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Danilo Intassa Silvestre Júnio

Cláudia Carlitos António


Saíde Assane Saíde
Severino Agostinho
Clemência Salimo

Sistema semiótico literário

Curso de Licenciatura em ensino de Português com habilitações em ensino de Inglês

Universidade Pedagógica
Montepuez
2017

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Danilo Intassa Silvestre Júnio

Cláudia Carlitos António

Saíde Assane Saíde

Severino Agostinho

Clemência Salimo

Sistema semiótico literário

Trabalho de carácter avaliativo da


MA: Cristiano Adalberto Paipo Mavangu cadeira de Estudos Literários, 1º ano,
1º semestre, a ser apresentado ao
Departamento de Ciências de
Linguagem, Comunicação e Artes.
Leccionado Pelo:

Universidade Pedagógica

Montepuez

2017

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Ref. Bibliográfica: SILVA, Victor Manuel Aguiar de. Teoria e metodologia literárias. 8ª edição
Conteúdos Pág.

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Sistema Semiótico Literário

Conceito do termo “Semiótico”


“A Semiótica é a ciência que tem por objecto de investigação todas as linguagens
possíveis, ou seja, que tem por objectivo o exame dos modos de constituição de todo e
qualquer fenómeno de produção de significação e de sentido.”
SANTAELLA, L. (1983 p21). “Semiótica é a ciência dos signos e dos processos
significativos (semiose) na natureza e o” gregosemeîon, que significa ‘signo’, e sêma,
que pode ser traduzido por ‘sinal’ ou ‘signo’.” Enquanto actividade interpretativa do
entendimento e da significação ligado ao signo e aos seus instrumentos, como escreve,
no seu tempo, João de S. Tomas, a semiótica é uma área do saber muito antiga e, por isso
mesmo, conviveu, em épocas e circunstâncias diversas, como outros saberes,
nomeadamente como a logica, a filosofia, as gramáticas, hermenêuticas, a teologia ou a
própria tradução.

Conceito de Signo Linguístico

O signo é o resultado de significado mais significante. Por outras palavras, o signo é o


veículo de um qualquer fenómeno de semiose, que se pode definir como “todo o
processo em que algo (veículo sígnico) funciona como sinal de um designatum,
produzindo um determinado efeito ou suscitando uma determinada resposta
(interpretante) nos agentes (intérpretes) do processo semiótico [...]” (Aguiar & Silva,
2000).
Portanto, o signo “semiose” designa a operação produtora e geradora de signos, a partir
do pressuposto de uma relação recíproca entre significante e significado (Saussure), ou,
em termos de L. Hjelmslev, entre o plano da expressão e o plano do conteúdo.
Referindo-se a qualquer tipo de acção do signo, a semiose gera e produz um interpretante
de si mesmo, isto é, a semiose consiste na acção de determinar um interpretante. Todo
acto de linguagem, seja ela artística ou não, enquanto acto de significação, implica uma
semiose, que equivale à função semiótica, propriamente dita.

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“A semiose se explica por si mesma: esta circularidade contínua é a condição normal da
significação e permite, inclusive, que os processos comunicativos utilizem signos para
mencionar coisas e estados do mundo”.

Conceito de sistema semiótico literário


Depreendendo-se que um sistema corresponde à combinação de partes coordenadas entre
si, para o mesmo fim, assume-se que no fazer e no produzir uma obra literária como um
processo de significação e de comunicação e que resulta num texto e permite a sua
funcionalidade como mensagem, estará subjacente um determinado sistema, o qual será
conhecido como sistema semiótico literário.
Neste quadro, compreender-se-á que sistema semiótico, na esteira de Aguiar e Silva
(2004:57), será “uma série finita de signos interdependentes entre os quais, através de
regras, se pode estabelecer relações e operações combinatórias, de modo a produzir-se
semiose.”.
Assim, um texto, definido em conformidade com Aguiar e Silva (1988:75) é uma
“sequência de elementos materiais e discretos, seleccionados dentre as possibilidades
oferecidas por um determinado sistema semiótico e ordenados em função de um
determinado código ” só será funcional se a sua produção se fundamentar em
determinado sistema, portanto, o sistema semiótico literário.
Decorrente disto, o sistema semiótico literário afigura-se como um sistema ligado ao
texto, surge como elemento que permite a transmissão de comunicações peculiares, não
transmissíveis com outros meios.

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Linguagem Literária vs Linguagem Não-Literária 47
Desde há muitos séculos que se tem procurado fundamentar a distinção entre a
literatura e não-literatura, entre textos literários e não-literários através da
delimitação e da caracterização de uma linguagem literária contraposta à não-literária.
Entretanto, de acordo com uma teoria pitagórica, existem duas modalidades de expressão
uma, a mais corrente, apresenta-se ”nua” desprovida de figuras e de quaisquer recursos
técnico-estilísticos; a outra, pelo contrário, caracteriza-se pelo ornato, pelo vocábulo
escolhido e pelo sábio uso de tropos

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A primeira corresponde a uma linguagem não artística e não-literária; a segunda, em
contrapartida, é uma linguagem artística e literária.
O pensamento pitagórica que se distancia da linguagem usual pelos ornatos e ao carácter
inusitado dos seus vocábulos, epítetos, tropos entre outros, é sustentada pelo Aristóteles
assim como Isócrates que consideravam também o estranhamento como forma da
linguagem literária usado nos discursos poéticos.
A literatura como a arte, ela constitui-se em um tipo especial de comunicação, que se
vale também de uma linguagem especial. Assim podemos pensar que a linguagem
especial precisa apoiar-se em uma língua e se configura em textos, os quais se
caracterizam em uma forma de discurso. A linguagem literária possui relação estreita
com a linguagem.

Linguagem Literária como função da Linguagem Verbal

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De acordo com a teoria explicativa da literariedade constituída pelo formalismo russo, 57
estabelece que: a linguagem literária seria o resultado, o produto de uma função
específica da linguagem verbal.
Num estudo publicado em 1916, por Lev Jakubinskij, estabelece que os caracteres
diferenciam entre os dois “sistemas de linguagem”, o «sistema da linguagem prática» e o
«sistemas da linguagem poética»: enquanto no primeiro sistema «os recursos linguísticos
(sons, segmentos morfológicos, etc.) não possuem valor autónomo e são apenas um meio
de comunicação», no segundo, «o fim prático recua para o segundo plano (não
desaparece necessariamente de todo) e os recursos linguísticos adquirem valor
autónomo.».
Em 1921, JAKOBSON publica um estudo sob o título “A nova poesia russa”, no qual
escreve o seguinte: “a poesia é a linguagem na sua função estética”, aparecendo como
marca distintiva desta função «o valor autónomo» admitida à palavra.
No entanto, Jakobson adverte que a função estética não anula a existência, na obra
poética, de outras funções linguísticas. Ele menciona, por exemplo, mais duas, a função
referencial e função expressiva, mas subordina-as hierarquicamente, de modo que elas se
encontram na estrutura poética, não apenas submetidas à função da dominante, mas

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também transformadas por esta.
Doutro lado, a função estética pode ocorrer em textos não-poéticos, mas com carácter
adjuvante ou subsidiário, isto é, sem o estatuto de dominante. Portanto, das diversas
analises que Jakobson consagrou à função estética ou poética da linguagem verbal,
concluiu que: “nos textos, em que aquela função actua como dominante, as estruturas
verbais adquirem valor autónomo, orientando-se os sinais linguísticos para si mesmos,
para «a sua forma interna e externa» e não para uma realidade extralinguística:
Orientação própria da função referencial ou para a subjectividade do autor
Orientação própria da função expressiva”.

Teoria Jakobsoniana da Função Poética da Linguagem

Segundo JAKOBSON, a comunicação verbal pressupõe necessariamente a interação de 6


«factores intransmissíveis», a saber: Cada um destes factores origina uma função
linguística específica, embora seja difícil apresentar uma mensagem em que se realize de
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modo exclusivo apenas uma dessas funções: em geral, verifica-se em cada mensagem a 63
presença de mais do que uma função, contudo, impondo uma delas o seu predomínio
sobre as outras («a função predominante»).
Por conseguinte, ainda a linguística em referência, distingue 6 (seis) funções da
linguagem verbal, nomeadamente:
A função expressiva ou emotiva (denominação proposta por A. Marty, suíço,
colaborador do Circulo Linguística de Praga), centrada sobre o sujeito emissor e
aspirando a «expressão directa da atitude do sujeito em relação à aquilo de que fala. Visa
a dar a impressão de uma certa emoção, verdadeira ou fingida». As interjeições
representam o extrato da língua puramente emotivo, mas a função emotiva é inerente, em
vários graus, a qualquer, mensagem, quer se o nível fónico, quer o nível gramatical ou o
nível lexical.
A função conativa ou apelativa (proposta por KARL Buhler), orientada para o
destinatário e encontrando a sua manifestação gramatical mais para no vocativo e no
imperativo. As frases imperativas, ao contrário das declarativas, não podem se
submetidas a uma prova de verdade, nem transformadas em frases interrogativas.

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A função referencial (também chamada denotativa ou cognitiva), orientada para o
referente, para o contexto.
A função fática, é predominante nas mensagens que têm como finalidade «verificar se o
circuito funciona […], fixar a atenção do interlocutor ou assegurar que esta não afrouxe».
A função metalinguística, ocorre quando o discurso está centrado no código, seja, «o
emissor e/ou receptor julgam necessário averiguar se ambos utilizam, na verdade, o
mesmo código». Esta função representa um instrumento importante nas investigações
lógicas e linguísticas, mas o seu papel é também relevante na linguagem quotidiana.
Visa a explicar o código. Quando o discurso esta centrado no código, desempenha por
conseguinte uma função metalinguística.
A função poética, é centrada sobre a própria mensagem: descreve pela parecida
interesse dada à estrutura da mensagem, ao ritmo, às sonoridades e ao conteúdo da
informação de que é portadora. A função não constitui a função exclusiva do conjunto de
textos que o Jakobson designa por ‟arte da linguagem, pois ela é apenas a sua função
dominante, ao lado da qual as outras funções atrás enumeradas desempenham um papel
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complementar e subsidiário.
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Refutação da teoria Jakobsoniana da função poética da linguagem

A teoria de Roman Jakobson (1896-1982) sobre a função poética da linguagem,


suscitou múltiplas, e variadas criticas. A classificação e descrição das funções da
linguagem proposta por Jakobson fundam-se em factores da natureza comunicativa, pois
cada uma das funções corresponde, em seu entender, a uma relação específica
estabelecida entre a mensagem e cada uma das instâncias de terminada pela teoria
matemática da comunicação em qualquer processo comunicativo.
O modo como o Jakobson explica e a origem e caracteriza a natureza das diversas
funções que distinguem na linguagem não prima pelo rigor analítico, nem a clareza
conceitual e terminológica. Afirma que cada um destes seis 6 factores faz nascer uma
função linguística diferente.
A teoria jakobsoniana, todavia, suscita demasiadas dúvidas e objeções para poder ser
considerado como o critério que perminte distinguir e delimitar os textos literários. A

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analisemos essas críticas e objeções:
a) Aquele princípio, de per si, não possibilita distinguir com precisão entre um
contexto poético e um texto não poético.
b) Como demostrou Paul Werth, os modelos de paralelismo fónico-gramatical que
Jakobson a presenta como específicos da função poética e como factores
constitutivos do verso, para jokobson ‟o verso implica sempre a função poéticaˮ.
c) Em princípio, a teoria jakobsoniana da função poética devia possui capacidade
explicativa em relação a qualquer texto literário. A teoria da dominante, presente
no pensamento de Jakobson impede em princípio a anulação da capacidade
referencial do texto poético e a sua concepção como uma mensagem margada
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pela intransitividade pura. 79

Os conceitos de sistema semiótico literário e de código literário

A obra literária, como o próprio lexema “obra” denota constitui o resultado de um fazer,
de um produzir que, sendo embora também um processo de expressão, é necessária e
primordialmente um processo de significação e comunicação.
O texto literário, como qualquer outro acto significativo comunicativo, só é produzido e
só funciona como mensagem, num específico circuito de comunicação, em virtude da
prévia existência de um código de que têm comum conhecimento – não confundir com o
conhecimento idêntico – um emissor e um número indeterminado de receptores.
Como se infere nas anteriores afirmações, pensamos que, em rigor, é necessário
distinguir entre sistema de significação ou sistema semiótico e código.
Um sistema semiótico é uma serie finita de signos interdependentes entre os quais,
através de regras, se pode estabelecer relações e operações combinatórias, de modo a
produzir-se semiose, ao passo que código é um conjunto finito de regras que permite
ordenar e combinar unidades discretas, no quadro dum determinado sistema semiótico
com objectivo de gerar processo de significação e comunicação que se consubstanciam
em textos.
Em nosso entender por conseguinte, o sistema e o código, como langue saussuriana, são
conceitos atinentes ao plano paradigmático isto, é, ao plano das relações instituídas in

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absentia entre as unidades semióticas, em termos de semilitude, de alternativa ou de
oposição, o qual possibilita um operador a selecção e o ordenamento dessas mesmas
unidades semióticas, combinadas por um operador num texto. O código, exactamente
porque introduz num sistema constrições, regras, critérios de ordem substituindo por
determinada gama de propabilidade para que tenderiam os elementos constitutivos do
mesmo sistema.
Por definição, um código é sempre transcendente, tanto no plano ontológico como no
plano cronológico, em relação aos textos que ele possibilita produzir ou receber. Deste
modo, afiguram-se como intrinsecamente contraditórias ou logomáquicas expressões
como “código extradiscursivo” e “código intradiscursivo”, entendendo-se “discursivo”
como equivalente a “textual”, e não pode deixar de ser classificar como um absurdo
logico a afirmação de que um texto gera o seu próprio e especifico código, o qual
funcionaria como código de uma única mensagem.
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2.7. Heterogeneidade da semiose estética
Uma experiencia como a anterior, comprova a pertinência da teoria proposta por alguns
semioticistas sobre a natureza típica e explicitamente heterogénea das mensagens
artísticas. Como Emilio Garroni demonstra, não existe nenhuma linguagem especifico-
simples ou homogénea, nem existe, consequentemente, “uma manifestação semiótica
artística no verbal que possa ser considerada totalmente concreta – pura o homogénea.
Qualquer mensagem, mesmo altamente especializada ou formalizada, resulta sempre da
interacção de modelos semióticos heterogéneos, podendo ser decomposta e analisada
segundo vários níveis, cada um dos quais dependente de códigos diversos.
A homogeneidade de uma determinada manifestação semiótica procede apenas de uma
construção analítica formal aplicada ao estudo dessa manifestação ou do respectivo
modelo semiótico. Por exemplo que a forma semiótico linguístico se apresenta como
homogéneo não pelo facto de a própria linguagem verbal ser homogénea.
Toda linguagem artística, por conseguinte é típica e explicitamente heterogénea, já que
resulta da combinação, da interacção sistemática de múltiplos códigos. A sua
especificidade deve ser assim substancialmente definida a partir das inter-relações
combinatórias de vários códigos, se bem que, com Christian Metz observou, a teoria de

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Garroni sobre a heterogeneidade típica e explicita das linguagens artísticas, exista outro
nível de manifestação desta especificidade, pós que alguns códigos são específicos de
uma determinada linguagem ou de um determinado grupo de linguagem (o que de modo
nenhum, alias, contradita o principio de que todas as linguagem artísticas são típica e
explicitamente heterogéneas).

O sistema semiótico literário como uma semiótica conotativa


No pensamento do grande linguista dinamarquês, os conceitos de sistemas, de processo e
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da sua interacção possuem um carácter universal, e por isso, ao analisar a linguagem 89
«natural», Hjelmslev foi conduzido a incluir no âmbito da sua teoria linguísticos aspectos
fundamentais da ciência literária, da filosofia das ciências e da lógica formal.
Sob o ponto de vista do seu potencial aproveitamento e desenvolvimento no domínio da
estética, em geral, e da teoria da literatura, em particular, assume a maior importância a
distinção estabelecida por Hjelmslev, no parágrafo 22 dos prolegómenos a uma teoria de
linguagem, entre semíticas denotativas, semióticas conotativas, e metasemióticas.
Numa reformulação mais simples que não atraiçoa esta definição, um objecto em que é
possível distinguir dois «planos» o da expressão e o do conteúdo, por sua vez
constituídos por quatro «estratos» a substanciam da expressão, a forma da expressão, a
forma do conteúdo, e a substancia do conteúdo.
Existem semióticas, como as línguas naturais, por exemplo, cujos planos não constituem,
em si mesmo, uma semiótica. São semióticas denotativas. Outras semióticas existem,
todavia, em o plano da expressão é já uma semiótica são semióticas conotativas. Existem
ainda outras semióticas cujo plano de conteúdo constitui em si mesmo uma semiótica.
São as metasemioticas.
Se o signo glossemático representa a função de solidariedade, HJELMSLEV, designa por
função Sígnica. Numa semiótica conotativa, este signo denotativo torna-se uma das faces
de outra entidade bifacial, funcionando como o plano da expressão do signo conotativo.
Se entre a semiótica denotativa e a semiótica conotativa e entre o signo denotativo e o
signo conotativo existe, como os esquemas anteriores patenteiam, u a relação de

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solidariedade, não existe, porem, uma relação de isomorfismo. Daqui resulta que não são
forçosamente coincidentes as unidades morfemáticas e sintagmáticas constituintes da
semiótica denotativas e a as unidades discerníeis na semiótica conotativa, podendo
verificar se, como propõe Michel Arrivé, as três possibilidades seguintes:
1 Menor dimensão das unidades da semiótica conotativa relativamente às
unidades da semiótica denotativa;
2 Igual dimensão Das unidades nas duas semióticas; 90 -
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3 Maior dimensão das unidades da semiótica conotativa em relação as unidades
da semiótica denotativa.

Sistema semiótico literário como sistema modelizante Secundário


No simpósio sobre os sistemas semióticos organizados, em 1962, pela escola das
ciências de Moscovo, é proposto e difundido um conceito fulcral no desenvolvimento da
semiótica soviética: o conceito de sistema modelizante do mundo. As teses apresentadas
neste colóquio, estabelece como objecto de estudo da semiótica os modelos do mundo
que o homem constrói.
Por LOTMAN escreveu «por sistema modelizante», como o conjunto estruturado dos
elementos e das normas; porem o sistema encontra se em relação de analogia com o
conjunto dos objectos no plano de conhecimento, da tomada de consciência e da
actividade normativa.
De acordo com LOTMAN, define o sistema modelizante em conformidade com a
concepção Saussuriana de langue permitem ao homem a organização estrutural, com
funções gnosiológicas, comunicativas e pragmáticas, do mundo circundantes os realiza
estruturados em signos e como signos, podendo o modelo do mundo assim construído ser
considerado numa prespectiva cibernética como da cultura. Por isso, um sistema
modelizante pode ser considerado como uma língua.
Segundo LOTMAN define a cultura como a memória não hereditária de uma
comunidade, como o conjunto da informação não genética e dos meios necessários para a
sua organização, preservação e a sua transmissão: a cultura é também um complexo de
mecanismo de elaboração e de comunicação ou um complexo mecanismo de codificação,
descodificarão e transcodificação.

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A cultura é um gerador de estrutural que por processo de determinados sistemas de
prescrições e regras cria uma criosfera, isto é, um conjunto de fenómenos e de valores
que, tal como a biosfera proporciona condições para a aparição e desenvolvimento da
vida orgânica, tornam possível a vida de relação do homem, conferindo o sentido em
todos os planos.
O sistema semiótico literário apresenta assim um exclusivo sistema modelizante
secundário representando uma langue, na acepção semiótica do termo, que não coincide
com a língua natural e que também não se identifica como um estrato estilístico-
funcional desta mesma língua. Construindo se sobre a língua natural, só podendo existir
e desenvolver se em indissolúvel interacção com a expressão e o conteúdo da língua
natural, na literatura tem um sistema seu de signos e de regras para sintaxe de tais signos,
sistema que lhe é próprio e que lhe serve para transmitir comunicações peculiares, não
transmissíveis com outros meios.
Enquanto sistema modelizante secundário, a literatura é codificada pluralmente 1:
Codifica-se numa determinada língua natural, através de textos concretos e específicos,
2: Utiliza outros códigos: Fónico-ritmicos − Métricos − Estilísticos − Retóricos −
Técnico-compositivos -Axiológicos -semântico pragmáticos. A importância da
intertextualidade, determinada pela existência de um corpus literário histórico organiza-
se e desenvolve-se em classes específicas de textos: Os géneros literários (as três formas
estéticas fundamentais: lírica, narrativa, dramática).
O objecto da Poética não é o texto, mas o arquitexto, isto é, o conjunto de categorias
gerais ou transcendentes.
O texto literário é sempre codificado pluralmente: e codificado numa determinada língua
natural, de acordo com as normas que regulam esse sistema semiótico, e é codificado em
conformidade com outro sistema semiótico, com outros códigos actuantes na cultura da
colectividade em que se integra o seu autor/emissor esta pluricodificação gera um texto
de informação altamente concentrada e quanto mais difícil for a estruturação de um
texto, em função dos códigos que se empenhem-se, combinam, se interfluenciam na sua
organização, tanto menor será a predizibilidade da sua informação e, por conseguinte,
tanto mais rica esta se revelará.

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Descrição do sistema semiótico e do código literário


O sistema modelizante primário sobre o qual se institui o sistema semiótico literário é
representado por uma determinada língua histórica. Esta língua histórica constitui um
sistema linguístico que, pelas razoes de ordem geral expostas em 2.6., não é
semioticamente homogéneo. Por isso, particularmente a tempos a tal heterogeneidade
semiótica, alguns linguistas conceituam como um sistema de sistemas ou como um
diassistema, em que se distinguem em três estratos nomeadamente:
1 Sistema semântico;
2 Sistema léxico-gramatical (sintaxe, morfologia e léxico);
3 Sistema fonológico (fonologia e fonética).
Tal significa a língua como um sistema analisada sob uma prespectiva intra-
organismica, possui um código heterogéneo e multiforme que compreende um código
semântico, um código léxico gramatical e um código fonológico – três códigos
diferenciados, mas solidários sob ponto de vista sistemático funcional, pois cada sistema
ou estrato realiza o sistema ou extracto superior.
Nas palavras de Halliday “Um sistema de significados que constitui a “realidade” de
cultura” comporta variações sincrónicas da seguinte ordem:
 Variações diatópicas – representam variações de índole regional que se
verificam em comunidades que ocupam em determinadas áreas do espaço
geográfico correspondente a implantação de uma dada língua histórica;
 Variações distractivas – são variações resultantes das mais ou menos acentuadas
diferenças e clivagens socioculturais existentes entre os vários estratos e grupos
de uma sociedade – diferenças e clivagens que se afundam em factores
económicos, étnicos, educacionais, profissionais, sexuais, etários, etc;
 Variações diafásicas – admitindo, por idealização epistemológica, a existência
de uma comunidade linguística homogénea sob os pontos de vista geográfico
social observar-se-iam ainda na língua dessa comunidade variações dependentes

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da situação comunicativa, em função do contexto extra-verbal, das características
múltiplas dos interlocutores, dos temas, etc.
Se uma determinada mensagem é codificada e descodificada através de um determinado
código, é justo que se afirme que um texto literário também será estruturado por meio da
operação de determinadas normas, decorrendo disto o nascimento do código literário.
O código literário, de acordo com Aguiar e Silva (2004:57), é definido como “conjunto
finito de regras e convenções que permitem ordenar e combinar unidades discretas, no
quadro de um determinado sistema semiótico, a fim de gerar processos de significação e
de comunicação que se consubstanciam em textos.” Portanto, na linha dos mesmo autor,
código irá representar “o instrumento operativo que possibilita o funcionamento do
sistema, que fundamenta e regula a produção de textos e que, por si mesmo, assume uma
relevância nuclear nos processos semióticos.”
Da definição anteriormente feita, na esteira de Aguiar e Silva (1988:78), depreende-se
que o código literário se configura como “uma rede de opções, de alternativas, de
possibilidades, na qual as permissões, as injunções e a eventualidade de práticas
transgressivas se co-articulam de modo vário e em função de múltiplos factores
endógenos e exógenos ao sistema.” Portanto, será com base no código literário que,
retomando a definição de código na esteira do Grande Dicionário de Língua Portuguesa
(2004:350), se codificará ou descodificará um texto literário, ou melhor, o texto literário
só será como tal se se tiver em conta um determinado conjunto de opções combinatórias
para o efeito.

Conceito de código
Como se fez referência na definição de texto, a sequência de elementos seleccionados
dentre as possibilidades oferecidas por um determinado sistema semiótico é ordenada em
função de um determinado código, sendo que se afigura como importante defini-lo.
Assim, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (2003:371), o termo código
deriva do latim codice e, de entre várias interpretações, é sinónimo de “norma, colecção
de preceitos e regras que permite a combinação e interpretação de sinais.” Ademais, o
Grande Dicionário da Língua Portuguesa (2004:350) acrescenta que, sob ponto de vista
linguístico, código corresponde ao “sistema de relações estruturadas entre signos ou

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conjunto de signos que possibilitam a codificação e descodificação de mensagens.”

Código literário como policódigo


Em primeiro lugar, refira-se que a abordagem do código literário como policódigo, será
feita com base em Aguiar e Silva (1988).
Nesta perspectiva, o código literário configura-se como um policódigo que resulta da
dinâmica intersistemática e intersistemática de uma pluralidade de códigos e subcódigos
pertencentes ao sistema modelizante secundário que é a literatura e que entram em
relação de interdependência. Um esquema descritivo from bottom to top (de baixo para
cima), que não é cientificamente o mais adequado à presumível dinâmica da produção do
texto literário, mas que será didacticamente mais esclarecedor.
Em segundo, é importante que se sublinhe que o código literário como resultado da
interacção dos diferentes códigos e sub-códigos pertencentes ao sistema modelizante
secundário configura-se como policódigo. Nele distinguem-se os seguintes códigos

O código fónico-rítmico: como qualquer dos códigos a seguir numerados pode manter
uma relação importante com código grafemático em que se realizar o código fonológico
do sistema fonológico modelizante primário. Por outro lado, no quadro do sistema
modelizante secundário, este código mantém uma primordial relação de interdependência
com o código métrico e pode também apresentar relações importantes com o código
estilístico.

O código métrico: ordena a organização particular da forma de expressão dos textos


poéticos, considerados subconjunto dos textos literários, quer no concernente à
constituição do verso quer na combinação e agrupamento dos versos em estrofes. À
semelhança dos outros códigos este tem relações com o código fonológico. Tem também
relações de interdependência com o código léxico-gramatical, visto que a distribuição
dos acentos exigida pelo modelo do verso pode impor, por exemplo, modificação na
estrutura frásica. Finalmente relaciona-se com o código semântico. O código métrico, na
sua génese, no seu desenvolvimento esta indissoluvelmente ligado ao código semântico
pragmático do policódigo literário e aos sistemas semióticos que configuram a ideologia

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de uma dada comunidade social.
Código estilístico: regula a organização das formas do conteúdo e da expressão do texto
literário, considerando a sua relação de interdependência com o código léxico-gramatical
e suas sensíveis variações diacrónicas e sincrónicas. Relaciona-se ainda com os códigos:
semântico, fonológico, pragmático e técnico-compositivo.
Este código é responsável pela organização da coerência textual a nível semântico
(estrutura profunda) como a nível de textura (estrutura de superfície), mediante
microestruturas que operam no âmbito dos constituintes textuais próximos.
Código técnico-compositivo: orienta e ordena a coerência textual, mediante regras
opcionais ou constritivas de aplicação transtópicas. Tem uma elevada autonomia perante
o código linguístico. Desenvolve relações de interdependência com o código métrico,
com o código estilístico e com o código semântico-pragmático.
Segundo USPENSKY apud AGUIAR e SILVA (1988:105), as influências exercidas
sobre o sistema semiótico literário por outros sistemas modelizantes secundários de
natureza estética, sobretudo a música, a pintura e o cinema, embora verificáveis a
qualquer nível do policódigo literário, ocorrem muito frequentemente ao nível do código
técnico-compositivo.
Código semântico-pragmático: designação justificada pela simples razão de ser
impossível estabelecer uma rígida linha divisória entre os factores semânticos e os
pragmáticos, considera-se que a substância do conteúdo quer no âmbito sintagmático
como no pragmático é sujeita a específicos processos de semiotização até que seja
conteúdo numa forma peculiar.
É assim que, como escreve Greimas citado por Aguiar e Silva (1988:105/106): O código
semântico-pragmático regula, no plano pragmático, a produção das unidades e dos
conjuntos semioliterários, resultantes da interacção de factores lógico-semânticas,
histórico-sociais e estético-literários, que manifestam ou o universo semiótico
cosmológico ou o universo semiótico antropológico ou o universo semiótico social ou
um universo semiótico configurado pelas inter-relações dos três universos antes
referidos.
Este código correlaciona-se, através do código semântico, com os códigos religiosos,
míticos, éticos e ideológicos actuantes num determinado espaço geográfico e social e

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num tempo histórico, manifestando assim, de forma primordial e privilegiada a visão do
mundo, o modelo do mundo, consubstanciados ao texto literário.
Segundo DIJK apud Aguiar e Silva (1988:106), o código semântico-pragmático
desempenha uma função dominante no policódigo literário, porque a estrutura profunda
do texto é de natureza semântica e só a partir desta estrutura, considerada programa, se
pode analisar e compreender adequadamente a estrutura superficial do texto, as regras e
as convenções fónicas, prosódicas, grafemáticas, métricas, estilísticas, técnico-
compositivas e semântico-pragmáticas que a organizam. Mas a substancia do conteúdo,
quer no âmbito paradigmático, quer no âmbito sintagmático, é sujeita a específicos
processos de semiotização que lhe conferem uma forma particular.

Sistema literário e estilo de época


O estatuto do sistema semiótico e do código literário revela-se ainda mais complexo se
considerar que, em qualquer comunidade sociocultural e em qualquer período histórico,
107
o sistema literário se manifesta de facto como um polisistema, comportando, por -
108
conseguinte, mais do que um policódigo literário (ao qualquer nos referimos em seguida
apenas por código literário).
Sob ponto de vista da evolução literária pode contrapor-se, durante um lapso temporal
mais ou menos longo, um sistema em declínio a um sistema ascensional ou já
hegemónico, embora esta contraposição não exclua fenómenos de imbricação ou de
miscigenação do sistema em confronto (situação típica de varias literatura europeia no
período de transição do neoclassicismo para o romantismo).
Em contrapartida, o sistema literário hegemónico regula o chamado estilo de época. Mas,
como escreve Jurij Lotman, “nenhum código, por complexa que seja a sua estrutura
hierárquica, pode decifrar adequadamente tudo quando é realmente dado num texto
cultural ao nível do parol. O código de uma época não é pós a única cifra, mas a cifra
prevalecente”.
Sistema literário e géneros literários

Sob um ângulo semiótico, o género literário apresenta-se, nas palavras de Maria Corti,
como “un programma di altro genere”. O código que configura e regula um género

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literário o género épico, o género bucólico, o género trágico, etc. É constituído por
relações biunívocas entre uma forma da expressão e uma forma do conteúdo considerada
a nível de sistema modelizante secundário, isto é, entre uma determinada escrita no
sentido Barthesialo da palavra escrita é uma realidade formal transidividual constituída
entre a “língua” e o “estilo”, sob a acção de factores históricos e ético-sociais. 108

Em relação ao autor/emissor, os códigos dos géneros literários funcionam como um
111
filtro, como uma forma interpretar da realidade do mundo, da sociedade e do homem,
não só no plano temático, mais também no plano formal: impõem ou aconselham a
adopção de certos personagens, de certos motivos de certos temas de um certo registo
linguístico de certos esquemas métricos, de certos estilemas, de certas macroestruturas da
forma da expressão. Em relação ao leitor/receptor, cria um “horizonte de expectativas”
que se identifica com um “programa” de leitura, com uma isotopia paradigmática que
depois orienta a leitura das isotopias sintagmáticas, predispondo o receptor para uma
determinada forma da expressão e uma determinada forma do conteúdo guiando-o na
apreensão da coerência textual, quer ao nível semântico-pragmático, quer ao nível
estilístico, ao nível técnico-compositivo, etc.

Sistema literário e metalinguagem literária

A organização do sistema literário, a natureza e o funcionamento dos seus códigos têm


sido objecto, ao longo da história, de uma conceptualização que representa uma
metalinguagem literária e que se consubstancia nos metatextos da literatura.
A metalinguagem literária manifesta-se necessariamente sob a forma de uma poética
explícita, aparecendo formulada sobretudo em textos que apresentam como finalidade
exclusiva ou dominante a defesa ou a condenação, a descrição e a análise com carácter
mais ou menos marcadamente normativo, das convenções e regras que configuram os
códigos literários: arte poética, tratados de poética e de retórica, programas e manifestos 112

de escolas e movimentos literários, prefácios, epígrafe, etc. A metalinguagem literária 113
pode manifestar-se também sob a forma de fragmentos de poética explícita inserta na
estrutura de textos literários – romances, poemas, épicos, églogas, epístolas, etc.
Em nosso entender, admitir como propõe Walter D. Mingnolo, a existência de uma «de

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uma metalinguagem implícita» equivale a cair no erro de uma contradictioin terminis
(contradições interminais), pois o conceito de “metalinguagem” implica o conceito de
“explicitude”. A “consciência literária” implica o conceito de grupo de escritores, etc., é
que pode manifestar-se sob a forma de uma poética explícita ou sob a forma de uma
poética implícita, isto é, de uma poética não explicitamente teorizada, mas difluente da
própria realização dos textos literários.

2.14. Literatura e paraliteratura

A literatura stricto sensu, ou “literatura” se cada modificador, é percebida como


“literatura superior” a “literatura elevada” ou a “literatura canonizada”, isto é, aquele
conjunto de obras consideradas como esteticamente valiosas pelo “mileu” literário –
escritores, críticos, professores, etc. – e aceitares pela comunidade como parte viva,
fecunda a imperecível da sua herança cultural.
Para designar o conjunto da produção literária que se distingue da literatura é percebida
como “literatura canonizada” – ou, noutra perspectiva, que a esta se contrapõe – têm sido
propostas varias denominações: infraliteratura, subliteratura, paraliteratura, literatura
de consumo, literatura ligeira, literatura não-canonizada, literatura popular, literatura
de massas, literatura “kitsch” contra literatura. Estas denominações apresentam
motivações semânticas e significados denotativos e conotativos bem diferenciados,
tornando-se por isso indispensável submete-las a uma breve análise.
As denotações de “infraliteratura” e “subliteratura”, como resultado dos morfemas
prefixais infra- e sub-, enfatizam a ideia de que os textos literários por elas abrangidos 113

são esteticamente desvaliosos, ocupando uma posição subalterna e desprestigiada no 136
quadro dos valores socioculturais de uma comunidade.
Na indicação de “paraliteratura”, pelo oposto, não avulta de igual modo uma conotação
desqualificante: os textos literários que representam a extensão do conceito, como
decorre do morfema prefixal pra-, situam-se ao lado, junto da literatura, constituindo
uma “literatura preferida” ou uma “literatura marginal”. Esta nomeação tem sido
favoravelmente acolhida por diversos estudiosos.
A designação da “literatura de consumo” coloca o acento tónico na atitude de apetite

Pág. 20
voraz e ao mesmo tempo de passividade, de amortecimento, se não mesmo de ausência
de capacidade crítica, com que determinado público consome, isto é, a tal literatura.
Nesta perspectiva a “literatura de consumo” e a “literatura ligeira” têm a sua contra
polaridade na “literatura clássica”, isto é, aquela literatura valorada como modelar,
preservada como suprema herança cultural de uma comunidade e que suscita ao longo
dos tempos, plurímodas leituras.
A designação de “literatura popular” torna-se equívoca em virtude da polissemia do
lexema “popular”, em cuja amplitude semântica cabem significados e valores de
heterogénea e contraditória natureza.
Sob uma perspectiva romântico-tradicionalista, “literatura popular” significa aquela
literatura que exprime, de modo espontâneo e natural; na sua profunda genuidade, o
espírito nacional de um povo, tal como aparece modelado na sua peculiaridade das suas
crenças, dos seus valores tradicionais e do seu viver histórico. Esta literatura contrapõe-
se assim a “literatura de artes” ou “literatura artística”, não podendo desligar esta
antinomia categorial da polémica entre românticos e clássicos.
Finalmente, para alguns autores, sobretudo consagrados no estudo da antropologia
cultural, “literatura popular” significa literatura folclórica ou literatura oral.
O termo da “literatura de massas” põe em foco a natureza e o condicionalismo do
processo comunicativo que é próprio de tal literatura e que se reflecte nos caracteres
dessa mesma literatura. O público receptor desta literatura é constituída por uma massa,
isto significa um meio humano numericamente muito importante, heterogéneo na sua
formação cultural e no seu uso económico-social.
Os conceitos e as designações de “literatura de massas”, “cultura de massas” e “arte de
massas” – têm sido utilizados nos últimos anos por muitos escritores, sociólogos,
políticos, etc., não somente sem qualquer conotação pejorativa, mas ate com uma
conotação fortemente positiva.
A designação de “literatura kitsch”, que denota uma manifestação particular do
fenómeno estético do kitsch, difundiu-se sobretudo no último quarto do século.
O lexema alemão Kitsch, de difícil tradução noutras línguas e por isso mesmo adoptado
internacionalmente por teorizadores, críticos e historiadores das várias artes, foi utilizado
com frequente crescente na Alemanha do Sul a partir da segunda metade do século XIX.

Pág. 21
O kitsch é indissociável da “arte de massa”, em especial da sociedade burguesa
oitocentista e da sociedade afluente contemporânea, Hernann Broch situa a origem do
kitsch no romantismo, enquanto Gillo Dorfles situa-a no barroco, mas não existem
divergências de opinião entre os especialistas sobre o facto de ter sido entre 1880 e 1914
e entre a década de cinquenta e os nossos dias que o kitsch conheceu as suas épocas de
ouro.
Muitas vezes, todavia, o kitsch manifesta-se de modo menos grosseiro, sem uma
servidão tão notória às exigências da publicidade comercial ou ao mau gosto do público.
Finalmente, temos a considerar a designação de “contraliteratura”, proposta há poucos
anos por Bernard Mouralis. Esta designação abrange, segundo declara o próprio autor,
duas series bem diferenciadas de factos: por um lado, uma actividade teórica e a
correspondente prática de escrita que contestam e questionam a “Literatura” (“novo”
teatro, “novo” romance, “nova “ critica, etc.); por outro, a produção literária, relevante
sob o ponto de vista estatístico, a que se atribui uma posição marginal, como demonstram
designações como “infraliteratura”, “paraliteratura”, “literatura de massas”, etc.

2.15. Literatura escrita e literatura oral

O sintagma “literatura escrita” é formado por sememas redundantes e i sintagma


“literatura oral” é formado por sememas conflituantes entre si, constituindo uma
contradição interminal. As expressões “literatura escrita” e “literatura oral”, podem e
devem continuar a ser utilizados.
Para se compreender adequadamente a problemática semiótica da literatura oral, torna-se
indispensável, em primeiro lugar, rejeitar a ideia de que entre o texto da literatura oral e o
da literatura escrita existe apenas a diferença de que o segundo, ao contrário do primeiro,
apresenta os seus símbolos constitutivos materializados numa substancia e numa forma
particulares em conformidade com as regras e convenções do código grafemático
utilizado.
Com efeito, o sistema semiótico da literatura oral diferencia-se do sistema semiótico da
literatura escrita, não apenas pelo facto de ser defectivo em relação a um código
grafemático, mas sobretudo porque comporta sinais e códigos diferentes e porque o seu

Pág. 22
funcionamento, no que diz respeito a criação, à estruturação e à recepção do texto, é
diverso em comparação com o funcionamento do sistema semiótico da literatura escrita.
O sistema semiótico da literatura oral compreende signos para verbais e extra verbais de
grande relevância na sua constituição e na sua dinâmica, que integram com signos
literários verbalmente realizados e cuja realização semântica e sintática é regulada por
códigos inexistentes no sistema semiótico da literatura escrita como no caso de: código
musical; código acinésico; código proxémico; código paralinguistico, estes códigos,
137
em interacção com os diversos distintos do sistema semiótico literário, subjazem à
-
produção dos textos da literatura oral, configurando-se portanto o policódigo desta ultima 144
como mais heterogéneo do que o policódigo da literatura escrita.
Segundo MILMAN PARRY, o policódigo da literatura ora e os textos por ele regulados
existe uma relação de quase absoluta especularidade, de modo que o texto literário oral,
em vez de se constituir como um fenómeno de parole possibilitado pela langue
policódigo, se organiza antes como um quase fenómeno de langue.
As teorias de PARRY e de LORD sobre o carácter altamente formular da literatura oral
conduziram a uma concepção acentuadamente mecanicista do policódio da literatura
oral. Nos últimos anos, porem, sob influência da linguística chomskyana, alguns
investigadores têm analisado a natureza e a dinâmica do policódio da literatura oral à luz
de uma perspectiva gerativista, em conformidade com a qual aquele policódio não se
restringiria a um catálogo de fórmulas, de entidades semânticas, estilísticas, métricas,
etc., cristalizadas e que representariam um património de técnicas e aptidões.
Os caracteres semióticos e estruturais antes examinados policódigo rigidamente
conformando ao longo da tradição cultural de uma comunidade. A função fraca, ou a
função zero, da metalinguagem no sistema semiótico da literatura oral representa outra
relação desta com a paraliteratura. A tal literatura oral diferencia-se profundamente da
literatura escrita.
Em cada relação concreta, o texto literário oral pode apresentar variações mais ou menos
extensas, já que o seu emissor não é um computador digital que reproduza estritamente a
informação armazenada na sua memória, mas um emissor-actor cuja criatividade se pode
exercitar em cada performance, em sintonia com as reacções do auditório.

Pág. 23
O conceito de língua literária
O conceito de língua apresenta conteúdos variáveis, em função das teorias e do sistema
de oposição terminológica conceitual em que é utilizado. A linguagem é uma faculdade
universal uma potencialidade existente em cada individuo ao passo que a língua é uma
144
instituição, isto é, um produto social considerado historicamente e geograficamente, um -
conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir o 173
exercício daquela faculdade nos indivíduos.
No entendimento de SAUSSURE, matriz a que se torna indispensável remontar neste
domínio, o conceito de “língua” define-se por um lado, em relação ao conceito de
“linguagem” e, por outra banda, em relação ao conceito de “fala”. A linguagem é uma
potencialidade existente em cada individuo, ao passo que a língua é um produto social
condiciona histórica e geograficamente.
A língua é de natureza supra-individual e contratual: constitui um “código social”, um
“sistema de sinais”, um “modelo colectivo”, um “depósito” ou um “tesouro” de forma
existente em todos os indivíduos pertencentes a mesma comunidade linguística. A fala,
pelo contrário, através das quais o sujeito falante, exercitando a sua inteligência e a sua
vontade, utiliza o código da língua, “a fim de expressar o seu pensamento pessoal”. Na
fala, mediante a utilização de sistema de sinais e da instituição social que é da língua, o
indivíduo realiza a faculdade da linguagem.
Em geral, a língua literária de um escritor é constituída pela sua própria língua materna,
embora esta regra possa ser frequentemente derrogada: na idade média e, sobretudo, no
Renascimento, por motivos de prestígio cultural, muitos autores escolheram como língua
literária uma língua morta, o latim; por vezes, um escritor, nascido e criado no âmbito de
uma determinada comunidade linguística, escolhe para realizar parte da sua obra literária
a língua de outra comunidade, porque encontra nela uma língua literária tradicionalmente
utilizada em certos géneros poéticos.
A língua literária representa um desvio quando comparada com a língua normal e, por
conseguinte a gramática que permite descrever e explicar os textos literários não se pode
identificar totalmente com a gramática da língua normal. Conceber a língua literária
como “desvio” implica obviamente determinar e caracterizar a regularidade, o grau zero

Pág. 24
estilístico e retórico a partir dos quais se institui o desvio.
A consideração da língua literária como um desvio em relação a língua standard suscita
algumas dúvidas e dificuldades ponderosas. Em primeiro lugar, não se torna fácil
delimitar e caracterizar a língua standard. Se a língua normal ou comum for definida
como língua “ falada dia-a-dia por todos nos”, tratar-se-á com efeito de uma entidade
polimórfica, senão informe, na qual cabem variações mais ou menos amplas de diversa
natureza e que frequentemente apresenta, em alto grau, os valores emotivos e expressivos
que alguns autores atribuem, na senda de uma estética psicologista de raiz romântica, à
língua literária.
Foi só pensando estas e outra razoes similares que Stanley Fish, num estudo já famoso,
depois de afirmar que “as teorias do desvio trivializam a norma e portanto trivializam
tudo (não como a linguagem ordinária).
Se a língua literária representa, por conseguinte, um factor relevante nos processos de
formação e aceitação de norma gramatical de uma língua, carece de lógica atribuir-lhe
como propriedade fundamental e distintiva o desvio em relação àquela mesma norma.
Por outro lado, não devem ser minimizados os argumentos, aduzidos por diversos
autores, de que em muitos textos literários não ocorrem desvios relevantes em relação a
norma da língua standard e de que textos com desvios numerosos e profundos não
possuem ipso factoe statuto literário. O modelo proposto por Teun A. Van Dijk, para a
descrição e caracterização da língua literária, oferece um quadro teórico ajustado à
constituição e à dinâmica do sistema semiótico literário e possibilita, ao conceber a
gramática literária como uma gramática autónoma, mas não independente em relação a
gramática normal, um enforcamento correcto dos chamados desvios ocorrentes na língua
literária. Esta “falácia linguística”, de cuja formulação teórica cabe a principal
responsabilidade ao formalismo russo – já em 1928, Bachtin denuncia com uma
clarividência a inadequação dos instrumentos linguísticos que os formalistas russos
aplicavam ao estudo da literatura, só pode ser coerente e produtivamente ultrapassada no
âmbito de uma teoria semiótica como a proposta por Lotman, isto é, partindo do
princípio de que a potência «não é uma teoria e integrante da linguística, mas da
semiótica».

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CHOMSKY estabelece uma distinção fundamental entre gramaticalidade e
aceitabilidade de uma frase. A gramaticalidade define a propriedade das frases de uma
dada língua que são geradas pela gramática dessa mesma língua: a gramática de uma
dada língua. A aceitabilidade, em contrapartida, é um conceito pertencente à opinião
que um informante ou um grupo de informantes manifestam sobre a compreensibilidade
ou a admissibilidade de uma determinada frase.
A gramaticalidade consubstancia, pois, a norma em relação à qual se opera o desvio,
podendo a violação desta norma ser deliberadamente explorada como um mecanismo
literário.
Uma frase pode violar regras de categorização – aquelas que «definem o sistema de
relações gramaticais e determinam a ordenação de elementos nas estruturas subjacentes»
-, regras de subcategorização escrita – aquelas que «subcategorizam uma categoria
lexical em termos dos rasgos sintácticos que apareçam em posições especificadas na
oração». Em relação aos devidos e às anomalias ocorrentes na língua literária, a hipótese
propugnada pelos defensores da semântica gerativa afigura-se como mais adequada e
mais produtiva do que a hipótese chomskyana da autonomia da sintaxe, sendo em geral
adoptada pelos investigadores interessados na formulação de uma poética gerativa.
Como descrever e explicar os desvios verificáveis na língua literária? Três soluções
diferentes, têm sido propostas. Analisemos cada uma delas. Em primeiro lugar, a partir
da gramática gerativa da língua standard, pode se fazer o levantamento e fornecer a
apropriada descrição dos desvios ocorrentes num determinado texto. Em segundo lugar,
pode-se postular a necessidade de construir uma gramática independente, separada da
gramática da língua standard, com a justificação de que o escritor cria uma nova língua
ou, mais restritivamente, um peculiar dialecto.
Esta solução levanta ponderosas dificuldades teóricas e metodológicas e provoca
consequências que afectam os próprios fundamentos da gramática assim construída. Uma
terceira solução, enfim, mais complexa, consistente e mais satisfatória sob o ponto de
vista explicativo do que as anteriores, é proposta por Teun A. Van Dijk nos seus estudos
sobre a elaboração de uma gramática do texto literário no quadro teórico da linguística
gerativa de base semântica. Noutros
Períodos literários, pelo contrário, a língua literária aproxima-se da língua standard,

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quer num esforço de reduzir, ou eliminar, a distância comunicativa em relação um
público leitor cada vez mais extenso e, na sua maioria, carecente de cuidadosa
preparação académico-cultural, quer com o objectivo de aprender mais directa, fiel e
transparentemente a realidade do meio físico e social.

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