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Editorial
O comunismo perdeu, mas o capitalismo não venceu. (Vaclav Havel)

Como nos recorda Gorbachov, o período que vai de 1990 até os dias de hoje foi desperdiçado na busca de uma globalização unilateral - por parte dos Estados Unidos - e na competição ilimitada das multinacionais. Esses fatores traíram a esperança acesa em 1989 com a queda do muro de Berlim. O sistema capitalista, depois de seu efêmero triunfo, perdeu de vista a complexidade do planeta, seus problemas reais e suas contradições gravíssimas; esqueceu-se da pobreza e do atraso do Terceiro Mundo. Em vez de reduzir os desequilíbrios existentes, o capitalismo se preocupou somente em tirar o máximo de vantagem da hegemonia conquistada. Perdeu de vista a necessidade de construir uma nova ordem mundial mais justa do que aquela legada pela Guerra Fria.
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Nos tempos da primeira guerra do Golfo, Edward Luttwak disse de Saddam: “Ele não é como os príncipes sauditas, que gastam as receitas do petróleo em champanhe e viagens a Paris. Ele usa os petrodólares para construir ferrovias! Está formando uma classe de técnicos instruídos! Em poucos decênios, o Iraque poderá se transformar na principal potência da região”. Aqui estão, portanto, as razões reais de uma guerra aparentemente absurda: com o álibi de se exportar a democracia, importa-se petróleo a preço baixo e impede-se o progresso de países pobres. Entretanto, manter cinicamente atrasado o Terceiro Mundo, alimentando a mistura explosiva feita de fanatismo religioso e pobreza econômica, é um pecado mortal feito à custa das vidas de milhões de inocentes. Mais uma vez se demonstra que o comunismo perdeu, mas o capitalismo não venceu. Domenico De Masi

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Iniciamos o século XXI presos aos fantasmas do século XX. O que aconteceu com a alegria e com os sonhos suscitados pela virada do milênio? Alguns autores chegam a apontar que nos encaminhamos para a Terceira Guerra Mundial. Embora muitas abordagens de períodos históricos tentem retratá-los como “especiais” de alguma forma, não posso deixar de acreditar que estamos chegando a um ponto de ruptura. A perversa concentração de renda, o desencanto com a política, o individualismo exacerbado, a intolerância religiosa e o consumo como fim em si mesmo são sinais de uma sociedade à beira do abismo. Mesmo o olhar mais otimista, que não negue o progresso tecnológico e os avanços da medicina, não pode deixar de constatar que falta humanidade na sociedade por nós construída.
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Difícil prever quanto tempo teremos pela frente se perpetuarmos a situação atual, porém a massa de excluídos do turbo capitalismo globalizado continua crescendo, não só no Brasil, como também em todos os cantos do planeta. A competição predatória, sem fronteiras e sem ética, perdeu de vista que já temos capacidade instalada na Terra para alimentar sem poluir, para crescer sem destruir e, principalmente, para conviver em paz sem desrespeitar as crenças alheias. Entretanto, como otimista inato que sou, não posso perder a esperança, derradeiro traço da dignidade humana. Nossa espécie tem mantido a capacidade de se reinventar e de surpreender o próprio futuro que, de tão óbvio, não se concretiza. Ivan Bentini

Expediente Border Line NEXT BRASIL Instrumentos para a inovação Ano 2. Milton Seligman (administração). Francisco Mazzucca (administração e economia). Brasil Diretor Responsável Domenico De Masi Vice-Diretor Stefano Palumbo Editor Ivan Bentini Jornalista Responsável Carolina Vigna-Marú (4) Redação Estrada de São Mateus. Eduardo Giannetti da Fonseca (economia). © 2004 S3.com.Studium.com. sem a prévia autorização da editora. Lino Villaventura (moda).Washington Olivetto (design e publicidade) . Cristovam Buarque (economia e educação).br www.: (21) 26761223 e-mail: info@nextbrasil. Roberto D’Avila (comunicação). Frei Betto (sociologia e teologia). Pérsio Arida (economia e finanças). 293 Duque de Caxias – RJ CEP 25215-283 telefax.Studium Itália.br Comitê Científico Affonso Romano De Sant’Anna (cultura).Studium. O conteúdo de artigos assinados é de total responsabilidade de seus autores. Itália © 2004 S3. Hélio Mattar (ética e cidadania). em qualquer meio. Cristina Nascimento (educação). Max Gehringer (marketing). Sebastião Salgado (fotografia). Não é permitida a reprodução parcial ou total do conteúdo desta publicação.nextbrasil. Demócrito Dummar (jornalismo). Ivo Pitanguy (medicina). número 2. Marina Colassanti (literatura). 2004 A revista NEXT Brasil é uma publicação trimestral dedicada à inovação do S3.Studium Brasil e S3. Jaime Lerner (administração pública e urbanismo).

Paris. 1513-1516. ilustração inédita (6) Lan Assinaturas Informações sobre assinaturas: info@nextbrasil.Expediente Border Line Redação Itália Giusi Miccoli Redação Brasil Vanessa Ornella Direção de Arte Carolina Vigna-Marú ISSN 1679-7922 Impressão Barra Quatro Tradução do italiano Silva Debetto Cabral Reis Projeto gráfico original italiano Franco Maria Ricci Produção gráfica Carolina Vigna-Marú Capa Leonardo Da Vinci. Imagens (8) Fotografias de Vania Toledo (1) Lan. Musée du Louvre. João Baptista (detalhe). c.br (5) . Óleo sobre madeira. S.com. 69x57 cm.

2004 Editorial por Domenico De Masi Editorial por Ivan Bentini 1 3 Metáforas Organizacionais Jorge Luis Borges A rosa de Paracelso 8 I PARTE: EM FOCO Trabalho. Organização e Economia Paulo Bertone Marketing não sobrevive sem endomarketing 12 André Midani Poder egocêntrico / Poder responsável 18 Eduardo Rozenthal A Gestão do Conhecimento: Inovação e Novas Práticas de RH 25 II POT-POURRI Valor Cultural Marina Colassanti Porque nos perguntam se existimos 34 Case History Angela Coutinho Análise e Reforma Institucional .O Testemunho de um Percurso 44 (6) .Sumário Border Line número 2.

Longo A desorientação na ciência Paolo Branca O confronto das civilizações Massimo Cacciari O conflito que gera identidade Mario Unnia Wargames para uma clonagem (7) 103 106 116 119 128 136 153 165 177 186 . biologia e business Fulvio Carmagnola Por uma estética impura Washington Olivetto A dúvida como estética Antonio Calabrò A governança da desorientação Giuseppe O.Sumário Border Line O Prazer do Olhar Carolina Vigna-Marú Da Mundi Cristina Nascimento Poderes 58 63 III PARTE: ANÁLISE & SÍNTESE Bits & Bites Hernani Dimantas Parangolé Brasil 66 76 78 Curta Metragem Laura Innocenti O melhor de Wired O Prazer do Olhar Lan Entrevista exclusiva V PARTE: MONOGRAFIA Giusi Miccoli A Desorientação Pasquale Gagliardi A Supremacia das Profissões Chris Meyer O Blur dos Blur: A convergência entre informação.

Paracelso lhe havia dado as levantou-se. Paracelso pediu a caras do Oriente”. porta. viu que uma das portadas. 345 Em sua oficina.Metáforas Organizacionais A rosa de Paracelso Jorge Luis Borges De Quincey Writings. juntou as pontas indicou um banco. ras do Ocidente e de partida é a Pedra. XIII. fadiga. casa. subiu a breve costas para acender a lâmpaescada de caracol e abriu da. Durante — Acreditas que sou capaz um tempo não trocaram uma de elaborar a pedra que transpalavra. forma todos os elementos em O mestre foi o primeiro que ouro e ofereces-me ouro. Entrou um na mão esquerda ele segurava desconhecido. que falou: O caminho é a abarcava os dois “Lembro-me de caPedra. distraído pela Trago-te todos os meus bens”. Quando se voltou. esqueceu-se de sua e tirou um taleigo que colocou prece. Cada passo que lhe enviasse um disQuem és e o que deres é a meta. a seu infalou. “Não entendes ainda. O es “O meu nome não casso fogo da lareira arrojava importa”. O homem.“Três dias e três noites tenho -se para acender a lâmpada de caminhado para entrar em tua ferro era demasiado trabalho. Não (8) . A noite havia apagado sobre a mesa. Paracelso lhe Recostou-se. muito cansado. desejas de mim?” Entardecia. As moedas eram os empoeirados alambiques muitas e de ouro. nada certa pompa. Se não entendes seu Deus. e o atanor quando bateram à Fê-lo com a mão direita. cípulo. o outro dos dedos e falou: sentou-se e esperou. qualquer Deus. sonolento. sombras irregulares. Levantar. replicou o outro. Paracelso. Também estava uma rosa. não sem determinado Deus. que o inquietou. O ponto de cômodos do porão. que me lembro da tua. Quero ser teu discípulo. a estas palavras.

O garoto elevou no ar a rosa e falou: — É verdade que podes queimar uma rosa e fazê-la ressurgir das cinzas. nada entendes ainda. Exijo a Fé! O outro insistiu. por obra da tua Arte. a minha vida inteira. Não és o menestrel da credulidade. disse. Deixa-me ser testemunha desse prodígio. — O ouro não me importa. e. a terra prometida. se o ouro te importa. respondeu com brusca decisão o discípulo. falou com inquie(9) tude Paracelso. — És um crédulo. Deixa–me cruzar o deserto. O ponto de partida é a Pedra.  Estou pronto a percorrê-lo contigo. e te dedicarei. — Quando?. — Os meus difamadores. não serás meu discípulo. Paracelso a havia tomado e. brincava com ela. porventura. Não lhes dou razão. Paracelso falou devagar: — O caminho é a Pedra. disse o mestre. Isso te peço. O outro o olhou com receio. — Agora mesmo. falou o discípulo. Falou com voz diferente: — Mas há uma meta? Paracelso riu-se. dizem que não. Sei que há um Caminho. que algo pode ser devolvido ao nada? Acreditas que o primeiro Adão no Paraíso pode haver destruído uma só flor ou uma só palha de erva? . — És muito crédulo. — Estás equivocado. ao falar. agora falavam em alemão. depois. — Precisamente por não ser crédulo que quero ver com os meus olhos a aniquilação e a ressurreição da rosa. respondeu o outro. quero percorrer a teu lado o caminho que conduz à Pedra. Cada passo que deres é a meta. Deixame divisar. ao menos de longe. Haviam começado a conversa em latim. Mas quero uma prova antes de empreender o caminho. ainda que devamos caminhar muitos anos. Se não entendes estas palavras. Quero que me ensines a Arte. Acreditas. que não são menos numerosos que estúpidos. Essas moedas não são mais do que uma parte da minha vontade de trabalho. mas não é impossível que seja uma ilusão.Metáforas Organizacionais é ouro o que procuro. ainda que os astros não me deixem pisá-la. Perguntas-me se sou capaz de destruí-la? — Ninguém é incapaz de destruí-la. e me chamam de impostor.

disse Paracelso. tudo é mortal. — Ainda fica o fogo na lareira. sempre receoso. peço-te. Falastes da Palavra que nos ensina a ciência da Cabala. Não me importa que operes com alambiques ou com o Verbo.Metáforas Organizacionais — Não estamos no Paraíso. o discípulo. falou o moço. Nesta etapa de minha longa jornada uso (10) outros instrumentos. — Não me atrevo a perguntar quais são. pois. temeroso: — Já que nada tenho feito. Digo-te que a rosa é eterna e que só a sua aparência pode mudar. — O atanor está apagado. Falastes do invisível Paraíso em que estamos e que o pecado original nos oculta. — Em que outro lugar estamos? Acreditas que a divindade pode criar um lugar que não seja o Paraíso? Acreditas que a Queda seja outra coisa que ignorar que estamos no Paraíso? — Uma rosa pode queimar–se. O prodígio não te daria a Fé que buscas: Deixa. O atanor está apagado e estão cheios de pó os alambiques. E continuou: — Falastes do que usou a divindade para criar os céus e a terra. abaixo da lua. Se atiras esta rosa às brasas. O jovem o olhou. respondeu teimosamente o moço. Depois disse: — Se eu o fizesse. quem és tu para entrar na casa de um mestre e exigir um prodígio? Que fizeste para merecer semelhante dom? O outro replicou. reiterou. Bastar-me-ia uma palavra para que a visse de novo. O mestre elevou a voz e lhe disse: — Além disso. Paracelso se havia posto em pé. acreditarias que tenha sido consumida e que a cinza é verdadeira. deixando Paracelso na dúvida se foi com astúcia ou com humildade. — Uma palavra?. falou. dirias que se trata de uma aparência imposta pela magia dos teus olhos. com insolência. Paracelso refletiu. Peço-te. em nome dos muitos . O que farias para que ressurgissem? Paracelso olhou-o com tristeza. a Rosa. e estão cheios de pó os alambiques. agora. Aqui. a mercê de mostrar-me o desaparecimento e o aparecimento da rosa. perguntou com estranheza o discípulo.

A Rosa ressurgiu. e falou: — Tenho agido de maneira imperdoável. Retomou-as ao sair. para descobrir com mão sacrílega que detrás da máscara não havia ninguém? Deixar-lhe as moedas de ouro seria esmola. Paracelso ficou só. Paracelso não havia se alterado. é considerado um dos maiores representantes da literatura hispânica.Metáforas Organizacionais anos que estudarei à tua sombra. O jovem sentiu vergonha. tão venerado. Falou com curiosa clareza: — Todos os médicos e todos os boticários de Basiléia afirmam que sou um farsante. Voltarei quando for mais forte e serei teu discí(11) pulo e no final do Caminho. Talvez eles estejam certos. Tem-me faltado a Fé que exiges dos crentes. Falava com genuína paixão. A cor se perdeu e só ficou um pouco de cinza. Ajoelhou-se. Durante um instante infinito. Ambos sabiam que não voltariam a de ver. mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava o velho mestre. escritor argentino falecido em 1986. Aí está a cinza que foi a rosa e que não o será. esperou as palavras e o milagre. Paracelso acompanhou-o até o pé da escada e disse-lhe que em sua casa seria sempre bemvindo. . Deixa-me continuar a ver as cinzas. Jorge Luis Borges. que me deixes ver a cinza. Johannes Grisebach. Não te pedirei mais nada. Paracelso era um charlatão ou um mero visionário e ele. um intruso que havia franqueado a sua porta e o obrigava agora a confessar que as suas famosas artes mágicas eram vãs. e depois a Rosa. tão insigne e portanto tão oco. derramou o tênue punhado de cinza na mão côncava e pronunciou uma palavra em voz baixa. verei a Rosa. Antes de apagar a lâmpada e de se recostar na velha cadeira de braços. Acreditarei no testemunho dos meus olhos. tão agredido. Quem era ele. Tomou com brusquidão a rosa encarnada que Paracelso havia deixado sobre a cadeira e a atirou às chamas.

sejam Um ótimo serviço lugar! eles clientes ou parpode se tornar ruim O título é. Muitos conseqüentemente. entendê-los e.Trabalho. os pro(12) . víduos que fazem parte do seu Até quando. lembra de ter sido atendido Se para eles muitas vezes é como gostaria? Você se sentiu difícil a compreensão desse satisfeito no supermercado.seu cartão de crédito.queixa com o telefonista do dimento do que estou dizen. Uma os profissionais -los. sem ceiros.desejariam.Nas últimas 24 horas. você recebeu a pessoas do seu convívio. vou colocar em prática o mesmo na tentativa de marcar comportamento que todos os uma hora com a secretária do cidadãos deveriam ter com as seu dentista. chegam a discordar agradá-los. aceitam e con. conceito. endomarketing. Dessa forma se os funcionários dúvida. fico imaginando a na farmácia. Organização e Economia Marketing não sobrevive sem endomarketing Paulo Bertone Troquemos de dia-a-dia. esclarecida. o seu banco? Ao fazer uma Para tentar facilitar o enten. e que atenção esperada? Garanto para mim é o melhor e mais q u e 9 0 % d o s l e i t o r e s s ã o completo conceito de marke. você se cordam com a nova proposta. endoentrevista sobre dessa área.c a p a z e s d e r e s p o n d e r q u e ting e endomarketing. Trata-se não se lembram da última vez de ter humildade suficiente em que foram atendidos como para trocar de lugar com indi. num primeiro moAgora vamos parar mento. ou até do. pergunto. polêmico e você tem a oportunão confiam em revolucionário para nidade de conhecêsi mesmos. mas depois da idéia p o r u m i n s t a n t e e p e n s a r. no restaurante reação de um profissional que ou tentando esclarecer uma não está diretamente ligado ao d ú v i d a p e l o t e l e f o n e c o m marketing.

Por onde começar uma estratégia de endomarketing? Estamos trabalhando com seres humanos. Você deve capacitar as pessoas individualmente e em grupo. de que forma eles gostariam de ser atendidos. ou seja. primeiro precisa mostrar aos seus funcionários quem são os clientes. Deve orientá-los quanto ao tipo de esclarecimento que deve ser passado ao cliente. porém com os questionamentos que você deve estar se fazendo agora. mas que.Trabalho. vou trocar de lugar com meus leitores. apesar disso. para que as ações de marketing sobrevivam. como eles se comportam. se você não preparar (13) as pessoas da sua empresa. Organização e Economia fissionais de marketing continuarão criando e anunciando estratégias e promoções sem ter certeza de que serão capazes de cumpri-las? Será que algum dia os departamentos de recursos humanos vão ter a sensibilidade de desenvolver procedimentos para realmente facilitar a vida dos clientes? Quando é que sentiremos os efeitos das pesquisas de opinião pública que nos chegam com tanta freqüência. seja em relação ao serviço que você está prestando ou ao produto que está vendendo. raramente nos trazem alguma melhoria? Minha entrevista comigo Para poder esclarecer esta nova proposta. é fundamental elaborar uma estratégia de endomarketing. Por isso. minha estratégia será aplicar o conceito básico de marketing e endomarketing. para você poder ter uma estratégia eficiente de endomarketing. geralmente. Por que você afirma com tanta convicção que marketing não sobrevive sem endomarketing? Porque não acredito em nenhuma estratégia de marketing que possa dar um resultado satisfatório. você poderá dar prosseguimento às estratégias de marketing duradouras. Porém. pessoas que. ou seja. não estão prepa- . Dessa forma. não criar o comprometimento entre elas para poder satisfazer as reais necessidades do cliente. Fazer uma entrevista comigo mesmo. para que possa então ter uma política interna e consolidada de endomarketing.

Que valores você considera fundamentais no seu desenvolvimento como . Por isso. que são muitas vezes desconhecidos pelos próprios funcionários. Para fazer isso é necessário trocar de lugar com o seu funcionário. mas verdadeiros profissionais de qualidade. com o meio ambiente. não conseguem identificar quem são seus clientes. nós temos de capacitar pessoas e. o início de tudo é o marketing pessoal. É fundamental reconhecer neles seres humanos com valores reais. Isto porque elas não foram treinadas para perceber as características de cada um. que vai transformar os funcionários em seres humanos com auto-estima e comportamento adequado. Então. Assim. temos de realizar pesquisas para conhecermos melhor os nossos clientes internos. Como trabalhar o marketing pessoal em empresas com funcionários de diversas classes sócio-econômicas? O marketing pessoal deve ser tratado como uma ferramenta que vai ser usada no decorrer da vida do indivíduo.Trabalho. São valores que devem ser agregados para sempre aos seres humanos. pois uma pessoa pode ser formada. Devemos mostrar do que alguém precisa para gostar de si mesmo. além de verdadeiros seres humanos. Temos que ver o conteúdo das pessoas. com o seu parceiro (14) e com a sua família. que poderão ser agregados ou desenvolvidos pela empresa. deve agregar ou gerar valores. o compromisso com a sociedade. mas desconhecer um hábito básico de higiene ou ter um procedimento indesejável junto ao grupo. para capacitá-las. O marketing pessoal vai ensinar-lhes características como a ética. antes de iniciar uma estratégia de endomarketing de médio e longo prazo. A ausência dessas características não está relacionada diretamente à classe econômica do indivíduo. Para você poder realizar uma boa política de endomarketing. Organização e Economia radas e. independente da empresa em que ele trabalhe. os valores agregados são eternos e os tornarão não apenas vendedores de sua imagem ou de ilusões. em muitos casos. e não robôs criados somente para agradar o cliente externo.

vai ter moral para ensinar ao seu filho que ele também não deve roubar um objeto alheio. mas para que ele se sinta bem. Este último deve saber que não pode jogar papel no chão (15) ou deixar de cumprimentar os demais funcionários apenas porque tem o cargo máximo. estamos propondo um ser humano melhor. Um ser humano consciente. vai . Além das reuniões e treinamentos. Organização e Economia ser humano? Nós temos de parar de buscar exemplos na malandragem. é necessário buscar a motivação das pessoas que trabalham na empresa. as estratégias de endomarketing irão viabilizar suas ações de marketing. é aquele que não rouba energia elétrica. com uma bela decoração. desde o faxineiro até o presidente. vale-refeição e condições adequadas de trabalho. a melhoria na prestação de serviços e a fidelidade dos seus clientes. já que a equipe formada fará o cliente retornar sempre ao seu negócio com mais assiduidade e com a chance de consumir cada vez mais os seus produtos. Da mesma forma que não adianta entrar em um restaurante finíssimo. Os lucros aumentarão consideravelmente dentro da sua empresa. o serviço que seria prestado ao cliente já foi comprometido. Contudo. além de facilitar a sua venda. por conseqüência. nós temos que voltar aos ensinamentos básicos de higiene. Quais serão os resultados após a implantação das estratégias de endomarketing? O resultado será a satisfação do seu cliente. nas atitudes ilegais. Aí também estamos falando de marketing pessoal. que. Isto porque você tem uma equipe preparada para atendê-los da forma adequada. O segredo do endomarketing é a satisfação do cliente externo.Trabalho. por exemplo. Isso pode ser feito com a bonificação em planos de saúde. é importante frisar que todos os funcionários da empresa devem participar de uma mesma reunião. Quando o indivíduo se conscientizar disso. se o garçom que vem nos atender tem um odor desagradável. Não é só para o momento de o garçom servir o cliente. onde o chef é qualificado no mundo inteiro. ou seja. Por isso. limpo e pronto para trabalhar. Nesse momento.

cursos e seminários. e fazer também uma pesquisa de satisfação do cliente externo. a partir do momento que você tem o retorno do seu público. seus funcionários e colaboradores. todas as características da empresa. mas que se torna barato. A partir desse momento. Sai cara a implantação de uma estratégia de endomarketing? Eu digo que é um investimento de médio e longo prazo. É um somatório de ações que vai trazer um resultado final imensurável para os clientes internos. o clima. a conscientização e o comprometimento dos dirigentes. (16) as normas de procedimento. com o objetivo de conhecer as reais necessidades do público-alvo. exercitando o . Esse sistema é muito válido na escassez de recursos ou quando a empresa é muito grande e dispõe de pouco tempo para dar início à estratégia. seus funcionários e seus clientes. As duas opções são válidas. Todos saem satisfeitos: você. profissionais de marketing. É fácil e barato capacitar as pessoas. possibilidade de ascensão dentro da empresa.Trabalho. A melhor alternativa é ter clientes fiéis. Organização e Economia trazer também a satisfação do cliente interno. através de palestras e cursos para implantar uma estratégia de endomarketing dentro da empresa. A outra forma é capacitar funcionários como gerentes de recursos humanos. equipes de venda e outros supervisores. De que forma uma empresa poderá iniciar esse trabalho que você propõe? Existem duas formas. para a qual você contrata um profissional ou uma firma especializada que possa avaliar a situação atual. e muito mais. planos de cargos e salários. desde que haja a mentalidade. A primeira é uma consultoria interna. a firma ou profissional especializado vai adaptar à empresa a organização desejada para satisfazer essas reivindicações. Este é o grande diferencial desse tipo de consultoria: conhecer as necessidades do cliente externo e adaptar a empresa para supri-las. tais como: participação nos lucros. pois é mais fácil manter um cliente do que tentar recuperá-lo.

seus funcionários e colaboradores.Trabalho. Organização e Economia princípio básico de trocar de lugar constantemente.gentes. posso garantir que “Marketing não sobrevive sem Endomarketing”. Assim sendo. exercitando o princípio básico de trocar de lugar constantemente. consultor de empresas e conferencista. Paulo Bertone é empresário. workshops e cursos sobre Marketing e Endomarketing por todo o Brasil. e vem realizando palestras. posso garantir que “Marketing não sobrevive sem Endomarketing”. Assim sendo. (17) .

e Inglaterra e Alemanha.Mary Ford. etc. o mercado de discos (18) . conhecemos por “interesse Nat King Cole. de multinacionalifonográfica. Les Paul & institucional”. vés de suas filiais importantes à época. a qual. européias.compra da companhia amerinal a se interessar em ter uma cana nº 2. na Alemanha e a Philips na cinco anos depois. à música. ceu com a RCA nos EUA.tou seus repertórios na França. que tinha em seu relações públicas.Trabalho. porém. eram dirigidas Eletrônica. amabilidade. a competição entre elas corria O sinal de partida para a comdentro de critérios da maior petição global foi dado. a Siemens elenco estelar viria se juntar. que ainda assim se nada menos que os Beatles. O único motivo que poderia numa operação arrojada de levar uma empresa multinacio. Organização e Economia Poder egocêntrico / Poder responsável André Midani Até 1950. em sua contemporâneo) de equipamentos maioria independenpartiu da Philips de áudio para a tes. dedicavam exclusivamente Em 1955. as que lembrariam o pela indústria companhias. nada mais Holanda. em 1955. em reprodução de por pessoas ligadas 1950. que Num mercado ainzação (em moldes agora é golpeada da incipiente. atraCDs. a esse EMI na Inglaterra. Como aconte. praticaa gravar músicas Criador e mente não havia o clássicas. implanse dedicavam a explorar exclu. o que hoje elenco artistas como Sinatra. óperas e criatura: a que se conhece hoje operetas. pela EMI inglesa. sivamente talentos nacionais. a Como se não bastasse. Stan Kenton. música criou como luta de poder A primeira investida a indústria entre gravadoras. chamada Capitol companhia de discos eram as Records. algumas.

e as fortes concorrentes eram Columbia. Organização e Economia teve sua primeira explosão mundial. porém . Por outro lado. e dali nasceu a necessidade mercadológica de abrir filiais por todo o globo. de tal maneira que os diretores aos poucos foram substituindo os executivos experientes em música e inexperientes em finanças por tecnocratas experientes em finanças e inexperientes em música. começando pelos EUA. com suporte de capital oriundo da máfia. e perder dinheiro era uma contingência. RCA e EMI. para desenvolver um artista. assim como os custos de gravação. Yetnikov e Morgado. E assim surgiram presidentes e chairmen tais como Levin. (19) e a paixão. Essa luta foi alimentada significativamente pelos egos colossais de certos executivos e exacerbada ainda mais pela entrada dos conglomerados de comunicação em Wall Street. O mercado mundial explodia. e os lucros eram monumentais. Europa. foram os artistas desse país que se estabeleceram pouco a pouco nos territórios importantes: Canadá. em 1965. A palavra de ordem começa a deixar de ser música. Até aquele momento. Austrália e Japão. Por ser o rock-n-roll uma modalidade norte-americana. no segundo ainda se perdia algum. começou a arrematar companhias pelo mundo afora. coincidindo com o advento de Elvis Presley. a recém-formada Warner Communications. contratado pela RCA americana. Polygram (Philips/Siemens). no carisma e na capacidade poética. nos valores que passaram a ser quase “démodé”. passando de muitos bilhões de dólares. A luta pelo primeiro lugar no mercado mundial estava começando. Essa entropia atingiu em cheio a política artística das companhias que até então contratavam artistas com base na personalidade. Enquanto isso. os adiantamentos a artistas subiam vertiginosamente. para coordenar a venda e a promoção dessa raça nova: o artista multinacional.Trabalho. onde compraram o que havia dentre as principais companhias independentes. marketing e salários dos executivos. Warner. se levaria pelo menos três anos: o primeiro disco era quase sempre considerado um teste de mercado. respeitava-se a premissa de que. a se deslocar para o lucro e a especulação.

Isso quer dizer: para tocar uma só música nas estações de rádio formadoras de opinião (as chamadas Top 40) sete vezes por dia. o investimento em jabá era de cerca de 400 mil dólares. de maneira muito parecida com o que acontece na vida real entre duas pessoas. e dali por diante então poderia-se esperar os lucros. a indústria passou a investir cada vez mais pesado na execução nas rádios. Esses altos tecnocratas eram somente tecnocratas. sem falar de outros países. o que parecia ser a peça curinga. o que os fazia cada vez menos capacitados a poder se aproximar do artista para ajudá-lo na escolha de seu repertório. era essa a cotação. Cabe dizer que cada companhia lançava entre dez e 12 canções por mês e. se a canção virou hit. se não for assim. A canção passa para o centro dessa arena. despede-se o artista. da mesma maneira. “o tecnocrata”. orientando sua carreira em momento de dúvida. para assegurar o seu êxito. na esperança de se criar um hit. etc. simultaneamente. normalmente dava para ficar quite. e não encontrava condições de diálogo. Essa sim. e. a redentora nessa “cilada” em que se encontrava a (20) indústria. a equação da lucratividade imediata estava definitivamente desarticulada. O que parecia ser uma solução passou a ser o início da decadência: a canção de sucesso é imprevisível por natureza. Durante esse período evolutivo. Algo como o efeito que o cão Lassie causou nos Studios Warner. ou seja. trazendo lucro no lançamento e. Mas consideremos a hipótese otimista dos 30%. Surge. o público tinha o tempo de desenvolver. essa estratégia milionária se revelou ineficiente. e quanto melhores no exercício dessa natureza mais abismal sua distância do artista. pode fazer sucesso imediato.Trabalho. em Hollywood. só nos EUA. o artista olhava com estranheza esse ser. então. Organização e Economia muito menos. Entre a morosidade do processo de formação do artista e a incapacidade de comunicação entre este último e os tecnocratas. Para se ter uma idéia. um relacionamento substancial e duradouro com seus ídolos. no terceiro. durante três semanas. em 70% dos casos. o sucesso de vendas do CD está garantido? São necessárias de duas .

pois a vida de um hit é efêmera. garantido o fator imediatismo. A iminência do lançamento no mercado. pela Sony e Philips. inclusive a Sony. (21) A indústria fonográfica não aceitou. dos aparelhos de duplicação de CDs caseiros provocou a indústria fonográfica. Os fabricantes propuseram. que estava em total descontrole.Trabalho. Em pouco tempo. que cobriria direitos artísticos. a música não faz necessariamente o sucesso do artista. ficavam omissos ao deixar a pirataria industrial comer progressivamente em torno de 40% do mercado mundial. em detrimento do “poder responsável”. porém. Enquanto isso. Ele mesmo. Mao TseTung. A Philips imediatamente vendeu sua companhia de discos para a Universal e foi em frente com a fabricação de aparelhos cada vez mais sofisticados. essa forma de poder que exacerba os valores inferiores da vaidade e do lucro imediato. da República Comunista da China. seguida pelos outros fabricantes de hardware japoneses. E. Organização e Economia a três canções de sucesso para assegurar o sucesso de venda. decidido a acabar com a Revolução Cultural. enquanto os tais tecnocratas cuidavam de lapidar seus próprios umbigos. O artista pode fazer o sucesso da música. Isso quer dizer que essa mesma operação (na hipótese de dar certo) deverá ser repetida com as mesmas cifras. então. Pois bem. E de onde isso veio? Pasmem. a cobrança de uma taxa compensatória sobre a venda de CDs virgens. autorais e lucro cessante. e a vida do artista estabelecido se renova por décadas. suplicando que não lançassem os tais aparelhos. que protestou junto a esses fabricantes. comprometida estará a durabilidade dessa rentabilidade. na medida em que um hit tenha vida útil numa média otimista de nove meses a um ano. os presidentes das gravadoras (essa nova casta de tecnocratas) seguiam destilando essa “banda podre” do exercício de poder. lançou mão do apoio dos 16 generais responsáveis pela ordem civil e militar nas 16 províncias (creio que são . a ineficácia do tom de súplica deu lugar a ameaças com disputas legais.

parecendo não se dar conta da gravidade da situação. prostituição. simplesmente abandonaram esse projeto. A indústria. desenvolvido pela Sony e a Philips – os dois sistemas com respostas acústicas sofisticadas e duração bem superiores a do CD. e os fabricantes de equipamentos. A partir de 1990.Trabalho. E mais uma vez. e de todo o grupo. em visita oficial. para verificar quais as ações que a indústria local estava desenvolvendo para o combate da então pirataria de cassetes. autorizou-os a desenvolverem negócios próprios à margem do Estado e da economia socialista. não investiu fundos necessários para combater esse formidável inimigo no plano mundial e. desenvolvido pela Warner e a EMI. em certos casos fornecia aos investidores dados falsos. roupas e CDs. Os capitães da indústria nunca chegaram a um acordo quanto a adotar uma dessas duas tecnologias inovadoras. que negociavam até cultivo e venda de drogas. Quando eu fazia parte do board da International Federation of Phonographic Industries (IFPI). cansados de esperar. como se não bastasse. a América Latina e a antiga União Soviética. O que de fato havia acontecido foi que a indústria legítima tinha abandonado o mercado de cassetes aos piratas. Organização e Economia 16). e o superCD. Em troca. o “poder egocêntrico” não permitiu que a indústria como um . era indispensável substituir o CD de tecnologia já obsoleta por transportes de som mais modernos. os executivos nos informaram que não havia mais mercado de cassetes no Brasil. todos produtos pirateados que inundaram inicialmente o Sudeste Asiático. Dois sistemas bastante revolucionários haviam sido testados: o CD5. entre outros pontos de venda. para minha surpresa. cheguei um dia ao Brasil. em 1996. que vendiam sem o menor constrangimento seus produtos em postos de gasolina nas estradas. cigarros. o player de um sistema não funcionava para tocar o outro. uma vez que o público tinha (22) migrado para o CD. Porém se esbarrava na questão da incompatibilidade na hora de tocar. fabricação de armas. Uns vinte anos depois. esses generais haviam desenvolvido cerca de 1 5 m i l e m p r e s a s .

A Sony e a BMG estão se juntando para reduzir custos operacionais. redução dos budgets de gravação e marketing. foi a indústria que matou. visitei. Esse senhor vinha a ser o proprietário da Odeon francesa e deve ter ficado agradavelmente impressionado pelo fervor com que . como se essa forma desesperada e desesperadora pudesse reverter o processo de deterioração com raízes tão mais profundas. Finalmente. Há poucos meses. tenha cuidado para que essa mesma indústria não acabe por matar a música”. quase profética. Organização e Economia todo chegasse a comum acordo para a adoção de uma política comercial e estratégica única para vender música através do Napster. Agora é somente questão de tempo para que os conglo merados se desfaçam das suas unidades de discos. os escritórios centrais de algumas companhias. e devo dizer que a visão que tive foi desoladora: o glamour e a criatividade deram lugar apenas a corredores vazios. estruturais e filosóficas. por pressões dos investidores e (23) board members. A Universal ainda não encontrou compradores que queiram assumir o seu passivo. MP 3. compositor e intérprete contemporâneo dos mais importantes. um livro intitulado A indústria da música: indústria da felicidade humana me foi dado de forma comovente e bastante solene por um idoso cavalheiro francês. um querido amigo. sim. na qual me pedia para ficar atento e lutar contra a degradação/degeneração da “nossa” indústria: “André. a música inventou essa indústria. acometida por uma séria crise de criatividade. como toda indústria velha. me escreveu uma carta emocionada e emocionante. ficou velha de repente e. só encontrou soluções defensivas para tentar sobreviver – começou então a onda de demissões em massa. como num campo de batalha após a derrota. A Philips e a Time Warner já venderam suas divisões de música. beirando. naquela época. A indústria. seus oitenta anos. Certo dia. permitindo a explosão do download gratuito. chamado Fito Paez. disse ele. Kazaa. em Nova York. a indústria tal como a conhecemos hoje. escritórios desocupados e pilhas de documentos jogados no chão.Trabalho. Em 1952. em Paris.

não poderiam a essa altura antever que essa “tal nova média” viria a se transformar na “indústria do egocentrismo”. Irreversível? No que é que vai dar? Por que é que teve de ser assim? Bem.Trabalho. Nesses depoimentos. sobre a complexidade do ego humano. isso é certo. a poesia e a educação. e outro. México e EUA. e falavam também com grande ternura sobre a importância desse advento/invento cultural. mas isso é tema para um outro artigo. a ópera. do poder humano em sua mais deturpada versão. Um ciclo acabou. Atraindo a ganância e o abuso por parte de advogados inescrupulosos. empresários de artistas intimidadores. que não seria eu a escrever. Organização e Economia eu falava sobre minha entrada naquele que era para mim um “divino mundo”. feita nos anos de 1920. Obviamente. André Midani é e foi presidente de gravadoras no Brasil. contendo conferências e entrevistas concedidas pelos precursores do disco no início da invenção dos sons gravados. dois. (24) . de emissoras de rádios corruptas e de executivos egocêntricos das indústrias do disco e da edição musical. Um sobre música. Esse livro era uma compilação. eles anteviam a utilização dessa nova “média” para a música clássica. aliás.

Organização e Economia A Gestão do Conhecimento: Inovação e Novas Práticas de RH Eduardo Rozenthal Tradicionalmente. O capitalismo quanto às tarefas 2003. para te. p. da produção nas são partes integranBOUDREAU. de RH (ARH). implicando a décadas.vem sofrendo mudanças signivimento de crescimento integral ficativas ao longo das últimas do empregado. 338) e a expansão sobre a inovação.organização.de amplitudes diferentes. 2000. O tradicionais práticas namento. prioritariamen. organizações recai tes da administração p. sem a do seu manejo nas organizações este se reduzir. porque as duas prátimodificações de “atitudes” que cas apresentam-se como níveis dizem respeito. é o proempresariais. além do treina organização. a nova gestão do cesso de aquisição Na ARH. de conhecimentos se associam. 94). de de tudo. 94). Os de suas habilidades e valorizando-se o autores costumam conhecimentos para a processo subjetivo relacionar o primeisolução de novas side invenção de ro ao desempenho tuações ou problemas conhecimentos. 2003. Isto não se dá por (25) . p. dos trabalhadores (ROCHA-PINTO. a carreira e que está em jogo. ra como um processo mais amplo A questão do conhecimento e que inclui o treinamento. de conhecimentos no interior da Já o desenvolvimento se configu. acima e de habilidades e. no de RH com o sentido outras experiências de implementar treinamento.Trabalho. treinamenou aperfeiçoamento to e desenvolvimento conhecimento. o foco volvimento (T&D) ções (MILKOVICH. dilatação de suas caNo novo paradigma treinamento e desenpacidades e motivado trabalho. Trata-se do mo. ao desempenho funcional a aquisição e o desenvolvimento (ROCHA-PINTO. ainda. O decognitivo exige o específicas envolvisenvolvimento comquestionamento das das em suas funções porta.

O paradigma da atualidade do trabalho e da produção organizacional promove uma nova relação homem-máquina. mas rapidamente. dependendo da criatividade .a invenção e a organização dos conhecimentos. ganha nova envergadura. com características fortemente integradoras. adequada denominação da contemporaneidade empresarial. através de sofisticados sistemas monitorados de informação e comunicação. No mundo da produção organizacional de nosso tempo. englobaram nossas atividades mais triviais. no interior do novo paradigma. o conhecimento se cria. proporcionam – diretamente . O computador pessoal conectado à rede informatizada. A condição de possibilidade para a inscrição das corporações reticulares no cenário da atualidade são as novas tecnologias que. A modernidade fabril que se iniciou no final do século XVIII e se redobrou em fins do século seguinte. por sua vez. O trabalho. o trabalho. gradativa. e que tem perdido seu território para a “era do conhecimento”. centradas (26) na comunicação rápida – e cada vez mais barata –. Subvertendo a dominação tipicamente moderna do uso pela função. “alienação” característica do modelo industrial. As novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC). Essa clivagem entre hardware e software submete a função da máquina ao uso que dela se pode fazer. desenvolve e dissemina através de redes de empresas formadas. observamos que as novas tecnologias informáticas. Podemos dizer. dando lugar a uma nova dinâmica organizacional. cuja implementação se faz através de uma “bio-política”. Por outro lado. se submete ao que Foucault (1990) denominou “bio-poder”. vem. a totalidade da vida tornou-se trabalho. Na atualidade organizacional. A problematização do saber está no cerne da mudança do paradigma que introduziu a atualidade econômica e social. por empresas em rede. Organização e Economia acaso. Para o que nos interessa. pela especificidade dos conhecimentos que incorporam. com segurança.Trabalho. que a “era industrial” moderna não mais se sustenta. isso quer dizer que não mais se coloca a tradicional separação entre o mundo do trabalho e o mundo da vida. apresentam-se pela separação entre a máquina e a sua programação. hoje em dia.

para a capacidade de produzir torna–se imprescindível a contribuição da criatividade dos usuários. A cooperação estática. que se dá pela articulação da totalidade de seus conhecimen- . Essas considerações contribuem para o esclarecimento das afirmações iniciais de que. A produção se empreende na interioridade das redes e na exterioridade das organizações. O fator que as diferencia da modernidade fabril é representado. Por outro lado. sobre a criatividade humana. no mundo atual. é substituída pelas atuais dinâmicas reticulares de colaboração. desenvolvimento e articulação do conhecimento. a interação não é mais prescritível e a dinâmica da cooperação entre os usuários está centrada na criação constante de conhecimento. O privilégio da relação recai. assim. portanto. Outro atributo diferencial das NTIC com relação à tecnologia industrial moderna é sua vocação para a associação horizontal dos conhecimentos em escala global. então. a relação do homem com a máquina. não há mais separação entre o trabalho e a vida. os aspectos tecnológicos propriamente ditos dessas tecnologias de ponta devem seu potencial de transformação à sua capacidade de assistência cognitiva e relacional (JOLLIVET. Em suma. pela imperativa necessidade de criatividade dos usuários. Nas redes informa(27) tizadas. ao mesmo tempo em que introduzem o novo paradigma social e econômico e o atual modelo das relações organizacionais do trabalho. Com esse deslocamento.Trabalho. A capacidade inventiva do usuário torna-se a condição de possibilidade do funcionamento da máquina. O trabalho agora é criação de usos (CORSANI. elevando a necessidade de cooperação entre os usuários à enésima potência. 2003). As NTIC invertem. Contudo. sendo o conhecimento criado tributário da cooperação que se efetiva nas redes informatizadas. 2003). o que está em jogo na nova dinâmica das organizações é a capacidade subjetiva para a aquisição. hierarquizada ou submetida à seqüência da linha de montagem do modelo industrial. Organização e Economia do usuário é capaz de alterar constantemente o programa que dirige o funcionamento do micro. a organização contemporânea e as relações de trabalho de nossos tempos se inserem no quadro da pós-modernidade pela via das NTIC.

a necessidade de gestão do conhecimento como conjunto de estratégias integradas para o gerenciamento da empresa de nossos tempos. somos capazes de compreender a mudança da lógica e do valor agregado envolvidos na ruptura com a dinâmica taylorista da produção industrial. a um só tempo. que valoriza o produto acabado como mercadoria padronizada reprodutível. Para a modernidade fabril. é necessário. ao cientificismo mecanicista e às determinações da produção com vistas à reprodução da mercadoria. ainda. A mudança paradigmática introduz uma economia do conhecimento. o processo produtivo se torna. subjetivo e reticular. Ao capitalismo industrial. a indiscriminação entre usuários-produtores e usuários-consumidores. artísticos ou ideológicos. A totalidade da vida é agora agente de produção. cabendo ao trabalhador apenas o processo de reprodução operacional. Ao contrário. O conhecimento se encontra cristalizado na máquina. exigindo. na inovação enquanto processo. Para uma maior compreensão das possibilidades contidas na nova lógica da gestão do conhecimento.Trabalho. para o desenvolvimento do processo produtivo. o valor repousa na capacidade criativa da subjetividade. As redes informatizadas exigem. A inovação aponta para o privilégio do potencial humano de conceber e desenvolver conhecimentos que se associam (28) ao caráter necessariamente indeterminado e iterativo do processo criativo. precisar algumas características do saber que se produz como inovação nas redes computadorizadas. na pós-modernidade das empresas em rede e das redes de empresa. o valor estava associado às possibilidades das máquinas seriais. científicos. Coloca-se. no contexto da atualidade econômica e social. isto é. Na economia industrial. nas características processuais da criatividade. ou seja. sem necessidade de . se opõe o “capitalismo cognitivo”. conhecimento e trabalho estão separados. por parte da administração das organizações contemporâneas. Em última análise. sejam esses técnicos. onde a não finalização do processo é seu próprio motor. para a atualidade organizacional. processo de criação de conhecimento. então. Organização e Economia tos. o estabelecimento de novas estratégias administrativas. Com essa argumentação.

o objetivo é a estabilidade do produto final. na medida em que a “força de trabalho” se afasta também da mercadoria produzida. de acordo com as linhas de força da modernidade fabril. esgotamento ou degradação. o que quer dizer que seu consumo implica a sua própria destruição. além de não ser destruidor. ou sua”). a produção ou a troca de mercadorias envolvem a alienação e o despojamento dos participantes. Nesse novo contexto. Para a sua viabilidade. ao contrário. que corresponde à criação de novos conhecimentos. nesta ponta do processo de produção. seu consumo. desta vez na própria mercadoria. onde o conhecimento é aquilo que se produz continuamente. encontraremos o conhecimento novamente materializado. a dinâmica processual da modernidade das organizações dependerá da presença de dois fatores econômicos. a “inovação” nada mais será do que adaptação ou ajuste quantitativo da mercadoria visando a otimização do produto (CORSANI. Estes fatores poderão ser melhor apresentados através da oposição entre os atributos econômicos da mercadoria e os do conhecimento. seu enriquecimento. Já a inovação ou processo do conhecimento constante se estabelece de maneira antagônica. o que se valoriza é o próprio processo. Como conseqüência. Organização e Economia produção cognitiva. O processo de incorporação do conhecimento à mercadoria possui uma natureza diferente do conhecimento como inovação. inclusive. A raridade da mercadoria. sendo. Contudo. Não finalização e continuidade são os aspectos centrais dessa modalidade de processo. Por outro lado.Trabalho. acarreta. está na raiz dos direitos de propriedade. apropriáveis. 2003). as mercadorias estão submetidas à lei dos rendimentos decrescentes. ou seja. Já para o processo de incorporação. Neste contexto. a saber: raridade de recursos e rendimentos decres(29) centes. cambiáveis e consumíveis”. Já se pode ver . ou seja. Para o último. a potência de transformação nele contida. As mercadorias configuram-se como bens “tangíveis. Neste caso. a exclusividade de sua propriedade (“ou minha. uma das funções da moeda: a de ser o índice da medida comum desse “sacrifício”. a alienação do trabalhador moderno é ainda mais ampla.

podemos dizer que a parceria empresarial implica a distribuição dos empreendimentos de RH por todos os setores da organização. O capitalismo cognitivo está centrado na (30) subjetividade e na criação de conhecimentos e. Assim. os profissionais de RH devem se tornar. nos dias de hoje. produção e consumo coincidem. especialistas administrativos. 2003) . colocar-se no âmbito das imperativas necessidades do capitalismo cognitivo. na organização atual. valorizando o processo de produção em detrimento do produto final. Organização e Economia que. então. pelo agenciamento das NTIC. Percebemos na nova economia do saber. Dentre as práticas de RH. O paradigma da atualidade do trabalho exige novas políticas de gerenciamento das organizações. isso quer dizer que os especialistas de RH não mais . novas práticas de RH. e. além de parceiros estratégicos. Essa configuração nos permite afirmar que. ele adquire valor (LAZZARATO. apenas quando o conhecimento se socializa. Na prática. para se apresentar em sua radical imaterialidade. que se valoriza a inovação enquanto processo de criação constante de conhecimentos.Trabalho. a admitir que a inovação nada mais é do que a produção de conhecimentos por conhecimentos. a de T&D é a responsável pelo agenciamento dos conhecimentos no interior da organização. a prática do T&D deverá colocar-se de acordo com o lugar privilegiado dos conhecimentos nas organizações contemporâneas. De maneira abrangente. Na busca do cumprimento dessa meta. concomitantemente. posição de privilégio na administração. Por seu turno. As práticas de RH baseadas na gestão do conhecimento vêm. Ao contrário. Dave Ulrich (1998) identifica os profissionais de RH da atualidade como parceiros empresariais. especialmente. defensores dos funcionários e agentes de mudanças. somente quando há troca. nessa medida. no paradigma da atualidade econômica. Isto é o que leva a maioria dos autores. deixando de se reduzir a um setor determinado. o conhecimento como que se desprende da materialidade da máquina industrial ou da mercadoria produzida na linha de produção fabril. a troca de conhecimentos não corresponde a qualquer espécie de perda ou sacrifício. a gestão de pessoas assume. a exemplo de Corsani (2003).

Construído nos moldes de uma parceria estratégica e utilizando a abordagem diagnóstica. o T&D deixa de ser uma atividade de RH dirigida exclusivamente para o enriquecimento funcional para se apresentar como proces- . Organização e Economia se concentram num departamento. Para cumprir esta atribuição. torna-se possível a continuidade do processo. quaisquer que sejam as formulações daqueles objetivos – sejam eles considerados alvos financeiros. A última etapa é crucial porque. recursos financeiros. intenções. será necessária a utilização da abordagem diagnóstica como prática de RH. primeiramente. visões. estes últimos envolvidos no dia-a-dia operacional da organização. a identificação dos objetivos da organização sob três diferentes enfoques: o organizacional propriamente dito. os especialistas em RH estão encarregados de converter os objetivos da organização em ação. trabalhando na associação com os gerentes de linha. missões. aspirações ou metas –. então. No escopo de uma abordagem diagnóstica ou de uma perspectiva sistêmica. Com esse expediente. ainda.Trabalho. O LNT permite. por sua vez. o T&D pressupõe. pelas diversas unidades. formando a base para o início de um novo ciclo de T&D. que se empreenda a segunda etapa da prática de T&D de acordo com uma abordagem estratégica. placares equilibrados. a revisão crítica da totalidade das fases envolvidas. isto é. etc. Já a terceira etapa compreende a execução do treinamento através de sua realização propriamente dita. o planejamento relacionado a políticas e diretrizes. por assim dizer. Dessa forma. tecnologias possíveis. além da avaliação dos resultados obtidos. Suas diretrizes. efetuada pela administração. A conseqüência imediata desse procedimento é a possibilidade de se fazer o “levantamento das necessidades de (31) treinamento” (LNT). segundo os objetivos do treinamento. tornam-se visíveis as lacunas existentes na competência dos funcionários em obter as metas da organização. do acompanhamento e da manutenção dos projetos e programas escolhidos. o funcional e o individual. serão: tempo disponível. espalhando-se. Na especificidade da parceria estratégica. compreende. As políticas deverão contemplar a sintonia com os objetivos maiores da organização.

a transformação das competências ou habilidades. incentivo à dependência dos colegas (MILKOVICH & BOUDREAU. Sendo assim. do que como competência funcional no sentido restrito. tomada de decisões. os enunciados de RH estratégico associados à abordagem sistêmica podem ser vistos como proposta de correspondência entre as atividades de RH da empresa e as novas tendências econômicas e sociais da pós–modernidade. 2000. Na atualidade. pressupõe. na qualidade de processo constante de criação de conhecimentos. cada vez mais. exige-se do trabalhador. Por esses motivos. mudanças nos papéis funcionais. está em jogo. este último referido à subjetividade do trabalhador. além do “saber fazer”. Exemplos de T&D no campo da gestão do conhecimento incluem jogos e dramatizações. mais ligado ao campo da invenção.Trabalho. o LNT requer uma consideração amplificada. ênfase à responsabilidade. um desempenho flexível. Ao contrário. Tais tendências apontam para o valor do conhecimento como inovação. comunicação e habilidades multifuncionais. liderança de reuniões. Nesse contexto. as funções tornam-se menos importantes para a gestão das empresas. Esse direcionamento da ARH tende ao estabelecimento de práticas de T&D que possam oferecer condições mais amplas para o exercício. ou a modificação das atitudes e das motivações individuais. 353/362). p. um processo de dilatação subjetiva das possibilidades de criar (32) e desenvolver conhecimentos. A inovação. o gerenciamento de T&D . além da competência para o desempenho da função. como já vimos. em consonância com as constantes mudanças nas organizações e a rápida obsolescência das competências funcionais. A criação de conhecimentos se efetua mais como demanda das possibilidades subjetivas. articuladas à totalidade das experiências vitais. Para que essa situação se efetive. reação a acontecimentos inesperados e ênfase às habilidades de trabalho em equipe. Organização e Economia so interminável de aquisição e aperfeiçoamento dos conhecimentos globais da personalidade do trabalhador. do “saber ser”.

redes e inovação. R. 2003. contribuir para a máxima convergência entre o desenvolvimento individual do trabalhador e os objetivos organizacionais. SILVA. P. Rio de Janeiro: Editora FGV. “Trabalho e capital na produção dos conhecimentos: uma leitura através da obra de Gabriel Tarde” in: COCCO. Capitalismo cognitivo: trabalho. W. Ao contrário. se associa ao “saber fazer”. M. MILKOVICH. Capitalismo cognitivo: trabalho. por sua vez. GALVÃO. Sendo assim.. G. R. Por fim. P. G. . o conhecimento se afastaria da imaterialidade “pura”.Trabalho. T. P. “saber ser” indica. em meio a uma crescente integração às demais atividades de RH.. Dimensões funcionais da gestão de pessoas. G. História da Sexualidade vol. 1998. Janeiro: DP&A. G. R. ligado às habilidades e competências funcionais. e a gestão do conhecimento se reduziria à evolução ou ao aprimoramento do produto em detrimento das possibilidades criativas organizacionais. GALVÃO. 2003. (33) Referências Bibliográficas CORSANI. 2000. A. as novas práticas de T&D estão muito mais centradas na continuidade da inovação como processo do que propriamente na otimização do produto final. “Elementos de uma ruptura: a hipótese do capitalismo cognitivo” in: COCCO. GALVÃO. G. doutor em Saúde Coletiva pela UERJ e fundador do Grupo de Pesquisa do Trabalho Imaterial (NITI) da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFRJ. M. 1990. Eduardo Rozenthal é psicanalista. “NTIC e trabalho cooperativo reticular: do conhecimento socialmente incorporado à inovação sociotécnica” in: COCCO. prioritariamente. necessária ao processo de criação de conhecimento por conhecimento. Os campeões de recursos humanos: inovando para obter os melhores resultados. redes e inovação.O uso dos prazeres. Administração de recursos humanos. 2003. J. SILVA.. 2003. G. A. A. P. D. FOUCAULT. Organização e Economia pretende.. São Paulo: Futura. O desenvolvimento individual deve ser entendido como mudança de atitude e transformações motivacionais visando o incremento da possibilidade de inventar conhecimentos. São Paulo: Atlas. S. redes e inovação.. o território da subjetividade que. Capitalismo cognitivo: trabalho. ROCHA-PINTO. ULRICH. Nesse caso.. SILVA. Rio de Janeiro: Graal. Janeiro: DP&A.. a valorização do produto final implica a incorporação do conhecimento à materialidade do referido produto. Rio de Janeiro: DP&A. e BOUDREAU. LAZZARATO. G. JOLLIVET. 2 . A.

estabelecendo os padrões. tenho de história. do tora Dacia Maraini. reação química. pode-se citar da palavra. diga-se de passalina. estava a escridade de acesso à educação. falo das mação não causará feminina?” não se Brontë. e dizer: “Eu abusar. é tão pouco Entretanto. refere à literatura. com sincero intuito literatura chamado Pickwick. afinal. liguei a TV a do. pa. num programa italiano de educação. mas Emily feminina no sou uma escritora”. da dificul. recem produzir uma poderosa Pois não sou eu que a invento. Repito tudo aquilo Sorrindo para a câmara. da que o âncora – um profissional crítica exclusivamente mascu. Isso (34) . quem não nenhuma surpresa. Dickinson já deu até exercício do poder Isso também não depeça. gem – perguntou a ela? Vamos e da nossa força para conseguir ver se vocês adivinham. veria causar maiores sem risco de parecer estremecimentos. duas questões são pacíficas. cuja fórmula não sou só eu que a respondo.. Justamente em um dos feminina? dias em que eu estava pensanHá exatos 28 anos eu a respon. didático. vou até o uma literatura certeza de que a afirséculo XIX.. Com paciência. A resposta. seria da equivalência ções. As pedante. Quando há um esforço de imaginação. conduz inevitavelmente à Somos milhares.lado do âncora.Valor Cultural Porque nos perguntam se existimos Marina Colassanti Se eu disser: “Eu sou A pergunta “existe tempo. no mundo pergunta: existe uma escrita inteiro.original quanto a pergunta. ao que a gente sabe.corretíssimo. conhece as Brontë? Permito-me prosseNão ouso chegar até mas ao medo viril guir com as afirmaAphra Behn.do nessa palestra. com boa cabo.combinadas. E o que foi controle da nossa linguagem. façam vencer isso tudo. dou um pouco uma mulher”.

o olhar feminino. pela fala de muitas autoras. com aqueles mesmos argumentos que eu e todas nós usamos. embora clara e justa. Não vou mais aceitar essa pergunta como se aceitam as perguntas que esperam respostas. em conferência que fez e na qual fui chamada a servir de spalla. quem sabe. pelo intenso trabalho da crítica feminista. a que poderíamos chamar de fisicidade das mulheres. Recuso-me a procurar novos e. depois de tanto responder. minada pelos estudos acadêmicos. Nenhum argumento a atinge. talvez acrescentando mais alguns. de uma voz que sendo minha é feminina. Não consegue sequer modificá-la. com a mesma insistência. Por quê? Porque ela não está interessada nos argu- . Fosse uma pergunta normal. não vou mais comprar o peixe que querem me vender. Imagino que soubesse a resposta de cor. que a partir da escrita estou há anos empenhada em construir a arquitetura de uma voz. a relação feminina com aquilo que é físico. afinal? Não é nova. a questiono. certamente. com a melhor das intenções. Então. ela parece passar por cima disso tudo. Apesar de tudo o que já dissemos. cheguei a uma convicção: o (35) erro não está na resposta. declaro-me ofendida pela pergunta. no Rio. mais convincentes argumentos. estamos respondendo. a resposta tem se demonstrado ineficiente. E. seria de se esperar que ao longo do tempo. Como se nada tivéssemos dito. Mas. lhe perguntaram exatamente a mesma coisa. continuam questionando nosso fazer literário exatamente da mesma maneira. Isso posto. talvez pertinente há vinte anos. Que pergunta é essa. da mesma maneira. depois de tê-la repetido infinitas vezes. Há anos. No entanto. e a resposta não foi diferente. com idênticas palavras. tivesse se desgastado e desaparecido. o mundo das emoções ao qual as mulheres são historicamente mais afeitas. educada. Não consegue eliminar a pergunta. paciente. tivesse sofrido alguma alteração. Eu. pela simples evolução e até mesmo pelos avanços da ciência. até mesmo na formulação. em todos os níveis. em vez de respondê-la. mantendo-se absolutamente inalterada.Valor Cultural mesmo: “Existe literatura feminina?” Ela continuou sorrindo e respondeu. Normal mesmo seria que essa pergunta.

ao falar. Se homens e mulheres utilizam o cérebro de maneira diferente ao falar. Vamos nos ater. Nas salas de reforço de aprendizado de leitura. . enunciam melhor e têm melhor vocabulário. Indo mais longe. É uma espécie rara de pergunta. é a pergunta em si. mais dados. e de forma apenas esquemática.Por experiências científicas anteriores. ao que interessa ao nosso caso: .Além disso. As mulheres aprendem a ler e a escrever mais facilmente que os homens. que as mulheres – e só as mulheres – utilizam para falar. mas me parece que esses são suficientes para encaminhar-nos a uma dedução. afirma que foi possível demonstrar diferenças consideráveis na organização funcional de um componente específico do processo de linguagem entre homens e (36) mulheres. . enquanto as mulheres recorrem a diversas áreas dos dois lados do cérebro.Nos últimos anos. o utilizam de maneira d i f e r e n t e p a r a l e r. Não vamos aqui nos estender sobre as infinitas diferenças biológicas. Isso se torna mais claro quando vemos como ignora as evidências científicas. certamente. as mulheres falam mais cedo.O aprendizado da escrita também é diferenciado. comprovadamente. é pouco provável. e se. os homens usam basicamente uma seção do lado esquerdo do cérebro.Cientistas da Universidade de Yale descobriram que os homens e as mulheres falam línguas diferentes. estão aquela que controla a visão e aquela que controla os sentimentos. nos EUA. ao que tudo indica. Graças à utilização de um campo magnético e de ondas de rádio capazes de construir a imagem dos tecidos do corpo. Bennet Shaywitz. . Existem. do ponto de vista puramente físico. p a r e c e apenas lógico que o utilizem de maneira diferente também para escrever. que havendo um mecanismo bioló- .Valor Cultural mentos. cuja razão de ser não é a busca de um esclarecimento. verificaram que. sabemos que entre as áreas cerebrais dos dois hemisférios. a ciência tem provado que homens e mulheres não são iguais. verificou-se a presença de apenas uma menina para três meninos. responsável pelo projeto. Independe da resposta.

E a essa altura. o masculino. “mas é de vidro mesmo?”. O que ela quer é colocar em dúvida a sua existência. Quando alguém me pergunta se existe uma literatura feminina. É na permanência que a pergunta continua cumprindo sua função. embora possa existir. a dúvida estará sendo aceita com ela. feita infalivelmen- . A função de uma pergunta que está em busca de resposta cessa quando a resposta é obtida. é de vidro”. Seria de se esperar que. E se alguém disser “sim. que estão meio distantes dele. Mas se a função de uma pergunta não cessa apesar das respostas. sobretudo. com o aumento da presença feminina no mundo literário. não sendo o seu verdadeiro. do decalque. estará suspensa. num espaço intermediário entre o paraíso da plena literatura e o inferno da não-escrita. que é bem provável que não exista. eu perguntar com ar de dúvida. Pior ainda. sobretudo a mim. Está em suspensão. está sendo repetida com maior freqüência. se o que eu faço existe realmente. devemos procurar em outro lugar sua verdadeira função. E a nossa literatura. só pode ser o espaço do plágio. a literatura das mulheres. escritora. e então. no limbo. sua existência é tão fraca. Um espaço claramente localizado atrás do espaço literário já reconhecidamente existente. estarei plastificando esse copo de vidro para muita gente. Mas se eu perguntar “esse copo é de vidro?”. Vocês que não têm o copo na mão. Aquilo de que se duvida está em suspeição. Mas. Enquanto a pergunta for aceita. Se eu disser “esse copo é de vidro”. eu o confirmarei copo e vidro. Ao me perguntar. Quem está perguntando é a sociedade. Não passou. estarei levantando uma dúvida. tão imperceptível. Sua função não se alterou. se perguntarão se ele não é de plástico. estará num espaço que. já tenho elementos para crer que a sociedade não quer de fato saber se existe uma literatura feminina. a pergunta passasse para outro patamar. depois dessas descobertas. esse mecanismo não atue no ato de escrever. está afirmando que. (37) eu sei hoje que quem está fazendo a pergunta não é esse alguém – indivíduos não fazem perguntas dessa forma tão simétrica e uníssona. A pergunta.Valor Cultural gico diferenciado para falar e ler.

repetem “os dois sexos são apenas um para quem escreve”. Atuantes os preconceitos. Já não podemos ignorar que em nossa sociedade. A crítica feminista. preferem negar qualquer possibilidade de gênero no texto. forçando-as a uma definição. como acontecia no século XIX.Valor Cultural te às escritoras. Mas se no tempo desse autor a afirmação era revolucionária. e onde a crítica feminista ocupou espaços importantes. atua de forma maquiavélica. Que digam elas próprias se classificam seu trabalho como feminino. Não se constituiu como pensamento comum às escritoras ou pelo menos a uma parte considerável – ou mais visível – delas. sem força editorial. hoje isso mudou de sentido. Apesar da onda dos anos de 1960. E embora não precisemos mais nos esconder atrás de pseudônimos masculinos. sobretudo nos países que vivenciaram mais intensamente o feminismo. quando os sexos são apenas um. O feminismo. ainda assim numerosas escritoras afirmam a feminilidade dos seus textos. desenhou entre nós um percurso diferente. . tardiamente chegado ao País em virtude da ditadura militar e obrigado em seguida a acelerar seus tempos. sem influência no mercado. Ora. as escritoras estão perfeitamente conscientes de que ainda hoje um preconceito pesado tende a colorir de rosa qualquer obra de literatura feminina. Pesquisas mostram que basta a palavra mulher em um título para espantar os leitores homens e abrandar o entusiasmo dos críticos. A militância não as teve em seus quadros. sabemos que os leitores abordam um livro de maneira diferente quando ele é escrito por uma mulher ou por um homem. Muitas escritoras então. e se refugiam no território neutro de uma utópica androginia. não conseguimos vencer a barreira. cravando-se como uma cunha no intocável e viril universo das letras. buscando evitar o risco de desvalorização ao declarar feminina sua própria escrita. esse um é masculino. sem presença sensível na mídia. O mesmo não se pode dizer em relação ao Brasil. atuando apenas no meio acadêmico. E excludente. ou não. que envolveu os escritos das mulheres em um grande e esperançoso movimento. O preconceito perdura. (38) Como George Sand.

No caso dos países em desenvolvimento. O Sexo Feminino. embora tendo menos tempo disponível. . porque têm mais interesse pela leitura. revelava que enquanto 70% dos leitores masculinos dedicam o tempo do transporte diário à leitura do jornal. as mulheres trabalham mais que os homens. na segunda metade do século XIX. a literatura feminina brasileira despiu-se dessas características ao entrar no novo século e numa luta mais acirrada por um lugar de destaque entre os escritores homens. Eram pré-feministas. Segundo um levantamento realizado também na França. Coletiva e altamente política na origem. podemos dizer sem medo de erro que as mulheres lêem mais. 69% das mulheres lêem um livro. Essa constatação ganha ainda em intensidade quando lembramos que as mulheres representam 2/3 do analfabetismo mundial. de 1995. Hoje. como o Brasil. Uma pesquisa realizada em outubro de 1994. as mulheres lêem mais que os homens. de pocket de boa qualidade literária. dão mais livros de presente. As mulheres compram mais livros. Mas de acordo com dados recentemente divulgados pela ONU.Valor Cultural poucas possibilidades tem de influenciar esse quadro. por melhor educação e pelos direitos das mulheres. não têm o que fazer). através do Relatório do Desenvolvimento Humano. as escritoras visavam não apenas abrigar e desenvolver a mão–de-obra literária feminina. Jornal das Damas e A Mensageira. é sobretudo através do pensamento libertário que ela se afirma. junto à editora Librio. na França. Curioso é notar que quando a literatura feminina surge no Brasil. como O Jornal das Senhoras. No mundo inteiro. E esses sempre disseram que as mulheres lêem mais porque (39) têm mais tempo livre (entenda-se. para a quase totalidade das escritoras exponenciais. 71% de seus compradores são mulheres. Então. a carga horária diária da mulher é 13% superior à dos homens. preparando o terreno para as reivindicações que viriam em seguida. mas também lutar pela libertação dos escravos. Reunidas ao redor de revistas para mulheres. a questão do gênero não passa pelo texto. aconselham mais livros do que os homens.

Em primeiro lugar. Em cada dez leitores de romances. Não me parece necessário. Ela é arma numa intensa luta pelo poder. consideram sua propriedade. através da interrupção e encobrimento das nossas frases. as mulheres foram as grandes narradoras. Não é difícil perceber que. às mulheres. sete são mulheres. haveria um considerável avanço feminino no universo literário. Esse papel foi consentido às mulhe- . a negação. sobre as Práticas Culturais dos Franceses. tão mais comprometedora? Durante séculos. o abuso verbal comprovado a que somos submetidas no cotidiano. realizada pelo Ministério da Cultura francês. o poder da palavra. o poder literário. E foi sobretudo graças às narradoras que se preservou o folclore narrativo italiano. Ela é gerada por um mercado forte e pelo avanço das mulheres nesse mercado. entre 1973 e 1989. Esses dados servem para mostrar que a nossa pergunta-tema não é naïve. Em segundo lugar. volátil e efêmera. As mulheres não são apenas as que mais lêem. das palavras sagradas. uma vez removido o preconceito. com decorrente ocupação de parte daquele espaço mais conceituado (40) que os homens. já geradoras da vida. são também as que mais compram livros escritos por mulheres.Valor Cultural E mais uma pesquisa. junto com seu envelhecimento. aqui. A narradoras recorreram os irmãos Grimm para elaborar sua coletânea. consciente ou inconscientemente. O preconceito tem conseguido manter a maior parte desse contingente feminino no segundo escalão. como crer que reconheceriam nosso direito à palavra escrita. teriam se possuíssem seu livre uso. Se nos negam a palavra oral. estender-me sobre aquilo que todas já conhecemos e sobre o que muito se escreveu: o poder gerador da palavra. E o número de escritoras – que indubitavelmente escrevem tão bem quanto os escritores – vem crescendo no mundo inteiro. aquelas que ao redor do fogo ou à beira da cama mantinham vivas narrativas milenares. nos diz que a feminização do leitorado é. como reconhece Italo Calvino na introdução da coletânea por ele elaborada. o excesso de força que as mulheres. o maior fenômeno do mundo literário dos últimos anos.

a sociedade estaria aceitando aquele modelo de mulher que ela própria tanto nega. repetidoras de narrativas já existentes e emitidas por outras fontes. um transgressor –. ruptura das normas. de uma maneira ou de outra. ou não. Em última análise. A heroína não é aquela que transgride. encontramos um elemento muito revelador: a afirmação freqüentemente repetida – praticamente um . de uma escrita feminina. questionamento do já estabelecido. Turva-se a limpidez da sua voz com acusações de falsidade. elas escapam ao controle. das feiticeiras. Criadoras. Estudando textos sobre a existência.Valor Cultural res sem constrangimentos. E linguagem individual é transgressão. E esse reconhecimento levaria. nas mulheres ela é execrada. é posta em questão. antes aceita sem reservas. Se nos homens a transgressão é estimulada e louvada pela sociedade – o herói é sempre. A palavra da narradora perde seu pleno poder. E não apenas porque se tratava de oralidade – aparentemente mais perecível – mas porque elas atuavam como transmissoras de elementos culturais estratificados. Faz–se preciso retirar a força antes permitida. Trocando em miúdos: aceitando a literatura feminina. e de tantas mulheres tentadoras que ao longo da história levaram os homens à perdição. mas à afirmação inequívoca de que transgredir faz parte da sua natureza e não diminui em nada a feminilidade. não apenas à legitimação de transgressão por parte das mulheres. E qual a melhor maneira de fazê-lo senão duvidando da autenticidade de sua criação? A mulher narradora. viria embutido o reconhecimento de uma linguagem individual. como mantenedoras de valores da sociedade patriarcal. e que com tanto esforço estamos tentando impor. No reconhecimento de uma literatura feminina. Mas a literatura traz consigo outro fator extremamente ameaçador. mas aquela que dentro da norma se supera. aquela mesma falsidade que já se havia atribuído com sucesso à voz das sereias. se transformam em ameaça. A coisa muda de figura quando elas se tornam narradoras de seus próprios textos. Literatura – reconhecível (41) como tal – implica linguagem individual. enaltecendo-a.

sob pena de estender às outras. Ela é a mesma quando se atribuem a outros autores os quadros de Artemísia Gentileschi. descuido com nossos tra(42) balhos. embora não goste muito de personalizar. a pergunta fatídica não vigora. Nos basta lembrar que. deveríamos abordar a questão das mulheres nas artes. esquecimento dos nossos nomes. uma vez que é impossível negar. me parece necessário. e tendo em vista que tampouco se pode aceitá-lo. a negação da nossa atuação pouco difere. Para desenvolvermos mais plenamente nosso tema. Nas artes ou na vida. e nenhuma outra forma de expressão é tão ameaçadora quanto a palavra. dar minha posição pessoal. a presença do gênero. na qual ele está involucrado. Como todo mundo. Em última análise. ou quando se veta nosso acesso a cargos de chefia. E a responderemos melhor sempre que a tirarmos de seu falso lugar. Provavelmente porque nenhuma outra lida com a palavra em estado puro. podemos dizer que. ao contrário do que parece. Circunscreve-se assim o risco de contaminação. Para finalizar. como escritora. ou seja. temo o preconceito. embora em todas as outras artes seja intensa a resistência ao nosso fazer – traduzida em pouca presença nos museus. desatenção dos críticos e sistemático apagamento na história da arte – em nenhuma outra a pergunta é formulada de forma tão explícita e constante. ainda que escrito por mulher. e a incluirmos no âmbito da questão mais ampla. Uma vez que é impossível negar a qualidade. . na plena individualidade. Para as grandes. a força. que é a do medo viril da equivalência feminina. As menores são mais fáceis de contestar. a individualidade de um texto universal. em se tratando de escritoras ditas universais. menos papéis disponíveis nas artes cênicas.Valor Cultural consenso – de que a pergunta sobre a existência ou não de uma literatura feminina torna–se desnecessária a partir de determinado nível qualitativo da escrita. a pergunta “existe uma literatura feminina?” não é relativa à literatura. a aceitação: retiram-se as escritoras universais do questionamento. Mas ele me fere mais do que me assusta. às outras todas. quando não se calculam como tempo de trabalho as horas passadas na cozinha.

a essência profunda do animal e da pedra. Escrever. já foi dito infinitas vezes. O escritor. enquanto o escritor busca na metamorfose a essência para entregar-se. Universidade de Illinois. Marina Colassanti é contista. uma essência de mulher. intensamente. antes de mais nada. E que essa é. mais profunda essência. que me permitirá escrevê-los. é que eu a procuro dentro de mim. EEUU. o que sinto. (43) . é criatura cambiante. é ser animal e pedra. cronista e poetisa duas vezes vencedora do prêmio Jabuti.Valor Cultural E sempre armei minha defesa não na esquiva. para iludir os outros e esconder-se. através de mim. Seminário “Entre resistir e identificar-se”. mas no enfrentamento. como o deus marinho Proteu. através de minha própria. é ser homem e ser mulher. quando diante do computador busco a essência do homem. E o que sinto em mim. Mas Proteu mudava apenas de aparência. é assumir todas as formas.

A SPID se tica” que uma instituição se propôs a um trabalho de aná. – se inviabilize em um dado trabalha-se com o que está em momento. desse trabalho. É fundamenlise institucional como base tal a aceitação da existência de sustentação para a reforma deste paradoxo – intrínseco à (44) . gância.O testemunho de um percurso Angela Coutinho Acompanhamos em sua estrutura e O processo de desde 1999 o profuncionamento. que se acha em movimento. daí o risco ganizacional se detém ao que s e m p r e p r e s e n t e d e q u e o já está instituído.que se institui. o que o trabalho institucional co. é mos. enquanto “instituinte” – isto é. questionado ou moprovou ser possível sediada no Rio de dificado. incapacidade fundamental esclarecermos as de se questionar. que em o aparecimento de de um modelo de 2003 completou 50 maneiras de ser topoder democrático anos de existência. por mais “democrávias de se instituir. que passe Psicanálise Iracy de Psicanálise dez anos sem ser Doyle (SPID) Iracy Doyle (SPID).autodenomine. burocratisInicialmente. talitárias entre seus e representativo. agindo ao mesmo tempo em c o m s u a s s i n g u l a r i d a d e s que diagnostica. diferenças entre o enfoque da Toda e qualquer instituição organização SPID e o da ins. análise e reforma cesso de análise e Qualquer corpo institucional da reforma instituciosocial. o loca demandas em análise.Case History Análise e reforma institucional . arroFoucault. seja ele Sociedade de nal da Sociedade qual for. à Va m o s a p r e s e n t a r membros: desprezo luz dos conceitos de aqui um testemunho dos colegas. O trabalho or. Nesse caso.b u s c a a f i x a ç ã o d a q u i l o tituição SPID.não está ainda instituído. provoca a implementação Janeiro.

que torna possível a construção de novas formas. cada um comportando seus riscos de conflito. a relação de poder não se confunde com a violência que age sobre corpos. para que o já instituído não impeça o novo de florescer. Na relação de poder é indispensável que o outro seja mantido até o fim como sujeito de ação. de lutas e de inversão da relação de forças 1. O poder não tem homogeneidade e é definido pelos pontos singulares por onde passa. Essa tensão pode desembocar em uma crise caso o dispositivo de poder se cristalize. importante pensador do século XX.O que garante a criação é justamente essa porosidade. Forças. táticas. O poder não tem essência. focos de instabilidade. é um conjunto de ações sobre ações possíveis 3. objetos. Sua característica essencial é estar em relação com outras forças. mesmo sendo afetada por outra. É preciso enfrentar este paradoxo com a utilização máxima do potencial criativo inerente à tensão permanente entre”instituinte” e “instituído”. Michel Foucault. 4 A resistência é a potência da força. Sabemos que o poder está em todos os lugares onde existam singularidades. Enquanto estratégia. funcionamentos. um embate que remete à questão do poder. inerente a . O poder é uma relação de forças.Case History vida institucional – para que se perceba a precariedade de todo e qualquer dispositivo que esteja em vigor em determinada sociedade. os efeitos do poder são atribuídos a disposições. O poder se exerce. essa tensão pressupõe uma relação de forças. tem um potencial que é sua capacidade de resistência. manobras. nunca no singular. pontos de enfrentamento. A força. não se possui. Não há um lugar privilegiado como fonte de poder. apresenta essa nova concepção de poder que nos ajuda a pensar a tensão permanente entre instituinte e instituído. A força só tem como objeto outras forças. De um modo ou de outro. ele é operatório. (45) impedindo a maleabilidade necessária ao enfrentamento do novo. técnicas. alterando-os ou destruindo-os 2. Embora possa haver um dispositivo rígido de poder. uma vez que estas se constituem como relação de forças.

tem uma capacidade imprevisível. Ali. É justamente essa inclusão da liberdade nas relações de poder que viabiliza a atualização do potencial criativo inerente à tensão entre instituinte e instituído. e não de “escola”. Assim. Te m c o m o princípio a aceitação das diferenças teóricas e práticas .Case History si própria. vem de “baixo” e se distribui estrategicamente. A denominação de “sociedade”. já que entende a formação como um processo permanente. Embora seja uma instituição de formação psicanalítica. O homem é como um conjunto de “forças que resistem” e. houve a constituição de um espaço específico para a discussão dos instrumentos de poder e de organização que regem a SPID. Desse modo. trocar experiências. formar e promover o progresso da Psicanálise em todos os domínios nos quais a sua prática esteja implicada. No trabalho de análise e (46) reforma institucional que vamos relatar aqui. é o que a mantém como força. Seu compromisso fundamental é com a difícil tarefa de transmissão d a p s i c a n á l i s e . liberdade como condição de existência do poder. As relações de poder são inevitáveis. em toda relação de poder há uma possibilidade de resistência. seu suporte fundamental. A resistência. trata-se de uma sociedade de psicanalistas em constante formação. O fundamental é que o exercício do poder seja dotado de procedimentos passíveis de discussão e de transformação. sendo tão móvel. onde não resiste. Ou seja. inventiva e produtiva como o poder. investigações e pesquisas. realizar estudos. enquanto ser. tornando possível o questionamento do poder exercido. ela não é mais força. e não uma estrutura hierárquica nos moldes mestre/discípulo. há nas relações de poder a inclusão da liberdade. Há uma tensão recíproca entre liberdade e poder. uma sociedade civil de caráter cultural e científico. cujo objetivo é congregar profissionais com o intuito de transmitir conhecimentos. é justo por ter como premissa básica uma relação paritária entre seus membros. a SPID não “forma” analistas. Resistência é o que permite o confronto com a dominação.

Estavam presentes. no sentido de não terem direito à cidadania institucional. Os conselheiros que eram. embora pudessem participar ativamente de todas as atividades institucionais. sem. Apesar dessa abertura. com a participação de todos os membros. (47) devendo se remeter sempre ao Conselho Deliberativo para o encaminhamento de propostas e votação das mesmas. As diferentes secretarias tinham função executiva. secretários. isto é.Case History e a troca permanente entre pares. cargo máximo de poder exercido por um dos membros psicanalistas eleito em Assembléia. isto é. e quatro representantes do Corpo Social. Deliberavam sobre o que eles próprios propunham. as funções executiva e deliberativa. As reuniões do Conselho Deliberativo eram abertas aos demais membros da sociedade. Não tinham nenhum poder político. O Secretário Geral representava a SPID interna e externamente para efeitos jurídicos e presidia todas as reuniões. excluindo os cursistas. ao mesmo tempo. mas não pertenciam. Participavam também da sociedade os cursistas. O segundo órgão de poder era o Conselho Deliberativo. Era presidida pelo Secretário Geral. isto é. constituído por dez conselheiros. no entanto. acumulavam. Pluralismo como bandeira fundante que suporta a diferença. que deseja a diferença. a SPID estava estruturada em torno de duas instâncias de poder: a Assembléia Geral e o Conselho Deliberativo. o que a caracteriza como pluralista. que faziam o curso de formação durante anos a fio. antes da conclusão dessa reforma institucional. Isso gerava um mal-estar constante e um inconformismo diante da situação de exclusão frente . Até 2003. só freqüentava as reuniões quem era do Conselho. os candidatos a membros psicanalistas. além dos dez conselheiros. sem direito à voz nem ao voto nas reuniões e assembléias. pertencer à sociedade. com função diretora e executiva. O órgão máximo de poder decisório era a Assembléia Geral. seis dos quais com encargos de Secretários. mas sem direito à voz nem ao voto. assim.

em 1984. A legitimidade requeria trabalho. A legalidade da comissão. muito se discutiu acerca da necessidade de se abrir um espaço para exame da situação institucional da SPID. a CARI iniciou um trabalho “corpo-a–corpo” – fosse pessoalmente. naquele momento. As reuniões semanais da CARI eram abertas a todos os membros e cursistas da SPID. Sobre o processo de Análise institucional Quem iria participar desse processo de análise?. em 1999. portanto. o que. acabou provocando grande evasão . O efeito disso pôde ser constatado em um expressivo movimento: as pessoas . mas (48) isto não garantia sua legitimidade. representando oficialmente a instituição. Durante o período transcorrido entre a última reforma estatutária. Finalmente. em médio prazo. incluindo o maior número possível de participantes. foi a primeira questão que se colocou. por todos os envolvidos. a fim de tornar de fato representativo o trabalho de análise. não havia uma receita pronta. passo a passo. Qual era a demanda do grupo? A comissão foi eleita em assembléia. Todo nosso potencial criativo disponível foi acionado para agenciar esse processo de mudança. foi contratar uma analista institucional a fim de viabilizar um diagnóstico da situação. eleita em Assembléia Geral e composta por cinco membros da SPID. Entendemos que a ação política mais urgente. por telefone ou por e-mail – de convocação dos membros e cursistas da SPID. que este trabalho teria de ser tecido. Nosso primeiro esforço foi o de reunir um grupo significativo para que pudéssemos traçar um perfil atual da SPID. surgiu a idéia de se formar uma Comissão de Análise e Reforma Institucional (CARI). bem como indicar possíveis soluções.Case History ao poder decisório. era inquestionável. e os dias atuais. Constatamos. era a congregação de todos. A partir das primeiras intervenções da analista institucional. o que não significava que as pessoas se dispusessem a delas participar. de saída. A primeira iniciativa da CARI. dentro dos objetivos estabelecidos na Assembléia.

sintonizado com a vontade da maioria. Foram sintetizados alguns tópicos recorrentes nessa troca que mereceram uma análise mais aprofundada. foi se tornando possível a reconstrução de um certo passado/presente para a construção de um presente/futuro. A construção da memória é algo do presente. bem como uma análise qualitativa da situação global. foi possível se fazer uma sistematização do que havia sido discutido. além das discussões livres e temáticas nas reuniões do grupo institucional.Case History foram pouco a pouco saindo dos seus redutos fechados e se dando conta da importância de sua participação nesse processo. questões estas que requeriam análise. Esta análise levou ao delineamento das grandes questões atuais da SPID. das respostas e das não-respostas dadas pela Sociedade a estes eventos. aos poucos. Assim. um espaço para que as histórias pudessem aparecer. das crises e eventos traumáticos ocorridos. O esforço de cada um com seu depoimento foi possibilitando o trabalho conjunto. ofereceram condições para a livre exposição de idéias a respeito da história da SPID. Questões relevantes foram discutidas e as divergências confrontadas de maneira pro(49) dutiva. desse modo. Os encontros semanais do grupo institucional. ampliando as perspectivas de uma atuação institucional em direção à ref o r m a c r i a t i v a almejada. Durante o período de análise institucional foi possível também uma interlocução via internet. Criou-se. Constatou-se que os fluxos de comunicação estavam obstruídos e. Foi fundamental a possibilidade de se contar histórias com o intuito de fazer circular a palavra. A Passagem Cerne da discussão político–ideológico-conceitual que se estabeleceu na SPID. através da elaboração de um questionário respondido por grande parte dos participantes. A memória produziu diferença. Foram várias histórias. estudo e propostas de novas soluções. assim constituído. A questão da história só pode ser pensada em sua pluralidade. a questão dos critérios de passagem para as mudanças de categoria .

apatia ou uma forma de protesto? Essa questão da participação se refletiu nas reuniões da CARI. Ao mesmo tempo. servindo de catalisador para rachas. a dificuldade de se realizar um confronto pro- . Nesse sentido. mas não havia ânimo para uma participação efetiva na vida institucional. se mantinham na instituição. uma instituição “fantasma”. de certo modo. Quando alguém era selecionado para ser participante da SPID. pois os ausentes não explicavam sua ausência.Case History foi discutida exaustivamente nos encontros da CARI. Falou-se de uma hostilidade que parecia mover os que não vinham. o cursista solicitava a passagem à categoria de membro psicanalista da SPID. embora tenha contado com um número gradativamente crescente de participantes. foi apresentado como o rito da “não passagem”. esteve longe de congregar a maioria dos membros e cursistas da SPID. Após um longo percurso institucional. Os critérios de passagem então vigentes funcionavam mais como elemento excludente. sem direito a votar nem a ser votado. apenas a manifestavam. isto é. abandonos e recusas. que. ingressava na qualidade de “cursista. Havia vida circulando nos bastidores. Participação Um dos assuntos mais dis cutidos expressou uma situação fortemente vivida entre os membros e cursistas da SPID. A SPID parecia. Havia também alguma hostilidade entre os que compareciam e alguma rivalidade.” sem ser considerado membro. este com plenos direitos. Tudo isso expressava. O dado marcante é que se tratava de uma discussão (50) complicada. portanto. Desinteresse. Os membros e cursistas pagavam as mensalidades referidas à respectiva filiação. enfim. Porque queriam ali permanecer? Observava-se um alto índice de absenteísmo nas reuniões e assembléias gerais. necessitando de revisão e mudança. mas que nem sempre vinha à luz do dia. constituindo-se como instrumento de poder. Tais critérios foram discutidos na maioria das reuniões da CARI e considerados anacrônicos frente à realidade atual e.

Como conseguir a participação efetiva de todos neste processo de análise e reforma institucional? E como conquistar a adesão dos membros psicanalistas da SPID que se colocavam fora desse processo? O trabalho empreendido pela CARI teve como efeito a sedimentação de um grupo mais permanente nas reuniões. além disso. Quando se tentava pensar a transferência institucional. Constatava-se. deslocamento de certa intensidade a f e t i v a . representativo das diferentes facções. oprimido. Transferência Institucional O termo “transferência” não pertence exclusivamente ao vocabulário psicanalítico. neste sentido. lugar de monumento e. A SPID tem como princípio a aceitação das diferenças teóricas e práticas e a troca permanente entre pares. um grupo institucional. A transferência institucional se dá com e através das pessoas. na SPID. o investimento se dirige ao coletivo. Tr a n s f e r ê n c i a p e s soal se refere a um investimento dirigido a alguém em particular. a dificuldade de se estabelecer a diferença entre transferência institucional e transferência (51) pessoal. No entanto.Case History dutivo com diferentes pontos de vista. mas. o assunto vertia para a figura emblemática de um de seus fundadores. entre o pluralismo que se constitui na base estrutural da Sociedade e o sectarismo que às vezes se evidencia. há a possibilidade de coexistência? Como construir uma transferência institucional tendo em vista tamanha dispersão? . impedido de fazer diferença. na transferência institucional. ao passo que. Será que a SPID construiu mecanismos para concretizar uma transferência institucional? Qual a imagem que havia da sociedade em si? Nenhuma transferência é dada – trata-se de um processo a ser construído. por um compromisso com a ética expressa pelo respeito ao pluralismo. a uma instituição. Possui um sentido geral de investimento. o que a caracteriza como pluralista.

Após um ano de trabalho semanal ininterrupto. todos os itens anteriores formavam um solo político. Uma ação política. Pôde ser compartilhada e produzir diferença. A própria forma dos trabalhos da CARI se deslocou. Como reduzir a distância entre as “autoridades”. Discutiu-se como o poder circulava na SPID. provocando essa reviravolta efetiva. mais sujeito ao imaginário social. Esse grupo institucional. de ação sobre os outros. Esse grupo institucional provocou movimento.Case History Política Naturalmente. isto é. onde foi construído um espaço específico para a discussão dos instrumentos de poder e de organização na SPID. conexão. os dirigentes e os membros e cursistas da SPID? Como alcançar um modelo democrático de tomada de decisões? Como trabalhar a Sociedade de modo a superar o autoritarismo. dois movimentos se evidenciaram: 1. na qualidade de grupo. como estava organizado e como era exercido. este foi um assunto de trato mais difícil. Falou-se de uma fragmentação entre as secretarias. manifestada através . Não havia uma tradição de ampla consulta aos membros da SPID para o desenvolvimento de suas atividades. através do exercício de um confronto produtivo no grupo institucional. Foi um modelo de agregação. mas não de homogeneidade. expressou um exemplo de exercício democrático de poder. produção de vida. produzindo movimentos que se espalham. não sem choques. conquistando. Também não implicou harmonia sem conflito. Essa história incluiu os ausentes e os presentes. não havendo espaço para que a instituição produzisse seu pensamento. Embora houvesse um franco posicionamento sobre as formas políticas na instituição. isto é. constituído pela CARI. Numa política democrática se busca aliados. tanto o explícito quanto o subreptício e silencioso? Como alcançar o lugar de diálogo e troca entre (52) pares? Como conseguir que houvesse uma participação efetiva dos membros da SPID nas tomadas de decisões da vida institucional? Houve a indagação de como se dava a construção de espaços de poder.

estabelecendo uma prática consistente pela sucessão de encontros. o que demandou um certo tempo de incubação. a fim (53) de diferenciá-lo do trabalho do grupo institucional. integrada pelos cinco membros eleitos. discutidas e votadas nas Assembléias realizadas para este fim. baseado nas idéias novas surgidas frente ao estatuto e regimento que vigorava na SPID até então. O que é um bom tempo de análise institucional? Como suportar o tempo de criação. Como atuação política. foram considerados as reivindicações e os temas mais intensamente tocados nas reuniões da CARI e na pesquisa realizada junto aos integran- . Finalmente. 2. liderado pela CARI. possivelmente por não estarem maduras. tais propostas foram concluídas. Houve uma certa dificuldade para se iniciar a elaboração de propostas concretas. fez-se oportuno um recolhimento da mesma para um trabalho mais solitário. em processo. visando a elaboração de propostas objetivas de reforma institucional. o caráter de assembléia fez um contraponto ao estilo habitual de hierarquia e de gabinete. houve uma ruptura e uma mudança na constituição da própria comissão. A urgência de serem elaboradas propostas objetivas que viabilizassem as mudanças efetivas. Na reforma empreendida. durante os quais se estimulou o debate e a participação de todos na vida societária. Aqui se discutiu a questão do manejo do tempo. Sobre a reforma institucional. representou uma resposta às críticas de exclusão e de não-participação. Depois disso. de elaboração? O que a análise pode? O que ela suporta? Surgiu a necessidade de se delinear o espaço específico da comissão. de ruptura.Case History da constituição de um grupo aberto. Foram feitas algumas propostas metodológicas. Após o período de três anos. não excludentes entre si. para dar continuidade ao trabalho institucional a partir dessa delimitação de campos. Havia o risco de se criar o momento do já instituído para aquilo que ainda estava se instituindo. Neste sentido. de palavra igualitária.

Case History tes da SPID. foi concebida uma nova organização capaz de atender às necessidades de uma entidade pluralista. O principal aspecto da mudança diz respeito a uma quebra no ápice da hierarquização. Eliminou-se a categoria de cursista. A partir dessa reforma. com ampla participação e menor hierarquização política. O funcionamento do Conselho Gestor. os espaços de poder da SPID passaram a ser coordenados por cinco membros psicanalistas que não tem poder deliberativo algum. respeitando uma representação proporcional em relação aos membros psicanalistas. já na condição de membros associados. Quanto à questão da passagem. a transferência institucional está pouco a pouco sendo construída através de um compromisso ético com os princípios que regem a SPID. da participação e da transferência institucional e política. Se remontarmos às questões delineadas acima. esses. as novas re- . que têm plenos direitos de votar e ser votados. agora a segunda instância de poder depois da Assembléia. com a abolição do cargo de Secretário Geral. Evidentemente. apesar de continuarem existindo critérios gerais. através de um Planejamento de Acesso individualizado do qual participarão os próprios candidatos em conjunto com dois membros psicanalistas da SPID. A partir do caráter societário. acerca da passagem. Em relação à transferência institucional. constatamos o deslocamento de ênfase da figura do membro fundador para um foco na própria vida institucional. terão direito à voz e ao voto. com cinco membros coordenando os trabalhos e abertura à participação efetiva de todos os membros da SPID. está pautado no modo de atuação do grupo institucional liderado pela CARI. constatamos que a reforma realizada contemplou cada uma delas. eles serão confrontados com o percurso singularizado de cada um. Desse modo. Após um percurso na SPID. que participava de tudo mas não pertencia à (54) sociedade e agora temos os candidatos a membros que poderão participar de todas as reuniões com direito à voz.

considerando que foi a primeira vez na história da instituição que se desmontou uma estrutura hierarquizada em vigor desde sua criação. foi uma manifestação de resistência das forças. a resistência das forças que se opunham ao “já instituído”. A iniciativa de se empreender um trabalho de a n á l i s e i n s t i t u c i o n a l . . Nessa nova estrutura da Sociedade. constatamos que a crise institucional havia sido gerada por uma cristalização do dispositivo de poder que impedia a maleabilidade necessária ao enfrentamento do novo.Case History gras instituídas vislumbram as mudanças efetivas como condição de possibilidade. devendo ser sempre vigilante para que esse novo não se feche a outras novidades que estão por vir. Ressaltamos o aspecto inovador deste trabalho. Finalmente. mas não são suficientes. Ao mesmo tempo. (55) possibilitando a criação de procedimentos que levaram à discussão e transformação do que se supôs ultrapassado. onde cada um de seus participantes é co-responsável pela implementação do novo. forças que sustentavam o dispositivo vigente e tentavam impedir o surgimento de novas formas. referidas à tensão permanente entre “instituinte-instituído. p o rtanto. urgindo por mudanças. não podemos perder de vista a precariedade do que foi instituído pela reforma. Retomando as premissas que fundamentam este trabalho. dificultando o exercício da liberdade frente ao poder constituído. que detinha um poder centralizador.” testemunhamos um verdadeiro embate: de um lado. há espaço para maior maleabilidade. tendo como figura central o Secretário Geral. em uma tentativa de dominação. há 50 anos. podendo a tensão permanente entre o instituído e o instituinte ser melhor administrada. Desse modo. Em se tratando de uma sociedade que tem como premissa básica uma relação paritária entre seus membros. para que não se engesse o que deve permanecer potencialmente em movimento: a própria instituição. É preciso um trabalho constante. um exercício de cidadania no cotidiano da vida institucional. em que apenas as linhas gerais são definidas.

constatamos . nenhuma ousou uma reviravolta tão inovadora. o processo de criação da nova estrutura se deu pela ação. Desse modo. legitimando as decisões tomadas. pesquisa e ação inovadora caminharam juntas. isto é. experimentada. resultando em maior participação de seus membros. enfim. Finalizando o testemunho desse percurso. O próprio modelo instituído pela CARI – em que cinco membros coordenavam as reuniões abertas ao Corpo Societário. aumentou o interesse pela instituição. nas quais se incentivava a participação de todos nos processos de decisão – foi eleito para constituir a nova estrutura que rege a SPID hoje. Nesta. A vida. era. Isto só foi possível graças ao envolvimento de todos nesse processo. apesar de várias reformas terem sido empreendidas ao longo desses 50 anos. A descentralização do poder.Case History tal estrutura. saía dos bastidores. bem como a abertura das reuniões ao corpo societário. e isso fez com que colaborassem mais efetivamente. A transparência e o incentivo à participação e à produção na vida institucional foram a mola mestra dessa reforma. Assim. contraditória. Tudo foi resolvido com a aquiescência de todos. o movimento institucional foi reativado. O índice de apresentação de trabalhos aumentou significativamente. ao mesmo tempo em que era utilizada uma metodologia para diagnosticar o perfil da instituição e seus entraves. sim. Um novo modo de aproximação das questões implicou a própria solução. Todos perceberam a importância de sua participação e se sentiram (56) valorizados. não foi uma solução idealizada. mas. novos candidatos se interessaram por participar da SPID. O s u c e s s o d e s s e e m p r e e ndimento inovador se deve à inclusão de muitos nos processos de decisão. extinguir a figura do Secretário Geral. acarretando outras conseqüências. Contudo. e não a partir de uma cúpula fechada. o aumento da cidadania institucional – expressa pelo direito de todos à opinião e ao voto em reuniões e assembléias –. essa mesma metodologia serviu como modelo para a reforma a que se aspirava. no mínimo.

241. FOUCAULT. São.241. 31/32 FOUCAULT. p. por um extenso período de tempo. “O Sujeito e o Poder”. 3 4 Foucault. “Não ao Sexo Rei”. p. (57) . l995. Michel Foucault .uma trajetória filosófica. professora e supervisora do Centro de Ensino. Coordenadora da Comissão de Análise e Reforma Institucional (CARI).Case History que o estatuto e o regimento frutos da reforma institucional atualmente em vigor surgiram da participação e do trabalho de muitos membros da SPID. M. no Rio de Janeiro. Pesquisa e Clínica em Psicanálise (CEPCOP) da Universidade Santa Úrsula. doutora em Psicologia Clínica. pp. p. RABINOW. M. Vigiar e punir. 1993.. Angela Coutinho é membro Psicanalista da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID). M. coordenadora . Foucault. In: DREYFUS. portanto. P. Foucault. 3133. 244. M.243/244 (Notas) 1 2 Foucault. 1977. In: Microfísica do Poder. In: Microfísica do Poder. Vigiar e Punir. Referências bibliográficas FOUCAULT. p. Rio de Janeiro: Graal. “Não ao sexo rei”. M. M. I n : M i c h e l F o u c a u l t . p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. U m a Tr a j e t ó r i a Filosófica. p. “O Sujeito e o Poder”. resultado de um modelo democrático de trabalho. H. 243. “O Sujeito e o Poder”. para se chegar à tomada de decisões acerca das reformas a que a Sociedade aspira. Petrópolis: Vozes. M.

O Prazer do Olhar

Da Mundi
Carolina Vigna-Marú “Ferro enferruja com o desuso; água parada perde sua pureza e no frio congela; da mesma forma, a inatividade também tira o vigor da mente.” Leonardo da Vinci
A genialidade do renascentista Leonardo da Vinci encontra paralelo no homem moderno, que precisa se reinventar e renascer a todo o tempo para sobreviver. Talvez a própria internet simbolize uma nova era de grandes navegações em busca de novos horizontes.

Rápida bio Leonardo nasceu ilegítimo, de mãe pobre, às três da manhã do sábado de 15 de abril de 1452. Aos cinco anos, foi largado pela mãe na casa dos avós paternos e, a partir de então, foi criado pela família paterna. Na certidão de nascimento de Leonardo consta apenas o nome do pai. Leonardo foi filho de mãe ausente. Em 1468, seu pai mostrou alguns de seus desenhos a Andrea del Verrocchio. No ano seguinte, Leonardo ingressou no atelier de Verrocchio onde aprendeu algo extremamente valioso:

andar sempre com um caderno de rascunhos para todo canto. Preciso voltar a ter esse hábito. Em janeiro de 1478, Leonardo recebe sua primeira encomenda importante: uma pintura de altar para a capela Bernhard na sede do governo em Florença, que ele não terminou. Em março de 1481, recebe outro pedido grande, dessa vez para a igreja San Donato a Scopeto, que Leonardo também não concluiu. De 1489 a 1494, Leonardo trabalha na estátua do cavalo de Francesco Sforza em Milão, encomendada por Ludovico Sforza, o mesmo mecenas que encomendou A Última Ceia, que Leonardo pintou de 1495 a 1498. Em 1500, retorna a Florença. Em 1503, pinta a Mona Lisa, retrato da esposa de Francesco del

(58)

O Prazer do Olhar Giocondo, que nunca recebeu o quadro encomendado. De 1508 a 1512, serve ao governador francês em Milão, Charles d’Amboise. Em 1512 os franceses são expulsos de Milão e, em 1513, da Vinci vai para Roma trabalhar para Giuliano de Medici, irmão do Papa Leão X. Fidelidade política não era o seu forte. Em 1516, muda-se para a França com dois alunos seus, Francesco Melzi e Giocomo Salai, ocupando o lugar de pintor da corte. Em 23 de abril de 1519, escreve o seu testamento, deixando todos os seus manuscritos, desenhos, instrumentos e ferramentas para Melzi, e suas pinturas (inclusive a Mona Lisa) para Salai. Morre nove dias depois, aos 67 anos. Leonardo da Vinci terminou 12 pinturas e milhares de desenhos. Considero esse fato muito significativo. Os desenhos são sempre a origem do pensamento, da criação. Ninguém projeta alguma coisa sem desenhá-la antes. Leonardo foi um criador, não um arte-finalista, e isso é suficiente para defini-lo como gênio, penso eu. O desenho, justamente por ser o princí(59)

pio, mantém-se moderno e atual. As mídias mudam, as técnicas evoluem, mas um bom desenho será sempre um bom desenho. Como disse o fotógrafo Cartier-Bresson, o importante mesmo é saber desenhar bem. O Gênio Alto, louro, cabelos longos e cacheados, Leonardo cantava divinamente e tinha bom papo. Era um sujeito distraído, desatento, volúvel, cheio de caprichos e que se entediava facilmente. Leonardo era considerado um homem belo, sedutor e bem sucedido. Gozou de fama e popularidade enquanto vivo. Reza a lenda que a população de Florença aguardou durante dois dias em frente a seu atelier, na rua, só para poder ver um de seus quadros. Esse negócio de artista sofredor, pobre e que só ganha fama depois de morto surgiu mais tarde, com o Maneirismo. Leonardo foi arquiteto, des e n h i s t a , p i n t o r, m ú s i c o , engenheiro, cantor, alpinista, naturalista, inventor e mais um monte de outras coisas igualmente impressionantes. Foi ele quem inventou

O Prazer do Olhar o helicóptero , a tesoura, o carro blindado e várias máquinas de guerra. Um homem incrível, que pertenceu a dois grandes mundos: o da arte e o da ciência. A genialidade de Leonardo pode ser lida em qualquer biografia sua. O que me impressiona é a seriedade com que ele se dedicava a um determinado projeto. Não deixe o fato de ele não ter terminado muitos deles confundir você - Leonardo se cansava rapidamente, e uma vez que atingisse o conhecimento do assunto, este perdia a graça. Contudo, ele era obstinado, disciplinado e sério em seus estudos. Leonardo passou anos como interno em um hospital e dissecou mais de trinta cadáveres para aprender anatomia, coisa proibida na época. Fatos como esse são o que mais me apaixonam nele. Tenho um certo repúdio a esses pretensos profissionais de hoje em dia que fazem as coisas sem entender os porquês. Existe hoje uma grande confusão entre ferramenta e criação por causa do computador. Não basta saber usar um programa, é preciso entender os motivos de cada
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coisa. A informática é uma ferramenta ímpar, mas, sob o aspecto do embasamento, é o câncer da criatividade. Diga-me com quem Leonardo e Niccolò Machiavelli, autor de O Príncipe, foram bons amigos. Maquiavel era um conselheiro importante em Florença e provavelmente a sua influência conseguiu para Leonardo dois importantes trabalhos: uma obra para desviar as águas do Arno (impedindo que fossem até Pisa, cidade rival na época) e um mural - Batalha de Anghiari - para o Palazzo Vecchio. A Signoria (corpo governante, algo como uma prefeitura) entregou a tarefa a dois rivais, Leonardo e Michelangelo. Os dois pintaram em paredes diferentes da mesma sala as suas versões para o mural, numa espécie de competição pública. A situação se tornou um evento popular justamente pelo fato de os dois não se darem. Nenhum dos dois cumpriu o contrato. Michelangelo fez um enorme esboço da Batalha de Coscina, mas nunca a pintou, ao passo que Leonardo terminou apenas a

balaustrada com pilares ligando os planos e objeto próximo à extremidade frontal do quadro). Em poucos momentos o termo “renascentista” fez mais sentido para mim. Rafael visitou o atelier de Leonardo e ficou tão impressionado que adotou o seu esquema de retrato (meia figura virada dois terços na direção do observador. transformou a sua primeira infância ruim e de poucos carinhos em uma vida plena e cheia de admiração. sem dúvida. Às vezes me pergunto se o que vivemos hoje não é uma idade “remedieval”. nos subdividimos em profissionais. como mandava a arquitetura campesina da época. Criamos personas. Eles competiam pelos mesmos trabalhos e por quem desenvolvia melhor uma técnica ou estilo. As pessoas precisam se reinventar o tempo todo para sobreviver. era pobre. Criou para si um universo belo e rico. pequena.vai ser comida viva. em Anchiano. A burguesia. mesmo que em uma sala de chat para prazeres imediatos. de fato. está cada vez mais decadente e burra. Inventum A casa em que Leonardo nasceu e viveu seus cinco primeiros anos. foi o David. mal iluminada e de poucas janelas. Leonardo. o único desenho que Leonardo fez de uma outra obra. O grande homem renascentista se recriou. antes ou depois dele.O Prazer do Olhar parte central de seu mural. ninguém mais. Pegou a sua vivência do abandono materno e pintou a mulher mais bela e famosa do mundo.a exemplo da época do mecenato . Michelangelo e Rafael se admiravam mutuamente e competiam o tempo todo. de Michelangelo. (61) oposto à sua realidade natal. a de si mesmo. Antes de a Mona Lisa ter sido terminada. Por outro lado. e se não investir em cultura . que nunca foi lá essas coisas. Briga de cachorro grande. Tempos confusos. Este modelo de retrato perdurou por décadas. poucos falam de sua maior criação. A Renascença foi repleta de grandes rivais. mereceu o título de gênio. Leonardo é reconhecido por suas criações e. com uma sociedade quase feudal. Entretanto. parentes. que não sua. de tão injusta. amigos e outros inúmeros sub-rótulos de nós .

E é justamente este aspecto da nossa sociedade que torna Leonardo da Vinci tão necessário. Ela nos traz novos horizontes. A má é que só vem com uma reestruturação profunda das relações sociais e trabalhistas. negócios à parte”. Não somos mais pessoas inteiras. Conviver consigo mesmo já é difícil. então.br (62) . portanto. A boa notícia é que depois de tudo isso vem algum tipo de renascimento. nos falando em zeros e uns como em um espelho de nossos tantos idiomas. Os grandes centros carregam consigo a solidão da pólis e sua estratificação social. e isso não é lá muito rápido nem indolor. É o mundo sendo solucionado pela navegação mais uma vez. amigos. com pedaços de si. da arte.“amigos. Ta l v e z a i n t e r n e t s e j a u m Leonardo contemporâneo. www. Carolina Vigna-Marú é jornalista.com. É necessário saber “separar as coisas” . Precisamos reunificar as nossas vidas. Precisamos juntar arte com economia e colocar um pouco de poesia na política. nem se fala.O Prazer do Olhar mesmos. Precisamos nos inventar a cada instante. notícias frescas d’além mar.vignamaru. A internet é a democratização da informação e da expressão individual e. designer e diretora de arte.

fruto da síntese sempre poderosa de sensualidade. . No imaginativo terreno das coisas inventadas para aumentar o poder de atrair. cruelmente imperfeitos. havendo um impulso que nos leva.O Prazer do Olhar Poderes Cristina Nascimento Poderes Seria o prazer o fio condutor da ética? “Pergunto sempre a Gala: 'querida o que queres. onde estão presentes os impulsos instintivos mais primários. que palpite!' Salvador Dali “São superficiais as pessoas que não julgam pelas aparências”. encantar e fascinar o outro. as jóias são um caso à parte. supera as determinações biológicas e transforma-se em uma trama sutil. de forma quase universal. os humanos são os únicos animais para quem os atributos naturais não são suficientes. Oscar Wilde Que ser humano. na grande maioria dos casos. elas foram ornamentos criados por todas as culturas humanas. não daria tudo para aumentar seu poder de sedução. que nos conduz à contínua invenção e reinvenção do que somos e no que queremos nos transformar. em sã consciência. nos seres humanos o jogo da sedução é infinitamente mais complexo. querida o que desejas?' e ela me responde: 'Um coração de rubis. Desde tempos imemoriais. dos povos (63) mais primitivos aos mais civilizados. Apesar de nossa natureza animal. tornar-se mais belo e mais atraente aos olhos do outro que se quer encantar? No terreno da sedução. jamais nos conformamos com a quota de beleza que a loteria genética nos brindou e que nos fez. Objetos de desejo e sedução por excelência. a acrescentar mais poder às faculdades com que a natureza nos brindou. da atração dos corpos. inteligência e imaginação.

que brinca e dança dentro de nós”. Além de nos enfeitar. esses “estranhos ímpares” de que fala o poema de Drummond. das aparências superficiais. as jóias. este poder que oxigena nossos órgãos. transformar a vida opaca em algo repleto de transparências e brilho. as jóias devem ser. originais. potencializa todas as faculdades humanas. podemos também nos perguntar que força mais profunda pode existir que o despertar do erotismo pela sedução. desperta nossos sentidos. agudiza nossa percepção do mundo. que força mais profunda pode existir que “o erotismo que desafia a tirania da razão. E. que diz que para os humanos nada é mais essencial que o supérfluo. elas podem nos surpreender. intrigar. Devem nos levar a um mundo de descobertas. ilumina as regiões mais escuras de nossos seres. mostrar quem somos. O erotismo como a força naturalmente benéfica. que as transformaram em obras de arte assinadas. se conseguirem traduzir o espírito contemporâneo. Braque.O Prazer do Olhar desafiando o talento de artesãos anônimos de todos os tempos e dos grandes criadores do século XX – Dali. devem nos mostrar a sutil diferença entre o que custa e o que vale em um objeto. o peso das convenções. E. únicas. nesta época em que os bens intangíveis ocupam um lugar cada vez mais privilegiado. Cocteau –. o erotismo como força que se opõe ao hedonismo vazio e consumista. exclusivas. (64) Para quem pensa que este é o campo apenas das frivolidades. Devem ter humor para tornar a vida mais leve e mais alegre. Picasso. Símbolo de luxo e poder material. no mundo em que tudo está se tornando cada vez mais igual. inscritas na aventura estética de nosso tempo. esconder quem somos. pois subverte as regras do interesse material e egoísta. podem também acrescentar às nossas vidas algo que vai além do precioso intangível da beleza. Podemos ir mais longe e pensar também que o prazer pode ser o fio condutor da ética. de deslumbramento. antes de tudo. na visão extraordinária de Georges Bataille. Calder. como todos os humanos. raiz de todo sentimento de . que nos livra dos entraves que vêm dos lugares-comuns e das religiões e acorda a criança que ignora o pudor e a morte. além de lembrar a fina ironia de Oscar Wilde.

mas que dependem do prazer e da alegria do outro.O Prazer do Olhar generosidade. aquele que desperta e potencializa o melhor que existe em nós. aleatória. mais delicados de alma. finalmente. o ser que “excita nossa capacidade criativa através do fascínio”. que nos faz maiores do que somos em cada momento desta vida necessariamente breve. E que outra força poderia melhor nos fazer superar o sentimento sempre presente da fragilidade humana. O ser por quem nosso coração irá para sempre palpitar. tão mais fascinante quanto mais compartilhado. na celebração do prazer e da beleza dos corpos. que nos torna verdadeiramente mais belos. O prazer e a alegria que são meus. (65) . precária e mortal? Cristina Nascimento é empresária da área de Recursos Humanos e uma das fundadoras do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. protagonista de um jogo onde todos ganham. da vida efêmera. que alimenta nossos dias de entusiasmo. se tivermos sorte podemos ser brindados com algo mais raro que o ouro e o diamante: o encontro com nosso parceiro ideal. mais delicados de gestos. A “alma musa”. E. aquela de que fala Domenico De Masi em um capítulo de seu livro “Criatividade”.

sível para todas as pessoas vimento se dá pela limitação é que teremos condições de da influência do conservado. A humapodemos transfornidade anseia por mar o conhecimento transparência.dar um salto para o futuro. modificarem e apercada na velha ordem econômica feiçoarem um software.dadania pressupõe direitos e te. uma sociedade retrógrada. o desenvol.estudarem. A exprespara o nosso Brasil? Uma socie. rismo. riqueza e manejam o mesmo faz É interessante obserconhecimento? O Parangolé var que essa frase de Aposto na liberdaPamplona a gente Lavoisier vale para de. em que pou"O Parangolé perde. nada se cria: cos participam da Pamplona você tudo se transforma”. ou seja. A idéia (66) . O criação e inovação cor só conhecimento flui estiver limitada pelo E é só dançar melhor quando é desconhecimento E é só deixar a cor recriado sobre uma ou pela imposição tomar conta do ar" base anteriormente de um sistema elaborada. Nas sociedades o conhecimento livre e acescontemporâneas. cal. copiarem. mais apropriado às nossas deveres iguais. Somente com necessidades. O que queremos indústria de software. distribuírem.Bits & Bites Parangolé Brasil Hernani Dimantas “Na Natureza nada se e social. Uma sociedade mesmo faz entender o que se não pode crescer se Com um retângulo passa na sociedade a sua capacidade de de pano de uma da informação. O conservador sempre O Movimento do Software Livre1 está impedindo o livre trânsito clama pela descentralização da da informação.são “software livre” se refere à dade catalisada pela liberdade liberdade de os usuários execuna utilização da tecnologia ou tarem. A cijá estabelecido em algo diferen. Adriana Calcanhoto fechado.

mas. no copyright. con- . Pois bem. o GNU-Linux está na boca do povo. ele permite o diálogo entre o ser humano e a máquina. lucros e capitalismo selvagem. O livro de Linus Torvalds intitula-se “Só por prazer”. O mais importante é que todas estas conquistas ficam disponíveis. adaptam e corrigem os bugs (erros). acessíveis à comunidade. não apenas do ponto de vista tecnológico. Ele trabalhou muito para criar o GNU-Linux. Os softwares livres. submetido ao domínio do pensamento burocrático da Era Industrial. Insistir no conceito de propriedade. Revolucionam a noção de trabalho para o novo milênio. Um novo sistema Mas será que um programa de computador pode ser revolucionário? O GNU-Linux é um sistema operacional. Entendo. disponibilizada por outras pessoas. O ser humano esteve. Podemos dizer que o GNU-Linux é um tradutor da expressão humana para a linguagem binária.Bits & Bites básica por trás deste movimento é muito simples: os programadores podem alterar o códigofonte de um programa e. Isso acontece em uma velocidade impressionante. o sistema operacional mais aclamado nos últimos tempos. Esta nova forma de produzir e gerir o conhecimento promove um retorno à importância do (67) ser humano no jogo da vida. sobretudo no campo das idéias. ou seja. que é muito maior do que dinheiro. do desenvolvimento humano. O grande diferencial deste sistema operacional está no modo de produção. da maneira que conhecemos. que priorizou a produção e o consumo de massa. são soluções modernas de desenvolvimento de produtos. Esse sistema permite que os softwares evoluam. Foi criado pela colaboração entre pessoas comuns. é não perceber a revolução digital. desenvolver seu trabalho sobre uma base conhecida. nos últimos séculos. principalmente o GNU-Linux. O que isso significa? Trata-se de um avanço. E vice-versa. É curioso saber que todo este processo de criação foi comandado por um garoto de 20 anos e acabou envolvendo centenas de programadores espalhados pelo mundo. Mas Linus não é o estereótipo do que conhecemos como um boa–vida. Pessoas melhoram. assim.

por outro lado. Mas a grande inovação do GNU-Linux. sua abertura. caracterizado pelos produtos da Microsoft. Libera a mente humana para estabelecer a diversidade. Com o GNU-Linux. A internet facilita essa aproximação. desponta como o primeiro produto idealizado e concebido pela sociedade da informação. ao contrário do que muita gente pensa. utilização e distribuição do software. os hackers que participam do projeto GNU-Linux permitem a todos os demais utilizar. pois transforma a estrutura imposta pela revolução industrial. Na programação. A distinção do GNU-Linux frente ao modelo comercial dominante de software. palavras ou imagens. Isso significa liberdade de cessão. que o prazer se confunde com o amor. testar e desenvolver seus programas. temos o mesmo modelo de desenvolvimento utilizado nas academias de Platão. O meio digital abre espaço para a criatividade. alteração. mas sim no social. Trabalhar para satisfazer as necessidades vitais. Do mesmo modo que pesquisadores permitem a todos os demais em seus campos de estudo examinar e utilizar suas descobertas. na qual os alunos não eram vistos como a meta dos ensinamentos. Isto faz parte de uma nova maneira de pensar. para serem testadas e desenvolvidas além do ponto em que se encontram. A Microsoft. Na era da internet. Compartilhar informações e conhecimento foi o que permitiu a maioria dos grandes avanços da ciência. Buscar a satisfação nas tarefas rotineiras. é. é uma empresa em que o lucro se sobrepôs à paixão. O artesão volta à cena após tanto tempo de segregação. E Linus trabalhou com amor. (68) sobretudo. Isso é conhecido como ética científica. seja com programas. não está no aspecto técnico. O Hyperlink subverte a hierarquia O GNU-Linux é subversivo. atendendo a uma inclinação vital. Fazer da nossa existência algo mais importante. O amor de viver.Bits & Bites tudo. de fazer as coisas que realmente nos importam. de trabalhar. mas . este comportamento recebe o nome de código-fonte aberto ou open source. Estamos constantemente trocando informações e recriando conceitos. Por isso é tão questionada por profissionais éticos.

permitindo a qualquer pessoa. protagonizar sua própria existência. As pessoas não querem mais ser telespectadores. acesso ao código-fonte do software. são contratados programadores remunerados. em um ambiente colaborativo. Este tipo de abordagem tem aderência ao pano de fundo anárquico encontrado na rede. Não podemos confundir software livre com filantropia ou voluntariado. Logo. O trabalho voluntário criou e mantém o sistema operacional. estender um pouco mais o conceito de software livre. e principalmente. O software livre tem custo. Naturalmente. É um conceito há muito conhecido e considerado como uma alternativa para o crescimento colaborativo. onde as melhores cabeças do mundo estão comprometidas com este movimento e dedicam suas habilidades a disseminar uma nova forma de desenvolvimento de softwares e de trabalhar colaborativamente com o . nacionalidade. buscando e construindo na comunidade digital os interesses comuns. Países como Alemanha. para tarefas específicas e modificações exclusivas. não em cerveja grátis. assim. o modelo aberto não é uma invenção alucinada de algum nerd finlandês. para o bem e para o mal. mostrando ao mundo que essa tendência não é apenas uma realidade como também.2 O Brasil tem a possibilidade de criar produtos e serviços com uma tecnologia disponível a todos. As pessoas têm a possibilidade de interagir com as comunidades na internet e. Afinal. Pense em liberdade de expressão. uma alternativa à política comercial norte-americana em relação a softwares e criptografia. sexo e raça. É comercializado através da venda de serviços. França. Os mercados são conversações. as ferramentas e as atualizações. China e Coréia já estabeleceram a utilização de softwares livres na administração pública. O software está cada vez mais livre Vamos. este simplesmente não existiria. tirou o projeto do papel e fez com que este se tornasse re(69) alidade. independentemente de sua classe social. agora.Bits & Bites como companheiros na aprendizagem. pois o capital é o grande impulsionador de nossa sociedade. se ninguém ganhasse dinheiro com o software livre.

A manutenção do kernel. versão 2. O que é esse tal de CopyLeft? Prefiro o copyleft ao copyright. Trata-se da maneira como o movimento do software livre enxerga a questão dos direitos autorais. o jogo do saber. não existe jogo de poder. Não pertence a . Existe. e os produtos são considerados um patrimônio da humanidade. do GNULinux – para citar um exemplo – está sob responsabilidade de Marcelo Tossati. vemos atualmente o crescimento da idéia do copyleft em toda a indústria relacionada com o conhecimento. A opção pelo software livre pode e deve estabelecer contato com as inúmeras comunidades digitais que objetivam a troca de informação. se levarmos em consideração os projetos de inclusão digital e suas perspectivas em relação às comunidades envolvidas. Algumas pessoas acham que o software livre na administração pública pode ser um retrocesso. A rede é função inequívoca da conversação entre pessoas. O governo brasileiro corre menos risco utilizando obrigatoriamente softwares com código aberto do que os proprietários.4. Outro argumento contrário à adoção de programas livres tem origem na padronização imposta aos mercados. A lógica na informática é a mesma coisa.Bits & Bites conhecimento. Temos de encarar o fato de uma forma mais pragmática e repensar a dinâmica da remuneração. um brasileiro de 17 anos. Eu acredito que o software livre é estratégico. Da mesma maneira que o copyright reinou durante toda a era industrial. A abrangência é universal. uma vez que permite um avanço tecnológico rumo a um mundo colaborativo. O fluxo do conhecimento torna-se mais livre a cada dia. Dizem que os brasileiros devem ser treinados com os produtos da empresa (70) líder para que o mercado de trabalho absorva estes novos profissionais. sim. Falácia. E. em um constante ensinar e aprender. Mas a história é totalmente diferente. Neste mundo de códigos livres. Os programas livres não estão restritos a um desenvolvimento tecnológico nacional. uma vez que a obrigatoriedade nos remete ao protecionismo da indústria da informática dos anos de 1970. pode–se ir mais além: internet não tem a ver só com computadores.

A atual expectativa média de vida da população é mais do que o dobro do que no tempo dos nossos avós. E. Na verdade. Músicas. no entanto. em difundir suas idéias ou seus programas gratuitamente. Temos idéias. o progresso tecnológico e o desenvolvimento organizacional. Domenico De Masi. Pisar em um terreno mais sólido. O ócio criativo consiste em saber empregar o tempo livre. permitem produzir mais com menos esforço. característicos da sociedade pós-industrial. Uma verdadeira descentralização no processo de produção de conhecimento está sendo criada não pela demanda. O ócio criativo une o trabalho com o estudo (conhecimento) e o lazer (jogo e diversão). Podemos organizar nosso tempo e fazer com que todos os três coincidam. Querem ser reconhecidos por sua criatividade e pela qualidade dos seus trabalhos. anseiam por reputação. É importante entender o conceito de reputação em um ambiente caótico e rico em diversidade. Qualquer pessoa pode desenvolver um projeto. Creio que estas pessoas. a questão de como criar um esquema de remuneração para toda essa criatividade. mais expectativas de alcançar seus sonhos. mais. Não temos respostas. apregoa uma forma inteligente e construtiva de utilizar o tempo. não pertence a ninguém. Este conceito capacita muito mais gente a participar da vida inteligente. . em curto prazo. As pessoas buscam nas comunidades um reencontro com a cidadania. Temos o direito de trabalhar aproveitando o trabalho. Tem gente fazendo de tudo e mandando muito bem. Ao mesmo tempo. teórico das relações entre o ser humano e o trabalho. apesar de terem como objetivo final a remuneração. A internet é um canteiro de talentos. As pessoas estão (71) tão empolgadas em produzir livremente que não se incomodam. imagens e textos estão sendo difundidos de forma livre.Bits & Bites uma entidade ou a uma empresa. As pessoas têm mais possibilidades de mostrar seus trabalhos. mas pela oferta. em uma quantidade jamais vista. Chegou o tempo de trabalhar sem o suor do rosto. Vejo esta tendência se espalhar pela rede. estão buscando se firmar. Permanece em aberto.

pois muita coisa está acontecendo nesses mercados. seremos todos hackers Nomes parecidos nos confundem. Basta que analisemos os mercados e as tendências. o movimento não vai ficar restrito à arena tecnológica. Saber dar e receber faz parte deste jogo.Bits & Bites No futuro. Temos de aprender a potencializar todo o conhecimento de que precisamos para viver melhor. O comércio eletrônico só existe porque o meio ambiente foi construído e adaptado. Hoje. A cultura hacker é sadia e autocontemplativa. Existe um produto final. A cultura hacker já invade outras praias. Os negócios podem ser diferentes. 50% dos servidores de web utilizam o Apache. Mas temos de admitir que nossa geração está sendo influenciada por esta cultura. e 30% dos provedores. não há receitas (72) para garantir o desenvolvimento dos negócios. Hackers não são crackers. a palavra hacker se cola ao seu sentido histórico. a humanização são as características mais marcantes desta filosofia. A avalanche de sites é proveniente desta tecnologia. Nas outras áreas do conhecimento. principalmente. A internet é a obra-prima hacker. Por isso. os homens do GNU-Linux. O produto é intangível (estamos tratando de serviços). Tal fato deve ser encarado com seriedade. Não podemos deixar o trem passar. as prerrogativas são outras. a perseverança e. fazendo jus aos criadores dos códigos abertos. Não me atenho ao que a imprensa diz. É mais importante ter reputação do que bens materiais. Não pense que os negócios vão permanecer intocáveis. A internet é o meio lógico para alcançarmos o futuro. a cultura hacker é mais visível. Hackers constroem a rede. Neste universo. Crackers são os piratas cibernéticos. mas de se estabelecer uma outra ordem de prioridades. Ética. Não se trata de negar o trabalho remunerado. Cada vez mais. Vimos que este movimento não se limita à programação de computadores. do software livre. Disseca e corta cirurgicamente as amarras da era industrial. respeito e responsabilidade são as palavras de ordem. A qualidade do trabalho. . Quem manda é a torcida desuniformizada. o GNU-Linux. Na programação de computadores.

Estão recriando conceitos e modificando a forma de o ser humano se relacionar. Grupos de incentivo e argumentação para a utilização majoritária dos sistemas abertos é uma realidade. A promessa da internet é um novo mundo. bom senso. Então. Ser hacker não significa ser bandido.Bits & Bites Se o mundo dos negócios está mudando. o Linux-SP. Uma realidade virtual que chega para destruir e reconstruir o nosso universo. sobretudo. onde entra a filosofia hacker nessa mudança? Pessoas como Richard Stallman 3 . As pessoas estão acessando os sites e repassando o conhecimento para as listas de debates. Eric Raymond 4 . o servidor web Apache 8 e a própria internet. publicando nos sites e chamando a atenção dos incautos. Podemos citar o CIPSGA9. É um processo sutil e vagaroso. Palavras como reputação. o GASLi11. A exemplo das músicas que trocamos. A revolução não televisionada Mas não é nada fácil sentir esta revolução. significa a busca de uma vida melhor para todos nós. o Rau tu10. isto não é diferente. Esther Dyson5. Linus Torvalds6 e Tim Berners-Lee 7 colocam o coração à frente da razão e metem a cara nos pequenos detalhes da nossa sociedade. o quilombo digital 12. Não só por meio de relações fortuitas. além de muitas pessoas que militam por uma so(73) ciedade mais justa a partir da democratização do acesso e da descentralização da produção tecnológica. quando ler em um artigo uma referência equivocada à palavra hacker. pelo estabelecimento de uma nova forma de inter-relacionamento na produção de bens e serviços. Essa é a grande novidade da era do conhecimento. No Brasil. mas ser revolucionário. respeito e ética fazem parte do cotidiano no espaço digital. Muitas pessoas estão atuando em prol do software livre. Esses são os novos valores. mas. pense no jogo de poder que envolve a nossa civilização. com exemplos como o Linux. A ética hacker invadiu o mundo dos negócios. estamos vendo uma enxurrada de informação disponibilizada. introduzindo uma maneira diferente de se trabalhar. Vem tomando .

A revolução dos bits se contrapõe ao padrão da sociedade ocidental. temos de pensar e participar. A internet está ensinando os usuários a se inter-relacionarem neste espaço virtual. O mundo digital já se deu conta de que é possível quebrar paradigmas. escancara as portas da comunicação. E. A sociedade necessita desta diversidade para sobreviver. Para entender esta ruptura dos paradigmas. facilitando a publicação dos pensamentos mais profundos e o acesso indiscriminado destes pensamentos a qualquer ponto da rede. A comunidade virtual mostra a sua cara trazendo novidades tecnológicas e filosóficas. Qualquer pessoa com um computador conectado à rede e com um pouco de conhecimento tem a possibilidade de participar voluntariamente de alguns . É essa a grande novidade.Bits & Bites corpo. Uma nova ordem está sendo construída. Criar para a sociedade. Fazer acontecer independentemente do retorno financeiro em curto prazo. Apresentam-se novas possibilidades para escolher um projeto pessoal junto com um grupo de convívio em uma abstração dos limites territoriais e temporais. Isto se torna verdadeiro quando detonamos a forma egoísta pela qual nos acostumamos a pensar. O mundo virtual não é diferente do nosso bom e querido mundo real. apenas boa vontade e obstinação. Uma promessa para uma humanidade capaz de reviver o amor. Está surgindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito (74) para oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo. Crianças aprendem a colaborar. ensinando a nova geração a compartilhar conhecimento. A metodologia de trabalho é simples e virtual. Nem mesmo as grandes corporações acreditam na continuidade de um gerenciamento de cima para baixo e controlador. O mundo não é mais o mesmo. Precisamos de liberdade para extravasar a criatividade. assim. No entanto. A colaboração reaparece como uma das formas de diminuir a fricção entre a sociedade e os anseios das pessoas. tudo muda. a desenvolver projetos on-line e a espelhar seus sonhos no ambiente web. Não existe segredo.

esta é a nossa chance de protagonizar a nossa história.com] Linus Torvalds. E. .br] 10 11 Rau Tu [http://rautu. a solução está na disseminação do acesso.org. mas. Mostrar a cara para a vida. 3 4 Richard Stallman [http://www.br/] Grupo de Argumentação para o Software Livre [http://www.stallman.Bits & Bites p r o j e t o s i m p o r t a n t e s . um enorme movimento de colaboração.w3.cipsga. criador do sistema operacional Linux 7 Tim Berners-Lee. Estamos sentindo esta mutação.marketinghacker. Estamos inseridos em um momento histórico. Atualmente. assim. Políticos e Filosóficos Relacionados ao Software Livre [http://www.apache.opensource. criador da WEB [http://www. p o i s a voz humana tem o poder de transpor as maiores barreiras. até algum tempo atrás.br.org/People/Berners-Lee/] 8 Apache: servidor de web criado por Brian Behlendorf [http://www. Talvez esta seja a melhor oportunidade de levar informação a todos os brasileiros. autor de Marketing Hacker: a revolução dos mercados e colaborador em Software Livre e Inclusão Digital. presidente da Open Source Initiative [http://www.gasli. As vozes das pessoas estão cada vez mais altas.org] 2 A criptografia é tratada com segurança máxima nos EUA. principalmente. se revoltar. bibliotecas e toda a infra-estrutura para a catalisação do conhecimento é muito mais caro do que prover acesso de banda larga e wi-fi 13 e promover um verdadeiro projeto de inclusão digital.gnu.org/] 9 Comitê de Incentivo e Produção de Software GNU e Alternativo [www. apenas algumas chaves criptográficas mais fracas podem ser comercializadas com outros países. Acredito que.quilombodigital.org. (75) (Notas) 1 GNU [http://www.cipsga. Na minha opinião. Te m d e s a b e r c o n v e r s a r. não podia ser exportada.org] 5 6 Esther Dyson [www. participar. podemos vencer o gargalo da educação.opensource. As pessoas sabem que precisam se desvelar.com. Gritar.org] 13 Placa que permite conexão sem fio Hernani Dimantas é coordenador do projeto w ww. O conhecimento está fervendo na rede. Está catalisando as informações. O ser humano está se transformando.edventure. Construir escolas.org] e Open Source Initiative [http://www.org/] Eric Raymond. Brasileiros e Brasileiras.tk] 12 Quilombo Digital – Grupo de Estudo dos Aspectos Éticos.

o seu diretor geral. a efeito. Greg objetivos comerciais ou promo.Curta Metragem O melhor de Wired Laura Innocenti Instantâneos da mente são acessíveis Depois do exemplo Lua na rede. que BBC resolve de uma agência feo capital intelectual e disponibilizar ao deral. No verão de não utilizar as imagens com passado. autorais sobre o que perto da realidade. mistu(76) . para Algo profundamente copiar e reproduzir o mais vasto diferente está acontecendo arquivo de imagens do mundo. ela produz. portanto. tantas fotos de Neil público todo o material reunido Armstrong quanto se desejar. até mais vastos arquivos públicos de a série de programas da tevê de informação – noticiários. Os cursos de Winston Churchill. por gitalizar e tornar acessível ao exemplo. podemos estar próximos exclusivas e pesquisadas em toda de uma mudança – e seria a BBC a história. Qualquer pessoa é livre. anunciou a decisão de dicionais. a granum copyright. na BBC1 entre as quais algumas das mais Contudo. ou seja. em arquivos – desde documenInfelizmente. que Talvez nem todos eventos especiais e a permite a qualquer saibam que a NASA um alto custo. Com a única condição a abrir esse caminho. maiores arquivos do dicamente direitos realmente não está mundo. Com imagens fotográficas de promessa da era exclusivas. o Estado não cultural do mundo sepúblico um dos pode reclamar juriria acessível a todos. Em oupessoa utilizar não é protegida por tras palavras. revistas. maior sucesso nos últimos anos programas de rádio e tevê – rara. por se tratar digital.Dyke. exceto em da NASA. é possível baixar. casos de abertura tários sobre a natureza de David e disponibilidade semelhantes Attenborough e registros de disnão são muito difundidos.– que podem ser copiados.

com seus 81 anos de história. seguir o exemplo da NASA. cena por cena. no setor de mídia. Mora e trabalha em Roma. . esta é realmente a inauguração de uma nova era. Para uma empresa pública como a BBC. "Something completely Different". Tal abordagem repercutirá bem além do Canal da Mancha. de modo que cedam seus trabalhos sem depois reclamar os direitos. novembro de 2003. Certamente não (77) será fácil. quem quiser seguir seu exemplo vai encontrar o caminho já planificado. Graças a um sistema confusamente mesclado.Curta Metragem rados e utilizados à vontade. Para se sair bem desse entrave. é consultora de gestão de recursos humanos. Não que se trate de uma medida simples e econômica. Até o mundo da mídia se beneficiaria . Documentários há muito esquecidos. e novos trabalhos tomariam impulso e ganhariam novos moldes a partir dessa inesgotável mina. instaurando uma espécie de denominador comum que simplifique as relações entre as partes. Laura Innocenti. entrevistas com personalidades históricas. muitos dos direitos sobre o material em arquivo são atribuídos a diferentes entidades. como parece intencionada. o que dificulta os trâmites legais. já que se firmará um modelo de comportamento que pode ser imitado por muitas empresas públicas ativas no mundo. Esse é um sonho ainda distante. um pequeno passo seu nessa direção representará um grande salto na difusão de informações. Bem realizado. A possibilidade de acessar tais bancos de dados certamente estimularia a criatividade e a fantasia de seus usuários. mesmo não sendo autorizado a reproduzir o material para fins comerciais. mas caso a BBC consiga. in Wired. programas científicos e educativos. tudo isto estaria disponível. em absoluto. para o material já presente no arquivo a questão se apresenta bem mais complexa. Se para as produções futuras a BBC pode instaurar novas modalidades de relação com produtores e artistas. (Notas) 1 Síntese do artigo de Danny O’Brien. este modelo poderá servir para todos. mas se a BBC assumir o ônus mais pesado. Para permitir a distribuição do material é necessário obter a autorização de quem detém os direitos. a BBC deverá encontrar uma nova maneira de administrar as relações comerciais.

chegou a ser a melhor nar os principais músicos da orquestra sinfônica da América Itália. Ubaldi. desenho de criança. priSão Paulo. América. Municipal de São Paulo e con. pelo contrário. pai foi contratado vida e nasceu para a músipela Sinfônica de carreira. faz um mogênito da família em 1931. Lamberto Colégio Alemão de Montevidéu. Foi assim saiu da Itália? que nós chegamos a em descontraída Lan: Meu pai. onde estudou. como cadernos infantis e digo: “Que já não se dava muito bem com a negócio horrível. meu balanço de sua Vaselli – La Debilos. Quando Arturo Montevidéu. Minha mãe olho os desenhos que fazia nos também ficou chateada e. conversa. falou com meu pai: “Olha. que eu tive Luterano Vicetti. de deixar a música por imposição Nem me passava pela cabeça do sogro.O tipo de professor que botava vidou meu pai para vir para a todo mundo no anfiteatro e come(78) . à primeira proposta. De repente. foi contratado um professor de química que era como regente da Sinfônica do um filho da p* de marca maior. Ficou chateado por ter um negócio desses.entrevista exclusiva Entrevista de Lan a Ivan Bentini e Guilherme Rodrigues IB: Como o senhor O caricaturista Lan. Depois. Toscanino foi à em determinado moEuropa em 1927 para selecio. o melhor prodige. Hoje eu regente da história. a gente se não mais que de repente. E foi assim que eu fui Instituto Luterano Vicetti de criado e educado no Uruguai. que havia estudado quando eu tinha já 16. 18 anos. Só que Nunca poderia imaginar que um meu pai tinha se casado e teve dia eu viveria só de caricatura. porque eu perdido a oportunidade de tocar não fui um Mozart ou um enfant com Arturo Toscanini. meu pai foi indicado pelo Latina. ca. Florença . com meu pai no mesmo Instituto no período da guerra.” Era aquele sogra.” Em 1929. que. foi no manda.mento.O Prazer do Olhar Lan .

como todo aluno tem seu desafeto. naquela época me chamavam de Fran1– “você não vai fazer o curso com seus companheiros. eu fiz a caricatura dele bem assim. graças ao movimento. fiz a do Herr Heningam. O professor de desenho me disse: “Lan” – aliás. e é uma impressão subjetiva sua. o Nacional de Montevidéo. e comecei a observar os jogadores de futebol. Você vai ter de estimular sua memória observando-os com (79) outro olhar. Então. E. IB: Fantástico. de Montevidéu. o professor Kovatch. No último ano ginasial. É a essência do que fica dentro de você com relação aos outros. o movimento do Guilherme sentado aqui. E é curioso: sempre comecei pela seção de esportes em todas . Lan: Até hoje. Todo mundo vai reconhecer o que você vai fazer porque é uma sensação que praticamente todo mundo tem em relação a determinado indivíduo. Pois bem. até hoje. disse no primeiro dia de aula de desenho que cada um desenhasse o que quisesse. de memória. Eu. ele: “Zero. um húngaro. eu tinha um ódio dele enorme. começaram a me pedir a caricatura de outros professores. o estilo de jogo. objetiva. o jeito de usar o uniforme do clube. ainda no preparatório do colégio alemão. Por exemplo.” Se você dizia: “Não sei”.” Perguntei: “Por que de memória?” Ele disse: “Porque a memória é um circo. Ele se sentava de uma forma engraçada porque era muito magro e conseguia enrolar as pernas. inclusive o movimento. Eu não preciso que o Guilherme pose para desenhá-lo assim: está na cabeça. zero. eu ia ao estádio torcer pelo meu clube.O Prazer do Olhar çava: “Me dá a fórmula de tal. além de ter umas orelhas de abano incríveis. diretor do colégio. Vai-se registrando tudo. que já estava fazendo minhas caricaturas. eu consegui meu primeiro trabalho no El País. Um dia resolvi fazer sua caricatura e pronto. Nessa época. O jornal me chamou para trabalhar na seção de esportes. uma figura maravilhosa e nosso professor de filosofia. Na memória fica o essencial. ao mesmo tempo. saiu! Você pode imaginar que. tal e tal.” Eu. a caricatura de todos os outros professores e de todos os companheiros e funcionários. E isso é a caricatura pura. desenho de memória. Você vai fazer. o que seria o pré-vestibular daqui. Um companheiro pegou um desenho meu [de futebol] e levou pra o El País. zero”.

O Prazer do Olhar as partes por onde trabalhei – no Uruguai. Eu. continuo na mesma. desde a infância. um ex-jogador de basquete que eu reconheci.. IB: Era exatamente o que eu ia perguntar. GR: Conte-nos como se iniciou sua carreira internacional. em Punta del Este. só o porteiro. Esperei uns 15 minutos. Eu já estava deslumbrado com o Rio de Janeiro. Não tinha ninguém. Eu. que lhe deu um chute na bunda e botou-a no carro. claro. Cheguei às dez horas da noite no Country Club. acabei sendo convidado a ficar no Brasil. é que sou fissurado em mulheres. E eu. Não mais com aquelas performances maravilhosas. me entrevistou. por exemplo. e ele me contou que ela estava se “encontrando” com o diretor do meu jornal no jardim do Country. de Montevidéu. o convidado da senhora. a única testemunha. com meus quadrinhos. na Argentina e no Brasil. por causa dele. o que foi difícil porque era época de provas na faculdade de arquitetura. Ela era mulher do presidente do Country Club de Cantegry. O meu jornal tinha feito uma tremenda reportagem sobre meu lançamento em Punta del Este e eu estava com vergonha . do Corinthians. jogar em 1952. se há uma constante em toda a minha vida. irmã do Nelson Rodrigues. tudo muito precário. Só penso naquilo! Até hoje. Eu aceitei.. O que fazer? Essa foi a primeira decisão que tive que tomar na minha vida. Ela me pediu um desenho e. Aqui. mas hoje em dia. vi Baltazar Cabecinha de Ouro. inclusive a hospedagem. señora”? Fiquei sem jeito. De repente. e as cariocas foram um dos motivos fundamentais pelos quais eu fiquei no Brasil. Perguntei ao porteiro o que tinha acontecido. O que fez o senhor se apaixonar pelo Brasil? Lan: Mulher é fundamental. graças a Deus. e uma dondoca uruguaia resolveu ser madrinha (80) da minha primeira exposição. convenci meus pais a me deixarem fazer a exposição. eu devo reconhecer que. com a minha mala. o clube mais grã-fino do Uruguai. tem o Viagra. Aliás. então. Lan: Eu trabalhava no El País. aparece a mulher sendo arrastada pelo marido. Ela disse que tudo ficaria por conta dela. O que ia dizer? “Buenas noches. No dia seguinte fui à redação do jornal Última Hora cumprimentar amigos que tinham trabalhado comigo em Buenos Aires e a Bianca Rodrigues. com quase 80 anos. fora do amparo familiar.

Dante escreveu um texto de divulgação porque. Não ganhei uma! Fiquei só com 35 pesos.” Na manhã seguinte. Meu pai. Não existia um salão para exposição. com uma vergonha enorme. O texto do sacana era assim. en lo hotel Novaron. combinando com a calça. Peguei um apartamento e telefonei para Dante Picarelli. Faltavam dois dias para eu pagar o meu hotel. todos os eventos de Punta del Este eram anunciados em alto-falantes por um carro de som. Já era perto da meia-noite. pois pagava por semana. perdendo. só fica atento aos numerozinhos. por via das dúvidas. Era o dia 18 de fevereiro. perdendo. Passou o primeiro dia. e ninguém dando pelota para os quadros. todo mundo jogando. pegue um ônibus amanhã e venha para Punta del Este porque você tem que me ajudar a resolver isso tudo. Mas tudo bem.O Prazer do Olhar de voltar a Montevidéu sem ter feito a exposição. Eu subia. senhores”. olhando as modas. mas tinha a sala do cassino. eu afundava a cara na areia. la grande exposición del internacional caricaturista Lan. pegava dez mangos. O Dante foi embora e fiquei sozinho. meu aniversário! Bom. jogava em chance ou perto ou colorado e perdia. Chamei um táxi e fui para o melhor hotel de Punta del Este.. colocam um holofote em minha cara e a orquestra . Gim tônica é bom porque você vai misturando com a tônica e dura horas. Mal sabia eu que o camarada que vai jogar não dá nem pelota para o que está nas paredes. E eu tinha trezentos. era dinheiro à beça.” Cada vez que ouvia aquilo. À meia-noite. tinha me dado um dinheirinho. nunca vou esquecer: “Y (81) esta tarde. aquele barulhinho de ficha tentador.. perguntei para o gerente do hotel se lá havia algum local onde eu pudesse fazer uma exposição. que era a boate da moda e. A diária custava dez pesos. “Façam seus jogos. que era só porque ele não acreditava nessas dondocas. e eu lá esticando. eu tinha de festejar o meu aniversário. pedi a bebida dos tesos: gim tônica. dizendo que não era pra gastar. um lenço pendurado no pescoço assim. E assim fui perdendo. Me emperiquitei todo. naquela época. naturalmente. Fui para o bar da boate La Fragata. E tic tic tic. vendo se tinha alguma garota interessante. com cara de rico. não poderia explicar o motivo. meu querido amigo: “Dante. quando Dante já estava na cidade. pelo menos tinha um lugar onde eu podia botar os quadros. botei o meu blazer de alpaca inglesa.

. Até hoje não houve nada que superasse a Rico Tipo. Ele então me pediu para passar em seu hotel no dia no dia seguinte e me apresentou a mais cinco mú(82) sicos da orquestra. Acabei tomando um porre de whisky boca-livre.”. que você tem que estudar!” Quando cheguei a Punta Del Este. todo mundo indo embora de porre. Cuanto cobras?” Eu olhei pra cara dele e disse: “Quanto cobro? Nem sei. Ele conhecia o famoso [José Antonio Guilhermo] Divito. mais cigarrilos. acabei ficando até o final de março fazendo caricaturas em Punta del Este.” E eu digo: “Ué. que quiseram. teria de ir a Buenos Aires. autor do tango Luno. happy birthday Lanfranco. E meu pai me telefonando: “Volta. O lugar estava cheio de artistas e comecei a ser convidado de um lado e de outro. Daqui a dois dias tenho que pagar o hotel e estou quebrado. Lá também estava Henrique Santos De Chepra. não posso deixar de aceitar!” Meu pai ficou louco da vida. Acontece que o baixista da orquestra era Hélio Batezini. happy birthday to you. Mas eu vou te contar uma coisa: meu pai me deu uma grana e eu estourei tudo no cassino. ele me disse: “Quando você for a Buenos Aires. De madrugada. almoço. me entusiasmei! Voltei para Montevidéu e falei com meus pais: “O Divito me convidou para trabalhar em sua revista. um velho saudoso. por dia. . IB: Ficou lá por quase dois meses? Lan: É. cada um.. uma orquestra argentina de jazz: “Me gustaran mucho tus caricaturas..O Prazer do Olhar – um quinteto de jazz uruguaio – começa a tocar “Happy birthday to you. vem falar comigo Gozio Montana. Com isso. uma caricatura também. a maior da América Latina. Quando eu encontrei Divito em pessoa.. Depois vieram mais cinco e também todos os croupiers do cassino. para ficar em Punta del Este?” Ao que eu digo: “Dez de hotel. um amigo de infância que mandou tocar Parabéns pra você. uns 40 pesos!”.” Com um convite daqueles. entre em contato comigo. conheci um caricaturista argentino. Era o sonho de todo desenhista trabalhar nessa revista. tem mais um Lanfranco aqui? Que coincidência. crooner da Santa Palo Serenade. por volta das cinco horas.” E ele: “De quanto você precisa. dono da revista humorística de maior sucesso que já houve na América Latina. que me disse que se eu quisesse ganhar dinheiro como caricaturista. Cheguei mais ou menos no dia 10 de fevereiro.

e meu pai me prometeu mandar uma mesadinha. Acabamos ficando amigos. No dia seguinte. um avental de médico. Eu botava um guarda-pó de enfermeiro e esse meu amigo. cinco meses depois. eu ficava fazendo as caricaturas desses jogadores. Buenos Aires era. Enquanto ele estudava. Naquela época. a Meca cultural. lá voltei com os desenhos. Ele não queria o dinheiro da irmã. Eu pouco ficava em casa. . pego meus desenhos. Chegando lá. Foi o primeiro balde de água fria que tomei. ele me conta. Se tivesse (83) lá encontrado um montevideano. e vou à redação de Rico Tipo. Nestor Rossi. quando eu já estava pronto para retornar a Montevidéu. La Gruna.O Prazer do Olhar mas minha mãe e meu irmão me deram uma força muito grande e convenceram meu pai a me deixar passar seis meses em Buenos Aires para eu provar que podia me defender com a caricatura. o senhor ainda fazia a faculdade de arquitetura? Lan: Exatamente. de Bariloche – uma mulher riquíssima. minha mãe me escreve contando que um médico recém-formado. Ele era irmão da dona do hotel Cottege. Mendes. que me pediu para deixar os desenhos ali porque seu chefe estava muito ocupado. fui atendido por um tal de Boneli. e dessa vez me disse o Divito: “O senhor me desculpe. Assim mesmo. para nós que vínhamos de Montevidéu.” Você pode imaginar o meu ânimo. Nestor. crente que estava abafando. Passados três meses. mas cuja esposa era maravilhosa. eu o teria abraçado. cheia de gente. Leposé. Aí. e entrávamos de graça. secretário do Divito. noivo de uma aluna sua em Montevidéu e para quem ela tinha mandado uns desenhos meus. Até que meu tio disse: “Porque você não vai a um bar e fica fazendo desenhos para os clientes?” Esse foi o máximo de ajuda que eu recebi desse cara. embora morasse com ela em uma casa maravilhosa. mas neste momento não temos espaço na revista. fui a Buenos Aires morar na casa de um tio de quem eu não gostava muito. e coisa e tal. IB: Nessa época. queria me conhecer. E foi assim que fui me familiarizando com os jogadores argentinos da época. E assim foram se passando as semanas. queria ser independente. Martin. a grande cidade. jogo no Monumental de Nuñes. No dia seguinte à minha chegada em Buenos Aires. Chegava o fim de semana.

. Eu mal falava português.O Prazer do Olhar feliz. Ele dizia que seria muito melhor que eu fosse trabalhar com ele diariamente. até porque estava com complexo portenho. como na época de Evita. Então acertei com ele e Ardingot ficou danado da vida comigo. Meus 80 anos. Ou não? Lan: Diria que sim. temos de ser pra cima. então eu nunca fui de falar com mulheres na rua. aos 23 anos. garanto. se você cantasse uma mulher na . dona de toda a imprensa portenha. o adido cultural da embaixada italiana era amigo de meu pai e. do que trabalhar uma vez por semana para fazer uma capa. tinha-o nomeado diretor da editoria Heines. El Lugar e Caras y Caretas. Moral da história: eu passei a trabalhar em cinco revistas e em dois jornais. as mulheres ajudam muito. com um bom soldo. ao chegar à casa de minha tia. Ardingot queria fazer as capas da revista com meus desenhos. de cantar. são bem diferentes das brasileiras. coisa particular. Você pode imaginar a maravilha que isso foi para mim! No mesmo dia. cedeu-me seu apartamento pertinho da Praça de Maio.. sempre pra cima. em Buenos Aires. Porque.. Não bastasse esse golpe de sorte. recebo o recado de que havia me ligado o dr. Lan: Se há uma coisa a que eu jamais terei direito é de me queixar da vida. de repente. em toda a minha vida. Aquela alegria da carioca. em Buenos Aires. numa época em que não se encontrava apartamento no centro de Buenos Aires por nada! Nunca ganhei tanta grana com imprensa.. É muito importante manter a alegria mesmo sem ter um centavo. E. como fora transferido (84) para Montevidéu. mas o que eu ia fazer? Além disso. como você pode imaginar. IB: As mulheres argentinas. É saber viver e saber se adaptar a tudo. Emilio Rubio me prometeu que Evita Perón. mais tradicionalistas. GR:. IB: Saiu da casa do tio chato. que levou uns desenhos meus para Enzo Ardingot. em notícias gráficas jornalísticas. um grande cronista argentino que estava inaugurando uma revista de esporte. responsável por várias publicações. aquela gentileza. com um salário de primeira categoria em cada um deles. assim. e tirou esse prêmio de loteria. Já falei que o que me prendeu aqui no Brasil foram as mulheres. Emilio Rubio com uma proposta para me fazer. como El Mundo argentino. foram muito bem vividos. Sempre rindo. a Goles.

poderia ter modificado a História argentina. Vivíamos a ditadura. onde encontrava minhas amigas. “Lan. Na semana seguinte. o governador no telefone. estava todo mundo trabalhando. Saía do jornal às dez e meia da noite e ia jantar nas cantinas lá da Boca ou La Basto com uns amigos e acabava sempre em um cabaré. todo mundo tinha de ter carro ou apartamento. É preciso tomar cuidado. desci pela escada. eu digo: “Vai praquele lugar e não me enche mais o saco. mas o pessoal da redação passou a me gozar: “Quer dizer que agora você é amiguinho do Guilhermo Carlos Cantaño?” Telefonavam: “Lan. Principalmente aos sábados..” Então. Botei meu paletó. me telefonam da Governación da Terra do Fogo – cada província tem representação na capital federal –. não pense . Em determinado momento da minha vida profissional como jornalista.. entendeu? Elas telefonavam no dia seguinte e iam descansadas para o meu apartamento. IB: E era o governador mesmo.O Prazer do Olhar rua. Era gozação. eu tive um furo que – sem exagero . A história ocorreu quando eu tive de fazer a caricatura de cada um dos governadores. porque eu não trabalhava.”. Carlos Cantaño no telefone”. IB: E deu para fazer a caricatura assim? Lan: Às vezes desenho por espiritismo. Um belo dia.” Olhei em volta e percebi que o ambiente de gozação não existia. E olha que época! GR: E a história da caricatura daquele general do Perón? Lan: Guilherme Carlos Cantaño.” Eu entrei. a mulher chamava um guarda e você ia em cana! IB: É um choque cultural! Lan: É muito diferente. assim. Você pode imaginar a cara com que fui encontrar o governador. dizendo que queriam o original para enviar ao governador. me deram uma porcaria de fotografia 3x4. eu atendo o telefone e ouço: “Aqui é o governador Carlos Cantaño. Tremi que nem vara verde. gozação. Apartamento eu tinha. Eu cheguei e ele ordenou: “Entra. me dando ordens militares: “Espero você dentro de dez minutos na porta do diário. Lan: Que telefona imediatamente a seguir. e – tum! (85) – saiu. e esperei bem em frente da porta do jornal.” Novamente. Em Buenos Aires. Para essa do Carlos Cantaño. capitão de fragata e governador da Terra do Fogo. Eu mandei. com um medo que vou te contar. batendo o telefone na cara do sujeito.

governador. Nos despedimos e eu vi Castaño mais umas duas vezes. está perdonado. Danusia. logo após a morte de Evita. a não ser que eu peça ou o chame como testemunha. você tem de me (86) dar a sua palavra de honra. New Orleans. para poder chegar a Perón. Vamos para minha casa que quero apresentar-lhe a minha filha.” Ao que eu retruco. Resumindo: fizemos uma amizade maravilhosa.” O governador tinha orgulho da filha dele. Lá. aliviado: “É isso aí. Eu tenho uma coisa para lhe falar. tenho de pedir licença ao ministro da Marinha para ter uma audiência com o presidente. precisamos nos encontrar. Simplesmente porque le están moviendo el piso a Perón” – nunca vou esquecer da expressão: “estão puxando o tapete de Perón”. que tem 15 anos e toca piano para que você me diga o que acha. seguindo o seguinte itinerário: Rio de Janeiro. Arrambulo. do que se trata?” E ele: “Antes. Nos encontrávamos sempre em um café entre Sarmiento e Casal.” E então me deu o nome de cinco dos generais e almirantes que vieram a derrubar Perón em 1955. mais do que nunca. perto do jornal. Eu estava muito cansado. ele me telefona e diz: “Hoje. Eu não sou mais governador. resolvi viajar. de amigo. E. Depois disso. Estava cansado também porque não há como juntar uma boemia desvairada a sete empregos de primeira categoria. está perdonado. aquele mesmo que os ingleses afundaram na Guerra das Malvinas. Los . quando nos encontramos. Rojas. IB: Você soube do golpe que derrubou Perón três anos antes? Lan: Três anos antes. Então o governador diz: “Já entendi o que se passou. mas sou militar.O Prazer do Olhar que era uma doçura não. pessoas sumiam do mesmo jeito que em outros países. Eu sou peronista. Fiquei 15 dias com ele na Terra do Fogo. e agora não me lembro mais. em janeiro de 1952. Aí. perguntei: “Bom. Sempre que ele chegava a Buenos Aires a primeira coisa que fazia era me telefonar. o que eu poderia fazer?” “Está bem. Nova York. Ele me convidou para a viagem inaugural do encouraçado Del Gran à Terra do Fogo. “E um deles é o ministro da Marinha. E foi assim que eu resolvi tirar férias até a saúde melhorar.” E aí. Isso foi em 1952 e eu tinha o nome de todos eles. de que não vai falar sobre nossa conversa a ninguém. Sou seu muchacho e seus companheiros com certeza estão fazendo gozação.

Lima. tudo assim. Quando o senhor chegou ao Rio de Janeiro? Lan: Em 10 de setembro de 1952. Parou aí. sempre elegante. voltei a Buenos Aires. ele me perguntou se eu tinha em casa um armário embutido só pra ele guardar seus remédios! Era hipocondríaco e encheu o apartamento de remédio. um uruguaio desamparado que eu acolhera em minha casa porque não tinha onde dormir. chegaram uns remédios contra reumatismo. nem continuou? Lan: Nem continuei. Se a Última Hora publicasse os nomes dos generais que conspiravam contra Perón com três anos de antecipação. Na época. E eu mordendo a língua com essa história do meu amigo. Santiago do Chile e o retorno a Buenos Aires. Eu havia deixado meu apartamento com um amigo. aos sábados. tinha uma ponta de cigarro que eu havia deixado cinco anos antes. você pode imaginar? O apartamento . sapatinho italiano. No Rio de Janeiro. México.O Prazer do Olhar Angeles. sabe qual era? Tomava banho. Se eu desse essa notícia. Agora. Ainda tive de ficar em São Paulo durante seis meses porque eles me mandaram para lá antes de me trazer ao Rio de Janeiro. seria um escândalo lá em Buenos Aires. Veja que preciosidade este envase aqui. o que teria acontecido? IB: Ele teria matado os generais todos. Conheci-o ainda garoto. Eu sou o único da família que nunca foi à Nova York e não quero ir. amigo de Perón.” E ele dizia: “Me dá cinco. Em 1957. Acabei ficando. o cara mais esquisito do mundo. A farra dele. Só que. O cara era doido. então. foi aquele deslumbramento. ao chegar ao Rio de Janeiro. IB: E seu roteiro turístico. fazia a barba. O camarada da farmácia já sabia: “Sr. eu estava trabalhando no jornal de Getúlio –Última Hora –. nem pensar.” IB: Completamente doido! Lan: Completamente! E quando voltei. cinco anos depois. com o terrorismo. Eu mordi a língua para não contar do golpe. sumido com eles. modelo italiano. citando os nomes e tudo. Basta dizer uma coisa: ele conservou o apartamento como um museu! Até o livro que eu estava lendo na mesinha de cabeceira estava no mesmo lugar. Bruno. tudo italiano e ia para a Farmácia Franco-Inglesa. IB: E o que aconteceu com o governador amigo do senhor? (87) Lan: Nunca mais soube do Carlos Cantaño.

resolveu algumas coisas e voltou? Lan: Rapidamente. não me lembro bem. O Lacerda. do jornal A Noite. não. sim. Eu o conhecia. total. pessoa física. Imbecil de quem inventou. A crítica não se aplica a ele. não? Lan: O corvo? IB: É. a caricatura ou a crítica tem de ser em cima do fato que o envolve como administrador. até demais. pessoa jurídica ou pessoa pública. estou com pressa. Este é o meu ponto de vista. Faz um papa defunto. Não é cartum. Esse conceito pode funcionar em alguns casos. Esta é a forma de criticá-lo. que aquele sacana estava todo vestido de negro. eu tinha um encontro marcado com uma mulata maravilhosa na Praça da Cruz Vermelha. Nesse mesmo dia. Bom. morreu Nestor Moreira. IB: O senhor criou a ave negra. mas eu discordo que possa ser um conceito geral. agregando mais uma palavra de origem inglesa e americana a nosso vocabulário – já temos tantas. Eu me recuso a ser chamado de cartunista. Eu sou caricaturista. eu já havia tomado o elevador. aproveitou o lance para atacar o governo federal. que estava em guerra aberta contra o Última Hora e contra Getúlio Vargas. agosto ou julho. Em 1954. no velório. o corvo. Mas o contínuo me diz: “Ele me disse pra pegar você no leme. o termo cartunista. Lan: Quando se trata de homem público. Já eram oito horas. Hoje em (88) dia. Eu pergunto a você uma coisa: se eu faço a caricatura da Sophia Loren – há grotesco ou ridículo para se destacar nela? IB: Que eu saiba.O Prazer do Olhar estava impecável! IB: Qual o motivo de seu retorno? Passou algum tempo lá. IB: Cariocaturista! Muito bom! Lan: Estou só me dedicando ao Rio de Janeiro. às oito e quinze. assim-assado. quando o Samuel manda alguém me chamar. jornalista da noite.” Aí fui voando e ouço do Samuel: “Olha. O senhor concorda? Lan: Discordo. A verdade é que morreu de infarto. no Brasil. Lan: O corvo é uma história curiosa. Não quis ir. IB: Já foi dito que a caricatura é a arte de destacar o grotesco e o ridículo das pessoas. uma coisa bem truculenta aí. Eu não sou cartunista. até cariocaturista. Nem pensar em ficar. te vira!” A quinze minutos . Ele foi levado à delegacia e levou tanta porrada que morreu. Esse conceito é renascentista. não.

O espanhol safado era eu. mas não me lembrava do bicho. você desencavou a alma torta daquele safado. Poucas caricaturas e charges políticas tiveram o sucesso e a transcendência que teve o corvo. lá em Bauru. corvo não tem mistério. que eu já tinha feito caricatura dele. No jornal Folha de São Paulo. (89) O Samuel escreveu no livro dele que tinha visto o Lacerda vestido de preto e que pensou num corvo. acabamos muito bem. e por sorte a menina ainda não tinha chegado. não sei como você conseguiu isso!” E eu digo: “Santa mulata!” IB: Foi a mulata! Lan: Essa é a verdadeira história do corvo. um beija-flor. Mas o curioso é que quando ele se candidatou a governador da Guanabara. . Lan: É. pela caricatura do Rio de Janeiro. Aí o Danton Coelho me abraça e diz: “Você fez um trabalho de uma profundidade psicológica incrível. E pensei: “De corvo eu lembro. do Sebastião e da Cristina. Fui amigo dos filhos do Lacerda. depois do corvo. O Mauritânio Meira. sempre me dei muito bem com eles. Passei uma noite esplêndida e. Só que. o negócio do corvo. é pássaro europeu. Cheguei ao encontro só com cinco minutos de atraso. presidente do PTB na época. mas do urubu não lembrava. Eu sempre gostei muito do Sérgio. quem encontro? Samuel Wein. a agência publicitária que estava criando sua campanha me disse que o Lacerda queria que eu criasse o símbolo positivo dele. O fato é que pegou. IB: Hoje em dia. Só que o Lacerda respondeu com um discurso. A verdade é que. atribuíram o desenho ao Otávio. às dez da manhã. com o passar dos anos. estou demitido” Eu tinha visto o jornal e tinha achado o desenho uma droga. dizendo que isso só poderia ser idéia de um espanhol safado. Penso: “Lá vem esporro. o senhor é mais conhecido pelas mulatas. Tudo bem. que sonhou com um corvo e telefonou para o Samuel Wein para me dar a idéia para o desenho. não dava pra fazer um colibri. Bocaiúva e Danton Coelho. eu pensei em urubu. Fiz um desenho bem truculento.O Prazer do Olhar do encontro. quando volto para a redação do Última Hora. Getulistas. IB: Ele matou a charada. Todo mundo ficou querendo saber como foi criada. Dutra. porque corvo não é pássaro nacional. No mínimo. Lembrava da cara do Lacerda.” Foi assim que surgiu o corvo.

mas não explicou qual era a intenção dele com a charge. IB: É tragédia. é prêmio por uma grande façanha. Ele se desculpou e disse que não sabia do significado da orelha. O mau humor realmente aguça a criatividade. luto. que ficou confusa. claro: “Ele está elogiando o Bin Laden! Ele matou 200 pessoas!” IB: E quem não conhece tourada não sabe desse detalhe da orelha. Lan: Como o Chico não sabia. IB: Eu. que extrapolou. da crítica. mas eu nunca fiz um negócio desses. o senhor acha o olhar estrangeiro sobre uma cultura local benéfico ao humor? Lan: Eu acho que sim. Logo. acha que você exagerou. os espanhóis inter(90) pretaram isso com o jeito deles. “quem inventou a mulata não foi o português. Eu acho que o Caruso deveria ter se explicado. Só que eu sempre parti do princípio que crítica tem de ser crítica. editor do Jornal do Brasil. maior o sucesso. Lan: Ele recebeu carta do embaixador da Espanha e um monte de e-mails de espanhóis. não achei a charge tão ofensiva. foi o Lan. melhor saíam as charges. particularmente. É preferível encher de preto todo o quadrado.” Considerando a maestria de Caribé em retratar a nossa cultura. que uma tragédia dessas não comporta humor. fim de papo. na qual ele retratava Bin Laden como um toureiro2. que dizia que quanto mais furioso eu ficava. IB: Mas por que o senhor abandonou a caricatura política? Lan: A política me dá um mau humor incrível. IB: Entrando em um assunto mais ameno: para Caribé. É o que sempre falo com os meninos. Lan: Acontece que faltou ao Chico explicar uma coisa: quando o toureiro ganha a orelha e o rabo. é prêmio! Não é sinal de vitória. a crítica. Eu concordo com o José Silveira. por princípio. Eu acho. Quanto mais perto você chega desse limite. a entrar com uma caricatura ou qualquer coisa que lembre humor em um momento desses. O olhar estrangeiro é um pouquinho mais . e não agressão. não. como o Aroeira e o Chico [Caruso]. IB: E suscitou uma resposta forte. IB: Houve uma polêmica bem recente com uma charge do Chico Caruso. A charge política tem um limite.O Prazer do Olhar Lan: Graças a Deus. Ultrapassou? O leitor fica contra você e a favor da vítima. não? Lan: Muito forte. Lan: Eu respeito quem faz esse tipo de charge.

O expectador pode analisar melhor atitudes e costumes. quando eu disse “escola de samba”. Eu tinha ido a uma escola de samba na véspera – estava entusiasmado com esse negócio de escola de samba – e estava namorando a filha de um general que. Isso eu já conheço. não se podia dizer que freqüentava escola de samba! O ano era 1953. para mim não seria novidade alguma. de terno e gravata. Marcamos o encontro no Clube Militar. depois de toda essa explosão de entusiasmo. chegamos aqui e procuramos as coisas negativas deste país. achando que eu. Lá pelas tantas. em um domingo.” Olha. sua musicalidade.O Prazer do Olhar objetivo. cantor. Paris ou qualquer parte do mundo. começa a cantar pra mim. quis me apresentar à família. a (91) sensibilidade para a dança. a Orquestra Sinfônica no Teatro Municipal. Eu tenho um episódio ilustrativo para contar a vocês. Naquela época se usava terno e gravata. Naquela época. eu estou realmente admirado com o povo brasileiro. suando horrores. Fazia um calor daqueles. chegam ao Brasil e logo vão procurar as coisas mais negativas que temos em nosso país. Se eu procurasse o que o senhor gostaria que eu procurasse. tinha de cantar alguma canção italiana. um primo da menina. Mas eu não podia sair com o rabo entre as pernas. às quatro da tarde.” Ele me esculhambou. Chegou um momento em que eu pensei que tinha de falar alguma coisa pra agradar aquelas pessoas. e eu. o restaurante da moda. Cervejinha. o samba. então disse: “General. seu ritmo. A essa altura do campeonato. estava doido para ouvir música brasileira. não é como hoje. Biscoitinho champanhe com guaraná. sobem essas favelas. Foi meu primeiro encontro com um milico aqui no Brasil. o namoro já tinha se acabado. que são as escolas de samba. Vão para as macumbas. Eu ontem estive em uma escola de samba. as coisas que existem em Buenos Aires. por ser italiano. o que é preciso fazer? É preciso . com esses negros. depois de três meses de namoro. ele disse: “O senhor esteve numa escola de samba? Isso é uma vergonha! Vocês. Mas para conhecer o povo brasileiro. todo mundo cruzou os braços e ficou olhando pra minha cara. nem pensar. estrangeiros. Eu tinha ouvido samba no dia anterior e não pensava em outra coisa. estrangeiros. então eu disse: “General. o senhor falou que nós. que todo mundo fica à vontade. pois é o olhar de um expectador. Aí.

que eu já conhecia de Buenos Aires! . IB: O que o senhor achava de Juscelino Kubitschek? Lan: O JK foi um grande safado. Aonde o negro chegou é que se encontra a maior riqueza musical desses três continentes. Nós só não esculhambamos o Juscelino Kubitschek [em função da construção de Brasília] em consideração a Oscar Niemeyer. que até hoje não mudou. E como este é um dos maiores temas da charge política. infelizmente. dedicada ao Chico Alves. como eu e o Jaguar concluímos recentemente em conversa que tivemos. os problemas (92) eram exatamente os mesmos que encontrei quando aqui cheguei: o eterno Nordeste. pois reflete também o desconhecimento da sensibilidade musical que há de enriquecer todas as Américas. até mesmo como jornalista. a eterna seca. a eterna roubalheira. muitas camadas sociais brasileiras. Em 1992. e isso não está certo.O Prazer do Olhar ir justamente aos lugares que o senhor condena para se conhecer a cultura popular deste país. Quem encontrei lá? Meu querido amigo Caribé. Tem mais uma coisa: os primeiros negros que aqui chegaram escravizados foram trazidos da África porque o índio era irrecuperável para a fé cristã. nesse aspecto. porque a conta dos “50 anos em cinco” estamos pagando até agora. O senhor fala dos negros com desprezo. É isso que me interessa. agradeci o biscoito champanhe e fui-me embora. Lan: O Caribé é uma das coisas mais lindas que eu conheço. Foram eles que trabalharam este país. Hoje. não. eu fui ficando cada vez mais indignado com a política.” Dito isso.. quando abandonei definitivamente a charge política. porque gostamos muito do Oscar. GR: Fale um pouco sobre sua amizade com o Caribé. Passaram-se cinqüenta anos e eu vejo que. na verdade.. Grande presidente uma ova! A inflação brasileira começou com ele. eu noto que quem acabou com o Rio de Janeiro foi o Juscelino Kubitschek. Eles não trouxeram os negros para fazer turismo aqui. que tinha acabado de morrer em um acidente na Via Dutra. Eu já estava trabalhando no Última Hora paulista quando houve uma seresta muito bonita. me fez perceber a mentalidade de. a eterna escola. E muita gente ainda se refere a ele como “o grande presidente”. Esse foi um episódio inesquecível para mim porque. nada mudou.

até o do governador do estado. eu nunca fui a Salvador. quando é que você vem. o editor-chefe. Ele era um gozador incrível. ele disse assim: “Venha comigo para Salvador. livros em italiano. e isso me dá uma grande felicidade.O Prazer do Olhar O Caribé era uma figura inacreditável! O Guilherme conhece mil histórias dele. Na verdade. um tal de Castex. Em Crítica. Caribé e Lan. da Bahia. Realmente eu tinha um carinho muito grande por ele. Eu lhe mandava livros. IB: Sem dúvida. era um carola daqueles .” Ou: “Quer mais? Quer três? Quer quatro? Quantas mulatas você quer? Mas venha aqui para Salvador. Com medo de ficar. veio uma moça e me deu um beijo. de Buenos Aires. Lan: O Caribé não valia nada. e era assim com o Caribé também. Eu me sentiria como um adúltero (93) com o Rio de Janeiro se fosse e tivesse ficado em Salvador. Eu tinha pânico. não fui e não fui. eu conheço outras tantas. A diferença de idade era uma coisa gratificante. não fui. o dia em que eu for para o Rio de Janeiro 1% do que você é para Salvador.” E não fui. Contudo. Quando nos encontramos. que foi um cara que passou a vida brincando. GR: O Caribé passou a vida cobrando: “E aí. que foi trabalhar no Jornal da Tarde. Lan: Era outro sempre pra cima! GR: E era de uma seriedade incrível! O brincar dele era um estado de espírito. Nunca vou me esquecer. em um restaurante. livros em gíria portenha. pô?” Lan: O Pancetti me mandava recadinhos através do Paulo Medeiros. Eram assim: “Te espero com duas mulatas.” Eu já tinha me apaixonado pelo Rio de Janeiro. Eu e Lan nos falamos diariamente. eu realmente perdi toda a vontade de ir a Salvador. acredito ter conseguido esse feito. dizendo: “Eu quero lhe agradecer pelo que o senhor falou a respeito do meu avô. eu vou ser um homem realizado. quando faleceu Caribé. Eu resisti a todos os convites. pela promessa de voltar ao Rio. Lan: Creio que consegui. pânico de ficar. GR: Eu tive o prazer de conviver com os dois. Caribé. porque quando falávamos em gíria ou folclore argentino. morríamos de rir. e fiquei emocionado quando um dia. Cheguei a dizer isso em uma entrevista.” A neta do Caribé veio falar comigo. como em uma família. e não fui. Aí eu olhei pra cara dele e disse: “Olha.” Hoje em dia.

nesse Piquenique no Tigre. como no bar. um clube para torcer e uma escola de samba para desfilar. Sentia falta de um personagem de base que me servisse de ponto de partida para uma porção de coisa. Na revista Geoplan – olha como mudaram os tempos – ele sempre fazia uma página dupla com “Piquenique no Tigre”. no botequim. pálido. eu apertei o botão para parar o elevador e lhe disse: ‘Castex. GR: Realmente. Caribé era um grande desenhista. É baixinho e gordinho! IB: Fale-nos do baixinho e gordinho. Eu sempre falei que. Os meus desenhistas preferidos são o Modigliani e o Caribé. circo. Eu estava fazendo cenas cariocas. “Quermesse no lago”. na praia. GR: Nós vínhamos conversando muito antes disso sobre a preocupação do Lan com a terceira idade e a necessidade de transferir sua experiência de vida através de um personagem que seria ele próprio. Você não vai acreditar: Caribé é gay!”. Saudades dele.” Esse era o Caribé. uma bundinha. se esta não é a realidade? Lan: Foi espontâneo. o baixinho. coisas assim. que quase dissesse o que sente um homem de terceira idade em relação à vida. Fui perguntar a Caribé o que ele tinha feito pra suscitar essa suspeita. Lan: O baixinho nasceu de uma forma totalmente espontânea. o senhor sempre retrata seu alter ego. (94) IB: Em seus desenhos. só. tremendo.O Prazer do Olhar de colarinho duro que ia à missa todos os domingos. mostrando uma verdadeira fauna em diferentes atividades e momentos. Ele. em 1995. no meio no capinzal. Só por causa disso suspenderam a revista por três meses. Eu sou um camarada meio difícil de me emocionar com a pintura. Me chama de lado: “Que horrível! Que horrível! Já era tempo de te contar uma coisa. Lan: Exatamente. ele botou. Era uma bundinha. Estávamos subindo no elevador. Então. simulando um ato sexual. enquanto houver o amor de uma mulher. IB: Mas por que o senhor se retratou tão baixinho. então. qualquer um con- . etc. Um dia chega o Castex branco. Lan: Ele não é só baixinho. me dá um besito?’ Só para ver a reação dele. Eu tenho muita saudade do Caribé porque realmente era uma figura que eu admirava e admiro até hoje. contou-me: “Não fiz nada de mais.

em nada disso. Eu sou um velho paquerador. quando entra no metrô. muita coisa! Olha. Já fui aos melhores médicos do Brasil. Eu já não consigo ler. IB: O senhor nunca teve vontade de escrever? Lan: Eu não. porque todo mundo está achando que é meu alter ego. para piorar. sabe aquelas gostosas assim. Dia desses. Aliás. sério. senão já seriam transparentes. se. é Flamengo e Portela. você não é tão baixinho assim!”. me chateia eu não poder me guiar mais. É um desgaste natural da idade. Um desgaste muito grande. Lan. Vendi .” A baixa estatura reflete justamente as limitações da terceira idade. eu disse: “Não faça questão. na idade.. que é um horror! IB: Já pensou em se submeter a uma dessas cirurgias oftálmicas com laser? Lan: Não. uma moça me disse: “Mas. mas como ela fazia questão que eu sentasse. com alto astral. Eu ainda não atingi essa idade. é por isso que estou estropiado. não pensar na morte.O Prazer do Olhar tinua vivendo numa boa. nem pensar! Tenho de assistir cinema dublado. a minha juventude está só na cabeça. reflete a luz. IB: Que limitações? Lan: Não adianta você se sentir jovem e pensar que nada mudou. você é que está dizendo que esse personagem sou eu. eu vi uma mulher sentada em um banco amarelo. Quem lê o jornal para mim é minha mulher. E agora não posso escrever porque não enxergo muito bem nem mesmo o papel. por isso a senhora pode continuar sentada!” Ela ficou olhando para minha cara o tempo todo e eu. as pessoas lhe cedem um assento nos bancos amarelos. Vocês só existem aqui porque não tem mulher alguma no recinto. aí ela se levanta e diz: “O senhor pode se sentar. Na verdade.. Os homens passam todos transparentes.” Eu fiquei tão pau da vida (95) que recusei. Ninguém diz que tenho 59 anos. ao que respondi: “Bom. Ele gosta de mulher. muita bebida. o meu caso é irreversível. então tudo bem. de saia curta? Eu fiquei olhando para ela. naturalmente. Cinema legendado. muita noitada. usei estes olhos por 58 anos em cima de um papel em branco que. Uma vez. no metrô. hoje em dia eu tenha um olhar seletivo: só olho pra mulher. É provável. Agora. logo. Mas estou conseguindo trabalhar. mas a verdade é que isso é o desgaste de uma vida de boemia. Mas deve ser. Afinal de contas.

enfim. porque ficava parado por meses. E a verdade é que aqui estou. Mesmo assim. Já foi até homenageado no carnaval e tem uma identificação total com a cultura dessa cidade. Ele ganhou uma caricatura minha que havia sido feita em uma exposição no grupo Lune. Por quê o exílio? Lan: Militar não entende de caricatura. Se o banho não era popular no verão. São outros hábitos. Apesar disso. curioso: o parisiense. vivendo em um sítio onde não há violência. cor. Uruguai e Argentina)? Lan: Meu querido. gentileza. Por quê? Saudade de Montevidéu? Claro! Saudade de Buenos Aires? Claro! Saudades desses anos que passei na Itália? Tenho! Não tenho saudades de Paris. inclusive o próprio presidente Médici. comprou todas as caricaturas e presenteou cada um deles. ninguém tomava banho. uma das razões de não querer ir a Salvador é não querer acrescentar mais uma saudade. o parisiense é mesquinho. sujo e não toma banho. IB: O senhor é o “gringo” mais carioca que o Rio de Janeiro conheceu. Mas não me queixo da vida. mal-educado. fora da França. vou te contar. Eu não me adaptei a Paris justamente pelo espírito do parisiense. te abraça e ainda te dá uma massagem nas costas (já reparou que o abraço carioca dá (96) direito a massagem nas costas?) –. costumava engolir livros. Nós tomamos banho duas a quatro vezes por dia. porque sempre fui um leitor voraz. Mas o pior é não poder ler. explosão. em Paris. volto a dizer: eu fui um afortunado. onde não tenho problemas para dormir de portas abertas. transparência – o carioca é transparente. imagina no inverno! É por isso que o bidê é uma instituição francesa. Enquanto o Rio de Janeiro é luz. tem alegria. o senhor se exilou em Paris. e por que digo isso? Porque é uma cidade que é o contrário do Rio de Janeiro. Espanha. IB: Durante a ditadura militar no Brasil. mas. o senhor sente saudade de algum dos países onde morou (Itália. onde eu desenhei todos os ministros do governo Médici. em que. Tinha épocas. Só que os filhos do Mário Andreazza . viu? Lidar com francês não é fácil. governador.O Prazer do Olhar até o carro. altruísmo. Chagas Freitas. alegria. O único camarada da ditadura que realmente me deixou muito bem impressionado foi Mário Andreazza. no inverno. em 1972. Mas Paris também tem seus encantos.

sobre as multinacionais. vamos fazer outra. não fico chateado. e me explicou: “Olha.” Então ele me perguntou: “Me diz uma coisa.” Eu digo: “Tudo bem.” “Ah. o senhor é o ministro e a minha função no jornal é destacar isso na charge política. e eu calado.” E dei aquela explicação de que falei antes: “Eu não tenho nada contra o senhor como pessoa física. pelo menos. Lan. Lan. Uma coisa é criticar. o Delfim me pergunta: “Lan. através das críticas. Lan. ir para um bar. mas não sei o que estou fazendo aqui. do Estado de S. Mas o senhor. eu ganhei a sua caricatura. sobre isto. gostando. mas gostaria de saber por quê. que bom!” Aí chamou todos os secretários: “Não quer repetir para eles a explicação que você me deu?” Agora. bem gordinho. Lan: Depois que ele se tornou ministro da Fazenda. por que você critica a gente? Eu. Isso porque.” Aí botei minha melhor beca. do Zero Hora de Porto Alegre. ele fazia suas reivindicações ao presidente. Ele me recebeu: “Lan. sobre aquilo. do Diário da Bahia. está sujeito a críticas. Nós podemos sair. tomar um chopinho juntos.” Aí começaram a chegar editores de economia do Jornal do Brasil. O desenhava bem redondinho. sem problemas. “E agora? Vou ter que almoçar com o ministro e não sei por quê. Aí o Andreazza me chamou no ministério de aviação. certo? Agindo certo ou errado. nunca fui de agredir ninguém. outra coisa é agredir. é que esta é uma entrevista audiovisual e quero que você observe que estou comendo bife na grelha com . estás gostando do almoço?” “Ministro. eu continuei fazendo as charges. eu estou. Paulo. (97) IB: Interessante. um filho meu a levou e o outro também quer uma. faço questão que você se sente na minha frente. o mais engraçado de todos foi o Delfim Neto: ele me telefonava todos os dias com sugestões de charges para o esculhambar. todos queriam tê-la. Sempre me dei muito bem com ele. aquela dos domingos. Um belo dia chega uma carta do ministério da Fazenda me convidando para almoçar com o Delfim em uma quinta-feira. Sobre a Petrobrás. como administrador.O Prazer do Olhar começaram a brigar pela caricatura do pai. e eu nunca soube agredir. porque eu entendo bulhufas de economia e não tenho pergunta alguma a lhe fazer” “Não. editores de todas as partes. e fui lá no ministério. e começaram a bombardeá-lo com perguntas. Lá pelas tantas.

vê se nas próximas caricaturas você me desenha mais magro!” Aquilo foi genial! O Bernardo Campos deve ter mandado originais de charges minhas para ele – eram umas 25 charges –. A gente sempre tem que se nivelar por cima e nunca por . o Paulo Caruso. você não está entendendo nada. foram o Chico. fui direto para a redação e falei com o Walter Fontoura: “Walter. de uma figura desconhecida. você pode ser transferido. teu amigo foi raptado lá. já é popular.” Aí eu peguei o carro. o Samuel Wein perguntou quem entraria em meu lugar em São Paulo? Aí eu indiquei um rapaz. Primeiro você convidou o Henfil e depois o Ziraldo para dividir com você o seu espaço. Quando eu fui transferido da redação paulista para a carioca do Última Hora. que eu trouxe de São Paulo. Perguntei a ele: “Otávio. Ajudou a revelar o próprio Chico Caruso. foi raptado em 1975. na época de Isabelita. que ele é fera!” Aí ele me fez uma pergunta engraçada: “Lan. mas botem a fotografia do lado. funcionário do Banco do Brasil que fazia uns desenhos (98) muito bonitos. tem coleções incríveis. que. realmente eu fico muito satisfeito com essa pergunta porque realmente eu sempre quis revelar novos talentos. Logo. Ele adora caricaturas. está querendo trazer o Sabbat. para São Paulo?” “Posso. eu não entendo você. que mais tarde foi para Porto Alegre. Hoje ele está sendo homenageado por seus 20 anos de charge política. o famoso Hermenegildo Sabbat. Fui incentivador do Chico Caruso quando ele estava começando. eu tive o prazer de lançar o Bendati. entendeu? É como dizia Ronaldo Bôscoli: “Falem mal de mim. Qual é a tua?” E eu disse: “Walter. o Ique. Aí o Orlando Carneiro me telefonou e disse: “Olha. IB: O senhor também é conhecido como descobridor de talentos. o Otávio. Depois. Contrata. faz o favor de trazer esse rapaz para o Rio de Janeiro.” Quando camarada se torna personagem de charges. O que o senhor acha dos novos caricaturistas? Algum talento surgindo? Lan: Olha. Consegui a contratação de Menti Sabbat. No Última Hora e no Jornal do Brasil.” E foi assim que Otávio ficou famoso lá em São Paulo. e do Chico Caruso também.” “Então vá para lá porque você vai trabalhar para o Última Hora.O Prazer do Olhar espinafre na água e sal. Agora. durante três dias. pelo Banco do Brasil. O caricaturista não faz caricatura de qualquer um. Esse que é o grande segredo.

. Um apartamento antigo. por que o senhor trocou essa cidade por Petrópolis? Tem a ver com o clima? Lan: Veja bem. Não era só o aluguel de dois mil reais que tinha que pagar por mês para utilizar nos poucos dias em que ficava no Rio – na verdade. Quanto melhor for o desenhista que fica ao meu lado. Lan: Aí deixei o atelier do Vidigal. Quando eu vou ao Rio de Janeiro. fico na casa do Chico.. eu não estava morando lá.O Prazer do Olhar baixo. o que pra mim é uma boa. vou ter de me esmerar para não perder qualidade de produção. com duas salas maravilhosas em cima da Delfim Moreira. Está explicado? Então. estou muito interessado em me manter em plena atividade.. mas não gostei. Eu queria comprar esse apartamento. Eu jamais dividiria meu espaço com um pé-rapado ou com um principiante. Na verdade. Acontece que o apartamento que eu alugava no Leblon ficava onde hoje em dia é o Hotel Marina. Tínhamos o atelier mais bonito do Rio de Janeiro. Guilherme? GR: Está certíssimo! IB: O senhor ainda divide um atelier com o Chico Caruso? Lan: Não mais. eu tenho dois filhos. no Vidigal. Ele tem uma preocupação comigo que eu acho que um filho não teria. Eu sempre (99) digo que.” Estou certo ou errado. IB: Sendo tão apaixonado pelo Rio de Janeiro. mas por outro lado. De gozação talvez. eu sou bonzinho. IB: A vista de lá é linda. GR: E tem um neto emprestado. três quartos em cima da João Lyra. E depois que parei de guiar e passei a usar táxi. que se preocupam terrivelmente comigo: a Valéria e o Chico. por um lado. ficou muito pesado pra mim. gostaria que fosse ele. Agora trabalho aqui no sítio. Lan: E um neto! Um neto que não enche o saco. entendeu? Ele me chama de “papi”. O nosso relacionamento é muito pai e filho. um desenhista qualquer. Só que a famigerada Delfin comprou o prédio inteiro e me deu um prazo para sair. que sou um preguiçoso de marca maior. maravilhoso. eu. IB: Ficou complicado. pelo contrário! Ele é um fenômeno! IB: As suas caricaturas são o resultado da observação do cotidiano carioca? Lan: Certo. eu não troquei o Rio de Janeiro por Petrópolis. se eu tivesse um filho. Aluguei um apartamento na Rua San Martin. Lan: Mas acontece uma coisa: depois que o Chico saiu.

Onze milicos! E não tinha jeito de fazer charge. IB: Tranqüilão..O Prazer do Olhar Nessa época. participava da reunião de editorialistas do jornal até as seis horas. um personagem mal-humorado. eu resolvi começar a procurar uma casa. não tendo tema. e pronto.” “Bom. não adiantava nada. cinco. então. fruto do AI-5. eu ficava na seção. Era na munheca mesmo. Reformamos e já há 30 anos que estou aqui. Meu médico me alertou da gravidade e eu acabei pedindo licença médica. E o Ziraldo é mineiro. panfletário e tal e coisa. Quando voltei. a indústria da nudez. IB: O senhor celebra a mulher e suas curvas sensuais. Diniz. O Rio de Janeiro estava proibitivo. eu não sou muito chegado (100) . eu estava com problema sério de úlcera. que era o prazo máximo para entregar o desenho. enfiar o dedo na garganta. Então. em 1973. Foi quando encontramos esta casa. Lan: Mineiro é bonzinho. três. Às nove horas. onde meu trabalho rende muito mais. não tendo assunto. escolha alguém para revezar com você. vomitar ácido clorídrico. quer dizer. Mas não deixei o Rio de Janeiro: eu continuo freqüentando o Rio. além de ser um grande entusiasta do carnaval carioca. Subimos a serra e Olívia achou ótimo o lugar. era um drama! E naquela época não havia computador. Então eu convidei o Ziraldo. aí. falei com o editor: “Olha. Nesse processo. Foi quando eu inventei o Caliosto. eu tinha que ir ao banheiro. Para dizer a verdade. GR: É verdade. quando editaram o AI-5. Bom. e nada de sair algum tema que eu pudesse usar. Aqui ninguém me perturba. O Nascimento Brito detestava o Ziraldo porque ele fazia mais texto que desenho. nada disso. que trabalhava no Jornal dos Esportes. Sabe como é mineiro. diariamente não dá mais para eu fazer. só que trabalho aqui. quatro. minha saúde só piorava.” Eu escolhi o Henfil. o Henfil desistiu e ficou fazendo o Zeferino mesmo. Todo santo dia. Só que o Henfil era tão violento que mandava uma charge. tínhamos onze censores dentro do jornal verificando o que a gente publicava.. Enchia os desenhos de texto. Seis meses depois. Aí me chamavam: “La-a-an!” Eu acabava tendo que fazer a suplência do Henfil. duas charges. essa nova preferência das mulheres brasileiras por próteses de silicone? Lan: Eu não sei. e todas eram reprovadas. Como o senhor vê a sexualização do carnaval. Isso porque.

foi tão bem sucedida que a transformou em obra-prima. A Globeleza mesmo. que mostrava apenas o apelo sexual dela. concentrou [a miscigenação]. Para se fazer uma bela pintura. Durante as décadas em que o Rio foi capital. Por exemplo. Lan: Exato. não é mais samba no pé. O [Ivo] Pitanguy faz misérias com o corpo de uma mulher. IB: Hoje em dia há uma indústria da nudez algo apelativa. Tudo que não é real. isso vale para a morena. Não. na verdade. Eu não encaro a mulata como meu querido e saudoso amigo Sargentelli. Corpo perfeito. Pode ser que. para fazer uma obra de arte. comigo não funciona. era impossível de se equilibrar dançando samba pra valer. houve uma fusão. não. não. uma mistura privilegiada. tudo que é apelação não é bom. sim. mistura as tintas. brochei. Estou falando especificamente da mulata.O Prazer do Olhar às mulheres siliconadas. IB: O senhor já recebeu alguma crítica que tenha chamado a sua atenção? Lan: Em relação à qualidade do trabalho. de todas as partes do Brasil. E essa mistura. Outro dia. mas sambando. porque a miscigenação que deu mais certo em todo o Brasil é a do Rio de Janeiro. exagerada. esteticamente. Acontece uma coisa: esteticamente é uma coisa. mas. é necessário misturar as tintas. Crítica em relação ao sentido do desenho. a mulher consiga melhorar. As mulatas da escola do Sargentelli. Eu também sou exigente quando a questão é samba no pé. para a carioca em geral. uma cena carioca. mas. Não é bom. monumental. como apelo sexual. Gosto da beleza delas. Faz uma escultura. Cena tipicamente carioca. Sou extremamente exigente nesse aspecto. usando uns saltos deste tamanho. uma vez eu fiz um desenho de rua.” Não fazia meu gênero. vi uma charge que dizia que é chilique no pé. mas e sambando? Não. Eu acho que a sensualidade da carioca não depende dessas coisas. na mulata. Os shows deles pareciam um mercado de escravos: “Mostra a bunda. em que havia uma porção de crioulinhos limpando os carros. E não é por isso que eu vou achar bonito. como um pintor que. a mim não apetece. do Jair do Cavaco. Eu faço um pouquinho de poesia quando digo que Deus fez as cinco raças para que se misturassem. Recebi uma carta (101) . ela é triste sambando. vieram várias raças. que eu me lembre. Entrou silicone. Samba no pé é o da Dona Ivone.

O Prazer do Olhar de uma sociedade de proteção ao negro da Bahia, me chamando de racista, e ainda se referindo a mim como estrangeiro, de forma preconceituosa. Pô, eu sou casado com uma mulata. É a coisa mais ridícula do mundo me chamar de racista. IB: É fácil vender humor? Lan: Justiça seja feita: em matéria de desenhos de humor, a Lithos é a única editora que realmente deu importância ao trabalho de todos nós. Não só ao meu, mas ao do Ziraldo e de vários outros. GR: Desde 1975, O Lan vem fazendo gravuras de desenhos de humor. Eu acho o humor da maior importância, sempre achei. Lan: Mas sabe de uma coisa? O humor, o bom humor, nunca teve lugar no mercado de artes plásticas. Eu pergunto: quanto deve valer no mercado um original de J. Carlos se os marchands, os donos de galerias, os críticos de arte realmente vissem a importância que tem a caricatura? Eu sempre digo uma coisa: a caricatura é a mais inteligente das expressões artísticas: da pintura, do desenho, do que for. É a mais inteligente porque não se admite um chargista, um caricaturista burro. Para vencer, o cartunista, no mínimo, tem de ser inteligente. Um pintor pode ser valorizado até se for analfabeto, sem preconceitos, sobretudo se fizer uma pintura primitiva, como em uma moda de muitos anos atrás, em que os críticos de arte encontravam nesses trabalhos a pureza da cor, achavam uma beleza a cor assim, e essas pinturas custavam horrores. Na verdade, a caricatura, como expressão de arte gráfica, é a única destinada a viver enquanto houver dois homens na Terra, porque sempre vai ter um querendo caçoar do outro. E como vai existir sempre esse negócio do sacana, sempre existirá a figura do caricaturista. A caricatura persistirá.
(Notas) 1 Lan foi batizado Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortelini Rossi Rossini. 2 A charge – publicada em março de 2004, no Jornal O Globo, um dia após o atentado terrorista a estações de trem em Madri – mostrava Bin Laden vestido como toureiro, investindo contra um touro com o planisfério desenhado sobre o corpo, no qual se encontravam cravadas as Torres Gêmeas.

Lan é caricaturista do jornal O Globo. Ivan Bentini é editor da NEXT Brasil. Guilherme Rodrigues é diretor geral da Lithos Edições de Arte, responsável pela edição das gravuras do cartunista Lan.

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Monografia

As numerosas faces da desorientação
Giusi Miccoli Em busca de novos paradigmas do O que nos orientação business. desorienta? Em Nunca, como nos As mudanças pratique consiste a últimos tempos, as cadas são explicadesorientação nossas convicções das com o declínio na economia, tornaram-se tão fradas três dimensões na política, na cas e inconsistentes. com as quais estásociedade, nas Perdemos a bússola vamos acostumados organizações? como indivíduos e a medir o universo como cidadãos. – espaço, tempo e É fácil olhar as outras culturas massa –, que cederam lugar a e os outros povos utilizando as três novas forças: velocidade, nossas maneiras de analisar e interconexão e imaterialidade. compreender. Com freqüência Estas três forças nos obrigam a esquecemos que vivemos em rever nossos modos de perceum país rico e que compar- ber, analisar e organizar a nós tilhamos o bem-estar com os mesmos e os sistemas sociais. outros países industrializados. A complexidade, longe de ser Mas agindo assim, excluímos um obstáculo para a inovação, o resto do mundo. Nos últimos oferece contínuos e múltiplos anos, as nossas análises da eco- inputs, que representam uma nomia, da política e da socieda- fonte inesgotável de novas de concentraram-se sobretudo idéias. na compreensão, explicação e Enfim, a incerteza é consideraantecipação do mundo ociden- da um elemento de certa forma tal e do sistema capitalista. Os governável. Em suma, sentimotemas de mudança, de comple- nos infalíveis. xidade e de incerteza foram en- Os economistas buscam uma frentados buscando o caminho solução de equilíbrio com exdo (nosso!) futuro, em termos de pectativas racionais.
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Monografia Os estudiosos de organização procuram analisar uma estrutura no mundo aparentemente desorganizado. E dão uma importância sempre crescente ao human talent e ao human capital, ainda que a valorização dos recursos seja teorizada, e não praticada. Tornamo-nos cada vez mais conscientes da falta de credibilidade das promessas da Idade Moderna. No plano mundial, aumentam tanto a concentração da riqueza quanto a difusão da pobreza. As desigualdades sociais e econômicas crescem, alimentando a conflituosidade. Desencadeiam-se pequenas e grandes guerras. Diminui-se a confiança num mundo onde não é fácil viver. Touraine, num ensaio recente, penetra no calor do debate, saindo em busca dos possíveis caminhos para enfrentar os problemas e resolvê-los. Em Touraine há uma confiança na possibilidade de certa concepção, diferente da convivência civil e da sociedade pós-industrial (que ele denomina “programada”). Mas na falta de critérios válidos para entender aquilo que muda e como, cada vez com maior freqüência nos perguntamos: o que é este estado de coisas no qual nos encontramos? O que nos desorienta? Em que consiste a desorientação na economia, na política, na sociedade, nas organizações? Quais são as conseqüências negativas e quais as positivas? Entrevêem-se novos paradigmas e novas experiências com os quais se possa superar essa desorientação? Será oportuno e possível criar novos pontos de referência e novos fatores de convicção? Quais? A quem cabe essa tarefa? Foi por essa razão que S3.Studium dedicou todo o Seminário de Verão 2002 à desorientação. O método e as questões Há 17 anos o S3.Studium organiza o Seminário de Verão em Ravello, segundo uma fórmula bem aprovada, que consiste em cinco sessões nas quais intervêm especialistas de alto nível, italianos e estrangeiros, escolhidos entre os maiores estudiosos das matérias tratadas. O seminário destina-se a empresários, empreendedores, membros do Club S3, aos estudiosos de ciências organizadoras e a

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Nesta monografia propomos os outros dez relatórios que traçam um mapa entrecortado.Studium Italia. Paolo Branca). na Cultura ( G i u s e p pe O. (105) . na Política (Cristovam Buarque.Monografia todos aqueles que pretendem enriquecer a própria cultura empresarial com temas capazes de ampliá-la em direção à criatividade. que nos ajuda a recuperar – ao menos em parte – a nossa capacidade de nos orientar. No primeiro número da Next Brasil. na Estética (Fulvio Carmagnola. Chris Meyer). Antonio Calabrò). Giusi Miccoli é coordenadora acadêmica do S3. Massimo Cacciari). instituição privada de ensino. antecipamos o tema com a reflexão de Cristovam Buarque. Longo. Wa s h i n g t o n O l i v e t t o ) . Nas cinco sessões foi ana lisada a desorientação na Organização (Pasquale Gagliardi. pesquisa e consultoria em Ciências Organizacionais sediada em Roma. n a Economia (Persio Arida. rico de estímulos.

Monografia A supremacia das profissões Pasquale Gagliardi Novos fatores identidade organiEnquanto as de certeza zativa assumiu uma organizações organizativa importância crucial vão aos poucos O XVII Seminário na definição da deixando de ser de Verão de Ravello identidade social gaiolas de ferro nos convida a refletir e da imagem de si: para se tornarem sobre a oportunidade o fato de pertenconjuntos fluidos e e a possibilidade de cer à determinada precários.organizações como instrumenmental na construção da ordem tos de domínio e consideram social das sociedades ociden.depreciável a identificação tais evoluídas. ainda que se dos dependentes com os obtenham criado algumas fendas jetivos das organizações pelas relevantes numa tendência quais trabalham. influenciar o prestíorientar a ação prevendo que nas gio social e a autoindividual e social. movidos por interesses por racionalidade instrumental que Habermas definiu como – desenvolveram e continuam emancipadores. organizações exista estima mais que o uma “desorientação”. voltadas para uma comprovação da difusão o alcance de fins específicos e desse fenômeno. a meu ver. fato de possuir uma Essa premissa é compartilhada. ainda que com certa cautela. Esses estugovernadas tendencialmente diosos. Para esses linear que parecia irreprimí. a sem identidades sociais legíti(106) .estudiosos. perdem criar novos pontos de organização pode a capacidade de certeza organizativa. agregação social. concebem as a desenvolver um papel funda. Naquelas sociedades. particular competência. O alarmismo crescente dos exAs organizações – entendidas poentes da chamada sociologia como formas utilitaristas de crítica constitui. é como se existisvel.

como a laboral.Monografia mas (as quais se adquirem na família. os motivos daquelas fendas cada vez mais perceptíveis e discutir sobre novos fatores de certeza. é que poderemos entender as razões da desorientação. fundamentado em princípios de racionalidade instrumental. A esses sistemas. A gaiola de ferro Não há dúvida de que os sistemas de cooperação inspirados em critérios de racionalidade instrumental caracterizem de modo inconfundível a paisagem social da modernidade. comunidades utópicas se esforçam para traduzir visões idealistas em planos e objetivos operativos. prioritariamente. Por quê? Somente se refletirmos sobre as razões pelas quais as organizações foram – e continuam a ser – fatores de certeza. e a ordem (107) . parece realizar-se por completo a previsão de Max Weber. com muita freqüência a identidade organizativa desempenha papel essencial na construção do conjunto da identidade pessoal: a organização para a qual você trabalha pode contar quanto e falar mais sobre o trabalho que você faz. mas adotam técnicas de marketing. como dissemos. na escola. na comunidade ocupacional ou de vida) e condições. as associações de voluntariado recrutam profissionais. legalidade e certeza. autênticas bússolas para a pesquisa do sentido (de si mesmos e do mundo no qual se encontram catapultados milhões de indivíduos). Em vez disso. que se desejaria fossem sempre o objeto de uma escolha consciente e instrumental de um sujeito que não insere aquela condição entre os fundamentos do si. um clube esportivo respeitável – até diletantista – não pode deixar de ter um empresário. de que o modelo de administração burocrático. a sociedade delega a tarefa de traduzir valores. desejos e propósitos coletivos na ação social e as organizações substituem progressivamente ou contaminam formas comunitárias de agregação (naturais. Sob esse ponto de vista. espontâneas ou moldadas pela tradição): as igrejas não contam mais somente com a Providência ou com a generosidade espontânea dos fiéis para angariar subsídios. teria gradualmente substituído outros modelos de administração graças à sua intrínseca superioridade técnica.

atribuindo a uniformidade local das condutas à adoção de paradigmas culturais idiossincráticos. existem algumas características essenciais do tipo ideal burocrático que tornam as organizações particularmente adequadas à classificação culture bearing milieux (“terrenos de cultura”. 2) esse sistema opera num território circunscritível. em seu célebre ensaio fundativo do neo-institucionalismo organizativo. Porém. não negaram nem a homologação das estruturas. a teoria da gaiola de ferro foi objeto de revisões críticas por parte de pelo menos duas correntes de pensamento. Como se sabe.Monografia da racionalização teria aprisionado a humanidade numa “gaiola de ferro”. no significado literal e metafórico da expressão). apagando as diferenças culturais e produzindo aquilo que o autor definia como “o desencantamento do mundo”. Por outro lado. das condutas individuais. mas atribuíram ambos os efeitos – em vez de à adoção universal da ordem da racionalização – à tendência das organizações de adotar cerimonialmente formas organizativas que encarnem mitos coletivos. os fundadores da chamada antropologia organizativa não negaram o efeito de enjaulamento mas contestaram a homologação cultural. Em primeiro lugar. é “individualizá- (108) . Powel e Di Maggio. nem o enjaulamento. mas por dinâmicas culturais locais. Características e desfiamento Quais são as características fundamentais – sob esse ponto de vista – do tipo ideal burocrático? A organização clássica é: 1) um sistema inevitavelmente hierárquico. Esta é a tese que vou sustentar. isto é. portanto. dentro do qual adensam-se as interações entre os membros da organização. As organizações orientam a vida individual e social – e condicionam sua qualidade – não em virtude da lógica universal da racionalidade. fundamentado em relações unívocas de supremacia e subordinação. e é a diminuição dessas características que – por reduzir a identificação com terrenos de cultura – reduz indiretamente sua força orientadora. 3) possui limites definidos (em sentido literal ou metafórico: sabe-se quem está dentro e quem está fora da organização) e.

conseqüentemente. Contudo. responsável (também quando adota a forma N: não por acaso os estudiosos do network falam de dupla rede – externa/interna – e de unidades de limite). (109) . e essa visão constitui uma premissa e uma promessa de imortalidade. as pertinências e os critérios de avaliação da ação. na forma N(etwork) os limites não são mais barreiras. porque é um sujeito distinguível do contexto e. não eram postos em discussão três princípios de fundo: 1) A empresa permanece a unidade-chave da ação econômica. que simplesmente explode o potencial comunicativo e interativo das novas tecnologias informáticas – tira da interação cara-a-cara o tradicional primado. centro e periferia descrevem espacialmente o sistema mas refletem ao mesmo tempo critérios de divisão das tarefas baseadas tendencialmente em dicotomias (projeção/ execução. alternativo ao mercado. a chamada empresa virtual – uma empresa totalmente real.Monografia vel” dentro do contexto no qual está situado. é sempre a hierarquia que marca as organizações como mecanismo de governo das transições. estratégia/operações). a delegação e a gestão para objetivos superam a dicotomia decisão-execução e problematizam a relação centro/periferia. desvinculando a organização do território. 4) conceitos como alto (nível) e baixo (nível). A organização staff-line rompe com rapidez o princípio de autoridade e introduz a dimensão ambígua da respeitabilidade. a organização clássica deve sua força à estabilização dos processos e à impessoalidade dos papéis (as pessoas passam. a organização matriz multiplica as dependências. 5) sobretudo. a organização divisional. a organização permanece). Uma rápida resenha dos principais modelos organizativos que se afirmaram no decorrer do tempo permite identificar os principais desdobramentos que eles introduziram na “gaiola de ferro”. mas membranas que conectam suavemente a empresa focal a um sistema operativo mais vasto. até tempos relativamente recentes. 2) as organizações formais permanecem intrinsecamente hierárquicas: porquanto moderada por mecanismos de participação que visam criar democracias. inovação/rotina.

idôneas. mais que os outros (que logo foram corroídos pelas ondas da reestruturação organizativa que se sucederam num ritmo cada vez mais acelerado na segunda metade do século XX) concorrem – com modalidades e por várias razões – para fazer das organizações excelentes terrenos de cultura. Pois bem. mas referem-se tendencialmente a todas as empresas que operam em ambientes caracterizados pela elevada incerteza e volatilidade dos mercados. um processo simbólico. que pareciam imutáveis. combinada com os contínuos processos de redefinição dos setores e segmentação dos mercados na escala regional e global. A máquina organizativa projetada racionalmente perde progressivamente a sua pureza: nenhum processo produtivo permanece exclusivamente tal. mas tornase. em consentir a flexibilidade e a rapidez de ação que o dinamismo dos contextos exige. porque favorecem o desenvolvimento do processo que Selznick definiu como institucionalização. também esses três princípios de fundo. a distribuição desigual do controle dos recursos acelera os processos intersubjetivos de tais sistemas de sentido. Esses três princípios. um modo de manifestar a própria visão do mundo. Esses processos são mais evidentes em setores como a microeletrônica. heterarquias. na possibilidade de sobreviver aos indivíduos que as compõem. com o tempo. a promessa de imortalidade favorece a idealização da tarefa – que de task torna-se mission – e torna desejável a identificação possível. A estabilização das rotinas permite e exige a definição de sistemas de significado aceitos como premissas e condições da ação coletiva. a comunicação digital. para sublinhar o (110) . a individualidade da empresa torna-a um possível objeto de identificação emotiva. Alguns estudiosos de organização definiram essas formas emergentes. e seu fascínio. as biotecnologias.Monografia 3) as organizações são feitas para durar: sua eficiência está na capacidade de estabilizar e otimizar rotinas. são hoje contraditos – de várias maneiras – pelas formas organizativas que as empresas tendem a adotar para enfrentar as extraordinárias incertezas derivadas da rapidíssima taxa de inovação das tecnologias.

Monografia principal traço distintivo: a minimização da hierarquia como mecanismo de governo das transações. A heterarquia A heterarquia – que de certo modo pode ser vista como evolução ou versão radical da forma N(etwork) – exprime uma lógica organizadora nova, que não a do mercado nem a da hierarquia. Lá onde o mercado implica com relações de independência e a hierarquia de dependência, a heterarquia implica com relações horizontais de interdependência. Nessas formas, a inovação é descentralizada e se refere virtualmente a qualquer unidade organizativa; cai a distinção entre quem produz um novo conhecimento e quem usufrui do conhecimento existente; a inteligência é distribuída e a tarefa de explorar (novos mercados, novos produtos, novas combinações produtivas) não é mais tributo de funções especializadas, mas é difundida em toda a organização; os recursos são constantemente recombinados e empregados numa pluralidade de escopos diferentes. Esses desenvolvimentos aumentam a interdependência entre as unidades e os grupos de trabalho, mas a interdependência não é administrada hierarquicamente através de mecanismos convencionais de coordenação, seja pela complexidade das relações, seja porque as tecnologias informáticas permitem conectar todas as unidades envolvidas na rede sem a mediação de controles centralizados: em medida crescente, portanto, não se refere (reporta, responde) a um superior, e sim a um outro grupo, numa condição de dependência mútua e circular. Tudo isto nada tem a ver com a idéia – muito em voga há alguns anos – dos mercados internos, na qual cada unidade considera uma outra unidade como um cliente. A heterarquia, de fato, rejeita a idéia de que o limite da empresa e os limites das unidades que a compõem sejam definíveis com base em parâmetros dados: a empresa reinventa-se constantemente e a tarefa do management é a de criar os espaços e as condições organizativas dessa contínua reinvenção. A possibilidade de contar com as capacidades criativas dos clientes e fornecedores é dramaticamente aumentada pelas tecnologias digitais:

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Monografia os clientes podem tornar-se fornecedores e, em alguns casos (como nas comunidades online), gerar eles mesmos o produto, tornando impossível identificar e separar o que está dentro e o que está fora da organização: a inteligência é distribuída não só dentro do conjunto aproximativamente identificável – segundo os critérios tradicionais – com a empresa, mas através daqueles que estávamos acostumados a considerar como os limites da empresa. A autoridade distribuída não implica apenas que as diferentes unidades devam prestar contas uma à outra, mas também que possam coexistir no mesmo espaço social critérios de legitimação e avaliação das múltiplas prestações, às vezes contraditórios, porque refletem diferentes formas de justificação. Para sublinhar essas características de heterogeneidade, dinamismo e ambigüidade das novas formas e o caráter recursivo dos processos que as estruturam, utilizam-se – como sempre ocorreu na história da organização – imagens e metáforas extraídas de experiências cotidianas: fala-se de moebius strip organizations (aludindo a objetos que produzem um efeito ótico que impede distinguir o interior e o exterior), de bricolage (uma modalidade de resolução dos problemas que não recorre a teorias anteriores mas baseia-se nos meios disponíveis no momento, reutilizando criativamente “avanços” de rotina, procedimentos e sistemas organizativos), de collage, de plataformas, em vez de formas organizativas (para indicar que existe um conjunto de recursos humanos, processuais e tecnológicos reconfiguráveis de acordo com as circunstâncias), e por aí afora. A organização por projetos Se a heterarquia – como versão radical da forma N (Network) – renega a hierarquia e confunde os limites, ela não renuncia ao princípio da persistência e à ilusão da imortalidade, mas os reforça: se a empresa pode sobreviver aos indivíduos, a rede pode sobreviver a cada empresa. Conforme foi observado particularmente por quem estudou formas heterárquicas na Ásia Oriental, as empresas vão e vêm, nascem e morrem, enquanto a rede permanece. Mas o princípio da persistência é, por definição, negado por uma

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Monografia outra importante forma organizativa emergente: a organização por projeto, que nasce como empresa coletiva e temporária, destinada a morrer. Ao caráter episódico do projeto deve-se a sua força e a sua fraqueza. Na organização por projeto, a criatividade não é vinculada pela tradição e a ausência de um futuro a ser preparado permite e obriga a concentrar as energias no presente, mas é preciso inventar de vez em quando as condições da participação (da motivação, identificação e coesão dos membros) e desenvolver uma reflexividade pragmática, adaptando-se aos eventos e aprendendo pela experiência (presente, porque não existe passado), sobretudo quando o projeto nasce para enfrentar uma emergência. Essa ocorrência, observe-se, é cada vez mais freqüente. Existe hoje uma crescente interdependência entre fenômenos naturais, categorias sociais e programas de ação que a tecnologia permite delegar a sujeitos não-humanos ou a híbridos homem-máquina: isto aumenta a complexidade e, portanto, a vulnerabilidade e o risco de colapso dos sistemas sociotécnicos. Por este motivo, o estudo das catástrofes e da administração das emergências tornou-se um dos territórios mais promissores da pesquisa empírica e da reflexão teórica nas organizações: aquelas situações representam, de fato, versões extremas de eventos e processos que, do ponto de vista conceitual, não são diferentes daqueles que muitas empresas enfrentam ou ativam diariamente. A renascente supremacia das profissões Que se trate de heterarquias ou de projetos, essas novas entidades econômicas colocam novos problemas, que não atendem apenas à racionalidade instrumental dos modelos – logo não se referem somente aos estudiosos de organização –, mas possuem implicações sociais, políticas e jurídicas importantes. Basta pensar na necessidade de conciliar flexibilidade e responsabilidade: se a nova unidade de ação não é nem o indivíduo nem a empresa – entendida como sujeito dotado de personalidade jurídica – mas o conjunto fluido e precário que descrevemos, onde se situa a responsabilidade? Quem e como deve prestar contas, a

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a comunidade profissional é um grupo de referência ideal ao qual sente-se pertencer. O aspecto paradoxal é que definimos como comunidades reais aquelas que. a rede oferece finalmente um contexto que multiplica as ocasiões de comunicação. Hoje. exigem as certificações do Project Management Institute (a instituição internacional que codifica e rege as normas técnicas e deontológicas da profissão) e geralmente pagam a própria formação profissional. Mesmo quando essa prática é desenvolvida no âmago de grandes organizações. os project managers tendem a identificar-se mais com a profissão do que com a empresa para a qual preparam e administram as organizações temporárias pelas quais são responsáveis. mas para a maioria dos membros o sentimento de pertença não é sustentado por interações sociais de intensidade comparável àquela das interações que se estabelecem entre os membros de uma comunidade organizativa. e segundo quais critérios? É possível. Se estes conjuntos fluidos e precários não permitem a construção de sistemas estáveis de sentido. graças à rede.Monografia quem. (114) . Essa tendência já se manifestou em toda a sua evidência na área do project management. e como. Lêem-se as mesmas revistas. a chance mais comum de encontro são os programas de formação destinados à categoria profissional por institutos especializados. quem nos ajudará a construir (para usar uma eficaz expressão de Di Chiara) as couraças – emaranhadas porém indispensáveis – com as quais podemos nos defender de nossa ignorância do mundo? Minha opinião é que a ênfase retornará para as profissões e o pêndulo apontará uma renascente supremacia das comunidades ocupacionais sobre as comunidades organizativas. Um outro sintoma da renascente supremacia das profissões é o espantoso desenvolvimento das comunidades profissionais virtuais. que se tornaram possíveis pelas tecnologias de rede. alguns participam das atividades das associações profissionais. tradicionalmente. se são formalmente constituídas. Ou seja. tornam-se finalmente reais. tornar distinguível e responsável uma heterarquia? Mas retornemos ao nosso tema: a desorientação.

Mas nunca terá terminado de nos surpreender a capacidade da história de desmentir as nossas previsões sobre o futuro. Pasquale Gagliardi é administrador delegado do Istud. talvez. não podemos resistir à tentação de imaginar isto. Gostaria de concluir – como tinha iniciado – com uma cautela. Falamos de formas organizativas emergentes e de erosão marginal de instituições que possuem raízes antigas e solidamente ramificadas. de intercâmbio entre pessoas que exercem a mesma profissão em diversas organizações. e é mais provável (ou. é finalmente possível) que a pertença a uma comunidade ocupacional e a propensão para compartilhar os seus códigos técnicos e éticos prevaleça sobre a pertença a uma organização e a propensão para idealizar o papel e os objetivos. (115) . professor de Sociologia da Organização na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Católica de Milão e Secretário Geral da Associação Giorgio Cini. Contudo.Monografia de confronto.

os cientistas codificam as leis (116) . a tecnologia forças citadas será da informática molecular e o maum desafio e mufazem referência nagement evolutivo dará profundamente aos mesmos time based são hoje nosso modo de penmodelos cognitivos três forças enormes sar. Cercados por da biologia ou que possuem uma objetos. influencia tudo.Monografia O blur dos blur1: a convergência entre informação. Contudo. que ness e para a sociedade inteira. Temos todas as potencialidades captamos a evolução a partir para um longo boom econômico de um só momento. asCertamente essa temsim como aconteceu empreendimentos pestade de mudanças com o princípio da adaptáveis. e influenciam nosem viva ação. gamos aos poucos blur de todos os ainda não se tem a entender que a tempos. permitiram em seguida a evolugraças ao fato de que já nos be. moléculas das ciências existência autônoma e negócios. Paralelamente. to da vida média humana em A exemplo de Newton. Newton que Schumpeter denominou compreendeu o princípio da gales of creative destruction.biológico.delos matemáticos e físicos.ção para o desenvolvimento de neficiamos de uma nova onda armamentos e mísseis para se de inovações technology driver. vai produzir aquela gravidade. biologia e business Chris Meyer A information techCada uma das três As tecnologias nology. checriando o maior sas vidas. chegar à lua. gravidade pela queda de uma mas criará também grandes maçã e foi inspirado a criar mooportunidades para cada busi. hoje plena saúde. Permanece certeza de como elas evolução é um prino problema interagem entre si e cípio universal que de construir em nosso cotidiano. todos empresariais. o universo e para um posterior alongamen.

Estamos entrando numa nova era de evolução geral. A primeira é começar a prestar atenção e interesse nas biotecnologias. em tempo real. o fator tempo e a implementação da mudança tinham se tornado o imperativo dominante no pensamento business e na sociedade em geral. O instrumento da velocidade das informações. não a previsibilidade. Em suma. engenheiros e empreendedores estão aprendendo como aplicar as mesmas leis a tantos outros sistemas. adaptando-as aos respectivos ambientes. Ao mesmo tempo. a Information Technology. Já hoje. (117) . compreendemos que o tempo é um recurso muito mais escasso do capital financeiro. em nossos sistemas informativos ou empresariais usamos novos instrumentos ou modelos tomados de empréstimo da biologia. Absorvidos pela atividade diária. porque essas hoje já saíram dos laboratórios como tecnologias e ofertas comerciais e estão mudando radicalmente os modelos econômicos submissos a todas as nossas atividades. são muitas as vantagens que podemos extrair da convergência entre informação. Na década passada. ainda não pensamos na articulação de um novo sistema que assumisse como princípios não a estabilidade. esses novos instrumentos já estão prontos para as organizações que se adaptam de maneira mais eficaz às mudanças e à volatilidade dos atuais ambientes de business.Monografia da evolução. mas a volatilidade. biologia e business. nas nanotecnologias e nas ciências dos materiais. Nossa previsão para a próxima década não pode ser passiva. o return on time ainda não susbstituiu o return on equity como medida fundamental de business. Como segunda vantagem. torna possível a adaptação. Em particular. no qual o custo da mudança não é contabilizado como um custo extraordinário. Compreendemos que os empreendimentos precisam ser projetados de modo a se adaptarem ao time-aware management framework. mas a surpresa contínua. No final. o business continua a crer firmemente na estabilidade do management. não apenas a observam. A volatilidade econômica impõe hoje a necessidade de criar a empresa adaptativa. Contudo.

Lynn Margulis.) Chris Meyer é diretor do Center of Business Innovation Cap Gemini Ernst & Young. Parece que se fala de business. (Fig. = erro) (N. borrão. entre o orgânico e o inorgânico. ativos e conexos. quando os objetos são inteligentes. entre o que está vivo e o que não está. afirma algo bastante parecido: “O metabolismo faz parte da vida desde o seu início. não um teórico do management mas biólogo. Tudo referente ao “como se faz” está sujeito a mudanças no tempo. Ainda não concretizamos a afirmativa sobre a economia estar viva. manter e se auto-reproduzir”. A que nos levará isto? Os teóricos da complexidade falam de Adjacent Possible.T. o que mais pode acontecer? Em meu livro Blur. Creio que este seja o maior blur de tudo: apaga os limites entre aquilo que é real e o que é virtual. quando temos poder de manipular desde nossa saúde até a agricultura. as possibilidades que se tornam disponíveis. eu definia assim a essência da economia: “utiliza meios para satisfazer desejos”. tudo no plano molecular. de Boston (EEUU). de 1998. uma vez que ocorram eventos sucessivos. As primeiras células são metabolizadas: usam energia e materiais do exterior para produzir. (Notas) 1 Blur = mancha.Monografia e sim como uma normal voz de custo para construir o próprio negócio. (118) . Quando a biologia suplantou a física como modelo de pensamento.

nosso modo de viver os fenô. utilimenos estéticos. que Museu de Nizza. portanto. ilustra uma espécie irôeconômico. já há fruição da estética. sociedades algum tempo. seja mais interessante componente fundamental de passar através dela. produção e nunca existiram A estética. enquanto se pode ainda tentar mundo onde a estética pura era entender e explicar qualquer cultura aquela forma de essa nova circunscuida de si própria. os produtos. a estéà desorientação protica impura implica pondo modelos de com a desorientação como ordem. ou fazem parte do De fato. contaminados por sobre as quais iremos refletir outros processos. que são. a mercado. Neste momento. era essenParece.Para falar de estética. que especificamente cialmente finalidade em vez de opor-se estética? sem escopo.e discutir. tivos quanto comerciais. contemporânea. perPode-se repelir essa “orientadas”? deu alguns de seus situação em nome A desorientação conteúdos histórida pureza ou de uma e a sensação de cos que a definiam. lidade da estética. os objetos A obra de Ben Vautier no comprados e vendidos. será que lugar festação. Há arte decorrespondem à lógica do valor mais. produção que tinha tância histórica que Mas existe uma como modelo-chave caracteriza a cultura desorientação a contemplação e. na zarei uma série de imagens realidade.Há arte demais ria. (119) . porém. presumível universatransitoriedade tornando-se impura.Monografia Por uma estética impura Fulvio Carmagnola A arte fora de principais de maniAfinal. são um dos meios nica de “grito de dor”. tanto cogni.

“A arte em toda parte” provoca confusão e desorientação. entropia. que nos persegue constantemente. isto é. Este é um aspecto interessante para se refletir e discutir. incompreensível. ou melhor. de não estar no lugar certo. A primeira situação é caracterizada por grandes eventos que destroem os nossos frames de compreensão. A desorientação é também caracterizada pela percepção de uma violação. Não se está mais à vontade em termos cognitivo-antropológicos: os frames de referência do evento ao qual se assiste estão em desordem. a desorientação é uma situação caracterizada. cultural. No contexto estético. da sede em que os nossos hábitos culturais o confinaram. significa interrupção. que interrompe uma rede de conhecimentos previstos. Uma das origens da desorientação consiste no fato de que existe um escapamento do estético de sua sede natural. Para compreender a desorientação estética deve- (120) . por outros processos. significa interrupção. de desorientação. Então. Podemos dizer que existem duas tonalidades de desorientação: a primeira é a que nasce por descontinuidade. pela perda da confiança. bloqueio dos costumes que nos permitem fazer circular e fluir o sentido dos nossos processos culturais. de um murmúrio contínuo que nos impede de encontrar uma dimensão de compreensão. O sui generis é que aparentemente são os artistas que se retiram do estético. ao passo que a segunda é algo de ansiógeno. porém se confundem. na ótica psiquiátrica. antes de tudo. ambas as dimensões são extremamente freqüentes. São os artistas que dizem “basta” com a arte e a beleza – que não são a mesma coisa. queda. Essa obra diz o contrário: Il y a trop d’art [Há arte demais]. enquanto o mesmo terreno é invadido por algum outro. Isto produz uma sensação de não saber. delirante. a segunda. em uso pelos psicólogos e cientistas cognitivos.Monografia Estamos acostumados a pensar que a arte e a beleza são sujeitas a ameaças e que devem ser preservadas. Em nossa época. de uma incorreção e de um emergido estorvo. O termo breakdown. um evento improvisado. uma desorientação que deriva de uma espécie de rumor de fundo.

da estética e da arte. descobriremos a quase perfeita capacidade que o sistema de moda tem de citar os lugares tradicionais que orientam a nossa percepção do belo e da arte. continuamos a pensar no que responde aos cânones. coleção Spajani. A estética é um período singularmente breve de nossa história. Bérgamo) com uma fotografia da vitrine de Dolce & Gabbana na Via della Spiga. 1959.Monografia mos. No final do século XVI. O que choca é como a instabilidade dos nossos quadros de atribuição de significado daquilo que vemos deriva do fato de que as coisas não estão paradas e que as imagens passam de um território para o outro. se observarmos a foto da vitrine da Dolce & Gabbana. do “alto” da arte ao “baixo” das culturas mediais. porque os pontos de referência que fixam e formalizam os cânones da estética moderna cessam de ter validade para a compreensão dos fenômenos estéticos do presente mais ou menos por volta da Segunda Guerra Mundial ou no máximo uma década mais tarde. Quando nasce e como evolui a estética A esta altura podemos tirar algumas considerações sobre o que era a estética e no que ela se transformou. Enquanto olhamos o quadro de De Chirico. durante o período natalino de aguns anos atrás. Observemos algumas datas: nasce em torno de 1700. e que desviam continuamente as nossas possibilidades de situá-las num ponto preciso. mais ou menos quando começam os fermentos da Pop-Art. nas primeiras décadas do século XIX. então inventados. Este é um caso de desorientação. Mas ainda que se tenha encerrado. de dar a elas a atribuição determinada. com A Crítica do Juízo. Kant obteve o grande mérito de de- (121) . então. os nossos frames estão estáveis. procurar entender o quanto nos afastamos daqueles lugares que fundamentaram a nossa idéia do que é o belo e do que é a estética. em Milão. de Kant. singularmente breve. Por outro lado. sua posterior sistematização acontece com a Estética. de Hegel. Logo. De Chirico & Dolce e Gabbana Confrontemos um quadro de De Chirico (Natureza silenciosa. é consagrada por volta de 1790.

Kant observa que a capacidade de julgar o belo deve se tornar independente. Os rumos que a nossa cultura estética tomou são fortemente centrífugos em relação a esses cânones. A junção beleza-estética é um dos nossos mitos e é o mito de um território elevado. Lateral. intangível. mas que continuamos a utilizar como se funcionassem. e com essa operação libera a beleza e o gosto enquanto.Monografia finir o belo e nos tornar conscientes da nossa faculdade de interpretá-lo. por uma nuvem de noções tais como beleza. que indica ao mesmo tempom. Herdamos um conjunto de pontos de vista potentes. que foram criados naquele lugar da história e se tornaram trans-históricos. seja pela capacidade cognitiva. através do gosto. o mito é dominado por algo de não-conceitual. Hegel. os nossos quadros conceituais. Esse gosto é universal mas não pode ser conceitualizado. por sua vez. deve valer para cada um. (122) . pois. porém. O filósofo americano Arthur Danto exprime essa situação histórica com um termo muito interessante. Usa a palavra enfranchisement. Quando. O gosto é a capacidade de discernir o que vemos no reino do sensível –o estético em sentido lato –. espaço separado da estética. fala de obra de arte e diz. livre. Ele fala sobretudo de belo natural e não de obra de arte. continuamos a usar quadros criados e inventados numa certa situação histórica e cultural. como se essa situação fosse imutável. franquia. mas codifica pela primeira vez a faculdade de discernir o belo. seja pela capacidade ética. alguma coisa que possui algumas características dificilmente codificáveis. das normas do verdadeiro e do bem. falamos de estética. ao mesmo tempo. quando não caem. oscilam: a arte os trai. numa distância de 35 anos. isto é. símbolo e imaginação que não funcionam mais. subtraído do cotidiano. porém uma espécie de recinto. algo que abala: “a arte já morreu”. a publicidade os confirma e o comércio os cultiva. constrói ao redor dos fenômenos estéticos uma espécie de recinto. Uma espécie de reserva indígena. mas não pode valer indiferentemente para todos. eternizaram-se.

a presença física dos objetos. invade o território da estética. A intrusão do estético no mundo cotidiano e das mercadorias possui algumas grandes chaves-mestras: o sistema da moda. não permanece no território livre. por outro lado. fenômenos de hibridação. Estetização do mundo da vida Há anos falamos de estetização do mundo da vida. do design e em geral o sistema das mercadorias. dos produtos. extensão. ou a quota do imaginário que os produtos encerram em si mesmos. ele agora apresenta outros. não somos capazes de destiná-lo a um domínio. é uma fonte de valorização. Quando vemos a vitrine de Dolce & Gabbana. Ora dá-se o caso que a arte não é mais esse território privilegiado e escapa da própria autonomia. isto é. por um lado. dado um visível. A estética não está em seu lugar. pois. porém em cercado que a modernidade lhe tinha reservado. O fetichismo é uma fonte de criação do significado. dimensão cada vez mais especializada. que entram nas retículas da valorização e produzem formas de economia que podemos chamar economia do simbólico. A economia do simbólico é (123) . não funciona mais o mecanismo de atribuição de sentido. Em outras palavras. dos processos imateriais de produção do valor. de frame ou de contexto imediato. ao elemento estético. Ocorrem. afirmada num determinado período da modernidade.Monografia Um exemplo de direção centrífuga: o visível não basta a si mesmo. ocorre que cultivamos esta associação: o reino do estético por excelência é o reino da arte. A esfera econômica alarga-se até o simbólico. A economia. O artefato artístico não apresenta mais os caracteres típicos da esteticidade. da presença física dos artefatos. Este é um dos sistemas mais interessantes e realmente confusionais do presente. é um sistema de valores do imaginário economicamente avaliáveis. intrusão e deslocalização do estético. é a atribuição a um objeto de algo além de seu valor de uso. que produzem desequilíbrio. torna-se gestão do imaterial. Por outro lado. A economia do simbólico A estetização do mundo da vida refere-se também à economia.

assumir uma atitude de compreensão e de fruição crítica dessa circunstância: a economia do simbólico produz ocasiões de sentido e de significado. passar através da freqüência da mercadoria sem necessariamente cair presa do fetichismo pleno é uma chance para se produzir e preservar o sentido. O estético torna-se um componente estrutural da mercadoria. Mas o que é o curso do sentido? É a situação dos frames habituais. para que um novo seja produzido. portanto. impuros. ou pode-se adotar uma atitude “pós-moderna” e dizer “é preciso entrar no meio disto”. deslocamento ou oposição possa ser produzido. interrompido. pode-se assumir uma atitude crítica que leva a um afastamento. permeia horizontalmente o nosso universo do cotidiano e isto é fonte de grande desorientação. Então.Monografia uma circunstância cultural pela qual a produção e a fruição de símbolos e imagens passam do plano expressivo. compreendemos e dentro das quais estamos pacificados. Seria melhor. exaltemos o fetichismo da mercadoria e imerjamos sem nenhuma distância crítica” – nesse aspecto. por essa razão. A produção de sentido é. (124) . Existem várias atitudes a serem tomadas em relação a essa questão: por exemplo. por excelência. rejeitá-lo. livre e independente para o plano dos processos de valorização econômica. Frame e breakdown O filósofo francês Jean-Luc Nancy afirma: “O curso do sentido deve ser suspenso para que o sentido tenha lugar”. incertos. entendemos. Estudar o mundo da moda e do design é muito importante para entender como os sistemas de formas e significados fogem do seu lugar de origem e vão se posicionar nesses outros lugares. pode-se dizer que o mundo da beleza está comercializado e. a década de 1980 foi de grande importância. um fenômeno de descontinuidade. na desorientação programática desse curso pacífico: o sentido – entendido como senso comum – deve ser suspenso. espúrios. posto na espera. para que algo de novo por diferença. “mergulhemos no mundo das mercadorias. de desorientação. O trabalho do sentido consiste exatamente na suspensão. porém. o curso das coisas que estão bem em seus lugares e que. pois.

Monografia precisamente um breakdown. Creio que a arte faça isto há muito tempo, desde a época das vanguardas, ainda que se discuta como o faça. O singular, porém, é observar que também a mercadoria, também a comunicação ligada à mercadoria, como a publicidade, é capaz de criar breakdown trabalhando na suspensão do curso do sentido. Temos, portanto, um panorama transversal, no qual essa confusão de domínios pode ser vivida como uma definitiva apropriação do mundo da beleza por parte do mundo do capital, das mercadorias, ou um alargamento interessante e certa desorientação da noção tradicional de estética. Que seja visto como cenário apocalíptico ou não, enfim a situação é muito complexa: o sentido circula continuamente numa dimensão ao mesmo tempo vertical e horizontal, nos vários domínios que vão do mundo “alto” da cultura e da arte ao “baixo” das mercadorias. Circulando continuamente, esse sentido produz continuamente hibridações, pensamento, nos faz pensar. Motel Vilina Vlas Para acentuar o quanto estamos distantes do ponto em que partimos, a estética da modernidade, gostaria de comentar uma obra de arte recente. Tr a t a - s e d e u m a o b r a d e Dennis Del Favero, Motel Vi l i n a V l a s , d e 1 9 9 9 , q u e mostra, por um lado, como o objeto artístico pode englobar literalmente um texto, sendo intrinsecamente logos e figura visível e, por outro lado, que a obra não funcionaria se não houvesse esse texto. O título desta obra refere-se a um lugar da Bósnia onde foram encarceradas algumas dezenas de mulheres bosnianas. A obra era apresentada da seguinte maneira: um imenso salão, paredes brancas, 12 f o t o s e m c i b a c h ro m e , n a s dimensões aproximadamente de 70 x 100 cm, tons de azulda-prússia. Representam detalhes de corpos humanos, de maneira pouco pornográfica ou representativa. Podem ser pedaços de pele, porém, detalhes imperceptíveis, não se vê que parte do corpo retratam. Sob cada uma das fotos há um texto, uma frase. O expectador as lê e aqui produz-se o choque que torna significativo o visível: trata-se da confissão de um dos estupradores, ex-

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Monografia traída do depoimento durante o processo. O texto das 12 frases recita: – Tínhamos atacado a cidade durante semanas inteiras (primeiro quadro). – Naquela noite finalmente a capturamos (segundo quadro). – As mulheres feitas prisioneiras foram levadas ao Motel Vilina Vlas (terceiro quadro). – Entre elas também estava a minha noiva, Nina (quarto quadro). – O comandante passou em revista as mulheres (quinto quadro). – Disseram a elas que nós tínhamos um código especial, há séculos antigo, em nossos genes (sexto quadro). – Elas tinham sido escolhidas como veículos para purificar a nossa mãe-pátria (sétimo quadro). – Apesar de minhas súplicas, meu irmão recusava-se a participar (oitavo quadro). – Foi castrado e em seguida fuzilado (nono quadro). – Fui o último a possuir Nina (décimo quadro). – Afastei-me dela cambaleando (décimo primeiro quadro). – Meu coração transformou-se em pedra (décimo segundo quadro). Contaminação e desorientação Gostaria de acentuar algumas características que nos fazem refletir. Os quadros visuais são não-evidentes, violam uma das condições de evidência da obra: vêem-se pedaços de corpo, mas nunca a forma ou a integridade de uma figura perceptível ictu oculi, completa. Então, essa condição de incompleta visibilidade corresponde a uma das condições extremas do estético que já tinha sido intuída por Kant, exatamente a condição do sublime. O sublime representa o desastre da imaginação, a nossa impossibilidade de reconduzir os fragmentos do visível à unidade da forma, à demonstração de algo exorbitante, terrível. Em segundo lugar, o texto (lingüístico) é parte fundamental do choque (poético), portanto faz parte do estético, mas insinua-se no visível e o desorienta. A condição estética se torna impura, contamina-se, mas se enriquece, até porque vai além do cognitivo, enquanto a beleza, a serenidade da obra — que era a dominante em sua condição tradicional — desaparece. Essa é a condição de produção e de exercício da estética.

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Monografia Impura. Transbordante. Confusa de um lado, com o domínio das mercadorias, e de outro, com o mundo mais abstrato dos conceitos. Condição de desorientação, mas também de maior riqueza, em que o artefato é ocasião complexa de compreensão do presente.

Fulvio Carmagnola é professor de Educação Estética na Universidade Bicocca de Milão.

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que significa que mais ou mee m v e z d e a d o t a r u m a l i n . o Chacrinha. em vez de se comunica. à melhor das pessoas expressões que cantora. de “lésbica”. o primeiro perguntava ao seu 1970 e 1980. ele utilizava assistiam ao seu programa. Esse homem criou exBarbosa. por sociedade capitalista Nos anos de 1960. usar gravata. no a falar de lésbicas espelho: “Existe Brasil. vestia uma incrível audiência de 70%.Abelardo oferecia um prêmio c i d a d e d e c o l o c a r n a b o c a ao melhor cantor. resol. se fossem ruins. desorientou-a. era muito acadêmica referência a mulhe– tratava o espectares de pés grandes. o programa de informal. como v e u f a z e r u m p r o g r a m a d e a célebre máxima: “Quem não auditório no qual. homem que fez uma alguém mais bela do Chacrinha criou um que eu?” A resposta revolução na televieufemismo: em vez do espelho. no 11 são brasileira. Ele foi. como todos os Em 1981.nos 35 milhões de brasileiros guagem formal. viveu um n a T V. exemplo. à meninguém imaginaria possíveis lhor atriz e ao melhor cineasta. usou de setembro 2001. bons. (128) . ao melhor ator. No final dos anos de 1960. dor como se ele fosse um an. se trombica”.Monografia A dúvida como estética Washington Olivetto Organizar e na linguagem televiA estética da desorganizar siva. Se estes fossem casa das pessoas. P a r a i s s o .Ele fazia canções. brincadeicião e como se ela tivesse de ras e apresentava os chamapedir permissão para entrar na dos calouros. seu programa teve a apresentadores. a palavra “sapatão”. Ele tinha a capa. fazia soar uma um homem chamado Abelardo buzina. o fantasia diferente a cada vez. dizia que teriam futuro. Esta. u m a l i n g u a g e m t o t a l m e n t e Todos os anos.pressões espetaculares. até aquele momento.

arteiras por natureza. eu não posso bagunçar”. várias regras. várias direções. Todos. mas. com sua habilidade de inventar brincadeiras. Mas. Vamos tentar definir Arte: é a capacidade encantadora e maravilhosa que o homem tem de pôr em pratica uma idéia. Chacrinha jogava comida e objetos às pessoas no auditório e fazia muitas piadas. ou seja. valendo-se da capacidade de dominar a matéria. que imita a arte. A arte como a vida A idéia da desorientação da estética pressupõe que falamos da Arte. Mas podemos também dizer que há vários sentidos. de qualquer maneira. porque. para serem quebrados. de sentido. decididamente acham que a arte criativa não pode estar separada do trabalho nem do aprendizado. destruídos. Ser artista é ter a capacidade de produzir vida em busca de uma direção. em verdade. naquele ano eu ganhei esse prêmio. para torná-lo mais amplo. Portanto. Como quando a gente se encanta com as crianças. Podemos comparar esse raciocínio a uma galeria de arte ou ao mundo. de regra. como eu. podemos chamar a desorientação da estética de uma falta de direção. Tanto os pós-modernos quanto os pseudomodernos um pouco espirituosos.Monografia Eu não sei por que ele resolveu premiar também o melhor publicitário. E lá fui eu recebê-lo. A partir dessa minha musa inspiradora. A era das incertezas A idéia de Domenico De Masi sobre a redução da presença do corpo no trabalho e sobre a expansão do cérebro é fundamental. antes de seu início. de ser arteiro (e não artista). Tudo o que mexe com a estética. E isso pode se tornar uma discussão pós-industrial ou pós-moderna. obviamente. ficando muito impressionado com a organização de seu programa – quero dizer. acho que estamos falando da vida. Antes de começar a apresentação naquele dia. eu começo a reflexão sobre a desorientação da estética. durante. Abelardo me disse que gostava de ter tudo organizado e perguntou: “Você sabe por quê? Porque eu entro e desorganizo! Se não está organizado. mexe com tudo. Só tem um problema: (129) .

a revista Wallpaper. de não ser tempo. os homens-bomba podiam invadir a cabine de um avião. a ponto de parecer separado. sua idéia de invulnerabilidade criou sua vulnerabilidade. Com um pedaço de faca. mas antitempo. e com elas caíram os ideais de consumo. cordão. quanto para o mal. este já estava se realizando em outras velocidades. o mecenatismo. pois essa é muito mais ampla e mais abrangente. Quem eram os homens-bomba? Eram representantes de grupos com uma ideologia própria. O que foi derrubado naquele dia. em Nova York. é que as próprias características do neoliberalismo americano criaram sua fraqueza. Porque tudo isso estava “cercado” pela política externa americana em todos os lugares. O tempo dos supersônicos se fundiu com o tempo das cavernas. e isso causou espanto. etc. de não se medir. além do World Trade Center? As torres eram um símbolo. O elemento novo nessa forma de desorientação estética. O compositor brasileiro Tom Zé disse uma frase muito interessante: “A gente não está vivendo o tempo da globaliza- (130) . o design. Fizeram os americanos entenderem que eles não eram indestrutíveis. O mais interessante de tudo isso é o seguinte: na época em que De Masi brilhantemente pensou o ócio. Como aquela rainha que se olhava todos os dias no espelho e perguntava: “Existe alguém mais bela do que eu?” Até que um dia o espelho disse: “Branca de Neve”. do que se acha bonito ou feio: a sacola da grife Giorgio Armani. e acabaram com as crenças da sociedade capitalista ocidental. Esse feito gerou uma nova topografia do pensamento em um lugar muito interessante.Monografia pode ser usada tanto para o bem. como estilete. política. com sentido e sem sentido. a teoria quântica. Tal discussão sobre o que se fazer no tempo livre foi pega de surpresa no dia 11 setembro de 2001. ponta de caneta e pedaços de faca junto às mais sofisticadas tecnologias fosse possível criar um elemento totalmente desorientador: o homem-bomba. Nunca se pensou que. usando-se materiais primários. geográfica. antimatéria. a ponto de não ter tempo.

em 1922. percebeu que o objeto pintado não deve ser olhado de um só ponto de vista. obtém-se uma imagem multifacetada. felizmente sem nenhuma tragédia. e produziu um Bin Laden brasileiro chamado Macunaíma. o ponto e a linha de Kandinsky foram pintados assim. é possível que estejamos vivendo um dos momentos mais criativos e mais interessantes da história da humanidade. Essa certamente é uma mudança na estética. Uma nova ordem é sempre precedida de um estado de anarquia.000 ex-yuppies e parentes das vítimas do episódio do World Trade Center agora querem morar em Nova York. Delaney percebeu isso com o simultaneísmo e o futurismo. depois de conhecer a arte africana. Aí volta o nosso Chacrinha. um herói sem caráter algum. A Semana de Arte Moderna de 1922 gerou a antropofagia cultural. pelo contrário: fazendo-se várias voltas. (131) . e 6. E a música de Erik Satie também surgiu de observações desse tipo. caos e ordem. falam disso. que dizia: “Eu organizo tudo. Nessa confusão. Alguns filósofos. É interessante. Curiosamente. Cientistas e artistas sabem disso há muito tempo. Esse movimento se baseava em uma liquidificação antropofágica das culturas do mundo.Monografia ção.” O jazz no fundo das nossas almas Dentro disso. tendo cavernas supersônicas que são apartamentos de alto luxo por dentro e açougues por fora. mas o tempo da globarbarização”. o tu e o ele estabelecidos têm agora de se repensar e se recompor para identificarem novas pessoas desse novo sistema que nomeia e cria conceitos do belo e do feio. que era exatamente assim. podemos imaginar que essa é a ordem do próprio universo: cataclismos e reorganizações. Gostamos da desorientação na estética: percebê-la já é uma maneira de superar a própria desorientação. porque é o tempo das cavernas supersônicas: o Bin Laden vive em uma caverna de alta tecnologia. porque se não estiver organizado não dá para desorganizar. como Felix Guattari e Gilles Deleuze. Deleuze fala da criação da quarta pessoa do singular: o eu. Picasso. isso aconteceu no Brasil.

Talvez estejamos inaugurando um novo período. e a tarefa é integrar o sentir e o pensar. Reconhecer essa instabilidade é deixar fluir o jazz que existe no fundo das nossas almas. Curiosamente. felizmente. O que acontece é que o criativo não é bom ou mau. temos de lembrar que há ainda a quarta pessoa do singular: alguém que resolve ser uma bomba eterna. que nos indica a dúvida como estética. nem belos nem feios. da não estabilidade. aquela ordem aceita pelos totalitaristas que fundamentou impérios. Acho que estamos em um momento em que se faz necessário pensar que não somos nem bons nem maus. Então.Monografia Ou seja. (132) . que é o essencial. dentro desse critério. Até que a estabilidade fique chata de novo e seja quebrada outra vez. antes de as Memórias. Citando De Masi. novos fatores. antes de imaginar que todo o mundo encontra-se coeso na idéia da sobrevivência. Como o Deus judaico-cristão: Deus é bom? Deus é mau? Deus é bonito? Deus é feio? Não: Deus é Deus. para gerar uma nova pseudo-estabilidade estética. fascismos. Nós somos feitos exatamente das mesmas partículas de carbono. não o era. Quanto mais a gente se aproxima das diferenças. também poderíamos pensar. essa nova estabilidade estética é principalmente a constatação do efêmero. Mas. Primeira constatação: nessa nova estabilidade não existe estabilidade. “o que difere um sonhador de um criativo é a capacidade que um criativo tem de concretizar a fantasia”. da multiplicidade dos sensos. Mas não é bem assim. mais importante que superar a desorientação é saber conviver com ela e saber se aproveitar dela. que Hitler era um criativo e Proust. Não existe. hamletiano. como muitos já perceberam. radicalizando. incorporando novos pontos de referência. mas as duas coisas ao mesmo tempo. Existem bancos cujos investimentos se baseiam no ecossistema e na economia auto-sustentável. tão mais a gente se aproxima de um denominador comum. mas apenas o que cria algo do nada. Não existe lugar no espaço para tal coisa. despotismos: isso terminou.

de um lado. Isso que eu tento buscar em meu trabalho é a capacidade de surpreender. A publicidade é vista. não manifestando opiniões. para isso. busco uma publicidade que seja visivelmente atrelada à cultura popular. da Inglaterra e dos Estados Unidos —. A primeira coisa que se deve pensar é que a publicidade não é arte e não é manifestação de opinião: é a manifestação da opinião dos produtos. acaba por exacerbar os preconceitos contra ela. como uma atividade extremamente criativa. de perceber as coisas de uma maneira jamais antes percebida. mas. eu desconheço qualquer moda que tenha sido ditada pela globalização. de raciocinar de forma inversa. como um dos males do capitalismo — coisa que não acho que seja — e. aos 50 —. fazendo esse trabalho no Brasil. E. Então. é fundamental fazer um trabalho brilhante e. mas pode estar colada no pára-choque posterior da vanguarda. porque a primeira busca da publicidade é pelo entendimento. Em 1986. No trabalho que venho tentando desenvolver na minha vida — dos 18 anos de idade até hoje. a publicidade. é preciso pensar também na estética do próprio negócio. Eu acredito sinceramente em conceitos globais voltados para a comunicação local. (133) . de olhar o outro lado das coisas. por outro lado. A partir disso. Em alguns lugares é visivelmente mais bem-feita — caso do Brasil. Mesmo não sendo arte. é muito mal desenvolvida e. com uma cadeira para mim na mesa de cada pessoa que trabalha na empresa. o que a arte não busca em princípio. ela utiliza componentes da arte para se expressar. a publicidade não pode ser vanguarda. na maioria dos países. ela não pode ser vanguarda. o presidente da empresa — e que os espaços seriam todos abertos. muito pretensioso.Monografia O que é a publicidade? Esse discurso. é a base para eu falar da atividade da qual eu entendo um pouco. Trabalhar numa empresa pós-industrial Em meu ramo de atividade. por esse motivo. quando criei a W/Brasil. Também não acho que chegue a tanto. eu decidi que nós não teríamos salas — nem mesmo eu.

da música. em que todo mundo está trabalhando: mando parar tudo para servir sorvete a todos. Quando ele fala que a publicidade italiana é um monte de lixo com um pouco de Chanel borrifado por cima. Então. a agência conseguiu manter a tal matéria-prima. É como se uma determinada frase ou imagem não pudesse existir se não estivesse ligada especificamente àquele produto. tendo a concordar. Mas não tem de ser necessariamente assim. Em uma publicidade bem-sucedida. Eu faço isso claramente nos momentos de alta tensão na empresa. Eu tendo a concordar com ele. apesar de gostar muito quando meus colegas publicitários elogiam meu trabalho. sem dúvida. temos de ser responsáveis. Por essa razão. da arte. mas sim que o próprio produto a gerou.Monografia Assim. Ta m b é m d e c i d i m o s q u e a condução do que eu chamo de “astral” seria outro ponto importante. tomou outro caminho. a alegria. Naqueles três meses. faz parte de uma coisa que eu quero. Nós trabalhamos com o dinheiro de terceiros e. ao contrário da moda. Festival e premiações são insignificantes se comparados à reação do público. nos faz prestar atenção no universo das possibilidades e novidades (134) . que gosto de fazer e deliro fazendo. Isso faz parte do nosso negócio. Oliviero Toscani considera publicidade uma atividade muito ruim. do design. de cadeira para cadeira. E ando pela agência. mais importante até do que a administração da caixa. eu não tenho uma sala: tenho cadeiras. porque a publicidade italiana. dizendo que liderar é saber a hora de servir o sorvete. eu poderia trabalhar com elas. parece que não há autores. Minha atividade só pode ser uma destas duas coisas: absolutamente adorável ou totalmente insuportável. é que eu gosto mais ainda quando uma dona de casa comenta o meu trabalho. Essa reação é fascinante porque nos indica o caminho. Eu fiquei muito impressionado com meu grupo no período em que eu estive afastado da agência por motivos de força maior. Eu brinco com isso. e essa é a nossa busca. mas é fundamental gerenciar um componente básico que é a matéria-prima de nosso negócio: a alegria. da literatura.

Em meio a isso está o que chamo de “politicamente saudável”. a falta de educação é inadmissível. Washington Olivetto é publicitário. (135) . Fundador e presidente da W/Brasil. Recebeu 54 Leões no Festival Internacional de Publicidade de Cannes. por outro lado. mas.Monografia que existem. na política ou em qualquer área. uma declaração de amor à vida que tem de existir em qualquer orientação ou desorientação na estética. na economia. Acho o “politicamente correto” muito chato.

escreveria condição normal que hoje existe uma da aventura. e que os intelectuais não Modalità liquida. Julgamento um tanto “Interrupção. (136) . com a minha análise sobre com o mesmo rigor atenção nos longos a desorientação. crítica. s e s u r p r e s a s ã o a s c o n d i ç õ e s quiséssemos bancar os oposinormais da nossa vida. com que havia disperíodos e no porque estamos distinguido a primeira equilíbrio global.mercado e de quem o govertrodução do livro de Bauman. na economia à Gostaria de começar exatamente como desorientação na com uma pilhéria tinha feito na décapolítica. sou ajudado pela in. o mercado nos obriga como sempre. tores de plantão. a repensar uma isso. da história e da segunda traição dos clérigos.dúvidas e de perplexidades. na. sobre a da confiança na “Estamos em um perelação entre a proonipotência do ríodo de transição. que começa possuem nenhuma capacidade com uma frase de Paul Valéry: crítica. dução intelectual. poderíamos pois. a mente humana dominar ir até à livraria e descobrir aquilo que criou?” facilmente uma enorme proSe ainda fosse vivo. economia humana. que a profissão do intelectual Por outro lado. atenta. e outra.” Dito poder e o mercado. incoerência e s e v e r o d e m a i s p o r q u e . muito outro Tradimento dei chierici. Pode. posso concluir E provavelmente. A crise de Ennio Flaiano: da de 1930. carregada de adaptando-o às circunstân. para entender está ligada às orientações do melhor. cutindo sobre uma pesquisa. experiDa desorientação intelectuais mentando indagar.Monografia A governança da desorientação Antonio Calabrò A traição dos cias atuais. Benda dução intelectual que é absoprovavelmente escreveria um lutamente antagônica.

confinada num canto. mas em busca de orientação. político e sociológico sobre quais são as condições do mundo em que vivemos e sobre quais são as regras da transformação. mas também parte da católica. penso em Daly. Sviluppo sociale e dignità umana. sob esse aspecto. que nos lembra a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento em geral. uma consistente reflexão crítica e autocrítica do pensamento econômico. Lo sviluppo è libertà e Globalizzazione e libertà. em um jogo de inter-relação muito bom. da governança da globalização e de como as empresas podem estar no mercado levando em conta a complexidade dos fenômenos em que estão inseridas. Reúne uma série de ensaios encomendados pelos jovens empreendedores da Confindustria. ou desde a metade da década de 1990. assim. não somente uma larga fatia da cultura liberal. Ele coloca o problema da globalização. por ocasião de uma convenção em 2001. Por outro lado. mas também ao conjunto das questões ligadas àquela pas- (137) . muitas contribuições excelentes para nos mostrar que está em curso. mas bastante crítico. ou também nos últimos dois livros de Bauman. Martha Nussbaum. ou os últimos dois livros de Amartya Sen. recuperando. Lo sguardo dell’altro significa uma atenção particularmente solícita. aquele “è” faz coincidir os mecanismos do crescimento econômico e do desenvolvimento em geral com os sistemas de liberdade. não apenas às grandes categorias da economia. Existem. No primeiro. Alguns títulos: o texto de Stiglitz sobre o mundo imperfeito (não por acaso Stiglitz ganhou o Nobel por isso). insistindo na passagem do conceito de indivíduo para o de pessoa. Não citei autores italianos para não arriscar facciosidades estranhas ao debate muito vivo sobre os alinhamentos intelectuais. Também a ex-mulher de Sen. em suma. desde antes do 11 de setembro.Monografia desorientada sob certo ponto de vista. escreveu um livro bem interessante. infelizmente deixada. porém gosto de relembrar um livro que havia marcado o crescimento da consciência do mundo econômico em relação aos fenômenos críticos da globalização: Lo sguardo dell’altro.

Monografia sagem. as regras e os reguladores é fundamental. de outro modo. de crise na Nasdaq. de confronto comercial Europa-EUA. como se mover em (138) . mas dentro dele não existe uma série de coisas importantes como. porque. Um conceito impactante. Eis uma diferença fundamental. certamente. que nos permite uma reorientação: mede-se o crescimento pelo PIB. de desenvolvimento sustentável e por aí afora. de indivíduo a pessoa. Para entender melhor. na qual dizia que o Gross Domestic Product (GDP). basta pegar nas mãos uma bela análise de Bob Kennedy. é um raciocínio sobre as regras e também sobre os reguladores. de extrema atualidade ainda hoje: exatamente aquilo que a ONU chama de “desenvolvimento humano”. não conseguiremos mais raciocinar sobre os mecanismos de desenvolvimento. mede muitas coisas. Esse discurso sobre a governança. por exemplo. Então. da metade dos anos de 1960. mas que dentro de GDP também estão os proventos da indústria pornográfica e da indústria de armamentos. citada por Nussbaum. Palavra-chave: governança Há uma palavra-chave naquela coletânea de ensaios. poderemos. que ocorre um pouco por toda parte: governança. mas que centralizava uma questão fundamental. falar dos mecanismos de crescimento. isto é. como a capacidade de gerar riquezas. o PIB norte-americano. Governança não significa apenas “governo”. as instituições e o mercado. as diferenças de desenvolvimento dentro de cada país. no máximo. sobre todos os atores sociais que têm a ver com os poderes. ou seja. de sujeito econômico a titular de direitos. de Corte penal internacional. os resultados de uma série de negócios e transações dos quais a população não pode se orgulhar. enquanto ficam fora do GDP grande parte daqueles elementos que – segundo Kennedy – fazem o norte-americano sentir orgulho de seu país. se falamos de déficit público. cujo “índice” foi definido com a contribuição de Sen e de Nussbaum. A palavra governança é aquela que melhor nos ajuda a entender os fatos que lemos diariamente nos jornais.

mas o conflito radical não existe mais. o tema da desorientação? O final da história Para entender melhor. Assim. de uma reproposição ideológica da função de elementos (139) . de fato. justamente no momento em que caem as ideologias. que é considerada um fenômeno positivo. único modelo vencedor. estamos diante de uma dimensão pacifista do desenvolvimento. a democracia liberal de mercado se afirma como modelo vencedor. Recupera-se até o fio do pensamento thatcheriano. é preciso retroceder um pouco. o mercado coloca as coisas nos seus lugares e a política deixa de ter importância. também não nos adianta a sociedade civil. porque é aquele que libera mais energias e serve de referência para as ambições. porque permite um crescimento e um desenvolvimento maiores. Quando cai o Muro e define-se esse m o d e l o v e n c e d o r. no mundo inteiro. h á u m a grande festa feita pelos vencedores.Monografia direção ao desenvolvimento e como enfrentar a questão da governança? Como enfrentar. até 1989. mas também para os mecanismos de emulação do resto do mundo. termina o equilíbrio bipolar. A política. produtor de conseqüências boas para todos. Cai o Muro de Berlim. Em meio a essa euforia. discute-se muito sobre o final da história: termina a história dos conflitos. porque mais forte. segundo o qual a sociedade civil não existe e registra-se o triunfo do mercado. Em suma. da economia e. a política não adianta mais para nós. isto é. então. o triunfo da globalização. O mercado pode regular tudo com a sua mão invisível. os sonhos. incontrolável. o capitalismo tecnológico avançado se conecta aos instrumentos da democracia. e começa a euforia ligada à capacidade espontânea dos mercados de criar riqueza. porém com um fio de desalento percebido pelos observadores mais atentos: o fim do inimigo põe em crise radical a identidade. aquela que conhecemos. os protestos. sob esse ponto de vista. é o sistema de mediação dos conflitos. ano-chave das transformações.

a amnésia difusa foi ajudada por alguns dos elementos negativos da comunicação: o excesso de informações mal selecionadas. com os sucessos de Reagan e de Thatcher. Infelizmente. juntamente com a história. tudo tem custo e preço. n u n c a d e v e r í a m o s n o s e squecer disso. isto é. da competição entre atores e da mediação entre as diversas posições e diferentes interesses. Nós a descobrimos agora. A segunda é que a economia é cíclica. caso a competição não tivesse regras e as tendências monopolistas (140) . a tecnologia da informação e a economia virtual – fosse o fim de uma condição estrutural da própria economia. devido a sua natureza. Há gerações que nunca viram uma recessão e pensou-se que a modificação das características de produção da economia – a internet. era como se a ciclicidade tivesse desaparecido. a tendência à falta de crítica na leitura dos fenômenos e o fastio com que são tratados todos aqueles que dizem: “Desculpe.” O terceiro elemento a ser lembrado é que os mercados precisam de regras: um mercado não é uma arena de guerra. toleram pouco a ideologia: ou seja. é a arena do intercâmbio. Na década de 1990. a atitude enganosa de favorecer o público. As regras atuam de forma que os atores do mercado partam em condições de uma não evidente desvantagem de muitos para uma vantagem de poucos: caso contrário. mas realmente não concordo com isto. de sua ciclicidade. As quatro regras A primeira dimensão é conhecida por qualquer estudioso de economia como regra fundamental: não existe alimento grátis. nessa condição. com o desinflar da bolha especulativa dos mercados financeiros e com o rumo da recessão americana. a economia e o mercado. já estávamos na longa onda de crescimento dos anos de 1980.Monografia que. Assim. para muitos. seguiu-se adiante em todo o percurso dos anos de 1990. esquecendo-se de quatro c o i s a s f u n d a m e n t a i s r e f erentes à economia e à política econômica. Contudo. por outro lado. não teríamos um mercado e sim um autêntico faroeste. enquanto.

de políticas. fundamentado em um contrato que liga os indivíduos. das inter-relações e dos intercâmbios. todas as guerras que marcaram o Mediterrâneo foram guerras (141) . ao passo que a reformabilidade depende das orientações que queremos dar-nos em um momento em que todas as coisas se transformam muito rapidamente. Os fenômenos são muito mais acelerados e rápidos. que durou até 1492. é fenômeno artificial. no qual todos comercializavam com todos.Monografia fossem favorecidas sem limites. aquela que foi historicamente capaz de sobreviver a todos os seus adversários. – não é fenômeno natural. embora restringidas. Devido à velocidade dos processos. que derrotou quem estava do outro lado do muro justamente porque é flexível e reformável. assim. A bem pensar. mais carregada de contrastes e de contradições: assim. tanta riqueza para muitos. o desvinculamos das muitas regras e lhe conferimos a tarefa de produzir. O Mediterrâneo era um grande mar de globalização. Contudo. há mais necessidade de governança. a globalização que vivemos agora é diferente da antiga globalização mediterrânea. Essa dimensão também foi esquecida. espontaneamente. A melhor que já conhecemos até hoje e que provavelmente conheceremos por muito tempo. Aqui se introduzem dois conceitos fundamentais: a flexibilidade é uma questão de escolhas. inclusive na primordial. mais complicada. Essas quatro regras sempre estiveram presentes na economia. Adam Smith. induzindo-os a se comportarem de um certo modo e não de outro. fazendo com que desempenhasse uma profissão que não é a sua. Com uma diferença em relação aos dias de hoje: a variante que ora nos faz falar de desorientação e dificuldade de interpretação – o tempo. a nossa globalização é mais ampla. porque no mesmo instante em que ideologizamos o mercado. O mercado sem regras não é mercado. O mercado – conforme foi sustentado com extrema clareza pelo pai do liberalismo. prescindindo das regras e da política e. A quarta regra a ser lembrada é que o capitalismo é a estrutura produtiva e social mais flexível e mais reformável que pode existir.

mais aumenta a riqueza e mais aumentam as diversidades. com duas “estruturas” disciplinadoras. Na África. um dado que. para fora da soleira da pobreza e em direção a uma melhor condição econômica. na ausência de políticas corretivas. no decorrer desses anos. metade dessa população ganha menos de um dólar/dia. porém.Monografia em busca de governança. Então. Há. há 800 milhões de pessoas que vivem em condições desesperadoras. Com efeito. se lido sob certo ponto de vista: a extensão da cidadania romana e a difusão da “romanidade” têm a ver com as leis e a língua. O Império Romano é um grande autor de governança. Assim. 34 são africanas. porém. com os 80% restantes permanentemente de fora. Os seres humanos sempre alimentaram a ilusão de que haveria uma riqueza pronta para todos: é uma característica inextinguível da nossa condição humana. A benevolência é um dos piores males da análise econômica e política. creio pouco na consciência. Não há alimento grátis A experiência direta desses anos nos confirma como. e a expectativa de vida raramente supera os 50 anos. logo. a África é um problema e não somente para nossa consciência. milhares de pessoas nos chamados países do Terceiro Mundo ou nas áreas em vias de desenvolvimento. em vez disso. O crescimento da globalização incrementa essa riqueza e impele. A confiança na capacidade da internet de produzir riqueza infinita é exatamente isso. Das 50 nações mais pobres do mundo. tivemos um aumento consistente da riqueza sem. termos enfrentado nesses anos o problema-chave de sua redistribuição entre os diversos países e dentro das sociedades mais ricas e sofisticadas. Sinceramente. foi minimizado: o processo de produção de riqueza nas mãos de uma sociedade que representa um quinto ou 20% da população mundial. Creio muito. na (142) . Uma outra ilusão consiste na idéia de que ainda pode existir um Eldorado a ser conquistado. que são atores de processos de crescimento bastante avançados. uma dupla diversidade: interna e externa.

Monografia lição de Adam Smith sobre o interesse. os defensores da economia de mercado. Aqui. Existe o protecionismo e existe o subsídio. mas. exatamente diante de um problema de governança. das regras do (143) . da globalização e dos intercâmbios. Sobretudo. que é uma forma de protecionismo indireto. Uma miséria! Por que não gastamos essa quantia? Em parte. por outro lado. mas não faça o que eu faço Mais um dado: os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) gastam 347 bilhões de dólares em subsídios agrícolas. porque somos egoístas ou desatentos. escapa-nos a relação entre a nossa condição de conforto de vida e as condições incômodas às quais condenamos populações das áreas mais carentes do mundo. que poderia até mesmo ser denunciada pelos países da OCDE. Ou seja. o dobro do que gastam para financiar a ajuda aos países em vias de desenvolvimento. Assim. Faça o que eu digo. refere-se sobretudo à política dos Estados Unidos em alguns setores: agricultura e aço. 11 centavos de euro/ dia. estamos diante de uma daquelas questões radicais do desenvolvimento contemporâneo. equivalentes a dois por cento do PIB italiano. então. porque nos escapa a relação estreita entre o desenvolvimento das áreas fracas do mundo e a nossa segurança. as áreas gordas do mundo subvencionam agriculturas que não têm nenhum espaço produtivo particular e que vivem somente porque as barreiras estão fechadas. abre-se uma contradição clara. mas que. Basta propor uma conta muito simples. imediatamente relevada pelos países em vias de desenvolvimento: “Fecham as fronteiras aos nossos produtos e impedem-nos de crescer. Depois pregam a necessidade de crescer. particularmente neste momento. Para todos. são os primeiros a fechar seus mercados?” Um julgamento severo sobre uma contradição autêntica. relembrando como – para reduzir à metade o número de pessoas que morrem de fome – bastariam 24 milhões de dólares/ano. Como podemos fazer isto se justamente vocês.

de crise. porém. ou até mais. mas não movemos um dedo para enfrentar a questão fundamental da utilização dos recursos europeus. da possibilidade para os países em vias de desenvolvimento de comerciar para superar as suas condições de subdesenvolvimento. da abertura real dos mercados. descontraída. Sabemos como estes procuram crescer em relação aos países mais ricos. mas abrindo a eles os nossos mercados. de certa forma. um cenário de hostilidade. em certos casos até um tanto caloteira ou. de prejuízo. que mantém fechadas as suas fronteiras a muitos produtos dos países da margem árabe do Mediterrâneo. assistencial. europeus. mais corremos o risco de alimentar fenômenos distorcidos como as migrações em massa para o Ocidente e a rancorosa hostilidade fundamentalista islâmica. Reflitamos sobre o ataque terrorista aos Estados Unidos. Pregamos aos países da margem árabe o crescimento segundo as lógicas do capitalismo moderno. temos um problema aberto a respeito da margem árabe. egoisticamente. (144) . como a política agrícola. dessa forma. ao mesmo tempo. dos recursos comunitários. não com subvenções. isto é. que têm um discurso dissociado da ação. mas os ajudamos muito pouco. que leva consigo metade.Monografia comércio internacional. Mas também. como ao mau exemplo que vem dos EUA se poderia somar o da Europa. Relembro uma piada mordaz do pre sidente do Banco Mundial: “Sem conseguir enfrentar os temas da pobreza do mundo.” Sabe-se que Bin Laden não é um defensor dos pobres e que existe. Logo nos encontramos diante de algumas questões-chave. Não é uma questão de humanidade. sobre o 11 de setembro e as Torres Gêmeas. Isso sem entender um dado essencial: quanto menos crescem economicamente e. nunca conseguiremos eliminar o terrorismo internacional. por outro lado. um problema de segurança. Sabemos. social e politicamente. nós. Em suma. subvencionando. de segurança. de falta de reconhecimento das “qualidades” ocidentais por parte dos países mais fracos. a sua economia agrícola esbanjadora.

funciona mal. portanto. Tomemos o caso do FMI. Ou conseguimos enfrentar a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). E em relação à governança e às reformas é preciso lembrar-se novamente da velha regra segundo a qual não há alimento grátis. Novamente: se paga. não. retornam ao primeiro plano as questões da governança. Uma escolha totalmente legítima: tem razão o Fundo e tem razão o Tesouro Americano. manda e governa. move-se sobretudo de acordo com os interesses do Tesouro Americano.Monografia Quem paga. de quanto custa pagar uma contribuição maior para poder ter voz no capítulo sobre as intervenções do FMI. como na Europa. ou jamais sairemos dessa ratoeira de uma riqueza concentrada e de um rancor que monta e produz álibis até em relação a quem. para o qual foram direcionadas muitas críticas: responde aos interesses dos americanos. por exemplo sobre a relação entre as novas gerações e o mercado. etc. quem paga. Mas a questão das diversidades tem a ver. sem limitar-se aos “ventos de guerra”? Aqui. Como enfrentar realmente. do Banco Mundial e de algumas instituições da Organização das Nações Unidas (ONU) para fazer os países mais pobres crescerem. porém: os erros do Fundo estão ligados à incapacidade dos seus analistas ou a uma série de opções que favorecem certos interesses em lugar de outros? Uma resposta interessante pode ser encontrada se olharmos as contribuições para o FMI: seu maior contribuinte é o Tesouro Americano. a indispensável questão da luta contra o terrorismo. manda. errou os cálculos com a Argentina. da Organização Mundial do Comércio (OMC). Se tudo isso não nos agrada. tem a ver com a guerra do petróleo e com os fatos internos da casa real saudita. como Bin Laden. Pergunto-me. (145) . Ora. É uma velha regra econômica. O FMI não funciona como um órgão harmonizador no quadro de uma genérica composição de interesses internacionais. mas não com os pobres. que arca sozinho com 18% de suas contribuições. também. manda. com as políticas internas que permitem o crescimento de cada país. se não paga. encaremos então o problema.

No entanto. que não é mensurável nem verificável. a estruturas profissionais pouco especializadas. q u a l q u e r analista financeiro sabe ler um business plan e calcular a margem de risco envolvida. Dou um exemplo para entender o mecanismo. de imigração recente. em que define o estado atual da economia americana como fear economy. Quem quer que conheça os aeroportos americanos sabe que o pessoal da segurança geralmente é negro ou latino-americano. com poucas perspectivas profissionais. nessa fear economy. porém. mas também a condição estrutural de incerteza na qual estamos vivendo.Monografia Está ligada. mas mensurável. incluindo os serviços de segurança. O risco é mensurável. Todos estamos. para a economia. Delega-se. chama-se também “capital de risco”). portanto. qualquer hábil e m p r e e n d e d o r. que é normal em economia (o capital é um fator de risco. e a incerteza. outsourcing. grandes concessões no mercado. economia do medo. por outro lado. Anos 80 e 90. certamente. Mensurável. em uma condição de incerteza que modifica radicalmente não apenas o cálculo do risco. não existe a margem da incerteza: estruturalmente existe a incerteza. E estamos registrando. As companhias aéreas americanas delegam ao exterior uma quantidade de serviços. mas o próprio jogo das expectativas que. de maneira aproximada. ao contrário da incerteza. conseqüência estrutural de uma série de decisões que tomamos. Fear economy Paul Krugman escreveu recentemente um livro fascinante. um aspecto delicado e oneroso como o da segurança. fazendo uma interessante distinção entre a categoria do risco. liberações apresentadas. mal pago. é fundamental. em troca daquele salário. Também aqui valem as velhas regras: a salários altos e incentivos (146) . um serviço de alta qualidade. Qualquer bom economista. aos profundos sistemas de reforma para poder enfrentar não somente as transformações econômicas em curso. a pessoas às quais não importa prestar. agora. pouco seguras. uma queda psicológica na incerteza.

um dos jornais mais próximos da comunidade empresarial americana. no dia seguinte ao ataque terrorista às Torres Gêmeas. corruptos e embusteiros. Business We e k . que revela o mau funcionamento dos sistemas de controle. gigantesca. A fina flor das grandes empresas americanas foi tocada pela onda dos escândalos. aquela política que retorna em primeiro plano. A dimensão da segurança dos aeroportos americanos nos dá o sentido da crise interna de um processo de liberação que é administrado não segundo lógicas de longo prazo. (147) . A chamada da capa insistia em uma forte reavaliação da política. Não por acaso. os efeitos negativos da ideologização da função dos empresários e a queda dos ídolos (mas os ídolos estão sempre destinados a cair e. mas especulativamente em termos de curto prazo.Monografia claros correspondem serviços elevados. E não podemos liquidar a questão falando de empresários liberais. o Wa l l S t re e t Journal publicou que desde os tempos da Grande Recessão de 1929 não se viam tantas regras infringidas nos mercados americanos. então. mas não podem existir prestações de serviço altas com salários baixos. Aquela reconsideração sobre a economia. A lista é imensa. a corrupção difundida. a começar pela segurança dos aeroportos. aberto e competitivo. nem tudo. Crises de confiança Um outro elemento de reflexão são os mercados e as regras. pois. funciona”. livre. p u b l i c o u u m a c a p a muito bonita sob o título "Rethinking the economy" – repensemos os modelos da economia. são dimensões fundamentais para reencontrar uma orientação. de Enron à Wo r l d c o m . do instrumento geral que governa – novamente a governança – os grandes percursos econômicos. nem sempre. deslocar o debate da desorientação na economia para a desorientação na política. não é verdade. É preciso sempre ter claro que a beleza da economia é possuir uma robusta solidez e concretude. Convém. justamente toda consciência leiga desconfia profundamente disso). Diz-se: “Tudo aquilo que é de mercado. a avidez. Há uma crise de modelo. A propósito dos escândalos financeiros. isto é.

por exemplo. Damo-nos conta de que o problema do crescimento norte-americano e europeu não é apenas o de refazer os cálculos com a concretude das coisas. se vinga das abstrações feitas: é um bom indício de orientação. E da crise mais estreitamente econômica e política. Grande parte da crise da Nike vem do fato de que aqueles calçados possuem forte conteúdo imaginário. é política. gozam de forte suporte comunicativo e publicitário. se for. não só para os produtos financeiros ou para os serviços da Internet. E ai de quem não levá-la em consideração. Ou. que seja punido. Voltemos a raciocinar sobre as dimensões estruturais da economia. Essa necessidade de recuperação da confiança impõe uma capacidade de reforma: pode-se brincar quanto se quiser com os fatos econômicos. não há intercâmbios possíveis se eu não souber se o meu interlocutor é ou não um trambiqueiro. Se a Walt Disney não tiver suas contas perfeitamente em dia. Em suma. pena. tem a ver com a tomada de consciência. mais difundidas. mas também de começar a enfrentar algumas questões estruturais da crise. à qualidade. Da crise de confiança. conta. posto para fora da comunidade dos intercâmbios e do mercado. a economia. Trata-se de restaurar a confiança. por parte de muitos consumidores norte-americanos. fazem sonhar. de que aquele bolinho de carne não é tão bom como dizem. A ética. a Bolsa de Wall Street a punirá. O superdólar A economia americana foi erguida sobre um desequilíbrio – sanado provisoriamente (148) . A crise do McDonald’s. na economia. mas depois as coisas voltam aos nós fundamentais. são belos e funcionais. mas também para os produtos das marcas mais sólidas. banido. E a qualidade deve ser respeitada. A ética e os balanços. que sejam feitos por crianças que trabalham em condições desastrosas. não há mercado que possa crescer sem um dado fiduciário forte.Monografia Peguemos novamente nas mãos a revista Business Week: a questão-chave – prossegue o autor – não é econômica. no final. bem radicadas nos hábitos de consumo. no entanto.

O superdólar. compensados provisoriamente. mas em uma forte carência de outros grandes atores. mas também por efeito natural de um processo de compensação do vazio alheio. durante longo tempo. no quadro de uma busca a cada (149) . Diante de tais tensões. camuflados. mais expostos que os outros às críticas e às contestações. em parte. hoje é muito visível e alarmante. de outros fortes reguladores dos problemas do mundo. funcional e. A chave de tudo foi. Ficam. podem apenas ser mascarados durante certo período. no centro de um mecanismo de contradições e de reivindicações. hoje. E é preciso ter a coragem para enfrentá-las. Oscilam entre a inteligência de um indispensável equilíbrio internacional multilateral (EUA e também Europa. Ora. Mas também a imposição. Rússia e China). então. como revela o 11 de setembro e como se teme que acontecerá ainda por longo tempo. se desinfla. que correspondia a uma política externa que apresentava os Estados U n i d o s c o m o ú n i c a s u p e rpotência. Os buracos não podem ser eliminados. dizíamos. os EUA bancam a superpotência internacional por própria tentação. O que era o superdólar? Não somente o efeito da distorção da qual falamos. os EUA não mostram uma clara linha estratégica de comportamento. O buraco da balança comercial que os norte-americanos mascararam até ontem. em parte. Mas as realidades macro-econômicas cedo ou tarde impõem a sua verdade. da função de domínio dos EUA nos processos internacionais. E abre uma outra questão – novamente política – do reequilíbrio das políticas internacionais em relação às políticas econômicas. aquele desequilíbrio revela. o superdólar.Monografia – entre uma balança comercial deficitária e um balanço de pagamentos fortemente ativo: um afluxo de capitais externos compensava seu defluxo de capital para pagar suas importações. sob forma de comparação monetária. Um domínio fundamentado não tanto e não apenas na capacidade expansiva dos EUA. Pois bem. sonhador. toda a sua fragilidade. da capacidade de atração de capitais internacionais por parte de um mercado financeiro.

do governo político europeu. Coloca também. que é uma constante da política norte-americana. europeus. fazemos aquilo que consideramos mais útil para os nossos interesses. Mas em seguida. naturalmente. concretizamos com sucesso o extraordinário processo do euro. vamos aonde bem entendemos. decidimos a lista dos países inimigos e preparamos a guerra. não sabem como se movimentar. fosse privada de um centro de referência e de identidade. (150) . com ou sem o consenso dos outros.Monografia vez mais amplos consensos internacionais. conforme confirmou a política externa estabelecida por Bush na campanha no Afeganistão. ou se quisermos dizer isso de outro modo. A política desses últimos meses é absolutamente fechada e unilateral: somos policiais do mundo. particularmente desorientados? Não há moeda sem espada Nós. diante de uma série de desafios. a moeda é um símbolo. A crise ideológica torna paupérrima a política dos EUA e fragilíssimo o seu sistema de segurança. seja do ponto de vista das valências econômicas. É como se a política externa norte-americana. com ou sem os nossos aliados. a política econômica norteamericana. continuamente derrubamos os aliados do cavalo. com ela. da constituição. nas decisões concretas. para a Europa. numerosas questões: O que é a União Européia? Que política possui? Qual o seu papel como ator internacional? Cresce? Ou retroage? Em suma. freiam e reavaliam o poder dos antigos Estados Nacionais. todos visíveis e analisáveis. Debatem sobre o avanço da integração. de que modo ajuda a orientação de nós. Essa oscilação do pêndulo entre multilateralismo e unilateralismo. europeus. que em longo prazo pode enfraquecer a América do Norte e. depois da moeda única. nunca foi tão acentuada em um breve período e tão desorientada e desorientadora como nesse último período. todas as democracias ocidentais. seja daquele das lógicas da política: a moeda não é só um instrumento econômico. Mas aqui paramos: todo o debate sobre a Europa é um debate entre países que. Posição perigosa. começam a recuar.

Isso significa conseguir administrar políticas de stop and go de um lado. Mas. nos países em vias de desenvolvimento. Dizer: “Ajudamos os países em vias de desenvolvimento lá na casa deles. corresponde um aumento nos fluxos de migração e não uma diminuição. como Estados Nacionais. Vejamos o debate em curso sobre a imigração: não se acha uma linha comum. nem no tema do alargamento até os países do Leste.Monografia Contudo. não existe política econômica possível sem uma política internacional. é absolutamente carente. não é algo que delegamos a um Ministro do Interior ou a uma autoridade policial eficiente e depois lavamos as mãos. o global e o local. a Europa. também na Europa. de gente que vem e gente que (151) . uma fear economy. nessa situação de desorientação. No que tange aos medos. prevaleça. uma política que não saiba enfrentar seus desafios fundamentais: o do welfare a ser reformado e o da imigração. residuais. em vez disso. Trata-se de dois temas fundamentais da nossa política: segurança e desenvolvimento. Uma questão que. nacional e internacional. um momento político que forneça os objetivos do próprio crescimento em escala internacional. educacionais e sanitárias. em nossa casa” é dizer uma mentira. para que não venham quebrar nosso equilíbrio aqui. sobre o qual é preciso raciocinar tendo diante de si um quadro de grande complexidade. mesmo depois de ter criado o euro. estamos diante de um europeísmo compromissado. É uma questão que se refere ao desenvolvimento. Repensar a política para governar a economia A imigração não apresenta apenas um problema de segurança. Qualquer estudo bem feito sobre as situações sociais e os fluxos migratórios demonstra como ao crescimento das condições econômicas. Sob esse ponto de vista. que afirmam a própria antiga soberania sem conseguir jogar com a dupla soberania necessária à Europa. tenho receio de que. existe e deve ser enfrentada em muitos aspectos. e políticas bilaterais. a história nos ensina que não há moeda sem espada. em todo caso.

de outro. um mercado que funcione em sua circularidade. formação e utilização de recursos dos países dos quais vem a imigração para fazer crescer os nossos países e. principal diário econômico italiano. intercâmbios muito fortes no plano internacional. obrigando-nos a repensar a política para governar a economia: novamente uma questão de governança. tendo juntamente lógicas de desenvolvimento econômico local. Essas são as questões que precisamos enfrentar.Monografia vai. Antonio Calabrò é chefe de editorial do Il Sole 24 Ore. assim. (152) . manter os mecanismos constantes.

Será criado um cia: quem é. que sistema mais dignitoso e exato. só as coisa de inaudilagos profundos. mas. demais. sauros embalsamados.Monografia A desorientação na ciência Giuseppe O. Naqueles planetas racionalidade que será uma célula. que histórias em sintonia com a precisão da vai contar esse ser múltiplo e ciência. em tegrado em próteses cidades celestes. do paraíso. Tornados (153) . o que quer. da reprodução. Há to: uma Criatura bitados por estirpes uma desconfiança Planetária da qual anônimas inexplicadifundida. perguntas se fará. as muse mostrou invasiva superorganismo já lheres não farão mais possui uma fervente filhos com o corpo. As nossas insistentes proteiforme? preces serão ouvidas e nos Um dia se acenderá na Criatura transformaremos em máquinas: uma centelha de volição e ela fortes. hafez lampejar. zarpará em direção às Plêiades: Somente as mulheres de cera qual certeira espaçonave risca. homens e mulheres lanternas mágicas e de dinosdormirão um sono profético. relação a uma bio-informáticas. Os úteros acacada qual num ovo de cristal barão nos museus. povoados por uma recusa. inteligência coletiva entre jatos e pee destilará sua turva consciên. Dentro. duras. Este tão distantes. ao lado de lapidado. Longo Em outros guardando no corpo Chegamos a planetas gélido o sangue e o acreditar que a Com entusiasmo e esperma de uma raça ciência nos havia desalento sentimos futura. inoxidáveis.dos observatórios terão as cará o cosmo por séculos e séculos vidades amarelas e vermelhas de escuridão sideral.quenas bolhas. de em vez disso. indas. A espaçonave aberto as portas nascer em nós e ao irá a outros planetas. nosso redor alguma mais obscuros. senão todo ser humano.

é acompanhada de um sentimento trágico da vida. O conceito de orientação é típico da contemporaneidade. existe. para termos perdido a orientação. pelos encontros. porém não estão isentos de problemas. então. nos dedicaremos a uma inócua e refinada imitação da vida. inconsciente de sua capacidade desestabilizante. enfim. poderia servir para temperar um certo excessivo otimismo que me parece esvoaçar ao redor de alguns setores tecnológicos e tecnófilos da nossa sociedade. Quando perdemos a orientação da ciência? No entanto. Oniscientes e insensatos.Monografia máquinas. que vive na consciência. Se for verdade que por sua natureza finalista o ser humano é desestabilizante. A pesquisa científica celebrava seus triunfos: Marcelin Berthelot podia dizer que a química. uma grande diferença ética e prática entre ser consciente e ser inconsciente dessa característica. absolutamente imaginária. é preciso tê-la tido. A crise da ciência Essa premissa. No início do século XX difundia-se uma vasta e aplacada sensação de plenitude. há uma categoria de cientistas que se encontram num estágio mais primitivo. e que são levados a observar a regra que impõe fazer tudo aquilo que se pode fazer. derivado da responsabilidade em relação ao outro (as gerações futuras. Essa consciência. e Max Planck (154) . Ciência e tecnologia são produtos intelectuais muito importantes de nosso tempo. os povos vencidos. caracterizado por uma certa falta de reflexão consciente. assemelham-se ao homem primitivo. descrição e explicação “verdadeira” do mundo. Retornemos à ciência. seremos imortais. os animais): trágico porque sabemos que as nossas decisões podem trazer conseqüências irreversíveis e irreparáveis. Ao contrário. facilitada pelas discussões. já não tinha mais segredos. pela troca de opiniões e pela circulação global de quantidades cada vez maiores de informações. nesse sentido. onde reinará a demência onipotente dos autônomos. Criaremos um mundo preciso e pontual. Ao menos nas ciências físico-matemáticas parecia-se estar a um passo da meta final: a representação.

que os instrumentos da física clássica não conseguiam justificar. afirma que “não há pessoa que realmente tenha entendido a mecânica quântica” no sentido em que são entendidas as coisas do mundo. nasce a mecânica quântica. pelo qual. então. o grande físico americano. se duas partículas interagiram ‘aqui e agora’ (155) . que constitui uma transformação epocal. Parece que o mundo é um enorme sistema único. Os cientistas começavam a suspeitar que a realidade podia ser muito diferente. próxima da pacífica meta da completude. mas também no da epistemologia e da filosofia. alguns detalhes inexplicados. nos dávamos conta de que só havia sido explorado o limiar e através daquele obscuro furo do corpo negro entrávamos numa cavidade imensa armados apenas com a luz de uma tocha. Dali a alguns anos.Monografia estava convicto de que a física estava. A ciência tinha entrado numa crise que deveria conduzir a uma grandiosa revolução conceitual: daí a desorientação. como a radiação do corpo negro. Richard Feynman. por hora. aquela que parecia uma fenda superficial revelava-se o ingresso para o reino inquietante de um novo mundo: parecia que havia sido dimensionada a grande catedral da ciência e. aquela grandeza não possui valor determinado. mas a arquitetura do conjunto escapava. obviamente. o sujeito pode preparar o sistema que está estudando para que lhe dê respostas. ali a moldura de um quadro. Na mecânica quântica tudo é de certo modo louco: o objeto e o sujeito não são mais separáveis como na física clássica. mais adiante a base de uma imensa pilastra que desaparecia na escuridão de um teto muito longe. O nascimento da mecânica quântica Nas primeiras décadas do século XX. em certo sentido dependentes de sua presença. mais rica e complexa do quanto tinham imaginado. uma revolução de peso incrível não somente no campo da física. Permaneciam. com aquele imediatismo perceptivo que preludia reflexões posteriores. como se entende o nosso estar aqui. Vislumbrávamos alguns detalhes: aqui os pés de uma estátua. antes da medida de uma grandeza. mas tratavam-se de inércias.

a última grande causa interna de transformação da ciência.Monografia serão ligadas para sempre. é o nascimento da teoria da informação. Essa máquina. como pensava Laplace: não. ela se multiplica pelo número dos participantes no jogo. Um dos resultados mais evidentes e preciosos dessas revoluções internas da ciência é que não existem leis fixas. nunca a aceitou integralmente. retornam ao quadro da física o tempo irreversível. que permite transferir a informação de um suporte para outro. Por outro lado. que justamente o computador contribuiu. ainda dentro da ciência. Um outro elemento dessa revolução conceitual. tem-se um coacervo de leis estatísticas. que coloca no destinatário o sentido e o significado das mensagens. Com essa. partindo de seu interior. da física em particular. aquelas leis que os físicos andavam procurando na convicção de uma subjacente simplicidade do mundo resumível em uma única fórmula capaz de nos permitir o acesso à visão última de Deus ou da realidade. universais. as quais se dividem pelo número dos participantes. seja qual for a distância em que se encontrem e interagirão de imediato. a mecânica quântica põe em crise a ciência clássica. ao contrário do que ocorre com as quantidades físicas até então consideradas centrais na explicação científica do mundo (matéria e energia). paradoxalmente. Quero observar. O caos não é devido à nossa ignorância. Na ordem do tempo. marcadas pela incerteza e pela indeterminação. que um dia será superada. Mas em vez disso. deterministas. Causas internas da transformação da ciência Assim. Quando é trocada a informação. Albert Einstein. sem retardo temporal. a imprecisão e a sensibilidade às condições iniciais. na (156) . para que adquiríssemos uma visão indeterminista do mundo. o caos faz parte intrínseca do mundo. com a teoria da informação. nessa perspectiva. A implantação conceitual dessa nova visão da física demonstra o quão revolucionária é pela circunstância paradoxal de que um dos pais da mecânica quântica. é aquela denominada teoria da complexidade ou do caos determinista. determina-se o conceito de código.

retorna a história que os físicos se esforçaram para expelir. para uma visão dinâmica. mas também o conceitual: passa-se de uma visão estática do mundo. é uma abstração útil numa primeira aproximação e em âmbitos limitados. que serve para construir o formalismo. Antigamente a ciência preparava as invenções e os instrumentos técnicos ou ao menos os justificava e os explicava em seguida. a diferença entre passado e futuro é uma tenaz ilusão”. para deixar um sinal de si em toda a ciência. os físicos sabem que também em sua descrição da realidade existe um tempo irreversível: o tempo reversível da física clássica é um tempo de opereta. da mecânica quântica e da informação. também houve importantes causas externas que conduziram a uma modificação da ciência e da nossa atitude em relação a ela. superou a ciência. Causas da transformação da ciência ligadas à tecnologia Ao lado dessas causas internas. devia impor ordem. a tecnologia.Monografia ingênua visão inicial. trouxe uma visão complexa. fictício. na física retorna o tempo irreversível. a mesma fé que impelia Einstein a escrever à viúva de seu amigo Besso: “Para nós. fornecendo a teoria sobre seu funcionamento. Entra em crise a fé no tempo reversível típico da física clássica. Logo. devido à velocidade do desenvolvimento. Hoje. estatística e indeterminada da realidade. Conforme aludi. A revolução da ciência não envolve somente o âmbito operativo. se quisermos parmenídea ou platônica. mas. isto é. Mas no século XX. uma máquina que havia sido concebida para ordenar. exatamente pela grandiosa capacidade de cálculo. O impetuoso desenvolvimento da inovação técnica impediu a ciência não só de preparar o terreno para a construção das máquinas e (157) . Nesse quadro tumultuado o pensamento evolucionista de Darwin adquire um peso cada vez mais relevante e estende-se para além dos limites da biologia. através do estudo da complexidade. na qual tudo está em transformação. simplicidade e precisão na enorme massa de dados que iam se acumulando. que cremos nas leis da física. heraclítea. de fato desordenou a visão do mundo.

instrumentos e sistemas que usamos quase sempre sem nem saber como funcionam. sofrem uma manipulação forte e geralmente pouco idônea. fazer aflorar a complexidade do mundo para enfrentá-la. que se apresenta fácil de usar. trata-se de uma mudança extraordinária: é uma reviravolta daquilo que foi. a tecnologia começa a produzir seus efeitos e seus condicionamentos mais importantes e sutis. é uma prática que se situa numa virtualidade. e desse mundo essencialmente manipulador. insinua-se na sociedade que a adota e nos indivíduos que a usam. o tipo de conhecimento que herdamos dos gregos. A tecnologia. dos computadores e das redes. não as postula. oculta a complexidade dos seus manufaturados sob interfaces amigáveis e sociáveis. numa espécie de cyberespaço. aquelas fundamentais de tempo. mas também de explicar seu funcionamento a posteriori. o intuito fundamental da ciência. da informação. estamos contentes. espaço e causa-efeito se confundem. Homo tecnologicus Um dos setores tecnológicos mais importantes do século XX é. Nesse âmbito nasce um instrumento para o estudo da realidade. isto é. Assim. A tecnologia. A simulação não é teoria nem experimento. o da informática. Ela sobrepõe ao mundo natural um mundo artificial.Monografia dos sistemas. obviamente. porque são (158) . natural e artificial. a tecnologia nos oferece objetos. conceitualmente diferente dos anteriores: o instrumento da simulação. eficaz e eficiente. cessa rapidamente de ser visível e torna-se transparente. que não exige explicações. ao invés disso. para os quais só se conhece uma coisa quando se sabe construir uma teoria sobre ela. exorcizá-la e reduzi-la à simplicidade. e nem nos interessa saber porque ou como funcionam. hoje está cada vez mais em crise. as categorias tradicionais do conhecimento. tornam-se outra coisa. Hoje. quando é importante e penetrante como a informação. Quando começamos a usar os instrumentos tecnológicos com a mesma desenvoltura com que utilizamos os instrumentos do nosso corpo. durante séculos. de uso elementar. Na simulação. Sob o ponto de vista epistemológico.

As contínuas modificações do ambiente produzidas pelo homem postulam uma modificação constante da espécie que habita esse ambiente. oposta à robustez da natureza. A hibridação conduz a mudanças de tipo perceptivo e ativo. modifica a si mesmo e essa modificação contínua apresenta-se no cenário do mundo desde o tempo do homo habilis. em particular. O homem. nunca deve fazer esquecer que vivemos sempre no fio da navalha. os lamarckianos são velozes e frágeis. modificando o ambiente. as idéias e as modas difundem–se por imitação. Naturalmente. de artificial e biológico. isto é. podem também ser produzidas mudanças de tipo genérico. Graças à presença da cultura e. com base na herança dos caracteres adquiridos. A hibridação e a mestiçagem contínuas do homem. aos lentos mecanismos darwinianos da evolução biológica somam-se rápidos mecanismos de tipo lamarckiano. depois apresentam-se mudanças de tipo cultural. a evolução biológica e a evolução tecnológica tendem a fundir-se. enquanto os resultados da evolução biológica de tipo darwiniano são fortes e lentos. A mestiçagem entre homem e instrumentos produz um efeito inesperado: o acento da pressão seletiva desloca-se continuamente. A fragilidade é um dos aspectos importantes da tecnologia e do mundo artificial que criamos e. com os manufaturados e com as máquinas que ele constrói e com as quais interage. uma espécie de simbionte de máquinas e homem. numa situação de risco que pode lançar-nos de uma hora para outra em uma catástrofe. O ser humano possui uma grande capacidade mimética: a cultura. a visão teórica herdada dos gregos é hoje superada por esses processos tecnológicos que assemelham-se muito à (159) . o natural e o artificial tendem a confundir-se. profundo. A longo prazo. conduzem ao que chamamos de homo tecnologicus. Assim. desde que a nossa espécie ou protoespécie começou a manejar instrumentos. porque opera numa unidade biotecnológica que é continuamente diferente. No homo tecnologicus. de forma muito rápida.Monografia inconscientes. da ciência e da técnica.

porque afasta. de chavascar soluções temporâneas e extemporâneas. expectativas de tipo salvífico.. de emendar certos defeitos. ainda que não sejam as melhores possíveis sob o aspecto teórico. mais tarde. Isto naturalmente inclui muitos riscos. a frustrar. que no entanto nem a física. que amanhã serão superadas mas hoje funcionam. apresentou-se como uma religião. radicados na mutação que sofreu a nossa imagem da ciência. não possuem uma teoria importante e profunda que explique e possa prever as conseqüências das suas manipulações. o perigo de um reducionismo total da vida às suas dimensões racionais-computantes.Monografia bricolage: a internet foi criada por bricoleurs muito hábeis. Iludimo–nos de obter da ciência uma explicação total do mundo. a transformação que a ciência vem sofrendo possui também outros componentes. Assim. é um erro que insere conseqüências desastrosas [. extraídas do seu livro Gli otto peccati capitali della nostra civiltà: “Crer que faça parte do patrimônio estável da humanidade somente aquilo que é compreensível por via racional. até pela fragilidade dos sistemas tecnológicos.] e induz a jogar ao mar o imenso tesouro de conhecimentos e de sabedoria contido nas tradições de todas as antigas culturas e (160) . que esta veio. em relação à ciência. talvez. em geral. Gostaria de citar algumas linhas iluminadoras de Konrad Lorenz. nem a inteligência artificial e nem as outras disciplinas conseguiram dar. A ciência. que estão continuamente em busca de aperfeiçoar localmente. o imaginário coletivo cultivou. Certamente foi uma grande desilusão. Causas sociais da transformação da ciência Além das causas internas e das causas ligadas à interação com a tecnologia. porém não tem capacidade para resolver os problemas que as religiões tradicionais resolviam ou procuravam resolver. Trata-se de causas que podemos definir como sociais. ou certamente apenas o que é cientificamente demonstrável. Talvez nem a biologia o consiga. Também aqueles que trabalham no setor das biotecnologias fazem grandes operações de bricolage. Nasceu absolutamente como substituta da religião.. Mas essa decepção também possui aspectos positivos.

permitindo alargar desmedidamente o raio de ação do texto no futuro e uma propagação sem precedentes da cultura. pois. Hoje. como momento de organização e de interpretação do passado e de orientação para o futuro. num não-lugar. A tecnologia da imprensa tinha anulado o tempo. graças à tecnologia da informática. tenda a ser anulada: achatada num eterno presente. unicamente por via racional. então. memória mudou quase que inadvertidamente: mudou o significado operativo e a referência epistemológica. As conseqüências do advento da informática na cultura A introdução do calculador e o acesso ao grande jogo manipulador do cyberespaço. através da razão. Conectar-se à rede significa entrar num espaço virtual. ligados a esse grande ressonante circo em que nos encontramos projetados quando nascemos. desaparece como dimensão cronológica. É. Quanto ao tempo. com uma frieza implacável. se transformem. Não devemos. com tudo aquilo que ela comporta”. inevitável que certos conceitos. sacrificar tudo exclusivamente à racionalidade. a rede opera a mesma anulação em relação ao espaço. Não existe o claro-escuro que na memória humana deriva da interação entre memória e esquecimento.Monografia nas doutrinas das grandes religiões universais [e a] viver na convicção de que a ciência é capaz de dar vida do nada. espaço. As grandes memórias artificiais conservam. certos pontos de referência. as suas intuições e emoções. a razão é um instrumento de importância fundamental. a uma cultura inteira. da simulação e da rede provocaram toda uma série de desabamentos culturais. é interessante que hoje. onde não existem mais distâncias. mas a racionalidade chegou em último lugar entre as faculdades do homem. causa um sofrimento devastador. O significado que atribuímos a tempo. todos os dados do mesmo modo. muito antes se desenvolveram as percepções. nas memórias artificiais não existe (161) . Se o homem não consegue filtrar. a história. não pode quase nunca comunicá-las. os sentimentos e as intuições. Portanto. nas quais se baseiam a sensação e o sentido de nosso estar aqui no mundo.

a perspectiva histórica. que talvez anunciam uma mudança do paradigma radical naquela que é considerada não somente como a rainha das ciências abstratas. uma disciplina histórica. estamos diante de uma espécie de reducionismo. Um dado existe ou não: não se tinge de nuances. falta o colorido sombreado da temporalidade. que fixa uma lembrança mais que outra. Na lingüística e nas ciências cognitivas nascem mitos extraordinários: o mito do tradutor universal. A redução a um só princípio converge para a informação. Sob o aspecto epistemológico. descobriu-se a complexidade e a indeterminação. não só na vida cotidiana mas também nas camadas profundas de nosso ser. Naturalmente. como todos os reducionismos. Contudo. Assim. mas. mas o computador coloca em crise esse conceito e todo o edifício da matemática. quem interage com a rede deixa-se condicionar e permuta certas atitudes que podemos definir como históricas. experimental. mas somente uma certa probabilidade. e é contagiada pelo mal evolutivo. também ela. como dito. A matemática torna-se. mas também como a imagem terrena do Hiperurânio. que ainda precisa de pão e água. Como nasce a desorientação? A desorientação nasce da rapidez abaladora da inovação tecnológica e de suas conseqüências. de sentimento. na qual a demonstração não esteja mais no centro da cena. A informática também possui efeitos importantes em algumas disciplinas particulares. todos esses mitos são destinados a confrontar-se com a natureza do homem. porque a rede nos ilude em onisciência e onipotência. Na física. Trata-se de modificações profundas. alguns matemáticos são impelidos a declarar que é preciso construir uma nova matemática. outros começam a fornecer demonstrações de probabilidades em que a tese não apresenta mais certeza absoluta.Monografia o filtro das emoções. o mito da inteligência artificial. de comoção. A globali- (162) . também este empobrece aquilo que toca. não mais do tipo materialista e sim do tipo informacional. De Euclides em diante a matemática baseou-se na demonstração precisamente euclídea. Hoje. o mito da onisciência. logo.

senão de recusa. a desorientação nasce de uma situação complexa. Depois.Monografia zação. mas de natureza econômica e mercantil. Um componente importante da desorientação é representado pela delegação tecnológica. dá um impulso hercúleo a essa rapidez. o advogado. o sapateiro. avaliação. Mas trata-se de uma recusa da racionalidade em si ou é uma reação no modo em que a racionalidade se colocou? É claro que esse fenômeno histórico que chamamos ciência ocidental possui características e méritos importantíssimos. isto é. No mais. Tenho a impressão que sobretudo os jovens percebam esse (163) . uma reação que se configura como recuperação de fumosidades mistificantes. nos competia. no momento em que as máquinas começaram a possuir capacidades menos rudimentares. de irracionalidades. pelo menos. Com a delegação tecnológica. o médico. análise e transmissão que. capacidades e responsabilidades. na origem. entrelaçada de componentes que não são apenas de ordem tecnocientífica e comunicativa. em relação a uma racionalidade que terminou por mostrar-se invasora demais. com as suas convocações econômicas e financeiras. porém algum aspecto discutível. o conceito de responsabilidade dilui-se e emergem muitos problemas ainda não enfrentados: quem será responsável pelas ações e pelas decisões quando o homem está completamente mestiçado com a máquina? A quem confiar a tarefa de tutelar os direitos de terceiros em relação àqueles que cometem erros porque confiam na máquina? Tudo aquilo que dissemos até aqui enquadra-se hoje numa difusa reação de desconfiança. de vagos misticismos que são deplorados pelos cientistas. a declinar. O ser humano sempre delegou a outros certas tarefas e responsabilidades: aos animais domésticos e aos seus semelhantes. A enorme e crescente massa das informações produzidas e intercambiadas nos obriga a delegar às máquinas muitas funções de elaboração. não foi dito que seja um fenômeno duradouro: pode ser que sob o incômodo da tecnologia e de novas formas de aquisição do conhecimento seja destinado a desaparecer ou. aos especialistas: o padeiro. começamos a delegar a elas algumas de nossas funções. Portanto.

só as fez lampejar.Monografia lento. É um momento de forte desorientação: chegamos a acreditar que a ciência nos havia aberto as portas do paraíso. mas. Longo é professor de Teoria da Informação na Università degli Studi di Trieste. em vez disso. Giuseppe O. ocaso de um tipo particular de ciência. diminuiu de modo perceptível a propensão para inscrever-se nas faculdades científicas. (164) . baseado na teoria e no primado da mente em relação ao corpo. ou rápido. Com efeito.

Monografia O confronto das civilizações Paolo Branca “Orientar-se” o sol atingisse a “Senhor. não as coisas que traz a herança de só a nossa. Trata-se. Antigamente. Ora. o oriente em busca de direção: pois.exatamente à direita? Quando te? Mas quando o oriente foi se olha para o oriente. Da o principal ponto cardeal de mesma forma. aceitar aquelas que mais. que tinuam ligados em “Sul” e “direita” poderia ser adotado sua origem e etimopossuem a mesma como um possível logia à relidade que raiz: Y-M-N. Também as força para mudar nossa linguagem outras línguas. já não existe be. esses sinais. que também signimuito tempo. em particular. dai-me a Freqüentemente abside. de xe uma revolução também na luz. mas um ponto de referência con. construídas de maneira que se quiserem. os conceitos ladora desse ponto é o pensamento de que utilizamos.na Arábia tem-se o Yemen rientado? Não achar o orien. O que significa. literalmente. Olhava-se para fica “esquerda”. a essa palavra ligapor longo tempo. mas também podia ser mais. conde vista: os nomes Tomás Morus. O desenvolvimento da interpretado simbolicamente tecnologia e das ciências troucomo nascente de calor. As nossas paé uma língua revenão posso mudar” lavras. se o nome Yemen. Yamin manifesto da os gerou e à qual quer dizer direita e talvez sobrevivam tolerância universal. norte se diz referência? Certamente há “Shamâl”. trazem posso modificar e um mundo que. quando é que estando desorientar-se? Estar deso. o oriente era o ponto de o lugar onde o sol nasce era referência fundamental. As igrejas eram repartição do mundo. de vida. de uma pequena (165) . O áraa paciência para enfim.já faz muito tempo que não é creto.

mas é alguém com quem temos cada vez mais chance de entrar em contato. como reverso da medalha. e sim às identidades culturais. Depois do 11 de setembro. Com base em sua análise. que culturais. o da identidade. ou seja. entre as várias civilizações que estão em jogo dentro desse fenômeno global. essa percepção acentuou-se ainda mais e não é preciso lembrar as expressões (166) . como no recente passado. tenho de esclarecer quem eu sou em relação a ele e. o Islã ocupa lugar de destaque e é o candidato ideal para assumir o posto daquele grande antagonista do ocidente. que até bem pouco tempo atrás era representado por um outro oriente. certifico melhor a minha identidade. Tão crucial que o politólogo americano Samuel Huntington teorizou o “encontro das civilizações”. sobretudo e precisamente porque o mundo tornou-se tão pequeno que os contatos e os deslocamentos são tão fáceis e freqüentes.Monografia nota marginal. os “inimigos públicos” por excelência eram todos muçulmanos: Khadaffi. Ele destacou no mundo algumas áreas destinadas a se enfrentar. é o da alteridade. geo-estratégicos. Se o outro me cria um problema. ideológicos. O outro não é mais aquele que vive na casa dele. nessa relação com ele. Tudo isto. em parte. começando. Khomeini. sobretudo depois da queda do Muro de Berlim e da dissolução do Império Soviético. Em outras palavras. distante. Devemos sempre lembrar que o problema da alteridade possui. E é bom que essa aproximação nos provoque e gere problemas. por a fazer vibrar dentro de nós toda uma série de consciências que reencontraremos nas reflexões desenvolvidas daqui em diante. a hipótese segundo a qual os grandes conflitos que esperam a humanidade não serão mais os ligados às ideologias. Conhecer o outro O problema com o qual hoje devemos nos defrontar. o confronto mais crucial que parece delinear-se será aquele entre a civilização ocidental e a islâmica. identificado mais por problemas políticos. o exótico que mora além do oceano. Saddam Hussein e por aí afora. não é mais algo do futuro e sim uma realidade: já antes de Osama Bin Laden. É um tema que está se tornando crucial.

à mesma conclusão: todas as civilizações são integráveis. assim como com os judeus. exceto a islâmica. Se tentarem falar uma língua do mesmo tronco que a sua. institucional. como geralmente acontece. sem tê-la estudado a fundo. um país que aceitou a economia de mercado. facilmente adquirirão uma certa afoiteza que vai levá-los. às vezes não nos entendemos de uma maneira ainda mais clara do que com os representantes de culturas do Extremo oriente. Poderíamos. como ocorre entre as línguas.Monografia viscerais que pudemos ler nos artigos e livros de Oriana Fallaci. o grande antropólogo Lévy Strauss definia o Islã como “o ocidente do oriente”. De fato. econômico. é mais difícil existir comunização entre parentes que entre estranhos. No meio dos intelectuais de diferentes linhas e orientação também encontramos algo semelhante: a esse respeito. talvez. a proferir algum enorme disparate. Precisamos (167) . É mais fácil gerar-se mal-entendidos quando existe maior comunização de elementos originais. No entanto. Sob este ponto de vista. o livro sobre o multiculturalismo de Giovanni Sartori 2 é revelador. é antitética à nossa e o grande problema que temos que enfrentar é exatamente este. Também outras pessoas expressaram-se em termos análogos e bem antes desta data. o livro de Baget Bozzo é impressionante 1. a mais próxima de nós. entrou no universo capitalista e parece um oriente menos exótico que os outros. Segundo admissão do próprio autor. deduzir que. Com os muçulmanos. percebido como menos exótico por razões de cunho político. entendendo que entre todas as civilizações do oriente. Os muçulmanos são portadores de uma visão de mundo que pela própria natureza não é assimilável. assim. é um livro que se enquadra na literatura de contraposição. intitula-se Di fronte all’Islam e na introdução declara explicitamente que com isto entende-se o adversus dos tratados medievais com os quais se combatiam as heresias. não apenas por contigüidade geográfica mas também por raízes comuns. que são orientais menos exóticos. cedo ou tarde. Chega-se. Pensemos no Japão. a islâmica é a mais ocidental.

digo uma verdade. Teologia e filosofia sempre foram irmãs. Que sentido tem comparar. Um muçulmano é muçulmano. é uma das grandes religiões monoteístas que se reportam a Abraão. dogmático. porém. confrontar o Islã com o ocidente? São duas realidades homogêneas? O que é o Islã? Se perguntarmos isto a um indivíduo na rua. tão semelhantes entre si a ponto de quase nunca conseguirem se entender. porque cada uma delas tendia a penetrar no campo da outra. ligado aos princípios e ao credo. O Islã é uma religião quase privada de teologia. Para um muçulmano. caminharam uma ao lado da outra. do encontro e desencontro entre Islã e ocidente. Assim. se nos detivermos um momento apenas para refletir nas palavras que utilizamos e sobre os conceitos que elas veiculam. nós. faço uma afirmativa não exata. Sou eu quem considera fundamental para a fé a convicção na adesão intelectual ao dogma. nossa desorientação aumenta. mas sim chamados a lhe obedecer. logo a lei tem valor muito superior ao da especulação. a religião é algo que tem muito a ver com a teologia. não somos chamados a descobrir o mistério. Em nosso conceito de religião. Mas quando digo: “Ora. O que é o Islã? Quando falamos do confronto. atribuo a ele um significado universal. trata-se de uma pertença mais totalizadora.Monografia perguntar-nos se as coisas são realmente assim. assim como o judaísmo: é uma ortopráxis mais que uma ortodoxia. além disso. transfiro para eles um modo meu de aderir à fé. porque parcial. Eles sim. são crentes fiéis!”. Mas. mas não esgotada. acreditando que todos os povos do mundo entendam por religião a mesma coisa. enfatiza-se o aspecto intelectual. quase de tipo étnico. com essa palavra exprimo meu modo de entender a religião. provavelmente nos responderá que o Islã é uma religião. como um alemão (168) . Mas a palavra religião seria a mais adequada para definir o Islã? Quando uso o termo religião. Nela. de Deus. Com efeito. quando afirmo que o Islã é uma religião. que é filha da minha história. E terá razão. Segundo o Islã. que por sua vez tem bastante a ver com a filosofia. é bem difícil que os muçulmanos se convertam a outras religiões.

Mas. embora sejamos mais fortes. que se baseia em outros pressupostos. O ocidente é o que aconteceu com a cultura. com a civilização e com a ciência numa determinada área do mundo. que já dentro de uma simples palavra como religião encontramos muitas coisas a serem vistas. e não só a islâmica mas também as da Ásia e da África. vão deixá-lo numa posição ainda mais difícil. de nenhuma religião. Conhecer a diversidade Além de toda a nossa boa vontade – que é preciosa – em querer sintonizar oriente e ocidente. então. A Reforma Protestante. a Revolução Francesa. porque não realizaram as rupturas epistemológicas que ocorreram no ocidente. Portanto. o pós–moderno: tudo isto caracteriza a nós. incluindo a cristã.Monografia é alemão. o que temos? O ocidente. Mas o que é o ocidente? Se perguntarem novamente ao indivíduo na rua. na verdade o que surge em nossa mente não é um conceito de tipo geográfico-espacial. (169) . não podemos esquecer que somos diferentes e que devemos reconhecer. compartilham com os muçulmanos uma antropologia. Nenhum padre oriental. de uns anos pra cá. Seria exaustivo checar os detalhes do que caracteriza esse ocidente. Não como um cristão é cristão. Facilmente ele dará uma definição ligada ao espaço: o ocidente é uma região geográfica. uma concepção do mundo. superando tudo aquilo que nos separa. E somos nós a exceção. que somos a minoria. mas sim de tipo temporal: o ocidente é a modernidade. Lorenzo Milani. quando falamos do ocidente em confronto com outras culturas. Sob esse ponto de vista. O que é o ocidente? Vejam. E por outro lado. não os outros. a Revolução Industrial. que afirma: “A obediência não é mais uma virtude”. assinaria um tal tipo de afirmação. são ainda culturas de tipo tradicional. se refletirem um momento. É singular que tenha sido dita por um padre ocidental. A maioria das culturas da Terra. os cristãos orientais são mais semelhantes aos muçulmanos que aos seus correligionários ocidentais. o Oeste. Relembro a famosa frase de D. essas civilizações são diferentes.

e lhes disse: – Bebam. O guia os conduziu a uma grande cascata. o sacrifício da sede nem da morte. porque não exige dos franceses. “Assim. extraído do seu célebre livro Terra dos Homens 6.. E era água doce. pois assim é chamado o Paraíso. E assim. uma árvore. Quando os encontrei novamente em suas tendas. três deles visitaram aquela França desconhecida. Antes.Monografia conhecer e administrar essas diferenças. uma espécie de coluna de pedras de onde desciam tranças de águas barulhentas. eles falavam com admiração dos music-halls em que haviam visto mulheres nuas dançando entre flores. aos quais são concedidos todos aqueles tesouros. em volta de sua tenda. o Saara que até a morte lhes dará tão magros prazeres. a longo prazo. Ignorá-las não adianta. É por isso que eles estão meditando agora. porque é um velleitarismo que no final não nos prepara para a tarefa que nos espera.. os velhos chefes. 4 : “assumir de forma imaginativa ou simpatetica 5 a história do outro através das narrações que lhe dizem respeito”. Uma coisa interessante que podemos fazer para isto é. Eram da raça dos que. poderia ser contraproducente. transcrevo uma narração emblemática de Antoine de Saint-Exupéry. antes. A esse propósito. nós os levávamos a passear. a um tiro de fuzil de um infiel. Só através do Alcorão conheciam a existência de jardins em que murmuram regatos. E essa tarefa é justamente a de nos conhecer. "– Veja você. E é por isso que ali. Mas Deus os engana. (170) . depois de trinta anos de miséria. Água! Aqui. como afirma Paul Ricoeur. olhando o Saara que se estende. Às vezes a literatura possui a capacidade de explicar com uma imagem aquilo que mil ensaios não conseguem exprimir... eles se entregam a confidências. deserto. uma fonte ou uma rosa. Esse Paraíso e suas belas cativas é ganho pela morte amarga sobre a areia. o Deus dos franceses. Aqueles homens jamais haviam visto. tendo uma vez me acompanhado ao Senegal. Ele é mais generoso pra os franceses do que o Deus dos mouros para os mouros! Algumas semanas antes haviam sido levados a passear em Savóia. choraram ao ver árvores.

. se manifestava: não se lhe podia virar as costas. até chegar a uma pobre lama misturada com urina de camelo! Água! Em Cabo Juby. – Se você se portar bem.. Ele se arrepende depressa. ele é avaro.. Quando chove em algum lugar. assim.. – É preciso esperar. É melhor não pensar muito nessas coisas porque então não se compreende mais nada.. As tribos caminham para aquela erva que crescerá a trezentos quilômetros de distância.. do ventre da montanha.. ali.. E essa água tão avara. A água que passava em um só segundo teria ressuscitado caravanas inteiras que. o Deus dos franceses. o próprio sangue dos homens. eles não insistiam sobre a cascata. O que saltava. Podese até duvidar de Deus. quando se encontra esse poço.. em Cisneros. quantas horas para cavar na areia que o cobriu.. em Port-Étienne. Água. naquela noite. cuja menor gota tira da areia a centelha verde de uma folha.." (171) . mudos. graves. bêbadas de sede. ao desenrolar de um mistério solene.. Deus. Calavam-se e assistiam. me dá.. Deus abria suas represas e mostrava sua potência: os três mouros permaneciam imóveis. É melhor calar certos milagres. Queriam esperar a hora em que Deus se cansasse de sua loucura. Com uma lata de conserva vazia na mão pedem esmola de água: – Me dá um pouquinho de água. um grande êxodo anima o Saara. – Esperar o que? – O fim. – Mas essa água corre há milhares de anos! Assim. da qual não caiu nem uma gota em Port–Étienne durante dez anos. essa água roncava ali como se de uma cisterna arrebentada saltassem todas as provisões do mundo. – Veja você... Mas eles não se mexiam: – Deixe-nos ficar um pouco mais. – Vamos embora – disse-lhes o guia. – Que querem ver mais? Vamos embora. haviam mergulhado para sempre no infinito dos lagos de sal e das miragens. era a vida.Monografia quantos dias de marcha para atingir o poço mais perto e. os meninos mouros não mendigam dinheiro.. água vale seu peso em ouro. água.

Não conheço sua origem. mesmo que também isto exigisse abrir mão de todas as minhas energias”. dessa vez muçulmano. No entanto. São qualquer coisa de aberração que não posso evitar. não participei das crises sucessivas que foram o prelúdio de sua fabricação. admiravelmente narrado por um autor ocidental. tanto que não posso evitar confrontar-me com eles. Nós vivenciamos o problema da morte de Deus: este não é absolutamente o problema (172) . na época colonial. me atrai. há neles algo que me seduz. São algo de insondável. que devem de algum modo suportar o produto da modernidade como coisa que não escolhem. Também sob este aspecto houve uma grande mudança. que quase fugiu de todo controle. não devemos projetar nos outros nosso modo de perceber e de viver as coisas. Também não tomei parte das tentativas que os tornaram possíveis. A raiz da crise A crise é o maior drama das grandes civilizações. que mostra qual é a sua relação com a modernidade. intelectual iraniano que escreveu em francês um livro muito interessante. são–me estranhos. que me sirvo deles. perturbam meus hábitos e me são impostos inevitavelmente. Le regard mutilé 7. mais uma vez. o moderno era uma imposição deliberada que os povos colonizadores faziam com relação aos outros. Desse modo. entendidos em toda a sua espessura. mas os tolero no mesmo instante em que me aposso deles. porque. Também neste caso. Trata-se de Dariush Shayegan. que se propõe subitamente no campo do meu conhecimento. nem encontro em meu espírito as representações adequadas para poder fazê-lo. que fala da esquizofrenia cultural nesses termos: “As novas idéias que me assaltam e os novos objetos com os quais me deparo. o que agride os representantes da cultura árabe e muçulmana não é uma crise de fé. mas que lhes é imposta. não vi seu nascimento. trata-se de um mecanismo que funciona por si. se autoimpõe e gera reações talvez exasperadas.Monografia Essa atitude diante de um fato natural. Não tenho nem palavras apropriadas para compreendê-los. acha um correlato na reflexão de um intelectual. É bem verdade que os vejo. Hoje.

Mas. O que ocorre é uma crise de religião.Monografia dos muçulmanos. a sua desorientação diante desse fenômeno possui um correspondente em nossa consciência. o império otomano era uma grande superpotência). Não necessariamente por má fé. que nos levou a ser uma das maiores civilizações da história e a ter papel de prestígio na escala internacional (até a Primeira Guerra Mundial. e era um valente. A tecnologia é uma arma. mas simplesmente porque nossos modelos são de tal maneira bem engendrados e eficazes. Qual o caminho da saída? Como sair disto. até demais. Ariosto narra que o arcabuz foi lançado nas profundezas do mar porque é uma arma infernal e diz: “Nunca mais se vanglorie o perverso por te possuir”.. O que fizemos muitas vezes conscientemente. quem brande a espada. então? Não pretendo dar uma resposta. como fazer para renunciar a propô-los? (173) . global e totalizador. reformistas e modernistas. mas como símbolo de todo mecanismo que produz um efeito. um choque ao qual se responde de vários modos da parte dos fundamentalistas. hoje não funciona mais. a sua crise. é um instrumento que oculta o valor de quem o utiliza. Deus existe. Esse sistema. progresso. poder. quem aciona um gatilho pode ser bem inferior em relação à pessoa a quem ataca. onicompreensivo. seria presunçoso e arrogante. ou que ainda estamos fazendo inconscientemente. nos dá bem-estar. Enquanto o cavaleiro medieval devia submeter-se a um rígido adestramento para usar suas armas. uma crise do sistema. porque queremos dominar os outros. Um intelectual egípcio. o Islã. contemporâneo. Estou falando do arcabuz não só como arma. considera-se uma evidência e não se coloca em questão esse fato. saúde. Mas há tempos sabemos do reverso da medalha. Em Orlando furioso. exprimiu muito bem tal desorientação nessa frase: “Nós nos perguntamos como foi que o mundo tornou-se o inferno dos crentes e o paraíso dos descrentes”. isto é. Somos bem conscientes de que o nosso sistema funciona muito bem. É essa a raiz da crise. de alguma forma.. é impor a todos os nossos modelos.

de aceitar viver o caráter paradoxal da condição humana. Conscientes e orgulhosos das coisas boas que com esforço conquistamos. não os desmente. caminhando através de passagens que talvez possam ser semelhantes.Monografia Impõem-se por si mesmos. mas lhes diz: “Eu sei o que vós não sabeis” (II. escreve-se outra coisa que não é nem jamais será a tradução perfeita do original. referente à tradução. o homem é um corruptor. que a racionalidade não pode ter a p r e t e n s ã o d e d o m i n a r. a condição humana é uma constante concatenação de coisas que são. Portanto. ao mesmo tempo. algo de paradoxal. a tradução é uma coisa impossível. É um ensaio no qual se recapitula a história da tradução. 30). Deus n ã o r e s p o n d e a e s s a p e rgunta. Contudo. isto os homens fazem desde sempre. coisas que fazemos diariamente. perceber que os outros têm seu caminho e passos a dar. g o v e r n a r t u d o . em vez de impor modelos. e x p l i c a r. Também no Alcorão encontramos esse conceito. um mistério que não pode ser explicado. se descobre isto: do ponto de vista teórico. Não porque seja absurdo e completamente in- (174) . Não é viável traduzir de uma língua para outra. mas não devem necessariamente ser idênticas às que nós conhecemos. porém. responde dando implicitamente razão aos anjos. esta natureza marcada por uma grande miséria e uma imensa dignidade. impossíveis e inevitáveis. em outras palavras. acima. que encontrei expresso de modo extraordinário no já citado livro de Paul Ricoeur. Falávamos. enquanto cantamos os teus louvores e exaltamos a tua santidade?”. no final. vigiar sobre esse mecanismo que vem se autoalimentando para favorecer os processos. ou melhor. devemos. Deveremos resistir a essa tentação. Este aspecto contraditório é típico da natureza humana. das teorias dos lingüistas e. portanto. Logo. Trata-se. Quando Deus cria o ser humano. fazendo-se perguntas. os anjos o observam com um certo incômodo e lhe perguntam: “Quer colocar na terra quem trará a corrupção e esparzirá o sangue. O destino do ser humano é.

pois. É um texto que tem dentro de si também os germens de profunda tolerância. que são os da pertença. mas essas coisas não estão ausentes nem no Alcorão. freqüentemente citado como texto que conduz à violência. Diverti-me enviando aos amigos. e.Monografia compreensível: entendo por mistério não tanto uma coisa que não se entende. embora sem renunciar de propor-lhe a nossa experiência. com obras boas. A nossa respon- (175) . do confronto e do desencontro. da identidade. além da relatividade das formas concretas que os seus valores souberam assumir no curso do tempo. É o manifesto da tolerância universal. à Guerra Santa. depois do 11 de setembro. mas não fez isto para provar-vos naquilo que vos concedeu. de novas interpretações. quem precisa aprender e quem deve ensinar. os muçulmanos não lêem esse versículo e a sua condição histórica e cultural os induz a preferir outros versículos. e jamais será esgotado. mas uma coisa que não se termina nunca de entender. e aceitarmos a nossa provisoriedade conscientes das positividades que cada qual possui. Dentro dessa perspectiva. à contraposição. então admitiremos que o outro pode fazer percursos diferentes. se Deus tivesse desejado. hoje. teria feito de vós uma Comunidade Única. Qual é o problema? O problema é que. e então Ele vos informará sobre as coisas pelas quais agora viveis em discórdia” (5. A aceitação da diversidade faz parte de todas as grandes tradições religiosas. Quando formos capazes de desistir de fazer graduações. Relembro uma frase de Tomás Morus: “Senhor. no Natal. estabelecendo quem é melhor e quem é pior. alguma coisa que é passível de contínuos aprofundamentos. Enfim. creio ser possível também um confronto entre culturas. esse versículo do Alcorão com o qual todos ficaram assombrados: “A cada um de vós assinalamos uma regra. Competi. Pode parecer estranho. porque todos retornareis a Deus. dai-me a força para mudar as coisas que posso modificar e a paciência para aceitar aquelas que não posso mudar”. que nos conduzirá sempre mais além. 48).

1981. José Olympio Editora. pp. multi– culturalismo e estranhos. (N. Le regard mutilé. Di fronte all’Islam. 2 SARTORI. G. 2000. Brescia. Una sfida etica. La traduzione. D. Paris. Albin Michel. 69-71 (N. (176) . P. A. 2001. caracterizada pela desproporção entre forças e fins. Marietti.) 7 SHAYEGAN. Morcelliana. 5 Que está em perfeito acordo com as qualidades e características de outra pessoa ou coisa. G. Genova.). 6 SAINT-EXUPÉRY. (Notas) 1 BOZZO. 3 Ação política ou social com objetivos extremistas ou exagerados. 1989. 2001. Rio de Janeiro. Paolo Branca é islamista e professor de árabe na Universidade Católica de Milão. 4 RICOEUR. Milano.T. e não apenas seus pesadelos. Pluralismo.T.Monografia sabilidade é a de criar condições para que cada um seja estimulado a extrair do seu patrimônio esses tesouros. Rizzoli. Terra dos Homens.

mar a sua vontade contra um ou seja. e e tranqüilizadora? A de obrigar os seus que administra política é a arte da contemporâneos a por conta da decisão. Maquiavel enconflitos e novas é isto. trador ou empresário. para proexatamente esta: a política porcionar os fins aos meios.também de uma tèkne basilikè. anti. tomar Se a política nada empresarial ou a parte e posição. que a política perde seria preferível que aquele papel de temperança nós nos dedicássemos a outros que algumas escolas filosóficas encargos: melhor ser adminisantigas lhe atribuíam. a ela deve seguir-se aristotélico por excelência.perança. e sim com a virtus. é uma tèkne politikè. da capacidade de proinimigo porcionar os fins estratégicos Isto é a virtus: a capacidade do aos meios indispensáveis para (177) .Monografia O conflito que gera identidade Massimo Cacciari A virtus política homem de colocar Que política Quem poderia fazer um objetivo além se afirmará crer que a política do horizonte onde na época dos possui apenas uma pode chegar o olhar impérios? Aquela função orientadora de seus inimigos. àquela que a afirmação do vir. do homem p o d e m o s d e f i n i r c o m o b o a maduro na culminância de administração. nada tem a ver com a tempe. Decidir sigsegui-lo. É justanão se trataria de identidades? mente no moderno política. tivesse a ver com que produz novos A política “Política” isto. que quer afir. A tônica revolucionária do A virtus política não é temdiscurso de Maquiavel. Neste caso. com “técnica política”. comunidade nifica cortar. mas consta sua potência.A política não é reduzível à rança. sobretudo motão responderia que dernamente.

mas é a linguagem que Tucídides faz os atenienses falarem quando constroem o seu império. que desorienta totalmente em relação à situação dada. que administra bens com (178) . que entende a política como insegura. Ao lado dessa tradição dominante na modernidade que vai de Maquiavel a Hegel e Smith. porque atualmente a ocidental é uma cultura que se tornou planetária. também há uma tradição que vê a política como temperança (como fronesis). Certamente existem essas duas tradições: por qual delas somos? Somos por uma política-administração. A política inventa e cria energias. ao contrário. isto é. portanto. Em seu interior existe essa corrente de pensamento. porque toda a filosofia política contemporânea parte da reflexão sobre o significado da revolução e da conclusão napoleônica sobre ela. Trata–se de uma fase de desorientação total: vem o político. Não falo de Napoleão por acaso. próprio do termo (já platônico) da tèkne basilikè. Mas não se deve entender “Ocidente” como critério geográfico. capaz de inquietar e que não tranqüiliza. Aquela arte. o acento decisionista. ou totalmente eliminado. aponta um objetivo que seus semelhantes não vêem nem compreendem e consegue juntar os meios necessários para alcançar aquele fim. “ministra”. mobiliza. dentro da sociedade. Esta é uma grande tradição do conceito de política no Ocidente. Por outro lado. economista e sociológico).Monografia alcançá-los. uma arte do cálculo: essencialmente como tèkne politikè. Desse modo. mobilizadoras de fins que podem ir totalmente contra todo critério de utilidade (esse é o grande vício de todo determinismo materialista. a tèkne basilikè não se limita à administração da tèkne politikè. Ela jamais é compreensível com base em critérios de utilidade: que utilidade possuíam os franceses quando se deixaram massacrar na casa dos cinco milhões durante as guerras napoleônicas? Certamente não era a ditadura que os obrigava e sim uma adesão que dura bem além do período napoleônico. dramática e trágica. que podemos dizer consistir no fundar do império. é posto entre parênteses.

em que há toda uma série de especificidades. Nessas bases podem existir opções bastante diversificadas. É claro que se trata de um quadro geral. como políticas fiscais. entendem a política justamente como tèkne basilikè. A política como tèkne basilikè É preciso. isto é. que se coloca (179) . Temos enfoques de tipo revolucionário. Essa é a política que encontramos em Maquiavel. De acordo com o objetivo que é imposto. reduzir a política a administração. ou seja. destinos que os levam a conflitar-se entre si. sempre e de algum modo. mas transversal. Essa abordagem não é unicamente de uma parte política. deve-se procurar reduzir a taxa de tragicidade desses destinos através da mediação política. agir de modo que a política seja um lugar onde se produzam normas e regras definidas para o bom funcionamento do estado das coisas. Essa idéia da despolitização é cada vez mais entendida como redução do político ao administrativo. Os grandes países possuem. Podemos encontrar a linha da despolitização num pensamento conservador e restaurador autêntico. como o precedente.Monografia base em critérios econômicos? Esta é uma grande tradição da cultura ocidental. Hegel e Smith. porém a filosofia e a abordagem de fundo ao problema caracteriza-se pelo entender a política como administração do econômico. além disso. conservador e reacionário que. pede-se ao público para desorientar-se em relação à sua utilidade e cálculo econômico e para reorientar-se sobre motivações e escopos absolutamente valoriais. de redistribuição e do trabalho. porque ele também pensa a política sem confundila com pacifismo ou com igualitarismo. Contudo. malgrado essa sua diversidade. é pedido um sacrifício. é a tradição que pensa a política entendida como indicação de objetivos estratégicos. características para ele reconduzíveis às realidades dos Cantões Suíços. até para evitar as tragédias do político fundamentado no apelo ao público para alcançar os objetivos absolutamente de valor e com base numa política da convicção. E em Weber. contrária e oposta àquela precedente. ligada à despolitização.

o fim último da revolução consiste justamente na eliminação de toda forma de soberania política. Neste sentido. ao discurso da divisão dos poderes. Assim. a redução do político se traduz em poder que regula. o político e o estadual. ao medieval e também ao maquiavélico. que tem como objetivo primeiro reduzir efetivamente o peso do poder político. reduzir o risco de um poder político absoluto. Ocorre. com o escopo de reduzir o poder da máquina estadual jacobina que devora as chamadas “comunidades originais”. porque se eliminada completamente tem-se a anarquia. a reviravolta completa em relação ao paradigma clássico. incluindo valores “não-negociáveis” porque absolutos. (180) . então. para isso. isto é. como afirmavam Baudelaire e seu ilustre mestre De Metre (ambos. entendido como tèkne basilikè. essa idéia da descategorização do político para o administrativo pertence também ao grande pensamento liberal a partir de Montesquieu e Locke. ao menos. A idéia de que o destino do Ocidente consista na despotencialização progressiva da política representa um formidável denominador comum em tradições absolutamente opostas sob o ponto de vista da práxis política. de que fala Polany e que aconteceu no decorrer do século XIX. administra e normatiza o econômico. no sentido antropológico do termo. sem eliminá-la. o problema europeu consiste em reduzir a soberania. embora totalmente reacionários. ensinam a raciocinar de maneira sóbria e não ilusória). Em vários aspectos. A divisão dos poderes tem o objetivo primário de eliminar ou. que impedem o cálculo e a lógica mercantil do intercâmbio. É essa a grande e inédita transformação cultural. A descategorização do político para o administrativo constitui também a alma secreta do comunismo para o qual. mas o econômico.Monografia como imperativo categórico com a Restauração do início do século XIX. Não com base num cálculo de utilidade e sim em vista de uma reorientação social. fixadas nos vínculos sociais tradicionais. paradoxalmente. Basta referir-se. O comando da res publica não está mais nas mãos de quem educa e forma: não é mais a política que governa a pólis.

o conflito se tor- (181) . que caminha no percurso maquiavélico jacobino e não pensa na superação do político. de que lado estamos? O Ocidente é um conjunto de numerosas tradições. das forças produtivas. Pensamos na política para eliminar dela o polemos? Nosso Vico sabia bem que toda probabilidade. Para Marx. porque através da organização da plebe se produz uma identidade coletiva. como o pensamento da Restauração ou como a tradição marxista. as regras e os mecanismos do econômico para que o político é chamado a administrar: o político torna-se ancillae aeconomiae. ou seja. que só o capitalismo permite. a ponto de superar o político. dominante no século XX. o desenvolvimento das forças produtivas. justamente porque a figura do espírito absoluto é o Estado. porque para Marx o momento da política é exatamente um “momento”: é verdade que nesse momento a política alcança a sua intensidade máxima. o conflito da política? Raciocinando nos escritos de Tito Lívio. uma subjetividade forte. expressão máxima da soberania e do poder político. Ao contrário. Este segundo conflito é positivo e representa a verdadeira causa da grandeza de Roma. Maquiavel distinguia dois tipos de conflito: o conflito na antiga Roma republicana e a guerra civil. afinal. chega a um ponto em que elas adquirem um tal grau de poder e maturidade. o conflito contínuo entre os patrícios e os plebeus. e então queremos eliminar. opostas e polêmicas. para dizer em termos maquiavélicos. com relação também ao discurso político.Monografia porque são as normas.1 Esse raciocínio vale tanto para o pensamento da Restauração e para o liberal quanto para o marxismo. O que queremos realmente? Pensamos como os libe rais. o político deve ser extinto através de um mecanismo que profetiza a tomada plena do poder por parte do econômico. O conflito segundo Maquiavel Mas. cidade (polis) e guerra (polemos) possuem a mesma raiz. mas somente para desaparecer e auto-superar-se. Nisto Marx é contrário a Hegel. O capitalismo nunca encontrou um apologético tão desenfreado quanto Marx.

A esse respeito. e o único no momento previsível é o dos Estados Unidos. amadurecidas e virtuosas. de comunidade dentro de um Estado? A política na época dos impérios É bom observar que seremos reacionários se pensarmos que a política ainda possa centralizar-se nas soberanias. para Maquiavel o conflito é fundamental para amadurecer identidades fortes. No máximo. ou seja. a meu ver culturalmente incapaz de articular-se de modo planetário em comunidades ricas e (182) . mas que já morreu. dos antigos Estados: a história dos Estados. Este é o ponto fundamental: será possível ainda raciocinar sobre política nesse sentido. em caso contrário. Por mais que dure este fim. numerosas seriam as críticas e as reservas sobre as potencialidades da cultura americana. territorialmente determinadas. impossíveis de constituir: é através das lutas. isto é.Monografia na negativo quando se coloca como processo que desagrega as identidades anteriores. A época que se abre. o certo é que a história dos estados nacionais está filosoficamente terminada. desde o fim da Segunda Guerra. porém o discurso seria extenso demais: nesse campo quero somente acentuar que com o termo império aponto a formação de entidades políticas sobrenacionais. historicamente significativas. terminou. poderão durar somente como a luz de uma estrela que pode ainda ser vista depois de milhares de anos. como organização iniludível de identidade. É preciso entender se será esta a história de impérios e numerosas comunidades sobrenacionais. agrade-nos ou não. nunca algo poderá ser mudado. dos exílios e dos conflitos que surgem os grandes grupos dirigentes e se afirmam as novas classes políticas. ou a história de um único império abstrato e absoluto. porque o Estado é potente na medida em que dentro dele há articulações por linguagens fortes. é a dos impérios. Assim. quando não é constituinte: nesses termos nenhuma cidade ou Estado poderá tornar-se grande. império só pode existir um só. Poderão existir vários impérios ou um único apenas. com a queda dos muros. sem afirmar novas.

e que falta toda a instituição política global e todo o direito internacional. Esses são os traços característicos que nos desorientam nesse nosso período histórico. dado que vivemos uma época de desorientação na qual é evidente que as antigas formas de soberania (os antigos Leviatãs e as tradicionais formas de poder territoriais) estão no ocaso. uma privatização progressiva do direito público europeu. tendência fundamental de nossa época. a potência do econômico sobre toda orientação política. ou considerar que a política ainda tenha. Parece que no plano global. ricas de sentido historicamente concreto. técnico-científica. considerando. seja possível analisar comunidade e identidade.Monografia dotadas de sentido. Esta é a grande aposta européia: A Europa conseguirá tornar-se grande exemplo internacional de uma verdadeira comunidade sobrenacional. Atua. assim. historicamente fundamentada. financeira e econômica. aos poucos. porém. Devemos. perguntarnos se nesse cenário em que estamos imersos nosso destino será a assunção não-ilusória desse processo e simplesmente a tentativa de administrá-lo da melhor maneira possível. Esse é o dilema e a oposição que percorrem toda a modernidade e aos quais também nós devemos prestar contas. não se tem intercâmbio de classe política e nem a inovação. um valor próprio. Minha tese é que. em sentido próprio. o que vigora em contrapartida é uma hierarquia dominada por regras e normas de intercâmbio (uma espécie de lex de mercado universal). O desafio da modernidade A política deve ser entendida como organização de conflitos constituintes. como dado realística e absolutamente irreversível. pois. reduzida a administração econômica. fazer política para organizar novas identidades. dentro de uma globalização abstrata. O ponto é: se achamos que seja iniludível essa tarefa ou se pensamos que a política deva ser. devemos. para manter-se em produtiva contra- (183) . em cujo interior haja um conflito político? Sem o conflito político não se consegue regenerar o sistema. hoje mero produto da comunidade empresarial. não–histórica.

essa é a lastimável tendência conservadora e reacionária de certas democracias sociais européias.Monografia dição e produtivo conflito com a estrutura técnico-científica e econômica. a procura de subjetividade e liberdade? Não me refiro a comunidades guetizadas ou fechadas. analisar a potencialidade dessas identidades. Este é o verdadeiro conflito produtivo. sem estar a seu serviço mas com a intenção de conflitar-se com ele. só porque parece que ali haja maior respaldo. mas a uma procura de identidade que se refira à liberdade de cada indivíduo dentro do sistema. A essa altura o problema é claro: é possível analisar. No moderno existe este significado da política. Ai de mim se enxergasse a nova orientação da política voltada para a defesa dos antigos Estados. em vez. que não seja a antiglobal. esta é a minha política. competir. em polêmica. que demonstra a prepotência do econômico em relação ao moderno. e amadurecer nessa questão. É antes necessário vigiar e analisar com curiosidade. ao contrário. orientada para a organização de produtivos conflitos. isto é. Eu não sou “anti”. numa situação extremamente mais complexa e difícil. contradizer: é na contradição que desejo ser reconhecido. a potencialidade de subjetividades políticoculturais de forma a ver o sistema em seu conjunto como contraditório e conflitante em sua essência? É possível. na nova economia. confrontar-me. quero. nesse processo. É possível redescobri-lo hoje. como expressão potencial de novas formas de sociedade? Este é o novo trabalho que cabe à nova política para ser realmente ela mesma e não para definir-se “anti”: negar o novo processo em curso é um exercício que resultaria reacionário por parte da política que deve ser. de ficar em contradição. daria como oficialmente reconhecida uma dependência abissal daquilo contra o qual sou “anti”. afirmando a minha liberdade e reconhecendo o outro. dentro da nova economia e das novas (184) . que conduz em direção ao único império? Podemos pensar a nova economia. Nessa controvérsia também há o reconhecimento do sistema: se de fato eu fosse antiglobal.

hoje. o conflito político e a nova orientação que a política deve seguir.Monografia profissões. Este é. ajudando-as a contradizer o global. a existência dessas potenciais novas identidades e comunidades e dar-lhes a palavra. (Nota) 1 Servo da economia (N.) Massimo Cacciari é professor de Filosofia Estética na Universidade de Veneza.T. (185) .

depois. pouco exemplares.em grande número à festa plos.a de Helena.surtiu efeitos dessa época. e pronto. de ordem. trazendo presentes mais: Afrodite. como era costume. nos conjunção carnal. como serpentes. Os deuses compareceram heróis. Citaremos dois exem. Anquises e deu à luz a Enéias. foram as mais com os mortais com a finalidade celebradas dentre as citadas de produzir homens superiores nas histórias de deuses e heou. naqueles por sua vez. As núpcias de Peleu verdadeira guerra então. No entanto. Tétis. relutantes. mais precisamente. Antes para se subtrair à . primórdios. Impôs-se. e truques insidiosos. deuses tinham seus zavam escapando desejos desmedidos afazeres. grande deu.Monografia Wargames para uma clonagem Mario Unnia Nos tempos antigos.belos tempos que ainda viam sa marinha. à memas. Não eram juntos em alegria. uniu-se ao pastor troiano sa vontade de banquetear-se. a mais delicada dos sua primeira e Terra começava a peixes. e heróis estava na artes transformistas por obra de Hera ordem do dia. sofrer. uniu-se a Peleu mortais e imortais se sentarem e gerou Aquiles. mundial. a deusa do abundantes e com uma imenamor. Tinham sido (186) . clonagem histórica tico entre deuses utilizavam todas as . porém houve muitos nupcial. renprecipitaram a dida que crescia diam-se sob a forma humanidade em a Humanidade. Algumas depois do casagrandes deusas fomento de Cadmo ram condenadas a gerar filhos e Harmonia. relações fáceis. desliintrigas e volteios. a necessidade com a deusa Tétis. as coisas rugiam os dentes Uma espiral de não eram assim: os como leoas. As A primeira o envolvimento eródeusas. os róis.

Agamemnon e Menelau. a posse de Helena. Segundo os costumes. Sucessivamente. devia conduzir ao enfraquecimento do gênero humano. excluiu Éris. pousaram os olhos nas irmãs Clitemnestra e Helena. tirou Helena do primo Tântalo. já havia sido raptada por Teseu. que se tornaria tão famosa para a posteridade quanto aquela memorável dos judeus e cristãos. e pediu a mão de Helena para Menelau. Ele era filho de Príamo. quiseram agarrar o presente. nunca era acreditada – e mandou levar o filho Páris até o monte Ida. É fácil imaginar a reação das outras duas deusas excluídas. mas. Hera. Ofendida com a afronta. a vitória e o heroísmo. os dois filhos de Argo. foi designado para levar a maçã e as três deusas a Páris. Helena não era uma qualquer. porque a ele estaria ligado o triste destino da cidade. os dióscuros. a deusa da discórdia.Monografia pessoalmente convidados por Zeus. a reconduziram para casa. optou por Afrodite. Afrodite e Atenas. portador da desgraça. bondade sua. como condiz com o mérito de uma esposa divina. eliminando-o. rei dos ladrões. quando a mulher deste. porém seus irmãos. dotado de um temperamento manso e obediente. Páris (como não escolhêla?) cedeu ao desejo amoroso e. que havia gerado Helena e favorecido o casamento que se festejava (ambos os eventos teriam conseqüências terríveis para a estirpe dos heróis). Deveria escolher não só a mais bela deusa. mas também o que cada uma oferecia: Atenas. a mão de uma princesa devia ser pedida simultaneamente pelos pretendentes merecedores da (187) . Teve início uma disputa que. A questão foi colocada a Páris. estava grávida. o poder e a soberania sobre a Ásia. Hera. a filha de Zeus. o mortal escolhido para dirimir a disputa. sem nem ter visto Helena. o amor. Éris jogou entre os convidados uma maçã. decidida por um mortal. ou seja. As três deusas mais importantes. Em tenra idade. dotada de dons proféticos – sugeriu que o abortasse. à destruição de Tróia e ao fim do reino de Micenas. tendo sido rejeitada por Apolo. Agamemnon. Mas Príamo não acreditou – Cassandra. rei de Tróia. Hermes. Hécuba. Afrodite. sua outra filha – Cassandra. belíssimas. de temperamento forte como um Zeus terreno.

Helena lhe deu uma filha. recebeuo em Esparta como hóspede honorário e bem-vindo. a Menelau. mas não como Agamemnon esperava: com efeito. O casal uniu-se na ilha rochosa de Canae e. Como então o adultério era coisa habitual. à margem dos fatos. Helena cedeu a Afrodite como uma rainha mortal. Idomeneu e – há controvérsias –. Ajax. e isto não tanto para permitir à jovem a escolha. A coroa destinada ao genro de Zeus foi dada. Feliz e ao mesmo tempo trágica precaução. Íris. o próprio Aquiles. mas para dar aos pretendentes a chance de mostrar o fascínio e o poder de que eram capazes. Enamorada de Páris. desfilaram Diomedes. mas (188) . sua cópia mais jovem. nenhum rei podia considerar-se seguro em relação à esposa se aquele sedutor não fosse punido. que era louro. tinha olhos azuis. Macaon. na Grécia. dali. Agamemnon não hesitou em enviar uma mensagem aos pretendentes para que não esquecessem do juramento feito e lembrassem que. velejaram até Tróia. a frota preparou-se para partir. levou dez anos para que convencesse os reis a preparar a expedição. a alcoviteira mensageira dos deuses. levou a notícia a Menelau. o argumento era forte.Monografia cidade inteira. Podalírio. deveria entrar Páris. o viço da juventude nas faces e os pés fortes. resolvido a cobrar o prêmio. nas horas que se seguiram. Tendo Agamemnon demonstrado preferência por Menelau para esposo de Helena. Completadas as fileiras. todos os heróis foram convocados e foi-lhes pedido que jurassem que iriam ajudar o marido escolhido se alguém pretendesse disputar sua esposa. Odisseu. pois. feliz a seu modo. dali em diante. o outro Ajax – o Pequeno –. Todos os heróis que combateram em Tróia por causa de Helena tomaram parte na disputa matrimonial: pela ordem. acompanhou-o levando consigo muitos tesouros da casa real. No décimo dia precisou ir a Creta e. Mas nesse casamento. Menelau. que partiu de Creta até o irmão. e tendo ela aceitado. Não adiantou a Odisseu fingir–se de louco para subtrair-se ao juramento. nem a Aquiles fingir-se de mulher para recusar a convocação. citando apenas os maiores. em Micenas. Hermíone. como se sabe.

surgiu uma serpente de dorso vermelho. Durante um sacrifício de propiciação. no momento de ser morta. O herói estava casado havia só uma noite. que. Clitemnestra começou a cultivar ódio pelo marido. ainda que não consumado. Finalmente. a filha de Agamemnon. atacou os heróis mais próximos e mordeu o pé de Filoteto. prontos para a partida. de volta para casa. privada do ato amoroso. passaram um ano inteiro em guerra e. velejando. avistaram os muros de Tróia. que subiu num plátano em cuja ponta havia um ninho e engoliu oito tentilhões e a mãe. Na viagem para Tróia pararam para visitar o santuário da deusa Crisis. A serpente. os gregos foram impelidos para longe de Tróia. Novamente eles não quiseram dar ouvidos aos sinais do céu. somente depois da destruição da Teutrânia deram-se conta do erro. A esposa. Acreditando que aquela tinha relação com a terra de Príamo. ofendida com a mentira e o rapto da filha. Mas. Como tirá-la da mãe. na Mísia. então. a deusa substituiu a jovem por uma corça e levou-a consigo a Criméia. E assim foi feito. Oito anos se passaram antes que eles se reunissem novamente na Aulida. sugeriu Odisseu. não se considerava recompensada (189) . Pilotora. guardiã do templo e para ela sagrada. Calcante. onde serviria como sacerdotisa. As conseqüências nefastas desse sacrifício. manifestaram-se imediatamente. O primeiro herói que desceu à terra foi Protesilau. mas não foi assim. reino de Teutrante.Monografia as tempestades ameaçavam a partida. Um segundo sinal premonitório deveria detê-los. que foi abandonado na ilha de Lemno. Clitemnestra? Fingindo levá-la para ser esposa de Aquiles. Fazendo-se ao mar. anos depois. Essa desorientação deveria iluminar suas mentes. Os insensatos decidiram prosseguir mesmo assim. não teve dúvidas: a guerra ia durar nove anos e somente no décimo Tróia seria vencida. que foi imediatamente morto por um troiano desconhecido. Ofereceram um cabritinho à deusa Artemis para que liberasse o caminho. porém não agradou à deusa caprichosa que exigiu um sacrifício ao mesmo tempo reparador e propiciatório: o de Ifigênia. Os mares se acalmaram e os gregos puderam partir. Nesse ínterim. lhe seria fatal. o adivinho.

Também este sinal premonitório não os deteve. O primeiro sinal fora a morte de Páris pela mão de Diomedes. Assim. Quando Protesilau desapareceu. Tétis. Encolerizado. para ver ao menos uma vez a bela mulher pela qual estava combatendo. morrendo pouco depois – como se sabe. Então. morta por Aquiles. e agora a cidade de Ílion tinha de tombar. como se não estivesse morto. e se intensificaria depois que matasse Troilo. Contudo. o segundo. Teria sido melhor para todos. Aquiles olha para ela e expira. lançando os troianos em desespero pelo furto sacrílego. foi avisado que Patroclo. tu morrerás”. sua imortalidade estava ligada a um fio e. Aquiles enfrentou e matou Heitor. então”. verdadeiras destruições. quando já tinha organizado os seus homens para partir. mas na beleza de seu corpo. investido de suas armas. deveriam distinguir-se na batalha para poder escolher o esposo. sua resposta foi: “Que eu morra. Os nove anos passaram-se num crescendo de duelos. a mãe lhe mostra Helena em pessoa. o encontro.Monografia pelas elevadas honras reservadas ao cônjuge abatido. mas dirigida a Apolo. filho de Hécuba e Apolo. tinha se aventurado sob os muros de Tróia. de Odisseu – que entra na cidade disfarçado de mendigo – e Helena. Entre elas estava a amazona Pantesiléia. em Tróia. Graças à sua ajuda. atingido no calcanhar pela flecha disparada por Páris. filho da deusa Eros. os deuses se enterneceram e permitiram que Protesilau ficasse uma noite com a mulher. Mas. Aquiles briga com Agamemnon por uma troca de concubinas e decide ir embora. De nada valeram as súplicas dos companheiros. O combate começou quando Aquiles matou Cicno. Odisseu apodera-se do paládio1. A certa altura. segundo a tradição. Foram combater em favor de Tróia algumas mulheres guerreiras que. não como uma sombra. onde encontrou a morte pelas mãos de Euforbio e Heitor. antes de morrer. quis vingança. começam a (190) . Também tombou no campo Memnon. ela se matou. raptos de mulheres. Inutilmente lembraram-no da profecia de Tétis: “Depois de Heitor. A sorte de Tróia estava lançada. Com a ajuda de Afrodite. pediu à mãe. filho de Poseidon.

Somente a poucos. junto com Odisseu. foi destinado um retorno feliz. Ao receber a notícia de que um ladrão roubava seus rebanhos. depois de um naufrágio perto de Festo. Idomeneu. na costa meridional da Itália. A conselho de Proteu. uma viagem de oito anos os levou à revelia primeiro para Chipre. como ao velho Nestor de Pilos. onde perderam cinqüenta e cinco de seus sessenta navios. só Enéias se salvou porque há tempos tinha se retirado para as colinas nas cercanias de Tróia. depois para a Fenícia. Brandindo a espada. a morte chegou também para ele. apressam-se a chegar até os navios. Segue-se a matança. Telégono. Diomedes. começava o retorno dos heróis da guerra troiana. cujo caminho conhece bem. Contudo. correu até a margem do rio para puni-lo e aí foi atingido por uma flecha disparada por um de seus filhos. quando acreditava ter escapado de todos os perigos. mas a espada cai no chão. Agamemnon morre por mão assassina. nascido de Circe. Os dois se abraçam. causa da longa guerra e daquela noite terrível. ao contrário: descobre o peito como se quisesse receber o golpe. Dos troianos. Em meio a tamanha crueldade. Egito e Líbia. nos quartos do Deífobo. põem o cavalo para dentro dos muros e comemoram. Tenho chegado a Ítaca. As agruras de Odisseu duraram dez anos. chegamos ao final da (191) . pelo fim do cerco. Odisseu conduz Menelau até Helena. e ofereceram sacrifícios a Zeus para reencontrar o caminho de casa. Quanto a Helena e Menelau. junto ao santuário do paládio. Ajax de Locrides morre num naufrágio. enquanto Odisseu e seus homens abrem os portões para o exército em peso. Menelau se lança sobre ela. na costa de Creta. Helena espera pelo marido abandonado. Helena não foge. nas Tremites. Ao voltar para casa. retornaram ao Nilo para reparar os pecados e as omissões. felizes. Em suma. que acabava de desembarcar em busca do pai que não conhecia: uma cruel e tardia vingança da maga. Assim.Monografia construção do cavalo com o objetivo de ressarcimento e perdão: os troianos caem no logro. no exílio. teve a satisfação de vencer os arrogantes pretendentes que ameaçavam sua mulher. Em seguida.

imolaram-se por um “engano”. Páris.T. Uma vã aparência e uma escolha absurda fizeram correr torrentes de sangue em Tróia. O que aconteceu?.) Mario Unnia é presidente da Prospecta (Milão). Sem saber. Fontes confiáveis transmitem que a deusa Hera. venerada em Tróia.. Menelau conduz de Faro para casa a “verdadeira” mulher. e ainda depois. ofendida com o julgamento de Páris..Monografia história. Assim. tinha posto nos braços do troiano uma imagem viva de Helena e fez Hermes conduzir a verdadeira Helena a Proteu. a cidade inteira de Ílion e uma estirpe de heróis. (192) . para que a protegesse até o fim da guerra. o esperava lá desde que havia sido raptada. que teria o poder de tornar inexpugnável a cidade (N. mas a filha de Zeus.. (Notas) 1 Estátua de Palas. deusa das artes e da sabedoria. ou Minerva..

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