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AULA 2 FILOSOFIA

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O que
será tratado
nesta aula
Esta aula apresenta a fisionomia da
cultura de massa, midiática e digital
e faz considerações acerca de suas
consequências sobre a autopercepção.

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Cultura
edificante
& cultura
diversionista
A tualmente, há um fenômeno de
espetacularização da realidade e
“propagandização” da vida corrente. Isso
se dá, sobretudo, com o uso desmedido
das redes sociais.

Há uma diferença entre cultura nos


sentidos humanista e diversionista. A
primeira consiste na apresentação de
um padrão de excelência. As grandes
obras de arte normalmente têm duas
características: apuração técnica ou
formal e conteúdo moral perene. Nesta

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dimensão edificante, a arte registra um


padrão moral no horizonte de uma cultura,
mantendo vivos os modelos que estimulam
e motivam. São exemplos a Ilíada de
Homero, em que há o estabelecimento do
padrão moral do guerreiro; o padrão de
excelência intelectual desenvolvido por
Platão, a partir do ser humano concreto que
foi Sócrates; e os santos, reconhecidos pela
Igreja como padrão de excelência espiritual,
mostrando possibilidades reais.

Nós também temos de ser heróis no


sentido ético, de quem busca sempre a
superação, a excelência, a perfeição da
existência. Hoje, no entanto, do ponto de
vista moral, as pessoas não têm a quem
seguir. A cultura do mero entretenimento,
a cultura pop, se torna um produto para
a fruição imediata e esquecimento em
seguida. Nossa época é marcada pelo
consumismo: a ideia de que podemos
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comprar produtos, experiências, e esgotá-


los, para consumi-los novamente no dia
seguinte. O mercado oferece produtos que
logo se tornam obsoletos, gerando a ideia de
descartabilidade.

O sociólogo Zygmunt Bauman percebe


que a lógica do consumo é projetada
nas relações sociais, as quais se tornam
descartáveis e substituíveis. O resultado
da cultura do espetáculo consumista, da
descartabilidade, é a total alienação, ou
seja, a ausência de um núcleo, de gravitação
existencial para a órbita da existência.

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A cultura do
espetáculo na
informação
A cultura do espetáculo também se dá
no nível da informação. Vivemos num
mundo de informação diária, também
chamado de jornalismo (da palavra
francesa jour, dia). O ser humano tem três
dimensões de tempo: passado, presente e
futuro; Santo Agostinho ainda dizia: “cuja
unidade transcende na eternidade”. Mas,
no presentismo, sentimo-nos escravizados
pelo hoje; as coisas não têm duração,
permanência, estabilidade ontológica.

O mecanismo de um story é um exemplo


eloquente disso, pois em 24 horas ele

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desaparece. Isso mostra a dimensão líquida


do tempo, da experiência. Do mesmo
modo, a lógica da ciência contemporânea
de atualização periódica implodiu o
conhecimento científico. O resultado da
informação constante é a obstrução da
inteligência, pois ela precisa fincar raízes
em algo sólido, ou seja, precisa de formação.

A cultura jornalística descartável e


comercial se dá principalmente pela
primazia do visual sobre o verbal. Desde
o século XX, com a ascensão dos meios
visuais de comunicação de massa, houve
uma saturação de imagens e progressiva
decadência verbal. Não é só o erro
gramatical que está em jogo aqui, mas a
perda da capacidade racional e especulativa
de usar o pensamento.

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O desejo
mimético nas
redes sociais
D e acordo com a Teoria Mimética,
de René Girard, há uma inclinação
natural do ser humano a formar
comunidades. Somos seres miméticos
que desejam o que os outros lhes fazem
desejar. Todo desejo é inspirado num
modelo que torna o objeto desejável.
Se for um modelo próximo no tempo
e espaço, torna-se um concorrente.
Mas há modelos distantes de nós
com os quais não nos comparamos,
porque não os podemos alcançar.
Segundo Girard, a mediação externa era
característica da sociedade aristocrática:

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um aristocrata era quem cultivava a


excelência. Na sociedade democrática e
liberal contemporânea, porém, todos estão
igualados, logo, há uma crise mimética em
que um imita e quer estar no lugar do outro.

A lógica do consumismo se complementa


com o exibicionismo das redes sociais. O
ímpeto originário é positivo: alguém que
compartilha uma coisa boa gostaria que
os outros também a tivessem. No entanto,
acaba gerando inveja e orgulho. A inveja é
querer ocupar o lugar do outro, enquanto o
orgulho é querer ser invejado. O narcisismo
(expor-se, apresentar-se vaidosamente) e o
voyeurismo (querer ver os outros, invadir
sua vida privada) se complementam.

Um like nas redes sociais significa não


apenas que alguém apoia aquilo, mas
também que emula, quer participar do
que acontece. Há uma simbiose entre

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aprovar, compartilhar e imitar. Por isso,


as redes sociais são uma cadeia mimética
interminável.

A cultura do espetáculo, do consumo e da


rivalidade mimética tem um efeito moral
muito específico: a falta de introspecção,
sem a qual não há autoconhecimento. A
intimidade e a interioridade se perdem e,
sem elas, não há como amar e relacionar-se
efetivamente com as pessoas. O que temos
é uma sociedade espectral da aparência, da
imagem e, portanto, da vaidade.

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Escolha dos
modelos
O homem antigo tinha como momen-
tos de pausa o teatro e a liturgia,
em que estava diante de algo totalmente
distinto de si. Com o passar do tempo, o
teatro passa a aproximar-se dos dramas
cotidianos. As artes plásticas e a arquite-
tura também sofrem um processo de rea-
lismo, que se torna mais concreto com o
cinema e a televisão na comunicação de
massas, e ainda mais agudo com o uso do
celular.

Antes, sabiam-se mais ou menos quais


eram as possibilidades do homem, por
causa da formação a que se era exposto.
Hoje, há uma diminuição do conheci-

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mento das possibilidades superiores, por


causa da tendência ao realismo na forma-
ção e na cultura. Uma parte das neuroses e
sofrimentos aparece porque o homem está
olhando para outros homens, fomentando
o que Girard expôs: um ciclo de vaidade e
orgulho.

Girard pode ser aplicado magistralmente


no sentido da ascensão do espírito. No en-
tanto, no campo dos modelos há dois riscos:
o de animalização, pela ausência, ou de cris-
talização, comportando-se anacronicamen-
te como a figura exemplar. A virtude parece
estar na articulação entre modelos e não
tornar-se uma caricatura.

Deve haver um pólo ativo na busca por mo-


delos, e outro passivo, de ser iluminado por
eles sem perder a própria identidade. O ho-
mem moderno acha que não tem modelo e
vive numa lógica de autenticidade ilusória.

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O homem maduro elege livremente os seus


modelos a partir dos próprios influxos.

Ainda, há o problema de que os modelos


são divinizados. O desejo metafísico de algo
perfeito gera o risco de rebaixar a perfeição,
que é um atributo divino, a uma pessoa,
idolatrando-a.

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