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p E R c · u R s o s N A

I . I

HISTORIA DA PSICANAliSE

• ANA CRISTINA FIGUEIREDO

.CÉLIO GARCIA

oJOEL BIRMAN
-.
.•JURANOIR FREIRE- COSTA

·•MARIA CLARA. PELLEGRINO

oRENATO MEZAN

'
aSILVIA NUNES .

o COORDENADOR: JOEL 'BIRMAN

CO l t CÂ9

'\~\~~
Este Percur.oa pretende retomar a clínica, que se funda na escuta e na
investigaçAo histórica dos saberes e relaçto intersubjetlva sustentada na
das práticas psiquiátrico-psicológicas. transferência, que a psicanálise foi
Várias teses e pesquisas Importantes Introduzida no Brasil. Esta dimensAo
foram, desde Foocault, empreendidas se estabeleceu entre nós apenas nos
nos anos 70, traçando as articulações anos 40 e 50, com o aparecimento
fundamentais entre saber e. poder no das Instituições de formação psicana-
universo da loucura, e sobre !) lugar lltioa.
social dos saberes psicológicos na Um mapeamento introdutório da psi-
modernidade. Outras indagações vie·· canálise nacional pode entAo ser feito
ram ao primeiro plano da pesquisa psi- . mas são muitos os obstáculos levan·
canalítica nos- anos 80, de forma a se lados, desde os de ordljm material
constituírem novas problemáticas e (precariedade dos arquivos, falta de
outr~s instrumel"\tos críticos para a ln- apoio de órgãos oficiais de . financia-
vestigaçAo em Psicanálise. Porém, a. mento de pesquisas), até os de ordem
preocupação histórica se anuncia no- conceitual, obstáculos internos à psi·
vamente e se introduz no debate teó· . canálise, na medida em que definir o
rico. A constituição de uma " Associa- que é a sua história já constitui por si
ção Internacional de História da Psl· só uma problemática teórica da maior
canálise", de caráter Interdisciplinar e . importância. Por Isso alo esparsas as
que realizou recentemente o seu prl~ ·produções teóricas neste campo.
meiro êongresso, é um indicador do Entretanto, é Importante destacar
retornQ, com crescente Interesse, ·a que este trabalho não se restringe ao
este campo de investigaçAo. Brasil, que constitui apenas um dos
No Brasil, empreendermos a reall· três tópicos que compõe o livro. Além
zaçAo da uma história da nossa pslca~ deste, outro segmento procura tema·
nálise é essencial para que se possa tlzar a questão metodológica colocada
pensar os caminhos e descaminhos pela história da Psicanálise e as rela-
que o discurso pslcanalllico trilhou ções da Psicanálise com a História.
aqui, COfiSiderados tanto o registro. Um terceiro conjunto de artigos rea-
teórico quanto as práticas lnstltucl~ liza o estudo histórico de alguns con-
nais. ceitos psicanalíticos. Espefamos que
Assim, fica claro que a psicanlilise estes ensaios possam despe'rtar o In·
foi basicamente incorporada em nosso teressa teórico e estimular a produçlo
pais .pela instltulçto médlco-psiquiá· critica .no campo da história da Psi-
trica, nos anos vinte/trinta, como, ape- canálise. ·
nas, uma nova modalidade de terá..
pêutica, que velo a interessar também
os campos da pedagogia e da crimi-
nologia, por. forn~er novos lnstru·
mentos para as práticas preventivas
(pensava-se, por exemplo a psicaná-
lise como veiculo importante nas am~
blç<1\es eugêntcas então em voga).
Não foi então, primordialmente pela
dimensão de uma nova modalidade de
Próximas publicações

Sandor Ferenczi: escritos pslcanalltlcos


Joel ·B.irman - Freud e a éxperiAncla
capa: Julleta Sobral psicanalítica
PERCURSOS NA
HISTóRIA DA PSICANALISE
PERCURSOS NA
HISTóRIA DA PSICANALISE

Renato Mezan
Célio Garcia
Silvia Alexim Nunes
Ana Crjstina Figueiredo
Jurandir Freire Costa
Maria Clara Pellegrino
Joel Birman

Coordenador
JOEL BffiMAN

LIVRARIA TAURUS EDITORA· RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL


BKLO HORIZONTE
TE/... ( 031)221·11Jl0
Percursos na história da Psicanálise. @ 1988 dos respectivos
autores.

Não é permitida a · reprodutoçã total ou parcial desta obra


sem o consentimento da editora. Djreitos reservados à Livraria
Taurus Editora, Av. Ataulfo de Paiva, 1321, b, Leblon, -
Te!.: 239·5494, Cep 22.440 - R io de Janeiro, RJ - Brasil.
íNDICE

Retomando a História - Joel Birman 7

Primeira Parte: História na Psicanálise

Problemas de uma História da Psicanálise- Renato Mezan 15


H istória e PsiCanálise - Célio Garcia · 42

Segunda Párte: A Psicanálise no Brasil

D a Medicina Social à Psicanálise - Silvia Alexim Nunes 61


O Movimento Psicanalítico no Rio de Janeiro
na década . de 70 - Ana Cristina Figueiredo 123

Terceira Parte: Estudo H istórico de Conceitos

Narcisismo em Tempos Sombrios- Jurandir Freire Costa 151


Silêncio, Silêncio - Maria Clara Pellegrino 175
Desatar com Atos - Joel Birman 19~

Sujeito, Estnltura e Arcaico na Metapsicologia freudian a


- Joel Birman 22~
RETOMANDO A HISTóRIA

JOEL BlRMAN

E ste livro pretende retomar a preocupação com a inves-


tigação histórica dos saberes e das práticas psiquiátrico-psico-
lógica, que teve um certo desenvolvimento entre nós nos anos
setenta. Várias teses e pesquisas importantes foram então
empreendidas sobre a história da psiquatria e sobre o lugar
social dos saberes psicológicos da modernidade. Dentre estas
obras algumas foram publicadas, recebendo assim maior divul-
gação, enquanto que outras, apesar de sua rêlevância acadêmi-
ca, permaneceram nas bibliotecas de nossas universidades.
Nestas pesquisas foram traçad~s articulações fundamen-
tais entre !!aber e poder no universo da Ioucur11., na perspectiva
entreaberta por Foucault, de forma a conferir ao operador
loucura um importante potencial metafórico para a interpre-
tação de diversas práticas de controle social de grupos e
de ·individualidades consideradas inadaptadas segundo certas.
normas estabelecidas. Com isso, inúmeras instituições de pro-
dução e de reprodução do social se transformaram em objeto
de crítica, o que gerou impactos sobre as práticas destas
instituições.
Entretanto, esta linha de investigação se eclipsou, saindo
momentaneamente de cena e outras indagações foram deslo-
cadas para o primeiro plano da pesquisa. Porém, os instru-
mentos críticos que se produziram ao longo deste percurso
foram evidentemente incorporados à reflexão teórica, delinean-
do um certo estilo de pensamento.

7
Nesta perspectiva de pesquisa a psicanálise já era circuns-
crita como um objeto teórico importante e a sua investigação
histórica era então delineada como um passo necessário, na
medida em que se destacava no campo dos saberes psicológicos
como sendo o pólo fundamental de reformulação teórica e de
modernização institucional. Então, empreender a realização da
história da psicanálise no Brasil se configurava como um obje--
tivo central para podermos pensar nos caminhos e nos desca-
minhos que o discurso psicanalítico trilhou no Brasil, consi-.
derando aqui tanto o registro teórico quanto as práticas
institucionais. ·
Assim, estabelecer a forma como se processou a incor-
poração do saber psicanalítico no Brasil - para apreender
as instâncias sociais que regularam este processo e -as priori-
dades que estas definiram na seleção de problemáticas da
psicanálise - se colocava como uma exigência básica para
a compreensão do desdobramento assumido pelo discurso
:analftico nos anos setenta, isto é, a sua difusão gigantesca nos
'grandes centros urbanos do país, a sua hegemonia conquistada
sobre as demais formas de saberes psicológico-psiquiátricos e
suas modalidades sociais de institucionalização. Vale dizer,
estabelecer os marcos importantes da história da psicanálise
no país seria um pressuposto fundamental para delinear a
Tepresentação social da psicanálise que se constituiu no Brasil.
Alguns passos decisivos foram dados neste encaminha·
mento histórico, de maneira a podermos desenhar em linhas
gerais a matriz originária da psicanálise no Brásil. Assim, pelo
exame dos documentos a que tivemos acesso, é evidente que
a psicanálise foi basicamente incorporada no Brasil pela insti· ·
tuição psiquiátrica, nos anos vinte e trinta. Portanto, a psica-
nálise foi socialmente representada como se inserindo no campo
da medicina. Além disso, a psicanálise foi delineada nas suas
origens como sendo apenas uma nova modalidade de terapêu~
tica, sendo acrescentada às formas já existentes de farmacopéia
da loucura.1

1 ROXO. H. Psicanálise. In: Psicandfise e outros estudos. Rio de Ja-


neiro, Conxson, 1933.

8
Vale dizer, na sua introdução no Brasil, o discurso psica.
nalítico não teve qualquer impacto desnorteante sobre o saber
psiquiátrico, de maneira a colocá-lo em questão na sua racio-
nalidade teórica e nas suas práticas estabelecidas.2 Pelo con-
trário, a psicanálise ficou restrita a uma técnica limitada, se
adicionando ao instrumental terapêutico existente no saber psi-
quiátrico. Enfim, esta modalidade de incorporação da psicaná-
lise, que silencia a originalidade do seu saber e anula a sua;.
diferença face ao saber médico, vai apresentar efeitos funda-.
mentais a posteriori, sendo então um dos eixos fundadores da:
representação da psicanálise no Brasil.
Além disso, esta incorporação médico-psiquiátrica apre-
senta também uma outra característica importante et que marca
igualmente o desdobramentQ posterior do discurso psicanalítico
no Brasil. Este é o outro eixo constitutivo da representação
da psicanálise. Assim, a inserção da psicanálise na psiquiatria
apresentava uma dupla derivação além do registro terapêutico,
se articulando nos campos da pedagogia e da criminologia por
fornecer novos instrumentos para as práticas preventivas. Com
efeito, nos anos vinte e trinta estes setores se destacaram como
importantes pólos estratégicos de modernização do social e foi
através deles que o saber psiquiátrico se inseriu para realizar
um passo importante na colonização da sociedade urbana bra-
sileira. O discurso psicanalítico funcionou então como uma
referência inovadora para repensar as práticas pedagógica e
criminológica. 'Enfim, a psicanálise se ·arti.culou no campo da
higiene social, antecedente legítimo das atuais práticas preven-
tivistas no campo da saúde mental.
Assim, não foi primordialmente pela dimensão de uma.
nova modalidade de clínica, que se estabeleceu entre nós pos-
teriormente, nos anos quarenta e cinqüenta.. com o estabeleci-
mento das instituições de formação psicanalítica, inicialmente
em São Paulo e depois no Rio de Janeiro. Evidentemente,
este percurso originário da psicanálise no Brasil, que circuns-
creveu a sua matriz, marca o seu destino posterior, de maneira

2 ROCHA. F . A doutritUJ de Freud. São Paulo, Companhia Editora-


Nacional, 1930, 2~ edição.

9
que podemos registrar ainda hoje os seus efeitos indeléveis em
certas modalidades de prática psicanalltica.
Evidentemente, a psicanálise encontrou barreiras no seu
percurso, gerando oposições e tendo que superar obstáculos,
não apenas no campo médico-psiquiátrico mas também em
outros setores da cultura brasileira. Assim, no campo do pen-
samento religioso a psicanálise encontrou em Alceu de Amo-
roso Lima um crítico importante, que escreveu uma obra sobre
Freud onde revelava principalmente as suas preocupações com
os efeitos morais do discurso psicanalítico. s Da mesma forma,
no registro do pensamento filosófico a psicanálise foi dura-
mente criticada na sua inconsistência teórica. 4 -G
Este mapeamento básico da psicanálise no Brasil pode ser
então realizado, mas se colocaram impedimentos pàra a con-
tinuidade da investigação. Os obstáculos colocados eram enor-
mes, desde os de ordem material até os de ordem conceitual.
Assim, em função do estado precário dos nossos arquivos pú-
blicos eram bastante grandes as dificuldades colocadas para
estabelecer e listar os testes fundamentais do itinerário psica-
nalítico no Brasil. Além disso, a falta de· apoio dos órgãos
oficiais de financiamento de pesquisa dificultou bastante as
pretensões de vários grupos de investigação. Porém, se colo-
cavam também os obstáculos internos à psicanálise, isto é,
obstáculos propriamente conceituais, na medida e~ que definir
o que é uma história da psicanálise já constitui por si só uma
problemática teórica da maio11 importância. ·
Assim, é possível realizar efetivamente uma história da
psicanálise como se faz uma história epistemológica da psiquia-
tria e da psicologia, empreendendo o exame crítico dos sabe-
res, das práticas e das instituições, sem delinear as concepções
do ato psicanalítico que presidem estas regularidades discursivas

'3 AMOROSO LIMA, A. Preud. Rio de Janeiro, 1929. Publicação do


Centro D. Vital.
4 ANDRADE. A. A v&-dade contra Freud. Rio de Janeiro, Schmidt,
1933.
11 ANDRADE, A. Da interpretação na Psicologia. Rio de Janeiro,
José Olympio, 1936.

10
e as referentes ordens sociais? Ou, então a história da ·
. é . . . ' pstca-
n ál_•se . necessar!amente a h1stórJa do movimento psicanalítico?
Al.em d1~0, quats as conotações particulares que assume 0 ato
pst~nahttco c_onfor~e a sua incidência numa certa geografia
soc1al e sua mserçao numa dada tradição histórico-cultural?
Nós sabemos que estas indagações não são de simples
resolução, colocando diferentes questões e admitindo diversas
respostas. Por isso mesmo, são esparsas as produções teóricas
no ~amp~ da história ~a psicanálise. Com o fim da ingenui-
dade te6nca e da eufona dos anos cinqüenta, que circunscre-
ve~am. a psicanálise como o último limiar da "revolução'' psi-
qmátnca.,e-7 quando ficou evidente que sua estrutura teórica
e seu lugar social são muito mais complexos do que se ima-
~nav~ anteri~rmente, foram poucas as formulações sobre a
htstóna da psicanálise.
A trajetória teórica de Foucault foi de importância funda-
mental para colocar em questão as crenças estabelecidas sobre
o que seria a psicanálise e suas formas de inserção. no social.
Apesar de não ter escrito qualquer obra sobre a história da
psicanálise, foi um dos autores que mais contribuiu para a
renovação deste campo 8 de pesquisa como também no da bis~
tória dos saberes psiquiátrico-psicológicos.
Porém, após um período de incertezas teóricas que foi
fundamentalmente positivo, pois balançou com os dogmas esta-
belecidos, se delineia agora um outro momento de desenvol-
vimento neste campo de estudo. Assim, a constituição de uma
"Associação Internacional de História da Psicanálise••, de ca·
ráter interdisciplinar e que realizou em 1987 o seu primeiro
congresso em Paris, é um indicador disso no plano institucio-
nal. O lançamento relativamente recente da brilhante obra de

6 ALEXANDER, F.O., SELESNICK., S.T. História da P11iqrdaJria. São


Paulo, !brasa, 1968.
7 ZILBOORO. G., HENRY, G.W. Historio de ta Psicologia Mldica..
Buenos Aires, Psique, 1968.
8 Concordamos, neste ponto, com os comentários do filósofo ingl!S'
FORRESTER. Sobre isto, vide: FORRESTER, 1. Le ftmgog~ tiUr
origines de la psychana!yse. Paris, Gallímard, 1984. p. 315-316.

11
Roudinesco, sobre a história da psicanálise na França,0 é
um marco que anuncia talvez um recomeço neste campo de
investigação.
Esta obra pretende ser uma contribuição a esta proble-
mática, se inserindo no campo da história da psicanálise. Evi-
dentemente, não pretende responder a todas as indagações le-
vantadas anteriormente, mas apenas de se defrontar CO?J1 elas,
procurando se movimentar nas bordas desta problemática e
traçar assim algumas marcas.
:B importante destacar que este trabalho não se restringe
ao Brasil, que constitui apenas um dos três tópicos que compõe
este livro. Além deste, existe um outro segmento onde os arti-
,gos procuram tematizar a problemática metodológica colocada
pela história da psicanálise e as relações da psicanálise com
a história. Finalmente~ no terceiro conjunto de artigos se rea-
liza o estudo histórico de alguns conceitos psicanàlíticos.
As várias contribuições aqui reunidas são essencialmente
heterogêneas, não tendo existido qualquer unidade de perspec-
tiva a priori entre os diferente:i autores. O que nos orientou
:na composição deste livro foi a preocupação comum com esta
:problemática. Porém, o estilo particular de realização desta
p reocupação e o enfoque de abordagem da questão pertence
a uma escolha absolutamente singular de cada autor. As coin-
·cidências de perspectiva que existem se devem a um feliz acaso,
'O que funciona para os diferentes autores como um diálogo
·inesperado, interno à própria obra. Enfim, o nosso objetivo foi
'retomar as diferentes iniciativas realizadas .por cada um de nós
'DO campo da história da psicanálise e colocar esta preocupa-
iÇão no circuito de trocas.

1l ROUDINESCO, E. Hístoire de la Psychanalyse en France. Volumes


1 e 2. Paris. SeuiJ. l982-1986.

12
PRIMEIRA PARTE

A HISTóRIA NA PSICANÁLISE
PROBLEMAS DE UMA HISTóRIA DA
PSICANALISE

RENATO MBZAN

Todo estudioso da psicanálise, num momento ou noutro


de sua trajetória, vem a experimentar uma curiosa sensação
de vertigem. Tendo deixado para trás aquele momento feliz
no qual, em virtude da ignorância recém~esvirginada, acre-
ditava ser possível inscrever, sem muita dificuldade, o essencial
da teoria psicanalítica num quadro coerente, defronta-se um
belo dia com a constatação escandalosa: os psicanalistas não
falam a mesma língua. Imaginemos um estudante às voltas com
o conceito, digamos, de complexo de castração: se procurar
compreendê-lo em suas várias determinações, é provável que
não se contente com a leitura dos trabalhos em que Freud
o examina. Buscará complementar sua informação, por exem-
plo, com textos da escola lacaniana ou da tradição inglesa; e
não demorará, por certo, a se dar conta de que sob o mesmo
vocábulo se ocultam concepções bastante diferentes. Mais do
que isto, talvez venha a perceber que, no conjunto da proble-
mática própria a cada autor, o lugar e a importância teórica
desta noção estão longe de ser idênticos. E ei-lo mergulhado
na confusão· mais completa: o que é, afinal, o complexo de
castração? Não é improvável que, diante da dificuldade, recorra
a um procedimento ditado pelo bom senso: o de reduzir ao
mínimo denominador comum as· diferentes maneiras de definir

15
o conceito e de operacionalizá-lo; isto é, tentará fazer com que
os vários autores consultados acabem por dizer a mesma coisa.
Fatalmente, este meio de solucionar o problema terá por con-
seqüência o empobrecimento da noção e o corte das aJ;llarras
que a unem, em cada autor, a outras noções e a outras teses;
de onde o surgimento de uma idéia abstrata, pairando no vazio,
e cuja utilização para compreender certos fenômenos clínicos
se tornará muito difícil.
Se, além disso, o estudante repetir o processo com outras
idéias centrais para a teoria psicanalítica - por exemplo, a
transferência ou o complexo de :edipo - voltará a se defron-
tar com esta intrigante descoberta: os conceitos denotados por
estas palavras variam amplamente de autor para autor. E, o
que é mais grave, encontrará em certos autores termos não
utilizados pelos demais: é o caso, para citar um exemplo, da
noção de "posição", exclusiva da escola kleiniana, ou da idéia
de "ordem simbólica", característica · da t,endência lacaniana.
Com este tipo de conceito, o procedimento eclético do míni-
mo denominador comum irá certamente falhar, já que faltam
os equivalentes nas outras doutrinas. Nosso estudante, então,
não deixará de formul ar uma pergunta aparentemente fácil de
responder: por que existem tantas variedades de psicanálise?
Por que a herança de Freud é suscetível de tantas leituras,
que~ finalmente, se revelam corno dificilmente harmonizáveis?
Ao se interrogar assim, o estudioso da psicanálise se verá
atraído por um problema muito mais complicado do que a
princípio imaginava. Pois é a questão da história da psicaná-
lise que, imperceptivelmente, terá vindo se esgueirar por baixo
da p ergunta aparentemente fácil de responder. E a hist6ria da
psicanálise o confrontará, por sua vez, com alguns dos enigmas
mais intrincados da teoria da psicanálise. O fato é que esta
história não se limita às peripécias, dignas de um romance de
c~pa e espada, que agitaram o movimento psicanalítico, tais
como as dissidências, as expulsões, as rupturas: trata-se de
uma história da teoria e da prática psicanaUticas, teoria e
prática que se apresentam, a um observador que se disponha
a pensar a sério o que observa, sob o signo da dispersão.

16
1. A Tríplice Diáspora

Podemos encarar esta dispersão, num primeiro nível, de


modo descritivo. Trata-se não de uma, mas de três dispersões
diferentes: urna dispersão geográfica, uma dispersão doutrinária
e uma dispersão in~titucional. Dispersão geográfica: da cultura
científica centro-européia da Belle :Époque que lhe deu origem,
a psicanálise emigrou para outras latitudes, aprendeu outros
idiomas, mergulhou em outras áreas culturais e, massacrada
em seu solo natal pelo nazismo, quase desapareceu dos países
de língua alemã, nos quais somente a partir dos anos sessenta
volta a se configurar wna reflexão psicanalítica original (que.
por razões de tradução, ainda é largamente desconhecida no
·Brasil) . Seus centros principais são hoje a Inglaterra, a França.
os Estados Unidos e até há pouco, na América do Sol, a Ar-
gentina. Pouco se tem refletido sobre o impacto que estes
transplantes tiveram sobre a própria teoria psicanálítica, ainda
que, ocasionalmente, o tema tenha sido aflorado. Vejam-se,
por- exemplo, estas linhas da Introdução ao Vocabulário de
Psicanálise de Laplanche e Pontalis: A psicanálise nasceu
há cerca de três quartos de século. O "movimento" psicana-
lítico conheceu uma história longa e atormentada; grupos de
analistas foram criados em numerosos países, nos quais a
diversidade dos fatores culturais não pôde deixar de ter ecos
sobre as próprias concepções". :E interessante notar que os
autores do Vocabulário aludem de passagem aos efeitos que
a dispersão geográfica produziu sobre "as próprias concep-
ções", mas não tiram desta alusão as conclusões necessárias:
a saber, indagar no que consiste esta "diversidade de fatores
éulturais"; quais ~ão, precisamente, os "ecos" que elas fizeram
vibrar; e no que as "próprias concepções" foram ou não alte-
radas por tais ecos e por tais fatores. Ao contrário, separam
o movimento psicanalítico - que, este sim, possui um a his-
tória "longa e atormentada" - das "concepções" produzidas
por este movimento; tanto que, na frase seguinte, afirmam
os princípios que governam a elaboração da sua obra: "Mais
do que recensear a multiplicidade pelo menos aparente dos
empregos (dos conceitos) através do tempo e do espaço. pre-

17
ferimos recuperar em sua originalidade própria as noções,
muitas vezes esmaecidas e obscurecidas, e, por este motivo,
atribuir uma importância privilegiada ao momento de sua
descoberta".1
Sem pretender questionar a importância ou a utilidade do
V ocabulário, cabe no entanto uma interrogação: o que ocor·
reria se se procurasse "recensear a multiplicidade, ao menos
aparente, dos empregos (dos conceitos através do tempo e do
espaço"? Penso que uma descoberta se imporia: esta multi-
plicidade não é de modo algum ilusória, mas bastante pro-
funda. E isto nos traz à segunda dispersão: a dispersão dou-
trinária. O fato é que existem hoje em dia várias escolas de
psicanálise, o que aliás explica e justifica o desconcerto do
estudante a quem me referi. Uma experiência banal o confir-
ma. Para quem convive com a realidade psicanalítica no Brasil,
a descoberta do panorama psicanalítico francês costuma susci-
tar um choque de consideráveis proporções. Não se trata apenas
da enorme diferença, em quantidade e qualidade, da produção
teórica nos dois países: esta existe, é insofismável e obedece
a determinações culturais que extrapolam em muito o domínio
restrito da psicanálise. Trata-se de outra coisa: os referenciais
do que é a psicanálise, de como se deve praticá-la e pensá-la,
são extremamente diferentes nos dois países. Costuma-se ter
a respeito deste fato duas visões, que creio igualmente super-
ficiais. A primeira, reflexo de nossa colonização cultural, con-
siste em valorizar o que se faz em Paris, e creditar- a diferença
percebida ao "atraso" brasileiro: por preguiça, por ignorância
ou por qualquer outro obstáculo, ainda não se acatou aqui a
verdade proclamada em qualquer esquina de lá. A segunda
nasce de um reflexo de defesa: a boa psicanálise é a praticada
no Brasil, bebida nas inexauríveis fontes do Bom Seio inglês;
b que em Paris se denomina psicanálise não é mais do que
uma aberração, a ser explicada invocando-se o que se quiser:
. a nefasta influência de Lacan, a pretensão francesa de consi-
derar como curiosidade etnológica o que se faz fora das fron-

l LAPLANCHE E PONTALIS Vocabulaire de la Psychanalyse, Paris.


PUF. 1967, "Avant-Propas", p. IX. Grifos meus.

18
t~ira~ .do Hexágono, o peso. desfigurante da intelectualização
filosoftca que, supostamente, 1mpregna a análise naquelas pla-
gas. . . Em ambos os casos, o que resulta da "explicação"
é o conforto narcísico de se estar do lado certo, acompanhado
pelo desprezo do que possa significar esta divergência na pró-
pria concepção da natureza da psicanálise; isto porque a diver-
gência é suprimida em nome de uma lógica tosca, na qual só
existem verdades absolutas e erros integrais. Ou se erra aqui,
ou se erra ali; nesta disjunção dogmática reside a superficia-
lidade de ambas as posições.
Tentemos nos afastal" desta annadillia e excluir as solu-
ções simplistas: como dar conta desta situação? Uma única
resposta é possível: o clima psicanalítico, as questões julgadas
pertinentes, o modo de construir teorias a partir de um con-
junto de evidências partilhadas e por isto mesmo raramente
interrogadas, são governados por referenciais te6ricos ampla-
mente divergentes. E, no entanto, a origem de todos estes
referenciais é a obra de Freud. Eis-nos de novo diante do
problema da história da psicanálise: como e por que se cons-
truíram estes referenciais teóricos? De onde vêm suas armações
conceituais? Por que tiveram sucesso, maior ou menor, em
diferentes épocas e lugares? Por este caminho, a indicação de
Laplancbe e Pontalis pode ser muito fecunda: trata-se de fazer
o levantamento das "próprias concepções" - quantas existem,
no que consistem suas diferenças, etc. - e simultaneamente
pesquisar quais poderiam ter sido os "fatores culturais" que,
incidindo sobre a teoria herdada de Freud, acabaram por
infleti-la nas direções que conhecemos. Em suma: levar a sério
a idéia de uma história da psicanálise, não enquanto uma
seqüência de percalços externos e contingentes em seu trajeto,
referentes apenas ao "movimento" psicanalítico (cisões, diver-
gências, emigrações por motivos políticos, etc.), mas enquanto
algo intrínseco ao desenvolvimento te6rico da disciplina fun-
dada por Freud.
Esta perspectiva, porém, esbarra num obstáculo muito
peculiar: a extraordinária resistência dos psicanalistas a admi-
tir que outras fonnulações, além daquela à qual aderem, pos-
sam ter validade teórica e prática. E isto está ligado à terceira

19
dispersão a que me referi: a dispersão institucional. Sabe-se
que a Associação Internacional de Psicanálise fundada por
Freud já não representa - apesar dos seus protestos em con-
trário - a única organização legítima dos psicanalistas. Por
motivos variados, entre os quais a própria burocr-atização
deste organismo e sua impermeabilidade às novas correntes do
pensamento psicanalítico (em especial nos anos cinqüenta) ,
vieram a formar-se outros agrupamentos, como os de inspira-
ção lacaniana - na França, na Itália e na América Latina - ,
o "Quarto Grupo" parisiense, ou ainda associações locais em
torno de programas ·específicos de ensino e de reflexão: só
no Rio de Janeiro, existem atualmente cerca de vinte institui-
ções que fazem da psicanálise seu ponto de convergência. Esta
verdadeira diáspora, no sentido grego do termo - dispersão
das sementes - testemunha que a psicanálise deixou de ser
uma especialidade terapêutica (como essencialmente o é nos
países anglo-saxões) para realizar um dos projetos de seu fun-
dador: tornar-se um fato de cultura. Mas, no que tange ao
nosso problema, tal multiplicação das instituições psicanalíticas
acarreta um efeito curioso. As várias instituições constituem-se
em tomo de uma determinada maneira de conceber a psica-
nálise como prática e como teoria, maneira que é assumida
implícita ou explicitamente por seus membros, sob a forma de
atitudes, crenças e evidências que paulatinamente vão se tor~
nando inquestionáveis, apesar da retórica em contrário ("inter-
rogação permanente" e palavras de ordem d o mesmo tipo).
Na verdade, tais crenças e evidências desempenham um papel
emblemático nada desprezível na configuração da identidade
do psicanalista. Prática frágil e suspeita sob mais de um ponto
de vista - já que é impossivel eliminar de seu horizonte a
contra-transferência e o desejo do analista - a espécie de
análise que cada qual efetua com seus pacien~ encontra um
de seus sustentáculos na idéia de que ela e nenhuma outra
é a "verdadeira psicanálise", aquela que prolonga a inspira-
ção mais profunda do projeto freudiano. Por este motivo, são
consideráveis as forças emocionais qu~ se opõem à mera idéia
de uma história da teoria psicanalítica: a investigação minu-
ciosa e precisa quanto às origens das várias correntes do pen-

20
sarnento psicanalítico tende a ser encarada como uma ameaça
de relativização dos postulados em volta dos quais se agluti-
nam as instituições. Daí a relutância - para dizer o mínimo
- em admftir que possam existir outras espécies do gênero,
cuja origem merece ser pesquisado e não difamada. Delineia-se
sorrateiramente uma tendência a formular o problema em
termos normativo-dogmáticos, esperando implicitamente que
uma investigação histórica precise qual é a teoria correta e
qual é a prática adequada. Ora, a recusa desta pseudo-tarefa
é condição elementar de um trabalho de historiador; mais
ainda, a gênese da própria idéia de uma teoria I prática que,
por ser a verdadeira, excluiria todas as demais, é algo que
uma história da psicanálise não pode deixar de interrogar.
Não é difícil encontrar esta gênese: ela reside na neces-
sidade de provar que as teorias pós-freudianas são "fiéis" à
matriz básica da psicanálise, isto é, à obra de Freud. Todas
elas têm a pretensão de serem a reta continuação das idéias
de Freud, e este fato basta para mostrar que nenhuma delas
o é. Pois não se concebe que a mesma linha de pensamento
possa ser prolongada por escolas tão diferentes entre si quanto
o são os três grandes troncos que, ao longo das décadas; bro-
taram da raiz freudiana comum: a escola kleiniana, a escola
lacaniana e a escola da psicologia do ego americana. O pro-
grama de trabalho do historiador da psicanálise, que parte
da diversidade do presente - diversidade que, como vimos,
toca as raias da contradição - está traçado por aquilo mesmo
que cada escola necessita escamotear: sua origem real. É a
encontrar esta origem, e a mostrar como e por que as tendên-
cias pós-freudianas .foram se diferenciando, que se encaminha
sua investigação.

2. Pressupostos Metodológicos

Para situá-la adequadamente, a primeira providência é


afastar a representação imaginária que cada escola tem de sua
própria origem. E, antes ainda, é preciso afastar a idéia -.
mais difundida do que se costuma acreditar - de que · a pst-

21
canálise é sinônimo de "pensamento de Freud" . Pois, se assim
fo~se, Freud teria sido não apenas primeiro psicanalista, mas
também o único e o último. O lugar eminente que a obra
freudiana ocupa no panorama psicanaUtico não é em nada
diminuído pela consideração óbvia de que dela surgiram ou-
tras, as quais, sem deixarem de ser psicanalíticas, tampouco
são direl>amente deriváveis das matrizes freudianas. Ora, é jus-
tamente aqui que todas as escolas coincidem: na representação
- falsa - de que, cada uma por si e com exclusão de todas
as demais, constituem a derivação - adequada da raiz freu-
diana, idéia que implica na desqualificação das demais: "isto
não é psicanálise". Incapaz de enfrentar a diversidade, cada
escola precisa contorná-la traçando uma fronteira: no redil da
psicanálise, F reud e ela própria, sua legítima herdeira (ou viú-
va) ; n as trevas exteriores, as outras. Mas cada uma delas tem,
da relação que mantém com a obra freudiana, uma concepção
particular, que ao mesmo tempo é uma concepção implícita
acerca da história da psicanálise. Para os kleinianos, sua pers-
pectiva continua a de Freud, na mesma direção: e portanto não
há história no sentido forte do termo, mas apenas explicitação
e aprofundamento do mesmo. Para os lacaruanos, sua perspec-
tiva recupera a de Freud: e p ortanto a história é vista como a
sucessão dos erros e dos desvios que abastardaram a "desco-
berta freudian a". 1?. sequentia stultitíarum, e, novamente, não
há história no sentido forte do termo. Para os americanos.
sua perspctciva supera a de Freud, peta própria dinâmica do
progresso científico: a história desaparece na multidão de erros
folclóricos de todo começo, quando vistos da altura suposta-
mente atingida pelo presente. Eis por que é necessário insis-
tir: há história, ou seja, há irrupção do novo e do inédito.
ruptura e transformação, em função das quais uma certa con-
tinuidade - cujo estatuto necessita determinação - se esta-
belece e se preserva.
Uma vez postas entre parênteses, para estudo posterior,
as representaÇões de sua origem forjadas por cada escola, o
problema se descortina em toda a sua complexidade. Um bom
ponto de partida reside naquilo que é comum a todas as repre-
sentações: a derivação a partir da raiz freudiana. Qual é, por

22
sua vez, a origem da conceptuaHzação de Freud? Aqui os re-
sultados de outra pesquisa indicam a direção: Freud ~ensa e
inventa a partir da clínica, da sua auto-análise e do clima
cultural do seu tempo. 2 A partir da clínica e da auto-análise: é
para elucidar tanto o enigma da histeria quanto seu próprio
luto neurótico pela morte do pai que se debruça sobre a se-
:{uaüdade e os sonhos; e é o rebote destas investigações umas
sobre as outras que faz avançar seu pensamento. A partir do
clima cultural: encontra modelos do que é psique, do que é
fazer ciência, do que são emoções e p ensamentos, do que é
a linguagem, na literatura européja e nas teorias científicas
do século XIX acerca destes temas: Darwin, os físicos, a he-
rança filosófica de Kant e do idealismo alemão, a psiquiatria,
a neurologia, Charcot, a hipnose, Shakespeare, Sófocles, Goe-
the, Cervantes. . . };: com estes instrumentos que forja seus
conceitos, que, evidentemente, ultrapassam a mera somatória
das matérias.~primas com que são produzidos. O melhor exem-
plo deste processo é a invenção do conceito de repressilo,
"pedra angular da teoria psicanalítica'', que, sem deixar de
ser uma criação original, não poderia jamais ter visto a luz
sem a referência aos esquemas do pensamento científico con-
temporâneos de Freud. Da noção de repressão irão surgir -
e ser remanejados incessantemente no decorrer da obra -
tanto a metapsicología quanto a estratégia do tratamento, sol-
dando de forma íntima a face teórica e a face pragmática da
nova disciplina. Por outro lado, se os primeiros resultados
indicam a direção a seguir, excluem simultaneamente certos
aspectos do campo visual: em 1920, Freud é tributário da
clínica, do clima cultural em que se formou, e do Freud de
1900. de 1910 e de 1915.
Se estes três fatores são responsáveis pela formação da
teoria freudiana, uma idéia se apresenta de imediato: verifi-
car se não serão responsáveis, igualmente, pela formação das
teorias pós-freudianas. E aqui d'iscernimos, incidentalmente,
um critério para decidir quais das inúmeras contribuições rea-

2 R . MEZAN , "As Três Fonlt:ll da Psicaníilise", in Freuá, Pemador


da Cultura, São Paulo, Brasitiense, 1985, p . 135-250.

23
lizadas pelos outros psicanalistas merecem a, designação dt
escokls psicanalíticas: pois estas são em número reduzido, cn·
quanto se medem por milhares os psicanalistas que, mesmo
num único artigo, enriqueceram a teoria oeste ou naquele
ponto. A obra de Freud, considerada de um ponto de vista
epistemológico, se desdobra em quatro dimensões. Primeira-
mente, existe uma teoria geral da psique, expressa em termos
de um "aparelho psíquico" constituído por vários lugares ou
instâncias em conflito entre si, e nas quais circula "algo" ca-
racterizado em termos metafóricos como energia suscetível de
variações quantitativas e geográfi<:as: há, portanto, uma tópi-
ca, uma dinâmica e uma economia psíquicas. Em segWtdo
lugar, existe uma teoria da gênese e do desenvolvimento da
psique, uma espécie de modelo esquemático univer-sal, que
cada indivíduo refaz e preenche em sua própria história con-
creta: por exemplo, a sucessão das fases libidinais a traves-
sia do );:dipo, etc. Em seguida, como conseqüênci~ das duas
primeiras dimensões, existe uma teoria das várias soluções
possiveis para os conflitos fundamentais, soluções que deter-
m~na~ a emergência de estruturas neuróticas, perversas ou
pstcótJcas, com suas fixações e defesas características: há,
portanto, uma teoria do funcionamento normal e patológico
da psique. Por fim, em função das outras três, há uma con-
cepção do processo psicanalitico, isto é, das modalidades de
intervenção capazes de modificar em certa medida o funcio-
namento psíquico, e dos obstáculos que se antepõem a esta
finalidade, tanto do lado do analista quanto do lado do pa-
ciente: é aqui que se situam noções como as de transferência,
resistência, interpretação, etc. Pois bem: considero fundado-
ras de escolas psicanalíticas aquelas obras que tematizam de
modo original e coerente estas quatro dimensões, propondo
conceitos-chave para cada uma delas. ~ simples, neste caso,
compreender por que elas são tão poucas: não é façanha mo-
desta a produção convergente e_ sistemática de uma metapsi-
cologia, de uma teoria do desenvolvimento, de uma teoria
psicopatológica e de uma teoria do processo terapêutico. Mui-
tos foram os que contribuíram para uma ou outra destas di-
mensões, uns em maior escala, outros menos; mas, que eu

24
saiba, somente três autores até hoje inventaram um sistema
coerente capaz de se superpor a todas as vertentes da teoria
freudiana: Melanie Klein, Jacques Lacan e o trio Hartmaru1-
Erikson-Loewenstein, fundadores da "psicologia do ego". Ao
mesmo tempo, torna-se simples compreender no que estas três
escolas são derivações da matriz freudiana: em sua metapsi-
cologia, elas preservam a descoberta básica de Freud - o
inconsciente - e a idéia fundamental do conflito psíquico; em
sua teoria do desenvolvimento, ·mantêm a idéia essencial de
uma permanência do infantil no psiquismo adulto; em sua
teoria do funcionamento normal e patológico, operam com
as categorias freudianas basilares das modalidades de defesa
e do sintoma como fonnação de compromisso; em sua teo-
ria do processo analítico, trabalham com os conceitos de
transferência e de resistência, em virtude dos quais a única
ferramenta lícita para a intervenção terapêutica é a interpre·
tação do discurso na sessão.
Eis, portanto, assinalados os pontos de convergência entre
as várias escolas, o que as torna escolas de psicanálise e as
faz verem umas nas outras seus interlocutores e seus adver-
sários. O que, então, as diferencia? Nada mais simples: o
conteúdo de cada uma das dimensões essenciais a uma teoria
psicanalítica não é o mesmo. Há sempre uma tópica: mas não
é indiferente formulá-la em termos de egojid/superego. em
termos de real/imaginário/simbólico, ou em termos de mun-
do interno. Há sempre uma força motriz inconsciente: mas
não é indiferente caracterizá-la como sexualidade, como an-
gústia, como desejo ou como necessidade de adaptação. Há
sempre um emprego da transferência como fulcro do proces-
so psicanalítico: mas não é indiferente considerá-la deste ou
daquele modo, manejá-la assim ou de outra maneira. Pode-
ríamos multiplicar os exemplos: estes bastam, porém, para
ilustrar meu ponto de vista. E, desta forma, compreendemos
a perplexidade do nosso estudante de psicanálise: quando se
depara com um conceito, a homofonia das palavras mascara
a diversidade dos conteúdos que ele assume em cada escola,
diversidade que pode ser ínfima ou, ao contrário, capital.
Também compreendemos por que é tão difícil formar uma

25
idéia clara do que seja o conjunto da · psicanálise: as quatro
vertentes da teoria nunca são perfeitamente ajustadas entre si,
e, sobretudo, são pressupostas pelo autor que se insere nesta
ou naquela escola; cabe ao estudante - e ao preço de quan-
tos momentos de desespero· - aprender a localizar os con-
ceitos, a discernir suas relações recíprocas e seu potencial
heurístico. A teoria psicanalítica é bela, porém árdua •..

3. As Três Coordenadas

Resumamos nosso percurso: existem escolas de psicaná-


lise; elas propõem cada qual um revestimento diferente para
as vertentes indispensáveis a qualquer teoria psicanalítica;
possuem cada qual uma idéia da relação que mantêm com a
obra fundadora de Freud, isto é, uma representação acerca da
história que as gerou; funcionam como pólo de aglutinação
para instituições, em cujo seio tendem a ser aceitas como "a'·
psicanálise. Resta explicar o essencial: de onde provêm os
"conteúdos» da teoria? E aqui que o par-adigma freudiano re-
vela sua exemplaridade: por que não experimentar aonde nos
conduz a hipótese de que cada uma delas se origina de uma
matriz clínica, do clima cultural à sua volta e de um equiva-
lente da auto-análise? Sem excluir a possibilidade de que a
auto-análise de Klein, de Lacan ou de Hartmann tenha algu-
ma influência na elaboração de suas doutrinas (no caso de
Klein, há mesmo uma forte probabilidade de que isto tenha
ocórrido a partir dos anos 30), é cabível supor que a leitura
de Freud e a existência do corpus freudiano possam figurar
um equivalente do papel que a auto-análise desempenhou no
caso da obra-prínceps. Sobretudo porque esta auto-análise .
enquanto dimensão fundadora tÚl conceptualização, só pôde
ser realizada uma vez; daí por diante, para ser psicanalítica,
uma teoria precisa respeitar o mapeamento básico do campo
desta disciplina, mapeamento realizado de uma vez por todas
por Freud, e -que resultou nas quatro vertentes mencionadas
acima. Uma teoria abrangente como as que nos ocupam de-
rivaria, neste caso, de três coordenadas essenciais: uma ma-

26
triz clínica particular, um determinado clima cultural e uma
leitura específica da obra de Freud. Vejamos brevemente
como esta idéia pode ser desenvolvida.
Denomino "matriz clínica" a um tipo determinado de
organização psicopatológica, com sua estrutura própria, seus
conflitos originadores e suas modalidades próprias de defesa.
A matriz clínica básica de Freud é constituída pelas neuroses
de transferência, como ele próprio não se cansa de repetir, e
em especial pela histeria, ao menos no início de sua carreira.
Poderíamos mesmo ampliar esta idéia, considerando que em
Freud se encontram não uma, mas quatro matrizes: a da his-
teria, a da neurose obsessiva, a da melancolia e a da psi-
cose. Discutir aprofundadamente este ponto nos conduziria
muito longe de nosso objetivo atual; mas não é inútil aventar
a hipótese de que as matrizes clínicas das escolas posteriores
estejam estreitamente correlacionadas com uma destas qua-
tro, cujo primeiro esboço - e certamente mais do que o pri-
meiro esboço - teria sido traçado por Freud. Em todo
cãso, em termos de experilncia clínica, é certo que a de Freud
deu-se essencialmente com neuróticos e perversos, capazes de
estabelecer determinados tipos de transferência. O que esca-
pa a estas matrizes - que podem ser unificadas numa só, já
que para Freud a neurose é o negativo da perversão - é por
ele considerado inanalisável, muito embora, em termos teóri-
cos, a psicose o tenha ocupado longamente. É mesmo da re-
flexão sobre ela que surge um conceito tão essencial quanto
o de narcisismo, assim como, do estudo da melancolia, bro-
tarão as instâncias ideais e uma nova teoria do ego, a partir
do conceito de identificação. Ora, Melanie Klein e Lacan re-
fletem a partir de experiências clínicas com pacientes que es-
capam ao registro das neuroses clássicas de transferência:
crianças pequenas e esquizofrênicos no caso de Klein, para-
nóicos no caso de Lacan. As matrizes clínicas de ambos são,
portanto, diferentes das de Freud e diferentes entre si Penso
que é possível mostrar como, partindo da análise de crianças
com severos sintomas obsessivos, Melanie Klein irá criar o
sistema da Psicanálise da Criança de 1932, com a preeminên-
cia que nele gozam as noções de angústia e de ~gressivídade

27
primária, assim como, partindo da meditação sobre o delírk-
paranóico e o papel que nele desempenha o duplo homosse-
xual, Lacan irá inventar a noção de fase do espelho e lançar
as bases de sua teoria do ego como instância da alienação in-
tema. Para aplicar o dispositivo psicanalítico clássico a estas
matrizes, torna-se preciso refiná-lo em termos técnicos e em
termos teóricos; para compatibilizar os novos conceitos assim
inventados com a estrutura doutrinai herdada de Freud, tor-
na-se preciso modificar pouco a pouco amplos segmentos dela,
nas quatro vertentes descritas acima. ~ evidente que esta ta-
refa implica em interpretar os textos freudianos, remanejan-
do-os no sentido necessário à consistência do novo paradigma
teórico, ao mesmo tempo em que se assegura a este último
seu car-áter psicanalltico. Nesta leitura interpretativa, consiste
a derivação a que me referi. Seu alcance é tanto teórico quan-
to político, dadas as vantagens de poder, no interior do mo-
vimento psicanalítico, designar o próprio trabalho como quin-
tessência da "fidelidade" ao espírito de Freud. De onde a pre-
sença necessária, ainda que discreta, de uma teoria acerca da
história da psicanálise, encar'fegada de justificar a posteriori
a direção tomada pela escola em questão. Podemos mesmo
aventar a hipótese de que esta visão da história da psicanálise
seja congruente com o restante da doutrina proposta, em par-
ticular em seus aspectos metapsicológicos, como se a tempo-
ralidade da história da psicanálise vibrasse em consonância
com a espacialidade da tópica e com a intensidade da dinâmica
postuladas para o funcionamento psíquico.
Quanto à terceira coordenada, o clima cultural: ao emi-
grar para Paris, Londres, Nova York ou Buenos Aires, os
psicanalistas da Europa Central se vêem confrontados com um
panorama cultural bastante diferente daquele em cujo seio se
formou a teoria freudiana. Este truísmo precisa ser· explorado
a fundo, exatamente porque não é um truísmo: a psicanálise
não pode, e na verdade jamais pôde, permanecer imune ao
que se passa em seus cont()mos exteriores. E mesmo a idéia
de contornos exteriores precisaria ser revista: pois, se é ver-
dade que a moda feminina ou o esporte predileto de um país
em nada influem quanto à forma e ao conteúdo da teoria

28
psicanalítica, também é verdade que o solo no qual vai se
implantar a psicanálise - nestas circunstâncias, sempre um
produto estrangeiro - não deixa de ter efeitos sobre a forma
e o conteúdo predominantes que ela vai assumir nestes novos
territórios. A tradição científica, por exemplo, vai se opor
ou aderir à psicanálise de uma certa forma, condicionada pelo
passado e pelo presente políticos, pelas questões julgadas cen-
trais no debate de idéias (com a inevitável carga ideol6gica
aí presente), pelos lugares através dos quais vai passar o pro-
cesso de implantação: Universidades, hospitais, serviços psi-
cológicos, grupos de estudo, associações liberais. . . Um as-
pecto decisivo é o de quem vai se interessar em ser psicana-
lista: a origem étnica ou social, as carreiras previamente se-
guidas (e com as quais, apesar da ruptura que assinala a en-
trada na psicanálise, o psicanalista continua inevitavelmente
a manter laços afetivos e intelectuais), os procedimentos de
seleção e habilitação, determinarão, obviamente, a conforma-
ção do grupo de analistas, contribuindo para moldá-lo nesta
ou naquela direção. São, portanto, fatores de natureza socio-
lógica que, em si mesmos, não dependem diretamente da .psi-
canálise, aos quais se acrescentam fatores de natureza episte-
mológica, que incidirão bem mais diretamente sobre o pen-
samento deste ou daquele lugar. Vejamos, com alguns exem-
plos, que partido se pode tirar desta idéia.
A importação da disciplina freudiana para os Estados
Unidos a põe em contato com uma sociedade :u~o ideal é .o
"self-made man", que valoriza os aspectos do extto econômi-
co e da adaptação social. A época desta importação não pode
ser desconsiderada: trata-se dos anos vinte e trinta, isto é,
quando está em fonnação a primeira geração nascida em solo
americano, filha dos quarenta milhões de imigrantes que apor-
taram à América entre 1880 e 1914. E sta geração atravessa.
necessariamente, conflitos de identidade, nos quais à comple-
xidade natural do "generation gap" vêm se somar poderosos
fatores ideológicos. Serão estes os clientes dos analistas nos
anos quarenta e cinqüenta, quando o prestígio social da psi-
canálise nos Estados Unidos encontra-se no apogeu. A tra-
dição psicológica anglo-saxã, por sua vez, enraíza-se no be-

29
haviorismo, no pragmatismo, no empirismo associacionista;
existe uma psicologia acadêmica, respeitada e desenvolvida
nas universidades e nos IaboratóriÇ>s. :ê de se esperar que, no
confronto com estas formas de agir, de sentir e de pensar, a
psicanálise se veja objeto de questionamentos inéditos, na es-
fera teórica, e objeto de expectativas de eficácia rápida, no
plano terapêutico, questionamentos de expectativas que pouco
têm a ver com os desafios que ela enfrentara em Viena ou em
Berlim. Quanto do pensamento psicanalítico americano não se
deve ao esforço para esclarecer este tipo de questões, impos-
tas pela realidade social e científica, e para as quais já existe
um espaço de acolhimento na teoria? Isto é essencial: para
tomar um exemplo clássico, a problemática do "ego autôno-
mo", se tem evidentes pontos de contato com a ideologia
vigente na América, não foi introduzida por americanos, nem
em Nova York: os primeiros trabalhos de Hartmann são es-
critos em alemão e na Europa. A questão do ego é central
na psicanálise dos anos trinta, por várias razões que não cabe
evocar aqui; é suficiente indicar que têm a ver com a intro-
dução da segunda tópica e com a reformulação da teoria da
angústia, ambas operações efetuadas por Freud em pessoa.
Para compreender o que se passa, convém utilizar o conceito
psicanalítico da sobredeterrninação. Este conceito não signi-
fica apenas que o fenômeno considerado tenha várias causas
concomitantes; implica ainda que o fenômeno remeta a "ele-
~entos múltiplos, capazes de se organizar em seqüências sig-
nificativas múltiplas, das quais cada uma, num certo nível de
interpretação, possui uma coerência própria.,. s Estas cadeias
significativas se recortam umas às outras em torno de um
ponto nodal: é a teoria clássica do sintoma e do sonho que
o afirma. Penso que esta noção ajuda a esclarecer nosso pro-
blema, porque permite ver que uma mesma construção teóri-
ca - no caso, a teoria do ego autônomo - necessita, para
ser engendrada, de elementos de vários tipos, teóricos, ideo-
lógicos, etc; mas ela só encontra eco e alcance, a ponto de

3 LAPLANCHE E PONTALIS. Vocabutalre..., artigo "Surd6tennina-


tion", p. 467-468.

30
se converter num pilar central da elaboração psicanalítica
local, se estiverem presef1tes condições que favoztçam sua
inclusão no arsenal teórico/prático; condições que, por sua
vez, encontram-se sobredeterminadas pelo estado da teoria
psicanalítica e por toda uma série de fatores por sua vez téc-
nicos, ideológicos, etc. Assim, o que poderia ter sido uma
linha de desenvolvimento secundária, se Hartmann, Kris e
Loewenstein tivessem permanecido na Alemanha, tornou-se o
fulcro de consideráveis desenvolvimentos teórico-práticos, a
ponto de converter-se no principal marco de referência para
o pensamento psicanalítico nos Estados Unidos. E a prova
de que não há nenhuma aliança pré-determinada entre estes
fatores, de que sua combinação obedece a causas contingen~
tes e específicas, está no singular destino de Theodor Reik, o
psicanalista maldito e excluído pelo establishment nova-ior-
quino, que trabalha em direções absolutamente diversas das
da "psicologia do ego" e inaugura um modo original de pensar
a relação entre teoria e prática em psicanálise, centrado so-
bre a autoanálise: um de seus discípulos será, na França,
Conrad Stein.
Da mesma forma, ao se aclimatar na França a psicaná-
lise encontra um terreno que a influencia e contra o qual ela
vai atuar, até se converter, nos anos sessenta, num dos pila-
res do establishment intelectual parisiense. A beira do Sena,
a psicanálise não tem que se justificar frente ao behaviorismo
nem defender sua cientificidade diante das "social sciences".
Tem que se haver com a grandiosa tradição psiquiátrica de
Pinel, Esquirol e seus discípulos, com a tradição de uma psi-
cologia compreensiva pouco atraída por experimentos pseudo~
matemáticos, com a tradição filosófica do bergsonismo e com
as novas tendências dos anos trinta, em particular a fenome-
nologia, o hegelianismo e o marxismo. Para continuarmos
com o exemplo do ego: como imaginar que um psiquiatra
formado na escola da dialética possa admitir, um instante se·
quer, a idéia de um ego autônomo? Não é preciso ir tão lon·
ge: desde La Rochefoucauld, desde Pascal, o "moi" é adje-
tivado como "ha1ssablo" (odioso). Eis aí uma referência
extra-psicanalíti.ca que não deixa imune a teoria psicanalítica.

31
Além disto, sabemos que os primeiros a se interessarem por
Freud na França foram os literatos e artistas, e em seguida
os filósofos. Literatos e artistas marcados pelo surrealismo,
filósofos cujo horizonte de pensamento eram os "três H":
Hegel, Husserl, Heidegger. É com estes interlocutores que a
doutrina psicanalítica vai dialogar; eles serão também seus
adversários, ou se contarão entre seus aliados: pense-se em
Sartre. . . Os psiquiatras e médicos, que na América fagoci-
taram a psicanálise (a despcito dos veementes protestos de
Freud), na França não apenas tinham outra formação hu-
manfstica, mas runda. jamais detiveram em mãos o poder de
impedir a habilitação de não-médicos. Como, então, nos
admiratmos de que a psicanálise francesa, no teoria e na prá-
tica, seja tão diferente da americana?
Poderíamos aplicar o mesmo esquema para a Inglaterra,
onde a impermeabilidade do "Establishment" universitário
confinou a psicanálise à sua própria organização, a qual, com
o correr dos anos, veio a tomar-se ela mesma parte do "esta-
blishment"; ou para a Argentina - onde a urgência das ta-
refas políticas vai fazer com que o kleinismo entre numa pe-
culiar aliança com o marxismo (Pichoo-Riviere) , e onde a
revisão althusseriana deste último terá um forte impacto sobre
o pensamento psicanalítico, conferindo ao lacanismo suas
credencirus revolucionárias no final da década de sessenta.
Mais uma :vez, constatamos que os solos onde vai medrar a
disciplina inaugurada por Freu.d têm de ser mjnuciosamente
e:Jtaminados, pois é evidente que seu desenvolvimento em cada
um deles é sobredetenninado por condições que não podem
ser consideradas nem homogêneas nem irrelevantes.
A ferramenta conceitual da sobredetenninação pennite
pensar esquemas nos quais as três coordenadas que propus
- a matriz clínica, o clima cultural e a leitura de Freud -
se retroalimentem umas às outras. No que tange à leitura de
Freud, por exemplo: qual Freud? Que aspectos da teoria, em
qual ordem de prioridade, por que, para que, contra quem,
vão ser sucessivamente valorizados e criticados? A resposta
depende da conjunção das outras duas coordenadas: as ne-
cessidades impostas pela matriz clínica e pelo clima cultural
determinarão certos tipos de questões, para os quais irão ser
procuradas respostas na teoria freudiana. Ora, esta se carac-
teriza precisamente pela multiplicidade de caminhos entre-
abertos, de modo que não é difícil encontrar elementos de
resposta que apontem na direção das perguntas colocadas. E,
se não apontarem, uma interpretação apropriada os fará
apontar. Com isto, forjam-se conceitos que têm uma face clí-
nica e uma face polêmica: trata-se de resolver os enigmas da
prática e, simultaneamente, justificar as escolhas teóricas
frente às disciplinas já estabelecidas (psiquiatria, psicologia,
filosofia), mas sobretudo frente aos outros psicanalistas. Para
continuar com nosso exemplo do ego: na linha anglo-saxã,
dar-se-á ênfase aos processos de integração e de maturação,
enquanto a perspectiva lacaniana (e posteriormente quase
todo o pensamento analítico francês) tenderá a valorizar a
dimensão identificatória da constituição do ego, incluindo a
intersubjetividade neste processo. Para isto, contribuem tanto
o estudo da paranóia (matriz clínica) quanto a análise da
subjetividade feita por Alexandre Kojeve a partir da Fenome-
nologia do Espírito hegeliana (fator cultural). Outro exem-
plo: para Lacan, será essencial demonstrar a natureza dialé-
tica da psicanálise, enquanto para os que pensam nos Estados
Unidos será imprescindível afirmar sua natureza científica (o
que, na perspectiva positivista, quer dizer: capaz de ser em·
piricameote testada por observadores independentes).
Vemos, assim, que as opções teóricas e práticas realiza-
das pelos "fundadores" das escolas que estamos examinando
obedecem a uma rede extremamente complexa de fatores, dis-
tribuídos pelas três coordenadas propostas e amarrados entre
si por sobredeterminações sucessivas. Eis por que não é pos-
sível aceitar a imagem que cada escola propõe de sua relação
com Freud: todas estas imagens, além de serem absurdamente
simplista. desempenham uma função polêmica que não in-
teressa ao historiador manter. Desta forma, a alegação laca-
niana de que a psicologia do ego e o kleinismo são meras
resistências à psicanálise, em virtude do que é necessário efe-
tuar um "retorno" a Freud, só pode ser considerada seria-
mente como um instrumento polêmico, cuj~ origem merece

33
investigação: por que retorno? Quais as bases da crítica la-
caniana ao "establishment" da IPA7 Há retorno ou reintcr-
pretação de Freud, e, neste caso, quais os parâmetros desta
reinterpretação? Colocar estas questões em nada <liminui o
valor da renovação trazida por Lacan à psicanálise; contudo,
pode ser uma utilíssima vacina contra o dogmatismo, já que,
alrav6s delas, Lacan aparece não como o Messias da psica-
nálise, mas simplesmente como um dos poucos - e geniais
- psicanalistas que, até hoje, souberam inventar um modeJo
que, sem deixar de ser psicanalítico, não se limitasse a redo-
brar o de Freud. E já é bastante!

4. Uma Grade Categoriál para a História da Psicanálise

Esta questão das imagens que cada escola tem de sua


relação com Freud pode ser escavada com muito proveito.
Isto porque, através dela, podemos ter um acesso imprevisto
ao âmago mesmo da teoria considerada, j á que, como men-
cionei de passagem, pareco haver um isomorfismo entre a
versão da história da psicanálise embutida em cada escola
(que poderíamos chamar de seu mito de origem) e a idéia
por ela elaborada da finalidade do processo analítico, a qual
como vimos, deve ser necessariamente congruente com as
trê~ outr.as vertentes indispensáveis a qualquer teoria psica-
nalítica: a metapsicologia, a teoria do desenvolvimento e a
teoria do funcionamento normal ou patológico da psique. Po-
deríamos mesmo tentar uma esquematização destes "mitos de
origem", segundo o critério de em que medida respeitam a
complexidade da sobredeterminação. O que nos conduz a uma
grade categoria! com quatro entradas:

A) Modelos redutores da história da psicanálise:


a) redução da psicanálise ao pensamento de Freud;
b) redução das descobertas psicanalíticas a fatos que
podem ser incorporados a outras disciplinas, sem que
se conserve seu modo de descoberta;

. 34
B) Modelos lineares da história da psicanálise:
a) por _aglutinação externa: o modelo cronológico-geo-
gráfico;
b) por continuidade vertical: o modelo kleiniano do
aprofulUiar,nento;
c) por continuidade horizontal: o modelo ego-psicolo-
gista da ampliação,·

C) Modelos interpretativos da história da psicanálise:


a) utilizando como categoria central a resistência: o mo-
delo lacaniano;
b) utilizando como categoria central a repetição e a
transferência: o modelo de F. Roustang;
c) utilizando como categoria central o apres-coup e os
mecanismos do processo primário: o modelo de J.
Laplanche;

D) Modelos sobredeterminantes da história da psicanálise:


- os que reconhecem a existência de várias coordena-
das, sef!l cuja interação a história da psicanálise é
absolutamente incompreensível. Além do modelo ex-
posto neste trabalho, considero sobredeterminantes as
propostas de Elizabetb Roudinesco em La Batai/le
de Cent Ans (Paris, Ramsey 1982), e de André
Green em seu relatório de 1974 (L'Analyste, L'Ab-
sence et la Symbolisation dans le Cadre Psychanaly~
tique", in Nouvelle R evue de Psychanalyse n9 10,
out. 1974-).

No primeiro grupo, a bem dizer, o caráter histórico da


psicanálise desaparece.
a) A tendência que reduz a história da psicanálise à evo-
lução interna da obra de Frend é ilustrada pelo "Prefácio"
de Daniel Lagache ao Vocabulário de Psicanálise: a pretex-
to de se confonnar com a preponderância esmagadora da ter-
minologia cunhada por Freud em matéria de conceitos psica-

35
nalíticos, ou com a "resistência" únplícita nas dissidências que
abalaram o movimento psicanalítico (por exemplo, no volu-
me coletivo editado pela Sociedade Psicanalítica de P aris, Les
Écoles PsychaiUllytiques) , o que se faz é, na verdade, dispen-
sar-se de incômodas interrogações sobre o porquê desta pre-
ponderância e sobre o sentido daquelas dissidências. Toman-
do assim como necessário um fato que pertence, na realidade,
ao domínio do contingente, o que se escamoteia é a imensa
variedade da <liáspora psicanalítica, sob o argumento falacio-
so de que ela não é "relevante".
b) A tendência que reduz as descobertas psicanalíticas a
"fatos" cujo verdadeiro sentido deve ser dado por outras dis-
ciplinas, epistemologicamente reputadas mais "fortes", é ilus-
trada pelos trabalhos dos freudo-marxistas e dos freudo-feno-
menólogos: W. Reich, L. Sêve, J. Bleger, certos frankfurtia -
nos, na primeira corrente; J. Hippolyte, P. Ricoeur, na se-
gunda (e a lista iria longe). Tanto num caso como no outro,
a parte "útil" da psicanálise deve ser incorporada a seus sis-
temas respectivos, extraindo-se, como na clássica metáfora de
Marx, o "núcleo racional" da "ganga" que o envolve. O
curioso é que, pelo critério marxista, este "núcleo racional"
consiste no caráter dialético e materialista da psicanálise, en-
quanto pelo m etro da redução fenomenológica o mesmo "nú-
cleo racional" consiste na dimensão da interpretação e do
sentido. Nos dois casos, evidentemente, não tem qualquer im·
portância a forma pela qual a psicanálise chegou a tais resul-
tados - em especial, a metapsicologia é sempre recusada:
pelos marxistas, por ser "materialista vulgar", isto é, idealista;
p elos fenomenólogos, por ser "positivista", isto é, metafísica.
Desta forma, seja desvalorizando Freud por ser mau filósofo,
seja hipervalorizando-o como o único inventor fecundo na
história da psicanálise, cada uma das tendências redutoras
termina por considerar que, ou bem não se pode falar de his-
tória da psicanálise, mas tão-somente de história do movimen·
to psicanalftico, ou bem e's ta história existe, mas é destituída
de interesse intrínseco, e no fundo matéria para ratos de bi-
blioteca, não para psicanalistas.

36
Os modelos lineares reconhecem a existência de uma his~
tória da psicanálise. porém têm desta história uma visão de-
masiado simplista.
a) No modelo cronológico-geográfico, justapõem-se sem
qualquer coerência interna autores e obras, começando com
Freud e terminando com uma visão geralmente superficial da
situação da psicanálise em vários países. Aqui se supõe que a
expansão geográfica da psicanálise seja um fato perfeitamente
natural, que não requer maiores explicações: pennanecemos
no nivel descritivo, sem que seja apontada qualquer dinâmi·
ca interna capaz de explicar por que os autores que se suce-
d em o fazem desta maneira e nesta ordem. Por este motivo,
habitualmente dá-se preferência neste tipo de história às pe-
ripécias do movimento psicanalítico, mais su scetíveis de um
tratamento narrativo do que as árduas escarpas da metapsico-
logia ou da teoria psicopatológíca.
b) As perspectivas kleiniana e ego-psicologista não pa-
decem deste defeito; querem, ao contrário, provar a existên-
cia de uma continuidade ininterrupta entre Freud e Klein,
por um lado, e por outro entre Freud e H artmann/ Anna
Freud. O simples fato de duas tendências tão opostas preten-
derem ser a continuação direta da m esma obra já sugere que
a pretensão é sujeita a dúvidas. De fato, a escola kleiniana
insiste no tema do aprofundamento das idéias freudianas pos-
sibilitado pelo trabalho de Melanie Klein, enquanto a escola
americana enfatiza o tema do enriquecimento de Freud pelas
contribuições das disciplinas conexas (psicologia, soci~logia,
etc.) •. Aprofundamento ou enriquecimento, continuidade pelo
"desenvolvimento lógico e natural" de certas idéias freudia-
nas&, ou continuidade pela "superação" das limitações ine-
rentes à obra de Freud, que infelizmente desconhecia os avan-
ços mais recentes das "social sciences", o fato é que a história

._ .M . KANZER e H. DLUM. "A Técnica Clássica desde 1939", In


B. Wolman, ed.: T écnicas Psicanafltlcas (vol. I A T~cnica Freudiana),
Rio de Janeiro, 1976. p. 12S ss.
G J. RIVI ÉRE. "Introdução" a Q,, Progressos da Psicand/ise, Rio de
Janeiro, Zahar, 1978, p. 21.

37
como produção do novo acaba por desaparecer sob as necessi-
dades da polêmica ou da apologia "pro.,domo". Pois o que é
preciso provar, tanto num caso como no outro, é que os "de-
senvolvimentos" em questão não alteram substancialmente o
esquema conceptual herdado de Freud. Se o alterassem, a con-
tinuidade postulada - ou melhor, a espécie de continuidade
postulada, isto é, a linearidade - estaria obviamente rompi-
da. O que, a meu ver, sugere que, se existe continuidade e
novidade, esta continuidade não pode ser linear. Eis por que
creio mais adequado, embora mais trabalhoso, operar com a
noção de uma continuidade sobredeterminada.
O terceiro grupo de modelos - os interpretativos -
procuram utilizar categorias produzidas pela própria psicaná-
lise para dar conta do seu passado.
a) A idéia de resistência é invocada por Lacan e seus
discípulos para explicar os " desvios" kleiniano e norte-ame-
ricano, e para justificar o "retomo a Freud": por exemplo,
na abertura do "Discurso de Roma" 6, ou e, textos mais re-
centes, como O que é Psicanálise e Lacan: Através do Espelho,
de O. Cesarotto e M. P ete[' de Souza Leite 7 • A proposta la-
caniana é demasiado sofisticada para que dela se possa falar
em poucas linhas; basta dizer que, abertamente polêmica, ela
escamoteia, sob a máscara do retorno, o considerável esforço
de interpretação da obra freudiana realizado por Lacan, dis-
pensando-se no mesmo movimento de justificar a escolha dos
parâmetros filosóficos que norteiam esta interpretação (em
particular, a escolha de Hegel 'e de Heidegger).
b) Quanto à idéia de repetição, ela é introduzida por
François Roustang em Um destino tão funestoS, a fim de ex-

6
J. LACAN, "Fonction et Champ de la Parole et úu Langage en
Psychanalyse" (1953). in Êcrlts, Paris, Ed. du Seuil, 1966, p. 242;
cf. igualmente "La Chose Freudiennc" (1956). idem, p. 403 ss.
7
O, CESAROTTO e M. P. SOUZA LEITE. O gue é Psicanálise:
Segunda Visao, São Paulo, Drasilicnse, 1984; O. CESAROITO e
M. P. SOUZA LEITE, Lacan: A travé1 do Espelho São Pauto Bra-
siliense. 1985. ' '
8
F. ROUSTANG, Um deslíno tão funesto, Rio de Janeiro. Taurus,
1987.

38
plicar as aberrações da Es<:ola Freudiana de Paris pelo "des-
tino funesto" imposto à psicanálise, em virtude dos laços trans-
ferenciais que vinculam as gerações sucessivas de psicanalistas
a figuras de maitres (mestres e senhores) como Freud e La-
can. Apesar da engenbosidade por vezes considerável destas
tentativas, elas não consideram necessário demonstrar - ao
contrário, assumem sem maiores questionamentos - que o
processo psicanalítico e os fenômenos por ele desencadeados
(repetição, transferência, neurose de transferência, resistên-
cias) sejam parâmetros não apenas necessários, mas sobretudo
suficientes, para pensar um fato social e cultural, tal como a
difusão da psicanálise e a formação de teorias relativamente
incompatíveis entre si. Trata-se, na verdade, de saber se a psi-
canálise é ou não o instrumento adequado par a dar conta do
surgimento do novo no plano da teoria, ou da repetição in-
findável do mesmo no plano das instituições. No caso de
R oustang, admitir que a história dos conceitos psicanalíticos
se explique pelas transferências mal resolvidas dos analistas
face a seus analistas significa retirar-lhes o caráter de concei-
tos e reduzi-los a conteúdos psicológicos sem maio.r interes-
se. Os lacanianos e para-lacanianos não precisam ir tão lon-
ge, já que, para eles, não tem sentido falar de uma história
dos conceitos psicana1íticos: há o paraíso perdido freudiano,
as aberrações intennediárias e a redenção pelo gênio de La-
can 9 • É evidente que, tanto num caso como no outro, a di-
mensão propriamente histórica se esvai por completo: a re-
sistência e a repetição são figuras do mesmo, do id~ntico, e
não do novo.
c) O esforço de J ean Laplanche merece um lugar à par-
te. Num belo artigo intitulado " Interpretar (com) Freud" 10,
que tampouco é possível resumir em poucas linhas, ele apre-
senta os princípios de seu método. Estes consistem, essen-

11 C. MELMAN: "Como nos foi transmitida a psicanálise? Atraves


de um acaso: um acaso chamado JACQUES LACAN." Ornicar? n.o
16. Paris. 1978.
lO J. LAPLANCHE, Interpretar (com) Fre.ud, trad. esp. em R evi#a
Uruguaya de PsicoanáliJis, n. 0 3/4, Montevidéu. 1969.

39
cialmente, em aplicar ao texto de Freud os procedime~tos in-
terpretativos elaborados neste mesmo tex.to, em particular a
equiparação de todos os elementos do d1scurso. num mesmo
nível, e a percepção das tensões, dos remaneJamentos, das
omissões, sempre no nível do enunciado teórico. Rigorosa-
mente utilizado, este método resultou já em numerosos tra-
balhos de exegese do pensamento freudiano 11, cuja origina-
lidade e cuja fecundidade são inegáveis. Na verdade, a abor-
dagem de Laplanche já trabalha com a sobredeterminação,
mas a restringe ao nível da teoria (estudando o impacto, por
assim dizer, de cada parte dela sobre as demais, e reciproca-
mente) e, no essencial, à obra de Freud (embora, nos últimos
livros, o pensamento kleiniano venha ocupando lugar cada
vez mais destacado, tanto como alvo de crítica como enquan-
to fonte de enriquecimento da perspectiva freudiana). Mas
Laplanche não se considera como chefe de escola; seu traba-
lho é de reflexão e de esclarecimento da obra de Freud, cru-
zando-a e recruzando-a em inúmeros sentidos. A posição cen-
tral da fobia em sua abordagem, contudo, pode ser aproxi-
mada do que denominei "matriz clínica", e a contribuição por
ele oferecida para a vertente metapsicológica da teoria psica-
nalítica é das mais fundamentai s. Sua própria obra, assim ,
poderia ser objeto de um tratamento pelo método aqui pro·
posto: com efeito, ela é representativa do modo francês de
ler · Freud; é tributária da "explication de texte'' na qual os
franceses são imbath·eis, e em relação a ela o pensamento de
Lacan desempenha o papel de pré-condição indispensável.
Qoanto ao modelo da sobredeterminação, é o objeto do
presente trabalho. Pxocurei nele mostrar qual o percurso que
me conduziu a formulá-lo, quais exigências ele deve preen-
cher, quais escolhos ele precisa evhar. A idéia central, de

1t Trata.se dos cursos ministrados na Universidade de Paris VII (Cen-


sier). que se transformaram no livro Vie et Mort en Psychanályse
(trad. bras. Vida e Morte em Psica!Wiise, Porto Alegre. Ed. Artes
Médicas, 1983), na série Problématiques (já há quatro volumes pu-
blicados pela PUF: I. L'A ngoisse: li. CastraJion, Symbolisations: 111.
La Sub!imation; IV. L'lnconscient e/ /e Ça). e nos cursos publicados
desde 1980 na Revista Psycllanalyse à UUniversité .

.40
fato, reside na concepção das três coordenadas, cujo funcio-
namento simultâneo deve ser demonstrado em cada caso. Se
há determinação em última instância, para falar como Althus-
ser, ela é sem dúvida representada pela clínica: é dela que
surgem os problemas, é nela que se testam as soluções, é
para ela que convergem os conceitos. Mas o que caracteriza
a clínica psicanalítica é precisamente a inerência da teoria ao
dispositivo técnico; afinnei atrás que o processo psicanalítico
é, em qualquer escola, concebido de forma tal, que há iso-
morfismo e homologia entre ele e as outras três vertentes da
teoria: a metapsicologia, a teoria da gênese e a psicopatolo-
gia. Eis por que, para compreender as diferenças visíveis .a
olho nu entre as várias escolas, é necessário fazer um p ercurso
ao mesmo tempo histórico e episterno16gico. É para tornar
possível este percurso, com um mínimo de garantias quanto
ao respeito pela complexidade dos fatos, que foi elaborado
este modelo. Cabe agora utilizá-lo e ver se os resultados
i;Orrespondem às expectativas: mas isto é tarefa para uma
outra vez.

São Paulo,

julho 1985

41
HISTóRIA E PSICANALISE

CÉLIO GARCIA

Ao abordar a questão História e Psicanálise, lancei mão


de leituras, chegando à pr-esente resenha. Para a ~r~eira par-
te, "Memória e Esquecimento", tive como referenc1a os ar-
tigos publicados em Nouvelle Revue de PsycluJnalyse, nç 15,
1977.
Para a segunda parte, intitulada "Estrutura e Aconteci-
mento", transcrevi material encontrado em PsycluJnalystes -
Revue du College de Psyclumalystes n9 18 e n 9 19, 1986.
Para a terceira parte, "Versão freudiana da H istória, ou,
A História segundo Freud", referi-me esp ecialmente a L 'écrit
du temps, o9 6, 1984, assim como LA Psyclzanalyse est-elle
une H istoire juive? - Colloque d e Montpetlier, 1980.
Ao final, formulei uma questão que me é própria.

I - Memória e Esquecimento
Para a Ciência, o individuo é aquele que se lembra.
Para a Psicanálise, ~ sujeito é aquele que pode esque-
cer. 1
A posição da ciência é conhecida, dela não me ocuparei
especialmente. Basta lembrar a noção de resposta como seu-

1 Estas duas frases estão contidas na proposta para uma Jornada rea-
li:~;!lda em Paris, no dia 7 de Fevereiro de 1987, sob os auspícios do

42
do capaz de traduzir experiências anteriores, quer seja na
busca de recompensas, quer seja em comportamento de evi-
tamento. Refiro-me às disciplinas científicas interessadas nos
processos de aprendizagem.
Por outro lado, se me refiro a outras disciplinas que tra-
tam de outros sistemas, por exemplo, o sistema irnunitário,
encontro a mesma atenção voltada para a memória. O siste-
ma reage aqui também em função de experiências anteriores.
Vamos nos ocupar· de preferência de duas disciplinas -
para dizer que História e Memória estão ligadas no campo
da prática e da teoria psicanalíticas.
·E stão ligadas na medida em que preponderam os con-
ceitos de "memória" e "esquecimento" tal como tradicional-
mente eles foram encontrados em disciplinas contemporâneas
das descobertas da Psicanálise. Em outro capítulo deste texto,
vere.rt:~os outro tratamento dado à questão.
Por enquanto, vamos admitir com Freud 2 que o tra-
balho de "construção" em Psicanálise é comparável ao traba-
lho do arqueólogo; podemos. igualmente dizer que este mes-
mo _trabalho se assemelha ao trabalho do historiador. Se
tomarmos a Psicanálise em etapa inicial, no período das pri-
meiras formulações, vamos encontrar interesse pela reconsti-
tuição do passado tal como o historiador - historiador
interessado numa ressurreição do passado.
Frcud tenta jr sempre m.ais longe, até uma cena dita
primitiva, originária. Assim também o historiador que procura
datar o fato histórico, documentá-lo. A rememoração para
ambas, História e Psicanálise, equivalia a recon stituir preen-
chendo as lacunas, com menos lacunas pos~ível. Inclusive
recuperar o que se cha,mou "a amnésia infantil".
Já na época do texto de Freud "Construções em Psicaná-
lise" temos uma outra versão. Aqui, quando não era possível

"Champ Freu<lien", por ocasião de mais uma realização <lo "Collo-


Q treS de J'Ane". O Tema da Jornada era precisamente "memória e
esquecimento".
2 FREUD, S. Consttuetions in Analysis (1937). Stan~ard Edition, Vol.
xxm (1937-1939) p. 255-269.

43
a remcmoração, o analista propunha uma construção ao "ad·
vinhar" (erraten, é o termo de Freud) qual a peça que falta-
va. Essa "advínhaçao" terá força de convicção, cabendo ao
paciente aprová-la. O procedimento é semelhante ao adotado
ein "Moisés e o Monoteísmo" 3, pelo menos se nos restringi-
mos a um primeiro comentário sobre este livro.
Fato é que Freud historiador trata o texto bíblico como
ele interpreta um ~onho. De fato , o que está em jogo em
"Moisés e o Monoteísmo" é muito mais que uma simples in-
terpretação. Este aspecto fica para o terceiro capítulo deste
texto.
Devemos ter em mente que Freud inovava em se tratan-
do das disciplinas que lhe eram contemporâneas, já que ele
introduzia a questão do desejo, o que era jmpossfvel em se
tratando de História oú outras disciplinas que se ocupassem
da memória.
Graças à originalidade já apontada, Freud estava em con-
dições de lidar com outros aspectos da questão. R efiro-me
neste momento ao que o historiador chamaria "traços". Ago-
ra, já não seriam o fato histórico e sua datação, o objetivo do
• historiador, mas o próprio material com que trabalha o his-
toriador estaria assim perdido, sem recuperação possível. Res-
taria a ele, historiador, deixar-se guiar graças aos traços. Mas
logo vemos o traço reduzido àquilo que ele tem de material,
palpável, visível. Freud 4 de imediato nos remete a outra pro~
blemática; para ele o "traço mnésico" é uma m~rc.~ de dife-
• renças, a diferença de uma diferença.
O "bloco mágico" (Wunderblock) s foi escolhido por
Freud para dar conta de sua descoberta em se tratando de

a FREUD. S. Der Mann Moses und die Monotheistiche Religion: Orei


Abhandlungen (1939[1934-38)) In: Studienausgabe;, Bb. IX Frankfurt
S. Fischer. 1974,
" FRBUD. S. L 'interpretation des rêves, Paris, Prcs.<õC.S Universitaires.
1967, Cap. VII
11 FREUD, S. Notiz über "Wunderblock" Studicnausgabe, Bb. 3 S. 363;
C. P., Bb. 5. S. 115; Slandard Ed .. Vol. XX. p. 225.

44
traços. Porém, vamos concluir dizendo que analista e histo-
riador estão voltados para o esquecimento, uma perda de
saber.
Mas houve ao que tudo indica, uma crise do "sujeito his-
tórico".
A História também teve que enfrentar os desdobramen-
tos do que chamamos o desmantelamento do "sujeito". Até
agora História e Memória eram equivalentes. Na verdade sa-
bemos que memória sempre foi o resultado de um certo nú-
mero de interesses - interesses daqueles que se garantiam
quanto a seus privilégios por força dos arquivos.
Posteriormente, os arquivos se tornaram públicos, agora
parecia valer o que se chamou Memória Nacional. No entan-
to, a História continua sendo representativa de interesses de
grupo, até interesse de um grúpo de intelectuais qrie chama-
mos historiadores. No entanto, passamos para o~tro capítulo
p9is agora em vez de Memória e Esquecimento, vamos ter
outros dois termos ESTRUTURA E ACONTECIMENTO.

II - .E strutura e Acontecimento

~ sabido que uma escola famosa entre historiadores; con-


temporâneos veio a privilegiar a estrutura. Foi assim que a
biografia necessariamente diacrônica entrou em desgraça. Tam-
bém a Psicanálise declara seu desinteresse pela anamnese. So~
brevive até hoje um anacronismo, a interpretação gratuita a
que se dedicam certos psicanalistas fantasiados de historiado-
res quando submetem certos personagens a urna análise ro-
manceada! Este tipo de produção livresca sobreviveu até re-
centemente e maís dia menos dia ressurge. Vamos deixar al-
gumas referências aqui mencionadas.

Existe uma psico-história?

Este é um caso interessante que merece ser explorado.


V amos examinar alguns exemplares da bibliografia em questão.

45
O livro de Jacques Brosse "Hitler antes de Hitler" pro-
vocou entre nós, por ocasião de sua tradução, alguns comen-
tários que assim podem ser resumidos: de um lado aqueles que
criticam o mau emprego da Psicanálise para tais fins, ou seja,
explicar o nazismo por um complexo de edipo mal resolvi-
do 6 ; de outro lado, aqueles que endereçam a crítica ao pró-
prio Freud. "A identidade entre o grupo e a família, entre o
líder e o pai, não é senão a marca da História na Psicanálise.
Enraizada numa consciência moral, como toda consciência
médica no século XIX, a Psicanálise é herdeira do grande
mito do século XVIII, o de que a família é a verdade e a
norma de todas as relações sociais. Mito ao qual a Psicanáli-
se empresta um sentido novo ... " '1 No final a autora faz jus-
tiça a Freud quando completa: ".. . a Psicanálise está con-
tra a História e contra sua própria descoberta, a de um de-
' sejo que originalmente não é papai e mamãe". s
O assunto esteve ainda em pauta entre nós, quando
KA1Z 9 (1973) rebateu as teses de Arnaldo Rascovsky que
trata do filicídio como um dos motivos inconscientes que le-
vam à guerra. Segundo este autor, a rebelião dos jovens nos
Estados Unidos contra a gerontocracia, pede que se faça amor
e não guerra, já que nesta quem morre são os filhos. Detenho-
me nessa literatura por considerá-la um assunto importante
para o problema. Nem sempre as hipóteses psico-históricas
são tão declaradamente expostas, mas crdo que são de uma
maneira ou de outra interinadas por historiadores e por
aqueles que vêem na Psicologia urna saída para recuperar al-
guma coisa que eles perderam, qual seja a identidade de um
sujeito em que se possa corúiar, seja para vilipendiar ou exaltar.

6 MILAN, BETIY. Entre a genialidade c a ideologia de Freud. Opi-


nião. 5 amr. 1973. p. 2.
7 MILAN, B. Idem p. 2.
8 MILAN, B. Idem p. 2.
8 KATZ. C. S. Do Filicídio e outros pequenos assassinatos. In: RAS-
COVSK~, A. O assassinato dos filhos (filiddio), Rio de Janeiro, Do-
cumentáno, 1973, p. 111-133.

46
Ilusões de um crítico progressista
Robert Coles lO { 1973), tendo que examinar a literatura
sobre a Psico-História, e fazendo-o de uma maneira bastante
completa, comete um engano a ser anotado.
Examina de início uma série de livros entre os quais:
1. Leonardo da Vinci and a memory of bis chilhood (S.
Freud)
2 . Leonardo da Vmci: Psycboanalytic notes on the enigma
(Kurt Eissler)
3 . Thomas Woodrow Wilson a Psychological study (S. Freud
and W. Bullit) ·
4. Psychoanalysis and History (Bruce Mazlich)
5. Psychoanalytical explorations in art (Ernest Krís)
6 . Wilson and Colonel House: a personality study (A. and
J. George)
7. Psychoanalysis and the Social Sciences (W. Munster-
berger)
8 . The mind of Adolf Hitler (W. C. Langer)
9. The Kennedy neurosis: ;t psychological portrait (N. G.
Clich).
A lista é longa. São mais de dez volumes, o que leva a
crer que a bibliografia em questão já assume proporções con-
sideráveis.
Robcrt Coles 11 orienta seu artigo no sentido de uma crí- •
tica bastante severá a esse tipo de análise histórica. Lembra
q ue os seguidores de Freud não foram tão prudentes quanto
o mestre. Este famais falou no complexo de .edipo de Leo-
nardo da Vinci, nem nas fases oral, anal, etc., para ~xplicar
qualquer dos aspectos observados por ele. Enfim lembra:
"the nature of the president, the social and cultural cha-
racteristics of a given moment in American History, the

1 ° COLES, R . A psico-histi>ria. Freud e~plica isso? Folha de São


Paulo, Tendência e Cultura, p. 19.
u COLES, ROBÉRT. How Good is Psycho-History? In: T/Je New
York Review. 22 (2): 15·21, February. 1973.

47
particular stresses tbat wars, accidents, unexpected tra-
gedies can bring upon a man's cbaracter and personali-
ty. . . (como fatores importantes) . . . whatever the de--
terminants of childhood that bear down on him, on all
of us .. ·. 12

(A natureza do presidente, as características sociais e


culturais da história norte-americana num dado momento, a
pressão especial que as guerras, os acidentes, as tragédias ines-
peradas podem influir sobre a personalidade e o caráter das
pessoas ... (como fatores importantes) ... quaisquer que se-
jam os determinantes da infância que influenciam esta mesma
infância em qualquer um de nós.)
Está certo o psiquiatra da Havard University Healtb Ser-
vices residindo em Albuquerque (New Mexico) onde se ocupa
de índios e mexicanos emigrados. Mas ele nos parece menos
avisado quando conclui por uma alterntiva que o leva a Hart-
mann e Kris. Para contestar uma posição que atribui uma mo-
tívação mórbida a cada gesto do homem, que procura um
complexo em cada dobra do comportamento ·do homem pú-
blico, o psiquiatra progressista vai procurar argumento nos
impulsionadores da Psicologia do Ego ("Tbe ego has been ern-
phasized" [o ego foi enfatizado] por estes autores, ·lembra R.
Coles 13). Adota cordialmente a noção da zona livre de con-
flito ("The ego has its own energy, some of it conflict free" 14
[O ego tem sua energia própria, parte dela livre de conflito] )
até a adoção de noções menos críticas, tais como o mecanis-
mo de defesa (pelo menos na acepção que lhe dá o articulis-
ta) assim: "The id may exert its pressures, but we have those
various "mechanisms of defense" to cali upon ... " 15 (O id
pode exercer pressões, mas nós temos variados mecanismos de
defesa para os quais apelar).
Sem dúvida o autor dos artigos desmascara a explicação

12 COLES, R. Idem, p. 20.


13 COLES, R. Idem p. 18.
14 COLES, R. Idem p. 18.
l:i COLES, R. Idem p. 18.

48
psicologizante da História, mas se deixa envolver por uma
alternativa onde é recuperado o sujeito "livre", capaz de falar
em seu próprio nome, sujeito fiável a quem se remeteria o ~
sistema. A zona "livre de conflito'' é o depositário mais certo
do "american way of life'' (Lacan).
Não existe a Psico-hist6ria, nem existe a H istória Psí-
quica, quero dizer uma escrita que entre nós desse conta de
uma apresentação mítica da História. Houve a "crônica" no
início da atividade de historiador, seguida de uma Filosofia
da História, mas em nossos tempos torna-se banal uma leitu-
ra que visse em Totem e Tabu 16 simplesmente uma maneira
mítica em detrimento de um discurso que chamaremos cien·
tífico.

O caso Totem e Tabu

Poderíamos pensar que "Totem e Tabu" retoma o modo,


a maneira mítica, em detrimento de um discurso que temos
que chamar científico. Na terminologia atual, graças a Lacan,
teríamos o materna como característica deste discurso cientí-
fico, só ele capaz de nos resgatar do mito, constituindo um
corte no discurso tradicional, conseqüentemente trazendo um
novo significante. Assim foi com ·parmenides (veja-se o co- •
mentário recente de Alain Badiou 1'1) por oposição ao "récit"
mítico do texto grego até então.
Com efeito, este ''Totem e Tabu" já foi lido como uma
fabulação de Freud; a este livro não se creditava nenhuma ca-
racterística ..encontrada em outros textos de Freud, a justo tí-
tulo reconhecidamente comprometidos com a pesquisa. No en-
tanto, o capítulo III - "Animismo, magia e poder do pen-
sar" - nos coloca na pista do projeto de pesquisa de Freud,

16 FREUD, S. Totem und Tabu (Einige Ubereinstimmungen im Seelen-


leben der Wilden und der Neurotiker) (1912-13). Fragen der Gesells
cha/ t Urspr ünÚ der Re/igion. Bd. IX. Frankfurt, S. Fischer 1974,
p . 287·454.
n BADIOU. A. - Notas de curso - Université de Paris VIII -
Janeiro 86/87.

49
como dissemos, marcadamente comprometido com um corte
no discurso da Psicologia Profunda, esta sim, assimilada no
mito (veja Júng, a quem Freud se refere em "Totem e Ta-
bu"). A Psicologia Profunda representa, com efeito, uma ver-
são de um discurso solire as origens, a que se acrescentam
fabulações mais ou menos fruto de alucinação (para manter
o tenno usado por Badíou 18 onde este autor comenta a in-
terpretação de Heidegger quando este não reconhece o corte
equivalente ao materna evidenciado por Parmenides com re-
lação ao texto grego) .
Assinalaria os seguintes parágrafos quanto ao terceiro
capítulo de "Totem e Tabu":
1. Na seção 2, primeiro parágrafo - Freud diz prefe-
rir Hubert e Mauss no que diz respetio à leitura a ser feita
sobre "Zauberei und Magie". comparando-as a uma técnica
e não a uma estratégia do animismo. Mauss é precisamente
• quem vai instaurar a leitura tipo "materna" na Antropologia
Francesa em detrimento de outras leituras apoiadas na "men-
talidade primitiva" mais próxima do mito e do discúrso mí-
tico. 19
2. Freud 20 tem o cuidado de tomar distância com rela-
ção ~s posições preconceituo-sas da Antropologia da época, no
caso representada por E. B. Tylor quando este autor preten-
de defin1r a magia pela fórmula "mlstaking an ideal connec-
tion for a real one".
3 . "Nós dissemos anteriormente que o animismo é um
sistema intelectual, a primeira teoria completa sobre o mun-
do ... " 2 1 Em seguida Freud refere-se ao sonho para concluir:
• "o essencial no sonho são os pensamentos (Traumgendan-
ken)". 22
4. " A elaboração secundária, produto do trabalho rea-
lizado pelo sonho nos fornece um exemplo da maneira como

ll3 BADIOU. A. Idem.


lO FREUD, S. Totem und Tabu, op. cit., p. 366.
2o FREUD. S. Idem p. 367.
:!l FREUD, S. Idem p. 382..
2
~ FREUO, S. ldem p. 382.

50
se forma um sistema,. . . a natureza própria ao sistema e suas
exigências." 23 '
5. "Nós nos damos conta de que estas propostas nos
expõem à crítica que poderia nos denunciar como atribuindo
ao primitivo uma fineza (inteligência) que ultrapassa suas
possibilidades.,. 24
Para Freud por conseguinte, a vida psíquica dos povos
ditos primitivos não havia merecido a devida consideração.
A explicação mítica, ou formulada a partir de um discurso
mítico (sem fazer uso do que aqui chamamos materna ou
proposições de caráter científico) teria contribuído para que
a Antropologia do século XIX fosse toda ela comprometida
com uma visão grosseira e preconceituosa. Foram os estudos
de L. Strauss que resgataram o que ele chamou tão lindamen-
te "la pensée sauvage" 25 (veja a capa do livro de Strauss
onde a ilustração nos brinda com uma flor silvestre "la pen-
sée") .

Se não existe a Psico~história e nem a leitura de Totem


e Tabu pode reduzir este livro a uma escrita mítica, é porque ~
em nossa contemporaneidade damos atenção à estrutura e fi-
nalmente ao acontecimento.
Quando dizemos estrutura, e o dissemos com ênfase (até
bem pouco tempo) durante todos estes últimos trinta ou qua-
r enta anos de estruturaHsmo, queremos dispensar a noção de
sentido. Vimos que os traços eram sinais já não entendidos
pelos interessados, cabendo ao historiador levá-los até os in-
teressados, servindo de mediador entre estes e os traços dei-
xados no caminho.
Aqui, não. Em se tratando de estrutura, a ação da es-
trutura é o bastante para produzir algum efeito. Já não se •
trata de buscar a origem; cabe ao historiador ampHar seu
campo, fazendo com que a diacronia seja absorvida pela sin-
cr.onia. O historiador, neste caso, ao cobrir o conjunto de

23 FR.EUD, S. Idem p. 383.


24 FREUD. S. Idem. p. 386.
25 LEVI-STR.AUSS, C. La Nmée Sauvage, Paris, Plon, 1962.

51
discursos, tenta estabelecer relações; enfim, estará ele mais
interessado no impossível de se dizer do que naquilo que foi
esquecido. .
O acontecimento veio a ser considerado na pesquisa his-
tórica, assim como na psicanalítica, uma vez que as leituras
inspiradas pela estrutura pareciam esgotadas. Assim, o acon-
tecimento ( événement) veio a ser o que, numa época, parece
impossível de ser simbolizado, não registrado, já que não havia
registro disponível.
Tanto em Psicanálise como na História encontramos o
"acontecimento" como Jeit-motiv de pesquisas. Não se trata
do que um historiador menos avisado poderia entender como
. • o grande acontecimento. Nem tampouco o que um psicana-
lista menos avisado ainda poderia pensar encontrando na
noção de acontecimento uma alusão ao trauma. Jeffrey Mas"
son, historiador, diretor durante certo tempo do Arquivo Sig-
mund Freud, pôde cometer um duplo engano.
De íafo, este senhor, que ganhou a confiança de Anna
Freud e K. Eissler, pensava poder resgatar a teoria do trau-
ma quando impunha a nós documentação até enil:ío mantida
em discreção pelos antigos diretores do Arquivo.
Masson pretende que Freud abandonou a teoria do trau-
ma (sedução por parte do adulto com relação à criança) por
força de pressões a que ele, Freud, se viu submetido..Engana-
se Masson acreditando que seu achado resgata alguma coisa,
ou nos fornece uma teoria consistente para a problemática
por ele apontada: Problemática agora repensada graças ao
acontecimento ..
"Acontecimento" veio a freqüentar o texto das Ciências
• Humanas inicialmente graças a Edgar Morin 26 quando men-
cionou uma Sociologia "evenementielle" ou seja, do aconteci-
mento, Ou ainda, quando o sociólogo já não dispunha de um
esquema explicativo a ser aplicado aos fatos. O termo acon-
tecimento, com suas conotações de acaso, eventual, perpassa
atualmente várias Õtsciplinas científicas.

!!6 MORIN. EDGAR. Le retour de l'événement. COMMUN/CATIONS.


18: (6-20) 1972.

52
O acontecimento. seria um "ato"; para a Psicanálise de
orientação Jacaniana, sai fora da cadeia do inconsciente, esta
registrável graças ao sintoma. Os historiadores dificilmente
lidam com esse aspecto. Vamos encontrar no próximo capí-
tulo o tratamento dado por Freud à questão. Vamos acompa-
nhar Freud na formulação do texto histórico de acordo coin
metodologia que é própria a Freud. Memória e Esquecimento
de um lado, Estrutura e Acontecimento de outro, serão re~
passados em função de uma problemática a ser definida por
Freud.

111 - Versão Freudiana da História

Antecedentes
A Psicanálise pode ser pensada como uma tentativa de
resolver as situações suscitadas pela saga vivida pelos judeus
quando de suas peripécias frente ao texto que lhes tinha sido
legado inscrito nas Tábuas da Lei.
Havia um texto escrito •. , a ser comentado. Os comen-
tários acumulados ao longo do tempo vieram a se constituir
em importante peçá no processo. Logo surgiram dois grupos
que mostram bem o drama vivido pelo povo judeu em suas
relações com o texto sagrado, o texto a ser lido, falado, co-
mentado.
Os saduceus pretendiam que só o texto escrito já era bas-
tante, ali estava contida a lei. Era só submeter-se a ela. Para
eles a tradição oral importava pouco.
Os fariseus pelo contrário queriam incorporar a tradição
oral, os comentários trazidos justamente por aqueles que ao
longo dos anos haviam se debruçado sobre os livros sagrados.
Houve sérias disputas entre estes dois grupos.
O que é mais interessante ·- os fariseus para provarem
que a tradição oral estava em concomitância com o texto es-
crito, passaram a fazer cotejos cuidadosos, aproximando tra-
dição escrita e tradição oral.

53
Alguns comentadores. chamam a at~ilção para o signifi-
·cado político do trabalho realizado pelos fariseus. Na verda-
d e, ambos os grupos enfrentavam dificuldades com certas pres·
crições contidas no texto escrito, pois que com o tempo elas
se tornavam impraticáveis. Mas, d eixo aqui este aspecto da
questão.
De fato, as escolas, e os escritos deixados pelos fariscus
nos falam de quatro maneiras de interpretar:
1 . maneira literal, também chamada simples;
2 . uma interpretação por analogia - graças a qual se
tentava uma explicãção;
3. a maneira hom..ilética;
· 4 . a maneira esotérica, a qual protegia o saber reservan-
da.o a um grupo fechado.
Freud foi por excelência um estudioso sempre interessado
na interpretação de um texto, de uma mensagem, de uma "for-
• mação" (Bildung para usar seu termo), psíquica. Foi aí que
se criou a Psicanálise, nessa tentativa de dar conta do que
tiilham sido as aventuras e desventuras do povo judeu frente
a. frente com o texfo, as palavras contidas no texto. O livro
de Freud "Interpretação dos sonhos" (1900) 2? já foi chamã-
do o último comentário a ser incorporado ao Talmude. 28 O
Talmude contém justamente os comentários provenientes da·
quela tradição oral (Mischnâ) pela qual se batiam os fariseús,
acrescidos de um complemento que comenta os comentários
já aludidos. Cbama"'5e Gemara esta segunda parte do Talmu·
de, onde a sabedoria rabínica depositou propósitos, hisióriãs
sobre os mais variados assuntos. Eu disse: comentar os co.
mentários ...
Donde o livro de Freud ser chamado "o último comentá·
rio ... " ou ainda, mais um . . . comentário. último ou sim·
plesmente mais um, vale reconhecer a notável obra deste co-
mentador incansável que foi Freud.

27 FREUD, S. ·The Interpretation of Dreams (First Part) , Vol. IV.


(1900), In: The Standard edition. London, The Hogarth Press. 1953.
28 SCHWAB, MOISE. Le Talmud de Jérusafem. Paris, G. P. Maison-
neuve et Larose, 1969. Vol. I.

:54
De fato, pretendo caracterizar o que vamos chamar "a
versão freudiana da História" ou a H istória segundo Freud.
A primeira pecha lançada a Freud historiador é que não
há cientificidade na História freudiana. Freud teria feito da
História um instrumento a serviço da teoria que ele estava
construindo.
Freud chegando a algum tipo de certeza em se tratando
de uma descoberta psicanalítica, procurava uma prova . his-
tórica.
De início, uma pergunta: 29
Que seria este estranho introduzido por Freud no terri·
-tório do historiador? Malgrado as objeções, temos que credi-
tar a Freud tratar-se de um trabalho aquilo que ele nos apre-
senta em suas análises.
Análise, disse bem, pois há manejo do que chamamos
corte, interrupção. Tal como procurei estabelecer em se tra·
tando de "Totem e Tabu" ao aqui também Freud interrompe
o "récit" introdu:zindo o corte em momentos onde habitual-
mente só havia o curso livre do "récit".
A tal ponto que ele vai propor que a identidade não é
um, mas dois. Refiro-me ao livro "Moisés e o Monoteís-
mo" 31 ao qual farei alusão freqüentemente, sem contestação
a produção de maior alcance em se tratando da versão freu·
diana da História.
Para Freud portanto, o verdadeiro só se d1z de acordo •
com um registro da ilusão.
Em Freud não há enunciados verdadeiros ou falsos, mas
uma tática, uma prática, há procedimentos.
A própria noção de História será · remanejada na medida
.em que ele escreve a história dos precedentes em seu "Sobre
a história do movimento psicanalítico" 32• Neste livro ele dis·

·2 9 CERTEAU. M. de. L'écriture de l'histoire. Paris, Gallimard, 1975.


30 FREUD, S. Totem und Tabu. op. dt.
31 FREUD, S. De.r Mann Moses und die Monoth:eistische Retigion
op. cit.
32 FREUD. S. On the History of the Psycho-Analytic Movement.
In : The Staruiard Edition. London, The Hogarth PTess. 1957, Vol.
XIV. p . 3-66.

55
cute com Jung sobre a precedência em se tratando de certas
descobertas para estabelecer que há "acaso" em todo jniciar
alguma cousa. Ao elaborar esta posição frente a Jung, Freud
torna-se historiador. Historiador a sua· maneira, já agora em
poder da sua metodologia. Será a possibilidade de fazer-se
história objeto da reflexão de Freud; em seguida em "Moisés
e o monoteísmo" esta questão é desdobrada em todas as suas
virtualidades ..
Quanto ao primeiro dos textos acima citados, no próprio
dizer de Freud, ele procura encontrar uma mistura entre o
subjetivo e a exposição objetiva, entre o biográfico e o inte-
resse histórico.
Um texto de História será então o que articula o "acaso
de todo início" e uma situação de crise por parte de quem
escreve.
Assim dizendo, ele havia constatado a partir da própria
experiência que há discordância entre o tempo psíquico e o
tempo histórico; ora.. uma tal discordância se reveste de im-
portância decisiva quanto à perspectiva de tra;nsmissão das
idéias e representações.
O historiador Freud toma como material acontecimentos
que não são de atualidade, nem tampouco está ele interessa-
do em uma confirmação por parte da maioria das pessoas.
Pelo contrário, Freud historiador está sempre um pouco des-
locado com relação ao presente; só assim ele consegue escre-
ver a história deste presente sem privilegiá-lo.
Ele se opõe a Jung que faz concessões ao presente bus-
cando apoio na maioria, Jung que defende um direito histó-
rico-cultural da juventude, Jung para quem a concepção da
história nada mais é que um desenrolar linear no qual o pre-
sente prepara o futuro. Jung para quem, a cada momento, po-
deríamos abarcar com o olhar o conjunto dos momentos pre-
cedentes e recapitulá-los. Jung portanto, propõe uma síntese
- em se tratando de História, poderíamos dizer uma síntese
temporal - síntese sempre já dada, e que deixa ver uma
previsão do futuro.
Freud, já dissemos, trabalha ao nível de uma imbricação
entre história e biografia, sem confundir o tempo psíquico e

56
o tempo histórico. O tempo histórico passa, corre célere; de> •
tempo psíquico nos damos conta no a posteriori. Trata-se de T
escrever a própria história tendo como pano de fundo uma
outra história muito mais ampla da qual aprendemos a reco-
nhecer os traços que ela deixa em nós.
O outro texto de que lançamos mão para a presente re-
senha será - "Moisés c o monoteísmo'. 33 Mais do que em
outros textos, Freud vai trabalhar ao nível do que chamamos
a versão freudiana da História.
Diria que Freud se libera de conceitos tais como "memó-
ria" e "esquecimento" - veja-se a primeira parte desta re-
senha - assim como não se prende a uma interpretação a
partir da "estrutura" ejou "acontecimento" - veja-se a se-
gunda parte desta resenha.
Finalmente a questão das origens é aqui mencionada de
maneira decisiva graças ao espaço criado pela versão frcudia- •
na da História. O alvo para Freud vem a ser a questão do
"povo eleito" ou ainda da própria eleição assumida por um
povo. Crença de tal magnitude que ela foi capaz de determi-
nar o próprio anti-semitismo.
Por conseguinte, a "origem" é secundária, ela vem de-
pois. Em outros termos a historicidade é repetição. •
Não só o tempo psíquico vem depois, mas a própria his-
toricidade é repetição. A hístoricidade assim como o "sujeito''
em Psicanálise se constituem (no melhor dos casos) por iden-
tificação ao sintoma; no pior dos casos há defesa contra o
sintoma.

último parágrafo

Onde está nossa liberdade, indago? Onde nossa chance


de escaparmos à história "que se repete"? Será que nossa es-
pécie estaria su.bmetida a uma lei de ferro que diz: tudo que •
pode se fazer, será feito. Teríamos nós uma chance de csco-

33 FREUD, S. Der Mann Moses und die M onotheiRtiche Religion.


op. cit.

57
fn lha quanto aos possíveis? Haveria equilíbrio entre o ser que
nos é dado e a lei de ferro que nos leva a fazer? Entre o la-
xismo que seguramente não é sinal de abertura de espírito,
nem de independência, e o imperativo que "as cousas conti-
nuando como estão, vamos fazer tudo que tem que ser feito' ', .
entre estas amarras, haveria lugar para uma chance de se in-
ventar alguma cousa?
Talvez não exista essa possibilidade de identificação a
que nos referíamos há pouco. No livro "Moisés e o monoteís-
mo" certamente está apontada uma saída para essa maciça
• identificação ao Pai. Por um lado, a identidade judaica é uma
identidade construída, artificial, produto de uma história de-
terminada, criação de um homem que não era judeu. A so-
lução encontrada pelo povo judeu diante da impossibilidade
de uma identificação foi o assassinato de Moisés e o recalca-
mento do acontecimento. Como poderia haver identificação
se a origem está seriamente comprometida, se no· início são
dois? Como poderia haver identidade se o que está fora irrom-
pe no que estava dentro por ocasião do nascimento? Mais.
ainda, o que está fora afeta o que estava dentro somente por-
que o que estava dentro está agora fora (Extimité, disse
Lacan) .
Por conseguinte há lugar para uma reelaboração · histó-
rico-política da questão da "identificação", da Psicologia do
coletivo, das instituições. Nem uma decisão ética ao nivel do
indivíduo me diz tudo a respeito da ad·esão a uma instituição.
Tempo histórico e tempo psíquico se conectam e se separam
mais uma vez; assim nem se consegue no momento dar conta
da história dessa adesão, (tempo histórico) tampouco da de-
cisão (tempo psíquico).

58
SEGUNDA PARTE

A PSICANÁLISE NO BRASIL
DA MEDICINA SOCIAL A PSICANALISE

SILVIA ALEXIM NUNES

Se quisermos situar historicamente a introduçr;o da psica-


nálise no Rio de Janeiro, vamos verificar que foi durante os
anos d~ 1920 e 1930 que seus princípios começaram a ser ado-
tados pela comunidnde médica. 1 Vemos ganhar força neste p.e-
ríodo a idéia de que os conceitos básicos de Freucl seriam ma-
téria indispensável para o estudo e a compreensão dos distúrbios
mentais. No entanto, o que se observa de forma bastante nítida
é um processo de assimilação pelos psiquiatras de determina-
das noções psicanalíticas que se dá através de modificaçõ~s
significativas das teses freudianas, em nome de um projeto mé-
dico e, ao mesmo tempo, político, que formava a base do
pensamento psiquiátrico desta época. Observa-se que a psicailá..:
lis,e não aparece nos discursos médicos como algo novo, dife-
rente da teoria e da prática preconizadas até aquele momento,
e que não chegou a promover mudanças· na ideologia psiquiá-
trica dominante. Ao contr áário, o que se pode depreender do
material consultado é que o discurso psicanalítico vai sendo
pouco a pouco trausformado e reintegrado de forma a se encai-

1 Esse estudo foi realizado com base ·em textos psiquiátricos publi-
cados c veiculados no Rio de Janeiro, entre 1915 e 1935, tendo sido
consultados livros, periódicos, revistas cicnt(ficas e teses apresentadas
à Faculdade de Medicina.

61
xar, sem conflitos, no projeto político mais global, pretendido
pela medicina da época.
Para melhor compreender em que tipo de perspectiva mé-
dica a psicanálise foi introduzida, é preciso voltar um pouco
atrás, ao século XIX, marco da constituição no Brasil de uma
medicina voltada para o meio social, isto é, para a cidade e
seus habitantes.

I - A fonnulação de um projeto de higene social

Durante o século XIX, pode-se observar a constituição de


uma medicina que, extravasando o campo individual, vai propor
urna intervenção direta sobre o social, dando início a um pro-
jeto de rnedicalização da sociedade. A proposta de uma higie-
ne pública é o ponto de partida para a mudança das relações
entre a Medicina e o Estado; tendo como pressuposto básico a
intervenção nos fatores de produção de doença, isto é, uma
perspectiva preventivista, foi através desta perspectiva hig~enista
que a instituição médica estabeleceu sua prcs.ença na sociedade.
Em sua preocupação com a organização do espaço físico das
cidades, assim como com os costumes e hábitos do povo, criou
formas de controle social bastante significativos, formulando
normas a serem transmitidas a toda a população.2 Vemos surgi!
uma medicina que visava preservar o meio c a população de
males futuros, através de uma atuação junto aos possíveis focos
de doença, que se estrutura, na verdade, como um instrumento
de intervenção política que tem corno meta principal o controle
dos indivíduos.a Este p:-ojeto vai se ampliando durante todo

!!O trabalho ue ROBERTO MACHADO, "Danação da Norma", mos-


tra com clareza de que forma se. constitui .este processo de mcdica-
li~ação do social. A reordenação da ciuadc, a intervenção direta na
organização de instituições e nos hábitos dos indivíduos, são des-
critas de forma exemplar e minuciosa. MACHADO, R., LOUREIRO.
L., LUZ. R. MURICY K. - Danação da Norma. Graal. Rio de
Janeiro, 1978.
s .!'\essa perspectiva, concordamos com Michel Foucault, que mostra
que. com o capitalismo, não se deu a passagem de uma medicina

62
o século XIX, mas é na virada do Império para a República,
com a formação de um novo tipo de Estado, industrial, capi-
talista, que os discursos médicos vão ganhar novas cores.
Com a desagregação do sistema senhorial, que provocou
mudanças profundas na organização social brasileira,4 pode-se
observar o crescimento de toda uma massa populacional, cons-
tituída por brancos pobres, estrangeiros, imigrantes, escravos
libertos, etc., que formava um proletariado nascente e uma
população marginal à produção principal, que começa a tor-
nar-se majoritária. O advento da abolição, a imigração, o de-
senvolvimento industrial, trazem para a cidade milhares de tra-
balhadores, sem wna medida que assegure a transição do r~­
gime de trabalho servil ao regime de trabalho assalariado.
Diante deste quadro, torna-se, então, necessário buscar novas
formas de enquadramento desta população. Instalam-se dife·
rentes procedimentos de contenção e disciplina e é nesse mo-
mento que a medicba passa a ter um novo papel, enquanto
parte desse projeto político. 5 Se, de início, os médicos volta-
v.am-se, principalmente, para os focos de contaminação, pouco
a pouco, pode-se depreender de seus discursos uma proposta
de higiene do corpo social, isto é, voltada para a formação de
um novo tipo de indivíduo, para o melhoramento do povo, para
o aperfeiçoamento da raça brasileira. Formulam-se programas
de saúde preocupados com a produção de indivíduos física e
moralmente adequados a um determinado projeto social. Pro-
põe-se uma intervenção direta sobre os homens, um controle
que deve operar diretamente sobre seus corpos, para discipli-
ná-los a fim de ob~r simultaneamente sua docilização e o

coletiva para uma medicina privada, mas que, ao contrário. fez sur-
gir um saber e uma prática médica socializadora que. visava dire-
tamente o corpo dos indivíduos, de modo a adestrá-lOs, docilizá-los,
aumentando sua produtividade. FOUCAULT, M. O Nascimento da
Medicina Social, in: Microfísica do Poder. Graa/. Rio de Janeiro. 1981.
4 ALBUQUERQUE, M . M . Pequena Histórja da Formação Social
Brasileira. Graal. Rio de Janeiro, 1981.
li A esse respeito. ver: BIRMAN, J. Formações Imaginárias e dispo-
sitivos da Criminalidade. relatório de pesquisa, mimeografado, Ins-
tituto de Medicina Social da U.E.R.J., Rio de Janeiro, 1982.

63
aumento ele sua produtividade. É preciso que eles sejam pro-
gramados como se programa, por exemplo, os animais.

"Nós vemos a cada passo homens cuidando dos ani-


mais para determinados fin s; uns são destinados à caça,
outros, às corridas, outros, a fornecerem alimentação de
sua carne, e, outros enfim para trabalhos especiais, por
meio de certo regime, exercício, moradia c de todas as
circunstâncias que uma higiene estudada pode determi-
nar. Por que não estudaremos um meio de aperfeiçoar a
nossa. raça, por meio de uma higiene própria? Só a higie-
ne fará de uma criança débil um homem robusto, corri-
gindo as más disposições, que não encontram remédio na
medicina." a

Desta forma, vemos surgir propostas concretas de inter-


venção tanto sobre comportamentos individuais, como sobre as
diferentes instituições. A família e a escola vão ser alvos pri-
vilegiados das críticas dessa medicina que vai tentar fazer uma
espécie de pedagogia nacional, modüicando esses espaços pri-
vilegiados de formação infantil. O casamento, a criança, as re-
lações familiares, os papéis sexuais do homem e da mulher,
os lugares sociais de cada um, tudo passa a ser pensado a partir
de uma nova ótica corrctiva.7 A formação de urna infância
sadia física e moralmente, que possa responder às novas ne-
cessidades sociais, é o aspecto principal dos debates médicos,
e é o fio condutor deste novo projeto de higiene social. Com
o objetivo de preparar as crianças para um futuro livre de
aspectos degenerativos e conseqüentemente par.a que se alcan-
ce um desenvolvimento adequado, os higienistas vão propor
regras minuciosas, cuidados constantes, modificações nos hábi-
tos familiares, mudanças no sistema educacional, com vistas a
garantir uma boa formação física e moral de cada cidadão.

6 SILVA, A . S. Higiene da Primeira l nfáncia. Tese apresentada à Fa-


cul dad~ de Medicina do Rio de Janeiro. 1982. p. 8.
T A esse respeito, ver FREIRE COSTA, J. Ordem Médica e Norma
familiar. Graal, Rio de Janeiro, 1979.

64
Ê nesse momento que a instituição psiquiátrica vai ganhar
um lugar de relevo nos discursos médicos. Preocupando-se ba-
sicamente com o aspecto da formação moral dos indivíduos,
o saber psiquiátrico vai se voltar para urna perspectiva espe-
cífica de higiene moral, complementando a tarefa inaugurada
pela higiene pública. A psiquiatria vai se propor a uma nova
forma de higiene que deve se passar no nível dos sentimentos,
das emoções e das paixões.s Nessa perspectiva, v.ai ganhar vulto
a noção de degeneração psíquica, que seria uma desordem nos
centros nervosos que produziria perturbação nos sentimentos
e pensamentos que tornaria os indivíduos inaptos à vida e im-
produtivos ou nocivos à sociedade. Essa noção vai possibilitar
uma ampliação considerável da estratégia médica.
Tratada como um grande mal e podendo ser, de acordo
com as teorias da época, transmitida hereditariamente ou adqui-
rida por um acidente fortuito ou por uma falha La educação,
a degeneração psíquica é vista corno um grande perigo. O risco
de que um indivjduo sucumba a seus aspectos degenerados ejou
transmita-os à sua descendência, vai caucionar um maior apro-
fundamento da intervenção médica sobre a vida da população.
Apoiada nessas teorias, a medicina cria um novo tipo de pa-
tologia, que abre espaço para que se trate todo e qualquer
"desvio" de comportamento como um sinal da presença desta
anomalia ll. Daí para uma patologização do cotidiano é um
pulo. A psiquiatria justifica com essa noção seu terror abissal
a qualquer comportamento que entre em antagonismo com suas
normas e regras de vida, ou melhor, com seus ideais cugênicos.
Esse discurso que, de início, voltava-se basicamente para
a família de elite, para o aperfeiçoamento c constituição de
u ma burguesia nacional 1ivre de taras 10, vai se ampliando e

8 DJRMAN, J. A Psiquiatria como Discurso da Moralidade. Graal,


:Rio de Janeiro. 1979.
11 NUNES, S. A. Medicina social e R egulação do Corpo Feminino
Tese de mestrado. Instituto de Medicina Social da U.E.R.J., Rio de
Janeiro, 1982. mime~grafado. ·
lO FRErRE COSTA. J. opus cit.

65
nas últimas décadas da Prim,eira República volta-se cada vez
mais para a massa trabalhadora e para os setores populacionais
mais marginalizados. Esses setores começam a ter grande im-
portância política. O final da Primeira República é conhecido
por movimentos sociais diversos, que reivindicavam uma alte-
ração nas coodiçõ.es sociais de suas vidas. Há um forte mo-
vimento operário, assim como de associações civis de negros,
mulheres, etc.. Tudo isso causava grande convuls2o na cidade
e colocava em cheque o poder do Estado 11 . São freqüentes,
nesse periodo, trabalhos sobre a higiene de fábricas e operá-
rios, sobre a importância da educação popular ,e a n.ecessidadc
de organizar as famílias proletárias 1 2 • A herança cultural tra-
zida pelos negros, escravos, é uma preocupação constante. O
desregramento dos hábitos e das paixões do povo, os aspectos
degenerativos da raça brasileira, a falta de educação, moralida-
de e disciplina dessa população alarma bastante os médicos 1 3 •
A necessidade de controlar esses desvarios surge como a
tarefa mais urgente a ser executada. A esse empreendimento,
os psiquiatras vão se dedicar c.ada vez com mais afinco, pro-
duzindo programas que são verdadeiras pérolas, demonstrativas
do autoritarismo c do preconceito que formavam as bases de
suas teorias pretensamente científicas. Ideologicamente vão se

u ALBUQUERQUE, M.M., opus cit , PAOLI, M.C. Mulheres, Lugar,


Imagem, Movimento. in : Perspectivas Antropológicas da Mulher, n."
4. Zahar, R io de Janeiro, 1985.
12 Alguns textos são bastante claros a esse. respeito, tais como:
PEREIRA DE CARVALHO, M. A defesa da Maternidade em
Higiene Industrial. Tese apresentada à Faculdade. de Medicina. R io
de Janeiro, 1924.
RIBEIRO MOURA, C. A ssistência social à Maternidade Dewa-
Uda. Tese aprcse.ntada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
1917.
13 A esse respeito, de.ntre outros, podemos citar:
BARBOSA LIMA, P.J. O Aleitamento Mercenário e SuP fiscali-
zação. Tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Ja-
neiro, 1918.
RODRIGUES, J.F. O Aleitamento Mercenário. Tese apresentada
à Faculdade de Medicina tio Rio de Janeiro, 1922.

66
aproximando cada vez mais de um projeto político repressivo
e de dominação das classes populares.

II - O discurso psiquiátrico a partir dos anos 20

À medida em que esse discurso vai se tornando mais con-


tundente, vão sendo formulados programas de intervenção
sobre a população cada vez mais claros. Os :nédicos propõem
reformas nas legislações, aparecem sugestões de obrigatorieda-
de de exames pré-nupciais, inauguram-se serviços de assistência
materno-infantil, advoga-se a necessidade de restringir o traba-
lho feminino, de se criarem escolas cujo programa inclua o
ensino de determinadas normas, etc .. Começam a tentar am-
pliar seu discurso, levando-se às escolas, às associações de pro-
fessores, às revistas não especializadas, aos jornais e ao rádio.
Esse tipo de ideologia vai ganhando uma certa hegemonia
entre os psiquiatras e, na tentativa de melhor concentrarem
seus esforços, um grupo de profissionais de maior projeção
reúne-se e funda' a Liga Brasileira de Higiene Mental. Fundaóa
em 1923, a Liga tinha como objetivos bás:cos melhorar a assis-
tência aos doentes mentais, ao mesmo tempo em que visava a
prevenção e a educação dos indivíduos. A partir de 1926, co-
meçam a ser elaborados projetos que claramente ultrapassam
aspirações assistenciais e se embr.enham por uma perspectiva
de formular um projeto que tinha como fim estimular a euge-
nia. Em 1928, seus estatutos são reformulados e vão dar prio-
ridade a uma ação preventivista nos meios escolar, profissional
e social H.
Esses projetos que podiam se constituir em campanhas
contra alguns dos chamados ''flagelos nacionais", como o alco-
olismo, incluíam também cursos de aperfeiçoamento para edu-
cadores e professores, a organização de clínicas de assistência
infantil, podendo chegar, mesmo, a projetos de estímulo à prá-
tica de esterilização dos indivíduos considerados nocivos à

H FREIRE, COSTA, J. História da Psíg11iatria no Brasil. Documen-


tário, Rio de Janeiro, 1976.

67
sociedade. No centro destas formulações, estava a preocupação
com a raça brasileira, com seus aspectos inferiores, selvagens,
degenerados. A questão da eugenia torna-se o ponto principal
dos debates que vão se desenvolver e os psiquiatras vão elabo-
rando em projetos de ação prática toda uma ideologia que
está, nesse momento, com grande força em determinados seto-
res da intelectualidade.
A eugenia foi nesse período um tema nacional que alcan-
çou grande repercussão, e que tinha como base a preocupação
com a constit'.lição étnica do povo br,asHeiro 1 5. Em meio· ?,s
convulsões políticas do início deste século, vemos ganhar força
esse tipo de pensamento, numa tentativa de encontrar formas
de controlar as desordens sociais. Os problemas colocados pela
abolição dos escravos e sua conseqüente migração para a ~i­
dade; a migração européia e a constituição de um operariado
que começa a reivindicar e a se organizar em movimentos po- ·
líticos; os efeitos econômicos de uma industrialização nascente
e a prolctarização de determinadas camadas da população, os
movimentos reivindicatórios femininos e de mulheres trabalha-
doras, enfim, uma série de problemas, agravou as tensões
sociais, colocando em . risco a organização do Estado. A ne..
c.essidade urgente de reforçar a elite e conter a insatisfação
crescente das demais camadas da população faz surgir em toda
uma parcela da intelectualidade a tentativa de explicar .esses
conflitos como efeitos dos fatores raciais que fariam parte dn
constituição de nosso povo. Para eles era essa a causa dos
muitos problemas que a nação vinha atravessando. Esses inte-
lectuais, nos quais se incluíam expoentes de nossa psiquiatria,
foram buscar na constituição biológica do homem brasileiro as
explicações para os problemas econômicos c políticos coloca-

lfi D e acordo com Jurandlr Freire Costa, a questão do cuidado eugê-


n ico com a r aça brasileira foi introduzida no Brasil de início por
historiadores, sociólogos. antropólogos, etc., que difundiram, na
cultura brasileira, as idéias de eugenia originá rias dos meios inte-
lectuais europeus do começo do sécu lo XX. Este movimento a l-
t:ünço u profunda repercussão sobre a intelectu alidade brasileira das
três primeiras décadas do século XX. FRE IRE COSTA, 1. His-
tória da Psiqulalda no Brasil. Documentário, Rio de. Janeiro, 1976.

68
dos pela organização de um modelo capitalista para o Brasil.!&
Para eles, o homem brasileiro, com a presença de aspectos de-
generados herdados de raças inferiores, quais sejam, negros e
índios, tinha se tornado indolente, preguiçoso, indisciplinado,
um perigo ambulante para a ordem e o progresso nacionais.
São essas idéias que vão ganhar corpo, enquanto progra-
mas de saúde, nos discursos médico-psiquiátricos. Era preciso,
portanto, que o brasileiro "embranquecesse" e se tornasse um
ser civilizado, livre dos aspectos degenerativos, característicos
de raças inferiores. Os psiquiatras que, há muito, se preo-
cupavam com o contato do negro com o branco, como bem
demonstram as pregações feitas contra o aleitamento feito por
amas escravas, ou as relações sexuais entre senhor c escravo,
vão ter sua ideologia cada vez mais reforçada 17• Se, desde o
século XIX, já falavam dos negros escravos como um perigo
enquanto fonte do adoecimento da família senhor ial, devido a
seus costumes bárbaros e a seu pouco espírito c moralidade,
a sua constituição degenerada, foi com grande entusiasmo que
se apropriaram dos ideários ligados à noção de eugenia, reela-
bor.ando-os num projeto de higiene mental, que se voltava,
agora, não só para a família burguesa, mas, também e prin-
cipalmente, para a higiene do trabalhador c o controle dos
pobres.
O estudo psiquiátrico dessa massa desregrada vai se apro-
fundando cada vez mais e a luta da moral contra os impulsos
se acirra a cada dia, ganhando cores mais fortes e estudos mais
detalhados. Em se falando de impulsos e paixões, é claro que

16 idem.
17 Dentre outros trabalhos podemos citar:
CUNHA, H.A. Disser/ação Sobre a Prostituição. T ese aprcs:.-ntada
à Faculdade de Medicina do Rio de. Janeiro, 1845.
FERREIRA BRETAS, A.J. Dissertação Inaugural S<Jbre a Utiliza-
ção do Aleitamento Maternal e os Inconvenientes que resultam do
desprezo deste dever. T ese apresentada à Faculdade de Medicina
do Rio de Janeiro, 1928.
V ELHO PY, M. Aleitamento em geral e especialmente no Rio de
Janeiro. Tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Ja-
neiro , 1904.

69
o sexual vai ser retomado nessa perspectiva, e muitos com-
portamentos são tratados como desvios morais e anormalidades
psíquicas. As diferentes formas de expressão e exercício da
sexualidade são aqui tratadas como uma prova da primitivi-
dadc dos instintos o. que demonstram todos os seus aspectos
desregrados 1 R, E não só os atos são passíveis de serem con-
siderados amorais, mas, também, os pensamentos e as fanta-
sias. É preciso investigar os indivíduos mais profundamente
para se apreender aquilo que eles têm de mais perigoso, escon-
dido no mais íntimo do seu ser, para que possa melhor go-
verná-lo. Esse é o momento pelo qual passa a psiquiatria bra-
sileira, quando vão começar a ser introduzidas as primeiras
referências à teoria psicanalítica.

IH - A psicanálise dos psiquiatras

As descobertas freudianas começam a aparecer como ma-


téria a ser estudada nos mais diversos tipos de publicações
especializadas: em teses apresentadas à Faculdade de Medicina,
em revislas e compêndios de psiquiatria. Vários livros de im-
portantes psiquiatras exclusivamente sobre psicanálise são edi-
tados, com vistas ao ensino de sua teoria e de sua prática. É
assim que autores como J. P. Porto Carreira, Juliano Moreira,
Antonio Austragésilo, Franco da Rocha e Henrique ~oxo, ou
seja, a nata da psiquiatria brasileira da época, vão dedicar
grande parte de seu tempo ao estudo da matéria criada por
Freud.
Segundo Porto Carrero, foi o Professor Juliano Moreira
o primeiro a tratar dos métodos de Freud no Brasil. Já em
1914, na Sociedade Brasileira de Neurologia, Henrique Roxo
introduz a psicanálise na Faculdade de M ed icina e Carlos Seidl,

JS SP ARA NO, L. O Sexo em Patologia (a questão feminin a). Tese


apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de. Janeiro. 1916.
VIEIRA. J.G. O Imtinto Sexual. T ese apresentada à Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro, 1919.
AUSTRAGtSILO, A. Se.x.ualismo e Moral Científica in : ['esslmismo
Risonho. Guanabara, Rio de Janeiro, 19~2.

70
na Faculdade de Direito . Em 1926, é criada uma Clinica Psi.
canalítica na Liga Brasileira de Higiene Mental, e é também
lá que se podia encontrar uma relativamente vasta bibliografia
sobr.e psicanálise, bastante atualizada para a época. Ao mesmo
tempo, a partir dos anos 30, é crescente o interesse pela lite~
ratura dedicada à análise infantil, onde Melanie Klein e Anna
Freud têm livre trânsito. Agora, a maneira como todo saber
foi introduzido nessa psiquiatria parece-nos bastante curiosa.
É interessante notar como a maioria dos artigos sobre
psicanálise, principalmente os que se dedicam à divulgação
acadêmica ou não, de seus princípios, valorizam principalmente
a possibilidade de utilizar esse saber na pedagogia e num pro-
jeto de melhoramento das crianças e do povo de um modo
geral. Esta ciência por pe.r mitir um acesso ao que haveria de
mais profundo nos indivíduos, poderia ser de grande impor-
tância nesse projeto de pedagogia moral do povo. E é esse
aspecto que vai ser enaltecido e destacado. Ora, se a psiquia-
tria pretendia transformar os indivíduos no mais profundo de
seu ser, modificar comportamentos e desejos, intervindo no que
cada um pudesse ter d~ mais íntimo, nada melho.r do que
lançar mão de um saber que, segundo seus defensores, desven~
daria aquilo que estaria escondido nos escaninhos da mente,
e, portanto, fora do alcance dos métodos utilizados até então.
Os psiquiatras, mesmo fazendo algumas ou muitas restrições à
psicanálise, são unânimes em afirmar que ela se tornou um
dos temas mais importantes para o saber psiquiátrico,

"Se de seu aspecto meticuloso resulta que algumas de-


masias devem ser postas de lado, fato é que proveitosfs-
sima é a investigação que nos p~;:rmite devassar o pen ~
sarnento alheio e apurar a grande influência que nos dis-
túrbios dela desempenham as questões sexuais. A psica-
nálise consiste .em um método de exploração diagnóstica
em que se investiga o objeto <Jo pensamento alheio." 1o

9
l ROXO, H. Psicanálise in : Psícaná.lise e outros estudos. Conxson.
Rio de Janeiro, 1933.

71
Esse aspecto de ser uma prática que se caracterizaria como
um "endoscóp io" da alma alheia é um dos pontos que mais
agrada aos médicos. Através dele, pretendia-se corrigir. ns pre-
disposições mórbidas da infância c evitar futuros desvms. Pa-
ralelamente, este procedimento p oderia auxiliar na des~ob~rta
das causas das doenças, assim como nas raízes que moavar1am
um ato anti-s'JCial ou um crime zo. Portanto, todo aquele que
lidasse com doentes ou criminosos e, principalmente, com as
crianças, deveria ter acesso a esse saber.

"O nosso maior desejo é que aqueles que têm a seu


cargo, entre as mãos, a cera plástica de tan.tos es~írit~s
em formação, que vós, os mestres de nossos fdhos, ftqucts
sabendo o que é o interior dessas almas jovens que só
conheceis pelo aspecto exterior - segundo vô-lo eosi~ou
a psicologia clássica. A psicanálise pode ser desconh ~c1da
de todos os profissionais; mas ignorarem-na o méd1co e
o mestre é verdaderro. p ccado. )) 21

Desta forma , pode-se observar que o interesse ~os psiquia-


tras pela psicanálise volta-se muito mais para esta linb~ do ,q.ue
para uma utilização terapêutica pura e si~pk:s. A pstcana_l1SC
é valorizada enquanto um saber que poden~ se torn~r um ms-
trumento útil para os programas de eugema. É cunoso notar
que os textos psiquiátricos sobre psica~áli ~e 1~ão se pr~ocu?~m
com os aspectos antagônicos .e ntre a pstqu1atna e a psicanahse.
Alguns conceitos freudianos básicos, como as .noções de ~ncons·
ciente e Transferência são muito pouco valoriZados ou slmplcs-
mentc abandonados, porque, por suas características, coloca-
riam em xeque esta perspectiva eugênica, quando proposta a
partir da psicanálise. O que interessava era a possibilidade que

~o Embora este trabalho não vá abordar esse aspecto, consideramos


de importância capital para o estudo da introdução da psican~lis_e
no Brasil sua utilização numa vertente psiquiátrica ligada à c nml-
nologia. que se deu também de forma bastante significativa.
H PORTO CAR RERO, J.P. Emaios de Psic.anáJise -Flores~ Mano,
Rio de Jnncdro, 1934, p. 128.

72
alguns de seus postulados abririam para o projeto de controle
e transformação dos indivíduos. De maneira que, mesmo situa-
da dentro do rol das práticas terapêuticas possíveis para a
doença mental, este aspecto é deixado num plano bastante se-
cundário, em detrimento de suas supostas infinjtas possibilida-
des de utilização no social. A idéia de clínica psicanalítica
encontra-se sempre encoberta, praticamente desaparecida, em
meio às regras morais e às normas .educativas que dela se de-
preendem ao longo desse período.

3 .1 - A psicanálise e a teoria da degeneração psíquica

À medida em que os discursos psiquiátricos vão avançan-


do cada vez mais em seus projetos eugênicos, é bastante inte-
ressante perceber seu crescente interesse p.elos postulados freu-
dianos, que vão sendo descontextualizados e utilizados de acor-
do com suas formulações.
Ora, Freud, quando formula suas teorias, vai fazer algu-
mas ruturas com as teorias psiquiátricas que eram hegemônicas
no século XIX. Dentre essas ruturas, uma das mais importan-
tes é com o binômio degeneração-hereditariedade. Lançando a
idéia de Inconsciente e a noção de conflito psiquico, que coloca
como fator etiológico dos problemas mentais, tira a loucura do
campo do orgânico, colocando-a na esfera do psíquico. Freud
vai desarticular a loucura do campo médico à medida em que
devolve ao louco a sua palavra 2 a. Ao contrário do que reza
o discurso oficial (psiquiátrico) sobre a loucura, a palavra ou
o sintoma não vai ser aqui pensado como erro de razão, pro-
duzido por uma mente degenerada. Para Freud, um delírio ou
outro sintoma não deve ser simplesmente expurgado, ao con-
trário, é preciso que ele fale para que se possa recuperar seu
sentido. Para a psiquiatria, o delírio dev.e ser ca1ado, siiencia-
do, excluído da mente, porque é algo sem lógica e sem sentido.
Para a psicanálise, deve-se passar exatamente o oposto. Ê pre-

22 I:HRMAN. J. O Lugar do Pslquico na ExepcrUncia da Loucura, in:


Ciência Hoje, maio/junho l983, R io de Janeiro.

73
ciso que o indivíduo apreenda o sentido dos seus sintomas, para
que ele o compreenda dentro de sua história.
Ao mesmo tempo que pega um sintoma e demonstra que
ele tem um sentido lógico 23, vemos surgir também trabalhos
onde, falando do Inconsciente como uma outra cena que rege
a vida dos indivíduos e que seria o lugar onde cada um guarda
a sua verdade, Fr.eud procura mostrar que a " loucura", o in-
compreensível, está também no centro da estrutura normal, não
sendo, portanto, privilégio de doenças ou matérias médicas a..
Os sonhos, as piadas e os atos falhos possuem a mesma lógica
de um sintoma. Quando um sujeito apresenta um determinado
sintoma, não é porque ele sucumbiu a seus aspectos degenera-
dos, mas, sim, porque um sentido foi perdido, cabendo à psi-
canálise recuperá-lo.
Ora se a psicanálise postula um Aparelho Psíquico com
um funcionamento específico capaz de explicar que possamos
ser possuídos por impulsos jnconscientes, se esses impulsos
podem produzir conflitos entre as diferentes instâncias psíqui-
cas causando sintomas, não existe lugar para que se continue
falando de degeneração e hered'itariedade. É uma outra lógica
que rege a psicanálise e que a tira do campo da patologia p si~
quiátrica e da medicina llll.

23 Nesse sentido, a leitura dos casos clútioos de Fre.ud, como os de


Dora, Schreber e outros são exemplares.
2{ Alguns dos textos freudianos, tais oomo A Interpretação dos So-
nhos, Psicopatologia da Vida Cotidiana, Os Chistes e suas relações
com o Inconscieme, foram fundamentais para essa perspectiva.
2õ Freud aliás é bastante. claro quanto à necessidade de se desvincular
as psiconeuroses desta linha de pensamento. Já em 1895, embora
ainda sem ter formulado todos os conceitos que dão conta de sua
teoria. o autor é bastante enfático em oonsidcrar a histeria oomo
afecção fora do campo da degeneração psíquica. A partir do relato
de suas pacientes, vai dizer. oontrariando as idéias vigentes na
época, que a histeria mais grave pode coexistir com os dons de
naturC'a. mais rica c que é compatível com um caráter impecável
e um modo de vida bem orientado. Chama então a atenção dos
p1;iquiatras para que revejam seus conceitos e avaliem os riscos
que deles podem anvir.
Convocando a psiquiatria, que oonsiderava a histeria como um
exemplo ímpar da idóia de degeneração, a repensa r seus princfpios,

74
No entanto, esse tipo de formuJaç.â o não encontra eco na
comunidade psiquiátrica. Nossos autores não vão em momento
algum abrir mão da idéia de que a causa etiológica fundamental
~os distúrbios mentais são os estigmas degenerativos que se-
~Iam tran~mitidos hereditariamente. O resto pode até ter sua
1mpor.tânc1a mas é tratado como uma conseqüência desta falha
pr1me1ra. Alguns psiquiatras vão criticar abertamente as teses
freudianas, deixando-as definitivamente de lado e afinando-se ·
ao mo~elo psiquiátrico puro. Sobre a psicanálise, chegam mes-
mo a d1zcr que é edificada em conceitos ocos místicos incom-
pletos. Afirmam que medicamente o freudis~o pode ~er fator
de uma terapêutica razoável, enciclopedicamcnte pode ser uma
concepção de finíssima sabedoria, mas que filosoficamen te não
passa de, ~m ressurgimento metafísico com arrojos, temerida-
des, au~ac1a~ e ,c~nclusões de uma fantasia maciça .oo. E, por-
tanto, nao ha duv1da; entre uma e outra fica-se com as teorias
hereditárias que parecem muito mais lógicas e racionais do que
os processos psicodinâmicos.
No entanto, uma grande parcela dos psiquiatras da época
c, e~tre el.cs, alguns de seus maiores expoentes, vão defender
a p~1c.análtse, criticando-a parcialmente, aproveitando de sua
teo~Ja o que lhes parece útil, mas mantendo intocadas as idéias
bás1cas da psiquiatria, qual seja o binômio hereditariedade-de-
generação. Os distúrbios sexuais descritos por Freud são con-

marca clar~ente sua.s divergências em relação aos mesmos. Loao


no a~o s~gu_rnte, am?ha suas restrições ao entendimento psiquiátrico
d~ h.1stena as demalS neuroses, questionando a influência da h ere-
dJtanedade ~a etiologia das psiconcuroses em geral. Baseando ·se
em sua teona do trauma, coloca a hereditariedade em plano bas-
tante. ~ec~ndário, praticamente anulando.a de suas hipóteses. Com
~ conunwdade de seus estudos. com o desenvolvimento da tota-
hdade de suas teses, essas divergências vão se radícalizar termi-
nando por efetuar uma rutura t otal e oompleta com esses pres-
supostos te.óricos.
F.REUD, S. Estudos sobre HisttYia (1893-1895); Hereditariedade e
Etiologia das Neuroses. in Edição Standard Brasileira druJ Obras
ComplelruJ de Sigmund F r eud.
26
VIEIRA, J.G. O Imtinto Sexual. Tese apresentada à Faculdade
de M edicina do R io de Janeiro. 1919, p. 45.

75
siderados aspectos degenerados de uma personalidade que se-
riam encontrados na dependência de uma variação congênita
constitucional, qu.e seria o fator mais importante.
"Naturalmente podemos imaginar certas variações da dis-
posição original que, sem posterior aux.Oio, devem necessaria-
mente levar à formação de uma vida sexual anormal. Chama-se
.a esta degenerativa e consideramo-la como deterioração he-
reditária." 27
Para eles, os distúrbios sexuais descritos por Freud seriam
a expressão da degeneração psíquica de alguns. No entanto, o
fato de considerá-los como fruto de uma constituição anômala
não impede que os autores valorizem as teorias freudianas sobre
a sexualidade, colocando-as como uma das grandes descobertas
da época na área das doenças mentais. Embora não abando-
nem a teoria da degeneração, valorizam bastante a teoria da
sexualidade de Freud, e vão abordar diversas vezes o tema da
sexualidade infantil por abrir um vasto campo para que se
intervenha cada vez mais no cotidiano da população. Os psi-
quiatras não poderiam simplesmente abandonar seus antigos
pressupostos, porque eram estes que lhes garantiam a possibi-
lidade de implementar seus programas, que estavam aí caucio-
nados por uma pressuposta racionalidade científica. O conjunto
hereditariedade-degeneração era a pedra de toque que justi-
ficava todos os seus racismos e eugenismos. No entanto, a psi-
canálise abria perspectivas absolutamente sedutoras: tanto pelo
seu aspecto de propiciar a apreensão pelo ouvinte do que está
escondido na mente dos indivíduos, tanto pelo fato de dar novas
cor.es à relação doença-sexualidade.

3. 2 - A Importância da Sexualidade

Sem dúvida nenhuma a teoria da sexualidade é um dos


pontos-chave para a incorporação da psicanálise pela institui-
ção psiquiátrica. Por um lado, porque Freud vai fazer uma

27 ROCHA, F. O Pan -Sexuafismo na doutrina de Freud. Typografia


Bra~il de Rotschild. São Paulo, 1920, p. 49.

76
ligação entre neurose c sexualidade, por outro lado, porque
através do estudo da sexualidade infantil vai abrir um novo
flanco para a perspectiva pedagógica desta psiquiatria.
É verdade que a questão sexual já era uma preocupação
médico-psiquiátrica, desde que o problema da transmissão here-
ditária dos estigmas degenerativos se colocou. A idéia dos cui-
dados em relação à procriação c a uma suposta promiscuidade
sexual dos indivíduos, estava bastante presente desde o século
XIX. As práticas sexuais que não visassem a reprodução eram
consideradas contra a natureza c, como tal, uma ameaça ao
equilíbrio social. Diversos trabalhos voltaram-se para esses
temas e questões como casamentos inadequados, contato com
prostitutas e escravas, adultério, masturbação, homossexualis-
mo, sodomia e perversões em geral eram tratadas como um
perigo virtual para a espécie, para a ordem c o progresso físico
e moral do povo.
O ~roblema da hereditariedade colocava o sexo como algo
que devta se voltar para uma perspectiva de responsabilidade
biológica para com a espécie. Pensava-se que, através do sexo
não só o indivíduo poderia ser afetado por diversas doenças:
como, também, poderia transmiti-las para gerações futuras. Daí
o projeto médico e também político de organizar uma gestão
estatal dos casamentos, na~cimentos e sobrevivências: o sexo e
s~a fecundidade dev:riam ser administrados. É desta perspec-
tiva que vemos surgrr uma medicina das perversões e .os pro-
gra11_1as de eugenia, que se articularam facilmente, porque a
tcona da degeneração permitia que elas se referissem uma à
outra: ela explicava de que modo uma hereditariedade carre-
gada de doenças produzia um perverso sexual, assim como de
que modo uma perversão sexual induzia a um esgotamento da
descendência 28.
Formula-se, então, todo um discurso sobre o sexual Os
médicos vão começar a postular de que forma e em que ·Íugar
a sexualidade pode e deve ser exercida, para que não só se
procrie, mas que se procrie bem. Fala-se como deve ser o sexo

~s FO
· UCAULT, M. História da Sexualidade. A vontade de saber.
Graat, Rio do. Janeiro, 1977, p. 111/1 12.

77
para os homens e para as mulheres. O casal deve se voltar para
uma prática higiênica e livre de taras ro. O prazer é importante,
na medida em que funcione como uma moJa propulsora, que
leve à consecução do ato com vistas à procriação. Tudo mais
deve ser prescrito e passa a ser tratado como ato contra a espé-
cie, que pode levar ao desgaste físico e moral, a um enfra-
quecimento .e conseqüente adoecimento. Mas não são só os
atos em si que devem ser corrigidos; a imaginação, as fantasias,
os desejos também devem ser observados, e é preciso afastar
e neutralizar qualquer idéia que possa provocar ou levar a uma
prática sexual anômala. Diz-se que é preciso evitar os estímulos
excessivos, que possam desvirtuar os fins nobres para os quais
deve se voltar o instinto. Um controle total da vida afetivo-
-sexual passaria, portanto, por uma disciplina desses desejos c
fant asias. É p reciso que se penetre no mais íntimo dos indi-
víduos e das alcovas, que se apreendam os desejos e devaneios
circulantes, que se busquem as imagens mais escondidas, para
que os desvios e os excessos possam ser corrigidos. Mesmo em
relação ao casal, os psiquiatras são unânimes em afirmar que
existe uma sexualidade moldada pelos preceitos da hig!ene físi-
ca e moral, que não permite excessos quantitativos ou práticas
imorais. Para eles, o sexo, embora necessário, é também uma
ameaça, um perigo para a espécie, já que facilmente pode des-
governar, degenerando-se.
"Não são poucos, senão muitíssimos, os sofrimentos,
as moléstias do sentimento que se orjginam da insatisfa-
ção ou do abuso do instinto sexual. . . A vida sexual não
é um mal nem um bem - é a fatalidade biológica. O
homem deve tudo fazer para aperfeiçoá-la e não para
deturpá-la." 30
O autor mostra que a questão sexual, ponto nevrálgico ao
projeto de aperfeiçoamento da espécie, está no limite entre o
sucesso e o desvario. O aperleiçoamento da vida sexual que ele

~o FREIRE COSTA, J. Ordem Médica e Norma Familiar.


so AUSTRAGÉSILO, A. A Neurastenia Sexual e seu Tratamento.
Francisco Alves. Rio de Janeiro, 1928, p. 10/ll.

78
advoga é aquele no qual o indivíduo deve abrir mão de pra~
zeres "egoísticos", em nome do bem-estar geral, c faz uma
crítica àqueles que não se guiam por essas normas.

"Amar é procriar, dizem os filósofos e biologistas, e


assim deveria ser. Porém o homem de ordinário, quando
ama não pensa na procriação, senão no egoísmo senso-
rial da "epilepsia brevis" no prazer, na convulsão das
moléstias nervosas que o entorp.ecem e saciam." 31

R eduzindo a dimensão prazerosa d a sexualidade a uma


''epilepsia breve'' de fundo egoístico, o autor culpa os homens
por sua falta de responsabilidade perante as gerações futuras,
valorizando a norma moral em detrimento do prazer sexual.
A questão do prazer se não pode ser anulada, sob o risco de
não mais se procriar, deve ser relativizada diante de uma pers-
pectiva mais "nobre".
Se a sexualidade é este monstro a ser domesticado, a psi-
canálise surge como um atraente método auxiliar. Dissecando
seu desenvolvimento passo a passo, serve como um guia pre-
cioso para esta tentativa de desvendamento e controle. A lei-
tura das teses freudianas sobre a sexualidade, o desenvolvimen-
to da libido, sua importância nos distúrbios neuróticos é feita,
então, a partir dessa perspectiva.
Freud, desde seus Estudos sobre Histeria, vai propor que
por trás de toda neurose existe um conflito de natureza sexual.
Nossos psiquiatras vão dar louvores a essa noção, que é, sem
dúvida, uma das que mais vai de encontro às suas pretensões.
Se a sexualidade está na base da doença, isto significa que ela
representa necessariamente uma ameaça à saúde, o que leva a
psiquiatria a adotar facilmente este princípio da teoria psica-
nalítica. No entanto, é interessante perceber as distorções que
essa idéia vai sofrendo, à medida em que vai sendo inserida
em seus projetos.
É assim que vemos ganhar força a idéia de que os excessos
sexuais são tóxicos. Por excessos sexuais entenda-se a freqüên-

:11 i<l.:m, p. 12.

79
cia das relações, assim como as práticas sexuai,; que não se
limitam ao coito propriamente dito e que são consideradas
perversas, degeneradas. Assim, a idéia de que a doença é fruto
de um desregramento da sexualidade ganha outras cores, com
um caráter absolutamente moralista. Por outro lado, a ausên-
cia da sexualidade não é menos ameaçadora. A partir de um
certo período de vida c durante a idade adulta, apropriada à
procriação, o indjvíduo deve ter uma vida sexual adequada,
para que os instintos não exerçam uma pressão tal que desor-
ganize todo o equilíbrio pessoal.
Em relação à postulação da existência de uma sexualidade
infantil, o discurso psiquiátrico é também bastante peculiar.
Quando Freud postula a existência de uma sexualidade infantil,
vai falar que esta se constitui de pulsões parciais, isto é, que
se exercem como atividades sexuais parcelares (tais como o
exibicionismo, o sadismo, etc.), e a isso ele vai chamar de
perversidade polimorfa, que seria a forma de exercício da se-
xualidade característica da infância. Mais precisamente, ele vai
frisar que essas pulsões não são pervertidas, no sentido de
uma anormalid:::.de mas que, ao contrário, fazem parte da
organização normal da sexualidade humana.
Alguns vão considerar um exagero de Freud a generaliza-
ção desses aspectos para todas as crianças; não os consideram
normais, e acreditam que existam em função de um desenvol-
vimento anômalo. Existiria urna sexualidade infantil normal e
outra anormal. Concordam com Freud em relação à descoberta
desta sexualidade na vida de algumas crianças e sua relação
com as futuras neuroses, mas discordam de sua universaliza~
ção. Acreditam que sua existência está muito mais na depen-
dência do já conhecido desregramento da moral sociaL F reud
estaria certo em relação ao que viu, mas errado em sua expli·
cação para o fenômeno.
"A grande importância dada aos acidentes traumáti-
cos sexuais da vida infantil, e a grande cópia de material
de distúrbios sexuais constatados por Freud, se explicam
pela atmosfera de licenciosidade que reinava em Viena."82

32 ROXO, H. Psic.atuílise. p. 33

80
Dizer que Freud encontrava os distúrbios de seus clientes
em função da atmosfera de licenciosidade vieneose é o mesmo
que dizer que este "clima social permissivo" trazia uma dege-
neração moral e que esta seria a causa principal do apareci-
mento de distúrbios sexuais. A sexualidade infantil é tr3nsfor-
mada em um produto de uma civilização degenerada e ganha
o teor de um fenômeno claramente anômalo. Esses fatos leva-
riam então à doença, em função de estar a libido desvi?.da de
seu fim normal, produzindo sintomas e sofrimentos neuróticos.
"Os distúrbios da vida sexual muito influem na gênese <_ta
histeria e da neurosa obsessiva. O estado afetivo ·nada mais
seria do que a libido desviada de seu fim natural." 3S
É interessante notar que o fim "natural" da libido é ba-
seado em critérios bastante particulares do autor. Um de seus
exemplos de "desvio sexual'', gerador de doença, é o fato de
um indivíduo manter relacionamentos -clandestinos, extra-con-
jugais, pelo estado de grande emoção em que isto ocorre. Ora,
mesmo para aqueles que possuam um pa.-âmetro de normali-
dade sexual bastante rígido, dizer que o adultério é anormal
sexualmente falando é, no mínimo, curioso. No entanto, nada
parece deter o moralismo destes higienistas que, diante de suas
perspectivas, não hesitam em tratar qualquer tipo de compor-
tamento social como distúrbios do instinto e da moral. Esse
tipo de argumento é muito utilizado em diferentes textos.
Outros autores vão concordar que todas as crianças vão
percorrer o percurso descrito por Freud, isto é, com o .aspecto
genera1izador de suas teorias. No entanto, ainda assim, a ma~
neira como falam desta sexualidade, a necessidade imperiosa de
que ela seja vigiada e reprimida, mostra como ela é ainda vi-
vida como uma aberração, próxima da anonnalidade. A se-
xualidade humana é em sua natureza algo ruim, perverso. É
um absurdo negar sua existência, mas principalmente porque
é preciso v!giá-la e domesticá-la, porque ela pode sempre de-
generar em alguma anomalia. O pavor demonstrado por essa
sexualidade sem regras e sem normas aparece, por exemplo,
na qu~nt i dade de cuidados que os médicos prescrevem para os

33 idem. p. 34

81
educadores, de forma a moldá-la c neutralizar seus perigos,
como se pode observar na quantidade de conseqüências desas-
trosas que Porto Carreira denuncia a partir do hábito de chupar
o dedo ou a chupeta.

"O Complexo de Sucção, que consiste na persistência


do hábito cJe chupar o dedo ou a chupeta, degenera mui-
tas vezes, mais tarde, nos vícios que se satisfazem pela
boca - a glutoneria, o alcoolismo, ou mesmo por ana-
logia, o cocainismo, o morfinismo." <~'

Diante desse risco, seguem-se várias regras de educação do


instinto, para que se evite esses distúrbios, como veremos mais
adiante. O caráter anômalo da sexualidade infantil e da per-
sistência de seus componentes na vida adulta é frisado todo
tempo. A sexualidade é como uma massa de modelar que deve
ser bem trabalhada para chegar a um fim útil, evitando as per-
versões. Entretanto, o conceito de perversão é utilizado aqui
de uma maneira bastante diversa daquela encontrada no texto
freudiano. Para essa psiquiatria, as perversões são encaradas
através da ót:ca da moral c do comportamento social. Utiliza-se
o termo num sentido de um desregramento instintivo, qualifi-
cando assim o caráter e os hábitos dos indivíduos, o que mo-
difica bastante seu sentido, em relação àquele que está implí-
cito nas teorias psicanalíticas. Para Freud, só haveria uma per-
versão psicopatologicamente falando, quando alguma dessas
pulsões, no adulto, se desvinculasse das outras e se tornasse
o único fim sexual visado pelo indivíduo, isto é, se ela expulsa
o objetivo sexual normal completamente e toma o lugar dele
em todas as circunstâncias, ganhando características de exclu-
sividade e fixação. Os psiquiatras, entretanto, vão tratar as
formas de expressão da sexualidade infantil e seus equivalen-
tes na vida adul1a como anomalias que devem ser corrigidas,
generalizando-as para todos os indivíduos, que já nasceriam
com uma constituição básica anormal, que deve ser paulatina-
mente regenerada.

34 PORTO CARRERO, J.P. Ensaios áe Psicanálise, p. 165.

82
Nossos psiquiatras ccntrapuscram basicamente sexualidade
e moral social. Para eles, há uma sexualidade boa e uma má,
de acordo com uma perspectiva de moralidade social. A sexua-
lidade infantil é má, perversa, tem de ser corrigida. As normas
morais são, ao contrário, detentoras da normalidade e da saúde.
O neurótico é pensado como alguém que não se deixou domi-
nar pela moral, sendo, portanto, um rebelde. Rebelde às nor-
mas morais, rebelde às normas sociais, alguém que deve ser
localizado e tratado convenientemente. Tratamento este, que
obviamente visaria a correção de suas anomalias a fim de ga•.
rantir um futuro sem taras. E as taras são muitas: ora é a
excitabilidade precoce, ora são as práticas anormais, ora a indi-
ferença sexual; ora o homossexualismo não bem determinado,
ora as tendências vagas e os excessos de carinho. Todas as
variações possíveis da vida sexual podem ser tratadas como
aberração e, para melhor demonstrar o perigo que está embu-
tido nessa sexualidade, os psiquiatras vão colocar no mesmo
plano fenômenos tão distantes quanto os sonhos eróticos e os
crimes sexuais. Para eles, não há diferença, tudo aponta em
direção a uma perve~sidade distanciada da ética de uma se-
xualidade supostamente normal.
O que está implícito nesse discurso é a tentativa de adaptar
a sexualidade e domesticar as paixões em nome de um pro·
jeto de aperfeiçoamento racial.

"Por toda parte do mundo civilizado, os higienistas


e, ainda mais, os eugenistas, estão pregando doutrinas
úteis ao equilíbrio de tão importante faculdade animal.
Os Estados Unidos, a Inglaterra, a Suíça, esforçam-se
com propagandas enérgicas e convenientes para melhorar
a vida genital dos rapazes, das moças e <.ta população em
geral. O fito está no aperfeiçoamento das raç.as." s;;

É pensando nesse aspecto de uma correção adaptativa da-


quilo que é irracional, passional c impulsivo que os psiquia-

3~ AUSTRAG:E:SILO, A . A neurastenia sexual e seu tratamento. p. 14.

83
tras vão lançar mão de determinados conceitos psicanalíticos,
descontextua1izando-os e modificando-os violentamente.

3. 3 - Tratamento moral e psicanálise

Corno dissemos anteriormente., enquanto prática te::apêu-


tka, a psicanálise é relegada a um plano bastante secundário
no discurso psiquiátrico desta época. Alguns adotam determi-
nados pontos de suas concepções teóricas e deixam os aspc~
tos clínicos no esquecimento. Outros vão procurar adotar algu-
mas "técnicas" psicanalíticas, mas fazem-no de tal forma que
fica difícil reconhecer em sua prática o método criado por
Freud. De uma maneira geral, a idéia básica de que, através
da psicanálise, pode-se ter acesso àquilo que está no incons-
ciente, é o que mais vai interessar. Os p siquiatras vão valorizar
a idéia de que seria possível penetrar nos pensamentos mais
íntimos dos indivíduos, conhecer as idéias que conscientemente
tentariam esconder. Este desvendar dos conteúdos inconscientes
ganha em seus prine!pios um aspecto quase violeotador de
segredos, como se pode observar na forma como Henrique
Roxo define esta técnica.

"Se, de seu estudo meticuloso, resulta que algumas


de suas cláusulas devem ser postas de lado, fato é que
provcitósfssima é a sua investigação que nos permite de-
vassar o pensamento alheio, e apurar a grande influência
que nos distúrbios dela desempenham as questões se-
xuais. A psicanálise consiste em um método de explo-
ração diagnóstica, em que se "investiga o objeto do
pensamento alheio, a curar uma doença mental que lhe
atollie. " 36

Reduzindo a psicanálise a um método de exploração


diagnóstica, os psiquiatras demonstram que seu interesse maior
é em saber o que se passa no íntimo de cada ~· a fim de

30 ROXO, H. Psi,·análise. p. 17

84
classificar os fenômenos e formular algum tipo de perspectiva
terapêutica, que pelo que se observa nos textos, são aquelas
prátic:ts clássicas da psiquiatria.
Para esses psiquiatras, o importante é o aspecto de inves-
tigação dos desejos, que muitas vezes ganba um aspecto de
investigação p olicial. Se o que está no fundo de toda doença
mental é: um conflito de natureza sexual, e se estes costumam
ser escondidos pelo p aciente, é preciso que o médico tenha
bastante perspicácia e possa chegar a desvendá-lo. Deve-se
estar atento aos mínimos detalhes da fala do paciente: a maior
emoção diante de uma pergunta, a distração mais notável em·
certos momentos, o olhar investigador, o tema predileto de uma
palestra, a ogerisa preferencial a r espeito de algum assunto,
esses são os sinais que devem guiar o médico para que ele
possa chegar ao núcleo do problema. O importante aqui é
desvendar esse mistério, e para evitar que o paciente desconfie
de suas intenções e desvie a conversa, é melhor que o tera-
peuta proceda a esse interrogatótio, sem que este desconfie
de onde se pretende chegar. Não se fala dessa busca como
algo em que o paciente deva ter uma participação consciente
em função de um desejo e uma necessidade sua, o que importa
é atingir esse objetivo, independente que o paciente esteja cons-
ciente disto ou não. Algumas v.ezes, em função da vergonha
ou do medo que o doente sinta, em relação a seus problemas,
é mister que esta investigação se dê de uma forma disfarçada.
"Na investigação dos sonhos é preciso fazê-lo sem
que o indivíduo perceba que se quer conbeeer o seu
btirno. É necessário prestar atenção nos temas e ver se
não há um assunto qualquer que a cada passo venha à
tona. A pessoa deixa muitas vezes, por este processo,
trair o seu segredo." s1

Assim, devagarzinho, como qu em não quer nada, vai o


"analista" tentando descobrir aquilo que está escondido. P ara
obter bons resultados, qualquer procedimento seria válido,

il1 ROXO, H. Sexualidade e Demência Precoce. In: Arquivos Brasl-


lt:iros de Ne.uriatria e Psiquiatria, Rio d~ Janeiro. )919.

85
mesmo que ele não tenha absolutamente nada a ver com um
método psicanalítico, como no caso da utiJjzação do galva-
nômetro, aparelho preconizado como muito útil para esses fins
por todos os que se pretendem exercendo a psicanálise. O
galvanômetro é um aparelho que visa a detectar os reflexos
psico-elétricos, para descobrir qual a idéia que mais perturba
o indivíduo. Coloca-se o padente dentro de um círculo galvâni-
co e verifica-se, no galvanômetro, a modificação da intensidade
da corrente, sempre que se profiram palavras que tiver em qual-
quer relação com a preocupação dominante. Este método fun-
cionaria como um auxiliar às pesquisas feitas através da asso-
ciação de idéias, em casos onde a resistência é muito grande.
O que se pretende aqui é poder chegar à verdade que o pa-
ciente "esconde", e é. interessante notar que, nesta verdadeira
guerra que se arma no intuito de dobrar o doente, é como se
este soubesse o que se passa, mas quisesse ocultar do médico.
É preciso, entao, que ele confesse seus erros, seus crimes, seus
pecados.

"É uma verdadeira investigação do pensamento que


se faz e para isso é mister que o doente tenha confiança
em quem o observa. É preciso que o médico àprendà a
ler na fisionomia do doente e das meias palavras possa
coligir razoavelmente as frases inteiras. É uma verqadeira
obra de confessor, que é muitas vezes a chave de uma
cura definitiva," as

Essa idéia da confissão está presente o tempo todo nos


textos que advogam a utilização da técnica psicanalitica para
o tratamento da doença mental, A confissão seria um dos pro-
cedimentos necessários ao desenvolvimento desta psicanálise. O
médico deve, lentamente, conseguir chegar às anomalias sexuais
<J.os clientes.

"As palestras confessadoras devem ser preparadas cuida-


dosamente. Demandam vagar e tato. Fazem-se por seqüên-
38 idem.

86
cias lógicas. O médico procura, em primeira linha, captat
a confiança do doente, fazendo-lhe exame minucioso e
ouvindo com atenção suas queixas. Lentamente, o mé-
dico irá indagando da vida sexual atual, com jeito, para
que não se perpetrem mendácias, e para que o pudor não
venha perturbar a psicanálise." ae

Esta confissão é necessária, para que o psicanalista des-


cubra todos os pensamentos repugnantes, imorais e violentos,
e para que o doente conheça as "torpezas" de seus desejos
inconscientes e ocultos, e possa, então, utilizar de modo normal
e razoável essa energia afetiva mal distribuída. Desta forma,
vemos transformar-se o conteúdo inconsciente em algo ruim
e anormal. O Inconsciente seria, no dizer de Antonio Austra-
gésilo um "eu bastardo", que teria de ser corrigido. 40
Desse modo, pensando o Inconsciente através de uma ótica
moral, os psiquiatras vão utilizando a psicanálise como uma
técnica de correção do mesmo. A psicanálise visaria transfor-
mar o que é amoral em algo condizente com suas normas de
pensamento e conduta.
É notável como esse processo de adestramento psíqu!co,
tão característico das práticas psiquiátricas clássicas, permanece
intacto nessa pressuposta abordagem pskanatítica. É preciso
corrigir os erros da razão, c os princípios éticos dos indivíduos.
Para isso, vão ser preconizadas algumas formas psicoterápicas
que se proporiam a levar a cabo, com sucesso, essa "experiên-
cia psicanalítica". Entre as técnicas terapêuticas citadas como
eficazes, temos: a condenaçM, a sublimação e a prâtica sex"J(ll
normal. .
1. O método da condenação consiste em fazer vir à tona
o complexo recalcado, e demonstrar ao doente que deve reagir
contra ele e buscar pô-lo inteiramente de lado. É aquele que
deve ser empregado principalmente em relação a idéias con·
denáveis. Há uma verdadeira ação de psicoterapia e o médico,

AUSTRAGÉSILO. A. As forças cwativas do esplriiO. Francisco


:.10
Alves. Rio de Janeiro, 1926, p. 165/166.
10 idem, p. 25.

87
como amigo e conselheiro, vai dando o seu parecer e emitindo
conselhos que muito aproveitam os doentes.
2. O método ca sublimação consiste em fazer com que
o doente se entregue a um trabalho que lhe desvie o pensa-
mento do complexo torturante, ou se distraia em práticas des-
portivas, folguedos diversos, etc. . . O traballio representa um
dos melhores recursos terapêuticos da psiquiatria, e o médico
que o prescreve está, muitas vezes, a fazer psicanálise.
3. O método da prática sexual consiste em buscar nor~
malizar a vida sexual. Este método iria desde uma orienta-
ção adequada de como evitar procedimentos e hábitos pato-
gênicos até incentivar a existência de uma vida sexual, por
meios adequados, no caso de uma abstinência desnecessária e
adoecedora. ~1
Essas regras cbamam atenção pelo grau de antagonismo
que apresentam, em relação aos postulados freudianos sobre
técnica psicanalítica, onde ele é bastante enfático em criticar
muitos desses procedimentos. 42 M{.is detalhadamente, é inte-
ressante verificar a forma com que determinados temas e prin-
cipias técnicos são tratados por essa psiquiatria.
Em relação aos sonhos, por exemplo, o discurso psiquiá-
trico diz coisas surpreendentes, principalmente em se pensando
a importância que o estudo dos sonhos têm para a teoria e a
prática psicanalítica. Desde a sua interpretação dos Sonhos,
datada de f900, certamente um marco na bistória da psicaná~
Iise, que Freud abriu um lugar fundam ental para a questão
dos sonhos na psicanálise. Durante toda sua obra, nunca abriu
mão da importância destes para seu método, quer no sentido
da investigação do inconsciente, quer no sentido terapêutico. Os
sonhos se tornaram um dos temas principais da pesquisa psi-
canalítica e um dos maiores auxiliares no tratamento das
neuroses.

u ROXO, H. Psicanátlse. p . 35/36.


~ A Cl!Se respeito. por exemplo:
FREUD. S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise
(1912). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sig-
mund Freud, vol. XII.

88
No entanto, nossos psiquiatras vão abrir mão c deixar de
lado o estudo dos sonhos, com uma grande facilidade. Embora
concordem que os sonhos possam ter significados ligados à
história do indivíduo, vão menosprezar sua utilidade no método
terapêutico, alegando para isso que não se pode considerar o
relato de um sonho fidedigno, porque o paciente sempre po-
derá ocultar seus detalhes, de forma mais ou menos deliberada,
prejudicando assim sua compreensão.

"Indagando dos sonhos dos indivíduos, muito se desco- ·


bre do pensamento deles. No entanto, não confio muito
nessas investigações, não só porque uma pessoa pode não
sonhar, como pode esconder, propositadamente, tudo que
possa facilitar descobrir a idéia desagradável." •s

Desta forma, sob o argumento de que não se pode con-


fiar no que diz o paciente, deixam de lado um dos grandes
sustentáculos da psicanálise. No entanto, o que se pode pensar
desta postura psiquiátrica diante dos sonhos é qu~ ela renega
na verdade o Inconsciente freudiano, enquanto estrutura psi·
quica, por buscar basicamente um projeto de regulação das
paixões. Além disso, aceitar a forma como a psicanálise trata
os sonhos seria aceitar uma outra lógica de funcionamento psí-
quico, que nada tem a ver com degenerescências e heredita-
riedades e que, em se tratando de uma atividade facilmente
visualizável em pessoas normais, colocariam em xeque esses
mesmos princípios. É mais fácil, portanto, abandonar esse tema,
evitando assim maiores contradições.
Outro ponto básico em psicanálise que praticamente não
t.em lugar em seus discursos é a questão da transfer2ncia. Em
se falando em método terapêutico psicanalítico, se fala, ne-
cessariamente, em transferência, mas, ao que parece, não aqui.
Ora, Freud faz da transferência uma pedra angular do
tratamento analítico. É o terreno em que se joga a problemá-
tica de um tratamento psicanalítico. Sem ela, não há psicaná~
lise. Na medida em que suas pesquisas vão evoluindo, e que

·J:J ROXO, H. Psicandfise. p . 30.

89
os entraves terapêuticos vão surgindo, essa noção vai ganhando
um lugar de destaque em seus escritos, tornando-se então um
dos pressupostos bás!cos de sua teoria. Para a psicanálise, fora
de uma relação transferencial analista-paciente, delimitada por
determinadas condições, não há psicanálise possível, sem que
o paciente atualize seus desejos inconscientes, infantis, em re-
lação ao analista, a psicanálise não se dá. No entanto, para
nossos psiquiatras, a transferência é algo desnecessário ou,
então, perigoso.
Se a p sicanálise acontece a partir de uma relação transfe-
rencial, que se estrutura em condições propícias, relativas ao
setting, a freqüência semanal, a duração das sessões, isto é,
dentro de um enquadre essencial para que essa experiência se dê,
são no mínimo estranhas determinadas formas de "psicanálise"
defendidas por esses autores. Em relação ao tratamento de
doentes neurastênicos internados, Porto Carrero vai falar, por
exemplo, do papel da enfermagem: o psicanalista informará ao
enfenneiro a maneira como deve se comportar em relação aos
pacientes, e o enfermeiro o informará sobre os sonhos dos
pacientes ou sobre 'seus atos falhos durante o dia. A descrição
dada deste tratamento deixa a impressão de que o importante
é que o p aciente seja vigiado a cada minuto e que se tenha
.acesso ao seu cotidiano e sua intimidade. 44
Paralelamente, no caso da transferência aparecer e come..
çar a trazer problemas e interferir no tratamento, alguns pro-
cedimentos deverão ser adotados. Uma forma de lidar com a
transferênci~, segundo os autores, seria fingir que ela não existe.

"Pode suceder que haja um transfer afetivo em r~lação


à pessoa do médico, e que a doente agradecida, a quem
por ela revela tanto interesse, comece a se apai.."tonar por
ele. Será preciso que o médico finja que não percebe este
sentimento e continue a fazer psicanálise." 4 r;

.a PORTO CARRERO, J.P. Enfermagem no Tratamento das Neu-


roses. Arquivos Brasileiros de Higiene Mental - Janeiro/Setembro
- 19321 Rio de Janeiro. 1932.
45 ROXO, H. Psica,dlise. p, 36

90
Evita-se, po.rtanto, a transferência, como se ela constituísse
simplesmente num estorvo, e não em algo qt.c é parte inte-
grante deste tratamento. Calcados nessa idéia, vão propor tam-
bém, como uma outra maneira de lidar com esse fenômeno, a
interrupção pura e simples do tratamento,46 o que mostra que,
segundo a visão psiquiátrica, a transferência deve ficar fora do
tratamento.
Como se dá com a questão da transferência e dos sonhos,
muitos outros pontos cruciais da teoria e da técnica psicana-
lítica são ou deixados de lado, ou transforma~os em função
de uma determinada perspectiva. O discurso sobre a psica-
nálise, que vai sendo fo.rmulado por essa psiquiatria, se distan-
cia de tal forma de seus fundamentos básicos, <;uc começa-se
a não mais reconhecer nele o que seria uma pcicanálise pro-
priamente dita. Mas os psiquiatras se sentem continuadores de
Freud e vão tentar sempre divulgar suas teorias ampliando seu
raio de alcanoe e esperando que ela se constitua em mais um
método auxiliar ao projeto ~ugênico mais global.

lV - Psicanálise e Higiene Social

Dentro do projeto médico psiquiátrico de transformação


do corpo social, os eugenistas vão l'rivilegiar uma proposta de
intervenção junto às crianças e, paralelamente, junto àqueles
que são responsáveis por seu desenvolvimento. Com o objetivo
de preparar a infância brasileira, para um futuro livre de aspec-
tos degenerativos, e, conseqüentemente, para o bom des~nvol­
vimento da ordem social. a higiene vai formular regras minu-
ciosas, mudança no sistema educativo, com vistas a garantir
uma boa formação física e moral de cada cidadão. Nessa pers-
pectiva, formula-se um projeto pedagógico e de controle do
cotidiano, que deve ser exercido não só sobre as crianças, como,
também, sobre se<!s responsáveis, considerados como peças-
-chave dessa estratégia.

40 PORTO CARRERO, J.P. Ensaios de psicanálise. p . J18

91
4 .1 - Por uma pedagogia da infância

Apesar da criança ter sido uma das peças chave na preo-


cupação dos higienistas desde o século XIX, 47 a questão dos
cuidados com a infância brasileira estava na ordem do dia du-
rante o~ anos 20 e 30. Em 1922, o I Congresso Brasileiro de
Proteção à Infância, parte das comemorações do Centenário
da Independência .do Brasil, mostrava uma preocupação clara
com a garantia do futuro da nacionalidade. Entendia-se como
fundamental, na consecução desse objetivo reformador das men-
talidades, o papel da pedagogia, existindo a crença de que pela
multiplicação das instituições escolares, seria possível incorpo-
rar grandes camadas cta população no rumo do progresso na-
48
cional, reformando-se a sociedade, pela reforma do homem.
Na década de 20, a educação foi tema de vários debates: mul-
tiplicam-se as obras de pedagogia, cri2m-se coleções especia-
lizadas, promovem-se congressos, etc. Destacam-se as reaH~a~
ções da Associação Brasileira de Educação, fundada no Rto,
em 1924. Esta entidade mantinha constantes vínculos com a
Liga Br~sileira de Higiene Mental. 49
É dentro deste projeto social mais global que vemos os
psiquiatras formularem seus dilõcursos ~ programas de higiene
mental, buscando formas mais efetivas de atuação, junto à po-
pulação infantil.
Em 1925, Ernani Lopes e Maurício de Medeiros idea-
lizam e organizam um ambulatório de psiquiatria, que visava
uma intervenção preventiva junto à crianç~ e à família. For-
mularam um plano pormenorizado para um serviço psiquiátrico
ambulatorial com o seguinte programa:
a) segundas e sextas-feiras
- Prevenção dos acidentes nervosos da infância, conselhos
às mães c às amas, pelo Dr. Gustavo Ricdel.

47 FREIRE COSTA, J. Ordem Médica e Norma Familiar.


48 SCHECHTMAN, A. Psiquiatria PreYemil•a: Infância e Eufrenia.
Dissertação de Mestrado. Instituto de Medicina Social da UERJ.
1981.
49 A esse respeito. ver SCHECHTMAN, A. opus cit.

92
- Clínicas de toxicômanos, conselhos às suas famílias, pelo
Dr. Cunha Lopes.
b) terças-feiras
- Assistência profiláticn dos pequenos nervosos, pelo Pro-
fessor Maurício de Medeiros.
c) quartas feiras
- Tratamento e prevenção das reações anti-sociais da in-
fância pelo Dr. Heitor Carrilho.
d) quintas-feiras
- Pesquisas genealógicas destinadas a orientar a higiene
mental, pelo Dr. Floriano Azevedo.
c) sábados
- Exames médicos periódicos visando a conservação da
saúde mental. ISO

Simultaneamente à criação deste centro de atendimento à


população, a Liga Brasileira de Higiene Mental resolve editar
um boletim de Higiene Mental que deveria ter feição leve e
popular; decide, também, designar um médico para a realiza-
ção de assistência social a domicílio. O III Congresso Brasileiro
de Higiene dedica toda uma sessão à questão da fonnação dos
hábitos da criança. A relação da Liga Brasileira de Higiene
com a Associação Brasileira de Educação fez com que Porto
Carrero fosse diversas vezes falar aos educadores sobre a im-
portância da psicanálise na educação infantil, que precisaria
seguir a]guns princípios básicos.
Para ele, a educação deveria constituir-se em uma forma
de disciplina das paixões e ser iniciada na mais tenra infância.
É essa repressão dos desejos e dos instintos que constituiria a
base desse processo educativo, que iria propiciar o urgimento
de indivíduos não degenerados, voltados para o bem comum e
as necessidades sociais. Se a criança deve aprender a dominar
seus instintos, a educação sexual é uma necessidade óbvia. Essa

~o CALDAS, M. A Higiene Mental no Brasil. Arquivos Bra!lileiros de


lJigiene Ment al. Março 1930, p. 72.

93
educação sexual aparece, então, como algo delicado, que deve
ser feita de forma dosada, para que não recaia num excesso de
repressão, que poderia levar às doenças, mas que, ao mesmo
tempo, não seja frouxa a ponto de levar a comportamentos
espúrios, "libertinos".

"Assim como as religiões que ensinam com ameaças, pro·


duzem o temor e não a pureza, da mesma maneira, a
moral muito severa e rija pode ter conseqüências desas·
trosas. Deve ser empregada a moral científica, que não
promc~e recompensas, mas que ensina ao indivíduo o útil
caminho da saúde ... A boa educação, solícita e cientí-
fica, constitui o meio mais útil e menos prejudicial ao
indivíduo e ao meio social." 6 1

Essa educação pragmática, científica, racionalizada, que


não leve a excessos de rigidez e nem a desvarios morais, vai
encontrar no d iscurso psicanalítico desses psiquiatras um ponto
de apoio importante. A teoria freudiana, por se referir à exis-
tência de uma sexualidade infantil e descrever o desenvolvi·
mento desta sexualidade, vai ser requisitada a tomar parte deste
projeto. A psicanálise passa a ser considerada uma auxiliar pe-
dagógica de grande valor.

"Há na psicanálise um ponto de vista pedagógico de


grande alcance. EJa considera como questão capital no
determinismo psíquico do indivíduo o desenvolvimento
regular c harmônico dos componentes do jnstinto sexual
infantil. ~ no nosso defeituoso e nocivo hábito de igno-
rar as exigências da libido, de ocultá-las por completo,
que se deve procurar a causa de moléstias e da degene-
ração da espécie. A psicanálise tem, por isso, um valor
iníludível para a ciência eugêruca, que hoje ocupa a aten-
ção da classe médica." s2

51 AUSTRAGÊSILO, A. As forças curati)'as do Espírito. p. 92


6ll ROCHA, F. opus cit. p, 135.

94
Baseados
. . na idéia de que a educação• 18· to e'
, o controle
d os mstintos, d cv.e começar desde a mais tenra · fâ ·
. . _ . m neta, os
pstqutatras vao adotar as teonas do desenvolvimento infan til
de Freud, mostrando de que maneira se pode influenciar a
1uçao- da sexual'd
1 ade de uma forma positiva.
evo-
Freud vai postular que a sexualidade está presente e se
expres~a desde o início c;Ja vida do bebê. Diz que a partir das
necesstdades de autoconservação, tais como a alimentação, d e.
senvolve-.se toda uma perspectiva erótica que, logo, não mais
se reswmrá ao aspecto da necessidade orgânica, passando a tec
-un;a _importância enquanto fonte de prazer, como no exemp lo
class1co de sugar o dedo. Mostra que esse investimento libidinal
em partes do próprio corpo vai se organizando com o correr
do desenvolvimento em diferentes zonas (oral, anal, etc.) e que
constitui uma das formas de exercício da sexualidade na infân·
cia. Para ele, esse seria o desenvolvimento normal da libido
de importância fundamental na história do sujeito. Embora dig~
que uma criança pode fic ar fixada em uma determinada fase
o qu.e levaria a problemas futuros, não liga a doença ao prazer'
obtido pura e simplesmente, como se ele se constituísse em si
um problema. A doença para ele estaria na dependência de
um acidente traumático, que faria com que a criança regrediss~
a uma fase anterior, na qual ficaria fixada. O prazer em si
obtido não é tratado como uma an ormalidade ou "ruindade"
infantil.
No entanto, calcando-se nessas noções, os psiquiatras vão
transformar esses atos em perigos virtuais, dando uma idéia de
que mal conduzidas essas práticas poderiam levar a um "des-
r~gramento sexual", de resultados desastrosos. São apontadas
diversas mazelas e a sexualidade infantil é vista como um ver·
dadeiro terror. A satisfação sexual que uma criança pode obter
com seu próprio corpo representa um grande perigo e deve
ser evitado a todo custo, em nome do bom desenvolvimento
físico e moral.

''É claro que, para esse fim, é necessário começar do


princípio, começar do nascimento, pelo menos. O p razer
da suc.ção, r.evela-se com a primeira mamadela; é conhe-

95
cido o prazer que têm os lactantes no sugar o seio até
a regurgitação; c não é para desprezar-se a influência que
possa ter sobre a criança a cultura desse hábito, que
exerce as necessidades vitais da conservação individual.
Se a natureza pôs, à porta da conservação do indivíduo,
o prazer bucal, como pôs a volúpia genital à raíz da con-
servação da espécie, não é de boa higiene cultivar o ex-
cesso de prazer, além das suas necessidades próprias." c;s

O que é privilegiado aqui é a questão do prazer, ele está


sempre em "excesso" e esse "excesso" é que se constitui num
perigo; já que excede as necessidades vitais. Para dominá-lo, é
preciso propor um adestramento rígido, calcado em regras mi-
nuciosas, que deve acompanhar o cotidiano da criança. Em re-
lação à higiene da fase oral, vão criticar a grande freqüência
das mamadas, sem tempo fixo e sem horário pré-fixado, assim
como o uso de chupetas. O hábito de sugar o dedo é comba-
tido violentamente; espécie de masturbação oral, prazer nitida-
mente sexual, é uma grande ameaça ao bom desenvolvimento
da libido, podendo levar, por exempo, ao alcoolismo e à
toxicomania.
A~im como em relação à fase oral, na fase anal, vai
haver, também, uma série de providências a ser tomadas, a
fim de evitar os desregramentos desta sexualidade desenfreada.
Critica-se o hábito de bater nas nádegas, de valorizar e observar
a evacuação, recomenda-se evitar a constipação, ou mesmo,
chamar atenção para seu próprio corpo. Como resultados des-
ses péssimos hábitos, pode-se encontrar a sodomia e a inversão.
A idéia de que a criança tenha uma sexualidade está ple-
namente aceita, mas "tirar prazer" disto é algo inadmissível.
A questão da masturbação infantil é abordada o tempo todo,
quer em suas formas "disfarçadas", como no chupar o dedo,
quer nas formas mais óbvias c voluntárias. A masturbação é
algo perigoso porque poderia fixar a libido sobre o Ego, de
onde ela teria dificuldade em se desligar para uma posição
heterossexual. Por isso, todo cuidado é pouco p ara evitar esse

~3 PORTO CARRERO, J.P. Er~saiO$ de Psicanálise. p. 127.

96
"vício". ~~a criança que demonstre tendência à masturbação
deve ser vJgtada todo o tempo, e deve sofrer restrição em qual-
quer atividade que propicie excitação semelhante.

"Para as crianças que demonstram o hábito de manuseai


os órgãos genitais, o uso do velocípede e da bicicleta
pode concorrer para aquele cultivo de prazer O mesmo
se entenda quanto à equitação, verdadeira ou simulada,
em cabos de vassoura ou cavalinhos de madeira." 11 4

Desta forma, deve-se ter um controle cotidiano, minucioso,


de todas atividades que provoquem excitações prazerosas e que
possam levar ao vício; desde as brincadeiras até as leituras,
histórias e teatros.
Ap6s essas primeiras fases do desenvolvimento, os higie~
nistas vão se deparar com aJguns outros problemas que eles
situam na existência dos complexos, que, para eles, devem ou
ser evitados, ou ter seus efeitos circunscritos.
O Complexo de Castração é um dos pontos de maior inte-
resse. No entanto, a visão médica sobre essa etapa do desen-
volvimento foi bastante particular. Para Freud, este complexo
é um momento estruturante da vida infantil. É através de uma
ameaça de castração, ligada ao Complexo de Édipo e sua fun-
ção interditória e normativa, que a criança abandona seus de-
sejos incestuosos em relação aos pais. No caso do menino, por
exemplo, se, como ele acredita, a satisfação do amor em rela-
ção à mãe deve custar-lhe o pênis, ele vai normalmente voltar
as costas ao Édipo para tentar manter sua integridade corporal
e narcisica. Es!le mecanismo permite uma verdadeira dissolução
do Édipo. Desta forma, a castração é um momento crucial na
vida !la criança, e é normal e universal. Só existe uma patologia
quando esse processo não é levado a cabo, ou seja, quando
a onipotência i.nfantil não passa por esta castração simbólica,
que lhe permite renunciar ao investimento libidinal nos pais,
partindo para nova escolha de objeto.
Mas a leitura psiquiátrica desta categoria não tomou essa

tH Idem. p. 82

97
dimensão, o complexo de castração é visto aqui como uma
patologia, um sintoma que, produto do pavor da ameaça, que
assoma a criança, geraria indivíduos infcriorizados. Para eles,
ser castrado é sinônimo de fragilidade e inapt~ dão para a vida .
Para atingir esses objetivos, vão fazer severas críticas a
determinadas práticas educacionais, que, segundo eles, propi-
ciam a formação deste complexo, tais como as ameaças de
castração feitas a título de castigo, chamar a atenção das crian-
ças para seus órgãos genitais, deixá-los presenciar operações ci-
rúrgicas domésticas (como matar galinhas) e outras mais. Muito
criticado também é o hábito de se contar estórias fantasiosas
às crianças, já que muitas delas reforçariam o complexo de
castração, como no exemplo da estória de João FeJpudo, e na
lenda do Saci Pererê, menino mutilado, sem uma perna.
Aliás, :lS estórias constituem um capítulo à parte das re-
gras higiênicas. Contos como "A Bela Adormecida" ou "Cha-
peuzinho Vermelho" são transformados em verdadeiras ameaças
ao bem-estar social. Se as fantasias infantis, como as de cas-
tração, as teorias infantis sobre a origem dos bebês, as ~úvidas
sobre a fecundação são prejudiciais ao bom desenvolv1mento
das crianças, a existência de estórias que, segundo seus pare-
ceres, as estimulam ou confirmam, é um verdadeiro descalabro.
É o mesmo Porto Carrero, sem dúvida uma figura de proa
na divulgação da psicanálise, quem se dedica em alguns arti-
gos a discorrer sobre os males que advêm do hábito dessas
leituras. A ssim, conta casos onde pacientes seus fazem asso-
ciação da idéia de incesto com a estória de João e Maria, que
mostra um incesto fraterno, o síinbolo do dedinho, o símbolo
uterino do forno, e outras coisas mais. Outros casos são nar-
rados, onde pacientes esperam, eternamente, por seus príncipes
encantados, como na Gata Borralheira, que toma na mente
feminina a representação do esposo, talhada primitivamente à
imagem do pai. E a cada estória uma série de dissabores vão
sendo associados.ss E, não há dúvida, para diminuir esses
males, a solução é riscar essas estórias da vida das crianças.

~~~ PORTO CARRERO, J.P. Leitura para Crianças. In: Ensaios de


Psicanálise.

98
Em relação à noção de complexo, outro ponto crucial
no desenvolvimento infantil e amplamente abordado nesses dis-
cursos é o Complexo de Édipo. De um modo geral, o Édipo
é tratado como um estágio normal do desenvolvimento libidinal
das crianças. Embora apareçam uns mais radicais que o con-
sideram como uma anomalia própria dos degenerados, 56 os
psiquiatras aceitam mais facilmente a sua universalidade e, por
isso mesmo, vão procurar chamar atenção para os perigos que
podem advir deste estágio. O Édipo, embora normal em deter-
núnado momento, não é tratado como um período estruturante, .
e sim como uma fase a ser ultrapassada o mais rápido possí-
v~l, p~rque perversa, cuja fixação no inconsciente dificulta a
cscoJha do verdadeiro objeto e objetivos normais.

"Entre as perversões genitais, os psicanalistas colocam os


complexos parentais que eles têm encontrado nas profun-
dezas do inconsciente, a retardar a fixação do instinto
sexual ao seu objetivo e objetos próprios, constituindo,
por isso, causas de regressão à infância, origem das de-
sordens neuropsicopáticas." 117

Além de apontar para uma atitude anômala dos filhos em


relação aos pais, os psiquiatras vão ressaltar a intensidade do
jogo das emoções vividas nesse drama, e a força que estaria
implícita nesse desejo incestuoso, aspecto que demonstra a pri-
mitividade e a falta de controle das crianças.

"O Complexo de Édipo de que fala o Professor Freud,


para explicar a tendência incestuosa do filho para os pais
na direção inversa dos sexos, realça a intensidade dos
instintos que a criança contém. resquícios da vida sexual
anterior, e onde, atrás de um sentimento humano de ter-
nura e afetividade, palpita o horror de um desejo instin-
tivamente hediondo." 58

5Q ROXO, H. Psicanálise.
fi 7 ROCHA, F. opus cit., p. 65.
~~ ROXO, H. Psicanálise. p, 27

99
Desta forma, o Édipo vai servir de ajuda para demonstrar
o grau de ausência de controle dos instintos nas crianças, e
sua proximidade com o primitivismo e a selvageria. Como o
Édipo seria também uma perversão, são feitas várias recomen-
dações aos pais, para que evitem os hábitos que possam esti-
mular essas fantasias edípicas. Assim, o carinho excessivo aos
filhos do mesmo sexo poderia gerar uma inclinação homosse-
xual ou o horror aos indivíduos do outro sexo; ou, então, o
carinho demasiado aos filhos do sexo oposto pode exagerar a
sexualidade, de onde resultam os homens que perdem a ca-
beça por qualquer mulher ou as mulheres que depressa se des-
mandam. O permitir que crianças compartilhem o mesmo quar-
to dos pais e outras práticas desse gênero são também perigosas
por estimularem demais as fantasias eróticas em relação a estes.
O Édipo pode levar também a outros perigos porque, além
da fantasia incestuosa, traz também uma imensa culpa, corre-
lativa do rancor em relação ao gcn!tor do sexo oposto, e que
o torna uma grande ameaça, podendo levar até mesmo a um
comportamento criminoso. Um assasúnato pode ser, muitas
vezes, o resultado de uma tentativa do criminoso de tornar sua
culpa edípica, até então inconsciente, em uma culpa consciente,
buscando uma punição para a mesma. 5& O Édipo é, portanto,
momento dos mais delicados, podendo determinar tanto um
comportamento normal, quanto comportamentos anormais.
"Dessa situação, só pode ele sair, mercê de acordos de
compromissos, entre os impulsos libertadores da libido e
a tendência censora, recalcada, também inconsciente do
Super Ego. Esse acordo se faz, às vezes, pela transfonna-
ção do impulso em atos, insólitos uns (perversão e neu-
rose) ou compatíveis com a moral (sublimação)." ilO

Desta forma, a saída para as crianças das armadiUtas e


percalços que lhes prega o desenvolvimento de sua libido estará

511 MOREIRA, L.D. A Doutrina de Freud na Psicose Maníaco De~


pressiva. Tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro. 1930. p. 26.
60 PORTO CARRERO, J.P. Ensaios de PsicanáUse.

100
quase sempre na dependência do caminho que a educação pode
fazê-la tomar. Uma educação que deve ser milimetricamente
estudada e procurar saídas para cada obstáculo que surgir, du-
rante o percurso do desenvolvimento. Para resolver os entraves
que a sexualidade infantil colocaria para o crescimento normal
e que ameaçariam seu projeto, essa psiquiatria vai lançar mão
de alguns princípios psicanalíticos, colocando-os como armas
úteis para uma possível saída mais adequada. Seus discursos
vão então apropriar-se de alguns conceitos que, segundo sua
interpretação, poderiam produzir uma sexualidade equilibrada.
Assim, a idéia de repressão, a formação do super ego e o con~
ceito de sublimação vão ser entendidos e trabalhados de uma
determinada forma, na tentativa de que estes atuem como me-
canismos de contenção sexual.
O mecanismo de repressão é extremamente valorizado e se
f~la da necessidade de que determinados desejos e fantasias
sejam reprimidos para que não funcionem, mais tarde, como
obstáculos. Essa repressão ajudaria no controle desta sexuali-
dade infantil desregrada, como camisa de força, impedindo os
possíveis desvios. No entanto, o mecanismo da repressão não
é tratado aqui como um P!Ocesso intrapsíquico, mas, como algo
que deve vir de fora, através da internalização de normas mo~
rais. Esse processo faria com que tendências que fossem vei ·
culadoras de prazer em épocas infantis se tornassem mais tarde
contrárias à vontade do indivíduo, devido à mutação que a
educação produzisse.

"Recalcamento, resistência, censura, etc., são funções que


se harmonizam com o desenvolvimento mental e que em
suma, consistem na educação, na cultura intelectual e
moral, na instrução do psiquismo superior, das faculdades
·elevadas do espírito." Gt

Ê interessante notar que o mecanismo de repressão é valo-


rizado, mesmo que ele se apresente como uma safda ambígua,
já que uti1izado em excesso poderia levar à doença. Mas, pa-

111 MORE IRA, L.O. opus cil., p. 40.

101
rece que na perspectiva dos médicos seria o menor dos males.
Diante de uma perversão franca, mil vezes a neurose, que daria
uma vida sexual quase "normal", mais próxima das exigências
da moral.

"Outra saída se apresenta, se no correr do desenvolvimen-


to, certos componentes poderosos sofrem repressão . . . As
excitações em questão se produzem como de costume, mas
não atineem seu objetivo porque encontram obstáculos
psíquicos e são desviados para outras trilhas, por cnde
se revelam como sintomas." G2

Logo, diante da desordem que pode advir desses instintos,


a repressão toma-se indispensável, embora não seja ainda o
mecanismo mais eficaz. Mais eficiente parece ser a su blimação,
mecanismo por meio do qual as "poderosas e ameaçadoras"
excitações das fontes da sexualidade são descarregadas e utili-
zadas em cutras esferas, de modo que um considerável aumento
da capacidade psíquica resulta de uma predisposição, que, em
si mesma, é p~rigosa. Se a sexualidade humana é transformada
em um perigo virtual, por ser basicamente ruim, perversa, o
que se vai tentar aqui é a transmutação de uma constituição
má em uma nova constituição, boa e purificada. E nesse sen-
tido a idéia de sublimação abre espaço para que seja tentado
esse grande passo; tornar um homem impuro num ser útil à
sociedade, mecanismo, portanto, abençoado, capaz de transfor-
mar um mal em um bem, a sublimação é recebida pelos psi-
quiatras com grande simpatia. A sublimação é algo a ser incen-
tivado e alcançado durante o processo de educação.

"A tendência sexual, quando não pode ser satisfeita, deve


ser sublimada. Se o seu fim é o prazer, essa tendência
pode ser desviada para os desportos, para a arte, para
o estudo." 63

6
~ PORTO CA.RRERO, J.P. Ensaios de Psicanálise. p. 248.
63 idem. p. 186.

102
Falando do conflito psíquico, vai se dizer q ue, diante dele,
o indivíduo só tem ctuas saídas: ou a forma do ato pelo qual
ele se expressa é compatível com os cos~umes, com as normas
morais, ou, então, a libertação dos instintos em forma de ato
fere os interesses do grupo ou os do próprio indivíduo. No
primeiro caso, estaria a sublimação; no segundo, a neurose, a
perversão e o crime. Diante das ameaças, a sublimação seria
uma forma útil ou inócua de libertar os impulsos conforme as
normas sociais, ou seja, mais importante do que o bem-estar
ou o sofrimento dos indivíduos é o seu comportamento social.
Vemos, então, que a preocupação básica de nossos "psicana-
listas" é com a adaptação a determinadas exigências sociais,
sendo estas que determinam o que é normal ou não.
Para evitar que os instintos inferiores de uma criança ve-
nham mais tarde a s.e constituir num entrave a seu bom de-
senvolvimento, esse processo deve ser incentivado desde cedo,
para que se possa chegar a obter sua utilização em funções
"nobres".

"A energia libidinal primitiva, quando não canalizada nos


seus verdadeiros destinos, deve ser aproveitada nas ativi-
dades de sublimação, que não é mais do que a derivação
de uma função instintiva inferior, numa função mais
elevada, desde as atividades de trabalho até as mais altas
conquist::~s morais do indivíduo." 64

Propõe-se que se observe as crianças desde pequenas, va-


lorizando as suas tendências e aptidões, a fim de programar os
futuros cidadãos. Deve-se procurar alcançar, em cada indiví-
duo, o seu nível máximo de utilidade para a vida em socieda-
de, o que seria alcançar a forma perfeita de sublimação.

"Mas a sublimação mais perfeita deve ser para um tra-


balho de rendimento à comunidade. A tarefa do educador
é de adivinhar, logo cedo, as sublimações para que ten-

6~ RAMOS, A. A Técnica da Psicanóllse Infantil. Arquivos Brasilei-


ros de Higiene Mental. Julho/Setembro 1933, p. 203.

103
dcm as forças instintivas de cada criança, qu:1l será esse
trabalho social que dev.e ser escolh ido, não como uma
tarefa pesada e d esagradável, mas com alegria, com par-
ticipação de toda a personalidade, pois que ele tem raízes
instintivas, tendências elementares que se transformaram,
por via da sublimação. É todo um capítulo novo de orien-
tação profissional." 65

P ortanto, a sublimação seria um meio dos mais eficaz.cs


para este projeto de programação humana. Por atuar na "essên-
cia instintiva" dos indivíduos, propiciaria uma transformação
em sua natureza, de tal forma que p ermitiria o tão sonhado
adestramento da população. _
Mas, mesmo aqui, os psiquiatras não abandonam seu afa
moralista e moralizador, demonstrando claramente seus prccon·
ceitos e o quanto seus princípios estão submersos em uma de-
tenninada ideologia. :t curioso como seus discursos vão f~­
zendo uma espécie de classificação das sublimações, a part1r
de um juízo de valor, colocando as formas d e sublimação como
melhores ou piores. Nessa escala, encontramos, da melhor para
a pior, os seguintes tipos de sublimação: ('.6 ••

1 - A sublimação pelo trabalho manual e pelo exercJClO


físico; representa a melhor derivação da libido, porque inclui
um trabalho e uma atividade física que ajudaria no desgaste
dos excessos.
2 - · O trabalho intelectual: também é excelente, embora
perca da primeira, pela ausência da atividade física.
3 - A sublimação artística: já não é tão eficiente, por-
que nem sempre resulta em um esvaziamento ~mpleto ~a~ ne-
cessidades instintuais sublimadas, não conduzmdo o SUJeito a
um equilíbrio perfeito, sendo, segundo os autores, muito fre-
qüente a coexistência da arte e da neurose e da arte c da
perversão.

G5 idem, p. 204.
EIG PORTO CARRERO, J.P. A Psicologia Profunda ou Psic:anfilise.
Guanabara, Rio de Janeiro, 1934.

104
4 - No último degrau desta escala está a sublimação
mística ou rc!igiosa, que se basearia numa repressão da sexua-
lidade muito violenta e recorreria a idéias fantasiosas e mági-
cas, prejudiciais a uma boa formação moral.
Classificando desta form a as sublimações, vão marcando
o que seria o melhor aproveitamento da libido para os fins
sociais pretendidos.
A cQnjugação do trabalho manual e do exercício físico
seria a mais adequada, por possibilitar um maior extravasa-
mento "útil" das energias, sem que o indivíduo se perca em
idéias e sentimentos inúteis, que atrapalhassem ou se chocas-
sem com sua produtividade. Seriam homens bem adestrados,
que obteriam o melhor rendimento possível em suas atividades.
O que se pretende, no fundo, é a produção de uma massa
organizada e disciplinada, na qual o trabalho e o exercício fí-
sico levariam a uma formação física e moral, supostamente·
ideal, em detrimento da capacidade de pensar e criticar dos
indivíduos.
O trabalho intelectual também é considerado interessante,
porque essencial, para o crescimento da humanidade. Entretan-
to, é ainda falho, devido à ausência de atividade fis!ca que
permitiria a existência de um resto de energia que não é ca-
nalizada, podendo trazer problemas. Cient istas são bem vindos,
mas precisam cuidar-se para não deixarem de lado esse aspec-
to importante, sob o risco de terem seu bom equilíbrio mental
ameaçado, em função dos excessos.
''Nesses homens, toda energia biopsíquica se concentra no
prazer de resolver grandes problemas científico-matemáti-
cos, filosóficos, etc.. Alguns desses homens ficam loucos
por abuso da libido nessa direção, tanto como os que
ab•Jsam no sentido oposto, na devassidão." G7
Para que a perspectiva eugênica seja coroada de êxito, é
preciso que o intelectual não seja valorizado em detrimento do
bom desenvolvimento físico. É necessária a combinação das
duas forças, para obtenção de uma melhor harmonia psíquica.

~7 ROCHA. F. opus cit. p. 60.

105
A arte é considerada uma forma mais pobre de trabalho
intelectual. De acordo com os médicos, o artista recorre
a elementos muito atrasados da evolução sexual infantil, tor-
nando-se, assim, mais expostos aos desregramentos. Tendo de
regredir a estágios mais primitivos, teriam maior dificuldade de
controle de seus instintos pela razão e pela vontade. Pode ser
tomado por uma carga de excitação muito forte, que ameace
seu bom funcionamento psíquico. Para justificar essas idéias,
vão dizer que o que pode comprová-la é que "artista bem
equilibrado é avis rara". 6 8
É interessante que, à medida em que as atividades citadas
se voltam mais para u emoção do que para a racionalidade, a
forma de sublimação vai sendo considerada mais frág il e mais
precária. O que parece importar é que a "vontade", o "pen-
samento racional", submeta as emoções, deixando cada vez
menos lugar para se sentir e pensar livremente. Tudo que é
muito permeado pelas pabcões e pelo afeto é visto como um
perigo virtual.
" ... É na afetividade que residem, principalmente, as
nossas falhas. É a extrema variabilidade desse elemento
quantitativo - o "afeto" da escola d'e Freud - que nos
impede a continuidade na ação. É ela que nos veda, por
vezes, a apreciação exata das situações; que nos desvia
a atenção dos pontos importantes dos problemas, para
concentrá-la em traços acessórios; que nos faz esquecer
o ensinamento dos fatos históricos, a lição dos erros pas-
sados e dos bons êxitos obtidos; que nos perturba a pon-
deração das premissas, que nos lev.a a conclusões errô-
neas, por superficial ou apressado raciocínio; que, por
fim, impede que nos seja firme, contínua e bem dirigida
a vontade." 09
Esse ponto de vista fica mais claro em relação ao proble-
ma da religião, e do misticismo, considerados as formas "me-

ss idem. p. 52.
6U PORTO .CARR.ERO, J.B. Bases da educação moral do brasileiro.
in: Ensaios de Psicanálise. p. 99

106
nores" d'! subli::tação. De aco:-dõ com Porto Carrero, um pro-
grama de educação moral não pode ter bom êxito quando se
observa e se respeita tabus religiosos c místicos. Tabus estes
que, no fundo, não passariam de derivações de impulsos se:xuais
que não pu~eram ser satisfeitos e que impedem, pela força de
uma crença pura e simples, um desenvolvimento adequado da
racionalidade e do domínio da vontade.
"Um programa de educação moral tem que abstrair do
fundo religioso estrito. Sendo o sentimento religioso ma-
téria de pura afetividade, não se coaduna com os pro- ·
ccssos de raciocínio, antes, interfere neles e perturba-os,
como sucede a todas as emoções. Daí a intolerância em
questões religiosas. O dogma religioso sente-se, não se
pensa, não se compreende: crê-se nele, sem reais tegi-
versação." "i'O
O que está em questão é. o entrave em que a religião pode
se tornar, em relação ao projeto de aperfeiçoamento do povo
e da raça brasileira. Segundo o autor, para que se estabeleça
um programa de educação moral brasileira, é preciso buscar
as causas dos nossos insucessos, as razões de nossos defei-
tos. Esta tarefa se torna impossível, em face dos princípios de
qualquer religião, em obediência à qual se tem de partir de
um grupo de postulados morais, impossíveis de serem exami-
nados. discutidos, aceitos ou rejeitados, por envolverem matéria
de fé. Fé c razão seriam, em princípio, contraditórias e inade-
quadas umas às outras.
É claro que nem tudo deve ser desprezado nas religiões,
uma moral média, cristã, pode contribuir de forma positiva
para a formação brasileira; o que está sendo criticado são os
"f2.oatismos" e os "exageros". Não se advoga o fim do cris-
tianismo, mas o seu uso mais adequado.
"Ponhamos de parte as nossas crenças. Sejamos crentes
pelo coração, mas raciocinemos com a cabeça. Quais os
defeitos morais dos brasileiros? Quais os meios de reme-

70 idem. p. 97.

107
diá-los? Desse ponto de vista, façamos o nosso estudo.
Estou certo que, no fim, havemos de aproximar-nos dessa
moral média, ocidental, cristã, que tem guiado a formação
de nossa sociedade. Sejamos homens, sejamos brasileiros,
pouco importa qual seja a fé que dirija os nossos sen-
timentos." 71

No entanto, o que vai ser veementemente atacado são as


religiões tais como o es;iritismo, tidas como mais primitivas,
inferiores e produtos de civilizações atrasadas. Tendo sido inse-
ridas em nossa cultura por índios e negros escravos, são .con-
sideradas uma herança pesada que pode levar ao adoecimento.

"O espiritismo, com a sua doutrina da atividade dos espí-


ritos dos mortos e da reencarnação oportuna c repetida,
vem ao encontro desse desejo que dorme no fundo de
todos os inconscientes - a ânsia pela volta ao parasitis-
mo uterino. Ora, é do recalcamento desses impulsos que
n::.scem as neuroses; c esse impulso de revivescência, em
particular, é alimentado pelo espiritismo, que lhe dá for-
ma, sírr.bolos e alento. Assim, espiritismo e neurose têm
o mesmo caminho e encontram-se, é bem de ver, ora no
começo, ora no fim do trajeto." 12

Os psiquiatras vão dizer que é preciso evoluir, abandonar


esse tipo de sublimação, em nome da construção de uma civi-
lização mais adiantada, onde os homens derivem para expres-
sões mais elevadas de cultura os impulsos de sua libido. É pre-
ciso abandonar "tabus" e "preconceitos", em nome de nova
ordem moral e social.
Classificando desta forma as sublimações, vão marcando o
que seria, para eles, um melhor aproveitamento da libido de
acordo com os fins sociais pretendidos.
Uma outra maneira de se chegar a um equilíbrio entre as
necessidades da libido e as exigências da vida na sociedade,

n idem. p. 98.
7!! idem, p. 142/143.

108
seria através da estruturação do superego. Tido como uma es-
pécie de agente repressor dos impulsos sexuais, ele é tratado
como uma peça chave nesse processo educativo. Um superego
<JUe não poderia ser tão rígido que fosse um fator de inibição
violenta, geradora de neurose, mas que fosse poderoso o su-
ficiente pard. domestiC:J.r os instintos perigosos é o que vão
buscar nossos médicos.

"A adaptação ao meio na infância se faz, como sabemos,


pela fonnação do Ego e, principalmente, pelo produto
deste - Superego - que representa o conjunto de nor-'
t;Jas, segundo as quais o indivíduo passa a reagir contra
os estímulos do ambiente." 73

Uma das funções do superego seria, então, permitir a har-


monia social c nortear o comportamento dos homens, coibindo
os impulscs ~::nti-sociais. Paralelamente a esse papel de domes-
ticador dos instintos, haveria um outro aspecto na constituição
do supercgo de grande importância: o f~to de ele se constituir
internamente como um representante psíquico da autoridade pa·
terna, por se fommr a partir de uma identificação com o pai
(ou com os pais) , que assumiria sua severidade e perpetuaria
a proibição d'o incesto. Essa idéia vai levar os psiquiatras a
advogar que, se existe uma instância psíquica que traz para o
interior do indivíduo determinadas normas, pode-se comple-
mcnt~r sua formação através não só do ensino de regras mo-
rais adequ~das, assim como de exemplos de conduta positivos
que lhe propiciariam as pessoas ao seu redor. Portanto, além
de sua importância enquanto uma espécie de polícia interna,
ele é também a ponta ée lança que vai abrir caminho para
uma intervenção direta sobre os responsáveis pela educação
infantil. Quem dá o exemplo deve estar preparado para isso.

"Educar, portanto, é construir o superego. Organizada:


que é esta instância, pela modelo parental de sexo idên-

73 PORTO CARRERO, J.P. A l'síco/ogia Profunda ou Psicanálise. p.


178.

109
tico, bem se com_precndc a a~se;-ção clássica sobre o valor
educativo do exemplo." 14

Diante desta idéia, os psiquiatras vão dizer que é preciso


que os responsáveis (pais, mestres ou outros) pela educação
das crianças estejam aptos para esta tarefa e possam responder
às exigências colocadas pela sociedade. Vemos então ser refor-
çado um projeto que visa a educação, o adestramento adequado
de pais e professores, que se baseia, nesse momento, em prin-
cípios ditos psicanalíticos. Porto Carrero faz um trabalho inten-
so de divulgação da psicanálise junto a professores, através de
conferências ministradas na Associação Brasileira de Educação,
onde propõe programas educativos para pais c mestres, tratan-
do-os como peças fundamentais para o projeto político mais
global na transformação do corpo social. Recomenda que esses
profissionais procurem o setor de psicanálise da Liga Brasileira
de Higiene Mental, a fim de obterem uma orientação mais pre-
cisa. Muitas de suas conferências e publicações são concluídas
com uma espécie de conclamação a essas mudanças.

"É necessário interessar o professor no estudo da psica·


nálise. Lidar com espíritos infantis, sem lhes conhecer o
mecanismo, é perigoso e improfícuo. . . É necessário que
os pais conheçam as teorias de Freud . . . É necessário
vulgarizar a psicanálise." 76

Esses autores são bastante enfáticos nesse particular e pre·


gam muitas vezes que se façam mudanças no sistema escolar.
Mas isto não seria suficiente porque ·as crianças só vão à esco-
la mais tarde e, mesmo assim, ainda permanecem muitas horas
sob a responsabilidade dos pais. É preciso, portanto, educar
os pais, penetrar nos lares, transformar seus hábitos. Critica-se
o pátrio-poder e tenta~se relativizá-lo diante de um poder que
deve ser supremo, qual seja, o poder do Estado. No caso dos
pais que não correspondam ao modelo ideal, advoga-se que

74 idem. p , 67.
76 PORTO CARRERO. J.P. Ensaios de Pslcan4/ise. p. 62.

110
a educação do filho seja entregue a instituições públicas, que
teriam técnicos com uma formação especializada.

''E diz-se que a escola deve ser a continuação do lar: puro


engano; o lar deve ser a antecipação da escola. Se a pa-
ternidade e a maturidade não dão a ninguém conheci-
mento de psicologia e pedagogia, mais valeria que o Esta-
do não consentisse que, à sombra do pátrio poder, se
cometessem tantos crimes." 7 r.

Assim, as soluções mais radicais vão sendo propostas, com


vistas a garantir o seu projeto eugenico, para o qual a psica-
nálise é chamada a colaborar, mesmo que, para isso, seja pre-
ciso retirar àeterminados conceitos de seu contexto original,
com o fi m de adaptá-los às necessidades desse projeto.

4.2 - Sobre o Feminino

Se os projetos psiquiátricos e psicanalíticos vão se preo-


cupar com a educação infantil, enquanto pedra fundamental dos .
programas de regeneração social, como conseqüência lógica,
essa preocupação vai ser estendida aos pais e educadores e,
mais especificamente às mulheres que, de acordo com a ideo-
logia dominante, deveriam ser as principais responsáveis pela
educação infantil.
Desde o século XIX~ os discursos médicos vão procurar
ressaltar a importância da mulher burguesa, enquanto agente
dom~tico de seus projetos de higiene infantil e familiar. 17
A partir de sua análise sobre o que seriam as característi-
cas físicas c mentais femininas, vão reforçar, através de uma
pretensa racion?.lidade científica, a idéia de que o sexo femi-
nino estaria destinado ao casamento e à maternidade.

"A fraqueza e a sensibilidade são as qualidades dominan-


tes e distintas da mulher ... , eGsa organização era, como
76 PORTO CARRERO. J.P. A Psicologia Proju1tda ou Psica11álise. p.
192.
77 FREIRE COSTA, J. Ordem Médica e Norma Familiar.

111
já dissemos, indispensável ao sexo ao qual a natureza
<lcvia confiar o depósito da espécie humana, ainda fraco
e impotente. " 78

Dentro de seu projeto de rcformu!ação da instituição fa-


miliar vão delimitar o espaço de atuação da mulher no lar e
formubr uma estr~tégia de intervenção em seu cotidiano, de
forma a prepará-la para o exercício de suas funções e circuns-
crever suas potencialidades às tarefas domésticas. Observa-se
o surgimento de um processo de medicalização da mulher, que
tem suas bases na necessidade política de criar novas formas
de organização do sexo feminino. 7 :1

Esse tipo de proposta de atuação junto a mulheres vai


. percorrer todo o século, intensificando-se na virada do Império
para a P..cpública, momento em que a situação da mulher den-
tro da sociedade começa a apresentar algumas mudanças. De
um lado, a reclusão feminina nas camadas de elite começa a
se relativizar, com a crescente urbanização, passando estas a
possuir uma maior liberdade de movimento. 8 o Por outro lado,
mulheres saídas de camadas mais bai ~as da população, escra·
vas, mestiças, imigrantes, brancas pobres subsistem com uma
certa autonomia, chegando, mesmo, a se constituir numa par-

78 MONTEIRO DE BARROS, J.F. Considerações gerais sobre a mu·


lher e sw diferença do homem e sobre o regimen da mulltet du-
rante a prenhez. Tese à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
1845, p. 9.
79 Segundo Madel T. Luz, o lar, como "situs instilucional do casa-
mento", e a maternidade se constituem em traços das estratégias
históricas que o capitalismo instituiu para organizar os sexos e a
reprodução humana, num contexto de dominação. Ambos são for-
mas históricas de definir as funções prioritárias da mulher, na
sociedade capitalista, assimilando, por um mecanismo ideológico, a
um aspecto "natural". biopsíq uioo, funções que são, na realidade,
sócio-políticas.
LUZ, M.T. O Lar e a Maternidade: Instituições Políticas. in: O
Lug.ar da Mulher. Graal, Rio de Janeiro, 1982, p. 11.
80 HAHNER, J.E. A Mulher no Brasil. Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro , 1978.

112
cela nada desprezível da população economicamente ativa.81
Premidas pelas dificuldades econômicas, não poucas dessas mu-
lheres adquiriram profissões tais como doceiras, engomadeiras,
costureiras, cozinheiras, rendeiras, tecelãs, trabalhadoras de pe-
queno comércio, etc. sa
No entanto, toda essa mudança do comportamento femi-
nino começa a aparecer como um obstáculo à estratégia da
medicina. As críticas quanto ao tipo de vida levado pelas mu-
lheres e às suas atividades sociais c produtivas são algumas das
questões que se tornam preocupações médicas. Dentro da pro:
posta de regeneração social, o aparecimento de um tipo de mu-
lher que se volta para o mundo externo ao lar é um problema
novo, podendo se tornar uma grande ameaça ao sucesso desse
programa. Nesse momento, os discursos médicos vão aprofun·
dar os estudos sobre a natmeza feminina, transformando em
anomalias as peculiaridades do seu sexo, numa tentativa de
circunscrevê-la a um determinado padrão.
Vemos, então, surgir um tipo de discurso no qual a mu-
lher é considerada como um ser de constituição degenerada,
próxima do patológico, que pode se tornar um perigo real
para o bem-estar social. O sexo feminino é aqui tratado como
um lugar onde os maus instintos podem se desenvolver. To-
mando como base o estudo de fenômenos sociais, tais como
aborto, infanticídio, prostituição, loucura, detecta-se sinais de
uma monstruosidade que seria peculiar a toda e qualquer mu-
lher. Vemos, cutão, g~nhar força a idéia d~ que essa degene-
ração básica predispõe ao aparecimento de comportamentos
anti-scchis.83 Com esse tipo de argumentação, os médicos vão

l!l"Era bastante alta a percentagem de muthe.rcs que participava das


ati vidades econômicas em 1872. Mesmo excluindo-se as que se
ocupavam dos serviços domésticos. as mulheres representavam
37.4o/o lia força de trabalho efetiva total da nação." - SAFFIOTII,
J.B.H . A Mulher na Sociedade de C lasses: Mito e R ealidade. P etró·
poli.s, Vozes, 1979, p. 239.
82 PAOLI, M.C. Mulheres, Imagem, Movimento., in: Perspectivas
Amropo/c}gicas da Mulher, n.0 4. Zahar, Rio de Jan., 1985.
83 Em relaç.ão ao aborto e ao infanticldio. os médicos vão dizer que
as mulheres cometem esses crimes devido à sua constituição básica
degenerada. que as fazia preferir, por exemplo, o prazer e a vida

113
justificar um controle minucioso e cotidiano do corpo e da vida
das mulheres, que tem como fim último submetê-la a uma tu-
tela médica, que iria determinar qual deve ser o tipo de vida
c conduta adequada ao seu sexo.
Durante toda c. República Velha, a preocupação com um
"abandono" 8"' feminino Ç.e suas funções tradicionais é um as-
sunto permanente. A preocupação com as mulheres trabalha-
doras é uma constante. 65 A perspectiva de que as mulheres
possam se dedicar a outras ativid~des em detrimento das tarefas
do lar é assustadora. Em primeiro lugar, porque o fato da
mulher ficar por longo tempo ~usente das tarefas domésticas
pode significar o fracasso do projeto em relação à infância; em
segundo lugar, porque a mullicr, tendo uma atividade que lhe
dê subsídios, poderia obter uma maior independência, emanci-
par-se e qnerer decidir sobre os desígnios de sua própria vida.

mundana. em detrimento do cuidado com as crianças. NUNES.


S.A. Medicina Social e Regulação do Corpo Feminino. Tese de
Mestrado. Instituto de Medicina Social da UERJ. Rio de Jan., 1982,
p. 57/58.
8~ A idéia de. "abandono" das funções femininas pelas mulheres é
introduzida pelos médicos como algo voluntário, em nome de as-
pirações egoísticas. No entanto. quando se observa o que se pas-
sava, por exemplo, com a maioria das mulheres que cometiam
aborto e infanticídio, vemos que a realidade era bem outra. Se-
gundo Rachei Soihet, a partir do exame. dos processos crinúnais
sobre aborto e infanticídio, verificamos que as hipóteses médicas
apres~ntadas sobre razões do infanticídio não correspondem à rea-
lidade. A grande maioria da~ mulheres que recorria a este expe-
(]iente eram mulheres pobres, empregadas domésticas em sua
maioria, recém-vindas da área rural, analfabetas, sem maiores es-
clarecimentos. o que deve explicar esta decisão.
SOlHET, R. É Proibido Não Ser Mlíe: Opressão e Moralidade da
Mulher Pobre. in: História e Sexualidade no Brasil. Graal, Rio
de Janeiro, 1986, p. 199/200.
8:> GOUVEIA, E.J. Considerações higiênicas sobre a criança e a mu-
lher quando operárias. Tese à Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro, 1919.
FAUSTJNA, C. Prote~:ão Legal à Professora Grávida. Tese à
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1919.
CARVALHO, M.P. A Defesa da Maternidade em Higiene ·Indus-
trial . Tese. à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1924.

114
Outro tipo de crítica bastante freqüente é em re1ação à
participação política feminina, notadamente nos movimento5
operários c nos movimentos feministas, que possuíam alguma
importância no qt!ac!ro social da época. De um lado, observa-se
uma participação ativa das mulheres nas lutas operárias, onde
pleiteiam, entre outras coisas, uma equiparação com os tra-
balhadores masculinos, scb a forma de igualdade salarial e
carga horária. 86 Por outro lado, vemos o surgimento de um
movimento feminista propriamente dito, que vai se organizar
mais formalmente em 1922, e que vai ter como base de suas·
reivindicações o direito à cidadania e ao voto das mulheres,
assim como toda uma proposta de conciliação entre trabalho
e maternidade. sr
Diante deste quadro, os médicos vão ter uma posição
bastante ambígua. Ao mesmo tempo em que criticam a ex-
ploração da mulher nas indústrias, como algo contra o bom
desenvolvimento social, vão tentar circunscrever os aspectos
emancipatérios destes movimentos, sob alegação de que suas
atividades políticas e produtivas seriam um sacrifício às suas
reais potencialidades físicas e psicológicas. Não se depreende
com trabalhos médicos wna perspectiva de crítica à exploração
da mulher dentro da organização social e econômica que se
estruturava. Não se pretendia obter para a camada feminina
da população uma situação mais digna; o que se faz é criticar
o fato da mulher estar inserida no sistema produtivo, buscando
reconduzi-la para dentro de casa.

!l6 A realidade da mulher operária no final do séc. XIX e durante


a Primeira República era dramática. Essas mulheres eram bastante
exploradas. ganhavam um mínimo de salário e eram mantidas na
condição de um exército industrial de reserva. Paralelamente, seu
espaço doméstico não tinha melhor sorte, constituindo-se de cor-
tiços c. favelas.
PAOLI, M.C. opus cit., p. 84/85.
87 A esse respeito ver:
HAHNER. J.E. opus cit.
SAFFIOTTI, H.I.B. opus cit.
PAOLI, M.C. opus cit.

115
Nesse sentido, os textos psiquiátricos que recorrem às idéias
de Freud não vão fugir a essa perspectiva, ao contrário, vão
ser utilizados para reforçar toda a ideologia médica sobre o
feminino.
Em relação ao que deve ser o modelo masculino e o mo-
delo feminino, os textos são bastante óbvios. Na tematização,
por exemplo, da noção de Complexo de Castração, esse per-
curso não deixa margem a dúvidas. Falando sobre os malefícios
que pode trazer para a criança o desenvolvimento deste com-
plexo, vão dizer que, nos meninos, seu resultado seria uma
geração de homens fracos, incapazes de viver adequadamente
dentro da sociedade. Para as meninas, os riscos não são me-
nores e a inveja do pênis levaria a tendências masculinas e
homossexuais. Fala-se que as mulheres vão buscar um "falo
ideal" e que, com isso, desenvolvem-se vários problemas, resul-
tando em uma personalidade antifcminina, doentia.

''Ess3 imagem se encontra freqüentemente nos casos de


homossexualidade feminina, nas histéricas, nos caracteres
femininos rnasct!linizados, no próprio desgosto de ser
mulher, associado ao desejo de ser homem, agir como
homem - no mal denominado "feminismo", enfim, que
melhor se c1•amara "masculinismo". ss

O tratamento dado à idéia de Complexo de Castração co-


lOC::! em evidência o tipo de perspectiva que os psiquiatras vei-
culam, quando pretendem formar determinados tipos de indi-
víduos. No menino, esse complexo é lesivo porque produz
homens fracos e incapazes, isto é, inadequados a um tipo de
inserção social qt:e estaria reservada para ele, tais corno as
posições de mando, as atividades de maior poder e de maior
necessidade de força e de capacidade intelectual. Para a meni-
na, as características masculinas são tratadas como algo contra
a sua "natureza'' de e~posa e mãe. Desta forma, utilizam-se

88 PORTO CARRERO, J.P, Ensaios de Psicanólise. p. 88

116
noções retiradas da psicanálise para reforçar, cada vez mais
marc?.ção de um lugar social para homens c mulheres. ' a
Para essa psiquiatria, as diferenças "naturais" entre ho-
mens c mulheres estariam marcadas no psiquismo de cada um
e produziram as difcreilças de funções e papéis sociais. Segun-
do Porto Carrero, 8 9 os caracteres orgânicos sexuais dos ho-
mens, como da maior parte dos machos nas várias espécies,
deram a este maior impulso agressivo, a tendência ao mando
e ao sadismo. Comparando os homens aos animais, reforça
uma idéia de que a natureza é que determina os comporta-
mentos, que a cultura e a sociedade seriam meras conseqüên- ·
cias daquilo que é animal, "natural". Desta forma, diz que a
atitude psíquica dos homens seria a continuidade de uma ati-
tude sexual inata, instintiva, que é diferente em homens e
mulheres.

"Se observarmos a atitude física dos sexos, veremos que


ela não é diversa da atitude física dos mesmos no ato
amoroso. A mulher é o ser que espera, que, a princíp!o,
se esquiva ou resiste, que, por fim, se entrega, se abre,
suporta a agressão; o homem é o ser que procura, que
excita, que penetra, que agride. É por isso o amor da
mulher feito de abnegação, de apagamento de si mesma;
assim como o seu orgasmo é lento e suave, quase em
declínio, assim, o orgasmo masculino é súbito e violento.
Ela entrega-se, é possuída; ele busca e possui." uo

Deste modo, falando da existência de uma diferença entre


a atitude dos dois sexos no ato sexual, ligando, via a biologia,
atividade a masculino e passividade a feminino, consegue dois
objetivos: de um lado, reforça a idéia de uma determinação
natural às possíveis diferenças de comportamento, entre ho-
mens e mullieres, ao mesmo tempo em que justifica o lugar
que cada um deve ocupar no jogo sexual. A partir daí, vai

so PORTO CARRERO, J.P. Sexo e Cultura. in: Arquivos Brasileiros


de Higiene Mental, Rio de Janeiro, 1933.
oo idem, p. 158

117
concluir que essa diferença determina, também, os papéis so-
ciais de cada um.

"Da psicologia sexual à atitude social dos dois sexos, há


menos que um passo. E essa atitude tem sido sempre a
mesma: o homem agride, faz a guerra; os instrumentos
de agressão são símbolos fálicos também. A mulher
guarda a casa (símbolo qo ventre materno), cozinha os
alimentos (idéia associada à gestação), fia e costura
(associação frequente da masturbação feminina) ; cria os
filhos, por fim, fora do útero, como os criara dentro
dele." 91

A inserção social de cada sexo teria, portanto, a ver com


seus atributos orgânicos e suas funções biológicas, que, repro-
duzidas como características mentais, levariam a uma divisão
de tarefas. Os homens seriam adequados ao poder e ao do-
mínio, e as muJhercs, às funções domésticas e maternas, já
que estas seriam as representantes sociais simbólicas de sua
constituição física e psíquica. Fora deste modelo, estaríamos
no terreno da patologia. Os desejos de emancipação femini-
nos seriam fruto de problemas no desenvolvimento psíquico e
sexual e típicos de diversas afecções mentais.

"A tendência da mulher à emancipação naqa mais será


do que o fruto da "Penisneid", da inveja do pênis; e a
atitude de revolta contra o homem, o desejo de igualar
os sexos (a homossexualidade), a ânsia de agredir e di-
rigir, são cncontradiços nas doentes histéricas, como sin-
toma de regressão clitoridiana." 92

Desta forma, explicando um movimento social como o


feminismo, como produto da inveja do pênis e de uma re-
gressão clitoridiana, o autor vai patologizar as legítimas aspi-

91 idem, p. 158.
112 idem.

118
rações sociais das mulheres, e tentar fixá-las sem seus papéis
tradicionais. Considera o desejo de igualdade das mulheres
uma ilusão, porque os sexos são diferentes. Ou seja, a dife-
rença sexual determinaria a condição de opressão feminina.
De acordo com seu raciocínio, a mulher deve estar submetida
ao poder do homem, caso contrário, correrá o risco de deixar
de ser mulher.

"A não ser que se venha a constituir um sexo neutro,


como entre as abelhas, nunca poderão chegar à iguaJda-
de os dois sexos, um receptivo, acessivo, o outro, ativo,
penetrante. ''11<~

Em relação ao feminismo, acrescenta ainda uma agravan-


te. Para ele, a ânsia da mulher por direitos iguais e por uma
atividade produtiva teria, no fundo, um desejo de liberação
sexual, o que seria uma ilusão, já que refletiria o desejo de
uma promiscuidade contrária à natureza humana. Para ele, a
espécie humana é preferentemente monogâmica; o homem
busca na fêmea a imagem materna, sendo esta componente in-
dispensável à realização completa do casal. Em relação à mu-
lher, a demanda seria análoga, o seu anseio de volta ao ventre
materno se manteria graças ao anseio da posse qe um pênis
ideal. Por associação, esse desejo se transforma na procura do
arrimo paterno e, mais tarde, na do arrimo do esposo. Esta
seria a situação "normal" .e característica da natureza huma-
na. O desejo de liberdade sexual, a busca de outros parceiros
que não o marido, o adultério, seriam sintomas de problemas
no desenvolvimento sexual de um dos cônjuges. O que está
em jogo nesse tipo de argumentação é a importância do ca-
samento para o projeto médico, e de como as reivindicações
colocam esse modelo sob grande ameaça, tanto pela vertente
da emancipação civil, quanto pela vertente da Jiberdade sexual.
No entanto, esse é um período em que as questões femi-
ninas ligadas ao sufrágio e à inserção na força de trabalho ga-
nham alguma importância em diferentes círculos. Os médicos
- - -·- -
9a idem, p. 159.

119
tentam então uma barganha. Se as mulheres já não se sentem
tão satisfeitas com suns atividades domésticas, se querem dai
outros vôos, que estes sejam feitos dentro .de uma li~h~ "fe-
minina", isto é, que "sublimem" seus ansetos em ahvtdades
condizentes com sua condição de mulher.

"Mesmo fora do lar, há profissões que são sublimações


perfeitamente femininas, ainda que .exercidas atua~1entc
por homens mais ou me:.1os regredtdos na evoluçao se-
xual. Cabelereiros, alfaiates, farmacêuticos, burocratas de
várias classes, empregados de banco, pesquisadores de
laboratório, professores primários, médicos pediatras,
etc., teriam profissões mellior desempenhadas por mu-
lheres que retiram sua capacidade do seu clitoridismo fá-
Jico e da feição minuciosa de seu erotismo anal." 94

Ou seja, se a mulher não possui um pênis e, sim, um


"projeto", ou seja, seu clítoris, ela é "realmente castrada", isto
é, incapaz do exercício de atividades que exijam uma maior
capacidade intelectual, alguém com poucas possibilidades de
crescimento individual, devendo manter-se em atividades "me-
nores", condizentes com suas potencialidades pessoais mínimas.
Düicilmcnte uma mulher conseguiria equiparar-se ao homem,
por ser menos agressiva, em função do seu "parco erotismo
anal", e de seu "clitoridismo insuficientemente fático".
Esse tipo de raciocínio, segundo o qual existem atividades
que seriam adequadas às mullieres, é muito freqüente. Falam
não só de ocupações próprias às suas potencialidades, como,
também, de atividades que funcionariam como continuação de
suas funções de esposa e mãe, isto é, que têm como base o
cuidado, a educação e a formação moral dos indivíduos, como
no caso do magistério.

"A força motriz fem inina em toda parte, sobretudo no


.
Brasil deve exercer influência saliente na formação das
qualidades do homem. É no lar e na escola que espm-
' .

94 idrm, p. 161.

120
tos se fazem, ou, ao menos, muito se aperfeiçoam e ai
estão fixados os dois pontos estratégicos da influência
feminina. Daí, nascem as raízes de nossas idéias. A mu-
lher na família e no aprendizado pode constituir os
núcleos da cristalização da individualidade masculina, da
fam ília e da sociedade em geral." 9"

A mulher seria importante, portanto, enquanto formadora


c mantenedora de valores sociais como o casamento, a família,
c a pátria seria uma espécie de muro de arrimo da sustentação
moral. É preciso, então, prevenir a sua "dessexualização", im-
pedindo que ela se torne um ser sem função. É prec!so que ela
não se iguale ao homem, que mantenha sua especificidade,
funcionando como um ser complementar ao homem, como
uma peça de uma engrenagem, que deve funcionar adequada-
mente, em detrimento de seus desejos e de suas necessidades
pessoais, que devem ficar em plano secundário, em relação
aos interesses masculinos, como se fossem, no fundo, desejos
e necessidades espúrias.

"A mulher puramente companheira de trabalho é um ser


que mente à sua finalidade. A sua identificação ao ho-
mem, que não engravida, fá-la buscar a contracepção
que mais atende, geralmente, ao interesse femin ino do
que ao esposo." 116

Um ser que mente a sua suposta fin alidade social, que


atenda a seus interesses próprios, quase um pecado, é uma
típica antimulher, negativo do modelo ideal. A ameaça, que
paira sobre suas cabeças nesses casos, é o sofrimento e a
doença.

"É preciso não perder de vjsta que a função sexual da


mulher não está completa sem a maternidade. Os consul-

flll AUSTRAGÉSILO, A. O Perfil da Mulher Brasileira. Guanabara.


Rio de Janeiro, 1922, p. 77.
90 PORTO CARRERO, J.P. Sexo e Cultura, p. 164.

121
tórios de neurólogos estão cheios ~e cas~das q~c sofre~
0
mal de não ter filhos, de soltell'as CUJO mator deseJO
fora serem mães, embora sentindo restrições na atração
pelo homem. Só o filho realiza o pênis ideal sonhado na
infância, e até as hnbituadas à contracepção revelam na
análise aquele desejo inconsciente de serem mães." IY7

Sem filhos, portanto, não haveria . saída saudável ~~a a


mulher. Essa au5ência deixaria um vaZio na estrutura fistca c
psíquica feminina, que levaria a um des~quilíbrio mental. É
preciso que ela volte seu interesse para ;sso, escolhendo um
esposo adequado. E essa escolha scra tanto melho_r quanto me-
lhor for a educação que ela receba. Esta educaçao deverá ser
norteada pela doutrina psicanalítica, de forma ~ possibilitar a
resolnç:!o dos conflitos internos femininos.

"Essa escolha do esposo terá maior serenidade, quando


uma educação norteada pela ps:canálise tornar mais raros
os conflitos íntimos, que causam as paixões amorosas, as
aversões ao casamento, a timidez. ante o sexo oposto, as
tendências para o deboche e a prostituição. A tendênc!a
monogâmica só poder á ser acentuada por uma educaçao
assim dirigida." 9 ij

Desta forma, mis~urando prost1tu1çao, paixão e inibição


sexual, colocando problemas diversos em um mesmo sac?, pa-
tologiza-se diversas questões, mesmo as que sã? determm~das
social e culturalmente. Acredita-se que estes obstaculos obtenam
uma resposta dentro da psicanálise, que devolveria o bem-estar
pessoal e a harmonia social. .
A psicanálise, c:1beria, portanto, um papel pedagóg1co, en-
quanto parte dessa estratégia de produção de uma mulher.

97 idem.
us idem, p. 165.

122
O MOVIMENTO PSICANAL!TICO NO
RIO DE JANEIRO NA DÉCADA DE 70:
a produção de uma psicologia psicanalítica e seus
efeitos sobre a formação profissional. *

ANA CRISTINA F IGUEIREDO

Condensar em um artigo o vasto material de pesquisa


levantado para uma dissertação de mcstrado1 não é tarefa
simples. Isto porque não se trata apenas de colher dados e a
eles acrescentar uma análise cujo modelo metodológico esteja
pronto, acabado ou determinado a priori. Ao contrário, o modo
como estão dispostos os fatos, em cada detalhe, é que permite
surgir uma interpretação. O método é dado na própria his-
tória, entendendo-se que esta história não é um mero acúmulo
de informações mas, antes, se faz na construção mesma da
análise. Ao contar a história da APPIA, por exemplo, através
da pesquisa de documentos, recortes de jornais, entrevistas,
etc., deparei-me com um exemplo típico do que terminei por
definir como uma psicologia psicanalítica que se constituiu

• Este artigo é uma versão modificada do que foi anteriormente pu-


blicado em Psicologia ClJnica, Pós-Graduação e Pesquisa. ano l , n .o
I. agosto de 1986.
1 Esta pesquisa é parte de minha dissertação de mestrado apresentada
na P UC-RJ com o título de Estratégias de Difusão do Movimento
Psicanalltico no R io de Janeiro - 1970/1983.

123
através de agentes específicos. Entre eles estão os profissio·
nais arg.::ntinos que, com sua concepção teórica e política da
psicanálise, alteraram o perfil do movimento psicanalítico no
Rio de Janeiro. Contar a história de um período, portanto,
significa estabelecer relações entre determinados dados sele-
cionados - episódios e eventos, instituições e agentes - que,
uma vez suprimidos ou reduzidos, impõem certas limitaçõe~
à análise.
Uma outra questão importante é que todo o trabalho de
pesquisa pretendeu levantar o campo das práticas em psicaná-
lise sem recorrer à teoria psican alftica para dar conta dessa
"história". Meu objetivo não era fazer uma história psicanalí-
tica, e sim configurar o campo de relações poHtico-profissio-
nais do movimento psicanalítico na década de 70, o que até
então, pelo que me consta, não havia sido feito óe modo sis-
temático. Isto porque falar sobre a psicanálise exigiria um
certo "estar de fora" estratégico: por um lado, era mais difícil
de ser feito por quem estava "dentro", isto é, pelos próprios
psicanalistas e, por outro, não parecia constituir a preocupação
de historiadores ejou sociólogos sobre o tema. Minha posição
enquanto psicóloga e pesquisadora me atribui um curioso lugar
de dentro e de fora ao mesmo tempo, atraente o bastante para
vasculhar e analisar as várias associações entre psicólogos e
psicanalistas em seus diferentes modos e objetivos.
Inicialmente, o que norteou minhas indagações foi o fe·
nômeno da proliferação de associações profissionais compos-
tas, em sua maioria, por psicólogos cujo objetivo era forn ecer
uma formação sistemática em psicanálise a seus próprios mem-
bros. Este fenômeno se deu por volta da segunda metade da
década de 70 e intensificou-se no início dos anos 80. Se con-
siderarmos que, tradicionalmente, a expressão "movimento
psicanalítico" refere-se, do ponto de vista profissional, às so-
ciedades psicanalíticas autorizadas pela IPA, o que estava sen·
do posto em marcha era um aparato de formação paralela a
que muitos chamavam de "formação alternativa". Diante disto
me veio a seguinte questão: o que teria acontecido anterior-
mente que engendrou esse "movimento"? Assim, no decorrer
da pesquisa foi necessário examinar os primórdios da própria

124
psicologia clínica no Rio de Janeiro nos anos 50/60 para fi-
nalmente constatar que desde seu início ela não poderia ser
pensada sem a psicanálise e, principalmente, sem a presença
fundadora dos psicanalistas. Psicanálise e psicologia clínica
estando, num certo sentido, indissociadas, aparecem ao mesmo
tempo como um avanço e um complicador para o movimento
psicanalítico "oficial", como veremos mais adiante, especial-
mente através das várias associações estabelecidas nos anos 70.
Aqui convém esc1arecer que não entendo as relações entre
p_sicanálise e psicologia clínica apenas como superposições
Circunstanciais de territórios afins, mas antes, como um imbri-
cado de relações onde a primeira é suporte da segunda em
suas origens e desdobramentos. Esta é a própria noção de psi-
cologia psicanalítica que emprego para pensar essas relações.
Dois aspectos caracterizam a psicologia psicanalítica: 1)
ela absorve os psicólogos clínicos que passam de consumido-
res a produtores de psicanálise acabando por reivindicar o
status profissional de psicanalistas; 2) ela promove a amplia·
ção do próprio campo psicanalítico que atinge um certo ecle~
tismo de teorias e práticas para além de seus supostos limites.
Surge daí uma dupla questão. Primeiro, no que diz respeito
ao campo teórico-técnico, a psicanálise correria o risco de
descaracterizar-se através da quebra da homogeneidade no pla-
no conceitual e na própria concepção da prática analítica. E
segundo, no que diz respeito ao campo político-profissional, o
movimento de profíssionalização dos psicólogos psicanalíticos
ameaçaria desestabilizar a posição hegemônica das sociedades
psicanalíticas já existentes no mercado da psicanálise, princi-
palmente das chamadas sociedades "oficiais" autorizadas pela
IPA. 2

2 Utilizamos a expressão "sociedades oficiai s" para designar as insti-


tuições de formação psicanalítica autori7.adas pela IPA - Interna-
tional Psychoanalytical Association-. No Rio de Janeiro existem
a SPRJ ·- Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro e a SBPRJ
- Sociedade Brasileira de. Psicanálise do Rio de Janeiro, ambas
fundadas no final da década de 50. Além dessas há a SPID - So·
ciedade- de Psicanálise Iracy Doyle - fundada em 1974 para con-
gregar os psicanalistas do IMP - Instituto de Medicina Psicológica

125
Quais seriam, então, as diferentes assoc1açoes entre psi·
canaJistas e psicólogos clínicos que fomentaram o exercício de
uma p~icologia psicanalítica gerando uma demanda mais espe·
cífica de formação em psicanálise? Eis o que, de modo resu-
mjdo, tentarei esclarecer.

O surgimento da psicologia clinica

Os primeiros trabalhos em psicologia clínica no Rio de:


Janeiro datam de fins da década de 50. Por essa época, o
psicanaJista Décio Soares de Souza, titulado na Inglaterra, in~
troduz a psicanálise infantil para os psicólogos, orientando-os
em seu trabalho de consultório. Em 1961, Décio ministra um
curso de extensão na PUC-RJ - único curso de psicologia
então e-xistente - cujo tema é "Psicoterapia na Escola Ingle~
sa··. Esse curso foi considerado o primeiro trabalho de siste·
matização teórica para a prática do atendimento ir.:fantil que
come\nvn a ser feito pelos psicólogos. Curiosamente j~. existia
um espaço em alguns órgãos públicos para o ex:ercfcio da psi·
coterapia infantil. O lPE (Instituto de Pesquisas Educacionais).
do Servic0 dt Ortofrenia e Psicologia da Secretaria de Edu-
cação; o "coi (Centro de Orientação Infantil) e o COJ (Cen-
tro de Orientação Juvenil ), ambos do Ministério da Saúde,
foram os primeiros locais a receberem psicólogos e estagiários
para um tr~~alho em psicodiagnóstico e, em alguns casos, tam·
bém em psicoterapia infanto-juvenil. Nessas clínicas, os psic.:a-
nalistas. de formação médica, encarregavam-se da supeT';isão
Ge;son Borsói no IPE, Mara Salvini e Ana Elisa Merca~

- que foi o primeiro grupo de formação psicanalítica do R io,


fundado em 1953, mas mantinha uma orientação inspirada na es-
cola culturalista americana; o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro,
fundado em 1969 por um grupo ligado a Kattrin Kemper, ex-analista
didata da SPRJ. Tanto a SPID quanto o CPRJ são filiados à enti·
dade internacional IFPS - lnternational Pederation of Psychoana-
Jytic Societies. Em 1978, há uma dissidência resultando na forma-
ção do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção R io ligado à
entidade nacional que congrega outros grupos em Minas Gerais,
Rio Grande do Sul e Bahia.

126
dante no CO! - ou então a psicóloga Elisa Veloso no COJ
que oricn1ava suas supervisões a partir de sua experiência com
a psicanálise em seu trabalho com Décio de Souza e com Ma~
noel Lyra - além de sua longa análise pessoal com o psica·
oali~ta Alcyon Bahia. F oi, portanto, a partir do exercício da
psicanálise infantil que se implementou a primeira psicologia
clínica no Rio de Janeiro.
Esses serviços, entretanto, ou são desativados, como é o
caso do IPE, ou não absorvem de todo os estagiários e profis-
sionais em clínica. Mas o trabalho privado em consultório se
expande.
Poder-se-ia contra-argumentar que a psicanálise não era
o únicv nwde1o para a psicologia clínica na época. Havia, por
exemplo, o trabalho de Carl Rogers sendo difundido. Entre-
tanto, um modelo não substituía o outro, ao contrário, com·
plementava-o. Idéia bastante justificável uma vez que o que
se valorizava eta uma certa intuição clfnica, mais do que a
especificidade deste ou daquele modelo teórico-técnico.
Paulatinamente, os psicólogos dominam a clínica, exer-
cendo funções de terapeuta e, mesmo, de supervisor ampliando
sua clientela. A transmissão da psicanálise e suas possíveis
''arioçõcs já não se faz apenas através dos psicanalistas. Os
próprios psicólogos se encarregam de formar oficiosamente os
novos clínicos num processo que, posteriormente, o próprio
Leão Cabernite, ao queixar-se da perda do controle hegemô-
nicn do movimento "oficial', sobre a psicanálise, denominou
de "geração espontânea,.8 • Na divisão do "mercado clínico", os

s O psicanalista Leão Cabcrnite, membro didata e presidente da


SPRJ de 1972 a 1980, presta declarações ao Jornaf do Brasil (Ca-
derno B do 4/6/80) por ocasião da abertura do VIII Congresso
Brasileiro de Psie<~nálise. Repetimos aqui um trecho significativo em
que se queixa da formação oficiosa dos psicólogos em psicanálise:
" ... o fenômeno da má formação de profi!lSionais começou há mais
de dez anos, quando alguns analistas se dispuseram a dar super-
visão a pessoas saídas das escolas de Psicologia, muitas ve-
zes com a ausência da imprescindível análise pessoal. Depois, as
pessoas assim formadas abandonaram seus professores, agruparam-
-se e. começaram a importar psicanalistas, sobretudo da Argentina,
para fazer docência e supervisão. Mais tarde, os ex-alunos pas-

127
psicólogos ocuparam, definitivamente, a área infantil. Muitos
alimentavam a crença de que era "mais fácil" atender crianças.
g~ralmcnte com o apoio dos psicanalistas de formação médica
que inclusive estimulavam essa empreitada, considerando-a
''mais adequada" aos psicólogos. Em sua grande maioria, são
mulheres que conseguem profissionalizar uma função marca-
damente feminina que é de "cuidar" das crianças e exercê-la
com a legitimidade que os psicanalistas e as instituições pÚ·
blícas lhes outorgam. Mas elas próprias se analisam com os
psicanalistas das sociedades oficiais que teriam, dentro da visão
da época, a "competência" necessária para tratar de adultos.
Em 1962, quando a profissão de psicólogo é regulamen·
tada, fica oficializada a possibilidade de uma prática clínica.
Evidentemente, o processo de regulamentação foi cheio de
percalços e não faltaram as perseguições do Conselho Federal
de Medicina e do extinto Conselho Nacional de Saúde, con·
trolando consultórios, cobrando alvarás, etc. Elisa Veloso e
Padre A. Benko - fundador do curso de psicologia da PUC
e entusiasta da psicanálise na época - são dois personagens
importantes na defesa de uma regulamentação que autorizasse
a prática clínica. O problema é parcialmente resolvido quando
se inclui como último ítem do parágrafo 19 do Art. 13 a alí-
nea d: "solução de problemas de ajustamento"4 •
A partir de 1968, com a reforma universitária e o incentivo
à privatização do ensino, surgem novas escolas de ensino su-
perior c os cursos de psicologia proliferam - hoje somam o
total de dez cursos no Estado do Rio formando anualmente
cerca de mil psicólogos.
No início da década de 70 a clínica é definitivamente elei-
ta como a especialidade psicológica por excelência. O modelo

saram a professores de geração l!spontânea ao lado de profissíonai"


semi-analisados por grupos que. se intitulavam dissidentes. A bola
de neve foi crescendo e hoje é uma verdadeira montanha, um
enigma sem solução aparente." (grifo nosso)
~ Nas demais alíneas constam: a) diagnóstico psicológico; b) orienta-
ção e seleção profissional; c) orientação psicopedagógica. Cf. Código
de Ética e Legislação, Ministério do Trabalho, Conselho Federal de
Psicologia.

128
de atendimento privado predomina, embora já desponte um
interesse pelo trabalho preventivo nas instituições e na comu-
nidade. A inspiração é eminentemente psicanalítica, em especial
a psicanálise infantil da escola inglesa - Mclanie Klein, Hanna
Segal, Winnicott, Anna Freud.
Nesse quadro, aumenta a tensão das relações entre psicó-
logo~ e psicanalistas de formação médica, sendo que estes en-
contram entre os primeiros boa parte de sua clientela. Não
era incomum que muitos analisandos decidissem ingressar num
curso de psicologia com o projeto de tornarem-se psicanalistas,
mesmo sabendo que as sociedades oficiais não aceitavam psi-
cólogos em seu quadros 11, ou que os próprios psicólogos bus..
cassem os cursos de medicina, prolongando infinitamente sua
formação.

Uma Psicologia Psicanalítica

Nesse momento, quando o acesso à clínica está pratica-


mente assegurado, a questão é: o que é psicologia clínica? De
que modo sua prática é informada? Esta passa a ser a pr~o­
cupação central de psicólogos e psicanalistas. Envc;>lvidos num
sutil jogo de poder, os segundos se encarregam de definir a
função dos primeiros.
O processo de afiliação que assegurava a transmissão da
psicanálise estava, por um lado, amarrado à análise didática
nas sociedades oficiais e, por outro, circulava oficiosamente
nas relações de análise e supervisão que os psicanalistas esta·

:; Não considero relevante para meu argumento o fato de existirem.


nn época, outros grupos de formação que aceitavam psicólogos -
em partict(lar. o IMP (Instituto de Medicina Psicológica). atual
SPJD (Soci~ade Psicana.lítica Iracy Doyle) e o CPRI (Circulo
r~icanalítico do R io de Janeiro) - porque. não possuíam o mesmo
grau de legitimidade ou reconhecimen to formal das sociedades da
IPA e. por isso. não eram visados pelo movimento dos psicólogos
como alternativas para sua formação, a não ser em poucos casos.
Ainda que, num segundo momento, quando surgem os novos grup:>s
que pretendem fazer uma oposição política às antigas sociedades.
eles sejam identificados ao movimento psicanalítico "oficial".

129
beleciam com os psicólogos, e estes entre si. Em termos de
clientela, os psicólogos eram um mercado fértil e isto era pro-
vavelmente percebido, por certos psicanalistas mais progres-
sistas, como um avanço para o movimento. Quando se tratava.
porém, de ter acesso à categoria profissional de psicanalista.
a situação era diferente. Aparecia aí um complicador: os psi-
cólogos passariam de discípulos e agregados a concorrentes.
Não era incomum que analistas, até com as melhores intenções,
alertassem os psicólogos para não perseguirem o modelo do
psicanalista e buscassem alternativas para sua prática clínica.
Entretanto, o que não era levado em conta, e talvez soasse
como abuso de poder, era que a hegemonia da psicanálise ern
fato consumado. Os psicólogos estavam demasiadamente en-
volvidos com seus mestres, supervisores e terapeutas para de-
sistirem desse projeto. Como, então, estabelecer a diferença?
No período de 1970 a 1976 desenrolam-se, mais ou me-
nos simultaneamente, uma série de eventos em que psicana-
listas e psicólogos clínicos se associam constituindo diferentes
grupos cujo objetivo primordial é fazer circular as idéias psi-
canalíticas que asseguram sua prática clínica mantendo, porém ,
uma permanente ambigüidade quanto aos fins profissionais
dessa associação. Os que mais se destacam são:
- IOP (Instituto de Orientação Psicológica). Curso or-
ganizado em 1970 pelo psicanalista Fábio Leite Lobo, membro
da SPRJ e, na época, diretor do Instituto de Ensino, dirigido
aos profissionais que não estavam vinculados às sociedades
psicanalíticas, especialmente aos psicólogos. Foi ministrado
pelos psicanalistas argentinos que também davam cursos para
os membros da SPRJ. Entre eles Eduardo Kalina, Anninda
Aberastury e, posteriormente, Maurício Knobel. Teve uma
freqüência rotativa de mais de cem profissionais e durou cerca
de quatro anos, oferecendo seminários e supervisões em aten-
dimento infanto-juvenil. Era formalmente exigida uma expe-
riência pessoal em análise. Com seminários, supervisões e aná-
lise o IOP se aproximava, aínda que de modo assistemático,
do modelo tripartite de formação psicanalítica padronizada
pela IPA. Não tinha. contudo, qualquer compromisso em titu-
lar seus participantes.

130
- SPC (Sociedade de Psicologia Clínica). Fundada em
1971 por um grupo de psicólogos ligados a Fábio Leite Lobo
e ao IOP e a Gerson Borsói do IPE. Visava oferecer um aper-
feiçoamento profissional em psicologia clinica cuja base era
eminentemente psicanalítica. Os seminários c as supervisões
eram ministrados preferencialmente por psicanalistas das so-
cicdaàcs oficiais. Porém, o próprio grupo não se autorizava u
assumir uma formação. Foi este o único grupo da época a
formar posteriormente uma sociedade psicanalítica. Inicialmcn~
te não aceitavam médicos em seus quadros, pois pretendiam
inverter a interdição colocada pelas sociedades oficiais.
- CESAC (Centro de Estudos de Antropologia Clínica).
Fundado em 1972 pelos psicanalistas Inês Besouchet - que
apesar de ser psicóloga era analista-didata da SPRJ - e Wil- ·
son Chebabi (SPRJ). Funcionava como um grupo de estudos
bastante eclético que discutia temas nas áreas de antropologia,
filosofia, linguística, etc., e era freqüentado por uma .maioria .
de psicólogos que obtinha supervisão clínica e devena estar
em análise pessoal para poder participar do grupo. Apesar das
tentativas de sistematizar uma formação em psicanálise - a
mai~ controvertida foi em 1978 e gerou uma crise na instituição
- , o CESAC permaneceu com funções indefinidas qua\Jto à
profissionalização.
- APPIA (Associação de Psiquiatria e Psico1ogia da In·
fância e da Adolescência). Fundada em 1972 por um grupo
de psicanalistas da SPRJ aliados aos psicólogos clínicos8 , ofe~

G Os psicanalistas eram: Carlos Cesar CasteUar, ~âbio Lei1e . Lobo,


Fábio Lacombe José Ibsen de Almeida (na epoca candtdato).
Wilson Chebab/ Eduardo Mascarenhas, Clodoaldo Frison, Nylde
Ribeiro Luiz Àntonío Telles de Miranda. Ana Maria Mourão,
Anna P. Guelennan Ramos, Carlos Antonio Garrido Pereira e
Ubirajara Pessoa Guerra. Entre os psicólogos, nomes oomo: Ana
Lúcia Mascarenhas, Angela Podkameni, Beatriz Verschoore, Carmen
Lent Célia Damasceno Clara Helena Portella (hoje psicanalista da
SPRj, com formação e~ medicina). Jnez Farah. José Inácio Parente,
.Marci Vaz de Carvalho, Maria Anita Ribeiro, Maria El isa Delecave.
.Maria Imeldi Farah, Maria Regina Moraes. Mary Kleinman . N~r­
ciso Teixeira, Nilza Ericson, Paulo Sérgio Lima Silva. Pedro Aménco
Correa, Therezinha Lins e outros. Muitos destes já estavam compro-

131
recia cursos e palestras variados em torno do tema da "saúde
mental". Teve como principais funções: 1) aglutinar os psi·
cólogos clínkos numa instituição que funcionou como sed~
profissional, uma espécie de sindicato que possibilitou a arrc-
gililenl~ção e organização de classe dos psicólogos em torno
d?. uovo prójct~ interdisciplinar de saúde mental; 2) possi-
bJhtar uma mator aproximação dos profissionais argentinos
sustentando seu projeto de politização dos profissionais "psi"
no sentido amplo - "esquerdização" do movimento atravé:i
da proposta de promoção de saúde mental aliada a mudanças
sociais - e no sentido estrito - organização e mobilização
dos psicólogos em torno da psicanálise com subsídios para a
ampliaç.ão de sua prática clínicu; 3) manter uma convivência
democrática entre psicanalistas, psicólogos e psiquiatras sem·
prc em torno da psicanálise. A APPIA chegou a congregar
cerca de mil sócios até 1976 e promoveu dois grandiosos con-
gressos (1972 e 1976) que movimentaram cerca de dois mil
profissionais e estudantes da área "psi". Dei.xav·a, contudo,
pendente a questão do atendimento à população - pomo que
con ~tava de seu projeto inicial - e, principalmente, a questão
da profissionalização.
Esses grupos, cada qual com suas promessas e limitações,
atuavam como mediadores entre os prestigiados psicanalistas
e o número crescente de psicólogos clínicos. Essa mediação,
porém, era bastante problemática e carecia de uma equh·a·
lência entre as partes. Os psicólogos estavam, por um lado,
inexoravelmente envolvidos com a psicanálise, não só como
cliente~ dos psicanalistas mas também na própria supervisão
de seu trabalho. Mas, por outro, não podiam ser psicanalistas.
Que diferença deveria ser estabelecida então?
Algumas soluções se apresentavam. Uma delas propunha
que a diferença se fizesse através de uma inversíio, de uma
negativa: os psicólogos deveriam não ser psicanalistas par!l
poderem praticar a sua própria psicologia clínica, evidente·

metidos com uma formação psicanalítica ou. então, vão se organizar,


na segunda me.tade da década de 70, em diferentes grupos de for-
mação.

132
mente orientados pelos psicanalistas. A isto deu-se o nome de
"psicoterapia de base analítica". Trocando em mi6dos, seria
algo assim como tentar usar a psicanálise pela metade, 0 que
s~ traduzjria em dispensar o divã, não "trabalhar" a transfe-
rência, não interpretar conteúdos mais "profundos", não aten·
der pacientes por tempo itinútado e/ou diminuir o número de
vezes por semana. Enfim, "mutilações" técnicas déntro do en-
foque psicanalítico. E, - maior paradoxo ainda - a expe-
riência em análise fazia parte do acervo da grande maioria
dos psicólogos clínicos nessa época, e esta experiência sempre
foi considerada a melhor maneira de se "aprender" psican~lise.
Os psicólogos, então, viam-se às voltas com a difícil tarefa de
fazer uma não-psicanálise-psicanalítica. Essa situação fica bem
ilustrada no caso do CESAC e, talvez, nos primórdios da SPC.
Uma outra solução que poderia ser vista como mais de-
mocratizante em sua forma, se apresentou a partir da influên·
cia dos psicanalistas e psicólogos argentinos que circulavam
no JOP, na APPIA e nas universidades, principalmente na
PUC. Os psicólogos, desta vez, são incorporados à categoria
óe "prcfissionais de saúde mental", mesclando-se aos psicana·
listas e psiquiatras. Devem ser promotores de saúde, cresci-
mento c enriquecimento da personalidade, ou numa versão
mais politizada, devem ser os agentes de mudança, individual
e social, nos grupos, nas famílias e nas escolas. Não mais ape·
nas através da psicoterapia infantil, mas atendendo a toda a
família, trabalhando preventivamente, penetrando nas institui·
ções para detecta.r sua "doença" e, principalmente, para· pro·
mover saúde. Este era o novo modelo - o que não signjfica
que, na época, tenha sido efetivamente jmplantado ou consti-
tuído um sólido mercado de trabalho para os psicólogos. Hoje,
talvez, já possamos considerar essa possibilidade. Na aparên-
cia, o psicólogo prescindia da imagem do psicanalista "tradi·
cional" que só trabalha em consultório, chegando mesmo a
contestar a psicanálise como prática muito restrita e elitista,
ameaçada de extinção. Mas acontece que eram os próprios psi-
canalistas, mais uma vez, que estavam à frente desse movi-
mento de ampliação da clínica que transcende as quatro pare-
des do consultório e dispensa o clássico divã. Era o próprio

133
campo psicanalitico que se ampliava. As diferentes técnicas
grupais, os novos trabalhos com adolescentes, as terapias de
família c os trabalhos em prevenção e em medicina psicos-
somátíca constituem os principais exemplos de uma "psicanálise
sem divã".
Os argentinos forneceram em grande parte os modelos c
as fontes teóricas de uma psicanálise calcada na escola inglesa
e 1emrerada com as teorias marxistas, o que ficou conhecido
como o neo-kleinianismo argentino. Nomes como José Bleger,
Pichon-Rivierc, M arie Langer, Arminda Aberastury, Eduardo
J\alina, Emílio Rodrigué, Maurício Knobel, Leon Grinberg,
quando não presentes aos congressos, constavam da bihliografia
básica. A psicologia clínica estava, então, embutida numa p~i­
canálise mais diversificada com múltiplas formas de interven-
ção, c tanto psicanalistas como psicólogos exerciam funções
semelhantes. A esta psicaná.lise ampliada corresponde a noção
de psicologia psicanalítica.
_ Entretanto, a hierarquia profissional permanecia. A ques-
tao se remete novamente à profissionalização. Poderíamos in~
dagar se era realmente importante para esses psicólogos torna-
I em-se psicanalistas, se não haveria uma outra maneira de
re~olver o problem a e assegurar uma autonomia profissional
111Jada a uma reconhecida identidade de clínico. Ccrtament"
esta também era uma preocupação dos psicólogos c, durante
um certo tempo, a solução dos "profissionais de saúde mental"
parecia funcionar. Mas os fatos vieram a demonstrar algo di-
ferente.

A Formação Profissional: de Psicanalíticos a Psicanalistas

Na segunda metade da década de 70 começam a aparecer


diferentes formas de associação entre psicólogos e psicanalistas,
desta vez com o claro propósito de promover uma formação
psicanalítica. Concomitantemente, há o esvaziamento de gru-
pos como o CESAC e a APPIA, sendo que muitos de seus
membros são os fundadores das novas instituições de forma-
ção. A eles se impõe a difícil tarefa de sustentar sua própria
exclusão da psicanálise "oficiar' e viabilizar canais de auto-

134
legitimação em seu. trabalho psicanalítico, além de prover sua
própria formação teórica. O dilema inicial desses uovos gtu-
pos e.ra saber como instituir uma formação profissional que
necessitava de algum tipo de reconhecimento como função le-
gitimadora, e, ao mesmo tempo, se caracterizar por uma luta
política contra a hegemonia das sociedades oficiais e seu mo-
delo institucional, considerado por muitos como antipsicanalí-
üco. Cada grupo vai tentar resolver a seu modo esta contradi~
ção presePte, de certa forma, desde a fundação da SPC e
agravada pela ambigüidade dos próprios psicanalistas.
O precursor desses grupos, atualmente extinto, foi o . em-
brião que gerou o NEFF - Núcleo de Estudos c Formação
Freudiana7 - que durou de 1977 a 1979 e se desdobrou em
duas instituições distintas: o IBRAPSI e o IFP. Inicialmente,
existia o chamado "grupão", composto por aproximadamente
cinqüenta pessoas. Dele participavam alguns psicanalistas e
profissionais que trabalhavam em psicanálise e estavam inte-
ressados nessa experiência de autogestão. Gregório Barcmblitt
e Chaim Katz convidados como professores, fazia m parte deste
grupo. Gregório chegou a apresentar um projeto de formação
dos trabalhadores de saúde mental trazido da Argentina. Po-
rém, no ano seguinte, ambos, se afastaram para fundar o
IBRA PSI. O "grupão" se reduziu a quatorze pessoas que fun-
daram o NEFF. Mas, em 1979, houve uma nova cisão no
grupo que deu origem ao IFP, c o NEFF acabou se dissol·
vendo. O que nos chama a atenção no caso do NEFF é o fato
de ser um bom exemplo da chamada "formação alternativa",
cuja proposta deve atender ao mesmo tempo às reivindicações
políticas de transformação estrutural da instituição psicanalí-
tica - tais como mudanças nas relações de poder altamente
hierarquizadas, no modo de transmissão da psicanálise, visto
como conspurcação dos verdadeiros princípios freudianos, na
excessiva burocratização administrativa, etc., - e à urgência
de uma formação sistemática em psicanálise com objetivos

7 Para uma análise mais detalhada ver PASSOS, M.D. O Proce,çso de


Legitimação do Psicanalista: uma análi.fe do Núcleo de Estudos e
Formação Freudiana, Dissertação de Mestrado, PUC-RJ, 1984.

135
estritamente profissionais. Entretanto, este projeto traz em s;
a semtnte de sua própria inviabilidade, isto é, como instituir .e
formar profissionais sem trair a pretensão supostamente revo-
lucionária de subverter a instituição e, mesmo, a própria for-
mação em seu sentido mais técnico'? Esta contradição, agra-
vada por crises internas, provocou o esfacelamento prematuro
do grupo. Nesse sentido, o NEFF ilustra bem os paradoxos
da proposta que se apresentava ainda pouco consistente para
os psicólogos psicanalíticos que queriam tornar-se psicanalistas.
Uma solução encontrada posteriormente, foj a adesão
incondicional ao movimento lacaniano que tomou corpo no
Rio de Janeiro no início dos anos 80. O modelo proposto por
Lacan, tanto do ponto de vista teórico-técnico quanto do polí-
tico-profissional, teria a legitimidade necessária para enfrentar
o aparato da IPA e ambição suficiente para pretender fazer
dos lacanianos os verdadeiros, senão os únicos "herdeiros" do
frcudismo mais radical. Retomaremos este ponto mais adiante.
No caso do NEFF, poderíamos dizer que, imerso em suas
contradições, não pôde ser colhido a tempo pelo movimento
lacaniano, que surgia como novo paradigma teórico e institu·
cional, e sucumbiu.
Os demais grupos que se formaram, somavam até 1983,
um total de seis, sendo que alguns, mais recentemente, deram
origem a outros gestados a partir de dissidências internas. São
eles:
- IBRAPSI (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos
e Instituições). Fundado em 1978 pelo psicanalista argentino
Gregório Baremblítt e por Luiz Fernando de Mello Campos,
egresso da APPIA. Deu continuidade, em certa medida, ao
trabalho iniciado pela APPIA - organizou convênios com
sindicatos e empresas para psicoterapias e manteve um contato
estreito com profissionais argentinos. Introduziu a análise ins-
titucional em seu currículo de formação de psicanalistas e de
socioanalistas. Entre 1978 e 1982, seu período mais próspero,
congregou cerca de 160 alunos e atendeu a uma media de 500
pacientes por ano. Em 1983, houve uma crise na instituição
que culminou com a saída de cerca de 40 membros e com a

136
criação de um novo grupo em abril de 1984: o Núcleo-Psica-
nálise e Análise Institucional.
- IFP (Instituto Freudiano de Psicanálise). Dissidente
do NEFF, fundado em 1979 por um grupo de psicólogas, ofe-
rece uma formação psicanalítica centrada nos trabalhos de
Freud e da escola francesa com Lacan, Leclaire, Manoni,
Aulagnier e outros. Atualmente trabalha com a proposta de
formação permanente em cartéis, que é parte do modelo la-
caniano.
- SEPLA (Sociedade de Estudos Psicanalíticos Latino-
Americanos) . Fundada em 1978 por Luiz Paiva de Castro e
Lourival Coimbra (ex-membro da SBPRJ), só definiu uma
formação psicanalítica dentro da linha freudiana a partir de
1982 com a saída de Luiz Paiva. Chegou a absorver as ten-
dências da escola francesa até que vários de seus membros
participaram da fundação de um grupo lacaniano - Letra
Freudiana - engendrado dentro da própria SEPLA. Recen-
temente, organizou-se a SPECI (Sociedade Psicanalítica de
Estudos Clínicos Integrados) sob a orientação de Luiz Paiva,
que conta com 12 membros psicanalistas. A SEPLA parece
ter sofrido especialmente uma série de fraturas em seu COrPO
institucional, em grande parte devido à heterogeneidade de
propostas que continha, sustentadas por lideranças não con-
solidadas na própria instituição.
- Terra-Clínica-Escola. Fundaõa em 1981 por um gru-
po de psicólogos que trabalhava originalmente com orienta-
ção vocacional dentro do enfoque psicanalítico dos trabalhos
do psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky. A formação é
organizada em grupos operativos e segue a orientação das
teorias da escola inglesa. Em 1985 houve uma dissidência
que deu origem a mais um grupo de formação denominado
Livre Associação Psicanalítica, também caracterizado pelo
trabalho grupal rro processo de formação. ·
- Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. Fundado por
Magno Machado Dias (M. D. Magno) e Betty Milan em
1976, é o primeiro grupo de formação estritamente lacaniano.
A formação, porém, só foi sistematizada a partir de 1981 com
a fundação do Instituto Jacques Lacan. Seu objetivo é rati-

137
ficar e reProduzir as idéias de Lacan a partir da leitura dt
M. D. Magno, o mestre do Colégio de acordo com o novo
estatuto de 1983.
- Letra Freudiana. Fundada em 1983, é o segundo gru·
po declaradamente lacaniano que oferece uma formação em
psicanálise. É liderado pelo psicanalista argentino Eduardo
Vidal e mantém um estreito intercâmbio com os grupos fran-
ceses "herdeiros" de Lacan, principalmente com a Ecole de
la Cause Freudienne, dirigida pelo genro de Lacan, Jacques
Alain Miller.
Apesar das diferenças e, mesmo, das divergências teóri·
cas c políticas, todos têm um ponto em comum: legitimar
profhslonalmente o trabalho psicanalítico de seus membros,
constituindo uma alternativa à formação psicanalítica con-
trolada por entidades internacionais, especialmente pela IPA.
Nesse novo quadro, a dicotomia entre psicanalistas com
formação médica e psicólogus tende a desaparecer. As pró-
prias sociedades da IPA - SPRJ e SBPRJ - acabam por
aceitar candidatos psicólogos a partir de 1980, atendendo a
uma demanda crescente. Agora não se trata mais de difundir
a psicanálise entre os psicólogos através de instituições am-
bíguas como o CESAC e a APPIA, que asseguravam uma
clientela consumidora e promotora de uma psicologia psica-
nalítica mas não possibilitavam uma formação profissional.
Essa clientela vai forçar o acesso à categoria de psicanalista,
seja através da criação de novos canais de autolegitimação,
seja engrossando as fileiras de candidatos nas sociédades "ofi~
ciais". A possibilidade de uma profissionalização em psicaná ·
lise está aberta para todos. O que se constata agora é um
deslocamento do problema, e a pergunta, anteriormente for-
mulada, "quem pode ser psicanalista?" dá lugar a uma outra:
''o que é ser psicanalista?". Ora, esta última envolve uma
outra, ainda mais abrangente: "o que é psicanálise?". O pro-
.blema agora reside em traçar um contorno para o próprio
campo psicanalítico ampliado, e salvaguardar a psicanálise
dos "perigos" de descaracterização. É preciso retirar a psica-
nálise dessa mistura banalizada de técnicas terapêuticas e re-

138
levar sua especificidade. Para ser psicanalista torna-se neces-
sário deixar de ser psicoterapeuta. E isto se aplica a psicó·
logos e médicos em geral. Portanto, o que se apreende é que
os critérios de triagem profissional devem ser revístos a par-
tir da própria teoria.
Nortearemos essa discussão utilizando as categorias teó-
rico-técnico e político-profissional como dois aspectos que
compõem em diferentes arranjos o campo psicanalítico pro-
priamente dito. Alguns problemas se colocam de imediato.
Sabemos que a psicanálise, enquanto campo teorico-técnico
que fornece os principais subsídios para a psicologia clínica,
não é homogênea. Existem diferentes escolas psicanalíticas
que mantêm concepções que chegam a ser incompatíveis en-
tre si gerando várias técnicas e, mesmo, absorvendo técnicas
psicológicas fora de seu campo como, por exemplo, o psico-
drama psicanalítico. Assim, nos deparamos com diferentes
psicanálises que se superpõem e, por isso, torna-se extrema-
mente dificil delimitar suas fronteiras e situar o campo psi-
canalítico frente a outras psicologias. A este entrecruzameoto
de critérios conflitantes sobre o que é efetivamente psicana-
lítico corresponde uma ocupação heterogênea da clínica.
Quanto ao campo político-profissional, o problema é
como diferenciar as categorias. Um psicanalista não deveria
jamais se confundir com um psicólogo clínico. Mas se os psi-
cólogos já são psicanalíticos, e já têm um acesso possível à
categoria profissional, corno fazer a nova triagem? O inimigo
político, facilmente identificável na figura do psicanalista mé-
dico mais conservador que interdita o psicólogo, ou ainda,
o ambíguo colega que com ele divide mais democraticamente
o título de "profissional de saúde mental" são substituídos
pela nova imagem do "verdadeiro" psicanalista, ísto é, pela
imagem daquele que é porque sabe ser psicana:Jítico, inde-
pendentemente de sua formação anterior. A seleção deve dei-
xar de ser burocratizada e funcionar como seleção "natural".
Qualquer um pode ser psicanalista, porém só os mais aptos
vencerão, ou como diz um certo jargão psicanalítico, só os
que mais desejam a psicanálise a terão. R esta saber o que é
preciso para se desejar mais ou "do jeito certo" a psicanâ-

139
lisc, já que o agenciamento se dá a partir dos próprios divã~
e, cada vez mais, através das universidades, atingindo estu-
dantes de psicologia e psicólogos recém-formados. Existe uma
população flutuante que gira em tomo da psicanálise, como
paciente, em supervisão e trabalhando nas várias clínicas
existentes no Rio de Janeiro com orientação psicanalítica. Aí
se constituem novas levas de psicólogos psicanalíticos cujo
maior problema não é serem psicólogos mas sim não serem
psicanalistas.
Convém aqui a ressalva de que não se pretende defen-
der uma posição pseudo-democrática como "a psicanálise é
para todos", ou ainda, "abaixo o elitismo psicanalítico", mas
sim alertar para essa paradoxal situação da psicanálise no
Rio de Janeiro, onde ela parece prometer mais do que pode
dar.
A própria universidade pode ser um bom exemplo. O
curso de psicologia é um dos centros de difusão das idéias
psicanalíticas através dos próprios psicanalistas-professores.
Ele informa, mas não tem como produzir psicanalistas. Do
mesmo modo, os cursos de especialização em nível de pós-
graduaçãoS oferecem atendimento supervisionado e recomen-
dam uma experiência pessoal em análise, mas preparam, no
período de dois anos, no máximo, psicólogos clínicos psica-
nalíticos. Funcionam como uma espécie de triagem para a
formação propriamente dita porque não têm como absorver
institucionalmente esses profissionais.
Retornemos, então, à questão que permanece: "o que é
ser psicanalista?". É nesse ponto que o modelo lacaniano fun-
ciona como um novo paradigma na tentativa de resolver não
apenas o problema profissional dos psicólogos psicanalíticos
mas, principalmente, redefinir o próprio campo psicanalEtico

a No Rio, os três principais cursos de especialização são o CEPCOP-


(Curso de Especialização em Psicologia Clínica com Orientação Psi-
canalítica) que funciona na USU; o curso de especialização em
psicologia clínica da PUC e os cursos oferecidos pelo Instituto de
Psiquiatria da UFRJ em terapia da infância e da adolescência e em
terapia de família. Há ainda o curso de especialização da UERJ.

140
OPerando uma superposição entre os campos teórico-técnico
c político-profissional, onde este último é colocado inteira-
mente a serviço do primeiro. A partir daí se estabelece todo
um novo jargão, uma nova linguagem que vai compor 0 có-
digo através do qual Freud será evocado, revisto e, ousamos
dizer, reinventado.
O discurso lacaniano, ao se oferecer como solução para
a psicanálise, .atinge em diferentes graus, desde as sociedades
já estabelecidas - pertencentes ou não à IP A - até os novos
grupos de formação. O recurso a Lacan e a seus sucessores
torna-se imprescindível, tanto para os psicanalistas que pr~
tendem recuperar ou conquistar sua hegemonia sobre a psi·
canálisc, quanto para os que desejam tornar-se psicanalistas.
Eis aqui dois exemplos da estratégia lacaniana que nos
interessam particularmente na nova política da psicanálise:
I ) Sustentar uma oposição frontal ao aparato político-
profissional da IPA - Lacan chegou a ser expulso em 1963
- rediscutindo critérios para a formação do psicanalista tais
como: a excessiva burocratização das sociedades e, em par-
ticular, a questão da análise didática. Os maiores beneficia-
dos de imediato são os grupos de formação que proliferam
no Rio de Janeiro com a descentralização do controle pro-
fissional exercido pela IP A. Porém, a questão da análise di-
dática interessa especialmente aos analistas que se engajam
na delicada tarefa de modernizar a estrutura das sociedades
a que pertencem.
2) Redefinir a própria função de psicanalista. É preci-
so recolocar a questão segundo o "lugar" que o psicanalista
ocupa. Isto é, sua função não se remete necessariamente à
sua profissão, mas sim a uma construção especialmente re-
quintada que pretende se diferenciar de qualquer aproxima·
ção "terapêutica". Seu exercício deve remeter-se a uma orto·
doxia que pode ser facilmente "traída" no uso cotidiano. Por
outro lado, a definição do ato psicanalítico pode ser vaga o
suficiente para permitir um "uso" extremamente personaliza-
do da situação transferencial e da interpretação. É o estilo
que se impõe como regra fundamental. Qualquer psicanalista

141
que não "entenda" essa função corre ?. !isco, de não p.assal
de um prosaico terapeuta tentando aJudar seu pactente.
Agora já se fala, numa espécie de inversão, em psicanalistas
não psicanalíticos.
Curiosamente, mais do que antes, quando ainda preva-
leciam critérios medicalistas de profissionalização, a proposta
Iacaniana vai tomar ainda mais imprecisas as fronteiras entre
o constmlo terapêutico da psicanálise e o acesso à categoria
de psicanalista. Os analisandos - e aí não me refiro apenas
aos pacientes-psicólogos - buscam cada vez mais "entender"
a psicanálise, apossar-se do código que rege sua modalidade
peculiar de intervenção. Circulando nos simpósios e cursos
de psicanálise abertos a leigos, procuram uma afinídade maior
com sua análise e, mesmo com seus analistas. Além do mais,
considerando-se que, na visão lacaniana, dominar a psicanií-
Jise não significa necessariamente ser terapeuta, mas sim do-
minar o mais sofisticado discurso sobre a constituição do su-
jeito, existe a opção de formar diletantes em psicanálise -
lingüistas, críticos literários, matemáticos, etc. - que podem
ou não trabalhar na clínica.
O movimento lacaniano no Rio de Janeiro, portanto, com
sua proposta de uma psicanálise "subversiva" que promete
um retorno a sua pureza original, com seu apelo a romper
com o modelo médico e com o chamado "discurso universi-
tário" - propostas bastante discutíveis mas que transcendem
o escopo deste trabalho - torna-se muito atraente para os
mais diferentes grupos : psicólogos psicanalíticos que ainda
não conseguem se definir como psicanalistas, um número cres-
cente de jovens já familiarizados com a psicanálise a partir
mesmo de suas experiências como pacientes, e psicanalistas
engajados na modernização do campo psicanalítico que que-
rem prescrever um outro tipo de controle sobre seu status
teórico, político e social. Neste grupo se incluem desde os
novos freudianos, muitos ligados às sociedades da IPA, até
os lacanianos mais radicais que fundam suas próprias insti-
tuições. Neste ponto, convém lembrar que o "lacanismo''
como movimento é heterogêneo e não faltam as infindáveis
discussões sobre as diferentes leituras do mestre. Entretanto,

142
~odos falam em nome de um "retorno a Frcud" c é exata·
mente essa necessidade criada através de Lacan que aponta
pua uma outra necessidade ainda mais crítica, se supomos
que a questão da ortodoxia é prioritária: a de recuperar uma
delimitação do campo psicanalítico que assegure ...à psicaná-
lise 0 lugar especial que teria perdido com sua ampliação c
diversificação - entendidas como desvios - que poderiam
ameaçá-la de descaracterizar-se a todo momento.

Algumas conclusões:

Denominei psicologia psicanalítica o complexo de rela-


ções que se dão entre psicanalistas e psicólogos clíni~s c
apontei para as diferentes associações entre ~les na dec~da
de 70 como centros privilegiados de produçao des~a pstco-
logia psicanalítica. Estes centros contavam, espectal~ente!
com os psicanalistas mais progressistas ~~ SPRJ - nao f~t
por coincidência que a SPRJ se desestabilizou .d~ m~o maas
agudo no início dos anos 80 - e com os proft~st~nats ar.gen-
tínos. Especulei sobre os efeitos disto na amphaçao e dt~e~­
sificação do campo psicanalítico em seus dois aspectos teon-
co-técnico e político-profissional. E, finalmente,. propus en-
tender o advento do movimento lacaniano como uma tenta-
tiva de solução para o "fantasma" desestabilizador da psico-
logia psicanalítica. Entretanto, espero ter deixado claro ,q~e
a proposta lacaniana não impede esse pr~esso. Ao co~t~ano.
o ctiscurso de inspJração lacaniana se dJfunde o suftcteote
para ser absorvido pela psicologia psicanalítica que, tomand~
emprestada a expressão de Castel, seria uma espécie de efe~­
to-sombra da psicanálise, algo que a acompanha e é produzt-
do por ela como uma virtualidade e que é dotádo de uma
superfície própria que se expande ou se retrai, independente-
mente do corpo que a produz.
Considerando-se que essa discussão é muito atual e, por~
tanto difícil de ser pensada com clareza, arriscaria algumas
sup~ições sobre os rumos do movimento psicanalítico, d:_s-
taca.mlo o aspecto político-profissional - canais de formaçao

143
c legitimação p rofissional - , e sobre a situação dos psicõ·
logos clínicos de um modo geral. . .
Sobre 0 primeiro ponto, parece que as soctedades oft-
ciais que permanecem sustentadas por seu prestígio político
e so~ial, deverão repartir, ainda que a contragosto, a triage-m
de seus candidatos com o sofisticado aparato do movimento
Tacaniano que exige fidelidade aos preceitos do mestre e -risa
congregar discípulos abertamente dispostos a reproduzir seu
discurso. Em troca, podem adquirir o status não só de "ver-
dadeiros" psicanalistas, como também de intelectuais - algo
muito atraente, por exemplo para os psicólogos que desejam
se tornar psicanalistas mas que tiveram uma formação que
releva muito mais a intuição, o vívido, enfim, uma postura
antHntelectualista que beira a ingenuidade. Para "entender..,
Lacan é necessário o recurso à filosofia, lingüística, antropo-
logia estrutural e, mesmo à matemática. Curiosamente, os bons
psicanalistas já podem ser identificados aos bons teóricos.
Sobre o segundo ponto, temos indicadores de que o con-
tingente de psicólogos psicanaJíticos permanece grande o su-
ficiente para a procura de formação exceder a oferta mesmo
com a opção dos novos grupos - alguns com fraca legiti-
midade servindo de trampolim para outros. A idéia de urna
sociedade com vagas ociosas em seu curso de formação, como
já aconteceu nos E.U.A., ainda é impensável no R io de Ja-
neiro.
Convém lembrar, entretanto, que novas tendências estão
surgindo através das chamadas "terapias alternativas" que se
mostram bastante atraentes para os psicólogos clínicos e es-
tudantes de psicologia que, por diversas razões, se encontra-
riam à margem do complexo poütico-profissional da psica-
nálise. Entre elas se destacam a bioenergética e a orgonomia
- baseadas numa dissidência da psicanálise a partir de W.
Reich - , os grupos rogerianos da psicologia humanista, a
psicologia existencial ainda muito incipiente no trabalho clí-
nico, a Gestalt·terapia americana criada por um ex-psicana-
lista (Fritz Perls), e outras. Tais terapias, entretanto, não
estão suficientemente instituídas a ponto de poderem susten-
tar a psicologia clínica: não têm espaço suficiente na forma-

144
ção universitária, tampouco possuem canais de profissionali-
zação que possam fornecer uma formação sistemática fora da
universidade e aumentar a oferta dessas especialidades. Desse
modo, apresentam-se como alternativas precárias para subs·
tiruir a psicanálise como modelo.
Segundo a análise de Castel ( 1981), haveria um outro as-
pecto a ser considerado: se, por um lado essas terapias são
alternativas à psicanálise, por outro, mantêm com ela uma
peculiar relação de filiação - em alguns casos bastante óbvia
- que lhes confere o título de pós·psicanalíticas não apenas
numa sucessão temporal, mas principalmente, numa herança
não reconhecida por ambas as partes. Os psicanalistas torcem
o nariz e os alternativos fazem questão de não ser confundi-
dos. A essa fHiação Castel denominou de bastarda.
Essas novas terapias pretendem ser mais democráticas
quanto à formação profissional que deveria ser mais rápida
e mais barata, são teoricamente menos sofisticadas· e, mesmo,
pretendem apresentar efeitos mais imediatos. Mas, sociolo-
gicamente falando, não existiriam sem a psicanálise. Essa
curiosa visão de Castel nos chama a atenção porque no
exemplo do Rio de Janeiro - e acreditamos que este não
seja uma mera exceção - a paternidade da psicanálise é
indiscutível e, mais ainda, sua hegemonia permanece sobre a
psicologia clímca produzindo mais psicólogos psicanalíticos
que disputam os consultórios e cooperativas clínicas, e ten-
tam ocupar as instituições públicas. Para avançar em pr(}o
postas alternativas, toma-se fundamental reconhecer O :<}Uê
que é alternativo e o quê que é herança.

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147
TERCEIRA PARTE

ESTUDO HISTóRICO DE CONCEITOS


NARCISISMO EM TEMPOS SOMBRIOS

JURANDIR FREIRE COSTA

Para Maria Celia, que até o


fim lutou por um mundo melhor

Apesar de sua atualidade clínica e teórica, o narcisismo


continua sendo uma noção problemática. Portanto, antes de
abordar o tema do ângulo das relações com os ideais em geral
e com os ideais sociais em particular, pensamos precisar o
que entendemos pelo termo. Só assim, acreditamos, algumas
de nossas hipóteses podem fazer sentido e contribuir para a
discussão do assunto.

1. O ego e o narcisismo

Retenhamos de Freud a tese introdutória à questão: o


narcisismo é o estado psíquico resultante da localização no
Ego dos investimentos Iibidinais. A articulação do Ego com
a problemática narcísica nasce da preocupação de Freud em
responder aos impasses de sua teoria, suscitados em boa parte
pelo desafio lançado à sexualidade por Adler e Jung. Estes
dois ex-discípulos de Freud insistiam em mostrar que a psi-
canálise, hipnot~ada Pela sexualidade, esquecia que o Ego
também podia ser fonte de "traumatismo psíquico", por assim
dizer ( 1). Para Adler a prova da patogenicidade do Ego en-
contrava-se no complexo de inferioridade; para Jung a pato-

151
logia das psicoses delirantes crônicas não-esquizofrênicas mos~
trava que os complexos sexuais, nestes casos, eram secundá-
rios diante dos "complexos" de um Ego grandioso, reivindi-
cante c sensitivo. Adler nunca importou muito a Frcud, assim
o que quer que ele pensasse era de pouca monta. Jung, não;
era seu preferido. Por isso Freud não via com bons olhos a
querela em torno do Ego. Na origem da polêmica estava o
dedo de Bleuler e da Escola de Zuricb, que disputavam com
o pai da psicanálise os favores intelectuais de Jung. Nesta
disputa, o papel do Ego nas psicoses não-esquizofrênicas, re-
presentava o primeiro lance vitorioso do mestre suiço. Obri·
gado a convir que a dinâmica das neuroses esbarrava na psi-
cose, Freud recuou. Admitiu a importância do Ego. Mas logo
tratou de mostrar quem detinha a última palavra sobre o as-
sunto: "Eu não sei o que fazer com a personalidade, nem
tampouco com o ego bleuleriano. Penso que são conceitos
de superfície" (2). Este trecho da corresPondência com Jung
é eloqüente. O recado era claro : Bleuler descreve, mas sS
Frcud explica. Qual a explicação? O argumento resumida-
mente era o seguinte: se o Ego tem o papel que se vê na
psicose é porque deixou de ser o sensato representante dos
interesses da autoconservação para tornar-se joguete das pul-
sões sexuais. Por acaso não era isto que ocorria com Schreber,
com o Homem dos ratos ou com os "primitivos'' d~ Totem
e Tabu? A megalomania infantil e a onipotência das idéias,
analisadas naqueles estudos, não ilustravam este funcipna·
mcnto sexual do Ego, que recebe sua plena formu1açao com
a teoria do narcisismo? Seria demais afirmar que a psicaná-
lise, de modo implícito, sempre sustentou a idéia de um Eeo
narcísico? A teoria analítica não precisava de Bfeulcr para
entender o valor do Ego na vida psicopatológica. Bleuler é
que precisava da psicanálise para compreender por que o Ego
enlouquecia, arrastando o sujeito para a psicose. O quebra-
cabeças parecia decifrado. O Ego engrandecido da psicose era
o Ego sexualizado. A deusa libido estava vingada.
Só que a suposta solução criou problemas ainda maiores.
Até a primeira tópica, a m~tapsicologia tinha a aparência de
uma linguagem bem feita. Seus pressupostos eram fáceis de

152
esquematizar. O COiúlito psíquico, pedra angular da ps· _
. I' . IC!l
n á! 1se, exp 1cava-se por um JOgo de forças onde as partes se
diferenciavam com nitidez. De um lado, as pulsões sexuais·
as representações recalcadas; o princípio do prazer e os pra-:
cessos primários: do outro, as pulsões de autocooservação;
as forças recalcantcs; o princípio de realidade e os processos
sccundádos. O Ego representava, no sistema PCs-Cs, os in-
teresses da autoconservação e o princípio de realidade. Del~
derivava a censura, que mantinha nas fronteiras deste siste·
ma as representações sexuais. Os pólos da tensão eram cla-
ros. O ego recalcava,- defendia os interesses da autoconserva-
ção e do equilíbrio p síquico: a represen tação inconsciente era
recalcada, pois a realização da noção sexual punha em risco
este mesmo equilíbrio.
No momento em que estas referências embaralham-se, a
dinfimica do conflito se complica. Com o narcisismo, o Ego
passa de aliado à quinta coluna de homoestase mental. Freud
tenta reestruturar a teoria. Propõe em sua segunda tópica a
divisão do Ego numa parte incqnsciente e numa parte pre-
consciente-consciente. ESta saída trouxe para a psicanálise
mais desconforto que alívio, pois uma pergunta fiêàva no ar:
que Ego é este que ao mesmo tempo que se define como
aquilo que recalco possui as mesmas prvpriedades do recal-
cado? Onde e como ficava a distinção tópica, econômica e
dinâmica que fazia do conflito psíquico uma noção teorica-
mente coerente? O ego deixava de ser o puro embaixador dn
realidade junto ao psiquismo. Em sua origem narcisica não
era mais o outro da sexualidade: era um objeto da libido,
um cúmplice na realização alucinatória do desejo ( 3). Não
apenas o narcisjsmo, a teoria das identificações desde· luto e
melancolia passando pela Psicologia das m assas ... até o Ego
e o Id também apontava para esta gênese insuspeita da es-
trutura égoica. Objetivos do Ego e finalidades da libido de
repente confundiam-se, fundiam-se, minando nesta fusão os
alicerces da metapsicologia. O Ego tornava-se agora uma re-
presentação do tipo da representação sexual recalcada da pri-
meira tópica.

153
Freud, se quisesse salvaguardar a integridade teórica do
conflito psíquico, tinha uma dupla tarefa a cumprir: primeiro,
mostrar qual o destino deste narcisismo egóico que, com a
teoria do narcisismo, passa a ser considerado como uma etapa
normal na evolução sexual ~ não somente um fenômeno psi-
copatológico; segundo, mostrar que instância assumiria a fun-
ção de guardião da realidade, antes devolvida ao Ego, e que
princípio extra-libidinal, no lugar da autoconservação, iria
opor-se à sexualidade, representando a realidade e determinan-
do a ação recalcante.

2. O Narcisismo e seus destinos

As respostas de Freud às questões levantadas pela nova


concepção do Ego são à primeira vista desconcertantes. Quan-
to ao futuro do narcisismo, duas soluções são propostas. Na
primeira, Freud afirma que o narcisismo egóico da primeira
infância tem como destino normal os ideais. Nestas forma-
ções psíquicas devem concentrar-se os investimentos sexuais
do Ego. A fixação na posição Iibidinal passada significa psi-
copatologia à vista. A distinção entre Ego Ideal e Ideal do
Ego é posterior a Freud. No estudo sobre o narcisismo o que é
dito é que 'O circuito dos Ideais e os investimentos objetais são
a forma não patológica de metabolização do narcisismo infantil.
Na segunda solução proposta, Freud defende a hipótese
de que desde o início a captura do Ego pela sexualidade faz-se
às custas de uma metamorfose da libido. Os investimentos libi-
dinais dirigidos ao Ego seriam dessexualizados ou sublimados
na própria estrutura egóica. Esta energia , uma vez neutraliza-
da em seu teor sexual, estaria em segunda hipótese à disposi-
ção dos ideais.
Como se pode ver, as contradições das hipóteses são gran-
des. A primeira peca por pressupor a existência da instância
egóica, cuja gênese estaria sendo supostamente descrita ou
explicada. O Ego, na introdução ao narcisismo como na teoria
das identificações, passa a existir quando a libido investe cer-
tos objetos que são a substância mesma da formação eg6tica.
Ou seja, sem libido, sem a argamassa libidinal, as represento-

154
ções constitutivas da estrutura egóica não existiriam. o Ego,
portanto, não pré-existe ao narcisismo e está lá, de tocaia,
esperando a sexua1idade desviada de seu caminho objetai. Não
se entende então, como esta instância pode desfazer-se de sua
energia libidinal sem que isto implique na desarticul ação das
representações que a compõem._ A libido é condição indispen-
sável à estruturação do sistema egóico e portanto permanecem
intactas duas questões: primeiro, como conciliar a migração
libidinal em direção aos ideais, sem esfacelamento da estrutura
egóica e, segundo, como distinguÚ' a formação normal da pa·
tológica se para explicá-las é invocado um mesmo fator, o
narcisismo do Ego.
Na segunda hipótese, a contradição não é menor. Caso
a idéia da dessexualização fosse correta, a energia que inves~
tiria o Ego não mais. seria sexual e então o sentido mesmo da
noção de narcisismo egóico estaria perdido. Porém, mesm0
aceitando esta solução improvisada, qual seria a natureza desta
energia dessexualizada? Que processos seriam responsáveis
pela misteriosa alquimia?
Acreditamos que as dificuldades de Freud provinham de
um mesmo conflito teórico, deslocado da esfera do Ego para
a esfera dos ideais. A instância ideal, chamada a resolver o
conflito surgido com o narcisismo, via ressurgir na definição
de sua gênese e natureza os mesmos elementos conflitantes.
Expliquemo-nos. O Ego narcísico diluiu os limites entre ICs
e PCs~Cs. A partir do narcisismo e da teoria das identifica·
ções, ele emergiu como uma representação que nem podia ser
recalcada nem podia ser fonte autôrwma do recalque. O Ego
não era mais a medida de julgamentos da inconciliabilidade
de determinada representação, tendo em vista os interesses da
autoconservação. A agência responsável pela censura passou
a ser o Ideal ou formações ideais. Porém, ao contrário do Ego
da primeira tópica1 o Ideal já nasceu sob a égide do narci-
sismo! Se a dinâmica dos Ideais, inspirada no modelo do con-
tra-investimento, explicava como o Ideal monopolizando a
libido, retirava o investimento da representação egóka, dei-
xando-a num estado análogo ao da representação inconsciente
recalcada, não explicava, contudo, que estado de desinvesti-

155
mento egóico era este, nem como a libido podia, por sua na·
tureza, sustentar o Ideal em sua ação recalcante. Dito de outra
forma, a filiação narcísica do Ideal era teoricamente incom~
paúvel com a exigência de um princípio extra-libidinal neces-
sário ao funcionamento do recalque e a pretensa dessexualiza-
ção da estrutura egóica despia esta instância de toda cnergi·a
pulsional, sem a qual o ego freudiano, ou voltaria a ser con-
cebido como uma entidade metafísica representante da Razão,
da Adaptação, da Realidade etc. ou simplesmente tinha que
ser concebido corno um amontoado de representações desar-
ticuladas, sem unidade ou organização.
Na verdade, posto nestes termos o problema não tem saí·
da. Acontece que, sob o termo de Ego e do narcis1smo. Fremi
designava realidades psíquicas diversas. Numa primeira acep-
ção, o uso da noção de Ego narcísico, ou Ego da megalomania
infantil, alude ao que, grosso modo, foi chamado de narcisis-
mo primário. Esta acepção representa um tempo fraco na
conceituação de objeto, dado que a idéia de um estado pti-
mário anobjetal do narcisismo egóico não encontra lugar coe-
rente na teoria. Este hipotético estado primordial dispensa a
idéia de Ego e de narcisismo, pois a indiferenciação psíquica
do sujeito é contraditória com a idéia de interação complexa de
sistemas ou estruturas heterogêneas entre si. Falar de ego nar-
císico, ou ego megalomaníaco infantil, neste caso, só faz sen-
tido quando se adota a perspectiva do "a posteriorí" psicanaH-
tico. É o Ego narcísico no sentido próprio do termo, de adultos
ou crianças, que em retrospectiva atribui ao passado do sujeito
a suposta existência de uma completude aconflitiva. A pleni-
tude libidinal que os pais vêem em "sua majestade o neném" é
invenção do olhar narcísico adulto.
A segunda acepção de Ego narcísico ou narcisismo infan·
til é a que nos interessa. Ela corresponde à afirmação de que
o narcisismo e o Ego são contemporâneos e correlatos . da
totalização do sujeito numa unidade imaginária. Não vamos
insistir no "est~o do espelho" la~ania~o, nem na idéia h?je
central na psicanálise, de que a ex1stêncta de um Ego antenor
à especularidade narcísica, dificilmente poderá ser aceita ( 4).
O importante nesta concepção da gênese e definição do Ego

156
narcísico é que esta formação surge ao mesmo tempo que 0
Ideal. Ambos são herdeiros do "narcisismo infantil" dos pais
e ambos são encarregados de representar o sujeito diante de
outros sujeitos ou, se se quiser, de outros egos e outros ideais
do Ego. A teoria do narcisismo é indissociável desta divisão
do · aparelho psíquico em instâncias ou sistemas diversos de
representações, através dos quais apreendemos ou reconhe~
mos a existência do sujeito psíquico.
A partir disto é possível ordenar melhor as questões pro-
vocadas pelo narcisismo. Como vimos, a libido da primeira
infância investe objetos que, do ângulo da estrutura psíquica,
têm todos o mesmo estatuto. Qualquer objeto é objeto parcial
e todos eles situam-se diante da libido com a mesma função
de atenderem ao princípio do prazer ou à descarga sexual.
Com o surgimento do Ego, o investimento libidinal pode tomar
três direções que correspondem a "objetos" ou "locais" dife-
renciados, com estruturas e funções específicas: o próprio Ego,
os objetos e os Ideais. Neste ponto começam a surgir as ca-
racterísticas deste objeto 1ilbidinal particular que é o Ego. Ao
investir o Ego~ o fluxo libidinal estanca e, embora guiada pelo
princípio do prazer, a libido egóica funcion a primordialmente
segundo a vertente deste princípio que, de acordo com Freud,
visa a "evitar a dor e a privação" (5). Não custa lembrar,
Freud afirmava que o princípio do prazer busca o estado iner-
ciaL Esta redução da tensão ao mais baixo nível de excitação
poderá ser alcançada de duas maneiras : evitando a dor e a
privação e buscando ''fortes gozos" (6) . E, segundo ele, "de
uma maneira geral a tarefa de evitar o sofrimento relega a
segundo plano aquela de obter o gozo" (7).
Isto significa que, mesmo sem levar em conta o além do
princípio do prazer, a libido, operando dentro de seu próprio
campo de exigências, pode seguir ritmos diversos e até mesmo
contraditórios. Ou seja, a "tendência restitutiva", caracterís-
tica do princípio do prazer, e que n'O dizer de Lacan, opõe-
se à "tendência repetitiva", não é uniforme em seus automa-
tismt>s. O psiquismo pode inibir ou permitir a descarga pul-
sional em nome do mesmo princípio do prazer, como de resto
Freud afirma explicitamente em suas considerações sobre o

157
princípio da realidade. Eros tem uma duplicidade de objetivos
~;: 0 Ego narcísico encarrega-se de evitar a dor, o desprazer, o
sofrimento ou a privação.
Com o narcisismo, o aparelho psíquico ganha uma ins-
tância especializada em. manter os estados de coisas como são
e estão evitando mudanças que, em princípio, podem acar-
retar d~sprazer. É esta tendência ou finalidade que se afirma
no psiquismo com o Ego narcísico e que destitui o Ego do
papel de agente autônomo do recalque. Procurando antes de
mais nada pers-everar no mesmo, o Ego narcísico torna-se re-
sistente a alterações na estrutura psíquica. Sua composição
imaginária e sua característica de unicidade determinam este
modo de funcionamento. O Ego que, na relação especular e
imagética, apresenta-se como um todo, também aspira a re-
presentar um sujeito total ou a totalidade do sujeito. O Ego
narc.ísico é conservador e fonte de resistência não só porque
seus chamados mecanismos de defesa seguem o curso do pro-
cesso primário mas porque, com ele, instaura-se no psiquismo
a célebre "compulsão à síntese que é a marca patente do
imaginário. Assim Freud dizia: "O Ego é uma organização.
Ele se funda sobre a livre circulação e a possibilidade para
todas as partes que o compõem de uma influência recíproca;
sua energia dessexualizada revela ainda sua origem que está
na aspiração à ligação e à unificação. E esta compulsão à
síntese vai aumentando à medida em que o Ego se desenvolve
e torna-se mais forte" (8). Ou ainda, " ... o Ego se diferencia
particularmente do Id por uma tendência a sintetizar seus
conteúdos, a resumir e a uniformizar seus processos psíquicos,
todas as coisas das quais o Id é absolutamente incapaz (9).
Esta compulsão à síntese, que Freud detecta em vários
quadros psicopatológicos, em particular na obsessão, vai ate
a inclusão do sintoma no sistema de representações egóico,
que obtém assim ganhos secundários pela "satisfação narcísica"
( 1O): "Os mesmos sintomas que originalmente tinham a sig-
nificação de limitações do Ego, graças à tendência do Ego à
síntese posteriormente passam a representar satisfações" ( 11).
A articulação desta compulsão à síntese com a evitação do
traumatismo e de seus efeitos dissociativos é ainda melhor

158
explicitada no trabalho tardio sobre Moisés e o monoteísmo
(12).
Assim, o Ego depois do narcisismo continua defendendo
a autoconservação. Mas não a autoconservação biológica, cuja
proteção não poderia ser deixada apenas aos cuidados do Ego.
A autoconservação diz respeito à imagem egótica que, como
toda imagem, dá-se como experiência de totalização. Nas pa-
lavras de Freud, eis como esta assertiva aparece: . "Assim
como o Jd só obedece ao atrativo do prazer, o Ego é dominado
pela preocupação com a segurança. Sua missão é a conservação
de si que o Id parece negligenciar. O Ego se serve das sen-
sações de angústia como um sinal de alarme que anuncia todo
perigo que ameaça sua integridade" (13). É a este fenômeno
que a psicanálise alude quando fala de envelope libidinal, su-
perfície egóica, ou aparelho de para-excitação. Toda tentativa
de alteração da composição egóica age como estimulo para
a autodefesa narcísica. Na clínica, este mecanismo e particular-
mente bem observável nos casos de neurose traumática, onde
a dor ou angústia provocam uma exacerbação da tendência
à restauração da unidade egótica, posta em xeque pelo trau-
matismo.
Em vista disto, a exigência teórica de uma norma extra-
libidinal capaz de opor-se ao Ego regido pela libido narcísica
torna-se desnecessária. A luta é interna ao próprio princípio
do prazer ou aos dois modos pelos quais a sexualidade atinge
sua finalidade. Do mesmo modo, pode-se entender o funciona·
mento do Ego Ideal. Ego Ideal é o outro especular do Ego
narcísico. É aquilo que fornece a matriz imaginária do Ego e
aquilo que o Ego aceita tendencialmente sem conflitos, como
parceiro na redistribuição da libido. Ou, visto de outro ângulo,
é aquilo que o Ego aceita como um outro que também pode
representar a totalidade do sujeito, sem criar brechas em sua
síntese imaginária. O Ego Ideal é a imagem idealizada dos
traços constitutivos da forma egóica. É a única maneira não-
conflitiva que o Ego tem de lidar com a alteridade e fazer
face às exigências narcísicas dos outros Egos. O Ego narcísico
só aceita um "outro" que seja reedição · inflacionada de um

159
traço de sua forma passada ou presente, isto é, um outro idên-
tico.
É a isto que os Ideais como os objetos se opõem, obede-
cendo a outro imperativo da libido que é o de buscar fortes
gozos, no sentido freudiano. O Ego narcísico quer manter
íntegra a representação da unicidade, continuidade e ipseidade
do sujeito. Sua função sintética consiste em reurur as múltiplas
e diversas facetas dos fenômenos psíquicos, em um todo ima-
ginário que se faz fotografar pela consciência como mente;
essência do sujeito etc (14). O Ideal ocupa outra função no
aparelho psíquico. Embora igualmente herdeiro do narcisismo
infantil dos adultos, o Ideal aponta para o futuro em vez de
deixar-se amarrar pelo passado/presente. Também disputa com
o Ego a representatividade do sujeito. Mas enquanto a matéria
prima da formação egóica é o suposto ser do sujeito, a do Ideal
é o vir a ser deste mesmo sujeito. Como o Ego, o Ideal também
visa a sintetizar as representações que unificam e totalizam a
imagem do sujeito ou do que imaginariamente se pensa que
é sua "essência". Mas este sujeito é um sujeito futuro, um
sujeito que ainda não é e que só existe enquanto promessa,
enquanto sombra falada, para usar a expressão dé Piera Au-
Jagnier.
Este atributo comum ao Ego e ao Ideal, a função de
síntese, é o que levava Freud a dizer que o Ideal era um está-
gio do Ego, assim como a libido tinha seus estágios de desen-
volvimento. Contudo, a função de síntese do Ideal obedece a
regras distintas da síntese Ego-narcísica. As sínteses futuras do
sujeito obrigam o Ego, no melhor dos casos, a rcequilibrar
seu sistema homeostático pela incorporação de novos traços.
Como exemplo, citamos a observação de Freud a propósito
do "Desaparecimento do Complexo de Édipo" (15). O inte-
resse narcísíco do Ego pela integridade da imagem corpórea
é o móvel fundamental da renúncia ao desejo incestuoso. Só
a via da ameaça ao narcisismo faz com que o Ego deixe
emergir o sujeito enquanto marcado pela castração. Ainda
assim, esta renúncia ao objeto incestuoso e a submissão à cas-
tração não é gratuita. O preço é um novo reequitíbrio narcí-
sico. O Ego p6s-edípico integra a sua forma imaginária a posse

160
virtual de todos os objetos sexuais que escapam à interdição
do parentesco. A proibição do acesso a alguns é paga com :1
permissão do acesso a muitos. A ilusão narcísica exige seu
tributo. Não há como fugir das cavernas e sombras egóicas.
Em suma, o Ideal representa o sujeito enquanto sujeito
da falta. O Ego, pelo contrário, passa de totalidade a totali-
dade, conforme sua constituição imaginária. O Ideal na expe-
riência psíquica, representa o provável; o Ego, representa o
certo. Isto implica que a representatividade do I deal dá-se
como síntese antecipada, sujeita a cláusulas de realização. A
primeira destas cláusulas é o adiamento do prazer imediato,
típico da satisfação narclsica. O "prazer ideal", como diz
Bleichmar ( 16), - correlato da realização do Iaeal, e que
é uma das modalidades dos fortes gozos de Freud - só surge
como possível se o Ego aceita transformar-se. Esta transfor-
mação, por sua vez, supõe a admissão do outro, ·do modelo
Ideal, como alteridade e diferença desejável. Ora, o desejo d<!
algo que não se é ou não se tem, revela, ''ipso facto", uma
falha no sujeito, falha esta que aparece a revelia do narcisismo
cgóico. O Ideal, com sua presença obrigatória no mecanismo
psíquico, mostra a divisão do sujeito e sua dependência do
desejo do outro.
A segunda cláusula, é a exigência de um trabalho psíquico
em · que as certezas narcísicas possam ser postás em dúvida,
permitindo a mobilidade dos investimentos em direção de novos
objetos psíquicos. Todo Ideal portanto impõe uma coerção ao
Ego e provoca uma resistência contrária que seria incont,o má-
vel, caso ele próprio não estivesse magnificado pelo investi-
mento líbidmat. Por isso Freud achava inevitável atribuir ao
Ideal um suporte pulsional capaz de mantê-lo em sua função
c foi buscar no narcisismo da primeira infância a chave d•')
problema.
Bem sabemos, fazer do Ideal mais um delegado do prin-
cípio do prazer, seria reduzir o alcance da experiência analítica.
Enquanto expressão do sistema simbólico, o Ideal tem uma
dimensão própria que ultrapassa a economia libidinal. A lin-
guagem impõe-se ao homem da mesma maneira que a ordem
das necessidades vitais, ou seja, sem consideração pela sexua-

161
!idade. Porém na experiência normal, a vigência de uma lin-
guagem sem arranjos imaginários e, conseqüentemente, ·sem
ganho de prazer, é inviável. Assim como uma necessidade bio·
lógica libidinalmente desinvestida corre o risco de não ser
atendida e gerar distú~bios físicos, também a linguagem, quan-
do não pode ser investida libidinalmentc, produz distúrbios
psicopatológicos. Se o Ideal, em sua natureza teórica, pode
e deve ser desvinculado de sua aparência imaginária e de seu
coeficiente libidinal manifesto, em sua natureza psíquica, tem
que estar ligado à economia sexual para poder cumprir sua
função. A menos que se opte por uma entificação idealista
desta instância e se reintroduza na psicanálise um tipo de pers·
pectiva axiol6gica que Freud sempre repudiou. Não por acaso,
diante do medo neurótico em reconhecer a raiz pulsional de
seus pensamentos ou sentimentos, ele dizia: "inter urinas ct
faeces nascimur" ( 17).
No entanto, embora investido libidinalmente, o Ideal em
sua ação evoca conseqüências psíquicas radicalmente estranhas
à dinâmica da libido objetai ou da libido narcísica. Investir
uma promessa de prazer, um estado psíquico ou imagens do
sujeito futuro pouco tem a ver com a circulação autárquica da
economia narcísica ou com a satisfação imediata da relação
com o objeto. De olho neste problema, Freud não ousou re-
ferir-se à energia do Ideal como sendo sexual. Donde a idéia
de sexualidade sublimada. Dadas as características do Ideal,
ele insistia em distinguir idealização de sublimação, fazendo
desta última motor e processo das injunções dos Ideais..
De fato, na idealização (como a do líder das massas ou
a do fetiche sexual) o objeto gira em torno da economia do
Ego narcísico, a título de traço ou imagem constitutiva do
Ego Ideal. Em contrapartida, na sublimação, este mesmo Ego
é neutralizado em seu automatismo totalizante e a libido pod~
investir objetos que contradizem os interesses do narcisismo.
Freud, entretanto, achava que sexualizar o Ideal significava
dar a esta instância o estatuto de objeto idealizado que na
clínica é sinônimo de perversão ou alienação. Mas se a subli-
mação e o .Ideal são a porta de entrada para as "atividades
sublimadas'' não há como entender a adesão do psiquismo à

162
arte ou ciência, para ficarmos no terreno freudiano sem a
. . da componente libidinal. Como diz Mellor-P'.lCaU,
presença t O
que d 1stmgue um processo de outro é que "ao co trá · d
"d l " - · . D riO a
1 ea ~zaçao, que VlSa a cnar um estado aconflitivo onde a falta
estana
. od e que encerra o sujeito no fascínio por um
ausente
~bJ~to eng o (1eurre) . . . o processo sublima tório deixa sub-
ststJr a falta e assegura ao sujeito a possibilidade de investi-la
como aquilo que perrnHe a mobiJidade dos investimentos e
do questionamento" ( 18).

3. Narcisismo e cultura da violência

O narcisismo é o modo mesmo do funcionamento egóico.


Sem a compulsão à síntese ego-narcísica, duas exigências es~
sencia_is ~ sobrevivência do sujeito estariam comprometidas.
A pnmeJia delas é consciente, pragmática, visível à luz da
"psicologia de superfície". O Ego é uma ficção necessária à
ação e à adaptação ao mundo. Sem ele, o sujeito não poderia
ser representado como unidade. Sentimentos, pensamentos,
sensações e experiências de todas as ordens perder-se~iam num
caos de impressões sem história e sem sentido. A paralisia
psico-social do indivíduo seria inevitável.
A segu?~a exigência é inconsciente e mais relevante para
nosso propos1t0. Decorre do estado inicial da experiência bu~
mana, chamado por Freud de impotência/desamparo (HIL-
FLOSIG-KEIT). Esta impotência jaz no coração da angústia
d~s ilusões religiosas e de outros processos culturais (19). Á
smtese ego narcísica é o primeiro anteparo imaginário que,
na luta contra a angústia derivada da impotência, assume a
forma de um Eu em face de um. outro. O Ego é o primeiro
'~ão '. dado à onipotência do outro. É a primeira reação ima-
gmána capaz de diferenciar fonte c objeto da angústia. Com
o Ego e seus contornos imaginários, o sujeito separa-se do
outro sujeito (representado por outro Ego) assim como se-
para o dentro do fora e o antes do agora e do depois. A ÍJJla-
gem egóica é a forma psiquicamente eficaz do aparelho psíquico
ordenar o magma contínuo que é o fluxo do existente.

163
Obviamente, toda imagem representa um objeto. E para
que possa representar qualquer coisa - e não ser a coisa - ,
a imagem tem que apresentar o objeto através de recortes,
perspectivas, enquadnimentos, em suma categorias ou "a prio-
ris", . que requerem a precedência de um sistema simbólico de
codificação e decifração das expcriênc~ as. O imaginário huma-
no é indissociável do simbólico. No nível do funcionamento
egóico, a imagem totalizantc representa um "objeto" que não
pode ser percebido nem pode ser definido. Esta é a especüi-
cidadc do "objeto sujeito". O sujeito não pode ser percebido,
pois não possui qualidade sensíveis, nem poc~e ser definido
pois, "oo momento em que desejamos dizer quem alguém é,
nosso próprio vocabulário· nos induz ao equívoco de dizer
o que esse alguém é; enleamo-nos numa descriç1o de qualida-
des que a pessoa necessariamente partilha com outras que lhe
são semelhantes; passamos a descrever um tipo ou "persona-
gem", na antiga acepção da palavra, e acabamos perdendo de
vista o qne ela tem de singular c específico (20). O sujeito
portanto é essa singularidade indizível, revelada na ação e no
discurso, e que está no fundamento da emergência do início,
do novo, do imprevisível na 'teia c!:1s relações humanas". É
aquilo que obrigatoriamente pressupomos quando dizemos que
o homem, pela ação e pelo discurso, é "capaz do inesperado"
ou de "reali~ar o infinitamente improvável" (21).
Por conseguinte, o sujeito não é um objeto que se possa
perceber ou representar do mesmo mo<lo que representamos
objetos com conteúdos positivos. Não há como avaliar, atra-
vés de critérios empíricos, a adequação da representação à ver-
dadeira natureza do sujeito. A objetividade mundana que ele
exibe é a ação e o discurso, com seu correlato que é o impre-
visível. Esta é a única positividade do sujeito. Positividade que
sempre mos!ra um desejo sem história, j á que é um desejo
inicial e inician ~e . Onde há início, há sujeito; e onde há sujeito
há desejo, mundanamente objetivado por ações e discursos. No
mais é o Ego narcisico que, de acordo com sua constituição
imaginária, tenta historicizar o início imprevisível, criando re-
presentações positivas de quem age e quem fala, como sendo

164
o que sou Eu ou o que é o outro. O Ego dá testemunho do
sujeito mas só pode definir a si próprio ou aos outros Egos.
Voltando, entretanto, à impotência e desamparo, é preciso
dlzcr que esta condição do sujeito não é um momento genético
e sim um dado estrutural. Freud localiza-a no início de cada
vida individual mas também em meio à cultura e à civilização,
sob a espécie da Ananké. A Ana.."Iké, aliada de Eros na tarefa
civilizatória (22), confronta o sujeito a uma trípEcc vicissitude,
marca do estado de impotência estrutural: "A caducidade do
corpo; a potência esmagadora da natureza; a ameaça prove-
niente das relações com os outros seres humanos" (2:3).
Mais uma vez, para reagir a esta situação de "humilhação
naccísica" (24) o Ego entra em cena, acionando seus meca-
nismos de autodefesa. Ora, uma das razões dos fenômenos
conhecidos como distúrbios narcisicos encontra-se justamente
no modo como os elementos da Ananké/hilflosigkeit apresen-
tam-se ao Ego c no modo como o Ego reage a esta presença.
Isto é verdadeiro tanto para os casos classificados na psico-
patologia clínica q uanto para os casos da psicopatologia da vida
cotidiana. Incluímos nesta rubrica as personalidades narcísicas
ou as representações do indivíduo na cultura narcísica. Este
último termo, criado por Christopher Lasch, foi discutido em
seu sen tido e implicações num trabalho anterior de nossa auto-
ria (25). Hoje, definiríamos cultura do narcisismo como aquela
em que o conjunto d<:_ itens materiais e simbólicos maximizam
real o u imaginariamente os efeitos da Ananké, forçando o Ego
a ativar paroxisticamente os automatismos de preservação, face
ao recrudescimento da angústia de i:mpotênc.i.a. Ou, visto de
outro ângulo, é a cultura onde a experiência de impotência/
/ desamparo é levada a um ponto tal que toma conflitante e
extremamente difícil a prática da solidariedade social. Lasch
chamou esta cultura de cultura da sobrevivência e o Eu que
nela subsiste de "mínimo Eu" (26), denominação bastante
apropriada ao fenômeno.
No trabalho já referido, procuramos entender como o sen-
timento de impotência que tem origem na caducidade do corpo
é manipulado pelo comércio e indústria da "vida saudável" e
do "sexo normal" em certas faixas de nossa população urbana.

165
Pensamos agora em refletir sobre outras manifestações da cul-
tura narcísica, tendo como pano de fundo a crise brasileira
atual.
Vivemos dias difíceis. O regime que se sucedeu ao auto-
ritarismo não conseguiu capitalizar o desejo de mudança da
nação, imprimindo novos rumos à sociedade. O país continua
aos pedaços. A dívida e.xterna; o fracasso do plano .cruzado; a
inflação; a desordem do déficit público; o emperramento do
aparelho produtivo; os impasses da questão agrária; a degra-
dação da vida urbana e da ecologia como um todo; a crimi-
nalidade assustadora das grandes cidades; o empobrecimento
da classe média; o desemprego dos trabalhadores; o panorama
atroz da mendicância e das crianças abandonadas; a impUni-
dade com que é tratada a corrupção de políticos, altos buro-
cratas e empresários etc., criam uma atmosfera social sombria.
"O que fazer"?, toma-se uma pergunta urgente e assustadora.
Neste clima de desorientação e ansiedade, os indivíduos
tendem a perder, em maior ou menor grau, o sentido de res-
ponsabilidade e pertinência sociais, por si já precários nas so-
ciedades burguesas, particularmente naquelas subdesenvolvidas
como a nossa. A apatia política usualmente exigida do indiví-
duo nos sistemas capitalistas nestes momentos se acentua e
toma direções inquietantes. Em épocas de estabilidade, o apo-
liticismo da sociedade é compensado pela adesão dos indiví-
duos à ordem existente e pela crença no poder da autoridade
dominante. Nas crises, estes pilares da organização político-so-
cial desmoronam. O homem comum, habituado a delegar à
classe dirigente o poder e a iniciativa de decidir o que é bom
para si e para os outros, perde a confiança na justiça. É a crise
moral que acompanha a crise política, econômica e social.
Freud, numa espécie de ensaio de ficção social, procura
antever o funcionamento de uma sociedade onde o declínio da
autoridade e a perda da crença na transcendência da justiça
descessem a seu nível mais baixo. Utilizou, então, o tema de
um romance inglês, chamado "When it was dark", para ilustrar
seu radocínio (27). Neste romance, a imortalidade de Cristo
era contestada mediante a descoberta de supostos fatos históri-
cos que contrariavam a versão religiosa da ressurreição. A con-

166
seqüência da morte do Cristo, enquanto Deus, era o completo
desmantelamento da vida social, pelo aumento insuportável da
violência. Os indivíduos, sem deus nem lei, agiam exclusiva-
mente p!'essionados pelo medo ou por motivos e interesses pri-
vados. O estado social, "When it was dark", era o de "pânico
narcísico".
A observação da sociedade brasileira não nos autoriza, é
claro, a transpor esta situação social da ficção para a realidade.
Ainda não chegamos ao estado de pânico narcísico. Entretanto,
se o transe narcísico do país não chegou ao auge, há indícios
sociais que apontam para esta direção. Mesmo porque a anomia
social real, para existir, não precisa assumir necessariamente o
colorido dramático de um romance de tese. Certos padrões de
comportamento social no Brasil de hoje são suficientemente
estáveís e recorrentes para qy~ _QcJ.~samos afirmar a existência
de uma forma particular de medo e reação ao pânico, que é
a cultura narcísica da violência. Esta cultura nutre~se e é nutri-
da pela decadência social e pelo descrédito da justiça e da lei.
Seu efeito mais imediato e mais daninho é a exclusão de re-
presentações ou imagens do Ideal do Ego que, contrapondo-se
aos automatismos. conservadores do Ego narcísico, possam ofe-
recer ao sujeito a ilusão estruturante de um ÍJl1J.W) passível de
ser libidinalmente investido. Na cultura da violência, o futuro
é negado ou representado como ameaça de aniquilamento ou
destruição. De tal forma que a saída apresentada é a fruição
imediata do presente; a submissão ao "status quo" e a oposição
sistemática e rnetód~ ~alquer projeto de mndan~a que im-
plique em cooperação social e oegociacão n ão violenta de inte-
resses particulares.
Os traços .da cultura da violência são diversos e aparecem
inscritos em várioS planos da vida sócio-cultural.
A títl!lo . de ilustração, descrevamos alguns deles. O pri-
meiro correspondc .aproximadamente ao que Slavoj Zikek ana-
lisou como visão cínica do mundo (28). A razão cínica con-
ceito que autor toma emprestado a Peter Sloterdijk, é a gue
procura fazer da realidade existente instância normativa da rea-
lidade ideal. Em outras palavras, é a razão que confessa co-
nhecer os fundamentos v:olentos das aparências ideais do social.

167
mas mesmo assim defende a validade destes fundamentos, a
pretexto de que são 'verdadeiros' pos~o q~c. inevitáveis. _como
exemplo, vejamos a leitura que a razao c1mca f~z da let.
O pensamento crítico, voltado par~ os Iderus, mo~tr ~ ~ue
a abstração da Lei Universal oculta, em cada momento h1stonco,
, os intcrec.ses particulares de grupos ou classes de legisladores
concretos. A letra da lci e suas condições de aplicação mostram
que só legisla quem tem força para fazer leis .e impor sanções.
E como a força é propriedade de quem domma e controla os
instrumentos de dominação, o fundamento último da lei é a
violência. Mas o pensamento crítico, afirmando que a origem
da lei está na violência, não procura inocentá-la ou legitimá-~a,
como algo necessário. Quando fala do lug~r do Ideal,~ a ~azao
crítica quer, isto sim, mostrar que não eXISte um~ :S~enc1a da
Lei; que as leis são plurais e frutos d~ fato~ h1stoncos con-
tingentes. Por isso mesmo, colocando-se hl~otetJcamente d_o lado
da Lei Ideal, a crítica propõe, no honzonte do poss1vel, a
idéia da perfectibilidade das instituições sociais, através da
' práxis, da ação ou do discurso. _
É verdade, a condição humana, torna vao qualquer sonho
de definir fora da história quais as condições ideais para u.ma
comunicação social livre de violência ou interesse. M~s esta
mesma condição também nos impede de predizer aqmlo que
pode resultar de praxis e da ação ~uman~~ ~ . de dizer que _o
que é sempre foi e sempre será. A tmprcvts~bthdade ~o~ nego-
cios humanos é incompatível com a reduçao detcrmm1sta. do
social e não com a experimentação de novas formas de v1ver
ou com a crítica das formas de vida conhecidas.
A razão cínica, pelo contrário~ caminha aparcntc~en_te ~o
lado da razão crítica mas para afirmar a primazia da v!olenc1~,
ornando-a de atribu~os essenciais e universais. Depois de. ~n­
ticar 0 "universalismo da Lei Idealista", o cinism_ç re_JfJca
escancaradamente uma outra ~bstra~Q... a da violência umver-
sal c necessária!· E,o que é mais inescrupuloso, não esconde
o particdarismo .de interesses respo~s~vel pela_ reviravolta ideo~
lógica. Em nome do realismo, o cm1co convida a todos par_a
que subscrevam a moral da violcnc1a, que ele decretou um-
versal e verdadeira. ·

168
Naturalmente, ::!Sta moral beneficia antes de mais nada
seus artífices. É um jogo onde o vencedor é conhecido de ante-
mão. Os poderosos pensam continuar mandando, os descami-
sados, sabem que vão continuar obedecendo. O mais impor-
tante, no entanto, são as táticas de sedução que tornam estn
moral aceitável. Se o público.é intelectual, a tática é a do dis-
curso bem pensante. Para os porta-vozes eruditos da moral do
desespero e da violência, to~.2 _pensamento critico é burguês,
racionalista, idealista, conformista, conservador cu caduco dian-
te da moda. Se a audiência ou conveniência recomendam, não
se hesita em usar despudoramente Nietzsche, Freud, Foucault,
Lacan .etc. a fim de que o sotaque pós-moderno pareça con~
vincente. Sobre esta faceta da cultura da violência, o que se
pode dizer é que sua futilidade salta aos olhos. Não é preciso
muito empenho para ver que o esforço em investir contra a
"burguesia", o "liberalismo" ou a "senilidade intelectual" dos
conservadores é um esforço inócuo. Não é contra a parede,
que se está batendo a cabeça; é contra portas arrombadas!
Pois esta parcela da elite brasileira choca-se tanto com a "sub-
versão cínica" quanto a burguesia alemã de Weimar, de quem
Hannah Arendt disse que "idiotizada por sua própria hipocri-
sia", .aprendeu a deleitar-se com a "expressão da banalidade
.em que vivia" (29).
Por outro lado, se o público não é "cu)tiva~~", os " argu-
mentos" da moral cínica :são outros:·· São os fatos ~e são
chamados
-·.... . a. prysta,r_cteiloimento em favor
' ... . da violência. Pergun-
ta-se, "didaticamente", onde estão os assassinos de mulheres,
algumas quase crianças, mortas cruelmente por alguns destes
freqüentadores das alegres noites cariocas? Onde estão os ho-
mens públicos que pilham os cofres de um país miserável, à
beira da derrocada econômica? Onde estão os proprietários de
terra que se diziam camponeses, numa escalada de fazer inveja
a qualquer ''western-spagbetti" ? Onde estão os policiais que
invadem favelas, brulalizam e humilham cidadãos inocentes,
em busca de traficantes que vivem e enriquecem, às custas do
consumo de ·drogas da burguesia e da classe média? Onde estão
os sonegadores de medicamentos e gêneros alimentícios, duran-
te o plano cruzado? Onde estão os contrabandistas, contraven-

169
tores, marajás e outros monumentos à corrupção, que as eütes
brasileiras elegeram como brasão de sua emasculação, rapaci-
dade e inconseqüência histórica? É verdade, para o pequeno-
-burguês abúlicc- e desorientado politicamente, esta lista de 4 'viJ-
tudes cívicas" p ode não servir de catecismo moral. Mas, p elo
efeito da repetição, não raro passa a ser vista como prova ine-
quívcca do que o cinismo qu~r demonstrar; lei é isto; é vio-
lência travestida de transcendência.
Não há porque empregar meios-termos. O discurso cínico,
refletidamente ou não, avatiza a prática social mais suja, ca-
lhorda e ensandeciàa que se possa imaginar. Por meio de
exemplos ou argumentos o que se diz ao homem comum é
que ele só tem saída se vier a compactuar com a violência e a
escroqueria,
O segundo traço da cultura da violência não pertence ao
"mundo dos valores", como a moral cinica. Embora tendo
nesta moral sua caução, é na órbita dos comportamentos sociais
que ele se manifesta. A prática e o elogio irresponsáveis da
violência desmoralizam a idéia da lei e de Ideais sociais. No
lugar do Ideal surgem então as miragens Ego-Ideais, contra-
partida previsível da insegurança c ansiedade Ego-narcísicas.
.()s indivíduos acuados pela Lei do cão servem-se das armas que
têm ou das que lhes são oferecidas, para se defenderem. Já
.que nos dizem, provam e repetem incansavelmente que somos
todos juridica, moral e fisicamente supérfluos, pois bem, em
Roma com os "romanos" ! Sejamos todos «foras-da-lei"! A
cultura da violência rapidamente degenera em cultura da delin-
·qüência. O desaparecimento d a figura do Ideal coletivo dá
lugar ao surg~mento da figura do fora-da-leí1 como imagem
Ego-Ideal. O delinqüente é a fonna que o homem supérfluo
encontra de sobreviver socialmente na cultura da violência.
Como toda imagem narcísica, não sustentada pela dinâ-
mica dos Ideais do Ego, o Ego-Ideal delinqüente rege-se pela
aspiração totalizante e jmediatista da completude. Diante de
uma realidade social que se mostra sob a aparência de uma
potêucia natural esmagadora, o Ego-delinqüente, vive-se alterna-
damente como absolutamente impotente ou onipotente. Quando
impotente, o comportamento delinqüente incorpora o modelo

170
da subserviência voluntária! O perfil típico desta conduta é c
do burocrata cegamente obediente a qualquer ordem e a qual-
quer autoridade. Sua iei é a da "obediência devida" ; sua p os-
tura é a da hibernação social, onde procura manter o metabo-
lismo de cidadão reduzido ao mínimo. Incapaz de opor-se ou
de falar c agir em causa própria, com vistas à defesa de seus
interesses e dos interesses de seus pares, o subserviente :s6
consegue sobreviver renunciando a qualquer desejo que possa
nomear. Suas armas ~ão a bajulação, a male<jicência e a ~
quena intriga. Autoridade e autoritarismo, para ele, são termos
indiscerníveis, porquanto fon_tç,~ exclusivas de temor. Do mesmo
modo, é incapaz de distinguir entre hierarquia e obediência
consentida com vista à realização de ob'eúvos comuns, de poder
escorado em viQ!ência.
No pólo op osto ao burocral.a . s~rvil, encontra-se a arro·
gância onipotente, para a qual a "desobediência à lei" é lei.
Aqu• o Bgo eãemac1a-se. Desde o marginal que não hesita em
tirarA~ vida de . quem lhe nega a carteira ou um simples par
d.e tems até o CJdadão que não respeita as convenções do trân-
Sito, porque pouco lh~ importa atropelar alguém ou abalroar
o carro de quem quer voluntariamente obedecer a uma lei que
beneficia a si e aos outros, o que se observa na delinqüência
arrogante é o ab!_~l~~~ ~~~~Z<_? .Pel~ estatuto de p essoa que
tem seu semelhante. Ninguém ou nada qÜe ponha limites à
demência onipotente da imagem Ego-Ideal do delinqüente é
respeitado. Engravatado ou de pés descalços, 0 delinqüente
arrogante irrealiza o mundo, considerando-se acima lei e de-
safiando de maneira grotesca todos que não queiram conver-
ter-se em apêndice de sua onipotência. A imagem de marca
deste tipo social é a caricatura de que Freud chamou "deus
p rotético" (30) . Como o "deus protético" que procura inutil-
mente driblar a Ananké, multiplicando os artefatos a sua velta,
o delinqüente procu!<l evitar a dependência inevitável dos
outros,. recusando-lhes o papel de fonte d e desejo; prazer c dor,
no jogo do convívio humano.
No fundo, este tipo de fora-da-lei é movido pelos meslll:O&
temores de seu sósia servil. Ambos vivem num universo d~
descompromisso social que lhes aparece fantasmagorican;e~·te

171
como sem saída. Como os personagens do "Quinteto" de Roben
AJtman eles sentem-se premidos pela iminência dl morte moral
' ,
e social. E, como estes mesmos ·personagens, tambem procuram
donúnar magicamente o medo da morte, ora fingindo que já
estão mortos - o burocrata servil - ora fingindo que podem
controlar a morte porque são capazes de matar os outros - o
delinqüente arrogante.
A cultura da vjolência mostra como a falência dos Ideais,
acenando com o "pânico narcísico", desequilibra a economia
egóica e compromete seriamente o bem-estar do sujeito c de
sua sociedade. É necessário repetir esta evidência pois vivemos
numa era em que cada apelo à responsabilidade social é r idi-
cularizado como fábula moralizante ou pregação para órfão
em noite de Natal. Não se instiga impunemente o temor hu-
mano da impotência radical. Conduzido a este extremo, o
homem, está "inch of nature" (31 ), segundo a metáfora freu-
diana, pode criar o impensável e o inimaginável. O horror na-
zista hoje parece ficção mas um dia foi fato. Quanto aos que
acham que a psicanálise nada tem a ver com isto, d~ixcmos
a última palavra a Freud: "Quando aquele que cammha na
obscuridade., canta, nega sua ansiedade, mas nem por isso passa
a ver mais claro" (32).

BIBLIOGRAFIA

(l) Ver, BERCHERIE, Paul, Génese des conct:pts freudjcns,


Paris, Navarin Éditeur, 1983, pp. 315-345
(2) ibid. p. 318
{3) A respeito do Ego narcísico e do Ego enquanto objeto da
libido, ver, além das fontes freudia_nas: _
LACAN, Jacques, Les écrits tecbmqucs de Freud, Pans,
Seuil, 1975
- -- - - Le moi dans la theorie et dans la tcchnique
d~ la psychanalyse, Paris, Seuil, 1978
RABINOVICH, Diana S., La teoria. del yo en la obra
de Jacques Lacan, Fundacion del Campo Freudiano, Bue-
nos Aires, Mantial, 1980

172
BIRMAN, Joel, A razão da impostura, in Teoria da
Prática Psicanalítica - 3, Rio, Campus, 1984, pp. 11-49
(4) Do ponto de vista lacaniano, o desenvolvimento da ques-
tão do Ego neste artigo, restringe-se à articulação desta
instância exclusivamente no registro do Imaginário. En-
viamos o leitor ao te:x:to acima citado, de Diana S. Ra-
binovich, onde as relações do Ego com o Real e o Sim-
bólico são exploradas.
(5) t<'RhUD, Sigmund, Malaisc dans la civilisaliou, Paris,
P.U.F., 1971, p. 20
(6) ibid.
(7) ibid. p. 21
(8) FREUD, Sigmund, lnbibition, symptôme et angoisse, Pa-
ris, P.U.F., 1951, p. 14
(9) - - - - - Nouvelles conférences sur la psychanalyse,
Paris, Gallimard, p. 102:
(lO) - - - - Inhibltion ........ op. cit. p. 39
(11) idem., p. 21
(12) - - - - - .Moise et le monothéisme, Paris, Gallimard,
190, pp. 103-106
(13) FREUD, Sigmund, Abrégé de psychanalyse, Paris, P. U.
F., 1970, p. 76
(14) A propósito da comple:x:a relaçfio teórica entre pluralida-
de de experiências e síntese das representações através
da postulação da existência de um sujeito, uma mente,
ou uma consciência capazes de explicar a intencionalida-
de que preside estas sínteses ou atos sintéticos, ver, entre
outros, LACAN, Jacques, Le moi . . . . . . . . op. ciL
RYLE, Gilbert, El concepto de lo mental, Buenos Aires,
Paidos, 1961
RYLE, G. La phénoménologie contre The concept of
Mind, in, La philosophic analytique, Paris, Miouit, 1962,
p. 62-85. . .
PRADO Jr., Bento, A imaginação: Fenomenologia e ft-
losofia analítica, in, Alguns ensaios, São Paulo, Max
Limonad, 1985, pp. 56-76
(15) FREUD, Sigmund, La disparition du Comple:x:e d'Oedipc,
in, La vie scxuelle, Paris, P.U.F., 1970, p. 120

173
( 16) BLEICHMAR, Hugo, Angustia y fantasma, Madrid, Ado-
traf, 1986
(17) Ver FREUD, Sigm.und, Malaise ........ op. cit. p. 58
(18) MELLOR-PICAUT, Sophic, Idéalisation ct sublimation,
in, N.R.P., n. 0 27, Paris, Gallimard, 1983, p. 139
( 19) Ver FREUD, Sigmund, Inhibition ........ op. cit.
- - - - - L'avenir . . . . . . . . op. cit.
(20) ARENl>T, Hannah, A condição humana, São Paulo,
Forense - Salamandra - Edusp, 1981, p. 194
(21) ibid. p. 191.
(22) FREUD, Sigmund, Malaise ..... ... op. cit. p. 51
(23) ibid. p. 21 e p. 32
(24) FREUD, Sigmund, L'avenir ........ op. cit. p. 23
(25) COSTA, Jurandir Freire, Violência e psicanálise, Rio,
Graal 1984
(26) LASCH, Clrristopher; O mínimo Eu, São Paulo, Brasi-
liense, 1984
(27) FREUD, Sigmund, Essa.is de psychanalyse, Paris, Petite
Bibliothéque Payot, 1970, o. 118
(28) ZIZEK, Slavoj, Sur le p~uvoir politique et les méca-
nismes idéologiques, in, ORNICAR, n<:> 34, Paris, Lysc
e Ed. Seuil pp. 41-60
(29) ARENDT, Hannah, As origens do totalitarismo - tota-
litarismo, o paroxismo do poder, Rio, Documentário;
1979, p. 66
A tradlJção brasileira do texto, cuja fonte citamos acima
diverge um pouco da versão que demos e que é citad~
por LASCH, no "O mínimo Eu". Conferir nesta obra J

na p. 97
(30) FREUD, Sigmund, Malaise ........ op. cit. p. 39
(31) ibid.
32;) FREUD, Sigmund, Inhibition . . . . . . . . op. cit. p. 12

174
SIL~NCIO, SILENCIOS

MARIA CLARA PELLEGRINO

"Vinte e cinco anos de trabalho intensivo tiveram


por conseqüência atribuir à técnica analítica objetivos
imediatos totalmente düerentes dos seus objetivos ini-
ciais. No começo, com efeito, toda a ambição do médi-
co-analista se limitava a trazer à tona o que se encon-
trava ocultado no inconsciente do doente e, após esta-
belecer uma coesão entre os elementos inconscientes
assim descobertos, participá-los ao doente no momento
adequado. A psicanálise era, sobretudo, uma arte de
interpretação. Mas como essa arte era impotente para
resolver o problema terapêutico, recorreu-se a um outro
meio que consistia em obter do doente uma confirma-
ção da construção elaborada no trabalho analítico, le-
vando-o a lançar mão de suas lembranças. Esse esforço
esbarrava sobretudo nas resistênch1s do doente; a arte
passou a consistir então, na descoberta dessas resistên-
cias o mais rápido possível e, usando a influência pu-
rãmente inter-humana (a sugestão agindo na qualidade
de transferência) fazê-lo decidir a abandonar suas re-
sistências".1

1 FREUD, S. "Au-delà du Principe. du Plaisir" 1920 in Essais de Psy-


cltanalysd,, Petite Bib. Payot, Paris, 1963, p, 2l'.

175
Esse trecho do texto freudiano, usado como epígrafe, exem~
plifica bem a linha que adotamos para retraçar a "estória do
silêncio", tentativa de sistematização das diversas concepções
do silêncio na história do pensamento psicanalítico. * Esse
ensaio se organiza em torno das concepções de transferência
e resistência e sua inevitável articulação, posto que a estória
do silêncio só se sobressai se a retraçarmos a partir desses
dois fios fundamentais da trama do tecido conceitual psica~
nalítico. O lugar preponderante atribuído à transferência de-
corre do fato de ela ser um dos eixos referenciais em torno
dos quais se organiza a psicanálise - sendo a transferência
um dos instrumentos essenciais da ação terapêutica, tanto
quanto wna via de passagem da prática à teoria.
O conceito de resistência tem também um papel decisivo
na história do pensamento psicanalitico. Freud sempre consi-
derou a interpretação da resistência, juntamente com a inter-
pretação da transferência como sendo as características espe-
cificas de sua técnica. Além do mais, a transferência deve
ser também - não apenas - considerada como resistência.
na medida em que através dela são repetidos padrões de
comportamento que obstacularizam o trabalho analítico (de
rememoração, das lembranças recalcadas, segundo Freud).
Na .primeira tópica, Freud aponta como origem da resis-
tência uma ação proveniente do próprio recalcado. A difi-
culdade que tem o indivíduo de aceitá-lo (o recalcado) ple-
namente, impede seu acesso à consciência. Essa formulação
já inclui uma dupla função atribuída à resistência: obstáculo
próprio ao proceso analítico e defesa - ambigüidade que
os textos freudianos mantêm.
A segund a tópica acentua o aspecto defensivo exercido
pelo ego, na medida em que Freud afirma que o recalcado
não opõe nenhuma resistência à cura, visando, ao contrárjo

• Este trabalho foi por mim apresentado como tese de Doutorado de


3. • ciclo, pela Universidade Sorbonnc - Renê Descartes, Paris V .
(defendida em 1981) com o título de Le Sifcnce datu la relation
analylique.

176
a todo preço encontrar um caminho até a consciência. Freud
escreve: 2
"Os mecanismos de defesa contra os antigos perigos re-
tornam na análise sob forma de resistência à cura, e isto por-
que a própria cura é considerada pelo ego como um · novo
perigo".
Do ponto de vista metodológico, recorremos à pesquisa
histórica, baseada' na análise de conteúdo, para retraçar a tra-
jetória do silêncio. Esse método foi construído sobre o que
chamamos o "eixo da similitude", ou seja, o que consideramos
ser uma mesma linha de continuidade observável nos escri-
tos teóricos sobre o tema.
Esse eixo é sustentado por alguns pontos centrífugos, em
torno dos quais se amarra a homogeneidade de pensamento
subjacente à aparente heterogeneidade das concepções teóricas
sobre o silêncio.
Porém, ainda que. submetidos ao "eixo da similitude",
percebemos que as concepções do silêncio, em função dos
avatares por elas sofridos ao longo da história do pensamento
psicanalítico, também obedeciam a uma certa duração tempo·
ral, o que nos levou a estabelecer o segundo princípio orga-
nizador de nossa "démarche" metodológica: o "eixo da pe-
riodicidade".
Reunidos em blocos que recobrem um período de dez
anos cada um e comparados por décadas, os textos teóricos
revelam diferenças na concepção do silêncio - que por sua
vez remetem à evolução das concepções de transferência e re-
sistência - que se fazem nítidas em função desses cortes dia-
crônicos. Parece-nos que de dez em dez anos as formulações ,
que durante esse tempo se mantinham em "estado de gesta·
ção" tomam fonna em termos de conceito acabado. Esse "tem-
po de gestação", função do "efeito de retardamento" é pro-
duzido pela distância existente entre a teoria e a prática ana-
lítica, ou seja, pelo tempo que os novos conceitos levam para

2 FREUD, S. - 1937 "Analysc terminée et ana!yse intenninable" -


trecho citado no Vocabulaire de Psychanalyse, Paris, P uf 1967, p. 421.

177
serem efetivamente metabolizados pelos analistas, a ponto de
influenciarem e re-orientarem sua prática.
Ainda que a estória do silêncio tenha sofrido várias trans-
fonnações em função dos novos apartes feitos às concepções
de transferência e resistência ao longo da história da psica-
nálise, escolhemos, neste trabalho, nos ater ao seu percurso
dentro do próprio pensamento de Freud e de seus colabora-
dores próximos.
Sendo o trabalho da tese (do qual esse é um extrato)
muito mais extenso que o presente texto, consideramos, en-
tretanto, que o que será apresentado ilustra bastante bem ·a
nossa proposta: esboçar a evolução do conceito do silêncio na
psícanálise e apontar a direção da sua trajetória.

* * ..
Por · "Psicologia do Inconsciente" 3 designamos a primei-
ra tópica freudiana, ou seja, o período em que Freud não
pensava o aparelho psíquico em termos estruturais, o que só
foi feito quando da segunda tópica.
Neste contexto, toda a atenção se concentrava na pala-
vra. Sua importância já se evidenciara desde o método catár-
tico, no que ele tem em comum com o método analítico, a
saber: ambos visam a polaridade da experiência vivida e a
rememoração seguida de verbalização. Porém, não uma ver-
bali~ação qualquer.

a Utilizamos a expressão "Psicologia do Inconsciente" para designar a


primeira tópica freudiana. em contraponto à expressão "Psicologia
do Ego" escollúda para designar a segunda tópica freudiana. Essa
expressão foi escolhida em funciio das duas utilizações. nas formu-
lações fre.udianas, do tcnno Inconsciente, a saber: no seu sentido
descritivo e no seu sentido tópico.
Ao nomear esse pe-ríodo "Psicolog.i a do Inconsciente", queremos su-
blinhar o caráter tópico do Inconsciente tal qual Freud o define
em su;a primeira teoria do aparelho psíquico (definição por ele
mantida quando da segunda tópica): ele é constituído por conteúdos
recalcados cujo ace.sso ao sistema pré-consciente - consciente é
barrado pela ação do recalcamemto.

178
Como o conceito de transferência acabara de ser desc _
berto por Freud (referência ao caso Dora, 1905), 0 pólo ;e
interesse da pesquisa psicanalítica visava fundamentahnente 0
recalcado e como atingí-lo - o único veículo sendo a palavra.
A "Psicologia do Inconsciente", cujo período é ilustrado
pelos Estudos sobre a Histeria, se refere inicialmente à época
na qual a finalidade da investigação psicanalítica era a busca
dos "conteúdos inconscientes", capazes de preencher as iacunas
m nêmicas que conduziriam ao "núcleo patogênico".
Os processos conscientes e pré-conscientes eram conside-
rados princípalmente em sua função de censura, enquanto
obstaculizando a emergência do material recalcado.
A "Psícologia do Inconsciente" se refere também a um
segundo momento da pesquisa psicanalítica, no que concerne
o silêncio - ainda no quadro da primeira tópica - no qual
o interesse se desloca do "inventário de lembranças" (eixo
privilegiado da démarche freudiana nos Estudos sobre a His-
teria) em direção à decodificação dos conteúdos inconscien-
tes, a partir dos restosjdejetos que alcançavam a consciência.
A fi~~lidade visada era estabelecer equações simbólicas que
permtttssem a recuperação dos equivalentes inconscientes da
linguagem consciente Oinguagem latu sensu, incluindo não
apenas o discurso, mas também a linguagem não verbal, cor-
poral). Esse período, ilustrado pela década de 1910 a 1920,
teve seus melhores representantes em Abraham e Ferenczi.

•••
A o designar a psicanálise a "arte da interpretação", Freud
se referia à "psicanálise dos conteúdos" decorrente de uma
concepção tópica das neuroses, cuja finalidade terapêutica era
o "tomar consciente o inconsciente", com a conseqüente eli-
minação da amnésia infantil e a supressão de todos os obs-
táculos a este fim. Esta terapia do inconsciente> centrada so-
bre a palavra, só se interessava pelo discurso, único meio de
se alcançar as produções inconscientes. Deste ponto de vista,
o silêncio só podia ser considerado como um obstáculo inde-
sejado) que deveria ser rapidamente superado.

179
Comecemos pelos "Estudos sobre a Histeria".
Em 1895 Freud abandonara a hipnose, de aplicação in·
constante, e recorria à sugestão, ajudado pela pressão de suas
mãos sobre a cabeça do paciente estendido no divã; os sinto·
mas eram o ponto de partida para a associação de idéias. Na
sua busca do "núcleo patogênico" Freud fustigava insistente·
mente o paciente, para que ele produzisse associações que o
levasse à rememoração, sendo o silêncio banido do campo dos
possíveis.
O silêncio do analista enquanto função de procedimento
técnico (o analista só se calava para escutar o paciente) não
tinha ainda direito de cidadania. Basta pensar no que diz
Freud: 4
"Neste estágio avançado do trabalho é útil adivinharmos
a associação em curso e participá-la ao doente, antes mesmo
de termos a certeza dela. Se adivinhamos corretamente, a du·
ração da análise será reduzida, mas uma hipótese, mesmo er-
rônea, tem sua utilidade, porque arrancamos do doente n~·
gações enérgicas que revelam um conhecimento melhor e mais
garantido dos fatos".
No que se refere à resistência ao "inventário de lembran-
ças" capaz de conduzir ao núcleo patogênico, Freud fala do
silêncio como ruptum do fluxo associativo, ligando-o ao temor
do paciente em deslocar para a pessoa do analista represen-
tações penosas surgidas do conteúdo da análise. Freud nos
dá um exemplo no qual um desejo erótico surgiu no conscien-
te do paciente, sem ser acompanhado da lembrança das cir·
cunstàncias acessórias capazes de situar esse desejo no passa·
do. O desejo atual se encontrou, então, ligado à pessoa do
médico - em foco nas preocupações do paciente - por
efeito de um engano, ou seja, a transferência para a figura do
médico se deu a partir dé uma falsa associação. Aqui se es-
boça a primeira idéia de Freud sobre a transferência, como
equivalente a uma falsa conexão (aindã que ele observe: "nes-
ses casos, surpreendentemente, os doentes sempre acreditam

4 FREUD. S. - Etudes sur l'Hysterie, 1895 Puf, Paris, 1971, p. 246.

180
no próprio equívoco''. 6 Porém, ao definir o fenômeno, ele
fala do despertar, na situação terapêutica, do mesmo afeto
que, originalmente, forçou o paciente a rejeitar o desejo ina-
ceitável.
Esta defasagem, no mesmo texto, entre a definição teó·
Tica do fenômeno (desejo contra um afeto penoso, em rela-
ção com U.ma pulsão inaceitável pela consciência) e seu ma-
nejo técnico pelo mesmo Freud (que o maneja como se se
tratasse de uma falsa conexão) ilustra o que chamamos o "efei-
to de retardamento", ou seja, o tempo necessário a uma ela-
boração teórica para que ela seja plenamente metabolizada e
absorvida pela prática.
Se nos Estudos sobre a Histeria, Freud não trata do pro-
blema do silêncio (contrariamente ao que se poderia supor,
visto a relação entre silêncio e recalque, sobretudo na histe-
ria) ele já traça a direção que ligará o silênCio do paci ent ~
a uma resistência de transferência.
Podemos dizer que, no conjunto de sua obra, Freud trata
raramente da questão do silêncio. Apesar disso, há dua<> ma-
neiras de abordá-la, segundo a perspectiva metapsicológica ou
técnica.
Do ponto de vista metapsicológico, a abordagem da ques-
tão do silêncio - ainda que ele não a cite diretamente - foi
possibilitada por uma revisão de seus textos de 1915-191 6 ("O
Inconsciente", "O Recalque", "As pulsões e seu Destino", "Re-
sistência e Recalque") .
Segundo suas primeiras formulações metãpsicológicas, o ~i­
lêncio só podería ser concebido como "resistência do recai-
que". Nessa época, para Freud, o recalcado coincidia em larga
escala com o inconsciente, e o modelo teórico do recalque era
por ele utilizado como protótipo de outras operações defensivas.
A verbalização era considerada como um dos meios pelos
quais se produzia uma reorganização das forças energéticas no
aparelho psíquico, pelo fato de ser uma descarga controlada

5 Op. clt., p. 252.

181
de pequenas quantidades de energia pulsional. O silêncio era
então, um dos responsáveis pelo acúmulo das forças pulsio-
nais não descárregadas, constituindo, por isso, a expressão d0
recalque e, na situação terapêutica, um "re-recalque" em statu
nascendi.
Entretanto, o recalque é o resultado de uma operação de-
fensiva complexa, cuja finalidade é afastar da consciência re-
presentações indesejáveis. Ao afirmar que o silêncio é a ex-
pressão do r-ecalque, não queremos d izer que ele é o avesso da
representação depois de submetida à ação do recalcamento, na
medida em que o silêncio, enquanto tal, não tem inscrição
psíquica. 6 Assim, nesse contexto, o silêncio deve ser identifi-
cado à censura, instância que recalca, sem se confundir, en-
tretanto, com a consciência.
No contexto da primeira tópica freudiana, a maneira acen-
tuadamente antropomórfica com que Freud fala da censura
("o porteiro que controla a entrada da ante-câmara que é a
consciência") nos levou a privilegiar o ponto de vista econô-
mico para abordá-la, ou seja, sua função de controle do nível
de energia não ligada em circulação no aparelho psíquico,
segundo o primado do princípio do prazer. Desse ponto de
vista, o silêncio identificado à censur~ só pode ser considera-
do como o "vazio do recalque", isto é, como a expressão do
jogo de forças que levam a cabo o recalcamento de uma re-
presentação.
Ao utilizannos a expressão "o vazio do recalque" para
designar o silêncio, queremos sublinhar o caráter de não ins·
crição psíquica que tem o silêncio, segundo as formulações
freudianas.
Para o Freud desta época, o inconsciente, concebido a
partir do modelo do recalque, pode ser figurado como um
conjunto de representações indesejáveis, silenciadas pela cen-
sura, mas nem por isso mudas. Seu traço permane-ce, e elas

G Em "O tema dos três cofres" (1913) Freud afirma que nos mit~ e
nos sonhos o silêncio representa a morte a qual, como se sabe, não
tem inscrição psíquica.

182
se fazem ouvir através das formações do inconsciente. 1:. nessa
medida que não se pode identificar o silêncio ao recalcado,
fazendo-se necessário buscar do lado das forças que promo-
vem o recalque de uma representação. Não correspondendo
o fenômeno do silêncio à representação silenciada pelo re-
calque, ele só pode estar associado às forças energéticas que
caracterizam a economia do sistema. Sendo uma das carac-
teósticas destas forças energéticas, sua reabilidade em rela-
ção às representações que elas investem, elas não podem ter
uma inscrição psíquica da mesma forma que uma represen-
tação. O silêncio considerado como o "vazio do recalque"
sublinha, do ponto de vista metapsicológico, essa ausência de
inscrição psíquica.

Freud e a Resistência de Transferência

Com seu artigo de 1912 "A Dinâmica da Transferência",


Freud alarga sua concepção da transferência, abandonando
sua idéia precedente que consistia em considerar a transferên-
cia como um deslocamento de afeto conduzindo a uma falsa
conexão.
Ele passa a considerar que, de uma maneira geral, a ca-
pacidade de amar de um sujeito é marcada pela repetição in-
cessante, no curso de sua vida, de um ou vários protótipos
que determinam as condições dessa capacidade de amar, bem
como às necessidades e finalidades às quais ela responde.
Esses mesmos padrões se reproduzem na relação do pa-
ciente do psicanalista, o qual é assimilado aos protótipos pré-
existentes, o que decidirá ao mesmo tempo a qualidade e a
intensidade do fenômeno transferencial.
É interessante notar que se Freud já conceptualiza a
transferência em termos de protótipos, no que se refere ao
manejo técnico do silêncio do paciente no início do trata-
mento, ele o trata como se ainda o considerasse como . uma
resistência devida a uma falsa conexão. Esta distância entre
a teoria e o manejo técnico está presente, ainda que de forma

183
ambigua, nos seus artigos técnicos de 1913 e 1914-7, 6, nos
quais Freud considera o silêncio do início do tratamento como
uma resistência de transferência, devida a sentimentos eróti-
cos (na mulher ) ou a tendências homossexuais passivas (no
homem).
Para exemplificar . essa distância assinalada acima, resu-
miremos um trecho de "O inicio do tratamento" 9 : o paciente
se mantém silencioso, apesar de ter toda a sua estória pessoal
a contar ao médico; "nada" lhe ocorre. Freud observa que é
preciso ensinar-lhe que é impossível se pensar em nada. Sob
pressão, o paciente acaba confessando que ele está pensando
na paisagem que vê pela janela do consultório. no papel de
parede ou no lustre. Cito:
". . . essas indicações são suficientemente inteligíveis:
tudo o que se relaciona à presente situação, representa uma
transferência para o médico, a qual se revela apropriada para
servir como uma primeira resistência. Somos, então, obriga-
d os a começar por apontar essa transferência, o que nos con·
duz ao caminho de acesso ao material patogênico do pacien-
~ te. As mulheres que, em sua estória passada, já sofreram
agressões sexuais e os h omens com tendências homossexuais
fortemente reprimidas são os mais predispostos a esconder as
idéias que lhes ocorrem no início do tratamento".
Citarei agora as observações feitas por Freud no mesmo
artigo 10 a respeito de quando dar ao paciente a primeira
interpretação:
" A resposta só pode ser esta: nunca antes de estar bem
estabelecida com o paciente uma transferência d e dependên-
cia, uma relação bem desenvolvida. A primeira finalidade do
tratamento é a de estabelecer um vínculo com a pessoa do
médico. Para garantir esse vínculo, a única coisa a fazer é

7 FREUD, S. 1913 - "Le début du traitement". in De la technique


psychonalytique, Paris, Puf 1953 pp. 80-104.
8 FREUD, S. 1914 - "Rememoration, répétition e élaboration .. in
De la techniqrk p'ychanalytique, Paris. PUF 1953 pp.. 105·115.
o Op. cit. pp. 84 -85.
10 Op. cít. , pp. 98-99.

184
dar tempo ao paciente. Se devotamos a ele um verdadeiro in~
teresse, se desarticulamos cuidadosamente as primeiras resis-
tências e se evitamos certas faltas, tal vínculo se desenvolve
espontaneamente, e o médico passa a fic ar associado a uma
das imagens das pessoas de quem ele habitualmente recebia
afeto. O fracasso é certamente possível, se no início partirmos
de outro ponto de vista que não o da compreensão".
Se a transferência só deve ser interpretada quando esti-
ver suficientemente estabelecida, a pressa com a qual Freud
a denuncia nos casos de pacientes silenciosos em começo de
análise, faz-nos pensar em sua antiga idéia da transferência
considerada como uma perturbação associativa. impedindo o
acesso às lembranças recalcadas (como citado no caso Dora,
1905). Além disso, do ponto de vista teórico, esses silêncios
são explicados como expressão de tendências homossexuais
passivas e do temor/desejo de uma agressão sexual, ou seja,
protótipos inconscientes, remetendo a experiências infantis
despertadas pela situação de análise e indicadoras da quali-
dade e da configuração transferencial que sustentará a rela-
ção. Essa defasagem entre a concepção teórica e o manejo
técnico da situação de silêncio é mais um exemplo do "efeito
de retardamento" já mencionado.

A década de 1910 a 1920

Ao lado do pensamento freudiano sobre o silêncio, con·


siderado do ponto de vista da "Psicologia do Inconsciente''
(primeira tópica), colocamos as reflexões de Abraham e Fe-
renczi sobre o tema como expressivas dessa década. Ainda
que considerando o silêncio como uma "resistência de recal-
que", tal qual Freud, a originalidade desses dois psicanalistas
em relação à idéia freudiana sobre o silêncio decorre do fato
de este, - apesar de abordado como efeito do recalcamento
- não ser considerado como o vazio silencioso da instância
recalcadora (concepção deduzida da metapsicologia freudiana)
sendo tratado seja como expressão da satisfação, seja como
expressão da repressão da pulsão.

185
Essa concepção do silêncio, nós a classificamos de "ma-
nifestação pulsional", a saber: o silêncio remete a um con~
teúdo que foi vitimado p elo recalque, do qual ele é a tradu-
ção manifesta, ou seja, ele é um resto de inconsciente.
Com Abrabam e sobretudo com Ferenczi nota~se um des-
lizamento da concepção tópica das neuroses em direção a uma
concepção mais dinâmica, onde à fórmula "tornar consciente
o inconsciente" se soma uma atenção especial às resistências.
Nesse contexto de uma concepção mais dinâmico~cconô~
mica da neurose, opera-se uma aproximação entre a transfe-
rência e o deslocamento: o deslocamento de afeto é um pro~
cesso geral do qual a transferência é um caso particular. Nes-
ta perspectiva, Abraham e Ferenczi conceberão o silêncio como
uma defesa que, de acordo com o ponto de vista, aparece
como repressão ou como satisfação da pulsão.
A técnica adotada é a de revelar ao paciente, através
da interpretação gradual dos conteúdos inconscientes, o sen-
tido latente do silêncio.
Abraham 11 fala menos de transferência que da "capaci-
dade de transferência da libido" para as pessoas do sexo
oposto, para os seres humanos em geral (sublimação, senti-
mentos familiares e sociais) para os objetos; essa capacidade
de transferir, que se confunde com a capacidade de adaptação.
existe na razão inversa do auto~erotismo. A transferência é
sustentada pela posição libidinal do sujeito.
~ assim que . o silêncio do paciente revela sua posição
libidinal e, conseqüentemente, suas relações objetais, na m e~
dida em que ele aparece como defesa contra os desejos eróti-
co-orais. Segundo Abraham 12 é fato de observação que um
órgão excessivamente erogeneizado, não cumpre mais suas ou-
tras funções. Os pacientes cuja boca conservou todo o inves-

11 ABRAHAM. K.. 1908 - "The psycho-sexual differences between


hysteria and dementia praecox" in Selected Papers, Hogarth Press,
1947, pp. 64-79.
l2 ABRAHAM, K. 1916 - "Examen de J'étape prégénitale la plus
précoce dli développement de la libido", in Oeuvres Completes,
Tome li, Payot, Paris, 1973 pp. 231-254.

186
timento libidinal correspondente à etapa oral canibalística, e
nos quais o desejo de mamar e sugar o seio não foi recalcado,
ou então retornam à cena analítica através da regressão, usam
o silêncio como uma defesa contra tais desejos de "masturba-
ção oral".
A grande originalidade de Ferenczi é de aproximar a
transferência da introjeção:
" O neurótico se esforça em absorver em seu eu uma par-
te do mundo tão grande quanto possível e faz dela objeto de
suas fantasias inconscientes, tentando, através dessa " introje-
ção", aplacar os desejos pulsionais inconscientes insatisfeitos
e impossíveis de satisfação; a transferência é a classe das in-
trojeções que, numa análise, toma como objeto a p essoa do
médico ...
Esses mecanismos inteiferem precocemente no desenvol-
vimento das relações entre o indivíduo e o mundo exterior;
a projeção primordial estaria na origem da percepção dos
objetos maus, formando um mundo exterior que não obedece
à vontade; _ . . os primeiros sentimentos de amor e de ódio
são urna transferência de sentimentos auto-eróticos prazeiro-
sos e desprazeirosos para os objetos que evocam esses senti-
mentos; o primeiro "objeto de amor" e o primeiro " objeto de
ódio" são, por assim dizer, as transferências primordiais, as
raízes de toda introjeção futura". 13
Assim, Ferenczi, para interpretar a transferência, forja
um novo sistema de referência, constituído pelas relações
fantasmáticas do eu e dos objetos, bons e maus, exteriores c
interiores.
:S baseado nessa concepção da transferência que Feren-
czi elabora o valor do silêncio em seu artigo "O silêncio é de
ouro" 14. O silêncio como manifestação pulsional é, no obses-
sivo, a expressão do erotismo anal, porque a retenção das
palavras equivale à retenção das fezes e o silêncio é de ouro

t:l FERENCZI, S. 1909 "Introjection et Transfert" in Oeuvres Com-


pletes. Tome I. 1968, Payot, Paris pp. 93-125.
H FERENCZI, S. - "Le Silence est d'Or" in Oeuvres Completes,
Tome II, 1968, Payot, Paris pp. 255-257.

187
porque a tadturnidade, em si-mesma, é uma forma de pou-
pança.
As noções de relações fantasmáticas do eu com seus ob-
jetos internos permite a Ferenczi o estabelecimento de equa-
ções simbólicas tais como a que aparece no silêncio: palavra-
fezes, ânus-boca. Aqui começa a se esboçar toda uma nova
grade de decodificação para a apreensão do comportamento
global do paciente enquanto metáfora de seus conteúdos psí-
quicos inconscientes, na base do inter-jogo dos deslocamen-
tos sobre os objetos fantasmáticos, o que caracteriza a dinâ-
mica do mundo interno do sujeito.
Com Ferenczi tem início a análise dos elementos formais.
da conduta, como precursores do tratamento do silêncio, do
ponto de vista da "Psicologia do Eu" (em contraposição à
"Psicologia do Inconsciente"). Deve-se notar que entre os ele-
mentos fonnais por ele estudados, se encontram, entre outros.
a maneira de falar e a maneira como o paciente associa, con-
siderados como "formações de sintomas transitórios durante
a análise", ou como "defesas habituais". 15
O papel do silêncio em relação à maneira de falar e de
associar do paciente é revelado a partir das seguintes opera-
çõe~: num primeiro tempo, o analista aponta o silêncio, para
destacá-lo do bloco das condutas consideradas "naturais'' pelo
paciente, a fim de transformá-lo em objeto de observação.
Num segundo tempo, o analista descreve-o de modo detalha-
do ao paciente, de acordo com a forma como ele aparece:
por exemplo. ele mostra ao paciente que este se cala sistema-
ticamente depois de uma seção loquaz, ou então que se cala
quando surge determinado assunto etc. . . Quando o paciente
se torna capaz de apreender essas formas de conduta, o ana-
lista tentará torná-las compreensíveis a partir de sua biogra·
fia e dos sentimentos detectados no hic et nunc da seção. Des-
ta forma, chega-se a captar, de um lado, os elementos histó-
ricos que determinam a utilização do silêncio e de outro, que

1:; FERENCZJ, S. 1912 -·- "Symptómes transitoircs au cours d'une


Psychanalyse" in Oeunes Completes, Tome I, 1968, Payot. Paris.
pp. 199-210.

188
sentido tem o silêncio na transferência. Se a reconstrução in-
terpretativa é eficaz e adequada, o paciente acaba se dando
conta do caráter inadequado de seu comportamento na situa-
ção, levando-o a uma re-libidinização dos elementos formais
da sua conduta o que desmonta um antigo "hábito" até então
ego-sintônico, (cujas raízes e o sentido se encontram na his-
tória infantil do paciente) mas de caráter defensivo.
Entretanto, se tais operações se revelam ineficazes, de-
ve-se considerar que, com essa atitude, o paciente quer obri-
gar o analista a explicações e comentários deteriorados, para
impedir o trabalho analítico. Ferenczi escreve:
"O melhor, nesses casos, é opor o próprio silêncio ao
silêncio do paciente. f: possível que a maior parte da seção
transcorra sem que o médico e o paciente digam uma só pa-
lavra. Talvez o paciente suporte dificilmente o silêncio do mé-
dico; ele terá a impressão de que o médico está com raiva
dele, ou seja, ele projetará sobre o médico seu próprio senti-
mento, o que o levará finalmente a ceder e a renunciar ao
seu negativismo". 16
Ferenczi introduz, com relação à teoria dinâmica da téc-
nica, dois elementos novos: a conduta como fonte de infor-
mação complt:mcntar, ao lado da palavra, e a experiência vi-
vida pelo paciente no processo analítico, no hic et nunc da
sessão. à qual ele atribui um grande valor terapêutico, na me-
dida em que ela pode induzir a transferências muito intensas.
f: também com Ferenczi que surge. do ponto de vista
transferendal, a figura do analista como suporte de uma ima-
gem paterna toda poderosa e punitiva. Na relação analítica.
é o médico o responsável por tudo o que ocorre, sendo quem
favorece a emergência de fantasias inicialmente inconscientes,
em seguida semi-conscientes, as quais têm freqüentemente como
tema, um violento ataque do médico, seguido de uma punição
exemplar; o médico é capaz de "fazer tudo", (segundo o pa-
ciente) , chegando ao extremo de romper a relação. f: Feren-
czi que frisa que na análise, tanto quanto na hipnose, o mé-

lG FERENCZI. S. 1919 - "La Technique Psychanalytique" in Oeuvres


Completes, Tome 11, Payot, Paris, 1968 pp. 328-329.

189
dico representa inconscientemente para o paciente o papel das
figuras parentais amadas e temidas (lntrojection et Transfert,
op. cit.). .
Com a análise do silêncio segundo a ótica de Fercnczt,
termina o período por nós intitulado a "Psicologia do Incons-
ciente". A reflexão sobre o tema é interrompida por uma dé-
cada (de 1921 a 1930 não encontramos nenhuma referência
ao silêncio) para ser retornada em 1930.

O Silêncio na Intercessão da "Psicologia do Inconsciente"


e da "Psicologia do Ego"

Essa década é muito importante para a psicanálise porque


sucede a grande virada do pensamento freudiano de 1920, com
a formulação da segunda tópica do aparelho psíquico.
Um dos motivos classicamente invocados para dar conta
dessa mudança foi a importância crescente atribuída às defe-
sas inconscientes. o que impedia a coincidência dos pólos do
conflito defensiv~ com os sistemas precedentemente definidos:
o recalcado com o inconsciente e o ego com o sistema pré-
consciente-consciente.
Esse período de intercessão entre as duas tópicas freu-
dianas, no que se refere ao silêncio, coloca mais uma vez, em
evidência, o que chamamos de "efeito ~e reta:dame~t?". .
Ainda que familiarizadas com as 10ovaçoes teor1cas m-
troduzidas pela segunda tópica freudiana, as reflex~es dos ana-
listas sobre o silêncio nessa década revelam-se Impregnadas
pelas concepções precedentes. Como exemplo, ?odemos citar
Anna Freud e Wílhem R eicb : apesar de toda a enfase que eles
d ão à análise do ego e de suas resistências eles pensam o si-
lêncio como expressão do recalcamento (o que se enquadra
nas primeiras concepções sobre o tema).
Da mesma forma, Bergler e Marsjach, (dois analistas que
se incluem nesse p eríodo) ainda que lidando com os conceitos
de compulsão à repetição e pulsão de morte, consideram como
fin alidade da análise o restabelecimento de integridade do su-
jeito sob a forma de " unidade nardsica original".

190
Entretanto, se as concepções do silêncio dão prova de
uma form ação de compromisso entre duas formas de pensar,
do ponto de vista da metapsicologia psicanalítica, podemos
afirmar que ela se situa em pleno período da "Psicologia do
Ego".
O ego não se restringe mais ao sistema PC-CS e se torna
uma estrutura complexa, na qual a consciência é melhor de-
finida do ponto de vista de sua localização tópica, pois passa
a ser o seu núcleo.
Freud escreve em "O Ego e o Id" : 17
"Encontramos no próprio ego algo que é tão inconscien-
te quanto as tendências recalcadas e se comporta como elas,
quer dizer, produz efeitos muito marcados sem tornar-se cons-
cientes, só conseguindo vir a sê-lo depois de um trabalho es-
pecial. Devido a isso esbarramos, em nosso labor analítico,
com inúmeras dificuldades e obscuridades, se quisermos man-
ter nossas definições habituais, considerando a neurose um
conflito entre o consciente e o inconsciente. Em função da
maneira como concebemos a estrutura psíquica, devemos subs-
tituir essa oposição por outra: a oposição entre o ego coeren-
te e os elementos destacados do ego e recalcados".
A concepção da transferência também sofre uma mudan-
ça. O p onto de vista dinâmico, sustentado por F reud em ''A
Dinâmica da Transferência" (1 912), (dinâmico no sentido
de que ele considera a repetição como efeito de conflitos in-
fantis não resolvidos e recalcados, sendo o seu caráter de não
resolução o que promove a repetição, como tentativa incons-
ciente de resolvê-los) se to rna mais mecanicista em "Mais
além do Princípio do Prazer". 18 A transferência não é mais
considerada como obedecendo ao princípio do prazer, e o con-
flito deixa de ser enfocado como um deslocamento de afeto,
assimilado aos protótipos infantis do paciente. Agora a repe-
tição decorre da pulsão de morte, tendência mais originária

11 F REUD, S. 1923 - "Le Moi et le Ça" in Essais de. Psychanalyse,


Petite Bib. Payot, Paris. 1963 p. 185.
lll FREUD. S. ,1920 - "Au-delà du Principe du Plaisir," in 'Es.sais
de Psychanalyse, Petite Bib. Payot. Paris, 1963.

191
que a tendência ao prazer, e o conflito deixa de ser pensado
como uma situação que permanece devido ao seu estado de
não resolução. A partir de então, a experiência sexual infan-
til é considerada como experiência que foi dolorosa, posto
que um fracasso e uma ferida narcísica; seu rccalcamento é
então conforme ao princípio do prazer, sua reedição na trans-
ferência, reativando as pulsões recalcadas, é contrária à ten-
dência ao prazer e se vincula à pulsão de morte, sob a forma
da compulsão à repetição.
Essa nova perspectiva conduz a psicanálise a reconside-
rar a função do discurso. No contexto da primeira tópica. o
discurso tinha a função de descarga de pequenas quantidades
de energia, permitindo o escoamento do recalcado, e o silên-
cio era a expressão do recalcamento. No contexto da segun-
da tópica, tornou-se claro que a verbalização nem sempre ti-
nha a função de descarga e que ela não suprimia a resistência,
já que esta era em grande parte inconsciente. Além do mais,
ficou demonstrado que a resistência poderia servir de veiculo
à descarga de desejos inconscientes, sobretudo de auto-agres-
são e, finalmente, que o silêncio não era, necessariamente, si-
nônimo de resistência.
A nova configuração do ego teve com efeito o desloca-
mento do eixo do interesse analítico. A démarche terapêutica
tornou-se indiscutivelmente dinâmica, em contraste com a
"démarche" tópica precedente. São, sobretudo, os trabalhos
de Wilhem Reicb e de Atma F reud que formalizam esse des-
locamento.
O ego deixa de ser o "obstaculizador" , tal qual conside4

rado na hipnose (para se alcançar os conteúdos inconscientes


era preciso que o hipnotizador se apossasse· do ego do hipno-
tizado) ou nos Estudos sobre Histeria (onde o interesse era
todo voltado para as produções inconscientes, desempenhando
a consciência a função de triagem e censura) .
A p artir de então, o ego é o domínio privilegiado ao
qual deve se aplicar a atenção do analista e ele constitui, p or
assim dizer, o veículo através do qual pode-se ter uma idéia

192
das duas outras instâncias p síquicas: o super-ego e o id. Um
trecho de Anna Frcud 19 , exprime bem essa virada:
"A primeira teoria baseada nas descobertas da psicaná-
lise era, antes de tudo, uma psicologia do inconsciente ou.
como dizemos atualmente, do id. Entretanto, quando apli-
camos essa maneira de ver à terapêutica analítica, não tarda-
mos a perceber o seu caráter errôneo. O tratamento analítico
tem e sempre teve como objeto o ego e suas perturbações, e
o estudo do id e de seus modos de ação é apenas um dos
meios de alcançar o objetivo terapêutico. Esse objetivo per-
manece invariavelmente o mesmo: suprimir as perturbações e
restabelecer a integridade do ego".
Os procedimentos técnicos acompanham esse deslocamen-
to do interesse teórico e, de acordo com Anna Freud, a pri~
mcira tarefa do praticante, é reconhecer diante de que meca-
nismos de defesa ele se encontra. Se ele consegue fazê-lo,
pode-se dizer que ele resolveu uma parte da análise do ego.
Em seguida, é preciso que ele descubra os efeitos desse siste-
ma defensivo, ou seja, que ele recupere o que o recalque dis-
simulou reintegrando~o, re-situe o que foi deslocado, re-ligue
o que foi isolado. Depois de ter restabelecido as associações
rompidas é que o analista deve voltar sua atenção para a aná-
lise do id propriamente dito.
Esta posição intermediária na qual se coloca Anna Freud,
- a atenção do analista deve se orientar da observação do
ego para o id, as duas faces do paciente - levam-na a um
interessante p onto de vista sobre a associação livre: o im~
portan te é menos a estrita observância do paciente à regra
fundamental da análise, do que os conflitos daí resultantes.
A partir dessa posição, poderíamos esperar que ela não
abordasse o silêncio como expressão do recalque - sobretudo
levando-se em conta a sua definição da transferência, na qual
ela fala da repetição, na análise, de relações objetais arcaicas.
Mas, apesar dessa referência às relações arcaicas (o que re-
mete a uma leitura mais estrutural do ego) A. Freud não a

19 FREUD, ANNA- "Le Moi et les Mécanismes de Défense". PUF.


Paris, 1972 p. 8.

193
inclui na sua maneira de pensar o silêncio. Para ela, o silên-
cio só será considerado no quadro da histeria, como expres-
são de sua defesa maior, ou seja, o recalque em statu nascen-
d l.. 20
Aqui, mais uma vez, se evidencia o "efeito de retarda-
mento" da prática em relação à teoria. O silêncio congelado
numa referência a um quadro nosográfico é empobrecido de
sua dimensão "falante".
E: Wilhem Reich, apesar das críticas que a ele possam
ser feitas, que com seu "A Análise do Caráter'' 21 melhor in-
tegra e sistematiza em termos transferenciais e técnicos as
novas contribuições de Freud referentes à agressividade e à
pulsão de morte. Com ele, as preocupações tópicas cedem de-
finitivamente lugar às considerações dinâmjcas, econômicas e
genéticas; dos dois princípios básicos da técnica freudiana, é
a análise das resistências o que mais o interessa. T odo seu
pensamento é organizado em torno da idéia de "couraça ca-
racterológica", que representa a maneira particular de ser de
um indivíduo, sendo a expressão da totalidade do seu passa-
do. Desta couraça decorrem as "resistências caracterológicas"
que se fazem sentir na análise como um mecanismo de defesa
compacto, que obstaculiza o esforço terapêutico. A atenção
do analista deve se concentrar inicialmente nessas resistências,
e a análise das resistências deve, invariavelmente, preceder a
análise dos conteúdos ou dos significados do material incons-
ciente.
O manejo técnico para a dissolução da couraça carac-
terológica compreende dois tempos: num primeiro tempo, o
analista deve se p reocupar em objetivar os traços de caráter,
destacando-os do ego (para desfazer a relação de sintonia)
e mostrar sua significação na situação presente; a dissolução
propriamente dita só se efetua 'q uando se vincula as resistên-
cias de caráter às suas raízes infantis. 'S então evidente que,

20 Op. cit. p. 162.


21 REICH, W. 1933 - "Analysis dei Caracte.r", Ed. Paidos, Buenos
Aires, 1965.

194
em função de sua origem e de seu modo de ação, tais rests-
tências devem ser associadas à transferência negativa.
Reich dá a maior importância à tra nsferência negativa e,
sobretudo, à "transferência negativa latente", oculta atrás da
aparente transferência positiva do início do tratamento. Na
verdade, ele a considera impossível por razões teóricas, quais
sejam, o recalque da sexualidade e a ausência ou insuficiên-
cia de libido objetai no paciente. Segundo ele, toda resistên-
cia é, necessariamente, uma atitude negativa para com o ana-
lista, através da qual evita-se qualquer pulsão, tanto de amor
quanto de ódio: o ego projeta no analista - convertido em
inimigo - sua defesa contra as pulsões, na medida em que,
devido à sua resistência na regra fundamental, o analista des-
perta-as e perturba o equilíbrio neurótico.
A resistência caracterológica, que se manifesta como um
sintoma, pode ser compreendida em seu conteúdo, e pode ser
reduzida às suas origens infantis, conduzindo diretamente ao
núcleo da neurose, isto é, ao complexo de :&tipo. Aqui, o
elemento formal é definitivamente incorporado ao domínio da
psicanálise.
Em seu livro 2Z, Reich faz uma pequena referência ao si-
lêncio do analista:
.. • . . somente quando a discussão sobre a técnica analí-
tica era escassa e pouco sistemática, poder-se-ia crer que os
analistas, baseados num fundamento técnico comum, tinham
desenvolvido também uma técnica comum. Isso se torna claro,
por exemplo, na discussão de conceitos tais como o de "pas-
sividade analítica", interpretada de diversas formas. A inter-
pretação extrema, e certamente a mais equivocada, afirmava
que o analista devia se limitar ao silêncio e que o resto acon-
tecia por si".
Ele se distancia da concepção do analista-espelho: não
se pode tratar todos os pacientes da mesma forma, nem o
mesmo paciente da mesma forma do começo ao fim do pro-
cesso. Essa flexibilidade técnica é, entretanto, balizada por

22 Op. cit. p, 25.

195
uma estrita obediência à regra de precedência da análise da~
resistências. Segundo ele, há duas maneiras de se enfrentar
uma resistência à regra fundamental:
"A mais usual é uma educação direta para a análise, a
partir da informação, da tranqüilização, da recriminação, da
conversa etc. . . ou seja, tenta-se educar o paciente para que
ele adquira a sinceridade analítica para o estabelecimento de
uma transferência positiva. Isso corresponde à técnica propos-
ta por Numberg.
Entretanto, a experiência revela que esse método peda-
gógico é incerto: falta-lhe uma base psicanalítica clara e, além
do mais, ele se encontra ameaçado por permanentes oscilações
transferenciais.
A outra maneira é mais complicada, porém mais segura.
Trata-se de substituir as medidas pedagógicas por interpr-eta-
ções analíticas. Ao invés de se induzir o paciente à análise
pelo conselho~ pela recriminação ou pelas manobras transfe-
renciais, orienta-se o terapeuta para a conduta real do paciente
e sua significação". 23
No que se refere ao silêncio do paciente, ele o considera
como uma defesa contra um desejo de "fellatio oral", isto é,
como u ma manifestação p ulsional, de acordo com nosso es-
quema referencial. Porém ele descreve a maneira diversa como
esse mesmo silêncio, (do ponto de vista de seu conteúdo fan-
tasmático) se manifesta caso se trate de um caráter histérico
(silêncio angustiado) ou de um caráter· obsessivo-compulsivo
(silêncio colorido de rancor e orgulho).

•••
O silêncio segue sua trajetória dentro da história do pen-
samento analítico sempre na esteira dos avatares sofridos pc-
los conceitos de transferência e resistência e nitidamente mar-
cado pelo "efeito de retardamento".
E. interessante notar que até a década de 50 só o silêncio
do paciente é pensado, aparecendo com pequenas variações,

23 Op. cit. p. 62.

196
ou como resistência ou como manifestação pulsionaJ. Porém,
a partir daí, entra em cena o grande ausente: o silêncio do
analista. Podemos dizer, analogicamente, que esse momento
da história do silêncio corresponde à virada freudiana de 1920.
A reflexão sobre o silêncio do paciente cede lugar à reflexão
sobre o silêncio do analista e passa a ser compreendido e in-
terpretado em função do efeito produzido pelo silêncio do-
analista.
A partir da década de 50, começa-se a falar da contra-
transferência, não mais e apenas como um elemento obstrutor
do processo analítico, mas como um instrumento terapêutico
precioso. A través da contra-transferência e de sua utilização,
o analista, enquanto pessoa, passa a estar implicado no pro-
cesso, o qual nesta medida, não mais se desenrola entre um·
paciente e um "ouvir especular" - abstração feita da pessoa
do analista - , para se fundar enquanto um processo entre
duas pessoas: uma que fala e outra que escuta (diferindo,
portanto, da concepção anterior que era a de uma que fala
e de outra que ouve) .
Somente a partir do momento em que os dois parceiros
da situação passam a ser considerados como igualmente im-
plicados no processo, é que se inida, efetivamente, uma refle-
xão sobre o espaço analítico e, portanto, sobre o silêncio do
analista.
A primeira resposta, precipitada, sobre a função do si-
lêncio do analista foi a de considerá-lo como agente indutor
da frustração, necessária ao estabelecimento do processo trans-
ferencial.
Porém, logo ficou demonstrado que a instalação da trans-
ferência não se fundava na frustração. Muito pelo contrário.
observou-se que ela se estabelece sobretudo como demanda
de amor, veiculando o desejo que tem o analisando de se tor-
nar o objeto causa do desejo do outro. Essa concepção, mais
abrangente. obrigou os analistas a ampliarem a reflexão sobre
o silêncio, posto que ele não podia mais ser reduzido a sim-
ples agente da frustração.
Esta ampliação se manifestou através da concepção de
um "campo" ou espaço analítico, suportado por uma matriz

197
transferencial, diferentemente concebida pelos analistas, em
função de suas concepções diversas a respeito da finalid ade
da análise.
O silêncio do analista - parte integrante e constitutiva
do espaço analítico - ganhou uma função mais precisa, que
düeria de acordo com a matriz transferencial a partir da qual
era pensado. Ele passou a ser considerado:
- como tendo uma função de reparação;
- como permitindo a recuperação dos "m omentos de ilusão";
- como promovendo o restabelecimento da "ambiência pri-
mária";
- na sua função de marcar a falta, remetendo ao registro da
castração.
Mas esta já é uma outra história.

198
DESATAR COM ATOS *
Um ensaio sobre Ferenczi e o ato psicanalftico

JOEL BffiMAN

Para Pedro, meu filho.

" ... Mas a palavra ''desdobramento" tem dois sentidos.


O botão se "desdobra" na flor, mas o papel "dobrado"
em forma de barco, na brincadeira infantil, pode ser
"desdobrado", transformando-se de novo em papel liso.
Essa segunda espécie de desdobramento convém à pará-
bola, e o prazer do leitor é fazer dela uma coisa lisa,
cuja significação caiba na palma da mão. Mas as pará·
bolas de Kafka se desdobram no primeiro sentido: como
o botão se desdobra na flor. Por isso, são semelhantes à
criação literária . . . "
(Benjamin, W. in: "Franz Kafka") t

• Este trabalho se originou de uma conferência sobre este tema. rea-


lizada em Belo Horizonte, em junho de 1987, no Círculo Psicana-
lítico de Mioa.s Gerais.
1 BENJAMIN. W. "Franz Kafka", A propósito do déci mo aniversá-
rio de sua morte (1934). In : BENJAMIN. W. Magia e Técnica.
Arte e Política. Obras escolhidas. Volume I. São Paulo, Brasíliense,
1986, 2~ edição, p. 147-148.

199
1. Uma figura ern silêncio

Circunscrever o percurso teórico de Ferenczi no início


dos anos vinte até os anos trinta, implica em destacar inúme-
ras questões fundamentais sobre o ato analítico e os limites
do campo d a psicanálise. Assim, o que é o espaço psicanalí-
tico e 0 contorno de suas fronteiras, quais as suas coordenadas
fundamentais e as forças que o sustentam, são indagações que
d elineiam este percurso.
Neste, o debate de Ferenczi com Freud permanece em
surdina. Digo em surdina, pois o que dispomos no momento
para restabelecer os andaimes deste diálogo são alguns frag-
mentos, poucos se considerarmos a extensão desta documen-
tação. Assim, possuímos um pequeno texto de Freud, de 1923,
para a comemoração dos cinqüenta anos de Ferenczi 2 ; o ne-
crológico de Ferenczi, de 1933 3 ; e, principalmente. "Análise
com fim e análise sem fim" 4, que é, em grande parte. um de-
bate de Freud com Ferenczi sobre as inovações técnicas que
este queria inserir no campo psicanalítico. Porém, a documen-
tação central deste debate se encontra interdita à pesquisa.
Com efeito, a gigantesca correspondência estabelecida
entre Freud e Fereuczi não foi publicada em grande parte,
mantendo-se no arquivo dos documentos proibidos da histó-
ria do movimento psicanalítico. O diálogo vivo estabelecido
entre eles, no calor dos debates sobre as inovações técnicas
propostas por Ferenczi des?e 1919 e ~ue q?~stionavam ~s
procedimentos para o maneJO do a t~ ps1can~h t~ co re~onl_lect­
dos pela lnternational Psychoanalyhc Assocwtwn, f01 Silen-
ciado.

2 FR.EUD, S. "Dr. Sãndor Ferenczi" (On his 50th birt~day) (1923) .


In: The Standard EdJtiOn of the complete psycholog1cal works o/
Sígmund Freud. Volume XIX. Londres, Hogarth Press. 1978. P
267-269.
3 FREUD. S. "Sándor Fcrenczi" (1933). Idem. volume XXII. p. 227-
229.
4 FR.EUD, S. "L'analyse avec fin et analyse sans f in'' (~937~ . _In:
FR.EUD. S. R ésultats, /dées, Probleme.r. Paris, Prcsses UntversJtatres
de France, 1985.

200
Ao lado d este silêncio se constituiu uma versão oficial
sobre a personagem Ferenczi, na qual Emest Jones ocupou
um lugar fundamental nesta construção. Assim, nas páginas
dedicadas a Ferenczi, no terceiro volume de sua biografia de
Freud, esta versão se consolida e se difun de para a posteri-
dade 5. Entretanto, não podemos deixar de considerar, na lei-
tura desta versão, que Jones viveu para empreender a biogra-
fia do mestre, como assinalou Granoff, 6 isto é, para se eter-
nizar na posição do discípulo dileto, no que isto implica para
qualquer sujeito de uma não assunção de um lugar desejante.
Em contrapartida, apesar de reconhecidamente discípulo,
Ferenczi pretendia ser um i nterlocutor do mestre~ se aventu-
rando por novos territórios da experiência psicanalítica, mas
procurando ocupar estes espaços com a legitimação do dis-
curso da psicanálise. Evidentemente, ele corria riscos com isso,
desbravando as regiões sagradas do desconhecido e do inter-
dito. Nesta perspetciva, ele produzia uma cunha institucional,
pois criticava não apenas as formas vigentes de encaminha-
mento do processo analítico e a maneira pela qual se realizava
a formação psicanalítica, como também o estilo de escuta que
disso resultava na relação analista-analisando, que estaria en-
tão se aproximando cada vez mais de uma relação pecklgógica,
com a perda conseqüente da substância viva da psicanálise 7.
Por isso mesmo, no XI Congresso Internacional de Psicanálise.
realizado em Oxford, em 1929, a instituição analítica se re-

'
5 JONE.S, E. La vie et l'oeuvre de Sígmund Freud. Volume 3. Paris-:
Presses Univcrsitaires de France, 1969. J.a parte, capí:ulos II. 111 e IV.
c GRANOFF. W. "Fcrenczi: faux probl~mc ou vrai malentcndu". In~
La PJychanalyse. Número 6. Paris. Presses Uníversitaires de France,.
1961 , p . 258.
7 Sobre il.1o vide.: " Le probleme de la fin d~ l'analyse" (1928); "ETas-
ticité de la technique psychanalytique" (1928); "Principe de relaxation
et néocatharsis" (1930); "Analyses d'enfants avec des adultes" (1931);
"Confusion de. langue entre les adultes et l'enfant" ( 1932) · In :
FERENCZJ, S. Psychanalyse 4. Oeuvres Completes. Volume. IV-
Paris. Payot, 1982.

201
feria a Ferenczi como sendo o "enfant terrib1e'' da psicanáli-
ses, como ele registrou num artigo posterior11•
Evidentemente, pontos fundamentais estão em questão
neste debate. Porém, uma linha mestra sustenta os textos de
Ferenczi, que de modo recorrente formula sempre uma mesma
indagação: qual é o lugar do analista no ato psicanalítico, no
que isto implica de questionamento sobre o que é este ato e
os contornos a serem traçados para o espaço analítico. Desde
1919, Ferenczi se perguntou insistentemente sobre isso, sendo
as inovações técnicas por ele introduzidas as soluções que
forjou para responder a esta questão. Enfim, se Ferenczj
..errou" em algumas das formulações teóricas que enunciou,
isto não retira absolutamente o valor desta questão e a legi-
timidade de suas indagações.
· Nesta perspectiva, podemos considerar a leitur-a do seu
percurso como um passo fundamental para o restabelecimento
de alguns marcos da história do ato psicanalítico, como uma
grande experiência que Ferenczi se permitiu viver e que nos
transmitiu como um legado impossível de ser esquecido. Por
isso mesmo, nós retomamos aqui as últimas palavras enun-
ciadas poi~ Fceud no necrológio de Ferenczi: ''$ impossível
acreditar que a história de nossa .ciência irá esquecê-lo". 10
Para delinear, esquematicamente, o campo desta discussão,
vamos consid er~ aqui como objeto de tematização alguns
textos fundamentais de Ferenczi sobre as inovações técnicas
no processo psicanalítico, que começaram a ser publicados em
1919, e o contraponto central de Freud a estas indagações,
em "Análise com fim e análise sem fim". Evidentemente, esta
polêmica sobre o poder e os limites do ato psicanalítico atin-
ge a questão central do fim da análise, que é por onde Freud

s Quando FERENCZI apresentou o trabalho "P rincípio de rela.u-


ção e neocatarse".
t FERENCZI. A. "Analyse. d'enfants avec dcs adultes" (1931). In:
FERENCZI, S. Psychanalyse 4. Op. cit.
10 FREUD. S. "Sándor Ferenczi" (1933). In: The Standard Edition
of the complete psycho/ogical works oj Sigmund Freud. Volume
xxn. Op. cit., p. 229.

202
retoma o fio condutor para responder às interrogações de
Ferencz.i.

li - O arquivo da inovação
As inovações técnicas de Ferenczi se ordenaram em duas
formulações distintas, que se inserem em diferentes momentos
no tempo. A primeira se enuncia como sendo a técnica ativa
e se apresenta nos seus escritos do período 1919-1925. A se-
gunda formulação se enuncia como a neooatarse e se estende
nos seus textos de 1929 a 1933.
No intervalo destes períodos Ferenczi realizou a auto-
crítica dos "excessos, da técnica ativa, num importante ar-
tigo de 1926, em que tematizou de maneira reveladora as
"contra-indicações da técnica ativa. »11 Paralelamente a isso
se diferenciou claramente das formulações teóricas de Otto
Rank - com quem ficara parcialmente confundido peJa ela~
boração, em 1924, de uma obra comum: "Perspectivas da
Psicanálise" 12 - , mediante a .crítica de sua obra: "Técnica
da Psicanálise".13 A resultante deste processo de elaboração
te6ri~o-dínico é a produção em 1928 de
14
nm
texto magnífico,
considerado "luminoso" por ucan: "Elasticidade da técnica
psicanalítica". 15
Com efeito, em "Variantes da cura-tipo", ucan consi-
dera Ferenczi como sendo "o autor da primeira geração mais
pertinente para questionar o que é requerido da pessoa do .
analista, particulannentc para o fim do tratamento". 1& An-

u FERENCZI, S. "Contre-indications de la technique active" (1926).


In : FERENCZI, S. PsychatUJlyse 3. Oeuvres Completes. Volume
111. Paris. Payot, 1974.
12 .FERENCZJ, S., RANK, O. "Perspectives de la Psychanalyse" (1924).
Idem.
13 FERENCZI, S. "Critique de l'ouvrage de Rank: "Technique de
la psychanalyse" (1926). Idem.
U F ERENCZI, S. "Elasticité de la technique psychanalytique" (1928).
In: FERENCZL S. Psychanalyse 4. Op. cit.
15 LACAN. 1. "V.ariantes de la cure-type". In: Écrits. Paris. Seuíl.
1966, p. 340.
16 LACAN, 1. Idem.

203
teriormente, num artigo inaugural como "Além do "P rincípio
de R ealidade"," Lacan já reconhecia a importância deste texto
de F erenczi de 1928, ao incorporar no seu discurso teórico
conceitos que foram formulados por aquele, como o de "tato"
na técnica psicanalítica. 17
Para fazermos um inventário completo dos textos que
constituem o arquivo discursivo da técnica ativa, é necessário
considerar pelo menos dois critérios, além, evidentemente, do
cronológico. Com efeito, a invenção clínica de Ferenczi não
se constitui apenas numa técnica de intervenção, mas também
num esboço de interpretação metapsicológica de certas for-
mações psíquicas, que são o contraponto necessário, no re-
gistro teórico, para o encaminhamento mctodológi.co do ato
psicanalítico.
Nesta perspectiva, podemos considerar como se inserindo
organicamente na estrutura teórica do discurso da atividade:
1 . Os artigos que destacam a questão central da técnica ati-
va, delimitando o seu campo clínico e o lugar de sua emer~
_gência no processo psi.canalítico; 2. Os textos que retomam
,esta questão técnica para p ropor a ampliação do seu campo
.de utilização cliníca, indicando os seus obstáculos e impos-
sibilidades; 3. Os artigos que procuram fundamentar rigoro-
·samente o seu conceito; 4 _ Finalmente, os escritos que as si·
nalam uma interpretação metapsicológica original sobre al-
gumas dimensões de estrutura neurótica, e que são isomorfos,
.na sua lógica, aos pressupostos da técnica ativa.
Assim, podemos destacar os seguintes escritos como se
articulando nesta estrutura discursiva: 1 . "Dificuldades técni-
cas de uma análise de histeria" (1919)18; 2. "A influência
exercida sobre o paciente em análise" (1919); 19 3. "Fenô·

l7 LACAN. J. "Au-delà du "Principe de R ealité"" (1936) . Idem. p ..


85.
18 FER ENCZI, S. "Difficultés techniques d'une analyse d'hysté rie"
(19 19). In: Psychanalyse 3. Op. Cit.
19 FERENCZI. S. "L'inf!ucncc exercée sur !e patient en analyse"
( 1919). Idem.

204
menos de materialização histérica•• ( 1919) ; 20 4 . "Tentativa
de expLicação de alguns estigmas histéricos" ( 1919); 21 5 •
"Psicanálise de um caso de hipocondria histérica" (1919); 22
6. " Reflexões psicanalíticas sobre os tiques'' (1921);23 7 . "Pro-
longamentos da "técnica ativa" em psicanálise" ( 1921) ; 24
8. "Discussão sobre os tiques" ( 1921) ;25 9. "Perspectivas
da Psicanálise ( 1924) ;-26 10. "Os fantasmas provocados"
(1924); 27 11. "Psicanálise dos h.ábitos sexuais" ( 1925).28
Do discurso teórico da neocatarse podemos destacar os
seguintes textos: 1. "A criança mal acolhida c sua pulsão de
morte" (1929) ;29 2 . "Principio de relaxação e neocartase"
(1930); 30 3. "Análise de crianças com adultos" (1931);31
4. "Confusão de línguas entre os adultos e a criança"
(1933). 32
Na fundamentação teórica da oeocatarse existe uma obra
crucial, elaborada em 1924: "Talassa, ensaio sobre a teoria

:!I! FERê NCZI, S. " Phénomenes de ma terialisation hystériquee (1919).


Idem.
2t FERENCZI, S. "Tentative d'e.xplication de quelques stigmates hys-
tériques'' (1919) . Idem .
22 FERENCZI, S. " Psychanalyse d 'un cas d'hypocondrie hystérique"
( 1919). Idem.
2:~ .FERENCZT, S. "Réflexions psychanalytiques sur Ies ti~' (1921) .

Idem.
~... F.ERENCZI~ S. ~'Prolongcments de. la "technique aclive~ en psy-
chanalyse" (1921). Idem .
.1:5 F ER ENCZI, S. "Discussion sur les tics" ( 1922). Idem.
!:!6 F ERENCZI, S. "Pcrspcctives de la psychanalyse" (1924) . Idem.
!!> FERENCZI, S. "Les fantasmes pro voqués" (1924). I dem.
:!S FERENCZI. S. "Psychanalysc dc.s habitudes sexuelles" (1925).
Idem.
:!!• FERENCZI. S. "L'enfant mal accueilli e t· sa pulsion de mort"
( 1929). In: FERENCZI, S. Psychonaly:re 4. Op. cit .
•10 FERENCZI. S. "Principe. de relaxation et néocatharsis" (19.30} .
l dem.
31 FERENCZl, S. "Analyses d'enfants avec des adultes" (1931 ).
Idem.
a2 FF.RE::NCZJ, S. ''Confusion de langue entre les adultes et l'enfant"
(1933). I dem.

205
da genitalidade". 33 Nesta, Ferenczi começa a constituir um
novo conceito de trauma, diferente do conceito freudiano e
ligado à noção de "catástrofe". Posteriormente, com este con-
ceito original Ferenczi pretende fundamentar não apenas a re-
tomada da catarse e a importância da revivência do trauma
originário do sujeito na experiência psicanalítica, como tam-
bém a questão cmcial do "real" no trauma e na estrutura
neurótica. Entretanto, não examinaremos aqui este texto, que
por sua complexidade e conseqüência mereceria um estudo
separado, mas apenas a representação do ato psicanalítico
no período da neocatarse.

Ill - Inovando pela transferência


Como já nos referimos acima, as inovações técnicas de
Ferenczi se fo.nnalizaram em 1919, quando ele passou a sus-
tentar publicamente a demanda de atividade no processo psi-
canalítico e, de modo particular, a atividade da figura do ana-
lista.
Este período é imediatamente posterior a sua análise com
Freud, que se realizou num curto espaço de tempo, em apenas
algumas .poucas semanas, em 1914 e 1916. Neste momento,
existem também indicações seguras que revelam diferenças
fundamentais de Fereoczi com alguns analistas proeminentes
da Associação Psicanalítica Internacional, principalmente Abra-
ham e Jones. O fantasma do reaparecimento das divergências
profundas d e Freud com Juug e a escola suíça de psicanálise se
faz presente de forma aterradora, de maneira que Ferenczi foi
colocado provisoriamente na posição de h ereje, de " traidor''
da causa p sicanalítica, em companhia de Rank. Entretanto,
não existiram neste contexto divergências do discípulo com
Freud, como pretendemos demonstrar neste ensaio, e o con-
fronto entre eles somente se constituiu a posteriori, quando
se formalizou o discurso da neocatarse.
Alguns autores lacanianos consideram que é apenas neste

!1.3 FERENCZI. S. 11Thalassa. Essais sur le théorie de Ia génitalité"


(1924). In: FERENCZI. S. Psycllanalyse 3. Op. cit.

206
momento histórico do seu percurso teórico que se inicia o
discurso propriamente psicanalítico de Ferenczi, na medida em
que é somente neste contexto que ele fala de fato na primeira
pessoa, se assumindo como sujeito pleno de sua palavra, e
apresentando as marcas profundas do processo da transferên-
cia. Nesta perspectiva, tudo aquilo que formulara até então
revela as marcas características de "discurso universitário",
onde Ferenczi seria apenas um bom divulgador do c:liscurso
teórico de Freud. M
Devemos considerar a interpretação destes autores com
certa cautela, assinalando certas nuances no percurso teórico
de Ferenczi. Assim, é preciso reconhecer antes de mais nada
que neste contexto histórico se inicia um percurso de grande
criatividade teórico-clínica de Ferenczi, onde podemos regis-
trar os escritos fundamentais que ele legou à teoria do pro-
cesso psicanalítico. Porém, no momento anterior existiu tam-
bém uma produção inovadora, que marcou efetivamente a tra-
dição psicanalítica. Com efeito, sem a pretensão de sermos
exaustivos, podemos destacar os seguintes escritos anteriores
de Ferenczi que contribuíram para o desenvolvimento do dis-
curso freudiano: 1 . "Transferência e introjeção" ( 1909); 35
2. "O conceito de introjeção" (1912) ; 36 3 . "Sugestão e psi-
sanálise" (1912) ;· a7 4. "O desenvolvimento do sentido da rea-
lidade e seus estágios" ( 1913); 38 5. "O homoerotismo: no-
sologia da homossexualidade masculina" (1914). 39

11 4 Sobre isto, vide: CHAUVELOT, D. "Ferencii: Sa vie, et la trans-


mission de la psychsnalyse''; JUl-IEN. ph. "Le débatc e ntre Freud et
Ft'renczi. Savoir y faire ou savoir y êlre". In: A.naly tica. Volume
9. Paris, 1978.
R:S FERENCZI, S. "Transferi et introjection" (1909) . In: FEREN-
CZI, S. l'sychanalyse I. Oeuvres Compl~tes . Volume I. Paris, Payot,
1975.
3C FERENCZI, S. "Le concept d'introje.ction" (1912). Idem.
ar FERENCZI. S. "Suggestion et psychanalyse" (1912) . Idem.
ss FERENCZI, S. "Le dévcloppement du sens de rea\ité et ses stades"
(1913). In: FERENCZI. S. Psychanaly.re 2. Oeuvres Completes.
Volume H. Paris, Payot, 1970.
39 FERENCZI. S. ''L'homoérotisme.: nosologlc de l'homosexualité
mastuline" (1914). Idem.

207
Assim, para nos restringirmos à problemática do ato psi-
canalítico sublinhemos que, em "Transferência e introjeção",
Ferenczi já circunscrevia de forma bastante moderna o lugar
do analista na transferência. Com efeito, a figura do analista
era definido como um "catalizador", possibilitando a coloca-
ção em movimento do funcionamento psíquico da figura do
analisando. Nesta perspectiva, a transferência seria somente
··um caso particular da tendência geral ao deslocamento de
neurótico". Então, enquanto "catalizadot", a figura do analis-
ta seria o suporte da transferência, que seria induzida por um
traço mínimo. 40
Portanto, em "Transferência e introjeção'', como nos de-
mais escritos que lhe são contemporâneos no tempo e na pro-
blemática, Ferenczi já anuncia a sua originalidade como dis-
cípulo, pois realiza algo mais que um mero "discurso univer-
sitário", contribuindo efetivamente para o desenvolvimento do
discurso do "mestre". Entretanto, apesar das nuances que pro-
curamos introduzir com estes comentários, não resta qualquer
dúvida que o período das inovações técnicas é permeado pelos
efeitos da transferência e pelas marcas produzidas pelo pro-
cesso analítico de Ferenczi com Freud, e nisso concordamos
com a interpretação destes autores.
Em contrapartida, a respost de Freud a Ferenczi se insere
nos registros do mestre e do analista. Assim, em "Análise com
fim e análise sem fim", Freud assinala repetidamente os limi-
tes que definem os contornos do processo psicanalítico. Por
outro lado, Ferenczi levanta questionamentos cruciais que não
são apenas teóricos, mas que são efetivamente efeitos privile-
giados de sua experiência transferencial. Como veremos ainda
neste trabalho, as pontuações de Freud se referem principal-
mente ao período da neocatarse e não ao da técnica ativa.
de forma que devemos destacar a sua distinção teórica entr~
Ós dois discursos de Ferenczi.
De qualquer maneira, é importante sublinhar aqui que
Ferenczi deslocou as indagações marcadas no seu ser para a

40 FERI:NCZI, S. "Transfert et introjection". In: FERENCZI, S.


Psychanalysc 1. Op. cit.

208
prática clínica, procurando traçar novas possibilidades para
o desdobramento do processo analítico. Portanto, nesta pers-
pectiva, Ferenczi foi de fato e de direito um psicanalista, pois
se questionou radicalmente sobre o que representa a ocupação
do lugar de psicanalista no processo analítico e o que signi-
fica o exercício ético da função psicanalítica. Enfim, estes
escritos de Ferenczi empreendem uma insistente e crucial in-
dagação sobre o lugar e a função do analista no processo psi-
canalítico, e as formulações de Freud em "Análise com fim
e análise sem fim" se inscrevem no mesmo registro, respon-
dendo ora como mestre da psicanálise ora na condição de
analista de Ferenczi.
A modernidade do discurso teórico de Ferenczi é indubi-
tável, no período da técnica ativa. Com isso não estamos nos
referindo somente à atualidade dos seus escritos e de sua pro-
blemática, mas a sua articulação viva com a problemática freu-
diana representada pela tópica do id e pela teoria pulsional
dos anos vinte. Com efeito, como abordaremos, em seguida,
as inovações iniciais de Ferenczi pretencliam ser os desdobra-
mentos metodológicos necessários das novas e ousadas formu-
lações freudianas. Assim, considerando a compulsão de repe-
tição e a pulsão de morte, Ferenczi pretendia investir no dis-
positivo analítico a partir daquilo que sempre instigou o pro·
gresso freudiano, vale dizer, as resistências que se constituíam
como obstáculo no percurso analítico e que se materializavam,
então, na figura "diabólica" da compulsão de repetição. Por-
tanto, o que se colocava para Ferenczi como indagação era de
como trabalhar esta repetição, já que a interpretação semân-
tica de representações se apresentava como um jrrocedimento
insuficiente para superar a "estagnação" do processo psicana-
lítico. Neste contexto, a interrogação qoe se colocava para
Ferenczi era de como reinventar a função analítica no enca-
minhamento do processo e o que se exige da figura do ana-
lista para o exercício ético de sua função.
Para delimitarmos rigorosamente esta problemática, na
sua dimens"ão histórica, se impõe aqui um breve comentário,
para situarmos a oposição atividade/passividade da figura do
analista no processo psicanalítico. Assim, a imagem da ativi-

209
dade do psicanalista seria contraposta à imagem instituída de
sua passividade no espaço analítico, que constituía, então, a
sua representação dominante no processo da análise. Nesta,
a figura do analista escuta de maneira benevolente o discurso
do analisando e somente intervém no processo mediante in·
terpretações. Porém, na prática da atividade o analista deveria
ocupar também uma outra posição, realizando atos face ao
analisando, não permanecendo, portanto, no eixo do escutarf
fa 'ar.
Entretanto, como Ferenczi assinalou com pertinência, esta
imagem da passividade do intérprete não seria verdadeira, pois
quando realiza interpretações do material discursivo o analista
orienta as associações do analisando numa direção determi-
nada. 41 Portanto, Ferenczi indicava de modo virtual que a
oposição verídica que estava em questão neste debate seria
entre palavra e ato, Enfim, na representação então estabeleci-
da da prática analítica estava pressuposto que a única estra-
tégia possível do analista no esp:aço psicanalítico se inseria
no registro da palavra, enquanto que na proposição de Fe-
renczi se considerava a palavra e o ato, sendo, então, o ato
do analista interpretado pela representação instituída como
sendo da ordem do acting-out.

IV- Da palavra ao ato

Esboçada esta diferença na representação do processo


psicanalítico, consideremos agora, pontualmente. os escritos
de Ferenczi sobre a técnica ativa para apreendermos a sua
lógica interna.
Assim, a que realidade clínica se refere F erenczi quando
formula a pertinência da atividade no espaço analítico? Os
casos clínicos relatados nos artigos inaugurais se referem à
estrutura histérica, porém a indicação de Ferenczi é analitica-
mente mais rigorosa, pois se articula com a dinâmica do pro-

41 FERENCZI. S. "Prolongements de la "technique active" en psy-


chanalyse" (1921). In: FERENCZl, S. P.Jychunulyse 3. Op. cil., p.
118.

210
cesso psicanalítico. Nesta perspectiva, a resposta para nossa
indagação não deixa margem para dúvidas: a realidade clíni-
co-transferencial em pauta é a "estagnação" do processo ana-
lítico.
Com efeito, após um período de produtividade do pa-
ciente na análise, mediante a livre associação e o trabalho de
rememoração - que se manifestava nos efeitos sobre a pro-
dução sintomática - , o processo paralisava. O efeito era sur-
preendente, pois os sinais alentadores da perelaboração ana-
lítica não poderiam conduzir logicamente a um beco sem saída,
mas a uma positividade psicanalítica maior~ se revelando por
uma maior complexidade da trama associativa e o aprofun-
damento do trabalho de rememoração.
Em "Dificuldades técnicas de uma análise de histeria",
Ferenczi relata as várias interrupções e retomadas na análise
de uma mulher, cujo processo oscilava entre a perelaboração
e a paralisia. Considerando a repetição desta oscilação, Fe-
renczi resolve confrontar esta resistência de outra maneira.
Assim, a forma eficaz de vencer a resistência não seria atra-
vés de interpretações, combatendo a resistência, mas contor-
nar o obstáculo por um procedimento direto que incidisse na
satisfação erótica que a analisanda retirava da "estagnação".
Então, corno a paciente permanecia com as pernas cruza-
das de maneira tensa durante a totalidade da sessão, Ferenczi
passou a supor que existia nesta postura uma satisfação mas-
turbatória, comum nas mulheres, no roçar das coxas. Esta for-
mulação foi apresentada, mas a analisanda reagiu com dene-
gações veementes e permaneceu na postura habitual. Porém,
como persistisse a "estagnação" na análise, Ferenczi decidiu
proibir a manutenção desta posição no espaço analítico.
O efeito da interdição foi imediato, suspendendo a pa-
ralisia do processo. Com efeito, após a angústia liberaqa por
não pode manter a saitsfação erótica e a raiva contra o
analista provocadas pela interdição, a analisanda relata um
conjunto de recordações ligadas à sexualidade infantil que, até
então, não tinham se apresentado na análise. A economia se-
xual s, articulava a uma posição de "masturbação 11tiva", fá-
tica, que sustentava o orgasmo desta paciente. Num momento

211
posterior, quando a análise paralisara novamente, Ferenczi vai
estender o campo da interdição, incluindo agora também o
cotidiano da analisanda, reabrindo assim novamente a " estag-
nação" do processo e propiciando, então, novas recordações
e elaborações de sua economia sexual. 42
Além disso, mediante esta análise F erenczi pode formu-
lar a existência de "equivalentes masturbatórios" num conjun-
to de atos sintomáticos e tiques aparentemente anódinos. Por-
tanto, uma série de hábitos petrificados do caráter desta pa-
ciente, no limite do corporal, puderam ser mobilizados e trans-
formados em sintomas através da interdição no contexto trans-
ferencial. 43
Em "Prolongamentos da "técnica ativa" em psicanálise",
Ferenczi nos relata um exemplo oposto. Trata-se agora da
história de uma jovem artista talentosa, cuja vergonha impe-
dia que ela pudesse se apresentar em público, como música
e como mulher. Contrariamente ao caso anterior, o que apa-
rece clinicamente no primeiro plano é a intensa inibição da
sexualidade e da atividade fantasmática.
A "estagnação" da análise conduziu Ferenczi a estimular
o exibicionismo da paciente, provocando-a, então, para que
o seu fantasma fosse articulado no espaço analítico. Porém,
quando o desejo exibicionista foi literalmente explicitado pela
analisanda, através da relação com o analista, Ferenczi inter-
ditou o circuito da satisfação que a paciente retirava com esta
modalidade de erotismo. C om este corte no circuito pulsional,
entretanto, o analista provocou a rememoração das cenas pre-
téritas onde a paciente constituíra a economia de suas impos-
sibilidades sexuais. -t4
Se contrapusermos agora estas duas situações paradigmáti-
cas, poderemos esboçar os eixos fundamentais que compõem
a representação do ato psicanalítico em Ferenczi e as razões

4~ FERENCZI. S. "Difficultés techniques d'une analyse d'hystérie"


(1919). Idem, p. 17-20.
43 F ERENCZI, S. Idem. p. 20-22.
44 FERENCZI, S. "Prolongements de la "technique active" en psy-
chanalyse" (l92l). Idem, p. 120-125.

212
que fundamentam a técnica da atividade, isto é, uma prática
analítica que se sustenta também em atos e não apenas em
interpretações. Assim, vejamos:
1 . A técnica da atividade é representada como uma for·
ma de manejar a "estagnação" do processo analítico;
2. esta "estagnação" é uma modalidade de resistência ao
processo psicanalítico, uma forma de m ise-en-acte de pulsões
que não existem no registro da representação. Por isso mes-
mo, estas pulsões não podem ser rememoradas, mas apenas
se apresentarem como compulsão de repetição;
3 . portanto, para trabalhar esta forma de resistência de
nada adianta a interpretação da resistência, procurando de-
sarticulá-la pela determinação do seu 'sentido. Pelo contrário,
seria necessário contornar o obstáculo, 45 dar um limite à sa-
tisfação pulsioruJl que se realiza em ato, de forma a romper
o circuito da compulsão de repetição que se precipita na "es-
tagnação";
4·. entretanto, a desarrumação do nó petrificado na trans-
ferência não constitui, em si mesma, a finalidade do procedi-
mento em pauta, pois mediante esta manobra pretende-se ape-
nas abrir um caminho possível para retomar a posteriori o tra-
balho interpretativo. Assim, o processo analítico não visa so-
mente interpretar o material do analisando, mas também con-
tornar os obstáculos da resistência com procedimentos da or-
dem do ato, para pcnnitir um deslocamento da energia libidinal
em estase para o trabalho de simbolização;
5 . estes procedimentos se polarizam em dois grandes
grupos: a proibição e a injunção. Pelo primeiro, trata-se de
interditar o escoamento direto da energia pulsional que se
realiza em atos na relação transferencial, de forma a p ossibi-
litar a transposição simbólica e a rememoração dos fantasmas
que ordenam este circuito pulsional. P ela injunção, pretende-
se inicialmente que os analisandos inibidos possam ordenar o
seu fantasma na cena transferencial, até que aquele atinj a o
p aroxismo que revela o seu gozo e a sua verdade. Em seguida,

4Go Sobre Isto, vide: SOLLER, C. "L'acte manqué de Ferenczt". In :


Ornicar? Número 35. Paris. Navarin, 1986, p. 81-85.

2'13
atingido este clímax, a proibição se impõe, recaindo então na
posição anterior, onde a desestruturação da lógica do fanta s-
ma se realiza pela simbolização e pela rememoração.
A estratégia da injunção se articula com a questão que
Ferenczi tematizou em seguida, neste mesmo periodo, e que
se organiza em tomo dos ''fantasmas provocados", isto é, fan-
tasmas supostos pelo analista na "estagnação" do processo psi-
canaütico e que o analista provoca a sua literalização na
transferência. 46 Por meio disso, o analista permite a ordena-
ção do cenário faotasmático até então silencioso, sua mise-
en-acte na relação transferencial e sua posterior interdição,
para que se realize a perelaboração interpretativa.
Além destes eixos fundamentais que sublinhamos, Fe-
renczi faz comentários reveladores que enfatizam o lugar pre-
ciso que atribuía à técnica ativa em psicanálise. Assim, esta
técnica não deveria ser utilizada em início de análise, mas ape-
nas num processo analítico com maior duração, ~ o que é
uma forma de dizer que a atividade não é técnica em si da
psicanálise, mas um procedimento que se inscreve no projeto
maior do processo analítico para contornar as " estagnações"
deste. Na mesma ordem de razões se inserem os seus comen-
tários posteriores sobre a não utilização da técnica ativa por
jovens analistas, pois seria necessário um grande domínio no
encaminhamento interpretativo da análise para se poder usar
com eficácia a atividade. 48 Enfim, a atividade não pretendia
ser uma nova técnica de análise que se contrapunha à técnica
então estabelecida, mas um procedimento para romper inibi-
ções e contornar resistências, para que o trabalho associativo
e interpretativo possa ser retomado.
Esta fidelidade ao modelo freudiano do processo analí-
tico pode ser também registrada por outros indicadores nos

• e FERENCZI, S. "Les fantasmes provoqués" (1924). In: FEREN-


CZI, S. Psychanalyse 3. Op. cit.
41 Sobre isso, vide: FERENCZI, S. "Diffícultés techníques d'unc
anal yse d'hystérie"; "Pro\ongements de la "technique. active" cn
psychanalyse... Idem.
48 FERENCZI, S...Contre-indications de la technique actlve". Idem,

p. 363.

214
escritos de Ferenczi. Assim, Ferenczi afirma repetidamente
que com a técnica ativa ele estaria retomando as indicações
clínicas fornecidas por Freud para o manejo da fobia no es-
paço analítico, em que os paciente~ deveriam ser ?ress~onados
pela figura do analista para c.xpenmcntarem as s1tuaçoes que
lhes provocasse medo e angústia. 49 • •
Portanto, não existe qualquer ruptura teónca de Ferencz1
com o discurso freudiano pela introdução de atos no proces-
so analítico, além da prática da interpretação. Com efeito,
Freud legitimou a nova estratégia técnica do discípulo desde
0 seu aparecimento, num artigo de 1919, onde reconhece~ 60 a
fundamentação psicanalítica desta via aberta por Ferenc:z1.
Assim, Freud passa a enunciar que a análise deve se realizar
em estado de "abstinência", em função do limite imposto, em
ato ao circuito da descarga pulsional. Enfim, o conceito de
"abstinência" que se transformou num lugar comum no dis-
curso psicanalítico e que orienta a ética do analista no exer-
cício de sua função, foi constituído por Ferenczi neste mo-
mento crucial da história do ato psicanalítico.

V - O ato no circuito pulsional

Entretanto, é preciso reconstruir agora o desenho comple-


to do ato psicanalítico esboçado por Ferenczi, como considerar
também as condições teóricas que caucionam esta concepção
clínica e suas conseqüências para a interpretação do funcio~
namento da estrutura psíquica.
Assim, o ato psicanalítico pretende realizar a interpreta-
ção da estrutura neurótica do analisando, mediante ~ reest.ru-
turação de sua economia libidinal. Esta reestruturaçao se tm-
põe na medida em que a sexualidade infantil se ancora na

49 Sobro isso, vide: FERENCZI, S. "Difficultés techniques d'une


analyse d'hystérie". Idem. p. 22-23; FERENCZI. S. "Prolongemcnts
de Ia "technique active." en psychanalyse". I dem, p . 118-120.
50 FREUD. S. "Les voies nouvelles de la thérapeutique J_>Sycbanalt
tiqu1;1" (1919) . In: FREUD, S. La technique psychana/yt1que. Pans,
P.U.F .• 1972. p. 138 · 140.

215
transferência e se articula na cena analítica, procurando, então
eternizar o seu gozo. Nesta situação, o corpo libidinal do ana-
lista é capturado diretamente pelo circuito pulsional da figura
do analisando, transformando-se no locus da descarga pulsio-
nal. Seria nestes momentos que o processo analítico entra em
"estagnação", nos quais o paciente resiste à rememoração e à
elaboração interpretativa de seus fantasmas. Dito de outra
maneira, a figura do analisando coloca em ato os seus fantas-
mas, na transferência, e se opõe com isso ao processo de sim-
bolização. Enfim, nesta mise-en-acte do fantasma não existe
rememoração e o processo analítico, fundado na livre asso-
ciação e na interpretação semântica de representações, entra
num estado de suspensão.
Por isso mesmo, não adianta realizar interpretações de
resistência, pois seria de fato manter esta no mesmo lugar, já
que de direito o que estaria se processando não se inscreve
no registro da significação. Então, é preciso inicialmente con-
tornar o obstáculo, para aboli-lo posteriormente, interferindo
no plano dos fantasmas que o sustentam. Assim, face a um
ato colocado em cena pelo analisando se contrapõe um ato
do analista, seja para interditar a descarga do circuito pulsio-
nal, seja para provocar o paciente para ordenar o cenário
fantasmático e proibir a posteriori a descarga do circuito pu1-
sional. Após este percurso é possível retomar as associações
livres e a elaboração simbólica, pois, agora, a energia pulsio-
nal se desloca para o registro da representação.
Poder-se-ia colocar aqui um possível questionamento so-
bre o que afirmamos, arguindo se não estaremos concedendo
ao discurso de Ferenzzi mais do que nele se representa sobre
o ato psicanalítico. Assim, não estaríamos modernizando Fe-
renczi, inserindo no seu discurso preocupações atuais sobre o
ato psicanalítico e, com isso, distorcendo a leitura dos seus
escritos?
Não nos parece e, por isso mesmo, vamos sublinhar em
outros textos deste período a presença de outros signos que
conferem consistência para a leitura que estamos empreen-
dendo do discurso de Ferenczi. Nesta perspectiva, vamos es-
quematicamente procurar ir além na fundamentação teórica
do ato psicanalítico em Ferenczi e articular estes comentário~
com a metapsicologia de certas formações clínicas.
Em "Perspectivas da Psicanálise", Ferenczi inscreve a sua
inovação técnica no campo teórico da segunda teoria pulsio-
nal de Freud, 51 considerando com pertinência o campo dos
efeitos da pulsão de morte. Assim, os procedimentos da téc-
nica da atividade pretendiam ser uma decorrência metodoló-
gica, no encaminhamento do processo psicanalítico, da hipó-
tese da pulsão de morte e da existência da compulsão de re-
petição.
Nesta perspectiva, sublinhando a importância da com-
pulsão de repetição no processo analítico e na revelação do
funcionamento psíquico do sujeito, Ferenczi articula a sua in·
cidência com o manejo da atividade, de form a a retirar os
obstáculos a sua explicitação no registro da transferência:
"Estas considerações ressaltaram a necessidade prática
não apenas de não entravar as tendências à repetição na aná·
lise, mas mesmo de favorecê-las com a condição de saber do-
miná-las, senão o material mais importante não pode ser nem
apresentado nem liquidado. Por outro lado, algumas resistên-
cias se opõem freqüentemente à compulsão de repetição, es-
pecialmente os sentimentos de angústia. e de c~lpa ?o ~ua\
não se pode suspender senão por uma mtervençao atwa, 1sto
é, favorecendo a repetição. Finalmente, na técnica analítica o
papel principal parece pois incidir na repetição e. ~ão na r~­
memoração. Não se trata de modo algum de se l1m1tar a det-
xar os afetos se perderem em fumaça nos "vividos": com
efeito, esta repetição consiste, nós exporemos adiante em de-
talhe, em permitir estes afetos para depois liquidá-los .progres-
sivamente, ou então transformar os elementos repetidos em
recordação atual". 62

5l FREUD. S. "Au-delà du príncipe de pl aisir~ (1920) . In: FREUD


S. Essais de psychanolys~ Paris, Payot, 1981. .
ü:l FERENCZI, S. "Per~pectives de la psychanalysu.". Jntro~uchon. In :
Psychanalyse 3. Op. cit., p. 222. O grifo é de Ferencz.~.

217
Portanto, Fcrenczi considera rigorosamente a tese defini·
da por Freud em "Rememoração, repetição e elaboração" 63 -
em que a repetição fica no lugar da rememoração no espaço
analítico - e articula a compulsão de repetição com a hipó-
tese da pulsão de morte, como desenvolveu Freud em " Além
do princípio do prazer":
"Há duas maneiras de formul ar e de conhecer os p ro-
gressos que nós constatamos fazendo o balanço do nosso sa-
ber. Sobre o plano técnico, se trata incontestavelmente de uma
tentativa de "atividade" no sentido de uma estimulação ilireta
da tend8ncia à repetição na cura, que foi negligenciada até
o p resente e mesmo considerada como um fenômeno secun-
dário penoso. Do ponto de vista teórico, se trata de apreciar
no seu justo valor a importância primordial da compulsão de
repetição, mesmo nas neuroses, como Freud estabeleceu neste
meio tempo [referência ao "Além do princípio do prazer' '
numa nota de pé de página]. Esta última descoberta permite
melhor compreender os resultados obtidos pela "atividade" e
justifica igualmente sua necessidade sobre o plano teórico. Nós
estamos pois convencidos em seguir Freud, concedendo da-
qui em diante à compulsão de repetição na cura o papel
que lhe é atribuído biologicamente na vida psíquica". M
Então, a ação do analista sobre a "estagnação" do pro-
cesso psicanalítico, promovendo, assim, a subversão na eco-
nomia sexual do analisando na transferência, permitiria que a
pulsão de morte fosse articulada à pulsão de vida, isto é, que
a pulsão em estado livre fosse ligada. Dito de outra maneira,
o ato promovido pela figura do analista pretende que a pul-
são de morte se inscreva no registro da representação, para
que possa então ser enunciada como palavra. Enfim, o pro-
cesso analítico pretende mediante o procedimento da ordem
do ato realizar o domínio sobre a pulsão de morte, que deixa·

:>3FREUD, S. "Remémoration, répétition et élaboration" (1914). In:


FREUD, S. La technique psychanalylique, Op. cit.
o• FERENCZI, S. "Perspectives de la psychanalyse". Introduction. In :
Psychanalyse 3. Op, cit., p, 222-223. O &rifo é de Ferenczi.

218
ria assim de existir em estado livre e não provocaria então
os seus efeitos mortíferos.
Nesta perspectiva, a técnica da atividade p retende desar-
ticular a compulsão de repetição para possibilitar a sua. sim-
bolização, incidindo diretamente sobre o circuito da descarga
da pulsão na transferência. Coro isso, o registro da repetição
se transformaria n o registro da rememoração e a estratégia da
interpretação poderia operar, então, no campo do ~iscurso.
E m seguida a estes comentários sobre os pressupostos
teóricos da técnica ativa, registremos agora pelo menos uma
das conseqüências relevantes que esta leitura possibilitou para
a metapsicologia das neuroses, além das que já indicamos.
Para isso1 vamos considerar um outro tipo de escrito clínico
de Ferenczi deste período e sublinhar a sua tentativa de in-
terpretação de certos sintomas neuróticos situados no limite do
corporal.
A consideração destes sintomas não se inseriam, até en~
tão no interior do campo psicanalítico, pois era gigantesca
a s~paração entre os registros do hábito psico~motor e do sin-
toma neurótico. Com efeito, na medida em que o sintoma era
apenas circunscrito pelo eixo da representação e do sentido,
tudo aquilo que ficasse no exterior e nas bordas desta demar-
cação não podia se inscrever de direito no campo de positi-
vidade do discurso psicanalítico. Porém, quando a existência
do fantasma e de seus efeitos passou a ser também consi~
derada no plano da descarga do circuito pulsional, articulan-
do-se ao funcionamento da pulsão de morte, a fronteira entre
o hábito psico·motor e o sistema tende quase ao apagamento.
Assim, Ferenczi começa a empreender uma nova leitura
d os "estigm as histéricos, ss dos tiques, 56 , 67 da hipocondria 56 c

55 FERE.~CZI. S. "T~tttlltive d'explication de quelques stigmates hys-


tériques". Idem.
5G FERENCZI. S. "Réfl~ons psychanalytiques sur les tics". Idem.
IS7 FERENCZI, S. "Discussion sur les tics". Idem.
68 FERENCZI , S. "P3ychnnnlysc d'un c.as d'hypocondr:íe hystérique" ·
Idem.

219
de outros hábitos corpóreos, 69 · repensando o fenômeno da
conversão mediante o conceito de "materjalização" histéri-
ca. 60 As neuroses de caráter são coleções privilegiadas destas
formas mudas de produção sintomática e, por isso mesmo, vão
se constituir num campo clinicamente importante para a prá-
tica da atividade. Podemos dizer, esquematicamente, que nesta
nova leitura clínica o que é ressaltado é a existência dos efei-
tos do circuit() da pulsão de morte, em que esta provoca efei-
tos que estão além do campo da representação e que não
são passíveis de manejo clínico pela interpretação.
Para consolidar a interpretação teórica que estamos rea-
lizando, é importante sublinhar que é pela relcítura da es-
trutura da histeria e do mecanismo da conversão que Ferenc-
zi inicia o seu percurso metapsicológico, pois foi na investiga-
ção da estrutura histérica que se constituiu a fundação do
campo psicanalítico no eixo da representação e da interpreta-
ção. Caberia, portanto, discriminar o plano sintomático que
se constitui como símbolo, tributário do registro da interpre-
tação, e o plano sintomático que se situa no exterior deste
registro, efeito do circuito econômico da pulsão <le morte.
Neste contexto, é possível falar da existência de um campo de
"materialização" da economia pulsional e não mais apenas de
um campo da conversão, que supõe a inscrição pulsional no
universo da representação. 61
Para concluir, retomemos novamente a referência clínica
deste discurso teórico. Seria preciso que a figura do analista
dissolvesse por meio de atos, na transferência, estas formas
petrificadas de economia sexual, para possibilitar, então. a
sua retomada no plano simbólico. Para isso, entretanto, seria
necessário que estas marcas silenciosas ocupassem um lugar na
experiência da transferência, produzindo a "estagnação" da
análise, para que pudessem receber um outro destino psíquico.
Portanto, neste momento do percurso teórico de Ferenc-
zi não existe qualquer ruptura com o discurso freudiano. Foi

5 11 FERENCZJ. S. "Psychanalyse des habitudes sexuelles... Idcr:1.


GO FER ENCZJ, S. "Phénombnes de. materialisation hystérique". Idem.
ot Idem, p. 59-64.

220
neste sentido que nos referimos anteriormente à sua moder-
nidade e à sua atualidade, pois trabalha conceitualmente com
as decorrências teóricas da tópica do id e com os efeitos da
pulsão de morte na economia sexual.

VI - Os limites do ato

No final do seu percurso Freud responde às indagações


formuladas por O. Rank e Ferenczi sobre a prática psicanalí-
tica. Assim, em "Análise com fim e análise sem fim", Freud
empreende uma reavaliação final sobre o poder efetivo da psi-
canálise, definindo suas reais possibilidades e seus estritos li-
mites. Por isso mesmo, ocupa um lugar de destaque no ensaio
freudiano o debate com os discursos inovadores oriundos do
próprio campo psicanalítico.
Contudo, a valoração teórica atribuída a estes diversos
discursos no corpo do ensaio freudiano é rigorosamente dife-
renciada, e podemos registrar isto não apenas pelas questões
de que Freud se ocupa com mais vagar ao longo do texto,
mas também pela maneira como articula essas indagações.
Com efeito, o debate com Rank ocupa apenas o primeiro ca-
pítulo do ensaio e as suas teses são rapidamente deslocadas
para o exterior do campo psicanalítico. Porém, o discurso de
F erenczi ocupa o restante do ensaio, no qual Freud discute
suas teses de forma direta e indireta, sendo, então, conside-
radas as inovações técnicas e os critérios de fim de análise.
Em nenhum momento, entretanto, Ferenczi é colocado fora
do campo psicanalítico, apesar das diferenças teóricas regis-
tradas ao longo do debate. 62
O eixo fundamental que norteia o discurso freudiano.
quando responde a Ferenczi, é sobre os limites da prática psi·
canalítica, o campo de seus efeitos psíquicos possíveis e de

G2 Sobre isto, vide: BIRMAN, J. " Finitude e inlerminabilídade do pro-


cesso psicanalítico". Uma leitura de "Análise com fim e análise sem
fim " de Freud. I n: BIRMAN. J., NICEAS, C.A. - An6tise: com
ou sem fim? Rio de Janeiro, Campus, 1987.

221
suas impossibilidades. Vale dizer, Freud se indaga radicalmen-
te até onde pode caminhar clinicamente o processo analítico,
considerando os efeitos da pulsão de morte, e se interroga de
forma crucial sobre qual é o poder da figura do analista para
transformar a economia pulsional do analisando. Nestes con-
texto, é considerada principalmente a démarche de Ferenczi
do período da neocartase, na medida em que o desejo de curar
parece querer se impor de forma paroxística sobre o dese;o
de analisar, no limite de silenciar a especificidade do ato de
psicanalisar.
Assim, destaquemos esquematicamente os tópicos centrais
em pauta. Neste ensaio, Freud discute com Ferenczi a impos-
sibilidade d e realização de uma análise que fosse, ao mesmo
tempo, definitiva e conclusiva. Vale dizer, Freud não acredi-
tava que pudesse existir um processo psicanalítico que impe-
disse ao analisando de demandar no futuro uma outra análise.
O tema aqui em debate é o do fim da análise e seus cri-
térios, mas a ele se articula um outro que acompanhou Fe-
renczi desde o período da técnica ativa, qual seja, a pressão
que pode exercer a figura do analista sobre a do analisando,
procurando atualizar conflitos até então silenciosos para "pre-
venir" sua emergência posterior. A questão que isto coloca é
a da extensão e magnitude possível, no espaço analítico, da
transferência negativa. Evidentemente, Ferenczi-analisando ex-
prime aqui a sua "queixa" face a Freud-analista por este
não ter lhe "curado" inteiramente, na medida em que não
considerou devidamente os efeitos latentes da sua transferên-
cia negativa e que somente ernergjram a posteriori no plano
discursivo. 63
A resposta de Freod é noançada, deslizando do registro
da ordem do fato para o da ordem do direito. Assim, quando
analisara Ferenczi não se conhecia ainda o campo de efeitos
da transferência negativa e o saber sobre isto estava nos seus
I
63 FREUD, S. "L'analyse avcc fin et l'analyse sans fín". In; FREUD,
S. R ésullats, l dées, Pi<Jblemes. Op. cit .. p. 236-237.

222
primórdios. 64 Além disso, contudo, existiria uma questão da
ordem do direito, ligada ao campo da pulsão de morte. Com
efeito, esta coloca o processo analítico diante do impossível
e do imprevisível, de forma que não é passível de cálculo pela
figura do analista o domínjo sobre os seus efeitos.. Com a
hipótese da pulsão de morte é impossível que uma análise pu-
desse "prevenir'' posteriores neurotizações, com uma espécie
de "vacina" para certas enfermidades, pois em psicanálise não
existe a "cura defintiva". 65 Enfim, o que decide o equili-
brio psíquico e o silêncio sintomático é a relação econômica
ent re as forças em luta, isto é, a relação entre as pulsões de
vida e as pulsões de morte:
"Nós estamos novamente confrontados com a importân-
cia do fator quantitativo e de novo advertidos que a análise
só pode empregar quantidades determinadas e limitadas de
energia, que tem que se medir às forças hostis. t!; como se,
verdadeiramente, a vitória estivesse a maior parte do tempo
do lado dos batalhões mais fartes''. 66
Além disso, o recente campo teórico das distorções do
ego indica um novo espaço de investigação psicopatológica,
que revela um difícil manejo terapêutico. Este seria wn outro
campo onde se poderia perceber a incidência petrificante da
pulsão de morte, onde o silêncio revela o seu triunfo sobre a
palavra, não sendo tão facilmente mobilizável transferencial-
mente, como pensara Ferenczi no contexto da técnica da ati-
vidade. Wl Estaríamos, então, no campo dos efeitos da cliva-
gem e não no campo do mecanismo do recalque, diferença
esta que Ferenczi intuía perfeitamente na teoria do ato psica-
nalítico, mas que não formulou teoricamente no plano do
conceito. Vale dizer, Freud enfatiza que nos encontramos aqui
diante da problemática da não inscrição pulsionàl e não de
pulsões inseridas no universo da representação, que poderiam
receber um trabalho de interpretação. Em 1938, Freud vai

64 FREUD. S. Idem, p, 237.


Oã Idem. capítulo IV.
6G Idem, capítulo V, p, 225. O grifo é nosso.
67 Idem, capítulo V.

223
retomar esta oposição entre clivagem e recalque, 68 indicando
a complexidade que a prim.eira coloca para a prática psicana-
lítica, sustentada na oscilação entre o falar e o escutar.
.Podemos registrar, nestes tópicos assinalados, que são
consideradas questões tematizadas por Ferenczi no período da
técnica ativa, mas nas quais Freud imprime uma ênfase diver-
sa, preocupado que estava com o embate das forças pulsionais
no espaço psíquico do analisando e se indagando até onde
pode este teatro de forças ser subvertido pelo ato psicanalíti-
co. Em outras palavras, Freud se interroga sobre a magnitude
da transferência negativa que é suportável pela figura do ana-
lisando, sem que esteja circunscrita pela transferência positiva,
isto é, sem que ameace o espaço psicanalitico com a ruptura.
Assim. a luta entre pulsão de vida e pulsão de morte se des-
dobra na oposição transferência positiva versus transferência
negativa, que precisa ser devidamente manejada pelo analista,
pois a vitória estará sempre "do lado dos batalhões mais fortes".
Por isso mesmo, Freud sublinha a impossibilidade de
atualizar conflitos que o paciente não experimenta na transfe-
rência, já que isso não seria psicanaliticamente eficaz, pois o
analisando não teria investimento necessário para elaborar um
"conflito artificial". Além disso, dessa maneira se promoveria
uma pressão transferencial negativa que seria potencialmente
perigosa, pois sem o contrapeso da transferência positiva não
existiria suporte para o trabalho de simbolização.
Todas estas questões convergem para a problemática cru-
cial do fim da análise, 69 na medida em que Freud responde
diretamente ao texto de Fereuczi sobre este tema: "O problema
do fim da análise••. 70 Podemos registrar, neste nível do deba-
te, que é o discurso da neocatarse que está em pauta. Neste
contexto, a ruptura teórica de Freud com Ferenczi é radical,

ti8 FREUD. S . "Splitting of lh e ego in lhe process of defense" (1938)


Jn: T he Slandard Edition of the ('Omplete psychotogical work s oi
Sigmund Freud. Volume XXUL Londres, Hogarth Press, 1978.
IHI Idem, capítulos VII o Vlll.
10 FERENCZI. S. "Le probl~me de la fin de l'analyse" (1927). In :
FERENCZI, S. Psychanaly!e 4. Op. cit.

224
pois estão em· questão os fundamentos do saber e do ato psi-
canalíticos.
Assim, para Freud não existiria algo como o "fim natu-
ral" da análise, como pretendia Ferenczi, nem tampouco a
existência de uma "normalidade psíquica" absoluta, conside-
rando o campo entreaberto pelos efeitos da pulsão de mor-
te. 71 Nesta perspectiva, exigir que o analisando homem se re-
presente como igual ao analista, ou, então, que a mulher solu-
cione defmitivamente a "inveja do pênis", seria demandar de-
mais como critério para definir o fim do processo psicanalí-
tico. '12, 73
O que está em pauta aqui para Freud é que a simetria
demandada por Ferenczi, entre as figuras do analisando e do
analista, para que o processo analitico chegue "naturalmente"
ao seu fim, seria uma ficção normativa inalcançável. Com efei-
to, existiria uma assimetria entre o lugar do analista e o lugar
do analisando que seria fundante do espaço psicanalítico, as-
simetria esta que continuaria a existir apesar do fim da aná-
lise. Assim, se as individualidades do analista e do analisando
se equivalem enquanto subjetividades no fim do processo ana~
lítico, podendo até mesmo o analisando ocupar então o lugar
do analista, os lugares simbólicos destas figuras permanecem,
contudo, como estruturalmente diferentes.
Esta assimetria simbólica se fundaria na estrutura psí~
quica, remetendo à relação constitutiva do sujeito face ao Ou-
tro paterno, que seria uma mediação fundamental para pro-
mover miticamente a ruptura do infante com a figura da mãe
fálíca. Neste contexto, Freud registra que o analisando homem
que se recusa a se submeter ao analista, repelindo a angústia
de castração, se submete masoquisticamente, em contrapartida,
à figura da mãe fálica através da mulher:

71 FREUD. S. "L'analyse avec firt e.t l'anãlyse sans fin". Capitulos


II e VIl. In : FREUD, S. R ésullat~. Jdées, Probfêmes. Op. cit.
72 FREUD, S. Idem, capítulo VIII, p. 267-268.
73 FERENCZI, S. "Le probl~me de la fin de l'analyse". In: FE-
RENCZI. S. Psychanalyse 4. Op. cit., p . .50.

225
"A denominação "protesto viril" não deve nos levar a
supor que a recusa do homem concerne à posição passiva, o
aspecto por assim dizer social da feminilidade. Isto é contra-
dito pela observação, fácil de cotúirmar, que tais homens fre-
qUentemente mostram um comportamento masoquista com as
mulheres, e francamente de sujeição. O homem s6 se de-
fende contra a passividade na relaçao com o homem, nao con-
tra a passividade em geral. Em outros termos, o "protesto vi-
ril" não é de fato senilo angústia de castração". 74
Este comentário, numa nota de pé de página no fmal do
ensaio, é fundamental para compreendermos a interpretação
que Freud empreende das formulações de Ferenczi, ressaltando
o lugar do Outro paterno como pólo simbólico de ruptura do
infante com a figura fantasmática da mãe fática, e destacando
a assimetria fundante do psíquico e do espaço psicanaUtico.
Além disso, indica em filigrana algo da ordem da experiência
transferencial de Ferenczi com Freud, que sublinhou no ne-
crológio do discípulo que o casamento deste os afastou, isto
é, foram separados e entraram numa discórdia insuperável por
causa de uma mulher, "'• 'IS
Portanto, a problemática que está em pauta na questão
do fim da análise, mediada pela assimetria de posições entre
as figuras do analista c do analisando, é o lugar ocupado pelo
Outro na economia constitutiva do sujeito. Ora, não resta dú-
vida que é esta mesma problemática que obseca Ferenczi no
final do seu percurso teórico, no perfodo da neocatarse. Neste
contexto, Ferenczi representa o espaço analítico como uma cena
privilegiada onde o Outro pudesse " reparar" o dano inflingi-
do miticamente no psiquismo do infante. 71 Como se a irrupção

74. FREUD. S. "L'analyse ave.c fin et l'analyse sans fin". lo: FREUD,
S. R ü ultall, Jdé~. Problêmu. Op. cit.• capítulo VDI. p. 268. O
grifo é nosso.
7G FREUD, S. "Sándor Ferenczi" (1933) . lo: The Standard Edilion
o/ the complete psychological work:r o/ Sigmund Freud. Op. cit.•
volume XXII. p . 228.
76 Sobre isto. vide tamWm: FR.EUD, S. "L'analyse. avec fin et l'analyse
sans fin". In: Freud, S. Résultats, Jdées, Problêmes. Op. cit.. p. 236-
237.

226
da sexual.idade no infante não fosse traumática por excelên-
cia, Ferenczi representa, por meio deste discurso, a ficção de
uma forma de sexualidade que não fosse traumática na sua
constituição, provocando um "corpo estranho" no psiquismo
do infante, no qual se estabelece uma luta mortal entre a
"linguagem da ternura" e a "linguagem da paixão". 18
Nesta perspectiva, Ferencri abole a dimensão do fantas~
ma na estruturação do psíquico e da neurose, se referindo no-
vamente ao "real" do trauma na produção da neurose e da
demanda necessária de reconhecimento deste "real'' traumá-
tico para o empreendimento da cura em psicanálise. 'l'l, oo, Bl
Por isso mesmo, se constituiu o significante neocatarse, pon-
tuando a identidade/diferença com o período catártico do dis-
curso freudiano, e indicando a oposição trauma/ fantasma. En-
fim, neste campo discursivo já nos encontramos num espaço
teórico completamente diferente do que assinalamos no pri-
meiro percurso de Ferenczi, pois agora os eixos fundamentai s
do discurso e do ato psicanalíticos foram colocados em ques-
tão, na medida em que o desejo de curar arrebata o desejo de
psicanalisar.

77 Sobre a metáfora da "reparação", neste contexto. vide: SOLLBR.


C. "L'acte manqué de Ferenczi'., In: Ornicar? Número 35. Op. cit .•
p. 85-88.
78 FERENCZJ, S. "Confusion de Iangue entre les adultes et l'enfant".
In: FERENCZl, S. Psyclumalyse 4, Op. cit.
79 FERBNCZT, S. "Príncipe de relantioo d neocat.h arsis". Capítulo
IV. Idem. p. 93-95.
so FBRENCZI, S. "Analysea d'enfant aveo des adulta•. Idem.
81 FBRBNCZI, S. "Confusion de langue entre les adultes et t'enfant".
Idem, p. 128-134.

227
SUJEITO, ESTRUTURA E ARCAICO NA
METAPSICOLOGIA FREUDIANA
Uma leitura da "Visão de conjunto das neuroses
de transferência", de Freud. 1 2

JOEL BIRMAN

Para Patrícia., Renata, Daniela


e Pedro.

I. A metapsicologia freudiana

"Visão de conjunto das neuroses de transferência" é um


ensaio de Freud recentemente descoberto, sob a forma de ma-

1 Apresentação realizada na Sociedade Psicanalítica do Rio de Ja-


neiro, em 7 de dezembro de 1987. Mantivemos aqui a apresentação
na sua totalidade, acrescentando apenas as referências bibliográ-
ficas indispensáveis para tornar mais consistente, do ponto de vista
acadêmico, a interpretação que realizamos deste escrito de FREUD.
2 Apesar de conhecermos ta mbém a tradução brasileira deste es-
crito de FREUD, utilizaremos como fonte de referência, neste en·
saio, o tedo na edição francesa. Isso porque foi nesta edição que
lemos inicialmente. este trabalho de FREUD e n os ser,. por isso
mesmo. mais familiar para o seu manuseio, como também porque
nos parece uma tradução mais rigorosa. Sobre estas diferentes
edições, vide.: FREUD, S. Vue d'ensemble des névr oses de transferi.
Un essai métapsycbologique. Paris, Gallimard, 1986; FREUD, S.
Neuroses de transferência; uma síntese. R io de Janeiro, Imago, J987.

228
nuscrito, por Ilse Grubrich-Simitis., que é também a responsá-
vel por sua primeira edição em 1985. A descoberta do texto
ocorreu por acaso, pois pesquisando a correspondência de
Freud com Ferenczi para publicação, a editora se deparou
surpreendida com o manuscrito de Freud entre os papéis re-
metidos por Ferenczi a Balint. a
Este ensaio se inseria originalmente na série constituída
por doze escritos metapsicológicos, em que Freud pretendia
sistematizar o saber psicanalítico e, para isso, procurava cir-
cunscrever os seus conceitos fundamentais. Entretanto, a me-
tapsicologia psicanalítica não se constituiu apenas neste mo-
mento do percurso freudiano. Tanto antes quanto depois deste
texto teoricamente fecundo para a psicanálise existem vários
escritos metapsicológicos de Freud e que não cabe agora listar
por serem bastante conhecidos. Porém, é importante ressaltar
a emergência desta palavra enigmática no discurso freudiano,
na medida em que ela condensa um conjunto de tópicos fun-
damentais referentes ao estatuto teórico da psicanálise e a sua
delimitação face a outros saberes.
Assim, anteriormente ao contexto específico em que fo-
ram formulados os escritos metapsicológicos, nos anos 1914-
1915, o termo metapsicologia já existia há muito tempo no
vocabulário freudiano. Desde os tempos heróicos da corres-
pondência de Freud com F1iess o conceito de metapsicologia
já fora introduzido no discurso freudiano, esboçando a dife-
rença da psicanáJise com a psicologia e a sua similaridade com
a filosofia, 4 diferença e semelhança estas que vão se acen-
tuar progressivamente com a sistematização rigorosa do dis-
curso psicanalítico.
Vamos delinear esta problemática. O prefixo meta da pa-
lavra metapsicologia marca, por um lado, a diferença da psi-
canálise com a psicologia positivista do final do século XIX

3 GRUBRICH-SIMITIS, I. "Note Liminaire". In: FR.EUD, S. Vue


l'ensemble des névroses de transfert. Op. cit., p. 12·13.
4 FREUD. S. "Lettres a Wilheim Fliess. Notes et Plans" (1887-
1902). In: FR.EUD, S. La naissonce de la psychanalyse. Paris, P.U.F..
1973. p. 143-144.

229
e, pelo outro, indica a similaridade do saber psicanalítico com
o discurso filosófico. A palavra metapsicologia assinala a di-
ferença da psicanálise com a psicologia então existente, pois
se funda no conceito de inconsciente, isto é, no pressuposto
teórico da existência de um psiquismo, que se encontra além
da consciência e do ego. Por isso mesmo, Freud se referia cir-
cunstancialmente à psicanálise como sendo a "psicologia das
profundidades", retomando um termo que fora cunhado por
Bleuler. 5 Porém, a proximidade com o território da filosofia
também se impõe, na medida em que o termo metapsicologia
é uma derivação direta da palavra metafísica.
Assim, ao se fundar num locUs psíquico que era interdito
pela psicologia positiva e se regular por pressupostos teóricos
que contrariavam os cânones da ciência psicológica, o saber
psicanalítico era indiretamente representado por Freud como
se inserindo no exteriol' do campo científico. Por essa exterio-
ridade do disclll\So da ciência, no contexto histórico do final
do século XIX, a psicanálise era inscrita num território próxi-
mo ao da filosofia. Porém, o estatuto teórico da psicanálise,
na sua diferença com a ciência positivista e na sua conseqüente
proximidade com o discurso filosófico, é uma problemática
crucial no percurso epistemológico de Freud, pois este acaba
por indicar a similaridade da metapsicologia com a bruxaria,
tanto em "Uma neurose demoníaca do século XVII" e quanto
em "Análise com fim e análise sem fim. 1
Enfim, apesar da metapsicologia ser considerada freqüen-
temente por alguns psicanalistas como sendo o apogeu de
cientificidade da psicanálise, ela condensa na sua estrutura, em
contrapartida, inúmeras questões e contradições colocadas pela
especificidade epistemológica da psicanálise, indicando a dife-

6 FREUD. S. "L'inconscient" (191S). In: FREUD, S. Métapsycho-


fogie. Paris, Gallimard. 1968.
r. FREUD, S. "A seventeenth-century demonological neurosis" (1922).
In; The Standa.rd Edition of tire complete p sycho!ogicol works of
SIGMUND FREUD. Volume. XIX. Londres Hogarth Press, 1978,
p. 72.
., FREUD, S. Analysis terminable and interminable (1937). Idem.
volume XXIII, p. 22S.

230
rença desta com a psicologia e a ciência positivista, e mar-
cando o seu parentesco com a filosofia e a bruxaria. s

II . A transmissão interrompida?

~o contexto histórico da elaboração dos escritos metapsi-


cológicos a transmissão da psicanálise se colocava para Freud
co~o uma questão primordial. Assim, num momento de gran-
de mcerteza sobre o futuro da psicanálise com a desarticula-
ção do movimento analítico, no contexto sombrio da Primeira
Grande Guerra, Freud pretendia traçar de maneira sistemática
~s .~ntornos t~ricos do saber psicanalítico, de mapeira a .pos-
SJbilitar postenormente a transmissão da psicanálise. 9 Portan~
t~, a sé~i~ de ensaios metapsicológicos programados por Freud
tinha ongmalmente a função de possibilitar a transmiss!io teó-
rica do legado psicanalítico, quando o canal de comunicação
do movimento analítico se encontrava bloqueado e sem pers-
pectiva visível de reabertura.
Destes ensaios, cinco foram publicados desde a sua ela-
bo~ação por Freud, entre 1915-1 917, e foram reunidos pos-
teno.rmeote sob o título de "Metapsicologia". 10 Os demáis
ensatas desapareceram e se dividem entre os que tinham temas
seguros e os de temas incertos, de acordo com os comentários
de Strachey na edição inglesa da "Metapsicologia" 11 e as in-

8
Sobre esta problemática. vide: BlRMAN, J . " Interpretação psica-
nalítica e intersubjetividade". I n: Cademos de Hist6ria e Filosofia
da. Ciência. ~úmero 8. Campinas, 1985. p. 13-27; BJRMAN. J. •o
Objeto da PSicanálise e a pesquisa". In: Tempo Psicana/itico. V()-
!~me IX, ntímero 2. Rio de Janeiro, 1986. p. 66-79; BJRMAN. J.
Fantasma, Verdade e Realidade". I n: Cadernos de Psicandlise. Nú-
mero 8. R io de Janeiro, 1987, p. 8-15.
11
GRUBR ICH-siMITIS, I. "Métapsycbologie et métabiologie". In :
FRBUD, S. Jlue d'eruemble des névroses de transfert. Op. cit., p.
7- 114.
lO FREUD, S. Métapsychologie. Op. cit.
ll STRACHBY, J. In: The Standard Edition of the complete psychu-
logical works o/ SIGMUND PREUD. Volume XIV. Op. cit .. p..
105-107.

231
dicações fornecidas por Jones na sua biografia de Freud. 12
Assim, cinco destes ensaios tinham temas seguramente conhe·
cidos, dentre os quais se insere este escrito agora descoberto:
a consciência, a angústia, a histeria da conversão, a neurose
obsessiva e as neuroses de transferência. Os ensaios restantes
tinham temas prováveis, mas incertos, e trabalhariam os con-
ceitos de sublimação e projeção.
A descoberta deste manuscrito reabre, evidentemente, o
debate sobre o destino dos demais ensaios desaparecidos. A
versão estabelecida na tradição psicanalítica oficial é que estes
escritos teriam sido arquivados por Freud que não quis mais
publicá-los e pretendeu mesmo destruí-los, na medida em que
com o "progresso" da teoria psicanalítica nos anos vinte, Freud
teria superado a teorização metapsicológica então realizada e
os artigos teriam "envelhecido". Esta hipótese, que foi sus-
tentada por Jones na sua obra sobre Freud, t3 não nos parece
convincente nem tampouco con_sistente.
Com efeito, o. hipótese de Jones é uma justificativa hio-
gráfica mas não é a decifração de um enigma, pois não solu-
ciona o mistério do desaparecimento destes escritos, já que
procura dar conta somente da continuidade da consciência da
personagem de Freud na sua história, baseando-se para tal
numa suposição finalista, isto é, como se Freud pudesse dominar
a priori de forma completa o desdobramento posterior da psi-
canálise. Além disso, bastaria wna leitura superficial dos cinco
ensaios metapsicológicos publicados para verificar que Freud
modificou a posterior/ a posição dos conceitos articulados nes.~
tes escritos, em parte ou na sua totalidade, e não obstante isso
eles foram publicados sem prejuízo algum para o 11 progresso"
da psicanálise.
Não pretendemos aqui solucionar esta questão, mas re-
gistrar apenas que a formulação de Jones é uma falsa solução
de um verdadeiro problema e que exigiria para sua resolução
um trabalho especffico de investigação. Porém, no final deste

12 JONES, B. La vie et l'oeuvre de SIGMUND PREUD. Volume li.


Paris, P.U .F. 1972, p . 197-199.
1s Idem, p. 198.

232
estudo voltaremos a esta questão onde pretendemos delinear
as razões de ordem teórica que levaram Freud a não querer
publicar este ensaio que estamos agora pesquisando.

Ill . Itinerário da leitura

"Visão de conjunto das neuroses de transferência" se


constitui de duas partes facilmente reconhecíveis, apesar de
não estarem form almente separadas na estrutura do texto. Este
estado formal do escrito se deve certamente à condição de
manuscrito em que o texto foi deixado por Freud. E possível
que, se o ensaio fosse publicado, Freud assinalasse estas dife-
rentes partes no texto por alguma modalidade de pontuação.
Assim, existe uma evidente mudança de problemática ao
longo do escrito, pois Freud se desloca de uma classificação
estrutural das neuroses de transferência, baseandO-se pnrn isso
em trabalhos anteriores e na clínica psicanalítica, para a for-
mulação de hipóteses interpretativas mais abrangentes e ousa-
das, que transformam radicalmente o alcance teórico do en-
saio e mesmo o seu estilo. Com efeito, de cientista cioso do
rigor de sua leitura teórico-clínica, Freud se transforma, na
passagem da primeira para a segunda parte do ensaio, num
narrador· brilhante de histórias fa.ntásticas, articulando com
riqueza imaginativa uma epopéia mítica sobre as origens do
mundo humano.
Esta passagem é indicada literalmente por Freud, que as-
sinala a diferença entre a primeira e a segunda parte do ensaio
pela transformação do seu método de trabalho, pela maior
abrangência das hipóteses interpretativas que avança e pela
mudança do estilo do ensaio:
"Eu espero que o leitor, que além disso pode notar, con-
forme o aborrecimento de numerosas passagens, a que ponto
tudo é reconstruído a partir de uma observação meticulosa e
laboriosa, terá alguma indulgência mesmo se, por sua vez, o
espírito crítico se apague diante da fantasia, e se as coisas não

233
demonstráveis virem ~ ser expostas simplesmente porque elas
são estimulantes e abrem p erspectivas". 1•
Evidentemente, estas diferentes partes são articuladas,
mas não obstante isso colocam questões que lhes são específi-
cas e revelam problemáticas distintas. Assim, a articulação in-
terna destas partes vai se empreender com o exame detalhado
de cada uma das problemáticas em pauta que compõem a tes-
situra do ensino freudiano.
A primeira parte do ensaio tematiza a problemática das
denominadas "neuroses de transferência», considerando estas
como totalidade. A segunda parte tematiza a "hipótese filoge-
nética", no contexto definido pela oposição entre o campo
das neuroses de transferência e o campo das neuroses narcí-
sicas. Entretanto, estes diferentes grupos de neuroses são con-
siderados no percurso freudiano como espécies de um gênero
que as engloba, pois são diferenciações do gênero psiconeurosc.
Porém, se existe a formulação do gênero psiconeurose
existe também, ao lado disso, a enunciação de um princípio
de oposição deste gênero a um outro, no caso ao gênero neu-
rose atual. Entre as psiconeuroseS e as neuroses atuais existe
o registro da realidade psíquica como marca diferenciadora des-
ta oposição, marca esta que delineia as fronteiras do campo
psicanalítico. Portanto, a realidade psíquica é o conceito fun-
dado!' deste sistema classificatório que ordena as diferentes
modalidades de neuroses.
Nesta perspectiva, vamos articular esta problemática para
destacarmos, através dela, a relevância das concepções de con-
junto e de estrutwa no discurso metapsicológico de Freud.
Vale dizer, vamos drcunscrever a noção de estrutura como
um pressuposto que funda a teorização que Freud estabelece
no campo psicanalítico.
Porém, antes de traçarmos o campo desta problemática
cabe circunscrever a idéia de transferência e sua inserção na
realidade psíquica, pois este COJ1ceito se encontra no centro
desta elaboração freudiana. Assim, a articulação do conceito

u FREUD, S. Vue d'ensemble des névroses de transfert. Op. cit., v.


29-30.

234
de transferência com as noções de perda e de angústia, que
fundam o registro do psíquico como simbólico, se insere na
base desta discussão. Enfim, é esta articulação teórica que
permite delinear o conceito de realidade psíquica e que sus-
tenta a passagem da primeira para a segunda parte do ensaio.
A outra problemática que o texto coloca, agora na sua
segunda pa~:~te, é a inserção da "hipótese filogenética" na in-
terpretação da oposição clínica no campo das psiconeuroses.
Assim, Freud pretende sustentar teoricamente a diferença entre
as neuroses de transferência e as neuroses narcísicas numa
perspectiva "histórico-evolutiva".
Entretanto, a interpretação que nos Ol'ientará na leitura
desta passagem enigmática do texto freudiano é que a "hipó-
tese filogenética", que se apresenta neste ensaio com maior
desenvoltura e em outros escritos de Freud sob a forma de
pequenas indicações, não nos remete necessariamente para o
discurso da biologia, como poderia parecer a uma leitura li-
teral deste ensaio. Com efeito, essas passagens são indicações
fundamentais para nos indagarmos sobre a gtmealogia do su-
jeito oo discurso freudiano, onde a concepção de sujeito é de-
finida como essencialmente distinta da noção de indivíduo.
Enfim., a "hipótese filogenética" vai ser considerada como me-
táfora do arcaico no discurso freudiano.
Assim, tece.remos esquematicamente três comentários so-
bre este ensaio, circunscrevendo inicialmente o campo da trans-
ferência e a sua articulação com a idéia de perda, enfatizando
em seguida as noções de conjunto e de estrutura no método
da metapsicologia freudiana ·e, finalmente, estabelecendo os
contornos da figura do arcaico na concepção psicanalítica de
sujeito.

IV . Transferência, sujeito e perda primordial

No início do ensaio Freud estabelece de imediato quais


são as neuroses de transferência e quais são os critérios clas-
sificat6rios que norteiam a sua sistematização clínica. Desta

235
maneira, Freud pretende estabelecer os contornos teóricos que
fundam o campo das neuroses de transferência.
Assim, as neuroses de transferência são ordenadas em
três estruturas psíquicas diferentes: 1 . Histeria de angústia;
2. Histeria de conversão; 3 . Neurose obsessiva. 15
A leitura destas estruturas psíquicas se realiza mediante
seis operadores teóricos: 1. O recalque; 2. O contra-investi-
mento; 3. A formação substitutiva e a formação de sintoma;
4. A relação com a função sexual; 5 . A regressão; 6 . A
disposição à neurose. 16
Três ordens de questões se colocam aqui para a nossa
leitura, de maneira imediata: 1 . O que é que define o campo
das neuroses de transferência, isto é, qual é o seu conceito;
2 . Como conseqüência desta primeira indagação o que se
impõe como questão é a listagem empreendida destas neuro-
ses, vale dizer, que sejam estas três estruturas psíquicas que
constituem o campo das neuroses de transferência e não ou-
tras estruturas clínicas; 3. Finalmente, os operadores teóricos
que Freud destacou para esta leitura metapsicológica.
Considerando o primeiro tópico que foi destacado é evi-
dente que quando Freud circunscreve o conjunto denominado
neurose de transferência ele define com isso, inicialmente, que
é este grupo de neuroses que se insere no campo psicanalítico.
Vale dizer, é este conjunto de neuroses que se inscreve no
campo de afU.l/isibi/idade possível, na medida em que a trans-
ferência é o eixo fundamental que estrutura o espaço psica-
nalítico.
Esta formulação pode parecer inicialmente falsa ou pelo
menos exagerada, principalmente num contexto histórico onde
a psicanálise perdeu a noção de suas fronteiras e tende a se
identificar com a psiquiatria. Nesta perspectiva, a psicanálise
se restringe a uma modalidade de psicoterapia e que pode ser
aplicada em princípio a qualquer estrutura psicopatológica. Ou
então, num horizonte ideológico similar a este apesar de apa-

UI FREUD, S. Vue d'ensemble des névroses de transfert. Op. cit.. p.


19.
16 Idem.

236
rente diversidade de enunciados, a clínica psicanalítica se de·
lineia por critérios que são definidos pelas essências das estru·
turas nosográficas, sendo estas consideradas como substâncias,
exteriores, portanto, aos cânones que regulam a experiência
analítica. Então, com estas alternativas se ap aga o que existe
de singular na psicanálise e na ética que funda a sua expe-.
riência.
Esta perda de fronteiras no plano da intervenção social
da psicanálise encontra a sua contrapartida no registro teóri-
co, nas tentativas que foram realizadas de inserir a psicaná-
lise no campo da psicologia geral. Dentre estes empreendi-
mentos se destacou historicamente o que foi realizado pelos
teóricos da psicologia do ego, que com a elaboração do con-
ceito do ego autônomo e livre de conflitos, promoveram a fi-
gura de adaptação à realidade como a finalidade primordial
do processo psicanalítico. 17 Lacan respondeu de maneira per-
tinente a Hartmann, Kris e Lowenstein, restabelecendo a ver-
são freudiana do conceito de ego, em que este é definido como
uma estrutura essencialmente conflitiva e especular, transbor-
dado p or identificações múltiplas e díspares, 18 marcando então
a irredutibilidade da psicanálise a qualquer psicologia. 19 En-
fim , a categoria de sujeito em psicanálise transcende o con-
ceito de ego.
Não pretendemos desenvolver aqui a constituição histó-
rico-institucion al destes descaminhos da psicanálise, o que já

17 Sobre isto, vide.: HARTMANN. H. Essays on Ego Psycho(ogy.


New York Intemationa\ Universities Press, 1976; HARTMANN,
H. Psicolo;ia do ego e o problema da adaptação. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1958; HARTMANN, H .. KRIS,. E., LO-
WENSTEIN, R . M. rapers on Psychoanalytic Psychology. New
York, lnternational Universities Press, 1964.
18 FREUD S. "Le moi et le ça" (1923). Capítulos 11 e 111. In:
FREUD: S. Essais de Psychanalyse. Paris, Payot, 1981.
19 Sobre isto, vide: LACAN, J. "Le stade. du míroir comme fonna-
teur de la fonction du Je" (1949). In: LACAN. J. Écrits. Paris;
Seuil, 1966; LACAN. J. Les écrits techniques de FREUD. Paris.
Seuil, 1975; LACAN, J. Le moi dans la théorie de FREUD et dans
la t«hnique psychatlalytique. Paris, Seui!, 1978.

237
re~l~zamos em outro momento, 20 mas indicar apenas o campo
teonco desta problemática, que tem seguramente na concepção
de transferência o seu ponto fundamental de disvirtuamento.
Assim a transferência é o que funda a experiência psica.
nalítica, o que implica em dizer que a psicanálise é uma clí-
nica que funciona apenas sob o impacto da transferência e
que é baseada no diapasão desta experiência que a psicanálise
realiza a leitura das estruturas psicopatológicas. Desta manei-
ra, a transferência ordena as linhas de força que perpassam
o espaço analítico e estabelece as fronteiras do campo psica-
nalítico, definindo, portanto, os critérios de analisibilidade na
psicanálise.
Nós sabemos atualmente que foi Jung quem sugeriu a
Freud, em 1907, a denominação nosográfica neurose de trans-
ferência,21quando pesquisava o funcionamento mental da de-
mência precoce,22 Com esta designação, Jung pretendia opor
este grupo de neuroses às psicoses. Freud incorporou esta su-
gestão ao vocabulário da psicanálise, no sentido estrito da
oposição de estruturas psíquicas proposto por Jung.
Entretanto, Freud cunhou posteriormente o termo neuro-
se de transferência, agora no singular. Na transformação da
palavra do plural para o singular, o termo adquire um outro
sentido no vocabulário freudiano, pois além de configurar ri-
gorosamente o conceito que designa, articula também a di-
versidade clínica que se enuncia na pluralidade das neuroses
de transferência. Assim, o conceito de neurose de transferên-
cia foi inserido por Freud na dinâmica do processo analítico,

!!O Sobre isto, vide: BIRMAN. J. "Demanda psiquiátrica e saber psi-


canalítico." In: FIGUEIRA, S. (Coordenador) : Sodedade e doen-
ça mental. R io de Janeiro. Campus, 1978: BIRMAN. J. Enfermi-
dade e toucura. Rio de Janeiro, Campus. 1980; 'BIRMAN, J. "Re-
pensando FRBUD e a constituição da cUnica psicanalítica". In:
Tempo Brasileiro. NOmero 70. Rio de Janeiro, 1982.
21 FREUD, S., JUNG, C. O. Correspondance (1906-1914). Volume J.
Paris, Oallimard. 1975.
22
JUNG. C. O. "The psychology of dementia praerox" (1967). In :
JUNO, C. O. The psychogenesfs et mental disease. The collected
works of C. O. JUNG. Volume 3, Londres, Routledg~ & Kegan
Paul, 1974.

238
denotando com isso a repetição que a figura do analisand<t
realiza na transferência mediante a reapresentação da sua.
neurose infantiJ.23
Portanto, me<liante o conceito de neurose de transferên-
cia o discurso psicanalítico designa, ao mesmo tempo, o que
existe de mais singular no ser do analisando e o instrumento·
fundamental de que dispõe a psicanálise para permitir a emer-
gência do sujeito no processo analítico. Por isso mesmo, me-
diante este conceito fundador a psicanálise pode unificar na
ordem do direito a pluralidade clínica das neuroses de trans-
ferência e dispor dos seus próprios critérios para definir o
campo de analisibilidade.
Assim, fundado na transferência como condição de pos-
sibilidade da experiência analítica, Freud se refere, na pas-
sagem da primeira para a segunda parte do ensaio, ao critério
metapsicol6gico do objeto como sendo aquele que estabelece
a diferença entre as neuroses de transferência e as neuroses
narcísicas. Vale dizer, é uma certa modalidade de articulação
psíquica do sujeito com o objeto o que unifica este grupo de
neuroses e o que torna possível simultaneamente o campo da
transferência. Então, pode Freud afirmar sem rodeios:
" . . . o mais importante caráter distintivo das neuroses de
transferência não pode, de qualquer maneira, ser considerado
nesta visão de conjunto, já que ele não é distinto destas neu-
roses [consideradas] em conjunto, mas somente se tornará por
contraste, considerando-se também as neuroses narcísicas.
Neste alargamento de horizonte, a relação do ego com o ob-
jeto passaria ao primeiro plano e o fato que o objeto seja man-
tido se daria como elemento distintivo [às neuroses de trans-
ferência} .. _" 24
Freud indica literalmente neste fragmento o método es-
trutural por ele utilizado na teorização metapsicológica, me-

23 FREUD, S. "Rémemoration. répétition et élaboration• (1914). Jn;


FREUD, S. La technique paychanalytique. Paris, P.U.F •. 1972.
~ · FREUD, S. Vue d'ememble des tlévroses de tranJfert. Op. cit.~
p . 29.

239
diante o procedimento do "contraste" entre os diferentes gru-
pos de neuroses, o que permite relativizar as suas essencialida-
des nosográficas e ressaltar as suas diferenças num contexto de
oposições. Porém, não vamos nos ater agora nesta questão,
que retomaremos no tópico seguinte e vamos retirar neste mo-
mento do texto o que ele nos indica sobre a problemática da
transferência.
Assim, a perman~ncía no registro psíquico do objeto do
investimento pulsional, apesar da sua perda no registro da ple-
nitude da satisfação pulsional, é aquilo que permite a consti-
t u ição do campo da transferência. Vale dizer, é esta presença
da inscrição psíquica do objeto contraposta ao fundo de sua
aus€ncia no registro da plenitude da satisfação pulsional, que
é a condição de possibilidade para que se instaure um processo
de substituição de figuras, imagens e objetos no aparelho psí-
.quico. Enfim, é esta inscrição metafórica de traços múltiplos,
mas invariantes, de um objeto ausente, o que permite a ins-
tauração do processo de deslocamento.
Então, é a metáfora de wna perda originária o que f un-
da e coloca em movimento o aparelho psíquico, sendo este
concebido como um sistema de transcrições que possibilita o
campo da transferência. Esta perda or-iginária da plenitude da
satis~ão pulsional enuncia a constituição do campo do dese-
jo e indica que este, apesar de se inscrever pela metáfora de
uma perda, é essencialmente metonúnico na sua circulação
pelo psíquico, pois se desloca num campo de representações
substitutivas. Estas substituições, que indica a procura intermi-
nável pelo sujeito da plenitude perdida, remetem então à per-
da primordial.
Neste ensaio freudiano esta problemática aparece indica-
da de cinco maneiras significativas, em momentos cruciai' da
argumentação. E stas indicações se colocam como signos, de
forma que a sua costura nos permite realizar o desdobramen-
to da interpretação que estamos encaminhando. Assim, veja-
mos:
1. Na segunda parte do ensaio Freud formula que na
<>rigem do mundo humano se encontra a experiência da "pri-
vação'•. Assim, na irrupção da "era glacial" se transformou a

240
economia biológica do homem devido aos efeitos da "priva-
ção" .25 Evidentemente, as origens a que se refere Freud têm
apenas o estatuto de um mito das origens e não remontam a
um evento historicamente circunscrito.
Portanto, a "privação" originária é a condição de possi-
bilidade da falta , se constituindo como a metáfora da experiên·
cia psíquica da falta. A "privação" remete para uma p erda,
para a experiência de perda da plenitude da satisfação pulsio-
nal, onde homem e natureza teriam existido desde sempre:
numa harmonia mítica e numa completude sem fraturas . Seri!l'
a ruptura desta harmonia do homem natural que constituiria
o sujeito e o desejo. Enfim, anteriormente a esta fr atura cós-
mica na economia do homem nat~al não existia o sujeito e
o desejo, sendo então a "privação'• primordial a condição de
possibilidade para a emergência do sujeito desejante.
2. Somente com o advento deste acontecimento da or-
dem do mito, que teria transformado a estrutura do homem na-
tural, se estabeleceu a organização socia1 e se ordenou a cul-
tura humana propriamente dita. O mito da horda primitiva in-
troduzido por Freud em "Totem e tabu",26 com a presença do
pai onipotente que dominava absolutamente os seus filh os e
era o senhor indiscutível da totalidade das mulheres, se desen-
volve nos seus vários tempos fund adores até a morte da figura
do pai e a constituição da sociedade fratemaL.27 Em relação
ao relato mítico de "Totem e tabu", Freud complexifica neste
ensaio a sua construção narrativa se referindo à existência de
duas gerações de filhos, com o objetivo de explicar a diferen-
ça entre as neuroses de transferência e as neuroses narcísicas. 23
Porém, não percamos de vista o horizonte teórico do en-
saio e a perspectiva desta parrativa mítica, pois é a "privação'''
como metáfora da falta que engendra a epopéia freudiana das

23 Idem. p. 33-34.
26 FREUD, S. "Totem and Taboo" (1913). In: op. cit, capítulo JV.
volume XII.
27 FREUD. S. Vue d'ensemble des névro:res de transferi. Op. cit .~.
p. 35·39.
28 Jdem, p. 39-43.

241
origens do sujeito, na medida em que é a falta que produz a
emergência das relações inter-humanas de poder, com a conse-
qüente redistribuição da riqueza e das mulheres.
Não pretendemos atribuir qualquer validade histórico-
sociológica a esta leitura fr eudiana da constituição da cultura,
que tem evidentemente o estatuto mítico. Entretanto, é pre·
ciso destacar a coerência interna dos argumentos freudianos no
contexto da racionalidade teórica deste ensaio. Assim, para sis-
tematizar a emergência da problemática do sujeito desejante
Freud precisa lançar mão necessariamente do conceito de perda
primordial que se refere como contraponto a uma experiência
originária de plenitude, onde esta última indica a harmonia
mítica entre homem e natureza. Portanto, a passagem do re-
gistro da natureza para o da cultura é fundamental nesta argu-
mentação freudiana, pois é o cenário em que se representa a
perda da harmonia pré-estabelecida no homem natural e indica
a perda mítica da posição de plenitude. Enfim, a passagem da
natureza para a cultura é o contexto lógico para que da figura
do homem natural possa advir a figura do sujeito.
3 . Podemos destacar, pelo que destacamos no tópico
~ntcrior, que a figura p aterna somente se constitui no contexto
de instauração mitica da "privação". O que implica em afir-
mar que a figura do p ai é correlata, para o sujeito, a expe-
riência da "privação". Nesta medida, existe uma articulação ne·
cessária entre a perda primordial e a constituição da figura pa-
t erna. Assim, esta figura mítica é o correlato para o sujeito
<la falta originária e da emergência da cultura, isto é, esta fi-
_gura aponta para a fend a instituída num mitico homem natu-
xal, fenda esta que esvazia a sua plenitude primordial e indica
a ordem da linguagem.
Portanto, com esta ordem de argumentos nós já estamos
bastante distantes de uma redução deste ensaio freudiano à
racionalidade biológica, na m:edida em que nos deslocamos
para o pólo oposto, para os efeitos produzidos no homem na-
tural pela instauração da ordem da linguagem.
4. Articulemos um pouco mais a interpretação que es-
boçamos sobre o sujeito desejante, retornando outros !;igoos
apresentados no texto de Freud. Assim, a "privação" originá-

242
ria que constitui o sujeito, condenando-o a ser marcado pela
falta de plenitude, também é a condição de possibilidade da
angústia. Freud formula literalmente esta interpretação:
"Nossa primeira hipótese seria por conseguinte de preten-
der que, sob a influência das privações provocadas pela irrup-
ção do período glacial, a humanidade se tornou universalmen·
te ansiosa. O mundo exterior, até então essencialmente hospi-
taleiro e dispensador de satisfação para qualquer necessidade,
se metamorfoseia num acúmulo de perigos ameaçadores. Iss(}l
dá toda a razão para sofrer a angústia do real diante de qual-·
quer novidade. Em verdade, a libido sexual não perde seus•
objetos antes de tudo, visto que eles são humanos por natu-
reza, mas pode-se pensar que o sujeito, ameaçado na sua exis-
tência, se afasta numa certa medida do investimento de objeto,
retém a libido no ego e transforma assim em angústia do real
o que antes era libido do objeto ... ".29
Então, diante da fenda produzida na anterior harmonia en-
tre o homem e a natureza, dispensadora generosa de bens,
o sujeito inicialmente se angustia e se protege no plano do
ego. Esta proteção do sujeito assume posteriormente a forma
de investimentos seguros, isto é, investimentos em objetos in-
seridos no registro da representação, objetos estes que são es-
sencialmente substituições cuja referência é a existência para-
disíaca anterior. Assim, a "angústia do real" se transforma em
"angústia do desejo", sendo esta que coloca o sujeito em mo-
vimento, aquilo que o impele para o preenchimento da falta
que se produziu no seu ser mediante o trabalho de simboli·
zação.
E m outros textos, como "Inibição, sintoma e angústia'r,
Freud se referiu a esta posição originária com a metáfora do
desamparo (Hilflosigkeit), que seria fundante do sujeito.90 Por-
tanto, o sujeito, o desejo e a angústia são categorias intima·-
mente ar ticuladas no discurso freudiano e remetem para a ex-
periência de perda primordial.

28 ld-em. p. 34. O grüo é de FREUD.


so FREUD, S. Inhihition, syrnptôme et angolsse (1926). Capítulos-
VII-X. Paris, P.U.F., 1973.

243
5 . Porém, existe ainda uma última indicação preciosa
no ensaio freudiano que se insere nesta interpretação: a prio~
ridade teórica concedida à ..~ngústia do real" face à "angústia
do desejo". A leitura do texto indica que Freud inicialmente
oscila entre o que é originário e o que ó derivado dentre estas
formas de angústia, mas acaba por reconhecer a prioridade ló-
gica da " angústia do r eal" frente a ''angústia do dcsejo".31 O
que implica em dizer que é a "angústia do real'' que funda a
" angústia do desejo", considerando que a "angústia do real"
é a resultante da "privação" originária e o que constitui o
sujeito como fundado pela falta.
Assim, é a perda do objeto primordial de satisfação pul-
~ional, objeto de uma existência paradisíaca onde homem e
.natureza se encontravam em perfeita harmonia, que é a con·
~ição de possibilidade para a constituição do psiquismo como
.sistema de simbolização. Para isso, a perda se inscreve como
traço e o sujeito se instaura na ordem do desejo. Então, a
"angústia do desejo" é o que impele o sujeito na busca meto-
n ímica do objeto primordial que se perdeu e indica, ao mes-
.mo tempo, que a perda originária se inscreveu metaforicamen-
.te como sistema de simbolização.
Esta ordenação do psíquico é fundamental para que pos-
11a se instaurar a experiência da transferência. Por isso mes-
mo, o esboço desta problemática é axial no ensaio freudiano ,
permitindo assim que as demais questões possam encontrar a
sua sustentação teórica e se enunciai' como discurso.

V. A estru tura n a metapsiCQlogia freudiana

Retomemos a problemática das neuroses de transferência.


Assim, o campo da transferência pressupõe a existência do
psiquismo como sendo perpassado por múltiplas marcas e cir~
cunscreve a categoria de sujeito em psicanálise como- estando
inserida no registro da representação. Por meio disso, a cate-

81 FREUD, S. Vue d'en.semble des névroses de transfert. Op. dt.,


p. 34-35.

144
goria de sujeito remete necessariamente à idéia de sentido e re-
ciprocamente, estando sujeito e sentido d efinidos pelo campo
da representação.
Foi esta concepção original de sujeito que inaugurou o sa-
ber psicanalítico, sendo este conceito que unifica o campo das ·
neuroses de transferência e indica, ao mesmo tempo, a dife-
rença entre o sistema classificatório freudiano das neuroses e
a nosografia psiquiátrica.
Assim, vejamos. Quando Freud constituiu o campo das
psiconeuroses no final do século XIX, com as características
que já destacamos, ele contrapunha este grupo cHnico às de-
nominadas neuroses atuais. Desde os primórdios da psicaná-
lise estes dois grupos constituíam um sistema de oposições,
mediante o qual se delineavam as fronteiras do campo psica-
nalítico.32
Com efeito, as neuroses atuais se referiam ao registro ec~
nômico das disfunções do sexo, enquanto que as psiconeuroses
se inseriam no registro da representação, que indica os des~
tinos pulsionais da sexualidade. Na "Comunicação preliminar".
e scrita em colaboração com Breuer em 1983, Freud já enfa-
tizava este registro em que se inseriam as psiconeuroses, ao
formular que "é sobretudo de reminiscências que sofre o his-
térico".33
Nesta perspectiva, enquanto que as neuroses atuais se an-
coravam no corpo somático, sendo os seus sintomas a expres~
são das disfunções da economia biológica do sexo para o pólo
do "excesso" (neurastenia) e para o pólo da "carência" (neu·
rose d e angústia),34 as psiconeuroses se inseriam no corpo re-

Zt Sobre isto. vide: FREUD, S. ''The psychotherapy o f hysteria". J.


Tn: "Studies on hysteria" (1895). In : op. cit. Volume li. FREUD,
S. "Scxuality in 1he sexiology o f the neuroses" ( 1898). Idem vo-
lume III. p. 267-268; FREUD, S. "L'hérédité et l'étiologic des
névroses". (1896) . In: FREUD, S. Névrose, psyc/rose et perversio11.
Paris, P.U.F. 1973, p. 47-59.
;J:J FREUD, S.. Breuer, J. "On the psychical mechanism of hyste.ri-
cal phe.nomena: preliminary communication" (1893). In : "Studies
on hysteria" (1895). In: op. cit. Volume li, p. 7.
:H FREUD, S. "Qu'il est justifié de sépar~r de la neurasthénie un
certain complexe symptomatique sous le nom de "Névrose d'an-

245
presentado, estando então referidas no registro do corpo ima-
ginário.
Assim, num primeiro momento o registro do corpo re-
presentado indica a superação teórica que a psicanálise realiza
do objeto da medicina clínica que se funda no corpo anátomo-
patológico,:l:i considerando a crise teórica do discurso clínico
produzida pela histeria, com as formulações de Charcot. Po-
rém, num segundo momento o corpo representado indica tam-
bém que para o sujeito a sexualidade não se restringe ao corpo
somático.
Com efeito, que o sexo como instinto e como função de
reprodução possa ser pensado mediante as categorias da bio-
logia, o mesmo não ocorre com o campo da sexualidade, pois
a experiência do pr·a zer para o sujeito impõe que a força do
sexual seja transposta para o registro da representação.36. :e
nesta passagem que se materializa o que existe de especifica-
mente humano na sexualidade e onde vão se apresentar os im-
passes do sujeito na experiência do gozo.
Nesta perspectiva, o corpo crógeno não se identifica com
o corpo somático, sendo marcado pelos efeitos desta transpo-
sição do plano do sexo para o da sexualidade. Com esta trans-
posição o corpo anatômico se transforma em corpo imaginário,
estando pois o discurso histérico referido ao imaginário do
corpo. &ta proposição indica uma das primeiras rupturas teó-
ricas importantes que Freud realizou face a Charcot, quando
procurou discriminar no registro estritamente clinico as para-
lisias histéricas das paralisias orgânicas. 87
O registro da representação vai se delineando para Freud
como sendo o campo teórico onde se inserem as psiconeuroses,

goisse" (1895). In: Freud, S. Névrose, psychose et perversion. Op.


cit., p. 15-38.
a5 FREUD, S. Naissatzce de la clinique. Paris, P.U.F. 1963.
36 FREUD. S. "Manuscrito 0", 111 (1895), In: "Lettres a Wilhelm
Flies.s, Notes et Plans" (1887-1902). In: FRBUD, S. LA nainarzse
de la psychanalyse. Op. cit., p. 93-95.
37 FREUD, S. "Some points for a cornparative study of organic and
hystcrical moto r pa:ralyses" (1893). Jn: op. cit. Volume I. p. 168-
172.

246
de maneira que o conceito de defesa frente ao sexual, no con-
texto da representação, vai se impondo progressivamente ao
primeiro plano da teorização freudiana. Podemos verificar os
efeitos· desta transformação entre 1894 e 1896, considerando a
emergência da noção de defesa no discurso freudiano e a fun-
damentação da estrutura da histeria neste conceito.
Com efeito, se quando constituiu ·o conceito de defesa
Freud ainda considerava a existência de três fonnas clinicas
de histeria, de acordo com sua causalidade - histeria hipnóide,
histeria de retenção e histeria de defesa us - , logo .em seguida
as demais formas de histeria se reduzem à histeria de defesa 3D
Enfim, esta se configura como sendo a estrutura histérica, onde
o sujeito maneja procedimentos psíquicos de defesa para inserir
o sexual no registro da representação.
Delineando o campo psicanalítico mediante a oposição psi-
coneurose j ncurose atual, Frcud estabelece em seguida uma cor-
relação entre o primeiro grupo de neuroses e o segundo, indi~
caodo então que para cada psiconeurose existe uma neurose
atual correspondente. Assim, a neurose de angústia seria a neu-
rose atual da histeria, enquanto que a neurastenia correspon-
deria à neurose obsessiva.40
O que implica em dizer que para o sujeito a neurose atual
é a condição necessária para a precipitação da psiconeurose,
mas não é absolutamente a condição suficiente. Para isto, é
preciso que exista a transposição da cstase do sexo do corpo
somático para o registro do corpo representado, que a mera
disfunção <;lo sexo não é passível de produzir. Porém, indica
também que é na passagem do registro do corpo biológico para
o registro da representação que se constituem o sujeito e a

aR FREUD. S. "Les psychonévroses de défense" (1894). In : FREUD,


S. Névroses, psychoses ct perversion. Op. cit.
at~ FREUD, S. "Nouvclles remarques sur Jes psychonévroses de dé-
fense" (1896). Idem.
40 Sobre isto, vide: FREUD, S. "Qu'il est justifié de se.p arer de la
neurasthénie un certaine cornplcxc symptomatique sous le nom de.
"Névrose d'angois.se" (1895). Idem, p. 35-38; FREVO, S. "The
psychotherapy of hysteria", I. In: "Studies on histeria" (1895). In:
Op. cit., p. 2$5-267.

247
psiconeurose. Assim, o sujeito enquanto sistema de simboliza-
ção procura transpor o plano biológico e inserir a perturbação
corporal no contexto da representação.
É esta passagem de registros que sempre se constituiu para
Freud num grande enigma, de forma que ele sempre procurou
circunscrever esta problemática e formular novas interpretações.
Assim, é procurando repr.esentar esta passagem que Freud
formula o conceito de pulsão como "um conceito limite entre
o psíquico e o somático" ,•1 definindo pois a pulsão como um
ser de passagem entre o registro do corpo e o registro da repre-
sentação. Desta maneira, a pulsão é polarizada entre a força
(Drang) e seus representantes-representação (Vorstellungrepra-
sentanz), estando, por um lado, referida ao corpo somático c,
pelo outro, direcionada para o universo da representação.-~2
Esta oposição teórico-clínica neurose atualjpsiconeurose
vai ser mantida ao longo do percurso freudiano. Freud não
poderia aboli-la, evidentemente, pois nesta oposição está cifra-
da a constituição teórica do campo psicanalítico e o delinea-
mento de suas fronteiras, indicando o interior e o exterior da
psicanálise.
Assim, se no final do século XIX Freud inseria apenas
a neurose de angústia e a neurastenia no campo das neuroses
atuais, em "Para introduzir o narcisismo" ele inclui também
a hipocondria como sendo a terceira neurose atual. Retomando
a idéia anterior de correspondência, Freud vai designar a hipo-
condria como sendo a neurose atual da demência precoce.t3
Portanto, Freud configura a existência de dois campos clí-
nicos distintos, fundados em registros teóricos dilerentes, mas
que estabelecem relações entre si, pois a ordem do corpo e
a ordem da representação estão em permanente interação, sendo
a pulsão o mediador fundamental desta passagem.

4l FREUD. S. "Pulsions et destins des pulsions" (1915). In: FREUD,


S. M étapsychologie. Op. cit., p. 18.
42 Sobre isto, vide: FREUD. S. "Le reroulement" (1915). Idem;
FREUD. S. "L'inconscient" (1915). Idem; FREUD. S. "Pulsions
et destins des pulsions" (1915). Idem.
4R FREUD. S. "Pour introduire te narcisisme" (1914). In: FREUD,
S. IA vie sexuelle. Paris, P.U.F. 1973, p. 89·91.

248
Consideremos agora a articulação possível entre os dois
registros e seus diferentes grupos de neuroses, retomando o que
formulamos no tópico anterior, sem nos esquecermos, porém,
que .a neurose atual é apenas a condição necessária mas não
suficiente das psiconeuroses. Assim, é a "privação" no registro
do corpo somático, a impossibilidade de plenitude da satisfação
pulsional, que aponta o sujeito como falta e lhe indica como
único destino possível a simbolização do desejo no registro da
representação, para reencontrar a plenitude perdida. Da mesma
forma, a "angústia do real" é o correlato das neuroses atuais,
o que indica a subversão da economia pulsional, enquanto que
a "angústia do desejo" é o referencial das psiconeuroses. Vale
dizer, as psiconeuroses podem se estabelecer como modalida-
des diferenciadas de perelaboração pelo sujeito da experiência
traumática produzida pelas neuroses atuais.
Entretanto, é preciso salientar ainda duas outras possibi-
lidades, considerando a articulação dos registros. Assim, a pas-
sagem da ordem do corpo para a ordem da representação pode
não se realizar ou, então, se empreender de maneira precária.
A teorização freudiana dos anos vinte, onde a metáfora econô-
mica ocupa um lugar cada vez mais abrangente no discurso
metapsicológico e é formulada a hipótese da pulsão de morte,44
representa os impasses para o sujeito para a realização deste
processo de simbolização. A outra possibilidade indica os efei-
tos da ordem da representação sobre a ordem corporal, de
maneira que a passagem entre os dois registros se realiza nas
duas direções possíveis. Então, as neuroses atuais seriam um
efeito possível no transcurso das psiconeuroses e expressam as
impossibilidades de simbolização para o sujeito.
Porém, vocês poderiam se indagar neste momento do nosso
percurso: por que estamos enfatizando estas distinções de gê-
neros clínicos e sublinhando seus pressupostos metapsicológi-
cos? Para destacar o caráter sistemático da leitura freudiana

H Sobre isto, vide: FREUD. S. "Au-delà du príncipe de plaisír"


(1920). In: FREUD, S. Essais de psychanalyse. Paris, Payot, 1981;
FREUD, S. "Le moi et le ça" (1928) . Idem.

2149
da clínica psicanalftica e a concepção de estrutura que norteia
as suas oposição oosográficas.
Vamos delinear um pouco ma is esta leitura sistemática
da nosografia freudiana, para sublinhar ainda mais este sistema
de oposições. Assim, no percurso freudiano posterior, a deno-
minação neurose narcfsica não vai se referir mais, como neste
ensaio, às psicoses em geral, mas apenas às estruturas da me-
lancolia, da mania e da paranóia. Em 1924, a demência precoce
vai figurar como sendo a psicose. 45 Portanto, neste contexto
o critério metapsicológico da "manutenção" do objeto vai con-
trapor as neuroses de transferência aos outros dois grupos, o
que não implica em afirmar que na psicose e nas neuroses
narcisicas o objeto tenha para o sujeito o mesmo estatuto
metapsicológico.•o
Porém, a1ém destes tópicos, a que já nos referimos, o
caráter de sistema e a concepção de estrutura é o que permeia
a totalidade da primeira parte do ensaio. Assim, Freud constrói
um sistema de oposições diferenciais no campo das neuroses
de transferência, considerando seis operadores mctapsi-cológicos,
e o que se destaca na sua sistematização meticulosa é a arqui~
tetura destas distinções. É o sistema diferencial d'e oposições,
. que se estabelece com cada um dos operadores em pauta, que
configura o desenho desta parte do ensaio.
Com efeito, com este quadro de oposições diferenciajs
Freud não realiza novas formulações sobre as neuroses de trans-
ferência. Muito do que Freud nos apresenta neste ensaio ele
já se referira em outros ensaios metapsicol6gicos, como "O
recalque" e "O inconsciente". A única exceção a este comen-
tário é o sexto operador que se refere à dimensão da dispo~

4õ FREUD, S. "Névrose et psychose" (1924). In: FREUD, S. Névro-


se, psychose et perversio11. Op. cit.; FREUD, S. "La parte de la
realité dans la névrose et dans la psychose" (1924) . Idem.
46 ABRAHAM tematizou esta diferença estrutural, considerando o lu·
gar do objeto e as fases de fixação da libido, neste contexto his-
tórico. Sobre isto. vide: ABRAHAM. K. "Esquisse d'une histoire
de déve.loppement de la libido basée sur la psychanalyse des trou-
bles mentaux" (1924). In: ABRAHAM. K. Développement de la
libido. Oeuvres complétes. Volume 11. Paris, Payot, 1978.

250
sição à neurose, mas que trabalha num texto deste pedodo,•1
e com este operador teórico Freud apresenta a sua "fantasia
filogenética", que desenvolve na segunda parte do ensaio. Desta
forma, fjca evidente porque Freud trabalha com tanta facilida-
de nesta parte do ensaio, pois tematiza questões que receberam
diversas elaborações anteriores.
Porém, o que se destaca deste movimento teórico do ensaio
é a concepção estrutural que imprime a sua marca na escritura
fr.eudiana, com um sistema de oposições meticulosamente de-
senhado em vários níveis de complexidade, estabelecendo as
fronteiras da psicanálise nos registros teórico e clínico. Assim,
as oposições s.e multiplicam: neurose atualfpsiconeurose, neu-
rose de transferência/neurose narcísica, representação/não re-
presentação, corpo somático/corpo sexual. Poderíamos ordenar
aqui, se quiséssemos, um conjunto de outras oposições que
delineiam a totalidade do discurso freudiano, pois este é uma
tessitura de oposições diferenciais e esta mru:ca estrutural é um
procedimento teórico fundamental na metapsicologia freudiana.
Parece-nos importante dar a este comentário o seu devido
(!estaque, quando observamos o título que foi conferido à esta
obra de Freud na edição brasileira, pois nesta se ressaltou a
idéia de síntese e não a de conjunto, como na edição francesa.
Assim, são as concepções de conjunto e de estrutura que nor-
teiam a escritura deste ensaio freudiano e não a concepção de
síntese, como, aliás, na totalidade do discurso psicanalítico.
Com efeito, quando nos inserimos no registro do simb61ico as
coisas perdem a sua. substancialidade imanente e apenas adqui~
rem valor pela rede de relações em que elas se inserem, pelo
sistema de oposições que as suas marcas articulam entre si ao
se inscreverem no universo da representação. Nesta medida,
o que importa é o quadro de articulações diferenciais e não as
coisas enquanto tal.
A psicanálise freudiana se insere numa tradição filosófica
que destaca a categoria da razão como sendo um sistema sim-
bólico de relações diferenciais, não se restringindo, portanto, a

41 FREUD. S. lnlrfJduclíotJ à la psycha11alyse (1915-1916). Paris,


Payot, 1976.

251
uma filosofia do entendimento. Por isso mesmo, neste ensaio
Freud não empreende uma sfntesc das neuroses de transferên-
cia, mas exercita o método de construção de u ma estrutura de
oposições diacríticas, considerando para isso seis operadores
lógicos que são os pontos de articulação do conjunto que
delineia.

VI. O arcaico e a genealogia do sujeito

A segunda parte do ensaio pretende articular a hipótese


filogenética sobre as neuroses. Esta hipótese pretende d'eseovol-
ver o sexto operador diacrítico, destacado por Freud na leitura
metapsicológica das neuroses de transferência, que é a dispo-
sição à neurose.
Neste contexto, a questão básica do discurso freudiano é
estabelecer a relação entre a série das diferentes formas de
psiconeurose e os pontos de fixação correspondentes. Assim,
Freud postula que as neuroses de transferência surgiram num
tempo mais precoce na história do indivíduo do que as neuroses
oarcísicas, obedecc.ndo então a uma ordem precisa. Desta ma-
neira, assim ficaria a ordenação das psiconeuroses, de acordo
com o momento de sua emergência na história da individuali-
dade: histeria de angústia, histeria de conversão, neurose obs~s­
siva, demência precoce, paranóia e melancolia-mania.~8
Porém, considerando as disposições-fixações as psiconeu-
roses apresentariam uma inversão desta seriação. Vale dizer,
quanto mais tardjo fosse o aparecimento da psiconcurose na
história do indivíduo maior seria a regressão do sujeito a um
momento mais precoce de sua estruturação libidinal.49
Com efeito, nas neuroses de transferência existiria a opo-
sição do sujeito ao desenvolvimento libidinal, sendo que na
histeria esta oposição se realizaria face ao primado da genita-
lidade e na neurose obsessiva o sujeito se fixaria no estágio

48 FREUD, S. Vue d'ensemble des névroses de transjert. Op. cit.,


)). 31.
49 Idem, p. 31-32.

252
sádico-anal.11" Em contrapartida, nas neuroses narcfsicas a fixa-
ção do sujeito se estabeleceria numa fase que precederia a
descoberta do objeto. Desta forma, na demência precoce o
sujeito regrediria ao funcionamento psíquico auto-erótico, na
paranóia à fase de escolha d o objeto narcísico do tipo homos-
sexual e na melancolia se realizaria a identificação narcísica ao
objeto.51
Em seguida a esta ordenação clínica e ao ~.;St abelecimento
das diferentes fixações libidinais, Freud realiza um passo mais
ousado pretendendo empreender agora uma interpretação filo~
genética do sujeito e das estruturas neuróticas. Assim, as neu-
roses de transferência seriam tributárias de "regressões às fases
pelas quais a espécie humana no seu conjunto teve que passar
num certo momento, entre o começo e o fim da época glacial". r;a
Este desenvolvimento seria caracterizado pela "privação" libi-
dinal, a perda do paraíso da plenitude da satisfação, a emer-
gência da demanda de autoconservação sobre a satisfação libi~
dinal e a estruturação da horda primitiva. :>a
Porém, se as neuroses de transferência se articulam nas
marcas simbólicas da primeira geração da horda primitiva, as
neuroses narcísicas se inserem nos efeitos da segunda geração.
Essa geração é marcada pelas vicissitudes dos conflitos dos
filhos com a figura do pai da horda, conflitos esses gerados
pelo ciúme e pela inveja, onde os filhos pretendiam assegurar
a sua sobrevivência psiquica face ao pai onipotente. 54 Assim,
se na demência precoce a figura do filho sucumbe à castração
paterna e na paranóia os filhos se associam para não serem
aniquilados pela figura do pai e fundam a sociedade fraternal,
na estrutura psíquica da melancolia/ mania existe a revelação,
por um lado, do luto dos filhos pela morte da figur~ do pai
e, pelo outro, do triunfo dos filhos sobre o assassmato do
pai.55

c.o Idem, p . 32.


31 Idem.
~2 Idem, p. 33.
!13" Idem, p . 33-38.
ll-4· Jdem, p. 39.
6G l de m, p. 39 -42.

253
É preciso destacar que estas interpretações não são total-
mente novas no percurso freudiano, particularmente a articula-
ção da paranóia com a sociedade fratcrna 5 6 e a ligação da
melancolia/mania com o luto/triunfo sobre a figura do pai da
horda primitiva. 57 A consideração da demência precoce como
sendo o aniquilamento do sujeit() pela onipotência paterna é
esboçada pela primeira vez, se bem que Freud já jntroduzira
esta questão no seu comentário da autobiografia de Schreber.ss
Porém, o que é de fato novo no ensaio é o desenvolvimento
da hipótese filogenética c é para o seu exame que vamos agora
nos voltar.
Qual é o lugar da hipótese filogenética no discurso freu-
diano? Vamos tematizar esta indagação com um certo vagar
deli~ean~o inicialmente o contexto histórico-teórico e os agen~
tes .•mphcados na sua produção. Assim, não existe qualquer
dúv1dl:\ de que a hipótese filogenética foi desenvolvida em co-
laboração com F.erenczi. Da mesma fonna, este ensaio foi
forjado num momento de grande colaboração entre Freu<J e
Ferenczi, onde ambos pretendiam se apoiar na teoria bioló-
gica, de Lamarck, sobre a transmissão dos caracteres adquiri-
dos, para fundamentar a transcendência das fonnações fantas-
m áti.cas. ~~~ Este proJeto
. comum de pesquisa tem o nome de
metabiologia.
A metabiologia é uma modalidade de saber sobre as ori~
gens do sujeito que se baseia na articulação da psicanálise com
a biologia. Esta forma de saber é contraditória e conceitual-
mente imprecisa pois, por um lado, pretende ir além da bio-
logia e construir uma psicanálise das origens e, pelo outro, se

M Jo'REUD, S. "Pour introduire le narcislsme" (1914), 111. In:


FREUD, S. La vfe sexue/le, Op. cit.
G7 FREUD, S. "Totem and T aboo" (1913). Capítulo IV. In : Vo\umc-
XII. Op. cit.
$8 FREUD. S. "Psycho-analytic notes on an autobiographical account
of a case of paranoia (Dementia paranoidcs)" (1911). In : Volu-
me XIII. Op. cit.
ü9 GRUBRICH-SIMITIS, I. "MétapsychologiQ et métabiologie". In:
FREUD, S. Vue d'ensembfe des névroses de transferi. Op. cit., p.
97-114.

254
funda também em argumentos biológicos. Contudo, a metabio-
logia não se identifica com a metapsicologia pois esta pretende
fundar o psíquico além da consciência, no registro do incons-
ciente, indicando mediante o conceito de pulsão como esta
fundação teórica se realiza na articulação entre o universo do
somático c o universo da representação. 00 Podemos nos indagar
se a não publicação do manuscrito por Frcud não se deve a
esta diferença fundamental existente entre a metapsicologia e
a metabiologia, o que indica que Freud não conferia a esta
forma de saber o rigor necessário para a teorização psicanalí-
tica, pois não delineava adequadamente o seu objeto.
Antes de retomar esta interpretação vamos delinear as di~
ferentes posições das duas figuras neste projeto teórico. Freud
entreteve este diálogo com Ferenczi durante dois anos, sendo
este ensaio o resultado desta colaboração. Porém, Freud não
o publicou como pretendia inicialmente, apesar de ter editado
vários de seus artigos metapsicológicos. Fereoczi, aQ contrá~:io,
não apenas insistiu com Fxeud na continuidade do projeto da
metabiologia, com() também sugeriu repetidamente ao mestre
para a publicação do ensaio. Gt Além disso, diante da não pu-
blicação do manuscrito freudiano e da continuidade de suas
reflexões metabiológicas, Ferenczi permaneceu nesta pesquisa
e publicou em 1924 a sua grande obra sobre esta questão:
62
"Talassa, Ensaio sobre a teoria da gcnitalidade". Esta obra
foi caracterizada por Freud, no necrológio de Ferenczi, como
sendo a incursão mais "ousada" da psicanálise no campo da
biologia.~8

bll FREUD, S. "Pulsions e.t destins des pulsions" (1915) . In: FREUD,
S. Métapsyc!lologie. Op. cit.. p. 18.
ut GRUl:HUCH-SIMITIS, I. " Métapsychologle et métabiologic". In:
FREUD. S. Vue d'ensemble des névroses de transferi. Op. cit., P·
97-114.
G!l FERENCZI, S. "Thalassa, Essai sur la théori<l de la génitalité"
(1924). l n: FERENCZI, S. Psychanalyse 3. Oeuvres Com pletes.
Paris. Payot, 1974.
()S FREUD. S. "Sándor Ferenczi" (1933). In: Volume XXII. Op. cit.,
p. 228.
255
Retomemos então a indagação: por que Freud não publi-
cou este ensaio? Existem razões para que aproximemos, de
alguma forma, a não publicação deste manuscrito e a não pu-
blicação do "Projeto de uma psicologia científica"? 64 Certa-
mente, existem várias razões para articularmos estas duas obras
de Freud. ·
Assim, vejamos. No "Projeto de uma psicologia científica"
encontramos uma série de hipóteses teóricas fecundas que vão
fundamentar a psicanálise em textos posteriores, após serem
devidamente depuradas na sua linguagem conceitual, pois estas
hipóteses se articulam na linguagem da biologia, principalmente
da neuroanatomia e da neurofisiologia. Assim, deslocadas do
campo da biologia para a constituição do campo psicanalítico,
estas hipóteses teóricas eram enunciadas num estilo ficcional
evidente, principalmente se considerarmos que Freud era um
neurologista e um neuroanatomista teoricamente rigoroso, que
produziu obra de importância crucial e que foi reconhecida
pelos seus pares.05 Entretanto, a neuroanatomia freudiana nesta
obra é uma anatomia fant asmática, sem apresentar qualquer
rigor científico no campo das ciências naturais.
A recusa de Freud em não querer publicar esta obra,
acompanhada de sua correspondência com FHess e dos ma-
nuscritos preliminares;66 se deve parcialmente a isto, revelan-
do-se Freud preocupado com a falta de rigor de suas hipóteses
teóricas e com a sua linguagem ficcional. Porém, a sua irritação
com M. Bonaparte pela recuperação desta obra e da documen-
tação contemporânea do período Fliess,()7 revela a existência
de outras questões implicadas nesta não publicação.
Com efeito, o "Projeto de uma psicologia científica", os
manuscritos e a correspondência são documentos reveladores

co~FREUD, S. "Esquisse d'une psychologie scientifique." (1895). In:


FR.EUD, S. La naissance de la psychanalyse. Op. cit.
65 Sobre isso, vide: FREUD, S. On Aphasia (1891) . New York. In-
tcmational Universities Press, 1953.
66 FR.EUD, S. "Lettres a Wilhelm Fliess, Notes et Plans" (1887-1902).
In: FREUD, S. La naissance de la psychanalyse. Op. cit.
61 JONES, E. La vie et l'oeuvre de Sigmund Freud. Volume 3. Op.
cit.

256
da relação transferencial de Freud com Fliess,68 que Freud não
queria tornar pública. Assim, este conjunto revela uma série
de hipóteses geniais, perpassadas por teorias especulativas e
enunciadas numa linguagem ficcional, mas que remete à relação
de Freud com Fliess, onde este se posiciona no lugar de sujeito
suposto saber.
Podemos indicar neste ensaio de Freud uma série de su-
posições sirrúlares. Inicialmente, a hipótese filogenética se arti-
cula em linguagem ficcional, em termos biológicos. Freud
admite mesmo que esta hipótese é uma "fantasia" e que tem
o caráter ".especulativo".(;9 Porém, o fato de que uma teoria
tenha o sabor de uma "fantasia" e que apresente o caráter
"especulativo" nunca o impediu de publicá-la em outros mo-
mentos como Freud admitiu literalmente em "Além do prin-
'
cípio do prazer" para a hipótese da pulsão de morte.70 Asstm,
.
alguma coisa outra se colocou para Freud, que transcende a
dimensão "especulativa" e fantasmática do ensaio, que o impe-
diu de publicá-lo. Nós supomos que existe algo no desenvol-
vimento da hipótese filogenética que não convenceu o próprio
Freud e que lhe levou a abandonar o manuscrito com Ferenczi.
Em vários momentos do texto a hipótese filogenética é
atribuída por Freud a Fcrcnczi. 71 Da mesma forma, na corres-
pondência de ambos, deste período, a atribuição desta concep-
ção à Fereoczi é bastante clara e Ferenczi também reconhece
isso sem qualquer embaraço.72 Portanto, nada mais óbvio que
Freud recue da publicação do manuscrito quando lhe falta ~on­
vicção na hipótese teórica e que seja Ferenczi que pubbque

68 MANNONI, O. " L'analyse originelle". In: MANNONl, O. Clefs


pour /'ímaginaire 014 l'autre scéne. Paris, Seuil. 1969. .
1\9 FREUD, S, Vue d'ensemble des névroses de transferi. Op. CJt., P·
29-30.
10 FREUD, s. "Au-delà du principe de plaisir" (1920) . In: FR.EUD.
S. Essais de Psychanalyse. Op. cit., p. 65. .
11 FREUD, S. Vue d'ensembte des né.,roses de transferi. Op. c1t .. P·
38-39. . . » .
7!l GRUBRICH-SIMITIS. I. "Métapsychologie et métabJologte : fn .
FREUD. S. Vue d'ensemble des névroses de transfert. Op. clt., P·
97-114.

257
posteriormente uma obra importante sobre a metabiologia. Esta
falta de convicção se deve aos termos em que a hipótese foi
desenvolvida, sendo construída em termos metabiológicos e não
metapsicológicos.
Porém, isto não é tudo, sendo necessário levar a compa·
ração até as suas últimas conseqüências. Assim, na época da
primeira Grande Guerra, Freud vislumbrou repetidamente o fim
da psicanálise, pela dispersão dos seus colaboradores diretos.
O movimento analítico foi desarticulado. Como dissemos, os
escritos metapsicológicos foram forjados neste momento bistó·
rico, onde imaginando o fim do movimento psicanalítico, Freud
se preocupou com a transmissão do legado da psicanálise, pela
delimitação dos seus conceitos fundamentais. Nesta medida,
Freud reviveu o mesmo isolamento teórico que tinha na época
de sua colaboração com Fliess. Neste contexto, Ferenczi era
a sua relação mais próxima, com quem estabeleceu uma cola-
boração criativa. Porém, a relação do mestre e do discípulo é
marcada pela transferência, com a diferença de que nesta si-
tuação Freud ocupa o lugar do analista e não mais a do apren-
diz de feiticeiro.
Com estes comentários nós apenas bordejamos a lingua-
gem do ensaio e as condições histórico-teóricas de sua enun-
ciação, mas não abordamos a questão da veracidade da hipótese
filogenética. Esta formulação está presente de fonna esparsa
no discurso freudiano, de forma direta ou indireta, da ''Inter-
pretação dos sonhos" até "Moisés e o Monoteismo".7S Entre-
tanto, mesmo que possamos inventariar fragmentos desta con-
cepção no discurso freudiano isto não define a sua positividade
biológica, o que nos impõe a indagação sobre o seu sentido
teórico.
Assim, o que sustenta a hipótese filogenética no discurso
freudiano? O que existe na experiência psicanalítica que possa
fundar esta hipótese? Em outros termos, o que podemos ler,
através da .bipótese filogenética, que permite atribuir a essa

73 Sobre isto, vide: LACOSTE, P. "Destins de la transmission". In:


FREUD, S. Vue d'ensembfe des névroses de transfert. .Op. cit., p.
166-168.

258
alguma veracidade, depurando evidentemente a ficção biológica
mediante a qual ela se reveste?
Assim, vejamos. A hipótese filogcnética indica a tenaci.
d:ade de Freud em busca de um fundamento real para as for-
mações fantasmáticas. Apesar de ter realizado a crítica da
concepção traumática das neuroses 14 e ter empreendido a
constituição da teoria dos fantasmas, Freud nunca abandonou
a pesquisa de encontrar um fundamento real para o universo
fantasmático. Esta pesquisa freudiana assumiu diferentes níveis
de complexidade, se representando nos registros do sentido, da
erogeneidade e do mito das origens. Porém, através desta
investigação freudiana se anuncia também repetid!amente uma
outra problemática, qual seja~ a estruturação pré-subjetiva do
sujeito, em que este é articulado por estruturas que o trans-
cendem e o determinam.
Vamos circunscrever então, esquematicamente, os regis-
tr,os interpretativo, libidinal e mítico onde se esboça no dis-
curso freudiano a constituição pré-subjetiva do sujeito, da qual
a hipótese filogenética é a materialização desta concepção
teórica:
1. O sujeito se constitui a partir do Outro pela mediação
de um outro sujeito, não encontrando pois na sua interiorida-
de, biológica e psicológica, qualquer possibilidade para o seu
engendramento. Desde o ''Projeto de uma psicologia científica"
esta hipótese foi introduzida por Freud, 75 onde se delineia a
concepção de que em psicanálise o sujeito já é interpretação,
interpretação essa que é essencialmente intersubj etiva e fun-
dada na relação com o Outro. Enfim, no registro do sentido
o sujeito é inserido desde sempre numa estrutura que logica-
mente o precede, num contexto interpretativo que o marca de
forma indelével;

H FREUD, S. "Lettres à Wilhelm Fliess. Notes et Plans" (1867-


1902). In; FREUD, S. L4 naissance de (a psychanalyse. Op. cít.,
p. 190.
75 FREUD, S. "Esquisse d'une psychologie scientifique" (1895). In:
FREUD, S. La naissance de ta psychanalyse. Op. cit., p. 336, 370.

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2. Num outro registro, o da erogeneidade do corpo so-
mático, Freud indica nos "Três ensaios sobre a teoria da se-
xualidade" que o corpo erógeno do infante encontra na figura
materna a condição de possibilidade de sua constituição, sem
a qual não existe qualquer Jibidinação. '76 O que implica em
dizer que figura materna "perverte" a natureza biológica do
infante, sendo esta "perversão" materna a condição necessá-
ria para a ~struturação do seu corpo sexuado. '77 Contudo, esta
sexuação do corpo do infante é a condição de possibilidade
para a constituição do sujeito, se articulando pois este regis-
tro com o anterior, em que o sujeito se constitui a partir do
Outro mediante a interpretação da demanda do infante;
3. O real originário, onde se revela a estrutura fundante
do sujeito que o precede 16gica e historicamente, assume a
forma de um mito das origens da humanidade em "Totem e
tabu". 78 Esta obra e "Moisés e o monoteísmo" '79 represen-
tam o exercício desta concepção no plano mítico, onde o su-
jeito é figurado como se constituindo a partir de uma rede de
relações que o ultrapassam. Portanto, mediante esta concep-
ção o sujeito em psicanálise tem o estatuto bem diferente da
idéia de indivíduo, pois é marcado no seu ser por uma histó-
ria fantasmática que o antecede e esta genealogia pode atin-
gir teoricamente as origens da humanidade.
Entretanto, em "Totem e tabu" já se esboça a concepção
teórica sobre a existência de fantasmas origituirios, que foi
enunciada em seguida, 80 onde o sujeito seria modelado por
fantasmas primordiais que o fundam como sujeito. Estes fan-

76 FREUD, S. "Threc cssays on the theory of sexuality" (1905).


In: Volume VII. Op. cit., p. 222-224.
77 Sobre isto, vide: LAPLANCHE, J. Vie et mort en psychanalyie.
Paris, Flammarion, 1970.
7ij FREUD, S. ''Totem and taboo" (1913). Capítulo IV. In: Volume
XII. Op. cit.
79 FREUD. S. "Meses and Monotheism: Three Bssays" (1939). Idem
volume XXIII.
80 FREUD. S. "Communication d'un cas de paranoia en contradic-
tion avec la théorie psychanalytique" (1915). Tn: f/RF.T.m , S.
Névrose, psychose et perversion. Op. cit., p. 215-216.

260
tasmas são universais e indicam que para se constituir enquan-
to tal o sujeito tem que elaborar o mito de suas origens, arti-
culando os enigmas fundamentais do seu ser. Portanto, os fan-
tasmas originários revelam que o sujeito pretende decifrar os
enigmas do seu ser mediante o mito de suas origens: fantasmas
da cena primitiva, ligado ao enigma da existência do sujeito;
fantasma da sedução, voltado para a interpretação das origens
da sexualidade; e fantasma da castração, onde o sujeito pro-
cura decifrar o enigma da diferença dos sexos. Bl
Assim, nos diferentes registros em que esboçamos esta pro-
blemática o sujeito se funda, no discurso freudiano, em algo
que o transcende, sendo o mito da horda primitiva e os fan-
tasmas originários as representações mais expressivas desta
concepção original. Nesta perspectiva, a idéia de sujeito não
se identifica com a concepção de indivíduo, pois se este é re-
presentado pelo ego e experimenta a ilusão de seu auto-en-
gendramento nas relações inter-pessoais, o sujeito é necessa-
riamente tributário das marcas pulsionais mediatizadas pelo
Outro, onde as precipitações identificatórias revelam que o
sujeito é construído por estrutwas que o transcendem.
O arcaico em psicanálise remete, portanto, para a condi-
ção de possibilidade desta constituição pré-subjetiva do sujei-
to e a hipótese filogenética é uma formulação que procura
materializar esta concepção original. Enfim, este é o sentido
teórico desta hipótese, se considerarmos meticulosamente as
indicações do discurso freudiano e o que nos ensina a expe-
riência psicanalítica.

81 LAPLANCHE, 1., PONTALIS, J. B. "Fantasme originaire. fantas-


mes ues origines. origine des faruasmes". In: Les remp11 modem eJ.
Número 215. Paris, 1964, p. 1833-1868.

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"Erps e Anánké [Amor e Necessidade) tornaram-se
os pais · da civilização humana."
(S. Freud - . M~l-estar na Civilização)

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