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Adolescentes em privação de liberdade na Fundação

Casa – Sorocaba, SP: ato infracional e processo edu-


cativo
Adolescent in deprivation of liberty in the Fundação
Casa – Sorocaba, SP: illegal act and process education
Julio Cesar Francisco*
Marcos Francisco Martins**
* Universidade Federal de São Carlos - Campus So-
rocaba. Licenciatura em Pedagogia na Universidade
Federal de São Carlos –Campus Sorocaba e bolsista da
FAPESP, sob a orientação do Prof. Dr. Marcos Francisco
Martins. É integrante do GPTeFE – Grupo de Pesquisa
Teorias e Fundamentos da Educação e ex-bolsista da
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior
** Professor adjunto da Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar) - campus Sorocaba, onde coordena o
Programa de Mestrado em Educação e lidera o GPTeFE.
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), graduado em Filosofia (PUC-Campinas), com
mestrado e doutorado em Filosofia e História da Edu-
cação (FE-Unicamp).

Resumo
O presente artigo é resultado do trabalho de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pes-
quisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Entre os objetivos da pesquisa cujos resultados são aqui
relatados, está investigar a relação entre o processo de marginalização de 18 adolescentes que se
envolveram com atos infracionais e a educação escolar e não escolar vivida por eles na Fundação
Casa de Sorocaba, SP. Os resultados da pesquisa permitiram identificar: (i) os motivos que levam
adolescentes a se envolverem com atos infracionais; (ii) a relação entre a situação escolar vivida
pelos adolescentes e o envolvimento com atos infracionais; (iii) o processo “disciplinar”-educativo
vivido pelos adolescentes no interior da Fundação Casa; e (iv) elaboração de um esboço do perfil
étnico, escolar, familiar, econômico e infracional de adolescentes em Sorocaba.
Palavras-chave
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Educação na prisão. Fundação Casa de Sorocaba, SP.

Abstract
This article is a work of research funded by the Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (FAPESP). Among the objectives of the research is to investigate the relationship between

Série-Estudos - Periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da UCDB


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the process of marginalization of 18 teenagers involved in illegal acts and education experienced
by them at the House Foundation Sorocaba, SP. The research results have identified: (i) the reasons
why adolescents engage in illegal acts, (ii) the relationship between the school situation experienced
by adolescents and involvement in illegal acts, (iii) the process “disciplinary” education-experienced
by adolescents within the Foundation, and (iv) compiled of ethnic profiling, economic, educational
and family of teenagers Sorocaba.
Key words
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Education in prison. Casa de Sorocaba, SP.

Introdução com o “mundo do crime”, mas pouco


desenvolvidas são as pesquisas sobre os
O presente artigo é resultado de motivos e as causas do alegado crescen-
pesquisa financiada pela FAPESP que te envolvimento desses indivíduos com
tem como escopo investigar dois “obje- as práticas entendidas como atos infra-
tos-sujeitos”1, quais sejam os adolescen- cionais, bem como sobre o sistema e as
tes que se envolveram com a prática de medidas oficiais a que são submetidos,
atos infracionais e os processos educa- principalmente as de caráter educativo,
tivos aos quais foram submetidos, tanto empregadas para conter essa declarada
os escolares, quanto – e principalmente! onda crescente (PRIULI; MORAES, 2007).
– os que enfrentaram no cumprimento Eis uma das justificativas da presente
de medidas socioeducativas de privação pesquisa, pois sua relevância reside em
de liberdade na Unidade da Fundação jogar luzes sobre as políticas públicas
Casa da região de Sorocaba, SP. educacionais voltadas à rede educativa
Importa destacar que alguns es- escolar e não escolar.
tudos apontam para números cada vez São basicamente dois os objetivos
maiores de adolescentes envolvidos da pesquisa cujos resultados são aqui
1 apresentados parcialmente: conhecer
O termo “objeto-sujeito” é aqui colocado entre
aspas com a intenção de destacar ao leitor que a e avaliar a possível incidência do aban-
abordagem dos adolescentes pela pesquisa não dono escolar como um dos fatores que
os toma a partir de orientações de paradigmas podem conduzir adolescentes a se envol-
teóricos que entendem os sujeitos como objetos, verem mais diretamente com a violência
como “coisas”, como é o caso do positivismo,
e com o crime, e apreciar os resultados
sempre muito presente quando se trata de
identificar os adolescentes em conflito com a lei. dos processos educativos desenvolvidos
Diferentemente, a orientação epistemológica da durante o período em que esses ado-
presente investigação entende os adolescentes lescentes foram submetidos a medidas
atendidos pela Fundação Casa de Sorocaba-SP socioeducativas. Além disso, também é
como sujeitos cuja vida foi determinada pelas
finalidade da pesquisa não apenas co-
relações sociais a que foram submetidos, mas
que podem, inclusive por meio de processos nhecer a realidade educacional escolar
educacionais, mudar a própria história. e não escolar vivida pelos adolescentes

184 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
atendidos pela Fundação Casa, mas do Juiz da Vara da Infância e Juventude
também, a partir dos dados coletados da Comarca de Sorocaba.
e analisados, propor alternativas à edu- A coleta e a análise dos dados
cação desenvolvida por essa instituição. relativos ao problema da pesquisa fo-
Um conjunto de questões que sus- ram sistematizados no texto que segue
citam dúvidas sobre a relação existente abaixo, o qual tem a seguinte estrutura:
entre o processo de marginalização de na primeira parte são apresentadas
adolescentes atendidos pela referida as referências teóricas da pesquisa, as
Fundação e a educação formal orienta- quais permitiram compreender os fa-
ram a coleta de dados. Mas, principal- tores jurídicos, sociais e educativos que
mente, dois foram os questionamentos envolvem o adolescente e a problemá-
que guiaram a investigação, a saber: tica dos atos infracionais; na segunda, a
1. Qual é a ação educativa efetiva- metodologia da pesquisa é descrita de
da pelos responsáveis por desenvolver forma mais pormenorizada, indicando,
medidas socioeducativas na Fundação inclusive, os obstáculos que a Fundação
Casa de Sorocaba-SP? Casa interpôs aos pesquisadores; os re-
2. Há alguma relação entre a edu- sultados da coleta de dados e sua análise
cação escolar vivida pelos adolescentes são apresentados na terceira parte; por
atendidos pela Fundação Casa e o en- fim, nos apontamentos conclusivos as
volvimento deles com atos infracionais? questões principais que se constituem
Para dar conta de tais questões, no problema da presente pesquisa são
a metodologia empregada contou com retomadas com vistas a apontar algumas
várias estratégias, instrumentos e pro- respostas a eles.
cessos de coleta de dados, entre os quais
se destacam: a pesquisa bibliográfica, Referências teóricas da pesquisa
enfocando tanto a questão da margina-
lização dos adolescentes autores de atos Nas últimas décadas, o chamado
infracionais quanto aspectos relativos ato infracional tem sido associado, re-
aos processos educacionais a que são correntemente, à condição de pobreza,
submetidos; a pesquisa documental, e com essa referência se construíram e
para identificar os parâmetros legais consolidaram medidas socioeducativas
que normatizam o atendimento aos re- incumbidas do atendimento aos ado-
feridos adolescentes e seus registros nas lescentes em conflito com a lei (SILVA,
instâncias que os atendem; e a pesquisa 2003, p. 17).
de campo, traduzida em uma tentativa Ser pobre, contudo, não significa
fracassada de visita in loco à Fundação necessariamente estar envolvido com
Casa, mas viabilizada por entrevistas atos delituosos, até mesmo porque há
com os adolescentes por ela atendidos dados relevantes de infrações realizadas
graças ao providencial posicionamento por jovens de classe média e alta (SPOSI-

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TO, 1998; GONÇALVES, 2002 apud SILVA, sofrem um processo legal que vá
2003, p. 12), muito embora seja raro tão longe quando são presos como
encontrar tais populações em situação garotos das favelas. É mesmo prová-
de privação ou restrição de liberdade vel que um menino de classe média,
(SILVA, 2003, p. 16). De maneira que quando apanhado pela polícia, seja
levado ao posto policial; é menos
fica evidente certa discriminação em
provável que, quando levado ao
função da condição socioeconômica dos
posto policial, ele seja fichado; e é
indivíduos, em detrimento dos preceitos extremamente improvável que seja
legais da igualdade de todos (ADORNO, indiciado e julgado. (BECKER, 1977,
1993 apud SILVA, 2003, p. 16). p. 63 apud SILVA, 2003, p. 16).
De fato, pode-se perceber, na
literatura da área, que existe uma forte Há dados que demonstram que
tendência de caracterizar a criminalida- grande parte daqueles que estão em
de como sendo resultado das condições conflito com a lei deixaram de frequentar
sociais, da situação estrutural do sujeito, a escola no momento da prática do ato
a qual é marcada pelo desemprego, ex- infracional, e os motivos mais frequen-
ploração do trabalhador, desigualdade tes da evasão escolar registrados são os
na distribuição de renda. (SILVA, 2003, seguintes: “falta de interesse”, “com-
p. 24). portamento agressivo”, “abandono”,
É importante consignar que o peso “suspensões”, “expulsões frequentes”,
da miséria e da exclusão social são fato- “uso de drogas”, “ausência de vagas”,
res que ocasionam o crescente processo “mudança de cidade” (DIAS, 2011;
de violência e de práticas infracionais GALLO; WILLIAMS, 2008; SILVA, 2003;
envolvendo a expansão do crime orga- UNICEF, 2009).
nizado (SILVA, 2003, p. 19). Os indivíduos As reações aos adolescentes tidos
que estão na situação de pobreza e/ou como “indisciplinados” e “violentos” na
negros são a maioria nos sistemas de escola e na sociedade em geral deixam
medidas socioeducativas. Porém isso evidentes que, na defesa da educação
não quer dizer que o ato infracional é um como direitos de todos, não se englobam
traço do caráter do “favelado”, do pobre aqueles considerados “desordeiros”,
ou de negros, mas sim que esses indi- “infratores” (ARROYO, 2007 apud DIAS,
víduos são desfavorecidos, de alguma 2011).
forma, nos processos sociais e judiciais. Apesar do discurso que preconiza
O que se evidencia, portanto, é que há uma educação para todos, a seletividade
uma desigualdade de acesso aos direitos no campo educacional está arraigada,
garantidos pela lei (SILVA, 2003, p. 17). refletindo discriminações de ordem so-
Estudos sobre delinquência juvenil cioeconômica, étnica e sociocultural de
assinalam isso claramente. Meni- grande abrangência (XIMENES, 2001). Os
nos de áreas de classe média não adolescentes provenientes de camadas

186 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
sociais de menor poder aquisitivo e com e à convivência familiar e comunitária,
perfil étnico ligado à história e à cultura bem como asseguraram que aqueles que
afro-brasileira recorrentemente não estão em conflito com a lei não sofram
conseguem se adequar aos padrões de maus tratos e violência no momento
valores e comportamentos associados em que são abordados pela polícia,
ao ambiente escolar, que “[...] se fun- bem como no interior das medidas de
damenta em preceitos advindos da Re- restrição e de privação de liberdade a
volução Burguesa Francesa” (XIMENES, que eventualmente possam vir a ser
2001). De fato, “[...] a escola contribui submetidos.
com a intensificação da seletividade. Esta A criança (infantes na faixa etária
é realizada desde o início da escolariza- até 12 anos incompletos) está sujeita
ção; entre os que ingressam, muitos não às medidas protetivas e preventivas
conseguem permanecer, e, entre os que por meio da família, as quais devem ser
permanecem, nem todos conseguem asseguradas pela ação do Conselho Tu-
obter êxito.” (XIMENES, 2001, p. 46). telar (Artigos 98, 101, 105 do ECA). Por
Fora da escola, nas ruas, crianças sua vez, o adolescente (aquele entre 12
e adolescentes ficam ociosos e têm de e 18 anos de idade) pode receber um
lidar com a violência e a criminalidade tratamento mais “rígido”, por meio de
em seu dia a dia, de maneira que, assim, medidas que podem ocasionar a restri-
ficam muito mais expostos às atitudes ção e até mesmo a privação de liberdade
delituosas. O criminoso adulto oferece- (Artigo 112 do ECA).
lhes dinheiro, produtos da moda, reco- No caso do adolescente, ele pode
nhecimento, identidade, os quais servem receber sete tipos de tratamentos (Art.
de atrativos para a entrada de jovens no 112, § 1º do ECA), quais sejam: advertên-
“mundo do crime” (SILVA, 2003). cia verbal preventiva e informativa para
Atualmente, as crianças e os ado- infrações leves; obrigação de reparar o
lescentes que são pegos na prática de dano causado através do ressarcimen-
ato infracional estão amparados pelo to, compensação e ou restituição do
Estatuto da Criança e do Adolescente prejuízo da coisa; prestação de serviços
(ECA) e pela Constituição da República à comunidade; liberdade assistida; se-
Federativa do Brasil de 1988 (CF/1988), miliberdade; internação; dentre outras
pois são entendidos como pessoas que previstas no Art. 101 do ECA.
estão em processo de formação e de Tendo em vista que o foco da
desenvolvimento de suas potencialida- presente pesquisa são os adolescentes
des. Nesse sentido, tanto o ECA quanto que se envolveram com atos infracio-
a CF/88 preveem que a criança e o ado- nais e que passaram por medida socio-
lescente tenham garantidos os seus di- educativa de internação, ela merece
reitos de acesso à saúde, à educação, ao esclarecimento. Essa é a medida mais
esporte, ao lazer, à dignidade, à cultura rigorosa que o adolescente pode receber

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e consiste na privação total da liberda- colar precedente à medida de restrição
de e, portanto, é aplicada em casos de de liberdade era entendida e trabalhada;
atos infracionais cometidos mediante - consulta à legislação vigente e
grave ameaça ou violência à pessoa aos dados do Sistema Nacional de Aten-
(Art. 122, § 1º do ECA). As instituições dimento Socioeducativo (SINASE)2;
responsáveis pela execução da medida - elaboração e aplicação de entre-
socioeducativa de privação de liberda- vistas semiestruturadas com adolescentes
de devem buscar, com a execução da em cumprimento de medida socioeduca-
medida, assegurar seu caráter de rein- tiva na Fundação Casa.
serção social do adolescente, através Além disso, foi predito realizar
de instrumentos e processos educativos uma pesquisa exploratória bibliográfica,
orientados menos para a punição e mais com vistas a identificar as contribuições
para o fortalecimento dos laços fami- da produção da área das ciências hu-
liares e comunitários (FRANCISCHINI; manas e sociais ao trabalho educativo
CAMPOS, 2005). Considerando que o em unidades de internação como o da
adolescente vivencia um processo de região de Sorocaba, SP. Assim, foi preciso
socialização também no submundo do buscar artigos, dissertações, teses, livros
“crime”, torna-se mais correto falarmos e outras produções, como os Anais de
de um processo de reinserção social ou eventos acadêmico-científicos voltados
de redirecionamento de sua socialização, para a discussão dos processos educa-
mais que de socialização, como muitas tivos não escolares, processo do qual
vezes se usa falar ao expressar o objetivo resultaram referências para a análise e
das medidas socioeducativas. compreensão dos mecanismos que oca-
sionam o envolvimento de adolescentes
Sobre a metodologia de coleta de dados com as práticas de atos infracionais.
Entretanto a pesquisa não pôde
O projeto de pesquisa que orien- cumprir todos os procedimentos previs-
tou a presente pesquisa, inicialmente, tos inicialmente, como a visita à Funda-
previa a utilização das seguintes estraté- ção Casa da região de Sorocaba/SP e a
gias, instrumentos e processos na coleta
de dados:
2
- visitas in loco na Fundação Casa O SINASE está sob a responsabilidade de gestão
da Secretaria de Direitos Humanos da Presidên-
de Sorocaba-SP, para conhecer a dinâ- cia da República (SDH/PR). Este Sistema teve seus
mica de funcionamento, as concepções parâmetros estabelecidos pela Resolução 119/06
e ações socioeducativas desenvolvidas; publicado pela SDH/PR e pelo Conselho Nacional
- coleta e análise de documentos da dos Direitos da Criança e do Adolescente (CO-
Fundação Casa para identificar e compre- NANDA) em 2006 e mais recentemente ganhou
força de lei pela aprovação da Lei 12.594 de 18
ender o processo educativo desenvolvido de janeiro de 2012, que regulamenta a execução
com os adolescentes e como a vida es- das medidas socioeducativas no Brasil.

188 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
entrevista com os educadores que nela estabelece a Portaria 155/2008. Contudo
atuam, o que inviabilizou grande parte não houve nenhum parecer de deferi-
da coleta de dados predita no projeto mento ou indeferimento do projeto até o
de pesquisa. Mesmo seguindo todos dia 12.07.2012, ou seja, o requerimento
os procedimentos estabelecidos pela ficou em processo avaliativo por quatro
Fundação Casa aos pesquisadores que meses sem que os pesquisadores rece-
queiram tomá-la como objeto de estudo, bessem qualquer tipo de esclarecimento
a solicitação para a realização da inves- pela demora. Foram enviados e-mails e
tigação foi indeferida3. feitas diversas ligações solicitando es-
Importa destacar que o projeto clarecimentos quanto ao processo ava-
de pesquisa e os documentos exigidos liativo, mas as respostas foram sempre
foram protocolados no dia 13 de abril as mesmas: a de que o projeto estava
de 2012 junto ao Centro de Pesquisa e em processo de avaliação ou que a de-
Documentação da Escola para Formação manda estava muito grande e não era
e Capacitação Profissional, conforme possível atender as próprias exigências
da Portaria; até foi dito que a Fundação
3
Para conhecer o modo como são tratados Casa não tem prioridade em estudos e
os projetos de pesquisa pela Fundação Casa, pesquisas, pois os esforços estão concen-
é importante destacar os procedimentos por trados no atendimento ao adolescente
ela exigidos para atender pesquisadores. Para que cumpre medida socioeducativa. A
realização de pesquisa em unidades de inter- Coordenadora do Centro de Pesquisa e
nação da Fundação Casa é preciso seguir os
procedimentos da Portaria Normativa 155/2008
Documentação da Fundação Casa, Ana
e receber expressa autorização da presidente Cristina Bastos, no dia 20.06.2012, quan-
da Fundação Casa – atualmente a Sra. Bereni- do perguntada sobre o atendimento
ce Gianella. A Portaria estabelece que, para a irregular dos projetos de pesquisa assim
realização de pesquisa no interior da Fundação se manifestou:
Casa, é necessário protocolar requerimento no
Centro de Pesquisa e Documentação da Escola Sabemos da importância dos pro-
para Formação e Capacitação Profissional da jetos, mas por haver um trabalho
Fundação Casa – São Paulo/SP. O requerimento estritamente voltado à prática do
deve conter: (I) projeto de pesquisa, (II) procedi- atendimento ao adolescente, falta
mentos de pesquisa devidamente esclarecidos, tempo para os órgãos avaliarem os
(III) declaração de vínculo do pesquisador com projetos de pesquisa [...] sei que
a instituição proponente e (IV) curriculum do quatro meses é muito tempo, mas
pesquisador responsável. A avaliação é feita pela tem projeto que demora muito
Escola para Formação e Capacitação Profissional
mais [...] a realidade infelizmente é
da Fundação Casa, Assessoria de Comunicação
Social e órgão da Diretoria Técnica ou Diretoria
essa. A Fundação Casa não é uma
Administrativa. Cada órgão avaliador tem o instituição que prioriza o estudo e
tempo de cinco (5) dias úteis para dar um pa- a pesquisa. O projeto passou pelo
recer técnico acerca do projeto de pesquisa a Centro de Formação e Capacitação,
ser desenvolvido no interior da Fundação Casa. mas depois que vai para outras

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instâncias a gente não tem visibi- oficial da Fundação, entende-se que,
lidade para identificar os motivos para a instituição, a ação educativa que
do atraso no processo de avaliação, desenvolve não precisa ser conhecida
por isso não é possível informar o por procedimentos aceitos pela co-
que ocorre com o seu projeto. Há munidade científica e financiados por
um grupo aqui dentro que gostaria
agências de fomento do próprio Estado
que os projetos fossem avaliados e
de São Paulo.
aprovados, mas existe outro grupo
de pessoas que não tem a mesma Tendo em vista tal situação decor-
postura. rente do impedimento colocado pela
Direção da Fundação Casa, a pesquisa
Esgotados todos os meios possí- foi encaminhada de modo a atender aos
veis de diálogo para viabilizar a pesquisa seus principais objetivos iniciais, mas
na Fundação Casa, foi enviado à Ouvi- revisando os procedimentos de forma a
doria dessa instituição um e-mail escla- viabilizar a investigação por meio de pro-
recendo a situação de inadequação do cessos, instrumentos e estratégias que
atendimento aos projetos de pesquisas estivessem ao alcance tanto do bolsista
a ela submetidos. No dia 13.07.2012, a quanto do orientador.
coordenadora do Centro de Pesquisa e Desse modo, para viabilizar a
Documentação da Fundação Casa, Ana execução da pesquisa, foi adotado o
Cristina Bastos, enviou a resposta de “in- seguinte procedimento, depois da in-
deferimento” à solicitação de pesquisa, feliz negativa da Fundação Casa: envio
justificando que as investigações sempre de ofício para o Juiz da Vara da Infância
interferem na rotina da instituição. Des- e Juventude da Comarca de Sorocaba,
se modo, inviabilizou-se completamente solicitando a autorização para realizar a
um dos objetivos da pesquisa, qual seja pesquisa com os adolescentes egressos
a produção de dados relativos aos pro- da Fundação Casa, os quais estão em
cessos educativos desenvolvidos inter- cumprimento de LA. Foi solicitado ao
namente à Fundação Casa de Sorocaba. referido Juiz a coleta e análise de docu-
O referido “indeferimento” causa mentos da Vara da Infância e Juventude
estranhamento aos que entendem a da Comarca de Sorocaba, para se com-
Fundação Casa como instituição pública preender os principais dados indicati-
mantida pelo Estado. Ao que, também, vos do processo de marginalização dos
cabe perguntar: para superar os desafios adolescentes e de sua vida escolar, e a
advindos do trabalho com adolescentes aplicação de entrevistas semiestrutu-
em Liberdade Assistida (LA) não seria re- radas com os adolescentes egressos da
comendável bem conhecer as situações Fundação Casa da região de Sorocaba.
por eles vividas, mormente os processos O Juiz da Vara da Infância e Juven-
educativos a que se submeteram dentro tude, MM. Dr. Gustavo Scaf de Molon,
e fora da Fundação Casa? Pela resposta acolheu o pedido para a realização da

190 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
pesquisa, cumprindo exemplarmente os dias 15 de julho e 9 de novembro
sua função social de zelo com os ado- de 2012, nove entrevistas com adoles-
lescentes em conflito com a lei, uma centes da Pastoral do Menor, sete com
postura sustentada na ideia de que para os da Vale da Benção e duas com os da
superar a dramática situação vivida por Associação Criança de Belém, todos do
esses indivíduos em processo de for- sexo masculino. Desta feita, resta reite-
mação é necessário bem conhecê-la, rar que, sem a prestativa e providencial
principalmente por meio de procedi- colaboração dos(as) educadores(as)
mentos recomendados pela comunidade dessas três entidades, viabilizada pelo
científica. O despacho pelo deferimento posicionamento da Vara da Infância da
da pesquisa foi dado no dia 11.09.2012. Comarca de Sorocaba, a pesquisa não
Além disso, a Vara da Infância deu atingiria os objetivos previstos.
outra demonstração inestimável de Por fim, sob o ponto de vista meto-
apoio à pesquisa, pois sua coordenadora dológico, torna-se importante consignar
entrou em contato com as Organizações que a presente pesquisa é sustentada
Não Governamentais (ONG’s) que exe- por uma abordagem qualitativa em seu
cutam a LA em Sorocaba (Pastoral do processo investigativo. Os dados cole-
Menor, Vale da Benção e a Associação tados nas entrevistas foram analisados
Criança de Belém) solicitando colabo- utilizando-se de análise de conteúdo, o
ração. Isso possibilitou a realização de que permite sistematizar as informações
reuniões com esses sujeitos sociais, nas coletadas evidenciando representações
quais a pesquisa foi a eles apresentada e significados atribuídos pelos sujeitos
e, naquele mesmo momento, foram entrevistados (SEVERINO, 2007).
entregues, para cada equipe técnica
das ONG’s, documento impresso solici- Resultados alcançados a partir dos
tando autorização para a realização de dados coletados
entrevista, o qual deveria ser assinado
pelos responsáveis pelos adolescentes. As entrevistas realizadas com os
No termo de autorização da pesquisa 18 adolescentes em LA atendidos pelas
constava, sobretudo, o uso de aparelho referidas ONG’s que atuam na região
de gravação como suporte de coleta de de Sorocaba demonstram sentimentos,
dados e a indicativa de que os nomes dos desejos, vontades, limites econômicos
entrevistados não seriam revelados, com sociais, bem como relações pessoais,
o intuito de guardar a intimidade dos que acabaram por formar uma totalida-
indivíduos e em atendimento aos pre- de complexa e contraditória que resulta
ceitos que regulam a ética na pesquisa na situação por eles vivida.
em ciências humanas e sociais. Em relação ao trabalho, os dados
Dessa maneira, o fato de recorrer coletados indicam que 72,2% dos res-
à via legal possibilitou realizar, entre pondentes já realizaram algum tipo de

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trabalho, mas, no momento da apreen- a adaptação do indivíduo a qualquer
são, todos estavam desempregados. Tan- ambiente cuja normatização das rela-
to a situação de trabalho desenvolvida ções interpessoais seja formal, como a
por crianças e adolescentes, quanto o que acontece no ambiente escolar, bem
desemprego vivido por populações que como a lidar com imposição de proce-
vivem em situação de vulnerabilidade dimentos sociais e legais, como os que
social são elementos que colaboram rezam as legislações.
para o “desvio” daquilo que é esperado A autodeclaração dos entrevis-
pelas normas legais e pelos procedimen- tados em relação à identificação da
tos aceitos socialmente. própria étnica produziu os seguintes
A constituição do tipo de relação dados: 66,7% brancos; 11,1% pardos;
familiar dos adolescentes entrevistados 22,2% negros. É sabido que o chamado
é reveladora de certa desestruturação: “ato infracional” não é exclusividade de
50% moram somente com a mãe; 5,6% indivíduos integrantes da comunidade
com o pai; 5,6% com a avó; 5,6% com a negra, e os dados coletados deixam isso
irmã; apenas 33,2% moram com o pai muito visível. Aliás, a autodeclaração dos
e a mãe. Essa nova constituição do tipo adolescentes apontou uma ampla maio-
de relação familiar, cuja minoria é repre- ria composta por “brancos”. Como foi
sentada pelo “tipo tradicional” de família apontado anteriormente no referencial
(pai e mãe), não é apenas resultante, teórico da pesquisa, a classe média e a
obviamente, da situação de exploração classe alta, majoritariamente composta
econômica e alienação social a que são por brancos, também cometem delitos;
submetidos esses adolescentes, mas porém, é muito mais difícil encontrar
também estimulada pelos novos padrões representantes dessas parcelas sociais
sociais do mundo contemporâneo, haja em processo de responsabilização por
vista que indivíduos da classe média e seus atos desenvolvidos de encontro à
alta também estão convivendo com essa legislação vigente (SILVA, 2003).
nova configuração do grupo social bási- A renda per capita aferida foi bai-
co. Contudo, por mais que seja compre- xa, mas não o suficiente para identificar
endida e aceita a instabilidade verificada os indivíduos entrevistados como “abai-
nos vínculos familiares, a articulação xo da linha de pobreza”4. Considerando
dessa situação com a discriminação e
a exclusão socioeconômica vivida pelos 4
Linha de pobreza é o termo que se utiliza para
adolescentes em LA, ocasiona dificul- descrever a renda de indivíduos e grupos sociais.
dade para que o indivíduo desenvolva Estar abaixo da linha de pobreza significa não
sua adolescência de forma a conviver, possuir as condições e recursos suficientes para
viver. Órgãos nacionais e internacionais utilizam
a interagir fraternal e solidariamente
parâmetros diferentes para indicar a linha de
com os demais que com ele partilham pobreza, mas, na maioria dos casos, a linha de
a vida cotidiana. Isso torna muito difícil pobreza tem como referência a indicação do

192 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
a média de pessoas residentes em cada na delegacia dentro de uma cela de-
casa, na ordem de 5,6 indivíduos, a mé- nominada de “corró”. As falas que se
dia da renda per capita atinge R$ 294,56 seguem representam algumas situações
(duzentos e noventa e quatro reais e e condições do atendimento inicial ao
cinquenta e seis centavos). Essa situação adolescente no município de Sorocaba:
econômica dos adolescentes e daque- Zé Quarto: “[...] a polícia levou eu
les que constituem seu núcleo familiar e o meu colega pro meio do mato,
os qualifica como sujeitos integrantes perto do rio, começou a dar paula-
da classe trabalhadora. Apesar de não da em nós, dizendo que ia matar a
ser o único elemento determinante no gente, depois levaram a gente preso
processo de envolvimento do indivíduo pra delegacia [...] fiquei no corró,
no conflito com a lei, essa identificação Deus me livre, lugar fedorento, não
pode ser lida como indicadora de que a tem nada pra gente dormir, tem um
luta pela sobrevivência e o desejo por buraco no chão que é o vaso [...] é
satisfazer algumas necessidades cria- tenso”.
das pela sociedade de consumo abrem Zé Quinto: “Quando a polícia me pe-
possibilidades para a ação transgressora gou foi cruel [...] porque eles judia-
das normas sociais vigentes e preceitos ram um pouco [...] eles batem, dão
legalmente instituídos, o que é classifi- coronhada na cabeça, tapa na cara
cado por “atos infracionais”. [...] no meio do mato ainda, longe
da rua, ninguém vê [...] aí que eles
Especificamente sobre essa ques-
aproveitam. Depois me levaram
tão dos “atos infracionais”, os dados pra delegacia [...] me colocaram
coletados junto aos adolescentes entre- no corrozinho [...] ali é um lugar
vistados indicaram o seguinte, equipa- fedido, sujo, apertado [...] nem tive
rando-os àqueles classificados no Código coragem de sentar no chão”.
Penal: 17,6% roubo (Artigo 157); 5,9%
Os adolescentes são tratados com
roubo qualificado (Artigo 157, parágrafo
violência em ambientes prisionais e,
2º); 58,8% tráfico de droga (comercializa-
evidentemente, é possível afirmar que o
ção de substâncias entorpecentes, Artigo
atendimento inicial não está em confor-
33 da Lei 11.343/2006).
midades com os preceitos legais do ECA,
Quando pegos em flagrante pela
em especial o que está previsto no art.
polícia, os adolescentes relataram que
88, inciso V. Portanto a norma legal que
passaram por duas principais situações
considera essa população como sujeitos
humilhantes: apanhar da polícia e ficar
de direito e na condição peculiar de
desenvolvimento não existe na prática
Banco Mundial, que, a partir do seu Relatório de (FRANCISCHINI; CAMPOS, 2005).
Desenvolvimento Mundial de 1990, estabeleceu
que a linha de pobreza mundial é de menos de
Após a sentença judicial de inter-
um dólar por dia. nação, os adolescentes são encaminha-

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 183-201, jul./dez. 2014 193


dos para a Fundação Casa, instituição só desgosto [...] eu vendo aquelas
responsável pela medida socioeducativa coisas eu pensava “esse lugar não
de privação de liberdade no Estado de é pra mim não” [...] serviu de lição.
São Paulo. Através das entrevistas, foi Eu não gostava dos funcionários
possível ter um indicativo do processo porque eles não interagiam com a
gente, só ficavam no canto deles
educativo desenvolvido pelos funcioná-
[...] se você conversar com eles você
rios, muito embora a pretendida entrada
toma menção, cada menção é sete
na instituição não tenha sido permitida. dias a mais na sua caminhada”.
Os entrevistados evidenciam em seus
discursos punições por eles sofridas na Zé Primeiro: “[...] eles tentam trans-
mitir que eles mandam ali dentro
forma de violência física e o isolamento
[...] os cara querem pressionar você,
àqueles que não cumprem as regras
te deixar com medo [...] quando
estabelecidas no interior da unidade você chega eles falam bravo [...]
de internação. As falas que se seguem o sistema lá é complicado, se você
permitem uma aproximação descritiva deixa se envolver eles atrasam a
do tipo de tratamento que o adolescen- sua caminhada lá [...] se você não
te recebe no cumprimento da medida for de acordo com as regras eles te
socioeducativa. dão menção [...] mas se isso não
Zé Sexto: “Lá você não podia levan- adianta, os funcionários levam
tar a cabeça ou olhar para o lado pra salinha lá e te dão um pau [...]
que você apanhava [...] acho que por isso que quando falam que
eles queriam mostrar que eles man- tem tumulto no CASA é porque os
davam ali. Se você não se submeter funcionários ficam batendo nos
às regras deles você fica lá mais moleque lá dentro [...] os moleque
tempo [...] então eu evitava falar não aceitam, vai ficar batendo na
com eles pra não ter problema”. gente? [...] deixa lá na tranca quan-
tos dias forem necessários [...] mas
Zé Sétimo: “[...] os moleque de mau ficar batendo na cara não, acha que
comportamento [...] brigou, não a gente é o que?”.
obedeceu às regras e não respeita
os funcionários ficam na tranca Não se pune para apagar um “cri-
[...] o menor quando volta fala que me”, mas se utiliza da punição como
foi agredido pelos funcionários modo corretivo, cujo propósito é blo-
[...] quando eles não conseguem quear a repetição do delito no futuro.
controlar o pessoal, eles chamam No fundo, o que se pretende é associar
o grupo de apoio, a gente chama
a infração ao castigo, fazendo com que o
eles de “tropa de choque” [...] eles
chegam entrando e batendo no malfeitor pague pelos delitos cometidos
primeiro que aparece na frente [...] contra a sociedade. A correção serve,
isso é normal, quando eles entram portanto, como produção e representa-
é pra deter mesmo [...] ali dentro é ção de sinalizadores requalificadores do

194 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
indivíduo para que ele aprenda a viver Como se percebe, os adolescentes
em harmonia na sociedade (FOUCAULT, têm clareza de que o processo educativo
2010, p. 123). Os tipos de representação deveria seguir por outros rumos que
das punições tem o foco no corpo, no não o do autoritarismo e desrespeitador
tempo, nos hábitos, nas atividades e dos direitos dos legalmente instituídos,
gestos do dia a dia por um sistema de mas negados a cada violência praticada
autoridade que institucionaliza o poder contra os indivíduos em LA. A propósito
de punir (FOUCALT, 2010, p. 124). Esse disso, Associação Nacional dos Centros
tipo de proposta educativa provoca re- de Defesa da Criança e do Adolescente
ações nos adolescentes, senão vejamos: (ANCED, 2011) e o Subcomitê de Pre-
Zé Segundo: “Bater vai deixar a venção da Tortura e outros Tratamen-
gente com mais raiva ainda, com tos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
vontade de vingança [...] bater vai Degradantes (SPT, 2012) elaboraram
adiantar o que? [...] aqui só tem relatórios constatando que a vida dos
moleque que já roubô, já matô, que adolescentes nas unidades de medida
é do tráfico, que tem maldade na socioeducativa de internação não estão
mente [...] você acha que vai educar devidamente protegidas: são registrados
alguém? Isso ai só prejudica!”. maus tratos, práticas de abusos físicos e
Zé Oitavo: “[...] ali tem um monte torturas, além da falta do amparo legal
de gente do crime [...] quando vai para o tratamento que é dispensado aos
preso, já chega lá revoltado [...] adolescentes, que não é nada educativo.
daí ele vê tudo aquilo que acontece Os dados coletados sobre alguns
dentro da unidade [...] funcionário
aspectos da vida escolar dos adoles-
agredindo menor, espancando mes-
mo [...] vendo tudo isso, o menor se centes entrevistados, um dos aspectos
revolta ainda mais [...] isso aí não centrais da pesquisa, são apresentados
pode ser educativo, nunca”. nos gráficos 1 e 2 abaixo.

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 183-201, jul./dez. 2014 195


Gráfico 1 – Situação escolar do adolescente no momento que se envolveu
com as práticas classificadas como “atos infracionais”
Fonte: Dados produzidos pelos autores deste texto por meio da coleta de dados realizada.

Gráfico 2 – Grau de escolaridade dos adolescentes entrevistados no mo-


mento do envolvimento com o chamado “ato infracional”
Fonte: Dados produzidos pelos autores deste texto por meio da coleta de dados realizada.

196 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
Os gráficos acima indicam que a Zé Primeiro5: “[...] dinheiro fácil,
repetência, expulsão e evasão foram droga, carro e mulheres [...] no
situações vivenciadas pelos adolescentes fundo é a ilusão de uma vida me-
entrevistados que se encontram em LA. lhor [...] muitos entram nessa vida
Percebe-se, dessa forma, uma relação porque não têm um pacote de fei-
jão, um pão pra comer no café da
de similaridade entre a dificuldade de
manhã [...] o crime abre oportuni-
os entrevistados lidarem com a dinâmica
dades, senhor”.
da vida escolar e, ao mesmo tempo, com
os padrões sociais, bem como com o que Zé Segundo: “fui expulso, fiquei
determina a legislação vigente. Disso re- andando pra rua, conheci umas
sulta que a causa explicativa da situação amizades que me levou até o crime
[...] e assim eu fui me envolvendo
que levou o adolescente à LA pode não
[...] ah, senhor, as condições senhor
ser apenas a escola, mas nela se reflete
[...] eu não estava querendo depen-
a dificuldade vivida por esses indivíduos, der mais da minha mãe, senhor [...]
a qual deveria atuar para ajudá-los na su- chega certo ponto que é ruim ficar
peração de suas dificuldades, não apenas dependendo dos outros [...] e a
aquelas relacionadas ao aprendizado dos forma mais fácil de conseguir isso
conteúdos das disciplinas escolares, mas foi no tráfico [...] com o dinheiro eu
também, e principalmente, na sua cons- comprava roupa, moto, carro, tudo
tituição como sujeito do próprio destino. rapidinho [...] é muito dinheiro [...]
É ainda possível perceber que o que tudo isso trazia? Em primeiro
parte significativa dos adolescentes dei- lugar, respeito! [...] segundo, poder
xou de frequentar a escola, sendo esse [...] mulher, droga, liberdade”.
um fator que colabora para a situação Zé Terceiro: “[...] eu fugi de casa,
de vulnerabilidade desses sujeitos que precisava comer, precisava de rou-
se envolveram com a “vida do crime” pa, não podia ir pra escola porque
(SILVA, 2003). Muitos deles perderam os meus pais iriam me achar lá,
o interesse pela escola e acharam no então eu procurei a liberdade no
“ato infracional” o modo mais fácil para lugar errado [...] no tráfico de dro-
conseguir seus desejos, os quais são gas [...] eu até tinha um bico [...]
eu ganhava uns quinhentos reais,
representados por dinheiro, produtos
mas não era suficiente pra eu fazer
da moda, consumo de substâncias psi-
o que eu queria [...] eu não queria
coativas, reconhecimento, poder (DIAS,
2011; GALLO; WILLIAMS, 2008; SILVA,
2003; UNICEF, 2009). As falas das três 5
Os nomes dos adolescentes citados nesse artigo
entrevistas que se seguem assinalam e são fictícios, a fim de resguardar as suas identida-
representam claramente a evasão esco- des. Reitera-se aqui o que foi dito na parte desse
artigo relativa aos aspectos metodológicos: a não
lar e os motivos que levam adolescentes
identificação dos sujeitos entrevistados segue as
às práticas de atos infracionais: normas da ética da pesquisa científica.

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 183-201, jul./dez. 2014 197


só isso, eu queria mais dinheiro [...] A partir do exposto sobre os ado-
sempre fui e sempre vou ser uma lescentes que se envolvem com os cha-
pessoa ambiciosa [...] fui procurar mados “atos infracionais” no município
o dinheiro fácil, comecei a conhecer de Sorocaba, é possível traçar-lhes um
as pessoas e me envolvi no tráfico”.
perfil predominante.

Tabela 1 – Perfil predominante de adolescentes em liberdade assistida que se en-


volvem com os chamados “atos infracionais” no município de Sorocaba, SP

PARÂMETROS PERFIL
Idade (média) 15,72 anos
Autodeclaração de etnia Branco (66,7%)
Repetência Sim (88,3%)
Expulsão Não (72,2%)
Escolaridade
Evasão Sim (88,3%)
Nível de ensino atingido 1º ano do Ensino Médio (44,4%)
66,8% vivem apenas com um dos responsáveis
Constituição Familiar (50% moram somente com a mãe; 5,6% com o pai;
5,6% com a avó; 5,6 com a irmã)
Renda per capita (média) R$ 294,46
Principal “ato infracional” Tráfico de Drogas (58,8%)

Alguns apontamentos a título de con- o espaço de instituições como a referi-


clusão da Fundação como verdadeiramente
públicos. Grande parte disso se deve à
A título de apontamentos conclusi- compreensão de que a pesquisa sobre
vos, não é por demais iniciar reafirmando processos educativos desenvolvidos é
o que se disse ao considerar a negativa um dos primeiros passos para superar
da Fundação Casa ao acesso dos pesqui- eventuais problemas constatados, o que
sadores aos seus espaços e sujeitos do parece não faltar na dinâmica de atuação
processo de medidas socioeducativas. da Fundação Casa de Sorocaba, que foi
O indeferimento à solicitação do pedido parcialmente conhecida por estratégias
para desenvolver a presente pesquisa e processos viabilizados por intervenção
causou estranheza, em particular, nos de autoridade judiciária instituída.
autores desse artigo, e possivelmente Muito embora não se tenha tido
causará em todos aqueles que entendem condições de realizar visitas in loco na

198 Julio C. FRANCISCO; Marcos F. MARTINS. Adolescentes em privação de liberdade na Fundação Casa...
Fundação Casa nem entrevistar os edu- ção “positiva”, uma educação voltada ao
cadores que nela atuam, como planeja- redirecionamento da socialização em es-
do inicialmente, a pesquisa bibliográfica tabelecimentos que tutelam, que contro-
e documental, bem como as entrevistas lam autoritariamente o tempo, o espaço,
realizadas, podem sustentar pelo menos o corpo e o movimento das crianças e
dois apontamentos conclusivos sobre o dos adolescentes por meios de métodos
processo educativo a que foram subme- que usam e abusam da violência? Ao que
tidos os adolescentes em LA. parece, tais instituições são planejadas
Primeiro apontamento: ao consi- com um tipo de estrutura que se asse-
derar o universo de adolescentes entre- melha aos presídios comuns, voltados
vistados - 18 da região de Sorocaba -, é para adultos, desconhecendo o que há
possível afirmar que há relação direta muito a Pedagogia ensinou: a criança e
entre educação escolar e os atendidos o adolescente não são adultos em mi-
pela Fundação Casa. Não que a escola niatura, mas seres que se caracterizam
por onde passaram tais adolescentes por estar em processo de formação do
seja a causa explicativa do envolvimento corpo, da mente, da personalidade e de
deles com o que é tipificado como “ato tudo o mais que compõe e identifica o
infracional”, mas o que nela ocorre é homem. Isto significa que, mesmo com
forte indicativo do desenvolvimento pos- os avanços da legislação de atendimento
terior do adolescente. Isso faz com que, aos adolescentes em conflito com a lei,
de um lado, a escola seja desresponsa- estes vivem em ambientes previstos para
bilizada da produção de adolescentes privar de liberdade o adulto que é res-
em conflito com a lei, mas, de outro, o ponsabilizado pelo Código Penal (FRAN-
mesmo argumento é capaz de acusá-la CISCHINI; CAMPOS, 2005). Superar essa
como sendo uma instituição que não contradição parece ser, verdadeiramen-
está cumprindo sua tarefa de formar te, a mesma inglória tentativa de desatar
e transformar os sujeitos que por ela o nó górdio dos que acreditam poder
passam. educar para a democracia por meio de
Segundo apontamento: ao obser- processos autoritários, educar para a
var a relação pedagógica sistematizada paz por processos violentos. Enfrentar
e a responsabilização por medida de essa situação é um desafio ético, político
privação de liberdade desenvolvidas e pedagógico aos que lidam na prática
por instituições como a Fundação Casa, com as medidas de privação de liberdade
percebe-se uma contradição bem ob- e um desafio teórico aos que estudam
servada por Bazílio (BAZÍLIO, 2003 apud essa situação e estão comprometidos
FRANCISCHINI; CAMPOS, 2005), a saber: com a recuperação das crianças e dos
como é possível estabelecer uma educa- adolescentes em conflito com a lei.

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 183-201, jul./dez. 2014 199


Referências
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Recebido em fevereiro de 2014


Aprovado para publicação em setembro de 2014

Série-Estudos... Campo Grande, MS, n. 38, p. 183-201, jul./dez. 2014 201

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