Você está na página 1de 23

I

INTRODUÇÃO
AO VOCABULÁRIO
DO PARENTESCO

lJ

'1
- ~~----~---~ -~--~--~-- ~ ~~ ~ ~ ~ ~ ~ = ===3====~~~.~---- ~ .~- ~--- ~ ~=-·· =· =· =·· =-=~;
FILIAÇÃO, CONSANGUINIDADE,
ALIANÇAS MATRIMONIAIS

Parentesco e filiação

Dois indivíduos são parentes se um descende do outro (laços


de filiação directa) ou se ambos descendem ou afinnam descender
de um (ou de uma) antepassado(a) comum. Neste caso, o paren- .
tesco entre os dois indivíduos - quer seja real (quer dizer, que o
laço social que estabelece assenta num laço biológico de consan-
guinidade) ou fictício (dizem-se parentes, consideram-se e compor-
tam-se como tal mesmo se, de facto, nenhum laço de consanguini-
dade existe entre um e outro) - é determinado pelo facto de pro-
virem - ou afirmarem provir - de uma mesma filiação . Assim
sendo, esta pode ser real (se existe um ascendente a paitir do qual
se estabelece uma linha genealógica inintemtpta) ou mais ou menos
fictícia (como é o caso dos descendentes de escravos ou de prisio-
neiros de guerra que são considerados como filhos ou filhas no
grupo de parentesco que comprou ou capturou os pais, tomando
lugar na genealogia deste grupo; um outro exemplo possível entre
tantos é o de uma família de origem estrangeira acolhida e depois,
ao fim de um certo número de gerações, assimilada «em bloco»
pelo grupo de parentesco no qual se instalou; todos os seus mem-
Os textos desta primeira parte foram redi g idos por Michel Aghassian, Nicole bros se consideram como tendo a mesma filiação que o grupo que
Grandin e Alain Marie. Reproduzem o esse~cial de uma obra preparada par_a ~s os acolheu e serão tratados como autênticos descendentes do
estudantes do ciclo de formação para a Africa Negra (FAN). A expos_1çao antepassado deste último). Finalmente, afiliação, a um certo nível,
introdutória, Filiação, consanguinidade, alianças matrimoniais, é da autona de pode ser mítica e existir apenas na consciência dos homens, mas
Alain Marie.
13
o3
isso é o essencial na medida em que determina e exprime um biológico. Se o parentesco fosse considerado no seu sentido bioló-
certo tipo de comportamento efectivo: por exemplo, entre todos gico, cada indivíduo teria, efectivamente, um número muito elevado
aqueles que de perto ou de longe afirmam compartilhar a mesma de parentes; remontando ao passado, o número de parentes dupli-
filiação existem formas de solidariedade ( entreajuda, cooperação caria em cada geração (2 pais, 4 avós, 8 bisavós, etc.) e todos
ritual, etc.), mais ou menos institucionalizadas, que constituem outros aqueles que descendessem de um ramo ou de outro de qualquer
tantos factos sociais, observáveis por quem está de fora e que são destes múltiplos pares de avós seriam, portanto, parentes em graus
testemunho da realidade objectiva de um conjunto composto de diversos. No fundo, e desde que se rebuscasse suficientemente
indivíduos e de grupos que podem não ser biologicamente aparen- longe, todos os membros de uma dada sociedade (sobretudo quando
tados, mas que nem por isso deixam de constituir uma sociedade pequenas) seriam, pois, parentes. Assim diluído, indiferenciado e
estruturada com base no modelo e expressa na linguagem do paren- generalizado, o parentesco não poderia ser uma base de classifi-
tesco. É o caso, frequente em África, das sociedades de clãs e de cação dos indivíduos no seio de grupos de parentesco diferentes e
linhagem: todos os membros do clã reconhecem a existência de até opostos e, consequentemente, não poderia ser um princípio de
um mesmo antepassado mítico, mas são incapazes de reconstituir organização social. Para que o parentesco possa, portanto, ser um
uma linha genealógica precisa; esta interrompe-se no antepassado princípio lógico de classificação ( de uns indivíduos em relação aos
conhecido e nomeado da linhagem, o qual é então considerado outros no seio de cada grupo de parentesco, dos grupos de
como um descendente do antepassado mítico; os antepassados da parentesco em relação aos outros no seio de cada sociedade) é
linhagem são, pois, considerados como «irmãos», uma vez que necessário que nem todos os consanguíneos sejam reconhecidos
provêm todos de uma mesmafiliação (são filhos, netos, ou simples- como tal; que certas categorias destes sejam excluídas do paren-
mente descendentes do antepassado mítico), e, consequentemente, tesco: quer porque se considere apenas uma linha de ascendência
as próprias linhagens são aparentadas. Este parentesco entre linha- com exclusão das outras (filiação unilinear em linha paterna ou
gens pode ser real ( clã homogéneo), mas a maior parte das vezes materna), quer porque se considerem as duas linhas, mas atribuindo-
é ideológico: linhagens estranhas (por exemplo, depois duma seces- -lhes funções distintas (dupla filiação unilinear), quer, enfim,
são) podem ser assimiladas por outro clã. Outro caso frequente é porque se reconhece ao mesmo tempo o parentesco do lado paterno
o de linhagens de diferentes origens clãnicas que se reagrupam e do lado matemo (filiação indiferenciada ou bilateral ou, então,
em consequência de movimentos migratórios, constituindo um novo cognática), tratando-os de modo idêntico ( o que distingue a filiação
clã, variado aos olhos do observador, mas que se apresenta como bilateral da dupla filiação unilinear), mas, neste caso, o parentesco
o conjunto dos descendentes de um mesmo antepassado mítico. já não tem uma função claramente distintiva e os grupos sociais já
Constituem, assim, um grupo ciânico (que o sociólogo poderá deno- não se definem em função de uma filiação específica mas em
minar «heterogéneo» pela sua composição de linhagem), que função de outros critérios que não os do parentesco: comunidade
funciona e se manifesta de forma idêntica à de um clã homogéneo. de residência, de posse da terra ou de funcionamento socioeconó-
mico, por exemplo.
Parentesco e consanguinidade Em África, o princípio mais generalizado é o da filiação uni-
linear: privilegia-se uma única linha. Se for a do pai, o parentesco
O parentesco é, pois, uma relação social; nunca coincide com- transmite-se entre os homens, de pai para filho, «perdendo-se»
pletamente com a consanguinidade, quer di zer, com o parentesco nas mulheres; se for a da mãe, o parentesco transmite-se entre as

14 15

of
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

mulheres, de mãe para filha, «perdendo-se» nos homens (neste ração), e as relações, diferentes das primeiras, que ligam «o nosso
caso, um filho não faz parte do grupo de parentesco do pai, mas grupo» a outros grupos do mesmo género (relações de alianças
provém do da mãe e do im1ão desta). matrimoniais» (Critique de l 'anthropologie, p. 44). Pode, contudo,
Num e noutro caso, por conseguinte, cerca de metade dos con- perguntar-se se não basta falar de sociedade de predominância
sanguíneos (os descendentes das mulheres em sistema patrili- unilinear (patrilinear ou matrilinear) e verificar, perante cada caso
near; os provenientes dos homens em sistema matrilinear), sem concreto, os direitos e deveres que as relações de parentesco esta-
ser ignorada, não preside à constituição e à organização de grupos belecem com o ramo não predominante (paterno ou matemo).
de parentesco permanentes.
Convém notar, no entanto, que não existe filiação uni linear pura: Parentesco e alianças matrimoniais
todas as sociedades admitem em certo modo o parentesco nas
duas linhas; mas, em regime de filiação uni linear, a tónica é posta Enquanto os anglo-saxões distinguem os parentes por filiação
numa das duas linhas, de modo que, neste aspecto, a extensão do (kins) dos parentes por casamento ou por alianças matrimoniais
parentesco é muito mais importante: há um maior número de (affines), os franceses, pelo contrário, utilizam unicamente o termo
parentes que são reconhecidos como tal, porque o parentesco «parentes», não esclarecendo de qual das duas categorias se trata.
transmite-se de geração em geração, ao passo que do outro lado É, de facto, evidente que não se pode separar a filiação das alianças
vai caindo no esquecimento. No entanto, os parentes do lado matrimoniais. C. Lévi-Strauss, especialmente, demonstrou que o
materno (num sistema patrilinear) ou os parentes do lado paterno parentesco constitui um sistema organizado em redor de uma
(num sistema matrilinear), embora não constituam um grupo em «estrutura mínima» ou «átomo de parentesco», de que as alianças
si, não deixam de desempenhar um papel importante nas relações matrimoniais são, do mesmo modo que a filiação, um dado imediato.
entre os grupos de filiação unilinear (as suas relações não são Com efeito, todas as sociedades conhecem a proibição do incesto.
apenas interindividuais, mas, por seu intermédio, relações entre Esta proibição não é mais do que o inverso negativo de uma exi-
grupos). O parentesco do lado não predominante influi, além disso, gência positiva, de uma prescrição universal: é preciso procurar
no estatuto dos indivíduos (herança de bens, transmissão de funções, mulheres fora do grupo dos parentes.
ou, ainda, valorização ou desvalorização do estatuto dos filhos, em A obrigação de procurar o cônjuge fora do grupo de filiação
função do estatuto do cônjuge que não transmite o parentesco). o
(exogamia) torna, port;mto, indispensável estabelecimento de
Alguns autores preferem, nestas condições, falar de sociedade relações de parentesco através de alianças matrimoniais com outros
«com predominância patrilinearn ou de sociedade «com predomi- grupos de diferente filiação. Como frisa C. Lévi-Strauss (cf. An-
nância matrilinear». E. Leach, por seu lado, considerando igual- thropologie structurale, cap. II), a proibição do incesto «significa
mente a oposição patrilinearidade/matrilinearidade demasiado rígida que, na sociedade humana, um homem não pode obter uma mulher
e o termo «filiação» demasiado preciso e limitativo, propõe uma senão doutro homem que lhe cede uma filha ou uma innã» (p. 56).
conceptualização mais geral definida pelo confronto entre as rela- O parentesco por alianças matrimoniais é, portanto, um elemento
ções de incorporação e as relações de alianças matrimoniais: exterior que se enxerta no parentesco propriamente dito. É parte
«Em todo o sistema de parentesco e de casamento há uma oposição integrante do que se chama, geralmente, sistema de parentesco
ideológica fundamental entre as relações que garantem a um ou, se se quiser recorrer à perspectiva estrutural delineada por C.
indivíduo a pertença a um grupo, a um «nós» (relações de incorpo- Lévi-Strauss, «sistema de parentesco-alianças», entendendo-se

16 17
JJV J l\VVVyl'iV l'iV VUL,/-JD UL/-JJUV UU rl'!J(CJV 1 C;)L,U

que, sempre que se fala de «parentesco» em geral, se incluem social, por um lado, e, por outro, modelos e princípios de inter-
tanto as relações de filiação (relativas a um ascendente comum), pretação aos teóricos autóctones, assim como ao investigador. Quer
como as relações de alianças matrimoniais (geradas pela necessi- dizer, há interesse em se dedicar à análise do sistema de parentesco
dade de casamento fora do grupo de fí li ação). Por outras palavras, sob um triplo aspecto: como expressão directa de determinadas
um grupo de filiação não pode existir e perpetuar-se a menos que relações sociais (em especial, as relações entre parentes), como
entre em alianças matrimoniais com outros grupos de filiação que modo de expressão metafórica de relações sociais {por exemplo,
lhe forneçam as reprodutoras (as esposas). Neste sentido, o paren- políticas) directamente decalcadas sobre as relações de parentesco,
tesco, na acepção estrita do termo (laços de filiação), é função do como modo de formulação e de interpretação ideológica mais ou
parentesco por alianças matrimoniais. menos consciente de relações cuja natureza real nem sempre cor-
Analisando-os sob este ponto de vista, compreende-se toda a responde à linguagem (utilizada) para as descrever e explicar (por
importância dos sistemas de parentesco, sobretudo nas sociedades exemplo, relações de produção).
de dimensões limitadas, no seio das quais a organização social e Em suma, o parentesco não é apenas um princípio de classi-
política e a organização de parentesco têm tendência a coincidir, e ficação e de organização, é também um código, uma linguagem
onde, por conseguinte, a trama das relações entre grupos que mais ou menos ideológica e mais ou menos manipulada. É, pois,
constituem o arcaboiço da sociedade global é, essencialmente, uma chave para a interpretação de todas as sociedades (mesmo
formada pelas relações de parentesco-alianças (1). Para simplificar as sociedades com Estado) em que o parentesco não se reduz à
ao máximo, pode dizer-se que afiliação é o princípio de constituição família conjugal, mas preside, totalmente ou em parte, à formação
e de organização interna de cada grupo de parentesco, enquanto de grupos sociais e à organização das relações entre os mesmos.
as alianças (o parentesco por alianças matrimoniais) são o princípio Mas é uma chave que convém manejar com precaução: consi-
da organização das relações externas entre os diferentes grupos, derando as suas múltiplas possibilidades e não esquecendo, em
constrangidos a estabelecer relações necessárias de _troca matri- particular, que a linguagem do parentesco pode mentir. É preciso,
monial por força da exogamia. portanto, confrontar de cada vez o estudo do parentesco com a
Nestas condições, é fácil compreender que «os laços estabe- análise das situações concretas nas quais o parentesco ( o seu
lecidos sobre a dupla noção parentesco-alianças são os laços- vocabulário, bem como as atitudes mais ou menos convencionais
-tipo e fornecem modelos para a interpretação de todas as relações que prescreve) está implicado.
sociais» (2) (P. Mercier). Parentesco por filiação e parentesco por
alianças matrimoniais fornecem, pois, modelos, princípios de
organização e de expressão simbólica aos participantes na vida

(1) Ou por relações que «pedem emprestado» 'às relações de parentesco cer-
tos princípios da sua organização, do seu funcionamento e da sua. expressão
linguística e ideológica.
(2) Exemplo deste tipo de transposição são os aliados (no sentido político do
tenno) que se tratam mutuamente por netos e como netos (relações de familiaridade
e troça). Um outro exemplo clássico é a «fraternidade» simbólica inaugurada por
um juramento ou por um ritual de troca de sangues.

18 19

oi)
FILIAÇÃO E INCORPORAÇÃO

Filiação

Princípio que governa a transmissão do parentesco (3): entre


dois indivíduos há um laço de filiação quando um descende do
outro (filiação directa) ou quando um e outro descendem - ou
afirmam descender(4) de um mesmo ascend~nte (filiação comum).
Filiação e consanguinidade. A filiação é uma convenção so-
cial; a consanguinidade é uma noção biológica: qualquer que seja
o princípio que presida à transmissão do parentesco social (quer
dizer, o que é reconhecido pela sociedade e que atribui a cada um
um estatuto, assim como uma posição específica no seio do grupo
social), são consanguíneos todos os indivíduos que possam ser
considerados como «parentes» no sentido biológico, seja qual for
o grau. Filiação e consanguinidade são, pois, duas noções
distintas e diferenciadas em todas as sociedades: por exemplo,
nas sociedades em que o parentesco se transmite unicamente por
via masculina (filiação patrilinear), entre um homem e o filho da
sua irmã ( ou o filho da sua filha) há um laço de consanguinidade

(3) A distinguir da herança: princípio que governa a transmissão dos bens; e


da sucessão: princípio que governa a transmissão das funções. Nas sociedades em
que o parentesco coincide com a organização social, a herança e a sucessão são
geralmente função da filiação; e tendem a seguir a mesma linha que ela.
(4) Os indivíduos adoptados, os descendentes de escravos ou de cativos e os
grupos estranhos assimilados são considerados como pe1tencendo à mesma filiação
do grupo que os acolhe.

21
r '-'....._.,.t.&.&..J'-".LJJJ..ILI\,../ .1..../~ 1..L.l.fl...L..J.tT..1....1.....JU'--''-"

mas não um laço de filiação - um e outro pertencem a dois grupos


transmitido tanto pelo pai como pela mãe. Por outras palavras, a
de parentesco diferentes -; nas sociedades em que o parentesco
filiação cognática reconhece o parentesco de ambos os lados, pelo
se transmite por via uterina (filiação matrilinear) há um laço de
consanguinidade entre o pai e o filho, mas este faz parte do gru- que se fala igualmente de filiação bilateral. E~ ~ri,n~ípi~, Ato~o o
indivíduo tem direitos e obrigações, deveres e pnv1leg1os 1denttcos
po de parentesco da mãe - o laço de filiação (social) é entre a
para com os seus parentes matemos e paternos.
mãe e o filho, entre o irmão da mãe (tio materno) e o filho desta
Dupla filiação unilinear (double descent): fala-se de dupla
(sobrinho uterino), mas não entre o filho e o pai (no fim de contas,
filiação unilinear ou, para alguns autores, de filiação bilinear (não
este só é considerado como progenitor). Em Antropologia há, pois,
confundir com filiação bilateral; cf.jiliaçâo cognática) «quando
todo o interesse em reservar os termos de parentesco e filiação
duas filiações unilaterais se justapõem, cada uma regendo, com
para o seu uso social exacto, deixando de falar de «parentesco
exclusão da outra, a transmissão de determinados direitos» (D.
consanguíneo» ou de «consanguíneos» se se trata de considerar
Paulme). Por exemplo, entre os Ashanti do Gana herda-se do ntoro
parentes que não entram em nenhuma categoria socialmente defi-
(«espírito») do pai, mas pertence-se ao clã (abusua/ da mãe,_ um~
nida (além disso, é preciso ter presente que algumas línguas afri-
vez que se herda o «sangue» (mogya) mate1'.1o; alem do ma1_s, so
canas dispõem de um termo para os parentes afastados, aos quais
os abusua (matriclãs ou matrilinhagens) constituem grup?s r~s,1den-
se não reconhece nenhum láço de parentesco social definido, mas
que se consideram como consanguíneos). ciais que dominam a distribuição das terras, enquanto os md1v1duos
descendentes dum mesmo ntoro estão dispersos através de todo
Filiação unilinear ou unilaterat- o parentesco (a pertença a
0 país. Por outro lado, um homem e uma mulher do mesmo ntoro
um grupo de parentesco) só é transmitido aos filhos de um casal
podem casar-se se não conseguem dete~inar a sua ~omum ascen-
legítimo por um dos pais (no sentido estrito do inglês parents, quer
dência patrilateral (para lá de quatro ou cmco geraçoes), enquanto
dizer, o pai e a mãe), com exclusão do outro. Quando o pai transmite
não se podem casar os parentes do mesmo abusua. ,
o parentesco, a filiação é patrilinear; quando é a mãe que o trans-
mite, a filiação é matrilinear. Entre os Yako da Nigéria, «o grupo paterno, kepun, esta
localizado; pais e filhos habitam com as suas mulher~s num m~smo
Filiação matrilinear ou uterina: os filhos fazem parte do grupo
aglomerado; o grupo matemo, lejima, está disperso: t10s e_sobnnh?s
de parentesco da mãe (filiação matrilinear), o que significa que só
uterinos vivem, cada um,junto do seu gmpo paterno. O pat transmite
as mulheres transmitem o parentesco (filiação uterina). (Assim,
ao filho as suas terras cultiváveis, mas o gado e o dinheiro vão
os filhos de um homem não fazem parte do seu parentesco mas do
da sua esposa.) para o filho da sua irmã: «come-se no kepun e her~~-.se no_lejima»,
segundo diz o provérbio. «O grnpo paterno ya~o e estntam~~te
Filiação patrilinear ou agnática: os filhos fazem parte do
exogâmico; o grupo uterino é-o em menor grau, amda que as urnoes
grupo de parentesco do pai (filiação patrilinear), o que significa
entre descendentes matemos muito próximos sejam reprovadas»
que só os homens transmitem o parentesco (filiação agnática).
(Portanto, os filhos de i.;ma mulher não fazem parte do seu paren- (D. Paulme, segundo Daryll Ford). Entre.os !'sha~t~ e os Y~ko, a
tesco mas do do seu marido.) situação é de certo modo inversa: duas fihaçoes urnlmeares~u~ta-
põem-se, mas nos Ashanti é a materna que parece ser a mais im-
Filiação cognática: por oposição à filiação uni linear, ou filiação
portante, enquanto nos Yakõ é a paterna.
diferenciada, uma vez que há duas linhas distintas, a filiação
cognática é uma filiação indiferenciada, pois o parentesco é

22
23
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

Grupos de filiação e o grupo está dotado de uma organização sócio-política mínima


(entre os membros masculinos, alguns indivíduos dispõem de um
Fala-se de grupos de filiação quando já não se considera a
poder de decisão, por exemplo o conselho dos anciãos). O grupo
filiação simplesmente como um princípio de classificação dos
de filiação distingue-se, pois, da unidade de filiação pelo facto
indivíduos (distinção entre parentes e não parentes) mas como o
de ser um grupo organizado ao nível do qual se toma um certo nú-
efeito concreto da aplicação deste princípio: a constituição de grupos
mero de decisões (políticas, religiosas ou matrimoniais): segundo a
sociais organizados, cujos membros pretendem ter todos um mesmo
terminologia anglo-saxónica (Goody), pode definir-se como «a
ascendente. Estes grupos de filiação unilinear (5) (clãs, linhagens,
decision making organised group» (grupo organizado de tomada
segmentos de linhagem ... ) podem ser patrilineares ou matrilineares
de decisões) ou, ainda, como «a corporate descent group», geral-
ou, em sistema de dupla filiação unilinear, patrilineares e matri-
mente traduzido por grupo unitário ou grupo solidário de filiação.
lineares.
No mesmo sentido, E. Leach propõe distinguir a linha de filiação
Grupo solidário de filiação. Alguns autores anglo-saxónicos (descent fine) do grupo de filiação local (local descent group);
fazem uma distinção entre unidades de filiação (descent units) este último manifesta-se especialmente como grupo de residência
e grupos de filiação (descent groups) - sendo a expressão «gru- e grupo «promotor de casamentos», enquanto a linha de filiação
pos de filiação» reservada «às unidades de filiação e aos segmentos deixa de ser localizada e não constitui um grupo unitário: «Num
destas que se inserem como um todo nas actividades em função sistema de filiação definido unilinearmente, quando um clã ou uma
das quais as decisões devem ser tomadas de tempos a tempos e linhagem remota, por uma ou outra razão, deixa de ser um grupo
nas quais nem todos os membros masculinos adultos possuem igual localizado, deixa geralmente também de constituir uma unidade
autoridade». Por outras palavras, uma unidade de filiação pode solidária no que respeita à contratação de um casamento. O grupo
ser apenas uma entidade abstracta, susceptível de ser reconstruída solidário que prepara um casamento é sempre, nessas circunstân-
a partir do método genealógico, ou simplesmente, e em regra, uma cias, um grupo de homens pertencentes à mesma linhagem ou ao
entidade cuja existência pode ser reconhecida pelo facto de um mesmo clã, que compartilham o mesmo lugar de residência» (Cri-
certo número de grupos afirmarem ter a sua origem remota no tique de l'anthropologie, pp. 100-101).
mesmo antepassado. Mas esta unidade não se manifesta nunca Em certos casos, o clã pode manifestar-se como grupo unitário
«na prática»; só existe na consciência das pessoas. Pelo contrário, permanente: domina um território contínuo e as diferentes unidades
reconhece-se um «grupo de filiação» porque este se manifesta, que o compõem (linhagens, segmentos de linhagem, etc.) formam
pelo menos de vez em quando, como um todo em acção; a este ní- um sistema de grupos fechados, unificado sob a autoridade política
vel, tomam-se decisões que obrigam a totalidade dos seus membros, e ritual de um chefe de clã ou de um conselho de anciãos do clã;
além disso, os conflitos que opõem grupos com o mesmo nível
(5) Em caso de filiação cognática (ou de filiação indiferenciada), não existe o nesta organização piramidal são solucionados no nível imediata-
grupo de filiação propriamente dito; nestas condições, fala-se, de preferência, de mente superior, manifestando-se a mais alta instância ao nível do
«grupo de parentesco cognático» ou, simplesmente, de «grupo de parentesco», clã ( os litígios entre linhagens são levados ao conselho dos anciãos
entendendo-se que convirá determinar, em cada caso concreto, o conteúdo par-
ticular da noção (a composição do grupo) e os princípios que presidem à consti-
do clã). Mas, muitas vezes, o clã só se manifesta como grupo uni-
tuição e ao funcionamento do grupo. Reservar-se-á, pois, a expressão «grupo de tário, de modo fortuito e ocasional (por exemplo: em caso de guerra,
filiação» para os grupos de parentesco unilinear. as linhagens podem invocar a sua comunidade de ascendência

24 25
para constituir uma aliança; por ocasião de certas cerimónias anuais
capazes de descrever as ligações genealógicas que os ligam uns
u~a_cooperação ~itual restabelece por algum tempo a solidariedad~
aos outros de forma a remontar ao antepassado por uma linha ge-
clamca ~ntre as linhagens, que, durante o resto do ano, agem como
nealógica ininterrupta (mencionando todos os graus intennédios).
grupos mdependentes uns dos otitros). Enfim, o clã pode reduzir-
O termo linhagem pode ser considerado como um conceito
-se ª~:na~ a uma unidade de filiação, que só tem existência na genérico: conforme as sociedades, ou mesmo no seio de uma dada
cons~1enc1a dos homens, mas que nunca se actualiza como uma
sociedade, grupos de extensão ou de funcionamento diferente
totalidade c~ncreta; um certo número de grupos unitários (por
podem ser considerados como linhagens. Porque todos têm em
exe1_nplo, as lm~agens) reconhece um parentesco ciânico longínquo
comum o facto de se comporem de indivíduos ou de subgrupos
e m1t1co, ~as nao o usa como um princípio que permita, eventual-
relacionados com um antepassado conhecido e nomeado (que pode
mente, agir em comum. Quando muito, evitarão, entre linhagens
ainda ser definido como antepassado histórico por oposição ao an-
«apa~entadas:>, entrar em guerra aberta (o que não exclui alguns
conflitos, mais ou menos controlados). tepassado mítico e lendário do clã). Enquanto conceito, «linhagem»
significa, pois, mais um princípio de organização ~o que u~ grupo
Em res~mo; a unidade de filiação pode nunca actualizar-se (a
concreto precisamente definido: pode haver diversos tipos de
~m certo mvel, por exemplo o clã, a linhagem máxima ou mesmo a
grupos organizados na base do princípio da linhagem (daí a utilização
lmhagem ~a~or) ou actualizar-se apenas em certas ocasiões (rituais,
frequente da noção de «grupo de linhagem» para designar outros
f~stas e act1v1dades político-guerreiras, político-judiciárias ... ) ou,
grupos para além do grupo concreto a que se convencionou cham~r
amd:, e~tar ~ctualizada de maneira permanente. No primeiro caso,
«linhagem» no seio de determinada sociedade, mas que são consti-
ela nao e mais «que um quadro de referência» sem conteúdo con-
tuídos da mesma maneira).
creto; no segundo, assume a forma de um grupo unitário (ou grupo
Linhagem e organização de linhagem. Assim sendo, pode
em acto~ de carácter ocasional, cujos membros estão frequente-
contrapor-se as «linhagens concretas», directamente obse1:áveis
mente d1s~ersos, ma~ que mantêm a sua relação de pertença à
no terreno, às «linhagens mais vastas, que não podem ser d1recta-
me~m_a umdade de filiação no momento das reuniões ocasionais;
mente observáveis por não constituírem formas concretas de grupo»
no ultimo caso, ela constitui um grupo unitário e solidário perma-
mas que «podem voltar a ter significado e vida em determinadas
n~nte, q~e _se revela como tal de maneira regular e intervém na
vida quotidiana. situações» (P. Mercier). Evans-Pritchard distingue, deste ?1~do,
quatro tipos de linhagens: a máxima, a maior, a menor e a mm1ma,
Linhagem sendo só esta última uma forma concreta de agrupamento ou de
grupo solidário permanente. .·
Gmpo de filiação unilinear em que todos os membros se consi- Mas, quando duas ou mais linhagens mínimas cooperam,
deram como descendentes, quer em linha agnática (patrilinha- deixam de se referir ao seu antepassado particular (em função do
gem), quer em linha u~erina (matrilinhagem), de um(a) antepas- qual se opõem umas às outras, ou pelo menos estabelecem a sua
sado(a) comum conhec1do(a) e nomeado(a){6), e são, em princípio, independência e especificidade) mas remontam ao antepassado
6 mais afastado, que lhes é comum, constituindo-se, assim, por um
Os antepassados fundadores de certas matrilinhagens podem ser homens
( )
certo tempo, numa linhagem menor. Podem, então, opor-se a um
~as a pertenç~ a estes grupos transmite-se através das mulheres (caso de certa;
lmhagens aladianas, por exemplo). conjunto de outras linhagens mínimas igualmente reagrupadas
segundo o mesmo princípio numa outra linhagem menor. Da mesma
26
27


OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

maneira, a um nível superior desta organização piramidal, duas ou segmento destacado da linhagem original, mas organizado com
mais linhagens menores podem fundir-se numa linhagem maior, base no mesmo princípio, pode, por sua vez, tomar-se, ao fim de
quando resolvem cooperar entre si e/ou opor-se a uma outra linha- algumas gerações que verão a sua autonorn ia afirmar-se progressi-
gem maior. Quando as linhagens mínimas remontam ainda mais vamente até à independência, numa nova linhagem verdadeiramente
atrás na sua genealogia comum, o número daqueles que se podem autónoma. Esta reconhecerá uma longínqua ascendência comum
considerar descendentes de um mesmo antepassado é ainda maior: com a primeira e cooperará, eventualmente, com ela, mas em pé
formam, então, uma linhagem máxima, o mais vasto grupo de fi- de igualdade.
liação unilinear, para além do qual as linhagens mínimas já não Linhagem e grupo solidário de filiação . Para que uma li-
conhecem nenhum antepassado comum. Assim, com excepção nhagem possa ser considerada como uma unidade social concreta,
da linhagem mínima, único grupo concreto directamente observável, um grupo unitário ou solidário, é não só necessário que seja um
único grupo.orgânico permanente, cada uma das diversas linhagens grupo de filiação unilinear de genealogia contínua (cf. supra), mas
«não constitui uma unidade senão em relaçc7o às outras linhagens também «que possua uma estrutura de autoridade, que constitua,
do mesmo nível que ela, no interior de uma mesma pirâmide. Oscila face aos seus vizinhos, uma unidade indivisa, e que tenha um certo
entre a oposição a estas e a fusão temporária com elas, quando número de actividades políticas, económicas ou rituais, levadas a
se trata, para a linhagem de grau imediatamente superior de que cabo em comum por todos os membros do grupo ou em seu nome
procedem, de se opor a outras linhagens do mesmo nível que ela» por todos os seus representantes» (E. Terray).
(P. Mercier). Linhagem e exogamia. A linhagem é uma unidade estritamente
Linhagem e segmentação. Na verdade, tratando-se de um exogâmica, pelo menos quando corresponde a um grupo orgânico
«triângulo cujo antepassado é o vértice e em que a base aumenta e salvo as devidas excepções ( 8); todas as mulheres provenientes
em cada geração, a linhagem não pode ser um grupo permanente. da linhagem são consideradas como «irmãs», com as quais são,
Crescendo continuamente o número de descendentes, chega um · portanto, formalmente proibidas as relações sexuais e o casamento.
momento em que ( ... ) a linhagem deve cindir-se» (J. Maquet). Entre duas ou várias linhagens aparentadas, por exemplo entre
Por ocasião de uma migração, em resultado de rivalidades ou con- linhagens mínimas que fazem parte de uma mesma linhagem menor,
flitos, ou, simplesmente, em consequência do próprio crescimento ou entre linhagens menores da mesma linhagem maior, os casamen-
demográfico, que obriga, por exemplo, a ir procurar noutros lados tos entre os seus membros são geralmente, e em princípio, proibidos.
terrenos de caça, de pastagens ou de cultura, uma parte da linhagem A linhagem, pois, faz frequentemente parte de uma unidade exo-
constitui-se em unidade autónoma, que prefere, daí em diante, gâmica mais extensa. Mas é, geralmente, a este nível (e não ao da
referir-se a um ascendente mais próximo (7) do que o antepassado unidade exogâmica mais extensa) que se decidem os casamentos
original comum, um ascendente que, portanto, lhe é exclusivo. Este e se pratica a política das alianças matrimoniais; os «promotores
de casamentos» (E. Leach) são os representantes das linhagens
locais. No entanto, entre linhagens remotamente aparentadas,
(7) Este àscendente pode estar.vivo na ocasião em que se opera o processo de
segmentação; é, por exemplo, o chefe da família extensa que fundou um novo
quer dizer, linhagens segmentadas há muito tempo (por exemplo,
aglomerado que constitui o núcleo da futura linhagem. Um simples «chefe de
família» pode, deste modo, tornar-se um antepassado de linhagem: os seus ( 8 ) Como em certas etnias matrilineares, entre os aladianos, por exemplo,
descendentes e os descendentes destes passarão, daí em diante, a.referir-se a ele. onde formas de «endogamia de linhagem» (M. Augé) podem ser praticadas.

28 29
-•, - - • - - _ Y",._ ,...__. • ....,......,.,..,L<"''-J1..Jl.1.i~..<'L/ LJ\../ , ✓ IJ\..LJl' J.J..../UVV

entre duas linhagens locais provenientes de duas linhagens maio- se trata de cooperar entre si, as diferentes linhas de filiação expri-
res, ou de duas linhagens máximas diferentes), é possível o casa- mem, por outro lado, a sua (relativa) autonomia, referindo-se ao
mento (9). ascendente mais próximo que originou cada uma delas (por exem-
. Outros critérios de estudo da linhagem. Outros critérios per- plo, pode distinguir-se, no seio da mesma linhagem, uma linha de
mitem também caracterizar a linhagem: a unidade de residência · filiação primogénita que agrupa todos os descendentes de um filho
(bairro, lugarejo, aldeia, grupo de vizinhos ... ), unidade de posse da mais velho do antepassado, e uma linha mais jovem, que reúne
ter~a (direito de uso colectivo sobre uma parte do território do clã), todos os descendentes de um filho mais novo do antepassado).
umdade de entreajuda (cooperação nos trabalhos colectivos no Por outro lado, a linhagem é muitas vezes uma unidade compósita; .
casamento), unidade jurídica e política (existência da autoridade uma dada linhagem pode ter acolhido e depois assimilado grupos
dos_n_iais velhos, ~olidariedade, assistência mútua e mesmo respon- de linhagens de origem estrangeira. Estes últimos serão conside-
sab1hdade colectiva em caso de conflito ou de delito praticado por rados como membros da linhagem e referir-se-ão ao antepassado
um dos membros), unidade religiosa (culto do ou dos antepassados comum desta. Mas pode também acontecer que em determinadas
da linhagem, ofertas rituais feitas pelo patriarca em nome de situações surja uma distinção entre uma linha de filiação pura (os
todos ... ) e, enfim, unidade de política matrimonial (cf. supra). verdadeiros descendentes do antepassado) e uma ou várias linhas
Se se resumir estes diferentes critérios(ID) numa definição sin- de filiação de origem estrangeira (os assimilados) que podem não
tética que considera igualmente o facto de, contrariamente ao clã ser admitidas a certas funções (chefe de linhagem, por exemplo).
(que é um grupo permanente), a linhagem estar submetida a um
processo de divisão inevitável, pode, pois, dizer-se que a linhagem
é uma «unidade social, económica, religiosa, expressa por uma Clã
genealogia precisa, em que as tensões internas que antecedem as
clivagens e as segmentações estão sempre presentes» (P. Mercier). O clã congrega todos aqueles que se consideram, em virtude
Linhagens e linhas de filiação. Geralmente, uma linhagem de uma relação genealógica presumível e indemonstrável, como
em expansão demográfica pode dividir-se em vários ramos ou descendentes em linha directa, paterna (patriclan) ou materna
linhas de filiação, que não se separam (verdadeiramente), mas (matriclan), de um(a) antepassado(a) comum lendário ou mítico.
que se distinguem umas das outras quer pela necessidade de Um tal grupo baseia-se, necessariamente, no reconhecimento da
constituir unidades mais manejáveis na vida quotidiana, quer pela filiação em linha exclusiva e não pode, obviamente, formar-se e
necessidade de definir diferenças estatutárias no interior da linha- funcionar na base das regras da filiação cognáticn ou indiferen-
gem; neste caso,, apesar de continuarem a referir-se a um mesmo ciada. Convém, contudo, notar que a linearidade da filiação não
ascendente comu111 conhecido (o antepassado da linhagem), quando implica forçosamente a existência de clãs ou, pelo menos, de clãs
que se afirmam ou manifestam como grupos (cf. supra, p. 25).
9 Se não for esta vaga referência a um antepassado comum; a noção
• ~ ) Sabe-se q_ue o clã, ~ue pode ser definido como o maior grupo de filiação
umlmearobservavel no seJO de uma dada sociedade, é muitas vezes uma unidade de clã torna-se dificil de detectar de uma maneira puramente for-
endogâmica de facto; é também o caso da linhagem máxima. mal, já que as suas características e funções (rituais, económicas,
(ID) Que nem sempre se verificam todos nem estão sempre identicamente políticas, guerreiras, etc.) podem variar consideravelmente de uma
associados, e daí a necessidade de uma análise concreta de cada situação específica. sociedade para outra. Como escreve P. Mercier: «Em certos casos,

30 31
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

o clã manifesta-se claramente como uma das principais unidades acontece quando os que asseguram a reprodução cio grupo ocupam
de organização da sociedade, com funções muito específicas a ou controlam um território como um único proprietário. Mas, muito
todos os"' níveis da vida social. Por outro lado, h~ casos em que as frequentemente, o clã não está ligado a nenhuma área bem defi-
suas funções são imprecisas; revela-se, então, mais como umqua- nida, e só os seus segmentos têm realidade espacial: encontra-se,
dro de referência que como um grupo com actividades próprias.» então, disperso por várias localidades não contíguas. Quando esta
Por conseguinte, o sentido dado a este termo deve ser determinado, dispersão geográfica é devida a migrações, não é raro que o grupo
para cada caso, multiplicando os critérios de estudo e peritagem. mantenha algumas ligações, sobretudo rituais, com o seu lar ori-
A pertença a um clã adquire-se, normalmente, pelo nascimento ginal. O clã pode, também, estar associado, mas não necessaria-
e, de uma forma geral, para toda a vida. Numa sociedade patrili- mente, e na aparência arbitrariamente, a uma espécie vegetal ou
near, os filhos são atribuídos ao clã do pai, enquanto numa sociedade animal, a um fenómeno natural, ou, ainda, a um objecto manufac-
caracterizada pela filiação uterina fazem parte do grupo de paren- turado: é o «totem» do grupo. Algumas proibições muito comuns
tesco da mãe. Em sistemas de filiação bilinear, há uma relação de (alimentares, por exemplo) têm como origem o reconhecimento
pertença dupla: cada indivíduo participa em dois clãs, dois grupos desta associação simbólica. Definitivamente, nem a exogamia, nem
que cumprem funções distintas : um, patrilinear (em regra localizado, a unidade de residência, nem o «totemismo», se caracterizam como
que é o do pai) e outro matrilinear (habitualmente disperso, que é atributos essenciais ou, pelo menos, indissociáveis do clã.
o da mãe). Mas a qualidade de membro de um clã não se adquire Também é possível analisar o significado do clã em função das
apenas pela filiação. Para numerosas sociedades, a adopção ( em unidades que o compõem, quer dizer, das linhagens. O que distingue,
especial de clientes, de cativos ou de escravos) constitui uma forma essencialmente, a linhagem do clã é que um indivíduo pode, re-
de recrutamento normal. Em certas sociedades patrilineares (por montando na genealogia, por uma linha contínua, demonstrar com
exemplo, entre os Gusii do Quénia), a mulher é «incorporada» ofi- precisão o laço que o une ao antepassado (real) da sua linhagem,
cialmente, geralmente depois do nascimento do primeiro filho, no enquanto isso é impossível para o clã. As linhagens e os segmentos
clã do marido. Os clãs chineses praticam igualmente esta espécie de linhagem, por outro lado, são unidades instáveis, vulneráveis no
de substituição das «irmãs» pelas «esposas». plano demográfico, constantemente reformuladas pelos processos
Contrariamente ao costume hoje abandonado, pode caracteri- de segmentação ou de divisão, enquanto os clãs podem, de uma
zar-se o clã sem recorrer à noção de exogamia (proibição de ca- forma geral, ser considerados como unidades permanentes, provi-
samento dentro do grupo). Um clã pode não formar uma unidade das de uma identidade constante. Em certos casos, o clã «camufla»
exogâmica (sem que por isso seja endogâmico), sendo então os uma série de linhagens que se entroncam sucessivamente umas
grupos exogâmicos constituídos quer por unidades mais restritas nas outras, segundo os critérios de uma genealogia única, quer
( de menor profundidade genealógica, por exemplo por subclãs oü piramidal ( os segmentos são, neste caso, estruturalmente equiva-
linhagens), quer, ao contrário, por unidades mais extensas (dois ou lentes) quer «arborescente» ( os segmentos estão, então, hierarqui-
mais clãs podem formar conjuntamente uma tal unidade exogâmica zados). O vértice desta genealogia está, geralmente, ocupado por
para acentuar, especialmente, a hostilidade latente que os opõe). um antepassado real, considerado como um descendente ( o filho,
O clã tem um nome, que pode ser o do seu fundador (antepassado por exemplo) do antepassado mítico do clã. Noutros casos, o clã
epónimo); este nome pode também evocar um episódio da história surge como uma reunião heterogénea de linhagens de origem dife-
do grupo. O clã pode constituir uma unidade territorial: é o que rente (oriundas, por exemplo, de estrangeiros assimilados), indepen-

32 33
dentes do ponto de vista genealógico, ligadas entre si unicamente
pelo parentesco ideológico (a solidariedade entre as linhagens as-
senta muitas vezes apenas no sentimento de pertencer ao mesmo
clã). Factores históricos (migrações, conflitos, tráfico, etc.) penni-
tem, geralmente, explicar esta composição heterogénea. Como
nota E. Temiy, a propósito dos Dida, «a pertença a um clã é uma
característica particular de certos grupos, resultante das vicissi-
tudes sofridas por esses grupos ao longo da sua história( ... ). O clã
é um produto dos acontecimentos, não um traço da estrutura». ALIANÇA MATRIMONIAL E RESIDÊNCIA
Um clã pode estar dividido em subclãs. Estas unidades têm 0
mesmo tipo de composição que o clã e possuem a maior parte das
suas características. Mas a regra de exogamia, em vez de operar Troca matrimonial
ao nível do clã, funciona apenas, em princípio, ao nível do subclã.
Esta ruptura na unidade clânica sanciona, frequentemente, o casa- Fala-se de troca matrimonial quando se considera o casamento
mento contraído no interior do clã, quer dizer, a violação de uma não apenas como uma instituição que define uma relação entre
proibição matrimonial. Entre os Swazi, por exemplo, actualmente dois indivíduos, atribuindo um estatuto aos seus descendentes,
«a subdivisão só continua a existir no clã real, permitindo ao rei mas, numa perspectiva mais estrutural - e mais global-, como um
desposar mulheres que, sem esse mecanismo, lhe estariam veda- processo que envolve (no mínimo) dois ou mais grupos exogâmicos
das, pela lei de exogamia» (H. Kuper). Ao fim de algumas gerações, numa rede de relações de trocas matrimoniais que engendram e
o subclã adquire suficiente autonomia para se poder valer do tecem a trama das relações sociais (as relações de troca, stricto
estatuto de autêntico clã. sensu, e as relações de parentesco por alianças matrimoniais)
que constituem os alicerces da sociedade global.
Em resumo, quando se fala de trocas matrimoniais - e não só
de «casamento» - há uma mudança de perspectiva: o que se trata
então de analisar não é já os costumes ligados ao casamento, mas
os princípios que presidem ao processo de circulação das mulheres
entre os grupos e os efeitos desta circulação nas relações entre os
grupos. Nesta perspectiva, distingue-se, habitualmente, segundo
C. Lévi-Strauss (cf. Les Structures élémentàires de la parenté),
dois grandes tipos de trocas matrimoniais: a troca restrita e a troca
generalizada.
Troca restrita. A troca restrita (ou troca directa; ou, ainda,
troca simétrica) é uma relação pela qual o grupo que pede a outro
uma esposa para um dos seus homens oferece, em troca, uma das
suas mulheres. Generalizando, é uma relação inte1matrimonial entre

34 35

- ·r 'S'f'tl""' - -· mwrnrznz z
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

dois grupos : as mulheres de um dos grupos desposam os homens Troca generalizada. «Ao contrário da troca restrita, que pres-
do outro, e reciprocamente. A troca restrita pressupõe, portanto, supõe uma simetria entre «unidades de troca» constituídas em
como condição necessária e suficiente, «um par de unidades de pares, a troca generalizada (ou troca indirecta) é assimétrica ao
troca» (C. Lévi-Strauss) ou uma combinação de pares; os elemen- nível das relações entre dois grupos; mas vai-se equilibrando gra-
tos da combinação trocam-se dois a dois . Isto implica «um dar e dualmente: A dá uma mulher a B, que dá uma mulher a C, que dá
um receber equilibrados, quer simultaneamente, quer de forma uma mulher a ... N, que dá uma mulher a A. É o que se pode
diferida» (P. Mercier). No primeiro caso, a reciprocidade é imediata exprimir dizendo que a troca generalizada é indirecta: com efeito,
(por exemplo, uma innã em troca de outra irmã); no segundo caso, implica um alargamento do ciclo das alianças matrimoniais, porque
é diferida (por exemplo, uma irmã em troca da filha desta irmã), coloca em presença um mínimo de três intervenientes (um grupo
mas nos dois casos baseia-se numa troca simétrica: a dádiva de pode, ao dar a um segundo, receber de um terceiro) e o dador da
uma mulher do grupo A ao grupo B fica equilibrada pela contra- esposa não recebe uma esposa do donatário, mas de um outro
dádiva de uma mulher do grupo B ao grupo A ( 11 ) . grupo que é, por sua vez, doador. Eis por que C. Lévi-Strauss
Uma das form as mais simples de troca restrita (e de reciproci- caracteriza ainda esta forma de troca matrimonial como um
dade) é assegurada pelo casamento entre primos cruzados ( 12) casamento «unilateral», ou orientado. Neste caso, a reciprocidade
dos dois lados (patrilaterais e matrilaterais) ou primos cruzados é sempre diferida e indirecta, uma vez que só está assegurada
bilaterais (daí a expressão «troca bilateral», utilizada por Lévi- quando se fecha o ciclo das alianças (no nosso exemplo, quando
-Strauss). Neste tipo de organização matrimonial, a distinção en:- N «restitui» a A a mulher que este tinha dado a B).
tre primos cruzados patrilaterais e primos cruzados matrilaterais A forma mais imediata de troca generalizada realiza-se, exclu-
deixa, pois, de existir (a filha da irmã do pai é também filha do sivamente, pelo casamento com a prima cruzada matrilateral,
irmão da mãe, uma vez que o irmão da mãe casou com a irmã do enquanto a prima cruzada patrilateral é considerada como cônjuge
pai) e só subsiste a distinção entre primos paralelos ( 13), entre os proibido. Este tipo de troca matrimonial parte, pois, do princípio de
quais o casamento está proibido, e primos cruzados, entre os quais que as mulheres circulam entre os grupos sempre no mesmo sentido
o casamento é prescrito ou aconselhado . e que esta circulação assume a forma de um ciclo (pelo menos em
teoria) .
. Quando está proibido o casamento entre os primos cruzados
1
dos dois lados (exogamia bilateral ou, ainda, dupla exogamia), a
(' ) Esta simetria apresenta, no entanto, dois inconvenientes: 1) nem sempre

é possível achar, no momento desejado, uma mul.her disponível de ambos os


compensação matrimonial recebida em troca de uma mulher A
lados; 2) se um dos casamentos se desfaz, o outro dificilmente se mantém. dada a B permite ao grupo A, para o qual as mulheres do grupo B
2
(' ) Filhos de colaterais de sexo diferente: os filhos de um innão e de uma irmã estão, portanto, proibidas, na geração seguinte, ir buscar uma mulher
são primos cruzados entre si. Entre os primos cruzados distinguem-se os do lado noutro lado, por exemplo em C. Nestas condições, a troca matrimo-
do pai, os primos patrilaterais (filhos da irm ã do pai) e os do lado da mãe, os
primos cruzados rnatrilaterais (filhos do irmão da mãe).
nial deixa de estar orientada; pelo contrário, qualquer grupo exo-
13
( ) Filhos de colaterais do mesmo sexo: os filh os de duas irm ãs, ou os filhos
gâmico pode ser o parceiro de qualquer outro, desde que não tenha
de dois irmãos, são primos paralelos. Entre os primos para lelos distinguem-se os havido uma troca matrimonial entre eles na geração anterior.
do lado do pai, os primos paralelos patrilaterais (filhos do irmão do pai), e os do Nesta forma «alargada» (C. Lévi-Strauss) de troca generali-
lado da mãe, os primos paralelos matrilaterais (filhos da irmã da mãe). zada, há muito mais oportunidades para que as desigualdades na
36 37
repartição das mulheres entre os grupos e os indivíduos se mani- interessados podem variar consideravelmente, indo desde o casa-
festem. No entanto, estas desigualdades são limitadas pelo facto mento negociado pelos dois grupos desde a infância dos futuros
de a compensação matrimonial se compor (em princípio) exclusiva- cônjuges até ao rapto simulado.
mente de bens matrimoniais, sendo, assim, necessário dar uma Por outro lado, ao nível das normas sociais, o casamento nunca
1m_Ilher e_~ casamento para obter em troca a compensação que é livre, no sentido de que qualquer homem não pode desposar
vai penmtlf procurar uma esposa noutro lado. qualquer mulher. Em todas as sociedades existem categorias de
pessoas que um dado indivíduo não deve desposar, e outras com
Casamento as quais o casamento, sem ser totalmente proibido, não é enco-
rajado. Pelo contrário, nestas mesmas sociedades, pelo menos no
É ~rn complexo de normas sociais que sancionam as relações plano ideológico, a escolha do cônjuge pode estar prescrita {' 4).
sexuais entre um homem e urna mulher e que os liga por um sistema Os grupos no interior dos quais existe autorização ou prescrição
de obrigações e direitos mútuos; por meio desta união, os filhos de casamento denominam-se endogâmicos; aqueles em que o
que a mulher dá à luz são reconhecidos corno a progenitura legítima casamento está proibido, denominam-se exogâmicos. Os grupos
de ambos os pais. (Em toda a parte o casamento é objecto de sociais ligados por regras de endogamia ou de exogamia diferem
cerimónias rituais públicas, dirigidas por um ou porvários membros de sociedade para sociedade. Para além da família nuclear (pai,
da comunidade, o que anuncia ou significa não só que o marido a mãe e grupo dos «siblings» ), à qual se aplica a regra universal de
mulher ou a sociedade reconhecem a mudança de estatuto d~s proibição do incesto, o segmento de linhagem, a linhagem, o clã,
novos esposos, mas ainda a criação de laços - jurídicos sociais etc., podem ser, segundo as sociedades, grupos endogâmicos ou
, . '
econorn1cos - entre o grupo de filiação do marido e o da mulher exogâmicos. Este conjunto de regras negativas e positivas que
(ver supra, p. 23). No plano económico, a reformulação das rela- constituem os princípios da exogamia e da endogamia dá lugar, em
ções sociais provocada pelo casamento traduz-se geralmente por certas sociedades, ao que os antropólogos denominam casamento
urna troca de bens e/ou de serviços entre as duas famílias interes- preferencial, cujos exemplos mais comuns são o casamento com
sadas (ver p. 42).
a filha do irmão da mãe ou da irmã do pai (primos cruzados) ou o
. E:tes efeitos do casamento (mudança de estatuto dos esposos, casamento com a innã da mulher ou a filha do irmão da mulher.
cnaçao de laços entre grupos de parentesco) constituem a dife- Existem diferentes formas ou tipos de casamento, em função
rença fundamental entre o casamento e qualquer outra forma de da variação do número de cônjuges ligados por um mesmo
relações sexuais, temporárias ou permanentes. casamento. Distingue-se, em particular: ,
O ~ode~ do casamento para criar laços entre grupos de paren- A monogamia: união de um só homem e de uma só mulher. E
tesco 11nphca em todas as sociedades restrições na escolha do o modelo e o protótipo do casamento, na medida em que os filhos
cônjuge.
são o produto de dois pais e só dos dois (um único casal).
Antes de mais e ao nível de casos particulares, a escolha do
cônjuge não pertence, a maior parte das vezes, ao futuro-marido (1 4) Entendendo-se que, na realidade, esta prescrição não pode: 1) deixar de
ou à futura esposa, mas aos membros mais influentes dos seus estar subordinada à disponibilidade de um cônjuge, estado que, em regra, está
respectivos grupos de parentesco. De sociedade para sociedade regulado por normas; 2) não pode funcionar, de modo algum, a não ser quando
.
a maneira corno se efectua a escolha e a parte que nela tornam os
' não entra em conflito com as estratégias locais, sempre implicadas nas negociações
entre grupos de filiação.
38 39

/f;
e,s; O:d
"' h'l:':o• :,
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

A poligamia: termo geral que designa todas as uniões em que a casar. O divórcio difere da separação na medida em que esta,
o número de cônjuges (homens e mulheres) ultrapassa um único mesmo legalmente reconhecida, não permite aos cônjuges contrair
casal. O primeiro casamento contratado por um indivíduo é um um novo casamento (salvo nas sociedades poligâmicas), porque
casamentoprimário, sendo todos os seus casamentos subsequen- os esposos conservam o seu estatuto matrimonial.
tes casamentos secundários. Se bem que numerosas sociedades tradicionais não façam uma
A poligenia, forma de casamento na qual várias mulheres nítida distinção entre separação e divórcio, a grande maioria permite
estão unidas a um único homem, tendo todas as mulheres o estatuto a dissolução dos laços matrimoniais em vida dos cônjuges e que
de esposas legítimas e os seus filhos o de descendentes legítimos cada um deles se possa voltar a casar. As circunstâncias em que
do marido. A poligenia existe em todo o mundo mas, na realidade, é concedido o divórcio variam consideravelmente segundo as
surge menos como uma forma de casamento fundamentalmente sociedades e confonne as épocas.
distinta da monogamia que como monogamias sucessivas; é a repe- Quando o casamento é acompanhado do pagamento de uma
tição de um «contrato» de casamento, estabelecido individualmente compensação matrimonial, esta é, na maior parte dos casos,
com cada uma das mulheres e instituindo uma relação individual restituída pela família da mulher.
entre o homem e cada uma das suas esposas. Cada mulher possui
a sua casa, que partilha com os seus filhos . A poligenia sororal é
a união na qual várias irmãs estão unidas a um mesmo homem. LEVIRATO
Apoliandria: forn1a de casamento na qual vários homens estão
unidos a uma única mulher. A poliandria é uma das fonnas mais Quando um homem morre, o irmão coabita com a viúva.
raras de casamento e encontra-se pouco em África. Se os vários Considera-se, então, que os filhos provenientes destas relações
maridos são innãos, trata-se de poliandria fraternal ou adélfica. foram gerados pelo defunto. A viúva continua a ser mulher deste,
Neste caso, os filhos são considerados tanto descendentes legítimos não sendo o irmão mais que um «substituto»; não é, na verdade, o
do irmão rnais velho, como descendentes de todos os irmãos por seu marido. O termo levirato é, por vezes, igualmente utilizado
igual. Quando os maridos não são irmãos e a mulher coabita alter- para designar «a herança da viúva», quer dizer, o caso em que um
nadamente com cada um deles, ocorre geralmente uma cerimónia irmão herda a função de verdadeiro marido da viúva; os filhos
especial para estabelecer a paternidade social dos filhos. provenientes desta união pertencem ao novo marido.
Se nos referinnos não já ao número de cônjuges implicados
numa mesma união, mas a um critério de estratificação social,
distinguem-se ainda duas outras formas de casamento: a hiperga- SORORATO
miá (casamento com um cônjuge de estatuto social superior) e a
hipogamia (casamento com cônjuge de estatuto inferior). À morte da mulher, o marido desposa a irmã desta. Este
casamento pode ser um direito ou uma obrigação para o marido
DIVÓRCIO da defunta. Denomina-se sororato extenso a possibilidade de o
Processo pelo qual um casamento, socialmente reconhecido marido desposar qualquer uma das irmãs solteiras da esposa falecida
como válido, pode ser dissolvido em vida dos cônjuges, que reto- e sororato da mais nova no caso em que o marido só pode despo-
mam a sua independência recíproca, ficando livres para se voltarem sar uma irmã mais nova da esposa falecida. Nalgumas sociedades,

40 41
se a mulher é estéril, a sua família encarrega-se de a substituir por um meio de ganhar e conservar às boas graças daqueles de quem
uma das suas irmãs, cujos filhos serão considerados como os filhos depende a transferência dos direitos matrimoniais.
da esposa estéril. Em princípio, a compensação matrimonial é restituída em caso
de divórcio (quer pelos parentes da mulher, quer por um novo
Compensação matrimonial marido eventual).
A compensação matrimonial, incorrectamente chamada «dote»
na literatura francófona ou «preço da noiva», consiste numa série Residência
de bens e/ou de serviços oferecidos pelo noivo e seus parentes ao
pai ou a outros parentes da noiva, para levar a cabo ou tomar vá- O termo residência designa o «domicílio conjugal» e geralmente
lido o casamento e compensar a familia da jovem da perda de um não é utilizado em Antropologia para a localização geográfica de
dos seus membros. A compensação matrimonial varia considera- uma sociedade ou de um indivíduo fora do contexto do parentesco
velmente; na forma e na função, de sociedade para sociedade, e do casamento. A residência dos novos esposos depois do casa-
mas representa sempre um compromisso. Em muitos casos, a com- mento é, frequentemente, determinada por uma regra. Esta po~e
pensação oferecida pela família do noivo é acompanhada de uma variar no tempo para o mesmo casal, tal como numa mesma socie-
contradádiva por parte da família da noiva, de valor geralmente dade podem coexistir diferentes regras de residência.
menor. Se está amplamente admitida a importância das regras de
Os bens que constituem a compensação matrimonial e o mon- residência, o mesmo não acontece quanto ao estabelecimento de
tante desta variam de sociedade para sociedade (papel privilegiado uma tipologia. No entanto, distingue-se geralmente: .
do gado, nas sociedades pastoris, mas também lanças, caurins, Residência patrilocal: o casal estabelece-se com ou Junto
bebidas e alimentos diversos, etc.). Quando não é exigida nenhuma dos pais do marido. . .,
compensação matrimonial, o noivo tem geralmente de prestar Residência virilocal: l) o novo casal reside onde o mando Jª
diversos serviços ao pai da noiva, durante um período determinado. residia antes do casamento ou decide residir depois do mesmo; 2)
A troca de bens ou de serviços que o casamento implica pode sinónimo de residência patrilocal.
ser escalonada a longo prazo. Os direitos e as obrigações resultan- Residência matrilocal: o casal instala-se com ou junto dos
tes do casamento podem igualmente ser objecto de transferências pais da noiva.
sucessivas, dependendo o ritmo destas transferências da transfe- Residência uxori/ocal: l) o novo casal fixa-se no local onde
rência dos bens e serviços correspondentes. Neste caso a série a mulher residia antes do casamento; 2) sinónimo de residência
das trocas pode começar durante o período do noivado e prolongar- matrilocal. ·
-se muito depois do casamento. Residência avunculocal: o casal estabelece-se com ou junto
Alguns bens ou serviços podem ser considerados como presta- do innão da mãe de um dos esposos.
ções indispensáveis, sem as quais o casamento não pode receber Residência neolocal: os recém-casados estabelecem a sua
a consagração legal. Outros, pelo contrário, embora façam parte residência num lugar diferente daquele em que residem as suas
do contrato, não são essenciais para a transferência dos direitos e famílias e novo para cada um deles. .
das obrigações resultantes do casamento (nomeadamente a atri- Residência bilocal: o casal é livre de se instalar quer Junto
buição dos filhos à linhagem do pai). Surgem principalmente como dos pais do marido, quer junto dos da mulher. Neste caso, são

42 43

' . ... ·"· ''. ·""' ,.~. 7"1 ., "' .l""iiiiiliiwr rf#aanaa:
!LA+± ?!'&41
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

muitas vezes os factores económicos que influenciam a escolha mente de duas famílias elementares, uma, a família de origem ou
da residência. de orientação, enquanto filho e irmão (ou filha e irmã), a outra, a
Residência duo/oca! (ou natolocal): o novo casal reside sepa- família de procriação ou de reorientação, como marido e pai
radamente, cada um com a sua própria família. (ou esposa e mãe). A família elementar não é uma instituição uni-
Residência uxorovirilocal: a residência é alternadamente viri- versal. Em muitos casos, não existe, quer porque não é reconhecida
local e uxorilocal, ou patrilocal e matrilocal. socialmente, quer porque não é assim entendida, mas simplesmente
Quando a filiação e a residência são simultânea e respectiva- como uma família extensa nascente. Convém assinalar, de pas-
mente patrilinear e patrilocal, matrilinear e matrilocal, está-se em sagem, que muitas sociedades tradicionais (por exemplo, em África,
presença (Lévi-Strauss) de um regime harmónico. No caso con- os Bambara, os Diba, os Ibos, os Yoruba, etc.) não possuem nenhum
trário, seguindo a residência e a filiação, uma a linha do pai, a termo específico para designar a família nuclear (.1 5). Esta não é
outra a linha da mãe, o regime é desarmónico. Os regimes harmó- também a unidade fundamental de toda a organização familiar ou
nicos de filiação matrilinear e residência matrilocal permanente doméstica, sendo, geralmente, a pedra angular o núcleo constituído
são raros. pela mãe e seus filhos. Como acentua R. Fox, «é acrescentando
ao laço materno o laço conjugal entre o casal que se forma a famí-
Família
lia nuclear». Estas duas células sociais.inscrevem-se ou fundam-
Este termo, utilizado sem qualquer outra qualificação, designa -se nonnalmente em unidades familiares mais vastas, como a família
habitualmente um grupo social que compreende, no mínimo, um composta ou a família extensa.
homem e uma mulher unidos pelos laços socialmente reconhecidos A família composta ou poligâmica (compound family ou ex-
e mais ou menos duradouros do casamento, e um ou vários filhos tended conjugalfamily) resulta do casamento plural, quer dizer,
nascidos desta união ou adaptados. No sentido lato, a família, ao da poligenia ou da poliandria (ver supra, p. 40). Pretendeu-se ver
contrário do grupo doméstico (ver mais adiante), não implica ne- na famíliapoligínica um grupo de duas ou mais famílias nucleares
cessariamente a coabitação; continua a existir mesmo que os seus aparentadas entre si através .de um homem que desempenha o
membros residam separadamente. Sob este ponto de vista, a com- papel de único marido (ou pai). Na verdade, trata-se de duas ou
posição da família não depende das regras de residência, mas es- mais unidades matricêntricas (constituída cada uma por uma mãe
sencialmente da forma do casamento (monogâmico ou plural). e seus filhos) ligadas, por intermédio de um laço conjugal, a um
A família elementar (ou família nuclear; ou ainda família res- mesmo homem. No seio da família composta, as relações entre
trita) é fonnada essencialmente por um homem, a sua esposa e este homem e as suas co-esposas e as relações entre estas regem-
os seus filhos. A expressão «família biológica)) é de evitar, na -se por uma rede específica de direitos e obrigações. Entre as co-
medida em que a família é um facto social e não biológico. Alguns -esposas, no entanto, as relações podem estar afectadas ou domina-
autores preferem falar de família conjugal e de família consan- das pelo ciúme, rivalidade ou hostilidade. É frequente que uma de-
guínea para indicar ou assinalar que a família nuclear é encarada las (e não é forçoso que seja a primeira esposa, nem a mais idosa)
pelo ângulo de uma ou de outra das relações elementares de pa-
rentesco que põe em jogo, a saber, a relação de casamento ou a (1 5) Talvez se deva aqui fazer uma distinção, como sugeriram L. Fallers e M.
relação de consanguinidade (real ou fictícia) que une os filhos não Levi, entre família nuclear e «nuclear-family relationship complexi>, quer dizer,
casados aos seus pais. Uma pessoa pode fazer parte simultanea- entre grupo concreto e sistema de papéis familiares.

44 45
JlVJJ\VUV\d1V .11V YVL,.11DUL/-J.IUU UU rrJ.I(C,JVlC,i)LU

ocupe uma posição privilegiada ou possua prerrogativas que as familiares, por exemplo, que se ordenam, de uma maneira geral,
outras não têm. A família po/iândrica (uma mulher, os seus mari- as relações e os comportamentos no seio do grupo doméstico. Na
dos e os seus filhos), por seu lado, é praticamente inexistente em maior parte das vezes, uma família constitui o núcleo de um grupo ·
África, onde a poliandria apresenta, muitas vezes, um carácter doméstico, que pode, também, incluir parentes afastados e estra-
puramente formal (sobretudo quando uma mulher pode contrair nhos (clientes, servos, amigos), estando todos dependentes da au-
um segundo casamento sem que o primeiro esteja dissolvido; en- toridade de um único chefe. Isto levou a diferenciar os grupos do-
contra-se tal prática entre os Kagoro da Nigéria). Alguns autores mésticos atendendo à sua principal componente familiar, sem ter
em conta a coabitação com os elementos extrafamiliares e, portanto,
! usam a expressão família composta para designar o grupo que se
forma, logo que um viúvo ou uma viúva com filhos de um casamento a diversidade das situações concretas. Assim, o que se chama um
\, anterior voltam a casar e têm filhos desta segunda união. lar simples (simple family household) corresponde à família nu-
1
1

' A família extensa (extended family, ou extended consan- clear ou ao que dela resta (uma viúva com os filhos, por exemplo),
guine family) resulta da extensão, no tempo e por intermédio de aumentada ou não pela presença dos parentes mais chegados (um
laços de casamento, das relações entre pais e filhos. Numa socie- ascendente ou um sobrinho, por exemplo). A expressão lar múltiplo
dade de filiação diferenciada (linear), a família extensa pode coin- ( ou família indivisa, ou ainda família articulada- multiple family
cidir com o grupo formado pelos membros de um segmento de household oujoint family) designa qualquer agrupamento domés-
linhagem (m1}a linha de filiação ou uma linhagem mínima), os seus tico que compreenda duas ou mais famílias nucleares, aparentadas
cônjuges e os seus filhos. Numa sociedade de filiação indiferenciada entre si, quer verticalmente (até coincidir com a família extensa),
(cognática), ela corresponde, idealmente, ao grupo formado por quer horizontalmente (vários irmãos, seus cônjuges e filhos (fra-
um casal e as famílias conjugais de todos os seus descendentes. ternal joint family), aumentada ou não pela presença de outras
Elementar, composta ou extensa, a família deve ser claramente pessoas. Estas variações na composição do grupo doméstico rela-
distinguida do grupo doméstico (household ou domestic group), cionam-se com as regras de residência e de filiação, com o regi-
cuja característica essencial é ser uma unidade de residência, de me de ocupação do solo, com as regras de transmissão dos bens,
produção e consumo, quer dizer, uma unidade que se define em com o género de vida, etc. Correspondem, também, às modificações
função de outros critérios que não os do parentesco ou das alianças que a composição dos grupos domésticos vai sofrendo com o tempo
matrimoniais (' 6). O grupo doméstico pode ser composto de pessoas ou, mais precisamente, a etapas no ciclo de desenvolvimento da
entre as quais não existe nenhum laço de parentesco ou, pelo con- família. M. Fortes distingue três fases principais neste ciclo, que
trário, pode reunir várias unidades familiares. É raro que o grupo pode ser mais ou menos longo: uma fase de expansão, que se es-
doméstico fonne uma unidade homogénea e ainda mais raro que tende desde o casamento de duas pessoas até à realização da sua
haja uma coincidência entre unidade familiar, unidade de residência família de procriação; uma fase de dispersão ou de cisão, que co-
e funções domésticas (geralmente associadas ou combinadas de meça a partir do casamento do filho mais velho e que continua até
diferente modo, conforme as sociedades). Mas há com frequência que todos os filhos estejam casados; uma fase de substituição, que
correspondência ou homologia. É com base no moddo das relações termina com a morte dos pais e a substituição da família que eles
fundaram pelas famílias dos seus filhos ou, mais exactamente,
(1 6) Esta unidade corresponde frequentemente ao lar, unidade de observação pela família daquele que é o herdeiro do pai.
dos estatísticos e dos demógrafos.

46 47

. . .,.. . - . sfL..
RELAÇÕES

Denominações e atitudes

1 - SISTEMA DE DENOMINAÇÕES
(terminologia ou nomenclatura de parentesco)

Chama-se termo de tratamento ao nome que se dá a um paren-


te de sangue ou de afinidade com quem se fala e termo de referên-
cia ao que serve para designar um parente de sangue ou de afini-
dade, de quem se fala. Os termos de tratamento podem ser utilizados
como termos de referência.
Entre as diversas formas de se dirigir ou de se referir, existe
uma correlação ou uma reciprocidade; assim, pai implica filho e
vice-versa; irmão só se emprega em correlação a irmã (ou irmão),
etc. Pode, assim, falar-se de sistema de denominações.
Duma maneira geral, os sistemas de denominação dividem-se
em duas grandes categorias: os sistemas descritivos e os sistemas
classificatórios.
Nos primeiros, encontra-se um reduzido número de tennos
específicos para os parentes do primeiro ou do segundo grau e
outros parentes mais afastados são designados por palavras com-
postas destes termos. Estas expressões compostas põem em evi-
dência os escalões intermédios da relação que os une (por exemplo:
irmão da mãe, filho da irmã do pai, filha da filha do irmão da mãe,
etc.). Uma tal tenninologia, necessária em qualquer estudo científico

49
..t.1.,..1...J.\..\,,./L./Vy.1.J.'-../ .l.l\.../ Y\../..._,,rl.LJVL.lfl. .l.\...1\.../ L/\.../ .J.1"11\..LllY.lLIUVV

do parentesco, torna-se, evidentemente, difícil de manejar para


Este sistema, que distingue os parentes paternos dos matemos,
além do quinto grau. Aliás, só muito raramente existe no estado
é o mais frequente em África. Corresponde ao princípio da exoga-
puro. O sistema europeu corrente, que distingue o pai dos tios
paternos e maternos, que são apelidados da mesma maneira, não mia: o pai e os seus innãos pertencem a um certo grupo e ocupam
pode ser considerado puramente descritivo, se bem que destaque uma mesma posição; o irmão da mãe já pertence a outro.
No terceiro caso, identificação terminológica entre parentes
'I sempre todos os parentes próximos: pai, mãe, irmãos e irmãs não
de sexos diferentes, um mesmo termo designa indiferentemente
se confundem nunca com parentes mais afastados. Em África, os
um homem ou uma mulher, um innão ou a sua irmã. Entre os
sistemas descritivos puros encontram-se entre os Dinka e os Shilluk
Congo, por exemplo, innãs e irmãos da mãe são chan~ados «mães»,
do Sudão Oriental, que dispõem de um termo especial para designar
e irmãos e irmãs do pai são chamados «pais». Deste sistema resulta
os irmãos e outro, diferente, para cada espécie de primos: filho do
irmão do pai ou da innã do pai, etc. que uma posição idêntica à do pai é igualmente reconhecida à
irmã do pai.
Os sistemas classificatórios caracterizam-se por uma identifi-
cação terminológica, quer entre parentes de gerações diferentes,
2 - SISTEMA DE ATITUDES
quer entre parentes directos e colaterais, quer ainda entre parentes
de sexos diferentes.
Por atitudes, deve entender-se não as variações psicológicas e
No primeiro caso, um termo que designa em primeiro lugar um
individuais do comportamento, mas o conjunto dos comportamentos,
parente de sangue ou de afinidade de uma certa geração é igual-
socialmente prescritos, que caracterizam as relações entre diferen-
mente utilizado para designar um parente de uma outra geração.
Este mesmo princípio pode ser aplicado a toda uma linhagem: todos tes classes de consanguíneos e parentes por afinidade: entre ~e_rt~s
parentes de sangue e parentes por afinidade impõe-se a fam1han-
os homens da linhagem agnática de uma mulher podem, pelo marido
desta, ser classificados numa mesma categoria e ser designados dade até mesmo a troça (parentesco de troça), entre outras catego-
pelo mesmo termo. Outra possibilidade consiste ainda em identificar rias,~ respeito e a distância (evitamento). Tal categoria de parentes
as gerações alternadas; um mesmo termo designa, por exemplo, o ou de parentes por afinidade tem obrigações para com uma outra
avô e o neto. categoria, que tem, por sua vez, direitos que faz valer, etc. De uma
maneira geral, as relações de troça observam-se entre parentes
No segundo caso, identificação terminológica entre parentes
directos e colaterais, surgem duas possibilidades: I) um mesmo por afinidade da mesma geração, e o resp:ito c_aracteriza as rela-
termo designa o pai, o irmão do pai e o irmão da mãe e a distinção ções entre parentes por afinidade de geraçoes d1f:,rente~. Em toda
a parte se nota que as regras de comportan;e~to sao mais bem de-
só é feita ao nível das gerações: os pais, os avós, etc. Simetrica-
finidas e obrigatórias para os parentes prox1mos que para os pa-
mente, a mesma palavra designa a mãe, a irmã da mãe e a irmã do
pai; 2) um mesmo termo engloba o pai e os itmãos do pai e um rentes afastados: por exemplo, há sempre uma distinção'. ao n~v~I
comportamento, entre o pai verdadeiro e um pai class1ficatono
outro designa o irmão da mãe. Na segunda geração, distinguem-
-se então os primos paralelos, que, apesar de colaterais, são tra- afastado. .
tados como irmãos e irmãs, uma vez que são filhos ou filhas de um Se depois de Morgan e Rivers se abandonou a ideia_ da :x1s-
tência de um paralelismo rigoroso entre o sistema denommaçoes e
pai ou de uma mãe, dos primos cruzados, filhos do irmão da mãe
ou da irmã do pai. o das atitudes, não se contesta a existência de importantes co~es-
pondências entre a terminologia e a prática social. Para Radchffe-
50
51
OS DOMÍNIOS DO PARENTESCO INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO DO PARENTESCO

-Brown há, de uma maneira geral, «para todas as pessoas a quem tando-se através de contactos pessoais limitados ao máximo e
se aplica um termo de parentesco ( ... ), algum tipo de atitude ou relações extremamente cerimoniosas. Este comportamento carac-
comportamento pelo qual este parentesco é conhecido, nem que teriza, sobretudo, as relações entre gerações diferentes (genro/
seja apenas um gesto de etiqueta ou uma obrigação de mostrar /sogra, nora/sogro), mas pode por vezes tomar-se extensivo aos
amizade ou respeito» (Introdução, p. 25). Para C. Lévi-Strauss «o irmãos ou irmãs reais ou classificatórios do pai do marido ou da
sistema de atitudes, mais [do que uma correspondência termo a mãe da mulher.
tenno] constitui antes uma integração dinâmica do sistema das Várias teorias foram apresentadas para explicar estas institui-
denominações». ções (Radcliffe-Brown, Eggan, Griaule, etc.).
Relações de troça - Evitamento Avunculato. Relações tio/sobrinho
Em muitas sociedades, as relações entre alguns parentes ou Avunculato (lat. avunculus: tio): relação particular existente
parentes por afinidade, ou entre certos grupos ( clãs ou linhagens, entre o tio materno (também chamado «tio uterino») e os filhos da
e também, na África Oriental, classes etárias), não são apenas sua irmã, os seus sobrinhos, nas sociedades matrilineares ou de
codificadas por uma tem1inologia concreta, mas igualmente deter- predominância matrilinear, em que o sobrinho faz parte do grupo
minadas por comportamentos mais ou menos convencionais que de parentesco do tio materno. Esta relação manifesta-se princi-
se situam entre dois pólos extremos, a troça e o respeito. Entre palmente pela autoridade do tio sobre o sobrinho uterino (tem, por
estes dois pólos, confo1me as sociedades e os casos, estes com- vezes, o direito de o empenhar, por exemplo entre os Ashanti do
portamentos repartem-se de maneira muito variada. Gana ou nas sociedades matrilineares da Costa do Marfim, Baulé,
A relação de troça, que constitui um destes dois pólos, autoriza Agni, Aladian). Por outro lado, tem muitas vezes especiais respon-
e nalguns casos até obriga uma pessoa (ou os membros de um sabilidades para com ele, responsabilidades que caracterizam as
grupo) a troçar doutra (ou dos membros doutro grupo) sem que relações pai/filho em regime patrilinear: por exemplo, iniciar o
esta se possa ofender. Esta relação pode ser simétrica, na qual sobrinho, procurar-lhe mulher e, de uma maneira geral, cuidar da
cada uma das duas pessoas (ou grupos) troça uma da out~a, ou sua educação. Além disso, neste contexto, o sobrinho herda geral-
assimétrica, se só uma das pessoas (ou um dos grupos) está auto- mente do tio. Em muitas sociedades matrilineares, mas de residência
rizada ou tem obrigação de troçar da outra, não podendo esta últi- virilocal e patrilocal, o sobrinho deixa os pais na adolescência para
ma ofender-se. Nalguns casos, a troça é apenas verbal, mas pode se ir instalar em casa do tio matemo (residência avunculocal).
ir até ao insulto e à obscenidade, e noutros entra em cena um ele- Seja como for, quando o sobrinho herda as funções do tio (por
mento de brutalidade. Este tipo de relações observa-se, geralmente, exemplo, chefe da matrilinhagem), é sempre obrigado a instalar-
entre um homem (ou uma mulher) e os seus parentes por afinidade -se junto dos parentes maternos.
do sexo oposto e da mesma geração.
O outro pólo é constituído pela relação de evitamento, que RELAÇÕES TIO/SOBRINHO EM REGIME
traduz o respeito: no caso muito frequente das relações genro/ DE FILIAÇÃO PATRILINEAR
/sogra, por exemplo, o genro deve, para manifestar o seu respeito,
evitar completamente todo o contacto social com a sogra. Em Convém reservar o termo avunculato para as relações entre
menor grau, o respeito não toma o evitamento obrigatório, manifes- tio e sobrinho nos sistemas de filiação matrilinear. No entanto, nos

52 53
sistemas patrilineares, as relações tio/sobrinho (irmão da mãe/filho
da irmã) estão frequentemente bastante bem definidas e desem-
penham um importante papel ao nível das relações entre os dois
grupos em causa: relação de familiaridade, de entreajuda, de troça
(muitas vezes, no entanto, com privilégios unilateralmente reconhe-
cidos ao sobrinho) entre dois indivíduos; é também uma relação
privilegiada de alianças entre os dois grupos (por exemplo, em
caso de conflito, o sobrinho é o emissário encarregado de reclamar
auxílio ou ainda o mensageiro portador das ofertas ele conciliação).
Nas descrições dos sistemas de parentesco patrilineares, dar- SISTEMAS DE NOTAÇÃO
-se-á, portanto, uma atenção especial ao que, nesse contexto, se
denominará simplesmente «relações tio (materno)/sobrinho Para a representação figurada das relações de parentesco,
(uterino)».
empregam-se geralmente os seguintes símbolos:
t::.. Homem
N B: Alguns autores, como C. Lévi-Strauss, conservam o termo O Mulher
avunculato para designar as relações tio/sobrinho quer se trate D Pessoa de sexo indiferente
dum contexto patrilinear ou matrilinear.
J!. 0 JZf Pessoas falecidas
 e Ego
= Casamento
~ Divórcio
Laço de filiação, descendência
1
r---, Relação de innãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe
Relação indetenninada

EXEMPLO
Os primos de Ego:

:C:C:t:C:C
6
primos
cruzados
O 6
primos
O
paralelos
6 Â
· Ego
O 6 ·
primos
O
paralelos
6 primosO
d
cruza os
primos patrllate-rais primos matrilaterai·s

54 55

Você também pode gostar