O ROMANCE DE ROSA

TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL1

José Antonio Pasta Júnior

RESUMO Neste artigo, o autor busca identificar em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, a lógica de base do romance, que responde pelo conjunto de sua estruturação formal, temas, motivos e linguagem, mas que não se reduz um módulo formal estático, meramente reaplicável. Ao contrário, trata-se de um núcleo em contínuo movimento a partir da consciência dividida do narrador, a configurar uma contradição insolúvel, uma espécie de dialética negativa, que não engendra superação ou síntese propriamente ditas. Palavras-chave: Guimarães Rosa; Grande sertão: veredas; literatura brasileira. SUMMARY In this article, the author seeks to identify in Guimarães Rosa's Grande sertão: veredas the novel basis logic, which is responsible for its whole formal structuring, themes, motives and language, but is not reduced to a merely reapplicable formal static module. Rather, it is a core in continuous movement arising from the narrator's divided conscience, so as to take the shape of an insoluble contradiction, a kind of negative dialectic that does not engender overcoming or synthesis proper. Keywords: Guimarães Rosa; Grande sertão: veredas; Brazilian literature.

A bibliografia crítica sobre Guimarães Rosa e, em particular, sobre o Grande sertão: veredas é das mais volumosas da literatura brasileira. Ao lado das obras de maturidade de Machado de Assis e de Os sertões, de Euclides da Cunha — e talvez mais do que eles —, o romance de Rosa tem recebido de seus leitores uma atenção amorosa, particularmente pertinaz, até apaixonada, de que essa massa de estudos é testemunha eloqüente. Mas, também, uma outra espécie de quantidade parece distinguir a sua leitura, que apresenta em grau exponencial certas peculiaridades de recepção já verificáveis para outras obras literárias brasileiras anteriores. O professor de literatura brasileira poderá facilmente constatar que, ao menos em solo pátrio, às vezes é mesmo difícil discuti-lo criticamente com seus alunos — o gesto de relativização que implica toda crítica sendo então ressentido como um atentado à integridade do que não se pode tocar. Quase se poderia dizer — uma profanação. Tudo se passa como se, por sua constituição mesma e pelo pacto que firma com seu leitor, esse livro NOVEMBRO DE 1999 61

(1) Com pequenas modificações, este texto é o mesmo que foi publicado no nº 4 dos Cahiers du Crepal (Centre de Recherche sur les Pays Lusophones). Paris: Presses de la Sorbonne Nouvelle, 1997. Trata-se da súmula de uma conferência pronunciada nessa universidade, a convite da professora Jacqueline Penjon. Por isso, guarda ainda alguns aspectos característicos da exposição realizada para público estrangeiro. Seus temas fazem parte de um trabalho mais amplo, em desenvolvimento.

Essa esquisita singularidade. Enigma e mistério. não se trata aí de u m a mistura entre outras. para dizer o mínimo. e um s e g u n d o q u e s u p õ e a indistinção de ambos.° 55 . a acrescentar à extensa lista de hibridismos. tornam-se ao m e s m o t e m p o fluidos e indecidíveis. Sem dúvida. o "contrato de leitura" — q u e preserva a distinção das partes em jogo m e s m o no mais aceso dos processos identificatórios — duplica-se no caráter fusional do pacto — q u e por definição s u p õ e um comprometimento importante dos limites subjetivos. esse núcleo escondido da obra parece esperar q u e a crítica. só c o n h e c e m o mito e o rito. Não há um só nível de sentido no Grande sertão q u e não responda a essa fórmula de base. determina a lógica de base do livro e r e s p o n d e pelo conjunto de sua estruturação formal. o m e s m o e o outro. n ã o é raro ver-se. pode-se t a m b é m dizer que. C o m o se sabe. O Grande sertão: veredas parece pedir ambas as coisas e. de m o d o m e n o s ou mais sutil. objeto de contrato e de pacto. m e n o s um acidente da recepção ou m e r o jogo de categorias críticas: nela se manifesta de maneira decisiva o m o d o de ser mais íntimo da obra — de q u e tudo mais d e p e n d e — e q u e p e r m a n e c e ainda oculto e resguardado. no limite. dando-se no nível fundamental da própria relação sujeito-objeto. terá de lê-lo ao mesmo tempo com o isolamento e a distância q u e s u p õ e o romance m o d e r n o e com o fusionamento e a participação que. Vistas as coisas p e l o ângulo dos gêneros e das formas literárias. mas do princípio m e s m o de hibridização que. Por isso. processo e rito. diante dele. o m e s m o e o outro. obscuramente intuído. muito da poderosa impressão q u e faz o livro vem dessa cerrada coerência interna — quase milagrosa em meio a materiais tão heteróclitos — e da lógica implacável c o m q u e ele 62 NOVOS ESTUDOS N. p o d e se dizer que. enigmas p e d e m decifração. Tangenciado. ou a matriz de todas as misturas: a vigência simultânea de dois regimes da relação sujeito-objeto — um q u e s u p õ e a distinção entre sujeito e objeto ou. individuação romanesca efusionamento mítico. q u e constitui assim o d e s e n h o interno de cada um de seus temas e motivos. o ofício do crítico converter-se na celebração do oficiante — os elementos de objetivação e de distância. mágico-religiosa. do mistério. próprios do discurso crítico. regressão e esclarecimento — tudo nos infinitos hibridismos do romance de Rosa parece apontar para a mistura das misturas. renunciando ao seu enleio nessa duplicidade hipnótica. venha a fazer face à aporia em q u e a coloca o romance de Rosa. no qual os limites entre o sujeito e o objeto. desdobrando-se em um rito de c o m u n h ã o c o m a obra. assim c o m o tantas outras obras capitais da literatura brasileira — o dilema insolúvel de sucumbir a um encantamento e ao m e s m o t e m p o denunciá-lo. salvo interpretação imediatamente mística ou assemelhada.O ROMANCE DE ROSA — TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL transcendesse a categoria estético-literária do enigma. para tender àquela. se se quiser. subtraído na sua própria prestidigitação. tanto quanto das figuras q u e assumem e da linguagem em q u e se investem. q u e no entanto também é a sua. q u e m quiser de fato ler o Grande sertão guardando fidelidade à d e m a n d a do livro. no seu caso. É o caso de insistir que. mistérios admitem unicamente culto e celebração. é tudo.

8ª ed. na interrogação do cosmo. mas q u e n ã o conhece superação ou síntese propriamente ditas. em primeira pessoa. mas seu leitmotiv poderia ser: "Eu era dois. tocamos em algo de essencial para o livro: essa junção inextricável. embora precocemente e para desenvolver adiante. de metamorfose contínua e pura repetição. ela se mexe incessantemente sem. para a fórmula de base q u e aqui se trata de identificar. indica. Riobaldo trata de c o m p r e e n d e r — d e b a l d e — c o m o coisas. Assume. conduzido aqui à sua expressão lógica mínima. pela sua própria natureza. Melhor do q u e vê-lo em termos puramente lógicos — o que de resto é simples — é observá-lo na própria consciência do narrador. NOVEMBRO DE 1999 63 . Agitada internamente por u m a movência interminável ou movimento pendular contínuo. de um pólo a seu oposto. se altera continuamente. Ao contrário. naquele tempo eu não sabia" 2 . Mas trata-se ainda de c o m p r e e n d e r c o m o a nossa fórmula guarda tais virtualidades. isso lhe proporcione a acumulação de experiência q u e finalmente lhe permita explicá-lo. sem que. a u m a série incessante e m e s m o dramática de mutações. J. do m e s m o e do outro. membro de fratria ou clã de outro. p. é q u e Riobaldo estava c o n d e n a d o pela contradição de base q u e o constitui. pessoas p o d e m passar bruscamente de um m o d o de ser a outro. o m o d o pelo qual a simultânea distinção e indistinção de sujeito e objeto. principalmente. engendra formas. assim. (3) Ibidem. para imediatamente acrescentar: "O q u e não entendo hoje. a configuração de u m a espécie de dialética negativa. q u e a contradição faz bascular sem parada. h o m e m de lei e de mando. Em primeira instância. onde. trata-se de um núcleo de movência contínua. letrado e iletrado — m o d e r n o e arcaico —. no presente da narração — n e n h u m a superação —. o m e s m o dilema se p õ e e r e p õ e inteiro. irredutível: c o m o o m e s m o p o d e ser outro? Na observação da natureza. na d e m a n d a religiosa mas. plantas. Os exemplos seriam inúmeros. ou melhor. de contrato e de pacto. em um mesmo princípio. Neste ponto. a metamorfose e a imutabilidade. incapaz de produzir a diferença ou de encaminhar a transformação. q u e não entendi" 3 . a obra presumivelmente joga o lance de sua unificação infinitamente problemática. no entanto. esse motor paradoxal é. na observação de si mesmo. livre e d e p e n d e n t e . Ele.JOSÉ ANTONIO PASTA JÚNIOR desdobra em todos os planos um m e s m o princípio organizador. de um lado. n ã o se reduz todavia a um módulo formal estático. Riobaldo se dá como consciência dividida — ou c o m o q u e m experimenta "as divisões do ser". diversos?" — conforme pergunta ele. Rio de Janeiro: José Olympio. No passado do narrador. No entanto. m e r a m e n t e reaplicável e n q u a n t o tal. Como tantos outros heróis brasileiros. p. 369. i m p õ e a um t e m p o a mutação contínua e a repetição do m e s m o . no entanto. Q u e ele possua uma tal multiformidade já permite começar a ver q u e esse princípio. sair jamais do lugar. investe-se perpetuamente em novas figuras — porém se repõe inalterado em cada u m a delas. "Conto minha vida. Guimarães. o movimento e a parada. Como q u e obrigado à mutação ou à metamorfose contínua. Indivíduo isolado. o estatuto da contradição insolúvel. Grande sertão: veredas. no entanto. ele t a m b é m muda. de movência obrigatória e fixidez inamovível. s e g u n d o a expressão de um crítico. (2) Rosa. assim. q u e obriga. a responder continuamente q u e o m e s m o é o outro. ou seja. 370. 1972.

de um bando a outro. o da má infinidade. ele vem a ser no e pelo movimento mesmo em que deixa de ser: ele se forma suprimindo-se. à sua maneira. vai do detalhe às grandes linhas da composição. isto é.TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL como pode a sua consciência obedecer simultaneamente aos regimes antagônicos de constituição do eu que lhe são imperativos — aquele que lhe impõe a distinção do mesmo e do outro e aquele que lhe torna inconcebível essa mesma distinção? A rigor. se se quiser. Assim é que a simultaneidade da distinção e indistinção de sujeito e objeto. . Na medida em que Riobaldo se constitui como mutação contínua. um seu outro e o mesmo. tal como se exprime já no nome mesmo da personagem — o Riobaldo. Como tantas obras centrais da literatura brasileira — e de um modo mais decidido que o delas —. isto é. com as virtualidades que lhe são próprias. algo entre o contratante e o pactário. a do leitor. também ao leitor ele o forma suprimindo-o. constitui o princípio mesmo da consciência narradora — de onde. porém baldado. 64 NOVOS ESTUDOS N. Assim é que ele se "forma" passando no seu outro — ele vem a ser sendo outro —. conforme ele diz. 12. em relação ao leitor. por assim dizer. O Grande sertão. mesmo. "Tudo é e não é"4. em que a mutação incessante das formas é um movimento sem resultado. simultaneamente ele o concebe como alteridade e o suprime enquanto tal. e desemboca onde não poderia deixar de ser: no leitor. Todavia. de um sexo a outro — replicação de reversibilidades que constitui a matriz de sua pergunta necessariamente obsessiva e necessariamente sem resposta. Ora. o Grande sertão estende a lei que é a sua. Todos e cada um dos gestos de Riobaldo. mas comparecem como faces complementares de um mesmo regime — o da formação como supressão ou. fluxo contínuo e mutante. cuja alteridade a obra a um tempo ansiosamente solicita e denega. do mesmo modo que lhe determina a estrutura da recepção — onde a seu modo a obra culmina sem terminar-se. de um caráter a outro e. vêm da experiência dessa fórmula.O ROMANCE DE ROSA . No seu caso. a obra flui —. organiza o livro de ponta a ponta. como narrador e personagem. passando no seu outro. Esse movimento que ao mesmo tempo supõe o lugar do outro e o anula. É esse movimento frustrado da formação supressiva que responde. não é outro movimento. escoando-se como para um ponto de fuga infinito. que encontramos em ação já no começo destas linhas. pelo regime de eterno retorno do mesmo e pelo sentimento da imutabilidade. o ser é o não-ser. é ainda dessa mesma lógica que. só há um modo de fazê-lo: "afirmar" que o outro é o mesmo — o que a um tempo preserva a referida distinção e a abole. de passagem abrupta de um pólo a outro. no livro.° 55 (4) Ibidem. A essa alteridade última e inescapável. pode-se dizer que o Grande sertão. p. emblematicamente. nessa metafísica do mato que as vicissitudes de sua ambivalência o faziam inventar. a única que finalmente conhece: o outro é o mesmo — o que faz desse leitor uma espécie de duplo do narrador. metamorfose incessante e retorno do mesmo não se excluem. de uma convicção a outra. se o mesmo é o outro. o que lhe dá a sua conhecida feição de metamorfose contínua. senão este mesmo da formação supressiva.

Me disseram. não nos e n g a n e m o s quanto à natureza desse processo. ou seja.JOSÉ ANTONIO PASTA JÚNIOR nesse lance último em q u e a obra passa no seu outro indefectível e necessário. pois trata-se aí de um movimento de supressão do leitor — na medida em que a obra se apossa dele — assim c o m o do movimento inverso e necessário — na medida em q u e o leitor. e x p õ e da maneira mais flagrante o segredo da sua má infinidade. suprimindo-a por seu turno. p o r definição. q u e é o seu. em sua oscilação interminável entre pólos opostos. restrito à significação. Se ele comporta. cuja lei é a passagem contínua do m e s m o no outro. por seu turno este o aniquila. No contexto mais rigoroso da obra.c. eu não quis avistar. Mesmo que. em que tantas vezes p r e c o c e m e n t e nos louvamos. pois se o m e s m o suprime o outro apossando-se dele. Siderada metalingüisticamente pelo famoso "Nonada" inicial. Cada passagem do m e s m o no outro é. Conforme acima se disse. o signo do leitor —. Agitadas. abrigando-nos nela contra as dificuldades de explicar a indeterminação. por um movimento interno incessante. Na esplêndida coerência formal q u e é a sua. por assim dizer. pois. u m a dinâmica de luta de morte q u e aciona o p ê n d u l o da má infinidade. o Grande sertão n ã o falha em nos advertir desse fato também já em sua primeira página. encetando um movimento inclusivo q u e tende a apagar os limites entre elas mesmas e o próprio m u n d o exterior. rompidos os limites q u e o constituem. e com máscara de cachorro. os olhos de nem ser — se viu —. ocupando-lhe o lugar. a nossa absorção em um m u n d o híbrido. de absorção ritual de tipo mágico-religioso. ele é regido por uma luta de morte. o leitor. NOVEMBRO DE 1999 65 . que visa a produzir efeitos diretos no m u n d o exterior. d e s c o n h e c e a identidade da obra e se substitui a ela. elas desdobram o ato literário. em ato mágico. No fundo da regra q u e diz — o m e s m o é o outro — é um olhar medusante q u e nos encara. diga-se de passagem. é preciso q u e o ser seja o não-ser. De certo m o d o ele é. mediada apenas pela destruição. a crítica. anunciando-nos. As obras assim configuradas só se definem como tal na sua relação com o leitor. na obra. e desbordam de si mesmas. o nosso signo — isto é. baralhando os limites q u e nos separam dele. o escoar-se indefinido do que não sabe n e m p o d e acabar. na supressão de limites q u e lhe é própria. Todavia. erroso. c o m o se viu. a marca de nossa absorção em um m u n d o q u e simultaneamente nos constitui e nos abole. esquece a máscara gorgônica q u e o romance instala em seu pórtico: Um bezerro branco. mas t a m p o u c o designa apenas a célebre infinitude das interpretações possíveis et. É. ele é a marca mesma da má infinidade q u e constitui o ritmo peculiar de seu t e m p o paradoxal. elas n ã o sabem terminar-se. não p o d e m acabar. em geral. Ainda sob esse aspecto. um traço de encantamento ou sortilégio. Não custa dizê-lo d e s d e já: o signo em q u e o Grande sertão finalmente d e s e m b o c a certamente n ã o está lá por acaso. para que o mesmo seja o outro.

o belo e o feio. O mesmo olhar medusante — que anuncia a mistura das ordens do mesmo e do outro. assim. p. ao fazê-lo. e fez bem. cujo fascínio é sortilégio e morte. o humano e o bestial. a nossa própria morte que nos encara na face misturada de Medusa.. 1988. (6) Vernant. homens. já nos fixa na escritura de encantamento de Alencar. o celeste e o infernal. entre níveis e elementos cósmicos7.° 55 . 101-102.. comporta na composição de seus traços aspectos bem marcados de insólito e estranheza. nas suas aberturas triunfais que cruzam de maneira brusca e quase ingênua a história e o mito. em suma. o de dentro e o de fora [. não nos deveria surpreender. (7) Ibidem. arrebitado de beiços.] — todas as categorias. porque a crer nos antigos avisos do mito. interferem. p. O masculino e o feminino. cara de cão: determinaram — era o demo5.. que fusiona o morto e o vivo. (5) Ibidem.] o que a máscara de Gorgó nos permite ver.. ele se faz solerte na abertura impossível das Memórias póstumas. de um modo que faria corar seus ilustres modelos românticos europeus. 450. todas. 9. Em particular tratando-se do Grande sertão. a máscara de Gorgó. Cara de gente. o jovem e o velho. Riobaldo.. esse mesmo olhar. olhar nos olhos de Medusa é ver-se face a face com o além em sua dimensão de terror [. P. e. o alto e o baixo [. A morte nos olhos. e é dessa mistura entre as ordens do mesmo e do outro que lhe advém tal poder: Ao contrário das figuras divinas e dos rostos humanos. Que muitas obras capitais da literatura brasileira apresentem. questiona a rigorosa distinção entre deuses.O ROMANCE DE ROSA—TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL por defeito como nasceu. Os enquadramentos e classificações habituais parecem baralhados e sincopados. no olho de Gorgó. e encena já de modo completo os 66 NOVOS ESTUDOS N. É. essa espécie de culminância em que confluem e se potenciam várias linhagens centrais de nossa tradição literária. quando exerce sobre nós o seu fascínio. como cabeça isolada.]. pp. "não quis avistar" esse bicho-homem-coisa sobrenatural. essa mesma figura de pórtico.. cada uma a seu modo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. nos prende em uma luta de morte —. esta face mascarada de invisível que. em Machado de Assis. de certa maneira. revela-se a verdade de nosso próprio rosto6. Assim é que esta figura logo se estabelece numa zona do sobrenatural que. cruzam-se e se confundem nessa face. animais. somos nós mesmos no além. muito avisado. esse figurava rindo feito pessoa.

mas se estabelece e evolui c o m base na utilização maciça.. em geral. Guimarães Rosa vai NOVEMBRO DE 1999 67 . naturalmente. Essa contradição de base forma u m a espécie de enigma histórico e sociológico q u e as ciências h u m a n a s permanecem a interrogar. mas evidentemente n ã o cabe desenvolvê-lo aqui. constituem em profundidade o imaginário paradoxal das relações interpessoais e intersubjetivas no Brasil. ainda está longe de acompanhar. sejam as sucessivas modernizações conservadoras. um sadomasoquismo profundo ( q u e Mário de Andrade e Gilberto Freyre foram dos poucos a ousar teorizar). igualmente posta e reposta ao longo de sua história.. c o m olhar de Medusa q u e literalmente nos paralisa a abertura em explosão lutuosa de O Ateneu. De t o d o m o d o . em n e n h u m caso a atualização dessa figura é tão pura q u a n t o em Pompéia. o Brasil já surge na órbita do capital e c o m o empresa dele. p u n g ê n cia tão extrema — c o m o em poucas literaturas se encontra — em conjunção com u m a indiferença q u e t a m b é m raramente encontra igual.. tão desenvolvida q u a n t o em Machado — n e m tão explícita q u a n t o em Guimarães Rosa. Com a agudeza literária q u e era a sua — e retomando em n o v o patamar tantas indicações q u e o precederam —. Ao longo de séculos. ainda. regressivas e parafascistas — encontrariam explicação nesse âmbito. nesse intróito em adormecimento maligno c o m o qual o Dom Casmutro seqüestra a p e r c e p ç ã o do leitor. o Brasil praticou a junção contraditória de formas de relações interpessoais e sociais q u e s u p õ e m a independência ou a autonomia do indivíduo e sua dependência pessoal direta. a contradição e as infinitas complicações q u e derivam do fato de q u e a alteridade — ou a autonomia — do outro seja ao m e s m o t e m p o reconhecida e negada. cujo "segredo" retórico é a ofuscação do leitor pelas "brilhações furiosas" de q u e falou Mário de Andrade. praticamente exclusiva e multissecular. O leitor reconhecerá aí muito do pathos do Grande sertão.. do trabalho escravo. enfim. Estas são. ainda mais insidioso. e no seu núcleo identificará a luta de morte entre o m e s m o e o outro no q u a d r o de relações q u e acima evocamos. Assim. economia para identificar. matéria literária — em especial. o m o d o de p r o d u ç ã o q u e diz respeito à nossa formação histórica. é. n u m a querela q u e prossegue aberta. É ainda o caso para tantas outras obras. doçuras enormes e violência desatada. pressuposta e inconcebível. Com as variações importantes q u e seria preciso avaliar em cada caso. a começar pelas misturas incompreensíveis de encantamento e terror. matéria de romance — e as formas literárias brasileiras n ã o cessam de atualizá-las.JOSÉ ANTONIO PASTA JÚNIOR limites a q u e nos c o n d u z a nossa aporia nacional — mas aponta também. a literatura brasileira n ã o cessa de p ô r e repor as figuras de um hibridismo que constitui u m a espécie de marca de nascença do próprio país. de um m o d o q u e a crítica. história. filosofia. Não p o u c a s de nossas singularidades ou esquisitices literárias — e outras ambivalências nada literárias. Nação colonial e pós-colonial. entre nós. Q u e m a c o m p a n h a o debate brasileiro sabe os trabalhos a q u e se d ã o sociologia. e de um m o d o q u e nunca superaram completamente seja a Independência.

Por isso. ou um aniquilamento. q u e se (8) Rosa. mas c o m o q u e m é vítima de u m a possessão q u e o retira de si mesmo e o substitui por um outro. por seu turno. tratar de suprimi-lo. encarniçados. o conflito sempre renascente. isto é. e projeta-se em lei cósmica e princípio metafísico. com braços e pernas rodejando. conforme se viu. intercambiando-se as posições — no q u e "aquilo rodou. a mistura das ordens do m e s m o e do outro à manifestação do diabo. c o m o q u e m corre. e exige para expressar-se u m a confluência espantosa de gêneros — do jorro lírico à amplitude épica. No r o m a n c e de Rosa. em figura de Górgona. assim. Riobaldo. é propriamente u m a criatura do limite.O ROMANCE DE ROSA — TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL reencontrar no fundo Sertão essa contradição insolúvel e central q u e singulariza o Brasil.° 55 . ele n ã o c o n h e c e superação ou síntese. Movimento imóvel. 450. de investir furiosamente o outro e. e sua súmula. limiares. o outro é da o r d e m da iminência. q u e faz. deste. mas é t a m b é m assim q u e cada u m a dessas mutações é mediada por u m a morte — em q u e ele é suprimido pelo outro e/ou em q u e o suprime. lhe dá p o d e r de vida e de morte sobre o sujeito. fonte de todo g o z o e de certeira aniquilação. mas apenas o entrematar-se dos princípios em oposição e. da dubitatividade romanesca ao conflito dramático. constitui t a m b é m u m a espécie de limiar do além. Muda. dimensão monumental. é preciso q u e o ser seja o não-ser. "travessias" constituem seus "lugares" de eleição: neles se dá a ver q u e o sujeito q u e se forma suprimindo-se. assim. Vivendo de m o d o aparentemente tão afirmativo a sua identidade. É desse m o d o q u e ele m u d a incessantemente. A imagem q u e abre o livro. imediatamente. c o m o indivíduo a u t ô n o m o . a q u e replica com o movimento inverso. isto é. assim. Por isso. op. assim. nas entortações" 8 — é b e m a imagem matriz do livro. n ã o p o d e m e n o s q u e experimentar cada u m a dessas alterações c o m o u m a despossessão de si. q u e m rege o turbilhão das mutações n ã o é deus. de tinturas trágicas. a luta de morte q u e lhe faz o núcleo expande-se d e s d e a consciência do indivíduo até a guerra sertaneja. mas simétrico. Para q u e o m e s m o seja o outro. 68 NOVOS ESTUDOS N. Mas se dessas alturas retornamos ao seu princípio expressivo. conforme se viu. p. Movimento sem resultado outro q u e o p u r o aniquilamento. A imagem da luta de morte em que. no qual vige o d e m o — a perfeita imagem infernal da má infinidade.. p o r um lado. advertindo-nos para o regime peculiar ao livro — o da formação c o m o supressão. mas o diabo. o q u e . No Brasil. na "rua da guerra". se entrematam jagunço e jagunço. espírito da destruição e pai de toda mentira. colocada ali no pórtico. c o m o q u e a figura exteriorizada de seu m o d o de ser mais íntimo. no entanto. roldão de tal. incessantemente. nunca é ele m e s m o — na medida em q u e a t o d o m o m e n t o é t o m a d o ou possuído p e l o projeto de um outro. cit. q u e se constitui passando no seu outro. no meio do redemoinho" — é o próprio subtítulo do livro. passagens. "O diabo na rua. n ã o por acaso associava já. dobravam para fora e para dentro. A figura de Medusa. Ganha. lá reencontramos essa infinita suscetibilidade ao outro. o giro incessante das mutações turbilhona em torno de um centro inteiramente parado. Concebendo-se ele. à consciência narradora.

do Wilhelm Meister. u m a dimensão fáustica. Afasta-se. Cantará hinos sublimes. limiares. e q u e assim assumem. a "resolver a quadratura do círculo" — conforme a expressão de um crítico —. o recorte nítido das identidades sexuais. é verdade. ao m u n d o incestuoso do Harpista. Possuindo c o m o princípio a passagem do m e s m o no outro. Nele. q u e o crítico literário encontre a síntese q u e supera e transforma. em ato praticamente puro. o inferno mais fundo ao m e s m o t e m p o que o gozo mais almejado. pela contradição insolúvel q u e os constitui. e as oscilações intermináveis do mau infinito. As figurações desses seres do limite proliferam no Grande sertão. o n d e n ã o há senão o p u r o limite. algo q u e não é o m e s m o nem o outro. a especialização produtiva. é forte a tendência a encontrar virtudes exclusivamente positivas. de reversibilidade contínua. antes lhe traz a confirmação mais completa. mas precisamente o limite entre ambos. de algum m o d o . O estatuto da formação supressiva. Q u e Diadorim apareça s e m p r e c o m o "um impossível". Constituído ele próprio na passagem mutuamente supressiva do masculino e do feminino. se dá a ver q u e o m a n d a m e n t o de q u e o m e s m o seja o outro constitui. o Grande sertão é. à d e s o r d e m erótica do m u n d o teatral etc. A Riobaldo — c o m o aos demais "heróis" de nossas letras — só o impossível interessa. u m a narrativa fáustica. são aqueles que o p e r a m prodígios. só ele é pertinente — pois o q u e é fazer q u e o mesmo seja o outro s e n ã o operar. a vida na morte. que por definição n ã o c o n h e c e superação ou síntese. cheia de reminiscências goethianas e assombrada pela idéia do pacto demoníaco. Diadorim aparece c o m o a encarnação de seu desejo mais fundo. q u e tem por eixo axiológico a renúncia à totalidade. mas.JOSÉ ANTONIO PASTA JÚNIOR constitui precisamente no limite. ele também. do fantasma q u e o habita. sob muitos aspectos essenciais. figuração definitiva dessa fronteira intangível — a misteriosa "terceira margem" —. passagens. entretanto. entre o m e s m o e o outro. a realização do impossível? Obrigados. a crítica das aparências.. para Riobaldo. Nos seus meios de caminho. q u e é. Inverter é ainda aproximar-se. não é raro que o filósofo encontre a autêntica mediação. o romance de Rosa acaba por contrariar essencialmente o romance de formação clássico. Diadorim. os "heróis" brasileiros mais lídimos. porém. Não p o r acaso.. q u e entretanto lhe são estranhas. c o m o q u e m entoa elegias ao q u e ficou para sempre perdido. ou nela. a grande distância. na literatura brasileira em geral. na literatura e fora dela. travessias. submetido ao ritmo da má infinidade. em Guimarães Rosa. embora razoavelmente desconhecido. o ser no não-ser. Se é onipresente. o Grande sertão tem bastante confundido a crítica. inverte. cujo modelo. naturalmente. só conhece a ultrapassagem q u e n ã o supera. um verdadeiro princípio de poética — q u e encontrará sua expressão mais alta e d e p u r a d a na célebre narrativa de "A terceira m a r g e m do rio". esse regime do limite torna-se. Nesse seu m u n d o intermédio. ou "três tantos impossível". — mas só o fará em fúnebres despedidas. instante inapreensível em q u e o m e s m o passa no outro. n ã o d e s m e n t e esse fato. NOVEMBRO DE 1999 69 . mas bastaria evocar aqui sua aparição mais alta e central. às ambigüidades sexuais de Mignon.

ao contrário. talvez vejamos q u e ambas as posições estão certas e erradas ao m e s m o t e m p o . Assim. Observando o regime do limite q u e vige no livro. José Antonio Pasta Júnior é professor de Literatura Brasileira na FFLCH-USP. assim c o m o é no seu ritmo q u e bate o esquisito coração metafísico da obra. f e n ô m e n o de superfície da reversibilidade do m e s m o e do outro. é certo q u e o Grande sertão passa pela mediação do Brasil.O ROMANCE DE ROSA — TEMAS DO GRANDE SERTÃO E DO BRASIL o n d e vige a má infinidade. disse Rosa em célebre entrevista — afirmação que. em Rosa. q u e é o Brasil.. q u e o pretenso moralista enxergue apenas u m a dialética do verdadeiro e do falso. 70 NOVOS ESTUDOS N.. q u e ela p o n h a a mediação no e pelo m e s m o movimento em q u e a subtrai. mas é igualmente certo que. enfim. ele passa p o r u m a mediação essencial.° 55 . a mediação é a imediatidade. É inerente à formação supressiva. o salto do sertão para o m u n d o é imediato ou se. Esse movimento é o m e s m o q u e m o v e a báscula hipnótica q u e p r e n d e o leitor. própria ao regime do limite. p o r si só. Recebido para publicação em 29 de outubro de 1999. relança a polêmica q u a n t o a se saber se. na verdade estranha à oposição de verdade e erro. realidade e máscara. "Riobaldo é a p e n a s o Brasil". nele.

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