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Excesso de proteção faz mal ao seu filho

Boa parte das crianças e adolescentes brasileiros vive como dentro de uma bolha,
protegida dos aspectos mais triviais da realidade. É preciso dar-lhes autonomia, porque o
maior risco é criar
uma geração despreparada para a existência

A preocupação com a como o celular que permite tempo todo exemplos de


segurança da prole é de monitorar as andanças da crianças que finalmente
ordem biológica: sem ela, moçada, e da nova dinâmica quebram a bolha em que
nenhuma espécie animal familiar, mais aberta e vivem e se transformam em
conseguiria reproduzir-se e propensa ao diálogo. Íntimos adolescentes rebeldes além
perpetuar-se. No âmbito como nunca de seus filhos, do aceitável, um atalho para
humano, durante milhares eles se utilizam dessa que se tornem adultos
de anos, os cuidados com as proximidade de amigo frustrados", disse ele a VEJA.
crias seguiram o padrão dos justamente para controlá- Em geral, os pais
mamíferos em geral: eram los. E abandonam a parte superprotetores são
interrompidos quando elas mais difícil da paternidade, inseguros e ansiosos.
começavam a tornar-se que é deixá-los seguir em Temem que seus filhos
capazes de alguma frente. Tais pais "amigos" deixem de amá-los,
autodefesa e de ajudar seus conhecem ou já esforçam-se para não
pais na obtenção de comida. identificaram no Orkut ou no fracassar em sua educação e
A preocupação atual com os Facebook cada um dos têm pavor de ser julgados
filhos – e sua exacerbação, a colegas do filho, e não veem por parentes e amigos. Tudo
superproteção, assunto problema nessa invasão de somado, excedem-se na
desta reportagem – tem privacidade. Aparentemente, ânsia de acertar sempre. "O
origem histórica bem um filho sob a vigilância exercício da paternidade
definida. irrestrita dos pais está mais passou a ser visto sob a
No Brasil, os superprotetores seguro. Mas há um risco na ótica de um julgamento
temem, sobretudo, o risco vida sem riscos, o que inclui social, dos mais rígidos e
de sequestros, assaltos e atender a todos os pedidos seletivos", diz o psicólogo
acidentes e a oferta da criança ou do jovem. Pais Luis Russo. "Assim como
abundante e livre de álcool e que adotam para si e para hoje se exige que as pessoas
drogas. Há, no entanto, um seus filhos esse tipo de sejam bem-sucedidas,
limite entre a preocupação estratégia ignoram uma saudáveis e magras, é
aceitável e a excessiva, que peça-chave do preciso ser um pai exemplar
pode fazer mais mal do que desenvolvimento humano: a de um filho idem", afirma.
bem a uma criança ou autonomia. É aquela Trata-se de um fenômeno
adolescente. Quando a capacidade – e sensação bastante atual. Nos Estados
criança é pequena, é poderosa – de fazer Unidos, pais com esse perfil
razoável ter medo de que escolhas. E também de ganharam o nome de
ela se machuque no aceitar seus próprios limites helicopter parents, ou "pais
parquinho, mas é inaceitável e reconhecer que, não raro, helicópteros". Eles pairam
um pai ou mãe que não a as escolhas podem estar sobre a vida das suas
deixe brincar na casa de um erradas. Num artigo recente, crianças com enorme
amigo de escola, longe de o psiquiatra americano estardalhaço. O assunto foi
sua vista. É compreensível Michael Jellinek, professor de tema de capa da revista
ficar com o coração aflito Harvard e chefe da americana Time em
nas primeiras vezes que o psiquiatria infantil do novembro passado. "Se o
filho de 18 anos sai de carro Hospital Geral de filho tira uma nota que os
sozinho – no entanto, trata- Massachusetts, escreveu desaponta, vão direto à
se de um exagero evidente que, do momento em que escola e exigem que ela seja
negar a ele esse tipo de um bebê nasce até a hora mudada. Quando ele
liberdade. Hoje, uma família em que ele entra na esquece um livro ou uma
de classe média pode erguer faculdade ou sai de casa, a apostila em casa, correm
um muro em torno de seus questão central de sua para levá-lo à escola. Dessa
filhos – incluído o não existência é conquistar forma, não permitem que ele
metafórico. Para tanto, os independência. Tirar isso de sinta o constrangimento que
pais superprotetores valem- um filho pode ser uma serviria de alerta para que
se de recursos tecnológicos, viagem sem volta. "Vemos o se lembrasse de tomar conta
de sua vida", disse a VEJA a pode moldar como uma obra
americana Hara Estroff de arte. Só vai prosperar
Marano, editora da revista como pessoa se tiver
Psychology Today. permissão para ser o
Atualmente, a escola é o protagonista de sua própria
único espaço em que boa vida", disse a VEJA o escocês
parte das crianças e Carl Honoré, autor do livro
adolescentes tem, de fato, Sob Pressão – Criança
de assumir Nenhuma Merece Superpais,
responsabilidades. Ao publicado no Brasil pela
passarem pelos portões editora Record. Eliminar do
escolares, deixam o posto de desenvolvimento infantil
príncipe ou princesinha da todo desconforto, as
família para se tornar um decepções e até mesmo a
entre tantos outros alunos. É brincadeira espontânea – e
um dos grandes pesadelos ainda por cima pressionar as
dos pais superprotetores: a crianças com a exigência de
exemplo do que ocorre na sucesso total – é um erro de
vida doméstica, eles exigem rumo gravíssimo. Sem
tratamento individualizado enfrentarem desafios
na escola. Sua interferência próprios nem se
na rotina pedagógica é uma confrontarem com limites, as
realidade que irrita crianças tornam-se adultos
professores e diretores. "Já incapazes de superar as
recebemos ligações de pais vicissitudes As
indignados com uma consequências da infância e
discussão no pátio antes adolescência
mesmo de os inspetores nos superprotegidas já são
avisarem da briga", conta mensuráveis: os jovens
Vera Malato, coordenadora atualmente levam mais
do departamento de tempo para sair de casa,
orientação educacional do começar a trabalhar e
Colégio Bandeirantes, em formar uma família. Quando
São Paulo. Sim, em certos chegam ao mercado
momentos de dificuldade, os profissional, não conseguem
filhos recorrem ao celular em lidar com as exigências
que estão gravados os reais. Frequentemente se
números de papai e mamãe. sentem injustiçados e
Como efeito colateral da incompreendidos. E
superproteção, os frustram-se com facilidade.
especialistas em educação Em resumo, se você quiser
infantil começam a notar um ter um filho com
aumento no número de possibilidade de ser feliz e
crianças ansiosas e realizado (nunca há
inseguras. Não é difícil garantias), proporcione a ele
identificar uma delas em a liberdade possível em cada
sala de aula: é a que pede etapa de sua vida. E lembre-
atenção e aprovação para se do que disse o escritor
cada tarefa que realiza. francês Honoré de Balzac
Consulta os professores com (1799-1850): "Chega um
frequência quase momento na vida íntima das
insuportável. Fora da sala, famílias no qual os filhos se
tem medo de se machucar tornam, voluntária ou
no parquinho (mesmo essa involuntariamente, juízes de
excrescência americana que seus pais". Para ter um
é o playground de chão julgamento razoavelmente
emborrachado), evita ir justo, não seja negligente –
sozinha ao banheiro, pede mas também não seja
ajuda a todo momento. superprotetor.
Tamanha dependência está
na raiz da baixa autoestima. Reportagem da
"Uma criança não é um revista veja de
projeto, um troféu ou um
pedaço de argila que se
14/04/10 – Edição
2160.

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