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A gestão da sala de aula de um professor do Ensino Su-

perior

La gestión de clases de un profesor de la Educación Su-


perior

The classroom management of a Higher Education tea-


cher

(1)Robson Macedo Novais, (2)Carmen Fernandez


(1)CAPES Foundation, Ministry of education of Brazil, Brasília – DF 70040-020, Brazil.
Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de
São Paulo, Brasil. robsoniq@gmail.com
(2)Instituto de Química da Universidade de São Paulo, Brasil.
Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de
São Paulo, Brasil. carmen@iq.usp.br

Resumo.

Nesse trabalho investigamos algumas concepções e práticas de um professor do En-


sino Superior relativas à gestão de sua sala de aula no contexto de uma disciplina de
Bioquímica ministrada para um grupo de alunos de um curso de Farmácia-Bioquímica
de uma universidade do Brasil. Os dados foram coletados com a realização de entrevistas
semiestruturadas, registradas em áudio e vídeo, transcritas integralmente e, pela análise
do planejamento de ensino do professor. Os resultados sugerem que as práticas de gestão
de sala de aula realizadas por esse professor estão diretamente relacionadas com suas
concepções sobre como ocorre a aprendizagem dos alunos. Suas atividades de ensino são
centradas na interação entre alunos e as regras de convivência são implementadas de
maneira flexível.
Palavras chave: Gestão da sala de aula, Ensino Superior, Bioquímica.

Resumen.

En este trabajo investigamos algunas concepciones y prácticas de un profesor de Edu-


cación Superior sobre la gestión de aula en el contexto de una asignatura de Bioquímica
de un curso de Farmacia-Bioquímica de la Universidad de San Pablo en Brasil. Los datos

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fueran recogidos por medio de entrevistas semi-estructuradas, registradas en audio y ví-


deo, transcritas integralmente y por los documentos de planificación para la enseñanza del
profesor. Los resultados indican que las prácticas de gestión de aula de este profesor estan
influenciadas por sus concepciones sobre como ocurre el aprendizaje de los alumnos. Sus
actividades de enseñanza están basadas en la interacción de los alumnos y las reglas de
convivencia son implementadas de manera flexible.
Palabras claves: Gestión de aula, Educación Superior, Bioquímica.

Summary.

In this paper we investigate some conceptions and practices of a Higher Education


teacher regarding your classroom management in the context of a discipline of Biochemis-
try taught to a group of students of a Pharmacy-Biochemistry at a public university in Sao
Paolo. The data were collected by conducting semi-structured interviews, recorded audio
and video, fully transcribed and the analysis of the teacher planning. The results suggest
that management practices carried out by the classroom teacher are directly related to
their conceptions about how student learning occurs. His teaching activities are focused
on the interaction between students and the ground rules are implemented in a flexible
manner.
Key words: Classroom Management, Higher Education, Biochemistry.

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

1. Introdução de regras, procedimentos e sanções disci-


plinares, articulação e sequencia das ati-
A gestão da sala de aula é um tema vidades, e (ii) o ensino dos conteúdos do
pouco abordado nas discussões educa- programa: cumprir o programa, motivar
cionais, mas que configura um conheci- os alunos, selecionar e organizar os recur-
mento fundamental do professor para o sos, avaliar as aprendizagens, etc.
encaminhamento das aulas e para a ma- Esses autores reconhecem a gestão da
nutenção de um ambiente propício para sala de aula como uma competência que
a aprendizagem (Bartolomeis, 1986; exige do professor a mobilização de seus
Doyle, 1986; Grossman, 1990; Therrien conhecimentos (pedagógicos e do contex-
e Therrien, 2000; Evertson e Weinstein, to) e de habilidades relativas as gestão de
2006). Trata-se de uma competência que pessoas e recursos. Sendo, portanto uma
engloba a gestão de conteúdos, de tempo, atividade de carácter congnitivo e so-
de espaço e de pessoas no sentido de ga- cioafetivo, pois como nos lembra Novoa
rantir as condições necessárias para que (2008):
se realize o ensino e a aprendizagem (Za-
bala, 1998). […] a atividade docente se carac-
Ao tratar sobre a atividade educativa teriza também por uma grande
Bartolomeis (1986) aponta cinco com- complexidade do ponto de vista
petências fundamentais que um profes- emocional. Os docentes vivem
sor deve possuir e entre elas destaca a de num espaço carregado de afetos,
“organização e de gestão” da sala de aula de sentimentos e conflitos (p. 223).
definida pelo autor como:
Sobre as relações afetivas na sala de
La capacidad de comprender y aula, Orts (2009) destaca a importância
realizar la congruencia medios- de competências socioemocionais na
objetivos, de repartir el trabajo y orientação das escolhas e condutas do
de colaborar ante objetivos con- professor. Essas competências são defini-
cretos, de valorar la relevancia das como:
de problemas que no nacen de las
materias de estudios, pero que in- […] el conjunto de habilidades
fluyen realmente sobre su aprendi- que permiten interactuar con los
zaje, y de considerar una enorme demás o con uno mismo de foma
variedad de condiciones materia- satisfactoria, además de contri-
les, cuyo apoyo resulta esencial buir a la satisfacción interna, a la
para la realización de un plan edu- consecución de éxitos personales
cativo (p. 63). y profesionales, y a una adecuada
adaptación al contexto. (p. 19)
No mesmo sentido, Doyle (1986)
aponta duas tarefas centrais da atividade Com esse pressuposto autor divide a
docente: (i) a gestão da classe, referida gestão da sala de aula em três âmbitos: (i)
como: organização dos grupos, definição o controle diciplinar, pelo qual o professor

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criar um ambiente ordenado que propicie periêntes configura um locús privilegiado


tanto a aprendizagem quanto a convivên- para reconhecermos indícios dos princi-
cia (ii) a regulação das relações interpes- pais aspectos envolvidos na gestão da sala
soais (entre os alunos, alunos-professor, de aula, o raciocionio pedagógico que a
entre os professores e professor-famílias) fundamenta e suas implicações no ensi-
e (iii) a otimização do rendimento escolar no e aprendizagem dos alunos, pois como
dos alunos. Estes âmbitos são interrela- afirmam Therrien e Therrien (2000):
cionados por uma rede mutidimensional, Observar e escutar as razões e os
constituida pelas dimensões: emocional, motivos que fundamentam as constantes
social e cognitiva envolvidas no pro- decisões dos docentes na complexidade
cessos de ensino e aprendizagem (Orts, da condução das atividades curriculares,
2009). Essa rede, por sua vez, viabiliza a da organização do tempo e do espaço, e
intervenção ativa do professor sobre: na articulação das múltiplas interações
entre os sujeitos envolvidos fornece im-
[…] el alumno, como motivarlo, portantes indicadores do universo epis-
controlarlo, o ayudarlo en tareas temológico constituinte da identidade e
académicas. […] su propia per- da competência destes profissionais. A
sona, como modificar estrategias compreensão da intencionalidade docente
de gestión o vigilar sus niveles de sob o ângulo das premissas ou dos sabe-
estrés. […] sobre la tarea/currícu- res que dão suporte às suas decisões de
lo, realizando la correspondiente ação no chão da sala de aula constitui
adaptación a la diversidad de los um elemento essencial dos processos de
alumnos, programando activida- formação inicial e contínua do professor
des o seleccionando contenidos, e de identificação da cultura docente em
por ejemplo (p. 20). ação (p. 12).
Nesse trabalho apresentamos um re-
A gestão da sala de aula é uma ativida- corde de uma tese de doutorado em an-
de fundamental na prática educativa, mas damento, no qual destacamos alguns as-
também no desenvolvimento profissional péctos da gestão da sala de aula realizada
do professor, pois exige uma constante por um professor considerado por seus
reflexão sobre suas escolhas e a postura pares e alunos como competênte em sua
que assume na sala de aula: antes, durante prática educativa. Para isso realizamos
e depois do ensino (Therrien e Therrien, um estudo de caso único com o objetivo
2000; Santos, 2004). Dessa forma, essa de reconhecer por meio de narrativas, do
competência ganha contornos por meio planejamento de ensino e de observações
da atuação e reflexão sobre a própria não participantes da sala de aula desse
prática, definindo o papel central da ex- professor, a lógica que orienta organi-
periência em sua constituição (Shulman, zação de suas estratégias de ensino e a
1987) . maneira que conduz as interações sociais
A partir dessa perspectiva um olhar em sua sala de aula.
analítico para a pratica de professores ex-

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

2. Fundamentação Teórica necessárias para criar e manter um am-


biente ordeiro favorável tanto ao ensino
2.1. Conceito de gestão da sala de como à aprendizagem”.
aula Gauthier et al. (1998), destaca três di-
mensões fundamentais da gestão da sala
A gestão da sala de aula é uma etapa de aula presentes em pesquisas educacio-
fundamental para instituir a ordem, orga- nais: (i) o planejamento da gestão, (ii) a
nizar as atividades de ensino e construir gestão da classe em situação de interação
um ambiente que favoreça a aprendiza- com os alunos e (iii) a avaliação e o con-
gem dos alunos. Por meio dela se opera- trole das atividades de gestão da da sala
cionaliza o currículo proposto para disci- de aula. A primeira dimensão refere-se ao
plina, se regula as interações sociais na trabalho de preparação e de planejamen-
sala de aula e se antecipa situações que to que conduz a um conjunto de decisões
podem favorecer ou limitar a aprendiza- relacionadas às regras de convivência e às
gem (GAUTHIER et al., 1998). No en- rotinas de funcionamento das aulas, como
tanto, essa temática recebe pouca atenção por exemplo, o sequenciamento das ativi-
nos cursos de formação de professores e dades e a implementação de um planeja-
nas pesquisas educacionais, particular- mento de ensino.
mente no contexto do Ensino Superior, A segunda dimensão refere-se à apli-
sendo uma competência desenvolvida cação das medidas disciplinares, das
pelo professor durante sua trajetória do- sanções, das regras e procedimentos que
cente. As primeiras pesquisas sobre a regem a interação entre os agentes da sala
organização e a gestão da sala de aula de aula. Trata-se, portanto, da supervisão
centraram-se essencialmente em questões do trabalho dos alunos e da condução das
associadas à ordem e disciplina, não se interações dialógicas que se estabelecem
estabelecendo uma relação direta com a durante o ensino. A terceira dimensão
construção de um ambiente adequado a refere-se à avaliação das regras, procedi-
aprendizagem (DOYLE, 1986). mentos e medidas disciplinares, portanto,
A partir da década de 80 as pesquisas configura uma atividade reflexiva do pro-
ultrapassaram os limites das questões de fessor sobre a condução de suas aulas.
ordem e passaram a associar a gestão da No âmbito do Ensino Superior, Santos
sala de aula aos processos de ensino e de (2004) aponta a competência de realizar
aprendizagem (GAUTHIER et al., 1998). o planejamento pedagógico como uma
Com essa perspectiva, Doyle (1986) am- competência central do professor que
plia esse conceito e concebe a gestão da deve “[...] ter bem claro os objetivos a
sala de aula como uma atividade de carác- serem atingidos no desenvolvimento dos
ter cognitivo que permite aos professores conteúdos, com estratégia adequada e
realizarem antecipações que viabilizem a uma avaliação coerente com o que pro-
convivência na sala de aula e favoreça a pôs realizar. Planeje bem suas aulas e
aprendizagem dos alunos. Para o autor, as desenvolva com competência (Santos,
a gestão da sala de aula “[…] consiste 2004, p. 105)”. Ainda sobre esse nível do
num conjunto de regras e de disposições ensino Ezcurra (2009) destaca a impor-

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tância do conhecimento sobre os alunos e aprendizagem, destacando-se a necessi-


para repensar os projetos pedagógicos e dade de investigações sobre o tema em di-
curriculares de maneira a comtemplar as ferentes contextos e de sua incorporação
características e necessidades de uma de- em cursos de formação de professores.
manda emêrgente no Ensino Superior, de- A gestão da sala de aula é apontada
finida por um público alvo bastante hete- por Grossman (1990), como um compo-
rogênio. Com essas perspectivas a gestão nente da base de conhecimentos para o
da sala de aula é posicionada como uma ensino dos professores. A autora destaca
atividade complexa, que exido do pro- quatro categorias de conhecimentos que
fessor conhecimentos e habilidades para considera fundamentais para os professo-
integrar uma variedade de objetivos e ne- res, a saber: (i) pedagógico geral, (ii) do
cessidades por meio de um planejamento tema, (iii) pedagógico do conteúdo e (iv)
estratégico e uma postura coerente em sua do contexto. Essas categorias constituem
atuação docente. o “Modelo de Conhecimentos de Profes-
sores” proposto pela autora em seu livro
2.2. Gestão da sala de aula: um com- The Making of a Teacher, publicado em
ponente da base de conhecimentos para 1990, Figura 1.
o ensino Aqui, o conhecimento pedagógico do
conteúdo, definido inicialmente por Shul-
Apartir da década de 80, as pesquisas man (1986, 1987) como o amalgama en-
educacionais passam a evocar o conceito tre a pedagogia e o conteúdo, influencia
de gestão da sala de aula como um con- e é influenciado pelas demais categorias.
hecimento necessário para a docência. No Esse conhecimento capacita o professor
livro Knowlege Base for the Beginning a tornar o conteúdo a ser ensinado com-
Teacher, editado por Maynard C. Rey- preensivel a um grupo de alunos em um
nalds em 1989, Carolyn M. Evertson, pu- determinado contexto (Kind, 2009; Melo
blica o cápitulo Classroon Organization et al., 2013, Fernandez, 2011). Trata-se
and Management, no qual destaca a im- portanto da manifestação e transformação
portancia desse tema na formação e prá- dos demais conhecimentos em situações
tica dos professores. Em 2006, a mesma de ensino que favoreçam a aprendizagem
autora é uma das editoras do Handbook na sala de aula e é apontado por Fernan-
of Classroom Management: Research, dez (2014) como um conhecimento cen-
Practice, and Contemporary Issues, no tral para o ensino, que se desenvolve por
qual se compila um conjunto de textos meio da experiência e reflexão sobre a
que justificam a importancia da gestão própria prática.
da sala de aula nos processos de ensino

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

Figura 1. Modelo da relação entre os domínios do conhecimento do professor proposto


por Grossman (1990), p. 4. (Tradução nossa).

Nesse modelo, o conhecimento peda- aula? (ii) que concepções sobre a organi-
gógico geral apresenta os seguintes com- zação da sala estão relacionadas com as
ponentes: (i) alunos e aprendizagem, (ii) variadas situações de ensino? (iii) os pro-
gestão da sala de aula, (iii) currículo e fessores podem atuar de forma a criar e
instrução e (iv) outros. O destaque dado sustentar o planejamento e a organização
aos três primeiros componentes sugere das lições para contemplar o comporta-
que eles são fundamentais na composição mento individual e de um grupo? Para o
dessa categoria. Ao tratar sobre “gestão autor, a maneira como o professor organi-
da sala de aula”, a autora evoca como za os alunos e administra as atividades e
principal referência, o texto “Classroom situações de ensino dependem de diversas
Organization and Management”, publi- variáveis, como os propósitos para o en-
cado por Walter Doyle em 1986 e citado sino, o público alvo, o tempo e recursos
acima. disponíveis, as estratégias instrucionais,
Nesse texto autor faz uma sólida re- o sequênciamento dos conteúdos a serem
visão bibliográfica sobre pesquisas refe- abordados, entre outros.
rentes à gestão da sala de aula, orientado Na perspectiva de Doyle, o professor
pelas seguintes questões: (i) como a or- precisa possuir conhecimentos e habilida-
dem é estabelecida e mantida na sala de des relativas a gestão da sala de aula para

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selecionar e articular suas estratégias de derando a diversidade de interes-


ensino de maneira a beneficiar um grupo ses e perfís dos agentes de sua sala
de alunos específicos e promover a apren- de aula?
dizagem. Nesse processo, é necessário
considerar: (i) os tipos de atividades em 4. Trajetória metodológica
sala de aula, (ii) as diferenças entre os te-
mas abordados em cada disciplina e (iii) Os estudos de caso são pesquisas em-
o nível de escolaridade dos estudantes píricas, que nos possibilitam investigar
(Doyle, 1986). Assim, o professor deve em profundidade uma situação do con-
ser capaz de avaliar o seu contexto social, texto real. Nesse trabalho apresentamos
os recursos disponíveis, seu repertório de um caso crítico, único e peculiar em um
estratégias para o ensino, suas intenções determinado contexto e como aponta Yin
com cada estratégia, o perfil dos estu- (2010): “Uma justificativa para o caso
dantes, as características de sua discipli- único é quando ele representa o caso críti-
na e outras variáveis. Por exemplo, em co no teste de uma teoria bem formulada.
uma sala de aula com mais de quarenta (p.71)” e [...] “o caso único, preenchendo
estudantes adolescentes, promover um todas as condições para o teste da teoria,
debate no qual os estudantes estejam or- pode confrontar, desafiar ou ampliar a
ganizados em um grande círculo, pode ser teoria. (p. 72)”. Ao observar as aula desse
menos eficiente que promover uma aula professor reconhecemos peculiaridades
expositiva dialogada, pois a mobilização que favoreciam o engajamento e a apren-
da infraestrutura da sala e dos estudantes dizagem dos alunos, o que nos motivou
poderia ser um fator limitante. a investigar com maior profundidade al-
guns aspectos de sua atuação docente por
3. Questões de investigação meio de um estudo de caso.

Temos como objetivo nesse trabalho 4.1. Professor


investigar e reconhecer nas narrativas e
no planejamanento de ensino de um pro- O professor sujeito desse estudo é
fessor experiênte alguns aspectos que biólogo (Bacharel e Licenciado), possui
marcam a dinâmica de sua gestão da sala doutorado em Ciências Biológicas e pós-
de aula. Para isso nos norteados pelas se- doutorado em Bioquímica. Atua como
guintes questões de investigação: professor de Bioquímica no Ensino Su-
perior há mais de 40 anos em uma reno-
(1) Que varíaveis esse professor, mada universidade do Brasil. Há mais de
reconhecido como competente em 20 anos é coordenador e professor de uma
sua instituição de ensino, consi- disciplina de Bioquímica Básica ofereci-
dera para planejar uma disciplina da anualmente aos alunos do primeiro ano
ministrada para um grupo alunos do curso de Farmácia-Bioquímica dessa
do Ensino Superior? universidade. É autor de um renomado li-
(2) Como esse professor realiza a vro de Bioquímica Elementar publicado
gestão da sala de aula em situação no Brasil e realiza pesquisa em Ensino de
de interação com os alunos consi- Bioquímica, em que muitos de seus tra-

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

balhos e investigações estão associados a entregue pelo professor para cada aluno
sua prática docente. Esse professor tem se no início do curso. Um PE é realizado em
destacado por anos seguidos na avaliação um período médio de quatro horas. Os
institucional de disciplinas realizada ao GDs são realizados com todos os alunos,
final de cada semestre, na qual os alunos organizados em roda. No GD são discu-
avaliam seus professores por intermédio tidos problemas que articulam as infor-
de um questionário com escala Likert. mações e os conceitos abordados no PE.
Além disso foi eleito no ano de 2013 Tais problemas são disponibilizadas na
como o melhor professor do Instituto apostila ou retiradas do livro texto. Cada
onde trabalha em um processo que envol- GD é realizado em um período médio de
veu a avaliação dos demais docentes. quatro horas.

4.2. Contexto da investigação 4.3. Coleta e análise dos dados

Os dados foram coletados no segundo Esse estudo de caso foi realizado


semestre de 2011 enquanto o professor por meio de um abordagem metodológi-
ministrava sua disciplina de Bioquímica ca qualitativa (Bogdan e Biklen, 1994).
Básica para um grupo de vinte e cinco Os dados envolvidos na pesquisa foram
alunos do primeiro ano do curso de Far- coletados por meio entrevistas semies-
mácia-Bioquímica. O objetivo da disci- truturadas e pela análise documental do
plina era proporcionar uma visão global planejamento de ensino elaborado pelo
dos princípios gerais da Bioquímica. A professor. Foram realizadas quatro en-
disciplina foi estruturada a partir de duas trevistas com um tempo de duração que
estratégias de ensino centrais, a saber: variou de sessenta a noventa minutos.
i) os “Períodos de Estudos - PE -” e ii) Nossas conversas com o professor oco-
os “Grupos de Discussão - GD -”. Nos rreram em sua sala de trabalho e foram
PEs, os alunos se reúnem em grupos de registradas em áudio e vídeo, conforme
cinco integrantes para responderem um as diretrizes propostas por Novais, Leal
conjunto de questões sobre os principais e Fernandez (2011). O entrevistado rece-
conceitos e informações relacionadas a beu um Termo de Consentimento Livre e
um tema da aula. Essas questões foram Esclarecido (TCLE), que foi assinado au-
disponibilizadas na apostila da disciplina torizando a realização de cada entrevista
entregue no início do curso e foram res- e seu registro audiovisual (Sachilling; Si-
pondidas com o apoio do livro didático queira; Bruno, 2008).

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Entrevistas Tivemos como objetivos identificar e registrar o conhecimen-


to e as concepções que o sujeito da pesquisa possui sobre:
Propósitos e (i) na formação no Ensino Superior (ii) no curso de Farmácia-
objetivos para o Bioquímica, (iii) na disciplina de Bioquímica Geral que ministra,
ensino (iv) no legislação e nos documentos oficiais dirigidos à Educação
Superior.
Alunos e suas i) os diferentes tipos de estudantes presentes em uma sala de aula,
compreensões (ii) as características sociais, culturais, individuais e psicológicas
dos estudantes, (iii) as concepções alternativas, (iv) seus interes-
ses e motivações e (v) o perfil do estudante do curso de Farmácia-
Bioquímica.
Estratégias de (i) centradas nos alunos, (ii) centradas no professor, (iii) que des-
ensino envolvam competências e habilidades, (iv) suas potencialidades,
(v) suas limitações, (vi) o momento de utilizá-las e (vii) as estraté-
gias específicas para o ensino de Bioquímica.
currículo (i) o ajustamento horizontal e vertical do conteúdo no currículo,
(ii) os critérios para escolha e abordagem dos diversos conteúdos,
(iii) a grade curricular do curso de Farmácia-Bioquímica, (iv) a
influência dos recursos disponíveis na definição e abordagem dos
conteúdos e (v) a organização do conjunto de temas abordados na
disciplina.

Tabela 1. Temas abordados nas entrevistas com o professor

Com as entrevistas buscamos recon- Os vídeos produzidos a partir do re-


hecer o conhecimento do professor sobre: gistro audiovisual foram assistidos e o
(i) os propósitos e objetivos do ensino, áudio transcrito conforme sugere Carval-
(ii) os estudantes e suas compreensões, ho (2006). Essas transcrições foram orga-
(iii) as estratégias de ensino e (iv) o cu- nizadas em tabelas com duas colunas, na
rrículo. Os principais tópicos que orienta- primeira indicamos o número do “Turno”
ram nossas perguntas são apresentados na e na segunda, intitulada como “Verbal”,
Tabela 1 e foram definidos considerando: as falas provenientes das entrevistas. De-
(i) alguns aspectos da prática docente do nominamos “Turno” uma fala iniciada e
professor, que reconhecemos por meio finalizada por um sujeito. Cada “Turno”
de observações não-participantes da sala é representado por um número que locali-
de aula e (ii) alguns pressupostos de nos- za uma fala no contexto de toda interação
sos referenciais teóricos (Shulman, 1987; verbal registrada em um vídeo. Assim,
Grossman, 1990), o que nos possibilitaria essas transcrições e o planejamento de
obter respostas que corroborassem com ensino constituiram nosso corpus de in-
a lógica de nossa investigação e com os vestigação para extração dos trechos de
nossos objetivos iniciais. interesse.

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

Os dados foram analisados por meio 5. Resultados


da Análise Textual Discursiva (ATD),
conforme proposto por Galiazzi e Moraes 5.1. Planejamento da disciplina
(2006). A ATD consiste na identificação
inicial de unidades de significados para “Primeiro uma organização muito
posterior organização em categorias. Se- detalhada [...].”
gundo os autores, essa abordagem transita
entre as técnicas de Análise do Conteúdo Nosso professor aponta o planejamen-
e Análise do Discurso e se organiza em to do ensino como uma etapa fundamen-
torno de três elementos principais: (i) a tal de sua prática:
desmontagem do corpus de pesquisa ou
unitarização; (ii) o estabelecimento de re- Primeiro uma organização muito
lações e (iii) a produção do novo a partir detalhada e muito minuciosa do
dessas relações. roteiro que serve para os períodos
Na unitarização, os materiais são de estudo e dos problemas que
examinados em seus detalhes e fragmen- vão orientar as discussões. Isso é
tados em conjuntos de unidades de sig- muito trabalhoso de fazer. É extre-
nificados, que no processo de estabeleci- mamente trabalhoso. E isso é ne-
mento de relações são categorizados em cessário, tá aqui, está pronto, dia
função de suas semelhanças. Da intensa dois de agosto começaremos, ou
análise dessas relações e do esforço para três de agosto, não sei. Então aqui
compreendê-las, emerge um novo produ- tem todo o roteiro do curso, item
to construído a partir da reflexão sobre por item, o que vai ser feito, o que
os elementos textuais categorizados que vai ser discutido em cada dia, o
explicita novas compreensões. Esse cons- calendário, enfim, isso é muito tra-
tructo ou “metatexto” pode convergir do balhoso. Fundamentalmente esse é
empírico para a abstração teórica possibi- o material.
litando a elaboração de argumentos para
compor textos interpretativos (Galiazzi e No trecho ele revela a importância que
Moraes, 2006). atribui a esse processo. Esse planejamento
O processo de categorização foi rea- contempla: (i) a equipe de docentes e mo-
lizado pela exaustiva leitura do corpus e nitores, (ii) o programa resumido da dis-
organização dos trechos de interesse, ou ciplina, (iii) uma sugestão de bibliografia,
unidades de significados, nas categorias (iv) a indicação de websites com softwares
emergentes que foram organizadas em ta- para o aprofundamento dos estudos, (v)
belas. Da leitura e busca de relações entre uma descrição das principais atividades de
os trechos que compunham essas cate- ensino e os critérios de avaliação, (vi) um
gorias eleboramos o texto interpretativo calendário com a programação dos con-
apresentado na seção resultados e discus- teúdos e atividades que serão realizadas
sões. Destacamos as temáticas de cada em cada aula, (vii) um roteiro de estudos
catégoria por meio de trechos da fala do para cada matéria, com as questões e os
próprio professor, que estão evidenciados problemas para a realização dos PEs e
em itálico no decorrer do texto. GDs, e (viii) alguns apêndices.

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Trata-se, portanto, de um planejamen- dida que os alunos incorporam a dinâmi-


to detalhado e sistemático que pretende ca das aulas e se tornam mais autônomos
antecipar as etapas que o professor elegeu ele passa a interferir cada vez menos no
para orientar o seu ensino. Esse planeja- processo de aprendizagem.
mento é compartilhado com os alunos no
primeiro dia de aula, em que cada um de- “[...] a escolha principal que eu tenho
les recebe uma cópia no formato de uma que fazer é a seleção do conteúdo.”
apostila. Nesse dia, o professor apresenta
sua abordagem de ensino, esclarece dúvi- O calendário das aulas é ajustado em
das e inicia as atividades. Por meio dessa função do andamento da disciplina e se os
apostila, os alunos podem ter uma visão alunos avançam para além do proposto, o
geral da disciplina e as matérias e ativida- professor prossegue na abordagem dos
des que estão programadas para cada dia próximos temas. A seguir apresentamos
de aula. No início do curso o professor um recorte do calendário disponibilizado
costuma estar mais atento ao grupo, pois por ele em seu planejamento de ensino,
se trata de um momento de adaptação e no qual propõe um período estimado para
incorporação das estratégias de ensino abordar um conjunto de temas.
adotadas na disciplina. No entanto, à me-

Mês Dia/*período Atividade e Matéria


AGOSTO 02 (tarde) PE - Aminoácidos - Objetivos de 1 a 6.
04 (manhã) GD - Aminoácidos - Problemas 1 a 6.
04 (tarde) PE - Proteínas Parte I - Objetivos 1 a 11.
Seminário 1: Peptídios antimicrobianos.
09 (tarde) GD - Proteínas Parte I - Problemas 5, 6 e 9-13
11 (manhã) PE - Proteínas Parte II - Objetivos de 1 a 8.
11 (manhã) GD - Proteínas Parte II Problemas 1, 3 e 4. Provinha 1.

Quadro 1. Recorte do calendário de matérias e atividades extraído do planejamento de


ensino. * Cada período é composto por quatro horas de aulas.

Nesse recorte, apresentamos uma pro- para a abordagem de cada tema requer do
gramação para o ensino de dois temas, professor o conhecimento sobre a quanti-
a saber: (i) aminoácidos e (ii) proteínas. dade de conteúdos associados a cada um
Como pode ser observado o tempo dis- deles, as estratégias utilizadas e o estágio
ponível para a abordagem de cada tema de desenvolvimento dos estudantes. No
é variado. Para abordar o tema “aminoá- trecho a seguir, o professor trata sobre o
cidos” o professor sugere dois períodos tempo que disponibiliza para o ensino e o
e para abordar “proteínas” sugere qua- estudo em sua disciplina:
tro períodos. Definir o tempo necessário

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

Então, como a gente subverte em grupo requer um maior tempo para o


esse princípio, e na verdade o que estudo na sala de aula e isso implica dire-
a gente faz é que eles estudam e tamente na seleção dos conteúdos:
aprendam durante o tempo de
aula, então a contabilidade é outra. Eu acho que a escolha principal
Eu não posso comparar duas horas que eu tenho que fazer é a seleção
de aula expositiva com duas horas do conteúdo. [...] se eu olho todo
de estudo e discussão. Porque aí o tempo disponível, o que cabe
eu tinha que comparar duas horas dentro desse tempo está absoluta-
de aula expositiva mais o tempo mente subordinado à estratégia de
que eles vão estudar em casa, no ensino que eu vou usar. Claro que
fim de semana, pra isso comple- a exposição pura e simples é um
tar o Quadro, senão eu to fazendo método muito econômico de dar
conta errada, não é? Então, mas de informação, né? Eu brinquei com
qualquer maneira, o que vai de- você outro dia, que eu uso quatro
cidir é o tempo que eu disponho horas, seis horas, pra dar o ciclo
da disciplina, e, portanto, dentro de Krebs, e em seis horas de aula
da estratégia que eu acho que é expositiva você dá muito mais do
apropriada, que vai desenvolver as que isso.
competências, as habilidades que
a gente quer desenvolver, além da A opção por estratégias de ensino que
informação, o que cabe aí dentro e favoreçam a interação entre os agentes da
o que não cabe. sala de aula sugere que a abordagem do
professor não prioriza o ensino de con-
Para ele é fundamental que os estu- teúdos conceituais e corrobora com seu
dos sejam realizados durante as aulas, propósito de que os alunos desenvolvam
pois isso possibilitará a interação entre competências e habilidades. Outro as-
os alunos, o que para o professor é uma pecto que se destaca na abordagem do
oportunidade para que eles desenvolvam professor é a organização das atividades
as competências e habilidades, que estão de ensino, que iniciam com o PE, pros-
diretamente relacionadas com as duas seguem com o GD, e ao final de um ci-
principais estratégias de ensino propos- clo de matérias os alunos realizam uma
tas na disciplina, os PEs e os GDs. Ao “Provinha”, que para o professor “é uma
tratar sobre essas estratégias o professor estratégia de aprendizagem, não é uma
ressalta “[...] que desenvolver a habilida- avaliação do que eles já sabem. É uma
de de trabalhar em grupo, expondo suas forma de eles aprenderem”. Essa estrutu-
ideias e ouvindo seus colegas é de extre- ra se conserva durante toda a disciplina,
ma importância não só no aprendizado, sendo interrompida apenas para a apli-
mas também na futura vida profissional cação de uma das três avaliações oficiais
de cada um. (PLANEJAMENTO DE EN- propostas na disciplina.
SINO)”.
No entanto, de acordo com ele a opção “Precisa sim, e de um espaço ade-
por uma abordagem centrada no trabalho quado [...].”

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Campo Abierto, vol. 33, nº 2 - 2014 Robson Macedo Novais, Carmen Fernández

O trabalho em grupo também requer Os recursos humanos são funda-


um espaço e uma infraestrutura adequada, mentais, porque a razão professor-
pois os alunos precisam se organizar em aluno aí é alta. Pra seguir essa es-
grupos e transitar pela sala de aula. tratégia, tipicamente esse, quanto
mais ativa a aprendizagem, ou a
Precisa sim, e de um espaço ade- estratégia de aprendizagem, maior
quado, ou seja, se eu tiver um a razão professor-aluno necessá-
anfiteatro com cadeiras fixas, por ria, né? Porque claro, se eu tenho
exemplo, fica muito incômodo, uma aula classicamente exposi-
muito incômodo, porque como tiva, eu posso dar uma aula pra
eles vão estudar em grupos de cin- cem alunos, desde que eu tenha
co, é conveniente que eles estejam um microfone e local adequado,
em rodinha, um vendo o outro, eu falo a mesma coisa e os alunos
um falando com o outro. E se eles ouvem. Eu não posso usar essa es-
vão fazer um grupo de discussão tratégia com cem alunos. Porque
com vinte, vinte e cinco alunos, é a eu não posso fazer vinte grupos
mesma coisa. Eles precisam estar com cinco alunos e orientar o tra-
em roda pra discutir. Não dá pra balho desses vinte. Não é possível.
discutir sentado como no cinema. Então, a razão professor-aluno tem
que ser muito mais alta.
Assim, para que os PEs e os GDs se-
jam realizados é importante que as ca- Ele destaca ainda que sua abordagem
deiras possam ser movimentadas na sala reque,r a interação entre o professor e
e que a turma não seja composta por um os alunos e, por isso, turmas numerosas
número elevado de alunos. O professor dificultam sua implementação. Para pro-
destaca também, que é “imprescindível porcionar mais momentos de interação e
nesse tipo de trabalho, eles terem a litera- ajuda aos alunos o professor conta com o
tura, eles terem o que ler, isso é necessá- apoio de monitores que são treinados para
rio, senão você não pode fazer o período acompanhar as aulas:
de estudos”.
É ótima a presença deles é ótima
“Os recursos humanos são fundamen- sob todos os aspectos. É ótimo pra
tais [...].” nos auxiliar, porque os alunos que
estão estudando são sempre bem
O contexto onde se fará a aprendi- atendidos, tem sempre alguém dis-
zagem é um elemento considerado pelo ponível, ou seja, se eles têm algu-
professor na definição de suas estraté- ma dúvida, se eles querem discutir
gias, pois para que as atividades sejam alguma coisa, eles não ficam espe-
realizadas e alcancem seus propósitos é rando, tem sempre alguém dispo-
fundamental que existam as condições nível. Se eu não estou, o monitor
estruturais e os recursos humanos neces- está. [...] Então eu tenho reunião
sários. semanal com eles de duas a qua-

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

tro horas, que é todos os itens que Até pela estrutura da disciplina
vão ser discutidos no período de ou outras como a nossa, são mui-
estudo, todos os itens que vão ser to mais frouxas, são muito mais
discutidos no grupo de discussão permissivas. E quando eu digo
são previamente discutidos entre permissiva quero dizer, transfere
eles, pra que eles se familiarizem grande parte dessa responsabili-
e possam orientar os colegas, né? dade para os alunos, não fecho
a porta às 8h05, então os alunos
Os monitores também colaboram com chegam à hora que eles querem e
a correção das provinhas e das provas saem à hora em que querem, mas
aplicadas durante a disciplina e são recur- a estrutura da disciplina traz uma
sos humanos importantes no processo de responsabilidade, porque eles sa-
gestão da sala de aula. bem que se eles não estudarem ali,
eles não vão acompanhar a discus-
“[...] não é pertinente exigir dele são.
(aluno) uma rigidez de postura.”
Da mesma maneira o professor lida
Durante os PEs, os alunos ficam li- com o controle da frequência nas aulas:
vres para saírem da sala e realizarem suas
atividades no ritmo que lhes seja conve- [...] você viu a gente não tem lis-
niente. O professor revela lidar com seu ta de presença ou tem uma lista
público alvo de maneira flexível e busca de presença informal, onde eles
criar um clima agradável para aprendiza- percebem que aquilo não vai ter
gem, conforme afirma: “Então, eu acho nenhuma influencia no rendimen-
que não é pertinente exigir dele uma rigi- to deles, não vai ser cobrado efe-
dez de postura. Diferenciando o que é se- tivamente e todos vinham, quer
riedade de austeridade: o indivíduo pode dizer, quando eles não vêm é uma
fazer uma tarefa com muita seriedade, exceção, uma coisa pontual, mas
mas ele não precisa ter aquela cara de em princípio você vê que estavam
quem tá fazendo a coisa mais importante todos lá todos os dias. E por que
do mundo. Isso pode ser leve, alegre, e eles vinham? Porque eles perce-
tudo mais”. bem que vale a pena.
Aqui, ele revela ter conhecimento so-
bre as características de seu público alvo, No trecho, ele demostra ser bastante
que são jovens e adolescentes, e por isso flexível com esse controle e mesmo as-
não exige uma postura rígida de seus alu- sim, poucos alunos faltam às aulas. Para
nos. Para ele, uma postura mais flexível o professor, isso se deve ao fato de que
não implica em falta de seriedade nem do eles reconhecem a importância de parti-
docente e nem dos alunos e que a flexibi- cipar das aulas e esse é um indicativo de
lidade e leveza nas aulas favorece a cons- que abordagem proposta na disciplina é
trução de um clima agradável e “alegre” aprovada pelos alunos.
para a aprendizagem:

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Campo Abierto, vol. 33, nº 2 - 2014 Robson Macedo Novais, Carmen Fernández

5.2. Gestão da sala de aula na si- eles tendo interesse, não tem mais
tuação de interação com os estudantes problema.

[…] em princípio os alunos têm (IN- No entanto, em sua experiência do-


TERESSE) e até a nossa tarefa é manter cente, o professor encontrou poucos casos
o interesse. de estudantes desinteressados e assume o
pressuposto de que a princípio todos eles
Na sala de aula, existem estudantes estão interessados em aprender, em níveis
com diferentes perfis, em que alguns são diferentes, mas estão. Assim, caberia a ele
hiperparticipativos, outros hipopartici- manter o interesse dos estudantes, pois
pativos, alguns interessados, outros nem eles percebem quando uma disciplina é
tanto. Saber reconhecer os diferentes ti- bem conduzida e lhes trará contribuições,
pos de estudantes que compõem uma sala caso contrário eles se desinteressam e po-
de aula e realizar sua gestão configura dem até desistir.
uma atividade complexa e que exige ha-
bilidades específicas do professor. Eu acho que em princípio os alu-
Nosso sujeito de investigação revela nos têm e até a nossa tarefa é man-
reconhecer esses diferentes tipos de estu- ter o interesse. Muitas vezes esse
dantes e define com um bom aluno, aque- interesse é diminuído e desapare-
le “[...] que está interessado em apren- ce, diminui grandemente quando
der. Esse pra mim é o bom aluno. Se ele a disciplina não é bem conduzida
estiver interessado em aprender está tudo e aí eles deixam de se interessar.
resolvido, porque eu estou interessado Então os alunos têm um feeling
em ensinar.”. Para ele, um estudante que pra isso. No início de qualquer
apresenta dificuldades não é considerado disciplina eles vêm e daí, salvo ex-
um mau aluno, mas o objeto de sua prá- ceções, se não vale a pena assistir
tica docente, conforme afirma quando diz a disciplina, eles começam a faltar.
“Os outros são pequenos problemas que Mas se eles vêem que vale a pena,
podem aparecer e que faz parte da tarefa, eles comparecem.
faz parte do meu show”, mas para mediar
a aprendizagem os estudantes devem es- […] na maior parte das vezes está
tar presentes, pois o professor precisa ter participando ainda que calado, porque
acesso a eles, conforme afirma no trecho ele tá ouvindo […]
a seguir.
O professor diferencia o nível de par-
Se eles não vêm, eu não tenho ticipação dos estudantes com o seu inte-
como acessá-los, eu não tenho resse por aprender. Para ele, alguns estu-
como fazer diálogo, não tenho dantes são hipoparticipativos por que essa
como conversar, então a isso que é uma característica de sua personalidade,
eu caracterizaria, por contraponto, como na vida cotidiana, em que algumas
os alunos bons, aqueles que têm pessoas são mais falantes e outras menos.
interesse em aprender. E uma vez Mas, o fato de estarem vivenciando ativi-

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

dades que estimulam a interação entre os tância, se isso não estiver incomo-
agentes da sala de aula, a troca de ideias e dando ninguém, nem os que estão
a construção coletiva de conhecimentos; mais calados, nem os que são mais
evita uma postura passiva do aluno, mes- falantes, está tudo bem, não há ne-
mo que ele participe menos oralmente. cessidade de equalizar isso.

Se a participação é oral ou não é […] era um aluno muito esperto, mui-


oral, isso é uma coisa. Outra coisa to esperto mesmo, rápido e tal. […]
é ele estar participando intelec-
tualmente do grupo. E isso pode e Se por um lado alguns deles são hi-
na maior parte das vezes está par- poparticipativos, por outro alguns são hi-
ticipando ainda que calado, por- perparticipativos. Alunos que participam
que ele tá ouvindo, então ele está excessivamente da aula, podem deses-
exposto a opiniões divergentes, ou timular os outros a participarem ou aco-
diferentes pelo menos. (ENTRE- modá-los. Nesse processo, todos perdem,
VISTA 3, TURNO 108) pois o hiperparticipativo deixa de ouvir
as dúvidas e opiniões de seus colegas,
Ele justifica a seguir como percebe e os que se acomodam deixam de com-
que, embora não participem oralmente, partilhar suas ideias e debater seus pon-
esses estudantes menos falantes estão tos de vista. O professor relata, a seguir,
interessados em aprender e estão apren- uma experiência que teve com um aluno
dendo. hiperparticipativo, embora esse não seja
um caso frequente em suas aulas.
Então o fato dele não discutir com
os colegas, não significa que ele Uma situação muito boa, porque
não está aprendendo. Então dois esse aluno era um aluno muito
dados que a gente tem: primeiro, esperto, muito esperto mesmo, rá-
ele vem, ele continua vindo em pido e tal. E quando se punha um
todos os grupos de discussão e problema, depois de um instante
experimentos de estudo. Segun- de pensar ele rapidamente tinha a
do, ele tem bom desempenho. Isso solução. Isso de certa forma tolia
mostra que ele não está indiferente a discussão que deveria conduzir
no processo, embora ele não este- a resposta, porque ele já dava a
ja falando ativamente. Então isso resposta e quase sempre a resposta
não me incomoda. Eu acho que é que ele dava estava correta.
natural que alguns são mais desen-
voltos, gostam mais de falar, têm Lidar com os diferentes tipos de estu-
mais facilidade pra isso e outros dantes exige do professor conhecimentos
menos. Eu não vejo necessidade e habilidades relativas à gestão de sala de
de que a participação seja idêntica aula. A maneira como o professor abor-
a todos os membros do grupo. Eu da um estudante hiperparticipativo para
acho que não tem nenhuma impor- sinalizar que os outros também precisam

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Campo Abierto, vol. 33, nº 2 - 2014 Robson Macedo Novais, Carmen Fernández

participar deve ser sutil e estratégica, pois Mas não teve nenhuma dificulda-
se esse aluno se sentir censurado ou ex- de, foi até favorável, ambos apren-
posto poderá deixar de participar e perder deram. Ele e o grupo aprenderam
o interesse pela disciplina. O professor com a situação. Então, quando
relata a seguir, como tratou essa situação acontecem esses casos, que fogem
em sua sala de aula. um pouco da rotina, é preciso con-
versar no grupo, pro grupo enten-
E o andamento da história foi der aquilo como uma situação que
muito favorável, porque lá pelas está ocorrendo ali no grupo e que
tantas os colegas falaram isso pra a gente precisa encontrar a melhor
ele nas discussões que a gente faz solução, sem dramas, sem acu-
às vezes. Ao fim da discussão os sações nem nada. Fala olha, está
meninos falaram olha Marcelo, o acontecendo isso, vamos ver como
que acontece é o seguinte a gente a gente resolve.
não tem tempo de pensar e discu-
tir o tema, porque você fala logo Esse trecho corrobora com a postura
a solução e aí você fica explican- que o professor relata adotar diante do
do pra gente como é que é. Aí ele comportamento dos estudantes, pois eles
falou não, mas eu estava querendo são novamente convidados a atuar dian-
ajudar e tal... Recebeu muito bem te das situações que emergem na sala de
a crítica, então se eu estiver me an- aula e buscarem coletivamente uma so-
tecipando, vocês me avisam e tal. lução que responda às necessidades e ex-
pectativas de toda a turma.
O professor realiza, eventualmente,
rápidas discussões sobre a dinâmica e o 6. Discussão
andamento dos GDs. Essas discussões
ocorrem com maior freqüência no iní- Nessa investigação foi possível recon-
cio da disciplina, pois o grupo ainda está hecer que esse professor realiza o plane-
se ajustando às estratégias de ensino e jamento de sua gestão de aula conside-
aprendendo a se comportar em um gru- rando: (i) suas estratégias de ensino, (ii) a
po. Foi em uma dessas discussões que elaboração de roteiros de estudos para os
os próprios estudantes tiveram a oportu- alunos, (iii) o sequenciamento estratégico
nidade de evidenciar o comportamento de suas atividades, (iv) a organização dos
do colega hiperparticipativo e esclarecer alunos na sala de aula e (v) os recursos
as dificuldades geradas pelo excesso de humanos e materiais disponíveis para o
suas intervenções e “[...] Uma vez que ensino. Ele enfatiza a importância de um
ele foi notificado e tomou consciência da planejamento de ensino detalhado e apre-
situação, as coisas correram muito bem. senta uma organização de atividades sis-
Ele se segurou um pouco mais, os alunos temática baseada na tríade PE, GD e Pro-
tiveram oportunidades.”. vinha; o que constitui um núcleo central
Para ele, essa foi mais uma oportuni- de atividades que direcionam o ensino.
dade de aprendizagem para todos, confor- Sua valorização ao planejamento e
me afirma: a maneira como conduz suas aulas su-

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

gere que um de seus objetivos é criar as aos alunos por meio de seu planejamento
condições necessárias para que os pró- de ensino que é compartilhado e discutido
prios alunos implementem esse planeja- no primeiro dia de aulas. Para Gauthier et
mento e ao professor caberia o papel de al. (1998):
supervisionar esse processo. Com essa
abordagem ele define como um de seus O planejamento da gestão da clas-
propósitos para o ensino o desenvolvi- se começa não somente com o
mento competências e habilidades rela- trabalho de preparação, antes do
tivas a autonomia e atuação crítica em início do ano letivo, mas também
grupo, o que é apontado por Rué (2009) com a implementação e a comu-
e Silvia (2011) como uma necessidade nicação de regras, de procedimen-
formativa nesse nível do ensino. Nesse tos, de relações e de expectativas
âmbito, Cunha (2009) destaca o concei- em face dos alunos assim que o
to de “Gestão participativa” como uma ano se inicia. (p.241).
característica de experiências inovadoras
no Ensino Superior, pela qual os sujeitos Esse planejamento começa antes do
envolvidos participam da gestão da sala início do inicio da disciplina e se esta-
de aula, desde a concepção de um plane- belece no decorrer das aulas, como um
jamento para o ensino até a análise dos planejamento em ação, particularmente
resultados e dessa forma “[...] há uma nas primeiras aulas da disciplina, pois
quebra com a estrutura vertical de poder esse momento é fundamental para que os
responsabilizando o coletivo do processo agentes da sala de aula se conheçam e as
de ensino e aprendizagem pelas propos- regras de convivência sejam compartilha-
tas formuladas. (p. 224)”. das (Gauthier et al., 1998).
No caso desse estudo, a gestão Percebe-se um significativo esforço
da sala de aula parece estar associada à para que a disciplina esteja bem planeja-
concepção do professor de como os alu- da e as aulas articuladas ao tema central
nos aprendem e de suas intenções para o por meio de um cronograma que define os
ensino (Novais e Fernandez, 2013). Sua objetivos de estudos de cada uma delas.
ênfase em atividades que proporcionem a Esse esforço do professor pode ser recon-
interação entre os agentes da sala de aula hecido pelos alunos, o que atribui mais
sugerem que para ele a aprendizagem é seriedade ao seu trabalho e à própria dis-
favorecida pela interação entre os alunos ciplina. Existe uma intenção implícita de
(Orts, 2005). Sugere também que trata-se que os alunos percebam que o ensino não
de um processo gradativo, pois os alunos está sendo realizado de qualquer maneira
se aproximam dos conceitos fundamen- e de que o professor é comprometido e
tais no PE, resolvem problemas inter- empenhado com sua aprendizagem.
relacionando tais conceitos nos GDS e, Nas relações interpessoais o professor
por fim, sintetizam e registram suas com- não trata as limitações ou dificuldade dos
preensões nas provinhas. alunos como um problema, mas como si-
Os objetivos de seu curso e as normas tuações que precisam e serão resolvidas.
que regem a dinâmica das aulas são pla- Ele gerencia as relações na sala de aula
nejadas antecipadamente e apresentadas devolvendo ao grupo as questões que

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Campo Abierto, vol. 33, nº 2 - 2014 Robson Macedo Novais, Carmen Fernández

configuram ruídos na aprendizagem de auxiliá-los a se superarem, melho-


um conteúdo ou no andamento desejado rando, assim, o desempenho. (p.
das atividades. Essa abordagem atribui 113).
ao aluno parte da responsabilidade pela
dinâmica das aulas e retira o professor Nesse âmbito, ao tratar sobre as habi-
de uma posição de autoridade absoluta lidades sociais na sala de aula Orts (2005)
diminuindo a assimetria de poderes na destaca a empatia como um caracterírti-
sala de aula, o que favorece a interveção ca fundamental do professor e a define
ativa dos alunos por meio da exposição como:
de ideias e indagação (Cunha, 2009; Sil-
via, 2011). Ao dar voz ao aluno, o profes- […] uma das habilidades inter-
sor cria mais um espaço para a avaliação pessoais básicas, que consiste
da aprendizagem, pois ao ouvi-los pode na capacidade de se colocar na
identificar por meio de seus discursos perspectiva do outro (colocar os
dificuldades e limitações e oferecer aju- sapatos do outro). As relações in-
das adequadas (Zabala, 1998; Quadros e terpessoais baseadas na empatia
Mortimer, 2014). são fudamentadas na confiança,
A sensibilidade desse professor para repeito e apreço mútuo, e são um
reconhecer as necessidades dos alunos e fator decisivo para a prevenção de
sua disposição em construir espaços para conflitos. (p. 85)
que eles possam se manifestar corrobora
com as conclusões de uma pesquisa rea- Com essa postura nosso professor di-
lizada por Quadros et al. (2010), que bus- lui as relações de poder na sala de aula
cou investigar algumas percepções de um e mobilizar todos os seus agentes para o
grupo de alunos da Educação Superior sentido de um objetivo comum: a apren-
sobre seus professores e o que esperam dizagem dos alunos. Assim, as aulas se
deles: tornam como diz o professor, “[...] mais
agradáveis” e todos passam a ser corres-
Os estudantes esperam um profes- ponsáveis por sua própria aprendizagem
sor com domínio do conteúdo, boa e pela dos demais. Nessa dimensão, por-
didática, que seja identificado com tanto, são reconhecidos valores pessoais
a docência, observador, sensível e ideologias que convergem para a ins-
e perspicaz e que considere os tauração de um ambiente de aprendiza-
questionamentos dos alunos. Eles gem mais humanizado, o que não é tão
esperam que o professor entenda recorrente na Educação Superior. Na Fi-
os limites e as deficiências de cada gura 2 sintetizamos alguns aspéctos desse
um e que tenha sensibilidade para processo.

160
A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

Figura 2. Esquema que ilustra algumas implicações da gestão da sala de aula.

Em sua gestão da sala de aula reconhe- dos para seu ensino e (iii) seu contexto de
cemos uma forte influência da dimensão atuação. A opção por atividades didáticas
afetiva, particularmente, na manifestação cetradas na interação entre os alunos exi-
de seu interesse em promover a interação ge que o professor realize escolhas e mo-
entre os agentes da sala de aula e com- bilize os recursos necessários para viabi-
partilhar o seu “poder” com os alunos lizá-las, o que lhe demanda um exaustivo
(Silvia, 2011). Esse mecanismo diminui tempo de reflexão e planejamento.
as tensões e ansiedades geradas durante o Fundamentados em nossas consta-
ensino e instaura a confiança entre o pro- tações, destacamos que a perspectiva as-
fessor e os alunos, gerando emoções po- sumida por esse professor para a gestão
sitivas que favorecem o engajamento dos da sala é norteada por quatro princípios
alunos nas atividades e a aprendizagem centrais, a saber a:
dos conteúdos propostos (Orts, 2009;
Brígido et al., 2009; Brígido et al. 2013). • Autonomia, estimulada por um con-
junto de estratégias e condutas do pro-
7. Considerações Finais fessor que ofereçam subsídios para que o
aluno reconheça seus próprios mecanis-
O professor planeja suas aulas de ma- mos de apredizagem, gerencie seu tempo
neira sistemática e coerente com: (i) o de estudo e assuma um papel ativo em
perfil dos alunos, (ii) os propósitos defini- sua própria aprendizagem, sendo capaz

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de buscar e utlizar novos conhecimentos Trata-se de uma dinâmica que exige


para resolver problemas. do professor sólidos conhecimentos do
• Utilização de estratégias de ensino conteúdo específico, pedagógicos e do
diversificadas e que viabilizem a inte- contexto, mas também conhecimentos
ração entre os agentes da sala de aula, a sobre a gestão e regulação de grupos, o
exposição de ideias, a indagação, a cons- que implica no desenvolvimento de com-
trução coletiva de novos conhecimentos petências socioemocionais. Ao compar-
e o posicionamento crítico diante de um tilhar seu “poder” ele viabiliza o estrei-
grupo. tamento da relação entre o professor e os
• Criação de espaços para a partici- alunos, que se tornam mais autonomos e
pação dos alunos na gestão da sala de comprometidos com o sucesso da disci-
aula de maneira a corresponsábiliza-los plina. Aqui reconhecemos uma compe-
pelo sucesso da disciplina e viabilizar a tencia socioemocional que possibilita ao
resolução coletiva de problemas ou rui- professor conduzir o grupo por meio do
dos que dificultam o andamento das ativi- respeito mútuo e da participação no sen-
dades ou a aprendizagem dos conteúdos. tido de seus objetivos de aprendizagem,
• Criação de um ambiente afetivamen- que superam a apropriação de conheci-
te favoravel a aprendizagem, marcado por mentos e incluem o desenvolvimento de
relações afetivas positivas entre o profes- competências e habilidades.
sor e os alunos que possibilita o diálogo, a Assim, sinalizamos como implicações
interação e a negociação entre esses agen- centrais desse trabalho para o campo da
tes e favoreça a instauração de um clima docência universitária: (i) a importancia e
agradável, motivador e estimulante para a a necessidade de uma formação pedagó-
aprendizagem. gica dos professores desse nível do ensi-
no, de maneira que possam resignificar os
A preparação e reflexão prévia de suas conteúdos específicos de suas disciplinas
aulas lhe oferece maiores possibilidades e suas estratégias por meio de conheci-
de improvisações durante as aulas, pois mentos pedagógicos; (ii) o desenvolvi-
por meio desse planejamento ele pos- mento de competencias socioemocionais
sui um relativo controle e conhecimento que tornem os professores capazes gerir
das principais variáveis que constituem as interações sociais nas salas de aula e
e viabilizam as sequências didáticas de construir um ambiente emocionalmente
sua disciplina. Assim, o professor pode favorável a aprendizagem, (iii) o apoio
conduzir suas aulas com maior liberdade institucional, que deve oferecer os recur-
e de maneira flexivel favorecendo a parti- sos necessários para a implementação de
cipação dos alunos e a interação entre os estratégias de ensino inovadoras e esti-
agentes da sala de aula. Nesse contexto, o mulo ao professor para o planejamento e
professor assume o papel de mediador e reflexão de suas aulas.
supervisor da aprendizagem e os alunos Por fim, destacamos que embora por
realizam a autoregulação da gestão da meio de estudos de caso únicos não se
sala de aula em situações interativas, co- possam fazer grandes generalizações,
laborando diretamente com a avaliação e esse estudo sinaliza a importância da ges-
controle das atividades propostas. tão da sala de aula na prática educativa e

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A gestão da sala de aula de um profesor do Ensino Superior

a necessidade de outros estudos de caso Agradecimentos


que possam ser articulados de maneira Os autores agradecem imensamente a
a agrupar evidências comuns sobre os participação do professor investigado e o
princípais aspéctos da gestão da sala de apoio financeiro para o grupo de pesquisa
aula. E dessa forma, constituir uma base conduzido por agências governamentais
de conhecimentos sobre o tema que possa brasileiras CNPq e FAPESP (Processo N.
orientar novas pesquisas e ofereça subsí- 13/07937-8). Bolsista CAPES (Processo
dios para a reflexão e formação de profes- N. 99999.003928/2014-04).
sores desse nível do ensino.

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Campo Abierto, vol. 33, nº 2 - 2014 Robson Macedo Novais, Carmen Fernández

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