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a cura
Marcello Dantas, curador de arte contemporânea e criador de museus
pelo mundo, há mais de 40 anos mantém uma relação intensa com o
Japão e, por isso, tem certeza de que as respostas para as crises – tanto
a econômica quanto a existencial – do Brasil passam pelo equilíbrio e o
cuidado com os detalhes reverenciados pela cultura japonesa

POR DENIS RUSSO BURGIERMAN


FOTO BOB WOLFENSON

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Trip. Explica o que é que você faz no seu da Capivara, é um exemplo que eu adoro,
trabalho. porque é um lugar simbólico muito for-
Com o pai, Adaury
Dantas, e a irmã, Marcello Dantas. Eu olho para o aconteci- te, que existe antes da cultura brasileira.
Claudia Dantas mento da arte sob o ponto de vista do que Antes da cultura, tinha o substrato com o
(1977) vai acontecer com o espectador. A maior qual se fez a cultura, milênios depois. Pa-
parte das pessoas olha para a origem, pa- rece uma história muito remota, mas, no
Marcello viaja tanto que, pelos seus cálculos, per- ra a intenção do artista. Eu acho que a arte fundo, é sobre hoje. Porque é um museu
corre, em média, 100 quilômetros a cada uma das não acontece até a hora em que ela chega que fala muito do que a gente conseguiu
horas do ano, de carro ou de avião. Ou seja, durante aos olhos e aos ouvidos de quem estiver do aprender, olhando para trás, sobre as mu-
nossa conversa de duas horas, ele ficou devendo 200 outro lado da linha. Então me aproximei do danças climáticas, que foram determinan-
quilômetros de deslocamento para sua contabilidade. pensamento, do olhar, da sensibilidade das tes para a história das migrações humanas,
Com tanta estrada percorrida, ele gosta de se definir pessoas, para tentar criar experiências. Po- mas que hoje estão também na pauta do
como “um terráqueo”. “ Minha identidade não cabe dem ser, sim, de arte contemporânea, que é o dia. O museu olha para a matriz do conhe-
na fronteira brasileira”, diz. que eu tento fazer, mas também de história, cimento pré-histórico, geológico, natural
Conhecedor de tantas culturas do mundo, ele es- de ciência, de identidade, de cultura, de lín- do mundo para ensinar quem fica e quem
colheu uma para se identificar: a japonesa. Em nome gua, de contato entre realidades, de aproxi- vai a cada vez que o clima muda. E tem
do conforto, seu guarda-roupas tem praticamente ape- mação. Podem ser experiências comerciais, uma afirmação forte: no momento em que
nas peças nipônicas – além de “uma coisa ou outra de marca. Tento criar um caminho para tra- o Brasil queima, perde e fecha seus mu- São mostras em que você fez mais do que
chinesa”. Os valores que ele leva para a vida e para o zer as pessoas para dentro desse universo seus, construímos um prédio novo, gran- reunir um corpo de trabalho que já esta-
O entrevistado recebeu a Trip em seu jardim vestin- trabalho também estão cheios de influências do Orien- imaginário que está criado, seja da cabeça de, poderoso, no meio do nada, para gritar va pronto e expor, não é? O meu traba-

COORDENAÇÃO GERAL ADRIANA VERANI ASSISTENTE DE PRODUÇÃO LETÍCIA PUGLIESI BELEZA JÔ CASTRO (CAPA MGT) ASSISTENTE DE FOTO GABRIEL CICCONE TRATAMENTO RG IMAGEM
do um haori – blusa larga que é uma espécie de qui- te. De feijão ele só gosta se for doce, na sobremesa. A de um artista, seja de uma temática, como que temos algo a dizer desde sempre, que lho com os artistas é muito diferente dos
mono curto. É uma criação de Yohji Yamamoto, um proximidade cultural lhe rendeu o convite do governo o Museu da Natureza, na Serra da Capivara não tem sido ouvido. Além disso, na arte curadores convencionais. Fico muito pró-
dos grandes estilistas japoneses da atualidade, que japonês para criar a primeira Japan House do mundo, (Piauí), ou o Museu da Gente, em Sergipe. contemporânea, foram muito marcantes ximo deles, na tentativa de criar algo com a
divide seu ano entre Tóquio e Paris. A casa, repleta uma espécie de embaixada cultural japonesa encrava- Quero que elas entrem naquele lugar e se as exposições do Ai Weiwei, da Patrícia obra que gere uma experiência única. Com
de natureza e arte, estava cheia de objetos nipônicos, da na ponta da avenida Paulista. sintam pertencendo. Isso é uma técnica que Piccinini [artista australiana que faz pin- o Anish, construímos um pavilhão debaixo
como um trabalho do “artista floral” Makoto Azuma, desenvolvi nos últimos 30 anos. tura, vídeo, som, instalação, impressões di- do Viaduto do Chá, onde as pessoas tinham
que cria “esculturas botânicas” contemporâneas na O que o Japão faria? gitais e esculturas] e do Anish Kapoor [um uma experiência metafísica de um tornado
velha tradição dos bonsais e ikebanas. Marcello também está preocupado. O colapso ambiental Nesse tempo todo de carreira, de que vo- dos escultores mais influentes do mundo, que subia para os céus [impulsionado por
Apesar da integração do jardim à construção, do da Terra é tema frequente de seus museus, e é também cê se orgulha especialmente? O Museu famoso pelas dimensões de sua obra e por uma turbina]. Desenvolvi tudo o que tem
cuidado minucioso com a qualidade dos materiais e assunto recorrente dele a profunda crise existencial do da Natureza, que abriu em 2018 na Serra extrapolar as paredes dos museus]. por trás daquilo: a engenharia, a política, a
do uso sutil de tecnologia, essa casa não fica no Japão Brasil. “É muito louco o país não entender que, neste forma de articular as coisas. Estou propon-
– pelo contrário, fica quase precisamente no antípoda momento histórico, o trabalho contra os artistas é um do para os artistas coisas que nem eles ti-
da Terra do Sol Nascente, do lado oposto do planeta, trabalho contra toda a nação.” nham visto no próprio trabalho. Com o Ai
No alto, com a irmã, Claudia, e um tigre amigo,
no Alto de Pinheiros, um bairro rico e arborizado de Para os dois problemas, ele propõe uma solução em 1975; abaixo, em casa, com as três filhas: Enrica, Weiwei, isso foi muito forte e resultou em
São Paulo. O anfitrião até tem os olhos ligeiramente semelhante: olhar para o Japão. Lá, ele acredita, talvez Catarina e Lara e seus computadores, em 2011 sua articulação com o Brasil, um país que
puxados, mas não por herança nipônica: são traços her- encontremos inspiração e soluções de design para uma ele não conhecia e do qual tinha só uma me-
dados dos indígenas sul-americanos. Marcello Dantas vida mais sustentável e equilibrada. Lá, também, talvez mória invertida, porque seu pai [o poeta Ai
é filho de mãe boliviana e tem antepassados também haja um fantástico parceiro, com interesse por nossa Qing, condenado a limpar banheiros após a
no Nordeste brasileiro. cultura e complementaridade com nossa economia. “O Revolução Cultural do regime de Mao Tsé-
Ele nasceu no Brasil, mas, ao longo de seus 53 anos, grande crescimento do Brasil sempre se deu pela relação Tung] tinha estado aqui nos anos 50, antes
ganhou o mundo criando museus e montando exposi- com o Japão”, diz, enquanto lamenta o erro de o país se de seu nascimento. Nesse processo, a gente
ções de arte contemporânea de alto impacto. Viveu por colocar sob a influência dos Estados Unidos, uma po- foi desvendando coisas que estavam numa
meses na China, construindo o monumental pavilhão tência agropecuária e industrial concorrente do Brasil, memória anterior, e que produziam uma co-
brasileiro na Expo de Shangai, ergueu museus icônicos cheia de interesses opostos aos nossos. nexão poética entre a sensibilidade chinesa
na Espanha, na Colômbia, na Alemanha, no centro de Para Marcello, que integra o conselho do Trip Trans- dele e a sensibilidade brasileira. O processo
São Paulo e no meio da natureza selvagem do Piauí. formadores e assina a direção artística do evento de foi de ir se livrando de tudo aquilo que era
Entre seus muitos projetos, estão também iniciativas premiação desde a primeira edição, em 2007, a saída desnecessário, para chegar ao que é essen-
que têm a capacidade de fazer dos museus algo de para esse momento difícil que vivemos pode estar bem cial: a árvore, a semente, a raiz.
apelo popular em escala, como o Museu do Futebol e debaixo dos nossos pés. No chão que pisamos, de onde
o Museu da Língua Portuguesa, ambos em São Paulo. emana uma cultura única, que floresceu na relação com Um processo que resultou no grande ar-
No caminho, conviveu intensamente com alguns dos a natureza mais exuberante do mundo. E também mais tista contemporâneo da Ásia trabalhando
mais instigantes artistas contemporâneos do mundo, embaixo ainda, do outro lado deste planeta sofrido, nos junto com artesãos de Juazeiro do Norte.
FOTO arquivo pessoal

como o chinês Ai Weiwei. Com ele, deu um mergulho aprendizados que podemos ter desse olhar para lá. “Se- Sim. Porque tem coisas que só se sabe com
no Brasil profundo, que resultou na exposição Raiz, a ria maravilhoso se o Brasil aprendesse um pouco com a mão. Algo acontece quando dois artistas
qual levou o trabalho do chinês a milhares de pessoas o Japão sobre desperdício”, diz, entre muitas outras li- se juntam. No Brasil, tem essa distinção en-
em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. ções que atribui ao contato com os japoneses. tre artista e artesão, o que não faz sentido.

14 15
páginas negras Ação com a obra Law of the Journey (Prototype B), de Ai Weiwei,
“no momento em que o Brasil quei­ no lago Ibirapuera (SP), para a abertura da mostra Raiz, em 2018;
e com Ai Weiwei, no parque Ibirapuera, no mesmo ano
ma seus museus, construímos um
prédio novo no meio do nada para
gritar que temos algo a dizer”

À esq., com Niède Guidon, no Museu


da Natureza, na Serra da Capivara,
no Piauí (2018); aqui, vista aérea
do museu

Não é assim em outros lugares? Não. No Japão, ab- A moda é uma delas. Por exemplo, o que é que vo- para o meu avô, que as trouxe para o ou- mais em paz do que o branco. Tem também Muito diferente da realidade daqui... Eu
solutamente não: é a mesma palavra. Na China tam- cê está usando agora? Hoje estou de Issey Miyake tro lado da família. Minha relação com o o silêncio: eu entrava no metrô e não havia vinha de um Brasil dos anos 80, em que
bém. Eles valorizam essa noção de que aquilo que você embaixo e Yohji Yamamoto em cima. Eu uso pratica- Japão é engraçada. O primeiro filme que nenhum barulho, ninguém falava, um lugar ser cozinheiro não tinha a menor nobreza,
faz com as mãos é uma linguagem. Você fala através mente só roupa japonesa, uma coisa ou outra chine- fiz, o primeiro dinheiro que ganhei na vi- tão cheio de gente e tão silencioso. Nesse nenhum trabalho manual desse tipo tinha
do objeto, do gesto, das mãos. E essa é a beleza desse sa. O motivo é simples: é extremamente confortável, da, veio do Japão, da NHK [rede de TV ja- silêncio, inclusive visual, você consegue ter reconhecimento. E, no Japão, um sapatei-
contato entre Ocidente e Oriente. É quando a gente se muito prático para a minha vida louca, porque estou ponesa]. Foi um documentário que dirigi uma concentração muito maior. Depois tem ro pode ser condecorado pelo imperador,
despe das camadas de cultura, dos filtros, e vai de volta sempre dormindo no avião, e saio direto para alguma ainda na faculdade [Marcello estudou ci- a comida. Lá não é nenhum privilégio co- porque é o melhor sapateiro possível. Na-
ao que é essencial. Aí conseguimos estabelecer pontes reunião. Roupas japonesas me permitem dormir com nema na Universidade de Nova York]. Era mer bem. Você vai a um 7-Eleven, come um quele momento em que fui, havia lá tam-
fabulosas, porque tudo está conectado. No fundo, as conforto e estar apresentável no dia seguinte, sem ca- um filme sobre videoarte, coloquei num sanduíche de ovo, e é uma delícia. Porque bém uma enorme criatividade, foi quando

FOTO ARQUIVO PESSOAL MUSEU DA NATUREZA JOANA FRANÇA AI WEIWEI AÉREA CAROL QUINTANILHA ARTESÃ JUAZEIRO PAULA DIBB
diferenças entre as pessoas foram todas aprendidas: ra de amassado. Acho que a radicalidade de estilo que festival, recebi uma proposta de veicula- alguém se importa que o pão esteja bom, o Japão explodiu no mundo e as pessoas
a humanidade é uma só. Esses saberes de como cada os japoneses trouxeram, com Yohji Yamamoto, Issey ção no Japão. Eles ofereceram na época que o ovo esteja bom, a umidade, correta. talentosas floresceram. Elas simbolizavam
um atua sobre a natureza, sobre o objeto, como traba- Myake e Rei Kawakubo, transformou o mundo da mo- US$ 6 mil, que era um dinheiro bom, e com- Poucas culturas cultivam com tanta serie- o renascimento do país. Eles haviam termi-
lha o fogo, a cerâmica, a porcelana, a madeira, isso tu- da num lugar muito interessante. Hoje olho para Pra- praram. Eu fiquei tão emocionado que pe- dade a importância do detalhe, do cuidado. nado a Segunda Guerra com uma bomba
do é muito rico. E vai chegando até o contemporâneo. da e Gucci e acho brega. Os japoneses desenvolvem guei o dinheiro e fui para o Japão. Foi a Não importa de que estrato da sociedade atômica na cabeça, 20 anos depois, fizeram
Porque, quando a gente usa tecnologia, computação, coisas com altíssima tecnologia, mas se baseiam num minha primeira ida, em 1989. você seja, se você se dedicar ao detalhe, to- uma olimpíada e o primeiro trem-bala do
ultrapassa a linguagem humana para falar a lingua- jeito milenar de pensar, uma sabedoria essencial, que do mundo vai te respeitar. planeta e, depois, de mais 20 anos, estavam
gem da máquina, que também é uma só no mundo to- diz respeito ao conforto. Por exemplo, olha aqui [ele E aí você nunca mais parou de ir. Nunca. no centro do mundo. O Japão apresentou
do. A língua é uma beleza, uma maravilha da cultura estende o braço na minha direção]. A manga de uma Comecei a namorar minha primeira mulher ali uma ideia de terceira via, de que era pos-
– eu celebro a língua portuguesa o tempo todo, fiz o camisa tem que ser larga, muito larga, porque isso li- lá, minha filha fez faculdade lá. E aí fiz a sível existir dentro do capitalismo com al-
museu dela, em São Paulo [o Museu da Língua Portu- bera o ar – ventila o corpo todo. A gola de uma camisa Japan House [centro cultural mantido pe- gum nível de igualdade social – tem muito
guesa será reinaugurado este ano, depois de ter sido tem que ser virada, para que ela não esfregue no gogó. lo governo japonês], em São Paulo. Agora menos milionários e menos pobres lá, 90%
destruído por um incêndio em 2015]. Mas, às vezes, ela E eles sabem que botão é uma porcaria, só serve para mesmo, eu estava em Davos [no Foro Eco- da sociedade é classe média – e com preo-
é um separador das pessoas, que nos impede de nos estourar, ficar torto, perder tempo... Acho horroroso nômico Mundial], a convite do governo ja- cupação com o meio ambiente.
Artesã de Juazeiro do Norte (CE)
conhecermos. Há muitos anos decidi que o meu tra- gola de camisa, passar roupa, engomar. ponês, para participar de uma mesa sobre a produzindo obras que integraram a
balho seria internacional, porque eu tinha essa habili- conexão da cultura japonesa com tradição exposição Raiz, de Ai Weiwei (2018)
dade, estudei diplomacia [no instituto Rio Branco, em E de onde vem essa influência da cultura japonesa e inovação. Ao longo dos anos, curei uns
Brasília]. Muito do que eu faço é traduzir, conectar o na sua vida? É uma história longa. Meu avô nasceu 50 artistas japoneses, em diferentes mos-
que está distante, buscando a essência por baixo das na Bolívia, casou com minha avó quando ela tinha 13 tras coletivas ou individuais.
diferenças superficiais. Trabalho muito estabelecen- anos, e teve 13 filhos, incluindo minha mãe, que tam-
do conexões de sensibilidade com os povos indíge- bém é boliviana. Um belo dia, minha avó descobriu O que fascinou você nessa cultura? Pri-
nas – no Xingu, por exemplo. E também conectando que ele tinha mais oito filhos com outra mulher, numa meiro, o minimalismo, que tem a ver com
com os povos asiáticos. É óbvio que a gente nunca vai outra cidade. A outra esposa dele era japonesa. Tinha a busca da essência. Sempre detestei tudo
falar mandarim ou japonês com fluência – leva tanto umas musiquinhas de infância que a gente cantava que fosse barroco, e achei fascinante aquela
tempo para ser fluente na língua que um japonês só é achando que eram músicas quéchuas bolivianas e fo- limpeza japonesa. Tem um outro dado im-
considerado alfabetizado aos 16 anos de idade. Então, mos descobrir depois que eram canções tradicionais portante, que é o fato de que sou daltônico.
a gente tem que encontrar outras portas. japonesas. A outra mulher provavelmente as ensinou Como não distingo as cores, nada me deixa

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da cultura japonesa em Davos. É interessante que


eles escolham um brasileiro para fazer isso, não é?
É, é curioso. O Japão tem uma enorme dificuldade de
falar sobre si mesmo. Para falar “eu”, eles dizem “nós”. “Tem um lado do
A expressão “watashi wa” – eu sou – significa “cidadão
japonês”. Eles têm dificuldade de ser assertivos – no Ja-
Brasil que é
pão, não se pode falar “não”. No Ocidente, se você não multicultural,
for assertivo, ninguém presta atenção. E o que eu faço
é falar sobre outros, é pegar coisas que estão fechadas mas, ao mesmo
e torná-las permeáveis. Esse é um trabalho que já fiz em tempo, é um país
outras culturas. Por exemplo, em 2003, fiz a exposição
dos 25 anos da democracia espanhola, narrada pelo rei provinciano, que
Juan Carlos, para os espanhóis. Na semana passada, tem medo do
inaugurei o Museu do Carnaval, na Colômbia [em Bar-
ranquilla], onde eu já tinha feito o Museu do Caribe, para mundo. Eu nunca
contar a história dos colombianos para os colombianos.
tive medo do
Acha que você, como brasileiro, está bem situado mundo”
para fazer esse papel? O Brasil é uma sociedade bas-
Com Ai Weiwei, Laurie Anderson e
David Byrne, em Nova York, em 2018 tante miscigenada, multicultural, com uma diversida-
de muito grande. Na minha história de vida, isso é
mais forte ainda – essa mistura de mãe boliviana, com
avô conectado com o Japão, com holandês, nordesti-
no... com todas as minhas experiências de vida, numa Você não tem medo de ofender alguém por ção com o Japão. No pós-guerra, fomos um gigante agropecuário, que compete com a
porrada de lugares. Isso me deixou muito permeável. usar roupas tradicionais japonesas? Pri- dos únicos países que toparam vender aço economia brasileira. No aspecto cultural,
Desde muito pequeno, entendi uma coisa que é um meiro, não são tradicionais, são contempo- para o Japão poder ter a sua siderurgia. O os traços deficientes da cultura brasileira
norte na minha vida: não quero ser brasileiro, quero râneas, que releem as peças tradicionais. E crescimento do Japão – a industrialização, são exatamente os mais nobres e eficien-
ser terráqueo. Minha identidade não cabe na frontei- tudo bem, que bom. Os japoneses estão fe- a infraestrutura resistente a terremotos – tes da japonesa. E o que falta à cultura ja-
ra brasileira. Não é “ Brasil acima de todos” de jeito lizes que o mundo está adotando uma tradi- se deu em grande parte com o ferro brasi- ponesa? Carnaval, música. Hoje, se você
nenhum. A pátria é abstrata, transitória, precária. Ser ção cheia de conhecimentos, cheia de valo- leiro da Vale do Rio Doce. A primeira fá- quiser ouvir bossa nova, é no Japão – só
terráqueo, sim, é uma condição que eu posso mais ou res bons. Vão dizer que não posso comer co- brica da Toyota no mundo, fora do Japão, lá tem gente nova fazendo bossa nova. A
menos aceitar e que vou ter que segurar até o final mida japonesa porque não sou japonês, que foi no Brasil. O potencial complementar complementaridade das culturas é gigan-
da vida. Não vou conseguir ser marciano. Mas quero tenho que comer arroz e feijão? Eu detesto dessas sociedades é muito mais forte do tesca, mas a gente prefere copiar o Mickey
poder abraçar toda a diversidade deste planeta, que feijão. Gosto de feijão no doce. E acho que que na relação com os Estados Unidos, um e mandar as crianças para a Disney.
Esses são todos valores, digamos, problemáticos, é o grande presente dele para a gente. Preciso poder a beleza do mundo é essa: estar permeável

FOTOs BOB WOLFENSON com ai weiwei ARQUIVO PESSOAL JAPAN HOUSE CAROL QUINTANILHA
Exposição Bambu – Histórias de
na cultura brasileira… Sim. Uma coisa que acho lin- transitar por todos esses lugares sem ser vítima das às influências. Tem um lado do Brasil que é
um Japão, curada por Marcello
da da cultura japonesa é que não existe desperdício – circunstâncias políticas, temporárias. A gente tem que multicultural, mas, ao mesmo tempo, é um Dantas, na Japan House, em São
de jeito nenhum. No Brasil, vivemos a cultura do des- entender que o mundo é um organismo e que a gente país provinciano, que tem medo do mundo. Paulo (2017)
perdício – jogamos fora nossa água, nossos recursos, vai ser influenciado por todos os vetores que afetarem Eu nunca tive medo do mundo.
desperdiçamos talentos. O Brasil foi presenteado com esse organismo. Não preciso ir à Groenlândia ver um
um excesso, mas foi também condenado ao desperdí- urso-polar boiando num iceberg: a consequência está Quando trabalha com essas culturas asiá-
cio. E o Japão, com o pouco que tem... Veja a beleza nas chuvas do mês passado. O coronavírus não preci- ticas, você pensa no efeito positivo que
de um restaurante japonês com dez lugares, com ca- sa nem chegar ao Brasil para nos afetar – ele já afetou elas podem ter sobre o Brasil? O tempo
pacidade de fazer dez refeições por dia. Se chega o 11º nossa economia. O grande alerta do século 21 é lem- todo. Seria maravilhoso se o Brasil apren-
cliente, não tem comida para ele. brar que não somos separados por fronteiras. Ficamos desse um pouco com o Japão sobre desper-
aqui falando sobre cultura japonesa, como se o Japão dício. O Brasil é vítima de uma influência
Você morou lá? A gente tinha um apartamento quan- fosse distante. Não é. O Japão está dentro daqui. A nefasta, que vem da hegemonia cultural
do a minha filha morava lá, e eu ia muito. Mas nunca maior cidade japonesa fora do Japão é esta [São Paulo]. americana, e que despreza tudo que não
fui realmente residente. vem de lá. É que nem vender a Embraer
Estamos conversando às vésperas do Carnaval, e para a Boeing: você vende uma das melho-
Fala-se muito da dificuldade de ser aceito na socieda- todo ano reaparece um debate sobre apropriação res empresas que o Brasil já fez para uma
de japonesa. Mas, quando o Japão quer mostrar sua cultural. Eu acho que as pessoas estão ficando lou- empresa que está quebrando por má enge-
cultura para o mundo, chama você para conceber o cas. Que bom que elas podem se vestir de índio, po- nharia. Economicamente, o grande cresci-
projeto da Japan House. Ou para falar da essência dem se vestir do que quiserem. mento do Brasil sempre se deu pela rela-

18 19
páginas negras Harajuku Girl, em Tóquio (2009); e com um dos
criadores dos estúdios Ghibli, Isao Takahata,
no Japão, em 2017

“Poucas culturas
cultivam com tanta
Com a filha Lara, no seriedade a importância
Mercado de Peixe de Com a filha Enrica, quando
Tsukiji, no Japão (2009) ela morava no Japão (2010) do detalhe, do cuidado”

Você está num lugar incomum nessa relação entre japonês. Quando ele ameaçou transformar isso em rea- poucas coisas podem ser tão distintas. Os não com a mesma intensidade que teve no O Japão esteve no centro do mundo nos
esses países: é um brasileiro em quem instituições lidade, levou esse golpe. E tem o sistema de justiça ja- japoneses têm horror da higiene chinesa. Ocidente e na China. No Japão, todas as anos 80, mas meio século antes era basi-
japonesas confiam para traduzir o Japão. Sem com- ponês, que é bem estranho. Tem alguma coisa errada Por outro lado, os chineses têm profundo transformações são harmonizadas com as camente ruínas, né? Não quero compa-
parar, mas tem um outro brasileiro que estava ocu- em um sistema judicial em que 99% dos acusados são desprezo pela cultura japonesa, por acharem tradições. Já a China entrou num confronto rar com o que está acontecendo agora no
pando um lugar raro no Japão, o Carlos Ghosn [ex- declarados culpados. que é uma diluição de uma essência forte com o passado, contra os próprios pais. O Brasil, não caiu nenhuma bomba atômi-
CEO da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, que hoje chinesa. Eles têm a mesma origem, vêm do Ai Weiwei fala muito sobre isso. Ele é fru- ca aqui, mas claramente estamos viven-
está foragido da Justiça, acusado de ganhar mais do Até agora falamos só sobre as coisas incríveis dessa mesmo povo, e é uma separação não muito to dessa cisão [seu pai foi perseguido pela do uma crise cultural. Parece haver uma
que as rígidas regras corporativas japonesas per- cultura, mas tem também o lado sombrio, né? Existe antiga, de mil e poucos anos. Para a história Revolução Cultural]. Por isso, me identi- vontade de jogar tudo fora e começar de
mitem]. Ele fugiu do Japão e agora está acusando a sim. Sempre fui bem tratado no Japão, mas claramente chinesa, de 9 mil anos, é um pequeno des- fico com ele – ele propõe tentar trazer de novo. Será que o Japão tem alguma lição
cultura japonesa de não tolerar a ideia de um exe- é uma sociedade fechada, que você não penetra. Sempre vio. As duas sociedades são muito compe- volta aquilo que se perdeu, porque tem um para nos ajudar? O Japão tem uma coisa
cutivo vindo de uma cultura diferente. Aquilo foi um ouço estrangeiros no Japão dizerem que você não en- titivas entre si. O grande medo do Japão é caminho lá atrás que é fabuloso e que se muito forte que é a determinação. O país
golpe mesmo. Ele, de fato, salvou a Nissan. Foi o pri- tra no clube japonês. Mas, na verdade, tenho dúvida de a ascensão da China, que de fato o superou desconectou. Hoje, todo o trabalho do ar- planeja, planeja, planeja e faz, faz, faz de ver-
meiro cara a enxergar a importância das estratégias que o clube exista. Porque os japoneses são solitários. O na economia. Morei um tempo na China, fa- tista chinês é tentar encontrar uma raiz pa- dade. Eles são concentrados, e isso é admirá-
globais para a indústria automobilística, costurando próprio casamento japonês é uma coisa muito solitária zendo o pavilhão brasileiro em Xangai [na ra uma sociedade que se desenraizou. Isso vel. É incrível a capacidade que o país teve
uma aliança entre a Nissan, a Mistubishi e a Renault. – a última coisa que o homem japonês quer fazer é vol- Expo 2010]. Enquanto no Japão eu quero fa- é muito complexo, porque os saberes que de se reerguer tão rápido, da terra arrasada
Ele é brasileiro, libanês e francês, então tem essa capa- tar para casa. Tenho diversas amigas japonesas, várias zer coisas, na China, eu tinha uma vontade permitem que a gente se revolucione, se em 1945 para a segunda potência do mundo
cidade de enxergar o mundo sob diferentes pontos de vezes saí para jantar com elas e eu era o único homem. enorme de ficar no hotel. É muita poluição, reinvente, são os saberes ancestrais. nos anos 80. O Brasil precisa tratar dessa
vista. As acusações contra ele são desproporcionais. O homem japonês é de uma outra era: ele é meio feu- muita informação, muito ruído. doença de uma eterna procrastinação pa-
Duvido que o salário dele fosse um dos maiores entre dal. Já a mulher é um projeto mais atualizado, então, ra enfrentar os problemas de fato. Não tem
executivos de corporações desse porte do mundo. Mas há um descompasso entre o mundo masculino e o fe- Tem algum episódio que, para você, mar- cabimento ainda haver problema de sanea-
ele apresentou a possibilidade de que a fusão gerasse minino. Um outro ponto é que é muito inaceitável uma que essa diferença? Nunca esqueço de uma mento aqui. Não tem nenhuma justificativa,
uma nova empresa, e que o controle não fosse mais pessoa mais jovem ser chefe de uma pessoa mais velha. entrevista que dei num programa de tele- o Brasil não é tão pobre assim.
visão na China. A primeira pergunta que
É humilhante? É. E a própria ideia de humilhação no a moça fez para mim foi: “So, how do you
Japão gera uma coisa que é o suicídio por desonra. Eu make money?”. Esse materialismo e essa
vi no Japão o caso de uma moça que pulou do 24º an- assertividade chinesas são intoleráveis no
dar porque não aguentava mais trabalhar tanto. Eles Japão. Tudo lá é cercado por certa cerimô-
trabalham loucamente, o que é estranho, porque é uma nia, educação, respeito. Tem uma coisa meio
sociedade rica. É uma loucura, um vazio. monárquica. Já a China carrega a herança
FOTOs ARQUIVO PESSOAL

da Revolução Cultural, de que, na verdade,


Você teve uma convivência muito intensa com um quanto mais grosso, mais verdadeiro vo-
chinês, o artista Ai Weiwei, de quem ficou amigo. cê é. E talvez esteja aí a maior cisão entre
Encarando um kakigori, Hoje em dia, você entende com clareza a diferença o Japão e a China. O Japão nem passou Em um hotel cápsula, em
em Tokyo (2016) entre a sensibilidade japonesa e a chinesa? É enorme, por uma revolução sexual na década de 60, Tóquio, no Japão (2018)

20 21
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“não quero ser brasi­


leiro, quero ser
terráqueo. Minha
identidade não cabe
na fronteira”

Contra a cultura e contra a natureza… Cultura é natu-


reza, essas coisas não são dissociadas. Porque a nature-
za preservada é a natureza com o potencial simbólico:
é cultura. Quando você vai a lugares do mundo que de
alguma forma te inspiram, você vai ver a relação entre
homem e espaço. E isso vale para tudo. O Japão tem
isso muito forte. A maior pergunta é se o japonês es-
tá disposto a se abrir para o mundo. O mundo ama o
Japão, está pronto para abocanhar a cultura japonesa
– mas será que o Japão quer isso? Sei de várias pes-
soas que tentaram expandir negócios do Japão para
o Brasil e não conseguiram, porque os japoneses não
conseguiam atender aquela nova escala. Não estavam
interessados também, porque havia um equilíbrio. Tem
uma coisa muito bacana no Japão: quem já ganha o
suficiente para viver não quer ganhar muito mais. Não
tem isso de que o céu é o limite, de ser multibilionário,
ter cinco aviões. O Japão não almeja isso.
Com Alex Allard e Tarsila Riso, nas obras da
Cidade Matarazzo, que abrigará, em 2021, o Para terminar, dá uma dica? Provavelmente tem
centro cultural Casa Bradesco da Criativida- pouca gente no mundo que visita tantas exposi-
de, com curadoria do Marcello Dantas ções, em todos os continentes. Qual é a exposição
ou o museu que, tendo a chance, todo mundo tem
que ver? Eu tenho alguns prediletos, mas eles sempre
Nem tão pobre assim para não conseguir alfabeti- são muito longe. O museu que mais gosto no mundo
zar a população. Sim, são coisas básicas, que a gente hoje fica na Tasmânia [ilha australiana a caminho da
procrastina por décadas. Saneamento dá base para a Antártica]. É o Museum of Old and New Art. As coi-
saúde, educação também e para todas as outras coi- sas diferentes estão fora do radar. A cidade do mundo
sas. Eu vi a Coreia do Sul, em 20 anos, passar de um mais interessante para museus é a Cidade do México.
país de terceiro mundo, a periferia da periferia, a uma Paris é boring perto do México.
potência. Inclusive, o que acho genial da Coreia é que
ela sacou o negócio. “Vamos ser uma potência indus- fotos ARQUIVO PESSOAL CIDADE MATARAZZO GABRIEL MATARAZZO
Com seu único Neto, José
trial? Sim, mas vamos ser uma potência criativa!” En- Francisco, em Nova York (2017)
tão, hoje a coisa do k-pop, do cinema coreano, dos soft-
wares, apps e games, tudo isso entrou no mainstream
do poder, no simbólico. Você conseguir fazer uma re-
volução industrial e ao mesmo tempo ocupar o lugar
do simbólico, isso, de fato, é poder. Quando o Japão
pensa num projeto de comunicação internacional, ele
está tentando ocupar esse espaço simbólico. Só ge-
rando amigos simbólicos você vai conseguir ser uma
potência. É onde a China está tendo dificuldade, por-
que a censura interna impede. É muito louco o Brasil
não entender que, neste momento histórico, o trabalho
contra os artistas é um trabalho contra toda a nação.

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