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Maria Ivonete Santos Silva

Maria Elisa Rodrigues Moreira


(Organização)

Literatura:
espaço fronteiriço
Copyright © dos autores, 2017.

Projeto Gráfico: Clock-t Gracia Regina Gonçalves, UFV


Imagem da Capa: Pixabay.com Joelma Santana Siqueira, UFV
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Conselho Editorial José L. Foureaux de Souza Jr, UFOP
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Fábio Figueiredo Camargo, UFU Raquel Castro Goebel, UIUC
Gabriel Bicalho, ALACIB Rubem B. Teixeira Ramos, UFG
Gerson Luiz Roani, UFV Terezinha Cogo Venturim, FCB
Glen Goodman, UIUC Thiago Ianez Carbonel, UNICEP
Victor Rocha Monsalve, UDP

Silva, Maria Ivonete Santos.


S586l Literatura: espaço fronteiriço. / Maria Ivonete Santos Silva, Maria Elisa
Rodrigues Moreira, organizadoras. – Colatina/Chicago: Clock-Book,
2017.

182p. – (Acadêmica)

Inclui bibliografia.
ISBN (e-book): 978-85-92525-13-2
ISBN (impresso): 978-85-92525-14-9

1. Crítica Literária. I. Título. II. Autor. III. Série.

CDD: 801.95
CDU 82.09

1ª Edição – 2017. Todos os direitos reservados.


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SUMÁRIO

PREFÁCIO - A literatura sem fronteiras ......................................................7


Eneida Maria de Souza

Entre ................................................................................................................. 11
Cássio Eduardo Viana Hissa

Divertir o leitor é uma tarefa séria: o cômico, o cósmico e as


cosmicômicas calvinianas............................................................................... 29
Adriana Iozzi Klein

Literatura, Ciência, Gonçalo M. Tavares ..................................................... 43


Maria Elisa Rodrigues Moreira

Narrar por imagens: fricções entre cinema e literatura ............................. 59


Leonardo Francisco Soares

Ensaio sobre a tradução coletiva: Presos pelo estômago, livres pelo


filme .................................................................................................................. 75
Augusto Rodrigues Silva Júnior, Eclair Antonio Almeida Filho e Lemuel
da Cruz Gandara

Identidad y cultura en el occidente de México: una aproximación


metafórica a las fronteras del sujeto desde los apodos en Tonila,
Jalisco ................................................................................................................ 93
Gloria Ignacia Vergara Mendoza, José Manuel González Freire e Lucila
Gutiérrez Santana
Entre
Cássio Eduardo Viana Hissa

O espaço entre dois corpos é espaço vazio, território do nada, lugar


de ninguém? A questão reúne os seus precários motivos a partir da
frequência com a qual se pensa nesses mesmos termos. Assim, entre um
objeto físico e outro1, haveria um espaço tomado como vazio, na
desconsideração de que os objetos sejam espaços e de que, além disso, a
existência afastada de um e de outro se dê também em razão da existência
criativa dos olhos2 que lhe encaminham significados e que também
compreendem os objetos em sua distância física; esses olhos, feitos de
história, de imagens teóricas e de vivências, que encaminham significados
à referida existência afastada de um e de outro e que, além disso, nomeiam
e concedem existência significante aos próprios objetos. Esse entre dois
corpos ou objetos, por sua vez, pode resistir às cartografias convencionais,
pois entre os corpos pode não haver contiguidade espacial; ou seja, uma
distância feita de corpos aparentemente estranhos àquilo que faz a
existência do entre, uma distância preenchida por híbridos diversos. Como
abordagem inaugural à questão, na consideração de que há uma espécie de
intervalo entre objetos físicos, o que se pode dizer é que o referido
intervalo é feito de um corpo-rizoma, um terceiro corpo feito de aberturas,

1 Desconsidera-se, aqui, também, a distância entre o objeto e a imagem por ele formada.
A referida questão é tomada como exclusivamente pertencente à física e, particularmente,
ao campo da ótica. Entretanto, a presença da subjetividade e da cognição além de vários
outros processos relacionados às particulares experiências e histórias de vida dos sujeitos
constrói compreensões variadas acerca da percepção dos objetos, da distância entre
eles e a imagem que formam em nós, assim como da própria distância entre eles.
2 Tal como aqui empregada, a imagem da existência dos olhos sintetiza a existência da

capacidade de ver não exatamente de olhar, mas de construir visões a partir de todos
os sentidos , de nomear e de encaminhar significados aos objetos e ao seu mundo. Não
existiria, portanto, autônoma, a existência dos objetos e da distância que se estabelece
entre eles. Para ampliação de reflexões, sugere-se a leitura dos diversos ensaios contidos
na obra organizada por Adauto Novaes (1989) e da obra de Italo Calvino (1994).
11
portador de identidades entrecortadas, constituído por relações variadas e
de múltiplas naturezas.
A primeira abordagem à questão parecerá óbvia, mas, de todo
modo, poderá produzir reações: o espaço entre, por si só, pressupõe a
existência de um e de outro- ou de vários - que, por sua vez, são
supostamente distinguíveis. Mais adiante, já poderíamos pensar: caso se
considere o espaço entre como espaço vazio, território do nada e lugar de
ninguém, ele servirá mais como uma representação do limite. Entretanto,
como já se discutiu em abordagens à temática, a instituição do limite já
institui a fronteira. Nesses termos, o entre existe em decorrência da
existência de um e de outro ou de vários; ou seja, aquilo que separa atua,
simultaneamente, como aquilo que, em princípio, reúne ou faz misturar.3
Imaginemos o corpo no topo da colina a ver a cidade. Ver: o que
existirá entre o corpo -cérebro-mente4, olhos - e a cidade? Ver e ler a cidade:
o que haverá entre o cérebro-mente e uma ponta de lápis a deslizar,
articulando palavras e ideias, rabiscando croquis e traduzindo a processada
visão da cidade5 através do espaço em branco de uma caderneta sem

3 Portanto, para acessar interpretações mais aprofundadas por mim desenvolvidas acerca
da temática referente às fronteiras, sugere-se a leitura de Cássio Hissa (2002, 2008, 2011,
2013). Em analogia, poderíamos pensar outros estatutos que se criam simultaneamente,
como, por exemplo, razão e crise da razão, tal como concebidas por Francis Wolff (1996).
Por sua vez, Jacques Rancière (1995, p. 7) é importante referência para se refletir acerca
da natureza desse espaço entre: “partilha significa duas coisas: a participação em um conjunto
comum e, inversamente, a separação, a distribuição dos quinhões. Uma partilha do
sensível é, portanto, o modo como se determina a relação entre um conjunto comum
partilhado e a divisão de partes exclusivas.”
4 A separação entre cérebro/mente e corpo é também interrogada por Antonio Damásio

(1996) e por Oliver Sacks (1995, 1998).


5 A visão não é construída exclusivamente pelos olhos: sentido hipertrofiado e,

especialmente, no âmbito das culturas modernas e ocidentais. Muito do que aqui se refere
está contido em reflexões presentes em documentário produzido por João Jardim e
Walter Carvalho (2001). Ainda, breves notas soltas sobre a cidade: “Do alto, a cidade
pode ser vista como um tecido, cujo cuidadoso bordado parece desmanchar o labirinto
e os becos dos interiores urbanos. Do alto, emanam feixes de visão que gravitam em
torno de uma perpendicular. Procura-se desenhar a cidade, construindo o seu mapa
mental, espraiada em uma imagem delicada de recortes que se entrecruzam. Saliências,
volumes e curvaturas do desenho urbano, do alto, estão suavemente achatados, como se
estivessem transformados em blocos aplainados de imagem. [...] Mais do alto, ainda,
atravessada por rabiscos quase imaginados, a cidade já se transforma em névoa que
12
pautas? O que haverá entre corpo e cidade - esta, por si só, explicitamente,
uma espécie de diversidade entrelaçada de corpos6 de variadas naturezas?
Uma representação de mundo7: superposições e interseções, desmedido
universo de ressonâncias entre células - complexas, por si, mas, sobretudo,
em suas ramificadas relações entre elas e o seu ambiente exterior; um
conjunto plural de silêncios e de vazios fabricados por ignorâncias, acasos
históricos, processuais ou efêmeros, espaço fronteiriço constituído de
excessos que também dizem o mundo.
Talvez, seja mesmo mais essencial do que a reflexão sobre mundos
aparentemente distantes - e que, paradoxalmente, se atravessam -, a
reflexão acerca do que os separa e, simultaneamente, do que os une. Está
posto para se pensar: o corpo-limite- que se faz corpo-fronteira- separador de
mundos é o mesmo que os agrega e, ao mesmo tempo, passo a passo, os
transforma.

II

Limite e fronteira são termos correntemente utilizados para


designar o mesmo: o que separa. Entretanto, certas diferenças entre ambos
serão sempre indispensáveis para a construção de uma espécie de teoria do
entre- ou uma espécie de teoria do entre que abrigasse ou que estivesse
articulada a várias outras: teoria do inter e teoria do trans, do comum, da partilha,
da distância e da proximidade, do pertencimento, do intervalo, da fronteira e do
limite, da passagem e da transição, do silêncio e do ruído, ou do ruído e da música.8

obstrui transparências. O delicado bordado já é feito de um entrelaçado profuso,


derramado através das fronteiras, que mistura cores indefinidas aos olhos do alto”
(HISSA, 2006, p. 87-88). De modo a perturbar a razão contida no suposto olhar objetivo:
“[...] a cidade é constituída de cidades por entre as quais atravessam fronteiras [entres]:
como muro, como transição, como passagem” (HISSA, 2006, p. 89).
6 O corpo da cidade também pode ser compreendido como um acúmulo progressivo de

tempos em variados ritmos e, mais precisamente, como uma sobreposição vertical de


espaços-tempos o que nos daria, por princípio, a possibilidade de pensar a cidade a
partir de uma arqueologia de camadas de história.
7 É o que nos diz Milton Santos (1996): a cidade, a mais representativa expressão de lugar,

é o espaço onde a vida acontece.


8José Miguel Wisnik (1989, p. 30): “o jogo entre som e ruído constitui a música.” A música

redesenha os sons do mundo com o propósito, conforme José Miguel Wisnik (1989, p. 30),
13
No âmbito dos territórios, o limite está voltado para os seus interiores,
como se fosse um duplo de colchetes a encerrar aquilo que contém. Por
sua vez, a fronteira está voltada para os exteriores, como se desejasse ser
compreendida como um duplo de colchetes invertidos e de costas para os
territórios: à frente, fronte, front- originário do francês arcaico - tributários
do latim frons. O que está à frente já ultrapassou o limite demarcatório do
território que, por sua vez, aqui, já é empregado como metáfora de
diversos outros termos com significados variados, dentre os quais destaco:
mundos, lugares, espaço-tempo, corpos, eu, outro, ciências, saberes e
práticas.
Entre um corpo e outro - e demais outros -, há espaço que, por sua
vez, vai se fazendo como rizoma a partir de um e de outro, assim como
de demais outros. O que existirá, então, entrecortado, não é exatamente
um limite que separa, mas uma espécie híbrida de corpo atravessado - um
corpo-travessia, um corpo-passagem feito de atravessamentos - e alimentado
pelo trânsito de um corpo para outro e outros. Este corpo-travessia, corpo-
fronteira, é mesmo o entre: esse território de ocupação de espaços
intervalares entreum e outro que, por sua vez, também se modificam no
contato, pois, além de conceder a existência a um terceiro corpo, eles se
transformam na relação com essa espécie de terceira margem. Entretanto, esse
corpo que se vai construindo não é feito de limites, pois é espaço de
trânsito aberto. Caso pensemos uma epistemologia dos territórios
disciplinares, por exemplo, estaríamos diante de uma epistemologia que,
portanto, é por natureza disciplinar. Nesses termos, pensaríamos as
epistemologias disciplinares referentes aos diversos campos do
conhecimento científico: a cada campo - ou território do conhecimento -
corresponderia uma epistemologia particular que, por sua vez, abrigaria
reflexões acerca das parcelares histórias disciplinares, dos seus métodos,
metodologias e técnicas, práticas específicas de pesquisa e mesmo de
ensino, dentre tantos tópicos que dizem respeito às particularizadas

de “[...] extrair-lhes uma ordenação.” Não há som nem ruído, sem o silêncio. “O mundo
é barulho e é silêncio. A música extrai som do ruído [ruído do mundo] num sacrifício
cruento, para poder articular o barulho e o silêncio do mundo”, diz o pensador e músico
José Miguel Wisnik (1989, p. 32). O ruído e o som da música não são apenas mediados
pelo silêncio, mas, ainda, pela escuta criativa do sujeito. O silêncio está entre o ruído e o
som da música, assim como o sujeito que escuta e cria está entre ambos.
14
epistemologias. Ao contrário do convencional e por oposição às tradições,
caso houvesse uma epistemologia do entre- desse corpo híbrido - haveria de
ser uma epistemologia aberta, uma epistemologia de fronteira.
Este espaço de trânsito aberto –entre- é produzido, no âmbito do
conhecimento científico, por campos aparentemente distintos. Pensemos,
por exemplo, esse espaço entre que se refere às temáticas urbanas: ele é
território aberto, uma espécie de contradição extrema que se faz no âmbito
da ciência, pois, para ele, além dos denominados conhecimentos
científicos, convergem saberes originários de variados campos: sociologia
urbana, geografia urbana, antropologia urbana, filosofia, biologia,
literatura, artes plásticas e visuais, economia urbana, psicologia social,
história, engenharias, arquitetura e urbanismo, dentre tantos outros, além
de variadas práticas sociais de caráter urbano. No entanto, há o que dizer
de muito importante acerca das referidas convergências. As disciplinas e
os saberes não são moventes, ou seja, não são precisamente eles que se
movimentam, mas os sujeitos do conhecimento e do saber. São eles que
fazem o trânsito e que ocupam os espaços fronteiriços. São eles que
compreendem mais o seu campo disciplinar quando estão em trânsito ou
povoando espaços exteriores aos territórios aos quais, em princípio,
julgam pertencer. É deles o trânsito que faz o suposto trânsito da
disciplina. Por sua vez, este espaço entre- este entre-lugar ou entre-território- é o
espaço da invenção, da aventura do conhecimento e dos saberes, da
entrega plena, do improviso, de uma espécie de espaço de jazz a mobilizar
todas as práticas e processos criativos; é exatamente esse espaço de
abertura que possibilita a mais ampla transformação de conhecimento em
saber pleno de sabedoria.
Entretanto, esse espaço entre, em sua condição híbrida, feito de dois
ou mais, não poderá ser um e, tampouco, outro. Esse espaço entre são
muitos: não é singular, mas plural e, sobretudo, pluralidade em processo
de diálogo criativo. Ele é a expressão da transgressão, da mistura, do
atravessamento e da troca, assim como a negação do conhecimento
institucionalizado, canonizado, a despeito, por exemplo, da presença do
discurso acadêmico em prol da transdisciplinaridade a qual, nos termos
postos, procurei denominar de transdisciplinaridade moderna- já que

15
referenciada pelos paradigmas da ciência moderna9; ou seja, profere-se o
discurso em prol da transdisciplinaridade na desconsideração da presença
insinuante do espaço entre e, contraditória e simultaneamente, na
consideração da manutenção da disciplina científica tal como ela é. É no
espaço entre que se realiza o trans e, portanto, não há sentido em se defender
o estéril isolamento daquilo que existe apenas como potência e que,
contudo, se faz existir como arte e como sabedoria, como território aberto
de cultivo, apenas no espaço entre. Como diz Jacques Rancière (2015 [1987],
p. 55), “a ponte é a passagem, mas também a distância mantida.” O esforço
de preservação da autonomia disciplinar nas sociedades modernas, no
âmbito das universidades e do território das ciências, é apenas uma espécie
de manifestação de controle e da explicitação de poderes.10

III

O que se diz das ciências deverá também ser pensado acerca das
artes, pois, a despeito do desejo de construção de suas identidades
particulares11, elas se tocam e se entrecortam, anunciando perspectivas de

9 “Se os territórios disciplinares estimulam a reflexão sobre possibilidades de diálogo


entre os corpos teóricos específicos do conhecimento, serão os próprios limites das
ciências assim como os da universidade moderna que dificultarão o trânsito democrático
do conhecimento [pelos sujeitos]” (HISSA, 2008, p. 21).
10 Para se pensar o limite, há que se refletir, também, sobre os mais variados exercícios

de controle, das práticas de cárcere e reclusão. Na contemporaneidade, tende-se mais à


construção de sociedades de controle no interior das quais ainda estão dispersos os
territórios sociais disciplinares: os cativeiros, os hospitais e até mesmo as escolas podem
ser trabalhados como universos de cerceamento às mais variadas formas de liberdade e,
do mesmo modo, às mais diversas espécies de cerceamento. A disciplina é um dos
instrumentos do poder e, consequentemente, do controle que já se vai fazendo global, já
na transição entre os séculos XX e XXI. Entretanto, como pensa Gilles Deleuze (1987),
as sociedades de controle, ao contrário das sociedades disciplinares, não necessitam e
podem prescindir dos territórios de reclusão. Posto o desenvolvimento da técnica, o
controle já se faz suficiente e independente dos territórios de cárcere, de reclusão. O
muro e os limites já estão presentes no corpo das sociedades modernas. Entretanto, ao
se edificar o muro, já se faz, simultaneamente, a construção abertura.
11 Não são incomuns, também nas artes, os desejos e os movimentos na direção de

parcelamentos que, em geral, atendem às demandas dos órgãos de fomento à pesquisa.


16
desconstrução de especificidades. Entretanto, as referidas perspectivas de
desconstrução - ou de construção de variados terceiros corpos, ou seja, de
espaços entre- se realizam exclusivamente através do trânsito dos sujeitos do
saber artístico, com suas formações que atravessam campos variados e
suas diversas práticas e vivências. Ainda será necessário sublinhar que a
construção de espaços entre- ou o povoamento criativo de fronteiras- implica a
progressiva estruturação de interrogações aos territórios particulares e
supostamente independentes.
Ao refletir sobre música contemporânea e teatro,
simultaneamente, escreve Rufo Herrera (2007 [1984], p. 35): “a proposta
mais recente da música contemporânea seria [assumir] aquilo que a música
tem de mais teatral e o teatro assumir o que ele tem de mais musical.” Está
vivo, presente nesse registro de Rufo Herrera, o espaço entre que se deve
construir e explorar12, esse terceiro corpo: “ao assumir isso, o músico não está
querendo substituir ou abandonar a música, mas ampliar as possibilidades
de expressão de um conteúdo qualquer.” A leitura das breves notas de
Rufo Herrera (2007 [1984], p. 36) permite uma compreensão
suficientemente clara acerca da necessária formação trans e,
consequentemente, da imprescindível construção desse terceiro corpo ou do
que, aqui, já passo a denominar de espaço entre:
No momento em que o músico entra no palco
com seu instrumento e vai interpretar uma
linguagem, ele está representando como um ator.
Não é possível separar uma arte da outra. Da
mesma forma o ator se estranha com a música
[...]. É que o ator não sabe que está fazendo
música enquanto representa determinado papel,

12 Excepcional presença contemporânea nos processos de construção desse espaço entre,


trabalhada pelo grupo Between Music, é patrocinada pela Fundação Dinamarquesa de Artes
Danish Arts Foundation. O exercício criativo do grupo incorpora uma rede internacional
que se apresenta como multidisciplinar constituída por músicos, físicos, engenheiros,
fabricantes de instrumentos, neurocientistas, dentre outros. Desenvolve performances
corporais e experimenta sonoridades musicais sob a acústica no ambiente da água
aquasonic. De acordo com a sua própria apresentação, o grupo trabalha no interior de um
corpo flutuante que se faz entre música, performance, artes visuais e tecnologias novas. Cf.
http://www.aquasonic.dk/
17
pois ele trabalha com palavras e gestos. Ritmo é
tudo isso; é também música.13
Portanto, esse espaço entre, terceiro corpo-entre- não é um, mas são dois
ou vários entrecortados. O terceiro, um corpo entre dois ou mais, não se trata
apenas de um excluído, desconsiderado, desconhecido, ou mesmo de um
terceiro oculto; mas ele diz respeito a um e a dois ou mais corpos
expandidos que se tocam e que, mediados pelos sujeitos, se atravessam e
estimulam, inclusive, aqueles que lhe concederam existência. O terceiro é
a fronteira; ou, para redesenhar a metáfora de João Guimarães Rosa (1975
[1962], p. 33), a terceira margem- também construída por diversas outras - do
rio feito de vários outros: “[...] outra sina de existir, perto e longe [...].”
Outro modo de compreender a existência: aqui e ali, simultaneamente;
aqui e ali, juntos, atravessados, que existem em razão da existência de um
e de outro; o agora, entre a existência daquilo que aparentemente se foi e
o devir que se faz desde o agora.
Há dificuldade de concepção desse terceiro corpo- esse entre14- no
âmbito das ciências como, também, no das artes. Há o desejo de ser ciência
e nada mais, valendo tal desejo também para as artes. Pensemos, portanto,
a existência de variados modos de dizer o mundo, de interpretá-lo, de
compreendê-lo, de representá-lo. A literatura diz o mundo. A ciência diz o
mundo, também, mas por caminhos supostamente diferentes: é este o
desejo da ciência, que, por sua vez, através do discurso que profere - o dos
cientistas -, se dá o direito de dizer o que é, mas, também, o que não é
científico. Ao proferir tal discurso, exterioriza e inferioriza o discurso dos
demais saberes e práticas de tal modo que, a partir de então, se afirma

13 Os escritos de Rufo Herrera são extraídos da obra de Ione de Medeiros (2007),


publicados originalmente em entrevista concedida ao jornal Estado de Minas, em 25 de
abril de 1984. Passagens extraídas de Renato Cohen (2004, p. 50) complementam o
argumento: “Essa ‘babel’ das artes não se origina de uma migração de artistas que não
encontram espaço nas suas linguagens, mas, pelo contrário, se origina da busca intensa,
de uma arte integrativa, uma arte total, que escape das delimitações disciplinares.”
14 Ele existe como espaço aberto de guerrilha. Não se trata de um território estruturado

a partir de um núcleo de poder. Entretanto, ele é invisibilizado pelos campos delimitados


do conhecimento e parece se deixar ser e, no entanto, com isso, se fortalece como
espaço de resistência crítica e criativa. A leitura de Boaventura de Sousa Santos (2004,
2010), acerca das sociologias das ausências e das emergências, permitiria avanços maiores
na compreensão desse terceiro corpo, de modo como pretendo aqui desenhá-lo.
18
como discurso hegemônico. Talvez, seria acertado afirmar que o desejo da
literatura não é o da ciência; e, ainda, através de percursos também
supostamente diferentes, ela se satisfaça e se baste ao se afastar dos
caminhos percorridos pela ciência. Mas com a radicalização da
modernidade, o discurso científico - alicerçado, também, vigorosamente,
no modo de pensar cientificamente, como diz Milton Santos (2011)15 - tornou
progressivamente hegemônico o modo científico de dizer o mundo. A referida
hegemonia se dá no âmbito da ciência, mas, por extensão, no âmbito das
sociedades modernas, posto o espraiamento da técnica e da racionalidade
nos corpos de mundo ocidentais globalizados.16
O terceiro corpo -terceira margem-entre ciência e arte: território aberto,
um híbrido a desafiar cânones. Ao ultrapassar o limite que se faz entre um
e outro, poder-se-ia afirmar que há uma relativa perda de si? Ao se
apropriar da linguagem do outro, o sujeito não apenas incorpora a
linguagem e o discurso do outro, mas aperfeiçoa a que julga ser a sua
própria e exclusiva. Perde-se no outro- uma espécie de entrega e de negação
ao individualismo -, sem que se esteja perdido, para que haja perspectiva
de diálogo com ele e, além disso, cria-se a possibilidade de nele se
reconhecer. De alguma maneira, transforma-se no outro e, com isso, cria-
se a perspectiva de construção e cultivo do espaço entre. Entretanto, esse
transformar-se no outro é, também, transformar-se a partir dele, constituindo, em
si, a sua identidade agora aberta e permanentemente a se metamorfosear.
Ao se referir às práticas, métodos e processos criativos de arte e
de ciência, não há como ignorar certas manifestações como, por exemplo,
a de Gilles Deleuze (1987), para quem “[...] a ciência [como as demais
outras artes], [...] não é menos criadora”; e, aqui, ele já encaminha um
registro bastante espraiado a fortalecer as posturas nada hegemônicas que
contrariam a distância epistemológica entre os dois territórios: “eu não
vejo tanta oposição entre as ciências [e] as artes [...].” Se há oposição e,
sobretudo, se há distinção, elas poderão mais se referir às individualidades
de artistas e de cientistas. Os paradigmas hegemônicos desejam que

15 O pensamento de Milton Santos a que se refere é originalmente publicado pela Revista


Veja, Editora Abril, ano 27, n.º 46, 16 nov. 1994.
16 O conceito de corpo do mundo está brevemente trabalhado em capítulo de livro publicado

na EDUFBA (HISSA, 2009). De modo aprofundado, ele é desenvolvido em obra inédita


intitulada O corpo do mundo.
19
acreditemos na inventividade e na criatividade da arte e dos artistas, assim
como a busca da verdade e a descoberta estariam confinadas às práticas
científicas. Entretanto, pensemos juntos, com Gilles Deleuze (1987): “[o]
cientista [...] também inventa. Ele não descobre. [...] Ele [...] cria tanto
quanto um artista.”17

IV

A literatura: a paisagem do texto. O exercício criativo da escrita é o


do pensamento que vai se desenhando, insidiosamente, entreletras. Mas a
paisagem do texto existe em razão da presença do leitor. A paisagem do texto é
a paisagem vista por ele, leitor, intérprete. Há uma espécie de corpo que se
faz entre os olhos do sujeito que lê - olhos feitos do corpo-mente-vivência do
sujeito - e a paisagem do texto que vai se transformando ou se reescrevendo,
conforme e a partir da presença ativa do leitor.18 A partir do instante que
a existência da paisagem do texto se dá através da existência compreensiva

A sala de aula, também, na consideração de como ela se dá, poderá ser pensada a partir
do conhecimento que ali se produz. Compreendo o espaço da aula como o da
representação e o da pesquisa, da reflexão sobre o que se lê e o que se cria. É espaço de
criação. O espaço da aula é também o da troca, da exposição que se dá no corpo difuso de
diálogo entre vários. É espaço entre. Diz Gilles Deleuze (1987) sobre a aula, devendo isso ser
pertinente tanto para as artes quanto para a ciência: “para mim, uma aula não é destinada
à sua compreensão em sua totalidade. A aula é uma espécie de matéria verdadeiramente
em movimento; e, por isso, ela é musical. Em uma aula, cada um, cada grupo ou cada
estudante absorve o que lhe convém. Uma aula ruim é aquela que não convém a ninguém.
Mas não se pode dizer que tudo convém a todos, não importando quem sejam eles. [...]
É evidente que haverá alguém adormecido. [Será um mistério] que ele acorde no
momento que lhe concerne? [...] Uma aula é emoção. É tanto emoção quanto inteligência.
Caso não haja emoção, não há mais nada, não há interesse algum. [Portanto], não é uma
questão de tudo seguir e de tudo escutar, mas se trata de acordar a tempo de [escutar] o
que, pessoalmente, lhe convém. Por tal motivo, é muitíssimo importante que haja um
público muito diversificado; pois se sente muito bem os centros de interesse que [se
deslocam de um ao outro, de um lugar a outro]. Isso constitui uma espécie de esplêndido
tecido, uma espécie de textura.”
18 Diante da paisagem, com a sua capacidade de compreensão, o sujeito se desloca na

direção desse espaço entre: ele vê através de uma espécie de entre construído a partir dele
mesmo e da paisagem.
20
do sujeito, ela, a paisagem, adquire um estatuto ontológico que, por sua
vez, mobiliza a existência do sujeito que lê; ela adquire presença.19
Há, portanto, um espaço intermediário, uma espécie de entre lugar, tal
como sugerido por Silviano Santiago.20 Emanuele Coccia (2010, p. 19-20),
aparentemente com os mesmos olhos de Silviano Santiago, enfatiza a
existência desse espaço intermediário em que “[...] as coisas se tornam
sensíveis” e, portanto, “[...] é desse mesmo espaço que os viventes colhem
o sensível com o qual, dia e noite, nutrem suas próprias almas.” Emanuele
Coccia (2010, p. 19-20) ainda fortalece o argumento que aqui se
desenvolve: “[...] é sempre fora de si que algo se torna passível de
experiência: algo se torna sensível apenas no corpo intermediário que está
entre o objeto e o sujeito.” Sobre a natureza desse espaço intermediário,
de Emanuele Coccia (2010, p. 20) são extraídas passagens que dialogam
com o pensamento que aqui procuro trabalhar: “[...] esse espaço não é um
vazio. Sempre é um corpo, sem nome específico e diferente em relação
aos diversos sensíveis, mas com uma capacidade comum: aquela de poder
gerar imagens.”
Ciência e literatura são mundos que se querem distintos, mas que,
com o uso da palavra, podem experimentar perspectivas de construção de
um terceiro corpo entre ambos e, sobretudo, de se transformarem a partir dele.
Nessas circunstâncias, pode haver traços de certa ciência na literatura, assim
como traços de literatura na ciência-saber; ou mesmo poderão ser indistintos

19 Talvez, em determinadas circunstâncias, menos do que a paisagem da sala de aula, talvez


mais: o ato constitutivo da presença da paisagem do texto tem a mesma natureza do ato
constitutivo da paisagem da cena no teatro e no cinema. Sem o espectador essa presença
ativa , a paisagem da cena é destituída de sentido ou, simplesmente, deixa de existir, tal
como nos diz Jean-Louis Comolli (2011).
20 Silviano Santiago: “foi a partir daí que criei o conceito de ‘entre’, ‘entre-lugar’, o lugar

de observação, de análise, de interpretação não é nem cá, nem lá, é um determinado


‘entre’ que tem que ser inventado pelo leitor.” A referida passagem é extraída do Dossiê
Trópico, em texto de entrevista com Silviano Santiago intitulada “Silviano Santiago:
literatura é paradoxo”, por Carlos E. O. Miranda, em que o escritor comenta o seu
romance O falso mentiroso. Disponível em:
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/print/2375.htm. Acesso em: 12 de dezembro de
2015.
21
os referidos mundos: sendo o que sempre deveriam ser como arte, ciência-
saber e saber literário.21
Poderiam ser aqui encaminhadas várias explicitações da presença
da literatura no mundo da ciência; e, do mesmo modo, da presença da
ciência, da teoria científica e mesmo da filosofia da ciência, no mundo da
literatura. Poderíamos pensar textos de João Guimarães Rosa (1995
[1957], p. 1159) e, por exemplo, aquele no qual ele diz Minas Gerais: “Minas
é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a verticalidade esconsa, o
esforço estático; a suspensa região que se escala. [...] Seu orbe é uma
pequena síntese, uma encruzilhada; pois Minas Gerais é muitas. São, pelo
menos, várias Minas.” Imagina-se que Guimarães Rosa, nessa passagem,
não teve a intenção de pensar esse espaço entre, nos termos aqui discutidos.
Entretanto, quando ele diz Minas é muitas, é proveitoso que se reflita sobre
esta presença, essa paisagem feita de entre, tal como em Primeiras Estórias ele
criou a terceira margem do rio.
De outra parte, poderíamos, também, encaminhar vários trechos
da vasta obra de Italo Calvino. Em diversas passagens, ele, escritor-
pensador, estimula a reflexão sobre a vida, a existência, o mundo, as
cidades e até mesmo a sua literatura tida como ficcional é carregada de
filosofia e de traços de ciência. Dentre tantos, segue apenas um trecho de
Italo Calvino (1990, p. 90):
Não serei tão drástico: penso que estamos sempre
no encalço de alguma coisa oculta ou pelo menos
potencial ou hipotética, de que seguimos os
traços do Paleolítico em que nossos ancestrais se
davam à caça e à colheita. A palavra associa o
traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à

21 Procuro, em determinadas circunstâncias, diferenciar conhecimento de saber. No âmbito


da modernidade, enquanto o conhecimento é algo pertencente ao expert ou ao
conhecedor ao especialista, disciplinar por natureza , o saber, incorporando
sabedorias, afasta-se do monólogo disciplinar e se movimenta na direção do diálogo,
ocupando fronteiras e fortalecendo terceiros corpos, o entre. A produção de saber é processo
que reaproxima a ciência da ética, da arte, da filosofia, das múltiplas possibilidades de
encontros e de diálogos que resultam na sua própria e permanente transformação. O
conhecimento, sempre particularizado, aproxima a ciência da técnica, menos reflexiva e
crítica e pouco comprometida com a transformação.
22
coisa desejada ou temida, como uma frágil
passarela improvisada sobre o abismo.
Por sua vez, o jurista e sociólogo Boaventura de Sousa Santos
(1989, p. 128) sugere, explicitamente, a relação entre o amadurecimento
dos cientistas e o uso da linguagem literária:
[...] se analisarmos a carreira científica de alguns
cientistas sociais preocupados com o rigor da
linguagem (Lazarsfeld, Merton, Parsons,
Bourdieu, Touraine, Boulding, Bell, Galbraith,
Hirschman etc.), verificamos que à medida que os
anos passam e eles avançam na sua investigação
os seus textos tornam-se mais literários,
metafóricos, imagéticos e analógicos.
Boaventura de Sousa Santos, entretanto, faz uso do tempo
cronológico para pensar o amadurecimento intelectual que, por sua vez,
nem sempre está subordinado ao tempo do relógio. Há um tempo que se
faz entre o do relógio e o tempo da vida experimentada que, por sua vez,
poderá ser ampliado a partir do modo como se vive e se concebe a vida.
Entretanto, o cientista social dá mostras de que a escrita literária não é
exclusivamente pertencente à literatura, assim como poderemos pensar
que a explicação científica não ultrapassa os limites da efêmera e
circunstancial e, muitas vezes, até ficcional interpretação do mundo.
Em prefácio, Boaventura de Sousa Santos (2008, p. 7) anota: “será que o
estilo da ecologia de saberes é o ensaio? Será que estamos de regresso a
Montaigne?” As questões, em tom afirmativo, adquirem a conotação aqui
enfatizada: no âmbito das ciências sociais, das humanidades, o ensaio seria
o estilo de escrita mais adequado? Poderíamos acrescentar: retomaríamos,
assim, o gosto pela escrita, pelo texto, pela leitura, pela palavra?
A palavra e o gosto pelo mundo não poderão ser exclusividade da
literatura e das artes mas, tampouco, pertenceriam à ciência; e, sobretudo,
não pertenceriam à ciência moderna, em sua busca tateante por garantias
e à procura estéril de uma incontestável verdade. Uma das consequências
do modo científico de pensar o mundo, sobretudo ao longo da história do século
XX, é uma escrita cansada, de público restrito, uma espécie de letra sem risco.
O mundo diz através da palavra que diz o mundo. Quando não se sabe,
poder-se-ia imaginar o que se produz: silêncio. O mundo diria menos e, com

23
isso, o silêncio seria a expressão do pouco que se sabe, ou do quase nada
que se sabe. Entre o não saber e a escuta que recobre o silêncio de saber,
haveria um corpo feito de ambos, um terceiro a construir rotas à procura da
sabedoria e da palavra que diz o mundo. O silêncio: manifestação basilar
do saber que nos chega. O excesso de palavras recobre o mundo de pouco
saber e, mais, de sabedoria quase ausente. Diante de tanta informação
circulante, esse paradoxal estado de pouco saber ou de quase saber
nenhum , o mundo se expressaria através de parcos, titubeantes e tímidos
sussurros. A escuta e os silêncios são manifestações de saber, pois já
exteriorizam a presença de uma espécie de cartografia do desejo de mais
saber. O paradoxo: simultaneamente, mais informação mais anúncio de
conhecimento informativo distante de saber e menos capacidade de
processamento, menos sabedoria, mais palavras a dizer o pouco de mundo
proferido pela profusão de palavras que pouco ou nada dizem; e,
contraditoriamente, mais convicção e arrogância.
O gosto pelo mundo dar-se-ia através do gosto pelas palavras: é o
que nos diz Boaventura de Sousa Santos (1987), em aula magna proferida
na Universidade de Coimbra. Por sua vez, esse gosto pelas palavras se
expressaria, também, através do seu uso preciso. Mas a profusão de termos
destituídos de mundo implica o desgaste das palavras e,
consequentemente, o enfraquecimento do gosto, dos significados de
mundo e de vida sobre os quais se procura saber. Ressalta Jacques
Rancière (2014 [1992], p. 101) que “a ‘geografia’ [exigida pela] nova
história [...] é, em primeiro lugar, espaço simbólico que dá aos reis uma
boa morte e funda a condição primeira da ciência histórica: que nenhuma
palavra fique sem lugar.” Ainda: que esse lugar seja preciso em sua
imprecisão territorial — originária desse terceiro corpo, estímulo do vaguear
e do trânsito — tão criativa e desejosa de cultivo: esse espaço entre.

24
REFERÊNCIAS

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