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Editorial

O comunismo perdeu, mas o capitalis- Nos tempos da primeira guerra


mo não venceu. (Vaclav Havel) do Golfo, Edward Luttwak disse
de Saddam: “Ele não é como os
Como nos recorda Gorbachov, o príncipes sauditas, que gastam as
período que vai de 1990 até os receitas do petróleo em champa-
dias de hoje foi desperdiçado na nhe e viagens a Paris. Ele usa os
busca de uma globalização uni- petrodólares para construir ferro-
lateral - por parte dos Estados vias! Está formando uma classe
Unidos - e na competição ilimi- de técnicos instruídos! Em pou-
tada das multinacionais. Esses cos decênios, o Iraque poderá se
fatores traíram a esperança acesa transformar na principal potência
em 1989 com a queda do muro da região”.
de Berlim. Aqui estão, portanto, as razões re-
O sistema capitalista, depois ais de uma guerra aparentemente
absurda: com o álibi de se expor-
de seu efêmero triunfo, perdeu
tar a democracia, importa-se pe-
de vista a complexidade do tróleo a preço baixo e impede-se
planeta, seus problemas reais e o progresso de países pobres.
suas contradições gravíssimas; Entretanto, manter cinicamente
esqueceu-se da pobreza e do atrasado o Terceiro Mundo, ali-
atraso do Terceiro Mundo. Em mentando a mistura explosiva
vez de reduzir os desequilíbrios feita de fanatismo religioso e
existentes, o capitalismo se pobreza econômica, é um pecado
preocupou somente em tirar o mortal feito à custa das vidas de
máximo de vantagem da hege- milhões de inocentes.
monia conquistada. Perdeu de Mais uma vez se demonstra que o
vista a necessidade de construir comunismo perdeu, mas o capita-
uma nova ordem mundial mais lismo não venceu.
justa do que aquela legada pela
Guerra Fria. Domenico De Masi

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Editorial

Iniciamos o século XXI presos Difícil prever quanto tempo tere-


aos fantasmas do século XX. O mos pela frente se perpetuarmos
que aconteceu com a alegria e a situação atual, porém a massa
com os sonhos suscitados pela de excluídos do turbo capitalismo
virada do milênio? Alguns au- globalizado continua crescendo,
tores chegam a apontar que nos não só no Brasil, como também
encaminhamos para a Terceira em todos os cantos do planeta.
Guerra Mundial. Embora muitas A competição predatória, sem
abordagens de períodos histó- fronteiras e sem ética, perdeu
ricos tentem retratá-los como de vista que já temos capacidade
“especiais” de alguma forma, instalada na Terra para alimen-
não posso deixar de acreditar que tar sem poluir, para crescer sem
estamos chegando a um ponto de destruir e, principalmente, para
ruptura. conviver em paz sem desrespeitar
as crenças alheias.
A perversa concentração de ren-
da, o desencanto com a política, o Entretanto, como otimista inato
individualismo exacerbado, a in- que sou, não posso perder a
tolerância religiosa e o consumo esperança, derradeiro traço da
como fim em si mesmo são sinais dignidade humana. Nossa espé-
de uma sociedade à beira do abis- cie tem mantido a capacidade de
mo. Mesmo o olhar mais otimista, se reinventar e de surpreender o
que não negue o progresso tecno- próprio futuro que, de tão óbvio,
lógico e os avanços da medicina, não se concretiza.
não pode deixar de constatar que
falta humanidade na sociedade
por nós construída. Ivan Bentini

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Expediente
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NEXT BRASIL Redação


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Ano 2, número 2, 2004 Duque de Caxias – RJ
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(4)
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Redação Itália Produção gráfica


Giusi Miccoli Carolina Vigna-Marú

Redação Brasil
Vanessa Ornella Capa
Leonardo Da Vinci, S. João Baptista
Direção de Arte (detalhe), c. 1513-1516. Óleo sobre
Carolina Vigna-Marú madeira, 69x57 cm. Musée du
Louvre, Paris.
ISSN
1679-7922
Imagens
Impressão (8) Fotografias de Vania Toledo
Barra Quatro (1) Lan, ilustração inédita
(6) Lan
Tradução do italiano
Silva Debetto Cabral Reis
Assinaturas
Projeto gráfico original italiano Informações sobre assinaturas:
Franco Maria Ricci info@nextbrasil.com.br

(5)
Sumário
Border Line

número 2, 2004

Editorial por Domenico De Masi 1


Editorial por Ivan Bentini 3

Metáforas Organizacionais
Jorge Luis Borges A rosa de Paracelso 8

I PARTE: EM FOCO
Trabalho, Organização e Economia
Paulo Bertone Marketing não sobrevive sem endomarketing 12
André Midani Poder egocêntrico / Poder responsável 18
Eduardo Rozenthal A Gestão do Conhecimento:
Inovação e Novas Práticas de RH 25

II POT-POURRI
Valor Cultural
Marina Colassanti Porque nos perguntam se existimos 34

Case History
Angela Coutinho Análise e Reforma Institucional - O Testemunho
de um Percurso 44
(6)
Sumário
Border Line

O Prazer do Olhar
Carolina Vigna-Marú Da Mundi 58
Cristina Nascimento Poderes 63

III PARTE: ANÁLISE & SÍNTESE


Bits & Bites
Hernani Dimantas Parangolé Brasil 66

Curta Metragem
Laura Innocenti O melhor de Wired 76

O Prazer do Olhar
Lan Entrevista exclusiva 78
V PARTE: MONOGRAFIA
Giusi Miccoli A Desorientação 103
Pasquale Gagliardi A Supremacia das Profissões 106
Chris Meyer O Blur dos Blur: A convergência
entre informação, biologia e business 116
Fulvio Carmagnola Por uma estética impura 119
Washington Olivetto A dúvida como estética 128
Antonio Calabrò A governança da desorientação 136
Giuseppe O. Longo A desorientação na ciência 153
Paolo Branca O confronto das civilizações 165
Massimo Cacciari O conflito que gera identidade 177
Mario Unnia Wargames para uma clonagem 186
(7)
Metáforas Organizacionais

A rosa de Paracelso
Jorge Luis Borges
De Quincey Writings, XIII, 345

Em sua oficina, que O caminho é a falou:


abarcava os dois Pedra. O ponto de “Lembro-me de ca-
cômodos do porão, partida é a Pedra. ras do Ocidente e de
Paracelso pediu a Se não entendes
caras do Oriente”,
seu Deus, a seu in- falou, não sem
determinado Deus, a estas palavras, nada certa pompa. “Não
qualquer Deus, que entendes ainda. me lembro da tua.
lhe enviasse um dis- Cada passo que Quem és e o que
cípulo. deres é a meta. desejas de mim?”
Entardecia. O es - “O meu nome não
casso fogo da lareira arrojava importa”, replicou o outro.
sombras irregulares. Levantar- “Três dias e três noites tenho
-se para acender a lâmpada de caminhado para entrar em tua
ferro era demasiado trabalho. casa. Quero ser teu discípulo.
Paracelso, distraído pela Trago-te todos os meus bens”,
fadiga, esqueceu-se de sua e tirou um taleigo que colocou
prece. A noite havia apagado sobre a mesa. As moedas eram
os empoeirados alambiques muitas e de ouro.
e o atanor quando bateram à Fê-lo com a mão direita.
porta. O homem, sonolento, Paracelso lhe havia dado as
levantou-se, subiu a breve costas para acender a lâmpa-
escada de caracol e abriu da. Quando se voltou, viu que
uma das portadas. Entrou um na mão esquerda ele segurava
desconhecido. Também estava uma rosa, que o inquietou.
muito cansado. Paracelso lhe Recostou-se, juntou as pontas
indicou um banco; o outro dos dedos e falou:
sentou-se e esperou. Durante — Acreditas que sou capaz
um tempo não trocaram uma de elaborar a pedra que trans-
palavra. forma todos os elementos em
O mestre foi o primeiro que ouro e ofereces-me ouro. Não

(8)
Metáforas Organizacionais

é ouro o que procuro, e, se o tude Paracelso.


ouro te importa, não serás meu — Agora mesmo, respondeu
discípulo. com brusca decisão o discí-
— O ouro não me importa, res- pulo.
pondeu o outro. Essas moedas Haviam começado a conversa
não são mais do que uma parte em latim; agora falavam em
da minha vontade de trabalho. alemão. O garoto elevou no ar
Quero que me ensines a Arte; a rosa e falou:
quero percorrer a teu lado o — É verdade que podes quei-
caminho que conduz à Pedra. mar uma rosa e fazê-la ressur-
Paracelso falou devagar: gir das cinzas, por obra da tua
— O caminho é a Pedra. O Arte. Deixa-me ser testemunha
ponto de partida é a Pedra. Se desse prodígio. Isso te peço, e
não entendes estas palavras, te dedicarei, depois, a minha
nada entendes ainda. Cada vida inteira.
passo que deres é a meta. — És muito crédulo, disse o
O outro o olhou com receio. mestre. Não és o menestrel da
Falou com voz diferente: credulidade. Exijo a Fé!
— Mas há uma meta? O outro insistiu.
Paracelso riu-se. — Precisamente por não ser
— Os meus difamadores, que crédulo que quero ver com os
não são menos numerosos que meus olhos a aniquilação e a
estúpidos, dizem que não, e ressurreição da rosa.
me chamam de impostor. Não Paracelso a havia tomado e, ao
lhes dou razão, mas não é im- falar, brincava com ela.
possível que seja uma ilusão. — És um crédulo, disse.
Sei que há um Caminho. Perguntas-me se sou capaz de
 Estou pronto a percorrê-lo destruí-la?
contigo, ainda que devamos — Ninguém é incapaz de des-
caminhar muitos anos. Deixa- truí-la, falou o discípulo.
–me cruzar o deserto. Deixa- — Estás equivocado.
me divisar, ao menos de longe, Acreditas, porventura, que
a terra prometida, ainda que os algo pode ser devolvido ao
astros não me deixem pisá-la. nada? Acreditas que o pri-
Mas quero uma prova antes de meiro Adão no Paraíso pode
empreender o caminho. haver destruído uma só flor ou
— Quando?, falou com inquie- uma só palha de erva?

(9)
Metáforas Organizacionais

— Não estamos no Paraíso, outros instrumentos.


respondeu teimosamente o — Não me atrevo a perguntar
moço. Aqui, abaixo da lua, quais são, falou o moço, dei-
tudo é mortal. xando Paracelso na dúvida se
Paracelso se havia posto em foi com astúcia ou com humil-
pé. dade. E continuou:
— Em que outro lugar esta- — Falastes do que usou a di-
mos? Acreditas que a divin- vindade para criar os céus e
dade pode criar um lugar que a terra. Falastes do invisível
não seja o Paraíso? Acreditas Paraíso em que estamos e que
que a Queda seja outra coisa o pecado original nos oculta.
que ignorar que estamos no Falastes da Palavra que nos
Paraíso? ensina a ciência da Cabala.
— Uma rosa pode queimar- Peço-te, agora, a mercê de
–se, falou, com insolência, o mostrar-me o desaparecimento
discípulo. e o aparecimento da rosa. Não
— Ainda fica o fogo na lareira, me importa que operes com
disse Paracelso. Se atiras esta alambiques ou com o Verbo.
rosa às brasas, acreditarias Paracelso refletiu. Depois
que tenha sido consumida e disse:
que a cinza é verdadeira. Digo- — Se eu o fizesse, dirias que
-te que a rosa é eterna e que só se trata de uma aparência
a sua aparência pode mudar. imposta pela magia dos teus
Bastar-me-ia uma palavra para olhos. O prodígio não te daria
que a visse de novo. a Fé que buscas: Deixa, pois,
— Uma palavra?, perguntou a Rosa.
com estranheza o discípulo. O jovem o olhou, sempre re-
O atanor está apagado e estão ceoso. O mestre elevou a voz
cheios de pó os alambiques. O e lhe disse:
que farias para que ressurgis- — Além disso, quem és tu
sem? para entrar na casa de um
Paracelso olhou-o com tris- mestre e exigir um prodígio?
teza. Que fizeste para merecer se-
— O atanor está apagado, melhante dom?
reiterou, e estão cheios de pó O outro replicou, temeroso:
os alambiques. Nesta etapa — Já que nada tenho feito,
de minha longa jornada uso peço-te, em nome dos muitos

(10)
Metáforas Organizacionais

anos que estudarei à tua som- pulo e no final do Caminho,


bra, que me deixes ver a cinza, verei a Rosa.
e depois a Rosa. Não te pedirei Falava com genuína paixão,
mais nada. Acreditarei no tes- mas essa paixão era a pieda-
temunho dos meus olhos. de que lhe inspirava o velho
Tomou com brusquidão a rosa mestre, tão venerado, tão agre-
encarnada que Paracelso ha- dido, tão insigne e portanto tão
via deixado sobre a cadeira e oco. Quem era ele, Johannes
a atirou às chamas. A cor se Grisebach, para descobrir com
perdeu e só ficou um pouco mão sacrílega que detrás da
de cinza. máscara não havia ninguém?
Durante um instante infinito, Deixar-lhe as moedas de ouro
esperou as palavras e o mi- seria esmola.
lagre. Retomou-as ao sair.
Paracelso não havia se al- Paracelso acompanhou-o até o
terado. Falou com curiosa pé da escada e disse-lhe que
clareza: em sua casa seria sempre bem-
— Todos os médicos e todos os vindo. Ambos sabiam que não
boticários de Basiléia afirmam voltariam a de ver. Paracelso
que sou um farsante. Talvez ficou só. Antes de apagar a
eles estejam certos. Aí está a lâmpada e de se recostar na
cinza que foi a rosa e que não velha cadeira de braços, derra-
o será. mou o tênue punhado de cinza
O jovem sentiu vergonha. na mão côncava e pronunciou
Paracelso era um charlatão ou uma palavra em voz baixa. A
um mero visionário e ele, um Rosa ressurgiu.
intruso que havia franqueado a
sua porta e o obrigava agora a
confessar que as suas famosas
artes mágicas eram vãs.
Ajoelhou-se, e falou:
— Tenho agido de maneira
imperdoável. Tem-me faltado
a Fé que exiges dos crentes.
Deixa-me continuar a ver as Jorge Luis Borges, escritor argentino falecido
cinzas. Voltarei quando for em 1986, é considerado um dos maiores repre-
mais forte e serei teu discí- sentantes da literatura hispânica.

(11)
Trabalho, Organização e Economia

Marketing não sobrevive sem endomarketing


Paulo Bertone

Troquemos de Um ótimo serviço dia-a-dia, sejam


lugar! pode se tornar ruim eles clientes ou par-
O título é, sem se os funcionários ceiros. Dessa forma
dúvida, polêmico e não confiam em
você tem a oportu-
revolucionário para nidade de conhecê-
si mesmos. Uma
os profissionais -los, entendê-los e,
dessa área. Muitos endoentrevista sobre conseqüentemente,
chegam a discordar endomarketing. agradá-los.
num primeiro mo- Agora vamos parar
mento, mas depois da idéia p o r u m i n s t a n t e e p e n s a r.
esclarecida, aceitam e con- Nas últimas 24 horas, você se
cordam com a nova proposta. lembra de ter sido atendido
Se para eles muitas vezes é como gostaria? Você se sentiu
difícil a compreensão desse satisfeito no supermercado,
conceito, fico imaginando a na farmácia, no restaurante
reação de um profissional que ou tentando esclarecer uma
não está diretamente ligado ao d ú v i d a p e l o t e l e f o n e c o m
marketing. o seu banco? Ao fazer uma
Para tentar facilitar o enten- queixa com o telefonista do
dimento do que estou dizen- seu cartão de crédito, ou até
do, vou colocar em prática o mesmo na tentativa de marcar
comportamento que todos os uma hora com a secretária do
cidadãos deveriam ter com as seu dentista, você recebeu a
pessoas do seu convívio, e que atenção esperada? Garanto
para mim é o melhor e mais q u e 9 0 % d o s l e i t o r e s s ã o
completo conceito de marke- c a p a z e s d e r e s p o n d e r q u e
ting e endomarketing. Trata-se não se lembram da última vez
de ter humildade suficiente em que foram atendidos como
para trocar de lugar com indi- desejariam.
víduos que fazem parte do seu Até quando, pergunto, os pro-

(12)
Trabalho, Organização e Economia

fissionais de marketing conti- as pessoas da sua empresa, ou


nuarão criando e anunciando seja, não criar o comprometi-
estratégias e promoções sem mento entre elas para poder
ter certeza de que serão capa- satisfazer as reais necessida-
zes de cumpri-las? Será que des do cliente. Porém, para
algum dia os departamentos você poder ter uma estratégia
de recursos humanos vão ter a eficiente de endomarketing,
sensibilidade de desenvolver primeiro precisa mostrar aos
procedimentos para realmente seus funcionários quem são
facilitar a vida dos clientes? os clientes, de que forma eles
Quando é que sentiremos os gostariam de ser atendidos,
efeitos das pesquisas de opi- como eles se comportam. Deve
nião pública que nos chegam orientá-los quanto ao tipo de
com tanta freqüência, mas esclarecimento que deve ser
que, apesar disso, raramente passado ao cliente, seja em
nos trazem alguma melhoria? relação ao serviço que você
está prestando ou ao produto
Minha entrevista comigo que está vendendo. Você deve
Para poder esclarecer esta capacitar as pessoas individu-
nova proposta, minha estra- almente e em grupo, para que
tégia será aplicar o conceito possa então ter uma política
básico de marketing e endo- interna e consolidada de endo-
marketing, ou seja, vou trocar marketing. Dessa forma, você
de lugar com meus leitores. poderá dar prosseguimento
Fazer uma entrevista comigo às estratégias de marketing
mesmo, porém com os ques- duradouras. Por isso, para
tionamentos que você deve que as ações de marketing
estar se fazendo agora. sobrevivam, é fundamental
elaborar uma estratégia de
Por que você afirma endomarketing.
com tanta convicção que
marketing não sobrevive Por onde começar
sem endomarketing? uma estratégia de
Porque não acredito em ne- endomarketing?
nhuma estratégia de marketing Estamos trabalhando com
que possa dar um resultado sa- seres humanos, pessoas que,
tisfatório, se você não preparar geralmente, não estão prepa-

(13)
Trabalho, Organização e Economia

radas e, em muitos casos, não e com a sua família. Assim, os


conseguem identificar quem valores agregados são eter-
são seus clientes. Isto porque nos e os tornarão não apenas
elas não foram treinadas para vendedores de sua imagem ou
perceber as características de ilusões, mas verdadeiros
de cada um. Então, antes de profissionais de qualidade,
iniciar uma estratégia de en- além de verdadeiros seres
domarketing de médio e longo humanos.
prazo, nós temos de capacitar
pessoas e, para capacitá-las, Como trabalhar o
temos de realizar pesquisas marketing pessoal
para conhecermos melhor em empresas com
os nossos clientes internos. funcionários de diversas
É fundamental reconhecer classes sócio-econômicas?
neles seres humanos com O marketing pessoal deve ser
valores reais, que poderão ser tratado como uma ferramenta
agregados ou desenvolvidos que vai ser usada no decorrer
pela empresa. da vida do indivíduo, indepen-
Por isso, o início de tudo dente da empresa em que ele
é o marketing pessoal, que trabalhe. São valores que de-
vai transformar os funcioná- vem ser agregados para sempre
rios em seres humanos com aos seres humanos. A ausência
auto-estima e comportamento dessas características não
adequado, e não robôs criados está relacionada diretamente
somente para agradar o cliente à classe econômica do indiví-
externo. Temos que ver o con- duo, pois uma pessoa pode ser
teúdo das pessoas. Para você formada, mas desconhecer um
poder realizar uma boa polí- hábito básico de higiene ou ter
tica de endomarketing, deve um procedimento indesejável
agregar ou gerar valores, que junto ao grupo.
são muitas vezes desconheci- Devemos mostrar do que al-
dos pelos próprios funcioná- guém precisa para gostar de
rios. O marketing pessoal vai si mesmo. Para fazer isso é
ensinar-lhes características necessário trocar de lugar com
como a ética, o compromisso o seu funcionário. Que valores
com a sociedade, com o meio você considera fundamentais
ambiente, com o seu parceiro no seu desenvolvimento como

(14)
Trabalho, Organização e Economia

ser humano? Nós temos de ou deixar de cumprimentar os


parar de buscar exemplos na demais funcionários apenas
malandragem, nas atitudes porque tem o cargo máximo.
ilegais. Um ser humano cons- Além das reuniões e treina-
ciente, por exemplo, é aquele mentos, é necessário buscar a
que não rouba energia elétrica. motivação das pessoas que tra-
Quando o indivíduo se cons- balham na empresa. Isso pode
cientizar disso, vai ter moral ser feito com a bonificação em
para ensinar ao seu filho que planos de saúde, vale-refeição
ele também não deve roubar e condições adequadas de tra-
um objeto alheio. Aí também balho.
estamos falando de marketing
pessoal, estamos propondo um Quais serão os resultados
ser humano melhor. Da mesma após a implantação
forma que não adianta entrar das estratégias de
em um restaurante finíssimo, endomarketing?
com uma bela decoração, onde O resultado será a satisfação
o chef é qualificado no mundo do seu cliente, ou seja, as
inteiro, se o garçom que vem estratégias de endomarketing
nos atender tem um odor de- irão viabilizar suas ações de
sagradável. Nesse momento, o marketing, além de facilitar
serviço que seria prestado ao a sua venda, a melhoria na
cliente já foi comprometido. prestação de serviços e a fide-
Por isso, nós temos que vol- lidade dos seus clientes. Isto
tar aos ensinamentos básicos porque você tem uma equipe
de higiene. Não é só para o preparada para atendê-los da
momento de o garçom servir forma adequada. Os lucros au-
o cliente, mas para que ele se mentarão consideravelmente
sinta bem, limpo e pronto para dentro da sua empresa, já que
trabalhar. a equipe formada fará o cliente
Contudo, é importante frisar retornar sempre ao seu negócio
que todos os funcionários da com mais assiduidade e com a
empresa devem participar de chance de consumir cada vez
uma mesma reunião, desde mais os seus produtos.
o faxineiro até o presidente. O segredo do endomarketing é
Este último deve saber que a satisfação do cliente exter-
não pode jogar papel no chão no, que, por conseqüência, vai

(15)
Trabalho, Organização e Economia

trazer também a satisfação do as normas de procedimento,


cliente interno. É um somató- todas as características da
rio de ações que vai trazer um empresa, e fazer também uma
resultado final imensurável pesquisa de satisfação do
para os clientes internos, tais cliente externo, com o objetivo
como: participação nos lucros; de conhecer as reais necessi-
planos de cargos e salários; dades do público-alvo. A par-
possibilidade de ascensão tir desse momento, a firma ou
dentro da empresa; cursos e profissional especializado vai
seminários, e muito mais. adaptar à empresa a organiza-
ção desejada para satisfazer
Sai cara a implantação essas reivindicações. Este é
de uma estratégia de o grande diferencial desse
endomarketing? tipo de consultoria: conhecer
Eu digo que é um investimento as necessidades do cliente
de médio e longo prazo, mas externo e adaptar a empresa
que se torna barato, pois é para supri-las.
mais fácil manter um cliente A outra forma é capacitar fun-
do que tentar recuperá-lo. cionários como gerentes de
A melhor alternativa é ter recursos humanos, profissio-
clientes fiéis. É fácil e barato nais de marketing, equipes de
capacitar as pessoas, a partir venda e outros supervisores,
do momento que você tem o através de palestras e cursos
retorno do seu público. Todos para implantar uma estraté-
saem satisfeitos: você, seus gia de endomarketing dentro
funcionários e seus clientes. da empresa. Esse sistema é
muito válido na escassez de
De que forma uma recursos ou quando a empresa
empresa poderá iniciar é muito grande e dispõe de
esse trabalho que você pouco tempo para dar início
propõe? à estratégia.
Existem duas formas. A pri- As duas opções são válidas,
meira é uma consultoria inter- desde que haja a mentali-
na, para a qual você contrata dade, a conscientização e o
um profissional ou uma firma comprometimento dos diri-
especializada que possa ava- gentes, seus funcionários e
liar a situação atual, o clima, colaboradores, exercitando o

(16)
Trabalho, Organização e Economia

princípio básico de trocar de rantir que “Marketing não so-


lugar constantemente. Assim brevive sem Endomarketing”.
sendo, posso garantir que
“Marketing não sobrevive sem
Endomarketing”.gentes, seus
funcionários e colaboradores, Paulo Bertone é empresário, consultor de
exercitando o princípio básico empresas e conferencista, e vem realizando
de trocar de lugar constante- palestras, workshops e cursos sobre Marketing
mente. Assim sendo, posso ga- e Endomarketing por todo o Brasil.

(17)
Trabalho, Organização e Economia

Poder egocêntrico / Poder responsável


André Midani

Até 1950, pratica- Criador e a gravar músicas


mente não havia o criatura: a clássicas, óperas e
que se conhece hoje música criou operetas.
como luta de poder a indústria
A primeira investida
entre gravadoras. de multinacionali-
fonográfica, que
Num mercado ain- zação (em moldes
da incipiente, as agora é golpeada que lembrariam o
companhias, em sua pela indústria contemporâneo)
maioria independen- de equipamentos partiu da Philips
tes, eram dirigidas de áudio para a Eletrônica, em
por pessoas ligadas reprodução de 1950, a qual, atra-
à música; algumas, CDs. vés de suas filiais
importantes à época, européias, implan-
se dedicavam a explorar exclu- tou seus repertórios na França,
sivamente talentos nacionais, e Inglaterra e Alemanha.
a competição entre elas corria O sinal de partida para a com-
dentro de critérios da maior petição global foi dado, porém,
amabilidade. pela EMI inglesa, em 1955,
O único motivo que poderia numa operação arrojada de
levar uma empresa multinacio- compra da companhia ameri-
nal a se interessar em ter uma cana nº 2, chamada Capitol
companhia de discos eram as Records, que tinha em seu
relações públicas, o que hoje elenco artistas como Sinatra,
conhecemos por “interesse Nat King Cole, Les Paul &
institucional”. Como aconte- Mary Ford, Stan Kenton, etc.
ceu com a RCA nos EUA, a Como se não bastasse, a esse
EMI na Inglaterra, a Siemens elenco estelar viria se juntar,
na Alemanha e a Philips na cinco anos depois, nada mais
Holanda, que ainda assim se nada menos que os Beatles.
dedicavam exclusivamente Em 1955, o mercado de discos

(18)
Trabalho, Organização e Economia

teve sua primeira explosão e a paixão, a se deslocar para o


mundial, coincidindo com o lucro e a especulação.
advento de Elvis Presley, con- O mercado mundial explodia,
tratado pela RCA americana, e passando de muitos bilhões
dali nasceu a necessidade mer- de dólares, e os lucros eram
cadológica de abrir filiais por monumentais. Por outro lado,
todo o globo, para coordenar a os adiantamentos a artistas su-
venda e a promoção dessa raça biam vertiginosamente, assim
nova: o artista multinacional. como os custos de gravação,
Por ser o rock-n-roll uma moda- marketing e salários dos exe-
lidade norte-americana, foram cutivos, de tal maneira que
os artistas desse país que se os diretores aos poucos foram
estabeleceram pouco a pouco substituindo os executivos ex-
nos territórios importantes: perientes em música e inexpe-
Canadá, Europa, Austrália rientes em finanças por tecno-
e Japão. Enquanto isso, em cratas experientes em finanças
1965, a recém-formada Warner e inexperientes em música. E
Communications, com suporte assim surgiram presidentes
de capital oriundo da máfia, co- e chairmen tais como Levin,
meçou a arrematar companhias Yetnikov e Morgado.
pelo mundo afora, começando Essa entropia atingiu em
pelos EUA, onde compraram o cheio a política artística das
que havia dentre as principais companhias que até então
companhias independentes. contratavam artistas com base
A luta pelo primeiro lugar na personalidade, no carisma e
no mercado mundial estava na capacidade poética, nos va-
começando, e as fortes concor- lores que passaram a ser quase
rentes eram Columbia, Warner, “démodé”.
Polygram (Philips/Siemens), Até aquele momento, respei-
RCA e EMI. Essa luta foi tava-se a premissa de que,
alimentada significativamente para desenvolver um artista, se
pelos egos colossais de certos levaria pelo menos três anos: o
executivos e exacerbada ainda primeiro disco era quase sem-
mais pela entrada dos conglo- pre considerado um teste de
merados de comunicação em mercado, e perder dinheiro era
Wall Street. A palavra de ordem uma contingência; no segundo
começa a deixar de ser música, ainda se perdia algum, porém

(19)
Trabalho, Organização e Economia

muito menos; no terceiro, indústria. A canção passa para


normalmente dava para ficar o centro dessa arena. Essa sim,
quite, e dali por diante então pode fazer sucesso imediato,
poderia-se esperar os lucros. trazendo lucro no lançamento
Durante esse período evoluti- e, se não for assim, despede-se
vo, o público tinha o tempo de o artista. Algo como o efeito que
desenvolver, simultaneamente, o cão Lassie causou nos Studios
um relacionamento substancial Warner, em Hollywood.
e duradouro com seus ídolos, de O que parecia ser uma solução
maneira muito parecida com o passou a ser o início da deca-
que acontece na vida real entre dência: a canção de sucesso
duas pessoas. é imprevisível por natureza,
Esses altos tecnocratas eram e, para assegurar o seu êxito,
somente tecnocratas, e quanto a indústria passou a investir
melhores no exercício dessa cada vez mais pesado na exe-
natureza mais abismal sua dis- cução nas rádios.
tância do artista, o que os fazia Para se ter uma idéia, só nos
cada vez menos capacitados a EUA, sem falar de outros pa-
poder se aproximar do artista íses, na esperança de se criar
para ajudá-lo na escolha de um hit, o investimento em jabá
seu repertório, orientando sua era de cerca de 400 mil dólares.
carreira em momento de dúvi- Isso quer dizer: para tocar uma
da, etc; da mesma maneira, o só música nas estações de rádio
artista olhava com estranheza formadoras de opinião (as cha-
esse ser, “o tecnocrata”, e madas Top 40) sete vezes por
não encontrava condições de dia, durante três semanas, era
diálogo. essa a cotação. Cabe dizer que
Entre a morosidade do processo cada companhia lançava entre
de formação do artista e a inca- dez e 12 canções por mês e,
pacidade de comunicação entre em 70% dos casos, essa es-
este último e os tecnocratas, a tratégia milionária se revelou
equação da lucratividade ime- ineficiente.
diata estava definitivamente Mas consideremos a hipótese
desarticulada. otimista dos 30%, ou seja, se
Surge, então, o que parecia ser a a canção virou hit, o sucesso
peça curinga, a redentora nessa de vendas do CD está garan-
“cilada” em que se encontrava a tido? São necessárias de duas

(20)
Trabalho, Organização e Economia

a três canções de sucesso para A indústria fonográfica não


assegurar o sucesso de venda. aceitou. A Philips imediata-
Isso quer dizer que essa mesma mente vendeu sua companhia
operação (na hipótese de dar de discos para a Universal e
certo) deverá ser repetida com foi em frente com a fabrica-
as mesmas cifras. E, garantido ção de aparelhos cada vez
o fator imediatismo, compro- mais sofisticados, seguida
metida estará a durabilidade pelos outros fabricantes de
dessa rentabilidade, na medida hardware japoneses, inclusi-
em que um hit tenha vida útil ve a Sony.
numa média otimista de nove Enquanto isso, os presiden-
meses a um ano. tes das gravadoras (essa nova
O artista pode fazer o sucesso casta de tecnocratas) seguiam
da música, porém, a música destilando essa “banda po-
não faz necessariamente o su- dre” do exercício de poder,
cesso do artista, pois a vida de essa forma de poder que exa-
um hit é efêmera, e a vida do cerba os valores inferiores da
artista estabelecido se renova vaidade e do lucro imediato,
por décadas. em detrimento do “poder res-
A iminência do lançamento no ponsável”. Pois bem, enquan-
mercado, pela Sony e Philips, to os tais tecnocratas cuida-
dos aparelhos de duplicação vam de lapidar seus próprios
de CDs caseiros provocou a umbigos, ficavam omissos ao
indústria fonográfica, que deixar a pirataria industrial
protestou junto a esses fabri- comer progressivamente em
cantes, suplicando que não torno de 40% do mercado
lançassem os tais aparelhos. mundial.
Em pouco tempo, a ineficácia E de onde isso veio? Pasmem,
do tom de súplica deu lugar da República Comunista da
a ameaças com disputas le- China. Ele mesmo, Mao Tse-
gais. Tung, decidido a acabar com
Os fabricantes propuseram, a Revolução Cultural, que
então, a cobrança de uma estava em total descontrole,
taxa compensatória sobre a lançou mão do apoio dos 16
venda de CDs virgens, que generais responsáveis pela
cobriria direitos artísticos, ordem civil e militar nas 16
autorais e lucro cessante. províncias (creio que são

(21)
Trabalho, Organização e Economia

16). Em troca, autorizou-os a migrado para o CD. O que de


desenvolverem negócios pró- fato havia acontecido foi que a
prios à margem do Estado e da indústria legítima tinha aban-
economia socialista. donado o mercado de cassetes
Uns vinte anos depois, esses aos piratas, que vendiam sem
generais haviam desenvolvido o menor constrangimento seus
cerca de 1 5 m i l e m p r e s a s , produtos em postos de gasoli-
que negociavam até cultivo e na nas estradas, entre outros
venda de drogas, prostituição, pontos de venda.
fabricação de armas, cigarros, A partir de 1990, era indis-
roupas e CDs, todos produtos pensável substituir o CD de
pirateados que inundaram ini- tecnologia já obsoleta por
cialmente o Sudeste Asiático, transportes de som mais mo-
a América Latina e a antiga dernos. Dois sistemas bastante
União Soviética. revolucionários haviam sido
A indústria, parecendo não testados: o CD5, desenvolvi-
se dar conta da gravidade da do pela Warner e a EMI, e o
situação, não investiu fundos superCD, desenvolvido pela
necessários para combater Sony e a Philips – os dois sis-
esse formidável inimigo no temas com respostas acústicas
plano mundial e, como se não sofisticadas e duração bem
bastasse, em certos casos for- superiores a do CD. Porém
necia aos investidores dados se esbarrava na questão da
falsos. Quando eu fazia par- incompatibilidade na hora de
te do board da International tocar, o player de um sistema
Federation of Phonographic não funcionava para tocar o
Industries (IFPI), cheguei um outro. Os capitães da indústria
dia ao Brasil, em visita oficial, nunca chegaram a um acordo
para verificar quais as ações quanto a adotar uma dessas
que a indústria local estava duas tecnologias inovadoras,
desenvolvendo para o combate e os fabricantes de equipa-
da então pirataria de cassetes; mentos, cansados de esperar,
para minha surpresa, e de todo simplesmente abandonaram
o grupo, os executivos nos in- esse projeto.
formaram que não havia mais E mais uma vez, em 1996, o
mercado de cassetes no Brasil, “poder egocêntrico” não per-
uma vez que o público tinha mitiu que a indústria como um

(22)
Trabalho, Organização e Economia

todo chegasse a comum acordo board members. A Philips e a


para a adoção de uma política Time Warner já venderam suas
comercial e estratégica única divisões de música; A Sony e
para vender música através do a BMG estão se juntando para
Napster, MP 3, Kazaa, permi- reduzir custos operacionais. A
tindo a explosão do download Universal ainda não encontrou
gratuito. compradores que queiram as-
Há poucos meses, visitei, em sumir o seu passivo.
Nova York, os escritórios cen- Certo dia, um querido amigo,
trais de algumas companhias, compositor e intérprete con-
e devo dizer que a visão que temporâneo dos mais impor-
tive foi desoladora: o glamour tantes, chamado Fito Paez,
e a criatividade deram lugar me escreveu uma carta emo-
apenas a corredores vazios, cionada e emocionante, quase
escritórios desocupados e profética, na qual me pedia
pilhas de documentos jogados para ficar atento e lutar contra
no chão, como num campo de a degradação/degeneração da
batalha após a derrota. “nossa” indústria: “André, a
A indústria, acometida por música inventou essa indústria,
uma séria crise de criativida- tenha cuidado para que essa
de, ficou velha de repente e, mesma indústria não acabe por
como toda indústria velha, só matar a música”, disse ele.
encontrou soluções defensivas Finalmente, foi a indústria que
para tentar sobreviver – come- matou, sim, a indústria tal como
çou então a onda de demissões a conhecemos hoje.
em massa, redução dos budgets Em 1952, em Paris, um livro
de gravação e marketing, como intitulado A indústria da mú-
se essa forma desesperada e sica: indústria da felicidade
desesperadora pudesse rever- humana me foi dado de forma
ter o processo de deterioração comovente e bastante solene
com raízes tão mais profundas, por um idoso cavalheiro fran-
estruturais e filosóficas. cês, beirando, naquela época,
Agora é somente questão de seus oitenta anos. Esse senhor
tempo para que os conglo - vinha a ser o proprietário da
merados se desfaçam das Odeon francesa e deve ter
suas unidades de discos, por ficado agradavelmente impres-
pressões dos investidores e sionado pelo fervor com que

(23)
Trabalho, Organização e Economia

eu falava sobre minha entrada versão. Atraindo a ganância e


naquele que era para mim um o abuso por parte de advogados
“divino mundo”. Esse livro era inescrupulosos, empresários de
uma compilação, feita nos anos artistas intimidadores, de emis-
de 1920, contendo conferências soras de rádios corruptas e de
e entrevistas concedidas pelos executivos egocêntricos das
precursores do disco no início indústrias do disco e da edição
da invenção dos sons gravados. musical.
Nesses depoimentos, eles an- Um ciclo acabou, isso é certo.
teviam a utilização dessa nova Irreversível?
“média” para a música clássica, No que é que vai dar?
a ópera, a poesia e a educação; Por que é que teve de ser as-
e falavam também com grande sim?
ternura sobre a importância Bem, mas isso é tema para um
desse advento/invento cultu- outro artigo, aliás, dois. Um
ral. Obviamente, não poderiam sobre música, e outro, que não
a essa altura antever que essa seria eu a escrever, sobre a
“tal nova média” viria a se complexidade do ego humano.
transformar na “indústria do
egocentrismo”, do poder hu- André Midani é e foi presidente de gravado-
mano em sua mais deturpada ras no Brasil, México e EUA.

(24)
Trabalho, Organização e Economia

A Gestão do Conhecimento: Inovação e Novas


Práticas de RH
Eduardo Rozenthal

Tradicionalmente, No novo paradigma dilatação de suas ca-


treinamento e desen- do trabalho, o foco pacidades e motiva-
volvimento (T&D) da produção nas ções (MILKOVICH;
são partes integran- organizações recai BOUDREAU, 2000,
tes da administração sobre a inovação, p. 338) e a expansão
de RH (ARH). Os valorizando-se o de suas habilidades e
autores costumam processo subjetivo conhecimentos para a
relacionar o primei- de invenção de
solução de novas si-
ro ao desempenho tuações ou problemas
conhecimentos.
dos trabalhadores (ROCHA-PINTO,
quanto às tarefas O capitalismo 2003, p. 94). O de-
específicas envolvi- cognitivo exige o senvolvimento com-
das em suas funções questionamento das porta, além do trei-
na organização. O tradicionais práticas namento, a carreira e
que está em jogo, no de RH com o sentido outras experiências
treinamento, é o pro- de implementar empresariais.
cesso de aquisição a nova gestão do Na ARH, treinamen-
ou aperfeiçoamento conhecimento. to e desenvolvimento
de conhecimentos se associam, acima
e de habilidades e, ainda, de de tudo, porque as duas práti-
modificações de “atitudes” que cas apresentam-se como níveis
dizem respeito, prioritariamen- de amplitudes diferentes, para
te, ao desempenho funcional a aquisição e o desenvolvimento
(ROCHA-PINTO, 2003, p. 94). de conhecimentos no interior da
Já o desenvolvimento se configu- organização.
ra como um processo mais amplo A questão do conhecimento e
que inclui o treinamento, sem a do seu manejo nas organizações
este se reduzir. Trata-se do mo- vem sofrendo mudanças signi-
vimento de crescimento integral ficativas ao longo das últimas
do empregado, implicando a décadas. Isto não se dá por

(25)
Trabalho, Organização e Economia

acaso. A problematização do sa- na comunicação rápida – e cada


ber está no cerne da mudança vez mais barata –, englobaram
do paradigma que introduziu a nossas atividades mais triviais.
atualidade econômica e social. O trabalho, no interior do novo
A modernidade fabril que se paradigma, se submete ao que
iniciou no final do século XVIII Foucault (1990) denominou
e se redobrou em fins do século “bio-poder”, cuja implemen-
seguinte, vem, gradativa, mas tação se faz através de uma
rapidamente, dando lugar a “bio-política”. Para o que nos
uma nova dinâmica organiza- interessa, isso quer dizer que
cional. Podemos dizer, com se- não mais se coloca a tradicional
gurança, que a “era industrial” separação entre o mundo do
moderna não mais se sustenta, trabalho e o mundo da vida,
e que tem perdido seu território “alienação” característica do
para a “era do conhecimento”, modelo industrial. Na atualida-
adequada denominação da con- de organizacional, a totalidade
temporaneidade empresarial. da vida tornou-se trabalho.
No mundo da produção orga- O paradigma da atualidade do
nizacional de nosso tempo, o trabalho e da produção orga-
conhecimento se cria, desen- nizacional promove uma nova
volve e dissemina através de relação homem-máquina. As
redes de empresas formadas, novas tecnologias da informa-
por sua vez, por empresas em ção e da comunicação (NTIC),
rede. A condição de possibili- pela especificidade dos conhe-
dade para a inscrição das cor- cimentos que incorporam, apre-
porações reticulares no cenário sentam-se pela separação entre
da atualidade são as novas a máquina e a sua programação.
tecnologias que, através de so- Essa clivagem entre hardware e
fisticados sistemas monitorados software submete a função da
de informação e comunicação, máquina ao uso que dela se
proporcionam – diretamente - a pode fazer. Subvertendo a do-
invenção e a organização dos minação tipicamente moderna
conhecimentos. do uso pela função, o trabalho,
Por outro lado, observamos que hoje em dia, ganha nova enver-
as novas tecnologias informáti- gadura. O computador pessoal
cas, com características forte- conectado à rede informatiza-
mente integradoras, centradas da, dependendo da criatividade

(26)
Trabalho, Organização e Economia

do usuário é capaz de alterar tizadas, a interação não é mais


constantemente o programa que prescritível e a dinâmica da co-
dirige o funcionamento do mi- operação entre os usuários está
cro. O trabalho agora é criação centrada na criação constante de
de usos (CORSANI, 2003). conhecimento.
As NTIC invertem, assim, a re- Em suma, a organização con-
lação do homem com a máquina, temporânea e as relações de
ao mesmo tempo em que intro- trabalho de nossos tempos se
duzem o novo paradigma social e inserem no quadro da pós-mo-
econômico e o atual modelo das dernidade pela via das NTIC.
relações organizacionais do tra- Contudo, os aspectos tecnoló-
balho. A capacidade inventiva gicos propriamente ditos dessas
do usuário torna-se a condição tecnologias de ponta devem
de possibilidade do funciona- seu potencial de transformação
mento da máquina. O privilégio à sua capacidade de assis-
da relação recai, então, sobre tência cognitiva e relacional
a criatividade humana. Com (JOLLIVET, 2003). O fator que
esse deslocamento, o que está as diferencia da modernidade
em jogo na nova dinâmica das fabril é representado, portanto,
organizações é a capacidade pela imperativa necessidade de
subjetiva para a aquisição, de- criatividade dos usuários, sendo
senvolvimento e articulação do o conhecimento criado tributá-
conhecimento. rio da cooperação que se efetiva
Outro atributo diferencial das nas redes informatizadas. Essas
NTIC com relação à tecnologia considerações contribuem para
industrial moderna é sua voca- o esclarecimento das afirmações
ção para a associação horizontal iniciais de que, no mundo atual,
dos conhecimentos em escala não há mais separação entre o
global, elevando a necessidade trabalho e a vida. A produção se
de cooperação entre os usuários empreende na interioridade das
à enésima potência. A coope- redes e na exterioridade das or-
ração estática, hierarquizada ganizações. Por outro lado, para
ou submetida à seqüência da a capacidade de produzir torna-
linha de montagem do modelo –se imprescindível a contribui-
industrial, é substituída pelas ção da criatividade dos usuários,
atuais dinâmicas reticulares de que se dá pela articulação da
colaboração. Nas redes informa- totalidade de seus conhecimen-

(27)
Trabalho, Organização e Economia

tos, sejam esses técnicos, cien- ao caráter necessariamente


tíficos, artísticos ou ideológicos. indeterminado e iterativo do
A totalidade da vida é agora processo criativo. Ao capita-
agente de produção. As redes lismo industrial, que valoriza o
informatizadas exigem, para o produto acabado como mercado-
desenvolvimento do processo ria padronizada reprodutível, se
produtivo, a indiscriminação opõe o “capitalismo cognitivo”,
entre usuários-produtores e usu- onde a não finalização do pro-
ários-consumidores. Em última cesso é seu próprio motor.
análise, o processo produtivo se A mudança paradigmática
torna, na pós-modernidade das introduz uma economia do
empresas em rede e das redes de conhecimento, exigindo, por
empresa, processo de criação de parte da administração das
conhecimento, a um só tempo, organizações contemporâneas,
subjetivo e reticular. o estabelecimento de novas
Com essa argumentação, somos estratégias administrativas.
capazes de compreender a Coloca-se, então, no contexto
mudança da lógica e do valor da atualidade econômica e so-
agregado envolvidos na ruptura cial, a necessidade de gestão
com a dinâmica taylorista da do conhecimento como conjunto
produção industrial. Para a mo- de estratégias integradas para o
dernidade fabril, o valor estava gerenciamento da empresa de
associado às possibilidades das nossos tempos. Para uma maior
máquinas seriais, ao cientificis- compreensão das possibilidades
mo mecanicista e às determina- contidas na nova lógica da ges-
ções da produção com vistas à tão do conhecimento, é neces-
reprodução da mercadoria. Ao sário, ainda, precisar algumas
contrário, para a atualidade or- características do saber que se
ganizacional, o valor repousa na produz como inovação nas redes
capacidade criativa da subjetivi- computadorizadas.
dade, isto é, nas características Na economia industrial, conhe-
processuais da criatividade, ou cimento e trabalho estão sepa-
seja, na inovação enquanto pro- rados. O conhecimento se en-
cesso. A inovação aponta para o contra cristalizado na máquina,
privilégio do potencial humano cabendo ao trabalhador apenas
de conceber e desenvolver co- o processo de reprodução ope-
nhecimentos que se associam racional, sem necessidade de

(28)
Trabalho, Organização e Economia

produção cognitiva. Contudo, centes. Estes fatores poderão ser


a alienação do trabalhador melhor apresentados através da
moderno é ainda mais ampla, oposição entre os atributos eco-
na medida em que a “força de nômicos da mercadoria e os do
trabalho” se afasta também da conhecimento.
mercadoria produzida. Como As mercadorias configuram-se
conseqüência, nesta ponta do como bens “tangíveis, apropri-
processo de produção, encon- áveis, cambiáveis e consumí-
traremos o conhecimento nova- veis”. A raridade da mercado-
mente materializado, desta vez ria, ou seja, a exclusividade de
na própria mercadoria. sua propriedade (“ou minha, ou
O processo de incorporação do sua”), está na raiz dos direitos
conhecimento à mercadoria pos- de propriedade. Neste caso, a
sui uma natureza diferente do produção ou a troca de merca-
conhecimento como inovação. dorias envolvem a alienação e
Para o último, o que se valoriza o despojamento dos participan-
é o próprio processo, ou seja, a tes, sendo, inclusive, uma das
potência de transformação nele funções da moeda: a de ser o
contida. Não finalização e conti- índice da medida comum desse
nuidade são os aspectos centrais “sacrifício”. Por outro lado, as
dessa modalidade de processo. mercadorias estão submetidas à
Já para o processo de incorpo- lei dos rendimentos decrescen-
ração, de acordo com as linhas tes, o que quer dizer que seu
de força da modernidade fabril, consumo implica a sua própria
o objetivo é a estabilidade do destruição, esgotamento ou de-
produto final. Neste contexto, gradação.
a “inovação” nada mais será Já a inovação ou processo do
do que adaptação ou ajuste conhecimento constante se
quantitativo da mercadoria estabelece de maneira anta-
visando a otimização do pro- gônica. Nesse novo contexto,
duto (CORSANI, 2003). Para onde o conhecimento é aquilo
a sua viabilidade, a dinâmica que se produz continuamente,
processual da modernidade seu consumo, além de não ser
das organizações dependerá da destruidor, acarreta, ao contrá-
presença de dois fatores eco- rio, seu enriquecimento, que
nômicos, a saber: raridade de corresponde à criação de novos
recursos e rendimentos decres- conhecimentos. Já se pode ver

(29)
Trabalho, Organização e Economia

que, no paradigma da atualidade subjetividade e na criação de


econômica, produção e consumo conhecimentos e, nessa medi-
coincidem, valorizando o proces- da, a gestão de pessoas assume,
so de produção em detrimento nos dias de hoje, posição de
do produto final. Por seu turno, privilégio na administração.
a troca de conhecimentos não As práticas de RH baseadas na
corresponde a qualquer espécie gestão do conhecimento vêm,
de perda ou sacrifício. Ao con- então, colocar-se no âmbito das
trário, somente quando há troca, imperativas necessidades do
apenas quando o conhecimento capitalismo cognitivo. Dentre
se socializa, ele adquire valor as práticas de RH, a de T&D é
(LAZZARATO, 2003) . a responsável pelo agenciamen-
Percebemos na nova economia to dos conhecimentos no interior
do saber, pelo agenciamento das da organização. Assim, a prática
NTIC, que se valoriza a inovação do T&D deverá colocar-se de
enquanto processo de criação acordo com o lugar privilegiado
constante de conhecimentos. dos conhecimentos nas organi-
Essa configuração nos permite zações contemporâneas.
afirmar que, na organização Dave Ulrich (1998) identifica os
atual, o conhecimento como profissionais de RH da atuali-
que se desprende da materia- dade como parceiros empresa-
lidade da máquina industrial riais. Na busca do cumprimento
ou da mercadoria produzida na dessa meta, os profissionais
linha de produção fabril, para se de RH devem se tornar, con-
apresentar em sua radical ima- comitantemente, especialistas
terialidade. Isto é o que leva a administrativos, defensores
maioria dos autores, a exemplo dos funcionários e agentes de
de Corsani (2003), a admitir que mudanças, além de parcei-
a inovação nada mais é do que a ros estratégicos. De maneira
produção de conhecimentos por abrangente, podemos dizer que
conhecimentos. a parceria empresarial implica a
O paradigma da atualidade do distribuição dos empreendimen-
trabalho exige novas políticas tos de RH por todos os setores
de gerenciamento das organi- da organização, deixando de se
zações, e, especialmente, novas reduzir a um setor determinado.
práticas de RH. O capitalismo Na prática, isso quer dizer que
cognitivo está centrado na os especialistas de RH não mais

(30)
Trabalho, Organização e Economia

se concentram num departamen- treinamento” (LNT).


to, espalhando-se, por assim O LNT permite, então, que se
dizer, pelas diversas unidades, empreenda a segunda etapa da
trabalhando na associação com prática de T&D de acordo com
os gerentes de linha, estes úl- uma abordagem estratégica, isto
timos envolvidos no dia-a-dia é, o planejamento relacionado a
operacional da organização. políticas e diretrizes, segundo
Na especificidade da parceria os objetivos do treinamento. As
estratégica, os especialistas políticas deverão contemplar a
em RH estão encarregados de sintonia com os objetivos maio-
converter os objetivos da orga- res da organização. Suas dire-
nização em ação. Para cumprir trizes, por sua vez, serão: tempo
esta atribuição, quaisquer que disponível, recursos financeiros,
sejam as formulações daqueles tecnologias possíveis, etc. Já a
objetivos – sejam eles conside- terceira etapa compreende a
rados alvos financeiros, placares execução do treinamento através
equilibrados, visões, intenções, de sua realização propriamente
missões, aspirações ou metas –, dita, efetuada pela adminis-
será necessária a utilização da tração, do acompanhamento e
abordagem diagnóstica como da manutenção dos projetos e
prática de RH. programas escolhidos.
No escopo de uma aborda- A última etapa é crucial porque,
gem diagnóstica ou de uma além da avaliação dos resultados
perspectiva sistêmica, o T&D obtidos, compreende, ainda, a
pressupõe, primeiramente, a revisão crítica da totalidade
identificação dos objetivos da das fases envolvidas, formando
organização sob três diferentes a base para o início de um novo
enfoques: o organizacional pro- ciclo de T&D. Dessa forma, tor-
priamente dito, o funcional e o na-se possível a continuidade do
individual. Com esse expedien- processo.
te, tornam-se visíveis as lacunas Construído nos moldes de uma
existentes na competência dos parceria estratégica e utilizando
funcionários em obter as metas a abordagem diagnóstica, o T&D
da organização. A conseqüência deixa de ser uma atividade de
imediata desse procedimento é a RH dirigida exclusivamente
possibilidade de se fazer o “le- para o enriquecimento funcional
vantamento das necessidades de para se apresentar como proces-

(31)
Trabalho, Organização e Economia

so interminável de aquisição e e desenvolver conhecimentos.


aperfeiçoamento dos conheci- Esse direcionamento da ARH
mentos globais da personalidade tende ao estabelecimento de
do trabalhador. práticas de T&D que possam
Na atualidade, as funções oferecer condições mais am-
tornam-se menos importantes plas para o exercício, além
para a gestão das empresas. do “saber fazer”, do “saber
Ao contrário, exige-se do tra- ser”, este último referido à
balhador, cada vez mais, um subjetividade do trabalhador.
desempenho flexível, mais Exemplos de T&D no campo
ligado ao campo da invenção. da gestão do conhecimento
A criação de conhecimentos incluem jogos e dramatiza-
se efetua mais como demanda ções, mudanças nos papéis
das possibilidades subjetivas, funcionais, tomada de deci-
articuladas à totalidade das sões, liderança de reuniões,
experiências vitais, do que comunicação e habilidades
como competência funcional multifuncionais, incentivo
no sentido restrito. Sendo à dependência dos colegas
assim, o LNT requer uma (MILKOVICH & BOUDREAU,
consideração amplificada, em 2000, p. 353/362), ênfase à
consonância com as constantes responsabilidade, reação a
mudanças nas organizações e acontecimentos inesperados
a rápida obsolescência das e ênfase às habilidades de
competências funcionais. trabalho em equipe.
A inovação, na qualidade Por esses motivos, os enun-
de processo constante de ciados de RH estratégico
criação de conhecimentos, associados à abordagem sis-
pressupõe, como já vimos, têmica podem ser vistos como
a transformação das compe- proposta de correspondência
tências ou habilidades, ou a entre as atividades de RH da
modificação das atitudes e empresa e as novas tendências
das motivações individuais. econômicas e sociais da pós-
Nesse contexto, está em jogo, –modernidade. Tais tendên-
além da competência para o cias apontam para o valor do
desempenho da função, um conhecimento como inovação.
processo de dilatação subjeti- Para que essa situação se efe-
va das possibilidades de criar tive, o gerenciamento de T&D

(32)
Trabalho, Organização e Economia

pretende, em meio a uma cres- Referências Bibliográficas


cente integração às demais CORSANI, A. “Elementos de uma ruptura: a
atividades de RH, contribuir hipótese do capitalismo cognitivo” in: COCCO,
para a máxima convergência G.; GALVÃO, A. P.; SILVA, G. Capitalismo
cognitivo: trabalho, redes e inovação. Rio de
entre o desenvolvimento in-
Janeiro: DP&A, 2003.
dividual do trabalhador e os FOUCAULT, M. História da Sexualidade
objetivos organizacionais. O vol. 2 - O uso dos prazeres. Rio de Janeiro:
desenvolvimento individual Graal, 1990.
deve ser entendido como mu- JOLLIVET, P. “NTIC e trabalho cooperativo
dança de atitude e transforma- reticular: do conhecimento socialmente
ções motivacionais visando o incorporado à inovação sociotécnica” in:
incremento da possibilidade COCCO, G.; GALVÃO, A. P.; SILVA, G.
de inventar conhecimentos. Capitalismo cognitivo: trabalho, redes e
inovação. R. Janeiro: DP&A, 2003.
Sendo assim, “saber ser” in-
LAZZARATO, M. “Trabalho e capital na
dica, prioritariamente, o terri- produção dos conhecimentos: uma leitura
tório da subjetividade que, por através da obra de Gabriel Tarde” in: COCCO,
sua vez, se associa ao “saber G.; GALVÃO, A. P.; SILVA, G.; Capitalismo
fazer”, ligado às habilidades e cognitivo: trabalho, redes e inovação. R.
competências funcionais. Janeiro: DP&A, 2003.
Por fim, as novas práticas de T&D MILKOVICH, G. T. e BOUDREAU, J. W.
estão muito mais centradas na Administração de recursos humanos. São
continuidade da inovação como Paulo: Atlas, 2000.
processo do que propriamente na ROCHA-PINTO, S. R. Dimensões funcionais
da gestão de pessoas. Rio de Janeiro: Editora
otimização do produto final. Ao FGV, 2003.
contrário, a valorização do pro- ULRICH, D. Os campeões de recursos humanos:
duto final implica a incorporação inovando para obter os melhores resultados. São
do conhecimento à materialidade Paulo: Futura, 1998.
do referido produto. Nesse caso,
o conhecimento se afastaria da
imaterialidade “pura”, neces-
sária ao processo de criação de
conhecimento por conhecimen- Eduardo Rozenthal é psicanalista, doutor em
to, e a gestão do conhecimento Saúde Coletiva pela UERJ e fundador do Grupo
se reduziria à evolução ou ao
de Pesquisa do Trabalho Imaterial (NITI) da
aprimoramento do produto em
detrimento das possibilidades Faculdade de Administração e Ciências Con-
criativas organizacionais. tábeis da UFRJ.

(33)
Valor Cultural

Porque nos perguntam se existimos


Marina Colassanti

Se eu disser: “Eu sou A pergunta “existe tempo, dou um pouco


uma mulher”, tenho de história, vou até o
certeza de que a afir- uma literatura século XIX, falo das
mação não causará feminina?” não se Brontë, quem não
nenhuma surpresa. refere à literatura, conhece as Brontë?
Permito-me prosse- mas ao medo viril Não ouso chegar até
guir com as afirma- da equivalência Aphra Behn, seria
ções, e dizer: “Eu feminina no abusar, mas Emily
sou uma escritora”. Dickinson já deu até
Isso também não de- exercício do poder peça, pode-se citar
veria causar maiores da palavra. sem risco de parecer
estremecimentos. As pedante.
duas questões são pacíficas. A resposta, afinal, é tão pouco
Entretanto,combinadas, pa- original quanto a pergunta.
recem produzir uma poderosa Pois não sou eu que a invento,
reação química, cuja fórmula não sou só eu que a respondo.
conduz inevitavelmente à Somos milhares, no mundo
pergunta: existe uma escrita inteiro. Justamente em um dos
feminina? dias em que eu estava pensan-
Há exatos 28 anos eu a respon- do nessa palestra, liguei a TV a
do. Com paciência, com boa cabo, num programa italiano de
educação, com sincero intuito literatura chamado Pickwick.
didático. Repito tudo aquilo Sorrindo para a câmara, ao
que a gente sabe, da dificul- lado do âncora, estava a escri-
dade de acesso à educação, do tora Dacia Maraini. E o que foi
controle da nossa linguagem, da que o âncora – um profissional
crítica exclusivamente mascu- corretíssimo, diga-se de passa-
lina, estabelecendo os padrões, gem – perguntou a ela? Vamos
e da nossa força para conseguir ver se vocês adivinham... façam
vencer isso tudo. Quando há um esforço de imaginação. Isso

(34)
Valor Cultural

mesmo: “Existe literatura erro não está na resposta.


feminina?” Ela continuou sor- Isso posto, não vou mais com-
rindo e respondeu, educada, prar o peixe que querem me
paciente, com aqueles mesmos vender. Não vou mais aceitar
argumentos que eu e todas nós essa pergunta como se aceitam
usamos, talvez acrescentando as perguntas que esperam res-
mais alguns, o olhar feminino, postas. Recuso-me a procurar
o mundo das emoções ao qual novos e, quem sabe, mais
as mulheres são historicamente convincentes argumentos. Eu,
mais afeitas, a relação feminina que a partir da escrita estou há
com aquilo que é físico, a que anos empenhada em construir
poderíamos chamar de fisicida- a arquitetura de uma voz, de
de das mulheres. Imagino que uma voz que sendo minha é
soubesse a resposta de cor, de- feminina, declaro-me ofendida
pois de tê-la repetido infinitas pela pergunta. E, em vez de
vezes; no Rio, em conferência respondê-la, a questiono. Que
que fez e na qual fui chamada pergunta é essa, afinal?
a servir de spalla, lhe pergunta- Não é nova, certamente. Fosse
ram exatamente a mesma coisa, uma pergunta normal, seria
da mesma maneira, e a resposta de se esperar que ao longo do
não foi diferente. tempo, minada pelos estudos
Há anos, em todos os níveis, acadêmicos, pelo intenso tra-
estamos respondendo, com a balho da crítica feminista, pela
melhor das intenções. Mas, fala de muitas autoras, pela
embora clara e justa, a resposta simples evolução e até mesmo
tem se demonstrado ineficiente. pelos avanços da ciência, tives-
Não consegue eliminar a per- se sofrido alguma alteração.
gunta. Não consegue sequer Normal mesmo seria que essa
modificá-la. Apesar de tudo pergunta, talvez pertinente há
o que já dissemos, continuam vinte anos, tivesse se desgasta-
questionando nosso fazer li- do e desaparecido. No entanto,
terário exatamente da mesma ela parece passar por cima dis-
maneira, com a mesma insis- so tudo, mantendo-se absoluta-
tência, com idênticas palavras. mente inalterada, até mesmo na
Como se nada tivéssemos dito. formulação. Nenhum argumento
Então, depois de tanto respon- a atinge. Por quê? Porque ela
der, cheguei a uma convicção: o não está interessada nos argu-

(35)
Valor Cultural

mentos. Independe da resposta. mulheres.


É uma espécie rara de pergun- - Por experiências científicas
ta, cuja razão de ser não é a anteriores, sabemos que entre
busca de um esclarecimento, é as áreas cerebrais dos dois
a pergunta em si. hemisférios, que as mulheres
Isso se torna mais claro quando – e só as mulheres – utilizam
vemos como ignora as evidên- para falar, estão aquela que
cias científicas.Nos últimos controla a visão e aquela que
anos, a ciência tem provado controla os sentimentos.
que homens e mulheres não - Além disso, comprovada-
são iguais. Não vamos aqui mente, as mulheres falam mais
nos estender sobre as infinitas cedo, enunciam melhor e têm
diferenças biológicas. Vamos melhor vocabulário.
nos ater, e de forma apenas - O aprendizado da escrita
esquemática, ao que interessa também é diferenciado. As
ao nosso caso: mulheres aprendem a ler e a
- Cientistas da Universidade escrever mais facilmente que
de Yale descobriram que os os homens. Nas salas de refor-
homens e as mulheres falam ço de aprendizado de leitura,
línguas diferentes. Graças nos EUA, verificou-se a pre-
à utilização de um campo sença de apenas uma menina
magnético e de ondas de para três meninos.
rádio capazes de construir a Existem, certamente, mais
imagem dos tecidos do corpo, dados, mas me parece que
verificaram que, ao falar, os esses são suficientes para en-
homens usam basicamente caminhar-nos a uma dedução.
uma seção do lado esquerdo do Se homens e mulheres utilizam
cérebro, enquanto as mulheres o cérebro de maneira diferen-
recorrem a diversas áreas dos te ao falar, e se, ao que tudo
dois lados do cérebro. Bennet indica, o utilizam de maneira
Shaywitz, responsável pelo d i f e r e n t e p a r a l e r, p a r e c e
projeto, afirma que foi pos- apenas lógico que o utilizem
sível demonstrar diferenças de maneira diferente também
consideráveis na organização para escrever. Indo mais lon-
funcional de um componente ge, é pouco provável, do ponto
específico do processo de de vista puramente físico, que
linguagem entre homens e havendo um mecanismo bioló-

(36)
Valor Cultural

gico diferenciado para falar e eu sei hoje que quem está fa-
ler, esse mecanismo não atue zendo a pergunta não é esse
no ato de escrever. alguém – indivíduos não fazem
Seria de se esperar que, depois perguntas dessa forma tão si-
dessas descobertas, a pergunta métrica e uníssona. Quem está
passasse para outro patamar. perguntando é a sociedade. E a
Não passou. Pior ainda, com o essa altura, já tenho elementos
aumento da presença feminina para crer que a sociedade não
no mundo literário, está sendo quer de fato saber se existe uma
repetida com maior freqüência. literatura feminina. O que ela
É na permanência que a per- quer é colocar em dúvida a sua
gunta continua cumprindo sua existência. Ao me perguntar,
função. Sua função não se alte- sobretudo a mim, escritora, se
rou. A função de uma pergunta o que eu faço existe realmente,
que está em busca de resposta está afirmando que, embora
cessa quando a resposta é ob- possa existir, sua existência
tida. Mas se a função de uma é tão fraca, tão imperceptível,
pergunta não cessa apesar das que é bem provável que não
respostas, devemos procurar exista.
em outro lugar sua verdadeira Aquilo de que se duvida está
função. em suspeição. Está em suspen-
Se eu disser “esse copo é de são. Enquanto a pergunta for
vidro”, eu o confirmarei copo aceita, a dúvida estará sendo
e vidro. Mas se eu perguntar aceita com ela. E a nossa lite-
“esse copo é de vidro?”, es- ratura, a literatura das mulhe-
tarei levantando uma dúvida. res, estará suspensa, no limbo,
Vocês que não têm o copo na num espaço intermediário entre
mão, que estão meio distantes o paraíso da plena literatura e
dele, se perguntarão se ele não o inferno da não-escrita. Mas,
é de plástico. E se alguém dis- sobretudo, estará num espaço
ser “sim, é de vidro”, e então, que, não sendo o seu verda-
eu perguntar com ar de dúvida, deiro, só pode ser o espaço do
“mas é de vidro mesmo?”, es- plágio, do decalque. Um espaço
tarei plastificando esse copo de claramente localizado atrás do
vidro para muita gente. espaço literário já reconhecida-
Quando alguém me pergunta se mente existente, o masculino.
existe uma literatura feminina, A pergunta, feita infalivelmen-

(37)
Valor Cultural

te às escritoras, atua de forma Como George Sand, repetem


maquiavélica, forçando-as a “os dois sexos são apenas um
uma definição. Que digam elas para quem escreve”. Mas se no
próprias se classificam seu tra- tempo desse autor a afirmação
balho como feminino, ou não. era revolucionária, cravando-se
Ora, as escritoras estão per- como uma cunha no intocável
feitamente conscientes de que e viril universo das letras, hoje
ainda hoje um preconceito isso mudou de sentido. Já não
pesado tende a colorir de rosa podemos ignorar que em nossa
qualquer obra de literatura sociedade, quando os sexos são
feminina. Apesar da onda dos apenas um, esse um é masculi-
anos de 1960, que envolveu os no. E excludente.
escritos das mulheres em um Atuantes os preconceitos,
grande e esperançoso movi- ainda assim numerosas escri-
mento, não conseguimos ven- toras afirmam a feminilidade
cer a barreira. O preconceito dos seus textos, sobretudo nos
perdura. Pesquisas mostram países que vivenciaram mais
que basta a palavra mulher intensamente o feminismo, e
em um título para espantar os onde a crítica feminista ocupou
leitores homens e abrandar o espaços importantes. O mesmo
entusiasmo dos críticos. E em- não se pode dizer em relação
bora não precisemos mais nos ao Brasil. O feminismo, tar-
esconder atrás de pseudônimos diamente chegado ao País em
masculinos, como acontecia no virtude da ditadura militar e
século XIX, sabemos que os obrigado em seguida a acelerar
leitores abordam um livro de seus tempos, desenhou entre
maneira diferente quando ele é nós um percurso diferente. Não
escrito por uma mulher ou por se constituiu como pensamen-
um homem. to comum às escritoras ou pelo
Muitas escritoras então, bus- menos a uma parte considerá-
cando evitar o risco de desva- vel – ou mais visível – delas.
lorização ao declarar feminina A militância não as teve em
sua própria escrita, preferem seus quadros. A crítica femi-
negar qualquer possibilida- nista, atuando apenas no meio
de de gênero no texto, e se acadêmico, sem força editorial,
refugiam no território neutro sem influência no mercado, sem
de uma utópica androginia. presença sensível na mídia,

(38)
Valor Cultural

poucas possibilidades tem de têm mais tempo livre (enten-


influenciar esse quadro. da-se, não têm o que fazer).
Curioso é notar que quando a Mas de acordo com dados
literatura feminina surge no recentemente divulgados pela
Brasil, na segunda metade do ONU, através do Relatório do
século XIX, é sobretudo através Desenvolvimento Humano, de
do pensamento libertário que 1995, as mulheres trabalham
ela se afirma. Reunidas ao re- mais que os homens. No caso
dor de revistas para mulheres, dos países em desenvolvimento,
como O Jornal das Senhoras, como o Brasil, a carga horária
O Sexo Feminino, Jornal das diária da mulher é 13% supe-
Damas e A Mensageira, as rior à dos homens. Então, pode-
escritoras visavam não apenas mos dizer sem medo de erro que
abrigar e desenvolver a mão- as mulheres lêem mais, embora
–de-obra literária feminina, tendo menos tempo disponível,
mas também lutar pela liber- porque têm mais interesse pela
tação dos escravos, por melhor leitura. Essa constatação ganha
educação e pelos direitos das ainda em intensidade quando
mulheres. Eram pré-feministas, lembramos que as mulheres
preparando o terreno para as representam 2/3 do analfabe-
reivindicações que viriam em tismo mundial.
seguida. Uma pesquisa realizada em
Coletiva e altamente política outubro de 1994, na França,
na origem, a literatura femini- revelava que enquanto 70%
na brasileira despiu-se dessas dos leitores masculinos de-
características ao entrar no dicam o tempo do transporte
novo século e numa luta mais diário à leitura do jornal, 69%
acirrada por um lugar de desta- das mulheres lêem um livro. As
que entre os escritores homens. mulheres compram mais livros,
Hoje, para a quase totalidade dão mais livros de presente,
das escritoras exponenciais, a aconselham mais livros do que
questão do gênero não passa os homens.
pelo texto. Segundo um levantamento rea-
No mundo inteiro, as mulheres lizado também na França, junto
lêem mais que os homens. E à editora Librio, de pocket de
esses sempre disseram que as boa qualidade literária, 71% de
mulheres lêem mais porque seus compradores são mulheres.

(39)
Valor Cultural

E mais uma pesquisa, realiza- que os homens, consciente ou


da pelo Ministério da Cultura inconscientemente, consideram
francês, entre 1973 e 1989, sua propriedade.
sobre as Práticas Culturais Em segundo lugar, o poder
dos Franceses, nos diz que a da palavra. Não me parece
feminização do leitorado é, necessário, aqui, estender-me
junto com seu envelhecimento, sobre aquilo que todas já co-
o maior fenômeno do mundo nhecemos e sobre o que muito
literário dos últimos anos. Em se escreveu: o poder gerador
cada dez leitores de romances, da palavra; o excesso de força
sete são mulheres. que as mulheres, já geradoras
Esses dados servem para mos- da vida, teriam se possuíssem
trar que a nossa pergunta-tema seu livre uso; a negação, às mu-
não é naïve. Ela é gerada por lheres, das palavras sagradas; o
um mercado forte e pelo avan- abuso verbal comprovado a que
ço das mulheres nesse mercado. somos submetidas no cotidiano,
Ela é arma numa intensa luta através da interrupção e enco-
pelo poder. brimento das nossas frases. Se
Em primeiro lugar, o poder nos negam a palavra oral, vo-
literário. As mulheres não são látil e efêmera, como crer que
apenas as que mais lêem, são reconheceriam nosso direito à
também as que mais compram palavra escrita, tão mais com-
livros escritos por mulheres. E prometedora?
o número de escritoras – que Durante séculos, as mulheres
indubitavelmente escrevem tão foram as grandes narradoras,
bem quanto os escritores – vem aquelas que ao redor do fogo
crescendo no mundo inteiro. O ou à beira da cama mantinham
preconceito tem conseguido vivas narrativas milenares.
manter a maior parte desse A narradoras recorreram os
contingente feminino no se- irmãos Grimm para elaborar
gundo escalão. Não é difícil sua coletânea. E foi sobretudo
perceber que, uma vez remo- graças às narradoras que se
vido o preconceito, haveria um preservou o folclore narrativo
considerável avanço feminino italiano, como reconhece Italo
no universo literário, com de- Calvino na introdução da cole-
corrente ocupação de parte da- tânea por ele elaborada. Esse
quele espaço mais conceituado papel foi consentido às mulhe-

(40)
Valor Cultural

res sem constrangimentos. E como tal – implica linguagem


não apenas porque se tratava individual. E linguagem indi-
de oralidade – aparentemente vidual é transgressão, ruptura
mais perecível – mas porque das normas, questionamento do
elas atuavam como transmis- já estabelecido. Se nos homens
soras de elementos culturais a transgressão é estimulada e
estratificados, repetidoras louvada pela sociedade – o he-
de narrativas já existentes e rói é sempre, de uma maneira
emitidas por outras fontes. Em ou de outra, um transgressor –,
última análise, como mantene- nas mulheres ela é execrada. A
doras de valores da sociedade heroína não é aquela que trans-
patriarcal. gride, mas aquela que dentro da
A coisa muda de figura quando norma se supera, enaltecendo-a.
elas se tornam narradoras de No reconhecimento de uma li-
seus próprios textos. Criadoras, teratura feminina, viria embu-
elas escapam ao controle, se tido o reconhecimento de uma
transformam em ameaça. Faz- linguagem individual. E esse
–se preciso retirar a força an- reconhecimento levaria, não
tes permitida. E qual a melhor apenas à legitimação de trans-
maneira de fazê-lo senão duvi- gressão por parte das mulheres,
dando da autenticidade de sua mas à afirmação inequívoca de
criação? A mulher narradora, que transgredir faz parte da sua
antes aceita sem reservas, é natureza e não diminui em nada
posta em questão. Turva-se a a feminilidade.
limpidez da sua voz com acu- Trocando em miúdos: aceitando
sações de falsidade, aquela a literatura feminina, a socie-
mesma falsidade que já se ha- dade estaria aceitando aquele
via atribuído com sucesso à voz modelo de mulher que ela
das sereias, das feiticeiras, e de própria tanto nega, e que com
tantas mulheres tentadoras que tanto esforço estamos tentando
ao longo da história levaram os impor.
homens à perdição. A palavra Estudando textos sobre a
da narradora perde seu pleno existência, ou não, de uma
poder. escrita feminina, encontramos
Mas a literatura traz consigo um elemento muito revelador:
outro fator extremamente amea- a afirmação freqüentemente
çador. Literatura – reconhecível repetida – praticamente um

(41)
Valor Cultural

consenso – de que a pergunta balhos, desatenção dos críticos


sobre a existência ou não de e sistemático apagamento na
uma literatura feminina torna- história da arte – em nenhuma
–se desnecessária a partir de outra a pergunta é formulada de
determinado nível qualitativo forma tão explícita e constante.
da escrita, ou seja, em se tra- Provavelmente porque nenhu-
tando de escritoras ditas uni- ma outra lida com a palavra em
versais. Uma vez que é impos- estado puro, e nenhuma outra
sível negar a qualidade, a força, forma de expressão é tão ame-
a individualidade de um texto açadora quanto a palavra. Nas
universal, ainda que escrito por artes ou na vida, a negação da
mulher; uma vez que é impos- nossa atuação pouco difere. Ela
sível negar, na plena individu- é a mesma quando se atribuem
alidade, a presença do gênero; a outros autores os quadros de
e tendo em vista que tampouco Artemísia Gentileschi, quando
se pode aceitá-lo, sob pena de não se calculam como tempo de
estender às outras, às outras to- trabalho as horas passadas na
das, a aceitação: retiram-se as cozinha, ou quando se veta nos-
escritoras universais do ques- so acesso a cargos de chefia.
tionamento. Circunscreve-se Em última análise, podemos
assim o risco de contaminação. dizer que, ao contrário do que
Para as grandes, a pergunta fa- parece, a pergunta “existe uma
tídica não vigora. As menores literatura feminina?” não é
são mais fáceis de contestar. relativa à literatura. E a res-
Para desenvolvermos mais ponderemos melhor sempre
plenamente nosso tema, deve- que a tirarmos de seu falso
ríamos abordar a questão das lugar, e a incluirmos no âmbito
mulheres nas artes, na qual da questão mais ampla, que é a
ele está involucrado. Nos basta do medo viril da equivalência
lembrar que, embora em todas feminina.
as outras artes seja intensa Para finalizar, embora não
a resistência ao nosso fazer goste muito de personalizar,
– traduzida em pouca presen- me parece necessário, como
ça nos museus, menos papéis escritora, dar minha posição
disponíveis nas artes cênicas, pessoal. Como todo mundo,
esquecimento dos nossos no- temo o preconceito. Mas ele
mes, descuido com nossos tra- me fere mais do que me assusta.

(42)
Valor Cultural

E sempre armei minha defesa profunda do animal e da pedra,


não na esquiva, mas no enfren- que me permitirá escrevê-los, o
tamento. Escrever, já foi dito que sinto, intensamente, é que
infinitas vezes, é assumir todas eu a procuro dentro de mim,
as formas, é ser homem e ser através de mim, através de
mulher, é ser animal e pedra. O minha própria, mais profunda
escritor, como o deus marinho essência. E que essa é, antes
Proteu, é criatura cambiante.
de mais nada, uma essência de
Mas Proteu mudava apenas
de aparência, para iludir os mulher.
outros e esconder-se, enquanto Seminário “Entre resistir e identificar-se”,
o escritor busca na metamorfose Universidade de Illinois, EEUU.
a essência para entregar-se. E
o que sinto em mim, quando
diante do computador busco a Marina Colassanti é contista, cronista e poetisa
essência do homem, a essência duas vezes vencedora do prêmio Jabuti.

(43)
Case History

Análise e reforma institucional - O testemunho de


um percurso
Angela Coutinho

Acompanhamos O processo de em sua estrutura e


desde 1999 o pro- análise e reforma funcionamento.
cesso de análise e institucional da Qualquer corpo
reforma institucio- Sociedade de social, seja ele
nal da Sociedade Psicanálise Iracy qual for, que passe
de Psicanálise Doyle (SPID) dez anos sem ser
Iracy Doyle (SPID), provou ser possível questionado ou mo-
sediada no Rio de a implementação
dificado, provoca
Janeiro, que em o aparecimento de
de um modelo de
2003 completou 50 maneiras de ser to-
anos de existência. poder democrático talitárias entre seus
Va m o s a p r e s e n t a r e representativo, à membros: desprezo
aqui um testemunho luz dos conceitos de dos colegas, arro-
desse trabalho. Foucault. gância, burocratis-
Inicialmente, é mos, incapacidade
fundamental esclarecermos as de se questionar.
diferenças entre o enfoque da Toda e qualquer instituição
organização SPID e o da ins- b u s c a a f i x a ç ã o d a q u i l o
tituição SPID. O trabalho or- que se institui, daí o risco
ganizacional se detém ao que s e m p r e p r e s e n t e d e q u e o
já está instituído, enquanto “instituinte” – isto é, o que
o trabalho institucional co- não está ainda instituído, o
loca demandas em análise, que se acha em movimento,
agindo ao mesmo tempo em c o m s u a s s i n g u l a r i d a d e s
que diagnostica. Nesse caso, – se inviabilize em um dado
trabalha-se com o que está em momento, por mais “democrá-
vias de se instituir. A SPID se tica” que uma instituição se
propôs a um trabalho de aná- autodenomine. É fundamen-
lise institucional como base tal a aceitação da existência
de sustentação para a reforma deste paradoxo – intrínseco à

(44)
Case History

vida institucional – para que impedindo a maleabilidade


se perceba a precariedade de necessária ao enfrentamento
todo e qualquer dispositivo do novo. Enquanto estraté-
que esteja em vigor em deter- gia, os efeitos do poder são
minada sociedade. É preciso atribuídos a disposições,
enfrentar este paradoxo com a manobras, táticas, técnicas,
utilização máxima do poten- funcionamentos.
cial criativo inerente à tensão O poder se exerce, não se pos-
permanente entre”instituinte” sui. O poder não tem homo-
e “instituído”, para que o já geneidade e é definido pelos
instituído não impeça o novo pontos singulares por onde
de florescer.O que garante a passa, pontos de enfrenta-
criação é justamente essa po- mento, focos de instabilidade,
rosidade, que torna possível a cada um comportando seus
construção de novas formas. riscos de conflito, de lutas e
De um modo ou de outro, essa de inversão da relação de for-
tensão pressupõe uma relação ças 1. Não há um lugar privile-
de forças, um embate que re- giado como fonte de poder. O
mete à questão do poder. poder não tem essência, ele é
Sabemos que o poder está em operatório.
todos os lugares onde existam Embora possa haver um dispo-
singularidades, uma vez que sitivo rígido de poder, a rela-
estas se constituem como ção de poder não se confunde
relação de forças. O poder é com a violência que age sobre
uma relação de forças. Forças, corpos, objetos, alterando-os
nunca no singular. Sua carac- ou destruindo-os 2. Na relação
terística essencial é estar em de poder é indispensável que
relação com outras forças. o outro seja mantido até o fim
Michel Foucault, importante como sujeito de ação. A força
pensador do século XX, apre- só tem como objeto outras for-
senta essa nova concepção de ças, é um conjunto de ações
poder que nos ajuda a pensar sobre ações possíveis 3.
a tensão permanente entre A força, mesmo sendo afetada
instituinte e instituído. Essa por outra, tem um potencial
tensão pode desembocar em que é sua capacidade de re-
uma crise caso o disposi- sistência. 4 A resistência é a
tivo de poder se cristalize, potência da força, inerente a

(45)
Case History

si própria, é o que a mantém reforma institucional que


como força. Resistência é o vamos relatar aqui, houve a
que permite o confronto com a constituição de um espaço
dominação. Ali, onde não re- específico para a discussão
siste, ela não é mais força. A dos instrumentos de poder e
resistência, sendo tão móvel, de organização que regem a
inventiva e produtiva como o SPID, uma sociedade civil de
poder, vem de “baixo” e se caráter cultural e científico,
distribui estrategicamente. cujo objetivo é congregar
Assim, em toda relação de profissionais com o intuito
poder há uma possibilidade de transmitir conhecimentos,
de resistência. O homem é trocar experiências, realizar
como um conjunto de “forças estudos, investigações e pes-
que resistem” e, enquanto ser, quisas, formar e promover o
tem uma capacidade imprevi- progresso da Psicanálise em
sível. todos os domínios nos quais a
Desse modo, há nas relações sua prática esteja implicada.
de poder a inclusão da liber- A denominação de “socieda-
dade; liberdade como condi- de”, e não de “escola”, é justo
ção de existência do poder, por ter como premissa básica
seu suporte fundamental. Há uma relação paritária entre
uma tensão recíproca entre li- seus membros, e não uma
berdade e poder. As relações estrutura hierárquica nos
de poder são inevitáveis. O moldes mestre/discípulo.
fundamental é que o exercício Embora seja uma instituição
do poder seja dotado de pro- de formação psicanalítica, a
cedimentos passíveis de dis- SPID não “forma” analistas,
cussão e de transformação. já que entende a formação
É justamente essa inclusão como um processo permanen-
da liberdade nas relações de te. Ou seja, trata-se de uma
poder que viabiliza a atuali- sociedade de psicanalistas em
zação do potencial criativo constante formação. Seu com-
inerente à tensão entre insti- promisso fundamental é com a
tuinte e instituído, tornando difícil tarefa de transmissão
possível o questionamento do d a p s i c a n á l i s e . Te m c o m o
poder exercido. princípio a aceitação das
No trabalho de análise e diferenças teóricas e práticas

(46)
Case History

e a troca permanente entre devendo se remeter sempre


pares, o que a caracteriza ao Conselho Deliberativo
como pluralista. Pluralismo para o encaminhamento
como bandeira fundante que de propostas e votação das
suporta a diferença, que de- mesmas. Os conselheiros
seja a diferença. que eram, ao mesmo tempo,
Até 2003, isto é, antes da secretários, acumulavam,
conclusão dessa reforma assim, as funções executiva
institucional, a SPID esta- e deliberativa. Deliberavam
va estruturada em torno de sobre o que eles próprios
duas instâncias de poder: propunham. As reuniões do
a Assembléia Geral e o Conselho Deliberativo eram
Conselho Deliberativo. abertas aos demais membros
O órgão máximo de poder da sociedade, além dos dez
decisório era a Assembléia conselheiros, mas sem direi-
Geral, com a participação to à voz nem ao voto. Apesar
de todos os membros, ex- dessa abertura, só freqüenta-
cluindo os cursistas, isto é, va as reuniões quem era do
os candidatos a membros Conselho.
psicanalistas. Era presidida Participavam também da
pelo Secretário Geral, cargo sociedade os cursistas, que
máximo de poder exercido por faziam o curso de formação
um dos membros psicanalis- durante anos a fio, sem, no
tas eleito em Assembléia. O entanto, pertencer à socieda-
Secretário Geral representava de. Estavam presentes, mas
a SPID interna e externamen- não pertenciam, no sentido
te para efeitos jurídicos e pre- de não terem direito à cidada-
sidia todas as reuniões. nia institucional, isto é, sem
O segundo órgão de poder era direito à voz nem ao voto nas
o Conselho Deliberativo, com reuniões e assembléias. Não
função diretora e executiva, tinham nenhum poder políti-
constituído por dez conselhei- co, embora pudessem parti-
ros, seis dos quais com encar- cipar ativamente de todas as
gos de Secretários, e quatro atividades institucionais. Isso
representantes do Corpo gerava um mal-estar constan-
Social. As diferentes secreta- te e um inconformismo diante
rias tinham função executiva, da situação de exclusão frente

(47)
Case History

ao poder decisório, o que, em isto não garantia sua legitimi-


médio prazo, acabou provo- dade. A legitimidade requeria
cando grande evasão . trabalho. As reuniões sema-
Durante o período transcor- nais da CARI eram abertas a
rido entre a última reforma todos os membros e cursistas
estatutária, em 1984, e os da SPID, o que não significa-
dias atuais, muito se discutiu va que as pessoas se dispu-
acerca da necessidade de se sessem a delas participar.
abrir um espaço para exame Constatamos, de saída, que
da situação institucional da este trabalho teria de ser te-
SPID. Finalmente, em 1999, cido, passo a passo, por todos
surgiu a idéia de se formar os envolvidos; não havia uma
uma Comissão de Análise e receita pronta. Todo nosso po-
Reforma Institucional (CARI), tencial criativo disponível foi
eleita em Assembléia Geral e acionado para agenciar esse
composta por cinco membros processo de mudança. A partir
da SPID. das primeiras intervenções da
A primeira iniciativa da analista institucional, a CARI
CARI, dentro dos objetivos iniciou um trabalho “corpo-a-
estabelecidos na Assembléia, –corpo” – fosse pessoalmen-
foi contratar uma analista ins- te, por telefone ou por e-mail
titucional a fim de viabilizar – de convocação dos membros
um diagnóstico da situação, e cursistas da SPID, a fim de
bem como indicar possíveis tornar de fato representativo o
soluções. trabalho de análise, incluindo
o maior número possível de
Sobre o processo de participantes. Nosso primei-
Análise institucional ro esforço foi o de reunir um
Quem iria participar desse grupo significativo para que
processo de análise?, foi a pudéssemos traçar um perfil
primeira questão que se co- atual da SPID. Entendemos
locou. Qual era a demanda do que a ação política mais ur-
grupo? A comissão foi eleita gente, naquele momento, era
em assembléia, representando a congregação de todos.
oficialmente a instituição. A O efeito disso pôde ser
legalidade da comissão, por- constatado em um expres-
tanto, era inquestionável, mas sivo movimento: as pessoas

(48)
Case History

foram pouco a pouco saindo dutiva. O esforço de cada um


dos seus redutos fechados com seu depoimento foi possi-
e se dando conta da impor- bilitando o trabalho conjunto,
tância de sua participação ampliando as perspectivas de
nesse processo. Os encontros uma atuação institucional em
semanais do grupo institu- direção à ref o r m a c r i a t i v a
cional, assim constituído, almejada.
ofereceram condições para a Durante o período de análi-
livre exposição de idéias a se institucional foi possível
respeito da história da SPID, também uma interlocução
das crises e eventos traumáti- via internet, além das dis-
cos ocorridos, das respostas e cussões livres e temáticas
das não-respostas dadas pela nas reuniões do grupo insti-
Sociedade a estes eventos. tucional. Foram sintetizados
Foi fundamental a possibili- alguns tópicos recorrentes
dade de se contar histórias nessa troca que mereceram
com o intuito de fazer circu- uma análise mais aprofunda-
lar a palavra. Foram várias da, através da elaboração de
histórias. Criou-se, desse um questionário respondido
modo, um espaço para que as por grande parte dos parti-
histórias pudessem aparecer. cipantes. Assim, foi possível
A memória produziu dife- se fazer uma sistematização
rença. A questão da história do que havia sido discutido,
só pode ser pensada em sua bem como uma análise quali-
pluralidade. A construção da tativa da situação global. Esta
memória é algo do presente. análise levou ao delineamento
Constatou-se que os fluxos de das grandes questões atuais
comunicação estavam obstru- da SPID, questões estas que
ídos e, aos poucos, foi se tor- requeriam análise, estudo e
nando possível a reconstrução propostas de novas soluções.
de um certo passado/presente
para a construção de um A Passagem
presente/futuro, sintonizado Cerne da discussão político-
com a vontade da maioria. –ideológico-conceitual que se
Questões relevantes foram estabeleceu na SPID, a ques-
discutidas e as divergências tão dos critérios de passagem
confrontadas de maneira pro- para as mudanças de categoria

(49)
Case History

foi discutida exaustivamente complicada, pois os ausentes


nos encontros da CARI. não explicavam sua ausência,
Quando alguém era selecio- apenas a manifestavam. A
nado para ser participante SPID parecia, de certo modo,
da SPID, ingressava na qua- uma instituição “fantasma”.
lidade de “cursista,” sem ser Havia vida circulando nos
considerado membro, isto é, bastidores, mas que nem
sem direito a votar nem a sempre vinha à luz do dia. Os
ser votado. Após um longo membros e cursistas pagavam
percurso institucional, o cur- as mensalidades referidas à
sista solicitava a passagem respectiva filiação, mas não
à categoria de membro psi- havia ânimo para uma parti-
canalista da SPID, este com cipação efetiva na vida ins-
plenos direitos. Os critérios titucional. Ao mesmo tempo,
de passagem então vigentes se mantinham na instituição.
funcionavam mais como ele- Porque queriam ali permane-
mento excludente, servindo cer? Observava-se um alto
de catalisador para rachas, índice de absenteísmo nas
abandonos e recusas, cons- reuniões e assembléias ge-
tituindo-se como instrumento rais. Desinteresse, apatia ou
de poder. Nesse sentido, foi uma forma de protesto?
apresentado como o rito da Essa questão da participação
“não passagem”. se refletiu nas reuniões da
Tais critérios foram discutidos CARI, que, embora tenha
na maioria das reuniões da contado com um número
CARI e considerados anacrô- gradativamente crescente de
nicos frente à realidade atual participantes, esteve longe
e, portanto, necessitando de de congregar a maioria dos
revisão e mudança. membros e cursistas da SPID.
Falou-se de uma hostilidade
Participação que parecia mover os que
Um dos assuntos mais dis - não vinham. Havia também
cutidos expressou uma situ- alguma hostilidade entre os
ação fortemente vivida entre que compareciam e alguma
os membros e cursistas da rivalidade. Tudo isso expres-
SPID. O dado marcante é que sava, enfim, a dificuldade de
se tratava de uma discussão se realizar um confronto pro-

(50)
Case History

dutivo com diferentes pontos pessoal. Quando se tentava


de vista. pensar a transferência ins-
Como conseguir a partici- titucional, o assunto vertia
pação efetiva de todos neste para a figura emblemática
processo de análise e reforma de um de seus fundadores,
institucional? E como con- lugar de monumento e, neste
quistar a adesão dos mem- sentido, oprimido, impedido
bros psicanalistas da SPID de fazer diferença. Será que
que se colocavam fora desse a SPID construiu mecanis-
processo? mos para concretizar uma
O trabalho empreendido pela transferência institucional?
CARI teve como efeito a se- Qual a imagem que havia da
dimentação de um grupo mais sociedade em si?
permanente nas reuniões, Nenhuma transferência é
um grupo institucional, re- dada – trata-se de um pro-
presentativo das diferentes cesso a ser construído. A
facções. transferência institucional
se dá com e através das
Transferência pessoas, mas, além disso,
Institucional por um compromisso com a
O termo “transferência” não ética expressa pelo respeito
pertence exclusivamente ao ao pluralismo. A SPID tem
vocabulário psicanalítico. como princípio a aceitação
Possui um sentido geral das diferenças teóricas e
de investimento, desloca- práticas e a troca perma-
mento de certa intensidade nente entre pares, o que a
a f e t i v a . Tr a n s f e r ê n c i a p e s - caracteriza como pluralista.
soal se refere a um investi- No entanto, entre o pluralis-
mento dirigido a alguém em mo que se constitui na base
particular, ao passo que, na estrutural da Sociedade e o
transferência institucional, sectarismo que às vezes se
o investimento se dirige ao evidencia, há a possibilida-
coletivo, a uma instituição. de de coexistência? Como
Constatava-se, na SPID, a di- construir uma transferência
ficuldade de se estabelecer a institucional tendo em vista
diferença entre transferência tamanha dispersão?
institucional e transferência

(51)
Case History

Política pares? Como conseguir que


Naturalmente, todos os itens houvesse uma participação
anteriores formavam um solo efetiva dos membros da SPID
político, onde foi construído nas tomadas de decisões da
um espaço específico para a vida institucional?
discussão dos instrumentos Houve a indagação de como
de poder e de organização na se dava a construção de espa-
SPID. Embora houvesse um ços de poder, isto é, de ação
franco posicionamento sobre sobre os outros. Numa política
as formas políticas na insti- democrática se busca aliados,
tuição, este foi um assunto conquistando, produzindo mo-
de trato mais difícil, mais vimentos que se espalham.
sujeito ao imaginário social. Esse grupo institucional,
Discutiu-se como o poder cir- constituído pela CARI, ex-
culava na SPID, como estava pressou um exemplo de exer-
organizado e como era exer- cício democrático de poder.
cido. Falou-se de uma frag- Foi um modelo de agregação,
mentação entre as secretarias, mas não de homogeneidade.
não havendo espaço para que Também não implicou harmo-
a instituição produzisse seu nia sem conflito. Esse grupo
pensamento, na qualidade institucional provocou movi-
de grupo. Não havia uma mento, conexão, produção de
tradição de ampla consulta vida. Essa história incluiu os
aos membros da SPID para ausentes e os presentes. Pôde
o desenvolvimento de suas ser compartilhada e produzir
atividades. Como reduzir a diferença.
distância entre as “autorida- Após um ano de trabalho se-
des”, isto é, os dirigentes e os manal ininterrupto, dois mo-
membros e cursistas da SPID? vimentos se evidenciaram:
Como alcançar um modelo 1. Uma ação política, através
democrático de tomada de do exercício de um confronto
decisões? Como trabalhar a produtivo no grupo insti-
Sociedade de modo a superar tucional. A própria forma
o autoritarismo, tanto o ex- dos trabalhos da CARI se
plícito quanto o subreptício e deslocou, não sem choques,
silencioso? Como alcançar o provocando essa reviravolta
lugar de diálogo e troca entre efetiva, manifestada através

(52)
Case History

da constituição de um grupo de diferenciá-lo do trabalho


aberto, de palavra igualitá- do grupo institucional, lide-
ria. Como atuação política, o rado pela CARI. Foram feitas
caráter de assembléia fez um algumas propostas metodoló-
contraponto ao estilo habitual gicas, não excludentes entre
de hierarquia e de gabinete. si, para dar continuidade
Neste sentido, representou ao trabalho institucional a
uma resposta às críticas de partir dessa delimitação de
exclusão e de não-participa- campos.
ção, estabelecendo uma prá- Após o período de três anos,
tica consistente pela sucessão durante os quais se estimulou
de encontros. o debate e a participação de
2. A urgência de serem ela- todos na vida societária, hou-
boradas propostas objetivas ve uma ruptura e uma mudan-
que viabilizassem as mudan- ça na constituição da própria
ças efetivas. Houve uma certa comissão. Depois disso, fez-se
dificuldade para se iniciar a oportuno um recolhimento da
elaboração de propostas con- mesma para um trabalho mais
cretas, possivelmente por solitário, baseado nas idéias
não estarem maduras, o que novas surgidas frente ao esta-
demandou um certo tempo de tuto e regimento que vigorava
incubação. Havia o risco de na SPID até então, visando a
se criar o momento do já ins- elaboração de propostas obje-
tituído para aquilo que ainda tivas de reforma institucional.
estava se instituindo, em Finalmente, tais propostas
processo. Aqui se discutiu a foram concluídas, discutidas
questão do manejo do tempo. e votadas nas Assembléias
O que é um bom tempo de realizadas para este fim.
análise institucional? Como
suportar o tempo de criação, Sobre a reforma
de ruptura, de elaboração? O institucional.
que a análise pode? O que ela Na reforma empreendida,
suporta? foram considerados as rei-
Surgiu a necessidade de se vindicações e os temas mais
delinear o espaço específico intensamente tocados nas reu-
da comissão, integrada pelos niões da CARI e na pesquisa
cinco membros eleitos, a fim realizada junto aos integran-

(53)
Case History

tes da SPID. A partir do ca- sociedade e agora temos os


ráter societário, foi concebida candidatos a membros que
uma nova organização capaz poderão participar de todas
de atender às necessidades de as reuniões com direito à
uma entidade pluralista, com voz. Após um percurso na
ampla participação e menor SPID, esses, já na condição
hierarquização política. de membros associados, terão
Se remontarmos às questões direito à voz e ao voto, res-
delineadas acima, acerca da peitando uma representação
passagem, da participação e proporcional em relação aos
da transferência institucional membros psicanalistas, que
e política, constatamos que a têm plenos direitos de votar
reforma realizada contemplou e ser votados.
cada uma delas. Quanto à questão da passa-
O principal aspecto da mu- gem, apesar de continuarem
dança diz respeito a uma que- existindo critérios gerais,
bra no ápice da hierarquiza- eles serão confrontados com
ção, com a abolição do cargo o percurso singularizado
de Secretário Geral. A partir de cada um, através de um
dessa reforma, os espaços de Planejamento de Acesso indi-
poder da SPID passaram a ser vidualizado do qual participa-
coordenados por cinco mem- rão os próprios candidatos em
bros psicanalistas que não conjunto com dois membros
tem poder deliberativo algum. psicanalistas da SPID.
O funcionamento do Conselho Em relação à transferência
Gestor, agora a segunda ins- institucional, constatamos o
tância de poder depois da deslocamento de ênfase da
Assembléia, está pautado no figura do membro fundador
modo de atuação do grupo para um foco na própria
institucional liderado pela vida institucional. Desse
CARI, com cinco membros modo, a transferência insti-
coordenando os trabalhos e tucional está pouco a pouco
abertura à participação efe- sendo construída através de
tiva de todos os membros da um compromisso ético com
SPID. Eliminou-se a categoria os princípios que regem a
de cursista, que participava SPID.
de tudo mas não pertencia à Evidentemente, as novas re-

(54)
Case History

gras instituídas vislumbram possibilitando a criação de


as mudanças efetivas como procedimentos que levaram à
condição de possibilidade, discussão e transformação do
mas não são suficientes. É que se supôs ultrapassado.
preciso um trabalho constan- Desse modo, constatamos que
te, um exercício de cidadania a crise institucional havia
no cotidiano da vida institu- sido gerada por uma cristali-
cional, onde cada um de seus zação do dispositivo de poder
participantes é co-responsá- que impedia a maleabilidade
vel pela implementação do necessária ao enfrentamento
novo, devendo ser sempre do novo. A iniciativa de se
vigilante para que esse novo empreender um trabalho de
não se feche a outras novida- a n á l i s e i n s t i t u c i o n a l , p o r-
des que estão por vir. tanto, foi uma manifestação
Nessa nova estrutura da de resistência das forças,
Sociedade, em que apenas as urgindo por mudanças.
linhas gerais são definidas, Finalmente, não podemos per-
há espaço para maior male- der de vista a precariedade do
abilidade, podendo a tensão que foi instituído pela refor-
permanente entre o instituí- ma, para que não se engesse
do e o instituinte ser melhor o que deve permanecer po-
administrada. tencialmente em movimento:
Retomando as premissas que a própria instituição.
fundamentam este trabalho, Ressaltamos o aspecto ino-
referidas à tensão permanente vador deste trabalho, consi-
entre “instituinte-instituído,” derando que foi a primeira
testemunhamos um verdadei- vez na história da institui-
ro embate: de um lado, forças ção que se desmontou uma
que sustentavam o dispositivo estrutura hierarquizada em
vigente e tentavam impedir o vigor desde sua criação, há
surgimento de novas formas, 50 anos, tendo como figura
em uma tentativa de domina- central o Secretário Geral,
ção, dificultando o exercício que detinha um poder cen-
da liberdade frente ao poder tralizador. Em se tratando de
constituído. Ao mesmo tempo, uma sociedade que tem como
a resistência das forças que se premissa básica uma relação
opunham ao “já instituído”, paritária entre seus membros,

(55)
Case History

tal estrutura, era, no mínimo, valorizados, e isso fez com


contraditória. Contudo, apesar que colaborassem mais efe-
de várias reformas terem sido tivamente. Tudo foi resolvido
empreendidas ao longo desses com a aquiescência de todos,
50 anos, nenhuma ousou uma e não a partir de uma cúpula
reviravolta tão inovadora, fechada.
isto é, extinguir a figura do A transparência e o incentivo
Secretário Geral, acarretando à participação e à produção
outras conseqüências. Isto só na vida institucional foram a
foi possível graças ao envolvi- mola mestra dessa reforma. O
mento de todos nesse proces- próprio modelo instituído pela
so, legitimando as decisões CARI – em que cinco mem-
tomadas. bros coordenavam as reuniões
A descentralização do po- abertas ao Corpo Societário,
der, o aumento da cidadania nas quais se incentivava a
institucional – expressa pelo participação de todos nos pro-
direito de todos à opinião e cessos de decisão – foi eleito
ao voto em reuniões e assem- para constituir a nova estru-
bléias –, bem como a abertura tura que rege a SPID hoje.
das reuniões ao corpo socie- Desse modo, ao mesmo tem-
tário, aumentou o interesse po em que era utilizada uma
pela instituição, resultando metodologia para diagnosticar
em maior participação de o perfil da instituição e seus
seus membros. A vida, enfim, entraves, essa mesma metodo-
saía dos bastidores. O índice logia serviu como modelo para
de apresentação de trabalhos a reforma a que se aspirava.
aumentou significativamente; Assim, o processo de criação
novos candidatos se interes- da nova estrutura se deu pela
saram por participar da SPID; ação. Nesta, pesquisa e ação
o movimento institucional foi inovadora caminharam juntas;
reativado. não foi uma solução idealiza-
O s u c e s s o d e s s e e m p r e e n- da, mas, sim, experimentada.
dimento inovador se deve Um novo modo de aproxima-
à inclusão de muitos nos ção das questões implicou a
processos de decisão. Todos própria solução.
perceberam a importância de Finalizando o testemunho
sua participação e se sentiram desse percurso, constatamos

(56)
Case History

que o estatuto e o regimento (Notas)


1
frutos da reforma institucional Foucault, M. Vigiar e Punir, pp. 31-
33.
atualmente em vigor surgiram 2
Foucault, M. “O Sujeito e o Poder”,
da participação e do trabalho I n : M i c h e l F o u c a u l t , U m a Tr a j e t ó r i a
de muitos membros da SPID, Filosófica, p. 243.
por um extenso período de 3
Foucault, M. “O Sujeito e o Poder”,
tempo. São, portanto, resul- p. 244.
tado de um modelo demo- 4
Foucault, M. “Não ao Sexo Rei”, In:
crático de trabalho, para se Microfísica do Poder, p.241.
chegar à tomada de decisões
acerca das reformas a que a
Sociedade aspira.

Referências bibliográficas Angela Coutinho é membro Psicanalista da


FOUCAULT, M. “Não ao sexo rei”, In: Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID),
Microfísica do Poder. Rio de Janeiro:
Graal, 1993, p. 241. Coordenadora da Comissão de Análise e Refor-
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: ma Institucional (CARI), doutora em Psicologia
Vozes, 1977, p. 31/32
Clínica, coordenadora , professora e supervisora
FOUCAULT, M. “O Sujeito e o Poder”,
In: DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel do Centro de Ensino, Pesquisa e Clínica em
Foucault - uma trajetória filosófica. Rio Psicanálise (CEPCOP) da Universidade Santa
de Janeiro: Forense Universitária, l995,
p.243/244 Úrsula, no Rio de Janeiro.

(57)
O Prazer do Olhar

Da Mundi
Carolina Vigna-Marú

“Ferro enferruja A genialidade andar sempre com


com o desuso; água do renascentista um caderno de ras-
parada perde sua Leonardo da Vinci cunhos para todo
pureza e no frio encontra paralelo
canto. Preciso voltar
congela; da mesma a ter esse hábito.
no homem moderno,
forma, a inatividade Em janeiro de 1478,
também tira o vigor que precisa se Leonardo recebe sua
da mente.” reinventar e renascer primeira encomenda
Leonardo da Vinci a todo o tempo importante: uma
para sobreviver. pintura de altar para
Rápida bio Talvez a própria a capela Bernhard
Leonardo nasceu internet simbolize na sede do governo
ilegítimo, de mãe uma nova era de em Florença, que
pobre, às três da grandes navegações ele não terminou.
manhã do sábado de em busca de novos Em março de 1481,
15 de abril de 1452. horizontes. recebe outro pedido
Aos cinco anos, foi grande, dessa vez
largado pela mãe na casa dos para a igreja San Donato a
avós paternos e, a partir de Scopeto, que Leonardo tam-
então, foi criado pela família bém não concluiu. De 1489
paterna. Na certidão de nasci- a 1494, Leonardo trabalha na
mento de Leonardo consta ape- estátua do cavalo de Francesco
nas o nome do pai. Leonardo Sforza em Milão, encomendada
foi filho de mãe ausente. Em por Ludovico Sforza, o mesmo
1468, seu pai mostrou alguns mecenas que encomendou A
de seus desenhos a Andrea del Última Ceia, que Leonardo
Verrocchio. No ano seguinte, pintou de 1495 a 1498. Em
Leonardo ingressou no atelier 1500, retorna a Florença. Em
de Verrocchio onde aprendeu 1503, pinta a Mona Lisa, retra-
algo extremamente valioso: to da esposa de Francesco del

(58)
O Prazer do Olhar

Giocondo, que nunca recebeu pio, mantém-se moderno e


o quadro encomendado. atual. As mídias mudam, as
De 1508 a 1512, serve ao técnicas evoluem, mas um
governador francês em Milão, bom desenho será sempre um
Charles d’Amboise. Em 1512 bom desenho. Como disse o
os franceses são expulsos de fotógrafo Cartier-Bresson, o
Milão e, em 1513, da Vinci importante mesmo é saber
vai para Roma trabalhar para desenhar bem.
Giuliano de Medici, irmão do
Papa Leão X. O Gênio
Fidelidade política não era o Alto, louro, cabelos longos e
seu forte. Em 1516, muda-se cacheados, Leonardo canta-
para a França com dois alu- va divinamente e tinha bom
nos seus, Francesco Melzi e papo. Era um sujeito distraí-
Giocomo Salai, ocupando o lu- do, desatento, volúvel, cheio
gar de pintor da corte. Em 23 de caprichos e que se ente-
de abril de 1519, escreve o seu diava facilmente. Leonardo
testamento, deixando todos os era considerado um homem
seus manuscritos, desenhos, belo, sedutor e bem sucedido.
instrumentos e ferramentas Gozou de fama e popularidade
para Melzi, e suas pinturas enquanto vivo. Reza a lenda
(inclusive a Mona Lisa) para que a população de Florença
Salai. Morre nove dias depois, aguardou durante dois dias
aos 67 anos. em frente a seu atelier, na
Leonardo da Vinci terminou rua, só para poder ver um de
12 pinturas e milhares de seus quadros. Esse negócio
desenhos. Considero esse de artista sofredor, pobre e
fato muito significativo. Os que só ganha fama depois de
desenhos são sempre a origem morto surgiu mais tarde, com
do pensamento, da criação. o Maneirismo.
Ninguém projeta alguma Leonardo foi arquiteto, de-
coisa sem desenhá-la antes. s e n h i s t a , p i n t o r, m ú s i c o ,
Leonardo foi um criador, não engenheiro, cantor, alpinista,
um arte-finalista, e isso é naturalista, inventor e mais
suficiente para defini-lo como um monte de outras coisas
gênio, penso eu. O desenho, igualmente impressionan-
justamente por ser o princí- tes. Foi ele quem inventou

(59)
O Prazer do Olhar

o helicóptero , a tesoura, o coisa. A informática é uma


carro blindado e várias má- ferramenta ímpar, mas, sob o
quinas de guerra. Um homem aspecto do embasamento, é o
incrível, que pertenceu a dois câncer da criatividade.
grandes mundos: o da arte e
o da ciência. A genialidade Diga-me com quem
de Leonardo pode ser lida em Leonardo e Niccolò Machia-
qualquer biografia sua. O que velli, autor de O Príncipe, fo-
me impressiona é a serieda- ram bons amigos. Maquiavel
de com que ele se dedicava era um conselheiro impor-
a um determinado projeto. tante em Florença e prova-
Não deixe o fato de ele não velmente a sua influência
ter terminado muitos deles conseguiu para Leonardo
confundir você - Leonardo dois importantes trabalhos:
se cansava rapidamente, e uma obra para desviar as
uma vez que atingisse o co- águas do Arno (impedindo
nhecimento do assunto, este que fossem até Pisa, cidade
perdia a graça. Contudo, ele rival na época) e um mural
era obstinado, disciplinado e - Batalha de Anghiari - para
sério em seus estudos. o Palazzo Vecchio. A Signoria
Leonardo passou anos como (corpo governante, algo como
interno em um hospital e uma prefeitura) entregou a ta-
dissecou mais de trinta refa a dois rivais, Leonardo e
cadáveres para aprender Michelangelo. Os dois pinta-
anatomia, coisa proibida na ram em paredes diferentes da
época. Fatos como esse são mesma sala as suas versões
o que mais me apaixonam para o mural, numa espécie
nele. Tenho um certo repú- de competição pública. A
dio a esses pretensos profis- situação se tornou um even-
sionais de hoje em dia que to popular justamente pelo
fazem as coisas sem entender fato de os dois não se darem.
os porquês. Existe hoje uma Nenhum dos dois cumpriu
grande confusão entre ferra- o contrato. Michelangelo
menta e criação por causa do fez um enorme esboço da
computador. Não basta saber Batalha de Coscina, mas
usar um programa, é preciso nunca a pintou, ao passo que
entender os motivos de cada Leonardo terminou apenas a

(60)
O Prazer do Olhar

parte central de seu mural. oposto à sua realidade natal.


A Renascença foi repleta O grande homem renascen-
de grandes rivais. Leonardo, tista se recriou, transformou
Michelangelo e Rafael se a sua primeira infância ruim
admiravam mutuamente e e de poucos carinhos em uma
competiam o tempo todo. vida plena e cheia de admira-
Antes de a Mona Lisa ter ção. Pegou a sua vivência do
sido terminada, Rafael visi- abandono materno e pintou a
tou o atelier de Leonardo e mulher mais bela e famosa do
ficou tão impressionado que mundo. Leonardo é reconheci-
adotou o seu esquema de re- do por suas criações e, de fato,
trato (meia figura virada dois ninguém mais, antes ou depois
terços na direção do observa- dele, mereceu o título de gê-
dor, balaustrada com pilares nio. Entretanto, poucos falam
ligando os planos e objeto de sua maior criação, a de si
próximo à extremidade fron- mesmo. Em poucos momentos
tal do quadro). Este modelo o termo “renascentista” fez
de retrato perdurou por déca- mais sentido para mim.
das. Por outro lado, o único Às vezes me pergunto se o
desenho que Leonardo fez de que vivemos hoje não é uma
uma outra obra, que não sua, idade “remedieval”. Tempos
foi o David, de Michelangelo. confusos, com uma sociedade
Eles competiam pelos mesmos quase feudal, de tão injusta.
trabalhos e por quem desen- A burguesia, que nunca foi
volvia melhor uma técnica lá essas coisas, está cada vez
ou estilo. Briga de cachorro mais decadente e burra, e se
grande, sem dúvida. não investir em cultura - a
exemplo da época do mecenato
Inventum - vai ser comida viva. As pes-
A casa em que Leonardo soas precisam se reinventar o
nasceu e viveu seus cinco pri- tempo todo para sobreviver,
meiros anos, em Anchiano, era mesmo que em uma sala de
pobre, pequena, mal ilumina- chat para prazeres imediatos.
da e de poucas janelas, como Criamos personas, nos sub-
mandava a arquitetura cam- dividimos em profissionais,
pesina da época. Criou para parentes, amigos e outros
si um universo belo e rico, inúmeros sub-rótulos de nós

(61)
O Prazer do Olhar

mesmos. Não somos mais falando em zeros e uns como


pessoas inteiras. É necessá- em um espelho de nossos
rio saber “separar as coisas” tantos idiomas. A internet é
- “amigos, amigos, negócios a democratização da informa-
à parte”. Os grandes centros ção e da expressão individual
carregam consigo a solidão da e, portanto, da arte. Ela nos
pólis e sua estratificação so- traz novos horizontes, notí-
cial. Conviver consigo mesmo cias frescas d’além mar. É
já é difícil; com pedaços de si, o mundo sendo solucionado
então, nem se fala. Precisamos pela navegação mais uma vez.
nos inventar a cada instante. A boa notícia é que depois de
E é justamente este aspecto tudo isso vem algum tipo de
da nossa sociedade que torna renascimento. A má é que só
Leonardo da Vinci tão neces- vem com uma reestruturação
sário. Precisamos reunificar profunda das relações sociais
as nossas vidas. Precisamos e trabalhistas, e isso não é lá
juntar arte com economia e muito rápido nem indolor.
colocar um pouco de poesia
na política.
Ta l v e z a i n t e r n e t s e j a u m Carolina Vigna-Marú é jornalista, designer e
Leonardo contemporâneo, nos diretora de arte. www.vignamaru.com.br

(62)
O Prazer do Olhar

Poderes
Cristina Nascimento

Poderes Seria o prazer o fio mais primitivos aos


condutor da ética? mais civilizados,
“Pergunto sempre a jamais nos confor-
Gala: 'querida o que mamos com a quota
queres, querida o que desejas?' de beleza que a loteria gené-
e ela me responde: 'Um coração tica nos brindou e que nos fez,
de rubis, que palpite!' na grande maioria dos casos,
Salvador Dali cruelmente imperfeitos.
Apesar de nossa natureza
“São superficiais as pessoas animal, onde estão presentes
que não julgam pelas aparên- os impulsos instintivos mais
cias”. primários, nos seres humanos
Oscar Wilde o jogo da sedução é infinita-
mente mais complexo, supera
Que ser humano, em sã cons- as determinações biológicas e
ciência, não daria tudo para transforma-se em uma trama
aumentar seu poder de sedu- sutil, fruto da síntese sempre
ção, tornar-se mais belo e mais poderosa de sensualidade,
atraente aos olhos do outro que inteligência e imaginação, que
se quer encantar? nos conduz à contínua invenção
No terreno da sedução, da atra- e reinvenção do que somos e no
ção dos corpos, os humanos são que queremos nos transformar.
os únicos animais para quem os No imaginativo terreno das
atributos naturais não são su- coisas inventadas para aumen-
ficientes, havendo um impulso tar o poder de atrair, encantar
que nos leva, de forma quase e fascinar o outro, as jóias são
universal, a acrescentar mais um caso à parte. Objetos de de-
poder às faculdades com que sejo e sedução por excelência,
a natureza nos brindou. Desde elas foram ornamentos criados
tempos imemoriais, dos povos por todas as culturas humanas,

(63)
O Prazer do Olhar

desafiando o talento de artesãos Para quem pensa que este é o


anônimos de todos os tempos e campo apenas das frivolidades,
dos grandes criadores do sécu- das aparências superficiais,
lo XX – Dali, Picasso, Braque, além de lembrar a fina ironia
Calder, Cocteau –, que as trans- de Oscar Wilde, que diz que
formaram em obras de arte assi- para os humanos nada é mais
nadas, inscritas na aventura es- essencial que o supérfluo, po-
tética de nosso tempo. Símbolo demos também nos perguntar
de luxo e poder material, as que força mais profunda pode
jóias, nesta época em que os existir que o despertar do ero-
bens intangíveis ocupam um tismo pela sedução, este poder
lugar cada vez mais privilegia- que oxigena nossos órgãos, des-
do, se conseguirem traduzir o perta nossos sentidos, agudiza
espírito contemporâneo, podem nossa percepção do mundo, ilu-
também acrescentar às nossas mina as regiões mais escuras de
vidas algo que vai além do nossos seres, potencializa todas
precioso intangível da beleza. as faculdades humanas. E, na
Além de nos enfeitar, elas po- visão extraordinária de Georges
dem nos surpreender, intrigar, Bataille, que força mais profun-
mostrar quem somos, esconder da pode existir que “o erotismo
quem somos, transformar a vida que desafia a tirania da razão,
opaca em algo repleto de trans- o peso das convenções, que nos
parências e brilho. Devem nos livra dos entraves que vêm dos
levar a um mundo de descober- lugares-comuns e das religiões
tas, de deslumbramento; devem e acorda a criança que ignora o
nos mostrar a sutil diferença pudor e a morte, que brinca e
entre o que custa e o que vale dança dentro de nós”.
em um objeto. Devem ter humor Podemos ir mais longe e pen-
para tornar a vida mais leve e sar também que o prazer pode
mais alegre. E, no mundo em ser o fio condutor da ética, o
que tudo está se tornando cada erotismo como força que se
vez mais igual, as jóias devem opõe ao hedonismo vazio e
ser, antes de tudo, exclusivas, consumista, pois subverte as
originais, únicas, como todos regras do interesse material
os humanos, esses “estranhos e egoísta. O erotismo como a
ímpares” de que fala o poema força naturalmente benéfica,
de Drummond. raiz de todo sentimento de

(64)
O Prazer do Olhar

generosidade, protagonista de seu livro “Criatividade”, o ser


um jogo onde todos ganham, que “excita nossa capacidade
tão mais fascinante quanto criativa através do fascínio”. O
mais compartilhado. O prazer ser por quem nosso coração irá
e a alegria que são meus, mas para sempre palpitar, que nos
que dependem do prazer e da
alegria do outro. torna verdadeiramente mais be-
E, finalmente, na celebração do los, mais delicados de gestos,
prazer e da beleza dos corpos, mais delicados de alma.
se tivermos sorte podemos ser E que outra força poderia
brindados com algo mais raro melhor nos fazer superar o
que o ouro e o diamante: o sentimento sempre presente
encontro com nosso parceiro da fragilidade humana, da vida
ideal, aquele que desperta e efêmera, aleatória, precária e
potencializa o melhor que exis- mortal?
te em nós, que alimenta nossos
dias de entusiasmo, que nos faz
maiores do que somos em cada
momento desta vida necessaria- Cristina Nascimento é empresária da área
mente breve. A “alma musa”, de Recursos Humanos e uma das fundadoras
aquela de que fala Domenico do Instituto Ethos de Empresas e Responsa-
De Masi em um capítulo de bilidade Social.

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Bits & Bites

Parangolé Brasil
Hernani Dimantas

“Na Natureza nada se "O Parangolé e social, em que pou-


perde, nada se cria: Pamplona você cos participam da
tudo se transforma”. mesmo faz riqueza e manejam o
É interessante obser- O Parangolé
conhecimento?
var que essa frase de Aposto na liberda-
Pamplona a gente
Lavoisier vale para de. Uma sociedade
entender o que se mesmo faz não pode crescer se
passa na sociedade Com um retângulo a sua capacidade de
da informação. O de pano de uma criação e inovação
conhecimento flui cor só estiver limitada pelo
melhor quando é E é só dançar desconhecimento
recriado sobre uma E é só deixar a cor ou pela imposição
base anteriormente tomar conta do ar" de um sistema
elaborada, ou seja, Adriana Calcanhoto fechado. A huma-
podemos transfor- nidade anseia por
mar o conhecimento transparência. A ci-
já estabelecido em algo diferen- dadania pressupõe direitos e
te, mais apropriado às nossas deveres iguais. Somente com
necessidades. Nas sociedades o conhecimento livre e aces-
contemporâneas, o desenvol- sível para todas as pessoas
vimento se dá pela limitação é que teremos condições de
da influência do conservado- dar um salto para o futuro.
rismo. O conservador sempre O Movimento do Software Livre1
está impedindo o livre trânsito clama pela descentralização da
da informação. O que queremos indústria de software. A expres-
para o nosso Brasil? Uma socie- são “software livre” se refere à
dade catalisada pela liberdade liberdade de os usuários execu-
na utilização da tecnologia ou tarem, copiarem, distribuírem,
uma sociedade retrógrada, cal- estudarem, modificarem e aper-
cada na velha ordem econômica feiçoarem um software. A idéia

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Bits & Bites

básica por trás deste movimento ser humano no jogo da vida. O


é muito simples: os programa- ser humano esteve, nos últimos
dores podem alterar o código- séculos, submetido ao domínio
fonte de um programa e, assim, do pensamento burocrático da
desenvolver seu trabalho sobre Era Industrial, que priorizou
uma base conhecida, disponibi- a produção e o consumo de
lizada por outras pessoas. Esse massa.
sistema permite que os softwa-
res evoluam. Pessoas melhoram, Um novo sistema
adaptam e corrigem os bugs Mas será que um programa
(erros). Isso acontece em uma de computador pode ser re-
velocidade impressionante. O volucionário? O GNU-Linux
mais importante é que todas é um sistema operacional, ou
estas conquistas ficam disponí- seja, ele permite o diálogo
veis, acessíveis à comunidade. entre o ser humano e a má-
Os softwares livres, princi- quina. Podemos dizer que o
palmente o GNU-Linux, são GNU-Linux é um tradutor da
soluções modernas de de- expressão humana para a lin-
senvolvimento de produtos. guagem binária. E vice-versa.
Revolucionam a noção de O grande diferencial deste
trabalho para o novo milênio. sistema operacional está no
Insistir no conceito de proprie- modo de produção. Foi criado
dade, no copyright, da maneira pela colaboração entre pessoas
que conhecemos, é não perce- comuns. É curioso saber que
ber a revolução digital, que é todo este processo de criação
muito maior do que dinheiro, foi comandado por um garoto
lucros e capitalismo selvagem. de 20 anos e acabou envol-
Pois bem, o GNU-Linux está vendo centenas de programa-
na boca do povo. O que isso dores espalhados pelo mundo.
significa? Trata-se de um O livro de Linus Torvalds in-
avanço, não apenas do ponto titula-se “Só por prazer”. Mas
de vista tecnológico, mas, so- Linus não é o estereótipo do
bretudo no campo das idéias, que conhecemos como um boa-
do desenvolvimento humano. –vida. Ele trabalhou muito para
Esta nova forma de produzir e criar o GNU-Linux, o sistema
gerir o conhecimento promove operacional mais aclamado nos
um retorno à importância do últimos tempos. Entendo, con-

(67)
Bits & Bites

tudo, que o prazer se confunde sobretudo, sua abertura. Isso


com o amor. O amor de viver, de significa liberdade de cessão,
trabalhar, de fazer as coisas que alteração, utilização e distribui-
realmente nos importam, aten- ção do software. Mas a grande
dendo a uma inclinação vital. inovação do GNU-Linux, ao
E Linus trabalhou com amor. contrário do que muita gente
Isto faz parte de uma nova pensa, não está no aspecto téc-
maneira de pensar. Trabalhar nico, mas sim no social.
para satisfazer as necessidades Compartilhar informações e co-
vitais. Buscar a satisfação nas nhecimento foi o que permitiu a
tarefas rotineiras. Fazer da nos- maioria dos grandes avanços da
sa existência algo mais impor- ciência. Do mesmo modo que
tante. A internet facilita essa pesquisadores permitem a to-
aproximação. Libera a mente dos os demais em seus campos
humana para estabelecer a di- de estudo examinar e utilizar
versidade. O meio digital abre suas descobertas, para serem
espaço para a criatividade. testadas e desenvolvidas além
Estamos constantemente tro- do ponto em que se encontram,
cando informações e recriando os hackers que participam do
conceitos, seja com programas, projeto GNU-Linux permitem a
palavras ou imagens. O artesão todos os demais utilizar, testar
volta à cena após tanto tempo e desenvolver seus programas.
de segregação. Isso é conhecido como ética
científica. Na programação,
O Hyperlink subverte a este comportamento recebe o
hierarquia nome de código-fonte aberto
O GNU-Linux é subversivo, ou open source.
pois transforma a estrutura A Microsoft, por outro lado, é
imposta pela revolução indus- uma empresa em que o lucro
trial. Na era da internet, des- se sobrepôs à paixão. Por isso
ponta como o primeiro produto é tão questionada por profissio-
idealizado e concebido pela nais éticos. Com o GNU-Linux,
sociedade da informação. A temos o mesmo modelo de de-
distinção do GNU-Linux frente senvolvimento utilizado nas
ao modelo comercial dominan- academias de Platão, na qual
te de software, caracterizado os alunos não eram vistos como
pelos produtos da Microsoft, é, a meta dos ensinamentos, mas

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Bits & Bites

como companheiros na aprendi- alidade, permitindo a qualquer


zagem. Este tipo de abordagem pessoa, independentemente
tem aderência ao pano de fundo de sua classe social, naciona-
anárquico encontrado na rede. lidade, sexo e raça, acesso ao
As pessoas não querem mais código-fonte do software.
ser telespectadores. Os mer- Naturalmente, para tarefas es-
cados são conversações. As pecíficas e modificações exclu-
pessoas têm a possibilidade de sivas, são contratados progra-
interagir com as comunidades madores remunerados. Afinal,
na internet e, assim, protago- se ninguém ganhasse dinheiro
nizar sua própria existência, com o software livre, este sim-
buscando e construindo na co- plesmente não existiria, pois o
munidade digital os interesses capital é o grande impulsiona-
comuns. Logo, o modelo aberto dor de nossa sociedade, para o
não é uma invenção alucinada bem e para o mal.
de algum nerd finlandês. É um Países como Alemanha, França,
conceito há muito conhecido China e Coréia já estabelece-
e considerado como uma al- ram a utilização de softwares
ternativa para o crescimento livres na administração públi-
colaborativo. ca, mostrando ao mundo que
essa tendência não é apenas
O software está cada vez uma realidade como também,
mais livre e principalmente, uma alter-
Vamos, agora, estender um pou- nativa à política comercial
co mais o conceito de software norte-americana em relação a
livre. Pense em liberdade de softwares e criptografia.2
expressão, não em cerveja grá- O Brasil tem a possibilidade de
tis. O software livre tem custo. criar produtos e serviços com
É comercializado através da uma tecnologia disponível a to-
venda de serviços. Não pode- dos, em um ambiente colabora-
mos confundir software livre tivo, onde as melhores cabeças
com filantropia ou voluntariado. do mundo estão comprometidas
O trabalho voluntário criou e com este movimento e dedicam
mantém o sistema operacional, suas habilidades a disseminar
as ferramentas e as atualiza- uma nova forma de desenvolvi-
ções; tirou o projeto do papel e mento de softwares e de traba-
fez com que este se tornasse re- lhar colaborativamente com o

(69)
Bits & Bites

conhecimento. A manutenção líder para que o mercado de


do kernel, versão 2.4, do GNU- trabalho absorva estes novos
Linux – para citar um exemplo profissionais. Falácia. A lógica
– está sob responsabilidade de na informática é a mesma coi-
Marcelo Tossati, um brasileiro sa. A opção pelo software livre
de 17 anos. Neste mundo de pode e deve estabelecer contato
códigos livres, não existe jogo com as inúmeras comunidades
de poder. Existe, sim, o jogo digitais que objetivam a troca
do saber. de informação, em um cons-
Algumas pessoas acham que o tante ensinar e aprender. E, se
software livre na administração levarmos em consideração os
pública pode ser um retrocesso, projetos de inclusão digital e
uma vez que a obrigatoriedade suas perspectivas em relação às
nos remete ao protecionismo comunidades envolvidas, pode-
da indústria da informática dos –se ir mais além: internet não
anos de 1970. Mas a história é tem a ver só com computadores.
totalmente diferente. Os pro- A rede é função inequívoca da
gramas livres não estão restritos conversação entre pessoas.
a um desenvolvimento tecnoló-
gico nacional. A abrangência O que é esse tal de
é universal, e os produtos são CopyLeft?
considerados um patrimônio Prefiro o copyleft ao copyright.
da humanidade. O governo Trata-se da maneira como o
brasileiro corre menos risco movimento do software livre
utilizando obrigatoriamente enxerga a questão dos direitos
softwares com código aberto do autorais. Temos de encarar o
que os proprietários. Eu acre- fato de uma forma mais prag-
dito que o software livre é es- mática e repensar a dinâmica
tratégico, uma vez que permite da remuneração. Da mesma
um avanço tecnológico rumo a maneira que o copyright reinou
um mundo colaborativo. durante toda a era industrial,
Outro argumento contrário à vemos atualmente o cresci-
adoção de programas livres tem mento da idéia do copyleft em
origem na padronização impos- toda a indústria relacionada
ta aos mercados. Dizem que os com o conhecimento. O fluxo
brasileiros devem ser treinados do conhecimento torna-se mais
com os produtos da empresa livre a cada dia. Não pertence a

(70)
Bits & Bites

uma entidade ou a uma empre- tão empolgadas em produzir


sa. Na verdade, não pertence a livremente que não se inco-
ninguém. modam, em curto prazo, em
Vejo esta tendência se espalhar difundir suas idéias ou seus
pela rede. Músicas, imagens e programas gratuitamente.
textos estão sendo difundidos Este conceito capacita muito
de forma livre, em uma quan- mais gente a participar da
tidade jamais vista. Permanece vida inteligente. As pessoas
em aberto, no entanto, a ques- têm mais possibilidades de
tão de como criar um esquema mostrar seus trabalhos, mais
de remuneração para toda essa expectativas de alcançar seus
criatividade. sonhos.
Não temos respostas. Temos Domenico De Masi, teórico das
idéias. Creio que estas pessoas, relações entre o ser humano e
apesar de terem como objetivo o trabalho, apregoa uma for-
final a remuneração, estão bus- ma inteligente e construtiva
cando se firmar. Pisar em um de utilizar o tempo. A atual
terreno mais sólido. Querem expectativa média de vida
ser reconhecidos por sua cria- da população é mais do que
tividade e pela qualidade dos o dobro do que no tempo dos
seus trabalhos. As pessoas nossos avós. Ao mesmo tempo,
buscam nas comunidades um o progresso tecnológico e o de-
reencontro com a cidadania. E, senvolvimento organizacional,
mais, anseiam por reputação. característicos da sociedade
É importante entender o con- pós-industrial, permitem pro-
ceito de reputação em um duzir mais com menos esforço.
ambiente caótico e rico em O ócio criativo consiste em
diversidade. Qualquer pessoa saber empregar o tempo livre.
pode desenvolver um projeto. Chegou o tempo de trabalhar
A internet é um canteiro de sem o suor do rosto. Temos o
talentos. Tem gente fazendo de direito de trabalhar aproveitan-
tudo e mandando muito bem. do o trabalho. O ócio criativo
Uma verdadeira descentraliza- une o trabalho com o estudo
ção no processo de produção (conhecimento) e o lazer (jogo
de conhecimento está sendo e diversão). Podemos organizar
criada não pela demanda, mas nosso tempo e fazer com que
pela oferta. As pessoas estão todos os três coincidam.

(71)
Bits & Bites

No futuro, seremos todos para garantir o desenvolvimen-


hackers to dos negócios. Ética, respeito
Nomes parecidos nos confun- e responsabilidade são as pa-
dem. Hackers não são crackers. lavras de ordem. A internet é o
Hackers constroem a rede. meio lógico para alcançarmos o
Crackers são os piratas ciber- futuro. Quem manda é a torcida
néticos. Não me atenho ao que desuniformizada.
a imprensa diz. Cada vez mais, Na programação de computa-
a palavra hacker se cola ao dores, a cultura hacker é mais
seu sentido histórico, fazendo visível. Existe um produto final.
jus aos criadores dos códigos Nas outras áreas do conheci-
abertos, do software livre, os mento, as prerrogativas são
homens do GNU-Linux. outras. O produto é intangível
A cultura hacker é sadia e au- (estamos tratando de serviços).
tocontemplativa. A qualidade Mas temos de admitir que nossa
do trabalho, a perseverança e, geração está sendo influencia-
principalmente, a humanização da por esta cultura. Basta que
são as características mais mar- analisemos os mercados e as
cantes desta filosofia. É mais tendências.
importante ter reputação do que Vimos que este movimento
bens materiais. Não se trata de não se limita à programação
negar o trabalho remunerado, de computadores. A cultura
mas de se estabelecer uma hacker já invade outras praias.
outra ordem de prioridades. Tal fato deve ser encarado com
Saber dar e receber faz parte seriedade. Os negócios podem
deste jogo. ser diferentes. Temos de apren-
A internet é a obra-prima der a potencializar todo o co-
hacker. A avalanche de sites nhecimento de que precisamos
é proveniente desta tecnolo- para viver melhor, pois muita
gia. O comércio eletrônico só coisa está acontecendo nesses
existe porque o meio ambiente mercados.
foi construído e adaptado. Por Não pense que os negócios vão
isso, o movimento não vai ficar permanecer intocáveis. Hoje,
restrito à arena tecnológica. 50% dos servidores de web
Disseca e corta cirurgicamente utilizam o Apache, e 30% dos
as amarras da era industrial. provedores, o GNU-Linux. Não
Neste universo, não há receitas podemos deixar o trem passar.

(72)
Bits & Bites

Se o mundo dos negócios está ciedade mais justa a partir da


mudando, onde entra a filosofia democratização do acesso e da
hacker nessa mudança? descentralização da produção
Pessoas como Richard tecnológica.
Stallman 3 , Eric Raymond 4 , Então, quando ler em um arti-
Esther Dyson5, Linus Torvalds6 go uma referência equivocada
e Tim Berners-Lee 7 colocam à palavra hacker, pense no
o coração à frente da razão e jogo de poder que envolve a
metem a cara nos pequenos nossa civilização. Ser hacker
detalhes da nossa sociedade. não significa ser bandido, mas
Estão recriando conceitos e ser revolucionário; significa a
modificando a forma de o ser busca de uma vida melhor para
humano se relacionar. Não só todos nós.
por meio de relações fortuitas, A promessa da internet é um
mas, sobretudo, pelo estabe- novo mundo. Uma realidade
lecimento de uma nova forma virtual que chega para destruir
de inter-relacionamento na e reconstruir o nosso universo.
produção de bens e serviços. A Palavras como reputação, bom
ética hacker invadiu o mundo senso, respeito e ética fazem
dos negócios, com exemplos parte do cotidiano no espaço
como o Linux, o servidor web digital.
Apache 8 e a própria internet, Esses são os novos valores.
introduzindo uma maneira di- A exemplo das músicas que
ferente de se trabalhar. Essa trocamos, estamos vendo uma
é a grande novidade da era do enxurrada de informação dis-
conhecimento. ponibilizada. As pessoas estão
No Brasil, isto não é dife- acessando os sites e repassando
rente. Muitas pessoas estão o conhecimento para as listas
atuando em prol do software de debates, publicando nos
livre. Grupos de incentivo e sites e chamando a atenção
argumentação para a utilização dos incautos.
majoritária dos sistemas aber-
tos é uma realidade. Podemos A revolução não
citar o CIPSGA9, o Linux-SP, o televisionada
Rau tu10, o GASLi11, o quilombo Mas não é nada fácil sentir
digital 12, além de muitas pes- esta revolução. É um processo
soas que militam por uma so- sutil e vagaroso. Vem tomando

(73)
Bits & Bites

corpo, ensinando a nova gera- para oferecer para o desenvol-


ção a compartilhar conheci- vimento do processo coletivo.
mento. Uma nova ordem está Apresentam-se novas possi-
sendo construída. Uma pro- bilidades para escolher um
messa para uma humanidade projeto pessoal junto com um
capaz de reviver o amor. grupo de convívio em uma abs-
A revolução dos bits se con- tração dos limites territoriais e
trapõe ao padrão da sociedade temporais.
ocidental. O mundo digital já E, assim, tudo muda. Crianças
se deu conta de que é possí- aprendem a colaborar, a de-
vel quebrar paradigmas. Isto senvolver projetos on-line e
se torna verdadeiro quando a espelhar seus sonhos no
detonamos a forma egoísta ambiente web. O mundo vir-
pela qual nos acostumamos a tual não é diferente do nosso
pensar. A comunidade virtual bom e querido mundo real. No
mostra a sua cara trazendo entanto, escancara as portas
novidades tecnológicas e fi- da comunicação, facilitando a
losóficas. publicação dos pensamentos
Para entender esta ruptura dos mais profundos e o acesso
paradigmas, temos de pensar indiscriminado destes pensa-
e participar. O mundo não é mentos a qualquer ponto da
mais o mesmo. Nem mesmo as rede. A internet está ensinan-
grandes corporações acreditam do os usuários a se inter-rela-
na continuidade de um geren- cionarem neste espaço virtual.
ciamento de cima para baixo Não existe segredo, apenas boa
e controlador. Precisamos de vontade e obstinação.
liberdade para extravasar a Criar para a sociedade. Fazer
criatividade. A sociedade ne- acontecer independentemente
cessita desta diversidade para do retorno financeiro em curto
sobreviver. prazo. É essa a grande novida-
A colaboração reaparece como de. A metodologia de trabalho
uma das formas de diminuir a é simples e virtual. Qualquer
fricção entre a sociedade e pessoa com um computador
os anseios das pessoas. Está conectado à rede e com um
surgindo uma consciência ine- pouco de conhecimento tem
quívoca de que a construção a possibilidade de participar
de baixo para cima tem muito voluntariamente de alguns

(74)
Bits & Bites

p r o j e t o s i m p o r t a n t e s . Te m (Notas)
d e s a b e r c o n v e r s a r, p o i s a 1
GNU [http://www.gnu.org] e Open Source
voz humana tem o poder de Initiative [http://www.opensource.org]
transpor as maiores barreiras. 2
A criptografia é tratada com segurança máxima
O ser humano está se trans- nos EUA. E, até algum tempo atrás, não podia
formando. Está catalisando as ser exportada. Atualmente, apenas algumas
informações. O conhecimento chaves criptográficas mais fracas podem ser
está fervendo na rede. comercializadas com outros países.
Na minha opinião, a solução 3
Richard Stallman [http://www.stallman.org/]
está na disseminação do aces- 4
Eric Raymond, presidente da Open Source
so. Talvez esta seja a melhor Initiative [http://www.opensource.org]
oportunidade de levar infor- 5
mação a todos os brasileiros. Esther Dyson [www.edventure.com]
Construir escolas, bibliotecas 6
Linus Torvalds, criador do sistema operacional
e toda a infra-estrutura para Linux
a catalisação do conheci- 7
Tim Berners-Lee, criador da WEB
mento é muito mais caro do [http://www.w3.org/People/Berners-Lee/]
que prover acesso de banda 8
Apache: servidor de web criado por Brian
larga e wi-fi 13 e promover um Behlendorf [http://www.apache.org/]
verdadeiro projeto de inclusão 9
Comitê de Incentivo e Produção de Software
digital. Acredito que, assim, GNU e Alternativo [www.cipsga.org.br]
podemos vencer o gargalo da 10
educação. Rau Tu [http://rautu.cipsga.org.br/]
Estamos sentindo esta mu- 11
Grupo de Argumentação para o Software Livre
tação. As vozes das pessoas [http://www.gasli.tk]
estão cada vez mais altas. As 12
Quilombo Digital – Grupo de
pessoas sabem que precisam Estudo dos Aspectos Éticos, Políticos e
se desvelar. Mostrar a cara Filosóficos Relacionados ao Software Livre
para a vida. Gritar, se revoltar, [http://www.quilombodigital.org]
mas, principalmente, partici- 13
Placa que permite conexão sem fio
par. Estamos inseridos em um
momento histórico, um enorme
Hernani Dimantas é coordenador do projeto w
movimento de colaboração.
Brasileiros e Brasileiras, esta ww.marketinghacker.com.br, autor de Marketing
é a nossa chance de protago- Hacker: a revolução dos mercados e colaborador
nizar a nossa história. em Software Livre e Inclusão Digital.

(75)
Curta Metragem

O melhor de Wired
Laura Innocenti

Instantâneos da Depois do exemplo mente são acessíveis


Lua da NASA, que na rede, exceto em
Talvez nem todos permite a qualquer eventos especiais e a
saibam que a NASA pessoa utilizar
um alto custo. Em ou-
não é protegida por tras palavras, a gran-
um copyright. Com imagens fotográficas de promessa da era
efeito, por se tratar exclusivas, a digital, ou seja, que
de uma agência fe- BBC resolve o capital intelectual e
deral, o Estado não disponibilizar ao cultural do mundo se-
pode reclamar juri- público um dos ria acessível a todos,
dicamente direitos maiores arquivos do realmente não está
autorais sobre o que mundo. perto da realidade.
ela produz. Qualquer
pessoa é livre, portanto, para Algo profundamente
copiar e reproduzir o mais vasto diferente está acontecendo
arquivo de imagens do mundo, na BBC1
entre as quais algumas das mais Contudo, podemos estar próximos
exclusivas e pesquisadas em toda de uma mudança – e seria a BBC
a história. Com a única condição a abrir esse caminho. No verão
de não utilizar as imagens com passado, o seu diretor geral, Greg
objetivos comerciais ou promo- Dyke, anunciou a decisão de di-
cionais, é possível baixar, por gitalizar e tornar acessível ao
exemplo, tantas fotos de Neil público todo o material reunido
Armstrong quanto se desejar. em arquivos – desde documen-
Infelizmente, casos de abertura tários sobre a natureza de David
e disponibilidade semelhantes Attenborough e registros de dis-
não são muito difundidos. Os cursos de Winston Churchill, até
mais vastos arquivos públicos de a série de programas da tevê de
informação – noticiários, revistas, maior sucesso nos últimos anos
programas de rádio e tevê – rara- – que podem ser copiados, mistu-

(76)
Curta Metragem

rados e utilizados à vontade. será fácil, mas se a BBC assumir


Para uma empresa pública o ônus mais pesado, quem quiser
como a BBC, com seus 81 anos seguir seu exemplo vai encontrar
de história, esta é realmente a o caminho já planificado. Bem
inauguração de uma nova era. realizado, este modelo poderá
Tal abordagem repercutirá bem servir para todos.
além do Canal da Mancha, já que A possibilidade de acessar tais
se firmará um modelo de compor- bancos de dados certamente
tamento que pode ser imitado por estimularia a criatividade e
muitas empresas públicas ativas a fantasia de seus usuários.
no mundo, no setor de mídia. Documentários há muito esque-
Não que se trate de uma medida cidos, entrevistas com persona-
simples e econômica, em abso- lidades históricas, programas
luto. Para permitir a distribuição científicos e educativos, tudo
do material é necessário obter a isto estaria disponível, cena por
autorização de quem detém os cena, e novos trabalhos tomariam
direitos. Se para as produções impulso e ganhariam novos mol-
futuras a BBC pode instaurar des a partir dessa inesgotável
novas modalidades de relação mina. Até o mundo da mídia se
com produtores e artistas, de beneficiaria , mesmo não sendo
modo que cedam seus trabalhos autorizado a reproduzir o mate-
sem depois reclamar os direitos, rial para fins comerciais.
para o material já presente no Esse é um sonho ainda distante,
arquivo a questão se apresenta mas caso a BBC consiga, como
bem mais complexa. parece intencionada, seguir
Graças a um sistema confusamen- o exemplo da NASA, um pe-
te mesclado, muitos dos direitos queno passo seu nessa direção
sobre o material em arquivo são representará um grande salto na
atribuídos a diferentes entidades, difusão de informações.
o que dificulta os trâmites legais.
Para se sair bem desse entrave, (Notas)
1
Síntese do artigo de Danny O’Brien,
a BBC deverá encontrar uma "Something completely Different", in Wired,
nova maneira de administrar as novembro de 2003.
relações comerciais, instaurando
uma espécie de denominador co-
mum que simplifique as relações Laura Innocenti, é consultora de gestão de
entre as partes. Certamente não recursos humanos. Mora e trabalha em Roma.

(77)
O Prazer do Olhar

Lan - entrevista exclusiva


Entrevista de Lan a Ivan Bentini e Guilherme Rodrigues

IB: Como o senhor O caricaturista Lan, América. Foi assim


saiu da Itália? em descontraída que nós chegamos a
Lan: Meu pai, pri- conversa, faz um São Paulo. Depois,
mogênito da família balanço de sua
em 1931, meu
Vaselli – La Debilos, pai foi contratado
vida e
nasceu para a músi- pela Sinfônica de
ca. Quando Arturo carreira. Montevidéu, que,
Toscanino foi à em determinado mo-
Europa em 1927 para selecio- mento, chegou a ser a melhor
nar os principais músicos da orquestra sinfônica da América
Itália, meu pai foi indicado pelo Latina. E foi assim que eu fui
Instituto Luterano Vicetti de criado e educado no Uruguai.
Florença , onde estudou. Só que Nunca poderia imaginar que um
meu pai tinha se casado e teve dia eu viveria só de caricatura.
de deixar a música por imposição Nem me passava pela cabeça
do sogro. Ficou chateado por ter um negócio desses, porque eu
perdido a oportunidade de tocar não fui um Mozart ou um enfant
com Arturo Toscanini, o melhor prodige, pelo contrário. Hoje eu
regente da história. Minha mãe olho os desenhos que fazia nos
também ficou chateada e, como cadernos infantis e digo: “Que
já não se dava muito bem com a negócio horrível.” Era aquele
sogra, falou com meu pai: “Olha, desenho de criança. De repente,
à primeira proposta, a gente se não mais que de repente, foi no
manda.” Em 1929, Lamberto Colégio Alemão de Montevidéu,
Ubaldi, que havia estudado quando eu tinha já 16, 18 anos,
com meu pai no mesmo Instituto no período da guerra, que eu tive
Luterano Vicetti, foi contratado um professor de química que era
como regente da Sinfônica do um filho da p* de marca maior.
Municipal de São Paulo e con- O tipo de professor que botava
vidou meu pai para vir para a todo mundo no anfiteatro e come-

(78)
O Prazer do Olhar

çava: “Me dá a fórmula de tal, tal outro olhar.” Perguntei: “Por


e tal.” Se você dizia: “Não sei”, que de memória?” Ele disse:
ele: “Zero, zero, zero”. Pois bem, “Porque a memória é um circo.
eu tinha um ódio dele enorme. Na memória fica o essencial, e
Um dia resolvi fazer sua carica- é uma impressão subjetiva sua,
tura e pronto, saiu! Você pode ao mesmo tempo, objetiva. Todo
imaginar que, como todo aluno mundo vai reconhecer o que você
tem seu desafeto, começaram a vai fazer porque é uma sensação
me pedir a caricatura de outros que praticamente todo mundo
professores. tem em relação a determinado
No último ano ginasial, ainda no indivíduo. E isso é a caricatura
preparatório do colégio alemão, o pura. É a essência do que fica
que seria o pré-vestibular daqui, dentro de você com relação aos
o professor Kovatch, um húngaro, outros.” Eu, até hoje, desenho
disse no primeiro dia de aula de de memória.
desenho que cada um desenhasse IB: Fantástico.
o que quisesse. Eu, que já estava Lan: Até hoje. Por exemplo,
fazendo minhas caricaturas, fiz a o movimento do Guilherme
do Herr Heningam, diretor do sentado aqui. Eu não preciso
colégio, uma figura maravilhosa que o Guilherme pose para de-
e nosso professor de filosofia. Ele senhá-lo assim: está na cabeça.
se sentava de uma forma engra- Vai-se registrando tudo, inclu-
çada porque era muito magro sive o movimento. E, graças ao
e conseguia enrolar as pernas, movimento, eu consegui meu
além de ter umas orelhas de primeiro trabalho no El País, de
abano incríveis. Então, eu fiz Montevidéu. Nessa época, eu ia
a caricatura dele bem assim. O ao estádio torcer pelo meu clu-
professor de desenho me disse: be, o Nacional de Montevidéo, e
“Lan” – aliás, naquela época comecei a observar os jogadores
me chamavam de Fran1– “você de futebol, o estilo de jogo, o jeito
não vai fazer o curso com seus de usar o uniforme do clube. Um
companheiros. Você vai fazer, de companheiro pegou um desenho
memória, a caricatura de todos meu [de futebol] e levou pra o El
os outros professores e de todos País. O jornal me chamou para
os companheiros e funcionários. trabalhar na seção de esportes.
Você vai ter de estimular sua E é curioso: sempre comecei
memória observando-os com pela seção de esportes em todas

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O Prazer do Olhar

as partes por onde trabalhei da minha primeira exposição.


– no Uruguai, na Argentina e Ela era mulher do presidente
no Brasil. Aqui, por exemplo, do Country Club de Cantegry,
vi Baltazar Cabecinha de Ouro, em Punta del Este, o clube mais
do Corinthians, jogar em 1952. grã-fino do Uruguai. Eu aceitei,
No dia seguinte fui à redação do claro. Ela disse que tudo ficaria
jornal Última Hora cumprimen- por conta dela, inclusive a hospe-
tar amigos que tinham traba- dagem. Eu, então, convenci meus
lhado comigo em Buenos Aires pais a me deixarem fazer a expo-
e a Bianca Rodrigues, irmã do sição, o que foi difícil porque era
Nelson Rodrigues, me entrevis- época de provas na faculdade de
tou. Ela me pediu um desenho arquitetura. Cheguei às dez horas
e, por causa dele, acabei sendo da noite no Country Club. Não
convidado a ficar no Brasil. Eu já tinha ninguém, só o porteiro,
estava deslumbrado com o Rio de um ex-jogador de basquete que
Janeiro, e as cariocas foram um eu reconheci. Eu, com a minha
dos motivos fundamentais pelos mala, com meus quadrinhos,
quais eu fiquei no Brasil. tudo muito precário. Esperei
IB: Era exatamente o que eu ia uns 15 minutos. De repente,
perguntar... O que fez o senhor se aparece a mulher sendo arras-
apaixonar pelo Brasil? tada pelo marido, que lhe deu
Lan: Mulher é fundamental. um chute na bunda e botou-a no
Aliás, eu devo reconhecer que, carro. E eu, a única testemunha,
se há uma constante em toda a o convidado da senhora. O que ia
minha vida, desde a infância, é dizer? “Buenas noches, señora”?
que sou fissurado em mulheres. Fiquei sem jeito. Perguntei ao
Só penso naquilo! Até hoje, com porteiro o que tinha acontecido,
quase 80 anos, continuo na e ele me contou que ela estava se
mesma. Não mais com aquelas “encontrando” com o diretor do
performances maravilhosas, meu jornal no jardim do Country.
mas hoje em dia, graças a Deus, O que fazer? Essa foi a primeira
tem o Viagra. decisão que tive que tomar na
GR: Conte-nos como se iniciou minha vida, fora do amparo fa-
sua carreira internacional. miliar. O meu jornal tinha feito
Lan: Eu trabalhava no El País, uma tremenda reportagem sobre
de Montevidéu, e uma dondoca meu lançamento em Punta del
uruguaia resolveu ser madrinha Este e eu estava com vergonha

(80)
O Prazer do Olhar

de voltar a Montevidéu sem ter esta tarde, en lo hotel Novaron, la


feito a exposição, não poderia grande exposición del internacio-
explicar o motivo. Meu pai, por nal caricaturista Lan.” Cada vez
via das dúvidas, tinha me dado que ouvia aquilo, eu afundava a
um dinheirinho, dizendo que não cara na areia, com uma vergonha
era pra gastar, que era só porque enorme. O Dante foi embora e fi-
ele não acreditava nessas dondo- quei sozinho. Passou o primeiro
cas. Chamei um táxi e fui para o dia, e ninguém dando pelota para
melhor hotel de Punta del Este. os quadros, todo mundo jogando.
A diária custava dez pesos, era “Façam seus jogos, senhores”. E
dinheiro à beça. E eu tinha tre- tic tic tic, aquele barulhinho de
zentos. Peguei um apartamento ficha tentador. Eu subia, pegava
e telefonei para Dante Picarelli, dez mangos, jogava em chance ou
meu querido amigo: “Dante, pe- perto ou colorado e perdia. E as-
gue um ônibus amanhã e venha sim fui perdendo, perdendo, per-
para Punta del Este porque você dendo... Não ganhei uma! Fiquei
tem que me ajudar a resolver isso só com 35 pesos. Faltavam dois
tudo.” Na manhã seguinte, quan- dias para eu pagar o meu hotel,
do Dante já estava na cidade, pois pagava por semana. Era o
perguntei para o gerente do ho- dia 18 de fevereiro, meu aniver-
tel se lá havia algum local onde sário! Bom, eu tinha de festejar o
eu pudesse fazer uma exposição. meu aniversário. Me emperiqui-
Não existia um salão para exposi- tei todo, botei o meu blazer de
ção, mas tinha a sala do cassino. alpaca inglesa, combinando com
Mal sabia eu que o camarada a calça, um lenço pendurado no
que vai jogar não dá nem pelota pescoço assim. Fui para o bar da
para o que está nas paredes, só boate La Fragata, que era a boate
fica atento aos numerozinhos. da moda e, naturalmente, pedi a
Mas tudo bem, pelo menos tinha bebida dos tesos: gim tônica. Gim
um lugar onde eu podia botar tônica é bom porque você vai
os quadros. Dante escreveu um misturando com a tônica e dura
texto de divulgação porque, na- horas. Já era perto da meia-noite,
quela época, todos os eventos de e eu lá esticando, com cara de
Punta del Este eram anunciados rico, olhando as modas, vendo se
em alto-falantes por um carro tinha alguma garota interessante.
de som. O texto do sacana era À meia-noite, colocam um holo-
assim, nunca vou esquecer: “Y fote em minha cara e a orquestra

(81)
O Prazer do Olhar

– um quinteto de jazz uruguaio sicos da orquestra, que quiseram,


– começa a tocar “Happy bir- cada um, uma caricatura também.
thday to you, happy birthday to Depois vieram mais cinco e tam-
you, happy birthday Lanfranco.” bém todos os croupiers do cassino.
E eu digo: “Ué, tem mais um Com isso, acabei ficando até o fi-
Lanfranco aqui? Que coincidên- nal de março fazendo caricaturas
cia...”. Acontece que o baixista em Punta del Este.
da orquestra era Hélio Batezini, IB: Ficou lá por quase dois
um amigo de infância que man- meses?
dou tocar Parabéns pra você. Lá Lan: É. Cheguei mais ou menos
também estava Henrique Santos no dia 10 de fevereiro. E meu pai
De Chepra, autor do tango Luno. me telefonando: “Volta, que você
O lugar estava cheio de artistas e tem que estudar!” Quando che-
comecei a ser convidado de um guei a Punta Del Este, conheci
lado e de outro. Acabei tomando um caricaturista argentino, um
um porre de whisky boca-livre. De velho saudoso, que me disse que
madrugada, por volta das cinco se eu quisesse ganhar dinheiro
horas, todo mundo indo embora como caricaturista, teria de ir
de porre, vem falar comigo Gozio a Buenos Aires. Ele conhecia o
Montana, crooner da Santa Palo famoso [José Antonio Guilhermo]
Serenade, uma orquestra argen- Divito, dono da revista humorísti-
tina de jazz: “Me gustaran mucho ca de maior sucesso que já houve
tus caricaturas. Cuanto cobras?” na América Latina. Até hoje não
Eu olhei pra cara dele e disse: houve nada que superasse a Rico
“Quanto cobro? Nem sei. Mas eu Tipo. Era o sonho de todo dese-
vou te contar uma coisa: meu pai nhista trabalhar nessa revista.
me deu uma grana e eu estourei Quando eu encontrei Divito em
tudo no cassino. Daqui a dois dias pessoa, ele me disse: “Quando
tenho que pagar o hotel e estou você for a Buenos Aires, entre em
quebrado.” E ele: “De quanto contato comigo.” Com um convite
você precisa, por dia, para ficar daqueles, me entusiasmei!
em Punta del Este?” Ao que eu Voltei para Montevidéu e falei
digo: “Dez de hotel, mais cigarri- com meus pais: “O Divito me
los, almoço... uns 40 pesos!”. Ele convidou para trabalhar em
então me pediu para passar em sua revista, a maior da América
seu hotel no dia no dia seguinte Latina, não posso deixar de acei-
e me apresentou a mais cinco mú- tar!” Meu pai ficou louco da vida,

(82)
O Prazer do Olhar

mas minha mãe e meu irmão me lá encontrado um montevideano,


deram uma força muito grande e eu o teria abraçado. E assim fo-
convenceram meu pai a me dei- ram se passando as semanas. Até
xar passar seis meses em Buenos que meu tio disse: “Porque você
Aires para eu provar que podia não vai a um bar e fica fazendo
me defender com a caricatura. desenhos para os clientes?” Esse
IB: Nessa época, o senhor ainda foi o máximo de ajuda que eu re-
fazia a faculdade de arquite- cebi desse cara.
tura? Passados três meses, minha mãe
Lan: Exatamente. Assim mesmo, me escreve contando que um
fui a Buenos Aires morar na casa médico recém-formado, noivo
de um tio de quem eu não gostava de uma aluna sua em Montevidéu
muito, mas cuja esposa era mara- e para quem ela tinha mandado
vilhosa. Eu pouco ficava em casa, uns desenhos meus, queria me
e meu pai me prometeu mandar conhecer. Acabamos ficando
uma mesadinha. amigos. Ele era irmão da dona
No dia seguinte à minha chega- do hotel Cottege, de Bariloche
da em Buenos Aires, pego meus – uma mulher riquíssima. Ele
desenhos, crente que estava aba- não queria o dinheiro da irmã,
fando, e vou à redação de Rico queria ser independente, embo-
Tipo. Chegando lá, fui atendido ra morasse com ela em uma casa
por um tal de Boneli, secretário maravilhosa.
do Divito, que me pediu para Chegava o fim de semana, jogo
deixar os desenhos ali porque no Monumental de Nuñes. Eu
seu chefe estava muito ocupado. botava um guarda-pó de enfer-
Foi o primeiro balde de água meiro e esse meu amigo, um
fria que tomei. No dia seguinte, avental de médico, e entrávamos
lá voltei com os desenhos, e de graça. E foi assim que fui me
dessa vez me disse o Divito: “O familiarizando com os jogadores
senhor me desculpe, mas neste argentinos da época. La Gruna,
momento não temos espaço na Nestor, Leposé, Martin, Mendes,
revista.” Você pode imaginar Nestor Rossi. Enquanto ele
o meu ânimo. Naquela época, estudava, eu ficava fazendo as
Buenos Aires era, para nós que caricaturas desses jogadores.
vínhamos de Montevidéu, a Meca Aí, cinco meses depois, quando
cultural, a grande cidade, cheia eu já estava pronto para retornar
de gente, e coisa e tal. Se tivesse a Montevidéu, ele me conta,

(83)
O Prazer do Olhar

feliz, que levou uns desenhos para Montevidéu, cedeu-me seu


meus para Enzo Ardingot, um apartamento pertinho da Praça
grande cronista argentino que de Maio, numa época em que
estava inaugurando uma revista não se encontrava apartamento
de esporte, a Goles. Ardingot no centro de Buenos Aires por
queria fazer as capas da revista nada! Nunca ganhei tanta grana
com meus desenhos. Você pode com imprensa, em toda a minha
imaginar a maravilha que isso foi vida, como na época de Evita, em
para mim! No mesmo dia, ao che- Buenos Aires.
gar à casa de minha tia, recebo o IB: Saiu da casa do tio chato...
recado de que havia me ligado o GR:... e tirou esse prêmio de
dr. Emilio Rubio com uma pro- loteria, assim, de repente.
posta para me fazer. Ele dizia que Lan: Se há uma coisa a que eu ja-
seria muito melhor que eu fosse mais terei direito é de me queixar
trabalhar com ele diariamente, da vida. Meus 80 anos, garanto,
em notícias gráficas jornalísticas, foram muito bem vividos. É muito
com um bom soldo, do que tra- importante manter a alegria mes-
balhar uma vez por semana para mo sem ter um centavo. É saber
fazer uma capa. Então acertei viver e saber se adaptar a tudo.
com ele e Ardingot ficou danado Sempre rindo, sempre pra cima,
da vida comigo, mas o que eu ia temos de ser pra cima. E, coisa
fazer? Além disso, Emilio Rubio particular, as mulheres ajudam
me prometeu que Evita Perón, muito.
dona de toda a imprensa por- IB: As mulheres argentinas, mais
tenha, tinha-o nomeado diretor tradicionalistas, são bem diferen-
da editoria Heines, responsável tes das brasileiras. Ou não?
por várias publicações, como Lan: Diria que sim. Já falei que
El Mundo argentino, El Lugar o que me prendeu aqui no Brasil
e Caras y Caretas. Moral da foram as mulheres. Aquela ale-
história: eu passei a trabalhar gria da carioca, aquela gentileza.
em cinco revistas e em dois jor- Eu mal falava português, como
nais, com um salário de primeira você pode imaginar, então eu
categoria em cada um deles, aos nunca fui de falar com mulheres
23 anos. Não bastasse esse gol- na rua, de cantar, até porque
pe de sorte, o adido cultural da estava com complexo portenho.
embaixada italiana era amigo de Porque, em Buenos Aires, se
meu pai e, como fora transferido você cantasse uma mulher na

(84)
O Prazer do Olhar

rua, a mulher chamava um guar- – saiu... Na semana seguinte,


da e você ia em cana! me telefonam da Governación da
IB: É um choque cultural! Terra do Fogo – cada província
Lan: É muito diferente. É preciso tem representação na capital
tomar cuidado. Em Buenos Aires, federal –, dizendo que queriam
todo mundo tinha de ter carro ou o original para enviar ao gover-
apartamento. Apartamento eu ti- nador. Eu mandei, mas o pessoal
nha. Saía do jornal às dez e meia da redação passou a me gozar:
da noite e ia jantar nas cantinas “Quer dizer que agora você é
lá da Boca ou La Basto com uns amiguinho do Guilhermo Carlos
amigos e acabava sempre em um Cantaño?” Telefonavam: “Lan,
cabaré, onde encontrava minhas Carlos Cantaño no telefone”. Era
amigas, entendeu? Elas tele- gozação. “Lan, o governador no
fonavam no dia seguinte e iam telefone.” Novamente, gozação.
descansadas para o meu aparta- Um belo dia, eu atendo o telefo-
mento. Principalmente aos sába- ne e ouço: “Aqui é o governador
dos, porque eu não trabalhava. E Carlos Cantaño.” Então, eu digo:
olha que época! “Vai praquele lugar e não me
GR: E a história da caricatura enche mais o saco.”, batendo o
daquele general do Perón? telefone na cara do sujeito.
Lan: Guilherme Carlos Cantaño, IB: E era o governador mesmo.
capitão de fragata e governador Lan: Que telefona imediatamen-
da Terra do Fogo. Em determi- te a seguir, me dando ordens mi-
nado momento da minha vida litares: “Espero você dentro de
profissional como jornalista, eu dez minutos na porta do diário.”
tive um furo que – sem exage- Olhei em volta e percebi que o
ro - poderia ter modificado a ambiente de gozação não existia,
História argentina. A história estava todo mundo trabalhando.
ocorreu quando eu tive de fazer Tremi que nem vara verde. Botei
a caricatura de cada um dos go- meu paletó, desci pela escada, e
vernadores. Para essa do Carlos esperei bem em frente da porta
Cantaño, me deram uma porcaria do jornal. Você pode imaginar
de fotografia 3x4. a cara com que fui encontrar
IB: E deu para fazer a caricatura o governador. Eu cheguei e ele
assim? ordenou: “Entra.” Eu entrei,
Lan: Às vezes desenho por com um medo que vou te contar.
espiritismo, assim, e – tum! Vivíamos a ditadura, não pense

(85)
O Prazer do Olhar

que era uma doçura não. Lá, pes- dar a sua palavra de honra, de
soas sumiam do mesmo jeito que amigo, de que não vai falar so-
em outros países. Então o gover- bre nossa conversa a ninguém, a
nador diz: “Já entendi o que se não ser que eu peça ou o chame
passou. Sou seu muchacho e seus como testemunha. Eu não sou
companheiros com certeza estão mais governador. Simplesmente
fazendo gozação.” Ao que eu re- porque le están moviendo el piso
truco, aliviado: “É isso aí, gover- a Perón” – nunca vou esquecer
nador, o que eu poderia fazer?” da expressão: “estão puxando o
“Está bem, está perdonado, está tapete de Perón”. “E um deles
perdonado. Vamos para minha é o ministro da Marinha. Eu sou
casa que quero apresentar-lhe a peronista, mas sou militar. E,
minha filha, que tem 15 anos e para poder chegar a Perón, tenho
toca piano para que você me diga de pedir licença ao ministro da
o que acha.” O governador tinha Marinha para ter uma audiência
orgulho da filha dele. com o presidente.” E então me
Resumindo: fizemos uma amiza- deu o nome de cinco dos generais
de maravilhosa. Ele me convidou e almirantes que vieram a derru-
para a viagem inaugural do en- bar Perón em 1955. Isso foi em
couraçado Del Gran à Terra do 1952 e eu tinha o nome de todos
Fogo, aquele mesmo que os in- eles. Danusia, Arrambulo, Rojas,
gleses afundaram na Guerra das e agora não me lembro mais.
Malvinas. Fiquei 15 dias com ele IB: Você soube do golpe que der-
na Terra do Fogo. rubou Perón três anos antes?
Sempre que ele chegava a Lan: Três anos antes. Nos despe-
Buenos Aires a primeira coisa dimos e eu vi Castaño mais umas
que fazia era me telefonar. Nos duas vezes. Depois disso, logo
encontrávamos sempre em um após a morte de Evita, resolvi
café entre Sarmiento e Casal, viajar. Eu estava muito cansado.
perto do jornal. Aí, em janeiro Estava cansado também porque
de 1952, ele me telefona e diz: não há como juntar uma boemia
“Hoje, mais do que nunca, pre- desvairada a sete empregos de
cisamos nos encontrar. Eu tenho primeira categoria. E foi assim
uma coisa para lhe falar.” E aí, que eu resolvi tirar férias até a
quando nos encontramos, per- saúde melhorar, seguindo o se-
guntei: “Bom, do que se trata?” guinte itinerário: Rio de Janeiro,
E ele: “Antes, você tem de me Nova York, New Orleans, Los

(86)
O Prazer do Olhar

Angeles, México, Lima, Santiago Lan: Nunca mais soube do


do Chile e o retorno a Buenos Carlos Cantaño.
Aires. Só que, ao chegar ao Rio Em 1957, voltei a Buenos Aires.
de Janeiro, foi aquele deslumbra- Eu havia deixado meu aparta-
mento. Acabei ficando. mento com um amigo, o cara
IB: E seu roteiro turístico, nem mais esquisito do mundo. Basta
continuou? dizer uma coisa: ele conservou o
Lan: Nem continuei. Parou aí. Eu apartamento como um museu!
sou o único da família que nunca Até o livro que eu estava lendo
foi à Nova York e não quero ir. na mesinha de cabeceira esta-
Agora, então, com o terrorismo, va no mesmo lugar; tinha uma
nem pensar. ponta de cigarro que eu havia
No Rio de Janeiro, eu estava deixado cinco anos antes, tudo
trabalhando no jornal de Getúlio assim. Conheci-o ainda garoto.
–Última Hora –, amigo de Perón. O cara era doido, um uruguaio
Eu mordi a língua para não con- desamparado que eu acolhera
tar do golpe. Se eu desse essa em minha casa porque não tinha
notícia, citando os nomes e tudo, onde dormir. Na época, ele me
seria um escândalo lá em Buenos perguntou se eu tinha em casa
Aires. Se a Última Hora publi- um armário embutido só pra ele
casse os nomes dos generais que guardar seus remédios! Era hipo-
conspiravam contra Perón com condríaco e encheu o apartamen-
três anos de antecipação, o que to de remédio. A farra dele, aos
teria acontecido? sábados, sabe qual era? Tomava
IB: Ele teria matado os generais banho, fazia a barba, sempre ele-
todos, sumido com eles. Quando gante, modelo italiano, sapatinho
o senhor chegou ao Rio de italiano, tudo italiano e ia para
Janeiro? a Farmácia Franco-Inglesa. O
Lan: Em 10 de setembro de camarada da farmácia já sabia:
1952. Ainda tive de ficar em São “Sr. Bruno, chegaram uns remé-
Paulo durante seis meses porque dios contra reumatismo. Veja que
eles me mandaram para lá antes preciosidade este envase aqui.”
de me trazer ao Rio de Janeiro. E E ele dizia: “Me dá cinco.”
eu mordendo a língua com essa IB: Completamente doido!
história do meu amigo. Lan: Completamente! E quando
IB: E o que aconteceu com o voltei, cinco anos depois, você
governador amigo do senhor? pode imaginar? O apartamento

(87)
O Prazer do Olhar

estava impecável! dia, até cariocaturista.


IB: Qual o motivo de seu retor- IB: Cariocaturista! Muito bom!
no? Passou algum tempo lá, re- Lan: Estou só me dedicando ao
solveu algumas coisas e voltou? Rio de Janeiro.
Lan: Rapidamente. Nem pensar IB: O senhor criou a ave negra,
em ficar. não?
IB: Já foi dito que a caricatura Lan: O corvo?
é a arte de destacar o grotesco e IB: É, o corvo.
o ridículo das pessoas. O senhor Lan: O corvo é uma história
concorda? curiosa. Em 1954, agosto ou
Lan: Discordo. Esse conceito julho, não me lembro bem, mor-
pode funcionar em alguns casos, reu Nestor Moreira, jornalista da
sim, mas eu discordo que possa noite, do jornal A Noite. Eu o
ser um conceito geral, total. Eu conhecia. Ele foi levado à dele-
pergunto a você uma coisa: se eu gacia e levou tanta porrada que
faço a caricatura da Sophia Loren morreu. A verdade é que mor-
– há grotesco ou ridículo para se reu de infarto. O Lacerda, que
destacar nela? estava em guerra aberta contra
IB: Que eu saiba, não. o Última Hora e contra Getúlio
Lan: Quando se trata de homem Vargas, aproveitou o lance para
público, a caricatura ou a crítica atacar o governo federal. Nesse
tem de ser em cima do fato que mesmo dia, no velório, eu tinha
o envolve como administrador. um encontro marcado com uma
Esta é a forma de criticá-lo. A mulata maravilhosa na Praça da
crítica não se aplica a ele, pessoa Cruz Vermelha, às oito e quinze.
física, pessoa jurídica ou pessoa Já eram oito horas, eu já havia
pública. Este é o meu ponto de tomado o elevador, quando o
vista. Esse conceito é renascen- Samuel manda alguém me cha-
tista. Não é cartum, não. Imbecil mar. Não quis ir. Mas o contínuo
de quem inventou, no Brasil, o me diz: “Ele me disse pra pegar
termo cartunista, agregando mais você no leme.” Aí fui voando e
uma palavra de origem inglesa e ouço do Samuel: “Olha, estou
americana a nosso vocabulário com pressa. Faz um papa defun-
– já temos tantas, até demais. to, uma coisa bem truculenta aí,
Eu me recuso a ser chamado de que aquele sacana estava todo
cartunista. Eu não sou cartunis- vestido de negro, assim-assado.
ta. Eu sou caricaturista. Hoje em Bom, te vira!” A quinze minutos

(88)
O Prazer do Olhar

do encontro, eu pensei em urubu, O Samuel escreveu no livro dele


mas não me lembrava do bicho. que tinha visto o Lacerda vestido
Lembrava da cara do Lacerda, de preto e que pensou num corvo.
que eu já tinha feito caricatura O Mauritânio Meira, que sonhou
dele, mas do urubu não lembra- com um corvo e telefonou para
va. E pensei: “De corvo eu lem- o Samuel Wein para me dar a
bro. Tudo bem, corvo não tem idéia para o desenho. No jornal
mistério.” Foi assim que surgiu Folha de São Paulo, atribuíram
o corvo. Fiz um desenho bem o desenho ao Otávio. O fato é
truculento. Cheguei ao encontro que pegou, o negócio do corvo.
só com cinco minutos de atraso, Só que o Lacerda respondeu
e por sorte a menina ainda não com um discurso, lá em Bauru,
tinha chegado. Passei uma noite dizendo que isso só poderia ser
esplêndida e, quando volto para idéia de um espanhol safado. O
a redação do Última Hora, às espanhol safado era eu, porque
dez da manhã, quem encontro? corvo não é pássaro nacional, é
Samuel Wein, Dutra, Bocaiúva pássaro europeu.
e Danton Coelho, presidente do IB: Ele matou a charada.
PTB na época. Getulistas. Penso: Lan: É. A verdade é que, com
“Lá vem esporro. No mínimo, o passar dos anos, acabamos
estou demitido” Eu tinha visto o muito bem. Fui amigo dos filhos
jornal e tinha achado o desenho do Lacerda. Eu sempre gostei
uma droga. Aí o Danton Coelho muito do Sérgio, do Sebastião e
me abraça e diz: “Você fez um da Cristina, sempre me dei muito
trabalho de uma profundidade bem com eles. Mas o curioso é
psicológica incrível, você de- que quando ele se candidatou
sencavou a alma torta daquele a governador da Guanabara, a
safado, não sei como você con- agência publicitária que estava
seguiu isso!” E eu digo: “Santa criando sua campanha me disse
mulata!” que o Lacerda queria que eu
IB: Foi a mulata! criasse o símbolo positivo dele.
Lan: Essa é a verdadeira histó- Só que, depois do corvo, não
ria do corvo. Poucas caricaturas dava pra fazer um colibri, um
e charges políticas tiveram o beija-flor.
sucesso e a transcendência que IB: Hoje em dia, o senhor é mais
teve o corvo. Todo mundo ficou conhecido pelas mulatas, pela ca-
querendo saber como foi criada. ricatura do Rio de Janeiro.

(89)
O Prazer do Olhar

Lan: Graças a Deus. pretaram isso com o jeito deles,


IB: Mas por que o senhor aban- claro: “Ele está elogiando o Bin
donou a caricatura política? Laden! Ele matou 200 pessoas!”
Lan: A política me dá um mau IB: E quem não conhece tou-
humor incrível. Eu concordo com rada não sabe desse detalhe da
o José Silveira, editor do Jornal orelha.
do Brasil, que dizia que quanto Lan: Como o Chico não sabia. Eu
mais furioso eu ficava, melhor acho que o Caruso deveria ter se
saíam as charges. O mau humor explicado. Ele se desculpou e
realmente aguça a criatividade, disse que não sabia do significado
a crítica. Só que eu sempre parti da orelha, mas não explicou qual
do princípio que crítica tem de era a intenção dele com a charge,
ser crítica, e não agressão. A que ficou confusa.
charge política tem um limite. IB: E suscitou uma resposta
Quanto mais perto você chega forte, não?
desse limite, da crítica, maior o Lan: Muito forte. Eu acho, por
sucesso. Ultrapassou? O leitor princípio, que uma tragédia
fica contra você e a favor da víti- dessas não comporta humor. É
ma, acha que você exagerou, que preferível encher de preto todo
extrapolou. É o que sempre falo o quadrado, luto, fim de papo,
com os meninos, como o Aroeira a entrar com uma caricatura ou
e o Chico [Caruso]. qualquer coisa que lembre humor
IB: Houve uma polêmica bem re- em um momento desses.
cente com uma charge do Chico IB: É tragédia.
Caruso, na qual ele retratava Bin Lan: Eu respeito quem faz esse
Laden como um toureiro2. tipo de charge, mas eu nunca fiz
Lan: Ele recebeu carta do embai- um negócio desses.
xador da Espanha e um monte de IB: Entrando em um assunto
e-mails de espanhóis. mais ameno: para Caribé, “quem
IB: Eu, particularmente, não inventou a mulata não foi o por-
achei a charge tão ofensiva. tuguês, foi o Lan.” Considerando
Lan: Acontece que faltou ao a maestria de Caribé em retratar
Chico explicar uma coisa: quando a nossa cultura, o senhor acha o
o toureiro ganha a orelha e o rabo, olhar estrangeiro sobre uma cul-
é prêmio! Não é sinal de vitória, tura local benéfico ao humor?
não, é prêmio por uma grande fa- Lan: Eu acho que sim. O olhar
çanha. Logo, os espanhóis inter- estrangeiro é um pouquinho mais

(90)
O Prazer do Olhar

objetivo, pois é o olhar de um ex- sensibilidade para a dança, o


pectador. O expectador pode ana- samba. Eu ontem estive em uma
lisar melhor atitudes e costumes. escola de samba.” Olha, quando
Eu tenho um episódio ilustrativo eu disse “escola de samba”, todo
para contar a vocês. Foi meu mundo cruzou os braços e ficou
primeiro encontro com um mili- olhando pra minha cara. Naquela
co aqui no Brasil. Eu tinha ido a época, não se podia dizer que fre-
uma escola de samba na véspera qüentava escola de samba! O ano
– estava entusiasmado com esse era 1953. Aí, depois de toda essa
negócio de escola de samba – e explosão de entusiasmo, ele dis-
estava namorando a filha de um se: “O senhor esteve numa escola
general que, depois de três meses de samba? Isso é uma vergonha!
de namoro, quis me apresentar à Vocês, estrangeiros, chegam ao
família. Marcamos o encontro no Brasil e logo vão procurar as coi-
Clube Militar, em um domingo, às sas mais negativas que temos em
quatro da tarde. Fazia um calor nosso país, que são as escolas de
daqueles, e eu, de terno e gravata, samba. Vão para as macumbas,
suando horrores. Naquela época sobem essas favelas, com esses
se usava terno e gravata, não é negros.” Ele me esculhambou. A
como hoje, que todo mundo fica à essa altura do campeonato, o na-
vontade. Biscoitinho champanhe moro já tinha se acabado. Mas eu
com guaraná. Cervejinha, nem não podia sair com o rabo entre as
pensar. Lá pelas tantas, um pri- pernas, então disse:
mo da menina, cantor, começa a “General, o senhor falou que
cantar pra mim, achando que eu, nós, estrangeiros, chegamos
por ser italiano, tinha de cantar aqui e procuramos as coisas
alguma canção italiana. Eu tinha negativas deste país. Se eu pro-
ouvido samba no dia anterior curasse o que o senhor gostaria
e não pensava em outra coisa, que eu procurasse, a Orquestra
estava doido para ouvir música Sinfônica no Teatro Municipal,
brasileira. Chegou um momento o restaurante da moda, as coisas
em que eu pensei que tinha de que existem em Buenos Aires,
falar alguma coisa pra agradar Paris ou qualquer parte do mun-
aquelas pessoas, então eu disse: do, para mim não seria novidade
“General, eu estou realmente alguma. Isso eu já conheço. Mas
admirado com o povo brasileiro, para conhecer o povo brasileiro,
sua musicalidade, seu ritmo, a o que é preciso fazer? É preciso

(91)
O Prazer do Olhar

ir justamente aos lugares que o eram exatamente os mesmos


senhor condena para se conhecer que encontrei quando aqui che-
a cultura popular deste país. É guei: o eterno Nordeste, a eterna
isso que me interessa, até mes- seca, a eterna escola, a eterna
mo como jornalista. O senhor fala roubalheira...
dos negros com desprezo, e isso Hoje, como eu e o Jaguar conclu-
não está certo, não, pois reflete ímos recentemente em conversa
também o desconhecimento da que tivemos, eu noto que quem
sensibilidade musical que há de acabou com o Rio de Janeiro foi
enriquecer todas as Américas. o Juscelino Kubitschek. Nós só
Aonde o negro chegou é que se não esculhambamos o Juscelino
encontra a maior riqueza musical Kubitschek [em função da cons-
desses três continentes. Tem mais trução de Brasília] em conside-
uma coisa: os primeiros negros ração a Oscar Niemeyer, porque
que aqui chegaram escravizados gostamos muito do Oscar.
foram trazidos da África porque IB: O que o senhor achava de
o índio era irrecuperável para a Juscelino Kubitschek?
fé cristã. Eles não trouxeram os Lan: O JK foi um grande safado.
negros para fazer turismo aqui. E muita gente ainda se refere a
Foram eles que trabalharam ele como “o grande presidente”.
este país.” Dito isso, agradeci Grande presidente uma ova! A
o biscoito champanhe e fui-me inflação brasileira começou com
embora. ele, porque a conta dos “50 anos
Esse foi um episódio inesquecí- em cinco” estamos pagando até
vel para mim porque, na verdade, agora.
me fez perceber a mentalidade GR: Fale um pouco sobre sua
de, infelizmente, muitas cama- amizade com o Caribé.
das sociais brasileiras, que até Lan: O Caribé é uma das coisas
hoje não mudou. Passaram-se mais lindas que eu conheço. Eu
cinqüenta anos e eu vejo que, já estava trabalhando no Última
nesse aspecto, nada mudou. E Hora paulista quando houve uma
como este é um dos maiores seresta muito bonita, dedicada ao
temas da charge política, eu fui Chico Alves, que tinha acabado
ficando cada vez mais indignado de morrer em um acidente na
com a política. Em 1992, quan- Via Dutra. Quem encontrei lá?
do abandonei definitivamente a Meu querido amigo Caribé, que
charge política, os problemas eu já conhecia de Buenos Aires!

(92)
O Prazer do Olhar

O Caribé era uma figura inacre- com o Rio de Janeiro se fosse e


ditável! O Guilherme conhece tivesse ficado em Salvador.
mil histórias dele, eu conheço GR: O Caribé passou a vida
outras tantas. cobrando: “E aí, quando é que
GR: Eu tive o prazer de conviver você vem, pô?”
com os dois, Caribé e Lan, como Lan: O Pancetti me mandava
em uma família. A diferença de recadinhos através do Paulo
idade era uma coisa gratificante. Medeiros, que foi trabalhar
Eu e Lan nos falamos diariamen- no Jornal da Tarde, da Bahia.
te, e era assim com o Caribé tam- Eram assim: “Te espero com
bém, que foi um cara que passou duas mulatas.” Ou: “Quer mais?
a vida brincando. Quer três? Quer quatro? Quantas
Lan: Era outro sempre pra mulatas você quer? Mas venha
cima! aqui para Salvador.” E não fui.
GR: E era de uma seriedade Eu resisti a todos os convites,
incrível! O brincar dele era um até o do governador do estado,
estado de espírito. e não fui, não fui, não fui e não
Lan: O Caribé não valia nada. fui. Na verdade, quando faleceu
Nunca vou me esquecer. Quando Caribé, eu realmente perdi toda a
nos encontramos, ele disse assim: vontade de ir a Salvador. Cheguei
“Venha comigo para Salvador.” a dizer isso em uma entrevista,
Eu já tinha me apaixonado pelo e fiquei emocionado quando um
Rio de Janeiro, pela promessa dia, em um restaurante, veio uma
de voltar ao Rio. Aí eu olhei pra moça e me deu um beijo, dizen-
cara dele e disse: “Olha, Caribé, do: “Eu quero lhe agradecer pelo
o dia em que eu for para o Rio de que o senhor falou a respeito do
Janeiro 1% do que você é para meu avô.” A neta do Caribé veio
Salvador, eu vou ser um homem falar comigo. Realmente eu tinha
realizado.” Hoje em dia, acredito um carinho muito grande por ele.
ter conseguido esse feito. Eu lhe mandava livros, livros em
IB: Sem dúvida. italiano, livros em gíria portenha,
Lan: Creio que consegui, e porque quando falávamos em gí-
isso me dá uma grande felici- ria ou folclore argentino, morrí-
dade. Contudo, eu nunca fui a amos de rir. Ele era um gozador
Salvador. Com medo de ficar. Eu incrível. Em Crítica, de Buenos
tinha pânico, pânico de ficar. Eu Aires, o editor-chefe, um tal de
me sentiria como um adúltero Castex, era um carola daqueles

(93)
O Prazer do Olhar

de colarinho duro que ia à missa IB: Em seus desenhos, o senhor


todos os domingos. Um dia chega sempre retrata seu alter ego, o
o Castex branco, pálido, tremen- baixinho.
do. Me chama de lado: “Que hor- Lan: Ele não é só baixinho. É
rível! Que horrível! Já era tempo baixinho e gordinho!
de te contar uma coisa. Você não IB: Fale-nos do baixinho e
vai acreditar: Caribé é gay!”. gordinho.
Fui perguntar a Caribé o que Lan: O baixinho nasceu de uma
ele tinha feito pra suscitar essa forma totalmente espontânea,
suspeita. Ele, então, contou-me: em 1995.
“Não fiz nada de mais. Estávamos GR: Nós vínhamos conversando
subindo no elevador, eu apertei o muito antes disso sobre a preocu-
botão para parar o elevador e lhe pação do Lan com a terceira ida-
disse: ‘Castex, me dá um besito?’ de e a necessidade de transferir
Só para ver a reação dele.” Esse sua experiência de vida através
era o Caribé. Na revista Geoplan de um personagem que seria ele
– olha como mudaram os tempos próprio.
– ele sempre fazia uma página Lan: Exatamente.
dupla com “Piquenique no IB: Mas por que o senhor se re-
Tigre”, “Quermesse no lago”, tratou tão baixinho, se esta não é
circo, coisas assim. Então, nesse a realidade?
Piquenique no Tigre, ele botou, Lan: Foi espontâneo. Eu estava
no meio no capinzal, uma bun- fazendo cenas cariocas, mos-
dinha, simulando um ato sexual. trando uma verdadeira fauna em
Era uma bundinha, só. Só por diferentes atividades e momen-
causa disso suspenderam a re- tos, como no bar, no botequim,
vista por três meses. Saudades na praia, etc. Sentia falta de
dele. Eu tenho muita saudade um personagem de base que
do Caribé porque realmente me servisse de ponto de partida
era uma figura que eu admirava para uma porção de coisa, que
e admiro até hoje. Eu sou um quase dissesse o que sente um
camarada meio difícil de me homem de terceira idade em
emocionar com a pintura. Os relação à vida. Eu sempre falei
meus desenhistas preferidos são que, enquanto houver o amor
o Modigliani e o Caribé. de uma mulher, um clube para
GR: Realmente, Caribé era um torcer e uma escola de samba
grande desenhista. para desfilar, qualquer um con-

(94)
O Prazer do Olhar

tinua vivendo numa boa, com que recusei, mas como ela fazia
alto astral. Uma vez, uma moça questão que eu sentasse, eu dis-
me disse: “Mas, Lan, você não se: “Não faça questão. Eu ainda
é tão baixinho assim!”, ao que não atingi essa idade. Ninguém
respondi: “Bom, você é que está diz que tenho 59 anos, mas a
dizendo que esse personagem verdade é que isso é o desgaste
sou eu. Mas deve ser, porque de uma vida de boemia, muita
todo mundo está achando que bebida, muita noitada, muita
é meu alter ego. É provável. Ele coisa! Olha, é por isso que estou
gosta de mulher, é Flamengo e estropiado, por isso a senhora
Portela, logo...” A baixa estatura pode continuar sentada!” Ela
reflete justamente as limitações ficou olhando para minha cara o
da terceira idade. tempo todo e eu, sério.
IB: Que limitações? IB: O senhor nunca teve vontade
Lan: Não adianta você se sentir de escrever?
jovem e pensar que nada mudou, Lan: Eu não. E agora não posso
não pensar na morte, na idade, escrever porque não enxergo
em nada disso, se, quando entra muito bem nem mesmo o papel.
no metrô, as pessoas lhe cedem Eu já não consigo ler. Quem lê o
um assento nos bancos amarelos. jornal para mim é minha mulher.
Na verdade, a minha juventude Cinema legendado, nem pensar!
está só na cabeça. Eu sou um Tenho de assistir cinema dubla-
velho paquerador, naturalmente. do, que é um horror!
Aliás, hoje em dia eu tenha um IB: Já pensou em se submeter a
olhar seletivo: só olho pra mu- uma dessas cirurgias oftálmicas
lher. Os homens passam todos com laser?
transparentes. Vocês só existem Lan: Não, o meu caso é irreversí-
aqui porque não tem mulher al- vel. Já fui aos melhores médicos
guma no recinto, senão já seriam do Brasil. É um desgaste natural
transparentes. da idade. Afinal de contas, usei
Dia desses, no metrô, eu vi uma estes olhos por 58 anos em cima
mulher sentada em um banco de um papel em branco que,
amarelo, sabe aquelas gostosas para piorar, reflete a luz. Um
assim, de saia curta? Eu fiquei desgaste muito grande. Mas es-
olhando para ela, aí ela se le- tou conseguindo trabalhar, então
vanta e diz: “O senhor pode se tudo bem. Agora, me chateia eu
sentar.” Eu fiquei tão pau da vida não poder me guiar mais. Vendi

(95)
O Prazer do Olhar

até o carro, porque ficava para- direito a massagem nas costas?)


do por meses. Mas o pior é não –, o parisiense é mesquinho,
poder ler, porque sempre fui um mal-educado, sujo e não toma
leitor voraz, costumava engolir banho. Nós tomamos banho duas
livros. Mas não me queixo da a quatro vezes por dia. São outros
vida, volto a dizer: eu fui um hábitos. Tinha épocas, em Paris,
afortunado. E a verdade é que em que, no inverno, ninguém to-
aqui estou, vivendo em um sítio mava banho. Se o banho não era
onde não há violência, onde não popular no verão, imagina no
tenho problemas para dormir de inverno! É por isso que o bidê é
portas abertas. uma instituição francesa.
IB: O senhor é o “gringo” mais Mas Paris também tem seus
carioca que o Rio de Janeiro co- encantos. Eu não me adaptei a
nheceu. Já foi até homenageado Paris justamente pelo espírito
no carnaval e tem uma identifi- do parisiense, mas, curioso: o
cação total com a cultura dessa parisiense, fora da França, tem
cidade. Apesar disso, o senhor alegria. Mesmo assim, vou te
sente saudade de algum dos paí- contar, viu? Lidar com francês
ses onde morou (Itália, Espanha, não é fácil.
Uruguai e Argentina)? IB: Durante a ditadura militar
Lan: Meu querido, uma das ra- no Brasil, o senhor se exilou em
zões de não querer ir a Salvador é Paris. Por quê o exílio?
não querer acrescentar mais uma Lan: Militar não entende de
saudade. Por quê? Saudade de caricatura. O único camarada
Montevidéu? Claro! Saudade de da ditadura que realmente me
Buenos Aires? Claro! Saudades deixou muito bem impressio-
desses anos que passei na Itália? nado foi Mário Andreazza. Ele
Tenho! Não tenho saudades de ganhou uma caricatura minha
Paris, e por que digo isso? Porque que havia sido feita em uma
é uma cidade que é o contrário do exposição no grupo Lune, em
Rio de Janeiro. Enquanto o Rio 1972, onde eu desenhei todos
de Janeiro é luz, cor, alegria, ex- os ministros do governo Médici,
plosão, altruísmo, gentileza, en- inclusive o próprio presidente
fim, transparência – o carioca é Médici. Chagas Freitas, governa-
transparente, te abraça e ainda te dor, comprou todas as caricaturas
dá uma massagem nas costas (já e presenteou cada um deles. Só
reparou que o abraço carioca dá que os filhos do Mário Andreazza

(96)
O Prazer do Olhar

começaram a brigar pela carica- IB: Interessante.


tura do pai, todos queriam tê-la. Lan: Depois que ele se tornou
Aí o Andreazza me chamou no ministro da Fazenda, eu conti-
ministério de aviação, e me ex- nuei fazendo as charges. Sempre
plicou: “Olha, Lan, eu ganhei a me dei muito bem com ele. O
sua caricatura, um filho meu a le- desenhava bem redondinho,
vou e o outro também quer uma.” bem gordinho. Um belo dia
Eu digo: “Tudo bem, vamos fazer chega uma carta do ministério
outra.” Então ele me perguntou: da Fazenda me convidando para
“Me diz uma coisa, Lan, por que almoçar com o Delfim em uma
você critica a gente? Eu, pelo quinta-feira. “E agora? Vou ter
menos, não fico chateado, mas que almoçar com o ministro e
gostaria de saber por quê.” E não sei por quê.” Aí botei minha
dei aquela explicação de que melhor beca, aquela dos domin-
falei antes: “Eu não tenho nada gos, e fui lá no ministério. Ele me
contra o senhor como pessoa físi- recebeu: “Lan, faço questão que
ca. Nós podemos sair, ir para um você se sente na minha frente.”
bar, tomar um chopinho juntos, Aí começaram a chegar editores
sem problemas. Mas o senhor, de economia do Jornal do Brasil,
como administrador, está sujeito do Zero Hora de Porto Alegre,
a críticas, certo? Agindo certo ou do Diário da Bahia, editores de
errado, o senhor é o ministro e a todas as partes, do Estado de S.
minha função no jornal é destacar Paulo, e começaram a bombar-
isso na charge política. Uma coisa deá-lo com perguntas. Sobre a
é criticar, outra coisa é agredir, e Petrobrás, sobre as multinacio-
eu nunca soube agredir, nunca fui nais, sobre isto, sobre aquilo,
de agredir ninguém.” “Ah, que e eu calado. Lá pelas tantas, o
bom!” Aí chamou todos os secre- Delfim me pergunta: “Lan, estás
tários: “Não quer repetir para eles gostando do almoço?” “Ministro,
a explicação que você me deu?” gostando, eu estou, mas não sei o
Agora, o mais engraçado de todos que estou fazendo aqui, porque
foi o Delfim Neto: ele me telefo- eu entendo bulhufas de economia
nava todos os dias com sugestões e não tenho pergunta alguma a
de charges para o esculhambar. lhe fazer” “Não, Lan, é que esta
Isso porque, através das críticas, é uma entrevista audiovisual e
ele fazia suas reivindicações ao quero que você observe que es-
presidente. tou comendo bife na grelha com

(97)
O Prazer do Olhar

espinafre na água e sal. Logo, vê muito bonitos. Perguntei a ele:


se nas próximas caricaturas você “Otávio, você pode ser transfe-
me desenha mais magro!” Aquilo rido, pelo Banco do Brasil, para
foi genial! O Bernardo Campos São Paulo?” “Posso.” “Então vá
deve ter mandado originais de para lá porque você vai trabalhar
charges minhas para ele – eram para o Última Hora.” E foi assim
umas 25 charges –, e do Chico que Otávio ficou famoso lá em
Caruso também. Ele adora cari- São Paulo. Fui incentivador do
caturas, tem coleções incríveis. O Chico Caruso quando ele estava
caricaturista não faz caricatura de começando. Depois, eu tive o
qualquer um, de uma figura des- prazer de lançar o Bendati, que
conhecida, entendeu? É como di- mais tarde foi para Porto Alegre.
zia Ronaldo Bôscoli: “Falem mal No Última Hora e no Jornal do
de mim, mas botem a fotografia Brasil, foram o Chico, o Ique, o
do lado.” Quando camarada se Paulo Caruso, que eu trouxe de
torna personagem de charges, já São Paulo. Consegui a contrata-
é popular. Esse que é o grande ção de Menti Sabbat, o famoso
segredo. Hermenegildo Sabbat, que, foi
IB: O senhor também é conheci- raptado em 1975, na época de
do como descobridor de talentos. Isabelita, durante três dias. Aí o
Ajudou a revelar o próprio Chico Orlando Carneiro me telefonou e
Caruso. Hoje ele está sendo ho- disse: “Olha, teu amigo foi rap-
menageado por seus 20 anos de tado lá.” Aí eu peguei o carro,
charge política. O que o senhor fui direto para a redação e falei
acha dos novos caricaturistas? com o Walter Fontoura: “Walter,
Algum talento surgindo? faz o favor de trazer esse rapaz
Lan: Olha, realmente eu fico mui- para o Rio de Janeiro. Contrata,
to satisfeito com essa pergunta que ele é fera!” Aí ele me fez uma
porque realmente eu sempre quis pergunta engraçada: “Lan, eu não
revelar novos talentos. Quando eu entendo você. Primeiro você con-
fui transferido da redação paulis- vidou o Henfil e depois o Ziraldo
ta para a carioca do Última Hora, para dividir com você o seu espa-
o Samuel Wein perguntou quem ço. Agora, está querendo trazer o
entraria em meu lugar em São Sabbat. Qual é a tua?” E eu disse:
Paulo? Aí eu indiquei um rapaz, “Walter, você não está entenden-
o Otávio, funcionário do Banco do nada. A gente sempre tem que
do Brasil que fazia uns desenhos se nivelar por cima e nunca por

(98)
O Prazer do Olhar

baixo. Eu jamais dividiria meu digo que, se eu tivesse um filho,


espaço com um pé-rapado ou gostaria que fosse ele. O nosso
com um principiante, um dese- relacionamento é muito pai e fi-
nhista qualquer. Quanto melhor lho, entendeu? Ele me chama de
for o desenhista que fica ao meu “papi”. De gozação talvez. Ele
lado, eu, que sou um preguiçoso tem uma preocupação comigo que
de marca maior, vou ter de me es- eu acho que um filho não teria.
merar para não perder qualidade Na verdade, eu tenho dois filhos,
de produção. Está explicado? que se preocupam terrivelmente
Então, por um lado, eu sou bon- comigo: a Valéria e o Chico.
zinho, mas por outro lado, estou GR: E tem um neto emprestado.
muito interessado em me manter Lan: E um neto! Um neto que
em plena atividade.” Estou certo não enche o saco, pelo contrário!
ou errado, Guilherme? Ele é um fenômeno!
GR: Está certíssimo! IB: As suas caricaturas são o
IB: O senhor ainda divide um resultado da observação do co-
atelier com o Chico Caruso? tidiano carioca?
Lan: Não mais. Tínhamos o Lan: Certo.
atelier mais bonito do Rio de IB: Sendo tão apaixonado pelo
Janeiro, no Vidigal. Rio de Janeiro, por que o senhor
IB: A vista de lá é linda. trocou essa cidade por Petrópolis?
Lan: Mas acontece uma coisa: Tem a ver com o clima?
depois que o Chico saiu, ficou Lan: Veja bem, eu não troquei
muito pesado pra mim. Não era o Rio de Janeiro por Petrópolis.
só o aluguel de dois mil reais Acontece que o apartamento que
que tinha que pagar por mês eu alugava no Leblon ficava onde
para utilizar nos poucos dias em hoje em dia é o Hotel Marina. Um
que ficava no Rio – na verdade, apartamento antigo, maravilhoso,
eu não estava morando lá. E de- com duas salas maravilhosas em
pois que parei de guiar e passei cima da Delfim Moreira, três
a usar táxi... quartos em cima da João Lyra. Eu
IB: Ficou complicado. queria comprar esse apartamento.
Lan: Aí deixei o atelier do Só que a famigerada Delfin com-
Vidigal. Agora trabalho aqui no prou o prédio inteiro e me deu
sítio, o que pra mim é uma boa. um prazo para sair. Aluguei um
Quando eu vou ao Rio de Janeiro, apartamento na Rua San Martin,
fico na casa do Chico. Eu sempre mas não gostei.

(99)
O Prazer do Olhar

Nessa época, eu estava com “La-a-an!” Eu acabava tendo que


problema sério de úlcera, fruto fazer a suplência do Henfil, quer
do AI-5. Isso porque, quando dizer, não adiantava nada. Seis
editaram o AI-5, tínhamos onze meses depois, o Henfil desistiu e
censores dentro do jornal verifi- ficou fazendo o Zeferino mesmo,
cando o que a gente publicava. e pronto. Então eu convidei o
Onze milicos! E não tinha jeito Ziraldo. E o Ziraldo é mineiro.
de fazer charge. Então, não ten- Sabe como é mineiro.
do tema, não tendo assunto, eu IB: Tranqüilão...
ficava na seção, participava da Lan: Mineiro é bonzinho, panfle-
reunião de editorialistas do jornal tário e tal e coisa. O Nascimento
até as seis horas, e nada de sair Brito detestava o Ziraldo porque
algum tema que eu pudesse usar. ele fazia mais texto que desenho.
Às nove horas, que era o prazo Enchia os desenhos de texto.
máximo para entregar o desenho, Bom, aí, em 1973, eu resolvi
eu tinha que ir ao banheiro, en- começar a procurar uma casa. O
fiar o dedo na garganta, vomitar Rio de Janeiro estava proibitivo.
ácido clorídrico, era um drama! Subimos a serra e Olívia achou
E naquela época não havia com- ótimo o lugar. Foi quando encon-
putador, nada disso. Era na mu- tramos esta casa. Reformamos
nheca mesmo. Todo santo dia. Foi e já há 30 anos que estou aqui.
quando eu inventei o Caliosto, um Mas não deixei o Rio de Janeiro:
personagem mal-humorado. eu continuo freqüentando o Rio,
Nesse processo, minha saúde só só que trabalho aqui, onde meu
piorava. Meu médico me alertou trabalho rende muito mais. Aqui
da gravidade e eu acabei pedindo ninguém me perturba.
licença médica. Quando voltei, GR: É verdade.
falei com o editor: “Olha, Diniz, IB: O senhor celebra a mulher e
diariamente não dá mais para eu suas curvas sensuais, além de ser
fazer.” “Bom, então, escolha al- um grande entusiasta do carnaval
guém para revezar com você.” Eu carioca. Como o senhor vê a sexu-
escolhi o Henfil, que trabalhava alização do carnaval, a indústria
no Jornal dos Esportes. Só que o da nudez, essa nova preferência
Henfil era tão violento que man- das mulheres brasileiras por pró-
dava uma charge, duas charges, teses de silicone?
três, quatro, cinco, e todas eram Lan: Eu não sei. Para dizer a ver-
reprovadas. Aí me chamavam: dade, eu não sou muito chegado

(100)
O Prazer do Olhar

às mulheres siliconadas. Tudo mostrava apenas o apelo sexual


que não é real, a mim não apete- dela. Os shows deles pareciam
ce. Pode ser que, esteticamente, um mercado de escravos: “Mostra
a mulher consiga melhorar. O a bunda.” Não fazia meu gênero.
[Ivo] Pitanguy faz misérias com IB: Hoje em dia há uma in-
o corpo de uma mulher. Faz uma dústria da nudez algo apelativa,
escultura. E não é por isso que eu exagerada.
vou achar bonito. Não. Acontece Lan: Exato, tudo que é apelação
uma coisa: esteticamente é uma não é bom. Não é bom.
coisa, mas, como apelo sexual, Eu também sou exigente quan-
comigo não funciona. Entrou do a questão é samba no pé.
silicone, brochei. Eu acho que Outro dia, vi uma charge que
a sensualidade da carioca não dizia que é chilique no pé, não
depende dessas coisas. Estou é mais samba no pé. Samba no
falando especificamente da mu- pé é o da Dona Ivone, do Jair do
lata, mas, na verdade, isso vale Cavaco. As mulatas da escola do
para a morena, para a carioca em Sargentelli, usando uns saltos
geral, porque a miscigenação que deste tamanho, era impossível de
deu mais certo em todo o Brasil se equilibrar dançando samba pra
é a do Rio de Janeiro. Durante as valer. A Globeleza mesmo, ela é
décadas em que o Rio foi capital, triste sambando. Corpo perfeito,
concentrou [a miscigenação]; de mas e sambando? Não. Sou extre-
todas as partes do Brasil, vieram mamente exigente nesse aspecto.
várias raças, houve uma fusão, Gosto da beleza delas, monumen-
uma mistura privilegiada. Eu faço tal, mas sambando, não.
um pouquinho de poesia quando IB: O senhor já recebeu alguma
digo que Deus fez as cinco raças crítica que tenha chamado a sua
para que se misturassem, como atenção?
um pintor que, para fazer uma Lan: Em relação à qualidade do
obra de arte, mistura as tintas. trabalho, que eu me lembre, não.
Para se fazer uma bela pintura, Crítica em relação ao sentido
é necessário misturar as tintas. E do desenho, sim. Por exemplo,
essa mistura, na mulata, foi tão uma vez eu fiz um desenho de
bem sucedida que a transformou rua, uma cena carioca, em que
em obra-prima. Eu não encaro havia uma porção de crioulinhos
a mulata como meu querido e limpando os carros. Cena tipica-
saudoso amigo Sargentelli, que mente carioca. Recebi uma carta

(101)
O Prazer do Olhar

de uma sociedade de proteção ao inteligente. Um pintor pode ser


negro da Bahia, me chamando valorizado até se for analfabeto,
de racista, e ainda se referindo a sem preconceitos, sobretudo se
mim como estrangeiro, de forma fizer uma pintura primitiva, como
preconceituosa. Pô, eu sou casado em uma moda de muitos anos
com uma mulata. É a coisa mais atrás, em que os críticos de arte
ridícula do mundo me chamar de encontravam nesses trabalhos a
racista. pureza da cor, achavam uma be-
IB: É fácil vender humor? leza a cor assim, e essas pinturas
Lan: Justiça seja feita: em custavam horrores.
matéria de desenhos de humor, Na verdade, a caricatura, como
a Lithos é a única editora que expressão de arte gráfica, é a
realmente deu importância ao única destinada a viver enquan-
trabalho de todos nós. Não só to houver dois homens na Terra,
ao meu, mas ao do Ziraldo e de porque sempre vai ter um que-
vários outros. rendo caçoar do outro. E como
GR: Desde 1975, O Lan vem vai existir sempre esse negócio
fazendo gravuras de desenhos de do sacana, sempre existirá a figu-
humor. Eu acho o humor da maior ra do caricaturista. A caricatura
importância, sempre achei. persistirá.
Lan: Mas sabe de uma coisa? O
humor, o bom humor, nunca teve (Notas)
1
Lan foi batizado Lanfranco Aldo Ricardo
lugar no mercado de artes plás- Vaselli Cortelini Rossi Rossini.
ticas. Eu pergunto: quanto deve 2
A charge – publicada em março de 2004,
valer no mercado um original no Jornal O Globo, um dia após o atentado
de J. Carlos se os marchands, terrorista a estações de trem em Madri
– mostrava Bin Laden vestido como toureiro,
os donos de galerias, os críticos investindo contra um touro com o planisfério
de arte realmente vissem a im- desenhado sobre o corpo, no qual se encontravam
cravadas as Torres Gêmeas.
portância que tem a caricatura?
Eu sempre digo uma coisa: a
caricatura é a mais inteligente Lan é caricaturista do jornal O Globo.
das expressões artísticas: da
pintura, do desenho, do que for. Ivan Bentini é editor da NEXT Brasil.
É a mais inteligente porque não
se admite um chargista, um ca- Guilherme Rodrigues é diretor geral da
ricaturista burro. Para vencer, o Lithos Edições de Arte, responsável pela edição
cartunista, no mínimo, tem de ser das gravuras do cartunista Lan.

(102)
Monografia

As numerosas faces da desorientação


Giusi Miccoli

Em busca de O que nos novos paradigmas do


orientação desorienta? Em business.
Nunca, como nos que consiste a As mudanças prati-
últimos tempos, as desorientação
cadas são explica-
nossas convicções das com o declínio
na economia,
tornaram-se tão fra- das três dimensões
cas e inconsistentes. na política, na com as quais está-
Perdemos a bússola sociedade, nas vamos acostumados
como indivíduos e organizações? a medir o universo
como cidadãos. – espaço, tempo e
É fácil olhar as outras culturas massa –, que cederam lugar a
e os outros povos utilizando as três novas forças: velocidade,
nossas maneiras de analisar e interconexão e imaterialidade.
compreender. Com freqüência Estas três forças nos obrigam a
esquecemos que vivemos em rever nossos modos de perce-
um país rico e que compar- ber, analisar e organizar a nós
tilhamos o bem-estar com os mesmos e os sistemas sociais.
outros países industrializados. A complexidade, longe de ser
Mas agindo assim, excluímos um obstáculo para a inovação,
o resto do mundo. Nos últimos oferece contínuos e múltiplos
anos, as nossas análises da eco- inputs, que representam uma
nomia, da política e da socieda- fonte inesgotável de novas
de concentraram-se sobretudo idéias.
na compreensão, explicação e Enfim, a incerteza é considera-
antecipação do mundo ociden- da um elemento de certa forma
tal e do sistema capitalista. Os governável. Em suma, sentimo-
temas de mudança, de comple- nos infalíveis.
xidade e de incerteza foram en- Os economistas buscam uma
frentados buscando o caminho solução de equilíbrio com ex-
do (nosso!) futuro, em termos de pectativas racionais.

(103)
Monografia

Os estudiosos de organização perguntamos: o que é este


procuram analisar uma estru- estado de coisas no qual nos
tura no mundo aparentemente encontramos? O que nos de-
desorganizado. E dão uma sorienta? Em que consiste a
importância sempre crescente desorientação na economia,
ao human talent e ao human na política, na sociedade,
capital, ainda que a valorização nas organizações? Quais
dos recursos seja teorizada, e são as conseqüências nega-
não praticada. tivas e quais as positivas?
Tornamo-nos cada vez mais Entrevêem-se novos paradig-
conscientes da falta de credibi- mas e novas experiências com
lidade das promessas da Idade os quais se possa superar essa
Moderna. No plano mundial, desorientação? Será oportuno
aumentam tanto a concentração e possível criar novos pontos
da riqueza quanto a difusão da de referência e novos fatores
pobreza. As desigualdades de convicção? Quais? A quem
sociais e econômicas crescem, cabe essa tarefa?
alimentando a conflituosidade. Foi por essa razão que
Desencadeiam-se pequenas e S3.Studium dedicou todo o
grandes guerras. Diminui-se a Seminário de Verão 2002 à
confiança num mundo onde não desorientação.
é fácil viver.
Touraine, num ensaio recente, O método e as questões
penetra no calor do debate, Há 17 anos o S3.Studium or-
saindo em busca dos possí- ganiza o Seminário de Verão
veis caminhos para enfrentar em Ravello, segundo uma
os problemas e resolvê-los. Em fórmula bem aprovada, que
Touraine há uma confiança na consiste em cinco sessões nas
possibilidade de certa concep- quais intervêm especialistas
ção, diferente da convivência de alto nível, italianos e es-
civil e da sociedade pós-in- trangeiros, escolhidos entre
dustrial (que ele denomina os maiores estudiosos das
“programada”). matérias tratadas. O seminá-
Mas na falta de critérios vá- rio destina-se a empresários,
lidos para entender aquilo empreendedores, membros
que muda e como, cada vez do Club S3, aos estudiosos
com maior freqüência nos de ciências organizadoras e a

(104)
Monografia

todos aqueles que pretendem No primeiro número da Next


enriquecer a própria cultura Brasil, antecipamos o tema com
empresarial com temas capa- a reflexão de Cristovam Buarque.
zes de ampliá-la em direção à Nesta monografia propomos os
criatividade. outros dez relatórios que traçam
Nas cinco sessões foi ana - um mapa entrecortado, rico de es-
lisada a desorientação na tímulos, que nos ajuda a recuperar
Organização (Pasquale
Gagliardi, Chris Meyer); na – ao menos em parte – a nossa
Estética (Fulvio Carmagnola, capacidade de nos orientar.
Wa s h i n g t o n O l i v e t t o ) ; n a
Economia (Persio Arida,
Antonio Calabrò); na Cultura Giusi Miccoli é coordenadora acadêmica do
( G i u s e p pe O. Longo, Paolo S3.Studium Italia, instituição privada de ensino,
Branca); na Política (Cristovam pesquisa e consultoria em Ciências Organizacio-
Buarque, Massimo Cacciari). nais sediada em Roma.

(105)
Monografia

A supremacia das profissões


Pasquale Gagliardi

Novos fatores Enquanto as identidade organi-


de certeza organizações zativa assumiu uma
organizativa vão aos poucos importância crucial
O XVII Seminário deixando de ser
na definição da
de Verão de Ravello identidade social
gaiolas de ferro
nos convida a refletir e da imagem de si:
sobre a oportunidade para se tornarem o fato de perten-
e a possibilidade de conjuntos fluidos e cer à determinada
criar novos pontos de precários, perdem organização pode
certeza organizativa, a capacidade de influenciar o prestí-
prevendo que nas orientar a ação gio social e a auto-
organizações exista individual e social. estima mais que o
uma “desorientação”. fato de possuir uma
Essa premissa é compartilhada, particular competência.
ainda que com certa cautela. O alarmismo crescente dos ex-
As organizações – entendidas poentes da chamada sociologia
como formas utilitaristas de crítica constitui, a meu ver,
agregação social, voltadas para uma comprovação da difusão
o alcance de fins específicos e desse fenômeno. Esses estu-
governadas tendencialmente diosos, movidos por interesses
por racionalidade instrumental que Habermas definiu como
– desenvolveram e continuam emancipadores, concebem as
a desenvolver um papel funda- organizações como instrumen-
mental na construção da ordem tos de domínio e consideram
social das sociedades ociden- depreciável a identificação
tais evoluídas, ainda que se dos dependentes com os ob-
tenham criado algumas fendas jetivos das organizações pelas
relevantes numa tendência quais trabalham. Para esses
linear que parecia irreprimí- estudiosos, é como se existis-
vel. Naquelas sociedades, a sem identidades sociais legíti-

(106)
Monografia

mas (as quais se adquirem na instrumental caracterizem de


família, na escola, na comuni- modo inconfundível a paisagem
dade ocupacional ou de vida) e social da modernidade. A esses
condições, como a laboral, que sistemas, prioritariamente, a
se desejaria fossem sempre o sociedade delega a tarefa de
objeto de uma escolha cons- traduzir valores, desejos e pro-
ciente e instrumental de um pósitos coletivos na ação social
sujeito que não insere aquela e as organizações substituem
condição entre os fundamen- progressivamente ou contami-
tos do si. Em vez disso, como nam formas comunitárias de
dissemos, com muita freqüên- agregação (naturais, espontâne-
cia a identidade organizativa as ou moldadas pela tradição):
desempenha papel essencial as igrejas não contam mais
na construção do conjunto da somente com a Providência ou
identidade pessoal: a organiza- com a generosidade espontânea
ção para a qual você trabalha dos fiéis para angariar subsí-
pode contar quanto e falar mais dios, mas adotam técnicas de
sobre o trabalho que você faz. marketing; um clube esportivo
Por quê? Somente se refle- respeitável – até diletantista
tirmos sobre as razões pelas – não pode deixar de ter um
quais as organizações foram empresário; as associações de
– e continuam a ser – fatores voluntariado recrutam profis-
de certeza, autênticas bússolas sionais; comunidades utópicas
para a pesquisa do sentido (de se esforçam para traduzir visões
si mesmos e do mundo no qual idealistas em planos e objetivos
se encontram catapultados operativos.
milhões de indivíduos), é que Sob esse ponto de vista, pa-
poderemos entender as razões rece realizar-se por completo
da desorientação, os motivos a previsão de Max Weber, de
daquelas fendas cada vez mais que o modelo de administração
perceptíveis e discutir sobre burocrático, fundamentado em
novos fatores de certeza. princípios de racionalidade ins-
trumental, legalidade e certeza,
A gaiola de ferro teria gradualmente substituído
Não há dúvida de que os siste- outros modelos de administra-
mas de cooperação inspirados ção graças à sua intrínseca su-
em critérios de racionalidade perioridade técnica, e a ordem

(107)
Monografia

da racionalização teria apri- em virtude da lógica universal


sionado a humanidade numa da racionalidade, mas por dinâ-
“gaiola de ferro”, apagando as micas culturais locais. Porém,
diferenças culturais e produzin- existem algumas características
do aquilo que o autor definia essenciais do tipo ideal buro-
como “o desencantamento do crático que tornam as organi-
mundo”. zações particularmente ade-
Como se sabe, a teoria da gaiola quadas à classificação culture
de ferro foi objeto de revisões bearing milieux (“terrenos de
críticas por parte de pelo menos cultura”, no significado literal
duas correntes de pensamento. e metafórico da expressão), e
Em primeiro lugar, Powel e Di é a diminuição dessas carac-
Maggio, em seu célebre ensaio terísticas que – por reduzir a
fundativo do neo-instituciona- identificação com terrenos de
lismo organizativo, não nega- cultura – reduz indiretamente
ram nem a homologação das sua força orientadora.
estruturas, nem o enjaulamen-
to, das condutas individuais, Características e
mas atribuíram ambos os efeitos desfiamento
– em vez de à adoção universal Quais são as características
da ordem da racionalização – à fundamentais – sob esse ponto
tendência das organizações de de vista – do tipo ideal burocrá-
adotar cerimonialmente formas tico? A organização clássica é:
organizativas que encarnem 1) um sistema inevitavelmente
mitos coletivos. Por outro lado, hierárquico, isto é, fundamen-
os fundadores da chamada an- tado em relações unívocas de
tropologia organizativa não ne- supremacia e subordinação;
garam o efeito de enjaulamento 2) esse sistema opera num terri-
mas contestaram a homologação tório circunscritível, dentro do
cultural, atribuindo a uniformi- qual adensam-se as interações
dade local das condutas à ado- entre os membros da organi-
ção de paradigmas culturais zação;
idiossincráticos. Esta é a tese 3) possui limites definidos (em
que vou sustentar. sentido literal ou metafórico:
As organizações orientam a sabe-se quem está dentro e
vida individual e social – e con- quem está fora da organização)
dicionam sua qualidade – não e, portanto, é “individualizá-

(108)
Monografia

vel” dentro do contexto no qual da ação; na forma N(etwork) os


está situado; limites não são mais barreiras,
4) conceitos como alto (nível) e mas membranas que conectam
baixo (nível), centro e periferia suavemente a empresa focal
descrevem espacialmente o a um sistema operativo mais
sistema mas refletem ao mesmo vasto; a chamada empresa vir-
tempo critérios de divisão das tual – uma empresa totalmente
tarefas baseadas tendencial- real, que simplesmente explode
mente em dicotomias (projeção/ o potencial comunicativo e in-
execução, inovação/rotina, terativo das novas tecnologias
estratégia/operações); informáticas – tira da interação
5) sobretudo, a organização cara-a-cara o tradicional prima-
clássica deve sua força à es- do, desvinculando a organiza-
tabilização dos processos e à ção do território.
impessoalidade dos papéis (as Contudo, até tempos relativa-
pessoas passam, a organiza- mente recentes, não eram pos-
ção permanece), e essa visão tos em discussão três princípios
constitui uma premissa e uma de fundo:
promessa de imortalidade. 1) A empresa permanece a
Uma rápida resenha dos prin- unidade-chave da ação eco-
cipais modelos organizativos nômica, porque é um sujeito
que se afirmaram no decorrer distinguível do contexto e,
do tempo permite identificar os conseqüentemente, responsável
principais desdobramentos que (também quando adota a forma
eles introduziram na “gaiola de N: não por acaso os estudiosos
ferro”. A organização staff-line do network falam de dupla rede
rompe com rapidez o princípio – externa/interna – e de unida-
de autoridade e introduz a di- des de limite);
mensão ambígua da respeitabi- 2) as organizações formais per-
lidade; a organização divisio- manecem intrinsecamente hie-
nal, a delegação e a gestão para rárquicas: porquanto moderada
objetivos superam a dicotomia por mecanismos de participação
decisão-execução e problemati- que visam criar democracias, é
zam a relação centro/periferia; sempre a hierarquia que marca
a organização matriz multiplica as organizações como mecanis-
as dependências, as pertinên- mo de governo das transições,
cias e os critérios de avaliação alternativo ao mercado;

(109)
Monografia

3) as organizações são feitas sentido; a individualidade da


para durar: sua eficiência está empresa torna-a um possível
na capacidade de estabilizar e objeto de identificação emoti-
otimizar rotinas, e seu fascínio, va; a promessa de imortalidade
na possibilidade de sobreviver favorece a idealização da tarefa
aos indivíduos que as com- – que de task torna-se mission
põem. – e torna desejável a identifica-
Esses três princípios, mais ção possível.
que os outros (que logo fo- Pois bem, também esses três
ram corroídos pelas ondas da princípios de fundo, que pare-
reestruturação organizativa ciam imutáveis, são hoje con-
que se sucederam num ritmo traditos – de várias maneiras
cada vez mais acelerado na – pelas formas organizativas
segunda metade do século XX) que as empresas tendem a
concorrem – com modalidades adotar para enfrentar as extra-
e por várias razões – para fazer ordinárias incertezas derivadas
das organizações excelentes da rapidíssima taxa de inovação
terrenos de cultura, porque fa- das tecnologias, combinada
vorecem o desenvolvimento do com os contínuos processos
processo que Selznick definiu de redefinição dos setores e
como institucionalização. A segmentação dos mercados na
máquina organizativa projetada escala regional e global. Esses
racionalmente perde progressi- processos são mais evidentes
vamente a sua pureza: nenhum em setores como a microe-
processo produtivo permanece letrônica, as biotecnologias,
exclusivamente tal, mas torna- a comunicação digital, mas
se, com o tempo, um processo referem-se tendencialmente a
simbólico, um modo de mani- todas as empresas que operam
festar a própria visão do mun- em ambientes caracterizados
do. A estabilização das rotinas pela elevada incerteza e vola-
permite e exige a definição de tilidade dos mercados. Alguns
sistemas de significado aceitos estudiosos de organização defi-
como premissas e condições da niram essas formas emergentes,
ação coletiva; a distribuição idôneas, em consentir a flexibi-
desigual do controle dos recur- lidade e a rapidez de ação que o
sos acelera os processos inter- dinamismo dos contextos exige,
subjetivos de tais sistemas de heterarquias, para sublinhar o

(110)
Monografia

principal traço distintivo: a entre as unidades e os grupos


minimização da hierarquia de trabalho, mas a interde-
como mecanismo de governo pendência não é administrada
das transações. hierarquicamente através de
mecanismos convencionais
A heterarquia de coordenação, seja pela
A heterarquia – que de certo complexidade das relações,
modo pode ser vista como seja porque as tecnologias in-
evolução ou versão radical formáticas permitem conectar
da forma N(etwork) – exprime todas as unidades envolvidas
uma lógica organizadora nova, na rede sem a mediação de
que não a do mercado nem a controles centralizados: em
da hierarquia. Lá onde o mer- medida crescente, portanto,
cado implica com relações de não se refere (reporta, respon-
independência e a hierarquia de) a um superior, e sim a um
de dependência, a heterarquia outro grupo, numa condição de
implica com relações hori- dependência mútua e circular.
zontais de interdependência. Tudo isto nada tem a ver com a
Nessas formas, a inovação é idéia – muito em voga há alguns
descentralizada e se refere vir- anos – dos mercados internos,
tualmente a qualquer unidade na qual cada unidade consi-
organizativa; cai a distinção dera uma outra unidade como
entre quem produz um novo um cliente. A heterarquia, de
conhecimento e quem usufrui fato, rejeita a idéia de que o
do conhecimento existente; a limite da empresa e os limites
inteligência é distribuída e a das unidades que a compõem
tarefa de explorar (novos mer- sejam definíveis com base em
cados, novos produtos, novas parâmetros dados: a empresa
combinações produtivas) não é reinventa-se constantemente e
mais tributo de funções espe- a tarefa do management é a de
cializadas, mas é difundida em criar os espaços e as condições
toda a organização; os recursos organizativas dessa contínua
são constantemente recombina- reinvenção. A possibilidade
dos e empregados numa plurali- de contar com as capacidades
dade de escopos diferentes. criativas dos clientes e fornece-
Esses desenvolvimentos au- dores é dramaticamente aumen-
mentam a interdependência tada pelas tecnologias digitais:

(111)
Monografia

os clientes podem tornar-se a objetos que produzem um


fornecedores e, em alguns efeito ótico que impede distin-
casos (como nas comunidades guir o interior e o exterior), de
online), gerar eles mesmos o bricolage (uma modalidade de
produto, tornando impossível resolução dos problemas que
identificar e separar o que não recorre a teorias anteriores
está dentro e o que está fora mas baseia-se nos meios dispo-
da organização: a inteligência níveis no momento, reutilizando
é distribuída não só dentro do criativamente “avanços” de ro-
conjunto aproximativamente tina, procedimentos e sistemas
identificável – segundo os organizativos), de collage, de
critérios tradicionais – com a plataformas, em vez de formas
empresa, mas através daqueles organizativas (para indicar que
que estávamos acostumados a existe um conjunto de recursos
considerar como os limites da humanos, processuais e tec-
empresa. A autoridade distri- nológicos reconfiguráveis de
buída não implica apenas que acordo com as circunstâncias),
as diferentes unidades devam e por aí afora.
prestar contas uma à outra,
mas também que possam coe- A organização por projetos
xistir no mesmo espaço social Se a heterarquia – como versão
critérios de legitimação e ava- radical da forma N (Network)
liação das múltiplas prestações, – renega a hierarquia e confun-
às vezes contraditórios, porque de os limites, ela não renuncia
refletem diferentes formas de ao princípio da persistência e à
justificação. ilusão da imortalidade, mas os
Para sublinhar essas caracte- reforça: se a empresa pode so-
rísticas de heterogeneidade, breviver aos indivíduos, a rede
dinamismo e ambigüidade pode sobreviver a cada empre-
das novas formas e o caráter sa. Conforme foi observado
recursivo dos processos que as particularmente por quem es-
estruturam, utilizam-se – como tudou formas heterárquicas na
sempre ocorreu na história da Ásia Oriental, as empresas vão
organização – imagens e metá- e vêm, nascem e morrem, en-
foras extraídas de experiências quanto a rede permanece. Mas
cotidianas: fala-se de moebius o princípio da persistência é,
strip organizations (aludindo por definição, negado por uma

(112)
Monografia

outra importante forma organi- o estudo das catástrofes e da


zativa emergente: a organização administração das emergências
por projeto, que nasce como tornou-se um dos territórios
empresa coletiva e temporária, mais promissores da pesquisa
destinada a morrer. Ao caráter empírica e da reflexão teórica
episódico do projeto deve-se a nas organizações: aquelas si-
sua força e a sua fraqueza. tuações representam, de fato,
Na organização por projeto, a versões extremas de eventos
criatividade não é vinculada e processos que, do ponto de
pela tradição e a ausência vista conceitual, não são di-
de um futuro a ser preparado ferentes daqueles que muitas
permite e obriga a concentrar empresas enfrentam ou ativam
as energias no presente, mas diariamente.
é preciso inventar de vez em
quando as condições da parti- A renascente supremacia
cipação (da motivação, identifi- das profissões
cação e coesão dos membros) e Que se trate de heterarquias ou
desenvolver uma reflexividade de projetos, essas novas entida-
pragmática, adaptando-se aos des econômicas colocam novos
eventos e aprendendo pela problemas, que não atendem
experiência (presente, porque apenas à racionalidade instru-
não existe passado), sobretudo mental dos modelos – logo não
quando o projeto nasce para se referem somente aos estu-
enfrentar uma emergência. diosos de organização –, mas
Essa ocorrência, observe-se, possuem implicações sociais,
é cada vez mais freqüente. políticas e jurídicas importan-
Existe hoje uma crescente tes. Basta pensar na necessi-
interdependência entre fe- dade de conciliar flexibilidade
nômenos naturais, categorias e responsabilidade: se a nova
sociais e programas de ação unidade de ação não é nem o
que a tecnologia permite de- indivíduo nem a empresa – en-
legar a sujeitos não-humanos tendida como sujeito dotado de
ou a híbridos homem-máquina: personalidade jurídica – mas o
isto aumenta a complexidade e, conjunto fluido e precário que
portanto, a vulnerabilidade e o descrevemos, onde se situa
risco de colapso dos sistemas a responsabilidade? Quem e
sociotécnicos. Por este motivo, como deve prestar contas, a

(113)
Monografia

quem, e segundo quais crité- que codifica e rege as normas


rios? É possível, e como, tornar técnicas e deontológicas da
distinguível e responsável uma profissão) e geralmente pagam a
heterarquia? própria formação profissional.
Mas retornemos ao nosso tema: Um outro sintoma da renascen-
a desorientação. Se estes con- te supremacia das profissões é
juntos fluidos e precários não o espantoso desenvolvimento
permitem a construção de siste- das comunidades profissionais
mas estáveis de sentido, quem virtuais, que se tornaram possí-
nos ajudará a construir (para veis pelas tecnologias de rede.
usar uma eficaz expressão de O aspecto paradoxal é que defi-
Di Chiara) as couraças – ema- nimos como comunidades reais
ranhadas porém indispensáveis aquelas que, graças à rede,
– com as quais podemos nos tornam-se finalmente reais.
defender de nossa ignorância Ou seja, tradicionalmente, a
do mundo? Minha opinião é comunidade profissional é um
que a ênfase retornará para as grupo de referência ideal ao
profissões e o pêndulo aponta- qual sente-se pertencer, mas
rá uma renascente supremacia para a maioria dos membros
das comunidades ocupacionais o sentimento de pertença não
sobre as comunidades organi- é sustentado por interações
zativas. sociais de intensidade com-
Essa tendência já se manifes- parável àquela das interações
tou em toda a sua evidência na que se estabelecem entre os
área do project management. membros de uma comunidade
Mesmo quando essa prática organizativa. Lêem-se as mes-
é desenvolvida no âmago de mas revistas; alguns participam
grandes organizações, os pro- das atividades das associações
ject managers tendem a iden- profissionais, se são formal-
tificar-se mais com a profissão mente constituídas; a chance
do que com a empresa para a mais comum de encontro são
qual preparam e administram os programas de formação des-
as organizações temporárias tinados à categoria profissional
pelas quais são responsáveis; por institutos especializados.
exigem as certificações do Hoje, a rede oferece finalmen-
Project Management Institute te um contexto que multiplica
(a instituição internacional as ocasiões de comunicação,

(114)
Monografia

de confronto, de intercâmbio organizativas emergentes e de


entre pessoas que exercem a erosão marginal de instituições
mesma profissão em diversas que possuem raízes antigas e
organizações, e é mais prová- solidamente ramificadas. Mas
vel (ou, talvez, é finalmente nunca terá terminado de nos
possível) que a pertença a uma surpreender a capacidade da
comunidade ocupacional e a história de desmentir as nos-
propensão para compartilhar sas previsões sobre o futuro.
os seus códigos técnicos e éti- Contudo, não podemos resistir
cos prevaleça sobre a pertença à tentação de imaginar isto.
a uma organização e a propen-
são para idealizar o papel e os Pasquale Gagliardi é administrador delegado
objetivos. do Istud, professor de Sociologia da Organização
Gostaria de concluir – como na Faculdade de Ciências Políticas da Univer-
tinha iniciado – com uma sidade Católica de Milão e Secretário Geral da
cautela. Falamos de formas Associação Giorgio Cini.

(115)
Monografia

O blur dos blur1: a convergência entre


informação, biologia e business
Chris Meyer

A information tech- As tecnologias Cada uma das três


nology, a tecnologia da informática forças citadas será
molecular e o ma- fazem referência um desafio e mu-
nagement evolutivo aos mesmos
dará profundamente
time based são hoje nosso modo de pen-
modelos cognitivos
três forças enormes sar. Cercados por
que possuem uma da biologia ou objetos, moléculas
existência autônoma das ciências e negócios, todos
e influenciam nos- empresariais, em viva ação, che-
sas vidas. Contudo, criando o maior gamos aos poucos
ainda não se tem blur de todos os a entender que a
certeza de como elas tempos. Permanece evolução é um prin-
interagem entre si e o problema cípio universal que
em nosso cotidiano. de construir influencia tudo, as-
Certamente essa tem- empreendimentos sim como aconteceu
pestade de mudanças adaptáveis. com o princípio da
vai produzir aquela gravidade. Newton
que Schumpeter denominou compreendeu o princípio da
gales of creative destruction, gravidade pela queda de uma
mas criará também grandes maçã e foi inspirado a criar mo-
oportunidades para cada busi- delos matemáticos e físicos, que
ness e para a sociedade inteira, permitiram em seguida a evolu-
graças ao fato de que já nos be- ção para o desenvolvimento de
neficiamos de uma nova onda armamentos e mísseis para se
de inovações technology driver. chegar à lua. Paralelamente,
Temos todas as potencialidades captamos a evolução a partir
para um longo boom econômico de um só momento, o universo
e para um posterior alongamen- biológico.
to da vida média humana em A exemplo de Newton, hoje
plena saúde. os cientistas codificam as leis

(116)
Monografia

da evolução, não apenas a da velocidade das informações,


observam. Ao mesmo tempo, em tempo real, torna possível a
engenheiros e empreendedores adaptação.
estão aprendendo como aplicar A volatilidade econômica im-
as mesmas leis a tantos outros põe hoje a necessidade de criar
sistemas, adaptando-as aos a empresa adaptativa.
respectivos ambientes. Em Na década passada, a
particular, em nossos sistemas Information Technology, o fa-
informativos ou empresariais tor tempo e a implementação
usamos novos instrumentos da mudança tinham se tor-
ou modelos tomados de em- nado o imperativo dominante
préstimo da biologia. Estamos no pensamento business e na
entrando numa nova era de sociedade em geral. Contudo,
evolução geral. o business continua a crer fir-
Nossa previsão para a próxima memente na estabilidade do
década não pode ser passiva. Já management.
hoje, são muitas as vantagens Absorvidos pela atividade di-
que podemos extrair da con- ária, ainda não pensamos na
vergência entre informação, articulação de um novo sistema
biologia e business. que assumisse como princípios
A primeira é começar a prestar não a estabilidade, mas a vola-
atenção e interesse nas biotec- tilidade; não a previsibilidade,
nologias, nas nanotecnologias mas a surpresa contínua.
e nas ciências dos materiais, Em suma, o return on time
porque essas hoje já saíram dos ainda não susbstituiu o return
laboratórios como tecnologias e on equity como medida funda-
ofertas comerciais e estão mu- mental de business.
dando radicalmente os modelos No final, compreendemos que
econômicos submissos a todas o tempo é um recurso muito
as nossas atividades. mais escasso do capital finan-
Como segunda vantagem, esses ceiro. Compreendemos que os
novos instrumentos já estão empreendimentos precisam ser
prontos para as organizações projetados de modo a se adapta-
que se adaptam de maneira rem ao time-aware management
mais eficaz às mudanças e à framework, no qual o custo da
volatilidade dos atuais ambien- mudança não é contabilizado
tes de business. O instrumento como um custo extraordinário,

(117)
Monografia

e sim como uma normal voz de afirma algo bastante parecido:


custo para construir o próprio “O metabolismo faz parte da
negócio. vida desde o seu início. As
A que nos levará isto? Os te- primeiras células são metabo-
óricos da complexidade falam lizadas: usam energia e mate-
de Adjacent Possible, as pos- riais do exterior para produzir,
sibilidades que se tornam dis-
poníveis, uma vez que ocorram manter e se auto-reproduzir”.
eventos sucessivos. Parece que se fala de business.
Quando a biologia suplantou a Ainda não concretizamos a
física como modelo de pensa- afirmativa sobre a economia
mento, quando os objetos são estar viva.
inteligentes, ativos e conexos, Creio que este seja o maior
quando temos poder de mani- blur de tudo: apaga os limites
pular desde nossa saúde até entre aquilo que é real e o que
a agricultura, tudo no plano é virtual; entre o orgânico e o
molecular, o que mais pode inorgânico; entre o que está
acontecer? vivo e o que não está.
Em meu livro Blur, de 1998,
eu definia assim a essência (Notas)
da economia: “utiliza meios 1
Blur = mancha, borrão. (Fig. = erro) (N.T.)
para satisfazer desejos”. Tudo
referente ao “como se faz” está
sujeito a mudanças no tempo. Chris Meyer é diretor do Center of Business
Lynn Margulis, não um teórico Innovation Cap Gemini Ernst & Young, de
do management mas biólogo, Boston (EEUU).

(118)
Monografia

Por uma estética impura


Fulvio Carmagnola

A arte fora de Afinal, será que principais de mani-


lugar nunca existiram festação, produção e
A estética, já há sociedades fruição da estética.
algum tempo, per- “orientadas”?
Pode-se repelir essa
deu alguns de seus situação em nome
A desorientação
conteúdos históri- da pureza ou de uma
cos que a definiam, e a sensação de presumível universa-
tornando-se impura. transitoriedade lidade da estética, ou
De fato, enquanto fazem parte do se pode ainda tentar
a estética pura era mundo onde entender e explicar
aquela forma de qualquer cultura essa nova circuns-
produção que tinha cuida de si própria. tância histórica que
como modelo-chave Mas existe uma caracteriza a cultura
a contemplação e, desorientação contemporânea.
portanto, era essen- especificamente Parece, porém, que
cialmente finalidade estética? em vez de opor-se
sem escopo, a esté- à desorientação pro-
tica impura implica pondo modelos de
com a desorientação como ordem, seja mais interessante
componente fundamental de passar através dela.
nosso modo de viver os fenô- Para falar de estética, utili-
menos estéticos, que são, na zarei uma série de imagens
realidade, contaminados por sobre as quais iremos refletir
outros processos, tanto cogni- e discutir.
tivos quanto comerciais.
Neste momento, a mercado- Há arte demais
ria, os produtos, os objetos A obra de Ben Vautier no
comprados e vendidos, que Museu de Nizza, Há arte de-
correspondem à lógica do valor mais, ilustra uma espécie irô-
econômico, são um dos meios nica de “grito de dor”.

(119)
Monografia

Estamos acostumados a pensar correção e de um emergido


que a arte e a beleza são sujei- estorvo.
tas a ameaças e que devem ser O termo breakdown, em uso
preservadas. Essa obra diz o pelos psicólogos e cientistas
contrário: Il y a trop d’art [Há cognitivos, significa interrup-
arte demais]. Este é um aspec- ção, queda, na ótica psiqui-
to interessante para se refletir átrica. No contexto estético,
e discutir. significa interrupção, bloqueio
Uma das origens da desorien- dos costumes que nos permitem
tação consiste no fato de que fazer circular e fluir o sentido
existe um escapamento do dos nossos processos culturais.
estético de sua sede natural, Isto produz uma sensação de
ou melhor, cultural, isto é, da não saber, de não estar no lugar
sede em que os nossos hábitos certo, de desorientação.
culturais o confinaram. “A arte Podemos dizer que existem
em toda parte” provoca confu- duas tonalidades de desorien-
são e desorientação, entropia. tação: a primeira é a que nasce
O sui generis é que aparente- por descontinuidade, um evento
mente são os artistas que se improvisado, incompreensível,
retiram do estético, enquanto delirante, que interrompe uma
o mesmo terreno é invadido rede de conhecimentos previs-
por algum outro, por outros tos; a segunda, uma desorienta-
processos. São os artistas que ção que deriva de uma espécie
dizem “basta” com a arte e a de rumor de fundo, de um mur-
beleza – que não são a mesma múrio contínuo que nos impede
coisa, porém se confundem. de encontrar uma dimensão de
Então, a desorientação é compreensão. A primeira situa-
uma situação caracterizada, ção é caracterizada por grandes
antes de tudo, pela perda da eventos que destroem os nos-
confiança. Não se está mais à sos frames de compreensão, ao
vontade em termos cognitivo- passo que a segunda é algo de
-antropológicos: os frames de ansiógeno, que nos persegue
referência do evento ao qual constantemente.
se assiste estão em desordem. Em nossa época, ambas as
A desorientação é também dimensões são extremamente
caracterizada pela percepção freqüentes. Para compreender
de uma violação, de uma in- a desorientação estética deve-

(120)
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mos, então, procurar entender o possibilidades de situá-las num


quanto nos afastamos daqueles ponto preciso, de dar a elas a
lugares que fundamentaram a atribuição determinada.
nossa idéia do que é o belo e
do que é a estética. Quando nasce e como
evolui a estética
De Chirico & Dolce e A esta altura podemos tirar
Gabbana algumas considerações sobre o
Confrontemos um quadro de que era a estética e no que ela
De Chirico (Natureza silen- se transformou. A estética é um
ciosa, 1959, coleção Spajani, período singularmente breve
Bérgamo) com uma fotografia de nossa história. Observemos
da vitrine de Dolce & Gabbana algumas datas: nasce em torno
na Via della Spiga, em Milão, de 1700, é consagrada por vol-
durante o período natalino de ta de 1790, com A Crítica do
aguns anos atrás. Enquanto Juízo, de Kant; sua posterior
olhamos o quadro de De sistematização acontece com
Chirico, os nossos frames estão a Estética, de Hegel, nas pri-
estáveis. Por outro lado, se ob- meiras décadas do século XIX.
servarmos a foto da vitrine da Logo, singularmente breve, por-
Dolce & Gabbana, descobrire- que os pontos de referência que
mos a quase perfeita capacida- fixam e formalizam os cânones
de que o sistema de moda tem da estética moderna cessam de
de citar os lugares tradicionais ter validade para a compreen-
que orientam a nossa percep- são dos fenômenos estéticos
ção do belo e da arte. Este é um do presente mais ou menos
caso de desorientação. O que por volta da Segunda Guerra
choca é como a instabilidade Mundial ou no máximo uma dé-
dos nossos quadros de atribui- cada mais tarde, mais ou menos
ção de significado daquilo que quando começam os fermentos
vemos deriva do fato de que da Pop-Art. Mas ainda que se
as coisas não estão paradas tenha encerrado, continuamos
e que as imagens passam de a pensar no que responde aos
um território para o outro, do cânones, então inventados, da
“alto” da arte ao “baixo” das estética e da arte.
culturas mediais, e que des- No final do século XVI, Kant
viam continuamente as nossas obteve o grande mérito de de-

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finir o belo e nos tornar cons- ção fosse imutável. Herdamos


cientes da nossa faculdade de um conjunto de pontos de vis-
interpretá-lo, através do gosto. ta potentes, que foram criados
O gosto é a capacidade de dis- naquele lugar da história e
cernir o que vemos no reino do se tornaram trans-históricos,
sensível –o estético em sentido eternizaram-se.
lato –, alguma coisa que possui A junção beleza-estética é um
algumas características dificil- dos nossos mitos e é o mito de
mente codificáveis. Esse gosto um território elevado, sub-
é universal mas não pode ser traído do cotidiano. Lateral,
conceitualizado, deve valer intangível, livre, o mito é
para cada um, mas não pode dominado por algo de não-
valer indiferentemente para -conceitual, por uma nuvem
todos. de noções tais como beleza,
Kant observa que a capacidade símbolo e imaginação que
de julgar o belo deve se tornar não funcionam mais, mas que
independente, seja pela ca- continuamos a utilizar como se
pacidade cognitiva, seja pela funcionassem.
capacidade ética, e com essa O filósofo americano Arthur
operação libera a beleza e Danto exprime essa situação
o gosto enquanto, ao mesmo histórica com um termo muito
tempo, constrói ao redor dos interessante. Usa a palavra
fenômenos estéticos uma es- enfranchisement, isto é, fran-
pécie de recinto. Ele fala so- quia, das normas do verdadeiro
bretudo de belo natural e não e do bem, que indica ao mesmo
de obra de arte, mas codifica tempom, porém uma espécie de
pela primeira vez a faculdade recinto, espaço separado da es-
de discernir o belo. tética. Uma espécie de reserva
Hegel, por sua vez, numa dis- indígena.
tância de 35 anos, fala de obra Os rumos que a nossa cultura
de arte e diz, porém, algo que estética tomou são fortemente
abala: “a arte já morreu”. centrífugos em relação a esses
Quando, pois, falamos de cânones; os nossos quadros
estética, continuamos a usar conceituais, quando não caem,
quadros criados e inventados oscilam: a arte os trai, a publi-
numa certa situação histórica cidade os confirma e o comércio
e cultural, como se essa situa- os cultiva.

(122)
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Um exemplo de direção cen- da num determinado período da


trífuga: o visível não basta a modernidade. Ora dá-se o caso
si mesmo. Quando vemos a que a arte não é mais esse ter-
vitrine de Dolce & Gabbana, ritório privilegiado e escapa da
não funciona mais o mecanis- própria autonomia. O artefato
mo de atribuição de sentido, de artístico não apresenta mais os
frame ou de contexto imediato, caracteres típicos da esteticida-
isto é, dado um visível, não de, ele agora apresenta outros.
somos capazes de destiná-lo
a um domínio. Ocorrem, pois, A economia do simbólico
fenômenos de hibridação, ex- A estetização do mundo da vida
tensão, intrusão e deslocaliza- refere-se também à economia.
ção do estético, que produzem A esfera econômica alarga-se
desequilíbrio. até o simbólico, ao elemento
estético. Em outras palavras, a
Estetização do mundo da presença física dos objetos, dos
vida produtos, ou a quota do imagi-
Há anos falamos de estetização nário que os produtos encerram
do mundo da vida. A estética em si mesmos, é uma fonte de
não está em seu lugar, não valorização. A economia, por
permanece no território livre, um lado, torna-se gestão do
porém em cercado que a mo- imaterial, dos processos imate-
dernidade lhe tinha reservado. riais de produção do valor; por
A intrusão do estético no mun- outro lado, invade o território
do cotidiano e das mercadorias da estética, da presença física
possui algumas grandes chaves- dos artefatos. O fetichismo é
-mestras: o sistema da moda, uma fonte de criação do sig-
do design e em geral o sistema nificado, é a atribuição a um
das mercadorias. Este é um objeto de algo além de seu
dos sistemas mais interessan- valor de uso, é um sistema de
tes e realmente confusionais do valores do imaginário economi-
presente. camente avaliáveis, que entram
Por outro lado, ocorre que cul- nas retículas da valorização e
tivamos esta associação: o reino produzem formas de economia
do estético por excelência é o que podemos chamar economia
reino da arte, dimensão cada do simbólico.
vez mais especializada, afirma- A economia do simbólico é

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uma circunstância cultural pela de compreensão e de fruição


qual a produção e a fruição de crítica dessa circunstância: a
símbolos e imagens passam economia do simbólico produz
do plano expressivo, livre e ocasiões de sentido e de signi-
independente para o plano ficado. Então, passar através da
dos processos de valorização freqüência da mercadoria sem
econômica. O estético torna- necessariamente cair presa do
-se um componente estrutural fetichismo pleno é uma chance
da mercadoria, permeia hori- para se produzir e preservar o
zontalmente o nosso universo sentido.
do cotidiano e isto é fonte de
grande desorientação. Frame e breakdown
Estudar o mundo da moda e do O filósofo francês Jean-Luc
design é muito importante para Nancy afirma: “O curso do
entender como os sistemas de sentido deve ser suspenso para
formas e significados fogem do que o sentido tenha lugar”. Mas
seu lugar de origem e vão se po- o que é o curso do sentido? É a
sicionar nesses outros lugares, situação dos frames habituais,
incertos, espúrios, impuros. o curso das coisas que estão
Existem várias atitudes a se- bem em seus lugares e que,
rem tomadas em relação a essa portanto, entendemos, com-
questão: por exemplo, pode-se preendemos e dentro das quais
dizer que o mundo da beleza estamos pacificados. O trabalho
está comercializado e, por essa do sentido consiste exatamente
razão, rejeitá-lo; pode-se assu- na suspensão, na desorienta-
mir uma atitude crítica que leva ção programática desse curso
a um afastamento; ou pode-se pacífico: o sentido – entendido
adotar uma atitude “pós-moder- como senso comum – deve ser
na” e dizer “é preciso entrar no suspenso, interrompido, posto
meio disto”, “mergulhemos no na espera, para que um novo
mundo das mercadorias, exalte- seja produzido, para que algo
mos o fetichismo da mercadoria de novo por diferença, des-
e imerjamos sem nenhuma dis- locamento ou oposição possa
tância crítica” – nesse aspecto, ser produzido. A produção de
a década de 1980 foi de grande sentido é, pois, por excelên-
importância. Seria melhor, cia, um fenômeno de descon-
porém, assumir uma atitude tinuidade, de desorientação,

(124)
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precisamente um breakdown. distantes do ponto em que par-


Creio que a arte faça isto há timos, a estética da modernida-
muito tempo, desde a época de, gostaria de comentar uma
das vanguardas, ainda que se obra de arte recente.
discuta como o faça. O singular, Tr a t a - s e d e u m a o b r a d e
porém, é observar que também Dennis Del Favero, Motel
a mercadoria, também a comu- Vi l i n a V l a s , d e 1 9 9 9 , q u e
nicação ligada à mercadoria, mostra, por um lado, como o
como a publicidade, é capaz objeto artístico pode englobar
de criar breakdown trabalhan- literalmente um texto, sendo
do na suspensão do curso do intrinsecamente logos e figura
sentido. Temos, portanto, um visível e, por outro lado, que
panorama transversal, no qual a obra não funcionaria se não
essa confusão de domínios houvesse esse texto.
pode ser vivida como uma de- O título desta obra refere-se
finitiva apropriação do mundo a um lugar da Bósnia onde
da beleza por parte do mundo foram encarceradas algumas
do capital, das mercadorias, ou dezenas de mulheres bosnia-
um alargamento interessante e nas. A obra era apresentada da
certa desorientação da noção seguinte maneira: um imenso
tradicional de estética. salão, paredes brancas, 12
Que seja visto como cenário f o t o s e m c i b a c h ro m e , n a s
apocalíptico ou não, enfim a dimensões aproximadamente
situação é muito complexa: o de 70 x 100 cm, tons de azul-
sentido circula continuamen- da-prússia. Representam
te numa dimensão ao mesmo detalhes de corpos humanos,
tempo vertical e horizontal, de maneira pouco pornográfica
nos vários domínios que vão ou representativa. Podem ser
do mundo “alto” da cultura pedaços de pele, porém, deta-
e da arte ao “baixo” das mer- lhes imperceptíveis, não se vê
cadorias. Circulando continu- que parte do corpo retratam.
amente, esse sentido produz Sob cada uma das fotos há um
continuamente hibridações, texto, uma frase. O expectador
pensamento, nos faz pensar. as lê e aqui produz-se o cho-
que que torna significativo o
Motel Vilina Vlas visível: trata-se da confissão
Para acentuar o quanto estamos de um dos estupradores, ex-

(125)
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traída do depoimento durante Contaminação e


o processo. desorientação
O texto das 12 frases recita: Gostaria de acentuar algumas
– Tínhamos atacado a cidade características que nos fazem
durante semanas inteiras (pri- refletir. Os quadros visuais são
meiro quadro). não-evidentes, violam uma das
– Naquela noite finalmente a condições de evidência da obra:
capturamos (segundo quadro). vêem-se pedaços de corpo, mas
– As mulheres feitas prisio- nunca a forma ou a integrida-
neiras foram levadas ao Motel de de uma figura perceptível
Vilina Vlas (terceiro quadro). ictu oculi, completa. Então,
– Entre elas também estava essa condição de incompleta
a minha noiva, Nina (quarto visibilidade corresponde a
quadro). uma das condições extremas
– O comandante passou em do estético que já tinha sido
revista as mulheres (quinto intuída por Kant, exatamente a
quadro). condição do sublime. O sublime
– Disseram a elas que nós tí- representa o desastre da imagi-
nhamos um código especial, há nação, a nossa impossibilidade
séculos antigo, em nossos genes de reconduzir os fragmentos do
(sexto quadro). visível à unidade da forma, à
– Elas tinham sido escolhidas demonstração de algo exorbi-
como veículos para purificar tante, terrível.
a nossa mãe-pátria (sétimo Em segundo lugar, o texto (lin-
quadro). güístico) é parte fundamental
– Apesar de minhas súplicas, do choque (poético), portanto
meu irmão recusava-se a parti- faz parte do estético, mas insi-
cipar (oitavo quadro). nua-se no visível e o desorienta.
– Foi castrado e em seguida A condição estética se torna im-
fuzilado (nono quadro). pura, contamina-se, mas se en-
– Fui o último a possuir Nina riquece, até porque vai além do
(décimo quadro). cognitivo, enquanto a beleza, a
– Afastei-me dela cambaleando serenidade da obra — que era
(décimo primeiro quadro). a dominante em sua condição
– Meu coração transformou- tradicional — desaparece.
-se em pedra (décimo segundo Essa é a condição de produção
quadro). e de exercício da estética.

(126)
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Impura. Transbordante. artefato é ocasião complexa de


Confusa de um lado, com o compreensão do presente.
domínio das mercadorias, e de
outro, com o mundo mais abs-
trato dos conceitos. Condição
de desorientação, mas também Fulvio Carmagnola é professor de Educação
de maior riqueza, em que o Estética na Universidade Bicocca de Milão.

(127)
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A dúvida como estética


Washington Olivetto

Organizar e A estética da na linguagem televi-


desorganizar sociedade capitalista siva. Ele foi, por
Nos anos de 1960, perguntava ao seu exemplo, o primeiro
1970 e 1980, no espelho: “Existe
a falar de lésbicas
Brasil, viveu um n a T V. P a r a i s s o ,
homem que fez uma alguém mais bela do Chacrinha criou um
revolução na televi- que eu?” A resposta eufemismo: em vez
são brasileira. Esta, do espelho, no 11 de “lésbica”, usou
até aquele momento, de setembro 2001, a palavra “sapatão”,
era muito acadêmica desorientou-a. referência a mulhe-
– tratava o especta- res de pés grandes.
dor como se ele fosse um an- Ele fazia canções, brincadei-
cião e como se ela tivesse de ras e apresentava os chama-
pedir permissão para entrar na dos calouros. Se estes fossem
casa das pessoas. bons, dizia que teriam futuro;
No final dos anos de 1960, se fossem ruins, fazia soar uma
um homem chamado Abelardo buzina. Esse homem criou ex-
Barbosa, o Chacrinha, resol- pressões espetaculares, como
v e u f a z e r u m p r o g r a m a d e a célebre máxima: “Quem não
auditório no qual, em vez de se comunica, se trombica”.
usar gravata, como todos os Em 1981, seu programa teve a
apresentadores, vestia uma incrível audiência de 70%, o
fantasia diferente a cada vez; que significa que mais ou me-
e m v e z d e a d o t a r u m a l i n - nos 35 milhões de brasileiros
guagem formal, ele utilizava assistiam ao seu programa.
u m a l i n g u a g e m t o t a l m e n t e Todos os anos, o programa de
informal. Ele tinha a capa- Abelardo oferecia um prêmio
c i d a d e d e c o l o c a r n a b o c a ao melhor cantor, à melhor
das pessoas expressões que cantora, ao melhor ator, à me-
ninguém imaginaria possíveis lhor atriz e ao melhor cineasta.

(128)
Monografia

Eu não sei por que ele resol- dade de dominar a matéria,


veu premiar também o melhor ou seja, de ser arteiro (e não
publicitário, mas, de qualquer artista). Como quando a gente
maneira, naquele ano eu ga- se encanta com as crianças,
nhei esse prêmio. E lá fui eu arteiras por natureza, com
recebê-lo, ficando muito im- sua habilidade de inventar
pressionado com a organização brincadeiras.
de seu programa – quero dizer, Ser artista é ter a capacidade
antes de seu início, porque, de produzir vida em busca de
durante, Chacrinha jogava uma direção. Portanto, pode-
comida e objetos às pessoas mos chamar a desorientação
no auditório e fazia muitas da estética de uma falta de
piadas. Antes de começar a direção, de sentido, de regra.
apresentação naquele dia, Mas podemos também dizer
Abelardo me disse que gostava que há vários sentidos, várias
de ter tudo organizado e per- direções, várias regras. Todos,
guntou: “Você sabe por quê? obviamente, para serem que-
Porque eu entro e desorgani- brados, destruídos. Podemos
zo! Se não está organizado, eu comparar esse raciocínio a
não posso bagunçar”. A partir uma galeria de arte ou ao mun-
dessa minha musa inspiradora, do, para torná-lo mais amplo.
eu começo a reflexão sobre a E isso pode se tornar uma dis-
desorientação da estética. cussão pós-industrial ou pós-
-moderna. Tanto os pós-moder-
A arte como a vida nos quanto os pseudomodernos
A idéia da desorientação da um pouco espirituosos, como
estética pressupõe que fala- eu, decididamente acham que
mos da Arte. Mas, em verdade, a arte criativa não pode estar
acho que estamos falando da separada do trabalho nem do
vida, que imita a arte. Tudo o aprendizado.
que mexe com a estética, mexe
com tudo. A era das incertezas
Vamos tentar definir Arte: A idéia de Domenico De Masi
é a capacidade encantadora sobre a redução da presença
e maravilhosa que o homem do corpo no trabalho e sobre a
tem de pôr em pratica uma expansão do cérebro é funda-
idéia, valendo-se da capaci- mental. Só tem um problema:

(129)
Monografia

pode ser usada tanto para o ideais de consumo, do que se


bem, quanto para o mal. acha bonito ou feio: a sacola
Tal discussão sobre o que se da grife Giorgio Armani, o
fazer no tempo livre foi pega design, a revista Wallpaper, o
de surpresa no dia 11 setembro mecenatismo. Porque tudo isso
de 2001, em Nova York. Nunca estava “cercado” pela política
se pensou que, usando-se ma- externa americana em todos os
teriais primários, como estile- lugares. Esse feito gerou uma
te, cordão, ponta de caneta e nova topografia do pensamento
pedaços de faca junto às mais em um lugar muito interessan-
sofisticadas tecnologias fosse te, a teoria quântica, pois essa
possível criar um elemento é muito mais ampla e mais
totalmente desorientador: o abrangente.
homem-bomba. Como aquela rainha que se
Quem eram os homens-bomba? olhava todos os dias no es-
Eram representantes de grupos pelho e perguntava: “Existe
com uma ideologia própria, e alguém mais bela do que eu?”
acabaram com as crenças da Até que um dia o espelho dis-
sociedade capitalista ociden- se: “Branca de Neve”, e isso
tal. Fizeram os americanos causou espanto.
entenderem que eles não eram O mais interessante de tudo
indestrutíveis. Com um peda- isso é o seguinte: na época em
ço de faca, os homens-bomba que De Masi brilhantemente
podiam invadir a cabine de pensou o ócio, este já estava
um avião. se realizando em outras velo-
O elemento novo nessa forma cidades, a ponto de parecer
de desorientação estética, separado, a ponto de não ter
geográfica, política, etc, é tempo, de não se medir, de
que as próprias característi- não ser tempo, mas antitem-
cas do neoliberalismo ame- po, antimatéria, com sentido
ricano criaram sua fraqueza; e sem sentido. O tempo dos
sua idéia de invulnerabilidade supersônicos se fundiu com o
criou sua vulnerabilidade. tempo das cavernas.
O que foi derrubado naque- O compositor brasileiro Tom
le dia, além do World Trade Zé disse uma frase muito in-
Center? As torres eram um teressante: “A gente não está
símbolo, e com elas caíram os vivendo o tempo da globaliza-

(130)
Monografia

ção, mas o tempo da globar- e reorganizações, caos e or-


barização”. É interessante, dem. Uma nova ordem é sem-
porque é o tempo das cavernas pre precedida de um estado
supersônicas: o Bin Laden vive de anarquia. Alguns filósofos,
em uma caverna de alta tecno- como Felix Guattari e Gilles
logia, e 6.000 ex-yuppies e pa- Deleuze, falam disso. Deleuze
rentes das vítimas do episódio fala da criação da quarta pes-
do World Trade Center agora soa do singular: o eu, o tu e
querem morar em Nova York, o ele estabelecidos têm agora
tendo cavernas supersônicas de se repensar e se recompor
que são apartamentos de alto para identificarem novas pes-
luxo por dentro e açougues por soas desse novo sistema que
fora. Essa certamente é uma nomeia e cria conceitos do
mudança na estética. belo e do feio.
Curiosamente, isso aconteceu Nessa confusão, é possível
no Brasil, felizmente sem que estejamos vivendo um
nenhuma tragédia, em 1922. dos momentos mais criativos
A Semana de Arte Moderna e mais interessantes da histó-
de 1922 gerou a antropofagia ria da humanidade. Gostamos
cultural, que era exatamente da desorientação na estética:
assim, e produziu um Bin percebê-la já é uma maneira
Laden brasileiro chamado de superar a própria deso-
Macunaíma, um herói sem rientação. Cientistas e artistas
caráter algum. Esse movi- sabem disso há muito tempo.
mento se baseava em uma Picasso, depois de conhecer
liquidificação antropofágica a arte africana, percebeu que
das culturas do mundo. o objeto pintado não deve ser
Aí volta o nosso Chacrinha, olhado de um só ponto de
que dizia: “Eu organizo tudo, vista, pelo contrário: fazen-
porque se não estiver organiza- do-se várias voltas, obtém-se
do não dá para desorganizar.” uma imagem multifacetada.
Delaney percebeu isso com o
O jazz no fundo das simultaneísmo e o futurismo;
nossas almas o ponto e a linha de Kandinsky
Dentro disso, podemos ima- foram pintados assim. E a músi-
ginar que essa é a ordem do ca de Erik Satie também surgiu
próprio universo: cataclismos de observações desse tipo.

(131)
Monografia

Ou seja, mais importante que que se faz necessário pensar


superar a desorientação é sa- que não somos nem bons nem
ber conviver com ela e saber maus, nem belos nem feios,
se aproveitar dela, incorporan- mas as duas coisas ao mesmo
do novos pontos de referência, tempo.
novos fatores, para gerar uma Não existe, felizmente, aquela
nova pseudo-estabilidade es- ordem aceita pelos totalitaris-
tética. Até que a estabilidade tas que fundamentou impérios,
fique chata de novo e seja fascismos, despotismos: isso
quebrada outra vez. terminou. Não existe lugar
Primeira constatação: nessa no espaço para tal coisa.
nova estabilidade não existe Reconhecer essa instabilidade
estabilidade. Quanto mais a é deixar fluir o jazz que existe
gente se aproxima das dife- no fundo das nossas almas.
renças, tão mais a gente se Citando De Masi, “o que difere
aproxima de um denominador um sonhador de um criativo é
comum, que é o essencial. Nós a capacidade que um criativo
somos feitos exatamente das tem de concretizar a fanta-
mesmas partículas de carbo-
no, como muitos já percebe- sia”. Curiosamente, dentro
ram. Existem bancos cujos desse critério, também pode-
investimentos se baseiam no ríamos pensar, radicalizando,
ecossistema e na economia que Hitler era um criativo e
auto-sustentável. Mas, antes Proust, antes de as Memórias,
de imaginar que todo o mundo não o era. Mas não é bem
encontra-se coeso na idéia assim. O que acontece é que
da sobrevivência, temos de o criativo não é bom ou mau,
lembrar que há ainda a quarta mas apenas o que cria algo do
pessoa do singular: alguém nada. Como o Deus judaico-
que resolve ser uma bomba -cristão: Deus é bom? Deus é
eterna. mau? Deus é bonito? Deus é
Então, essa nova estabilidade feio? Não: Deus é Deus.
estética é principalmente a Talvez estejamos inaugurando
constatação do efêmero, da um novo período, hamletiano,
não estabilidade, da multipli- que nos indica a dúvida como
cidade dos sensos. Acho que estética, e a tarefa é integrar
estamos em um momento em o sentir e o pensar.

(132)
Monografia

O que é a publicidade? No trabalho que venho tentan-


Esse discurso, muito preten- do desenvolver na minha vida
sioso, é a base para eu falar da — dos 18 anos de idade até
atividade da qual eu entendo hoje, aos 50 —, busco uma
um pouco, a publicidade. A publicidade que seja visivel-
publicidade é vista, de um mente atrelada à cultura po-
lado, como um dos males do pular. A partir disso, fazendo
capitalismo — coisa que não esse trabalho no Brasil, eu
acho que seja — e, por outro desconheço qualquer moda
lado, como uma atividade ex- que tenha sido ditada pela
tremamente criativa. Também globalização.
não acho que chegue a tanto. Eu acredito sinceramente em
Em alguns lugares é visivel- conceitos globais voltados
mente mais bem-feita — caso para a comunicação local. Isso
do Brasil, da Inglaterra e dos que eu tento buscar em meu
Estados Unidos —, mas, na trabalho é a capacidade de
maioria dos países, é muito surpreender, de raciocinar de
mal desenvolvida e, por esse forma inversa, de olhar o outro
motivo, acaba por exacerbar lado das coisas, de perceber as
os preconceitos contra ela. coisas de uma maneira jamais
A primeira coisa que se deve antes percebida.
pensar é que a publicidade
não é arte e não é manifesta- Trabalhar numa empresa
ção de opinião: é a manifesta- pós-industrial
ção da opinião dos produtos. Em meu ramo de atividade, é
Mesmo não sendo arte, ela fundamental fazer um trabalho
utiliza componentes da arte brilhante e, para isso, é preci-
para se expressar. E, não ma- so pensar também na estética
nifestando opiniões, ela não do próprio negócio. Em 1986,
pode ser vanguarda, porque a quando criei a W/Brasil, eu
primeira busca da publicidade decidi que nós não teríamos
é pelo entendimento, o que a salas — nem mesmo eu, o
arte não busca em princípio. presidente da empresa — e
Então, a publicidade não pode que os espaços seriam todos
ser vanguarda, mas pode estar abertos, com uma cadeira para
colada no pára-choque poste- mim na mesa de cada pessoa
rior da vanguarda. que trabalha na empresa.

(133)
Monografia

Assim, eu poderia trabalhar absolutamente adorável ou


com elas. Então, eu não tenho totalmente insuportável.
uma sala: tenho cadeiras. E Oliviero Toscani considera pu-
ando pela agência, de cadeira blicidade uma atividade muito
para cadeira. ruim. Eu tendo a concordar
Ta m b é m d e c i d i m o s q u e a com ele, porque a publicidade
condução do que eu chamo italiana, ao contrário da moda,
de “astral” seria outro ponto do design, da arte, da música,
importante, mais importante da literatura, tomou outro ca-
até do que a administração minho. Quando ele fala que
da caixa. Nós trabalhamos a publicidade italiana é um
com o dinheiro de terceiros e, monte de lixo com um pouco
sem dúvida, temos de ser res- de Chanel borrifado por cima,
ponsáveis, mas é fundamental tendo a concordar. Mas não
gerenciar um componente bá- tem de ser necessariamente
sico que é a matéria-prima de assim, e essa é a nossa busca.
nosso negócio: a alegria. Em uma publicidade bem-
Eu fiquei muito impressiona- -sucedida, parece que não há
do com meu grupo no período autores, mas sim que o pró-
em que eu estive afastado da prio produto a gerou. É como
agência por motivos de força se uma determinada frase ou
maior. Naqueles três meses, a imagem não pudesse existir se
agência conseguiu manter a tal não estivesse ligada especifi-
matéria-prima, a alegria. camente àquele produto.
Eu brinco com isso, dizendo Por essa razão, apesar de
que liderar é saber a hora de gostar muito quando meus
servir o sorvete. Eu faço isso colegas publicitários elogiam
claramente nos momentos de meu trabalho, é que eu gosto
alta tensão na empresa, em que mais ainda quando uma dona
todo mundo está trabalhando: de casa comenta o meu traba-
mando parar tudo para servir lho. Festival e premiações são
sorvete a todos. Isso faz parte insignificantes se comparados
do nosso negócio, faz parte de à reação do público. Essa re-
uma coisa que eu quero, que ação é fascinante porque nos
gosto de fazer e deliro fazen- indica o caminho, nos faz
do. Minha atividade só pode prestar atenção no universo
ser uma destas duas coisas: das possibilidades e novidades

(134)
Monografia

que existem. Acho o “politi- estética, na economia, na polí-


camente correto” muito chato, tica ou em qualquer área.
mas, por outro lado, a falta de
educação é inadmissível. Em
meio a isso está o que chamo
Washington Olivetto é publicitário. Re-
de “politicamente saudável”,
uma declaração de amor à vida cebeu 54 Leões no Festival Internacional
que tem de existir em qualquer de Publicidade de Cannes. Fundador e
orientação ou desorientação na presidente da W/Brasil.

(135)
Monografia

A governança da desorientação
Antonio Calabrò

A traição dos Da desorientação cias atuais, experi-


intelectuais na economia à mentando indagar,
Gostaria de começar desorientação na exatamente como
com uma pilhéria política. A crise
tinha feito na déca-
de Ennio Flaiano: da de 1930, sobre a
da confiança na
“Estamos em um pe- relação entre a pro-
ríodo de transição, onipotência do dução intelectual, o
como sempre.” Dito mercado nos obriga poder e o mercado.
isso, posso concluir a repensar uma E provavelmente,
minha análise sobre e outra, com a com o mesmo rigor
a desorientação, atenção nos longos com que havia dis-
porque estamos dis- períodos e no tinguido a primeira
cutindo sobre uma equilíbrio global. pesquisa, escreveria
condição normal que hoje existe uma
da aventura, da história e da segunda traição dos clérigos,
economia humana. que a profissão do intelectual
Por outro lado, para entender está ligada às orientações do
melhor, sou ajudado pela in- mercado e de quem o gover-
trodução do livro de Bauman, na, e que os intelectuais não
Modalità liquida, que começa possuem nenhuma capacidade
com uma frase de Paul Valéry: crítica. Julgamento um tanto
“Interrupção, incoerência e s e v e r o d e m a i s p o r q u e , s e
s u r p r e s a s ã o a s c o n d i ç õ e s quiséssemos bancar os oposi-
normais da nossa vida. Pode, tores de plantão, poderíamos
pois, a mente humana dominar ir até à livraria e descobrir
aquilo que criou?” facilmente uma enorme pro-
Se ainda fosse vivo, Benda dução intelectual que é abso-
provavelmente escreveria um lutamente antagônica, muito
outro Tradimento dei chierici, crítica, atenta, carregada de
adaptando-o às circunstân- dúvidas e de perplexidades,

(136)
Monografia

desorientada sob certo ponto antes do 11 de setembro, ou


de vista, mas em busca de desde a metade da década de
orientação. Alguns títulos: o 1990, uma consistente reflexão
texto de Stiglitz sobre o mun- crítica e autocrítica do pensa-
do imperfeito (não por acaso mento econômico, político e
Stiglitz ganhou o Nobel por sociológico sobre quais são as
isso), ou os últimos dois livros condições do mundo em que
de Amartya Sen, Lo sviluppo è vivemos e sobre quais são as
libertà e Globalizzazione e li- regras da transformação.
bertà. No primeiro, aquele “è” Não citei autores italianos
faz coincidir os mecanismos para não arriscar facciosida-
do crescimento econômico e des estranhas ao debate muito
do desenvolvimento em geral vivo sobre os alinhamentos
com os sistemas de liberdade, intelectuais, porém gosto de
em um jogo de inter-relação relembrar um livro que havia
muito bom, mas bastante crí- marcado o crescimento da
tico. Também a ex-mulher de consciência do mundo econô-
Sen, Martha Nussbaum, escre- mico em relação aos fenôme-
veu um livro bem interessan- nos críticos da globalização:
te, Sviluppo sociale e dignità Lo sguardo dell’altro. Reúne
umana, insistindo na passagem uma série de ensaios encomen-
do conceito de indivíduo para dados pelos jovens empreen-
o de pessoa, recuperando, dedores da Confindustria, por
assim, não somente uma larga ocasião de uma convenção em
fatia da cultura liberal, mas 2001. Ele coloca o problema
também parte da católica, in- da globalização, da governan-
felizmente deixada, sob esse ça da globalização e de como
aspecto, confinada num canto. as empresas podem estar no
Por outro lado, penso em Daly, mercado levando em conta a
que nos lembra a diferença complexidade dos fenômenos
entre crescimento econômico em que estão inseridas. Lo
e desenvolvimento em geral, sguardo dell’altro significa
ou também nos últimos dois uma atenção particularmente
livros de Bauman. Existem, solícita, não apenas às gran-
em suma, muitas contribui- des categorias da economia,
ções excelentes para nos mos- mas também ao conjunto das
trar que está em curso, desde questões ligadas àquela pas-

(137)
Monografia

sagem, citada por Nussbaum, crescimento pelo PIB, mas


de indivíduo a pessoa, de dentro dele não existe uma
sujeito econômico a titular de série de coisas importantes
direitos. como, por exemplo, as dife-
renças de desenvolvimento
Palavra-chave: governança dentro de cada país. Para
Há uma palavra-chave naquela entender melhor, basta pegar
coletânea de ensaios, que ocor- nas mãos uma bela análise de
re um pouco por toda parte: Bob Kennedy, da metade dos
governança. Governança não anos de 1960, na qual dizia
significa apenas “governo”, é que o Gross Domestic Product
um raciocínio sobre as regras e (GDP), o PIB norte-america-
também sobre os reguladores, no, mede muitas coisas, como
isto é, sobre todos os atores so- a capacidade de gerar rique-
ciais que têm a ver com os po- zas, mas que dentro de GDP
deres, as instituições e o mer- também estão os proventos
cado. A palavra governança é da indústria pornográfica e
aquela que melhor nos ajuda da indústria de armamentos,
a entender os fatos que lemos ou seja, os resultados de uma
diariamente nos jornais, se série de negócios e transações
falamos de déficit público, de dos quais a população não
crise na Nasdaq, de Corte pe- pode se orgulhar, enquanto
nal internacional, de confron- ficam fora do GDP grande
to comercial Europa-EUA, de parte daqueles elementos que
desenvolvimento sustentável – segundo Kennedy – fazem o
e por aí afora. Esse discurso norte-americano sentir orgu-
sobre a governança, as regras e lho de seu país. Um conceito
os reguladores é fundamental, impactante, certamente, mas
porque, de outro modo, não que centralizava uma questão
conseguiremos mais racioci- fundamental, de extrema atua-
nar sobre os mecanismos de lidade ainda hoje: exatamente
desenvolvimento; poderemos, aquilo que a ONU chama de
no máximo, falar dos meca- “desenvolvimento humano”,
nismos de crescimento. cujo “índice” foi definido com
Eis uma diferença funda- a contribuição de Sen e de
mental, que nos permite Nussbaum.
uma reorientação: mede-se o Então, como se mover em

(138)
Monografia

direção ao desenvolvimento discute-se muito sobre o


e como enfrentar a questão da final da história: termina a
governança? Como enfrentar, história dos conflitos, aquela
sob esse ponto de vista, o tema que conhecemos, e começa a
da desorientação? euforia ligada à capacidade
espontânea dos mercados
O final da história de criar riqueza. O mercado
Para entender melhor, é pre- pode regular tudo com a sua
ciso retroceder um pouco, até mão invisível; o mercado
1989, ano-chave das trans- coloca as coisas nos seus
formações. Cai o Muro de lugares e a política deixa de
Berlim, termina o equilíbrio ter importância.
bipolar, a democracia liberal A política, de fato, é o sis-
de mercado se afirma como tema de mediação dos con-
modelo vencedor, o capita- flitos, mas o conflito radical
lismo tecnológico avançado não existe mais. Assim, a po-
se conecta aos instrumentos lítica não adianta mais para
da democracia, único modelo nós; também não nos adianta
vencedor, porque mais forte, a sociedade civil. Recupera-
porque permite um cresci- -se até o fio do pensamento
mento e um desenvolvimen- thatcheriano, segundo o qual
to maiores, porque é aquele a sociedade civil não existe e
que libera mais energias registra-se o triunfo do mer-
e serve de referência para cado, da economia e, então, o
as ambições, os sonhos, os triunfo da globalização, que
protestos, mas também para é considerada um fenôme-
os mecanismos de emulação no positivo, incontrolável,
do resto do mundo. Quando produtor de conseqüências
cai o Muro e define-se esse boas para todos, no mundo
m o d e l o v e n c e d o r, h á u m a inteiro.
grande festa feita pelos ven- Em suma, justamente no
cedores, porém com um fio momento em que caem as
de desalento percebido pelos ideologias, estamos diante
observadores mais atentos: o de uma dimensão pacifista
fim do inimigo põe em crise do desenvolvimento, isto é,
radical a identidade. de uma reproposição ideoló-
Em meio a essa euforia, gica da função de elementos

(139)
Monografia

que, por outro lado, devido a cidade. Nós a descobrimos


sua natureza, toleram pouco agora, com o desinflar da bo-
a ideologia: ou seja, a econo- lha especulativa dos mercados
mia e o mercado. financeiros e com o rumo da
Assim, nessa condição, se- recessão americana. Contudo,
guiu-se adiante em todo o n u n c a d e v e r í a m o s n o s e s-
percurso dos anos de 1990, quecer disso. Infelizmente,
esquecendo-se de quatro a amnésia difusa foi ajudada
c o i s a s f u n d a m e n t a i s r e f e- por alguns dos elementos
rentes à economia e à política negativos da comunicação: o
econômica. excesso de informações mal
selecionadas, a atitude enga-
As quatro regras nosa de favorecer o público, a
A primeira dimensão é conhe- tendência à falta de crítica na
cida por qualquer estudioso leitura dos fenômenos e o fas-
de economia como regra fun- tio com que são tratados todos
damental: não existe alimen- aqueles que dizem: “Desculpe,
to grátis, tudo tem custo e mas realmente não concordo
preço. com isto.”
A segunda é que a economia O terceiro elemento a ser lem-
é cíclica. Na década de 1990, brado é que os mercados pre-
já estávamos na longa onda de cisam de regras: um mercado
crescimento dos anos de 1980, não é uma arena de guerra,
com os sucessos de Reagan e é a arena do intercâmbio, da
de Thatcher, enquanto, para competição entre atores e da
muitos, era como se a cicli- mediação entre as diversas po-
cidade tivesse desaparecido, sições e diferentes interesses.
juntamente com a história. As regras atuam de forma
Há gerações que nunca viram que os atores do mercado
uma recessão e pensou-se que partam em condições de uma
a modificação das característi- não evidente desvantagem de
cas de produção da economia muitos para uma vantagem de
– a internet, a tecnologia poucos: caso contrário, não
da informação e a economia teríamos um mercado e sim
virtual – fosse o fim de uma um autêntico faroeste, caso a
condição estrutural da própria competição não tivesse regras
economia, isto é, de sua cicli- e as tendências monopolistas

(140)
Monografia

fossem favorecidas sem limi- se introduzem dois conceitos


tes. O mercado – conforme foi fundamentais: a flexibilidade
sustentado com extrema cla- é uma questão de escolhas, de
reza pelo pai do liberalismo, políticas, ao passo que a refor-
Adam Smith, – não é fenômeno mabilidade depende das orien-
natural, é fenômeno artificial, tações que queremos dar-nos
fundamentado em um contrato em um momento em que todas
que liga os indivíduos, indu- as coisas se transformam muito
zindo-os a se comportarem rapidamente.
de um certo modo e não de Essas quatro regras sempre
outro. O mercado sem regras estiveram presentes na econo-
não é mercado. Essa dimensão mia, inclusive na primordial,
também foi esquecida, porque embora restringidas. Com uma
no mesmo instante em que diferença em relação aos dias
ideologizamos o mercado, o de hoje: a variante que ora
desvinculamos das muitas re- nos faz falar de desorientação
gras e lhe conferimos a tarefa e dificuldade de interpretação
de produzir, espontaneamen- – o tempo. Os fenômenos são
te, tanta riqueza para muitos, muito mais acelerados e rápi-
prescindindo das regras e da dos. Devido à velocidade dos
política e, assim, fazendo com processos, das inter-relações
que desempenhasse uma pro- e dos intercâmbios, a globa-
fissão que não é a sua. lização que vivemos agora é
A quarta regra a ser lembrada diferente da antiga globaliza-
é que o capitalismo é a estru- ção mediterrânea, que durou
tura produtiva e social mais até 1492.
flexível e mais reformável que O Mediterrâneo era um grande
pode existir. A melhor que já mar de globalização, no qual
conhecemos até hoje e que todos comercializavam com
provavelmente conheceremos todos. Contudo, a nossa glo-
por muito tempo, aquela que balização é mais ampla, mais
foi historicamente capaz de complicada, mais carregada de
sobreviver a todos os seus contrastes e de contradições:
adversários, que derrotou assim, há mais necessidade
quem estava do outro lado de governança. A bem pensar,
do muro justamente porque todas as guerras que marcaram
é flexível e reformável. Aqui o Mediterrâneo foram guerras

(141)
Monografia

em busca de governança. O infinita é exatamente isso. O


Império Romano é um grande crescimento da globalização
autor de governança, se lido incrementa essa riqueza e
sob certo ponto de vista: a ex- impele, para fora da soleira
tensão da cidadania romana e da pobreza e em direção a
a difusão da “romanidade” têm uma melhor condição econô-
a ver com as leis e a língua, mica, milhares de pessoas nos
logo, com duas “estruturas” chamados países do Terceiro
disciplinadoras. Mundo ou nas áreas em vias
de desenvolvimento, que são
Não há alimento grátis atores de processos de cresci-
A experiência direta desses mento bastante avançados.
anos nos confirma como, na Há, porém, um dado que,
ausência de políticas correti- no decorrer desses anos, foi
vas, mais aumenta a riqueza minimizado: o processo de
e mais aumentam as diversi- produção de riqueza nas mãos
dades. Com efeito, tivemos de uma sociedade que repre-
um aumento consistente da senta um quinto ou 20% da
riqueza sem, porém, termos população mundial, com os
enfrentado nesses anos o 80% restantes permanente-
problema-chave de sua re- mente de fora.
distribuição entre os diversos Na África, há 800 milhões de
países e dentro das socieda- pessoas que vivem em condi-
des mais ricas e sofisticadas. ções desesperadoras; metade
Assim, uma dupla diversida- dessa população ganha menos
de: interna e externa. Uma de um dólar/dia, e a expecta-
outra ilusão consiste na idéia tiva de vida raramente supe-
de que ainda pode existir um ra os 50 anos. Das 50 nações
Eldorado a ser conquistado. mais pobres do mundo, 34 são
Os seres humanos sempre africanas. Então, a África é
alimentaram a ilusão de que um problema e não somen-
haveria uma riqueza pronta te para nossa consciência.
para todos: é uma carac- Sinceramente, creio pouco na
terística inextinguível da consciência. A benevolência
nossa condição humana. A é um dos piores males da
confiança na capacidade da análise econômica e política.
internet de produzir riqueza Creio muito, em vez disso, na

(142)
Monografia

lição de Adam Smith sobre o vimento. Ou seja, as áreas


interesse. gordas do mundo subvencio-
Basta propor uma conta nam agriculturas que não têm
muito simples, relembrando nenhum espaço produtivo par-
como – para reduzir à meta- ticular e que vivem somente
de o número de pessoas que porque as barreiras estão
morrem de fome – bastariam fechadas. Existe o protecio-
24 milhões de dólares/ano, nismo e existe o subsídio, que
equivalentes a dois por cento é uma forma de protecionismo
do PIB italiano. Para todos, indireto.
então, 11 centavos de euro/ Aqui, abre-se uma contradi-
dia. Uma miséria! ção clara, imediatamente re-
Por que não gastamos essa levada pelos países em vias de
quantia? Em parte, porque desenvolvimento: “Fecham as
somos egoístas ou desatentos, fronteiras aos nossos produtos
mas, por outro lado, porque e impedem-nos de crescer.
nos escapa a relação estreita Depois pregam a necessidade
entre o desenvolvimento das de crescer. Como podemos fa-
áreas fracas do mundo e a zer isto se justamente vocês,
nossa segurança. Sobretudo, os defensores da economia de
escapa-nos a relação entre mercado, da globalização e dos
a nossa condição de conforto intercâmbios, são os primeiros
de vida e as condições incô- a fechar seus mercados?” Um
modas às quais condenamos julgamento severo sobre uma
populações das áreas mais contradição autêntica, que po-
carentes do mundo. deria até mesmo ser denuncia-
da pelos países da OCDE, mas
Faça o que eu digo, mas que, particularmente neste
não faça o que eu faço momento, refere-se sobretudo
Mais um dado: os países da à política dos Estados Unidos
Organização para Cooperação em alguns setores: agricultura
e Desenvolvimento Econômico e aço. Assim, estamos diante
(OCDE) gastam 347 bilhões de de uma daquelas questões
dólares em subsídios agríco- radicais do desenvolvimento
las, o dobro do que gastam contemporâneo, exatamente
para financiar a ajuda aos diante de um problema de
países em vias de desenvol- governança, das regras do

(143)
Monografia

comércio internacional, da que mantém fechadas as suas


abertura real dos mercados, da fronteiras a muitos produtos
possibilidade para os países dos países da margem árabe
em vias de desenvolvimento do Mediterrâneo, subven-
de comerciar para superar as cionando, ao mesmo tempo,
suas condições de subdesen- a sua economia agrícola es-
volvimento. banjadora, assistencial, em
Não é uma questão de huma- certos casos até um tanto
nidade. Mas também, egoisti- caloteira ou, de certa forma,
camente, de segurança. descontraída. Em suma, nós,
Reflitamos sobre o ataque europeus, temos um problema
terrorista aos Estados Unidos, aberto a respeito da margem
sobre o 11 de setembro e as árabe, isto é, um problema de
Torres Gêmeas. Logo nos en- segurança, mas não movemos
contramos diante de algumas um dedo para enfrentar a
questões-chave. Relembro questão fundamental da utili-
uma piada mordaz do pre - zação dos recursos europeus,
sidente do Banco Mundial: como a política agrícola, que
“Sem conseguir enfrentar os leva consigo metade, ou até
temas da pobreza do mundo, mais, dos recursos comuni-
nunca conseguiremos eliminar tários. Pregamos aos países
o terrorismo internacional.” da margem árabe o cresci-
Sabe-se que Bin Laden não é mento segundo as lógicas do
um defensor dos pobres e que capitalismo moderno, mas os
existe, porém, um cenário de ajudamos muito pouco, não
hostilidade, de prejuízo, de com subvenções, mas abrindo
crise, de falta de reconhe- a eles os nossos mercados.
cimento das “qualidades” Isso sem entender um dado
ocidentais por parte dos essencial: quanto menos cres-
países mais fracos. Sabemos cem economicamente e, dessa
como estes procuram crescer forma, social e politicamente,
em relação aos países mais mais corremos o risco de ali-
ricos, que têm um discurso mentar fenômenos distorcidos
dissociado da ação. Sabemos, como as migrações em massa
por outro lado, como ao mau para o Ocidente e a rancorosa
exemplo que vem dos EUA se hostilidade fundamentalista
poderia somar o da Europa, islâmica.

(144)
Monografia

Quem paga, manda. do Fundo estão ligados à in-


Como enfrentar realmente, por- capacidade dos seus analistas
tanto, a indispensável questão ou a uma série de opções que
da luta contra o terrorismo, favorecem certos interesses
sem limitar-se aos “ventos de em lugar de outros? Uma
guerra”? Aqui, retornam ao resposta interessante pode
primeiro plano as questões da ser encontrada se olharmos as
governança. Ou conseguimos contribuições para o FMI: seu
enfrentar a reforma do Fundo maior contribuinte é o Tesouro
Monetário Internacional (FMI), Americano, que arca sozinho
da Organização Mundial do com 18% de suas contribui-
Comércio (OMC), do Banco ções. Ora, quem paga, manda.
Mundial e de algumas insti- É uma velha regra econômica.
tuições da Organização das O FMI não funciona como um
Nações Unidas (ONU) para órgão harmonizador no quadro
fazer os países mais pobres de uma genérica composição
crescerem, ou jamais sairemos de interesses internacionais,
dessa ratoeira de uma riqueza move-se sobretudo de acordo
concentrada e de um rancor com os interesses do Tesouro
que monta e produz álibis até Americano. Uma escolha
em relação a quem, como Bin totalmente legítima: tem ra-
Laden, tem a ver com a guer- zão o Fundo e tem razão o
ra do petróleo e com os fatos Tesouro Americano. Se tudo
internos da casa real saudita, isso não nos agrada, encare-
mas não com os pobres. mos então o problema, como
E em relação à governança na Europa, de quanto custa
e às reformas é preciso lem- pagar uma contribuição maior
brar-se novamente da velha para poder ter voz no capítulo
regra segundo a qual não há sobre as intervenções do FMI.
alimento grátis. Novamente: se paga, manda e
Tomemos o caso do FMI, para governa; se não paga, não. Mas
o qual foram direcionadas a questão das diversidades tem
muitas críticas: responde aos a ver, também, com as políti-
interesses dos americanos, cas internas que permitem o
funciona mal, errou os cál- crescimento de cada país, por
culos com a Argentina, etc. exemplo sobre a relação entre
Pergunto-me, porém: os erros as novas gerações e o mercado.

(145)
Monografia

Está ligada, por outro lado, aos em uma condição de incerteza


profundos sistemas de refor- que modifica radicalmente não
ma para poder enfrentar não apenas o cálculo do risco, mas
somente as transformações o próprio jogo das expectativas
econômicas em curso, mas que, para a economia, é funda-
também a condição estrutural mental. E estamos registrando,
de incerteza na qual estamos nessa fear economy, uma que-
vivendo. da psicológica na incerteza,
conseqüência estrutural de
Fear economy uma série de decisões que
Paul Krugman escreveu recen- tomamos.
temente um livro fascinante, Dou um exemplo para entender
em que define o estado atual o mecanismo. Anos 80 e 90,
da economia americana como liberações apresentadas, out-
fear economy, economia do sourcing, grandes concessões
medo, fazendo uma interes- no mercado. As companhias
sante distinção entre a cate- aéreas americanas delegam ao
goria do risco, que é normal exterior uma quantidade de
em economia (o capital é um serviços, incluindo os servi-
fator de risco, chama-se tam- ços de segurança. Quem quer
bém “capital de risco”), e a que conheça os aeroportos
incerteza. americanos sabe que o pes-
O risco é mensurável, ao soal da segurança geralmente
contrário da incerteza. é negro ou latino-americano,
Mensurável, certamente, de de imigração recente, mal
maneira aproximada, mas pago, com poucas perspecti-
mensurável. Qualquer bom vas profissionais. Delega-se,
economista, qualquer hábil portanto, um aspecto delicado
e m p r e e n d e d o r, q u a l q u e r e oneroso como o da seguran-
analista financeiro sabe ler ça, a estruturas profissionais
um business plan e calcular pouco especializadas, pouco
a margem de risco envolvida. seguras, a pessoas às quais
No entanto, porém, não existe não importa prestar, em troca
a margem da incerteza: estru- daquele salário, um serviço
turalmente existe a incerteza, de alta qualidade. Também
que não é mensurável nem ve- aqui valem as velhas regras:
rificável. Todos estamos, agora, a salários altos e incentivos

(146)
Monografia

claros correspondem serviços retorna em primeiro plano,


elevados, mas não podem exis- são dimensões fundamentais
tir prestações de serviço altas para reencontrar uma orien-
com salários baixos. tação. Convém, pois, deslocar
É preciso sempre ter claro que o debate da desorientação na
a beleza da economia é possuir economia para a desorientação
uma robusta solidez e concre- na política.
tude. A dimensão da segurança
dos aeroportos americanos nos Crises de confiança
dá o sentido da crise interna Um outro elemento de reflexão
de um processo de liberação são os mercados e as regras.
que é administrado não segun- A propósito dos escânda-
do lógicas de longo prazo, mas los financeiros, de Enron
especulativamente em termos à Wo r l d c o m , o Wa l l S t re e t
de curto prazo. Diz-se: “Tudo Journal publicou que desde
aquilo que é de mercado, livre, os tempos da Grande Recessão
aberto e competitivo, funcio- de 1929 não se viam tantas re-
na”; não é verdade, nem tudo, gras infringidas nos mercados
nem sempre, a começar pela americanos. A lista é imensa.
segurança dos aeroportos. A fina flor das grandes em-
Não por acaso, no dia seguinte presas americanas foi tocada
ao ataque terrorista às Torres pela onda dos escândalos.
Gêmeas, um dos jornais mais E não podemos liquidar a
próximos da comunidade em- questão falando de empre-
presarial americana, Business sários liberais, corruptos e
We e k , p u b l i c o u u m a c a p a embusteiros. Há uma crise de
muito bonita sob o título modelo, gigantesca, que revela
"Rethinking the economy" o mau funcionamento dos sis-
– repensemos os modelos da temas de controle, a corrupção
economia. A chamada da capa difundida, a avidez, os efeitos
insistia em uma forte reava- negativos da ideologização da
liação da política, isto é, do função dos empresários e a
instrumento geral que governa queda dos ídolos (mas os ído-
– novamente a governança – os los estão sempre destinados a
grandes percursos econômicos. cair e, então, justamente toda
Aquela reconsideração sobre a consciência leiga desconfia
economia, aquela política que profundamente disso).

(147)
Monografia

Peguemos novamente nas fato de que aqueles calçados


mãos a revista Business Week: possuem forte conteúdo imagi-
a questão-chave – prossegue nário, são belos e funcionais,
o autor – não é econômica, é fazem sonhar, gozam de forte
política. Trata-se de restaurar suporte comunicativo e pu-
a confiança; não há mercado blicitário; pena, no entanto,
que possa crescer sem um que sejam feitos por crianças
dado fiduciário forte, não há que trabalham em condições
intercâmbios possíveis se eu desastrosas. A ética, na eco-
não souber se o meu interlocu- nomia, conta. E ai de quem
tor é ou não um trambiqueiro. não levá-la em consideração.
Ou, se for, que seja punido, A ética e os balanços. Se a
banido, posto para fora da Walt Disney não tiver suas
comunidade dos intercâmbios contas perfeitamente em dia,
e do mercado. a Bolsa de Wall Street a puni-
Essa necessidade de recupe- rá. Em suma, a economia, no
ração da confiança impõe uma final, se vinga das abstrações
capacidade de reforma: pode- feitas: é um bom indício de
-se brincar quanto se quiser orientação.
com os fatos econômicos, mas Voltemos a raciocinar sobre
depois as coisas voltam aos as dimensões estruturais da
nós fundamentais, à qualidade. economia. Damo-nos conta de
E a qualidade deve ser respei- que o problema do crescimen-
tada, não só para os produtos to norte-americano e europeu
financeiros ou para os serviços não é apenas o de refazer os
da Internet, mas também para cálculos com a concretude
os produtos das marcas mais das coisas, mas também de
sólidas, mais difundidas, bem começar a enfrentar algumas
radicadas nos hábitos de con- questões estruturais da crise.
sumo. A crise do McDonald’s, Da crise de confiança. E da
por exemplo, tem a ver com crise mais estreitamente eco-
a tomada de consciência, por nômica e política.
parte de muitos consumido-
res norte-americanos, de que O superdólar
aquele bolinho de carne não é A economia americana foi er-
tão bom como dizem. Grande guida sobre um desequilíbrio
parte da crise da Nike vem do – sanado provisoriamente

(148)
Monografia

– entre uma balança comer- internacionais por parte de


cial deficitária e um balanço um mercado financeiro, em
de pagamentos fortemente parte, funcional e, em parte,
ativo: um afluxo de capitais sonhador. Mas também a im-
externos compensava seu posição, sob forma de compa-
defluxo de capital para pagar ração monetária, da função de
suas importações. A chave de domínio dos EUA nos proces-
tudo foi, durante longo tempo, sos internacionais. Um domí-
o superdólar, que correspon- nio fundamentado não tanto
dia a uma política externa e não apenas na capacidade
que apresentava os Estados expansiva dos EUA, mas em
U n i d o s c o m o ú n i c a s u p e r- uma forte carência de outros
potência. Ora, aquele dese- grandes atores, de outros for-
quilíbrio revela, hoje, toda a tes reguladores dos problemas
sua fragilidade. O buraco da do mundo.
balança comercial que os nor- Pois bem, os EUA bancam a
te-americanos mascararam até superpotência internacional
ontem, hoje é muito visível e por própria tentação, mas
alarmante. Os buracos não também por efeito natural de
podem ser eliminados, podem um processo de compensação
apenas ser mascarados duran- do vazio alheio. Ficam, então,
te certo período, camuflados, mais expostos que os outros
compensados provisoriamente. às críticas e às contestações,
Mas as realidades macro-eco- no centro de um mecanismo
nômicas cedo ou tarde impõem de contradições e de reivin-
a sua verdade. E é preciso ter dicações, como revela o 11
a coragem para enfrentá-las. de setembro e como se teme
O superdólar, dizíamos, se que acontecerá ainda por
desinfla. E abre uma outra longo tempo. Diante de tais
questão – novamente política tensões, os EUA não mostram
– do reequilíbrio das políticas uma clara linha estratégica de
internacionais em relação às comportamento. Oscilam entre
políticas econômicas. a inteligência de um indispen-
O que era o superdólar? Não sável equilíbrio internacional
somente o efeito da distorção multilateral (EUA e também
da qual falamos, da capaci- Europa, Rússia e China), no
dade de atração de capitais quadro de uma busca a cada

(149)
Monografia

vez mais amplos consensos identidade. A crise ideológica


internacionais, conforme torna paupérrima a política
confirmou a política externa dos EUA e fragilíssimo o seu
estabelecida por Bush na sistema de segurança. Coloca
campanha no Afeganistão. A também, para a Europa, nu-
política desses últimos me- merosas questões: O que é a
ses é absolutamente fechada União Européia? Que política
e unilateral: somos policiais possui? Qual o seu papel como
do mundo, vamos aonde bem ator internacional? Cresce? Ou
entendemos, fazemos aquilo retroage? Em suma, de que
que consideramos mais útil modo ajuda a orientação de
para os nossos interesses, nós, europeus, particularmente
continuamente derrubamos os desorientados?
aliados do cavalo, decidimos a
lista dos países inimigos e pre- Não há moeda sem espada
paramos a guerra, com ou sem Nós, europeus, concretizamos
o consenso dos outros, com ou com sucesso o extraordinário
sem os nossos aliados. Posição processo do euro, seja do
perigosa, naturalmente, que ponto de vista das valências
em longo prazo pode enfra- econômicas, seja daquele das
quecer a América do Norte e, lógicas da política: a moe-
com ela, todas as democracias da não é só um instrumento
ocidentais. econômico, a moeda é um
Essa oscilação do pêndulo en- símbolo. Mas aqui paramos:
tre multilateralismo e unilate- todo o debate sobre a Europa
ralismo, que é uma constante é um debate entre países que,
da política norte-americana, diante de uma série de desa-
nunca foi tão acentuada em fios, todos visíveis e analisá-
um breve período e tão de- veis, depois da moeda única,
sorientada e desorientadora começam a recuar, não sabem
como nesse último período. como se movimentar. Debatem
É como se a política externa sobre o avanço da integração,
norte-americana, ou se quiser- da constituição, do governo
mos dizer isso de outro modo, político europeu. Mas em se-
a política econômica norte- guida, nas decisões concretas,
americana, fosse privada de freiam e reavaliam o poder dos
um centro de referência e de antigos Estados Nacionais.

(150)
Monografia

Contudo, a história nos ensina imigração. Uma questão que,


que não há moeda sem espada, em todo caso, existe e deve
não existe política econômica ser enfrentada em muitos
possível sem uma política aspectos.
internacional, um momento
político que forneça os obje- Repensar a política para
tivos do próprio crescimento governar a economia
em escala internacional. Sob A imigração não apresenta
esse ponto de vista, a Europa, apenas um problema de segu-
mesmo depois de ter criado rança, não é algo que delega-
o euro, é absolutamente ca- mos a um Ministro do Interior
rente. ou a uma autoridade policial
Vejamos o debate em curso eficiente e depois lavamos as
sobre a imigração: não se mãos. É uma questão que se
acha uma linha comum, nem refere ao desenvolvimento, so-
no tema do alargamento até bre o qual é preciso raciocinar
os países do Leste. Trata-se tendo diante de si um quadro
de dois temas fundamentais de grande complexidade.
da nossa política: segurança Dizer: “Ajudamos os países em
e desenvolvimento. Mas, em vias de desenvolvimento lá na
vez disso, estamos diante de casa deles, para que não ve-
um europeísmo compromissa- nham quebrar nosso equilíbrio
do, como Estados Nacionais, aqui, em nossa casa” é dizer
residuais, que afirmam a uma mentira. Qualquer estu-
própria antiga soberania do bem feito sobre as situações
sem conseguir jogar com a sociais e os fluxos migratórios
dupla soberania necessária à demonstra como ao crescimen-
Europa, nacional e interna- to das condições econômicas,
cional, o global e o local. No educacionais e sanitárias, nos
que tange aos medos, tenho países em vias de desenvol-
receio de que, nessa situação vimento, corresponde um au-
de desorientação, prevale- mento nos fluxos de migração
ça, também na Europa, uma e não uma diminuição. Isso
fear economy, uma política significa conseguir adminis-
que não saiba enfrentar seus trar políticas de stop and go de
desafios fundamentais: o do um lado, e políticas bilaterais,
welfare a ser reformado e o da de gente que vem e gente que

(151)
Monografia

vai, de outro; um mercado que Essas são as questões que


funcione em sua circularidade, precisamos enfrentar, obri-
tendo juntamente lógicas de gando-nos a repensar a políti-
desenvolvimento econômico ca para governar a economia:
local, intercâmbios muito novamente uma questão de
fortes no plano internacional, governança.
formação e utilização de recur-
sos dos países dos quais vem a
imigração para fazer crescer os Antonio Calabrò é chefe de editorial do
nossos países e, assim, manter Il Sole 24 Ore, principal diário econômico
os mecanismos constantes. italiano.

(152)
Monografia

A desorientação na ciência
Giuseppe O. Longo

Em outros Chegamos a guardando no corpo


planetas acreditar que a gélido o sangue e o
Com entusiasmo e ciência nos havia esperma de uma raça
desalento sentimos aberto as portas
futura. A espaçonave
nascer em nós e ao irá a outros planetas,
do paraíso, mas,
nosso redor alguma mais obscuros, de
coisa de inaudi- em vez disso, só as lagos profundos, ha-
to: uma Criatura fez lampejar. Há bitados por estirpes
Planetária da qual uma desconfiança anônimas inexplica-
todo ser humano, in- difundida, senão das, povoados por
tegrado em próteses uma recusa, em cidades celestes.
bio-informáticas, relação a uma Naqueles planetas
será uma célula. Este racionalidade que tão distantes, as mu-
superorganismo já se mostrou invasiva lheres não farão mais
possui uma fervente demais. filhos com o corpo,
inteligência coletiva entre jatos e pe-
e destilará sua turva consciên- quenas bolhas. Será criado um
cia: quem é, o que quer, que sistema mais dignitoso e exato,
perguntas se fará, que histórias em sintonia com a precisão da
vai contar esse ser múltiplo e ciência. As nossas insistentes
proteiforme? preces serão ouvidas e nos
Um dia se acenderá na Criatura transformaremos em máquinas:
uma centelha de volição e ela fortes, duras, inoxidáveis.
zarpará em direção às Plêiades: Somente as mulheres de cera
qual certeira espaçonave risca- dos observatórios terão as ca-
rá o cosmo por séculos e séculos vidades amarelas e vermelhas
de escuridão sideral. Dentro, da reprodução. Os úteros aca-
cada qual num ovo de cristal barão nos museus, ao lado de
lapidado, homens e mulheres lanternas mágicas e de dinos-
dormirão um sono profético, sauros embalsamados. Tornados

(153)
Monografia

máquinas, seremos imortais. futuras, os povos vencidos, os


Criaremos um mundo preciso e animais): trágico porque sa-
pontual, onde reinará a demên- bemos que as nossas decisões
cia onipotente dos autônomos. podem trazer conseqüências
Oniscientes e insensatos, nos irreversíveis e irreparáveis.
dedicaremos a uma inócua e Ao contrário, há uma categoria
refinada imitação da vida. de cientistas que se encontram
num estágio mais primitivo, ca-
A crise da ciência racterizado por uma certa falta
Essa premissa, absolutamente de reflexão consciente, e que
imaginária, poderia servir para são levados a observar a regra
temperar um certo excessi- que impõe fazer tudo aquilo
vo otimismo que me parece que se pode fazer; nesse sen-
esvoaçar ao redor de alguns tido, assemelham-se ao homem
setores tecnológicos e tecnófi- primitivo, inconsciente de sua
los da nossa sociedade. Ciência capacidade desestabilizante.
e tecnologia são produtos inte- Se for verdade que por sua na-
lectuais muito importantes de tureza finalista o ser humano é
nosso tempo, porém não estão desestabilizante, existe, então,
isentos de problemas. uma grande diferença ética e
Quando perdemos a orientação prática entre ser consciente e
da ciência? ser inconsciente dessa carac-
No entanto, para termos per- terística.
dido a orientação, é preciso Retornemos à ciência. No iní-
tê-la tido. cio do século XX difundia-se
O conceito de orientação é uma vasta e aplacada sensação
típico da contemporaneidade, de plenitude. Ao menos nas
que vive na consciência. Essa ciências físico-matemáticas
consciência, facilitada pelas parecia-se estar a um passo
discussões, pelos encontros, da meta final: a representa-
pela troca de opiniões e pela ção, descrição e explicação
circulação global de quantida- “verdadeira” do mundo. A
des cada vez maiores de infor- pesquisa científica celebra-
mações, é acompanhada de um va seus triunfos: Marcelin
sentimento trágico da vida, de- Berthelot podia dizer que a
rivado da responsabilidade em química, enfim, já não tinha
relação ao outro (as gerações mais segredos, e Max Planck

(154)
Monografia

estava convicto de que a físi- dia ser muito diferente, mais


ca estava, então, próxima da rica e complexa do quanto
pacífica meta da completude. tinham imaginado.
Permaneciam, obviamente,
alguns detalhes inexplicados, O nascimento da mecânica
como a radiação do corpo ne- quântica
gro, que os instrumentos da Nas primeiras décadas do
física clássica não conseguiam século XX, nasce a mecânica
justificar, mas tratavam-se de quântica, que constitui uma
inércias. Dali a alguns anos, transformação epocal, uma re-
aquela que parecia uma fenda volução de peso incrível não so-
superficial revelava-se o in- mente no campo da física, mas
gresso para o reino inquietan- também no da epistemologia e
te de um novo mundo: parecia da filosofia. Richard Feynman,
que havia sido dimensionada a o grande físico americano,
grande catedral da ciência e, afirma que “não há pessoa que
por hora, nos dávamos conta realmente tenha entendido a
de que só havia sido explorado mecânica quântica” no sentido
o limiar e através daquele obs- em que são entendidas as coi-
curo furo do corpo negro entrá- sas do mundo, como se entende
vamos numa cavidade imensa o nosso estar aqui, com aquele
armados apenas com a luz de imediatismo perceptivo que
uma tocha. Vislumbrávamos preludia reflexões posteriores.
alguns detalhes: aqui os pés Na mecânica quântica tudo é de
de uma estátua, ali a moldura certo modo louco: o objeto e o
de um quadro, mais adiante a sujeito não são mais separáveis
base de uma imensa pilastra como na física clássica; o sujei-
que desaparecia na escuridão to pode preparar o sistema que
de um teto muito longe, mas está estudando para que lhe dê
a arquitetura do conjunto es- respostas, em certo sentido de-
capava. pendentes de sua presença; an-
A ciência tinha entrado numa tes da medida de uma grandeza,
crise que deveria conduzir a aquela grandeza não possui
uma grandiosa revolução con- valor determinado. Parece que
ceitual: daí a desorientação. o mundo é um enorme sistema
Os cientistas começavam a único, pelo qual, se duas partí-
suspeitar que a realidade po- culas interagiram ‘aqui e agora’

(155)
Monografia

serão ligadas para sempre, seja suporte para outro.


qual for a distância em que se Na ordem do tempo, a última
encontrem e interagirão de ime- grande causa interna de trans-
diato, sem retardo temporal. formação da ciência, da física
A implantação conceitual dessa em particular, é aquela deno-
nova visão da física demonstra minada teoria da complexidade
o quão revolucionária é pela ou do caos determinista. Com
circunstância paradoxal de que essa, retornam ao quadro da
um dos pais da mecânica quân- física o tempo irreversível, a
tica, Albert Einstein, nunca a imprecisão e a sensibilidade
aceitou integralmente. às condições iniciais.
Um dos resultados mais evi-
Causas internas da dentes e preciosos dessas re-
transformação da ciência voluções internas da ciência é
Assim, a mecânica quântica que não existem leis fixas, uni-
põe em crise a ciência clás- versais, deterministas, aquelas
sica, partindo de seu interior. leis que os físicos andavam
Um outro elemento dessa revo- procurando na convicção de
lução conceitual, ainda dentro uma subjacente simplicidade
da ciência, é o nascimento da do mundo resumível em uma
teoria da informação, que co- única fórmula capaz de nos
loca no destinatário o sentido permitir o acesso à visão últi-
e o significado das mensagens. ma de Deus ou da realidade.
Quando é trocada a informação, Mas em vez disso, tem-se um
ela se multiplica pelo número coacervo de leis estatísticas,
dos participantes no jogo, ao marcadas pela incerteza e pela
contrário do que ocorre com as indeterminação.
quantidades físicas até então O caos não é devido à nossa ig-
consideradas centrais na ex- norância, que um dia será su-
plicação científica do mundo perada, como pensava Laplace:
(matéria e energia), as quais não, o caos faz parte intrínseca
se dividem pelo número dos do mundo. Quero observar, nes-
participantes. sa perspectiva, que justamente
Por outro lado, com a teoria o computador contribuiu, para-
da informação, determina-se o doxalmente, para que adquirís-
conceito de código, que permite semos uma visão indeterminista
transferir a informação de um do mundo. Essa máquina, na

(156)
Monografia

ingênua visão inicial, devia a escrever à viúva de seu amigo


impor ordem, simplicidade e Besso: “Para nós, que cremos
precisão na enorme massa de nas leis da física, a diferença
dados que iam se acumulando; entre passado e futuro é uma
mas, exatamente pela grandiosa tenaz ilusão”. Hoje, os físicos
capacidade de cálculo, trouxe sabem que também em sua
uma visão complexa, estatística descrição da realidade existe
e indeterminada da realidade. um tempo irreversível: o tempo
Logo, uma máquina que havia reversível da física clássica é
sido concebida para ordenar, um tempo de opereta, fictício,
de fato desordenou a visão do que serve para construir o for-
mundo. malismo, é uma abstração útil
A revolução da ciência não en- numa primeira aproximação e
volve somente o âmbito opera- em âmbitos limitados.
tivo, mas também o conceitual:
passa-se de uma visão estática Causas da transformação
do mundo, se quisermos parme- da ciência ligadas à
nídea ou platônica, para uma tecnologia
visão dinâmica, heraclítea, na Ao lado dessas causas inter-
qual tudo está em transforma- nas, também houve impor-
ção. Nesse quadro tumultuado tantes causas externas que
o pensamento evolucionista de conduziram a uma modificação
Darwin adquire um peso cada da ciência e da nossa atitude
vez mais relevante e estende-se em relação a ela. Antigamente
para além dos limites da biolo- a ciência preparava as inven-
gia, para deixar um sinal de si ções e os instrumentos técni-
em toda a ciência. cos ou ao menos os justificava
Conforme aludi, através do e os explicava em seguida,
estudo da complexidade, da fornecendo a teoria sobre seu
mecânica quântica e da in- funcionamento. Mas no século
formação, na física retorna o XX, a tecnologia, devido à ve-
tempo irreversível, isto é, re- locidade do desenvolvimento,
torna a história que os físicos se superou a ciência. O impetuoso
esforçaram para expelir. Entra desenvolvimento da inovação
em crise a fé no tempo reversí- técnica impediu a ciência não
vel típico da física clássica, a só de preparar o terreno para
mesma fé que impelia Einstein a construção das máquinas e

(157)
Monografia

dos sistemas, mas também de Homo tecnologicus


explicar seu funcionamento a Um dos setores tecnológicos
posteriori. Assim, o tipo de mais importantes do século XX
conhecimento que herdamos é, obviamente, o da informática,
dos gregos, para os quais só da informação, dos computado-
se conhece uma coisa quando res e das redes. Nesse âmbito
se sabe construir uma teoria nasce um instrumento para o
sobre ela, hoje está cada vez estudo da realidade, natural
mais em crise. e artificial, conceitualmente
Hoje, a tecnologia nos ofe- diferente dos anteriores: o
rece objetos, instrumentos e instrumento da simulação. A
sistemas que usamos quase simulação não é teoria nem ex-
sempre sem nem saber como perimento, é uma prática que se
funcionam, e nem nos inte- situa numa virtualidade, numa
ressa saber porque ou como espécie de cyberespaço. Na si-
funcionam. Sob o ponto de mulação, as categorias tradicio-
vista epistemológico, trata-se nais do conhecimento, aquelas
de uma mudança extraordiná- fundamentais de tempo, espaço
ria: é uma reviravolta daquilo e causa-efeito se confundem,
que foi, durante séculos, o tornam-se outra coisa, sofrem
intuito fundamental da ci- uma manipulação forte e geral-
ência, isto é, fazer aflorar mente pouco idônea.
a complexidade do mundo A tecnologia, quando é im-
para enfrentá-la, exorcizá-la portante e penetrante como
e reduzi-la à simplicidade. a informação, insinua-se na
A tecnologia, ao invés disso, sociedade que a adota e nos
oculta a complexidade dos indivíduos que a usam, cessa
seus manufaturados sob inter- rapidamente de ser visível e
faces amigáveis e sociáveis, de torna-se transparente.
uso elementar. Ela sobrepõe ao Quando começamos a usar os
mundo natural um mundo ar- instrumentos tecnológicos com
tificial, que se apresenta fácil a mesma desenvoltura com que
de usar, eficaz e eficiente, utilizamos os instrumentos do
que não exige explicações, nosso corpo, a tecnologia co-
não as postula; e desse mundo meça a produzir seus efeitos
essencialmente manipulador, e seus condicionamentos mais
estamos contentes. importantes e sutis, porque são

(158)
Monografia

inconscientes. tipo perceptivo e ativo, de-


A hibridação e a mestiçagem pois apresentam-se mudanças
contínuas do homem, com os de tipo cultural, profundo. A
manufaturados e com as má- longo prazo, podem também
quinas que ele constrói e com ser produzidas mudanças de
as quais interage, conduzem tipo genérico.
ao que chamamos de homo Graças à presença da cultura
tecnologicus, uma espécie de e, em particular, da ciência e
simbionte de máquinas e ho- da técnica, aos lentos mecanis-
mem, de artificial e biológico. mos darwinianos da evolução
No homo tecnologicus, a evolu- biológica somam-se rápidos
ção biológica e a evolução tec- mecanismos de tipo lamar-
nológica tendem a fundir-se, o ckiano, com base na herança
natural e o artificial tendem a dos caracteres adquiridos. O
confundir-se. ser humano possui uma grande
As contínuas modificações capacidade mimética: a cultura,
do ambiente produzidas pelo as idéias e as modas difundem-
homem postulam uma modi- –se por imitação, de forma
ficação constante da espécie muito rápida. Naturalmente,
que habita esse ambiente. O enquanto os resultados da
homem, modificando o am- evolução biológica de tipo
biente, modifica a si mesmo darwiniano são fortes e lentos,
e essa modificação contínua os lamarckianos são velozes e
apresenta-se no cenário do frágeis. A fragilidade é um dos
mundo desde o tempo do aspectos importantes da tecno-
homo habilis, isto é, desde logia e do mundo artificial que
que a nossa espécie ou proto- criamos e, oposta à robustez da
espécie começou a manejar natureza, nunca deve fazer es-
instrumentos. A mestiçagem quecer que vivemos sempre no
entre homem e instrumentos fio da navalha, numa situação
produz um efeito inesperado: de risco que pode lançar-nos
o acento da pressão seletiva de uma hora para outra em
desloca-se continuamente, uma catástrofe.
porque opera numa unidade Assim, a visão teórica herdada
biotecnológica que é conti- dos gregos é hoje superada por
nuamente diferente. A hibri- esses processos tecnológicos
dação conduz a mudanças de que assemelham-se muito à

(159)
Monografia

bricolage: a internet foi criada não tem capacidade para resol-


por bricoleurs muito hábeis, que ver os problemas que as religi-
estão continuamente em busca ões tradicionais resolviam ou
de aperfeiçoar localmente, de procuravam resolver. Assim, o
emendar certos defeitos, de imaginário coletivo cultivou, em
chavascar soluções temporâ- relação à ciência, expectativas
neas e extemporâneas, que de tipo salvífico, que esta veio,
amanhã serão superadas mas mais tarde, a frustrar. Iludimo-
hoje funcionam, ainda que não –nos de obter da ciência uma
sejam as melhores possíveis explicação total do mundo, que
sob o aspecto teórico. Também no entanto nem a física, nem a
aqueles que trabalham no setor inteligência artificial e nem as
das biotecnologias fazem gran- outras disciplinas conseguiram
des operações de bricolage, não dar. Talvez nem a biologia o
possuem uma teoria importan- consiga. Certamente foi uma
te e profunda que explique e grande desilusão. Mas essa de-
possa prever as conseqüências cepção também possui aspectos
das suas manipulações. Isto positivos, porque afasta, talvez,
naturalmente inclui muitos o perigo de um reducionismo
riscos, até pela fragilidade dos total da vida às suas dimensões
sistemas tecnológicos. racionais-computantes.
Gostaria de citar algumas li-
Causas sociais da nhas iluminadoras de Konrad
transformação da ciência Lorenz, extraídas do seu livro
Além das causas internas e das Gli otto peccati capitali della
causas ligadas à interação com nostra civiltà: “Crer que faça
a tecnologia, a transformação parte do patrimônio estável da
que a ciência vem sofrendo humanidade somente aquilo
possui também outros compo- que é compreensível por via ra-
nentes, radicados na mutação cional, ou certamente apenas o
que sofreu a nossa imagem da que é cientificamente demons-
ciência. Trata-se de causas que trável, é um erro que insere
podemos definir como sociais. conseqüências desastrosas [...]
A ciência, em geral, apre- e induz a jogar ao mar o imenso
sentou-se como uma religião. tesouro de conhecimentos e de
Nasceu absolutamente como sabedoria contido nas tradições
substituta da religião, porém de todas as antigas culturas e

(160)
Monografia

nas doutrinas das grandes re- bamentos culturais. O signifi-


ligiões universais [e a] viver cado que atribuímos a tempo,
na convicção de que a ciência espaço, memória mudou quase
é capaz de dar vida do nada, que inadvertidamente: mudou o
unicamente por via racional, a significado operativo e a refe-
uma cultura inteira, com tudo rência epistemológica.
aquilo que ela comporta”. A tecnologia da imprensa tinha
Se o homem não consegue anulado o tempo, permitindo
filtrar, através da razão, as alargar desmedidamente o raio
suas intuições e emoções, não de ação do texto no futuro e uma
pode quase nunca comunicá- propagação sem precedentes
-las. Portanto, a razão é um da cultura. Hoje, a rede opera
instrumento de importância a mesma anulação em relação
fundamental, mas a racionali- ao espaço. Conectar-se à rede
dade chegou em último lugar significa entrar num espaço
entre as faculdades do homem; virtual, num não-lugar, onde
muito antes se desenvolveram não existem mais distâncias.
as percepções, os sentimentos É, então, inevitável que certos
e as intuições, nas quais se ba- conceitos, certos pontos de re-
seiam a sensação e o sentido de ferência, se transformem.
nosso estar aqui no mundo, li- Quanto ao tempo, é interessan-
gados a esse grande ressonante te que hoje, graças à tecnologia
circo em que nos encontramos da informática, a história, como
projetados quando nascemos. momento de organização e de
Não devemos, pois, sacrificar interpretação do passado e de
tudo exclusivamente à racio- orientação para o futuro, tenda
nalidade, causa um sofrimento a ser anulada: achatada num
devastador. eterno presente, desaparece
como dimensão cronológica.
As conseqüências do As grandes memórias artificiais
advento da informática na conservam, com uma frieza
cultura implacável, todos os dados do
A introdução do calculador e mesmo modo. Não existe o cla-
o acesso ao grande jogo ma- ro-escuro que na memória hu-
nipulador do cyberespaço, da mana deriva da interação entre
simulação e da rede provoca- memória e esquecimento; nas
ram toda uma série de desa- memórias artificiais não existe

(161)
Monografia

o filtro das emoções, que fixa como a imagem terrena do


uma lembrança mais que outra. Hiperurânio. A matemática
Um dado existe ou não: não se torna-se, também ela, uma dis-
tinge de nuances, de sentimen- ciplina histórica, experimen-
to, de comoção. Assim, falta o tal, e é contagiada pelo mal
colorido sombreado da tempo- evolutivo. Na física, como dito,
ralidade, logo, a perspectiva descobriu-se a complexidade e
histórica. Naturalmente, quem a indeterminação. Na lingüís-
interage com a rede deixa-se tica e nas ciências cognitivas
condicionar e permuta certas nascem mitos extraordinários:
atitudes que podemos definir o mito do tradutor universal, o
como históricas. mito da inteligência artificial,
A informática também possui o mito da onisciência, porque
efeitos importantes em algumas a rede nos ilude em onisciência
disciplinas particulares. De e onipotência. Contudo, todos
Euclides em diante a matemá- esses mitos são destinados a
tica baseou-se na demonstração confrontar-se com a natureza
precisamente euclídea, mas o do homem, que ainda precisa
computador coloca em crise de pão e água.
esse conceito e todo o edifício Sob o aspecto epistemológico,
da matemática. Hoje, alguns estamos diante de uma espécie
matemáticos são impelidos a de reducionismo, não mais do
declarar que é preciso cons- tipo materialista e sim do tipo
truir uma nova matemática, na informacional. A redução a um
qual a demonstração não esteja só princípio converge para a
mais no centro da cena; outros informação, mas, como todos
começam a fornecer demons- os reducionismos, também este
trações de probabilidades em empobrece aquilo que toca.
que a tese não apresenta mais
certeza absoluta, mas somente Como nasce a
uma certa probabilidade. Trata- desorientação?
-se de modificações profundas, A desorientação nasce da ra-
que talvez anunciam uma mu- pidez abaladora da inovação
dança do paradigma radical tecnológica e de suas conseqü-
naquela que é considerada não ências, não só na vida cotidiana
somente como a rainha das ci- mas também nas camadas pro-
ências abstratas, mas também fundas de nosso ser. A globali-

(162)
Monografia

zação, com as suas convocações ações e pelas decisões quando


econômicas e financeiras, dá o homem está completamente
um impulso hercúleo a essa ra- mestiçado com a máquina? A
pidez. Portanto, a desorientação quem confiar a tarefa de tutelar
nasce de uma situação comple- os direitos de terceiros em rela-
xa, entrelaçada de componentes ção àqueles que cometem erros
que não são apenas de ordem porque confiam na máquina?
tecnocientífica e comunicati- Tudo aquilo que dissemos até
va, mas de natureza econômica aqui enquadra-se hoje numa
e mercantil. difusa reação de desconfiança,
Um componente importante da senão de recusa, em relação a
desorientação é representado uma racionalidade que termi-
pela delegação tecnológica. A nou por mostrar-se invasora
enorme e crescente massa das demais; uma reação que se
informações produzidas e inter- configura como recuperação
cambiadas nos obriga a delegar de fumosidades mistificantes,
às máquinas muitas funções de de irracionalidades, de vagos
elaboração, avaliação, análise misticismos que são deplorados
e transmissão que, na origem, pelos cientistas. Mas trata-se
nos competia. O ser humano de uma recusa da racionalida-
sempre delegou a outros certas de em si ou é uma reação no
tarefas e responsabilidades: modo em que a racionalidade
aos animais domésticos e aos se colocou?
seus semelhantes, isto é, aos É claro que esse fenômeno his-
especialistas: o padeiro, o mé- tórico que chamamos ciência
dico, o advogado, o sapateiro. ocidental possui características
Depois, no momento em que as e méritos importantíssimos, po-
máquinas começaram a possuir rém algum aspecto discutível.
capacidades menos rudimenta- No mais, não foi dito que seja
res, começamos a delegar a elas um fenômeno duradouro: pode
algumas de nossas funções, ca- ser que sob o incômodo da
pacidades e responsabilidades. tecnologia e de novas formas
Com a delegação tecnológica, o de aquisição do conhecimento
conceito de responsabilidade seja destinado a desaparecer
dilui-se e emergem muitos pro- ou, pelo menos, a declinar.
blemas ainda não enfrentados: Tenho a impressão que sobre-
quem será responsável pelas tudo os jovens percebam esse

(163)
Monografia

lento, ou rápido, ocaso de um rientação: chegamos a acreditar


tipo particular de ciência, ba- que a ciência nos havia aberto
seado na teoria e no primado as portas do paraíso, mas, em
da mente em relação ao corpo.
vez disso, só as fez lampejar.
Com efeito, diminuiu de modo
perceptível a propensão para
inscrever-se nas faculdades Giuseppe O. Longo é professor de Teoria
científicas. da Informação na Università degli Studi
É um momento de forte deso- di Trieste.

(164)
Monografia

O confronto das civilizações


Paolo Branca

“Orientar-se” “Senhor, dai-me a o sol atingisse a


Freqüentemente força para mudar abside. Também as
nossa linguagem as coisas que outras línguas, não
traz a herança de posso modificar e
só a nossa, trazem
um mundo que, esses sinais. O ára-
a paciência para
enfim, já não existe be, em particular,
mais. As nossas pa- aceitar aquelas que é uma língua reve-
lavras, os conceitos não posso mudar” ladora desse ponto
que utilizamos, con- é o pensamento de de vista: os nomes
tinuam ligados em Tomás Morus, que “Sul” e “direita”
sua origem e etimo- poderia ser adotado possuem a mesma
logia à relidade que como um possível raiz: Y-M-N. Yamin
os gerou e à qual manifesto da quer dizer direita e
talvez sobrevivam tolerância universal. a essa palavra liga-
por longo tempo. se o nome Yemen.
O que significa, literalmente, Ora, quando é que estando
desorientar-se? Estar deso- na Arábia tem-se o Yemen
rientado? Não achar o orien- exatamente à direita? Quando
te? Mas quando o oriente foi se olha para o oriente. Da
o principal ponto cardeal de mesma forma, norte se diz
referência? Certamente há “Shamâl”, que também signi-
muito tempo. Olhava-se para fica “esquerda”. Antigamente,
o oriente em busca de direção: pois, o oriente era o ponto de
o lugar onde o sol nasce era referência fundamental, mas
um ponto de referência con- já faz muito tempo que não é
creto, mas também podia ser mais. O desenvolvimento da
interpretado simbolicamente tecnologia e das ciências trou-
como nascente de calor, de xe uma revolução também na
luz, de vida. As igrejas eram repartição do mundo. Trata-se,
construídas de maneira que se quiserem, de uma pequena

(165)
Monografia

nota marginal, começando, Huntington teorizou o “encon-


por a fazer vibrar dentro de tro das civilizações”, ou seja,
nós toda uma série de cons- a hipótese segundo a qual os
ciências que reencontraremos grandes conflitos que esperam
nas reflexões desenvolvidas a humanidade não serão mais
daqui em diante. os ligados às ideologias, como
no recente passado, e sim às
Conhecer o outro identidades culturais. Ele des-
O problema com o qual hoje tacou no mundo algumas áreas
devemos nos defrontar, so- destinadas a se enfrentar. Com
bretudo e precisamente por- base em sua análise, o con-
que o mundo tornou-se tão fronto mais crucial que parece
pequeno que os contatos e os delinear-se será aquele entre a
deslocamentos são tão fáceis e civilização ocidental e a islâ-
freqüentes, é o da alteridade. mica. Em outras palavras, entre
O outro não é mais aquele que as várias civilizações que estão
vive na casa dele, distante, o em jogo dentro desse fenôme-
exótico que mora além do oce- no global, o Islã ocupa lugar de
ano, mas é alguém com quem destaque e é o candidato ideal
temos cada vez mais chance de para assumir o posto daquele
entrar em contato. E é bom que grande antagonista do ociden-
essa aproximação nos provoque te, que até bem pouco tempo
e gere problemas. Devemos atrás era representado por um
sempre lembrar que o proble- outro oriente, identificado mais
ma da alteridade possui, como por problemas políticos, ideo-
reverso da medalha, o da iden- lógicos, geo-estratégicos, que
tidade. Se o outro me cria um culturais. Tudo isto, em parte,
problema, tenho de esclarecer não é mais algo do futuro e
quem eu sou em relação a ele e, sim uma realidade: já antes de
nessa relação com ele, certifico Osama Bin Laden, os “inimigos
melhor a minha identidade. É públicos” por excelência eram
um tema que está se tornan- todos muçulmanos: Khadaffi,
do crucial, sobretudo depois Khomeini, Saddam Hussein
da queda do Muro de Berlim e por aí afora. Depois do 11
e da dissolução do Império de setembro, essa percepção
Soviético. Tão crucial que o acentuou-se ainda mais e não
politólogo americano Samuel é preciso lembrar as expressões

(166)
Monografia

viscerais que pudemos ler nos entendendo que entre todas


artigos e livros de Oriana as civilizações do oriente, a
Fallaci. islâmica é a mais ocidental,
Também outras pessoas expres- a mais próxima de nós, não
saram-se em termos análogos e apenas por contigüidade geo-
bem antes desta data. gráfica mas também por raízes
Sob este ponto de vista, o livro comuns. Poderíamos, talvez,
de Baget Bozzo é impressio- deduzir que, como geralmente
nante 1. Segundo admissão do acontece, é mais difícil existir
próprio autor, é um livro que se comunização entre parentes
enquadra na literatura de con- que entre estranhos. É mais
traposição. De fato, intitula-se fácil gerar-se mal-entendidos
Di fronte all’Islam e na intro- quando existe maior comuni-
dução declara explicitamente zação de elementos originais,
que com isto entende-se o ad- como ocorre entre as línguas.
versus dos tratados medievais Se tentarem falar uma língua
com os quais se combatiam as do mesmo tronco que a sua,
heresias. sem tê-la estudado a fundo,
No meio dos intelectuais de facilmente adquirirão uma
diferentes linhas e orientação certa afoiteza que vai levá-los,
também encontramos algo cedo ou tarde, a proferir algum
semelhante: a esse respeito, enorme disparate. Com os mu-
o livro sobre o multicultura- çulmanos, que são orientais
lismo de Giovanni Sartori 2 é menos exóticos, assim como
revelador. Chega-se, assim, com os judeus, às vezes não
à mesma conclusão: todas as nos entendemos de uma manei-
civilizações são integráveis, ra ainda mais clara do que com
exceto a islâmica. Os muçul- os representantes de culturas
manos são portadores de uma do Extremo oriente, percebido
visão de mundo que pela pró- como menos exótico por razões
pria natureza não é assimilável, de cunho político, institucio-
é antitética à nossa e o grande nal, econômico. Pensemos no
problema que temos que en- Japão, um país que aceitou a
frentar é exatamente este. economia de mercado, entrou
No entanto, o grande antropó- no universo capitalista e pa-
logo Lévy Strauss definia o Islã rece um oriente menos exótico
como “o ocidente do oriente”, que os outros. Precisamos

(167)
Monografia

perguntar-nos se as coisas são ram irmãs, caminharam uma ao


realmente assim. lado da outra, tão semelhantes
entre si a ponto de quase nunca
O que é o Islã? conseguirem se entender, por-
Quando falamos do confronto, que cada uma delas tendia a
do encontro e desencontro en- penetrar no campo da outra.
tre Islã e ocidente, se nos de- Em nosso conceito de religião,
tivermos um momento apenas porém, enfatiza-se o aspecto in-
para refletir nas palavras que telectual, dogmático, ligado aos
utilizamos e sobre os conceitos princípios e ao credo. O Islã é
que elas veiculam, nossa deso- uma religião quase privada de
rientação aumenta. Que sentido teologia, assim como o juda-
tem comparar, confrontar o Islã ísmo: é uma ortopráxis mais
com o ocidente? São duas rea- que uma ortodoxia. Segundo o
lidades homogêneas? O que é o Islã, nós, de Deus, não somos
Islã? Se perguntarmos isto a um chamados a descobrir o misté-
indivíduo na rua, provavelmen- rio, mas sim chamados a lhe
te nos responderá que o Islã é obedecer, logo a lei tem valor
uma religião. E terá razão. muito superior ao da especula-
Com efeito, é uma das grandes ção. Assim, quando afirmo que
religiões monoteístas que se re- o Islã é uma religião, digo uma
portam a Abraão. Mas a palavra verdade, mas não esgotada,
religião seria a mais adequada faço uma afirmativa não exata,
para definir o Islã? Quando uso porque parcial. Mas quando
o termo religião, atribuo a ele digo: “Ora, é bem difícil que
um significado universal, acre- os muçulmanos se convertam a
ditando que todos os povos do outras religiões. Eles sim, são
mundo entendam por religião a crentes fiéis!”, transfiro para
mesma coisa. Mas, além disso, eles um modo meu de aderir
com essa palavra exprimo meu à fé. Sou eu quem considera
modo de entender a religião, fundamental para a fé a con-
que é filha da minha história. vicção na adesão intelectual
Nela, a religião é algo que tem ao dogma. Para um muçulma-
muito a ver com a teologia, que no, trata-se de uma pertença
por sua vez tem bastante a ver mais totalizadora, quase de
com a filosofia. tipo étnico. Um muçulmano é
Teologia e filosofia sempre fo- muçulmano, como um alemão

(168)
Monografia

é alemão. Não como um cristão lógicas que ocorreram no oci-


é cristão. dente. A Reforma Protestante,
a Revolução Francesa, a
O que é o ocidente? Revolução Industrial, o pós-
Vejam, então, que já dentro –moderno: tudo isto caracteri-
de uma simples palavra como za a nós, que somos a minoria,
religião encontramos muitas embora sejamos mais fortes.
coisas a serem vistas. E por Seria exaustivo checar os de-
outro lado, o que temos? O oci- talhes do que caracteriza esse
dente. Mas o que é o ocidente? ocidente. Relembro a famosa
Se perguntarem novamente ao frase de D. Lorenzo Milani,
indivíduo na rua, vão deixá-lo que afirma: “A obediência não
numa posição ainda mais difí- é mais uma virtude”. É singu-
cil. Facilmente ele dará uma lar que tenha sido dita por um
definição ligada ao espaço: o padre ocidental. Nenhum padre
ocidente é uma região geográ- oriental, de nenhuma religião,
fica, o Oeste. Mas, se refletirem incluindo a cristã, assinaria
um momento, quando falamos um tal tipo de afirmação. Sob
do ocidente em confronto com esse ponto de vista, os cristãos
outras culturas, na verdade orientais são mais semelhantes
o que surge em nossa mente aos muçulmanos que aos seus
não é um conceito de tipo ge- correligionários ocidentais,
ográfico-espacial, mas sim de compartilham com os muçul-
tipo temporal: o ocidente é a manos uma antropologia, uma
modernidade. O ocidente é o concepção do mundo, que se
que aconteceu com a cultura, baseia em outros pressupostos.
com a civilização e com a ci- Portanto, essas civilizações são
ência numa determinada área diferentes.
do mundo, de uns anos pra cá.
E somos nós a exceção, não os Conhecer a diversidade
outros. Além de toda a nossa boa
A maioria das culturas da vontade – que é preciosa – em
Terra, e não só a islâmica querer sintonizar oriente e oci-
mas também as da Ásia e da dente, superando tudo aquilo
África, são ainda culturas de que nos separa, não podemos
tipo tradicional, porque não re- esquecer que somos diferentes
alizaram as rupturas epistemo- e que devemos reconhecer,

(169)
Monografia

conhecer e administrar essas viam visto, antes, uma árvore,


diferenças. Ignorá-las não uma fonte ou uma rosa. Só
adianta. Antes, a longo prazo, através do Alcorão conheciam
poderia ser contraproducente, a existência de jardins em que
porque é um velleitarismo que murmuram regatos, pois assim
no final não nos prepara para é chamado o Paraíso. Esse
a tarefa que nos espera. E essa Paraíso e suas belas cativas é
tarefa é justamente a de nos co- ganho pela morte amarga sobre
nhecer. Uma coisa interessante a areia, a um tiro de fuzil de um
que podemos fazer para isto é, infiel, depois de trinta anos de
como afirma Paul Ricoeur, 4 : miséria. Mas Deus os engana,
“assumir de forma imaginativa porque não exige dos franceses,
ou simpatetica 5 a história do aos quais são concedidos todos
outro através das narrações aqueles tesouros, o sacrifício
que lhe dizem respeito”. A da sede nem da morte. É por
esse propósito, transcrevo isso que eles estão meditando
uma narração emblemática agora, os velhos chefes. E é por
de Antoine de Saint-Exupéry, isso que ali, olhando o Saara
extraído do seu célebre livro que se estende, deserto, em
Terra dos Homens 6. Às vezes a volta de sua tenda, o Saara
literatura possui a capacidade que até a morte lhes dará tão
de explicar com uma imagem magros prazeres, eles se entre-
aquilo que mil ensaios não gam a confidências.
conseguem exprimir.
“Assim, nós os levávamos "– Veja você... o Deus dos
a passear. E assim, três de- franceses... Ele é mais gene-
les visitaram aquela França roso pra os franceses do que o
desconhecida. Eram da raça Deus dos mouros para os mou-
dos que, tendo uma vez me ros! Algumas semanas antes
acompanhado ao Senegal, cho- haviam sido levados a passear
raram ao ver árvores. Quando em Savóia. O guia os conduziu
os encontrei novamente em a uma grande cascata, uma es-
suas tendas, eles falavam com pécie de coluna de pedras de
admiração dos music-halls em onde desciam tranças de águas
que haviam visto mulheres barulhentas, e lhes disse:
nuas dançando entre flores. – Bebam.
Aqueles homens jamais ha- E era água doce. Água! Aqui,

(170)
Monografia

quantos dias de marcha para Calavam-se e assistiam, graves,


atingir o poço mais perto e, mudos, ao desenrolar de um
quando se encontra esse poço, mistério solene. O que saltava,
quantas horas para cavar na assim, do ventre da montanha,
areia que o cobriu, até chegar era a vida, o próprio sangue
a uma pobre lama misturada dos homens. A água que pas-
com urina de camelo! Água! sava em um só segundo teria
Em Cabo Juby, em Cisneros, ressuscitado caravanas inteiras
em Port-Étienne, os meninos que, bêbadas de sede, haviam
mouros não mendigam dinhei- mergulhado para sempre no
ro. Com uma lata de conserva infinito dos lagos de sal e das
vazia na mão pedem esmola de miragens. Deus, ali, se mani-
água: festava: não se lhe podia virar
– Me dá um pouquinho de as costas. Deus abria suas re-
água, me dá... presas e mostrava sua potência:
– Se você se portar bem... os três mouros permaneciam
Água, água vale seu peso em imóveis.
ouro; água, cuja menor gota – Que querem ver mais? Vamos
tira da areia a centelha verde embora...
de uma folha... Quando chove – É preciso esperar.
em algum lugar, um grande – Esperar o que?
êxodo anima o Saara. As tribos – O fim.
caminham para aquela erva Queriam esperar a hora em que
que crescerá a trezentos qui- Deus se cansasse de sua loucu-
lômetros de distância. E essa ra. Ele se arrepende depressa,
água tão avara, da qual não ele é avaro.
caiu nem uma gota em Port- – Mas essa água corre há mi-
–Étienne durante dez anos, lhares de anos!
essa água roncava ali como se Assim, naquela noite, eles não
de uma cisterna arrebentada insistiam sobre a cascata. É
saltassem todas as provisões melhor calar certos milagres. É
do mundo. melhor não pensar muito nes-
– Vamos embora – disse-lhes sas coisas porque então não se
o guia. compreende mais nada. Pode-
Mas eles não se mexiam: se até duvidar de Deus...
– Deixe-nos ficar um pouco – Veja você... o Deus dos fran-
mais... ceses..."

(171)
Monografia

Essa atitude diante de um fato bam meus hábitos e me são


natural, admiravelmente narra- impostos inevitavelmente. No
do por um autor ocidental, acha entanto, há neles algo que me
um correlato na reflexão de um seduz, me atrai, tanto que não
intelectual, dessa vez muçul- posso evitar confrontar-me com
mano, que mostra qual é a sua eles, mesmo que também isto
relação com a modernidade. exigisse abrir mão de todas as
Trata-se de Dariush Shayegan, minhas energias”.
intelectual iraniano que escre-
veu em francês um livro muito A raiz da crise
interessante, Le regard mutilé 7, A crise é o maior drama das
que fala da esquizofrenia cul- grandes civilizações, que de-
tural nesses termos: vem de algum modo suportar o
“As novas idéias que me assal- produto da modernidade como
tam e os novos objetos com os coisa que não escolhem, mas
quais me deparo, entendidos que lhes é imposta. Também
em toda a sua espessura, são- sob este aspecto houve uma
–me estranhos. Não tenho nem grande mudança, porque, na
palavras apropriadas para com- época colonial, o moderno era
preendê-los, nem encontro em uma imposição deliberada que
meu espírito as representações os povos colonizadores faziam
adequadas para poder fazê-lo. com relação aos outros. Hoje,
São algo de insondável, que se trata-se de um mecanismo que
propõe subitamente no campo funciona por si, que quase fu-
do meu conhecimento. É bem giu de todo controle, se auto-
verdade que os vejo, que me impõe e gera reações talvez
sirvo deles, mas os tolero no exasperadas.
mesmo instante em que me Desse modo, o que agride os re-
aposso deles. Não conheço sua presentantes da cultura árabe
origem, não vi seu nascimento, e muçulmana não é uma crise
não participei das crises suces- de fé. Também neste caso, mais
sivas que foram o prelúdio de uma vez, não devemos projetar
sua fabricação. Também não nos outros nosso modo de
tomei parte das tentativas que perceber e de viver as coisas.
os tornaram possíveis. São Nós vivenciamos o problema
qualquer coisa de aberração da morte de Deus: este não
que não posso evitar, pertur- é absolutamente o problema

(172)
Monografia

dos muçulmanos. Deus existe, da medalha. Em Orlando furio-


considera-se uma evidência e so, Ariosto narra que o arcabuz
não se coloca em questão esse foi lançado nas profundezas do
fato. O que ocorre é uma crise mar porque é uma arma infernal
de religião, isto é, uma crise do e diz: “Nunca mais se vanglorie
sistema. o perverso por te possuir”.
Esse sistema, o Islã, global e A tecnologia é uma arma, é um
totalizador, onicompreensivo, instrumento que oculta o valor
que nos levou a ser uma das de quem o utiliza. Enquanto
maiores civilizações da histó- o cavaleiro medieval devia
ria e a ter papel de prestígio submeter-se a um rígido ades-
na escala internacional (até tramento para usar suas armas,
a Primeira Guerra Mundial, e era um valente, quem brande
o império otomano era uma a espada, quem aciona um ga-
grande superpotência), hoje tilho pode ser bem inferior em
não funciona mais. relação à pessoa a quem ataca.
Um intelectual egípcio, con- Estou falando do arcabuz não
temporâneo, exprimiu muito só como arma, mas como sím-
bem tal desorientação nessa bolo de todo mecanismo que
frase: “Nós nos perguntamos produz um efeito.
como foi que o mundo tor-
nou-se o inferno dos crentes Qual o caminho da saída?
e o paraíso dos descrentes”. É Como sair disto, então? Não
essa a raiz da crise, um choque pretendo dar uma resposta,
ao qual se responde de vários seria presunçoso e arrogan-
modos da parte dos fundamen- te. O que fizemos muitas
talistas, reformistas e moder- vezes conscientemente, ou
nistas. Mas, de alguma forma, que ainda estamos fazendo
a sua crise, a sua desorientação inconscientemente, é impor
diante desse fenômeno possui a todos os nossos modelos.
um correspondente em nos- Não necessariamente por má
sa consciência. Somos bem fé, porque queremos dominar
conscientes de que o nosso os outros, mas simplesmente
sistema funciona muito bem, porque nossos modelos são de
até demais, nos dá bem-estar, tal maneira bem engendrados
poder, saúde, progresso. Mas e eficazes... como fazer
há tempos sabemos do reverso para renunciar a propô-los?

(173)
Monografia

Impõem-se por si mesmos. zem desde sempre. Logo, a


Deveremos resistir a essa condição humana é uma cons-
tentação, vigiar sobre esse tante concatenação de coisas
mecanismo que vem se auto- que são, ao mesmo tempo, im-
alimentando para favorecer os possíveis e inevitáveis, coisas
processos, em vez de impor que fazemos diariamente.
modelos. Falávamos, acima, que a
Conscientes e orgulhosos das racionalidade não pode ter
coisas boas que com esforço a p r e t e n s ã o d e d o m i n a r,
conquistamos, devemos, po- e x p l i c a r, g o v e r n a r t u d o .
rém, perceber que os outros Este aspecto contraditório é
têm seu caminho e passos a típico da natureza humana,
dar, fazendo-se perguntas, esta natureza marcada por
caminhando através de pas- uma grande miséria e uma
sagens que talvez possam ser imensa dignidade. Também
semelhantes, mas não devem no Alcorão encontramos
necessariamente ser idênticas esse conceito. Quando Deus
às que nós conhecemos. cria o ser humano, os anjos
Trata-se, em outras palavras, o observam com um certo
de aceitar viver o caráter pa- incômodo e lhe perguntam:
radoxal da condição humana, “Quer colocar na terra quem
que encontrei expresso de trará a corrupção e esparzirá
modo extraordinário no já o sangue, enquanto cantamos
citado livro de Paul Ricoeur, os teus louvores e exaltamos
referente à tradução. É um a tua santidade?”. Portanto, o
ensaio no qual se recapitula a homem é um corruptor. Deus
história da tradução, das teo- n ã o r e s p o n d e a e s s a p e r-
rias dos lingüistas e, no final, gunta, ou melhor, responde
se descobre isto: do ponto de dando implicitamente razão
vista teórico, a tradução é aos anjos, não os desmente,
uma coisa impossível. Não é mas lhes diz: “Eu sei o que
viável traduzir de uma língua vós não sabeis” (II, 30). O
para outra, escreve-se outra destino do ser humano é,
coisa que não é nem jamais portanto, algo de paradoxal,
será a tradução perfeita do um mistério que não pode ser
original. explicado. Não porque seja
Contudo, isto os homens fa- absurdo e completamente in-

(174)
Monografia

compreensível: entendo por para aceitar aquelas que não


mistério não tanto uma coisa posso mudar”. Pode parecer
que não se entende, mas uma estranho, mas essas coisas
coisa que não se termina não estão ausentes nem no
nunca de entender. Enfim, Alcorão, freqüentemente ci-
alguma coisa que é passível tado como texto que conduz
de contínuos aprofundamen- à violência, à Guerra Santa,
tos, de novas interpretações, à contraposição. É um texto
que nos conduzirá sempre que tem dentro de si também
mais além, e jamais será os germens de profunda tole-
esgotado. rância. Diverti-me enviando
Dentro dessa perspectiva, aos amigos, depois do 11
creio ser possível também de setembro, no Natal, esse
um confronto entre culturas. versículo do Alcorão com o
Quando formos capazes de qual todos ficaram assom-
desistir de fazer graduações, brados: “A cada um de vós
estabelecendo quem é melhor assinalamos uma regra, e, se
e quem é pior, quem precisa Deus tivesse desejado, teria
aprender e quem deve en- feito de vós uma Comunidade
sinar, e aceitarmos a nossa Única, mas não fez isto para
provisoriedade conscientes provar-vos naquilo que vos
das positividades que cada concedeu. Competi, pois, com
qual possui, além da relati- obras boas, porque todos re-
vidade das formas concretas tornareis a Deus, e então Ele
que os seus valores souberam vos informará sobre as coisas
assumir no curso do tempo, pelas quais agora viveis em
então admitiremos que o ou- discórdia” (5, 48).
tro pode fazer percursos dife- É o manifesto da tolerância
rentes, embora sem renunciar universal. Qual é o proble-
de propor-lhe a nossa experi- ma? O problema é que, hoje,
ência. A aceitação da diver- os muçulmanos não lêem esse
sidade faz parte de todas as versículo e a sua condição
grandes tradições religiosas. histórica e cultural os induz
Relembro uma frase de Tomás a preferir outros versículos,
Morus: “Senhor, dai-me a for- que são os da pertença, da
ça para mudar as coisas que identidade, do confronto e do
posso modificar e a paciência desencontro. A nossa respon-

(175)
Monografia

sabilidade é a de criar con- 4


RICOEUR, P. La traduzione. Una sfida
dições para que cada um seja etica. Brescia, Morcelliana, 2001.
5
estimulado a extrair do seu Que está em perfeito acordo com as
qualidades e características de outra pessoa
patrimônio esses tesouros, e ou coisa. (N.T.).
não apenas seus pesadelos. 6
SAINT-EXUPÉRY, A. Terra dos Homens.
Rio de Janeiro, José Olympio Editora,
1981, pp. 69-71 (N.T.)
(Notas) 7
1 SHAYEGAN, D. Le regard mutilé. Paris,
BOZZO, G. Di fronte all’Islam, Genova,
Marietti, 2001. Albin Michel, 1989.
2
SARTORI, G. Pluralismo, multi–
culturalismo e estranhos, Milano, Rizzoli,
2000.
3
Ação política ou social com objetivos Paolo Branca é islamista e professor de árabe
extremistas ou exagerados, caracterizada
pela desproporção entre forças e fins. na Universidade Católica de Milão.

(176)
Monografia

O conflito que gera identidade


Massimo Cacciari

A virtus política Que política homem de colocar


Quem poderia fazer um objetivo além
crer que a política se afirmará do horizonte onde
possui apenas uma na época dos pode chegar o olhar
função orientadora impérios? Aquela de seus inimigos, e
e tranqüilizadora? A que administra de obrigar os seus
política é a arte da por conta da contemporâneos a
decisão. Decidir sig- comunidade segui-lo.
nifica cortar, tomar Se a política nada
parte e posição. empresarial ou a tivesse a ver com
A política “Política” que produz novos isto, Maquiavel en-
é isto, sobretudo mo- conflitos e novas tão responderia que
dernamente. É justa- identidades? não se trataria de
mente no moderno política. Neste caso,
que a política perde seria preferível que
aquele papel de temperança nós nos dedicássemos a outros
que algumas escolas filosóficas encargos: melhor ser adminis-
antigas lhe atribuíam. trador ou empresário.
A tônica revolucionária do A virtus política não é tem-
discurso de Maquiavel, anti- perança, a ela deve seguir-se
aristotélico por excelência, é uma tèkne politikè, para pro-
exatamente esta: a política porcionar os fins aos meios.
nada tem a ver com a tempe- A política não é reduzível à
rança, e sim com a virtus, com “técnica política”, àquela que
a afirmação do vir, do homem p o d e m o s d e f i n i r c o m o b o a
maduro na culminância de administração, mas consta
sua potência, que quer afir- também de uma tèkne basilikè,
mar a sua vontade contra um ou seja, da capacidade de pro-
inimigo porcionar os fins estratégicos
Isto é a virtus: a capacidade do aos meios indispensáveis para

(177)
Monografia

alcançá-los. Ela jamais é compreensível


Por outro lado, a tèkne basilikè com base em critérios de utili-
não se limita à administração dade: que utilidade possuíam
da tèkne politikè, mas é a os franceses quando se deixa-
linguagem que Tucídides faz ram massacrar na casa dos cin-
os atenienses falarem quando co milhões durante as guerras
constroem o seu império. Trata- napoleônicas? Certamente não
–se de uma fase de desorien- era a ditadura que os obrigava
tação total: vem o político, e sim uma adesão que dura
aponta um objetivo que seus bem além do período napoleô-
semelhantes não vêem nem nico. Não falo de Napoleão por
compreendem e consegue jun- acaso, porque toda a filosofia
tar os meios necessários para política contemporânea parte
alcançar aquele fim, que deso- da reflexão sobre o significado
rienta totalmente em relação à da revolução e da conclusão
situação dada. napoleônica sobre ela.
Esta é uma grande tradição Ao lado dessa tradição domi-
do conceito de política no nante na modernidade que vai
Ocidente. Mas não se deve de Maquiavel a Hegel e Smith,
entender “Ocidente” como também há uma tradição que
critério geográfico, porque vê a política como temperança
atualmente a ocidental é uma (como fronesis), uma arte do
cultura que se tornou planetá- cálculo: essencialmente como
ria. Em seu interior existe essa tèkne politikè. Desse modo,
corrente de pensamento, dra- é posto entre parênteses, ou
mática e trágica, que entende totalmente eliminado, o acento
a política como insegura, capaz decisionista, próprio do termo
de inquietar e que não tranqüi- (já platônico) da tèkne basilikè.
liza, ao contrário, mobiliza. Aquela arte, portanto, que po-
A política inventa e cria ener- demos dizer consistir no fundar
gias, dentro da sociedade, do império.
mobilizadoras de fins que po- Certamente existem essas
dem ir totalmente contra todo duas tradições: por qual delas
critério de utilidade (esse é o somos?
grande vício de todo determi- Somos por uma política-admi-
nismo materialista, economista nistração, isto é, “ministra”,
e sociológico). que administra bens com

(178)
Monografia

base em critérios econômicos? seja um lugar onde se produ-


Esta é uma grande tradição da zam normas e regras definidas
cultura ocidental, contrária e para o bom funcionamento do
oposta àquela precedente, liga- estado das coisas. Nessas bases
da à despolitização, ou seja, é podem existir opções bastante
a tradição que pensa a política diversificadas, como políticas
entendida como indicação de fiscais, de redistribuição e do
objetivos estratégicos. trabalho. É claro que se trata
De acordo com o objetivo que de um quadro geral, em que há
é imposto, é pedido um sacrifí- toda uma série de especificida-
cio, isto é, pede-se ao público des, porém a filosofia e a abor-
para desorientar-se em relação dagem de fundo ao problema
à sua utilidade e cálculo eco- caracteriza-se pelo entender a
nômico e para reorientar-se política como administração do
sobre motivações e escopos econômico.
absolutamente valoriais. Essa é Essa abordagem não é unica-
a política que encontramos em mente de uma parte política,
Maquiavel, Hegel e Smith. E mas transversal, como o prece-
em Weber, porque ele também dente. Temos enfoques de tipo
pensa a política sem confundi- revolucionário, conservador
la com pacifismo ou com igua- e reacionário que, malgrado
litarismo, características para essa sua diversidade, enten-
ele reconduzíveis às realidades dem a política justamente
dos Cantões Suíços. Os gran- como tèkne basilikè. Essa idéia
des países possuem, sempre e da despolitização é cada vez
de algum modo, destinos que mais entendida como redução
os levam a conflitar-se entre do político ao administrativo,
si. Contudo, deve-se procurar até para evitar as tragédias
reduzir a taxa de tragicidade do político fundamentado no
desses destinos através da apelo ao público para alcançar
mediação política. os objetivos absolutamente de
valor e com base numa política
A política como tèkne da convicção.
basilikè Podemos encontrar a linha
É preciso, além disso, reduzir da despolitização num pensa-
a política a administração; mento conservador e restau-
agir de modo que a política rador autêntico, que se coloca

(179)
Monografia

como imperativo categórico soberania política.


com a Restauração do início A idéia de que o destino do
do século XIX, com o escopo Ocidente consista na despo-
de reduzir o poder da máquina tencialização progressiva da
estadual jacobina que devora política representa um for-
as chamadas “comunidades midável denominador comum
originais”, fixadas nos vínculos em tradições absolutamente
sociais tradicionais. opostas sob o ponto de vista da
Em vários aspectos, essa idéia práxis política.
da descategorização do político Assim, como afirmavam
para o administrativo pertence Baudelaire e seu ilustre mestre
também ao grande pensamento De Metre (ambos, embora to-
liberal a partir de Montesquieu talmente reacionários, ensinam
e Locke. Basta referir-se, para a raciocinar de maneira sóbria
isso, ao discurso da divisão dos e não ilusória), o problema
poderes, que tem como objetivo europeu consiste em reduzir
primeiro reduzir efetivamente a soberania, isto é, o político
o peso do poder político, en- e o estadual, sem eliminá-la,
tendido como tèkne basilikè. porque se eliminada comple-
Não com base num cálculo de tamente tem-se a anarquia.
utilidade e sim em vista de uma Neste sentido, a redução do
reorientação social, incluindo político se traduz em poder que
valores “não-negociáveis” por- regula, administra e normatiza
que absolutos, que impedem o o econômico.
cálculo e a lógica mercantil do É essa a grande e inédita trans-
intercâmbio. formação cultural, no sentido
A divisão dos poderes tem o ob- antropológico do termo, de que
jetivo primário de eliminar ou, fala Polany e que aconteceu no
ao menos, reduzir o risco de um decorrer do século XIX. O co-
poder político absoluto. mando da res publica não está
A descategorização do político mais nas mãos de quem educa
para o administrativo consti- e forma: não é mais a política
tui também a alma secreta do que governa a pólis, mas o eco-
comunismo para o qual, para- nômico. Ocorre, então, a revi-
doxalmente, o fim último da ravolta completa em relação ao
revolução consiste justamente paradigma clássico, ao medie-
na eliminação de toda forma de val e também ao maquiavélico,

(180)
Monografia

porque são as normas, as regras O conflito segundo


e os mecanismos do econômico Maquiavel
para que o político é chamado a Mas, afinal, de que lado esta-
administrar: o político torna-se mos? O Ocidente é um conjunto
ancillae aeconomiae.1 de numerosas tradições, opos-
Esse raciocínio vale tanto para tas e polêmicas, com relação
o pensamento da Restauração também ao discurso político.
e para o liberal quanto para Pensamos na política para eli-
o marxismo, porque para minar dela o polemos? Nosso
Marx o momento da política Vico sabia bem que toda
é exatamente um “momento”: probabilidade, cidade (polis)
é verdade que nesse momento e guerra (polemos) possuem a
a política alcança a sua inten- mesma raiz.
sidade máxima, mas somente O que queremos realmente?
para desaparecer e auto-supe- Pensamos como os libe -
rar-se. Nisto Marx é contrário a rais, como o pensamento da
Hegel, que caminha no percur- Restauração ou como a tra-
so maquiavélico jacobino e não dição marxista, dominante no
pensa na superação do político, século XX, e então queremos
justamente porque a figura do eliminar, para dizer em termos
espírito absoluto é o Estado, maquiavélicos, o conflito da
expressão máxima da sobera- política?
nia e do poder político. Raciocinando nos escritos de
Para Marx, o político deve ser Tito Lívio, Maquiavel distin-
extinto através de um meca- guia dois tipos de conflito:
nismo que profetiza a tomada o conflito na antiga Roma
plena do poder por parte do republicana e a guerra civil;
econômico, ou seja, das forças o conflito contínuo entre os
produtivas. O capitalismo nun- patrícios e os plebeus. Este
ca encontrou um apologético segundo conflito é positivo e
tão desenfreado quanto Marx; representa a verdadeira causa
o desenvolvimento das forças da grandeza de Roma, porque
produtivas, que só o capitalis- através da organização da ple-
mo permite, chega a um ponto be se produz uma identidade
em que elas adquirem um tal coletiva, uma subjetividade
grau de poder e maturidade, a forte.
ponto de superar o político. Ao contrário, o conflito se tor-

(181)
Monografia

na negativo quando se coloca terminou. Por mais que dure


como processo que desagrega este fim, nunca algo poderá ser
as identidades anteriores, sem mudado. A época que se abre,
afirmar novas, ou seja, quan- desde o fim da Segunda Guerra,
do não é constituinte: nesses com a queda dos muros, é a dos
termos nenhuma cidade ou impérios. No máximo, império
Estado poderá tornar-se gran- só pode existir um só, e o único
de, porque o Estado é potente no momento previsível é o dos
na medida em que dentro dele Estados Unidos.
há articulações por linguagens A esse respeito, numerosas se-
fortes, amadurecidas e virtuo- riam as críticas e as reservas
sas. sobre as potencialidades da
Assim, para Maquiavel o con- cultura americana, porém o
flito é fundamental para ama- discurso seria extenso demais:
durecer identidades fortes, em nesse campo quero somente
caso contrário, impossíveis de acentuar que com o termo
constituir: é através das lutas, império aponto a formação de
dos exílios e dos conflitos que entidades políticas sobrena-
surgem os grandes grupos di- cionais.
rigentes e se afirmam as novas Poderão existir vários impérios
classes políticas. ou um único apenas, o certo é
Este é o ponto fundamental: que a história dos estados
será possível ainda raciocinar nacionais está filosoficamen-
sobre política nesse sentido, te terminada; poderão durar
isto é, como organização inilu- somente como a luz de uma
dível de identidade, de comu- estrela que pode ainda ser vis-
nidade dentro de um Estado? ta depois de milhares de anos,
mas que já morreu.
A política na época dos É preciso entender se será esta
impérios a história de impérios e nume-
É bom observar que seremos rosas comunidades sobrenacio-
reacionários se pensarmos que nais, historicamente significa-
a política ainda possa centra- tivas, ou a história de um único
lizar-se nas soberanias, terri- império abstrato e absoluto, a
torialmente determinadas, dos meu ver culturalmente incapaz
antigos Estados: a história dos de articular-se de modo plane-
Estados, agrade-nos ou não, tário em comunidades ricas e

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Monografia

dotadas de sentido. uma hierarquia dominada por


Esta é a grande aposta euro- regras e normas de intercâmbio
péia: A Europa conseguirá (uma espécie de lex de mercado
tornar-se grande exemplo in- universal), e que falta toda a
ternacional de uma verdadeira instituição política global e
comunidade sobrenacional, todo o direito internacional,
historicamente fundamenta- hoje mero produto da comuni-
da, em cujo interior haja um dade empresarial. Atua, assim,
conflito político? Sem o con- uma privatização progressiva
flito político não se consegue do direito público europeu,
regenerar o sistema, não se tem tendência fundamental de
intercâmbio de classe política nossa época.
e nem a inovação. Esses são os traços caracte-
rísticos que nos desorientam
O desafio da modernidade nesse nosso período histórico.
A política deve ser entendida Devemos, porém, perguntar-
como organização de conflitos nos se nesse cenário em que
constituintes; devemos, pois, estamos imersos nosso destino
fazer política para organizar será a assunção não-ilusória
novas identidades. O ponto é: desse processo e simplesmente
se achamos que seja iniludível a tentativa de administrá-lo da
essa tarefa ou se pensamos que melhor maneira possível, con-
a política deva ser, aos poucos, siderando, como dado realística
reduzida a administração eco- e absolutamente irreversível, a
nômica. Esse é o dilema e a potência do econômico sobre
oposição que percorrem toda toda orientação política, ou
a modernidade e aos quais considerar que a política ainda
também nós devemos prestar tenha, em sentido próprio, um
contas, dado que vivemos uma valor próprio.
época de desorientação na Minha tese é que, dentro de
qual é evidente que as antigas uma globalização abstrata, não-
formas de soberania (os antigos –histórica, técnico-científica,
Leviatãs e as tradicionais for- financeira e econômica, seja
mas de poder territoriais) estão possível analisar comunidade
no ocaso. e identidade, ricas de sentido
Parece que no plano global, o historicamente concreto, para
que vigora em contrapartida é manter-se em produtiva contra-

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Monografia

dição e produtivo conflito com liberdade e reconhecendo o


a estrutura técnico-científica e outro. Este é o verdadeiro con-
econômica. flito produtivo, esta é a minha
A essa altura o problema é política.
claro: é possível analisar, nes- No moderno existe este signi-
se processo, a potencialidade ficado da política. É possível
de subjetividades político- redescobri-lo hoje, numa
culturais de forma a ver o situação extremamente mais
sistema em seu conjunto como complexa e difícil, que conduz
contraditório e conflitante em em direção ao único império?
sua essência? Podemos pensar a nova econo-
É possível, na nova economia, mia, que demonstra a prepotên-
analisar a potencialidade cia do econômico em relação
dessas identidades, isto é, a ao moderno, como expressão
procura de subjetividade e potencial de novas formas de
liberdade? Não me refiro a sociedade?
comunidades guetizadas ou Este é o novo trabalho que
fechadas, mas a uma procura cabe à nova política para ser
de identidade que se refira à realmente ela mesma e não
liberdade de cada indivíduo para definir-se “anti”: negar
dentro do sistema, sem estar a o novo processo em curso é
seu serviço mas com a intenção um exercício que resultaria
de conflitar-se com ele, de ficar reacionário por parte da polí-
em contradição, em polêmica, e tica que deve ser, ao contrário,
amadurecer nessa questão, que orientada para a organização de
não seja a antiglobal. produtivos conflitos.
Nessa controvérsia também há Ai de mim se enxergasse a nova
o reconhecimento do sistema: orientação da política voltada
se de fato eu fosse antiglobal, para a defesa dos antigos
daria como oficialmente re- Estados, só porque parece que
conhecida uma dependência ali haja maior respaldo; essa é
abissal daquilo contra o qual a lastimável tendência conser-
sou “anti”. Eu não sou “anti”, vadora e reacionária de certas
quero, em vez, confrontar-me, democracias sociais européias.
competir, contradizer: é na É antes necessário vigiar e ana-
contradição que desejo ser re- lisar com curiosidade, dentro
conhecido, afirmando a minha da nova economia e das novas

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Monografia

profissões, a existência dessas (Nota)


1
potenciais novas identidades e Servo da economia (N.T.)
comunidades e dar-lhes a pala-
vra, ajudando-as a contradizer
o global.
Este é, hoje, o conflito político
e a nova orientação que a polí- Massimo Cacciari é professor de Filosofia
tica deve seguir. Estética na Universidade de Veneza.

(185)
Monografia

Wargames para uma clonagem


Mario Unnia

Nos tempos antigos, A primeira relações fáceis. As


o envolvimento eró- clonagem histórica deusas, relutantes,
tico entre deuses - a de Helena, utilizavam todas as
e heróis estava na por obra de Hera
artes transformistas
ordem do dia. Antes para se subtrair à
- surtiu efeitos
dessa época, nos conjunção carnal,
primórdios, as coisas pouco exemplares. rugiam os dentes
não eram assim: os Uma espiral de como leoas, desli-
deuses tinham seus intrigas e volteios, zavam escapando
afazeres, e pronto. desejos desmedidos como serpentes,
No entanto, à me- e truques insidiosos, mas, depois, ren-
dida que crescia precipitaram a diam-se sob a forma
a Humanidade, a humanidade em mais delicada dos
Terra começava a sua primeira e peixes.
sofrer. Impôs-se, verdadeira guerra As núpcias de Peleu
então, a necessidade mundial. com a deusa Tétis,
de ordem. Algumas depois do casa-
grandes deusas fo- mento de Cadmo
ram condenadas a gerar filhos e Harmonia, foram as mais
com os mortais com a finalidade celebradas dentre as citadas
de produzir homens superiores nas histórias de deuses e he-
ou, mais precisamente, os róis. Os deuses compareceram
heróis. Citaremos dois exem- em grande número à festa
plos, porém houve muitos nupcial, trazendo presentes
mais: Afrodite, a deusa do abundantes e com uma imen-
amor, uniu-se ao pastor troiano sa vontade de banquetear-se,
Anquises e deu à luz a Enéias; como era costume, naqueles
por sua vez, Tétis, grande deu- belos tempos que ainda viam
sa marinha, uniu-se a Peleu mortais e imortais se sentarem
e gerou Aquiles. Não eram juntos em alegria. Tinham sido

(186)
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pessoalmente convidados por acreditada – e mandou levar o


Zeus, que havia gerado Helena filho Páris até o monte Ida.
e favorecido o casamento que A questão foi colocada a Páris.
se festejava (ambos os eventos Deveria escolher não só a mais
teriam conseqüências terríveis bela deusa, mas também o que
para a estirpe dos heróis); mas, cada uma oferecia: Atenas, a
bondade sua, excluiu Éris, a vitória e o heroísmo; Hera, o
deusa da discórdia. Ofendida poder e a soberania sobre a
com a afronta, Éris jogou entre Ásia; Afrodite, o amor, ou seja,
os convidados uma maçã, que a posse de Helena, a filha de
se tornaria tão famosa para a Zeus. Páris (como não escolhê-
posteridade quanto aquela me- la?) cedeu ao desejo amoroso e,
morável dos judeus e cristãos. sem nem ter visto Helena, optou
As três deusas mais importan- por Afrodite. É fácil imaginar a
tes, Hera, Afrodite e Atenas, reação das outras duas deusas
belíssimas, quiseram agarrar excluídas.
o presente, portador da des- Helena não era uma qualquer.
graça. Teve início uma disputa Em tenra idade, já havia sido
que, decidida por um mortal, raptada por Teseu, porém
devia conduzir ao enfraque- seus irmãos, os dióscuros,
cimento do gênero humano, à a reconduziram para casa.
destruição de Tróia e ao fim do Sucessivamente, os dois fi-
reino de Micenas. Hermes, rei lhos de Argo, Agamemnon e
dos ladrões, foi designado para Menelau, pousaram os olhos
levar a maçã e as três deusas a nas irmãs Clitemnestra e
Páris, o mortal escolhido para Helena. Agamemnon, de tem-
dirimir a disputa. Ele era filho peramento forte como um Zeus
de Príamo, rei de Tróia; quan- terreno, tirou Helena do primo
do a mulher deste, Hécuba, Tântalo, eliminando-o, e pediu
estava grávida, sua outra filha a mão de Helena para Menelau,
– Cassandra, dotada de dons dotado de um temperamento
proféticos – sugeriu que o manso e obediente, como con-
abortasse, porque a ele esta- diz com o mérito de uma esposa
ria ligado o triste destino da divina. Segundo os costumes, a
cidade. Mas Príamo não acre- mão de uma princesa devia ser
ditou – Cassandra, tendo sido pedida simultaneamente pelos
rejeitada por Apolo, nunca era pretendentes merecedores da

(187)
Monografia

cidade inteira, e isto não tanto o em Esparta como hóspede


para permitir à jovem a escolha, honorário e bem-vindo. No
mas para dar aos pretendentes a décimo dia precisou ir a Creta
chance de mostrar o fascínio e o e, nas horas que se seguiram,
poder de que eram capazes. Helena cedeu a Afrodite como
Todos os heróis que comba- uma rainha mortal. Enamorada
teram em Tróia por causa de de Páris, acompanhou-o levan-
Helena tomaram parte na do consigo muitos tesouros da
disputa matrimonial: pela casa real. O casal uniu-se na
ordem, citando apenas os ilha rochosa de Canae e, dali,
maiores, desfilaram Diomedes, velejaram até Tróia.
Odisseu, Ajax, o outro Ajax – o Íris, a alcoviteira mensageira
Pequeno –, Macaon, Podalírio, dos deuses, levou a notícia a
Idomeneu e – há controvérsias Menelau, que partiu de Creta
–, o próprio Aquiles. Tendo até o irmão, em Micenas.
Agamemnon demonstrado Agamemnon não hesitou em
preferência por Menelau para enviar uma mensagem aos
esposo de Helena, e tendo pretendentes para que não
ela aceitado, todos os heróis esquecessem do juramento
foram convocados e foi-lhes feito e lembrassem que, dali
pedido que jurassem que iriam em diante, na Grécia, nenhum
ajudar o marido escolhido se rei podia considerar-se seguro
alguém pretendesse disputar em relação à esposa se aquele
sua esposa. Feliz e ao mesmo sedutor não fosse punido. Como
tempo trágica precaução, como então o adultério era coisa ha-
se sabe. bitual, o argumento era forte,
A coroa destinada ao genro de mas não como Agamemnon
Zeus foi dada, pois, a Menelau, esperava: com efeito, levou dez
que era louro, tinha olhos azuis, anos para que convencesse os
o viço da juventude nas faces reis a preparar a expedição.
e os pés fortes. Helena lhe Não adiantou a Odisseu fingir-
deu uma filha, Hermíone, sua –se de louco para subtrair-se ao
cópia mais jovem. Mas nesse juramento, nem a Aquiles fin-
casamento, feliz a seu modo, gir-se de mulher para recusar a
deveria entrar Páris, resolvido convocação.
a cobrar o prêmio. Menelau, Completadas as fileiras, a frota
à margem dos fatos, recebeu- preparou-se para partir, mas

(188)
Monografia

as tempestades ameaçavam a para casa. Essa desorientação


partida. Ofereceram um cabri- deveria iluminar suas mentes,
tinho à deusa Artemis para que mas não foi assim.
liberasse o caminho, porém não Oito anos se passaram antes
agradou à deusa caprichosa que que eles se reunissem nova-
exigiu um sacrifício ao mesmo mente na Aulida, prontos para
tempo reparador e propiciató- a partida. Um segundo sinal
rio: o de Ifigênia, a filha de premonitório deveria detê-los.
Agamemnon. Como tirá-la da Durante um sacrifício de propi-
mãe, Clitemnestra? Fingindo ciação, surgiu uma serpente de
levá-la para ser esposa de dorso vermelho, que subiu num
Aquiles, sugeriu Odisseu. E as- plátano em cuja ponta havia um
sim foi feito. Mas, no momento ninho e engoliu oito tentilhões
de ser morta, a deusa substituiu e a mãe. Calcante, o adivinho,
a jovem por uma corça e levou-a não teve dúvidas: a guerra ia
consigo a Criméia, onde serviria durar nove anos e somente no
como sacerdotisa. Os mares se décimo Tróia seria vencida. Os
acalmaram e os gregos puderam insensatos decidiram prosse-
partir. Nesse ínterim, ofendida guir mesmo assim. Na viagem
com a mentira e o rapto da para Tróia pararam para visitar
filha, Clitemnestra começou a o santuário da deusa Crisis. A
cultivar ódio pelo marido, que, serpente, guardiã do templo
anos depois, lhe seria fatal. e para ela sagrada, atacou os
As conseqüências nefastas heróis mais próximos e mor-
desse sacrifício, ainda que não deu o pé de Filoteto, que foi
consumado, manifestaram-se abandonado na ilha de Lemno.
imediatamente. Novamente eles não quiseram
Fazendo-se ao mar, os gregos dar ouvidos aos sinais do céu.
foram impelidos para longe Finalmente, avistaram os muros
de Tróia, na Mísia, reino de de Tróia. O primeiro herói que
Teutrante. Acreditando que desceu à terra foi Protesilau,
aquela tinha relação com a que foi imediatamente morto
terra de Príamo, passaram um por um troiano desconhecido.
ano inteiro em guerra e, so- O herói estava casado havia só
mente depois da destruição da uma noite. A esposa, Pilotora,
Teutrânia deram-se conta do privada do ato amoroso, não
erro, velejando, então, de volta se considerava recompensada

(189)
Monografia

pelas elevadas honras reserva- suas armas, tinha se aventu-


das ao cônjuge abatido. Então, rado sob os muros de Tróia,
os deuses se enterneceram e onde encontrou a morte pelas
permitiram que Protesilau fi- mãos de Euforbio e Heitor.
casse uma noite com a mulher, Encolerizado, quis vingança.
não como uma sombra, mas na Inutilmente lembraram-no da
beleza de seu corpo, como se profecia de Tétis: “Depois de
não estivesse morto. Quando Heitor, tu morrerás”. Contudo,
Protesilau desapareceu, ela se sua resposta foi: “Que eu mor-
matou. ra, então”.
Também este sinal premonitório De nada valeram as súplicas
não os deteve. dos companheiros. Aquiles
O combate começou quando enfrentou e matou Heitor, mor-
Aquiles matou Cicno, filho de rendo pouco depois – como se
Poseidon, e se intensificaria sabe, sua imortalidade estava
depois que matasse Troilo, ligada a um fio e, antes de mor-
filho de Hécuba e Apolo. Os rer, atingido no calcanhar pela
nove anos passaram-se num flecha disparada por Páris, mas
crescendo de duelos, raptos dirigida a Apolo, pediu à mãe,
de mulheres, verdadeiras des- Tétis, para ver ao menos uma
truições. Foram combater em vez a bela mulher pela qual es-
favor de Tróia algumas mulhe- tava combatendo. Com a ajuda
res guerreiras que, segundo a de Afrodite, a mãe lhe mostra
tradição, deveriam distinguir-se Helena em pessoa. Aquiles olha
na batalha para poder escolher para ela e expira.
o esposo. Entre elas estava a A sorte de Tróia estava lançada,
amazona Pantesiléia, morta e agora a cidade de Ílion tinha
por Aquiles. Também tombou de tombar. O primeiro sinal fora
no campo Memnon, filho da a morte de Páris pela mão de
deusa Eros. A certa altura, Diomedes; o segundo, o encon-
Aquiles briga com Agamemnon tro, em Tróia, de Odisseu – que
por uma troca de concubinas e entra na cidade disfarçado de
decide ir embora. Teria sido mendigo – e Helena. Graças à
melhor para todos. Mas, quan- sua ajuda, Odisseu apodera-se
do já tinha organizado os seus do paládio1, lançando os troia-
homens para partir, foi avisado nos em desespero pelo furto
que Patroclo, investido de sacrílego. Assim, começam a

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Monografia

construção do cavalo com o ob- se salvou porque há tempos ti-


jetivo de ressarcimento e per- nha se retirado para as colinas
dão: os troianos caem no logro, nas cercanias de Tróia.
põem o cavalo para dentro dos As agruras de Odisseu dura-
muros e comemoram, felizes, ram dez anos. Tenho chegado a
pelo fim do cerco, enquanto Ítaca, teve a satisfação de ven-
Odisseu e seus homens abrem cer os arrogantes pretendentes
os portões para o exército em que ameaçavam sua mulher.
peso. Segue-se a matança. Contudo, a morte chegou tam-
Em meio a tamanha crueldade, bém para ele, quando acredi-
Helena espera pelo marido tava ter escapado de todos os
abandonado. Odisseu conduz perigos. Ao receber a notícia
Menelau até Helena, nos quar- de que um ladrão roubava seus
tos do Deífobo, junto ao santu- rebanhos, correu até a margem
ário do paládio, cujo caminho do rio para puni-lo e aí foi atin-
conhece bem. Brandindo a es- gido por uma flecha disparada
pada, Menelau se lança sobre por um de seus filhos, Telégono,
ela, causa da longa guerra e nascido de Circe, que acabava
daquela noite terrível. Helena de desembarcar em busca do
não foge, ao contrário: descobre pai que não conhecia: uma
o peito como se quisesse rece- cruel e tardia vingança da
ber o golpe, mas a espada cai no maga.
chão. Os dois se abraçam. Em Quanto a Helena e Menelau,
seguida, junto com Odisseu, depois de um naufrágio perto de
apressam-se a chegar até os Festo, na costa de Creta, onde
navios. perderam cinqüenta e cinco
Assim, começava o retorno dos de seus sessenta navios, uma
heróis da guerra troiana. Ao viagem de oito anos os levou
voltar para casa, Agamemnon à revelia primeiro para Chipre,
morre por mão assassina; Ajax depois para a Fenícia, Egito e
de Locrides morre num naufrá- Líbia. A conselho de Proteu,
gio; Diomedes, no exílio, nas retornaram ao Nilo para repa-
Tremites; Idomeneu, na costa rar os pecados e as omissões,
meridional da Itália. Somente e ofereceram sacrifícios a Zeus
a poucos, como ao velho Nestor para reencontrar o caminho de
de Pilos, foi destinado um retor- casa.
no feliz. Dos troianos, só Enéias Em suma, chegamos ao final da

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Monografia

história. Sem saber, Menelau inteira de Ílion e uma estirpe


conduz de Faro para casa a de heróis, imolaram-se por um
“verdadeira” mulher, mas a “engano”.
filha de Zeus... o esperava lá Uma vã aparência e uma es-
desde que havia sido raptada. colha absurda fizeram correr
O que aconteceu?... torrentes de sangue em Tróia,
Fontes confiáveis transmitem e ainda depois.
que a deusa Hera, ofendida
com o julgamento de Páris, ti- (Notas)
nha posto nos braços do troiano 1
Estátua de Palas, ou Minerva, deusa das artes
uma imagem viva de Helena e e da sabedoria, venerada em Tróia, que teria o
fez Hermes conduzir a verda- poder de tornar inexpugnável a cidade (N.T.)
deira Helena a Proteu, para
que a protegesse até o fim da Mario Unnia é presidente da Prospecta
guerra. Assim, Páris, a cidade (Milão).

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