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DESMISTIFICANDO

ARTIGO A INCLUSÃO
DE REVISÃO

DESMISTIFICANDO A INCLUSÃO
INCLUSÃO

Maria Lúcia Toledo Moraes Amiralian

RESUMO – Após reflexão sobre a inclusão, que não deve ser


considerada como uma política exclusiva para com as pessoas com
deficiência ou como uma questão restrita à área educacional, discutiu-se
esse “novo paradigma educacional”, comparando-o com a política anterior
da Educação Especial, a integração de alunos com deficiência. Essa
discussão conduziu a uma análise da inclusão em um contexto social mais
amplo. Considerando a “Cultura da Culpa” e a “Cultura da Vergonha”,
propostas por Ruth Benedict e a “Cultura do Concern”, acrescida por Davi
Bogomoletz, foi analisado o conceito de inclusão e apontados sua vertente
histórica, seu momento atual e suas perspectivas para o futuro.

UNITERMOS: Educação Especial. Deficiência. Psicanálise.

INTRODUÇÃO pode significar um rompimento com a situação


A inclusão tem sido um tema exaustivamente vigente.
discutido e debatido. Considerando os atuais Por essa razão, considero a expressão
valores sociais, é um tema “politicamente “desmistificando a inclusão” bastante suges-
correto” nas referências às condições atuais do tiva, ela traz em seu bojo a necessidade de
sistema educacional. maior clareza dos sentidos que esse conceito
Hoje, na área da educação, muito se tem expressa, assim como revela a aspiração de
falado sobre esse “novo paradigma educa- melhor compreensão do significado desse
cional”. Todavia, a compreensão que se tem processo. Por outro lado, as pessoas envolvidas
dele é ainda nebulosa e encontra-se envolta em em trabalhos em que a inclusão tem sido
postulações por vezes ambíguas. Há várias colocada como meta a ser alcançada precisam
interpretações e posturas em relação à inclusão. entender melhor os procedimentos que essa
Como bem dizem Fuchs e Fuchs1, este termo proposta implica.
tem assumido o significado desejado por quem Nesse cenário, pode-se observar que muitas
o utiliza: para aqueles que se assustam com coisas têm sido feitas em nome da Inclusão. Mas
mudanças, tem significado manter o que já o que realmente ela propõe e busca? O que se
existe, e, para aqueles que desejam uma deve fazer para que a inclusão se torne um fato
reorganização total do sistema educacional, em nossa comunidade?

Maria Lúcia Toledo Moraes Amiralian - Doutora Correspondência:


em Psicologia e Docente da Universidade de São Rua Acanguéruçu, 341 – Butantã – São Paulo – SP
Paulo. Coordenadora do LIDE- L aboratório Brasil – 05579-021
Interunidades para o Estudo das Deficiên- E-mail: mltma@usp.br
cias/IPUSP.

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Algumas estratégias levam a questionamentos noutro qualquer, é um movimento que não se


sobre a que verdadeiramente as pessoas envol- refere exclusivamente às pessoas com deficiência.
vidas nesta proposta estão respondendo. Podemos É um movimento social amplo, que tem ocorrido
nos perguntar: em diferentes lugares e em vários segmentos da
• Elas respondem a uma necessidade política? sociedade. São movimentos que retomaram a luta
Será que algumas pessoas, considerando-se pela Declaração Universal dos Direitos Humanos
essa uma posição “politicamente correta”, sentem de 1948. Em nosso país, por exemplo, temos visto
a necessidade de inserirem-se nessa corrente de diferentes maneiras a retomada desse
apenas para compartilharem dos valores da maio- movimento; o dos Sem Terra, o dos Negros, o dos
ria ou, por outro lado, dos benefícios e vantagens Homossexuais, o dos Índios, o da Mulher, etc...
políticos e sociais que acompanham uma posição Isto é, movimentos de diferentes grupos que se
intensamente defendida por certos setores da sentem prejudicados e excluídos dos benefícios
sociedade em alguns momentos? da sociedade relacionados aos preceitos básicos
• Elas respondem a necessidades pessoais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
inconscientes? Não é por mero acaso que temos hoje uma
Será que algumas pessoas por sentirem-se tão Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.
excluídas em suas interações sociais, por um sem Do ponto de vista escolar, ele significa
número de razões particulares, entram nesse educação de qualidade para todos, embora tenha
movimento como uma busca para a solução de sido assumido na Declaração de Salamanca4, em
seus problemas pessoais? 1994, como um ideal a ser perseguido para com
• Ou elas respondem, verdadeiramente, a uma as pessoas com deficiência. Em nosso sistema
crença pessoal de que todas as pessoas têm o educacional, ele pretende abranger muitas outras
direito a ser aquilo que nasceram para ser, crianças que, embora não apresentem déficits
como diz Winnicott2 a respeito de Ilio, e a uma orgânicos, são, muitas vezes, excluídas do
filosofia de vida que reconhece que a vida processo de aprendizagem.
vale a pena de ser vivida e que é responsa- 2 - Inclusão não é um processo que se refere só
bilidade dos adultos sadios ajudar a todos os à escola
outros a alcançarem tal sentimento?3 Embora a inclusão costume ser vista como um
A resposta a essas questões só poderá ser “novo paradigma educacional”, se constitui num
alcançada por intermédio de uma compreensão processo maior, que abarca muitos outros setores
profunda deste processo. de atividade humana. É um processo social
Antes da exposição e discussão sobre este amplo que, em relação às pessoas com
chamado “novo paradigma educacional”, e sobre deficiência, é encontrado em outros movimentos;
suas intercessões com as condições sociais, é aqueles que se referem à questão das barreiras
importante uma reflexão específica sobre como arquitetônicas, às dificuldades de inserção no
este processo pode ser compreendido e a análise mercado de trabalho, às restritas oportunidades
de alguns pontos que pela falta de clareza podem de lazer e esportes, enfim a todas as situações
ser responsáveis por tornar esta condição ainda que implicam em uma real e verdadeira inclusão
mais nebulosa. social. Assim, ao se falar de inclusão é
1 - Inclusão é um processo que não se refere importante estar atento aos diferentes níveis de
apenas às pessoas com deficiência abrangência social. Há o problema da inclusão
Um primeiro ponto a ser salientado é que o na família, na escola, no trabalho, nos ambientes
processo de inclusão, seja no sentido escolar ou de lazer, enfim, em todos os ambientes que são

* Este tema foi desenvolvido a partir da participação em uma mesa redonda realizada na Colméia de São Paulo para os
educadores em 2001.

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compartilhados pelos seres humanos. Não 3 - A questão da terminologia – Inclusão/


obstante, ele tem gerado mais polêmica na Integração
escola, principalmente quando se refere à Por fim, um terceiro ponto importante para ser
absorção de alunos com deficiências físicas e assinalado, pela polêmica que tem levantado, é
funcionais. Pode-se supor que isso se deva a o uso dos termos Inclusão e/ou Integração.
três condições: Pode-se observar que esses termos têm sido
• A escola representa uma situação concreta, usados, ora como sinônimos, como na Declaração
um ambiente social de vivência cotidiana de Salamanca4 e nos textos da Secretaria de
entre os administradores, os professores, Educação Especial do MEC, ora como termos
os funcionários e os alunos e sua família. opostos, representantes de diferentes paradigmas
A convivência, a troca e a vivência da educacionais por alguns teóricos da educação e
aprendizagem com alunos e colegas com da inclusão.
deficiência é uma experiência diária em que Por não saber a maneira correta de utilizá-los,
se manifestam as dificuldades do compar- já que ambas as posições mostram um raciocínio
tilhar com aqueles que, pelas mais variadas lógico e coerente em suas razões, é de bom
razões, são diferentes da maioria, e, de tamanho pedir ajuda ao sempre útil Aurélio5, com
alguma forma, destoam dos modelos valori- o propósito de se compreender melhor o
zados pela sociedade atual. significado preciso destas palavras. Assim, foi
• A escola, como o ambiente que acolhe o início encontrado:
da vida em sociedade, dá a vertente de como • Inclusão – Ato ou efeito de incluir. Relação
determinada comunidade irá se organizar, se entre dois termos, um dos quais faz parte ou
em direção a uma real aceitação de todos ou da compreensão ou da extensão do outro.
se na direção de uma discriminação dos • Incluir – Compreender, abranger, conter em
indivíduos que a compõem. A escola poderá si, envolver, implicar. Estar incluído ou
definir os que considera certos e os que compreendido, fazer parte, figurar entre
não o são, ditando as regras de como cada outros, pertencer junto com outros.
um deve ser, ou poderá aceitar as dife- • Integração – Ato ou efeito de integrar. (sociol.)
renças individuais e as respeitar. É uma Unificação social, processo que assegura a
experiência cotidiana de vida em comum e, inteireza de um grupo social ou instituição.
como um espelho multifacetado, registra os • Integrar – Tornar inteiro, completar, inteirar,
sentimentos e atitudes da sociedade para com juntar-se tornando parte integrante, reunir-
as pessoas com deficiência, ao mesmo tempo se, incorporar-se.
em que reflete para todos os lados o que Ao analisar o significado semântico destas
capta. palavras, alguns pontos chamam a atenção:
• A escola é a base para a inclusão social e • Para o termo inclusão é apontada sempre a
constitui-se como o cerne da mudança de idéia de compreensão, além dos fenômenos e
atitudes. Assim sendo, esse é o contexto ao atos de envolver e pertencer.
qual se deve dirigir todos esforços para se • Para a palavra integração é assinalado um
alcançar as mudanças almejadas nas atitudes conceito de processo que assegura a inteireza.
para com as pessoas com deficiência. É um Integrar é uma condição para se completar,
fato que a aceitação no mercado de trabalho para tornar inteiro.
exige competência, mas é um fato também Assim, o uso do termo inclusão na escola pode
que uma das funções da escola é tornar todos ser entendido como uma situação em que é
os seus alunos capazes de competir no imprescindível uma compreensão do aluno com
mercado de trabalho, inclusive aqueles com deficiência, de modo que ele possa ser integrado,
deficiências físicas ou funcionais. ou seja, passe a pertencer à escola e fazer parte

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integrante dela. Condição que assegurará a chamadas Culturas da Vergonha e da Culpa,


inteireza da escola, a completará e a transformará, descritas por Ruth Benedict (1972 apud
então, em uma escola Integrada/Inclusiva. Bogomoletz)6, às quais ele acrescenta a Cultura
A partir dessas considerações, é possível do Concern.
entender a polêmica surgida sobre esses dois Concern (preocupação) é o termo usado por
momentos da Educação Especial, ao se recordar Winnicott7 para explicar o estado de desen-
o significado e o uso dado à palavra integração volvimento em que a criança torna-se capaz de
neste contexto. O processo de integração era integrar seus impulsos agressivos e eróticos em
percebido como o existente naquele momento, no relação a um único objeto, a mãe. Momento
qual o fundamental era a colocação dos alunos em que é alcançada a ambivalência. Esse
em classes especiais ou salas de recursos e desenvolvimento implica no desenvolvimento de
exigido deles que se adaptassem às condições um ego que começa a ser independente do ego
da escola, isso deixava muito a desejar. E, na auxiliar da mãe. Em existir no bebê um lado de
realidade, não atingia o objetivo a que se dentro e um lado de fora, ou seja um mundo
propunha, ou seja, a integração dos alunos com interno e um mundo externo. “Essa riqueza
deficiência. Poucas eram as escolas realmente pessoal desenvolve-se a partir da experiência
integradas. Talvez porque faltasse a inclusão, ou simultânea do amor-ódio, a qual implica a
seja, a compreensão sobre as condições dos realização da ambivalência, cujo enriquecimento
alunos com deficiência, de tal forma que fosse e aprimoramento leva à emergência do
possível a esses efetivamente sentirem-se como envolvimento.” 7 A partir daí, o bebê pode
parte integrante da escola, assim como devem estabelecer com a mãe uma relação de
sentir todos os alunos, sem exceções. preocupação. É o nível de desenvolvimento,
Pode-se entender desta forma, também, a segundo ele, em que o indivíduo adquire a capa-
postura daqueles que consideram os dois termos cidade de envolvimento, “refere-se ao fato do
como sinônimos, embora deles discorde, por indivíduo preocupar-se ou importar-se, e tanto
considerá-los como termos complementares. Os sentir como aceitar responsabilidades”7, é assim
alunos com deficiência precisam ser incluídos na uma capacidade do indivíduo de interessar-se
escola, para esta tornar-se uma escola integrada. espontaneamente pelo bem estar do outro.
Feitas essas considerações iniciais, faz-se Podemos dizer, então, que na cultura do
necessário apresentar nosso entendimento sobre concern há uma genuína preocupação com o bem
o processo de inclusão. estar do outro. O envolvimento com o outro é aqui
Em primeiro lugar, cabe salientar a consi- considerado como uma responsabilidade social.
deração de que todo processo contém uma A cultura da vergonha, por outro lado, tem
vertente histórica, uma possibilidade atual e uma por contexto a fase anterior de desenvolvimento
perspectiva futura. Obviamente, a inclusão, (nos termos winnicottianos, a ruthlessness ou
enquanto processo, não foge à regra. impiedade) e funciona com base na obediência
estrita às regras de conduta vigiada pelos demais.
VERTENTE HISTÓRICA A não obediência, se percebida, é passível de
A vertente histórica mostra as diferenças nas sanção, o comportamento é, então, ditado pelas
atitudes e concepções sobre as pessoas com normas sociais estabelecidas.
deficiência, ajuda a compreender o momento Já a cultura da culpa tem por base o Complexo
atual que se vive e a projetar o que se deseja de Édipo. Há a internalização das normas sociais,
para o futuro. com a constituição do superego. O sujeito passa
Como um precioso auxílio para a análise desta a agir com o intuito de reparar, de consertar o
vertente, nos reportamos à seqüência histórica estrago feito. Está implícita a crença, “Sou mal,
apresentada por Davi Bogomoletz6 sobre as por isso devo ser bom”. Nesta, o agente repressor

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não é mais uma instância social, mas as normas principalmente na segunda metade do século
sociais internalizadas. Este conceito de Freud e XX. As mudanças sociais decorrentes do
Melanie Klein traz implícita a constatação pelo crescimento e desenvolvimento das ciências,
sujeito de um mal existente em seu interior. principalmente das ciências humanas, trouxeram
Se pensarmos nas atitudes para com as uma nova concepção sobre o ser humano,
pessoas com deficiência, podemos identificar, sobretudo aqueles que apresentavam alguma
através da história, esses três tipos de cultura. limitação significativa. Do ponto de vista
A cultura da vergonha pode ser facilmente educacional, um fato importante a ser assinalado
identificada na Antigüidade, quando pessoas com é a filosofia da normalização, introduzida por
deficiência eram, dizendo eufemisticamente, Nirje10, da Dinamarca, que tinha por princípio
expostas, ou seja, deixadas para morrer, ou norteador a idéia de que as pessoas com
simplesmente eliminadas8. A imperfeição física, deficiência tinham o direito de vivenciar um estilo
naquela época, representava um castigo ou ou padrão de vida que seria comum ou normal
maldição, e se constituía como uma vergonha em sua cultura. Este princípio rapidamente se
social. Ter um filho com deformidades físicas ou difundiu trazendo grande impacto à educação
alguma incapacidade mental era praticar um ato especial. Nos EUA, surgiu o “mainstreaming”,
anti-social, pois ele representava um mal social medida política que assegurava a educação
que devia ser eliminado. Não havia naquela época pública apropriada a todas as crianças com
qualquer preocupação com educação ou reabili- necessidades especiais. Surgiu, assim, a proposta
tação das pessoas com deficiência. de educação integrada aos alunos com
Outro momento das atitudes em relação aos deficiência.
sujeitos desviantes foi o assistencialismo9, em que Um aspecto importante a salientar é que foi
as pessoas com deficiência eram colocadas em compreendido que o objetivo fundamental desta
asilos para serem cuidadas. Aqui podemos ver filosofia era “tornar o deficiente o mais semelhante
um início da cultura da culpa que se mescla com possível ao normal”. Naquele momento o conceito
a cultura da vergonha. O objetivo tanto podia ser de deficiência estava atrelado ao “modelo
o de esconder a pessoa com deficiência como o médico”, baseado em um conceito de normalidade
de cuidar dela. e em um padrão de funcionamento desejável para
Nos séculos XIX e XX, ocorreu uma grande todos. Toda uma estratégia de educação e
modificação, com o surgimento das concepções tratamento para com as pessoas com deficiência
científicas na compreensão e atendimento foi desenvolvida dentro desta filosofia. Foi o
daqueles que, por alguma razão, apresentassem momento em que surgiram várias técnicas de
algum tipo de deficiência 8. Foi o início da treinamento para o atendimento de pessoas com
preocupação em explicar cientificamente as deficiência mental, visual, física, auditiva e
causas da deficiência e em buscar estratégias que outras. Pode-se dizer que durante esse período
viessem de algum modo saná-las. Podemos dizer esteve sempre nodal a idéia de reparação, a idéia
que aí se instala a cultura da culpa. Não são mais básica de consertar aquilo que de alguma forma
as normas e obrigações sociais que ditam o fora estragado. Portanto, a cultura da culpa.
comportamento, mas um outro internalizado, o No centro dessa verdadeira revolução
superego. É ele quem dirige as ações no sentido conceitual e suas decorrências práticas, começam
de atender aqueles que foram prejudicados, seja a surgir alguns questionamentos:
qual for o motivo de sua condição. Surgem as • Querer tornar o indivíduo com deficiência o
escolas especiais, na tentativa de educação das mais parecido possível com aquele que não a
crianças com deficiência. possui não significa não aceitá-lo como ele é?;
Um grande desenvolvimento ocorreu no • Treiná-lo não significa que não acredito em
atendimento às pessoas com deficiência, sua capacidade de aprendizagem?;

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• Modificá-lo não significa que, como ele é, eu compreensão dos elementos que se julgam
o considero inferior e incapaz de viver em essenciais para que possa haver uma verdadeira
sociedade?; inclusão escolar. O grande dilema parece
• Como, então, educar ou reabilitar as pessoas referir-se à eficácia e à propriedade de decisões
com deficiência? Quais estratégias devem ser unilaterais, seja por parte das instâncias públicas
seguidas para que elas possam desenvol- responsáveis ou de movimentos civis. Ques-
verem-se plenamente? Enfim, como tratar a tionam-se as portarias, os decretos, as leis, os
pessoa com deficiência que, embora diferente, movimentos civis pela extinção da Educação
tem os mesmos direitos que os indivíduos não Especial, comumente acusada de segrega-
deficientes? cionista, assim como os cartazes do tipo “Esta é
Tais questionamentos ensejam uma mudança uma escola inclusiva”. Como se vê, o processo
fundamental, possibilitando o surgimento do que de inclusão é um tema amplo demais para ser
aqui chamamos de cultura do concern em relação compreendido por meio de providências isoladas.
às pessoas com deficiência. Por envolver mudanças culturais, da vergonha
Surgem a preocupação, o envolvimento e o para a culpa e desta para o concern, requer mais
desejo de que possam desenvolverem-se de do que simples esforços educacionais. Requer,
acordo com suas peculiaridades, em um ambiente acima de tudo, esforços conjuntos, respaldo
suficientemente bom, capaz de lhes proporcionar institucional e participação da sociedade civil.
as condições necessárias para que possam Entende-se que cabe à Escola atentar para os
desenvolverem-se espontaneamente, ou seja, de seguintes pontos, para que possa cumprir
acordo com aquilo que nasceram para ser. satisfatoriamente a responsabilidade que lhe foi
Pode-se dizer que este seja o chamado “novo entregue:
paradigma da educação”, identificado como novo 1) Inicialmente, como vimos no próprio
porque não é sustentado pela cultura da culpa, significado da palavra inclusão, é preciso que
tampouco pela da vergonha, mas sim pela cultura haja uma verdadeira compreensão do aluno
do concern. com deficiência. A comunidade escolar precisa
Há de se considerar o fato de que, embora saber o que significa ter uma deficiência
possam ser consideradas como a expressão de mental, visual, auditiva, ou qualquer outra
uma filosofia predominante numa dada época, lesão física ou funcional. Quais as limitações,
essas diferentes culturas podem ser encontradas as incapacidades, as desvantagens e, também,
até hoje, subsistindo concomitantemente em todas as possibilidades e capacidades dos alunos
as épocas. Encontram-se ainda hoje aqueles que, com essa condição. O entendimento das reais
em suas relações com as pessoas com deficiência, implicações das deficiências poderá propiciar
ainda estão centrados na cultura da vergonha, atitudes favoráveis para com os indivíduos
outros na cultura da culpa e aqueles que já se nessas condições. As atitudes são freqüen-
inseriram na cultura do concern. Deve-se lembrar temente movidas por preconceitos, ou seja,
que a história não é linear, mas dinâmica, e conceitos formados sem um conhecimento
que cada momento germinou de um anterior e verdadeiro da situação, e a clareza na
é suporte para as mudanças posteriores. A compreensão do que aquele aluno pode ou
sabedoria supõe a compreensão do momento não fazer é fundamental;
atual gerado de um anterior, incorporando nas 2) Mudança de foco no processo educacional do
mudanças todas as vantagens conseguidas. ensino para a aprendizagem. A preocupação
da escola não deve ser com o que o professor
POSSIBILIDADES ATUAIS ensina, mas no como ele ensina e no quanto a
No que respeita ao presente momento, os criança ou jovem aprende. É preciso avaliar
esforços devem ser concentrados na tentativa de se o professor está conseguindo propor

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estratégias que vão se constituir em condições O dilema é: como atingir tal desenvolvimento
favorecedoras à aprendizagem do aluno; social? Como conseguir que essa proposta seja
3) Apoio constante à comunidade escolar, ao alcançada? Talvez as mudanças sociais que têm
corpo administrativo, ao corpo docente, aos surgido como conseqüência dos movimentos das
funcionários e aos alunos e suas famílias, por minorias sejam a origem e o germe a partir do
pessoal especializado no ensino de crianças qual ocorrerá o crescimento e amadurecimento
com diferentes deficiências e dificuldades de social. Assim como o ser humano necessita de
aprendizagem. É, sem dúvida, fundamental um tempo e de um ambiente que facilite seu
a discussão e o esclarecimento de situações processo de amadurecimento que o conduzirá
peculiares que podem ocorrer com esses ao concern e à responsabilidade para com o
alunos. Desde aquelas aparentemente simples outro, a sociedade também precisa de um tempo
até aquelas que exigem profundo conheci- para modificar seus princípios e valores e de
mento especializado. Por exemplo, pode ser movimentos que favoreçam o desenvolvimento
necessária orientação à professora comum social.
sobre a colocação em sala de aula do aluno Nesse processo a escola tem um papel
com baixa visão, ou se deve ou não carregar a fundamental, ela é a transmissora e transfor-
máquina Braille do aluno cego, ou se deve ou madora dos valores sociais. Quando a escola
não amarrar o sapato da Maria, que tem uma tornar-se verdadeiramente Inclusiva/Integrada,
deficiência mental, ou ainda informações sobre aquela que inclui e, portanto, compreende ou
como se comunicar com um aluno surdo. busca compreender todos os seus alunos,
Enfim, como a professora deve agir e assegurando a todos a oportunidade de se
desenvolver procedimentos em sala de aula sentirem parte integrante e constituinte da mes-
que possam vir beneficiar essas crianças, e ma, pode-se vislumbrar uma Cultura do Concern
fazer com que elas possam aprender com aquela em que haverá uma genuína preocu-
sucesso; pação com o outro e um desejo de que ele possa
4) Além das técnicas e conceitos, é necessário se constituir e se desenvolver plenamente, sendo
que se ofereça também, ao pessoal da escola, aquilo que ele é no mais profundo de seu ser.
condições fundamentais para que possam, Esse processo não é simples, como se vê a
dentro das possibilidades, mudarem suas inclusão depende de uma cultura do concern e
atitudes em relação aos alunos com deficiência essa depende de uma Escola Inclusiva. Essa
e possam vir a ajudar todo corpo discente da meta só será alcançada quando todos acredi-
escola a aceitar a diversidade que compõe uma tarem realmente nesses novos valores. A dife-
comunidade verdadeiramente integrada. rença, portanto, está nas mãos daqueles que,
adiante do seu tempo, ajudam a mover a roda
PERSPECTIVAS PARA O FUTURO do tempo e a promover as mudanças sociais. O
Alcançar a experiência de viver em uma desenvolvimento desse processo permitirá que
sociedade que tenha desenvolvido uma se possa experimentar, então, o verdadeiro
verdadeira Cultura do Concern parece ser um sentido do termo democracia como proposto por
desejo almejado por todos. Winnicott11.

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SUMMARY
Demystifyng inclusion

After reflections about the inclusion – which must be not considered as


an exclusive disability people policy, or an educational area restricted
question – this so called “new educational paradigm” was discussed and
compared to the traditional disability students integration policy. The
discussion generated a larger social context analysis. Considering the Guilt
Culture and the Shame Culture proposed by Ruth Benedict and the Concern
Culture, addicted by Davi Bogomoletz, the inclusion concept was analyzed,
its historical trends were pointed out, as well its prospective.

KEY WORDS: Education, special. Deficiency. Psychoanalysis.

REFERÊNCIAS adolescente. São Bernardo do Campo:


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Trabalho realizado no LIDE- Laboratório Interunidades Artigo recebido: 01/10/2004


para o Estudo das Deficiências/IPUSP. Aprovado: 16/02/2005

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