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NOVO PLURAL 12 • SOLUÇÕES

UNIDADE 1 – FERNANDO PESSOA

PÁG. 14
Esta breve atividade tem 2 objetivos:
1.º Promover um momento de interação regulada, que antecipe a prática do diálogo
argumentativo, mais adiante explorado, aplicado ao desenvolvimento do espírito crítico.
2.º Antecipar o contacto com o grande lema que está na origem da complexidade da obra de
Fernando Pessoa: Conhece-te a ti mesmo.

PÁG. 27
LEITURA DO TEXTO
1. A. V; B. F; C. F; D. V; E. F; F. V; G. V; H. F; I. V; J. V; K. F; L. F; M. V
1.1
B. O mundo ficcionado é «igual a este mas com outra gente».
C. Os amigos inventados não desapareceram − «ainda hoje, a perto de trinta anos de distância,
oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo… E tenho saudades deles»
E. Depois de escrever os poemas de Alberto Caeiro, Pessoa escreveu em seu próprio nome – «foi
a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.»
H. Álvaro de Campos foi criado em oposição a Ricardo Reis.
K. Escrever em nome de um ou de outro heterónimo é fruto de um impulso que difere de caso
para caso.
L. Bernardo Soares é um semi-heterónimo que, segundo Pessoa, tem semelhanças com Álvaro
de Campos e com o próprio Pessoa.

PÁG. 30
LEITURA DO TEXTO
2. 1. d.; 2. a.; 3. f.; 4. c.; 5. b.; 6. e.

PÁG. 35
LEITURA DO TEXTO
1. «O poeta é um fingidor» é a tese apresentada no poema. Significa esta afirmação que, no
poema, o poeta finge uma dor que não coincide com a dor sentida na realidade. Esta, ainda
que funcione como ponto de partida para a escrita, não é a dor escrita, que é uma invenção
(uma transfiguração) criada pela imaginação. É este o sentido da contradição presente nos vv.
3 e 4.
2. Os leitores, ao lerem o poema, sentem uma dor que não é a que o poeta sentiu, nem a que
ele escreveu, uma dor que lhes é alheia.
3. A última estrofe apresenta, metaforicamente, a relação entre a razão e o coração. O
coração é um comboio de corda, um brinquedo que se move regulado pelas calhas em que gira.
A razão é uma realidade à parte, mas simultaneamente estimulada (entretida) pelo coração.
4. Segundo o texto, a criação poética assenta no fingimento, na medida em que um poema
não traduz aquilo que o poeta sente, mas sim aquilo que imagina a partir do que anteriormente
sentiu. O poeta é, pois, um fingidor que escreve uma emoção fingida, pensada, por isso fruto
da razão e da imaginação e não a emoção sentida pelo coração, que chega ao poema
transfigurada pela imaginação. Quanto ao leitor, não sente nem a emoção vivida pelo poeta,
nem a emoção por ele imaginada no poema, mas apenas a que nele próprio é suscitada pelo
poema, e que é diferente da do poema. A poesia (a arte) é a intelectualização da emoção.
5. auto + psico + grafia

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Tendo em conta o significado de cada elemento, autopsicografia remete para a análise dos
mecanismos psicológicos envolvidos na escrita.
6. Estrutura formal
Regularidade formal: 3 quadras de versos de redondilha maior, com o esquema rimático abab
(rima cruzada).

PÁG. 36
LEITURA DO TEXTO
1. Ao escrever, o poeta utiliza a imaginação e não o coração.
2. As emoções (sonhos, vivências, ausências, perdas) são semelhantes a um terraço que dá para
uma outra realidade mais bela, a realidade imaginada, a arte, com a sua dimensão estética.
3. «Essa coisa é que é linda.»
4. O poeta escreve distanciado do que sentiu anteriormente («escrevo em meio / do que não
está ao pé»), sem emoção («livre do meu enleio»).
5. O último verso é claramente irónico, uma espécie de piscadela de olho ao leitor que ao ler
os versos sentirá qualquer coisa de completamente diferente do que o poeta sentiu.
6. Estrutura formal
O poema apresenta uma grande regularidade formal: é constituído por três estrofes de cinco
versos de seis sílabas métricas, com o esquema rimático ababb ou seja, rima cruzada e
emparelhada.
7. Os poemas «Autopsicografia» e «Isto» têm como tema comum o fingimento artístico,
funcionando ambos como uma espécie de arte poética na qual o poeta expõe o seu conceito
de poesia como intelectualização da emoção.

PÁGS. 37-38
LEITURA DO TEXTO
1. A primeira parte corresponde às três primeiras quadras, cujo foco é a ceifeira; a segunda
parte corresponde às três últimas quadras, cujo foco é o sujeito poético.
2. O canto da ceifeira brota de uma voz simultaneamente alegre e triste, é suave e musical
como um canto de ave.
A metáfora «Ondula» e a comparação entre a voz e o «canto de ave» são particularmente
expressivas na caracterização da suave musicalidade; a antítese «alegra e entristece» evidencia
o contraste dos efeitos da perceção do canto pelo sujeito, cuja consciência capta a tristeza que
subjaz à alegria da ceifeira.
3.1 O adjetivo «pobre», anteposto ao nome «ceifeira», expressa a apreciação subjetiva que o
sujeito poético faz da mulher − «pobre», porque não sabe. Se o mesmo adjetivo estivesse
colocado depois do nome, indicaria a condição social da ceifeira.
3.2 Deixa-o alegre e triste.
3.3 A ceifeira canta «sem razão» (sem pensar). Ao contrário, o sujeito, que sente tristeza e
alegria ao ouvir o canto, pensa no que sente, não consegue sentir sem pensar. Nele, a sensação
converte-se em pensamento, intelectualiza-se.
3.4 O sujeito poético gostaria de ser a ceifeira com a sua «alegre inconsciência», gostaria de
sentir sem pensar, mas gostaria, simultaneamente, de ser ele mesmo, ter a consciência de ser
inconsciente. O que o sujeito poético deseja é não sofrer da dor de pensar, unir o sentir ao
pensar.
4. Ciente da dor de pensar, é com tristeza e desolação que o sujeito poético afirma a
consciência do peso da ciência, da lucidez, do pensamento, que impede que a vida, tão breve,
seja vivida inconsciente e alegremente.

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5. O sujeito poético deseja libertar-se da dor de pensar e deixar-se invadir e guiar pelas
sensações despertadas pela Natureza − o céu, o campo − e pela canção da ceifeira. Este desejo
de sentir equivale ao desejo de não pensar.
6. Flexão verbal – na primeira parte (est. 1, 2, 3) é utilizado, na 3.ª pessoa, quase
exclusivamente o presente do indicativo que presentifica o confronto entre o poeta e a
ceifeira; na segunda parte (est. 4, 5, 6) é utilizado sobretudo o imperativo, que traduz o
apelo/desejo do poeta de ser como a ceifeira; o gerúndio (Julgando-se, pensando, levando-
me) está também presente, atribuindo um aspeto durativo à ação.
Pontuação – as frases imperativas, que exprimem apelo/desejo, são exclamativas, cheias de
intensidade emotiva.
7. Comparação de poemas
O tema é o mesmo em ambos os poemas − a dor de pensar provocada pela intelectualização do
sentir, que anula esse sentir. O poeta gostaria de ser como a ceifeira, ter a sua alegre
inconsciência, mas, ao mesmo tempo, saber que era possuidor dessa inconsciência. Do mesmo
modo, gostaria de ser como o gato que apenas sente («sentes só o que sentes») e, por isso, é
feliz («És feliz porque és assim»), enquanto o poeta pensa («vejo-me e estou sem mim, /
conheço-me e não sou eu.»).

PÁG. 40
LEITURA DO TEXTO
1. Poderemos considerar que o poema se organiza em três partes, correspondendo a primeira
às duas primeiras estrofes, a segunda à terceira estrofe e a terceira à quarta estrofe.
2. Na primeira parte, o sujeito poético apresenta a hipótese de ser possível a concretização do
sonho.
2.1 A formulação da hipótese socorre-se de diversos processos linguísticos. Destacam-se as
orações condicionais («se é sonho, se realidade / Se uma mistura...»), a utilização repetida
do advérbio de dúvida talvez, o uso do conjuntivo (deem).
2.2 O poema inicia-se com a 1.ª pessoa do singular, que traduz a reflexão pessoal, mas, ainda
na primeira estrofe, o sujeito poético passa a utilizar a 1.ª pessoa do plural, que generaliza o
âmbito da reflexão àqueles que sonham, sem deixar o sujeito de estar implicado nessa
categoria. Contudo, esta 1.ª pessoa do plural marca a passagem para a reflexão filosófica,
passagem que é evidenciada pelo uso da 3.ª pessoa em expressões como essa terra se pode ter,
Só de pensá-la cansou pensar, Sente-se o frio de haver luar. No final do poema, retoma-se o
uso da 1.ª pessoa do plural, generalizador e aglutinador de sujeito poético + homens: «Que o
bem nos entra no coração. / É em nós que é tudo)».
2.3 A ilha é a representação do sonho. Ligada a esta representação está a ideia de felicidade,
de paraíso alcançado, na terra de suavidade, com palmares, áleas, sombra e sossego, onde a
vida é jovem e o amor sorri.
3. A conjunção coordenativa adversativa «Mas».
3.1 A hipótese de realização do sonho é agora anulada, já que, uma vez realizado, o sonho
deixa de o ser, logo, a concretização é falsa.
4.1 Não é com sonhos longínquos, nem com objetivos distantes que a felicidade se encontra,
pois aquilo que procuramos está dentro de nós mesmos.
4.2 «É em nós que é tudo». Por um lado, esta afirmação sintetiza uma das principais linhas de
pensamento da poética de Fernando Pessoa ortónimo, na medida em que coloca na primeira
linha do ser a procura de si mesmo. No entanto, também a procura do que está para além, a
distância, o longe, é tema fundamental nesta poesia.
5. O sonho era a distância, o ali, aquela terra, essa terra; uma vez atingido é a realidade, nesta
terra, onde o mal não cessa, não dura o bem.

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5.1 O sujeito poético começou por colocar como possibilidade a realização do sonho; depois
anula essa hipótese, considerando que, uma vez realizado, o sonho deixa de o ser; finalmente,
conclui que não é necessário fugir para o sonho, porque aquilo que procuramos está dentro de
nós mesmos. No entanto, à boa maneira de Pessoa, no fim do poema, retoma a ideia inicial,
reafirmando a supremacia do sonho sobre a realidade: «É ali, ali, / Que a vida é jovem e o amor
sorri».
6. O tema central do poema é o binómio sonho/realidade.
7. A regularidade métrica (versos de 9 sílabas), a rima, as repetições, as aliterações, a
interrogação são os processos que mais contribuem para a musicalidade do poema.

PÁG. 41
LEITURA DO TEXTO
1. A afirmação «Contemplo o que não vejo», aparentemente contraditória, significa que o
sujeito poético vê o que está para além da realidade.
2. «muro» − metáfora da fronteira entre realidade e sonho; fronteira que estabelece os limites
do eu.
3. «Tudo é do outro lado».
4. Desde o 1.º verso que realidade e sonho se confundem. Na 3.ª estrofe, ao afirmar «Tudo é
do outro lado, / No que há e no que penso», o sujeito poético reafirma essa confusão, pois
transfere a realidade (o que há) para o lugar do sonho (o outro lado). Na última estrofe, a
confusão é explícita, quando o poeta afirma «Confunde-se o que existe / Com o que durmo e
sou», acrescentando-se, assim, a confusão entre o mundo exterior (o que existe) e o mundo
interior (o que sou), que é, afinal, a confusão entre a sua individualidade e a realidade.
5. Talvez a contradição final não possa ser explicada, mas é também possível que o sujeito
tente exprimir, através dela, a sua incapacidade de sentir (porque a imaginação se sobrepõe à
sensação/ emoção), ao mesmo tempo que afirma a sua angústia.

PÁG. 43
LEITURA DO TEXTO
1. D.
2. A.
3. C.
4. C.
5. B.
6. B.
7. C.
8.1 Antecedente do pronome ele: «o texto».
8.2 Oração coordenada adversativa: «mas a peça só ficaria a perder com a sua mudança».
Oração subordinada adverbial temporal: quando ele é tão rico em sonoridades e recursos
estilísticos.
8.3 Respetivamente, complemento do nome e predicativo do sujeito.

PÁG. 45
LEITURA DO TEXTO
1.1 A criança.
1.2 O sujeito poético afirma que, para crescer e chegar ao presente («ser quem sou»), teve de
deixar para trás a criança que foi. No entanto, concluindo que no presente é nada, tem o desejo
impossível de regressar à infância e recuperar a criança deixada no caminho.

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2. O sujeito poético exprime angústia e vazio interior, provocados pelo desconhecimento da


sua identidade («Já não sei de onde vim nem onde estou. / De o não saber, minha alma está
parada.»), ao mesmo tempo que reconhece a impossibilidade de um regresso à infância como
solução de reencontro de si mesmo («Quem errou / A vinda tem a regressão errada.»).
3. Perante a impossibilidade de regressar à infância, o sujeito poético resigna-se com a
possibilidade da memória («Um alto monte, de onde possa enfim / O que esqueci, olhando-o,
relembrar»), que lhe permita vislumbrar a criança que foi e encontrar em si um lampejo do que
foi.

PÁG. 47
LEITURA DO TEXTO
1. Colagem/Interseção
A colagem é utilizada no poema, cruzando e colando dois planos distintos que, intersecionando-
se, acabam por se misturar:
− o concerto no teatro, com o seu maestro, a que o poeta assiste;
− a memória da criança-poeta que joga à bola no quintal.
2. Progressão da colagem
− 1.ª estrofe: «a música rompe» e estimula a memória da infância: «Lembra-me a minha
infância, aquele dia». À infância corresponde o pretérito imperfeito.
− 2.ª estrofe: «Prossegue a música», mas a infância já não é apenas memória, invade o presente:
«e eis na minha infância / de repente entre mim e o maestro». À infância corresponde, agora,
e até ao fim do poema, o presente do indicativo.
− 3.ª a 6.ª estrofes: a infância presentificada confunde-se com a realidade presente do concerto
no teatro, o passado sobrepõe-se euforicamente ao presente, a imaginação-memória sobrepõe-
se à realidade.
− 7.ª estrofe: «a música cessa» e, lentamente, disforicamente, a infância desaparece: «A bola
rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos»; «Bola branca que lhe desaparece
pelas costas abaixo…».
3. Palavras coladas, mudadas
A colagem entre os dois planos passa pela colagem das palavras e expressões que ganham um
sentido completamente novo e inesperado, modernista (recordar, a este propósito, o texto da
pág. 16). Deste uso novo e transgressor das palavras resulta um texto que cria uma realidade
também nova e no qual poderão assinalar-se, pelo seu particular interesse, as metáforas, as
personificações, e a adjetivação.
4. Técnica modernista
Será interessante complementar a leitura deste poema com a observação de reproduções de
pintura modernista nas quais seja utilizada a técnica da colagem.

PÁG. 48
ORALIDADE
A nostalgia da infância é um dos temas fundamentais da obra de Fernando Pessoa ortónimo,
partilhado pelo heterónimo Álvaro de Campos (ver poema «Aniversário», pág. 64).
a. Para Pessoa, a infância é o passado irremediavelmente perdido, o tempo longínquo em que
era feliz sem saber que o era, o tempo em que apenas sentia, inconsciente daquilo que sentia,
sem pensar. Era o tempo em que ainda não procurava conhecer-se e, por isso, era um ser uno,
não fragmentado em diversos eus: «E eu era feliz? Não sei: / Fui-o outrora agora»; «Numa onda
de alegria que não foi de ninguém».
b. Em muitos poemas, o poeta exprime a memória dessa infância suscitada por um qualquer
estímulo – uma «velha música», um som («Quando as crianças brincam / E eu as oiço brincar»),

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uma imagem, uma palavra −– para concluir amargamente que o rosto da criança que foi não se
ajusta ao seu rosto presente, não há coincidência entre o eu-outrora e o eu-agora.
Em Pessoa, a passagem da infância à idade adulta não é um processo evolutivo e tranquilamente
natural, é um processo de rutura, de corte, de morte. «A criança que fui vive ou morreu?»,
interroga-se lancinantemente o poeta que diz ainda: «Porque não há nenhuma semelhança /
Entre quem sou e fui?». Todo o poema «Porque esqueci quem fui quando criança?» exprime
essa estupefação perturbante de se sentir habitado por outro, diferente da criança que foi:
«Sou outro? Veio um outro em mim viver?».
c. Desta forma, o passado e o presente opõem-se, não se complementam. O passado é
infância, alegria, felicidade inconsciente; o presente é nostalgia, ânsia, desconhecimento de si
mesmo e do futuro: «Se quem fui é enigma / E quem serei visão, / Quem sou ao menos sinta /
Isto no coração.».

PÁG. 51
LEITURA DO TEXTO
1. Como o pastor anda nos campos a guardar os rebanhos, o sujeito poético anda nos campos a
guardar os pensamentos.
1.1 Os rebanhos são os pensamentos, por isso o livro se chama Guardador de Rebanhos
(guardador de pensamentos).
1.2 Identificando-se com um pastor, (de pensamentos), o sujeito poético identifica-se com a
Natureza, anda ao seu ritmo; compara os estados de alma com a Natureza («Mas eu fico triste
como um pôr de sol [...] Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite»); apresenta
essa identificação através de um desejo dirigido aos leitores («pensem / Que sou qualquer coisa
natural – / Por exemplo, a árvore antiga»).
Estão presentes expressões que traduzem a paz e a felicidade que a comunhão com a Natureza
traz ao sujeito: «Toda a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado»; ou «a minha
tristeza é sossego / Porque é natural e justa» e «Os meus pensamentos são contentes».
2. O sujeito poético controla os pensamentos, não os deixa perder-se na distância. Caeiro
afirma a submissão do pensamento às sensações. Já na estrofe 2, autonomiza a ação /
sensação relativamente à consciência, ao afirmar «é o que deve estar na alma / Quando já
pensa que existe / E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.» Mas é na estrofe 3 que exprime
o desejo de abolir o vício de pensar, lamentando o facto de ter consciência dos pensamentos.
Depois, na estrofe 4, apresenta uma espécie de máxima argumentativa que sustenta o seu
desejo: «Pensar incomoda como andar à chuva.»
3. Assume o primado das sensações, enunciando reiteradamente o ato de ver, em sentido
denotativo ou conotativo, e referindo, além das sensações visuais, outras que o real suscita. Na
1.ª estrofe, ver é o objetivo da deambulação pela Natureza («Minha alma [...] anda pela mão
das Estações / A seguir e a olhar.»), mas, na estrofe 7, a visão e o tato têm um sentido
conotativo e estão associados a uma operação, comum em Caeiro, de conversão do abstrato −
pensamentos / ideias − em concreto − rebanho («Sinto um cajado nas mãos / E vejo um recorte
de mim / Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias / Ou olhando para as minhas
ideias e vendo o meu rebanho»). Outras sensações estão presentes. Na primeira estrofe, um
misto de sensações térmicas e visuais surge como fonte de emoção («Mas eu fico triste (...)
Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite»); na estrofe 6, está também presente
uma sensação auditiva («E corre um silêncio pela erva fora»).
4.1 Caeiro afirma-se alheio a desejos e afirma que ser poeta é só uma forma de estar sozinho
e de captar o real através dos sentidos. Desta forma reafirma o primado das sensações. Para
ele, escrever versos e passear pelos caminhos equivalem-se, pois os versos são escritos no
pensamento, ao mesmo tempo que o poeta sente.

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4.2 É a saudação de um camponês que tira o chapéu em sinal de respeito e deseja o que é mais
importante para um homem ligado à Natureza: sol e chuva. Deseja outras coisas simples: uma
casa com uma janela aberta (que permita ver a Natureza) e uma cadeira preferida, propícia à
leitura serena dos seus versos.
5. Linguagem e estilo e estrutura
Léxico: vocabulário simples, de uso familiar e comum.
Sintaxe: predomínio da coordenação, sobretudo com uso da conjunção copulativa e e da
adversativa mas; a subordinação, muito menos frequente, restringe-se às conexões mais
simples: a causal porque, a temporal quando e a relativa que. É um tipo de articulação do
discurso muito elementar, como verificamos, por exemplo, na sucessão do articulador e, na
última estrofe. Destas características resulta um tom espontâneo e ingénuo.
Recursos expressivos
A enumeração decorre do uso da coordenação copulativa. Ex.: estrofes 1, 2, 7 e 8.
As muitas comparações substituem o abstrato pelo concreto. Ex.:
− «Minha alma é como um pastor»
− «eu fico triste como um pôr de sol»
− «a noite entrada / Como uma borboleta pela janela.»
A personificação da Natureza intensifica o bucolismo panteísta. Ex.:
− «a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado.»
− «uma nuvem passa a mão por cima»
Poema longo, com liberdade estrófica (8 estrofes, a menor com 2 versos e a maior com 16
versos); liberdade métrica; verso branco.

PÁG. 52
LEITURA DO TEXTO
1. O girassol olha sempre o sol de frente. Assim, um «olhar nítido como um girassol» é aquele
que vê a realidade à luz do sol, com toda a nitidez que essa luz propicia.
1.1 A afirmação do 1.º verso vai progredindo através de expressões que traduzem o olhar tudo,
em todas as direções, em todos os momentos, com um olhar sempre renovado como o de um
recém-nascido.
2. Na segunda estrofe, o poeta afirma acreditar na realidade porque a vê, a sensação visual
basta-lhe na sua relação com o Mundo. Rejeita o pensamento, argumentando que «pensar é
não compreender».
3. «Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…». Considerando que a filosofia é a procura, a
interrogação do conhecimento, este verso corresponde a uma afirmação convicta e assertiva
do primado da sensação sobre o pensamento.
4. Máximas argumentativas
− «Pensar é não compreender…»
− «Pensar é estar doente dos olhos»
− «Quem ama nunca sabe o que ama / nem sabe porque ama, nem o que é amar»
− «Amar é a eterna inocência,»
− «A única inocência é não pensar…»
5. Mostra como Caeiro consegue o que para o ortónimo é um desejo impossível: submeter o
pensar ao sentir, abolir a dor e o vício de pensar e viver pelas sensações.
6.
«Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar.»
Logo, amar é não pensar.

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PÁG. 53
LEITURA DO TEXTO
1.1 É a constatação de que não vê mistério nas coisas que leva o poeta a interrogar-se sobre
«o mistério das cousas».
1.2 O sujeito poético compara-se com dois elementos da Natureza, o rio e a árvore, igualando-
se a eles, para apresentar a argumentação que prova a sua tese de não haver mistério nas
coisas. Assim, afirma que a Natureza existe sem conhecer o seu mistério, logo ele não pode
conhecer esse mistério (pois ele não existe).
1.3 Ao contrário do poeta, que acredita que as coisas são apenas o que são e, por isso, não têm
mistério a desvendar, as outras pessoas pensam sobre as coisas, logo acreditam que elas são
portadoras de algo mais para além daquilo que é visível e nos dão a sentir.
2.1 A conjunção «porque» é o articulador que estabelece a relação de causa entre a primeira
e a segunda estrofe.
2.2 O paradoxo, algo irónico, reafirma a total inexistência de mistério nas coisas.
3. Na última estrofe, em jeito de conclusão, o poeta reafirma a tese enunciada e provada ao
longo do poema, como uma aprendizagem resultante da experiência de vida conduzida pelos
sentidos, a única fonte do verdadeiro conhecimento.
4. A identificação com a Natureza, a recusa de um sentido para além daquilo que a realidade
nos dá a ver e a sentir, o primado do sentir sobre o pensar, bem como a simplicidade da
linguagem, o pendor argumentativo, a liberdade estrófica e métrica e a utilização do verso
branco são alguns dos aspetos que tornam este poema característico da poética de Caeiro.

PÁG. 54
ESCRITA
Deve ter em conta que este género textual deve apresentar:
A. Conteúdo: descrição + apreciação.
B. Texto:
− apresentar informação significativa;
− fundamentar as opiniões;
− usar o presente do indicativo;
− usar vocabulário, marcadores e conectores que organizem o texto e lhe confiram coesão,
coerência, clareza e concisão.
Nota: No que diz respeito à relação com a poesia de Caeiro, é fundamental referir a sensação
visual como modo de apreensão da realidade e a relação com a Natureza.

PÁG. 56
LEITURA DO TEXTO
A leitura deste excerto da «Ode triunfal» tem como objetivo propiciar aos alunos o contacto
com um poema no qual se exprime, de uma forma muito evidente, a exaltação do moderno,
expressa pelo futurismo sensacionista de Álvaro de Campos, interpretação pessoana do
Futurismo que sacudiu as vanguardas artísticas europeias da segunda década do século XX.
Assim, não importa fazer uma análise exaustiva do texto, mas reconhecer nele aspetos que
ilustrem esse sentir moderno, por um lado, e a sua conjugação com o culto da sensação, o
sensacionismo, que Campos terá bebido em Caeiro.
1. A realidade percecionada pelo sujeito poético é marcadamente moderna (na época), um
ambiente industrial em plena e intensa atividade. O sujeito poético integra-se e confunde-se
emocionalmente com essa realidade, numa clara exaltação do Moderno. (Tome-se, como
exemplo, toda a 2.ª estrofe, o final da 3.ª e, sobretudo, o desejo expresso na 4.ª estrofe.)

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Note-se ainda que a simbiose entre o sujeito poético e a realidade moderna é expressa através
da justaposição dos campos lexicais de corpo e de indústria, conjugação que pode ser
verificada através do levantamento das palavras e expressões que os integram.
2. O sujeito poético exprime, com exaltação e excesso, o seu orgulho em ser moderno,
contemporâneo de uma beleza industrial «totalmente desconhecida dos antigos». Esta
exaltação está intimamente relacionada com o desejo assumido de acolher todas as sensações,
concretizado na intensidade com que vê, ouve e sente a realidade («E arde-me a cabeça de vos
querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações, / Com um excesso
contemporâneo de vós, ó máquinas!»). O sensacionismo de Álvaro de Campos é evidente neste
poema futurista.
3. A exaltação com que é vivido o contemporâneo futurista conduz à fusão do passado e do
futuro no presente exaltado («Porque o presente é todo o passado e todo o futuro»). Esta
exaltação é verbalizada num tom épico, eufórico.
4. – Verso livre, branco, predominantemente longo, de métrica irregular
− anáfora: vv. 8 e 9;
− onomatopeia: r-r-r-r-r-r-r;
− aliteração:« À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas»; «Em fúria fora»; «a cabeça de
vos querer cantar com; ferro e fogo e força»;
− apóstrofe: «Ó rodas, ó engrenagens»;
− metáfora: «Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo»
Nota: Estes são apenas alguns exemplos.

PÁG. 59
LEITURA DO TEXTO
1. O sujeito poético está num cais marítimo, numa manhã de verão.
2.1 «Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. / Vem muito longe, nítido, clássico à sua
maneira.»
A tripla adjetivação antecede o nome «paquete», de uma forma impressionista, sugestiva,
referenciando o paquete como a impressão visual de um ponto pequeno e negro, porque
distante, mas já claro, nítido. O paquete, embora moderno, é «clássico à sua maneira»,
evocação de todos os barcos que em todos os tempos se aproximaram dos cais, vindos da
distância.
2.2 O gerúndio, usado sozinho e no complexo verbal «vem entrando», traduz o movimento
contínuo e gradual de aproximação do navio.
3. A vida marítima que acorda aos poucos manifesta-se nas velas que se erguem, nos
rebocadores que avançam, nos pequenos barcos que vão surgindo.
4.1 Mas é um articulador que estabelece oposição entre a realidade visível e próxima e aquilo
de que o sujeito poético se sente mais perto: o paquete que se avista ao longe.
4.2 As sensações despertadas pelo paquete são «doçura dolorosa» semelhante a uma náusea,
um enjoo do espírito.
5. O volante é uma expressão futurista do sentir interior, da emoção do sujeito poético.
6. Qualquer navio que entra na barra simboliza o mistério da partida e da chegada, a memória
de outros lugares e de outros momentos. Significa que o navio é muito mais do que ele mesmo,
carregado de significações metafísicas e, por isso, perturbante.
7.1 «Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!» − metáfora que remete para a ideia de saudade
intrínseca ao cais, porque lugar de chegada e de partida, saudade perpetuada na pedra do cais.
7.2 A partida dos navios provoca no sujeito poético uma angústia inexplicável, uma tristeza
indefinível e nostalgia.

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8. Campos aprendeu com Caeiro a viver as sensações, mas não vive de sensações, como o seu
Mestre. Campos sente, mas sente excessivamente, não com a calma de Caeiro e, além disso,
as sensações despertam nele pensamentos que são fugas do real para a imaginação.

PÁGS. 60-61
LEITURA DO TEXTO
1. Partes do poema:
situação presente do sujeito − estrofes 1, 2 e 3;
nostalgia do passado − estrofes 4 e 5;
situação presente do sujeito − estrofe 6;
reflexão realidade/sonho − estrofes 7 e 8;
regresso à situação presente − último verso da estrofe 8 e estrofe 9.
2. A presença repetida do «tic-tac das máquinas de escrever» marca muito expressivamente a
monotonia e o tédio da vida quotidiana e profissional do sujeito poético. O advérbio
«banalmente» sublinha a vulgaridade quotidiana do som insuportável, sinistro. Na estrofe 6, é
esse «tic-tac» que o acorda para a reflexão, depois de ele se ter refugiado na lembrança do
passado. No final, ergue-se «a voz» das máquinas de escrever e o seu «tic-tac» acaba por se
impor a qualquer memória ou reflexão.
3. Este poema apresenta uma interessante relação direta com a biografia de Álvaro de Campos:
o sujeito poético é o engenheiro que se sente enclausurado no seu «cubículo», sozinho com o
seu tédio, cansado da banalidade de um quotidiano que lhe é insuportável. O «tic-tac» das
máquinas de escrever faz adivinhar a presença de outros a que ele é alheio, como é alheio até
de si mesmo: «Remoto até de quem sou». Sentindo-se a viver uma vida falsa, refugia-se no
sonho.
4. Como em Pessoa ortónimo, «Outrora» é a palavra mágica que abre a porta à nostalgia da
infância, uma espécie de era uma vez em que o sujeito poético se refugia para fugir ao tédio
insuportável do presente. É que, nesse passado irremediavelmente perdido, ele era outro, era
verdadeiro na coincidência entre o sonho e a vida.
5. «Temos todos duas vidas» é o verso que inicia a reflexão do sujeito, para quem a vida
verdadeira é a do passado, a do sonho, aquela em que apenas existe a felicidade imaginária.
Pelo contrário, a vida que vivemos na realidade banal e quotidiana e que o sujeito poético vive
no seu presente de engenheiro útil e prático é falsa.
Dois campos lexicais são particularmente expressivos para traduzir as duas vidas que todos
temos. A vida sonhada (a verdadeira) é, paradoxalmente, traduzida pela utilização de palavras
do campo lexical de contos de fadas, a vida real (a falsa) é traduzida por palavras do campo
lexical de morte.

PÁG. 62
GRAMÁTICA NO TEXTO
1. Passado: «eram castelos e cavalarias»; «Eram grandes paisagens do Norte»; «a que sonhámos
na infância».
Presente: «Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro»; «Firmo o projeto».
2. Passado: «Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavalarias»;
Presente: «Neste momento, pela náusea, vivo só na outra».
3. Orações subordinadas adverbiais temporais:
«quando fui outro»;
«quando fui verdadeiro ao meu sonho».
As orações adverbiais temporais do poema remetem para o passado.
4. Estrofes 4 e 5.

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5. Na estrofe 6, a expressão «a que sonhámos na infância, E que continuamos sonhando, adultos


num substrato de névoa» revela como o passado emerge no presente, tem continuidade no
presente, pois é nele que, segundo o sujeito, reside a vida verdadeira do sonho.
6. Simultaneidade
As estrofes 1, 2 e 3.
7. A − «Sozinho guio»
B − «não ter ficado em Lisboa»
C − «que mais haverá»; «terei pena»
D − «Vou passar a noite a Sintra»
E − «Sempre esta inquietação sem propósito»
F − «quando chegar a Sintra»
G − «sozinho guio», «Me parece», «ou me forço»
H − «Que sigo sem haver Lisboa deixada»
I − «ou Sintra a que ir ter».

PÁG. 65
LEITURA DO TEXTO
1.1 O passado era o tempo da infância feliz, da alegria partilhada pela família, da inocência e
despreocupação.
1.2 Predomina, claramente, o pretérito imperfeito (aspeto imperfetivo), que exprime um
tempo passado prolongado, que teve a duração da infância.
2.1 Na infância, o sujeito poético era feliz, mas não sabia que o era. Só no presente, em que
já perdeu essa felicidade inocente da infância, é que sabe que foi feliz.
2.2 Predomina o pretérito perfeito (aspeto perfetivo), que marca o passado concluído, morto.
3.1 O presente é um tempo degradado, de ausência, perda, vazio e solidão, um tempo sem
sentido.
3.2 O vazio do presente é expresso por metáforas e comparações muito expressivas.
4. O sujeito exprime o desejo impossível de regresso/recuperação do passado/infância.
5.1 A expressão «Vejo tudo outra vez» inicia a presentificação do passado que, assim, substitui
o presente.
5.2 À euforia do passado tornado presente segue-se, na estrofe seguinte, a disforia da tomada
de consciência de que é impossível recuperar a felicidade perdida da infância e de que o
presente vazio é a única possibilidade.
5.3 No futuro, apenas a velhice.
6. Da repetição, muito usada, destacam-se: a repetição do 1.° verso («No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos») a marcar a tentativa repetida de reviver o passado e a
estabelecer uma espécie de circularidade (com ligeira variação, entre o 1.° e o último verso);
as anáforas «Quando vim» (2.ª est.), «O que eu fui» (3.ª est.), em contraste com a anáfora «O
que eu sou hoje» (4.ª est.), marcando a antítese passado/presente; o verso dramaticamente
repetitivo, desesperado: «Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!».
As repetições, incluindo as anáforas, têm também valor fonético, na medida em que conferem
musicalidade ao poema, umas, e cadência, outras.

PÁG. 66
GRAMÁTICA NO TEXTO
1.1 Valor perfetivo: «Vim aqui para não esperar ninguém»;
Valor imperfetivo: «Vai pelo cais fora um bulício».
1.2
4 − A − Já ao longe o paquete de África se avolumou e esclareceu.
3 − B − Regressava à cidade como à liberdade.

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5 − C − A vida é um grande cansaço de ser tanta coisa.


1 − D − Aos domingos, vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima.
2 − E − Costumo vir aqui para não esperar ninguém.
1.3
Genérico: Trago sempre um grande cansaço de ser tanta coisa.
Habitual: À segunda feira trago um grande cansaço de ser tanta coisa.
Perfetivo: Ontem trouxe um grande cansaço de ser tanta coisa.
Iterativo: Tenha trazido um grande cansaço de ser tanta coisa.

PÁG. 69
LEITURA DO TEXTO
1. O sujeito assume a negatividade, através da reiteração de palavras de sentido negativo −
não, nada, nunca. Começando pela afirmação radical «Não quero nada», lança o mote para a
negação das convenções e construções humanas (estéticas, moral, sistemas, descobertas,
ciência), que são a base da estruturação mental e social. Rejeita também os padrões de vida
pessoal impostos socialmente. Esta negação conjuga-se com a afirmação arrogante e lancinante
de uma individualidade solitária que o diferencia e afasta dos outros, gritando
veementemente «Quero ser sozinho. / Já disse que sou sozinho!», ainda que a justificação seja
a assunção irónica da loucura ou a imagem da loucura «Fora disso sou doido […] ouviram?».
2. A modalidade deôntica é uma marca deste poema, como atesta o uso das 12 frases
imperativas (vv. 3, 5, 6, 7, 8, 10, 20, 21, 22, 24, 34). No poema, este uso, com valor de
obrigação, traduz a afirmação do direito à singularidade, gritada pelo sujeito poético aos que
insistem em querer formatá-lo, normalizá-lo.
3. As 2 últimas estrofes apresentam um tom diferente: o olhar sobre a Lisboa revisitada evoca
a infância e provoca a nostalgia desse tempo irremediavelmente perdido, uma nostalgia
angustiada, ligada à única verdade: o passado não regressa, «a única conclusão é morrer.»
4. É o regresso a Lisboa, a cidade da infância, que provoca no sujeito poético a nostalgia, mas
também a raiva por não reconhecer já o seu rosto no rosto do lugar. A sensação é semelhante
à que experimentamos quando visitamos os lugares da nossa infância e os achamos outros, mais
pequenos e desajustados à memória que construímos deles, e sentimos o terrível arrepio de
saber impossível o regresso. Só resta ao sujeito o grito desesperado do desajuste à cidade, mas
também a tudo, à vida, aos outros.

PÁG. 70
GRAMÁTICA NO TEXTO
2. a., b. e c.: modalidade epistémica; d. modalidade apreciativa.
3. a. Devo ser qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga
b. Provavelmente sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga
c. Serei qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga

PÁG. 72
LEITURA DO TEXTO
1.1 Diferentemente do sujeito poético, «uns» e «outros» são os que não são capazes de viver o
presente. Assim, «uns» vivenciam o tempo olhando para o passado, o que significa não ver a
realidade, pois sendo passado, já não existe. «Outros» olham para o futuro e, por isso, também
não veem a realidade, uma vez que o futuro apenas pode existir na imaginação.
1.2 Anástrofes − Ao sujeito «Uns» deveria seguir-se o grupo verbal do predicado «Veem o que
não veem», que integra uma oração a funcionar como complemento direto, e só depois o
modificador do grupo verbal «com os olhos postos no passado».

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2.1 Consciente da mortalidade, o sujeito defende uma filosofia de vida assente na vivência do
presente sem fuga para o passado ou para o futuro. É preciso viver o presente, pois o tempo
passa inexoravelmente e nós passamos com ele, não podemos fugir à morte.
3. «Colhe / O dia, porque és ele» é o conselho que o sujeito poético dá, no qual está contida a
ideia de que é preciso aproveitar o momento presente (o «dia») na sua brevidade, porque nós
somos momento, apenas no presente existimos, e é o presente que devemos fruir. É a filosofia
clássica epicurista do carpe diem que está subjacente a este poema. (Texto pág. 74).

PÁGS. 73-74
LEITURA DO TEXTO
2. O sujeito poético põe em confronto realidades de importância completamente díspar na
escala dos valores humanos: por um lado, a pátria, a glória, a virtude, por outro as rosas e as
magnólias. Ora, o que causa estranheza é o sujeito afirmar que prefere as segundas às
primeiras, declaração que parece insólita, quando considerada isoladamente.
3. O sujeito deseja que a vida passe por ele sem o alterar, sem lhe provocar cansaço, que é o
mesmo que dizer sem que ele se mova seja por que motivo for. Tal desejo explica o desinteresse
revelado, na estrofe anterior, pelas coisas superiores, como a pátria, a glória e a virtude, pois
estas fazem mover o homem, obrigam-no a envolver-se.
4. As interrogações retóricas surgem no sentido da afirmação de que nada na vida tem
importância, uma vez que nada pode impedir a passagem do tempo.
5. As duas últimas estrofes reafirmam a ideia de que nada vale a pena, assumindo o sujeito
poético uma postura de indiferença face àquilo que os outros valorizam. A razão dessa
indiferença é a consciência da mortalidade, «a confiança mole / na hora fugitiva».
6. «Sofro, Lídia, […]»
No poema anterior, a consciência da mortalidade conduz à indiferença face ao que os outros
valorizam. No poema «Sofro, Lídia, do medo do destino.» (medo da morte), essa consciência
manifesta-se pelo pavor a qualquer mudança. Através da metáfora carro, símbolo da vida no
seu curso, o sujeito confessa que fica aterrado com qualquer pedra que, no caminho, provoque
um sobressalto. Rejeita toda a mudança inerente à vida, ainda que seja para melhor, e só
ambiciona aceitar serenamente a passagem do tempo e a velhice. Apavora-o a mudança
inevitável na vida, com a sua passagem do tempo que roda, até à morte. O medo da vida tem
um rosto, que é o rosto da morte.

PÁGS. 75-76
LEITURA DO TEXTO
1. 1.ª parte − estrofes 1 e 2: Desejo epicurista de usufruir o momento;
2.ª parte − estrofes 3 a 6: Renúncia voluntária ao prazer e ao arrebatamento;
3.ª parte − estrofes 7 e 8: Justificação da renúncia.
2. Há, de facto, uma atmosfera de encenação da mortalidade na forma como o sujeito poético
conduz a relação. Ele propõe a Lídia uma relação tranquila, contida, sem envolvimento nem
paixão, nem sequer emoção, como única forma de evitar o sofrimento provocado pela
separação que a morte de um deles acarretará. Esse medo é tão grande que a morte não é
nomeada senão através dos eufemismos e perífrases contidos nas expressões «se for sombra
antes» e «E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio.»
3. O poema é vincadamente neoclássico, de influência horaciana, e esse cariz manifesta-se
sobretudo nas características a seguir enunciadas.
• Papel do Destino (Fado): é o destino que rege o curso do tempo que o rio simboliza e no
termo do qual está a morte.
• Referências mitológicas: deuses, barqueiro sombrio que recebe o óbolo (Caronte).

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• Presença do epicurismo-estoico: se a vida passa e não se pode evitar a morte, é preciso, por
um lado, aproveitar o presente (epicurismo) e, por outro, vivê-lo com serena e altiva aceitação
do destino (estoicismo).
• Recurso à ode, na tradição de Horácio (até o nome de Lídia foi buscar às Odes do poeta
latino).

PÁG. 82
LEITURA DO TEXTO
1. a. «Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida.»
b. «Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior.»
c. «As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de
mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.»
d. «Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim.»
2. Ao longo de todo o parágrafo, o sujeito de enunciação reafirma a supremacia do sonho sobre
a realidade, tema que é comum a Pessoa. Além disso, a criação interior de personagens,
diferentes de si, mas que vivem por si, pode ser um modo de ver a fragmentação do eu em
diferentes eus, como em Pessoa.
3.1 A contradição reside no facto de o sujeito afirmar ter saudades daquilo que não existiu.
3.2 A contradição é aparente, na medida em que tudo existiu no sonho e na imaginação do
sujeito.
4. O sujeito sente tristeza, raiva e saudade. Tristeza e raiva por não serem reais os amigos nem
os lugares inventados no sonho e que pertencem à sua «pseudovida». Eles não têm existência
autónoma, só existem na sua consciência, dentro de si. Acontece que, permanecendo na
memória, geram uma saudade que é tão ou mais profunda do que se eles tivessem existido.
5. Paisagens de quadros, nas paredes de espaços que foram habitados pelo sujeito; pessoas que
figuram nesses quadros e que foram sentidas como reais, a ponto de o sujeito desejar entrar
nas gravuras e fazer parte dessa realidade inexistente.
6. O sujeito escreve, num domingo, perto do meio-dia. Esta é a realidade quotidiana. Mas o
desejo que ele exprime vai no sentido do afastamento dessa ação e dessa realidade. Ele deseja
a inação, a não consciência, o sonho.
7. Sonho:
− «a janela para dentro de mim»;
− «paisagens interiores»;
− «mundo de amigos dentro de mim».
Realidade:
− «o cadáver da vida da minha própria infância»;
− «o passado morto que eu trago comigo»;
− «a doença de ser consciente».

PÁG. 84
LEITURA DO TEXTO
1. O sujeito deambula pelas ruas da Baixa (perto da Rua dos Douradores onde mora e trabalha).
No texto são mencionadas as duas ruas que partem em direção oposta, da Praça do Comércio,
Rua do Arsenal e Rua da Alfândega, as ruas a leste da Rua da Alfândega, a linha ao longo do rio
(«dos cais quedos»).
2. O sujeito afirma-se contemporâneo de Cesário Verde, com o qual partilha atração por
aquelas ruas que lhe provocam tristeza e melancolia («gozo de sentir-me coevo de Cesário
Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos
que foram dele»). Quer a atmosfera, quer mesmo alguns aspetos da linguagem aproximam-no
de Cesário em «O Sentimento dum Ocidental.»

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3. A realidade transfigura-se, caminha a par da reflexão e do sonho: «Ah, quantas vezes os


meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para
se me confessarem seus pares».
4. Há muitas sensações auditivas: «sossego; bulício; a voz do apregoador […] toada árabe; ora
muito ruidosos ora mais que ruidosos; esses são musicais; ecos de vozes incógnitas.»
5. Imaginário urbano – No 2.° parágrafo, o sujeito destaca o carro elétrico. Agora, no 3.°, é
todo um conjunto de pessoas tipicamente urbanas que desfilam diante do sujeito.
6. No início (1.° parágrafo): Tranquilidade triste, motivada pelo sossego e pelo bulício citadino
e ainda comprazimento com a identificação com Cesário.
2.° parágrafo: Tristeza e amargura pela não coincidência entre o real e o sonho.
3.° parágrafo: Paz angustiada, resignação face à visão dos habitantes da cidade.
4.° parágrafo: Indiferença e tédio.
7. Antítese: tudo/nada;
Personificação: quando o acaso deita pedras;
Metáfora: pedras, ecos de vozes incógnitas; salada coletiva da vida.

PÁG. 86
LEITURA DO TEXTO
1. Para o sujeito, é absurdo o esforço em acumular dinheiro e fama, que não terão qualquer
préstimo após a morte, tal como é absurdo gastar a vida na busca de coisas inúteis. Finalmente
são absurdos o conhecimento e o prazer inúteis.
2.1 Começa por reparar «em todos os pormenores das pessoas que vão» à sua frente, para
depois se fixar no vestido da rapariga que está diante de si, mais precisamente no tecido do
vestido e no bordado de seda no contorno do decote.
2.2 A perceção visual correspondente à visão do vestido transportou o pensamento do sujeito
para um outro contexto, o das fábricas onde o tecido e o bordado foram feitos. E distanciando-
se sempre do real, imagina todo o funcionamento fabril, das máquinas aos trabalhadores.
Depois imagina a vida pessoal e social dos trabalhadores, pensamento que se prolonga no 4.°
parágrafo. Finalmente, no 5.° parágrafo, repete-se o fenómeno, com os estofos do elétrico a
evocarem outras fábricas. Enfim, o real percecionado foi substituído pela imaginação,
transfigurou-se.
3. A divagação sobre o funcionamento das fábricas e os que nelas trabalham, assunto que o
próprio sujeito considera de «economia política», trouxe para diante de si a complexidade da
«vida social», assim sobreposta ao real que é apenas o vestido verde claro de uma passageira.
4. O excesso de pensamento e imaginação provoca no sujeito um estado de quebra de raciocínio
e de exaustão. (É caso para lembrar o verso de Caeiro: «Pensar é estar doente dos olhos»).

GRAMÁTICA NO TEXTO
1. 1 − d; 2 − c; 3 − f; 4 − a; 5 − e; 6 − b.
2. a. Já vivi a vida inteira.
b. Provavelmente tenho vivido a vida inteira.

PÁG. 88
LEITURA DO TEXTO
1. Informações objetivas:
Filme baseado no Livro do Desassossego de Bernardo Soares, realizado por João Botelho.
1.1 É muito usada a técnica do ponto de fuga; o filme é longo; o protagonista é desempenhado
por Cláudio Silva; o cenário é Lisboa: estão presentes objetos contemporâneos.
2. É «infilmável» pela sua estrutura fragmentária que impossibilita a criação de uma narrativa
articulada e pela dimensão analítica e não narrativa.

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3. Aspetos considerados negativos:


− falta de fio condutor narrativo;
− demasiado palavroso;
− demasiado longo;
− alguns lugares-comuns;
Não reflete a essência de Pessoa, ofuscada pela genialidade do realizador.
4. Aspetos elogiados:
− brilhante composição de planos, com cenas de grande impacto;
− intensidade plástica;
− ótima interpretação do ator principal;
− introdução surpreendente ao nível dos planos e das sequências;
− realização talentosa.

PÁG. 89
LEITURA DO TEXTO
1. No primeiro parágrafo, o autor descreve o inverno, o modo como o vive.
No segundo parágrafo, relaciona a escrita de Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimos, com
as estações do ano.
No último, retoma a descrição do inverno, para o relacionar com a vida e a passagem do tempo.
2. O inverno, tempo de frio e de silêncio, é associado à poesia de Fernando Pessoa, ortónimo,
à ausência (de si, da realidade) que nela domina; a Mensagem representa, na opinião do autor,
um súbito e intenso relâmpago, a luz do mito que, por momentos, irrompe na escuridão da
História, do que passou. Campos, na intensidade dos sentidos que exalta, é comparado ao
verão. Caeiro, por seu turno, com a sua capacidade de ver, de saber a verdade, traz a luminosa
renovação da primavera. Reis, voluntariamente inconsciente do inverno futuro, vive o presente
melancólico e sereno do outono. Finalmente, Bernardo Soares funde os diversos registos, ou
transita inesperadamente de um a outro, como as estações do ano se baralham «em certos dias
dos Açores».
3. Exemplos do emprego de recursos expressivos:
− aliteração: «E as casas dão para o inverno como velhos navios de piratas», (ll. 5-6); «numa
serena ansiedade saciada» (ll. 17-18).
− comparação: «um vento tão mortal e tão alto que nos assombra como um ritual cumprido sob
um céu vazio.» (ll. 10-11); «como em certos dias dos Açores, todas as estações se perturbam e
confundem em Bernardo Soares e no seu Livro do Desassossego» (ll. 24-25).
− metáfora: «O inverno é o remorso do verão» (l. 1); «em todas as estações por onde passa o
comboio que nos leva, […], e em cuja carruagem da frente o destino joga um jogo fatal com
cartas que têm o nosso rosto». (ll. 30-32).
− metonímia: «Quando leio Pessoa ele-mesmo» (l. 8).
− antítese: «tornando desconhecido o que conheço e inesperado o que espero». (ll. 4-5).
− paradoxo: «na sua febre fria» (ll. 13-14); «para olhar o que se esconde e escutar o que
emudece» (l. 28).
− sinestesia: «… leve como a sombra» (l. 19); «O frio (…) é nos olhos que cintila.» (ll. 26-27);
«é o silêncio do sol» (l. 29).

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PÁG. 91
ORALIDADE
Caeiro é o Mestre com quem Pessoa e os heterónimos desejam aprender a viver. Alberto Caeiro
defende uma vida comandada pelas sensações e pela atenção ao real, procurando não pensar.
Não quer saber do passado, logo, não sofre de nostalgia da infância, nem quer conhecer o
futuro, logo, não receia a morte. Atento à realidade, não tem necessidade de se refugiar no
sonho.
Pessoa Ortónimo, pelo contrário, não consegue sentir verdadeiramente, pois o pensamento
interpõe-se entre ele e as emoções. Amargurado com a dor de pensar, sente nostalgia da
infância, o tempo em que conseguia sentir sem pensar, e indaga o futuro com angústia,
refugiando-se no sonho.
Álvaro De Campos, depois de conhecer Caeiro, apreende a importância das sensações mas, à
sua maneira excessiva, sente exageradamente, sem por isso conseguir deixar de pensar, o que
faz, também, com excesso. Vive o presente em permanente fuga para as memórias de infância
ou para a indagação do futuro. Refugia-se, pois, na imaginação, porque o real é, para ele, fonte
de sensações, mas simultaneamente uma janela aberta para o sonho.
Ricardo Reis aprende com Caeiro a sentir moderadamente, apenas cuidando do presente, que
quer desfrutar com tranquilidade, não pensando no passado, que já não existe, nem no futuro,
que ainda não existe e implica o medo da morte. Vive, pois, a realidade de cada dia, não
deixando que a imaginação o conduza a qualquer sonho que o possa perturbar.

PÁGS. 94-96
FICHA FORMATIVA
Leitura/Escrita
1. Pensar traz cansaço ao sentir, impede que a sensação e a emoção sejam sentidas puramente;
o pensar acaba por eliminar o sentir. Neste verso, está contido o grande tema pessoano da dor
de pensar provocada pela intelectualização do sentir.
2. Para além da dor provocada pelo excesso de consciência («Cansa sentir quando se pensa»),
o sujeito poético sente uma «solidão imensa», uma tristeza que não o deixa repousar («insone
e triste»), uma angústia existencial («não sei quem hei de ser»), uma inadaptação à realidade
(«Pesa-me o informe real»). Na verdade, o sujeito poético está dominado por um profundo
desalento que não o deixa ver qualquer luz ao fundo do túnel, apesar do desespero de saber
que não pode «viver assim».
3. O estado de espírito triste, solitário e desesperado do sujeito poético enquadra-se bem no
ambiente noturno e terrivelmente silencioso que o poema sugere. Da noite nenhuma resposta
chega, tudo é silêncio e a realidade é indecifrável («informe real»). Para a caracterização e o
adensamento dessa atmosfera é muito expressiva a insistência no campo lexical de noite
(«Noite, antes de amanhecer», negro, negror), bem como a sugestão redundante do silêncio
(«silêncio surdo», «Mundo mudo», «silêncio mudo»).
4. «Ah, nada é isto, nada é assim!» é o último verso do poema, afirmação paradoxal, bem ao
gosto pessoano, que troca as voltas à lógica do poema. De facto, este verso parece contradizer
o verso anterior que se repete «Tudo isto me parece tudo», mas também esta afirmação é
marcada pela incerteza patente na expressão «me parece». Na realidade, não há certeza
alguma, resposta alguma e é esse drama que o poeta expressivamente murmura ou grita (quem
sabe?), no final do poema.
5. A construção do poema assenta na oposição aldeia/cidade. Assim, de acordo com a
perspetiva do sujeito poético, a sua aldeia é tão grande como outra qualquer, ainda que a outra
seja muito grande, pois da sua casa, no alto do outeiro, é-lhe dado ver o real, o que há para
ver no Universo. Pelo contrário, a(s) cidade(s) não permite(m) ver o horizonte, escondido pelas
grandes casas que afastam o olhar, o enclausuram, impedindo-o de ver. Esta comparação é, de

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facto, um pretexto para a exposição do ponto de vista que domina a poesia de Alberto Caeiro:
ver é essencial, pois é a sensação visual que permite o encontro com a realidade (veja-se a
presença reiterada de vocábulos do campo lexical de ver: «veja» (2), «ver» (2), «vista»,
«olhar», «olhos». E essa possibilidade é a Natureza que a dá, atribuindo a faculdade de ver,
que engrandece a perceção que o sujeito tem de si («eu sou do tamanho do que vejo / E não
do tamanho da minha altura», vv. 3-4), enquanto a cidade confina o sujeito a quem veda o
horizonte.
6. A comparação, a metáfora e a personificação são relevantes.
Comparação: «a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer» (v. 2) e «Nas cidades a
vida é mais pequena / Que aqui» (vv. 5-6) engrandecem a aldeia, sendo que a segunda apouca
a cidade.
Metáfora: «fecham a vista à chave», «empurram o nosso olhar» − (vv. 7-8) evidenciam o
fechamento e exílio do olhar.
Personificação: as «casas» «fecham», «Escondem», «empurram», «tiram», sublinhando a
atrofia da capacidade de ver, resultante do ambiente citadino.
7. O tema do texto é a relação entre a realidade e o sonho.
8. É muito clara a intenção do texto. Contando a história do rapaz que viajava virtualmente,
colecionando folhetos, recortes e fotografias de lugares distantes e afirmando ser ele «o único
viajante com verdadeira alma» e «o maior viajante», o sujeito está a usar um pretexto para
fazer a apologia do sonho em detrimento da realidade. A verdadeira viagem, para o sujeito, é
aquela que se realiza em sonho, é «mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar
em Bordéus». Enfim, o sonho é superior à realidade. Este é um tema recorrente em Bernardo
Soares (tal como no ortónimo e em Álvaro de Campos).
Escrita
A exposição deve ser organizada, segundo um plano prévio, em três partes: introdução,
desenvolvimento, conclusão.
O texto deve:
− respeitar o tema;
− mobilizar informação adequada;
− ser predominantemente informativo e demonstrativo;
− usar predominantemente a frase declarativa;
− apresentar coerência, coesão, clareza e concisão.
A revisão textual deve verificar:
− a correta marcação e proporcionalidade dos parágrafos (introdução e conclusão muito breves,
desenvolvimento mais extenso);
− o encadeamento lógico das ideias, com uso dos conectores;
− a adequação do vocabulário;
− a correção ortográfica e sintática;
− a pontuação adequada.

PÁG. 100
LEITURA DO TEXTO
2.
A−3
B−5
C−1
D−2
E−4

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PÁG. 102
LEITURA DO TEXTO
1. A Europa é personificada, descrita e caracterizada no poema como se de uma figura feminina
se tratasse. Assim, na descrição do continente europeu, corpo cujos braços são a Inglaterra e a
Itália (países civilizadores em diferentes momentos históricos), sobressai a cabeça cujo rosto é
Portugal. Nessa cabeça, os cabelos são «românticos», sonhadores, toldam o rosto, adensando o
mistério que envolve a figura. Os olhos são «gregos», marca da herança clássica e civilizacional
que este atributo conota, e o olhar que deles se desprende é «esfíngico», indagador do
desconhecido, e «fatal», pois a procura desse desconhecido é motivada pelo destino.
2. A Europa «jaz», estática e numa atitude reflexiva, como se estivesse parada, morta, à espera
do novo impulso vital que o seu olhar contemplativo procura na distância. A expressão verbal
«jaz» traduz, precisamente, essa imobilidade de quem espera.
3. Como foi anteriormente afirmado, Portugal é o rosto da Europa que contempla o
desconhecido. Ora, este Ocidente, que metaforiza o mar, representou, no passado, um futuro
de descoberta e triunfo, já cumprido pelos portugueses através das navegações no Atlântico.
4. «O dos castelos» é Portugal, definido no poema como o rosto da Europa, o olhar e guia da
Europa, Portugal cujo brasão ostenta os castelos, referenciais do passado, mas cuja missão é a
construção do futuro. Lembremos que este é o primeiro poema da primeira parte de Mensagem
que remete para a fundação da nacionalidade inscrita no brasão.

PÁG. 103
LEITURA DO TEXTO
1. «O mito é o nada que é tudo» é a tese a partir da qual o texto se desenvolve. Esta afirmação
paradoxal atribui ao mito uma radical importância («é tudo»), apesar de não ter existência no
plano da realidade, isto é, ser «nada». (Repare-se no valor semântico de apresentar do mito a
definição «é o nada», e não a vulgar construção o mito não é nada, que o anularia).
2.1 1.° argumento a apoiar a tese: o exemplo de Cristo crucificado que, sendo um «corpo
morto», é um mito vivo, a luz celeste.
2.2 A importância deste exemplo é enorme, no quadro de uma pátria que tem o Cristianismo
na sua matriz.
3.1 O 2.° exemplo é dado pelo deítico «Este» (Ulisses). Segundo a lenda, aportou «aqui», a
Portugal. Os deíticos «este» e «aqui» referenciam Ulisses e Portugal em relação com o sujeito,
que, assim, está presente no poema.
3.2 Na sequência do verso anterior, este afirma a importância do mito que reside na sua não
existência concreta. É o não ser real e concreto que lhe confere sentido.
4. A lenda (mito) fecunda a realidade, dá-lhe nova vida, novo sentido. Assim, o mito é colocado
num plano superior à realidade, à vida, que está «em baixo», é só «metade de nada», transitória
e mortal. O mito permanece, ao passo que a vida morre.
5. O presente do indicativo é recorrentemente utilizado para sugerir a permanência do mito.
Na 2.ª estrofe, o pretérito perfeito narra a origem e construção do mito fundador de «Ulisses».
Enquanto o presente do indicativo generaliza, o pretérito perfeito concretiza.
6. Ulisses, herói da guerra de Troia e protagonista de A Odisseia, é um dos grandes mitos da
civilização grega, matriz da civilização ocidental e, segundo a lenda, na sua viagem de regresso
à pátria, terá aportado a Portugal, fundando Lisboa. Ao recuperar esta lenda e ao elegê-la como
um dos primeiros poemas de Mensagem, Pessoa tem a intenção de conferir a Portugal uma
origem mítica que, de acordo com este poema e com toda a Mensagem, é mais valiosa do que
qualquer origem histórica.

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PÁG. 104
LEITURA DO TEXTO
1.1 Autor de cantigas de amigo e plantador do pinhal de Leiria.
1.2 É de «noite» que o rei-poeta escreve, escutando a inspiração do silêncio – voz dos pinhais,
pois a noite é propícia à inspiração e a escuridão faz ansiar pelo desconhecido. É o momento
íntimo de encontro do ser consigo mesmo, com a voz interior que inspira e impulsiona para a
descoberta.
1.3 «Na noite», o rei «ouve um silêncio» que é «rumor» e «fala» dos pinhais, por ele
inspiradamente plantados e que serão as naus das descobertas já insinuadas no «marulho» e no
«cantar» que «busca o oceano por achar». O silêncio é som e voz da terra, dos «pinhais» onde
nascerão as naus que ligarão a terra ao mar. E, por isso, o cantar de amigo (voz poética de D.
Dinis) contém a semente de um canto mais amplo, como os pinhais por ele plantados contêm o
trigo germinal do Império a construir pelas naus das descobertas. (Sente-se aqui o eco da
cantiga de amigo de D. Dinis «Ai flores, ai flores do verde pino»).
2. Os dois aspetos históricos invocados são usados para construir o símbolo: a voz poética que
é ainda regato jovem e busca a voz mais ampla do «oceano por achar» e a plantação do pinhal
como desígnio de futuro construtor do Império.
2.1 D. Dinis é uma figura do passado, mas o poema escreve-se no presente − «escreve, ouve,
é, ondulam, busca» − logo, o passado é presentificado. Por outro lado, projeta-se no futuro,
ele contém o futuro, nas «naus a haver», no «oceano por achar», no «mar futuro». Exatamente
porque D. Dinis é símbolo presente do sonho a conquistar.
3. a. Metáfora muito expressiva, confere a D. Dinis a ação de semeador das naus descobridoras
do futuro, construtor do futuro.
b. Comparação e metáfora aproximam os pinhais semeados pelo rei de uma sementeira (de
trigo), que germinará e dará o pão que são as naus descobridoras e construtoras do Império
futuro.

PÁG. 105
LEITURA DO TEXTO
1. A 1.ª pessoa identifica o sujeito poético com o simbólico D. Sebastião, incorporando, assim,
os valores veiculados pelo poema – o elogio da loucura como componente da autêntica condição
humana.
2. O sujeito poético assume-se «louco», portador da loucura/chama que faz o herói, pois é ela
que dá o impulso para ir mais além, para opor à pequenez dos limites impostos pelo Destino
perecível (a «Sorte») a «grandeza» do sonho, do futuro. No final do poema, a loucura é afirmada
como essencial ao homem que, sem ela, se reduz à animalidade da «besta» que cumpre a
missão de procriar e está condenado a morrer, ao contrário do homem-louco-herói que se
projeta no futuro e, por isso, não morre.
3. Em D. Sebastião, conjugam-se história e mito. Historicamente, o rei ficou caído no «areal»
do deserto de Alcácer Quibir − o «ser que houve» ficou «onde o areal está». Mas o mito, «o que
há» (e tem a primazia na Mensagem), permanece.
4. O passado, traduzido pelo pretérito perfeito (quis, coube, ficou) e pelo pretérito imperfeito
(ia) dá a dimensão real e histórica do rei. Já o presente enuncia a afirmação filosófica («a Sorte
a não dá», «Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que
procria?»), e a permanência do mito («não o que há»).

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5. No 1.° verso da 2.ª estrofe, o sujeito poético/D. Sebastião deseja/apela a «outros» que
tomem a sua loucura, projetando para o presente construtor do futuro o sonho de ultrapassar
os limites impostos pela condição animal, circunstancial e mortal do homem.

PÁG. 106
LEITURA DO TEXTO
1.1 O Infante D. Henrique fundou a Escola de Sagres que preparou as primeiras viagens dos
Descobrimentos; é, pois, natural ser a 1.ª figura da 2.ª parte da Mensagem, dedicada ao «Mar
Português».
2.1 O verso contém 3 orações coordenadas assindéticas. O facto de serem assindéticas
sublinha a ideia de gradação, enumerando os três passos da construção da obra (1.º vontade
de Deus, 2.º sonho do homem, 3.º a concretização do projeto.)
2.2 Deus quis que o Infante (os portugueses) sonhasse desvendar a espuma, o desconhecido, e
que desse sonho nascesse a obra portuguesa dos Descobrimentos.
2.3 Imagens metafóricas gradativas: as metáforas (e as sinédoques) «desvendando a
espuma», «orla branca […] clareou, correndo» expressam a descoberta; essa descoberta é
gradativa, como se pode ver no contraste entre o complexo verbal «foste desvendando», a
expressão «foi de ilha em continente», o gerúndio «correndo» e a expressão adverbial «de
repente»; o momento que corresponde à realização da obra é de aparição, como se pode ver
nas sugestões cromáticas e luminosas, muito espaciais, da 2.ª estrofe «orla branca»,
«clareou», «redonda, do azul profundo»; finalmente, a aliteração do r que, na 2.ª estrofe,
prepara o aparecimento da terra redonda, combinada com outras aliterações que dão ao poema
intensa musicalidade.
3. Foi Deus que sagrou o Infante, atribuindo-lhe o destino mítico de agente da descoberta do
desconhecido. E foi Deus que o criou português, o destinou a incorporar a missão portuguesa,
o assinalou, assinalando os portugueses, predestinados a desvendar o mar desconhecido,
transformando-o em mar português. A sagração individual do herói (o Infante) implica a
sagração coletiva dos portugueses («nós»).
4. Os portugueses cumpriram, no passado, a missão, desvendando os mares desconhecidos e
criando o império. Mas esse império desfez-se, pertenceu a um outro tempo e, no presente,
Portugal é uma pátria sem desígnio, que «falta cumprir-se». Daí o apelo profético, expresso
no último verso exclamativo, ao cumprimento do destino mítico de Portugal: o cumprimento
do desígnio futuro, que envolve uma missão nova, inspirada e espiritual.

PÁG. 107
LEITURA DO TEXTO
1. O poema organiza-se em três estrofes que correspondem a três partes: a 1.ª, a viagem, a
2.ª, a visão de um mundo novo, a 3.ª, a reflexão sobre o sonho como impulso para a descoberta.
Estas 3 partes articulam-se com o título, pois «Horizonte» é a «Linha severa da longínqua costa»
que, uma vez alcançada, revela o desconhecido que germinou do sonho, é a metáfora da
procura do desconhecido em três etapas (a demanda, o achamento, o prémio).
2. Houve um mar desconhecido, «anterior» a «nós», isto é, anterior aos Descobrimentos
portugueses, o que pressupõe um mar posterior que é o «Mar Português», como se verá no
poema com este nome (pág. 108). A 1.ª pessoa do plural, recorrente na Mensagem, implica o
sujeito poético como voz de um coletivo, os portugueses.
3. A dupla metáfora «desvendada a noite e a cerração» e a imagem «Abria em flor o Longe»
traduzem o momento da descoberta do desconhecido, o encontro com a distância.

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4. O encontro com o «Longe» é expresso através da gradação «se aproxima», «Mais perto», «no
desembarcar».
5. O paradoxo «O sonho é ver as formas invisíveis / Da distância imprecisa» define o sonho,
evidenciando a sua natureza visionária. Para concretizar o sonho é necessário, em primeiro
invisível, depois, ter esperança e vontade de ir ao encontro desse invisível adivinhado.
5.1 Os que ousam sonhar recebem a recompensa pela ousadia, encontrando a Verdade, isto é,
encontrando-se a si mesmos na superação dos limites e no conhecimento do que era, até então,
desconhecido.

PÁG. 109
LEITURA DO TEXTO
1. De acordo com o poema, verdadeira vida é aquela que assenta na máxima «Ser descontente
é ser homem». Assim, o sujeito poético faz a apologia da inquietação, do descontentamento,
da visão para lá dos limites, do sonho, único caminho para domar «as forças cegas» e ultrapassar
os limites estreitos da finitude humana.
3. O conceito de vida autêntica comandada pela insatisfação e o sonho, exposto filosoficamente
na primeira parte, funciona como argumentação para a tese defendida na segunda parte: a
profecia do Quinto Império. De facto, nesta segunda parte do poema, o poeta profetiza a vinda
futura do «dia claro» que nascerá da «erma noite» do presente, relacionando este
ressurgimento com a figura mítica de D. Sebastião. Os quatro impérios passaram, agora é tempo
de ser descontente do presente e perseguir o sonho de construção futura do Quinto Império, o
império espiritual que nascerá da procura, da demanda da verdade.
4. D. Sebastião, realidade histórica e física, ficou morto no areal (lembramos o poema «D.
Sebastião», pág. 105). O que importa, no presente, é o símbolo, o mito. Assim, a interrogação
final é um apelo ao caminho da procura, que ganha forma no plano simbólico da identificação
de D. Sebastião com o sonho, o mito que «é o nada que é tudo» (poema Ulisses).

PÁG. 112
LEITURA DO TEXTO
1. «Nevoeiro» é a metáfora de Portugal no presente, símbolo de indefinição, ocultação, lugar
de onde é urgente emergir a resposta.
2. No presente, Portugal é um perfil indefinido, sem brilho, sem chama, uma pátria sem alma,
onde ninguém sabe o que quer, nem distingue o mal do bem, onde «Tudo é incerto e
derradeiro». Portugal, no presente, é Nevoeiro.
3. Um país de rosto indefinido é um país em profunda crise de identidade, povoado de rostos
também indefinidos, porque ninguém se conhece a si mesmo («Ninguém conhece que alma
tem»). É um país fragmentado, «disperso», onde tudo é estilhaçado, «nada é inteiro».
4. As expressões entre parênteses correspondem à voz íntima do sujeito poético, que traduz a
sua inquietação e a sua ânsia, em contraste com o adormecimento e indefinição geral.
5. O último verso «É a Hora!» é profético e exortativo, procura acordar Portugal.
6. A situação de Portugal no presente («hoje és nevoeiro») contrasta com o passado evocado
no poema «Horizonte», no qual se alude a um tempo em que se perseguiu o sonho, se conquistou
a Distância e em que, por isso, se receberam os «beijos merecidos da Verdade».
7. Recursos expressivos: de entre os muitos recursos, destacam-se, pela sua expressividade,
as metáforas e a comparação caracterizadoras de Portugal («fulgor baço», «brilho sem luz e
sem arder», «Ó Portugal, hoje és nevoeiro», «Como o que o fogo-fátuo encerra.»); as antíteses

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(«paz/guerra», «mal/bem») que sublinham a indefinição e a contradição; a apóstrofe («Ó


Portugal») a marcar o apelo triste e sentido do sujeito.

PÁG. 114
LEITURA DO TEXTO
A leitura deste texto é pertinente, na sequência do estudo de Mensagem, pois aborda e atualiza
um dos temas essenciais da obra de Pessoa: a identidade nacional.
Grandes linhas de sentido
José Gil
− A União Europeia entrou em nós, nós ainda não entrámos na Europa.
− O país não se desenvolveu.
− Portugal afirma-se pela imagem e não pelo desenvolvimento.
− Afetivamente andamos perdidos.
− A identidade está ameaçada.

GRAMÁTICA NO TEXTO
1. 1. d.; 2. e.; 3. f.; 4. b.; 5. a.; 6. c.

PÁG. 115
ESCRITA
2. Este desenho de João Abel Manta mostra-nos um trio nosso conhecido − Camões, Pessoa e D.
Sebastião. A atitude e as expressões dos dois poetas são elementos a analisar, mas o que torna
mais interessante o desenho é a imagem-cadáver de D. Sebastião, que lhe confere uma
dimensão talvez crítica, pelo excesso de Sebastianismo do país, talvez satírica, por mostrar
que, afinal, o mito iniciado literariamente n’ Os Lusíadas e consubstanciado na Mensagem é,
ao fim e ao cabo, um cadáver. Cadáveres são também os figurantes e, neste universo, apenas
escapam os poetas.

PÁG. 117
GRAMÁTICA NO TEXTO
1.1 Introdução: 1.° parágrafo, no qual é apresentado o ponto de vista, o tema do texto.
Desenvolvimento: parágrafos 2 a 8, nos quais se desenvolve o tema, apresentando-se a
argumentação que amplifica e certifica o conteúdo da introdução.
Conclusão: último parágrafo de síntese, através da reposição do tema enunciado no 1.°
parágrafo.
2. c, e, h, a, d, g, b, f
3.1 1. c; 2. a; 3. d; 4. b
3.2 Talvez Fernando Pessoa seja, hoje, um símbolo universal da cultura portuguesa.
Foi necessário alterar o verbo, passando-o do presente do indicativo para o presente do
conjuntivo, pois a frase passou a exprimir uma possibilidade e não uma certeza.
3.3.1 Conectores
Oposição e explicativa: «Esta fraqueza irremediável transformou-se, porém, no mais fecundo
triunfo do início da modernidade, pois representou a anunciação profética dos caminhos mais
originais da arte do nosso século» (ll. 25-26)
Fim: «vinda do fundo dos tempos e das eras para regressar magicamente ao futuro do passado»
(ll. 37-38)
3.3.2 São inúmeros os exemplos de subordinação relativa e basta selecionar alguns em diversos
parágrafos. Exemplo: «Os heterónimos, que se aglomeram e chocam no território imaginário da

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sua solidão essencial, são os mensageiros […] de uma tragédia de ausência, vazio, renúncia e
exaltação.
3.3.3 «Para isso, se anulou, desdobrou, multiplicou.» (l. 17) A construção assindética aqui
utilizada justifica-se pela inexistência de qualquer hierarquia, cronologia ou dependência entre
as ações. É claro que as orações exprimem fenómenos que estão interligados, mas apresentá-
los sem qualquer coordenação sublinha, com a mesma intensidade, cada um deles.

PÁGS. 122-125
FICHA FORMATIVA
Leitura/Escrita
1. O sujeito poético caracteriza o presente como um tempo adormecido e moribundo, através
das expressões «noite», tempo da «alma vil», «silêncio hostil», «saudade» e «frio morto em
cinzas».
2. Começando com a adversativa «Mas», a 2.ª estrofe abre uma janela de esperança no presente
moribundo, apontando «a chama», não totalmente extinta por trás das cinzas, que pode erguer-
se com o vento, o sopro vital da vontade.
3. A última estrofe exprime um apelo/desejo, de sentido coletivo, patriótico e simbólico, de
ressurgimento e rejuvenescimento do «sopro» vital, da «ânsia» de conquista do desconhecido,
ainda que seja «desgraça», mas que é também vida, esforço, conquista. Deseja-se que Portugal
renasça das cinzas, para conquistar «a Distância / do mar ou outra», mas que seja a sua
identidade, o seu rosto.
Assim, o sujeito lírico, depois de lamentar o presente de cinzas em que a pátria está mergulhada
(depois de ter vencido tanta «tormenta» e ter tido tanta «vontade»), exprime o desejo de um
ressurgimento, impulsionado pela vontade de novos embates com o desconhecido, na
perseguição da verdade, que só pode ser alcançada seguindo a chama vital do sonho.
4. O poema é constituído por três quadras de versos decassilábicos, apresentando o esquema
rimático abab, ou seja, rima cruzada.
5. O poema apresenta uma clara atmosfera modernista, pela exaltação otimista e épica do
Moderno: a vida a bordo, o movimento dos guindastes, a energia da ação. Essa exaltação é
sublinhada pelo uso das exclamações.
6. Na segunda parte do poema, a partir do 6.° verso, o sujeito poético parece desviar a atenção
do real para se concentrar na sua interioridade, que sente o tempo e o espaço de maneira
subjetiva, que vê no visível o invisível e, com olhar vazio, «abrange a imensidão e nada possui».
Leitura/Gramática
1. b.
2. b.
3. d.
4. c.
5. d.
6. a.
7. c.
8. Modalidade de certeza: Jimmy P., Realidade e Sonho é, sem dúvida, apenas uma fábula.
9. Conexão de adição.
10. Sujeito: «os protagonistas» (sujeito nulo subentendido);
Comp. direto: relativo que, o qual tem por antecedente «o património cultural».
Escrita
O texto de opinião deve ser organizado, segundo um plano prévio, em três partes: introdução,
desenvolvimento, conclusão.
O texto deve:
− respeitar o tema;

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− mobilizar informação adequada;


− explicitar um ponto de vista sustentado em argumentos e respetivos exemplos;
− usar um discurso valorativo (juízo de valor implícito ou explícito)
− apresentar coerência, coesão, clareza e concisão.
A revisão textual deve verificar:
– a correta marcação e proporcionalidade dos parágrafos (introdução e conclusão muito breves,
desenvolvimento mais extenso);
– o encadeamento lógico das ideias, com uso dos conectores;
– a adequação do vocabulário;
– a correção ortográfica e sintática;
– a pontuação adequada.

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