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Comércio Internacional e Distribuição de Rendas:

O Modelo de Fatores Específicos


Carlos A. Cinquetti

Cristina Terra
1 Introdução

2 O Modelo de Fatores Específicos

2.1 Produção setorial

Nossa economia hipotética tem dois setores produtivos, A e M, cuja produção envolve um fator

específico em cada, como expresso nas respectivas funções de produção abaixo:

QA = QA (T, LA ) (1)

Q M = Q M (K, L M ) (2)

Trata-se de uma hipótese extrema, supor que terra (T ) concorra apenas para a produção de
A, enquanto capital (K) apenas para M, que visa facilitar nossa análise posterior em torno
das rendas e da redistribuição das mesmas por mudanças nos preços dos produtos, ou outras

quaisquer.
Com oferta perfeitamente inelástica, os fatores específicos T e K estariam plenamente em-
pregados, numa quantidade fixa, da mínima à máxima quantidade produzida dos respectivos
produtos. Consequentemente, o retorno do trabalho, cujo emprego regula a maior ou menor
oferta de cada bem, será positiva, mas marginalmente declinante. Isto é, ∂Qi /∂Li = PMgLi > 0,
mas ∂2 Qi /∂Li2 = ∂PmgLi /∂Li < 0, para qualquer setor i = A, M: .

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2.2 Conjunto de possibilidades de produção

Junto com tecnologia, as possibilidades de produção desses dois bens na economia é definida
pela condição de mercado de trabalho compensado (oferta igual a demanda):

L = LA + L M = aLA QA + aLM Q M . (3)

A segunda igualdade acima é uma simples decomposição da demanda de trabalho em cada


setor, como feito no capítulo anterior, com a diferença que, agora os coeficientes técnicos de

trabalho/produto não mais seriam constante, como explicado acima.


Se as firmas estão empregando a tecnologia ótima, (3) impõe que aumentos na produção
de um bem só pode ser logrado subtraindo trabalho aplicado no outro; o custo oportunidade

do bem. Para o bem M é o quanto de QA será renunciado para aumentar em uma unidade a

produção de Q M . Mais precisamente, quando tomamos a função de transformação T (QA , Q M )

para um dado nível de recursos (fatores) produtivos e tecnologias, a relação implícita entre Q M

e Q M é obtida da diferencial total:

∂T ∂T
dT = dQA + dQ M = 0,
∂QA ∂Q M

que é igual a zero pois para os Q M e Q M ótimos T (QA , Q M ) = 0; tem valor constante. A taxa
marginal de transformação (TMT) é então:

dQA ∂T/∂Q M PMgA


=− = (4)
dQ M ∂T/∂QA PmgL M

Como as derivadas parciais à direita variam com as quantidades QA e Q M , então o custo oportu-
nidade, como dado pela TMT, será variável para os diferentes mix de produtos, de acordo com
a última igualdade à direita em (4). Mais precisamente, à medida em que mais M for produzida
a cadente PMgL M elevaria o custo oportunidade de M – maior perda de A – de modo que a
fronteira de possibilidades de produção, o contorno superior de T (QA , Q M ), será côncavo, como

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ilustrado na figura abaixo.

Note que à direita em (4) não temos a variação marginal de cada produto, mas o inverso
disto, a variação da T (QA , Q M ), daí serem dadas pelo inverso inverso da produtividade marginal
do trabalho em cada setor, o que nos leva a última igualdade à direita em (4). Com tal forma
côncava do custo oportunidade, ou da TMT, um equilíbrio como dado no ponto 1 da FPP só
mudaria para o ponto 2, com maior custo oportunidade para o bem M se as preferências dos
consumidores mudarem no sentido a uma maior apreciação do bem M, como indicado pelas
duas curvas de indiferença da comunidade nos pontos 1 e 2.
Os preços relativos que definem os equilíbrios em 1 e 2 também podem mudar por outra
circunstância que não preferências, como veremos adiante aos avançarmos para um mundo com

dois países que comercializam entre si. Qualquer que for o caso é que neste mundo em que não

temos um custo oportunidade fixo, como tínhamos no modelo Ricardiano, mudanças nos preços
de mercado dos bens não levarão a um equilíbrio de canto, com todos recursos orientados para

um só setor.

2.3 Mercado de bens e Mercado de fatores

Já sabemos, então, como os preços dos produtos conforme mudem as quantidades produzidas

dos bens. Nosso alvo final é ver a conexão disto com mudanças nos preços dos fatores, e assim
a redistriuição de rendas entre eles. Trata-se, a princípio, de algo bem direto pois as mudanças

nos mix de produtos implicam em mudanças derivadas na demanda de fatores das firmas de
cada setor.
Como os fatores específicos K e T estão plenamente empregues desde o início, apenas o
mercado do fator trabalho nos permite traçar esta conexão entre produção das firmas e demanda
dos fatores. Tomando o setor M por ilustração, sabemos que a demanda das firmas por L viria
do problema:

max π M = p M Q M (K, L) − (w.L M + r.K)


LM

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Como π M é côncava, o ótimo vem da CPO que nos leva a:

p M PMgL M = w M . (5)

O que significa que a demanda por trabalho vai até o ponto em que o valor do produto marginal
do trabalho se iguale ao seu preço, w M . Como o mesmo se aplica ao setor A, teremos:

pA PMgLA = wA (6)

No equilíbrio, w M = wA = w. Assim, igualando (5) e (6), teremos:

pM PMgLA
− =− . (7)
pA PMgL M

O sinal menos foi introduzido após multiplicação por (-) do resultado final. Note que (7) serve

de prova da última igualdade em (4), embora o mais importante aqui seja a própria conexão

entre preços dos bens e dos fatores. Em realidade, (5) e (6) nos dão melhor pista para uma
representação de tal relação. Aqui devemos seguir a figura () de Krugman & Obstfeld (2008),

com o seguinte ajuste: o aumento em p M seria concomitante a queda em pA , de modo que o

deslocamento para cima da curva de demanda por trabalho no setor M viria junto de propor-

cional queda na curva de demanda por LA , como exposto em sala de aula (ver a correspondente
figura). Com efeito, ∆w = 0. Não obstante, teríamos o mesmo ordenamento das mudanças:

∆p M > ∆w = 0 > ∆pA .


Nossa questão é saber qual seria, neste contexto, a correspondente mudança relativa das
rendas (w, r, R). Para tanto, faremos um desenvolvimento algebraico em cima dos preços dos
bens:

p M = aLM w + aK r (8)

pA = aLA w + aT R. (9)

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Supondo mudanças marginais nos preços (de bens e fatores), é possível admitir que as tecnolo-

gias se mantenham constantes, o que nos leva a:

d p M = aLM dw + aK dr (10)

d pA = aLA dw + aT dR. (11)

Divindo cada equação pelo preço do respectivo produto e multiplicando e divindo, em cada
termo, a correspondente renda teremos:

p̂ M = θLM ŵ + θK r̂ (12)

p̂A = θLA ŵ + θT R̂. (13)

Ou seja a taxa de mudança no preço de cada pode ser decomposta como uma média ponderada

da taxa de mudança no preço dos fatores multiplicada pela respectiva porção dos mesmos no

valor do produto.
Aplicando (12) ao exemplo anterior, onde ŵ = 0, p M > 0 e pA < 0, teremos:

r̂ = pˆM /θK > 0

R̂ = pˆA /θT < 0

Ou seja, a mudança relativa nas rendas será: ∆r > ∆w = 0 > ∆R. Isto é, os proprietários de
capital ganham, enquanto os de terra perdem. Fechamos, então, o nexo entre preços dos bens e

preços dos fatores.

3 Padrão de comércio, termos de troca e tamanho dos países

Como aumento no tamanho de EUA corresponde a uma queda no tamanho relativo da outra
economia, segue que os ganhos de comércio pelas mudanças nos preços relativos dos bens,
seriam menores para os países grandes e maiores para os pequenos. Alguns países pequenos,

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como Suiça, países baixos e Coréia do Sul, são belo exemplo desta verdade, como pode ser

observada no alto volume de comércio internacional no PIB total dos mesmos.