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Prefeitura de Itaboraí-RJ

Professor Docente I - Geografia

Leitura, análise e interpretação de códigos específicos de Geografia: mapas, gráficos,


tabelas, escalas........................................................................................................................ 1
Uso de escalas cartográficas e geográficas como forma de organizar e conhecer a
localização, a distribuição e a frequência dos fenômenos naturais e humanos ...................... 14
Identificação da unidade espacial: lugar, paisagem e território. Exploração e preservação
das paisagens. O local e o global - jogo de escalas. O espaço como disputa social .............. 28
Geografia e meio ambiente ................................................................................................ 36
Geografia política mundial. Características e contradições da organização sócio espacial no
século XXI .............................................................................................................................. 56
África – aspectos físicos, humanos, econômicos ............................................................... 63
Ásia – conflitos geopolíticos e econômicos ........................................................................ 70
Europa – aspectos econômicos, humanos, físicos e políticos ............................................ 79
Oceania – economia e população ...................................................................................... 83
América – população, economia, aspectos físicos e políticos ............................................ 87
O Brasil na América do sul................................................................................................. 88
As diferentes formas de regionalização do Brasil ............................................................... 99
A população brasileira ..................................................................................................... 111
Aspectos físicos do Brasil: clima, vegetação, hidrografia e relevo.................................... 119
Espaço agroindustrial brasileiro: características e transformações recentes .................... 150
Geoecologia global, clima, solo, relevo, hidrografia, vegetação e qualidade de vida da
população............................................................................................................................. 157
Espacialidades rurais e urbanas ...................................................................................... 172
Globalização e Blocos Econômicos ................................................................................. 192
Geografia física do estado do Rio de Janeiro: relevo, clima, vegetação e hidrografia.
Aspectos populacionais do estado do Rio de Janeiro. Aspectos econômicos do estado do Rio
de Janeiro ............................................................................................................................ 212
Aspectos demográficos: transição demográfica, teorias demográficas e pirâmides etárias.
Migrações internacionais e Migrações Internas no Brasil ..................................................... 218
Estrutura Geológica da Terra: a teoria das placas tectônicas e os fenômenos tectônicos ...... 234

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Leitura, análise e interpretação de códigos específicos de Geografia: mapas,
gráficos, tabelas, escalas

FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA1

Cartografia

Observe a tirinha de Calvin e Haroldo.

Na tirinha acima, Calvin e Haroldo estão nos Estados Unidos e planejam ir a Yukon, um território
localizado no noroeste do Canadá. Para ir até lá, saindo do estado de Washington, por exemplo, é
necessário atravessar toda a província canadense da Colúmbia Britânica, ou seja, cerca de 1.500
quilômetros em linha reta, e bem mais que isso indo de carro. Eles consultaram um globo terrestre para
terem uma ideia da distância e do tempo de viagem.
Será que foi uma boa opção?

Situar-se no espaço geográfico sempre foi uma preocupação dos grupos humanos. Nos primórdios,
isso acontecia em virtude da necessidade de se deslocar para encontrar abrigo e alimentos. Com o passar
do tempo, as sociedades se tornaram mais complexas e surgiram muitas outras necessidades.
Isso explica a crescente importância da Cartografia.

Segundo a Associação Cartográfica Internacional (ACI), em definição estabelecida em 1966 e


ratificada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no
mesmo ano: “A Cartografia apresenta-se como o conjunto de estudos e operações científicas, técnicas e
artísticas que, tendo por base os resultados de observações diretas ou da análise de documentação, se
voltam para a elaboração de mapas, cartas e outras formas de expressão ou representação de objetos,
elementos, fenômenos e ambientes físicos e socioeconômicos, bem como a sua utilização”.

Formas de Orientação

O ser humano sempre necessitou de referências para se orientar no espaço geográfico: um rio, um
morro, uma igreja, um edifício, à direita, à esquerda, acima, abaixo, etc.
Também por muito tempo se orientou pelo Sol e pelas estrelas. Mas, para ter referências um pouco
mais precisas, inventou os pontos cardeais e colaterais.
Observe a imagem da Rosa dos ventos.

1
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

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São pontos cardeais:
N → Norte;
E → Leste;
S → Sul;
W → Oeste

São pontos colaterais:


NE → Nordeste;
SE → Sudeste;
SW → Sudoeste;
NW → Noroeste

A Rosa dos Ventos possibilita encontrar a direção de qualquer ponto da linha do horizonte (numa
abrangência de 360º).
O nome foi criado no século XV por navegadores do mar Mediterrâneo em associação aos ventos que
impulsionavam suas embarcações.
A Rosa dos Ventos indica os pontos cardeais e colaterais e aparece no mostrador da bússola, que tem
uma agulha sempre apontando para o norte magnético. Observe a imagem.

O uso da Bússola associada à rosa dos ventos permite encontrar rumos em mapas, desde que ambos
estejam com direção norte apontada corretamente. Assim, o usuário pode encontrar os outros pontos
cardeais e colaterais, orientando-se no espaço geográfico.
A bússola foi inventada pelos chineses provavelmente no século I, porém só foi utilizada no século XIII
em embarcações venezianas. A partir do século XV, foi fundamental para orientar os marinheiros nas
Grandes Navegações.
Podemos perceber que quando uma pessoa está perdida em algum lugar, costuma-se dizer que ela
está “desnorteada”, ou seja, perdeu o norte ou “desorientada”, ou seja, perdeu o oriente.
Atualmente, com o avanço tecnológico, é muito mais preciso se orientar pelo GPS.

Orientação Pelo Sol


Um dos aspectos mais importantes para a utilização eficaz e satisfatória de um mapa diz respeito ao
sistema de orientação empregado por ele.
O verbo orientar está relacionado com a busca do Oriente, palavra de origem latina que significa
“nascente”. Assim, o “nascer” do sol, nessa posição, relaciona-se à direção (ou sentido) leste, ou seja, ao
Oriente.
Possivelmente, o emprego dessa convenção está ligado a um dos mais antigos métodos de orientação
conhecidos. Esse método se baseia em estendermos nossa mão direita (braço direito) na direção do
nascer do sol, apontando, assim, para a direção leste ou oriental; o braço esquerdo esticado,
consequentemente, se prolongará na direção oposta, oeste ou ocidental; e a nossa fronte estará voltada
para o norte, na direção setentrional ou boreal. Finalmente, as costas indicarão a direção do sul,
meridional, ou ainda, austral.
A representação dos pontos cardeais se faz por leste (E ou L); oeste (W ou O); norte (N); e sul (S). A
figura abaixo apresenta essa forma de orientação.

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ATENÇÃO!
Deve-se tomar cuidado ao fazer uso dessa maneira de representação, já que, dependendo da posição
latitudinal do observador, nem sempre o Sol estará exatamente na direção leste.

Fusos Horários

Em razão do movimento de rotação da Terra, em um mesmo momento, diferentes pontos longitudinais


da superfície do planeta têm horários diversos.
Desde que foi criada uma forma de marcar o tempo, inicialmente com o relógio de Sol, cada localidade
adotava seu próprio horário. Com a invenção do relógio mecânico e o gradativo ganho de precisão,
lugares muito próximos em termo de longitude chegavam a apresentar diferenças de minutos em seus
horários.
No século XIX, com o desenvolvimento do transporte ferroviário e o consequente aumento da
circulação de pessoas e mercadorias, essas pequenas diferenças de horários entre localidades muito
próximas começaram a causar grandes transtornos. Para resolver esse problema, em um encontro da
Sociedade Geodésica Internacional, realizado em 1883 em Roma (Itália), foi decidida a criação de um
sistema internacional de marcação do tempo.
Para isso, foram definidos os fusos horários. Dividindo-se os 360 graus da esfera terrestre pelas 24
horas de duração aproximada do movimento de rotação2, resultam 15 graus.
Portanto, a cada 15 graus que a Terra gira, passa-se uma hora, e cada uma dessas 24 divisões recebe
o nome de Fuso Horário.
Em 1824, 25 países se reuniram na Conferência Internacional do Meridiano, realizada em Washington,
capital dos Estados Unidos. Nesse encontro ficou decidido que as localidades situadas num mesmo fuso
adotariam um único horário. Foi também acordado pela maioria dos delegados dos países participantes
que o meridiano que passa por Greenwich seria a linha de referência para definir as longitudes e acertar
os relógios em todo o planeta.
Para estabelecer os fusos horários, definiu-se o seguinte procedimento: o fuso de referência se
estende de 7º30’ para leste a 7º30’ para oeste do meridiano de Greenwich, o que totaliza uma faixa de
15 graus.
Portanto, a longitude na qual termina o fuso seguinte a leste é 22º30’E (e, para o fuso correspondente
a oeste, é 22º30’W). Somando continuamente 15º a essas longitudes, obteremos os limites teóricos dos
demais fusos do planeta.
As horas mudam, uma a uma, à medida que passamos de um fuso a outro. No entanto, como as linhas
que os delimitam atravessam várias unidades político-administrativas, os países fizeram adaptação
estabelecendo, assim, os limites práticos dos fusos.
Nesses casos, os limites dos fusos coincidem com os limites políticos-administrativos, na tentativa de
manter, na medida do possível, um horário unificado num determinado território. A China, por exemplo,
apesar de ser cortada por três fusos teóricos, adotou apenas um horário (+8 h) para todo seu território.
Alguns poucos países utilizam um horário intermediário, como a Índia, que adota um fuso de +5 h 30
min em relação a Greenwich.

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O Movimento de Rotação consiste em uma volta completa da Terra em torno de seu eixo. Dura 23 horas, 56 minutos e 4 segundos.

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Observe abaixo o mapa-múndi com os fusos horários.

https://www.apolo11.com/tictoc/fuso_horario_mundial.php

Com a adoção dos limites práticos, em alguns territórios os fusos podem medir mais ou menos que os
tradicionais 15º, como se pode verificar no mapa acima.
Observe que as horas aumentam para leste e diminuem para oeste, a partir de qualquer referencial
adotado. Isso ocorre porque a Terra gira do oeste para o leste. Como o Sol nasce a leste, à medida que
nos deslocamos nessa direção, estamos indo para um local onde o Sol nasce antes e, portanto, as horas
estão “adiantadas” em relação ao local de onde partimos. Quando nos deslocamos para oeste, entretanto,
estamos nos dirigindo a um local onde o Sol nasce mais tarde e, portanto, as horas estão “atrasadas” em
relação ao nosso ponto de partida.
Além da mudança das horas, tornou-se necessário definir um meridiano para a mudança da data no
mundo. Na Conferência de 1884, ficou estabelecido que o meridiano 180º, conhecido como antimeridiano,
seria a Linha Internacional de Mudança de Data (ou simplesmente Linha de Data). Observe novamente
o mapa acima.
O fuso horário que tem essa linha como meridiano central tem uma única hora, como todos os outros,
entretanto em dois dias diferentes. A metade situada a oeste dessa linha estará sempre um dia adiante
em relação à metade a leste. Com isso, ao se atravessar a Linha de Data indo do leste para o oeste é
necessário aumentar um dia.
Por exemplo: Numa hipotética viagem de São Paulo (Brasil) para Tóquio (Japão) via Los Angeles
(Estados Unidos), um avião entrou no fuso horário da Linha de Data às 10 horas de um domingo.
Imediatamente após cruzar essa linha, ainda no mesmo fuso, continuarão sendo 10 horas, mas do dia
seguinte, uma segunda-feira.
Já na viagem de vota ocorrerá o contrário, pois essa será do oeste para o leste, e quando o avião
cruzar a Linha de Data deve-se diminuir um dia.
Esse exemplo pode causar certa estranheza, já que estamos acostumados a observar, no planisfério
centrado em Greenwich, o Japão situado a leste, mas como o planeta é esférico, podemos ir a esse país
voando para o oeste.
Como observamos no mapa de fusos horários, a partir do meridiano de Greenwich, as horas vão
aumentando para o leste e diminuindo para o oeste. Entretanto, diferentemente do que muitas vezes se
pensa, ao atravessar a Linha de Data indo para o leste deve-se diminuir um dia e, ao contrário, indo para
o oeste, aumentar um dia.
Assim como os meridianos que definem os fusos horários civis, a Linha Internacional de Mudança de
Data também adota limites práticos, caso contrário alguns países-arquipélago do Pacífico, como Kiribati,
teriam dois dias diferentes em seus territórios. Na metade do fuso localizada a leste da Linha Internacional
de Mudança de Data é domingo e na metade a oeste, segunda-feira.

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Perceba que a referência aqui considerada foi a Linha de Data, assim a metade do fuso situada a leste
dela está a oeste em relação a Greenwich (portanto, no hemisfério ocidental), e a outra metade, situada
a oeste dela, está a leste do meridiano principal (no hemisfério oriental).

Lembre-se!
A definição dos pontos cardeais (e colaterais) depende sempre de um referencial.

Fusos Horários Brasileiros


No Brasil, até 1913 as cidades tinham sua própria hora. Por exemplo, segundo o Observatório
Nacional, “quando na Capital Federal, atual cidade do Rio de Janeiro, eram 12 horas, em Recife eram 12
h 33” e em Porto Alegre eram 11 h 28”.
Com o desenvolvimento dos transportes isso começou a provocar muita confusão, tornando-se
necessária a adoção de fusos horários.
Em 18 de junho de 1913, o então presidente Hermes da Fonseca sancionou um Decreto (nº 2.784)
criando quatro fusos horários no país, situação que perduro até 2008.
Apesar da adoção do fuso horário prático, dois estados brasileiros extensos, Pará e Amazonas,
permaneceram “cortados ao meio”.
Em 24 de abril de 2008, foi aprovada uma lei (nº 11.662) que eliminou o antigo fuso de -5 horas em
relação a Greenwich e reduziu a quantidade de fusos horários brasileiros para três.
O sudoeste do estado do Amazonas e todo o estado do Acre, que antes estavam no fuso -5 horas,
foram incorporados ao fuso -4 horas. O estado do Pará deixou de ter dois fusos horários e seu território
ficou inteiramente no fuso de -3 horas em relação a Greenwich.
No entanto, grande parte da população do Acre não ficou satisfeita com essa mudança, pois causava
transtornos em seu dia a dia. Por exemplo: de manhã, muitos estudantes e trabalhadores saíam de casa
com o céu ainda escuro. Por isso, num plebiscito realizado em 31 de outubro de 2010, mesmo dia em
que se voltou para presidente da República, a maioria da população decidiu pela volta do antigo fuso.
O eleitor acriano respondeu à seguinte pergunta: “Você é a favor da recente alteração do horário legal
promovida em se estado? ” Do total de eleitores, 56,9% responderam não, e com isso abriu-se a
possibilidade de tramitação de uma nova lei no Congresso Nacional, regulamentando o desejo da maioria
a população do Acre. Em 30 de outubro de 2013, foi aprovada a Lei nº 12.876, que revogou a legislação
de 2008 e reintroduziu o fuso -5 horas (essa mudança entrou em vigor em 10 de novembro de 2013).
Observe o mapa abaixo.

Fusos Horários do Brasil3

3
http://www.horalegalbrasil.mct.on.br/Fusbr.htm

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Podemos observar no mapa que o estado do Acre e o sudoeste do estado do Amazonas voltaram a
fazer parte do quarto fuso brasileiro ( -5 horas em relação a Greenwich e -2 horas em relação ao horário
de Brasília, diferença que aumentava para 3 horas quando o horário de verão estava em vigor).

ATENÇÃO!

O atual presidente Jair Bolsonaro assinou, no dia 25 de Abril de 2019, o Decreto que acaba com o
horário de verão no Brasil. A justificativa foi que o fim do período aumentaria a produtividade do
trabalhador4.

No mapa pode-se observar que não houve mudança com o estado do Pará, que permanece
inteiramente no segundo fuso brasileiro (UTC5 -3 horas).
Quando o horário de verão ainda estava em vigência, a hora oficial do país se igualava ao horário do
nosso primeiro fuso, e o horário dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que estão no terceiro
fuso, igualava-se ao horário do Pará e dos estados da região Nordeste, localizados no segundo fuso.
O fuso UTC – 2 horas (em relação a Greenwich) é exclusivo de ilha oceânicas. O fuso UTC – 3 horas
corresponde ao horário de Brasília, a Hora Oficial do Brasil. O limite entre os fusos UTC -4 e -5 é uma
linha imaginária que se alonga do município de Tabatinga, no estado do Amazonas, até o município de
Porto Acre, no estado do Acre.

Questões

01. (UFF – Técnico de Laboratório – Geografia – UFF) A bússola é um instrumento de orientação.


É formada por uma agulha imantada que se apoia num eixo vertical. Essa agulha gira sobre um fundo
onde estão indicados os pontos de orientação. A ponta da agulha da bússola indica, aproximadamente,
a direção:
(A) sul;
(B) leste;
(C) norte;
(D) oeste;
(E) sudeste.

02. (SEDUC/RJ – Professor Docente I – CEPERJ) Se os alunos observarem diariamente o nascer e


o pôr do sol, perceberão a regularidade dos pontos de nascente e poente. Ficará fácil a determinação dos
pontos cardeais usando a seguinte convenção:
(A) O Norte é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Leste com
a mão direita e o Oeste com a mão esquerda, ficando o Sul às suas costas.
(B) O Sul é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Leste com a
mão direita e o Oeste com a mão esquerda, ficando o Norte às suas costas.
(C) O Norte é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Oeste com
a mão direita e o Leste com a mão esquerda, ficando o Norte às suas costas.
(D) O Leste é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Sul com a
mão direita e o Norte com a mão esquerda, ficando o Oeste às suas costas
(E) O Oeste é definido como o ponto à frente de quem, com os braços estendidos, aponta o Norte com
a mão direita e o Sul com a mão esquerda, ficando o Leste às suas costas.

03. (IBGE – Técnico em Informações de Geografia e Estatística – CESGRANRIO) No espaço aéreo


brasileiro, uma aeronave se desloca, em linha reta, de Palmas, no Tocantins, para Brasília, no Distrito
Federal.
De acordo com os pontos cardeais, essa aeronave descreve uma trajetória no sentido
(A) sul – norte
(B) leste – oeste
(C) norte – sul
(D) nordeste – sudoeste
(E) sudoeste – nordeste

4
https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/04/25/bolsonaro-assina-decreto-que-acaba-com-o-horario-de-verao.ghtml
5
Sigla em inglês para Tempo Universal Coordenado, que é definido com base em relógios atômicos muito precisos. O fuso do meridiano de Greenwich é UTC 0.

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04. (IBGE – Agente de Pesquisas e Mapeamento – CESGRANRIO) Um avião de pequeno porte se
desloca, em linha reta, do aeroporto internacional de Brasília, no Distrito Federal, em direção a Belém,
capital do estado do Pará.
Considerando a margem de diferença de menos de 1° de longitude entre essas duas cidades e os
pontos cardeais, a aeronave se deslocou no sentido
(A) Norte – Sul
(B) Sudeste – Nordeste
(C) Norte – Sudeste
(D) Sul – Norte
(E) Norte – Nordeste

Gabarito

01.C / 02.A / 03.C / 04.D

Comentários

01. Resposta: C
A agulha imantada da bússola aponta sempre para o norte magnético.

02. Resposta: A
Ao estendermos nossa mão direita (braço direito) na direção do nascer do sol, apontando, assim, para
a direção leste ou oriental; o braço esquerdo esticado, consequentemente, se prolongará na direção
oposta, oeste ou ocidental; e a nossa fronte estará voltada para o norte, na direção setentrional ou boreal.
Finalmente, as costas indicarão a direção do sul, meridional, ou ainda, austral. Observe a imagem:

03. Resposta: C
Para responder essa questão, deve-se ter em mente a localização de Palmas e Brasília no mapa do
Brasil. Observando o mapa, verifica-se que Palmas localiza-se ao norte de Brasília.
O avião sai de Tocantins (cima) que fica ao norte de Brasília (baixo), portanto a rota do avião que sai
do Norte é em direção ao sul de Tocantins, onde fica Brasília; assim, letra C - norte – sul.

04. Resposta: D
Para responder essa questão, é preciso ter em mente a localização de Brasília e de Belém no mapa
do Brasil. Levando em conta a margem de diferença de menos de 1º de longitude permitida pelo
examinador, percebe-se que Belém se encontra quase acima de Brasília. Nesse sentido, o deslocamento
de um avião de Brasília para Belém iria seguir o trajeto Sul para o Norte. Portanto, a letra correta é a D.

ANAMORFOSE6

Leitura de Mapas

Todo mapa “responde” a certas perguntas sobre os elementos nele representados. A primeira pergunta
que geralmente fazemos ao observar um mapa é: “onde se localiza determinado fenômeno?” Para
responder tal indagação o mapa apresenta uma rede de coordenadas.
A segunda pergunta é: “qual é o tamanho do fenômeno representado?” Para isso toda representação
cartográfica tem uma escala.

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SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

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Os mapas podem, entretanto, mostrar mais do que a localização dos fenômenos e sua proporção.
Podem mostrar diversos aspectos da existência humana na vida em sociedade, assim como variados
aspectos da natureza.
Podem representar, em diferentes escalas geográficas, os fenômenos sociais e naturais em sua
diversidade:
Qualitativa – responde à pergunta “o quê”? e representa os diferentes elementos cartografados –
cidades, rios, indústrias, climas, cultivos, etc., em diversos tipos de mapas;
Quantitativa – elucida a dúvida sobre “quanto”? e indica, por exemplo, a população urbana e o
tamanho das cidades, o total da produção industrial, entre outros aspectos, permitindo a comparação
entre territórios diferentes;
De Classificação – registra a ordenação e a hierarquização de um fenômeno num determinado
território, por exemplo, a ordem das cidades no mapa da hierarquia urbana brasileira ou a rodem de
altitudes no mapa hipsométrico7;
Dinâmica – mostra a variação de um fenômeno ao longo do tempo e sua movimentação no espaço
geográfico: o fluxo de população no território brasileiro, o fluxo de mercadorias no comércio internacional,
entre outros.

Diferenças entre os Mapas

Em função de seu uso e de outros aspectos técnicos, os mapas apresentam algumas diferenças entre
si:

Mapa básico – é sempre desenhado a partir de um preciso levantamento do local a ser cartografado.
Usa uma escala pequena, representando grandes partes da superfície terrestre, com poucos detalhes.
Quase sempre apresenta limites políticos-administrativos. Normalmente é usado para representar uma
parte do mundo ou até mesmo todo ele; é o caso do chamado mapa-múndi.
Os mapas de pequena escala não apresentam muitos detalhes, servindo para dar uma noção geral
sobre diferentes aspectos de grandes porções da superfície terrestre.

Carta – é um mapa com escala grande, ou seja, mostra detalhes do local representado. É ideal para
mostrar locais pequenos, geralmente partes de uma região ou cidade. Raramente apresenta limites
político-administrativos entre países.
Os mapas de grande escala são ideais para representar espaços pequenos, mostrando detalhes do
espaço geográfico. Quando apresenta muitos detalhes, um mapa desse tipo pode também ser chamado
de planta.

Mapa temático – é amplamente utilizado na Geografia moderna e na divulgação de informações de


outras ciências, em especial por meio da mídia. Por meio de símbolos quantitativos e qualitativos, o
fenômeno a ser representado é mostrado em sua distribuição espacial.

Quaisquer que sejam os tipos de mapas, todos eles têm dois problemas para resolver: como reduzir
proporcionalmente o que será representado e como representar num espaço geométrico plano o que é,
na realidade curvo?
Na realização dessas tarefas, especialmente da segunda, ocorrem inevitáveis distorções. Essas
dificuldades técnicas, são parcialmente solucionadas por meio de:

Escalas, que estudam o problema da dimensão do local a ser representado, ou seja, realizam uma
relação matemática entre as dimensões reais do objeto a ser cartografado e as medidas do mapa a ser
criado;

Projeções, que estudam o problema da forma, já que todas as áreas terrestres que ultrapassam 100
quilômetros de extensão exigem que se leve em conta a curvatura do planeta.

7
Hipsometria é uma técnica de representação da elevação de um terreno através das cores.

8
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Mapa Temático

As duas formas mais comuns de mapa temático são:

Cartograma – é uma representação cujo objetivo maior é mostrar informações sobre a distribuição
espacial do objeto de estudo. É geralmente baseado em mapas bastante precisos, nos quais se lançam
as informações cujo comportamento espacial queremos conhecer. O interesse maior do cartograma é o
conteúdo, ou seja, as informações que ele apresenta sobre uma população, uso do solo agrícola,
distribuição espacial da indústria, etc.;

Anamorfose – é um mapa no qual as superfícies reais (geralmente países ou estados e regiões de


um país) sofrem uma distorção para se tornarem proporcionais à variável que está sendo representada.

A cartografia temática facilita o planejamento de intervenções realizadas pelo poder público e por
empresas privadas, porque auxilia a compreender a organização dos fenômenos socioespaciais. É
importante lembrar que esses fenômenos estão interligados; logo, a intervenção num aspecto da
realidade interfere em outros. Por exemplo: O município de Caraguatatuba, localizado no litoral do estado
de São Paulo, tem parte de seu território na planície litorânea e parte na encosta da serra do Mar, onde
estão as áreas com maior risco de escorregamento e que, por isso, não devem ser ocupadas. O mapa
abaixo demonstra o perigo da ocupação dessas encostas íngremes.

Caraguatatuba (SP): Áreas suscetíveis a escorregamento8

Vejamos agora alguns exemplos de mapas temáticos, nos quais podemos observar fenômenos
geográficos representados por pontos, linhas e áreas, que podem se materializar cartograficamente de
forma qualitativa, quantidade e ordenada.

8
MARCELINO, Emerson Vieira. Mapeamento de áreas suscetíveis a escorregamento no município de Caraguatatuba (SP) usando técnicas de sensoriamento
remoto. Dissertação de Mestrado do Curso de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto. São José dos Campos: INPE, 2004, p.178.

9
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https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

Construído sobre uma base cartográfica que mostra os limites políticos da América do Sul, o mapa
acima evidencia os recursos minerais e energéticos dos países sul-americanos, indicando sua
diversidade e distribuição (fenômeno qualitativo), além do tamanho relativo das reservas (fenômeno
quantitativo).
Para representar fenômenos pontuais como esses, o mais adequado é utilizar símbolos com formas,
cores e tamanhos diferentes. Cidades, indústrias, portos, aeroportos, hidrelétricas, etc., são outros
exemplos de fenômenos pontuais.
Vale relembrar, entretanto, que, dependendo da escala, um fenômeno pontual pode virar zonal (área).
Por exemplo, num mapa de escala pequena, como o acima, uma cidade é um ponto; mas numa planta
de escala grande, a mesma cidade será representada como uma área.
Observe que no mapa também estão cartografadas as principais regiões industriais da América do
Sul, um fenômeno zonal. Nesta escala não é possível visualizar regiões industriais menores, como
Salvador (BA), Zona Franca de Manaus (AM), Serra Gaúcha (RS), Lima (Peru), etc.

Quanto aos fenômenos lineares, vamos observar o mapa abaixo.

https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

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Para cartografar fenômenos lineares como tipos diferentes de ferrovias (fenômeno qualitativo),
mostrados no mapa da França acima, utilizam-se linhas diferenciadas por cores. Mas como o mapa
mostra esse tema de forma proporcional (fenômeno quantitativo), essas linhas têm larguras e tonalidades
diferentes, expressando maior ou menor volume de passageiros e mercadorias transportados por dia.
Rodovias, hidrovias, oleodutos, redes de alta-tensão, etc., são outros exemplos de fenômenos lineares.
Observe que nesse mapa também estão cartografados fenômenos pontuais proporcionais: Paris, o
maior entroncamento ferroviário do país, Lyon, Bordeaux e outras cidades francesas.

Passemos para análise de outro mapa.

https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

O mapa acima registra a densidade demográfica da América do Sul, um fenômeno zonal que foi
ordenado pelas diferentes faixas de quantidade de pessoas por km², cuja distribuição foi destacada com
o uso de cores, as áreas são pintadas de modo que se estabeleça uma hierarquia entre as cores (da mais
clara para a mais escura, à medida que aumenta a densidade.
Formações vegetais, tipos climáticos, compartimentação do relevo, cultivos agrícolas, reservas
indígenas, etc., são outros exemplos de fenômenos zonais.
No entanto, há outros fenômenos zonais que também aparecem registrados em mapas por meio de
cores, sem que haja hierarquia entre elas.
As cidades ou regiões metropolitanas podem ser representadas por pontos simples (fenômeno
qualitativo), se o que se pretende é apenas localizá-las no espaço geográfico. Também podemos destacar
o tamanho de suas populações (fenômeno quantitativo), como foi feito no mapa acima, ou enfatizar a
relação hierárquica entre elas (fenômeno ordenado).
Veja que o mapa acima também registra um fenômeno pontual proporcional: as maiores aglomerações
urbanas da América do Sul.
A relação hierárquica entre as cidades, como demonstrará o próximo mapa, pode ser estabelecida
com base em diversos critérios: tamanho da população, infraestrutura de comércio e serviços, influência
na rede urbana nacional ou mundial, etc.

11
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https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

Também é possível representar cartograficamente fenômenos dinâmicos no espaço e no tempo.


Por exemplo, pode-se mostrar o grau de destruição da mata Atlântica desde o começo da ocupação
do território brasileiro ou a movimentação da população desde o início do processo de industrialização do
país.
Os mais conhecidos exemplos de mapas que representam fenômenos dinâmicos são aqueles que
mostram a circulação de pessoas ou mercadorias em diversas escalas geográficas.
Como vimos anteriormente, além das direções, podem ser registradas as quantidades proporcionais
desses fluxos, utilizando para isso diferentes larguras de linhas ou setas. Observe, no mapa abaixo, as
principais rotas aéreas internacionais.

https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

Observe que este mapa registra os maiores aeroportos do mundo em número de passageiros, em
2009, e o número de voos internacionais por ano. Nele observamos elementos lineares proporcionais.

12
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Anamorfose

Há um tipo particular de mapa temático em que as áreas dos países são mostradas em tamanhos
proporcionais à importância de sua participação no fenômeno representado. Esse tipo de “mapa” – de
fato, um cartograma – é chamado de anamorfose geográfica. Veja um exemplo a seguir.

https://geojurista.files.wordpress.com/2014/05/apostila_modulo_1_cartografia_tematica_para_08_06_2015.pdf

Na anamorfose, os elementos representados não aparecem em escala cartográfica e não há fidelidade


nas formas territoriais. Em contrapartida, é mais fácil perceber o peso da participação de cada país no
fenômeno representado, pois essa participação é proporcional ao tamanho mostrado.

Questões

01. (IFB – Professor de Geografia – IFB/2017) Tipo particular de mapa temático em que as áreas
dos territórios são mostradas em tamanhos proporcionais à importância de sua participação no fenômeno
representado.
O referido mapa temático é:
(A) Qualitativo
(B) Pontual
(C) Linear
(D) Anamorfose
(E) Dinâmico

02. (PGE/MT – Analista – FCC) A representação cartográfica que associa a forma ao evento
representado denomina-se
(A) Cartografia sistemática
(B) Topocartografia
(C) Geocartografia

13
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(D) Anamorfose cartográfica
(E) Projeção cenográfica

Gabarito

01.D / 02.D

Comentários

01. Resposta: D
Anamorfose é um mapa no qual as superfícies reais (geralmente países ou estados e regiões de um
país) sofrem uma distorção para se tornarem proporcionais à variável que está sendo representada.

02. Resposta: D
Há um tipo particular de mapa temático em que as áreas dos países são mostradas em tamanhos
proporcionais à importância de sua participação no fenômeno representado. Esse tipo de “mapa” – de
fato, um cartograma – é chamado de anamorfose geográfica.

Uso de escalas cartográficas e geográficas como forma de organizar e conhecer


a localização, a distribuição e a frequência dos fenômenos naturais e humanos

COORDENADAS GEOGRÁFICAS9

As coordenadas nos auxiliam na localização precisa de elementos no espaço geográfico. Elas podem
ser geográficas ou alfanuméricas10

Coordenadas Geográficas

O globo terrestre pode ser dividido por uma rede de linhas imaginárias que permitem localizar
qualquer ponto em sua superfície. Essas linhas determinam dois tipos de coordenada: a latitude e a
longitude, que em conjunto são chamadas de coordenadas geográficas. Num plano cartesiano
matemático, a localização de um ponto é determinada pelo cruzamento das coordenadas x e y. Numa
esfera, o processo é semelhante, mas as coordenadas são medidas em graus.
As coordenadas geográficas funcionam como “endereços” de qualquer localidade do planeta. O
equador corresponde ao círculo máximo da esfera, traçado num plano perpendicular ao eixo terrestre, e
determina a divisão do globo em dois hemisférios (do grego hemi, “metade”, e sphaera, “esfera”): o norte
e o sul. A partir do equador, podemos traçar círculos paralelos que, à medida que se afastam para o norte
ou para o sul, diminuem de diâmetro. A latitude é a distância em graus desses círculos, chamados
paralelos, em relação ao equador, e varia de 0º a 90º tanto para o norte (N) quanto para o sul (S).
O trópico de Câncer e o trópico de Capricórnio são linhas imaginárias situadas à latitude aproximada
de 23º N e de 23º S, respectivamente. Os círculos polares também são linhas imaginárias, situadas à
latitude aproximada de 66º N e de 66ºS.

9
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.
10
As coordenadas alfanuméricas são utilizadas para localizar algo em um mapa ou em uma planta. Elas não são tão precisas como as coordenadas geográficas,
mas auxiliam na localização de elementos da paisagem, como uma rua, uma praça, um teatro, uma estação de trem ou ônibus, na planta de uma cidade.

14
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https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/latitudes-longitudes.htm

Conhecer apenas a latitude de um ponto, porém, não é suficiente para localiza-lo. Ao procurar-se, por
exemplo, um ponto a 20º ao sul do equador, se encontrará não apenas um, mas inúmeros pontos situados
ao longo do paralelo 20ºS. Por isso, é necessária uma segunda coordenada que permita-se localizar um
determinado ponto.
Para determinar a segunda coordenada, a longitude, foram traçadas linhas que cruzam os paralelos
perpendicularmente. Essas linhas, que também cruzam o equador, são denominadas meridianos (do
latim meridiánus, “de meio-dia, relativo ao meio-dia”). Os meridianos são semicircunferências que têm o
mesmo tamanho e convergem para os polos.
Como referência, convencionou-se internacionalmente adotar como meridiano 0º o que passa pelo
Observatório Real de Greenwich, nas proximidades de Londres (Inglaterra), e o meridiano oposto, a 180º,
foi chamado de “antimeridiano”.
Esses meridianos dividem a Terra em dois hemisférios: ocidental, a oeste de Greenwich, e oriental, a
leste. Assim, os demais meridianos podem ser identificados por sua distância, medida em graus, ao
meridiano de Greenwich. Essa distância é a longitude e varia e 0º a 180º tanto para leste (E) quanto para
oeste (W).

Grade de paralelos e meridianos (coordenadas geográficas)11

Se procurarmos, por exemplo, um ponto de coordenadas 51ºN e 0º, será fácil encontrá-lo: estará no
cruzamento do paralelo 51ºN com o meridiano 0º. Consultando um mapa, verificaremos que este ponto
está muito próximo do Observatório de Greenwich, na Inglaterra.
Para localizar com exatidão um ponto no território, indicam-se as medidas em graus (º), minutos (’) e
segundos (’’). As coordenadas geográficas do Observatório de Greenwich, por exemplo, são 51º28’38’’N
e 0º00’00”. Perceba que sem a latitude é possível identificarmos o meridiano de Greenwich, mas não o
observatório inglês que foi utilizado como referência para a definição do meridiano zero.

11
https://escolakids.uol.com.br/geografia/paralelos-e-meridianos.htm

15
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Movimentos da Terra e Estações do Ano

Não se sabe exatamente quando o ser humano descobriu que a Terra é esférica, mas sabe-se que
Eratóstenes (276 a.C. – 194 a.C.), astrônomo e matemático grego, foi o primeiro a calcular, há mais de
2 mil anos, com precisão, a circunferência do planeta. A diferença entre a circunferência calculada por
Eratóstenes (40.000 quilômetros) e a determinada hoje, com o auxílio de métodos muito mais precisos
(40.075 quilômetros, no equador), como se vê, é bem pequena.
A esfericidade do planeta é responsável pela existência das diferentes zonas climáticas (polares,
temperadas e tropicais), pois os raios solares atingem a Terra com diferentes inclinações e intensidades.
Próximo ao equador, os raios solares incidem perpendicularmente sobre a superfície, porém, quanto mais
nos afastamos dessa linha, mais inclinada é essa incidência. Consequentemente, a mesma quantidade
de energia se distribui por uma área cada vez maior, diminuindo, portanto, sua intensidade. Esse fato
torna as temperaturas progressivamente mais baixas à medida que nos aproximamos dos polos.
O eixo da Terra é inclinado em relação ao plano de sua órbita ao redor do Sol (movimento de
translação). Uma consequência desse fato é a ocorrência das estações do ano.
Em 21 ou 22 de dezembro (a data e a hora de início das estações variam de um ano para outro), o
hemisfério sul recebe os raios solares perpendicularmente ao trópico de Capricórnio; dizemos, então, que
está ocorrendo o solstício de verão.
O solstício (do latim solstitium, “Sol estacionário”) define o momento do ano em que os raios solares
incidem perpendicularmente ao trópico de Capricórnio, dando início ao verão no hemisfério sul. Depois
de incidir nessa posição, parecendo estacionar por um momento, o Sol inicia seu movimento aparente
em direção ao norte. Esse mesmo instante marca o solstício de inverno no hemisfério norte, onde os
raios estão incidindo com inclinação máxima.
Seis meses mais tarde, em 20 ou 21 de junho, quando metade do movimento de translação já se
completou, as posições se invertem: o trópico de Câncer passa a receber os raios solares
perpendicularmente (solstício de verão), dando início ao verão no hemisfério norte e ao inverno no
hemisfério sul.
Em 20 ou 21 de março e em 22 ou 23 de setembro, os raios solares incidem sobre a superfície terrestre
perpendicularmente ao equador. Dizemos então que estão ocorrendo os equinócios (do latim
aequinoctium, “igualdade dos dias e das noites”), ou seja, os hemisférios estão iluminados por igual. No
mês de março iniciam-se o outono no hemisfério sul e a primavera no hemisfério norte; no mês de
setembro, o inverso (primavera no sul e outono no norte).
O dia e a hora do início dos solstícios e dos equinócios mudam de um ano para outro;
consequentemente, a duração de cada estação também varia.
Em virtude da inclinação do eixo terrestre, os raios solares só incidem perpendicularmente em pontos
localizados entre os trópicos (a chamada zona tropical), que, por isso, apresentam temperaturas mais
elevadas. Nas zonas temperadas (entre os trópicos e os círculos polares) e nas zonas polares, o Sol
nunca fica a pino, porque os raios sempre incidem obliquamente.
Outra consequência da inclinação, associada ao movimento de rotação da Terra, é a duração
desigual do dia e da noite ao longo do ano. Nos dois dias de equinócio, quando os raios solares incidem
perpendicularmente ao equador, o dia e a noite têm 12 horas de duração em todo o planeta, com exceção
dos polos, que têm 24 horas de crepúsculo12.
Quando é dia de solstício de verão em um hemisfério, ocorrem o dia mais longo e a noite mais curta
do ano nessa metade da Terra; no mesmo momento, no outro hemisfério, sob o solstício de inverno,
acontecem a noite mais longa e o dia mais curto.
No equador não há variação no fotoperíodo13, mas à medida que nos afastamos dele, essa diferença
aparece. Conforme aumenta a latitude, tanto para o norte como para o sul, os dias ficam mais longos no
verão e mais curtos no inverno.

Representações Cartográficas, Escalas e Projeções

Para localizar um determinado lugar é importante utilizar a representação e a escala mais adequadas.
Por exemplo, para encontrar uma rota de viagem por terra, o ideal é utilizar um mapa rodoviário, e não o
mapa-múndi ou o globo, como fizeram Calvin e Haroldo no quadrinho acima.
O globo terrestre é feito numa escala muito pequena, ou seja, os elementos representados nele são
muito reduzidos. Por isso, o lugar para onde Calvin e Haroldo pretendiam ir lhes pareceu perto.

12
Crepúsculo é a claridade no céu entre o fim da noite e o nascer do sol ou entre o pôr do sol e a chegada da noite.
13
Fotoperíodo é o período em que um ponto qualquer da superfície terrestre fica exposto à incidência dos raios solares.

16
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Imagine quantas vezes o planeta Terra e os elementos sociais e naturais que o compõem foram
reduzidos para caber num globo como o que eles consultaram ou num planisfério do tamanho de uma
folha. O uso da escala adequada é fundamental para a localização exata do local procurado.
O globo terrestre, embora mantenha as características do planeta em termos de formas e distâncias,
tem utilização prática reduzida: é difícil transportá-lo em viagens ou fazer medidas em sua superfície. Por
isso, os cartógrafos inventaram projeções que permitem representar o planeta esférico numa superfície
plana.
O problema é que qualquer projeção provoca algum tipo de distorção. Por que isso ocorre?
Em um planeta esférico em movimento no espaço sideral não existe acima nem abaixo. No entanto, a
maioria dos mapas impressos apresenta o norte na parte de “cima” da representação.
Por que quase sempre vemos o hemisfério norte em destaque nos mapas? Podemos, em vez disso,
mostrar o hemisfério sul em destaque? Ou mesmo o leste ou o oeste? Vejamos abaixo.

Representação Cartográfica

Evolução Tecnológica
A observação da paisagem é o primeiro procedimento para a compreensão do espaço geográfico,
seguido do registro do que foi observado, daí a importância do mapa.
Em um mapa, os elementos que compõem o espaço geográfico são representados por pontos, linhas,
texturas, cores e textos, ou seja, são usados símbolos próprios da Cartografia. Diante da complexidade
do espaço geográfico, algumas informações são sempre priorizadas em detrimento de outras. Seria
impossível representar todos os elementos, físicos, econômicos, humanos e políticos, num único mapa.
Seu objetivo fundamental é permitir o registro e a localização dos elementos cartografados e facilitar a
orientação no espaço geográfico. Portanto, qualquer mapa será sempre uma simplificação da realidade
para atender ao interesse do usuário.
Além das coordenadas geográficas ou alfanuméricas (localização) e da indicação dos pontos
cardeais (orientação) um mapa precisa ter:
→ Título: informa os fenômenos representados;
→ Legenda: mostra o significado dos símbolos utilizados;
→ Escala: indica a proporção entre a representação e a realidade, e permite calcular as distâncias no
terreno com base em medidas feitas no mapa.
O mapa é uma das mais antigas formas gráficas de comunicação, precedendo mesmo a própria
escrita. Os primeiros mapas foram esculpidos em pedra ou argila. O mais antigo que se tem registro é o
mapa de Ga-Sur. Ele foi encontrado em 1930 nas ruínas dessa cidade, situada a cerca de 300 quilômetros
ao norte da antiga Babilônia. Ele é um esboço rústico esculpido num pedaço de argila cozida. Estima-se
que esse mapa tenha sido feito por volta de 2500 a.C. na Mesopotâmia, pelos sumérios. Observe abaixo
esse mapa e uma interpretação dele.

http://www.servicemap.com.br/historia-da-cartografia.php

Com o tempo, os mapas passaram a ser desenhados em tecido, couro, pergaminho ou papiro. Com a
invenção da imprensa, começaram a ser gravados em originais de pedra ou metal e, em seguida,

17
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
impressos em papel. Hoje, são processados em computador e podem ser analisados diretamente na tela
digital.
O aprimoramento dos satélites e dos computadores permitiu grandes avanços nas técnicas de coleta,
processamento, armazenamento e representação de informações da superfície terrestre, causando
grande impacto nos processos de elaboração de mapas e nos conceitos de Cartografia.

Tipos de Produtos Cartográficos


Os mapas podem ser classificados em topográficos (ou de base) e temáticos. Num mapa
topográfico, representa-se a superfície terrestre o mais próximo possível da realidade, dentro das
limitações impostas pela escala pequena. Na carta topográfica, feita em escala média ou grande, há
mais precisão entre a representação e a realidade.
Na carta topográfica, as variáveis da superfície da Terra são representadas com maior grau de
detalhamento e a localização é mais precisa. Isso torna possível identificar a posição planimétrica, que
é a representação de fenômenos geográficos no plano, na horizontal, e a altimétrica, que é a
representação vertical, altitude do relevo, de alguns elementos visíveis do espaço. Mapas e cartas
topográficas são resultantes de levantamentos sistemáticos14 feitos por órgãos governamentais ou
empresas privadas. Os mapas topográficos servem de base para os mapas temáticos.
Um mapa temático contém informações selecionadas sobre determinado fenômeno ou tema do
espaço geográfico: naturais, como geologia, relevo, vegetação, clima, etc., ou sociais, como população,
agricultura, indústrias, urbanização, etc.
Nesse tipo de mapa, a precisão planimétrica ou altimétrica tem importância menor, as representações
quantitativa e qualitativa dos temas selecionados são mais relevantes.

Escala e Representação Cartográfica

Inicialmente é importante fazer uma distinção entre escala geográfica e escala cartográfica. A
primeira define a escala da análise geográfica, o recorte espacial, ou seja, local, regional, nacional ou
mundial.
A segunda define a escala de representação, ou seja, indica a relação entre o tamanho dos objetos
representados na planta, carta ou mapa e o tamanho deles na realidade.
Ao estudarmos a escala cartográfica e suas relações matemáticas, vamos perceber sua permanente
relação com a escala geográfica. Por exemplo, a análise de fenômenos locais necessita de plantas em
escala grande, já análise de fenômenos mundiais exige mapas em escala pequena. Ou seja, quanto maior
a escala de análise geográfica, menor a escala cartográfica, e vice-versa.
É impossível encontrar uma rua de qualquer cidade brasileira em um mapa-múndi ou no mapa político
do Brasil. A escala utilizada nessa representação – 1:34000000 – é pequena; nela 1 cm equivale a 340
quilômetros e até mesmo uma metrópole se tora apenas um ponto.
Para representar uma rua, é preciso usar uma escala grande, na qual seja possível visualizar os
quarteirões, como a de 1:10000. Perceba que, dependendo da escala utilizada, um mesmo fenômeno
espacial, pode ser representado como ponto ou como área.

Representação Cartográfica
O uso de planta, carta ou mapa está diretamente associado à necessidade do usuário. Se uma pessoa
tem a intenção de:
→ Procurar uma rua, a opção será por uma planta da cidade, na escala grande – cerca de 1:10000;
→ Localizar os bairros do entorno, deverá utilizar a carta da cidade, na escala média – cerca de
1:50000;
→ Identificar as cidades vizinhas, deverá consultar um mapa do estado, na escala pequena –
1:1000000.
Conforme a escala vai gradativamente ficando menor, ocorre um aumento da área representada e uma
diminuição do grau de detalhamento dos elementos cartografados.
Nessas representações cartográficas não há legenda porque o objetivo é apenas destacar as
diferentes escalas.

14
Levantamento sistemático é o conjunto de medidas planimétricas e altimétrica precisas de uma parte da superfície terrestre que atendem a uma série de regras
fixas, como a precisão da escala, do traçado das coordenadas e das curvas de nível.

18
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Globo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem_de_sat%C3%A9lite

Representação cartográfica sobre uma superfície esférica, em escala pequena, dos aspectos naturais
e artificiais de uma figura planetária, com finalidade cultural e ilustrativa.

Mapa e suas Características


Representação plana;
Geralmente em escala pequena;
Área delimitada por acidentes naturais (bacias, planaltos, chapadas, etc.), limites político-
administrativos;
Destinado a fins temáticos, culturais ou ilustrativos.
A partir dessas características pode-se generalizar o conceito:
“Mapa é a representação no plano, normalmente em escala pequena, dos aspectos geográficos,
naturais, culturais e artificiais de uma área tomada na superfície de uma figura planetária, delimitada por
elementos físicos, político-administrativos, destinada aos mais variados usos temáticos, culturais e
ilustrativos”.

Carta e suas Características


Representação plana;
Escala média ou grande;
Desdobramento em folhas articuladas de maneira sistemática;
Limites das folhas constituídos por linhas convencionais;
Destinada à avaliação precisa de direções e distâncias e à localização de pontos, áreas e detalhes.
Da mesma forma que da conceituação de mapa, pode-se generalizar:
“Carta é a representação no plano, em escala média ou grande, dos aspectos superficiais e naturais
de uma área tomada de uma superfície planetária, subdividida em folhas delimitas por linhas
convencionais, paralelos e meridianos, com a finalidade de possibilitar a avaliação de pormenores, com
grau de precisão compatível com a escala”.

Planta
A planta é um caso particular de carta. A representação se restringe a uma área muito limitada e a
escala é grande, consequentemente o número de detalhes é bem maior.
“Carta que representa uma área de extensão suficientemente restrita para que a sua curvatura não
precise ser levada em consideração, e que, em consequência, a escala possa ser considerada constante”.

Usando a Escala

Vamos desenvolver um exemplo de como a escala pode ser usada. Considere as seguintes
convenções:
Escala = 1/N
N = Denominador da escala
D = Distância na superfície terrestre
d = Distância no documento cartográfico

19
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Suponhamos o seguinte problema:
Um motorista, vindo pela BR-376, após entrar na BR-101, percorrerá que distância até cruzar o
oleoduto da Petrobras? Na carta apresentada, essa distância mede cerca de 8 centímetros.
Temos:
Escala da carta = 1/50000 (N = 50000), pode-se ler também 1:50000 (um por cinquenta mil).
Logo, 1 centímetro na carta equivale a 50000 centímetros ou 500 metros ou ainda 0,5 quilômetro na
superfície terrestre.
Assim, temos o denominador da escala já convertido para quilômetro, a distância na carta e queremos
saber a distância na superfície terrestre.

N = 0,5 km
d = 8 cm
D=?

Aplicando uma regra de três simples:

1 cm – 0,5 km
8 cm – D
D = 8 x 0,5
D = 4 km

Portanto:

D=dxN

A resposta do problema: A distância a ser percorrida pelo motorista é de 4 quilômetros.


Agora vamos supor que temos a distância na superfície terrestre, o denominador da escala e queremos
encontrar a distância na carta:

D = 4 km
N = 0,5 km
d=?
1 cm – 0,5 km
d – 4 km
d x 0,5 = 1 x 4
d = 4/0,5
d = 8 cm

Portanto:

d = D/N

Finalmente, supondo que temos a distância na superfície terrestre e na carta e queremos saber o
denominador da escala:

D = 4 km
d = 8 cm
Escala = ?
1 cm – N
8 cm – 4 km
Nx8=1x4
N = 4/8
N = 0,5 km (que equivale a 50000 cm)
Escala = 1/N
Escala = 1/50000 ou 1: 50000

Portanto:

N = D/d

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Uma escala pode ser expressa de duas formas:

Numérica

1:50000

Gráfica

Em alguns mapas, abaixo da escala (numérica ou gráfica) ainda há um lembrete, por exemplo: “1 cm
no mapa corresponde a 0,5 quilômetros no terreno”.

Para medir em uma carta ou mapa a extensão de linhas sinuosas, como rodovias, ferrovias, rios, etc.,
utiliza-se um curvímetro, como aparece na foto abaixo.

Não dispondo desse aparelho, um modo prático de fazer medidas, embora não muito preciso, é
estender um barbante sobre o traço de, por exemplo, uma rodovia, medi-lo com uma régua e,
considerando a escala, fazer o cálculo da distância; ou então, se houver escala gráfica, estica-lo
diretamente sobre ela.

Projeções Cartográficas

Uma projeção cartográfica é o resultado de um conjunto de operações que permite representar no


plano, tendo como referência paralelos e meridianos, os fenômenos que estão dispostos na superfície
esférica. Quando vista do espaço sideral, a Terra parece ser uma esfera perfeita, mas nosso planeta
apresenta uma superfície irregular e é levemente achatado nos polos. Por isso, os cartógrafos geógrafos
e outros profissionais que produzem mapas fazem seus cálculos utilizando uma elipse15, que ao girar em
torno de seu eixo menor forma um volume, o elipsoide de revolução.
O elipsoide de revolução é uma superfície teórica regular, criada para fins cartográficos, que
evidencia o achatamento nos polos terrestres.
Segundo o IBGE, “o elipsoide é a superfície de referência utilizada nos cálculos que fornecem
subsídios para a elaboração de uma representação cartográfica”.
Ao fazerem a transferência de informações do elipsoide para o plano, os cartógrafos se deparam com
um problema insolúvel: qualquer que seja a projeção adotada, sempre haverá algum tipo de distorção
nas áreas, nas formas ou nas distâncias da superfície terrestre representadas.
Não há distorção perceptível somente em representações de escala suficientemente grande, como é
o caso das plantas, nas quais não é necessário considerar a curvatura da Terra.
As projeções podem ser classificadas em conformes, equivalentes, equidistantes ou afiláticas,
dependendo das propriedades geométricas presentes na relação globo terrestre/mapa-múndi. Além
disso, podem ser agrupadas em três categorias principais, dependendo da figura geométrica empregada
em sua construção: cilíndricas (as mais comuns), cônicas, azimutais ou planas. Observe-as a seguir.

15
Elipse é o lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano têm soma constante; interseção de um cone circular reto e
um plano que corta todas as suas geratrizes.

21
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Projeção Cilíndrica

https://www.coladaweb.com/geografia/projecoes-cartograficas

Observe que na projeção cilíndrica o globo terrestre parece estar envolvido por um cilindro de papel
no qual são projetados os paralelos e os meridianos.

Projeção cônica

https://www.coladaweb.com/geografia/projecoes-cartograficas

Na projeção cônica, o globo parece estar envolvido por um cone de papel no qual são projetados os
paralelos e os meridianos.

Projeção azimutal ou plana

https://www.coladaweb.com/geografia/projecoes-cartograficas

Na projeção azimutal ou plana, a Terra parece ser tangenciada em qualquer ponto por um pedaço
de papel no qual são projetados os paralelos e os meridianos. Quando o globo é tangenciado num dos
polos, dizemos que se trata de uma projeção polar.

Conformes

Projeção conforme é aquela na qual os ângulos são idênticos aos do globo, seja em um mapa-múndi,
seja em um mapa regional. Nesse tipo de projeção, as formas terrestres são representadas sem distorção,
porém, com alteração do tamanho de suas áreas. Apenas nas proximidades do centro de projeção, neste
caso o equador, é que se verifica distorção mínima. Quanto maior o distanciamento a partir dessa linha
imaginária, maior é a distorção. Por essa razão, quando se utiliza esse tipo de projeção, geralmente só
são reproduzidos os territórios situados até 80º de latitude.
A mais conhecida projeção conforme é a de Mercator, cartógrafo e matemático belga cujo nome
verdadeiro era Gerhard Kremer (1512-1594). Em 1569, época em que os europeus comandavam a

22
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Expansão Marítima, Mercator abriu novas perspectivas para a cartografia, ao construir uma projeção
cilíndrica conforme que imortalizou seu codinome.

Projeção de Mercator Original

Essa representação foi elaborada para facilitar a navegação, pois permitia representar com precisão,
no mapa, a rede de coordenadas geográficas e os ângulos obtidos pela bússola (pontos cardeais).
O mapa-múndi de Mercator, no qual a Europa aparece numa posição central, superior e, por se situar
em altas latitudes, proporcionalmente maior do que é na realidade, acabou se transformando no principal
representante da visão eurocêntrica do mundo. Durante séculos, foi uma das projeções mais usadas na
elaboração de planisférios e, apesar do surgimento posterior de muitas outras, ainda hoje é bastante
usada.
Esses primeiros mapas-múndi, especialmente o de Mercator, colocavam a Europa em destaque, no
“centro” da representação, e o hemisfério norte, onde está localizada, na parte de “cima”. Os europeus
estavam explorando o mundo e fundando colônias; portanto, era natural que ao representar o planeta se
visem dessa foram. É isso que chamamos de visão eurocêntrica.

Projeção de Mercator Atual

https://www.coladaweb.com/geografia/projecoes-cartograficas

Quando representada na projeção de Mercator, a Groelândia parece ser maior que o Brasil e até
mesmo que a América do Sul. O mapa originalmente feito por Mercator, não mostrava os continentes de
forma precisa como este planisférico, produzido de acordo com a projeção por ele criada, mas com as
técnicas cartográficas disponíveis atualmente.

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Equivalentes

Num mapa-múndi ou regional com projeção equivalente, as áreas mantêm-se proporcionalmente


idênticas às do globo terrestre, embora as formas estejam deformadas em comparação com a realidade.
Um exemplo desse tipo de projeção é o mapa-múndi de Peters, elaborado pelo historiador e cartógrafo
alemão Arno Peters (1916-2002) e publicado pela primeira vez em 1973. Observe-a abaixo.

Projeção de Peters

http://www.curso-objetivo.br/vestibular/roteiro_estudos/projecoes_cartograficas.aspx

Embora essa projeção não tenha rompido completamente com a visão eurocêntrica, acabou dando
destaque aos países de baixa latitude. Ela atendia aos anseios dos Estados que se tornaram
independentes após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), nessa época considerados
subdesenvolvidos, situados em grande parte ao sul das regiões mais desenvolvidas. Em alguns países,
essa projeção chegou a ser impressa de forma invertida em relação à convenção cartográfica dominante,
mostrando o sul em destaque. O mapa-múndi de Hobo-Dyer, outra projeção equivalente, também
representa o mundo de forma “invertida”. Portanto, não há uma forma certa ou errada de representar o
mundo. Cada uma das representações cartográficas expressa um ponto de vista de um Estado nacional,
de um povo ou mesmo de uma religião.
Na projeção de Peters parece que os continentes e países foram alongados nos sentidos norte-sul. Há
uma distorção em suas formas, mas todos mantêm seu tamanho proporcional. Por exemplo, a Groelândia,
embora irreconhecível, aparece bem menor que o Brasil e a América do Sul, como é na realidade.

Projeção de Hobo-Dyer

https://projetogeografando.blogspot.com/2010/08/projecao-de-hobo-dyer.html

Esse mapa-múndi é uma projeção cilíndrica equivalente, semelhante à de Peters, e foi criado em 2002
para mostrar uma visão alternativa do mundo. Fo encomendado por Bob Abramms e Howard Bronstein,
respectivamente, fundador e presidente da empresa ODT Maps (sediada em Amherst, Estados Unidos),

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
ao cartógrafo inglês Mick Dyer. O nome da projeção resulta da junção das duas sílabas iniciais dos nomes
de Howard e Bob com o sobrenome Mick. Está centrada na África e mostra o sul em destaque.

Equidistantes

Nos mapas-múndi e com projeção azimutal ou plana equidistante, a representação das distâncias
entre dois lugares é precisa. Elaborada pelo astrônomo e filósofo francês Guillaume Postel (1510-1581)
e publicada no ano de sua morte, adota como centro da projeção um ponto qualquer do planeta para que
seja possível medir a distância ente esse ponto e qualquer outro. Por isso, esse tipo de projeção é utilizado
especialmente para definir rotas aéreas ou marítimas.
A projeção equidistante mais comum é centrada em um dos polos, geralmente o polo norte.

Projeção Azimutal Centrada no Polo Norte

http://www.curso-objetivo.br/vestibular/roteiro_estudos/projecoes_cartograficas.aspx

No centro da projeção pode-se situar a capital de um país, uma base aérea, a sede de uma empresa
transnacional, etc. Entretanto, ela apresenta enorme distorções nas áreas e nas formas dos continentes,
que aumentam com o afastamento do ponto central.
Na projeção azimutal equidistante, as distâncias só são precisas se traçadas radialmente do centro,
no caso dessa, o polo norte, até um ponto qualquer do mapa.

Afiláticas

Atualmente é comum a utilização de projeções com menores índices de distorção para o mapeamento
da superfície terrestre, como a de Robinson.

Projeção de Robinson

https://atlasescolar.ibge.gov.br/conceitos-gerais/o-que-e-cartografia/as-projec-o-es-cartogra-ficas.html

Essa projeção foi desenvolvida em 1961 pelo geógrafo e cartógrafo americano Arthur H. Robinson
(1915-2004). Segundo o IBGE: “É uma projeção afilática (não é conforme nem equivalente ou
equidistante) e pseudocilíndrica (não possui nenhuma superfície de projeção, porém apresenta
características semelhantes às da projeção cilíndrica)”.

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Questões

01. (Itaipu Binacional – Porfessor de Geografia – NC – UFPR/2019) A Projeção de Mercator é uma


projeção:
(A) conforme e equivalente, sendo utilizada em escalas maiores que 1:250000.
(B) conforme e equivalente, sendo utilizada em escalas menores que 1:250000.
(C) conforme e cilíndrica.
(D) equivalente e cilíndrica.
(E) equidistante e cilíndrica.

02. (IF/MT – Professor de Geografia – IF/MT) Observe a figura.

Essa figura simboliza a Organização das Nações Unidas (ONU), que apresenta uma conotação política
e também técnica das projeções cartográficas. A qual projeção ela é categorizada?
(A) Cônica
(B) Azimutal
(C) Cilíndrica
(D) Senoidal

03. (SEDUC/PI – Professor de Geografia – NUCEPE) Acerca da existência dos mapas, há registros
de que estes são anteriores à escrita, o que lhes atribui um papel relevante na representação do espaço
pela humanidade.
Sobre os mapas é INCORRETO afirmar:
(A) Os mapas se constituem um produto de informação da cultura de um povo a partir de seu
conhecimento sobre seu próprio espaço.
(B) Figura ou qualquer produto que possa representar uma parte específica da superfície da Terra se
constitui em um mapa.
(C) O mapa é um instrumento para transmitir informações sobre objetos, formas e relações presentes
em determinado espaço.
(D) Os mapas temáticos são elaborados a partir de um contexto no qual se tem como finalidade o
conhecimento e esclarecimento sobre uma determinada situação real.
(E) São representações gráficas de determinado espaço geográfico, de forma reduzida, que utilizam
símbolos e projeções cartográficas.

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04. (Colégio Pedro II – Professor de Geografia – Colégio Pedro II/2018) Observe os mapas a seguir.

Disponível em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com. Acesso em: 9 ago. 2018.

“A escolha de uma projeção depende do que se deseja representar.” SAMPAIO, Fernando dos Santos. Para viver juntos:
9º ano do ensino fundamental. São Paulo: SM, 2015, p.140-141.
O planejamento de uma aula de geografia sobre projeções cartográficas deve mostrar que o mapa de
(A) Mercator é realizado com base numa projeção cilíndrica conforme, provocando distorções diversas
nas áreas dos países presentes no planisfério.
(B) Peters é realizado com base numa projeção plana tangente ao polo, alterando as áreas dos locais
representados, destacando sua posição geopolítica.
(C) Peters é uma projeção azimutal equivalente desvinculada do eurocentrismo, já que as áreas da
Terra conservam o tamanho por meio da correção das distâncias longitudinais.
(D) Mercator é uma projeção plana interrompida associada à visão eurocêntrica do mundo, já que as
áreas da Terra conservam a forma por meio da correção das distâncias latitudinais.

05. (Enem) Um determinado município, representado na planta abaixo, dividido em regiões de A a I,


com altitudes de terrenos indicadas por curvas de nível, precisa decidir pela localização das seguintes
obras:
1. instalação de um parque industrial.
2. instalação de uma torre de transmissão e recepção.

Considerando impacto ambiental e adequação, as regiões onde deveriam ser, de preferência,


instaladas indústrias e torre, são, respectivamente:
(A) E e G.
(B) H e A.
(C) I e E.
(D) B e I.
(E) E e F.

Gabarito

01.C / 02.B / 03.B / 04.A / 05.C

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Comentários

01. Resposta: C
Em 1569, época em que os europeus comandavam a Expansão Marítima, Mercator abriu novas
perspectivas para a cartografia, ao construir uma projeção cilíndrica conforme que imortalizou seu
codinome.

02. Resposta: B
O símbolo da ONU é uma projeção azimutal, cujo centro escolhido foi um ponto no Polo Norte, um
local neutro e que permite a visualização de todos os continentes.

03. Resposta: B
Mapa é a representação no plano, normalmente em escala pequena, dos aspectos geográficos,
naturais, culturais e artificiais de uma área tomada na superfície de uma figura planetária, delimitada por
elementos físicos, político-administrativos, destinada aos mais variados usos temáticos, culturais e
ilustrativos.

04. Resposta: A
Tal como ocorre em toda projeção cilíndrica, na projeção de Mercator os meridianos são representados
por segmentos de reta paralelos entre si e que são perpendiculares aos paralelos terrestres. Por se tratar
de uma projeção conforme, a escala não varia com a direção e os ângulos são conservados em todos os
pontos.

05. Resposta: C
Um parque industrial deve ser preferencialmente instalado em um terreno com topografia plana para
evitar grandes cortes ou aterros, que podem expor a área à erosão. Não é adequada a instalação de um
parque industrial no interior de cidades onde há poucos terrenos disponíveis, por isso pode agravar a
poluição e o trânsito. O ideal é que ele seja instalado numa área fora da cidade (mas não muito distante,
porque necessita de mão de obra) e onde haja um bom sistema de transportes que permita a chegada
de matérias-primas e o escoamento dos bens produzidos. Considerando tudo isso e os elementos
mostrados na plana, o melhor local para instalação de um parque industrial é a área I do município, ao
lado da rodovia.
A instalação de uma torre de comunicação deve ficar nas proximidades da cidade. Mas num terreno
de altitude mais elevada para que seu funcionamento seja mais eficiente; portanto, o melhor local para
sua instalação é a área E. Assim, a alternativa que responde corretamente ao problema proposto é a C.

Identificação da unidade espacial: lugar, paisagem e território. Exploração e


preservação das paisagens. O local e o global - jogo de escalas. O espaço como
disputa social

CONCEITOS GEOGRÁFICOS FUNDAMENTAIS16

Dentre os conceitos da Geografia, o espaço geográfico é o mais abrangente, apresentando-se como


“um todo” do qual derivam os demais conceitos e com o qual eles se relacionam. Correa lembra que o
termo espaço é de uso corrente, utilizado no dia a dia e em diversas ciências. Nos dicionários o verbete
espaço apresenta numerosos qualificativos, além de ser descrito segundo várias acepções diferentes.
“Entre os astrônomos, matemáticos, economistas e psicólogos, entre outros, utiliza-se, respectivamente,
as expressões espaço sideral, espaço topológico, espaço econômico e espaço pessoal”.
O homem é o agente por excelência do espaço geográfico. O espaço somente passa a existir quando
se verifica interação entre o homem e o meio em que vive, do qual retira o que lhe é necessário para a
sobrevivência, promovendo alterações de suas características originais. A forma como as sociedades se
relacionam com o espaço vai se modificando, enquanto sua capacidade de intervenção se acentua e o
espaço geográfico torna-se cada vez mais abrangente, chegando atualmente, a quase se sobrepor a todo
o globo. Além disso, a presença humana efetiva não é imprescindível para que uma área seja definida

16
LISBOA, Severina Sarah. A IMPORTÂNCIA DOS CONCEITOS DA GEOGRAFIA PARA A APRENDIZAGEM DE CONTEÚDOS GEOGRÁFICOS ESCOLARES.
Revista Ponto de Vista – Vol.4. Disponível em:
http://www.coluni.ufv.br/revista-antiga/docs/volume04/importanciaConceitosGeografia.pdf.

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como espaço geográfico, basta que a área esteja inserida nos projetos humanos ou que se verifique
intervenção indireta, como por exemplo, através de zoneamentos e delimitação de áreas de preservação.
A expressão espaço geográfico ou simplesmente espaço, aparece como vaga, estando associada a
uma porção específica da superfície da terra identificada, seja pela natureza, como destaca Correa, seja
por um modo particular como o homem imprimiu as suas marcas, seja com referência a simples
localização. O autor acrescenta que “a palavra espaço tem o seu uso associado indiscriminadamente a
diferentes escalas, global, continental, regional, da cidade, do bairro, da rua, da casa e de um cômodo no
seu interior.”

O conceito de paisagem está relacionado a tudo que os sentidos humanos podem perceber e
apreender da realidade de determinado espaço geográfico ou parte dele, está diretamente relacionado à
sensibilidade humana. Há quem entenda a paisagem como uma realidade que pode ser representada
visualmente em uma fotografia ou pintura. Embora a visão seja o principal sentido com o qual se observa
a realidade, outros sentidos também podem participar da identificação da paisagem, introduzindo-se
informações como sons e odores na descrição da paisagem, método através da qual ela pode ser bem
explorada.
A paisagem também se constitui como uma realidade atual construída através do acúmulo de
acontecimentos ou eventos passados, uma vez que o que é observado em uma paisagem da atualidade
passou por um processo de constantes mudanças. Esse aspecto pode ser percebido através da
observação de fotografias de uma mesma paisagem referentes a períodos diferentes, na qual se pode
perceber o que permanece e o que foi sendo alterado, para formar a paisagem atual. De modo geral, as
mudanças causadas pela natureza (como, por exemplo, a erosão) são percebidas apenas lentamente,
enquanto que as alterações humanas são mais rápidas (como por exemplo, a construção de uma cidade),
embora um evento natural como terremotos e furacões também possa promover grandes alterações.
A paisagem pretérita apresentava um conjunto de muitos elementos naturais, no entanto, a paisagem
humanizada tem se expandido, à medida que o homem altera a natureza, mesmo quando modela uma
nova paisagem aparentemente natural, como ocorrem com os jardins. As paisagens humanizadas ou
artificiais de maior visibilidade são as áreas urbanas construídas pela ação humana. Ao fazer referência
à distinção entre paisagens naturais e humanizadas, Santos assim se manifesta:
A paisagem artificial é a paisagem transformada pelo homem. Se no passado havia a paisagem natural,
hoje essa modalidade de paisagem praticamente não existe mais [...]. Quanto mais complexa for a vida
social, tanto mais nos afastamos de um mundo natural e nos endereçamos a um mundo artificial [...], este
parece ser o caminho da evolução.

A compreensão do termo território não se restringe a sua situação de conceito geográfico, mas
também faz parte do uso corrente de outras ciências, em que é adotado com significados diferentes.
Alguns termos têm importantes associações com o conceito de território. O mais importante deles é o
poder, já que os territórios são formados fundamentalmente a partir de relações de poder de determinado
agente. As fronteiras territoriais também são essenciais, uma vez que delimitam a área alcançada por
essas relações de poder, sendo as mais conhecidas, as fronteiras nacionais e outras delimitações
políticas como, por exemplo, subdivisões estaduais internas. Da mesma forma que ocorre com vários dos
demais conceitos, podemos identificar territórios em níveis escalares diferentes como, por exemplo, em
escala mundial, nacional, regional, local.
As discussões a respeito da territorialidade destacam a possibilidade de que as relações de poder não
necessariamente efetivem áreas de ocupação e controle de determinados agentes, em que as fronteiras
podem se manifestar instáveis. A territorialidade se mantém associada às relações de poder e se
apresenta como a tentativa de constituir um território, nem sempre materializável, através de fronteiras
bem delimitadas. As disputas de grupos rivais pelo controle do tráfico de drogas nas favelas, as áreas de
prostituição nas regiões centrais das cidades e as ocupações dos movimentos de trabalhadores sem-
terra são alguns exemplos de como a territorialidade pode se constituir.

O conceito de região geográfica passou por vários momentos de discussão no interior da Geografia
desde sua gênese, em que seu significado foi sendo alterado de acordo com o direcionamento científico.
As alterações referentes ao conceito de região se verificam devido a mudanças dentro da própria
Geografia, tendo passado pelo uso das seguintes classificações: região natural (surge a partir da
inspiração da geologia e entende-se que o ambiente tem certo domínio sobre a orientação do
desenvolvimento da sociedade, configurando o determinismo geográfico); região geográfica ou região-
paisagem (em que admite-se que a sociedade não é determinada pelo meio em que vive, mas dele dispõe
como deseja, transformando-o segundo suas possibilidades); a região homogênea e a região funcional

29
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
(tendo como pressupostos análises de âmbito econômico) e o conceito de região associado ao sentimento
de pertencimento da população a uma parte do espaço.
O desenvolvimento e aceleração do processo de globalização dão a impressão de que o mundo
caminha cada vez mais para uma economia unificada, uma dinâmica cultural hegemônica, uma sociedade
que só poderá ser compreendida como um processo de reprodução social global. Gomes recorda que
alguns autores chegam a enunciar o fim das regiões devido à homogeneização dos espaços e à
uniformização dos processos sociais. No entanto, o geógrafo Milton Santos destaca a universalidade do
fenômeno da região afirmando que “nenhum subespaço do planeta pode escapar ao processo conjunto
de globalização e fragmentação, isto é, individualização e regionalização”. As regiões são entendidas
como o suporte e a condição das relações globais, sem o qual estas não se realizam.
O processo de regionalização é o que dá origem às regiões.
Dessa forma, secciona-se o espaço geográfico em partes que apresentam internamente
características semelhantes. Os elementos internos de uma região não são idênticos, mas quando
comparados aos elementos de outra região se percebe certa homogeneidade interna. Para se
empreender um processo de regionalização é preciso estabelecer um conjunto de objetivos e de critérios
segundo os quais o espaço será dividido, podendo estes critérios ser de ordem natural, política,
econômica, social, etc. Vários tipos de regionalizações para o mesmo espaço podem ser propostos,
seguindo objetivos e critérios específicos e promovendo uma sobreposição de regiões. Cada
regionalização pode ou não considerar os limites administrativos previamente definidos.

O conceito de lugar faz referência a uma realidade de escala local ou regional e pode estar associado
a cada indivíduo ou grupo.
O lugar pode ser entendido como a parte do espaço geográfico efetivamente apropriada para a vida,
área onde se desenvolvem as atividades cotidianas ligadas à sobrevivência e às diversas relações
estabelecidas pelos homens. Para compreensão deste conceito evoca-se a “valorização das relações de
afetividade desenvolvidas pelos indivíduos em relação ao seu ambiente”. O lugar significa muito mais do
que simplesmente uma localização geográfica, ele está relacionado aos diversos tipos de experiência e
envolvimento com o mundo.
Além disso, o lugar também se associa ao sentimento de pertencer a determinado espaço, de
identificação pessoal com uma dada área. Cada localidade possui características próprias que, em
conjunto, conferem ao lugar uma identidade própria e cada indivíduo que convive com o lugar, com ele
se identifica. Dessa forma, o lugar garante a manutenção interna da situação de singularidade. As
parcelas do espaço geográfico com a qual cada indivíduo se relaciona e interage compõe o seu lugar.
Cada pessoa terá um lugar diferente da outra, na medida em que ambas possuem vida e cotidiano
diferentes. O lugar possui também íntima relação com os aspectos culturais que marcam cada sociedade.

As redes geográficas adquirem importância cada vez maior no contexto atual. Castells define a rede
como “um conjunto de nós interconectados e nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta”. Os nós das
redes podem ser representados por vários elementos do espaço como, por exemplo, centros urbanos,
bolsas de valores, sistemas de televisão, etc. As redes são o meio através do qual se desenvolvem e se
manifestam os diferentes tipos de fluxos, conforme o tipo de rede e de seus nós.
A rede urbana é uma forma simples de compreender a organização em redes. Neste caso, identifica-
se uma hierarquia de cidades conforme seu porte e sua importância econômica, sendo seus nós
compostos por: cidades globais, metrópoles nacionais, metrópoles regionais, centros regionais
subcentros regionais e cidades locais. Há uma interligação entre esses nós da rede urbana, entre os quais
se estabelecem fluxos de mercadorias, pessoas, serviços, etc.
A nova economia mundial está cada vez mais se organizando em torno das redes globais de
mercadorias e de capital. A sociedade em redes em suas várias expressões é uma sociedade capitalista
em que este modo de produção dá forma às relações sociais em todo o planeta. O desenvolvimento da
tecnologia da informação favorece a base material para a expansão das redes em toda a estrutura social
a ponto de que a tendência seja de que cada vez mais a sociedade se organize em forma de redes
geográficas materiais e não-materiais.

As escalas geográficas são compreendidas como níveis em que o espaço é “subdividido” para melhor
ser compreendido e analisado. As diferentes escalas são interligadas, uma vez que todas são maneiras
de compreender o espaço geográfico. O termo escala pode ser associado à escala cartográfica, mas
deve ultrapassá-la, pois não envolve apenas análise numérica, quantitativa, mas também análise
qualitativa dos fenômenos analisados.

30
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Devido à dificuldade de seleção de uma escala prioritária e mais adequada para análise de um
fenômeno, Vainer propôs a adoção de estratégias transescalares para compreensão dos fenômenos e
situações do mundo atual, assim como para promover intervenções. As estratégias transescalares são
propostas porque “qualquer projeto de transformação envolve, engaja e exige táticas em cada uma das
escalas em que hoje se configuram os processos sociais, econômicos e políticos estratégicos”. A escala
em si é menos importante que a capacidade de articulação entre variadas escalas.

Associação dos Conceitos aos Conteúdos Geográficos

A aprendizagem e assimilação dos conteúdos geográficos escolares passam pela identificação da


presença dos conceitos no interior do assunto discutido e estudado e pela sua compreensão.
Alguns exemplos de associação dos conceitos aos conteúdos são abaixo delimitados:

→ Sociedade: Grupo de indivíduos (ou animais) que vive em um determinado espaço geográfico e
que segue certas regras. Exemplos: sociedades das abelhas, das formigas, humana etc.
O termo Sociedade pode ser empregado sob dois sentidos:
- Sociedade Humana (engloba toda a humanidade);
- Sociedade Específica (referindo-se a determinados grupos humanos, como por exemplo: a sociedade
indígena dos ianomâmis, a sociedade brasileira etc.).

→ Espaço geográfico: a identificação das áreas do globo em que o homem promoveu alterações
define o espaço geográfico, e as formas como a sociedade foi se desenvolvendo demonstra o aumento
da capacidade de intervir cada vez mais e de forma mais intensiva no meio natural; as consequências da
ação humana são parte essencial da configuração do espaço geográfico e os problemas ambientais,
verificados atualmente, são decorrentes da expansão do espaço geográfico.

→ Paisagem: as grandes paisagens naturais do globo representam um bom conteúdo no interior do


qual se pode implementar a discussão da paisagem geográfica; a comparação entre paisagens de
diferentes países demonstra como o ambiente e a cultura alteram a forma de intervenção humana na
natureza; e a análise das paisagens urbanas e das áreas industriais demonstram a expansão da
paisagem humanizada e a capacidade criadora do ser humano.

→ Território: a conquista de áreas no período colonial e imperialista ganha mais significado com a
participação do conceito de território, assim como a compreensão do papel do Estado Nacional. Outros
agentes das relações de poder que constituem os territórios, assim como outras escalas de análise
também se inserem na importância deste conceito como, por exemplo, as reivindicações de sociedades
tradicionais ribeirinhas e quilombolas.

→ Região: as diferentes propostas de divisões regionais do Brasil apresentam critérios de


regionalização diferentes. A partir da compreensão do conceito de região torna-se fácil identificar que
cada tipo de regionalização foi elaborado tendo um pressuposto anterior e atende a uma finalidade
específica. Os critérios utilizados na regionalização esclarecem o olhar através do qual se deseja analisar
e compreender a realidade de determinada área.

→ Lugar: quando se depara com o universo da realidade cultural, percebe-se que em muitas situações
as características de alguns locais insistem em permanecer, não desaparecendo devido ao processo de
globalização, e o conceito de lugar ajuda a compreender esta dinâmica. Os aspectos culturais adquirem
importância quando se avalia o apego e a relação dos indivíduos com o seu lugar, parte do espaço
geográfico com a qual os antepassados se relacionavam e a comunidade atualmente residente mantêm
relação direta. Ao se estudar o processo de globalização pode-se salientar que ele muitas vezes contribui
para fortificar uma identidade local ao invés de destruí-la.

→ Redes: a organização em redes pode ser analisada por meio das discussões sobre a estrutura
urbana de um país, da compreensão do funcionamento mundial das redes de tráfico de drogas ou da
acessibilidade à internet. A rede de transporte também pode ser entendida como estratégia de ação de
empresas logísticas e distribuidoras de mercadorias. O conceito de redes permite compreender o
fundamento de muitos conteúdos escolares como a presença e influência das cidades globais e ainda a
distribuição da Coca-Cola mundialmente.

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→ Escalas: cada fenômeno pode ser analisado em uma escala primária e se relacionar a outras
análises escalares, quando se adquire a habilidade de reflexão transescalar. A influência dos EUA pode
ser pensada internacionalmente e chegar a identificação de elementos dessa atuação nas pequenas
cidades brasileiras; da mesma forma, um fenômeno que a princípio pareça apenas de nível local pode
ganhar proporções mundiais como o gás carbônico liberado localmente, que pode contribuir para o
fenômeno do aquecimento global.

Os Lugares e as Paisagens17

Como já visto nos Conceitos Geográficos Fundamentais, a Geografia é uma ciência que busca
compreender melhor o mundo em que vivemos e explicar, entre tantas outras coisas, as diferenças e
desigualdades existentes na sociedade por meio do estudo do espaço geográfico.

Feita tal introdução, estudaremos:

→ as diferentes paisagens do mundo e suas transformações;


→ o conceito de lugar e como cada lugar é formado e modificado ao longo do tempo;
→ o espaço geográfico;
→ divisões do mundo: países, territórios, regiões, continentes e oceanos.

Imagens do Mundo: A Paisagem para a Geografia


A paisagem é tudo o que podemos perceber em um lugar, em um determinado momento por meio de
nossos sentidos (audição, visão, olfato, paladar e tato). Estudar a paisagem leva-nos a descobrir muitas
coisas sobre a História dos lugares e nos ajuda a compreender onde e como vivemos.
Dependendo do ângulo e do que podemos enxergar, a paisagem pode variar. Se duas pessoas
diferentes observam a mesma paisagem, elas podem representa-la de modo totalmente distinto, já que
cada uma tem seu ponto de vista e pode destacar alguns aspectos e outros não. Além disso, quanto mais
ampla a visão, mais elementos conseguimos abarcar.
Em cada lugar que frequentamos, as paisagens nos mostram diferentes combinações de construções,
cores, formas, cheiros, sons e ocupações do espaço.

Os Elementos da Paisagem
Chamamos de elementos tudo aquilo que compõe a paisagem: todos os objetos e também os seres
vivos presentes em um lugar. Os elementos podem ser divididos em naturais ou sociais.
Os elementos naturais são aqueles que foram compostos pela ação da natureza, como montanhas,
rios, mares, dunas, etc.
Os elementos sociais são aqueles que foram feitos ou modificados pela sociedade. Por exemplo:
indústrias, ruas, construções, plantações, etc.
A presença de elementos naturais em uma paisagem não exclui a existência de elementos sociais e
vice-versa. Muito pelo contrário: as paisagens são, muitas vezes, uma combinação da interação entre
ambos.

Transformações da Paisagem
As paisagens não são estáticas, paradas como aparentam ser em fotografias. Isso quer dizer que elas
estão em constante transformação. Essa transformação é resultado da interação entre os movimentos da
natureza e a ação dos homens.
A paisagem é moldada pela dinâmica dos elementos naturais, como os mares, os rios, o vento, a
chuva, a vegetação, o relevo, o sol. As paisagens naturais demoram milhares de anos para serem
formadas, mas podem ser alteradas rapidamente pela ação humana.
Os movimentos da natureza também podem ocasionar mudanças bruscas, como no caso de alguns
fenômenos e desastres naturais.
A paisagem também revela a relação das pessoas com o lugar em que elas vivem. Os seres humanos
estão constantemente modificando a paisagem para atender aos interesses e às necessidades da
sociedade. A construção de prédios, ruas, fábricas, a canalização de rios e a derrubada de árvores são
exemplos das transformações feitas pelo ser humano.

17
FURQUIM JUNIOR, Laercio. Geografia Cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.

32
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Com o passar do tempo, o ser humano foi realizando novas construções e substituindo ou mantendo
as antigas. A combinação de formas recentes e antigas compõe a paisagem e revela a sociedade que
habita aquele lugar.

Aqui é o meu Lugar: Lugar e Olhar Geográfico


O que o senso comum nos diz a respeito do conceito de lugar, baseia-se em:

→ Espaço determinado;
→ Área ocupada ou que pode ser ocupada por pessoas ou objetos;
→ Localidade, circunvizinhança.

Para a Geografia, o conceito de lugar não é considerado apenas como um local, um recorte do espaço
ou uma paisagem sem movimento. O olhar geográfico nos diz que há uma dinâmica nos lugares, uma
constante transformação da paisagem pelo ser humano.
Os elementos essenciais de um lugar, portanto, vão além do que o senso comum nos diz.

Lugar e Identidade
Ao observar uma paisagem e descobrir quais são suas principais características, é possível conhecer
também sua história e o cotidiano de seus habitantes. Isso determina a identidade e a função que um
lugar tem em relação a outros lugares do mundo.
A História de um lugar constitui-se das relações entre as pessoas que ali vivem e das transformações
na paisagem (seja ela qual for) decorrentes do trabalhe e da necessidade de sobrevivência do ser
humano. Sendo assim, o conceito de lugar considera que ele é construído pela sociedade, ou seja, pelos
indivíduos que fazem parte dela.

O lugar e o passar do tempo: O espaço e o tempo

O espaço geográfico
Há pessoas que vivem em cidades, outras, em zonas rurais, ou em áreas próximas a centros urbanos,
em fazendas, praias, prédios, perto de rios, córregos, florestas, em bairros industriais ou residenciais, em
aldeias, comunidades ou a redor de montanhas.
Todos esses são espaços em que o ser humano foi construindo uma relação e identidade e
modificando-os ao longo de 200 mil anos, idade aproximada do homo sapiens.
Por isso o espaço geográfico foi, é, e continuará sendo construído por nós, pois desde sempre o
homem conviveu com a natureza, tornando-a fonte de vida e de recursos para sua sobrevivência, ao
retirar dela alimentos, matéria-prima para construção de sua vivenda e confecção de utensílios de caça
e defesa.

O espaço geográfico é resultado da ação do ser humano em interação com a natureza, é a ação no
presente, que deixará marcas no futuro. Mas como ocorre a ação humana na natureza? Por meio do
trabalho, ao utilizar-se de técnicas acumuladas ao longo do tempo.
O espaço geográfico é, portanto, a materialização das ações da sociedade.

O ESPAÇO COMO PRODUTO DO HOMEM18

Da mesma maneira que as outras ciências sociais, a sociedade é o tema verdadeiro da geografia.
Entretanto, a geografia possui um modo particular de estudar a sociedade, visto que a reprodução da
sociedade é analisada pela ciência geografia por meio de suas categorias de análise que são: espaço,
paisagem, lugar, região e território.
Neste sentido, alguns pesquisadores da geografia entendem o território como tema central da
investigação geográfica. Diferentemente de alguns geógrafos, Raffestin faz distinção entre o que é o
espaço e o que é o território explicando que espaço e território não são termos equivalentes. Por tê-los
usados sem critério, os geógrafos criaram grandes confusões em suas análises, ao mesmo tempo em
que, justamente por isso, se privavam de distinções úteis e necessárias.
O espaço antecede ao território. É a partir do espaço que o território é produzido, ou seja, o espaço se
transforma em território na medida em que ocorre a apropriação (material e/ou simbólica) do espaço pelos

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(Adaptado de) Entre Lugar, Dourados, MS, ano 1, n. 1, p. 73-98, 1º semestre de 2010.

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sujeitos. Este processo pode ser denominado de territorialização do espaço. Neste caso, a humanização
da natureza não cria um espaço geográfico/ social ou uma organização espacial e, sim, um território.
É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do
espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa)
em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela
representação), o ator “territorializa” o espaço.
A territorialização do espaço ocorre na medida em que esse espaço é humanizado/ historicizado, ou
seja, é modificado pelas relações de trabalho e contém, por isso, relações de poder. Isto significa que as
instalações dos fixos e fluxos no espaço, bem como todas as modificações no processo de organização
espacial como a agricultura, pecuária, indústrias, rodovias, etc., são produções do trabalho humano que
transformam o espaço em território.
A produção de um espaço, o território nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas
redes, circuitos e fluxos aí se instalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e
bancários, autoestradas e rotas aéreas etc. O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou
um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder.
O espaço é como se fosse a natureza primitiva/natural, de que fala Marx. Essa natureza ao entrar em
contato com o ser humano, por meio das relações de trabalho, transforma-se de natureza ou espaço
natural em sociedade que, por sua vez, ao se apropriar deste espaço o transforma em território. Neste
caso, o território é o processo de espacialização da sociedade.
Para um marxista, o espaço não tem valor de troca, mas somente valor de uso, uma utilidade. O espaço
é, portanto, anterior, preexistente a qualquer ação.
O espaço é, de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria-prima. Preexiste a qualquer ação.
“Local” de possibilidades é a realidade material preexistente a qualquer conhecimento e a qualquer prática
dos quais será o objeto a partir do momento em que um ator manifeste a intenção de dele se apoderar.
Evidentemente, o território se apoia no espaço, mas não é o espaço. É uma produção, a partir do espaço.
De forma geral, pode-se dizer que o território é entendido como um espaço constituído de um conjunto
de relações entre os homens e entre os homens e seu ambiente material.
Portanto, pode-se dizer que todas as relações humanas acontecem no território, por isso entende-se
a territorialização como uma relação inerente ao ser humano. Ou seja, à dimensão espacial e a
territorialidade são componentes indissociáveis da condição humana.
Isso quer dizer que o território não é apenas o conjunto dos sistemas naturais e de sistemas de coisas
superpostas. O território é o espaço onde todas as ações humanas acontecem, ou seja, é o espaço onde
ocorre a reprodução material e simbólica do ser humano.
Dessa forma, o Território é o lugar em que se desembocam todas as ações, todas as paixões, todos
os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza
a partir das manifestações da sua existência. Sendo assim, é o espaço de todas as produções humanas,
é o lugar de todos os homens, de todas as empresas e de todas as instituições.
Nesta concepção, o território é entendido em todas as suas dimensões que envolvem desde a
materialidade à subjetividade humana. Pensando a partir desta concepção o território passa a ser uma
categoria geográfica que representa a totalidade, por isso as concepções acerca do território devem
sempre ser integradoras, tentando buscar superar a dicotomia material/ideal, o território envolvendo, ao
mesmo tempo, a dimensão espacial material das relações sociais e o conjunto de representações sobre
o espaço ou o ‘imaginário geográfico’ que não apenas move como integra ou é parte indissociável destas
relações.
Neste sentido, todas as relações humanas fazem parte do território porque todos necessitam se
territorializar, pois este processo envolve desde o domínio político-econômico à apropriação simbólico-
cultural do espaço pelos sujeitos. Por isso, pode-se conceber a territorialização como o processo de
domínio (político-econômico) e/ou de apropriação (simbólico-cultural) do espaço pelos grupos humanos.
Cada um de nós necessita, como um “recurso” básico, territorializarse. Não nos moldes de um “espaço
vital” darwinistaratzeliano, que impõe o solo como um determinante da vida humana, mas num sentido
muito mais múltiplo e relacional, mergulhado na diversidade e na dinâmica temporal do mundo.
Dessa forma, concebe-se que não existe sociedade sem território, pois o ser humano,
necessariamente, vive em um território onde realiza todas as suas relações, por isso a sociedade está
inserida em um território. Sendo assim, fundamentalmente, o conceito de sociedade implica em
espacialização ou territorialização. Logo, espaço social e sociedade formam uma totalidade indissociável,
tendo as mesmas características/qualidades, pois são frutos da mesma construção histórica.
Sendo ao mesmo tempo a condição que possibilita essa construção e o resultado dessa construção.
A começar pelo simples fato de que o próprio conceito de sociedade implica, de qualquer modo, sua
espacialização ou, num sentido mais restrito, sua territorialização. Sociedade e espaço social são

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dimensões gêmeas. Não há como definir o indivíduo, o grupo, a comunidade, a sociedade, sem ao mesmo
tempo inseri-los num determinado contexto geográfico, “territorial”.
Pensando o território nessa concepção, não deve-se negligenciar a importância dos sujeitos que o
produzem, ou seja, homens concretos (os homens em suas conformações de classe social) travando
relações concretas (contradições de classes). Dessa forma, a construção do território se faz, no período
histórico, por uma sociedade sob o modo de produção capitalista. Logo, sociedade não é uma sociedade
de homens iguais: é uma sociedade de classes sociais.
Sendo assim, inerentes ao processo de territorialização está à sociedade de classes. Sociedade esta
marcada pela luta de classes, ou seja, uma sociedade estratificada/classista formada de quatro classes
fundamentais: de um lado proletariado e campesinato, do outro lado, burguesia e proprietários de terra.
Cujo produto dessa sociedade é um território construído, conflituosamente, nessa luta mediada por um
Estado capitalista. Neste sentido, o território é uma totalidade dinâmica/contraditória produzida no
processo material de produção/ reprodução do capital mediada pela superestrutura, ou seja, os poderes
simbólicos, políticos, ideológicos, jurídicos etc. Sendo assim, ao reproduzir sua existência material, por
meio das relações de trabalho, a humanidade produz a sociedade. A sociedade classista ao reproduzir-
se, produz o território.
O território deve ser apreendido como síntese contraditória, como totalidade concreta do modo de
produção/distribuição/circulação/consumo e suas articulações e mediações supra estruturais (políticas,
ideológicas, simbólicas etc.), em que o Estado desempenha a função de regulação. O território é, assim,
efeito material da luta de classes travadas pela sociedade na produção de sua existência. Sociedade
capitalista que está assentada em três classes sociais fundamentais: proletariado, burguesia e
proprietários de terra.
Dessa maneira, o território não existe “em si”, mas ele é produzido historicamente pelas relações
sociais de produção no interior da lógica, dinâmica e contraditória, do modo de produção vigente.
Por isso, são as relações sociais de produção e a lógica contínua/contraditória de desenvolvimento
das forças produtivas que dão a configuração histórica específica ao território. Logo, o território não é um
prius ou um a priori, mas a contínua luta da socialização contínua da natureza.
Dessa forma, passam a ser características inerentes ao território os processos dinâmicos/dialéticos
simultâneos de construção/destruição/manutenção/transformação. Por conseguinte, o território tem por
característica essencial ser dinâmico e contraditório e, logo, em constante movimento. Sendo assim,
pode-se sintetizar o território como a unidade dialética, portanto contraditória, da espacialidade que a
sociedade tem e desenvolve.
Pode-se dizer, ainda, que o território configura-se como produto e condição da reprodução da
sociedade, que sob o modo de produção capitalista pode significar reprodução ampliada do capital e da
força de trabalho, bem como reprodução simbólica da cultura dos povos inserida na sua territorialidade.
Visto que não existe subjetividade separada da materialidade, o território é, pois, formado por essa
totalidade de relações humanas.
Entende-se, então, o espaço geográfico numa perspectiva territorial, como um produto relacional, ou
seja, construído na totalidade das relações sociais que envolvem múltiplas formas de poder.
Porém, de forma geral, há um predomínio do poder econômico e político como “motor” condicionante
principal dessas relações. Dessa maneira, apesar de saber-se que o poder está impregnado no tecido
social, perpassando todas as relações humanas, a conexão entre o poder econômico e o político é a
essência da produção territorial sob o modo de produção capitalista.
Dividir o significado do poder pode significar diluí-lo. Sabe-se da importância de toda e qualquer
vontade de poder; sabe-se da existência de uma multiplicidade de poderes - econômicos, políticos,
sociais, que definem territorialidades. Mas a essência do processo, que demarca todas as demais
circunstâncias, é o atrelamento entre o político e o econômico.
Independente das categorias de análise geográfica que privilegia-se em análise da realidade, espaço
ou território, não deve-se esquecer que sua produção deve ser entendida como uma construção histórica
por meio de uma sociedade de classes subordinada ao modo de produção capitalista.
A alienação, a coisificação, a desumanização, a desigualdade social, a violência, a depredação
ambiental, a destruição da sociobiodiversidade etc., causados por efeito, direto ou indireto, do processo
de acumulação e concentração do capital, demonstram a clara necessidade de construção de uma outra
realidade onde a relação sociedade e natureza não sejam mais sujeitadas ao capital.
E, consequentemente, a produção do território se faça de maneira a privilegiar o ser humano e não
mais o mercado. Que o mundo dos homens seja mais valorizado que o mundo das coisas. E, neste
sentido, que o processo de produção territorial seja inerente ao processo de humanização.
O processo de subordinação das relações sociais e, consequentemente, do trabalho e da produção do
espaço e do território ao capital, não é uma relação fatalista, infinita ou estável, pois as relações sociais

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são dinâmicas e mutáveis. Como afirma Santos (2001): a realidade é constituída não só do que existe
hoje, mas do que pode vir a existir concretamente aqui, ali ou em qualquer parte.
Por isso, partindo do princípio de que o processo de construção do conhecimento (a educação, a
ciência, a arte, a teologia, a filosofia etc.) não é neutro deve-se demonstrar a posição frente à realidade
contraditória e desigual capitalista, ou seja, tem-se que definir a opção política em atuação intelectual. E
nesse caso entende-se, que o conhecimento deve estar a serviço da justiça social. Neste sentido, a
referida intenção tende a colaborar não só com o debate para auxiliar no desenvolvimento do
conhecimento científico geográfico, mas de estar contribuindo, também, para a construção de um outro
projeto civilizacional, de um outro modelo socioeconômico e de uma outra lógica globalizante para a
produção de um território emancipado do capital.
A atuação dos movimentos sociais, em geral, e, mais especificamente, a construção da espacialização
e da territorialização do MST, demonstram a nítida possibilidade de construção de uma outra realidade
tendo em vista que os sujeitos são capazes de produzirem suas parcelas territoriais, mesmo que ainda
subordina dos ao capital, mas com a sua identidade. Sendo capazes de produzirem/reproduzirem suas
terriorialidades na medida em que se reproduzem, material e simbolicamente, como sujeitos da mudança.

Geografia e meio ambiente

QUESTÕES AMBIENTAIS DO PLANETA19

Os Problemas Ambientais: A Degradação Ambiental e seus Impactos

Como introdução ao conteúdo de problemas ambientais mundiais, iniciemos observando a seguinte


manchete:
“As marcas da destruição do planeta - Nações Unidas radiografam em quinze fotos, a saúde da
Terra e advertem que os Estados não estão no caminho certo para cumprir os principais tratados
internacionais sobre meio ambiente”. (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/13/album/1552476582_773089.html#foto_gal_5)
Vamos observar abaixo as fotos chocantes e suas legendas:

1) Caranguejo preso em um copo de plástico no mar na Passagem de Isla Verde, nas Filipinas, em 7
de março de 2019.

19
TAMDJIAN, James Onning. Geografia: estudos para compreensão do espaço. 2ª edição. São Paulo: FTD, 2013.

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2) Algumas vacas atravessando a lagoa seca de Aculeo, em Paine (Chile), em 9 de janeiro de 2019.

3) Poluição causada por veículos em uma rua em Nova Delhi (Índia), em 14 de novembro de 2017.

4) Cão sobre uma montanha de lixo em Nova Delhi (Índia), em 5 de março de 2019.

5) Casal junto a seus animais, resgatados de uma inundação em Burgaw, Carolina do Norte (Estados
Unidos), em 17 de setembro de 2018.

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6) Chaminés de uma refinaria de petróleo no estado de Utah (Estados Unidos), em 10 de dezembro
de 2018.

7) Voluntários limpando a baía de lixo de Lampung em Sumatra, em 21 de fevereiro de 2019.

8) Edifícios envoltos por uma nuvem de poluição em Seul (Coréia do Sul), em 6 de março de 2019.

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9) Grupo de trabalhadores protegendo-se da poluição com máscaras durante uma manifestação em
Seul (Coreia do Sul) em 6 de março de 2016.

10) Vista aérea de uma área desmatada da floresta amazônica, no sudeste do Peru, causada pela
mineração ilegal, em 19 de fevereiro de 2019.

11) Bombeiros tentando apagar um incêndio na aldeia grega de Kineta, em 24 de julho de 2018.

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12) Vista aérea da ponte ferroviária derrubada por um deslizamento de terra após o colapso, em 25 de
janeiro de 2019, de uma barragem em uma mina de minério de ferro em Brumadinho, Minas Gerais.

13) Restos mortais de um urso polar morto como resultado da falta de comida devido à mudança
climática, fotografado em julho de 2013, no oeste de Svalbard (Groenlândia).

14) Vista aérea do desaparecimento do mar de Aral em 2018, no Uzbequistão.

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15) Mergulhadores nadando em uma cama de corais mortos na Ilha Tioman da Malásia, em 2018.

Feita a análise das fotos acima, podemos concluir que a humanidade está diante de uma terrível crise
ambiental.
O modelo de desenvolvimento econômico calcado no avanço do industrialismo, no consumismo
desenfreado e na exploração cada vez mais intensa dos recursos naturais do planeta tem levado tanto
ao agravamento quanto ao surgimento de novos problemas ambientais.
Diante dos problemas ambientais existentes no passado, os sintomas da crise ambiental
contemporânea adquiriram proporções jamais alcançadas, atingindo, inclusive, as áreas mais remotas e
inóspitas do planeta, como as regiões polares, que já sofrem os efeitos das alterações climáticas
desencadeadas pela intensa poluição atmosférica.
Esse exemplo do derretimento das geleiras polares no Ártico, decorrente do aquecimento atmosférico
global, nos revela também outra face da problemática ambiental contemporânea, em que os problemas
ambientais deixaram de se restringir no âmbito local ou regional para se tornarem questões de ordem
planetária.

As Origens dos Problemas Ambientais

Desde a Antiguidade, o ambiente é um tema discutido pelas sociedades. Na Grécia antiga, por
exemplo, os filósofos já debatiam sobre qual era a essência de tudo o que existe no mundo, especialmente
da água, da terra, do fogo e do ar.
As poucas, mas significativas, descobertas feitas por eles levaram-nos a acreditar que a Terra era
perfeitamente harmônica, concebida por algo divino e de extrema inteligência.
Aristóteles (c. 485 a.C-420 a.C.), um dos maiores pensadores gregos, defendia que todas as coisas
na Terra, vivas e não vivas (como as rochas), tinham uma profunda ligação entre si e até mesmo uma
essência comum, sendo úteis para a sobrevivência. Pouco a pouco se desenvolveu a ideia de que a Terra
é um gigantesco ser vivo.
Na Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), o ambiente passou a ser tratado isoladamente, como
se fosse um conjunto de elementos que não tinham nenhuma relação com a sociedade e existiam apenas
para atender às suas necessidades.
Dentro desse contexto histórico, com suas características sociais, econômicas e políticas, os
interesses econômicos privados tomaram-se explícitos e prevaleceram sobre qualquer alerta de
problemas ambientais que poderiam surgir em longo prazo.
De meados do século XIX até os nossos dias, ocorreu um verdadeiro saque aos recursos naturais e
uma destruição de muitos elementos da natureza.

A Sociedade de Consumo
Vivemos em uma sociedade marcada e dominada pela lógica do consumo. Todos os seus
componentes, jovens, adultos e idosos, sejam eles ricos ou pobres, estão inseridos nesse contexto.
Grande parte dos meios de comunicação faz uma ligação entre o consumo e o prazer. São centenas
de milhares de produtos apresentados como necessários para se alcançar a felicidade.
É cada vez mais comum observarmos que o ato de consumir é colocado como uma das formas que
permite ao cidadão ou ao indivíduo sentir-se inserido na sociedade.

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A expansão acelerada do consumismo acarreta alta demanda de energia, minérios, água e tudo o que
é necessário à produção e ao funcionamento dos bens de consumo. Esse padrão vem se difundindo em
todo o globo, por uma espécie de globalização do consumo, que vem crescendo a cada ano.
Extensos estudos feitos pela ONU, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento,
alertam para a velocidade de utilização dos recursos naturais, que já é muito maior que a capacidade de
regeneração da natureza, uma vez que a reposição de alguns elementos é impossível, pois a escala de
tempo para a sua formação é milhões de vezes maior que a da vida média dos seres humanos.

O Consumo e seus Impactos no Espaço Urbano


O consumo crescente também altera a paisagem urbana. As melhores áreas e as mais centrais, ou
ainda com melhor acessibilidade, normalmente são dominadas pelo setor comercial, gerando uma
hipervalorizarão dos imóveis em seu entorno.
Essa especulação imobiliária nos grandes centros urbanos empurrou e ainda empurra um grande
número de trabalhadores para locais distantes dos seus postos de trabalho. Quanto maiores forem os
deslocamentos, maiores serão os custos de transporte e a poluição gerada.
Um exemplo disso é a produção de veículos, que por sua vez está atrelada à produção de aço,
petróleo, ferramentas e máquinas. Em uma sociedade de consumo, o investimento em transporte deve
se manter vinculado à produção de mercadorias a serem transportadas. Portanto, mais consumo, maior
produção; maior produção, mais transportes; mais transportes, maior emissão de poluentes.
Por fim, a produção de energia deve também acompanhar o crescimento de todas essas atividades
econômicas, o que demanda também maior produção de equipamentos. Note, portanto, que estamos
praticamente em um ciclo vicioso.

O Desenvolvimento Sustentável

Apesar de relativamente recente, a ideia de desenvolvimento sustentável vem ganhando espaço com
o desenvolvimento das relações internacionais intensificadas pelo aumento das trocas comerciais,
principalmente nos últimos 200 anos.
Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é que essas preocupações ganharam relevância.
Uma das principais razões para isso foi a tragédia das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki (1945),
que mataram centenas de milhares de pessoas. Ao deixar um rastro de radioatividade, as bombas
ampliaram muito as ocupações ambientais de uma considerável parcela da população mundial.
Com a criação da ONU, em 1945, as relações internacionais passaram por uma mudança que também
atingiu a questão ambiental. Em 1949 ocorreu a conferência das Nações Unidas para a Conservação e
Utilização dos Recursos (Unscur), em Nova York.
Em 1968, intelectuais, empresários e líderes políticos criaram uma organização voltada ao debate
sobre o futuro da humanidade, o chamado Clube de Roma, que financiava pesquisas para publicação de
relatórios importantes.
Em 1972 eles lançaram o relatório Limites do crescimento, em conjunto com cientistas do
Massachusetts Institute of Technology (MIT). Esse relatório gerou muita polêmica, pois basicamente
afirmava que, se continuassem os ritmos de crescimento da população, da utilização dos recursos
naturais e da poluição, a humanidade correria sérios riscos de sobrevivência no final do século XXI.

Um Novo Patamar de Discussões a partir de 1972


Em 1972, a ONU organizou a Conferência de Estocolmo, conhecida também como a Primeira
Conferência Internacional para o Meio Ambiente Humano.
Já se sabia que a economia do planeta consumia um volume cada vez maior de combustíveis fósseis
e recursos não renováveis, lançando bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, criando
assim, uma grande instabilidade climática.
Era preciso reduzir o impacto das atividades econômicas, mas, para isso, fazia-se necessário reduzir
o consumo e o desperdício. Começava, então, uma corrida para se atingir o desenvolvimento sustentável.
Efetivamente, poucos avanços foram conseguidos ao final desse encontro em 1972. Porém, a
sensibilização das lideranças da comunidade internacional acabou levando a ONU a criar, naquele
período, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, conhecida pela sigla Pnuma.
No entanto, tanto os países em desenvolvimento quanto os muito pobres não estavam interessados
em abrir mão das vantagens do desenvolvimento econômico em nome da preservação ambiental. Assim,

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como havia muitas discussões sem solução, foi adotado um primeiro conceito chamado
“ecodesenvolvimento20”.
Somente em 1987 o Pnuma divulgou o relatório Nosso futuro comum, sendo o primeiro grande
documento científico que apresentou com detalhes as causas dos principais problemas ambientais e
ecológicos.
A grande contribuição desse documento foi a popularização do chamado desenvolvimento
sustentável, como um aperfeiçoamento do ecodesenvolvimento.
Para atingir o desenvolvimento sustentável seria necessário:
→ A implantação de projetos econômicos baseados em tecnologias menos agressivas ao ambiente
como uma forma de ajuda ao combate das instabilidades e do subdesenvolvimento, que representavam
um risco para o equilíbrio ecológico, justamente pela falta de recursos para implementar as mudanças
necessárias;
→ O combate da pobreza humana, uma vez que populações desempregadas e desamparadas tendem
a retirar recursos da natureza de forma descontrolada para sua sobrevivência, incluindo assim, o conceito
de desenvolvimento social;
→ A tomada de decisões sobre os caminhos a serem tomados, com ampla participação da sociedade,
para que fossem revertidos em resultados positivos ao equilíbrio ambiental, incluindo assim, a
democracia.
Assim, definiu-se o conceito de desenvolvimento sustentável:
Desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades da geração presente sem
comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades.

Eco 92

Em junho de 1992, a ONU organizou na cidade do Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cnumad), que ficou conhecida como Cúpula da Terra ou Eco
92.
Entre os objetivos principais dessa conferência, destacaram-se:
→ Examinar a situação ambiental mundial desde 1972 e suas relações com o estilo de
desenvolvimento vigente;
→ Estabelecer mecanismos de transferência de tecnologias não poluentes aos países
subdesenvolvidos;
→ Incorporar critérios ambientais ao processo de desenvolvimento;
→ Prever ameaças ambientais e prestar socorro em casos emergenciais;
→ Reavaliar os organismos da ONU, eventualmente criando novas instituições para implementar as
decisões da conferência.
Abaixo vamos conhecer algumas resoluções e documentos importantes da ECO-92.

A Convenção do Clima
A Convenção do Clima atribuiu aos países desenvolvidos a responsabilidade pelas principais emissões
poluentes, dando a eles os encargos mais importantes no combate às mudanças do clima. Aos países
em desenvolvimento, concedeu-se a prioridade do desenvolvimento social e econômico, mantendo,
porém, a tarefa de controlar suas parcelas de emissões de poluentes na medida em que se
industrializassem. As recomendações da convenção foram:
→ Adotar políticas que promovessem eficiência energética e tecnologias mais limpas;
→ Reduzir as emissões do setor agrícola;
→ Desenvolver programas que protegessem os cidadãos e a economia contra possíveis impactos da
mudança do clima;
→ Apoiar pesquisas sobre o sistema climático;
→ Prestar assistência a outros países em necessidade;
→ Promover a conscientização pública sobre essa questão.
Infelizmente os acordos da Eco 92 ficaram apenas no plano das boas intenções.

20
O ecodesenvolvimento é um conjunto de ideias e procedimentos que dão prioridade ao processo criativo de transformação do meio em que vivemos, porém, com
a ajuda de técnicas ecologicamente corretas e que sejam adequadas a da um dos lugares. São as populações desses lugares que devem se envolver, se
organizar, utilizar os recursos naturais de forma prudente e procurar soluções que em a um futuro digno.

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A Convenção da Biodiversidade
Nessa convenção, estava prevista a transferência de parte dos recursos ou lucros obtidos com a
exploração e comercialização dos recursos naturais para o seu local de origem, que receberia esse
volume de dinheiro para aplicar em programas de preservação e de educação ambiental.
Esse tratado visava a favorecer o diálogo Norte-Sul, ou seja, as relações entre os países desenvolvidos
e as nações em desenvolvimento. Porém, muito pouco foi feito.
A evolução dos estudos genéticos levou a biotecnologia a adquirir a capacidade de alterar e reproduzir
organismos, como plantas e seres vivos em geral. Esse fato dotou os países ricos da possibilidade de
explorar produtos naturais e modificá-los geneticamente, adquirindo o direito de patentear tais espécies.
Isso abriu espaço para a biopirataria.

A Agenda 21
Esse documento, assinado pela comunidade internacional durante a Eco 92, assumiu compromissos
para a mudança do padrão de desenvolvimento no século XXI. Ou seja, a Agenda 21 procurou traduzir
em ações o conceito de desenvolvimento sustentável.
O termo "agenda" teve, nesse caso, o sentido de intenções, isto é, de propostas de mudanças, visando
a criar um modelo de civilização pelo qual sejam possíveis a convivência e a simultaneidade do equilíbrio
ambiental com a justiça social entre as nações.
A Agenda 21 buscava:
→ Geração de emprego e de renda;
→ Diminuição das disparidades regionais e interpessoais de renda;
→ Mudança nos padrões de produção e consumo;
→ Construção de cidades sustentáveis;
→ Adoção de novos modelos e instrumentos de gestão.
No entanto, para alcançar essas metas, era preciso mobilizar, além dos governos, todos os segmentos
da sociedade.

Uma Nova Etapa Pós Eco 92: o Protocolo de Kyoto

Como estava previsto na Convenção do Clima, assinada durante a Eco 92, deveria ocorrer um novo
encontro internacional para se discutir a redução da emissão de gases responsáveis pelo aumento da
temperatura do planeta.
Tal reunião ocorreu em 1997, em Kyoto, no Japão, onde líderes de 160 nações assinaram um
compromisso que ficou conhecido como Protocolo de Kyoto.
Esse documento previa, entre 2008 e 2012, um corte de 5,2% nas emissões dos gases causadores do
efeito estufa, em relação aos níveis de 1990.
Para entrar em vigência, o Protocolo de Kyoto deveria ser ratificado por, no mínimo, 55 governos, que,
se somados, representariam no mínimo 55% das emissões de CO² produzidas pelos países
industrializados. Essa porcentagem foi adotada para que os Estados Unidos, um dos maiores poluidores
do planeta, não pudesse impedir, sozinho, a adoção dessas medidas.

A Rio+10

Em 2002, mais uma vez a ONU tentou estabelecer ações globais para a melhoria da qualidade de
vida. Tal medida ficou conhecida como Rio+10, a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável,
que se realizou em Johanesburgo, na África do Sul. Os principais temas então abordados foram:
Clima e energia: foi estabelecido o uso de energias limpas, mas não foram determinadas as metas.
Por isso, os ambientalistas protestaram, afirmando que o texto permitia a inclusão da energia nuclear, já
que incentivava as energias avançadas;
Subsídio agrícola: segundo muitos críticos, a superficialidade do texto fortaleceu a OMC, controlada
pelos países ricos, e esvaziou o papel mediador da ONU;
Protocolo de Kyoto: desde o protocolo, pouco mudou, pois os países que não haviam assinado até
então, apenas prometeram que estudariam o caso (exceto os Estados Unidos, que até mesmo abandonou
a reunião antes de seu final);
Biodiversidade: decidiu-se reduzir o ritmo de desaparecimento de espécies em extinção e repassar
os recursos obtidos pela exploração de produtos naturais para seus locais de origem;
Água e saneamento: foi decidido que se devia aumentar o número de pessoas com acesso à água
potável. Os críticos afirmaram, porém, que o texto poderia ser mais específico quanto aos procedimentos
conjuntos a serem adotados;

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Transgênicos: foram objeto de polêmica, pois as organizações supranacionais recomendaram que
regiões com fome crônica adotassem esses alimentos. Por outro lado, o mesmo documento dizia que os
países teriam o direito de rejeitar os transgênicos até o surgimento de estudos mais conclusivos;
Pesca e oceano: o tema constituiu a maior conquista da reunião, já que previa a criação de áreas de
proteção marinha e a abolição imediata de qualquer subsídio à atividade pesqueira irregular.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)

No fim dos anos 1980, aumentou-se a percepção de que as atividades humanas eram cada vez mais
prejudiciais ao clima do planeta. A ONU convocou cientistas do mundo todo para acompanhar esse
processo e, com a colaboração de 130 governos, criou-se o Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC).
O principal papel desse organismo foi o de criar relatórios e documentos para acompanhar a situação
ambiental do planeta e também o de fornecer essas informações para a Convenção do Quadro das
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, órgão responsável por essas discussões.
Em 2007, o IPCC recebeu, junto com o ex-vice-presidente estadunidense AI Gore, o prêmio Nobel da
paz, pelo trabalho de divulgação e busca de conscientização sobre os riscos das mudanças climáticas.
Veja os principais alertas do IPCC:
→ A temperatura da Terra deve subir entre 1,8ºC e 4ºC, nas próximas décadas, o que aumentaria a
intensidade de tufões e secas, ameaçaria um terço das espécies do planeta e provocaria epidemias e
desnutrição;
→ O derretimento das camadas polares poderia fazer com que os oceanos se elevassem entre 18 e
58 cm até 2100, fazendo desaparecer pequenas ilhas e, assim, obrigando centenas de milhares de
pessoas a aumentar o fluxo dos chamados "refugiados ambientais".

A Conferência de Copenhague

Em dezembro de 2009, realizou-se em Copenhague, Dinamarca, a Cop-15 (Conferência da ONU sobre


Mudanças do Clima), tendo como princípio norteador, as responsabilidades comuns, porém
diferenciadas. Mas o que seria isso?
Os países industrializados, que historicamente foram os primeiros a lançar uma quantidade maior de
CO² e outros gases de efeito estufa na atmosfera, teriam uma responsabilidade maior no corte de
emissões. Acreditava-se que eles fossem assumir plenamente uma meta de 25 a 40% de redução até
2020. Os países emergentes seguiriam o mesmo caminho, mas com outras metas.

A Rio+20

Em 2012, o Rio de Janeiro foi sede de um evento para marcar o 20º aniversário da Conferência das
Nações Unidas sobre Desenvolvimento do meio Ambiente, realizada em 1992, conhecida como Rio 92.
O encontro foi popularmente chamado de Rio+20.
A meta principal foi fazer um balanço dos últimos anos na busca de um modelo econômico baseado
no desenvolvimento sustentável. Uma das principais resoluções foi transformar o Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) numa agência da ONU, como por exemplos, a Organização
Mundial da Saúde (OMS) ou a Organização Mundial do Comércio (OMC), o que lhe daria mais poderes
e recursos.
Um exemplo de avanço na Rio+20 foram acordos para a redução da emissões de gases causadores
de efeito estufa.

Os Principais Problemas Ambientais do Planeta

Poluição Atmosférica
A poluição do ar consiste no lançamento e acúmulo de partículas sólidas e gases tóxicos que se
concentram na atmosfera terrestre alterando suas características físico-químicas.
De maneira geral, os poluentes atmosféricos podem ser produzidos por fontes primárias ou
secundárias.
Os poluentes primários são aqueles liberados diretamente das fontes de emissão, como os gases que
provém de queimadas em florestas ou da queima de combustíveis fósseis (petróleo e carvão), lançados
do escapamento dos veículos automotores e também das chaminés das fábricas, entre eles, monóxido
de carbono (CO), dióxido de carbono (CO²), dióxido de enxofre (SO²) e metano (CH4).

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Os poluentes secundários, por sua vez, são aqueles formados na atmosfera a partir de reações
químicas entre poluentes primários e componentes naturais da atmosfera, como o ácido sulfúrico
(H²SO4), ácido nítrico (HNO³) e ozônio (O³). A esses poluentes somam-se ainda materiais particulados
que abrangem um grande conjunto de poluentes formados por poeiras, fumaças, materiais sólidos e
líquidos, que se mantêm suspensos na atmosfera.
Desde o início da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, o nível de poluentes na atmosfera
terrestre vem aumentando exponencialmente com o avanço da industrialização, dos meios de transportes
e demais atividades econômicas que se desenvolvem apoiadas na queima de combustíveis fósseis.
Milhares de toneladas de gases poluentes são lançados todos os dias na atmosfera terrestre,
desencadeando uma série de problemas ambientais, com impactos que ocorrem tanto em escalas local
e regional (como o fenômeno das inversões térmicas e das chuvas ácidas) quanto em escala global (como
a diminuição da camada de ozônio e a ocorrência do efeito estufa).
A alta concentração de poluentes no ar forma uma camada de partículas em suspensão, parecida com
uma neblina, conhecida como smog, fazendo com que a visibilidade diminua. Também causa muitos
problemas de saúde, principalmente relacionados ao sistema respiratório e cardiovascular.
Em grandes centros urbanos dos países industrializados, é frequente os níveis de poluição do ar
ultrapassarem os limites estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Esses gases
poluentes são provenientes da queima de florestas e, em especial, de combustíveis fósseis (petróleo e
carvão). Os principais agentes poluidores são os veículos automotores e as indústrias, sobretudo as
termelétricas, siderúrgicas, metalúrgicas, químicas e refinarias de petróleo.
Um exemplo disso é a população chinesa, que é aconselhada constantemente a usar máscara para
sair às ruas, evitar exercícios ao ar livre e, em dias críticos, é alertada a permanecer no interior de suas
casas, devido aos altos níveis de poluição do ar encontrados em diversas províncias do país. Foram
registradas milhares de mortes, principalmente na última década, decorrentes de problemas respiratórios
e cardiovasculares agravados pela poluição do ar.

Inversão Térmica
Em condições normais, o ar presente na Troposfera21 costuma circular em movimentos ascendentes,
o que ocorre em razão das diferenças de temperatura entre o ar mais aquecido e, portanto, mais leve,
nas camadas mais baixas, e o ar mais frio e mais denso, nas camadas mais elevadas.
Em regiões afetadas por intensa poluição atmosférica, como os grandes centros urbanos, a fuligem e
os gases poluentes lançados pelas chaminés das fábricas e pelo escapamento dos veículos automotores
tendem a se dispersar por meio dessas correntes ascendentes.
Em dias mais frios, com baixas temperaturas e pouco vento, típicos do outono e do inverno, a ausência
de corrente de ar dificulta a dispersão dos poluentes atmosféricos. Nessa situação, o ar em contato com
a superfície mais fria também se resfria, ficando aprisionado pela camada de ar mais quente acima, o que
impede a dispersão dos poluentes atmosféricos.

https://www.todamateria.com.br/inversao-termica/

Tem-se, assim, uma inversão da temperatura do ar atmosférico, a chamada inversão térmica,


fenômeno que pode ser observado na forma de uma faixa cinza-alaranjada no horizonte dos grandes
centros urbanos.

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A troposfera é a camada mais baixa da atmosfera terrestre, sendo a região em que vivemos e onde ocorrem os fenômenos meteorológicos.

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https://www.ecycle.com.br/4175-inversao-termica.html

Com a ausência dos ventos ascendentes, os poluentes atmosféricos deixam de dispersar e


concentram-se próximos à superfície, o que compromete a qualidade do ar e gera problemas de saúde
aos habitantes das grandes cidades.
Quando expostas aos altos índices de poluição, muitas pessoas apresentam sintomas como dores de
cabeça, coceira na garganta e irritação nos olhos, crises alérgicas e pulmonares, problemas que afetam
principalmente crianças e idosos, mais sensíveis à poluição.

As Mudanças Climáticas
A humanidade já passou por períodos mais quentes que o atual e por períodos muito frios também.
Dessa forma, muitos podem afirmar que as preocupações com o aquecimento são exageradas e que
a Terra vai passar por períodos de resfriamento tal qual já ocorreu.
Isso não é verdade. O problema está no fato de que se ampliou muito a emissão de CO² na atmosfera
desde o início da Revolução Industrial.
As fábricas e as indústrias usavam e ainda usam carvão mineral para gerar energia. Com o avanço
das tecnologias, o petróleo passou a ser usado também como matéria-prima e fonte de combustíveis para
muitos sistemas de transporte.
Apesar de a emissão de poluentes não ser igual em todos os países e de os mais industrializados
terem responsabilidade maior nesse processo, hoje já é possível afirmar que se trata de um problema
global.
Grandes quantidades de poluição produzidas em um lugar podem atingir outras localidades do planeta,
em função da circulação das massas de ar que transportam esses rejeitos.

O Desequilíbrio no Efeito Estufa


O principal problema causado pelo CO² e por outros poluentes é o desequilíbrio no efeito estufa.
Efeito estufa é um fenômeno natural, em que alguns gases funcionam como retentores de calor,
condição fundamental para manter a existência de vida no planeta.

https://www.grupoescolar.com/a/b/A6A65.jpg

As temperaturas médias no mundo subiram muito nos últimos 150 anos, e a explicação está no
acúmulo de gases causadores do efeito estufa.

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O metano é outro gás muito agressivo. Sua capacidade de reter calor na atmosfera é 23 vezes maior
que a do gás carbônico. Cerca de 30% das emissões mundiais de metano estão ligadas à pecuária, mas
o metano é liberado também por outras fontes, como a queima de gás natural, de carvão e de material
vegetal e também por campos de arroz inundados, esgotos, aterros e lixões.
Entre os exemplos mais bem-sucedidos de combate à poluição atmosférica podemos citar a
estruturação de áreas urbanas com base na circulação de transporte público e bicicletas ao longo de
corredores e ciclovias, o que contribui para reduzir as emissões provenientes dos automóveis.
Promover o uso de combustíveis alternativos, como o etanol e o biodiesel, que emitem menos gases
poluentes do que a gasolina e o diesel convencional, além do desenvolvimento de carros elétricos,
também podem ser medidas válidas para minimizar a poluição; porém, elas não reduzem a dependência
da população em relação ao automóvel, objetivo que deve estar na agenda de qualquer sociedade
sustentável.

O Buraco na Camada de Ozônio


No final do século XVIII e início do século XIX, o cientista holandês Martin van Marum, descobriu um
gás com cheiro muito forte durante algumas experiências com reações químicas.
Anos depois, o cientista alemão Christian Friedrich Schönbein, chamou esse gás de ozônio, quando
percebeu que ele era liberado nos processos químicos de purificação da água.
Schönbein também notou que esse gás subia pelo ar rapidamente e adquiria uma cor azul bem pálida.
Ele acreditava então que o ozônio existia em grande quantidade nas altas camadas da atmosfera, fato
que veio a ser comprovado por Gordon Miller Bourne Dobson por volta dos anos 1920.
Por meio dessas pesquisas foi possível perceber que a camada de ozônio é um filtro natural para a
Terra. A constituição química do gás detém os raios solares nocivos à saúde humana, portanto, a camada
de ozônio é um dos elementos mais importantes para a manutenção da vida.
A destruição dessa camada tem relação direta com o modo de vida e o modelo produtivo adotado pela
economia mundial nos últimos tempos.
Para refrigerar os alimentos usavam-se, no início do século XX, gases extremamente perigosos, como
a amônia e o enxofre. No final dos anos 1920, Thomas Midgley Jr. descobriu um gás proveniente da
combinação do carbono com o flúor e o cloro, trata-se do clorofluorcarboneto (CFC), depois registrado
pela empresa dona da patente como gás fréon.
Com inúmeras vantagens em relação aos outros gases, o fréon passou a ser usado largamente e
permitiu a popularização das geladeiras domésticas, que eram impensáveis quando se usavam os outros
gases.
As pesquisas também permitiram a fabricação de espumas, produtos de limpeza, sprays e uma
quantidade infinita de derivados desse gás.
Em meados dos anos 1980, descobriu-se a existência de uma falha nessa camada protetora da Terra.
Cientistas britânicos e estadunidenses anunciaram que havia um buraco de milhões de quilômetros
quadrados na atmosfera sobre a Antártida.
As pesquisas apontavam que esse buraco era causado pela emissão de gases fréon, que, quando
sobem às altas camadas, destroem o ozônio e permitem a passagem dos raios solares nocivos à vida. O
problema reside no fato de que esses gases duram na atmosfera entre 20 e 90 anos.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-45558884

Na imagem acima, observa-se a Camada de ozônio sobre o Polo Sul, em setembro de 2018. Em roxo
e azul estão as áreas que têm menos ozônio, enquanto em amarelo e vermelho, as que têm mais.

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O buraco está principalmente sobre a Antártica, mas já se notam pequenas falhas também no
Hemisfério Norte. Sabe-se que existe um sistema mundial de circulação de ar que acumula os gases
fréon sobre a Antártica em quantidade máxima justamente nos meses mais frios, quando o ar fica mais
denso e circula somente nas proximidades dessa área. Quando os raios solares mais fortes chegam a
essa região no verão, as reações químicas quebram o ozônio e permitem a passagem dos raios nocivos.
A solução para esse problema está ligada à redução da emissão de gás CFC, fato que já foi registrado
muitas vezes por cientistas credenciados pela ONU. Para se chegar a esse pequeno avanço, foi assinado
em 1987 o Protocolo de Montreal (Canadá), que previa a erradicação gradual da produção de CFC.
Entre 1988 e 1995, o consumo do gás diminuiu quase 80% em escala mundial. Mesmo assim,
especialistas acreditam existir um mercado paralelo e ilegal de CFC que movimenta milhares de toneladas
de gás por ano.
Esse quadro influencia diretamente a saúde humana. Especialistas na área de medicina afirmam que
problemas como casos de catarata e câncer de pele vêm se avolumando em grande escala no planeta.

A Devastação das Florestas


As atividades agropecuárias, a urbanização e a industrialização podem ser caracterizadas de maneira
geral como os processos que iniciaram a devastação das florestas.
Com o desenvolvimento da tecnologia em todos os campos da ação humana, surgiram métodos que
aceleraram o desmatamento e acabaram afetando vastas áreas ricas em biodiversidade.
Como exemplos, podem-se citar extensas áreas florestais da Europa e dos Estados Unidos
praticamente extintas no final do século XIX e início do século XX. Esse processo esteve ligado ao
desenvolvimento e ao avanço das relações capitalistas que se materializavam no território.
Infelizmente esse processo de destruição continua até hoje e de forma cada vez mais preocupante. A
instalação de atividades econômicas sobre áreas praticamente intactas é resultado da expansão da
indústria madeireira, das atividades mineradoras, em especial as ilegais, e da corrida por novas áreas
pela agricultura comercial, fato que ficou conhecido como expansão das fronteiras agrícolas.
A partir dos anos 1980, principalmente, a consciência ecológica levou muitos países, em especial os
mais desenvolvidos, a realizar programas de replantio de espécies nativas, o que possibilitou a
recuperação de antigas áreas devastadas. Em contrapartida, nos países mais pobres e nas nações em
desenvolvimento, essa tragédia natural tem crescido ano a ano.
A atuação de grandes empresas exploradoras que operam em regiões florestais do planeta gera outros
graves problemas. As populações das regiões florestais extremamente pobres viviam dos frutos das
florestas de forma racional, uma vez que o ritmo de exploração das matas permitia a sua regeneração.
Com a chegada das grandes empresas exploradoras, ocorreu uma radical mudança na vida dessas
pessoas.
Desprovidos de áreas para exercer suas atividades, os trabalhadores pobres empregam-se nessas
companhias, recebendo baixíssimos salários. Aqueles que não trabalham nessas empresas acabam
derrubando a mata para vender a madeira de forma ilegal e assim obter recursos para sustentar suas
famílias.
Nos últimos anos as preocupações estão cada vez maiores, pois mapeamentos detalhados mostram
que a devastação põe em risco principalmente as florestas localizadas em regiões úmidas do planeta.
São áreas de mata inundadas ou saturadas de água, como as várzeas dos rios, manguezais, florestas
em áreas costeiras e próximas de grandes bacias hidrográficas.
Na Ásia, a maior parte das terras úmidas florestadas estão ameaçadas pela expansão da agricultura
comercial do arroz e pela exploração de madeira, como no caso da Indonésia, que já perdeu grande parte
de sua cobertura florestal original.
Todos os relatórios e avisos feitos pelos cientistas alertam que essas áreas úmidas devem ser
preservadas, pois ajudam a regular o fluxo e o abastecimento de depósitos subterrâneos de água. Caso
essas regiões entrem em colapso natural, isso pode gerar um efeito desastroso para a sociedade, que
ficaria sem água.
Uma experiência que merece menção é a da Finlândia. Quase 80% do território finlandês é coberto
por florestas, o que é a maior taxa de ocupação florestal da Europa, em razão de as florestas terem sido
consideradas patrimônio ecológico, social, cultural e econômico do país. Nas últimas décadas, as áreas
plantadas vêm superando as áreas cortadas em 20 a 30% anualmente.
Um dos grandes segredos desse sucesso está no replantio de espécies nativas; na Finlândia somente
podem ser replantadas madeiras originais daquela região. Isso permite uma atividade econômica mais
sustentável e não tão agressiva ao solo, ao clima e aos animais que habitam essas matas.

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Os defensores da silvicultura (atividade que se dedica ao manejo e estudo de florestas plantadas)
finlandesa afirmam que a estrutura do replantio é semelhante à das florestas naturais e que os seres
humanos a exploram desde sempre.
Dessa forma, a indústria florestal é um dos maiores setores da economia do país, e a comercialização
de madeira, papel, polpa de papel e outros derivados da celulose chega a representar cerca de 30% de
suas exportações.
Para combater o mercado clandestino de madeira e o desmatamento em todo o mundo, foi criada a
certificação florestal pelo Conselho de Manejo Florestal (FSC), uma entidade ambientalista mundial.
Esse certificado garante ao consumidor final de madeira e de seus derivados que aquele produto é
fruto de um reflorestamento não agressivo ou mesmo de uma exploração sustentável, que preserva e
respeita o ritmo de regeneração da natureza. Já existem milhares de itens e produtos que contam com
essa certificação. Portas, pisos, móveis e até mesmo papel higiênico são certificados para comprovar que
não vieram de uma matéria-prima fruto da devastação.

A Destruição dos Recursos Hídricos


O modelo econômico que vigora em nossos dias é marcado por um consumo crescente de mercadorias
das mais variadas. No entanto, para se produzir nessa larga escala, estamos assistindo a um desenfreado
consumo de água.
Em função desse modelo econômico, o processo de industrialização e de urbanização dá origem a um
volume cada vez maior de esgotos domiciliares, lixo e outros resíduos, que são lançados nos rios e mares
cotidianamente. Isso afeta qualidade das águas, tanto as superficiais quanto as dos aquíferos, em vários
pontos do planeta.

Escassez de Água: Uma Crise Anunciada


Os rios e os lagos, que formam os ecossistemas de água doce, são considerados o meio de vida
natural mais ameaçado do planeta.
Embora ocupem apenas 1% da superfície terrestre, os ecossistemas de água doce abrigam cerca de
40% das espécies de peixes e 12% dos demais animais.
Para se ter uma ideia da diversidade desses ecossistemas, o Rio Amazonas, sozinho, possuiu mais
de 3 mil espécies de peixe.
Todos os estudos feitos recentemente apontam que 34% das espécies de peixes de água doce
encontradas em todo o mundo correm o risco de extinção, ameaçadas, principalmente, pela construção
de represas, canalização dos rios e poluição.
Entre 1950 e os nossos dias atuais, o número de grandes barragens no mundo passou de 5.750 para
mais de 41 mil, fato que alterou radicalmente a dinâmica da vida aquática.
Esse cenário alarmante é agravado pela pequena disponibilidade de água para o consumo humano.
Embora 75% da superfície terrestre seja recoberta por água, os seres humanos só podem usar uma
pequena porção desse volume, porque nem sempre ela é adequada ao consumo.
É o caso da água salgada dos mares e oceanos, que representa cerca de 97% da quantidade total de
água disponível na Terra.
Dos cerca de 3% restantes, apenas um terço é acessível, em rios, lagos, lençóis freáticos superficiais
e na atmosfera. Os outros dois terços são encontrados nas geleiras, calotas polares e lençóis freáticos
muito profundos.
Além de ser um recurso finito, a água é cada vez mais consumida no mundo todo. Ao longo do século
XX, por exemplo, a população mundial cresceu três vezes, enquanto as superfícies irrigadas cresceram
seis vezes e o consumo global, sete vezes.
Esse aumento exponencial do consumo mundial de água está gerando um fenômeno conhecido como
estresse hídrico, isto é, carência de água. Segundo o Banco Mundial, essa situação ocorre quando a
disponibilidade de água não chega a 1.000 metros cúbicos anuais por habitante.

O Mal Uso da Água e a Salinização dos Solos


São consideradas regiões que sofrem com a salinização aquelas que perdem seu rendimento
econômico na agricultura.
Salinização é a concentração de sais, provocada pela evapotranspiração máxima ou intensa,
principalmente em locais de climas tropicais áridos ou semiáridos, onde normalmente existe drenagem
ineficiente.
Os solos apresentam sais em níveis diferenciados. Quando este nível se eleva, chegando a uma
concentração muito alta, pode prejudicar o desenvolvimento de algumas plantas mais sensíveis, ou
mesmo impedir o desenvolvimento de praticamente todas as espécies.

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A salinização do solo pode ser causada pelo mau manejo da irrigação em regiões áridas e semiáridas,
caracterizadas pelos baixos índices pluviométricos e intensa evapotranspiração.
A baixa eficiência da irrigação e a drenagem insuficiente nessas áreas contribuem para a aceleração
do processo de salinização, tornando-as improdutivas em curto espaço de tempo.
Os solos mais sujeitos a esse problema são os que estão em regiões mais secas. Neles, qualquer tipo
de irrigação mal conduzida pode gerar uma forte salinização se não estiver presente um adequado
sistema de drenagem.
Abaixo seguem dois exemplos de solos salinizados.

https://alunosonline.uol.com.br/geografia/salinizacao-solo.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Saliniza%C3%A7%C3%A3o

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e agricultura estima que, dos 250 milhões de
hectares irrigados em todo o planeta, cerca de metade já tem problemas de salinização, e uma grande
parte é abandonada todo ano por esse motivo. Por isso, a irrigação precisa ser feita com muito cuidado.
Entendemos que a água está cada vez mais escassa em todo o globo. A combinação de fatores
naturais e socioeconômicos como pressão demográfica e uso irracional gera desertificação, salinização
e poluição desenfreada.
O aumento do estresse hídrico já reduziu de forma considerável as reservas hídricas disponíveis no
planeta. Em quase metade das localidades habitadas, já existem problemas de escassez, e cerca de 20
a 30% da população mundial não têm acesso a redes satisfatórias de água e esgoto. Esse quadro fica
ainda mais grave uma vez que a escassez desse recurso se soma a problemas políticos entre povos e
nações.
No Oriente Médio, por exemplo, há inúmeras disputas pela posse da água que se misturam a
rivalidades criadas por décadas de conflitos.
Israelenses e palestinos têm na água um dos maiores pontos de discórdia. Eles disputam as águas
oriundas da nascente do Rio Jordão e do Lago Tiberíades nas proximidades das Colinas de Golã. Além
disso, 90% dos canais de abastecimento de água são controlados por Israel.
Organismos internacionais afirmam que a disponibilidade per capita de água é quatro vezes maior em
Israel do que nos territórios palestinos, fato que potencializa epidemias, queda da produtividade agrícola
e tantos outros problemas.
Outro exemplo de tensão em razão da disputa pela água ocorre entre Síria, Turquia e Iraque. A Turquia
tem um plano de desenvolvimento que inclui a construção de mais de 20 barragens ao longo dos rios
Tigre e Eufrates.
Essas obras de grande porte alteram radicalmente a vazão de água dos rios e ameaçam o
abastecimento de grandes áreas em países vizinhos, como o Iraque e a Síria. Esses países discutem
hoje um estatuto comum para a administração desses rios, visto que não foram poucas as vezes que eles
entraram em alerta para uma possível guerra: um temendo perder o enorme volume de água, fundamental
para seu povo, outro temendo perder as barragens, fundamentais para seu desenvolvimento.

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A Destruição dos Oceanos
A intensificação do comércio internacional nas últimas décadas tem deixado marcas negativas nos
oceanos.
Nos mares de quase todas as regiões do planeta existem gigantescas manchas de petróleo. Em parte,
essas manchas ocorrem por descaso e pelo uso de equipamentos obsoletos que causam vazamentos.
Além disso, muitos navios petroleiros chegam a lavar seus reservatórios nas costas de países pobres,
especialmente africanos, que não têm sistemas de vigilância eficientes para evitar esse crime.
Outro grave problema é a pesca predatória, que também contribui para o esgotamento dos estoques
de pescados oceânicos. Cerca de 90% das espécies comerciais, ou seja, pescadas, processadas e
vendidas, correm risco iminente de destruição em razão da pesca predatória.
Grandes grupos econômicos ligados direta e indiretamente ao setor alimentício são os responsáveis
por essa destruição. Eles permitem a prática da pesca predatória, que, na busca do lucro imediato, não
respeita, em muitos casos, o período de reprodução das espécies, fato que minimamente garantiria a
reposição dos estoques.
O mar também sofre a partir das terras costeiras. Grupos imobiliários promovem a ocupação irregular
de áreas litorâneas pela construção de casas, condomínios e hotéis em áreas de manguezal, alterando
o equilíbrio ambiental.
É importante lembrar que os oceanos são fundamentais para o equilíbrio ecológico de todo o planeta.
Eles concentram 97% das águas e produzem cerca de um sexto do oxigênio da atmosfera, além de serem
os principais responsáveis pela recomposição dos estoques de água doce, graças à umidade que geram.
Por todos esses fatores, os oceanos são fundamentais para a manutenção das características climáticas
do planeta.

A Degradação dos Solos (Desertificação)


A degradação do solo geralmente é causada pela associação de situações climáticas extremas, como
exemplos, a seca ou o excesso de chuvas, práticas predatórias, como o desmatamento de áreas
florestais, expansão das pastagens, utilização intensiva de agrotóxicos e a mineração descontrolada.
Essas atividades alteram e destroem a cobertura vegetal natural do solo, deixando-o exposto à ação
de ventos e chuvas, que gradualmente desgastam o solo desnudo de vegetação.
Esse processo erosivo pode evoluir, e a rocha bruta, base do solo, chegar a ficar exposta. Quando
isso ocorre, está se iniciando o processo de desertificação.
O manejo agrícola inadequado é um dos grandes responsáveis pela degradação dos solos. Quase
metade das áreas agrícolas do planeta tem algum problema que afeta a sua produção de alimentos.
Esse problema está longe de ser somente ambiental. Ele tem profunda relação com a sociedade e a
economia, uma vez que a perda de grãos com a desertificação chega a mais de 20 milhões de toneladas,
cifra suficientemente grande para atenuar o problema da fome no mundo.
As consequências nefastas da degradação do solo afligem também grandes contingentes
populacionais. Calcula-se que 30 milhões de pessoas morreram, nas últimas décadas, de fome,
ocasionada pelo esgotamento de suas áreas naturais, e mais de 120 milhões realizaram o êxodo rural
nos últimos 50 anos.
As soluções para esse problema passam sempre pela alteração do modelo produtivo ou pela aplicação
de enormes recursos financeiros na recuperação de áreas.
Em 1994 foi assinada a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. A principal
decisão foi a aplicação de vastos recursos financeiros para promover a educação ambiental,
principalmente em sociedades agrárias, para que estas sejam reprodutoras das práticas e dos
conhecimentos voltados à conservação dos solos.

Resíduos Sólidos: Recurso e Problema


Diariamente milhões de toneladas de resíduos sólidos são lançadas no ambiente. A prática de
depositar resíduos ao ar livre, lançá-los na água, descartá-los em terrenos baldios e queimar os restos
inaproveitáveis teve início nas civilizações antigas, em que os métodos de lidar com os descartes
consistiam em depositá-los bem longe das moradias.
Essa solução vigorou durante muito tempo e se incorporou à cultura cotidiana de muitas populações.
Hoje é evidente que o crescimento populacional e o aumento do consumo levaram a humanidade a uma
enorme produção de resíduos, que causam graves problemas quando manipulados e depositados de
forma inadequada.
Após a década de 1950, iniciou-se uma mudança de mentalidade em relação ao resíduo sólido, a
princípio nos países mais ricos. Antes visto como desprezível e problemático, gradualmente ele passou
a ser encarado como energia, matéria prima e parte da solução para alguns problemas.

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Atualmente, processos como a reciclagem reduzem o volume de resíduos sólidos descartado e
interferem no processo produtivo, economizando energia, água e matéria-prima, além de reduzir
sensivelmente a poluição da água, do ar e do solo. Mesmo assim, a quantidade de lixo reciclada é muito
pequena perante a total.
Uma das soluções que podem ajudar a solucionar esse problema é a coleta seletiva de lixo, ou seja,
o processo pelo qual se separam os materiais encontrados no lixo. Essa separação é fundamental para
o reaproveitamento dos resíduos, pois a coleta potencializa o reaproveitamento dos materiais. A
reciclagem passou a ser uma obrigação em função do enorme volume de resíduos que a sociedade
produz.

As Consequências das Mudanças Climáticas e Ambientais

A Chuva Ácida
A atmosfera, como vimos, vem sendo contaminada por compostos químicos como o enxofre e o
nitrogênio, que vão se concentrando no vapor de água e, consequentemente, nas nuvens. Estas, quando
muito carregadas, despejam uma chuva extremamente ácida.
Até a década de 1990, a chuva ácida era comum apenas nos países de industrialização mais antiga,
mas depois, com a expansão mundial do processo industrial, ela passou a ocorrer em grande quantidade
também na Ásia, em países como China, Índia, Tailândia e Coreia do Sul, que hoje são os grandes
responsáveis pela emissão de óxido nitroso (NO) e dióxido de enxofre (SO²).
Grande parte desse problema foi surgindo conforme a produção industrial se expandia. Isso significou
maior uso de termelétricas que geram energia por meio do carvão e do petróleo (combustíveis altamente
poluentes), maior circulação de carros e outros meios de transportes.
Nos últimos anos há incidência de chuva ácida praticamente em todo o mundo. Em alguns lugares
onde não existem atividades industriais poluentes, ela ocorre em razão do deslocamento das massas de
ar vindas de países emissores de poluição.

https://escolakids.uol.com.br/geografia/chuva-acida.htm

Entre as consequências da chuva ácida, destacam-se:


→ Alteração da composição do solo e das águas, tanto dos rios quanto dos lençóis freáticos;
→ Destruição da cobertura florestal (No Brasil, isso é visível por exemplo, em trechos das encostas da
Serra do Mar nas proximidades de Cubatão, no litoral de São Paulo, importante polo industrial
petroquímico que já foi conhecido mundialmente pela péssima qualidade do ar);
→ Contaminação das lavouras;
→ Corrosão de edifícios, estátuas e monumentos históricos.
Abaixo, uma imagem de um grande impacto ambiental, com destruição dos galhos e folhas de árvores
de montanhas polonesas, causado pela chuva ácida.

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https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/quimica/o-que-e-chuva-acida.htm

Poluição Atmosférica e Aquecimento Global: O Aumento da Temperatura do Planeta


As razões do aumento da temperatura do planeta ainda geram muitos debates entre os cientistas.
Causas naturais e provocadas pelos seres humanos têm sido propostas para explicar o fenômeno.
A principal evidência do aquecimento vem das medidas de temperatura de estações meteorológicas
em todo o globo desde 1860. Os dados mostram que houve um aumento médio da temperatura durante
o século XX.
Para explicar essas mudanças, os cientistas usam ainda evidências secundárias, como a variação da
cobertura de gelo e neve em certas áreas, o aumento do nível dos mares e das quantidades de chuvas,
entre outras.
Diversas montanhas já perderam enormes áreas geladas e nevadas, e a cobertura de gelo no
Hemisfério Norte na primavera e no verão também diminuiu drasticamente.
O aumento da temperatura global pode levar um ecossistema a graves mudanças, forçando algumas
espécies a sair de seus habitats, invadindo outros ecossistemas, ou potencializando a extinção.
Outra situação que causa grande preocupação é o aumento do nível do mar, de 20 a 30 cm por década.
Algumas ilhas no Oceano Pacífico já sofrem com esse problema.
Deve-se lembrar que a subida dos mares ocorre principalmente por causa da expansão térmica da
água dos oceanos, ou seja, as águas dilatam. No entanto, as preocupações com o futuro incluem também
o derretimento das calotas polares e dos glaciares, que guardam enormes quantidades de água na forma
de gelo. Alguns cientistas afirmam que as mudanças podem ocorrer de forma sutil e mesmo imperceptível.
Na imagem abaixo, um urso polar sofre com o derretimento das calotas polares.

http://meioambiente.culturamix.com/recursos-naturais/derretimento-das-calotas-polares

Tudo isso leva a uma situação preocupante. Previsões feitas pela ONU alertam que entre 50 e 100
milhões de pessoas podem abandonar suas casas temporária ou definitivamente por problemas
relacionados a questões ambientais nas próximas décadas, tornando-se refugiados ambientais.
Nesses números estão incluídos grupos humanos, comunidades inteiras que serão levadas a migrar
em razão da poluição das águas, de enchentes, do desgaste dos solos, do fim da disponibilidade de
peixes e da subida do nível dos oceanos.
É certo que essa situação exigirá uma legislação internacional, uma vez que países e regiões inteiras
vão ser evacuados, e os refugiados poderão ser levados em circunstâncias emergenciais a outros países.

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Sustentabilidade22

A qualidade de vida das gerações atuais e futuras começou a se tornar preocupante, tendo em vista o
estilo de vida e a relação que temos com o meio ambiente, provedor de matérias-primas para a nossa
sobrevivência. Por causa disso, a sustentabilidade hoje é um tema bastante discutido em escolas,
universidades, redes sociais e países de modo geral.

O que é uma Sociedade Sustentável?


A defesa de uma sociedade sustentável baseia-se na ideia de o ser humano estabelecer uma relação
com o espaço que o rodeia de modo que seu estilo de vida não prejudique as futuras gerações. Ou seja,
a sustentabilidade tem como premissa uma exploração do meio ambiente que respeite os limites do
planeta e minimize os efeitos da ação do ser humano.
Atualmente, pensar sobre esses limites é uma tarefa cada vez mais importante e emergencial, pois se
o nível de consumo mundial dos recursos naturais continuar no mesmo patamar, será insustentável sua
manutenção para, consequentemente, usufruto das gerações futuras.
Mesmo garantindo nossa própria sobrevivência, a qualidade de vida de toda a população também deve
ser um motivo de preocupação. Nesse sentido, a própria desigualdade social pode ser considerada
insustentável, pois favorece uns em detrimento de outros.

As Construções Alternativas
As paisagens urbanas têm cada vez mais se distanciado da forma original da natureza, de modo que
não proporciona um vínculo entre a dinâmica das cidades e o meio ambiente. Atualmente, 60% dos
resíduos sólidos urbanos provêm da construção civil, o que também provoca grande demanda de
madeira, contribuindo para o desmatamento de áreas de floresta.
Inseridas no pensamento sustentável, as construções alternativas começam a ser disseminadas com
o intuito de minimizar a desarmonia entre o ambiente natural e o construído, reduzindo os impactos
ambientais envolvidos na construção civil.
Essas construções são baseadas em uma arquitetura que considera a necessidade de transformar
sem agredir o ambiente, promovendo a utilização de matérias-primas biodegradáveis e de maneira
proveniente de reservas extrativistas sustentáveis, além do emprego de tecnologias que reduzam o
desperdício de água e energia e que facilitem a reutilização.
Para que essas construções atendam a esses objetivos, os elementos do clima local devem ser sempre
considerados; assim, é possível executar um planejamento voltado à iluminação e ao aquecimento
natural, por exemplo.
A aplicação de coberturas verdes e o uso da energia solar, captada por painéis fotovoltaicos, são
exemplos que se encaixam na construção sustentável. No entanto, pelo fato de exigirem maior
investimento, essas construções não são tão comuns quanto deveriam.

Questões

01. (Transpetro – Técnico Ambiental Júnior – CESGRANRIO/2018) Conforme o Painel


Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pelas iniciais em inglês — IPCC, o
aumento da temperatura média global nos últimos anos deve-se principalmente às emissões de Gases
do Efeito Estufa (GEEs), provocadas pelo homem.
A esse aquecimento é dado o nome de
(A) aquecimento global antropogênico
(B) aquecimento global dos mares
(C) aquecimento global primário
(D) aquecimento global devido à variabilidade natural
(E) potencial de aquecimento global

02. (Câmara de Natividade/RJ – Analista Legislativo – IDECAN/2017) “_________________ é


aquele que considera a preservação de recursos naturais e dos ecossistemas, bem como o bem-estar e
a melhoria da qualidade de vida da sociedade em geral, a longo prazo.” Assinale a alternativa que
completa corretamente a afirmativa anterior.
(A) Impacto ambiental
(B) Aquecimento global

22
FURQUIM JR, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição: São Paulo, editora AJS, 2015.

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(C) Novo código florestal
(D) Desenvolvimento sustentável

03. (PC/RO – Delegado de Polícia Civil – FUNCAB) Em setembro de 2013, os cientistas do Painel
Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU divulgaram novo relatório sobre
aquecimento global. De acordo com esse relatório:
(A) o aquecimento global retrocedeu significativamente na última década, devido à maior absorção do
calor pelas águas dos oceanos.
(B) os países emergentes, como China e índia, são os mais afetados no mundo pelo aquecimento
global, e, portanto, os principais interessados em reverter esse processo.
(C) o aumento do aquecimento global é um processo natural, que não está relacionado às ações
humanas.
(D) o desmatamento das áreas de floresta, especialmente no Brasil, é a principal causa do
aquecimento global.
(E) as ações humanas estariam intensificando o efeito estufa e provocando aumento do aquecimento
global.

Gabarito

01.A / 02.D / 03.E

Comentários

01. Resposta: A
Aquecimento global é o processo de aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da
Terra causado por massivas emissões de gases que intensificam o efeito estufa, originados de uma série
de atividades humanas (daí o termo antropogênico), especialmente a queima de combustíveis fósseis e
mudanças no uso da terra, como o desmatamento, bem como de várias outras fontes secundárias.

02. Resposta: D
Desenvolvimento sustentável significa obter crescimento econômico necessário, garantindo a
preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social para o presente e gerações futuras.

03. Resposta: E
No fim dos anos 1980, aumentou-se a percepção de que as atividades humanas eram cada vez mais
prejudiciais ao clima do planeta. A ONU convocou cientistas do mundo todo para acompanhar esse
processo e, com a colaboração de 130 governos, criou-se o Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC).

Geografia política mundial. Características e contradições da organização sócio


espacial no século XXI

GEOGRAFIA POLÍTICA: AS FRONTEIRAS E AS FORMAS DE APROPRIAÇÃO POLÍTICA DO


ESPAÇO23

Para a efetivação de estudos e análises no campo da Geografia Política é indispensável recorrer a


seus clássicos. A partir desses será possibilitado realizar conexões dessa disciplina da Geografia, em
várias escalas: local, regional, nacional e internacional.
O raciocínio no âmbito mundial se torna, sem dúvida, cada vez mais indispensável, mas para ser
eficiente, ele deve ser combinado com a observação em outros níveis da análise espacial. Os fenômenos
de “planetarização” não fazem desaparecer, o que quer que possam dizer alguns, aquilo que se passa
em níveis local, regional e nacional.
Esse argumento, que geralmente deriva de regras não ditas, mas não menos poderosas, da
corporação, não é sério, na medida em que um bom número de fenômenos políticos essenciais são,

23
(Adaptado de) https://online.unisc.br/seer/index.php/agora/article/download/5799/4345

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eminentemente, espaciais e cartografáveis, tais como o Estado, suas fronteiras, suas subdivisões
territoriais e sua estrutura urbana.
Os estudos efetivados no campo da Geografia devem considerar as dimensões físicas e humanas que
propiciam a ocorrência de determinado fenômeno desde que essas possam ser cartografáveis, ou seja,
espaciliazadas na superfície do globo. Desse modo, a Geografia privilegia as configurações espaciais
particulares de todas as espécies de fenômenos.
Não se pode encontrar justificativa teórica para a exclusão, do campo da geograficidade, da categoria
de fenômenos políticos que são cartografáveis (sobretudo dos relacionados as fronteiras) e cuja
importância social é, quer queira, quer não, também indiscutível.
Neste contexto chama-se a atenção, para o fato da Geografia não poder desconsiderar a sua
importância política e, muito menos, a relevância da política para os estudos geográficos.
É preciso formar geógrafos eficientes que tenham gosto e o senso da ação. É preciso também que
eles estejam conscientes do procedimento, da importância dos fenômenos que advém do político.
Assim, não se pode negar que as ações humanas, em todos os âmbitos, são essencialmente políticas
e, portanto, de poder.
O poder é parte intrínseca de toda relação, seja no nível econômico, social, político, cultural,
administrativo, religioso, espacial, etc. Desta forma, se situa em todos os lugares, mesmo que não seja
percebido de modo claro pelos atores sociais reais e concretos.
Como esses ocupam áreas e a ocupação dessas não se dá homogeneamente tem-se aqui um foco
de conflito, pois a própria apropriação desigual do espaço entre os indivíduos/grupos sociais é
inegavelmente fonte de tensão e, por extensão, de conflito. Desse modo, o poder está vinculado
permanentemente à Geografia Política.
De acordo com a literatura sobre o tema, o poder se concretiza nas mais variadas formas e em todas
as relações vivenciadas nas sociedades capitalistas que tem a competição como processo social mais
explícito.
A partir dessas, além de esclarecer a natureza do poder, o apresenta-se como um fenômeno
multidimensional. A intencionalidade do ato é reveladora da importância das finalidades que os
caracteriza, pois o poder visa o controle e a dominação dos homens por outros homens e desses sobre
as coisas.
O poder jamais é propriedade de um indivíduo; pertence ele a um grupo e existe apenas enquanto o
grupo se mantiver unido. No momento em que o grupo, de onde se originaram o poder, desaparece, o
seu poder também desaparece. Sem um povo ou um grupo não há poder.
Nessa esfera insere-se a Geografia Política que possibilita efetivar análises em diferentes escalas,
desde a tradicional, que tem como seu objeto a Nação (Estado Nacional), ou seja, população, território e
seus recursos. A população, nesta perspectiva, vem em primeiro lugar, porque está, segundo seus
defensores, na origem de todo poder, pois consideram que nela reside a capacidade de transformação.
O território, como categoria de análise geográfica, é, também para esses, indispensável porque é o
lócus onde se concretiza o poder e objeto de disputa entre as nações. Por fim, tem-se os recursos, que
são, via de regra, o motivo pelo qual ocorre disputa por determinada área.
É cada vez mais necessário que os geógrafos se preocupem com os problemas políticos e militares e
reencontrem, assim, aquilo que foi, durante séculos, uma das razões de ser fundamentais do seu saber.
Na atualidade há uma retomada de interesse pela Geopolítica. A retomada de interesse pela
Geopolítica é patente. Grupos de trabalho, livros, artigos sucedem relevando a revalorização das relações
entre poder, ou mais precisamente a prática do poder, e o espaço geográfico, relação que constitui a
preocupação central da disciplina.
Importante colocar também no que se refere a importância da Geografia Política que representa umas
das razões do saber do Geógrafo.
Estabelecidas em escalas diferentes, permitam agir a superposição dos problemas e das relações de
forças em função de territórios de extensão maior, ou menor. Nesse domínio, o saber pensar o espaço
dos geógrafos aparece com toda a sua eficácia.
Não se trata evidentemente de reduzir a Geografia ao raciocínio Geopolítico, mas este foi durante tanto
tempo excluído das preocupações dos geógrafos, e tão poucos se preocupam ainda hoje com ele, que é
preciso destacar sua importância e seu interesse.
Como consequência, ocorre uma descontextualização conceitual que, por sua vez, restringe o olhar
de muitos pesquisadores diante das relações que envolvem território e política.
As relações entre espaço e poder transcendem a ação dos Estados, porém, os trabalhos de geografia
política e geopolítica, de um modo geral, não vêm acompanhando, satisfatoriamente, os mais recentes
movimentos politicamente organizados que atuam contra e/ou independentemente do Estado.

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A Geografia Política é a consciência geográfica do território, provocando a colocação original de
Haushofer que defendia que a Geografia Política deveria ser a “consciência geográfica do Estado”,
prevalecendo uma concepção equivocada de que essa disciplina da Geografia forma um conjunto de
conhecimentos vinculados, tão somente, ao poder e a ação dos Estados Nacionais.
Essa visão restritiva do campo de ação da Geopolítica e da Geografia Política tem, provavelmente,
relação com o contexto de formação e/ou expansão dos Estados Nacionais.
O surgimento da geografia política e, sobretudo, da geopolítica são um produto do contexto europeu.
O interesse pelos fatos referentes à relação entre espaço e poder, também manifestava um momento
histórico caracterizado pela emergência das potências mundiais.
Porém, não se trata de um objeto restrito. Pois os estudos que envolvem o Estado, a sociedade e o
território, por exemplo, são demasiadamente complexos. O que se questiona é a “exclusividade” do
Estado diante de outras formas de poder institucional e territorial.
Para Raffestin essa restrição, ainda persistente, pode ter correlação com a produção original de Ratzel,
ou seja, tudo se desenvolve como se o Estado fosse o único núcleo de poder, a geografia política de
Ratzel é uma geografia do Estado.
As dimensões espaciais dos fatos de poder foram negligenciadas. A geografia política voltou-se
prematuramente para a análise do Estado e não soube dissecar as engrenagens dos governos e sua
articulação sobre a sociedade civil. O problema do poder é, em primeiro lugar, o da transmissão do fluxo
de informações, o acesso a ideias novas, o controle da terra, o controle da mão-de-obra e etc.
Para Becker o Estado certamente não é a unidade única representativa do político nem o território
nacional a única escala do poder. Nesse sentido, pode-se afirmar que a Geografia Política não está
restrita as ações do Estado Nacional, podendo ser aplicada para estudar, compreender, analisar e explicar
relações políticas em outras escalas territoriais, especialmente nas microescalas onde indivíduos e/ou
grupos sociais atuam de modo decisivo em suas vidas reais e concretas.
Vale reforçar que o foco territorial deve também, extrapolar a escala nacional. Desta forma, temas que
tratem, por exemplo, das relações de poder num minifúndio, em um pequeno município brasileiro, numa
micro bacia hidrográfica, etc., merecem ser estudados outras instâncias do poder, outras territorialidades
e diferentes formas de gestão da sociedade – e que em muitos casos estão, inclusive, conectados aos
aparelhos de Estado – constituem “objetos” de investigação que podem ser abordados em geopolítica ou
em geografia política.
Ainda de acordo com Becker, centrar o foco no Estado-nação é tratá-lo como unidade exclusiva de
poder e assumir que os conflitos se dão apenas entre Estados. Chama-se a atenção para o fato de, além
de reduzir as possibilidades de análise, a relação espaço-poder, muitas vezes, transcende o Estado.
A geógrafa Berta Becker ainda ressalta que as novas territorialidades desenvolvem-se acima e abaixo
da escala do Estado e desafiam os fundamentos do poder nacional e a possibilidade de desenvolvimento.
A Geografia Política configura para muito além dos Estados nacionais. Delegar estratégias de
organização política do espaço somente aos Estados significa, de fato, reduzir as relações entre o espaço
geográfico e a política a um determinado contexto histórico geográfico.
Há um vasto campo de análise que supera as pesquisas destinadas às “geopolíticas estatais”. Nesse
sentido apresenta algumas das inúmeras possibilidades de estudos/análises em Geografia Política e
Geopolítica sobre outros fenômenos que envolvem relações de poder e espaço. Ressalta-se que essas
análises, devem ter na interdisciplinaridade a sua base teórico-conceitual.
Outras conexões poderiam ser realizadas mais solidamente: a geografia urbana com a geografia
política, essa última com a geografia agrária, etc. Geopolíticas que se manifestam predominantemente
em escala local permitem a análise, por exemplo, da organização política de um assentamento rural (...)
articulações que não se limitam às ramificações da Geografia, pois a geografia urbana, por exemplo,
“comunica-se” com a sociologia urbana, com a antropologia, com o urbanismo e etc.; portanto são
inúmeras as possibilidades de conexões da geopolítica ou da geografia política com áreas e subáreas do
conhecimento acadêmico.
Portanto, outras organizações de poder e outras territorialidades, independentemente de suas
variações e conexões escalares, acima e/ou abaixo da escala dos Estados Nacionais merecem e podem
ser efetivadas no âmbito dos trabalhos em Geografia Política e Geopolítica. Ainda no sentido de
demonstrar o quanto os estudos/análises em Geografia Política e Geopolítica podem ser ampliados, a
seguir, trataremos de um conceito chave no âmbito dessas, ou seja, o território.

O Território na Geografia Política

A palavra território faz pensar o Estado, pois evoca o território nacional, porém, o território não deve
ser reduzido a essa escala ou associado apenas com a figura do Estado. Assim como a Geografia Política,

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o território trás, historicamente, consigo uma carga ideológica na literatura científica da área, pois nessa
é concebido tão somente como território nacional. Caminhando no sentido mais amplo dessa categoria
geográfica e palavra-chave da Geografia Política, através da literatura a partir da década de 1970 em
diante, amplia-se a visão do conceito de território nas mais variadas dimensões.
Os territórios existem e são construídos e descontruídos nas mais diversas escalas, da mais acanhada
(uma rua, por exemplo) à internacional. Territórios podem ter um caráter permanente, mas também podem
ter uma existência periódica, cíclica.
O território surge na Geografia Política como espaço concreto em si, tanto com atributos naturais como
os socialmente construídos. A ocupação de determinado espaço gera raízes e identidade, provocando a
ideia de que quem (indivíduo/grupo) se apropria de um espaço, impõe a sua identidade socioeconômica
e cultural ao espaço concreto.
Os limites do território não seriam, a bem da verdade, imutáveis fronteiras podem ser alteradas
comumente pela força bruta – mais cada espaço seria, enquanto território, território durante todo o tempo,
pois apenas a durabilidade poderia, é claro, ser geradora de identidade sócio espacial, identidade na
verdade não apenas com o espaço físico, concreto, mas com o território e, por tabela, com o poder
controlador desse território.
O território é, por excelência, um espaço político, o campo de ação dos sujeitos sociais. Deve se ter
claro que espaço e território não são conceitos equivalentes e para a distinção dos mesmos torna-se
essencial defini-los indicando as suas características fundamentais, suas possibilidades e limites teórico
conceituais.
Uma das distinções importantes a se salientar é citada por Raffestin, trazendo a ideia de que o espaço
está mais próximo de uma “noção” e o território de um “conceito”. Ainda segundo Raffestin, espaço e
território não se equivalem, sendo o espaço antecedente ao território. Nesse sentido tem-se que o
território resulta de uma ação conduzida por um ator sintagmático (que realiza um programa) em qualquer
nível, não sendo, portanto, somente no nível do Estatal Nacional.
É uma arena onde as classes sociais travam suas lutas cotidianas. Também é o lócus dos embates
entre os detentores de poder, em especial, entre estados-nações e, no âmbito desses, entre os seus
membros (estados, provinciais, municípios e grupos sociais de interesses variados).
Deve ser ressaltado que mesmo no interior de um município ocorre conflito territorial entre
agrupamentos humanos que se apropriam de espaços, impedindo que outros (não pertencentes ao
grupo) partilhem esses espaços. Neste sentido o território se forma a partir do espaço e no espaço, sendo
o resultado de ações conduzidas por atores sociais em diversos níveis.
Ao se apropriar de um espaço concreta ou abstratamente, o ator “territorializa” o espaço. Todo espaço
definido e delimitado por e a partir das relações de poder, é um território, do quarteirão aterrorizado por
uma gangue de jovens até o bloco constituído pelos países membros da OTAN.
Nesse sentido, não cabe procurar a distinção evidente e clara entre espaço e território, sendo que o
território não existe sem o espaço. Embora demonstrado que eles não se equivalem.
Ao território cabe a focalização na espacialidade das relações de poder. O território se define mais
estritamente a partir de uma abordagem sobre o espaço que prioriza ou que coloca seu foco, no interior
dessa dimensão espacial, nas problemáticas de caráter político ou que envolvem a
manifestação/realização das relações de poder, em suas múltiplas esferas.
O território pode ser concebido a partir da imbricação de múltiplas relações de poder, do poder mais
material das relações econômico-políticas ao poder mais simbólico das relações de ordem mais
estritamente cultural.
A produção de um espaço, o território, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes,
circuitos e fluxos que aí se instalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários,
autoestradas e rotas aéreas, etc.
O território nessa perspectiva, é um espaço onde se projeta um trabalho, seja ele energia e/ou
informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder.
O espaço é a ‘prisão original’, o território é a prisão que os homens constroem para si.
No sistema territorial, os indivíduos e/ou grupos ocupam pontos do espaço e se distribuem de acordo
com os modelos que podem ser aleatórios, regulares ou concentrados. Na análise dos territórios deve-se
ter em conta que esses são, em grande parte, respostas possíveis a dois fatores fundamentais para os
seres humanos, ou seja, à distância e à acessibilidade.
Com relação à distância é importante apontar que esta pode ser apreendida em termos espaciais
(distância física ou geográfica), temporais, econômicas, sociais, psicológicas, políticas, culturais, dentre
outras. A distância se refere à disposição em determinada hierarquia. Por ser resultante de interação
entre os sujeitos sociais localizados em pontos distintos da estrutura hierárquica, como, por exemplo,
administrativa, cultural, econômica, espacial, política, religiosa, social, etc., traz, em si, a desigualdade

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como pressuposto. Ressalta-se que, como consequência das relações de oferta e de procura por parte
dos indivíduos e/ou dos grupos, a distância não se efetiva somente através da diferenciação funcional,
mas, fundamentalmente, por e a partir da desigualdade decorrente da hierarquização, onde há superiores
e inferiores.
Esses sistemas de tessituras, de nós e de redes organizadas hierarquicamente permitem assegurar o
controle sobre aquilo que pode ser distribuído, alocado e/ou possuído. Permitem impor e manter uma ou
várias ordens, além de assegurar a dominação de um determinado grupo sobre o espaço, formando,
assim, os territórios. Desses e nesses sistemas se originam as relações de poder.
A acessibilidade, por sua vez, está direta e indiretamente relacionada à possibilidade de indivíduos
e/ou grupos partilharem as mesmas áreas/locais. Como os territórios, através de suas barreiras físicas
e/ou simbólicas são capazes de informar quem é de dentro e quem é de fora fica evidenciado que a sua
demarcação é suficiente para indicar quais indivíduos e/ou grupos dele fazem parte.
O acesso ou o não acesso é apresentado através da própria identidade que indivíduos e/ou grupos
que se apropriaram do lugar impuseram a ele. Tem-se, então, que o território, independente de sua escala
(micro ou macro) é portador da identidade de seus ocupantes, estando o acesso condicionado ao
compartilhamento com os valores, as visões de mundo, interesses, etc. com os que nele atuam.
A constituição de territórios se dá através da construção e a apropriação do espaço, sendo uma ação
eminentemente política. Sendo assim, constituem-se prioritariamente em locais de identidade, de
resistência, onde a história do local se confunde com a de seus habitantes. Conforma uma paisagem
única na medida em que as configurações do local, a sua representação e, também, a sua imagem detêm
traços que marcam a especificidade local que, por mais que possa, à primeira vista, ser parecida com
outro, mantém a sua individualidade.
É através de suas especificidades que os espaços podem e devem ser analisados. Portanto, o território
não é apenas um local onde se encontra recursos naturais e população, devendo ser compreendido a
partir das suas características intrínsecas, prioritariamente pelos os processos de identidade que o
formaliza, física ou simbolicamente.
Também não podem ser negligenciadas as modificações sócio espaciais através dos processos
mutáveis de duração variada, pois a temporalidade é um elemento central na constituição dos territórios
na medida em que esses podem ser efêmeros ou duradouros, transitórios ou definitivos dependendo da
escala temporal que se emprega na análise. Fica evidenciado que as mudanças/alterações são bastantes
frequentes dependendo da forma de apropriação e da quantidade de poder dos que apropriam detém.
Assim, são possibilitadas configurações espaciais/territoriais diferentes.
Uma região física envolvida como parte do cenário de interação, tendo fronteiras definidas que ajudam
a concentrar a ação num sentido ou noutro, não podendo ser entendida como sendo apenas um ponto
no espaço, pois se constitui topos privilegiado. Desse modo, o local é, fundamentalmente, um território.
A noção de território tem como premissa que o espaço é multifacetado, fragmentado, com inúmeras
possibilidades de recortes, de uso, de significados e de configurações distintas, podendo essas ser, até
mesmo, contraditórias. O espaço enquanto fenômeno de análise recobre-se de significados e
significantes. Dialeticamente pode-se afirmar que o mesmo é construtor e construção de indivíduos que
são por ele condicionados ao mesmo tempo em que, através de suas intervenções, o condicionam.
Dessa forma, tem-se que a cada espaço há correspondentes modos de vida, concepções de mundo e
de relações sociais, todos esses reflexos e refletores de atividades e atitudes dos indivíduos que por ele
transitam. Enfim, mais que um “lugar” qualquer, o espaço, enquanto permeado de significados e
significantes, se configura, antes de qualquer coisa, em um território.
Portanto, o território deve ser analisado a partir das suas delimitações e composição cultural, social,
política, econômica, étnica e efetivamente a partir das suas relações de poder, pois “O território é
essencialmente um instrumento de exercício de poder: quem domina ou influencia quem nesse espaço,
e como?”
O conceito de território, assim compreendido, aponta para uma direção que nos parece mais segura,
pois indica, não somente, que este detém limites que demarcam – possibilitando ou impossibilitando –
relações entre os de dentro (insiders) e os de fora (outsiders), como, também, encerra uma materialidade
que permite a identificação cultural dos grupos sociais e os limites de atuação desses.
Haesbaert usa o termo desterritorialização para tratar a dimensão espacial da sociedade capitalista
em que vivemos, onde a desterritorialização seria a tentativa da superação de distâncias e limites
impostos por “obstáculos geográficos” o que denomina-se como “entraves espaciais”, isto posto, segundo
Haesbaert, trata-se de uma definição que relaciona a uma visão parcial do que se entende por território.
Em seguida discorre sobre o território e suas especificidades.
A desterritorialização não se restringe apenas e tão somente ao desenraizamento decorrente do fim
das fronteiras, pois se tomarmos a abordagem que eu denominaria de “funcional estratégica” de território,

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temos este como um espaço sobre o qual se exerce um domínio político e, como tal, um controle de
acesso. Entretanto, se ampliarmos, essa definição, incorporando à dominação política uma apropriação
simbólico-cultural, veremos que a desterritorialização não deve ser vista apenas como desenraizamento
no sentido de uma destruição física de fronteiras e um aumento da mobilidade em um sentido concreto.
O domínio do espaço reflete o modo como indivíduos ou grupos poderosos dominam a organização e
a produção do espaço mediante recursos legais ou extralegais. A fim de exercer um maior grau de
controle.
O espaço dominado é geralmente fechado, esterilizado, esvaziado. Seu conceito não adquire seu
sentido a não ser por oposição ao conceito inseparável de apropriação. Sobre um espaço natural
modificado para servir às necessidades e às possibilidades de um grupo, pode-se dizer que este grupo
se apropria. Relacionada ao espaço de vivência cotidiana, a apropriação não pode ser compreendida sem
o tempo, os ritmos de vida.
Portanto, de acordo com Haesbaert, quando nos referimos a desterritorialização devemos ter clareza
das suas duas dimensões. A primeira política, mais concreta, e a segunda cultural, de caráter mais
simbólico.
Deve estar claro a dimensão de cada uma no papel de formação dos territórios. Embora fronteiras de
domínio político possam corroborar e mesmo criar uma identidade cultural, como foi o caso de muitos
Estados-Nações, nem toda fronteira de apropriação territorial no sentido cultural coincide com e/ou
proporciona uma fronteira política concreta.
A produção do espaço envolve a mesmo tempo territorialização e desterritorialização. Nesse sentido,
seria interessante se representar a mudança social (e seu contrário, o bloqueio) sob uma forma de uma
dinâmica territorial, pois a mudança social é em parte esta: a vida e morte dos territórios. A mudança
social é vista aqui como um movimento de territorialização – desterritorialização – reterritorialização.
Para ficar clara a concepção de território e rede, Haesbaert, correlacionou a territorialização e a
desterritorialização e classificou utilizando as seguintes variáveis: dimensões sociais fundamentais,
dimensões de elementos espaciais, noções correlatas, tendências gerais e dilemas principais.
Considerando as dimensões sociais, a territorialização ocorre a partir das dimensões política e cultural,
já a desterritorialização se concretiza com interferências econômicas e políticas. Em relação aos
elementos espaciais a territorialização é horizontalmente formada, de acordo com a área/superfície e o
limite/fronteira, formando efetivamente o território.
Já a desterritorialização é formada verticalmente, através de pontos e linhas, polos e fluxos,
limiar/hierarquia, o que caracteriza uma rede. A territorialização pode ser correlacionada com o espaço
físico concreto e a paisagem, porém a desterritorialização está ligada diretamente com o meio, o não-
lugar.
Desse modo, têm-se então as características gerais que distinguem claramente e forma a oposição
dos processos de territorialização e desterritorialização.
Enquanto a primeira qualifica, distingue e identifica (diferença e alteridade) gerando raízes de
identidade, enraizamento e controle, a segunda, no entanto, quantifica, homogeneíza, gera desigualdade,
distinção e mobilidade. Em suma, de acordo com Haesbaert, a territorialização está ligada diretamente a
segregação sócio espacial, ou seja, o fechamento e o conservadorismo.
No processo de desterritorialização gera exploração, desintegração e instabilidade.

A Fronteira, o Limite e a Divisa no Sistema Territorial

A ideia de limite é de suma importância na análise do sistema territorial. Colocar limite, estabelecer
fronteiras, portanto, delimitar é ponto central nos estudos sobre território. Ao colocar limite, definir
fronteiras e delimitar áreas os homens isolam ou subtraem, temporária ou perenemente, parte do espaço,
ou seja, estabelecem um território.
Nesse sentido, faz-se necessário considerar que os limites não devem ser concebidos apenas do ponto
de vista linear, mas também do ponto de vista zonal. As tessituras de origem política, aquelas criadas
pelo Estado, em geral têm uma permanência maior do que as resultantes de uma ação dos outros atores,
pois os limites políticos e administrativos, definidos pelo poder público (Nações, Estados, Municípios), são
bem mais estáveis, enquanto os limites econômicos o são bem menos, pois apresentam muita
dinamicidade.
O território deve ser analisado tendo por base que ele é, ao mesmo tempo, produto e produtor de
territorialidades.
Nessa perspectiva, a territorialidade adquire um valor bem particular, pois reflete a
multidimensionalidade do “vivido” territorial pelos membros de uma coletividade. Os homens vivem, ao
mesmo tempo, o processo territorial e o produto territorial por intermédio de um sistema de relações

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existenciais. A identificação da noção de territorialidade coloca problemas. Na tradição americana a
territorialidade é definida como: Um fenômeno de comportamento associado à organização do espaço
em esferas de influência ou em territórios nitidamente diferenciados, considerados distintos e exclusivos,
ao menos parcialmente, por seus ocupantes ou pelos que os definem.
Os territórios, enquanto locais dotados de significados, são definidos e delimitados por e a partir de
relações de poder. Podem ser construídos e/ou desconstruídos a partir de escalas geográficas e
temporais diversas e ter caráter permanente ou transitório. E mais, os territórios, ao contrário do espaço
global, da região e do lugar, expressam e, ao mesmo tempo, são expressões inequívocas da
espacialidade presente nas mais variadas conformações sociais.
Os termos fronteira e limite de acordo com a literatura pesquisada carecem de precisão teórico
conceitual, pois são amplamente utilizados, tanto no nível do senso comum, quanto na academia, em
especial nas áreas de Geografia, Geopolítica, História, Sociologia, Antropologia, dentre outras, como
sinônimos. Todavia, esses apresentam diferenças que requerem uma análise mais detida buscando
identificá-las.
Os limites podem ser alterados sem grandes transtornos, desde que dois Estados, (municípios ou
províncias, etc.), tenham disposição política em fazê-lo, bastando para isso o concurso de técnicos
competentes: topógrafos, geógrafos e juristas. No entanto, mesmo no Direito Público, apesar da
costumeira demarcação da linha divisória, pretende-se que, para maior tranquilidade da população
fronteiriça, seja preferível sempre se reconhecer uma faixa de certa largura.
O limite aparece como uma linha puramente imaginária, marcada na superfície terrestre por objetos
naturais ou artificiais.
É possível tentar acrescentar outro elemento ao mesmo tempo distinto tanto do limite, quanto da
fronteira: trata-se da divisa, o aspecto visível do limite. Sendo assim, o marco, a baliza, aparecerão como
pontos fixos, erguidos pelo homem, os quais, alinhavados expressam o limite de jurisdição dos Estados
(Municípios, províncias, etc.).
Boa parte da literatura técnica a respeito dedica-se a discutir qual o melhor apoio físico para os limites.
Desse modo, se torna relevante diferenciar demarcação da delimitação.
A polêmica das fronteiras decorre de uma identificação apressada entre duas práticas na verdade
distintas. Uma está ligada a problemas de teoria e tem chamado a atenção em especial dos geógrafos,
como também dos economistas, cientistas políticos e homens do Estado: trata-se da delimitação. A outra
se dedica à resolução de problemas de ordem técnica, a ela estão vinculados os topógrafos, cartógrafos,
geodesistas e até astrônomos: a demarcação.
Em suma, delimitação se estende pelo estabelecimento de uma linha de fronteira. Já a demarcação é
a locação de uma linha de fronteira no terreno, a construção da divisa se dá a partir do estabelecimento
de marcos e balizas.
A demarcação deve subordinar-se à delimitação. Todavia, não é isso que ocorre, mais ao contrário, a
delimitação que acaba cedendo às facilidades da demarcação.
A fronteira se distingue do limite precisamente porque o primeiro é natural e remete, portanto, à
Geografia, enquanto o segundo é artificial e remete diretamente ao Estado.
As fronteiras, enquanto estruturas espaciais elementares exercem funções de descontinuidade
geopolítica, de delimitação e demarcação em três níveis: real, simbólico e imaginário. O real representa
o limite espacial de exercício de uma soberania.
O simbólico remete à participação em uma comunidade política inscrita num território que lhe pertence:
é um sinal identitário. O imaginário conota as relações com o outro, vizinho, amigo ou inimigo e, portanto,
as relações da comunidade com a sua história e seus mitos fundadores.
A fronteira não é, então, um limite funcional banal, com simples funções jurídicas ou fiscais.
Enquanto uma estrutura espacial imaterial, as fronteiras não podem ser captadas pelos meios
amplamente utilizados na atualidade como, por exemplo, fotografias aéreas ou imagens de satélite.
Mas isso não quer dizer que esses meios não possam ser empregados na análise sobre a produção e
a apropriação do espaço pelo homem. Nessa perspectiva o conceito de fronteira ultrapassa o de limite e,
devido a sua relevância, requer que sua análise ultrapasse as suas funções jurídicas ou fiscais na medida
em que está diretamente ligado à esfera da cultura.
Não pode ser desconsiderado que a fronteira é um marco e que sua delimitação não é impeditiva da
interação dos atores sociais, pois em sua área há povoações. Já o limite, por ser um fator de separação,
pois aparta as unidades territoriais, em suas diversas escalas (internacionais, nacionais, municipais,
locais, grupais) normalmente se constitui como um obstáculo fixo, não importando a presença de fatores
comuns, físico-geográficos, sociais, econômicos, políticos ou culturais.

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Assim, o limite é reconhecido como linha e, por esse motivo, não pode ser habitado. Este, na maioria
das vezes, é definido/demarcado por cursos d’água, linhas de trem, rodovias, cristas montanhosas,
coordenadas geográficas ou outras linhas geodésicas.
Porém, é importante salientar que as fronteiras dos territórios são em sua grande maioria simbólicas e
que a demarcação dessas, ou seja, a fixação dos limites territoriais, é decorrente das lutas incessantes
entre os vários grupos para ocupar cada vez mais espaço, seja esse último físico e/ou simbólico.
Não pode ser ignorado que o termo limite designa o fim de uma determinada unidade político territorial
e que toda propriedade ou apropriação é marcada por limites visíveis ou não, assinalados no próprio
território. Nesse caso, os limites mantêm estreita ligação com o exercício do poder. O limite cristalizado
se torna ideológico, pois de acordo com Raffestin justifica territorialmente as relações de poder.
O limite é, portanto, uma classe geral, um conjunto cuja fronteira é um subconjunto.
Ainda aí é particularmente estranho que só a fronteira tenha uma conotação política enquanto, de fato,
todo limite possui uma, nem que seja só pelo fato de ele ser sempre a expressão de uma manifestação
coletiva, direta ou indireta. A fronteira é manipulada como instrumento para comunicar uma ideologia.
Outro conceito distinto tanto do de limite quanto do de fronteira é o de divisa ou marco de fronteira.
Esse, por sua vez, se constitui no aspecto visível do limite, pois é um ou mais pontos fixados pelo homem
em uma determinada área, sendo, portanto, um símbolo visível do limite.
Diante do exposto, ficou claro que a Geografia Política oferece uma ampla possibilidade de conexão
escalar para efetivação de estudos que envolvem as relações de poder, especificamente emergindo a
temática dos territórios, e/ou disputa por estes.
O território, portanto, como categoria de análise geográfica, é o lócus, onde se concretiza essas
relações sociais e objeto de suma importância na efetivação de estudos destinados a tratar da Geografia
Política.
A polêmica das fronteiras é um resultado da expansão capitalista e, tal como já explicitado, uma
crescente “desterritorialização”, ou mundialização dos territórios através de fluxos contínuos, marcada
pelo não lugar.

África – aspectos físicos, humanos, econômicos

ÁFRICA24

A África é considerada o berço da espécie humana e nenhum outro continente possui tamanha
diversidade de culturas, paisagens e riquezas naturais. No entanto, as notícias que nos chegam dos
países africanos, em geral, mencionam apenas conflitos étnicos, pobreza e outros problemas que a
maioria das pessoas logo associa ao continente.
Para compreender as particularidades desse continente tão cobiçado por suas grandes riquezas, é
necessário analisar diversos aspectos, como a formação de seu território, a herança do período colonial,
as características da população, da natureza e da economia africanas.

24
FURQUIM JUNIOR, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição – São Paulo: Editora AJS, 2015.
TERRA, Lygia. Conexões: estudos de geografia geral e do Brasil – Lygia Terra; Regina Araújo; Raul Borges Guimarães. 2ª edição. São Paulo: Moderna, 2010.

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Regionalização da África

África: político

IBGE. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv64669_cap3_pt1.pdf.

A África é um continente extenso, banhado por dois oceanos (o Atlântico ao oeste e o Índico ao leste),
pelo Mar Mediterrâneo e pelo Mar Vermelho, e possui um grande número de países (54 atualmente).

Os países africanos são, em geral, pouco industrializados, e suas economias estão baseadas na
exportação de produtos agrícolas, petróleo e minérios, disponíveis em extensas reservas ao redor do
continente.
No entanto, os níveis de produtividade agrícola ainda são baixos, e o extrativismo, realizado tanto por
empresas estrangeiras como por estatais, está relacionado a diversos impactos sociais e ambientais e
não tem ajudado a resolver as desigualdades sociais no continente.

Principais Atividades Econômicas


A agropecuária e o extrativismo mineral e vegetal são as principais atividades econômicas realizadas
o continente africano.
No entanto, a indústria e o setor de comércio e serviços também representam atividades importantes,
sobretudo ao redor de grandes centros urbanos, e o turismo vem sendo explorado de maneira bem-
sucedida em diversos países.

As Perspectivas da África
Apesar das inúmeras dificuldades, desde o início do século XXI o PIB africano apresenta um
crescimento médio anual de 5% (acima da média mundial), impulsionado em função principalmente do
aumento na demanda mundial por matérias-primas.
No âmbito da política interna, os países da África têm buscado fortalecer sua economia por meio da
formação de blocos regionais. O maior deles é a União Africana (UA), criada em 2002 para suceder a
Organização da Unidade Africana, baseada no modelo da União Europeia e que tem como objetivos a
unidade e a solidariedade africana e a integração econômica, além da cooperação política no continente.
Recentemente, a China tem se aproximado economicamente da África por meio de inúmeros
investimentos, superando a Europa e mesmo os EUA, o que a torna o principal parceiro econômico do
continente. Inúmeras empresas chinesas já se instalaram em países africanos e vêm financiando projetos
em diversos setores, como os de infraestrutura, telecomunicações, geração de energia, modernização da
agricultura, entre outros – e concede empréstimos a esses países.
Dentre os maiores parceiros da China no continente podemos destacar nações que possuem grandes
mercados e reservas de minérios e petróleo (cerca de 30% das importações de petróleo chinesas provém
da África), como a Nigéria, a Guiné Equatorial, a República Democrática do Congo e a República do

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Congo, além da Etiópia, onde investimentos chineses financiaram, entre outras obras, o prédio da sede
da União Africana (UA).
Além da aproximação chinesa, a África continua sob a influência de países europeus e também dos
Estados Unidos. No entanto, cada vez mais os países do continente têm estabelecido relações comerciais
com novos parceiros, como a Índia e o Brasil.

Conflitos e Riquezas
Um dos grandes desafios da África contemporânea é a solução dos conflitos regionais étnicos ou
relacionados ao controle de reservas minerais importantes. A situação mais grave ocorre no leste da
República Democrática do Congo, um dos países mais ricos sob o ponto de vista dos recursos naturais,
mas cuja população está entre as mais pobres do continente.
Desde o conflito entre tutsis e hutus em 1994 (centrado em Ruanda) e a Segunda Guerra do Congo
(também conhecida como Guerra Mundial Africana), que se desenvolveu nos anos seguintes, a região
leste do país vem sendo ocupada por inúmeras milícias armadas, das quais a maioria está interessada
somente em exercer controle sobre as reservas minerais abundantes, que são contrabandeadas e ajudam
a manter esses grupos paramilitares.

Estrutura Geológica e Relevo


Há aproximadamente 300 milhões de anos, a África fazia parte da massa continental denominada
Gonduana, que também incluía estruturas rochosas do que é hoje a América do Sul, a Índia, a Austrália
e a Antártida. Sendo constituído basicamente por blocos rochosos denominados crátons, formados nos
éons Arqueano e Proterozoico, o continente africano apresenta extensas superfícies de rochas
cristalinas muito resistentes (magmáticas ou metamórficas) de tectônica estável e ricas em recursos
minerais, ainda que muito desgastadas pela erosão. Essas rochas mais antigas podem ser agrupadas
em quatro grandes crátons: da África Ocidental, do Congo, da Tanzânia e de Kaapvaal.
Parte dessas estruturas cratônicas foram recobertas por camadas de sedimentos, que deram origem
a plataformas sedimentares. Quando Gonduana começou a se fragmentar, há cerca de 250 milhões de
anos, novos depósitos sedimentares se formaram sobre essas antigas estruturas rochosas,
especialmente no noroeste do continente, onde sedimentos de origem marinha formaram as jazidas
petrolíferas do Saara.
O processo de fragmentação de Gonduana produziu uma imensa linha de falhas rochosas no interior
do continente africano conhecida como Rift Valley, e também deu origem ao Mar Vermelho e à separação
entre a África e a Península Arábica. Interior adentro, o Rift Valley se estende por cerca de 5.600
quilômetros, sendo pontilhado por cones vulcânicos e grandes crateras. Os grandes lagos do leste
africano são resultado da acumulação da água das chuvas nas áreas rebaixadas formadas por esse
sistema de falhas. Ngorongoro, na Tanzânia, é a maior cratera de vulcão extinto do mundo.
Devido ao intenso processo erosivo das rochas mais antigas, grande parte do continente africano
apresenta altitudes médias inferiores a 1.500 metros. No entanto, elevadas cordilheiras montanhosas de
formação recente também estão presentes na África.
No extremo norte, paralela ao litoral do Mar Mediterrâneo, destaca-se a Cadeia do Atlas. Os Montes
Drakensberg, no extremo sul do continente, também são circundados por uma grande extensão de terras
altas, mas os picos mais altos do continente situam-se nas elevações que emergiram nos planaltos da
África Oriental. Esse é o caso do Monte Quilimanjaro, ponto culminante do continente, com 5.895 metros
de altitude, assim como do Monte Quênia, com 5.199 metros. Vulcões ativos e inativos formam essas
elevações, comprovando a existência de intensa atividade geológica na região.

Diversidade Natural
As paisagens naturais africanas apresentam-se de forma simétrica ao norte e ao sul do Equador.
Nas latitudes próximas à linha do Equador, predomina o clima equatorial, marcado por chuvas
abundantes. A partir daí os climas se tornam cada vez mais áridos até o domínio dos desertos: o do
Saara, no hemisfério norte, e os desertos da Namíbia e de Kalahari, no hemisfério sul. A variação da
altitude e a distância do litoral também interferem na distribuição das precipitações e temperaturas.
A distribuição das principais formações vegetais na África está bastante relacionada com a variação
climática latitudinal. A faixa de clima equatorial é dominada pelas florestas equatoriais; à medida que o
clima se torna mais seco, observa-se uma sucessão de savanas, estepes e desertos. Tanto no extremo
norte como no extremo sul, há a ocorrência de vegetação mediterrânea arbustiva e arbórea.

O Deserto do Saara, atravessado pelo Trópico de Câncer, é o maior deserto contínuo do mundo. Em
toda a sua extensão, apresenta imensas planícies denominadas reg, nas quais predominam areia e

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cascalhos. Na área mais ao sul, imensas dunas de areia, denominadas erg, compõem a paisagem. Em
outras porções predominam os hamadas, constituídos de imensos planaltos pedregosos. Na vertente
norte, por estreitos vales entre montanhas, denominadas wadis, passam rios de curta duração, pois
ganham corpo apenas durante as chuvas.
Em um continente atravessado por desertos, os rios ganham enorme importância para a renovação
dos ciclos naturais e a fixação humana. Entre os rios perenes africanos, destacam-se três: o Nilo, o Congo
e o Níger.
O Rio Nilo, o mais extenso da África, tem 6.695 km, de acordo com pesquisas recentes. O Congo é o
segundo da África em volume e em extensão. O Rio Níger drena a porção ocidental do continente,
desaguando num enorme delta na Nigéria.
Nas últimas décadas, as florestas africanas têm sofrido intensa devastação, devido principalmente à
extração de madeira realizada por grandes corporações voltadas para o abastecimento dos mercados
asiáticos.
Além disso, a adoção de práticas agrícolas intensivas nas regiões semiáridas, principalmente na
zona meridional do Deserto do Saara, é responsável pelo processo de desertificação, na medida em
que a retirada das formações arbustivas que protegem o solo da insolação direta aumenta a evaporação
da água e o escoamento superficial das chuvas, diminuindo as reservas de água do subsolo. Nessas
condições, o solo perde grande parte da capacidade de suporte à vida.
Há séculos a força de trabalho e os recursos naturais africanos vêm contribuindo para a acumulação
de riquezas em outras partes do mundo, em especial na Europa. Desde o século XVI, quando teve início
a colonização europeia da América, milhões de africanos foram levados à força para trabalhar em regime
de escravidão nas minas e nas fazendas americanas.
No século XIX, quando o próprio continente africano foi repartido e colonizado, as potências europeias
passaram a se apropriar também do fruto do trabalho dos povos africanos nas terras agrícolas e nas
jazidas minerais do continente.
Até hoje os minérios extraídos das imensas reservas de Angola, Zâmbia, Botsuana, Gabão, Guiné e
Nigéria não são utilizados em favor dos povos africanos, mas seguem, em grandes quantidades, para os
portos europeus, norte-americanos e asiáticos.
O caso do petróleo é bastante ilustrativo: 70% do óleo extraído na África é exportado, e 90% da
energia utilizada no continente provém da lenha extraída das florestas e das formações arbustivas,
contribuindo para o dramático quadro de desmatamento.

A África Dividida
A presença europeia na África rompeu de maneira dramática o isolamento da África Subsaariana.
Desde o século XVI, quando foram criadas as primeiras feitorias comerciais portuguesas na costa
atlântica, a região integrou-se ao mundo como fornecedora de quantidades crescentes de escravizados
para as plantations americanas. Estima-se que a deportação forçada para a América tenha atingido 15
milhões de negros entre os séculos XVI e XIX, e que só a América portuguesa tenha recebido entre 3 e
5 milhões de cativos nesse período.
No final do século XIX, iniciou-se uma segunda fase da dominação europeia, que envolveu também a
África do Norte. Dessa vez, os europeus não queriam apenas o trabalho escravo, mas também o território
e as riquezas naturais africanas. A Europa se industrializava e precisava de um, quantidade crescente de
alimentos e matérias-primas.
Em 1885, durante o Congresso de Berlim, foi decidido que o território africano seria partilhado entre
as principais potências coloniais europeias, e que cada uma delas tinha de ocupar seu espaço o mais
rápido possível sob pena de perder a possessão. O território africano, praticamente inexplorado nos
séculos anteriores, foi então completamente retalhado: só a pequena Libéria e a Abissínia (atual Etiópia)
continuaram independentes.
Desde a Antiguidade, a Abissínia era uma região estratégica, pois possuía um dos portos mais
importantes da África e era um reino reconhecido e respeitado pelos egípcios e gregos. As alianças que
estabeleceu com os europeus desde do século XV restringiram o avanço do islamismo para o ocidente.
Por sua vez, a vitória na Batalha de Adwa (1896) foi a garantia da manutenção de sua independência sob
o reinado de Menelik Il, impedindo a conquista do território pelos italianos.
A Libéria era a única porção do território africano sob influência dos Estados Unidos. Criada em 1822
pela American Colonization Society, uma organização privada que financiou a sua colonização por ex-
escravizados americanos libertos, já se encontrava organizada politicamente como uma República desde
1847, inspirada no ideário da revolução americana.
Com exceção dessas duas situações, o mapa político da África no final do século XIX representava o
esforço diplomático e a intervenção militar das potências coloniais europeias após a Conferência de

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Berlim. Dentre os acordos diplomáticos, destaca-se o Tratado Germânico-Britânico de 1890, que
assegurou à Alemanha o acesso ao Zambeze por um corredor de vinte milhas inglesas. Outro tratado
importante foi o firmado entre França e Reino Unido, assinado no mesmo ano, que delimitou zonas de
influência para regiões inexploradas e estabeleceu comissões binacionais para traçar as fronteiras
coloniais nas diferentes regiões africanas.
Esse esforço diplomático não significa que a partilha do continente africano tenha sido estabelecida de
forma pacífica. Ao contrário, apesar do tratado entre França e Reino Unido, essas potências coloniais se
envolveram em uma série de conflitos, principalmente pela disputa do Canal de Suez e do vale do Nilo, o
que por fim favoreceu o lado britânico. Outra forte zona de tensão entre os dois países foi a região do
Lago Chade. O domínio francês de vastos territórios da África Oriental chocava-se com os interesses
imperialistas britânicos. A conquista da República do Transvaal e Orange na Guerra dos Bôeres (1867-
1902) facilitou a expansão britânica para o norte. Assim, o Reino Unido tomou posse de territórios sob
domínio francês que deram origem a Nigéria, Togo e Camarões.
Mas os britânicos não entraram em choque apenas com os franceses. Eles também tiveram conflitos
com os portugueses, pois tinham interesse pela posse da Rodésia. Para os portugueses, essa região
central da África era estratégica, uma vez que garantia a ligação entre Angola, na costa atlântica, e
Moçambique, no Índico. Para os britânicos aquela região era fundamental, uma vez que eles pretendiam
estabelecer um eixo ferroviário entre o Cairo (no Egito) e o Cabo (na África no Sul), o que nunca foi
executado.
Por fim, a África Oriental foi quase completamente partilhada entre ingleses, franceses e alemães. Os
italianos conseguiram manter sob domínio a Eritreia.
A Espanha teve menor participação na partilha. Couberam aos espanhóis apenas algumas ilhas e
pontos dispersos pelo litoral, principalmente na atual Guiné Equatorial.
As fronteiras coloniais surgidas no Congresso de Berlim foram traçadas de acordo com o poderio de
cada potência colonial, e não de acordo com as realidades culturais existentes na África. Por isso, muitas
vezes essas fronteiras separaram um mesmo povo em dois ou três territórios controlados por potências
diferentes ou unificaram inimigos históricos em uma mesma colônia.
A colonização europeia da África manteve-se até o final da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa
perdeu o poder político e militar para as novas potências (Estados Unidos e União Soviética). O novo
mapa político que começou a ser definido após a Primeira Grande Guerra teve por base os limites
estabelecidos pelas potências coloniais europeias.
A formação dos novos Estados no continente reuniu diferentes grupos étnicos, com poucos traços
culturais em comum. Apenas na África Oriental, na região dos Grandes Lagos, e em Burkina Fasso e
Mali, na costa atlântica, antigos reinos serviram de base para a formação dos territórios nacionais.
Em geral, essa transformação política foi brutal. A maioria dos grupos étnicos, organizados em
economias de subsistência e comandados por autoridades do seu próprio clã, foram submetidos a
transformações de práticas religiosas, assim como a substituição das tradições orais pela cultura letrada.
Se no período colonial estes novos valores foram impostos, visando aos interesses dos impérios
coloniais, rapidamente transformaram-se nas principais bandeiras de luta pelos direitos desses povos
durante o processo de descolonização, o que veio a fortalecer o movimento do pan-africanismo.
O termo foi utilizado pela primeira vez em 1900, quando afrodescendentes originários das Antilhas e
dos Estados Unidos organizaram em Londres a Primeira Conferência Pan-africana. O grupo tinha como
objetivo protestar contra a ocupação da África pelas potências europeias. No período entreguerras, o
movimento pan-africano realizou quatro congressos: Paris (1919), Nova York (1927) e Londres (1921 e
1923). Para estes eventos foram enviados representantes das colônias africanas francesas e inglesas,
que reivindicaram liberdades civis e igualdade de condições entre negros e brancos. Esses congressos
foram também espaços importantes para o protesto contra o trabalho forçado, que ainda era comum nas
colônias portuguesas de Angola e São Tomé e Príncipe.
Dessa forma, não foi difícil associar o sentimento anticolonialista com o pan-africanismo. É o que pode
ser observado na pauta do quinto congresso realizado em 1945, na Inglaterra. As lideranças africanas de
língua inglesa e francesa ali reunidas aprovaram a Declaração aos Povos Colonizados que, em síntese,
afirmava a necessidade de esses povos assumirem o seu destino.
O pan-arabismo foi outra corrente que aglutinou forças de oposição aos governos locais. Diferente do
pan-africanismo, surgiu no contexto da crise do sistema colonial, a partir da junção das forças de
resistência ao nazismo no Marrocos, na Líbia, na Tunísia, no Egito e no Sudão, com os grupos
anticolonialistas da Arábia Saudita, do Iêmen, do Iraque, da Jordânia, do Líbano e da Síria.
Tanto o movimento pan-africano como o pan-arabismo garantiram que, em grande parte dos casos, a
independência dos Estados africanos fosse negociada. Isso não quer dizer que o processo de

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descolonização também não tenha sido resultado de violentos conflitos armados, como ocorreu na
Argélia, em Angola e em Moçambique.
A instabilidade política e as guerras civis que se alastram em muitos países desse continente são
também uma herança do descompasso entre as territorialidades produzidas pela colonização e as
territorialidades locais.
Desde a década de 1960, o continente foi castigado por mais de cem golpes de Estado e por milhares
de episódios de guerra entre povos diferentes. Como resultado, milhões de refugiados vagam pela
região, fugindo de guerras e perseguições.

A África no Mundo Globalizado


Mais da metade dos 54 países africanos manteve forte ritmo de crescimento (acima de 6% ao ano) na
década de 2000, embalados pela demanda por matérias-primas com preços elevados no mercado
internacional, como petróleo e ouro. Este processo ocorreu de maneira desigual e aumentou o fosso entre
os países que obtiveram maiores vantagens da economia globalizada, como a Nigéria, a África do Sul e
o Sudão, e os países subsaarianos, cuja população passa fome e ainda precisa da ajuda dos organismos
internacionais para enfrentar o quadro de miséria.
O Produto Interno Bruto da África do Sul representa cerca de um quarto do PIB da África negra, o que
equivale a aproximadamente 250 milhões de dólares (quase o dobro do PIB da Nigéria ou do Egito). As
riquezas minerais e o desenvolvimento industrial em setores de ponta, como tecnologia nuclear e
armamentos, asseguram à África do Sul uma posição de destaque entre as principais lideranças
diplomáticas e econômicas do continente.

Um Continente na Encruzilhada
Levando em conta a diversidade étnica e regional, uma alternativa para a consolidação dos Estados
nacionais africanos tem sido o federalismo.
Contudo, alguns conflitos bélicos persistem e tornam a agenda militar um tema importante para garantir
a estabilidade política.
O atual mapa político da África mantém praticamente inalterados os limites e as fronteiras
estabelecidos no período colonial. Mas a formação dos atuais países do continente foi um processo difícil
e com muitas contestações, principalmente entre 1956 e 1963.
Em 1963 foi criada a Organização da Unidade Africana (OUA), tendo como princípio fundador a
intangibilidade das fronteiras coloniais. Segundo esse princípio do direito internacional, os países
signatários da carta da OUA poderiam reivindicar a recuperação dos territórios perdidos pelas guerras e
contestações dos vizinhos, desde que se respeitassem os limites do período colonial.
Em parte, o sucesso do processo de independência, que ganhou novo impulso na década de 1960,
pode ser atribuído ao respeito a esse princípio. No entanto, sua adoção reforçou a tendência de
manutenção dos limites correspondentes aos antigos territórios coloniais.
Num primeiro momento, as cartas constitucionais dessas novas nações foram escritas por
constitucionalistas das antigas metrópoles, baseando-se nos modelos europeus. Aos poucos, a vida
política desses países passou a ser exercida com base nas alianças de clãs e diferenciados grupos
étnicos, promovendo a africanização do Estado. Em vários países, por exemplo, os topônimos impostos
pelos europeus foram substituídos por denominações da língua local ou que recordavam fatos históricos
do processo de independência.
Assim, desde 1957, a Costa do Ouro passou a se chamar Gana, por referência ao antigo Império
Oeste-Africano (que existiu naquele território entre os séculos VIII e XI). A República Democrática do
Congo, formada em 1960 a partir do antigo Congo Belga, rebatizou a capital Léopoldville para Kinshasa
e, em 1971, mudou o nome do país para Zaire ("o rio", na língua kikongi). Da mesma forma, Dahomey
passou a se chamar Benin, em 1975; a Guiné Portuguesa, Guiné Bissau, em 1976; e Haute-Volta, Burkina
Fasso ("país dos homens íntegros"), em 1984; entre outros exemplos.
Um problema mais complexo foi a decisão pelas línguas oficiais do país. Uma vez que esses países
são formados por numerosas comunidades linguísticas, qual delas escolher? Esse impasse foi a principal
razão para a manutenção, em diversos casos, da língua dos colonizadores como língua oficial do país.
Apenas em alguns países foi adotado o sistema bilíngue (em Camarões, por exemplo, o inglês e o francês;
em Madagascar, o malgache e o francês). A única região da África que recuperou a primazia linguística
perdida durante a colonização europeia foi o norte, com predomínio da língua árabe.
Tendo em vista a enorme diversidade étnica dos países africanos, o federalismo tem sido a forma
predominante de gestão política, uma vez que nesse sistema político as unidades federadas mantêm
autonomia entre si. É o que ocorre na Nigéria. Constituída em 1946 pela junção de três regiões
colonizadas pelos britânicos, seu território tem sido sucessivamente subdividido para atender aos

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
interesses étnicos e religiosos locais, garantindo a repartição da renda do petróleo entre diferentes grupos
de interesse. Atualmente, a Nigéria possui 36 unidades federadas, com relativa autonomia política.
Ainda que as contestações da divisão territorial africana sejam pouco numerosas, cabe destacar a
mudança do mapa político do continente com o processo de independência da Eritreia, que se separou
da Etiópia em 1993.
Trata-se de um retorno à situação existente até 1962, quando a antiga colônia italiana deixou de ser
tutelada pelo Reino Unido e foi anexada pela Etiópia. Desde então, o governo etíope nunca conseguiu
suprimir o movimento separatista. Em 1991, um referendo popular decidiu, com ampla maioria, pela
separação dos dois países, ainda que o acordo entre as partes não tenha conseguido estabelecer a
fronteira comum.
A independência da Eritreia foi respeitada pelos etíopes, mas essas divergências fronteiriças
romperam com o princípio da intangibilidade e geraram fortes conflitos após a ocupação da região de
Badme pelas tropas da Eritreia, em 1998.
Os dois países chegaram a um acordo de paz em dezembro de 2002, depois da perda de mais de 200
mil vidas, mas a situação está indefinida. Ainda que enviados da ONU tenham decidido que a cidade de
Badme pertence à Eritreia, a Etiópia ainda ocupa a faixa de fronteira em litígio, pois não aceita essa
determinação.
Outra questão aberta no mapa político da África é a do Saara Ocidental, território em disputa pelo
Marrocos e uma república saariana apoiada pela Argélia.
Apesar do discurso da unidade africana, a OUA teme a explosão de conflitos violentos, que de fato
ocorreram nas poucas ocasiões em que grupos separatistas tentaram quebrar o princípio da
intangibilidade das fronteiras coloniais: como em 1967, quando a tentativa frustrada de criação da
República de Biafra no oeste na Nigéria resultou na morte de mais de um milhão de pessoas.
É por isso que a vitória dos separatistas no referendo realizado na região sul do Sudão, em janeiro de
2011, pode ser considerada uma mudança fundamental no processo de formação territorial dos estados
africanos. Cerca de 99% da população se manifestou a favor da independência, mesmo sem nunca ter
sido objeto de uma delimitação colonial. A criação do Sudão do Sul poderá estimular outros movimentos
separatistas existentes na África Subsaariana, abrindo um novo ciclo de criação de Estados e
redesenhando as fronteiras do continente.
Desde a independência em relação ao Império Britânico em 1956, o Sudão já era um país dividido do
ponto de vista étnico e cultural. A região norte do país é majoritariamente árabe e muçulmana. Por sua
vez, a população do sul manteve suas práticas religiosas animistas ou optou pela conversão ao
cristianismo durante o período colonial.
Essas diferenças históricas geraram diversas tensões e conflitos entre o norte e o sul, inclusive com a
eclosão de duas guerras civis. A primeira teve início com a independência e perdurou até 1972.
Esse longo conflito garantiu ampla autonomia aos povos do sul em relação à elite árabe do norte, que
comandava o país.
Com a descoberta de imensas reservas de petróleo na porção meridional do país, na década de 1980,
o governo tentou intervir na área das reservas fechando o parlamento do território autônomo do sul,
localizado em Juba. Essa intervenção provocou uma revolta que eclodiu em 1983, liderada pelo Exército
Popular de Libertação do Sudão (EPLS). O novo ciclo de guerra civil deixou um saldo de pelo menos dois
milhões de mortos e quatro milhões de refugiados.
No referendo realizado em 2011, a grande maioria da população do sul optou pela independência, o
que foi aceito pelas elites árabes do norte do Sudão e oficializado em 9 de julho do mesmo ano. Contudo,
a fronteira entre os dois países ainda não foi definitivamente traçada e as áreas reivindicadas por ambas
as partes são ricas em petróleo, o que gera instabilidade, visto que o sul dispõe da maior parte das
reservas, mas não possui saídas marítimas e depende do norte para exportar o petróleo. Outra pendência
entre os dois países é o regime de cidadania, especialmente para as populações que circulam do norte
para o sul de acordo com a alternância de estações secas e chuvosas.

Crescimento e Pobreza
Apesar das desigualdades econômicas e dos bolsões de pobreza, o continente africano mantêm
acelerado crescimento demográfico. Atraída pelos novos negócios da economia globalizada, a população
migra para os grandes centros urbanos.

Rumos do Desenvolvimento
A crise financeira de 2008 derrubou os preços de commodities no mercado internacional, o que afetou
diretamente a economia africana. A crise gerou desemprego e fuga de capitais nos países mais

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dependentes da exportação de matérias-primas. Por essa razão, diversos organismos de
desenvolvimento regional procuram unir os países africanos no enfrentamento destas dificuldades.

Ásia – conflitos geopolíticos e econômicos

ÁSIA25

O continente asiático, por sua vasta extensão e rica história, possui imensa diversidade natural, cultural
e religiosa. Também é marcado por muitas desigualdades sócio espaciais, choques e convivência entre
o tradicional e o moderno.
A Ásia é o maior e mais populoso dos continentes. Enquanto há áreas com elevadíssimas
concentrações populacionais, há outras com baixíssimas densidades demográficas, como na Sibéria.
Outro aspecto a ser notado se refere ás diferenças de clima e vegetação, ao se comparar a Sibéria
com a floresta tropical na Índia. Também vale destacar os trajes utilizados pela mulher indiana e pelos
iraquianos em reza. A questão da religiosidade, bastante diversificada no continente, é aqui representada
pelo islamismo iraniano.

Amplitude Geográfica do Continente Asiático

A Ásia é o maior continente do mundo. Seu território, com extensão superior a 44 milhões de
quilômetros quadrado, representa cerca de 8% da superfície terrestre e por volta de 30% da área
continental do planeta. Nele se encontram mais de 4 bilhões de habitantes, o que corresponde a
aproximadamente 60% de toda a população mundial.
Devido a sua grande extensão, a Ásia possui uma grande variedade de climas, relevos e tipos de
vegetação. Enquanto muitas de suas áreas são extremamente férteis e com clima propício para a
ocupação humana em grande escala, esse continente também abriga grandes regiões desérticas e a
maior cadeia de montanhas do mundo: o Himalaia. Por isso, apesar de apresentar as regiões mais
densamente povoadas do planeta, a Ásia tem parte de seu território constituída por lugares de baixa
densidade demográfica.
O continente asiático abrange as áreas localizadas a leste da Europa. As principais fronteiras que o
separam do território europeu são os Montes Urais, o Rio Ural, o Cáucaso e o Estreito de Bósforo. Na
sua porção sudoeste, a Ásia também faz fronteira com a África. Esta se localiza no Egito, no Canal de
Suez.
A Rússia ocupa toda a sua região norte. É lá que se localiza a Sibéria, um dos locais mais frios do
planeta. É também na Rússia que se encontra o ponto mais próximo entre a Ásia e a América. Esses dois

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FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.

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continentes são divididos pelo Estreito de Bering, que possui um pouco menos de 100 quilômetros de
extensão e separa o continente asiático do Alasca.
Das áreas de planícies siberianas em direção ao centro do continente, as altitudes vão aumentando e
o relevo torna-se montanhoso. Logo ao sul da Sibéria está localizado o Planalto da Mongólia, onde há o
Deserto de Gobi, o qual, além da Mongólia, também abrange parte do território chinês. Essa região
apresenta clima temperado continental, com baixo nível de umidade e temperaturas bem frias.

Deserto de Gobi. http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/curiosidades/turismo/sabia-que-existe-areias-cantantes-no-deserto-de-gobi--18463.asp.

Ao sul do Planalto da Mongólia está a Cordilheira do Himalaia, a maior cadeia de montanhas do mundo
e que ocupa a maior parte da região central do continente. É no Himalaia que se encontra o ponto mais
elevado do planeta, com quase 9 mil metros de altitude: o Monte Everest, localizado no Nepal.

Monte Everest, o pico mais alto do mundo. https://portaldobitcoin.com/ico-da-morte-alpinista-pode-ter-morrido-ao-ajudar-startup-a-esconder-tokens-no-monte-


everest/.

Além do Nepal, o Himalaia abrange o território de outros quatro países: China, Índia, Paquistão e
Butão.
Por possuir clima extremamente frio, seco e com muitas ventanias, trata-se de uma das regiões menos
povoadas de todo o continente, assim como a Sibéria, apresentando também grandes vazios
demográficos.
Mesmo assim, recebe um grande fluxo anual de turistas, muitos para praticar alpinismo.
O derretimento da neve do Himalaia durante os períodos mais quentes é responsável pela formação
das nascentes de importantes rios da Ásia, como o Ganges, localizado na Índia e cuja bacia hidrográfica
abrange uma área habitada por mais de 400 milhões de pessoas que dependem de suas águas para
consumo e produção de alimentos, isso sem contar sua importância religiosa. Ao sul e ao leste do
Himalaia, o território asiático apresenta grandes áreas de planícies fluviais, como a dos rios Ganges e
Indo, na Índia, e a do Rio Yang-Tsé-Kiang, na China.
Em sua porção sul, o continente asiático apresenta quatro grandes penínsulas: Arábica, Indiana, da
Indochina, e Malaia. A Península Arábica, que abrange grande parte do Oriente Médio, é caracterizada
pela presença de um grande deserto, o da Arábia, que ocupa a maioria de seu território. Ao norte dessa
península, onde hoje é o Iraque, há uma importante planície fluvial, conhecida como Planície da
Mesopotâmia, que é banhada pelos rios Tigre e Eufrates.
A região do Oriente Médio também se estende a noroeste e nordeste da Península Arábica. Ela
abrange desde o Afeganistão até a Turquia e o Egito, e é caracterizada pela grande presença de desertos
em seu território. É no Oriente Médio que se localiza a região mais baixa do continente, na Planície do

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Mar Morto, que recebe esse nome em função da grande quantidade de sal de suas águas, o que dificulta
o desenvolvimento da vida.

Imagem de satélite do Mar Morto. https://thoth3126.com.br/a-incrivel-tecnologia-dos-antigos-6b/.

O Mar Morto está localizado na fronteira entre Israel e Jordânia, situado à aproximadamente 400
metros abaixo do nível do mar.
A Península Indiana se localiza ao sudeste do Himalaia e ao sul da planície Indo-Gangética,
abrangendo toda a região sul da Índia. A vegetação local é caracterizada pela presença de florestas
tropicais e/ou de clima temperado. Essa península faz parte da região chamada de Subcontinente Indiano,
da qual também fazem parte Paquistão, Bangladesh, Nepal e Butão. Já a Península da Indochina e a
Península Malaia se localizam na região do Sudeste Asiático. A primeira é formada por Vietnã, Laos,
Camboja e Tailândia, Mianmar e Malásia.
Além da região continental, a Ásia também abrange diversas ilhas. Algumas dessas ilhas e
arquipélagos são Estados independentes, como Japão, Taiwan, Sri Lanka, Maldivas, Malásia, Indonésia,
Timor Leste e Filipinas. Esses quatro últimos países se localizam na região asiática mais próxima da
Oceania.

Floresta Kim Giao, no Parque Nacional de Ba, Vietnã. http://welcometovietnam.com.vn/attractions/hai-phong/cat-ba-national-park/.

Diversidade Religiosa
Devido a sua grande extensão, o continente asiático é habitado por uma grande diversidade de povos,
sendo uma região de enorme heterogeneidade cultural e religiosa. Por isso, são muitos os aspectos que
diferenciam os países asiáticos. A Ásia é o berço das maiores religiões do mundo: cristianismo, judaísmo,
islamismo, hinduísmo e budismo. Essas religiões se originaram no continente em diferentes épocas,
apesar de algumas delas terem surgido em regiões próximas.
O budismo surgiu na região do Subcontinente Indiano, por volta do século V a.C., com base nos
ensinamentos de Sidarta Gautama, conhecido como Buda. A maior parte dos mais de 300 milhões de
budistas que há no mundo se encontra na Ásia, em países como China, Mianmar, Camboja, Tailândia,
Butão, Laos, Mongólia, Nepal, Cingapura, Japão, Vietnã e Tibete.

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Templo budista no Tibete, China. https://algumlugardoplaneta.wordpress.com/2012/12/11/tibet-lhasa-monasterios-e-templos/.

O hinduísmo é uma das mais antigas religiões provenientes da Índia, surgida há cerca de pelo menos
3.500 anos. Trata-se da terceira maior religião do mundo, tendo um número aproximado de 1 bilhão de
fiéis, dos quais mais de 800 milhões vivem na Índia. O hinduísmo também é majoritário no Nepal, onde
mais de 80% de sua população é praticante. Um dos principais símbolos do hinduísmo na Índia é o Rio
Ganges, considerado sagrado para os hindus.

Indianos se banham no Rio Ganges, Índia. http://www.osul.com.br/justica-indiana-declara-rios-ganges-e-yamuna-seres-vivos-com-direitos/.

A história do judaísmo está diretamente associada à do povo hebreu. Acredita-se que ele tenha
surgido por volta do século XVIII a. C. no Oriente Médio e que seja a primeira religião monoteísta do
mundo.
Além de viver no Estado de Israel, atualmente, a população judaica está espalhada pelo mundo todo.

Muro das Lamentações (símbolo judeu) e, ao fundo, cúpula do Domo da Rocha, santuário muçulmano, em Jerusalém, Israel. https://istoe.com.br/milhares-de-
judeus-se-reunem-diante-do-muro-das-lamentacoes/.

O cristianismo, religião com maior número de praticantes no mundo (com mais de 2 bilhões de fiéis),
também surgiu no Oriente Médio, como uma dissidência do judaísmo – predominante na atual região de

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Israel até o início da Era Cristã. Porém, a sua difusão pelo mudo se deu por conta da influência da cultura
romana, que adotou o cristianismo – o qual se expandiu pela Europa e depois pelo restante do mundo.
O islamismo é a mais recente dessas cinco religiões, surgindo a partir do século VII d.C na Península
Arábica. Os muçulmanos (como são chamados seus adeptos) partem do pressuposto de que, Maomé
foi o último profeta enviado por Deus – e por isso seguem os seus ensinamentos. O islamismo é a segunda
religião com maior número de praticantes no mundo, com um pouco menos de 2 bilhões de fiéis, e está
entre as que mais crescem atualmente. A maior parte da população muçulmana vive hoje na Ásia.
Ao longo dos séculos, o islamismo se difundiu para outras regiões do continente e do mundo, sobretudo
na África. Assim, esse processo fez que o islamismo deixasse de ser uma religião restrita ao mundo
árabe, sendo adotada por diferentes populações.

Potências Demográficas da Ásia


De acordo com estimativas da Divisão de População das Nações Unidas, das quase 7 bilhões de
pessoas que habitam o planeta, mais da metade vive na Ásia. Nesse cenário, alguns países em especial
concentram grande parte da população e apresentam densidades demográficas entre as mais elevadas
do mundo, acarretando falta de disponibilidade de terras para o cultivo, impactos ambientais e um
acelerado processo de urbanização, que resultou na formação de enormes aglomerados urbanos.

O Continente Mais Populoso


Atualmente há cerca de 4,4 bilhões de pessoas vivendo na Ásia, mais do que a população somada de
todos os outros continentes. Somente a China, país mais populoso do planeta, tem mais de 1,3 bilhão de
pessoas, aproximadamente 31% da população da Ásia, em seu território, mais do que quatro vezes a
população da América do Sul, porém aglomerada em uma área quase duas vezes menor.
Na Índia, que figura em segundo lugar na lista dos países mais populosos do mundo, vivem
aproximadamente 1,2 bilhão de pessoas adensadas em uma área ainda menor do que a China. Trata-se
de outro gigante demográfico que, em função de taxas de crescimento mais elevadas, deverá inclusive
ultrapassar a China e se tornar a nação mais populosa da Terra até 2050, com cerca de 1,45 bilhão de
pessoas.
Além disso, alguns países pequenos em termos de área, como o Japão, Bangladesh e Cingapura,
apresentam densidades populacionais entre as mais altas do planeta e ajudam à elevar a Ásia à condição
de grande potência demográfica do planeta.
Essa enorme população, fruto de um crescimento vertiginoso durante o século XX, resultou em uma
grande pressão sobre o uso das terras e dos recursos naturais do continente, em especial sobre o solo,
que a partir de 1960 passou a apresentar uma degradação cada vez mais aceleradas, motivo pelo qual
os governos asiáticos estão entre aqueles que mais se preocupam, historicamente, com o controle das
taxas de natalidade.
Em alguns países asiáticos, diversas políticas direcionadas à contenção do crescimento já foram
desenvolvidas desde então, e muitas delas deram resultado. Somadas ao aumento na expectativa de
vida e ao desenvolvimento econômico de muitas nações do continente, essas políticas resultaram em
baixas taxas de crescimento populacional, próximas daquelas registradas no Ocidente, e no
envelhecimento gradual da popular.
No Japão, onde as taxas de mortalidade já superam as de natalidade, a população já está em visível
declínio, sendo que o mesmo deve ocorrer com a China nas próximas décadas (o país deve perder, no
mínimo, 400 milhões de habitantes até o fim do século XXI), e com a índia até 2060.
No entanto, mesmo tendo perdido o posto de continente com as taxas mais aceleradas de crescimento,
hoje ocupado pela África, a Ásia e sua enorme população ainda desempenham um papel de grande
desafio à sustentabilidade no continente.

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População total por continente em 2013 e 2050 (estimativa em bilhões de pessoas)

https://assets.prb.org/pdf13/2013-population-data-sheet_eng.pdf.

Ásia: sete países mais populosos em 2015

País População
China 1,357 bilhão
Índia 1,257 bilhão
Indonésia 248,4 milhões
Paquistão 183,9 milhões
Bangladesh 154,5 milhões
Japão 127,3 milhões
Filipinas 98 milhões

Distribuição da População
A população da Ásia não se encontra distribuída de forma homogênea pelo continente: grandes
regiões são praticamente desabitadas, sobretudo o norte e o leste da Rússia, o planalto tibetano e as
áreas de deserto.
As áreas de maior concentração populacional são o Subcontinente Indiano, principalmente ao longo
do vale do Rio Ganges e em Bangladesh, as planícies do leste da China, o Japão e a Indonésia, sobretudo
a ilha de Java.
A concentração de pessoas nesses lugares, que representam, em geral, áreas em que as atividades
humanas, principalmente a agricultura, são favorecidas pelo clima, relevo, disponibilidade de água e
ocorrência de solos férteis, acaba provocando problemas sociais e econômicos, além de graves impactos
ambientais, sobretudo relacionados à poluição do ar, em áreas urbanas, da água e à erosão dos solos
em áreas rurais.

A Urbanização da População
A Ásia e a África são os únicos dois continentes nos quais a população é predominantemente rural.
No entanto, apesar das baixas taxas de urbanização, mais da metade da população urbana global vive
em cidades asiáticas, e três dos cinco aglomerados urbanos com mais de 20 milhões de habitantes no
mundo se localizam no continente, assim como três dos quatro aglomerados urbanos com população
entre 15 e 20 milhões de habitantes.
É importante considerar, porém, que as taxas de urbanização da população variam entre os muitos
países da Ásia, pois há desde países como Israel, Coreia do Sul e Cingapura, com altas taxas de
urbanização, até outros como Índia, Nepal, Camboja e Vietnã, que apresentam taxas de urbanização
inferiores a 30%.
Além disso, como todos os dias novas famílias se deslocam de áreas rurais para as cidades do
continente, atualmente a maior taxa de crescimento urbano se dá em aglomerados urbanos médios de
até 1 milhão de habitantes na Ásia e África, o que faz que a população urbana cresça de tal maneira que,
até 2030, esta terá ultrapassado a rural.
Esse êxodo rural ocorre principalmente em função da disponibilidade cada vez menor de solo cultivável
e do intenso processo de industrialização, características de alguns dos países asiáticos nas últimas
décadas. Atraídas pelas oportunidades de trabalho nos centros urbanos e impossibilitadas de praticar a

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agricultura de subsistência, muitas dessas famílias acabaram engrossando as já populosas cidades
asiáticas.
Dentre os grandes aglomerados urbanos do continente, formados por vários municípios conurbados
ao redor de cidades principais, o maior é a área metropolitana de Tóquio, no Japão, cidade que passou
por um acelerado processo de crescimento na segunda metade do século XX. Atualmente conta com
aproximadamente, mais de 37 milhões de habitantes, segundo informações das Nações Unidas em 2013.
Na sequência estão as áreas metropolitanas de Nova Délhi (Índia) e Xangai (China), com
aproximadamente, 25 e 23 milhões de habitantes, respectivamente.
Esse crescimento urbano de cidades já densamente habitadas, somado às desigualdades sociais que
existem em alguns dos países do continente, configura um cenário no qual o planejamento urbano e a
organização racional dos espaços têm se mostrado cada vez mais importantes para garantir a qualidade
de vida da população.
Os principais problemas e dificuldades estão relacionados aos meios de transporte, à falta de
habitação e aos impactos ambientais elevados, como a poluição atmosférica e das fontes de água. Além,
disso, em países do continente nos quais a riqueza é distribuída de forma mais desigual, como a Índia e
a Indonésia, a expansão das áreas ocupadas tem sido evidente, com o aumento das taxas de
urbanização.

A Diversidade Étnica, Cultural e Religiosa


Em função de sua grande área, a diversidade do continente asiático sob o ponto de vista étnico e
cultural é extremamente grande. A população do continente está dividida em uma quantidade significativa
de povos muito diferentes entre si, como hindus, chineses, japoneses, mongóis, persas, turcos, malaios
e muitos outros, o que resulta em grande diversidade física e cultural.
Da mesma forma, esses povos utilizam um número igualmente considerável de idiomas, com destaque
para o mandarim na China, que representa a língua mais falada no mundo, o híndi, o árabe, o japonês,
entre outros.
A Ásia é o berço das quatro religiões mais populares do planeta: o islamismo, o cristianismo, ambos
originados no Oriente Médio, o hinduísmo e o budismo, além de inúmeras outras tradições religiosas
locais, principalmente na China, e o fato de essas religiões terem nascido na Ásia e se espalhado pelo
mundo evidencia como é antiga a coexistência de cristãos, muçulmanos, budistas e hindus no continente.
Os principais países de população predominantemente muçulmana, além daqueles localizados no
Oriente Médio e na Ásia Ocidental, localizam-se no Sudeste Asiático, enquanto os hinduístas se
concentram no Subcontinente Indiano. Os budistas, por sua vez, estão adensados na China, no Japão e
nos países do sul da Ásia, como Tailândia e Camboja, entre outros.
A grande maioria dos países da Ásia apresenta, porém, diversas minorias religiosas ativas, o que
acaba agravando algumas tensões existentes, motivo pelo qual o continente asiático é hoje aquele que
mais sofre em decorrência de ataques violentos ligados à motivos religiosos no mundo.
Na Indonésia, por exemplo, os cristãos representam menos de 10% da população, pouco mais de 20
milhões de indivíduos frente a mais de 90 milhões de muçulmanos, e são constantes as alegações de
ataques e discriminação.
Já em Mianmar, um país do Sudeste Asiático de população majoritariamente budista, é a minoria
muçulmana que sofre com ataques que já fizeram centenas de vítimas, levando até mesmo o Dalai Lama
(grande líder espiritual budista) a condenar publicamente a violência contra os muçulmanos no país. Isso
sem falar no conflito entre judeus e muçulmanos centrado na Palestina.

Riqueza e Pobreza na Ásia


A Ásia é um continente no qual as desigualdades econômicas entre os países são evidentes,
considerando que sete apresentam Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado e outros sete estão
entre aqueles de IDH mais baixo. Entre os países de desenvolvimento elevado se destacam Cingapura,
Hong Kong – uma Região Administrativa Especial, ou RAE, da China -, Japão, Barein, Arábia Saudita e
Malásia; já entre aqueles com menor IDH, é possível mencionar o Afeganistão, o Iêmen, Nepal e Mianmar.
Além disso, nos países de economia emergente, como a Índia e a China, recente potência global, as
desigualdades internas são evidentes, com uma pequena parte da população concentrando grande parte
da riqueza e as camadas mais pobres da sociedade vivendo em condições precárias, seja no meio rural
ou em favelas nas grandes cidades, como Délhi, na Índia.
O luxo de Cingapura e de outras cidades asiáticas que estão entre as mais ricas do mundo é um dos
símbolos da ascensão econômica da Ásia.

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Cingapura. https://oglobo.globo.com/boa-viagem/cingapura-a-cidade-mais-cara-do-mundo-pela-quinta-vez-consecutiva-22504585.

Essa disparidade de renda entre os países da Ásia e também entre as classes sociais em nações
como a Índia e a China proporciona a existência de um grande contraste de paisagens, principalmente
nos centros urbanos, onde a riqueza e a pobreza convivem, muitas vezes, lado a lado. O modelo de
desenvolvimento adotado por grandes cidades da Ásia, altamente adaptado à economia de mercado, faz
desses grandes centros urbanos polos comerciais e financeiros do continente mais populoso do planeta.
O luxo de cidades como Hong Kong, Cingapura e Xangai, entre outras, é um símbolo da riqueza
acumulada pelos países asiáticos nas últimas décadas, mas os índices de desenvolvimento humano de
muitos países deixam a desejar.

Ásia: melhores e piores colocados no ranking global de IDH da ONU

Favela de Dharavi. https://pt.wikipedia.org/wiki/Favela.

A favela de Dharavi, em Mumbai, é uma das muitas favelas da Índia que não param de crescer.
Em função do rápido processo de urbanização vivenciado pelos países da Ásia, o desafio de enfrentar
a miséria e a pobreza passará certamente pela necessidade de criar mais oportunidades de emprego e
educação e desenvolver programas de inclusão social, que visem à construção de novas habitações,
entre outras medidas que devem ser adotadas pelos governantes.

O Sudeste Asiático

Atualmente esta região se coloca no cenário mundial como uma economia em desenvolvimento e, ao
mesmo tempo, com extremos contrastes sociais.

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Os países do Sudeste Asiático representam características naturais parecidas, além de várias
desigualdades socioeconômicas.

Ocupações Estrangeiras no Sudeste Asiático


O Sudeste Asiático é uma região formada por países continentais localizados na Península da
Indochina – Laos, Camboja, Vietnã, Tailândia e Mianmar – e por países insulares – Cingapura, Malásia,
Indonésia, Brunei, Filipinas e Timor Leste. A região é caracterizada por sua diversidade cultural e destaca-
se por sua crescente força econômica na atualidade. Sua localização estratégica foi alvo de disputas
armadas pelo poder de influência nos governos locais.

Sudeste Asiático: político. http://www.mapas-asia.com/sudeste-politico.htm.

Por sua localização estratégica, entre os oceanos Pacífico e Índico, o Sudeste Asiático sofreu uma
série de ocupações estrangeiras ao longo da História. Países europeus colonizaram seus territórios desde
o século XVI. Uma segunda onda colonizadora ocorreu no século XIX. Após terem passado por um
intenso processo de industrialização, as potências europeias partiram em busca de territórios fora de seu
continente, a fim de criar novos mercados consumidores e fornecedores de matéria-prima. Esse processo
ficou conhecido como neocolonialismo e atingiu principalmente a África e a Ásia.
Em meados do século XIX, os franceses haviam fundado a Indochina francesa (atualmente Laos,
Camboja e Vietnã). Ao mesmo tempo, os britânicos se expandiram para o leste da Índia e dominaram a
Birmânia (atual Mianmar), Cingapura e organizaram, na parte sul da região, uma faixa de pequenos
protetorados. As Filipinas eram dominadas pelos espanhóis, mas passaram para as mãos dos EUA no
final do século XIX.
A Tailândia era a única região a permanecer como Estado independente no Sudeste Asiático, apesar
de ameaçada por franceses e ingleses.
Com as mudanças no jogo de poder mundial ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, teve início o
processo de descolonização do Sudeste Asiático. Marcado pela influência externa dos Estados Unidos e
da União Soviética, as superpotências da época, esse processo fez que alguns países da região se
tornassem socialistas e aliados da União Soviética. Foi o caso de Laos, Camboja e Vietnã. Na Birmânia,
atual Mianmar, país que se tornou independente da Inglaterra em 1948, o socialismo foi usado como uma
desculpa para a implantação de um regime ditatorial que perdura desde 1962, quando ocorrera no país
um golpe de Estado liderado pelo militar Ne Win.
Desde então, milhares de hindu-birmaneses e muçulmanos deixaram o país com medo das
perseguições políticas. Em 1978, cerca de 200 mil refugiados migraram rumo ao vizinho Bangladesh e
outros milhares têm-se refugiado também na vizinha Tailândia. Sob o novo regime político, o país teve
sua economia arrasada e, hoje, o atual Mianmar é um dos países mais pobres do Sudeste Asiático.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Características Socioeconômicas do Sudeste Asiático
Embora atualmente os países da região venham passando por uma intensificação do processo de
urbanização, cerca de 70% dos habitantes vivem no campo. No entanto, o aumento das cidades não é
acompanhado de planejamento territorial ou de políticas públicas voltadas para atender às demandas da
crescente população urbana. Com isso, milhares de pessoas vivem sem acesso a saneamento básico,
água tratada, eletricidade, entre tantos outros serviços básicos.
Embora a indústria e a alta tecnologia se desenvolvam intensamente na região, o setor primário ainda
é muito relevante no Sudeste Asiático e abarca mais da metade da população economicamente ativa. A
agricultura e o extrativismo, portanto, representam um importante papel na economia e na vida das
pessoas.
Entre as atividades agrícolas desenvolvidas no Sudeste Asiático, o cultivo de arroz – ou rizicultura – é
um dos destaques. Cerca de 28% da produção mundial de arroz é proveniente dessa região e é a base
da alimentação da população asiática.

Europa – aspectos econômicos, humanos, físicos e políticos

EUROPA E MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS26

Divisão Política da Europa

A Europa possui uma área de 10 milhões de quilômetros quadrados e se encontra dividida em 51


Estados. Alguns são pequenas ilhas e principados, como Malta, Mônaco, Andorra e Liechtenstein,
enquanto outros são mais extensos, como a Espanha e a França. Muitas das fronteiras atuais foram
definidas ao final da Segunda Guerra Mundial, principalmente no caso da Europa Ocidental. Já as
fronteiras da Europa Oriental foram definidas a partir do final da Guerra Frias, após a fragmentação da
União Soviética.

A Europa Ocidental
A Europa Ocidental compreende desde a Península Ibérica, onde se situam Portugal e Espanha, até
as fronteiras orientais da Alemanha, Áustria e Itália.
Foi delimitada com base em critérios políticos e abrange também os países escandinavos: Inglaterra,
Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte e Irlanda; e a Islândia.
Devido essa delimitação, a Europa Ocidental engloba nações de origem latina, saxônica e germânica.
Essa região apresenta os melhores índices de desenvolvimento humano (IDHs) do continente, apesar
de existirem disparidades dentro dela.
Entre os dez países com maior IDH do mundo, principal indicador de qualidade de vida, cinco estão
localizados na Europa Ocidental: Noruega, Suíça, Holanda, Alemanha e Dinamarca.
Os países da região apresentam populações majoritariamente urbanas e o número de aglomerados
urbanos é alto, embora a maioria represente cidades pequenas em áreas rurais, que são características
marcantes da paisagem do continente europeu, tanto na Europa Ocidental como na Europa Oriental.
No entanto, na Europa Ocidental também estão alguns dos principais centros urbanos do mundo sob
o ponto de vista econômico e cultural – cidades como Londres (Inglaterra), Paris (França) e Frankfurt
(Alemanha), entre outras, que funcionam como polos econômicos e financeiros.
Nessas cidades estão localizadas sedes administrativas de empresas multinacionais, bolsas de
valores de grande importância, universidades que representam algumas das melhores instituições de
ensino do mundo, além de destacados pontos turísticos e enormes aeroportos, ou hubs aéreos, que
servem de ponto de entrada para todo o continente.
Em função da extensão latitudinal, a Europa Ocidental apresenta um evidente contraste entre os tipos
de clima predominante, com a ocorrência de áreas de clima mediterrâneo e altas temperaturas na costa
do Mar Mediterrâneo e áreas de clima frio e polar na porção mais setentrional da região, na Finlândia, na
Noruega, e na Suécia.
Na maior parte da Europa Ocidental, no entanto, predomina o clima temperado, com invernos frios e
verões amenos, sendo que em áreas de altitude, como nos Alpes, o clima dominante é o frio de montanha.

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FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
No litoral do Atlântico Norte, no entanto, a corrente quente do Golfo proporciona um clima mais ameno
do que no interior do continente, onde os invernos são mais rigorosos. Nessas áreas, grandes nevascas
ocorrem com frequência durante os meses mais frios do ano, muitas vezes bloqueando estradas.
Um dos marcos geográficos mais importantes da Europa Ocidental são os Alpes, a maior cadeia de
montanhas do continente, formada pelo choque entre duas placas tectônicas e que atravessa a região,
traçando u marco de aproximadamente 1.200 km, do Golfo de Gênova, na Itália, até Viena, na Áustria.
Em áreas de maior altitude, os Alpes apresentam montes cobertos de neve durante todo o ano e
abrangem a maior parte do território de alguns países, como a Suíça e a Áustria.
Os Alpes, assim, como outras grandes cadeias de montanhas, são fonte de inúmeros rios que
abastecem importantes bacias hidrográficas.
Os rios principais da região integram importantes vias de navegação e transporte de pessoas e
mercadorias, dentre os quais podemos citar o Reno, o Sena, o Loire, entre outros.

O Leste Europeu
A Europa Oriental, ou Leste Europeu, é a região que abrange os países que estão a leste da
Alemanha, Áustria e Itália – o que inclui os Bálcãs, os Cárpatos e parte da área banhada pelo Mar Báltico,
que envolve países como Letônia, Estônia e Lituânia.
Ela também, integra a Rússia, maior país o mundo, embora a maior parte do território russo, a leste
dos Montes Urais, localiza-se no continente asiático.
Os países que compõem o Leste Europeu possuem um passado histórico recente comum, que é o
fato de terem sido zonas de influência política e cultural da União Soviética, governados por regimes
alinhados com o socialismo durante a Guerra Fria. Além disso, há outra semelhança envolvendo os países
da região: a maior parte de sua população é de origem eslava.
Embora não seja tão urbanizada quanto a Europa Ocidental e apresente paisagens marcadas pela
predominância de áreas rurais com pequenos vilarejos, é na Europa Oriental que estão localizadas as
duas cidades mais populosas do continente europeu: Istambul (Turquia) e Moscou (Rússia), que, com
suas regiões metropolitanas, formam as duas únicas manchas urbanas da Europa, com mais de 10
milhões de habitantes. Também há outros importantes centros urbanos, como São Petersburgo (Rússia)
e Kiev (Ucrânia).
Já sob o ponto de vista físico e climático, podemos destacar a presença dos Montes Cárpatos, a maior
cadeia de montanhas da região e que representa a porção mais oriental do mesmo sistema de montanhas
que os Alpes, além de rios extensos e importantes, como o Volga, na Rússia – o maior rio da Europa – e
o Danúbio.
A maior parte da região possui clima e frio e, com exceção de áreas mais ao sul, também é caracteriza
por invernos extremamente rigorosos. No sudoeste da Rússia também há ocorrência de clima semiárido.
A Europa e as Migrações Internacionais
Ao mesmo tempo que a população europeia se encontra envelhecida e apresenta hoje uma proporção
de indivíduos em idade economicamente ativa menor do que em outros períodos históricos, milhões de
imigrantes chegam ao continente de forma legal e ilegal todos os anos para trabalhar e estudar nas
cidades europeias. Embora as migrações sejam parte importante da História da humanidade e durante
séculos os próprios europeus tenham migrado (e continuem migrando) para outros continentes, como
para a América do Sul, o crescente desemprego nos países da Europa tem acirrado as tensões étnicas
e o preconceito contra imigrantes, atualmente um dos problemas mais graves no continente.

O Envelhecimento da População Europeia


Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os países da Europa passaram a vivenciar uma explosão
demográfica causada por um grande aumento nas taxas de natalidade, número de nascidos vivos, a cada
mil habitantes em um ano. Como resultado, esses países passaram por um período no qual a população
economicamente ativa (PEA), com idade entre 15 e 65 anos, superava largamente a de dependentes,
idosos e crianças, impulsionando assim o crescimento econômico.
No entanto, o aumento das taxas de natalidade foi gradualmente revertido ao longo da segunda
metade do século XX, e a grande maioria dos países do continente adentrou o século XXI com taxas de
natalidade em queda.
A diminuição do número de nascimentos, somada às baixas taxas de mortalidade e ao aumento na
expectativa de vida da população no mesmo período, em função de boas condições sociais e
econômicas, avanços da medicina e no saneamento básico, entre outros fatores, formou um cenário no
qual o número de idosos, habitantes com mais de 65 anos, passou a aumentar cada vez mais em relação

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ao total na população, enquanto o número de indivíduos que entram na idade economicamente ativa
diminuiu.
Na maior parte dos países do continente, com exceção do Leste Europeu, esse cenário tende a se
intensificar ainda mais no futuro. Em 2013, por exemplo, a proporção de indivíduos com 65 anos de idade
ou mais em relação à população total era de 18%, mas em 2050 será de aproximadamente 28%. No
mesmo período, a proporção de indivíduos entre 15 e 64 anos terá caído de aproximadamente 66% para
cerca de 57%, ou seja, a população europeia está, em média, ficando mais velha a cada década.
Uma das consequências desse processo é que esses países terão cada vez mais gastos com a saúde
e o sistema de previdência social, que garante o pagamento de aposentadoria, sendo que ambos já são
consideravelmente altos. Além disso, como a proporção de indivíduos em idade economicamente ativa
tende a diminuir, isso pode representar um impacto à economia dos países europeus.
Essa situação, exatamente oposta ao bônus demográfico, período no qual a população
economicamente ativa supera largamente a de idosos e crianças, configura um momento delicado.
Embora o envelhecimento da população seja uma tendência global e uma situação que tende a cada vez
mais afetar países de todos continentes, inclusive o Brasil, na Europa é onde esse processo se manifesta
de maneira evidente. Isso não significa, porém, que a oferta de trabalho tenha diminuído. Afinal, o século
XXI vem sendo marcado por uma invasão de imigrantes no continente.

Um Continente de Imigrantes
A migração é um fenômeno universal, que ocorreu em todos os tempos históricos da humanidade, e é
algo natural e inerente de muitas sociedades. As migrações ocorrem por diferentes motivos e envolvem
aspectos negativos e positivos para os envolvidos.
A Europa é um continente marcado pelas migrações internas e pela emigração, tanto durante o período
colonial como em função de crises provocadas por conflitos, como a Primeira e a Segunda Guerra
Mundiais, por exemplo. Milhares de europeus migraram para outros continentes, dando origem a uma
população substancial de ascendência europeia no continente americano.
Com a recuperação econômica europeia na segunda metade do século XX, a migração tornou-se
novamente um foco de atenção das políticas públicas e da mídia internacional, mas dessa vez a situação
inverteu-se: a Europa passou a ser e uma região atraente para milhões de famílias africanas, sul-
americanas e asiáticas em busca de melhores condições de vida e oportunidades de trabalho.
Para termos uma noção desse fenômeno, na passagem do século XX para o XXI, havia na Europa
aproximadamente 21 milhões de estrangeiros, incluindo indivíduos de outros continentes e europeus que
se mudaram para outros países dentro da Europa, população maior do que a de diversos países do
continente.
De modo geral, as migrações têm como objetivo principal propiciar uma vida melhor, e as razões
variam desde a busca por oportunidades de trabalho até a fuga de conflitos ou perseguições étnicas,
entre outras.
Uma vez na Europa, os imigrantes, legais ou ilegais, passam a se inserir tanto na economia formal
quanto na informal dos países do continente. No entanto, muitos permanecem voltados apenas ao
comércio informal, ou estão à margem da sociedade, sem emprego e vivendo em condições precárias, e
são vistos muitas vezes como intrusos e "ladrões" de empregos por parte da população local.
Como os acordos firmados pela União Europeia (UE) garantem uma situação de legalidade a
indivíduos que possuem cidadania de algum país-membro do bloco, permitindo maior mobilidade, muitos
dos imigrantes do continente são pessoas que se deslocam de países mais pobres para mais ricos,
principalmente do Leste Europeu para a Europa Ocidental.
Desde 2007, por exemplo, quando a Romênia e a Bulgária, que apresentam índices de
Desenvolvimento Humano, ou IDHs, inferiores aos dos países da Europa Ocidental, ingressaram na
União Europeia, muitos cidadãos desses países enxergaram no acordo uma grande oportunidade para
alavancar suas vidas em países em situação econômica mais favorável, com e res taxas de desemprego.
Em função desse deslocamento crescente de búlgaros e romenos, diversos países da Europa Ocidental,
como a França e a Alemanha, alteraram suas respectivas legislações para dificultar o ingresso de pessoas
originárias desses países em seus territórios.
No entanto, o maior problema da atualidade reside no fluxo ilegal de pessoas vindas de países
localizados em outros continentes, como a África, a Ásia e a América do Sul, ou de países do Leste
Europeu que não integram a União Europeia - como a Turquia. É importante considerar que, em ambos
os casos, o deslocamento se dá principalmente para os países da Europa Ocidental que apresentam
melhores situações econômicas, como a Alemanha, país com o maior número de indivíduos estrangeiros
na atualidade.

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Os imigrantes ilegais são aqueles que encontram sempre as maiores dificuldades, pois correm o risco
da deportação e não possuem visto para trabalhar legalmente de acordo com as leis locais. Por isso
atuam como funcionários não registrados ou estão inseridos na economia informal como vendedores
ambulantes, por exemplo.

As Rotas da Imigração Ilegal


Devido à proximidade da Europa em relação à África, à Ásia e ao Oriente Médio, indivíduos de países
localizados nesses continentes tentam entrar na Europa ilegalmente todos os anos por meio de rotas
terrestres e marítimas.
No entanto, com o reforço da segurança nas fronteiras da Europa e dos Estados Unidos após os
atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e na Europa em anos seguintes, a fiscalização tem
aumentado na última década, e os imigrantes são obrigados a optar por rotas cada vez mais perigosas
para chegar a seus destinos. Essas rotas envolvem até mesmo enfrentar as águas perigosas do Atlântico,
a partir da costa ocidental da África, em embarcações improvisadas, o que tem provocado um aumento
no número de vítimas fatais nessas jornadas.
As principais rotas ilegais utilizadas por indivíduos de origem africana, no entanto, são através do Mar
Mediterrâneo e das ilhas da Sicília e Malta, ou então diretamente do Marrocos em direção à Espanha.
Segundo estimativas da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o número de indivíduos
que morreram tentando chegar à Europa em 2013 foi de 900, o triplo do registrado em 2003.
Os governos europeus, por sua vez, vêm agindo de forma cada vez mais repressiva, interceptando
embarcações ou levas de imigrantes que acabam sendo posteriormente deportados.
Por causa da proximidade com a Líbia, que vive uma situação política e social instável, e da costa da
Tunísia, a pequena ilha de Lampedusa, muito próxima da Sicília (Itália), tornou-se um dos principais
pontos de chegada de milhares de imigrantes.
Como consequência, somente na Itália são mantidos mais de dez complexos de detenção, de onde
esses imigrantes aguardam a deportação e são tratados, muitas vezes, de maneira ríspida. Apesar de a
União Europeia ter proibido os campos de detenção, e o governo italiano ter sido alvo de críticas de
órgãos internacionais dedicados à defesa dos direitos humanos, milhares de africanos atualmente se
encontram detidos nesses campos, nos quais eles podem permanecer por meses aguardando a
deportação.
Lidar com os imigrantes ilegais, seja da África, da Ásia, do Oriente Médio e também da Turquia, tem
sido uma das questões mais polêmicas envolvendo os governos da Europa nos últimos anos. A maioria
dos países tem se mostrado intolerante quanto à legalização desses imigrantes, mesmo frente às
questões humanitárias envolvidas, já que o número de trabalhadores ilegais já é muito alto e quase todos
esses países sofrem com taxas consideráveis de desemprego.
Um exemplo de como a atitude dos governos europeus tem se mostrado cada vez mais rígida em
relação aos imigrantes ilegais foi a decisão tomada pelo governo da Bulgária, que resolveu iniciar a
construção de um muro de 30 quilômetros de extensão e 3 metros de altura ao longo de sua fronteira com
a Turquia.

Enfrentando a Xenofobia
Nos países da Europa, a chegada de um número cada vez maior de imigrantes, principalmente ilegais,
tem causado manifestações xenofóbicas, ou seja, caracterizadas pelo preconceito contra estrangeiros. A
maior parte dessas manifestações é motivada pelo nacionalismo, e os grupos xenófobos se colocam
contrários à aceitação de certos grupos étnicos ou religiosos da sociedade, como ocorre na Alemanha,
Itália e França. Nesta última, principalmente, os casos mais extremos têm envolvido imigrantes
muçulmanos, característica intensificada, sobretudo, após o atentado terrorista à sede da revista Charlie
Hebdo, em Paris, em 2015.
Além de muçulmanos provenientes de diversos países, o preconceito na França e em outros países
da Europa Ocidental tem se direcionado aos negros africanos e ciganos do Leste Europeu, por exemplo,
Na maior parte dos casos, além de serem vistos de forma negativa por competirem pelas mesmas
oportunidades de emprego com a população local, esses imigrantes são frequentemente associados ao
aumento da criminalidade e ao tráfico de drogas.
O debate em torno da regularização dos imigrantes na Europa é controverso. No entanto, como o
continente passa por uma grande queda da fecundidade, o que poderá acarretar graves consequências
no futuro, como a diminuição de jovens e adultos, e até mesmo da população, a imigração pode ser uma
maneira de resolver parcialmente essa questão, embora muitos grupos se coloquem radicalmente contra
essa medida.

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Oceania – economia e população

OCEANIA27

A Oceania foi o último continente a ser explorado pelos europeus, processo que se iniciou de fato a
partir do final do século VXIII, capitaneado pelo Reino Unido.
Os dois principais países desse continente são Nova Zelândia e Austrália.

Destaques Geográficos da Oceania

A Oceania é um continente composto por milhares de ilhas situadas entre os oceanos Índico e Pacífico.
Entre essas ilhas estão a Austrália, a maior delas, que possui extensão continental; a Nova Zelândia;
Papua-Nova Guiné; e as que compõem a Melanésia, a Micronésia e a Polinésia.
Observe o mapa.

http://www.geomapas.com.br/nossos-produtos/ref.217-07-oceania-politico-217-esc.07.html.

Trata-se do menor continente do mundo, uma vez que sua área comporta aproximadamente 8,5
milhões de quilômetros quadrados. Além disso, apresenta baixa densidade demográfica, com população
absoluta de cerca de 37 milhões de habitantes, o que a posiciona como o segundo continente menos
populoso do mundo, perdendo apenas para a Antártida.
A denominação de novíssimo continente foi dada pelo explorador inglês James Cook no século XVIII,
devido ao fato de até então essa ter sido uma região pouco explorada e conhecida pelos europeus. Nesse
período, Cook comandou expedições de exploração e mapeamento de grande parte da região,
reivindicando-a para o Reino Unido, que dela se apropriou. Por isso, muitas bandeiras de países da
Oceania possuem a bandeira do Reino Unido em suas composições. Com exceção da Antártida, esse foi
o último continente explorado pelos europeus.
Apesar de sua enorme quantidade de ilhas, ao todo a Oceania possui apenas quatorze Estados
independentes. Enquanto algumas delas integram esses Estados, a maioria ainda é de possessão
europeia ou estadunidense. A França, por exemplo, possui parte do território da Polinésia, conhecida
como Polinésia Francesa e que engloba ilhas como Taiti e Bora-Bora. A Nova Caledônia, arquipélago
situado a leste da Austrália, na Melanésia, também é um território francês.
Devido à sua localização, na qual a maior parte de seu território situa-se na zona climática intertropical,
entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, as ilhas do continente tendem a apresentar um clima quente
e, por isso, atraem grande quantidade de turistas que buscam lazer em suas praias paradisíacas, como
retrata a imagem abaixo.

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FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.

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Ilha de Bora Bora, na Polinésia Francesa. https://www.tripadvisor.com.br/Tourism-g311415-Bora_Bora_Society_Islands-Vacations.html.

Porém, a Nova Zelândia e a porção sul da Austrália localizam-se em latitudes acima do Trópico de
Capricórnio, fazendo que o clima subtropical temperado, com temperaturas mais amenas, estejam
presentes no continente.
Por ter grande parte do seu território situado em uma região de borda de placa tectônica, a Oceania
apresenta atividades sísmicas e vulcânicas intensas, o que levou à formação de muitas das ilhas locais.
Por isso, o continente possui um grande número de vulcões e também está mais sujeito a terremotos.

A Nova Zelândia

A Nova Zelândia é um país independente desde 1907, quando ganhou autonomia política em relação
ao Reino Unido. Seu território é composto por diversas ilhas. No norte e no sul do país se localizam as
duas maiores massas de terra neozelandesas. Observe o mapa a seguir.

https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2012/09/nova-zelandia.gif.

A localização da Nova Zelândia impõe certo grau de isolamento em relação aos países vizinhos. A
distância entre sua capital, Wellington, e Camberra, capital da Austrália, por exemplo, é de
aproximadamente 2.320 quilômetros.
Apesar de seu território ter sido mais amplamente explorado por James Cook no ano de 1769 e os
britânicos terem se apropriado da região, foi apenas a partir de 1840 que ela foi formalmente declarada
como colônia inglesa. Mesmo assim, ao longo desses mais de setenta anos, a região passou a receber
exploradores e comerciantes europeus, bem como alguns estrangeiros que foram forçados a migrar para
lá, sobretudo presos britânicos.
Assim como ocorreu em outras regiões colonizadas, a área onde hoje se constitui o território da Nova
Zelândia já era habitada quando chegaram os primeiros europeus. As populações indígenas locais são
conhecidas como maoris e povoaram a região há mais de mil anos, provavelmente vindas da Polinésia.
A partir do final do século XVIII e do início do XIX intensificou-se o contato dos maoris com europeus,
por meio da chegada de exploradores, baleeiros, degredados e também missionários cristãos. Esse

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contato teve como consequência a grande diminuição da população maori. Além dos conflitos intertribais
e da transmissão de doenças, os maoris se envolveram em uma série de conflitos por terra com
colonizadores britânicos ao longo do século XIX. Da mesma forma, a chegada de missionários católicos
e protestantes fez que grande parte da população remanescente se tornasse cristã, abandonando suas
religiões tradicionais.
Atualmente, os maoris representam cerca de 14% da população neozelandesa. Por isso, apesar do
quase extermínio e dos impactos culturais ocorridos ao longo do século XIX, a sua cultura ainda está
presente de diferentes formas no país – seja por meio de seu idioma, como também de sua arte e de
suas tradições e lendas.
O fluxo migratório de ingleses em direção à Nova Zelândia se intensificou a partir de 1840, quando foi
formalizada a colonização do Reino Unido na região. Com as sucessivas levas migratórias de europeus
e o extermínio de grande parte da população maori, a população branca se tornou maioria na Nova
Zelândia. Dados de 2013 estimavam que, naquele ano, 71,2% dos mais de 4,5 milhões de neozelandeses
eram de origem europeia. Enquanto isso, além dos maoris, que representam o segundo maior grupo
étnico local, há também um expressivo grupo de habitantes de origem asiática, que compõem 11,3% dos
moradores na Nova Zelândia.

Atividades Econômicas
Desde os tempos coloniais, a agricultura e a pecuária tiveram importância na economia neozelandesa.
Ao longo do século XX o país se consolidou como um grande produtor e exportador mundial de carne,
sobretudo de ovelha – que também possibilita a produção de lã. O país é o segundo maior exportador de
lã do mundo, atrás apenas da Austrália.
A pecuária possibilitou à Nova Zelândia o desenvolvimento de uma importante indústria de laticínios.
O principal produto da pauta de exportação neozelandesa é o leite concentrado, que em 2012 representou
15% das exportações do país e gerou uma receita superior a 5 bilhões de dólares. Além disso, destacam-
se as exportações de manteiga e queijo, que ocuparam, respectivamente, o terceiro e o sétimo lugar das
exportações do país nesse mesmo ano.
O setor primário também está presente em grande escala na economia local por meio da extração e
exportação de madeira – que ocupou a quarta colocação no ranking de exportações do país em 2012. Os
principais destinos das exportações neozelandesas são a Austrália, a China, os Estados Unidos e o
Japão.
As atividades industriais que mais se destacam estão ligadas à construção civil e às atividades
primarias, como a pesca industrial, a atividade madeireira, a transformação de minérios, a manufatura, a
produção de vinho, além das indústrias associadas à agropecuária, como a de laticínios, a de lã e a de
frigoríficos.
O turismo possui relevante participação na economia neozelandesa. Devido à sua riqueza natural, a
Nova Zelândia costuma atrair um grande número de turistas estrangeiros todos os anos. Em 2014, o país
recebeu aproximadamente 2,8 milhões de turistas, quase a metade proveniente da Austrália. Entre as
atrações turísticas locais, chamam a atenção as atraentes passagens que envolvem diversos picos e
montanhas que se encontram na cordilheira conhecida como Alpes do Sul, localizada na ilha do Sul, com
destaque para o Monte Cook/Araoki, como também as belas praias, os cânions, os vulcões e os fiordes,
entradas de mar entre montes rochosos, localizados no país.
Observe a imagem.

http://www.seviagens.com.br/paises.php?pais=165.

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Austrália

A Austrália é o maior país em área e população da Oceania. Em sua área territorial de 7.692.024
quilômetros, possuía em 2015 aproximadamente 24 milhões de habitantes. Também apresenta o maior
grau de desenvolvimento socioeconômico do continente. Em 2013 teve o segundo maior IDH e registrou
o décimo segundo maior PIB do mundo. Mesmo assim, o território australiano é um dos menos povoados
do planeta, com densidade demográfica de 3,2 habitantes por quilômetro quadrado, devido ao fato de
que a maior parte do país é ocupada por desertos e savanas, além de possuir vastas áreas com solo
pouco rico e um clima seco.
Assim como no caso da Nova Zelândia, no início do povoamento europeu, a Austrália transformou-se
em uma colônia penal. A partir da segunda metade do século XIX, a imigração europeia se intensificou
na região, motivada em primeira instância, pela descoberta de ouro em terras australianas.
Após a Segunda Guerra Mundial, os sucessivos governos passaram a estimular a imigração de
trabalhadores estrangeiros qualificados, visando suprir a carência de mão de obra especializada devido
à pequena população, o que ainda ocorre nos dias de hoje. Em 2014, o Departamento de imigração
australiano divulgou formalmente quais eram as profissões em demanda no país. Com isso, o Estado
australiano incentiva profissionais do mundo todo a se candidatarem à obtenção do visto de residência e,
com isso, pode selecionar aqueles que possuem o perfil profissional desejado.

Clima e Agricultura
Apesar de o país contar com modernas técnicas de irrigação, que possibilitam o aumento da
produtividade, a agricultura é responsável por menos de 5% do PIB local. A maior parte do território
australiano é composta por zonas áridas. Por isso, a prática da agricultura acaba sendo limitada às
regiões litorâneas do país, sobretudo no leste, onde as condições são mais propícias. Observe o mapa
abaixo.

Zonas climáticas da Austrália

http://www.bom.gov.au/iwk/climate_zones/map_1.shtml.

Legenda

Equatorial

Tropical

Subtropical

Deserto

Pradaria

Temperado

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Entre os principais produtos agrícolas cultivados na Austrália, é possível destacar: algodão, trigo,
cevada, cana-de-açúcar e frutas de clima temperado, como ameixa, pêssego, maçã, cereja, blueberry e
uva.
A indústria de alimentos e bebidas também está entre as principais atividades econômicas na Austrália.
Pode-se destacar a produção de vinho, uma vez que o país é o quarto maior exportador do mundo dessa
bebida.
A produção de cana-de-açúcar se concentra no litoral nordeste do país, onde o clima tropical favorece
o seu cultivo. Na região leste predomina a produção de algodão e mais ao sul a de trigo, respectivamente
segundo e primeiro produtos agrícolas mais exportados pela Austrália em 2012.

Pecuária e Minérios
A Austrália possui o maior rebanho de ovelhas do mundo e é o maior produtor e exportador mundial
de lã. É um grande criador de gado, tendo ocupado o segundo lugar na exportação mundial de carne
bovina congelada em 2012, atrás apenas do Brasil.
A Austrália possui importantes reservas de recursos minerais, fazendo que sua extração e a indústria
de transformação estejam muito presentes na economia local. Por isso, o país possui uma importante
indústria de base. Os principais produtos exportados são recursos minerais em estado bruto ou
transformados, como ferro, carvão, petróleo, zinco e manganês. A Austrália também é o principal
exportador mundial de sal. Além da transformação de minérios, a economia australiana também
apresenta uma importante indústria química e de máquinas e equipamentos.
O setor industrial é responsável por um pouco menos de 30% do PIB local e os principais polos
concentram-se nas regiões metropolitanas das maiores cidades, como Sidney, Melbourne, Adelaide,
Newcastle e Perth.
Contudo, a maior parte do PIB australiano, entre 60% e 70%, provém do setor de serviços. Isso ocorre
em função do grande número de turistas que o país recebe anualmente, como também devido à
diversidade e à modernidade dos serviços oferecidos em suas cidades, que envolvem os setores de
comércio, telecomunicações e gastronomia. Esta, por sinal, é favorecida pela abundância de recursos
pesqueiros no extenso litoral do país e pela grande diversidade cultural que a imigração proporcionou,
estimulando o surgimento de grandes polos gastronômicos em cidades como Melbourne e Sidney.
Também merece ser destacada a presença do setor financeiro no país. A Bolsa de Valores de Sidney
é a principal da Oceania e está entre as mais importantes do mundo.

América – população, economia, aspectos físicos e políticos

CONTINENTE AMERICANO28

O continente americano já era habitado há milhares de anos quando nele pisaram os primeiros
europeus, no século XVI. Além disso, o processo de colonização deu-se de forma diferente em cada parte
da América, e tudo isso influenciou na formação socioeconômica dos países americanos como os
conhecemos hoje.

Regionalizações da América

A América pode ser regionalizada de diferentes formas, dependendo do aspecto que queremos
ressaltar. Atualmente, são dois os critérios mais utilizados. Um é aquele que se baseia na própria
localização das terras do continente americano – critério geográfico.
Outro é o que tem como base o processo de colonização e, consequentemente, sua influência no
desenvolvimento econômico e na formação social dos países – critério histórico, cultural e
socioeconômico.

Critério Geográfico
O continente americano localiza-se inteiramente no Hemisfério Ocidental e é o segundo maior do
mundo, com uma área territorial de 42.209.248 quilômetros quadrados. Cortado ao norte pelo Círculo

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FURQUIM JUNIOR, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição – São Paulo: Editora AJS, 2015.

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Polar Ártico e pelo Trópico de Câncer, e ao sul pela Linha do Equador e pelo Trópico de Capricórnio,
também é aquele que possui maior extensão latitudinal.
A divisão regional da América de acordo com o critério geográfico separa o continente em três partes:
América do Norte, América Central e América do Sul.
A América do Norte está localizada no Hemisfério Norte e representa 55% da área total do continente.
Apesar da grande extensão, esse território é dividido em apenas três países: Estados Unidos, Canadá e
México, além de uma possessão europeia – a Groelândia – administrada pela Dinamarca.
A América Central também está localizada no Hemisfério Norte, e sua área corresponde a apenas
2% do total do continente; é formada por um arquipélago de ilhas conhecido como Caribe e uma porção
continental dividida em sete países.
Por fim, a América do Sul é cortada pela Linha do Equador, mas a maior parte de sua área localiza-
se no Hemisfério Sul. Seu território corresponde a 43% da área total do continente americano e é formado
por doze países mais uma possessão europeia, a Guiana Francesa, administrada pela França.

Critério Histórico, Cultural e Socioeconômico


A chegada dos europeus deu início a um longo processo de colonização que influenciou a formação
dos países que integram o contente americano.
O critério histórico, cultural e socioeconômico divide a América em duas partes: América Latina e
América Anglo-saxônica.
A América Latina é formada pelo México e os países da América Central e da América do Sul. Ela
recebe esse nome porque foi colonizada por povos europeus cuja língua dominante tem origem no latim:
os portugueses e os espanhóis, embora também englobe países cuja colonização foi feita por outros
povos, como a Jamaica (colonizada pelos holandeses). Isso ocorre porque o critério de regionalização
também considera características socioeconômicas e culturais, como a predominância da religião
católica, além do fato de que todos são considerados países em desenvolvimento.
Já a América Anglo-Saxônica é formada pelos Estados Unidos e o Canadá e recebe esse nome
porque esses países tiveram sua colonização majoritariamente empreendida por um país de origem
anglo-saxônica, a Inglaterra. No entanto, ambos os países possuem regiões inicialmente colonizadas por
países latinos, como a província de Québec, no Canadá (colonizada pelos franceses, motivo pelo qual o
francês é a língua predominante nessa região), e os estados do Arizona, da Califórnia e do Novo México,
nos Estados Unidos, colonizados pelos espanhóis.
Tanto o Canadá quanto os Estados Unidos apresentam altos índices de qualidade de vida e se
encontram no grupo dos países considerados desenvolvidos, diferentemente dos países da América
Latina, refletindo diferenças no modo como ocorreu o processo de colonização.
Enquanto na América Latina foram desenvolvidas colônias de exploração, nas quais o objetivo era
explorar os recursos naturais da colônia, na América Anglo-Saxônica foram desenvolvidas colônias de
povoamento, nas quais o objetivo era ocupar as terras para habitação.

O Brasil na América do sul

AMÉRICA LATINA29

O trecho do livro O espelho de Próspero problematiza a História e a atualidade da América Latina com
base no contraste com a América do Norte.

O termo “América Latina” provém da França de Napoleão III, quase quatro séculos após a descoberta
das Índias Ocidentais, como parte de um discurso “geoideológico” para a suposta unidade linguística,
cultural e “racial” dos povos latinos, em contraposição aos germânicos, anglo-saxões e eslavos. Nossa
discussão, no entanto, exige a diferenciação das tradições francesa, italiana e ibérica dentro da mitificada
tradição latina. Além disso, mesmo que o termo “América Latina” tenha perdido suas conotações
eurocêntricas neonapoleônicas, adquiriu novos acentos instrumentais como designação de uma zona
estratégia do mundo que inclui povos não ibéricos do Caribe. (Fonte: MORSE, Richard. M. O espelho de Próspero. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988, p.14).

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A Independência da América Latina e a Formação dos Países Modernos

O processo de independência da América Latina ocorreu a partir do início do século XIX e, no caso da
América espanhola, resultou na fragmentação gradual do território da Colônia em função da divisão
política feita pela Espanha, ao criar unidades administrativas autônomas, os vice-reinos e as capitanias,
e de conflitos de interesses envolvendo as elites locais, separadas pela distância geográfica e cultural.
Enquanto o vice-reino da Nova Espanha foi o único a manter a sua unidade territorial após a
independência, resultando na formação do México, as capitanias-gerais de Guatemala, Chile e Venezuela
e os Vice-Reinos de Nova Granada e Rio da Prata fragmentaram-se e deram origem aos vários países
que hoje existem na região.
Ao contrário do que aconteceu na América Espanhola, no entanto, o território português manteve-se
unido após a independência do Brasil. Apesar dos movimentos separatistas que eclodiram no país ao
longo do século XIX, o Estado brasileiro conseguiu reprimi-los e manter a sua unidade territorial, com
exceção dos conflitos no sul que resultaram na conformação do Uruguai.

Diversidade Cultural na América Latina


A América Latina apresenta uma grande diversidade no que diz respeito à sua população. Além dos
indígenas que já habitavam a região e dos colonizadores europeus, outros povos também contribuíram
para a formação de uma cultura carregada de inúmeras influências.
Além dos idiomas português e espanhol (predominantes, respectivamente, nos países de colonização
portuguesa e espanhola), a religião católica é a herança mais evidente dos colonizadores da América
Latina.
Durante a colonização, tanto os escravos de origem africana como os indígenas foram alvo de um
grande processo de catequização, sendo forçados a aderir ao catolicismo. Nas cidades coloniais latino-
americanas, muitas delas fundadas por padres, uma igreja ou uma catedral era sempre erguida na praça
central.
Com exceção da América Central, que recebera muitos escravos africanos, na América Espanhola as
duas principais culturas que se fundiram foram a indígena e a europeia.
Um exemplo de como a miscigenação entre elementos indígenas e europeus influenciou na identidade
cultural dos países da América Espanhola é a celebração do dia dos mortos, que ocorre todos os anos
entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro em todo o México e mistura tradições católicas (2 de
novembro que representa do dia de finados para a igreja católica) com costumes indígenas que já existiam
antes dos espanhóis.
Nos territórios colonizados pela Espanha na América do Sul, também houve uma grande miscigenação
entre as culturas indígena e europeia – sobretudo nos países andinos. Hoje em dia, em países como a
Bolívia e o Peru, a população de ascendência indígena é predominante, razão pela qual os elementos
indígenas estão impregnados na cultura local, mas a religião que predomina, inclusive nesses grupos, é
o catolicismo.
Os indígenas da América Andina (a maioria camponeses), resguardaram grande parte de suas
tradições culturais. Apesar de o espanhol ser o idioma oficial da região, existem dezenas de idiomas que
ainda são falados pelos povos locais, e tradições típicas da região, como o consumo de folha de coca,
permanecem vivos há muitos séculos.
Já nos países de colonização espanhola da América Central e no Brasil, que fazia parte da América
portuguesa, a presença de elementos culturais africanos é muito mais intensa e se mistura com a
influência das culturas ibéricas (Portugal e Espanha).
No Brasil, o modelo de escravidão adotado determinou a característica de sua população atual, cuja
maioria é afrodescendente. Isso explica por que inúmeras culturas africanas tiveram grande influência no
país-herança que está presente de diversas formas, desde várias palavra de nossa língua até comidas
típicas e tradições religiosas.
Na música, podemos citar o samba, ritmo que é mundialmente associado à cultura brasileira e que foi
criado nas comunidades negras, inspirado em ritmos africanos. A capoeira também é um elemento
cultural do país trazido pelos africanos durante o período colonial e disseminado nas comunidades
escravas.
É importante considerar que os escravos enviados ao Brasil pertenciam a muitas culturas diferentes e,
uma vez em terras brasileiras, eram separados e levados para várias partes da Colônia. Assim, suas
tradições culturais misturaram-se entre si e a elas somaram-se outras influências, indígenas e europeias.
Essa miscigenação resultou na recriação de inúmeras tradições africanas no Brasil, as quais passaram
a contar com uma identidade própria e, muitas vezes, elementos católicos. Um exemplo é a Festa do

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Senhor do Bonfim, na Bahia, além da congada, evento que faz parte do folclore do interior de Minas
Gerais e quem mistura elementos tribais do Congo e de Angola com componente católicos.
Nas regiões brasileiras onde não houve grande presença da escravidão africana, a principal influência
cultural veio dos indígenas e dos estrangeiros que ali se instalaram, em especial portugueses e,
posteriormente, levas de imigrantes de outras partes da Europa, como italianos, espanhóis e alemães,
entre outros.
Já a cultura indígena também está presente de inúmeras formas, sobretudo na região Norte, seja na
alimentação, no modo de vida, na ocupação do espaço por meio das Terras Indígenas ou no uso da
língua, pois há um grande número de palavras e nomes de lugares que são de origem indígenas.

FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO30

A cartografia da formação territorial brasileira revela, em diferentes períodos, os processos que


levaram o Brasil a chegar até a forma territorial e as divisões internas atuais. Desde 1500, o país passou
por diversas conformações territoriais, fruto de diferentes organizações políticas e administrativas.
Observe o mapa.

Brasil: Capitanias Hereditárias (1534-1536)

A doação de uma capitania era feita por meio de dois documentos: a Carta de Doação e a Carta Foral.
Pela primeira, o donatário recebia a posse da terra, podendo transmiti-la para seus filhos, mas não vendê-
la. Recebia também uma sesmaria de dez léguas da costa na extensão de toda a capitania. Devia fundar
vilas, construir engenhos, nomear funcionários e aplicar a justiça, podendo até decretar a pena de morte
para escravos, índios e homens livres. Adquiria alguns direitos: isenção de taxas, venda de escravos
índios e recebimento de parte das rendas devidas à Coroa.
A Carta Foral tratava, principalmente, dos tributos a serem pagos pelos colonos. Definia ainda, o que
pertencia à Coroa e ao donatário. Se descobertos metais e pedras preciosas, 20% seriam da Coroa e, ao
donatário, caberiam 10% dos produtos do solo. A Coroa detinha o monopólio do comércio do pau-brasil
e de especiarias. O donatário podia doar sesmarias aos cristãos que pudessem colonizá-las e defendê-
las, tornando-se assim colonos.
O modelo de colonização adotado por Portugal baseava-se na grande propriedade rural voltada para
a exportação. Dois fatores influíram nesta decisão: a existência de abundantes terras férteis no litoral
brasileiro e o comércio altamente lucrativo do açúcar na Europa.
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FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.
TAMDJIAN, James Onnig. Geografia: estudos para compreensão do espaço. James Onnig Tamdjian, Ivan Lazzari Mendes. 2ª edição. São Paulo: FTD, 2013.

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Num primeiro momento os portugueses lançaram mão do trabalho escravo do índio e, depois, do negro
africano. A colonização iniciou-se, então, apoiada no seguinte tripé: a grande propriedade rural, a
monocultura de produto agrícola de larga aceitação no mercado europeu e o trabalho escravo.
As dificuldades iniciais eram muitas. Bem maiores do que os donatários podiam calcular. Era difícil a
adaptação às condições climáticas e a um tipo de vida totalmente diferente do da Europa. Além disso, o
alto custo do investimento não trazia retorno imediato. Alguns donatários nem chegaram a tomar posse
das terras, deixando-as abandonadas.

A cartografia da formação territorial do Brasil

Com a chegada de Cristóvão Colombo na América, em 1492, o território americano passou a ser
cobiçado pelos principais países europeus. Em 1494, após anos de negociação mediada pela Igreja
Católica, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, que repartia as novas terras entre
esses dois países. Observe o mapa a seguir.

Brasil: o Tratado de Tordesilhas

Definiu-se que as terras situadas a leste da linha de Tordesilhas seriam de posse de Portugal e aquelas
localizadas a oeste seriam de propriedade espanhola. Contudo, a existência do Tratado não garantiu na
prática a posse dos territórios na América. Primeiro porque esses territórios não estavam vazios, ou seja,
encontravam-se ocupados por diferentes grupos indígenas. Os portugueses e espanhóis teriam de
conquistar suas terras, o que envolveu muitas batalhas. Em segundo lugar, outros Estados (como França,
Inglaterra e Holanda) não reconheciam a legitimidade do tratado nem o direito de Portugal e Espanha
sobre essas terras e também as disputavam.
No caso português, a ocupação de suas terras na América ocorreu de fato a partir de 1530. Até então,
Portugal limitou-se a criar postos de comércio no litoral para a comercialização de pau-brasil – as feitorias.
Porém, devido a constantes invasões de piratas e expedições estrangeiras, o rei viu-se obrigado a ocupar
o território para garantir o seu domínio.
Foi a partir de então que começaram as primeiras expedições de exploração e colonização do litoral
brasileiro e de algumas regiões no interior mais próximas. Ao longo do século XVI, a exploração e o
povoamento da colônia pouco avançaram em direção ao seu interior. No século XVII, o desenvolvimento
da economia açucareira e de algumas atividades voltadas para abastecer o pequeno mercado interno
proporcionou a exploração e ocupação de novos territórios – uma vez que era necessário espaço para
desenvolvê-las. Observe o mapa a seguir.

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Brasil: povoamento no século XVI

A exploração e a ocupação de novas terras na Colônia acompanharam o processo de desenvolvimento


da economia local, conforme é possível observar o mapa anterior. É importante ressaltar que o
desenvolvimento econômico e as consequentes possibilidades de enriquecimento serviam de estímulo
para promover o povoamento da Colônia.
É possível notar ainda que, no século XVII, a maior parte de cidades e vilas ainda se concentrava no
litoral. Porém, graças às atividades como a pecuária e a procura pelas chamadas drogas do sertão, ervas
encontradas na região amazônica, foi possível conhecer e ocupar novos territórios no continente –
ultrapassando, inclusive, os limites da Linha de Tordesilhas.
Porém, ainda havia uma grande parcela de terras a leste de Tordesilhas que não tinha sido explorada
pelos portugueses. Por mais que, segundo o tratado, pertencessem à Portugal, na prática esses territórios
ainda eram controlados por indígenas. Portanto, para serem conquistados, eles deveriam ser explorados
e ocupados.
A exploração desses territórios deu-se a partir do século XVII, por meio das entradas e bandeiras. As
entradas eram expedições oficiais de exploração do território da Colônia, financiados pela Coroa
Portuguesa. Já as bandeiras, apesar de também possuírem um caráter exploratório, eram expedições
particulares, movidas por interesses econômicos e comandadas por homens conhecidos como
bandeirantes.

As Bandeiras e os Bandeirantes

Grande parte das bandeiras originou-se das vilas de São Vicente e São Paulo. Devido às dificuldades
econômicas enfrentadas no sul da Colônia, muitos homens viram-se forçados a explorar novos territórios
em busca de riquezas minerais (como ouro e prata) e de escravos indígenas para vender. Outra atividade
comum era a captura de escravos negros fugitivos.
Os comandantes dessas expedições, os bandeirantes, foram responsáveis pela exploração de grande
parte do atual território brasileiro. Apesar das contribuições dadas ao processo de expansão do território
brasileiro, as ações dos bandeirantes são alvo de controvérsia. Não devemos esquecer que eles foram
responsáveis pela escravização e morte de diversos povos indígenas. Observe o mapa a seguir, que
mostra as principais bandeiras dos séculos XVII e XVIII.

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Brasil: principais bandeiras (séculos XVII e XVIII)

Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991

Observando o mapa, é possível notar que as bandeiras que partiam de São Paulo tinham como direção
o interior da Colônia, ultrapassando os limites do Tratado de Tordesilhas. Essas expedições foram
responsáveis pela exploração de áreas e a criação de vilas nas regiões Sul, Centro-Oeste e Norte do país
– que até então haviam sido nada ou pouco exploradas.
É importante ressaltar que, entre 1580 e 1640, Portugal permaneceu sob domínio espanhol, época
conhecida como a União Ibérica. Assim, durante todo esse período, o Tratado de Tordesilhas passou a
ser invalidado de fato, o que facilitou a exploração e ocupação de territórios além de seus limites por parte
dos bandeirantes.
Foi apenas em 1750 que Portugal e Espanha assinaram um tratado que substituía o de Tordesilhas.
Ambos os países reconheciam que os limites estabelecidos em Tordesilhas não foram historicamente
respeitados. Assim, naquele ano foi assinado o Tratado de Madri, que teve como objetivo regularizar a
fronteira entre suas colônias.
Segundo os termos do Tratado de Madri, as fronteiras das colônias deveriam ser estabelecidas como
base na lógica de Uti Possidetis, expressão em latim que significa que quem ocupa determinado território
tem a posse sobre ele. O mapa a seguir mostra como ficou a fronteira brasileira após o Tratado de Madri.

O território brasileiro após o Tratado de Madri (1750)

Repare como o território brasileiro se expandiu para além dos imites do Tratado de Tordesilhas –
aproximando-se, inclusive, de seus limites atuais.
Pode-se dizer que a expansão territorial do Brasil ocorreu graças à ação exploratória dos bandeirantes,
que foram responsáveis por explorar e povoar essas novas áreas e garantir a posse delas no Tratado de
Madri, em 1750.

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Apesar do novo tratado, ele não significava o fim das questões referentes a territórios e fronteiras na
região. Até o fim do período colonial, o Uruguai e parte do Rio Grande do Sul foram disputados entre
Brasil e Espanha.

A Organização Política e Administrativa do Brasil

Em 1621, durante a União Ibérica, o rei Felipe III decretou a separação da Colônia portuguesa em dois
estados: Estado do Maranhão, com capital em São Luís, e o Estado do Brasil, com capital no Rio de
Janeiro. Cada um desses Estados encontrava-se dividido em várias capitanias, conforme representa o
mapa que mostra a divisão das capitanias em 1709. Nesse ano, o Estado do Maranhão era composto
pelas capitanias do Grão-Pará e do Maranhão, tendo sua capital transferida para a cidade de Belém. Em
1763, foi a vez de mudar a capital do Estado do Brasil, passando de Salvador para o Rio de Janeiro. Em
1774, a Coroa portuguesa decretou a reunificação da Colônia, que permaneceu assim até a sua
independência.
Observe e compare os mapas das divisões territoriais do Brasil em 1709 e em 1822, ano da
independência do país.

Divisão Territorial do Brasil (1709) - São Paulo no seu Máximo


A partir de 1709, o Brasil já estava dividido em sete estados. Onde hoje abrange parte da Amazônia,
no Norte do país, localizava-se a província do Grão-Pará. Abaixo, na área que pertence atualmente a
Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Minas Gerais, Goiás, São Paulo e parte do
Paraná, era dominada pelo Estado de São Paulo. O estado do Nordeste era ocupado apenas por
Maranhão, Pernambuco e Bahia. Na região Sul, apenas a província de São Pedro. A Sudeste, o Rio de
Janeiro.

Divisão territorial do Brasil (1822)

Em 1822, ano da independência brasileira, o território brasileiro configurava-se assim:

Brasil em 1822

Observe que, em 1822, os limites do território brasileiro assemelhavam-se aos atuais. Nesse caso,
deve-se destacar a região da Cisplatina, que na época pertencia ao Brasil. Pouco tempo depois, a
Cisplatina tornou-se independente do Brasil e passou a se chamar Uruguai.

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1823: Províncias Imperiais

No ano de 1823, um ano após a Declaração da Independência, foram acrescentados ainda mais
territórios. O Brasil ganhou os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Ceará e
Piauí. No Sul, houve o acréscimo do estado de Santa Catarina e da Província da Cisplatina, o atual
Uruguai.

Divisão territorial do Brasil (1889)

Na época da independência, a divisão político-administrativa brasileira era baseada em províncias, e


não em estados, como hoje em dia. Repare como as diversas províncias existentes em 1822, assim como
suas fronteiras, deram origem a muitos estados atuais.
Até o fim do Império e a formação da República, em 1889, o território brasileiro sofreu algumas
pequenas modificações. Da mesma forma, alguns territórios deixaram de pertencer a algumas províncias
e foram incorporados a outras, como mostra o mapa acima.
Com a instauração da República, a divisão político-administrativa brasileira, que antes compunha
várias províncias, passou a se basear em estados. Dessa forma, o Brasil tornou-se uma República
Federativa, composta por diferentes unidades.
Desde 1889 foram criados alguns estados novos, bem como uma nova divisão político-administrativa:
os territórios federais. Esses territórios integravam diretamente a União, sem pertencer a nenhum
estado. Em 1988, os territórios federais existentes foram extintos e suas áreas foram incorporadas a
estados vizinhos.

As Unidades Federativas do Brasil

As unidades federativas são entidades político-administrativas e territoriais vinculadas ao Estado


Nacional – no caso brasileiro, à República Federativa.
Elas possuem autonomia no que diz respeito à eleição de seus governantes, à criação de determinadas
leis e à cobrança de impostos.
Atualmente, o Estado brasileiro é composto por 27 unidades federativas: 26 estados e o Distrito
Federal, onde se localiza Brasília, a capital do país.
O estado é composto por diversos municípios. Todos os estados possuem um governador e uma
assembleia legislativa que são responsáveis por gerir e regular as políticas dentro de seu território.

O Brasil no Mundo: Localização e Extensão

Posição Geográfica e Noções Cartográficas do Brasil


Os pontos extremos do Brasil são: setentrional – nascente do Rio Ailã, no Monte Caburaí (em Roraima,
fronteira com a Guiana); meridional: Arroio Chuí (no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai); oriental:
Ponta do Seixas (na Paraíba); ocidental: a nascente do Rio Moa, na Serra do Divisor ou Contamana (no
Acre, na fronteira com o Peru).

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O gigantismo do território brasileiro se confirma pelos 15.719 quilômetros de fronteiras que o Brasil
possui com quase todos os países da América do Sul (exceto Chile e Equador), bem como pelos 7.367
quilômetros de costa atlântica.
Cerca de 90% de seu território se encontra entre a Linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, e que
o predomínio das terras nas baixas latitudes confere ao Brasil características típicas de um país tropical.
A expressiva amplitude longitudinal do Brasil explica a adoção de diferentes fusos horários.

A Posição Latitudinal do Brasil e suas Implicações


A latitude corresponde ao ângulo formado pela distância de um lado paralelo em relação à Linha do
Equador.
A variação latitudinal implica mudanças da obliquidade, isto é, da inclinação com a qual os raios solares
incidem sobre a superfície terrestre.
No território brasileiro, dadas as suas grandes dimensões, essa mudança da inclinação da incidência
solar é relativamente perceptível.
O extremo sul do Brasil recebe raios oblíquos, que implicam temperaturas médias anuais mais baixas
e, consequentemente, climas mais amenos em comparação àqueles dominantes na maior parte do país.
Quanto a extensão latitudinal do Brasil e a localização espacial do extremo sul, essa porção do território
brasileiro está situada ao sul do Trópico de Capricórnio, o que implica obliquidade maior. Por isso, é
dominada pelo clima zonal temperado, cujas temperaturas médias estão entre as mais baixa registradas
no país.

A Posição Longitudinal do Brasil e suas Implicações


A longitude corresponde ao ângulo formado pela distância de um ponto qualquer da superfície
terrestre em relação ao meridiano de Greenwich, que, divide a Terra em dois hemisférios: o Ocidental e
o Oriental.
A longitude varia de zero a 180 graus a partir do Meridiano de Greenwich, tanto para o leste, como
para oeste. O território brasileiro se localiza integralmente no Hemisfério Ocidental.

Fronteiras Marítimas do Brasil

Nas últimas décadas do século XX, uma nova fronteira chamou a atenção da sociedade e do governo
brasileiro: e as águas do Oceano Atlântico que banham nosso território.
Isso tem um motivo: a tecnologia desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial criou navios mais
rápidos que os anteriores e com maior capacidade de carga, que podem viajar a grandes distâncias,
explorando economicamente as águas longe de seus territórios de origem. Gigantescos navios frigoríficos
japoneses e europeus, por exemplo, passaram a dispor de recursos que lhes permitem explorar, até a
exaustão, os cardumes que se deslocam em alto-mar.
Essa acelerada evolução tecnológica trouxe novas perspectivas às nações, que passaram a considerar
o mar não só uma via de transportes ou fonte de alimentos, mas um grande gerador de riquezas e
matérias-primas. Assim, os mares e oceanos tornaram-se estratégicos, e muitos países passaram a tentar
incorporar áreas marítimas aos seus territórios.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a ONU patrocinou diversas reuniões sobre os limites marinhos.
Elas ficaram conhecidas como Conferências das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Nessa época,
muitos defendiam que os recursos dos fundos marinhos, situados além das jurisdições nacionais, fossem
considerados patrimônio comum da humanidade. Dessa maneira, passou a ser necessário determinar os
limites marítimos de cada Estado costeiro.
Enquanto ocorriam essas negociações, o Brasil adotou, em 1970, para resguardar os interesses
econômicos do país e por razões de segurança nacional, o limite de 200 milhas náuticas (cerca de 370
quilômetros) para exploração das águas territoriais brasileiras.
Nessas águas – cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados de superfície aquática – somente navios
brasileiros e de empresas estrangeiras com autorização do governo brasileiro poderiam exercer alguma
atividade. Navios estrangeiros sem licença pagariam multas e seriam apreendidos.
Em 1982, na Jamaica, foi assinada a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM).
Foi nessa convenção que os limites marítimos dos países foram definidos, da seguinte forma:

* mar territorial: compreende a faixa de 12 milhas marítimas (cerca de 22 quilômetros) de largura,


medidas a partir do litoral e das ilhas brasileiras. Nesse espaço marítimo, o Estado costeiro tem total
controle sobre as águas, o espaço aéreo e o fundo do mar;

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* zona contígua: delimitada por 12 milhas além do limite do mar territorial. Essa faixa é importante,
pois se trata de uma área de segurança, onde os países podem fiscalizar todas as embarcações que nela
navegarem;

* zona econômica exclusiva: área que se estende até 200 milhas além do mar territorial. Pela
convenção da ONU, os Estados costeiros têm o direito de explorar e a obrigação de conservar os recursos
(sejam eles minerais ou pesqueiros) que se encontram em toda essa região. Desde o início da década
de 1980, o Brasil vem realizando estudos para identificar o potencial de pesca no Oceano Atlântico e zelar
pela manutenção dele;

* plataforma continental: conforme a convenção de 1982, corresponde ao leito e ao subsolo das


áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial.

Os países que tiverem intenção de ampliar sua atuação para além das 200 milhas devem apresentar
um relatório para a Convenção da ONU, provando que a plataforma continental se prolonga para além de
200 milhas.
Para cumprir essa determinação, o governo brasileiro criou, na década de 1980, o projeto
Levantamento da Plataforma Continental (Leplac). Cientistas, militares e técnicos da Petrobras
participaram dessa empreitada, e o relatório em 2013 já havia sido praticamente todo aprovado pela
comissão da ONU. Assim, o Brasil controlaria a área de 4,5 milhões de quilômetros quadrados no mar, o
que praticamente equivale, em extensão territorial, a uma nova Amazônia. Foi por isso que muitos
passaram a chamar essa região de Amazônia Azul.
Nessa área ocorre quase 80% da exploração petrolífera brasileira. Muitos especialistas afirmam que
em um futuro próximo será possível explorar outros minerais que existem no fundo do mar.
Por esse tratado, o Brasil também é responsável, por exemplo, por operações de resgate em uma área
muito maior que a Amazônia Azul. Trata-se de uma nova fronteira que ainda precisa ser muito estudada
e conhecida.

A Divisão Regional do IBGE

Os primeiros estudos de divisão regional datam de 1941 e foram realizados sob a coordenação do
engenheiro, geógrafo e professor Fábio Macedo Soares Guimarães (1906-1979). Ao avaliar as diversas
propostas de divisão regional que já existiam naquela época, esse trabalho visava a elaborar uma única
divisão regional do Brasil para a divulgação de dados estatísticos sobre a realidade socioespacial de
nosso país.
Foi assim que, em 1942, surgiu a primeira divisão regional do IBGE, que levava em conta sobretudo
as características naturais. Era constituída por cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Leste, Sul e
Centro-Oeste. A região Nordeste foi subdividida em Nordeste Ocidental e Nordeste Oriental. Por sua vez,
a região Leste foi subdividida em Leste Setentrional e Leste Meridional.
Em 1945, o IBGE divulgou uma nova divisão regional do Brasil, levando em consideração, agora, sub-
regiões denominadas zonas fisiográficas, baseadas no quadro físico do território, com vistas ao
agrupamento de dados estatísticos municipais, em unidades espaciais de dimensão mais reduzida que
as das unidades da federação.
Desde então, uma sucessão de divisões regionais foi proposta pelo IBGE.
Ressalta-se que, em todas as divisões regionais propostas pelo IBGE, há um aspecto importante em
comum: os limites das regiões coincidem com os limites estaduais.
Evidentemente, essas divisões regionais não levam em conta as especificidades naturais do nosso
país. O norte de Minas Gerais, por exemplo, apesar de abrigar paisagens naturais típicas do Sertão
nordestino, integra a região Sudeste.

Lista do Estados e Capitais por região

Região Norte
Acre – Capital: Rio Branco.
Amapá – Capital: Macapá.
Amazonas – Capital: Manaus.
Pará – Capital: Belém.
Rondônia – Capital: Porto Velho.
Roraima – Capital: Boa Vista.

97
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Tocantins – Capital: Palmas.

Região Nordeste
Alagoas – Capital: Maceió.
Bahia – Capital: Salvador.
Ceará – Capital: Fortaleza.
Maranhão – Capital: São Luís.
Paraíba – Capital: João Pessoa.
Pernambuco – Capital: Recife.
Piauí – Capital: Teresina.
Rio Grande do Norte – Capital: Natal.
Sergipe – Capital: Aracaju.

Região Centro-Oeste
Goiás – Capital: Goiânia.
Mato Grosso – Capital: Cuiabá.
Mato Grosso do Sul – Capital: Campo Grande.
Distrito Federal – Capital: Brasília.

Região Sudeste
Espírito Santo – Capital: Vitória.
Minas Gerais – Capital: Belo Horizonte.
São Paulo – Capital: São Paulo.
Rio de Janeiro – Capital: Rio de Janeiro.

Região Sul
Paraná – Capital: Curitiba.
Rio Grande do Sul – Capital: Porto Alegre.
Santa Catarina – Capital: Florianópolis.

Questões

01. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE) Julgue (C ou E) o próximo item, relativo à formação
histórica do território brasileiro.
A formação histórica do território brasileiro iniciou-se com a assinatura do Tratado de Madri, que
determinou, por meio da criação de uma linha imaginária, o primeiro limite territorial da colônia portuguesa
nas Américas.
(....) Certo (....) Errado

02. (TJ/SC – Analista Administrativo – TJ/SC) Sobre o território brasileiro, sua localização geográfica
e sua organização política-territorial, todas as alternativas estão corretas, EXCETO:
(A) O Brasil é uma república federativa formada por 27 unidades sendo, 26 estados e um Distrito
Federal.
(B) A divisão política do território brasileiro tem mudado no decorrer do tempo, assim até a Constituição
de 1988 existia no Brasil a denominação de Território Federal.
(C) Os Territórios Federais eram divisões internas do país administradas diretamente pelo governo
federal.
(D) Na divisão política-administrativa do Brasil, em 1988 é extinto o Território Federal de Fernando de
Noronha, que passa a fazer parte do Estado de Pernambuco.
(E) O Brasil ocupa a porção centro-ocidental da América do Sul, portanto, apresenta fronteiras com
quase todos os países sul-americanos exceto, o Chile e Equador.

03. (DPE/SP – Oficial de Defensoria Pública – FCC) O Estado Brasileiro organiza-se, política e
administrativamente, sob a forma de
(A) confederação democrática.
(B) república parlamentarista.
(C) república federativa.
(D) federação parlamentarista.
(E) confederação parlamentarista.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
04. (IF/PI – Assistente em Administração – FUNRIO) A organização político-administrativa da
República Federativa do Brasil compreende
(A) a União e os Estados, somente.
(B) a União, os Estados e o Distrito Federal, somente.
(C) a União e o Distrito Federal, somente.
(D) os Estado, o Distrito Federal e os Municípios, somente.
(E) a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios.

Gabarito

01. Errado / 02.E / 03.C/ 04.E

Comentários

01. Resposta: Errado


A colonização foi um dos processos que definiram a formação populacional brasileira.
A partir do século XV, os europeus – especialmente os portugueses, seguidos dos espanhóis –
iniciaram a expansão marítima que os levou à conquista de terras até então desconhecidas – na África,
na Ásia e na América.

02. Resposta: E
O Brasil é considerado um país continental, se encaixa entre os cinco maiores países do mundo. Ocupa
a porção centro-oriental do continente, fazendo fronteira com quase todos os países sul-americanos
(exceção do Chile e do Equador).

03. Resposta: C
A organização do Estado Brasileiro segue a seguinte fórmula: A forma de Estado é a Federação. A
forma de governo é a República. O sistema de governo é o Presidencialismo e o Regime de Governo é a
Democracia.
Portanto, a organização do Estado política e administrativamente é na forma da República Federativa.

04. Resposta: E
Artigo 18, CF/88: A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.

As diferentes formas de regionalização do Brasil

AS REGIONALIZAÇÕES DO TERRITÓRIO BRASILEIRO31

A regionalização pode ser entendida como a divisão de um território em áreas que apresentam
características semelhantes, de acordo com um critério preestabelecido pelo grupo de pessoas
responsáveis por tal definição: aspectos naturais, econômicos, políticos e culturais, entre tantos outros.
Portanto, regionalizar significa identificar determinado espaço como uma unidade que o distingue dos
demais lugares o seu redor.
A divisão de um território em regiões auxilia no planejamento das atividades do poder público, tanto
nas questões sociais quanto econômicas, já que permite conhecer melhor aquela porção territorial.
O governo e as entidades privadas podem executar projetos regionais, considerando o número de
habitantes de cada região, as condições de vida de sua população, as áreas com infraestrutura precária
de abastecimento de água, esgoto tratado, energia elétrica, entre outros.

31
FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.
TERRA, Lygia. Conexões: estudos de geografia geral e do Brasil – Lygia Terra; Regina Araújo; Raul Borges Guimarães. 2ª edição. São Paulo: Moderna, 2013.

99
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Os Critérios de Divisão Regional do Território

O Brasil é um país muito extenso e variado. Cada lugar apresenta suas particularidades e existem
muitos contrastes sociais, naturais e econômicos.
Como cada região diferencia-se das demais com base em suas características próprias, a escolha do
critério de regionalização é muito importante.
Um dos critérios utilizados para regionalizar o espaço pode ser relacionado a aspectos naturais, como
clima, relevo, hidrografia, vegetação, etc.
A regionalização também pode ser feita com base em aspectos sociais, econômicos ou culturais. Cada
um apresenta uma série de possibilidades: regiões demográficas, uso do solo e regiões industrializadas,
entre outras.

As Regiões Geoeconômicas
A fim de compreender melhor as diferenças econômicas e sociais do território brasileiro, na década de
1960, surgiu uma proposta de regionalização que dividiu o espaço em regiões geoeconômicas, criada
pelo geógrafo Pedro Geiger.
Nessa regionalização, o critério utilizado foi o nível de desenvolvimento, características semelhantes
foram agrupadas dentro da mesma região. De acordo com esse critério, o Brasil está dividido em três
grandes regiões: Amazônia, Nordeste e Centro-Sul, como pode observar-se no mapa a seguir.

Brasil: regiões geoeconômicas

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/uploads/5/normal_brasilgeoeconomico.jpg

Os limites da Amazônia correspondem à área de cobertura original da Floresta Amazônica. Essa


região é caracterizada pelo baixo índice de ocupação humana e pelo extrativismo vegetal e mineral.
Nas últimas décadas, a Amazônia vem sofrendo com o desmatamento de boa parte de sua cobertura
original para a implantação de atividades agropecuárias, como o cultivo de soja e a criação de gado.
A região Nordeste é tradicionalmente caracterizada pela grande desigualdade socioeconômica.
Historicamente, essa região é marcada pela presença de uma forte elite composta basicamente por
grandes proprietários de terra, que dominam também o cenário político local.

A região Centro-Sul é marcada pela concentração industrial e urbana. Além disso, apresenta elevada
concentração populacional e a maior quantidade e diversidade de atividades econômicas.

Essa proposta de divisão possibilita a identificação de desigualdades socioeconômicas e de diferentes


graus de desenvolvimento econômico do território nacional.
Seus limites territoriais não coincidem com os dos estados. Assim, partes do mesmo estado que
apresentam distintos graus de desenvolvimento podem ser colocadas em regiões diferentes. Porém,
esses limites não são imutáveis: caso as atividades econômicas, as quais influenciam as áreas do
território, passem por alguma modificação, a configuração geoeconômica também pode mudar.

100
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Outras Propostas de Regionalização

Regionalização do Brasil por Roberto Lobato Corrêa

http://www.geografia.fflch.usp.br/graduacao/apoio/Apoio/Apoio_Rita/flg386/2s2016/Regionalizacoes_do_Brasil.pdf

Outro geógrafo, chamado Roberto Lobato Corrêa, também fez uma proposta de regionalização que
dividia o território em três: Amazônia, Centro-Sul e Nordeste.
No entanto, em sua proposta ele respeitava os limites territoriais dos estados, diferentemente da
proposta das regiões geoeconômicas que acabamos de observar acima.

Regionalização do Brasil por Milton Santos

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1551&evento=5

Os geógrafos Milton Santos e Maria Laura Silveira propuseram outra regionalização para o Brasil, que
divide o território em quatro regiões: Amazônia, Nordeste, Centro-Oeste e Concentrada.
Essa divisão foi feita com base no grau de desenvolvimento científico, técnico e informacional de cada
lugar e sua influência na desigualdade territorial do país.
A região Concentrada apresenta os níveis mais altos de concentração de técnicas, meios de
comunicação e população, além de altos índices produtivos.
Já a região Centro-Oeste caracteriza-se pela agricultura moderna, com elevado consumo de insumos
químicos e utilização de tecnologia agrícola de ponta.
A região Nordeste apresenta uma área de povoamento antigo, agricultura com baixos níveis de
mecanização e núcleos urbanos menos desenvolvidos do que no restante do país. Por fim, a Amazônia,

101
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
que foi a última região a ampliar suas vias de comunicação e acesso, possui algumas áreas de agricultura
moderna.

As Regiões do Brasil ao Longo do Tempo

Os estudos da Divisão Regional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) tiveram início
em 1941. O objetivo principal deste trabalho foi o de sistematizar as várias divisões regionais que vinham
sendo propostas, de forma que fosse organizada uma única divisão regional do Brasil para a divulgação
das estatísticas brasileiras.
A proposta de regionalização de 1940 apresentava o território dividido em cinco grandes regiões:
Norte, Nordeste, Este (Leste), Sul e Centro. Essa divisão era baseada em critérios tanto físicos como
socioeconômicos.

Regionalização do Brasil → década de 1940

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1557&evento=5

IBGE e a Proposta de Regionalização


O IBGE surgiu em 1934 com a função de auxiliar o planejamento territorial e a integração nacional do
país. Consequentemente, a proposta de regionalização criada pelo IBGE baseava-se na assistência à
elaboração de políticas públicas e na tomada de decisões no que se refere ao planejamento territorial,
por meio do estudo das estruturas espaciais presentes no território brasileiro. Observe a regionalização
do IBGE de 1940 no mapa acima.

Regionalização do Brasil → década de 1950

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1558&evento=5

102
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Na década de 1950, uma nova regionalização foi proposta, a qual levava em consideração as
mudanças no território brasileiro durante aqueles anos.
Foram criados os territórios federais de Fernando de Noronha, Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta
Porã e Iguaçu – esses dois últimos posteriormente extintos.
Note também que a denominação das regiões foi alterada e que alguns estados, como Minas Gerais,
mudaram de região.

Regionalização do Brasil → década de 1960

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1560&evento=5

Na década de 1960, houve a inauguração da nova capital federal, Brasília. Além disso, o Território de
Guaporé passou a se chamar Território de Rondônia e foi criado o estado da Guanabara. Observe o mapa
a seguir.

Regionalização do Brasil → década de 1970

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1561&evento=5

Na década de 1970, o Brasil ganha o desenho regional atual. É criada a região Sudeste, que abriga
os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
O Acre é elevado à categoria de estado e o Território Federal do Rio Branco recebe o nome de
Território Federal de Roraima.

103
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
A regionalização da década de 1980 mantém os mesmos limites regionais. No entanto, ocorre a fusão
dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro e a criação do estado do Mato Grosso do Sul.
A mudança nas regionalizações ao longo dos anos é fruto do processo de transformação espacial
como resultado das ações do ser humano na natureza.
Assim, reflete a organização da produção em função do desenvolvimento industrial.

Regionalização do Brasil → década de 1980

http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=1562&evento=5

A Regionalização Oficial do Brasil Atual

A regionalização oficial do Brasil é a de 1990 e apresenta as modificações instituídas com a criação


da Constituição de 1988.
Os territórios de Roraima e Amapá são elevados à categoria de estado (o território de Rondônia já
havia sofrido essa mudança em 1981); é criado o estado de Tocantins; e é extinto o Território Federal de
Fernando de Noronha, que passa a ser incorporado ao estado de Pernambuco.

Regionalização oficial do Brasil atual

http://alunosonline.uol.com.br/geografia/regionalizacao-brasil.html

É importante refletir sobre a regionalização atual proposta pelo IBGE, já que ela não apresenta uma
solução definitiva para a compreensão dos fenômenos do território brasileiro.
A produção do espaço é um processo complexo, resultado da interação de diferentes fatores e não
pode ser encaixada dentro de uma categoria única e específica.

104
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
A atual divisão regional obedece aos limites dos estados brasileiros, mas não necessariamente aos
limites naturais e humanos das paisagens, os quais, muitas vezes, não são tão evidentes.
É o caso, por exemplo, do Maranhão. Grande parte de seu território apresenta características naturais
comuns à região Norte, principalmente devido à presença da Floresta Amazônica. Além disso, o estado
apresenta fortes marcas culturais que também remetem ao Norte, como a tradicional festa do Boi-Bumbá.
No entanto, segundo a regionalização oficial, o Maranhão faz parte da região Nordeste.

Região e Planejamento

A divisão do território brasileiro em regiões definidas pelo IBGE teve como objetivo facilitar a
implantação de políticas públicas que estimulassem o desenvolvimento de cada região.
Um dos aspectos marcantes do espaço geográfico brasileiro é a disparidade regional. Isso significa
que as diferentes regiões possuem níveis distintos de desenvolvimento. Uma das principais causas dessa
disparidade é a concentração da industrialização no Centro-Sul do país.
Para promover o desenvolvimento de regiões consideradas socioeconomicamente estagnadas, o
governo brasileiro empreendeu um programa federal baseado na criação de instituições locais fincadas
nesse objetivo, como é o caso da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da
Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
É o que veremos abaixo.

O Estado Brasileiro e o Planejamento Regional


No século XX, a concentração espacial das indústrias na região Sudeste impactou de maneira negativa
as estruturas produtivas de outras regiões brasileiras.
Para promover a desconcentração da economia, foram criadas políticas de integração e de
desenvolvimento regional.

Território e Políticas Públicas

Por meio das políticas de desenvolvimento regional, propunha-se a implantação de infraestruturas nas
regiões menos desenvolvidas, com a finalidade de atrair investimentos e aumentar a oferta de empregos.

O desenvolvimento industrial iniciado na década de 1930 transformou, ao mesmo tempo, a economia


e a geografia do Brasil.
No plano da economia, o modelo agroexportador foi, aos poucos, sendo substituído pelo modelo
urbano e industrial que vigora no país até hoje. No plano da geografia, as diferentes regiões brasileiras
passaram a se articular de maneira cada vez mais intensa, de forma a prover tanto a matéria-prima quanto
a força de trabalho necessárias à produção industrial fortemente concentrada na Região Sudeste.
Esse novo contexto de industrialização e de integração nacional tornou, evidente a desigualdade de
desenvolvimento entre as regiões brasileiras. O crescimento da economia da Região Sudeste contrastava
vivamente com a estagnação da economia nordestina. No Nordeste, diante do desemprego resultante do
declínio das atividades nas lavouras de cana-de-açúcar e nas indústrias têxteis, dos baixos salários e da
concentração de terras nas mãos de poucos, muitos optaram por tentar a vida em outras regiões do país.
A Região Nordeste transformou-se em grande fornecedora de mão de obra para os principais centros
urbanos e industriais do país. São Paulo tornou-se o principal destino dos migrantes nordestinos: na
década de 1940, eles foram responsáveis por cerca de 60 do incremento populacional ocorrido na cidade.
Para combater a desigualdade, o governo federal lançou políticas de desenvolvimento regional. Por
meio delas, esperava-se promover a desconcentração da economia, atraindo investimentos e ampliando
a oferta de empregos nas regiões menos desenvolvidas. As regiões selecionadas receberiam
infraestrutura (energia, estradas, portos) e incentivos fiscais, ou seja, o governo passaria a isentar ou
cobrar menos impostos dos empresários que lá implantassem novos negócios.
Em meados da década de 1950, começaram a ser implementadas as agências de desenvolvimento
regional, órgãos federais que tinham o objetivo de centralizar e implementar essas políticas. A
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), a primeira delas, entrou em funcionamento
em 1959. A Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) foi criada em 1966. Sudene e
Sudam foram as mais importantes agências implantadas no Brasil.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
O Estado e a Valorização da Amazônia

Para a valorização da economia regional da Amazônia e sua conexão aos centros mais dinâmicos do
território brasileiro, o governo federal priorizou a construção de estradas e a implantação de projetos
industriais (zona franca), minerais e de colonização.

A Integração Nacional
O propósito de integrar a Amazônia ao conjunto da economia nacional já estava na agenda do governo
federal na década de 1940, mas foi apenas na década de 1950 que as políticas de planejamento
começaram a atuar de fato na região.
Em 1953, nasceu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA),
um órgão federal encarregado de valorizar a economia regional e conectá-la aos centros mais dinâmicos
do território brasileiro. A área de atuação da SPVEA recebeu o nome de Amazônia Brasileira, uma região
de planejamento.
Na época, o processo de industrialização demandava a criação de um mercado interno de dimensões
nacionais, o que exigia grandes transformações no território. A construção de estradas que
possibilitassem o intercâmbio de mercadorias e pessoas entre as diversas regiões brasileiras era
considerada uma tarefa prioritária para o governo federal. Uma nova capital, Brasília, estava sendo
construída em um planalto situado no Brasil central, até então pouco integrado.
Por meio de Brasília, pretendia-se integrar não apenas o Centro-Oeste mas também a Amazônia,
escassamente povoada e detentora de imensos potenciais. O planejamento e a execução da Rodovia
Belém-Brasília, por meio da qual o sistema viário brasileiro alcançou a Amazônia pela primeira vez, contou
com a colaboração da SPVEA.

Sudam: A Devastação Planejada


A política de planejamento regional voltada para a Amazônia ganhou novos contornos após o golpe
de 1960, quando os destinos do país passaram a ser comandados pela ditadura militar. Em 1966, a
SPVEA foi extinta e substituída por outro órgão, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia
(Sudam), cuja área de atuação recebeu o nome de Amazônia Legal. No ano seguinte, foi criada a
Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

A Indústria na Amazônia
A implantação de complexos industriais figurava entre as prioridades do projeto de valorização
econômica da Amazônia concebido pelos militares.
Como vimos, a Sudam foi criada em 1966. No ano seguinte, seria a vez da Superintendência da Zona
Franca de Manaus (Suframa). Com ela, Manaus foi transformada em zona franca. Essa nova condição
significou para Manaus a isenção de taxas de importação das máquinas e matérias-primas necessárias
à produção industrial, bem como dos impostos de exportação das mercadorias industrializadas. Com
esses incentivos, indústrias transnacionais e nacionais foram atraídas para a cidade, e Manaus
transformou-se em um polo industrial importante, principalmente no setor de bens de consumo duráveis
(televisores, aparelhos portáteis e eletrodomésticos).
Atualmente, o polo industrial instalado em Manaus dinamiza boa parte da economia regional e
emprega diretamente cerca de 85 mil pessoas. A indústria local, no entanto, depende da manutenção da
zona franca. As mercadorias produzidas em Manaus viajam milhares de quilômetros até chegar aos
principais centros de consumo do país e incorporam em seu custo o preço desse transporte.
Na década de 1970, teve início o processo de crescimento industrial de Belém. Nesse caso,
predominam as indústrias de transformação mineral, em especial a siderurgia do ferro e do alumínio,
atraídas pela presença de matérias-primas e da energia proveniente da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.
Uma das siderúrgicas mais importantes do setor de produção de alumínio está instalada no Porto de
Barcarena, situado nos arredores de Belém.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
A Amazônia Legal

https://n.i.uol.com.br/licaodecasa/ensfundamental/geografia/mapa_amazonia_legal.gif

Na visão dos militares, a Amazônia era um imenso vazio demográfico que precisava ser conquistado
e explorado, de forma a transformar seu enorme potencial natural em riquezas que iriam financiar o
desenvolvimento do país. Para isso, eles propunham integrar a Amazônia implantando grandes projetos
minerais, industriais e agropecuários.
A população local, em grande parte concentrada nas margens dos rios e dos igarapés e vivendo do
cultivo de pequenos lotes de terra, foi praticamente desconsiderada nos novos planos do governo para a
região.
A Sudam foi criada para ser uma espécie de intermediária entre o governo e os empresários no
processo de valorização econômica da Amazônia. Além disso, o órgão também deveria formular projetos
de atração de migrantes, para promover o povoamento e consolidar um mercado de trabalho regional.
Muitos desses migrantes, a maior parte de origem nordestina, acabaram por se fixar nas periferias das
cidades amazônicas, que conheceram um crescimento explosivo a partir da década de 1870.
A Transamazônica, rodovia que corta a região no sentido latitudinal, foi planejada para ligar o
Amazonas à Paraíba e viabilizar o assentamento dos migrantes recém-chegados e representar uma rota
para os novos investimentos - ou, nas palavras do próprio governo, “a pista da mina de ouro”.
A Transamazônica não cumpriu o papel almejado por seus planejadores. Encravada no meio da
floresta e desconectada da rede viária nacional, a estrada não foi capaz de dinamizar os fluxos regionais
e acabou por se tornar um imenso atoleiro.

Nessas condições, os dois mais importantes eixos de penetração para a Amazônia passaram a ser as
rodovias Belém-Brasília e Brasília-Acre. Em suas margens, foi implantada a maior parte dos projetos
minerais e agropecuários incentivados pela Sudam. Não por acaso, esses eixos apresentam a maior taxa
de desmatamento e de degradação ambiental. Além disso, também são palcos de violentos conflitos, já
que posseiros, fazendeiros e madeireiros disputam a posse da terra valorizada pela presença das
estradas.
O eixo da Belém-Brasília se estende até a Serra dos Carajás, onde se encontra a maior reserva de
minério de ferro do mundo. O ferro de Carajás, em exploração desde a década de 1970 pela Companhia
Vale do Rio Doce (privatizada em 1997), é escoado pela Estrada de Ferro Carajás, até o Complexo
Portuário de São Luís, no Maranhão. Nas margens da rodovia e da ferrovia, a floresta equatorial já foi
quase toda derrubada. Em seu lugar, surgiram núcleos urbanos e os mais diversos empreendimentos.

No outro extremo da Amazônia, o principal eixo de ocupação foi a Rodovia Brasília-Acre. O estado de
Rondônia, atravessado por esse eixo, foi alvo de um grande projeto de colonização e recebeu milhares
de migrantes, vindos especialmente das regiões Nordeste e Sul. Atualmente, Rondônia figura entre os
estados mais devastados da região.
A herança da Sudam permanece na realidade amazônica: está presente tanto na destruição do modo
de vida tradicional das populações ribeirinhas e indígenas quanto na grande mancha de devastação
ambiental produzida pelos empreendimentos aprovados pelo órgão. Definitivamente, esse modo
predatório de ocupação está em descompasso com os parâmetros atuais de valorização do patrimônio
ambiental amazônico, sobretudo no que se refere à enorme biodiversidade da formação florestal e à
presença de imensos reservatórios de água doce.

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Planejamento Estatal e a Economia Nordestina

As políticas públicas para o desenvolvimento do Nordeste, implantadas pela Sudene, consideraram o


seu conjunto e não suas sub-regiões separadamente.
Garantiram a disponibilidade de energia e realizaram investimentos industriais, em especial no setor
petroquímico.

As Sub-Regiões Nordestinas
O Nordeste pode ser dividido em quatro sub-regiões: a Zona da Mata, o Agreste, o Sertão e o Meio-
Norte. Cada uma delas apresenta características naturais e econômicas particulares.

http://4.bp.blogspot.com/-a-BvOFZXprs/T8gu5KVAYAI/AAAAAAAAABM/WlZjI0_lOic/s1600/Meio+norte.jpg

A Zona da Mata, quente e úmida, foi transformada pela implantação de grandes propriedades
produtoras de cana-de-açúcar, ainda nos primeiros tempos de colonização. Os senhores de engenho,
também conhecidos como barões do açúcar, continuaram a dominar a economia e a política após a
independência. Em meados do século XIX, a economia açucareira entrou em crise, devido à concorrência
exercida pelo açúcar produzido nas Antilhas. Mais tarde, a produção de açúcar com técnicas mais
modernas na Região Sudeste, em especial no estado de São Paulo, deu continuidade ao longo período
de crise econômica no Nordeste. Atualmente, a Zona da Mata é uma região de economia dinâmica,
concentrando grande parte da população e os maiores polos industriais do Nordeste;

O Agreste, situado entre a Zona da Mata úmida e o Sertão semiárido, é tradicionalmente ocupado por
pequenas propriedades, dedicadas ao cultivo de subsistência e ao abastecimento alimentar dos
engenhos e cidades da Zona da Mata. Nessa sub-região, o padrão técnico rudimentar que caracteriza a
maior parte dos estabelecimentos agrícolas resulta em baixa produtividade e em expressiva pobreza rural;

O Sertão, dominado pelo clima semiárido, conheceu um primeiro movimento de valorização ainda
durante a colonização, quando se transformou em espaço da pecuária extensiva, produzindo carne para
os mercados da Zona da Mata. Depois, grandes latifúndios, de propriedade dos coronéis do sertão (nome
pelo qual ficaram conhecidos os proprietários das grandes fazendas sertanejas), passaram a dominar a
paisagem. Em meados do século XIX, o cultivo de algodão tornou-se uma atividade econômica de
importância significativa no Sertão, em grande parte devido à crise na produção algodoeira dos Estados
Unidos decorrente da Guerra de Secessão. Durante muito tempo, o gado e o algodão iriam dividir o
espaço sertanejo;

O Meio-Norte, situado na transição entre o Sertão semiárido e a Amazônia equatorial, foi durante a
maior parte de sua história uma sub-região praticamente marginal no contexto da economia nordestina.
A pecuária extensiva, prolongamento da criação de gado sertaneja, e o extrativismo, em especial das
palmeiras babaçu e carnaúba, eram as atividades de maior destaque no Meio-Norte.
Em momentos históricos diferentes, duas sub-regiões nordestinas - Sertão e Zona da Mata - já haviam
sido objeto de programas governamentais de ajuda e de incentivo econômico muito antes da existência
da Sudene. Em ambos os casos, porém, as elites sub-regionais foram as principais beneficiadas.

Programas Pioneiros: Sertão


No caso do Sertão, desde o período imperial existiram políticas de combate à seca e, principalmente,
aos seus efeitos. Em 1881, após um período de estiagem que causou a morte de milhares de pessoas e

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de uma parcela considerável do gado, o imperador mandou construir um grande açude em Quixadá, no
Ceará, visando reservar água e evitar futuras catástrofes.
Nos primeiros decênios da República, essas políticas cresceram e tornaram-se institucionais. Em
1909, foi criada uma Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), com o objetivo de espalhar
açudes em todo o Sertão, além de construir estradas para facilitar o escoamento e a comercialização dos
produtos sertanejos.
Em 1945, a Ifocs passou a se chamar Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs),
mas sua linha de atuação continuou a mesma. Entretanto, além dos açudes, das barragens e das
estradas, o Dnocs passou a organizar também frentes de trabalho. Quando ocorriam as secas, a
população carente era recrutada para trabalhar nas obras federais, e, assim, ganhava um meio de
sobrevivência, mesmo que muito precário.
Na maior parte dos casos, os açudes e as estradas construídos pelos sertanejos pobres acabavam
por tornar ainda mais valiosas as terras dos coronéis, nas quais (ou nas proximidades delas) as obras
eram realizadas. Além disso, os coronéis não precisavam se preocupar com a sobrevivência de seus
trabalhadores durante a estiagem, já que o Estado cuidava disso. Quando as chuvas voltavam, era só
aproveitar as melhorias de suas terras e recrutar de volta os trabalhadores. Desse modo, o governo
ajudava a enriquecer os que já eram ricos e mantinha os pobres - a maioria da população - no limite da
sobrevivência.

Programas Pioneiros: Zona da Mata


Os “barões do açúcar” da Zona da Mata também receberam auxílio do governo, ainda que de forma
indireta. Na década de 1930, a agricultura canavieira paulista começou a se modernizar, ampliando sua
base técnica, e passou a ameaçar a economia açucareira nordestina.
Nesse contexto, o governo criou o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), com o objetivo de
estabelecer cotas de produção de açúcar entre os estados brasileiros e garantir um preço mínimo para o
produto. Assim, o IAA reservava uma parcela do mercado açucareiro aos produtores da Zona da Mata
nordestina, além de garantir preços compatíveis com seus custos de produção relativamente elevados.
Durante longos decênios, o IAA ajudou a garantir a presença do açúcar nordestino no mercado
brasileiro, fornecendo-lhe condições de sobrevivência. Em longo prazo, porém, a estratégia revelou-se
ineficiente: protegidos pelas cotas e pelos preços governamentais, os produtores nordestinos investiram
pouco em modernização, e desde 1990, quando o IAA foi extinto, vêm perdendo parcelas crescentes do
mercado para os produtores paulistas.

A Sudene e a Industrialização do Nordeste


A criação da Sudene modificou inteiramente a direção das políticas públicas de desenvolvimento do
Nordeste. Em primeiro lugar, essas políticas ganharam uma nova dimensão: não era uma ou outra sub-
região, mas o conjunto do Nordeste que seria alvo do planejamento estatal. A lei que criou a Sudene
delimitou também a área de atuação do órgão, que não coincide exatamente com a Região Nordeste
definida pelo IBGE, já que incluiu o norte de Minas Gerais. Em 1998, parte do Espírito Santo também
entrou para essa “região de planejamento”.
Em segundo lugar, por estarem baseados em uma nova visão acerca dos problemas regionais, os
planos da Sudene foram orientados para outra direção.
Já estudamos que, até então, a intervenção governamental nos assuntos nordestinos tinha se
destinado, sobretudo, a solucionar os problemas do campo, beneficiando os grandes proprietários da
terra e reforçando a concentração fundiária tanto no Sertão quanto na Zona da Mata. A Sudene trouxe
uma nova prioridade: de acordo com o diagnóstico de seus fundadores, o maior problema do Nordeste
não era a falta de chuvas ou a baixa competitividade da produção açucareira, mas a falta de indústrias
modernas, capazes de dinamizar a economia como um todo. A solução, portanto, estava no incentivo à
industrialização.
Para tanto, era preciso primeiro garantir a disponibilidade de energia. Essa tarefa ficou a cargo das
Centrais Hidrelétricas do Rio São Francisco (Chesf), que transformou a Bacia do São Francisco em
uma importante produtora de energia de origem hídrica.
O governo federal também tomou para si a tarefa de realizar investimentos industriais, em especial no
setor petroquímico. A criação do Polo Petroquímico de Camaçari, o principal complexo industrial
nordestino, nasceu das políticas levadas a efeito pela Sudene. A Refinaria Landulfo Alves, de
propriedade da Petrobras, abastece as empresas públicas e privadas que operam no polo.
Além disso, foram concedidos financiamentos públicos e incentivos fiscais aos conglomerados
industriais que implantassem fábricas na região. O setor de bens intermediários (tais como produtos
químicos e metalúrgicos) foi o principal beneficiário, pois acreditava-se que ele seria capaz de dinamizar

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a economia regional e gerar mercado para o setor de bens de consumo (tais como alimentos e
vestuário). Desse modo, esse setor também acabaria por implantar-se no Nordeste. Devido aos
incentivos, diversos grupos empresariais inauguraram unidades produtivas no Nordeste.
Com a Sudene, a economia industrial chegou às capitais nordestinas, em especial a Recife e Salvador.
Mas sabe-se hoje que isso não bastou para eliminar as desigualdades entre o Nordeste e o Sudeste e/ou
para melhorar a qualidade de vida da população regional. O Nordeste brasileiro ainda espera por políticas
capazes de gerar crescimento econômico com inclusão social.

Questões

01. (SEDF – Professor de Geografia – CESPE/2017) No atual período histórico, caracterizado pela
forte internacionalização do modo de produção capitalista, importantes transformações de ordem técnica,
política e econômica têm promovido intensa reestruturação produtiva e regional do Brasil e do mundo. A
intensificação do poder das empresas transnacionais sobre o espaço mundial é uma dessas
manifestações. Iná Elias de Castro. Política pública e conflito no espaço urbano. In: GEOgraphia, ano 18, n.º 36, 2016 (com adaptações).
Considerando esse texto, julgue o item a seguir.
A divisão regional do Brasil em cinco macrorregiões de planejamento é uma referência para o ensino
de geografia atualmente. Entretanto, para a compreensão das dinâmicas atuais de uso e reorganização
do território nacional, é necessário abordar as novas regionalizações, como a divisão por complexos
regionais (Amazônia, Nordeste e Centro-Sul) e a divisão em quatro regiões (Concentrada, Centro-Oeste,
Amazônia e Nordeste).
(....) Certo (....) Errado

02. (Prefeitura de Sobral/CE – Agente Administrativo – UVA/2017) Entre as últimas alterações da


divisão regional oficial do Brasil, podem-se destacar:
(A) a extinção dos territórios federais e a criação do Distrito Federal.
(B) a criação de Fernando de Noronha e a do território de Roraima.
(C) a extinção do Distrito Federal e a criação do território federal de Tocantins.
(D) a extinção dos territórios e a criação do Estado de Tocantins.

03. (SEDF – Professor de Geografia – CESPE/2017) Com relação aos processos de regionalização
no Brasil e no mundo, julgue o item subsequente.
Décadas depois da implementação do primeiro órgão responsável pelos estudos de planejamento
macrorregional no Brasil, a SUDENE, os principais problemas e disparidades regionais do país persistem.
(....) Certo (....) Errado

Gabarito

01.Certo / 02.D / 03.Certo

Comentários

01. Resposta: Certo


A atual divisão regional obedece aos limites dos estados brasileiros, mas não necessariamente aos
limites naturais e humanos das paisagens, os quais, muitas vezes, não são tão evidentes.

02. Resposta: D
Com as mudanças da Constituição de 1988, ficou definida a divisão brasileira que permanece até os
dias atuais. O estado do Tocantins foi criado a partir da divisão de Goiás e incorporado à região Norte;
Roraima, Amapá e Rondônia tornaram-se estados autônomos; Fernando de Noronha deixou de ser
federal e foi incorporado a Pernambuco.

03. Resposta: Certo


Um dos aspectos marcantes do espaço geográfico brasileiro é a disparidade regional. Isso significa
que as diferentes regiões ainda possuem níveis distintos de desenvolvimento. Uma das principais causas
dessa disparidade é a persistente concentração da industrialização no Centro-Sul do país.

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A população brasileira

ASPECTOS DA POPULAÇÃO BRASILEIRA32

A população do Brasil foi formada após a ocupação portuguesa, principalmente de povos nativos ou
indígenas, africanos e europeus. Nesse período, a maior parte dos africanos tinha origem etnolinguística
banto e ioruba, enquanto os europeus eram oriundos especialmente de Portugal, mas, em menor número,
também da França, dos Países Baixos, do Reino Unido, entre outros.
Desde meados do século XIX até os dias atuais, a população brasileira teve influência de variados
povos que imigraram em épocas diferentes para o país em busca de melhores condições de vida. São
exemplos os europeus, como italianos, espanhóis, alemães e poloneses; os asiáticos vindos do Japão,
da Coreia do Sul e de países do Oriente Médio; os latino-americanos vindos principalmente da Bolívia,
do Chile e do Haiti; além dos africanos de distintas nacionalidades, como moçambicanos, guineenses,
angolanos e cabo-verdianos.

Primeiros Habitantes

A quantidade de indígenas que ocupava o que é hoje o território brasileiro antes da chegada dos
portugueses ainda não é consenso entre os pesquisadores. As etnias com maiores populações e que
ocupavam as maiores extensões territoriais eram a jê e a tupi-guarani.
É inquestionável, entretanto, que, de 1500 aos dias atuais, os indígenas sofreram intenso genocídio.
No passado, as causas principais foram as doenças trazidas pelos europeus, para as quais os nativos
não tinham imunidade, e os conflitos com os colonizadores. Havia ainda as guerras entre diferentes
nações indígenas, que se intensificavam quando alguns grupos fugiam das regiões ocupadas pelos
europeus em direção a terras de outros povos, ou quando alguns grupos se aliavam militarmente a
portugueses, franceses e holandeses para lutar contra nações inimigas. Muitos povos também sofreram
etnocídio33, pois passaram a adotar hábitos dos colonizadores, como falar outra língua, professar uma
nova religião e alterar o próprio modo de vida, como a vestimenta e a alimentação.
De acordo com a Funai e o Censo demográfico do IBGE, em 2010, a população de origem indígena
estava reduzida a 817 mil indivíduos (0,4% da população total do país), distribuídos entre 505 terras
indígenas e algumas áreas urbanas e concentrados principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Essas estimativas revelaram também que há pelo menos 107 referências de grupos isolados, isto é, que
não estabeleceram contanto com a sociedade brasileira.
Somente a partir da metade do século passado verificou-se uma tendência de aumento desse
contingente, principalmente em razão da demarcação de terras indígenas que em 2018 ocupavam 12,5%
do território brasileiro.
A Constituição Federal assegura aos indígenas o direito à terra: “Art. 231. São reconhecidos aos índios
sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras
que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus
bens”. Apesar disso, a invasão de terras indígenas é uma realidade que esses povos continuam
enfrentando até os dias atuais.
Em 2010, 39% dos indígenas viviam em áreas urbanas e 61%, na zona rural. A taxa de crescimento
da população indígena, de 3,5% ao ano, era bem superior à média da população não indígena, de 0,8%.
Entre as 305 etnias existentes no país, os Yanomami ocupavam a terra indígena mais populosa, com
25,7 mil habitantes, distribuídos entre os estados do Amazonas e de Roraima. A etnia ticuna (AM) é a
mais numerosa, com 46 mil pessoas distribuídas por várias terras esparsas, seguida dos Guarani Kaiowá
(MS), com 43 mil membros. Os grupos indígenas isolados não foram contabilizados no Censo 2010 em
razão da política de preservação cultural.

32
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.
33
Etnocídio é a destruição da cultura de um povo.

111
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Povos Indígenas: Condições de Vida

Brasil: Terras Indígenas 2017/2018

http://brasildebate.com.br/demarcacao-e-disputa-pelas-terras-indigenas/

A criação de parques e terras indígenas, onde ficam asseguradas as condições de vida em


comunidade dos povos nativos, constitui o reconhecimento do direito de existência de culturas distintas,
com valores e costumes próprios. O princípio que embasa a demarcação dessas terras é o fato de que
os indígenas foram os primeiros habitantes desse território.
Esse tipo de garantia é importante por causa da visão de mundo de diversas nações indígenas. A terra
é considerada a base do grupo por ser o lugar onde reproduzem a cultura, desenvolvem sua organização
social e jazem seus ancestrais.

Formação da População Brasileira

Desde o século XVI, início da colonização, os portugueses foram se fixando no Brasil. Entre 1532 e
1850, os africanos foram trazidos forçadamente para o território brasileiro. Depois de 1870, a imigração
de europeus, asiáticos e latino-americanos foi ampliada e, com isso, o país foi sendo povoado e novas
famílias se formaram. Os descendentes de todos esses povos compõem o povo brasileiro atual.

Como a População Brasileira se Identifica

Segundo o IBGE, o percentual de pessoas que se consideram brancas tem caído e o número das que
se consideram pretas caiu de 1950 a 1980 e voltou a aumentar em 2010. Já a auto identificação como
parda está crescendo desde a década de 1950. Isso pode indicar que o processo de aceitação e de
valorização da identificação afrodescendente da população brasileira tem se ampliado nas últimas
décadas.
Os dados levantados pelo IBGE refletem a forma como as pessoas se identificam. Nem sempre os
pardos se declararam como tal, havendo muitos que se declaravam como brancos. Além disso, o Censo
2010 foi o primeiro a oferecer a opção “indígena” como auto identificador. Existem ainda muitas pessoas
que, por particularidades culturais, não se identificam com nenhuma das cindo opções oferecidas para
enquadramento da resposta (branca, preta, amarela, parda e indígena).
A espécie humana é única, não existem raças. O conceito de raça (além do de cor, que seria expressão
fenotípica de um indivíduo), como aparece nas pesquisas e relatórios do IBGE, não tem embasamento
biológico; ele corresponde a uma construção social ao longo da história.

Imigração Internacional (Forçada e Livre)

Como a Coroa portuguesa não fazia registros oficiais do tráfico de pessoas escravizadas, não existem
dados precisos sobre o número de africanos que ingressaram no Brasil, quais foram os anos de maior
fluxo, por qual porto entraram e de que lugar da África vieram. Segundo estimativas, ingressaram no país
pelo menos 4 milhões de africanos entre 1550 e 1850, a maioria proveniente do golfo de Benin e das

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regiões que atualmente compreendem os territórios de Angola (ao sul do continente, costa ocidental) e
Moçambique (também ao sul, costa oriental).
A participação brasileira no total de escravizados por destino mundial é muito grande, o mesmo
ocorrendo com o Rio de Janeiro e São Paulo em relação à quantidade de escravizados para o Brasil.
Entre as correntes migratórias livres a mais importante foi a portuguesa, que se estendeu até os anos
1980 e voltou a acontecer depois da crise econômica mundial iniciada em 2008, com a vinda de
profissionais qualificados em busca de empego. Além de serem numericamente mais significativos, os
imigrantes portugueses espalharam-se por todo o território nacional.
Até 1883, a segunda maior corrente de imigrantes livres foi a italiana, que nessa época se dirigiu aos
cafezais do Sudeste; a terceira, a alemã, que se concentrou no Sul, em colônias; e a quarta, a espanhola,
que se dirigiu a várias cidades do Sudeste e Sul do país. A partir de 1850, a expansão dos cafezais pelo
Sudeste e a necessidade de efetiva colonização da região Sul levaram o governo brasileiro a criar
medidas de incentivo à vinda de imigrantes europeus para substituir a mão de obra escravizada. Algumas
das medidas adotadas e divulgadas na Europa foram o financiamento da passagem e a suposta garantia
de emprego, com moradia, alimentação e pagamento anual de salários.
Embora atraente, essa propaganda governamental revelou-se enganosa e escondia uma realidade
perversa: a escravidão por dívida. A saída do imigrante da fazenda somente seria permitida quando a
dívida fosse quitada. Como não tinha condições de pagar o que devia, ele ficava aprisionado no latifúndio,
vigiado por capangas. Essa prática, de escravidão por dívida, é comum até hoje em vários estados do
Brasil, sobretudo na região Norte.
Além dos cafezais da região Sudeste, outra grande área de atração de imigrantes europeus, com
destaque para portugueses, italianos e alemães, foi o Sul do país. Nessa região, os imigrantes ganhavam
a propriedade da terra, onde fundaram colônias de povoamento.
Os espanhóis não fundaram colônias; em vez disso espalharam-se pelos grandes centros urbanos de
todo o Centro-Sul brasileiro, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Em 1908, aportou em Santos a primeira embarcação trazendo colonos japoneses. O destino de quase
todos foram as lavouras de café do oeste do estado de São Paulo e do norte do Paraná; alguns se
instalaram no vale do Ribeira (SP) e ao redor de Belém (PA). Da década de 1980 até 2008/2009, porém,
alguns descendentes de japoneses passaram a fazer o caminho inverso de seus ancestrais, emigrando
em direção ao Japão como trabalhadores, e a ocupar postos de trabalho menos procurados por cidadãos
japoneses, geralmente em linhas de produção industrial. Essas pessoas são conhecidas como
decasséguis (do japonês deru, “sair”, e kasegu, “para trabalhar”). Com a crise econômica mundial que se
iniciou em 2008 e o aumento do desemprego no Japão, esse fluxo se estagnou, e muitos decasséguis
retornaram ao Brasil.
As correntes imigratórias de menor expressão numérica incluem judeus, espalhados pelo Brasil e
oriundos de diversos países, principalmente europeus; árabes, sírios e libaneses, também distribuídos
pelo país; chineses e coreanos, mais concentrados em São Paulo; eslavos, sobretudo poloneses, lituanos
e russos, mais concentrados em Curitiba e outras cidades paranaenses. Há também sul-americanos, com
argentinos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, venezuelanos e chilenos, a maioria na Grande São Paulo;
e haitianos e pessoas de vários países africanos, com destaque para Angola, Cabo Verde e Nigéria.

Migração (Movimentos Internos)

Segundo dados do IBGE, em 2015, 38% dos habitantes do Brasil não eram naturais do município em
que moravam, e cerca de 15% deles não eram procedentes da unidade da federação em que viviam.
Esses dados revelam que predominam os movimentos migratórios dentro do estado de origem.
Atualmente há um crescimento dos fluxos urbano-urbano e intrametropolitano, isto é, aumenta o número
de pessoas que migram de uma cidade para outra no mesmo estado ou em determinada região
metropolitana em busca de melhores condições de vida. Analisando a história brasileira, percebemos
que, desde o século XVI, os movimentos migratórios estão associados a fatores econômicos. Quando o
ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste decaiu, por exemplo, se intensificou o do ouro em Minas Gerais, e
muitas pessoas foram atraídas para este estado. Esses grandes deslocamentos provocam um intenso
processo de urbanização na nova centralidade econômica do país.
Mais tarde, com o ciclo do café e o processo de industrialização, o eixo São Paulo-Rio de Janeiro se
tornou o grande polo de atração de migrantes, que saíam da região de origem em busca de emprego ou
de melhores salários. Somente a partir da década de 1970, por causa do processo de desconcentração
da atividade industrial e da criação de políticas públicas de incentivo à ocupação das regiões Norte e
Centro-Oeste, a migração para o Sudeste começou a apresentar significativa queda.

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Se determinada região do país começa a receber investimentos produtivos, públicos ou privados, que
aumentam a oferta de emprego, em pouco tempo ela se torna polo de atração de pessoas. É o que
acontece atualmente com os municípios de médio porte em vária regiões do país.
Municípios médios e grandes do interior do Estado de São Paulo, como Campinas, Ribeirão Preto,
São José dos Campos, Sorocaba e São José do Rio Preto, e alguns menores apresentam índices de
crescimento econômico maiores do que os da capital, o que gera atração populacional. Isso de deve ao
desenvolvimento dos sistemas de transporte, energia e telecomunicações.

Emigração

Os movimentos de população sempre estão associados a fatores de repulsão e de atração e, muitas


vezes, os emigrantes saem contrariados de seu país de origem. A partir da década de 1980, o fluxo
imigratório do Brasil começou a se tornar negativo, ou seja, o número de emigrantes tornou-se maior do
que o de imigrantes.
Do início da década de 1980 até a crise mundial que começou em 2008, muitos brasileiros se mudaram
para Estados Unidos, Japão e países da Europa (sobretudo Portugal, Reino Unido, Espanha e França),
entre outros destinos, em busca de melhores condições de vida. Os principais motivos para a evasão
eram os salários muito baixos pagos no Brasil, comparados aos desses países, e os índices elevados de
desemprego e subemprego no país.
Enquanto perdurou a crise econômica mundial iniciada em 2008, o Brasil passou a receber muitos
imigrantes de países latino-americanos, com destaque para a Bolívia, Peru e Paraguai. Além disso, muitos
brasileiros que moravam no exterior voltaram para o país. Dessa forma, naqueles anos, o Brasil deixou
de ser um país onde predominava a emigração e passou a receber imigrantes em maior número, mesmo
durante o período recessivo entre 2014 e 2017 e a crise econômica que se seguiu a ele.
Há também um grande número de brasileiros estabelecidos no Paraguai, quase todos produtores
rurais que para ali se dirigiram em busca de terras baratas e de uma carga tributária menor do que a
brasileira.

Aspectos da População Brasileira

Nas últimas décadas o Brasil vem passando por significativas mudanças estruturais em sua
composição demográfica, com uma tendência ao envelhecimento populacional. Isso ocorre, sobretudo,
em razão da redução da taxa de fecundidade e do aumento da expectativa de vida. Essas transformações
que provocam grandes impactos na sociedade e economia.

Crescimento Vegetativo da População Brasileira

A sociedade brasileira vem passando por expressivas mudanças em seu perfil demográfico. Até a
década de 1990, as taxas de fecundidade eram altas, o que contribuía para que a maior parte da
população brasileira fosse jovem. Nos últimos anos, a quantidade de filhos por mulher diminuiu de forma
expressiva gerando reflexos diretos no crescimento populacional.
Segundo os Indicadores de desenvolvimento sustentável 2017 do IBGE, em 2016 a taxa de
fecundidade da mulher brasileira era de 1,7%, inferior aos 2,1% considerados pela ONU como nível de
reposição. Essa é a média de filhos por mulher necessária para manter a população estável.
Essa redução do número de filhos por mulher é consequência de uma série de fatores, como
urbanização, desenvolvimento de métodos contraceptivos, melhoria de índices de educação, adoção de
políticas públicas visando o planejamento familiar, maior ingresso das mulheres no mercado de trabalho,
e mudanças nos valores socioculturais, com destaque para a emancipação feminina.
Entre 1950 e 1980, a população brasileira cresceu em média 2,8% ao ano, índice que projetava sua
duplicação a cada 25 anos. Já de 2010 para 2015, o crescimento populacional caiu para 0,8% ao ano, e
a projeção para a população duplicar aumentou para 87 anos.
Da década de 1940 para a de 2010, o número médio de filhos por mulher diminuiu de 6,2 para 1,8.
Paralelamente à redução acentuada da natalidade, a esperança de vida ao nascer tem aumentado.
Esse aumento se dá em razão da melhoria das condições de vida da população e dos avanços na área
da medicina e da saúde pública. Assim, por causa desse movimento paralelo, o Brasil encontra-se em
um período de transição demográfica, que se intensificou a partir dos anos 1980.
O número de crianças no total da população brasileira tem diminuído, enquanto o de jovens, adultos e
idosos tem aumentado, em consequência da redução da fecundidade e do aumento da esperança de

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vida. Nas próximas décadas, o número de idosos continuará crescendo, enquanto o de crianças e jovens
cairá.
Essas alterações na composição etária da população indicam que o Brasil ingressou num período
especial conhecido como janela ou bônus demográfico.
Ele ocorre quando há predomínio de adultos no conjunto total da população em relação a crianças (0
a 14 anos) e idosos (65 anos ou mais). Isso aumenta o número de pessoas em idade produtiva e diminui
a quantidade de dependentes, favorecendo o desenvolvimento econômico.
Entretanto, o país não está aproveitando esse período de bônus demográfico de forma eficiente.
Setores de saúde pública e educação básica, por exemplo, que poderiam criar condições estruturais
melhores para o crescimento econômico, recebem poucos investimentos. O mesmo ocorre em setores
de infraestrutura, como o de transportes. Estima-se que o percentual de brasileiros em idade produtiva
deva aumentar até por volta de 2020 e depois comece a diminuir.
O crescimento vegetativo no Brasil vem diminuindo, especialmente por causa do menor número de
nascimentos. Em termos percentuais, a taxa de mortalidade brasileira já atingiu um patamar equivalente
ao de países desenvolvidos, próximo a 6‰. Isso significa que seis habitantes morrem a cada grupo de
mil ao ano. Segundo as projeções, a partir de 2042 a população brasileira deverá parar de crescer e
passará a sofrer redução, porque o número de óbitos provavelmente será maior do que o de nascimentos.
Conhecer essas mudanças no comportamento demográfico possibilita aos governos estabelecer
planos de investimentos em áreas essenciais, como educação, saúde e previdência social, adequados
ao perfil populacional. Por exemplo, saber que a população idosa vai aumentar expressivamente em
relação à PEA leva à necessidade de o governo monitorar as regras da previdência social, uma vez que
haverá menos trabalhadores contribuindo e um número maior de pessoas utilizando o sistema
previdenciário (aposentados e pensionista). Além disso, o crescimento da população com idade acima de
60 anos exige, cada vez mais, maiores investimentos no sistema de saúde, pois em geral os idosos
requerem mais cuidados médicos.

Esperança de Vida e Mortalidade Infantil


A esperança de vida ao nascer e a taxa de mortalidade infantil são importantes indicadores da
qualidade de vida da população de um país. Essas taxas podem revelar como está a qualidade do ensino,
do saneamento básico e dos serviços de saúde, como campanhas de vacinação, atenção ao pré-natal,
aleitamento materno e nutrição, entre outros.

Brasil: Esperança de Vida ao Nascer - 2016


Regiões Total (em anos)
Norte 72,2
Nordeste 73,1
Sudeste 77,5
Sul 77,8
Centro-Oeste 75,1
Brasil 75,7

É importante observar que, no Brasil, os contrastes regionais são muito acentuados. Em 2016, na
região Sul, a expectativa de vida ao nascer era 4,7 anos maior do que na região Nordeste. Embora tenha
caído de 115% para 13% entre 1970 e 2016, a mortalidade infantil no Brasil ainda é alta se comparada
com a de outros países com nível de desenvolvimento semelhante. Segundo o Banco Mundial, em 2015,
na Argentina essa taxa era de 11% e no Chile, 7%. Com relação aos países desenvolvidos, a distância é
ainda maior: Luxemburgo e Japão, 2%. Nesses países, os fatores da mortalidade infantil independem de
políticas de infraestrutura social; já no caso do Brasil, o percentual de mortes associadas à carência de
serviços públicos essenciais ainda é elevado.
Apesar da grande queda no índice de mortalidade infantil nas regiões Nordeste e Norte, elas continuam
a apresentar as maiores taxas do país.
Os avanços nos serviços públicos de saúde contribuíram para a diminuição da mortalidade infantil. Um
exemplo disso é a campanha de vacinação contra a poliomielite.

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Estrutura da População Brasileira

O aumento da esperança de vida da população brasileira ao nascer e a queda das taxas de natalidade
e mortalidade vêm provocando mudanças na pirâmide etária. Está ocorrendo um significativo
estreitamento em sua base, que corresponde aos mais jovens, e o alargamento do meio para o topo, por
causa do aumento da participação percentual de adultos e idosos.
Quanto à distribuição da população brasileira por gênero, o país se enquadra nos padrões mundiais,
nascem cerca de 105 homens para cada 100 mulheres. No entanto, a taxa de mortalidade infantil e juvenil
masculina é mais elevada, e a expectativa de vida dos homens é mais baixa do que das mulheres.
Em razão disso, é comum as pirâmides etárias apresentarem uma parcela ligeiramente maior de
população feminina. Segundo o IBGE, em 2015, o Brasil tinha 99,4 milhões de homens (48,5%) e 105,5
milhões de mulheres (51,5%).

Mortalidade de Jovens e Adultos


Um aspecto demográfico da população brasileira que se torna cada vez mais preocupante é o aumento
das mortes de adolescentes e adultos jovens do sexo masculino por causas violentas, como assassinatos
e acidentes automobilísticos decorrentes de excesso de velocidade, imprudência ou uso de drogas. Isso
provoca impactos na distribuição etária da população e na proporção entre os sexos, além de trazer
implicações socioeconômicas, com a diminuição da qualidade de vida da população em geral (em
decorrência da insegurança generalizada) e o aumento de gastos com prevenção e coibição da violência,
vigilância à venda de drogas, entre outros.
Segundo o IBGE, se não ocorressem mortes prematuras da população masculina, a esperança de
vida média dos brasileiros seria maior em dois ou três anos. O predomínio de mulheres na população
total vem aumentado. Em 2000, havia 98,7 homens para cada grupo de 100 mulheres. Em 2010, esse
índice reduziu para 97,9 homens para cada grupo de 100 mulheres.

PEA34 e Distribuição de Renda no Brasil

Relativo à distribuição da população economicamente ativa no Brasil em 2015, observou-se que 13,9%
da PEA trabalha na agropecuária. Embora esse número venha diminuindo em razão da modernização e
da mecanização do campo em algumas localidades, as atividades agrícolas também são praticadas de
forma tradicional e ocupam significativa mão de obra nas regiões mais pobres do país.
O setor industrial brasileiro, incluindo a construção civil, absorve 21,6% da PEA, número comparável
ao de países desenvolvidos. Após a abertura econômica, iniciada na década de 1990, o parque industrial
brasileiro se modernizou e algumas empresas ganharam projeção internacional.
O setor terciário, embora ocupe mais da metade da PEA no Brasil, apresenta os maiores níveis de
subemprego, uma vez que muitos dos trabalhadores exercem atividades informais, sem garantia de
direitos trabalhistas, além de não contribuírem para a previdência social.
No Brasil, 64,5% da PEA exercem atividades terciárias, somando-se serviços, comércio e manutenção.
No setor formal de serviços (como escolas, hospitais, repartições públicas, transportes, etc.), as
condições de trabalho e o nível de renda são muito variáveis: há instituições avançadas administrativa e
tecnologicamente, ao lado de outras bastante tradicionais. Por exemplo, ao compararmos o ensino
oferecido em escolas públicas, percebemos diferenças significativas de qualidade entre as unidades.
Essa discrepância ocorre também no setor da saúde.
O comércio ambulante é uma atividade informal, pois não são recolhidos impostos e os trabalhadores
não usufruem de direitos trabalhistas.

Participação das Mulheres


Quanto à composição da PEA por gênero, é possível notar certa desproporção: em 2015, 43% dos
trabalhadores eram do sexo feminino. Nos países desenvolvidos, essa participação é mais igualitária,
com índices próximos aos 50%.
O aumento da participação feminina na PEA ganhou impulso com os movimentos feministas a partir
da década de 1970, que passaram a reivindicar igualdade de gênero no mercado de trabalho, nas
atividades políticas e em outras esferas da vida social. Além disso, muitas mulheres passaram a prover
o sustento da família, inserindo-se cada vez mais no mercado de trabalho formal.
O percentual de mulheres que são empregadas com baixa remuneração é mais alto do que o de
homens.

34
PEA refere-se à população economicamente ativa.

116
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Apesar de, no Brasil, as mulheres apresentarem médias mais elevadas de anos de estudo em relação
aos homens, ainda hoje muitas vezes elas recebem salários menores. Em 2015, as trabalhadoras
recebiam, em média, 76,1% dos rendimentos dos trabalhadores do sexo masculino. Além disso, há
predominância feminina em empregos de menor qualificação e salários mais baixos, como o trabalho
doméstico e a operação de telemarketing.
Nas sociedades em que a democracia está mais consolidada, e a cidadania, mais desenvolvida, existe
maior igualdade de oportunidades de trabalho entre homens e mulheres. A redução da discriminação por
gênero é um importante fator de combate à pobreza.

Participação dos Afrodescendentes


Para a avaliação do nível de desenvolvimento de um país, não basta considerar o crescimento
econômico. É fundamental ponderar também como se dá a distribuição das riquezas entre sua população.
Segundo o IBGE, em 2015, as pessoas que se declaravam pretas ou pardas recebiam cerca de 59%
a menos do que aquelas que se classificavam como brancas, revelando uma grave distinção social entre
grupos de cor ou raça no país, além da falta de equidade entre gênero.
Embora as desigualdades entre gêneros e entre cor ou raça tenham sido reduzidas desde a década
de 1970, elas ainda são muito acentuadas, e combatê-las é uma das ações fundamentais para diminuir
a pobreza no país.
A diferença na taxa de frequência escolar dos adolescentes brancos e pretos ou pardos caiu cerca de
6,4% para 3,1% entre 2004 e 2015. E a melhora do índice foi crescente para todas as cores ou raças da
população brasileira.

IDH do Brasil

Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2016, publicado pelo Pnud em 2015, o Brasil
possuía um índice de Desenvolvimento Humano elevado, ocupando a 79ª posição mundial. O país
mantém o nível elevado de desenvolvimento humano desde 2005.
Das três variáveis consideradas no cálculo do IDH (educação, renda e longevidade), a que apresentou
maior contribuição para a melhora do índice brasileiro, nas últimas décadas, foi a educação. Em
contrapartida, a renda foi a variável que menos contribuiu nesse período. No item longevidade, que
permite avaliar as condições gerais de saúde da população, os avanços também foram bastante
significativos.
Apesar de ter apresentado o maior avanço nas últimas décadas, o índice de educação é o mais baixo
dos três, o único que se localiza abaixo de 0,700%. Em 2010, era de 0,637%, na faixa de médio
desenvolvimento humano.

Avanços na Educação
De acordo com os dados do Relatório de Desenvolvimento Humano 2016 em comparação aos dados
de 1990, observa-se que:
→ Entre 1990 e 2015, a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais de idade aumentou
de 82% para 92,6%;
→ No mesmo período, a esperança de vida ao nascer cresceu de 67,6 para 77,5 anos;
→ A renda per capita subiu de US$ (PPC) 7349 para US$ (PPC) 14145;
→ De 1990 a 2015, a taxa de matrícula no Ensino Fundamental de crianças entre 7 e 14 anos
aumentou de 86% para 98%.

Questões

01. (AFAP – Assistente Administrativo – FCC/2019) Criado pelo Programa das Nações Unidas para
o Desenvolvimento (Pnud), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é atualizado anualmente, visando
permitir o conhecimento sobre as condições de vida das nações avaliadas. Este índice possui uma
variação de 0 até 1, sendo que quanto mais próximo for de 1 a avaliação do país, melhor classificado ele
será no IDH, ou seja, melhores condições de vida aquela população terá.
Analise o IDH do Brasil mostrado na tabela abaixo.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Os dados apresentados e os conhecimentos sobre o contexto socioeconômico brasileiro indicam
(A) os elevados déficits em setores de importância socioeconômica, como é o caso da Previdência.
(B) que, atualmente, o país tem apresentado significativa redução das desigualdades sociais.
(C) que as condições de vida da população brasileira tiveram reduzida evolução.
(D) o esforço do governo para manter políticas públicas destinadas às crianças e jovens.
(E) a posição do Brasil como o país de maior IDH da América do Sul, superando a Argentina.

02. (ABIN – Oficial de Inteligência – CESPE/2018) Acerca dos movimentos migratórios internos, da
estrutura etária da população brasileira e da evolução de seu crescimento no século XX, julgue o item a
seguir.
A dinâmica da estrutura etária da população brasileira tende ao equilíbrio quanto à quantidade de
crianças, jovens, adultos e idosos: a população de idosos com maior expectativa de vida cresce tanto
quanto a população em idade infantil e jovem.
(....) Certo (....) Errado

03. (IFB – Professor de Geografia – IFB/2017) Há cerca de 50 anos, apenas 15% dos postos de
trabalho no Brasil eram ocupados por mulheres. Atualmente, elas representam mais de 43% da
População Economicamente Ativa (PEA). Esse dado mostra que o contingente de mulheres responsáveis
pela renda familiar aumentou significativamente nas últimas décadas. A redução do tempo de convivência
familiar em razão da permanência no trabalho, além dos altos custos com alimentação, saúde, lazer e
educação; e os programas de planejamento familiar desenvolvidos pelo Estado por meio do Ministério da
Saúde, fizeram com que ocorresse na dinâmica demográfica brasileira:
(A) um aumento da expectativa de vida;
(B) a queda gradual da taxa de natalidade;
(C) o predomínio da população idosa;
(D) a queda das taxas de mortalidade;
(E) um aumento na renda per capita.

Gabarito

01.C / 02.Errado / 03.B

Comentários

01. Resposta: C
Apesar de ter apresentado o maior avanço nas últimas décadas, o índice de educação é o mais baixo
dos três, o único que se localiza abaixo de 0,700%. Em 2010, era de 0,637%, na faixa de médio
desenvolvimento humano.

02. Resposta: Errado


Nas próximas décadas, o número de idosos continuará crescendo, enquanto o de crianças e jovens
cairá.

03. Resposta: B
A redução do número de filhos por mulher é consequência de uma série de fatores, como urbanização,
desenvolvimento de métodos contraceptivos, melhoria de índices de educação, adoção de políticas
públicas visando o planejamento familiar, maior ingresso das mulheres no mercado de trabalho, e
mudanças nos valores socioculturais, com destaque para a emancipação feminina.

118
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Aspectos físicos do Brasil: clima, vegetação, hidrografia e relevo

CLIMAS35

Tempo e Clima

Para entender o significado de clima, é importante distingui-lo de tempo atmosférico. O tempo


corresponde a um estado momentâneo da atmosfera numa determinada área da superfície da Terra, que
podem mudar em poucas horas ou mesmo de um instante para o outro por causa de fenômenos como
temperatura, umidade, pressão do ar, ventos e nebulosidade.
Já o clima corresponde ao comportamento do tempo em determinada área durante um período longo,
de pelo menos 30 anos. O clima é o padrão da sucessão dos diferentes tipos de tempo que resultam do
movimento constante da atmosfera.
Quando afirmamos “hoje o dia está quente e úmido”, estamos nos referindo ao tempo. Em
contrapartida, se ouvimos alguém, nos dizer que no noroeste da Amazônia “é quente e úmido o ano
inteiro”, a pessoa está se referindo ao clima da região.
É comum fazermos julgamentos sobre o tempo e clima. Por exemplo, “hoje o tempo está feio” ou “hoje
o tempo está bonito”. Porém, ambos são importantes para a reprodução dos seres vivos e o
desenvolvimento das atividades econômicas, principalmente as agrícolas.
Cada lugar ou região apresenta um clima próprio, porque cada um apresenta um conjunto distinto de
fatores climáticos, ou seja, características que determinam o clima: latitude, altitude, massas de ar,
continentalidade, maritimidade, corretes marítimas, relevo, vegetação e urbanização.
A conjugação desses fatores é responsável pelo comportamento da temperatura, da umidade e da
pressão atmosférica, que são os atributos ou elementos climáticos do local. Entretanto, ainda existe
uma variação considerável de ano para ano. Há, por exemplo, verões mais chuvosos ou menos chuvosos,
invernos rigorosos ou com temperaturas mais amenas.

Fatores Climáticos

São principais fatores que determinam o clima de um lugar ou de uma região:

Latitude
Por ser esférica, a superfície terrestre é iluminada de diferentes formas pelos raios solares, porque
eles a atingem com inclinações distintas. Essa diferença na intensidade de luz incidente sobre a superfície
faz com que a temperatura média tenda a ser menor quanto mais próximo aos polos. Observe a ilustração
abaixo.

SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018, p. 123.

35
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Observe, nas linhas que representam os raios solares, que a área atingida por um mesmo feixe de
raios solares é maior quanto mais nos aproximamos dos polos.
Assim, a variação latitudinal é o principal fator de diferenciação de zonas climáticas, polar, temperada
e tropical. Porém, em cada uma dessas zonas encontramos variados tipos de clima, explicados pelas
diferentes associações entre os demais fatores climáticos.
A grande extensão latitudinal do território brasileiro é um importante fator de diferenciação climática. À
medida em que se aumenta a latitude, diminuem-se as temperaturas médias e aumentam-se a amplitude
térmica anual, que é a diferença entre a maior e a menor temperatura média mensal ao longo do ano.

Altitude
Quanto maior for a altitude, menor será a temperatura média do ar. Isso porque, quanto maior a
altitude, menor a pressão atmosférica, o que torna o ar mais rarefeito, ou seja, há uma menor
concentração de gases, umidade e materiais particulados. Como há menor densidade de gases e
partículas de vapor de água e poeira, diminui a retenção de calor nas camadas mais elevadas da
atmosfera e, em consequência, a temperatura é menor. Além disso, nas maiores altitudes, a área de
superfície que recebe e irradia calor é menor.

Albedo
O tipo de superfície atingida pelos raios solares também exerce influência na diferença da temperatura
atmosférica. O índice de reflexão de uma superfície, o albedo, varia de acordo com sua cor.
Diferentes tipos de superfície refletem diferentes porcentagens da luz solar incidente.
A cor, por sua vez, depende de sua composição química e de seu estado físico. A neve, por ser branca,
reflete até 90% dos raios solares incidentes, enquanto a Floresta Amazônica, por ser verde-escura, reflete
até 20%. Quanto menor o albedo, maior a absorção de raios solares, maior o aquecimento e,
consequentemente, a irradiação de calor.

Massas de Ar
São grandes porções da atmosfera que possuem características comuns de temperatura, umidade e
pressão e podem se estender por milhares de quilômetros. Formam-se quando ao ar permanece estável
por um tempo sobre uma superfície homogênea (o oceano, as calotas polares ou floresta, por exemplo)
e se deslocam por diferença de pressão, levando consigo as condições de temperatura e umidade da
região em que se originaram. Elas se transformam pela interação com outras massas, com as quais
trocam calor e/ou umidade, e são chamadas de:
Oceânicas: são massas de ar úmidas.
Continentais: são massas de ar secas, embora haja também continentais úmidas, como as que se
formam sobre grandes florestas.
Tropicais e equatoriais: são massas de ar quentes.
Temperadas e polares: são massas de ar frias.

Continentalidade e Maritimidade
A maior ou menor proximidade de oceanos e mares exerce forte influência sobre a umidade relativa
do ar e sobre a temperatura. Em áreas que sofrem influência da continentalidade (localização no interior
do continente, distante do litoral), a amplitude térmica diária é maior do que em áreas que sofrem
influência da maritimidade (proximidade de oceanos e mares). Isso ocorre porque a água demora mais
para se aquecer e para se resfriar do que os continentes.

Correntes Marítimas
São grandes volumes de água que se deslocam pelo oceano, quase sempre nas mesmas direções,
como se fossem “rios” dentro do mar. As correntes marítimas são movimentadas pela ação dos ventos e
pela influência da rotação da Terra, que as desloca para oeste, no hemisfério norte, as correntes circulam
no sentido horário, e no hemisfério sul, anti-horário. Diferenciam-se em temperatura, salinidade e direção
das águas do entorno dos continentes. Causam forte influência no clima, principalmente porque alteram
a temperatura atmosférica, e são importantes para a atividade pesqueira: em áreas de encontro de
correntes quentes e frias, aumenta a disponibilidade de plâncton, que serve de alimento para cardumes.
A localização das áreas áridas e semiáridas está condicionada principalmente pela presença de
alguma corrente fria. É comum essas correntes provocarem nevoeiros e chuvas no oceano, fazendo com
que as massas de ar cheguem ao continente sem umidade.
A corrente do Golfo, por exemplo, é quente. Ela impede o congelamento do mar do Norte e ameniza
os rigores climáticos do inverno em toda a fixa ocidental da Europa. A corrente de Humboldt, no hemisfério

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sul, e a da Califórnia, no hemisfério norte, são frias. Elas causam queda da temperatura nas áreas
litorâneas, o que provoca condensação do ar e chuvas no oceano, fazendo as massas de ar perderem
umidade e atingirem o continente secas. A imagem abaixo demonstra os efeitos da corrente de Humboldt.

https://exercicios.brasilescola.uol.com.br/exercicios-geografia/exercicios-sobre-fatores-climaticos.htm

Na imagem podemos concluir que:


1 – Em direção ao continente, a massa de ar úmido resfria-se ao passar sobre a corrente marítima de
Humboldt, que é fria (aproximadamente 7ºC ou 8ºC inferior à temperatura média do oceano na mesma
latitude;
2 – Esse resfriamento da massa provoca condensação do vapor e chuvas;
3 – Continuando seu deslocamento, como massa de ar seco, porque descarregou a umidade sobre o
oceano.

Já as correntes quentes do Brasil (no leste da América do Sul), das Agulhas (no sudeste da África) e
a Leste-Australiana (passa pela costa lesta da Austrália e da Nova Zelândia) estão associadas a massas
de ar quente e úmido, que aumentam a pluviosidade e provocam fortes chuvas de verão no litoral, fato
que se acentua quando há presença de serras no continente, que retêm a umidade vinda do mar.

Vegetação
Os diferentes tipos de cobertura vegetal influenciam diretamente a absorção e irradiação de calor, além
da umidade do ar. Em uma região florestada, as árvores impedem que os raios solares incidam
diretamente sobre o solo, diminuindo a absorção de calor e a temperatura. As plantas, por sua vez, retiram
umidade do solo pelas raízes e a transferem para a atmosfera através das folhas (transpiração),
aumentado a umidade do ar. Isso ajuda a transferir parte da energia solar ao processo de evaporação,
diminuindo a quantidade de energia que aquece a superfície e, consequentemente, o ar. Quando ocorre
um desmatamento de grandes proporções, portanto, há acentuada diminuição da umidade e elevação
significativa das temperaturas médias.

Relevo
Além de a altitude do relevo influenciar o clima, o próprio relevo facilita ou dificulta a circulação das
massas de ar. Na Europa, por exemplo, as planícies existentes no centro do continente facilitam a
penetração das massas de ar oceânicas (ventos do oeste), provocando chuvas e reduzindo a amplitude
térmica anual. Nos Estados Unidos, as cadeias montanhosas do oeste (Serra Nevada, cadeias da Costa)
impedem a passagem das massas de ar vindas do oceano Pacífico, o que explica as chuvas que ocorrem
na vertente voltada para o mar e a aridez no lado oposto.
No Brasil, a disposição longitudinal das serras no centro-sul do país forma um “corredor” que facilita a
circulação da Massa Polar Atlântica e dificulta a circulação da Massa Tropical Atlântica, vinda do oceano.
Não por acaso a vertente da serra do Mar voltada para o Atlântico, em São Paulo, apresenta um dos mais
elevados índices pluviométricos do Brasil. Nessa região predominam as chuvas de relevo.

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Atributos ou Elementos do Clima

Os três atributos climáticos mais importantes são a temperatura, a umidade e a pressão atmosférica.

Temperatura
A temperatura é a intensidade de calor existente na atmosfera. O Sol não aquece o ar diretamente.
Seus raios, se não incidirem sobre uma partícula em suspensão (como poeira e vapor de água), atingem
a superfície do planeta, que, depois de aquecida, irradia o calor para a atmosfera.

Umidade
A umidade é a quantidade de vapor de água presente na atmosfera em determinado momento,
resultado do processo de evaporação das águas da superfície terrestre e da transpiração das plantas.
A umidade relativa, expressa em porcentagem, é uma relação entre a quantidade de apor existente
na atmosfera num dado momento (umidade absoluta, expressa em g/m³) e a quantidade de vapor de
água que essa atmosfera comporta. Quando esse limite é atingido, a atmosfera atinge seu ponto de
saturação e ocorre a chuva.
Se ao longo do dia a umidade relativa estiver chegando próximo a 100%, há grande possibilidade de
ocorrer precipitação. Para chover, o vapor de água tem de se condensar, passando do estado gasoso
para o líquido, o que acontece com a queda de temperatura. Em contrapartida, se a umidade relativa for
constante ou estiver diminuindo, dificilmente choverá.
É importante destacar que a capacidade de retenção de vapor de água na atmosfera também está
associada à temperatura. Quando a temperatura está elevada, os gases estão dilatados e aumenta sua
capacidade de retenção de vapor; ao contrário, com temperaturas baixas, os gases ficam mais adensados
e é necessária uma menor quantidade de vapor para atingir o ponto de saturação.
As condições de umidade relativa do ar também são importantes para a saúde e determinam a
sensação de conforto ou desconforto térmico. Nos dias quentes e úmidos, nosso organismo transpira
mais, enquanto nos dias secos se agravam os problemas respiratórios e de irritação de pele.
A precipitação pode ocorrer de várias formas, como a chuva, a neve e o granizo, dependendo das
condições atmosféricas.
A neve é característica de zonas temperadas e frias, quando a temperatura do ar está abaixo de zero.
Quando isso ocorre, o vapor de água contido na atmosfera se congela e os flocos de gelo, formados por
cristais, precipitam-se.
Já o granizo é constituído de pedrinhas formadas pelo congelamento das gotas de água contidas em
nuvens que atingem elevada altitude, chamadas cúmulos-nimbos, que também estão associadas aos
temporais com a ocorrência de raios. Esse congelamento acontece quando uma nuvem carregada de
gotículas de água encontra uma camada de ar muito fria.
De maneira geral, as maiores médias de precipitação ocorrem nas regiões mais quentes do planeta,
na Zona intertropical.
Os cúmulos-nimbos (do latim cumulus-nimbus, “nuvem carregada de chuva”) atingem uma altitude
aproximada de 10 mil metros, em que a temperatura do ar chega a ser muito baixa, em torno de 50ºC
negativos.

Pressão Atmosférica
A pressão atmosférica é a medida da força exercida pelo peso da coluna de ar contra uma área da
superfície terrestre. Por isso, a pressão atmosférica vai diminuindo com a maior altitude. Além disso,
quanto mais elevada a temperatura, maior a movimentação das moléculas de ar e mais elas se distanciam
umas das outras, como resultado, mais baixo é o número de moléculas em cada metro cúbico de ar e
menor se torna o peso do ar. Portanto, menor a pressão exercida sobre uma superfície. Inversamente,
quanto menor a temperatura, maior é a pressão atmosférica.
Por causa da esfericidade, da inclinação do eixo imaginário e do movimento de translação ao redor do
Sol, nosso planeta não é aquecido uniformemente. Isso condiciona os mecanismos da circulação
atmosférica do globo terrestre, levando à formação de centros de baixa e de alta pressão, que se alteram
continuamente.
Quando o ar é aquecido, ele fica menos denso e sobe, o que diminui a pressão sobre a superfície e
forma uma área de baixa pressão atmosférica, também chamada ciclonal, que é receptora de ventos.
Ao contrário, quando o ar é resfriado, ele fica mais denso e desce, formando uma zona de alta pressão,
ou anticiclonal, que é emissora de ventos. Esse movimento pode ocorrer entre áreas que distam apenas

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alguns quilômetros, como o movimento da brisa marítima36, ou em escala regional, como o da Massa
Equatorial Continental, que atua sobre a Amazônia.
Já em escala planetária temos os ventos alísios, que atuam ininterruptamente, se deslocando das
regiões subtropicais e tropicais (alta pressão) para a região equatorial (baixa pressão), e são desviados
para oeste pelo movimento de rotação da Terra. Com esse desvio, formam-se os ventos alísios de
sudeste no hemisfério sul e os ventos alísios de nordeste no hemisfério norte.
Quando ocorre o deslocamento provocado pela extensão de massas de ar quente e,
consequentemente, a formação de frentes quentes, temos uma situação na qual o ar se desloca das
áreas de maior temperatura para as de menor.

Tipos de Clima

As diferentes combinações dos fatores climáticos dão origem a vários tipos de clima. O planisfério
abaixo apresenta uma classificação por grandes regiões do planeta; portanto, não fornece informações
sobre as diferenças encontradas no interior de cada região, como as decorrentes das variações locais de
altitude e de outras características de relevo e dos graus diferenciados de urbanização.

https://www.sacratours.com/saiba-a-temperatura-esperada-em-seu-destino/

Clima Polar ou Glacial


Ocorre em regiões de latitudes elevadas, próximas aos círculos polares Ártico e Antártico, onde, por
causa da inclinação do eixo terrestre, os raios solares incidem de forma oblíqua e há grande variação na
duração do dia e da noite, e, consequentemente, na quantidade de radiação absorvida ao longo do ano.
É um clima de baixas temperaturas o ano inteiro, atingindo o máximo 10ºC nos meses de verão.

Clima Temperado
É apenas nas zonas climáticas temperadas e frias desta classificação que encontramos uma definição
clara das quatro estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Há uma nítida distinção entre as
localidades que sofrem influência da maritimidade ou da continentalidade.

Clima Temperado Oceânico


A amplitude térmica é menor e a pluviosidade, maior.

Clima Temperado Continental


As variações de temperatura diária e anual são bastante acentuadas e os índices pluviométricos são
menores.

36
Brisa marítima é o vento local que durante o dia sopra do oceano para o continente e, à noite, do continente para o oceano, em razão das diferenças de retenção
de calor dessas duas superfícies.

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Clima Mediterrâneo
Regiões que apresentam esse clima têm verões quentes e secos, invernos amenos e chuvosos.

Clima Tropical
As áreas de clima tropical apresentam duas estações bem definidas: inverno, geralmente ameno e
seco, e verão, geralmente quente e chuvoso.

Clima Equatorial
Ocorre na zona climática mais quente do planeta. Caracteriza-se por temperaturas elevadas (médias
mensais em torno de 25ºC), com pequena amplitude térmica anual, já que as variações de duração entre
o dia e a noite e de inclinação de incidência dos raios solares são mínimas. Quanto ao regime das chuvas,
o índice supera os 3000 mm/ano nas áreas mais chuvosas e cai para 1500 mm/ano nas áreas menos
chuvosas.

Clima Subtropical
Característico das regiões localizadas em médias latitudes, como Buenos Aires, por exemplo, nas
quais já começam a se delinear as quatro estações do ano. Tem chuvas abundantes e bem distribuídas,
verões quentes e invernos frios, com significativa amplitude térmica anual.

Clima Desértico ou Árido


Por causa da falta de umidade, caracteriza-se por elevada amplitude térmica diária e sazonal. Os
índices pluviométricos são inferiores a 250 mm/ano.

Clima Semiárido
Clima de transição, caracterizado por chuvas escassas e mal distribuídas ao longo do ano. Ocorre
tanto em regiões tropicais, onde as temperaturas são elevadas o ano inteiro, quanto em zonas
temperadas, onde os invernos são frios.

Climas no Brasil

Por possuir 92% do território na Zona Intertropical do planeta, grande extensão no sentido norte-sul e
litoral com forte influência das massas de ar oceânicas, o Brasil apresenta predominância de climas
quentes e úmidos. Em apenas 8% do território, ao sul do trópico de Capricórnio, ocorre o clima subtropical,
que apresenta maior variação térmica e estações do ano mais bem definidas.
Como podemos observar nos mapas abaixo, cinco massas de ar atuam no território brasileiro:

Brasil: Massas de Ar no Verão

https://suburbanodigital.blogspot.com/2016/02/mapa-das-massas-de-ar-que-atuam-no-brasil-no-verao.html

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Brasil: Massas de Ar no Inverno

https://suburbanodigital.blogspot.com/2016/02/mapa-das-massas-de-ar-que-atuam-no-brasil-no-inverno.html

Note que as massas de ar equatoriais e tropicais têm sua ação atenuada no inverno em razão do
avanço da Massa Polar Atlântica.

Massa Equatorial Atlântica (mEa): quente e úmida;


Massa Equatorial Continental (mEc): quente e úmida (apesar de continental, é úmida por se originar
na Amazônia);
Massa Tropical Atlântica (mTa): quente e úmida;
Massa Tropical Continental (mTc): quente e seca;
Massa Polar Atlântica (mPa): fria e úmida.

Existem vários mapas de classificação climática, elaborados com diferentes critérios. A classificação
climática representada no mapa a seguir foi elaborada pelo IBGE. Ela foi organizada com base na
medição sistemática da temperatura e nos índices pluviométricos em estações meteorológicas
espalhadas pelo país.

https://slideplayer.com.br/slide/3796349/

125
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Questões

01. (DPE/AM – Assistente Técnico de Defensoria – FCC/2018) Em virtude do tamanho do território


brasileiro são identificados diversos tipos de climas. O tipo de clima que se caracteriza por temperaturas
elevadas em boa parte do ano, com média de 24 °C, amplitude térmica que oscila entre 5 °C e 6 °C ao
ano e quantidade de chuvas gira em torno de 1.500 mm ao ano, com duas estações bem definidas: uma
seca (maio a setembro) a outra chuvosa (outubro a abril) é o clima
(A) Equatorial
(B) Tropical
(C) Tropical úmido
(D) Semiárido
(E) Subtropical

02. (CRQ/19R/PB – Coordenador Administrativo – Educa/2017) O extenso território brasileiro, a


diversidade de formas de relevo, a altitude e dinâmica das correntes e massas de ar, possibilitam uma
grande diversidade de climas no Brasil.
Dentre as características dos climas do Brasil é CORRETO afirmar que:
I. O Clima Semiárido está presente, principalmente, no sertão nordestino, caracteriza-se pela baixa
umidade e pouquíssima quantidade de chuvas. As temperaturas são altas durante quase todo o ano.
II. Clima Subtropical apresenta médias de temperaturas mais baixas que o clima tropical, ficando entre
15º e 22º C. Este clima é predominante nas partes altas do Planalto Atlântico do Sudeste, estendendo-se
pelo centro de São Paulo, centro-sul de Minas Gerais e pelas regiões serranas do Rio de Janeiro e Espírito
Santo.
III. Clima Equatorial encontra-se na região da Amazônia. As temperaturas são elevadas durante quase
todo o ano. Chuvas em grande quantidade, com índice pluviométrico acima de 2500 mm anuais.
Está(ão) CORRETAS:
(A) I apenas.
(B) I e II apenas.
(C) III apenas.
(D) I e III apenas.
(E) II e III apenas.

Gabarito

01.B / 02.D

Comentários

01. Resposta: B
O clima tropical influencia grande parte do centro do país, especialmente os estados do Centro-Oeste,
incluindo ainda partes do Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia e Minas Gerais. Em geral, as temperaturas são
elevadas em boa parte do ano, com média de 24°C, e a amplitude térmica oscila entre 5°C e 6°C ao ano.
A quantidade de chuvas gira em torno de 1 500 mm ao ano, com duas estações bem definidas: uma seca
(maio a setembro) e outra chuvosa (outubro a abril).

02. Resposta: D
O clima subtropical é o único domínio climático brasileiro que se encontra fora da faixa tropical, ou
seja, localizado ao sul do Trópico de Capricórnio. É possível encontrá-lo no sul do estado de São Paulo
e nos três estados da região sul do país.

BIOMAS E FORMAÇÕES VEGETAIS37

As formações vegetais são tipos de vegetação facilmente identificáveis na paisagem e que ocupam
extensas áreas. É o elemento mais evidente na classificação dos biomas. Estes, por sua vez, são
sistemas em que solo, clima, relevo, fauna e demais elementos da natureza interagem entre si formando
tipos semelhantes de cobertura vegetal, como as Florestas Tropicais, as Florestas Temperadas, as

37
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Pradarias, os Desertos e as Tundras. Em escala planetária, os biomas são unidades que evidenciam
grande homogeneidade nas características de seus elementos.
Assim, há Florestas Tropicais na América, África, Ásia e Oceania que, embora semelhantes, possuem
comunidades ecológicas com exemplares distintos. Alguns desses exemplares são chamados de
endêmicos, ou seja, não ocorrem em nenhuma outra área do mundo. Entre outros fatores, isso se explica
pela separação dos continentes: o afastamento físico fez com que as espécies vivessem evoluções
paralelas, apesar de distintas, processo que é chamado especiação.
As plantas e os animais de um mesmo bioma não estão presentes, necessariamente, em diferentes
regiões do planeta. Exemplo: o chimpanzé é encontrado na Floresta Tropical de Uganda, mas não
compõe a fauna das Florestas Tropicais sul-americanas. Por outro lado, várias espécies endêmicas de
nosso continente não são encontradas nas florestas africanas, como é o caso do mico-leão-dourado,
originário da Mata Atlântica brasileira.

Principais Características das Formações Vegetais

A formação vegetal é o elemento mais evidente na classificação dos ecossistemas e biomas, por isso,
e dependendo da escala utilizada em sua representação, são feitas grandes generalizações.
Os elementos climáticos, em especial a temperatura e a umidade, são determinantes para o tipo de
vegetação de uma área. Eles definem diversas características das plantas, necessárias à adaptação aos
diferentes climas. Com base nessas características é possível classificar as plantas em:
Perenes (do latim perene, “perpétuo, imperecível”): plantas que apresentam folhas durante o ano todo;
Caducifólias, decíduas (do latim deciduus, “que cai, caduco”) ou estacionais: plantas que perdem
as folhas em épocas muito frias ou secas do ano;
Esclerófilas (do grego sklerós, “duro, seco, difícil”): plantas com folhas duras, que têm consistência
de couro (coriáceas);
Xerófilas (do grego xêrós, “seco, descarnado, magro”): plantas adaptadas à aridez;
Higrófilas (do grego hygrós, “úmido, molhado”): plantas, geralmente perenes, adaptadas a muita
umidade;
Tropófilas (do grego tropos, “volta, giro”): plantas adaptadas a uma estação seca e outra úmida;
Aciculifoliadas (do latim acicula, “alfinete, agulhinha”): possuem folhas em forma de agulhas, como
os pinheiros. Quanto menor a superfície das folhas, menos intensa é a transpiração e maior é a retenção
de água pela planta;
Latifoliadas (do latim lato, “lrgo, amplo”): plantas de folhas largas, que permitem intensa transpiração;
são geralmente nativas de regiões muito úmidas.
Os índices termopluviométricos, associados a outros fatores de variação espacial menor e que também
influem no tipo de vegetação, como maior ou menor proximidade de curso de água, os diferentes tipos de
solo, a topografia e as variações de altitude, determinam a existência de diferentes ecossistemas não
contemplados nos mapas-múndi. Todas as formações vegetais têm grande importância para a
preservação dos variados biomas e ecossistemas da Terra.

Cobertura Vegetal Original

Tundra
Vegetação rasteira, de ciclo vegetativo extremamente curto. Por encontrar-se em regiões subpolares,
desenvolve-se apenas durante os três meses de verão, nos locais onde ocorre o degelo. Um exemplo
disso é o rio na Groelândia que se forma nessa estação, com o derretimento da neve. As espécies típicas
são os musgos, nas baixadas úmidas, e os líquens, nas porções mais elevadas do terreno, onde o solo
é mais seco, aparecendo raramente pequenos arbustos.

Floresta Boreal (Taiga)


Formação florestal típica da Zona temperada. Ocorre nas altas latitudes do hemisfério norte, em
regiões de climas temperados continentais, como Canadá, Suécia, Finlândia e Rússia. Neste último país,
cobre mais da metade do território e é conhecida como Taiga. É uma formação bastante homogênea, na
qual predominam coníferas do tipo pinheiro. As coníferas são espécies adaptadas à ocorrência de neve
no inverno; são aciculifoliadas e com árvores em forma de cone, o que facilita o deslizamento da neve
por suas copas. Essa formação florestal foi largamente explorada para ser usada como lenha e para a
fabricação de papel e móveis. Atualmente, a madeira é obtida de árvores cultivadas (silvicultura).

127
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Floresta Subtropical e Temperada
Esta formação florestal caducifólia, típica dos climas temperados e subtropicais, é encontrada em
latitudes mais baixas e sob maior influência da maritimidade. Estendia-se por grandes porções da Europa
centro-ocidental, mas por causa de atividades agropecuárias, atualmente subsiste na Ásia, na América
do Norte e em pequenas extensões da América do Sul e da Oceania. Na Europa, restam apenas
pequenas extensões, com a floresta Negra, na Alemanha, e a floresta de Sherwood, na Inglaterra.

Floresta Equatorial e Tropical


Nas regiões tropicais quentes e úmidas, encontramos florestas que se desenvolvem graças aos
elevados índices pluviométricos. São, por isso, formações higrófilas e latifoliadas, extremamente
heterogêneas, que se localizam em baixas latitudes na América, na África e na Ásia. Nessas regiões
predominam climas tropicais e equatoriais e espécies vegetais de grande e médio portes, como o mogno,
o jacarandá, a castanheira, o cedro, a imbuia e a peroba, além de palmáceas, arbustos, briófitas e
bromélias. As Florestas Tropicais possuem a maior biodiversidade do planeta, com muitas espécies ainda
desconhecidas.

Mediterrânea
Desenvolve-se em regiões de clima mediterrâneo, que apresentam verões quentes e secos e invernos
amenos e chuvosos. É encontrada em pequenas porções da Califórnia (Estados Unidos, onde é
conhecida como Chaparral), do Chile, da África do Sul e da Austrália. As maiores ocorrências estão no
sul da Europa, onde foi largamente desmatada para o cultivo de oliveiras (espécie nativa dessa formação
vegetal) e videiras (nativas da Ásia), e norte da África.

Pradarias
Compostas basicamente de gramíneas, são encontradas principalmente em regiões de clima
temperado continental. Desenvolvem-se na Rússia e Ásia central, nas Grandes Planícies norte-
americanas, nos Pampas argentinos, no Uruguai, na região Sul do Brasil e na Grande Bacia Artesiana
(Austrália). Muito usada como pastagem, essa formação é importante por enriquecer o solo com matéria
orgânica.

Estepes
Nessas formações a vegetação é herbácea, como nas Pradarias, porém mais esparsa e ressecada.
As Estepes desenvolvem-se em uma faixa de transição entre climas tropicais e desérticos, como na região
do Sahel, na África, e entre climas temperados e desérticos, como na Ásia central. Essa vegetação foi
muito degradada por atividades econômicas, como o pastoreio.

Deserto
Bioma cujas espécies vegetais estão adaptadas à escassez de água em regiões de índice
pluviométrico inferior a 250 mm anuais, como nos desertos da América, África, Ásia e Oceania. Apresenta
espécies vegetais xerófilas, destacando-se as cactáceas. Algumas dessas plantas são suculentas
(armazenam água no caule) e não possuem folhas ou evoluíram para espinhos, reduzindo a perda de
água pela evapotranspiração. No Saara, em lugares em que a água aflora à superfície, surgem os oásis.

Savana
Em regiões onde o índice de chuvas é elevado, porém concentrado em poucos meses do ano, podem
desenvolver-se as Savanas, formação vegetal complexa que apresenta estratos arbóreo, arbustivo e
herbáceo. As Savanas são encontradas em grandes extensões da África, na América do Sul (no Brasil,
corresponde ao domínio dos Cerrados) e em menores porções na Austrália e na Índia. Sua área de
abrangência tem sido muito utilizada para a agricultura e a pecuária, o que acentuou sua devastação,
como tem ocorrido no Brasil central. No continente africano, esse bioma abriga animais de grande porte,
como leões, elefantes, girafas, zebras, antílopes e búfalos.

Vegetação de Altitude
Em regiões montanhosas há uma grande variação altitudinal da vegetação. À medida que aumenta a
altitude e diminui a temperatura, os solos ficam mais rasos e a vegetação, mais esparsa. Nessas
condições, surgem as florestas nas áreas mais baixas e, nas mais altas, os campos de altitude.

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A Vegetação e os Impactos do Desmatamento

Impacto ambiental é um desequilíbrio provocado pela ação dos seres humanos sobre o meio ambiente
ou por acidentes naturais, como a erupção de um vulcão (que pode provocar poluição atmosférica), o
choque de um meteoro (destruição de espécies animais e vegetais), um raio (incêndio numa floresta),
etc.
Quando os ecossistemas sofrem impactos ambientais, geralmente a vegetação é o primeiro elemento
a ser atingido, pois é reflexo das condições naturais de solo, relevo e clima do lugar em que ocorre.
Atualmente, todas as formações vegetais, em maior ou menor grau, encontram-se modificadas. Em
muitos casos, sobraram apenas alguns redutos em que a vegetação original é encontrada, nos quais,
embora com pequenas alterações, ainda preserva suas características principais. Essa devastação deve-
se basicamente a interesses econômicos.
A primeira consequência do desmatamento é o comprometimento da biodiversidade, por causa da
diminuição ou, muitas vezes, da extinção de espécies vegetais e animais, muitas delas ainda nem
descobertas e estudadas.
Na Floresta Amazônica, há uma grande quantidade de espécies endêmicas. Parte desse patrimônio
genético é conhecida pelas várias etnias indígenas que ali habitam. No entanto, a maioria dessas
comunidades nativas está sofrendo um processo de integração à sociedade urbano-industrial que tem
levado à perda do patrimônio cultural desses povos, dificultando a preservação dos seus conhecimentos.
Outro ponto importante que afeta os interesses nacionais dos países onde há florestas tropicais, incluindo
o Brasil, é a biopirataria, por meio da qual muitas empresas assumem práticas ilegais para garantir o
direito de explorar, futuramente, uma possível matéria-prima para a indústria farmacêutica e de
cosméticos, entre outras.
No Brasil, os incêndios ou queimadas de florestas, que consomem uma quantidade incalculável de
biomassa38 todos os anos, são provocados para o desenvolvimento de atividades agropecuárias, muitas
vezes em grandes projetos que recebem incentivos governamentais e, portanto, sob o amparo da lei.
Podem também ser resultado de práticas criminosas ou ainda de acidentes, incluindo naturais.
As consequências socioambientais das interferências humanas em regiões de florestas são várias.
Uma das principais é o aumento do processo erosivo, o que leva a um empobrecimento dos solos,
podendo ampliar ou formar áreas desertificadas em regiões de clima árido, semiárido e subúmido.

Biomas e Formações Vegetais do Brasil

Nosso país apresenta grande variedade de ecossistemas. Essa variedade relaciona-se à grande
diversidade da fauna e da flora brasileiras, das quais muitas espécies são nativas do Brasil, como a
jabuticaba, o amendoim, o abacaxi e a castanha-do-pará. No entanto, esses ecossistemas já sofreram
grandes impactos negativos desde o início da colonização, com o desenvolvimento das atividades
econômicas e a consequente ocupação do território, como se pode constatar ao comparar os dois mapas
abaixo.

Brasil: vegetação nativa

http://www.inf.furb.br/sisga/educacao/ensino/mapaVegetacao.php

38
Biomassa é a quantidade total de matéria viva de um ecossistema, geralmente expressa em massa por unidade de área ou de volume.

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Brasil: retratação da vegetação e da cobertura atual39

https://www.nerdprofessor.com.br/mapa-vegetacao-do-brasil/

Características das Formações Vegetais Brasileiras

As principais formações vegetais no território brasileiro são:


Floresta Amazônica (floresta pluvial equatorial): é a maior floresta tropical do mundo, totalizando
cerca de 40% das florestas pluviais tropicais do planeta. No Brasil, ela se estende por 3,7 milhões de km²
e 10% dessa área constitui unidades de conservação. Cerca de 15% da vegetação da Floresta Amazônica
foi desmatada, sobretudo a partir da década de 1970 com a construção de rodovias e a instalação de
atividades mineradoras, garimpeiras, agrícolas e de exploração madeireira. Em razão do predomínio das
planícies e dos planaltos de baixa altitude, a topografia não provoca modificações profundas na fisionomia
da floresta, que apresenta três estratos de vegetação:
→ Caaigapó (do tupi-guarani, “mata molhada”) ou igapó: desenvolveu-se ao longo dos rios, numa
área permanentemente alagada. Em comparação com os outros estratos da floresta é o que possui
menos quantidade de espécies e é constituído por árvores de menor porte, incluindo palmeias e plantas
aquáticas, destacando-se a vitória-régia;
→ Várzea: área sujeita a inundações periódicas, com a vegetação de médio porte raramente
ultrapassando os 20 m de altura, como o pau-mulato e a seringueira. Como se situa entre a matas de
igapó e de terra firme, possui características de ambas;
→ Caaetê (do tupi-guarani, “mata seca”) ou terra firme: área que nunca inunda, na qual se encontra
vegetação de grande porte, com árvores chegando aos 60 m de altura, como a castanheiro-do-pará e o
cedro. O entrelaçamento das copas das árvores forma um dossel que dificulta a penetração da luz,
propiciando um ambiente não exposto ao sol e úmido no interior da floresta.

Mata Atlântica (floresta pluvial tropical): originalmente cobria uma área de 1 milhão de km²,
estendendo-se ao longo do litoral desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul e alargando-se
para o interior em Minas Gerais e São Paulo. É um dos biomas mais importantes para a preservação da
biodiversidade brasileira e mundial, mas é também o mais ameaçado. Restam apenas 7%de sua área
original e, desses remanescentes, quatro quintos estão localizados em propriedades privadas. As
unidades de conservação abrangendo esse bioma constituem apenas 2%.

Mata de Araucárias ou Mata dos Pinhais (floresta pluvial subtropical): nativa do Brasil, é uma floresta
na qual predomina a araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinheiro-do-paraná ou
pinheiro brasileiro, espécie adaptada a climas de temperaturas moderadas a baixas no inverno, solos
férteis e índice pluviométrico superior a 1000 mm anuais. Nesse bioma é comum a ocorrência de erva-
mate, além de grande variedade de espécies valorizadas pela indústria madeireira, como os ipês.
Originariamente, essa floresta dominava vastas extensões dos planaltos da região Sul e pontos altos da

39
Em geografia e ecologia, a antropização é a conversão de espaços abertos, paisagens e ambientes naturais pela ação humana.

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serra da Mantiqueira nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Foi desmatada,
sobretudo, para a retirada de madeira utilizada na fabricação de móveis.

Mata dos Cocais: esta formação vegetal se localiza no estado do Maranhão, encravada entre a
Floresta Amazônica, o Cerrado e a Caatinga, caracterizando-se como mata de transição entre formações
bastante distintas. É constituída por palmeiras, com grande predominância do babaçu e ocorrência
esporádica de carnaúba; desde o período colonial, a região é explorada economicamente pelo
extrativismo de óleo de babaçu e cera de carnaúba. Atualmente, porém, vem sendo desmatada para o
cultivo de grãos destinados à exportação, com destaque para a soja.

Caatinga: vegetação xerófila, adaptada ao clima semiárido do Sertão nordestino, na qual predominam
arbustos caducifólios e espinhosos; ocorreram também cactáceas, como o xique-xique e o mandacaru. A
palavra “caatinga” significa, em tupi-guarani, “mata branca”, cor predominante da vegetação durante a
estação seca. No verão, em razão da ocorrência de chuvas, brotam folhas verdes e flores. Sua área
original era de 740 mil km², mas já teve 50% de sua área devastada e menos de 1% faz parte de unidades
de conservação.

Cerrado: originalmente cobria cerca de 2 milhões de km² do território brasileiro, mas cerca de 40% de
sua área foi desmatada. É constituído por vegetação caducifólia, predominantemente arbustiva, de raízes
profundas, galhos retorcidos e casca grossa (que dificulta a perda de água). Duas das espécies mais
conhecidas são o pequizeiro e o buriti. A vegetação próxima ao solo é composta de gramíneas, que
secam no período de estiagem. É uma formação adaptada ao clima tropical típico, com chuvas
abundantes no verão e inverno seco, desenvolvendo-se, sobretudo, no Centro-Oeste brasileiro e em
porções significativas do estado de Roraima. Nas regiões Sudeste e Nordeste do país aparecem em
manchas isoladas, cercadas por outro tipo de vegetação. Em regiões mais úmidas, essa formação se
torna mais densa e com árvores maiores, caracterizando o chamado “cerradão”.

Pantanal: estende-se, em território brasileiro, por 140 mil km² dos estados de Mato Grosso do Sul e
Mato Grosso, em planícies sujeitas a inundações. No Pantanal há vegetação rasteira, floresta tropical e
até mesmo vegetação típica do Cerrado nas regiões de maior altitude. Por isso caracteriza-se não como
uma formação vegetal, mas como um complexo que agrupa várias formações, com fauna muito rica. Esse
bioma vem sofrendo diversos problemas ambientais, decorrentes principalmente da ocupação em regiões
mais altas, onde nasce a maioria dos rios. A agricultura e a pecuária provocam erosão dos solos,
assoreamento e contaminação dos rios por agrotóxicos.
Campos Naturais: formações rasteiras ou herbáceas constituídas por gramíneas que atingem até 60
cm de altura. Sua origem pode estar associada a solos rasos ou temperaturas baixas em regiões de
altitude elevada, áreas sujeitas à inundação periódica ou ainda solos arenosos. Os campos mais
expressivos do Brasil localizam-se no Rio Grande do Sul, na chamada Campanha Gaúcha, apropriados
inicialmente como pastagem natural, atualmente são amplamente cultivados tanto dessa forma quanto
para a produção agrícola mecanizada. Destacam-se, ainda, os campos inundáveis da ilha de Marajó (PA)
e do Pantanal (MT e MS), utilizados, respectivamente, para criação de gado bubalino e bovino, além de
manchas isoladas na Amazônia, com destaque ao estado de Roraima, e nas regiões serranas do Sudeste.

Vegetação Litorânea: a restinga e os manguezais são consideradas formações vegetais litorâneas.


A restinga se desenvolve no cordão arenoso formado junto à costa, com predominância da vegetação
rasteira, chamada de pioneira por possibilitar a fixação do solo e permitir a ocupação posterior de arbustos
e algumas árvores. Os manguezais são nichos ecológicos responsáveis pela reprodução de grande
número de espécies de peixes, moluscos e crustáceos. Desenvolvem-se nos estuários, e a vegetação,
arbustiva e arbórea, é halófila (adaptada ao sal da água do mar), podendo apresentar raízes que, durante
a maré baixa, ficam expostas. As principais ameaças à preservação dessas formações vegetais são o
avanço da urbanização, a pesca predatória, a poluição dos estuários e o turismo desordenado,
incentivando a instalação de aterros.

Matas de Galeria (Ciliar) e Capão


Podemos encontrar pequenas formações florestais em meio a outros tipos de vegetação, tai como:
Mata de Galeria ou Mata Ciliar: tipo de formação vegetal que acompanha o curso de rios do Cerrado,
onde é muito frequente, e da Caatinga. Nas áreas próximas às margens dos rios perenes, o solo é
permanentemente úmido, criando condições para o desenvolvimento dessa mata, mais densa do que o
bioma onde está encravada.

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Capão: em locais que correspondem a pequenas depressões, com baixos índices de chuvas, o nível
hidrostático (ou lençol freático) aflora ou chega muito próximo à superfície. Aí se desenvolvem os capões,
formações arbóreas geralmente arredondadas em meio à vegetação mais rala ou rasteira.

Domínios Morfoclimáticos

Brasil: Domínios Morfoclimáticos

http://educacao.globo.com/geografia/assunto/geografia-fisica/dominios-morfoclimaticos.html

Em 1965, o geógrafo Aziz Ab’Sáber (1924-2012) estabeleceu uma classificação dos domínios
morfoclimáticos brasileiros, na qual cada domínio corresponde a uma diferente associação das condições
de relevo, clima e vegetação. Assim, por exemplo, o domínio equatorial amazônico é formado por terras
baixas (relevo), florestadas (vegetação) e equatoriais (clima).

Legislação Ambiental e Unidades de Conservação

A expressão “meio ambiente” envolve todas as dimensões que tornam a vida das pessoas mais
saudáveis e equilibrada, como a qualidade do ar e o conforto acústico. Essa expressão, portanto, engloba
tanto o meio ambiente natural quanto o cultural.
A legislação brasileira relativa ao meio ambiente é ampla e bem elaborada. Os problemas ambientais
que observamos com frequência, amplamente divulgados pelos meios de comunicação, não resultam da
limitação da legislação, mas da ineficiência de ações educativas e de fiscalização.

Histórico das Leis Ambientais Brasileiras


Ao longo dos períodos colonial e imperial de nossa história, foram elaboradas algumas leis voltadas à
proteção do meio ambiente, mas elas tinham abrangência restrita, como a proteção ao pau-brasil e a
algumas espécies animais. Já no período republicano, em 1911, foi criada a primeira reserva florestal do
país, onde atualmente se encontra o estado do Acre; em 1921 foi criado o Serviço Florestal do Brasil, que
hoje é o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); e em 1934 foi aprovada
a primeira versão do Código Florestal.
Durante o período da ditadura militar (1964-1985), foram criados projetos de ocupação humana e
econômica das regiões Norte e Centro-Oeste que provocaram grandes impactos negativos ao meio
ambiente. Esses projetos previam a expansão da agricultura e a criação de gado em áreas de floresta e
a prática de garimpo, mineração e extração de madeira, instituída com a abertura das rodovias de
integração.
Como os impactos, principalmente na Floresta Amazônica, trouxeram repercussão negativa em escala
mundial, em 1974 o governo brasileiro promoveu mudanças de estratégia, implantando ações de proteção
ambiental: combate à erosão, criação das Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental, metas
para o zoneamento industrial e criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente.
Em 1979, foi criado o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que instituiu, em 1981, a Política
Nacional do Meio Ambiente (PNMA, Lei nº 6.938). Essa lei promoveu um grande avanço ao apresentar
as bases para a proteção ambiental e conceituar expressões como “meio ambiente”, “poluidor”, “poluição”
e “recursos naturais”. A PNMA busca a preservação e a recuperação das áreas ambientalmente

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degradadas, visando garantir condições de desenvolvimento social e econômico, e segurança nacional e
a proteção da dignidade da vida humana. A partir de sua publicação se instituiu que o meio ambiente é
um bem público a ser resguardado e protegido, em prol da coletividade.
Em 1986, o Conama publicou uma resolução sobre o tema, em que se destaca a exigência de
elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), de caráter técnico e detalhista, e do seu respectivo
Relatório de Impacto Ambiental (Rima), menos detalhado e acessível aos que não são especialistas na
área. Esses dois documentos são necessários para o licenciamento e a autorização expedidos pelo Ibama
para a realização de qualquer obra ou atividade que provoque impactos ambientais.
Outro grande destaque na evolução do Direito Ambiental Brasileiro foi atingido com a Constituição
Federal de 1988, a primeira de nossa história a dedicar um capítulo ao esse tema e a incorporar o conceito
de desenvolvimento sustentável. Ela estabelece, no artigo 225, que “Todos tem direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-
se ao poder público e à coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações”. O parágrafo terceiro desse mesmo artigo estipula que: “As condutas e atividades consideradas
lesivas ao meio ambiente sujeitarão aos infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”.
A previsão de sanções penais significa a criminalização das atividades prejudiciais ao meio ambiente,
o que foi regulamentado somente dez anos depois, em 1998, com a Lei nº 9.605. Conhecida como a Lei
dos Crimes Ambientais, ela define os crimes contra a fauna e aflora, além dos relacionados à poluição,
ao ordenamento urbano, ao patrimônio cultural e outros. Quem comete agressões ambientais como
desmatamento, poluição do ar ou de águas, ou falsificação de Relatório de Impacto Ambiental, é punido
com multa, proibição de exercício de certas atividades e até mesmo prisão.

Código Florestal
O Código Florestal foi criado em 1934 e reformulado duas vezes: em 1965 e em 2012 (Lei nº
12.561/12). Neste ano houve muitos embates entre ambientalistas, que queriam ampliar as áreas de
preservação e a obrigação de recompor o que foi desmatado irregularmente, e grandes proprietários, que
queriam autorização para ampliar as áreas de agricultura e pecuária sem recompor os biomas. Esta é
uma das mais importantes leis ambientais do país e estabelece a normas de ocupação e uso do solo em
todos os biomas brasileiros. Os incisos II e III do artigo 1º, parágrafo 2º, merecem destaque, pois definem
as áreas de preservação e as reservas legais:
Áreas de Preservação Permanente (APPs): só podem ser desmatadas com autorização do Poder
Executivo Federal e em caso de uso para utilidade pública ou interesse social, como a construção de uma
rodovia, por exemplo. São a margens de rios, lagos ou nascentes, várzeas, encostas íngremes, mangues
e outros ambientes. A principal função das APPs é preservar a disponibilidade de água, a paisagem, o
solo e a biodiversidade.
Reservas Legais: em cada um dos sete biomas brasileiros, os proprietários de terras são obrigados
a preservar uma parte da vegetação nativa. Na Amazônia, são obrigados a manter 80% da propriedade
com floresta nativa, índice que cai para 35% no Cerrado localizado dentro da Amazônia a 20% em todas
as demais regiões e biomas do país. É importante notar que o Código Florestal rege apenas as
propriedades que podem ser utilizadas para atividades agrícolas, e não se aplica, portanto, no interior das
unidades de conservação, como os parques e as reservas ecológicas.

As Unidades de Conservação
As unidades de conservação são doze áreas de preservação agrupadas conforme a restrição ao
uso. As unidades classificadas como de restrição total são denominadas Unidades de Proteção Integral,
como o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, Rio de Janeiro, por exemplo. Aquelas
cujo nível de restrição é menor e têm uso voltado ao desenvolvimento cultural, educacional e recreacional
são denominadas Unidades de Uso Sustentável.

Unidades de Conservação conforme a Restrição ao Uso


Unidades de Proteção Integral Unidades de Uso Sustentável
Estação Ecológica Área de Proteção Ambiental
Reserva Biológica Área de Relevante Interesse Ecológico
Parque Nacional Floresta Nacional
Monumento Natural Reserva Extrativista
Refúgio de Vida Silvestre Reserva de Fauna
Reserva de Desenvolvimento Sustentável
Reserva Particular do Patrimônio Natural

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Existem unidades de conservação definidas pela Ibama em todos os biomas brasileiros, inclusive nos
biomas marinhos. Há também unidades de conservação mantidas por estados e até por municípios,
criadas por leis estaduais e municipais.
É importante destacar que a criação de leis, decretos e normas voltados à questão ambiental ao longo
da história brasileira é consequência do aumento da importância do tema no mundo e no Brasil. Essa
evolução deu-se de forma lenta, mas contínua. Esse processo foi influenciado pelas conquistas obtidas
em âmbito internacional nas diversas conferências mundiais voltadas ao meio ambiente, e parte da
sociedade civil brasileira cumpriu um importante papel ao pressionar os governos legisladores em aprovar
leis eficazes e incluir o tema na própria Constituição do país.

Objetivos das Unidades de Conservação


O Código Florestal, como várias outras leis que se seguiram, serviu de base para a criação do Sistema
Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, que têm como propósitos:
Contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional
e nas águas jurisdicionais;
Proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional;
Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais;
Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais;
Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de
desenvolvimento;
Proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica;
Proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica,
arqueológica, paleontológica e cultural;
Proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos;
Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;
Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento
ambiental;
Valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica;
Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com
a natureza e o turismo ecológico;
Proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando e
valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.

Questões

01. (PC/ES – Perito – Instituto AOCP/2019) A respeito da caracterização ambiental dos biomas
brasileiros, é correto afirmar que
(A) as vegetações que mais caracterizam o bioma Mata Atlântica são a floresta ombrófila densa e a
floresta ombrófila aberta.
(B) o bioma pantanal possui formação vegetacional predominante do tipo savana, sendo um mosaico
de campos (31%), cerradão (22%), cerrado (14%), campos inundáveis (7%), floresta semidecídua (4%),
mata de galeria (2,4%) e tapetes de vegetação flutuante (2,4%).
(C) o bioma amazônico é composto por diversidade de formações florestais, como floresta ombrófila
(densa, mista e aberta), mata estacional semidecidual e estacional decidual, manguezais, restingas, entre
outros.
(D) o pampa é o segundo maior bioma do país e se caracteriza como uma formação do tipo savana
tropical, com destacada sazonalidade, apresentando fisionomias que englobam formações florestais,
savânicas e campestres.
(E) o bioma cerrado é um mosaico de arbustos espinhosos e florestas sazonalmente secas e, apesar
de ocupar uma região semiárida, é extremamente heterogêneo.

02. (PC/ES – Perito – Instituto AOCP/2019) Em relação à Legislação Ambiental Brasileira, assinale
a alternativa correta.
(A) Estação ecológica, reserva biológica, parque nacional e reserva de fauna são unidades de
conservação de uso sustentável.
(B) Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem em
ambiente natural ou cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros
naturais, são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou
apanha.

134
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
(C) Entende-se por Amazônia Legal os Estados do Acre, Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá
e Mato Grosso.
(D) Considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas
do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas
que, direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem-estar da população, as atividades
sociais e econômicas, a biota, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos
recursos ambientais.
(E) São instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos: o diagnóstico da situação atual dos
recursos hídricos, as prioridades para outorga de direitos de uso de recursos hídricos e as diretrizes e
critérios para a cobrança pelo uso dos recursos hídricos.

03. (ENEM) A Lei Federal nº 9.985/2000, que instituiu o sistema nacional de unidades de conservação,
define dois tipos de áreas protegidas. O primeiro, as unidades de proteção integral, tem por objetivo
preservar a natureza, admitindo-se apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, isto é, aquele que
não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais. O segundo, as unidades de uso
sustentável, tem por função compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela
dos recursos naturais. Nesse caso, permite-se a exploração do ambiente de maneira a garantir a
perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo-se a
biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável.
Considerando essas informações, analise a seguinte situação hipotética.
Ao discutir a aplicação de recursos disponíveis para o desenvolvimento de determinada região,
organizações civis, universidade e governo resolveram investir na utilização de uma unidade de proteção
integral, o Parque Nacional do Morro do Pindaré, e de uma unidade de uso sustentável, a Floresta
Nacional do Sabiá. Depois das discussões, a equipe resolveu levar adiante três projetos:
→ o projeto I consiste de pesquisas científicas embasadas exclusivamente na observação de animais;
→ o projeto II inclui a construção de uma escola e de um centro de vivência;
→ o projeto III promove a organização de uma comunidade extrativista que poderá coletar e explorar
comercialmente frutas e sementes nativas.
Nessa situação hipotética, atendendo-se à lei mencionada acima, é possível desenvolver tanto na
unidade de proteção integral quanto na de uso sustentável:
(A) apenas o projeto I.
(B) apenas o projeto III.
(C) apenas os projetos I e II.
(D) apenas os projetos II e III.
(E) todos os três projetos.

Gabarito

01.B / 02.D / 03.A

Comentário

01. Resposta: B
O Pantanal estende-se em planícies sujeitas a inundações. Há vegetação rasteira, floresta tropical e
até mesmo vegetação típica do Cerrado nas regiões de maior altitude. Por isso caracteriza-se não como
uma formação vegetal, mas como um complexo que agrupa várias formações, com fauna muito rica.

02. Resposta: D
Impacto ambiental é um desequilíbrio provocado pela ação dos seres humanos sobre o meio ambiente
ou por acidentes naturais.

03. Resposta: A
O projeto envolve apenas observação de animais por pequena quantidade de pesquisadores e não
provoca consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais, sendo, portanto, o único permitido
em Unidades de Proteção Integral. Os projetos II e III compatibilizam a conservação da natureza com o
uso sustentável de parcela dos recursos naturais, sendo permitidos apenas em Unidades de Usos
Sustentável.

135
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
HIDROGRAFIA DO BRASIL40

A distribuição das reservas de água no planeta é muito desigual. Enquanto em alguns desertos o índice
de chuvas chega próximo de zero, ele supera 3 mil milímetros por ano em algumas regiões tropicais.
Além disso, quase 96% da água está nos oceanos e mares e, portanto, só pode ser utilizada após
dessalinização, processo bastante caro. Em relação à água doce, somente cerca de 1/3 está disponível
na superfície e no subsolo; o restante é constituído por geleiras e neves, portanto, de difícil utilização.

As Águas Subterrâneas

No estudo das águas correntes, paradas, oceânicas e subterrâneas, é importante considerar, de início,
a água que provém da atmosfera. Ao entrar em contato com a superfície, a água das chuvas pode seguir
três caminhos: escoar, infiltrar no solo ou evaporar. Por meio da evaporação, ela retorna à atmosfera. Já
a água que se infiltra no solo e a que escoa pela superfície dirigem-se, pela ação da gravidade, às
depressões ou às partes mais baixas do relevo, alimentando córregos, rios, lagos, oceanos ou aquíferos41.
Nos períodos mais chuvosos, o nível freático42 dos aquíferos se eleva, e, na época de estiagem,
abaixa. Ao cavar um poço, encontra-se água assim que o nível freático é atingido.
Quando o nível freático atinge a superfície, aparecem as nascentes dos rios. Em algumas regiões,
principalmente nas tropicais semiúmidas e nas temperadas, o lençol freático abastece os rios em época
de estiagem (nesse caso, os rios são chamados efluentes). Em outras, como nas regiões semidesérticas,
são os rios que abastecem de água o solo quando chega a época da estiagem (rios influentes).
A água subterrânea é muito importante para a vegetação e para o abastecimento humano. Em regiões
de clima árido e semiárido, ela pode ser o principal recurso hídrico disponível para a população e, às
vezes, o único. Estima-se que metade da população mundial utilize a água subterrânea para suas
necessidades diárias de consumo.
Por exemplo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a população da Arábia Saudita, Dinamarca
e Malta é abastecida exclusivamente por águas subterrâneas, enquanto França, Itália, Alemanha, Suíça,
Áustria, Holanda, Marrocos e Rússia têm 70% de seu abastecimento obtido dessa forma. Em diversos
municípios do Brasil, como Ribeirão Preto (SP), Maceió (AL), Mossoró (RN) e Manaus (AM), entre outros,
as águas subterrâneas são amplamente utilizadas.
O aquífero Grande Amazônia é um reservatório de água subterrânea que ocupa áreas do Brasil, do
Equador, da Colômbia e do Peru. Tem uma extensão de 3950000 km² e engloba os aquíferos Solimões,
Içá e Alter do Chão, com uma extensão três vezes maior que o aquífero Guarani e, segundo estimativas,
com mais que o dobro de seu volume de água.

Poços e Fossas
Onde não há saneamento básico (água encanada e sistema de coleta de esgotos), as residências
costumam ser abastecidas com água de poços e o esgoto é despejado em fossas. Os poços são
cavidades circulares construídas para atingir um aquífero, podendo ser cavados manualmente ou por
meio de equipamentos que atinjam grandes profundidades. Quando a água do poço chega à superfície
do solo sem necessidade de bombeamento, esse poço é chamado artesiano.
Podemos encontrar três tipos de fossas: a fossa negra, a fossa seca e a fossa séptica. Das três, a
fossa séptica, graças às suas paredes impermeabilizadas, é a mais salubre, pois é a que oferece menos
risco de poluir os aquíferos. As paredes impermeabilizadas das fossas sépticas evitam a contaminação
dos solos e dos aquíferos, o que só acontece em casos de vazamentos.
A fossa negra é a mais condenável, pois geralmente é aberta a pequenas distâncias (entre 1,5 m e 20
m) dos lençóis freáticos ou dos poços, permitindo a contaminação da água. A fossa seca tem as mesmas
características da fossa negra, mas é construída a uma distância superior a 20 metros em relação ao
lençol freático.
As fossas sépticas constituem um aparelho sanitário por meio do qual os microrganismos presentes
nos desejos humanos transformam a matéria orgânica em substâncias minerais. Essas substâncias
podem, então, entrar em contanto com o solo e com o lençol freático sem o risco de contaminação.
Os poços até podem ser abertos próximos às fossas, mas eles devem ser perfurados em um local do
terreno mais alto, e a distância entre o poço e a fossa deve ser de, no mínimo, 10 m. Quando a fossa é

40
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.
41
Aquífero é a zona encharcada do subsolo, ou seja, camada de solo cujos poros encontram-se saturados de água. Os aquíferos podem ser profundos ou mais
próximos da superfície.
42
Lençol freático, também chamado de nível freático, é uma reserva subterrânea de águas provenientes das chuvas que se infiltram entre as fissuras da superfície.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
negra ou seca, ou, ainda, se é uma fossa séptica que apresenta vazamento, a água da chuva infiltra no
solo, atravessa a fossa e depois atinge o poço, poluindo-o.

Redes de Drenagem e Bacias Hidrográficas

Os maiores rios são pequenos córregos nas proximidades de suas nascentes. À medida que avançam
para a foz, isto é, de seu alto curso (ou montante) para o baixo curso (ou jusante), vão recebendo água
de seus afluentes. Com isso, ocorre um aumento gradativo no volume de água, aprofundando e/ou
alargando o leito do rio.
O leito do rio é o trecho recoberto pelas águas, sendo sua largura variável conforme a quantidade de
água existente no canal ao longo do ano. As margens são as partes laterais que demarcam o leito fluvial.
Tomando-se o sentido do escoamento das águas, ou seja, olhando em direção à jusante, distinguimos a
margem direita e a margem esquerda.
A variação na quantidade de água no leito do rio ao longo do ano recebe o nome de regime. Quando
o nível de água do rio está baixo, é a chamada vazante; quando o volume de água é elevado, ocorre a
cheia; e, se as águas subirem muito, alagando áreas no entorno do rio, ocorrem as enchentes.
Se a variação do nível das águas depende exclusivamente da chuva, dizemos que o rio tem regime
pluvial; se depende do derretimento de neve, o regime é nival; se depende de geleiras, é glacial. Muitos
rios apresentam regime misto ou complexo, como no Japão, onde são alimentados pela chuva e pelo
derretimento da neve das montanhas. No Brasil, apenas o rio Solimões-Amazonas tem esse regime, pois
uma pequena quantidade de suas áreas provém do derretimento de neve da cordilheira dos Andes, no
Peru, onde se localiza sua nascente. Todos os demais rios brasileiros possuem regime pluvial simples,
associado aos tipos climáticos regionais.
No período das cheias, a calha de muitos rios não suporta o escoamento de um volume maior de
chuvas e as águas passam a ocupar um leito maior, a várzea, também chamada planície de inundação.
A várzea pertence ao rio tanto quanto suas margens. Portanto, ocupar uma área de várzea significa
construir sobre uma parte integrante do rio onde podem ocorrer inundações periódicas.
As porções mais altas do relevo, sejam regiões serranas, planálticas, sejam simples colinas, funcionam
como divisores de águas, que delimitam as bacias hidrográficas. Por elas converge toda a água das
chuvas que escoa ao longo das vertentes (encostas do relevo) em direção aos seus pontos mais baixos,
os fundos dos vales, onde se localizam os córregos e os rios. Assim, as bacias hidrográficas são
constituídas pelas vertentes e pela rede de rios principais, afluentes e subafluentes, cujo conjunto forma
uma rede de drenagem43.
O volume de água de uma bacia hidrográfica depende dos solos, das rochas e principalmente do clima
da região. Na Amazônia, por exemplo, onde as longas estiagens são raras, os rios de maior porte são
perenes ou caudalosos, o que significa que nunca secam, porque possuem grande volume de água. Em
áreas de clima semiárido, os rios muitas vezes são intermitentes (ou temporários), secando no período
de estiagem.
Há, ainda, principalmente nos desertos, os cursos de água efêmeros, que se formam somente durante
a ocorrência de chuvas; quando as chuvas cessam, tais rios secam rapidamente.
Se um rio atravessa um deserto e é perene, isso indica que chove bastante na região de sua nascente
e em seu alto curso, e que a captação de sus águas ocorre fora da região árida. O rio Nilo, por exemplo,
nasce no lago Vitória, na região equatorial africana, onde chove muito; por esse motivo consegue
atravessar o deserto do Saara e desembocar no mar Mediterrâneo.
No Brasil, o rio São Francisco nasce na serra da Canastra (MG), uma área de clima tropical com
significativa captação de água, que permite ao rio atravessar o Sertão nordestino, onde o clima é
semiárido, e desembocar no oceano Atlântico.
A inter-relação existente entre os elementos da natureza é bastante evidente no interior das bacias
hidrográficas. Qualquer modificação que ocorra nessas bacias, como escorregamentos de terra, sulcos
ou outras formas de erosão nas vertentes, desmatamento, aumento das manchas urbanas, etc., altera a
quantidade de água que se infiltra no subsolo e alimenta os aquíferos, e altera também a quantidade de
sedimentos que são transportados para o leito dos rios. Como resultado, o processo de assoreamento
pode ser intensificado ou reduzido e as superfícies de inundação podem ser ampliadas ou diminuídas.
Outro problema que pode afetar os rios é a contaminação de suas águas por minérios, como aconteceu
com o rio Doce, no município de Mariana (MG), em 2015, por exemplo, após o rompimento de duas
barragens utilizadas para reter rejeitos sólidos e água durante o processo de mineração.

43
Rede de Drenagem é o traçado dos rios e demais cursos de água sobre o relevo.

137
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As bacias hidrográficas não são importantes apenas para a irrigação agrícola e o fornecimento de água
potável à população. Os rios de planalto que apresentam grande desnível ao longo de seu curso também
podem ser aproveitados para a produção de hidroeletricidade, com a construção de barragens. Caso se
queira propiciar a navegação nesses rios, é preciso construir eclusas para que as embarcações possam
passar de um nível a outro.
Os rios de planície, bem como os lagos, são facilmente navegáveis, desde que não se formem bancos
de areia em seu leito (comum em áreas onde o solo está exposto à erosão) e não ocorra grande
diminuição do nível das águas. Essas condições desfavoráveis podem impedir a navegação de
embarcações com maior calado (a parte da embarcação que fica abaixo do nível da água).
Os lagos são depressões do relevo preenchidas por água. Podem ser temporários ou permanentes e
ter diversas origens: movimentos tectônicos provocado o surgimento de depressões, movimento de
geleiras escavando vales, meandros que ficaram isolados do curso de um rio, pequenas depressões de
várzeas, crateras de vulcões, etc. em regiões de estrutura geológica antiga, como no território brasileiro,
a maioria das depressões já foi preenchida por sedimentos e tornaram-se bacias sedimentares.
Ao fim de um período de glaciação, as depressões escavadas pelo lento movimento das geleiras são
preenchidas pelas águas da chuva e dos rios, formando lagos glaciais, muito comuns no Canadá e nos
países escandinavos.

Bacias Hidrográficas Brasileiras

Em razão de sal grande extensão territorial e da predominância de climas úmidos, o Brasil possui uma
extensa e densa rede hidrográfica. Os rios brasileiros têm diversos usos, como o abastecimento urbano
e rural, a irrigação, o lazer e a pesca. O transporte fluvial, embora ainda pouco utilizado, vem adquirindo
cada vez mais importância no país, sobretudo na Bacia Platina, onde foi construída a hidrovia Tietê-
Paraná. Em regiões planálticas, nossos rios apresentam um grande potencial hidrelétrico (capacidade de
geração de energia).

Características da Hidrografia Brasileira


→ O Brasil não possui lagos tectônicos. Há somente lagos de várzeas (temporários, muito comuns no
Pantanal) e lagunas ou lagoas costeiras (formadas por restingas), além de centenas de represas e açudes
resultantes da construção de barragens.
→ Todos os rios brasileiros, com exceção do Amazonas, possuem regime simples pluvial.
→ Todos os rios do país são exorreicos (do grego exo, “fora”), ou seja, possuem drenagem que se
dirige ao oceano, para fora do continente. Mesmo os rios endorreicos (do grego endo, “dentro”), que
correm para o interior do continente, têm como destino final de suas águas o oceano, com acontece com
o Tietê, o Paranaíba e o Iguaçu, entre outros afluentes do rio Paraná, que desaguam no mar (no estuário44
do rio da Prata, entre o Uruguai e a Argentina). Observe a imagem abaixo da Foz em estuário do rio
Jucuruçu, em Prado (BA). A maioria dos rios brasileiros possui esse tipo de foz, ou seja, deságua
livremente no mar.

http://naturezadabahia.blogspot.com/2011/

→ Considerando-se os rios de maior porte, só encontramos regimes temporários no Sertão nordestino,


onde o clima é semiárido. No restante do país, os grandes rios são perenes.

44
Estuário é a foz de rio em encontro com o mar aberto, ocorrendo influência das marés e mistura de água salina do oceano com a água doce proveniente do
continente; a foz em estuário é livre, sem formação dos braços que caracterizam os deltas.

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→ Predominam os rios de planalto, muitos dos quais escoam por áreas de elevado índice
pluviométrico.
→ Em vários pontos do país há corredeiras, cascatas e, em algumas áreas, rios subterrâneos
(atravessando cavernas), o que favorece o turismo. Quedas d’água de grande porte desapareceram nos
últimos cinquenta anos com a construção de represas de hidrelétricas, como as cataratas de Sete
Quedas, no rio Iguaçu, que foram inundadas com a construção da usina de Itaipu.
→ Na região amazônica, os rios têm grande importância como vias de transporte, com destaque aos
rios Solimões/Amazonas, Madeira, Tapajós e Araguaia/Tocantins.

O mapa abaixo apresenta as principais bacias hidrográficas brasileiras. Elencamos suas


características mais importantes.

Bacias Hidrográficas Brasileiras

https://www.ana.gov.br/aguas-no-brasil/panorama-das-aguas/copy_of_divisoes-hidrograficas

Bacia do rio Amazonas (ou Amazônica)


A maior bacia hidrográfica do planeta. Ocupa mais da metade do território brasileiro e tem suas
vertentes delimitadas pelos divisores de água da cordilheira dos Andes, pelo planalto das Guianas e pelo
planalto Central. Seu rio principal nasce no córrego Apacheta, no Peru, onde o curso de água recebe
ainda outros nomes; passa a ser denominado Solimões da fronteira brasileira até o encontro com o rio
Negro e, a partir daí, recebe o nome de Amazonas. É o rio mais extenso (6.992 km no total, segundo o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE) e de maior volume de água do planeta. Sua vazão
representa cerca de 18% da água doce que todos os rios do planeta lançam no oceano. Esse fato é
explicado pela presença de afluentes nos dois hemisférios (norte e sul), o que permite dupla captação
das cheias de verão.
Os afluentes de planalto do rio Amazonas possuem o maior potencial hidrelétrico disponível do país,
com destaque aos rios Madeira e Tapajós. Ao atingirem as terras baixas, tornam-se rios navegáveis. O
rio Amazonas, que corre no centro da planície, é inteiramente navegável. Segundo o INPE, em território
brasileiro, da divisa com o Peru até a foz, o rio Amazonas tem um desnível de apenas 1 centímetro por
quilômetro.
Na figura abaixo visualiza-se o encontro das águas dos rios Solimões e Negro, em Manaus (AM). Ao
se juntarem, eles formam o rio Amazonas.

https://www.imgrumweb.com/hashtag/conhecaaamazonia

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Bacia do rio Tocantins-Araguaia
No Bico do Papagaio, região que abrange parte dos estados do Tocantins, do Pará e do Maranhão, o
rio Tocantins recebe seu principal afluente, o Araguaia, onde se encontra a ilha do Bananal, a maior ilha
fluvial do mundo. O rio Tocantins é utilizado para escoar parte da produção de grãos (principalmente soja)
das regiões próximas e nele foi construída a usina hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores do país.

Bacias do Paraná, Paraguai e Uruguai


São subdivisões da bacia do rio da Prata (ou Platina), a segunda maior bacia hidrográfica do planeta.
Seus rios mais importantes são:

Paraná: Principal rio da bacia Platina, é formado pelos rios Grande e Paranaíba, na junção dos estados
de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Possui o maior potencial hidrelétrico instalado do país.
Cerca de 600 km a jusante, delimita a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Deságua no oceano Atlântico,
no estuário do rio Prata. Observe a imagem abaixo.

Rio Paraná em Foz do Iguaçu (PR). As bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai formam a bacia Platina.

Paraguai: Segundo dos grandes rios da bacia Platina, nasce em Mato Grosso, atravessa o relevo
plano do Pantanal e avança pelo Paraguai até encontrar o rio Paraná. O Paraguai e o trecho final do
Paraná formam uma via naturalmente navegável.

Uruguai: Percorre a fronteira Brasil-Argentina e a Uruguai-Argentina até desembocar no rio da Prata.

Bacia do rio São Francisco: o rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais,
atravessa o sertão semiárido e desemboca no oceano Atlântico, entre os estados de Sergipe e Alagoas.
Tem poucos afluentes e é aproveitado para irrigação e navegação (entre Pirapora-MG e Juazeiro-BA),
além de gear grande quantidade de energia hidrelétrica.

Bacia do rio Parnaíba: como parte dessa bacia está localizada em região de clima semiárido,
apresenta pequena vazão média ao longo do ano. Possui afluentes temporários e, em seu baixo curso,
alguns são perenes.

Bacias atlânticas ou costeiras: o Brasil possui cinco conjuntos, ou agrupamentos de rios, chamados
bacias hidrográficas do Atlântico: Nordeste Ocidental, Nordeste Oriental, Leste, Sudeste e Sul. As bacias
que compõem cada um desses conjuntos não possuem ligação entre si; elas foram agrupadas por sua
localização geográfica ao longo do litoral. O rio principal de cada uma delas tem sua própria bacia
hidrográfica. Por exemplo, as bacias do Sudeste são formadas pelo agrupamento das bacias dos rios
Paraíba do Sul, Doce e Ribeira de Iguape.

Questões

01. (Enem) O Aquífero Guarani se estende por 1,2 milhão de km² e é um dos maiores reservatórios
de águas subterrâneas do mundo. O aquífero é como uma “esponja gigante" de arenito, uma rocha porosa

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e absorvente, quase totalmente confinada sob centenas de metros de rochas impermeáveis. Ele é
recarregado nas áreas em que o arenito aflora à superfície, absorvendo água da chuva. Uma pesquisa
realizada em 2002 pela Embrapa apontou cinco pontos de contaminação do aquífero por agrotóxico,
conforme a figura:

Considerando as consequências socioambientais e respeitando as necessidades econômicas, pode-


se afirmar que, diante do problema apresentado, políticas públicas adequadas deveriam
(A) proibir o uso das águas do aquífero para irrigação.
(B) impedir a atividade agrícola em toda a região do aquífero.
(C) impermeabilizar as áreas onde o arenito aflora.
(D) construir novos reservatórios para a captação da água na região.
(E) controlar a atividade agrícola e agroindustrial nas áreas de recarga.

02. (Enem) O artigo 1º da Lei Federal nº 9.433/1997 (Lei das Águas) estabelece, entre outros, os
seguintes fundamentos:
I. a água é um bem de domínio público;
II. a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico;
III. em situações de escassez, os usos prioritários dos recursos hídricos são o consumo humano e a
dessedentação de animais;
IV. a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas.
Considere que um rio nasça em uma fazenda cuja única atividade produtiva seja a lavoura irrigada de
milho e que a companhia de águas do município em que se encontra a fazenda colete água desse rio
para abastecer a cidade. Considere, ainda, que, durante uma estiagem, o volume de água do rio tenha
chegado ao nível crítico, tornando-se insuficiente para garantir o consumo humano e a atividade agrícola
mencionada.
Nessa situação, qual das medidas adiante estaria de acordo com o artigo 1º da Lei das Águas?
(A) Manter a irrigação da lavoura, pois a água do rio pertence ao dono da fazenda.
(B) Interromper a irrigação da lavoura, para se garantir o abastecimento de água para consumo
humano.
(C) Manter o fornecimento de água apenas para aqueles que pagam mais, já que a água é bem dotado
de valor econômico.
(D) Manter o fornecimento de água tanto para a lavoura quanto para o consumo humano, até o
esgotamento do rio.
(E) Interromper o fornecimento de água para a lavoura e para o consumo humano, a fim de que a água
seja transferida para outros rios.

Gabarito

01.E / 02.B

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Comentários

01. Resposta: E
O aquífero Guarani estende-se por diferentes províncias e estruturas geológicas. Consequentemente,
suas águas apresentam grande variação de composição química, sendo potáveis em algumas áreas e
impróprias para abastecimento ou irrigação em outras. Além das diferenças naturais em sua composição,
as águas do aquífero podem ser contaminadas pelas aguas das chuvas que nele infiltram, daí a
necessidade de controle das condições ambientais, evitando a contaminação dos solos por atividades
agrícolas, industriais, instalação de lixões e quaisquer outras fontes e polução.

02. Resposta: B
Segundo o inciso III da Lei das Águas, em situações de escassez os usos prioritários dos recursos
hídricos são o consumo humano e a dessedentação45 de animais. Portanto, em caso de estiagem deve-
se priorizar o abastecimento humano em detrimento da produção agrícola.

ESTRUTURA GEOLÓGICA E FORMAS DE RELEVO46

O relevo influencia as atividades agrícolas, os sistemas de transporte e a malha urbana. Em todos


esses casos se evidenciam a interação entre a sociedade e a natureza e a transformação do meio
ambiente pelo ser humano, também demonstrando como o conhecimento das características do relevo
são indispensáveis ao planejamento das atividades rurais e urbanas.

Geomorfologia

O relevo da superfície terrestre apresenta elevações e depressões de diversas formas e altitudes. É


constituído por rochas e solos de diferentes origens, e inúmeros processos o modificam ao longo do
tempo. A disciplina que estuda a dinâmica das formas do relevo terrestre é a geomorfologia. Observe o
planisfério e as imagens a seguir.

Planisfério físico

http://www.editoradobrasil.com.br/jimboe/galeria/imagens/index.aspx?d=geografia&a=5&u=4&t=mapa

Os mapas que indicam altitude de relevo são chamados mapas hipsométricos. A hipsometria é a
técnica que representa as diferentes altitudes da superfície por meio de uma variação de cores. Em alguns
mapas, o relevo submarino também é representado em diferentes tonalidades de azul.
A fisionomia da paisagem terrestre é extremamente variada. Abaixo, dois exemplos de formações de
relevo da superfície da Terra.

45
Suprir necessidades de água para contingentes animais.
46
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

142
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Cânion do rio São Francisco, na divisa entre os estados de Sergipe, Alagoas e Bahia

https://www.modices.com.br/dicas-de-viagem/canions-sao-francisco/

Região montanhosa na Patagônia

https://www.viajali.com.br/fotos-apaixonantes-patagonia/

O relevo é resultado da atuação de agentes internos e externos na crosta terrestre.

Agentes internos, também chamados endógenos, são aqueles impulsionados pela energia contida
no interior do planeta. Esses fenômenos deram origem às grandes formações geológicas existentes na
superfície terrestre e continuam a atuar em suas transformações.
Observe a imagem do Monte Osorno (Chile), originado pelo vulcanismo, um dos agentes internos que
alteram a paisagem terrestre.

https://br.pinterest.com/pin/17592254764573916/

Agentes externos, também chamados exógenos, atuam na modelagem da crosta terrestre,


transformando as rochas, erodindo os solos e dando ao relevo o aspecto que apresenta atualmente. Os

143
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principais agentes externos são naturais, a temperatura, o vento, as chuvas, os rios e oceanos, as
geleiras, os microrganismos, a cobertura vegetal, mas há também a ação crescente dos seres humanos.
Entre os agentes externos, destaca-se o ser humano. Mineração, aterramento, desmatamento,
terraplanagem, canalização e represamento são exemplos de ações humanas que alteram diretamente
as formas do relevo, como o que ocorreu com o pico do Cauê, em Itabira, em decorrência de intensa
mineração. Abaixo imagens de como era o pico na década de 1970, e como foi posteriormente
transformado em cratera.

http://somagui.blogspot.com/2015/11/itabira-e-um-retrato-na-parede.html

As forças externas naturais são, portanto, modeladoras e atuam de forma contínua ao longo do tempo
geológico. Ao agirem na superfície da crosta, provocam a erosão e alteram o relevo por meio de suas
três fases: intemperismo, transporte e sedimentação.

Intemperismo → é o processo de desagregação (intemperismo físico) e decomposição (intemperismo


químico) sofrido pelas rochas. O principal fator de intemperismo físico é a variação de temperatura (dia e
noite, verão e inverno), que provoca dilatação e concentração das rochas, fragmentando-as. Já o
intemperismo químico resulta, sobretudo, da ação da água sobre as rochas, provocando, com o passar
do tempo, uma lenta modificação na composição química dos minerais. Ambos os intemperismos atuam
concomitantemente, mas dependendo das características climáticas um pode atuar de maneira mais
intensa que o outro.

Transporte e sedimentação→ o material fragmentado pelo intemperismo está sujeito a erosão.


Nesse processo, as águas e o vento desgastam a camada superficial de solos e rochas, removendo
substâncias que são transportadas para outro local, onde se depositam ou se sedimentam. O relevo se
modifica tanto no local de onde o material foi removido como no local onde ele é depositado, que forma
ambientes de sedimentação: fluvial (rios), glaciário (gelo e neve), eólico (vento), marinho (mares e
oceanos) e lacustre (lagos), entre outros.

A atuação do intemperismo é acentuada ou atenuada conforme características do clima, da


topografia47, da biosfera, dos minerais que compõem as rochas e do tempo de exposição delas às
intempéries48.
Os diferentes minerais apresentam maior ou menor resistência à ação do intemperismo e da erosão.
Em ambientes mais quentes e úmidos, o intemperismo químico é mais intenso, enquanto em ambientes
mais secos predomina o intemperismo físico.
As rochas que compõem os escudos cristalinos, por serem de idades geológicas remotas, sofreram
por mais tempo a ação do intemperismo e da erosão, o que se reflete em suas formas. As altitudes
modestas e as formas arredondadas, como nos montes Apalaches (Estados Unidos), nos alpes
Escandinavos (Suécia e Noruega), na serra do Espinhaço (Brasil) e nos montes Urais (Rússia), mostram
a ação desses processos modeladores nas formas do relevo.
A exposição ao sol aquece as rochas provocando sua dilatação. Com a chuva e a ação das marés, há
queda brusca de temperatura, o que provoca contração e desagregação mecânica de partículas.

47
Topografia é a ciência que estuda todos os acidentes geográficos definindo a sua situação e localização na Terra.
48
Intempérie é o substantivo feminino que significa mau tempo ou tempestade.

144
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Costão rochoso na ilha do Farol, em Arraial do Cabo (RJ)

https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g1056623-d1368438-i95639294-Prainhas_do_Pontal_do_Atalaia-
Arraial_do_Cabo_State_of_Rio_de_Janeiro.html

A erosão é resultado da ação de algum agente, como chuva, vento, geleira, rio ou oceano, que provoca
o transporte de material sólido. Na imagem abaixo, dunas nos Lençóis Maranhenses, em Barreirinhas
(MA), um exemplo de ação do vento (erosão eólica).

https://www.xapuri.info/ecoturismo/dunas-lagos-lencois-maranhenses/

Curvas de Nível
Refere-se à prática que consiste em arar o solo e semeá-lo seguindo as cotas altimétricas do relevo
(curvas de nível ou isoípsas49), o que por si só já reduz a velocidade de escoamento superficial da água
da chuva.

https://www.gedtopografia.com/services/calculo-de-curva-de-nivel/

49
Isoípsa ou ¨ curva de nível¨ é o nome que se dá à uma linha que em um mapa topográfico une os pontos que apresentam a mesma elevação ou cota. A isoípsa é
considerada uma “isolinha”. A representação da isoípsa é indispensável em um mapa topográfico. É muito usada também na agricultura moderna.

145
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Classificação do Relevo Brasileiro

Em 1940, foi elaborada uma classificação dos compartimentos do relevo brasileiro considerada até
então a mais coerente com a geomorfologia do nosso território. Seu autor foi o geógrafo e geomorfólogo
Aroldo de Azevedo (1910-1974), que, considerando as cotas altimétricas50, definiu planaltos como
terrenos levemente acidentados, com mais de 200 metros de altitude, e planícies como superfícies
planas, com altitudes inferiores a 200 metros. Essa classificação divide o Brasil em sete unidades de
relevo, com os planaltos ocupando 59% do território e as planícies, os 41% restantes.
Em 1958, Aziz Ab’Sáber (1924-2012) publicou um trabalho propondo alterações nos critérios de
definição dos compartimentos do relevo. A partir de então, foram consideradas as seguintes definições:
Planalto → área em que os processos de erosão superam os de sedimentação.
Planície → área mais ou menos plana em que os processos de sedimentação superam os de erosão,
independentemente das cotas altimétricas.
Essa classificação divide o Brasil em dez compartimentos de relevo, com os planaltos ocupando 75%
do território e as planícies, 25%.
Em 1989, Jurandyr Ross (1947) divulgou a mais recente classificação do relevo brasileiro, com base
nos estudos e classificações anteriores e na análise de imagens de radar obtidas no período de 1970 e
1985 pelo Projeto Radambrasil, que consistiu em um mapeamento complexo e minuciosos do país. Além
dos planaltos e das planícies, foi detalhado mais um tipo de compartimento:
Depressão → relevo aplainado, rebaixado em relação ao seu entorno; nele predominam processos
erosivos.
O território brasileiro possui, ainda, uma grande diversidade de formas e estruturas de relevo, como
serras, escarpas, chapadas, tabuleiros, cuestas51 e muitas outras.

Diferença Entre Forma e Estrutura do Relevo Brasileiro


O território brasileiro é formado por estruturas geológicas antigas. Com exceção das bacias de
sedimentação recente, como a do Pantanal Mato-Grossense, parte ocidental da bacia Amazônica e
trechos do litoral nordeste e sul, que são do Terciário e do Quaternário (Cenozoico), o restante das áreas
tem idades geológicas que vão do Paleozoico ao Mesozoico, para as grandes bacias sedimentares, e ao
Pré-Cambriano (Arqueozoico-Proterozoico), para os terrenos cristalinos.
No território brasileiro, as estruturas e as formações litológicas52 são antigas, mas as formas do relevo
são recentes. Estas foram produzidas pelos desgastes erosivos que sempre ocorreram e continuam
ocorrendo, e com isso estão permanentemente sendo reafeiçoadas (mudando de forma). Desse modo,
as formas grandes e pequenas do relevo brasileiro têm como mecanismo genético, de um lado, as
formações litológicas e os arranjos estruturais antigos, de outro, os processos mais recentes associados
à movimentação das placas tectônicas e ao desgaste erosivo de climas anteriores e atuais. Grande parte
das rochas e estruturas que sustentam as formas do relevo brasileiro são anteriores à atual configuração
do continente sul-americano, que passou a ter o seu formato depois da orogênese andina e da abertura
do oceano Atlântico, a partir do Mesozoico.

50
Cota altimétrica é o número que exprime a altitude de um ponto em relação ao nível do mar ou a outra superfície de referência.
51
Cuesta é uma forma de relevo em que colinas e montes têm um declive não simétrico, ou seja, suave de um lado e íngreme do outro. A palavra tem origem no
idioma espanhol e significa encosta de uma colina ou monte.
52
O termo litologia pode se referir ao estudo especializado em rochas e suas camadas e que estuda os processos de litificação, ou às categorizações referentes a
esses mesmos processos e aos tempos geológicos em que ocorreram. Litologia está relacionada à rocha que irá formar o solo.

146
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Classificação de Jurandyr L. S. Ross

http://www.clebinho.pro.br/wp/?p=9992

Bacia Sedimentar x Planície

Não devemos confundir bacia sedimentar, denominação que se refere à estrutura geológica, com
planície, que se refere à forma do relevo.
A estrutura sedimentar indica a origem, a formação e a composição de parte da crosta, ocorrida ao
longo do tempo geológico. Durante sua formação, enquanto a sedimentação supera os processos
erosivos, a bacia sedimentar é sempre uma planície. No entanto, uma bacia sedimentar que no passado
foi uma planície pode estar atualmente sofrendo um processo de erosão, de desgaste, e, portanto,
corresponder a um planalto ou a uma depressão, com as da Amazônia. Em contrapartida, bacias
sedimentares que hoje ainda estão em processo de formação correspondem a planícies. Um exemplo: a
planície do Pantanal.
Na imagem abaixo pode-se observar um trecho do Pantanal, em Corumbá (MS), durante o período
das cheias. Este é um exemplo típico de planície em formação, uma vez que durante as inundações
anuais ocorre intensa sedimentação.

http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2015/10/decreto-define-criterios-de-uso-sustentavel-do-pantanal-para-o-car.html

Agora observe esse relevo de origem sedimentar que está sofrendo erosão e, portanto, é um planalto
sedimentar, localizado na Chapada dos Guimarães (MT).

147
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https://viagemeturismo.abril.com.br/cidades/chapada-dos-guimaraes/

Outras Formas do Relevo


Ao estudarmos as formas do relevo brasileiro, encontramos ainda outras categorias:
Escarpa → declive acentuado que aparece em bordas de planalto. Pode ser gerada por um movimento
tectônico, que forma escarpas de falha, ou ser modeladas pelos agentes externos, que geram escarpas
de erosão.
Cuesta → forma de relevo que possui um lado com escarpa abrupta e outro com declive suave. Essa
diferença de inclinação ocorre porque os agentes externos atuaram sobre rochas com resistências
diferentes.
Chapada → tipo de planalto cujo topo é aplainado e as encostas são escarpadas. Também é
conhecido com planalto tabular.
Morro → em sua acepção mais comum é uma pequena elevação de terreno, uma colina. Em sua
classificação dos domínios morfoclimáticos, Ab’Sáber destacou os “mares de morros”.
Montanha → os movimentos orogenéticos (enrugamento, dobra e soerguimento da crosta devido à
ação das forças endógenas) deram origem às grandes cadeias montanhosas do planeta. Os dobramentos
modernos do Cenozoico são o exemplo mais lembrado, pois são as maiores montanhas existentes, como
os Andes e o Himalaia. No Brasil não ocorreram dobramentos modernos, mas sim dobramentos mais
antigos que ao longo do tempo geológico foram modelados pelos processos exógenos, dando origem a
formas rebaixadas e desgastadas (montanhas antigas), como o monte Roraima e as elevações dos
planaltos e serras do Atlântico.
Serra→ esse nome é utilizado para designar um conjunto de formas variadas de relevo, como
dobramentos antigos e recentes, escarpas de planalto e cuestas. Sua definição e uso não são rígidos,
sofrendo variação de uma região para outra do país.
Inselberg → (do alemão, “monte ilha”), saliência no relevo encontrada em regiões de clima árido e
semiárido. Sua estrutura rochosa foi mais resistente à erosão do que o material que estava em seu
entorno.

Questões

01. (ENEM) Muitos processos erosivos se concentram nas encostas, principalmente aqueles
motivados pela água e pelo vento. No entanto, os reflexos também são sentidos nas áreas de baixada,
onde geralmente há ocupação urbana.

148
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Um exemplo desses reflexos na vida cotidiana de muitas cidades brasileiras é
(A) a maior ocorrência de enchentes, já que os rios assoreados comportam menos água em seus
leitos.
(B) a contaminação da população pelos sedimentos trazidos pelo rio e carregados de matéria orgânica.
(C) o desgaste do solo nas áreas urbanas, causado pela redução do escoamento superficial pluvial na
encosta.
(D) a maior facilidade de captação de água potável para o abastecimento público, já que é maior o
efeito do escoamento sobre a infiltração.
(E) o aumento da incidência de doenças como a amebíase na população urbana, em decorrência do
escoamento de água poluída do topo das encostas.

02. (ENEM) As áreas do planalto do cerrado – como a chapada dos Guimarães, a serra de Tapirapuã
e a serra dos Parecis, no Mato Grosso, com altitudes que variam de 400 m a 800 m – são importantes
para a planície pantaneira mato-grossense (com altitude média inferior a 200 m), no que se refere à
manutenção do nível de água, sobretudo durante a estiagem. Nas cheias, a inundação ocorre em função
da alta pluviosidade nas cabeceiras dos rios, do afloramento de lençóis freáticos e da baixa declividade
do relevo, entre outros fatores. Durante a estiagem, a grande biodiversidade é assegurada pelas águas
da calha dos principais rios, cujo volume tem diminuído, principalmente nas cabeceiras. Cabeceiras ameaçadas.
Ciência Hoje. Rio de Janeiro: SBPC. Vol. 42, jun. 2008 (adaptado).
A medida mais eficaz a ser tomada, visando à conservação da planície pantaneira e à preservação de
sua grande biodiversidade, é a conscientização da sociedade e a organização de movimentos sociais que
exijam
(A) a criação de parques ecológicos na área do pantanal mato-grossense.
(B) a proibição da pesca e da caça, que tanto ameaçam a biodiversidade.
(C) o aumento das pastagens na área da planície, para que a cobertura vegetal, composta de
gramíneas, evite a erosão do solo.
(D) o controle do desmatamento e da erosão, principalmente nas nascentes dos rios responsáveis pelo
nível das águas durante o período de cheias.
(E) a construção de barragens, para que o nível das águas dos rios seja mantido, sobretudo na
estiagem, sem prejudicar os ecossistemas.

Gabarito

01.A / 02.D

Comentários

01. Resposta: A
A erosão é um processo constituído por três etapas: intemperismo, transporte e sedimentação. As
partículas das rochas são transportadas pelos agentes erosivos (água das chuvas, rios, ventos e outros)
para as partes mais baixas do relevo e, quando o material sedimenta nos rios, provocam assoreamento
e maior ocorrência de enchentes.

02. Resposta: D
As diferenças de altitude entre a planície do Pantanal e as serras e planaltos que o circundam o tornam
uma área inundável. No tocante ao seu papel na manutenção do nível das águas, tanto no período
chuvoso quanto no de estiagem, as agressões ambientais que acontecem no entorno do Pantanal
causam impacto direito em seu interior, destacando-se a redução no volume de água disponível e o
assoreamento.

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Espaço agroindustrial brasileiro: características e transformações recentes

AGROPECUÁRIA53

Agropecuária é a denominação dada para as atividades que usam o solo com fins econômicos e que
são voltadas à produção agrícola associada à criação de animais.

Distribuição e Função Social da Terra no Brasil

No Brasil, a distribuição de terras é considerada historicamente desigual. Uma das características mais
marcantes das áreas de produção agropecuária é a concentração da propriedade de terras, também
chamada de concentração fundiária. Isso significa que há grandes propriedades de terra, conhecidas
como latifúndios, concentradas nas mãos de poucos indivíduos.
As propriedades rurais brasileiras apresentam não só tamanhos diferentes, mas também distintas
formas de organização do trabalho. Como a agricultura familiar, aquela em que a mão de obra
predominante é composta por integrantes da família proprietária da terra. Geralmente trata-se de
pequenas propriedades onde é praticado o policultivo, ou seja, o cultivo de diferentes espécies.
Já nas grandes propriedades, onde se pratica o agronegócio54, a mão de obra é contratada, e a
produção, altamente mecanizada. Além disso, uma característica marcante é o monocultivo, ou seja, o
cultivo de uma única espécie.
Embora as propriedades sejam menores, em termos gerais, na agricultura familiar trabalham mais
pessoas do que na agricultura não familiar.
Existem estabelecimentos rurais de propriedade familiar que vendem sua produção para grandes
empresas agrícolas. No entanto, é a agricultura familiar que produz uma parcela significativa dos
alimentos consumidos no Brasil.
Pode-se dizer que a agricultura familiar garante o abastecimento de produtos básicos. Estes, porém,
não geram muita renda aos produtores, motivo pelo qual não são cultivados pelos empresários do
agronegócio.
Os grandes latifúndios são destinados à produção em larga escala de mercadorias destinadas
principalmente ao mercado externo, como soja, algodão, milho e cana-de-açúcar.

Condições de Trabalho no Campo

Estrutura Agrária Brasileira


A propriedade de terras é uma questão importante no Brasil desde o período colonial. Devido ao papel
da agricultura em nossa economia, é por meio da terra que historicamente se produziu e acumulou
riquezas no país. Até hoje, é da agricultura e da pecuária que vem grande parte de nosso Produto Interno
Bruto (PIB).

Sesmarias no Período Colonial


O primeiro mecanismo oficial de distribuição de terras no território brasileiro foi o sistema de doação
de sesmarias, enormes parcelas de terra que eram concedidas pela Coroa Portuguesa ou pelo
governador-geral, visando promover a colonização de terras e implantar o sistema de plantation na
colônia. As sesmarias vigoraram no Brasil até 1822, ano de sua independência.
Obviamente, essa concessão de terras abrangia apenas as pessoas nobres ou ricas – que possuíam
algum tipo de relação com a Coroa portuguesa e teriam condições de desenvolver economicamente suas
propriedades. Nesse caso, as doações de sesmarias correspondiam às áreas produtivas e já exploradas
no litoral ou próximas dessa região.
Ao receber uma sesmaria na Colônia e produzir em suas terras, o proprietário tinha o direito de posse
por toda a vida, repassando-as para seus herdeiros depois da sua morte. Nesse contexto, a Colônia
assistia à formação de uma elite, composta por famílias que concentravam em suas mãos as maiores
terras e, consequentemente, a riqueza local oriunda da exportação do açúcar que produziam.

53
FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.
54
Agronegócio é a denominação das atividades comerciais e industriais que envolvem a produção de alimentos em larga escala, desde o cultivo na propriedade
rural até a chegada aos consumidores.

150
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Apesar da necessidade de concessão por parte da Coroa ou do governador-geral para obtenção de
sesmarias, essa não era a única forma de se conseguir a posse de terras na Colônia. Devido à abundância
de áreas inexploradas no território e ao baixo número de habitantes europeus na Colônia, as terras do
interior não possuíam valor comercial.
Outro aspecto referente à propriedade de terras nesse período diz respeito à mão de obra disponível.
Para produzir em grande escala, era necessário o uso intenso de trabalhadores – os africanos
escravizados. Os maiores proprietários rurais eram aqueles que possuíam maior número de escravos.
Por isso, na condição de mais ricos da colônia, os maiores proprietários de terra eram aqueles que podiam
comprar mais escravos.
As pessoas que penetravam no interior do território e se mostravam dispostas a enfrentar indígenas e
a desbravar as áreas virgens podiam ocupar um pedaço de terra, no qual podiam produzir a fim de
conseguir a sua posse. Mesmo assim, apesar de ter a posse não contestada da terra, esses colonos não
possuíam a propriedade legal, uma vez que ela só era obtida por meio de uma concessão oficial.
A partir daí, surgiu no Brasil a figura do posseiro – pessoa que ocupa uma área territorial para obter a
sua posse, mas sem ter a sua propriedade. Geralmente, os posseiros eram colonos que não possuíam
capital para comprar escravos e, por isso, tinham uma produção de pequena escala voltada para a
subsistência ou para o abastecimento do mercado interno. Dessa forma, no período colonial, coexistiam
grandes latifúndios de famílias ricas ligadas ao poder local e pequenas propriedades pertencentes aos
camponeses locais.

Surgimento do Trabalho Assalariado e a Lei de Terras


No dia 4 de setembro de 1850 foi assinada a Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravos
no Brasil. Apesar de não ter surtido efeito prático imediato, a Lei Eusébio de Queirós foi um marco no
processo de abolição da escravidão no país. Ao criar uma perspectiva de término desse tipo de relação
de trabalho, ela estimulou o surgimento do trabalho assalariado no território brasileiro.
Nesse contexto, a Lei de Terras foi assinada no mesmo mês. Mesmo com a independência do Brasil
e a formação do Estado brasileiro, em 1822, não houve nenhuma política de regulamentação das
propriedades rurais até a criação da Lei de Terras em 1850. Até então, deu-se continuidade ao processo
de obtenção de terras por meio da posse, sem a sua devida documentação.
Além de propor a regularização das propriedades não documentadas no país, a Lei de Terras buscou
criar uma política para regulamentar a apropriação das terras não exploradas. Com ela, estabeleceu-se
que as terras não exploradas passariam a pertencer ao Estado e só poderiam ser adquiridas por meio da
compra – e não mais pela ocupação e exploração do território.
Segundo a Lei de Terras, para realizar esse processo, os posseiros deveriam legalizar as suas terras
em cartórios localizados nas cidades, os quais, na época, eram de difícil acesso para a população rural,
pois não havia facilidades de deslocamentos como hoje em dia. Além disso, a maioria deles não possuía
recursos para pagar taxas de registro e oficializar sua propriedade.
Os proprietários não legalizados (os posseiros) deveriam registra-las em cartórios para regularizar a
sua documentação. Caso contrário, a propriedade da terra não seria reconhecida. Ao definir a compra
como a única forma de obtenção de terras, o Estado excluiu a possibilidade da população pobre como
posseiros, ex. escravos, tornar-se proprietário rural.
Em contrapartida, favorecia a minoria rica do país, que se via em condições de adquirir as maiores e
melhores terras. Isso resultou no monopólio das terras nas mãos de uma minoria a abundância de
trabalhadores livres necessária para substituir futuramente os escravos.
Além de alto número de terras ocupadas sem registro legal, suas demarcações eram feitas de modo
impreciso. Os limites das propriedades, eram, muitas vezes, vagamente definidos por elementos naturais
como rios, quedas d’agua ou morros. Esse cenário foi agravado pelo início de um intenso processo de
apropriação ilegal de terras no país denominado grilagem de terra.
Muitos apropriaram-se das facilidades políticas e dos conhecimentos legais que possuíam para
registrar terras que não lhes pertenciam – fossem elas ocupadas por posseiros, indígenas ou de
propriedade do Estado. Em um contexto no qual a grande maioria da população era analfabeta, os únicos
aptos a produzir tais documentos eram os integrantes da minoria letrada do país.
Em muitos casos, essas terras não foram incorporadas com fins produtivos. Ao se apropriarem delas,
os grileiros tinham como objetivo esperar a sua valorização para, posteriormente, vendê-las a um preço
alto. Devido ao seu caráter excludente com relação à distribuição de terras, a Lei de Terras resultou em
uma estrutura fundiária extremamente desigual e que se perpetua até os dias de hoje no Brasil.

151
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Movimentos Sociais e a Reforma Agrária

A má distribuição de terras foi responsável por uma série de problemas nas zonas rurais brasileiras. A
difusão do processo de grilagem resultou na expulsão forçada de diversos posseiros de suas terras.
Naturalmente, os posseiros não costumavam aceitar passivamente a expulsão das terras que
ocupavam há anos, ou mesmo há gerações. Os conflitos envolvendo a disputa por terras costumavam
ser resolvidos por meio da intimidação e, principalmente, da violência física.
Outro aspecto relacionado à concentração fundiária no Brasil diz respeito à pobreza no campo. Esse
fenômeno é consequência da existência de uma massa de trabalhadores rurais conhecidos como sem-
terra, que, para sobreviver, dependem de trabalhos com salários significativamente baixos.
Além desse fator, as condições de vida do trabalhador rural são agravadas pelo desenvolvimento
tecnológico no campo. O uso cada vez maior de máquinas reduz a necessidade de contratação de muitos
trabalhadores, o que aumenta o desemprego no campo.

Debate sobre a reforma agrária no Brasil


Os problemas envolvendo a má distribuição de terras motivaram o debate sobre a necessidade ou não
de se fazer uma reforma agrária no país.

Reforma agrária consiste em uma proposta de mudança na política de distribuição de terras, feita
com o objetivo de diminuir ou acabar com a concentração fundiária – e assim reduzir os impactos sociais
negativos acarretados por ela.

A questão da reforma agrária é abordada na atual Constituição brasileira, de 1988. Nela, afirma-se que
as propriedades rurais que não cumprem sua função social, por serem improdutivas, devem ser
desapropriadas pelo Estado e distribuídas para trabalhadores sem-terra.
Com isso espera-se que haja diminuição da desigualdade social no campo e o aumento da
produtividade agrícola no país.
De fato, a concentração de terras pode acarretar em uma menor produtividade, já que, devido às suas
condições econômicas e ao tamanho de suas terras, os pequenos agricultores veem-se obrigados a
produzir o máximo em suas propriedades de modo a garantir a maior renda possível. Em contrapartida,
muitos dos grandes produtores se dão ao luxo de não produzir em toda a área de suas propriedades.
Devido ao caráter mercadológico que a propriedade fundiária adquiriu após a Lei de Terras,
desenvolveu-se no país uma prática de especulação, por meio da qual grandes proprietários mantêm
vastas áreas improdutivas, com o intuito de revende-las quando estiverem valorizadas.
Ao garantir maior produtividade agrícola, a reforma agrária também implicaria no aumento da oferta de
alimentos no país e, com isso, poderia provocar uma diminuição do preço desses produtos. Enquanto a
produção dos latifúndios é voltada para o mercado externo, são os pequenos produtores os responsáveis
pela maior parte do abastecimento de alimentos no mercado interno nacional.

Polêmicas da Reforma Agrária


A vida e a economia no campo brasileiro carregam uma série de contradições. Por um lado, a produção
agrícola para exportação apresenta um alto grau de desenvolvimento tecnológico e uso de mecanização.
Essa atividade também possui grande participação na economia brasileira, sendo responsável por boa
parte das exportações.
Porém, é nas zonas rurais que se encontram as regiões mais pobres do país, onde as condições de
trabalho são as piores. Da mesma forma, existem muitos pequenos produtores que não têm condições
financeiras de desfrutar do desenvolvimento tecnológico nas suas produções, contrastando com os
grandes produtores.
A proposta de reforma agrária implica uma distribuição mais justa das terras que, espera-se, resultar
em um número maior de pessoas empregadas no campo. Como consequência, haveria uma diminuição
significativa do êxodo rural55.
Mesmo assim, apesar do alto número de terras improdutivas no país, pouco se fez pela reforma agrária
ao longo da História brasileira. Obviamente, mesmo com os benefícios sociais que seriam alcançados, as
políticas de distribuição de terras prejudicariam os interesses econômicos de diversos grupos.
Não se pode esquecer de que a exportação agrícola baseada no cultivo em latifúndios ainda é
responsável pela maior parte da economia brasileira. Por isso, alguns grupos defendem que a distribuição

55
Êxodo rural é o termo pelo qual se designa a migração do campo por seus habitantes, que, em busca de melhores condições de vida, se transferem de regiões
consideradas de menos condições de sustentabilidade a outras, podendo ocorrer de áreas rurais para centros urbanos.

152
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de terras seria prejudicial ao país, pois diminuiria a arrecadação obtida por meio da economia
agroexportadora.
Outra questão polêmica envolvendo a reforma agrária diz respeito aos critérios de classificação do que
seriam terras improdutivas ou que produzem abaixo de sua capacidade. No caso da pecuária, por
exemplo, os defensores da reforma agrária argumentam que existem muitas terras subaproveitadas. De
fato, existe no Brasil um número alto de fazendas em que uma cabeça de gado ocupa, em média, uma
área maior do que um minifúndio ou uma pequena propriedade. Por outro lado, os proprietários alegam
que estão produzindo no local e, por isso, não deveriam perder sua terra.
No Brasil, a desigualdade social no campo está diretamente relacionada à concentração fundiária e,
assim como em outros lugares do mundo, tal desigualdade provocou uma série de mobilizações sociais.
O principal movimento social organizado de camponeses no mundo é a Via Campesina. Essa
organização internacional, criada em 1993, é composta por mais de 170 movimentos sociais ligados à
terra de países da América, Ásia, Europa e África. Entre os seus integrantes estão milhões de
trabalhadores rurais sem-terra, pequenos e médios proprietários, indígenas e migrantes que se opõem
ao agronegócio vigente em muitos países pobres ou emergentes.
Eles defendem o incentivo ao pequeno produtor e a distribuição de terras, de modo a atingir um modelo
de produção socialmente mais justo e menos impactante ao meio ambiente.
No Brasil, os movimentos sociais de luta pela terra foram historicamente combatidos tanto pelo Estado
como pelos grandes proprietários de terra. Esses movimentos abrangem tanto comunidades indígenas
como posseiros e trabalhadores rurais sem terra. Ao longo da história, as disputas por terra no país foram
marcadas pela violência e pela apropriação à força dos territórios.
Alguns dos primeiros expoentes dessa luta no Brasil foram as Ligas Camponesas, criadas pelo Partido
Comunista Brasileiro (PCB). Elas tiveram uma atuação política intensa ao Nordeste durante as décadas
de 1950 e 1960, período em que muitas de suas lideranças foram assassinadas. Com o governo militar
(1964 -1985) a perseguição contra as Ligas Camponesas se intensificou e suas atividades rapidamente
se extinguiram.
Porém, apesar do fim das Ligas Camponesas, a luta pela terra continuou durante o período da ditadura
militar. Nos anos 1970, os principais conflitos ocorreram na Amazônia, entre posseiros, indígenas e
grileiros. Eles se deram, em grande parte, devido às políticas do Estado brasileiro de incentivo ao
desenvolvimento da agropecuária na região, o que motivou o interesse de grandes empreendedores
sobre as terras locais.
Nessa época foram criadas importantes organizações sociais vinculadas à Igreja Católica, como a
Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) – a primeira ligada aos
colonos e posseiros, e a segunda, aos indígenas.
Hoje em dia, a principal organização de camponeses do Brasil é o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST). Esse movimento social foi criado na década de 1980 e tem como principal
bandeira a luta pela reforma agrária no país.
A principal forma de ação do MST é a ocupação de terras. Essa prática costuma ocorrer em latifúndios
considerados improdutivos ou com histórico de grilagem. Por isso, essas práticas costumam ser mais
intensas na região Norte do país, onde os índices de grilagem e terras improdutivas são maiores.
Ao ocupar as terras, os integrantes do MST constroem acampamentos nas propriedades, podendo se
estabelecer lá por anos até conseguirem sua posse por meio do Estado ou serem expulsos pelos
proprietários.
Além das ocupações, o MST promove outros tipos de ações, como marchas, ocupações de prédios
públicos, acampamentos em cidades e manifestações. Por ser a sede do poder político brasileiro, Brasília
é geralmente escolhida para sediar esses atos.
As ações políticas do MST são alvo de muitas críticas por parte de diversos setores da sociedade
brasileira. A maior parte delas diz respeito às ocupações de terras que o movimento alega serem
improdutivas, condição tal negada pelos proprietários. Por isso, é comum os opositores do movimento
chamarem esses atos de invasões e não de ocupações.
A maior parte dos conflitos relacionados ao MST envolve os proprietários que tiveram suas terras
ocupadas, ou invadidas, e o Estado na busca da garantia e da defesa do direito à propriedade provada.
Esses conflitos costumam ser violentos e muitas vezes resultam em mortes.
Se, por um lado, os movimentos sociais estruturam organizações para reivindicarem seus direitos,
assim o fazem também os fazendeiros, chamados de ruralistas. Desde 1985 eles organizam-se na União
Democrática Ruralista (UDR), associação de fazendeiros que luta pelos direitos da propriedade privada
no campo. As entidades dos movimentos sociais e a UDR opõem-se declaradamente, pois seus objetivos
são conflitantes.

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Interdependência entre Campo e Cidade

Muitas vezes, cidade e campo são concebidos como lugares opostos. Assim, a cidade seria o espaço
do desenvolvimento, das tecnologias e da modernização, onde se encontram as infraestruturas mais
modernas e as condições de vida são melhores. Em contrapartida, o campo muitas vezes é idealizado
como um lugar pouco desenvolvido, onde as infraestruturas e as tecnologias são menos avançadas e as
condições de vida são piores.
Porém, no campo, coexistem a riqueza e a pobreza, bem como a modernização associada ao
desenvolvimento tecnológico. O mesmo ocorre nas cidades, onde é possível notar uma grande
desigualdade social que se reflete nas condições de vida da população e nos tipos de serviços acessíveis
a ela.
Historicamente, zonas urbanas e zonas rurais sempre se relacionaram de alguma forma. Por serem
locais de prática do comércio, é nas cidades que se comercializa a produção agrícola do campo. Por outro
lado, elas dependem das regiões rurais para abastece-las com alimentos e outros tipos de produtos
agrícolas indispensáveis à vida e ao dia a dia das pessoas. Das zonas rurais são obtidas as matérias-
primas utilizadas na fabricação de produtos que são consumidos principalmente pela população urbana.

Áreas Produtivas e as Questões Ambientais

Se, por um lado, a estrutura da produção agropecuária moderna envolve o uso de máquinas e técnicas
com avançadas tecnologias, por outro implica em sérias questões ambientais. O modelo atual explora os
recursos naturais de tal forma que muitas vezes leva-os ao esgotamento.
O desmatamento é uma prática muito comum para a realização da agropecuária. A retirada da
cobertura vegetal resulta em inúmeras consequências: redução da biodiversidade, erosão e redução dos
nutrientes do solo, assoreamento dos corpos hídricos, entre outros.
No caso da pecuária, além da retirada da cobertura vegetal e de sua substituição por pastagens, o
pisoteio do rebanho de animais provoca a compactação dos solos, o que dificulta a infiltração de água no
terreno.
Além do desmatamento, em algumas áreas também é comum a utilização de queimadas, o que pode
trazer inúmeros danos, como a perda de fertilidade do solo.
Outro agravante muito discutido é a utilização de insumos químicos – fertilizantes, inseticidas e
herbicidas, conhecidos como agrotóxicos -, que causam contaminação do solo e das águas.
Os insumos são conduzidos pelas águas da chuva: uma parte penetra no solo, atinge o lençol freático
e o contamina, e outra parte é levada até os mananciais.
Desde 2008, o Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no planeta.

Sistemas Agroflorestais
Com o crescimento dos danos ambientais provocados pelo modelo agrícola atual, muitas pessoas vêm
buscando criar e resgatar alternativas de produção de alimentos de forma a gerar menos impactos ao
meio ambiente. Uma dessas alternativas é chamada de agroflorestal.
Um Sistema Agroflorestal, também chamado de SAF, é um tipo de uso da terra no qual se resgata a
forma ancestral de cultivo, combinando árvores com cultivos agrícolas e/ou animais.
A agrofloresta busca utilizar ao máximo todos os recursos naturais disponíveis no local, sem recorrer
a agentes externos, como insumos químicos. Assim, torna-se um sistema extremamente benéfico ao meio
ambiente, além de muito mais barato para o agricultor, já que elimina os gastos com insumos químicos.

Expansão da Fronteira Agrícola


O conceito de fronteira agrícola é utilizado para designar as áreas limítrofes entre o chamado meio
natural e o local onde se praticam atividades agropecuárias.
A tendência dessas áreas é a de se expandir constantemente, acompanhando o ritmo da produção
agrícola.
A expansão da fronteira agrícola traz uma série de mudanças no espaço geográfico, implicando uma
nova organização espacial. São ampliadas infraestruturas de transporte, comunicação e geração de
energia, o que eleva a concentração populacional e impulsiona o desenvolvimento econômico das regiões
em questão.
No Brasil, a partir da década de 1960, houve o avanço da fronteira agrícola para a Região Centro-
Oeste, estimulados pelos projetos do governo federal de ocupação e desenvolvimento do interior do país.
Nesse período, foram oferecidos diversos incentivos, como créditos agrícolas e vendas de lotes de
terra a preços baixos, com o objetivo de atrair agricultores do Sul, Sudeste e Nordeste para a região.

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Atualmente, a fronteira agrícola expande-se em direção à Amazônia.
A expansão traz sérios danos ambientais, como o desmatamento e poluição dos solos e dos rios. Além
disso, como a expansão da fronteira agrícola geralmente é baseada na mecanização e na utilização de
insumos químicos, o que agrava o problema da questão fundiária, já que pequenos proprietários rurais
são obrigados a vender suas terras por não terem condições de arcar com os custos da produção.

Revolução Verde
A partir dos anos 1960, o espaço agrícola brasileiro passou por intensas mudanças, ligadas
principalmente à implantação de novas tecnologias na agropecuária. Essas transformações estão ligadas
a um processo mundial, conhecido como Revolução Verde.
A Revolução Verde iniciou-se na década de 1950, nos Estados Unidos, e consistia na aplicação da
ciência ao desenvolvimento de técnicas agrícolas com o objetivo de aumentar a produtividade da
agricultura e da pecuária.
Nas décadas seguintes, esse conjunto de mudanças foi implantado em vários países, inclusive no
Brasil, com o objetivo de erradicar a fome por meio do aumento na produção de alimentos.
A indústria química desenvolveu os agrotóxicos. Os laboratórios de genética criaram sementes
padronizadas e mais resistentes a doenças, pragas e aos próprios agrotóxicos. A indústria mecânica
desenvolveu tratores, colheitadeiras e outros equipamentos para o plantio, a colheita e a criação de
animais.
Esse conjunto de transformações tinha como objetivo aproximar a agricultura de um padrão industrial
de produção. Portanto, uma das propostas da Revolução Verde era a adoção do mesmo padrão de cultivo
em todos os lugares do mundo, desconsiderando as variações locais das condições naturais, como o
clima ou a fertilidade natural do solo, e as necessidades e possibilidades dos agricultores.
A adoção de monoculturas, largas propriedades de terra destinadas ao cultivo de uma única espécie,
foi outra medida imposta pela Revolução Verde, já que a eficiência dos insumos químicos e do maquinário
dependia da uniformidade do cultivo.
No Brasil, a implantação da Revolução Verde foi estimulada por meio de políticas públicas que
promoviam o financiamento e a assistência técnica aos produtores rurais, oferecendo créditos e
subsídios. Houve um significativo aumento na produção, maior até que o aumento na área plantada. Isso
porque os cultivos tornaram-se mais produtivos.
No entanto, tal processo foi feito às custas de danos ao meio ambiente e de aumento de desemprego
no campo, já que muitos trabalhadores foram substituídos por máquinas.
Esse processo de modernização da agricultura não se deu de forma uniforme e igualitária ao longo do
território brasileiro. Além disso, gerou desemprego e concentração de renda, beneficiando somente os
grandes produtores.

Transgênicos, biotecnologia e agroindústria


Nas áreas onde se implantaram as técnicas agrícolas consideradas modernas, observou-se a
concentração de indústrias de equipamentos agrícolas e de agrotóxicos e também de estabelecimentos
comerciais. Além disso, houve a rápida instalação e expansão das chamadas agroindústrias, que têm
como objetivo transformar gêneros agrícolas e pecuários em produtos industrializados. Por isso,
geralmente, estão localizadas nas proximidades dos lugares onde se produz tais gêneros, o que reduz
significativamente o custo com transporte da matéria-prima.
Com o desenvolvimento e avanço da ciência, novas técnicas foram criadas e incorporadas às práticas
agrícolas. Uma das mais polêmicas é a biotecnologia, o desenvolvimento de técnicas voltadas à
adaptação ou ao aprimoramento de características de organismos vivos, animais e vegetais, visando
torna-los mais produtivos.
Por meio dessas técnicas é possível, por exemplo, cultivar plantas de clima temperado em lugares de
clima tropical, acelerar o ritmo de crescimento de plantas e animais, aumentar o tempo entre o
amadurecimento e a deterioração das frutas, entre tantas outras mudanças.
Em meados da década de 1990, surgiu um novo ramo dentro da biotecnologia, ligado à pesquisa dos
genes dos organismos, o qual gerou um dos campos mais controversos da agricultura moderna: a
produção e manipulação de transgênicos.
Eles são gerados por meio de técnicas que possibilitam a introdução de um gene ou de um grupo de
genes em um organismo. Esses genes podem ser de outra variedade, espécie, gênero, ou até mesmo de
até mesmo de outro reino.
Como por exemplo, a utilização de sementes transgênicas que está atrelada a um pacote tecnológico
que envolve a utilização de maquinários, agroquímicos e monocultura associada a grandes propriedades.

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Os agricultores ficam condenados a utilizar esse pacote tecnológico no momento em que adquirem a
semente transgênica, justamente para garantir a sua produtividade.
Essas sementes modificadas são programadas para não se reproduzirem depois de determinada
geração, o que obriga o produtor a adquiri novas sementes constantemente. Além disso, os laboratórios
que desenvolvem tais técnicas fazem parte de grandes conglomerados agroindustriais que se fortalecem
a cada dia. Muitas vezes, os fabricantes de sementes transgênicas são os mesmos que fabricam
agrotóxicos e fertilizantes.
Não existem estudos conclusivos sobre os impactos dos transgênicos na saúde humana. Depois de
fortes pressões exercidas por movimentos sociais que lutam contra a difusão dos transgênicos, o governo
federal criou uma lei que obriga as agroindústrias a identificar as embalagens dos alimentos que contêm
transgênicos com um símbolo.

Questões

01. (IPERON/RO – Tecnologia da Informação – UERR/2018) O processo denominado de expansão


da fronteira agrícola possui diferentes fases históricas de ocorrência. Atualmente, a expansão da fronteira
agrícola promove diversas consequências, com maior ou menor impacto. Entre as alternativas a seguir,
a que melhor apresenta a principal consequência da expansão da fronteira agrícola é:
(A) ampliação das unidades de conservação ambiental para mais de 70% do território.
(B) diminuição das áreas agrícolas e aumento das áreas urbano-industriais.
(C) degradação ambiental com desmatamento das vegetações naturais.
(D) manutenção permanente das paisagens naturais da floresta amazônica.
(E) substituição da floresta amazônica pelas espécies típicas do cerrado.

02. (IF/MT – Professor de Geografia – UFMT) Sobre a Geografia Agrária, assinale a afirmativa
INCORRETA.
(A) Dentre os agentes que compõem a questão agrária no Brasil, estão os latifundiários, os agricultores
familiares/camponeses.
(B) A Lei de Terras de 1850 possibilitou que o processo de acesso à terra no Brasil fosse facilitado
para os nativos do país.
(C) Dentro dos estudos da geografia agrária na geografia brasileira, muitos se concentram no
Paradigma da Questão Agrária (PQA) e no Paradigma do Capitalismo Agrário (PCA).
(D) A política fundiária brasileira assume que a função social da terra é produzir, portanto, se um
estabelecimento não cumprir essa função, poderá ser desapropriado.

03. (UNESP – Assistente em Engenharia Ambiental – VUNESP) O uso de agrotóxicos, sem dúvida,
foi um dos fatores que contribuiu para o aumento da produção agropecuária por meio do controle de
pragas e doenças. Hoje, porém, discute-se como aumentar a produção agropecuária orgânica, pois o uso
de agrotóxicos
(A) é uma tecnologia ultrapassada, somente utilizada em países subdesenvolvidos.
(B) sempre intoxica os seres humanos que utilizam produtos dessa cadeia alimentar.
(C) pode contribuir para contaminação ambiental em larga escala.
(D) estimula o desenvolvimento de outras metodologias mais caras para produção de alimentos.
(E) melhora a qualidade do solo e garante o aumento no número de empregos nas áreas rurais.

Gabarito

01.C / 02.B / 03.C

Comentários

01. Resposta: C
A expansão traz sérios danos ambientais, como o desmatamento e poluição dos solos e dos rios.

02. Resposta: B
Através da Lei de Terras a terra se transformava em uma mercadoria de alto custo, acessível a uma
pequena parte da população brasileira. Com isso, pessoas com condição financeira inferior, como ex
escravos, imigrantes e trabalhadores livres, tinham grandes dificuldades em obter um lote, legitimando o
desmando e a ampliação de terras dos grandes proprietários.

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03. Resposta: C
Um agravante muito discutido é a utilização de agrotóxicos, que causam contaminação do solo e das
águas. Os mesmos são conduzidos pelas águas da chuva: uma parte penetra no solo, atinge o lençol
freático e o contamina, e outra parte é levada até os mananciais.

Geoecologia global, clima, solo, relevo, hidrografia, vegetação e qualidade de


vida da população

Caro (a) Candidato (a) no presente tópico abordaremos os assuntos solos e hidrografia mundial, visto
que os demais conteúdos já foram abordados ao longo deste material.

ROCHAS E SOLOS

Rochas - Material de Origem de Formação dos Solos

O material de origem depende da classificação genética das rochas. Classificar as rochas significa
usar critérios que permitam agrupá-las segundo características semelhantes.
Uma das principais classificações é a genética, em que as rochas são agrupadas de acordo com o seu
modo de formação na natureza. Sob este aspecto, as rochas dividem-se em três grandes grupos:
- Ígneas ou magmáticas;
- Sedimentares;
- Metamórficas.

Rochas Ígneas ou Magmáticas


Resultantes do resfriamento de material rochoso fundido, chamado magma. Exemplo:

São chamadas de rocha ígnea intrusiva, quando o resfriamento ocorrer no interior do globo terrestre,
e de rocha ígnea extrusiva ou vulcânica, se o magma conseguir chegar à superfície.
Para reconhecer se a rocha é intrusiva ou extrusiva, é necessário avaliar sua textura.
O resfriamento dos magmas intrusivos é lento, dando tempo para que os minerais em formação
cresçam o suficiente para serem facilmente visíveis. Alguns cristais podem chegar a vários centímetros.
O resfriamento dos magmas extrusivos é muito mais rápido. Muitas vezes, não há tempo suficiente
para os cristais crescerem muito. A rocha extrusiva tende a ter, portanto, uma textura de granulação fina.

A cor das rochas ígneas é muito variável, podendo ser classificadas como:
- Máficas – são as rochas ígneas escuras ricas em minerais contendo magnésio e ferro;
- Félsicas – são claras, mais ricas em minerais, e contêm sílica e alumínio (siálicas), que incluem os
feldspatos e o quartzo ou sílica.

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Rochas Sedimentares
Parte das rochas sedimentares é formada a partir da compactação e/ou cimentação de fragmentos
produzidos pela ação dos agentes intempéricos e pedogênese sobre uma rocha preexistente, após serem
transportados pela ação dos ventos, das águas que escoam pela superfície ou pelo gelo, do ponto de
origem até o ponto de deposição. Exemplo:

As rochas sedimentares, quanto a sua textura, podem ser classificadas como:


a) Clástica – quando a rocha sedimentar é constituída por partículas preexistentes. A litificação ocorre
em condições geológicas de baixa pressão e baixa temperatura e, por isso, as rochas clásticas não têm,
salvo raras exceções, a mesma consistência dura das rochas ígneas.
b) Químicas ou Não-Clásticas – são formadas pela precipitação dos radicais salinos, que foram
produzidos pelo intemperismo químico e agora se encontram dissolvidos nas águas dos rios, lagos e
mares.
c) Orgânicos – são acúmulos de M.O. (material orgânico) tais como restos de vegetais, conchas de
animais, excrementos de aves etc. que, por compactação, acabam gerando, respectivamente, turfa,
coquina e guano. São pseudorrochas porque as suas partículas não são minerais.

Rochas Metamórficas
Resultam da transformação de uma rocha preexistente no estado sólido.
O processo geológico de transformação se dá por aumento de pressão e/ou temperatura sobre a rocha
preexistente, sem que o ponto de fusão dos seus minerais seja atingido. Exemplo:

O metamorfismo pode ser regional, local e dinâmico. O regional ocorre em grandes extensões da
superfície do globo terrestre, em consequência de eventos geológicos de grande porte como, por
exemplo, edificação de cadeias de montanhas.
Dependendo dos valores alcançados pela variação de pressão e temperaturas, têm-se os
metamorfismos regionais de baixo, médio e alto grau.
Muitas rochas metamórficas são reconhecidas graças a sua estrutura de foliação, ou seja, a orientação
preferencial que os minerais placoides assumem, bem como a sua estrutura de camadas dobradas,
devido às deformações que acompanham o metamorfismo regional.

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O metamorfismo local restringe-se a domínios de terreno que variam entre centímetros e dezenas de
metros de extensão. O metamorfismo termal ou de contato ocorre quando o aumento de temperatura
predomina.
O metamorfismo dinâmico ocorre quando predomina o aumento de pressão no fenômeno da
transformação das rochas como em zonas de falhas.
Quando a temperatura do metamorfismo ultrapassa um certo limite, determinado pela natureza
química da rocha e pela pressão vigente, frequentemente na faixa de 700 - 800º C, as rochas começam
a se fundir, produzindo novamente um magma.

Solos - Gênese e Classificação do Solo

De modo geral, os solos vêm sendo formados há milhões de anos. São frutos de um processo contínuo
que se iniciou com o processo de decomposição de uma rocha matriz, que também pode ser chamada
de rocha-mãe.
À medida que a rocha matriz vai sofrendo a ação do intemperismo (ação da água, vento e seres vivos),
ocorre a liberação de fragmentos de rocha que, por sua vez, se misturam a outros sedimentos, como
restos de animais e plantas, e, portanto, dão origem a um determinado tipo de solo56.

Introdução à Pedologia e seus Conceitos Básicos


As bases da Pedologia, ramo do conhecimento relativamente recente, ou Ciência do Solo como
também é chamada, foram lançadas em 1880 na União Soviética por Dokuchaiev, ao reconhecer que o
solo não era um simples amontoado de materiais não consolidados, em diferentes estágios de alteração,
mas resultava de uma complexa interação de inúmeros fatores genéticos: clima, organismos e topografia,
os quais, agindo durante certo período de tempo sobre o material de origem, produziam o solo57.
A preocupação inicial de Dokuchaiev, de cunho pedológico - explicar a formação dos solos e
estabelecer um sistema de classificação - era, sem dúvida, uma preocupação oportuna em definir uma
nova área de estudo e delimitar lhe o espaço dentro do contexto do campo da Ciência. A expansão dos
estudos pedológicos decorreu, em grande parte, da necessidade de:
- corrigir a fertilidade natural dos solos, depauperada ao longo dos anos de exploração agrícola e
agravada pela erosão;
- elevar a fertilidade natural de solos originalmente depauperados;
- neutralizar a acidez do solo;
- agrupar solos apropriados para determinadas culturas;
- preservar os solos contra os perigos da erosão.

Intemperismo
Meteorização ou intemperismo é o processo natural de decomposição ou desintegração de rochas e
solos, e seus minerais constituintes, por ação dos efeitos químicos, físicos e biológicos que resultam da
sua exposição aos agentes externos.
Esses agentes podem ocorrer simultaneamente na natureza e acabam por se complementarem no
processo de formação das rochas. Isso fica demonstrado quando analisamos o efeito da temperatura e
da água nas rochas.
Variações climáticas podem levar ao trincamento das rochas e, por conseguinte, a água irá penetrar
essas trincas atacando quimicamente os minerais. Pode ocorrer também, que o congelamento da água
nas trincas leve ao fissuramento da rocha devido às tensões geradas.
Ressalta-se58 que os processos de intemperismo físico reduzem o tamanho das partículas,
aumentando sua área de superfície e facilitando o trabalho do intemperismo químico. Já os processos
químicos e biológicos podem causar a completa alteração física da rocha e alterar suas propriedades
químicas59.

O Intemperismo físico não altera a composição química da rocha. Os principais tipos são:
- Variações de Temperatura: da física sabemos que todo material varia de volume em função de sua
temperatura. Estas variações de temperatura ocorrem entre o dia e a noite e durante o ano, e sua
intensidade será função do clima local. Acontece que uma rocha é geralmente formada de diferentes tipos
de minerais, cada qual possuindo uma constante de dilatação térmica diferente, o que faz a rocha
56
<http://www.universiaenem.com.br/sistema/faces/pagina/publica/conteudo/textohtml.xhtml?redirect=51704978228430979754772414673>
57
IBGE. Manual Técnico de Pedologia. 2ª Edição. Rio de Janeiro. 2007.
58
MACHADO, S. l. (2002) – “Apostila Mecânica dos Solos” – Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Departamento de Geotécnica da Escola Politécnica de
Engenharia.
59
PAULO CÉSAR LODI. Mecânica dos Solos. Volume I. UNESP.

159
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deformar de maneira desigual em seu interior, provocando o aparecimento de tensões internas que
tendem a fraturá-la. Mesmo rochas com uma uniformidade de componentes não têm uma arrumação que
permita uma expansão uniforme, pois grãos compridos deformam mais na direção de sua maior
dimensão, tendendo a gerar tensões internas e auxiliar no seu processo de desagregação.
- Repuxo coloidal: é caracterizado pela retração da argila devido à sua diminuição de umidade, o que
em contato com a rocha pode gerar tensões capazes de fraturá-la.
- Ciclos gelo/degelo: as fraturas existentes nas rochas podem se encontrar parcialmente ou
totalmente preenchidas com água. Esta água, em função das condições locais, pode vir a congelar,
expandindo-se e exercendo esforços no sentido de abrir ainda mais as fraturas preexistentes na rocha,
auxiliando no processo de intemperismo (a água aumenta em cerca de 8% o seu volume devido à nova
arrumação das suas moléculas durante a cristalização). Vale ressaltar também que a água transporta
substâncias ativas quimicamente, incluindo sais que ao reagirem com ácidos provocam cristalização com
aumento de volume.

- Alívio de pressões: irá ocorrer em um maciço rochoso sempre que da retirada de material sobre ou
ao lado do maciço, provocando a sua expansão, o que por sua vez, irá contribuir no fraturamento,
estricções e formação de juntas na rocha. Estes processos, isolados ou combinados (caso mais comum)
"fraturam" as rochas continuamente, o que permite a entrada de agentes químicos e biológicos, cujos
efeitos aumentam o fraturamento e tende a reduzir a rocha a blocos cada vez menores.

Por outro lado, o intemperismo químico irá provocar alterações na estrutura química das rochas. A
hidrólise, hidratação (responsável pela expansão da rocha) e carbonatação (principalmente em rochas
calcárias) são os exemplos clássicos de intemperismo químico.

- Hidrólise: dentre os processos de decomposição química do intemperismo, a hidrólise é a que se


reveste de maior importância, porque é o mecanismo que leva a destruição dos silicatos, que são os
compostos químicos mais importantes da litosfera. Em resumo, os minerais na presença dos íons H+
liberados pela água são atacados, reagindo com os mesmos. O H+ penetra nas estruturas cristalinas dos
minerais desalojando os seus íons originais (Ca++, K+, Na+, etc.) causando um desequilíbrio na estrutura
cristalina do mineral e levando-o a destruição.

- Hidratação: é a entrada de moléculas de água na estrutura dos minerais. Alguns minerais quando
hidratados (feldspatos, por exemplo) sofrem expansão, levando ao fraturamento da rocha.

- Carbonatação: o ácido carbônico é o responsável por este tipo de intemperismo. O intemperismo


por carbonatação é mais acentuado em rochas calcárias por causa da diferença de solubilidade entre o
CaCO3 e o bicarbonato de cálcio formado durante a reação.

O intemperismo biológico é resultante da ação de esforços mecânicos induzidos por raízes de


vegetais, escavação de roedores e, até mesmo, a própria ação humana.
Enfatiza-se60 que o conjunto desses processos ocorre mais frequentemente em climas quentes e que,
consequentemente, os solos serão misturas de partículas pequenas que se diferenciam pelo tamanho e
pela composição química.
Analisando a formação dos solos face aos tipos de intemperismo, verifica-se que os solos resultantes
de intemperismo físico irão apresentar composição química semelhante à da rocha que lhes originou.
Por outro lado, o intemperismo químico irá formar solos mais profundos e mais finos do que os solos
formados onde há predominância do intemperismo físico.

Produtos do Intemperismo
O solo é o principal produto resultante da ação do intemperismo, no qual as ações em torno dele como
a erosão também são consequências.
Conforme definição do Instituto de Terras, Cartografia e Geologia do Paraná, o solo é “Produto do
intemperismo físico e químico das rochas, situado na parte superficial do manto de intemperismo.
Constitui-se de material rochoso desintegrado e decomposto61”.

Fatores Pedogenéticos
Os principais fatores ligados à formação dos solos são:
60
PINTO, C. S. (2000). Curso Básico de Mecânica dos Solos em16 Aulas, 247 págs., Oficina de Textos, São Paulo.
61
<http://www.mineropar.pr.gov.br/modules/glossario/conteudo.php?conteudo=S>

160
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- O relevo na formação dos solos62

A ação do relevo reflete diretamente sobre a dinâmica da água, tanto no sentido vertical (infiltração)
como lateral (escorrimentos superficiais – enxurradas – e dentro do perfil); e indiretamente sobre o clima
dos solos (temperatura e umidade), através da incidência diferenciada da radiação solar, do decréscimo
da temperatura com o aumento das altitudes, e sobre os seres vivos – os tipos de vegetação natural
importantes na formação dos solos.
A água que cai sobre um terreno e não evapora tem apenas dois caminhos: ou penetra no solo ou
escorre pela superfície.
Geralmente, segue concomitantemente ambos os caminhos, com maior ou menor participação de um
ou outro, dependendo das condições do relevo (declividade e comprimento da vertente); da cobertura
vegetal; e de fatores intrínsecos do solo.
Em terrenos declivosos, a quantidade de água que penetra no solo é, em igualdade de incidência de
precipitação pluvial, normalmente menor que nos menos inclinados.
Na coexistência de ambas as situações, compartilhando uma porção da paisagem, as áreas menos
declivosas recebem o acréscimo de água do escoamento superficial e subsuperficial proveniente das
áreas mais altas.
Os solos de relevo íngreme são submetidos ao rejuvenescimento, através dos processos erosivos
naturais e, em geral, apresentam clima mais seco do que aqueles de relevo mais suaves.
Os solos rasos e pouco profundos das vertentes declivosas são naturalmente coabitados por matas
mais secas do que as dos terrenos contíguos menos íngremes.
Disso resultam solos menos profundos e evoluídos do que os situados em condições de relevo mais
suave, onde as condições hídricas determinam ambiente úmido mais duradouro.
Em terrenos aplainados, a eliminação da água pelo escorrimento superficial é diminuta; assim, há um
acentuado fluxo de água através do perfil, favorecendo a lixiviação (extração ou solubilização dos
constituintes químicos de uma rocha, mineral ou solo) em sistema de drenagem livre.
Nos terrenos de relevo subaplainado ou deprimido, em ambiente de drenagem impedida, determinando
sistema fechado, as condições são ideais para os fenômenos de redução, devido ao prolongado
encharcamento, resultando em solos particulares, denominados hidromórficos.
Outra implicação importante do relevo é sobre a taxa de radiação e, consequentemente, sobre o clima
do solo em diferentes situações de exposição dos terrenos à ação solar.
Em regiões montanhosas, por exemplo, dependendo da orientação das encostas, a variação de
incidência da radiação solar é significativa.

O Clima na Formação dos Solos


O clima constitui um dos mais ativos e importantes fatores de formação do solo.
De seus elementos, destacam-se, em nosso país, pela ação direta na pedogênese:

- a temperatura;
- a precipitação pluvial
- a deficiência e o excedente hídrico

A latitude influi diretamente nos regimes térmicos regionais. É muito importante no desenvolvimento
dos solos, pois a velocidade das reações químicas que neles se processam é maior e diretamente
proporcional ao aumento da temperatura.
Além da temperatura, a quantidade de água de chuva que atinge, penetre, permaneça ou escorra na
superfície é um fator igualmente importante no processo de formação do solo.
Regiões com farta disponibilidade de água excedente apresentam, normalmente, solos mais evoluídos
do que regiões secas.
O enorme volume de água que flui através dos solos nas regiões úmidas promove a hidratação de
constituintes e favorece a remoção dos cátions liberados dos minerais pela hidrólise, acelerando as
transformações de constituintes e, consequentemente, o processo evolutivo do solo.
Da conjugação de variados regimes de temperatura e umidade, resulta essencialmente a ocorrência
de climas distintos ao longo do território brasileiro e, por conseguinte, de ações formadoras de solo
também diferenciadas.

62
Geografia Física II / Fernando Moreira da Silva, Marcelo dos Santos Chaves, Zuleide Maria C. Lima. – Natal, RN: EDUFRN, 2009.

161
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Entre os baixos platôs amazônicos quentes e úmidos, o sertão nordestino quente e semiárido e os
planaltos sulinos frios e úmidos, há diferenças apreciáveis no que concerne à formação de solos, em
consequência das disparidades de condições pedoclimáticas.
Na região amazônica, a conjunção de alta temperatura e alta precipitação pluvial, ao longo do ano,
favorece a efetivação das reações químicas que se processam nos solos. Por exemplo: solos bastantes
intemperizados, profundos, essencialmente cauliníticos, muito pobres quimicamente, com reações
bastante ácidas.
No Nordeste semiárido, a escassez de umidade contribui para diminuição da velocidade e intensidade
dos processos pedogenéticos, resultando em solos pouco desenvolvidos, rasos ou pouco profundos,
cascalhentos ou pedregosos e/ou com relativa abundância de minerais primários pouco alterados e
minerais de argila de elevada atividade coloidal. Por exemplo: solos pouco lixiviados, quimicamente ricos,
pouco ácidos e ligeiramente alcalinos ou mesmo com altos teores de sais solúveis e de sódio trocáveis.
Nos planaltos sulinos, as baixas temperaturas e a constante umidade favorecem a formação de solos
com espessas camadas superficiais escuras e ricas em M.O (Molibdênio), conferindo-lhes particular
morfologia, além de influenciar mais ativamente os processos de transformações e neoformações. Por
exemplo: solos não muito desenvolvidos, pouco profundos, por vezes pedregosos, quimicamente pobres,
muito lixiviados, de reação bastante ácida e consideravelmente ricos em constituintes orgânicos.

Os Organismos na Formação dos Solos


Os organismos – microflora e macroflora, microfauna e macrofauna – pelas suas manifestações de
vida, quer na superfície quer no interior dos solos, atuam como agentes de sua formação.
O homem também faz parte desse contexto, pois, pela sua atuação, pode modificar intensamente as
condições originais do solo.
Dos organismos, sobressai por sua intensa e mais evidente ação como fator pedogenético a
macrofauna.

Qual a importância da cobertura vegetal para o solo?


A cobertura vegetal tem uma ação passiva como agente atenuante do clima; porém, é como agente
ativo na formação do solo que ela se destaca. Sua ação protetora depende de sua estrutura e tipo. Por
exemplo: na Amazônia, a cobertura vegetal é eficaz (protege o solo contra a ação das chuvas).
Na região de caatinga semiárida do nordeste, o efeito protetor é pouco efetivo na proteção do solo,
resultando em acentuadas enxurradas de forte poder erosivo.
O anteparo da cobertura vegetal exerce efeito atenuador na temperatura da parte mais superficial dos
solos, repercutindo na diminuição da evapotranspiração.
A ação pedológica passiva da cobertura vegetal desempenha ainda outras funções protetoras,
intervindo na fixação de materiais sólidos, como nas dunas ou nas planícies aluviais.
A vegetação tem participação ativa nos processos de TC (condições de drenagem através do tempo)
no material do solo, pela ação do contato direto das raízes com as superfícies coloidais além da relevante
participação no estoque de nutrientes do sistema, os quais retornam aos solos devolvidos pelos resíduos
vegetais.
A ação mais importante da cobertura vegetal ocorre, nos fenômenos de adição, tanto na superfície,
através dos resíduos vegetais aí depositados, como no interior do solo, mediante restos que se
decompõem.
A macrofauna tem importância como agente homogeneizador dos solos. Nessa situação em particular,
são muito citados os efeitos dos cupins, das formigas, dos tatus e de muitos roedores que cavam buracos.
As minhocas, abrindo galerias, melhoram a aeração dos solos. Os micróbios, por sua vez, têm ação
marcante na decomposição dos compostos orgânicos, na fixação de nitrogênio e em processos de
oxidação e/ou redução.
E o homem? Constitui um elemento perturbador da constituição e arranjo das camadas dos solos,
através das modificações que imprime na paisagem, como:
- desmatamento,
- reflorestamento,
- abertura de estradas,
- aplainamento
- escavações,

Ou através de alterações que realiza diretamente no solo, como:


- aplicação de corretivos e fertilizantes,
- arações,

162
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
- irrigação,
- drenagem e deposição de restos da sua fauna diária.

O Tempo na Formação dos Solos


Dos fatores de formação, o tempo é o mais passivo: não adiciona, não exporta material nem gera
energia que possa acelerar os fenômenos de intemperismo mecânico e químico, necessário à formação
de um solo
Contudo, o estado do sistema solo não é estático: varia no transcorrer das transformações, transportes,
adições e perdas que têm lugar na sua formação e evolução. O conhecimento da duração do período de
gestação dos solos é, contudo, muito complexo.
A Geomorfologia ensina que, no Brasil, é possível encontrar desde materiais de origem recente até os
mais velhos de que se têm notícias na Terra. Onde são encontrados exemplos de solos de cronologia
recente? Nas planícies aluviais que ainda recebem, através das inundações, adições periódicas de
material.
Onde são encontrados exemplos de solos de cronologia mais antiga? Nos planaltos que constituem
os divisores dos grandes sistemas hidrográficos, como por exemplo o Planalto Central Brasileiro. Seu
início se deu há milhões de anos.
Qual a diferença entre idade e maturidade dos solos? A idade (cronologia) é a medida dos anos
transcorridos desde seu início até determinado momento, enquanto a maturidade (evolução) é expressa
pela evolução sofrida, manifestada por seus atributos em dado momento de sua existência.
Assim, alguns solos podem apresentar idade absoluta relativamente pequena e serem bem mais
maduros que outros com idade absoluta bem maior.

Questões

01. (IGP/SC – Perito Criminal Ambiental – IESES/2017) No tocante à formação dos solos, assinale
a alternativa correta:
(A) O solo é formado a partir de processos internos do planeta Terra, como o vulcanismo e o movimento
das placas tectônicas.
(B) Os solos se formam com mais facilidade em áreas com pouca ação dos ventos, da chuva, das
variações climáticas e interferência dos seres vivos.
(C) O solo se forma a partir dos processos de intemperismo, que aceleram a decomposição das rochas
de origem.
(D) Os solos do planeta Terra formaram-se há milhares de anos a partir do acúmulo de sedimentos
que caíram no planeta Terra oriundos dos meteoros.

02. (FUNAI – Engenheiro Agrônomo – ESAF/2016) Os solos são um importante recurso natural
renovável suportando a vida e as atividades humanas economicamente, com notável importância nas
práticas agropecuárias com vistas à geração de alimentos. Os solos são formados a partir da
decomposição das rochas de origem, que daí adquirem morfologia variada e oportunizam diferentes
classificações. Considerando pois, a origem, morfologia e classificação dos solos, assinale a opção
correta.
(A) Os termos aluviais e eluviais permitem classificar os solos quanto à origem: aluviais são os solos
formados por rochas encontradas no mesmo local da formação, isto é, a rocha matriz que foi decomposta
e se alterou para a formação do solo e se encontra no mesmo local do solo; enquanto os eluviais são os
solos formados por transporte e sedimentação do material de rochas localizadas em outros lugares,
graças à ação das águas e dos ventos.
(B) O Intemperismo físico, mediado por variações de temperatura, calor ou pelo congelamento de água
em fissuras, não promove alteração na composição da rocha.
(C) A classificação dos solos discrimina os horizontes em um perfil a partir da rocha mãe, ou material
de origem que, por isso, recebe a denominação de horizonte O; a partir deste, em sentido ascendente,
denominam-se outros horizontes numa sequência alfabética sucessiva: A, B, C.
(D) Quanto mais velho é o solo, maior é o tempo de atuação dos fatores de formação e dos processos
resultantes, bem como maior é a relação deste solo com o material de origem.
(E) Todo material de origem animal ou vegetal incorporado ao solo, independente do estado de
decomposição, é caracterizado como matéria orgânica que contribui para melhorar a textura do solo,
aumentar a aeração e a taxa de infiltração via aumento de sua densidade.

163
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Gabarito

01.C / 02.B

Comentários

01. Resposta: C.
Meteorização ou intemperismo é o processo natural de decomposição ou desintegração de rochas e
solos, e seus minerais constituintes, por ação dos efeitos químicos, físicos e biológicos que resultam da
sua exposição aos agentes externos.

02. Resposta: B.
O Intemperismo físico não altera a composição química da rocha.

HIDROGRAFIA MUNDIAL63

A Terra é quase toda coberta por uma imensa massa líquida (a hidrosfera), que compreende os
oceanos, mares e as águas continentais (rios, lagos e geleiras).
No entanto, apesar de cerca de 70% da superfície terrestre encontrar-se coberta por água, apenas
menos de 3% deste volume é de água doce, cuja maior parte está concentrada em geleiras (geleiras
polares e neves eternas64 das montanhas).
A grande preocupação é que restam menos de 1% de águas superficiais para as atividades humanas.

Os Oceanos

Mais da metade da população mundial vive numa faixa de cerca de 100 km junto ao litoral dos
continentes. Grandes e pequenas cidades, aldeias de pescadores e pequenas vilas desenvolvem
atividades relacionadas à vida marinha.
A biodiversidade dos ecossistemas marinhos, que fornece 90% do pescado mundial, pode ser
considerada equivalente à biodiversidade dos ecossistemas terrestres.
As águas oceânicas também constituem um meio fundamental para o transporte, as atividades
portuárias de importação e exportação de mercadorias (90% do comércio internacional), a navegação de
cabotagem, a aquicultura (criação de peixes, ostras, mariscos e crustáceos), a extração de minerais (sal
e petróleo), além de oferecer possibilidades para o desenvolvimento do turismo e do lazer.
É, portanto, um ambiente sujeito a múltiplas influências e perturbações, cujas causas são produzidas
principalmente no continente, de onde são lançados dejetos e resíduos produzidos pelas atividades
humanas, os quais podem ser provenientes de acidentes no próprio mar, como o derramamento de
petróleo.
Calcula-se que os dejetos urbanos residenciais e industriais sejam responsáveis por 80% da poluição
das águas do mar.

A Oceanografia
O estudo dos oceanos é realizado pela Oceanografia, ciência que estuda os diferentes aspectos
físicos, químicos e biológicos da água do mar. Além disso, estuda também a dinâmica geológica das
estruturas da litosfera65 oceânica, o relevo submarino e a exploração mineral.
A Organização Internacional de Hidrografia (lHO - International Hydrographic Organization) passou a
considerar, a partir do ano 2000, a existência de cinco oceanos: Pacífico, Atlântico, índico, Glacial Ártico
e Meridional (Antártico).

O Relevo Submarino
As características do relevo continental e submarino são semelhantes, embora no caso do submarino,
devido à predominância do trabalho de modelagem da água, exista uma maior suavidade nos contornos.
Para efeito de estudo, o relevo submarino pode ser dividido em:

63
LUCCI, Elian Alabi. Geografia Geral e Geografia do Brasil. 3ª edição. São Paulo: Saraiva, 2014.
64
Neve eterna consiste em camadas de neve formadas no cume de montanhas muito elevadas. A baixa temperatura local faz com que elas não derretam, mesmo
durante os meses do verão, quando a radiação solar é mais intensa.
65
Litosfera é a camada exterior sólida da superfície da Terra, que inclui a crosta e a parte superior do manto terrestre.

164
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Plataforma continental - prolongamento submerso dos continentes, com apenas algumas
modificações promovidas pela erosão marinha ou por depósitos sedimentares66. Sua profundidade varia
entre 10 e 500 m, sendo a média de 200 m.

https://www.infoescola.com/oceanografia/plataforma-continental/

São consideráveis as riquezas existentes na plataforma continental. Nesta unidade de relevo extrai-se
a totalidade dos recursos minerais e é realizada a maior parte das atividades pesqueiras.

Talude continental - inclinação mais aprofundada que a plataforma, chegando a até 3 mil metros de
profundidade.

https://conceitos.com/talude-continental/

Bacia oceânica - abrange a maior superfície e se estende a partir do limite do talude continental até
aproximadamente 5 mil metros de profundidade.

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/bacias-oceanicas/33452

66
Depósito sedimentar é o local onde os sedimentos se acumularam, gerando posteriormente a rocha sedimentar.

165
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
É constituída por extensas bacias, de topografia67 mais ou menos plana, por vezes interrompida por
dorsais ou cordilheiras e também por fossas abissais.

Dorsais - constituem as grandes cordilheiras e acompanham, em certos casos, o contorno dos


continentes. As dorsais encontradas nos oceanos Atlântico e Pacífico apresentam altitudes que variam
entre 2 e 4 km acima do fundo oceânico, emergindo em diversos pontos sob a forma e ilhas e
arquipélagos. O mais marcante exemplo de dorsal é a Meso-atlântica.

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/dorsais-oceanicas.htm

Fossas abissais - localizam-se próximo continentes; formam as regiões de mais profundo relevo
submarino.

http://meioambiente.culturamix.com/natureza/fossas-oceanicas-ou-abissais

As Correntes Marinhas
As correntes marinhas, cujo fluxo deve ter velocidade superior a 12 milhas marítimas por dia, são os
movimentos mais importantes que as águas do mar apresentam. Elas podem ser comparadas a rios de
água salgada, com temperatura diferente da massa de água oceânica por onde passam.
Além disso, elas circulam em outra velocidade em função da diferença de temperatura e salinidade,
que modificam a sua densidade.
Essa diferença de densidade entre as águas que forma as correntes e as que circundam no oceano
faz que elas tenham velocidade própria e sigam sempre uma direção regular e relativamente precisa.
O movimento e a direção das correntes dependem de ventos regulares, destacando-se os alísios68, do
movimento de rotação da Terra e do contorno dos continentes.
A importância prática do estudo das correntes marinhas reside no fato de que nelas encontram-se os
alimentos necessários à vida marinha, pois são ricas em microrganismos (plânctons) e servem de base
para a alimentação dos peixes.
Por isso as correntes constituem lugares favoráveis ao desenvolvimento de grandes cardumes e,
consequentemente, à atividade pesqueira.
Além disso, as correntes, quando se aproximam do continente, influenciam o clima das regiões
situadas junto à costa litorânea.

67
Topografia é a descrição ou delineação exata e pormenorizada de um terreno, de uma região, com todos os seus acidentes geográficos.
68
Os ventos alísios são, por definição, deslocamentos de massas de ar em direção à Zona de Convergência Intertropical do globo terrestre.

166
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Alimento Marinho69
Os recursos pesqueiros são renováveis. Portanto, podemos subtrair uma parte para consumo humano,
sem prejuízo do estoque. Porém, há uma limitação na capacidade de renovação desse estoque, que é
chamada de produção máxima sustentável. Se ultrapassado esse limite, o estoque entrará no colapso e
não poderá mais recuperar aquela parte perdida.
O fator complicador de recursos pesqueiros é que a produção máxima sustentável de um estoque varia
de acordo com a disponibilidade da população e apresenta uma variação anual bastante grande. Então,
a grande questão de exploração de recursos pesqueiros é saber o quanto podemos subtrair do mar, sem
prejuízo dos estoques existentes.

Salinidade e Temperatura das Águas Marítimas


Dos minerais encontrados nas águas marinhas, o mais abundante é o cloreto de sódio, comumente
conhecido por "sal de cozinha". Além dele, aparecem também outros sais em menor quantidade, como o
cloreto de magnésio, o sulfato de magnésio e o sulfato de cálcio.
A salinidade varia de um local para outro devido à temperatura, à evaporação, às chuvas e ao
desaguamento dos rios. O valor médio da salinidade é de 35, ou seja, 35 gramas de sais por 1.000 gramas
(1 litro) de água, o que equivale a 3,5%.
Nas áreas onde a evaporação é intensa e a quantidade de chuva é pequena, a salinidade apresenta-
se mais elevada.
Já nas regiões mais frias, a salinidade é menor, devido à pequena intensidade da evaporação e à
diluição da água do mar pelo derretimento das neves.
Os mares tropicais pouco profundos (onde a evaporação é mais intensa) são mais salgados que os
situados próximo aos polos, nos quais os gelos glaciares aportam. Também são menos salgados os
mares onde deságua um maior número de rios, cujas águas, carregando diversos materiais em
suspensão, reduzem o índice de salinidade.
A temperatura das águas depende da quantidade de insolação recebida pela superfície. Como a água
demora mais tempo do que a terra para aquecer e para resfriar, a temperatura dos oceanos é mais
uniforme.
Se a temperatura das águas marinhas depende da insolação, ela será mais elevada na superfície do
que em profundidades maiores e mais elevada também na linha do Equador do que nos polos.

Poluição Marinha
Grande parte da poluição marinha é provocada por fontes terrestres:
→ indústrias e residências que despejam toneladas de detritos e rejeitos nas águas dos rios;
→ cidades que utilizam a água do mar como emissário de esgotos;
→ uso de fertilizantes e agrotóxicos em atividades agrícolas, cujo excesso é transportado pelas águas
dos rios;
→ excrementos animais nas áreas de criação, cujo excesso também é transportado pelas águas dos
rios;
→ acidentes no transporte marítimo de mercadorias;
→ elementos tóxicos utilizados nas atividades mineradoras e rejeitos das áreas de extração de
minérios, etc.
O combate à poluição marinha inclui um conjunto de normas e atitudes que depende dos processos
de controle das atividades humanas realizadas nos continentes.

As Águas Continentais

Os rios são de grande importância para a organização do espaço, haja vista que as primeiras grandes
civilizações fixaram-se às margens de rios como o Tigre, o Eufrates, o Nilo, o Indo e outros.
Diversas regiões de elevada densidade demográfica, nas quais, em muitos casos, surgiram grandes
cidades, estruturaram-se às suas margens.
Os rios podem ser usados para a irrigação (inclusive de regiões em que há pouca ocorrência de
chuvas), para a geração de energia elétrica e como via de transporte. Além disso, a pesca constitui
importante fonte de alimentação.

69
MATSUURA, Yasunobu. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 31/12/1995, p. D-3, Caderno 2.

167
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Água como Recurso Renovável Limitado
A água é um recurso renovável; no entanto, a forma como vem sendo utilizada, com intenso nível de
poluição, por exemplo, pode impor limites à sua disponibilidade futura.
O ciclo da água é contínuo: inclui transpiração, evaporação, condensação, precipitação, escoamento
e infiltração. Tal processo ocorre da seguinte maneira:
A água que abastece rios e lagos provém da evaporação dos oceanos, de águas no solo, da
transpiração da vegetação e dos próprios rios e lagos. Essa água se condensa e precipita-se, em forma
de chuva, neve ou granizo.
Ela então escoa pelos rios ou para debaixo da terra, preenchendo os lençóis freáticos70. Parte dela
retorna ao oceano, reiniciando o ciclo. Outra parte é absorvida, por exemplo, por plantas.

https://brasilescola.uol.com.br/biologia/ciclo-agua.htm

A distribuição do consumo mundial de água doce, de acordo com as atividades humanas, estrutura-
se, a grosso modo, da seguinte forma: a água consumida destina-se 20% às indústrias e 10% às
residências.
Nas indústrias, os ramos siderúrgico, químico e de papel são os grandes consumidores de água. Daí
a importância da reciclagem, ou seja, do tratamento e reaproveitamento da água feito pelas mesmas.
Na agricultura, a quase totalidade de água utilizada vai para a irrigação, cujo papel é importantíssimo,
pois, apesar de somente 15% das terras empregadas para a prática agrícola serem irrigadas, cerca de
metade da produção de alimentos é obtida das mesmas. A irrigação e o desperdício podem provocar
impactos ambientais irreversíveis.
Nas regiões onde a água doce é abundante, muitas vezes ela é desperdiçada, pois são poucos os que
têm consciência do quanto ela é essencial e dos limites de sua capacidade de renovação.
Causas como o desmatamento, a compactação do solo e a impermeabilização dos asfaltos e das
edificações das cidades dificultam a infiltração da água das chuvas e diminui o volume das águas das
fontes.
Áreas de mananciais71 são constantemente ocupadas e poluídas pelos esgotos domésticos (lixo de
todo tipo é lançado nas águas dos rios).
Além do mau uso da água, a demanda por recursos hídricos tem sido cada vez maior com a ampliação
das atividades econômicas e o crescimento populacional. Por outro lado, se a demanda por água tem
crescido, o mesmo não ocorre no ambiente, no qual se verifica a manutenção de sua quantidade ou
mesmo sua redução.
Portanto, apesar de renovável, a água é um recurso finito e muitos povos do mundo sofrem com a
escassez deste recurso vital à sobrevivência humana.

70
Lençóis freáticos são os reservatórios naturais de águas subterrâneas que se acumulam entre as rachaduras das rochas.
71
Mananciais são todas as fontes de água, superficiais ou subterrâneas, que podem ser usadas para o abastecimento público.

168
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A Poluição dos Rios
Os rios são de grande importância para a organização do espaço geográfico, trazendo enormes
benefícios para a sociedade. No entanto, sofrem consequências bastante negativas, como por exemplo,
o lançamento de dejetos de diversos tipos em suas águas, transformando-os em verdadeiros esgotos a
céu aberto.
Essa é a situação em que se encontra a grande maioria dos rios, os quais são muitas vezes
considerados subprodutos da sociedade urbano-industrial, que encara a natureza como fonte de matéria-
prima ou como depósito de resíduos.
Ao lado do lançamento de esgotos urbanos sem tratamento, a morte dos rios em diversos lugares do
mundo está basicamente relacionada a outros dois fatores principais: o lançamento tanto de produtos
utilizados na agricultura (como pesticidas e fertilizantes químicos), como de resíduos industriais.
Além do lançamento de resíduos, representados por diversos produtos químicos, como os metais
pesados (cobre, mercúrio, chumbo, cádmio), as indústrias são responsáveis pela chamada poluição
térmica, causada pelas usinas termelétricas que lançam nos rios água com temperatura muito superior à
existente neles.
Como os animais aquáticos são muito sensíveis à alternância brusca de temperatura, acabam
morrendo. Até porque a temperatura elevada também retira o oxigênio dos rios.
Um dos exemplos mais significativos de recuperação de rios é o da Grã-Bretanha, a pioneira na
Revolução Industrial e, por consequência, também na poluição fluvial. Foi realizado um controle rigoroso
nas indústrias, os esgotos urbanos passaram a ser tratados, e seus encanamentos foram trocados. Nas
áreas agrícolas, inspetores implementaram visitas a fazendas para impedir que pesticidas fossem jogados
nos rios.
Esse trabalho resultou na volta da vida aos rios, como o Tâmisa, que passou a ser frequentado por
focas, o Mersey, cujos afluentes recebem atualmente muitas lontras, e o Humber, cujo estuário é visitado
pela lampreia do mar, espécie de peixe bastante primitiva que só sobrevive em águas limpas.

Rio Tâmisa

https://escola.britannica.com.br/artigo/rio-T%C3%A2misa/482665

Rio Mersey

https://es.wikipedia.org/wiki/R%C3%ADo_Mersey

169
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Rio Humber

https://www.istockphoto.com/br/fotos/rio-humber?sort=mostpopular&mediatype=photography&phrase=rio%20humber

Água como uma Questão Geopolítica do Século XXI72


Em 2015, os países tiveram a oportunidade de adotar a nova agenda de desenvolvimento sustentável
e chegar a um acordo global sobre a mudança climática.
As ações tomadas nesse ano resultaram nos novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS),
que no tocante à “água”, seguem os seguintes objetivos73:

Objetivo 6. Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas


e todos
6.1 Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo a água potável e segura para todos;
6.2 Até 2030, alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos, e acabar
com a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e
daqueles em situação de vulnerabilidade;
6.3 Até 2030, melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, eliminando despejo e minimizando
a liberação de produtos químicos e materiais perigosos, reduzindo à metade a proporção de águas
residuais não tratadas e aumentando substancialmente a reciclagem e reutilização segura globalmente;
6.4 Até 2030, aumentar substancialmente a eficiência do uso da água em todos os setores e assegurar
retiradas sustentáveis e o abastecimento de água doce para enfrentar a escassez de água, e reduzir
substancialmente o número de pessoas que sofrem com a escassez de água;
6.5 Até 2030, implementar a gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis, inclusive via
cooperação transfronteiriça, conforme apropriado;
6.6 Até 2020, proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas,
florestas, zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos;
6.a Até 2030, ampliar a cooperação internacional e o apoio à capacitação para os países em
desenvolvimento em atividades e programas relacionados à água e saneamento, incluindo a coleta de
água, a dessalinização, a eficiência no uso da água, o tratamento de efluentes, a reciclagem e as
tecnologias de reuso;
6.b. Apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais, para melhorar a gestão da água e do
saneamento.

Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos
para o desenvolvimento sustentável
14.1 Até 2025, prevenir e reduzir significativamente a poluição marinha de todos os tipos,
especialmente a advinda de atividades terrestres, incluindo detritos marinhos e a poluição por nutrientes;
14.2 Até 2020, gerir de forma sustentável e proteger os ecossistemas marinhos e costeiros para evitar
impactos adversos significativos, inclusive por meio do reforço da sua capacidade de resiliência, e tomar
medidas para a sua restauração, a fim de assegurar oceanos saudáveis e produtivos;
14.3 Minimizar e enfrentar os impactos da acidificação dos oceanos, inclusive por meio do reforço da
cooperação científica em todos os níveis;

72
https://nacoesunidas.org/pos2015/.
73
https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/.

170
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
14.4 Até 2020, efetivamente regular a coleta, e acabar com a sobrepesca, ilegal, não reportada e não
regulamentada e as práticas de pesca destrutivas, e implementar planos de gestão com base científica,
para restaurar populações de peixes no menor tempo possível, pelo menos a níveis que possam produzir
rendimento máximo sustentável, como determinado por suas características biológicas;
14.5 Até 2020, conservar pelo menos 10% das zonas costeiras e marinhas, de acordo com a legislação
nacional e internacional, e com base na melhor informação científica disponível;
14.6 Até 2020, proibir certas formas de subsídios à pesca, que contribuem para a sobrecapacidade e
a sobrepesca, e eliminar os subsídios que contribuam para a pesca ilegal, não reportada e não
regulamentada, e abster-se de introduzir novos subsídios como estes, reconhecendo que o tratamento
especial e diferenciado adequado e eficaz para os países em desenvolvimento e os países menos
desenvolvidos deve ser parte integrante da negociação sobre subsídios à pesca da Organização Mundial
do Comércio;
14.7 Até 2030, aumentar os benefícios econômicos para os pequenos Estados insulares em
desenvolvimento e os países menos desenvolvidos, a partir do uso sustentável dos recursos marinhos,
inclusive por meio de uma gestão sustentável da pesca, aquicultura e turismo;
14.a Aumentar o conhecimento científico, desenvolver capacidades de pesquisa e transferir tecnologia
marinha, tendo em conta os critérios e orientações sobre a Transferência de Tecnologia Marinha da
Comissão Oceanográfica Intergovernamental, a fim de melhorar a saúde dos oceanos e aumentar a
contribuição da biodiversidade marinha para o desenvolvimento dos países em desenvolvimento, em
particular os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e os países menos desenvolvidos;
14.b Proporcionar o acesso dos pescadores artesanais de pequena escala aos recursos marinhos e
mercados;
14.c Assegurar a conservação e o uso sustentável dos oceanos e seus recursos pela implementação
do direito internacional, como refletido na UNCLOS [Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do
Mar], que provê o arcabouço legal para a conservação e utilização sustentável dos oceanos e dos seus
recursos, conforme registrado no parágrafo 158 do “Futuro Que Queremos”.

Questões

01. (COPASA – Engenheiro do Meio Ambiente – FUMARC/2018) É comum ouvir entre os leigos a
expressão “a água está acabando”, quando se noticia sobre o nível das barragens nos períodos secos.
Considerando os conhecimentos sobre o ciclo hidrológico e suas diversas etapas, podemos esclarecer
a esses leigos que
(A) as perdas de água ocorrem com o escoamento superficial, a erosão e a evaporação excessiva.
(B) a quantidade de água que circula no planeta é a mesma desde a consolidação do planeta Terra.
(C) é a monocultura que está acabando com a água, devido à exposição superficial do solo.
(D) o desmatamento e o preparo do solo para agricultura vêm reduzindo a água que circula na Terra.

02. (SEGEP/MA – Oceanógrafo – FCC) Oceanos e mares apresentam relevo submarino diverso e
peculiar contendo várias feições. A feição que se caracteriza por localizar-se na borda da plataforma
continental e apresentar inclinação acentuada, podendo atingir até três mil metros de profundidade,
denomina-se
(A) dorsais.
(B) bacia oceânica.
(C) plataforma continental.
(D) talude continental.
(E) fossas abissais.

03. (Prefeitura de Fortaleza – Ciências – Prefeitura de Fortaleza) A sequência de processos


envolvidos no ciclo da água é:
(A) precipitação – escoamento pelos rios – evaporação no mar.
(B) precipitação – evaporação no mar – escoamento pelos rios.
(C) escoamento pelos rios – precipitação – evaporação no mar.
(D) evaporação no mar – transpiração – escoamento pelos rios.

Gabarito

01.B / 02.D / 03.A

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Comentários

01. Resposta: B
Estudos apontam que a quantidade de água hoje existente no planeta é a mesma existente há pelo
menos 600 milhões de anos passados.

02. Resposta: D
Talude continental refere-se à inclinação mais aprofundada que a plataforma, chegando a até 3 mil
metros de profundidade.

03. Resposta: A
A água se condensa e precipita-se, em forma de chuva, neve ou granizo. Ela então escoa pelos rios
ou para debaixo da terra, preenchendo os lençóis freáticos. Parte dela retorna ao oceano, reiniciando o
ciclo.

Espacialidades rurais e urbanas

AGRICULTURA MUNDIAL74

Políticas Agrícolas no Mundo Desenvolvido

A agricultura é uma das atividades básicas da humanidade e provavelmente foi responsável pela
primeira grande transformação no espaço geográfico. Surgiu há cerca de 12 mil anos, no período
Neolítico, quando as comunidades primitivas passaram de um modo de vida nômade, baseado na caça
e na coleta de alimentos, para um modo de vida sedentário, viabilizado pelo cultivo de plantas e pela
domesticação de animais.
Inicialmente foi praticada às margens de grandes rios, como o Tigre e o Eufrates (antiga Mesopotâmia,
atual Iraque), o Nilo (no Egito), o Yang-tse-kiang (na China), o Ganges e o Indo (na Índia). Foi justamente
nessas áreas que se desenvolveram as primeiras grandes civilizações.
Com a evolução da agricultura começou a haver excedente de produção, o que possibilitou o
desenvolvimento do comércio, inicialmente baseado na troca de produtos. Nos locais onde ocorriam as
trocas, surgiram várias cidades.

Da Revolução Agrícola à Revolução Verde


Graças à Revolução Industrial, evoluíram as técnicas agrícolas, o que possibilitou aumento da
produção sem a necessidade de ampliar a área de cultivo, com base apenas no aumento da
produtividade. Esse desenvolvimento tecnológico aplicado à agricultura ficou conhecido como Revolução
Agrícola.
Esse aumento de produtividade foi necessário em decorrência do aumento da população em geral, da
elevação percentual da população urbana (cujas atividades de subsistência eram limitadas a alguns
gêneros apenas) e da diminuição proporcional da população rural, responsável pela produção agrícola.
As bases técnicas da Revolução Agrícola foram propiciadas pelas indústrias consumidoras de matérias-
primas ou fornecedoras de insumos para a agricultura (máquinas e fertilizantes, por exemplo).
Os períodos de expansão colonial constituíram fases importantes da expansão agrícola. Tanto nas
terras conquistadas pelos europeus na América, desde o século XVI, quanto naquelas tomadas durante
a expansão imperialista na África e na Ásia, no século XIX, os colonizadores implantaram um sistema
agrícola para a produção de gêneros alimentícios e de matérias-primas voltado ao abastecimento do
mercado europeu. Esse sistema ficou conhecido como plantation e era baseado na produção
monocultora de gêneros tropicais para fins de exportação, praticada em grandes propriedades
(latifúndios), com mão-de-obra barata (ou escrava).
Após a Segunda Guerra Mundial, com o processo de descolonização em marcha, os países
desenvolvidos criaram uma estratégia de elevação da produção agrícola mundial: a Revolução Verde.
Concebida nos Estados Unidos, objetivava combater a fome e a miséria nos países subdesenvolvidos,

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LUCCI, Elian Alabi. Geografia Geral e do Brasil. Elian Alabi Lucci; Anselmo Lazaro Branco e Cláudio Mendonça. 3ª edição. São Paulo: Saraiva, 2014.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
por meio da introdução de um “pacote tecnológico”, contendo: novas técnicas de cultivo; equipamentos
para mecanização; fertilizantes; defensivos agrícolas e sementes selecionadas.
No entanto, essas sementes selecionadas, produzidas nos laboratórios dos países desenvolvidos, não
eram geneticamente capazes de enfrentar as condições climáticas típicas da região dos trópicos (clima
muito quente), algumas doenças e certas espécies de insetos. A solução consistia na utilização de
adubos, defensivos e fertilizantes, também importados dos países que haviam subvencionado essas
novas formas de cultivo, aumentando a dependência dos países subdesenvolvidos em relação aos países
desenvolvidos.
Nos países subdesenvolvidos, a Revolução Verde aumentou a distância entre os grandes agricultores,
que tiveram acesso ao “pacote tecnológico”, e os pequenos agricultores, que não tiveram condições de
competir com os novos parâmetros de produtividade. O aumento da produção abaixou o preço dos
produtos agrícolas a valores inviáveis para os pequenos agricultores.
Essas novas circunstâncias de mercado criadas pela Revolução Verde contribuíram para o abandono
e/ou a venda de pequenas propriedades, que foram sendo incorporadas pelos grandes latifúndios. Nesse
sentido, apesar de a Revolução Verde ter contribuído para um aumento significativo da produção de
alimentos no planeta, acentuaram-se ainda mais os problemas da concentração de propriedade agrícola
em vários países do mundo, como Índia, Paquistão, Indonésia e Brasil.

A Biotecnologia e a Nova Revolução Agrícola


A biotecnologia é o conjunto de tecnologias aplicadas à Biologia, utilizadas para manipular
geneticamente plantas, animais e micro-organismos por meio de seleção, cruzamentos naturais e
transformações no código genético. Ela teve grande desenvolvimento nas décadas de 1970 e 1980, mas
vem sendo estudada e aplicada desde os anos 1950, em vários países do mundo. A própria Revolução
Verde, que criou semente híbridas, foi uma das detonadoras da biotecnologia. Embora, em boa parte, ela
se associe à atividade agrícola, tem aplicabilidade também em outros setores. As suas atividades estão
ligadas à clonagem, à indústria farmacêutica (na manipulação de novas fórmulas de medicamentos, por
exemplo), à fabricação de plásticos biodegradáveis e de conservantes de alimentos e a outras aplicações
ainda em fase de desenvolvimento.
Uma das aplicações modernas da biotecnologia consiste na alteração da composição genética dos
seres vivos, quando se inserem, por exemplo, genes de outros organismos vivos no DNA (sigla em inglês
para ácido desoxirribonucleico) dos vegetais. Por esse processo pode-se alterar o tamanho das
plantas, retardar a deterioração dos produtos agrícolas após a colheita ou torna-los mais resistentes às
pragas, aos herbicidas e aos pesticidas durante a fase do plantio, assim como possibilitar maior
adequação dos vegetais aos diferentes tipos de solos e climas. Os vegetais derivados da alteração
genética são chamados de transgênicos.
Nos produtos agrícolas criados através da engenharia genética, os traços genéticos naturais
indesejáveis podem ser eliminados, e outros implantados artificialmente para aprimorar a sua qualidade.
A biotecnologia utilizada para estimular o aumento da produtividade na agropecuária tem sido aplicada
já há algum tempo e a avaliação dos resultados é bastante controvertida. Na pecuária, são utilizadas
injeções de hormônios para aumentar a capacidade reprodutiva, o crescimento e o peso dos animais. O
uso de anabolizantes é outra técnica bastante utilizada na atividade criatória, inclusive no Brasil: eles
permitem maior absorção dos nutrientes pelo organismo do animal, promovendo uma elevação
substancial da massa, que pode atingir até 20% em relação ao processo de criação natural. Os efeitos
desses produtos alimentícios para a saúde humana estão sendo estudados.
Na agricultura, também há muitas controvérsias sobre os possíveis danos dos vegetais transgênicos
não só para a saúde das pessoas, mas também para os ecossistemas. De modo geral, os crítico ao uso
dos organismos geneticamente modificados (OGMs) apontam para a necessidade de se fazer testes mais
amplos e específicos, ou seja, para cada produto transgênico.
Além disso, as novas variedades genéticas são produzidas por grandes corporações multinacionais.
Essas novas variedades só podem ser utilizadas mediante o uso das patentes e do pacote tecnológico
necessário à sua produção. Com isso, é reduzida a quantidade de beneficiados por essa tecnologia, além
de acentuar a dependência tecnológica dos países subdesenvolvido em relação aos desenvolvidos.
Além disso, a biotecnologia não está totalmente isenta de danos generalizados na produção de
alimentos. Com ela, haverá uma homogeneidade cada vez maior das espécies cultivadas, pois os
agricultores optarão pela plantação das mais produtivas e mais resistentes.
Nos últimos tempos, o desafio da engenharia genética tem sido a criação de produtos sintéticos em
laboratórios. O impacto desses produtos deverá ser ainda mais intenso que aquele provocado pela
introdução de novas tecnologias nos setores industriais e de serviços.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
A Agricultura Orgânica
Ao mesmo tempo em que a engenharia genética enfrenta desafios e a biotecnologia avança a passos
largos, a prática da agricultura orgânica ganha muitos adeptos não só nos países desenvolvidos,
sobretudo europeus, mas também em vários países subdesenvolvidos, com a utilização de métodos
naturais para correção do solo e controle de pragas, por exemplo.
Vários problemas – como carne bovina contaminada (“doença da vaca louca”, na Europa), verduras
com excessos de agrotóxicos, águas poluídas por pesticidas, esgotamento do solo por causa do uso
intensivo de irrigação – têm forçado as pessoas envolvidas no processo de produção agropecuária a
representarem os métodos utilizados. A agricultura orgânica é, desse modo, uma prática que pode
contribuir para a redução dos danos causados aos ecossistemas, muitos deles já bastante afetados pela
aplicação das técnicas próprias da agricultura moderna, que contribuem para a degradação dos solos, a
poluição dos lençóis freáticos, córregos e rios, a destruição de espécies vegetais e animais.
Os consumidores deste início do século XXI, por sua vez, estão cada vez mais conscientes em relação
aos problemas ecológicos e muitos têm optado por produtos naturais, que apresentam a desvantagem
de serem mais caros que os tradicionais, além de, n ocaso de frutas, verduras e legumes, terem menor
volume.

Política Agrícola e Mercado no Mundo Desenvolvido

A política agrícola da maior parte dos países ainda não se adaptou à economia globalizada e à
liberalização da economia mundial. De um lado, os países subdesenvolvidos não dispõem de recursos
financeiros volumosos para subvencionar seus agricultores. De outro, os países desenvolvidos, como
Japão, Estados Unidos e integrantes da União Europeia, mantêm uma política agrícola com subsídios
aos agricultores e protecionismo de mercado.
Entre os temas mais polêmicos na OMC (Organização Mundial do Comércio) estão as queixas dos
países subdesenvolvidos, que pedem redução dos subsídios para a produção agrícola e o fim da proteção
dos mercados internos (os países protecionistas impõem tarifas elevadas às importações de alimentos e
matérias-primas de origem agropecuária).
Essa elevada taxação, reforçada por uma redução nas cotas de importação por parte dos três
principais centros da economia mundial (EUA, Japão e União Europeia), agrava ainda mais os problemas
econômicos e sociais dos países que dependem da exportação agrícola e dificulta as importações de
produtos fundamentais ao seu desenvolvimento, como máquinas, equipamentos industriais e
implementos agrícolas.
Do ponto de vista do consumidor que vive nos países desenvolvidos, as políticas agrícolas têm sido
duplamente prejudicais. Primeiro, porque os recursos (subsídios) destinados aos agricultores são pagos
indiretamente por todos os contribuintes. Segundo, porque as altas tarifas para as importações elevam
também o preço pago pelos consumidores no mercado interno desses países. Essa situação não pode
ser generalizada, mas ela atinge a maioria da população que vive nos países desenvolvidos.
Por fim, é preciso ressaltar também que os países subdesenvolvidos, de modo geral, exportam,
principalmente, gêneros que não são de primeira necessidade, ocorrendo o oposto em relação aos países
desenvolvidos. Costuma-se afirmar, com base nisso, que os países subdesenvolvidos exportam a
“sobremesa”, enquanto os desenvolvidos, “o prato principal”.

O Espaço Agrário no Mundo Subdesenvolvido

As Atividades Agrícolas no Mundo Subdesenvolvido


Os países subdesenvolvidos já foram caracterizados como exportadores de produtos agrícolas e de
matérias-primas. Apesar de tal caracterização continuar válida para a maioria dos países desse grupo,
são os países desenvolvidos que respondem pelo maior volume da produção e exportação de produtos
agrícolas.
Nos países desenvolvidos, a modernização da produção e os enormes incentivos destinados à
atividade agrícola têm gerado cada vez mais excedentes, colocando-os na liderança mundial das
exportações do setor. Além disso, as políticas protecionistas de seus mercados dificultam o acesso da
produção agrícola dos países subdesenvolvidos.
Desde a década de 1950, a participação dos produtos agrícolas no mercado mundial vem diminuindo
gradativamente. Em parte, isso se deve à expansão odo comércio mundial de mercadorias e à
diversificação dos produtos negociados internacionalmente, sobretudo nas últimas décadas com a
consolidação da globalização.

174
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Para defender seus produtores, os países desenvolvidos utilizam subsídios e aplicam elevadas tarifas
de importação aos produtos agrícolas, contrariando as regras da OMC (Organização Mundial do
Comércio). Mas barreiras não-tarifárias, como barreiras zoossanitárias e fitossanitárias, são aplicadas
também, de forma indiscriminada e não raro injustificada (apesar de estar de acordo com as normas da
OMC), prejudicando as exportações do mundo subdesenvolvido que já são afetadas pelas barreiras
tarifárias e pelas cotas de importação.
Entre 1950 e 1973, a produção mundial de cereais duplicou, fazendo cair os preços no mercado
internacional. A partir de 1973, o crescimento da produção de cereais passou a atingir a média de 2% ao
ano, índice inferior ao crescimento da população mundial. No continente africano, por exemplo, onde a
população tem sido bastante afetada por problemas de subnutrição, o crescimento populacional
ultrapassa a média de 2,5% a.a. (ao ano), enquanto o aumento da produção de cereais gira em torno de
1% a.a. e até decresce em vários países.
A defasagem entre a produção de alimentos básicos e o crescimento demográfico aumentou o déficit
alimentar em vários países do mundo, em particular na África subsaariana (países que se situam ao sul
do deserto do Saara). Essa situação tem se agravado com o fato de que boa parte da produção agrícola
dos países subdesenvolvidos é destinada à exportação. Os produtos agrícolas (e também os minerais)
constituem a fonte de divisa básica dessa parte do mundo, sem as quais as importações tornam-se
inviáveis.

A Questão Agrária na América Latina


A questão agrária é um problema grave que afeta historicamente a população da maioria dos países
latino-americanos. A colonização da América Latina foi baseada na exploração mineral e na produção
agrícola de produtos de exportação, praticada em latifúndios monocultores e com utilização de trabalho
escravo. Esse modelo agrícola é denominado plantation. Após o processo de independência latino-
americana, no século XIX, a oligarquia rural escravocrata manteve o modelo colonizador.
Atualmente, a produção agropecuária ainda é praticada em grandes propriedades e concentra os
investimentos em produtos com ampla aceitação e competitividade no mercado internacional.
Em vário países da América Latina, mais da metade dos pobres e miseráveis habitam áreas rurais.
São milhões de trabalhadores sem terras e sem trabalho, que possuem alguma forma de renda apenas
nas épocas de plantio e colheita, como mão-de-obra contratada. É o caso do México, dos países da
América Central (Honduras, Guatemala, Nicarágua, entre outros), dos países andinos (Peru e Colômbia,
entre outros), e do Paraguai. Também é o caso do Brasil, embora aqui exista a particularidade de os
pobres das cidades superarem numericamente os pobres das áreas rurais.
Em contraste com essa situação, na maioria desses países há abundância de terras, dominadas por
grandes fazendas comerciais que são responsáveis pelo maior volume de produção agrícola.
Os países andinos formam um grupo de seis países sul-americanos situados onde se estende a
cordilheira dos Andes: Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. A maioria da população é
de origem indígena e, desde as últimas décadas do século XX, tem se organizado contra a exclusão
social e pela reforma agrária.

Estrutura Fundiária nos Países Subdesenvolvidos


Do ponto de vista econômico, a produção de cana, soja, café, cacau, algodão e outros produtos típicos
da agricultura dos trópicos não se adapta à pequena propriedade. Essas culturas exigem solo, clima e
relevo adequados e grandes extensões cultivadas para que o empreendimento seja rentável e
competitivo. A concentração fundiária, explicada pelo passado colonial, ganhou um retoque de
modernidade com a Revolução Verde e a mecanização rural.
A Revolução Verde exclui ainda mais os pequenos proprietários, incapacitados financeiramente para
adquirir a parafernália tecnológica que ela trouxe consigo: herbicidas, pesticidas, adubos químicos,
máquinas e outros implementos agrícolas. Ela também não incentivou a agricultura voltada para o
mercado interno, que não gera dividas no Comércio Exterior. Na maior parte dos países subdesenvolvidos
do planeta, o desenvolvimento tecnológico da Revolução Verde resultou em concentração fundiária e
marginalização dos trabalhador rural.
Não foi por acaso que várias rebeliões e revoluções populares nas últimas duas décadas do século
XX tiveram como lema a reforma agrária. A necessidade de reformas na estrutura de produção agrícola
e de redistribuição da propriedade rural são aspectos que precisam ser atendidos simultaneamente e são
urgentes nos países subdesenvolvidos.

A Reforma Agrária consiste na adoção de medidas para melhorar a distribuição da terra, promovendo
a justiça social, criando condições de melhoria de vida do trabalhador rural, elevando a produção e a

175
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
produtividade agropastoris. A redistribuição das terras é apenas uma parte do processo de reforma
agrária, que deve incluir apoio técnico, infraestrutura adequada à produção, sistema de armazenamento
e transporte, garantia de preços mínimos, crédito ao pequeno agricultor, orientação para a criação de
cooperativas e de pequenas agroindústrias, entre outros aspectos.
A reforma agrária é um processo mais amplo que a simples redistribuição de terras. Criar as condições
para que o trabalhador rural torne-se proprietário e possa produzir sua própria subsistência é apenas o
primeiro passo de um conjunto de medidas que incluem assessoria técnica e administrativa, inclusive um
sistema de crédito especial. Cabe ao Estado, enfim, estimular e garantir a produção agrícola dos
pequenos agricultores e criar os mecanismos necessários para coloca-los no mercado. Aliás, muito mais
que isso já foi e é feito para os grandes proprietários e para as empresas rurais, mediante mecanismos
de crédito a juros mais baixos, outros subsídios e medidas protecionistas.

Reforma Agrária e Geração de Renda


Além dos conflitos e das convulsões sociais constantes, a concentração da propriedade da terra é
responsável por uma variedade de relações de trabalho no meio rural. O arrendamento (aluguel) e a
parceria (pagamento em espécie pelo uso da terra em cotas estipuladas entre o parceiro e o proprietário),
para citar duas modalidades bastante difundidas, obrigam o agricultor a dividir o resultado de seu trabalho
com o proprietário da terra.
Essas formas de relações de trabalho no mundo subdesenvolvido tornam pouco estimulante e
economicamente inviável o investimento em aprimoramento técnico, visando à melhoria da qualidade e
da produtividade agrícola, para aqueles que de fato trabalham a terra.
Assim, a reforma agrária também deve ser vista como geradora de ocupação de mão-de-obra nos
países subdesenvolvidos, principalmente naqueles que apresentam um percentual significativo da
população economicamente ativa no setor primário. Além de geradora de emprego e de renda, que
dinamiza o restante da economia, a reforma agrária constitui a única forma possível de diminuir o êxodo
rural, que pressiona o mercado de trabalho urbano e agrava a crise social das cidades.

Questões

01. (SEDU/ES – Professor de Geografia – FCC) Considere o texto abaixo.


A. I.., como muitos chamaram a evolução da agricultura no terço final do século vinte, proporcionou
aumentos significativos de produtividade que garantiram, junto com a expansão das fronteiras agrícolas,
o abastecimento de alimento para uma população mundial em explosivo crescimento neste período.
Apesar disso, as técnicas convencionais e a expansão da área de terras agricultáveis chegando ao seu
limite, estamos correndo o risco de comprometer seriamente alguns recursos naturais, como flora, fauna
e mananciais de água. Portanto, é imperativo que se busque alternativas para uma maior oferta de
alimentos. É onde entra a. II. (Disponível em: www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/espaco-aberto/a-polemica-dos-transgenicos-no-brasil-5323/)
O conteúdo do texto destaca duas grandes transformações I e II que afetaram a produção agrícola em
escala mundial, desde a década de 1940 até dos dias atuais. Preenchem, correta e respectivamente, as
lacunas do texto em:
(A) Revolução Verde − biotecnologia
(B) Reforma Agrária − indústria.
(C) Modernização do Campo − agricultura orgânica.
(D) Globalização Produtiva − abertura econômica.
(E) Segunda Revolução Industrial − reforma agrária.

02. (IBGE – Agente de Mapeamento – CESGRANRIO) As atividades agrícolas estão em constante


processo de inovação para obter maior produtividade. Nesse contexto, durante a década de 1950, ocorreu
de forma mais intensa o processo de modernização da agricultura que envolveu um grande aparato
tecnológico provido de variedades de plantas modificadas geneticamente em laboratório, espécies
agrícolas que foram desenvolvidas para alcançar alta produtividade, uma série de procedimentos técnicos
com uso de defensivos agrícolas e de maquinários. Disponível em: <http://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias- -ensino/a-
modernizacao-agricultura.htm>. Acesso em: 31 maio 2016.
Nesse contexto histórico, o processo de modernização mencionado caracteriza, especificamente,
(A) as Reformas de Base
(B) a Revolução Verde
(C) o Milagre Econômico
(D) a Nova República
(E) o Estado Novo

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Gabarito

01.A / 02.B

URBANIZAÇÃO MUNDIAL75

Espaço Geográfico e Urbanização

A cidade é a mais impressionante forma de transformação do espaço geográfico realizada pelo ser
humano. Hoje é muito difícil imaginar a vida fora da cidade ou mesmo fugir da influência urbana.
O processo de urbanização – que atingiu, em níveis diferentes, praticamente todos os países do mundo
– é um fato relativamente novo na história da humanidade. Tornou-se um fenômeno mundial a partir da
Revolução Industrial, no século XIX, e as cidades transformaram-se no principal centro produtivo,
tecnológico, cultural e de irradiação da modernidade. As grandes cidades dos países desenvolvidos
concentram os centros de pesquisas e as sedes das multinacionais, e delas são comandados os fluxos
financeiros nacionais e internacionais.
Para o geógrafo Milton Santos, “a cidade (principalmente a grande) é o lugar ideal, porque é o lugar
onde todo mundo se comunica mais do que em outra parte. A cidade grande é o lugar da sociodiversidade.
E quanto mais sociodiversidade, mais riqueza”.
É importante observar que a diversidade social e cultural se enriquece quando a interdependência
entre as pessoas não é pautada pela intolerância e pelas grandes desigualdades sociais.
De forma contínua e acelerada, o espaço das grandes cidades sofre transformações diversas,
promovidas por aqueles que nela atuam: o poder público, as empresas de construção, as imobiliárias e a
sociedade civil. As diferenças sociais refletem-se nas moradias, na localização dos serviços públicos e
privados e na disputa pela ocupação do solo urbano.
No Brasil, a desigualdade no espaço urbano é marcada pela marginalização espacial dos mais pobres,
verificando-se grandes distâncias da moradia em relação aos diversos serviços públicos básicos, aos
locais de trabalho, de consumo e de lazer. Além disso, a mobilidade da população é dificultada pela
situação precário dos meios de transporte coletivo.
O contraste na paisagem urbana não pode ser reduzido apenas à questão da moradia. Os jardins,
passeios públicos, centros culturais, teatros, cinemas, parques, estão situados próximos às regiões
centrais. A periferia torna-se basicamente local de moradia; as modalidades de lazer são criadas, muitas
vezes, pela ação da própria comunidade, raramente contando com apoio governamental. O direito ao
exercício da cidadania é podado pela própria configuração espacial das grandes cidades.

A Urbanização Mundial
A cidade é uma forma organização sócio espacial complexa; seu desenvolvimento depende de
infraestrutura tecnológica, cultural e administrativa.
As experiências de cada indivíduo em relação aos diversos espaços da cidade resultam de uma série
de fatores, incluindo sua condição sócio econômica.
Os espaços urbanos ou rurais vivenciados por nós acabam tendo um significado especial, pois neles
moramos, nos relacionamos com outras pessoas, trocamos experiências, estudamos, trabalhamos, nos
divertimos – enfim, desenvolvemos nosso cotidiano. Cada um desses espaços que vivenciamos
concretamente é denominado lugar. O mesmo lugar pode ter um significado diverso para diferentes
pessoas, de grupos sociais distintos. Uma rua, por exemplo: para uma pessoa que simplesmente a
percorre de carro, é vivida de uma forma; para as crianças que nela brincam, é vivida de outra maneira.
O vendedor ambulante que trabalha num parque público percebe esse lugar de modo distinto das pessoas
que o frequentam para lazer. O shopping center pode ser um lugar de compras para os clientes e de
trabalho para os funcionários das lojas. Os exemplos são muitos, e estão relacionados à questão da
cidadania: por direito, podemos usar os espaços públicos e temos o dever de lutar para a ampliação, a
conservação e o uso democrático desses espaços.
Num sentido amplo, o pleno exercício da cidadania diz respeito ao conjunto de direitos e deveres
políticos, sociais e econômicos de cada pessoa na sociedade. Assim, votar, eleger-se, expressar
livremente suas ideias, adquirir conhecimento, trabalhar, morar, dispor de assistência médica, locomover-
se livremente pelo país, conservar os espaços públicos, fazem parte desse conjunto.

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LUCCI, Elian Alabi. Geografia Geral e do Brasil. Elian Alabi Lucci; Anselmo Lazaro Branco; Cláudio Mendonça. 3ª edição. São Paulo: Saraiva, 2015.

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Cidade e Cidadania
Cidade, cidadão e cidadania têm o mesmo radical latino: civitas, o lugar em que os homens vivem em
conglomerados urbanos, tendo certo direitos e deveres mutuamente respeitados. Para Lúcio Costa, o
urbanista que desenhou o Plano Piloto de Brasília, a cidade é a “expressão palpável da necessidade
humana de contato, comunicação, organização e troca – numa determinada circunstância físico-social e
num contexto histórico”.
Na versão mais simples da palavra, cidadão refere-se ao habitante da cidade. Na Antiguidade
Clássica, o conceito de cidadão tinha como foco principal o direito de participação política nos negócios
da polis (vocabulário grego que significa cidade). Era o que Benjamin Constant chamava de “liberdade
antiga”. No século 19, o foco passou a ser a proteção dos indivíduos contra o poder arbitrário do Estado,
e com isso os direitos civis passaram a predominar sobre os direitos políticos – era a “liberdade moderna”,
também segundo Constant. Em seu sentido integral, que é o vigente hoje, a cidadania inclui os dois focos,
o democrático e o liberal, a autodeterminação exercida na polis pelo povo soberano e as disposições que
garantem a segurança e a integridade dos indivíduos. A cidadania é, por um lado, a capacidade de intervir
no Estado e, por outro, o poder de exigir do Estado o respeito e a plena concretização dos direitos
individuais. (FREITAG, Barbara. Correio Brasiliense, 16/06/2002).

A Cidade e a Revolução Industrial

A cidade surgiu com as primeiras civilizações da Antiguidade, mas foi a partir da Revolução Industrial,
no século XIX, que ocorreu o maior desenvolvimento urbano de toda a história. Desde então, as cidades
consolidaram o papel de comando na economia e sociedade europeias e no desenvolvimento capitalista.
Assim, grande parte dos estudos de Geografia urbana analisa a industrialização e a urbanização com
processos que caminham paralelamente.
Apesar de ser um espaço típico da produção industrial, a cidade também centralizou e comercializou
a produção do campo. As novas oportunidades de trabalho na zona urbana atraíram pessoas que haviam
perdido terras e emprego no campo, com a introdução das novas tecnologias para produção agrícola.
Neste novo contexto, a população urbana passou a ter crescimento superior ao da população rural;
formaram-se grandes aglomerações e novas formas de administração do território foram articuladas. A
cidade torna-se “poderosa”: nela se viabilizam, com maior facilidade, as articulações políticas, a
organização da produção e o consumo.

Urbanização e Crescimento Urbano


A urbanização não corresponde ao crescimento das cidades em consequência do crescimento natural
ou vegetativo da população urbana. Ela ocorre a partir da migração rural-urbana, que faz com que a
cidade passe a ter um crescimento maior do que o campo. Quando a população urbana e a rural crescem
em igual proporção ocorre o crescimento urbano.
O crescimento populacional das cidades teoricamente não tem limites, ao contrário do que ocorre com
a urbanização, que corresponde a um aspecto espacial ou territorial proveniente de modificações sócio
econômicas. A Revolução Industrial, por exemplo, provocou profundas alterações espaciais e
econômicas, acelerando o processo de urbanização: o meio urbano cresceu e passou a comandar o meio
rural.

Urbanismo e Planejamento Urbano


A industrialização e a urbanização tornaram-se um fenômeno mundial na segunda metade do século
XIX; a partir de então, o debate sobre os problemas urbanos nos países industrializados se intensificou.
Sobre esses países pairava uma constatação: o crescimento econômico conquistado com a
industrialização não havia levado à melhoria da qualidade de vida da população urbana.
A miséria e as condições insalubres de moradia do proletariado urbano constituíam ameaças
permanentes de convulsões sociais e revoltas populares. Nas cidades industriais europeias do século
XIX, um número crescente de trabalhadores vivia em habitações deterioradas, em locais sem saneamento
básico nem serviço de coleta de lixo. Nessa época, os socialistas acreditavam que a insatisfação latente
das camadas populares em relação aos problemas sociais levaria à Revolução Socialista. Diante da
situação, o Estado adotou o planejamento urbano para resolver os problemas sociais causados pelo
desenvolvimento do capitalismo industrial: procurou reorganizar as cidades para estabelecer uma relação
mais equilibrada entre o espaço urbano e a sociedade.
As intervenções urbanas no século XIX, que marcaram a origem do urbanismo, não tiveram objetivos
e concepções idênticos. Algumas não partiram de uma perspectiva progressista e reformista, e não tinham

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a preocupação em resolver de fato os problemas da miséria e das grandes disparidades existentes entre
as camadas sociais.
A remodelação de cidades como Viena, Londres, Florença e Paris atendeu a problemas comuns: a
melhoria sanitária, a criação e preservação de espaços públicos, o alargamento de ruas e avenidas. Mas
cada cidade tinha seus aspectos peculiares e visões distintas de como reorganizar sua estrutura e o modo
de vida urbana.
Um exemplo ilustrativo de intervenção urbana nesse período foi o projeto de remodelação de Paris,
concretizado pelo Prefeito George Eugène Haussmann (1809-1891). A abertura de largas avenidas
(bulevares) na cidade teve função estratégica: conter as convulsões sociais. O sistema viário dos
bulevares facilitava o rápido deslocamento das tropas de cavalaria e artilharia, além de impossibilitar a
formação de barricadas pelo movimento operário em confrontos com a polícia.
O austríaco Camillo Sitte (1843-1903), um dos percursores do urbanismo, ressaltava a importância do
espaço público (praças, monumentos e edificações históricas) para a vida do homem urbano. Apontava
a influência positiva que o meio externo poderia trazer ao espírito humano. Suas ideias humanistas – que
precederam o chamado urbanismo culturalista – influenciaram vários projetos no mundo inteiro,
inclusive nas cidades do Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, no início do século XX.
No Reino Unido, o modelo de planejamento urbano conhecido como cidades-jardins (Garden cities)
marca até hoje a paisagem. As habitações foram erguidas com um generoso espaço verde as separando.
Esse modelo, adotado também nos Estados Unidos, ressaltava a interação do urbano com a natureza.

Urbanismo no Século XX

No século XX, o urbanismo utilizou os avanços tecnológicos da Segunda Revolução Industrial. O


concreto armado, o ferro, o aço, o alumínio, o vidro e outros materiais foram incorporados às obras
arquitetônicas e criaram novas possibilidades de instalações urbanas e de moradia. O arranha-céu gerou
o crescimento verticalizado e ampliou o adensamento populacional.
O urbanismo da primeira metade do século XX foi marcado pelo funcionalismo ou racionalismo, isto
é, o planejamento urbano e o projeto arquitetônico passaram a ser vistos com finalidade funcional
(utilitária) e racional (prática). A estética devia estar a serviço das necessidades básicas e da vida social
do ser humano; as novas conquistas tecnológicas deviam ser incorporadas na construção dos edifícios e
das cidades, em perfeita harmonia com a vida cotidiana.
A sintonia do movimento racionalista com a vida moderna e a era da máquina pode ser observada na
frase “A casa é uma máquina de morar”, expressa pelo arquiteto suíço Le Corbusier – o mais famoso
urbanista do século XX. Nesse sentido, a moradia deveria ser produzida em série, como os automóveis
e outros objetos industriais.
Le Corbusier também destacava que “a finalidade do urbanismo não é outra que satisfazer as quatro
necessidades urbanas de caráter primordial: habitar, trabalhar, recrear o corpo e o espírito e circular”. A
partis destes quatro princípios elementares, defendia “a necessidade de assegurar aos habitantes da
cidade alojamentos sãos, minimamente ensolarados (não menos de duas horas diárias) e rodeados de
espaços verdes. Tais alojamentos deveriam estar convenientemente equipados, tendo ao seu redor os
serviços indispensáveis à satisfação das necessidades cotidianas da população urbana”. (LE CORBUSIER.
Princípios de urbanismo. Barcelona, Planeta-Agostin, 1986, p. VI).
O exemplo mais importante da influência do urbanismo racionalista no Brasil é a cidade de Brasília,
projetada no final da década de 1950 pelo urbanista Lúcio Costa (projeto da cidade – plano-piloto) e pelo
arquiteto Oscar Niemeyer (projeto dos prédios públicos e dos blocos residenciais). O projeto de Brasília
acrescentou aos princípios do urbanismo moderno aspectos próprios da conjuntura econômica da época,
marcada pela instalação da indústria automobilística no país. Além do traçado arrojado de suas ruas e
avenidas, da configuração de sua estrutura urbana e de seus edifícios – adaptados a uma estética
funcional e rodeados de áreas verdes -, Brasília é o grande símbolo do espaço do automóvel. Apesar das
críticas que pesam sobre essa cidade e dos objetivos que nortearam sua construção, ela se transformou
num símbolo mundial do urbanismo racionalista e da arquitetura moderna.
O planejamento urbano do século XX não ficou restrito às concepções do urbanismo racionalista, mas
nenhuma outra corrente teve a mesma difusão e influência mundiais.

A Urbanização Atual

Em 1975, a taxa de urbanização mundial era de apenas 37%. Em 2001, aproximadamente metade da
população já vivia em áreas urbanas, e calcula-se que essa proporção atingirá 60% em 2025. A
intensidade da urbanização explica-se principalmente pelo aspecto qualitativo: muitos aspectos da vida

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urbana estenderam-se à vida do campo, como o acesso ao saneamento básico e à energia elétrica, a
presença de hospitais e escolas. As telecomunicações (como TV, rádio, telefone e, em alguns casos, até
Internet) integram atualmente os habitantes do campo e da cidade numa mesma rede de informação.
Assim, os limites territoriais das cidades não são mais os limites do modo de vida urbano.

As Cidades e a Urbanização no Mundo Desenvolvido - Desmetropolização


No mundo desenvolvido, a população urbana ultrapassa, em média, os 75%, e em muitos países já se
verifica uma estabilidade da porcentagem da população urbana em relação ao total da população.
A partir do final do século XIX, houve nos países desenvolvidos um processo de suburbanização ou
desmetropolização da população de maior poder aquisitivo, que procurava distanciar-se das
concentrações populacionais e industriais e dos problemas ambientais dos centros urbanos. Esse
processo mostrou-se mais intensa na segunda metade do século XX, graças ao incremento dos meios
de transporte e de comunicação; isso também possibilitou a descentralização das atividades econômicas,
que passaram a ocupar a periferia das grandes cidades e outras de menor tamanho.
Em alguns países, como os Estados Unidos, esse processo de suburbanização e a expansão das
grandes cidades levaram à ampliação da mancha urbana, caracterizada pela presença de algumas
metrópoles e diversas cidades. Formou-se a megalópole: um imenso aglomerado urbano, praticamente
contínuo, com algumas poucas áreas rurais.
Nos países europeus, o crescimento urbano ocorreu sem que a mancha urbana preexistente se
estendesse de modo significativo. Com exceção de cidades como Paris, Londres, Milão e Moscou, as
cidades europeias são pouco populosas, apesar de a grande maioria da população habitar em áreas
urbanas.
Nas grandes cidades do mundo desenvolvido, a preservação do espaço público e do patrimônio
histórico e as especificações de novas edificações (como localização, altura e recuo) são criteriosamente
regulamentadas e fiscalizadas pelo governo. Muitas intervenções realizadas nas cidades marcam
decisivamente determinados períodos e aspectos da paisagem urbana.

As Cidades e a Urbanização no Mundo Subdesenvolvido


No mundo subdesenvolvido, grupos de países apresentam diferenças no que se refere à urbanização.
Os maiores índices da população urbana nesse conjunto verificam-se na América Latina: em média, entre
65 e 70 % dos habitantes vivem em cidades. Os mais baixos ocorrem na África e na Ásia: entre 35 e 40%,
em média. Em virtude da intensidade do processo de urbanização nos países subdesenvolvidos, esses
índices devem aumentaram rapidamente.
Nesses grupos, as possibilidades econômicas estão concentradas nas grandes cidades, que
constituem “ilhas” de progresso. Em alguns países, especialmente da América Latina, a população, a
renda, os investimentos econômicos e a participação na pauta de exportações de uma única cidade
chegam a atingir cifras correspondeste à metade do total do país.
Em 1950, havia oito aglomerações urbanas com mais de 5 milhões de habitantes, e apenas duas se
encontravam em países desenvolvidos. Já em 2000, das 37 aglomerações com esse número de
habitantes no mundo, 27 se localizavam em países subdesenvolvidos, e várias superavam os 10 milhões
de habitantes.

Urbanização e Planejamento nos Países Subdesenvolvidos


A partir da década de 1950, houve uma ampliação considerável da superfície ocupada pelas cidades
nos países subdesenvolvidos, num ritmo muito mais acentuado do que o verificado nos países onde a
urbanização acontecera há mais tempo.
De modo geral, a expansão das cidades nos países subdesenvolvidos deu-se praticamente sem
orientação ou planejamento, agravando o quadro de exclusão social no espaço urbano. Na periferia das
cidades, vários terrenos e loteamentos – a maioria clandestinos e desprovidos de infraestrutura – foram
ocupados pela população mais carente para estabelecer sua moradia.
Esse fenômeno é comum a várias cidades, apesar das diferenças existentes na organização espacial
e no grau da ocupação da superfície de cada uma delas. Na Cidade do México, em Lima e em São Paulo,
por exemplo, a expansão da superfície construída aconteceu em ritmo mais intenso que o próprio
crescimento da população.
Apesar do crescimento populacional elevado, em alguns períodos não se verificou um aumento na
densidade demográfica em algumas cidades mais pobres. Isso se deve ao fato de elas apresentarem
uma expansão desordenada e um crescimento “horizontalizado”. Esse crescimento horizontal cria
grandes dificuldades para a implantação de infraestrutura adequada (como transporte, coleta de lixo e
saneamento básico) em lugares mais distantes.

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A Rede Hierárquica de Cidades - Metropolização

As cidades estão ligadas entre si por uma estrutura de transportes e de meios de comunicação,
formando uma rede urbana onde se estabelecem fluxos de mercadorias, pessoas e informações. As
relações nessa rede urbana são hierárquicas, pois algumas cidades exercem papel de comando, estando
no topo da hierarquia urbana: são as cidades globais e as metrópoles.

As Cidades Globais
As cidades globais são aquelas que concentram a movimentação financeira, as sedes de grandes
empresas ou escritórios filiais de multinacionais, importantes centros de pesquisas e as principais
universidades. São dotadas de infraestrutura necessária para a realização de negócios nacionais e
internacionais: aeroportos e portos, bolsa de valores e sistemas de telecomunicações, além de uma ampla
rede de hotéis, centros de convenções e eventos, bancos e comércio. Possuem serviços bastante
diversificados, como jornais, tetros, cinemas, editoras, agências de publicidade, etc.

A Cidade Global
O processo atual de modernização leva a que todos os lugares se globalizem, graças à difusão
generalizada das técnicas e da informação.
Criam-se, assim, lugares globais simples e lugares globais complexos. Esses são, geralmente, as
metrópoles, em que um grande número de variáveis típicas de nossa época se combina.
Mas as metrópoles se caracterizam não apenas por esse lado moderno de sua realidade atual, mas
também pelo fato de que guardam numerosos aspectos herdados de épocas anteriores, em virtude da
resistência da paisagem metropolitana às mudanças gerais. É um equívoco considerar as metrópoles
como se fossem inteiramente modernizadas e globalizadas. Aliás, o seu cosmopolitismo (qualidade do
que é cosmopolita – que apresenta características sociais, econômicas e culturais de vários países),
apenas é garantido pelo fato de que esses lugares complexos contêm elementos com diversas origens e
idades que lhes asseguram o enriquecimento da variedade e da multiplicidade, o que inclui a possibilidade
de abrigarmos mais diversos tipos de capital, trabalho e cultura.
Uma classificação rigorosa levará a incluir entre as metrópoles globais apenas algumas poucas: Nova
York, Los Angeles, Tóquio, Londres, Paris..., capazes de exercer um papel de comando efetivo e de
regulação sobre o qual se faz nas outras cidades e no resto do mundo. Pode-se incluir também nesse rol,
ainda que num segundo nível, localidades como São Paulo, Cidade do México, Johanesburgo, cujo papel
reitor apenas se impõe a áreas menores e mais delimitadas do planeta.
Desse modo, pode-se considerar que as cidades globais são aquelas que dispõem, dos instrumentos
de comando da economia e sociedade em escala mundial (....). (SANTOS, Milton. Folha de São Paulo, 13/04/1997, Mais!, p. 5-
9).

As Metrópoles
As metrópoles são cidades populosas, adaptadas à economia globalizada, mas não necessariamente
formam uma megacidade. Em geral, preservam suas tradições, sua arquitetura e seu patrimônio histórico,
como é o caso principalmente das cidades europeias. Constituem grandes polos de atração de
investimentos e estão articuladas com as cidades globais – em alguns casos, podem ser classificadas
como tais. No entanto, sua importância e capacidade de comando geralmente estão restritas ao território
nacional.
Par alguns estudiosos do urbanismo, também deveriam estar associadas ao conceito de metrópole
características como direitos humanos e de cidadania (o direito à moradia, à educação, à saúde, ao
emprego, à segurança, etc.), o que limitaria este conceito a algumas cidades do mundo desenvolvido.

A Metrópole na Visão de um Importante Geógrafo


A ideia de metrópole nos remete a uma outra ideia, a de hierarquia. Como na história política dos
povos, onde algumas nações comandam as outras, com suas peculiaridades políticas, econômicas e
culturais, as metrópoles também disporiam do papel de comando em relação ao conjunto de cidades. As
metrópoles seriam as entidades mais altas na hierarquia, em virtude de deterem as melhores condições
econômicas, sociais, culturais e políticas: daí sua posição de comando.
A história nos fez juntar a ideia de metrópole à ideia de tamanho. Mas não seria apenas quantitativo,
mas também qualitativo – a grande cidade se torna metrópole por reunir condições, fruto em parte de seu
tamanho e da sua força reunida. É por isso que as metrópoles aparecem como lugar onde é possível
conviver com a sofisticação. (...). É o que distinguiria as nossas metrópoles das do norte, porque nas
nossas metrópoles a sofisticação não está ao alcance senão de uma parte muito pequena da população.

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Entraríamos, portanto, em uma outra forma de distinguir as metrópoles, a qual limitaria a definição de São
Paulo como metrópole, porque poucas pessoas têm acesso ao que há aqui de sofisticado, diferentemente
de uma cidade como Paris, Londres ou Nova York, ou mesmo como Viena, que não é tão grande. (Santos,
Milton. Revista Caramelo. São Paulo, Grêmio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, 1994, nº 7, p. 62).

Questões

01. (SEDF – Estudantes Universitários – CESPE) Com relação à geografia urbana no Brasil, julgue
o item que se seguem.
Os fatores que propiciam o crescimento populacional no interior do Brasil incluem a atração de
indústrias para as cidades de médio porte.
(....) Certo (....) Errado

02. (SEDF – Estudantes Universitários – CESPE) Com relação à geografia urbana no Brasil, julgue
o item que se seguem.
O processo de industrialização foi o fator responsável pelo desenvolvimento das cidades brasileiras,
cujos territórios se transformaram devido ao aumento da atividade produtiva no campo.
(....) Certo (....) Errado

03. (IBGE – Tecnologista/Geografia – FGV) Na organização do espaço urbano brasileiro na


contemporaneidade, observa-se uma expansão impulsionada por duas lógicas, a da localização dos
empregos nos núcleos das aglomerações e a da localização das moradias nas áreas periféricas. A
incorporação de novas áreas residenciais, o aumento da mobilidade e a oferta de transporte eficiente
favorecem a formação de arranjos populacionais de diferentes magnitudes que aglutinam diferentes
unidades espaciais. Adaptado de: IBGE. Arranjos populacionais e concentrações urbanas no Brasil. Rio
de Janeiro: IBGE, 2015. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou 294 arranjos
populacionais no País, formados por 938 municípios e que representam 55,9% da população residente
no Brasil em 2010.
Os critérios utilizados na identificação dos arranjos populacionais empregam a noção de integração,
medida:
(A) pelos movimentos pendulares para trabalho e estudo e/ou pela contiguidade urbana;
(B) pelas funções urbanas e/ou pelo rendimento dos responsáveis por domicílio;
(C) pelos fluxos telefônicos e/ou pelas unidades locais das empresas de serviços à produção;
(D) pela densidade demográfica e/ou pela estrutura da População Economicamente Ativa;
(E) pelo tamanho populacional e/ou pelo fluxo de bens, mercadorias, informações e capitais.

Gabarito

01.Certo / 02.Errado / 03.A

Comentários

01. Resposta: Certo.


Um assunto que tem estado bastante em voga na economia brasileira desde o final do século XX é a
descentralização de indústrias, processo que, de acordo com o geógrafo Paulo Inácio Vieira Carvalho,
“tem início na década de 1980, quando as fábricas começam a deixar as regiões metropolitanas em
direção a municípios do interior”.
Inicialmente, as indústrias se retiraram das capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo visando
estabelecer-se em cidades do interior desses estados, mas, posteriormente, o projeto estendeu-se
também para estados menos industrializados do país.

02. Resposta: Errado.


Os territórios se transformaram devido ao aumento da atividade produtiva NAS CIDADES e não no
campo, além disso, o processo de industrialização foi um dos fatores responsáveis pelo desenvolvimento
das cidades brasileiras, porém, não o único.

03. Resposta: A.
Os movimentos pendulares são cada vez mais importantes para o entendimento da dinâmica urbana.
São utilizados para estudar a organização funcional dos espaços regionais e delimitar regiões

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metropolitanas; dimensionar e caracterizar os fluxos gerados para o estudo e para o trabalho; para o
planejamento urbano, em especial o de transportes, entre outros (MOURA, CASTELLO BRANCO; FIRKOWSKI, 2005;
CASTELLO BRANCO, 2006).

CIDADES E URBANIZAÇÃO BRASILEIRA76

A fundação de Brasília, em 1960, e a abertura de rodovias integrando a nova capital ao restante do


país provocaram significativas alterações nos fluxos migratórios e na urbanização brasileira. Os
municípios já existentes cresceram, outros foram inaugurados e, consequentemente, houve reflexos na
malha municipal brasileira.

O que consideramos Cidade?

No mundo, atualmente, há cidades de diferentes tamanhos, densidades demográficas e condições


socioeconômicas. Em algumas, apenas uma função urbana recebe destaque, enquanto em outras são
desenvolvidas múltiplas atividades. Muitas se estruturaram há séculos, outras começaram a se
desenvolver há poucos anos ou décadas. Há ainda cidades que apresentam grande desigualdade social
e aquelas nas quais as desigualdades são menos acentuadas. Todos esses aspectos se refletem na
organização do espaço e são visíveis nas paisagens urbanas.
Dependendo do país ou da região em que se localiza, uma pequena aglomeração de alguns milhares
de habitantes pode apresentar grande diversidade de funções urbanas ou, simplesmente, constituir uma
concentração de residências rurais. Por exemplo, na Amazônia, onde a densidade demográfica é muito
baixa, um pequeno povoado pode contar com diversos serviços, como posto de saúde, escola e serviço
bancário, enquanto no inteiro do Estado de São Paulo, onde a rede urbana é bastante densa, o distrito
de um município de pequeno porte pode se constituir apenas como local de moradia de trabalhadores
rurais, com comércio de produtos básicos, sem apresentar outras funções urbanas. Quanto à população,
uma cidade localizada em regiões pioneiras pode ter muito menos habitantes que uma vila rural de um
município muito populoso localizado em uma região de ocupação mais antiga.
Na maioria dos países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento, a classificação de uma
aglomeração humana como zona urbana ou cidade costuma considerar algumas variáveis básicas:
densidade demográfica, número de habitantes, localização e existência de equipamentos urbanos, como
comércio variado, escolas, atendimento médico, correio e serviços bancários. No Brasil, o IBGE considera
população urbana as pessoas que residem no interior do perímetro urbano de cada município, e
população rural as que residem fora desse perímetro.
Entretanto, as autoridades administrativas de alguns municípios utilizam as atribuições que a lei lhes
garante e determinam um perímetro urbano bem mais amplo do que a área efetivamente urbanizada.
Dessa forma, muitas chácaras, sítios ou fazendas, inegavelmente áreas rurais, acabam registradas como
parte do perímetro urbano e são taxados com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), e não com o
Imposto Territorial Rural (ITR). Com o IPTU, o governo dos municípios obtém ima arrecadação muito
superior à que obteria com o ITR.
Em 2017, 94,5% dos municípios brasileiros tinham até 100 mil habitantes e abrigavam 43,5% da
população do país; neles, as diversas atividade rurais ocupavam grande parte dos trabalhadores e
comandavam o modo de vida das pessoas.
Já que todos os municípios, independente de sua extensão territorial e população, têm,
obrigatoriamente, uma zona estabelecida como urbana, algumas aglomerações cercadas por florestas,
pastagens e áreas de cultivo são classificadas como áreas “urbanas”. Segundo esse critério, o estado do
Amapá e de Mato Grosso têm índices de urbanização equivalentes ao da região Sudeste. Portanto, como
não há um critério uniforme, a comparação dos dados estatísticos de população urbana e rural entre o
Brasil e outros países fica comprometida.
Alguns estados com grau de urbanização maior (acima de 70%) localizam-se em regiões de floresta,
de expansão agrícola ou reservas indígenas e ecológicas (principalmente na região Norte do país), nas
quais as atividades rurais, como agropecuária e extrativismo, são dominantes. Por exemplo, segundo o
IBGE, o Amapá, que em 2017 possuía apenas 797 mil habitantes distribuídos em 16 municípios, sendo
474 mil habitantes em Macapá, apresenta índices de urbanização igual ao de outros estados do Centro-
Sul.

76
SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil. Volume único. Eustáquio de Sene, João Carlos Moreira. 6ª edição. São Paulo: Ática, 2018.

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População Urbana e Rural

A metodologia utilizada na definição das populações urbana e rural resulta em distorções. É


inquestionável, entretanto, que os índices de população urbana tenham aumentado em quase todo o país
em razão da migração rural-urbana, embora atualmente ela seja menos intensa do que nas décadas
anteriores.
Até meados dos anos 1960, a população brasileira era predominantemente rural. Entre as décadas de
1950 e 1980, milhões de pessoas migraram para as regiões metropolitanas e capitais de estados. Esse
processo provocou crescimento desordenado, segregação espacial e aumento das desigualdades nas
grandes cidades, mas também melhoria em vários indicadores sociais, como a redução da natalidade e
dos índices de mortalidade infantil, além do aumento na expectativa de vida e nas taxas de escolarização.
Veja a tabela a seguir.

Brasil: Índice de Urbanização por Região (%)


Região 1950 1970 2015
Sudeste 44,5 72,7 93,1
Centro-Oeste 24,4 48,0 89,8
Sul 29,5 44,3 85,6
Norte 31,5 45,1 75,0
Nordeste 26,4 41,8 73,1
Brasil 36,2 55,9 84,7

Observe que o Centro-Oeste apresenta o segundo maior índice de urbanização entre as regiões
brasileiras. Isso se explica por dois fatores: toda a população do Distrito Federal (cerca de 3 milhões de
habitantes em 2017) mora dentro do perímetro urbano de Brasília, que é o único aglomerado urbano
dessa unidade da Federação; e houve a abertura de rodovias e a expansão das fronteiras agrícolas com
pecuária e a agricultura mecanizada (que usam pouca mão de obra), o que promoveu o crescimento
urbano nas cidades já existentes e o surgimento de outras.
Atualmente, a distinção entre população urbana e rural torou-se mais complexa, pois é considerável o
número de pessoas que trabalham em atividades rurais e residem nas cidades, assim como moradores
da área rural que trabalham no meio urbano.
São inúmeras as cidades que surgiram e cresceram em regiões do país que têm a agroindústria como
propulsora das atividades econômicas secundárias e terciárias. Ao mesmo tempo, vem aumentando e se
diversificando o número de atividades econômicas secundárias e terciárias instaladas na zona rural, que,
assim, se torna cada vez mais integrada à cidade.

A Rede Urbana Brasileira

Nas primeiras décadas da colonização foram fundadas várias vilas no Brasil. Em 1549, foi fundada
Salvador, a capital do Brasil até 1763, quando a sede foi transferida para o Rio de Janeiro. As demais
vilas da Colônia, assim que atingiam certo nível de desenvolvimento, recebiam título de cidade. A partir
da República, as vilas passaram a ser chamadas de cidades, e seu território (perímetro urbano e zona
rural) passou a ser designado município.
Ao longo da história da ocupação do território brasileiro, houve grande concentração de cidades na
faixa litorânea, em razão do processo de colonização do tipo agrário-exportador.
Durante o auge da atividade mineradora, ocorreu um intenso processo de urbanização e uma
efervescência cultural em Minas Gerais, além da ocupação de Goiás e Mato Grosso. Mas, com a
decadência da mineração, essas regiões, mais distantes do litoral, perderam população. A forte migração
para a então província de São Paulo, onde se iniciava a cafeicultura, possibilitou o desenvolvimento de
várias cidades, como Taubaté, Bragança Paulista e Campinas.
Além da cidade, os municípios podem conter outros núcleos urbanos, chamados distritos, que são
subdivisões administrativas. Em alguns casos, esses distritos crescem e se tornam maiores que a cidade,
incentivando movimentos de emancipação. Entretanto, muitos desses novos municípios não têm
arrecadação suficiente para manter as despesas inerentes, como Prefeitura, Câmara Municipal e serviços
públicos.
Considerando a viabilidade financeira dos novos municípios, ou seja, a relação entre receitas e
despesas, conclui-se que nem sempre há condições para sua autonomia econômica. Assim, muitos
municípios acabam deficitários, dependentes do auxílio estadual e federal.

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Porém, para a população local, a criação de um novo município costuma parecer uma grande
conquista, pois, em geral, sente-se marginalizada e reivindica mais atenção e investimentos. A partir de
2001, essas emancipações diminuíram muito porque a Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu certa
autonomia econômica aos distritos e regulamentou as condições de repasse de verbas entre as esferas
de governo.
O Brasil tinha em 1960, 2766 municípios; em 1980, 3991; em 2000, 5507; em 2010, 5565 e em 2017,
5570.
O processo de urbanização e estruturação da rede urbana brasileira pode ser dividido em quatro
etapas.

Brasil: Integração Regional


Até a década de 1930 as migrações e o processo de urbanização se organizavam predominantemente
em escala regional, com as respectivas metrópoles funcionando como polos de atividades secundárias e
terciárias. As atividades econômicas, que impulsionam a urbanização, desenvolviam-se de forma
independente e esparsa pelo território nacional. A integração econômica entre São Paulo (região
cafeeira), Zona da Mata nordestina (cana-de-açúcar, cacau e tabaco), Meio-Norte (algodão, pecuária e
extrativismo vegetal) e região Sul (pecuária e policultura) era muito restrita. Com a modernização da
economia, as regiões Sul e Sudeste formaram um mercado único que, posteriormente, incorporou o
Nordeste e, mais arde, o Norte e o Centro-Oeste.
A partir da década de 1930, à medida que a infraestrutura de transportes e telecomunicações se
expandia pelo país, o mercado se unificava, mas a tendência à concentração das atividades urbano-
industriais na região Sudeste fez com que a atração populacional ultrapassasse a escala regional,
alcançando o país como um todo. Os dois grandes polos industriais do Sudeste, São Paulo e Rio de
Janeiro, passaram a atrair um enorme contingente de mão de obra das regiões que não acompanharam
o mesmo ritmo de crescimento econômico e se tornaram metrópoles nacionais. Foi particularmente
intenso o afluxo de mineiros e nordestinos para as duas metrópoles, que, por não atenderem às
demandas de investimento em infraestrutura, tornaram-se centros urbanos com diversos problemas em
setores como moradia e transportes.
Entre as décadas de 1950 e 1980 ocorreram intenso êxodo rural e migração inter-regional, com forte
aumento da população metropolitana no Sudeste, Nordeste e Sul. Nesse período, o aspecto mais
marcante da estruturação da rede urbana brasileira foi a concentração progressiva e acentuada da
população em grades cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais que cresciam
velozmente.
Da década de 1980 aos dias atuais observa-se que o maior crescimento tende a ocorrer nas
metrópoles regionais e cidades médias, com predomínio da migração urbana-urbana-deslocamento de
população das cidades pequenas para as médias e retorno de moradores das cidades de São Paulo e
Rio de Janeiro para as cidades médias, tanto da região metropolitana quanto para outras mais distantes,
até de outros estados.

A Integração Econômica

A mudança na direção dos fluxos migratórios e na estrutura da rede urbana é resultado de uma
contínua e crescente reestruturação e integração dos espaços urbano e rural. Isso resulta da dispersão
espacial das atividades econômicas, intensificada a partir dos anos 1980, e da formação de novos centros
regionais, que alteraram o padrão hegemônico das metrópoles na rede urbana do país. As metrópoles
não perderam a sua primazia, mas os centros urbanos regionais não metropolitanos assumiram algumas
funções até então desempenhadas apenas por elas.
Com novas funções, muitos desses centros urbanos geraram vários dos problemas da maioria das
grandes cidades que cresceram sem planejamento.

Principais Problemas Urbanos

Moradia
A especulação imobiliária tem tornado o solo urbano cada vez mais caro, excluindo a população de
baixa renda das áreas com melhor infraestrutura, porque são as mais valorizadas. Assim, grande parte
da população se instala em assentamentos irregulares, como encostas de morros e várzeas de rios,
muitos deles consideradas áreas de risco para estabelecer moradia.

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Trânsito
A necessidade de percorrer grandes distâncias diariamente no percurso casa-trabalho-casa, em
função da distribuição desigual de empregos pela cidade, e a falta de um transporte público eficiente
geram um número elevado de automóveis particulares nas vias públicas. Além disso, a verticalização77
característica dos grandes centros urbanos, alternativa encontrada para o adensamento78, quando feita
sem planejamento, influencia diretamente o aumento do transito de automóveis.
O aumento da concentração de poluentes na atmosfera nos centros urbanos é causado pelo
lançamento de partículas geradas, sobretudo, pela queima dos combustíveis dos veículos. Doenças
cardíacas e respiratórias têm sido associadas à presença de partículas poluentes nos pulmões e na
corrente sanguínea dos habitantes dos grandes centros urbanos, segundo a Organização Mundial da
Saúde.

Violência
A violência em geral é maior nos grandes centros urbanos, onde a desigualdade social é mais
acentuada.
Na tentativa de diminuir a sensação de insegurança, proliferam os condomínios residenciais fechados
e o setor privado de segurança. Fora dos condomínios residenciais, a busca por segurança incentiva a
procura por prédios para moradia, o que contribui para a verticalização dos grandes centros urbanos.
O crescimento do número de shopping centers nos grandes centros materializa o desejo de espaços
mais seguros para o lazer e as compras.

As Regiões Metropolitanas Brasileiras

As regiões metropolitanas brasileiras foram criadas por lei aprovada no Congresso Nacional em 1973,
que as definiu como “um conjunto de municípios contíguos e integrados socioeconomicamente a uma
cidade central, com serviços públicos e infraestrutura comum”, que deveriam ser reconhecidas pelo IBGE.
A Constituição de 1988 permitiu a estadualização do reconhecimento legal das metrópoles, conforme
o artigo 25, §3º: “Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas,
aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para
integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum”.
As Regiões Integradas de Desenvolvimento (Rides) também são regiões metropolitanas, mas os
municípios que as integram situam-se em mais de uma unidade da Federação e, por causa disso, são
criadas por lei federal.
Em 2017, de acordo com a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), havia 74
regiões metropolitanas no país, abrigando 115,9 milhões de pessoas, 55,9% da população brasileira.
Veja a tabela a seguir, na qual estão listadas as quinze maiores regiões metropolitanas (incluída a
Ride do Distrito Federal).

Brasil: Maiores Regiões Metropolitanas e Rides - 2017


Região Metropolitana População
São Paulo 21.391.624
Rio de Janeiro 12.377.305
Belo Horizonte 5.314.930
Ride DF e entorno 4.373.841
Porto Alegre 4.293.050
Fortaleza 4.051.744
Salvador 4.015.205
Recife 3.965.699
Curitiba 3.572.326
Campinas 3.168.019
Vale do Paraíba e Litoral Norte 2.497.857
Goiânia 2.493.792
Manaus 2.488.336
Belém 2.441.761
Sorocaba 2.088.321

77
Verticalização é um processo urbanístico que ocorre em metrópoles e consiste na construção de grandes e inúmeros edifícios, o que acaba, inevitavelmente,
dificultando a circulação de ar, devido à diminuição do espaço físico plano para construção. Ademais, é decorrente a formação de ilhas de calor nesses locais.
78
Fenômeno associado ao crescimento populacional das cidades, que resulta no uso intensivo do espaço urbano. Aglomeração de pessoas em um espaço
pequeno.

186
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Na tabela acima estão listadas regiões metropolitanas reconhecidas por lei estadual que trata-se do
reconhecimento legal como conjunto de cidades conturbadas com infraestrutura comum.
À medida que as cidades vão se expandindo horizontalmente, ocorre a conturbação, ou seja, elas se
tornam contínuas e integradas. Embora com administrações diferentes, espacialmente é como se fossem
uma única cidade. Portanto, os problemas de infraestrutura urbana passam a ser comuns ao conjunto de
municípios que formam a região metropolitana.
Das 74 regiões metropolitanas existentes em 2017, duas, São Paulo e Ri ode Janeiro, são
consideradas metrópoles nacionais, pelo fato de polarizarem o país inteiro. Ambas também são
consideradas cidades globais por estarem mais fortemente integradas aos fluxos mundiais. É nessas
cidades, sobretudo em São Paulo, que estão as sedes dos grandes bancos e das indústrias do país,
alguns dos centros de pesquisa mais avançados, as Bolsas de Valores e mercadorias, os grandes grupos
de comunicação, os hospitais de referência, etc.
A conturbação entre duas ou mais metrópoles não significa que as malhas urbanas sejam contínuas;
ela envolve plena integração socioeconômica, com intensidade de fluxos entre os municípios, mesmo
com a presença de zona rural entre eles.

Hierarquia e Influência dos Centros Urbanos no Brasil - Mobilidade

Dentro da rede urbana, as cidades são os nós dos sistemas de produção e distribuição de mercadorias
e da prestação de serviços diversos, que se organizam segundo níveis hierárquicos distribuídos de forma
desigual pelo território.
Por exemplo, o Centro-Sul do país possui uma rede urbana com grande número de metrópoles,
capitais regionais e centros sub-regionais bastante articulados entre si. Já na Amazônia, as cidades são
esparsas e bem menos articuladas, o que leva centros menores a exercerem o mesmo nível de
importância na hierarquia urbana regional que outros maiores localizados no Centro-Sul.
Outro fator importante que devemos considerar ao analisar os fluxos no interior de uma rede urbana é
a condição de acesso proporcionada pelos diferentes níveis de renda da população. Um morador rico de
uma cidade pequena consegue estabelecer muito mais conexões econômicas e socioculturais que um
morador pobre de uma grande metrópole. A mobilidade das pessoas entre as cidades da rede urbana
depende de seu nível de renda.
Segundo o IBGE, as regiões de influência das cidades brasileiras são delimitadas principalmente pelo
fluxo de consumidores que utilizam o comércio e os serviços públicos e privados no interior da rede
urbana. Ao realizar o levantamento para a elaboração do mapa da rede urbana, investigou-se a
organização dos meios de transporte entre os municípios e os principais destinos das pessoas que
buscam produtos e serviços.
O IBGE classificou as cidades em cinco níveis:

Metrópoles – os doze principais centros urbanos do país, divididos em três subníveis, segundo o
tamanho e o poder de polarização:
a) Grande metrópole nacional – São Paulo, a maior metrópole do país (21,2 milhões de habitantes,
em 2016), com poder de polarização em escala nacional;
b) Metrópole nacional – Rio de Janeiro e Brasília (12,3 milhões e 4,3 milhões de habitantes,
respectivamente, em 2016), que também estendem seu poder de polarização em escala nacional, mas
com um nível de influência menor que o de São Paulo;
c) Metrópole – Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Recife, Curitiba, Campinas e
Manaus, com população variando de 2,6 (Manaus) a 5,9 milhões de habitantes (Belo Horizonte), são
regiões metropolitanas que têm poder de polarização em escala regional.

Capital regional – Neste nível de polarização existem setenta municípios com influência regional. É
subdividido em três níveis:
a) Capital regional A – engloba 11 cidades, com média de 955 mil habitantes;
b) Capital regional B – 20 cidades, com média de 435 mil habitantes;
c) Capital regional C – 39 cidades, com média de 250 mil habitantes.

Centro sub-regional – Engloba 169 municípios com serviços menos complexos e área de polarização
mais reduzida. É subdividido em:
a) Centro sub-regional A – 85 cidades, com média de 95 mil habitantes;
b) Centro sub-regional B – 79 cidades, com média de 71 mil habitantes.

187
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Centro de zona – São 556 cidades de menor porte que dispõem apenas de serviços elementares e
estendem seu poder de polarização somente às cidades vizinhas. Subdivide-se em:
a) Centro de zona A – 192 cidades, com média de 45 mil habitantes;
b) Centro de zona B – 364 cidades, com média de 23 mil habitantes.

Centro local – as demais 4.473 cidades brasileiras, com média de 8.133 habitantes e cujos serviços
atendem somente à população local, não polarizam nenhum município, sendo apenas polarizadas por
outros.

Plano Diretor e Estatuto da Cidade

Em 10 de julho de 2001, foi sancionado o Estatuto da Cidade, documento que regulamentou itens de
política urbana que constam da Constituição de 1988. O estatuto fornece as principais diretrizes a serem
aplicadas nos municípios, por exemplo: regularização da posse dos terrenos e imóveis, sobretudo em
áreas de risco que tiverem ocupação irregular; organização das relações entre a cidade e o campo;
garantia de preservação e recuperação ambiental, entre outras.
Segundo o Estatuto da Cidade, é obrigatório que determinados municípios elaborem um Plano
Diretor, que é um conjunto de leis que estabelecem as diretrizes para o desenvolvimento socioeconômico
e a preservação ambiental, regulamentando o uso e a ocupação do território municipal, especialmente o
solo urbano. O Plano Diretor é obrigatório para municípios que apresentam uma ou mais das seguintes
características:
Abriga mais de 20 mil habitantes;
Integra regiões metropolitanas e aglomerações urbanas;
Integra áreas de especial interesse turístico;
Insere-se na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental
de âmbito regional ou nacional;
É um local onde o poder público municipal quer exigir o aproveitamento adequado do solo urbano sob
pena de parcelamento, desapropriação ou progressividade do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
Os planos são elaborados pelo governo municipal – por uma equipe de profissionais qualificados, como
geógrafos, arquitetos, urbanistas, engenheiros, advogados e outros. Geralmente se iniciam com um perfil
geográfico e socioeconômico do município. Em seguida, apresenta-se uma proposta de desenvolvimento,
com atenção especial para o meio ambiente.
A parte final, e mais extensa, detalha as diretrizes definidas para cada setor da administração púbica,
ou seja, habitação, transporte, educação, saúde, saneamento básico, etc., assim como as normas
técnicas para ocupação e uso do solo, conhecidas como Lei de Zoneamento.
Assim, o Plano Diretor pode alterar ou manter a forma dominante de organização espacial e, portanto,
interfere no dia a dia de todos os cidadãos. Por exemplo, uma alteração na Lei de Zoneamento pode
valorizar ou desvalorizar os imóveis e alterar a qualidade de vida em determinado bairro.
Outro exemplo prático de planejamento urbano constante no Plano Diretor é o controle dos polos
geradores de tráfego, uma vez que os congestionamentos são um sério problema para os moradores das
grandes e médias cidades. Para isso, tem colaborado bastante a difusão dos Sistemas de Informações
Geográficas (SIGs).
Os SIGs permitem coletar, armazenar e processar, com grande rapidez, uma infinidade de dados
georreferenciados fundamentais e mostrá-los por meio de plantas e mapas, gráficos e tabelas, o que
facilita muito a intervenção dos profissionais envolvidos com o planejamento urbano.
Antes de ser elaborado pela Prefeitura (Poder Executivo) e aprovado pela Câmara Municipal (Poder
Legislativo), o Plano Diretor deve contar com a “cooperação das associações representativas no
planejamento municipal”. A participação da comunidade na elaboração desse documento passou a ser
uma exigência constitucional que prevê, ainda, projetos de iniciativa popular (geralmente na forma de
abaixo-assinado), que podem ser apresentados desde que contem com participação de 5% do eleitorado,
conforme inciso XIII do artigo 29 da Constituição.
Além de um Plano Diretor bem-estruturado, é importante que o poder público e os cidadãos respeitem
as regras estabelecidas, colaborando, assim, para que os problemas das cidades sejam minimizados.
Entretanto, o planejamento das ações governamentais e a sua execução demandam um processo
composto de várias fases, e algumas (como preparar uma licitação ou aprovar o orçamento no Legislativo)
dificilmente podem ser organizadas pela população.
Como o encaminhamento dessas fases exige uma ação administrativa complexa, na prática a
participação popular no planejamento e na execução de intervenções urbanas só se concretiza quando a
pressão popular e a vontade dos governantes convergem nessa direção.

188
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Aplicações do Plano Diretor
Cada Plano Diretor trata de realidades particulares dos diversos municípios, mas maioria deles
apresenta as seguintes aplicações práticas:

Lei do Perímetro Urbano – Estabelece os limites da área considerada perímetro urbano, em cujo
interior é arrecadado o IPTU.

Lei do Parcelamento do Solo Urbano – A principal atribuição dessa lei é estabelecer o tamanho
mínimo dos lotes urbanos, o que acaba determinado o grau de adensamento de um bairro ou zona da
cidade. Por exemplo, num bairro onde o lote mínimo tenha área de 200 m², a ocupação será mais densa
que em outro onde ele tenha 500 m².

Lei de Zoneamento (uso e ocupação do solo urbano) – Estabelece as zonas do município nas quais
a ocupação será estritamente residencial ou mista (residencial e comercial), as áreas em que ficará o
distrito industrial, quais serão as condições de funcionamento de bares e casas noturnas e muitas outras
especificações que podem manter ou alterar profundamente as características dos bairros.

Código de Edificações – Estabelece as áreas de recuo nos terrenos (quantos metros do terreno
deverão ficar desocupados na sua parte frontal, nos fundos e nas laterais), normas de segurança (contra
incêndio, largura das escadarias, etc.) e outras regulamentações criadas por tipo de construção e
finalidade de uso, como escola, estádio, residência, comércio, etc.

Leis Ambientais – Regulamentam a forma de coleta e destino final do lixo residencial, industrial e
hospitalar e a preservação das áreas verdes: controlam a emissão de poluentes atmosféricos, normatizam
ações voltadas para a preservação ambiental;

Plano do Sistema Viário e dos Transportes Coletivos – Regulamenta o trajeto das linhas de ônibus
e estabelece estratégias que facilitem ao máximo o fluxo de pessoas pela cidade por meio da abertura de
novas avenidas, corredores de ônibus, investimentos em trens urbanos e metrô, etc.

Questões

01. (Enem) Subindo morros, margeando córregos ou penduradas em palafitas, as favelas fazem parte
da paisagem de um terço dos municípios do país, abrigando mais de 10 milhões de pessoas, segundo
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). MARTINS, A. R. A favela como um espaço da cidade. Disponível
em: http://www.revistaescola.abril.com.br. Acesso em: 31 jul. 2010.
A situação das favelas no país reporta a graves problemas de desordenamento territorial. Nesse
sentido, uma característica comum a esses espaços tem sido
(A) o planejamento para a implantação de infraestruturas urbanas necessárias para atender as
necessidades básicas dos moradores.
(B) a organização de associações de moradores interessadas na melhoria do espaço urbano e
financiadas pelo poder público.
(C) a presença de ações referentes à educação ambiental com consequente preservação dos espaços
naturais circundantes.
(D) a ocupação de áreas de risco suscetíveis a enchentes ou desmoronamentos com consequentes
perdas materiais e humanas.
(E) o isolamento socioeconômico dos moradores ocupantes desses espaços com a resultante
multiplicação de políticas que tentam reverter esse quadro.

02. (Enem) Em um debate sobre o futuro do setor de transporte de uma grande cidade brasileira com
trânsito intenso, foi apresentado um conjunto de propostas. Entre as propostas reproduzidas a seguir,
aquela que atende, ao mesmo tempo, à implicações sociais e ambientais presentes nesse setor é
(A) proibir o uso de combustíveis produzidos a partir de recursos naturais.
(B) promover a substituição de veículos a diesel por veículos a gasolina.
(C) incentivar a substituição do transporte individual por transportes coletivos.
(D) aumentar a importação de diesel para substituir os veículos a álcool.
(E) diminuir o uso de combustíveis voláteis devido ao perigo que representam.

189
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Gabarito

01.D / 02.C

Comentários

01. Resposta: D
As aglomerações de moradias subnormais são construídas em terrenos públicos e particulares
invadidos. Como as áreas de risco suscetíveis a enchentes e a desmoronamentos geralmente estão
desocupadas, tornam-se alvo de invasão e construção de moradias para a população que não tem acesso
aos programas habitacionais do poder público.

02. Resposta: C
A substituição do transporte individual por coletivo reduz a quantidade de veículos em circulação e,
portanto, reduz os congestionamentos.

Globalização e Blocos Econômicos

NOVA ORDEM MUNDIAL, ESPAÇO GEOPOLÍTICO E GLOBALIZAÇÃO79

Uma ordem mundial diz respeito às configurações gerais das hierarquias de poder existentes entre
os países do mundo. Dessa forma, as ordens mundiais modificam-se a cada oscilação em seu contexto
histórico. Portanto, ao falar de uma nova ordem mundial, estamos nos referindo ao atual contexto das
relações políticas e econômicas internacionais de poder.
Durante a Guerra Fria, existiam duas nações principais que dominavam e polarizavam as relações de
poder no globo: Estados Unidos e União Soviética.
Essa ordem mundial era notadamente marcada pelas corridas armamentista e espacial e pelas
disputas geopolíticas no que se refere ao grau de influência de cada uma no plano internacional. Este era
o mundo bipolar.
A partir do final da década de 1980 e início dos anos 1990, mais especificamente após a queda do
Muro de Berlim e do esfacelamento da União Soviética, o mundo passou a conhecer apenas uma grande
potência econômica e, principalmente, militar: os EUA. Analistas e cientistas políticos passaram a nomear
a então ordem mundial vigente como unipolar.
Entretanto, tal nomeação não era consenso. Alguns analistas enxergavam que tal soberania pudesse
não ser tão notável assim, até porque a ordem mundial deixava de ser medida pelo poderio bélico e
espacial de uma nação e passava a ser medida pelo poderio político e econômico.
Nesse contexto, nos últimos anos, o mundo assistiu às sucessivas crescentes econômicas da União
Europeia e do Japão, apesar das crises que estas frentes de poder sofreram no final dos anos 2000.
De outro lado, também vêm sendo notáveis os índices de crescimento econômico que colocaram a
China como a segunda maior nação do mundo em tamanho do PIB (Produto Interno Bruto). Por esse
motivo, muitos cientistas políticos passaram a denominar a Nova Ordem Mundial como mundo multipolar.

79
http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/nova-ordem-mundial.htm.

190
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Mas é preciso lembrar que não há no mundo nenhuma nação que possua o poderio bélico e nuclear
dos EUA.
Esse país possui bombas e ogivas nucleares que, juntas, seriam capazes de destruir todo o planeta
várias vezes.
A Rússia, grande herdeira do império soviético, mesmo possuindo tecnologia nuclear e um elevado
número de armamentos, vem perdendo espaço no campo bélico em virtude da falta de investimentos na
manutenção de seu arsenal, em razão das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país após a Guerra
Fria.
É por esse motivo que a maior parte dos especialistas em Geopolítica e Relações Internacionais,
atualmente, nomeia a Nova Ordem Mundial como mundo unimultipolar. “Uni” no sentido militar, pois os
Estados Unidos é líder incontestável. “Multi” em razão das diversas crescentes econômicas de novos
polos de poder, sobretudo a União Europeia, o Japão e a China.

A Divisão do Mundo entre Norte e Sul

Durante a ordem geopolítica bipolar, o mundo era rotineiramente dividido entre leste e oeste.
O Oeste era a representação do Capitalismo liderado pelos EUA, enquanto o Leste demarcava o
mundo Socialista representado pela URSS. Essa divisão não era necessariamente fiel aos critérios
cartográficos, pois no Oeste havia nações socialistas (a exemplo de Cuba) e no leste havia nações
capitalistas.
Contudo, esse modelo ruiu. Atualmente, o mundo é dividido entre Norte e Sul, de modo que no Norte
encontram-se as nações desenvolvidas e, ao sul, encontram-se as nações subdesenvolvidas ou
emergentes. Tal divisão também segue os ditames da Nova Ordem Mundial, em considerar
preferencialmente os critérios econômicos em detrimento do poderio bélico.

Em vermelho, os países do sul subdesenvolvido e, em azul, os países do norte desenvolvido

Observa-se que também nessa nova divisão do mundo não há uma total fidelidade aos critérios
cartográficos, uma vez que alguns poucos países localizados ao sul pertencem ao “Norte” (como a
Austrália) e alguns países do norte pertencem ao “Sul” (como a China).

A Economia Capitalista Hoje

Vivemos na segunda década da Nova Ordem Internacional. Suas características tornam-se a cada dia
mais claras. Suas raízes econômicas remontam às transformações iniciadas com as tecnologias dos anos
de 1970, que influenciam as potências atuais de forma marcante.
No campo geopolítico, essa nova era configurou-se com a crise do socialismo, o fim da Guerra Fria e
a valorização dos problemas sociais e ambientais.
Na atualidade, o grupo de países desenvolvidos, formado por 23 nações (Estados Unidos, Canadá,
Japão, Austrália, Nova Zelândia, Islândia, Noruega, Suíça e os 15 membros da União Europeia), torna-
se cada vez mais rico. Em 2005, a população dessas nações somava 900 milhões de pessoas (13% do
total mundial) e produzia cerca de 32 trilhões de dólares (80% do PIB mundial), o que dava uma renda
per capita de mais de 35 mil dólares. Em 1960, os mesmos países tinham cerca de 20% da população
mundial e controlavam cerca de 60% do PIB do mundo.
Uma das características político-econômicas mais importantes da Nova Ordem Internacional foi o
crescente uso dos princípios teóricos do neoliberalismo.
Especialistas acreditam que os neoliberais criaram, com seu pragmatismo, um conjunto de regras
econômicas muito claro, que se resume aos seguintes aspectos:
* O Estado deve se restringir a algumas funções públicas;
* O déficit público deve ser evitado e, se existir, reduzido;
* As empresas estatais devem ser privatizadas;

191
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
* O Banco Central de cada país deve ser independente;
* A moeda deve ser estável, com um mínimo de inflação;
* Os fluxos financeiros não devem sofrer restrições;
* Os mercados devem ser abertos, liberalizados e desregulamentados;
* A produção industrial deve ser internacionalizada, buscando-se mão-de-obra mais barata;
* As empresas devem ser modernizadas, enxutas e competitivas.

Frente às crises e ao aumento da miséria nos países subdesenvolvidos, alguns neoliberais modernos
defendem que esse receituário não tem dado certo por culpa dos governos. Seria necessário apenas
conter os monopólios privados, supervisionar os bancos com mais atenção, investir em educação e
aumentar a poupança interna.
Dentro da Nova Ordem Internacional, o controle que os países desenvolvidos exerciam sobre o
comércio de exportação no mundo continuou, embora sua participação no total tenha sido um pouco
reduzida. Essa redução foi consequência do crescimento das exportações conquistado pelos países
subdesenvolvidos industrializados.
A participação dos países subdesenvolvidos no comércio mundial de exportação vinha decrescendo
desde o início da Ordem da Guerra Fria (era de cerca de 31% do total mundial em 1950 e caiu para cerca
de 20% em 1985). Essa situação começou a se reverter no início da Nova Ordem Internacional. Nos dez
anos seguintes, os países pobres passaram a controlar maiores parcelas do comércio mundial de
exportação.
Esse aumento das exportações, por si só, não foi suficiente para elevar o padrão de riqueza dos países
subdesenvolvidos como um todo. A maior parte desse aumento foi de responsabilidade de um restrito
grupo de países subdesenvolvidos industrializados, enquanto a grande maioria dos mais de 150 países
subdesenvolvidos continuou a assistir à queda dos preços de suas mercadorias de exportação
(commodities) e a redução de sua participação no comércio mundial, exceto os exportadores de petróleo.
Mesmo assim, o crescimento do comércio internacional é apontado como um dos indicadores da
aceleração do processo de globalização, que criou uma maior dependência das economias nacionais em
relação à economia internacional, pois uma grande parcela das atividades produtivas e dos trabalhadores
fica dependente do desempenho de seus países no mercado mundial.
Esse crescimento do comércio e essa maior dependência das economias nacionais são o resultado
das políticas de liberalização alfandegária colocadas em prática desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Desde então, as taxas alfandegárias médias dos países mais desenvolvidos do mundo caíram de 40%
para menos de 5%. Por outro lado, o crescimento do comércio internacional foi fruto da maior integração
e complementação econômica dos conjuntos de países que formaram organizações ou zonas de livre
comércio, como a União Europeia e o Nafta.

Características da Nova Ordem Internacional80

A Nova Ordem Internacional já pode ser caracterizada por um amplo conjunto de aspectos. Citaremos
todos, porém, nos atentaremos mais detalhadamente, à Globalização.
São eles:
* Investimentos em P&D;
* Os blocos econômicos;
* Dívida externa;
*Desemprego;
* As economias em transição;
* O problema da pobreza.

Globalização
A Globalização não é nenhuma novidade. Há séculos ela evolui na forma de ciclos, intensificando os
fluxos de pessoas, bens, capital e hábitos culturais. Ela se originou com a primeira fase da expansão
capitalista europeia, impulsionada pelas Grandes Navegações do final do século XV. Entre 1870 e 1890,
a globalização foi novamente intensificada, graças à aceleração dos investimentos internacionais, a
ampliação do comércio e o aperfeiçoamento dos meios de transportes e comunicações. Posteriormente,
durante o período que se estende entre 1910 e 1920, houve nova aceleração desse processo, associada
ao crescente militarismo, que culminaria com a Primeira Guerra Mundial. Um terceiro pico ocorreu durante
a década de 1930, antecedendo a Segunda Guerra Mundial.
80
SCALZARETTO, Reinaldo. Geografia Geral – Geopolítica. 4ª edição. São Paulo: Anglo.
TERRA, Lygia; et. al. Conexões: estudos de geografia geral e do Brasil. 2ª edição. São Paulo: Moderna.

192
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Após a Segunda Guerra Mundial, o processo de globalização foi mais lento, amarrado pelas relações
limitadas entre os países capitalistas e os socialistas e pelas políticas comerciais altamente protecionistas.
Somente na década de 1990 os investimentos internacionais retornariam ao patamar de 1941.

Corporações Transnacionais81
As transnacionais correspondem às corporações industriais, comerciais e de prestação de serviços
que atuam em distintos territórios dispersos no mundo. Nesse caso, ultrapassam os limites territoriais dos
países de origem das empresas.
Grande parte das empresas transnacionais é oriunda de países industrializados e desenvolvidos que
detêm um grande capital acumulado; o excedente, nesse caso, é direcionado para países em todos os
continentes.
Os investimentos dessas empresas são altíssimos, uma vez que a matriz emite os recursos para as
filiais localizadas em muitos países pobres. Nesses países, as transnacionais exercem funções
importantes como acelerar o desenvolvimento industrial, além de gerar postos de trabalho.
No entanto, essas empresas não têm objetivo social no momento em que se instalam em um
determinado país. Pelo contrário, para sua instalação acontecer, o governo oferece uma série de
benefícios e incentivos, tais como isenção parcial ou total de tributos, até mesmo dos lucros. Esses países
se submetem a essas exigências a fim de atrair novos investimentos estrangeiros e também garantir a
permanência das empresas.
As transnacionais estão ligadas à globalização da produção, na qual um único produto pode ter várias
origens, isso por que os seus componentes têm origens distintas e são montados em uma determinada
localidade do mundo. Esse fluxo produtivo visa unicamente verticalizar os lucros, diminuindo os custos,
consolidando-se no mercado como empresas competitivas que buscam alcançar grandes parcelas do
mercado internacional.
Há pouco tempo essas empresas eram denominadas multinacionais, porém gradativamente esse
termo não mais está sendo usado, uma vez que a expressão emite uma ideia de uma empresa que possui
diversas nacionalidades. Dessa forma, empresas com essas características recebem o nome de
transnacionais, possuem sede em um país e desempenham atividades em diversos outros.
Atualmente, existem em funcionamento cerca de 40 mil empresas transnacionais, muitas originadas
de países desenvolvidos, porém existem ainda corporações oriundas da Coreia, Índia, México e Brasil.
As transnacionais exercem influência que transcende a economia, pois interfere em governos e nas
relações entre países.
Essas empresas surgiram efetivamente a partir da Segunda Guerra Mundial, quando empresas de
países ricos migraram suas atividades para lugares espalhados pelo mundo.
Com a expansão das transnacionais, a partir da década de 1950, a globalização foi acelerada. Hoje, a
Terceira Revolução Industrial, que gerou um sistema de produção econômica com regras que se
uniformizam e se universalizam rapidamente, está criando uma nova onda de globalização. Suas
instituições passam a controlar e organizar essa economia em que as fronteiras perdem a importância e
muitos Estados disputam o direito de abrigar as sedes ou as filiais das grandes corporações, que
controlam a oferta de empregos e investimentos.
Dessa forma, o espaço geográfico mundial tem caminhado em direção a uma crescente
homogeneização, fruto da imposição de um sistema econômico e social globalizado sobre toda a
superfície da Terra. Nas últimas décadas, esse processo sofreu uma forte aceleração, especialmente
porque o polo de oposição ao capitalismo, que durante 45 anos compartia o mundo, criando a bipolaridade
da Guerra Fria, entrou em crise.
Os investimentos internacionais são realizados de forma direta, pelas empresas transnacionais que
implantam ou ampliam suas unidades produtivas, ou indireta, quando se relacionam aos fluxos de capital
que entram por meio de empréstimos, moeda trazida por estrangeiros, pagamentos de exportações,
vendas de títulos públicos no exterior e investimentos no mercado financeiro (especialmente em bolsas
de valores). Observe sua evolução recente:
Os investimentos internacionais foram acelerados na Nova Ordem. Eles saltaram de 924 bilhões de
dólares em 1991 para mais de 5,4 trilhões em 2001.
Na era da globalização, quando as informações são instantâneas, um observador pode acompanhar
a abertura e o fechamento das mais importantes bolsas de valores do mundo durante 22 horas seguidas:
se ele estiver em São Paulo, a Bolsa de Tóquio abre às 21 horas (hora de Brasília) e fecha às 5 horas do
dia seguinte. Uma hora mais tarde, abre a Bolsa de Londres e, às 11 horas, a de Nova Iorque, que só
fecha às 19 horas.

81
https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/transnacionais.htm.

193
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Podemos notar facilmente que a maior parte dos investimentos tem sido sempre no mercado
financeiro, ou seja, nas bolsas de valores. É o que se chama de capital volátil. Esses investimentos entram
nos países e saem muito rapidamente, circulando diariamente no mundo, de uma bolsa para outra, mais
de 3 trilhões de dólares.
O mercado financeiro de ações comercializadas em bolsas de valores estocava um patrimônio coletivo
de 47 trilhões de dólares em 2005. Com o desenvolvimento da informática, o mercado financeiro se
acelerou como forma de investimento.
Os investimentos financeiros diretos também cresceram bastante, aumentando mais de sete vezes
nesse período, principalmente por meio da compra de empresas privatizadas, dentro da política
neoliberal. As privatizações se expandiram muito desde o início da década de 1990. Entre 1988 e 2003,
houve mais de 9 mil privatizações em cerca de 120 países, que somaram mais de 410 bilhões de dólares
de transações.
Grande parte das pessoas acredita que as privatizações, na atualidade, só ocorrem em países
subdesenvolvidos ou nos países socialistas que estão em transição para a economia de mercado. Na
verdade, a década de 1990 foi marcada pelo aumento das privatizações em diversos países
desenvolvidos.
Embora a globalização seja comandada pelos agentes financeiros e econômicos, há uma profunda
relação entre seus interesses e as ações políticas desenvolvidas pelos Estados. Na atualidade, vemos
uma espécie de privatização do Estado, que é colocado a serviço dos interesses do grande capital.
Hoje, mais do que em qualquer outra época da modernidade, a elite econômica colocou o Estado a
serviço de seus interesses. São os governos dos países mais ricos do mundo que promovem, numa ação
política bem orquestrada, a globalização, preparando encontros, ampliando o raio de ação das
organizações internacionais, realizando acordos comerciais, que favorecem a quem controla a economia.
Recentemente, por causa das transformações econômicas em direção à globalização, a redução das
taxas alfandegárias e a liberação do movimento dos capitais, muitos estudiosos passaram a acreditar que
o Estado nacional estava em fase de dissolução. Em verdade, ocorreu a sua transformação: as relações
entre o Estado e a economia se internacionalizaram, e a privatização tornou-se norma. Dessa forma, o
Estado abandonou o papel de agente econômico, desfazendo-se dos seus ativos, e passou a exercer o
papel de organizador e gestor de uma economia globalizada, no qual o conceito de soberania nacional
passou por uma revisão.
As aquisições e fusões que têm caracterizado a globalização desde o início da década de 1990 não
pretendem aumentar a produção, criar novas fábricas e ampliar os empregos. A função dessa onda de
fusões é cortar as atividades redundantes, reduzir a concorrência e aumentar a concentração de capitais.
O resultado final tem sido sempre a elevação das taxas de desemprego e o aumento da monopolização.
O volume das transações financeiras provocadas pelas fusões de grandes empresas tem ampliado o
mercado de ações e acelerado a movimentação de capitais.
No contexto da globalização, os países subdesenvolvidos ou periféricos não têm peso na definição
desse novo panorama geopolítico mundial, ficando, cada mais uma vez, atrelados aos países líderes.
Assim, com a decadência do bloco socialista, resta para o capitalismo resolver, num futuro próximo, três
graves problemas:

Desigualdade – Há uma crescente desigualdade de padrão de vida entre os países desenvolvidos e


os subdesenvolvidos, além das diferenças de renda dentro dos próprios países desenvolvidos. Segundo
Hobsbawm, a ameaça que a expansão socialista representou após 1945 impulsionou a formação do
Welfare State (Estado de bem-estar social), com reformas sociais nos países desenvolvidos, criando-se
uma parceria entre capital e trabalho organizado (sindicatos), sob os auspícios do Estado. Isso gerou a
consciência de que a democracia liberal precisava garantir a lealdade da classe trabalhadora, com caras
concessões econômicas. O abandono dessas políticas sociais tem ampliado o quadro da desigualdade
social, até mesmo em países desenvolvidos.

Conflitos Étnicos – Ascensão do racismo e crescente xenofobia, especialmente na Europa e nos


Estados Unidos, devido ao grande fluxo de imigrantes das regiões mais pobres para os países
industrialmente mais desenvolvidos.

Meio Ambiente – Crise ecológica mundial, que alerta para a necessidade de solucionar as agressões
ao meio ambiente, que podem afetar todo o planeta.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Globalização e Subdesenvolvimento

Subdesenvolvimento não é fruto da globalização. Ele se caracteriza por graves problemas sociais e
grande desigualdade no interior da sociedade e pela capacidade limitada de desenvolvimento tecnológico,
entre outros fatores. Os países incluídos nesse grupo também são diferentes entre si. Alguns possuem
elevada capacidade de produção instalada e atraem volumes expressivos de investimentos do exterior,
como é o caso do Brasil. Outros estão excluídos da ordem econômica mundial e dependem de ajuda
humanitária para a sobrevivência da população faminta, sem oportunidades de trabalho e sem condições
de obter renda.

Origens do Subdesenvolvimento
A origem do processo de formação dos países desenvolvidos e subdesenvolvidos remonta às grandes
navegações empreendidas pelos Estados-nações recém-formados na Europa, a partir do século XV.
Nessa época, esses Estados expandiram o comércio, explorando os produtos e recursos da América, da
África e da Ásia e passaram a exercer forte domínio sobre os povos desses continentes, controlando a
extração e a produção neles realizadas.
As terras conquistadas e dominadas (as colônias) não possuíam autonomia administrativa, e seus
recursos e riquezas eram explorados intensamente, em benefício de alguns países, como Portugal,
Espanha, Holanda, França e Inglaterra (as metrópoles).
A exploração dos recursos das colônias, como metais preciosos, minérios e produtos agrícolas,
proporcionou de fato um grande enriquecimento às metrópoles.
Poucas foram as exceções a essa forma de colonialismo. São os casos da Austrália, Nova Zelândia,
Canadá e dos EUA.
Mas, ainda nas duas últimas décadas, o processo de globalização acentuou a distância entre o mundo
rico e o mundo pobre, e a quantidade de pessoas vivendo em condições de pobreza elevou-se inclusive
nos países ricos. Segundo o economistas, no início do século XXI, cerca de 2/3 da população do planeta
encontra-se à margem dos benefícios propiciados pelo aumento na capacidade de produção de
mercadorias e de geração de serviços, e pelo processo de globalização (por exemplo, ampliação dos
fluxos de informações, capitais e mercadorias).

Mundialização do Planeta
Os processos de exclusão que estamos observando no mundo inteiro não afetam unicamente os
países do sul, mas representam a principal preocupação dos países industriais. Tal como se processa a
globalização nas formas atuais, muita gente está ficando de fora. Segundo estimativas de autores
americanos, inclui um terço e deixa fora dois terços da população mundial. Metaforicamente, está
havendo uma terceiro-mundialização do planeta.
Apesar de a globalização ter acentuado os problemas sociais nos países do norte, esses problemas
são extremamente mais graves nos países do sul, onde a capacidade de solução dessas questões é
bastante limitada.

Divisão Norte-Sul
A divisão Norte-Sul simboliza a separação entre os mundos desenvolvido e subdesenvolvido. Os
países desenvolvidos estão situados quase todos no hemisfério Norte (com exceção da Austrália e Nova
Zelândia, que também são classificados como países do norte) e os subdesenvolvidos estão situados ao
sul do bloco dos países desenvolvidos. Por esta razão a expressão norte passou a ser sinônimo de
desenvolvimento e sul, do inverso.
Considerando a situação atual dos países do mundo, as diferenças são gritantes. Os países do G-8
(grupo que inclui os sete países mais ricos: Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, Reino Unido
e Canadá, além da Rússia) são responsáveis pela produção de cerca de 56% de toda a riqueza do mundo.
Todos os demais países reunidos, onde vivem 85% da população mundial, produzem os 44% restantes.
As distâncias socioeconômicas entre os países tendem a aumentar a cada ano com o desenvolvimento
técnico-científico acelerado e concentrado nos países mais desenvolvidos. Segundo o Relatório 2002 do
Fundo de População das Nações Unidas, em 1960 o rendimento dos 20% mais pobres no mundo era 30
vezes menor que o dos 20% mais ricos. Essa diferença havia aumentado para 74 vezes em 2002. O
mesmo relatório aponta que cerca de três milhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia.
Considerando que o desenvolvimento tecnológico é um elemento importante para o processo de
globalização, o Brasil, no início do século XXI, ocupava a desconfortável 43ª posição no mundo em
conquistas tecnológicas.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
O Conselho de Washington
O Conselho de Washington refere-se a um conjunto de receitas econômicas criadas, em 1989, visando
acelerar o desenvolvimento da América Latina. O economista John Williamson reuniu o pensamento das
grandes instituições financeiras (FMI, Banco Mundial, BIRD) e também do governo norte-americano, que
pretendiam resolver a crise dos países pobres e particularmente os da América Latina, e propor caminhos
para o desenvolvimento.
Entre essas instituições havia “consenso” sobre alguns pontos principais. De acordo com o Conselho
de Washington, os países deveriam:
* promover uma reforma fiscal, isto é, uma reforma no sistema de atribuição e de arrecadação de
impostos, para que as empresas pudessem pagar menos e adquirir maior competitividade.
* promover o corte de salários e demissão dos funcionários públicos em excesso, e realizar mudanças
na previdência social, nas leis trabalhistas e no sistema de aposentadoria, para diminuir a dívida do
governo (chamada dívida pública).
Além disso, o Conselho de Washington propunha a abertura comercial, o aumento de facilidades para
a entrada e saída de capitais e a privatização de empresas estatais.

Risco-País
Numa economia internacional muito integrada, s maiores investidores têm grande “controle” ou “poder”
sobre a situação econômico-financeira de um país, conforme a dependência desse país em relação aos
investimentos externos. As agências internacionais de investimentos, por sua vez, divulgam relatórios
constantemente sobre a capacidade dos países para pagar seus compromissos externos e avaliam o
“nível de segurança” de cada país. Essa classificação recebe o nome de risco-país, e os investidores
levam em conta esses relatórios ao aplicarem seu capital.
Enfim, nesse mundo globalizado, o sistema financeiro internacional acaba tendo forte influência na
vida das sociedades dos diversos países, com consequências muitas vezes negativas.
O que é risco-país?
É uma classificação baseada na diferença entre o juro pago por um papel (título) e a taxa oferecida
por um título com prazo de vencimento semelhante pelo Tesouro dos Estados Unidos, título este
considerado o papel mais seguro do planeta, de risco praticamente zero. Essa avaliação é realizada por
agências de investimentos como Moody`s, Standard & Poor`s (S&P) e Fitch (todas norte-americanas).
A classificação reflete, na visão dos investidores, qual é a possibilidade de o país pagar ou não suas
dívidas interna e principalmente externa.
Quanto maior a taxa de risco de um país, mais altos serão os juros que o governo terá de pagar para
renovar ou obter novos empréstimos, e menos para receber novos investimentos. (Adaptado de Folha de São Paulo,
13/06/2002, p. B-4 e 22/10/2002, p. B-1).
Os países, para serem confiáveis, deveriam cumprir as normas e as sugestões do “Consenso”. Nada
era obrigatório, mas seguir suas determinações básicas era condição para receber ajuda financeira
externa e atrair capitais estrangeiros.

A Escala Regional na Ordem Global

Em novembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU reconheceu, por maioria, a Palestina como Estado
observador não membro (Nova York, Estados Unidos). Para muitos analistas, esse reconhecimento
poderia ter significado a retomada do processo de paz.

Comércio Desigual e Regionalização na Economia Global


De acordo com a inserção na economia mundial, é possível identificar grandes conjunto de países. A
profunda desigualdade na participação no comércio mundial está relacionada com as mudanças nos
padrões da divisão internacional do trabalho.

Inserção Desigual dos Países na Economia Mundial


Os países não se inserem na economia mundial da mesma maneira. O atraso econômico de muitos
países é resultado de um processo histórico. O crescimento econômico das nações nos últimos séculos
se confunde com a própria história do desenvolvimento do capitalismo, que desde o século XVI
estabeleceu uma divisão internacional do trabalho. Os países dominantes ficavam com a maior parte da
riqueza produzida, enquanto as colônias tinham a função de contribuir para a acumulação de capital nas
metrópoles.
A economia capitalista se desenvolveu concentrando riqueza e poder nas mãos das elites,
principalmente das potências dominantes, criando em contrapartida regiões pouco desenvolvidas

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
economicamente e pouco industrializadas, chamadas a partir da segunda metade do século XX de
subdesenvolvidas.
Esse termo tem sido questionado, pois a maior parte dos países chamados subdesenvolvidos esteve
durante muito tempo na condição de colônia, e a exploração de seus recursos naturais e humanos
impediu o seu crescimento econômico e seu desenvolvimento social. Ou seja, dentro de um mesmo
processo, o crescimento econômico de uns foi conseguido em detrimento de outros.
Podemos dizer que as desigualdades econômicas e sociais dividem o mundo em dois grandes grupos:
o dos países ricos, mais industrializados, desenvolvidos, com menores problemas sociais, e o dos países
pobres, menos industrializados, que contam com inúmeros problemas sociais, incluindo enorme
quantidade de pessoas que vivem em precárias condições de vida. Esses grupos não são homogêneos,
apresentando grandes diferenças.

Grandes Conjuntos de Países


Muitos países subdesenvolvidos, após a Segunda Guerra Mundial, passaram a investir na indústria,
ficando conhecidos como países em subdesenvolvimento. Como a Primeira Revolução Industrial
ocorreu no século XVIII e a Segunda Revolução Industrial no século XIX, esse processo é considerado
industrialização tardia ou retardatária. E o caso do Brasil, México, Argentina e Tigres Asiáticos
(Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong, na China).
Os países ricos e pobres já receberam diversas denominações. Uma delas, a partir da década de
1980, refere-se à localização geográfica. Os mais desenvolvidos passaram a ser chamados de países
do Norte, pois na sua maior parte encontravam-se no Hemisfério Norte. Os subdesenvolvidos,
localizados majoritariamente no Hemisfério Sul, ficaram conhecidos como países do Sul.
Mais recentemente, com a expansão e a internacionalização dos mercados, os países foram divididos
em países centrais, mercados emergentes (ou semiperiféricos) e países periféricos.
Em parte dos países em desenvolvimento (Brasil, México e Argentina), o processo de industrialização
apoiou-se no modelo de substituição de importações, que incluía a proteção do mercado interno, a
proibição da entrada de manufaturados estrangeiros e o fortalecimento de indústrias locais (nacionais e
transnacionais).
Outros países, como os que compõem os Tigres Asiáticos, industrializaram-se a partir do modelo de
plataformas de exportação, no qual empresas transnacionais se instalam em determinado país e
passam a exportar sua produção para outros países, onde o produto final é montado.

Mudanças nos Padrões de Divisão Internacional do Trabalho


Desde o final do século XX têm ocorrido algumas mudanças nos padrões da divisão da produção e do
comércio internacional, com o crescimento da participação dos países em desenvolvimento nas
exportações de manufaturados.
No início do século XX, diversos países subdesenvolvidos, incluindo o Brasil, eram predominantemente
agroexportadores. Na tradicional divisão internacional do trabalho essas economias estavam
assentadas principalmente na exportação de matérias primas ou produtos primários (agropecuários,
extrativos, minerais) para os países ricos. Por outro lado, os países subdesenvolvidos recebiam dos
países desenvolvidos produtos do setor secundário (industrializados) e do setor terciário (comércio,
capital, tecnologia). Os produtos exportados pelos países subdesenvolvidos tinham menor valor que os
exportados pelos países desenvolvidos. Na produção industrial e tecnológica estão os produtos de maior
valor agregado, ou seja, com maior quantidade de riqueza incorporada.
Desde as últimas décadas do século XX, os países em desenvolvimento têm encontrado algumas
brechas para produzir e colocar produtos manufaturados no comércio mundial. No entanto, em grande
parte, ainda exportam produtos que agregam apenas tecnologia tradicional.
O êxito no mercado internacional, com entrada significativa de divisas, não ocorre apenas para
produção e exportação de grande volume de mercadorias. O que importa mais é o valor agregado à
mercadoria. No caso, os países desenvolvidos agregam alta tecnologia.
A maior parte do aumento da participação dos países em desenvolvimento no mercado de bens
manufaturados provém da Ásia Oriental e do Pacífico.
Somente um pequeno grupo de países participa das exportações de alta e média tecnologia (China e
Taiwan, Coreia do Sul, Malásia, Cingapura, Índia, além do México, na América Latina).
O mesmo acontece com as exportações de manufaturados com utilização de baixa tecnologia, nas
quais se destacam China, Taiwan, Coreia do Sul, México e índia.
Outros fatores como o custo dos transportes a distância entre os mercados mundiais influem no
comércio.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Nova Divisão Internacional do Trabalho
Atualmente, tem-se estabelecido entre os países uma nova divisão internacional do trabalho,
destacando-se três grupos de países: os industrializados centrais, os industrializados semiperiféricos e
as economias periféricas, predominantemente agroexportadoras.
Os países industrializados centrais iniciaram sua industrialização ainda no século XIX, formando
uma indústria nacional e consolidando um mercado interno. Atualmente fabricam e exportam produtos da
indústria de ponta (informática, aeroespacial e outras), os quais agregam alta tecnologia.
Podemos citar como exemplos os Estados Unidos, alguns países da Europa Ocidental (Alemanha,
França, Reino Unido, Itália, Holanda, Bélgica, Suíça e Suécia), Japão e Canadá.
O grupo das sete nações mais industrializadas (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália,
Reino Unido e Canadá) é conhecido como G-7. Em alguns casos a Rússia integra esse grupo, que passa
a ser denominado G-8.
Os países industrializados semiperiféricos formam um grupo muito diversificado e a maior parte
tem pouca porcentagem de participação nas exportações de produtos manufaturados.
Além das áreas centrais da Europa, outros países europeus (como Polônia, Espanha, Portugal e
Grécia) ou ex-colônias europeias (Austrália, Nova Zelândia, África do Sul) funcionam como espaços de
produção industrial anexos dos países centrais.
Alguns países da Comunidade de Estados Independentes (CEI), como Rússia, Cazaquistão, Belarus
e Ucrânia, tentam se reorganizar industrialmente após o abandono do regime socialista.
Também fazem parte desse grupo países da América Latina, como México, Brasil e Argentina, que
fabricam e exportam produtos industrializados utilizando principalmente baixa e média tecnologia, mas
também exportam produtos agrícolas, matérias-primas minerais e vegetais.
Os países semiperiféricos da Ásia têm aumentado sua participação nas exportações mundiais,
representando 31,5% do total em 2010, ano em que a China ultrapassou os Estados Unidos tornando-se
a primeira potência comercial do mundo. Os Tigres Asiáticos constituíram uma indústria nacional voltada
para o mercado internacional, abastecendo-o com produtos de tecnologia avançada (computadores,
automóveis e aparelhos eletrônicos). Investimentos em educação produziram uma mão de obra
qualificada, embora barata.
Os Novos Tigres Asiáticos, conjunto formado por Malásia, Indonésia, Filipinas e Tailândia, procuram
aumentar sua produção e exportação de manufaturados. Esses países se industrializaram na década de
1970, na mesma época da industrialização de Chile, Egito, Turquia, Ilhas Maurício, Venezuela, Colômbia,
Peru, Argélia e Marrocos.
Entre os países semiperiféricos, os exportadores mais dinâmicos, que respondem por até 80% das
exportações dos países em desenvolvimento, de baixa, média e alta tecnologia, são apenas sete: China,
Coreia do Sul, Malásia, Cingapura, Taiwan, México e Índia.
A China e a Índia, economias que têm crescido muito, integram-se ao esquema de produção e
comercialização fabricando, entre outros, partes de componentes para computadores ou carros.
Contando com um terço da população mundial e com grandes taxas de crescimento econômico, apesar
de apresentarem grandes problemas sociais, uma aliança entre essas duas potências emergentes
poderia redefinir o poder mundial.
Especialistas do mundo dos negócios dizem que no final da primeira metade do século XXI será
impossível ignorar a sigla Brics – iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa).
Inicialmente, os quatro primeiros países constituíram o Bric, um grupo de cooperação que realizava
reuniões anuais com o objetivo de aumentar sua importância geopolítica no cenário mundial. Em 2011, a
África do Sul foi formalmente incluída no grupo, por apresentar desenvolvimento similar. Esses países
são considerados a elite dos mercados emergentes com crescente importância na economia global.
Segundo prognósticos, esses cinco países deverão estar entre as maiores economias do planeta,
desbancando potências como o Japão e a Alemanha.
Os países de fraca industrialização (ou periféricos) constituem-se de parte dos países asiáticos,
parte dos latino-americanos e a maioria dos africanos. Contando com pouca industrialização e tendo por
base uma economia agroexportadora, participam marginalmente do mercado mundial, fornecendo
principalmente produtos primários.
Na África, destacam-se as exportações de cacau (Costa do Marfim), de tabaco (Zimbábue) e de
minérios, como o diamante (Botsuana e Namíbia) e o cobre (Zâmbia e Namíbia). Na América Central e
América do Sul, Jamaica e Suriname exportam bauxita; a Bolívia, gás natural; e o Chile, cobre. Na Ásia,
o Sri Lanka depende das exportações de chá.
As cotações das commodities (mercadorias em estado bruto ou produtos primários) são fixadas pelos
países ricos, sendo constantemente depreciadas. Além disso, os países ricos mantêm um conjunto de
barreiras protecionistas e de subsídios agrícolas, desfavorecendo ainda mais os países periféricos.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Interesses Econômicos e Comércio Internacional
Pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial, a Conferência de Bretton Woods, realizada em 1944
nos Estados Unidos, estabeleceu novas regras financeiras e comerciais mundiais. O sistema monetário
internacional utilizava o padrão-ouro para definir o valor das moedas a partir do peso do ouro ou
equivalente (1870-1914). A substituição do padrão-ouro pelo padrão dólar-ouro (1944-1971), definido
na Conferência de Bretton Woods, fez do dólar dos Estados Unidos a principal moeda internacional,
assegurando seu predomínio nos bancos centrais dos países e no comércio mundial. Os Estados Unidos
se comprometiam a trocar, sempre que necessário, dólares por ouro.
Cada país era obrigado a declarar o valor de sua moeda em dólar e em ouro para o Fundo Monetário
Internacional (FMI), um dos organismos criados nessa conferência, que tinha a função de garantir a
estabilidade do sistema financeiro para favorecer a expansão e o desenvolvimento do comércio mundial.
Posteriormente esse organismo passou a supervisionar as dívidas externas dos países.
Como resultado da Conferência de Bretton Woods foi criado também o Banco Mundial, em 1945, que
financiou a reconstrução da Europa no pós-guerra. Atualmente realiza empréstimos para países
periféricos ou semiperiféricos. Uma das principais instituições que compõem o Banco Mundial é o Banco
Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Bird).
Na fase da globalização financeira, déficits na balança de pagamentos dos Estados Unidos levaram o
país a declarar, em 1971, que não mais converteriam dólar em ouro. Em 1979, foi estabelecido o padrão
financeiro de câmbio flutuante, adotando-se o sistema de taxas de câmbio flutuantes entre divisas.
Dessa maneira, abriu-se o caminho para os programas de reajuste estrutural, impostos pelo FMI aos
países periféricos, e para a liberalização do comércio externo. Os países subdesenvolvidos obtiveram
permissão para contrair empréstimos junto ao FMI. Assim, ao final de 2003, os países em
desenvolvimento tinham uma dívida de mais de 2,5 bilhões de dólares oprimindo-os e impedindo-lhes o
desenvolvimento.
Muitas dívidas, contraídas em períodos de ditaduras, foram consideradas “odiosas” por alguns
economistas e organizações, pois não serviam aos interesses do povo. Mesmo o pagamento de enormes
quantias tem sido insuficiente para quitar parte dessa dívida externa diante dos altos encargos de juros e
dos serviços da dívida (reembolso anual de capital e interesses vencidos). Estima-se que a África
Subsaariana pagou duas vezes o montante de sua dívida externa, entre 1980 e 1996, mas encontra-se
três vezes mais endividada. Sendo assim, os países pobres passam a depender de mais empréstimos de
instituições como o FMI e o Banco Mundial para manter esse círculo vicioso, submetendo-se às
imposições de ajustes estruturais.
Outro organismo que estabelece regras para o comércio internacional, visando diminuir barreiras
comerciais, é a Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995 em substituição ao Acordo
Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), de 1947. Em diversas negociações, esse organismo tem favorecido
os países mais industrializados, como entre 1986 e 1994, na Rodada do Uruguai; em 1999, na Rodada
do Milênio; e, em 2001, na Rodada de Doha.
De fato, a taxa de abertura econômica dos países mais ricos – 13,5% para os Estados Unidos e Japão,
e 14,3% para os da União Europeia – é muito inferior à dos países mais pobres (cerca de 30%). Isso se
deve ao fato de que a pressão da União Europeia e dos Estados Unidos foi maior para exportar seus
produtos industriais e serviços a taxas aduaneiras mais baixas do que a diminuição de subvenções e
créditos protecionistas aos seus produtos agrícolas. Esse fato acentuou ainda mais a desigualdade de
condições dos países no comércio mundial.
Por causa dessas dificuldades, outras organizações exercem um poder político importante no contexto
internacional. Esse é o caso da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o
Desenvolvimento (Unctad), que desde 1964 presta auxílio técnico aos países em desenvolvimento para
a integração no comércio mundial. Por considerar discriminatórias as políticas da OMC, esses países
apoiam-se na Unctad para negociar com os países ricos.
A organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) também é um bom exemplo de
organização paralela de defesa de interesses.

Fluxos do Comércio Internacional


Desde as duas últimas décadas do século XX, o comércio internacional tem apresentando crescimento
acelerado, ciclo que foi momentaneamente interrompido com a crise financeira dos Estados Unidos, no
final de 2008.
O mercado imobiliário americano passou por uma fase de expansão acelerada desde 2001, estimulado
pela queda gradativa de juros e incorporação de segmentos da sociedade de renda mais baixa e com
dificuldade de comprovar sua capacidade de pagamento de débitos. Esses negócios estimularam o
mercado de títulos de maior risco até gerar uma reação em cadeia de inadimplência que quebrou o

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
mercado de créditos imobiliários. Essa crise imobiliária provocou uma crise mais ampla no mercado
financeiro americano, afetando o desempenho da economia mundial.
Por causa dessa crise, as economias do mundo rico encolheram 3,2% em 2009 e cresceram, em
média, 2% em 2010. O desemprego também aumentou nesses países, atingindo patamares acima de
8%. Em contrapartida, no Bric, a crise teve um impacto menor.
Por sua vez, o comércio mundial encontra-se fortemente concentrado nos países mais ricos, e os
principais prejudicados da crise financeira foram os mais pobres. Segundo projeções do Banco Mundial,
o número de pessoas muito pobres será maior até 2020 do que poderia ser se o crescimento econômico
não tivesse diminuído desde 2008 e os programas sociais não tivessem sido afetadas.

Questões

01. (PC/PI – Escrivão de Polícia Civil – UESPI) No início dos anos 1990, o mundo assistiu à
derrocada do chamado Bloco Socialista, comandado pela ex-União Soviética, tendo como consequência
o fim da Guerra Fria e o surgimento de uma Nova Ordem Mundial, que apresenta como características,
EXCETO,
(A) o controle do mercado mundial por grandes corporações transnacionais.
(B) aprofundamento da Globalização da economia e consolidação da tendência à formação de blocos
econômicos regionais.
(C) processos pacíficos de Fragmentação territorial sem ocorrência de conflitos étnicos, a exemplo da
ex-Iugoslávia.
(D) ampliação das desigualdades internacionais.
(E) a existência de uma realidade mais complexa, com múltiplas oposições ou tensões econômicas,
étnicas, religiosas, ambientais etc.

02. (Prefeitura de Martinópole/CE – Agente Administrativo – CONSULPAM) A nova economia


internacional possui elementos característicos onde os que se destacam são os que se referem ao quadro
geral determinado pela Globalização. Com isso podemos AFIRMAR que o atual cenário mundial é
assinalado pela:
(A) bipolaridade
(B) unimultipolaridade
(C) velha ordem mundial
(D) Nova Guerra Fria

03. (SEDU/ES – Professor de Geografia – CESPE) Com relação à geografia política mundial, julgue
o item a seguir.
A nova ordem mundial apresenta uma faceta geopolítica e outra econômica. Na geopolítica, houve
uma mudança para um mundo multipolar, onde as potências impõem mais por seu poder econômico que
pelo poder bélico. Na economia, o que aconteceu foi o processo de globalização e a formação de blocos
econômicos supranacionais.
(....) Certo (....) Errado

04. (IF/SE – Analista – IF/SE) "Com a derrocada do socialismo real e da União Soviética, entre 1989
e 1991, surgiu uma nova ordem mundial que, a princípio, parecia ser unipolar, com uma única
superpotência, os Estados Unidos. Mas essa ideia parece ser aplicável somente a um breve período
transitório, pois o poderio estadunidense vem se enfraquecendo, em termos relativos (isto é, em
comparação com o crescimento da China, da Europa unificada, da Índia etc.)." Vesentini, Wiliam - 2009. Assinale
a afirmativa correta sobre os fatos da nova ordem mundial:
(A) O ponto fraco da União Europeia é o rápido envelhecimento e o baixo poder aquisitivo de sua
população.
(B) Apesar da crise na transição do socialismo real para a economia, a herdeira da Ex União Soviética,
Rússia, voltou a ser uma superpotência, apesar da fragilidade do setor de tecnologia de ponta.
(C) Uma das dificuldades para o Japão na formação de um Megabloco na Ásia é a desconfiança de
algumas importantes nações, como China e Coréia do Sul, que o consideram um país imperialista,
sobretudo pela brutalidade e pelo racismo demonstrado pelas tropas japonesas quando da ocupação de
seus territórios.
(D) A China atualmente é o Estado nacional que poderia ameaçar a hegemonia estadunidense, em
função do crescimento econômico e do regime político democrático.

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(E) A Índia é outro país que vem se modernizando, e é favorecida pela abundância de recursos
minerais e ausência de problemas étnicos, sociais e político territoriais.

05. (IF/SP – Professor de Geografia – FUNDEP) O processo de mundialização da economia


capitalista inaugurou uma nova divisão internacional do trabalho porque
(A) a diversidade das plantas industriais, até então vigentes nas mais diferentes economias do planeta,
sofreram homogeneização, excluindo a complementaridade.
(B) a divisão do mundo em países produtores de bens industrializados e países unicamente produtores
de matérias-primas, quer agrícolas, quer minerais, já não bastava.
(C) a expansão industrial sobrepôs uma divisão horizontal à antiga divisão vertical do trabalho,
mediante eliminação de níveis de qualificação dentro de cada ramo industrial
(D) a indústria multinacional restringiu sua atuação aos mercados de países centrais e criou bases
produtivas adaptadas às necessidades de seus mercados nacionais.

06. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE) A mundialização não diz respeito apenas às
atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a
globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a
adaptação dos mais fracos e desguarnecidos. François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).
Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue (C ou E) o item subsequente.
Mundialização do capital ou globalização refletem a capacidade estratégica de grandes grupos
oligopolistas, voltados para a produção industrial ou para as principais atividades de serviços, em adotar,
por conta própria, enfoque e conduta globais.
(....) Certo (....) Errado

07. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE) A mundialização não diz respeito apenas às
atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a
globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a
adaptação dos mais fracos e desguarnecidos. François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).
Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue (C ou E) o item subsequente.
O princípio geográfico da localização, no mundo globalizado economicamente competitivo, é superado
pelos sistemas técnicos e de informação.
(....) Certo (....) Errado

08. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE) A mundialização não diz respeito apenas às
atividades dos grupos empresariais e aos fluxos comerciais que elas provocam. Inclui também a
globalização financeira, que não pode ser abstraída da lista das forças às quais deve ser imposta a
adaptação dos mais fracos e desguarnecidos. François Chesnais. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996 (com adaptações).
Tendo como referência inicial o fragmento de texto apresentado, julgue (C ou E) o item subsequente.
No mundo globalizado, observa-se uma tendência de compartimentação generalizada dos territórios,
onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade do trabalho e o movimento particular de
cada fração espacial: do nacional ao regional e ao local.
(....) Certo (....) Errado

Gabarito

01.C/ 02.B / 03.Certo / 04.C / 05.B / 06.Certo / 07.Errado / 08. Certo

Comentários

01. Resposta: C
Com a crise do bloco socialista, no final dos anos 1980, uma nova fase se abriu para a história da
Iugoslávia. Em 1991, Croácia, Eslovênia e Macedônia declararam sua independência, sendo que apenas
esta última de maneira pacífica. A separação da Croácia e da Eslovênia foi acompanhada por intensos
conflitos militares liderados pelo então presidente sérvio Slobodan Milosevic. Em 1992, a Bósnia declarou
sua independência, passando a enfrentar militarmente a Croácia, em disputa por territórios, e sobretudo
a Sérvia, contrária ao movimento separatista de mais uma região iugoslava.

201
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
02. Resposta: B
Nova Ordem Mundial é a lógica internacional da ordem de poder entre os Estados nacionais no período
que sucede a Guerra Fria. A Nova Ordem Mundial é caracterizada pela UNIMULTIPOLARIDADE, uma
vez que temos a supremacia dos Estados Unidos no campo bélico e político, e a emergência de várias
potências no campo econômico: China, União Europeia, Japão e o próprio EUA.

03. Resposta: Certo


Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a comunidade internacional passa por uma reformulação
das estruturas de poder e força entre os Estados Nacionais, gerando uma nova configuração geopolítica
e econômica que foi chamada de Nova Ordem Mundial. Uma das mudanças principais desse novo plano
geopolítico internacional foi o estabelecimento de uma multipolaridade, onde o poderio militar não era
mais o critério determinante de poder global de um Estado Nacional, perdendo lugar para o poderio
econômico. Já a área econômica passa por um processo de globalização, gerando fluxos crescentes de
bens, serviços e capitais que perpassam as fronteiras nacionais. Além disso, a formação de blocos
econômicos supranacionais visam atender tanto os interesses de corporações transnacionais, que
almejam a eliminação das barreiras alfandegárias, como os Estados Nacionais que tentam garantir
algumas vantagens políticas.

04. Resposta: C
O Japão apesar de ser o mais rico da Ásia em outrora buscou seu domínio nos países do pacífico com
ocupações territoriais, principalmente durante a 2ª guerra, desde então os asiáticos não fecham em um
bloco econômico com receio de um novo domínio japonês, através da economia sobre eles.

05. Resposta: B
O processo de mundialização da economia capitalista monopolista teve como pressuposto básico a
necessidade de uma nova divisão internacional do trabalho. Já não bastava um mundo dividido em países
produtores de bens industrializados e países unicamente produtores de matérias-primas, quer agrícolas,
quer minerais. A mundialização da economia pressupõe uma descentralização da atividade industrial e
sua instalação e difusão por todo o mundo. Pressupõe também um outro nível de especialização dos
produtos oriundos dos diferentes países do mundo para o mercado internacional. Assim,
simultaneamente, a indústria multinacional implanta-se nos mercados existentes em todos os países
(através de filiais, fusões, associações, franquias etc.) e cria bases para a produção industrial adaptada
às necessidades desses mercados nacionais. Ao mesmo tempo, atua de forma a aprimorar a exploração
e a exportação das matérias-primas requeridas pelo mercado internacional. Esse processo de expansão
industrial sobrepôs uma divisão vertical à antiga divisão horizontal do trabalho. Agora combina-se a antiga
divisão por setores (primário: agrícola e mineiro, e secundário: industrial) em níveis de qualificação dentro
de cada ramo industrial.

06. Resposta: Certo


A globalização pode ser interpretada sob 4 linhas básicas:
1) Globalização como um período histórico;
2) Globalização como compressão do tempo e do espaço;
3) Globalização como hegemonia dos valores liberais; e
4) Globalização como fenômeno socioeconômico. Nesta concepção, François Chesnay, economista
da OCDE, entende que a globalização traduz a capacidade estratégica do grande grupo oligopolista em
adotar abordagem e conduta globais, relativas simultaneamente a mercados compradores, fontes de
aprovisionamento, localização da produção industrial e estratégias dos principais concorrentes.

07. Resposta: Errado


Apesar da maior integração e na diminuição do tempo e custo necessários para a circulação de
informações e mercadorias, o princípio geográfico da localização não foi superado. A rede global não
flutua no ar, ela se entrelaça em nós, em locais estratégicos dentre os quais é possível citar grandes
áreas de produção industrial, portos de redistribuição mundial como Singapura e Rotterdam, centros de
decisão como o Vale do Silício nos Estados Unidos, dentre outras. Também mostra como o princípio de
localização não foi superado a elevação de fenômenos de valorização regional, que crescem como
antinomia ao global. Um exemplo disso são os selos de origem regional europeus, que valorizam produtos
oriundos de regiões específicas por suas características únicas e exclusivas, como o Champanhe francês.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
08. Resposta: Certo
Os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, onde se associam e se chocam o
movimento geral da sociedade planetária e o movimento particular de cada fração, regional ou local, da
sociedade nacional. Esses movimentos são paralelos a um processo de fragmentação que rouba às
coletividades o comando do seu destino, enquanto os novos atores também não dispõem de instrumentos
de regulação que interessem à sociedade em seu conjunto.

BLOCOS ECONÔMICOS82

Os blocos econômicos são associações criadas entre os países, a fim de estabelecer relações
econômicas entre si. Eles surgiram do reflexo da constante competição de economias que estão sempre
buscando o crescimento. Além disso, é um movimento cada vez mais comum no mercado mundial para
aguentar o ritmo acelerado dos países.
Essa união acontece por interesses mútuos e pela possibilidade de crescimento em grupo. Esse
crescimento passou a ser bem visto porque logo se percebeu que, por mais forte que fosse uma
economia, ela não poderia competir de igual para igual com grupos de economias unidas entre si.
Exemplos disso seguem abaixo.

Organização das Nações Unidas (ONU)

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a preocupação com o diálogo entre as nações se intensificou.
Em 24 de outubro de 1945 foi realizada na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, a Conferência
das Nações Unidas para a Organização Internacional, com a participação de 51 governos, na qual foram
discutidos temas como a paz, a segurança e a garantia do desenvolvimento econômico e social. Por fim,
todos os representantes assinaram uma carta ratificando o compromisso de cooperação entre as nações.
Assim nasceu a Organização das Nações Unidas (ONU), que passou a desempenhar um papel
essencial no estabelecimento de acordos e projetos coletivos entre os países, com ações voltadas a
solucionar conflitos e dar assistência à população de regiões envolvidas, assim como promover a
valorização dos direitos humanos. Posteriormente, os países-membros da ONU também se preocuparam
em firmar um documento no qual foram listados os direitos inalienáveis do ser humano, denominado
Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovado em 1948, afirmando a igualdade entre os
indivíduos das mais diferentes etnias e religiões.

O Papel da ONU Hoje


Atualmente, a ONU segue promovendo a multilateralidade de decisões para garantir a soberania das
nações, organizando acordos e projetos coletivos entre os países-membros, que já contabilizam ao todo
193 integrantes. A sede das Nações Unidas fica na cidade de Nova York, e o posto mais alto na
organização é o de secretário-geral, cargo em 2015 ocupado pelo coreano Ban Ki-Moon, que em 2007
substituiu o ganês Kofi Annan.
O atual secretário-geral, António Guterres, assumiu em 2017 o lugar de Ban Ki-moon, que completou
dois mandatos na função.
Dentre os fóruns de discussão competentes destaca-se a Assembleia Geral das Nações Unidas,
que delibera resoluções referentes a temas que incluem paz e segurança internacional, saúde, educação,
desarmamento, preservação dos recursos naturais, entre outros. Dessa assembleia participam todos os
países-membros, que possuem igualdade de voto na hora de determinar resoluções. Porém, o que se
determina na Assembleia não é obrigatório, apenas recomendado.
Já o Conselho de Segurança das Nações Unidas, por sua vez, dedica-se exclusivamente aos
assuntos de segurança e ás ameaças à paz internacional. O que é nele decidido torna-se obrigatório, e
seu cumprimento será exigido por todos os membros da organização. Esse conselho é composto apenas
por quinze membros, dos quais cinco são permanentes – Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e
França -, e os outros dez são eleitos a cada dois anos para compor as discussões. Os membros
permanentes possuem poder de veto nas deliberações.
As ações principais da ONU no cenário internacional envolvem as chamadas operações de paz, ou
missões de paz, desenvolvidas pela organização para ajudar países devastados por conflitos a criar as
condições para alcançar a paz.

82
FURQUIM JUNIOR, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: AJS, 2015.
MARTINEZ, Rogério. Novo olhar: geografia.1ª edição. São Paulo: FTD, 2013.
MARTINI, Alice de. Geografia. Alice de Martini, Rogata Soares Del Gaudio. 3ª edição. São Paulo: IBEP, 2013.

203
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Desde que a primeira operação de paz foi estabelecida em 1948, quando o Conselho de Segurança
autorizou o envio de soldados da ONU para o Oriente Médio com a finalidade de monitorar um acordo
entre Israel e seus vizinhos árabes, mais de sessenta missões desse tipo já foram criadas ao redor do
mundo. Inicialmente, essas missões eram desenvolvidas para lidar com conflitos internacionais; no
entanto, recentemente a ONU tem realizado cada vez mais operações de paz em países assolados por
conflitos internos e guerras civis.
Os soldados da organização, que formam as chamadas tropas de paz, atuam conforme as
deliberações do Conselho de Segurança e podem tanto agir como observadores, proporcionando apoio
e segurança essenciais a milhões de pessoas em zonas de conflitos, como também realizar operações
militares, desde que a deliberação em questão permita tal intervenção.

Multilateralismo/Multipolaridade ou Regionalismo

O fortalecimento do multilateralismo comercial ocorrido ao longo das últimas décadas tem sido
acompanhado, paradoxalmente, por um processo de regionalização do espaço, provocado pela tendência
mundial de constituição de grandes blocos econômicos, o que decorre do avanço da globalização.
Embora pareça contraditório, a formação de grandes mercados regionais estabelecidos por meio de
alianças e acordos econômicos e comerciais tornou-se uma necessidade imposta pelo acirramento da
concorrência internacional, gerada pela própria expansão do capitalismo em escala planetária. Com a
formação dos blocos econômicos, os países buscam ampliar a participação no comércio mundial,
sobretudo com o aumento de suas exportações, com vistas a se tornarem mais competitivos. Para tanto,
os acordos comercias e econômicos firmados entre os países (redução ou mesmo eliminação das tarifas
alfandegárias, uniformização de políticas monetárias e financeiras, desburocratização do setor aduaneiro
etc.) procuram facilitar o fluxo e a circulação de mercadorias, serviços e capitais entre os parceiros do
bloco, estratégia que atende às necessidades de acumulação de capital inerentes à expansão das
economias capitalistas.

Formação de Regiões e Blocos Econômicos


[ ... ] o fenômeno da integração verifica-se normalmente em uma dada região. Região [econômica], por
sua vez, pode ser definida como um grupo de Estados situados em uma determinada área geográfica
que gozam de alto grau de interação em comparação com as relações extra regionais, dividem certos
interesses comuns e podem cooperar entre si por meio de organizações que abrangem um número
limitado de participantes. [...]
[ ... ] O surgimento dos blocos econômicos regionais é um dos mais importantes fenômenos da
atualidade. Como foi visto, a formação desses blocos apresenta-se como uma solução, no contexto da
globalização, para o aumento da produtividade e da competitividade dos Estados na economia mundial.
Isso porque garante um aumento do mercado consumidor, propicia economias de escala e possibilita aos
países que dela participam aproveitar a complementaridade de suas economias. [ ... ] MATIAS, Eduardo Felipe
Pérez. A humanidade e suas fronteiras: do Estado soberano à sociedade global. São Paulo: Paz e Terra, 2005. p. 283-290.

Surge, então, uma questão crucial: a formação dos blocos econômicos significaria um retrocesso ou
mesmo uma barreira ao processo de globalização, que poderia levar à formação de um possível mercado
global único? Na opinião de muitos especialistas, em vez de ameaçar ou mesmo colocar em xeque o
processo de integração econômica mundial, o surgimento dos blocos econômicos reforça e amplia as
relações comerciais em âmbito mundial. Isso porque, se as trocas comerciais e os fluxos de capitais no
interior dos blocos aumentaram aceleradamente nas últimas décadas, o comércio e os investimentos
entre os diferentes blocos existentes também vêm se expandindo de maneira significativa com o
estabelecimento de acordos e negociações comerciais entre eles.
Desse modo, observa-se que o aumento do número de blocos econômicos já efetivamente formados
e de outros que estão em processo de consolidação não contradiz, pelo contrário, reforça a própria
globalização ao se inserir como uma das etapas desse processo.

Os Diferentes Tipos de Integração Regional


Os blocos econômicos existentes na atualidade apresentam diferentes níveis de integração, conforme
a intensidade de suas relações e os acordos estabelecidos entre os países-membros. Alguns desses
blocos já se encontram em estágios de integração mais avançados, outros ainda estão em processo inicial
de integração.

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Área de livre-comércio: em uma área de livre-comércio, os países eliminam progressivamente as
tarifas alfandegárias para estimular os fluxos de comércio e investimentos entre si. No entanto, cada país
do bloco tem autonomia para conservar sua política tarifária em relação aos países que não pertencem
ao bloco. É o caso, por exemplo, do Nafta, bloco econômico que reúne os Estados Unidos, o Canadá e o
México.

União aduaneira: em uma união aduaneira, além do livre-comércio estabelecido pela eliminação das
barreiras alfandegárias, os países também adotam uma tarifa externa comum (TEC), cobrando os
mesmos impostos e taxas alfandegárias sobre os produtos importados de países de fora do bloco. O
Mercosul é um exemplo desse tipo de bloco.

Mercado comum: além do livre-comércio de mercadorias e serviços, o mercado comum também


estabelece a livre movimentação de capitais (investimentos) e de pessoas (trabalhadores) entre os
países-membros. Implica o estabelecimento de coordenações econômicas e a harmonização das
legislações nacionais (trabalhistas, tributárias, previdenciárias etc.). A União Europeia é um exemplo de
mercado comum.

União econômica e monetária: é o estágio mais avançado de integração regional; seu funcionamento
prevê a adoção de uma moeda única e de um Banco Central também único, a criação de instituições
supranacionais (tribunais de justiça e de contas, conselhos de ministros, parlamentos etc.) e a
padronização de políticas econômicas e monetárias necessárias para garantir, entre os países-membros,
níveis compatíveis de inflação, taxas de juros, déficits públicos etc. É o caso da União Europeia.

União Europeia

A União Europeia (UE) foi criada pelo Tratado de Roma, assinado em 25 de março de 1957, e passou
a vigorar em 1º de janeiro de 1958, com o nome de Comunidade Econômica Europeia (CEE). O nome
atual só foi adotado no início da década de 1990.
Os primeiros países integrantes foram França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Países Baixos e
Luxemburgo, grupo chamado “Europa dos Seis”. Desde então, o bloco não parou de se expandir.
Em 2018, além dos 28 membros, havia cinco países candidatos: Albânia, Antiga República Iugoslava
da Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia.
Os objetivos iniciais da CEE eram recuperar os países-membros, enfraquecidos econômica e
politicamente após a Segunda Guerra, conter a ameaça do comunismo e, ao mesmo tempo, deterá
crescente influência dos Estados Unidos. Esses objetivos foram atingidos gradativamente. Somente em
1986, com a assinatura do Ato Único, acordo que complementou o Tratado de Roma, começou a
instauração do mercado comum. Esse documento definiu objetivos precisos para a integração e
estabeleceu o ano de 1993 para o fim de todas as barreiras à livre circulação de mercadorias, serviços,
capitais e pessoas. Naquele ano, começou a funcionar plenamente o Mercado Comum Europeu, e os três
primeiros objetivos foram postos em prática.
A livre circulação de pessoas começou a valer em 1995, quando entrou em vigor a Convenção de
Schengen, acordo assinado nessa cidade luxemburguesa que prevê a supressão de controle fronteiriço
entre os países signatários. No entanto, nem todos os membros da União Europeia aderiram à Convenção
de Schengen (Reino Unido e Irlanda não fazem parte). Por outro lado, alguns países que não são
membros da UE aderiram a esse acordo de livre circulação de pessoas (Noruega e Suíça fazem parte).
Em 1991, os países-membros do Mercado Comum Europeu assinaram o Tratado de Maastricht, nome
da cidade dos Países Baixos onde se realizou o encontro, por meio do qual foram definidas as etapas
seguintes da integração e mudada a denominação do bloco para União Europeia. Nesse mesmo tratado,
os integrantes do bloco também decidiram adotar uma moeda única, o euro, que começou a circular em
1º de janeiro de 2002.
Assim, a UE tornou-se uma união econômica e monetária cuja moeda passou a ser controlada pelo
Banco Central Europeu, sediado em Frankfurt (Alemanha). Porém, não são todos os países-membros
que fazem parte da chamada zona do euro. Em 2018, dezenove países da UE adotavam a moeda única;
dos nove que não faziam parte da união monetária, dois, Reino Unido e Dinamarca, optaram por manter
suas moedas nacionais, e os sete restantes ainda não tinham preenchido as condições jurídicas e
econômicas exigidas.
A União Europeia é o maior bloco comercial do planeta: em seus domínios estão cinco países da lista
dos dez principais países exportadores, Alemanha, Países Baixos, França, Itália e Reino Unido, mas há
também pequenas economias com um comércio externo reduzido, como Chipre e Malta. Em 2016,

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segundo a OMC, o comércio exterior do conjunto dos países da UE atingiu em torno de 5,4 trilhões de
dólares. Entretanto, 64% desse intercâmbio de mercadorias foi intrabloco.

União Europeia: indicadores socioeconômicos em 2016


Membros População PIB (bilhões de Exportações Importações
(milhões de dólares) (bilhões de (bilhões de
habitantes) dólares) dólares)
28 512 17.024 5.374 5.330

Desde a assinatura do Tratado de Maastricht, o Parlamento europeu se fortaleceu gradativamente.


Esse órgão, sediado em Estrasburgo (França), representa os cidadãos dos Estados-membros: seus
parlamentares são eleitos diretamente e tomam decisões que afetam toda a UE. O número de
representantes é proporcional à população de cada país. Em 2018, de um total de 751 deputados, a
Alemanha, o país mais populoso da UE, com 81 milhões de habitantes, possuía 96 parlamentares; no
outro extremo, Malta, o menos populoso, com 400 mil moradores, possuía seis.
A UE também dispõe de um poder executivo, a Comissão Europeia, que representa o interesse comum
do bloco e tem como principal função pôr em prática as decisões do Conselho e do Parlamento. Sua sede
fica em Bruxelas (Bélgica), considerada a capital da UE. O Conselho da União Europeia representa cada
um dos Estados-membros e é o principal órgão de tomada de decisões no âmbito do bloco.
Em junho de 2016, o Reino Unido da Grã-Bretanha realizou um plebiscito para decidir se permanecia
ou não na UE. A opção pela saída venceu com 52% dos votos, fato que ficou conhecido como Brexit
(junção de Britain e exit).
Em março de 2017, o país notificou o Conselho da União Europeia de sua intenção de deixar o bloco.
A partir daí começaram as negociações entre representantes britânicos e europeus para definir os termos
da saída.

Nafta

A formalização de acordos comerciais entre Estados Unidos, Canadá e México deu origem ao Acordo
de Livre-Comércio da América do Norte, do inglês North America Free Trade Agreement (Nafta), a mais
importante área de livre-comércio das Américas. O bloco entrou efetivamente em vigor em 1º de janeiro
de 1994, quando os países-membros decidiram eliminar aos poucos as barreiras alfandegárias em suas
transações comerciais.
Entre outros motivos, a criação desse bloco Nafta: fluxos comerciais tentaram fazer frente ao
fortalecimento econômico da União Europeia, alcançado graças ao processo de integração ocorrido
naquele continente. Ao contrário do bloco europeu, que caminha para uma integração política e
econômica completa, o Nafta se restringe muito mais a um acordo comercial, não prevendo o avanço
para uma união aduaneira ou um mercado comum.
Seu grande destaque fica por conta da poderosa economia dos Estados Unidos, a maior do mundo,
que responde sozinha por 84% do PIB total do bloco, enquanto a participação das economias canadense
e mexicana representa apenas 10 e 6% respectivamente. Se a pujança econômica dos Estados Unidos
não se compara com a do Canadá e a do México, a formação do Nafta vem consolidando ainda mais a
influência econômica estadunidense em relação aos seus vizinhos.
O impulso alcançado pela economia canadense ao longo do século passado, por exemplo, dependeu
de grandes investimentos e capital estadunidense. Com o Nafta, a economia do Canadá se tornou ainda
mais subordinada aos interesses dos empresários estadunidenses, que detêm o controle acionário de
boa parte das empresas canadenses, inclusive daquelas ligadas aos setores estratégicos ou mais
avançados tecnologicamente (informática, aeroespacial, eletroeletrônicos, química fina). Por isso, alguns
especialistas consideram o território canadense uma extensão da economia dos Estados Unidos.
Já no México, a influência do capital estadunidense se fortaleceu com o avanço das chamadas
maquiladoras - empresas estadunidenses que se instalaram em território mexicano na fronteira com os
Estados Unidos, em cidades como Tijuana, Mexicali e Ciudad Juarez. Entre essas empresas, destaca-se
um grande número de indústrias do setor automobilístico (montadores de automóveis, autopeças,
acessórios), montadoras de produtos eletroeletrônicos e de informática, cuja produção se destina
sobretudo ao abastecimento do gigantesco mercado de consumo estadunidense.

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Apec

Criada em 1989, a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico, do inglês Asia-Pacifíc Economic


Cooperation (Apec), é formada por diversos países do sul, leste e sudeste asiático, da Oceania e também
Hong Kong região administrativa especial chinesa), envolvendo ainda Chile e Peru países que também
possuem acordos comerciais dentro do Nafta).
Seu objetivo central é a criação de uma grande zona de livre-comércio de mercadorias e de capitais
entre seus membros, prevista para ser concluída até 2020. A integração completa do bloco, entretanto,
terá que superar inúmeros problemas, como as grandes disparidades políticas existentes entre seus
membros. Alguns países, como a China, possuem projetos nacionais de desenvolvimento que não
contribuíram para a abertura completa do seu mercado.
A diminuição das desigualdades socioeconômicas é outro grande problema a ser superado. Ao lado
das duas maiores potências econômicas mundiais (Estados Unidos e Japão) e de nações com os mais
elevados índices de desenvolvimento humano, como o Canadá e a Austrália, a Apec também abrange
países bem menos desenvolvidos socioeconomicamente, como Papua Nova Guiné.
Embora o processo de integração econômica ainda não esteja efetivado, os países da Apec já formam
o bloco economicamente mais dinâmico do mundo. Atualmente, o bloco reúne uma população de mais
de 2,7 bilhões de pessoas, cerca de 39 dos habitantes do planeta, e sua produção econômica soma um
PIB superior a 38 trilhões de dólares, o que equivale a 54 da produção mundial.
Apesar a esses desafios, o processo de construção do bloco já provocou um grande crescimento
econômico, impulsionado pela expansão das trocas comerciais entre os países-membros. Com o
estreitamento de suas relações comerciais, a uma maior complementaridade entre as economias do
bloco. Os recursos minerais e os combustíveis fósseis explorados em abundância na Austrália, por
exemplo, passaram a abastecer o mercado do Japão, que apresenta escassez de matérias-primas
naturais em seu território. Atualmente, cerca de 9% do total das exportações australianas são para o
Japão.

CEI

A Comunidade dos Estados Independentes (CEI) é um bloco econômico regional, constituído, hoje,
por onze países que se formaram com a dissolução da antiga União Soviética (URSS), ocorrida em 1991.
Nesse mesmo ano, com a assinatura do Tratado de Alma-Ata, no Cazaquistão, das 15 repúblicas
soviéticas que formavam a URSS, 12 aderiram à formação do bloco. As exceções foram Estônia, Letônia
e Lituânia, países bálticos que optaram por romper todos os vínculos com os russos, seus opressores
desde a Segunda Grande Guerra. Em 2008, a Geórgia, que até então pertencia ao bloco, se desligou por
motivos políticos.
O propósito principal da CEI era intensificar as relações econômicas e políticas entre os países-
membros que haviam acabado de surgir com o fim da Guerra Fria e do império soviético, acontecimentos
que redesenharam em boa parte as fronteiras territoriais do continente asiático.
Submetidos ao socialismo durante quase todo o século XX, com economias estatizadas e controladas
pelo Estado, os novos países da CEI passaram por um drástico processo de transição para a economia
capitalista de mercado, movida pela acirrada concorrência, pela elevada competitividade e pela
participação do capital privado. Essas mudanças acarretaram uma forte desaceleração da economia,
diante da crise que surgiu com a transição político-econômica, tendo como consequência o aumento do
endividamento externo, do desemprego, da inflação, e a piora de outros indicadores sociais, como o
aumento da pobreza e da concentração da renda, que acompanharam a turbulência econômica.
Apesar dos acordos de integração já realizados entre seus membros, muitas são as dificuldades para
sua consolidação efetiva, como as divergências que marcam as relações políticas e diplomáticas entre a
Rússia e a Ucrânia, dois dos mais importantes países do bloco. Além disso, a CEI tem se caracterizado
pela ocorrência de disputas entre os estados-membros e pelo não cumprimento de acordos
estabelecidos.

SADC

A Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, do inglês Southern African Develapment


Cammunity (SADC), é o acordo comercial mais importante do continente africano. Criada em 1992 para
assegurar a cooperação econômica na região sul do continente, essa comunidade é formada atualmente
por 14 países-membros.

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1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
Do ponto de vista econômico, a África do Sul é o país mais importante do bloco. Com um parque
industrial diversificado, sua produção econômica responde por aproximadamente 62% do PIB total do
bloco. E possui também um dos maiores mercados consumidores da região, formado por uma população
de aproximadamente 50 milhões de pessoas, o que representa cerca de 24 dos habitantes da
comunidade.
Os objetivos da SADC vão muito além da busca do desenvolvimento econômico da região por meio
da criação de um mercado comum, estabelecido por acordos comerciais entre os países parceiros, como
a redução e a unificação de tarifas alfandegárias. Para além desses objetivos, o bloco também procura
diminuir a pobreza e melhorar as condições de vida da população; promover o combate à Aids, doença
que se tornou uma epidemia em vários países da região; reafirmar os legados socioculturais africanos;
estabelecer a paz e a cooperação política como forma de evitar a ocorrência de conflitos e guerras civis,
como os que já eclodiram recentemente nessa comunidade.

Outros blocos regionais, menos importantes do ponto de vista econômico, também atuam no
continente africano, entre eles, a Comunidade Econômica e Monetária da África Central (EMCCA, do
inglês Ecanamic and Manetary Cammunity ot Central Africa) e a Comunidade Econômica dos Estados da
África Ocidental (ECOWAS, do inglês Ecanamic Cammunity af West African States). No entanto, os
processos de integração entre os países que os compõem são prejudicados pelas frágeis condições
políticas e socioeconômicas existentes em boa parte do continente: guerras civis, pobreza, fome,
epidemias, baixo nível de industrialização, forte dependência econômica e carência de infraestrutura
básica e produtiva.

ALCA

A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) é um projeto de bloco econômico que reúne países
da América, tanto do sul, central e do norte. É considerado um projeto porque, ao longo das reuniões que
foram feitas pelos países participantes, surgiram discordâncias entre eles e no fim de 2005, as
negociações pararam. A proposta foi feita pelos Estados Unidos, no dia 09 de dezembro de 1994, em
Miami83.
A criação desse bloco não agradou a todos no continente, especialmente os latino-americanos. Os
Estados Unidos foram os idealizadores da ALCA que, se estivesse em vigor, englobaria todos os países
da América, com exceção de Cuba.

Objetivos da ALCA
Um dos principais objetivos da ALCA é a área de livre comércio no espaço americano, cujas taxas
alfandegárias seriam reduzidas. Isso possibilitaria a passagem de mercadorias e a chance de um aumento
significativo de comércio entre os países americanos.

Países-membros da ALCA
Se o bloco entrar em funcionamento, os países participantes serão Antígua e Barbuda, Argentina,
Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, El Salvador,
Equador, Estados Unidos, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua,
Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e
Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela.

Outros Blocos Econômicos Regionais

Existem ainda vários outros blocos econômicos pelo mundo, cujo objetivo central é a cooperação
comercial entre seus membros; entre eles estão:
• Comunidade Andina (CAN) ou Pacto Andino: criado em 1969, é formado por Bolívia, Peru,
Equador, Colômbia. São membros associados o Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.
• Caricom (Comunidade do Caribe): criada em 1973, tem como membros Antígua e Barbuda,
Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São
Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, além dos associados
Anguilla, Bermuda, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Caiman e ifurks e Caicos.
• Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático): criada em 1967, é composta por Brunei,
Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnã.

83
ALCA. Blocos Econômicos. http://blocos-economicos.info/alca.html.

208
1643724 E-book gerado especialmente para MARIA DE FATIMA GAMA
• OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico): é uma organização
internacional e intergovernamental que agrupa o chamado “clube dos países ricos e desenvolvidos”.

Geoeconomia e Geopolítica da América do Sul

A Integração da América do Sul


Os países que compõem a América do Sul formam um arquipélago caracterizado historicamente pelo
distanciamento. Podemos observar, entre outras coisas, a inexistência de interligação entre os sistemas
de transporte, energia e comunicação, isso sem contar com o desconhecimento cultural e histórico que
temos dos nossos vizinhos.
Isso ocorre por diversos motivos, desde um passado colonial em que a integração não fazia parte dos
objetivos das potências colonizadoras (Portugal e Espanha), até a presença de fatores naturais que
propiciam o isolamento, principalmente a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes. Nem o processo
de independência dos países da região ou mesmo os ideais de Simon Bolívar, que pregava a união da
América Latina, acabaram gerando resultados significativos.
A partir da segunda metade do século XX, porém, governos sul-americanos passaram a,
gradualmente, colocar em prática iniciativas que visavam unir os países da região. Entre sucessos e
falhas, a integração da América do Sul começou a ser levada mais a sério, tanto sob o ponto de vista
econômico como também político, social e cultural.

Organizações Intergovernamentais
As organizações intergovernamentais são organizações internacionais compostas por governos para
diferentes fins, entre eles a integração regional. Um exemplo claro desse tipo de organização são os
blocos econômicos, que possibilitam a realização de acordos comerciais visando à redução de tarifas
alfandegárias e ao fluxo livre de mercadorias, entre outros objetivos.
A formação dos blocos econômicos e de outras organizações intergovernamentais no subcontinente
sul-americano se deu a partir da segunda metade do século XX, em uma tentativa de impulsionar a
industrialização e o crescimento econômico dos países da região.
Durante os anos de 1980 e 1990 houve a criação da maioria dos blocos atualmente existentes na
América do Sul, sendo que, no século XXI, o viés ideológico vem ganhando cada vez mais destaque nas
relações entre os países membros desses grupos, após vários governos de esquerda terem ascendido
ao poder, incluindo a Venezuela.

Associação Latino-Americana de Integração (Aladi)


Na década de 1960 foi formada a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (Alalc), que, no
entanto, não durou nem sequer um ano, pois a Argentina e o Brasil ganhavam vantagens em relação a
outros países. A Guerra Fria também colaborou para que os EUA intervissem no continente, manipulando
governos da região de acordo com seus interesses, entre os quais não estava a integração sul-americana.
Em 1980 a Alalc transformou-se na Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), cujo
objetivo era impulsionar economicamente a região e desenvolver um mercado comum latino-americano
por meio de acordos comerciais. Atualmente compõem o bloco países de toda a América Latina:
Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela,
Cuba, Panamá e Nicarágua.

Aliança do Pacífico
Com o objetivo de estabelecer relações mais diretas com áreas estratégicas do comércio internacional,
sobretudo a Ásia (que é atualmente um gigante comercial), alguns países latino-americanos com acesso
ao Oceano Pacífico (Peru, México, Colômbia e Chile) formaram a Aliança do Pacífico, que ainda pode
ganhar como membros Costa Rica e Panamá nos próximos anos.
Acordos já foram firmados entre os países-membros na área comercial e também relacionados à
cooperação científica, por meio do intercâmbio entre pesquisadores de diferentes universidades.
Atualmente, os países que compõem esse bloco são caracterizados por governos neoliberais,
alinhados aos EUA e que possuem economias de poder semelhante, ao contrário do Mercosul, por
exemplo, no qual o Brasil representa uma economia muito superior em relação a outros países-membros.

Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba)


Inicialmente proposta pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013) durante a Cúpula da
Associação de Estados do Caribe, realizada em Cuba no ano de 2001 e criada oficialmente em 2004, a
Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) é a organização com maior viés ideológico entre as

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apresentadas, uma vez que se coloca claramente em oposição à política econômica dos EUA para a
região e evoca os ideais de Simon Bolívar.
Formada por Venezuela, Bolívia, Cuba e Nicarágua, a Alba difere de outras iniciativas que visam à
relação com o comércio exterior, à exportação de commodities e às alianças com outros blocos,
focalizando seus esforços na diminuição das desigualdades sociais, na priorização dos pequenos e
médios empresários, além do desenvolvimento de uma economia solidária.

Mercado Comum do Sul (Mercosul)


O Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) é o mais importante bloco econômico da América Latina,
integrando a economia da Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela como participantes efetivos.
A origem dessa cooperação foi o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento, assinado
entre Brasil e Argentina em 1988, que fixou como meta o estabelecimento de um mercado comum, ao
qual outros países latino-americanos poderiam se unir.
Formado inicialmente pelos países que compõem o Cone-Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai),
o Mercado Comum do Sul (Mercosul) foi fundado em 1991 através do Tratado de Assunção, realizado
na cidade de mesmo nome, capital do Paraguai.
Em 2012 o grupo ganhou um novo integrante, a Venezuela, e além dos países-membros ainda há a
categoria de países associados (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru). O Paraguai chegou a ser
suspenso do bloco nesse mesmo ano, em função da destituição do então presidente do país, Fernando
Lugo (considerada antidemocrática pelos países-membros), mas a decisão foi revogada em 2013.
Já a Bolívia está em processo de se tornar um novo membro; o México e a Nova Zelândia, por sua
vez, atuam como países observadores, tendo como função fiscalizar as relações internacionais entre os
estados participantes e associados.
Como uma organização intergovernamental de livre-comércio, os países associados compartilham
tarifas alfandegárias em comum e possuem acordos firmados em diversas áreas, permitindo a livre
circulação de pessoas, bens e serviços. Esses acordos, além de facilitarem o comércio, ajudam a
promover o turismo e a cooperação científica.
Além de incrementar as relações entre os países-membros, também é objetivo da associação estreitar
as relações comerciais em conjunto com outros países e blocos, por meio de acordos com a União
Europeia, o Egito, Israel e Paquistão, por exemplo. Em 2014, Dilma Rousseff assumiu a presidência da
entidade, que realiza encontros de chefes de Estado com frequência para tratar de questões políticas,
econômicas e sociais.
Embora a sede da organização se localize em Montevidéu, no Uruguai, o Brasil responde por cerca de
80% do PIB somado dos países do bloco e também pela maior parte das exportações do Mercosul para
o mundo.
A disparidade de poder entre as economias do Brasil e dos outros países que integram o Mercosul
intensificou-se ainda mais em função da crise econômica vivida pela Argentina nos últimos anos e
configura um desafio às negociações comerciais entre os membros do bloco.
O atual estágio do Mercosul é o de união aduaneira, ou seja, os participantes negociam uma
integração comercial mais elevadas mantêm uma tarifa externa (cobrança de taxas alfandegárias) única
para os países de fora do bloco.
Os países da Comunidade Andina e também o Chile são considerados como países associados, com
vistas à integração no Mercosul.

Comunidade Andina de Nações (CAN)


Organização que tem origem no Pacto Andino, firmado em 1969 por países que compartilham a
Cordilheira dos Andes (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile e Venezuela), a Comunidade Andina de
Nações (CAN) ganhou seu nome atual em 1996 e hoje inclui como membros apenas os quatro primeiros
países citados, pois o Chile e a Venezuela saíram do bloco original.
Essa organização caracteriza-se também por possuir tarifas alfandegárias comuns, assim como uma
área de livre-comércio entre os países-membros. Além disso, possui uma estreita relação comercial com
o Mercosul, bloco comercial que pode ser considerado um parceiro econômico.
Atualmente a CAN tem tido suas relações marcadas por embates ideológicos entre os países-
membros, em função principalmente da oposição entre a Colômbia e os demais integrantes do bloco.
Isso ocorre porque a Bolívia, o Equador e o Peru elegeram, nos últimos anos, governo considerados
de esquerda e representados respectivamente pelos presidentes Evo Morales, Rafael Correa e Ollanta
Humala, deixando o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (considerado de direita) isolado.

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União de Nações Sul-Americanas (Unasul)
Organização que agrega todos os países sul-americanos, com exceção da Guiana Francesa (por se
tratar de um território ainda dependente da França), a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) surgiu
para substituir a Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) e foi criada em 2008 na cidade de Brasília.
Ao contrário dos outros blocos, a Unasul não visa a um mercado comum, pois entende as diferenças
existentes entre os países que conformam a região, e tem como objetivo principal criar um espaço de
interlocução. Ela busca, por exemplo, fazer uma ponte entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, que
possuem políticas e estratégias econômicas muitas vezes antagônicas.
Anualmente são organizadas conferências diplomáticas com todos os presidentes dos países
membros. Chamada de Cúpula Sul-Americana, tal conferência discute as estratégias de integração
comercial do grupo.
Ocasionalmente também são realizados encontros especiais, como um março de 2015, quando o
grupo se reuniu para discutir as sanções econômicas dos EUA sobre a Venezuela e para denunciar uma
tentativa de desestabilização do governo do presidente Nicolás Maduro.
A criação do Conselho de Defesa Sul-Americano, que se configura como uma alternativa regional por
tratar de conflitos geopolíticos, surgiu como uma forma de preservar a paz e a soberania dos países
envolvidos e se destaca como uma das iniciativas mais importantes da Unasul, assim como a iniciativa
de integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (lirsa), que tem como objetivo uma série projetos
de integração física entre os países sul-americanos.

Questões

01. (TJ/PR – Administrador – TJ/PR) Sobre o tema blocos econômicos, assinale a alternativa correta.
(A) A União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) é formada pelos doze países da América do Sul. O
tratado constitutivo da organização foi aprovado durante a Reunião Extraordinária de Chefes de Estado
e de Governo, realizada em Brasília. A UNASUL tem-se revelado um instrumento útil para a solução
pacífica de controvérsias regionais e para o fortalecimento da proteção da democracia na América do Sul.
(B) A Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) é um bloco comercial latino-americano
criado formalmente no Chile. O bloco agrupa Chile, Colômbia, México e Peru. Em maio de 2013, foi
decidido acolher a Costa Rica como membro pleno.
(C) A Aliança do Pacífico é um bloco comercial com sede nas Filipinas, do qual fazem parte os países
asiáticos e a Oceania, criado para fortalecer o livre comércio entre os países participantes e incrementar
as exportações para outros países.
(D) O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), por ser uma zona de livre comércio,
estabeleceu o fim das barreiras alfandegárias entre Estados Unidos e Canadá.

02. (PC/PI – Perito – NUCEPE) O MERCOSUL, um dos importantes blocos econômicos da atualidade,
teve origem:
(A) nos acordos políticos entre os regimes ditatoriais dos países do “Cone Sul”.
(B) na imposição feita pelos Estados Unidos ao Brasil e ao Uruguai para o estabelecimento de
fronteiras econômicas na América do Sul.
(C) nos acordos comerciais entre Brasil e Argentina, assinados em meados dos anos 1980.
(D) No processo político que acabou com a Guerra Fria e instalou a democracia na Argentina e no
Paraguai
(E) na estruturação de uma Zona de Livre Comércio entre Brasil, Argentina e Chile, com o apoio dos
Estados Unidos e da Inglaterra, no final da década de 1970.

03. (INSS – Analista – CESPE) Acerca de economias regionais e blocos econômicos, julgue o item
abaixo.
A União Europeia, um dos blocos econômicos mais conhecidos, foi oficializada pelo Tratado de
Maastricht.
(....) Certo (....) Errado

04. (TJ/AL – Analista – CESPE) Acerca de blocos econômicos, acordos internacionais e retaliações,
assinale a opção correta.
(A) O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) é uma área de livre comércio, pois os
países envolvidos têm tratamento diferenciado, em relação às tarifas de importação, somente entre eles.
(B) Nas áreas de livre comércio, os países integrantes de cada bloco econômico estabelecem, entre
eles, tarifas de importação com alíquotas zero e, em relação a terceiros, tarifas comuns.

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(C) Em uma união aduaneira, os países envolvidos, além de terem alíquotas diferenciadas entre eles,
estabelecem alíquotas comuns frente a terceiros.
(D) Nos acordos preferenciais de comércio, os países envolvidos estabelecem tarifas comuns aos
produtos oriundos de terceiros.
(E) O Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) é considerado um mercado comum por possuir tarifa
externa comum e livre circulação dos fatores de produção.

05. (ABIN – Agente de Inteligência – CESPE) O mercado é a instituição central do processo de


globalização. Um dado fundamental é a evidência de que o mercado se tornou mundial. Isso não quer
dizer que tombaram os muros das fronteiras nacionais ou dos protecionismos, mas que nunca tantos
produtos cruzaram oceanos e continentes. As barreiras estabelecidas pelos blocos nacionais ou pelos
acordos comerciais visam mais normatizar a competição em favor dos interesses comerciais particulares
de cada país do que bloquear essa circulação. É, pois, no mercado e nas expectativas de consumo que
ele propicia que se materialize a globalização. Iná E. Castro. Bertrand do Brasil, 2006, p. 233 (com adaptações).
Tendo em vista o tema da globalização, tratado no texto acima, julgue os itens a seguir.
A globalização econômica produziu a segmentação do espaço econômico mundial, expressa por meio
da formação de blocos econômicos regionais como o MERCOSUL.
(....) Certo (....) Errado

Gabarito

01.A / 02.C / 03.Certo / 04.A / 05.Certo

Geografia física do estado do Rio de Janeiro: relevo, clima, vegetação e


hidrografia. Aspectos populacionais do estado do Rio de Janeiro. Aspectos
econômicos do estado do Rio de Janeiro

GEOGRAFIA FÍSICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Localização Espacial dentro do Estado do Rio de Janeiro

Mapa do Estado do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro é uma das 27 unidades federativas do Brasil. Situa-se a sudeste da região Sudeste do
país, tendo como limites os estados de Minas Gerais (norte e noroeste), Espírito Santo (nordeste) e São
Paulo (sudoeste), além do Oceano Atlântico (leste e sul).
Ocupa uma área de 43 780,172 km², e engloba 92 municípios. Apesar de ser, efetivamente, o terceiro
menor estado brasileiro (ficando à frente apenas de Alagoas e Sergipe), concentra 8,4% da população do
país, sendo o estado com maior densidade demográfica do Brasil. O litoral fluminense também o terceiro
mais extenso do país, atrás das costas de Bahia e Maranhão.
O Estado possui 5 Regiões geográficas intermediárias e 14 Regiões geográficas imediatas.

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Divisão das Regiões Intermediárias e Imediatas no Estado do Rio

Divisão das Regiões Intermediárias em vermelho e das Imediatas em cinza no Estado do Rio

Localização do Estado do Rio de Janeiro no Brasil

Principais Regiões de Governo do Estado do Rio de Janeiro

O Estado do Rio de Janeiro está subdividido em 8 regiões de governo:


Região Metropolitana
Região do Médio Vale do Paraíba
Região Centro-Sul Fluminense
Região Serrana
Região das Baixadas Litorâneas
Região Norte Fluminense
Região Noroeste Fluminense
Região da Costa Verde

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Neste sentido, vamos apresentar cada uma destas regiões, ressaltando seus municípios,
características e principais atividades exercidas.

1. Região Metropolitana
- Municípios: Rio de Janeiro, Niterói, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Japeri,
Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti,
Seropédica e Tanguá.
- Concentra mais de 80% da população do Estado e mais de 60% do produto interno bruto.
- 2º maior pólo industrial do país.
- Grandes problemas sócio-ambientais (desemprego, violência, pressão e poluição sobre os recursos
naturais, desigualdade sócio-espacial e exclusão social).

2. Região do Médio Vale do Paraíba


- Municípios: Resende, Volta Redonda, Porto Real, Barra Mansa, Itatiaia, Pinheiral, Piraí, Barra do
Piraí, Rio Claro, Valença, Quatis e Rio das Flores.
- Região localizada no vale do rio Paraíba do Sul.
- Seu histórico de ocupação e degradação está associado à atividade cafeeira.
- É a região que mais cresce no interior do estado, devido à posição logística no eixo RJ-SP-BH.
- A atividade industrial é bastante intensa, com a presença de empresas como: CSN (Volta Redonda),
Volkswagen (Resende), Michelin (Itatiaia), entre outras.
- Poluição atmosférica muito intensa, pela presença de muitas industrias.
- A presença do Parque Nacional de Itatiaia alavanca o turismo na região e fortalece o setor de
comércio e serviços em cidades como Resende e Itatiaia.
- Pecuária leiteira e agricultura em Valença, Barra Mansa, Quatis e Resende.

3. Região Centro-Sul Fluminense


- Municípios: Três Rios, Areal Comendador Levy Gasparian, Paraíba do Sul, Sapucaia, Vassouras,
Paty dos Alferes, Mendes, Miguel Pereira e Engenheiro Paulo de Frontin.
- A produção cafeeira foi dinamizadora da região no passado.
- Três Rios como principal centro da região. Privilegiado pelo entroncamento rodo-ferroviário e
localização estratégica entre MG e RJ.
- Principais atividades econômicas: Metalurgia (Três Rios), Alimentos, Mecânica, Cerâmica (Paraíba
do Sul), Construção Civil (Miguel Pereira), entre outras.

4. Região Serrana
- Municípios: Cantagalo, Carmo, Cordeiro, Bom Jardim, Duas Barras, Nova Friburgo, Sumidouro, Santa
Maria Madalena, São Sebastião do Alto, Trajano de Morais, Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto,
Teresópolis e Macuco.
- Apresenta bons indicadores socioeconômicos, sendo bem dinamizada nos setores da indústria,
comércio e prestação de serviços. Sofreu, nas últimas décadas, com o crescimento urbano desordenado.
- Região sofre com os desastres naturais, devido aos intensos deslizamentos de terra, normalmente,
promovidos pelas chuvas em abundância, principalmente no verão, gerando perda de vida, bens materiais
e abalo econômico na região e no estado.
- As terras cultivadas na região abastecem os municípios da região metropolitana.

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- Contribuem para o desenvolvimento da agricultura: clima e a rede hidrográfica, relevo, o solo e o
índice pluviométrico.
- Atividade turística bastante desenvolvida, voltada para o turismo histórico (Petrópolis), turismo rural,
ecoturismo, turismo cultural (culturas alemãs e suíças) e o turismo de comércio (pólos têxteis e moda
íntima).
- A indústria têxtil tem um papel muito importante na região, chegando a exportar lingerie para diversos
países.

5. Região das Baixadas Litorâneas


- Municípios: Maricá, Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da aldeia, Cabo Frio, Arraial
do Cabo, Armação de Búzios, Casimiro de Abreu, Rio das Ostras, Silva Jardim, Rio Bonito e Cachoeira
de Macacu.
- A importância do fator clima na região: o clima entre Arraial do Cabo e Cabo Frio é diferente do
restante do estado, sendo um local que chove menos, venta mais e o número de dias ensolarados durante
o ano é maior, o que estimula o turismo de veraneio na região.
- Ressurgência - este fenômeno, característico da região, impulsiona a indústria pesqueira em Cabo
Frio.
- Turismo é a principal atividade, gerando diversas outras, como comércio e construção civil.
- Os ecossistemas de restingas e lagunas sofrem com a pressão desordenada e a falta de políticas
públicas para a conservação.
- Outros dois setores da indústria muito importantes são: a pesca e a produção de sal, este último em
decadênc