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A EVOLUÇÃO DA VIDA NA

TERRA
A história de vida não é necessariamente progressiva;
Certamente, não é previsível. Os seres vivos da Terra evoluíram
através de uma série de eventos contingentes e fortuitos.

Autor: Stephen Jay Gould


Tradução e adaptação: Prof. Marcos Machado

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Alguns autores anunciam suas obras com grande ostentação. Deus, por
exemplo, proclamou: “Fiat Lux”, e, então, sua ordem inundou o recém criado
universo, com luz. Outros produziram suas descobertas, apresentando-as com
uma roupagem mais modesta, como fez Charles Darwin, definindo o novo
mecanismo causal da evolução em 1859: “eu chamei este princípio através do
qual, cada variação leve, se útil, é preservada, de Seleção Natural”.
A Seleção Natural é uma teoria imensamente poderosa, contudo
graciosamente simples, que tem se mantido notavelmente bem, sob um
intenso e inflexível escrutínio, sendo testada há, aproximadamente, 135 anos.
A Seleção Natura1, em essência, enfoca o mecanismo de mudança evolutiva
na “luta” existente entre organismos pelo sucesso reprodutivo, conduzindo a
um ajuste melhor de populações em ambientes variáveis. (o conceito “luta” é
freqüentemente uma descrição metafórica que não deve ser entendido como
um duelo ao entardecer. Táticas para o sucesso reprodutivo incluem uma
variedade de atividades não-bélicas, como acasalamento precoce ou
cooperação freqüente entre indivíduos, levando à uma maior descendência).
Seleção natural é, então, um princípio de adaptação local, não de avanço geral
ou de progresso.
Ainda que poderoso, o princípio da seleção natural não é a única causa
de mudança evolutiva (e pode, em muitos casos, ser obscurecido por outra
força). Este ponto precisa ser enfatizado, uma vez que uma compreensão
equivocada sobre a Teoria Evolutiva assume que uma que a vantagem
adaptativa de uma característica, originalmente relacionada a um ambiente
específico, possa ser generalizada, independentemente, do ambiente em
questão (a agressividade humana é vantajosa para caçar, a música e a religião
contribuem para a coesão tribal, por exemplo). O próprio Darwin enfatizava
fortemente a natureza multifatorial da mudança evolutiva e advertiu contra a
exclusiva confiança na seleção natural, escrevendo o seguinte texto no fim da
introdução de seu “Origem”: “Eu estou convencido de que a Seleção Natural
tem sido o mais importante, mas não a única força promotora da mudança
evolutiva”.
A Seleção Natural não é completamente suficiente para explicar a
mudança evolutiva por duas razões principais. Primeira, muitas outras causas
são poderosas, particularmente nos níveis de organização biológica acima e
abaixo do enfoque darwinista tradicional: ou seja, os organismos e suas lutas
pelo sucesso reprodutivo. No nível mais baixo, de substituição dos pares de
base individuais de DNA, a mudança é, com freqüência, efetivamente neutra e
estocástica. Nos níveis mais altos, envolvendo espécies inteiras ou faunas, o
equilíbrio pontuado pode produzir tendências evolutivas por seleção de
espécies, em função da relação entre suas taxas de origem e de extinção,
considerando que extinções em massa eliminam partes significativas de
biotas, sem qualquer correlação com suas lutas adaptativas, determinantes
em longos períodos entre tais eventos mega-extincionais. Segunda (e o objetivo
deste artigo não é o de definir quão completamente adequada é a teoria geral
da mudança evolutiva), nós também buscamos documentar e entender a
direção verdadeira da história da vida. Entretanto, qualquer teoria
desempenha papel fundamental na explicação da direção da evolução
biológica (nada sobre a direção pode ser incompatível com uma teoria
consistente, e a teoria deve poder predizer certos aspectos gerais do “padrão
geológico da vida”). Mas, a direção real é fortemente influenciada por nossa
teoria geral da evolução da vida. Outro ponto precisa ser analisado novamente,
pois, mesmo sendo um tema central, é amplamente mal entendido: ou seja, a
complexidade do mundo real. Redes e cadeias de eventos históricos são tão
complicadas, tão relacionadas com o acaso e com elementos caóticos, tão

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interligadas com uma profusão de eventos únicos e, portanto, impossíveis de
serem repetidos, que o modelo padrão de simples predição e replicação não
pode ser aplicado.
A história pode ser explicada, com satisfatório rigor se a evidência é
adequada, somente após uma sucessão de eventos, mas não pode ser predita
anteriormente com qualquer precisão. Pierre-Simon de Laplace, um dos
principais expoentes da teoria determinista disse, no fim do século XVIII, que
poderia especificar todos os estados futuros de sistemas se ele pudesse saber
a posição e o movimento de todas as partículas no cosmos a qualquer
momento. No entanto, a natureza da complexidade universal destrói este
sonho quimérico. A história inclui muito caos (i. é, sistemas extremamente
sensíveis a diferenças nas condições iniciais e, que por isso, conduzem a
resultados totalmente divergentes baseados em minúsculas disparidades,
impossíveis de serem determinadas em seus pontos de partida). A história
inclui muito mais contingência, (resultados presentes são determinados por
longas cadeias de antecedentes impossíveis de serem preditos) do que a
determinação baseada em leis a - históricas da natureza. O surgimento do
Homo sapiens (só um segundo geológico atrás) não poderia ter sido previsto na
terra, baseado em uma concepção de progresso e complexidade neural
crescentes. Os humanos surgiram, em grande parte, como um resultado
fortuito e contingente de milhares de eventos interligados, e se, qualquer um
desses eventos ocorresse diferentemente, a história posterior seria distinta
levando a um caminho alternativo, o qual não produziria a autoconsciência.
Para exemplificar, podemos citar quatro eventos históricos, dentre uma
infinidade: (1) se nossa linhagem inconspícua e frágil não tivesse estado entre
alguns dos sobreviventes de 530 m. a., quando da radiação inicial da vida
animal multicelular na explosão Cambriana, então nenhum vertebrado teria
habitado a Terra. (Só um membro de nosso filo cordado, o gênero Pikaia, foi
achado entre estes primeiros fósseis. Essa criatura natatória, pequena e
simples, a qual possuía uma incipiente relação filogenética conosco por
possuir notocorda, está entre os fósseis mais raros do Xisto de Burgess
(Colúmbia Britânica, Canadá), o mais bem preservado sítio paleofaunístico do
Cambriano – 570 m. a.). (2) Se, num pequeno e pouco promissor grupo de
peixes de nadadeiras lobadas, não tivessem evoluído ossos apendiculares,
com um forte eixo central, capaz de suportar seu peso em terra, os
vertebrados poderiam nunca ter se tornado terrestres. (3) se um grande
meteoro nunca tivesse atingido a Terra há 65 m. a., então os dinossauros
ainda poderiam ser dominantes e, em conseqüência os mamíferos teriam se
mantido insignificantes (como foram durante os 100 m. a. anteriores). (4) se,
numa pequena 1inhagem de primatas, não tivesse evoluído a postura vertical,
nas áridas savanas africanas, há apenas quatro m. a., então nossos ancestrais
poderiam ter dado origem a uma linhagem de macacos, como o chimpanzé e o
gorila hoje, que estão se tornando ecologicamente marginais e provavelmente
sentenciados à extinção, a despeito de sua notável complexidade
comportamental. Portanto, para se entender corretamente os eventos e
padrões gerais existentes ao longo da evolução biológica, nós temos que ir
além dos princípios estabelecidos pela teoria evolutiva e empreender um
detalhado exame paleontológico do padrão contingente da história da vida em
nosso planeta – a única versão ocorrida (felizmente, para nós), da entre
milhões de alternativas possíveis. Tal concepção da história da vida é
altamente contrária aos modelos determinísticos convencionais da
ciência ocidental, às tradições sociais mais profundas e às esperanças
psicológicas da cultura ocidental de uma história evolutiva da vida que
culminasse com os humanos, como sua expressão mais alta.

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A Ciência busca a sua justificação baseada em fatos, no entanto, toda
ciência é socialmente inserida, e todos os cientistas trabalham com “certezas”
que prevalecem num determinado período histórico, porém pensam que estão
trabalhando com a pura objetividade. O próprio Darwin, nas linhas finais de A
Origem das Espécies, descreve a sua preferência social vitoriana mais do que a
própria natureza: “Como a seleção natural trabalha somente pelo e para o bem
de cada criatura, todas as características corpóreas e mentais tendem para o
progresso e para perfeição”.
A história da evolução da vida em nosso planeta inclui muitas
características predizíveis, através das leis da natureza, mas esses princípios
formam um espectro muito amplo e geral para prover uma “certeza” que nos
permita validá-los, através do estudo dos resultados particulares da evolução
biológica – rosas, cogumelos, pessoas, etc. A adaptação dos organismos, é
limitada por princípios físicos. Por exemplo, é pouco surpreendente, devido às
leis da gravidade que os maiores vertebrados marinhos (as baleias) superem os
mais pesados animais terrestres (hoje, os elefantes, no passado, os
dinossauros), os quais, por sua vez, são ainda maiores do que os maiores
vertebrados aéreos (pterossauros extintos da era Mesozóica).
Regras ecológicas predizíveis governam a estruturação das
comunidades através de princípios de fluxo de energia e de biomassa (a
biomassa de presas é maior do que a biomassa de predadores, por exemplo).
Tendências evolutivas, uma vez iniciadas podem ser localmente previsíveis
(“corrida armamentista”, um processo coevolutivo, no qual, predador e presa
“afiam” suas armas e suas defesas, por exemplo, – um padrão descrito por
Geerat J. Vermeij da Universidade da Califórnia, denominado “escalada” e que
documentou o aumento das garras dos caranguejos e as conchas dos
gastrópodes, suas presas ao longo do tempo). Mas, leis naturais não nos
informam, por exemplo, por que os insetos regem o mundo multicelular e por
que os vertebrados, mais do que as persistentes algas, representam a maioria
das formas mais complexas da Terra.
Relativamente à visão convencional da história da vida – como, no
mínimo, um processo amplamente previsível de aumento gradual da
complexidade ao longo do tempo, três feições do registro paleontológico estão
em oposição e permitem levantar temas para serem discutidos ao longo deste
artigo: a constância da complexidade modal ao longo da história da vida; a
concentração dos principais eventos em rápidas explosões evolutivas
entremeadas com períodos longos de relativa estabilidade, e o papel de
imposições externas, principalmente, extinções em massa, rompendo padrões
de “tempos normais”. Estas três feições, combinadas com outros temas gerais,
tais como caos e contingência, requerem uma nova estrutura conceitual para
o delineamento da história da vida. Este artigo termina com sugestões para
uma iconografia diferente da história da evolução.
Os dados paleontológicos originais, referentes aos estágios iniciais da
vida, apontam para uma ínfima predicabilidade, após os caminhos
particulares, efetivamente percorridos. A Terra tem 4,6 b. a., mas as mais
antigas rochas datam de, aproximadamente, 3,9 b. a., pois a superfície do
planeta fundiu-se nos estágios iniciais, como resultado do bombardeio de uma
grande quantidade de meteoros, asteróides, etc, durante a coalescência do
sistema solar, e devido ao calor gerado pela decadência radioativa da meia-
vida dos isótopos. Estas rochas mais velhas também foram muito
metamorfizadas, através do calor e da pressão subseqüentes, para
preservarem fósseis (entretanto alguns cientistas interpretam as proporções de
isótopos de carbono nestes rochas como sinais de produção orgânica). As
rochas mais antigas, suficientemente, inalteradas para reterem fósseis

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celulares - sedimentos africanos e australianos datam de 3,5 b. a. – preservam
células procariontes (bactérias e cianofíceas) e estromatólitos - (tapetes de
sedimento apreenderam e cobriram estas células em águas marinhas rasas).
Assim, a vida na Terra evoluiu depressa e é tão velha quanto podia ser. Este
fato só parece indicar uma inevitabilidade, ou pelo menos uma
predicabilidade, para a origem da vida, a partir dos componentes químicos
originais de atmosfera e do oceano.
Ninguém pode duvidar que criaturas mais complexas surgissem
consecutivamente, após o surgimento das primeiras células procariontes.
Primeiro as células eucarióticas, talvez, aproximadamente, há dois b. a., e,
então animais multicelulares, aproximadamente, há 600 m. a., apresentaram
uma direção definida no sentido do aumento da complexidade que passa de
invertebrados, para vertebrados marinhos e, finalmente, (se nós desejarmos,
antropocentricamente, considerar a arquitetura neural como um critério
primário), répteis, mamíferos e humanos. Esta é a sucessão convencional
representada nas figuras e textos antigos como a “idade dos invertebrados”,
seguida pela “idade dos peixes”, pela “idade dos répteis”, pela “idade dos
mamíferos”, pela “idade do homem”.
Eu não nego os fatos do parágrafo anterior, mas penso que devemos
discutir que o nosso desejo convencional em ver a história da vida como
progressiva, e ver os humanos como previsivelmente dominantes, distorceu
fortemente nossa interpretação da evolução da vida, colocando,
equivocadamente, no centro dos acontecimentos, um fenômeno relativamente
secundário que só surgiu como uma conseqüência lateral, de um ponto de
partida fisicamente limitado. A característica mais conspícua da vida foi a
estabilidade de seu modo bacteriano, desde o princípio do registro fóssil até
hoje e, provavelmente, se manterá até o fim da vida em nosso planeta. Em
outras palavras, a idade bacteriana, surgiu há 3,5 b. a., logo após o início da
vida e ainda não acabou.
Por razões relacionadas à química da origem da vida e à física da auto-
organização, as primeiras criaturas viventes surgiram no mais baixo limite de
vida concebível, mantendo sua complexidade. Denomina-se este limite inferior
como um dos pilares da arquitetura da complexidade. Desde que o modo de
vida bacteriano inicial, i. é, de complexidade mínima, atingiu rapidamente a
sua freqüência máxima de ocorrência observável no registro fóssil, evidencia-
se a existência de apenas uma direção possível – o aumento da complexidade.
Assim, raramente, uma criatura mais complexa evolui e aumenta a
diversidade da vida para além de uma única direção possível. Em termos
técnicos, a distribuição da complexidade se torna mais fortemente desviada
para a direita através dessas adições ocasionais. Mas, as adições de
complexidade são raras e episódicas. Nem sempre elas constituem uma série
evolucionária, mas formam uma sucessão variada de táxons distantemente
relacionados, usualmente descrita como célula eucariótica, trilobita,
nautilóide, euripterídeo, peixe, um anfíbio, tal como Eryops, um dinossauro,
um mamífero e um ser humano. Esta sucessão não pode ser interpretada
como a maior verdade ou tendência da história da vida. Pense,
preferencialmente, em uma criatura surgindo de forma ocasional, nas zonas
adaptativas disponíveis da complexidade. Ao longo de todo este tempo, o modo
de vida bacteriano cresceu em freqüência e manteve-se constante. As bactérias
representam a maior história de sucesso da evolução biológica. Elas ocupam
um domínio mais amplo de ambientes e possuem uma amplitude bioquímica
maior do que qualquer outro grupo. Elas são adaptáveis, indestrutíveis e
surpreendentemente diversas. Nós nem mesmo podemos supor que a
intervenção antrópica ameaçaria a sua sobrevivência levando-as à extinção,

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embora nós possamos especular sobre nosso impacto em outra forma de vida
aparentada. O número de Escherichia coli no intestino de cada ser humano
excede o número de humanos que alguma vez existiram neste planeta. É
possível considerar que a complexificação da vida representa uma
pseudotendência como um todo, uma vez que, após alcançarem a freqüência
modal da complexidade mínima, só restava às bactérias evoluírem
aumentando em complexidade. Entretanto, deve-se refletir que a evolução
dentro de grupos particulares favorece diferencialmente a complexidade,
quando surge uma nova linhagem já com um certo grau (de complexidade),
permitindo um movimento em ambas as direções. Testes empíricos desta
interessante hipótese estão apenas começando (principalmente, entre os
paleontólogos), e nós ainda não temos casos suficientes para propor uma
generalização. Mas os primeiros dois estudos, realizados por Daniel W.
McShea da Universidade de Michigan em mamíferos e por George F. Boyajian
do Universidade da Pensilvânia em amonites evidenciam linhas semelhantes
às suturas ósseas, com nenhuma tendência evolutiva em favor do aumento da
complexidade.
Além disso, quando nós consideramos que, para cada modo de vida
envolvendo um aumento de complexidade, existe, muito provavelmente, igual
estilo vantajoso, baseado numa maior simplicidade de formas (como
freqüentemente com parasitas, por exemplo). Portanto, parece improvável, a
priori, uma concepção que considera a evolução da complexidade, o caminho
preferencial. Nossa impressão de que a vida evolui para uma maior
complexidade é provavelmente apenas um preconceito inspirado por um
enfoque antropocêntrico, e conseqüentemente, uma atenção superestimada
para os organismos mais complexos, enquanto nós ignoramos que muitas
linhagens que se adaptam igualmente bem são formas que evidenciam uma
tendência à simplificação. Um parasita que se apresenta morfologicamente
simplificado, está seguro em seu anfitrião e tem muita probabilidade de
alcançar um grande sucesso evolutivo, da mesma forma que seus parentes
complexos.
Mesmo, considerando que a complexidade seja apenas um fluxo casual,
desde uma condição restrita de complexidade mínima, nós poderíamos
considerar as tendências no sentido do aumento da complexidade como mais
previsíveis e considerar as características da história da evolução da vida como
um todo, se incrementos de complexidade apresentassem-se persistentes e
gradualmente cumulativos ao longo do tempo. O registro fóssil revela que
nada sobre a história da vida é mais peculiar do que a expectativa comum (e
falsa) de um padrão de estabilidade contínua, e rápidos movimentos
episódicos.
A vida permaneceu quase que exclusivamente unicelular durante os
primeiros 5/6 de sua história – desde os primeiros fósseis registrados há
3,5 b. a. até os primeiros (bem documentados) animais multicelulares
há, aproximadamente, 600 milhões de anos. (Algumas algas multicelulares
simples evoluíram há mais de um bilhão de anos atrás, mas estes organismos
pertencem ao reino Plantae e não têm nenhuma conexão genealógica com os
animais.) Este longo período de vida unicelular inclui, seguramente, uma
transição vital na história da evolução biológica, desde simples células
eucarióticas sem organelas para células eucarióticas com núcleo, mitocôndria
e outras estruturas intracelulares complexas, mas não há nenhum registro de
animais multicelulares organizados durante três bilhões anos. Se a
complexidade é uma característica boa, e a multicelularidade representa sua
fase inicial em nosso modelo habitual, então, por que a vida levou todo esse
tempo completando esse passo crucial? Um período tão longo gasto nesses

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estágios iniciais de complexidade depõe contra a idéia geral de progresso como
o principal tema da história da vida, até mesmo se ele pode ser plausivelmente
explicado devido à falta de oxigênio suficiente na atmosfera durante a maioria
do período Pré-cambriano ou o fracasso da vida unicelular em alcançar
algum limiar estrutural como uma condição prévia à multicelularidade.
Mais curiosamente, todas as principais fases de organização da
arquitetura multicelular da vida animal ocorreram em um pequeno período
que começou há menos de 600 m. a. e terminou há aproximadamente 530 m.
a. – e os passos dessa sucessão também são descontínuos e episódicos,
não gradualmente cumulativos. A primeira fauna encontrada no registro
fóssil, denominada Ediacara em homenagem à uma localidade australiana,
mas agora conhecida em rochas localizadas em todos os continentes. A
natureza da fauna de Ediacara está agora sob intensa discussão. Estas
criaturas não parecem ser simples precursores de formas posteriores. Elas
podem constituir uma experiência isolada e fracassada da vida animal, ou
podem representar a variância morfológica total da organização diploblástica,
da qual o phylum moderno Cnidários (corais, água-vivas e aparentados)
permanecem como um pequeno e muito alterado remanescente.
Em todo caso, eles desapareceram, aparentemente, muito antes da
biota cambriana evoluir. O Cambriano iniciou, então, como uma assembléia
de pedaços e partes, decepcionantemente difíceis de interpretar, denominada
“pequena fauna com conchas” (“small shelly fauna”). O pulso principal,
subseqüente, iniciou há, aproximadamente, 530 m. a. atrás, constituindo a
famosa explosão cambriana durante a qual todos os filos modernos, menos
um, apareceram, pela primeira vez, no registro fóssil (Os geólogos
consideravam previamente aceitável até 40 milhões de anos como a duração
deste evento, mas um belo estudo, publicado em 1993, restringe este período
de florescimento filético a, claramente, uns meros cinco milhões de anos.). Os
Briozoários, um grupo de organismos marinhos sésseis e coloniais, não surge
até o começo do período subseqüente, o Ordoviciano, mas esta demora
aparente pode ser decorrente do fracasso em descobrir os representantes
Cambrianos.
Embora eventos interessantes e portentosos tenham acontecido desde
então, do florescer dos dinossauros à origem de consciência humana, não
houve grandes alterações na história subseqüente da vida animal,
especificamente em relação à variabilidade da anatomia estabelecida durante
a explosão cambriana durante cinco milhões de anos. Três bilhões de anos de
unicelularidade, seguidos por cinco milhões de anos de intensa criatividade e
então, acrescidos por mais de 500 m. a. de variação anatômica podem ser
interpretados como dificilmente previsíveis, inexorável ou contínua em direção
ao progresso ou ao aumento de complexidade.
Nós não sabemos por que e como a explosão Cambriana pode
estabelecer tão rapidamente os desígnios anatômicos principais. Uma
explicação “externa” baseada em ecologia parece atraente: a explosão
Cambriana representa um preenchimento inicial de “vazios ecológicos” de
nichos para organismos multicelulares, ou seja, qualquer experiência biológica
“encontrou” uma zona adaptativa vaga. O estoque de variabilidade nunca se
esgotou desde então; até mesmo as grandes extinções em massa deixaram
algumas espécies em cada papel principal, e a sua ocupação de espaço
ecológico excluiu oportunidades para outras novidades fundamentais. Mas
uma explicação “interna” baseada na genética e no desenvolvimento também
parece necessária como um complemento: os primeiros animais multicelulares
podem ter mantido uma flexibilidade para a mudança genética e para a

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transformação embriológica que se tornou muito reduzida em organismos
estabelecidos em um conjunto de desenhos biológicos estáveis e prósperos.
Em todo caso, este período inicial de flexibilidade interna e externa
gerou uma diversidade de anatomias invertebradas que podem ter excedido
(em apenas alguns milhões de anos de produtividade) a diversidade total de
formas animais em todo os atuais ambientes de nosso planeta que surgiu nos
últimos 500 m. a.. Os cientistas estão divididos quanto a esta pergunta.
Alguns reivindicam que a amplitude anatômica desta explosão evolutiva inicial
excedeu a diversidade da vida moderna, pois muitas experiências anatômicas
desapareceram precocemente e nenhum phylum novo apareceu desde então.
Outros, opõem-se fortemente a esta visão considerando que a diversidade
Cambriana pelo menos, igualou a diversidade moderna. No entanto, até
mesmo, os cientistas mais conservadores compartilham da opinião de que os
500 m. a. subseqüentes não ampliaram a diversidade Cambriana alcançada
em apenas 5 m. a.. A explosão Cambriana é o evento mais notável e
enigmático na história de vida.
Além disso, nós não sabemos por que a maioria das experiências
biológicas extinguiu-se em seus estágios iniciais, enquanto algumas outras
sobreviveram dando origem aos filos modernos. Aparentemente, os vencedores
ganharam em virtude de uma maior complexidade anatômica, melhor ajuste
ecológico ou alguma outra característica previsível de acordo com a clássica
concepção de luta Darwiniana. Mas nenhuma característica reconhecida
afigura-se comum a todas as experiências anatômicas vitoriosas, e a
alternativa mais radical pode ser compreendida como se cada experiência
inicial tivesse recebido um pouco mais do que o equivalente a um ingresso na
maior loteria já jogada em nosso planeta e que cada linhagem sobrevivente,
incluindo nosso próprio phylum de vertebrados que habita a terra deve à sua
existência mais à sorte do que por qualquer luta previsível pela existência. A
história da vida multicelular animal pode ser mais uma história de grande
redução em possibilidades iniciais, com estabilização de sobreviventes
afortunados, do que uma história convencional de expansão ecológica,
progresso morfológico e aumento em complexidade.
Finalmente, este padrão de longa estase, com mudanças concentradas
em episódios rápidos que estabelecem um equilíbrio novo pode ser bastante
geral a várias escalas de tempo e magnitude podem formar um tipo de padrão
fractal e de auto-similaridade. De acordo com o modelo de equilíbrio pontuado
de especiação, tendências dentro de linhagens acontecem através de episódios
acumulados de especiação geologicamente instantâneas, em lugar da
mudança gradual dentro de populações contínuas (como subir uma escadaria
ao invés de deslizar sobre uma esteira).
Até mesmo, se a teoria evolutiva implica uma direção interna potencial
para a história da vida (embora fatos prévios e argumentos neste artigo
lançaram dúvida sobre isso), a imposição ocasional de uma rápida,
significativa e, até mesmo, catastrófica mudança ambiental teria intervindo
para alterar o padrão. Estas mudanças ambientais desencadeiam extinções
em massa de uma alta porcentagem de espécies de nosso planeta e podem
desgovernar qualquer direção interna e assim reajustar o padrão da história
da vida de acordo com uma visão mais irregular e episódica do que direcional.
Extinções em massa têm sido reconhecidas desde o início da paleontologia,
pois as divisões principais da escala de tempo geológico foram estabelecidas
em limites marcados por tais eventos. Mas até a revivificação do interesse por
este tema que começou na década de 70, a maioria dos paleontólogos tratava
as extinções em massa como intensificações de eventos ordinários de
extinções de fundo, conduzindo (a maioria das espécies) a uma velocidade

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extincional maior do que as tendências observadas em períodos normais.
Nesta teoria gradualista de extinção em massa, estes eventos levaram
realmente alguns milhões de anos para ocorrerem (sendo o aparecimento
súbito de novas espécies interpretado como um artefato de um registro fóssil
imperfeito), e as extinções em massa apenas, uma intensificação de um
processo usual de extinção (a competição darwiniana mais intensa nesses
períodos, por exemplo, conduziria até mesmo a uma substituição mais
eficiente de menos adaptado por formas superiores).
A reinterpretação das extinções em massa como central para o estudo
da história da vida e como um evento radicalmente diferente em efeito
começou com a apresentação de dados por Luis e Walter Alvarez em 1979,
indicando que o impacto de um objeto extraterrestre grande (eles sugeriram
um asteróide com 10 quilômetros em diâmetro) teria provocado a última
grande extinção do limite do Cretáceo-terciário, há 65 m. a.. Embora a
hipótese de Alvarez tenha recebido um tratamento muito cético, inicialmente,
por parte dos cientistas (um aporte formal – para uma explicação altamente
não- convencional), o caso parece agora virtualmente resolvido pela descoberta
de uma cratera de tamanho e idade apropriados localizada na península de
Yucatán, México.
Este ressurgimento de interesse também inspirou os paleontólogos para
tabular os dados de extinção em massa mais rigorosamente. Trabalhos
realizados por David M. Raup, J. J. Sepkoski, Jr., e David Jablonski da
Universidade de Chicago estabeleceram que a vida multicelular animal
experimentou cinco principais eventos de extinção em massa (Ordoviciano
superior, Devoniano superior, Permiano superior, Triássico superior e
Cretáceo superior) e muitas extinções em massa secundárias durante seus
530 m. a. de história. Nós não temos nenhuma evidência clara mas pelo
menos, o último destes eventos foi desencadeado por um impacto catastrófico.
Tal estudo cuidadoso conduziu à conclusão geral de que as extinções em
massa eram mais freqüentes, mais rápidas, mais extensas em magnitude e
mais distintas quanto às conseqüências do que os paleontólogos haviam
percebido previamente. Estas quatro propriedades conduzem às radicais
implicações das extinções em massa para uma história mais compreensiva da
vida, ou seja, mais contingente e arriscada do que previsível e direcional.
Extinções em massa não são fortuitas quanto ao seu impacto sobre a
vida. Algumas linhagens sucumbem e outras sobrevivem como resultados
relacionados à presença ou à ausência de características adaptativas. Mas,
especialmente, se a causa desencadeante da extinção é súbita e catastrófica,
as causas da sobrevivência e de extinção podem ser fortuitas com respeito ao
valor original das características-chave. Este modelo de “regras diferentes” de
extinção em massa implica em características impredizíveis, com base, na
reivindicação evidente de que as linhagens existentes não podem antecipar
futuras contingências de tal magnitude e operação diferente.
Para citar dois exemplos da extinção do Cretáceo-Terciário, ocorrida há
65 m. a.: Primeiro, um importante estudo publicado em 1986 apontou que as
diatomáceas sobreviveram bem melhor do que outro plâncton unicelular à
extinção (principalmente cocolitos e radiolários). Este estudo concluiu que
muitas diatomáceas tinham evoluído uma estratégia de dormência através de
encistamento, talvez para sobreviver por períodos sazonais de condições
desfavoráveis (meses de escuridão em espécies polares, condição fatal a estas
espécies fotossintetizantes; disponibilidade esporádica de sílica necessária
para construir seus esqueletos. Outras células planctônicas não haviam
evoluído nenhum mecanismo para dormência. Se o impacto do Cretáceo
superior produziu uma nuvem de pó que bloqueou a luz durante vários meses

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ou mais (uma idéia popular para um “cenário mortal” na extinção), então as
diatomáceas podem ter sobrevivido como um resultado fortuito de
mecanismos de dormência, característica que evoluiu para a função
completamente diferente de ressecamento sazonal em tempos ordinários. As
diatomáceas não são superiores aos radiolários ou a outro plâncton que se
extinguiu; eles constituíram-se afortunados simplesmente por possuírem uma
característica favorável que evoluiu por outras razões e que favoreceram a sua
passagem pelo impacto e suas conseqüências. Segundo, todos nós sabemos
que dinossauros pereceram no fim do Cretáceo e que mamíferos passaram a
dominar o mundo vertebrado, desde há aproximadamente 65 m. a.
até hoje. A maioria das pessoas assumem que os mamíferos prevaleceram
nestes períodos marcados por grandes extinções por alguma razão
determinada por sua superioridade geral em relação aos dinossauros. Mas tal
conclusão parece muito improvável. Mamíferos e dinossauros tinham
coexistido durante 100 m. a., e mamíferos tinham permanecido possuindo o
tamanho de um rato ou menores e não tinham feito nenhum “movimento
evolutivo” para desalojar os dinossauros. Nenhum argumento em favor da
prevalência dos mamíferos devido à sua superioridade geral, mostrou-se, até
hoje, suficientemente consistente. Assim, a prevalência dos mamíferos
relacionada com fatores fortuitos parece mais provável. Como um argumento
plausível, os mamíferos podem ter sobrevivido em parte como resultado do seu
tamanho pequeno (configurando-se em populações mais resistentes à extinção
como uma conseqüência, de uma especialização ecológica menos intensa e
com mais lugares para esconder. O tamanho pequeno dos mamíferos durante
o convívio com os dinossauros pode não ter sido uma adaptação positiva, mas,
antes um sinal de sua inabilidade em penetrar o mundo dos vertebrados
terrestres dominado pelos dinossauros. Estes aspectos pouco reconhecidos em
períodos de estabilidade evolutiva podem ser a razão-chave para explicar a
sobrevivência dos mamíferos, condição prévia e fundamental para a leitura
deste artigo.
Sigmund Freud comentava freqüentemente as grandes revoluções
na história de ciência, usando de sua ironia característica: “Dois grandes
cientistas da história da humanidade feriram mortalmente a arrogância
humana retirando a nossa espécie de um pedestal fundado no nosso ego
antropocêntrico. Copérnico nos retirou do centro do universo para a periferia;
Darwin nos baniu de uma posição de criação especial para simples
constituintes do mundo animal”; e, finalmente (em um das primeiras
declarações modestas de história intelectual), o próprio Freud descobriu o
inconsciente e demoliu o mito de uma mente completamente racional. Assim,
a sensação crucial que continua é a de que a revolução de Darwin permanece
incompleta porque, embora - a humanidade aceite o fato da evolução, a
maioria de nós ainda está pouco disposto a abandonar a visão reconfortante
de que evolução significa (ou pelo menos encarna um princípio central de)
progresso responsável pelo aparecimento de algo como a consciência humana,
de forma quase previsível. O pedestal não será destruído até que nós
abandonemos a compreensão do progresso ou da complexificação como um
princípio central e passemos a ver como uma possibilidade forte que Homo
sapiens é um minúsculo e tardio ramo no arbusto da vida enormemente
arborescente – um broto pequeno que muito provavelmente não reapareceria
se nós pudéssemos replantar a semente e deixá-la crescer novamente.
Primatas são animais visuais, e os cenários evolutivos que nós desenhamos
traem nossas convicções mais profundas e exibem nossas limitações
conceituais atuais. Os artistas sempre pintaram a história da vida fóssil como
uma sucessão desde os invertebrados, para os peixes, anfíbios, répteis,

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(principalmente dinossauros, mamíferos e, finalmente, humanos. Não há
nenhuma exceção; todas as sucessões evolutivas pintadas desde 1850 seguem
esta convenção. Nós nunca paramos para reconhecer a maioria dos
preconceitos absurdos codificados nesta visão universal. Nenhuma cena
sempre mostra outro invertebrado depois do surgimento de um peixe, mas os
invertebrados não se extinguiram ou deixaram de evoluir! Depois da
emergência dos répteis, nenhuma cena subseqüente mostra um peixe (mais
oceânico recente - só répteis marinhos como ictiossauro e plesiossauro). Mas
os peixes não deixaram de evoluir depois que uma linhagem pequena (os
crossopterígeos ripidísteos) conseguiram invadir a terra. De fato, o evento
principal na evolução dos peixes, a origem e a dominância dos teleósteos,
aconteceu durante o tempo dos dinossauros e nunca é mostrado em
quaisquer representação artística destas sucessões - embora os teleósteos
incluam mais de 50% das espécies de vertebrados. Por que, então, os
humanos deveriam aparecer ao término de todas as sucessões? Nossa ordem
de primatas é antiga entre mamíferos, e muitas outras linhagens prósperas
surgiram depois. Nós não destruiremos o pedestal denunciado por Freud e
não completaremos a revolução iniciada por Darwin até que
sejamos capazes de redesenhar a história da vida. J.B.S. Haldane proclamou
“somos animais separados de uma natureza estranha”, mas esta concepção só
pode ser imposta socialmente, baseada em fechaduras conceituais e não em
restrições inerentes de nossa neurologia. Ícones novos poderiam quebrar as
fechaduras. Árvores abundantes, intensamente ramificadas – em lugar de uma
escada fornecem a chave para esta transição conceitual. Nós temos que
aprender a descrever toda a amplitude de variação, não só nossa percepção
restrita de criaturas complexas. Nós temos que reconhecer que esta árvore
pode ter contido um número máximo de ramos, perto do começo de vida
multicelular e que a história subseqüente é em sua maior parte um processo
de eliminação e sobrevivência afortunada de alguns, em lugar de um contínuo
florescimento, de progresso e expansão de uma multidão crescente. Nós
devemos compreender que pequenos ramos (hominídeos) são contingentes,
não metas previsíveis do arbusto desde a semente. Nós temos que lembrar da
maior afirmação bíblica sobre sabedoria: “Ela é a árvore da vida. Bem-
aventurado aquele que a canta; feliz é todo um aquele que a retém”.

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