, você cria
possibilidades, é visionário, seus planos, avalia aquilo que
érealmente possível,
vê o quadro maior.
*Seja criav o sem restrições. pensa de forma construv a e
*Visual elabora planos de ação.
"O que desejo?" *Cinestésico
"O que farei para tornar
esse plano realidade?"

CRÍTICO
*Esta é a posição onde você testa seu plano.
Procura os problemas, dificuldades e
consequências inesperadas. Pense no que pode dá
errado, no que está faltando e quais os resultados
posi vos.
*Audi vo (diálogo interno)
"O que pode dar errado?"

Fonte: elaborada pela autora.

Uma vez que tenha decidido as três posições, siga os seguintes passos:

» Pense em um momento em que você se sentiu muito criativo e, então, entre


na casa do Sonhador e reviva esse momento ancorando todos os recursos
usados naquele dia. Após a ancoragem, saia da casa respirando fundo.

» Pense em um momento no qual colocou um plano em ação de forma


construtiva, eficaz e bem-sucedido. Entre na casa do Realista e reviva o
momento ancorando todos os recursos de sucesso e, então, saia da casa
respirando fundo.

» Pense num momento em que foi capaz de criticar um plano positivamente,


com a intenção de torná-lo mais eficaz. Entre na casa do Crítico e reviva o
momento ancorando todos os recursos utilizados naquele dia e saia da casa
respirando fundo.

» Pegue o resultado que deseja explorar e entre na casa do Sonhador


ancorando nessa casa anteriormente. Visualize as possibilidades criativas
que puder quanto aos resultados sem nenhum tipo de julgamento.

91
UNIDADE III | MECANISMOS DE AUTOMAÇÃO NA HIPNOTERAPIA

» Em seguida, entre na casa do Realista e pense em seus sonhos. Organize suas


ideias em uma sequência realista de como colocaria seus planos em prática e o
que seria realista alcançar.

» Na casa do Crítico, avalie todo o plano e observe se falta algo de necessário,


questione-se sobre o que poderia dar errado, quais as vantagens e desvantagens
desse plano, sempre de forma positiva, pois o papel do crítico é buscar opções
de melhoria para o plano.

» Por fim, retorne à casa do Sonhador e busque mais possibilidades à luz do que foi
observado nas outras casas e, caso queira, retorne à casa que considerar
satisfatória para algum reajuste e parta para a ação.

92
SONHOS UNIDADE IV

Provavelmente, vocês estejam se perguntando o que os sonhos têm a ver com


hipnose. A resposta é simples: os sonhos são conteúdos inconscientes e, muitas
vezes, dizem respeito sobre aquilo que estamos passando. Assim como na
hipnose, por meio dos sonhos é possível identificar desejos e também
recondicioná-los a uma nova realidade. Os conteúdos apresentados por meio dos
sonhos muitas vezes são conteúdos de comportamentos, pensamentos e emoções
reprimidas. Nesta unidade, conheceremos os tipos de sonhos e como interpretá-
los.

CAPÍTULO 1
A hipnose dos sonhos

Mudando um pouco de assunto, vocês sabiam que é possível realizar uma


reprogramação mental modificando padrões de pensamentos, sentimentos e
comportamento por meio dos sonhos? Então, sente-se numa posição confortável,
feche seus olhos e siga atentamente minhas orientações!

Tome uma posição confortável.

Permita que as suas pálpebras se fechem suavemente.

Deixe seus olhos completamente fechados.

Dê atenção agora à sua respiração.

Você já sabe que, se respirar lentamente e profundamente, seu corpo vai


relaxando, sua mente vai se acalmando e você vai experimentando aquela
sensação de paz interior. Isso, muito bom!

Permita-se ir aprofundando cada vez mais nessas sensações à medida que relaxa.

93
UNIDADE IV | SONHOS
Como seria, agora que você relaxou profundamente, se você adormecesse e
começasse a sonhar. Sonhar sobre o seu passado?

Talvez no seu sonho você perceba como agiu em relação à sua alimentação.

Nesse sonho, talvez você perceba quantas vezes se alimentou de forma


exagerada para diminuir a dor de um dia ruim no trabalho ou até mesmo em uma
discussão no seu relacionamento, buscando, no alimento, o prazer, a
tranquilidade e a satisfação que ele proporciona momentaneamente.

Concordando em comer o que lhe ofereciam somente para agradar ou não


ofender as pessoas, ou talvez até limpando toda a comida do prato porque
disseram que não era certo desperdiçar comida.

Talvez no seu sonho tenham situações em que você se alimentava na frente da


televisão, lendo um livro, conversando ao telefone, distraindo-se e facilitando os
excessos alimentares, muitas vezes comendo muito rápido e engolindo alimento
sem mastigá-lo corretamente. Usando a comida para reprimir sentimentos
indesejados pela inabilidade de demonstrá-los, tornando a comida um refúgio.

Mas, agora, no seu sonho, você decide acordar desse sonho ruim!

E ainda profundamente relaxado, você decide sonhar um novo sonho, como que
substituindo completamente o sonho ruim de seu passado.

Nesse novo sonho, que você começa a sonhar agora, tudo está diferente.

Nele você se vê exercendo seu poder pessoal. Você acredita plenamente em


você e nas suas capacidades: de se alimentar saudavelmente, de se exercitar
diariamente. Sente que pode lidar com qualquer pessoa, com qualquer situação
que se apresente em seu caminho.

Se vê sendo a pessoa que sempre quis ser, agindo e se comportando do modo


que sempre quis agir e se comportar, tendo o corpo e o físico que sempre quis
ter.

A cada dia neste sonho, você se comporta com autoconfiança, seguro de você
mesmo e determinado a permanecer esbelto e elegante, fazendo atividades
físicas que dão prazer e motivação. Nesse sonho, você se alimenta, se hidrata e
se exercita de forma saudável ganhando energia para enfrentar os obstáculos
naturais da vida com tranquilidade, disposição e equilíbrio físico e mental.

94
SONHOS | UNIDADE IV

Você se vê nesse sonho mais consciente, mais presente nas atividades que está
executando, mais presente ao se alimentar, comendo devagar, mastigando sem
pressa, sentindo o sabor real dos alimentos. Nele, você alimenta e emagrece a
mente com os pensamentos positivos e, quanto mais sua autoestima cresce, mais
o seu corpo chega ao seu peso ideal.

Você se enxerga com a aparência física cada dia melhor. Você se sente cada dia
mais atraente, com mais energia, feliz com você, aproveitando cada momento da
vida, se sentindo vibrante, saudável e forte.

Tem, a partir de hoje, ótimas noites de sono, um sono natural, espontâneo,


reparador, dormindo como uma criança tão calma, tão relaxada, tão
profundamente em paz.

Enquanto dorme, seu inconsciente continua processando informações,


conhecimentos, e, ao acordar, sente-se mais seguro de si, mais desejo para
cuidar da aparência, do corpo e da mente, por meio de uma alimentação
saudável, praticando exercícios que fortalecem sua musculatura e reservando
momentos para relaxar a mente.

A cada manhã, acordará com sentimento interior de animação, de alegria e de


força, experienciando cada dia saudavelmente, como se fosse o último dia da sua
vida, com uma convicção de que todo o recurso de que precisa para viver esse
espetáculo da vida está dentro de você agora.

Trazendo todos os benefícios e mudanças que esse seu novo sonho lhe
proporcionou, percebe que vai começando a despertar, mas continua nesse
relaxamento profundo, digerindo, assimilando esses novos padrões de
pensamento, sentimentos e comportamentos.

E para ajudar você a despertar desse relaxamento profundo e começar a viver


essa nova realidade que você criou, trazendo você com sentimentos tonificantes
de calma e vigor, eu vou promover uma contagem progressiva de 1 a 10. No 10,
somente no 10, você abrirá os olhos, sentindo-se muito bem, muito melhor do
que estava antes, trazendo todos os benefícios desse relaxamento de forma
permanente e duradoura.

1. Trazendo com você as boas sensações...

2. Voltando...

95
UNIDADE IV | SONHOS
3. Feliz...

4. Percebendo a circulação voltando ao normal...

5. Respirando...

6. Percebendo seu corpo despertar...

7. Cheio de calma, vigor e segurança...

8. Preparando-se para abrir os olhos...

9. Com muita disposição e alegria...

10. Despertando... abrindo os olhos... sorrindo!

Agora que vivenciamos esse sonho gostoso no qual reprogramamos nossa mente
para uma mudança de comportamento, vamos entender o funcionamento dos
sonhos e como interpretá-los.

Nós vivemos entre duas realidades: a vida objetiva (realidade externa, realidade
propriamente dita) e a vida subjetiva, isto é, da nossa vida psíquica (realidade
interna: a realidade que desejamos). A primeira é sempre mais provocante, mais
hostil e, por alguns momentos, representa a insatisfação da vida real. A segunda
vem ao encontro daquilo que idealizamos, queremos ou desejamos, todavia,
representa o prazer.

Entre essas duas realidades, é importante que exista um equilíbrio e é por meio
dos sonhos que esse equilíbrio acontece. Por meio dos sonhos, nós vivemos a
nossa vida, realizamos os nossos desejos. Por esse motivo, os sonhos são
definidos como uma faculdade psíquica que a natureza nos deu, responsável de
compensar, suavizar ou substituir uma realidade aparentemente hostil e
desvendar um novo universo de possibilidades diante de uma alma em que todos
os nossos comportamentos reprimidos podem ser gozados enquanto dormimos,
um tipo de liberdade condicional quando se expande nos sonhos.

Imagine-se num imenso parque onde as crianças pudessem fazer suas


travessuras longe da vista dos pais, onde elas, completamente entregues aos seus
instintos, cometessem atitudes e comportamentos tão impossíveis e
inimagináveis que até mesmo a imaginação fosse insuficientemente capaz de
descrever. Assim são os sonhos! Quando fechamos os olhos, já cansados da

96
SONHOS | UNIDADE IV

realidade desafiadora de todos os dias e fantasiamos outra realidade que


desejamos, estamos repetindo o comportamento dessas crianças travessas e, ao
despertarmos, rimos muitas vezes de tantas palhaçadas praticadas, os olhos
marejados como uma criança que chora com medo do castigo.

Todavia, existem sonhos graciosos, sonhos inesquecíveis que a gente lastima


quando acordamos. Outros são tão feios que, quando acabam, damos um
alongado e profundo suspiro de alívio e ainda com a mais profunda alegria
dizemos a nós mesmos: “felizmente tudo não passou de um sonho!”.

Todavia, se os sonhos foram concebidos para remediar e nos dá a felicidade, por


que então não são todos os sonhos lindos? Por que alguns deles nos
atormentam? A resposta é simples: assim como acontece na vida real, enquanto
dormimos, uma censura interna também impede que os sonhos se apresentem de
forma clara, simples ou compreensível, como desejamos que fossem, pautando
os nossos comportamentos e sentimentos conforme condenados pelo meio
social. Quando dormimos, somos controlados, embora de maneira mais leve do
que quando estamos em momento de vigília. Dessa forma, é possível explicar
porque em alguns sonhos a censura é mínima ou quase indiferente como nos
sonhos infantis.

Nem sempre desejamos conscientemente uma coisa. Determinados desejos


podem passar por nossa cabeça como relâmpagos e imediatamente serem
condenados pela consciência. Quando acontece de conscientemente rejeitarmos
um determinado desejo, este fica registrado no inconsciente aguardando o
momento de manifestar-se. Sobretudo, caso ele seja censurado novamente,
poderá se manifestar de forma mais agressiva como um pesadelo, apresentando-
se acompanhado por uma sensação de angústia e despertando a pessoa
imediatamente.

Os sonhos se revelam por meio de símbolos, eles nos falam por meio de uma
linguagem especial. Muitas vezes eles querem nos revelar mensagens, conselhos
e é claro que precisamos, antes de qualquer coisa, aprender sua linguagem
conhecendo seus valores simbólicos e o significado que ele pode representar
para quem sonha.

A relação simbólica entre um elemento qualquer do sonho e a sua tradução por


meio de um símbolo são constantemente idênticos em todos os indivíduos,
apesar das diferenças de cultura e de expressão, pois a construção onírica nada

97
UNIDADE IV | SONHOS
mais fez senão utilizar-se de uma pequena parte desse meio de expressão no
grande reino do simbolismo do mundo dos mitos, lendas, provérbios, fábulas,
folclore, cantos, fantasias poéticas e na própria linguagem corrente, não sendo,
portanto, tais representações simbólicas um privilégio exclusivo dos sonhos.
Figura 17. Sonhos.

Fonte: https://www.psicologoeterapia.com.br/wp-content/uploads/sonhos-parte-1-768x432.jpg.

O conteúdo dos sonhos pode ser manifesto ou latente. O conteúdo manifesto é


aquele em que as ideias apresentam claras por si mesmas dispensando, por assim
dizer, uma interpretação; é a parte compreensível ou aparentemente
compreensível do sonho. Conteúdo latente é quando as ideias se escondem
detrás dos símbolos, ou seja, a parte escondida do sonho.

Todo esforço do sonho está em transformar o conteúdo latente em conteúdo


manifesto, se ele não o fizer, é porque não pode e não o consegue em virtude das
diversas dificuldades que tem a enfrentar na sua elaboração. Como vimos
previamente, o objetivo do sonho é satisfazer os desejos inconscientes daquele
que sonha, mas, como esses desejos nem sempre podem ser claramente
satisfeitos, porque a censura não deixa, o sonho, então, vê-se obrigado a
apresentar-se de dois conteúdos em lugar de um só.

O trabalho da interpretação dos sonhos consiste unicamente em transformar as


ideias latentes em ideias manifestas por meio da elaboração onírica, maneira
pela qual os sonhos se formam por meio de um processo singular. Basta dizer
que o seu mecanismo se refere a converter todas as nossas emoções, sensações,
ideias concebidas, pensamentos latentes em imagens visuais, assim como é feito
no processo hipnótico. O sonho é um fenômeno essencialmente visual, um filme
que se deve desenrolar aos olhos do espectador e nem tanto aos outros sentidos,
por exemplo, seus ouvidos.

Por aí se vê o quanto é complexo o trabalho de elaboração e com que embaraços


ela terá que se haver quando joga, por exemplo, com um material

98
SONHOS | UNIDADE IV

verdadeiramente abstrato, como certas imagens que passam pela nossa memória,
difíceis de serem representadas graficamente ou mesmo de determinadas
impressões sensoriais, mais difíceis ainda de serem ao menos explicadas.

Diante de tudo isso, a elaboração onírica luta para formar um sonho perfeito,
proporcionando, assim, dificuldades às vezes quase invencíveis à interpretação.
Um dos efeitos mais comuns decorrente dela é o efeito da condensação – a
formação de várias personalidades numa única, associando várias imagens como
se todas fossem imprensadas sobre um mesmo filme fotográfico ou ainda como
se fossem os animais lendários da mitologia antiga.

Entretanto, existem vários tipos de sonhos, veja a seguir.

Os sonhos compensatórios – são os sonhos que procedem buscando a


compensação da consciência em momentos alternados. A relevância de estarmos
atento a essa propriedade do sonho fica evidente como mais uma característica
do sonho de tentar chamar nossa atenção para o que se desenrola do estado de
vigília, melhor dizendo, quando estamos acordados. Por exemplo: em seu sonho,
Jung, que considerava sua paciente intelectualmente inferior a ele, buscou sua
atenção por meio da compensação para o alerta de que sua atitude poderia
confundir sua investigação em relação a paciente. Jung sonha que essa paciente
é bem maior que ele, enquanto ele se mostra bem pequenino ao seu lado. Dessa
forma, a perspectiva finalista do sonho mostra para Jung que ele estava
interferindo na realidade da análise fazendo um prejulgamento sobre sua
paciente. Assim, sua psique, por meio do sonho, trouxe o equilíbrio entre as
partes da análise. Então, ele passou a modificar sua forma de enxergar aquela
paciente.

Sonhos premonitórios – aqueles sonhos que acontecem em situações cheias de


emoções. Esses tipos de sonhos acontecem com mais frequência na terceira
parte da noite, quando estamos mais descansados e temos lembranças do dia
anterior. Nossa mente subconsciente sabe de tudo, ela conhece o passado e o
futuro, conhece os assuntos dos outros. Às vezes, todos nós temos esses sonhos,
e eles podem nos contar o que acontece ou o que pode vir a acontecer sobre os
outros.

É sabido que os sonhos premonitórios e telepáticos acontecem constantemente


em aproximadamente grande parte das pessoas. Sonhos prospectivos ou
premonitórios são sonhos difíceis de reconhecer porque só podem ser

99
UNIDADE IV | SONHOS
constatados posteriormente ao evento ocorrer efetivamente. Inclusive, para
aqueles que estão atentos aos seus sonhos e ao seu universo interior de perto, os
sonhos premonitórios são difíceis de serem detectados. Podem discorrer sobre
grandes eventos, como morte, gravidez ou acidente, mas também podem
correlacionar-se às prospecções ligadas aos acontecimentos cotidianos.
Raramente eles acontecem, no entanto, são possíveis de acontecer. Em todo
caso, além de entendê-los como profecias, eles devem ser conceituados como
um delineamento preliminar.

O sonho premonitório é como se fosse uma simulação de uma possível


realidade. Por causa do fenômeno da telepatia, ou por causa da clarividência ou
pressentimento, os sonhos proféticos existem e são considerados de causa
transcendente, porém raros. Para quem minimiza o valor dos sonhos, essa
prática está repleta de exemplos de pessoas que foram resgatas de desastres
(sonhos congênitos), ganharam prêmios, foram curados de enfermidades ou
previram a morte de alguém.

Sonhos em série – são sonhos que dão continuidade ao enredo em diversos


outros sonhos; a história continua em outros sonhos. A sequência dos conteúdos
podem se dar de forma imediata, na mesma noite, ou em dias, semanas, meses
ou até em anos, como cenas de uma novela.

Sonhos repetitivos ou sonhos recorrentes – são alarmes do inconsciente que


indicam a obrigatoriedade de solucionar problemas internos (com influências
externas). Essa é a sua maneira inconscientemente de destacar um problema não
solucionado, um padrão comportamental intransponível, uma condição que está
sendo impedida ou algo que não foi aprendido. Quando isso acontecer, o sonho
da pessoa sempre conterá os mesmos elementos simbólicos.

Sonhos reativos – aqueles sonhos recorrentes que podem causar situações


desagradáveis vivenciadas, como traumas de guerra, acidentes graves,
catástrofes. O objetivo desses sonhos é consumir a energia acumulada ao redor
da ferida até que ela se esgote ou o estado possa ser reexpresso por meios
conscientes. Em suma, é um “grande sonho” que se formou no inconsciente
mais profundo ou inconsciente coletivo e trouxe imagens de símbolos religiosos
e mitos. Quando tivermos esse sonho, despertaremos nossas emoções, raramente
com sensação de bem-estar. São sonhos mais arquetípicos, míticos e,
geralmente, incompreensíveis do ponto de vista pessoal, mas cheios de energia
que podem “sacudir” a mente e mudar o processo da vida pessoal.

100
SONHOS | UNIDADE IV

A interpretação dos sonhos demanda muita prática, não é com uma simples
leitura que se pode realizar uma análise perfeita, é preciso gostar e, sobretudo,
ter certa vocação ou tendência para análise, pois requer do profissional
habilidades, como paciência, inteligência e disposição, uma vez que acarreta
grande esforço físico e mental.

Para a interpretação dos sonhos, é preciso considerar todos os elementos dos


sonhos e ter um entendimento sobre cada um deles podendo iniciar o trabalho
interpretativo, procurando sempre saber o que aflora a lembrança quando
recordamos os sonhos que tivemos. Em regra, nos vem à imaginação uma série
de representações ou imagens psíquicas preciosas, mas, quando estamos
interpretando os nossos próprios sonhos, começamos a selecionar e até mesmo
criticar uma porção de ideias, perturbando, desse modo, o resultado livre da
associação de ideias com uma parcialidade, por assim dizer, indevida.

Quando se trata de sonhos alheios, a pessoa analisada procede de igual modo


acrescentando que nada sabe a respeito, que não se lembra de nada. Outras
vezes, pensamos que tais lembranças são tão absurdas ou insignificantes que não
vale a pena levá-las em consideração. Nesse caso, se analisarmos os nossos
próprios sonhos, devemos ser rígidos na finalidade de ignorar nossa autocrítica,
todavia, é aconselhado que não interpretemos nossos sonhos. Devemos solicitar
da pessoa analisada que ela também não dê ouvidos à autocrítica e, como regra,
que não se recuse a informar qualquer ideia ainda que a julgue insignificante ou
vergonhosa, absurda ou desagradável. Geralmente, acontece de as informações
encobertas ou reprimidas pelo indivíduo serem justamente a chave mais
importante e decisiva para a análise. Assim, é preciso muita habilidade,
paciência e autonomia se quisermos chegar a um resultado verdadeiramente
satisfatório.

Considerado o sonho como um todo, fragmentaremos suas partes integrantes,


elemento por elemento, e investigaremos as lembranças que surgem em torno de
cada uma das partes, estimulando suas recordações. Verificaremos que um
determinado elemento do sonho lembra, por exemplo, um fato recente ou que
pode ter acontecido na véspera do sonho. Esses “elementos achados” se unem
depois a acontecimentos mais distantes, tendo, então, um material que nos
mostra que o sonho foi estimulado por um fato recente e se desdobrou em outros
acontecimentos, justamente para cumprir um designo de formar um sentido,
contar uma história ou realizar um desejo. Após a análise de cada elemento do
sonho, juntaremos novamente suas partes em conjuntos e teremos, então, o

101
UNIDADE IV | SONHOS
sentido total ou a decifração do sonho como um todo, como se formássemos um
quebra-cabeças.
Figura 18. Sonhos em quebra-cabeças.

Fonte: http://2.bp.blogspot.com/_V5gBGYc5EYM/S0YEvUJgxkI/AAAAAAAABAU/DvAIFZC3Eno/s400/tecnologia-quebra-cabeca-comimagem-digital-la.jpg.

Resumindo, vamos interpretar os sonhos da seguinte maneira:

» Pedir para o paciente contar o sonho pelo menos duas vezes.

» Dividir o sonho em cenas.

» Voltar a cada cena e pedir para que o paciente faça, no mínimo, seis
associações livres e identificar qual delas representa melhor a cena.

» Listar somente as associações circuladas, pois elas representam os


complexos a serem explorados, com a pessoa, no decorrer do processo
terapêutico.

Como seria na prática – exemplo retirado do livro Imaginação ativa, de Robert


Johnson (2003):

Suponha que você tenha um sonho que começa assim: ‘’Estou numa
sala cinza”. A primeira imagem que você deve trabalhar é a cor cinza.
Estas podem ser as associações que Ihe ocorrem. Você pode listar
cada uma delas ou fazer um mapa mental para melhor visualização.
(JOHNSON, 2003, p. 72)

Associação livre em formato de lista:


Cinza:

102
SONHOS | UNIDADE IV

Triste ou deprimido – “humor cinzento”, “feira de cinzas”, “nuvens


cinzentas”, “cara de quarta”

Cinzas – restos, destroços

Cor fria, neutra, de imparcialidade: análise fria, discernimento, em


contraste com um envolvimento quente, emocional, que poderia ser
associado à cor vermelha.

Minha camisa cinza. Sempre uso cinza

A sala de estar da minha avó. Tudo cinza

Gelo – “estou numa fria”

“Cinza discreto – no sentido de discrição, recato, sensatez.


(JOHNSON, 2003, p. 72)

Associação livre em mapa mental:


Figura 19. Mapa mental: associação livre.

Calmo,
imparcial
Como estou me
Minhas roupas,
sentindo?
geralmente na
Questionamento
cor cinza
interno

Cinza discreto Cinza Triste (nuvens


(discrição,
cinzentas)
sensatez)

Minha blusa Gelo (estou


cinza numa fria)
Clareza,
discernimento

Fonte: elaborada pela autora.e baseada em Johnson (2003, p. 75).

O segredo da interpretação dos sonhos também está na prática. Caso queiram


aprofundar-se no estudo dos sonhos, sugiro que procure os escritos de Sigmund
Freud e Carl G. Jung. A finalidade dos sonhos para Freud é a concretização dos
desejos do indivíduo, por meio de seus conteúdos latentes, permitindo que o
proibido atravesse a barreira do recalque. Já para Jung os sonhos são as
caracterizações oníricas que se apresentam por intermédio dos símbolos, por
meio do inconsciente, seja ele individual, seja ele coletivo.

103
UNIDADE IV | SONHOS
Agora é com vocês! Há muitos livros interessantes sobre os sonhos e seus
significados, tanto na abordagem Freudiana como na Junguiana. Certamente,
vocês irão se identificar com uma delas ou, quem sabe, com ambas abordagens.
Busquem, leiam, reflitam!

104
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Tabelas

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Tabela 6. Novo padrão de pensamento. Fonte: elaborada pela autora.
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108

Você também pode gostar