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O Corpo no Esquizodrama

Margarete Aparecida Amorim*

Antes de falarmos sobre o corpo no Esquizodrama, vamos entender primeiramente o que é


o Esquizodrama.

O Esquizodrama é uma proposta de trabalho clínico, desenvolvido por Gregório Baremblitt


(GB). O autor lhe denomina klínica com K, para diferenciá-la de todo tipo de clínica
convencional, seja psicoterápica, psicossociológica, psicopedagógica, psicanalítica etc.

Acho importante falar um pouco da trajetória intelectual e científica de GB, pois acho que o
Esquizodrama é uma confluência da variedade de interesses da formação e do estilo de vida
do autor.

GB é médico psiquiatra argentino, que mora no Brasil há mais de 20 anos. Sua formação se
ampliou para uma pós-graduação em Sociologia. Estudou com Pichón Riviére por muitos
anos, fez sua formação psicanalítica na Associação Psicanalítica Argentina, de onde sai, e
funda, com um conjunto de amigos, o grupo Plataforma (primeiro grupo que se separa da
Associação Internacional de Psicanálise, por razões políticas).

Sua atuação e formação têm sido bastante diversificadas, tendo uma ativa militância
política, que culmina com seu exílio no Brasil. Integrou Movimentos Populares, fundou e
participou de várias organizações de formação, supervisão e clínica, lecionou em
universidades argentinas e brasileiras, assim como em vários países da América Latina e
Europa.

Teve várias experiências de análise, mas a que lhe foi mais marcante, foi a análise
realizada com um discípulo direto de Reich – Alberto Tallaferro, sua Análise grupal e
individual didática com Emilio Rodrigué e o trabalho com a analista Álvares de Toledo,
com quem coordenou durante onze anos trabalhos terapêuticos grupais com drogas
psicodélicas.

Seus interesses teóricos incluem, desde leituras filosóficas, sociológicas, antropológicas e


históricas, até estudos literários e artísticos. A partir da década de setenta, se aproximou das
linhas da Análise e Intervenção Institucional de Lourau, Mendel e Lapassade. Adquiriu
uma formação em Materialismo Histórico, ademais de um dedicado conhecimento da obra
de Deleuze e Guattari, Foucaut, Lyotard, e filósofos clássicos como Nietzsche e Espinosa.
Também se interessou pelos escritos de literatos como Kafka, Becket e Artaud, assim como
é marcado seu interesse pelo estudo do teatro e das artes em geral.

Em 1973 fez o primeiro contato com a Esquizoanálise de Gilles e Felix Guattari, encontro
decisivo na sua trajetória daí para frente.

Para quem não conhece, em linhas bem gerais, a Esquizoanálise é uma práxis de produção
de saberes e afazeres que se propõe a compreender o funcionamento da realidade e intervir
na mesma para sua inovação metamorfósica. É uma pesquisa crítica acerca de todas as
organizações sócio-político-econômico-culturais da história, assim como seus sistemas de
representações, suas produções de subjetividade e sua relação com a natureza e o parque
tecnológico e industrial. Esse estudo culmina com o entendimento do Capitalismo
Planetário Integrado, atualmente hegemônico. Para a produção desse saber, a
Esquizoanálise vai “extrair”, redefinir, distorcer e reinserir recursos tomados dos mais
diversos campos do pensamento, do conhecimento e da criação artística, e até do saber
popular e o da loucura. A essa, poderia-se dizer, “metodologia” de produção intelectual e
estratégica, Baremblitt lhe tem denominado “Ecletismo Superior”. O intuito e valor
supremo dessa produção é a invenção, ou seja, a tentativa de geração do novo absoluto.

Com relação à Esquizoanálise, Baremblitt diz: “o achado dessa corrente teve uma
influência radical em meu pensamento e em minha práxis, sobretudo porque essa tendência
me abriu uma perspectiva de relação teórica e de ação concreta entre o social o psíquico, o
tecnológico e a natureza, de uma originalidade e consistência que não havia encontrado
nunca e que, até agora, não achei jamais”.

No Brasil, fundou o IBRAPSI-Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições, no


RJ, em 1978 e, em 1996, já em MG, funda o Instituto Felix Guattari, onde atua hoje como
Coordenador geral.

A coerência de Baremblitt entre sua ação política, terapêutica, pedagogia e sua vida
cotidiana, lhe fez propor uma releitura do universo teórico e técnico nos âmbitos da
subjetividade e da sociabilidade, assim como os da prevenção, cura e da reabilitação que
culminou numa proposta de intervenção clínica que denominou Esquizodrama.

O Esquizodrama é uma proposta baseada, principalmente, nas idéias de Deleuze e Guattari,


é coerente com essa trajetória múltipla de Gregório Baremblitt resultante dessa formação,
militância e experiência versátil de vida e baseará sua orientação em alguns princípios,
dentre os quais, tentarei ressaltar alguns, que considero interessantes para o propósito deste
texto.

O conceito de Klínica

O esquizodrama é constituído de diversos dispositivos de intervenção, aos quais irá


denominar klínicas do esquizodrama. Baremblitt vai inventar o termo Klínica com “K”,
tomando o sentido grego da origem da palavra clínica como Klinamen ( desvio dos átomos
que caem no vazio), e não de Klinos (deitado), que trás uma herança de tradição médica
(e que subsiste em diversas correntes atuais), onde o paciente é colocado em uma posição
passiva, instaurando, assim, uma relação diferencial hierárquica entre agente e usuário que
de modo algum se neutraliza ou se “supera” com os recursos teórico-técnicos de nenhuma
escola ou tendência. Klinamen, como desvio, vem da concepção atomista do filósofo
Demócrito, e o termo vai tentar assinalar a clínica como um lugar onde se propicie
incessantemente a perspectiva de desterritorializar-se, e “despersonaliza-se”, ou seja, de
“desviar-se” dos macro-modelos já instituídos na sociedade, das grandes identidades (pai ,
mãe, mulher, homem, criança, cientista e leigo, analista e analisando, etc). “Uma
desabituação dos hábitos e uma potencialização da produção invenção”(GB).

O Ecletismo Superior

Em palavras do próprio Baremblitt : “ é a livre extração de todo e quaisquer recursos


teóricos e técnicos, a partir de todo e qualquer ponto de um sistema de pensamento e ação
para, redefinindo-o e amalgamando-o a invenções próprias (assim como das dos
participantes dos dispositivos klínicos), construir um “corpus” de saber e fazer que detenha
alguma singularidade”. Nesse conceito, ele reforça, o que já disse em outras ocasiões: que a
clínica é soberana, e não pode se limitar a uma única visão teórica sistemática e exclusiva,
nem à regulação técnica de uma especificidade e uma profissionalidade, ou seja, o
pensamento, a sensibilidade, a imaginação, a intuição, a vontade e as ações klínicas devem
ser reinventadas em cada dissertação, texto ou intervenção, sem uma distinção
preconcebida entre agentes e usuários do procedimento de que se trate.

A Klínica como um Encontro

Segundo Espinosa, o encontro é a conexão ou mistura das relações características de um


corpo com outro corpo, o qual, devido à potencia de afetar e ser afetado, é capaz de
produzir bons ou maus encontros. Um bom encontro é aquele que intensifica nossa potência
de existir, assim como a de recriar nossas próprias “relações características”, tendendo a
uma reinvenção contínua de nossa suposta “identidade”. Com um mal encontro acontece o
contrário: nos cristalizamos no nosso “si mesmo”, ou, pior, degradamos essa potência de
existir e recriar. Daí a necessidade de se estar aberto para o inesperado do encontro, mas
também, de adquirir a sensibilidade e o entendimento necessários para conseguir selecionar
afetiva, sensitiva, intelectual e ético-ontologicamente nossos encontros. Como é sabido,
existe uma profunda afinidade entre essas idéias e as de Nietzsche, no sentido de que um
bom encontro é aquele que incrementa nossa Vontade de Potência Afirmativa e nossas
forças ativas na direção da produção do super homem, ou seja, das capacidades que vão
além do que se supõe que é a essência limitada do que consideramos como virtudes e
defeitos humanos.
Na mesma direção, esta proposta tem a ver com a idéias de Bérgson, acerca da atualização
do virtual, ou seja, a produção de novas realidades que não se confundem nem com o
considerado real, nem o possível, nem o impossível.

As Tarefas Negativas e Positivas

Inspirando-se na esquizoanálise, o esquizodrama vai ter tarefas negativas, destinadas a


desconstruir criticamente todas as entidades que apresentam a característica de reprodução
do status quo, do instituído, da reiteração do mesmo, assim como de anti-produção, a
destruição e o empobrecimento da vida. Por outro lado, a esquizoanálise e o esquizodrama
terão suas tarefas positivas, que consistem em produzir condições favoráveis para a
emergência do novo absoluto que sempre é viável a partir da potência infinita na que a pré-
realidade virtual consiste. Em suma, se trata de convocar, catalisar, propiciar a invenção.
Para o Esquizodrama e a Esquizoanálise, não se trata de “levantar” a repressão, senão, de
intensificar as linhas de fuga do desejo-produção, inventiva/criadoras, desperdiçada no
complexo de entidades repressoras. Trata-se, então, de se criar dispositivos para permitir
que as potencialidades transformadoras emerjam e se potenciem.

A Invenção

No processo esquizodramático inventa-se, parcial ou totalmente, a teoria, o método e a


técnica para cada situação, propiciando as desconstruções e a inovação contínuas. Tanto o
operador, quanto os participantes, estarão abertos para um processo imprevisível de
mutação insólita.
A Realidade Molar e a Molecular

Para a esquizoanálise, a realidade tem dois tipos de funcionamento. O molar, no qual


predomina a reprodução, a antiprodução e as transformações mais ou menos antecipáveis,
dentro dos limites da estrutura e dinâmica das entidades reais e possíveis; sendo o espaço, o
tempo, a substância e forma de conteúdo e de expressão ordenadas, causais e determinadas.
O molecular é o campo das diferenças puras, infinitas e aleatórias, que não se definem por
serem “desordenadas”, senão, por serem regidas por infinitas ordens, cuja vigência é
produto de um acaso substancial e seus efeitos são sempre inéditos.

A proposta do esquizodrama é a de que sua prática se realize “de tal maneira que se vá
dissolvendo as identidades, subjetividades, alteridades, atributos, territórios e semióticas
cristalizados que caracterizam as entidades do operador e do usuário, assim como a
especifidade dos procedimentos” (GB).

O corpo no Esquizodrama

Como uma tentativa de síntese, difícil por certo, digamos que, para a Esquizoanálise, o que
nós conhecemos como corpo, no sentido físico-químico-biológico (ou noutros sentidos,
como no social ou no lingüístico) tem uma realidade molar e uma molecular. A primeira
tem as características que mencionamos para o molar, principalmente na sua disposição
para a mudança que apresenta uma forte identidade e uma potência de variabilidade
bastante limitada. Mas todo corpo tem uma dimensão molecular, que em algumas
passagens da teoria denominam-se como sendo pré-energética, e pré-material, consistente
em quantidades intensivas de uma potência produtiva insuspeitável.

Enquanto os corpos molares (corpo humano, social , subjetivo , antropológico, econômico ,


político,etc.), em geral, podem ser individuais ou coletivos, os corpos moleculares ou
intensivos só podem ser singulares, ou seja, consistir em potências infinitamente diferentes,
implicando velocidades e ritmos, “latitudes e longitudes diversas”, como diz Espinoza,
cujo conjunto, não totalizável e transfinito, constitui a universalidade aberta dos corpos
singulares.

O importante a destacar é que, cada corpo, dito no sentido molar, real ou possível, tem uma
espécie de “metade” molecular, virtual ou intensiva, que não é confusa ou puramente
caótica (no sentido ruim dessa palavra), senão “caósmica”, ou seja, capaz de combinações
ou sínteses conectivas absolutamente originais, cujos resultados podem até efetuar-se em
novas capacidades , atributos ou propriedades existenciais molares “visíveis ou dizíveis”,
como as chamaria Foucault, mas que atuam quase sempre como um inconsciente potencial-
atual no qual o “De Fora” de Foucault funciona invisível e indizivelmente além do
diagrama de forças que determina os estratos e territórios molares da realidade
convencionalmente reconhecida como tal.

É por isso que Guattari recomenda a montagem de dispositivos operacionais nos quais
temos que estar preparados para que “as coisas aconteçam sempre onde e quando não as
esperamos”, sendo que nossa primeira regra facultativa consiste em “não atrapalhar”,
especialmente com “conceitos fundamentais” rígidos, prescrições severas de método,
regras e técnicas fixos.

Em nossa sociedade atual, tem-se dado muita ênfase ao corpo empírico chamado
“individual”, mas a um corpo do qual se exige um padrão estético: o corpo malhado,
definido, “turbinado”, “esbanjando saúde”. Atividades físicas e alimentação saudável
passam a estar destinadas a esses objetivos. Sem deixar de considerar os aspectos positivos
de alguns desses hábitos, sabemos que, infelizmente, todos esse investimentos, em geral, se
baseiam em possibilitar a produção de uma “imagem”, de um corpo/objeto/mercadoria, que
venha a satisfazer aos valores dominantes da nossa sociedade, sendo que a mídia contribui
enormemente para isso.

Poderíamos dizer que esse corpo é capturado e obrigado a atender a essa expectativa.
As relações criadas com o corpo, nas diversas organizações sociais (trabalho, escola,
família, lazer, estudo, relações amorosas,...) vão nos dizer se o mesmo é considerado
simplesmente como um objeto-meio, para conseguir torná-lo utilitário, exibicionista,
injustamente violento, asceticamente “neutro” ou obssessivamente controlado, ou se ele é
potenciado na sua “metade” intensiva, na sua potência de invenção e de expressividade.

Assim definido, o corpo participa de todos os processos e montagens dos dispositivos


autenticamente produtivos. O corpo não apenas sente, sofre, goza, senão que também
pensa, conhece, imagina, deseja, exprime, cria. É bem verdade que o corpo também fala.
Mas essa afirmação tem se tornado um lugar comum muito suspeito e até vulgarizado. Da
mesma maneira em que se sustém que o corpo fala, se pode afirmar que a fala “corpeia”
(GB). A linguagem como fala e como escrita não tem nenhum privilégio, do mesmo modo
que o pensamento racional tampouco é um atributo supremo do humano ao qual todas as
outras faculdades e semióticas (de movimento, de mímica, de dramatização, de desenho,
de dança, de pintura) , devam ser “traduzidas” para exprimir ou significar. Algumas teorias
e técnicas atualmente vigentes, amiúde, ou bem ignoram o corpo para atender
exclusivamente à fala com uma “escuta” à que se atribui todos os poderes de deciframento,
ou bem consideram ao corpo apenas como instrumento de significância de sintomas, atos
falhos, conversões, somatizações,etc. Outras correntes atribuem às técnicas corporais uma
função apenas catártica ou banalmente lúdica que esgota um certo efeito de alívio em si e
por si mesma.
Muitos autores, entre eles Foucault, têm mostrado como todas as práticas educacionais,
médicas, religiosas, laborais, judiciárias, militares e morais, as especialidades da sociedade
moderna chamadas “disciplinares”, têm pelo menos várias vertentes que servem ao
controle, vigilância e modulação dos corpos para adequá-los aos valores, significações e
funções da ordem dominante.

O estudo dessas práticas nos mostra corpos capturados, modelados e apropriados, segundo
certa lógica e ética destes modelos disciplinares, tanto mais difíceis de combater quanto
mais se postulam como científica ou racionalmente fundados.
Para o Esquizodrama, não existe um modelo a priori do corpo, ou melhor, não lhe interessa
o corpo normalmente reconhecido, nem o sujeito desse corpo, que teria uma identidade
própria.
O que interessa ao esquizodrama é a produção de um dispositivo em que os corpos são
recriados e conectados, de uma maneira insólita: com a natureza, a sociedade e o parque
tecnológico. Esse corpo novo, não perde a condição de humano, mas adquire matizes e
dimensões que tem a ver com o que poderíamos chamar de situação, clima, ou atmosfera -
musical, escultural, literária e, ao mesmo tempo afetiva, política,... Trata-se de corpos
bizarros, absolutamente novos, que podem ser individuais ou coletivos, ou acoplados a
mundos singulares dos que formam parte. Esses corpos são tomados por devires segundo os
quais encontram sua maneira de torna-se animal, vegetal, mineral, vento, água, fogo,
adquirir diversas idades, raças, imperceptível etc.

Não nos interessa trabalhar o indivíduo com seu corpo, ou o corpo desse indivíduo,
enquanto entidades molares ( apropriados pelo sistema sócio-político vigente), mas como
esse indivíduo/corpo, ou suas partes/corpo, ao integrar-se a diversas peças de um
dispositivo klínico, funciona ativando suas potências metamorfoseadoras.

Daí o prefixo esquizo: nos interessa fazer emergir as potências dos fragmentos desse corpo
silenciadas por um padrão dominante. Boca que olha, olho que come, dedo que enxerga,
palavras que têm forma,...enfim, propiciar a expressividade do não pensado, ainda
desinstitucionalizado, não capturado, e sua potencialização.

Ao criar dispositivos para que isso aconteça, acreditamos estar possibilitando outras
maneiras de viver. Trata-se de inventar corpos inéditos, dotados de uma sensibilidade que
permite que se sinta a si mesmo e ao outro de uma maneira insólita. Adquire-se uma
sensibilidade sensorial inabitual. Surgem novas formas de se usar os espaços, novos
objetivos de vida, novas formas de expressar-se, novas parcerias ,...

O esquizodrama vai se compor da montagem de diversos dispositivos sistematizados pelo


autor , por mim e outros colaboradores em diversos estados do Brasil e do estrangeiro que,
como já foi dito, denominamos Klínicas. Mas, apesar de ter uma série de conceitos e de
procedimentos similares, cada operador de Esquizodrama constrói um que lhe é próprio,
porque essa apropriação forma parte rigorosamente da proposta ética do Esquizodrama.

* Margarete Aparecida Amorim é Psicóloga Clínica, Analista Institucional e


Esquizodramatista, Coordenadora do Instituto Felix Guattari.