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Ciência Política: 4 conceitos fundamentais

Quantas vezes você já ouviu nomes como Maquiavel,


Rousseau e Hobbes ou se deparou com debates sobre direitos
no seu dia a dia? Aposto que inúmeras! É muito comum o uso de
ideias e expressões vindas da Ciência Política no nosso
quotidiano. Mas você sabe o que elas significam? Se a resposta
for não, tudo bem: este texto servirá como uma introdução para
você que quer começar a entender a Ciência Política. Vamos
apresentar quatro conceitos básicos dessa ciência:
cidade, cidadania , direitos e Estado.

O QUE É A CIÊNCIA POLÍTICA?


Por estar relacionada a conceitos abstratos, como o de política e
poder, a definição de Ciência Política é bastante discutida entre
especialistas. É possível descrevê-la brevemente como a  área
de estudos que procura interpretar os diversos aspectos
da comunidade política (uma comunidade é considerada
“política” quando é autossuficiente: controla os meios de
violência, financia as atividades de seus habitantes e possui
membros dispostos a mantê-la). Para isso, dedica-se a entender
tanto o processo de formação da comunidade política, quanto
instituições, práticas e relações que moldam a vida pública.

1) A CIDADE E O SURGIMENTO DA COMUNIDADE POLÍTICA


O surgimento das cidades tem relação directa com a
comunidade política. E para entender o papel das cidades , é
preciso entender a função da religião, que segundo o
historiador francês F. de Coulanges, teria tido papel
fundamental para esse processo. No princípio da história
humana, quando existiam apenas pequenos grupos humanos
isolados entre si, a religião regulava a conduta humana somente
no nível doméstico. Mas essa influência foi ampliada à medida

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que esses pequenos grupos de indivíduos se uniram: apesar da
relação mais intimista com a religião , era comum a união entre
famílias que possuíssem cultos similares, possibilitando o
surgimento de sociedades cada vez mais amplas e abrangentes.
Assim, a estrutura social da religião passou a servir como
modelo para a estrutura social da comunidade política que se
formava.
Até que a aproximação entre os pequenos grupos e a construção
de templos religiosos (que agora atendiam a todos, devido à
similaridade entre cultos) formou a cidade  – que aqui pode ser
entendida como uma área urbanizada responsável por aglomerar
um número significativo de indivíduos (de poucas centenas até
milhões) e acolhe o corpo administrativo da sociedade que a
habita. Acompanhando esse crescimento, os pequenos governos
familiares se tornaram o governo da cidade (com a palavra
“governo”, a Ciência Política se refere ao mecanismo pelo qual o
corpo governante – ministros, deputados, prefeitos, etc – exerce
sua autoridade; o governo é um factor essencial para o
funcionamento de qualquer sociedade).
Na cidade antiga, o líder local não dependia da força material:
sua autoridade era sustentada pela religião. Nota-se, nessa
situação, a presença de um conceito primordial na Ciência
Política: a legitimidade. A noção de legitimidade está
directamente relacionada ao funcionamento da
sociedade: apenas com um amplo consenso, uma noção de
comunidade e uma genuína disposição por parte de seus
membros para viverem segundo certas regras tradicionais e
aceitarem as decisões das autoridades legítimas,  seria possível
o andamento de uma sociedade.
A religião só deixou de regular a ordem das sociedades após
muitas revoluções e mudanças de paradigmas sociais. Foi
preciso que a humanidade descobrisse outros princípios e laços
sociais que também garantissem sua união, para que o governo
se tornasse ainda mais abrangente e fosse regulado por
outras leis .

2) CIDADANIA: O CIDADÃO E SEU PAPEL NA COMUNIDADE


Um fator constante na Ciência Política, e que é ligado à ideia de
cidade, é a reflexão sobre o significado da   cidadania . Quem
seria o  cidadão ? Qual seria sua importância dentro da

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comunidade política? Essas são questões que sempre alimentam
debates.
De acordo com o historiador americano   Moses Finley , na Grécia
(onde a história política teria se iniciado, segundo a tradição
ocidental), entendia-se que a cidade era moldada e viabilizada
pelos cidadãos: havia um governo e um conjunto de normas,
como em várias outras sociedades, mas o seu principal
diferencial se encontrava na  não   existência de uma
autoridade soberana :  a fonte de autoridade era a própria
comunidade .
O filósofo político italiano Nicolau Maquiavel, considerado um
dos fundadores da Ciência Política moderna, também ressaltou a
importância do cidadão na sua obra. Segundo ele,  o povo seria
responsável pela preservação da comunidade,  já que, para
o autor, o Estado (entendido como unidade política soberana,
com estrutura própria e politicamente organizada, diferente de
“governo”) tenderia de forma natural à ruína.
Mas quem seria o cidadão? Na cidade antiga (nas épocas de
gregos e romanos), as normas da sociedade eram pautadas pela
religião e por isso,   era considerado cidadão o indivíduo que
participava do culto da cidade . Devido à impossibilidade de
pertencer a duas religiões distintas ao mesmo tempo, não era
possível ter “dupla cidadania”. A participação no culto era vista
como essencial, pois garantia os direitos civis.
Consequentemente, os estrangeiros careciam desses direitos,
uma vez que o acesso ao culto lhes era proibido. Já em Atenas,
durante o período democrático, não eram concedidos  direitos às
mulheres , crianças, escravos,  migrantes e imigrantes , pois eles
não eram considerados cidadãos.
Atualmente,   entendemos o cidadão como um membro do
Estado que usufrui de direitos civis e políticos, e que
desempenha deveres que lhe são atribuídos pela
sociedade a qual pertence.   Nesse caso, a ideia de “membro
do Estado” não se limita àqueles que nasceram no território
nacional. No Brasil, por exemplo, um estrangeiro pode obter a
cidadania brasileira em determinadas circunstâncias,   que você
pode conferir aqui.
Mais:  como funcionava a democracia directa de Atenas

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3) DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS
A noção de cidadania está diretamente ligada aos   direitos civis
e políticos . Os teóricos conhecidos como   contratualistas , por
exemplo, associam a inauguração da sociedade civil à
necessidade humana de garantir seus   direitos básicos . Por
serem indispensáveis para uma vida minimamente adequada, os
seres humanos teriam concordado em se organizar socialmente
e em se submeter a uma autoridade soberana, em troca da
garantia dos direitos básicos. Para que essa sociedade
funcionasse de modo apropriado, teriam sido criados os direitos
civis.
A diferença entre  direitos básicos  e  direitos civis  seria a
seguinte: enquanto os direitos básicos são aplicáveis a qualquer
indivíduo, independente da existência de uma sociedade ou
não,  os direitos civis são próprios de uma comunidade
política . Não há qualquer consenso quanto a quais direitos
seriam “básicos” e quais seriam “civis”, pois esses variam de
acordo com o contexto histórico em que a sociedade se
encontra.
Já os  direitos políticos  dizem respeito à atuação do cidadão na
vida pública de determinado país – ou seja, eles   garantem a
sua participação no processo político . É importante
mencionar que esses direitos nem sempre são promovidos.
Durante a Ditadura Militar, por exemplo, era negado um dos
direitos políticos mais conhecidos: a livre expressão de opinião.

4) O ESTADO
Dentre as diversas contribuições que vários autores fornecem
para o ramo da Ciência Política, a análise do  Estado   é uma das
mais frequentes. Assim como acontece com muitos objetos de
estudo dessa área, o Estado é interpretado de maneiras
diferentes por diversos autores, não se limitando à definição
apresentada anteriormente neste texto. Para o alemão  Max
Weber , por exemplo, o Estado seria uma comunidade de
indivíduos que concede aos seus representantes (ou seja, ao
corpo governamental)   a capacidade exclusiva de se utilizar
da força para regular a vivência em sociedade   –
controlando, desse modo, a conduta de cada um dos habitantes.
Essa capacidade ficou conhecida como  monopólio da
violência .
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Contudo, os autores da Ciência Política não se limitam apenas à
tarefa de definir o Estado. É bastante recorrente que eles
busquem entender também   como ele se organiza . A partir do
cenário político em que estão inseridos, é comum que os
teóricos mostrem preferência por certo   sistema de
governo  e/ou   forma de governo . O sistema de governo diz
respeito à forma em que o corpo governamental se organiza –
nas últimas décadas, os modelos mais recorrentes têm sido:
o   parlamentarista , o   presidencialista   e o   semipresidencialista . Já
a forma de governo se refere à maneira como se dá a relação
entre governantes e governados (monárquica, republicana ou
aristocrática).
No livro “O Príncipe”, por exemplo, Nicolau Maquiavel afirma que
a melhor forma de governo possível seria a   republicana , pois
garantiria a liberdade de todos ao permitir que os cidadãos
participem da formulação das leis. Por outro lado,   Thomas
Hobbes e Jean Bodin  mostraram preferência pela  monarquia .
Segundo Bodin, a superioridade dessa forma de governo estaria
na sua capacidade de facilitar o exercício da soberania, uma vez
que ela estaria sob o controle de apenas um indivíduo.
Como você provavelmente notou até aqui, a Ciência Política é
uma área bastante extensa, complexa   e extremamente
interessante!  Esta introdução serve apenas como um primeiro
passo para os seus estudos. Outros conceitos igualmente
importantes podem ser acrescentados a essa lista. Visando
aprofundar o seu conhecimento, recomendamos buscar entender
a  diferença entre os sistemas de governo   e os  contrastes entre
república e monarquia , e pesquisar sobre os direitos civis
brasileiros. Considerando a riqueza dessa ciência, há diversos
caminhos a serem explorados!
Fontes:
Cidadania brasileira: como se tornar um cidadão do Brasil   –   Comunidade política   –   Conceito
de cidade   – Coulanges: “A cidade antiga” (1981) –   Concepção de Estado para Durkheim e
Weber   –   Formas de governo   –   John Locke   – Moses Finley:   “O legado da Grécia: uma nova
avaliação” (1981) –   Regimes políticos   – João Ribeiro: “Política: quem manda, por que manda,
como manda” (1998).

A política como gestão de conflitos


O termo política tem inúmeros significados. Dentre eles, está o
que considera política a ciência da governança de uma  cidade ,
estado ou nação, ou de qualquer sociedade
organizada. Provavelmente você já conhece esta definição, seja

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pela escola, pelos livros, por pesquisas ou por intuição. Uma
sociedade é composta por muitas pessoas, cada uma com
valores, saberes e aspirações diferentes umas das outras. Cada
um de nós sente diferentes necessidades e, naturalmente,
gostaria de tê-las atendidas de alguma forma. Em uma
sociedade, cidade ou estado, sempre haverá ideias e desejos
conflituantes, pois somos seres pensantes e diferentes uns dos
outros.
Ampliando então o conceito de política, podemos dizer que ela é
a gestão de conflitos entre seres que têm desejos distintos,
em um contexto essencialmente limitado, visando a convivência
harmoniosa entre eles.

E POR QUE O CONTEXTO É LIMITADO?


A explicação é bastante simples: existe um limite  do que é
possível ser feito com os recursos disponíveis (tempo, verba,
capacidade técnica, impactos, etc). Esses recursos não podem
ser utilizados isoladamente, e sim de forma combinada. Se
existem limites, existe o conflito.
Vamos exemplificar:
Cenário 1:
Em uma cidade qualquer, existe uma necessidade de construção
de casas populares para os habitantes que ainda não possuem
casa própria. Todos os habitantes concordam que as casas
populares devem ser construídas.
Existe verba e todos os recursos necessários para construção. O
tempo previsto para realização da obra é razoável e aceito pela
população. O local adequado está disponível. Portanto, o
projecto se caracteriza como bastante promissor. Nesse
contexto, não há limitações e por isso, não há conflitos
aparentes.
Cenário 2:
Agora imagine que nesta mesma cidade, o parque municipal
(destinado para actividades de lazer, cultura e desporto da
população) é o único espaço onde é possível construir as casas.
A prefeitura comunica à população que o parque será
substituído pelo novo conjunto habitacional. Entretanto, uma
parte da população, que até concorda com a construção das

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casas, não concorda com o local em que serão construídas.
Afinal, o parque é muito importante para cidade!
Nasce então o primeiro conflito, gerado pelo limite do local da
construção das casas. Aparentemente, todos os envolvidos
possuem motivos justos. As casas são importantes, mas o
parque também é. Para decidir se o parque deve ou não ser
substituído pelo conjunto habitacional, a prefeitura sugere uma
votação direta da população. Na votação, a maioria decide
manter o parque. Ou seja, um novo local deve ser estabelecido.
Observe que a maioria optou por manter o parque, sendo que
uma parte da população preferia que o parque fosse desativado
em favor das casas. Uma insatisfação foi gerada e precisa ser
atendida. O tempo, que antes era suficiente para a realização da
obra, foi afetado pela necessidade de busca de um novo local.
A prefeitura localiza então pequenas áreas livres na cidade, mas
essas áreas não são suficientes para a construção de todas as
casas necessárias. Resumindo, alguns habitantes continuarão
sem a casa própria. Por isso, passa a ser necessário escolher
quem receberá as novas casas. O projeto inicial, que atenderia a
todos os que precisavam, agora precisa estabelecer critérios de
seleção, pois nem todos poderão ser atendidos. Uma nova
insatisfação foi gerada.
Com esse exemplo muito simples, percebemos claramente que
decisões e escolhas, mesmo que feitas pela maioria, geram
insatisfações nos grupos que não tiveram seus desejos
atendidos, ainda que estes sejam justos. Portanto, fica claro que
política envolve certo grau de complexidade. A todo momento,
temos escolhas e desejos não atendidos e consequentemente,
insatisfações que precisam ser gerenciadas, para a manutenção
de uma convivência harmoniosa.

DE ONDE SURGIU O CONCEITO DE POLÍTICA?


Não é novidade que a Grécia Antiga foi o berço para muitos
conceitos e ideias políticas que foram aplicados ou adaptados
para os dias de hoje. A palavra política surgiu por lá,
aproximadamente nos séculos IV e V a.C., com a união de duas
palavras: pólis, que significa cidade, e tikós que significa bem
comum.
Conforme consta na obra “O que é Democracia”, de Renato
Janine Ribeiro, os cidadãos de Atenas se reuniam
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periodicamente na praça pública, denominada Ágora, para
expor e debater suas ideias. Não podiam participar desses
debates as mulheres, crianças, escravos e estrangeiros.
Os homens livres de Atenas que estivessem presentes em Ágora
podiam expor livremente suas idéias e o público presente
decidia quais ideias deveriam ser viabilizadas. Em
seguida, sorteavam quem ou quais pessoas iriam executar a
ideia. É isso mesmo, na democracia de Atenas praticamente não
havia eleição . Surpreso? Isso acontecia porque, para os gregos,
uma eleição criaria distinção de uns sobre outros, pois seria
necessário escolher pelas qualidades de cada um, ou seja,
considerar alguém melhor que outro.
Escolher os melhores feria o regime da democracia  conforme
concebido pelos atenienses. Isso era característica da
aristocracia (governo dos iluminados, dos mais capazes). Por
isso, o sorteio era visto como a maneira mais justa e
democrática de definir quem deveria fazer o quê.
Leia também: o que você tem a ver com a política?

O QUE SE DISCUTIA EM ÁGORA?


As pessoas na época da Grécia Antiga não conviveram com a
complexidade da economia  moderna. Discutiam basicamente
sobre guerra e paz, questões políticas e sobre religião,
festividades e divisão de tarefas.
Como os cidadãos que compareciam em Ágora eram somente os
homens livres e não precisavam trabalhar (eram os escravos
que realizavam os trabalhos), havia mais tempo livre para
exercitar o pensar, algo que ficou conhecido como ócio criativo.
Os cidadãos atenienses dedicavam grande parte do seu tempo
livre na análise e busca de soluções para tornar a cidade
melhor.

COMO O CONCEITO DE POLÍTICA EVOLUIU ATÉ OS DIAS DE HOJE?

Entre os tempos da Grécia Antiga e os dias de hoje, temos mais


de dois mil anos de história. Tivemos o aumento da população e
da complexidade das relações sociais, mas principalmente,
uma grande evolução do pensamento.  Isso alterou
comportamentos, inovou e renovou conceitos e gerou novas
necessidades sociais.

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Atualmente, elegemos os nossos representantes  políticos para
que, em nosso nome, pensem em soluções que atendam nossas
necessidades da forma mais harmoniosa possível. Eleger um
representante não significa ausência do contexto político ou
falta de reflexão sobre o tema, mas deve ser uma ação pensada
e combinada com o monitoramento dos eleitos.
E então, conseguiu entender melhor o que é política e
qual seu papel na sociedade? Mantenha-se informado,
eduque-se politicamente, participe e respeite opiniões
divergentes. Esta é uma forma saudável de você e eu
exercermos política e cidadania, para que possamos
construir uma sociedade mais justa e harmoniosa para
todos.
Referências:

Renato Janine Ribeiro: O que é democracia –  Renato Janine Ribeiro: A República – Clóvis de Barros Filho
– O que é Política (video-aula)

O que você tem a ver com a política?


Última atualização em 07 de março de 2018.

Hoje em dia é muito comum ouvirmos de pessoas que “não


gosto de política”, “prefiro não me envolver com essas
questões”, “todos os políticos são ladrões”, “sempre que um
político aparece na televisão eu desligo a TV”, horário eleitoral é
um saco” ou “ política envolve corrupção e desvio de verba”.
No dia a dia, quando se fala de política, geralmente se pensa
nela como uma coisa ruim e distante, como se fosse assunto
apenas para os especialistas ou políticos. Ou então até mesmo,
pensamos que a política só se restringe ao voto .  Mas será que é
isso mesmo? Afinal, o que você tem a ver com a política?
Leia também: como um facilitador  pode ajudar na educação
política?
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Se ouvimos tantas coisas ruins sobre a política, por
que nos dizem que ela é tão importante?
Bom, apesar da existência de corrupção e de manipulação de
ações para atender interesses específicos no ato político, temos
que entender que esse quadro negativo só poderá
mudar através da própria política. Isso porque a política é o
instrumento de ação de transformação da sociedade.
Quem nunca ouviu na escola a frase: “o homem é um animal
político”? Pois bem, quando Aristóteles declamou essa frase,
ele quis dizer que todo homem precisa um do outro, que é da
natureza humana viver em sociedade e que através da busca
pelo bem comum é que se tem a constituição da pólis, ou seja,
a cidade, o lugar onde é compartilhada a vida pública.
Portanto, podemos entender que política está relacionada com
aquilo que diz respeito ao bem público, à vida em comum, às
regras, leis e normais de conduta dessa vida, nesse espaço, e,
sobretudo, ao ato de decisão que afectará todas essas questões.
Assim, o que distingue o ser humano das outras espécies é a
sua capacidade de raciocinar. E foi por meio desta habilidade
que ele compreendeu a importância da vida comunitária e de
conviver nesse meio de forma harmônica. E foi para isso que a
Política foi criada: para regular os conflitos.
Vamos utilizar um exemplo prático. A Associação de Moradores
de Umbará obteve uma vitória com a instalação de um semáforo
na rua Nicola Pellanda, localizada em Curitiba. Essa rua era
famosa pelo número expressivo de acidentes, inclusive fatais,
devido à imprudência dos motoristas, que não respeitavam os
limites de velocidade.
Para resolver esse problema, dificilmente você sozinha
conseguiria alguma resposta do poder público, mas graças à
organização dos moradores de Umbará, que possuem uma
representação política, o problema foi solucionado. Depois de
algumas manifestações e protestos foi reivindicado junto à
prefeitura a instalação de um semáforo na localidade.  Juntos,
os moradores tiveram um peso muito maior.
Portanto, a política não se limita aos governantes e à profissão
em si, mas abarca também uma participação na associação dos
moradores do seu bairro, por exemplo, para debater sobre
problemas existentes e possíveis soluções para melhorar a vida
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daquele local, ou quando você articula com seus amigos de
escola para tentar deliberar sobre assuntos relacionados ao bem
comum, como contribuir com a limpeza da escola, propondo a
instalação de lixeiras de reciclagem e, consequentemente,
facilitar o trabalho dos catadores de materiais recicláveis.
A política é tão presente na vida das pessoas que até quando
você decide não participar da política, você também está
agindo politicamente, pois está deixando que as coisas
permaneçam do jeito que elas estão e não vê necessidade de
mudança.
Daí a importância da participação cidadã. Se muitos
permanecerem apáticos, deixando as decisões para terceiros,
um grupo limitado acabará comandando sem oposição as
decisões mais importantes do nosso país e os nossos interesses
poderão não ser atendidos. Dessa forma, temos uma
responsabilidade política e exercê-la também é uma forma de
participação.
Assim, nós fazemos a política, através da participação em
associação de bairro, colegiado, partidos, manifestações,
passeatas, nas eleições, por exemplo. Mas será que é só assim
que se “faz política”?

A política é tão presente na vida das pessoas que até


quando você decide não participar dela, também age
politicamente, pois está deixando que as coisas
permaneçam do jeito que elas estão e não vê necessidade
de mudança.

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Política e você, tudo a ver
Já parou para pensar que nós experimentamos e praticamos a
política a todo o momento em nossas vidas? Na verdade, e isto
é mais corriqueiro do que parece.
As relações sociais são permeadas pela política, seja no âmbito
familiar – quando queremos ir numa festa e para isso
precisamos dialogar e convencer os nossos pais a nos deixar ir
(lembrando que política refere-se a relações de poder, de
interesse e tomada de decisão) – como na formação de um time
de futebol do bairro – quando são atribuídas responsabilidades
para alguns, através de candidaturas e eleições… Nesses casos
também ocorrem mini processos políticos.
Quando estamos parados em um ponto de ônibus para irmos à
escola, enquanto alguém com melhores condições está indo de
carro, não estamos pensando em política. Contudo, se
pensarmos que para conseguir o nosso pé-de-meia é necessário
algumas condições, aí sim, estamos vivendo a política.
Ora, mas como assim?  Vamos explicar: para adquirir um
automóvel de luxo, provavelmente seja necessário um trabalho
que pague bem. Isso envolve ter oportunidade de planejarmos a
nossa própria vida, de juntar dinheiro, de investir. De uma
maneira ou de outra, essa condição está relacionada a factores
políticos, pois é um processo político que vai definir as
condições para a acumulação do pé-de-meia.
Por exemplo, se não há oportunidade de educação para todos,
consequentemente, uns terão mais dificuldade para atingir os
objectivos do que outros.  Se não há uma política económica
que favoreça o desenvolvimento e o acesso a oportunidades de
trabalho bem remunerado, é grande a chance de que apenas
alguns poucos tenham essa oportunidade.
Por isso, é importante você se informar e participar da
política, pois ela é a condução da nossa própria existência
colectiva, que será reflectida na nossa experiência individual, ou
seja, na nossa educação ou não, na nossa saúde ou não, na
nossa oportunidade de acesso ou não.
Dessa forma, a política não é um mecanismo exclusivo de
políticos e muito menos envolve apenas discursos, eleições e
promessas falsas.  Não é algo distante de nós; pelo contrário,
faz-se presente em nossas vidas, por menor que seja o assunto
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abordado. A política foi criada para que possamos debater
discutir e questionar questões, sem que seja preciso a utilização
da violência. Através dela, foram estabelecidas regras, leis e
normas, bem como o estabelecimento de direitos e deveres para
conduzir as nossas acções.
A natureza, a essência e o funcionamento da política têm que
ser voltadas para a busca do interesse e bem comum. E cabe a
nós participar desse processo, para contribuir e construir uma
política mais desejável, afinal, no sentindo mais amplo da
palavra, somos todos políticos.
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Como um facilitador pode ajudar na


educação política?
O papel de facilitador é reconhecido pelo mercado como algo
que agrega valor, mas ainda poucas pessoas sabem o que um
facilitador faz exactamente. Este post traz uma explicação geral
do que é facilitação, introduz algumas formas de
implementação no Brasil e por fim discorre sobre a importância
de ampliar a sinergia da política com o mundo da facilitação. Ao
concluir este texto, você saberá que existem diversas vertentes
de facilitação e que o trabalho ainda é influenciado de forma
única pela personalidade e experiência de cada facilitador.
Este post é uma parceria entre o Politize! e a Kaordico
Facilitação . Juntos, formaremos jovens líderes cívicos
responsáveis pela transformação da política brasileira. Conheça
mais sobre o Programa Embaixadores Politize! .

O QUE FAZ UM FACILITADOR?


Imagine uma linha contínua, onde em um extremo está o
conteúdo e no outro a forma. Profissionais como professores e
consultores estão principalmente focados no conteúdo que as
partes precisam adquirir. Por outro lado, os facilitadores
direccionam atenção, mas não exclusivamente, para a forma
que as pessoas interagem.
Facilitadores são importantes na elaboração de perguntas
norteadoras, desenho de metodologias de trabalho em grupo e
no manejo do fluxo dos trabalhos. Esse profissionais partem do
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conceito de que um processo bem coordenado atinge óptimos
resultados ao mesmo tempo que cuida das relações entre as
pessoas.
Leia mais: o que é educação política ?

O PAPEL DO FACILITADOR EM UMA ORGANIZAÇÃO

Em um mundo mais complexo e com a infinidade de informações


e tecnologias, é cada vez mais raro um “chefe” possuir todas
informações necessárias para tomar uma decisão de forma
segura e guiar seu time. Diante desse desafio,  o facilitador
ajuda a liderança das organizações a engajar equipes e
atores envolvidos no processo além de suas funções para
emergir informações de todas as partes.
É necessário que todos se envolvam de alguma forma na
compreensão do propósito e do planejamento estratégico da
organização. Assim, as pessoas passam a ter clareza sobre os
grandes objectivos da organização que fazem parte. A partir
desse cenário, fica viável motivar as pessoas a trabalharem de
maneira cooperativa, uma vez que com a percepção do todo, o
foco torna-se mais tangível, norteando as pequenas decisões do
dia a dia de cada colaborador: o que é de fato importante para
organização e o que é trivial?
Conscientes e mais empoderados a partir desse processo, os
colaboradores conseguem identificar o que da cultura
organizacional é trivial e estava atrapalhando ou atrasando o
alcance dos resultados. Simultaneamente, não se perde tanto
tempo resolvendo conflitos, pois é muito mais ágil alinhar as
divergências. No trabalho cooperativo, os resultados são
maximizados, porque há uma complementaridade de
habilidades, competências e conhecimentos entre as partes
envolvidas, gerando círculos virtuosos.
É mais fácil facilitar processos entre pessoas de uma
organização do que da sociedade, porque o número de pessoas
é reduzido e há um alinhamento com contorno bem definido.
Felizmente, há inúmeras iniciativas que buscam levar os
conceitos, técnicas e metodologias do mundo da facilitação para
a esfera pública apoiando iniciativas municipais, regionais,
estaduais e nacionais. Esse é um intuito desse post, ao
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compartilhar informações com pessoas que estão engajadas com
o aprimoramento das relações na sociedade.

O FOCO DO FACILITADOR
Existem várias vertentes de facilitação. Podemos, por
exemplo, discernir a facilitação “voltada para pessoas” da
facilitação “voltada para resultados”. No primeiro tipo, o ponto
focal é a experiência das pessoas, observando os sentimentos, a
linguagem não verbal dos participantes e a qualidade da
conversa. Esse perfil de facilitador tem mais flexibilidade para
fazer ajustes na agenda, buscando adequá-la à experiência dos
participantes. Não há um resultado definido, parte-se da
premissa de que pessoas presentes, engajadas e motivadas com
o processo vão encontrar significado no que fazem e alcançar
resultados mais sustentáveis. Esse tipo de trabalho colaborativo
flui mais no campo do caos com suas características
predominantes: criatividade, inovação, espontaneidade,
emergência, liberdade, abstracção, imprevisibilidade,
instabilidade e divergência.
No segundo tipo, está explícito quais são os resultados
esperados e o facilitador define qual metodologia utilizar para
alcançar os objectivos. O fluxo de trabalho é desenhado
antecipadamente, com roteiros, metas, prazos e entregáveis
bem definidos. Esse segundo tipo de trabalho do facilitador flui
mais no campo da ordem com suas características
predominantes: padronização, regularidade, estabilidade,
rigidez, monotonia, previsibilidade, segurança, concretude e
convergência.

As qualidades de um facilitador experiente


O que define um facilitador experiente? A seguir, você encontra
algumas habilidades necessárias a esse profissional:

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Você utiliza habilidades de facilitação no seu dia a dia?

Abaixo, encontra-se uma lista de algumas formas pelas quais


você pode identificar se já exerce, ou não, o papel de facilitador
no seu cotidiano.

POR QUE A FACILITAÇÃO É IMPORTANTE PARA A


EDUCAÇÃO POLÍTICA?
A educação tradicional cujos alunos ficam enfileirados cria um
ambiente passivo que o aprendiz só precisa escutar, anotar e
fazer perguntas. Já a facilitação se encarrega de
criar ambientes activos de aprendizagem, nos quais os
participantes são co-responsáveis pelas respostas. Assim, os
jovens que têm mais contacto com metodologias ativas de
aprendizagem, tornam-se mais proactivos para encontrar
soluções para o país. Por um lado começam a se informar
melhor, engajam-se e se articulam para cobrar e inspirar
uma administração pública  mais eficiente e honesta, ao mesmo
tempo se tornam mais colaborativos para cocriar as soluções em
vez de apenas reclamar dos serviços públicos de baixa
qualidade.
O facilitador, ao utilizar metodologias ativas, inspira os
participantes a se relacionarem respeitando princípios como
colaboração, escuta ativa, fala com intenção, diálogo empático,
criatividade e pragmatismo. Espera-se que ao prover
experiências com esses princípios para mais pessoas,
principalmente os jovens, elas levarão consigo para o mundo do
trabalho, inclusive na esfera pública.
Debates que envolvem diferentes pontos de vista nem sempre são
fáceis.  Veja dicas de  como discutir política   de forma saudável.

Metodologias activas úteis para a educação política


Qual metodologia usar para uma melhor experiência de
educação política? Confira algumas opções abaixo.
1-2-4-Todos
Depois de os participantes serem expostos a um certo conteúdo
com algum grau de complexidade, como uma palestra de um
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especialista ou apresentação de uma proposta de projeto, essa
metodologia é bem útil para fazer a transição de uma posição
passiva para activa.
1 – Primeiro cada indivíduo faz uma autorreflexão, a partir de
uma pergunta norteadora feita pelo facilitador para resolver um
desafio comum, e anota num papel as reflexões relevantes.
2 – Em duplas, as pessoas compartilham suas impressões
pessoais e ideias para resolver o desafio.
4 – Em quartetos, avançam no desenvolvimento das ideias ao
encontrar semelhanças e elucidar diferenças.
Todos – Uma pessoa por quarteto compartilha com todos no
espaço um pensamento, ideia, questionamento que se destacou.
Os próximos a falarem contribuem de forma complementar sem
serem repetitivos.
Aquário Aberto
Em alguns momentos quando estamos atuando politicamente, é
necessário que aconteça uma conversa de todos com todos.
Uma conversa dessa, sem estrutura, pode desencadear alguns
comportamentos não produtivos, por exemplo uma pessoa
monopolizar a fala ou algumas conversas em paralelo não
chegando o conteúdo para todos, gerando ruído e atrapalhando
a compreensão limpa e com clareza da fala principal no
momento.

 Essa metodologia serve para organizar uma


conversa com muitas pessoas para emergir o conhecimento
colectivo. A estrutura é formada por uma arena circular com
um círculo de poucas cadeiras no centro. Ao longo da conversa,
pelo menos uma cadeira deve estar sempre vazia no círculo
interno. Quem quiser participar da conversa precisa sentar-se
ao centro. Assim, o círculo externo torna-se um espaço de
escuta ativa e o círculo interno um espaço de fala com intenção.
O facilitador inicia a metodologia com uma pergunta norteadora
18
da conversa para servir de contorno, se não houver a pergunta,
a conversa pode desandar para qualquer caminho pois não tinha
um foco. Qualquer pessoa que quiser contribuir com a conversa
se desloca para o centro.
Observe que o intuito é sempre emergir e construir o
entendimento do conhecimento colectivo e não uma colcha de
retalhos de percepções individuais. Ou seja, é bem-vindo que
aconteça uma conversa entre as pessoas que se sentam no
círculo interno, em vez de falas avulsas. Assim as pessoas
entram num espírito proactivo e colaborativo para identificar os
pontos mais relevantes de uma questão.
Café Mundial
Essa metodologia serve para mapear o conhecimento e gerar
polinização de ideias. O número de participantes mínimo é de
20 pessoas e não tem máximo. Essa metodologia já foi utilizada
com milhares de pessoas, conhecida como a conversa de 1000
mesas.

Os participantes sentam-se em grupos de 5-7 pessoas por


mesa. Haverá três rodadas de conversa de 15-20 minutos cada.
Cada mesa tem um anfitrião que permanece na mesma mesa
até o final. Cada rodada se inicia com uma pergunta norteadora.
Quando termina cada rodada, todos os participantes se
deslocam para outras mesas, excepto o anfitrião. Antes de
responder a nova pergunta, o anfitrião resume a conversa
19
anterior para os novos integrantes da mesa. Todos os
participantes ajudam a registar a conversa na folha disponível
na mesa. Ao final, os anfitriões socializam o que foi conversado
buscando identificar similaridades e divergências. Apresentam
para todos os participantes o que se destacou, tomando o
cuidado de as falas serem complementares e não repetitivas.
Nesse post, foi possível entender um pouco mais o  mundo da
facilitação, como o campo de actuação do facilitador, o perfil
do profissional, sinergias com a educação política e alguns
exemplos de metodologias. Quer saber mais sobre facilitação?
Conheça o modelo caórdico .
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Como discutir política de forma


saudável?
A política está presente em boa parte dos aspectos que rondam
nossa vida. Por isso, é mais do que necessário nos falarmos
sobre ela dentro e fora do período eleitoral. Houve uma época
em que discutir esse assunto era um grande tabu, e era muito
comum ouvir aquela frase  “futebol, política e religião não se
discutem”.
Se preferir, ouça nosso episódio de podcast sobre esse assunto!
Hoje, mais do que necessário, falar de política tem sido
frequente no nosso dia a dia. No trabalho, no ônibus, nas
reuniões de amigos e familiares, durante o happy hour. Nós
do Politize! amamos falar sobre a importância de debater
política, mas também sabemos que conforme essa prática vai
ficando mais frequente, também vão surgindo situações um
tanto complicadas sobre ela, já que, muitas vezes, a conversa
segue um caminho não muito saudável.
Não queremos que todos esses obstáculos a um debate saudável
desmotive você a falar sobre política no momento em que isso é
mais importante: as eleições. Vamos ver porquê.

Por que debater política nas eleições?


O resultado das eleições perpassa toda a nossa vida nos anos
seguintes a ela. Parece exagero que os 45 dias de campanha
possam moldar o nosso futuro durante tanto tempo, mas não é.

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A qualidade dos candidatos eleitos reflecte directamente na
qualidade da administração pública , da transparência e da
participação política. Portanto, discutir política nesses 45 dias é
mais do que fundamental para garantirmos uma vida de
qualidade para todos.
É ao falar de política com nossos amigos, familiares ou colegas
de trabalho que podemos exercer nosso papel de cidadão ao
conscientizar outras pessoas sobre a importância do voto
consciente .
Infelizmente, muitas pessoas podem dar as costas à política
durante a maior parte do tempo, mas é nas eleições que elas se
mostram mais abertas a esse tipo de debate. Por isso,
precisamos aproveitar tal janela de oportunidade para
conscientizar o maior número de pessoas.
Aproveite as eleições para fazer a sua parte: por que não
convidar seus amigos para um jantar e apresentar a eles os
caminhos para um voto de qualidade? Que tal aproveitar as
reuniões de família para mostrar para aquele tio que adora falar
sobre política quais são os requisitos de um bom candidato ?
Podem parecer ações muito simples, mas elas têm potencial de
gerar consequências bastante positivas para a nossa política.
Por melhor que seja nossa intenção, quando se trata de política
a conversa pode seguir um rumo que não queremos nem de
longe. Considerando isso, e para que você possa exercer sua
parte levando às pessoas conhecimento sobre o voto consciente
nessas eleições, vamos aprender o que fazer e não fazer nesse
tipo de debate.
Antes, vamos analisar alguns cenários. Em quais das seguintes
situações você já se viu por causa da política?

Brigar com a família por causa de política


Imagine a seguinte situação: você está em um jantar de família,
todos os seus tios, tias, primos e primas se reúnem após um
longo tempo sem se encontrarem. As conversas são intensas,
sobre os mais variados assuntos. Até que alguém faz um
comentário que você julga equivocado, um ponto de vista
totalmente oposto de tudo aquilo que você acredita. O que você
faz nesse momento?

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Atire a primeira pedra quem nunca entrou em uma discussão
calorosa com um membro da família, chegando até a ficar
brigado com aquela pessoa por um breve período. Atire a
primeira pedra ainda quem nunca fez isso por causa de política.
O que as brigas com a nossa família por causa da política têm a
nos ensinar é: saber avaliar quando vale a pena entrar em
uma discussão.
Existe uma série de factores que qualificam o que é um bom
debate político. Quando esses factores não estão presentes,
você deve saber perceber que não vale a pena se envolver na
discussão, pois será fácil ela virar uma grande briga. De quais
factores eu estou falando? Veremos logo mais.

Discutir política no trabalho


Você está no trabalho e seus colegas começam a falar sobre
política. Você, como entusiasta do assunto, logo participa da
conversa. A partir de um certo momento, você já não está mais
prestando atenção nos argumentos dos colegas que pensam
diferente de você, apenas aguarda que eles terminem de falar
para começar a sua fala, às vezes nem espera o outro terminar.
Os erros que você está cometendo nessa situação são os
primeiros a serem evitados em um bom debate.
É simples: não saber ouvir os argumentos contrários. As
discussões políticas devem ser um meio de trocarmos
informações às quais normalmente não temos acesso,
principalmente pela “bolha social” em que estamos inseridos
(quando temos acesso apenas a pessoas que pensam muito
parecido connosco, o que é algo bastante comum nas redes
sociais, por exemplo. Quantas pessoas você mantém na sua
rede de contactos que pensam completamente o oposto?). É ao
debater com outra pessoa, de realidade diferente da nossa, que
temos a oportunidade de conhecer informações diferentes, que
são muito válidas.
Por isso, aproveite a oportunidade para aprender algo com os
argumentos opostos. Não é porque uma pessoa pensa
diferente de você que ela está necessariamente errada.
Aproveite a chance para ouvir argumentos contrários. Mesmo
que para criticar, precisamos conhecer a fundo os fatos
apresentados pelo outro lado.

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Lembre-se também de ser educado durante a conversa. É
bastante comum nos deixarmos influenciar pelas emoções do
momento, o que nos leva ao uso de sarcasmo, interromper o
outro com frequência ou falar alto.
O bom debate é aquele em que tanto você quanto os outros
debatedores estão em busca de ouvir o outro e aprender algo
com isso da forma mais educada possível. Do contrário, são
apenas dois monólogos acontecendo ao mesmo tempo, não é
mesmo? Se você perceber ao início de uma conversa sobre
política que esse não é o seu caso ou o da outra pessoa
envolvida, talvez não seja uma boa ideia participar.

Discutir política no facebook


Em tempos de internet, discutir política através das redes
sociais já virou um clássico. Quem nunca se deixou levar por um
debate no Facebook? Talvez você já esteja cansado de saber os
problemas que aparecem em uma discussão de Facebook, mas
vamos relembrar aqui alguns deles.
O primeiro é a facilidade com que um debate sai dos trilhos e se
torna uma troca de ofensas, principalmente pessoais. Esse é o
primeiro sinal de que os argumentos de alguém já chegaram ao
fim, por isso a pessoa passa a ofender gratuitamente quem está
do outro lado. Por que será que fazemos isso?
As razões podem ser muitas, mas a principal delas é que o
debate deixou de ser uma troca de ideias e virou
uma competição. O importante da conversa passa a ser ganhar
a qualquer custo, sair de lá se sentindo vitorioso por derrotar o
outro.
Portanto, lembre-se sempre que o objectivo de um debate deve
ser a troca de conhecimentos e experiências. No lugar de tentar
convencer o outro debatedor a concordar com você, exerça sua
empatia e tente compreender por quais motivos aquela pessoa
pensa daquela forma, quais situações de vida a fizeram pensar
daquela maneira. Com certeza você terá muito a aprender a
partir disso.
Outra característica bastante frequente nos debates de internet
é algo que a gente falou por aqui, as notícias falsas. É,
infelizmente, bastante comum que pessoas apoiem seus
argumentos em informações inverídicas ou incompletas. É por
isso que antes de incluir uma informação em seus argumentos,
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você precisa seguir os princípios de fact checking  e comprovar a
confiabilidade delas. Uma notícia verdadeira deixa seu
argumento mais forte, enquanto uma Fake News  coloca em
cheque toda a sua credibilidade como debatedor.
Sabe como reconhecer uma notícia falsa? Leia: o mundo das fake
news e da (des)informação

O que é um bom argumento?


Por falar em argumentos fortes, existem alguns critérios
imprescindíveis que caracterizam uma boa argumentação. O
primeiro deles é nunca esquecer de fazer o dever de casa.
Muitas vezes gostamos muito de um tema e fica difícil resistir a
um debate sobre ele. Mas você tem certeza de que domina
realmente o assunto?

1) Evite achismos e generalizações


Antes de falar sobre ele, tenha certeza de que pesquisou o
suficiente, em diferentes fontes, todas elas bastante confiáveis.
Se você consegue discutir a questão de forma aprofundada
e sem recorrer a generalizações ou achismos, está no
caminho correcto. Caso contrário, pense duas vezes antes de se
animar e participar da discussão. Não existe problema algum em
assumir que não sabe o suficiente sobre um tema, todos nós
precisamos aprender e às vezes isso leva tempo. Seja paciente!

2) Opinião não é argumento


Essa frase pode doer em muita gente, mas de fato opiniões não
são argumentos, ainda que nossas crenças possam inferir sobre
nossa argumentação.
Nossas opiniões são embasadas em vivências de vida, na forma
com que enxergamos o mundo. O problema disso é que
podemos esquecer que nem todo mundo vive como a gente.
Temos acesso a uma visão bastante limitada da realidade e isso
coloca em cheque o quanto sabemos de algo, quando não
recorremos à ciência. Por isso, procure ler o maior número de
estudos científicos sobre o tema em debate. Evite buscar
respostas apenas na sua vivência, pois ela diz respeito somente
à sua própria realidade e quase sempre carregada de muitas
emoções.
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E lembre-se, nunca tente mudar a opinião do outro. Você já
viu, em um debate entre candidatos, algum deles mudando de
opinião durante a conversa? Então não espere que o desfecho
do seu debate seja necessariamente alguém mudando a forma
com que pensa. Lembre que existem diversas razões para que
alguém pense da forma que pensa. Se não somos capazes de
entender quais são elas, cabe a cada um de nós ao menos
respeitar, o famoso “concordar discordando”.
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Educação política: o que é e qual seu propósito


Se, por um lado, as manifestações populares dos últimos anos
sinalizaram que o brasileiro tem se interessado e valorizado
mais a política, por outro elas também revelaram a falta de
conhecimento dos brasileiros sobre a política. Não surpreende
que haja carência de educação política em um país com
problemas graves na educação básica. A não previsão  de
disciplinas escolares que abordam o sistema político brasileiro
ou a Constituição Federal prejudica ainda mais esse quadro. De
todo modo, é crescente o interesse em política e por isso cada
vez mais pessoas se dedicam a entender o tema, seja no
sentido prático – a política das instituições públicas, dos
movimentos sociais e de protestos de rua -, seja no sentido
teórico – teorias, correntes de pensamento e ideologias, que
moldam a acção prática dos indivíduos. Por isso, faz-se
necessário discutir o que precisamos ensinar e aprender em
relação à política. O que é educação política e o que se pretende
passar com ela? E afinal, qual é a relevância disso? Se preferir,
escute nosso podcast sobre o tema:

EDUCAÇÃO POLÍTICA: CONCEITO


Resumidamente, educação política é um processo de
transmissão de informações e conhecimentos cuja finalidade é
disponibilizar ao cidadão um repertório que lhe
permita compreender as nuances dos debates políticos no Brasil
e no mundo. E que também o capacite para participar
activamente da política.

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Isso já é feito recorrentemente no Brasil. Muitas entidades
oferecem cursos de formação política para a população, em
especial a jovens líderes motivados a causar impacto na
sociedade. O Politize! orgulhosamente se junta a esse  grupo de
instituições, ao oferecer conteúdos educativos sobre política
pela internet e, por conseguinte, disseminar a educação
política no país. Aprender e se informar sobre política nunca
esteve tão acessível.

MAS POR QUE EDUCAÇÃO POLÍTICA É IMPORTANTE?

Acreditamos que oferecer e disseminar educação política para a


população é o primeiro passo para a politização e a
conscientização. Isso tem grande potencial de render
benefícios para a democracia brasileira. Reflectir sobre política é
um exercício que propicia o pensar na colectividade. Implica
exercitar a empatia, já que somos expostos às visões do outro.
Sobretudo, nos leva a pensar em nosso papel como
cidadãos e no impacto de nossas acções na sociedade. Em
suma, a educação política é importante porque fornece
ferramentas para a cidadania  e, assim, empodera pessoas,
grupos e comunidades.

O QUE A EDUCAÇÃO POLÍTICA DEVE ENSINAR?


No Politize!, acreditamos que educar politicamente envolve
expor de forma didática e objetiva tópicos importantes sobre a
política nacional. Além disso, a educação política deve
respeitar a pluralidade de pensamento existente na sociedade.
Abaixo separamos alguns dos temas que cremos serem cruciais
para que o brasileiro compreenda o que se passa na política
nacional.

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As instituições

É muito importante entender o desenho institucional do Estado


brasileiro, que é onde se tomam as decisões mais importantes
da vida nacional. A divisão dos   três poderes , a democracia
representativa e a federação brasileira são aspectos básicos da
organização política do nosso país – e com as quais muitos não
têm familiaridade.
Ainda em relação às instituições, outras questões devem ser
levantadas, como o papel da Câmara e do Senado , a relação
entre Legislativo e Executivo, o papel de cada autoridade pública
e as regras constitucionais. Também cabe entender as funções
do Judiciário e como ele também influencia a política nacional.
No fim das contas, entender como se organiza o Estado
brasileiro é fundamental para compreender por que as coisas
são como são no nosso país.

Quem faz a política?


A educação política trata de aspectos que vão além do desenho
institucional de um país. As regras do jogo apenas  condicionam
a forma como ele acontece. Mas é preciso, além disso,  entender
como ele se desenrola. A política tem a ver com as relações de
poder existentes na sociedade. Existem diferentes grupos
interessados nas decisões tomadas em espaços como
as eleições, o Congresso e o Palácio do Planalto. Por isso, é
preciso entender a sociedade brasileira, como ela se constituiu e
como ela se tornou o que é hoje.

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Bandeiras políticas

A sociedade é formada por diferentes grupos e eles também


expressam visões políticas divergentes. A educação política
deve mostrar diferentes ideologias, que representem diferentes
formas de pensar sobre a vida em sociedade. Mas deve
principalmente ressaltar que há muitos tons de cinza entre um e
outro extremo e que a maioria de nós não precisa se conformar
a visões estereotipadas do que seria uma pessoa “de esquerda”
ou “de direita” , por exemplo.
Leia também: como um facilitador  pode ajudar na educação
política?

Desconstrução de visões negativas sobre


política
De acordo com Rodrigo Estramanho de Almeida, os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) não regulamentam a atividade da
educação política. Por outro lado, eles preveem que o ensino de
política deve superar a visão equivocada que muitos brasileiros
têm em relação à política. O senso comum em relação a esse
tema é que este se resume a um espaço para práticas corruptas
de bandidos e trambiqueiros.
Mas a política é muito mais do que a corrupção  de Brasília ou de
qualquer outra instância do serviço público. Em seu sentido mais
amplo, política é o processo de tomadas de decisão
colectivas sobre os mais diversos problemas. Trata-se de
uma prática recorrente e necessária, que fazemos o tempo todo
em nossas vidas. Família, escola, faculdade, empresa: todos
esses são espaços de vivência em comunidade e que por vezes
requerem deliberação e resolução conjunta de problemas. Uma
vez que vivemos em sociedade e somos

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afectados directamente por decisões colectivas, não há como
fugir da política.

Valores
A educação política também não pode se furtar da defesa de
valores fundamentais à convivência democrática. A política deve
envolver tolerância às diferenças, direito ao
contraditório, ética, responsabilidade e o reconhecimento
do outro. A democracia é incompatível com manifestações de
ódio e discriminação.

POLÍTICA NÃO PRECISA SER FEITA EM BRASÍLIA.


FAÇA VOCÊ MESMO!

Apesar de nossa atenção, enquanto cidadãos brasileiros, estar


muito voltada para Brasília, é um equívoco pensar que a política
se resume às decisões tomadas por lá. Em nossos bairros e
municípios, temos problemas próprios. Acreditamos que
a educação política deve orientar o cidadão a tomar consciência
dos problemas locais e participar da transformação do
lugar onde vive. Para isso, existem muitos espaços de
cidadania, como conselhos , audiências públicas , observatórios,
entre outros.
A democracia também está ao nosso alcance na internet. As
redes sociais tornaram-se um espaço de debate – mesmo que
muitas vezes envolto de ódio e intolerância. Órgãos públicos
disponibilizam meios de a população expressar sua opinião
sobre temas fundamentais. A internet também trouxe mais
formas de monitorar o trabalho dos nossos representantes e a
execução dos serviços públicos.

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