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ASPECTOS SOCIAIS, POLÍTICOS E LEGAIS

DA EDUCAÇÃO

UNIDADE 1 - Como as Dimensões Políticas, Sociais e Legais Constituem o


Campo da Educação?

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Introdução
Olá, caro estudante!
Esta unidade é destinada ao estudo das relações que são tecidas entre Educação, Estado e Sociedade, com ênfase
nas políticas educacionais. A ideia é que você possa compreender basicamente três pontos:
- O que são as políticas educacionais.
- Quais as políticas que regem os processos formais de educação no Brasil.
- Como as políticas educacionais aparecem na legislação brasileira, de hoje e de antigamente.
Para isso, alguns pontos de discussão serão importantes. Por exemplo, você conhece os dispositivos legais que
respaldam e estabelecem as diretrizes para a sua vida acadêmica? Já leu sobre o Regime de Colaboração? E mais:
sabia que a Lei Magna no Brasil é a Constituição Federal? Alguns destes termos e conceitos podem parecer tão
distantes de nós, mas são importantes, pois neles estão contidos os marcos históricos e legais que estão por trás
da educação do país, desde a educação infantil até o ensino superior.
Este estudo almeja contribuir para que você conheça com mais profundidade a legislação educacional e a sua
trajetória histórica – pois a educação, como parte indissolúvel da sociedade, acompanha as modificações sofridas
em consequência das transformações sociais, culturais, econômicas e políticas que marcaram a história social
brasileira.
Nesta unidade, você verá como são formadas as redes de educação municipal, estadual e federal e a possibilidade
de as instituições públicas trabalharem de forma mais integrada entre as três instâncias federativas – Município,
Estado e União – por meio do Regime de Colaboração. Por fim, você conhecerá as principais medidas
determinadas pelas Constituições brasileiras, desde a Independência do Brasil, o que lhe dará subsídios para
analisar, de forma crítica, a nossa atual Constituição, também conhecida como Constituição Cidadã.
Bons estudos!

1.1 Educação, Estado e sociedade


“A educação é prioridade para desenvolver um país!”
“Somente com educação iremos mudar o Brasil!”
Certamente você já ouviu estas frases. Mas o que elas significam? Que conceito de educação está implicado nelas?
É necessário compreender que a educação pode ser entendida de forma distinta, ou seja, com diferentes
perspectivas. A primeira delas diz respeito a um conceito amplo, no qual o processo educativo implica
reconhecer preceitos éticos, morais e conhecimentos construídos historicamente pela humanidade, e que
precisam ser, de uma forma ou outra, passados para as gerações seguintes.
Neste primeiro caso, é possível afirmarmos que a educação existe desde que há a vida em sociedade, pois o
processo educativo está presente na família, na religião, na cultura. As figuras do pai, da mãe, do sábio, do ancião,
do mestre, do líder religioso nada mais são do que “educadores”, que, cada qual com seu espectro de
conhecimento, garante às gerações mais novas a continuidade de tudo o que a humanidade construiu, a partir
das relações sociais como um todo. E como somos seres sociais e sociáveis por toda a vida, é possível
compreender que jamais deixaremos de educar e sermos educados.
Em um determinado período da humanidade, porém, as sociedades começaram a se organizar de forma mais
complexa. A ciência aparece de forma mais contundente, mudando completamente a forma de vermos o mundo,
a partir do período iluminista. E, com as revoluções dos séculos XVII e XVIII, a sociedade começa a se organizar
pela ideia dos Estados-Nação, fazendo com que o capitalismo se consolidasse como forma de produzir a vida,
sobretudo com o advento das revoluções industriais.

E é para se adaptar às novas condições da sociedade industrial que surge a escola da era moderna, como espaço

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E é para se adaptar às novas condições da sociedade industrial que surge a escola da era moderna, como espaço
formal de saber e de transmitir o conhecimento sistematizado e organizado, para garantir à sociedade que as
novas gerações possam ser instrumentalizadas e inseridas nesta nova forma de ser e estar no mundo.
É aqui que se inicia o que conhecemos como “escolarização”. Ou seja, um processo de educação, mas em um
espaço formal, vinculado à uma ideia de sociedade e de desenvolvimento. O saber sai da competência exclusiva
da família e dos espaços culturais, políticos e, principalmente, da alçada da religião, e ganha espaço na mão do
Estado.

VOCÊ QUER VER?


O filósofo e professor Mário Sérgio Cortella comenta, nesta entrevista, as diferenças entre
educação e escolarização, e porque é tão importante compreender estes conceitos que, mesmo
distintos, são complementares: <https://www.youtube.com/watch?v=yzE9pf8W3AI>.

Para se desenvolver, o Estado precisa de força de produção. Para ter força produtiva, as pessoas precisam
aprender. E para que elas aprendam, o Estado apresenta, como uma de suas funções, prover políticas públicas. É
por isso que existem as políticas educacionais. Com esse pressuposto em mente, você entenderá no que
consistem as políticas públicas para a educação a partir do conhecimento de sua trajetória – da formulação à
implantação –, buscando identificar nesse processo suas relações com a sociedade e com o Estado.
Mas afinal: o que são políticas públicas? Como elas se originam? Elas sofrem influências das demandas sociais ou
são apenas um dispositivo político criado pelo Estado? Quais as suas funções sociais?
Para responder, podemos começar pelo dicionário. O vocábulo política respeito à “[...] Arte ou vocação de guiar
ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido, pela influência da opinião pública [...].
Habilidade especial ao relacionar-se com outras pessoas, com o intuito de obter certos resultados anteriormente
planejados [...].” (MICHAELIS, 2019)
Falar de política(s) é falar de formas de regular, de governar, de administrar. Contudo, observe que estamos
buscando compreender o que são políticas públicas – o que nos leva, logo de saída, a pensar essas práticas de
governo direcionadas ao público, ao povo em geral.
Na verdade, se você fizer um levantamento teórico das definições acerca do que são políticas públicas,
certamente encontrará um conjunto de definições bastante diverso, o que, por si só, aponta para a complexidade
do tema e as relações que a temática das políticas públicas estabelece com diferentes perspectivas teóricas
utilizadas em suas análises e operacionalizações.
O fato é que todos nós, querendo ou não, somos afetados pelas políticas públicas. Por mais alheia que uma
pessoa possa estar em relação ao que ocorre em sociedade, as políticas públicas estão permeadas em toda a
organização estatal, e não só naquilo que parece nos afetar mais diretamente.
Ao recorrer à literatura que trabalha com a temática das políticas públicas, a conceituação deste termo foi
atribuída por Janete Maria Lins de Azevedo (1997; 2000), que define políticas públicas como “ação do Estado”.
(AZEVEDO, 1997, p. 23). Nesta perspectiva de compreensão, o foco das análises privilegia as ações estatais
desenvolvidas para atender, regulamentar e administrar as diferentes demandas sociais, via de regra,
compreendidas pelo Estado como problemas públicos a serem controlados.

VOCÊ SABIA?
Que existem dicionários de política? O campo de estudo que envolve os conhecimentos sobre

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Que existem dicionários de política? O campo de estudo que envolve os conhecimentos sobre
“política” é bastante complexo, ambíguo e multifacetado. Além disso, nem sempre os
dicionários de uso comum trazem uma definição específica dos conceitos deste campo de
estudos. Dentre os dicionários específicos da área, um exemplo é o “Dicionário de Política”,
escrito pelos sociólogos Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino e publicado
pela primeira vez em 1983.
A 11ª edição desta obra está disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php
/2938561/mod_resource/content/1/BOBBIO.%20Dicion%C3%A1rio%20de%20pol%C3%
ADtica..pdf>.

Para Secchi (2014, p. 22), existe uma “política pública real quando incorpora a intenção de resolver um problema
público com o conhecimento para resolvê-lo”. Por exemplo: a distribuição de preservativos gratuitos em parceria
com o Sistema Único de Saúde (SUS) com o objetivo de controlar a AIDS, enquanto doença que apontava taxas
crescentes na sociedade brasileira.
As políticas públicas muitas vezes são criadas para solucionar conflitos ocasionados pelas desigualdades sociais,
econômicas e culturais que interferem diretamente na consolidação dos direitos de parte da população
historicamente excluída do acesso aos bens culturais e materiais. Nesse sentido, os movimentos sociais
organizados contribuem para pressionar o Estado a planejar e operacionalizar políticas públicas que atendam às
reivindicações dos povos subalternizados.
O Movimento Negro no Brasil é um dos bons exemplos de como a sociedade organizada pode lutar para que as
políticas públicas estejam em consonância com as demandas de uma população. Não à toa, este movimento teve
papel decisivo para que fosse criada a Lei n. 12.71/12. Também conhecida como Lei das Cotas, ela dispõe sobre o
ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e prevê, no
mínimo, 50% das vagas disponíveis para alunos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, provenientes de
família de baixa renda (BRASIL, 2012).

Figura 1 - Dentre as conquistas dos movimentos sociais estão aquelas voltadas à igualdade racial.
Fonte: Elenabsl, Shutterstock, 2018.

A Lei 12.711 contribuiu para o enfrentamento das desigualdades raciais e econômicas no Brasil ao prever uma
reserva de vagas para estudantes cotistas. Percebe-se, portanto, a relevância das políticas públicas, na medida
em que elas se encontram profundamente ligadas às transformações pelas quais passam as sociedades.
São exatamente os problemas da sociedade em cada contexto histórico que, ao provocarem insatisfação e busca
por melhores condições de vida social, podem se transformar em políticas públicas.

Outro caso importante de destaque é o movimento feminista. Se no início do século XX a luta era por direito a

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Outro caso importante de destaque é o movimento feminista. Se no início do século XX a luta era por direito a
voto, conquistado em 1932, hoje são outras demandas que emergem deste movimento, como a luta por
igualdade salarial, o direito ao aborto seguro e legal, e a luta contra a violência doméstica.

Figura 2 - O movimento feminista e a luta por igualdade de gênero.


Fonte: Shuttershock, 2019.

Assim, pode-se dizer que as políticas públicas se constituem em uma espécie de ponte entre uma situação real
concreta, que requer determinadas soluções, a uma situação ideal na qual a problemática apontada esteja
satisfatoriamente resolvida.

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Figura 3 - Representação do movimento das políticas públicas desde a identificação da problemática social à
efetividade das ações.
Fonte: Elaborada pela autora, 2019

Porém, as políticas públicas têm finalidades diferentes, de acordo com seu modelo e seu grupo de alcance. Ou
seja, são de tipologias distintas. Também não se pode dizer que elas sigam rigorosamente uma determinada
classificação. Muitas vezes elas são híbridas ou, ainda, se estruturam com as características de mais de um tipo. É
importante que tenhamos conhecimento do que caracteriza cada tipo de política pública, além de objetivos e
metas a serem, por elas, alcançadas.
Nesse sentido, Lowi (1972), ao considerar dois critérios – o impacto da política na sociedade e o espaço onde os
conflitos sociais são negociados –, fez a seguinte classificação das políticas públicas que poderão ser vistas
clicando nos botões a seguir:

Distributivas
São aquelas políticas que destinam bens ou serviços para uma determinada parcela da sociedade, porém com a
utilização dos recursos de toda a sociedade. Este tipo de política pode ser assistencialista, clientelista ou
destinada a assegurar direitos sociais. Exemplos: seguro-desemprego, criação de creches e escolas,
pavimentação de estradas, entre outras.

Redistributivas
São políticas que, assim como as distributivas, são destinadas a parcelas específicas da sociedade. No entanto, os
recursos alocados não são provenientes da sociedade como um todo, mas, sim, de outros grupos específicos.
Exemplos: programa habitacional para pessoas de baixa renda, reforma agrária.

Regulatórias
São políticas que regulam comportamentos e condutas sociais. São as mais fáceis de ser identificadas, posto que
as encontramos com bastante frequência em nossos cotidianos. Elas traçam limites entre o que pode e o que não
pode ser feito e especificam as condições. Elas se apresentam sob a forma de decretos, portarias e
normatizações. Exemplos: leis de trânsito, legislação trabalhista, Código Florestal.

Constitutivas
Essas políticas são também chamadas de constitucionais ou estruturadoras, na medida em que são elas que
estipulam as condições formais para as demais políticas. São políticas balizadoras dos marcos legais a serem
respeitados por todos os outros tipos de políticas. Exemplo: Constituição Federal, Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, Código Eleitoral.
Agora que você já sabe o que são políticas públicas, seus diferentes tipos e funções, conhecerá a trajetória das
políticas desde a formulação do texto legal à consolidação das políticas educacionais.

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1.1.1 Da formulação do texto legal à consolidação da política educacional

Obviamente, não é possível compreender os movimentos traçados pelas políticas públicas sem considerarmos as
sociedades que temos e, em especial, a sociedade em que vivemos. Sociedade esta que não é neutra, não é
igualitária, não é culturalmente homogênea. Ao contrário, é pluricultural e multirracial, com severas
desigualdades econômicas e que, ainda, é atravessada pelos efeitos da globalização mundial, que impõe novos
elementos a serem considerados nas relações entre Estado e Sociedade.
Não se trata, por certo, de diminuir o poder do Estado nas relações sociais. Também não se trata de
desconsiderar as desigualdades econômicas que assolam o nosso país. Mas, antes, trata-se da possibilidade de
pensarmos as relações de poder que atravessam as relações sociais a partir de outra configuração do poder e de
seus exercícios sobre a sociedade.
Nesse sentido, o sociólogo inglês Stephen Ball, em trabalho de pesquisa com a parceria de Richard Bowe, propõe
uma nova abordagem conceitual que em muito contribui para que possamos compreender e analisar os
movimentos das políticas públicas para a educação. Este autor, que contou com a colaboração de outros
investigadores britânicos do campo das políticas (BALL; BOWE, 1992), teve suas obras difundidas no Brasil
especialmente pelas traduções, entrevistas e trabalhos de pesquisa do professor da Universidade Estadual de
Ponta Grossa (UEPG) Jefferson Mainardes (2006).
As contribuições dos estudos desenvolvidos por Stephen Ball tornam-se particularmente relevantes para a
realidade brasileira na medida em que, até hoje, ainda contamos com poucos estudiosos brasileiros que se
dedicam a discutir e elaborar referenciais teóricos e analíticos que contribuam para o avanço da nossa
compreensão sobre o percurso das políticas públicas educacionais.
Mas o que propõem os estudos de Stephen Ball (2001)?
A proposta é analisar as políticas educacionais a partir da perspectiva analítica denominada por Ball e Bowe
(1992, apud MAINARDES, 2006, p. 48) de “abordagem do ciclo de políticas” (policycycle approach, em inglês).
E do que se trata essa abordagem? Inicialmente, conforme propõe Ball (2001, p. 41) a partir de suas pesquisas,
podemos compreender o ciclo de políticas a partir de três arenas políticas vistas clicando nos botões a seguir:

• Política proposta
Se refere à política oficial e envolve não apenas as intencionalidades do governo, mas, também, os
setores interessados no campo da educação no qual a política vai intervir. Aqui, inclui-se assessores,
escolas, lobistas, burocratas, enfim, todos aqueles que estariam encarregados de implementar a política.

• Política de fato
Conforme Ball e Bowe (1992), a arena constituída pela política de fato é formada pelos textos políticos e
textos legislativos que, na verdade, servem como balizadores políticos para que a política possa ser
colocada em prática. São os textos que apontam o que pode ser feito, em quais condições e para quais
finalidades.

• Política em uso
É o termo usado para referir-se aos discursos e às ações institucionais que ocorrem no processo em que,
de fato, as políticas serão implementadas, ou seja, colocadas em prática.

Posteriormente, Ball e Bowe (1992) fazem uma reflexão crítica sobre o modelo que haviam proposto como
referencial para análise das políticas educacionais. Dessa forma, identificam que se fazia necessário retirar a
fixidez presente no esquema analítico que haviam proposto, na medida em que essas três arenas – política
proposta, política de fato e política em uso – não apresentavam relações entre si.
Observe a ilustração a seguir.

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Figura 4 - Trajetória das políticas em uma perspectiva piramidal e verticalizada.
Fonte: Elaborada pela autora, 2019.

Vê-se, portanto, que, neste primeiro momento, as arenas que constituem a trajetória das políticas públicas
educacionais não se relacionam entre si. Mostram-se estáticas, lineares e se apresentam como se funcionassem
em etapas. Isso porque, para estes autores, os sujeitos que atuam na prática interferem na arena de formulação
das políticas. Por consequência, Ball e Bowe (1992) rejeitam qualquer modelo de análise política que separe as
dimensões entre o planejamento e a prática das políticas.
Na leitura de Mainardes (2006, p.50): “Os autores indicam que o foco da análise de políticas deveria incidir sobre
a formação do discurso da política e sobre a interpretação ativa que os profissionais que atuam no contexto da
prática fazem para relacionar os textos da política à prática.” Dito de outra forma, na análise das políticas é
preciso considerar as práticas de resistências, de negociações, de interpretações que as pessoas que atuam na
prática, no chão das escolas, fazem dos textos legais que a elas são dirigidos.
Nesse sentido, Ball e Bowe (1992) vão propor um ciclo contínuo formado por três dimensões inter-relacionadas:
contexto de influência, contexto da produção de texto e contexto da prática.
Observe a figura a seguir e veja que, quando comparada com a imagem anterior, as análises das políticas
públicas ganham outra compreensão. Agora, todos os contextos, ainda que mantenham suas singularidades,
possuem zonas de inter-relações entre si.

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Figura 5 - Ciclo de Políticas proposto por Ball e Bowe (1992).
Fonte: Elaborada pela autora, 2019.

Dessa forma, é possível compreender que as políticas públicas para a educação não acontecem de forma
verticalizada, estática e linear. Ao contrário, obedecem a fluxos contínuos que abarcam os contextos da influência
nos quais as políticas são planejadas; o contexto da produção do texto em que as políticas são formalizadas; o
contexto da prática no qual as políticas são recriadas, e não simplesmente implantadas.
Assim, você já está apto para analisar as políticas educacionais que regem o seu cotidiano como estudante, como
professor/a ou como pessoa interessada no campo das políticas educacionais.

1.2 Estrutura e organização da educação brasileira


Para começar, é importante que você saiba que a estrutura e o funcionamento da educação brasileira seguem
dois marcos legais.
Um desses marcos é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) – Lei n. 9.394/1996 – que, por
sua vez, obedece aos princípios constitucionais presentes na nossa Carta Magna: a Constituição Federal de 1988
(BRASIL, 1996; 1988).
Fruto de um intenso debate, a LDBEN de 1996 é a primeira grande legislação educacional pós-Ditadura Militar
no país. Porém não é a primeira. As duas LDB’s anteriores são de momentos políticos bem distintos de nosso
país. A primeira é de 1961, do governo do então presidente João Goulart (1961-1964) A segunda LDB é de 1971,
no auge da Ditadura Cívico-Militar brasileira (1964-1985) – ironicamente, a mesma ditadura que destituiu o
presidente João Goulart com o golpe civil-militar de 1964.

VOCÊ QUER VER?


Um dos momentos mais marcantes da história política brasileira é o do chamado “Movimento
pela Legalidade”, ocorrido em 1961, após a renúncia do então presidente Jânio Quadros.

Liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, o movimento lutou para

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Liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, o movimento lutou para
que a constituição da época fosse cumprida e o seu vice, João Goulart, assumisse a presidência
da república. O filme brasileiro Legalidade (Zeca Brito, 2019) retrata esse importante processo
da nossa história.

Algumas leis importantes:


Lei n. 4.024/61
Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. (BRASIL, 1961).
Lei n. 5.540/1968
Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá
outras providências (BRASIL, 1968).
Lei n. 5.692/1971
o o
Fixa diretrizes e bases para o Ensino de 1 e 2 graus, e dá outras providências (BRASIL, 1971).
Decorridos dez anos da promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL,
1961), o governo do Regime Militar (1964-1985), buscando organizar a educação brasileira em sintonia com a
ordem social e econômica vigente no período ditatorial, cria uma nova lei com o objetivo de ajustar a LDBEN
existente.
Em termos de Ensino Superior, as mudanças foram feitas por meio da Lei n. 5.540/1968, também chamada de
Lei da Reforma Universitária (BRASIL, 1968). E em 1971, para adaptar o então Ensino Primário e o Ensino Médio
à nova ordem econômica brasileira, a Lei n. 5.692/1971 alterou estes níveis, que passaram a ser denominados de
Ensino de 1o e de 1o Graus, respectivamente. Esta lei determinou um novo quadro organizativo para o ensino
nacional, conforme observamos no quadro a seguir.

Quadro 1 - Síntese da estrutura e organização da educação brasileira na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional segundo a Lei no 5.692/1971.
Fonte: Elaborado pela autora, 2019, baseada em BRASIL, 1971.

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A legislação educacional da Ditadura Militar, instaurada no Brasil em 1964, se estendeu até o início da então
chamada transição democrática, ou seja, o período que transitou do fim da ditadura ao início de um regime
político democrático. Importante saber que, de acordo com a literatura educacional, compreende-se, como
Ditadura Militar, o período em que o governo esteve sob o controle do regime militar (1964-1985). Chama-se de
período de redemocratização da sociedade brasileira o período de transição ocorrido entre o fim do regime
militar e a instauração do regime democrático, que teve como marco histórico e político a aprovação da
Constituição Federal de 1988.

VOCÊ QUER VER?


O período histórico marcado pela mudança do regime político que antecedeu a Ditadura
Militar, consolidada como forma de governo durante 21 anos, constitui-se em um momento
social, político e econômico que explicita as transformações ocorridas na sociedade brasileira
em todas as suas dimensões. Nesse sentido, Cabra marcado para morrer (1984) – importante
documentário com roteiro e direção de Eduardo Coutinho – possibilita que você acompanhe
esses cenários e suas implicações.

Assim, no período da chamada redemocratização nacional, que teve como marco de consolidação democrática a
Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988, cresceu a pressão por
parte de diferentes segmentos sociais que reivindicavam maior participação popular nas tomadas de decisões no
país. Foi a partir da necessidade de uma mudança estrutural na educação brasileira, em consonância com as
mudanças políticas do país, que a atual LDB foi promulgada em 20 de dezembro de 1996.
A Lei n. 9.394/1996 é a terceira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e está vigente até os dias de
hoje. Com ela, garantiu-se a educação pública gratuita e universal e um percentual mínimo para investimento
público em educação por parte das diferentes esferas administrativas (federal, estadual e municipal).
Determinou-se, também, a duração do ano letivo em 200 dias e 800 horas, além de um currículo mínimo comum
para o ensino fundamental. Veremos mais sobre a LDB a seguir.

1.2.1 Sistemas e modalidades de ensino

Inicialmente, é importante você ter clareza do que são sistemas e modalidades de ensino. Provavelmente já
ouviu – e até mesmo já utilizou – algumas expressões como: o sistema municipal de ensino da minha cidade
decretou ponto facultativo em homenagem ao dia dos professores; o sistema estadual de educação fez uma
reforma curricular no âmbito do Ensino Médio; o sistema público de saúde é precário; eu prefiro o sistema
público de educação ao sistema privado; vivemos em um sistema capitalista, entre outras.
De acordo com Saviani (1999), a utilização da palavra “sistema” somente seria adequada ao referir-se à
educação, ou seja, sistema educacional. Acompanhe:

Quando o homem sente a necessidade de intervir nesse fenômeno [educação] e erigi-lo em sistema,
então ele explicita sua concepção de educação enunciando os valores que a orientam e as finalidades
que preconiza, sobre cuja base se definem os critérios de ordenação dos elementos que integram o
processo educativo. E surgem as distinções: ensino [como transmissão de conhecimentos e
habilidades], escolas [como locais especialmente preparados para as atividades educativas],
articulação vertical e horizontal [graus e ramos] etc. (SAVIANI, 1999, p. 120).

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articulação vertical e horizontal [graus e ramos] etc. (SAVIANI, 1999, p. 120).

Saviani (1999) argumenta ainda que, na modernidade, o Estado é quem tem legitimidade para criar leis que
estejam a serviço da sociedade; por efeito, só faria sentido falar em sistema na esfera pública. Segundo o autor:
“Por isso as escolas particulares integram o sistema quando fazem parte do sistema público de ensino,
subordinando-se, em consequência, às normas comuns que lhes são próprias. Assim, é só por analogia que se
pode falar em ‘sistema particular de ensino’”. (SAVIANI, 1999, p. 21, grifos do autor)
Agora que você já compreendeu melhor a noção de sistema, sua provável emergência nas legislações e suas
recorrentes utilizações nos discursos educacionais, conhecerá, de forma específica, os sistemas de ensino na
estrutura educacional brasileira ou, concordando com Saviani (1999), as redes de ensino que compõem o
sistema educacional brasileiro.
De acordo com a LDBEN, a educação escolar compreende: educação básica e educação superior. Por sua vez, a
educação básica é formada pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio (BRASIL, 1996).
Voltaremos já a este assunto.
Observe a representação a seguir.

Figura 6 - Níveis e modalidades da educação de acordo com a Lei no 9.394/1996.


Fonte: Elaborada pela autora, 2019, baseada em BRASIL, 1996.

E como ficam as modalidades de ensino? De acordo, com a LDBEN a Educação a Distância, a Educação Especial,
Educação Profissional e a Educação de Jovens e Adultos devem ser trabalhadas de forma transversal aos níveis
da Educação Básica, respeitando suas singularidades (BRASIL, 1996). Ou seja, as modalidades de educação,
embora não estejam entre os níveis de ensino, atravessam toda a educação básica. Sua aplicabilidade dependerá
das demandas educacionais.
Observe o exemplo no caso a seguir.

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CASO
Mariana, comerciária de 35 anos de idade, havia concluído o Ensino Médio antes de casar e ter
seus três filhos. Por necessidade de melhorar seu desempenho no trabalho e galgar postos
maiores na empresa em que trabalha, pensou em fazer um curso superior em Ciências
Contábeis. Conversou com a família e com os colegas de trabalho, ficando animada com a
possibilidade de progredir nos estudos e qualificar-se profissionalmente.
Mariana buscou saber quais seriam suas chances de alcançar seu objetivo. Para tanto, foi à
Secretaria Estadual de Educação de sua cidade e pediu orientações aos profissionais que lá
estavam. Perguntou: será que tenho alguma chance de fazer a graduação que tanto quero? Já
possuo o Ensino Médio completo, mas aqui não há universidades ou faculdades onde eu possa
cursar. E agora? O que devo fazer?
Diante disso, as professoras lhe orientaram informando que existem muitos cursos na
modalidade Educação a Distância, ofertados por diversas instituições credenciadas pelo
Ministério da Educação (MEC), as quais garantem graduações qualificadas.
Mariana ficou feliz e agradeceu pelas orientações e pelas indicações de instituições
credenciadas pelo MEC com cursos de Ciências Contábeis pela Educação a Distância,
modalidade prevista pela Lei n. 9.394/1996 (BRASIL, 1996).

Agora que você já conhece os sistemas de ensino, vale chamar a atenção para a seguinte assertiva: lembra-se que
a LDBEN preconiza que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios devem trabalhar seus sistemas de
ensino em Regime de Colaboração? A seguir, você entenderá o que são práticas colaborativas.

1.2.2 Regime de Colaboração

Um dos temas recorrentes na LDBEN e em outros dispositivos legais que normatizam a educação brasileira diz
respeito ao Regime de Colaboração, enquanto princípio constitucional capaz de promover práticas colaborativas
entre os entes federados (União, estados, Distrito Federal, municípios), possibilitando que a educação
institucionalizada, por meio desse regime, contribua decisivamente para a superação das históricas
desigualdades sociais, respeitando as diversidades regionais.
É importante você saber que o desejo brasileiro em consolidar um Sistema Nacional Articulado de Educação,
observando-se os princípios fundamentais da democracia e da autonomia, não é recente. Se você acessar o
Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, vai identificar as reivindicações dos educadores, signatários
do Manifesto, em prol de um Sistema Nacional de Educação. É certo que, no percurso de quase um século,
conquistas importantes foram obtidas, mas o Brasil ainda não conseguiu consolidar um Sistema Nacional de
Educação.

VOCÊ QUER LER?


O “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” – documento escrito por 26 importantes
intelectuais brasileiros dos anos 1930 – apresenta para a sociedade, em 1932, propostas de
inovação pedagógica e a defesa da democratização do acesso aos sistemas públicos de ensino.
Disponível em: <http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf>.

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Estas dificuldades podem ser pensadas pela tensão existente entre os movimentos de centralização e
descentralização e a forma de colaboração ou relacionamento entre a União e os demais entes federados. Nesse
sentido, a Carta Magna de 1988 redesenhou a organização educacional presente na Constituição de 1946,
estruturada pelos sistemas federais e estaduais de ensino, ao atribuir aos municípios a prerrogativa de
construírem seus sistemas de ensino sem que haja necessidade, inclusive, da aprovação dos estados. No entanto,
a consolidação desse tripé político-administrativo, na perspectiva da gestão democrática, passa pela
possibilidade de que se efetive de forma plena a colaboração recíproca entre os entes federados.

Figura 7 - A educação democrática e inclusiva proporciona aos alunos o acesso às novas tecnologias de
informação e comunicação.
Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2018.

Nesta direção, pode-se dizer que o processo de discussão sobre o Regime de Colaboração tem centrado seus
esforços na busca por encontrar formas que garantam sua efetividade, a partir da articulação de práticas
colaborativas, materializadas por relações de reciprocidade entre as três esferas da administração pública, como
modo de acelerar a inclusão social de todos por meio do protagonismo do setor educacional.
Dessa maneira, temos um grande desafio pela frente se quisermos, por um lado, respeitar as diversidades
regionais, suas culturas e tradições e, por outro, promover uma educação nacional que assegure a igualdade de
acesso aos conhecimentos científicos para todas as regiões brasileiras, através de uma educação com qualidade
socialmente referendada.

1.3 O direito à educação: um percurso nas Constituições


brasileiras
Neste tópico, vamos percorrer a trajetória das Constituições brasileiras com o objetivo de identificar como a
educação encontrava-se colocada nas nossas primeiras Cartas Magnas. Você perceberá como a educação, hoje
um direito fundamental que se inclui entre os direitos sociais previstos na Constituição de 1988, fez seu percurso
nas Constituições anteriores.

Para tal, você acompanhará esta trajetória a partir de uma linha do tempo que terá seu início na Constituição de

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Para tal, você acompanhará esta trajetória a partir de uma linha do tempo que terá seu início na Constituição de
1824, chegando até a Constituição de 1967. Trataremos a nossa Constituição atual – Carta Magna de 1988 – em
um tópico especialmente destinado à nossa Lei Maior.

1.3.1 Da Constituição de 1824 à Constituição de 1967

Você sabia que, anteriormente à Constituição de 1988, o Brasil teve seis outras Constituições? Clique nos ícones
a seguir e veja cada uma delas.

Constituição de 1824
Constituição de 1891
Constituição de 1934
Constituição de 1937
Constituição de 1946
Constituição de 1967

Estas constituições retratam um percurso histórico importante do Brasil, pois elas datam de períodos distintos
do nosso país: desde o Império, passando pelo princípio da república, os períodos ditatoriais, chegando até a
Constituição vigente, de 1988.
Vamos acompanhar o percurso da educação como um direito que se vincula ao princípio da dignidade da pessoa
humana e se constitui como fundamento do Estado Brasileiro?
Acesse a galeria de arte interativa e visite os quadros sobre a história das Cartas Magnas do país, de 1824 até a
atual, de 1988.
Agora que você visitou a galeria de arte das constituições, vamos retomar pontos importantes.
Nossa primeira Carta Maior é a Constituição de 1824, que garantiu o ensino primário a todos os cidadãos
brasileiros. Atribuiu que sua realização ocorresse preferencialmente pelas famílias e pela igreja, bem como a
criação de colégios e universidades para o ensino de Ciências, Artes e Letras. De acordo com a análise de Anísio
Teixeira (1969), podemos afirmar que na Constituição de 1824 não havia, enquanto poder constitucional,
atribuições claras das competências sobre o direito à educação. Por meio de legislação ordinária, a educação foi
descentralizada, mas apenas o ensino superior foi privilegiado em detrimento dos demais níveis de ensino.

VOCÊ O CONHECE?
Anísio Teixeira é um dos principais pensadores brasileiros. Intelectual orgânico e
comprometido com as questões sociais e políticas contemporâneas à sua época, Anísio fez
parte de movimentos políticos voltados à consolidação da educação pública, gratuita e
obrigatória. Foi também um dos educadores que mais questionou as formas pelas quais as
redes de escolas se estruturavam e se organizavam em relação ao ensino. Defensor da
necessidade de formar professores articulados com as práticas escolares, Anísio Teixeira
deixou-nos um importante legado para o campo da educação brasileira. Para conhecer sua
biografia e sua obra, acesse o endereço: <https://www.ebiografia.com/anisio_teixeira/>.

A Constituição de 1891 foi a nossa segunda Carta Magna. Nela, o direito à educação encontra-se presente em

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A Constituição de 1891 foi a nossa segunda Carta Magna. Nela, o direito à educação encontra-se presente em
dois de seus artigos: 35 e 72. Uma das modificações que se identifica diz respeito à descentralização das
atividades de ensino na União e nos Estados. A Lei Maior estabelece ser do Congresso a competência do
desenvolvimento das letras, artes e ciências. Estabelecem o ensino laico ministrado em instituições oficiais.
Identifica-se na Constituição de 1934 avanços significativos para a consolidação de uma educação pública com
qualidade, posto que disciplinou a previsão de recursos orçamentários para os estabelecimentos públicos de
ensino e, inclusive, para pessoas pertencentes às classes economicamente desfavorecidas e com dificuldades de
acesso ao ensino, incluindo as instituições públicas.
Decorridos três anos, outra Lei Maior é promulgada: Constituição de 1937. Também chamada de Constituição
do Estado Novo (1937-1945), retira o caráter democrático e inclusivo prescrito na Constituição de 1934.
Estabelece distinções entre as escolas para as elites e as escolas para as classes trabalhadoras. Manteve a
gratuidade do ensino primário e tornou obrigatório a educação física, o ensino cívico e os trabalhos manuais nos
currículos escolares. Tornou facultativo o ensino religioso.
A Constituição de 1946 pode ser entendida como resultado de um cenário nacional e internacional que
caracterizou o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No Brasil, os anos de 1946 e de 1947 foram
marcados por muitos conflitos sociais resultantes de reivindicações trabalhistas. Em termos de educação, esta
Carta Magna tende a recuperar a gratuidade do ensino tal como havia sido prescrita na Constituição de 1934. No
entanto, a gratuidade no ensino perdeu seu caráter mais amplo e passou a ser restrita apenas para as pessoas
que comprovassem baixa renda.
A quinta foi a Constituição de 1967. Esta Carta Magna contribuiu para disciplinar os princípios da educação e
da legislação de ensino. Conforme o Art. 176, “A educação, inspirada no princípio da unidade nacional e nos
ideais de liberdade e solidariedade humana, é direito de todos e dever do Estado, e será dada no lar e na escola”
(BRASIL, 1967). Retirou o caráter amplo de gratuidade ao ensino na medida em que propôs meios de substituir a
gratuidade do ensino por distribuição de bolsas de estudos atreladas ao bom desempenho dos estudantes.
A Emenda Constitucional n. 1, de 17 de outubro de 1969, que resulta do Estado de Exceção provocado pelo Golpe
Militar de 1964, altera de forma severa a Constituição de 1967. Entre as medidas da EC-1, a “liberdade de
cátedra” que assegurava a pluralidade de ideias e de concepções político-pedagógicas, no exercício do
magistério, foi substituída pela “liberdade de comunicação de conhecimentos”, ou seja, controlou a liberdade de
expressão ao campo dos conhecimentos científicos que compõem os currículos escolares. O regime político
ditatorial vivido pelo país, neste período, ao fazer esta mudança no texto constitucional, acabou por tornar legal
o controle e a censura do que podia ser dito nas salas de aulas. Em outras palavras, censurou os discursos nas
instituições escolares e acadêmicas.

Figura 8 - A censura da liberdade de expressão foi imposta pela Emenda Constitucional n. 1, de 17 de outubro de

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Figura 8 - A censura da liberdade de expressão foi imposta pela Emenda Constitucional n. 1, de 17 de outubro de
1969.
Fonte: AR Images, Shutterstock, 2018.

Como você pôde constatar, a trajetória do direito à educação nos textos constitucionais apresentados até aqui
mostram com clareza que a educação, por um lado, sempre foi objeto de disciplinamento nas Constituições
Brasileiras. Por outro lado, no entanto, identifica-se que a educação enquanto direito fundamental sofreu
avanços e retrocessos, especialmente quando analisadas como um direito para todos, independentemente de
credos, classes econômicas, etnias, raças e culturas.

1.4 A Constituição Federal de 1988: texto e contexto


A Constituição de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, dentre todas é, sem dúvida, aquela que
reconhece os direitos fundamentais de maneira mais ampla e garante seu exercício de forma democrática. Entre
a ampla abertura democrática realizada pela Lei Maior que nos rege, vale destacar o direito de voto para as
pessoas que não sabem ler e escrever e o fim da censura nas diversas formas de comunicação: obras de arte,
literatura, cinema, músicas, meios de comunicação em geral.
Em sessão solene da Assembleia Nacional Constituinte, decorridos mais de 20 anos de regime ditatorial no
Brasil, o constituinte Deputado Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara dos Deputados, fez um discurso
que se tornou histórico.

VOCÊ QUER VER?


Ulysses Guimarães é uma das figuras políticas mais emblemáticas do período brasileiro
compreendido entre a instauração do Regime Militar e o período de democratização. Militante
a favor das causas democráticas, esteve fortemente envolvido com o movimento político das
Diretas Já – manifestação social em prol das eleições diretas a partir do voto popular. O
discurso histórico de Ulysses Guimarães ao declarar promulgada a Constituição de 1988, em 5
de outubro de 1988, foi um marco da consolidação da democracia e em prol dos direitos
humanos. Assista: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=602&v=WFoObTqpzjI>.

1983-1984 – O movimento da sociedade organizada, que ficou conhecido como “Diretas já”, reivindicava
eleições diretas para Presidente da República.

VOCÊ SABIA?
De modo simples, pode-se dizer que o “Diretas Já” foi formado por um conjunto de comícios
realizados nas principais capitais brasileiras. Obteve alcance nacional e mundial por meio da
cobertura da mídia, em especial das redes de TV. Ocorreu entre 1983 e 1984 e, certamente, foi
uma das mais expressivas manifestações populares de reivindicação pela democracia social e
civil.

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1985 – Tancredo Neves, apoiador do movimento de redemocratização brasileira, é conduzido ao cargo de
Presidente da República sem votação popular, sendo eleito pelo Colégio Eleitoral. Ele, que seria o nosso primeiro
presidente civil após o período da Ditadura Militar, não chegou a assumir, pois faleceu às vésperas da posse.
Assume então seu vice, José Sarney, que deu prosseguimento ao processo de redemocratização no Brasil.
1986 – São realizadas eleições diretas para o poder Legislativo, ou seja, Senado e Câmara dos Deputados.

Figura 9 - O processo constituinte, envolvendo diferentes segmentos da sociedade, resultou na promulgação da


Constituição de 1988, que assegurou direitos sociais e civis fundamentais.
Fonte: Bakhtiar Zein, Shutterstock, 2018.

1987 – Os congressistas (deputados e senadores) então eleitos são convocados para formar a Assembleia
Nacional Constituinte com o objetivo de elaborar uma nova Constituição.
1988 – Promulgação da Constituição Cidadã.

1.4.1 Princípios e fins da educação

Os princípios e fins voltados à educação estão colocados nos artigos 205 a 209 da Constituição Federal de 1988.
As prescrições jurídicas que explicitam os fundamentos sob os quais a educação brasileira deve se pautar, bem
como suas finalidades políticas e sociais, garantem o acesso e as condições de permanência dos estudantes nas
diferentes etapas de escolarização. Importa, ainda, frisar que a Constituição Federal inscreve o ensino, em seus
diferentes níveis e modalidades, a partir de uma perspectiva democrática da educação.

VOCÊ QUER LER?


A Constituição de 1988 é uma obra que todo o brasileiro deve ter acesso. Embora possa
parecer uma leitura cansativa, pois trata-se de um conjunto de assertivas jurídicas, ter acesso
às normas legais, que garantem os direitos fundamentais de todo o brasileiro, fazem toda a
diferença para o exercício da cidadania. Mesmo que você não se disponha a fazer uma leitura
de toda a Constituição, vale conferir seus principais preceitos legais e vale também exigir que
seus direitos sejam efetivados na sociedade. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br
/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>.

Como você deve reconhecer, as desigualdades econômicas que historicamente marcam a sociedade brasileira

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Como você deve reconhecer, as desigualdades econômicas que historicamente marcam a sociedade brasileira
retiraram o direito à educação de um expressivo universo de crianças e jovens que, desde a tenra idade, viram-se
obrigados a evadir das escolas e contribuir com o orçamento familiar. Nesse sentido, a gratuidade do ensino para
todos os níveis da escolarização torna-se uma importante medida legal para a democratização da educação na
perspectiva da educação brasileira. (BRASIL, 1996)
Importante também é a inclusão do atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a 6 anos de idade,
possibilitando que as mães possam permanecer no mercado de trabalho com a garantia de que seus filhos serão
cuidados e educados.
Outro ponto relevante marcado pela Constituição de 1988 é a inclusão de atendimento educacional
especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente em classes regulares. Significativa também foi a
inclusão feita pela Emenda Constitucional n. 11, de 1988, atribuindo às universidades a autonomia em suas três
dimensões constitutivas: didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial. Prevê ainda o
princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. (BRASIL, 1988)
Como você deve estar percebendo, a nossa atual Constituição é, sem dúvidas, entre todas as que já tivemos após
a Independência do Brasil, a mais generosa, inclusiva e democrática. No entanto, como você também deve ter
identificado, mesmo passados mais de 30 anos desde sua promulgação, ainda temos muitos desafios a enfrentar
com vistas à implantação de seus preceitos legais no campo da educação.

Conclusão
Ao concluir este estudo, você conheceu as relações estabelecidas entre Estado e sociedade e suas principais
implicações para a educação, de forma geral, e para as políticas educacionais, de forma específica. Compreendeu
que a atual legislação educacional mantém correlações com as demandas sociais que caracterizam cada período
histórico vivido pela sociedade brasileira. E, ainda, identificou os principais dispositivos legais que regem a
educação nacional e que tem na Constituição de 1988 a sua Lei Magna.
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• compreender o que são políticas públicas e suas funções sociais, políticas e legais;
• conhecer os tipos de políticas existentes e seus impactos na sociedade;
• entender o percurso das políticas educacionais desde sua formulação até sua implantação;
• identificar os movimentos que ocorrem no Ciclo de Políticas;
• perceber a estrutura e organização da educação brasileira prescrita pela Lei de Diretrizes e Bases n.
4.024/1961; na Lei n. 5.692/1971 e na Lei n. 9.394/1996;
• diferenciar sistemas e modalidades de ensino;
• compreender o que é Regime de Colaboração e quais suas principais funções para a educação brasileira;
• acompanhar, nas Constituições brasileiras, o percurso do direito à educação por meio dos textos legais.

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