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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO EGRÉGIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

RAFAELA ROCHA LIMA, advogada, inscrita na OAB/XX sob o n.º XX. XXX,
com escritório profissional na Rua XXXX XXXXX XXX, XXXXX, XXX/XX, onde recebe
intimações, vem respeitosamente perante esse Egrégio Tribunal, com fulcro no art.
5º, inciso LXVIII, da Constituição Federal de 1988 e artigos 647 e 648, ambos do
Código de Processo Penal, impetrar o presente

HABEAS CORPUS LIBERATÓRIO COM PEDIDO DE CONCESSÃO DE LIMINAR

em benefício da paciente GABRIELA DOS ANJOS, brasileira, convivente,


nascida em xx/xx/xxxx, residente à Rua da Tristeza, n° 25, Centro, Natividade da
Serra/SP, a qual encontra-se na iminência de sofrer violenta coação em sua liberdade,
por expedição de ato ilegal e abusivo do Excelentíssimo Doutor Juiz de Direito da Vara
Criminal da Comarca de Paraibuna/SP, pelos motivos de fato e de direito a seguir
delineados:

1. DA SÍNTESE DOS FATOS

Constam nos autos do procedimento inquisitorial nº xx-xxxx-xx, que


supostamente a paciente praticou o crime de homicídio, nos termos do art. 121, caput,
do Código Penal.
Chegando o fato ao conhecimento da autoridade policial, instaurou-se o
inquérito policial para apurar eventual infração penal. Ouvidas testemunhas e a
acusada, o Delegado de Polícia Civil decidiu representar pela prisão preventiva de
GABRIELA DOS ANJOS.
No ato de representação pela prisão preventiva da paciente, o Delegado de
Polícia Civil narra a ocorrência de homicídio, figurando como vítima o filho recém
nascido da acusada. Ato conínuo, relata que tomou conhecimento de que, no dia 25
de janeiro de 2017, a paciente deu à luz a uma criança em sua própria residência,
tendo, horas depois, comparecido ao Hospital Municipal com fortes dores abdominais.
Que no dia seguinte, realizou um telefonema ao seu irmão de nome Bento dos Anjos,
solicitando que este jogasse um saco de lixo que continha “lavagem” em um matagal,
ato este executado por Bento.
Ainda, nos termos da ficha de atendimento médico-hospitalar e relatório de
evolução de enfermagem, o Delegado de Polícia Civil expressa que a paciente
apresentava indícios claros de que havia gerado um filho recentemente, e que a
criança gestada possuía entre 37 e 40 semanas de concepção.
Em sequência, no dia 27 de janeiro de 2017, o Excelentíssimo Doutor Juiz de
Direito da Vara Criminal da Comarca de Paraibuna/SP, na decisão de fls. (x), decretou
a prisão preventiva da paciente (mandado de prisão anexo ao presente feito), o
fazendo, sobretudo, em homenagem à ordem pública, conforme se extrai de trecho
da decisão:

Ocorre Nobre Julgador, que a decretação da prisão preventiva da paciente não


encontra qualquer respaldo no ordenamento jurídico, haja vista que, nem o ato de
representação pela prisão preventiva da paciente, apresentado pelo Delegado de
Polícia Civil, nem a decisão de fls. (x) do Excelentíssimo Doutor Juiz de Direito, sequer
fazem alusão aos supostos atos praticados pela acusada, constando apenas menção
à termos genéricos como “pessoa de alto grau de periculosidade” ou “conduta
agressiva que culminou no homicídio do próprio filho recém nascido”, não existindo
em nenhum momento nos autos, a descrição de como os fatos ocorreram, a conduta
da paciente e a ligação desta com o ocorrido.
São essas as considerações fáticas que importam ao deslinde do presente writ.

2. DAS NULIDADES
2.1 DA AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO

Analisando o presente feito, verifica-se que o Nobre Julgador, ora impetrado no


presente feito, ao receber a representação do Delegado de Polícia Civil pela prisão
preventiva de GABRIELA DOS ANJOS, deixou de realizar a intimação da paciente
para manifestação no prazo de (05) dias, o que deve impreterivelmente ocorrer nos
termos do § 3º do art. 282, do CPP, in verbis:

Código de Processo Penal.


Art. 282. As medidas cautelares previstas neste
Título deverão ser aplicadas observando-se a:
§ 3º Ressalvados os casos de urgência ou de perigo
de ineficácia da medida, o juiz, ao receber o pedido
de medida cautelar, determinará a intimação da
parte contrária, para se manifestar no prazo de 5
(cinco) dias, acompanhada de cópia do
requerimento e das peças necessárias,
permanecendo os autos em juízo, e os casos de
urgência ou de perigo deverão ser justificados e
fundamentados em decisão que contenha elementos
do caso concreto que justifiquem essa medida
excepcional. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
2019)

A regra prevista na disciplina das medidas cautelares (dentre as quais se


encontra a prisão preventiva) estabelece que a parte deve ser intimada para se
manifestar acerca do pedido cautelar (prisão preventiva inclusa) promovido. A lei
determina que haja o contraditório. Nesse sentido, evidencia-se que a paciente
deveria ter sido intimado previamente para se manifestar sobre o pedido de prisão.
Ora, o fato da paciente não ter sido intimada para manifestar-se sobre a
representação de sua prisão preventiva, afronta claramente dois dos mais ilustres
princípios constitucionais, diga-se princípio do contraditório e da ampla defesa (art. 5º,
LIV e LV, da CF). Neste sentido:

A Constituição assegura aos litigantes e aos


acusados em geral o contraditório e a ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes. Defesa e
contraditório estão indissoluvelmente ligados,
porquanto é do contraditório (visto em seu primeiro
momento, da informação) que brota o exercício da
defesa; mas essa como poder correlato ao de ação,
que garante o contraditório. A defesa, assim, garante
o contraditório, mas também por este se manifesta e
é garantida. Eis a íntima relação e interação da defesa
e do contraditório.” (GRINOVER, Ada Pellegrini;
GOMES FILHO, Antonio Magalhães; FERNANDES,
Antonio Scarance. As Nulidades no Processo Penal.
11ª Ed., SP: RT, 2012, p. 69)

A inobservância do que dispõe o §3º do artigo 282 do CPP é causa mais que
certa de nulidade.
Nesta seara, em manifesta quebra ao direito constitucional da ampla defesa,
houve o cerceamento do direito da paciente em apresentar suas declarações, em
manifesto prejuízo ao princípio do contraditório. Ora, a paciente sequer foi ouvida
durante toda a instrução criminal, tendo sua prisão preventiva decretada sem o direito,
garantido pela Carta Magna, de manifestar-se sobre a representação de prisão
preventiva formulada pelo Delegado de Polícia Civil, haja vista não ter sido intimada
para tal pela Autoridade Coatora, o que viola expressamente as garantias
constitucionais, conforme observa-se da redação do inciso LV, do art. 5°, da
Constituição Federal, além de existir clara ofensa ao § 3º do art. 282, do Código de
Processo Penal

3. DA FUNDAMENTAÇÃO JURÍDICA

O habeas corpus caracteriza-se por ser uma ação de impugnação autônoma,


de natureza mandamental e de cognição sumária, também não submetida a prazos,
destinada a garantir a proteção da liberdade de locomoção dos cidadãos, em casos
de atos abusivos do Estado.
A Constituição da Republica Federativa do Brasil de 1988 prescreve em seu
art. 5º, inciso LXVIII, que será concedido “habeas corpus” sempre que alguém sofrer
ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção,
por ilegalidade ou abuso de poder.
Em igual substrato, o Código de Processo Penal contempla em seu artigo 647:
"Art. 647. Dar-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar na iminência
de sofrer violência ou coação ilegal na sua liberdade de ir e vir, salvo nos casos de
punição disciplinar."
Há que se mencionar ainda o Pacto de São José da Costa Rica, recepcionado
em nosso ordenamento jurídico brasileiro, que em seu art. 7º, é taxativo ao expor que
toda pessoa tem direito a liberdade, sendo que ninguém pode ser submetido ao
encarceramento arbitrário.
Assim, para ocorrer o cerceamento da liberdade de qualquer cidadão deve-se
observar os princípios e garantias previstos na Carta Magna, o que foi, conforme
demonstrar-se-à nos tópicos subsequentes, gritantemente violado, além de,
vislumbrar que, no caso em tela, não ocorreram os requisitos do artigo 312 do CPP
(prisão preventiva) da paciente que foi determinada com base em suposições que não
encontram qualquer amparo nas provas colhidas, consubstanciando ainda no
presente writ.
Por fim, cabe ainda salientar que o relaxamento de prisão está previsto no art.
5º, inciso LXV, da Constituição da República: “LXV – a prisão ilegal será
imediatamente relaxada pela autoridade judiciária.”.
Portanto, diante do inequívoco perigo de lesão ao direito de liberdade da
paciente, é cabível o presente habeas corpus.
Sob essa ótica, o tópico seguinte cuida de relatar os motivos fáticos e de direito
que ensejam a impetração do presente habeas corpus, demonstrando a
fundamentação concreta da ilegalidade do mandado de prisão preventiva expedido
em desfavor da paciente.

3.1 DA ILEGALIDADE DA PRISÃO PREVENTIVA. DA AUSÊNCIA DOS


PRESSUPOSTOS AUTORIZADORES DA PRISÃO CAUTELAR. DA AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA

A prisão preventiva tem a natureza de prisão cautelar e, por isso, apenas se


justifica ante a demonstração clara por parte do Magistrado de razões de cautela
fundadas em elementos concretos de convicção. A toda evidência, não é isso que se
verifica no decreto de prisão preventiva expedido pela Autoridade Coatora.
Nesta diapasão, no caso em comento, inexistem nos autos do inquérito policial,
maiormente no ato de representação pela prisão preventiva, nem assim ficou
demonstrado na decisão prolatada pela Autoridade Coatora, quaisquer motivos que
implicassem na decretação da prisão preventiva da paciente.
Ora, extrai-se da decisão combatida que resta fundamentada unicamente em
uma gravidade abstrata do delito, na hipótese, o pretenso homicídio de uma criança
recém nascida. Desse modo, a Autoridade Coatora, nobre Juiz de Direito operante na
Vara da Comarca de Paraibuna/SP, não cuidou de estabelecer qualquer liame entre
a realidade dos fatos e alguma das hipóteses previstas no art. 312 da Legislação
Adjetiva Penal, limitando-se apenas à menção de termos genéricos baseados em atos
que sequer, foram especificados e demonstrados nos autos, conforme pode-se
observar de trecho da decisão:

A Autoridade Coatora entende que há razões fáticas emanadas dos autos que
legitimam decretação da prisão preventiva da paciente, entretanto, EM NENHUM
MOMENTO, durante todo o ato de decisão, demonstrou quais razões fáticas eram
essas, expressando unicamente a suposição, SEM NENHUMA PROVA, de que as
imputações formuladas à paciente possivelmente são procedentes, atribuindo a
esta um caráter monstruoso, repita-se, baseando-se somente em hipóteses.
Os argumentos lançados pela Autoridade Coatora não são apoiados em dados
concretos, não passando de meras ilações abstratas que, sem dúvida, não se prestam
a fundamentar decreto de prisão preventiva, independentemente da gravidade do
delito imputado à ré.
Ante todo o exposto, é direito de todo e qualquer cidadão, à luz dos princípios
da inocência e da não-culpabilidade, uma decisão devidamente fundamentada acerca
dos motivos da permanência no cárcere, máxime sob a forma de segregação cautelar.
É consabido que é dever de todo e qualquer magistrado motivar suas decisões
judiciais, sobremodo à luz do que reza o art. 93, inc. IX da Constituição Federal,
todavia, no caso dos autos, houve o decreto de prisão preventiva sem a necessária
fundamentação
A corroborar com o exposto, pode-se ainda inferir que a decisão não resta
devidamente fundamentada, através da transcrição do seguinte fragmento:

Conforme pode-se perceber do trecho em destaque, mais uma vez a


Autoridade Coatora utiliza-se de termos abstratos, a fim de atribuir características à
paciente que não lhe são próprias, não fazendo referência, em nenhum momento, à
mínima comprovação destas imputações. Pode-se ainda inferir que o Magistrado
emprega a expressão “conduta agressiva que culminou com o homicídio de seu
próprio filho”, todavia, novamente, inexiste durante todo o ato decisório e no inquérito
policial, as especificações desta suposta “conduta agressiva” da paciente, havendo a
clara ausência do periculum libertatis, pressuposto necessário à decretação da
cautelar.
Sendo assim, FERNANDO DA COSTA TOURINHO FILHO destaca ponto
fundamental na matéria: o periculum libertatis, isto é, o risco à ordem pública e
econômica, à instrução criminal e à aplicação da lei penal deve estar demonstrado
nos autos em elementos concretos.

“É preciso que dos autos ressuma prova


pertinente a qualquer uma das circunstâncias
referidas. E o Juiz, então, no despacho que decretar
a medida extrema, fará alusão aos atos apurados no
processo que o levaram à imposição da providência
cautelar. Fatos concretos, e não suposições.
Acrescenta o mestre que “nada vale” o
“convencimento pessoal extra – autos. De nada vale
a mera suposição, a simples suspeita”. (Código de
Processo Penal Comentado, vol. 1. 13. ed. São
Paulo: Saraiva, 2011. p. 845 – 846).
(Grifos nossos).
Não restou evidenciado de forma clara, à luz dos componentes obtidos nos
autos, por qual motivo o decisório se conforta com a hipótese prevista no art. 312 do
Código de Processo Penal, ou seja: a garantia da ordem pública, pois, resta
demonstrado que a decisão limita-se apenas a indicar suposições fáticas que não
encontram qualquer amparo nas provas colhidas nos autos, restando evidente a
ausência do periculum libertatis. Dessa forma, a decisão em comento, a qual
decretou a prisão preventiva, é ilegal, e, por mais esse motivo, vulnerou a concepção
trazida no bojo do art. 93, inc. IX, da Carta Magna.
O que resta claro no caso sub examine que não fora preenchido, visto que para
o atendimento dos requisitos deveria ser comprovado, o periculum libertatis, haja
vista que em momento algum fora justificado e devidamente comprovado nos autos,
havendo apenas, uma fundamentação genérica e equivocada do Excelentíssimo
Doutor Juiz de Direito da Vara Criminal da Comarca de Paraibuna.
A prisão preventiva possui caráter eminentemente cautelar e, como toda
medida dessa linhagem, para serem legitimamente decretadas devem preencher os
requisitos cautelares do fumus comissi delicti e periculum in libertatis, sendo
imprescindível, portanto, que a existência do crime esteja devidamente comprovada e
que haja, pelo menos, indícios mínimos de autoria (fumus boni iuris), além de
comprovação da necessidade da prisão, ou seja, risco para o transcurso normal do
processo, caso não seja ela decretada (periculum in mora), o que restou
extensivamente demonstrado que a exigência da presença do periculum libertatis
aqui não se encontra presente.
Ante todo o exposto, necessária se faz a menção ao inciso I, do art. 648 do
Código de Processo Penal, in verbis:

Art. 648. A coação considerar-se-á ilegal:


I - quando não houver justa causa; (...)

Neste sentido, como sabido e conforme amplamente exposto durante todo o


writ, ilações abstratas acerca da gravidade do delito em apuração e de clamor público
são argumentos inválidos para fundamentar a medida excepcional que é a prisão
preventiva. Assim, expressões vazias de conteúdo foram utilizadas pelo Juiz a quo, o
que demonstra a ausência do pressuposto essencial à decretação da cautelar, qual
seja o periculum libertatis, de modo que não há justa causa que enseje a prisão
preventiva da paciente, sendo esta ilegal. Neste sentido:

“A regra é a liberdade, a prisão é exceção. A


culpa do réu não se presume antes da condenação
definitiva. A custódia, antes da sentença final, só se
justifica em hipóteses extremas, previstas em lei, cujo
texto, não comporta interpretação extensiva em
desfavor da liberdade das pessoas. (HC 508/419)”.

Conforme demonstrado, a prisão preventiva tem caráter subsidiário haja vista


a existência de medidas cautelares diversas da prisão, suficientes e adequadas ao
caso em concreto. Neste mesmo entendimento, há de se invocar o instituído no artigo
282, § 6º e o rol de medidas cautelares diversas da prisão, previstas no artigo 319,
ambos do CPP:

Art. 282. As medidas cautelares previstas


neste Título deverão ser aplicadas observando-se a:
§ 6°. A prisão preventiva será determinada
quando não for cabível a sua substituição por outra
medida cautelar.

É indene de dúvidas que a paciente preenche as condições factuais e pessoais


para fazer jus às medidas alternativas previstas no art. 319 do CPP. Ocorre que no
presente caso o douto julgador não analisou e nem ventou a possibilidade de
aplicação dessas medidas, as quais, frisa-se, são, por lei, preferíveis à prisão.
Convém ainda, ressaltar julgados do Superior Tribunal de Justiça, os quais
convergem a viabilizarem a concessão da ordem, mais especificamente pela ausência
de fundamentação e pressupostos da medida cautelar:

HABEAS CORPUS – TRÁFICO DE DROGAS – CONSTRANGIMENTO ILEGAL


EVIDENCIADO – CONCESSÃO DA LIBERDADE PROVISÓRIA COM APLICAÇÃO
DE MEDIDAS CAUTELARES – ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. I – A
manutenção da medida constritiva apenas deve ocorrer em situações absolutamente
necessárias, quando provada a presença dos requisitos do art. 312 do CPP, quais
sejam risco à ordem pública, economia, conveniência da instrução criminal ou para
assegurar o cumprimento da lei penal. II – A decisão acerca da liberdade do
paciente deve ser fundamentada em elementos concretos, não bastando a
alegação da gravidade abstrata do delito. III Ordem conhecida e parcialmente
concedida, com imposição de medidas cautelares diversas da prisão.
(Grifos nossos).

HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL. PRISÃO PREVENTIVA.


FUNDAMENTAÇÃO. GRAVIDADE DO DELITO. IMPOSSIBILIDADE.
1. A falta de demonstração, efetiva e concreta, das causas legais da prisão
preventiva, caracteriza constrangimento ilegal manifesto, tal como ocorre quando
o Juiz se limita a invocar, sem mais, o temor da comunidade e a probabilidade de
repetição do ilícito, sem base em qualquer fato concreto. 2. Ordem concedida”.
(STJ. HC nº 43271/RS. 6ª Turma. Rel. Hamilton Carvalhido. publicação 14/08/2006)”
(Grifos nossos).

Do Supremo Tribunal Federal também se espraiam julgados dessa mesma


natureza de entendimento:

HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL E PENAL. WRIT SUBSTITUTO DE


RECURSO ORDINÁRIO: ADMISSIBILIDADE. A GRAVIDADE DO CRIME E A
AFIRMAÇÃO ABSTRATA DE QUE O RÉU OFERECE PERIGO À SOCIEDADE NÃO
BASTAM PARA A IMPOSIÇÃO DA PRISÃO CAUTELAR. O FUNDAMENTO
UTILIZADO PARA A CONVERSÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE EM
PREVENTIVA É GENÉRICO, POSSÍVEL DE SER ADOTADO EM QUALQUER
SITUAÇÃO EM QUE SEJA APURADA A CONDUTA DE TRÁFICO DE DROGAS.
ORDEM CONCEDIDA.
I. Embora o presente habeas corpus tenha sido impetrado em substituição a recurso
ordinário, esta segunda turma não opõe óbice ao seu conhecimento. II. A
jurisprudência desta corte é no sentido de que não bastam a gravidade do crime e
a afirmação abstrata de que o réu oferece perigo à sociedade para justificar a
imposição da prisão cautelar ou a conjectura de que, em tese, a ordem pública
poderia ser abalada com a soltura do acusado. Precedentes. III. O fundamento
utilizado para a conversão da prisão em flagrante em preventiva é genérico, possível
de ser adotado em qualquer situação em que seja apurada a conduta de tráfico de
drogas [...]
(STF – HC: 143065 RJ – RIO DE JANEIRO 0004015 – 30.2017.1.00.0000, Relator:
Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Data de Julgamento: 06/06/2017, Segunda
Turma, Data de Publicação: DJe-e-018 01-02-2018).
(Grifos nossos).

Fica claro, portanto, em face do sólido respaldo jurisprudencial à tese ora


sustentada, que o decreto de prisão preventiva expedido pela autoridade coatora é
totalmente destituído de qualquer fundamentação válida.
O paciente não pode permanecer custodiado porque não estão presentes os
requisitos autorizadores da prisão preventiva, tampouco foram apontados os motivos
concretos que dão azo à custódia cautelar.
Ilegal e arbitrário, portanto, o encarceramento da paciente, razão pela qual
impõe-se a concessão da ordem impetrada de modo a revogar a prisão preventiva,
restituindo-lhe a liberdade, sendo suficientes a decretação de medidas cautelares
diversas da prisão ao presente caso.

4. DOS PRESSUPOSTOS DA MEDIDA LIMINAR

Diante da flagrante ilegalidade da decretação da prisão do paciente, não pairam


dúvidas para que, num gesto de estrita justiça, seja concedida liminarmente o
contramandado de prisão, a fim de garantir à liberdade à mesma.
Para a concessão da liminar devem concorrer dois requisitos legais, ou seja, a
relevância dos motivos em que se assenta o pedido da inicial, fumus boni iuris, aqui
consubstanciado nas disposições legais supracitadas, e a possibilidade da ocorrência
de lesão irreparável ao direito do impetrante, o periculum in mora.
A plausibilidade jurídica da concessão da liminar encontra-se devidamente
caracterizada. O “fumus comissi delicti”, significa a fumaça do cometimento do
delito, o qual pelos elementos fáticos e jurídicos trazidos à colação não foram capazes
de demonstrar a efetiva participação da paciente no crime em comento. O “fumus
boni iuris”, ou fumaça do bom direito, está presente na medida em que a existência
de medidas cautelares diversas da prisão podem ser aplicadas ao caso em comento,
nos termos do art. 319 do CPP.
O periculum in mora repousa, ainda, no prejuízo que a paciente teme em sofrer
no seu direito de liberdade, que é um direito fundamental do ser humano enquanto
cidadão de um Estado de Direito, e que encontramos respaldo em nossa Constituição
Federal em seu Título II (DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS), ARTIGO
5°, Inciso LXV, o qual reza que “a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela
autoridade judiciária”, no caso em questão constata-se facilmente que a prisão
cautelar é imotivada, ante todo o exposto durante o presente writ.
Por sua vez, no que concerne o “periculum libertatis” (perigo na liberdade do
acusado), conforme demonstrado minuciosamente, não vislumbra-se qualquer
justificativa plausível para a prisão cautelar da paciente, haja vista que a decisão
encontra-se fundamentada unicamente em suposições fáticas que não possuem
indícios mínimos de comprovação a partir das provas colhidas nos autos do inquérito
policial.
Os artigos 649 e 660, § 2°, do Código de Processo Penal, preconizam que o Juiz
ou Tribunal “fará passar imediatamente a ordem impetrada” ou “ordenará que cesse
imediatamente o constrangimento”.
Cabe citar os ensinamentos do jurista Alberto Silva Franco, veja-se:

“É evidente, assim, que apesar da tramitação


mais acelerada do remédio constitucional, em
confronto com as ações previstas no ordenamento
processual penal, o direito de liberdade do cidadão é
passível de sofrer flagrante coarctação ilegal e
abusiva. Para obviar tal situação é que, numa linha
lógica inafastável, foi sendo construído,
pretoriamente, em nível de habeas corpus, o instituto
da liminar, tomando de empréstimo do mandado de
segurança, que é dele irmão gêmeo. A liminar, em
habeas corpus, tem o mesmo caráter de medida de
cautela, que lhe é atribuída do mandado de
segurança”.

Importante ainda, ressaltar o entendimento da jurisprudência, no que tange a


adoção de medidas substitutivas à prisão, conforme expressa previsão do art. 319 do
CPP, o que não restou observado no caso em concreto, tornando a prisão preventiva
injustificada, conforme pode-se observar:

EMENTA: HABEAS CORPUS - TRÁFICO DE DROGAS - PRISÃO EM FLAGRANTE


POSTERIORMENTE CONVERTIDA EM PREVENTIVA - AUSÊNCIA DOS
REQUISITOS AUTORIZADORES DA MEDIDA CAUTELAR EXTREMA - ART. 312
DO CPP - PACIENTE PRIMÁRIO - NECESSIDADE E ADEQUAÇÃO DAS MEDIDAS
CAUTELARES - APLICAÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA
PRISÃO - ART. 319, INCISOS I, IV, V e IX - CONSTRANGIMENTO ILEGAL
VERIFICADO - ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA 1. A prisão anterior ao
trânsito em julgado de sentença penal condenatória constitui medida excepcional, de
cunho acautelatório, justificável estritamente nos casos previstos no art. 312 do CPP.
2. Considerando que o acusado não representa uma ameaça à ordem pública, ordem
econômica, instrução criminal ou aplicação da lei penal, é primário, não há como ser
mantida a medida cautelar extrema que é a prisão preventiva. 3. Existindo, in casu,
medidas cautelares mais adequadas e diversas da prisão, deverá esta ser substituída.
(TJMG - Habeas Corpus Criminal 1.0000.15.036848-8/000, Relator (a): Des.(a) Kárin
Emmerich, 1ª CÂMARA CRIMINAL, julgamento em 30/06/2015, publicação da súmula
em 10/07/2015).

Frente ao exposto, a presente ordem de habeas corpus deve ser concedida


liminarmente com o fim de impedir a prisão preventiva da paciente, haja vista estarem
presentes os requisitos essenciais para a concessão da liminar, qual seja o “fumus
boni iuris” e o “periculum in mora”.

5. DOS PEDIDOS

Diante do exposto, resta induvidoso que a paciente sofreu constrangimento


ilegal por ato da autoridade coatora, o Excelentíssimo Doutor Juiz de Direito da Vara
Criminal da Comarca de Paraibuna, circunstância “contra legem” que deve ser
remediada por esse Colendo Tribunal.
Isto posto, com base no artigo 5º, LXVIII, da CF, c/c artigos 647 e 648 do CPP, requer:

a) A oitiva da Douta Procuradoria de Justiça na condição de "custos legis",


para que apresente parecer;
b) A requisição de informações ao Meritíssimo Juiz da Vara Criminal da
Comarca de Paraibuna, ora apontado como autoridade coatora;
c) A confirmação no mérito da liminar pleiteada para que se consolide, em
favor da paciente GABRIELA DOS ANJOS, a competente ordem de “habeas corpus”,
para fazer impedir o constrangimento ilegal que a mesma teme sofrer, como medida
da mais inteira Justiça, expedindo-se, imediatamente, o competente
CONTRAMANDADO DE PRISÃO, a fim de que o mandado de prisão expedido pela
Autoridade Coatora seja cancelado;
d) Entendendo ser primordial, que Vossas Excelências apliquem as
medidas cautelares que considerem necessárias;
e) A intimação pessoal do Douto Advogado para a sustentação oral, a ser
marcada em dia e hora por esta Colenda Câmara.

Nestes termos,
Espera deferimento.
Paraibuna, 28 de janeiro de 2017.

Belª Rafaela Rocha Lima


OAB/PE n° xx.xx.xx

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