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O Malhete

Informativo Maçônico, Político e Cultural


Linhares - ES, Dezembro de 2021 - Ano XIII - Nº 152 - E-mail: omalhete@gmail.com
02 Dezembro 2021 O Malhete

Indice
Ano XIII - Número 152- Dezembro de 2021

O Natal e a Maçonaria................................................. 03

O Amor Fraternal Verdadeiro Na Maçonaria Existe?..... 04

A Gravura Flammarion ................................................05

Dois Séculos do GOB e da Independência do Brasil ......06

Hiram Abbiff - O Sacrificado da Maçonaria ..................09

Platão e a Alegoria da Caverna ....................................10

Juramento Maçônico ..................................................16

Revolução Francesa................................................... 20

O Piso Mosaico doTemplo Maçônico ...........................23

A Dúvida Como Ferramenta do Processo Iniciático ......24


Adriano Medeiros John M. Bozeman Efeito Borboleta na Maçonaria: O Caso de Dutty
Antonella Antonelli José Ronaldo Viega Alves Boukman ...................................................................26
Barbara Empler Kennyo Ismail
Dário Angelo Baggieri Laurindo Roberto Gutierrez As Lorotas Que os Mestres Contam .............................28
Everaldo Damião Marco Antonio Peres
João Anatalino Tiago Cordeiro A Oração da Serenidade ............................................29

Erramos:
Na edição 151 - creditamos a autoria da matéria A Velhice na
Maçonaria ao Irmão Juracy Vilela de Sousa quando na verda-
de o texto é de autoria do Irmão Laurindo Roberto Guitierrez.

Com toda consideração aos Irmãos leitores, anunciantes, amigos e


familiares, A Revista O Malhete deseja um feliz Natal, cheio de amor,
que expressa o maior sentimento deixado por Jesus Cristo!

Lembrar que o verdadeiro significado do Natal é o amor, nos traz paz,


ainda mais quando paramos e observamos que o sentido do Natal está
na celebração do nascimento de Jesus Cristo Nosso senhor que nos
trouxe a salvação.

Então, que o menino Jesus possa nascer de novo na manjedoura do


seu coração e iluminá-lo, afim de que você tenha não somente um feliz
Natal, mas uma vida inteira abençoada e iluminada pelo Senhor.

Luiz Sérgio Castro


Editor
O Malhete Dezembro 2021 03

O NATAL E A MAÇONARIA momento em que prevalecem os sentimentos de Mesmo assim, por negligência de alguns Vene-
Paz e de Boa Vontade entre os seres humanos. ráveis Mestres, esses valores são desviados para
No conceito da Maçonaria, o Natal é mais do outras finalidades da Oficina, utilizando-se da
que isso. Entre os deveres do Maçom, destaca-se “Bolsa da Beneficência” para o pagamento de
o socorro aos desprovidos. Deve-se lembrar que despesas administrativas, em detrimento das
a ajuda negada aos necessitados é um “perjúrio” pessoas necessitadas. Mas, essa atitude indigna
Por Everaldo Damião (juramento falso ou violação de juramento) para deve ser afastada do convívio maçônico. Exis-
o Maçom, que integra uma Instituição que se tem Lojas que deliberam no sentido de que cada

O Natal de Jesus data de 25 de dezembro do


ano 363 d. C., com celebração instituída
pelo Papa Libério da Igreja Católica. Mas
essa data não é real. O menino nasceu em 25 de
Agosto do ano 7 a.C., em pleno “solstício” de
proclama filosófica, filantrópica e progressiva.
Porém, no âmbito jurídico, o “perjúrio” não é
um delito penal, mas “mentir” perante um juiz
em Tribunal é crime de falso testemunho. Por
irmão do Quadro Social deve doar o valor de R$
5,00 (cinco reais) para o Tronco de solidarieda-
de, no mínimo. Mas, se o “obreiro” não tiver
dinheiro naquele dia, deverá compensar sua obri-
outro lado, essa assistência aos carentes não gação na próxima reunião, depositando o crédito
verão. A Igreja entendeu que o Nascimento do pode ser restrita ao mínimo necessário. Ela deve deste dia acrescido do valor que deveria ter ofe-
Cristo deveria ocorrer durante as festividades ser extensiva à saúde, à educação, à moradia, recido na data anterior, para não perder o antigo
pagãs (costumes ligados às festas solares e agrí- defendendo os direitos do próximo no tocante à costume. É claro que essa norma só exigida para
colas), que vários povos realizavam no período vida, à segurança, à liberdade, à igualdade e à os membros do Quadro Social. Os visitantes
do “solstício” de inverno no mês de dezembro, fraternidade. Aliás, nenhuma organização fra- estão dispensados dessa exigência. Quanto ao
como meio de unificar a comemoração da nativi- terna que se proclama Iniciática pode se furtar de dever da caridade, sabe-se que o Mestre dos Mes-
dade do “Mestre Salvador” de todas as nações e defender o bem-estar da comunidade que lhes tres, em sua prática de virtudes teológicas, tanto
tribos. O calendário cristão assinalou o dia 25 de cerca. Para os maçons, independentemente de morais como espirituais, a Fraternidade coloca o
dezembro no sentido de comemorar a Nativida- ser cristão, o ser humano é o objetivo principal. ser humano acima das diferenças étnicas, sociais
de do Cristo, como o Sol da Justiça. Na antiga É princípio da Ordem Maçônica fundar e manter ou políticas.
Roma, as “Saturnálias” eram festas de confrater- Escolas, Hospitais, Asilos e Creches. A Cultura Nessa época natalina é dever do Maçom refle-
nização. Enfeitavam-se as casas com luzes, Maçônica deve se voltar aos interesses da soli- tir acerca dos compromissos assumidos para
ramos verdes e pequenas árvores, inclusive pre- dariedade humana e da defesa em favor dos ani- com a sociedade, para com o próximo e para
sentes eram oferecidos às crianças e aos pobres. mais indefesos. E tanto isso é verdade que nas com a Instituição Maçônica. Essa é a oportuni-
Como símbolo da sobrevivência da natureza, as reuniões maçônicas, os maçons são convocados dade para se materializar os propósitos de aper-
árvores natalinas datam do Século VIII, quando a participar de um “Tronco da Solidariedade”, feiçoamento físico e espiritual. Só assim, pode-
o monge beneditino São Bonifácio cristianizou visando praticar a filantropia. Não se pode se comemorar o verdadeiro Espírito de Natal,
a Germânia (Alemanha) e introduziu a Árvore esquecer que, em sua origem, a Maçonaria era venerando a graça do Menino Jesus, alegre e
de Natal (o Pinheiro) substituindo o “Carvalho” uma “confraria de auto-ajuda”. No ano de 1725, consciente, em perfeita harmonia com o Grande
Sagrado de Odin, adotado pelos povos germâni- a Grande Loja de Londres criou o “Fundo Cari- Arquiteto do Universo, que nos dá força e sabe-
cos. O Presépio (como é conhecido) é uma cria- tas” para socorrer e amparar os obreiros e às suas doria em todos os instantes das nossas vidas,
ção de São Francisco de Assis. A partir do Século famílias. tanto na terra quanto na eternidade… Pensemos
XIX, as festas natalinas no Ocidente se tornaram No entanto, a maioria das Lojas Maçônicas nisso!
mais populares e comerciais. Atualmente, o arrecada um “Tronco de Solidariedade” irrisório
Natal de Jesus, cujo patrono é São Nicolau (o que não atende à Bolsa da Beneficência. É
Papai Noel), é a festa da família e das crianças, pequeno o donativo da maioria dos maçons.
04 Dezembro 2021 O Malhete

O AMOR FRATERNAL VERDADEIRO NA MAÇONARIA EXISTE?


(*) O autor, Irmão Dario Angelo Baggieri é médico, é Mestre Instalado; membro da Academia Maçônica
de Letras do Espírito Santo onde ocupa a cadeira nº 1, cujo patrono é o Alferes Tiradentes.

motivado apenas pelo desejo de vê-lo feliz. Lem- para verdadeira luz e a fixou em seu interior.
brando que é possível amar incondicionalmente Amor fraternal é um sentimento de carinho
outras pessoas, como familiares e irmãos maçô- muito forte, de dedicação, de interesse pela figu-
nicos, cônjuge, amigos, contudo, trata-se de algo ra do outro, gerando sentimentos positivos e
mais raro, já que a natureza humana envolve doa- construtivos, podendo até em certos momentos,
ção e retribuição, sentimentos e posturas, cada levar o indivíduo a fazer grandes sacrifícios, que

O
amor incondicional é conhecido como o
vez mais raras na sociedade atual. só seria capaz de fazer por ele mesmo.
afeto sem quaisquer limitações. Este
Considerando tudo isso, existem dois pontos O amor fraternal valoriza a confiança mútua,
termo é às vezes associado a outros ter-
que precisam ser esclarecidos. O primeiro: o fato havendo também um perfeito entrosamento
mos tal como o verdadeiro altruísmo, amor com-
de não amar, aparentemente demonstrável a um entre as pessoas, porque são relacionamentos
pleto.
irmão, não significa que não o ame de verdade e tranquilos e afetuosos, duradouras e estáveis,
Não há um consenso sobre o que exatamente
de todo o seu coração, pois isso não anula o gran- profundo e compromissado.
seja o amor incondicional. ... Lembrando que é
de carinho que sente por ele. Já o segundo ponto Agora analisando à luz da maçonaria contem-
possível amar incondicionalmente outras pesso-
diz respeito ao amor-próprio, pois amar frater- porânea atual, surge a pergunta: " EXISTE
as, como familiares, cônjuge, amigos, contudo,
nalmente, nada tem a ver com se anular ou colo- AINDA O VERDADEIRO AMOR
trata-se de algo mais raro, já que a natureza
car a felicidade de um terceiro acima da sua e FRATERNAL NA MAÇONARIA?"
humana envolve certas condições, principal-
sim desejar o melhor para ele assim como deseja Diria o Sábio, cada irmão, do menor aprendiz
mente ligadas ao ato de retribuir.
para si, sem esperar nada em troca. ao mais renomado mestre teria que olhar para
O amor é um sentimento universal, poderoso,
A empatia está sempre presente no amor fra- seu interior e responder a SI PRÓPRIO, sem sub-
que podemos sentir por várias pessoas e de mane-
ternal, pois através dela é possível se colocar no terfúgios, sem figuras de retóricas fictícias e
iras diferentes. Porém, existe uma versão que
lugar do outro e evitar ter atitudes que não gosta- embromadoras, sem a eloquência da vulgarida-
alguns afirmam sentir e que chamam de amor
ria que tivessem contigo. Quando se é empático, de e pobreza dos discursos vazios e que não
incondicional, um sentimento que é tão forte que
fica mais fácil ser respeitoso com o espaço alheio fomentam o crescimento interior.
é capaz de ultrapassar qualquer barreira. Faça
e evitar excessos, mesmo que motivado por boas Fraternidade significa parentesco entre
uma análise interior à respeito do assunto, tra-
intenções. irmãos. A fraternidade universal designa a boa
zendo, aqui, à baila seus sentimentos à Luz de
Outra ação que pode ser promovida através da relação entre os homens, em que se desenvol-
um Verdadeiro Iniciado.
empatia presente no amor fraternal, mas que vem sentimentos de afeto próprios dos irmãos de
Alguns eruditos em Maçonaria dizem que se
merece um tópico de destaque, é o perdão. Afi- sangue e aqui no caso, entre irmãos maçons.
trata simplesmente de um amor fraternal, verda-
nal, quando você se coloca no lugar de um irmão Fraternidade é o laço de união entre os
deiro em essência e em espírito, e acho que essa
que errou, chega à conclusão de que poderia ter homens, fundado no respeito pela dignidade da
colocação faz bastante sentido. Afinal, se formos
falhado também, afinal, são seres humano e isso pessoa humana e na igualdade de direitos entre
pensar no significado da palavra AMOR
é natural. E essa postura faz com que o perdão todos os seres humanos.
FRATERNAL, veremos que se trata de algo que
aconteça com mais naturalidade. Se nao tiver Igualdade e Liberdade, jamais
não está relacionado a nenhuma condição, ou
Amor e inveja são dois sentimentos que não poderá existir a Fraternidade. Essa Trilogia, não
seja, se ama alguém independente de qualquer
combinam, pois um anula o outro. Dessa manei- foi escolhida por acaso para ser a Essência da
coisa, sem qualquer tipo de interesse ou necessi-
ra, quando se ama de forma verdadeira, um Ordem Maçônica ....Agora responda com fran-
dade de retribuição. E essa explicação lembra
irmão Maçom é incondicional e natural torcer queza, sua resposta não nos ofenderá: Vós amais
muito o amor em sua mais pura essência.
para o sucesso dele e se sentir feliz com as suas verdadeiramente ao seu irmão maçom?
Quando se fala a respeito de amor EM
conquistas.Isso não ocorrendo é falsidade e Um ósculo fraternal em seu coração.
ESSÊNCIA, uma primeira relações que nos vêm
pobreza de espirito, que jamais deve campear TFA
à mente é aquela entre uma mãe e seu filho, pois
um coração e mente de um cidadão que tem o Dario Angelo Baggieri
trata-se de um sentimento puro, desinteressado,
coração sensível ao bem e que abriu os olhos
O Malhete Dezembro 2021 05

Uma versão da gravura feita a lápis de cor por um físico de Houston

A GRAVURA FLAMMARION:
A "GRAVURA MAÇÔNICA" QUE NÃO É
como mostrando um homem rompendo e ticos e místicos dos séculos XVII e XVIII
vendo a experiência comum do passado a que elaboraram obras alegóricas combinan-
fim de compreender os maravilhosos do elementos visualmente artísticos e literá-
padrões cósmicos subjacentes do universo, rios. A imagem de Flammarion é mística, ao
apareceu pela primeira vez no livro de Flam- mesmo tempo que alude claramente à ciên-
Por JOHN M. BOZEMAN marion, The Atmosphere: Popular Meteoro- cia e a novas descobertas. Não é de admirar
logy, publicado em Paris em 1888. que tenha atraído a atenção dos maçons ao

O astrônomo francês Camille Flamma-


rion (1842–1925), tornou-se uma
celebridade ao escrever sobre as des-
cobertas em astronomia da época, incluindo
seu best-seller de 1892, Planeta Marte e seus
O homem representado na gravura é um
viajante que caminha bem acima de uma
cidade e entra de cabeça em um reino tanto
do espaço quanto do etéreo. A imagem lem-
bra o Pilgrim's Progress de John Bunyan,
longo dos anos, com a Arte tendo os pés plan-
tados tanto no mundo esotérico quanto no
racional. Convidamos os leitores a tirar suas
próprias conclusões examinando a versão
moderna colorida da gravura desta página,
Condições habitáveis. Embora Camille Emblems by Frances Quarles, as obras de enquanto relembram as palavras de William
Flammarion não seja conhecido por ter sido William Blake e outros escritores emblemá- Wilmshurst em The Meaning of Masonry
um maçom, suas noções de iluminação (1922):
humana, liberdade e progresso universal O máximo que se pode esperar é oferecer
certamente mostram sua admiração pelas algumas sugestões ou pistas, que aqueles
virtudes maçônicas. Originalmente treinado que assim o desejarem podem desenvolver
como gravador, Flammarion provavelmen- para si próprios na privacidade de seus pró-
te criou ou encomendou uma "gravura Flam- prios pensamentos. Pois no último recurso
marion" que às vezes aparece em obras ninguém pode comunicar as coisas mais
maçônicas, como a capa do livro Shibbo- profundas da Maçonaria a outro. (Capítulo
leth: A Primer on the Middle Chamber, de 1)
Charles Matulewicz, revisado no Scottish ________________________________
Rite Journal de março / abril de 2021 . A gra- Fonte: Scottish Rite Journal
vura em madeira, que pode ser interpretada Camille Flammarion (1842–1925
06 Dezembro 2021 O Malhete

DOIS SÉCULOS DO GOB – GRANDE ORIENTE DO BRASIL


E DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
O autor, Irmão Marco Antonio Peres é membro da ARGBLS Estrela de Rio Claro Oriente de Rio Claro - SP

fala?”. do à CMI - Confederação Maçônica Intera-


Do site da Grande Loja do Estado de São mericana, entidade internacional que congre-
Paulo: “Mário Behring, então Presidente do ga 78 Potências Regulares reconhecidas
Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Esco- como tais, da América Latina e Europa, e que
cês Antigo e Aceito para o Brasil – ocupou tal se identificam pelo Ideal Universalista Fran-
cargo de 1922 a 1933 – ao voltar de um con- co-Maçônico.”

E
m 2022 o GOB – Grande Oriente do Bra-
sil que se fez Entidade Maçônica de gresso na França, constatou que a Maçonaria Do site da COMAB: “A formação do Colé-
união nacional completará dois séculos no Brasil não era praticada como no resto do gio de Presidentes da Maçonaria Brasileira.
no dia 17 de junho. mundo, ou seja, com a organização de Potên- Colégio de Presidentes da Maçonaria Bra-
O Brasil, como País independente, tam- cias Simbólicas de jurisdições menores. sileira – fundado em 04/08/1973.
bém completará 200 anos no próximo ano, Tomou, portanto, a iniciativa de criar um Em 1973, a Maçonaria no Brasil passou
em 7 de Setembro. movimento que daria, algum tempo depois, por um processo de declaração conjunto de
Enquanto o Brasil se tornou um País unido origem às Grandes Lojas brasileiras. Estava desfiliação de dez Grandes Orientes Estadua-
e ainda maior, apesar das divergências inter- aberto o caminho para a instalação da Grande is do Grande Oriente do Brasil.
nas: algumas partidárias e outras de luta pelo Loja Maçônica do Estado de São Paulo. No Esse fato é considerado, junto com o
poder. Seu povo quase sempre, com algumas dia 2 de julho de 1927”. momento histórico de 1927, um dos maiores
pequenas exceções, não buscou dividi-lo e Do site do Grande Oriente Paulista: “No acontecimentos da História da Maçonaria no
sim fazê-lo unido. dia 04 de agosto de 1981, nascia o Grande Ori- Brasil, dando origem ao chamado 'Colégio de
Qual a dificuldade que a Maçonaria Brasi- ente Paulista, pela livre manifestação e vonta- Presidentes da Maçonaria Brasileira'.
leira teve para se manter unida? Vaidade, de dos Obreiros de 58 Lojas Maçônicas, Iniciava-se uma nova jornada na Maçona-
busca de espaço, ou falta de objetivo em bem advindas do GOB, e que assinaram a Ata de ria brasileira e fixavam-se os alicerces para
maior? Fundação. Alguns dias após, somaram-se que outros Grandes Orientes Estaduais se ori-
Tivemos grandes maçons que trabalharam outras Oficinas, num total de 67 Lojas. entassem pelos princípios federativos e cons-
pelo engrandecimento da Ordem, buscando a Constituindo-se, desde seu nascedouro, tituíssem, primeiramente, um Colégio de Pre-
união – até Lojas do Uruguai prestavam obe- como uma Potência Maçônica Simbólica, sidentes da Maçonaria brasileira, que evoluiu
diência ao GOB e os bons maçons entende- independente, soberana, regular, legal e legí- para a Confederação Maçônica do Brasil -
ram que tínhamos que renumerar as nossas e tima, o Grande Oriente Paulista é filiado à COMAB [SOBRINHO, Octacílio Schüler
facilitar a unidade deles, outros que não sou- COMAB. Confederação Maçônica do Brasil, Sobrinho: 'Uma Luz na História: o sentido e a
beram exercer a tolerância e ser menos para a entidade nacional que traz em si uma conduta formação da COMAB'. Florianópolis: Ed. O
causa maior nos levaram as nossas cisões. voltada aos mais elevados princípios de PRUMO, 1998. p.299].
Já tivemos de ouvir de governantes nacio- essencialidade e existencialidade.
nais: “em nome de que maçonaria você O Grande Oriente Paulista, é também filia- >>>>>>
O Malhete Dezembro 2021 07
Por convocação do Grão-Mestre de Minas de Oriente ao Vale dos
Gerais, Athos Vieira de Andrade, reuniram-se Beneditinos.
em Belo Horizonte/MG os Presidentes Danylo O Supremo Conselho
José Fernandes, do Grande Oriente de São Pau- do Brasil – Lavradio, irá
lo, Osmar Maria Diógenes, do Grande Oriente à busca do Reconheci-
do Ceará, Salatiel de Vasconcelos Silva, do mento do GOB. Homens
Grande Oriente do Rio Grande do Norte, Celso buscando o bem comum,
Clarimundo da Fonseca, do Grande Oriente do com o trabalho da inteli-
Distrito Federal, Nilson Constantino, do Gran- gência para fortaleci-
de Oriente do Mato Grosso, Enoch Vieira dos mento e a unidade.
Santos, do Grande Oriente do Paraná, Miguel Vejam a preocupação
Christakis, do Grande Oriente de Santa Catari- demonstrada, naquela
na, Luiz Alberto de Alcântara Velho Barreto, época, em um trecho da
do Grande Oriente de Pernambuco, Afonso carta emitida pelo nosso
Augusto de Morais, do Grande Oriente do futuro 11º Soberano
Maranhão, e Ivan Neiva Neves, do Grande Ori- Grande Comendador.
ente do Espírito Santo, resultando, dessa reu- Vejam já estávamos no
nião, a fundação do Colégio de Presidentes da século XIX.
Maçonaria Brasileira.”  “Não eram-me
Independente da visão que cada um possa estranhas as dificulda-
ter, inclusive para defender sua tese, mesmos des que tinha que vencer
aqueles que afirmavam estar melhorando o para conseguir o objeto
sistema maçônico, o que muitos não concor- de minha missão: sabia
dam. Vou lembrar um pouco da história, do iní- do malogro de idênticas
cio dos primeiros anos dos 200: tentativas feitas por
parte do pretenso 'Gran-
A Importância da REGULARIDADE e de. Oriente ao Vale dos
do RECONHECIMENTO para uma Poten- Beneditinos'; e nem tão
cia Maçônica. pouco ignorava qual a
prevenção, que, desde
Todo maçom sabe da obrigação de preser- muito, se havia despertado no seio da Grande como o pretenso nome de Grande Oriente Uni-
varmos nossas Potências Maçônicas Regula- Loja Unida da Inglaterra contra toda a ideia do, vendendo a ideia que a fusão havia sido con-
res e Reconhecidas, não permitirmos que irre- de reconhecimento de qualquer dos dois Ori- sumada. Diante desse quadro o que faz o Sobe-
gulares convivam no mesmo Território. entes do Brazil pelo fato de dissidência, que rano Grande Comendador José Maria da Silva
Tendo-se firmado em nível nacional e inter- separa em dois corpos a família maçônica em Paranhos - possuía o cargo desde 1870.
nacional como a Grande Loja-Mãe da Maço- nosso país.” Toma o supremo malhete em 06 de setembro
naria Universal, hoje com mais de 300 anos, a A Importância do Supremo Conselho do de 1879, voltando o Marechal Francisco José
Grande Loja Unida da Inglaterra começou a Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Cardoso Júnior a condição de Lugar Tenente.
exercer o papel de liderança mundial nas Lojas Aceito, hoje no Campo de São Cristóvão, na De imediato o Soberano Grande Comendador
simbólicas. Também, com essa liderança, bai- época no Lavradio, para o reconhecimento do José Maria da Silva Paranhos, que havia sido
xar normas, celebrando convênios e legislando Grande Oriente do Brasil, bem como, com Cônsul-Geral em Liverpool (1876), nomeou o
para todos os ritos e obediências maçônicas. isso, ter trazido a harmonia em solo brasileiro chefe de esquadra, Almirante Artur Silveira da
A Importância da busca da unidade em um da maçonaria, será evidenciado no relato abai- Mota grau 33, membro efetivo do Supremo,
território! xo. como Delegado Especial, do Supremo e do
O Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 Grande Oriente do Brasil, para tratar do reco-
O Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito já havia nhecimento pela Grande Loja Unida da Ingla-
para o Rito Escocês Antigo e Aceito, hoje com sido considerado RECONHECIDO em 1834. terra. Para dar legalidade ao ato, essa nomea-
endereço no Campo de São Cristóvão, nº 114 - Tendo feito um tratado com o Supremo Inglês ção foi confirmada pelo Grande Oriente do
São Cristóvão - Rio de Janeiro – RJ havia con- em abril de 1867. Brasil, em sessão de 16 de outubro de 1879. O
seguido sua REGULARIDADE e Em 30 de julho de 1879 retornava da Europa emissário embarca em missão do Governo
RECONHECIMENTO através do Tratado de o Visconde do Rio Branco, que havia nascido Imperial a bordo da corveta “Vital d'Oliveira”
Amizade com o Supremo A&AR, Inglês, em José Maria da Silva Paranhos (nasceu na cida- que chega a Inglaterra no início de 1880.
abril de 1867. de de Salvador, Bahia, a 16 de março de 1819, Em 1880 o GOB já tinha quase 58 anos, está-
No início do século 19, quando a maçonaria ainda durante o reinado de D. João VI. Era filho vamos a nove anos da Republica e o Grande
passou a ser uma Entidade Constituída no Bra- de Agostinho da Silva Paranhos e de Josefa Oriente do Brasil não tinha seu reconhecimen-
sil, também o começo de suas atividades, o Emerenciana Barreiro Paranhos. Faleceu no to. O Supremo do Lavradio - hoje Campo de
Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rio de Janeiro a 1º de novembro de 1880). São Cristóvão, nº 114 - São Cristóvão - Rio de
Rito Escocês Antigo e Aceito e o GOB (atual Não confundir com seu filho José Maria da Janeiro – RJ, já tinha 46 anos de reconheci-
Grande Oriente do Brasil) habitavam o mesmo Silva Paranhos Júnior – O Barão do Rio Bran- mento internacional e aproximadamente 13
prédio na Rua do Lavradio, na época nº 83, ao co (nascido no Rio de Janeiro em 20 de Abril de anos de Tratado de Amizade com os Ingleses.
Vale do Rio de Janeiro – RJ. 1845 e falecido no Rio de Janeiro em 10 de O Supremo Conselho do Brasil do Grau 33
Apesar da convivência, havia uma situação fevereiro de 1912). para o Rito Escocês Antigo e Aceito coexistia
difícil para ser resolvida, no mesmo prédio exis- As ações do pai muitas vezes são esquecidas no mesmo prédio com o outro Corpo. Essa
tia uma potência reconhecida e regular e outra, pelas, também, grandes realizações do filho. outra Entidade que dirigia os graus simbólicos
o GOB, que era gestora dos graus 1 a 3, que não Ele (pai) havia sido reeleito em 16 de março de – o Boletim da época é prova cabal- vide Bole-
tinha conseguido sua REGULARIDADE ou o 1875 como Grão-Mestre do Grande Oriente do tim nº 7, ano 10, julho de 1881 (capa - Fac-
RECONHECIMENTO. Essa situação era em Brasil. Tinha uma grande preocupação, já que símile I).
virtude de que a Grande Loja Unida da Ingla- desde 1872 as tratativas de fusão dos dois gran-
terra não decidia pela suplica do GOB, tendo des orientes não se tornavam realidade – O >>>>>>
em vistas a existência de duas potências maçô- Grande Oriente Unido.
nicas existindo no solo Brasileiro. Alem do Saldanha Marinho insistia em manter o
GOB – Grande Oriente do Brasil havia o Gran- Grande Oriente ao Vale dos Beneditinos, agora
08 Dezembro 2021 O Malhete
Diante disso o Soberano Grande Comendador emitem cartas de reco-
e Grão-Mestre José Maria da Silva Paranhos nhecimento mutuo.
usava de sua última cartada diplomática. Seus Em 18 de dezembro de
conhecimentos de relações exteriores eram bas- 1882 era considerado
tante sólidas, determina que o Irmão Arthur Silve- extinto o Grande Ori-
ira da Motta investisse toda a sua força e trabalho ente Unido e a 18 de
para acabar, de uma vez por todas, com a dúvida janeiro de 1883 se
reinante na Loja Mãe e, dessa forma, vai buscar a declara a existência de
regularidade do GOB. uma única Obediência
Temos que registrar que o Supremo tinha con- simbólica, sob o título
seguido sua REGULARIDADE junto a outros original de “Grande
Supremos, reunidos, em 1834, quando esteve pre- Oriente do Brasil”.
sente, ainda como Lugar-Tenente, o nosso 2º C o m e s s a
Soberano Grande Comendador Dr. Antônio Car- REGULARIDADE e o
los Ribeiro de Andrade, isso no I Congresso Inter- surgimento, na jurisdi-
nacional de Supremos Conselhos. Naquele Con- ção do Grande Oriente
gresso foi considerada verdadeira e válida a fun- do Brasil, de um núme-
dação do Supremo Conselho do Brasil, em 12 de ro considerável de
Novembro de 1832. A autorização de sua funda- Lojas do Rito de York,
ção era originada por uma patente fornecida pelo trabalhando no idioma
Supremo Conselho dos Países Baixos (hoje Bél- inglês, foi assinado, a
gica ou novamente o nome da época), em 1829, 21 de dezembro de
quando se encontrava exilado na Europa, Francis- 1912, durante o Grão-
co Gê Acayaba de Montezuma – que também foi Mestrado de Lauro
ministro de relações exteriores do Brasil - nosso Sodré (Gen. Lauro
1º Soberano Grande Comendador, para onde fora Nina Sodré e Silva, que
após a queda dos Andradas, em 1823, e que só havia sido o 18º Sobe-
retornou após a abdicação do Imperador Dom rano em 1904), um
Pedro I, em 7 de Abril de 1831.  novo convênio com a
Como a Inglaterra já tinha o Supremo como Grande Loja Unida da
REGULAR o então Almirante Arthur Silveira da Inglaterra, que perdu-
Motta, se apresenta, representando o Supremo rou até a assinatura de
Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Esco- um Tratado de Reco-
cês Antigo e Aceito, perante as Potências Maçôni- nhecimento Mútuo em
cas do mundo, e este pede, através de carta datada 1935. Este Tratado esta-
de 10 de janeiro de 1880, a interseção de Sua Alte- beleceria uma íntima e
za Real, o Príncipe de Gales Charles Edward, indissolúvel Aliança entre o Grande Oriente do Brasil permaneceu na velha capital, na Rua do
Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra Brasil e a United Grand Lodge of England. Quem Lavradio.
pelo o GOB. assina pelo Grande Oriente do Brasil é o nosso 28º
A referida carta foi então respondida pelo Gran- Soberano Grande Comendador, no cargo desde A Unidade e a Desmistificação
de Secretário da Grande Loja Unida da Inglaterra, 1933. Ao Ir.·. (General) José Moreira Guimarães, Sempre os dois Altos Corpos (Supremo Conse-
Tenente Coronel Shadwell Clark, a 30 de janeiro eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil a lho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Anti-
de 1880, informando que o pedido havia sido apro- 24 de junho de 1934, caberia assinar importante go e Aceito e o Grande Oriente do Brasil)
vado pelo Grão-Mestre da Inglaterra. Tratado de Aliança Fraternal, com a Grande Loja demonstraram suas vontades de manter uma ínti-
Este foi o 1º. Reconhecimento Oficial Grande Unida da Inglaterra no dia 26 de maio de 1935. ma e indissolúvel aliança.
Loja Unida da Inglaterra ao futuro Grande Orien- Essa vontade ficou bastante evidenciada
te do Brasil, não configurando ainda um Convê- A separação dos Corpos mesmo quando ardilosamente, em 1927, o nosso
nio ou Tratado, mas o reconhecimento, uma Em 15 de novembro de 1965, no 133º aniversá- 26º Soberano, isoladamente levou o que seria a
REGULARIDADE. rio do Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 nossa REGULARIDADE. O Grande Oriente do
Em 1º de julho de 1881, com 18 membros efeti- para o Rito Escocês Antigo e Aceito e 85 anos da Brasil, vivendo os fatos e sendo testemunha ocu-
vos, sob a presidência do Irmão Antonio Álvares REGULARIDADE do Grande Oriente do Brasil, lar, ficou sempre ao lado do Corpo que mantinha a
Coruja – Decano Presente – o Supremo Conselho os “Altos Corpos” assinam um “Tratado de Ami- REGULARIDADE.
concede os títulos de Membros Honorários a Sua zade e Aliança Maçônicas” onde renovam a ami- Meus Irmãos a humanidade sempre prezou
Alteza Real o Príncipe de Gales Charles Edward, zade e aliança existente por mais de um século. pelos Direitos e não vamos aqui discutir essa situ-
Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra Esse tratado foi assinado pelo nosso 30º Soberano ação, devemos evidenciar que existe o direito e a
e ao Irmão Lord Skelmersdale, Earl of Lathom, Grande Comendador (Dr.) José Marcello Moreira moral. O Divórcio entre o moral e o direito nasceu
Soberano Grande Comendador do Supremo Con- (1952-1972) e o Grão-Mestre Geral Álvaro Pal- justamente no século 18 sob a inspiração do Ilu-
selho d'Inglaterra. – vide página 206 do boletim 7 meira; nele continha a separação definitiva dos minismo. Apesar do avanço e de ele permitir a
supracitado de julho de 1881 (Fac-símile II). Corpos. Com isso o Supremo Conselho do Brasil diminuição da violência pelo estado sob o povo,
O Grão-Mestre, eleito em 24 de junho e 04 de do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito diminuindo a força do Estado Dominante. Com
julho de 1881, João Alfredo Correa de Oliveira, assume o compromisso de sair do Lavradio. essa colocação vendeu-se que deixaríamos de
para substituir o Visconde do Rio Branco, não Esse tratado de 15 de novembro de 1965 tam- punir práticas que alguns julgam imorais, mas não
tomou posse. bém é assinado, pelo ainda, Grande Secretário prejudicam o convívio social. Essas colocações
Foi então que comando do Soberano Grande Geral do Santo Império, o futuro 32º Soberano escondem, às vezes, o enfraquecimento do Esta-
Comendador Almirante Arthur Silveira da Motta, Grande Comendador, do Supremo Conselho do do. No nosso caso, a União da Maçonaria, se mos-
nascido em São Pulo em 1843, que a Maçonaria Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e trou que nossa divisão enfraqueceu-nos, isso é
Brasileira viu sua normalidade. Era Grão-Mestre Aceito, o Irmão Dr. Ariovaldo Vulcano (1972- claro e ululante, como diria o escritor Nelson
adjunto, porém quem de fato governava, também 1988). Esse Irmão foi posteriormente homenage- Rodrigues. Essa é minha visão!
o Grande Oriente do Brasil, até 05 de maio de ado pelo GOB - o museu central da sede de Brasí- Iremos à busca do quase impossível? Buscar a
1882. lia tem o seu nome. UNIDADE?
Essa normalidade chegou com a o pedido de O Grande Oriente do Brasil sempre procurou ____________________________________
Bibliografia:
demissão de Saldanha Marinho em 30 de março ter sua sede na Capital da Nação, iniciou suas ati- Boletim do Supremo e do Grande Oriente nº 7, ano 10, julho de 1881
História do Supremo Conselho do Grau 33 do Brasil - Kurt Prober
de 1882. Cansado, doente via os fatos corroendo o vidades no Rio de Janeiro e depois mudou sua História do Grande Oriente do Brasil – José Castellani
seu “Grande Oriente Unido”. Isso ficou evidente sede para Brasília – DF. Registra-se que foi
quando em junho de 1882 o Supremo Conselho somente durante um pequeno período a Capital
dos Estados Unidos – jurisdição Norte e Brasil do País esteve em Brasília e o Grande Oriente do
O Malhete Dezembro 2021 09

HIRAM ABBIFF
O SACRIFICADO DA MAÇONARIA
as antigas iniciações recorriam ao estratage- se conectou com o mito do herói sacrificado e
ma do ritual funerário para simbolizar a “mor- deu, como resultado, a Lenda do Mestre
te”, pois sem esta não poderia haver um Hiram. A marcha dos Irmãos em volta do
renascimento. Até a teologia cristã usou esse esquife de Hiram nada mais é que uma imita-
simbolismo para dar mais força à sua prega- ção desse antigo ritual, que espelha a ansie-
Por João Anatalino ção, com o episódio da ressurreição de Láza- dade do nosso inconsciente em encontrar o
ro e a própria morte e ressurreição de Jesus seu “herói” sacrificado, para nele realizar a

A Maçonaria, como se sabe, também após três dias na tumba. sua ressurreição. Em suma, é uma marcha em
presta o seu culto ao herói sacrificado. A Lenda do Mestre Hiram, no ritual busca do sol, que contém a energia que faz a
Todo maçom que tenha sido elevado ao maçom, é uma reminiscência bastante clara semente se regenerar. Por isso ela é feita sem-
mestrado na Arte Real já fez a sua marcha do chamado sacrifício da completação. Na pre no sentido do Ocidente para o Oriente.
ritual em volta do esquife do Mestre Hiram verdade, ela foi cunhada em cima da infor- _________________________________
Abiff, o arquiteto do Templo do Rei Salomão, mação de que Salomão, ao completar a obra Fonte: Recanto das Letras
assassinado pelos três companheiros ambici- do Templo, sacrificou muitos animais. Em
osos, que queriam abreviar o prazo de seu conexão com essa tradição, era preciso gerar
aprendizado e obter os graus mais elevados a ideia de um sacrifício mais simbólico e
sem o devido mérito. A alegoria da morte de impactante, para marcar a construção de uma
Hiram é uma clara alusão ao mito do sacrifi- obra tão importante, que era a própria Maço-
cado. Ele está conectado, de um lado ao sim- naria, simbolizada na construção do Templo
bolismo da ressurreição e de outro lado ao do rei Salomão. Nasceu então, na cabeça dos
mito solar. Pois nas antigas religiões solares, autores do ritual, a ideia de “sacrificar” o
o Sol, princípio da vida, morria todos os dias Mestre Construtor do Templo, assim como
para ressuscitar no dia seguinte, após passar nas antigas tradições egípcias, o arquiteto das
uma noite em meio ás trevas. tumbas faraônicas costumava ser imolado
O sol, como acreditavam os antigos povos, para não revelar seus segredos.
era o esposo da terra. Era pelo efeito do seu Os autores do ritual sabiam que a teatrali-
calor que a semente lançada na terra renascia zação dos Antigos Mistérios, mais do que
e frutificava. Então, por analogia, o sepulta- uma simples homenagem á deusa Ceres ou
mento do corpo humano no interior da terra Ísis, simbolizavam também a jornada do espí-
era uma condição necessária para que ele rito humano em busca da Luz que lhe daria a
pudesse ressuscitar. Em consequência, todas ressurreição. Foi nesse sentido que a o sim-
bolismo da semente que é enterrada na terra
10 Dezembro 2021 O Malhete

PLATÃO E A ALEGORIA DA CAVERNA:


ENSINAMENTOS PARA O MAÇOM (1)
(*) O autor, Irmão José Ronaldo Viega Alves é Membro da Loja Saldanha Marinho «A Fraterna» Oriente de S. do Livramento-RS

com ela estão conectados e que vão envolver


em primeiro lugar, tem muito a ver mesmo
o Universo, filosofia, religião, poesia, estéti-
com o fato do quanto elas podem suscitar por
ca, folclore, além de outros.
ocasião dessas releituras. Em segundo lugar,
poder levar ao Maçom o conhecimento sobre Sobre a Mitologia e o que ela representa, eu
não poderia deixar de citar as palavras do
alguns dos tantos desdobramentos e aplica-
“Embora nossa ambição suprema deva ser Prof. Ordep José Serra sobre outro grande
ções que essas alegorias permitem, quando se
1
a emancipação do mundo visível, este não é estudioso, o alemão Walter Otto ( ), um verda-
trata de ministrar instruções específicas de
um lugar onde somos 'estranhos', e do qual deiro apaixonado por Mitologia:
determinados Graus, principalmente, no de
devemos ficar completamente distantes. Não Aprendiz, pelas analogias possíveis. “Para Otto, os deuses da Hélade ainda nos
o é porque, como para os naturalistas somos falam - desde uma profundeza que teimamos
O trabalho a ser desenvolvido aqui, é fun-
da mesma substância que ele, e sim porque em ignorar, quando nos cingimos à superfície
damentado basicamente na obra de Platão, e
este mundo visível é um reflexo do mundo real de nossa própria cultura. Nós os olvidamos,
constará de dois artigos que serão elaborados
com o qual nossa alma tem um parentesco, e mas eles retornam sempre, graças ao brilho
separadamente. Este, que é o primeiro versará
porque o caminho para a emancipação nos verídico de sua essência... Seriam testemunho
sobre a alegoria da caverna e o próximo vai
faz passar pelo envolvimento com nossos disso as iluminações de modernos homens de
abordar como tema essa outra alegoria que é a
semelhantes _ como participantes de um sis- do anel de Giges. gênio como Goethe, Winckelmann, Schelling,
tema político, de um empreendimento educa- Todo Maçom deveria conhecer mais a Hölderlin, que falaram deles com fervor...”
cional e das aventuras do coração.” (Coo- fundo essa que é chamada de Alegoria da(Serra, pág. 57, 2006)
per, pág. 128, 2002) A Filosofia tem muito das suas raízes plan-
Caverna ou Mito da Caverna, a qual está inse-
tadas na Mitologia. A Filosofia surgiu quando
rida dentro da teoria do conhecimento de Pla-
INTRODUÇÃO muitas das respostas que eram produto das
tão. Um motivo fulcral: faz 2000 anos que se
Sim, eu já li muito, já pesquisei bastante, já consultas aos deuses mitológicos já não esta-
fala nisso, na verdade uma das mais belas pági-
escrevi mais de uma peça de arquitetura sobre vam convencendo muito.
nas produzidas pela filosofia e que possui
o assunto, e assim mesmo, ainda acho que não afinidades com muitas outras áreas, como A Filosofia, por sua vez, nasceu buscando
2
disse tudo ou não escrevi tudo que gostaria veremos. desenvolver o logos ( ), e é bem possível que a
acerca de Platão e de algumas das suas “histó- primeira grande pergunta de natureza filosófi-
rias” contidas no livro “A República”, ou C O N H E C E N D O U M P O U C O ca tenha sido: Qual é o princípio de todas as
melhor, sobre estas duas especialmente: a Ale- A C E R C A D A M I TO L O G I A E D A coisas?
goria da Caverna e a Alegoria do Anel de FILOSOFIA E... MITOS E ALEGORIAS
Giges. >>>>>>
Então, poder revisitar aqui duas das mais A Mitologia grega, como sabemos, é muito
famosas alegorias contidas no livro aquele, abrangente, daí a diversidade de temas que
O Malhete Dezembro 2021 11
Depois de alguns séculos transcorridos é alguns homens que
que a filosofia foi se preocupar com o homem, ali estão acorrenta-
até então, a grande preocupação tinha sido dos desde a infância.
entender a natureza. Não podem locomo-
Então, é dentro dessa nova fase da filosofia, ver-se, não podem
onde o foco são os problemas do homem, que virar suas cabeças e
está inserido o tema que iremos tratar. tem seus olhos postos
Sobre o termo alegoria na parede de fundo.
Uma alegoria poderíamos definir simples- Ou seja, não podem
mente como sendo uma forma de representa- ver os outros e nem
ção de ideias, pensamentos, figuradamente. mesmo a si próprios,
Do ponto de vista da filosofia, pode ser somente devem olhar
traduzida assim: para a parede.
“método de interpretação aplicado por pen- Um tanto atrás
sadores gregos (pré-socráticos, estoicos, etc.) deles há uma foguei-
aos textos homéricos, por meio do qual se pre- ra cujo fogo brilha e O regresso à caverna
tendia descobrir ideias ou concepções filosó- ilumina a caverna. Tem mais uma coisa: sepa- Aqui também abundam versões. O ponto
ficas embutidas figurativamente nas narrati- rando os prisioneiros dessa fogueira há uma pacífico nesse final da história parece ser o
vas mitológicas.” parede baixa e por detrás dessa parede baixa seguinte: ele volta para junto de seus antigos
O Irmão Rizzardo Da Camino em seu “Di- há pessoas transitando, sendo que, algumas companheiros ansioso para narrar as suas des-
cionário Maçônico”, com relação ao verbete transportam objetos, outras gesticulam e con- cobertas e o faz no intuito de persuadi-los a
Alegoria escreveu que: versam entre si. abandonarem aquele mundo onde tudo o que
“(...) De muito uso na Maçonaria que apre- veem são apenas os pálidos reflexos e ilusões
senta sua filosofia por meio de símbolos e O teatro de sombras do mundo real que existe lá fora. O mundo de
alegorias. A Alegoria é uma expressão filosó- O que acontece com aqueles prisioneiros é verdade. Mas, por mais que tente não obtém o
fica que por meio da imagem apresenta a men- que eles somente veem sombras projetadas na efeito desejado, pois, é tachado de louco e
sagem sutil. O homem é a maior expressão parede e, todo o conhecimento que eles possu- ainda ridicularizado por aqueles que haviam
alegórica da Natureza porque reflete todos os em do mundo se resume às imagens distorci- permanecido todo o tempo ali dentro.
mistérios do Universo.” (Da Camino, pág. 30, das que eles enxergam projetadas na parede
2006) em frente e nos ecos dos sons produzidos por COMENTÁRIOS:
aquelas pessoas que transitam um pouco atrás Muito já se escreveu e muito se escreverá
C O N H E C E N D O O F I L Ó S O F O deles, além de ruídos provindos do mundo lá ainda sobre essa alegoria. Ela pode ser conta-
PLATÃO fora. O conhecimento que eles possuem do da, pode ser interpretada de várias maneiras,
O filósofo Platão (428-347 a.C.) foi o cria- mundo, se resume a um teatro de sombras e tanto que, cada vez que a lemos narrada por
dor de uma nova escola filosófica, a Acade- sons, a princípio, indistinguíveis. um escritor diferente onde quase sempre vem
mia. Foi o autor de obras fundamentais nas acompanhada das considerações do escritor, é
quais são abordados temas que envolvem a O prisioneiro liberto possível que grande parte dos que a leem ou
ética, a política e a metafísica, escritos na Um dia, um dos prisioneiros resolve se per- releem fiquem com a nítida sensação de que,
forma de diálogos e onde Sócrates figura guntar de onde vem exatamente aquelas ima- ou o autor é que descobriu algo novo ou a
como protagonista. gens distorcidas, que aparecem projetadas na gente é que não havia percebido isso antes.
Já foi dito que poucos negariam o fato de parede. Começa a empreender esforços para Vale dizer também que há muitas interpre-
que Platão é o personagem mais influente da romper as correntes que o prendem até que tações que a distorcem ou que fogem da pro-
filosofia ocidental, tanto que, o filósofo consegue se libertar. posta original. Então, será que podemos ao
britânico A. N. Whitehead chegou a dizer que Quando olha para trás pela primeira vez não menos suspeitar de que há mais adaptações do
toda a filosofia subsequente é constituída por consegue divisar nada a não ser uma luz inten- que propriamente interpretações?
notas de rodapé à filosofia de Platão. (Cooper, sa que o deixa cego. Aos poucos, vai ganhan- De qualquer forma, o que veremos a seguir
pág.120, 2002) do condições de perceber de onde procede vai englobar tudo isso: interpretações, adapta-
aquela luz. Vê a fogueira, a parede baixa e ções, analogias, comentários, sejam de natu-
CONHECENDO A ALEGORIA DA bem mais adiante mais luz. Com passos cam- reza filosófica, iniciática, exotérica ou esotéri-
CAVERNA baleantes, decide ir em direção do mundo exte- ca, enfim.
O mito ou alegoria da caverna é uma histó- rior.
ria narrada por Platão em seu livro VII da Logo que ganha o mundo lá fora, a luz solar, D A S I N T E R P R E TA Ç Õ E S :
República, que acabou ficando bastante o excesso de claridade, fazem seus olhos arde- FILOSÓFICAS, INICIÁTICAS...
conhecida. Já foi reproduzida pelo mundo rem, e não consegue mantê-los abertos. O Irmão Raimundo Rodrigues, nosso maior
afora incontáveis vezes, e claro, há pequenas estudioso e divulgador da Filosofia, em seu
variações entre alguns escritores, mas, a O mundo exterior artigo intitulado “Respigando a Obra de Pla-
essência da história original permanece sem- Depois de abrir e fechar os olhos várias tão”, reproduz neste a interpretação da Alego-
pre. No livro, há um diálogo entre Glauco e vezes, gradualmente vai se acostumando com ria da Caverna do próprio Platão, em que este
Sócrates, sendo que, este último é quem conta a situação. Resolve explorar o mundo em seu último diz o seguinte:
a história para o seu interlocutor. redor, e vai ficando maravilhado com tudo o “A caverna subterrânea é o mundo visível.
Essa versão que aparece logo abaixo é o que vê ali: a natureza, as flores, os animais, o O fogo que a ilumina é a luz do sol. O prisione-
produto da leitura de várias dessas versões. sol brilhando no céu, o vento em seu rosto, um iro que sobe à região superior e contempla
Todos os livros utilizados estarão listados na mundo que nunca poderia ter imaginado feito suas maravilhas é a alma que ascende ao
bibliografia que constará ao final da segunda de cores e de luz. Mas, ainda que já se sentindo mundo inteligível. É o que eu penso, mas só
parte deste trabalho. acostumado com a nova situação e não que- Deus sabe se é verdade. Em todo caso, eu
rendo mais voltar àquela prisão feita de som- creio que nos mais altos limites do mundo inte-
A caverna e os prisioneiros bras, não consegue deixar de pensar em seus ligível está a ideia do bem que dificilmente
Essa história ocorre da seguinte maneira: companheiros e apiedado da sorte deles, deci- percebemos, mas que ao contemplá-la, con-
no interior de uma caverna, a qual possui uma de por voltar lá. cluímos que ela é a causa de tudo que é belo e
entrada por onde chega a luz, encontram-se bom.”
12 Dezembro 2021 O Malhete
Quando introduz o assunto sobre a Alego-
ria da Caverna, o Irmão Raimundo Rodri-
gues comenta a respeito de Platão haver resu-
mido a aprendizagem do homem na busca às
verdadeiras ideias. Através do diálogo que
ocorre entre Sócrates e Glauco é que Platão
vai deixando estabelecida uma comparação
entre dois mundos que são opostos: o mundo
visível ou sensível e o mundo invisível ou
inteligível. o que seja o mundo sensível e o
mundo inteligível.

COMENTÁRIOS:
O que podemos inferir num primeiro
momento é que nesses dois supostos mundos
é que naquele primeiro, o mundo das ima-
gens ou mundo visível, onde estão aqueles
prisioneiros, podemos tomá-lo metaforica-
mente como o nosso mundo onde todos nós,
de certa forma, somos prisioneiros também.
Num outro patamar, no mundo inteligível
está a ideia do bem, causa de tudo o que é belo
e bom, o qual somente pode ser contemplado
por aquele espírito que se libertou das amar- alcançará, sem dúvida alguma, aquele das coisas, a ideia das coisas.” (Japiassú &
ras da ignorância. mundo onde brilha o sol da sabedoria.” (Ro- Marcondes, pág. 41, 1999)
Obvio que a partir daí abriu-se um espaço drigues, págs. 62-63, 2002) No “Vade-Mécum Maçônico”, de autoria
para as críticas a respeito de Platão e de sua do Irmão João Ivo Girardi, em suas recopila-
alegoria, algumas delas advindas de Aristóte- A Iniciação Maçônica e a Alegoria da ções relativas ao verbete lemos a seguinte
les pelo fato do dualismo, ou seja, Platão sepa- Caverna explicação:
rou as ideias em duas realidades e sem que Com certeza em termos de analogias utili- “O que Platão nos mostra com esta alego-
tenha se tornado bastante claro como se zadas a fim de explicar uma Iniciação Maçô- ria da caverna é o caminho que um filósofo
opera essa passagem entre os dois mundos, nica e sintetizá-la, a Alegoria da Caverna tem percorre das noções imprecisas para as idei-
onde é que essas formas existem realmente servido bastante. as reais que estão por trás dos fenômenos da
ou porque seria que somente alguns seriam Vimos em nossa exposição anterior, a qual natureza.”
capazes de enxergá-las. consistiu das etapas que compõem a alegoria, Há mais no livro citado, onde surgem tam-
Da autoria do Professor Jules Lagneau (3), que a partir do momento em que o prisioneiro bém algumas questões relacionadas aos con-
citado por Jean Brun, provém uma explica- o mundo exterior descortinando-se a sua fren- ceitos sobre liberdade do indivíduo, e relaci-
ção, no mínimo interessante, a respeito da te, que o seu destino estava selado, pois, ele onadas à maneira como a Maçonaria define
questão que foi suscitada no parágrafo anteri- nunca mais seria o mesmo. liberdade. Vejamos:
or: Para aquele que foi Iniciado Maçom, tal “Esta história dá muito que pensar a quem
“O mundo inteligível não é uma espécie de como alguém definiu, a Iniciação é uma se propõe ser livre, no sentido maçônico da
reprodução ou de exemplar, em sentido pró- alquimia mental que transforma o ser na sua palavra. Até onde nossa vida está sendo uma
prio, do mundo sensível, mas antes esse íntegra e não na sua casca, o que denota então veneração em torno de sombras? Até onde
mundo visto pelo espírito através de si pró- que a partir desse momento é impossível vol- estamos disponíveis para uma verdade mai-
prio, ou seja, iluminado pela moral, tomando tar ao que se era antes. or, que tivesse o condão de revogar a nossa
um sentido e uma realidade superior graças Ambos, saíram das trevas e lhes foi dada a verdade de vida? Em contrapartida, até onde
à relação que possui com o Bem, concebido, LUZ. A luz solar, como sabemos, simbolica- temos o direito de interferir na liberdade dos
desejado e posicionado como o único ser mente representa o conhecimento. outros? Ou ainda, até onde teria direito o
digno desse nome, independente, fundamen- filósofo, que viu 'a realidade', de calar-se e
tado em si.” (Brun, pág. 52, 1985) Outras Interpretações abandonar os homens à sua própria sorte?”
E voltando ao nosso Irmão Raimundo Podemos entender também que a Alegoria (Girardi, pág. 505, 2008)
Rodrigues, para o seu artigo já citado, ele nos da Caverna quer mostrar que há um mundo Obviamente, no mundo atual, nos depara-
brinda em seus comentários com uma inter- de aparências e outro de verdade, ou ainda, remos com inúmeras situações que remetem
pretação de conteúdo profundamente maçô- que há um conhecimento real e outro que é ao mito, sendo que, algumas delas se aproxi-
nico: ilusório. No fundo é mesmo sobre aquelas mam bastante dele. A tela da televisão e, por
“Ao cabo de contas, para nós, o que são as forças antagônicas que sempre se debateram extensão, a do computador e a do celular, de
sombras projetadas no fundo da caverna? O entre si: sombras, escuridão, ignorância X certa forma, sugerem muito neste sentido e
mundo natural, na maioria das vezes é o sol, luz, conhecimento. acabam representando em vários momentos
único que percebemos. Os prisioneiros Dos Professores Hilton Japíassú e Danilo aquela parede da caverna, pois, parece que a
somos nós mesmos, agrilhoados ao erro e à Marcondes, autores do “Dicionário Básico maioria resolveu ser prisioneiro de um
ignorância. Aquele prisioneiro que se liber- de Filosofia” com relação ao verbete “alego- mundo de faz de conta, das fake news, da
ta, que sai do fundo da caverna e atinge o ria da caverna” destacamos na sua introdu- informação superficial, do próprio ego,
espaço superior, é o homem que procura ção: enfim, e desprezar o que venha a ser o verda-
livrar-se da sua ignorância. É o homem que “Seu objetivo ´é fazer compreender a dife- deiro conhecimento.
busca o aperfeiçoamento moral e intelectual, rença entre conhecimento grosseiro, que vem
através do estudo, da busca, da pesquisa. Se de nossos sentidos e de nossas opiniões (do- >>>>>>
persistir na busca do saber, se lutar inces- xa), e o conhecimento verdadeiro, ou seja,
santemente contra a própria ignorância, aquele que sabe apreender, sob a aparência
O Malhete Dezembro 2021 13

COMENTÁRIOS FINAIS: rá ao mundo onde habita a Verdade? Será que (3) Jules Lagneau (1851-1894): Professor
Esse trabalho não tem mesmo nenhuma estamos envidando os estudos e os esforços francês de Filosofia. Desenvolveu o método
pretensão em ser definitivo, mas, quanto mais suficientes para atingirmos esse fim? Será que reflexivo em Psicologia.
abordagens, mais chances obteremos de com- se abrirão um dia os portais da consciência e
preender melhor os grandes temas que estão poderemos aí sim contemplar a Verdade?
embutidos na filosofia platônica e que refle- Ainda: na obra original, “A República”, há CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:
tem na alegoria, tais como: o estudo do ser (on- o aspecto político que é importantíssimo tam- Internet:
tologia), o estudo do conhecimento (episte- bém, pois, o filósofo relaciona o conhecimen- “alegoria” – Dicionario - Disponível em:
mologia), além de, o estudo da ética (área da to verdadeiro e mais profundo como sendo google.com/Search?q=alegoria
filosofia que estuda o comportamento dos uma condição para quem pretende exercer um “Mito da Caverna” – artigo de autoria de
indivíduos) e também a política (no seu con- cargo político com competência e seriedade. Francisco Porfírio
ceito grego, é a ciência que se preocupava com Esse aspecto exposto aqui geraria uma dis-
a felicidade individual do homem na pólis, cussão infinda, e como o propósito do trabalho Revistas:
esta última o modelo das cidades da Grécia não é a polêmica, fica, isso sim, uma recomen- CULT, nº 107, outubro de 2006: “Mito e
antiga). dação para o leitor realizar uma pesquisa mais Verdade: os Deuses Gregos em Walter Otto” –
A Alegoria da Caverna ou o Mito da Caver- aprofundada sobre o assunto ou, até mesmo, a Artigo de autoria do Prof. Ordep José Serra
na pode ser aplicada com relativa facilidade a leitura do livro. A partir daí o leitor poderá Livros:
uma variedade enorme de contextos. Naquele fazer todas as analogias (que certamente não BRUN, Jean. “Platão” – Publicações Dom
que é a sua essência metafórica denota o quan- serão poucas) com a nossa realidade política. Quixote - 1ª Edição – 1985-
to pode ser trágico, o quanto pode ser difícil, o Como pudemos ver, após a leitura e conhe- COOPER, David E. “As Filosofias do
quanto será exigido daquele que resolva enca- cimento do que significa a Alegoria da Caver- Mundo – Uma Introdução Histórica” – Edi-
rar a caminhada que o conduzirá ao conheci- na, podem surgir mais perguntas ainda do ções Loyola - 2002
mento. tipo: quem, de fato, está preparado para sair da DA CAMINO, RIZZARDO. “Dicionário
Basicamente: um mundo de aparências que caverna, ou será que sairemos algum dia da Maçônico” – Madras Editora Ltda. 2006
é o mundo das sombras ou da caverna, e outro caverna? GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à
mundo, agora num patamar superior onde a Então, que o tema continue a ser revisitado Meia-Noite Vade-Mécum Maçônico” – Nova
luz prepondera, daí o foco na luz do Sol (que ou que continuem acontecendo as releituras. Letra Gráfica e Editora Ltda. – 2ª Edição –
simboliza o conhecimento). Mundo supras- No próximo número: “Platão e a Alegoria 2008
sensível: o mundo que somente acessamos por do Anel de Giges: ensinamentos para o JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES,
via do conhecimento ou do intelecto. Maçom” – (2 – final) Danilo. “Dicionário Básico de Filosofia” –
A alegoria da caverna instiga e provoca a NOTAS: Jorge Zahar Editor -3ª ed. rev. e ampliada -
reflexão. Ao relembrarmos nossa Iniciação na (1) Walter Otto (1874-1958): Importante 1999
Maçonaria, o que simbolicamente significou filólogo e historiador das religiões de naciona- RODRIGUES, Raimundo. “A Maçonaria e
nossa saída das trevas para a Luz, nos remete- lidade alemã. o Hábito da Virtude” – Editora Maçônica “A
mos à alegoria e seus significados. Refletindo, (2) Logos: Termo de origem grega utilizado Trolha” Ltda. 1ª Edição - 2004¨¨¨
devemos perguntar-nos sempre: será que esta- em filosofia que significa razão ou princípio
mos mesmo trilhando o caminho que nos leva- da inteligibilidade.
14 Dezembro 2021 O Malhete
O Malhete Dezembro 2021 15
16 Dezembro 2021 O Malhete

JURAMENTO MAÇÔNICO
Ir\ Adriano Medeiros

gido solenemente daquele que faz o juramen- cada, algumas entidades tomaram atitudes
to, a não ser a vontade de servir com retidão e drásticas e a maçonaria sofreu com a persegui-
virtude sua sociedade, podemos perceber isto ção da igreja católica, mas mesmo assim não
em juramentos pátrios como aquele feito à nos voltamos contra tal entidade e seguimos
bandeira no exército ou sacramento religiosos com nossa atuação e respeito a todos os grupos
aplicados em congregações. que de alguma forma agem contra a maçona-
1 INTRODUÇÃO Os laços feudo-vassálicos era estabelecidos ria, afinal um dos aspectos propostos é a tole-
Sendo um dos momentos mais marcantes, por três atos, que correspondiam às necessida- rância e a formação de uma virtude de respeito
solenes e importantes da maçonaria, o jura- des recíprocas que justificavam sua existên- a todos na sociedade.
mento, para o iniciado, se converte em um cia. O primeiro era a homenagem [...] o segun- Veremos que originalmente o juramento
acordo entre ele e a Arte real, de um lado o neó- do era a fidelidade, juramentos feitos sobre a era feito com a proposta de preservar toques,
fito concorda em manter o segredo sobre sua bíblia ou relíquias de Santos e muitas vezes palavras e sinais e o maçom operativo deveria
formação como maçom e de outro lado, a selado por um beijo entre as partes. O terceiro usar de forma correta todos os elementos ensi-
maçonaria oferta para o aprendiz os seus era a investidura, pela qual o indivíduo que se nados na maçonaria operativa para que ele
augustos mistérios que são mantidos sob sigi- tornava senhor feudal entregava ao outro, como um homem livre e de bons costumes
lo desde a sua fase operativa nas guildas dos agora vassalo, um objeto (punhado de terras, pudesse fazer sua jornada em busca do seu
construtores. folhas, ramo de árvore ou uma chave) simboli- sustento material e de sua evolução mental e
Tal momento exige retidão de carater e zador do feudo que lhe concedia. (FRANCO social, sendo importante não revelar o traba-
muita honra de ambas as partes, a dignidade JÚNIOR, 1992. Pág. 92) lho do maçom para não iniciados.
representada pelo VM da loja coloca a dispo- Na ordem maçônica o juramento congrega Obviamente não vamos, ao longo deste tra-
sição do iniciado um ato importante onde não e formaliza a atuação do maçom como partici- balho, apresentar o juramento de iniciação,
se profana em nenhum momento os homens pante de um círculo de ações com seus irmãos como forma de respeito ao desenvolvimento
ali colocados e se usa um apanágio de lealdade e por isto ele faz tal atuação diante do altar da maçonaria, mas a ideia é apresentar algu-
entre as partes para manter o bom funciona- sagrado, tendo como instrumento as três gran- mas condições de moralidade, honra e virtu-
mento das atividades. des luzes da maçonaria (Livro da Lei, Esqua- des que são exigidas de um maçom que faz sua
O ato de juramento é uma questão comum dro e Compasso) as palavras empregadas são afirmativa solene, bem como também algu-
em todas as ordens iniciáticas, desde a Roma de ato simbólico, mas destacam que penalida- mas referências particulares no rito York e que
antiga, passando pela Idade Média na forma- des podem ser aplicadas a quem romper com fazem parte do nosso uso em loja.
ção dos feudos e ainda nas organizações mais tal jura.
atuais, não sendo nada de ímpio ou imoral exi- Por conta desta asseveração que ainda é apli- >>>>>>
O Malhete Dezembro 2021 17
2. AO NEÓFITO
Uma das primeiras atuações do neófito em
sala de loja é a sua jornada, sendo assim ele
está vendado e o motivo deste processo é para
que ele saiba usar todos os seus sentidos que,
de forma geral, estão dominados quando a
visão se torna o principal elemento, enquanto
participa da ritualística está envolto em uma
grande quantidade de informações que che-
gam até ele por meio da audição, do tato e da
sua imaginação, mas também se encontra ven-
dado pois simbolicamente está cego para as
atuações maçônicas.
No rito York não usamos a câmara de refle-
xão, o candidato fica em uma sala e ali, venda-
do, pode fazer sua reflexão sobre seu ato como
profano e o que ele busca como maçom, mas o
mais interessante é que desde este momento
ele já recebe algumas instruções quanto aos
seus atos, sendo ofertado a ele algumas pala-
vras que devem ser entendidas e pensadas
antes de adentrar a sala de loja.
Depois que inicia o ato de recepção de um
profano ele deve passar por algumas ações
dentro de sala de loja até o momento em que
diante do altar sagrado ele deve fazer seu jura-
mento e somente depois ele irá receber a luz
da maçonaria, mas para que isto aconteça ele
deve aceitar fazer seu voto e entender com
profundidade o que está ali fazendo e como
tais palavras vão ecoar em sua vida como ser
humano e como maçom. Juramento Feudal
A Maçonaria chegou até nossos dias, sem
dúvida nenhuma, graças ao seu caráter secre- Todo maçom, todo mortelier, todo plastri- encerrados os trabalhos, juram manter sigilo
to. Atravessou as mais profundas crises inter- er, deve jurar pelo Santos que aquilo que Mes- sobre tudo o que nelas ocorreu (PUSCH,
nas e externas, sofreu as mais aguerridas per- tre da Oficina (ou ofício) disser será guardado 2017. Pág. 249)
seguições de seus inimigos e emergiu incólu- e que cumprirão bem e lealmente, cada uma Não é difícil entender o motivo de se fazer
me. Sobreviveu à ignorância, a obscurantis- das leis, tudo é feito conforme os usos e costu- o juramento e nem por qual motivo o maçom
mo e à desmoralização, graças à fibra dos mes do ofício acima referidos, que eles repor- não pode revelar sua atuação dentro de loja, se
irmãos que nos precederam e que levaram às tarão ao Mestre de obras tudo o que for feito, trata de uma questão de tradição maçônica
últimas consequências juramentos de sua ini- conforme o juramento (novamente a temática onde respeitamos todos os processos e assim
ciação[...] o lema sigilo e fraternidade foi sem- do “sigilo profissional” e aqui sob juramento; nos tornamos confiáveis entre irmãos, mas
pre entendido como vital para a sua perenida- portanto, a função de pedreiro era um exem- também fortalecemos nosso caráter como ser
de. Embora hoje em dia perceba-se um pro- plo de associação jurada) O Mestre (de obras) digno de respeito e participação entre todos os
cesso de profanação de nossos mistérios, deve- com quem o aprendiz completou o termo, iguais ali presente, mesmo fora de loja deven-
mos cultivar o silêncio para a nossa sobrevi- deve apresentar-se perante o Mestre de Ofício do então manter sua concordância inicial com
vência e para levar à regressão essa miserável e testemunhar que seu aprendizado comple- o que foi dito durante a ajuramentação.
doença que ameaça os arcanos da ordem para tou-se bem e lealmente; então o Mestre (de Este maçom ali iniciado não jura em vão,
tanto, é necessário que nós treinemos, obser- obras) que cuida da oficina (do ofício) deve ele não pode esquecer que usou em seu jura-
vando algumas regras de preservação do sigi- fazer o aprendiz jurar pelos Santos, que respe- mento diante do altar um Livro das Sagradas
lo maçônico analisando a profundidade com itará os usos e costumes de ofício, bem em Escrituras que lhe foi apresentado ou ainda,
que elas repercutiram em favor da cobertura lealmente. (CICHOSKI, 2012. Pág. 75-76) no caso do rito York, o próprio neófito pode
de nossos trabalhos (PUSCH, 2017. Pág. 145) Depois que o iniciado faz seu juramento ele indicar um livro de acordo com a religião que
Claro que naquele momento o profano não está pronto para ser iniciado nos mistérios ele professar, tudo para que entenda que dian-
entende todas as representações de sua inicia- maçônicos, mas deve sempre lembrar que seu te de um ser superior ele se mantém sempre
ção, também não consegue guardar com gran- juramento não foi em vão, afinal ele fez tal justo e fiel a sua palavra inicial.
de qualidade todas as palavras designadas em afirmativa diante de todos ali presentes e dian- As ferramentas empregadas no altar tam-
seu juramento, mas na medida em que ele atua te do Altar Sagrado que se encontra o Livro da bém designam algumas formações importan-
em loja e retoma o ritual acaba compreenden- Lei, obviamente fazendo também o empenho tes, sendo de cunho filosófico, indicam a
do o significado de jurar diante de um Livro de sua palavra para o GADU, e não podendo relação de alinhamento com suas obrigações a
Sagrado e de seus irmãos de loja, principal- então romper com seu laço de fidelidade e de retidão de caráter a designação e limites de
mente a questão do silêncio maçônico. honra para que sua moralidade e respeito não suas atitudes, combatendo seus vícios e ele-
Historicamente o juramento já era empre- sejam rompidos como homem e como vando suas virtudes, por este motivo deve o
gado ao iniciado desde as antigas guildas, afi- maçom. iniciado estudar para poder sempre relembrar
nal ele deveria saber guardar os segredos de Juramento, momento solene de uma sessão qual a finalidade de sua atuação diante do
trabalho de um maçom, tudo isto se dava para onde o maçom presta compromisso irreversí- Altar Sagrado.
manter os trabalhos intactos e ainda não per- vel com a loja, Potência e a Maçonaria. Ocor-
mitir a atuação de não iniciados nas constru- re na iniciação, elevação, exaltação, filiação, >>>>>>
ções, sendo que originalmente jurava diante regularização e instalação. Parte final de uma
de um oficial e de relíquias da igreja. sessão de todos os obreiros, após dados por
18 Dezembro 2021 O Malhete
Desde os primórdios da Maçonaria, os
novos membros realizam Juramento de Fide-
lidade à ordem, diante de um mobiliário que se
transformou com o passar do tempo. Inicial-
mente, tal juramento acontecia à frente de uma
mesinha onde se postava O Mestre da Loja,
sendo este o único móvel disponível no local.
Com a decoração dos Templos maçônicos em
salas destinadas e dedicadas a seu trabalho, o
altar passou a existir independente da mesa do
Mestre da Loja. O altar dos juramentos pode
ser considerado uma das peças de mobiliário
da mais alta importância do Tempo maçônico,
não somente por seu lugar de destaque, mas
também por ser nele que são depositados os
votos de fidelidade e sigilo desde que adentra-
mos à ordem. (BUCCIERI, 221. Pág. 85)
Se hoje usamos o Altar Sagrado para a pro-
messa do maçom é precisamente por ser ali o
local onde simbolicamente se encontra as gra-
ças para a atuação do obreiro e que por isto
deve respeitar com todo seu zelo tais elemen- O Altar para o Juramento no Rito York
tos que são mais que produtos da materialida-
de em sala de loja, mas também a premissa de rito York sempre que for participar das reu- palavras que garantem a sua atuação respon-
uma forte simbologia que nos move como ini- niões em sala de loja, mas uma das condições sável como ser humano.
ciado, indiferente do grau alcançado, sempre mais profundas é que ele sendo um homem Não se aceita a atuação desonesta, calculis-
devemos manter nossas obrigações e votos digno que respeita todos os credos e raças está ta que venha a macular seu juramento, os
iniciais para com a maçonaria. então submetido ao seu voto diante de irmãos maçons que passam pelo ato de iniciação
Os juramentos maçônicos sempre foram e que assim sempre deve se fazer respeitador entendem que sempre serão um espelho moral
tomados sobre o altar, que, por corresponder de tal atividade. que deve refletir os bons costumes para que
ao Santo dos Santos do templo de Jerusalém, é As relações indissociáveis ali propostas são todos possam se espelhar e levar adiante o
o local mais íntimo e de maior conteúdo místi- sempre em uma visão teórica e simbólica, compromisso de amor fraternal, alívio e ver-
co do tempo maçônico. Aí, então, ficavam o emblemática ou alegórica, mas que desde os dade que são os lemas do rito York e que
Livro da Lei, o esquadro e o compasso. Poste- tempos da maçonaria operativa exigiam uma devem sempre ser colocados em prática para a
riormente, criou-se uma mesa acessória, colo- seriedade daquele que se submete a iniciação elevação da vida do maçom.
cada à frente do altar, e a ela deu-se o nome de maçônica, não permitindo o perjúrio ou ainda
altar dos juramentos, sobre o qual ficam colo- a negação, afinal ele fez sua confirmação de BIBLIOGRAFIA
cados o livro, o esquadro e o compasso. Algu- palavra diante de um Livro Sagrado que ele ASLAN, Nicola. História Geral da Maçonaria – Período
mas obediências norte-americanas levaram Opera vo. Rio de Janeiro; Editora Aurora. S/data,
escolheu para usar como fonte de moralidade. BUCCIERI, Gilberto P. Maçonaria Hermé ca e Iniciá ca:
esse altar para o centro do Templo, prática que Existe também uma reciprocidade de ação, conquista da espiritualidade / Gilberto P. Buccieri, Alberto H.
acabou sendo imitada por outras obediências. afinal todo maçom que passa pelo juramento, C. Feliciano. Londrina: Trolha, 2021.
(CASTELLANI, 2017. Pág. 66-67) independente do rito empregado, deve respei-
CAMINO, Rizzardo da. Dicionário Maçônico. 2a. Edição. Rio
No rito York o iniciado deve ser colocado de Janeiro. Editora Aurora, 1991.
tar os irmãos e tudo que se refere ao ato maçô- CASTELLANI, José. Car lha do Aprendiz/ José Castellani. 5ª
de joelhos, na devida forma maçônica, sendo nico, sendo também respeitado, afinal diante ed. Atual. Londrina: Ed. Macônica “A TROLHA”, 2017.
usado um genuflexório, para que o neófito de sua palavra não se deve ter meias verdades CICHOSKI, Luiz Vitório. Fundamentos Opera vos nos Graus
possa ficar diante do altar e ali fazer seu jura- ou ainda a possibilidade de se corromper ou
Básicos / Luiz Vitório Cichoski. – 1. ed. – Londrina: Ed.
Maçônica “A TROLHA”, 2012.
mento, outra questão importante é que depois perverter, agindo levianamente contra seus D'ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria: 100 instruções de
que é feito todo o movimento para a formação irmãos que o receberam de forma digna e amá- aprendiz / Raymundo D'Elia Junior. – São Paulo: Madras,
do maçom o iniciado aprende com o ato de vel em uma loja na devida forma e que o reco- 2007.
jura um dos sinais de reconhecimento aplica- FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria.
nhecem como um igual. Seus mistérios, seus ritos, sua filosofia sua história. Editora
das no rito York, se trata do “Due Guard”, uma O juramento se trata de um contrato verbal Pensamento. São Paulo, 1974.
das formas de reconhecimento usadas em sala e imutável, nas palavras repetidas o iniciado FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: nascimento do
de loja e que reforçam ao maçom deste rito garante que não haverá nunca sua investida de Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1992.
suas originais obrigações assumidas durante LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval.
traição, não podendo escrever, divulgar ou Petrópolis: Vozes, 2016.
sua iniciação. ainda publicar qualquer parte do ritual e de LOJA Frank Marshall nº 170. Rito de York: o rito americano
Sempre que a loja abre seus trabalhos no tudo que lhe for ensinado dentro de loja, sendo das blues Lodges – volume 1: grau de aprendiz admi do. /
Grau de aprendiz o maçom deve, no devido que suas regras de deveres de moralidade,
Loja Frank Marshall nº 170. – Londrina: Ed. Maçônica “A
TROLHA”, 2016.
momento, usar o sinal de “Due Guard”, lem- honra e comprometimento foram empenhadas PUSCH, J. ABC do aprendiz maçom / Tubarão: Copiart, 2017.
brando que ali desde o início de suas ativida- de forma justa, digna e correta, por isto ele não SITE:<
des como maçom ele mantém sua palavra e é obrigado, mas aceita a sua iniciação e tam- h ps://opontodentrocirculo.com/2021/07/31/juramento-e-
roga sempre diante do GADU sua formação compromisso-maconicos-2/> ACESSO EM: 28 de outubro de
bém o ato de jurar sua obrigação como 2021.
mais exemplar, implicando nos seus atos de maçom. SITE:<h p://iblanchier3.blogspot.com/2017/09/juramento-
moralidade e respeito para com seus juramen- Um maçom que realmente leva para sua do-aprendiz-macom.html> ACESSO EM: 25 de outubro de
tos. vida o ato de juramento em loja entende que 2021.
SITE:<h ps://a-par r-
não pratica atos de má-fé, engana, corrompe pedra.blogspot.com/2014/12/juramento-e-compromisso-
CONCLUSÃO ou ainda destrata outras pessoas no seu conví- maconicos.html> ACESSO EM: 26 de outubro de 2021.
Existe um ato esotérico no juramento por vio, ao se ajoelhar na devida forma ele se colo- SITE:<h ps://www.rlmad.net/arquivoblog/a-
parte de um iniciado na maçonaria, ali ele apre- ca em sinal de humildade e entende que todos
maconaria/juramento-e-compromisso-maconico/> ACESSO
goa seu compromisso e permite que sempre EM: 27 de outubro de 2021.
devem ser respeitados e valorizados, sendo ou
seja retomado ao usar o sinal empregado no não irmãos maçons, está em seu juramento as
O Malhete Dezembro 2021 19
20 Dezembro 2021 O Malhete

A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix: ideais da maçonaria inspiraram os revolucionários

REVOLUÇÃO FRANCESA
Ela fez da visão de mundo maçônica — liberdade, igualdade e fraternidade — o alicerce para construção de uma nova nação.
influência da maçonaria foi tamanha que uma assim como a de todos os outros países àquela
música composta e cantada na loja maçônica altura — reunia homens distintos, invariavel-
de Marselha acabou sendo transformada no mente oriundos da elite. “Os maçons forma-
hino da nova França. vam uma irmandade seleta, que pregava a
igualdade”, afirma Andrew Prescott. “Em
por Tiago Cordeiro PRINCÍPIOS DEMOCRÁTICOS tese, eles concordariam unanimemente com a
Em 1789, quando o rei Luís XVI se viu for- ideia de que todo cidadão deveria ter os mes-

E ram maçons dois dos mais importantes çado a convocar a Assembleia dos Estados mos deveres e direitos. Na prática, porém,
líderes da Revolução Francesa: Jean- Gerais pela primeira vez desde 1614, todas as havia um orgulho muito mal disfarçado em se
Paul Marat, ideólogo de uma ala radical principais cidades francesas mantinham lojas considerar acima dos demais.” De toda forma,
do movimento, e o marquês de La Fayette, de grande influência sobre a vida local. Como havia uma grande convergência de ideais. Não
militar aristocrata que aderiu à revolta popu- era comum desde as origens da ordem, os por acaso, um dos grandes inspiradores da
lar. Isso quer dizer que a maçonaria foi a força maçons que frequentavam esses templos Revolução Francesa foi o filósofo iluminista
motriz da rebelião? Depende de como se inter- representavam as mais variadas - e antagôni- Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) — ele
preta a história. Certos pesquisadores, como o cas - correntes políticas. Eles abrigavam desde mesmo um entusiasmado simpatizante da
americano W. Kirk MacNulty (maçom há o antimonarquista Marat até o monarquista maçonaria.
mais de 40 anos), acreditam que sim. “Entre os radical Bertrand de Milleville. Os ideais da No fim do século 18, a França era um país
inimigos da monarquia francesa, mesmo irmandade, porém, combinavam muito mais rico, mas de população pobre. Apesar de man-
quem não participava da ordem tinha sido com o engajamento daqueles que defendiam a ter um comércio exterior muito desenvolvido,
influenciado por suas ideias”, diz MacNulty. deposição do rei e a instauração de um novo a parte do povo chamada de Terceiro Estado
Outros, como o britânico Andrew Prescott (di- regime. (camponeses, servos, artesãos e burguesia - ou
retor do Centro de Estudos da Universidade de “Tanto nas lojas como nos debates entre os seja, a esmagadora maioria) sustentava com
Sheffield, na Inglaterra), destacam que os dois revolucionários, o conceito de liberdade esta- impostos o clero e a nobreza. A desigualdade
principais comandantes da revolução — Geor- va ligado, principalmente, ao direito de se criava condições extremamente favoráveis
ges-Jacques Danton e Maximilien de Robes- expressar. Era um princípio bastante democrá- para a aceitação dos ideais iluministas, que
pierre — jamais foram maçons. “São exagera- tico”, diz MacNulty. O historiador alemão Jan pregavam a divisão do poder em três esferas:
das as afirmações de que a maçonaria liderou o Snoek, professor da Universidade de Heidel- Executivo, Legislativo e Judiciário — uma
movimento”, declara Prescott. berg e especialista no assunto, confirma: “Os proposta bem recebida pelos maçons em
Independentemente da interpretação que se maçons estimulavam debates abertos, em que geral. A fim de acabar com o impasse e reto-
faça, é fato que a Revolução Francesa fez da todos podiam participar, além de eleições mar as rédeas da situação, Luís XVI convocou
visão de mundo maçônico - liberdade para ado- livres e diretas. Nada disso estava na moda no a Assembleia dos Estados Gerais. Foi um tiro
rar qualquer deus, igualdade entre nobres e século 18”. no pé.
plebeus e fraternidade entre os membros do As noções de igualdade e fraternidade, por
mesmo grupo - o alicerce para o novo país que outro lado, revelavam-se mais retóricas do >>>>>>
os revolucionários pretendiam construir. A que práticas, já que a maçonaria francesa —
O Malhete Dezembro 2021 21

A Prisão de Robespierre, de Raymond Monvoisin: perseguido e condenado à morte em 1794


A falta de acordo entre nobres e burgueses dor, os maçons americanos Thomas Paine, um projeto para a nova Cons-
levou o terceiro estado a proclamar uma atuavam de maneira mais coesa, enquanto tituição do governo republicano francês —
Assembleia Nacional, que aboliu boa parte que os irmãos franceses estavam divididos que previa, entre outras novidades, voto
dos privilégios da aristocracia e do clero. Em entre as tendências políticas do país na época. feminino, alfabetização universal e grandes
resposta, o rei impediu que a Assembleia con- “O princípio de igualdade e de convivência campanhas de vacinação em massa (três con-
tinuasse se reunindo e desconsiderou todas as pacífica com as diferenças fazia com que, ceitos que só se tornariam senso comum nos
decisões tomadas por ela. A situação poderia fora das lojas, fosse muito comum que países desenvolvidos mais de um século
ter acabado em total frustração para as cama- maçons se encontrassem em lados opostos.” depois).
das menos favorecidas da sociedade, mas o Em setembro de 1791, a tensão recomeçou O projeto de Constituição elaborado por
deputado Honoré Gabriel Victor Riqueti, tam- com tudo. A Assembleia Nacional deu lugar à Caritat, entretanto, foi derrubado em favor
bém conhecido como conde de Mirabeau, Assembleia Legislativa, dominada pelos polí- de um mais radical, defendido por Robespi-
impediu que isso acontecesse ao apelar para a ticos moderados, os girondinos. erre. Inconformado com a violência que
guarda real: “Ide dizer aos que vos enviaram Eles fizeram a França declarar guerra con- tomava conta do processo revolucionário, o
que só sairemos daqui pela força das baione- tra a Áustria e a Prússia — é bom lembrar que marquês argumentou que seria inútil, desne-
tas”. Mirabeau era um maçom dos mais res- o rei estava preso, mas ainda não tinha sido cessário e desumano executar o monarca
peitados. executado. A tríade Danton-Robespierre- deposto. Dois anos depois, foi parar atrás
O resultado foi a substituição da Assem- Marat reagiu contra a guerra, que acabou em das grades, acusado de traição. Apareceu
bleia Nacional pela Assembleia Constituinte fiasco para os franceses. Em 1792, surgiram morto logo na manhã do dia seguinte, em
e a passagem do poder para representantes do documentos ligando Luís XVI aos inimigos e circunstâncias que jamais foram esclareci-
povo. Luís XVI ainda fez uma nova tentativa: indicando que o Exército francês tinha sido das. Morria, assim, um francês tipicamente
demitiu o ministro das Finanças, Jacques Nec- sabotado. Começou, então, uma caçada às iluminista — que os maçons se orgulhavam
ker, favorável às reformas política e econô- bruxas. O rei foi guilhotinado. Em agosto de chamar de irmão.
mica, e mandou o Exército intimidar os revol- daquele mesmo ano, surgiria a Convenção Como foi possível que um maçom como
tosos — que, no dia 14 de julho de 1789, Nacional, e milhares de opositores acabariam Marat apoiasse a barbárie que fazia rolar
foram à fortaleza da Bastilha buscar armas. sendo levados ao cadafalso. O período de per- cabeças até entre os membros de sua própria
seguições e derramamento de sangue só ter- irmandade? “A verdade é que, durante o Ter-
TERROR PRA TODO LADO minaria em 1794, quando o próprio Robespi- ror, a instituição maçônica teve um papel
No meio de toda essa confusão, onde esta- erre foi condenado à morte. irrelevante”, afirma o historiador Mac-
va a maçonaria? Será que ela serviu apenas A Fase do Terror atingiu alguns maçons Nulty. “No momento em que não havia mais
como fornecedora de ideais e conceitos polí- proeminentes e, até então, empolgados com a liberdade, igualdade ou fraternidade, qual-
ticos? Ou teria atuado de uma forma mais prá- revolução. O matemático e filósofo Marie quer tipo de ideal, maçônico ou não, deixou
tica? “Como instituição, a irmandade não Jean Antoine Nicolas Caritat, ou marquês de de fazer sentido.”
teve influência direta, como aconteceria no Condorcet, foi um dos que aderiram à revolta
processo de independência dos Estados Uni- logo em seus primeiros momentos. Chegou a >>>>>>
dos”, responde Prescott. Segundo o historia- esboçar, em parceria com o político britânico
22 Dezembro 2021 O Malhete

Nascido Marie-Joseph Paul Yves um dos autores do rascunho da Decla-


Roch Gilbert du Motier, em 1757, o ração dos Direitos do Homem e do
maçom La Fayette era um aristocrata Cidadão. Como integrante da maçona-
francês que, quando a Revolução Fran- ria, La Fayette foi um líder destacado,
cesa estourou, tinha assumido o posto recebido com louvores por onde pas-
de general do Exército de seu país. Em sava, como aconteceria em sua visita
17 de julho de 1791, no Campo de Mar- aos maçons da Pensilvânia e do Ten-
te, era ele quem dirigia as forças mili- nessee. Ali, em 1825, recebeu de outro
tares que acabaram com uma manifes- irmão peso-pesado — o então presi-
tação de trabalhadores — pelo me- nos dente Andrew Jackson — o título de
50 pessoas morreram naquele episó- membro honorário. Mas ainda se deba-
dio. Mas a vida do marquês foi muito te onde La Fayette foi iniciado. Há
além desse massacre. Antes de aderir à quem diga que a iniciação ocorreu em
revolução em seu país, ele atravessou solo americano, em 1777 ou 1797.
o Atlântico para lutar na guerra de inde- Mas alguns historiadores acreditam
pendência dos Estados Unidos. Serviu que ele tenha participado da inaugura-
sob o comando de outro maçom, Geor- ção da loja Saint Jean de la Candeur,
ge Washington. De volta à França, foi em Paris, no ano de 1775.

Saint Andrews, em 1775). Os irmãos de


maçonaria lhe abriram as portas da E L E PA R E C I A N Ã O
nobreza, e ele chegou a atuar como médi- TER MEDO DE NADA.
co do guarda-costas do conde d'Artois
— irmão do rei Luís XVI. PELOS JORNAIS,
Tudo isso mudaria com a revolução. ESTIMULAVA O POVO
Um pouco antes de o levante começar, A DESCONFIAR DE
em 1788, a convocação da Assembleia
dos Estados Gerais para o ano seguinte, QUEM QUER QUE
levou Marat a publicar um panfleto inti- ESTIVESSE NO PODER
tulado Ofrrande à la Patrie (“Oferenda à
Pátria”), no qual dizia acreditar que o em sua banheira.
regime monárquico ainda era capaz de “A maçonaria era o único grupo pré-
resolver os problemas da França. Nos Revolução Francesa no qual um pensa-
meses seguintes, contudo, sua crença na dor independente e corajoso como
monarquia se esvaiu. Marat poderia se sentir à vontade”, diz o
A partir de setembro de 1789, ele se historiador W. Kirk MacNulty. “Mas,
posicionaria com regularidade no jornal durante a Fase do Terror, com o radica-
Quando recebeu o certificado que L'Ami du Peuple (“O Amigo do Povo”), lismo dominando o cenário, ele nem se
atestava seu ingresso na maçonaria, no de onde estimulava a desconfiança com considerava mais um maçom. Os ideais
dia 15 de julho de 1774, Jean-Paul Marat relação a quem quer que estivesse no que mobilizaram a revolta popular já não
vivia em Londres. E não imaginava que, poder faziam mais sentido.”
uma década e meia mais tarde, acabaria Eleito para a Con-
se tornando um dos líderes da Revolução venção Nacional
Francesa. Em outubro daquele mesmo em 1792, aprovei-
ano, Marat se mudaria para a Holanda. tou-se do posto
E passaria a frequentar a loja maçôni- para derrotar politi-
ca La Bien-Aimée, de Amsterdã. camente os mode-
O futuro revolucionário vivia assim, rados girondinos.
circulando pelas principais cidades euro- Marat tinha virado
peias, desde os 16 anos, quando deixou a um sujeito de posi-
casa dos pais na cidadezinha de Boudry, ções radicais. E
Suíça. Enquanto frequentava as mais parecia não ter
altas rodas intelectuais da Europa, ia ela- medo de nada. Aca-
borando tratados (o primeiro, Ensaio bou assassinado, A Morte de Marat,
Filosófico sobre o Homem, seria publi- em 1793, pela sim- retratada por Jacques
David: assassinado
cado em 1772) e fazendo pesquisas na patizante girondina numa banheira
área de saúde (um ensaio sobre a gonor- Charlotte Corday
reia o ajudaria a conseguir um diploma — com uma punha-
de médico na universidade escocesa de lada no coração
enquanto relaxava
O Malhete Dezembro 2021 23

O PISO MOSAICO DO TEMPLO MAÇÔNICO


Entenda seu simbolismo para a Ordem
Em primeiro lugar, é preciso entender que, execuções, são similares no que se refere aos
embora seja um piso, o mosaico não deve ser ensinamentos e fundamentos utilizados
pisado. Seu propósito no templo é servir como guias para levá-los ao Oriente, onde se
como um lembrete da diversidade humana, encontra a tão almejada plenitude Maçônica.
bem como o dualismo presente na essência da Assim, podemos entendê-lo como uma
vida, onde habita as forças contrárias como, o forma discreta, mas emblemática, de celebrar

A
o entrarmos em qualquer templo maçô-
nico ao redor do mundo, uma das pri- bem e o mal, a verdade e a mentira, a luz e as e homenagear a diversidade presente em nos-
meiras coisas que notaremos será o trevas, o amor e o ódio, a sabedoria e a igno- sas Lojas ou Orientes, assim como o convívio
piso de madeira. Nossos olhos, focarão ime- rância, e assim por diante. harmônico entre os Irmãos, que se estende
diatamente no detalhe distinto que ele carrega Nele também encontramos o altar, com o além das oficinas e continua no mundo profa-
em seu centro: um mosaico, composto por Livro Sagrado da Lei, o esquadro e o compas- no, refletindo esses laços fraternais em nos-
quadrados pretos e brancos intercalados. so, aludindo às três luzes da Maçonaria. sos círculos familiares, amigos e também na
Este detalhe arquitetônico recebe diversas Outro simbolismo atribuído a este orna- sociedade na qual estão inseridos.
variações do mesmo nome, visto que, alguns mento, é a relação estabelecida entre os Por fim, o piso mosaico é uma demonstra-
o chamam de Piso de Mosaico, enquanto Irmãos, que, como sabemos, é alicerçada em ção simbólica do paradoxo da vida, que
outros preferem usar a palavra Pavimento, e, fraternidade, igualdade, empatia e compa- nunca é apenas boa ou apenas má, nem
devido ao seu layout que lembra o clássico nheirismo acima de tudo. mesmo apenas certa ou errada, mas sim um
jogo de tabuleiro, existem os Irmãos que o O piso de mosaico une cores diferentes e compilado de opostos que se repelem com a
chamam simplesmente de Piso Xadrez. opostas, representando a maneira como a mesma intensidade que se atraem, e que no
Independentemente da denominação esco- Maçonaria reúne homens de diferentes cultu- final se completam, contribuindo durante a
lhida, todo maçom deve compreender a ras, religiões, classes, raças e origens gerais jornada para a evolução de todos os seres
importância e o significado do piso. Portanto, para compartilhar os mesmos valores filosófi- humanos.
neste artigo iremos analisar seu simbolismo cos e propósitos; juntos eles traçam um cami-
na Ordem. nho de vida, que apesar de distintos em suas Fonte: Site GOSP
24 Dezembro 2021 O Malhete

Dragon, 1892 por Theodor Kittelsen (1857-1914).


Pintor e ilustrador norueguês.

A DÚVIDA COMO FERRAMENTA


DO PROCESSO INICIÁTICO se questionar constantemente a cada momento ficar lá. A ignorância, mesmo adornada com as
de sua jornada. O que quer dizer que a dúvida é penas de falsas certezas, é sem dúvida mais
o motor de todo processo de iniciação. confortável do que a luta para se acostumar
Mas de que dúvida estamos falando? com a luz.
O cético, em um sentido filosófico, duvida Quando o postulante deixa seu Gabinete de
que o homem possa alcançar o verdadeiro Reflexão, ele rompeu suas correntes, mas aos

Q uando um profano se volta para a Maço-


naria para ser iniciado, a primeira per-
gunta que nos fazemos a respeito dele é
se ele é perfectível; basicamente verifi-
Conhecimento; sabemos que a mente humana
é necessariamente limitada. Uma das sete ver-
dades atribuídas aos antigos gnósticos afirma
poucos terá que se acostumar com sua nova
condição de homem livre. Para isso, o Apren-
diz toma seu lugar na Coluna Norte, onde o dia
camos se existe esse elemento de fragilidade que "o visível é apenas a manifestação do invi- ainda está próximo à noite. O Aprendiz não
nele, aquele sentimento de "falta" que o faz ir sível" sabe ler nem escrever, apenas soletrar, e isso já
em busca de algo que está além de si mesmo. Essa é outra maneira de dizer que o mundo é muito. Basta, em silêncio, reconstruir as pala-
Muitas vezes nem mesmo o profano sabe o como ele nos parece é apenas uma ilusão. Um vras, ordená-las, reunir o que está espalhado.
que está procurando, mas ele busca, se questi- ensaio tibetano ilustra nossa ignorância com a É um trabalho que exige muito questiona-
ona, sem saber realmente se obterá as respos- metáfora da lua refletida na água. Em relação mento no início. É preciso duvidar. Como
tas. E então ele bate em uma porta, ela se abre às coisas e eventos deste mundo, aos seres que podemos aceitar essas provas sem duvidar por
para ele, ele não sabe o que vai encontrar do encontramos, a maioria dos homens imagina um único momento de sua adequação para nos
outro lado ... É mais pesquisa que o atrai. O que esse reflexo da lua na água constitui a aproximar do que esperamos ser a Verdade, a
esforço que deve ser desdobrado às vezes é o realidade, embora seja apenas uma projeção nossa verdade? Alguns irmãos nos deixam
verdadeiro objeto de pesquisa, como o misté- dela. O Sábio sabe que a realidade última está porque pensam que a verdade cairá do céu
rio, aquele véu que cobre tudo isso. É essa em outro nível, tão inacessível quanto a lua. para eles. São como insetos que, atraídos pela
incerteza que o fascina, a deliciosa sensação Um provérbio chinês diz: "Quando o Sábio luz de uma vela, chegam tão perto que se quei-
de espera. aponta para a lua, o tolo olha para o dedo". mam. Eles querem ir muito rápido e, em vez
Mas, às vezes, o profano parece relaxado, Todos conhecemos o famoso mito da caverna disso, é preciso muito trabalho para nos apro-
às vezes satisfeito e com ar de saber tudo e não de Platão, no Livro V da República. ximarmos do ideal da verdade.
ter nada a aprender: a Maçonaria não se inte- Os homens estão acorrentados em uma Estamos muito dispersos, especialmente no
ressa pelo homem imbuído de certezas, preo- caverna escura, eles nunca viram a luz do dia, mundo de hoje, muitas vezes presos pelo que
cupa-se apenas que se duvide de sua capacida- eles têm apenas uma percepção tardia das som- brilha com esplendor enganador. Quando não
de de passar nas várias provas. bras que se projetam na parede à sua frente. Se é dinheiro, é poder, e tudo isso pode fazer você
A dúvida não atinge apenas o profano, mas saírem para a luz do dia, ficarão deslumbrados acreditar que um é superior ao outro e pode
também o maçom que deve apresentá-lo à sua porque seus olhos, acostumados às trevas, não dominar.
instituição. Na verdade, devemos tentar suportam essa luz intensa. A partir daquele
entender, se admitido, ele tem a capacidade de momento, é tentador voltar para a caverna e >>>>>>>
O Malhete Dezembro 2021 25
Por sermos instados por todos os lados, corre-
mos um risco duplo: ou corremos longe demais
ou nos fechamos sobre nós mesmos.
No entanto, existem muitas almas bonitas entre
nós (e digo isso sem ironia), muitos homens que
possuem, sob sua armadura de metal, tesouros de
compaixão e coragem.
Lancelot du Lac, o Lancelot dos Cavaleiros da
Távola Redonda, passa diante do Graal sem vê-lo
porque está cego por seu amor impossível por
Guinevere. Tintin e o capitão Haddock viajam
pelos mares em busca do tesouro de Rackam, o
Vermelho, e enfrentam mil aventuras, enquanto o
tesouro está na cripta do Castelo de Moulinsart. O
tesouro está em nós, então não o vemos. A lua está
lá e nós apenas olhamos para o dedo.
Aqui a dúvida se manifesta em toda a sua utili-
dade, porque nos ajuda a ver com clareza e de
maneira diferente. Mas o ceticismo inicial não
deve nos levar a duvidar de tudo, porque então
tudo ficaria absurdo e não teríamos outra solução
(supondo que nada exista). O mito de Sísifo é um ensaio filosófico escrito por Albert Camus
Albert Camus não parava de se questionar, divi-
dido como estava entre várias paixões igualmente É o nosso olhar que muda de perspectiva. E assim, com esse tipo de teste onde a cegueira do
importantes para ele: o gosto pela liberdade, o E então surge a pergunta: para que serve? Para prisioneiro acorrentado se transforma em visão
vínculo carnal com sua terra natal, o amor pela que servem todas essas cerimônias, todas essas interior, um a um, com paciência, sobe os degraus
justiça, o horror da mentira e do engano. Ele era horas passadas à noite ouvindo discursos compli- da escada. Chegaremos ao topo? Esta é outra ques-
um homem de ação que gostava de mulheres boni- cados, quando seria melhor ficar em casa na com- tão.
tas, futebol e carros bonitos; mas também era um panhia de nossos entes queridos? De que adianta, Aqui, agora podemos juntar Camus com seu
homem espiritual que, disfarçado de agnóstico, já que um dia teremos que morrer e não sabere- Mito de Sísifo.
buscava o divino nele. No entanto, este humanista mos mais o porquê da vida e o que virá a seguir? Ele nos manda agir e nos comprometer.
intransigente trouxe o padre e o professor ao diá- Até as ciências admitem suas limitações. Mesmo Sísifo, um herói grego, é condenado pelos deu-
logo. Em “La Peste” Camus, pela voz do médico a matemática, com a teoria da incompletude, nos ses do Olimpo a rolar constantemente uma pedra
agnóstico e humanista, grita sua revolta diante de diz que existem algumas coisas reais que não em direção ao topo de uma montanha. Sísifo usa
um mundo de injustiça e miséria. Um Deus de podemos provar. uma venda. Quase chegando ao cume, a pedra cai
amor não pode querer, portanto Deus não existe! E depois, voltando ao nosso trabalho na Loja, inexoravelmente rio abaixo, e o herói deve repetir
Este grito não é o de um homem que gostaria de encontramos alguns Irmãos que nos ouvem com a constantemente o mesmo gesto, tentando chegar
negar a transcendência, Deus ou algum Princípio paciência de um anjo e com quem compartilhare- a um cume morro acima que nunca poderá con-
Primeiro, como o "ateu estúpido" das Constitui- mos o pão sagrado de um grupo espiritual. quistar. Situação aparentemente absurda, mas
ções de Anderson. É o grito de um homem com o Também aí haveria razão para duvidar. Tanto Sísifo encontra sua razão de ser na finalização de
coração ferido de morte pelo sofrimento dos mais se idealizarmos o Irmão, esquecendo que ele sua obra.
outros. E é esse questionamento que lhe dá a força é antes de tudo um homem. “Este universo agora sem mestre”, escreve
de quem busca. Um homem assim não se contenta Na verdade, nossa abordagem, por mais dolo- Camus, “não lhe parece estéril ou fértil. Cada um
com frases pré-fabricadas. Apresentamos uma rosa que seja, não tem outra recompensa senão a dos grãos desta pedra, cada esplendor mineral
ideia a ele, ele a testa com fatos, disseca-a e busca satisfação do dever cumprido. Isso é tudo. desta montanha no meio da noite, sozinho, forma
sob o véu das palavras o que é autêntico; no final, Como tal, seu peso vale ouro. É uma questão de um mundo. A própria luta até as alturas é suficien-
as ideias voam e a essência permanece. "Um fé, pode-se argumentar, mas não tenho a menor te para encher o coração de um homem. Você tem
homem", disse Camus, "é sempre vítima de suas dúvida de que a vivi, não intelectualmente ou ape- que imaginar Sísifo feliz "
verdades" ou melhor, "de suas dúvidas." nas emocionalmente, mas no segredo do meu cora- Irmãos, devemos imaginar-nos felizes traba-
No decorrer de nossa pesquisa iniciática, dila- ção, de uma forma absolutamente certa e em qual- lhando incansavelmente a nossa pedra e rolando-
cerados por essa dúvida íntima, aprendemos mui- quer caso impossível de traduzir. Graças à Loja, a para alturas que nunca alcançaremos, mas que
tas coisas e, principalmente, que não há inimigo, graças ao Ritual, incansavelmente repetido e são belas de contemplar.
nem mesmo o pior, que não possa se tornar amigo. internalizado, graças ao Amor dos Irmãos e aos __________________________________
seus olhares onde me descubro como um espelho. Por Barbara Empler
26 Dezembro 2021 O Malhete

Cayman Wood Ceremony (JEAN-PIERRE)

EFEITO BORBOLETA NA MAÇONARIA:


O CASO DE DUTTY BOUKMAN
Nessa época, a ilha de São Domingos era a colô- "Escocesas". [5]
nia mais rentável da França e responsável por Em 1789, Grasse-Tilly desembarca com sua
quase metade da produção de açúcar de todo o família na ilha de São Domingos, assumindo
mundo. Mas para que isso fosse possível, deman- posto militar, bem como um latifúndio de proprie-
dava-se centenas de milhares de escravos, o que dade de seu falecido pai. Com a revolta de escra-
gerava na ilha uma proporção superior a oito vos, ele busca exílio em Charleston, Carolina do
Por Kennyo Ismail (*) escravos para cada francês. [3] Então, pode-se Sul, nos Estados Unidos da América. E logo está
acreditar que uma revolução era iminente. envolvido nas atividades maçônicas locais. O

E feito Borboleta é um fenômeno previsto na Em 1801, Napoleão decidiu pela retomada da


Teoria do Caos que acabou ganhando popu- colônia e retorno da escravidão. Batalhas foram
laridade, sendo interpretado como se o sim- travadas até o início de 1802, quando as últimas
ples bater das asas de uma borboleta pudesse lideranças locais se entregaram. Contudo, a reto-
desencadear uma série de acontecimentos que mada do domínio francês durou apenas alguns
nome de Grasse-Tilly consta entre os chamados
Onze Cavalheiros de Charleston, considerados os
pais do Rito Escocês Antigo e Aceito e fundado-
res de seu primeiro Supremo Conselho, também
conhecido como Supremo Conselho "Mãe do
provocasse uma tempestade do outro lado do mun- meses, até que os rebeldes se reorganizaram. A Mundo", atualmente o da Jurisdição Sul dos
do. Esse é o cerne da Teoria do Caos, que compre- batalha final foi travada em novembro de 1803 EUA, fundado em maio de 1801. . [7]
ende que mesmo os sistemas mais deterministas que, vencida pelos rebeldes, levou à independên- Ainda, é sabido que o Rito Escocês Antigo e
são imprevisíveis a longo prazo, frente a uma ínfi- cia do Haiti, declarada oficialmente em 1 de janei- Aceito, com 33 graus, teria sido desenvolvido
ma diferença nas condições iniciais, tornando-se ro de 1804. E assim, o Haiti foi a primeira nação pelos pais fundadores do rito com base no Rito de
caóticos. independente de toda a América Latina e Caribe. Heredom ou de Perfeição, com 25 graus. Albert
Essa seria a justificativa para o fato da meteo- Todo esse movimento de independência foi Pike, ao realizar profundos estudos e pesquisas
rologia realizar apenas previsões curtas e, ainda presidido por um Ritual Vodu realizado em uma sobre os oito graus adicionais, concluiu que dois
assim, algumas dessas previsões falharem. Mas a floresta chamada Bois Caïman, conduzido por deles, o 31° e o 33°, eram originados da Loja "Du
aplicação da Teoria do Caos não fica restrita à Dutty Boukman, em agosto de 1791. Por sua forte Contrat Social", cujos rituais teriam sido forneci-
meteorologia, já que sistemas abertos de longo liderança, sua profecia de liberdade e a crença em dos por Grasse-Tilly. [8] Até mesmo o nome,
prazo também são objeto de estudo de outras sua invencibilidade, ele se tornou a prioridade do "Rito Escocês Antigo e Aceito" teria sido escolha
áreas do conhecimento, como nas ciências bioló- exército francês, que o capturou, executou e dego- posterior do Conde, quando de sua implementa-
gicas e nas ciências sociais. lou, em novembro daquele mesmo ano, expondo ção na França.
Partindo desse pressuposto teórico, verifica-se sua cabeça publicamente. Isso o tornou um mártir, Isso já seria o bastante para destacar o impacto
um efeito borboleta observado na história da similar a William Wallace, na Escócia; José Mar- de Grasse-Tilly sobre a criação do Rito Escocês
Maçonaria. Neste caso, a inesperada mudança nas tí, em Cuba; e a Tiradentes, no Brasil. Antigo e Aceito, seu formato e os graus que o com-
condições externas chamava-se Dutty Boukman, E como o sacrifício de um porco, numa floresta põem. Dos Onze Cavalheiros de Charleston, ele
cujo bater de suas asas em uma ilha no Caribe de uma ilha do Caribe, conduzido por um Sacer- era o único, de fato, francês, de onde o Rito de
mudaria toda a Maçonaria. dote Vodu, pode ter afetado a Maçonaria em todo Heredom teria chegado, e tinha sido membro da
Acredita-se que Dutty Boukman teria nascido o mundo? famosa "Loja-Mãe Escocesa", que, de certa for-
na Jamaica e chegado à Ilha de São Domingos Com a Revolta de São Domingos, os militares ma, governou os chamados graus escoceses.
como escravo de um inglês. [3] Respeitado sacer- franceses tiveram que se evadir da ilha. Dentre Assim, era, dentre os demais pais fundadores, o
dote Vodu, no final do século XVIII, ele foi o eles, estava o Conde de Grasse-Tilly. Nobre, com mais experiente naquele caótico sistema maçôni-
grande líder de uma rebelião de negros escraviza- histórico militar na família, teria sido iniciado, em co que estava sendo em Charleston ordenado.
dos que trabalhavam, principalmente, nas planta- 1782, na famosa Loja "Du Contrat Social", tam-
ções de cana, café e tabaco. Sob sua liderança bém conhecida como "Loja-Mãe Escocesa"
carismática, os oprimidos conseguiram o recuo desde 1776, e que exercia liderança litúrgica >>>>>>
dos colonizadores franceses, em 1791. sobre mais de trinta outras Lojas francesas ditas
O Malhete Dezembro 2021 27
No entanto, a influência de Grasse-Tilly vai floresta úmida do Haiti,
além. Se dependesse dos outros fundadores, o em agosto de 1791,
Rito Escocês Antigo e Aceito talvez permanece- sem qualquer relação
ria, por muitos anos, restrito aos Estados Unidos com a Maçonaria, nada
da América. Foi pelas mãos de Grasse-Tilly, por- disso teria acontecido.
tando carta patente do Supremo Conselho "Mãe Grasse-Tilly não teria
do Mundo", que foi fundado o segundo Supremo se exilado em Charles-
Conselho, em Porto Príncipe, em maio de 1802. ton e fornecido os ritu-
[9]Também foi ele o responsável pela fundação ais de sua Loja-Mãe; os
do terceiro Supremo Conselho, na França, em Onze Cavalheiros de
outubro de 1804, e pelo desenvolvimento dos Charleston não teriam
rituais dos graus azuis ou simbólicos para o Rito se formado, ou pelo
Escocês Antigo e Aceito, supostamente no mês menos não com aque-
seguinte.[10] les irmãos; os 33 graus
Deve-se observar que, neste período, eclodi- não teriam sido organi-
am as chamadas Guerras Napoleônicas e o Conde zados, pelo menos não
de Grasse-Tilly tinha suas obrigações militares com aqueles rituais; o
enquanto braço direito do Marechal Kellermann. Rito Escocês Antigo e
Buscando conciliá-las, funda o Supremo Conse- Aceito não teria sido
lho da Itália, em 1806; das Duas Sicílias, em criado ou, pelo menos,
1809; e o da Espanha, em 1811. [11] nomeado assim; os
O Marechal Kellermann era um homem com graus simbólicos do
idade avançada, que não comandava tropas em rito não teriam sido
campo de batalha, participando da conquista polí- desenvolvidos; e, com
tica das batalhas por meio de seus homens de con- absoluta certa, o Rito
fiança, como Grasse-Tilly. Assim, vê-se que a Escocês não teria se
França, nesse período napoleônico, adotou estra- espalhado pelo mundo
tégia similar à do Império Britânico, que também de forma tão fácil e rápi-
tinha na Maçonaria uma instituição participativa da.
na consolidação sociopolítica de sua expansão. Dutty Boukman é
[12] Por meio de organizações maçônicas, era indiscutivelmente um
possível integrar a elite nativa com a elite "colo- herói e mártir da Inde-
nizadora". [13] Essa integração, regulada pela pendência do Haiti. : Conde de Grasse-Tilly (autor desconhecido).
hierarquia e moralidade maçônicas, proporciona- Mas, além disso, deve-
va uma elite nativa condizente com o conceito de se levar em considera- Southern
"corpos dóceis", [14] além de redes sociais e de ção a possibilidade de que seu feito tenha extra- Jurisdiction of the United States of America.
poder úteis em iniciativas diplomáticas. [15] polado o intento de liberdade de seu povo e as Vol. IV. Reprint Edition. Washington, DC: Supre-
Algo que reforça esse entendimento é a manu- fronteiras de sua ilha. O que talvez não tenhamos me Council,1962.
tenção francesa da "tradição maçônica" de esco- ainda um processador com capacidade de calcu- [9] COIL, H. W.; BROWN, W. M. Coil's
lha de um representante de seu império como lar é: como seria a Maçonaria Mundial sem a ocor- Masonic Encyclopedia. New York: Macoy, 1961.
governante da organização maçônica então cria- rência dessa variação? De todo modo, fica a con- [10] SIMON, J. REAA: Rituel des trois premi-
da na "colônia": Eugênio de Beauharnais, entea- clusão de que um pouco de Teoria do Caos pode ers degrés selon les anciens cahiers - 5829. Bon-
do de Napoleão, no Supremo Conselho da Itália; colaborar para uma melhor compreensão do pro- neuil-en-Valois:Éditions de la Hutte, 2013.
Joaquim Murat, cunhado de Napoleão, no Supre- cesso maçônico de se colocar Ordem sobre o [11] GOULD, R. F. The Concise History of
mo Conselho das Duas Sicílias; Miguel José de Caos (Ordo ab Chao). Freemasonry. Mineola, NY: Dover Publications,
Azanza, íntimo do irmão mais velho de Napo- 2007.
leão, no Supremo Conselho da Espanha. A dife- NOTAS: [12] HARLAND-JACOBS, J. “Hands Across
rença observada é que, nos casos britânicos, as [1] LORENZ, E. N. Deterministic nonperiodic the Sea”: The Masonic Network, British Imperia-
organizações maçônicas eram criadas com status flow. Journal of the Atmospheric Sciences, n. 20, lism, and North
de subordinação (Grandes Lojas Provinciais), 1993, p. 130-141. Atlantic World. Geographical Review, Vol. 89,
enquanto que os Supremos Conselhos já nasciam [2] GEGGUS, D. The Haitian Revolution in Issue 2, p. 237–253, 1999.
independentes. Atlantic Perspective. In: The Oxford Handbook [13] HARLAND-JACOBS, J. Builders of
Fica evidente que Grasse-Tilly era a pessoa of the Atlantic Empire: Freemasons and British Imperialism,
certa nos momentos e locais certos, tanto para World 1450-1850, CANNY; MORGAN (Ed.). 1717-1927. Chapel Hill: The University of North
ajudar a criar como para expandir o Rito Escocês Oxford: Oxford University Press, 2011. Carolina Press, 2007.
Antigo e Aceito. E assim, o Rito Escocês Antigo e [3] ROGOZINSKI, J. A Brief History of the [14] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.
Aceito tornou-se a mola propulsora da Maçona- Caribbean Revised. New York: Facts on File, Petrópolis: Editora Vozes, 2004.
ria no decorrer do século XIX, criando um novo 1999. [15] FREITAS NETO, E. C. REDES DE
processo de reprodução maçônica, com seus [4] JEAN-PIERRE, U. Cayman Wood Cere- SOCIABILIDADE, REDES DE PODER: Maço-
Supremos Conselhos sendo fundados concomi- m o n y . D i s p o n í v e l e m : naria e Diplomacia Track 2 naÁfrica Francófona.
tantemente, ou até mesmo antes das Grandes https://www.researchgate.net/figure/ Dissertação (Mestrado em Relações Internacio-
Lojas ou Grandes Orientes em territórios ainda Figura-5-Cayman-Wood-Ceremony-de- nais). Universidade Federal da Bahia.Salvador,
maçonicamente desocupados. Ulrick-JeanPierre_fig2_323268400 197 p., 2019.
A partir daí, o Rito Escocês tornar-se-ia não [5] DARUTY, J. E. Recherchessur le Rite Écos-
apenas predominante em todo o mundo maçôni- sais Ancien et Accepté. Paris: Chez le F. Panisset, ___________________________________
co, mas, via de regra, a pedra angular do mesmo, 1879. (*) O Autor, Irmão Kennyo Ismail é
tendo sido protagonista ou partícipe das principa- [6] Retrato realista em óleo do Conde de Gras- escritor, revisor técnico, editor, pales-
is mudanças, seja criação, cisão, fusão, ruptura, s e - T i l l y . D i s p o n í v e l e m : trante, professor e pesquisador. Na
aliança ou tradição, que tenham ocorrido nas prin- https://br.pinterest.com/pin/3975834733585404 Maçonaria Simbólica, é Veneravel Més-
cipais jurisdições maçônicas nos últimos dois 93/ tre da Loja de Pesquisas Dom Bosco 33,
séculos. [7] HARRIS, R. B. Eleven Gentlemen of Char- Grande loja Maçônica do Distrito Federal
E se não fosse o inesperado bater de asas leston. Washington, DC: Supreme Council, SJ, (2019-2021)
daquela borboleta, Dutty Boukman, que prova- USA, 1959.
velmente nada sabia sobre Maçonaria; se não [8] PIKE, A. Liturgy of the Ancient and
fosse aquele Ritual Vodu que ele conduziu numa Accepted Scottish Rite of Freemasonry, for the
28 Dezembro 2021 O Malhete

AS LOROTAS QUE OS MESTRES CONTAM


Aprendiz tem direito à palavra, só não pode Spoladore e outros, aprendi que a verdadeira ves-
entrar em discussão de temas que ainda não domi- timenta do maçom é o avental. O resto é roupa.
na, mas pode usa-la para fazer um anúncio, ou um Portanto, nem tanto ao céu, exigindo um carís-
agradecimento. Porém os Mestres, para ficarem simo terno ArmaNni, nem tanto à terra, permitin-
“numa boa” desaconselham a manifestação, do um tênis sujo, remendado.
tolhendo o direito de expressão do maçom inici- Outra sem pé nem cabeça, que se ouve é; Não
Autor - Laurindo Roberto Gutierrez* ante. basta entrar para a maçonaria, é preciso que a
Mais uma; Aprendiz não pode visitar uma Loja maçonaria entre em você.

O s Mestres de uma Loja Maçônica são os


detentores do conhecimento, que deve ser
passado aos aprendizes e companheiros.
Desde que foi implantado em 1.738, o grau de
Mestre, é assim. Tendo adquirido maturidade e
sem a companhia de um Mestre. Quem inventou
isso? Imagine um aprendiz em viagem a outro
oriente ficar impedido de visitar uma Loja, por-
que não tem ao seu lado, um Mestre de sua Ofici-
Que mensagem transmite essa frase? Nenhu-
ma. Nada podemos fazer para a maçonaria “en-
trar” no iniciado. Isso dependerá de como sua
Loja o instruirá, e dos Mestres que servirão de
na. A visita é importante para aprender novas coi- exemplo para ele, e principalmente do próprio
sabedoria, são os Mestres que levarão os mais sas e conhecer outros irmãos e ritos. aprendiz. Tudo mais é uma incógnita, e a história
novos ao topo da escada, grau por grau, até que Nos tempos remotos, as “novas” eram trans- mostra que cada um entende a filosofia maçônica
estes se tornem Mestres também. mitidas através da visita. Mesmo aprendiz, o visi- à sua maneira.
Porém, alguns às vezes lançam idéias que se tante leva consigo a força vibratória dos irmãos a Essa citação é uma forma de retórica que pare-
perpetuam e nem sempre se mostram úteis ao quem ele representa, e sua presença deve ser vista ce bonita para ser enunciada em sessão de inicia-
aprendizado. como uma dádiva e uma benção pelos anfitriões. ção com a Loja cheia de visitantes, porém se torna
Vejamos algumas coisas ditas que para nada Especialmente em visita a outra Loja, ele deve maçante aos presentes.
servem. fazer uso da palavra para se identificar e agrade- É uma oração dispensável, de pouco alcance e
Vamos à primeira que me veio à mente; Tenha cer a acolhida. Segundo Da Camino, o visitante inteligência. Agora, a que mais se tem falado, e
paciência, você chegará lá. Não sabendo respon- deve ser visto como “outra luz” , “outra força” e que me dá arrepios. É a infeliz, Somos eternos
der a pergunta do aprendiz, o Mestre sai com “outro alimento”, e merece o mínimo direito de aprendizes. Essa soa falsa e pura léria. Imagine
essa. Ás vezes até admoesta o aprendiz chaman- falar. Só falta botar isso na cabeça de certos Mes- um Mestre após seu tempo de estudo voltando ao
do-o de apressado e curioso. tres. primeiro grau. Se aceitasse voltar atrás seria com-
Todos nós passamos por isso pelo menos uma Seguimos com outra: Só é permitido entrar em provadamente um fracassado na Arte Real.
vez, e não tínhamos como saber a verdade. Loja com roupas pretas (ou escuras) e de sapatos Aquele que assim fala, se sente um mestre per-
Perguntar era arriscado naquele tempo. preto. Esse é o caso acontecido com um irmão feito, e por nada daria um passo atrás, pois para
Agora com a facilidade da rede mundial, todos dentista, que vinha direto do trabalho para Loja ele, o grau de Mestre, com seu vistoso avental é
podem dirimir suas dúvidas sem “tomar um com seu jaleco branco, cheirando à resina e a sua maior conquista.
pito”. pasta anestésica à base de xilocaína. Pois bem, os Essa é uma declaração de falsa modéstia, é
Porém sempre recomendo aos aprendizes que mestres em coro, diziam que não era possível uma verborréia inútil que nada ensina, nem nada
me procuram, para que tudo que ler, pesquisar ou aquilo, pois mesmo de balandrau se via seus sapa- de bom transmite. É uma demonstração de duvi-
copiar, deve submeter à um Mestre, que poderá tos brancos. dosa humildade, com certa dose de egolatria.
avaliar melhor o valor e a veracidade daquilo. Essa “falta grave” rendeu discussões em nome
Outra: Aprendiz não fala. Essa recomendação, da uniformidade da vestimenta e do “bom anda- * Loja de Pesquisa Maçônica Brasil – Londri-
embora pareça verdadeira, não espelha a realida- mento dos trabalhos”. na-Pr
de. Eu, novo na Ordem, cheguei a pensar que aqui- * Loja de Pesquisa Maçônica Francisco Xavi-
Sabemos que o silêncio pode ajudar na con- lo não era correto mesmo. Agora, passado anos de er Ferreira- Porto Alegre- RS
centração para a faina do desbaste da pedra, mas estudos, lendo as instruções de J. Castellani, H.
não é preciso ficar em completa mudez.
O Malhete Dezembro 2021 29

A ORAÇÃO DA SERENIDADE Mas pode a serenidade ser usada ao lidar com conceitos de moderação e sobriedade;
problemas pessoais, sociais e econômicos ou da - uni-la à virtude da Força, Perseverança e Tem-
instituição maçônica? Sem dúvida, nessas cir- perança, todas moldadas pela Prudência para
cunstâncias o sentimento mais comum é o nervo- poder enfrentar os perigos inevitáveis na defesa
sismo, nos sentimos irritáveis ou contrariados, dos nossos Irmãos, tornando-se o sustentador e
mas é justamente a atitude menos saudável. defensor das mais nobres causas e ideais
Antonella Antonelli Pessoas pacíficas podem pensar antes de deci- "Sabedoria para reconhecer a diferença ..."
dir e não se sentem assustadas, preocupadas ou A sabedoria é uma habilidade que se desenvol-
Muitos de nós estamos familiarizados com esta ansiosas com o futuro. Eles não descansam na ve com a aplicação da inteligência na experiên-
oração que é assim: infelicidade do passado, nem imaginam possíve- cia, obtendo conclusões que nos dão maior com-
Deus me conceda Serenidade para aceitar as is catástrofes futuras. Na verdade, quem está mais preensão que, por sua vez, nos permitem refletir,
coisas que não posso mudar ... Coragem para tranquilo pode aproveitar a vida e pensar que em tirar conclusões que nos dão uma idéia da verda-
mudar o que posso e Sabedoria para reconhecer algum momento conseguirá superar todos os pro- de, do bem e do mal. Isso tira suas referências do
a diferença ... blemas. que é chamado de memória de longo prazo. A
Esta oração foi composta em um domingo de Serenidade não é indiferença, complacência semente colocada no solo deve receber luz e água
1943 durante a Guerra Mundial, seu autor foi um ou ignorância. É uma virtude saudável que abre a para finalmente dar seus frutos.
teólogo americano chamado Reinhold Niebuhr. possibilidade de melhorar nossa qualidade de Para o homem receber, ele deve transformar a
Ministro ordenado da Igreja Evangélica, pároco vida, admirando sua beleza. matéria-prima do mundo por meio de seu traba-
em Detroit até 1928 e depois lecionou no seminá- O maçom deve usar a serenidade para: lho. Não existem edifícios prontos no mundo,
rio teológico de Nova York (1930-1960). - assumir as consequências de suas ações; mas temos que construí-los; para comer pão é
Aqui está a oração completa: " - defender a verdade dos próprios Irmãos, preciso semear, colher e depois assar. O maçom
“Deus, dá-me a Serenidade para aceitar as mesmo perdendo privilégios, falhando em pro- deve usar sabedoria:
coisas que não posso mudar, a Coragem para messas e renunciando a falsas vaidades; - agir na hora certa, sem esperar, olhando para
mudar as coisas que posso mudar e a Sabedoria - ser constante e persistente, sem desistir na o profano ao seu redor que dá o primeiro passo; o
para reconhecer a diferença, vivendo um dia de realização dos objetivos e ideais da união frater- pedreiro tem que dar aquele primeiro passo, por-
cada vez, desfrutando um momento de cada vez, na; que o que a gente faz hoje vai ter repercussão para
aceitando a adversidade como um caminho - aceitar os próprios erros, esforçando-se sin- a eternidade. E se não for um maçom fazendo
para a paz, pedindo, como Deus fez, neste ceramente para não os cometer novamente, lutan- isso, então quem?
mundo pecaminoso como ele é, e não como eu do contra os próprios vícios e a própria ignorân-
gostaria que fosse; acreditando que farei tudo cia; - A justiça humana está longe de ser perfeita,
bem se me render à sua vontade, para que eu - compreender que o maior erro do ser humano mas com sabedoria o maçom sempre torna suas
possa ser razoavelmente feliz nesta vida e incri- é tentar tirar da cabeça o que não sai do coração. obras justas e perfeitas.
velmente feliz com Você na próxima. " Serenidade é não estar a salvo da tempestade, - Deve-se usar a sabedoria para podermos per-
Esta Oração transmite algo que todos os seres mas sim encontrar paz no meio dela. "Coragem ceber o que diz nosso código moral: “Não julgue
humanos, independentemente de seu credo, sta- para mudar o que posso" é a virtude necessária levianamente as ações dos homens; não culpe e
tus social ou político, gostariam de alcançar, por- para superar nossos medos e fantasmas internos elogie menos, primeiro tente sondar os corações
que muitos são prisioneiros de seus vícios, outros que às vezes levam uma pessoa à depressão; o para apreciar suas obras. "
de seus egos, outros de seu passado, outros de sábio é capaz de enfrentá-los e transformá-los Dada a aplicação real desta oração mesmo den-
suas ações e muitos de seus frustrações na vida. com um único desejo, o de ser uma pessoa melhor tro da instituição maçônica, vamos lê-la, interna-
O texto é composto por três pilares fundamen- para si, sua família e o meio em que se desenvol- lizá-la, buscar dentro de nós mesmos e dar ao
tais: Serenidade, Coragem e Sabedoria. ve. mundo nossa melhor sabedoria e conhecimento.
Do ponto de vista maçônico, poderíamos dizer Valores são os padrões de conduta e atitudes Isso é amor, o maçom faz tudo o que faz por
que estamos diante de uma bela oração maçôni- pelos quais nos comportamos e que estão de acor- amor; amor pela humanidade, amor pela família,
co-cabalística, também aplicável dentro da insti- do com o que acreditamos ser correto. Os valores amor pela verdade, amor pelos irmãos, amor pela
tuição maçônica e recomendo sua leitura. espirituais podem ser sociais, familiares ou pes- liberdade, amor pela justiça.
Que mensagem poderia transmitir aos olhos de soais e não têm nada a ver com religião, mas com
um maçom? o sentimento que alimenta essa crença. O maçom Fonte: Revista Athanor
"Deus me dê serenidade para aceitar as coi- deve fazer uso do valor:
sas que não posso mudar ..." - combiná-lo com a segunda virtude cardeal,
Uma pessoa serena é gentil, simpática, calma. Temperança, completando a definição com os
30 Dezembro 2021 O Malhete

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