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FUNDAMENTOS

ANTROPOLÓGICOS DO
SERVIÇO SOCIAL
PROF. DR. ÉDER RODRIGO GIMENES
Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior


A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma
ação integrada de suas atividades educacionais, visando à
geração, sistematização e disseminação do conhecimento,
para formar profissionais empreendedores que promovam
a transformação e o desenvolvimento social, econômico e
cultural da comunidade em que está inserida.

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são de conceitos.
FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS
DO SERVIÇO SOCIAL
PROF. DR. ÉDER RODRIGO GIMENES

SUMÁRIO

AULA 01 AS CIÊNCIAS SOCIAIS E A ANTROPOLOGIA 6


AULA 02 FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA 15
AULA 03 AS BASES DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO 23
AULA 04 CORRENTES ANTROPOLÓGICAS: O 30
EVOLUCIONISMO
AULA 05 CORRENTES ANTROPOLÓGICAS: O 37
FUNCIONALISMO
AULA 06 CORRENTES ANTROPOLÓGICAS: O 44
CULTURALISMO
AULA 07 ANTROPOLOGIA A SERVIÇO DO PODER POLÍTICO 52
AULA 08 ANTROPOLOGIA E A SUPERAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS 59
AULA 09 O “FAZER” ANTROPOLÓGICO 65
AULA 10 CIENTIFICIDADE DA PESQUISA ANTROPOLÓGICA 72
E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE
AULA 11 A ETNOGRAFIA COMO ESCRITA ANTROPOLÓGICA 77
AULA 12 ESTRATÉGIAS ALTERNATIVAS À PESQUISA 83
ANTROPOLÓGICA
AULA 13 A IDENTIDADE E A ANTROPOLOGIA 90
AULA 14 MULTICULTURALISMO, MARCADORES SOCIAIS 95
E SERVIÇO SOCIAL SOB A PERSPECTIVA
ANTROPOLÓGICA
AULA 15 ARTE, EDUCAÇÃO E SERVIÇO SOCIAL SOB A 101
PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA
AULA 16 DIREITO, SAÚDE E SERVIÇO SOCIAL SOB A 106
PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA
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PROF. DR. ÉDER RODRIGO GIMENES

INTRODUÇÃO

As relações sociais influenciam e são influenciadas pelos arranjos sociais constitu-


ídos pelas instituições estruturadas e pela maneira como aspectos culturais diversos
delimitam e proporcionam possíveis caminhos à vida em sociedade. Neste material
didático, a cultura se coloca como elemento central às explicações da vida social, com
foco no diálogo com o Serviço Social.
Nesse sentido, o conteúdo desta disciplina proporciona duas distintas perspectivas
de leitura e interpretação: a primeira é crítica e analítica, vinculada à sua formação, aos
conteúdos com os quais já teve contato e suas expectativas profissionais; a segunda
diz respeito a aspectos mais amplos, para além da profissionalização de assistentes
sociais e se relaciona à vida em sociedade e às múltiplas interfaces com aspectos
sociais, políticos, econômicos, jurídicos, religiosos etc. É sua inserção cidadã em seu
contexto social!
A fim de estabelecer o aprofundamento e refinamento da primeira perspectiva,
este material didático compõe-se de dezesseis aulas, estruturadas em quatro blocos,
definidos conforme os objetivos pertinentes ao desenvolvimento de habilidades em
sua formação.
O primeiro bloco agrega as aulas um a três, que tratam do estabelecimento das
bases teóricas em que se fundamenta nossa discussão. Para tanto, são abordados o
surgimento das Ciências Sociais enquanto grande área onde localizamos a Antropolo-
gia, o início dos estudos antropológicos e da produção do conhecimento relacionado
à cultura e os primeiros autores a preocupar-se com a delimitação dessa área como
campo específico de pesquisa e intervenção.
O objetivo deste primeiro conjunto de aulas é apresentar a conformação histórica da
Antropologia até o início do século XX, passando pela exposição acerca do surgimento
e dos principais autores clássicos das Ciências Sociais, a delimitação da Antropologia
com relação à sua definição e de seu objeto de estudos e considerando Durkheim e
Mauss como primeiros pensadores a defender suas especificidades.
O segundo bloco é composto pelas aulas quatro a oito e refere-se ao aprofunda-
mento teórico e conceitual acerca das principais correntes de pensamento antropoló-
gico consideradas neste material didático. Os conteúdos abordam o evolucionismo, o
funcionalismo e o culturalismo, cada qual com sua caracterização, principais pontos

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de destaque e autores principais. Dada a pertinência da Antropologia Cultural à atua-


ção no âmbito do Serviço Social, dedicamos aulas específicas para tratar de estudos
exemplares da referida corrente.
Portanto, trata-se de um conjunto de aulas que objetivam possibilitar a compreen-
são histórica ampla acerca das distintas perspectivas de investigações passíveis de
realização no âmbito dos estudos sobre culturas, valores, tradições, comportamentos
e estabelecimento de relações sociais.
O terceiro bloco reúne as aulas nove a doze, nas quais avançamos em nosso estudo
para tratarmos de aspectos metodológicos relevantes no âmbito dos fundamentos
antropológicos ao Serviço Social. Nessas aulas, são expostos apontamentos sobre o
“fazer” antropológico e como este se conforma nos estudos empíricos, da observação
à escrita e ainda considerando técnicas qualitativas específicas para coleta de dados.
Este terceiro bloco, então, objetiva fornecer subsídios metodológicos à aplicação de
conhecimentos antropológicos na atuação de assistentes sociais, uma vez que permite
a reflexão sobre ações como ouvir, olhar e escrever enquanto elementos estruturantes
dos diagnósticos sociais a ser produzidos pelos profissionais em formação.
A última parte desta disciplina reúne as aulas treze a dezesseis, nas quais são
discutidos temas contemporâneos da Antropologia e suas interfaces com o Serviço
Social. Isto posto, tratamos da conformação de identidades, do multiculturalismo e dos
marcadores sociais em diálogo com sua área de formação, bem como destacamos
como a pesquisa antropológica permite aos assistentes sociais trabalhar temáticas
pertinentes à arte, educação, Direito e saúde.
Isto posto, o quarto bloco de aulas tem o objetivo de oferecer um panorama atual de
possibilidades de intervenção social que se utilize de aspectos teóricos, metodológicos
e empíricos da Antropologia à atuação no âmbito do Serviço Social.
Após esse conjunto de aulas, a disciplina é concluída com a sedimentação das
bases conceituais da Antropologia aplicada ao exercício da profissão de assistente
social, tendo em vista a consolidação do conhecimento sobre os fundamentos antro-
pológicos em perspectiva histórica e multidimensional - dadas as correntes analíticas
evolucionista, funcionalista e culturalista abordadas - e suas aplicabilidades em termos
metodológicos e dialógicos com o Serviço Social.

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AULA 1
AS CIÊNCIAS SOCIAIS E A
ANTROPOLOGIA

É recorrente ouvirmos a expressão “o brasileiro precisa ser estudado” quando nos


deparamos com situações insólitas ou em que a criatividade de nossa população nos
surpreende, contudo, poucos sabem que o estudo dos homens convivendo em socie-
dade - com suas especificidades e generalidades - já encontra-se consolidado com
campo de conhecimento e trata-se das Ciências Sociais. Nesta aula, são apresentados
aspectos pertinentes à definição, origens e campos de atuação das Ciências Sociais,
onde se enquadra a Antropologia.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoas-caminhando-andando-viajando-3768222/

1.1 As Ciências Sociais e o estudo das sociedades

As Ciências Sociais remetem ao campo de conhecimento científico que tem por fina-
lidade conhecer o processo de formação da sociedade atual e as condições nas quais

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ela se desenvolveu. Para tanto, implica na realização de estudos e análises dos pro-
cessos históricos de conformação das relações sociais enquanto saberes específicos.
Isso significa que as Ciências Sociais se constituem enquanto campo de conheci-
mento dinâmico e perene, uma vez que as sociedades estão em constante alteração
ou ressignificação de elementos e fenômenos ao mesmo tempo em que determinados
aspectos persistem e/ou possuem características explicativas semelhantes ao longo
dos séculos.
As relações entre Estado e poder, as lutas dos trabalhadores por condições mais justas
de trabalho e remuneração, a necessidade de educar as populações para o desenvol-
vimento pleno de suas capacidades e das sociedades... estes são alguns exemplos de
temáticas discutidas pelas Ciências Sociais há muitos séculos e que persistem relevan-
tes e definidores dos caminhos do desenvolvimento das sociedades contemporâneas.
Mas como definir o que são as Ciências Sociais? Um caminho para tanto é conside-
rarmos cada um dos termos que compõem esse campo do conhecimento de maneira
isolada para, na sequência, retomarmos à sua definição. Assim, vamos refletir sobre
a que remetem os termos “Ciência” e “Social”, em diálogo com autores como Lakatos
(1995), Giddens e Turner (1999) e Dias (2014).
Primeiro, remetendo à noção do que é ciência, temos que se trata de uma maneira
de organização sistemática do conhecimento adquirido ao longo do tempo sobre um
determinado assunto, que consiste na disposição ordenada de informações, análi-
ses e interpretações com a finalidade de possibilitar a compreensão de determinado
aspecto, fenômeno ou processo sem que seja obrigatória a leitura de tudo o que já
foi pesquisado anteriormente. Uma característica importante da ciência é sua busca
pela identificação de regularidades, o que implica inferir que o pensamento científico
se preocupa com a verificação daquilo que é recorrente para compreender os padrões
de determinado objeto. Assim, é possível compreender a ciência como uma forma de
pensar e agir, considerando as distintas perspectivas e possibilidades de raciocínio e
ação testadas e analisadas ao longo do tempo.
Já com relação ao que remete o termo “social”, este diz respeito à sociedade, definida
sucintamente pelos referidos autores como um grande corpo que é coletivo e está em
constante movimento. Por remeter a um todo composto por partes que possuem múl-
tiplas formas de ação e organização, a sociedade é permeada por especificidades que
dialogam com elementos culturais, legais, políticos, de desenvolvimento tecnológico
e outros tantos - sobre os quais dialogaremos em aulas onde trataremos das relações

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entre aquilo que discutimos neste livro e o Serviço Social - que conformam a vida em
coletividade. Assim, trata-se de um objeto que é, per se, dinâmico, uma vez que a vida
em sociedade tem se alterado cotidianamente e se tivéssemos que destacar uma
característica recorrente nas organizações humanas seria, justamente, a ausência
de monotonia da vida em sociedade, pensada em termos de alterações de costumes,
valores, institucionalidades e percepções sobre temas diversos.
Diante desses dois conceitos, “ciência” e “social” (ou sociedade), nos colocamos
diante de um paradoxo das Ciências Sociais, que é, também, seu diferencial com as
outras áreas do conhecimento das Humanidades: considerando que a ciência tem por
finalidade a organização sistemática do conhecimento adquirido e que a sociedade
é um objeto em constante movimento e alteração, as Ciências Sociais constituem o
campo do conhecimento científico que visa compreender as regularidades e as espe-
cificidades das dinâmicas sociais.
Uma vez conhecida a definição de Ciências Sociais é possível avançarmos à com-
preensão de como essa área de conhecimento surgiu, tendo em vista se constituir
como espaço de produção de pesquisas e propostas de intervenções que dialogam
sobremaneira com o trabalho na área do Serviço Social. Para tanto, o próximo tópico
desta aula se dedica a apresentar os primeiros pensadores de destaque nas Ciências
Sociais, reconhecidos até a atualidade como pais fundadores desse campo do conhe-
cimento científico.

Isto acontece na prática


Os processos de evolução dos meios de produção é constante, tanto que
há autores que apontam que vivenciamos a Quarta Revolução Industrial, ou
Revolução 4.0 que se caracterizaria pela robotização de parte das atividades
e profissões (PHILBECK, 2019). Para além de indicadores e das análises de
perfil dos usuários, a maneira como assistentes sociais lidam com as situa-
ções pode ser um diferencial a considerar nesse processo.

1.2 O conhecimento nas Ciências Sociais

O objeto de discussão das Ciências Sociais começou a ser analisado junto às Ciên-
cias Humanas de um modo geral, ou seja, com o advento da Filosofia grega cerca de

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500 anos a.C., quando Platão e Aristóteles pensaram e sistematizaram conhecimentos


sobre a democracia e a vida em sociedade.
Entre os séculos V e XV, o desenvolvimento do conhecimento esteve a serviço da
relação entre as elites políticas nacionais e a Igreja Católica, tanto que o modelo de
educação vigente no período medieval foi pautado pela escolástica e a metafísica,
focadas na explicação dos caminhos do desenvolvimento da humanidade em diálogo
expressivo com a religião e o divino.
Contudo, diante de alterações sociais ocorridas em virtude do desenvolvimento do
comércio e das relações de trabalho, no período moderno a sociedade política se afastou
da Igreja Católica, o que refletiu - dentre outras áreas - na maneira como a concepção
de conhecimento se colocava. A partir do século XV e até o fim do século XVII, ocorreu
grande desenvolvimento da ciência e da racionalidade, diante da alteração da maneira
como o pensamento social passou a se conformar.
Em outras palavras, a racionalidade se desenvolveu, no período moderno, em contra-
posição à interpretação religiosa (males como tentações malignas) e em conformidade
com os avanços econômicos e sociais decorrentes das grandes navegações e das
Revoluções Industrial e Francesa, de modo que as Ciências Sociais (especialmente a
Sociologia) emergiram no contexto de conflitos e necessidade de compreender fenô-
menos sociais e suas implicações.
Naquele contexto, o surgimento das universidades foi de grande relevância às Ciên-
cias Humanas, conforme destaca Collins (2009, p. 19), ao afirmar que as referidas insti-
tuições de ensino superior logo se caracterizaram como “lar” dos intelectuais, de modo
que “a história do pensamento humano a partir de então oscilou entre uma interação
entre a comunidade intelectual e o mundo exterior e um isolamento das universidades
em relação a questões práticas e ortodoxias ideológicas [...]”.
Assim, é perceptível uma crítica recorrente às universidades enquanto espaços de
construção do saber: apesar de terem surgido como espaços para a transmissão do
conhecimento, há pouco diálogo com a comunidade, de modo que caberia às Ciências
Sociais estabelecer tal diálogo!
Nesse sentido, especialmente no contexto do Renascimento e das Revoluções Indus-
trial e Francesa, as transformações econômicas e sociais favoreceram a disseminação
do conhecimento dos pensadores destacados no próximo tópico desta aula, de modo
que promoveram a valorização de saberes clássicos e sua relação com temas como
capitalismo, antropocentrismo e mudanças culturais. Eis o contexto de conformação

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dos campos de atuação, pesquisa e debates em Ciências Sociais: Sociologia, Antro-


pologia e Ciência Política.
A Sociologia tem raízes diversas nas Ciências Humanas e é considerada a mãe
das Ciências Sociais, pois estuda os arranjos sociais, suas transformações e impli-
cações tendo como foco o estudo do homem atuando em sociedade, de maneira
ativa e/ou passiva.
Esta área surgiu relacionada às interpretações sociais decorrentes das grandes
navegações, com novos territórios explorados, os surgimentos dos burgos no contexto
das Cruzadas, as migrações e o estabelecimento de nova classe social. Inicialmente, se
debruçou sobre a Revolução Industrial e o debate em torno da necessidade de mão de
obra nas cidades, o êxodo rural, os processos de urbanização, as condições de vida e
de trabalho, a insatisfação e organização operária, sendo que atualmente discute - em
diálogo com o Serviço Social - desigualdades sociais, problemas sociais (como alcoo-
lismo, suicídio, prostituição e homicídios), pautas dos trabalhadores e a necessidade
de intervenção do Estado diante do binômio contenção x políticas públicas.
Por sua vez, a Antropologia se dedica aos estudos sobre culturas, desenvolvidos a
partir da descoberta de sociedades tribais por conta das grandes navegações, com
abandono da percepção do europeu como divino e conhecimento a partir da visão do
“eu” e do “outro”. O objeto da área é o homem e seu relacionamento consigo e com a
sociedade (mundo exterior).
Como surgiu no contexto do expansionismo europeu, inicialmente os estudos antro-
pológicos se depararam com o novo homem desconhecido e a necessidade de conhe-
cê-lo à luz do homem europeu, de modo que a perspectiva analítica da evolução do
homem se revelou influente à área tanto no âmbito físico/biológico quando cultural. Para
tanto, esta área desenvolveu uma técnica de pesquisa específica, a etnologia, pautada
pela observação participante, pesquisa do/no cotidiano, estranhamento e relativização.
Por fim, a Ciência Política foi a última área das Ciências Sociais a se desenvolver e se
constitui voltada aos estudos e discussões relacionadas ao campo da política e seus
desdobramentos, como as relações de poder, estruturas e instituições. Seu foco é o
estudo do homem sob a perspectiva da ação política, ativa e/ou passiva, bem como das
interfaces com o Estado, suas estruturas e outros elementos, como partidos políticos
e o comportamento dos indivíduos.
A origem da Ciência Política remonta ao fim do século XIX nos Estados Unidos e o
fato de ser ainda um campo autônomo de pesquisa remete às relações de seu objeto

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com áreas como a Sociologia, a Filosofia e o Direito, por exemplo. Contudo, o primeiro
texto reconhecido (posteriormente) como relacionado a tal campo é “O Príncipe”, de
Nicolau Maquiavel (1976), com publicação original de 1512. Ao longo do século XX
e neste início de século XXI, a Ciência Política tem ganhado destaque por conta das
relações políticas globalizadas e dos embates sociais, culturais, políticos, ambientais
e territoriais relacionados à elevação das desigualdades sociais em virtude da concen-
tração de riquezas.

1.3 Grandes clássicos das Ciências Sociais

Como primeira área de desenvolvimento das Ciências Sociais, a Sociologia responde


pelos primeiros e principais autores de destaque no contexto de surgimento do grande
campo das Ciências Sociais. Neste sentido, nesta seção abordamos brevemente as
teorias de Auguste Comte, Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber.
Auguste Comte é considerado o antecessor dos primeiros clássicos estudos das
Ciências Sociais. Apontado por autores com Sell (2012) como o “Pai da Sociologia”
buscava conhecer as Ciências Naturais e também compreender os fenômenos da vida
social. Assim, em seus estudos, considerou o método das Ciências Naturais como
fundamental ao estabelecimento dos princípios para interpretação das sociedades
humanas, originando o que ficaria conhecido como Física Social (COMTE, 1989).
A Física Social deveria buscar compreender os fenômenos sociais como resultado da
evolução das civilizações até chegar à “Europa civilizada”, entendendo o homem como
parte do corpo social, elemento em uma lógica universal de respeito às leis naturais
dentro da vida social.
Nesse sentido, o pensador tratou das relações entre positivismo e racionalidade
ao definir que a positivação das ações dos homens com relação à política e à moral
ocorreriam de distintas maneiras, denominadas conjuntamente como a “lei dos três
estágios”, pautada pela busca pelo entendimento do desenvolvimento humano a partir
do conhecimento científico acerca da vida social.
No primeiro estágio, teológico, os fenômenos naturais só seriam compreendidos
com a crença de um elemento divino, sendo que nosso conhecimento sobre a vida
seria superficial e a verdadeira compreensão da vida estaria além de nossa capaci-
dade humana.

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O segundo estágio, de abstração, seria marcado pela preocupação com a compre-


ensão de fenômenos físicos a partir da observação, o que permitiria a comprovação
de fenômenos sociais aos moldes das Ciências Naturais, sendo que o corpo social
(sociedade como um todo) deveria ser regulado pelo Estado.
Por fim, no terceiro estágio, positivo, a compreensão de fenômenos sociais passa-
riam pela observação e pela comprovação científica, sendo que descobertas seriam
consideradas científicas conforme sua aplicabilidade.
Émile Durkheim foi o primeiro pensador reconhecido como clássico das Ciências
Sociais. Influenciado pelas ideias de Comte destacou-se por obras que tratavam das
relações entre os indivíduos nas sociedades e por sua preocupação em produzir um
método científico que fosse reconhecido no ambiente universitário. O autor, que tra-
balhou para atingir o reconhecimento das Ciências Sociais dentro do território cientí-
fico, de fato, e da inserção da Sociologia no âmbito escolar, foi também precursor de
investigações antropológicas, de modo que sua obra será explorada de maneira mais
detalhada em aula posterior.
Diferentemente de Comte e Durkheim, Karl Marx não entendia que as Ciências Sociais
decorreriam das Ciências Naturais e seus métodos, mas que a análise de suas rela-
ções deveria considerar o fato de que quem analisa está inserido no seu objeto, o que
implicaria em análises pautadas por parcialidade, calcadas em determinadas visões e
percepções de mundo.
Assim, as análises sociais de Marx (2002), fundadas no conhecimento científico,
estabeleceram uma crítica ao capitalismo, a partir das quais deveria ser elaborado,
pela sociedade, um projeto para a superação dos problemas de tal sistema econômico,
sendo que a superação do capitalismo passaria pela conscientização dos trabalhadores
(operários), a quem Marx buscava escrever de maneira didática.
O autor argumentou que a burguesia justificaria seu poder por meios econômicos,
de modo que concentraria o poder econômico e político, portanto. Assim, enquanto o
Estado controla a política, as leis, fiscalizam as condições de trabalho e é responsável
pela regulação econômica, mantém-se, em parte, com recursos do capital privado por
conta de impostos, de modo que seria mantida a condição de exploração da massa
trabalhadora, que dispõe de menores recursos financeiros e seria mais sujeita às desi-
gualdades sociais.
Por fim, o terceiro autor clássico das Ciências Sociais é Max Weber (2012), que esta-
beleceu o olhar para o indivíduo e a discussão sobre racionalidade impura do homem,

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por meio da discussão sobre os modelos ideais de ação. Para o autor, não seria possível
a realização de análises puramente racionais de fenômenos sociais de maneira objetiva
(como argumentava Durkheim) e nem pela consciência da classe economicamente
explorada por outra (como defendeu Marx).
O caminho pertinente seria considerar que os fatos e fenômenos sociais assumem
os sentidos que os indivíduos conferem a eles, ou seja, as explicações sociais deveriam
pautar-se pela lógica dos indivíduos que praticam os comportamentos e não daqueles
que os observam.
A teoria dos modelos de ação de Weber expunha que as ações humanas são, sempre,
dotadas de algum tipo de sentido, seja ele percebido como racional ou não, ainda que
nem toda ação humana seja social. Para ser assim denominada, uma ação precisaria
ser direcionada ao outro (indivíduo, instituição, Deus) orientada por modelos religiosos,
culturais, políticos, legais etc. Nesse sentido, o autor afirmou que as ações sociais pra-
ticadas não são definidoras dos indivíduos, que podem mobilizar distintos recursos e
modelos no dia a dia.
De maneira sucinta, cabe destacar que os tipos ideais de ações sociais seriam, para
Weber, racionais com relação a fins, racionais com relação a valores, tradicionais e afe-
tivos. A ação racional com relação a fins trata de ações sociais lógicas, pautadas pelo
atendimento às leis e pela cientificidade tanto para a superação de problemas quanto
para o atendimento de interesses, pautados pela razão objetiva.
As ações racionais com relação a valores dizem respeito àquelas pautadas por
valores que conformam uma sociedade e definem o agir individual, os quais podem
se manifestar de modo distinto entre grupos heterogêneos e podem relacionar-se ao
trabalho, à gestão dos recursos financeiros da família, à percepção do papel de cada um
enquanto cidadão, quanto à religião e suas implicações em nossos comportamentos
e percepções de mundo etc.
A ação afetiva remete às ações sociais pautadas por sentimentos, como afetividade,
rejeição, sedução, ódio, vingança, empatia etc., que podem exprimir, coletivamente,
comportamentos, atitudes ou valores que cada indivíduo não manifestaria sozinho,
como em casos de grande mobilização por tragédias ou de linchamentos, ou refletir
individualmente aspectos que são coletivos, como os suicídios decorrentes da crise
econômica de 1929 nos Estados Unidos - assim como havia tratado Durkheim ao
discorrer sobre fatos sociais e correntes sociais, que abordaremos em aula específica
sobre o autor.

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Por fim, a ação tradicional seria pautada por repetições de comportamentos que se
perpetuam ao longo do tempo, de modo que seu valor ou finalidade “se perde”, restando
a sensação de segurança ou acerto ao agir. Assim, seriam hábitos repetidos ao longo
do tempo, os quais os indivíduos deixam de questionar por naturalizá-los.

Anote isso
Em “Sociologia Clássica: Marx, Durkheim e Weber”, o sociólogo Carlos Sell
oferece uma análise didática e crítica acerca das origens da Sociologia em
Comte, seus desdobramentos nas teorias dos pensadores que compõem o
título do livro e esboça considerações sobre a pertinência dos estudos na
área na atualidade.

Diante do exposto, concluímos esta aula destacando que as Ciências Sociais se


colocam, portanto, como campo do conhecimento destinado à interpretação da com-
plexidade da vida em sociedade, de modo que, para atender a tal intento, desdobram-
-se seus caminhos de investigação em três vertentes - a Sociologia, a Antropologia e
a Ciência Política - com vistas a explicar, de maneira separada ou em conjunto, como
aspectos como cultura e as relações sociais e de poder estruturam o funcionamento
das sociedades contemporâneas e são definidoras dos caminhos e possibilidades a
serem trabalhadas, dentre outros segmentos, pelos profissionais do Serviço Social.
Destacamos os países fundadores das Ciências Sociais, de modo geral, por conta
dos diálogos clássicos e de suas contribuições provocativas aos estudos no campo
social até a atualidade. Entretanto, após esta breve incursão geral, as demais aulas se
debruçam especificamente sobre o debate antropológico.

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AULA 2
FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA

Em nossa primeira aula tomamos contato


com as Ciências Sociais, campo do conheci-
mento científico ao qual a Antropologia encon-
tra-se relacionada, de modo que a partir desta
aula podemos nos debruçar sobre o desenvol-
vimento histórico e as principais correntes de
pensamento, autores e obras pertinentes aos
diálogos a estabelecer com o Serviço Social.
Isto posto, nesta aula tratamos dos fundamen-
tos antropológicos, abordando brevemente seu
pré-histórico aspectos que versam sobre a
conformação de seu objeto de estudos e a
questão da alteridade.

2.1 Pré-História da Antropologia Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/


moda-tendencia-mulher-face-3230476/

A preocupação com a compreensão sobre organizações de povos, seus costumes,


valores e tradições é passível de identificação desde a Antiguidade Grega. Contudo, o
período do Renascimento e das grandes navegações, entre meados dos séculos XIV a
XVI com destaque ao século XV, marcou a expansão ou alteração da maneira de olhar
para o outro e também o descobrimento de muitos “outros”. Em tal contexto, os relatos
sobre povos “selvagens” e seus hábitos e costumes exóticos marcou a gênese do que
se consolidaria como reflexão antropológica (RECHENBERG, 2013).
Conforme a autora, a chegada dos europeus à América causou estranheza ao
pensamento ocidental existente até aquele momento, uma vez que se tratava de um
território estranho, exótico e inimaginável e que provocava o enfrentamento àquilo que
parecia cristalizado em termos de conhecimento. Afinal, tratava-se de conhecer outros
povos, com seus costumes e distintas relações entre si e com a natureza, o que levou

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os europeus até mesmo a questionarem se aqueles indivíduos - que chamavam de


seres exóticos - possuiriam almas, tamanha a dificuldade (ou mesmo impossibilidade)
em pensar os habitantes da América como iguais.
Nesse sentido, Laplantine (2003) destacou que os relatos dos exploradores tinham
dois tipos de conteúdo: enquanto uma parte tratava os nativos como estranhos e
demonstrava recusa em compreendê-los por fazê-lo utilizando os parâmetros europeus,
o outro grupo esboçava fascinação pelos “novos povos” e os diversos aspectos de sua
organização. Assim, tratava-se de relatos que remetiam a sentimentos dos exploradores
acerca de suas interpretações subjetivas, sem precisão, rigor ou preocupação com a
descrição a ponto de conferir cientificidade ao conteúdo.
Conforme Rechenberg (2013), os relatos de Cristovão Colombo acerca de sua
chegada à América (do Norte) remetem a conteúdos de ambas as naturezas, o que
demonstra que a oscilação na construção de percepções ocorria não apenas conforme
o observador, mas até mesmo na maneira como um mesmo explorador relatava aquilo
com que teve contato: em algumas passagens, o navegador exaltou a beleza dos corpos
nus, a generosidade e pacificidade dos nativos, bem como uma possível “pré-disposi-
ção ao cristianismo”; em outros trechos de seus relatos, o mesmo Colombo tratava os
nativos como selvagens, ladrões e medrosos, por exemplo.

Anote isso
No caso brasileiro, a primeira representação produzida por Pero Vaz de Cami-
nha ao Rei Dom Manuel, ainda em 1500, definia os índios como bárbaros e
bestiais, mas também simples e inocentes (SCHEYERL; SIQUEIRA, 2008).

Para Laplantine (2003), relatos como os de Colombo - com ambos os teores -


demonstravam a dificuldade dos europeus em lidar com o diferente, em se debruçar à
interpretação do/sobre o outro. Eis aí o objeto da Antropologia e a questão da alteridade,
temas das próximas seções desta aula!
Antes, contudo, cabe ressaltar que os nativos ameríndios foram utilizados sob
diferentes perspectivas pelos europeus, desde objetos de exploração econômica ou
de comparação estética até a possibilidade de conversão religiosa, o que ignorava
sumariamente a religiosidade nativa.

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Com o passar do tempo e o avanço da colonização e a circulação de europeus nas


colônias, outros viajantes e também alguns filósofos passaram a produzir relatos
menos especulativos e mais descritivos com fidedignidade, além de pontuar reflexões
e questionamentos que inauguraram o olhar “humanizado” dos nativos.
Este foi o período da pré-história da Antropologia, quando a preocupação com cri-
térios científicos norteadores - como das Ciências Sociais de modo geral e, naquele
momento, já considerados pela Sociologia, em alguma medida - começou a gerar
correntes explicativas, sendo que os primeiros modelos analíticos, nesse sentido, são
definidos por Rechenberg (2013, p. 29) como determinismos geográfico e biológico:

O determinismo geográfico está baseado na noção de que as pecu-


liaridades do ambiente físico e geográfico são capazes de moldar
a cultura dos diferentes povos. Segundo esta doutrina, o clima era
capaz de determinar, por exemplo, o temperamento fleumático e o
gênio embrutecido do homem americano. Assim, o desenvolvimento
de uma nação seria condicionado pelo meio.

Já o determinismo biológico ancorava-se na existência de diferenças


ontológicas entre as raças, as quais determinavam que o negro, o
branco e o indígena eram predestinados a certos tipos de comporta-
mento. A raça, portanto, era entendida como um fenômeno final em
si mesmo, determinando condições imutáveis de existência. Os argu-
mentos que sustentavam a existência de um determinismo biológico
na diferenciação entre os homens tinham suas raízes em uma tradição
poligenista na compreensão do surgimento do homem na terra.

Os fundamentos daquilo que se tornaria a Antropologia, portanto, decorreram de


caminhos à compreensão dos homens em seus habitats e considerando as especifi-
cidades de seus costumes, ritos, valores, tradições e comportamentos. Contudo, tais
aspectos não eram considerados de maneira organizada ou sistemática, tanto que
Rechenberg (2013) afirma que somente na segunda metade do século XIX passou a
estruturar-se, de fato, os conceitos, métodos e escolas de pensamento antropológico,
quando o contexto social e intelectual coadunava ao estabelecimento de uma ciência
do homem.

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2.2 Definição de Antropologia e seu objeto de estudos

A Antropologia surgiu da necessidade de identificação dos modos pelos quais


distintos grupos, coletividades, povos e sociedade se organizam, atuam, interpretam
e desenvolvem suas relações internas e com o mundo. Esses diversos elementos dia-
logam quando da realização de estudos antropológicos, ainda que possam vir a ser
contraditórios entre si, de modo que as próprias contradições podem, também, ser
objetos de análise.
A contradição, nesse sentido, é considerada como própria de determinado grupo
social e considerada como base a partir da qual seus integrantes tanto avaliam quanto
organizam suas práticas cotidianas (RIFIOTIS, 2012).
E como a perspectiva antropologia se coloca em tal situação? Conforme o mesmo
autor, quando se identifica uma contradição, mais relevante do que buscar uma solução
a ela - que é o caminho mais simples e recorrente -, o adequado é tentar compreender
sua importância àqueles que a vivenciam e como tal contradição se coloca com relação
aos modos de agir e pensar daquele grupo, a fim de identificar, com a maior exatidão
possível, as potenciais consequências que essa contradição pode produzir naquele
contexto social.
Assim, aos profissionais - da Antropologia e/ou do Serviço Social - cabe lançar o
olhar reflexivo e crítico com vistas a compreender os fenômenos para além daquilo
que é superficial, uma vez que, não raras vezes, nos deparamos com situações tão
corriqueiras ou cotidianas que se tornam automáticas.
Conforme Rifiotis (2012), a esses fenômenos do cotidiano sobre os quais pouco ou
nada refletimos, ou que quando nos questionamos recebem a denominação de “nor-
mais” ou “óbvios” cabe a denominação de “imponderáveis da vida real”, com relação
aos quais o autor discorre:

De fato, em todas as sociedades humanas encontramos uma série


de modos de agir e pensar que podem ser chamados de padrões de
comportamento normativo, que são não-racionais, não utilitários, mas
que desempenham um papel crucial na estruturação da vida social.
Tais padrões são por um lado expressivos, ou seja, eles mostram
algo de nós para os outros, mas também são instrumentais porque é
através deles que criamos e mantemos as nossas relações sociais e o
modo próprio de existir da nossa sociedade (RIFIOTIS, 2012, p. 22-23).

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Esses comportamentos, valores, tradições e costumes que conformam nosso modo


de agir de maneira não necessariamente racional ou explícita constitui a dimensão
simbólica de nossas sociedades e fazem do homem um ser cultural.
Nesse sentido, cabe destacar o conceito de símbolo e sua relevância às investigações
antropológicas. Símbolo seria qualquer objeto, ato, conceito ou forma de linguagem que
assume distintos significados para grupos sociais diferentes e, em cada um, remete
a sentimentos, imagens ou percepções distintas o que conduz os indivíduos de cada
grupo a ações que também são divergentes. Cohen (1978) destaca alguns exemplos
de símbolos, como cerimônias, ritos e gracejo como trocas de presentes, juramentos
ou mesmo partilhar a ceia.
Diante de tal conceito, a primeira reação diante de aspectos simbólicos seria de
julgamento, especialmente pensando que no campo da atuação profissional a racio-
nalidade é valor imperativo. Contudo, é pertinente que a atenção aos detalhes, mesmo
aqueles que aparentemente sejam insignificantes, e a comportamentos e ações que
podem parecer sem utilidade, mas cuja valoração pode ser permeada por nosso modo
de conceber “o normal”!
Nesse sentido, Rifiotis (2012) alerta que é difícil a compreensão da dimensão sim-
bólica de uma sociedade sem o conhecimento teórico e metodológico que permita
refletir sobre a possível importância e utilidade desses símbolos àquele grupo e aos
seus modos de pensar e de agir.
Tal preocupação dialoga diretamente com a observação de Geertz (1997), que define
o parâmetro à realização de uma pesquisa antropológica como sendo a necessidade
colocar-se no lugar ou outro, lembrando sempre que existem dois contextos presentes
em cada observação: o “seu” enquanto pesquisador e indivíduo (do qual não é possível
afastar-se integralmente) e o “do outro” enquanto ser social inserido em um determi-
nado contexto.
Assim, é pertinente tratarmos do desenho do objeto da Antropologia, ou seja, da
delimitação daquilo que cabe à Antropologia estudar, tendo em vista que assim como
as demais áreas das Ciências Sociais trata-se, em geral, do homem em sociedade - com
suas relações e instituições.
Conforme Queiroz e Sobreira (2016), para além dos estudos sobre povos primitivos
na fase pré-antropológica, o contexto de crescimento das populações urbanas e da
consequente colonização de povos e territórios contribuiu para que culturas diametral-
mente exóticas se reduzissem ao longo dos séculos, de modo que coube à Antropologia

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perceber tal alteração e repensar seu objeto de estudos, sob risco de findar-se a área
de pesquisas.
Assim, entre os séculos XIX e XX, a Antropologia redefiniu seu objeto de análise a
partir das fronteiras daquilo que buscava compreender: agora o foco analítico não está
mais geograficamente muito distante, passa-se a observar as sociedades camponesas,
no primeiro momento, e depois outros tantos grupos sociais contemporâneos, como
os idosos aposentados e socialmente ativos, os preconceitos no interior de minorias
que sofrem pela sociedade em geral, os padrões sociais de grupos com necessidades
ou filosofias alimentares específicas, segmentos sociais com demandas por direitos
que as políticas públicas implementadas não atendem etc.
Para Queiroz e Sobreira (2016), o esforço intelectual de redesenhar o objeto da
Antropologia permitiu o estabelecimento de princípios que passaram a conformar o
ofício do fazer antropológico, expostos no quadro a seguir.

I) Estranhamento: parte da atitude de quebrar o monopólio na consciência do


que está à frente ou voltar em termos de evento cultural ou social é evidente por
si só. Pelo contrário em lugar do “é assim mesmo”, um estado de estranhamento
contínuo para examinar e apreender o que se colocar à frente são apenas pontas
do iceberg que o senso comum teima a conceber como o iceberg inteiro. É pelo
exercício do distanciamento que efetivamente sai da “sala do evidente”, tendo como
chave a pergunta epistemológica: por que os eventos que existem são assim? Tem
outros modos deles existirem? Quais deles proporcionam maior grau de integração
sociocultural? Qual a função ele desempenha para a sociedade aonde a realiza?

II) Desnaturalização do social: significa colocar um estado de pensamento em


relação ao que existe como expressão de ou da cultural de um indivíduo, tanto
quanto do próprio grupo social, não é inato ou dado, mas é uma produção por um
conjunto de indivíduos socializados. Por isso, pode ser investigado o momento
que eles elaboraram e organizaram-se para efetivá-la, bem como as razões para
produzi-la.

III) Unidade plural do homem: implicar em entender que não há uma unidade
centrada numa essência única, sequer biológica a determinar uma modalidade
linear de comportamento para o homem, mas que os modos de se comportar, de
agir são espécie de programas que as culturas e regras sociais convencionaram de
diferentes maneiras a confeccionar.

Fonte: Quieroz e Sobreira (2016, p. 34).

Assim, percebe-se acima que o trabalho antropológico é permeado, na atualidade,


pela desnaturalização daquilo que consideramos social, pelo estranhamento daquilo

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com que nos deparamos e que precisamos questionar para compreender e, por fim,
pela aceitação de que os grupos sociais são plurais e essa diferenciação não neces-
sariamente implica no estabelecimento de uma hierarquia ou valoração entre “bom e
mau”, “certo ou errado” ou “melhor ou pior”, por exemplo.

2.3 A questão da alteridade

Diante das considerações acerca da pré-história da Antropologia e da necessidade


de adequação de seu objeto de estudos no decorrer dos séculos, cabe ainda destacar
que a diferenciação entre “eu” e o “outro” não é apenas recomendação nesta área de
pesquisas, mas um conceito central à perspectiva antropológica. Trata-se da noção
de alteridade (LAPLANTINE, 2003; RIFIOTIS, 2012; RECHENBERG, 2013; QUEIROZ;
SOBREIRA, 2016).
A ideia de alteridade está intimamente relacionada não apenas ao olhar para o outro,
mas a reconhecer o outro e a respeitar as diferenças identificadas. Desde Malinowski
- que trataremos daqui a algumas aulas de maneira detalhada - até os estudos con-
temporâneos, o outro é sujeito da pesquisa antropológica, cujos discursos e práticas
são alvo da investigação perpassada por dois aspectos: a compreensão sobre o que o
outro pensa que faz e entende com relação aos símbolos e como eu interpreto a cultura
e a interpretação do outro acerca de sua sociedade.
Nesse sentido, Rifiotis (2012, p. 26) assevera, “separar, ou melhor, ter consciência
da diferença entre o que eu penso e o que pensa o outro é uma condição sine qua non
para a existência da Antropologia. Só há Antropologia quando o outro é transformado
em meu interesse de pesquisa e com ele me relaciono”.
O autor, em tal argumento, corrobora o argumento de Laplantine (2003), que afirma
que a alteridade é fundamental à abordagem antropológica por permitir a superação
dos limites daquilo que o pesquisador inicialmente pressupõe que encontrará ou terá
que decodificar. As noções de cotidiano e habitual tendem a se reduzir, ao passo que
a percepção do pesquisador acerca do que é normal ou natural tendem a se tornar
questionamentos, já que a cultura do próprio analista passa a ser percebida como
conformadora de seus costumes, posturas, práticas e formação intelectual.
Diante de tais inquietações, Rifiotis (2012) destaca que a experiência da alteridade,
que aparentemente é fácil, revela-se complicada na prática, especialmente por conta

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de julgamentos e sensos que conformam o etnocentrismo do profissional. Isto porque


o termo etnocentrismo remete à avaliação de aspectos diversos a partir da cultura
do pesquisador, ou seja, minha cultura como métrica para balizar o quanto todas as
demais são adequadas, corretas ou justificáveis.
A necessidade de tomada de consciência por parte do pesquisador que realiza
análises antropológicas com relação ao etnocentrismo consiste em outro processo,
denominado relativismo cultural, que implica no reconhecimento das diferenças entre
as culturas de maneira respeitosa e considerada a intersubjetividade da/na forma como
o pesquisador interpreta seu objeto.

Isto acontece na prática


Rifiotis (2012, p. 23-24) diz que é pertinente “se colocar no lugar do outro”
ou “ver as coisas do ponto de vista dos nativos”. Reflita sobre seus posicio-
namentos enquanto profissional em formação no âmbito da gestão social e
sobre a necessidade de desenvolver a alteridade, no sentido de olhar sujeitos,
ações, costumes vivências conforme o conceito do observado!

De modo geral, o etnocentrismo está presente no dia a-dia de cada um, na compara-
ção - muitas vezes com julgamento de valor - que fazemos ao constatar comportamen-
tos distintos dos nossos. De modo semelhante, o respeito como prática de convivência
também deve ser cotidiano, o que fortalece o relativismo cultural, especialmente em
contextos democráticos.
Dessa forma, a alteridade é um desafio constante ao fazer antropológico, uma vez
que os “filtros” que cada cultura impõem sobre o pesquisador se alteram ao longo
do tempo, do mesmo modo que ocorre com a cultura do objeto. Daí a necessidade
permanente de lembrar-se das noções de alteridade e relativismo cultural quando da
realização de pesquisas antropológicas.

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AULA 3
AS BASES DO PENSAMENTO
ANTROPOLÓGICO

As bases do desenvolvimento da Antropologia remetem inicialmente à Sociologia,


área primária das Ciências Sociais, conforme abordado na primeira aula desta disci-
plina. Nesta aula tratamos inicialmente da contribuição de Durkheim - um dos princi-
pais clássicos das Ciências Sociais - ao pensamento antropológico por conta de sua
análise dos fatos sociais e de seu impacto sobre o funcionamento das sociedades. Na
sequência, expomos os desdobramentos da teoria durkheimiana sobre o pensamento
de Marcel Mauss.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/adulto-aventura-facanha-envelhecido-3769697/

3.1 As bases sociológicas do pensamento antropológico em Durkheim

Mencionado em aula anterior como um dos primeiros autores reconhecidos como


clássicos do pensamento sociológico e considerado um dos pais fundadores das

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Ciências Sociais, Émile Durkheim foi um pesquisador acadêmico, preocupado com


o reconhecimento da cientificidade de seu método, tanto que escrever “As regras do
método sociológico” para abordar tal temática e, posteriormente, aplicou tais regras à
análise de um fenômeno social em “O suicídio”.

Isto acontece na prática


A preocupação com aspectos metodológicos permeia as Ciências Sociais
desde seu início, sendo pertinente considerar tais elementos ao desenvolvi-
mento de pesquisas, projetos de intervenção e tomada de decisões também
no âmbito do Serviço Social!

Influenciado por Comte, Durkheim destacou-se pelas preocupações com as relações


entre sociedade e ciência e entre Sociologia e educação, bem como pelo conceito de
fato social, mais importante dentre as contribuições do autor à nossa discussão antro-
pológica aqui estabelecida. De acordo com o autor, os fatos sociais consistiriam em
maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotados de um poder de
coerção sobre eles, uma vez que são condutas impostas aos indivíduos, ainda que não
sejam assim percebidas, o que se manifesta quando tentamos resistir a imposições
de crenças e práticas constituídas (DURKHEIM, 2007).
Sobre tais imposições, inclusive, Durkheim exemplifica sua teoria ao tratar de restri-
ções, penas e/ou reparações diante da violação das leis do Direito, do constrangimento
provocado pelo riso e pelo afastamento dos demais diante do uso de vestimentas não
convencionais, da dificuldade de contato sem o uso do idioma comum ou do comércio
sem a moeda corrente e da dificuldade em trabalhar utilizando processos e técnicas
antigas. Perceba que se trata de exemplificações que remetem há séculos atrás, mas
que nos servem como materializações de situações complexas.
Isto posto, os fatos sociais não poderiam ser confundidos com os fenômenos orgâ-
nicos e nem com os fenômenos psíquicos, de modo que se constituiriam em objeto da
Sociologia por consistirem em representações e em ações existentes na consciência
individual, permeados não apenas pelo poder da coerção externa, mas também por
seu reconhecimento.
Nesse sentido, o que torna o fato social independente de suas manifestações indi-
viduais, de acordo com Durkheim, é que as condutas definidas de maneira exterior e

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imperativa ou coercitiva aos indivíduos - como as regras jurídicas, morais, financeiras,


dogmas religiosos e idioma, por exemplo- constituem fatos sociais quando consistem
em crenças e em práticas constituídas, o que significa inferir que o fato social pode
existir somente entre sociedade que possuam uma organização definida e estabelecida.
Diante de tal explanação, o autor apresenta também o conceito de correntes sociais,
que dizem respeito a fatos que também possuem objetividade e ascendência sobre os
indivíduos, mas não se apresentam de maneira cristalizada, como os sentimentos de
entusiasmo, indignação ou piedade que se manifestam em grandes reuniões de indi-
víduos que não são frutos de nenhuma consciência particular e com os quais muitas
vezes os indivíduos sequer se reconhecem posteriormente.
Situação também analisada por Weber posteriormente, ao tratar de ações sociais
afetivas, as correntes sociais provocariam sentimentos estranhos nos indivíduos
quando, após a realização de atos coletivos, se percebessem a sós, distantes do grupo
de que participam, quando muitas vezes cada um não se identificaria ou reconheceria
diante do ato tomado coletivamente. Conforme Durkheim, em situações assim os
indivíduos podem perceber que não produziram os atos em si, mas que, aí contrário,
sofreram-no por conta da corrente social em que se encontram ou encontravam. O
clássico, inclusive, alertou que, nesses casos, indivíduos que geralmente são considera-
dos inofensivos podem se deixar conduzir a atos de atrocidade quando se encontram
reunidos em multidões.
Em suma, o fato pode ser generalizado porque é social, mas não pode ser consi-
derado social porque é geral, de modo que a generalidade do fato social se incorpora
ao objeto a partir do momento em que se constitui um estado do grupo que se repete
nos indivíduos porque se impõe a eles. Em tal condição, o fato social está distante de
existir no todo em decorrência de existir nas partes, mas, ao contrário, só existe nas
partes porque se manifesta no todo, a sociedade ou coletividade.
Conforme explorado pelo autor, de maneira empírica, em sua análise acerca do
suicídio, todo fato social é coercitivo, exterior e geral: coercitivo por exercer a força de
normas e regras sobre os indivíduos, exterior porque age sobre os indivíduos mesmo
que cada um não tenha consciência sobre sua adesão às normas e regras por ocorrer
em todas as sociedades e agir sobre a maioria dos indivíduos (DURKHEIM, 2004).
Diante do exposto até aqui, cabe ressaltar que o autor entendia que os fenômenos
sociais remeteriam a um fazer científico específico, pois não seria possível repro-
duzi-los em laboratório. Tais fenômenos representariam uma condição coletiva, a

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qual consideraria a coação e a coesão social dentro da condição solidária à sua


realização, de modo que as relações de coesão e coação são pautadas por meca-
nismos de solidariedade.
Em outras palavras, Durkheim afirmava que a existência dos fenômenos sociais era
pautada, em alguma medida, pelas condições de sua ocorrência, porém independen-
temente da consciência individual daqueles que praticavam os atos que conferiam
materialidade aos fenômenos. Para ele, portanto, a vida humana em sociedade seria
produzida pelo conjunto de agentes sociais, não como um encontro espontâneo e afe-
tivo, mas como condição de organização física da vida social, uma vez que o homem
é um ser social que dependeria da coletividade.
Nesse sentido, destaca-se que as relações de coesão e coação são pautadas por
mecanismos de solidariedade, definidos por Durkheim como possuindo duas perspec-
tivas: mecânica e orgânica. Esses quatro termos - coesão, coação, solidariedade mecâ-
nica e solidariedade orgânica - remetem a importantes conceitos na obra durkheimiana.
A coesão diz respeito à ação de diversos agentes em um mesmo sentido, com a
mesma finalidade, ao passo que a coação seria uma ação em sentido contrário, que
busca romper com a coesão para a manutenção de determinada condição ou sua
alteração, caso sua persistência seja defendida pela coesão.
No que tange às formas de solidariedade, a solidariedade mecânica estaria rela-
cionada à baixa divisão do trabalho social e também à dependência do indivíduo com
relação à sociedade, sem consciência individual, porém com sentimento de pertenci-
mento, típico em sociedades primitivas.
Já a solidariedade orgânica remeteria à alta divisão do trabalho social e à expres-
siva dependência do indivíduo com relação à sociedade, pautada por normas, direitos
e deveres que cada indivíduo deve compreender e/ou aos quais deve se submeter. Tal
mecanismo não possuiria relação direta com a produção daquilo que consumimos,
típico em sociedades industriais.
Assim sendo, as noções de solidariedade remeteriam ao impacto da divisão do
trabalho social sobre as relações em sociedade, uma vez que a complexificação das
atividades nas sociedades industriais descaracterizou as peculiaridades, particularida-
des e individualidades que nos permitiram compreender a ordem social e os fatos que
ela produz. Assim, os caminhos do desenvolvimento do capitalismo teriam conduzido
as sociedades à produção em massa e ao consumo em massa, com efeitos que con-
formaria a globalização de produtos, de valores, de comportamentos e de saberes.

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Para Durkheim, em tais sociedades, nenhum indivíduo, de maneira isolada e indivi-


dual, exprime em seu comportamento o padrão da vida social, que só se manifesta no
encontro solidário de todos esses elementos.
Ainda em se tratando de conceitos expostos por Durkheim, que nos ajudam a refletir
sobre as conformações sociais e, em alguma medida, analisar o objeto de trabalho e inter-
venção de assistentes sociais é necessário considerar as noções de anomia e patologia.
Conforme explicou o autor, se trata de distintos conforme a sociedade, de modo que
a anomia entre uma coletividade pode ser normalidade ou patologia para outra. Em
Durkheim, portanto, temos um dos pilares do desenvolvimento dos estudos antropo-
lógicos: a necessidade de relativização de padrões analíticos a fim de considerarem
as especificidades de cada sociedade investigada.
Para o clássico, anomias são mudanças, fenômenos ou processos pontuais, que
tendem a desaparecer ou ser incorporados à dinâmica social ao longo do tempo. Por-
tanto, não constituiriam problemas, uma vez que se trataria de aspectos solucionáveis
ou que conduziriam a uma reordenação de determinado aspecto social.

Isto está na rede


A Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais publica conteúdos
didáticos em um blog e em um canal no Youtube, ambos denominados “Café
com Sociologia”. No canal de vídeos, há materiais que tratam da bibliografia
de Durkheim e de alguns de seus principais conceitos, como fato social, os
tipos de solidariedade, coesão social e anomia.

Por outro lado, as patologias - em termo “emprestado” das Ciências Biológicas e que
remetem a doenças - são anormalidades que provocam desordens temporárias, cons-
tituindo-se fora da normalidade e com capacidade de desencadear novas patologias.
Assim, trata-se de um problema pelo fato de que pode contribuir à desestruturação social.

3.2 Aspectos culturais como fatos sociais em Mauss

Sobrinho de Durkheim, Marcel Mauss produziu contribuições à sistematização da


Antropologia enquanto área de estudos, algumas próximas e outras bem distintas

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das observações durkheimianas. O principal destaque ao autor cabe ao fato de que,


enquanto Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnólogos sob a perspec-
tiva da Sociologia e tratava a Antropologia como um ramo do pensamento sociológico,
Mauss dedicou-se ao reconhecimento da Antropologia como ciência.
Seu texto mais importante, “O ensaio sobre a dádiva”, é uma das principais refe-
rências de conformação dos estudos antropológicos, o qual tratou de uma discussão
sistematizada de resultados de pesquisas realizadas entre sociedades na Polinésia,
na Melanésia e no noroeste norte-americano versando acerca dos sistemas de trocas
econômicas e a obrigação de dar, receber e retribuir (MAUSS, 1974). Conforme Sertã e
Almeida (2016, online), a obra “inaugura profícua tradição de estudos sobre a recipro-
cidade e a circulação das coisas, ampliando o tema da aliança [...]”.
Nas sociedades arcaicas, Mauss (1974) identificou que contratos eram firmados
entre clãs e tribos para trocas coletivas de presentes, de modo que se configuraria
um sistema de dádivas entre coletividades, não entre os indivíduos que realizavam
as trocas. Para o autor, isso ocorria porque tais trocas não eram apenas movimenta-
ções de escambo, mas tinham uma dimensão moral que era definidora das relações
sociais, uma vez que circulavam banquetes, ritos, serviços, festas e também mulheres
e crianças, por exemplo.
Como as trocas, portanto, superariam a esfera econômica, onde tudo poderia ser
objeto de troca e nada poderia ser recusado, Mauss entendeu que tal sistema se tratava
de um fenômeno social total, já que integrava aspectos diversos daquelas sociedades,
como biológico, econômico, jurídico, histórico, religioso e estético. O fenômeno social
total seria, portanto, uma multiplicidade de planos apreendidos não pela observação
geral, mas pelas experiências individuais, de modo que o autor afirmou que devería-
mos observar os comportamentos dos indivíduos considerando sua totalidade e não
determinada faculdade (especificidade), já que não é assim que se opera na vida social
(LAPLANTINE, 2003).

Percebe-se como é possível estudar, em certos casos, o compor-


tamento humano total, a vida social inteira; e percebe-se também
como esse estudo concreto pode levar não apenas a uma ciência dos
costumes, a uma ciência social parcial, mas inclusive a conclusões
de moral, ou melhor - para retomar a velha expressão -, de ‘civilidade’,
de ‘civismo’, como se diz agora. De fato, estudos desse tipo permitem
entrever, medir, ponderar as diversas motivações estéticas, morais,
religiosas, econômicas, os diversos fatores materiais e demográficos
cujo conjunto funda a sociedade e constitui a vida em comum, e cuja
direção consciente é a arte suprema, a Política, no sentido socrático
da palavra (MAUSS, 1974, p. 314).

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Nesse sentido, a economia da dádiva seria perpassada por alguns aspectos relevan-
tes, como a questão da honra e do prestígio, que circulariam e seriam reversíveis entre
grupos, conforme trocassem os papéis entre doadores e donatários. Cabe salientar,
também, que Mauss identificou que a recusa de uma dádiva implicaria reconhecer a
impossibilidade de retribuição, uma vez que o donatário deveria, sempre, oferecer uma
doação mais expressiva do que aquela anteriormente recebida.
Assim, o pesquisador apontou que as trocas eram, simultaneamente, livres, mas
obrigatórias e desinteressadas, mas interessadas. Isto porque o prestígio e a honra
estavam vinculados diretamente com a generosidade na retribuição de dádivas.
Em sua conclusão, Mauss apontou, dentre outros elementos, que a dádiva também
era identificada nas sociedades “avançadas” sob as figuras de caridade (vista como
negativa ou esmola, em determinadas situações), de retribuição de convites como
cortesia, da obrigação em aceitar os convites recebidos, por exemplo.
Assim, diante do exposto nesta aula é perceptível que, por distintos caminhos e lan-
çando diferentes olhares, Durhkheim e Mauss abordaram a vida social sob a perspectiva
de objetos de análise, assim como é possível à Antropologia estabelecer, inclusive em
diálogo com o Serviço Social. Enquanto o primeiro autor buscou explicar as sociedades
por meio de fatos sociais coercitivos, exteriores e gerais, o segundo tratou de fenômenos
sociais totais - um buscando explicar a sociedade por um aspecto e outro buscando
compreender a sociedade sob um aspecto considerado em seu contexto!

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AULA 4
CORRENTES ANTROPOLÓGICAS:
O EVOLUCIONISMO

A primeira corrente de estudos no campo da Antropologia recebeu a denominação


de evolucionismo, por conta da maneira como seus autores compreendiam as relações
estabelecidas nas sociedades humanas. Nesta aula, exploramos sua definição e os
principais autores da corrente, assim como destacamos os pontos negativos desta
abordagem, que sofreu inúmeras críticas, porém influenciou até mesmo a maneira de
pensar a conformação do povo brasileiro.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/anatomia-angustia-apodrecer-apodrecimento-1096925/

4.1 O evolucionismo

A perspectiva de elaboração de pesquisas antropológicas baseadas no evolucio-


nismo emergiu na metade do século XIX e ficou, também, conhecida como darwinismo

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social, uma vez que, de modo sintético, tratava-se de uma corrente de estudos que
defendia a perspectiva de evolução das sociedades humanas, assim como Darwin
pensara entre as espécies no mundo biológico.
De maneira geral, Castro (2005) define como sendo quatro as principais característi-
cas que conformam a definição dos trabalhos evolucionistas, as quais são destacadas
- ainda que sem a preocupação com uma quantificação, especialmente por se tratarem
de aspectos intimamente relacionados - também por autores como Laplantine (2003),
Rifiotis (2012) e Rechenberg (2013).
Primeiramente, cabe destacar o principal aspecto destes escritos: a comparação das
sociedades humanas, entre si e por meio de seus costumes. Essa característica não
é um problema per se, porém assumiu caráter negativo pelo fato de que os costumes
eram comparados de maneira descontextualizada, tomados como situações ou ilus-
trações do desenvolvimento social e científico das sociedades ou grupos analisados.
A limitação da primeira característica nos leva ao segundo aspecto definidor das
pesquisas evolucionistas: o entendimento de que os costumes têm origem, substância,
individualidade e finalidade relacionados ao processo de civilização. Aqui, tem-se rela-
ção direta com o surgimento da Antropologia e os escritos que tratavam dos nativos
a serem colonizados, de modo que o ponto de atenção e crítica a essa característica
remete à maneira como tratava os grupos analisados, tomando o modelo europeu de
civilização como parâmetro comparativo e, portanto, desconsiderando os caminhos
evolutivos das demais culturas e sociedades.
Em decorrência dessa perspectiva de conformação da civilização, a terceira carac-
terística do evolucionismo é a prerrogativa de que todas as sociedades humanas se
desenvolveriam de modo linear, o que permitia aos autores estabelecer uma escala
de progresso, como se todos os povos estivessem inseridos no mesmo contexto de
desenvolvimento e pudessem ser classificados em sua busca pela civilização. Seria o
equivalente, na perspectiva social, à escala de evolução das espécies no mundo animal.
Tal preocupação com a civilização conduziu a quarta e expressivamente marcante
característica do evolucionismo, o etnocentrismo, uma vez que se trataram de estudos
que objetivavam o enquadramento das diferenças entre os indivíduos a partir das con-
cepções do observador sobre o que seria civilizado, desconsiderando as especificidades
e a legitimidade da construção de outras sociedades possíveis.
Assim, de modo geral, a corrente evolucionista buscou a “unificação” da raça humana
sob a perspectiva biológica adaptada àquilo que era cultural, sob o argumento de que

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mesmo os selvagens - ou nativos - são humanos, mas devem ser considerados como
estando no início do processo evolucionista, menos evoluídos no processo de civilização.
Ainda que não seja uma característica definidora dos conceitos construídos pelos
evolucionistas, de modo direto, cabe destacar outro aspecto pertinente à esta cor-
rente: trataram-se de escritos produzidos majoritariamente em gabinete, ou seja, por
pesquisadores que buscaram em leituras teóricas, técnicas e relatos os elementos à
construção de seus estudos sobre outros povos.

4.2 Os estudos evolucionistas e o desenvolvimento das


sociedades humanas

Por compreenderem que as sociedades humanas se desenvolviam em uma linha


evolutiva única, os autores desta corrente entendiam que era possível comparar toda e
qualquer sociedade, sempre tomando seu próprio status - de europeu civilizado - como
ponto máximo à comparação.
Nesse sentido, o primeiro e principal texto à descrição da corrente evolucionista é
“A sociedade antiga, ou investigações sobre as linhas do progresso humano desde a
selvageria, através da barbárie, até a civilização”, escrito em 1877 por Lewis Morgan.
A obra argumenta que as raízes da civilização estariam na selvageria e na barbárie, de
modo que as ideias modernas seriam evoluções de conceitos e fenômenos primitivos,
como os mecanismos de subsistência, governo, linguagem, família, arquitetura, vida
doméstica e propriedade, por exemplo.
Em outras palavras, Morgan entendia que as sociedades humanas se desenvol-
veriam por meio de experiências e da acumulação de conhecimento, que permitiria
o progresso dos povos com relação à maneira como lidavam com a propriedade, a
família, as invenções e descobertas etc.
Como exemplos de progresso nos distintos costumes e valores destacados, o autor
destacava aspectos rudimentares que conformariam os estágios iniciais da civilização,
como a arte rupestre e a descoberta das armas e do fogo à subsistência, os governos
de linhagens sanguíneas, a constituição de mecanismos de comunicação e as religiões
primitivas com poucos elementos explicativos - que Morgan definiu como grotescas
(CASTRO, 2005).

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Na perspectiva do evolucionista, a discussão sobre as raízes da civilização seria


facilitada se aceitássemos a evolução por períodos que permitiram constatar as etapas
ou condições de desenvolvimento de cada povo. Basicamente, seriam sete os períodos
de evolução da humanidade, distribuídos conforme o quadro explicativo a seguir:

Seria a “infância da raça humana”, considerando


Período inicial de selvageria ou seu habitat restrito, sua dieta de subsistência com
selvageria inferior castanhas e frutas, marcado também pelo início
da fala articulada.

Quando a humanidade se espalhou pelos territórios,


Período intermediário de selvageria
passando à dieta de peixes e uso do fogo.

Invenção do arco e flecha, com consequente


Período final de selvageria ou
expansão das possibilidades de caça e
selvageria superior
alimentação.

Marcado pela invenção da arte com cerâmica


Período inicial de barbárie ou
e a possibilidade de criação de objetos com
barbárie inferior
representações.

Primeiro momento de diferenciação entre povos


orientais e ocidentais, quando os primeiros
Período intermediário de barbárie buscaram a domesticação de animais e os
segundos lidaram com cultivo irrigado de milho e
plantas e com construções de pedras.

Período final de barbárie ou Utilização do ferro fundido para produção de


barbárie superior ferramentas.

Status de civilização Invenção do alfabeto fonético e da escrita.

Fonte: Elaborado pelo autor com base em Castro (2005).

Conforme essa escala, Morgan argumentava que, durante o progresso, havia socie-
dade mais ou menos desenvolvidas/evoluídas, sendo que todos os grupos primitivos
“pediriam” por governos, já que sua gestão e organização eram indícios da linha de
progresso que as levaria ao estabelecimento de lideranças para a gestão coletiva.
Esse argumento, em especial, merece destaque por ser utilizado como justificativa
às intervenções europeias quando das colonizações e tomadas de territórios, uma vez
que o autor argumentava que tais intervenções promoviam a evolução ou desenvol-
vimento de sociedades rudimentares. Assim, os ideais de governo e estabelecimento
de propriedade privada estabeleciam a base do desenvolvimento linear evolucionista.

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Por fim, cabe destacar que Morgan afirmou que os traços étnicos e culturais das
civilizações atuais resultam das ideias mais primitivas do ser humano, respeitada uma
margem de incompatibilidade e consideradas a origem e essa linearidade evolutiva.
Para além de Morgan, cabe destacar dois pontos dos escritos de Edward Tylor,
primeiro autor a escrever sobre o conceito de cultura, o qual considerava como
aspecto unificador das sociedades, ainda que distribuído heterogeneamente entre os
povos. Cultura seria o conjunto de conhecimento, crença, arte, moral, leis, costumes
e hábitos de um povo, manifestados nos membros daquela sociedade. Assim, cada
um desses elementos permitiria compreender em que estágio de evolução um grupo
social se encontrava.
O autor também tratou de “sobrevivências culturais” ao mencionar a existência de
traços rudimentares que permaneciam mesmo em sociedades desenvolvidas, como
modos de comer, produzir ou se relacionar, de modo que o autor entendia que tais
aspectos caminharam ao desaparecimento.

4.3 O branqueamento como solução” ao povo brasileiro

Praticamente ao mesmo tempo, o Brasil alterou sua condição econômica do escra-


vismo ao trabalho assalariado (1888) e sua condição política de monarquia a república
(1889). As interpretações sobre a sociedade nascente, a miscigenação e a reconfigura-
ção das relações de trabalho foram alvo de disputas políticas e ideológicas, bem como
foco de distintos posicionamentos entre pesquisadores que se dedicaram ao período.
Contudo, antes mesmo da inserção ampla dos negros na sociedade republicana
nascente, desde meados do século XIX já havia mudanças expressivas na conformação
da sociedade imperial brasileira, tanto por conta de alterações nas leis escravagistas
que reduziram o “perfil” dos escravos - como “Lei do Ventre Livre” e “Lei do Sexagenário”
- quanto pelo incentivo do Imperador à vinda de portugueses e outros imigrantes para
o Brasil com vistas a estimular o desenvolvimento das lavouras e o estabelecimento
das indústrias.
Diante de tal contexto, já naquele período havia interpretações de autores brasileiros
sobre o desenvolvimento das relações sociais entre as diferentes raças e seus efeitos
sobre a conformação da população nacional.

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Naquele período, se destacou o médico Raimundo Nina Rodrigues, que defendia que
os negros eram uma raça inferior aos brancos, o que seria, em termos científicos, um
fenômeno perfeitamente natural, na medida em que decorreria do desenvolvimento
desigual de aspectos filogenéticos da humanidade em sua diversidade de divisões.
Em alguma medida, o olhar de Nina Rodrigues era permeado pela lógica de evolu-
ção biológica das espécies, mas também se debruçava sobre a questão cultural, uma
vez que o médico destacava os negros como pouco afeitos ao trabalho e sem amor
a terra, o que seria negativo ao estabelecimento do progresso. “Esquecera-se” o autor
que tal população fora extirpada do convívio com seu povo, sua terra e seus costumes,
o que explicaria de maneira plenamente satisfatória a relação que estabeleceram com
aquele Brasil de escravidão.
Para Nina Rodrigues, essa situação permearia o “problema do negro no Brasil”,
decorrente da quantidade de negros trazidos como escravos ao país durante o período
colonial e da alteração de sua condição na sociedade nacional por ocasião da abolição
da escravatura.
O grande número de negros na sociedade brasileira e sua miscigenação com outros
povos (especialmente os brancos) contribuiria negativamente para o desenvolvimento
da sociedade nacional e do povo brasileiro, como explicitado em trechos como este:

A Raça Negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incon-
testáveis serviços à nossa civilização, por mais justificadas que
sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravi-
dão, por maiores que se revelem os generosos exageros dos seus
turiferários, há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferio-
ridade como povo. [...] Abstraindo, por, da condição de escravos em
que os Negros foram introduzidos no Brasil, e apreciando as suas
qualidades de colonos como faríamos com os de qualquer outra
procedência; extremando as especulações teóricas sobre o futuro e o
destino das raças humanas, do exame concreto das consequências
imediatas das suas desigualdades atuais para o desenvolvimento
do nosso país, consideramos a supremacia imediata ou mediata da
Raça Negra nociva à nossa nacionalidade, prejudicial em todo o caso
a sua influência não sofreada aos progressos e à cultura do nosso
povo (NINA RODRIGUES, 2010, p. 14-15).

Para o autor, então, os brancos seriam superiores aos negros, cuja organização
psíquica fora tomada por empréstimo da “raça superior” quando da campanha aboli-
cionista, uma vez que os negros não eram civilizados e até poderiam evoluir, mas de
maneira lenta, de modo que não atingiriam o estado evolutivo dos brancos.

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Nina Rodrigues se filiou, nesse sentido, àqueles que argumentavam sobre a neces-
sidade “branquear” a população brasileira por meio do investimento público para que
cada vez mais europeus viessem habitar o país, o que deveria contribuir à redução do
número de negros - inferiores - até seu desaparecimento, quando a sociedade nacional
poderia se devolver a ponto de progredir à civilização nos moldes europeus.

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AULA 5
CORRENTES ANTROPOLÓGICAS:
O FUNCIONALISMO

Os avanços nas correntes de pensamento antropológico tornou-se constante ao


longo do século passado, sendo que na primeira metade daquele período destacaram-se
as linhas de compreensão do Funcionalismo e do Culturalismo. Nesta aula, trataremos
da Antropologia Funcionalista, cuja principal contribuição foi o estabelecimento de um
modus operandi de realização de investigações antropológicas, que cabe ser considerado
no âmbito do Serviço Social.

Fonte:https://www.pexels.com/pt-br/foto/abstrair-abstrato-acessorio-adereco-2447040/

5.1 O funcionalismo

O funcionalismo surgiu em contraposição à perspectiva antropológica pautada


pelo determinismo como característica central do desenvolvimento das sociedades e

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suas especificidades. Teve em Malinowski seu fundador, sobre o qual trataremos nos
próximos tópicos desta aula.
Neste primeiro contato é importante caracterizarmos tal corrente antropológica, que
pode ser definida como uma teoria baseada nas Ciências da Natureza - porém, sem
atenção ao darwinismo social - que se pauta no fato de que todos os indivíduos têm
necessidades e em cada cultura - sociedade, grupo ou outra maneira de organização
- há mecanismos para satisfazer tais necessidades, sendo mais estruturados os meca-
nismos que tratam daquelas demandas essenciais ou fundamentais aos indivíduos e à
vida social. Esses mecanismos constituiriam funções nessas sociedades... daí o termo
que denomina esta corrente ser “funcionalismo”.
Sobre as funções e como estruturam as sociedades, Laplantine (2003, p. 81) destaca:

Cada uma [sociedade] realiza isso [seus mecanismos] elaborando


instituições (econômicas, políticas, jurídicas, educativas...), fornecendo
respostas coletivas organizadas, que constituem, cada uma a seu
modo, soluções originais que permitem atender a essas necessidades.

Assim, tem-se como principal definição de funcionalismo a preocupação com a


relação entre função e sistema, uma vez que tal corrente antropológica preocupava-se
com a análise das sociedades de maneira integrada e, para tanto, partiam de investi-
gações aprofundadas de elementos específicos para produzir inferências sobre o todo.
Em outras palavras, o funcionalismo estudaria parte da vida social para, por dedução,
definir conclusões acerca de sua totalidade.
Assim, o funcionalismo teve, em sua gênese, a preocupação com a definição acerca
do papel e da atuação do pesquisador antropólogo em campo, conforme destaca Gus-
mão (2008). Tal aspecto dialoga diretamente com os primeiros preocupados com o
estabelecimento do conhecimento científico na área - Durkheim para as Ciências Sociais
em geral e Mauss para a Antropologia em específico - por conta da atenção conferida
à necessidade de relativização do próprio conhecimento do observador diante daquilo
que ele passa a conhecer quando do contato com o público que pretende compreender.

Isto está na rede


Conforme artigo publicado em periódico especializado e em simpósio promo-
vido pelo Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) da 6ª região, a pers-
pectiva funcionalista de buscar o enquadramento de totalidades a partir de

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características específicas deve ser avaliada criticamente como inadequada


diante dos primas de realidade social que assistentes sociais devem utilizar
ao abordar a realidade social (SANTOS; WEISHEIMER, 2012).

5.2 Malinowski e a sistematização do método antropológico

O britânico Bronislaw Malinowski destaca-se dentre os primeiros a sistematizar


conhecimentos antropológicos de maneira a conferir cientificidade - pautada pela
possibilidade de replicação (nova observação) - e legitimidade àquilo que observara
em campo. Assim, trata-se de um autor clássico que ficou conhecido como criador de
uma modalidade de pesquisa.
Conforme destaca Laplantine (2003, p. 79-80), em sua exposição acerca dos funda-
dores da etnografia e sua preocupação com o “fazer” antropológico:

Se não foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiência


etnográfica, isto é, em primeiro lugar, a viver com as populações que
estudava e a recolher seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa
compreensão por dentro, e para isso, procurou romper ao máximo
com os contatos com o mundo europeu. Ninguém antes dele tinha
se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer de duas
estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentalidade dos outros,
e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de desper-
sonalização, o que sentem os homens e as mulheres que pertencem
a uma cultura que não é nossa.

Na clássica obra “Os argonautas do Pacífico Ocidental”, o autor inicia destacando o


ponto de vista do nativo, sob o argumento de que a partir de um único elemento, fato
ou objeto cultural seria possível compreender a totalidade de uma sociedade. Nesse
contexto, duas questões se colocavam como pertinentes: o que é uma sociedade para
si mesma? O que torna uma sociedade viável para os seus integrantes?
De acordo com Malinowski (1978), para responder a tais questionamentos era
imprescindível perceber a diferenciação entre a “observação do real” e as “interpreta-
ções do antropólogo”, ou seja, o antropólogo seria um cronista, um observador que
escreveria e descreveria o funcionamento de uma sociedade, mas somente essa
atividade não garantiria a compreensão da realidade do grupo observado. Eis a base
argumentativa do Funcionalismo.

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Metodologicamente, o autor discutiu a importância da realização de pesquisa empí-


rica e defendeu que a Antropologia não poderia ser realizada apenas em gabinete, o
que denota uma crítica direcionada ao Evolucionismo. De acordo com Malinowski, a
pesquisa antropológica demandaria duas distintas funções ou atividades: a etnografia
enquanto trabalho de campo permeado por relatos e a conformação da pesquisa por
meio da escrita.
A segunda atividade seria melhor desenvolvida se ocorresse após a conclusão da
primeira, inclusive porque os relatos de campo ofereceriam detalhes que complemen-
tariam a constituição geral da escrita, desenvolvida somente após a conclusão da
observação e o estabelecimento, portanto, de um olhar sobre o “todo” observado.
A partir disso, o autor defendia que o esforço do antropólogo consistiria em “tentar
se tornar um nativo”, ou seja, vivenciar o seu cotidiano e suas experiências, assumir a
sua visão sobre a realidade social e cultural. Este argumento é evidente contraposição
às pesquisas de gabinete, uma vez que propõe o “estar no campo” para conhecer e
compreender fenômenos, processos, fatos e costumes de modo não etnocêntrico,
sem estereótipos ou pré-conceitos estabelecidos. Para Malinowski, não se conheceria
uma sociedade à distância e o trabalho do antropólogo seria de entender como uma
sociedade se define, o que pensam de si (enquanto coletividade).

Anote isto
Em sua exposição da Antropologia Social, onde cabe o Funcionalismo, Roberto
DaMatta (1987) explorou o ideário que defende a sociedade como um conjunto
de ações produzidas enquanto reflexos das formas de interação, aos moldes
do sistema de trocas trobriandês. Conforme o autor, sociedades sem tradição
seriam sistemas coletivos sem cultura.

Tal intento seria possível apenas se o antropólogo - branco, de classe social elevada e
europeu - assumisse que os padrões que conhecia eram distintos sem necessariamente
sem melhores ou mais adequados, o que levaria à necessidade de desconstruir seu
olhar de julgamento sobre os padrões de outras sociedades, costumeiramente tratadas
como restritivas ou primitivas, mas cujos padrões de organização são relevantes para
aqueles grupos.

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Um dos destaques da obra de referência de Malinowski, sobre o que cabem consi-


derações específicas para a formação em Serviço Social é a introdução de “Os argo-
nautas do Pacífico Ocidental”, onde o autor oferece uma explicação de como realizar
uma pesquisa de campo.
De acordo com o autor, analisar algo sobre a ótica do pesquisador pode levar a
interpretações errôneas, já que o entendimento da funcionalidade de objetos, gestos,
traços e valores se verifica a partir das perguntas feitas aos pesquisados.
No caso específico dos trobriandeses, a valorização dos objetos que trocavam foi
comparada por Malinowski à adoração das joias da Coroa pelos ingleses, o que implica
em considerar um dos aspectos que o autor buscava enfatizar e que constitui um dos
fundamentos da Antropologia: a interpretação que construímos sobre o outro deve con-
tribuir à análise de si, o que significa que a visão conformada sobre outras sociedades
teria potencial para refinarmos o conhecimento sobre nossas próprias sociedades.
A presença do pesquisador no campo foi tratada pelo autor como “presente etno-
gráfico”, o fazer-se presente no espaço e nas relações investigadas, considerado por
Malinowski como fundamental à Antropologia: estar no campo, se posicionar a partir
daquilo que foi conformado pela observação e/ou até mesmo interação faz diferença
para a interpretação produzida, que deve superar o limite da opinião.
Nesse sentido, o autor afirma que não há neutralidade na pesquisa antropológica,
um dos aspectos que toda pesquisa científica carece reconhecer. Para ele, a construção
do conhecimento seria sempre parcial e caberia ao pesquisador ser fiel às perspectivas
dos nativos em suas interpretações acerca de fenômenos sociais daqueles.
Em suma, o autor defende o trabalho etnográfico como mecanismo para exposição
e explicação de experiências de diferentes sociedades, com sua racionalidade interna e
coerência que podem ser distintos de outras sociedades, até mesmo desconhecidos.
De modo sintético, Malinowski destacou que a etnografia seria uma mistura singular
de trabalho objetivo e de vivência pessoal.

5.3 O kula como elemento explicativo do funcionamento de uma


sociedade

Analisando sua obra à luz dos pensadores clássicos das Ciências Sociais, vemos
que o autor resgata a ideia durkheimiana de função e integração social por conta da

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reconstrução, a partir de dados aparentemente caóticos, dos sistemas que ordenam


e conferem sentido ao modo de vida nativo. O antropólogo procuraria conhecer uma
comunidade ou sociedade sob seus diversos aspectos para produzir conhecimento
sobre ela e, por comparação, aprender mais sobre a sua própria sociedade.
Nesse sentido, o kula representaria a apreensão da totalidade integrada da cultura
e modo de vida dos trobriandeses, uma vez que se caracterizaria como instituição
funcional totalizante e integradora de caráter tribal que estabelece relações a partir de
trocas de objetos que não tem funcionalidade direta (valor prático), mas representam
o jogo de status entre o grupo, uma vez que apenas autoridades poderiam fazer uso
dos colares e pulseiras que eram trocados.
Conforme a observação e descrição de Malinowski, o kula possuiria um conjunto de
regras e tradições e se sustentaria na sociedade por conta de um conjunto de mitos e
encantamentos, sendo considerado como mecanismo integrador daquela sociedade
- como são o Estado ou a Igreja para outras - pelo fato de que também poderiam ser
trocados serviços e que outras atividades se relacionariam com o kula. Ademais, o
autor observou que tal prática era restrita aos homens, que estabeleciam parcerias em
pares, as quais se estenderiam, para além das trocas, ao comércio e à comunicação,
por exemplo.
De modo sucinto, a lógica do kula é de que possuir é dar uma vez que a riqueza seria
sinônimo de poder e generosidade, ao passo que os avarentos eram desprezados pela
comunidade trobriandesa. Quanto mais relações de troca estabelecidas, maior o poder
o status de um homem, já que o conferiria poder não era o que cada um detinha, mas
as suas possibilidades efetivas de participação no processo de troca. Assim, o kula
permitiria reconhecer a racionalidade da sociedade trobriandesa.
Diante do exposto, “Os argonautas do Pacífico Ocidental” oferecem uma importante
contribuição ao afastar o conhecimento nas Ciências Sociais da ideia de formalismo
e de existência de “quadros fixos” ao considerar que o conhecimento é temporal e
parcial, tendo em vista que as práticas sociais são criadas por todos os grupos e
aquilo que determinadas sociedades compreendem como irracional é plenamente
racional e funcional para o grupo que pratica. Assim, a obra foge do etnocentrismo
para enfatizar a necessidade de compreensão do outro, não de seu julgamento pelos
padrões de que analisa.
Ainda no âmbito das contribuições da obra, trata-se de um livro que considera a inter-
pretação das subjetividades existentes na relação entre pesquisador e pesquisado, em

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que o primeiro define o objeto, o método e as categorias analíticas e o segundo expõe


ou demonstra as suas categorias, sem necessariamente dialogar com a expectativa
do pesquisador.
Para concluir esta aula é possível estabelecermos algumas considerações acerca
da relação do funcionalismo com o trabalho de assistentes sociais, que deve ser pau-
tado, por exemplo, pelo desenvolvimento de um olhar empático e preocupado com a
compreensão acerca do outro e de seu contexto e modo de vida.
Ademais, cabe aos profissionais do Serviço Social entenderem que o trabalho de
gabinete tem sua função e que pode ser utilizado como fonte de pesquisa e para con-
sulta ou construção de indicadores, porém é imperioso ir ao campo (onde o público
que necessita da assistência social está) para conhecer os limites e as necessidades
de sua vida cotidiana, pensando não na formulação de julgamentos, mas em como
sua atuação pode contribuir à superação de desigualdades sociais ou à garantia da
efetividade de direitos.

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AULA 6
CORRENTES ANTROPOLÓGICAS:
O CULTURALISMO

Campo do conhecimento antropológico surgido em paralelo ao Funcionalismo, o


culturalismo se revelou, ao longo das décadas, como importante mecanismo de interpre-
tação dos mecanismos que regulam as sociedades por meio da cultura, demonstrando
sua pertinência à formação de profissionais no âmbito do Serviço Social. Nesta aula
tratamos da caracterização dessa corrente, de seu principal autor e a mais importante
obra culturalista produzida sobre o Brasil.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/brainstorm-comodo-complexo-complicado-212286/

6.1 O culturalismo

Os caminhos de construção da Antropologia Cultural surgiram em paralelo à


Antropologia Funcionalista, também em contraposição aos estudos evolucionistas

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anteriormente produzidos e, mais do que pensando outras interpretações, desta-


cando a crítica à maneira como a corrente antropológica abordada na quarta aula
desenvolvia seus estudos.
Uma das premissas do culturalismo era de que determinados costumes poderiam
decorrer de distintas causas conforme o povo ou o momento histórico em que se
manifestavam, de modo que não seria pertinente realizar generalizações acerca de
um pseudodesenvolvimento da humanidade em decorrência de certas observações,
quando o contexto teria relação direta com a maneira como cada agrupamento ou
sociedade se comporta.
Para os autores culturalistas, portanto, não se colocaria a perspectiva de uma única
cultura da humanidade, mas a existência de diferentes culturas, relacionadas aos pro-
cessos pelos quais cada grupo passa ou vivencia. Nesse sentido, um dos primeiros
textos de destaque da corrente culturalista foi “Raça e progresso”, de Franz Boas:

Na década de 1930, Boas publica “Raça e Progresso”, um importante


artigo no qual o autor refuta a existência de diferenças biológicas
entre povos primitivos e civilizados, argumentando que as diferenças
existentes entre as sociedades são culturais. Neste artigo, Boas situa
a diferença fundamental entre os seres humanos como sendo de
ordem cultural, e não racial (RECHENBERG, 2013, p. 50).

Os debates iniciados por Boas se disseminaram e ganharam projeção ao longo


da primeira metade do século XX por meio de obras expressivas de outros autores,
chegando até mesmo a influenciar uma interpretação corrente no Pensamento Social
Brasileiro sobre a qual trataremos na última parte desta aula.

Anote isso
Roberto DaMatta é um dos principais expoentes dos estudos sobre cultura no
campo das Ciências Sociais no Brasil, sendo reconhecido por pesquisadores
que se utilizam da Antropologia como caminho metodológico, por exemplo,
pelo ensaio “Você tem cultura?” (1986) e pelo livro “Carnavais, malandros e
heróis” (1997), no qual discutiu - dentre outros aspectos culturais brasileiros -
a simbologia que permeia a expressão “Você sabe com quem está falando?”.

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6.2 Boas e a relação entre cultura e contexto

Contemporâneo de Malinowski, Franz Boas influenciou a formação da área de pes-


quisa em Antropologia Cultural, mesmo sem nenhuma grande obra. De acordo com o
Laplantine (2003), tratava-se de um pesquisador de campo, pioneiro, que conferiu-lhe
destaque associado à maneira como lecionava e conformou antropólogos que pos-
teriormente ganharam, também, notoriedade - como aquelas que exploraremos em
nossas próximas duas aulas.

No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais


constitutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos
Esquimós, e isso detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve
ser objeto da descrição mais meticulosa, da retranscrição mais fiel
(por exemplo, as diferentes versões de um mito, ou diversos ingre-
dientes entrando na composição de um alimento). (LAPLANTINE,
2003, p. 77).

Boas se preocupou com a contraposição entre o que é culturalmente específico e


o que é genericamente humano ao questionar como pensar a interação de diversos
aspectos que conformam uma cultura. Para o autor, seria pertinente produzir sínteses
culturais e interpretações acerca das redes de relações humanas.
Nesse sentido, a interpretação de cultura de Boas diferenciava-se daquela de Mali-
nowski. Para o autor funcionalista, a cultura representaria a totalidade integrada por
meio de núcleos de ordenação e correlação (as instituições), enquanto o culturalista
compreendia cultura como o elemento explicativo da diversidade humana por compre-
ender tudo o que os indivíduos criam.
Boas discutiu com os evolucionistas e criou distinções para estudar os homens
a partir da cisão entre cultura e aspectos biologizantes, além de se preocupar com a
compreensão da heterogeneidade social. O autor era militante da causa do respeito e
da tolerância, sob o argumento de que reconhecer as diferenças é importante.
Fundador da mais importante escola da Antropologia, Boas trabalhou com a ideia
de que a observação deveria ser centrada nos indivíduos e em textos reunidos na
obra “Antropologia Cultural” (2004) buscou encerrar o debate com os evolucionistas
e, ao mesmo tempo, avançar no tratamento analítico das relações sociais, pensadas
enquanto recortes.

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Nesses termos, o autor observou para além de unidades cristalizadas, preocupan-


do-se com a constituição do próprio objeto por meio da técnica de sua desconstrução
e reconstrução, um processo marcado por fragmentação da sociedade sem a preocu-
pação de compreender o sistema em funcionamento, mas focado na maneira como
foi instituído.
Para o autor, o comportamento social analisado é sempre parcial, sujeito a mudanças
que podem, inclusive, ocorrer logo após às análises científicas. Assim, a Antropologia
deveria ser pensada como uma ciência baseada na provisoriedade, de modo a enfrentar
questionamentos à sua cientificidade, já que enquanto o genericamente humano era
praticamente imutável (como a necessidade de alimentação, por exemplo), os aspectos
culturais são específicos e podem ser transitórios (vide os hábitos de alimentação).
Boas identificou um erro no evolucionismo, que relacionava as formas às atitudes,
por vínculos entre grupos em condições diversas e analisados por suas semelhanças
e não por suas similaridades, de modo que o argumento do autor era de que se fazia
necessário substituir a noção de raça pela de cultura para explicar as sociedades huma-
nas por meio da análise dos fenômenos sociais com respeito às suas singularidades,
já que a pluralidade de relações humanas seria responsável pela criação e manutenção
das sociedades.
Para o autor, qualquer tentativa de explicar a cultura por argumentos puramente
biológicos fracassaria, pois os resultados das interações dos indivíduos entre si e com
a natureza e o meio passam pelas relações sociais. Por conseguinte é importante
destacar que a provocação analítica de Boas extrapolou a Antropologia e atingiu as
Ciências Sociais e Humanas de maneira mais ampla, já que o conceito de raça foi
substituído parcialmente pela noção de população, com foco em questões culturais
nas análises das sociedades. De modo categórico, o autor afirmou que as diferenças
culturais devem ser o foco da Antropologia!
Para o culturalista, mais importante do que discorrer sobre um sistema é tratar de
como se constitui com relação às leis, normas e regras internas, já que sua explicação
deveria se dar a partir do entendimento de sua construção e não da comparação simples
de um sistema com outro, até mesmo porque os processos de socialização estariam,
em alguma medida, relacionados à questão da hereditariedade.
Parte da constituição dos indivíduos pode advir da hereditariedade, desde que não
seja tomada apenas sob a perspectiva genética, mas também considerando tradições
e costumes. Contudo, os processos de socialização são mais relevantes por conta de

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alterações ocorridas na sociedade, que, inclusive, minimizam o papel da hereditariedade


no processo de conformação dos indivíduos.
Assim, a hereditariedade surte efeito individual sobre os sujeitos, ao passo que os
processos de socialização provocam alterações que deixam vestígios coletivos. Tais
alterações e vestígios nas relações entre indivíduos, sociedade e cultura constituiriam
os padrões culturais, o conjunto de pensamentos, instituições, atividades humanas,
rituais, organizações e linguagem.
Nesse sentido, Boas criticou a consideração da História como elemento determi-
nante dos processos sociais, sob o argumento de que os fatos históricos interferem, em
alguma medida, no conjunto de relações sociais estabelecidas, mas não determinam os
processos. Em outras palavras, as condições históricas - assim como as biológicas ou
geográficas, por exemplo, devem ser consideradas no processo de explicação das rela-
ções sociais, mas o foco analítico principal de estabelecimento de padrões é a cultura.
Para o autor, os padrões culturais refletem valores que não se materializam, mas são
importantes para explicar as relações entre indivíduos e sociedades, considerando que
a cultura exerce papel de mediação entre os sujeitos e a coletividade. A preocupação
analítica de Boas, disseminada entre seus alunos, era com o estudo do que os indivíduos
fazem com a cultura na sociedade, pautada pela identificação da necessidade de cons-
trução teórica da Antropologia para compreender os padrões culturais estabelecidos.
Em termos metodológicos, Boas defendeu a pertinência de formação e treinamento
de pesquisadores sob a premissa de que seria preciso entender que a cultura de um
grupo nem sempre refletiria integralmente uma sociedade, uma vez que as várias
maneiras de pensar e agir consideradas universais são, na verdade, culturas de diversos
grupos específicos, que integram o conjunto de culturas que compõem uma população
ou sociedade.
Ainda segundo o autor, o antropólogo não poderia perder o foco no outro: quando
falo sob a mina perspectiva, me agiganto e diminuo o outro, sobre quem, de fato, cabe
o interesse antropológico pela explicação.
Assim, o texto etnográfico não deveria ser uma redação, mas uma tentativa de análise
do outro a partir dos dados decorrentes da pesquisa, para construir uma visão mais
orientada de culturas diferentes daquela do pesquisador.

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Isto acontece na prática


Pensando sobre a atuação dos profissionais do Serviço Social no Brasil, con-
siderando as dimensões continentais de sua composição geográfica, étnica,
social e econômica, os padrões culturais também são distintos e devem ser
considerados para evitar generalizações que não contribuam à redução de
desigualdades sociais ou combate a problemas que podem se revelar dife-
rentes em cada espaço ou para cada grupo.

Nesses termos, o autor observou para além de unidades cristalizadas, preocupan-


do-se com a constituição do próprio objeto por meio da técnica de sua desconstrução
e reconstrução, um processo marcado por fragmentação da sociedade sem a preocu-
pação de compreender o sistema em funcionamento, mas focado na maneira como
foi instituído.
Assim, a hereditariedade surte efeito individual sobre os sujeitos, ao passo que os
processos de socialização provocam alterações que deixam vestígios coletivos. Tais
alterações e vestígios nas relações entre indivíduos, sociedade e cultura constituiriam
os padrões culturais, o conjunto de pensamentos, instituições, atividades humanas,
rituais, organizações e linguagem.

6.3 O culturalismo como explicação à “democracia racial” no Brasil

Com formação sob influência do antropólogo norte-americano Franz Boas e do


movimento modernista da década de 1920 no Brasil, Gilberto Freyre escreveu Casa
grande & senzala, originalmente publicado em 1933, tendo em vista o esforço de romper
com as ideias racistas sobre a população nacional, cujos códigos de representação
(signos, símbolos e ideias culturais) vigentes se pautavam pela superioridade dos
portugueses frente aos negros e aos índios e, além disso, eram fortemente críticos à
miscigenação. Nesse sentido, o autor se destacou entre os intelectuais brasileiros da
época ao sinalizar positivamente com relação à miscigenação e temos nessa obra
uma das mais importantes e mais conhecidas interpretações sobre a formação da
sociedade brasileira até hoje.

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O autor defendeu a ideia de que os portugueses eram um povo pré-disposto à coloni-


zação, já que seriam híbridos com características formadoras tanto da Europa quanto
da África, adotaram o comportamento de sair da metrópole e abandonar suas condições
precárias para viver na colônia e gozaram de aclimatabilidade, já que foram capazes
de se adaptar às condições desta terra mesmo sem serem dela nativos, ao ponto de
transmitirem sua experiência às gerações seguintes. Por tais traços, Freyre afirmou
que os portugueses triunfaram nos trópicos, onde outros colonizadores falharam.
Contudo, essas predisposições só foram capazes de construir o sucesso da coloni-
zação portuguesa no Brasil porque se deram em concomitância com a miscigenação,
o que teria sido, de fato, a grande vantagem e o fator propulsor da colonização. Essa
argumentação, de elogio aos mestiços e a convivência entre distintos grupos, foi
responsável pela ideia de que haveria nas terras brasileiras uma “democracia social”,
só em outro momento conhecida como “democracia racial”. Ainda que esse termo
não se referisse ao regime político vigente no país à época, foi a maneira como se
definiu a organização social em que indivíduos de diferentes origens coabitariam
numa mesma sociedade.

[...] por todas aquelas felizes predisposições de raça, de mesologia e


de cultura a que nos referimos, [o português] não só conseguiu vencer
as condições de clima e de solo desfavoráveis ao estabelecimento
de europeus nos trópicos, como suprir a extrema penúria de gente
branca para a tarefa colonizadora unindo-se com mulher de cor. Pelo
intercurso com mulher índia ou negra multiplicou-se o colonizador
em vigorosa e dúctil população mestiça, ainda mais adaptável do que
ele puro ao clima tropical. A falta de gente, que o afligia, mais do que
a qualquer outro colonizador, forçando-o à imediata miscigenação –
contra o que não o indispunham, aliás, escrúpulos de raça, apenas
preconceitos religiosos – foi para o português vantagem na sua
obra de conquista e colonização dos trópicos. Vantagem para a sua
melhor adaptação, senão biológica, social (FREYRE, 2006, p. 74-75).

O mestiço, então, não seria visto como um ser degenerado, mas representaria a sín-
tese do povo brasileiro, por conta de sua relação com povos de origens diversas. Diante
dessa argumentação, Freyre argumentava que a sociedade brasileira não sofria do
racismo que se notava em outros países, como nos Estados Unidos naquele momento
e que existia certa proximidade entre senhores e escravos, o que estaria relacionado à
herança mourisca dos colonizadores portugueses.

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Por um lado, esta interpretação freyreana foi muito importante na produção aca-
dêmica brasileira da época por romper com autores e argumentos preconceituosos e
críticos à ideia de miscigenação do povo brasileiro, como na perspectiva anteriormente
destacada de Nina Rodrigues (2010), que defendia que os negros seriam uma raça
inferior aos brancos e a quantidade de negros no Brasil seria um problema nacional,
pois contribuiria negativamente ao desenvolvimento do país. Conforme o médico, tal
condição dificilmente seria superada, já que, ainda que evoluíssem, os negros jamais
atingiriam o estado evolutivo dos brancos, sendo o “branqueamento” da população
a única solução - ao que se contrapôs a análise culturalista de Freyre ao defender a
“democracia racial”.
Contudo, por outro lado, essa abordagem da democracia social/racial e de relações
harmônicas entre as raças, sabe-se, não necessariamente ocorreu da maneira como
Freyre expôs em sua obra. Nesse sentido, Fernandes (1978) avançou muito para a
interpretação das relações sociais e raciais no Brasil, especialmente por deslocar seu
olhar e seu argumento para um ponto pouco debatido até aquele momento: a questão
social. Para esse autor, não eram aspectos raciais, mas a maneira como as classes
sociais se estabeleceram no Brasil que definiam a organização da nossa sociedade de
maneira pouco democrática ou com desigualdades no acesso a direitos e na inserção
no mercado de trabalho.
Tomados os conteúdos abordados nesta aula de maneira condensada, é possível
concluir remetendo à relevância do culturalismo à formação de profissionais no âmbito
do Serviço Social, especialmente por conta de dois aspectos. O primeiro remete à
necessidade de compreensão de aspectos culturais em seus contextos, premissa do
desenvolvimento da atuação e intervenção em campo desses profissionais.
O segundo aspecto remete à problematização da questão racial como algo social,
no sentido de que é pertinente lançar um olhar crítico à questão, no caso brasileiro,
tendo em vista a manutenção da condição de relevância da raça à estruturação da
sociedade de classes, ou seja, mesclando raça, trabalho e acesso a políticas públicas.

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AULA 7
ANTROPOLOGIA A SERVIÇO DO
PODER POLÍTICO

Um dos expoentes da pesquisa culturalista estadunidense instituída a partir da


Universidade de Columbia, por Franz Boas, Ruth Benedict teve como questão central
de suas pesquisas antropológicas a preocupação com a observação, a descrição e a
análise de modelos culturais, entendendo-os como forma de compreensão das dinâmi-
cas sociais. Nesta aula, abordamos a conformação de um estudo antropológico com
viés político, com destaque à maneira como a autora expôs argumentos etnocêntricos
e contrários à perspectiva de alteridade.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/aldeia-arquitetura-casas-cobertura-2187605/

7.1 Considerações gerais sobre “O crisântemo e a espada”

Ainda que tal questão tenha sido abordada pela autora inicialmente em “Padrões
de cultura” (1934), foi em “O crisântemo e a espada” (1972) que tal preocupação foi

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melhor trabalhada ou desenvolvida. Cabe destacar que a produção acadêmica de


Benedict foi intermediada pelos efeitos das duas grandes guerras do século XX, sendo
que a segunda obra foi originalmente publicada em 1946, ano seguinte ao término da
Segunda Guerra Mundial.
Em “O crisântemo e a espada”, a autora mostra como, diante de distintas configura-
ções dos Estados nacionais, podem ser pensados modelos culturais capazes de explicar
dinâmicas sociais, de modo que a comparação se dá sempre por costumes, que são
tradicionalmente formas de transmissão de saberes entre as gerações.
Diferentemente dos evolucionistas, Benedict, assim como Boas e seus demais
alunos, buscou comparar costumes ao invés de sociedades, ou seja, culturas e não
povos. Como seu professor, a autora assumiu que cada cultura tem sua lógica de
funcionamento, suas próprias práticas, costumes e valores, que são totalizantes para
aquele grupo. Contudo, ainda assim, a perspectiva de compreensão dessas culturas é
sempre relativa, já que possui valores próprios para cada sociedade. Caberia à Antro-
pologia tolerar, aceitar e relativizar a lógica ou dinâmica de algo dentro da sociedade
que está analisando.
Para a autora, o mais importante de um costume não é sua institucionalização, mas
sua crença e a vivência, ou seja, como as pessoas experimentam normas, valores e
crenças. O foco da análise, portanto, deveria sempre ser o indivíduo, considerada sua
vivência na sociedade, uma vez que as instituições só existem a partir do momento
em que são experimentadas pelos indivíduos.
Uma importante e pertinente observação é de que a transmissão de valores é dife-
rente de cristalização, de algo estático. Ao contrário, a transmissão consiste em um
constante fazer-se e refazer-se, uma construção que é experimentada e vivida pelos
indivíduos a cada dia. Nesse sentido, a perspectiva culturalista se revela presente nos
escritos ao destacar que os costumes são arranjos sociais possíveis para lidar com
alguns problemas ou situações - que não são os únicos e nem sempre são os mesmos.
De modo geral, a autora argumentou no sentido de que a cultura pode sobreviver, já
que as sociedades as atualizam.
“O crisântemo e a espada” é um importante trabalho no campo da Antropologia, que
destaca outras possibilidades de análise e pesquisa para além da observação partici-
pante, aspecto em que Benedict contrapõe a afirmação de Malinowski de que é preciso
tornar-se um nativo para explicar um povo. Além disso, destaque-se o interessante uso

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do “mas também”, que permitiu identificar características distintas entre os japoneses,


para além de binarismos (determinantes).

7.2 A elaboração da pesquisa

Benedict desenvolveu uma pesquisa encomendada pelo governo norte-americano


no contexto da Segunda Guerra Mundial e buscou analisar o comportamento japonês
naquele conflito sob o aspecto cultural, e não como problema militar. Como não podia
viajar ao Japão para realizar um trabalho de campo, a autora se ocupou de outras fontes,
como uma pesquisa antropológica realizada numa aldeia daquele país, mas restavam
lacunas que dados estatísticos ou ocorrências passadas não compreendiam. Assim,
era preciso explorar a cultura a partir dos indivíduos que a tivessem vivido.
Os japoneses manifestaram muito de sua cultura pela escrita, revelando desde fatos
triviais até outros sobre seus programas de expansão mundial. Contudo, obviamente,
deixaram de relatar aspectos cruciais ao entendimento de sua cultura, tão essenciais
quanto familiares a ponto de não se destacarem em suas análises e seus escritos.
Ademais, a análise de filmes - de propaganda, históricos e sobre a vida contempo-
rânea em Tóquio e nas aldeias - e das novelas revelaram aspectos relevantes quando
a autora confrontou sua visão com a de japoneses que haviam morado anteriormente
naquele país. As distintas visões de Benedict e dos japoneses revelou que entre eles
havia consonância na interpretação dos fatos retratados, seja pelo aceite prazeroso
ou pela rejeição amarga.
Em resumo, metodologicamente é possível destacar que Benedict produziu um
extenso trabalho de campo, pautado em fontes secundárias diversas, para a constru-
ção de sua pesquisa etnográfica, o que lhe permitiu, em alguma medida e com limites,
superar a impossibilidade de realização de observação participante.
Os limites apontados no parágrafo anterior dizem respeito ao contexto de produção
da obra destacada de Benedict. No contexto de guerra, a Antropologia pode ajudar a
conhecer melhor o outro, aquele que se pretendia dominar ou manipular, considerada
a perspectiva intervencionista estadunidense. Nesse sentido, a autora colocou o fazer
antropológico a serviço da dominação norte-americana, assim como fez Evans-Prit-
chard em prol do colonialismo inglês. Muitas das críticas sofridas tanto por Benedict

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quanto especificamente por “O crisântemo e a espada” estão relacionadas à sobrepo-


sição de interesses políticos àqueles científicos.
Considerada essa lógica intervencionista e prospectiva à dominação, a autora
apontou contradições entre os japoneses, o que destaca sua opção por não buscar
a explicação de um povo apenas por suas regularidades. Isto porque suas questões
centrais giraram em torno de indagações como: no que norte-americanos e japoneses
diferem? O que suas diferenças explicam através de suas culturas?
Os norte-americanos tinham certo conhecimento sobre a cultura japonesa naquele
momento, entretanto, a motivação da encomenda da pesquisa foi compreender como e
por quê aquela sociedade não respeitava a “natureza humana”, na forma como os estadu-
nidenses a concebiam. Fazia sentido, então, a realização de uma pesquisa antropológica!
Os antropólogos culturalistas se preocupavam em mostrar que as populações se
explicam por fatores culturais e não biológicos. Por exemplo: um bebê japonês adotado
e criado por norte-americanos desenvolveria costumes e práticas desse povo, como a
língua, o vestuário, a tradição e os valores. Assim, reforçava-se a máxima de que não
há sociedade sem cultura!
Tendo em vista que pensar a cultura é refletir sobre como as sociedades separam o
real do ideal, para Benedict a cultura japonesa seria explicada não somente pela soma
das partes (estudos) sobre ela, mas também pela síntese das inter-relações estabele-
cidas por pesquisas sobre o conjunto das relações que estabeleceram.

Isto acontece na prática


As dimensões do real e do ideal se manifestam no dia a dia do trabalho de
assistentes sociais e, não raras vezes, causam incômodos ou até mesmo
frustrações. Contudo, é importante canalizar a atenção e a tensão decorrente
da relação entre a implementação de políticas públicas (real) e a legislação
existente (ideal) para envidar esforços que culminem na efetividade dos meca-
nismos de redução de desigualdades sociais.

Diante de tal perspectiva, a autora criticou Malinowski por se contentar em apresen-


tar as funcionalidades das instituições aos seus membros, o que seria apenas meio
caminho da análise antropológica, que, segundo ela, necessitaria ainda de compreensão

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de que o arranjo analisado seria apenas uma configuração possível para explicar a
sociedade trobriandesa.

7.3 Principais resultados e o viés político

Dentre os pontos mais relevantes de “O crisântemo e a espada”, cabe ressaltar que


os japoneses acreditavam que a paz mundial somente seria atingida quando todos os
povos se submetessem a uma única hierarquia, ao invés de hierarquias concorrentes,
como a organização dos países em Estados independentes promovia. Nesse sentido,
o Japão, como país hierarquizado e tradicional seria o país ideal para conduzir o pro-
cesso de hierarquização das demais nações, o qual deveria ser rígido e determinado,
ou seja, um modelo não democrático e não ocidental.
Ademais, atrelado à sua cultura religiosa, os japoneses acreditavam fortemente que
o espírito venceria a matéria, o que justificava que sua fé, aliada à confiança na hierar-
quia, os mantinha combativos mesmo diante de consecutivas derrotas, uma vez que
tinham em mente que em algum momento o poder material fracassaria.
Em decorrência de tal crença, os japoneses não consideravam a ideia de rendição,
tanto que quando presos não sabiam como se comportar e alguns chegaram mesmo
a descrever detalhes da organização de guerra do país, por considerarem que não
voltariam para lá por sua condição de humilhados. Da mesma maneira, eles não cui-
davam de seus feridos, já que sua filosofia era de que valia a pena morrer lutando e os
avariados eram, então, de certo modo exaltados.
Um ponto identificado por Benedict e cujo resultado não era esperado remeteu à
imagem do Imperador, tida como figura unânime pela visão norte-americana, mas que
sofria várias críticas, sendo que a população se calava, na verdade, não por respeito,
mas por temor da lei penal especial de guerra e da lei de segurança nacional japonesa.
Assim, a hierarquia se revelava como mecanismo de controle social e valor que orde-
nava e controlava a vida em sociedade no Japão, a qual só poderia ser compreendida
pela análise da vida familiar, política, econômica e religiosa. Destaca-se o pertencimento
à aristocracia como algo exaltado pelos japoneses.
No entanto, a linguagem do respeito reforçava a hierarquia, uma vez que não apenas
diferenças de classe importavam, mas também as de gênero, idade, laços familiares

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e relações anteriores (como entre mestres e aprendizes). Essa valorização decorre da


experiência feudal de lealdade não à família, mas ao senhor.
Com relação ao impacto da religião nas práticas culturais, Benedict identificou que
os japoneses não condenam a autossatisfação e os prazeres físicos (prazeres munda-
nos, da carne), mas entendem que tudo pode ser experimentado, mas com equilíbrio: o
bem engloba o mal e é preciso saber até onde ir! A autora destacou que o autocontrole
é muito presente naquela sociedade, associado ao budismo.
Assim, os japoneses seriam capazes de oscilar de uma lógica a outra (ninguém é
de todo bom ou mau), por meio de uma história do período feudal (século XVII), adap-
tado ao longo dos séculos, que fala sobre como os japoneses passaram a valorizar a
sinceridade. Essa é uma maneira de interpretar a postura dos soldados japoneses em
relação ao seu Exército, inclusive os pilotos Kamikaze, ao demonstrar que a sinceridade
era um valor preponderante da sociedade japonesa contemporânea.
Ademais, cabe destacar que a pesquisa constatou que os japoneses não viviam em
sociedades de culpa, como as ocidentais e cristãs, mas com a vergonha, que fazia com
que cumprissem regras não porque seu descumprimento os faria sentir-se culpados,
mas para evitar de se sentirem envergonhados.
Por fim, cabe destacar que Benedict tratou da autodisciplina como um valor bem
distinto do ocidental para os japoneses, de modo que se buscarmos entendê-la a partir
de nossas configurações não o faremos corretamente.
Somados, o respeito à hierarquia e o valor da autodisciplina são ideias centrais do
livro, de modo que o foco nessas características como fio condutor da obra justificaria
a resignação japonesa ao fim da guerra, ao aceitar sua derrota. Contudo, a autora não
mencionou, em momento algum, as bombas atômicas estadunidenses lançadas sobre
Hiroshima e Nagasaki, o que faz com que muitas críticas sejam lançadas à obra e ao
cinismo de Benedict pelo uso da “justificativa cultural” a uma pseudoaceitação posterior
a ações extremamente violentas por parte dos Estados Unidos.

Anote isso
A história “contada” da Segunda Guerra Mundial tem, majoritariamente, a
perspectiva norte-americana. Contudo, um importante retrato sobre momen-
tos importantes do conflito sob o olhar dos japoneses pode ser conhecido
no filme “Cartas de Iwo Jima”, dirigido por Clint Eastwood e lançado em

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2006, elogiado pelo respeito à cultura japonesa em sua construção, ainda


que produzido por estadunidenses.

Assim, a toada culturalista da autora parece cínica ao fim do livro, quando Benedict
sugere que japoneses não deveriam investir no militarismo e na guerra. O fim da obra,
inclusive, é uma prescrição aos japoneses para que cultivem a paz, sem que nada seja
aconselhado aos Estados Unidos, de modo que esta conclusão destoa do restante
do livro, em que os dois países são constantemente comparados e, mais do que isso,
contraria os caminhos da Antropologia de busca por comparações a fim de conhecer
mais sobre si, já que o “conselho” de Benedict revela seu etnocentrismo analítico.
Diante do exposto, cabe o olhar do Serviço Social à maneira como resultados de
pesquisas podem ser direcionados, de modo que ao profissional que atua diretamente
no âmago dos problemas sociais e do combate às desigualdades questionar a origem
dos dados para compreender sua relevância e possibilidade de utilização para tomada
de decisão e ação.

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AULA 8
ANTROPOLOGIA E A SUPERAÇÃO
DE ESTEREÓTIPOS

Enquanto as obras de Benedict foram influen-


ciadas pelo contexto da Segunda Guerra Mun-
dial, Mead escreveu no período da Guerra Fria.
A autora era psicóloga e foi aluna tanto de Boas
quanto de Benedict, dos quais se diferenciou por
adotar como objeto de estudos o processo de
educação das crianças, a partir do qual discutiu a
distribuição dos papéis sociais. Nesta aula, expo-
mos sua contribuição às pesquisas culturalistas.

8.1 Considerações gerais sobre


“Sexo e temperamento”
Fonte: https://tinyurl.com/y3xjcmz6

Em “Sexo e temperamento” (1979), Mead investigou mecanismos educacionais que


conformam as atribuições de papéis e de valores aos sexos e identificou que as diferen-
ças são culturais. Além da possibilidade de encontrarmos comportamentos invertidos
em relação aos que temos em nossas sociedades, as investigações antropológicas
nos permitem também identificar sociedades em que não se coloca essa discussão,
nas quais não há diferenças entre os comportamentos de homens e mulheres, o que
denota distintos padrões culturais.
A autora discute a dificuldade de romper com as determinações relacionadas aos
fatos biológicos e conclui que nem todos os grupos humanos estabelecem relações
entre sexo e temperamento. Aqui, reforça-se o que foi evidenciado em nossas aulas
anteriores: os culturalistas defendem que não existem características inatas ou deter-
minações culturais em termos de construção social.

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Uma questão interessante da obra foi a identificação de que os mundugumores não


criam clãs, mas um esquema que Mead chamou de cordas, onde homens cuidam das
mulheres e estas das crianças. Entre aquele povo, mulheres eram utilizadas como trocas
(mercadorias) para acúmulo de esposas, por exemplo, ainda que não se restringissem a
esse papel de mercadoria. Em sua análise, a autora observou que a distinção de papéis
sociais atribuídos a homens e mulheres não existe, ou seja, essa diferenciação tem a
ver com aspectos culturais e não de sexo.
Mead é considerada transgressora ao defender que os papéis que temos como
masculino e feminino não existem, mas são construções sociais. Assim, as diferenças
entre homens e mulheres não deveriam ser pensadas a partir do sexo, mas de condi-
cionantes sociais e culturais. Em alguma medida, “Sexo e temperamento” dialoga com
Simone de Beauvoir em “O segundo sexo”, inclusive.

Isto acontece na prática


A condição de igualdade real entre homens e mulheres é um processo de
construção contínuo e que ainda de atenção. No caso brasileiro, políticas
públicas voltadas ao enfrentamento à violência contra a mulher (Lei Maria da
Penha) e que determinam a mulher como beneficiária principal de determi-
nados programas (como o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família) foram
avanços sociais conquistados após 2002, ou seja, ainda muito recentes.

8.2 A elaboração da pesquisa

Mead discutiu à medida em que o temperamento é biologicamente determinado


pelo sexo entre três distintos povos: os plácidos montanheses Arapesh, os ferozes
canibais Mundugumor e os elegantes caçadores de cabeças Tchambuli. Sua obra “Sexo
e temperamento” é um importante marco não apenas para a Antropologia, mas para o
conjunto de estudos das Ciências Sociais e Humanas sobre as discussões de gênero.
A referida obra tratou de um objeto de estudo diferenciado ao se debruçar sobre o
processo de educação das crianças, a partir do qual discutiu a distribuição dos papéis
sociais. Nesse sentido, a autora buscou responder: o quanto existe de cultural no campo
de estudos da personalidade?

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A obra discute as relações e as influências do processo de formação dos indivíduos


sob a perspectiva culturalista e na tentativa de explorar as relações entre temperamento
e sexo, sua hipótese era de que fatores culturais e sociais seriam os verdadeiros con-
dicionantes do temperamento e não o sexo dos indivíduos.
Mead testou a tese de Boas de que os primitivos têm algo a nos explicar, além de
firmar a retórica boasiana pela reiteração da relevância dos aspectos culturais às
sociedades e aos indivíduos.
Em seu estudo sobre as referidas sociedades, a autora afirmou que há sociedades
onde o binarismo não funciona, já que encontrou povos em que todos são brandos e
dóceis (Arapesh), em que todos são bárbaros e violentos (Mundugumor) e também um
em que o padrão é invertido (Tchambuli).
Essas sociedades fugiriam ao padrão universal. Mas, cabe perguntar: é possível
falar de um padrão de comportamento por sexo que dê conta de explicar todas as
sociedades? Ou ainda: em que medida as diferenças entre os sexos são inatas e em
que medida são adquiridas?
Mead demonstrou, por exemplo, ao descrever a concepção de que entre os Mundu-
gumor as crianças que nascem com o cordão umbilical enrolado no pescoço são con-
sideradas artistas, assim como há sociedades onde aspectos biológicos são tratados
como culturalmente influentes. Em sociedades como as nossas (contemporâneas),
podemos pensar na herança deixada somente ao filho primogênito, por exemplo.

Anote isso
O desenvolvimento das relações no âmbito de uma sociedade sofre altera-
ções ao longo do tempo, como no exemplo chinês: diante do crescimento
populacional em decorrência da expressiva natalidade até meados da década
de 1960, implantou-se a “política do filho único”, que levou a abortos (e decor-
rentes problemas de saúde pública), doações de bebês para pais até mesmo
de outros países e disparidade na proporção entre homens e mulheres nas
décadas seguintes. Com a preferência das famílias por homens (para o tra-
balho), a natalidade se reduziu drasticamente e foi necessário suspender a
política de natalidade (RUI, 2011).

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Pensando esse debate para além do contexto da obra, no processo de educação,


indivíduos que destoam ou pensam diferente sobre os papeis sociais são interessan-
tes, uma vez que a cultura só pode ser interpretada em processo e em discurso. Tais
indivíduos, tratados como inadaptados, são valorizados por apresentar características
que nos permitem reconhecer a desigualdade dos homens, já que os atores sociais
são duais e quanto mais complexa uma sociedade, maior a possibilidade de assumir
determinada característica distinta.
Mais que reproduzir padrões por mecanismos “educacionais”, as pessoas se adaptam,
produzem e reproduzem determinados padrões. As noções mais comuns atribuídas aos
papeis sociais são amplamente divulgadas, ainda que não sejam amplamente vividas.

8.3 Principais resultados

Diante de tais considerações, os principais pontos destacados no livro remetem


ao fato que é possível encontrar papéis invertidos entre homens e mulheres em dada
sociedade e que as culturas podem não reconhecer diferenças entre homens e mulhe-
res, ou seja, podem não ensinar as distinções de papéis como os norte-americanos e
outros povos (como os brasileiros) ensinam.
Diante de tais considerações, Mead destaca que a cultura não é herdada, mas adqui-
rida, consciente ou inconscientemente, por meio de um processo de construção ou
formação, o qual denomina enculturação, que é diferente da assimilação ou do processo
vivido passivamente. A enculturação é muito evidente entre as crianças, para as quais
o processo se dá por forte introjeção dos costumes do grupo e é fundamental para a
manutenção do grupo com relação à hegemonia física, social, cultural e intelectual.
Os grupos analisados em “Sexo e temperamento” apresentaram culturas cofigurati-
vas, construídas por meio de processos educacionais que passam pela linguagem, mais
precisamente pelo domínio da linguagem. A cultura seria, então, uma transmissão de
saberes por meio de linguagem e símbolos, de modo que a verbalização das diferenças
simbólicas é um campo que se desenvolveu nesse contexto, sendo que símbolo é uma
associação de uma ideia com um significado, não apenas visual, mas também social.
Diante de tais considerações, Mead defendeu que a cultura deve ser partilhada
pelos membros de uma sociedade; caso contrário, será vazia. Assim como a cultura se

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converte num sinal compartilhado no grupo, os processos de educação, aprendizagem


e transmissão de sinais e símbolos geram identidades sociais.
Os processos educativos permitem trânsitos de indivíduos para além dos conceitos
de sociedade e cultura, de modo que, apesar dos pesos da sociedade e da cultura, os
indivíduos podem alterar seus padrões de interação. Nesse sentido, o compartilhamento
e a vivência nesse trânsito (de indivíduos e de processos educativos) poderia levar os
homens ao conhecimento maior, quiçá sobre tudo.
Mead encontrou os mundugumores cerca de 3 anos após o estabelecimento do
controle pelo governo britânico. As práticas de caça de cabeças e de canibalismo
haviam sido suprimidas, já que os nativos, temidos e conhecidos pelo temperamento
agressivo e por sua disposição em enfrentar a morte se submeteram ao controle por
temor à prisão e à possível perda de suas esposas e filhas.
Com relação às cordas são essas as organizações sociais de parentela, que se
organizam por alternância de gerações (pai, filhas, netos ou mãe, filhos, netas etc.).
Não há ligação de sangue, mas relações que se dividem entre as cordas do pai e da
mãe. Nessa organização, há grande hostilidade entre os indivíduos do mesmo sexo,
por conta da importância dos laços com os membros do sexo oposto.
A autora identificou, por exemplo, que irmãos se tratam com rispidez, já que sabem
desde a adolescência que dependerão de trocar suas irmãs para conseguir esposas, o
que os faz rivais. O mesmo vale para esposas que se recusam a alimentar os filhos de
seu marido com outras esposas. Também é esperado que os filhos se revoltem con-
tra os pais quando estes procuram novas esposas, mais jovens, o que significa novos
filhos e menos irmãs para troca e maior dificuldade para conseguir uma esposa, sendo
que esta representa riqueza e poder por ser responsável pelo cultivo do fumo, mais
importante produto do comércio. A mãe estimula o poder dos filhos sobre as irmãs,
para que as troquem por noras que ficarão sobre o controle matriarcal.
Desde a gravidez as crianças eram hostilizadas entre os Mundugumor, já que o
pai hostiliza a mãe, despreza-a enquanto grávida, e ela teme que ele encontre outra
esposa. Além disso, ambos veem no bebê uma ameaça: o homem pensa que um filho
vai disputar com ele as irmãs passíveis de troca por esposas e a mãe vê numa menina a
possibilidade de uma nova esposa para o marido. As crianças eram criadas de maneira
desumana e individualista, sem carinho.
Sobre tal observação de Mead, em específico, cabe considerar como a Antropologia
nos permite refletir sobre nossas sociedades, especialmente na comparação daquelas

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ocidentais com os mundugumores: a noção de desumanidade, individualismo e falta


de carinho na criação das crianças é uma acepção ocidental de criação que não se
colocava àquele povo estudado por Mead, para quem a cultura e tradições implicavam
no relacionamento hostil.
Assim, entre aquele povo pesquisado, os homens e mulheres “ideais” eram violentos,
competitivos, agressivamente sexuados e vingativos. Em contrapartida, homens dóceis
que defendam os filhos, mulheres carinhosas com os bebês, meninos sem coragem
pra matar e rapazes que não têm encontros no mato antes do casamento e não se
apropriam de todas as irmãs são considerados desajustados. Era para evitar sua pro-
liferação que as regras se conservavam e eram transmitidas às gerações seguintes,
de modo a manter e fortalecer aquela cultura.
Pensando acerca da contribuição de Mead e sua relação com o campo do Serviço
Social, cabe destacar que o debate em torno dos papéis sexuais é - até os dias atuais
- importante ponto de reflexão, especialmente diante da distinção em termos de direi-
tos. Ademais, a pesquisa da autora nos ensina acerca da relevância de não generalizar
padrões, funções ou papéis, ao que cabe atenção por parte de assistentes sociais
quando de sua atuação.
Por fim, para concluirmos esta aula, é salutar considerar que aspectos culturais
podem ser preservados ou alterados, sendo que desconstruir padrões e reconstruí-los
- como no caso dos direitos sociais - é trabalho de assistentes sociais em sua função
de intervenção nas realidades sociais.

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AULA 9
O “FAZER” ANTROPOLÓGICO

De acordo com Roberto Cardoso de Oliveira


(2000), a Antropologia seria a área das Ciências
Sociais que tem a pretensão de compreender
o outro, aquele diferente ou o observado pelo
pesquisador. Para tanto, os antropólogos pro-
duziriam leituras do mundo social, atividades
artesanais de pesquisas - que dialogam com o
trabalho do assistente social - e deve, dentro das
limitações de sua formação, ser potencializada
ao máximo. Nesse sentido, a realização da pes-
Fonte:https://tinyurl.com/y5vrkjnj
quisa antropológica seria perpassada por três
atos, atividades ou etapas de apreensão dos fenômenos sociais: olhar, ouvir e escrever.

9.1 O olhar antropológico

O olhar do pesquisador deve sempre ser domesticado, ou seja, treinado e disciplinado


para que seja capaz de perceber desde grandes aspectos até pequenos detalhes. De
acordo com Oliveira (2000), o olhar que lançamos sobre um objeto, uma população,
um espaço, um documento ou qualquer outro aspecto que pretendemos analisar não
deve ser um olhar “nu”, mas um olhar “carregado” por conhecimento sobre aquilo que
pretendemos investigar.
Assim, antes de iniciarmos uma pesquisa e/ou uma coleta de dados, precisamos
nos perguntar o que já sabemos sobre o tema que enfrentaremos. As respostas que
encontrarmos nos ajudarão a definir as melhores ou as possíveis técnicas para a
abordagem, as categorias analíticas que inicialmente poderemos identificar na reali-
zação da pesquisa e, estando em campo e para além dele, a disposição dos dados e
informações, os arranjos, as peculiaridades e repetições que nos permitirão elaborar
um relatório que atenda às necessidades demandadas.

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Se para as pesquisas em geral o olhar do pesquisador é importante, no campo do


Serviço Social esse olhar pode ser o fator de distinção entre uma abordagem burocrá-
tica e uma abordagem humanística ou entre observar apenas a lei ou lançar um olhar
para aspectos sociais.
Sabemos que, salvo raras exceções, um problema tem mais de uma perspectiva para
ser interpretado, de modo que espera-se dos assistentes sociais uma abordagem que
considere tanto os aspectos burocráticos e legais no âmbito jurídico quanto a função
social do Estado e a garantia de direitos sociais previstos pela Constituição Federal
de 1988.
A sistematização do olhar, contudo, não é tarefa simples ou corriqueira. Apesar
de considerarmos que o olhar é sempre analítico, há uma preocupação específica na
maneira como ele se coloca em pesquisas com perspectiva antropológica. Ao abor-
darmos a observação participante, em nossa próxima aula, trataremos desta questão.
Neste momento, cabe destacar ainda que, Oliveira (2000) salienta, porém, em sua
discussão sobre o trabalho do antropólogo, que o olhar, por si só, não é suficiente. De
modo a avançar em tal explanação, cabe nos debruçarmos sobre a relevância do ouvir
à Antropologia.

Anote isso
Em “Relativizando”, DaMatta (1987) destaca que há distintos olhares que
podem ser lançados sobre um mesmo objeto, sendo que a “bagagem” do
pesquisador é sumariamente definidora do olhar possível em campo. Isso
significa que a incursão de assistentes sociais nos locais de atendimento ou
vulneráveis deve ocorrer considerando o máximo possível de conhecimento
anterior (acumulado).

9.2 O ouvir antropológico

Tão importante quanto olhar é saber ouvir! Olhar e ouvir são faculdades que devem
caminhar juntas no exercício da investigação, ou seja, são recursos de que os investi-
gadores devem dispor constante e ininterruptamente, de maneira complementar.
Oliveira (2000) destaca que ouvir é mais importante do que falar, mas é preciso
cuidado para não tratar os interlocutores (os entrevistados e/ou objeto da pesquisa)

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como informantes. Assim, o ambiente ideal seria aquele em que o entrevistado se sinta
à vontade para falar por meio de um diálogo, não de uma inquisição.
Para tanto, o autor destaca que o diálogo entre pesquisador e pesquisado deve ser
um encontro etnográfico, ou seja, uma relação dialógica estabelecida com partilhamento
de termos, símbolos e códigos.
Em outras palavras, trata-se do esforço, por parte dos assistentes sociais, para se
aproximarem de seu público, a fim de estabelecerem o diálogo e tornarem possível a
consecução de ações, programas, projetos, serviços e políticas públicas.
Em sentido prático, a preocupação com o ouvir deve ser sempre permeada pelas
noções de alteridade e etnocentrismo, abordadas em nossa segunda aula. Isso signi-
fica, por um lado, que cabe àquele que realiza a incursão antropológica colocar-se no
lugar do outro, buscar compreender sua perspectiva, seus problemas, as necessidades,
demandas e aspirações demonstrando empatia.
Um ponto importante, nesse sentido: o cuidado na abordagem com empatia deve
respeitar o limite que separa tal postura da caridade, que, desde Mauss, pode ser vista
como negativa ou como esmola, conforme tratamos na terceira aula.
Por outro lado, deve o assistente social lembrar-se do etnocentrismo e de como tal
posição é uma potencial armadilha à sua análise e julgamento profissional. Não ceder
à “tentação” de olhar o outro sob seu prisma é requisito ao desenvolvimento assertivo
do trabalho do assistente social, que precisa respeitar as diferenças entre os modos
de vida, independente de seus condicionantes.

9.3 O escrever antropológico

A terceira ação destacada por Oliveira (2000) é o escrever. A escrita trata da tex-
tualização das observações do pesquisador. Assim, é preciso ter clareza de que os
dados analisados nunca são “puros”, pois desde os seus registros há uma descrição e
interpretação daquele que olhou e ouviu.
De acordo com Oliveira (2000), a escrita do pesquisador é uma etapa posterior à
coleta dos dados, um “trabalho de gabinete” no qual os dados coletados são minucio-
samente confrontados com o conhecimento acumulado pelo pesquisador e a análise,
preliminar na coleta de dados, assume caráter crítico.

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Aqui cabe destacar que o autor nacional denomina “trabalho de gabinete” tem em
comum com o modo de trabalho dos evolucionistas apenas a representação figurativa
do local de realização da escrita. Diferentemente da maneira como Morgan e os demais
autores destacados na quarta aula construíam seus escritos antropológicos, a pers-
pectiva de Oliveira (2000) é de que o momento “no gabinete” seja de sistematização
daquilo que foi observado, ouvido e anotado no caderno de campo.
Na etapa da escrita, Oliveira (2000) aponta um aspecto importante, ainda que seja
pouco observado pela maioria de nós, a menção de pessoalidade ao texto analítico, sem
que o autor “se esconda” por meio da impessoalidade e utilize o termo “eu” ao narrar
fatos, explicar teorias e construir a análise.
Ao assistente social, ainda que nem sempre seja possível tal pessoalidade por
conta de aspectos formais ou burocráticos é salutar considerar que um relatório, uma
pesquisa, um resultado ou uma política pública são construídos por indivíduos, com
seus olhares, suas escutas, suas argumentações e suas escritas. Assim, fazer-se parte
daquilo que escreve (e descreve) pode ser o diferencial à sensibilização de outros quanto
ao que coletou-se em campo.

9.4 O “fazer” antropológico em espaço de atuação do assistente


social

Ao longo dos anos de 2018 a 2020 desenvolvi um projeto de pesquisa que teve como
objetivo geral a caracterização, de maneira qualitativa, das relações estabelecidas entre
atores da sociedade civil, de organizações do Terceiro Setor e de demais modalidades
de ações coletivas e do Estado no que tange aos processos de formulação, implemen-
tação, monitoramento e avaliação de políticas públicas relacionadas a direitos sociais
estabelecidos na Constituição Federal, tendo como foco analítico a percepção dos
atores que atuam nesses espaços de interação social.
Dentre as atividades de pesquisas desenvolvidas, acompanhei reuniões de conse-
lhos de políticas públicas, sendo que de uma destas reuniões extrai as anotações que
conformaram o relato que compôs um artigo apresentado e publicado nos anais de
evento promovido pelo Núcleo de Pesquisas em Participação Política da Universidade
Estadual de Maringá (GIMENES, 2019).

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Aqui, exponho parte de minhas anotações de campo com a finalidade de esboçar um


exemplo de como a perspectiva antropológica pode se colocar no contexto de observa-
ção do comportamento individual e da cultura estabelecida em um espaço institucional
público no qual os assistentes sociais se fazem presentes e são coprotagonistas.

Cheguei por volta de 15 minutos antes do horário previsto para o


início da reunião e assisti à chegada, à movimentação e à organiza-
ção dos membros e dos demais ouvintes. Conforme chegavam, os
conselheiros me cumprimentavam sem questionamentos sobre a
minha presença, o que me parece um indício de que há rotatividade
entre os ouvintes, pois não estranharam o fato de eu estar na sala
onde ocorreria a reunião e não me abordaram em momento algum.
Ainda com relação à maneira como adentravam à sala, percebi que
os membros do conselho que representavam o governo chegaram
com mais antecedência que os representantes da sociedade civil e
que muitos chegaram em pares ou trios. Ao ocuparem suas cadeiras,
demarcadas por placas identificadas nas mesas com nomes e seg-
mento representado, pude perceber também que os representantes
do governo ocupavam as cadeiras mais próximas à da presidência
do conselho. Não me pareceu uma coincidência, principalmente por
considerar o fato de que uma servidora do próprio órgão executivo
municipal era responsável pela disposição dos assentos.
Já os representantes da sociedade civil chegaram praticamente
todos sozinhos, sentaram-se em suas cadeiras após cumprimen-
tos corriqueiros e pouco se falavam, o que me pareceu um indício
expressivo de sua desarticulação enquanto segmento, ainda que eu
estivesse observando, naquele momento, uma prática informal de
sua convivência.
[...]
Iniciada a reunião pela presidência do conselho, o primeiro item de
pauta foi a leitura da ata, de cujo conteúdo chamou-me a atenção
imediatamente um trecho com o relato de que, na reunião anterior, que
um conselheiro solicitou que os membros mais antigos do conselho
utilizassem uma linguagem menos técnica ao se manifestar nas
reuniões, a fim de possibilitar que os novos membros entendessem
de que se tratava suas falas.
Ali percebi os apontamentos teóricos sobre os quais discorro como
limitações de espaços de participação institucional materializados,
uma vez que um ponto negativo dos conselhos (e demais mecanis-
mos de participação institucional) é a linguagem técnica que faz do
espaço, que deveria ser dialógico, um lócus de concentração de poder
e de informações.
Tal solicitação representou a mim também uma clara estratégia dos
membros mais antigos do conselho para concentrar o poder sobre
as discussões e deliberações, uma vez que aqueles que não enten-
diam o que estava em pauta pouco poderiam opinar, argumentar ou
contribuir para a tomada de decisões.

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Ademais, considerando a disparidade entre os fatores que permeiam


a permanência de representantes do governo e da sociedade civil
nos conselhos – os primeiros podem ocupar diferentes cadeiras do
segmento ao longo dos anos e participam das reuniões sem afetar
sua condição salarial, já que majoritariamente o fazem em horário
de trabalho e a serviço de seu empregador; os segundos abrem mão
da realização de outras atividades, inclusive com restrições aos seus
ganhos financeiros em alguns casos e têm sua participação circuns-
crita ao nicho a que pertencem no interior do segmento da sociedade
civil – é de se esperar que aqueles que mais dominem a oratória e a
terminologia técnica sejam os representantes do governo.
Assim, mais articulados, dotados de domínio dos mecanismos buro-
cráticos e com maior traquejo linguístico no ambiente dos conselhos,
seria muito difícil que os representantes da sociedade civil conseguis-
sem encaminhar pautas que não fossem de interesse do governo.

Tomando o relato de meu caderno de campo como exemplo, minha escrita não foi
uma descrição “pura” do que aconteceu na reunião, mas um relato permeado por um
conjunto de categorias analíticas que pude identificar, como os vínculos (ou sua falta)
entre os representantes de cada segmento, a disposição dos assentos e a quem cabia
a responsabilidade por sua organização.
Neste excerto, destaquei a menção a apenas um trecho curto da ata lida, mas que
remeteu a diversos outros aspectos e mecanismos sobre os quais havia lido, ouvido
ou visto anteriormente. Isto significa que a maneira como o relato foi apresentado no
artigo aqui replicado, contudo, não é a mesma que consta em meu caderno de campo.

Isto acontece na prática


No premiado livro “Vozes do Bolsa Família”, Rêgo e Pinzani (2013) apresen-
tam o debate decorrente de uma pesquisa de campo realizada ao longo de
cinco anos em regiões que compõem bolsões de pobreza no Brasil. A obra
é um expressivo exemplar da maneira como construção teórica, exposição
metodológica, descrição e discussão de resultados de olhares, escutas e
escritas antropológicas podem nos ensinar sobre desigualdades sociais e
políticas públicas.

Concluindo esta aula com esta apresentação e análise de minhas anotações ante-
riores em campo, remeto a uma última observação de Oliveira (2000), no sentido de

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que as etapas de olhar, ouvir e escrever seriam, sempre e inevitavelmente, permeadas


pela percepção do pesquisador, de modo que a combinação entre tais percepções e
o conhecimento anterior sobre o problema ou questão e a reflexão sobre os dados
coletados conduziria a resultados com qualidade.

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AULA 10
CIENTIFICIDADE DA PESQUISA
ANTROPOLÓGICA E A
OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

Uma das principais preocupações das Ciências Sociais desde seu início, manifestada
especialmente por Durkheim sob a perspectiva sociológica foi a questão da cientifici-
dade da produção do conhecimento. A questão se revelou relevante ao longo da história
da Antropologia, tanto que a técnica da observação
participante delineada por Malinowski conferiu o
título de clássico à sua obra destacada na nossa
quinta aula. Ainda que as ações de olhar, ouvir e
escrever - anteriormente tratadas – estruturem, de
modo geral, a maneira como um pesquisador deve
se portar ao realizar uma pesquisa antropológica,
há especificidades que precisam ser consideradas,
relacionadas ao método qualitativo de pesquisa,
que abordamos nesta aula.
Fonte:https://tinyurl.com/y4psblf8

10.1 Definição de pesquisa qualitativa

O método qualitativo de pesquisa é definido como aquele que trata de investiga-


ções detalhadas acerca de um dado fenômeno, tendo como principal característica a
exploração aprofundada de tudo o que lhe for pertinente - e sem preocupar-se com a
abrangência ou quantidade de observações realizadas, como verificamos quando da
realização de pesquisas quantitativas.
Esses fenômenos, qualitativamente investigáveis, podem ser diversos dentre aqueles
passíveis de análises antropológicas, sendo que ao Serviço Social cabe pensarmos
sobre tradições, valores partilhados no âmbito de grupos, percepções da população e/
ou dos políticos e das organizações da sociedade civil acerca de uma política pública

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ou a maneira como a população acessa e o poder público dispõe os equipamentos


públicos de natureza social.
Tais pesquisas têm como preocupação compreender os processos por meio dos
quais os valores, a cultura, as instituições e as relações sociais se conformam. Para
tanto, utilizam-se de amostras não probabilísticas e não representativas compostas
por pequenos contingentes de casos a ser investigados, uma vez que quanto maior o
número de casos, maior a dificuldade em realizar análises detalhadas.
Por conta de tal característica, as pesquisas de natureza qualitativa não buscam e
nem permitem que seus resultados sejam generalizados, o que significa que a análise
de um determinado fenômeno entre certo grupo não pode ser utilizada para explicar
um fenômeno, ainda que semelhante, entre outro grupo (KOTLER; ARMSTRONG, 2007).

Anote isso
Outro caminho metodológico é a realização de pesquisas quantitativas que
são pautadas pela construção de questionários com perguntas objetivas,
tabulação de dados e realização de análises estatísticas com vistas à gene-
ralização dos resultados e possibilidade de replicação (BARBETTA, 2011).

De acordo com Alonso (2016), as pesquisas qualitativas consideram que é impossível


isolar um fenômeno social do meio no qual está inserido, de modo que a melhor maneira
de investigá-lo seria conhecer tanto a ele quanto aos aspectos que o tangenciam, ou
seja, aquilo que o circula e com o que está relacionado.
Nesse sentido, ainda segundo a mesma autora:

Os métodos qualitativos têm que se haver com essa problemática.


Aceitam os limites das técnicas que utilizam e a impossibilidade do
conhecimento certo ou verdadeiro. Supõem que todo conhecimento
é parcial, porque conhecimento de uma parte (não do todo) e porque,
ao se adotar um ponto de vista, toma-se partido (ALONSO, 2016, p. 9).

De modo geral, as pesquisas qualitativas são utilizadas para compreendermos a


ordem social e os processos que promoveram ou promovem suas alterações, de modo
que a opção por uma determinada técnica de pesquisa implica necessariamente em
focar menos esforços em outro aspecto. Enquanto as análises sobre os processos

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sociais buscam estudar os objetos e questões em perspectiva temporal, as investi-


gações sobre instituições ou estruturas fundamentam suas análises no espaço, com
vistas a compreender os arranjos sociais em um dado momento.

A escolha entre as técnicas depende, pois, da pergunta que o pesqui-


sador formula. E, a depender do que se investiga, o melhor caminho
será a combinação entre elas. Não há uma superioridade intrínseca
de um tipo sobre outro, trata-se mais de achar a adequação, o encaixe
entre o que se quer saber e a técnica que permite responder à questão
de pesquisa (ALONSO, 2016, p. 20).

O conceito de pesquisa qualitativa abrange a observação participante e também


outras técnicas, sendo que nesta aula e na próxima dedicamos nossa atenção à apre-
ensão do que é como realizar uma observação participante e as especificidades da
escrita etnográfica. Ainda assim, abordaremos outras técnicas qualitativas aplicáveis
ao campo do Serviço Social após a discussão desses principais componentes meto-
dológicos destacados.

10.2 A observação participante

A análise realizada com o objetivo de compreender como as normas, os hábitos e os


padrões sociais são vivenciados pelos indivíduos em sociedade compõe a técnica de
observação participante. De acordo com Alonso (2016, p. 10), tal técnica “é um estudo
das rotinas sociais, do que parece trivial e óbvio, mas que, por ser muito disseminado,
estrutura as relações sociais”.
Quando o assistente social opta pela realização de pesquisa por meio de observação
participante, assume a necessidade de acompanhar sistematicamente as atividades
dos indivíduos ou da instituição que investiga. Para tanto, é preciso se inserir na rotina
interna do grupo de cidadãos ou o órgão/entidade, participar das atividades como se
fosse um membro pertencente àquele contexto que está sob análise.
Em outras palavras, o pesquisador precisa que aqueles, os quais estão sendo ana-
lisados, visualizem o ente externo como um membro do grupo, a fim de que hajam
naturalmente e desempenhem as normas, hábitos e padrões sociais da mesma maneira
que usualmente desempenham quando não há observação exterior.

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Quando o pesquisador passa incólume ou deixa de ser visto como estranho ao grupo
é possível investigar seus comportamentos com maior detalhamento e acessar atitudes
que por ventura não seriam manifestadas em situação de avaliação ou observação
rigorosamente perceptível.
O excerto do relato da participação do autor deste material didático em uma reunião
de conselho - exposto no tópico de nossa aula anterior - reflete, dentre outros aspectos,
a maneira como não fui tratado como um ente externo ao adentrar o local em que seria
realizada a reunião, o que me permitiu presenciar discussões cujas argumentações
não constam no excerto exposto nesta unidade de estudos, mas são de extrema rele-
vância para entender as maneiras como membros do governo e da sociedade civil se
comportam na instituição participativa destacada.
A inserção e a interação com o grupo devem ser as mais naturais possíveis, de modo
que o campo, espaço onde são coletados os dados da pesquisa é o espaço destinado
a olhar e ouvir, ainda que seja indicado ao pesquisador que realize algumas anotações
em seu caderno ou diário de campo.
O caderno ou diário é o local no qual devem ser realizadas anotações sistemáticas
de todas as informações que o pesquisador for capaz de coletar, ou seja, é o instru-
mento para registro de atividades, falas e discursos, comportamentos, interações e
das próprias impressões do pesquisador.
A observação participante pode ocorrer de duas maneiras. Na primeira, o observa-
dor atua como outsider, ou seja, observa os indivíduos e conversa com os mesmos
acerca do fenômeno que está pesquisando, colhe relatos e toma notas daquilo que
ouve e vê, sendo conhecida sua posição de pesquisador. Nessas situações, desvelar
os processos sociais depende do estabelecimento de relações de empatia para com
os membros do grupo.
Na segunda maneira, o observador atua como insider e opera incognitamente no
interior de um grupo, de modo a partilhar suas normas, hábitos e padrões sociais sem
revelar-se um pesquisador. Se, por um lado, tal maneira permite a maior participação
do pesquisador nos processos que estuda, por outro lado, apresenta um problema sob
o ponto de vista ético, pois o pesquisador oculta do grupo sua condição com relação
aos demais.

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Isto acontece na prática


A observação participante pode ser combinada com outras técnicas de coleta
de dados, como a análise documental. Nesse sentido, Souza (2019) identi-
ficou a existência de impactos recíprocos entre o Estado e as organizações
da sociedade civil na conformação da política pública de assistência social
após a tipificação das atividades no fim da década de 2010.

Como principal ponto positivo da observação participante, Alonso (2016) destaca a


possibilidade de acompanhar a consecução de hábitos e práticas, ao invés de apenas
colher relatos sobre como ocorrem, o que pode diminuir a distorção da pesquisa com
relação à realidade vivenciada pelo grupo.
Em contrapartida, são negativos os fatos de que a observação participante tem
mais qualidade conforme o tempo que o pesquisador permanece no campo, mas, em
conflito com tal necessidade, é necessário cuidado para não desenvolver simpatia pelos
observados, a ponto de contaminar o olhar e análise empreendidos.
Um exemplo de pesquisa que promoveu a prática da observação participante foi
empreendida por Dourado e Anacleto (2017), que investigaram a prática de atividades
físicas por grupos geracionais específicos, quais sejam: jovens e idosos. A despeito
das distintas formulações de ambos os grupos acerca do corpo e de saúde, as pesqui-
sadoras identificaram um elemento comum em suas falas: o aspecto da sociabilidade,
ou seja, a busca pelo contato e a interação com outros indivíduos.

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AULA 11
A ETNOGRAFIA COMO ESCRITA
ANTROPOLÓGICA

Nas duas aulas anteriores a esta foram expostas a pertinência de considerar três
ações como as principais atividades do antropólogo - olhar, ouvir e escrever - e a
maneira como tal pesquisador deve se posicionar enquanto agente no campo de coleta
de dados - compreendendo como proceder a uma observação participante no âmbito
das pesquisas qualitativas. Tendo em vista que o trabalho de campo tem como ativi-
dades pertinentes o olhar e o ouvir, nesta aula tratamos da etapa que se desenvolve
posteriormente, o escrever, que remete à etnografia.

11.1 Reflexões sobre a etnografia

A noção de etnografia remete à maneira como se constrói a escrita de um texto,


pautada pela observação participante, pelas impressões do pesquisador no campo e
por suas reflexões acerca da experiência, a qual é perpassada, em alguma medida, pela
bagagem teórica e de vivências e experiências do próprio analista.
Conforme Almeida (2003), no decorrer das décadas tanto a Antropologia quanto a
etnografia sofreram alterações: enquanto o campo de pesquisas estaria cada vez mais
preocupado com as descrições do que com a produção de teorias explicativas, a etnogra-
fia se destaca como caminho para a construção de explicações cientificamente válidas.
Enquanto a preocupação da etnografia clássica inglesa era com o relato de obser-
vações de comportamentos, suas disrupções e contradições, a perspectiva culturalista
boasiana se preocupou com o registro e o estabelecimento de categorias analíticas que
permitissem considerar os símbolos como elementos relevantes da cultura dos povos.
Para o antropólogo brasileiro, especialmente a Segunda Guerra Mundial foi um marco
na maneira de pensar povos, costumes, culturas e relações entre indivíduos e com as
instituições. Essa mudança na maneira de pensar a etnografia refletiu na produção do
conhecimento antropológico em todo o mundo, inclusive no Brasil.

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Um importante ponto de debate nesse contexto é a superação do argumento sim-


plista que se constitui em armadilha à escrita etnográfica: a noção de que algo é ver-
dadeiro porque o pesquisador esteve no local e identificou aquele fenômeno, ou seja,
a imposição do conhecimento por meio do “eu, que estive lá, posso falar sobre isso”.
Almeida (2003) dialoga com alguns autores e contrapõe-se a outros ao tratar da
maneira como a etnografia não pode mais ser apenas “a escrita pela escrita” ou “o relato
per se”, mas necessita demonstrar-se pertinente e adequado ao contexto analisado, de
modo a evidenciar, inclusive, a cientificidade e a validade daquele texto como explicativo
e, de certa maneira, verificável.

Isto acontece na prática


A preocupação com a etnografia se desenvolve enquanto também avançam
os estudos que se utilizam de tal técnica (ou método). Por exemplo, dada a
alteração na pirâmide etária brasileira e os impactos que o envelhecimento
da população produz à demanda por atuação de assistentes sociais, cabe
considerar a pesquisa etnográfica de Limont (2011) sobre corpos e vivências
em um asilo.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/acao-adulto-ajuda-amor-339620/

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No entanto, os debates em torno da etnografia caminham para além do binômio


científico/denso x descritivo/raso. Neste início de século é a relação entre etnografia e
Antropologia que encontra-se em disputa.

11.2 Interpretações sobre a etnografia na atualidade

Dentre as questões que se destacam dentre os estudos de Antropologia na contem-


poraneidade existe uma que destoa das demais, uma vez que não diz respeito a grupos,
costumes, práticas ou experiências de “objetos”, mas ao próprio fazer antropológico.
Este debate remete às reflexões sobre o que seria a etnografia. Por um lado, há autores
que defendem a etnografia como método de pesquisa, enquanto que, por outro lado,
há aqueles que refutam essa afirmação, o que não significa a defesa de uma visão
negativa sobre a etnografia.
Com relação à primeira perspectiva, segundo Magnani, em entrevista à Jania Perla
Diógenes Aquino para a Revista de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará
em 2012, a etnografia seria um método e não apenas um simples instrumento de pes-
quisa, que pode ser utilizado de qualquer maneira e por profissionais diversos. Segundo
o antropólogo:

Como método, [a etnografia] foi forjada pela antropologia ao longo


de sua formação e não pode ser utilizada, sem mais, ignorando os
diferentes contextos teóricos que lhe dão fundamento. Se não, ela
passa de método a ferramenta, sendo empregada de maneira trivial,
rasa. Isso não quer dizer que outras áreas não possam utilizar e se
apropriar do nosso método de trabalho, mas com o devido cuidado;
do contrário, perde consistência (MAGNANI, 2012, p. 175).

Nesses termos, um aspecto a ser considerado para a realização de uma etnografia


é conhecer etnografias produzidas anteriormente, especialmente para “calibrar” o olhar
no sentido de entender que a prática etnográfica e a experiência etnográfica corres-
pondem a momentos distintos da pesquisa, quais sejam: a primeira diz respeito ao
constructo teórico de pesquisa, ou seja, elaboração de um projeto, leitura de referencial
teórico e idas a campo independente do que seja observado, o que significa seguir o
cronograma de pesquisa; a segunda trataria de, seguindo o pesquisador ao cronograma
e respeitando as atividades atinentes à prática de pesquisa, o insight que configura a
materialização de “sacadas” que fazem da prática também uma experiência, que é

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quando a “transpiração” decorrente da pesquisa entra em contato com alguma “inspi-


ração” ou “aspiração” que permitem ao pesquisador produzir, de fato, reflexões sobre
o objeto de sua investigação à luz de um referencial teórico que domina, da técnica de
pesquisa escolhida e do acúmulo de informações que a relação entre teoria e empiria
lhe forneceu.
Para esse segundo momento, o caderno de campo e o desenvolvimento de anota-
ções são extremamente importantes, pois quando da realização da pesquisa é preciso
estar completamente focado naquilo que se observa, ouve e absorve, de modo que
posteriormente o pesquisador deve fazer suas anotações para dimensionar, organizar,
articular e interpretar aquilo com que tomou contato quando da pesquisa de campo.
Em contrapartida, a antropóloga Marisa Peirano elenca argumentos que refutam
a ideia de etnografia como método, a partir de sua experiência de recadastramento
eleitoral biométrico em 2013. Em sua reflexão, a autora destaca a relação entre expe-
riência e pesquisa e questiona:

A ideia de “método etnográfico” é complexa. O que eu estava fazendo


no posto eleitoral? Simplesmente me recadastrando...? Ou fazendo
etnografia? Ou as duas coisas? Desse episódio fica claro que a pes-
quisa de campo não tem momento certo para começar e acabar.
Esses momentos são arbitrários por definição e dependem, hoje que
abandonamos as grandes travessias para ilhas isoladas e exóticas,
da potencialidade de estranhamento, do insólito da experiência, da
necessidade de examinar por que alguns eventos, vividos ou obser-
vados, nos surpreendem. E é assim que nos tornamos agentes na
etnografia, não apenas como investigadores, mas nativos/etnógrafos
(PEIRANO, 2014, p. 379).

Segundo a pesquisadora, aprendemos a partir dos estudos dos antropólogos clássi-


cos que o fazer etnográfico implica em estar aberto a novos dados, novas experiências
de campo, novas perspectivas e reconfigurações daquilo que sabemos e/ou esperamos,
ainda que minimamente, a partir do conhecimento anteriormente produzido. Nesse
sentido, Peirano (2014, p. 381) afirma que

Todo antropólogo está, portanto, constantemente reinventando a


antropologia; cada pesquisador, repensando a disciplina. E isso desde
sempre: de Malinowski encontrando o kula entre os trobriandeses;
Evans-Pritchard, a bruxaria entre os azande; Florestan, revendo a
guerra tupinambá nos arquivos. Antropólogos hoje, assim como
nossos antecessores, sempre tivemos/temos que conceber novas
maneiras de pesquisar - o que alguns gostam de nominar “novos

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métodos etnográficos”. Métodos (etnográficos) podem e serão sem-


pre novos, mas sua natureza, derivada de quem e do que se deseja
examinar, é antiga. Somos todos inventores, inovadores. A antro-
pologia é resultado de uma permanente recombinação intelectual.

Assim, uma monografia não poderia resultar da utilização de métodos etnográficos,


mas de formulações teórico-etnográficas, o que significa que “etnografia não é método;
toda etnografia é também teoria” (PEIRANO, 2014, p. 383), uma vez que trabalhos de
qualidade são compostos não apenas por descrições, mas também por constructos
teóricos que permitem avançar no conhecimento acerca de determinado objeto.
Para tanto, ensina a autora que a leitura de monografias antropológicas apresenta
os seguintes benefícios: tais textos nos proporcionam diálogos teóricos; demonstram
que a Antropologia é, por definição, comparativa; expõem a etnografia como parte do
constructo teórica da Antropologia; e revelam novas teorias, já que monografias não
são exatamente teorias de etnógrafos.
Contudo, uma boa etnografia passaria pelo estabelecimento de comunicação com
qualidade acerca do contexto das situações vivenciadas em pesquisa, o que implica
superar os sensos comuns e descrever “a ação que foi vivida”, tendo em vista que “[...]
palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da mesma
maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações que é neces-
sário avaliar e analisar” (PEIRANO, 2014, p. 386).
Diante dos argumentos destes dois antropólogos brasileiros, por um lado, a análise
de Peirano (2014) acerca do que seria a etnografia não é contrária à de Magnani (2012),
mas mais abrangente. Se ambos apontam a relevância da etnografia aos estudos
antropológicos, a magnitude que cada um garante ao tema é distinta e fica explícita
nos textos referenciados: para o primeiro, a etnografia implica no olhar que se lança ao
campo (na prática e na experiência) e que constrói a pesquisa em diálogo com a teoria,
enquanto para a segunda essas etapas se constroem e reconstroem mutuamente,
ainda que esses processos não ocorram, necessariamente, de modo concomitante.
Assim, a segunda perspectiva se apresenta como mais complexa e mais completa
acerca do que constituiria a etnografia, bem como dialoga com observações apresen-
tadas por Marilyn Strathern no capítulo selecionado do livro “O efeito etnográfico”: “Fora
do contexto: as ficções persuasivas da antropologia” (2014).
No capítulo em questão, essa autora discorre sobre crítica conferida ao trabalho
de James Frazer, considerado “literário demais”. Para Strathern (2014, p. 173), tal

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característica não configura, per se, aspecto negativo, já que “destacar um texto como
‘literário’ é como destacar uma pessoa por ter personalidade. É obvio que, na medida
em que qualquer texto tem como proposito surtir certo efeito, ele deve ser uma pro-
dução literária”.
O problema, de fato, se manifestaria quando a descrição dos fatos é distorcida para
promover algum efeito particular, o que, segundo a autora, seria uma acusação justa
a Frazer por conta da falta de clareza em seu relato etnográfico.
O cuidado para evitar a construção de textos desta natureza passaria por observar
tanto o que Magnani (2012) apontou em sua entrevista quanto de ter em mente a
perspectiva teórico-etnográfica de Peirano (2014), em diálogo com Strathern (2014):
um bom texto etnográfico pode ser literário (claro, fluído), mas sua qualidade demanda
a utilização concomitante do conhecimento decorrente do referencial teórico, da pes-
quisa de campo, da experiência de campo e da perspectiva de contribuição à agenda
de pesquisas antropológicas com seu texto, não sob a ótica empírica e/ou de oferta
de “mais um relato de caso”, mas de construção teórico-metodológica que permita o
avanço da Antropologia contemporânea, conforme destaca Peirano (2014, p. 389):

A emergência de novas pesquisas, sendo uma constante, deve nos


levar a uma igualmente constante recomposição da antropologia,
de quem somos, e do mundo como o entendemos. Se essa lição
da antropologia for mais partilhada, teremos menos certezas, mais
dúvidas e, com sorte, mais liberdade.

Diante do exposto, concluímos esta aula com a reflexão de que o debate contem-
porâneo aponta que a Antropologia não é apenas método, mas também perspectiva
crítico-analítica que permite o estabelecimento de avanços teóricos! Contudo, lembre-
mo-nos sempre de Magnani (2012) e sua observação de que não se pode utilizá-la de
qualquer maneira! Eis o desafio, talvez, aos pesquisadores contemporâneos.

Isto está na rede


O debate em torno da cientificidade de aspectos que conformam a Antropolo-
gia é profícuo é crescente nas últimas décadas, como destaca Gutwirth (2001)
em sua indagação que intitula o artigo “A etnologia, ciência ou literatura?”.
Àqueles em processo de formação profissional, vale a leitura e reflexão!

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AULA 12
ESTRATÉGIAS ALTERNATIVAS À
PESQUISA ANTROPOLÓGICA

Ainda que a observação participante e a escrita etnográfica constituam a maneira


clássica de composição da pesquisa antropo-
lógica desde o trabalho seminal de Malinowski,
os avanços em termos de cientificidade nas
técnicas qualitativas para coletas de dados per-
mitem-nos considerar outros caminhos possí-
veis para intervenções, diálogos e proposições.
Nesse sentido, nesta aula abordamos as técni-
cas de entrevistas e grupos focais.
Fonte: https://tinyurl.com/y4gjhlel

12.1 A realização de entrevistas

De modo geral, as entrevistas buscam captar as percepções dos indivíduos com


relação a um determinado tema: o problema ou questão que suscitou a necessidade
de realização da pesquisa.

Anote isso
As entrevistas correspondem à técnica de coleta de dados cujo nome traz
mais familiaridade aos leitores. Quem nunca assistiu a um programa ou
leu uma reportagem cujo conteúdo era uma entrevista? Contudo, é preciso
atenção, pois se trata de uma técnica com especificidades a serem atendi-
das por assistentes sociais em sua atuação na coleta de dados, sob risco
de inviabilizar a coleta!

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Segundo Alonso (2016), as entrevistas visam recolher dados sobre valores, opiniões,
sentimentos, experiências e mecanismos por meios dos quais os indivíduos interpretam
e agem em determinado contexto social.
São muitas as modalidades de entrevistas, sendo que as mais recorrentes são aber-
tas — pautadas em histórias de vida — e aquelas semiestruturadas ou estruturadas.
As entrevistas abertas ou não estruturadas dizem respeito ao estabelecimento de
conversas específicas nas quais o pesquisador informa o entrevistado sobre o tema
da pesquisa e lhe permite discorrer sobre o assunto (LIMA, 2016).
As entrevistas pautadas por histórias de vida permitem aos entrevistados expor rela-
tos que retomem suas vivências de maneira retrospectiva (BONI; QUARESMA, 2005).
Na prática, não haveria questões prévias, apenas um tema, de modo que as questões
emergiriam conforme o entrevistado construísse seu depoimento.
Segundo Debert (1986), a história de vida tem vantagens, as quais se apresen-
tam como instrumentos de pesquisa praticamente insubstituíveis, dentre elas, o
estabelecimento de diálogo entre pesquisador e pesquisado sem a imposição de
categorias analíticas, o que permite ao entrevistado expor as dimensões do fenô-
meno sob sua perspectiva.
Destaca o mesmo autor que é preciso, porém, reconhecer os limites do uso desta
técnica, uma vez que não devemos esperar

[...] que a história de vida nos forneça um quadro real e verdadeiro


de um passado próximo ou distante. O que se espera é que a partir
dela, da experiência concreta de uma vivência específica, possamos
reformular nossos pressupostos e nossas hipóteses sobre um deter-
minado assunto (DEBERT, 1986, p. 142).

Com relação às entrevistas abertas, menciono instruções de Bourdieu (1999) para


sua realização, quais sejam: interferir o mínimo possível ao longo da fala do entrevistado,
a fim de não prejudicá-lo na articulação e exposição de seus argumentos e estabelecer
diálogo na mesma linguagem do entrevistado, aspecto já destacado na seção inicial
desta unidade de estudos.
Já as entrevistas semiestruturadas são aquelas em que o pesquisador dispõe de
um roteiro com questões a ser aplicadas, mas não se restringe a elas enquanto em
trabalho de campo.
Quando da realização de entrevistas abertas ou semiestruturadas é possível ao
pesquisador analisar o conteúdo coletado e realizar novas incursões ao campo, a fim

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de esclarecer aspectos que não foram detalhados de maneira adequada na realização


da entrevista.
É possível que, assim como destacado quando expusemos os aspectos caracterís-
ticos da observação participante, os entrevistados necessitem desenvolver empatia
com relação ao pesquisador para que venham a, de fato, revelar aquilo que se espera
apreender com a investigação.
Ademais, um dos aspectos mais positivos da utilização da técnica de entrevista
semiestruturada, de acordo com Rêgo e Pinzani (2013) é a possibilidade de adaptar
ou adequar a maneira de abordar as temáticas e conteúdos a ser investigados com
maleabilidade, a depender da relação de empatia e dos códigos linguísticos estabele-
cidos entre pesquisador e entrevistado.
Por fim, o último tipo é a entrevista estruturada, realizada quando o pesquisador
tem clareza sobre os assuntos que deseja interpretar e é caracterizada pela existência
de um questionário com perguntas definidas, sem possibilidade de flexibilização ou
inserção de novos questionamentos.
Por conta desta limitação, as entrevistas estruturadas são menos recorrentes dentre
as pesquisas qualitativas do que aquelas abertas ou semiestruturadas. A análise de
seus dados, porém, é mais rápida, pois o volume de dados é menor e a existência de
temáticas repetidas permite a categorização mais ágil dos conteúdos coletados.
Nas situações de realização de entrevistas semiestruturadas ou estruturadas, a
preparação do roteiro e a condução da entrevista são essenciais à coleta de dado com
maior qualidade possível (LIMA, 2016).
Com relação ao primeiro aspecto, o roteiro deve ser iniciado com questões simples
ou amenas, de modo que temas polêmicos ou que gerem desconforto aos respon-
dentes devem ser dispostos apenas no fim da entrevista. “Como todo roteiro, deve
ser de consulta fácil e rápida: detalhado, preciso, mas com notações breves e claras
(palavras-chave, frases nominais...)” (COMBESSIE, 2004, p. 41).
Já com relação à condução da entrevista, sempre que possível deve ser utilizado
algum meio adicional de coleta de dados para além das anotações do pesquisador,
como gravações de som e imagens. Por um lado, tais recursos facilitam a análise pos-
terior dos dados, pois permitem sua transcrição ou ainda a visualização das expressões
faciais e corporais do entrevistado ao longo da entrevista. Por outro lado, gravadores
podem constranger a livre manifestação dos respondentes, de modo que sempre deve

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ser acordado entre as partes a utilização de mecanismos adicionais para coleta de


dados (LIMA, 2016).
Ainda com relação às entrevistas, outro aspecto merece destaque: a seleção dos
indivíduos a ser entrevistados. De acordo com Alonso (2016), esta é a etapa de uma
pesquisa qualitativa na qual há maior intervenção do pesquisador, uma vez que amos-
tras não probabilístitas - como as qualitativas - implicam na seleção por meio do julga-
mento do pesquisador, considerada a intencionalidade de escolha e que quanto mais
conhecida a população, mais assertiva a seleção.
Conforme destacado por Gimenes (2019), essa seleção tem como limites a impossi-
bilidade de generalização e a arbitrariedade da escolha, mas apresenta a potencialidade
da exploração aprofundada dos casos. Ademais, destaca o mesmo autor, reconhecer
limites não diminui a qualidade da pesquisa!
Definidos os casos a ser investigados e realizadas as entrevistas, Alonso (2016)
e Lima (2016) afirmam que o pesquisador deve observar com atenção os relatos, a
fim de identificar a existência de elementos complicadores ou mesmo dissonantes
com relação à realidade social, como a manifestação de respostas que o investigado
esperava que satisfizesse ao pesquisador, o anacronismo na narrativa de fatos que
ocorreram em ordem ou períodos distintos daqueles apontados como cronológicos
pelo entrevistado e a própria memória dos entrevistados, sujeita a esquecimentos,
omissões e confusões.

12.2 A complexidade dos grupos focais

Os grupos focais correspondem a entrevistas coletivas, nas quais os indivíduos


selecionados ocupam um mesmo espaço e discorrem sobre suas opiniões, hábitos,
valores e percepções sobre padrões sociais não apenas ao pesquisador, mas ao con-
junto dos presentes, de modo que não se trata de simples coleta de dados a partir da
fala do respondente, mas também da interação entre os respondentes com o grupo
e, em alguma medida, com o mediador (GONDIM, 2003; WELLER, 2006; TEIXEIRA;
ZAMBERLAN; RASIA, 2008).
De acordo com Veiga e Gondim (2001), os grupos focais constituem um recurso
para a compreensão dos processos de conformação de representações sociais, em
que podem, a depender de sua condução, contribuir para que os indivíduos revelem

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aspectos que não abordariam em uma entrevista, por exemplo, pois a interação com
os demais pode estimulá-los a manifestar-se ou reduzir a sensação de sentir avaliado
pelo pesquisador.
Kind (2004, p. 125) destaca que a interação grupal é o principal trunfo dos grupos
focais para a produção de dados e insights que dificilmente seriam coletados em
abordagens individuais, já que “os dados obtidos, então, levam em conta o processo
do grupo, tomados como maior do que a soma das opiniões, sentimentos e pontos de
vista individuais em jogo”.
O passo inicial para a realização de um grupo focal é a clareza por parte dos pesqui-
sadores acerca do objetivo que mobiliza a pesquisa, ou seja, da questão que precisa ser
respondida, uma vez que esse aspecto é definidor de um conjunto amplo de decisões
(GONDIM, 2003).
É essencial que os pesquisadores, especialmente em se tratando de acadêmicos ou
de assistentes sociais, observem o caráter ético envolvido na pesquisa com técnica de
grupos focais, uma vez que, na maioria das vezes, sua realização ocorre com gravação
de áudio e/ou vídeo e é preciso garantir a privacidade dos participantes, até mesmo
para que se sintam mais confortáveis e seguros em se manifestar diante dos temas
propostos pelo mediador e debatidos coletivamente.
Em se tratando da consecução dos grupos focais, autores como Gondim (2003),
Kind (2004), Teixeira, Zamberlan e Rasia (2008) e Almeida (2016) discorrem sobre con-
juntos de aspectos que devem ser observados, quais sejam: perfil dos participantes,
roteiro dos encontros, número de participantes e de encontros, moderação, duração e
local de realização.
A composição dos elementos do grupo é relevante, uma vez que a simples reunião
de indivíduos não garante a qualidade de conteúdo de suas manifestações e interações.
Assim, é preciso refletir sobre características que potencializariam a participação e
optar entre escolher pessoas com muitas similaridades e algo diferente ou entre indi-
víduos muito diferentes, mas com alguma similaridade. Tal opção está relacionada ao
objetivo da pesquisa.
O roteiro para estruturação do funcionamento do grupo deve ser flexível, a partir de
um conjunto de temas e questões a serem oferecidas à discussão, mas sem limitar o
debate ao roteiro. Essa flexibilidade permite a emergência de opiniões divergentes sobre
determinado assunto, bem como contribui para reduzir a inibição dos participantes.

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Com relação ao tamanho do grupo, a quantidade de participantes varia, sendo que a


maioria dos autores mencionados anteriormente aponta que o ideal seria reunir entre
quatro e dez indivíduos. Tal decisão deve considerar, contudo, o nível de envolvimento
ou de conhecimento dos participantes com relação ao tema pesquisado ou se o assunto
abordado é polêmico, já que, em ambas as situações, os participantes podem ter muito
a manifestar e duas consequências negativas podem advir de tal situação: a perda de
controle do funcionamento do grupo pelo moderador e a polarização da discussão
entre participantes de modo a gerar conflitos.
Em se tratando do número de grupos a ser realizados é preciso considerar o quanto
cada grupo contribui para a compreensão de uma questão a partir dos perfis sele-
cionados para participação. Há autores, os quais mencionam que, no mínimo, dois
grupos focais seriam necessários para produzir dados, enquanto que há consenso de
que o limite máximo de grupos decorreria da saturação das alternativas de respostas,
ou seja, da verificação de que as interações nos grupos não são capazes de produzir
novos argumentos.
O moderador tem papel central na condução dos grupos, pois deve, ao mesmo tempo,
conduzir a discussão por meio da introdução de assuntos de maneira pertinente e
limitar suas intervenções ao mínimo possível, de modo a permitir a fluidez do debate.
Uma das principais habilidades esperadas de um moderador é de que seja capaz de
perceber o conteúdo da discussão a fim de, ainda durante o processo de coleta, esta-
belecer algumas análises preliminares, que direcionem sua interpretação posterior.
Deve ser determinado anteriormente um período de tempo em que cada reunião do
grupo focal ocorrerá tanto para planejamento da equipe que realiza a pesquisa com
relação à abordagem de temas quanto por conta da organização dos convidados. Ainda
que sem consenso, há indicações de 90 a 120 minutos por Kind (2004) e de 60 a 150
minutos por Almeida (2016). É preciso pesar a importância do desenvolvimento mínimo
do diálogo até que se atinja o ponto importante ao debate, mas também refletir acerca
do encerramento do encontro antes que se torne maçante e sem conteúdo.
Por fim, um grupo focal deve ser realizado em espaços que permitam a visão ampla
de todos os participantes com relação aos demais, incluída alguma identificação. Ade-
mais, sempre que possível é pertinente dispor de recursos para captação (gravação)
de áudio e vídeo, a fim de retomadas posteriores do material para verificações e com-
plementações daquilo que ocorreu na dinâmica.

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Isto acontece na prática


Para além de todas as especificidades destacadas acima é pertinente con-
siderar que a análise dos conteúdos decorrentes dos debates estabelecidos
nos grupos focais demanda atenção por parte do pesquisador, especialmente
no que tange ao estabelecimento de categorias analíticas ou exposição dos
argumentos mais relevantes e/ou mais recorrentes (ALMEIDA, 2015).

A exposição das técnicas de entrevista e de grupos focais como alternativas à rea-


lização de coletas de dados por assistentes sociais no âmbito da pesquisa qualitativa
complementa o debate acerca da pertinência do olhar, do ouvir e do escrever à con-
secução de investigações com a perspectiva antropológica. Assim, esta aula conclui
o conjunto de conteúdos formativos que conferem suporte teórico-metodológico à
prática antropológica no Serviço Social.

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AULA 13
A IDENTIDADE E A ANTROPOLOGIA

O olhar da Antropologia sempre pautou-se pela compre-


ensão dos caminhos do desenvolvimento das relações nas
sociedades, consideradas tanto as especificidades quanto
regularidades, a depender da corrente de pesquisadores
sob análise. Atualmente, é fato que não é mais possível
pensar sociedades “em suspenso”, ou seja, consideran-
do-as de modo isolado com relação às demais, assim
como a cultura não se conforma mais especificamente no
contexto social que facilmente visualizamos. Assim, é per-
tinente considerar a conformação das identidades como Fonte: https://tinyurl.com/y6fp52qy

processos de formação, conformação e transformação - o que discutimos nesta aula.

13.1 A noção de identidade

Um dos primeiros estudos a destacar a noção de identidade e a expressar preo-


cupação com tal objeto analítico foi “Uma categoria do espírito humano: a noção de
pessoa, a noção do ‘eu’”, obra na qual, ainda de maneira tímida ou mesmo preliminar,
Mauss argumentou que a definição de pessoa carrega em si uma entidade social que
conforma a existência de todos os indivíduos em sociedade por meio de diferentes
aspectos, como os direitos, os costumes, as estruturas sociais e instituições, os com-
portamentos e mentalidades e as religiões, por exemplos.
Nesse sentido, Santos (1995, p. 136), ressalta que “a preocupação com a identidade
não é, obviamente, nova. Podemos dizer até que a modernidade nasce dela e com ela”,
tanto que a questão da identidade tem sido amplamente discutida na teoria social
(HALL, 2006).
Tal observação dialoga com DaMatta (1987), que define que os indivíduos e grupos
sociais podem ser analisados sob distintos prismas - como a imagem multifacetada

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que ilustra esta aula - e que cada prisma pode oferecer um tipo de explicação sobre
aquele objeto, assim como as especificidades das identidades.
Conforme destaca Agier (2001), entre as décadas de 1960 e 1970, Lévi-Strauss
(1977) se dedicou à tentativa de isolar a identidade de outros aspectos da vida social
dos indivíduos, a fim de conferir a tal noção o status de objeto de análise. O autor mais
antigo defendia que a identidade, enquanto parte do todo que conforma o indivíduo,
seria - mesmo que parcialmente - inteligível, de modo que cabia a cada sociedade tratar
de tal questão.
Para Lévi-Strauss (1977, p. 332), a identidade poderia ser definida como “uma espécie
de abrigo virtual ao qual é indispensável nos referirmos para explicar um determinado
número de coisas, sem que este tenha jamais uma existência real”.
Para Agier (2001), diante da interpretação de Lévi-Strauss (1977), se a conformação
da identidade não necessariamente implica em sua existência real é indispensável refle-
tir acerca de outros aspectos que contribuem à construção das noções de identidade
entre indivíduos e grupos sociais.
Nesse sentido, para Gimenes (2011, p. 96-97) a noção de identidade é perpassada
por duas abordagens distintas, quais sejam:

Conforme a abordagem contextual, não existe definição de identidade


por si mesma, uma vez que os processos identitários não existem
fora do contexto, ou seja, são sempre relativos a algo. Já a con-
cepção relacional toma como ponto de partida para discussão das
identidades individuais ou coletivas o fato de o indivíduo ser, sempre
e necessariamente, o outro de alguém, o que o levaria a “pensar-se a
si próprio a partir de um olhar externo, até mesmo de vários olhares
cruzados”.

Tal classificação dialoga diretamente com a afirmação de Agier (2001, p. 9), no


sentido de que “o processo identitário, enquanto dependente da relação com os
outros (sob a forma de encontros, conflitos, alianças etc.), é o que torna problemática
a cultura e, no final das contas, a transforma”. Assim, tem-se na noção de identidade
um importante elemento a considerar em análises que buscam a compreensão do
funcionamento das sociedades na contemporaneidade.

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13.2 A identidade na pós-modernidade

O texto clássico da discussão acerca da noção de identidade na contemporaneidade


é de Stuart Hall, autor de “A identidade cultural na pós-modernidade” (2006), onde o
autor argumenta que as identidades modernas estão sendo descentradas, deslocadas
ou fragmentadas.
O argumento do autor, que define as próprias ideias como provisórias e abertas à
contestação é de que as velhas identidades que estabilizaram o mundo social por muito
tempo agora já não cabem mais da mesma maneira, de modo que estariam em declínio.
Nesse contexto de emergência de identidades e de fragmentação do indivíduo
moderno, que antes era visto como unificado, assistiríamos atualmente a uma crise de
identidade cuja interpretação precisaria considerar se tratar de parte de um processo
mais amplo de mudanças, no qual estruturas, quadros de referência e processos
centrais da sociedade estariam com mudanças em curso. Assim, o próprio conceito
de identidade teria que ser considerado como complexo, pouco desenvolvido e pouco
compreendido na Ciência Sociais contemporânea.
Hall (2006) constrói sua argumentação em diálogo com teóricos que afirmaram que
as identidades estariam entrando em colapso, já que uma mudança estrutural diferente
tem afetado as sociedades modernas desde o fim do século XX, fragmentando paisa-
gens culturais que até então eram sólidas e que balizavam a localização dos indivíduos
sociais - como classe social, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade.
Tais mudanças acompanhariam outras tantas que afetam os indivíduos em suas
identidades pessoais, lhes tirando a estabilidade do “sentido de si” por conta dos
múltiplos deslocamentos e alterações, oscilações - de ordem individual, mas também
estrutural - constituiriam uma crise de identidade para os indivíduos e também de
modo geral, já que é pertinente refletirmos se não seria a humanidade como um todo
que estaria em processo de ressignificação e transformação.
Assim, a obra de Hall (2006) se insere na discussão de que no mundo pós-moderno
podemos ser “pós” a qualquer concepção essencialista ou mesma “fixa” de indivíduos,
sendo que a compreensão do que seria o “sujeito pós-moderno” demanda sua apresen-
tação junto às demais concepções de identidades de sujeitos do autor, que remetem
a simplificações da realidade social: o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o
sujeito da pós-modernidade.

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O sujeito do Iluminismo foi definido como aquele indivíduo centrado, unificado, dotado
de razão, de consciência e de ação. Como seu centro emergia em seu nascimento e se
desenvolvia com o próprio indivíduo mantendo sua essência, tratava-se de um sujeito
cuja concepção de identidade era individualista.
O sujeito sociológico, por sua vez, tinha como centro não o indivíduo - autônomo e
autossuficiente do Iluminismo - e sim as relações estabelecidas pelos indivíduos com
outros, que seriam mediadores da cultura, dos valores, dos sentidos e dos símbolos. A
identidade, portanto, seria formada na interação do indivíduo com a sociedade e, ainda
que tenha uma essência interior, o sujeito se conforma e modifica em diálogo contínuo
com os mundos culturais a eles exteriores e às identidades que este mundo oferece.
A identidade do sujeito sociológico, então, preencheria o espaço entre o individual e o
coletivo (a relação entre interior e exterior ou entre o pessoal e o público) e a interação
permite a internalização de significados e valores pelos indivíduos e o alinhamento
dos sentimentos subjetivos com relação aos lugares que ocupamos no mundo social
e cultural.
Por fim, o sujeito da pós-modernidade não seria composto por uma, mas por várias
identidades, ainda que possam ser contraditórias ou mal resolvidas, uma vez que
podem estar entrando em colapso diante das mudanças estruturais e institucionais.
O processo de identificação pelo qual nos projetamos em nossas identidades culturais
acaba por tornar-se provisório, variável e problemático.

Anote isso
Zigmunt Bauman é considerado como um dos expoentes do debate em torno
da pós-modernidade por conta de suas obras que tratam das relações sociais
na contemporaneidade como líquidas, no sentido de que os indivíduos estão
cada vez menos afeitos ao estabelecimento de relações - e também com-
portamentos, valores e costumes - quando estes não lhes oferecem pontos
positivos, majoritariamente imediatistas.

Desse processo emergiria o sujeito pós-moderno que não tem identidade fixa, essen-
cial ou permanente. Ao contrário, sua identidade é conformada e transformada conti-
nuamente pelas maneiras como somos representados ou interpelados nos sistemas
culturais que nos envolvem.

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Assim, na contemporaneidade a identidade plena, unificada, segura e coerente seria


uma fantasia. Mais do que isso, seria até mesmo uma utopia cuja viabilidade cada vez
menos faria sentido, já que aumentam a cada dia as possibilidades e a multiplicidade
de variações das identidades, por conta de novos elementos e sistemas de significação
e de representação cultural.

Isto acontece na prática


Reflita sobre si! Você conseguiria definir-se a partir de uma única “chave
explicativa”, ou seja, a partir de apenas uma característica dentre aquelas
que lhe conformam?

Dentre os fundamentos teóricos e categorias analíticas que a Antropologia oferece


aos profissionais do Serviço Social, a noção de identidade e seu desdobramento espe-
cialmente ao sujeito da pós-modernidade contribuem à abordagem de assistentes
sociais tanto pela possibilidade de apreensão das maneiras como cada indivíduo encon-
tra-se socialmente e culturalmente inserido quando pela perspectiva de intervenção
que possa gerar efeitos positivos sobre sua condição de vida.

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AULA 14
MULTICULTURALISMO,
MARCADORES SOCIAIS E
SERVIÇO SOCIAL SOB A
PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA

Um dos mais relevantes desdobramen-


tos acerca das identidades é seu impacto
sobre as relações sociais e a maneira como
as coletividades agem sobre os indivíduos.
Diante de tal perspectiva, nesta aula estabe-
lecemos o diálogo entre o multiculturalismo
e diferentes aspectos que definem grupos
sociais com identidades múltiplas e espe-
cificas, ao mesmo tempo, cuja existência
reporta ao Serviço Social por dialogar com
direitos sociais.

14.1 Identidade cultural e


multiculturalismo

Para Hall (2006), desde Marx e Engels já


se colocava a discussão de que na moderni-
Fonte: https://tinyurl.com/yxgdhfb8
dade tardia haveria um permanente revolu-
cionar na produção, com relações pouco estruturadas e manutenção da condição de que
“tudo o que fosse sólido, na verdade, se desmancharia no ar”. Desse modo, se trataria
de sociedade em constantes modificações, as quais seriam rápidas e permanentes.
Comparando as sociedades tradicionais e as modernas, o autor enfatizou que as
sociedades tradicionais (mais antigas) se caracterizavam pelo culto ao passado, pela

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valorização de símbolos e pela estruturação de práticas sociais recorrentes, o que


lhes conferia, ao mesmo tempo, um modo de lidar com a relação tempo-espaço que
se mantinha e uma perspectiva de continuidade na linha estabelecida entre passado,
presente e futuro.
Por outro lado, as sociedades modernas seriam marcadas por práticas sociais exa-
minadas e reformadas, a partir de informações recebidas acerca das instituições, sendo
que a interconexão entre diferentes partes do globo permitiria avanços globais - ainda
que destinados ou com efeitos sobre grupos específicos.
Assim, as alterações nas estruturas e nos padrões culturais decorreriam de rupturas
na atualidade, o que geraria fragmentações que permeiam as relações como um todo.
Se anteriormente as sociedades eram pensadas com um centro de poder e que este
perderia espaço quando substituído por outro, na pós-modernidade a substituição se
daria por uma pluralidade de centros de poder, fragmentados sem necessariamente
um princípio articulador ou organizador único, bem como sem obrigatoriedade de
causalidade ou explicação única.
As sociedades pós-modernas, portanto, não poderiam ser tratadas como unificadas,
delimitadas ou totais, sendo que aquelas de modernização tardia - fora do eixo dos
países que estiveram à frente da Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX e dos
Estados Unidos - produziriam ampla variedade de identidades aos indivíduos, as quais
não se desintegram não por unificação (unidade), mas porque os diferentes elementos
e identidades podem, em certas circunstâncias, se articular conjuntamente, ainda que
essa articulação seja parcial.

Isto acontece na prática


Um dos principais marcos da retomada da democracia no Brasil na década
de 1980 foi a mobilização da população. Para além das “Diretas já!” é impe-
rioso destacar a luta organizada e sistemática de movimentos sociais com
diferentes pautas e bandeiras individuais (suas identidades), que perceberam
e necessidade de dialogarem em torno de uma pauta comum (coletiva) - a
redemocratização - para exercer pressão sobre o governo militar instituído
à época.

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Tal perspectiva nos permite inferir que Hall (2006) apresenta a noção de identidade na
pós-modernidade como permeada por uma estrutura aberta, o que devemos considerar
como positiva, já que a desarticulação de identidades fixas e estáveis do passado abre
possibilidades a novas articulações, novos sujeitos, novas identidades e recomposições
das estruturas de articulações.
Eis o princípio do multiculturalismo, uma corrente interpretativa que, tanto do ponto
de vista da Antropologia quanto da Ciência Política, se pauta pela defesa de grupos
que têm acesso a restrito a diversas esferas de reconhecimento, especialmente no que
tange aos direitos sociais. Se trata, portanto, de uma temática que estabelece expres-
sivo diálogo com o Serviço Social.

14.2 Multiculturalismo e marcadores sociais

Tendo em vista o conteúdo da aula anterior e o primeiro tópico desta discussão,


temos que o multiculturalismo trata das discussões atreladas à inclusão de grupos
cujos valores são inferiorizados pela sociedade em que vivem.
Considerando que o debate acerca da garantia de direitos sociais a grupos que deles
são privados está intimamente relacionado à própria democracia, identificamos em
Miguel (2005) e Albrecht (2018) as principais contribuições do multiculturalismo para
a teoria democrática.
Em primeiro lugar, cabe destacar que a perspectiva multiculturalista é positiva no
contexto democrático por conta da possibilidade de valorização de grupos como agen-
tes políticos, tendo em vista que se pautam pela manifestação de que direitos sociais
lhes são devidos e carecem de atenção e atendimento.
Segundo, a manifestação de insatisfação de grupos faz emergir a consideração em
torno da necessidade de incluir políticas direcionadas a minorias de caráter redistributivo
e voltado àqueles que necessitam especificamente de determinado serviço ou recurso.
O terceiro ponto diz respeito à crítica ao ideal de imparcialidade que vigora nos gover-
nos em que a elite política e econômica ocupa os postos de mando e trabalha para a
manutenção de seu status quo, de modo que grupos menos favorecidos sequer têm
voz, não raras vezes, e que toda oportunidade de vocalizar demandas e necessidades
deve ser aproveitada!

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Conforme Miguel (2005), trata-se de uma maneira de pensar a sociedade e con-


traposição ao liberalismo, que não negava a existência de interesses de grupos, mas
excluía a possibilidade de “direitos de grupos”. Ao passo que o sujeito do liberalismo
era o indivíduo, o multiculturalismo inclui os grupos como agente na reflexão política,
já que tais coletividades são entendidas não como mera agregação de indivíduos, mas
como conjuntos de pessoas que compartilham uma identidade.
Nesse contexto, a representação específica de grupos marginalizados estimularia a
participação e o engajamento e revelaria a parcialidade das perspectivas politicamente
predominantes ao trazer à deliberação compreensões diferentes.
Conforme destaca a autora feminista Young (2006), não se trataria de ter um parla-
mento totalmente “igual” à sociedade, mas de dar oportunidade para diferentes grupos
se expressarem e terem suas perspectivas consideradas.
O multiculturalismo traz ainda uma reflexão adicional sobre o próprio significado
de democracia. Constantemente associada à maioria, a democracia, em defesa do
multiculturalismo, passa a ser vista como um regime protetor de minorias, constituí-
das não pelo aspecto numérico, mas pela posição que ocupam na sociedade em uma
perspectiva relacional. Opõe-se, assim, à ideia de que democracia é meramente um
governo “do maior número”.
Em se tratando dos principais marcadores sociais que marcam o contexto multi-
culturalista de enfrentamentos por direitos de minorias, Rifiotis (2012), destaca quatro
aspectos ou temáticas, quais sejam: sexo e gênero, classe social, idade e geração e etnia.
O sexo se apresenta como um vetor biológico definidor, ainda que parcialmente, de
modos de pensar, agir e sentir dentro da maioria das sociedades contemporâneas, as
quais, em alguma medida, refletem a diferenciação entre homens e mulheres e suas
ocupações e limites nos âmbitos público e privado.

Hoje, sabemos que a condição da mulher nas sociedades humanas é


determinada histórica e culturalmente, e nem é preciso dizer o peso
e a força que tiveram tais ideias ao longo de todo o século passado
e têm ainda hoje, bastando apenas lembrar o termo que marca o
conjunto amplo de lutas sociais que designamos de feminismo
(RIFIOTIS, 2012, p. 83).

Contudo, para além daquilo que se discute na comparação entre homens e mulheres,
a Antropologia contemporânea dialoga com a Ciência Política também no que tange

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à questão de gênero, que seria culturalmente construído e diferenciado, portanto, do


sexo dos indivíduos (BUTLER, 2003).

O gênero é um marcador social que atravessa os distintos siste-


mas de diferenciação social, e que está ligado tanto ao masculino
e feminino, quanto a todas as formas de experiência homoafetivas.
A distinção de gênero torna-se, portanto, um marcador de diferença
social (RIFIOTIS, 2012, p. 84).

Diante do exposto sobre as relações entre sexo e gênero, cabe aos assistentes sociais
um olhar atento no sentido de compreender as especificidades que perpassam os limi-
tes e os direitos a esses grupos, tendo consciência de que mulheres e homossexuais
enfrentam dificuldades e preconceitos com os quais o Serviço Social precisa contribuir
no enfrentamento e redução.
O segundo marcador social relevante no contexto multicultural atual é a questão de
classe social, critério que assume características econômicas e culturais, de maneira
simultânea. Por um lado, remete à manutenção do domínio e da diferenciação social que
perpetua uma elite política e econômica como ocupantes do poder, ao mesmo tempo
que, por outro lado, dialoga com um discurso de meritocracia, pautado pelo argumento
de que o esforço é a condição necessária para que todos alcancem seus objetivos.
O aspecto intermediário nessa relação é a escolaridade, restrita especialmente
entre aqueles com menores recursos financeiros e utilizada como justificativa para
ausência de ascensão social da classe trabalhadora, tanto que Souza (2006) determina
que a desigualdades entre as classes sociais no Brasil possui uma hierarquia moral,
no sentido que o indivíduo com menores recursos financeiros e baixa escolarização é
implicitamente considerado inferior.
No âmbito do Serviço Social, o marcador de classe social pode ser definidor à con-
cessão ou não de determinado benefício decorrente de projeto, programa ou ação de
política pública, de modo que os profissionais devem gozar de conhecimento para o
estabelecimento de julgamentos assertivos.
Com relação ao terceiro marcador social, a relação entre idade e geração, cabe
destacar que enquanto idade remete à mera contagem de anos de vida, o conceito de
geração remete às experiências e perspectivas que cada período da vida pode reservar
aos indivíduos. Da mesma maneira, trata das necessidades individuais com as quais
o Estado deve arcar para com o indivíduo.

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Isso significa que os jovens, por exemplo, fazem maior uso de equipamentos públicos
de educação e esportes, bem como carecem de políticas de inserção no mercado de
trabalho e de acesso ao ensino superior ou cursos técnicos para profissionalização.
Por outro lado, àqueles em idade “produtiva” cabe à preocupação com a Previdência
Social e aos idosos cabe a maior utilização do Sistema Único de Saúde. Essa noção
de geração, portanto, remete às experiências vivenciadas.
Por fim, o quarto marcador social destacado por Rifiotis (2012) é a questão da etnia.
Anteriormente tratado ao falarmos sobre a construção culturalista de Freyre acerca da
miscigenação no Brasil, trata-se de um indicador voltado à interpretação das relações
existentes entre distintos grupos étnico-raciais, referentes aos quais é conhecida a
diferenciação em termos de acesso a oportunidades e preconceitos.
Sobre tal marcador, o autor chama atenção com a seguinte exposição:

A desigualdade social no Brasil passa com certeza pelo marcador


étnico. Porém, a questão atual está em compreender como se dá o
“preconceito à brasileira” e como ele opera no nosso cotidiano. Neste
campo entre desigualdade social e preconceito, há muito para fazer
e muitos aspectos para analisar. E não se iluda, porque o mais difícil
de ver é o óbvio. De fato, a questão envolve múltiplos aspectos da
vida social (RIFIOTIS, 2012, p 99).

Contudo, para além da consideração sobre cada marcador em separado é preciso


ao profissional do Serviço Social ter em mente que se trata de categorias analíticas, as
quais podem apresentar-se isoladas ou de maneira conjunta na prática, uma vez que
o multiculturalismo nos coloca o desafio de considerar a multiplicidade de aspectos
conformadores das identidades individuais. Não devemos perder de vista essas poten-
ciais intersecções entre pautas de minorias, uma vez que podem fortalecer os grupos
tanto em termos de educação política quanto de visibilidade às pautas.

Anote isso
Em sua dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, Eloisa de Souza Amaral
(2018) investigou a produção de contradiscursos - narrativas em enfrentamento
aos padrões sociais - nas redes sociais por dois coletivos de mulheres, sendo
que um refletia a perspectiva interseccional por se tratar de mulheres negras.

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AULA 15
ARTE, EDUCAÇÃO E SERVIÇO
SOCIAL SOB A PERSPECTIVA
ANTROPOLÓGICA

Dentre as áreas de interface do Serviço Social


com a Antropologia, para além das questões
relacionadas à conformação das identidades na
perspectiva multiculturalista e os marcadores
sociais abordados nas aulas anteriores, cabe
considerar algumas áreas de desenvolvimento
pertinentes à organização social. Nesse sentido,
nesta aula tratamos de dois aspectos que regem
as sociedades contemporâneas e podem ser
analisados por meio da relação estabelecida no
início deste parágrafo: a arte e a educação. Fonte: https://tinyurl.com/yxg4qatr

15.1 Abordagem antropológica da arte e o Serviço Social

A arte considerada enquanto aspecto cultural tem relação direta com o desen-
volvimento das sociedades e o estabelecimento da comunicação por conta de uma
característica específica, pouco relacionada aos padrões estéticos ou critérios con-
siderados “técnicos”, que têm seu valor, mas não são pertinentes nesta abordagem:
trata-se da reprodutibilidade!
De acordo com Benjamin (2000), as obras de arte são reproduzíveis, assim como
aquilo que os indivíduos realizam sempre pode ser objeto de imitação por outros. Para o
autor, esse processo de reprodução técnica de uma obra representaria não uma cópia,
mas um novo processo no campo da arte, como uma releitura, uma apropriação ou
um avanço.

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Isto está na rede


A perspectiva crítica de análise da reprodução em massa da arte é tratada
pela Escola de Frankfurt, a qual tem seus principais expoentes em Theodor
Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Erich Fromm, Walter Benjamin
e Jürgen Habermas. O debate em torno desse processo – que os autores
denominam “indústria cultural” – sobre as sociedades humanas e sua atua-
lidade é discutido por especialistas do campo da comunicação em https://
www.youtube.com/watch?v=Zx_1Nq3NSQQ

Foi assim, segundo ele, que a humanidade passou por elementos como a xilogravura
(gravuras em madeira), a litografia (gravuras em pedras), a fotografia (reprodução de
imagens com máquina) até a reprodução de sons e de vídeos (imagens em movimento).
Entretanto, esses avanços, por si só, não garantiriam a completude do processo:

Um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existên-


cia única, no lugar em que ela se encontra. E nessa existência única,
e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história
compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com
a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações
de propriedade em que ela ingressou. Os vestígios das primeiras
só podem ser investigados por análises químicas ou físicas, irrea-
lizáveis na reprodução; os vestígios das segundas são o objeto de
uma tradição, cuja reconstituição precisa partir do lugar em que se
achava o original. O aqui e agora do original constitui o conteúdo da
sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse
objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual
e idêntico a si mesmo (BENJAMIN, 2000, p.2).

Assim, conforme o autor, a reprodução – também denominada produtividade técnica


– não confere a autenticidade do objeto artístico, dada a massificação da produção
e/ou a preocupação de quem executa o processo, especialmente quando se trata de
reprodução de peças artísticas com a finalidade de comercialização, quando o conceito
e o significado da arte não são considerados.
É nesse sentido que o autor estabelece uma crítica à produção massificada de arte,
intimamente relacionada ao estabelecimento e à conformação de padrões culturais,
ao expor que as reproduções em série abandonam a essência daquilo que a arte bus-
caria transmitir, sua mensagem. O autor exemplifica esse debate ao expor a fotografia

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e os efeitos passíveis de utilização, como distintas iluminações, focos, aproximações


ou destaques que permitem que uma mesma imagem seja reproduzida de diversas
maneiras – que não aquela que o fotografo captou no momento do registro. O mesmo
vale para a reconstrução da história para os cinemas, quando se “vende” às populações
uma percepção específica dos fatos sociais.

A forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao


mesmo tempo que seu modo de existência. O modo pelo qual se
organiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas
condicionado naturalmente, mas também historicamente. A época
das invasões dos bárbaros, durante a qual surgiram as indústrias
artísticas do Baixo Império Romano e a Gênese de Viena, não tinha
apenas uma arte diferente da que caracterizava o período clássico,
mas também uma outra forma de percepção. Os grandes estudiosos
da escola vienense, Riegl Wickhoff, que se revoltaram contra o peso
da tradição classicista, sob o qual aquela arte tinha sido soterrada,
foram os primeiros a tentar extrair dessa arte algumas conclusões
sob a organização da percepção nas épocas em que ela estava e
vigor. Por mais penetrantes que fossem, essas conclusões estavam
limitadas pelo fato de que esses pesquisadores se contentaram em
descrever as características formais do estilo percepção caracterís-
tico do Baixo Império. Não tentaram, talvez não tivessem a esperança
de consegui-lo, mostrar as Convulsões sociais que se exprimiram
nessas metamorfoses da percepção (BENJAMIN, 2000, p. 2).

Assim, a reprodutibilidade de obras de arte acabaria por transformar e moldar a


maneira como conhecemos, entendemos e vivenciamos a arte na contemporaneidade,
o que reflete na cultura que permeia as relações sociais e nos valores com quais pac-
tuamos ou que se impõem.
Em ampla medida, esse padrão “vendido” em filmes, novelas, revistas e na internet
delimita as percepções sociais e acaba por estabelecer até mesmo os caminhos da
sociabilidade, criando barreiras relacionadas aos marcadores sociais, de modo que,
portanto, se coloca como preocupação ao Serviço Social, cuja intervenção precisa
compreender para saber lidar com os impactos da cultura de massa sobre a população.

15.2 Abordagem antropológica da educação e o Serviço Social

A relação da educação com o Serviço Social é intima e historicamente construída ao


longo das alterações pelas quais as sociedades humanas passaram. Antes mesmo do

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estabelecimento da Antropologia, quando da fundação das Ciências Sociais já havia em


Durkheim o argumento de que a educação seria elemento importante à socialização
dos indivíduos.
Nesse sentido, assim como destacamos ao tratar da arte, para o clássico autor,
a condição de reprodução de comportamentos na vida em sociedade é perpassada
pela educação – não somente aquela formal, escolar – com relação às instituições, à
dinâmica social e econômica, por exemplo.
À educação, então, caberia suscitar nos indivíduos, de maneira resumida, ao menos
duas funções desde a infância, quais sejam:

Suscitar na criança: 1) um certo número de estados físicos e mentais,


que a sociedade a que pertença considere como indispensáveis a
todos os seus membros; 2) certos estados físicos e mentais, que o
grupo social particular (casta, classe família, profissão) considere
igualmente indispensáveis a todos quantos o formem (DURKHEIM,
1967, p. 40).

Nesse sentido, a preocupação com a educação conformou-se no cerne das Ciências


Sociais, de modo que também Marx e Weber trataram do tema. O primeiro autor, cujas
premissas conformam parcialmente as bases do próprio Serviço Social discute o papel
da educação enquanto mecanismo que contribui à manutenção da vida social sob a
perspectiva econômica, de modo que os avanços nos meios de produção e a especifi-
cidade crescente de cursos técnicos e de formação superior têm relação direta com a
divisão social do trabalho e a alienação do trabalhador com relação àquilo que produz.
Em alguma medida, essa alienação reduziria sua capacidade de perceber a exploração
a que está sujeito, decorrente da mais-valia.
Já para Weber (2003), que tinha na racionalidade uma de suas principais chaves expli-
cativas para as relações sociais, a educação cumpriria papel essencial à organização
da vida em sociedade, uma vez que permitiria estabelecer, por exemplo, a construção
de narrativas e de processos sociais, políticos e econômicos.
Dado que a educação tem, reconhecidamente, papel importante enquanto possibili-
dade de emancipação e de conformação do senso crítico dos indivíduos é crescente a
crítica ao seu caráter cada vez mais instrumental. De modo sucinto, pode-se inferir que
indivíduos com menores recursos cognitivos que lhes permitam posicionar-se diante de
situações seriam mais facilmente manipuláveis pelos governos – e suas elites políticas
e econômicas, o que teria relação, inclusive, com a questão da reprodutibilidade da arte.

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Pensando o diálogo dessa perspectiva com o Serviço Social, a educação deve ser
defendida como direito social fundamental, de modo que cabe aos assistentes sociais
compreender onde, como e com qual conteúdo esse direito tem sido disponibilizado
à população.

Anote isso
Focada no debate em torno da formação e profissionalização docente, a
tese de doutorado de Iris de Lima Souza (2008), intitulada “Serviço Social
na educação: saberes e competências necessários no fazer profissional”,
discutiu a pertinência e os limites da inserção do Serviço Social na educação
antes mesmo do debate em torno da legislação brasileira, atualmente em
processo de discussão, com participação ampla e ativa do Conselho Federal
de Serviço Social.

A intervenção de assistentes sociais e sua presença nos ambientes escolares, inclu-


sive, tem sido discutida com afinco pelo Poder Legislativo brasileiro, especialmente entre
2019 e 2020, baseada em argumentos que relacionam a percepção crítico-analítica
desse profissional diante da necessidade de enfrentamento de desigualdades sociais
e com vistas à garantia de direitos humanos (FRANÇA; FERREIRA, 2012), para o que
Souza (2005) destaca que o papel de assistentes sociais nos espaços educacionais
permitiria o estabelecimento de diálogos com a comunidade – especialmente pais e
alunos – e possibilitaria intervenções e cobranças junto a instituições como prefeituras,
governos estaduais e conselhos tutelares, quando pertinente.
Wituk (2012), nesse sentido, expõe que a argumentação dos contrários à presença de
assistentes sociais nas escolas estaria relacionada à massificação do ensino para o traba-
lho, na perspectiva marxista, de modo que se impõe como conflito expressivo ao Serviço
Social, cujo objeto de atenção é o indivíduo em suas necessidades e vulnerabilidades.
Assim, depreende-se desta discussão acerca da relevância da intervenção de assis-
tentes sociais em contextos relacionados à arte e à educação, uma vez que se trata de
espaços de conformação de práticas culturais definidoras de caminhos e possibilidades
ao desenvolvimento das sociedades contemporâneas, seja por seu potencial estímulo à
percepção estética e pensamento crítico ou, em contrapartida, pela necessidade de enfren-
tamento à massificação que permeia o senso artístico e a formação tecnicista atuais.

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AULA 16
DIREITO, SAÚDE E SERVIÇO
SOCIAL SOB A PERSPECTIVA
ANTROPOLÓGICA

Tendo em vista que o Serviço Social é pautado pela compreensão acerca da relação
entre direitos sociais e demandas sociais e que ambos os elementos desta relação
são conformados, em alguma medida, pela cultura de uma determinada sociedade é
pertinente discutir como o campo do Direito se insere no debate proposto neste con-
teúdo. Ademais, tendo em vista que a política pública de saúde tem caráter universal,
também se revela pertinente estabelecer considerações sobre sua interpenetração
com as temáticas da Antropologia e do Serviço Social.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/adultos-aeroporto-arquitetura-atendimento-518244/

16.1 Abordagem antropológica do Direito e o Serviço Social

As Ciências Sociais e o Direito têm uma relação intrínseca e longínqua, tanto que
são muitos os elementos em comum na conformação dessas áreas do conhecimento,

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como o debate em torno da Teoria Geral do Estado e a conformação dos regimes


democráticos até a contemporaneidade e os modelos de governos e a maneira como
as políticas públicas e sociais são compreendidas e executadas, por exemplo.
Nesse sentido, os conceitos explorados por Durkheim – anteriormente discutidos
em nosso material didático – dialogam sobremaneira com a constituição jurídica das
nações, conforme sintetiza Barreto (2012, p. 149):

Émile Durkheim que combinou teoria sociológica e pesquisa empírica


chegou à conclusão que os fatos sociais podem ser normais e patoló-
gicos, sendo normal aqueles que independem do indivíduo, em outras
palavras é superior a ele e acaba sendo obrigatório, já o patológico
é o contrário disso. Tal imposição do fato social normal acaba por
favorecer o surgimento de uma solidariedade entre os indivíduos, e
esta, por sua vez, é variável e acompanha o tempo, transformaram-se
em normas jurídicas que favorecem, dentre outras coisas, a colabora-
ção e troca de serviços entre os que participam do trabalho coletivo.
Assim, o crime é considerado um fato social e a pena, por sua vez, é
para Durkheim um artifício criado pela sociedade para aqueles que
tenham atitudes ou comportamentos ameaçadores à ordem social
e consiste na reparação do mal.

Pensando sob a perspectiva antropológica é importante considerarmos que os


padrões de conduta coletiva, ainda que sigam parâmetros universalmente convenciona-
dos, em maior ou menor medida, remetem inevitavelmente a construções culturais, de
modo que tanto as leis quanto às práticas sociais existem em determinada sociedade
e fazem sentido para aquele contingente populacional.

Anote isso
Sociedades indígenas, por exemplo, podem gozar de padrões distintos do
restante da sociedade, a depender do nível de isolamento que guardam ainda
nos dias atuais. Em casos assim, Barreto (2012, p. 149) ensina que “caracte-
rizar essas normas não se traduz tarefa fácil, pois vários fatores influenciam
nesta diferenciação, entre eles a própria convicção de cada grupo. O que é
errado para uma sociedade pode não ser para outra”.

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Pensando de maneira mais específica a interface desse debate com o Serviço Social
é coerente considerar que a garantia de efetivação dos direitos sociais definidos no
texto constitucional é uma das atribuições profissionais de assistentes sociais.
Isso implica tanto na luta pelo estabelecimento daquilo que ainda carece de legislação
quanto na execução adequada de tudo o que já se tornou lei. Nesse sentido, no caso
específico do Brasil, cabe aos profissionais do Serviço Social acompanharem, apoiarem
e intervirem em favor dos cidadãos, quando pertinentes, no que tange à garantia dos
direitos sociais decorrentes de leis e normas como as políticas para acesso à educação
superior, os estatutos que demarcam os direitos de minorias étnicas e etárias, outros
direitos concedidos a minorias em questão de sexo e gênero e programas e políticas
que perpassam – ainda que transversalmente – a assistência social nos âmbitos da
redistribuição de renda e acesso à aquisição de moradias próprias.
Ademais, cabe ao profissional do Serviço Social também e especialmente a partir de
meados deste inicio de século, intervir nos processos jurídicos por meio da participação
em ações de justiça restaurativa, uma iniciativa definida por Teixeira (2004, p. 1) como

[...] a participação dos próprios envolvidos em um crime (réu e vítima),


bem como a comunidade do entorno, na busca de uma solução para
a reparação dos danos causados. As negociações entre as partes são
conduzidas por um mediador e têm como objetivo a recomposição
dos laços sociais rompidos pela infração.

Esta perspectiva define como crime um ato lesivo a pessoas ou comunidades, com
dimensões de responsabilização que são tanto individuais quanto sociais. Assim,
entende-se que seu controle seria uma obrigação da comunidade, cujo papel seria
de facilitadora em um processo restaurativo que permitisse a resolução do problema
com foco em diálogo e negociação. Conforme evidencia Scuro (2000), contudo, cabe
destacar que se trata de pensar, primeiramente, de que tipo de crime estamos tratando,
já que nem todos seriam passiveis de estabelecimento de diálogos restaurativos.

O modelo de justiça restaurativa vem ganhando forças no Brasil


porque muitos dos que compõem o sistema judiciário querem fazer
justiça e não aplicar punição. Por certo uma coisa não anula a outra,
entretanto, tal medida vem privilegiando a resolução de conflitos
(BARREIRO, 2012, p. 151).

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O papel de assistentes sociais, nesta prática em específico, é de desenvolvimento


da prática restaurativa em parceria com o Direito, uma vez que o restabelecimento dos
laços sociais é parte do arcabouço formativo do campo do Serviço Social, enquanto o
julgamento acerca de normas e leis cabe ao campo jurídico.

16.2 Abordagem antropológica da saúde e o Serviço Social

As noções de saúde e doença perpassam a Antropologia desde seus primórdios,


até mesmo porque a grande área das Ciências Sociais nasceu relacionada às Ciências
Naturais e a perspectiva de sociedade enquanto corpo social (coletivo).
Neste sentido, é pertinente considerar que a abordagem de questões relacionadas
à saúde suscitam diálogos que tangenciam, ao menos, quatro elementos apontados
por Barreiro (2012, p. 154), quais sejam:

1. A cura como religiosidade popular.


2. As doenças advindas de problemas psicossociais.
3. O campo das terapias e da produção da enfermidade e
4. As demandas profissionais de formação de agentes e de práticas
terapêuticas.

Assim, a maneira como as relações sociais se desenvolvem em determinado con-


texto, os impactos das distintas matrizes religiosas e crenças sobre o modo como cada
grupo entende o que é uma doença (karma ou punição, por exemplo) e a conformação
das intervenções de profissionais nesses cenários dialogam com o Serviço Social no
sentido de que remetem a elementos culturais de cada população.
Autores como Spink (1992) afirmam que a vida social é, por si, fonte de patogenias,
especialmente no mundo em que as cobranças e os anseios são crescentes, em detri-
mento dos ganhos financeiros reais e das expectativas passíveis de realização.

Isto acontece na prática


As redes sociais potencializam os sentimentos de frustração e incompetência,
contribuindo aos problemas psicossociais, uma vez que parcela expressiva
das postagens remetem a felicidade, sucesso e status que não condizem
com a realidade, mas que geram naqueles que não dispõem de tais recursos
a perspectiva de que são fracassados.

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Diante de tal contexto, cabe destacar dois aspectos. O primeiro diz respeito à inserção
das Ciências Sociais e da Antropologia nos estudos sobre saúde. Conforme Barreto
(2012), o estudo e a análise de causas e de consequências sociais de fenômenos que
também são sociais é possível a produção de conhecimento que promova a circulação
de informações adequadas, estimule valores como o respeito, a igualdade e a empatia
e, por conseguinte, minimize a discriminação ou a visão vitimista acerca do outro.
O segundo aspecto remete ao profissional do Serviço Social, a quem cabe, por meio
dos recursos sociológicos e antropológicos descritos no parágrafo acima, trabalhar
com vistas à efetivação do respeito aos doentes, à cobrança de atuação coerente por
parte do poder público no que tange aos direitos sociais e – talvez seja a mais robusta
atividade neste âmbito – à conscientização ampla da população tanto com relação aos
pontos de atenção para que evitem (dentro do que lhes for possível) o acometimento
de doenças quanto que busquem o atendimento, caso necessário.
Assim, não deve o profissional do Serviço Social perder de vista sua múltipla capa-
cidade de intervenção na realidade social, que não necessita ser paliativa ou reativa,
mas pode ser pró-ativa no sentido de prevenir problemas ou de promover diagnósticos
socioculturais que permitam a interceptação dos problemas ou doenças psicossociais
com a maior brevidade e assertividade possíveis.
Diante do exposto, é possível concluir que a relação do Serviço Social com o desen-
volvimento cultural das sociedades é intrínseco e de extrema relevância nesse contexto
pós-moderno de relações líquidas, com baixa valorização dos indivíduos e necessidade
de desenvolvimento de políticas públicas que permeiem tanto o atendimento de direitos
sociais quanto o respeito ao multiculturalismo e aos marcadores sociais.
Assim, o conteúdo desta aula, especialmente em diálogo com nossa aula anterior,
demonstra campos de estabelecimento de práticas profissionais aos assistentes
sociais, nos quais suas habilidades e competências podem valer-se do conhecimento
advindo dos fundamentos antropológicos à consecução de sua atuação mais assertiva
no contexto social e cultural.

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CONCLUSÃO

Após dezesseis aulas de exposições de conteúdos, concluímos esta disciplina rei-


terando o exposto no início de sua introdução: tratamos de aspectos teóricos, meto-
dológicos, analíticos e empíricos que conformam tanto sua formação acadêmica e
profissional quanto o refinamento de sua consciência cidadã!
Aqui, cabem considerações finais acerca dos principais apontamentos apresentados
ao longo de nossas aulas, pautados pelos conjuntos temáticos de conteúdos desta-
cados na introdução. O objetivo, aqui, é de destacar e apontar aspectos que precisam
ser introjetados após toda esta discussão acerca dos fundamentos antropológicos do
Serviço Social.
Com relação ao primeiro conjunto de aulas, iniciamos nossa exposição destacando
o espaço em que se enquadra a Antropologia no contexto das Humanidades: as Ciên-
cias Sociais. Para tanto, destacamos as bases constitutivas das Ciências Sociais em
geral, com ênfase em sua conceituação e nos principais autores clássicos da área,
além de abordar de maneira sucinta a caracterização das três áreas que a conformam:
a Sociologia, a Antropologia e a Ciência Política.
Na sequência, abordamos os fundamentos da Antropologia, já caminhando às especi-
ficidades dessa subárea das Ciências Sociais, ao tratarmos de aspectos que compõem
o período anterior ao estabelecimento e reconhecimento desse modo de produção de
conhecimento - o período de história da Antropologia - e ainda detalhamos o objeto de
pesquisas e intervenções antropológicas, com ênfase à questão da alteridade.
O fim do primeiro bloco de aulas trouxe o debate em torno de dois autores impor-
tantes ao início do reconhecimento da Antropologia no campo científico: Durkheim,
com seus apontamentos acerca de definições que relacionavam aspectos culturais
a fatos sociais, e Mauss, que argumentou em favor da Antropologia como ramo do
conhecimento autônomo e distinto da Sociologia.
O segundo conjunto de aulas expôs três correntes antropológicas de debates, que
primeiro surgiram e que nos são caras à abordagem no âmbito do Serviço Social. Inicial-
mente, tratamos do evolucionismo, com sua defesa de que seria possível compreender
o progresso e a civilização como uma linha evolutiva na qual todas as sociedades e
povos se enquadrariam em algum ponto, da selvageria àquele mais avançado, que seria
o modelo europeu etnocêntrico.

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Em contraposição ao evolucionismo, compreendemos os modos de pensar antro-


pológicos de funcionalistas e culturalistas. Para os primeiros, as sociedades poderiam
ser explicadas por mecanismos que representariam a totalidade (ou grande parte
dela) do funcionamento das relações sociais. Já os segundos entendiam que as
sociedades seriam compreendidas pelo conjunto de aspectos componentes de sua
cultura e organização.
À corrente culturalista conferimos maior ênfase, tanto pelo destaque ao elemento da
“democracia racial” no Brasil trabalhado por Freyre quanto pelas perspectivas analíticas
distintas no interior da corrente, tratadas por meio do debate em torno as produções
de Benedict e Mead.
No terceiro bloco de aulas, de abordagem metodológica com vistas às reflexões
acerca da pesquisa antropológica, tratamos da maneira como se estabelecem tais
pesquisas ao abordar o “modo de fazer” da Antropologia, com ênfase às técnicas de
observação participante e etnografia, mas também apresentamos as entrevistas e
grupos focais como técnicas passíveis de utilização nos processos de intervenção
social por assistentes sociais, reconhecendo o impacto de pesquisas qualitativas à área.
Por fim, as últimas quatro aulas versaram sobre os caminhos interseccionados da
Antropologia com o Serviço Social. Nesse sentido, abordamos a questão da identidade
na contemporaneidade e suas múltiplas faces constituintes do multiculturalismo, que
se coloca como importante temática à abordagem de marcadores sociais. Ademais,
consideramos ainda as perspectivas antropológicas de diálogo dos profissionais assis-
tentes sociais com alguns de seus campos de atuação, quais sejam: arte, educação,
Direito e saúde.
Ao fim deste conteúdo, atendeu-se à expectativa de elaboração de um arcabouço
teórico-conceitual, metodológico, empírico e analítico acerca da relevância dos fun-
damentos da Antropologia ao exercício profissional no Serviço Social, com ênfase
ao diagnóstico contemporâneo da temática e às observações, pontos de atenção e
provocações à reflexão de futuros assistentes sociais sobre sua atuação quando da
intervenção junto a grupos sociais, considerados aspectos culturais múltiplos, como
a alteridade, a multiplicidade da conformação identitária dos indivíduos atendidos e
ainda valores, tradições, costumes e percepções desse público como relação ao seu
espaço social e aos direitos sociais.

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ELEMENTOS COMPLEMENTARES

LIVRO

Título: As consequências da modernidade


Autor: Anthony Giddens
Editora: Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho
Sinopse: Em oposição à visão de pós-modernidade acerca
da época atual, desenvolve a ideia de “alta-modernidade”,
a qual cristaliza um momento de passagem em que cate-
gorias como segurança e confiança vão dando lugar aos
conceitos de desencaixe e risco. A aposta vai em dire-
ção à realização desta “sociedade de risco” que ainda se
anuncia.

FILME

Título: Crash - No limite


Ano: 2005
Sinopse: Jean Cabot (Sandra Bullock) é a rica e mimada
esposa de um promotor, em uma cidade ao sul da Califór-
nia. Ela tem seu carro de luxo roubado por dois assaltantes
negros. O roubo culmina num acidente que acaba por
aproximar habitantes de diversas origens étnicas e clas-
ses sociais de Los Angeles: um veterano policial racista,
um detetive negro e seu irmão traficante de drogas, um
bem-sucedido diretor de cinema e sua esposa, e um imi-
grante iraniano e sua filha.

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WEB

Portal oficial da Associação Brasileira de Antropologia, que apresenta as principais


contribuições históricas e recentes da área aos estudos sobre o desenvolvimento
cultural nacional.
<http://www.portal.abant.org.br/>

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