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SUMÁRIO

SUMÁRIO
FRONTEIRAS EM SAÚDE
UMA ABORDAGEM MULTIPROFISSIONAL

BRUNO MEDEIROS
JOSÉ GUEDES DA SILVA JÚNIOR
JUSCELINO KUBITSCHECK BEVENUTO
ÁQUILA MATHEUS DE SOUZA OLIVEIRA
ORGANIZADORES

Ideia – João Pessoa – 2021

SUMÁRIO
Todos os direitos dos organizadores. A responsabilidade
sobre os textos e imagens são dos respectivos autores.

Conselho Editorial
Marcos Nicolau – UFPB
Roseane Feitosa – UFPB – Litoral Norte
Dermeval da Hora – Proling/UFPB
Helder Pinheiro – UFCG
Hildeberto Barbosa Filho – UFPB

Diagramação/Capa: Magno Nicolau


Ilustração da capa
https://www.istockphoto.com/br/vetor/neg%C3%B3cios-fundo-de-rede-mundial-gm181407018-27170352

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD


F935 Fronteiras em saúde: uma abordagem multiprofissional / Bruno Me-
deiros, José Guedes da Silva Júnior, Juscelino Kubitscheck Beve-
nuto, Áquila Matheus de Souza Oliveira, organizadores [recurso
eletrônico]. - João Pessoa: Ideia, 2021.
4 mb pdf

ISBN 978-65-5608-175-5

1. Doenças psicossomáticas. 2. Fisiologia patológica – abordagem


multidisciplinar. 3. Promoção em saúde – formação de recursos hu-
manos. I. Medeiros, Bruno. II. Silva Júnior, José Guedes da. III. Beve-
nuto, Juscelino Kubitscheck. IV. Oliveira, Áquila Matheus de Souza.

CDU 616.89
Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810

EDITORA
www.ideiaeditora.com.br
contato@ideiaeditora.com.br

SUMÁRIO
SUMÁRIO

ORGANIZADORES ............................................................................................................................................ 8

PREFÁCIO ........................................................................................................................................................ 9
Caíque Silveira Martins da Fonseca

EIXO I
FRONTEIRAS NA PROMOÇÃO DE SAÚDE MENTAL E CUIDADO PSICOSSOCIAL

EVIDÊNCIAS DE ADOECIMENTO PSÍQUICO EM ACADÊMICOS DE MEDICINA ................................................ 11


Martha Maria Braga Lira Viana
Stephany Raissa Xavier Botelho
Bruno Medeiros
Lorena Bandeira Melo de Sá
Fernanda Cristina de Oliveira Ramalho Diniz

AS CONSEQUÊNCIAS PSICOSSOCIAIS DO DUPLO VÍNCULO DE TRABALHO DE TELEATENDENTES ................. 23


Eduardo Breno Nascimento Bezerra
Rayane Pereira da Silva
Fabrício Walleson Pereira da Silva
Hediany de Andrade Melo

ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DOS FATORES PSICOSSOCIAIS DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA COM HOMENS QUE
ESTÃO EM RECUPERAÇÃO ............................................................................................................................. 35
Maria Priscila Luna Bazílio Araújo
Bruna Kethelen de Sousa Barros
Hyalle Abreu Viana
Renata Pimentel da Silva
Leconte de Lisle Coelho Junior

PSICÓLOGOS CLÍNICOS E PSICOTERAPIA COM IDOSOS: APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS .................. 47


Alana Silveira Santos
Aldenice de Lima Silva
Márcia Candelária Rocha

TRANSTORNOS PSÍQUICOS MENORES E O USO DE MEDICAMENTOS PSICOTRÓPICOS: UM ESTUDO COM


MULHERES EXPOSTAS À SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA ...................................................................................... 60
Tayara Medeiros Alves
Alice Thainá Soares Mendonça
Renata Pimentel da Silva

SUMÁRIO
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ESTRESSE E ENFRENTAMENTO EM UMA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR DE
ONCOLOGIA .................................................................................................................................................. 73
Kamila Raquel Cordeiro dos Santos
Gabriela Silva Tomé
Bruno Medeiros

EIXO II
FRONTEIRAS NA PROMOÇÃO DE SAÚDE, BEM-ESTAR E CUIDADO DO CORPO

MUDANÇAS NO ESTILO DE VIDA EM ATLETAS AMADORES DE CORRIDA DE RUA NA CIDADE DE CAMPINA


GRANDE-PB ................................................................................................................................................... 86
Eliwelton Raiff Souto Maior
Westerley Kelvin Ananias Luna
Yago Santos Morais
Silvana Câmara Torquato

INCIDÊNCIA DA VIGOREXIA E ORTOREXIA NERVOSA EM ACADEMIAS NA CIDADE DE CAMPINA


GRANDE – PB ................................................................................................................................................. 93
Janiceli Alves Duarte da Costa
Rafael Sousa Silva
Juscelino Kubitscheck Bevenuto

ANÁLISE DO CONHECIMENTO DOS PACIENTES DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA SOBRE O DESCARTE


ADEQUADO DE MEDICAMENTOS NO MUNICÍPIO DE ALAGOINHA- PB ....................................................... 101
Anna Kelly Correia da Silva
Manoela Freire Clementino
Raquel Barbosa de Meireles
Silvana Câmara Torquato

EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL ALIADA E SABER POPULAR: O USO DA ARARUTA COMO INSUMO
PARA O ALIMENTAÇÃO ESCOLAR ................................................................................................................ 112
Áquila Matheus de Souza Oliveira
Júlio César Bezerra Vilar da Silva

RELAÇÃO ENTRE A CESSAÇÃO DO TABAGISMO E O GANHO EXCESSIVO DE PESO ...................................... 124


Thais Aureliano Gouveia
Laura Maria de Araújo Pereira
Juscelino Kubitscheck Bevenuto

CONTROLE SOCIAL NO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR: AÇÕES DO CONSELHO DE


ALIMENTAÇÃO ESCOLAR DO CEARÁ ............................................................................................................ 130
Áquila Matheus de Souza Oliveira

SUMÁRIO
EIXO III
FRONTEIRAS MOLECULARES ENTRE FISIOPATOLOGIA E O DIAGNÓSTICO

ATIVIDADE ANTIMICROBIANA IN VITRO DO EXTRATO DA PLANTA SPONDIAS TUBEROSA DO BIOMA


CAATINGA EM ISOLADO DE STAPHYLOCOCCUS AUREUS ............................................................................ 144
Jane Cleide Morais
Jéssica Da Silva Barreto
Raquel Dias De Andrade
Talyta Valéria Siqueira Do Monte
José Adelson Alves Do Nascimento
José Guedes Da Silva Júnior

ALOIMUNIZAÇÃO IMUNOHEMATOLÓGICA MATERNO-FETAL –UMA REVISÃO INTEGRATIVA .................... 152


Amanda Monteiro de Oliveira
Maria do Socorro do Nascimento Sousa
Rayana de Sousa Tavares
Talyta Valéria Siqueira do Monte
Laura Maria de Araújo Pereira
Maria do Socorro Rocha Melo Peixoto
José Guedes da Silva Júnior

A RELEVÂNCIA DO SISTEMA FAS/FASL NAS NEOPLASIAS HEMATOLÓGICAS: LEUCEMIA


MIELÓIDE CRÔNICA ..................................................................................................................................... 162
Iasmyn Dayanne Santos do Nascimento
Dener Geruso Costa Mascarenhas
Julia Barroso Cirne de Azevedo
Elane Beatriz de Jesus Oliveira
Dinah Victória Araújo da Silva
Senyra Maria das Neves
Dilma Messias dos Santos
Kateane Santos Santana
José Guedes da Silva Júnior

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional |8

ORGANIZADORES

BRUNO MEDEIROS - Doutor em Psicologia pela Universidade de Cam-


bridge, Reino Unido. Mestre em Psicologia Social e do Desenvolvi-
mento pela Universidade de Cambridge, Reino Unido. Mestre em Psi-
cologia Social pela Universidade Federal da Paraíba. Professor de Psi-
cologia no Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande.

JOSÉ GUEDES DA SILVA JÚNIOR - Biomédico, doutor em Bioquímica e


Fisiologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Profes-
sor do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande e das
Faculdades Integradas de Patos. Presidente da Associação Paraibana
de Biomedicina.

JUSCELINO KUBITSCHECK BEVENUTO - Doutor pelo Programa In-


tegrado das Universidades Federais (UFPB/UFRPE/UFC), Mestre
pela Universidade Federal da Paraíba. Nutricionista pelo Centro
Universitário Maurício de Nassau Campina Grande. Atualmente aca-
dêmico no curso de Odontologia. Pesquisador e professor dos cur-
sos de Medicina Veterinária, Nutrição, Farmácia, Psicologia, Biome-
dicina e Fisioterapia do Centro Universitário Maurício de Nassau
Campina Grande – PB. Atualmente também é Professor Formador
do Programa Novos Caminhos FIC (Formação Inicial e Continuada) do Instituto Federal da Pa-
raíba (IFPB).

ÁQUILA MATHEUS DE SOUZA OLIVEIRA - Bacharel em Gastro-


nomia pela Universidade Federal do Ceará, Mestre em Educação
Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e Doutorando em
Alimentos e Nutrição na Faculdade de Engenharia de Alimentos
da UNICAMP. Pesquisa na área de hábitos alimentares, alimen-
tos tradicionais, educação alimentar e nutricional. Atualmente é
professor de Gastronomia no Centro Universitário Maurício de
Nassau Campina Grande.

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional |9

PREFÁCIO

O
mundo vive a quarta revolução industrial, das tecnologias avançadas e da grande quan-
tidade de informação disponível. Isso se reflete na mudança dos paradigmas da socie-
dade com relação à democratização do conhecimento, que permite o crescimento e a
difusão de novas possibilidades e ganhos de produtividade.
Esse fenômeno mundial da chamada pós-modernidade já havia sido discutido por An-
thony Giddens, em 1991, em seu livro “Consequências da Modernidade”, quando cita, por exem-
plo, que:

acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distân-
cia. [...] A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão la-
teral das conexões sociais através do tempo e do espaço.”

A transformação local prevista por Giddens foi possibilitada pela conectividade e hoje se
apresenta na criação e utilização de diferentes ferramentas, muitas delas digitais. Outra conse-
quência mais recente é a produção de conteúdo de maneira muito mais ativa e precoce, o que
cria uma socialização do conhecimento ao mesmo tempo em que forma um ciclo virtuoso de
produção e consumo de conhecimento cada vez maiores.
Esta nova sociedade também traz desafios, como o da crescente necessidade de ativi-
dade reflexiva e da análise crítica da vasta quantidade de informações, sejam elas locais, globais
ou suas relações. Como diria Mangabeira Unger (2018), no seu livro “A Economia do Conheci-
mento”: “Na atualidade, é mais correto dizer que o acúmulo de conhecimento se converteu no
centro da atividade econômica”.
E é neste ponto que este livro se encaixa. Sua produção reflete a pesquisa, análise crítica
e reflexiva de autores de diversas áreas da saúde, focados na tradução dos conhecimentos teó-
ricos para as necessidades locais, sem perder a capacidade de relevância global. Sendo sua pro-
dução centrada no interior do Nordeste brasileiro, reflete a materialização das fronteiras do
conhecimento, e sua consequente superação em ambos os sentidos. Nesse sentido, demonstra
tanto o movimento de aquisição de conhecimento teórico por parte dos pesquisadores, quanto
de produção e devolução deste conhecimento, agora concretizado e trabalhado localmente, de
forma a trazer as demandas regionais para o contexto global de informação.
O livro está organizado em 3 grupos principais: Fronteiras na Promoção de Saúde Men-
tal e Cuidado Psicossocial, Fronteiras na Promoção de Saúde, Bem-estar e Cuidado do Corpo,
Fronteiras Moleculares entre Fisiopatologia e o Diagnóstico. Esta obra dá, assim, significado a
este movimento dinâmico. É fruto e, ao mesmo tempo, semente destes novos tempos de cresci-
mento, de qualificação e de democratização do conhecimento.

Caíque Silveira Martins da Fonseca


Universidade Tiradentes, Unit

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EIXO I
FRONTEIRAS NA PROMOÇÃO DE SAÚDE
MENTAL E CUIDADO PSICOSSOCIAL

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 11

EVIDÊNCIAS DE ADOECIMENTO PSÍQUICO EM ACADÊMICOS DE MEDICINA

Martha Maria Braga Lira Viana


Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Stephany Raissa Xavier Botelho


Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Bruno Medeiros
Doutor pela Universidade de Cambridge, Professor do Centro
Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Lorena Bandeira Melo de Sá


Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Federal da Paraíba, Professora do Centro
Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Fernanda Cristina de Oliveira Ramalho Diniz


Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba

INTRODUÇÃO

O início da trajetória universitária é cercado de expectativas, diversas experiências e se


constitui, acima de tudo, em uma busca por conhecimento e formação profissional. No entanto,
essa jornada também pode ser responsável pelo desencadeamento de fatores estressores que
podem afetar a saúde mental do estudante, tais como medo do fracasso, imposição do mercado
de trabalho, cobranças familiares, dentre outros. Essa união de fatores, associada a pré-dispo-
sições individuais, pode trazer sofrimento psicológico ao estudante, como depressão, ansiedade
e acarretar, ainda, em suicídio (CONCEIÇÃO et al., 2019).
O alto índice de desenvolvimento de transtornos mentais é motivo de pesquisas com
depressão, em que esse transtorno chega a afetar mais da metade dos estudantes de medicina.
Em seu estudo com estudantes universitários, Oliveira (2013) aponta que 43% desses estudan-
tes apresentaram sintomas depressivos, sendo 6,9% apresentando depressão moderada ou se-
vera e 34,5% apresentando sintomas leves a moderados. Já Abrão, Coelho e Passos (2008) mos-
tra uma prevalência ainda maior de 79% de prevalência de quadros depressivos em estudantes
de medicina, onde 31% se apresentam como sintomas moderados e 19,2% como graves. Tal
fato, embora possua expressiva incidência entre os universitários de modo geral, costuma não
ter a devida importância e, com isso, se perpetua nas mais diversas gerações. Em contraponto,
poucas são as instituições que proporcionam aporte para os cuidados da saúde mental (SOUZA;
CALDAS; ANTONI, 2017).

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 12

O adoecimento de estudantes de medicina


De acordo com Souza et al. (2017), estudantes universitários do curso de medicina se
encontram imersos em um ambiente fértil para o desenvolvimento de adoecimento. Inseridos
em um contexto com elevada demanda emocional, esses estudantes se tornam vulneráveis ao
desenvolvimento de estresse, exaustão, transtornos psicossomáticos e o desenvolvimento de
quadro que circundam as doenças como depressão, ansiedade e Síndrome de Burnout.
Esses fatores presentes no curso de medicina, acrescido de um sistema comumente
apresentado no ensino universitário, se somam as necessidades e particularidades individuais
e tornam esses indivíduos propensos ao desenvolvimento de adoecimento mental, que chega a
acometer mais da metade dos estudantes. Porém, esses sintomas não se restringem a queixas
presentes em quadros clínicos leves e moderados. Por exemplo, em uma pesquisa realizada por
Conceição et al. (2019), cerca de 22,7% dos estudantes de medicina entrevistados demonstra-
ram, ao menos uma vez, vontade de morrer e desses, 24,5% relataram a causa da morte por
meio de suicídio.
Deve-se ressaltar, ainda, que esses sentimentos fomentados durante o processo de
aprendizagem impactam de maneira significativa a elaboração de conhecimento e desempenho
dos alunos, provocando prejuízos psíquicos e físicos a curto, médio e longo prazo. Fazendo-se
necessário, para isso, a realização de estudos que avaliem o adoecimento emocional que abarca
o graduando de medicina. Esse adoecimento em estudantes universitários é entendido como
sendo, conforme Souza et al. (2017), a alteração biopsicossocial de um indivíduo partindo da
premissa do desgaste físico e psicológico que gera alteração em sua qualidade de vida. Os auto-
res ainda afirmam que a apresentação desse adoecimento pode se caracterizar como a apre-
sentação de irritabilidade, insônia, fadiga, dificuldade de concentração, falhas na memória e,
ainda, resultar em queixas somáticas como alteração do apetite, disfunções intestinais, tremo-
res e cefaleia.
Graner e Cerqueira (2019) afirmam que os estudantes da área da saúde estão envolvidos
para além do sistema universitário, o que já os tornam propensos ao desenvolvimento de ado-
ecimento psíquico. Eles têm ainda que lidar com o outro, como sujeito, na posição de instru-
mento direto do seu trabalho e essa atuação recai sobre ele ainda mais desgaste e cobrança no
desenvolvimento desse cuidado. Além disso, ainda há a limitação profissional diante da com-
plexidade do organismo que pode resultar na perda do paciente e a sensação de luto somado à
sensação de fracasso vivido por aqueles que estão, até então, aptos para salvar. Nesse contexto,
estudos brasileiros abordam a incidência e a qualidade do adoecimento entre os estudantes de
medicina. Os quadros de depressão e ansiedade se encontram como as doenças mais prevalen-
tes, sendo os distúrbios alimentares e do sono, assim como o estresse os sintomas de maior
identificação (CONCEIÇÃO et al., 2019).
Diante do exposto, observa-se que a condição de estresse se caracteriza como uma das
mais encontradas dentre os estudantes de medicina. O olhar amplo diante desse achado per-
mite identificar uma rede de alterações negativas presentes nesse sistema universitário e que
participam como causadores e consequências do estresse, o qual poderá trazer redução no
bem-estar psíquico e o surgimento de quadros depreciativos mentais como ansiedade, depres-
são e o surgimento da Síndrome de Burnout (ANDRADE et al., 2013). Nesse contexto, um es-
tudo com 18 estudantes de medicina no Canadá demonstrou que o fato de não conseguirem
conciliar atividades de lazer e práticas de exercício físico se apresentava como fator atenuante

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 13

para o estresse (MOREIRA; VASCONCELOS; HEATH, 2015). No entanto, o que a realidade mos-
tra são estudantes com horários mais preenchidos de atividade acadêmicas e com um menor
espaço de tempo para suas desenvolverem atividades extraclasse.
Conforme Moreira, Vasconcelos e Heath (2015), o adoecimento psíquico presente entre
os estudantes de medicina se torna mais prevalente nos períodos finais do curso. Assim, em um
curso que possui duração de seis anos, dos quais os dois últimos se constituem o internato,
desordens somáticas e cognitivas são comuns, principalmente na fase do internato. Com isso,
os condicionantes para esse adoecimento do estudante de medicina perpassam por um ambi-
ente estressante de aprendizagem, bem como o próprio processo de ensino-aprendizagem ao
qual todo estudante se encontra submetido, somado à sobrecarga de aulas, lidar com doentes e
relações de conflito oriundas do trabalho em equipe.
Deve-se ainda levar em consideração que o aprendizado desse estudante se dá, em suma,
com foco na resolução de um agravo biopsicossocial de um indivíduo com quem se deve manter
uma relação saudável de modo paralelo ao cuidado prestado. Assim, as relações interpessoais,
as quais demandam um esforço mental, configuram-se não apenas entre o trabalho em equipe
com os demais colegas e professores, mas também com o seu instrumento direto de trabalho:
o outro (ANDRADE et al., 2013). Diante disso, o estudante de medicina por vezes se sente so-
brecarregado e com exaustão emocional, devido à tamanha demanda. Nesse contexto, de
acordo com Cataldo (1998) e Millan (1991), o estudante de medicina e o próprio médico são
um grupo de risco quanto ao aparecimento de transtornos mentais e do comportamento, com
ênfase na depressão. Essa exaustão se apresenta com achados sintomatológicos mentais, resul-
tando em depressão e ansiedade, mais comumente, como também achada físicos diante das do-
enças psicossomáticas ou, ainda, diante da mudança de estilo de vida e novos hábitos alimen-
tares.
A faculdade de medicina comumente se apresenta com características peculiares que
vão além da sobrecarga de estudos e da cobrança do aprendizado. Segundo Oliveira (2013),
ainda há um ambiente hostil marcado por uma competitividade anterior e posterior a entrada
no curso, devido ao processo de vestibular e ao de residência médica, respectivamente; relação
hierárquica supervalorizada entre os professores e staffs do serviço de saúde para com seus
alunos e internos, com frequente abuso de poder; serviço funcionante as vinte e quatro horas o
que, permite que, na prática, alunos se encontrem atuante em qualquer horário no estágio, pre-
judicando seu sono e descanso; dentre outras. A partir do contexto exposto e compreendendo
a necessidade de ouvir os principais sujeitos envolvidos nessa problemática, este trabalho teve
como objetivo identificar possíveis evidências de adoecimento emocional em estudantes de me-
dicina.

MÉTODO

Delineamento
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa exploratória e descritiva, de cará-
ter transversal e abordagem quanti-qualitativa. A escolha pela abordagem qualitativa deu-se
pela capacidade de averiguar processos subjetivos e a realidade social como as evidências de
adoecimento estudantil e os impactos na saúde mental dos estudantes de medicina. Nesse sen-
tido, Gil (2008) descreve que tal realidade apresenta as percepções do sujeito, quer sejam elas
interpessoais ou intrapessoais.

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Corpus do estudo
Participaram do estudo 94 estudantes de medicina. A idade dos participantes variou en-
tre 18 e 38 anos e com predominância de 75,6% do gênero feminino, sendo na maior frequência
de estado civil solteiro, cristão e desempregado. Houve uma heterogeneidade em relação ao
período em formação, tendo assim participantes entre o primeiro e décimo segundo período.
Os participantes são de instituições públicas e privadas de todo país, tendo como região predo-
minante o Nordeste.

Procedimento de coleta de dados


O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Huma-
nos, seguindo os pressupostos contidos na Resolução nº 466/12 com o CAAE:
85886118.0.000.5187. Após a aprovação, a coleta de informações foi feita de modo remoto,
através do Formulário Google, consistindo em um questionário com perguntas abertas e fecha-
das. O formulário, acompanhado da apresentação dos pesquisadores, objetivo e método da pes-
quisa foi enviado ao público-alvo. O questionário tem o intuito de identificar possíveis evidên-
cias de adoecimento emocional em estudantes de medicina, objetivo deste trabalho. Concorda-
ram e participaram da pesquisa 94 estudantes, tendo como critério de inclusão ser estudante
regulamente matriculado em universidades pública ou privada. A assinatura do termo de con-
sentimento pelo participante garantiu sigilo, anonimato e a qualquer momento desistência na
continuidade da pesquisa.

Procedimento de análise de dados


Após a coleta de dados, os mesmos serão organizados e analisados a fim de fornecer
respostas ao problema proposto para a investigação. Na análise de dados será utilizado o
software Iramuteq (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de
Questionnaires), que viabiliza diferentes tipos de análise de dados textuais. Elaborado por Pierre
Ratinaud em 2009, o Iramuteq propicia cinco tipos de análises textuais: estatísticas textuais
clássicas; pesquisa de especificidades de grupos; Classificação Hierárquica Descendente (CHD);
análises de similitude e nuvem de palavras (KAMI et al., 2016). Foram utilizadas as seguintes
análises textuais e de matriz: estatísticas textuais clássicas, análise de similitude, a Classificação
Hierárquica Descendente (CHD) e a análise prototípica. Esse tipo de instrumento proporcionou
a elaboração, análises estatísticas e qualitativas dos textos que foram submetidos por meio da
integração dos dados do questionário semiestruturado da referida pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicialmente, foi realizada a análise prototípica com o objetivo de compreender as prin-


cipais emoções evocadas pelos participantes em relação às experiências acadêmicas. Tais expe-
riências foram expressas através da primeira pergunta: “Elenque cinco sentimentos que estar
na universidade provoca em você”. Para essa análise, se estabeleceu um ponto de corte para a
ordem média de evocação (OME) de 2.94 (enumeradas de 1 a 5, sendo 1 a mais importante).
Delimitou-se a frequência mínima de cinco evocações para essa análise tendo em vista as mai-
ores frequências de sentimentos evocados. De maneira geral, as respostas obtidas da pesquisa
corroboram com a teoria respaldada, tendo em vista que os resultados apontaram que os as-
pectos vigentes no curso de medicina somados as necessidades individuais tornam os estudan-
tes mais propensos ao desenvolvimento de adoecimento mental.
Ao analisar a tabela, identifica-se como elementos mais estáveis: felicidade, ansiedade e
gratidão (Figura 1). Todavia, a dominância da palavra felicidade indica o núcleo central destas

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 15

experiências, sendo levado em consideração sua frequência e importância . Pode-se identificar


na segunda periferia a prevalência das palavras esperança e desespero, representando uma
ambivalência observada nas respostas obtidas na pesquisa. Diante dos resultados apresenta-
dos, ficam evidentes as diversas emoções que acompanham o estudante durante sua jornada
acadêmica. Nesse sentido, Pereira (2012) afirma que as experiências vivenciadas irão despertar
emoções, conforme a percepção de cada indivíduo. Ainda diz que tais experiências e sentimen-
tos influenciarão na formação e desempenho dos estudantes.
Percebe-se que, embora a palavra felicidade esteja no núcleo central das experiências ,
Cataldo Neto (1998) traz em seu estudo que fatores estressores como autocobrança, pressão
excessiva, ambiente hostil, etc. acompanham o cotidiano dos estudantes de medicina desde o
período pré-vestibular, sendo acentuados durante as experiências do curso. Sendo assim, ob-
serva-se que para lidar com tais fatores, é necessário um amadurecimento precoce, responsa-
bilidade demasiada e comprometimento integral, o que reflete na sobrecarga psicológica e con-
sequente necessidade de preparo para que sejam evitados possíveis adoecimentos, como a de-
pressão (HADARA et al., 2013).

FIGURA 1 – Análise prototípica sobre as emoções mais frequentes em relação às experiências


acadêmicas dos participantes.

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

Após a análise prototípica, foi realizada uma análise de similitude a respeito das palavras
que se interligam às principais emoções relacionadas à vida acadêmica - felicidade, ansiedade
e medo - (Figura 2). As evocações prevalentes foram respectivamente: gratidão, angústia e or-
gulho. Demonstrando que, apesar de os sentimentos positivos estarem também presentes, há a
presença de sentimentos negativos durante todos os períodos estudados. Os resultados corro-
boram com diversas outras pesquisas realizadas na área, evidenciando a prevalência de senti-
mentos negativos entre estudantes de medicina (AGUIAR et al., 2009).
Percebe-se a presença de uma ambivalência, vista também em outros estudos. Trindade
e Vieira (2009) descrevem que estudantes vivenciam dificuldades ao longo da jornada acadê-
mica, não apenas pela grande quantidade de conteúdos exigidos, mas também pelo tempo exi-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 16

gido na formação, tendo como consequência tensões desagradáveis e desestimulantes. Entre-


tanto, por meio dos sentimentos positivos analisados, a força motivacional se torna referência
constante para que prossigam o caminho.

FIGURA 2 – Análise de similitude sobre as emoções que se interligam as emoções mais


frequentes em relação às experiências acadêmicas dos participantes.

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

Para se conhecer as dificuldades e experiências desagradáveis que desencadearam as


emoções negativas, foi realizada uma análise de Classificação Hierárquica Descendente (CHD)
da segunda questão do instrumento: “Quais as dificuldades e sofrimentos que você teve ou têm
em sua vida acadêmica?”. A análise das evocações identificou a ocorrência de 1545 palavras,
sendo 578 palavras distintas. Foram classificados 74 textos de um total de 94, aproveitando-se
78,72% do corpus textual. A análise demonstrou que as principais dificuldades vivenciadas
compõem a Classe 2 (20,3%) do dendrograma, a qual refere-se à carga horária exaustiva,
cansaço, saúde mental, cobrança etc., como é possível observar no seguinte discurso: “cobrança
excessiva, metodologia inadequada, professores despreparados, pouco tempo para aprender
conteúdos e pouco tempo de prática”.
Outras dificuldades também foram interligadas à Classe 2, como a distância da família, a
cobrança dos docentes, pressão, etc., como é possível observar nos seguintes discursos: “falta
de empatia da faculdade e professores ser cobrado mais do que sou ensinado estar sempre
sendo vítima de pressão psicológica quando o assunto é futuro” (Classe 3) e “desvalorização e

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 17

pressão excessiva você é ensinado a ver a medicina em primeiro lugar família e eventos
importantes não devem ter valor igual ou superior à medicina” (Classe 4). Diferentes estudos
alinham-se aos resultados obtidos sobre as dificuldades estressoras na graduação médica,
tendo também como prevalência a carga horária intensa e extensa, além disso, dificuldade em
conciliar a vida pessoal e acadêmica, competitividade entre os estudantes e medo intenso foram
evidenciados (ALEXANDRINO et al., 2009; ANDRADE et al., 2014).

FIGURA 3 - Análise CHD sobre as dificuldades mais frequentes em relação às experiências


acadêmicas dos participantes.

Quais as dificuldades e sofri-


mentos que você teve ou têm
em sua vida acadêmica?

CLASSE 4 – CLASSE 3 – CLASSE 5 – CLASSE 1 – CLASSE 6 – CLASSE 2 –


CONCILIAÇÃO DE
DEMANDAS COBRANÇA PSICOLÓ- INSEGURANÇA / DEMANDAS PESSO- DEMANDAS DO CURSO SOBRECARGA
GICA ANSIEDADE AIS

16,2% 18,9% 14,9% 16,2% 13,5% 20,3%

Palavra f X² Palavra f X² Palavra f X² Palavra f X² Palavra f X² Palavra f X²

Família 6 22.8 Falta 1 31.4 Prova 6 25.6 Conseguir 6 22.8 Muito 6 29.01 Horário 8 35.28
0

Longe 4 21.8 Cobrar 4 18.1 Insegurança 4 24.2 Dificuldade 7 21.3 Assunto 4 10.22 Carga 8 35.28

Trabalho 4 16.0 Psicológico 4 18.1 Ansiedade 7 21.3 Medo 5 14.1 Compromisso 2 7.56 Excessivo 7 20.97

Conciliar 4 12.2 Distância 3 13. Manter 3 10.7 Estudar 2 7.56 Mental 4 16.63

Acadêmico 4 9.5 Pressão 4 7.36 Lidar 2 5.8 Cobrança 3 7.44 Saúde 3 12.3

Vida 5 4.8 Suficiente 2 4.6 Pessoal 2 5.8 Exaustivo 3 12.3

Pressão 3 4.8 Professor 4 4.3 Nota 2 5.8 Cansaço 6 8.7

Aprender 5 5.8 Estudante 4 7.84

Vida 5 4.8 Cobrança 8 4.91

Além 3 4.16

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

É entendido que o estudante se sente prestigiado pelo sucesso almejado. Segundo Millan
et al. (1999), interpreta-se tal fato a partir dos conceitos sociais a respeito do que seja fazer
medicina. Entretanto, ao longo do curso, os estudantes parecem apresentar mais dificuldades
em relação a se irão conseguir obter sucesso. Medo, dificuldades e receios parecem caracterizar
os estudantes dos períodos finais do curso, como apresentado na Figura 4 referente às
dificuldades mais frequentes em relação às experiências acadêmicas dos participantes dos
períodos finais do curso de medicina. Foi realizada uma análise de Qui-Quadrado por classe no

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 18

dendrograma, especificando quais classes estariam mais associadas à determinada variável


sociodemográfica. Nesse caso, as palavras referentes à Classe 1 (conseguir, dificuldade, medo,
manter) estiveram mais associadas ao grupo de estudantes que estavam no meio curso (X² =
3,38), como é possível observar por meio do relato: “lidar com o sofrimento alheio conseguir
mantes os assuntos em dia medo de não conseguir ter uma boa vida profissional”.
Esses dados condizem com os encontrados por Rezende et al. (2008), os quais mostram
em seus estudos que as vivências psicológicas desses estudantes se modificam
consideravelmente durante os seis anos de curso. Desse modo, descreveram as fases
psicológicas, sendo elas: a) euforia inicial, devido ao ingresso na faculdade; b) decepção,
marcada pela cobrança intensa, desempenho dificultoso; c) adaptação e preocupação,
decorrentes do período do internato, e a competição pelas vagas de residência. Benevides-
Pereira e Gonçalves (2009) ressaltam ainda que os níveis de ansiedade, estresse e Síndrome de
Burnout aumentam gradativamente de acordo com o passar dos anos. Quanto à qualidade de
vida, Alves (2010) apresentou que houve comprometimento no que diz respeito ao aspecto
psicológico, sobretudo no período de conclusão de curso.

FIGURA 4 - Análise das dificuldades mais frequentes em relação às experiências acadêmicas dos
participantes do 5º ao 8º período do curso de medicina.

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

Quando se procurou especificar a prevalência das classes por sexo, percebeu-se que as
palavras associadas à Classe 6 (13,5%) foram mais prevalentes no sexo masculino. Essa classe
se refere às dificuldades em relação à grande quantidade de conteúdos programados e
responsabilidades diversas frente às demandas da profissão, como é possível observar pelo
relato: “a responsabilidade é muito alta existirão pessoas que vão depender de mim e quando
não alcanço o rendimento necessário sinto que fracassei com elas”. De acordo com Pagnin
(2015) e Quintana et al. (2008), o ambiente de aprendizagem torna-se estressante na medida
em que o estudante tem que lidar com sobrecarga de aulas e responsabilidades para lidar com
os pacientes e equipe de trabalho.
Baptista, Baptista e Oliveira (1999) ressaltam que a questão do gênero é significativa em
relação ao adoecimento psicológico. Segundo os autores, a forma como as mulheres
experimentam, sentem e manifestam suas emoções é, comumente, de uma forma mais direta.
Em contrapartida, os homens costumam expressar suas emoções através de comportamentos
exteriorizados, consumindo álcool ou drogas quando estão emocionalmente abalados. Paduani
et al. (2008) comprovaram em seus estudos com acadêmicos de medicina do Ceará que há
maior consumo de álcool nos homens (72,72%) do que entre as mulheres (61,40%).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 19

FIGURA 5 - Análise sobre as dificuldades mais frequentes em relação às experiências


acadêmicas dos participantes do sexo masculino do curso de medicina.

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

Em relação aos acadêmicos que trabalham, notou-se uma maior dificuldade em relação
ao distanciamento da família. Os estudantes relatam não conseguir conciliar o trabalho com a
vida acadêmica e familiar, gerando assim sentimentos de tensão ao sentirem-se pressionados
pelo contexto. Tais aspectos que se evidenciam na Figura 6, a qual apresenta a prevalência das
palavras da Classe 4 no grupo de estudantes que trabalhavam.

FIGURA 6 – Análise sobre as dificuldades mais frequentes em relação às experiências


acadêmicas dos participantes que conciliam trabalho e estudo.

Fonte: Dados da pesquisa (2020).

Quanto ao aspecto citado, compreende-se que, de maneira geral, o início da jornada


acadêmica fomenta mudanças significativas no cotidiano dos estudantes. Mudanças pessoas,
interpessoais, familiares e institucionais são constantes na vida dos indivíduos (Oliveira & Dias,
2014). Podemos afirmar que as dificuldades mencionadas por esses acadêmicos convergem
com as respostas obtidas pelas pesquisas realizadas por Costa e Polak (2009) e por Ross,
Niebling e Heckert (1999) com acadêmicos da área de saúde.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos conteúdos coletados no discurso dos estudantes de medicina, evidencia-se


que felicidade, ansiedade e medo representam as principais emoções relacionadas à vida aca-
dêmica, de acordo com esses jovens. Percebe-se a presença de sentimentos positivos (e.g.: gra-
tidão, felicidade, orgulho, etc), porém os negativos (e.g.: ansiedade, medo, cobrança, etc.) repre-
sentam maioria no cotidiano das experiências dos estudantes e se encontraram perceptíveis
em todas as etapas acadêmicas. O que pode ser, em parte, explicado pela imagem glamorosa e

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 20

de alto status quo socialmente difundida da medicina, enquanto a realidade cotidiana se apre-
senta de forma não condizente a essa expectativa. Assim, a presença de tais sentimentos são
causas importantes na investigação do adoecimento psíquico estudantil, sendo imprescindível
a sua identificação e intervenção, seja por parte pessoal, mas também de forma institucional e
coletiva para garantir uma melhor qualidade de vida a esses indivíduos.
São reconhecidas pelos pesquisadores as limitações da pesquisa, tendo em vista que di-
versas variáveis podem influenciar nos resultados obtidos, como a região predominante, faixa
etária, entre outras. Além disso, deve-se ressaltar a relevância dessa pesquisa no meio científico
de modo a proporcionar ao profissional de psicologia meios e subsídios para avaliar a impor-
tância do trabalho da TCC em pacientes com um perfil semelhante ao apresentado e estudado
nesse trabalho, garantindo-lhe o direito e dever de desenvolver sua clínica baseada em evidên-
cias científicas. Para isso, a amostra da nossa pesquisa contou com um importante número de
participantes e a metodologia foi rigorosamente seguida, respeitando o padrão ético-científico
e colaborando, de tal modo, para a formação, por meio intervencionista, de uma sociedade mais
saudável e de melhor percepção mental. Vale ressaltar que se faz necessário pensar na propa-
gação dessa análise em estudos posteriores, visto que foram encontradas diversas demandas
específicas no grupo de estudantes.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 23

AS CONSEQUÊNCIAS PSICOSSOCIAIS DO DUPLO VÍNCULO DE TRABALHO DE


TELEATENDENTES

Eduardo Breno Nascimento Bezerra


Doutorando em Psicologia pela UFRN. Professor do Curso de Psicologia na UFT

Rayane Pereira da Silva


Especialista em TCC (UNICORP). Graduada em Psicologia pelo
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Fabrício Walleson Pereira da Silva


Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Hediany de Andrade Melo


Doutoranda em Psicologia pela Universidade de Salamanca (USAL/España)

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, o setor de serviços vem crescendo e contribuindo para abertura de
novas oportunidades de emprego e melhoria da economia. O setor de telermarketing é um
exemplo de trabalhos que vem se desenvolvendo de forma crescente no cenário brasileiro. Essa
atividade diz respeito a trabalhos no campo do teleatendimento, popularmente conhecido
como call centers, indispensável em segmentos empresariais como bancos, indústria, empresas
de telefonia, planos de saúde e etc. (RICCI; RACHID, 2013).
Segundo a Associação Brasileira de Telesserviços - ABT (2018), entre 2011 e 2014 o se-
tor elevou a arrecadação do governo brasileiro em R$ 261 milhões e ajudou a injetar R$ 4,6
bilhões em poder de consumo na economia. Entre 2012 e 2016, foram gerados 73 mil novos
postos de trabalho, principalmente no Nordeste que passou a responder por quase um quarto
dos empregos no setor.
O teleatendimento caracteriza-se por ser um serviço padronizado e sistemático, no qual
se faz necessário seguir scripts pré-estabelecidos para atender aos clientes, o que gera segu-
rança e confiança frente às demandas apresentadas. Através desse tipo de canal é possível pas-
sar informações de produtos/serviços, resolver problemas técnicos, realizar vendas, entre ou-
tras atividades (VENCO, 2006; JAMIL; SILVA, 2005).
No entanto, vários estudos desenvolvidos com operadores de telemarketing têm apon-
tado que estes sofrem implicações psíquicas e físicas por serem expostos à intensa pressão no
exercício de seu trabalho. Isso decorre devido a fatores como: um controle exacerbado que es-
sas empresas procuram ter sobre os funcionários, pouco contato com os colegas durante a exe-
cução do trabalho, rígida hierarquia, restrições para pausas, baixas possibilidades de cresci-
mento e cobrança por produtividade (ZILIOTTO & OLIVEIRA, 2014; VILELA & ASSUNÇÃO,
2004; ASSUNÇÃO et al, 2006; OLIVEIRA E BRITO, 2011; BEZERRA, 2016).
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 24

Apesar de todas essas consequências para os trabalhadores, um dos principais atrativos


desse tipo de emprego é a jornada de trabalho. De acordo com as leis trabalhistas vigentes no
Brasil (Portaria SIT n.º 09/2007), a carga horária de trabalho semanal do teleatendente é de
36h, sendo o máximo de 6 horas diárias (Brasil, 2007). Isso permite aos trabalhadores dessas
organizações a possibilidade de manter mais de um vínculo de trabalho, seja ele formal ou in-
formal (LUCCA, et al., 2014). Contudo, verifica-se que é um grande desafio conciliar dois empre-
gos em ambientes diferentes, sem comprometer a qualidade de vida.
O conceito de Qualidade de Vida (QV) significa muito mais do que apenas viver. Por QV,
compreende-se o viver que é bom e recompensador, em pelo menos quatro áreas: afetiva, so-
cial, profissional e a concernente à saúde. O viver bem se relaciona a ter uma vida harmoniosa
nessas áreas (ROCHA; LIPP, 1994). Por outro lado, a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) “tem
como objetivo principal a busca do equilíbrio psíquico, físico e social dos empregados” (AREL-
LANO, 2004, p. 30), sendo uma grande influenciadora nos resultados e aumento da produtivi-
dade, o que pode levar ao crescimento pessoal e organizacional.
Nessa perspectiva, verifica-se que a qualidade de vida pessoal e profissional estão dire-
tamente ligadas. O trabalho, por sua vez, deve proporcionar prazer e motivar as pessoas a de-
senvolverem suas atividades dentro das organizações. Ao contrário, pode-se encontrar pessoas
ansiosas, frustradas ou com outros problemas de saúde mental e física.
Nesse contexto, desconfortos como a fadiga, má alimentação, cansaço, vida social au-
sente e pouco tempo para relaxar, são fatores que podem se intensificar e agravar os riscos
relacionados à saúde e qualidade de vida de profissionais que se dedicam à dupla jornada de
trabalho. Essas questões podem ocasionar problemas ainda maiores como: síndrome de bur-
nout, estresse, distúrbios alimentares, entre outras doenças que são adquiridas em decorrência
da rotina desgastante que esses profissionais se submetem, como forma de conciliar o duplo
vínculo de trabalho.
Diante disso, este estudo objetiva analisar as consequências psicossociais que o acúmulo
de mais de um vínculo de trabalho pode trazer para teleatendentes. Nesse sentido, o foco desse
estudo foram os profissionais que atuam como atendentes de telemarketing na cidade de Cam-
pina de Grande-PB e que também desenvolviam outra atividade remunerada (formal ou infor-
mal). Destarte, buscou-se responder como estes profissionais que possuem duplo vínculo fa-
zem para manter-se em dois empregos, conhecer as estratégias que utilizam para conciliar am-
bas as atividades e quais os possíveis problemas relacionados ao duplo vínculo que podem vir
a refletir nas dimensões psíquicas (saúde mental) e sociais destes.

MÉTODO

A metodologia utilizada se baseou em uma investigação qualitativa de caráter explora-


tório e descritivo. Participaram do estudo 10 teleatendentes que atuavam em call centers loca-
lizados na cidade de Campina Grande-PB e que possuíam outro vínculo de trabalho, formal ou
informal.
Para coleta de dados, utilizou-se a amostragem por conveniência. Como um dos autores
desse capítulo atuava como teleatendente nos momentos iniciais da pesquisa, houve uma faci-
litação para o contato com profissionais da área que atendiam aos critérios de inclusão: ser
teleatendente e possuir duplo vínculo de trabalho. Destaca-se que essa pesquisa foi realizada
via trabalhador e não por intermédio das empresas de call centers. Aos que aceitaram partici-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 25

par, foi acordado horário e local para realização de uma entrevista semiestruturada, que ocor-
reu nas dependências do Centro Universitário Uninassau (Unidade Campina Grande) ou nas
próprias residências dos participantes, de acordo com o desejo e disponibilidade dos mesmos.
Antes da realização da entrevista foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido e do Termo de Autorização para Gravação de Voz. Posteriormente, foi reali-
zada a aplicação de um questionário sociodemográfico, seguida de uma entrevista semiestru-
turada. As entrevistas foram realizadas individualmente e tiveram duração média de 30 minu-
tos, todas elas foram gravadas e posteriormente transcritas na íntegra para análise.
A análise dos dados foi realizada através da análise de conteúdo temática proposta por
Laville e Dionne (1999). Cabe destacar que toda a pesquisa foi executada de acordo com a Re-
solução n° 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2012), sua realização se deu após a
aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Unifacisa, cujo número de
CAAE se apresenta: 91747818.1.0000.5175.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a transcrição dos dados, foram criadas como categorias de análises: Razões para
estar no duplo vínculo, Consequências psicossociais ocasionadas pelo duplo vínculo, e Estratégias
utilizadas frente à rotina do duplo trabalho. Antes de adentrar na apresentação dessas catego-
rias, se apresenta algumas informações a respeito do perfil sociodemográfico dos participantes.

Perfil sociodemográfico dos participantes

Foram entrevistados dez participantes que atuam em dois call centers de Campina
Grande-PB, sendo dois homens e oito mulheres, com idades que variaram entre 23 a 53 anos.
Destes, quatro são casados, cinco solteiros e um divorciado, apenas três possuem filhos. Quanto
ao nível de escolaridade, três possuem ensino médio completo, dois possuem ensino superior
em andamento e cinco com superior completo com graduação nos cursos de Engenharia de Ali-
mentos, Pedagogia, Enfermagem, Administração e Turismo.
No que concerne aos outros vínculos, além do trabalho como teleatendente, foram iden-
tificadas as seguintes ocupações: professor de educação básica, secretária escolar, técnico em
segurança do trabalho, teleatendente (em outra empresa), embalador, enfermeira, agente de
combate as endemias, recepcionista, auxiliar de escritório e auxiliar administrativo.
Diante do exposto, percebeu-se que 80% da amostra foi composta por mulheres com
média de 35 anos de idade e ensino superior completo ou em andamento. As informações
quanto a idade e ensino superior destoa-se do cenário geral de teleatendentes quando geral-
mente o público atuante nesse setor são jovens com nível médio e em situação de primeiro
emprego (VENCO, 2007; ANDRADE et al., 2015). Talvez esse contraste pode ser interpretado
por se tratar de um estudo com profissionais que possuem duplo vínculo de trabalho, o que se
diferencia do perfil geral de teleatendentes apontado pela literatura da área.

Razões para estar no duplo vínculo

Nesta categoria foram reunidos os motivos que levaram os participantes a buscarem ou-
tro vínculo de trabalho, além da função de teleatendimento. Entre os principais motivos, desta-
cam-se: já terem concluído o ensino superior, dispondo de mais tempo (n=5); ter filhos (n=3)

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 26

ou para conquistar objetivos pessoais (casa própria, carro) (n=3). Esses dados indicam que a
busca por outra atividade remunerada converge para a necessidade de ter outra renda, con-
forme é possível identificar nas seguintes falas:

“Hoje, o que me faz manter os dois vínculos é terminar algumas coisas que foram come-
çados, como obra de casa, ou até mesmo outros objetivos como um carro, isso aí é o que
me motiva.” (Entrevistado 4 – Teleatendente e Recepcionista)

“Os meus filhos, se não tivesse eles não ficaria em nenhum dos dois, deixaria só o marido
trabalhar.” (Entrevistado 6 – Teleatendente e Auxiliar de Escritório)

“Há, pro meu lado é mais a questão financeira mesmo, [...] é meio que um jogo de cintura
entre lá [outro emprego] e o call center.”[...] (Entrevistado 8 –Teleatendente e Técnico
de segurança do trabalho)

Para Silva e Mocelin (2009), o emprego de telemarketing é geralmente considerado de


“baixo lucro e pouco valor agregado, caracterizando empregos com baixos salários” (p.61). De-
vido as baixas remunerações pagas no setor de teleatendimento, compreende-se que estes pro-
fissionais se veem com a necessidade de ter outra ocupação para poder realizar seus objetivos
de vida, o que inclui: possuir casa, carro, educar filhos com qualidade entre outros aspectos que
envolvem a subjetividade humana e a qualidade de vida. A carga horária de trabalho de 6h diá-
rias, regulamentada por lei no cenário do teleatendimento (BRASIL, 2007) é outro fator que
contribui para que estes profissionais possuam outro vínculo. Como demonstram as falas:

“É, o horário da pra conciliar né? Por que quando eu comecei eu pedi, consigo encaixar
pra sair de um e terminar no outro, até que no call center I, eu num tive tanta mudança
de horário, mas já no outro teve uma mudança muito grande de horário ai eu pedi pra
que não alterasse tanto pra que não impactasse na minha entrada no outro, mas eu tô
conseguindo” (Entrevistado 9 - Teleatendente em duas empresas de call center)

“[...] No call center eu trabalho de 11h50min às 18h10min, aí eu consigo, como lá é só


pela manhã aí eu consigo conciliar os dois de segunda à sexta.” (Entrevistado 7 - Telea-
tendente e Auxiliar Administrativo)

Os relatos destacados vão de encontro com o estudo de Lucca et. al., (2014), o qual
aborda que um dos principais atrativos dessa modalidade de emprego é a carga horária de tra-
balho que compreende 6horas. Essa realidade possibilita aos trabalhadores manterem mais de
um vínculo de trabalho. Entretanto, se faz necessário todo um manejo desses profissionais para
conseguirem conciliar ambos os vínculos. Essa situação é ainda mais evidente no caso da parti-
cipante 9, que atua em dois call centers diferentes e que tem de lidar com mudanças de horários
constantes nas empresas, conforme destacado na fala acima. Essa gestão de tempo parece ser
um elemento que gera muita sobrecarga e cansaço, o que se desdobra em consequências diver-
sas para esses profissionais, discussão que se apresenta na sessão a seguir.

Consequências psicossociais ocasionadas pelo duplo vínculo

Em relação às consequências ocasionadas pelo duplo vínculo, foram elencadas duas sub-
categorias: a primeira de cunho social e a seguinte voltada às implicações para a saúde (mental
e física) dos participantes.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 27

Implicações Sociais

Através dos relatos foram identificadas que o acúmulo de dois vínculos empregatícios
traz aos teleatendentes consequências sociais devido à redução ou a ausência da prática de ati-
vidades de lazer e do estabelecimento de relações interpessoais duradouras fora do ambiente
de trabalho, conforme os relatos a seguir:

“[...] O que eu gosto de fazer é ler, assistir um filme, ainda essa semana eu tava dizendo:
Nunca mais eu li um livro, nem assisti um filme, que eu tô me sentindo sem tempo pra
nada. [...]” (Entrevistado 5 - Teleatendente e Secretária Escolar)

“Quando eu venho muito cansada do trabalho que eu não quero conversa com ninguém,
eu só quero tá isolada, quero descansar e não tem outro jeito, todo mundo já entende,
aí ninguém perturba.” (Entrevistado 2 - Teleatendente e Enfermeira)

“Eu comecei a tentar me isolar, não queria conversar com ninguém ai eu comecei a per-
ceber que tinha alguma coisa errada, aí minha cunhada quem percebeu também, eu
muito estressada [...] (Entrevistado 10 - Teleatendente e Embaladora)

“[...] a questão de dois empregos você se limita muito, você não tem mais como sair, tem
pouco tempo de ficar com os meus filhos, é desgastante.” (Entrevistado 3 - Teleaten-
dente e Agente de Combate as Endemias)

A respeito das falas acima, vê-se que o excesso de tempo que precisa ser dedicado à du-
pla jornada de trabalho impacta diretamente na forma como são estabelecidas as relações fora
do ambiente laboral. Foi possível constatar que isso ocorre muitas vezes, devido a estes profis-
sionais não disporem de tempo para realizarem atividades que lhe proporcionem prazer (como
ler um livro, ver um filme) e que, muitos deles, cansados e fatigados da dupla jornada, escolhem
o isolamento social como forma de descanso. Obviamente isso dificulta o processo de socializa-
ção com pessoas, inclusive do seu ciclo familiar, como é o caso do entrevistado 3, que afirmou
não ter tempo para estar com seus filhos.
Esses resultados reafirmam o que Araújo et al (2006) traz em seus estudos ao destaca-
rem que as consequências da dupla jornada de trabalho sobre a saúde são variadas, entre as
quais estão: o tempo insuficiente para lazer, para descanso e horas de sono. Nesse sentido, ve-
rifica-se que atividades sociais e de lazer acabam sendo extremamente prejudicadas na vida
desses trabalhadores, uma vez que os mesmos acabam não dispondo de tempo para realiza-las.
Ter momentos de lazer e estabelecer relações sociais são primordiais aos trabalhadores, uma
vez que esses momentos atuam como forma de minimizar possíveis repercussões a saúde que
podem ser desencadeadas, nesse caso, pela dupla jornada de trabalho.

Implicações para saúde mental e física

Para além das implicações sociais, o acúmulo do duplo vínculo de trabalho de teleaten-
dentes também tem apresentado consequências para a saúde física e mental desses trabalha-
dores. Dentre as consequências que serão aqui apresentadas, o estresse foi um dos fatores com
maior destaque e frequência nos discursos dos participantes, como se verifica nas falas a seguir:

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“Demais, tipo tem a questão do cansaço físico e o estresse, tô tendo até, como eu tava te
falando, um acompanhamento psicológico, por conta do estresse.”
(Entrevistado 10 – Teleatendente e Embaladora)

“Tem o estresse, né? Tem dia que você tá bem, e tem dia que num dá pra trabalhar, é
estressante, eu mesma prefiro tá em casa, mas como num pode, né? Tem que ir.” (En-
trevistado 6 - Teleatendente e Auxiliar de Escritório)

“Eu acho que está mais relacionada à questão de atender, por que junta o estresse, ficar
olhando pra tela direto, é muita cobrança em cima de você, aí junta, mais por isso, a
questão do estresse.” (Entrevistado 2 - Teleatendente e Enfermeira)

Percebe-se nas falas o quanto o estresse se apresenta como algo recorrente na vida des-
ses profissionais, em grande medida pela natureza do trabalho em teleatendimento, reconhe-
cida como uma atividade estressante (ZILIOTTO & OLIVEIRA, 2014; VILELA & ASSUNÇÃO,
2004; ASSUNÇÃO, et al 2006), mas que tende a agravar-se com a dupla jornada de trabalho,
uma vez que esses profissionais estão em constante planejamento de rotinas, organização dos
seus dias e horários de trabalho na tentativa de manter e conciliar os dois empregos. De acordo
com Silva et al (2018) o estresse no trabalho, pode levar os trabalhadores a desenvolverem
quadros de exaustão no trabalho, o que traz danos à saúde dos trabalhadores e pode implicar,
ao longo do tempo, em adoecimento psíquico.
Além disso, quando muito elevado ou muito recorrente, o estresse no trabalho tem im-
pacto direto na qualidade de vida, social e ocupacional dos trabalhadores que são por ele aco-
metidos (CAMARGO; OLIVEIRA, 2004). Essa realidade parece acontecer com os participantes
dessa pesquisa, pois além do estresse, verificou-se que o cansaço físico e qualidade do sono de
muitos deles também tem sido afetada:

“Fica com a mente, assim né, a mil, eu demoro um pouco pra dormir devido à correria,
demoro um pouco pra dormir, por isso que eu me distraio um pouco no celular vendo
alguma besteira, aí depois eu tento dormir e apago, mas o cansaço mental é o pior.”
(Entrevistado 9 - Teleatendente e Teleatendente)

“Eu sinto, não é mesmo físico, a gente sente que a gente tá, o corpo sabe, assim a mente,
tudo naquele estresse, parece que você já tá no seu limite, aí tem dia que eu digo eu vou
tomar um remédio [...] eu tomo um calmante aquele Passiflora, é um negócio assim, um
calmante natural.” (Entrevistado 5 - Teleatendente e Secretária Escolar)

“Às vezes eu tomo uns energéticozinhos.” (Entrevistado 2 - Teleatendente e Enfer-


meira)

As dificuldades para dormir (insônia) e os comportamentos de automedicação (calman-


tes ou substâncias psicoativas), são outras consequências identificadas no trabalho dos partici-
pantes que, em decorrência do estresse, cansaço e sobrecarga de trabalho, não veem muitas
saídas senão o uso desses recursos. Entretanto, essas estratégias podem trazer grandes impli-
cações à saúde desses profissionais que, por sua vez, encontram-se cansados e desassistidos de
um auxílio profissional adequado.
Além dessas implicações, os participantes também destacaram outras consequências
que impactam a saúde dos mesmos. Dentre elas, foram relatados pelos participantes fatores
como má alimentação, sobrepeso e problemas de ordem físico-biológico, por exemplo: dormên-
cias, fadigas e dores de cabeça, a seguir destacados:

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 29

“O que eu sinto é mais a dormência na mão [...] Ultimamente quando vou tomar café, a
mão trava assim [faz gesto com a mão], uma vez a xícara caiu pra fora, se tivesse caído
pra dentro eu teria tomado um banho de café, aí foi isso que eu observei, eu atribuo a
estar digitando, de tanto digitar, eu atribuo sim, porque tem hora que vai doendo até
aqui assim oh, só em fazer assim [demonstrando movimento com a mão], já dói.” (En-
trevistado 1 -Teleatendente e Professora)

“Exausta muito cansada, afeta mais a parte do corpo, o cansaço físico, e as vezes inter-
fere também na dor de cabeça, exatamente pelo cansaço do corpo vai afetar mais de
cabeça acho que você fica com aquela pressão, mas é mais isso mesmo o cansaço do
próprio corpo com a mente.” (Entrevistado 4 – Teleatendente e Recepcionista)

“No caso a alimentação é meia na ‘doidiça’, assim, porque geralmente quando eu chego,
eu não tomo café, chego já de 06h e não tomo café, aí como eu pego lá de 00h20min no
call center tem um lanche lá, aí tem vez que eu como, tem vez que eu não como, aí a
alimentação fica que meio na doida, por exemplo, eu me acordo de 12h, ai tem vez que
eu não tô com fome, aí eu como alguma fruta, já tomo banho já pra ir pro trabalho, a
alimentação não é muito correta não.” (Entrevistado 8 Teleatendente e Técnico de se-
gurança do trabalho)

“Olhe o que eu venho sentindo ultimamente é dor na perna, mas aí é o peso né? Porque
eu nunca tive 84 quilos eu acho que é por conta desse sobrepeso.” (Entrevistado 1 –
Teleatendente e Professora)

É notório na fala dos participantes o quanto a saúde mental e física tem sido afetada. A
atividade de teleatendimento é retratada na literatura como potencialmente deletéria a saúde
desses trabalhadores, devido a ocorrência de lesões por esforço repetitivo (LER), distúrbios
psíquicos, hábitos alimentares inadequados (ZILLIOTO; OLIVEIRA, 2014), estresse psicológico
e dores corporais (VENCO, 2006). No tocante a esse estudo, o quadro agrava-se ainda mais,
devido ao pouco tempo de descanso e repouso em detrimento ao segundo vínculo de trabalho.
Assim, é de se esperar que o corpo comece a apresentar efeitos dessa sobrecarga, através das
dores, das dormências, do cansaço, do sobrepeso (resultado da má alimentação) e tantos outros
sintomas e patologias que os profissionais descreveram ao longo das entrevistas.
Foi possível perceber nos discursos dos participantes que eles demonstram ter consci-
ência dos prejuízos atuais e futuros ocasionadas em suas saúdes em decorrência da rotina que
se encontram inseridos para dar conta da dupla jornada de trabalho. Todos eles apresentaram
falas claras a esse respeito, a seguir destacadas:

“Com relação a ter esses dois vínculos eu não acho saudável... isso pesa muito, e eu sei
que daqui a um tempo eu vou ter algumas dificuldades referente a essas noites mal dor-
midas e esse cansaço excessivo, então eu acho que daqui a uns anos eu vou ter um re-
flexo de tudo isso que eu tenho feito hoje... sou consciente e pretendo não durar muito
tempo nessa jornada [...]” (Entrevistado 4 – Teleatendente e Recepcionista)
“Eu acho que é uma loucura, é assim, é de outro mundo você exercer duas funções [...] é
muito desgastante a pessoa tem que se programar, tem que se preparar[...] isso é muito
desgastante, então eu não aconselho a ninguém não [...]” (Entrevistado 9 - Teleaten-
dente e Teleatendente)

“É complicado, eu preferia ter só um, por mim eu teria, ficaria só com uma opção que o
que eu tô tentando assim, mas futuramente eu pretendo ver se eu me desvinculo do call
center, fico só no outro.” (Entrevistado 8 - Teleatendente e Técnico de Segurança do
Trabalho)

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“Então assim, eu não recomendo a ninguém ter esse duplo, num recomendo não, muito
cansativo e você não tem vida, eu nos domingos que eu tenho de descanso, eu prefiro tá
em casa dormindo, não tenho vida.” (Entrevistado 10 - Teleatendente e Embaladora)

As falas retratam bem o quanto os participantes conseguem reconhecer as consequên-


cias que conciliar o vínculo do teleatendimento com outra atividade de trabalho podem acarre-
tar implicações em suas vidas. Como outrora apresentada, por si só, a atividade de teleatendi-
mento já possui um grande potencial adoecedor, e somar-se a ela o desenvolvimento de outra
atividade profissional se configura como um grande perigo a saúde e relações sociais desses
profissionais, a ponto dos mesmos não recomendarem que essa acumulação seja realizada por
outrem.
Apesar disso, no decorrer das entrevistas também buscou-se verificar como esses pro-
fissionais conseguem dar conta do duplo vínculo e quais tem sido as estratégias desenvolvidas
para evitar ou minimizar os danos à saúde. Esses dados foram agrupados na categoria seguinte.

Estratégias utilizadas frente à rotina do duplo vínculo de trabalho

De acordo com Dejours (1992), os trabalhadores podem utilizar-se de estratégias indi-


viduais ou coletivas para defender-se das situações de sofrimento e/ou adoecimento que viven-
ciam no trabalho. No caso dos participantes desse estudo, verificou-se que para conciliar o du-
plo vínculo, os mesmos tentam maximizar o tempo livre, dedicando-se em sua maioria ao re-
pouso, afim de tentar garantir horas de sono, como pode-se verificar nas falas que seguem:

“Eu me deito e vou dormir [risos], quando eu tô cansado mesmo eu chego em casa, como
alguma coisa, me deito e vou dormir.” (Entrevistado 7 -Teleatendente e Auxiliar admi-
nistrativo)

“Durmo, durmo, tentar ficar plena na cama, e dormir, é como eu descanso bem.” (Entre-
vistado 9 – Teleatendente e Teleatendente)

“Tipo eu tento no máximo descansar nas minhas folgas, no caso no domingo quando eu
tô de folga, não boto nada pra fazer já pra eu ter esse descanso, descansar o máximo que
eu puder.” (Entrevistado 10 - Teleatendente e Embalador)

Os discursos demonstram que todo o tempo disponível fora do trabalho acaba sendo
dedicado ao sono, com raras ou nenhumas outras atividades de lazer desenvolvidas. Apesar de
importantes para o descanso, pode-se questionar sobre a qualidade do sono desses profissio-
nais, já que em outros momentos alguns deles mencionaram sofrer de insônia, bem como aten-
tar para o fato de que não apenas o sono é importante, mas que momentos de lazer e relações
sociais são primordiais para a qualidade de vida desses profissionais (ARELLANO, 2004), con-
forme já mencionado nas categorias anteriores.
Outro fator que contribui para permanência desses profissionais no duplo vínculo são
as relações socioprofissionais que eles estabelecem nesse âmbito. Para Pinho e Santos (2007),
as relações interpessoais incidem em processos que tem como princípio a mutualidade, nesse
cenário verificou-se que os participantes buscam no convívio social do trabalho, estabelecer
trocas com os colegas, afim de tornar a atividade menos cansativa, o que fica evidente nas falas
que seguem:

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 31

“Quando eu saio pro outro trabalho, chego lá, antes de começar a trabalhar, vou lá na
sala dos professores, fico conversando um pouquinho pra desopilar, pra descansar mais
um pouco, porque eu acho que futuramente se eu não fizer esse exercício diário [...] eu
vou ficar com a mente tão cansada que eu vou ter que tomar calmante sempre, num é
uma vez ou outra.” (Entrevistado 5- Teleatendente e Secretária escolar)

Na fábrica é mais família, é minha família que trabalha, tô mais perto da família já que
durante a noite eu não tenho como tá perto. E no call center eu gosto, faz quatro anos
que eu tô lá, então eu já desenvolvi uma amizade também lá dentro.” (Entrevistado 10
- Teleatendente e Embaladora)

“[...] gosto muito de fazer novas amizades conhecer pessoas... conheço todo mundo, pra-
ticamente todo mundo, eu quando entro no call center, eu entro, falo com todo mundo,
e quando eu saio eu passo ilha por ilha, assim, falando com todo mundo, abraçando um,
dando beijo em outro.”(Entrevistado 7 - Teleatendente e Auxiliar Administrativo)

Compreende-se a partir destes discursos, a importância dos vínculos sócio-afetivos que


são formados nos ambientes de trabalho e, sobretudo no cenário do teleatendimento (WAGNER
et al, 2009). Essas relações se apresentam também como fatores que influenciam na vida pes-
soal e na forma como eles se mantêm em dupla jornada de trabalho. Como destaca Dejours
(2012), a cooperação no trabalho possibilita que os trabalhadores superem em coletivo as con-
tradições que emanam da própria natureza ou da essência da organização do trabalho, o que
parece ocorrer nessas situações de duplo vínculo sobre o qual esse estudo se debruça.
A fala da participante que afirmou dialogar com os professores no outro vínculo de tra-
balho, na tentativa de distrair sua atenção e consequentemente não precisar utilizar de medi-
camentos para descansar e aliviar o estresse oriundo do telemarketing, retrata bem a impor-
tância do coletivo de trabalho para amenizar as consequências do sofrimento e da sobrecarga
do duplo vínculo.
De todos os participantes, apenas um deles afirmou ter buscado auxílio de um profissi-
onal para lidar com as consequências oriundas do estresse, da fadiga e cansaço físico e mental
ocasionado pelo duplo vínculo de trabalho. Esse dado aponta para o fato da necessidade de
atenção e cuidado para esses profissionais que tem dedicado mais tempo ao trabalho, do que a
outras esferas do viver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo objetivou analisar as consequências psicossociais do duplo vínculo de


trabalho para a saúde de teleatendentes. Essa categoria profissional foi escolhida por se tratar
de profissionais que já se encontram suscetíveis a um alto nível de estresse em sua atividade
laboral, e que mesmo assim, ainda acabam desenvolvendo outra atividade remunerada. Para
tanto, buscou-se verificar os motivos pelos quais estes trabalhadores se mantêm em dois em-
pregos e como fazem para conciliar as duas atividades, muitas vezes bem diferentes. Os dados
levantados demonstraram que as razões pelas quais estes profissionais permanecem em duplo
vínculo se apresentam diversificadas, entre as quais, constatou-se o fator financeiro, necessi-
dade de manter os filhos e alcance de objetivos.
A jornada reduzida de trabalho no teleatendimento (6h) é um dos principais fatores que
permitem essa manutenção dos dois vínculos. Apesar disso, manter-se em duas ocupações não
é sem custo para esses trabalhadores. O alto grau de estresse, de cansaço físico e mental e as
restrições de tempo para atividades de lazer e descanso são elementos preponderantes para o

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 32

desencadeamento de sintomas, patologias e estratégias disfuncionais que trazem prejuízos a


saúde e ao bem-estar social desses trabalhadores. Sintomas como insônia, dores corporais, má
alimentação, automedicação, bem como repercussões nas suas relações sociais e familiares,
tem comprometido em grande parcela a qualidade de vida destes trabalhadores.
Apesar dos mesmos desenvolverem estratégias para lidar com esses fatores, como a oti-
mização dos tempos de descanso e o investimento nas relações interpessoais no trabalho, as
mesmas não se configuram como estratégias suficientes para minimizar as consequências ou-
trora mencionadas da dupla jornada de trabalho.
Cabe destacar que a realidade apresentada nesse estudo necessita ainda ser melhor de-
senvolvido, pois não foram explorados elementos como o trabalho doméstico e o do cuidado
dos filhos, o que aponta para uma tripla (e não dupla) jornada de trabalho, fator que pode ser
melhor explorado em outras pesquisas com essa categoria profissional.
Destaca-se ainda, a limitação encontrada no processo de construção desta pesquisa que
diz respeito à restrita disponibilidade de tempo que os participantes apresentaram para agen-
dar a aplicação dos instrumentos, o que fica claro, pela extensa jornada de trabalho que pos-
suem, além de outras responsabilidades que envolvem o cotidiano dos mesmos, como estudar,
ser casado e ter filhos.
Por fim, é importante ressaltar a necessidade e importância de se pensar formas de aten-
ção e cuidado para esses trabalhadores que, em decorrência do cenário econômico e social, não
conseguem manter-se em apenas uma atividade laboral para ter acesso a condições básicas de
vida, conforme foi apresentado no decorrer de todo esse capítulo. Se as formas de trabalho que
são apresentadas atualmente não têm sido capazes de garantir essas condições mínimas, que
ao menos os meios de enfrentamento possibilitem uma redução de danos e garantam uma me-
lhor qualidade de trabalho e de vida a esses profissionais duplamente afetados.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 35

ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DOS FATORES PSICOSSOCIAIS DA DEPENDÊNCIA


QUÍMICA COM HOMENS QUE ESTÃO EM RECUPERAÇÃO
Maria Priscila Luna Bazílio Araújo
Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Bruna Kethelen de Sousa Barros


Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina
Grande

Hyalle Abreu Viana


Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba e Professora do
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Renata Pimentel da Silva


Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba e Professora do
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Leconte de Lisle Coelho Junior


Doutor em Psicologia Social pela Universidade Federal do Espírito Santo e Professor do
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

O uso e abuso de substâncias químicas, embora seja um problema que permeia longos
anos da história, continua sendo um fenômeno presente atualmente, e tem tomado proporções
cada vez maiores no decorrer dos anos. O aumento do uso de substâncias psicoativas (SPA) vem
ocorrendo de forma precoce entre jovens e adolescentes, resultando em um dos maiores pro-
blemas de saúde pública da contemporaneidade (SILVA; PERES, 2014).
Tendo em vista isso, o IIIº Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População
Brasileira foi coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e teve como um de seus par-
ceiros o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa aconteceu em 2015, e
a coleta de informações foi realizada por meio de entrevistas e contou com a participação de
cerca de 17 mil pessoas com idades entre 12 e 65 anos. Sobre os resultados, a maconha apre-
senta-se como a droga ilícita mais consumida: estima-se que 7,7% dos brasileiros entre 12 e 65
anos já usaram pelo menos uma vez na vida; a cocaína ficou em segundo lugar com 3,1%: 0,3%
dos entrevistados afirmaram ter feito uso da droga nos últimos 30 dias; 0,9% da população
relatam ter feito uso de crack ou similares pelo menos uma vez na vida (BASTOS; VASCONCEL-
LOS; DE BONI; REIS; COUTINHO, 2017).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 36

Nos resultados apontados, em relação ao uso do crack, os números se mostram menores


quando comparados ao levantamento realizado em 2013, isso porque o último levantamento
foi realizado de forma domiciliar, e os usuários de crack compõem de forma majoritária uma
população marginalizada, que vive em situação de rua. Em relação ao uso do Álcool, mais da
metade da população declarou ter usado alguma vez na vida, 30,1% informaram ter consumido
pelo menos uma dose nos últimos 30 dias (BASTOS; VASCONCELOS; DE BONI; REIS; COUTI-
NHO, 2017).
Rocha, Alves, Vieira, Barbosa, Leite e Dias (2015) ressaltam a interdependência existente
entre os usuários e o meio que os cercam, afirmando que, indivíduos em contexto de vulnera-
bilidade social têm, geralmente, maior probabilidade de adentrar no consumo de drogas, mas
que, não é possível desenvolver a dependência apenas pela facilidade da oferta, seja ela vinda
do círculo de amizade ou até mesmo do tráfico. Schenker e Minayo (2003) associam o início do
uso de SPA a uma fonte de socialização que faz parte da linguagem do adolescer, considerando
que é um período marcado por curiosidades e necessidades de novas experiências, onde pre-
valece a troca de influência no grupo de amigos. Jovens que fazem parte de um grupo social
onde há uso e abuso de substâncias, estão mais suscetíveis ao uso devido à exposição contínua
com as drogas ou até mesmo pela pressão social, por meio da simples oferta dos parceiros, e
também para que o sujeito possa sentir-se parte do grupo, ressalta-se que, apesar do aumento
do risco, este não é um fator determinante ao uso (HORTA, HORTA, LEVANDOWSKI, TEIXEIRA;
LISBOA, 2019).
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2014), esclarece que “(...) a característica essencial de um transtorno por uso de
substâncias consiste na presença de um agrupamento de sintomas cognitivos, comportamen-
tais e fisiológicos indicando o uso contínuo pelo indivíduo” (p. 483), mesmo diante de todas as
complicações significativas ligadas à substância. Alterações nos circuitos cerebrais apresen-
tam-se como consequências dos transtornos causados por SPA, e pode perdurar por toda a vida,
principalmente em indivíduos que mostram transtornos em níveis mais avançados. “De modo
geral, o diagnóstico de um transtorno por uso de substâncias baseia-se em um padrão patoló-
gico de comportamentos relacionados ao seu uso” (p. 483). Alguns critérios gerais tornam-se
característicos nesses indivíduos, sendo eles: “1. Dificuldade importante ou baixo controle so-
bre tal uso; 2. Prejuízos psicossociais e sociais evidentes; 3. Riscos físicos e psicológicos; 4. Fe-
nômenos farmacológicos como tolerância e abstinência” (DALGALARRONDO, 2019, p. 398).
No nosso país, o uso de substâncias químicas é permeado de preconceitos e estereótipos,
enquadrando o fenômeno da drogadição como um “caso de polícia” ao invés de um caso de sa-
úde, o que nos leva a uma reflexão sobre a importância de uma abordagem biopsicossocial, uma
vez que é um grave problema social (WANDEKOKEN; DALBELLO-ARAUJO, 2015). Desacredita-
se que seja suficiente manter o foco no quesito repressão, havendo necessidade de uma ampli-
ficação na abordagem quando esta se relaciona “(...) à prevenção, ao tratamento, à reinserção
social e a redução de danos” (p. 163).
Diante do exposto, este trabalho busca uma compreensão mais ampla dos fatores psi-
cossociais que perpassam o fenômeno da dependência química, buscando perceber, diante do
construto social, como se deram as relações dos usuários de SPA em seu meio familiar e com os
diversos aspectos de suas vidas. Para isto, este trabalho parte da problemática: Quais fatores
psicossociais relacionam-se à dependência de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas em homens
que estão em tratamento numa Instituição Social de Campina Grande - PB?

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 37

A Psicologia Social da Saúde enfatiza que é de suma importância a prática fundamentada


em uma perspectiva Biopsicossocial. Spink (2010) aponta que esta modalidade leva em conta
principalmente as variáveis psicossociais na explicação do processo de saúde-doença, valori-
zando a prevenção e a promoção à saúde. Ela trata o indivíduo como um ser social, que encontra
sentido para seu estado de saúde a partir da interação com outros, alguém capaz de tomar de-
cisões sobre seu estado de saúde e vivenciar de forma saudável os problemas do seu corpo: “O
que está em pauta é o sentido pessoal dado à experiência. Sentido este que está intimamente
imbricado com as representações que se tem dos eventos em pauta” (SPINK, 2011, p. 49). O
estudo de como se dá o comportamento da saúde/doença mediante o envolvimento com outras
pessoas é o maior interesse da Psicologia Social da Saúde (ROSO, 2007).
A partir de tais pressupostos, este trabalho teve como objetivo geral Identificar quais
fatores psicossociais relacionam-se à dependência de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas em
adultos do sexo masculino que estão em tratamento numa Instituição Social de Campina Grande
– PB. E teve como objetivos específicos: Investigar a associação de conflitos familiares com o
início do uso de substâncias psicoativas; verificar os principais fatores sociais que contribuem
para o processo de dependência; compreender as barreiras emocionais que dificultam no en-
frentamento dos problemas/dificuldades do dia-a-dia, fazendo com que indivíduos busquem
refúgio nas drogas.

MÉTODO

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de campo de natureza exploratória e des-
critiva, desenvolvida através de um enfoque qualitativo.

Amostra
Foram realizadas entrevistas com quatro homens que estão em recuperação da depen-
dência química em uma ONG localizada na Cidade de Campina Grande, por meio de uma amos-
tra não-probabilística intencional. Utilizou-se como critérios de inclusão àqueles que se dispu-
sera a participar após compreensão da relevância da pesquisa e que estivessem internos há
pelo menos um mês. Os critérios de exclusão foram: àqueles com histórico de transtornos men-
tais e/ou que tivessem passado por algum episódio recente de recaída (há menos de um mês).

Instrumentos
Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram: Questionário sociodemográ-
fico, que objetiva traçar o perfil da amostra estudada e entrevista semiestruturada, com grava-
ção de voz. Alguns dos itens contidos foram: “Com que idade você fez uso de Substâncias Psico-
ativas - SPA pela primeira vez?, “A partir de qual idade você acredita que já era dependente de
SPA?”, “Como era sua relação familiar antes da dependência? Após a dependência mudou algo?”,
“Quais fatores você acredita que dificulta o abandono? Quais fatores te motivam a lutar contra
a dependência?”

Procedimento de Coleta de Dados


Quanto aos procedimentos de coleta de dados, foram realizados de forma individual, em
uma sala vazia. O gestor da instituição foi informado antecipadamente sobre as entrevistas. Os
participantes se dispuseram a participar no mesmo dia em que foram convidados, sendo assim,
as pesquisadoras permaneceram na Instituição durante os períodos manhã e tarde, adequando-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 38

se a disponibilidade de tempo de cada um. A pesquisa aconteceu no mês de Outubro de 2020.


Os internos foram abordados de forma coletiva, onde foram esclarecidos os objetivos da pes-
quisa, critérios de inclusão e exclusão, direito de acesso aos resultados, gravação das entrevis-
tas, sigilo, princípios éticos e liberdade de desistir a qualquer momento. Posteriormente, aque-
les que demonstraram interesse em participar receberam o termo de consentimento livre e es-
clarecido. Ao finalizarem a leitura, foram esclarecidas as dúvidas e apresentados os instrumen-
tos de coleta de dados. Por último, foram realizadas as entrevistas individualmente, com grava-
ção de voz. A pesquisa foi formalizada mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido pelos participantes da amostra.
O presente estudo foi submetido ao comitê de ética, garantindo seu comum acordo com
as Resoluções de números 466/12 e 510/16 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da
Saúde, o qual domina sobre a ética da pesquisa envolvendo seres humanos, assegurando sua
garantia de privacidade, como também todos os direitos relacionados aos princípios éticos. A
autorização foi registrada com número do CAAE: 37056620.3.0000.5175.

Análise dos dados


Os procedimentos da análise dos dados se deram por meio da utilização do IRAMUTEQ.
Trata-se de um software que realiza um processo sistemático de análise textual e segundo Ca-
margo e Justo (2013), o programa “viabiliza diferentes tipos de análises de dados textuais” (p.
525). Isso porque o software permite uma variação de métodos lexicométricos, desde os mais
simples, como o cálculo de frequência de palavras, até um conjunto de análises variadas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados sociodemográficos dos participantes podem ser observados detalhadamente


na tabela 1. Dos quatro participantes deste estudo, 100% são homens com faixa etária entre 39
e 63 anos, constituindo uma média de idade de 48 anos. Quanto ao estado civil: casado (2),
solteiro (1), divorciado (1); religião: evangélico (2) e católico (2); Escolaridade: Fundamental
incompleto (2), Médio Completo (1) e Médio Incompleto (1); Todos possuem filhos; Todos já
trabalharam; Renda Fixa: possui (2), não possui (2); Reside em Campina Grande: Sim (3), Não
(1).

TABELA 1 –. Distribuição dos dados sociodemográficos dos participantes (n=4)

Variáveis F %

Sexo
Masculino 4 100%
Religião
Evangélico 2 50%
Católico 2 50%
Estado Civil
Solteiro 1 25%
Casado 2 50%
Divorciado 1 25%
Escolaridade

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 39

Fundamental Incompleto 2 50%


Médio Completo 1 25%
Médio Incompleto 1 25%
Possui Filhos
Sim 4 100%
Já trabalhou
Sim 4 100%
Possui Renda Fixa
Sim 2 50%
Não 2 50%
Reside em Campina Grande
Sim 3 75%
Não 1 25%
Fonte: Dados da pesquisa (2020).

A Classificação Hierárquica Descendente (CHD) elabora agrupamentos detalhados sobre


as partes de texto de um corpus, de maneira que as ideias do texto são continuamente divididas
em função das combinações das formas lexicais nos enunciados (SOUSA; GONDIM; CARIAS; BA-
TISTA; MACHADO, 2020), ou seja, os segmentos de texto são classificados de acordo com seus
vocabulários. A elaboração de um Dendrograma tem como objetivo elucidar a divisão entre as
classes (CARVALHO; MOTA; SAAB, 2020).
O Corpus textual foi constituído por quatro textos (entrevistas), separados em 345 seg-
mentos de texto (ST), destes, houve aproveitamento de 297 (STs) que corresponde a 86,09%.
Aparecem 11961 ocorrências de palavras (de forma geral), sendo 1602 palavras distintas e
1018 lemas. Para análise que se seguiu, foram consideradas as palavras com frequência igual
ou superior a 3, com ꭓ²>= 3,33. O conteúdo analisado foi categorizado em 6 classes: classe 1
com 50 segmentos (16,8%), denominada ‘Influência parental’; classe 2 com 40 segmentos
(13,5%), denominada ‘dificuldades do recomeço’; classe 3 com 38 segmentos (12,8%), denomi-
nada ‘enfrentamento do problema’; classe 4 com 59 segmentos (19,9%), denominada ‘influên-
cia da sociedade’; classe 5 com 57 segmentos (19,2%), denominada ‘consequência do consumo
de drogas’ e classe 6 com 53 segmentos (17,9%), denominada ‘comércio das drogas’.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 40

FIGURA 1 – Dendrograma das respostas dos participantes na entrevista semiestruturada. De-


senvolvido a partir do software IRAMUTEQ

Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

A classe 1, denominada “Influência parental”, mostra que a família, enquanto fonte de


socialização primária do sujeito, tem o poder de atuar como um fator de risco ou de proteção
para este, influenciando nas suas escolhas, principalmente nas fases jovem e adolescente, con-
siderando que o indivíduo ainda não possui capacidade acentuada de percepção em relação aos
riscos e vulnerabilidades (SILVA; PERES, 2014). Todos os participantes afirmaram ter feito uso
de Substâncias Psicoativas ainda na fase jovem, entre 9 e 13 anos de idade – o álcool foi citado
por 3 participantes como primeira droga ingerida e um afirma que fez uso da maconha.
Os comportamentos sociais – incluindo o uso de drogas – são herdados a partir das in-
terações com as fontes primárias de socialização (família, escola e os amigos da adolescência).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 41

Os riscos são instalados a partir da fragilidade dos vínculos estabelecidos entre o jovem e estas
fontes, resultando nos desvios de conduta/comportamento. Em contrapartida, um vínculo sau-
dável com a família e a escola previne que o jovem seja seduzido por “más companhias”
(FRANÇA; COELHO JUNIOR; MELO, 2013). Ao considerar a família como o elo mais forte nessa
cadeia mesclada, atribui-se a esta a responsabilidade tanto por criar as condições relacionadas
ao uso abusivo de drogas tanto quanto pelos fatores de proteção. Quando há construção de vín-
culos familiares saudáveis, normas sociais edificantes são transmitidas para seus membros, po-
rém, quando a convivência familiar é disfuncional, há grandes probabilidades das normas des-
viantes dos pais espelharem o comportamento dos filhos (SCHENKER; MINAYO, 2003). A seguir
alguns exemplos do discurso que caracteriza esta classe:
“[...] desde os 18 anos eu trabalhei em construção, aí final de semanas meus tios iam
beber e eu ficava olhando” (Participante 1).

“[...] o álcool eu comecei com 10 anos de idade, beber e fumar com 10 anos... Porque eu
chegava lá (com aproximadamente 16 anos), e assim, no dia de Domingo eu dizia: ma-
mãe, eu queria tomar uma cachaça hoje, ela dizia: mas meu filho, quer tomar uma ca-
chaça? Eu digo: quero! ela dizia: tome, vá comprar, compre 1 litro e bote logo aí...” (Par-
ticipante 2).

“[...] meu pai usava, ele era depende de álcool e meus irmãos, eles eram alcóolatras. Meu
pai foi durante anos... Aí meus irmãos bebiam, meu irmão bebia cachaça, cerveja... Eu
sempre disse a eles: eu prefiro uma droga do que a bebida, que a bebida faz a gente cair,
faz a gente gastar o dinheiro da feira” (Participante 3).

“[...] uns 9 anos eu já bebia, mas bebia pouquinho, mas depois que fiquei mais velho que
comecei a beber mais... Morava na casa dos meus pais e com 15 a 16 anos eu sai de casa
e fui morar com outro pessoal lá... meu pai era muito ignorante para nós, minha mãe,
não...” (Participante 4).

A classe 2, denominada “dificuldades do recomeço”, traz os obstáculos da ressocialização


após o processo de recuperação. Há uma preocupação praticamente unânime em relação à acei-
tação que terão no ambiente familiar e no meio social de uma forma geral. Portanto, este fator
torna-se uma variável de risco de recaída, considerando que a fragilidade do vínculo familiar
resulta em intenso sofrimento aos usuários, uma vez que o apoio da família proporciona forta-
lecimento diante das consequências negativas do uso de substâncias e tem um papel motivador
na busca de uma mudança de vida, oferecendo o suporte necessário para que o adicto perma-
neça na luta contra o vício (ROCHA; ALVES; VIEIRA; BARBOSA; LEITE; DIAS, 2015). Os discur-
sos em relação à esta classe são:
“[...] quando eu sair daqui, pra casa de família eu num vou mais não, só pra casa dela
(filha) mesmo, né?” (Participante 2).

“[...] eu não sei quando eu chegar lá, a convivência com a minha dona encrenca (esposa),
como vai ser. Mas, no meu pensamento, eu estou mais para não conviver com ela, do que
conviver com ela... Ela e mais as meninas... combinaram com ela para eu poder vir, eu sei
que ela não estava fazendo o mal, fazendo o bem para mim, né? Mas eu não gostei tam-
bém, minha vida é outra...” (Participante 4).

Nestes discursos, o participante 2 informa que tem no total 7 filhos, porém mantém vín-
culo afetivo apenas com uma filha. A bebida sempre dificultou seu relacionamento com os fa-
miliares. Em seu discurso, percebe-se que a mãe foi a pessoa com quem teve um laço afetivo

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 42

mais forte em toda sua trajetória de vida. Não chegou a ter contato com o pai, pois ele abando-
nou sua mãe ainda na gestação. O participante 4 há mais de 1 ano não recebe visita da esposa,
ele acredita que ela não o quer mais, pois devido à dependência do álcool seu relacionamento
foi enfraquecido e a incerteza quanto o futuro ao lado de sua família lhe causa grande sofri-
mento.

A classe 3, denominada “Enfrentamento do problema”, mostra que alguns fatores ser-


vem como força propulsora para o abandono do álcool e das outras drogas. Percebe-se que,
quando há um sentimento de pertencimento a algo ou a alguém, as motivações em libertar-se
do vício parecem mais evidentes. É importante ressaltar que os usuários, de forma geral, de-
monstraram dificuldade em assumir-se dependente químico, talvez, como forma de se resguar-
dar da visão estereotipada vinda do meio social, uma vez que as visões estigmatizadas afetam
a autoestima dos adictos, dificultando o enfrentamento do problema e o sucesso no tratamento.
Os usuários são ligados a uma imagem de mau-caráter, doentes e incapacitados, que acabam
ganhando um status de verdade, pois os sujeitos acabam se apropriando destes estereótipos
refletindo-os em suas condutas, dando, desta forma, continuidade ao ciclo de exclusão social
que lhes é imposto (MELO; MACIEL, 2016). Apesar da resistência, chega um momento da entre-
vista em que conseguem se enxergar como alguém que carece de ajuda, e é nesse momento que
refletem sobre os reais motivos de estarem em tratamento. Quanto a isto, apontam que,

“[...] o dia começava e batia aquele negócio, eu corria para o banheiro, chorava, aí meu
pensamento em tirar minha vida, mas Deus sempre me dizia: não. Eu fui tentando es-
quecer, tentando... Comecei na Palavra, aí hoje eu quero viver mais do que nunca... Hoje
quando eu lembro bate um... Mas eu acho que eu tinha que passar por isso, para... Porque
para essa vida eu não volto mais não... Estava fazendo mal, principalmente a mim
mesmo, e claro que você machuca quem você gosta, quem gosta de você, que quer te
ajudar...” (Participante 1).

“[...] só basta querer! Botar na sua mente, botar no seu coração, evitar os lugares aonde
existe isso, não chegar a quem levou você ao fundo do poço, falar, se encontrar, mas não
ficar, entende?” (Participante 3).

Em sequência, a classe 4, denominada “influência da sociedade”, evidencia o quanto o


ambiente exerce um papel significativo no desencadeamento da dependência química, tanto
quanto dificulta que o indivíduo se mantenha afastado das drogas quando este já está recupe-
rado. Não existe uma predestinação ao uso de drogas, mas uma multiplicidade de fatores pro-
voca o processo de dependência (ROCHA; ALVES; VIEIRA; BARBOSA; LEITE, 2015). Não é pos-
sível desenvolver a dependência apenas pela facilidade da oferta, seja ela vinda do círculo de
amizade ou até mesmo do tráfico.

“[...] aonde eu ia tinham vários adolescentes que já faziam o uso do álcool e eu fui experi-
mentar... Quarta feira tinha jogo eu queria tomar uma, segunda eu queria tirar ressaca,
tomava uma, eu sempre queria estar ali na roda de amigos conversando e bebendo... estava
triste porque estava separado, já estava bebendo todo dia, toda hora, já tinha me entre-
gado para a cachaça já... Aí disse: o que é isso que tu faz? Quero provar! Aí ele abriu e me
deu (o crack) e eu provei. (Participante 1).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 43

“[...] a pessoa deve evitar também de entrar em ambiente que tenham muitas pessoas be-
bendo, na bebedeira... Porque a pessoa muito conhecido no bairro, quando chega em qual-
quer um bar daquele vizinho, perto da casa da pessoa, tem 5, 6 bebendo, tudo amigo... Aí se
a pessoa oferece... Outra coisa num oferece, né? Mas bebida...” (Participante 2).

“[...] aí depois eu conheci um amigo meu, ele me deu o crack, né? E eu fui... Comecei a usar,
com uns 29, 30 anos. Aí foi quando eu fiquei dependente do crack... A cocaína eu usei
quando eu viajei pra outro estado... eu queria provar porque diziam que era boa, mais alu-
cinante, aí eu provei...” (Participante 3).

Percebe-se três situações distintas que resultam no consumo/abuso se SPAs. O partici-


pante 1 relata que estava entregue à bebida devido a uma recente separação, e que no seu meio
haviam pessoas bebendo e utilizando crack, isto o impulsionou ao uso do crack pela primeira
vez. O uso abusivo de drogas é um meio de alívio perante as desavenças tanto com familiares
quanto com terceiros (SOBRAL; PEREIRA, 2012). O participante 2 relata sobre a dificuldade de
permanecer sem o álcool ao voltar para seu bairro, onde os conhecidos, mesmo sabendo do
problema que ele tem com o abuso da substância, lhe oferecem bebida. Já o participante 3, fala
sobre momentos diferentes em que a oferta do consumo lhe levou ao uso de diferentes drogas.
Desta forma, “Mostra-se evidente a inter-relação e a interdependência existentes entre os usu-
ários e o contexto que os circunda” (ROCHA; ALVES; VIEIRA; BARBOSA; LEITE, 2015, p.131).

A classe 5, denominada “Consequências do consumo de drogas”, mostra a situação de


extrema vulnerabilidade que é vivenciada pelos usuários. O sujeito vai, aos poucos, passando
por um processo de despersonificação, ou seja, à medida que a situação vai se agravando, o
adicto vai se afastando daquilo que ele é, vai perdendo suas raízes, sua identidade e seus laços
afetivos. Um comportamento dependente é definido por Schenker e Minayo (2003) como
àquele movido de compulsividade. A dependência é considerada uma patologia, e tende a se
tornar crônica pelo fato do dependente recusar-se a admitir a gravidade da situação, retar-
dando os cuidados necessários.
“[...] o que você imaginar, eu passei por tentativa de homicídio, presenciei homicídio na
minha frente... morei no lixo, comi lixo, passei dias sem tomar banho, tudo que você ima-
ginar eu passei... fui muito humilhado, perdi muita oportunidade, muita oportunidade
mesmo, era para eu estar bem hoje de vida, muito bem mesmo. Chegou um ponto de eu
tacar fogo em uma nota de cem, assim... e depois disso eu fui caindo, caindo, caindo....
minha filha me via e corria com medo de mim” (Participante 1).

“[...] meus irmãos, por causa da bebida, deixaram a sua profissão, não seguiram a car-
reira... Quando eu tava nesse problema de droga, eu me afastava dos meus amigos que
não gostam disso, que são mais íntimos, mais amigo... Porque eu não queria preocupar
eles, que eu não queria incomodá-los com meu problema, tanto eu não atrapalhava os
seus assuntos, como eu não queria que eles entrassem no meu” (Participante 3).

Os relatos dos participantes 1 e 3 referem-se à comportamentos ligados ao uso do crack.


“A dependência de crack é das mais intensas; ela leva os indivíduos dependentes a praticarem
comportamentos extremos para obter dinheiro e poder comprar ou obter mais pedras, como
tráfico, mendicância, prostituição, furto ou assalto com violência” (DALGALARRONDO, 2019, p.
404). Esses usuários descuidam-se completamente da saúde física, não se dão conta de que es-
tão perdendo vínculos com pessoas que eram importantes na sua vida, preocupam-se em man-
ter apenas “(...) aqueles que o levam a obter novamente a droga” (p. 404).
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 44

A classe 6, denominada “mundo das drogas” mostra como é mundo do usuário de crack
quando este encontra-se com os vínculos afetivos rompidos. Nada mais faz sentido além da
droga. O sujeito vive, exclusivamente, em função da droga, perdendo a noção de mundo, pois
seu próprio mundo gira em torno do consumo do crack. Afeta diretamente os laços familiares,
causando quebras de vínculos afetivos, perda de autonomia do sujeito, visão estereotipada da
sociedade e o consequente isolamento social.
Em um estudo que objetivou caracterizar a iniciação e o padrão de consumo nos públicos
jovem e adultos, Silva e Peres (2014) destacam que os resultados alcançados são semelhantes
aos obtidos em outras pesquisas, apontando o crack como a droga ilícita mais consumida entre
adolescentes e adultos, com predomínio do sexo masculino.
“[...] porque minha vida antes das drogas era uma coisa, e depois foi totalmente dife-
rente, totalmente diferente... Pegava todo o dinheiro, aí eu comprava e levava para casa,
aí passava a noite toda fumando sozinho...” (Participante 1).

“[...] meu pai e meus irmãos se reuniu tudinho, ficaram todo mundo junto, aí eles não
gostavam porque eu usava droga, porque eu conhecia os drogados, andava com gente
ruim, da pesada... Eu fiquei em cárcere privado, por eu dever... Essa minha colega não
quis deixar eu sair, aí me trancou, me trancafiou... aí eu comprava todos os dias, aí ela
dizia que ia trazer maconha pra mim, sabe? Quando eu disse que ia embora ela disse:
você me deve 50 reais de droga, e o celular que você comprou, você me deve ainda 100
reais... eu devo 150 reais a essa menina, 50 de droga e 100 do celular, e ali a menina eu
devo 800 reais...” (Participante 4).

Através da análise dos discursos apresentados percebe-se que o fenômeno da drogadi-


ção não é algo advindo diretamente da vontade própria do adicto, mas que é resultante de um
amplo contexto social que envolve as primeiras fontes de socialização, em especial, o seu meio
familiar, sendo necessárias intervenções que ultrapassem o usuário e alcancem todo o seu am-
biente circundante. Deve-se buscar a compreensão do que está por trás de cada ação, é neces-
sário o entendimento dos fatores que estão levando a cada comportamento para que o indiví-
duo esteja capacitado a exercer influência sobre suas ações (SPINK, 2011).
Outra questão a ser considerada é o tipo de droga que está em evidência na vida do su-
jeito, pois independentemente de ser considerada ilícita ou não pela mídia e a sociedade, per-
cebe-se que, a gravidade das perdas e as consequências decorrentes destas (lícitas ou ilícitas),
acabam, de um modo geral, refletindo em semelhantes resultados, há de se considerar que exis-
tem aquelas mais devastadoras (como o crack), o que não diminui o caráter nocivo e destrutivo
das demais. A mídia incentiva o uso destas substâncias (lícitas), enaltecendo-as através de pro-
pagandas vinculadas a eventos festivos e atividades cotidianas, desconsiderando que grande
parte dos problemas provenientes das SPAs tem o álcool e o tabaco como responsáveis. Toda-
via, considera-se reducionista uma abordagem centrada na repressão quando esta se faz indis-
pensável na esfera psicossocial (WANDEKOKEN; DALBELLO-ARAUJO, 2015).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho foi embasado teoricamente na Psicologia Social da Saúde para compreen-
são dos aspectos psicossociais da dependência química, com o intuito de apontar alguns dos
principais fatores que corroboram com o desencadeamento da dependência tanto quanto para
investigar os gatilhos familiares que estão envolvidos nesse fenômeno. Spink (2011), como re-
presentante desse campo de saber, coloca que a práxis está centrada em um cenário coletivo,

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 45

comprometendo-se com a cidadania e direitos sociais dos indivíduos, rompendo com as práti-
cas tradicionais da Psicologia que focam no sujeito de forma individual.
Diante dos resultados obtidos observou-se que a dependência química é um fenômeno
multicausal, que está intimamente ligada a fatores sociais, como situações de vulnerabilidade,
influência social, disfuncionalidade do sistema familiar, situações de desigualdade social, den-
tre outros. Algumas causas são evidentemente apontadas nesta pesquisa como estimuladoras
ao abuso de drogas.
Como primeira causa, aponta-se a influência parental que se dá pelo consumo de subs-
tâncias por membros próximos da família, tornando-se um fator facilitador ao início do uso
precoce; em seguida há a resistência da sociedade e, algumas vezes, até familiar em apoiar o
sujeito que passou pelo tratamento e encontra-se recuperado do vício, por acreditarem que a
qualquer momento ele poderá ter um episódio de recaída; outra causa: o retorno à comunidade
e a inevitável reaproximação com os antigos companheiros também se apresenta como outro
obstáculo ao abandono definitivo do álcool/droga, por ser onde acontece a oferta das substân-
cias.
Com estas evidências, percebe-se a necessidade de uma atuação dos profissionais de sa-
úde no âmbito psicossocial, trabalhando não só a dependência individual do sujeito, mas impli-
cando, principalmente, os familiares mais próximos nesse processo de recuperação. Já houve
comprovação em alguns estudos de que há um maior aproveitamento do tratamento àqueles
indivíduos que permanecem com o vínculo familiar durante o período de internação. Este tam-
bém foi um fator observado nos discursos, pois aqueles que recebem constantemente a visita
de pessoas queridas, se mantém mais firmes e demonstram mais segurança quanto à uma não-
recaída, pelo temor de decepcioná-los. O aspecto emocional destas pessoas é de extrema vulne-
rabilidade.
Inicialmente, a pesquisa seria destinada a seis homens que estivessem em tratamento,
porém, obedecendo ao critério de inclusão em que participariam àqueles que estivessem inter-
nos há pelo menos um mês, dos que se dispuseram apenas quatro estavam aptos, e, conside-
rando a variável do tempo estimado para entrega dos resultados, não seria viável aguardar o
tempo necessário para os demais participarem. De todo modo, mesmo a amostra sendo inferior
à esperada, os resultados foram satisfatórios.
A partir deste estudo, percebeu-se a escassez de trabalhos que dão voz ao usuário de
substâncias psicoativas como também a seus familiares, e sabe-se que abrir espaço de fala para
este público é fundamental, uma vez que a escuta resulta em melhor entendimento do fenô-
meno estudado e a consequente obtenção de subsídios para elaboração de políticas públicas
que ultrapassem a perspectiva individual, ressaltando que a questão saúde “pessoal” requer
saúde “coletiva” para se manter.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 47

PSICÓLOGOS CLÍNICOS E PSICOTERAPIA COM IDOSOS: APROXIMAÇÕES E


DISTANCIAMENTOS
Alana Silveira Santos
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau

Aldenice de Lima Silva


Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau
Especialização em Psicanálise pela Faculdade Integrada de Patos – FiP

Márcia Candelária Rocha


Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco e Professora do Curso
de Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande. Psicóloga do
Hospital de Trauma de Campina Grande - PB

INTRODUÇÃO

“E há tempo, doutora? ”, assim perguntava uma paciente de 68 anos, atendida em uma


clínica-escola de uma faculdade, a uma estagiária de psicologia clínica. Essa pergunta traz mui-
tas implicações: o local em que o estudante de psicologia é colocado quando está a escutar quem
procura a clínica-escola; o infantil que se mostra num trabalho terapêutico e que não depende
de idade cronológica, e o real do tempo para sujeitos que se põem a falar sobre si.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem adotado os indicadores das Nações Unidas
para definir a partir de que idade alguém entra na terceira idade, sendo a idade de 60 o padrão
acolhido (WORLD HEALTH ORGANIZATION [WHO], 2005). No Brasil, também é considerada
legalmente idosa qualquer pessoa acima de 60 anos (LEI N.o 10.741, DE 1o DE OUTRUBRO DE
2003, 2003). Contudo, esse não é um parâmetro rígido nem indiscutível, pois leva em conside-
ração para ser estabelecido condições mutáveis, como expectativa e qualidade de vida da po-
pulação. Tanto é assim que existe o Projeto de Lei n.º 5383/19 (CAMPOS, 2019), em análise na
câmara dos deputados, o qual propõe que os brasileiros sejam considerados idosos a partir dos
65 anos de idade.
Não se pode deixar de citar também como o conceito de velhice muda de região para
região, ou seja, entre zonas rurais e urbanas e entre estados. Sendo assim, as diferenças entre
países são ainda maiores. Em um projeto que busca definir a idade mínima na África sub-saari-
ana para que alguém seja considerado idoso, a OMS propôs 50 anos de idade, levando em con-
sideração aspectos como a comparativamente menor expectativa de vida no continente e a me-
nor proporção de adultos naquela população (KOWAL; PEACHEY, 2016). Na Itália, por sua vez,
os médicos gerontologistas passaram a considerar idosa uma pessoa a partir de 75 anos, ha-
vendo quem defenda que a idade mínima para aposentadoria seja de 70 anos (JORNAL NACIO-
NAL-G1, 2018). Já em países membros da União Europeia e Austrália a idade para aposentado-
ria varia em média de 65 a 67 anos (DRURY, 2020; RETIREMENT AGES, [s.d.]).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 48

Longe de trazer para esta discussão as consequências legais que uma mudança no marco
de idade para se considerar alguém idoso pode causar, o que se busca é mostrar como o con-
ceito de envelhecimento é subjetivo e afeito à sua época.
Nesse contexto, podemos ver em uma frase de Mário Quintana algo que expressa um
pouco desse recusar-se a parar quando ele diz “Morrer: Que me importa? O diabo é deixar de
viver.” E isso faz com que mesmo diante do envelhecimento e de um corpo que impõe limites o
sujeito continue a desejar. Mas desejar o quê? Desejar continuar a viver pois, como afirma Mu-
cida (2004), o sujeito, aquele desejante, este não envelhece. O desejo não tem cara, nem idade,
nem época, ele é atemporal, não que se negue a existência de uma época da vida, mas essa época
que se impõe ao sujeito não é capaz de apagar seu desejo.
É possível observar ainda que o envelhecimento de fato provoca uma série de mudanças
no corpo, como lentidão para certos movimentos físicos, perda de memória, a capacidade de
regeneração celular também é afetada, isso tudo aponta de certa forma para a finitude da vida
e aí devemos pensar em Freud (1919/2020) quando este fala do infamiliar, porque ao final das
contas a finitude e a morte não têm lugar em nosso inconsciente. Então, como encarar esse real
tão cru que a velhice insiste em mostrar?

Psicoterapia com idosos

Uma das formas possíveis para lidar com todo esse excesso de nomeação que se dá por
parte do outro e que é experimentado na velhice é a elaboração de novas formas de subjetiva-
ção, além do desenvolvimento de meios e ferramentas psicológicas que permitam ao sujeito
construir o seu envelhecer, respeitando suas singularidades, idiossincrasias e particularidades,
percebendo o que a velhice lhe trouxe como oportunidade de vivências que não puderam ser
experienciadas em outro momento da vida, o que pode ser construído através de um trabalho
psicoterápico (KIM, 2016).
A psicoterapia com idosos pode ser caracterizada como um processo em que o sujeito
poderá buscar construir formas possíveis de lidar com cada nova fase de sua vida, seja essa uma
fase de mudanças relacionadas à idade ou de conflitos inerentes a determinadas fases do de-
senvolvimento humano. Com essas novas formas, pode-se criar uma maior capacidade de trans-
formação individual, bem como desenvolver a espontaneidade e a capacidade de dar novas res-
postas diante dos acontecimentos vividos, lidando de maneira mais eficiente com os fatos insa-
tisfatórios da vida cotidiana (FALEIROS, 2004; KIM, 2016).
No início do século XIX, Freud (1893/2016), a partir de seus estudos acerca das mulhe-
res histéricas, que sofriam com contraturas, nevralgias, mutismo e outros sintomas físicos, co-
meçou a desenvolver a psicanálise. Percebendo que se tratava de questões de cunho emocional,
aos quais os médicos da época não conseguiam atribuir causas orgânicas, Freud buscou através
da escuta, daquelas mulheres, entender de uma outra maneira a manifestação de seus sintomas,
proporcionando-lhes algum alívio.
Entretanto, já nos idos de 1898, com sua teoria melhor estruturada, Freud defendeu que
a psicanálise fracassava com pessoas muito idosas, devido ao acúmulo de material nelas, o que
demandaria bastante tempo de análise, de modo que ao terminar o tratamento a saúde mental
já não seria uma prioridade. Porém, uma ressalva é feita por ele, antes de exemplificar os casos
em que a psicanálise não seria recomendada: “A terapia psicanalítica não é, no momento [ênfase
nossa], aplicável a todos os casos” (FREUD, 1898/2006, p. 268).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 49

Contudo, é perceptível o desenvolvimento de estudos (BRASIL et al., 2013; MUCIDA,


2004, 2009; NERI, 2006) demonstrando a aplicabilidade da psicoterapia, em diferentes abor-
dagens, nas mais diversas faixas etárias. Além disso, tanto o acesso às terapias tem se democra-
tizado, como também o perfil do idoso atualmente é outro.
A psicanálise, umas das formas possíveis de abordagem psicológica, afirma que o sujeito não
envelhece, e que este, dotado de um inconsciente — que é atemporal — e de desejo, não deve
ser visto apenas através do biológico, pois, ele está para muito além de um cabelo branco ou de
uma pele enrugada (MUCIDA, 2004). E aí cabe a questão: quais as percepções dos psicólogos
clínicos, de diferentes acordagens, vinculados à Uninassau de Campina Grande, sobre a psico-
terapia com idosos? Foi isso que buscamos compreender nesta pesquisa.

MÉTODO

Trata-se de pesquisa de campo, de natureza básica, com abordagem qualitativa. Com ob-
jetivos descritivos e exploratórios, foi usada uma amostra não probabilística de 21 psicólogos
clínicos vinculados à Uninassau de Campina Grande, com no mínimo um ano de atuação na área
clínica.
O principal instrumento para levantamento dos dados foi o questionário on-line, elabo-
rado via Google Forms, cadastrado na Plataforma Brasil e disponibilizado para os participantes,
via link compartilhável, após a aprovação pelo Comitê de Ética da Universidade da Amazônia -
UNAMA, através de Parecer Consubstanciado n.º 4.425.794.
A análise categorial temática foi o método utilizado, organizando-se o material em torno
de três eixos: 1) pré-análise; 2) exploração do material; 3) tratamento dos resultados, inferên-
cia e interpretação (BARDIN, 2011). Durante a pré-análise, o universo de documentos foi esco-
lhido a priori, isto é, nosso universo foi demarcado quando escolhemos como instrumento de
pesquisa o formulário Google. Com o corpus constituído, não deixamos de fora qualquer res-
posta obtida, procedemos inicialmente à leitura flutuante das respostas colhidas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Coletados os dados, pôde-se concluir que a maioria dos participantes foi de mulheres
(20), havendo apenas um participante do sexo masculino. A faixa etária ficou entre 25 e 55 anos.
Dos 21 respondentes, a maioria não tinha filhos (17) e era solteira (10), havendo também pes-
soas casadas (8) ou divorciadas (3). Dentre as abordagens de atuação na clínica psicológica, 16
dos participantes trabalham com a psicanálise, um com Atenção Centrada na Pessoa, um com
logoterapia e três com Terapia Cognitivo-Comportamental. Dos 21 participantes, 12 respon-
dentes têm entre um e três anos de prática clínica, sete entra quatro e sete anos e dois entre 13
e 19 anos. Apenas dois participantes responderam que não trabalhavam com idosos.
O formulário elaborado apresentava quatro perguntas abertas: 1. Quais motivos levam
você a trabalhar ou não com idosos? 2. Como você vê a efetividade da psicoterapia com idosos?
3. Quais dificuldades no atendimento com idoso você enunciaria? 4. Quais demandas você vê
como sendo as mais frequentes do público idoso?. As respostas a essas perguntas forneceram
dados que foram codificados segundo unidades de registro temáticas, o que nos forneceu 52
categorias iniciais, das quais foram criadas 20 categorias intermediárias, que segundo critérios
semânticos foram agrupadas em 8 categorias finais: 1. Os motivos para atender não se diferen-

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 50

ciam por idade; 2. Identificação 3. Processo de envelhecimento pode ou não interferir nos efei-
tos 4. Dificuldades relacionadas à família e engajamento do idoso 5. Dificuldades típicas do pro-
cesso de envelhecimento 6. Sem dificuldades específicas 7. Processo de envelhecimento 8.
Questões afetivas e familiares.

Motivos para atender ou não idosos

Ao serem questionados se trabalham com idosos e sobre o motivo pelo qual escolheram
trabalhar ou não com esse público, as respostas ficaram em torno de duas categorias: os que
não diferenciam o público idoso de outros públicos (estes, porém, reconhecem que há particu-
laridades nessa clínica) e os que sentem ou não uma certa identificação com os idosos. Na Ta-
bela 1 é possível visualizar o processo de elaboração das categorias iniciais, intermediárias e
finais.

TABELA 1 – Motivos para atender ou não idosos.


Motivos para atender ou não atender
Categorias iniciais Categorias intermediárias Categorias finais
Não faz diferenciação
Inconsciente atempo- Idade não é critério
Idade não é critério
ral
Demanda / procura Demanda / procura
Identificação Identificação Identificação
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

Na primeira categoria, os que afirmam que não fazem diferenciação entre o público idoso
e os demais, pode-se observar algo da ordem da busca por desenvolver uma clínica possível
com os idosos. O Participante 9 (P9), respondendo sobre o motivo de trabalhar com idosos
afirma que:

Trabalho com idosos pelos mesmos motivos que trabalho com outras faixas etárias.
Acolher compreender, assistir e intervir em situações de sofrimento, promover saúde,
prevenir doenças, oferecer suporte para que o autoconhecimento e o autocuidado se-
jam reais, além de desenvolver (com o idoso) formas de ampliar a sua rede de cuidado.
(P9)

O envelhecimento, como qualquer outra fase do desenvolvimento humano, é particular,


peculiar a cada indivíduo, construída à medida que se vive, assim como a clínica deve ser cons-
truída enquanto acontece. Ribeiro (2015) afirma que no último século, estudos e pesquisas aca-
dêmicas buscaram construir novos conhecimentos relativos ao público idoso, com o objetivo
de construir uma clínica em que possam ser superadas determinadas crenças negativas relati-
vas a essa fase do desenvolvimento, como as ideias de estagnação e improdutividade.
Ainda sobre a não diferenciação dos pacientes por idade, dois participantes responde-
ram: “O inconsciente é atemporal, portanto a demanda de uma análise de um idoso não se dife-
rencia das demais, embora tenha suas particularidades” (P2) e “Considerá-los sujeitos do in-
consciente e compreender que o inconsciente não envelhece.” (P3). Soma-se a essas colocações

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 51

a noção psicanalítica de que o desejo não envelhece, o desejo, que não é o mesmo que vontade,
mostra-se de formas diferentes ao longo da vida, sempre marcado por uma falta, a qual coloca-
nos em movimento (MUCIDA, 2009).

Efetividade da psicoterapia com idosos

No que se refere à efetividade da psicoterapia com idosos, as respostas mostraram as


seguintes categorias intermediárias: efeitos de acolhimento; efeitos em um tempo diferente;
efeitos de difícil alcance; efeitos positivos; efetividade relativa e; efeitos que dependem da im-
plicação do paciente. Essas categorias, conforme se vê na Tabela 2, foram agrupadas em uma
única categoria, qual seja, os processos de envelhecimento podem ou não interferir na efetivi-
dade da psicoterapia.

TABELA 2 – Efetividade da psicoterapia com idosos segundo os respondentes.


Como você vê a efetividade da psicoterapia com idosos?
Categorias iniciais Categorias intermediárias Categoria final
Mais acolhimento do que efe-
tiva mudança Efeitos de acolhimento
Ser ouvido
Efeitos em um tempo di-
Efetiva, com tempo diferente ferente
Difícil Efeitos de difícil alcance
Significativa Processo de envelhe-
cimento pode ou não
Positiva Efeitos positivos interferir na efetivi-
Boa dade
Relativa, no um a um Efetividade relativa
Se há desejo e demanda, há
efeitos
Efeitos dependem da im-
Efetiva como nas outras plicação do paciente
áreas, pois depende da impli-
cação / engajamento
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

Sentir-se ouvido foi trazido por alguns respondentes como sendo um dos efeitos da psi-
coterapia: “O desejo que o idoso tem de comparecer a psicoterapia porque diz que ali é ouvido”
(P12). Neste sentido, percebe-se que o espaço terapêutico pode-se constituir em um espaço
seguro de fala e de construção de subjetividade. É comum idosos se queixarem de sentimentos
de solidão, tanto quando moram sozinhos, como quando moram com outros familiares (BRASIL
et al., 2013). A família, por vezes, oferece os cuidados necessários a sobrevivência do idoso, mas
esquece de algo fundamental, ouvi-lo (MENDES et al., 2005). A terapia pode proporcionar uma
escuta efetiva do sujeito independentemente de sua idade. Para P1 a psicoterapia “Traz um aco-
lhimento mais do que uma efetiva mudança”.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 52

Não houve respostas afirmando que não há efetividade na psicoterapia com idosos, mas
dificuldades, as quais podem ou não estar relacionadas com o envelhecimento em si. O processo
de envelhecimento, entretanto, traz mudanças e perdas cognitivas, motoras, dentre outras,
questões essas que são percebidas no atendimento ao idoso e que trazem particularidades para
esse grupo. Nas respostas a seguir, é evidenciada a relação entre os efeitos do tratamento psi-
coterápico e a idade do paciente: “É efetivo mas, com um tempo de mudança um pouco dife-
rente, talvez por uma construção egóica mais rígida pelo tempo.” (P6), “É difícil pelo fato das
crenças rígidas e padrões já estabelecidos, percebo que há um tempo maior para conseguir re-
sultados.” (P11), “É um processo bem mais lento e delicado” (P19).
Sobre essa rigidez que viria com a idade, em 1937, Freud aponta uma inércia psíquica,
esperada durante o tratamento psicanalítico, a qual ilustra uma resistência do analisando
quando novos caminhos para os impulsos são desvelados. Em seguida, compara essa inércia à
mesma que seria encontrada em pessoas muito idosas, sendo que nesse caso a inércia se expli-
caria pela força do hábito ou exaustão da receptividade, sendo uma espécie de entropia psíquica
(FREUD, 1937/2019). Contudo, é sempre preciso contextualizar o que é produzido e os modos
de vida de hoje são bem diferentes daqueles que tinham os idosos do século XIX e início do
século .
Tanto é assim que em outro texto, Freud (1914/2010) afirma que as resistências acom-
panham o trabalho analítico/psicoterápico passo-a-passo e, por vezes, essa resistência se ex-
pressa também através de faltas ou desinteresse. Dessa maneira, a implicação em um processo
analítico independente de faixa etária. Alguns respondentes coadunam-se com esse posiciona-
mento quando se colocam da seguinte maneira: “É efetiva sim alguns casos, assim como nas
demais faixas etárias, umas vez, que tem relação com o desejo e a implicação do paciente.” (P3),
“Apresenta progressos e oscilações, como em outras faixas etárias” (P17). P9 em sua fala traz
que o engajamento não só do paciente, mas de sua família tem consequências para a clínica.

Entendo que a psicoterapia é sim efetiva e ela pode proporcionar um efeito real e positivo
para com os idosos, mas também compreendo que isso não funciona de forma automática,
precisando do engajamento do próprio idoso e também das pessoas que fazem parte da sua
realidade, dos contextos que ele está inserido.

A psicoterapia pode oferecer ao sujeito ferramentas e meios para que ele ressignifique
o processo de envelhecimento, bem como pode colaborar para a construção de novas vivências,
colocando em dúvida a equação que diz que envelhecer é apenas a visão de finitude. Finitude
esta, aliás, que está para todas as idades. Dessa maneira, a efetividade da terapia também é
descrita como “Bastante significativa, essencial para o seu [do idoso] bem-estar, possibilitando-
o a fazer a sua travessia e seus enfrentamentos tão necessários!” (P16).

Demandas mais frequentes do público idoso

A partir das respostas à pergunta Quais demandas você vê como sendo as mais frequentes
do público idoso? duas categorias temáticas foram construídas: as demandas que se relacionam
aos processos próprios do envelhecer e as demandas que se relacionam com questões afetivas
e familiares. A Tabela 3 traz essas informações de maneira mais objetiva, detalhando o trata-
mento dos dados para se chegar às categorias finais.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 53

TABELA 3 – Demandas trazidas pelo público idoso.


Quais demandas você vê como sendo as mais frequentes do público idoso?
Categorias iniciais Categorias intermediárias Categorias finais
dependência de outros, não ter auto-
nomia, dar trabalho
ficar doente, dor, saúde física
Autoimagem Processo de
envelhecimento
real do corpo, questões com o corpo
processo de envelhecimento
locomoção Processos próprios do
finitude da vida envelhecer
Luto
finitude da vida
Perdas
medo de morrer
escolhas
Arrependimentos Passado
desejos não realizados
demandas, dificuldades, questões fa-
miliares
Questões familiares
isolamento
medo da solidão
Questões afetivas e fami-
questões com o amor
Afetividade liares
afetividade mal resolvida
depressão
ansiedade, angústia, insegurança, irri- Questões emocionais
tabilidade
Fonte: Dados da Pesquisa (2020).

Foram agrupadas sob a categoria processos próprios do envelhecer questões sobre o


corpo (autoimagem, doenças e dores, dificuldades de locomoção, dependência de outros e falta
de autonomia) e sobre a finitude e irreversibilidade da vida (perdas, lutos, arrependimentos,
medo de morrer, desejos não realizados).
A velhice e seus processos nos causam estranheza, como algo que não é reconhecido por
nós, embora nos seja conhecido. É isso o que nos lembra o trabalho de Freud, Das Unheimliche
(O Infamiliar), de 1919, em que ele discorre acerca do estranho, do infamiliar, daquilo que nos
pega, que nos surpreende, que, apesar de estar próximo a nós, quando estamos de frente a ele,
não conseguimos reconhecer, processar ou dar conta (FREUD, 1919/2020).
Quanto ao real do corpo, os participantes trouxeram que veem como frequentes deman-
das do público idoso a “Angústia em relação à dependência dos outros, a não ter autonomia,
questões com ficar doente, ‘dar trabalho” (P1) e “As doenças que surgem nessa época da vida”
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 54

(P20). Mucida (2009) enriquece a reflexão quando diz que há dificuldades no reconhecimento
da imagem que o espelho mostra em diferentes momentos da vida do sujeito, afinal de contas,
não só existem a atemporalidade do inconsciente e o infamiliar da finitude, mas também o fato
de que não se envelhece de uma vez só, sendo que parece mais fácil enxergar a velhice nos
outros.
Não foge do escopo do real do corpo, a inevitabilidade da morte, a finitude. Mais uma vez
recorrendo a Freud (1919/2020), embora a máxima “todos os homens devem morrer” seja
usada como afirmação universal nos livros de lógica, ninguém parece esclarecê-la. E “nosso in-
consciente tem agora tão pouco espaço como antes para a representação da própria mortali-
dade” (FREUD, 1919/2020, p. 87). Não estamos preparados para velhice. E como estaríamos?
Mucida (2009) relembrando Freud, diz que no inconsciente não há lugar para a morte, conse-
quentemente não há lugar para velhice, o outro envelhece, o outro morre, nós não.
Ainda sobre o infamiliar, a expressão somática do envelhecer escancara a fragilidade e a
finitude humana. Particularmente no processo de envelhecimento, obriga-nos a nos deparar
com uma questão implacável, isto é, a temporalidade, a qual atinge o corpo de modo indelével
(BRASIL et al., 2013).
“Medo de morrer e deixar os netos que cuidam desamparados” (P12); “Dificuldades com
perdas, pânico e o real do corpo” (P6) e; “As queixas se referem à solidão, finitude, sentido da
vida e desejos não realizados” (P17) são algumas das demandas colocadas pelos psicólogos que
participaram da pesquisa. E aqui cabe ressaltar que a morte e o luto também se dão sem que
haja falecimento, isto é, arrependimentos, desejos não realizados e jovialidade passam pelo
luto.

Cada caso é muito particular, mas vejo com frequência as escolhas feitas durante a vida sur-
girem como pontos insatisfatórios, por um viés de arrependimento de uma vida que não mais
podem escolher ter. Há muito, especialmente em mulheres, questões com o corpo, com a dor,
o medo da solidão. (P7)

Também foram mencionadas questões relativas à afetividade e à família. Nessa catego-


ria, é comum encontrarmos na mesma resposta demandas de solidão, isolamento ou dependên-
cia. Por exemplo: “Dificuldades com familiares da rede de suporte, isolamento social, ansie-
dade.” (P11); “Questões com o amor e a finitude da vida.” (P2) e “Sentimentos de inutilidade e
perdas, o medo da morte, angústia e afetividade mal resolvida durante uma vida. Dependência
emocional, insegurança, irritabilidade” (P16).
A velhice muitas vezes reorganiza de forma violenta os papéis que o indivíduo vinha as-
sumindo em sua vida, retirando alguns e dando, compulsoriamente, outros, obrigando o idoso
a desenvolver novas formas de viver. Isso pode ser visto em alguns momentos de aposentado-
ria, quando o sujeito pode deparar-se com o ócio e a perda de papéis que antes estava acostu-
mado a exercer e mostrar demandas envolvendo o que trazem os seguintes participantes: “Iso-
lamento, depressão” (P4 e P13); “Depressão e ansiedade” (P9); “Atenção, ocupação” (P18).

Dificuldades encontradas no atendimento com idoso

No que se refere às dificuldades no atendimento ao idoso, após o agrupamento das cate-


gorias intermediárias, como é possível vislumbrar na Tabela 4, surgiram as seguintes catego-
rias: Dificuldades relacionadas à família e engajamento do idoso; Dificuldades típicas do pro-
cesso de envelhecimento e; Sem dificuldades específicas.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 55

TABELA 4 – Dificuldades encontradas pelos psicólogos no atendimento com idosos.


Quais dificuldades você encontra no atendimento com idoso?
Categorias intermediá-
Categorias iniciais Categorias finais
rias
família despreparada para dar
suporte sem tirar autonomia
família infantiliza
abandono afetivo / familiar
Compromisso, implicação, enga- família
jamento, investimento da famí- Dificuldades relaciona-
lia das à família e
dependência da família ou de engajamento do idoso
outros para irem às sessões, fre-
quência
dar continuidade ao tratamento
idoso não acreditar ou não in- engajamento
vestir
rotina de terapêuticas
locomoção
lentidão na capacidade de racio-
cínio
Processo de envelhe-
lapsos de memória ou sequelas cimento
de AVC Dificuldades típicas do
idoso e/ou família não acreditar processo de envelheci-
ou investir no tratamento, por mento
causa da idade
tecnologia
comunicação Tecnologia e comuni-
falar de forma que entendam cação
explicar psicoterapia
Nenhuma dificuldade ocorre no
momento Sem dificuldades es- Sem dificuldades especí-
nenhuma dificuldade em espe- pecíficas ficas
cial
Fonte: Dados da Pesquisa (2020).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 56

As categorias iniciais encontradas em resposta à pergunta, dificuldades encontradas no


atendimento com idosos, foram agrupadas, como é possível ver na tabela 7, nas seguintes cate-
gorias, Dificuldades relacionadas à família engajamento do idoso, Dificuldades típicas do pro-
cesso de envelhecimento e Sem dificuldades específicas.
A família do idoso tem por vezes um papel importante no trabalho a ser realizado junto
ao idoso, especialmente se ele depender dela para ir às sessões de terapia, nesse caso a efetivi-
dade do trabalho passa pelo empenho e interesse da família, sobre essa questão P8 diz que al-
gumas vezes falta “Compromisso da família no processo tendo em vista que muitos dependem
dela para levá-los até às sessões”.
O idoso pode ser visto pela família como um empecilho à realização de suas atividades
diárias (SILVA; LÔBO; MARINHO, 2014). Quando a família percebe o idoso como um peso ou
apenas mais uma obrigação em sua rotina, levar o idoso para a terapia torna-se mais uma des-
sas tarefas.
Quando a família está como rede de apoio e cuidados ela pode oferecer um ambiente que
propicie o crescimento de todos, inclusive do idoso, ela pode ainda propiciar segurança e aco-
lhimento para o idoso, o que lhe ajudará a desenvolver uma maior sensação de segurança emo-
cional (BRASIL et al., 2013).
O envelhecimento traz consigo diversas mudanças psíquicas e físicas, essas particulari-
dades podem aparecer durante o processo psicoterápico e serem fatores que precipitam algu-
mas dificuldades, sobre algumas dessas dificuldades P2 diz que:

Pela rotina de terapêuticas médicas diversas nessa etapa da vida, às vezes encaram a análise
como mais uma delas, a qual é, muitas das vezes, realizada a partir do encaminhamento de
um médico, o que pode interferir na demanda de análise por parte do paciente, uma vez que
nem toda demanda é demanda de análise e quando a procura por um analista não parte espe-
cificamente do sujeito é possível que essa demanda não seja feita/construída.

A rotina de consultas médicas é comum ao público idoso, pois apresentam com frequên-
cia dificuldades e perdas como, perda de força muscular, de equilíbrio, de movimento, isso por-
que a maioria tem uma vida mais sedentária que os outros grupos populacionais (HERNANDEZ;
VOSER, 2019). Além disso, é comum o aparecimento de doenças crônicas como diabetes, hiper-
tensão, dentre outras. Ainda sobre as dificuldades relacionadas ao envelhecimento, Hernandez
e Voser (2019) afirmam que, idosos deprimidos têm mais sintomas relacionados a alterações
cognitivas do que sintomas propriamente afetivos, quando comparados com adultos jovens de-
primidos. Todavia, influenciam e oferecem dificuldades ao processo psicoterápico não só fato-
res biológicos, mas também fatores psicológicos, sociais e o contexto histórico-cultural, pois, o
sujeito precisa lidar com todos esses fatores da infância até a idade mais avançada, e é através
deles vai construindo sua visão do envelhecimento (RIBEIRO, 2015).
Não é incomum vermos o termo “velho” sendo usado de forma pejorativa, relacionado
com o que não tem mais serventia ou utilidade, que está ultrapassado fora de uso. Sobre isso
P1 diz que “A cultura que idoso é inútil acaba por trazer bastante rigidez para o processo”. A
velhice pode ser uma fase onde o sujeito reconhece que realizou sonhos e projetos ou pode ser
um momento em que ele se dá conta que já não há mais tempo para algumas coisas (SILVA;
LÔBO; MARINHO, 2014). Diante dessa visão, o psicólogo será aquele que buscará junto ao su-
jeito, construir novas possibilidades quando as formas de enxergar o envelhecimento.
Para alguns psicólogos não há dificuldades específicas relacionadas ao atendimento do
idoso P7 afirma que não encontra “Nenhuma em especial”. Como é possível observar na tabela

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 57

5. Esses psicólogos, não percebem a clínica do envelhecimento como uma clínica peculiar para
o trabalho psicoterápico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa teve como objetivo principal compreender as diferentes percepções dos
psicólogos clínicos vinculados à Uninassau de Campina Grande sobre a psicoterapia com idosos,
buscando-se para isso identificar como esses profissionais veem a efetividade da psicoterapia
com idosos; detectar quais demandas esses psicólogos apontam como sendo as mais frequentes
do público idoso e; levantar quais dificuldades no atendimento com idoso são enunciadas por
esses psicólogos.
Pode-se dizer que os psicólogos participantes não veem a idade como motivo para aten-
der ou deixar de atender alguém idoso, sendo que alguns deles mencionaram que o motivo para
trabalharem como esse público era terem identificação com ele. Quanto à psicoterapia com
idosos, os respondentes veem como sendo positiva e efetiva, possível de conseguir resultados,
porém, trata-se de uma clínica que tem suas peculiaridades. Já no que concerne às demandas
trazidas pelos idosos, destacam-se aquelas relacionadas ao envelhecer (real do corpo, finitude,
luto, falta de autonomia e medo de morrer) e questões afetivas e familiares (medo da solidão,
depressão, questões com o amor). Finalmente, no quesito dificuldades encontradas no atendi-
mento com idoso, percebemos que dificuldades relacionadas à família (que pode estar despre-
parada para lidar com o idoso, infantilizá-lo ou até mesmo abandoná-lo), ao engajamento do
idoso e ao processo de envelhecer em si foram identificadas. Houve, ainda, participantes que
mencionaram não perceber dificuldades específicas nesse tipo de atendimento.
A clínica psicoterapêutica com o idoso tem suas particularidades, assim como a clínica
com outras faixas etárias, de modo que é importante levá-las em conta. Neste estudo, as parti-
cularidades foram apresentadas a partir do profissional de psicologia, mostra-se interessante
uma posterior investigação com os próprios idosos que procuram a terapia, especialmente para
conhecer suas demanda

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 58

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 59

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 60

TRANSTORNOS PSÍQUICOS MENORES E O USO DE MEDICAMENTOS


PSICOTRÓPICOS: UM ESTUDO COM MULHERES EXPOSTAS À
SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA
Tayara Medeiros Alves
Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Alice Thainá Soares Mendonça


Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Renata Pimentel da Silva


Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba e Professora do Centro
Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

A violência ocupa um lugar de destaque entre as preocupações cotidianas e vem origi-


nando políticas governamentais em diversos países do mundo. A Organização Mundial da Sa-
úde (OMS), ao publicar o Relatório Mundial sobre a Violência e Saúde define violência como o
"uso intencional de força ou poder, através de ameaça ou agressão real, contra si mesmo, outra
pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resulta ou tem grande probabilidade de resul-
tar em ferimentos, morte, prejuízos psicológicos, problemas de desenvolvimento ou privação"
(OMS, 2002).
Diante do complexo fenômeno da violência, encontra-se a violência contra a mulher, a
qual é baseada na violência de gênero, reforçada pelo patriarcado ao longo dos anos. Essa ide-
ologia tem enfoque no poder masculino diante da submissão do feminino. A força é uma ferra-
menta repressora para assegurar tal desigualdade, reforçando assim, casos de violência contra
a mulher (TELES; MELO, 2017).
A OMS (2002) reconhece como violência contra a mulher qualquer ação que resulte ou
tenha alta probabilidade de causar prejuízo sexual, físico, mental ou sofrimento, considerando
também as ameaças desses atos, a coerção e privação total ou arbitrária da liberdade, na vida
pública ou privada. O Ministério da Saúde (2011) aponta que, no Brasil, 70% da violência contra
a mulher acontecem no contexto doméstico e são praticados majoritariamente pelos parceiros
íntimos. Porém, a violência vivida pela mulher não se resume ao espaço privado ou familiar,
mas também, se apresenta como uma demanda social e de gênero.
No ano de 2006, foi sancionada a Lei 11.3440, conhecida por Lei Maria da Penha, a qual
classifica a violência doméstica para com a mulher e busca resguardar os direitos da mesma.
Considerando tal violência como um ato de violação dos direitos humanos, viabilizando a prisão
preventiva ou em flagrante desse agressor. Essa lei também oferece medidas de proteção à mu-
lher, como serviços direcionados a mesma, e compactua com o surgimento de varas e juizados

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 61

onde o enfoque é a violência doméstica e familiar, não só no espaço cível e criminal, mas tam-
bém em defensorias especializadas (BRASIL, 2006).
Conforme o Atlas da Violência (IPEA, 2020), 4.519 mulheres foram assassinadas no ano
de 2018, indicando uma redução equivalente de 9,3% comparado o ano de 2017. Essa redução
não se mantem quando se analisa os dados de homicídio de mulheres dentro de casa, os quais
aumentaram 8,3%, assim como o aumento de 25% nos homicídios de mulheres por arma de
fogo dentro das residências.
Nas últimas décadas, muitos estudos têm procurado demonstrar a associação da violên-
cia com uma maior prevalência de problemas de saúde física, reprodutiva e mental entre as
mulheres (SILVA; OLIVEIRA, 2015). Constata-se que as repercussões para a saúde da mulher
vão além das lesões decorrentes de agressões físicas (COHEN; MACLEAN, 2004), podendo ser
identificado o dano psicológico, como os casos de depressão, ansiedade, uso de álcool e drogas
(VIEIRA; PADOIN; PAULA, 2010). No momento o qual a violência ocorre, é recorrente que a
mesma possa vir a sentir-se só e sem meios de suporte, o que pode gerar o sentimento de culpa
pela violência sofrida (MORAIS; RODRIGUES, 2016).
A iminência da exclusão social no contexto vivido pelas mulheres se torna determinante
na saúde mental das mesmas, uma vez que a violência é um fator fundamental para desencadear
transtornos psíquicos nas mulheres, sendo os transtornos mentais comuns os que mais se des-
tacam (MENDONÇA; LURDERMIR, 2017). Segundo Kac e Oliveira (2006) são caracterizados por
Transtornos Mentais Comuns (TMC) os grupos de sintomas que não condizem com a psicose,
como fadiga, esquecimento, insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade e demandas so-
máticas, que resultam em episódios de sofrimento psíquico. Deve-se destacar que, por vezes, os
transtornos mentais comuns, não são incluídos de acordo a classificação dos parâmetros diag-
nósticos de sistemas internacionais. De maneira global, pode-se dizer que os sintomas que sem
enquadram no TMC são a ansiedade, estresse, e a depressão (GREEN; BENZEVAL, 2011). Geral-
mente, esses sintomas tendem a surgir de forma disfarçada no sujeito, quando na verdade está
interligada a uma demanda psicossomática (APÓSTOLO; FIGUEIREDO; MENDES, 2011).
Segundo Silva e colaboradores (2016), existem evidências sobre uma conexão entre o
TMC e gênero, mostrando que há predominância desses transtornos entre as mulheres. Por-
tanto, é necessário refletir sobre as causas que contribuem para essa vulnerabilidade feminina,
levando em consideração as desigualdades de gênero, situações socioeconômicas que podem
influenciar no aumento desse transtorno.
Ludermir e Schraiber (2008) analisaram a maior incidência de TMC mediante mulheres
que alegaram ter sofrido algum tipo de violência em contraponto com as que não alegaram ter
experienciado algum episódio violento. Ademais, a incidência de TMC cresce de acordo com a
seriedade da violência, mostrando uma taxa menor para com mulheres que sofreram violência
física e uma maior para com mulheres que sofreram outros aspectos de violência, como verbal
e psíquica.
Em busca de tratamento para os sintomas, diversas mulheres que se encontram em si-
tuação de violência, passam a frequentar de maneira contínua os serviços de saúde. Em decor-
rência das agressões, as mulheres apresentam um conjunto de os sintomas que podem se apre-
sentar como físicos, psicossomáticos ou psíquicos. Os sintomas físicos podem ser cortes, infla-
mações, fraturas, hematomas; os sintomas psicossomáticos comuns são irritabilidade, medo,
dificuldade no sono, palpitações, culpa, autoestima baixa; e os sintomas psíquicos podem incluir
o estresse pós-traumático, depressão e ansiedade, além de poder levar ao uso frequente de dro-
gas ou álcool, e até tentativas de suicídio e o isolamento social (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2011).

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 62

A medicalização é o termo utilizado para caracterizar o recurso terapêutico através de


intervenções médicas, e o mesmo é considerado um fator sociocultural. Eventos naturais foram
se tornando cada vez mais medicalizados, assim como o desenvolvimento infantil, o envelheci-
mento, dores no ciclo menstrual, desconfortos da menopausa, conflitos interpessoais e familia-
res, dentre outros (CONRAD, 1992).
Há muitos anos que o tema medicalização é uma significante pauta entre as autoridades
mundiais, e é visto como uma dificuldade global de extrema seriedade. No Brasil há um alto
consumo de medicamentos, embora poucos sejam de fato prescritos por um médico, consti-
tuindo-se como automedicação (LEITE; VIEIRA; VERBER, 2008).
O consumo de psicotrópicos, principalmente os antidepressivos, tem crescido substan-
cialmente, em busca de um avanço nos diagnósticos de transtornos psiquiátricos e do surgi-
mento de novos medicamentos na indústria farmacêutica e de novas abordagens terapêuticas
de psicofármacos existentes (RODRIGUES; FACCHINI; LIMA, 2006). Os medicamentos psicotró-
picos são transformadores seletivos que atuam no Sistema Nervoso Central. São essencial-
mente utilizados no tratamento de transtornos psíquicos ou distúrbios psiquiátricos, como: in-
sônia, agitação, depressão, convulsão, ansiedade, entre outros (WINOGRAD, 2010).
Apesar das transformações na área da psiquiatria através da inclusão dos psicotrópicos
como uma forma terapêutica, visto que esses medicamentos fazem com que a intervenção possa
ter um efeito mais rápido, resultando na diminuição de perturbações psíquicas, existem outras
maneiras eficazes como formas terapêuticas as quais tem menos efeitos divergentes e possuem
custos inferiores como atividades físicas e a psicoterapia (LOYOLA FILHO; COSTA; FIRMO,
2014). Apesar da existência de outras possibilidades terapêuticas, é percebida uma tendência
medicalização dos casos de violência (MARINHEIRO; VIEIRA; SOUZA, 2006). Desta forma, este
artigo objetivou averiguar a relação entre transtornos psíquicos menores e uso de medicamen-
tos psicotrópicos por mulheres expostas a situações de violência na comunidade em que mo-
ram.

MÉTODO

Trata-se de um estudo do tipo descritivo exploratório de abordagem qualitativa, com


delineamento transversal.

Participantes

Participaram da pesquisa 11 mulheres adultas, sendo adotados os seguintes


critérios de inclusão: ter idade entre 18 e 60 anos, ser usuária de uma UBSF em Campina
Grande-PB, que residisse na área de abrangência da Unidade. A caracterização das
participantes será apresentada na sessão de resultados.

Instrumentos

Para realizar a pesquisa foram utilizados um questionário sociodemográfico, que


contemplava questões referentes ao uso de medicamentos psicotrópicos, uma entrevista
semiestruturada e o Self-Reporting Querionnaire (SRQ-20).
O questionário continha questões referentes ao uso de medicamentos
psicotrópicos, além de questões sociodemográficos (idade, sexo, grau de escolaridade)

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 63

com o objetivo de traçar o perfil das participantes. A entrevista a fim de criar um diálogo
com o entrevistado, permitindo maior flexibilidade para aprofundar ou confirmar
determinadas informações relacionadas ao enfrentamento de situações de violência por
essas mulheres com o objetivo de averiguar a relação entre os transtornos psíquicos
menores e uso de medicamentos psicotrópicos frente a essa vivência de violência na
comunidade em que moram.
Por fim, o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) é um instrumento de
rastreamento psiquiátrico para averiguar a presença de transtornos mentais não
psicóticos (GONÇALVES, STEIN; KAPCZINSKI, 2008). O instrumento é composto de 20
itens (ex.: Suas mãos tremem?/ Acha difícil tomar decisões?), com escala de resposta
dicotômica (sim ou não), e com ponte de corte de 7/8, indicando que participantes com
escore de 8 ou mais são suspetios de transtornos de humor, ansiedade e de somatização
(GORENSTEIN; WANG; HUNGERBÜHLER, 2016)

Procedimentos de coleta de dados

Inicialmente foi feito contato com a coordenação de Educação na Saúde da Secretaria


Municipal de Saúde de Campina Grande-PB, para informar sobre a pesquisa e solicitar, por meio
de uma carta de anuência, autorização para realizar a pesquisa com as usuárias de um serviço
de Unidade Básica de Saúde da Família em Campina Grande-PB. Depois de autorizada a solici-
tação, fez-se um levantamento com as agentes de saúde do serviço a respeito das participantes
que faziam parte do grupo de Saúde Mental da unidade. Posteriormente, foi realizado o contato
com essas usuárias, que deram seu consentimento e compareceram ao serviço, onde foram apli-
cados os instrumentos, numa sala reservada, em que só havia a pesquisadora e uma partici-
pante por vez, a fim de preservar-lhe o sigilo. Os instrumentos da pesquisa (questionário sócio
demográfico, entrevista semiestruturada e SRQ-20) foram aplicados pelas pesquisadoras. O
SRQ-20 foi preenchido pelas próprias participantes, que eram orientadas pelas pesquisadoras
em casos de dúvidas. Os instrumentos foram aplicados no mês de setembro de 2020, em única
etapa.

Procedimentos de análise de dados

O método utilizado na pesquisa foi o de Análise de Conteúdo (LAVILLE; DIONE, 1999). A


vantagem dessa estratégia é a possibilidade de aprofundamento que oferece, pois os recursos
se veem concentrados no caso visado. É considerado um método mais adequado para pesquisas
exploratórias. O procedimento consistiu, pois, em efetuar um recorte dos conteúdos em ele-
mentos que, em seguida, foram agrupados em torno de categorias. As autoras orientam a re-
cortar o conteúdo em temas, ou seja, em fragmentos que traduzem uma ideia particular, que
pode ser um conceito, ou a relação entre conceitos. Tal encaminhamento permite ao pesquisa-
dor uma maior aproximação com o sentido do conteúdo, já que a construção das unidades de
análises se faz a partir de sua compreensão do conteúdo. As unidades de análise serão, portanto,
palavras, expressões, frases ou enunciados que se referem a temas, e que serão apreciados em
função de sua situação no conteúdo e em relação aos outros elementos aos quais estão ligados
e que lhes dão sentido e valor.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 64

Aspectos éticos

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética do Centro de Ensino Superior e Desenvol-


vimento e aprovada sob parecer número 4.256.093 (CAAE/ 35723020.3.0000.5175). Foram
respeitados todos os procedimentos éticos em pesquisas com seres humanos preconizados pela
Resolução CNS 466/12 que estabelece o respeito à dignidade humana como requisito para a
execução de qualquer pesquisa envolvendo seres humanos. Todas as participantes da pesquisa
receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para assinar e confirmar a
participação voluntária na pesquisa.

RESULTADOS

O perfil sociodemográfico da amostra indicou que as participantes tinham idade entre


39 e 55 anos, com média foi de 49,4 anos. Percebe-se que a maior parte das participantes são
solteiras (N = 5), com ensino fundamental completo (N = 5), conforme apontado na Tabela 1.

TABELA 1 – Caracterização sociodemográfica da amostra.


USO DE MEDI-
IDADE ESTADO CIVIL ESCOLARIDADE
CAÇÃO
Participante Sim
55 anos Solteira Ensino fundamental
1
Participante
55 anos Casada Ensino fundamental Sim
2
Participante
45 anos Viúva Ensino médio Sim
3
Participante
47 anos Viúva Não frequentou a escola Sim
4
Participante
50 anos Solteira Não frequentou a escola Sim
5
Participante
39 anos Casada Ensino fundamental Sim
6
Participante
58 anos Solteira Ensino fundamental Sim
7
Participante
59 anos Viúva Ensino fundamental Sim
8
Participante
39 anos Solteira Ensino médio Sim
9
Participante
41 anos Solteira Ensino médio Sim
10
Participante
56 anos Viúva Ensino médio Sim
11
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

As participantes, em sua totalidade, fazem uso de medicamentos psicotrópicos. As par-


ticipantes indicaram receber a medicação na unidade básica do bairro, a qual é prescrita a cada
dois meses, pelo profissional de medicina. No que se refere ao tempo de início do uso do medi-
camento, três mulheres afirmaram fazer o uso desses medicamentos há mais de 10 anos, três
participantes usam entre 5 e 10 anos, 5 participantes usam há até 3 anos. A indicação dessas
medicações se deu majoritariamente por quadros de ansiedade, também sendo citados quadros

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 65

de depressão, insônia e síndrome do pânico. Salienta-se que uma participante já não se recor-
dava do motivo do uso da medicação, a qual faz uso a mais de 10 anos. Todas as mulheres rela-
taram que ao iniciar o tratamento por medicamentos psicotrópicos, não foram orientadas por
quanto tempo seria feito o uso da medicação. Quando indagadas sobre a tentativa de parar o
uso da medicação seis participantes afirmaram já terem tentado interromper o uso das medi-
cações, sem orientação médica, porém, não conseguiram.
No que tange ao resultado do SRQ-20, as participantes apresentaram média 10,45, sendo
este valor acima do ponto de corte da escala. Das 11 participantes, nove apresentaram sinto-
matologia sugestiva para transtorno psíquico menor, apresentando sintomas de humor depres-
sivo ansioso e somáticos apresentados, os quais serão descritos a seguir.
A Tabela 2 demonstra os dados acerca dos sintomas de humor depressivo ansioso, sendo
mais recorrente para as participantes sentirem-se demasiadamente nervosas, tensas e/ou pre-
ocupadas (N = 08), e sentirem-se infelizes (N = 07).

TABELA 2 – Sintomas de humor depressivo ansioso (SRQ-20). (N=11).


ITENS SIM NÃO
Você fica com medo com facilidade? 05 06
Sente-se infeliz? 07 04
Você chora mais que o comum? 05 06
Você se sente nervosa, tensa ou preocupada? 08 03
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

Outro fator analisado pelo SRQ-20 foram os sintomas somáticos. Neste fator, os sintomas
apresentados pela maior parte das participantes foram perturbação digestiva (N = 08) e sensa-
ções desagradáveis no estômago (N = 06), além de falta de apetite (N = 07), conforme Tabela 3,.

TABELA 3 – Sintomas somáticos (SRQ-20). (N=11).


ITENS SIM NÃO
Você tem dores de cabeça com frequência? 05 06
Tem falta de apetite? 07 04
Você dorme mal? 05 06
Suas mãos tremem? 05 06
Sua digestão não é boa ou sofre perturbação digestiva? 08 03
Você tem sensações desagradáveis no estômago? 06 05
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

Os sintomas referentes ao decréscimo de energia mental mais presentes nas participan-


tes foram não conseguir pensar com clareza (N = 08), sentir dificuldade em apreciar suas ativi-
dades diárias (N = 06), e sentir dificuldade para tomar decisões (N = 06) (Ver Tabela 4).

TABELA 4 – Sintomas de decréscimo de energia mental (SRQ-20). (N=11).


ITENS SIM NÃO
Você não consegue pensar com clareza? 08 03
Acha difícil apreciar (gostar de) suas atividades diárias? 06 05
Acha difícil tomar decisões? 06 05
Tem dificuldade em fazer o seu trabalho? 05 06
Você se sente cansada o tempo todo? 05 06
Fica cansada com facilidade? 04 07
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 66

No tocante à prevalência de sintomas depressivos, as participantes assinalaram que per-


deram o interesse pelas coisas (N = 6), e que se sentem uma pessoa inútil (N = 6), conforme se
observa na Tabela 5.

TABELA 5 – Sintomas de pensamentos depressivos (SRQ-20). (N=11).


ITENS SIM NÃO
Você não é capaz de ter um papel útil na vida? 03 08
Você perdeu o interesse nas coisas? 06 05
Se sente uma pessoa inútil e sem préstimo? 06 05
O pensamento de acabar com a sua vida já passou por sua 02 09
cabeça?
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

No que se trata da violência sofrida pelas participantes, os resultados mostraram que as


mulheres já foram ameaçadas com faca ou arma de fogo (N = 6) ou; já sofreram algum tipo de
agressão física (N = 7). As mulheres também indicaram já terem vivenciado comportamentos
relacionados à ciúme excessivo. Na tabela 6, estão listadas formas de agressão relatadas pelas
participantes, dentre as quais se destacam tapas e empurrões, puxões de cabelo, chutes e socos.
Especial atenção deve ser dada ao fato de uma participante relatar já ter sido esfaqueada.

TABELA 6 – Tipos de agressão física sofridas pelas participantes (N=11)


Tipo de agressão física n
Tapa 06
Empurrão 06
Puxão de cabelo 04
Chute 02
Soco 02
Beliscão 01
Facada 01
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

Como o objetivo do estudo seria avaliar a vivência da violência, não só doméstica, mas
em suas diversas facetas, foi avaliada também a vivência de situações de risco e violência na
comunidade em que moram. Os resultados mostram que as situações de violência na comuni-
dade é um fato vivido pela maior parte das participantes, o que é corroborado pelo fato da co-
munidade ser considerado um local violento. Segundo as participantes, essa presença da vio-
lência afeta direta e indiretamente sua saúde mental, inclusive sendo um fator que leva essas a
pensarem em se mudar para outros bairros em decorrência dessa violência. Esses dados estão
apresentados na Tabela 7.

TABELA 7 – Vivencias de violência na comunidade em que moram. (N=11).


Sobre a violência na comunidade em que você mora: SIM NÃO
Você considera a comunidade que mora um local violento? 07 04
Você já presenciou alguma situação de violência em sua comunidade? 09 02
Você acredita que a violência na sua comunidade afeta direto ou indi-
08 03
retamente na sua saúde mental?
Você já pensou em se mudar para outro lugar em decorrência da vio-
08 03
lência em sua comunidade?
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 67

DISCUSSÃO

A avaliação do SRQ-20 apontou que 09 das 11 participantes apresentaram sintomatolo-


gia sugestiva para Transtorno Psíquico Menor. Os dados corroboram com outros estudos reali-
zados com mulheres em situação de violência e que encontraram elevada prevalência de Trans-
tornos Psíquicos Menores no grupo em questão (BARROS et al., 2016; SILVA; AQUINO, 2008).
Observando-se na literatura outros estudos que investigaram a prevalência de Transtornos psí-
quicos menores na população, identificou-se que a prevalência se mostrou significativamente
mais elevada em mulheres em situação de violência quando comparadas a mulheres em outros
contextos. Em um estudo realizado juntamente a coordenação do serviço de atendimento a mu-
lheres em situação de violência doméstica em Campina Grande-PB, observou-se que, 76,7% da
amostra apresentaram sintomatologia sugestiva para transtorno psíquico menor. A média das
afirmações positivas dos itens, ou seja, a média do escore na pesquisa foi de 12,80 (BRITO; EU-
LÁLIO; SILVA JUNIOR, 2020).
Em uma revisão integrativa realizada por Santos et al. (2018) sobre os tipos de transtor-
nos mentais não psicóticos em mulheres em situação de violência, a partir do estudo de 19 ar-
tigos publicados em revistas internacionais, constatou-se que o transtorno mental mais comum
é a depressão (73,7%), seguido do transtorno de estresse pós-traumático (52,6%). Também
foram constatados outros transtornos mentais, como ansiedade, distúrbios do sono, estresse e
ideação suicida. A revisão indicou que o desenvolvimento desses transtornos pode estar rela-
cionado ao fato de essas mulheres serem expostas continuamente à violência.
É pertinente destacar que o acompanhamento dos dados sobre a violência contra a mu-
lher revela altos índices na região Nordeste. Pesquisas apontam que aproximadamente 3 em
cada 10 mulheres nordestinas sofreram pelo menos um episódio de violência doméstica ao
longo da vida (CAMPOS, 2017). Ao passo que em algumas regiões do Brasil tem sido observada
uma redução do risco para homicídio em mulheres, nas regiões Norte e Nordeste não tem sido
identificada redução dessas taxas. Os fatos chamam atenção para os efeitos da cultura patriarcal
que encontra maior consistência nessas regiões e que corrobora com as assimetrias nas rela-
ções de gênero, em que se destaca a naturalização das agressões à mulher (GARCIA; FREITAS;
SILVA; HOFELMANN, 2015; SOUZA et al., 2017).
Em relação ao uso de psicofármacos, 100% das mulheres disseram fazer o uso desses
medicamentos. Das 11 usuárias de medicamentos psicotrópicos, 6 tinham prescrição para uso
de dois ou mais psicofármacos. A prevalência encontrada neste estudo é maior do que a obser-
vada em estudos anteriores na população em geral (QUEIROZ NETTO; FREITAS; PEREIRA,
2012) e em pesquisas realizadas em atenção básica (ROCHA; WERLANG, 2013). Os psicofárma-
cos mais prescritos foram os da classe dos antidepressivos, seguidos pelos ansiolíticos benzo-
diazepínicos. O uso dos medicamentos foi percebido em mulheres que, segundo dados do SQR-
20, apresentaram ausência de sintomatologia de Transtorno psíquico menor. Nesse contexto,
pode-se inferir que há pacientes em uso de psicofármacos e com remissão de sintomas, ou tam-
bém sendo plausível a ausência de sintomatologia. Ainda, é necessário salientar que mesmo
com uso de medicações a maior parte da amostra mantem sintomas característicos do Trans-
torno psíquico menor, dando indícios de que os psicofármacos não estejam sendo efetivos, de-
vendo-se reconhecer a necessidade de utilizar outras estratégias, como o trabalho do psicólogo.
Há, ainda, outros fatores que podem influenciar a prescrição de psicofármacos na atenção bá-
sica, devendo-se também considerar o uso de psicofármacos para o tratamento de outras pato-
logias, não relatadas pelas participantes.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 68

Seguindo o objetivo principal desse estudo, que é averiguar a relação entre transtornos
psíquicos menores e uso de medicamentos psicotrópicos por mulheres expostas a situações de
violência na comunidade em que moram, observa-se que as participantes caracterizam seu am-
biente comunitário violento, e reconhecem que a violência na comunidade afeta direto ou indi-
retamente na saúde mental dos moradores e que por esse motivo já pensaram em se mudar
para outros bairros. Esses dados corroboram com Latkin e Curry (2003), quando descrevem
que a depressão se associa a morar em bairros com ruas sujas, muros pichados, pessoas consu-
mindo drogas e álcool nas ruas, vandalismo e crime. O convívio diário nesse ambiente ameaça-
dor com evidente quebra da ordem social e carente de estímulos explicaria a maior incidência
de depressão e transtornos psíquicos menores. Assim como a saúde em geral, que seria nega-
tivamente afetada por residir em bairros com desordem social; o medo decorrente dos perigos
do ambiente degradado estimularia a liberação cronicamente aumentada de catecolaminas e
corticosteroides, podendo levar à hipertensão arterial, hipercolesterolemia, hiperglicemia e ex-
plicar a maior incidência de arteriosclerose, diabetes, doenças cerebrovasculares e cardiopatias
isquêmicas (ROSS; MIROWSKY,2001).
É importante ressaltar que diferenças de gênero na percepção da violência e segurança
parecem sugerir maior susceptibilidade das mulheres. Num estudo realizado por Marín-León
(2007), verificou-se maior percepção de gravidade dos problemas da comunidade pelas mulhe-
res: 12 de 17 problemas listados foram percebidos como graves em proporção significativa-
mente maior que nos homens, dentre os quais cinco dos seis relacionadas à violência, e poder-
se-ia acreditar que, embora a mulher seja muito menos vitimizada que o homem, ela fica mais
afetada emocionalmente pelos problemas, verbaliza mais, ou recorre menos a mecanismos de
negação. Nesse mesmo estudo também foi utilizado o teste Self-Reporting Questionnaire (SRQ-
20) onde foi definido como positivo para sintomatologia sugestiva para transtorno psíquico
menor, sendo assim, indicativo de provável caso de morbidade psiquiátrica não psicótica na
amostra (MARIN-LEON et al, 2007).
Foi observado durante a entrevista que algumas das mulheres que afirmaram já ter so-
frido algum tipo de violência ou vivenciado situações de violência em sua comunidade, foram
as mesmas que afirmaram que não consideram o bairro em que moram um lugar violento. O
que poderia ser justificado com o fato de a criminalidade, a segurança física e o desemprego
serem problemas macrossociais de elevada prevalência, altamente discutidos nos meios de co-
municação e que aparentemente não seriam percebidos como mais graves. A constante apre-
sentação de cenas de violência urbana nos noticiários e outros programas sensacionalistas aca-
bam banalizando o fato (NJAINE; MINAYO, 2004).
A violência se vincula ao setor saúde tanto pelo número de mortes que dela decorrem
quanto pela necessidade de ampla assistência às vítimas. Assim, a questão que primeiro se im-
põe é a capacidade das unidades de saúde de oferecerem um atendimento adequado e de qua-
lidade, sendo central o papel da Atenção Primária, tanto pela proximidade territorial quanto
pela facilidade de acesso e, não menos importante, pela capacidade de estabelecer vínculos com
as usuárias e identificar situações de violência cotidianas.
Os Protocolos da Atenção Básica referente a saúde das Mulheres, em seu capítulo desti-
nado à abordagem das diversas formas de violência contra a mulher, ressalta a importância da
escuta qualificada e da identificação de indícios e/ou sinais de violência, muitas vezes repre-
sentada na procura recorrente pelo serviço de saúde, com queixas vagas ou lesões não coeren-
tes com o mecanismo descrito de trauma. Em casos em que se identifique risco de morte ou
ameaça grave à integridade física da mulher, construir, em conjunto com a paciente, um plano

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 69

de segurança, respeitando as particularidades de cada caso (BRASIL, 2016). Cabe lembrar que
o profissional de saúde deve conhecer a rede intersetorial para, sempre que necessário, efetuar
o correto encaminhamento da paciente a outros centros de atendimento, tendo em vista que,
na atenção básica de saúde da família não dispõe de atendimentos psicológico na unidade.
Segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2013), o atendimento psicológico de
mulheres em situação de violência em serviços de atenção à mulher deve propiciar uma escuta
atenta, comprometida com a singularidade da mulher e respeitar a sua individualidade. Nesses
serviços, o atendimento o psicológico deve ser pautado na abordagem psicossocial com ações
de atendimento e, também, de proteção à mulher que considerem a dinâmica social na qual a
mesma está inserida, propiciando condições para a superação da violência. Nos casos em que
houver demanda de psicoterapia, é importante o encaminhamento para os serviços no campo
da saúde mental, visto que esse trabalho é uma das atribuições previstas nas políticas públicas
de saúde.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo aqui descrito indica a necessidade de novas pesquisas, podendo assim, verificar
com mais confiabilidade ligações entre esses fatores e a presença de transtornos psíquicos me-
nores, discutindo questões individuais, sociais e culturais vinculadas à violência. Esta pesquisa
apresenta a dimensão e a gravidade das sequelas da violência para a saúde das mulheres e para
toda a sociedade, podendo servir de base para formular políticas públicas, principalmente lo-
cais, que possibilitem que as mulheres que sofreram violência, como sujeitos de direitos, te-
nham suas demandas ouvidas e suas necessidades de saúde asseguradas, sobretudo, em relação
às ações de promoção da saúde e prevenção de doenças, e nos casos em que houver agravos à
saúde mental, sejam ofertados tratamentos para que elas possam cuidar da saúde.
A exposição à violência sujeita a mulher a um risco mais elevado de sofrer de problemas
mentais, como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, tendência ao suicídio e consumo
abusivo de álcool e drogas, o que ainda não é suficiente para falar sobre a causa e efeito da
violência no desenvolvimento de transtornos mentais em mulheres, mas sim da frequência da
experiência de tal situação em mulheres que sofrem desse tipo de transtorno. De maneira geral,
considera-se que o presente estudo atendeu às expectativas iniciais, uma vez que as perguntas
formuladas permitiram conhecer o perfil sociodemográfico, o uso de psicofármacos, analisar a
vivência da situação de violência das participantes e averiguar a relação entre esses fatores e a
manifestação de sintomatologia sugestiva para Transtorno Psíquico Menor.
A continuidade dos estudos locais sobre o tema aqui abordado se faz essencial, de modo
que sejam desenvolvidos pelos diferentes atores que atuam e pesquisam sobre a saúde mental
no âmbito dos diferentes serviços para os quais as mulheres em situação de violência são enca-
minhadas e atendidas cotidianamente. Além de promover o rastreio dos indicativos de saúde
mental, aprofundar os aspectos pertinentes à saúde mental das mulheres, no tocante aos fato-
res de risco, aos mecanismos de proteção e às estratégias de enfrentamento características dos
sujeitos que vivenciam contextos de violência.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 70

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 73

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ESTRESSE E ENFRENTAMENTO EM UMA


EQUIPE MULTIDISCIPLINAR DE ONCOLOGIA
Kamila Raquel Cordeiro dos Santos
Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Gabriela Silva Tomé


Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Bruno Medeiros
Doutor em Psicologia pela Universidade de Cambridge, Reino Unido e Professor do Centro
Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

O trabalho é considerado um dos pilares da vida do ser humano, pois configura a sua
forma de relação com o mundo. É através da vivência de normas, interações sociais e éticas que
se configuram os processos de trabalho e da subjetividade do sujeito, englobando não apenas o
trabalho propriamente dito, mas também como ele é percebido (LOPES, 2009). Entretanto, o
exercício do trabalho também pode trazer sofrimento físico e mental ao trabalhador. Segundo
Dejours (1988), o adoecimento no ambiente de trabalho pode estar relacionado a um ambiente
inadequado, alta carga horária, pressão para suprir a demanda e a própria exposição e vulne-
rabilidade física do trabalhador.
Entre profissionais de saúde, estudos apontam a saúde mental como uma das áreas mais
passíveis ao adoecimento do sujeito (ROSADO et al., 2015), principalmente por este ter que
lidar com fatores de forma conjunta, ou seja, trabalhar em ambiente aberto à doenças infecto-
contagiosas, lidar com a pressão de atender demandas decisivas na manutenção da vida e pro-
moção do bem estar de pessoas; trazendo a reflexão de que a responsabilidade por pessoas é
mais estressante que a responsabilidade por coisas (STACCIARINI; TROCCOLI, 2001). Acres-
centa-se, ainda, questões organizacionais como quantidade de plantões noturnos, o trabalho
com a equipe e a própria subordinação à instituição empregadora (RIOS; BARBOSA; BELASCO,
2010), principalmente no lidar com epidemias e quadros de saúde complexos (ORNELL;
SCHUCH; SORDI; KESSLER, 2020; ZANON; DELLAZZANA-ZANON; WECHSLER; FABRETTI; RO-
CHA, 2020). Em períodos de crise sanitária, como evidenciado pela pandemia da covid-19, os
profissionais de saúde (enfermeiras e médicos) têm evidenciado estresse agudo (GARCÍA-FER-
NANDEZ et al., 2020), insônia e sintomas de ansiedade (OLIVEIRA; OLIVEIRA-CARDOSO; SILVA;
SANTOS, 2020).
Com o objetivo de se levantar um estudo focal, esta pesquisa envolveu uma equipe de
profissionais de saúde atuantes no setor de assistência a pacientes com câncer. O câncer é iden-
tificado como um conjunto de mais de 100 doenças que possuem um crescimento desordenado
que tem a capacidade de se multiplicar entre os tecidos e órgãos (BATISTA, 2015). Em 2015,
ocorreram 8,8 milhões dos óbitos no mundo decorrentes do câncer, equivalendo à uma em cada
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 74

seis mortes (WHO, 2017), supondo cerca de 600 mil novos casos no Brasil em 2018-2019
(INCA, 2018). Na Paraíba, estimou-se cerca de 11.000 novos casos em 2020 (INCA, 2020). Em
vista disso, torna-se dever do poder público prover um sistema de saúde que vise a prevenção,
controle e tratamento dessa enfermidade (SILVA et al., 2017).
A seleção para o estudo do setor de internação oncológica foi realizada considerando sua
alta complexidade e a demanda emocional que ela evoca nos profissionais. Surge a necessidade
de se entender quais as implicações psicológicas do exercício deste serviço nos profissionais,
visto que se encontram muito próximos a pessoas com sofrimento, podendo identificar-se e
vincular-se afetivamente a estes. É parte da motivação entender como as equipes funcionam de
forma dinâmica e harmoniosa e como conseguem lidar com demandas sob a perspectiva da
coletividade.
De acordo com Figueiredo (2015), o estresse compreende o esforço resultante da adap-
tação de um organismo para lidar com contingências ameaçadoras ao seu bem-estar e segu-
rança, bem como ao seu equilíbrio interno. Determinada tensão geradora de estresse também
poderá estar relacionada a crenças irracionais de um sujeito, se configurando como lentes pelas
quais ele observa e assimila a situação (LIPP; PEREIRA; SADIR, 2005). O estresse pode estar
relacionado ao trabalho, sendo este tipo denominado estresse laboral, que ocorre quando a na-
tureza ou situação estressora ocorre no ambiente profissional (BORGES; ARGOLO; PEREIRA;
MACHADO; SILVA, 2002). No ambiente hospitalar, o profissional pode atuar em um ambiente
insalubre e passível de acidentes de trabalho, tendo ainda a responsabilidade por pessoas e os
deveres e responsabilidades pertinentes à organização em que atua. Além da particularidade
em lidar com pessoas doentes, o que requer grande demanda de compaixão e empatia (BAR-
BOSA; SOUZA; MOREIRA, 2014).
Estas e outras situações consideradas estressoras exigem adaptações tanto físicas
quanto psicológicas que podem ser flexíveis conforme o sujeito sente ou percebe a situação e o
ambiente em que está inserido. Folkman e Lazarus (1980, APUD MIQUELLIN, 2004) definem
essas alterações como um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais usados para lidar
com esses eventos considerados estressores. Essas estratégias podem ser divididas em dois
fundamentos principais: um focado no problema e outro focado na emoção. Na primeira situa-
ção, o indivíduo tenta lidar diretamente com a situação buscando maneiras de solucioná-la; po-
dendo praticar, por exemplo, a busca por informações ou racionalização para dar explicações.
Por outro lado, quando está voltado para a emoção, o indivíduo pode usar de estratégias emo-
cionais para se afastar da situação, tais como unir-se a outros semelhantes, distanciar-se ou
praticar alguma forma de negação. Nesse contexto, ressalta-se a importância de se compreen-
der as interações entre os sujeitos e o ambiente de trabalho, investigando as crenças, perspec-
tivas e dilemas destes profissionais que, de forma interdisciplinar, lidam diretamente com situ-
ações de dor e sofrimento.
Considerando a atuação diária, a interdisciplinaridade, a união de saberes para um de-
terminado fim e a interação psíquica podemos denominar os profissionais estudados como uma
equipe, um conjunto social (PEDUZI, 2001). Para lançar um olhar amplo sobre esta equipe pro-
poremos uma análise sociopsicológica a respeito de suas crenças, ideias e formas de enfrenta-
mento diante do contexto de atuação oncológica. Lançaremos mão da Teoria das Representa-
ções Sociais (MOSCOVICI, 2008) para apreendermos de que forma a equipe multiprofissional
atribui sentidos sobre sua atuação frente a pacientes com câncer. De acordo com Moscovici
(1973), representações sociais podem ser definidas como ideias, símbolos, imagens de fenôme-
nos sociais que são criadas e compartilhadas por diversos grupos. Ainda segundo o autor, tais

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 75

“teorias” do senso comum servem para dois propósitos: primeiramente, criam categorias co-
muns de compreensão da realidade e ação sobre ela. Em segundo lugar, criam sentidos e signi-
ficados compartilhados que permitem comunicação entre diversos grupos. Dessa forma, repre-
sentar determinado fenômeno social, significa não apenas concebê-lo, mas também se posicio-
nar de forma positiva ou negativa em relação a ele (MOSCOVICI, 1984).
A conceber determinado fenômeno social – nesse caso, o cuidado oncológico – os diver-
sos grupos sociais (família, equipe multiprofissional etc.) atribuem sentidos para poderem
compreender a não-familiaridade de tais fenômenos (MOSCOVICI; DUVEEN, 2000). Ao fazerem
isso, enfrentam de forma simbólica (enfrentamento simbólico) as complexidades, desafios e a
incompreensibilidade do cuidado de pessoas com câncer (WAGNER, et al., 1999). Dois proces-
sos sociocognitivos mostram-se essenciais na formação das representações sociais e, conse-
quentemente, no enfrentamento simbólico de dilemas sociais complexos: a ancoragem e a ob-
jetivação. A ancoragem envolve categorizar, nomear e classificar fenômenos e situações novas
e complexas a partir de saberes estabelecidos historicamente (WAGNER, et al., 1999; MOSCO-
VICI, 1984). A objetivação envolve atribuir sentidos palpáveis, imagens e metáforas, tornando
um fenômeno antes abstrato em algo concreto e passível de compreensão (Moscovici, 1984).
Para uma melhor compressão do estudo é importante conhecer de que forma os profis-
sionais de saúde representam o câncer e o paciente com essa doença. O diagnóstico de câncer
pressupõe uma série de cuidados e tratamentos que provocam mudanças na vida do paciente.
Estas mudanças ocorrem na rotina, na dependência de terceiros, na estrutura familiar e social.
Ademais, reconhece-se a representação do câncer relacionada à morte (WAKIUSHI, et al., 2020;
LIMA, et al., 2016). Portanto, torna-se necessário compreendermos de que forma tais equipes
interagem e representam a sua atuação diante de um fenômeno complexo e ameaçador. Tais
crenças irão auxiliar no entendimento sobre diversas formas de atuação e enfrentamento dessa
doença, especificamente, em equipes de saúde.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de caso qualitativo de caráter exploratório, abrangendo condi-


ções de vida e práticas sociais de forma contextualizada e contribuindo com conceitos que se
relacionam ao comportamento social de um grupo (YIN, 2016). As entrevistas seguiram um ro-
teiro semiestruturado e um questionário sociodemográfico, ambos elaborados pelos autores.
A pesquisa foi realizada em uma instituição hospitalar, consolidada na comunidade e
reconhecida como um hospital de referência ao Paciente Oncológico. A ala de internação onco-
lógica, ambiente da pesquisa, é responsável por acolher os pacientes que sofrem complicações
nos tratamentos aos quais são submetidos. Essa ala também recebe pacientes debilitados e em
estágio terminal, podendo permanecer internados por um longo período.
A coleta de dados foi iniciada após aprovação do Conselho de Ética em Pesquisa Hospital
Universitário Alcides Carneiro. Os participantes foram abordados com esclarecimento sobre a
pesquisa, sua finalidade, procedimentos e aspectos éticos. Esta pesquisa ocorreu em acordo
com os critérios éticos que regulamentam estudos envolvendo seres humanos, como consta na
Resolução Nº 466/12 do CNS - Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012).
Para análise dos dados, seguiu-se a análise de conteúdo por categorização conforme o
modelo proposto por Silva e Fossá (2015). Essa análise envolve os seguintes passos: 1) A aná-
lise inicial, que compreende a leitura flutuante, a definição do corpus para análise, a formulação
de hipóteses e objetivos de acordo com os dados já observados e elaboração de indicadores que

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 76

preparam o material coletado para análise; 2) a exploração da análise, que consiste na constru-
ção da codificação, considerando recortes de textos em unidades de registros, definição de re-
gras de contagem, classificação e agregação de informações e 3) interpretação, que consiste em
captar conteúdos manifestos e latentes presentes no material categorizado (SILVA; FOSSÁ,
2015). A codificação se deu através da observação de repetição de palavras e de conteúdo,
sendo adotadas três ordens de categorias: categorias primárias, intermediárias e finais. As ca-
tegorias primárias se referem às 20 colocações que mais se repetiram nas entrevistas seguidas
de seus conceitos norteadores, que são expostos com o objetivo de esclarecer o significado des-
tes termos. Após análise, as 20 categorias primárias foram agrupadas em cinco categorias in-
termediárias de acordo com seu significado, contexto, relação de sentido e referencial teórico
adotado pelos pesquisadores. A condensação das categorias intermediárias em duas categorias
finais se deu após análise de conteúdo e referenciais teóricos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As informações coletadas através do questionário sociodemográfico foram analisadas


por meio de estatística descritiva. Dos sete participantes, seis são do sexo feminino e um do
sexo masculino. A maioria se identificou como solteira (71,42%), com idade média de 28 anos,
sendo a idade mínima de 21 anos e a máxima de 38 anos. Três participantes se autodeclaram
evangélicos, três católicos e um sem definição. Seis participantes afirmaram não fazer uso de
bebidas alcoólicas, quatro afirmaram praticar atividade física no mínimo três vezes por semana.
Quanto ao exercício da profissão, todos tem atuado por pelo menos 6 horas por seis dias na
semana. Atuam no setor há no mínimo 10 meses e no máximo 4 anos (M= 2.57 anos) e apenas
um profissional atua em outro local além do estudado.
Conforme análise por categorização de Silva e Fossá (2015), o texto foi codificado em
categorias dispostas na seguinte estrutura: As categorias finais foram identificadas como I. Es-
tresse e II. Enfrentamento, sendo estes dois conceitos identificados como norteadores do tra-
balho e presentes de forma direta ou subjetiva nas falas dos participantes. É através deles que
pode ser percebido questões como satisfação e sofrimento dos profissionais em relação à pro-
fissão e ao setor. Todas as categorias foram dispostas no Tabela 1.

TABELA 1 – Análise categorial.


Categoria Inicial Categoria Intermediária Categoria Final

1. Falta de Recurso
2. Alta Demanda I.I- Estrutura Organizacio-
3. Responsabilidades da função nal do Trabalho
4. Contínua Capacitação

5. Alto índice de óbitos


6. Contato contínuo/longo I. Estresse
7. Acompanhantes I.II- Particularidade Onco-
8. Cuidado extensivo lógica
9. Humanização
10. Diagnóstico

11. Apego afetivo


12. Preparo emocional

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 77

13. Distanciamento I.III- Implicações Psicoló-


gicas

14. Apoio
15. União II.I- O Meio Social
16. Espelho II. Enfrentamento

17. Satisfação na profissão


18. Separação de papéis II.II- Adaptação
19. Evolução profissional
20. Evolução pessoal
Fonte: Dados da Pesquisa (2020).

Estresse

Essa categoria envolve as situações de estresse associadas à estrutura organizacional do


trabalho, à especificidade do tratamento oncológico e às implicações psicológicas de se lidar
com pacientes com câncer. De forma geral, o estresse ocupacional caracteriza-se por alterações
no estado físico-psíquico decorrentes de exigências ambientais, organizacionais e humanas
ocorridas no ambiente de trabalho (MANETTI, 2008).

Estrutura organizacional e do trabalho

Essa categoria reflete as características particulares da instituição, da influência da de-


manda e das questões ligadas às funções de assistência hospitalar exercidas em um ambiente
insalubre, com altos riscos de acidentes. Ademais, envolve a preocupação com doenças de or-
dem física e psicológicas vinculadas ao trabalho (PITTA, 1991). Condições insatisfatórias para
o desempenho das atividades e o enfrentamento de emergências relacionadas à demanda são
vistos como fatores geradores de estresse (BATISTA, 2006), como especificado na fala: “Eu te-
nho um paciente que poderia usar um equipamento, mas eu não tenho, então ele fica em des-
conforto porque eu não posso proporcionar conforto por causa de equipamento. Isso é muito
estressante”. A falta de materiais necessários para o tratamento do paciente oncológico é per-
cebida como um fator estressor segundo os profissionais que precisam de recursos para ofere-
cer o tratamento eficaz. Essa falta está ligada à fatores externos e instituições, repercutindo na
capacidade de exercer a profissão, visto que, em geral, todos os leitos daquela instituição estão
ocupados.
Cada função tem suas responsabilidades e limitações. Nas funções de nível médio, as in-
satisfações ligadas ao limite do exercício em determinadas situações e a dependência de outros
profissionais foram preponderantes. Já nas funções de nível superior, evidencia-se o estresse
ligado à responsabilidade do cargo, como especificado na seguinte fala: “Não trabalho sozinho,
óbvio que não, mas eu sinto que tem um peso muito grande no profissional”. Nesse contexto,
percebe-se que, quanto maior a responsabilidade ou nível hierárquico, maior a importância da
decisão determinante na melhora ou agravo do paciente. No caso das enfermeiras, além da as-
sistência ao paciente acrescentam-se as funções gerenciais, a responsabilidade da equipe téc-
nica e a intermediação dos saberes entre médicos e demais profissionais (PERES; CIAMPONE,
2006). Ao médico cabe as decisões de diagnóstico, acompanhamento e prognóstico do paciente,
sendo considerado o topo da hierarquia no setor.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 78

Particularidade oncológica

Segundo os entrevistados, o serviço de atendimento oncológico representa particulari-


dades para os profissionais, isto se deve à natureza da patologia, a não ter uma causa definida
e, dependendo do seu tipo e diagnóstico, pode se desenvolver de forma acelerada sem previsão
de tratamento: “Porque todo mundo encara paciente oncológico como um paciente clínico e ele
não é. A clínica oncológica por si só transforma o paciente em alta complexidade”. Outro parti-
cipante enfatiza que: “Tem pessoas que não aceitam que tem câncer né, que assim, deitam numa
cama e não quer saber por que tá lá e se a pessoa falar que tem câncer já fica estressado”. Na
fala seguinte evidencia-se o quanto é singular o tratar nos casos oncológicos:

“A especialidade da oncologia é diferente das outras porque tem muito mais demanda,
não só demandas em relação médico/paciente, demandas em relação à própria doença
e tratamento mas acaba que você também tem um envolvimento pessoal, às vezes você
tem que entrar na vida pessoal daquela família do paciente.”

Alguns fatores contribuem para essa representação social do câncer, como o alto índice
de óbitos diários na ala. Mesmo com todos os cuidados prestados, os casos geralmente são ter-
minais, o que torna a prestação da assistência delicada e desgastante. Consideramos, ainda, que
os pacientes permanecem internos no setor por longos períodos de dias ou meses e, mesmo
após a alta, tem constantes retornos devido às crises ou agravos da patologia. O atendimento
hospitalar não se restringe apenas ao paciente, mas também é prestado aos acompanhantes ou
familiares, uma vez que os internos precisam manter acompanhantes para permanecer no setor
devido à maior vulnerabilidade dos participantes. Alguns acompanhantes, no entanto, estão
atravessando o processo de negação ou enfrentamento da doença e demandam da equipe de
saúde necessidades que não podem ser cumpridas por não serem viáveis, e causam grandes
atritos na equipe, mais que os próprios pacientes.

“O que causa estresse não é nem o paciente oncológico, são os acompanhantes, porque
a maioria dos pacientes aqui são terminais e o acompanhante não entende que é um
paciente terminal, então eles passam o dia chamando, querendo que a gente vá lá, que
a gente mostre pra ele que vai ter uma solução, quando na verdade não tem.”

“Eles (acompanhantes) ficam falando e eu fico calado. Aí na maioria das vezes eles veem
que estou fazendo meu trabalho, aí ameniza. E na maioria das vezes até eles percebem
e pedem desculpas. ‘não, me desculpa, é porque eu estou vendo minha mãe desse jeito,
nunca vi meu pai desse jeito’, a gente entende e diz que tudo bem.”

Diante deste contexto específico, é essencial que, além do aporte técnico especializado,
seja oferecido um atendimento humanizado para o sujeito que sofre e precisa ser tratado.
Quanto ao perfil para trabalhar no setor, as falas giram em torno de características pessoais
como paciência, amabilidade e calma. Alguns ainda apontam a necessidade técnico-científica,
porém, enfatizando características pessoais como: “Tem que ser uma pessoa calma, se for um
funcionário estressado, ignorante vai transmitir isso para o paciente e pode gerar conflitos aí
né. Ele pode se deprimir e piorar”. Ainda em outra fala: “Uma pessoa que tenha coração e que
goste muito do que faz porque aqui precisa de muita humanização”.

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 79

Implicações Psicológicas

O tema da saúde mental se apresentou como essencial para o bom desempenho na ala
especificada e para o não adoecimento dos profissionais que precisam exercer um trabalho hu-
manizado. Essa humanização apresenta-se como uma ambivalência que causa sofrimento, pois
confronta o exercício técnico-científico com a aproximação pessoal com os pacientes. O exercí-
cio do aspecto emocional é contínuo. Alguns pacientes, por exemplo, criam vínculos com os
profissionais que os atendem e devotam a estes uma expectativa de cura, mesmo na iminência
do óbito. Concomitantemente, a mesma equipe que antes lutava pela manutenção da vida agora
passa a preparar a liberação do corpo e a prestar informação para familiares, tendo que perma-
necer com uma postura profissional a ponto de não transparecer qualquer sentimento de perda
que venha a sentir, como expressado por um dos participantes: “Ele (um paciente com vínculo
afetivo estabelecido) morreu nos meus braços chamando meu nome. A hora eu não demonstrei
nada, fiz o tudo o que precisava fazer, mas depois eu me tranquei e chorei.” Outro participante
ainda relata que: “A gente tenta fazer o máximo possível, dar o conforto que dê pra dar e quando
você vê que ele se apega muito a você, ai é mais complicado ainda, porque tem que cuidar o
dobro, tem que permanecer a ética mas cuidando sempre deles.”
Esta montanha-russa de acontecimentos ocorre em minutos e o profissional passa a de-
senvolver modos de enfrentamento a estas situações, visando dar continuidade ao trabalho. Os
pacientes internos têm perfis variados, mas acontece com frequência uma identificação entre
os profissionais e eles. Esta identificação pode ocorrer por semelhança de idade, histórico, situ-
ação familiar, e outros fatores intrínsecos e quando ocorre acaba incitando uma reflexão pro-
funda e o se colocar no lugar do outro, colocando em questão o exercício do modelo de atendi-
mento com humanização e a autopreservação (COLLET, 2003).

“A gente passa a amar aquela pessoa, ter certo afeto para com ele. Aí quando vai pas-
sando um tempo que a gente vê que ele não tem uma certa melhora ou quando a gente
chega no outro dia e ele não tá mais...eu fico muito triste quando eu chego e não vejo
mais.”

“Acho que faz um ano que uma paciente com neoplasia gástrica e ela tinha a minha
idade, ela descobriu o câncer em janeiro [e] ela era muito agressiva, evoluiu já estava
com metástase pulmonar, ela estava com o casamento marcado para novembro e em
agosto ela foi a óbito. Essa paciente passou muito tempo aqui, passou quase dois meses,
e só quem acompanhava essa paciente era eu. Então vê a paciente, vê o diagnóstico, vê
o que ela passou no tratamento. A agressividade do tratamento não resolveu e debilitou
mais ainda. Vê uma menina que queria casar em novembro evoluir a óbito em agosto
tendo a minha idade. Podia ser eu no lugar dela.”

Enfrentamento

Nestes processos de lidar com situações estressoras são desenvolvidas estratégias para
adaptação e enfrentamento a estas circunstâncias, como exemplo o afastamento, a naturaliza-
ção ou uso de recursos religiosos. Estas estratégias também chamadas de coping podem ser
divididas em duas categorias funcionais: focalizada no problema ou focalizada nas emoções,
conforme aponta Folkman e Lazarus (1984, APUD ANTONIAZZI, 1998). Ao focar no problema,
os profissionais enfatizam o exercício técnico-científico e voltam-se à resolução do problema

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 80

propriamente dito, como exemplo, em casos de parada cardíaca. Ao focalizar nas emoções ini-
cia-se um esforço para manter a regulação emocional com o objetivo de voltar ao estado emo-
cional anterior à situação estressante. Podemos exemplificar esse esforço no contexto estudado
como o afastamento ou desgaste emocional. Tais estratégias visam o não adoecimento físico e
psicológico do sujeito e da equipe que atua no sistema de saúde (FOLKMAN; LAZARUS, 1984
APUD ANTONIAZZI, 1998).

O meio social

O grupo funciona por vezes como apoio, um suporte para evitar o isolamento social, um
espelho para suas ações. O apoio social também se refere à consolidação e influência da estru-
tura social existente no setor. O espelho é evidente principalmente quando há novos integran-
tes da equipe que aprenderam crenças, modos de trabalho e de enfrentamento frente às de-
mandas. Os mais antigos tentam passar apoio aos demais conforme suas vivências, e até mesmo
diante de terceiros, unindo-se sempre que há ameaças de acompanhantes, por exemplo, ou de
qualquer outro fator que possa vir a abalar a equipe. Temos a demonstração do processo de
ancoragem das representações sociais, onde métodos de enfrentamento foram aprendidos con-
forme a prática do grupo e posteriormente reproduzidos com naturalidade.

“No começo foi duro, nos dois primeiros meses foi muito duro. Mas eu olhando a equipe
fria, sem nenhuma reação. Dizia: ‘morreu... não sei o quê...’ frio. Aí eu fui aprendendo e
me adaptando.”

“A gente respira fundo, agradece a Deus porque ele descansou de um sofrimento tão
grande. Como se diz: vem, lava o rosto, enxuga e continua (sempre foi assim).”

“Na hora, na frente de todo mundo eu não demonstrei nada, mas depois eu me tranquei
no banheiro e chorei. Fiquei muito mal, mas aí depois lavei o rosto, olhei no espelho e a
vida segue.”

É visível nas falas acima a aprendizagem e reprodução de linguagem e termos utilizados,


conforme teoria de Moscovici (1978). Se representa a progressão do câncer e morte como um
fenômeno natural, se propondo uma maneira de enfrentar não apenas simbolicamente (Wag-
ner et al., 1999), mas de forma pragmática o sofrimento decorrente da perda dos pacientes. Os
procedimentos falam mais que as palavras nesses casos. Ademais, um ambiente em que se sin-
tam acolhidos enquanto equipe também conta como fator positivo para o enfrentamento a estas
situações, como expressado por um dos entrevistados: “Se for olhar para um coletivo, se tem
um colega estressado ou você está estressada, uma ajuda é muito boa. Porque um ajuda o outro
e um vai descontraindo o outro, e vai limitando o começo do estresse.”

Adaptação

Visando continuar exercendo as funções em saúde, cada profissional deve desenvolver


estratégias de enfrentamento como a resiliência. A resiliência pode ser entendida por processos
que explicam a superação de crises e adversidades em pessoas, grupos e organizações. Neste
caso, como esses profissionais permanecem saudáveis frente a estas situações de apego e
morte. é esta construção de indivíduo que os diferenciam daqueles que, por exemplo, adoece-
riam quando expostos à mesma situação (YUNES; SZYMANSKI, 2001). Exemplos de resiliência

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 81

focalizado no problema foram identificados, como nas falas a seguir: “Eu sinto, muito. Mas me
volto para os outros pacientes que ficam. Sempre terão outros para a gente cuidar e fazer me-
lhor.” Também: “Eu faço a pós porque sei que pode ajudar nos casos aqui, ou poder fazer mais,
e melhor. Isso é importante pra mim.”
Uma das características citadas como habilidades pelos participantes é o êxito em con-
seguir separar os papéis profissionais e pessoais, na linguagem deles, "deixar o plantão no hos-
pital”. Esse ato se constitui uma de distanciamento simbólico.

“Eu acabo conseguindo deixar 80% do ocorrido no plantão aqui no hospital. Porque
logo no início foi onde eu mais sofria, então tudo que acontecia eu acumulava e levava
pra casa, então se eu chegava em casa o telefone era direto para o hospital, eu não me
desligava. Hoje em dia eu consigo me desligar bastante e acabo deixando uma grande
parte no hospital.
Na minha cabeça eu tenho aquele carinho, são pessoas maravilhosas, tenho aquele con-
tato, mas assim, na minha cabeça eu já sei que tem um destino pra eles, entendeu? e aí
eu tento não me apegar tanto, não sofrer tanto a isso, não ficar pensando muito no caso.”

Apesar deste contexto, há uma satisfação em atuar no setor oncológico, visto que ao ser
questionados se desejariam atuar em outro setor, todos os participantes responderam que não,
alegando terem se tornando melhores tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Enquanto
profissionais, julgam terem adquirido maior conhecimento em patologias específicas e no aten-
dimento humanizado. Já a melhoria pessoal foi a característica mais enfatizada nas falas, até
supervalorizada em relação à esfera profissional. Mudanças que dizem respeito à visão de vida,
de si e de características como amabilidade, paciência, escuta do outro e fortalecimento da fé.

“[Atuar na oncologia] É positivo, e todo dia faz refletir, todo dia tem um caso novo, todo
dia tem uma situação nova. É muito engraçado você ver o paciente, ver a fé e a força do
paciente. O paciente olha e diz ‘não minha filha, eu sei que eu vou morrer, minha família
sabe que eu vou morrer.’ E você ver a força dele diante da situação, e até no processo
de morte. Às vezes você por tão menos se desestabiliza e o paciente que sabe que está
no processo de morte tem aquela força. Então leva a reflexão, todo dia leva a reflexão.
[Um momento de alegria] É quando o paciente vai pra casa, não é bom, ele nunca vai
estar bom, mas aparentemente bom, e dá um sorriso bem grande e passa pelas aquelas
duas portas, mesmo a gente sabendo que com 24 horas ele pode voltar... mas é sim um
momento muito satisfatório.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apresentamos este estudo com algumas ressalvas visto que se trata de um estudo de
caso e não deve ser generalizado para a população geral. No entanto, é possível fazer uso de sua
metodologia para futuras pesquisas de cunho comparativo com outras equipes de trabalho em
saúde. Consideramos ter levantado informações relevantes no campo da saúde do trabalhador
e da Psicologia Social. Verificamos como diferencial o olhar para a equipe como um todo e não
apenas para indivíduos que trabalham sem nenhuma relação entre si. Constatamos que este
estudo confirmou alguns pontos propostos da teoria das representações sociais, tais como
como os processos de estranhamento, de aprendizagem e absorção das formas de trabalho ori-
ginados nas interações sociais de equipes profissionais. A equipe interdisciplinar apresenta um
ponto positivo à medida em que forma uma rede de atendimento e suporte, valorizando as for-
mações acadêmicas de cada indivíduo de forma que atuem em função de um mesmo objetivo, o

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 82

cuidado ao paciente oncológico. Trazemos à tona a discussão sobre o ambiente de trabalho de


forma mais detalhada: o quanto este pode proporcionar prazer ou sofrimento ao trabalhador.
Enquanto pesquisadores, devemos afinar nosso direcionamento para as profissões, fun-
ções e setores diversos existentes nesse ambiente. Com este estudo, levantamos dados relevan-
tes para a comunidade acadêmica e esperamos ter aguçado a curiosidade dos pesquisadores
para expansão das pesquisas em outros setores hospitalares. Diante dos aspectos mencionados,
o olhar para a atuação da equipe profissional suscita a importância de ações das Políticas Pú-
blicas de cuidado à saúde do trabalhador, objetivando um ambiente que compreenda e preserve
a saúde dos profissionais que ali atuam, assim promovendo uma maior qualidade de vida e,
consequentemente, beneficiando o sujeito que necessita dos cuidados desses profissionais.
Ressaltamos que ainda há muito a ser caminhado e que a psicologia tem muito a pesquisar e
contribuir de forma preventiva na saúde psicológica dos profissionais de saúde.

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SUMÁRIO
EIXO II
Fronteiras na Promoção de Saúde,
Bem-estar e Cuidado do Corpo

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 86

MUDANÇAS NO ESTILO DE VIDA EM ATLETAS AMADORES DE CORRIDA DE


RUA NA CIDADE DE CAMPINA GRANDE-PB
Eliwelton Raiff Souto Maior
Graduado em Educação Física pelo Centro Universitário Maurício
de Nassau Campina Grande

Westerley Kelvin Ananias Luna


Graduado em Educação Física pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Yago Santos Morais


Graduado em Educação Física pelo Centro Universitário Maurício de
Nassau em Campina Grande

Silvana Câmara Torquato


Doutora pelo Programa de Recursos Naturais da Universidade Federal da Paraíba e Profes-
sora do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

A corrida de rua é classificada como um dos esportes mais populares e democráticos do


planeta (GUEDES, 2013). Na última década, houve um aumento significativo do número de pra-
ticantes do esporte no Brasil e no mundo. Muito se debate, atualmente, sobre a necessidade da
prática de atividade física e seus benefícios para a vida do indivíduo. Pode-se afirmar que em
razão da fácil acessibilidade, e do conhecimento de forma geral dos benefícios físicos que esse
desporto causa, a corrida de rua vem tornando-se uma opção cada vez mais viável para a popu-
lação. Essa modalidade de esporte melhora o condicionamento cardiorrespiratório e aumenta
o fôlego, aprimora a resistência física e mental e socializa as pessoas (DEBSKI, 2017).
De acordo com Salgado (2005), os resultados positivos que surgem na progressão da
saúde de cada atleta amador praticante de corrida de rua vêm estimulando cada vez mais a
inclusão de novos adeptos ao mesmo. A corrida de rua promove qualidade de vida, bem-estar
social, funcionalidade diária, melhora no desempenho sexual e desempenho físico. Sendo essas
alguns dos motivos que explicam sua popularidade crescente.
Gonçalves (2007) e Salgado (2005), refletem sobre a compreensão das mudanças que
ocorrem no estilo de vida em atletas amadores através da prática da corrida de rua.
O que tem sido avaliado neste desporto vai ao encontro com proposições da Organização
Mundial de Saúde de que a prática da corrida de rua vem se tornando cada vez mais popular
devido a fatores benéficos que o esporte promove (OMS, 2006).
De acordo com Gonçalves (2007), a melhora da aptidão física e funcionalidade diária
para os atletas amadores é notória devido à melhora de suas valências físicas que a prática de
exercício físico causa ao organismo.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 87

Ademais, Araújo (2009) afirma que a sociabilidade é algo relevante após a ingressão no
esporte. Fatores comprovam, cientificamente, que a corrida de rua melhora a saúde mental e
influencia diretamente em um melhor desempenho social.
A corrida de rua promove várias alterações funcionais e fisiológicas após a iniciação ao
desporto. As Adaptações cardiovasculares são notórias devido à melhora no sistema de circu-
lação e respiratório. Além disso, adaptações neuromusculares são evidentes tomando como
base uma melhor resposta neural ao estímulo enviado para a realização de alguma ação mus-
cular (EVANGELISTA, 2010).
Este estudo objetiva analisar as mudanças que ocorrem no estilo de vida em atletas ama-
dores através da prática da corrida de rua na cidade de Campina Grande, PB.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Corrida de rua
As corridas de ruas surgiram na Inglaterra por volta do século XVIII, onde tornou-se bas-
tante popular e em seguida se espalhou-se pelo continente europeu, também chegando aos Es-
tados Unidos. No final do século XIX, a corrida de rua obteve um grande sucesso nos Estados
Unidos, onde foi realizada a primeira maratona olímpica popularizando em todo país Por volta
de 1970 aconteceu o “jogging boom” baseado na teoria do médico norte-americano Kenneth
Cooper que difundiu seu famoso “Teste de Cooper”, a partir de então, a prática da modalidade
evoluiu de maneira considerável (GONÇALVES, 2007).
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) a prática da corrida de rua está tornando-
se cada vez mais popular entre as pessoas como uma ferramenta para buscar uma melhor qua-
lidade de vida no que diz respeito a uma melhoria na saúde, física, mental e social (OMS, 2006).
A corrida de rua é uma das modalidades esportivas que mais cresce no Brasil, é percep-
tivo que tal afirmação pode ser considerada através dos números de praticantes, além de gerar
bastante desempenho, força, flexibilidade, resistência e condicionamento físico (GONÇALVES,
2007).

Desempenho Físico
Os atletas amadores começam a desenvolver desempenho físico, melhorando sua apti-
dão física e suas atividades da vida diária. A busca pela modalidade vem gerando grandes inte-
resses que abrange uma vida saudável, a estética, a integração social, a fuga do estresse da vida
moderna, a busca de atividades prazerosas ou competitivas (SALGADO, 2005).
O desempenho físico adquirido pela corrida de rua é extremamente positivo, colocando
o indivíduo numa boa situação como: melhora de rendimento e comportamento atingindo suas
metas e objetivos, além de desenvolver força, resistência aeróbia, velocidade, flexibilidade en-
tre outras valências físicas (EVANGELISTA, 2010).

Desempenho social
A corrida pode ser até uma atividade individual, mas está cada vez mais coletiva, pois
ela é capaz também de transformar vidas e de promover a inclusão social. Dessa forma, ela se
constitui num dispositivo que viabiliza a participação, a cooperação e o convívio em grupo na
sociedade em geral (ARAUJO, 2009).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 88

A sociabilidade é o fator que melhor explica a adesão e permanência destas pessoas na


prática esportiva. Muito se deve ao fato de poder estar com amigos ou fazer novas amizades,
(HERTHER, 2016).

Desempenho de força mental


Os exercícios físicos aeróbios são os mais indicados para promover melhora aptidão, sa-
úde mental, portanto é recomendado que os exercícios devem ser realizados na forma de um
programa de treinamento físico aeróbio progressivo e controlado, obtendo melhora nas fun-
ções cognitivas, melhora do sono, diminuindo os sistemas depressivos, motivações, entre ou-
tros benefícios. Quanto maior o gasto de energia, em atividades físicas habituais, maiores serão
os benefícios para a saúde (SALGADO; PORTUGAL, 2012).
A motivação é de suma importância para os praticantes de corrida de rua, sendo neces-
sário a força mental para a prática, assim como os músculos, o cérebro também precisa de trei-
namento, o ponto inicial deste treino é estabelecer metas e conseguir encontrar mecanismos
que te façam focar nestas metas (SALGADO; PORTUGAL, 2012).

Adaptações musculoesqueléticas
As adaptações musculoesqueléticas aprimoram a coordenação intramuscular e inter-
muscular, melhora a capacidade de recrutamento das fibras musculares e com essas adaptações
o indivíduo gasta menos energia, e aumenta sua força, velocidade, agilidade, flexibilidade e re-
sistência (EVANGELISTA, 2010).
Outra adaptação musculoesquelética é a capacidade do armazenamento do glicogênio
nos músculos. Weineck (2003) relata que quanto maior o deposito de glicogênio, melhor o de-
sempenho nas atividades de resistência realizadas em alta intensidade.
Mais uma adaptação que se pode considerar como importante é aumento da capacidade
de eliminação do lactato, com o aumento da capacidade aeróbica, se evita o acúmulo de lactato
no músculo (EVANGELISTA, 2010).

Adaptações cardiovasculares
O sistema cardiovascular passa por adaptações quando prática atividade física. Os atle-
tas demonstram grandes diferenças em comparação aos indivíduos sedentários, pode-se afir-
mar que o atleta condicionado tem frequência cardíaca menor em repouso, consumo máximo
de oxigénio, volume cardíaco maior, dilatação e hipertrofia cardíaca, débito cardíaco e volume
sistólico mais elevados, maior extração de oxigênio arterial pelos músculos, por causa da maior
capilarização devido ao exercício, promovendo uma diferença maior entre a saturação de oxi-
génio arterial em relação ao venoso (EVANGELISTA, 2010).
Considerando-se que, ao praticar atividades físicas de resistência de longa duração
pode-se obter inúmeros benefícios relacionados à saúde, este tipo de exercício, praticado regu-
larmente por pessoas de diferentes idades, tem evidenciado importantes efeitos que podem
ocasionar na prevenção de doenças cardiovasculares durante toda a vida (MCARDLE; KATCH;
KATCH, 2003).

Adaptação neuromuscular
As adaptações aos estímulos de treinamento podem ser agudas e crônicas. As adapta-
ções agudas resultam na mudança imediata, diferente das adaptações crônicas que geram as

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 89

respostas ao longo de um programa de treinamento. As adaptações neuromusculares são evi-


dentes tomando como base uma melhor resposta neural ao estímulo enviado para a realização
de alguma ação muscular. O treinamento de alto volume provoca o aperfeiçoamento funcional
das fibras de contração lenta (TIPO IA), por meio do aprimoramento da capacidade respiratória
das mitocôndrias. Pode-se concluir uma melhora de padrão de recrutamento e da frequência
de disparos das fibras musculares. (EVANGELISTA, 2010).

MÉTODO

A pesquisa foi descritiva qualitativa e quantitativa de corte transversal formulada atra-


vés do método investigativo de campo, é uma investigação empírica realizada no local onde
ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo.
A pesquisa foi realizada no centro de Campina Grande-PB, a população definida para a
pesquisa obteve 40 indivíduos praticantes de corrida de rua na cidade de Campina Grande/PB.
A amostra da pesquisa foi formada por um grupo de 23 atletas amadores do sexo masculino e
17 atletas do sexo feminino, na faixa etária de 20 a 50 anos praticantes de corridas de rua de
uma assessoria esportiva, localizada na referida cidade. Foi agendada a data da aplicação dos
questionários com todos os participantes e antecipadamente foram informados sobre o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido pelos pesquisadores, após assinatura foi realizada a apli-
cação.
Para realizar as coletas, utilizou-se um questionário de corrida de rua com dados sobre
a condição geral de saúde e dados antropométricos de peso, estatura, para cálculo de índice de
massa corporal (IMC). A fim de esquematizar os dados de cada objeto de estudo a pesquisa foi
averiguada a partir de um questionário de corrida de rua. Todos os recursos apontados nessa
pesquisa foram utilizados como forma investigativa, onde a informação coletada se deu por
meio de gráficos e tabelas.
A pesquisa teve sua aprovação pelo Comitê de Ética em pesquisa da Universidade Esta-
dual da Paraíba (UEPB), com o parecer CAAE do n° 85778418.9.0000.5187.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Um total de 40 participantes foram abordadas e aceitaram responder o questionário que


foi realizado no período de abril/2018. Para realizar as coletas, utilizou-se um questionário de
corrida de rua com dados sobre a condição geral de saúde e dados antropométricos de peso,
estatura, para cálculo de índice de massa corporal (IMC). Com base na pesquisa, os dados da
figura 1, demonstra o índice de massa corpórea dos participantes da pesquisa. Dentre os prin-
cipais índices antropométricos, pode-se citar o índice de massa corporal que é de grande utili-
dade para o profissional da saúde, pois é nele que podemos analisar o grau de obesidade que se
encontra o indivíduo (SILVEIRA; MARQUES 2017)
Portanto, pode-se verificar que através do índice de massa corporal pode-se determinar
a classificação quantitativa da massa corporal por meio do grau de obesidade de um indivíduo,
tendo em vista dados confiáveis com a intenção de alertar algum perigo a saúde (QUEIROGA,
2005).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 90

TABELA 1 – Índice de massa corpórea (IMC) dos participantes da pesquisa.


Índice de massa corpó- Homens Mulheres %
rea (IMC)
Abaixo do peso 0 0 0%
Peso normal 12 10 55%
Sobrepeso 10 7 43%
Obesidade grau 1 1 0 2%
Obesidade grau 2 0 0 0%
Obesidade grau 3 0 0 0%
Total 23 17 100%
Fonte: Dados da pesquisa (2018).

De acordo com os dados apresentados na tabela 1, o índice de massa corpórea (IMC) dos
participantes baseado na tabela 2 de classificação, obteve um resultado positivo, 55% dos atle-
tas estão com o peso considerado normal, 43% apresentam certo grau de sobrepeso, e 2% estão
com obesidade grau1. Diante do exposto, pode-se analisar que o sobrepeso e a obesidade acar-
retam consequências negativas para a saúde das pessoas. A atividade física é de suma impor-
tância para ajudar a prevenir que seus praticantes obtenham um nível de massa corpórea que
indique certo grau de sobrepeso e obesidade. O fácil acesso ao esporte é um dos motivos que
pode contribuir para a realização da atividade física e possivelmente ajudar nos dados apresen-
tados na tabela, que como pode-se observar, a não prevalência de obesidade em excesso e um
dado representativo de “sobrepeso” menor do que o de “peso ideal”.

TABELA 2 – Classificação de índice de massa corporal.


IMC CLASSIFICAÇÃO
Abaixo de 18,5 Abaixo do peso
Entre 18,6 e 24,9 Peso ideal
Entre 25,0 e 29,9 Levemente acima do peso
Entre 30,0 e 34,9 Obesidade grau I
Entre 35,0 e 39,9 Obesidade grau II
Acima de 40 Obesidade grau III
Fonte: Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (2016).
A corrida de rua proporciona grandes benefícios com relação aos desempenhos obtidos
durante a prática de corrida de rua. Na tabela 3 são apresentados os níveis de desempenho
físico, social e mental.

TABELA 3 – Classificações dos níveis de desempenhos físico, social e mental.

Nível de desempe- Ruim % Bom % Exce- %


nho lente
Melhoria na saúde 0 0% 4 10% 36 90%
Redução de peso 1 2% 19 48% 20 50%
Estética 0 0% 26 65% 14 35%
Qualidade do sono 0 0% 14 35% 26 65%
Redução da ansie- 1 2% 14 35% 25 63%
dade

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 91

Condicionamento 0 0% 23 58% 17 43%


Redução de depres- 0 0% 12 30% 28 70%
são
Controle do estresse 0 0% 13 33% 27 68%
Melhoria do humor 0 0% 12 30% 28 70%
Autoestima 0 0% 12 30% 28 70%
Sociabilização 0 0% 5 13% 35 88%
Atividade ao ar livre 0 0% 2 5% 38 95%
Total 40 100% 40 100% 40 100%
Fonte: Dados da pesquisa (2018).

Os dados adquiridos com relação aos níveis de desempenho físico, social e mental, de-
monstraram que a maioria dos entrevistados tiveram resultados satisfatórios, gerando assim
uma melhora nos aspectos citados para aqueles que praticam corrida de rua. Segundo os dados
coletados na pesquisa, pode-se observar o principal fator relevante dos resultados obtidos, que
foi a melhoria da saúde em 90%. Alguns outros dados também foram observados como em ní-
veis ruins, bons e excelentes: redução de peso 50%, estética 35%, qualidade do sono 65%, re-
dução da ansiedade 63%, nível de condicionamento 43%, redução de depressão 70%, controle
do estresse 68%, melhoria do humor 70%, melhoria da autoestima 70%, sociabilização 88% e
atividade ao ar livre de 95%. Todos esses dados foram avaliados no total de 100% dos partici-
pantes de corrida de rua. Tento em vista o objetivo final alcançado devido a prática de atividade
física, onde inclui todos os tópicos apresentados na tabela, pode-se concluir que a corrida de
rua é mais uma vez um exemplo de esporte a ser seguido pela população quando se busca me-
lhorar a qualidade de vida.
Diante disso, é cada vez maior o número de pessoas que buscam na prática da atividade
física, grande parte da solução para esses problemas de saúde que os afligem ou que
podem representar um percalço no futuro. Sendo assim, a atividade física tornou-se com-
ponente essencial no cotidiano das pessoas desde que seus benefícios têm sido amplamente
relatados, divulga dos e recomendados (SOUZA, 2011).
Em tese, a procura pela prática do esporte analisado no estudo é explicado pela evidên-
cia de seus benefícios. A corrida de rua promove saúde de forma geral devido a melhoria e evo-
lução nas suas capacidades físicas e mentais, como por exemplo: desenvolvimento de um me-
lhor condicionamento físico e uma melhor interação social, respectivamente.

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que esse desporto vem tornando-se cada vez mais popular no Brasil e
no mundo, a sua eficácia no que propõe e sua praticabilidade pode ser dito como fatores prin-
cipais para tal crescimento.
Conclui-se através deste trabalho que a corrida de rua é uma atividade física que me-
lhora significativamente a qualidade de vida, incluindo todos os aspectos que compõem e en-
globam o termo citado, de seus praticantes. Ademais, é de suma importância para aperfeiçoar
o condicionamento físico do atleta, gerando assim benefícios para sua saúde.
Fazendo-nos compreender as mudanças que ocorrem no estilo de vida, foi observado
através de análise em artigos científicos publicados que durante a prática da corrida de rua
houve alterações nos sistemas musculoesqueléticos, neuromuscular e cardiovasculares, além

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 92

de contribuir de forma positiva no desempenho físico, social e mental dos corredores. De forma
geral, pode-se determinar uma melhora na qualidade de vida dos atletas amadores.

REFERÊNCIAS

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Associação brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica (ABESO). Diretrizes brasileiras de
Obesidade. 4ª Ed. São Paulo, 2016.

DEBSKI, ROBERTO. Corrida, um esporte que traz inúmeros benefícios para a saúde.Disponível
em:<http://blogs.atribuna.com.br/maissaude/2017/03/corrida-um-esporte-que-traz-inumeros-beneficios-
para-a-saude/>. Acesso em: 12 de set. 2017.

EVANGELISTA, L. A. Treinamento de corrida de rua: uma abordagem fisiológica e metodológica. 2º ed. São
Paulo: Phorte editora, 2010.

GONÇALVES. CORRIDA DE RUA: qualidade de vida e desempenho, 2007.

GUEDES, DANIELA. Livros e filmes que inspiram os amantes da corrida de rua. Disponível
em:<http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/49398>. Acesso em: 10 set. 2017.

HERTHER, ANDRÉ. Fatores De Adesão e Permanência em Corridas de Rua no Município de Ijui – RS, 2016.

McARDLE, W.; KATCH. F.; KATCH, V.Fisiologia do Exercicio: Energia, Nutrição e Desempenho Humano, 5° ed.
Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.a, 2003.
OMS, Organização Mundial de Saúde. Disponível em: http://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/.
Acesso em: 19 set. 2017.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Atividade física e saúde na Europa: Evidências para a ação. Cen-
tro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer. Porto, 2006.

QUEIROGA, M. R. Testes e medidas para avaliação da avaliação física relacionada à saúde em adultos. Rio
de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

SALGADO. Corrida de rua: Análise Quantitativa da Evolução das Corridas de Rua e das Características dos Prati-
cantes desta Modalidade. TCC, Educação Física, Campinas, 2005.

SALGADO, J.; PORTUGAL, D. A corrida pela performance: convergências entre esporte, trabalho e consumo nos
dias midiáticos, Revista Interamericana de Comunicação Midiática, v. 11, n. 22, p. 166-182, 2012. DOI:
https://doi.org/10.5902/217549777006.

SILVEIRA, I. E.; MARQUES, A. E. F. A importância antropométrica para analisar os níveis de obesidade em crian-
ças do ensino fundamental II na cidade de são João do rio do peixe-PB. Revista de Pesquisa Interdisciplinar, v.
1, p. 376-383, 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.24219/rpi.v2i2.0.406

SOUZA, ANANDA. Lesões em corredores de rua: Uma revisão de literatura. TCC, Educação Física, Fisioterapia e
Terapia Ocupacional, Belo Horizonte, 2011.

WEINECK, J. Treinamento ideal. 9 ed. São Paulo: Manole, 2003.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 93

INCIDÊNCIA DA VIGOREXIA E ORTOREXIA NERVOSA EM ACADEMIAS


NA CIDADE DE CAMPINA GRANDE – PB
Janiceli Alves Duarte da Costa
Graduada em Nutrição pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Rafael Sousa Silva


Graduada em Nutrição pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Juscelino Kubitscheck Bevenuto


Doutor em Zootecnica pela Universidade Federal da Paraíba e Professor do Centro Universitá-
rio Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

A vigorexia é um transtorno obsessivo e compulsivo que tem por características a com-


pulsão exacerbada pela atividade física e a obsessão desenfreada por uma maior musculatura,
devido a uma distorção da sua própria imagem. Transtorno este, que não escolhe gênero e
classe social, no qual o sujeito, a cada dia que se passa, se vê enfraquecido e “pequeno”, termo
bastante utilizado por quem sofre do transtorno. O problema tem uma maior prevalência em
homens, entre 16 e 35 anos de idade (LIZ et al., 2018).
De acordo com Andreola (2010) estes indivíduos estão sempre aflitos e inconformados
com a sua autoimagem, o que leva a uma incansável busca pelo corpo perfeito. Neste momento
se instala a prática desenfreada de atividades físicas e a angústia por um corpo repleto de mús-
culos e que exercem fortes impactos na vida social destes, pois o transtorno começa a prejudicar
suas relações pessoais e profissionais.
É notório o quanto a prática de exercícios físicos e uma alimentação saudável, são im-
portantes para a nossa saúde, porém quando existe um excesso, se torna prejudicial. Segundo
Guimarães (2013) a busca incessante por mais músculos, leva estes indivíduos a fazerem uma
dieta rica em suplementos alimentares e consumir grandes quantidades de proteínas. Ficando
claro que, para atingir seus objetivos e cada vez ter músculos maiores, estas pessoas não me-
dem esforços. O que pode levar a uma sobrecarga dessas substâncias no organismo.
Além disso, a pessoa pode sobrecarregar suas articulações e causar lesões irreversíveis,
tendo em vista a excessiva prática de exercícios físicos e a utilização de grandes cargas durante
o treino (BAUM, 2018). No intuito de esculpir cada vez mais seus corpos, se tornando mais ob-
sessivos e criando uma percepção negativa de si mesmas (RAVELLI, 2012).
Já a ortorexia nervosa é a preocupação excessiva por uma alimentação saudável. Se-
gundo Ribeiro (2011) define-se por ortorexia nervosa, a fixação anormal por grupos de alimen-
tos tidos como puros, o que a longo prazo vai ocasionar grandes perdas na rotina alimentar do
indivíduo. No ano de 1997, o médico Stevem Bratmam observou que algumas pessoas na busca
por uma alimentação equilibrada e saudável, acabavam exagerando nas escolhas alimentares o

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 94

que gerava uma restrição severa no seu consumo alimentar. Diante do exposto, surgiu o termo
ortorexia nervosa, que significa uma preocupação excessiva por uma alimentação correta
(PONTES, 2012).
Um ponto complicado na ortorexia nervosa é o diagnóstico, já que quem sofre do pro-
blema, acredita estar fazendo a coisa certa, tendo em vista que elas buscam apenas por uma
alimentação pura e saudável e acreditam que este hábito só lhe trará benefícios, o que na ver-
dade ao passar dos dias e anos, a restrição alimentar só acarretará danos à sua saúde (PONTES;
MONTAGNER, 2014).
É de conhecimento de todos que uma atividade física rotineira por qualquer indivíduo e
em qualquer idade é benéfica à saúde (FREIRE et al. 2014). Uma alimentação saudável é essen-
cial, porém quando estas duas práticas passam a serem viciantes e desenfreadas, começam
atrapalhar a vida social do indivíduo, gerando danos à sua saúde.
Desta forma, por se tratar de dois problemas atuais, recorrentes e com baixa visibilidade,
contudo presente diariamente entre praticantes ou não de atividades físicas e de caráter rele-
vante nos dias atuais, devido a nossa sociedade estar sendo bombardeada por todos os lados
com corpos perfeitos e uma alimentação cada vez mais restrita. O que esconde um grande pe-
rigo, visto que cada dia que se passa, mais pessoas estão desenvolvendo o medo de se alimentar
e outras que já não se encaram no espelho, pois não conseguem atingir o corpo dos sonhos.
Assim, a presente pesquisa tem por objetivo avaliar a incidência da vigorexia e ortorexia ner-
vosa em academias na cidade de Campina Grande – PB

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Vigorexia

A vigorexia ou síndrome de Adônis é caracterizada tanto pela fixação pelo aumento da


musculatura, quanto pelo excesso desenfreado pela atividade física, pois a mesma acelera os
objetivos esperados. O que acarreta grandes impactos na saúde e nos hábitos alimentares des-
tes indivíduos, marcados pelo excesso de suplementos alimentares e por dietas altamente pro-
teicas, no intuito de atingir cada vez mais, músculos maiores (CONTESIN et al., 2013).
Outra característica importante e preocupante no transtorno é o uso de drogas ilícitas,
que tem o intuito de aumentar a musculatura de uma maneira mais rápida. Pois o que importa
não é a saúde e sim o aumento da musculatura e a melhora da sua aparência, tendo em vista
que a insatisfação por estar pequeno ultrapassa todo e qualquer limite. Principalmente, quando
apresentam graus mais elevados do transtorno e convivem com um grande sofrimento interno,
preocupados com o que as outras pessoas vão pensar sobre o seu corpo, o que desencadeia o
isolamento social destes indivíduos (TOD; EDWARDS; CRANSWICK, 2016).
A vigorexia também sofre uma grande influência por parte da sociedade, o que se mostra
um agravante a mais do transtorno (MOTER; BELLINI; ALMEIDA, 2017). Segundo Lopes (2014)
outro fator importante para o aparecimento do transtorno é as redes sociais, a exemplo do Fa-
cebook e Instagram, onde corpos esculpidos e musculosos são expostos diariamente, levando
um maior número de pessoas a buscarem pelo corpo perfeito. Algo que é impossível de alcan-
çar, tendo em vista que cada pessoa tem uma estrutura corporal e suas limitações, o que leva
uma busca sem fim.
A valorização estética e a adoração ao corpo, não é de hoje que é incentivada e almejada,
mas há anos é cultivada, embora motivadas por fatores distintos. Na verdade, a nossa sociedade

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 95

sempre foi levada a fazer do seu próprio corpo, um meio para atingir seus objetivos, o que gera
preocupação, pois neste contexto ilusório de um padrão corporal perfeito inserido pela socie-
dade, vem acarretando um aumento nos números dos casos de vigorexia. Pois está se criando
uma sociedade adoecida pela busca do corpo perfeito, devido à intensa rotina de levantamentos
de peso e o uso abusivo de substâncias ergogênicas (BRAGANÇA; SILVA, 2016).

Ortorexia Nervosa

Ao longo dos anos foi se tornando cada vez mais frequente, pessoas que aderem à moda
de comer limpo. Ou seja, fazer o consumo de alimentos puros, livres de contaminação. O que
leva ao surgimento da ortorexia nervosa, descrita pela primeira vez por Stevem Bratmam, em
1997 (HAMAN et al., 2015). Que causa nas pessoas uma obsessão por alimentos límpidos, acar-
retando em dietas altamente restritivas gerando muita preocupação. Pois grupos alimentares
são excluídos da rotina alimentar dessas pessoas prejudicando sua saúde, levando à deficiência
de vitaminas e à perda de peso em excesso.
Porém, o ponto chave da compulsão e que gera grande aflição é que as mesmas não con-
seguem enxergar o problema, pois dizem estar apenas purificando seus corpos e melhorando
sua saúde, mostrando-se orgulhosas das suas práticas (VARTANIAN; NEVIN, 2017).
Quando se instala graus mais elevados da ortorexia nervosa, quem sofre do problema
passa apenas a consumir alimentos crus e gastam boa parte do seu dia a dia verificando a qua-
lidade dos alimentos e com pensamentos relacionados à alimentação, no desespero de favore-
cer a sua saúde. Tornando-se mais obcecados por alimentos puros, o que implica no isolamento
social dessas pessoas e uma ameaça grave a saúde (DELL'OSSO et al., 2016).
Tendo em vista que em longo prazo o indivíduo que é acometido por um nível mais acen-
tuado do problema, pode desencadear outro distúrbio alimentar, conhecido como anorexia
(DELL'OSSO et al., 2016) Visto que a preocupação excessiva com a pureza dos alimentos e a
melhora da saúde, leva a uma restrição severa dos grupos alimentares, o que pode desencadear
um quadro de desnutrição (KOYEN; ABRY, 2015).
Um dos meios para se diagnosticar a ortorexia nervosa é através do questionário Orto-
15, utiliza-se como parâmetro a pontuação<35 como um alto indicativo para a ortorexia ner-
vosa. E já para se fazer o diagnóstico em populações aconselha-se utiliza-se o ponte de corte
<40, como 100% de certeza e 73,6% de especificidade (PONTES; MONTAGNER; MONTAGNER,
2014).

MÉTODO

O presente estudo consiste em uma pesquisa de campo, de caráter descritivo e aborda-


gem quantitativa. A pesquisa foi realizada na cidade de Campina Grande- PB. Contou com 80
participantes, com faixa etária de 16 a 70 anos, de ambos os sexos e frequentadores quatro
academias da cidade. Os participantes estavam devidamente matriculados nas mesmas por um
período igual ou superior a seis meses, foram excluídos da pesquisa participantes que não pos-
suíam pré-requisitos estabelecidos para pesquisa ou aqueles que não desejaram participar da
mesma. A pesquisa apresentou riscos mínimos durante a aplicação dos questionários, levando
apenas a pequenos desconfortos diante de algumas perguntas, onde o entrevistado detectou
em si, traços dos transtornos.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 96

A pesquisa sobre a incidência da vigorexia e ortorexia nervosa em praticantes de ativi-


dade física na cidade de Campina Grande-PB pretende gerar conhecimento no campo acadê-
mico da nutrição e áreas afins, a fim de tornar conhecidos os riscos de ambos os problemas,
fazendo com que mais profissionais da área, voltem seus olhares para dois problemas tão re-
correntes nos dias atuais, porém desconhecidos da grande maioria, para assim oferecer à soci-
edade um material que contribua para um melhor entendimento dos temas, propiciando um
tratamento multidisciplinar mais assertivo, nos casos da vigorexia e ortorexia nervosa.
Os dados da pesquisa foram coletados através de dois questionários, um do complexo de
Adônis desenvolvido por Pope et al (2000) e o orto-15 adaptado por Pontes e Montagner
(2010) ambos disponíveis nos anexos do presente trabalho. O processamento dos dados foi re-
alizado através da planilha do Excel e apresentados em gráficos de barras. A pesquisa foi sub-
metida à apreciação do comitê de ética da Universidade Estadual da Paraíba e está de acordo
com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, aprovado sob o parecer: 3.508.337. A
coleta de dados aconteceu entre os dias 02 e 29 de outubro de 2019.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram do estudo 80 indivíduos sendo 60% do sexo masculino e 40% do sexo fe-
minino, com idade média de 28±10,88 anos para mulheres e coeficiente de variação de 34,03%
e homens com idade média de 26±8,24 anos com um coeficiente de variação de 30,88 %.

FIGURA 1 – Incidência e grau da vigorexia em homens e mulheres.


45,00%

40,00% 38,75%

35,00% Algumas preocupações com o


corpo, mas que não afetam o dia
30,00% a dia
Forma Branda e Moderada da
25,00% 22,50% Vigorexia

20,00% 18,75%
17,50% A Vigorexia já é um problema
sério
15,00%
Grave Problema
10,00%

5,00% 2,50%

0,00%
Homens Mulheres

Fonte: Dados da Pesquisa (2019).

Observa-se que o transtorno da vigorexia no sexo masculino se sobressai ao sexo femi-


nino. Quanto aos homens participantes da pesquisa, 18,75% apresentam alguma preocupação
com as formas do seu corpo, mas que não afetam seu dia a dia. Quando se trata das mulheres
esses dados somam 17,50% preocupadas com sua aparência. Se tratando da forma branda e
moderada da vigorexia, as mulheres somam 22,5% e os homens mais uma vez sofrem um in-
cremento com 38,75%, corroborando Liz et al. (2018) que observou que o transtorno é mais

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 97

prevalente em homens. Foi observado a prevalência de 2,5% da vigorexia nos entrevistados do


sexo masculino, sendo considerado um problema sério, no qual o individuo já deve levar em
consideração alguma forma de tratamento psicológico.
Na forma que se avalia o transtorno no seu mais alto nível, não foi constatado nenhum
caso na amostra. Embora o público estudado não tenha apresentado o transtorno na sua forma
mais grave, o que chama atenção é que os dados já mostram um alto índice do transtorno na
sua forma moderada e branda, tendo em vista que nesse nível de dismorfia o sujeito já compro-
mete algumas das suas atividades diárias, com preocupações acerca da sua aparência.
Contudo, os mesmos não conseguem perceber que estão caminhando para um problema
mais sério corroborando Azevedo et al. (2012) que afirmam que nessa busca para obter um
corpo perfeito, acabam sendo geradas interferências nas suas atividades rotineiras.
Quanto à satisfação relativa à autoimagem dessas pessoas, o transtorno leva a uma insa-
tisfação com o seu próprio corpo, refletindo negativamente como o individuo se enxerga, po-
dendo ser comprovado com os dados acima citados, onde constatamos que homens e mulheres
a cada dia que se passa, vem se cobrando mais em relação a sua aparência. O que levará a uma
busca desenfreada para atingir um físico sem defeitos, reafirmando o que diz Andreola (2010)
que os mesmos estão sempre em busca do tão sonhado corpo perfeito, físico esse inatingível,
tendo em vista que todo indivíduo, tem seu biótipo e suas limitações corporais.
Na figura 2 observa- se a incidência e o grau da ortorexia nervosa em ambos os sexos.
Em menção à ortorexia nervosa pôde-se constatar após a aplicação dos questionários que este
problema é mais recorrente no sexo masculino, visto que 52,50% dos homens entrevistados
apresentaram um alto indicativo para ortorexia de acordo com o Orto-15 presente nos anexos
do presente trabalho. Já para as mulheres entrevistadas, apenas 35% delas apresentaram este
indicativo para o desenvolvimento da ortorexia nervosa. Quanto às pessoas que não apresen-
taram risco observou-se 7,50% dos homens e 5,0% das mulheres.

FIGURA 2 – Incidência e o grau da ortorexia nervosa em ambos os sexos.


60,00%
52,50%
50,00%

40,00%
35%

30,00% Alto Indicativo de Ortorexia


Pessoas Livres da Ortorexia
20,00%

10,00% 7,50%
5,00%

0,00%
Homens Mulheres

Fonte: Dados da Pesquisa (2019).

Vale enfatizar que Håman et. al. (2015) cita que o questionário não é totalmente preciso,
pois não avalia os aspectos socioculturais dos entrevistados. Afirma-se que algumas pessoas

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 98

por terem culturas diferentes vão se adequar ao problema, mas que nem sempre terão o pro-
blema. Entretanto, o questionário em questão busca investigar a ortorexia nervosa, sendo o
mais utilizado pelos pesquisadores até o momento (ALVES; PELLEGRINIL; ROMERA, 2018),
(DELL'OSSO et al., 2016) e (PONTES, 2012) por ser o mais acurado para se fazer o diagnóstico.
Praticantes de atividade física e atletas são os principais públicos para desenvolverem a
ortorexia nervosa, pois são grupos de pessoas que estão sempre em busca de uma alimentação
mais correta, para assim atingir seus resultados, corroborando (ALVES; PELLEGRINIL; RO-
MERA, 2018) que mencionam que pontuações mais baixas no ORTO-15 estão relacionadas a
pessoas que praticam atividades físicas rotineiramente.
O presente trabalho retrata exatamente esta condição, de maneira que pôde se verificar
que os níveis de ortorexia nervosa em praticantes de atividade física apresentam dados bas-
tante elevados, destacando-se até mais do que a própria vigorexia, mostrada em estudos ante-
riores com maior frequência neste público.
Na (figura 3) pode-se inferir a relação entre as pessoas que praticam atividade física com
a vigorexia, bem como com a ortorexia nervosa, estabelecendo em qual dos sexos e em quais
faixas etárias, ambos os problemas são mais recorrentes.

FIGURA 3 – Relação da Vigorexia e Ortorexia nervosa em ambos os sexos.


35,00% 32,75%

30,00%

25,00%

20,00%
Vigorexia e Ortorexia
15,00% 12,50%

10,00%

5,00%

0,00%
Homens Mulheres
Fonte: Dados da Pesquisa (2019).

Após a investigação da amostra colhida nas academias da cidade, constatamos que os


homens entre 16 e 33 anos, somando 50 % dos homens entrevistados na pesquisa apresenta-
ram fortes indícios tanto para a forma branda e moderada da vigorexia, quanto para ortorexia
nervosa, somando 32,75% para ambos os problemas, já as mulheres totalizaram 12,50% da
amostragem, confirmando que os homens praticantes de atividade física nas academias inves-
tigadas, estão mais preocupados com sua aparência.
Isso nos mostra a forte relação da competitividade imposta na sociedade entre os homens.
A competição imposta aos homens desde a infância, quando os mesmos são cercados por super-
heróis musculosos e na idade adulta por padrões impostos por uma sociedade que supervalo-
riza corpos esculpidos, como forma de triunfo fortalece de maneira negativa para indicativos
de vigorexia, além disso, a obtenção do êxito restringe a alimentação drasticamente, para assim
atingir também seu corpo perfeito.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 99

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados obtidos, pode-se inferir que os praticantes de atividade fí-
sica das academias investigadas apresentaram tanto a vigorexia como a ortorexia em diversos
graus com maior incidência entre os homens.
A ocorrência destes problemas vigora em indivíduos com idade entre 16 e 33 anos de
idade, reforçando que os casos de vigorexia e ortorexia nervosa vem aumentando na nossa so-
ciedade e a presente pesquisa trará contribuições para a área da saúde.
Faz-se necessários novos estudos populacionais com o objetivo de verificar a incidência
de ambos os problemas, visto que os dados sobre os mesmos são pouco estudados.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 101

ANÁLISE DO CONHECIMENTO DOS PACIENTES DA ESTRATÉGIA SAÚDE


DA FAMÍLIA SOBRE O DESCARTE ADEQUADO DE MEDICAMENTOS
NO MUNICÍPIO DE ALAGOINHA- PB
Anna Kelly Correia da Silva
Graduada em Farmácia do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Manoela Freire Clementino


Graduada em Farmácia do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Raquel Barbosa de Meireles


Graduada em Farmácia do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Silvana Câmara Torquato


Doutora pelo Programa de Recursos Naturais da Universidade Federal da Paraíba e Profes-
sora do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

Nos dias atuais, estudos científicos vêm sendo desenvolvidos de forma mais intensa a
respeito do descarte correto de medicamentos. Com os avanços da ciência na área da saúde,
bem como as pesquisas de novos tratamentos, surgiram inúmeros benefícios fundamentais à
saúde da população, o que também gerou uma elevação na elaboração de novas fórmulas, assim
como na quantia de medicamentos acessíveis para a comercialização e consumo da população
(PINTO et al., 2014).
Sabe-se que a utilização não racional de medicamentos, a inexistência de venda fracio-
nada, a facilidade de acesso da população à amostras grátis por parte dos laboratórios, além da
mídia que incentiva o consumo e a não aderência ao tempo necessário do tratamento, podem
facilitar, para que esses pacientes juntem uma maior quantidade de medicamentos, sem que
tenha necessidade ou utilidade em suas casas, facilitando para que, posteriormente, possam
descartá-los em lugares impróprios (RAMOS et al., 2017).
Ademais, de acordo com Souza e Falqueto (2015), tal questão torna-se ainda mais alar-
mante no país, quando se leva em consideração a não existência de um programa que possa
recolher os medicamentos, com prazos de validade vencidos, que os pacientes acumularam em
suas residências.
O Brasil está inserido entre as dez nações em que a população compra medicamentos
em maior quantidade. No entanto, estima-se que 20% do que é comprado tem seu descarte na
rede de esgotamento sanitário ou mesmo no lixo comum. Trata-se de um fator alarmante, tendo
em vista que os medicamentos apresentam na sua composição inúmeras substâncias químicas,
a exemplo dos antibióticos, que não excluídas, em sua totalidade, no momento dos processos
tradicionais de tratamento de esgotos (FALQUETO; KLIGERMAN, 2012).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 102

Nota-se que o meio ambiente tem sido bastante prejudicado por atos danosos causados
pelo homem, entre eles encontram-se: a poluição do solo e da água. Nesses ambientes são des-
cartados, anualmente, uma grande quantidade de lixo, que os prejudica e afeta diretamente os
seres humanos e sua saúde.
Nesse contexto, muitas pessoas desconhecem a maneira correta de descartar medica-
mentos e acabam fazendo isto de maneira incorreta, sendo necessário que a própria equipe de
saúde, da Estratégia de Saúde da Família (ESF), que atua de forma mais intensa no estabeleci-
mento de vínculos com a comunidade, oriente os pacientes a respeito dessas questões.
Tomando como base que o Brasil é um país que consome uma grande quantidade de
medicamentos e que tende a desprezá-los de forma incorreta, além da preocupação com o des-
carte de substâncias que são nocivas ao meio ambiente, surgiu a necessidade de desenvolver
esta pesquisa.
Dessa forma, a indagação que propiciou a escolha pela referida temática foi: o conheci-
mento dos pacientes da ESF a respeito do descarte adequado de medicamentos é satisfatório?
Nesse sentido, o objetivo da presente pesquisa foi avaliar o conhecimento dos pacientes
da ESF sobre o descarte adequado de medicamentos no munícipio de Alagoinha– PB.

MÉTODO

O presente estudo trata-se de uma pesquisa do tipo exploratória-descritiva, com abor-


dagem quantitativa, através da pesquisa de campo.
Nesse contexto, Gil (2010) relata que o tipo de pesquisa abordado possibilita o detalha-
mento das características de uma determinada população, além de proporcionar uma maior
familiaridade com o tema estudado e ocasionar a construção de hipóteses. Quanto a abordagem
quantitativa, Prodanov e Freitas (2013) revelam que a mesma contribui para a utilização de
recursos e técnicas estatísticas, os quais traduzem em números os conhecimentos alcançados
pelo pesquisador.
O local para a coleta de dados foi a ESF João Borges Gondim, localizada no bairro Centro,
no município de Alagoinha- PB, durante os meses de março e abril e contou com a participação
de 45 pacientes cadastrados na ESF; presentes na faixa etária entre 18 e 90 anos de idade de
ambos os sexos e que estavam sendo atendidos no serviço de saúde durante a aplicação dos
questionários, os participantes foram selecionados a partir do método não probabilístico por
conveniência.
Para essa fase da coleta de dados, foram aplicados os questionários (Apêndice A), com-
postos por questões fechadas e divididos em duas etapas. As questões referiram-se aos dados
sociodemográficos dos participantes e abordaram assuntos norteadores da pesquisa.
Inicialmente, os participantes que estavam presentes para atendimento no serviço fo-
ram abordados e convidados a participarem da pesquisa, nos casos de aceite, eles foram con-
duzidos a uma sala disponibilizada para a adequada coleta dos dados, a fim de preservar sua
confidencialidade, privacidade e conforto. Em seguida, as pesquisadoras apresentaram orien-
tações sobre o projeto e acerca da sua importância, e orientaram o entrevistado sobre o ques-
tionário e a respeito do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que foi devida-
mente assinado ao final das entrevistas.
Posteriormente, os dados coletados foram analisados com enfoque no método quantita-
tivo, de maneira descritiva e apresentados em figuras através das formas de gráficos e tabelas,
construídas a partir da ferramenta do software Microsoft Excel.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 103

Dessa forma, no presente estudo foram respeitados os aspectos éticos relativos à pes-
quisa que envolve seres humanos, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de
Saúde. Foi utilizado o (TCLE), em duas vias, onde uma foi entregue ao participante e a outra
arquivada pelo pesquisador. Ressalta-se que a coleta de dados foi iniciada após a aprovação do
projeto pelo Comitê de Ética, mediante o Parecer nº 3.202.071; CAAE: 05740819.0.0000.5175.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na tabela 1 são apresentados os dados referentes a caracterização dos participantes da


pesquisa.

TABELA 1 – Caracterização dos usuários atendidos na ESF João Borges Gondim que participa-
ram da presentes pesquisa. n=45.

TOTAL
USUÁRIOS DA ESF
N %
GÊNERO
Feminino 37 82,2
Masculino 8 17,8
Transgênero 0 0
FAIXA ETÁRIA
até 20 anos 1 2,2
21 – 35 anos 22 48,9
36 – 60 anos 20 44,4
acima de 60 anos 2 4,5
ESTADO CIVIL
Casado(a) 26 57,8
Solteiro(a) 17 37,8
União consensual 1 2,2
Viúvo(a) 1 2,2
ESCOLARIDADE
Ensino fundamental incompleto 5 11,1
Ensino fundamental completo 8 17,8
Ensino médio incompleto 1 2,2
Ensino médio completo 18 40
Ensino superior incompleto 8 17,8
Ensino superior completo 5 11,1
RENDA MENSAL
Até 01 salário mínimo 38 84,4
02 a 04 salários mínimos 7 15,6
Fonte: Dados da pesquisa (2019).

No tocante ao gênero predominante entre os participantes, percebe-se que houve pre-


valência do feminino, presente em 82,2% (37). Esse dado confirma a presença mais assídua das
mulheres nos serviços, demonstrando um cuidado mais acentuado com a saúde. As pesquisas
desenvolvidas por Gomes (2018), Ramos et al. (2017) e Ferreira et al. (2015) corroboram com
esses achados, apontando que entre os seus entrevistados 61%; 64,6% e 58% eram do sexo
feminino, respectivamente.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 104

Na faixa etária dos entrevistados houve prevalência de 48,9 % (22) que se estende dos
21 aos 35 anos. Corroborando com esse achado o estudo realizado por Loch (2015) descreve a
participação de usuários nessa faixa etária, sendo 59% dos entrevistados.
Quanto ao estado civil dos entrevistados 57,8% (26) responderam ser casados, esse
dado concorda com os achados presentes na pesquisa desenvolvida por Pereira et al. (2019),
que 60,8% de usuários estão incluídos nesse tipo de estado civil.
Em relação ao grau de escolaridade dos participantes, assim como no presente estudo,
as pesquisas desenvolvidas por Ramos et al. (2017) e Pereira et al. (2019) foram compostas por
participantes que em sua maioria 40,4% e 34,6%, cursaram o ensino médio completo. No que
concerne a renda dos usuários entrevistados, 38 (84,4%) referem receber até um salário mí-
nimo por mês.
Na figura 1 são apresentados os dados referentes ao conhecimento dos usuários sobre o
descarte adequado de medicamentos vencidos.
Percebe-se que quando questionados sobre o conhecimento acerca da maneira correta
de efetuar o descarte de medicamentos sem mais utilidade, 60% (27) dos usuários referiram
tê-lo, porém esse dado é confrontado pelas respostas atribuídas as demais questões, nas quais
os indivíduos expressam algumas práticas inadequadas. Nesse sentido, no estudo desenvolvido
por Pinto et al. (2014) foi exposto que 92% dos seus entrevistados não tinham conhecimento
sobre o descarte correto ou do local adequado para coleta de medicamentos vencidos, refor-
çando a falta de informação.

FIGURA 1 – Conhecimento sobre o descarte de medicamentos vencidos dos usuários


da ESF João Borges Gondim, Alagoinha-PB.

40%

60%

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

A seguir nas figuras 2 e 3 são abordadas questões relacionadas ao local de descarte de


medicamentos vencidos e de materiais como seringas, agulhas ou lancetas que são utilizadas
em casa para medicação injetável ou verificação da glicemia.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 105

FIGURA 2 – Local de descarte de medicamentos vencidos dos usuários da ESF João Borges Gon-
dim, Alagoinha-PB.

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Nota-se que um percentual de 53,3% (24) dos participantes da presente pesquisa expôs
que o descarte dos seus medicamentos vencidos é realizado no lixo domiciliar. Esses dados as-
semelham-se aos achados das pesquisas de Rodrigues, Freitas e Dalbó (2018), Pereira et al.
(2019) e Ferreira et al. (2015), as quais apontaram que 64,7%, 91,5% e 52%, respectivamente,
dos entrevistados efetuavam o descarte dos seus medicamentos vencidos também no lixo do-
méstico. Vale salientar que nesse último estudo 32% dos participantes da pesquisa descarta-
vam os medicamentos na pia ou no vaso sanitário de casa.
No tocante ao descarte dos medicamentos vencidos em postos de coleta ou nas unidades
de saúde, percebe-se que um número reduzido de usuários faz esse tipo de descarte, sendo re-
presentado em 20% (9) dos casos. Semelhantemente aos dados encontrados, o estudo desen-
volvido por Pinto et al. (2014) revelou que apenas 4% dos seus entrevistados destinavam os
medicamentos de forma adequada nos postos de saúde, farmácias ou centros comunitários.
O estudo desenvolvido por Silva, Abjaude e Rascado (2014), expõe que nos estabeleci-
mentos de saúde a prática de devolução de medicamentos sem utilidade é inexistente, o que
reforça a necessidade da formulação de estratégias que promovam orientação e expressem a
importância do descarte adequado dos medicamentos.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 106

FIGURA 3 – Local de descarte de seringas, agulhas ou lancetas utilizadas pelos usuários da ESF
João Borges Gondim, Alagoinha-PB.

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

De acordo com o exposto na figura 3 percebe-se que 80% (36) dos entrevistados da pre-
sente pesquisa referiram depositar o material em um recipiente adequado, vedado e depois
conduzido a unidade de Saúde. Esses achados são confrontados por outras pesquisas desenvol-
vidas sobre a mesma temática, as quais revelam que a maioria dos usuários realizam o descarte
de forma inadequada, utilizando o lixo comum ou outros meios. Essa informação se confirma
nas pesquisas desenvolvidas por Ramos (2017); Cunha et al. (2017) e Junior et al. (2016), que
expressam a ocorrência recorrente do descarte inadequado desse tipo de material e os prejuí-
zos que os mesmos acarretam para o meio ambiente e para os coletores de material reciclável.
Esses números elevados no quesito do descarte dos medicamentos vencidos, demons-
tram a falta de conhecimento dos usuários dos serviços de saúde em relação ao descarte ade-
quado e aos impactos que essas substâncias causam no meio ambiente e a própria saúde hu-
mana. Ademais, revelam a deficiência na acessibilidade às informações sobre a temática e no
desenvolvimento de estratégias de Educação em Saúde.
Nesse contexto do uso da estratégia de Educação em Saúde, as figuras 4 e 5 a seguir ex-
planam dados referentes a participação dos entrevistados da presente pesquisa em atividades
educativas e de momentos na ESF em que eram disponibilizadas orientações quanto a impor-
tância do descarte correto.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 107

FIGURA 4 – Recebimento de orientações na ESF quanto ao descarte adequado.

NÃO 60%

SIM 40%

1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Percebe-se que em relação ao recebimento de informações sobre o descarte adequado


de medicamentos na ESF João Borges Gondim, 60% (27) dos entrevistados desse estudo refe-
riram não ter recebido nenhuma orientação. Esse dado assemelha-se aos resultados encontra-
dos nas pesquisas de Pereira et al. (2019), Silva e Geron (2018) e Ramos et al. (2017), onde
89,5%; 85% e 80,7% dos entrevistados referiram não ter sido informados sobre as formas cor-
retas do descarte de medicamentos.

FIGURA 5 – Participação de atividades de educação em saúde sobre descarte adequado.

NÃO 78%

SIM 22%

1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Nota-se que dentre os usuários entrevistados durante a pesquisa, 77,8% (35) dos mes-
mos referiram não ter participado na ESF de atividades educativas sobre o descarte correto de
medicações. Nesse contexto, é importante ressaltar que as ações de Educação em Saúde são
indispensáveis para o compartilhamento de informações e construção de saberes entre os en-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 108

volvidos, profissionais e usuários. Essa ferramenta influencia diretamente nas formas de geren-
ciamento dos fármacos no serviço e no descarte inadequado de medicamentos, colaborando
com o uso racional dos mesmos (BALDONI et al., 2015).
A figura 6 apresenta dados relacionados ao conhecimento dos usuários da ESF João Bor-
ges Gondim, Alagoinha-PB, quanto ao recebimento de medicamentos vencidos ou materiais
perfurocortantes.

FIGURA 6 – Conhecimento dos usuários se a ESF João Borges Gondim recebe medicamentos e
perfurocortantes.

NÃO 80%

SIM 20%

1900ral 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral


Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Mediante os dados, percebe-se que entre os entrevistados 80% (36) desconhecem a pre-
sença de um local para o recebimento dos medicamentos vencidos ou perfurocortantes na ESF,
tal fato evidencia a necessidade de estratégias mais efetivas com relação ao assunto. Esses da-
dos assemelham-se aos expostos por Alencar, Machado e Costa (2014) em sua pesquisa, na qual
os entrevistados expressaram não saber a quem recorrer para o descarte adequado de medica-
mentos.
Nesse contexto, Dantas, Silva, Fonseca (2018) expressam que é imprescindível a efetiva-
ção de estratégias nos serviços de saúde que envolvam a conscientização da população em geral
sobre a forma correta e saudável de se descartar os medicamentos vencidos e material perfu-
rocortante.
A partir dos resultados encontrados, é possível perceber que as questões relacionadas
ao descarte adequado de medicamentos vencidos e dos materiais perfurocortantes são tratadas
de forma deficiente nos serviços de saúde, demandando assim, dos profissionais um desperta-
mento quanto a importância do desenvolvimento de ações de educação em saúde junto à popu-
lação atendida.

CONCLUSÃO

Mediante os estudos expostos e os dados alcançados nesta pesquisa, percebe-se que o


descarte inadequado de medicamentos ainda é uma prática recorrente entre os usuários dos

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 109

serviços de saúde da Atenção Primária, os quais desconhecem os impactos que as substâncias


descartadas podem provocar ao meio ambiente e a saúde da população em geral.
Nota-se que a principal deficiência exposta pelos entrevistados foi em relação ao des-
carte de medicamentos vencidos, o qual é realizado em locais inapropriados, como no lixo co-
mum e na rede de esgoto. No tocante ao descarte dos materiais perfurocortantes os entrevista-
dos expuseram que eles são colocados em um recipiente específico, vedado e posteriormente
entregue na unidade de saúde, porém ainda existem aqueles que os descartam no lixo comum.
Nesse sentido, é imprescindível que os profissionais de saúde que atuam nos serviços
criem estratégias que veiculem informações sobre o assunto e estimulem os usuários na reali-
zação correta do descarte de medicamentos e de materiais perfurocortantes, pois assim, esta-
rão contribuindo com o meio ambiente e reduzindo as chances de que acidentes aconteçam com
pessoas que coletam recicláveis.
A partir do contato com as respostas dos usuários da ESF João Borges Gondim em Ala-
goinha-PB, foi possível formular algumas estratégias que podem ser executadas no serviço,
dentre elas: a construção de atividades educativas sobre a temática; disponibilização de infor-
mações nas consultas e durante recebimento de medicação com o farmacêutico; capacitação
dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para que durante as visitas domiciliares forneçam
informações sobre o descarte adequado de medicamentos; disponibilização e exposição de um
local adequado para o recebimento dos medicamentos vencidos.
Portanto, esse trabalho tem um impacto positivo no campo da saúde e na questão ambi-
ental, tendo em vista que revela a necessidade da conscientização da população quanto a im-
portância do descarte adequado de substâncias e materiais perfurocortantes, além de favorecer
o desenvolvimento de novas pesquisas, que atinjam um número maior de usuários e de serviços
de saúde.

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 111

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 112

EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL ALIADA E SABER POPULAR: O USO


DA ARARUTA COMO INSUMO PARA O ALIMENTAÇÃO ESCOLAR
Áquila Matheus de Souza Oliveira
Doutorado em Alimentos e Nutrição, Faculdade de Engenharia de Alimentos, UNICAMP e Pro-
fessor do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Júlio César Bezerra Vilar da Silva


Especialista em Nutrição Aplicada à Gastronomia e Professor
do Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta resultados de um estudo sobre o rizoma da araruta e sua potenci-
alidade para ser usada no Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE – no formato de
um biscoito.
Os estudos sobre alimentação em uma perspectiva antropológica e educacional vêm ga-
nhando cada vez mais espaço na academia. Um dos motivos para a ampla discussão sobre ali-
mentação e o comer é a inserção dos cursos de graduação em gastronomia nas universidades
que, além de se preocuparem com a formação técnica e prática dos alunos, pretendem formar
profissionais preocupados com os saberes tradicionais, culturais e sociais que envolvem a ali-
mentação.
Em tempos de transição nutricional (BATISTA FILHO; RISSIN, 2003), o debate sobre o
corpo e a potencialidade dos alimentos também ganha foco. A principal preocupação era o com-
bate à fome; contudo, contemporaneamente, são as doenças crônicas decorrentes de uma ali-
mentação rica em açúcar e gordura que motivam a preocupação e requerem debate e políticas
públicas. Vale lembrar, entretanto, que a fome ainda não foi superada totalmente no Brasil, ape-
sar de o mesmo ter saído do mapa da fome. (ONU, 2015)
Com o advento da Lei federal número 11947/2009, que dispõe sobre as diretrizes da
alimentação escolar e do Programa Dinheiro Direto na Escola para os alunos da educação bá-
sica, a alimentação saudável e adequada que respeite a cultura, as tradições e os hábitos ali-
mentares saudáveis. Torna-se exigência na Lei ações para uma educação alimentar e nutricional
“no processo de ensino e aprendizagem, que perpassa pelo currículo escolar, abordando o tema
alimentação e nutrição e o desenvolvimento de práticas saudáveis de vida, na perspectiva da
segurança alimentar e nutricional” (BRASIL, Lei 11947/2009, art.2°).
A lei contribui também para valorização dos alimentos tradicionais advindos da agricul-
tura familiar incentivando a produção local e os saberes populares referentes aos alimentos.
Partindo dessa discussão, foi escolhida a araruta, rizoma de origem americana, para ser estu-
dada. Dela é extraída uma goma atualmente pouco utilizada, uma vez que o cultivo da araruta
está se perdendo sendo que algumas pesquisas (SLOW FOOD, 2007) relatam até uma possível

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 113

extinção. A despeito disso, a araruta possui grande potencial gastronômico; a escolha desse ri-
zoma justifica-se também por estar presente na cultura alimentar do cearense desde o litoral
leste (Cascavel e Beberibe) até a região do Cariri (Crato e Juazeiro).
Assim, a pesquisa analisou como a araruta pode ser usada como produto base na criação
de uma preparação que seja viável na alimentação escolar, optando pela criação um biscoito.
Além disso, registrou-se a preparação específica da goma com relatos sobre o saber popular
agregado à araruta, o processo que foi relatado por pessoas que a consomem nas suas vivências.
Em se tratando de uma pesquisa qualitativa o estudo apresentou características de uma
pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e pesquisa de campo, haja vista que a pesquisa
“pretende buscar a informação diretamente com a população pesquisada” (GONÇALVES, 2001,
p. 67).
Realizou-se também um teste de aceitabilidade além da análise de valor nutricional com
o produto elaborado.
A temática que envolve a alimentação gera discussões nos mais variados âmbitos seja
nutricional ou antropológico e leva a refletir sobre questões essenciais como “a relação da cul-
tura com a natureza, o simbólico e o biológico” (MACIEL, 2001, p. 146). O ato de comer deixou
de ser visto simplesmente como um ato biológico e vital, considerando que o homem escolhe,
através de critérios gustativos e culturais, o que pretende comer. Assim, segundo Maciel (2001)
o que é “biologicamente ingerível não é culturalmente comestível”. Desse modo, é necessária a
discussão de conceitos chaves para esta pesquisa, tais como: alimentação, práticas alimentares
tradicionais, educação alimentar e nutricional.
As práticas alimentares tradicionais são objeto de estudo de muitos pesquisadores preocu-
pados em valorizar técnicas e saberes existentes salvaguardando também tabus, restrições ou
hierarquias presentes na cultura alimentar de algum grupo. Isso porque a chegada de produtos
industrializados de fácil acesso e consumo afasta, desvaloriza e enfraquece a cultura dos ali-
mentos naturais e tradicionais principalmente para os jovens que estão deixando de seguir a
agricultura e o labor de seus pais (BEZERRA, 2013). Assim iniciativas como a lei 11947/2009
contribuem para a valorização não somente dos saberes tradicionais envolvidos na comida,
mas também para a profissão de agricultor que, a partir da agricultura familiar, pode vender
seus produtos para o PNAE, gerando renda para a família e uma alimentação de qualidade para
as escolas em que seus filhos estudam e segurança alimentar e nutricional para alunos, família
e escola.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Educação Alimentar e Nutricional - EAN

Entender EAN foi fundamental para o desenvolvimento da pesquisa. A base para os es-
tudos e práticas em EAN está no Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para
as Políticas Públicas (BRASIL, 2012). A EAN é, em linhas gerais, um “campo de conhecimento e
de prática contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa
promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis” (BRASIL, 2012, p.
13)
Os registros de primeiras ações sobre educação alimentar datam da década de 1930 no
contexto da industrialização do Brasil. Essas primeiras ações tinham como objetivo ensinar as
pessoas menos instruídas a comer (BEZERRA, 2012) baseados na noção de que o povo era ig-
norante para fazer escolhas alimentares, desprezando dessa forma as condições sociais a que

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 114

estava submetida boa parte da população brasileira. Sobre isso, Bezerra (2012) relata que os
estudos tratavam a população assim:

[...] ignorante em termos de alimentação e de higiene, a maioria da população era cons-


tituída de pessoas insolentes, subnutridas, fracas, indispostas e pouco produtivas, o que
contribuía para o atraso socioeconômico do país, impedindo-o de atingir o nível de na-
ção próspera e desenvolvida. Cabia à ciência da alimentação interferir com seus diag-
nósticos e práticas para superar o atraso, o que passava pelo melhoramento da raça, em
busca de um brasileiro forte, robusto, bem alimentado, higiênico e saudável (BEZERRA,
2012, p. 175).

Assim, os estudos eram carregados de preconceitos em sua maioria e não problematiza-


vam as condições reais de escolha e acesso alimentar da população brasileira. Tais estudos ad-
vogavam ainda metodologias prescritivas que eram contraproducentes para a conscientização
da população para uma alimentação que fosse saudável e viável para o modo de vida das comu-
nidades.

[...] as estratégias de EAN eram dirigidas aos trabalhadores e suas famílias, a partir de
uma abordagem atualmente avaliada como preconceituosa, ao pretender ensiná-los a
se alimentar corretamente segundo um parâmetro descontextualizado e estritamente
biológico. As ações eram centradas em campanhas de introdução de alimentos que não
eram usualmente consumidos e de práticas educativas dirigidas, principalmente, às ca-
madas de menor renda (BRASIL, 2012, p. 16).

Com as discussões mais aprofundadas e de enfoque crítico, notadamente a partir da obra


de Josué de Castro, a situação de pobreza começou a ser problematizada a partir do entendi-
mento do contexto social em que a fome e a insegurança alimentar avassalavam a população
brasileira. Dessa forma, tornou-se notório que as metodologias prescritivas não estavam tra-
zendo o resultado esperado na superação do problema social da fome. Elas não eram suficien-
tes, pois não proporcionavam resultados suficientes do estado de fome da população.
Contemporaneamente, são as doenças decorrentes do processo que se designou como
transição nutricional (BATISTA FILHO; RISSIN, 2003). Apesar da luta de superação da fome não
ter terminado, mesmo com o Brasil saindo do mapa da fome, a Organização Mundial de Saúde
(OMS) conclama todos a cuidar da saúde da população que sofre com doenças crônicas não
transmissíveis, como é o caso da obesidade que está diretamente ligada a uma alimentação ina-
dequada.
Surgem, nesse contexto, ações governamentais com o foco na alimentação saudável, é o
caso do programa Fome Zero. “A partir de 2003, observa-se um progressivo aumento de ações
de EAN nas iniciativas públicas, no âmbito dos restaurantes populares, dos bancos de alimentos
[...] do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Alimentação do
Trabalhador (PAT)” (BRASIL, 2012, p. 19). Dessa forma, a EAN ganha espaço nas discussões
sobre alimentação saudável e segurança alimentar. Assim, com a temática da EAN sendo neces-
sária no Brasil
Nessa pesquisa focaliza-se o PNAE, por ser considerada a política pública de maior
abrangência e que pode causar mais impacto na vida dos escolares com relação a uma alimen-
tação saudável que seja propositiva e que possa aliar a cultura e a valorização dos alimentos
tradicionais.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 115

O PNAE surgiu na década de 1950 direcionado às escolas públicas com o objetivo de


suprir necessidades nutricionais dos estudantes de ensino básico. Atualmente segundo a Lei
11.947/2009 o PNAE

tem por objetivo contribuir para o crescimento e o desenvolvimento biopsicossocial, a


aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos
alunos, por meio de ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições
que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo (BRASIL, Lei
11947/2009, art. 4º).

É uma política pública descentralizada, cujos recursos são repassados aos estados e mu-
nicípios, com base no Censo Escolar realizado no ano anterior ao do atendimento. O Programa
tem acompanhamento direto pela sociedade, por meio dos Conselhos de Alimentação Escolar
(CAE) e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
A lei 11.947 traz as diretrizes da alimentação escolar. Dentre essas diretrizes estão o
direito do aluno à alimentação, o apoio ao desenvolvimento sustentável e a valorização da cul-
tura alimentar local através dos alimentos tradicionais. A portaria nº 1010 de 8 de maio de
2006, por sua vez, institui as diretrizes para a Promoção da Alimentação Saudável nas Escolas
de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio das redes públicas e privadas, em
âmbito nacional através do uso de alimentos adequados, construção de hortas, manifestações
culturais acerca dos alimentos, restrições para o comércio de comida nas escolas. A medida
preza pelo envolvimento da família dos alunos em práticas conjuntas de educação alimentar
além de estimular o consumo de frutas e verduras.
Todas as estratégias expostas nas Lei 11.947, na portaria 1010, no PNAE e no marco
sobre EAN convergem para um tópico principal, que é o estudado na pesquisa: o uso de alimen-
tos tradicionais para promoção de alimentação saudável nas escolas, no caso, a araruta.

Araruta: definições, perfil botânico uso e comercialização.

O termo araruta soa com estranheza para a maioria das pessoas que não a conhecem.
Seu nome científico, Maranta arudinacea, mais ainda. Isso se deve talvez ao pouco uso e divul-
gação. É uma planta herbácea da ordem das zingiberales que inclui 8 famílias, 89 gêneros e
cerca de 1800 espécies, dentre as quais encontram-se a banana, o gengibre e o açafrão. Embora
gengibre e açafrão sejam de origem oriental, a araruta é tipicamente sul-americana e ocorre em
toda costa desde as guianas até o Rio de Janeiro (NEVES et al., 2005).
Segundo Posey (1985 apud Neves et al. 2005) algumas tribos de índios brasileiros culti-
vavam, muito antes da colonização, algumas variedades de marantáceas. Fosse em florestas ou
em morros, o cultivo era feito por mulheres idosas da tribo e os tubérculos serviam como re-
serva alimentar para as épocas de escassez de outras fontes alimentícias. Leonel e Cerada
(2002) bem como Zárate et al. (2007) afirmam que a planta “teve seu centro de origem, prova-
velmente, no continente sul-americano, encontrando-se em forma nativa nas matas venezuela-
nas, posteriormente foi exportada às ilhas Barbados, Jamaica e outras regiões do Caribe” (ZÁ-
RATE et al., 2007, p. 1) chegando também ao Brasil. A origem do nome não é exata, existindo
várias versões para ela.

Os colonizadores ingleses chamavam o produto de “Aruak root starch” ou seja, “polvilho


da raiz dos Aruak” que acabou corrompido para “arrowroot”, ou seja, derivando para

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 116

português como araruta. [...] Uma outra versão, diz que os Aruaks chamavam a planta
de “aruaque aruá-aru”, significando “refeição das refeições” pelo fato de considerarem
especiais as refeições preparadas com o polvilho que tem como uma das propriedades
mais destacadas sua alta digestibilidade (NEVES et al., 2005, p. 1). [Grifas do autor]

O que se sabe também é que a araruta já esteve presente em parte das cozinhas brasilei-
ras domésticas sendo base para bolos, biscoitos e mingau. A goma ou polvilho chegou a ser co-
mercializada; porém, com o advento do polvilho da mandioca e do amido de milho, produtos de
mais fácil industrialização, a araruta, que antes era comum, se tornou um alimento pouco culti-
vado e esquecido na cultura alimentar do brasileiro.
Em termos de perfil botânico, a araruta apresenta característica de plantas herbáceas,
plantas rasteiras de caule macio. É uma planta considerada de grande duração ou perene, co-
mum nas florestas tropicais e forma rizoma o que dá uma das principais características da ara-
ruta. “Os rizomas são caules que crescem dentro da terra e acumulam reservas de amido para
fazer uma nova planta” (EMBRAPA, 2005, p. 12). Os rizomas da araruta podem variar de tama-
nho de acordo com o tipo cultivado.
A variedade da araruta comum foi a utilizada na pesquisa para produção do biscoito e
teste de aceitabilidade.
Atualmente, não é comum encontrar o rizoma da araruta ou mesmo a fécula já proces-
sada nas prateleiras de supermercado, uma vez que a fécula de mandioca e o amido de milho
são produtos de fácil acesso no comércio por serem, para a indústria alimentícia, mais fáceis de
industrializar. A araruta é tradicionalmente utilizada na forma de goma para a elaboração de
preparações, pois “se presta a combinações com água e leite, consequentemente à confecção de
inúmeros pratos” (ZÁRATE; VIEIRA, 2005, p .1). Esses pratos podem variar desde bolos e bis-
coitos até mingau para crianças e pessoas doentes.
Nos dias atuais a araruta, aos poucos, voltou a ser lembrada depois que a gastronomia
começou a valorizar e dar destaque para os alimentos funcionais, alimentos sem glúten ou lac-
tose e alimentos fit.

MÉTODO

Em se tratando de uma pesquisa qualitativa o estudo apresentou características de uma


pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e pesquisa de campo, haja vista que a pesquisa
“pretende buscar a informação diretamente com a população pesquisada” (GONÇALVES, 2001,
p. 67).
Realizou-se também um teste de aceitabilidade nos moldes do Programa Nacional de
Alimentação escolar – PNAE, além da análise de valor nutricional da matéria prima utilizada na
elaboração do produto.
A pesquisa foi realizada em Fortaleza-CE e focou em um ator, apenas, que compartilhou
do assunto na entrevista e na atividade prática, durante a parte da elaboração do produto, já na
escola, o teste de aceitação foi aplicado com 104 alunos da educação básica de uma escola mu-
nicipal de Fortaleza. Foi informado sobre o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelo
pesquisador, após assinatura foi realizada a aplicação.
Para realizar as coletas, utilizou-se um roteiro de entrevista semiestruturada além de
fotografias e vídeos para o registro da produção da goma de araruta e escala hedônica facial
para análise sensorial.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 117

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O rizoma da araruta tem como principal subproduto sua fécula, mesmo pouco conhecida.
O passo a passo da produção da goma da araruta está registrado em uma cartilha organizada
pela EMBRAPA (2005) intitulada Como plantar e usar a araruta, que tem por objetivo registrar
o uso da araruta principalmente para seus fins culinários. Registramos também a feitura da
goma da araruta pelo saber de Dona Maria Monteiro. Pretende-se aqui discutir a elaboração da
goma nas vertentes: técnica e popular.
A cartilha da EMBRAPA traz o passo a passo da confecção da goma da araruta, abaixo
estão, na íntegra, os passos considerados necessários:

O rizoma da araruta tem uma casca muito fina, que deve ser retirada esfregando-a vi-
gorosamente com as mãos e lavando-a ao mesmo tempo.
Depois de descascado, é preciso ralar o rizoma ou triturá-lo no liquidificador, reco-
lhendo-se a massa grossa e escura em uma bacia.
Para separar o polvilho, preparar uma bacia grande e um pano de prato branco para
coá-lo. Tudo deve estar muito limpo.
Colocar um pouco da massa sobre o pano de prato. Despejar água, pouco a pouco, e
mexer bem a massa, lavando-a para retirar todo o polvilho.
O polvilho é recolhido junto com a água na bacia.
Deixar o polvilho assentar na bacia por cerca de 2 horas.
Depois, escorrer a água com cuidado, de forma a deixar o polvilho no fundo da bacia.
As primeiras águas são escuras, por isso é preciso lavar bem o polvilho para que fique
bem branquinho.
Colocar mais água e mexer o polvilho. Deixar assentar novamente e escorrer a água.
Repetir a operação quantas vezes for preciso até a água sobre o polvilho ficar transpa-
rente.
Colocar o polvilho para secar ao sol, bem espalhado sobre uma toalha limpa e coberto
com outra toalha. Com as mãos limpas, desfazer as placas ou torrões e revolver o polvi-
lho de vez em quando, para que seque por igual. Peneirar o polvilho ainda um pouco
úmido para não desperdiçar. Para ficar bem fino, bater o polvilho no liquidificador.
Terminar de secar e só então guardar em vasilhas limpas, secas e bem fechadas (latas,
etc.). Se o sol estiver bem quente, o polvilho estará seco em 2 dias (EMBRAPA, 2005, p.
32).

Para elaborar e registrar a confecção do polvilho da araruta, encontrei-me com Dona


Maria na tarde de domingo do dia 06 de dezembro de 2015. Já havia colhido e armazenado boa
quantidade de araruta, algo em torno de 2 quilos e 200 gramas. A colheita foi feita em diferentes
locais, em um canteiro na UFC, no distrito de Guanacés, no distrito de Sucatinga em Beberibe,
no município de Horizonte e no nosso próprio quintal plantado por Seu Marcos Bernardo, en-
genheiro agrônomo que cultiva algumas plantas.
Combinei com Dona Maria o dia de fazer a goma. Quando cheguei à casa dela e a cumpri-
mentei, Dona Maria foi logo pedindo que eu limpasse as ararutas e lavasse. Assim o fiz, retirei
as impurezas e uma leve casca. Algumas ararutas descartei porque segundo Dona Maria elas
estavam estragadas, fato percebido pelo forte mal cheiro que a raiz apresentava. Lavei as de-
mais em seguida com água até que elas ficassem “bem branquinhas”, como ela exigiu.
Após o processo de lavagem, foi a hora de ralar o rizoma. Dona Maria me ensinou o pro-
cesso. Em seguida comecei a ralar toda aquela araruta. Perguntei, na minha visão tanto quanto
esperta, se podíamos triturar tudo aquilo no liquidificador. De pronto Dona Maria respondeu,

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 118

“no meu tempo não tinha liquidificador, era na mão mesmo”, continuei fazendo na mão, ao
modo tradicional, ao fim levei novamente para Dona Maria para continuarmos o processo.
Ela misturou aquela araruta ralada com um pouco de água, foi dentro do seu quarto e
voltou com um pano bem fininho para que pudéssemos separar o bagaço da goma que, segundo
ela virava comida para porcos. Ajudei a segurar o pano enquanto ela jogava aquele líquido de
coloração leitosa. Da primeira vez não segurei do jeito adequando e o pano cedeu, ela olhou
para mim com olhar de repreensão, mas me deu uma segunda chance e tudo ocorreu bem. Pe-
gou o pano para si e amassou para sair todo o líquido. Manipulava aquele processo de uma
forma tão simples e perfeita que deixava qualquer leigo, como eu, morrendo de inveja. Repetiu
o processo de filtração 4 vezes, pois “a araruta tem um travo, tem que passar no mínimo em 3
panos porque ela é travosa”, advertia nossa anfitriã. No fim da separação a bacia continha ape-
nas um corpo de fundo de coloração branca e uma água turgida acima.
A ordem era “vamos esperar a goma sentar por completo, não pode ficar mexendo, daqui
a pouco a gente troca a água, tem que deixar de um dia para outro pra sentar bem” comentava
Dona Maria. Confesso que fiquei encantado com aquele processo, não conseguia parar de olhar
para dentro da bacia e Dona Maria ali me pastoreando para que eu não mexesse e acabasse com
a experiência.
Na segunda feira pela manhã, retornei à casa dela para terminar o processo de confecção
da fécula da araruta. Faltava pouco, agora era só descartar, com muito cuidado, a água que fi-
cava na parte de cima e deixar na bacia apenas a fécula que precipitou ou que “sentou”, segundo
Dona Maria. Com a bacia livre de água, ela me passou mais uma ordem: “tem que deixar secar
no sol até ela rachar aí tá pronta pra usar”.
Ao comparar as duas preparações encontramos semelhanças, porém há também algu-
mas peculiaridades em cada modo de fazer. As semelhanças então nos processos mecânicos de
lavagem, ralação, filtração com o pano e lavagem da goma em água. Já sobre as peculiaridades
Dona Maria chama atenção, no seu processo, para uma propriedade travosa da araruta, seria
algo antidigestivo ou toxico que pode prejudicar quem ingerir a goma sem antes passar pela
série de filtragens sugeridas. Não há registros em estudos sobre alguma propriedade prejudi-
cial ou venenosa do rizoma, porém esse saber adquirido por Dona Maria já foi passado de sua
mãe para ela e não deve ser desprezado, uma vez que os saberes populares assim como as prá-
ticas alimentares tradicionais são passadas entre gerações, guardados pelos mais antigos e aju-
dam a contar a história de sobrevivência e inventividade dos agricultores.

4 – O biscoito de araruta

No papel de estudante de gastronomia, elaborar uma preparação usando a goma da ara-


ruta pareceu, de início, algo desafiador. Baseando-me nos estudos já existentes sobre a araruta,
notei que bolo e biscoito eram as preparações mais comuns para a araruta. Como a cartilha da
EMBRAPA (2005) sugere no final várias receitas de diferentes tipos de biscoito de araruta – e
biscoito é uma preparação em que as crianças têm interesse –, resolvi, então, ficar com essa
opção. Não quis reproduzir uma receita já existente na cartilha, vasculhando livros decidi adap-
tar uma receita do clássico livro de culinária Dona Benta: comer bem (2004).
A receita original se configurava da seguinte forma: 1kg de polvilho doce, 1 prato cheio
de açúcar, 2 ovos, 4 colheres de sopa de manteiga e 1 coco ralado. Em vez de 1kg de polvilho
usei 1kg de goma de araruta, aumentei a quantidade de manteiga, pois percebi que a massa
estava quebradiça. Misturei primeiro a manteiga e o açúcar e logo após os ovos, obtive com isso

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 119

um creme brilhoso, adicionei a goma da araruta e mexi com a mão até que se formasse uma
massa homogênea e firme, com a massa pronta pesei e dei forma aos biscoitos. Depois da massa
pronta e testada, fiz os biscoitos em larga escala para o teste de aceitabilidade na escola, a re-
ceita foi executada duas vezes dando um rendimento total de 186 biscoitos de 10 gramas cada.
Foram embaladas 3 unidades do biscoito para ser feito teste de aceitabilidade com os alunos da
escola. Para padronizar a receita, cada ingrediente foi medido, e elaborada, a partir daí, a ficha
técnica abaixo (Tabela 1).

FIGURA 1 – Preparação finalizada, biscoito de araruta.

Fonte: Dados da Pesquisa (2015)

TABELA 1 – Ficha técnica do biscoito de araruta

Curso: Bacharelado em Gastro- Trabalho de conclusão de curso


nomia
Dicente: Áquila Matheus de Biscoito de araruta
Souza Oliveira

FICHA TÉCNICA
Biscoito de araruta
Ingredientes Modo de preparo
Qtd Und Ingrediente
1,000 Kg Goma de araruta – Junte o açúcar com a manteiga.
2 Und. Ovo Em seguida ponha os ovos. Mis-
0,120 Kg Manteiga ture e adicione a goma da araruta
0,160 L Açúcar

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 120

Qb - Coco Ralado peneirada, por último adicione o


coco ralado.
– Forme uma massa uniforme e
faça os biscoitos como preferir.
Fonte: Dados da pesquisa (2015)

5 – Teste de aceitabilidade

O dia 16 de dezembro de 2015 foi a data combinada para a realização do teste de aceita-
bilidade com o biscoito da araruta. A escola escolhida foi uma Escola Municipal de Ensino In-
fantil e Ensino Fundamental localizada na cidade de Fortaleza. Encontramo-nos na Faculdade
de Educação da UFC, estive acompanhado do meu orientador Professor José Arimatea Barros
Bezerra e da minha co-orientadora Alice Santos.
Chegamos a escola pouco antes das 14 horas e 30 minutos. Ao adentrar a escola, fomos
avisados de que os alunos estavam em uma apresentação na quadra esportiva. Andamos pela
escola para conhecer o espaço enquanto os alunos aproveitavam o recreio. Pudemos perceber
algumas práticas alimentares dos alunos: comiam salgadinho com refrigerante ou biscoito com
refrigerante trazidos, provavelmente, de casa, o que ainda é uma dificuldade corriqueira para
enfrentada pelo PNAE.
Fomos convidados para a sala da diretora, lá pudemos entregar o ofício emitido pela
Universidade Federal do Ceará e conversar sobre o nosso objetivo naquela visita à escola, a
saber: o teste de aceitabilidade com o biscoito da araruta, visto que o teste já havia sido agen-
dado previamente. Fiquei surpreso ao descobrir que a araruta fez parte das práticas alimenta-
res da diretora da escola na sua infância na região do Cariri cearense. Após uma amigável con-
versa na diretoria e o fim do intervalo para os alunos, saímos para o teste de aceitabilidade
realizado em cada sala.
O modelo escolhido para o teste foi o de ficha de escala hedônica facial mista (figura 2)
por se tratar de uma cartela lúdica de fácil acesso para os estudantes.

FIGURA 2 – Ficha lúdica para teste de aceitabilidade (retirada do Manual para aplicação dos
testes de aceitabilidade no Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE

Fonte: Dados da Pesquisa (2015)

A ficha e os métodos foram retirados do Manual para aplicação dos testes de aceitabili-
dade no Programa Nacional da Alimentação Escolar – PNAE (2010). Quanto aos métodos, o ma-
nual indica que o teste seja dividido em 5 etapas:

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 121

1. Distribuir as fichas com a escala hedônica (adequada à série) na sala de aula ao servir o
alimento;
2. Explicar como as fichas devem ser preenchidas;
3. Solicitar que as crianças coloquem o nome da preparação na ficha ou que o nutricionista
a preencha;
4. Promover um ambiente de individualidade de julgamentos, onde não haverá conversas
entre os escolares;
5. Recolher as fichas preenchidas.

O teste foi realizado em duas séries, o 3º e o 5º anos do Ensino Fundamental. A aplicação


do teste é justificada; pois, “para verificar a aceitação de algum tipo de alimento, o teste de acei-
tabilidade é um instrumento fundamental, pois sua execução é fácil e permite uma verificação
da preferência média dos alimentos oferecidos” (ABNT, 1993, p. 8). Os resultados obtidos no
teste estão no gráfico (figura 3) abaixo.

FIGURA 3 – Gráfico com resultados do teste de aceitabilidade.

Fonte: Dados da Pesquisa (2015)

No gráfico percebe-se que o biscoito de araruta teve uma porcentagem de 90,38% para
o quesito adorei e 9,62% para o quesito gostei; não foram registradas escolhas das opções des-
testei, não gostei ou indiferente.
Segundo o Manual para aplicação de teste de aceitabilidade do PNAE se a amostra apre-
sentar uma percentagem maior ou igual a 85% nas expressões gostei ou adorei a preparação
está aprovada, como é o caso.
No fim da ficha, o aluno teve a possibilidade de descrever o que mais gostou e o que
menos gostou na preparação, foram muitas respostas obtidas, algumas inusitadas e curiosas.
Na categoria mais gostou o destaque ficou para “o gosto” e “o sabor”; aqui, provavelmente, que-
rendo representar as características gustativas do biscoito. Porém, Montanari (2008) distingue
gosto e sabor, para o autor o gosto é um produto cultural, “o gosto não é de fato uma realidade
subjetiva e incomunicável, mas coletiva e comunicada. É uma experiência de cultura que nos é
transmitida desde o nascimento, juntamente com outras variáveis que contribuem para definir
ou ‘valores’ de uma sociedade” (p. 96).
Destaque também para alguns registros que traziam a afirmativa “porque não é muito
doce” na categoria mais gostou, uma vez que a ficha foi preenchida por crianças com média de
idade de 9 anos. Outras respostas destacam a consistência crocante do biscoito.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 122

Na categoria menos gostou a característica mais citada é “gruda na boca” e “esfarela”


uma vez que o biscoito é uma espécie de sequilho e possui as características citadas que foram
reprovadas por alguns alunos. A presença do coco também foi registrada em algumas fichas
como característica negativa.
Em linhas gerais, o biscoito foi bem avaliado e aceito dentro da faixa aceitável exigida
pelo PNAE e isso ficou claro, pois a maioria dos registros para mais gostou foi “tudo” e para
menos gostou foi “nada”.

CONCLUSÃO

Os estudos sobre educação alimentar e alimentos tradicionais instigaram a pesquisa com


a araruta e trouxeram à tona a importância do rizoma para a cultura alimentar brasileira, desde
os indígenas, que já a utilizavam, até os agricultores, que cultivavam nos canteiros. A araruta
apresentou importância para a culinária tradicional, pois era bastante usada em preparações
como biscoitos e bolos. Os saberes populares também apontaram para a araruta como planta
de propriedades medicinais e os estudos atuais indicam que a araruta tem alta propriedade
digestiva além de não conter glúten.
A fécula da araruta tem potencial para ser produzida pelos agricultores e a partir daí
serem confeccionados produtos como o biscoito elaborado no estudo para que esse possa ser
vendido no PNAE, gerando renda para o agricultor, além de resgatar o uso e a tradicionalidade
da araruta.
Acredito que esse estudo sobre a araruta possa impulsionar novas pesquisas sobre o
rizoma como alimento tradicional uma vez que valoriza a planta e indica, através dos seus po-
tenciais nutricionais culinários, o caminho para a elaboração de novos usos com potencial para
ser implementado na agricultura familiar.
Por fim, o biscoito de araruta foi aprovado no teste de aceitabilidade e confirma o poten-
cial do produto para compor a alimentação escolar uma vez que segue os critérios estabelecidos
pelo PNAE.

REFERÊNCIAS

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 124

RELAÇÃO ENTRE A CESSAÇÃO DO TABAGISMO E O GANHO


EXCESSIVO DE PESO
Thais Aureliano Gouveia
Graduando do Curso de Graduação em Educação Física pelo Centro Universitário Maurício
de Nassau Campina Grande

Laura Maria de Araújo Pereira


Graduando do Curso de Graduação em Educação Física pelo Centro Universitário Maurício de
Nassau Campina Grande

Juscelino Kubitscheck Bevenuto


Doutor em Zootecnica pela Universidade Federal da Paraíba e Professor do Centro Universitá-
rio Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2010), o surto de tabagismo está


diretamente ligado à morte de 100 milhões de pessoas no século XX. Projeções apontam que no
presente século poderá matar milhões caso medidas não sejam tomadas. Na atualidade, o
tabagismo é considerado como um problema de saúde pública onde se observa a alta
prevalência de fumantes e também as altas taxas de mortalidade decorrentes das doenças
relacionadas ao tabaco (MIRRA et al., 2010).
Estratégias para a cessação do tabagismo devem ser evidenciadas pela saúde pública para
que se evite a baixa produtividade e doenças provenientes do uso de cigarros.
Carvalho et al., (2013) afirmam que são diversos os benefícios quepodem ser obtidos
com a cessação do tabagismo, como a redução do risco de adoecer, o controle das doenças pré-
existentes, o melhoramento da qualidade de vida e até mesmo expectativa de vida. O fato de
existirem indivíduosfumantes dispostos a ter uma vida saudável e livre de cigarros, buscando
evitar possíveis doenças relacionadas ao tabagismo, deve levar a criação de grupos de
tratamento ao tabagismo.
O sucesso da cessação do tabagismo é maior quanto mais intensiva a abordagem. Tanto
a abordagem individual quanto a em grupo são eficazes. (MIRRA et al., 2010). Um dos principais
empecilhos para que os fumantes tomem a decisão de parar de fumar ou tenham recaídas após
a cessação é o aumento excessivo de peso. Tendo em vista que obesidade também é
umproblema de saúde pública e deve ser dada total atenção à elevação nos seus índices nos
últimos anos. Medidas de controle e reeducação alimentar devem ser tomadas para que se
evitem tais problemas.
Um dos principais reflexos de prática tabágica pode ser a má alimentação por parte do
fumante e conseguinte perca de peso, consequentemente ao cessar o hábito verifica-se um
aumento gradativo do peso. Visto isso a presente pesquisa tem por objetivo auxiliar indivíduos

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 125

tabagistas a mudar seus hábitos alimentares por meio de palestras e avaliar os pacientes com
o intuito de contribuir para uma melhora significativa na saúde, gerando um bem estar diário e
continuo. Além de entender o porquê de os indivíduos que param de fumar ter um aumento
significativo no peso tendo em vista que a prática do tabagismo em todo o globo é notória e os
reflexos dessa prática são evidenciados na vida dos usuários, em longo prazo, do cigarro.

MATERIAL E MÉTODOS

A presente pesquisa refere-se a um estudo descritivo, de cunho quantitativo, tendo


como procedimentos técnicos a comparação da mudança na ingesta alimentar durante o
período de tratamento ao tabagismo, além do ganho e/ou perca de peso durante o processo de
cessação. A pesquisa foi realizada no Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC) na cidade
de Campina Grande na Paraíba, por meio do Programa de Tratamento do Tabagismo (PMTT),
onde se realizam atividades de orientação alimentar e nutricional voltadas para indivíduos
tabagistas, visando o auxílio para que os mesmos venham reduzir ou cessar o ato tabágico. Para
sua realização foi utilizado um grupo de 50 pessoas. A coleta e obtenção de dados foram feitas
com 100% do material humano disponível, ou seja, 50 indivíduos após a anuência de
participação através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE.
A pesquisa foi realizada por meio de questionários adaptados de Almeida (2014), os
mesmos eram compostos por 26 perguntas, sendo uma delas um questionário alimentar. Os
questionários foram aplicados no primeiroe ultimo dos seis encontros realizados no projeto
anteriormente mencionado.Os encontros aconteceram em um período total de 3 meses com
intervalos de 15 dias entre eles. Nos encontros foram realizadas palestras voltadas para a
educação alimentar e nutricional e prevenção de patologias associadas à nutrição. A cada
encontro com o auxilio de balanças do tipo digital e fitas métricas foram aferidos peso e
circunferências de cintura e quadril, os quais foram posteriormente avaliados e comparados a
fim de detectar perda ouganho de peso. Quanto aos questionários serviram para avaliação
relacionadaà mudança dos hábitos alimentares. A análise dos dados foi realizada por meio de
estatística e apresentada em gráficos.
A pesquisa teve como aspectos éticos e legais as instruções da Resolução nº 466/12, do
Conselho Nacional de Saúde, onde foi submetida e posteriormente aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
através doparecer nº 3.508.347.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A pesquisa foi realizada com um grupo de 50 indivíduos em processo de cessação do


tabagismo, sendo 72% (n=36) do sexo feminino e 28% (n=14) do sexo masculino.
Quando avaliadas as alterações no peso dos indivíduos, observou-seum aumento de
até 5 kg em 52% (n=26), de mais de 5 kg em 30% (n=15), manutenção de peso em 2% (n=01)
e perca de peso em 16% (n=08) dos participantes. De acordo com Chatikin (2007), parar de
fumar resulta em aumento de peso corporal tanto em homens como em mulheres e mais de
75%dos fumantes adquirem peso ao tornarem-se abstinentes. A média de peso ganho atribuído
ao ato de parar de fumar é de 2,8 kg e de 3,8 kg em homens e mulheres, respectivamente.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 126

Divergindo com os dados coletados na presente pesquisa, onde foi observado que apenas o total
de 52% dos indivíduos participantes se encaixaram na média referida pelo autor acima citado,
como pode se observar na tabela 1.

TABELA 1 – Alterações de peso.


Classes N Percentual
Perda de peso 8 16%
Manutenção de peso 1 2%
Aumento de até 5 kg 26 52%
Aumento maior que 5 kg 15 30%
Fonte: Dados da pesquisa (2019)

Segundo o IMC inicial, calculado no primeiro encontro dos participantes, 44% (n=22)
foram classificados como eutróficos, 36% (n=18) com sobrepeso, 14% (n=7) obesos e 6% (n=3)
com abaixo do peso. Tabagistas frequentemente deparam-se com menores índices de massa
corporal, quando comparados a não tabagistas, pareados por sexo e idade. Chatikin (2007).
Quando avaliado o peso aferido ao final do tratamento, onde os estudados já haviam
abandonado a prática do tabagismo o IMC teve como resultado 36% (n=18) de participantes
em eutrofia, 36% (n=18) em sobrepeso, 22% (n=11) em obesidade e 6% (n=3) em sobrepeso
conforme apresentados no Gráfico 2. De acordo com a literatura, estima-se que o ganho médio
de pesocorporal em pessoas que cessam com o tabaco pode chegar a 4 ou 6 kg, podendo chegar
a 10% do peso corporal em alguns indivíduos (BALBANI; MONTAVANI, 2005). Estando desta
forma de acordo com a presente pesquisa, tendo em vista o aumento de 8% no total de
indivíduos obesos e diminuição de 8% no número de eutróficos.

FIGURA 1 – Alteração no IMC dos participantes.

IMC Inicial IMC Final

44%
36% 36% 36%

22%
14%
6% 6%

Eutrofia Sobrepeso Obesidade Baixo peso

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Foram questionadas as preferências alimentares dos indivíduos pós- cessação do


tabagismo. Como pode se observar na tabela 2, 52% (n=26) não apresentaram preferência por
nenhum grupo de alimentos, 38% (n=19) relatam uma preferência por doces e 10% (n=05)
preferem alimentos salgados. É importante destacar que maior parte dos indivíduos não
apresenta preferência por um grupo alimentar específico. Esses dados estão de acordo com os
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 127

estudos de Lemos-Santos et al. (2000) onde também foram analisadas diferenças quantitativas
no padrão dietético de tabagistas e não-tabagistas.

TABELA 2 – Preferências alimentares relatadas pós-cessação do tabagismo.

Classes N Percentual
Sem preferência 26 52%
Preferência por doces 19 38%
Preferência por salgado 5 10%
Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Quando indagados sobre as alterações ocorridas no apetite pós- cessação, 68% (n=34)
informaram um aumento no apetite, 18% (n=09) diminuição e 14% (n=07) relataram não ter
ocorrido nenhuma alteração. Quanto ao paladar, 82% (n=41) tiveram uma melhora e 18% não
observaram alterações. Já no olfato foi referida uma melhora em 56% (n=28) dos indivíduose
44% (n=22) não mencionou nenhuma alteração. A maioria dos participantes, 68% (n=34)
relataram melhora no apetite e 82% (n=41) melhora no paladar, o que pode estar contribuindo
para o aumento do ganho de peso. Causados também pelo aumento da ansiedade, aumento do
consumo alimentar, aumento do paladar, aumento do olfato ou também no aumento do
prazer no ato dealimentar-se.

TABELA 3 – Alterações no apetite, olfato e paladar.

Classes N Percentual
Apetite
Aumento no apetite 34 68%
Diminuição do apetite 9 18%
Sem alteração no apetite 7 14%
Paladar
Melhora no paladar 41 82%
Sem alteração no paladar 9 18%
Olfato
Melhora no olfato 28 56%
Sem alteração no olfato 22 44%
Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Sabe-se que a maioria dos indivíduos apresentam mudanças em seus hábitos devido à
ansiedade originada pela abstinência do cigarro, que envolve mudanças alimentares,
metabólicas, psíquicas e sociais (NOVELLO et al.,2000; BOTELHO et al., 2007). Neste trabalho
foi evidenciada a mudança relacionada ao padrão alimentar, onde 52% (n=26) das pessoas
estudadas passaram a se alimentar excessivamente em períodos de nervosismo e/ou
ansiedade.
Observa-se também, uma tendência a substituir cigarros por alimentos como forma de
gratificação oral ou compensação da ansiedade, justificada por uma melhora na sensação
gustativa e olfatória. (NOVELLO et al., 2000). Um total de 54% (n=27) substituíram o hábito de
fumar pelo hábito de se alimentar, conforme apresentados na tabela 4.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 128

TABELA 4 – Mudança no padrão alimentar pós-cessação do tabagismo.

Classes N Percentual
Substituição de fumar por alimentar-se 27 54%
Ingesta excessiva em momentos de ansie- 26 52%
dade
Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Deve-se levar em consideração que o número da amostra estudada é relativamente


pequena, o que demanda um estudo com um número maior de pessoas, além de uma amostra
controle de indivíduos ainda tabagistas e sem alterações em seus hábitos a fim de comparar
resultados para que a pesquisa seja mais fidedigna.

CONCLUSÃO

Houve um ganho excessivo de peso na maioria dos indivíduos que pararam de fumar,
estes não só adquiriram peso como também mudaram seu estado nutricional. As mudanças no
comportamento alimentar desencadearamo ganho excessivo de peso e modificações no habito
alimentar da maior parte dos estudados.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 130

CONTROLE SOCIAL NO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR:


AÇÕES DO CONSELHO DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR DO CEARÁ
Áquila Matheus de Souza Oliveira
Doutorando em Alimentos e Nutrição, Faculdade de Engenharia de Alimentos, UNICAMP.

INTRODUÇÃO

Atualmente deparamo-nos com constantes escândalos de corrupção e desvio de di-


nheiro da alimentação escolar, superfaturamento de recursos, licitações forjadas, dentre outros
casos que denigrem a legalidade do PNAE. Em meio a esses fatos expostos nos canais midiáticos,
discute-se a funcionalidade do Conselho de Alimentação Escolar - CAE, uma vez que, segundo a
Resolução 26/2013, são características do CAE ser órgão colegiado de caráter fiscalizador, per-
manente, deliberativo e de assessoramento com foco no programa.
Este trabalho consiste em um recorte da dissertação de mestrado do autor intitulada
“Conselhos de alimentação escolar: análise dos impactos da atuação no estado do Ceará”,
aborda-se aqui no capítulo questões gerais da atuação do CAE bem como a base teórica de con-
trole social e questões legais dos processos democráticos na história do Brasil.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Controle Social: origem e conceitos

Antes de se adentrar na discussão sobre o CAE, faz-se necessário a discussão da ca-


tegoria que dá embasamento teórico ao estudo: o controle social.
Entende-se por controle social “a prática social que supõe a participação de diferen-
tes setores sociais, em todos os níveis de organização da sociedade, não se dando essa partici-
pação de forma difusa, mas institucionalizada.” (BANDEIRA et al. 2013, p. 345). Definição que
converge com o que está presente na Cartilha Nacional da Alimentação Escolar (BRASIL, 2015,
p. 3) que estabelece controle social como “a participação da sociedade no acompanhamento e
verificação das ações da gestão pública na execução das políticas públicas sociais, avaliando os
objetivos, os processos e os resultados”.
Entretanto, é importante expormos a origem do termo controle social como conceito
sociológico fazendo a sociogênese de tal. A primeira vez que o termo apareceu no cenário aca-
dêmico foi através da obra Social Control: A Survey of The Formation of Order de Edward
Alsworth Ross, publicada em 1901, como uma compilação de artigos publicados no American
Journal of Sociology da Universidade de Chicago nos Estados unidos. Neste livro, o autor discute
sobre a construção e manutenção da “ordem”, entendida na obra como a forma em que qual-
quer sociedade se organiza, tornando-se assim viável. Ross (1901), ao questionar sobre os fun-
damentos e os meios de controle que permitem a vida em comum, argumenta que eles são so-
ciais e encontram-se diluídos entre diferentes instituições, práticas, atributos e meios. Eles se
formam à medida que os próprios indivíduos e a sociedade se constituem. O controle social não

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 131

é, desse modo, algo natural no sentido de pré-existência aos indivíduos e a sociedade, mas é
algo criado, ou seja, socialmente construído. (ROSS, 1901).
A maioria dos pensadores e cientistas sociais americanos até a primeira metade do
séc. XX inspiravam-se no pragmatismo, corrente filosófica muito difundida nos EUA. Assim, a
maioria dos estudiosos das Ciências Sociais alerta para a necessidade de identificar tal referên-
cia na formulação do conceito de controle social.
Para os pragmatistas “a ordem social” é produto do “controle social” e esse é enten-
dido “como autorregulação e resolução coletiva de problemas” (JOAS, 1998, p. 24). Esta propo-
sição é de fundamental importância já que controle social associa-se, aqui, exclusivamente à
manutenção da conformidade social, que não era o que os teóricos do pragmatismo pregavam.
Gurvitch ressalta que a noção de controle social não fique restrita:

[...] ao papel de instrumento do conservadorismo e do tradicionalismo sociais, (...) como


se a renovação permanente dos símbolos, aspirações a valores sempre novos, a criação
de ideais, as reformas, as revoltas, as revoluções, etc., não fossem elementos essenciais
do controle social e especialmente daquelas formas de controle como a moralidade, a
educação, a arte e o conhecimento. (GURVITCH, 1965, p. 249).

Vem de John Dewey, um dos principais fundantes do pragmatismo norte-americano,


um exemplo que complementa a discussão acima. Analisando o papel da escola e da educação
na formação moral dos indivíduos, dedicamos um capítulo de seu livro Experiência e educação
(2010) ao tema do controle social. Dewey destaca três importantes questões na primeira: não
existe sociedade que não produza regras que derivam e possibilitam a vida social e, por conse-
guinte, a própria sociedade; na segunda: estas regras não se opõem a liberdade individual e; na
terceira: tem como resultado o bem-estar coletivo. Fica clara, com o estudo de Dewey a relação
entre o controle social e a educação.
A maior parte daqueles filósofos e cientistas sociais pragmatistas considerava o con-
flito como elemento constitutivo do controle social e da ordem. Ordem não como ausência ou
oposição ao conflito. Só haveria sentido falar em algo efetivamente ordenado e organizado se
tomássemos os conflitos como um elemento pilar da ordem. Neste cenário, a ordem social “deve
ser assimilada pelos próprios atores tanto individualmente quanto coletivamente, tanto con-
sensuada como conflitivamente” (JOAS, 1998, p. 50 e 51).
É importante destacar dois autores que contribuíram também para a construção do
conceito de controle social, são eles Michel Foucault e Emile Durkheim, o primeiro aborda o tema
na ótica do controle como vigilância e disciplina por parte da justiça, como é visto em sua obra
Vigiar e Punir (1977), já o segundo se detém mais, como é comum em seus estudos, as questões de
organização da sociedade, tendo o controle social como uma forma de manutenção e regulação
de ordem da própria sociedade, além de trabalhar um conhecido conceito do autor de Coesão So-
cial.
Como vimos no começo do tópico o conceito de controle social está, hoje, ligado ao
meio pelo qual a sociedade fiscaliza as ações no âmbito da administração pública para não só
garantir as tomadas de decisões que afetam a vida de uma comunidade coesa, mas para garantir
também que as ações sejam democráticas ou ordenadas.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 132

Processos democráticos no Brasil e no mundo

Para entendermos os processos de redemocratização até a implementação dos con-


selhos de controle social, faz-se necessário conceituar a categoria democracia e os processos
políticos democráticos que ocorreram no Brasil.
O termo democracia, amplamente discutido nas ciências políticas, surge desde a an-
tiguidade clássica na Grécia. Em um contexto mais “atual” o termo nos remete ao século XVIII
em um cenário protagonizado por um grupo revolucionário conhecido historicamente como
burguesia. Achamos necessário, por bem, fazer um breve apanhado histórico acerca da forma-
ção da burguesia e da construção da democracia com base nos estudos históricos acerca do
sistema capitalista feito por Comparato (2011).
Os comerciantes inicialmente ignorados e não pertencentes a um sistema político
econômico feudal – constituído por uma tríplice social formada por: clero, aristocracia e cam-
poneses – se isolavam nos castelos feudais, conhecidos como burgos, em uma Europa sem con-
tato e comércio com outras civilizações, devido à invasão árabe no século VIII. Com a retomada
das grandes navegações e do comércio além dos territórios europeus no século XII, a população
cresceu de forma considerável e as atividades comerciais foram retomadas de forma mais in-
tensa, esses centros urbanos em ascensão ficaram conhecidos como burgos de fora e por con-
sequência os comerciantes passaram e ser conhecidos como burgueses. Emerge a partir daí um
novo modelo de sociedade na Europa, caracterizado pelo desligamento com as ideias feudais,
marcados por regimentos de direitos e deveres mais igualitários ao se comparar com o sistema
feudal e caracterizados também pela quantidade de posses e bens de produção que cada bur-
guês possuía e os diferenciava. (COMPARATO, 2011).
Avançando um pouco mais na história, a burguesia protagoniza no século XVIII ou-
tro grande marco histórico, a Revolução Francesa, no qual esse grupo minoritário depôs o po-
der absolutista vigente na época e impôs através de novos ideais de política um novo sistema
marcado, a princípio, por ideias de democracia e maior participação popular.
Ainda nessa conjuntura, Souza (2008) discute dois conceitos de democracia de dois
grandes pensadores, John Locke e Rousseau.

Nas suas Vertentes identificando os conceitos diferenciados de democracia na relação


cidadãos e Estado. Em John Locke, o papel do estado é assegurar os direitos naturais, os
direitos individuais à propriedade, ao ir e vir, ao trabalho e ao comércio. Ao mesmo
tempo, o estado deve exercer sua função controlado pelos representantes Delegados
dos cidadãos. Em Rousseau, identificamos outra vertente democrática. Nela o contrato
social implica a defesa do direito natural à liberdade, mas também à igualdade como
direito vinculado à condição humana. Com esta premissa, Rousseau criou sua teoria de
soberania popular, em que a soberania do povo, formado por indivíduos livres e iguais,
não pode ser transferida por delegação contratual ou monarca ou ao estado parlamen-
tar. Na formação da vontade geral, nenhum cidadão pode perder sua soberania, trans-
feri-la, delegá-la ou dividi-la. Os encarregados de Executar a vontade geral podem ter
seus mandatos revogáveis em qualquer tempo. (IDEM, 2008 p.15).

Entretanto, o que vem se desenhando no contexto democrático nacional e mundial


atual é uma democracia divergente do contexto revolucionário do século XVIII, sem mais a pre-
sença de um inimigo socioeconômico, seja ele o sistema monárquico ou feudal, e estando livre
para controlar e concentrar o mercado, o estado impõe uma ditadura oculta diferente das dita-
duras comuns na história da humanidade e diferente também de sistemas totalitários, marcada

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 133

pelo que se chama de democracia liberal. (IDEM, 2008). O autor ainda reafirma como a demo-
cracia liberal afeta a cultura de uma sociedade, mesmo em tempos atuais.

Assim, mesmo em sociedades tidas como mais "avançadas", a democracia política con-
vive com uma cultura socialmente autoritária. Portanto, nas novas relações sociais e
políticas desenvolvidas pelo Estado atual da acumulação capitalista, o autoritarismo
manifesta-se na produção de uma cultura de dominação, opressão e exclusão, que se
dissemina pelo interior do corpo social, naturalizando-se e acumpliciando-se com os
ritos de democracia liberal. (SOUZA, 2008 p.16).

A década de 1980 é um marco na história política e democrática do Brasil, no que


diz respeito à luta, conquista de direitos e descentralização de poderes, como fica claro na pes-
quisa de Pipitone et al. (2003),

A década de 80, com o clima vigente de redemocratização e resgate da dívida social, traz
uma profunda modificação das políticas sociais brasileiras, no sentido da descentrali-
zação administrativa, diminuição do papel do Estado e estímulo à participação da po-
pulação no conjunto das ações sociais. (PIPITONE, 2003 p.144).

Exemplos desses mecanismos de participação popular são os plebiscitos, referen-


dos, projetos de lei criados pelo povo, audiências públicas, chamadas públicas e os conselhos
de controle social de políticas públicas, todos esses garantidos a partir da constituição federal
de 1988. A constituição de 1988 fortaleceu as conquistas democráticas e “instituiu a participa-
ção da sociedade civil na gestão das políticas públicas em todas as esferas de governo.” (MA-
CHADO, et. al, 2015, p. 306).

Como sabemos, a Constituição Federal (CF) de 1988 deu origem aos conselhos de ges-
tão setoriais das políticas sociais. Ao fazer isso, a Carta Constitucional estabeleceu o de-
senho de uma nova institucionalidade envolvendo distintos sujeitos sociopolíticos e
culturais nos âmbitos estatal e societal. Os conselhos gestores são uma das principais
inovações democráticas no campo das políticas públicas, ao normatizarem a possibili-
dade de espaços de interlocução permanente entre a sociedade política e a sociedade
civil organizada. (GOHN, 2008 p.97).

Os já citados conselhos de controle social de políticas públicas ganham destaque,


uma vez que são setores diretamente ligados às ações governamentais e tem por desafio mediar
o diálogo entre governo e sociedade através do controle social e por meio de ações ditas como
democráticas. Os conselhos são formados para realizar esse controle social nas mais diferentes
áreas; assistência social, saúde, educação, alimentação escolar, dentre outros. Diferenciam-se
pelo caráter normativo, por meio da elaboração de resoluções e pareceres; deliberativa, espe-
cíficos para tomada de decisões finais; consultiva, para assessoramento e fiscalizadora, com o
intuito de fiscalizar a legalidade das ações e aprová-las ou não. (BRASIL, 2015)
Entretanto, alguns autores alertam para a importância de se fazer um resgate na
história da formação cultural e cidadã brasileira, para assim podermos entender as construções
democráticas no país, marcadas, segundo eles, por falhas e agravantes que inibem possíveis
avanços democráticos. Alguns desses fatos históricos podem ser encontrados em obras como
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda ou ainda História econômica do Brasil de Caio
Prado Junior. Souza (2008) se apropria da obra desses autores ao afirmar que,

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 134

Os fundamentos históricos da formação brasileira, assentados nos contornos os postu-


lados coloniais, incorporaram às nossas práticas, à nossa cultura, ao funcionamento de
nossas instituições traços de relações clientelistas, patrimonialista, de autoritarismo, de
naturalização de privilégios e de pessoalidade na condução dos bens públicos. Esses
elementos históricos, constituintes de nossa formação, vão ao encontro e tornam-se pe-
ças da arquitetura modernizante que caracteriza a inserção subordinada do Brasil ao
processo de globalização, no quadro da mundialização da economia. (SOUZA, 2008 p.
16).

Deste modo, fatos expostos na mídia envolvendo desvios de verbas de políticas públicas
e escândalos com atores e gestores de tais políticas, nos levam a refletir sobre a funcionalidade
de tais ações. Tomando como norte todo o contexto político e liberal existente no Brasil, bem
como o histórico de formação dessa cultura de privilégios já citada por Souza (2008) que per-
siste ainda mais forte no sistema público brasileiro.

Os Conselhos de Alimentação escolar: descentralização e formação

Dentre os avanços ocorridos com o processo de redemocratização e luta da popula-


ção por direitos, mesmo que tais direitos sejam questionáveis, a alimentação escolar foi favore-
cida através do Programa Nacional de Alimentação Escolar, como mostra Belik e Chaim (2009):

Na sua fase inicial, o Programa tinha uma ação focalizada, mas, com o tempo, foi ga-
nhando abrangência nacional e, em 1988, a alimentação escolar passou a ser um direito
garantido pela Constituição. Segundo o Artigo 208 da Constituição Federal, “O dever do
Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: VII atendimento ao edu-
cando, no ensino fundamental, a partir de programas suplementares de material didá-
tico-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde”. (BELIK, CHAIM. 2009
p.597).

Ainda contagiados pelos movimentos democráticos de 1988, começam a sinalizar


também ações descentralizadoras, uma vez que “busca caminhos que aliem eficiência e eficácia
das ações do Estado à participação popular.” (PIPITONE et al, 2003, p. 144). Com isso o PNAE,
uma vez centralizado, iniciou seu processo de descentralização, tendo o Rio de Janeiro e São
Paulo como idealizadores desse movimento. Em 1982, os então governadores eleitos dos res-
pectivos estados deram início a um processo conhecido como municipalização da merenda, ou
seja, verbas do programa são passadas dos estados para as prefeituras (PIPITONE et al, 2003).
Apenas em 1994 foi que o processo de descentralização do programa chegou à ins-
tância federal, com a instituição da Lei 8.913 de 1994. Com a descentralização de recursos, a
Fundação de Assistência ao Estudante (FAE), órgão do MEC responsável pelo PNAE e que desde
1997 foi substituída pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), estabele-
ceu convênios com estados e municípios para o repasse de verbas da merenda. (BELIK e CHAIM,
2009).
É importante ressaltar que a descentralização estabelecida em lei foi condicionada
a criação dos Conselhos da Alimentação Escolar (CAE) nos estados e municípios do país. Entre-
tanto,

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 135

O que se destaca na criação do CAE é a forma como foi feita e o descaso das prefeituras
no encaminhamento da questão. O governo federal por meio do Fundo Nacional de De-
senvolvimento da Educação (FNDE), promulgou medida provisória dando prazo de até
2 de dezembro de 2000 para que todos os municípios dos brasileiros criassem os CAEs.
O jornal nacional, da Rede Globo, notificou em 29 de agosto de 2000 que, dos 5500 mu-
nicípios brasileiros, 3700 não haviam até aquela data cumprido o prazo e estavam ame-
açados de não receberem os recursos e, na maioria dos 1800 municípios onde os con-
selhos existiam, eles haviam sido criados antes da medida provisória. Com a pressão
governamental, divulgando por meio da mídia ameaças de suspensão do envio de ver-
bas para a merenda escolar, houve uma corrida para a formação dos conselhos, carac-
terizando um processo de participação outorgada e não fruto de um processo de cida-
dania ativa. (GOHN, 2008 p.105).

O CAE surge então como órgão de controle social do PNAE no intuito de fiscalizar e
garantir que o programa seja executado da melhor forma. Como fica claro no artigo 19 da Lei
11.947/2009.

Compete ao CAE: acompanhar e fiscalizar o cumprimento das diretrizes estabelecidas


na forma do art. 2 desta lei; acompanhar e fiscalizar a aplicação dos recursos destinados
à alimentação escolar; zelar pela qualidade dos alimentos em especial quanto às condi-
ções higiênicas, bem como a aceitabilidade dos cardápios oferecidos [...] (BRASIL,
2009).

O FNDE aponta como principal função dos CAEs “zelar pela concretização da Segu-
rança Alimentar e Nutricional (SAN) dos escolares, por meio da fiscalização dos recursos públi-
cos repassados pelo FNDE” (BRASIL, 2015 p. 8). Nesse sentido o CAE passa a ser um órgão de-
liberativo de fiscalização e de assessoramento ou consultivo instituído nos Estados, Distrito Fe-
deral e municípios.
Quanto à sua composição, fica estabelecido na legislação vigente (11.947/2009) que
os CAEs devem ser compostos “por sete membros titulares, sendo um representante do poder
Executivo, dois representantes de professores, alunos (maiores de 18 anos) ou trabalhadores
da educação, dois representantes de pais de alunos e dois representantes de outro segmento
da sociedade civil organizada, correspondendo um suplente a cada membro titular.” (GALLINA,
2012, p. 92). As eleições são feitas por meio de assembleias específicas, com ampla divulgação
por parte das Entidades Executoras (município, estado e distrito federal). Os representantes de
cada instância (poder executivo, discentes, pais de alunos e sociedade civil) devem indicar seus
membros para a eleição do conselho que tem mandato vigente de quatro anos. Ressalta-se a
exceção para a representação do poder executivo municipal o qual pode ser escolhido por indi-
cação.
Todavia, mesmo com a lei outorgada e o CAE organizado em uma estrutura padro-
nizada, ainda há uma inquietação acerca da funcionalidade do CAE, bem como a necessidade de
que a Lei 11.947/2009 seja cumprida. Isso porque, estando o CAE composto também por mem-
bros do corpo escolar, como os professores e alunos – que são os principais atores da alimen-
tação escolar – é fundamental que as diretrizes da Lei sejam cumpridas, desde a introdução dos
alimentos tradicionais, que respeitem a cultura alimentar do aluno, até a temática de Educação
Alimentar e Nutricional (EAN), que deve perpassar o currículo escolar integrando toda a comu-
nidade da escola.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 136

A alimentação na escola – e o que é servido aos escolares – muitas vezes, é decidida


sem o diálogo com os alunos, apesar de ser dever do CAE “zelar pela aceitabilidade dos cardá-
pios oferecidos” (BRASIL, 2015, p. 23). Esse fato fica claro em pesquisas anteriores como a de
Bezerra (2009) sobre os significados da alimentação escolar em uma comunidade no Ceará.

As referências à merenda geralmente surgem quando eles emitem opinião sobre as coisas da
escola das quais não gostam, ressaltando o predomínio da sopa, o descuido na feitura de
alguns alimentos e a ausência daquilo que eles gostariam de comer. Assim, representam a
merenda como alimento que não corresponde aos gostos deles. Essa não-correspondência da
merenda aos gostos e anseios não se restringe ao alimento em si, mas se aplica também à
prática do servir/consumir com instrumentos (bacias, pratos, copos e colheres) que às vezes
causam repugnância (BEZERRA, 2009, p. 112).

Na escola, a alimentação também tem papel na formação dos estudantes através,


principalmente, das ações de EAN, dessa forma, como é dever do CAE acompanhar, não só os
recursos fornecidos, mas também “fiscalizar a aplicação [...] o cumprimento das diretrizes e ob-
jetivos do PNAE” (BRASIL, 2015 p. 21), seja na esfera municipal, estadual ou distrital. Isso com-
preende também o acompanhamento do processo de inclusão da temática de EAN “no processo
de ensino e aprendizagem, que perpassa pelo currículo escolar, abordando o tema alimentação
e nutrição e o desenvolvimento de práticas saudáveis de vida, na perspectiva da segurança ali-
mentar e nutricional”. (BRASIL, 2009).
Outro fato relevante discutido por Bezerra (2009) é a alimentação escolar como ele-
mento curricular significativo, uma vez que, como registrou o autor, a ausência da merenda
tinha influência direta no cronograma da escola: sem comida na escola, os alunos eram libera-
dos mais cedo. Fica clara, dessa forma, a complexidade do CAE como órgão de controle social e
a importância das ações deste para a funcionalidade do programa, uma vez que envolve toda a
comunidade escolar.
Muitas vezes atribuída apenas à função fiscalizada no CAE, esse possui outras atri-
buições e competências (conforme o artigo 19 da Lei Federal nº 11.947/2009) que o tornam
ainda mais relevantes para o programa, são elas:

1) monitorar e fiscalizar a aplicação dos recursos e o cumprimento tanto das diretrizes


do programa quanto das ações de Segurança Alimentar e Nutricional – SAN e Educação
Alimentar e Nutricional - EAN;
2) analisar o Relatório de Acompanhamento da Gestão do PNAE, emitido pela Entidade
Executora (EEx), contido no Sistema de Gestão de Conselhos – SIGECON Online, antes
da elaboração e do envio do parecer conclusivo;
3) analisar a prestação de contas do gestor e emitir Parecer Conclusivo acerca da exe-
cução do Programa no SIGECON Online;
4) comunicar ao FNDE, aos Tribunais de Contas, à Controladoria-Geral da União, ao Mi-
nistério Público e aos demais órgãos de controle, qualquer irregularidade identificada
na execução do PNAE, inclusive em relação ao apoio para funcionamento do CAE, sob
pena de responsabilidade solidária de seus membros;
5) fornecer informações e apresentar relatórios acerca do acompanhamento da execu-
ção do PNAE, sempre que solicitado;
6) realizar reunião específica para apreciação da prestação de contas com a participa-
ção de, no mínimo, 2/3 (dois terços) dos conselheiros titulares;
7) elaborar o Regimento Interno, observando o disposto nesta Resolução;
8) e elaborar o Plano de Ação do ano em curso e/ou subsequente a fim de acompanhar
a execução do PNAE nas escolas de sua rede de ensino, bem como nas escolas conveni-
adas e demais estruturas pertencentes ao Programa, contendo previsão de despesas

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 137

necessárias para o exercício de suas atribuições e encaminhá-lo à Entidade Executora


(EEx.), antes do início do ano letivo. (BRASIL, 2009)

MÉTODO

A pesquisa eleita foi a qualitativa, uma vez que considera “o universo dos significa-
dos, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (MINAYO, 1994, p. 21)
relacionados ao CAE do estado do Ceará.
O recorte aqui apresentado caracterizou-se como pesquisa bibliográfica por ser “de-
senvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos
científicos” (GIL, 2002, p. 44). Nesta fase foram estudadas as leis, resoluções e normas que re-
gem os conselhos de controle social e a alimentação escolar, focando, principalmente, nos es-
critos sobre o CAE. Realizou-se um estudo de revisão do conceito de controle social e sua di-
mensão educacional, processos democráticos e descentralização no Brasil, englobando a evo-
lução histórica, funcionamento e normas, além da bibliografia referente a currículo e sua rela-
ção com a alimentação escolar, bem como a atuação do CAE nas escolas do estado do Ceará.
A pesquisa de campo teve como base para coleta de dados a “entrevista e observação
participante” (MINAYO, 1992). Realizou-se a técnica da entrevista, pois

A entrevista é o procedimento mais usual no trabalho de campo. Através dela, o pesqui-


sador busca obter informes contidos na fala dos atores sociais. Ela não significa uma
conversa despretensiosa e neutra, uma vez que se insere como meio de coleta dos fatos
relatados pelos atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa que vivenciam uma deter-
minada realidade que está sendo focalizada. Suas formas de realização podem ser de
natureza individual e/ou coletiva. (MINAYO, 1992 p.57)

Foram convidados para responderem a entrevista dez conselheiros, estando disponí-


veis cinco membros da gestão passada do CAE-CE, gestão essa que perdurou em um mandato
de 4 anos (2013-2017) e que permanecem como conselheiros na gestão atual. As entrevistas
foram gravadas e transcritas para o diário de campo e posterior análise e discussão dos dados
obtidos através das falas dos conselheiros. Os entrevistados assinaram Termo de Consenti-
mento Livre e Esclarecido – TCLE (apêndice B), garantindo o ao participante o respeito aos seus
direitos, o projeto foi submetido à Plataforma Brasil aprovado pela Academia Cearense de
Odontologia – ACO.
A análise dos dados se baseou na perspectiva da pesquisa de campo e se dividiu em três
etapas, como expõe Gil (2008): organização dos dados, categorização dos dados e, por fim, a
interpretação dos dados obtidos. A legislação brasileira sobre o controle social, bem como os
estudos já existentes sobre Conselhos de Alimentação Escolar deu suporte na análise dos dados
obtidos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Estado do Ceará possui atualmente uma população de 9 (nove) milhões de habi-


tantes segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2017),
esta população está dividida em 184 municípios, onde se pode encontrar 720 escolas estaduais
de responsabilidade da Secretaria de Educação do Ceará (SEDUC) - CE. Deste total de escolas,
228 oferecem o modelo de jornada de turno integral, das 228, 111 são escolas regulares, en-
quanto 117 são Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEPs), modelo que oferece um
SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 138

ensino técnico profissionalizante integrado ao Ensino Médio, como mostra o infográfico abaixo.
(SAMPAIO e CAVALCANTE, 2018).

FIGURA 1 – Gráfico com o número de alunos matriculados em escolas regulares, educação


profissional e escolas de tempo integral.

Fonte: SAMPAIO; CAVALCANTE (2018).

Por lei, todas estas escolas, bem como as municipais, devem ser atendidas pelo Pro-
grama Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), sendo esse acompanhado pelo Conselho de
Alimentação Escolar (CAE). Tendo este caráter colegiado “porque as análises, as avaliações, as
conclusões e as orientações devem ser tomadas em grupo.” (BRASIL, 2017 p. 20); de caráter
fiscalizador “porque a atividade que desenvolve de acompanhamento e fiscalização do Pro-
grama precisa acontecer de forma separada do governo. A independência é que garante a isen-
ção na análise do que está acontecendo na execução do PNAE.” (BRASIL, 2017 p. 20); delibera-
tivo uma vez que,

[...] a palavra deliberar quer dizer "decidir, determinar, ordenar, resolver


ou dispor. Logo, ao afirmar que o CAE tem caráter deliberativo, o que se
quer dizer é que ele tem competência para decidir, em instância final, so-
bre determinadas questões no PNAE, como no caso da elaboração do pa-
recer conclusivo (atribuição deliberativa). (BRASIL, 2017 p. 21).

E por fim, o caráter de assessoramento que “faz parte da atribuição consultiva do


Conselho. Assim, caberá ao CAE fornecer informações e apresentar relatórios acerca do acom-
panhamento da execução do PNAE, sempre que solicitado” (BRASIL, 2017 p. 21).
Um dos principais pontos que motivou esta pesquisa foram os questionamentos
acerca da abrangência do CAE no Estado do Ceará; como já exposto, o conselho, com seus sete
membros titulares, é responsável pelo acompanhamento e fiscalização de todas as escolas da
rede estadual, que totalizam 720. Conforme dados obtidos através dos discursos dos conselhei-
ros, o CAE enfrenta constantes problemas com relação a abrangência de suas ações, um dos
motivos citados foi a falta de incentivo financeiro, como diárias para viagens mesmo com um
transporte disponibilizado para o CAE oferecido pelo Estado. Porém, a legislação vigente acerca
do CAE afirma que é de obrigação do estado promover as condições de exercício das funções e
atribuições do conselho (BRASIL, 2015).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 139

Enquanto em outro discurso, um conselheiro afirmou não haver necessidade de des-


locamento, uma vez que todas as informações referentes a cardápio, execução e aquisições de
alimentos estão digitalizadas no sistema da SEDUC. O discurso pode nos levar a refletir sobre
um desinteresse ou desconhecimento, por parte de alguns conselheiros, acerca da necessidade
de se fazer visitas às escolas.
O número de membros no conselho também foi um problema enfrentado; um con-
selheiro, em sua fala, afirmou já ter requerido o aumento do número de conselheiros, citando
como exemplo, o Conselho do Estado de São Paulo que possui 20 membros, entretanto, este
mesmo conselheiro alegou que por motivos políticos e de gestão o requerimento não foi levado
à diante.
Todos os conselheiros nos discursos sobre abrangência afirmaram que as ações do
CAE, em sua grande maioria, se restringiam ao município de Fortaleza e Região Metropolitana
de Fortaleza (RMF), atestando, assim, que o conselho não cumpre por completo sua função de
acompanhamento presencial nas escolas. A importância dessas visitas se dá uma vez que são
focadas no contato com os atores para se obter as impressões sobre o cardápio, como: aplicação
de testes de aceitabilidade, conversas com alunos, professores, pais e merendeiras acerca da
comida servida nas escolas e verificação da qualidade dos alimentos servidos nas escolas, bem
como se o que consta no cardápio condiz com a alimentação servida, tópicos que serão discuti-
dos mais à frente.
Essa não abrangência estadual por completa do conselho pode ser demonstrada em
números. A RMF, ou grande Fortaleza, é composta por 19 (dezenove) municípios de um total
de 184 (cento e oitenta e quatro), juntos, esses 19 municípios, conforme informa a SEDUC
(2015), totalizam 264 escolas, sendo 169 dessas em Fortaleza, em um total de 720 em todo o
estado.
Assim, a abrangência do CAE em todo Ceará é de 10,32% conforme exposto na figura
2.

FIGURA 2 – Abrangência do CAE no Ceará.

Fonte: Dados da Pesquisa (2018).

Já a abrangência do CAE tomando por base todas as escolas estaduais, tendo como prin-
cipal foco as da RMF, os números passam a 36,66%, como mostra o gráfico 3.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 140

GRÁFICO 1 – Abrangência do CAE por escola no Ceará.

Fonte: Dados da Pesquisa (2018).

Se excluídas as escolas estaduais apenas do município de Fortaleza, a porcentagem


cai para 12,83% (gráfico 3).

GRÁFICO 3 – Abrangência do CAE por escola sem o município de Fortaleza.

Fonte: Dados da Pesquisa (2018).

A abrangência territorial pode ser apontada como um empecilho para o acompanha-


mento dos CAEs estaduais, se comparada com o acompanhamento dos CAEs municipais. Na
pesquisa de Pipitone et al (2003), de 192 municípios pesquisados na região nordeste do país,
60,38% dos conselhos municipais acompanham o programa diretamente nas escolas. A pes-
quisa de Bandeira et al (2013) com os Conselhos Municipais de Alimentação acerca do acom-
panhamento do programa diretamente nas escolas, também mostra uma média nacional de
36,5%, bem como um estudo com os Conselhos Municipais de Santa Catarina (Gabriel et al,
2013) mostra que 85% dos municípios realizam visitas as escolas e acompanhamento in loco.

CONCLUSÃO

Nos trilhos da pesquisa com os conselheiros percebe-se um cenário tribulado de


constantes disputas de poder, interesses e política. É nítido também uma, já citada, polarização
entre os membros do conselho. Pessoas de segmentos diferentes com distintos tipos de inten-
ção e interesses pessoais ou políticos, com práticas que prejudicam a democratização e trans-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 141

parência do processo. O caráter fiscalizador do CAE deve ser realizado fora das ações do go-
verno, reafirmando-o como Conselho de controle social, responsável por ser os olhos da socie-
dade nas políticas públicas do governo.
Talvez luta seja um substantivo que consiga definir e resumir o percurso do CAE-CE
no processo de construção do PNAE. A luta marcada pela consciência cidadã de pessoas que
optam por não cruzar os braços para os fatos corruptos e clientelistas que mancham e rotulam
a imagem do serviço público brasileiro. A luta marcada pela consciência da importância curri-
cular, pedagógica, nutricional, biológica e afetiva da alimentação na vida do aluno, o simbolismo
que a comida tem desde o cultivo do alimento até o preparo final. A luta marcada pela busca
por mudanças, novas mentalidades da EEx, novas mentalidades dos gestores, ações de EAN e
das outras diretrizes do PNAE que sejam mais amplas e efetivas no ambiente escolar e fora dele,
mudanças no cardápio praticado na escola, outro rótulo que fere a imagem da alimentação es-
colar.

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SUMÁRIO
EIXO III
Fronteiras Moleculares entre Fisiopatologia e o Diagnóstico

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 144

ATIVIDADE ANTIMICROBIANA IN VITRO DO EXTRATO DA PLANTA SPONDIAS


TUBEROSA DO BIOMA CAATINGA EM ISOLADO DE STAPHYLOCOCCUS AUREUS
Jane Cleide Morais
Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Jéssica Da Silva Barreto


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Raquel Dias De Andrade


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Talyta Valéria Siqueira Do Monte


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

José Adelson Alves Do Nascimento


Doutor em Ciências Biológicas pela UFPE e Professor das Faculdade Integrada Cete

José Guedes Da Silva Júnior


Doutor em Bioquímica e Fisiologia pela Universidade Federal de Pernambuco e Professor do
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

O uso de plantas para fins medicinais e fitoterápicos é uma estratégia muito recorrente
na população, em virtude, geralmente, do alto custo das drogas sintéticas e de sua difícil obten-
ção. No passado, por ser o único recurso disponível das comunidades rurais, fazia-se o uso co-
mumente de plantas medicinais para o tratamento de várias comorbidades (SILVA; OLIVEIRA
2018).
O Brasil dispõe de uma grande diversidade de espécies de plantas, muitas delas ainda
não foram estudadas no que diz respeito às suas capacidades terapêuticas (CARTAXO, 2010).
As plantas são fontes para uma ampla variedade de antioxidantes naturais e as biomoléculas
isoladas desses vegetais tem tido suas atividades biológicas, como antimicrobiana, antifúngica,
antiparasitária, antitumoral, anti-inflamatória e cicatrizante, entre outras, constantemente re-
gistradas (PINHO,2012). Deste modo, várias pesquisas científicas vêm sendo apoiadas pelo co-
nhecimento popular das plantas para tratar patologias, e servindo também para estudos
(SOUZA et al., 2013).
A caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, ocupando, aproximadamente, uma
área de 826.411 Km². Apresenta uma vasta diversidade florística, sendo considerada o princi-
pal ecossistema da região nordeste do Brasil (SILVA, 2015). Espécies nativas deste bioma, em

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 145

consequência das condições ambientais, apresentam mecanismos para a adaptação e sobrevi-


vência aos longos períodos de estiagem (OLIVEIRA et al., 2012). Compostos fitoterápicos que
estão presentes na maior parte desta vegetação, resultam em efeitos medicinais benéficos
(CHATTERJEE, 2015). Neste contexto de diversidade, o bioma da caatinga tem um forte poten-
cial bioativo que necessita ser investigado pelas suas ações farmacológicas (SILVA et al., 2014).
Atualmente, as infecções hospitalares estão como uma das principais causas de morbi-
dade e mortalidade, tornando-se um desafio na clínica médica (TEILLANT et al., 2015). O pro-
blema tem se agravado com surgimento de microrganismos multirresistentes, presentes em
infecções hospitalares e comunitárias, diminuindo assim a eficácia da terapia antibiótica. Tais
microrganismos dispõem de diversos mecanismos para adaptação e resistência aos antimicro-
bianos. Por este motivo, é importante que se estude novas formas de intervenções das bactérias
para que se diminua a taxa de contaminação (SANTOS et al.,2015).
Investigações mostraram que Escherichia coli e Staphylococcus aureus são os represen-
tantes mais prevalentes de bactérias e leveduras, respectivamente (PAUDEL et al., 2014). De
acordo com (LOUREIRO et al., 2016), a resistência bacteriana tornou-se o principal problema
de saúde pública no mundo, afetando todos os países. Ela é uma inevitável consequência do uso
descontrolado de antibióticos. Pesquisas para o combate a resistência bacteriana frente aos an-
tibióticos utilizados atualmente, é de urgente e extrema importância. Pode-se afirmar que in-
vestigar a influência das bactérias para a saúde da população, aprofunda a compreensão de no-
vas possibilidades de tratamento.
A busca por novas substâncias antimicrobianas oriundas de fontes naturais, incluindo
plantas, tem se destacado nas companhias farmacêuticas, por apresentam inúmeros compostos
ativos que as tornam importantes para a busca de novos usos terapêuticos. A atividade antimi-
crobiana de plantas nativas do bioma caatinga é uma alternativa economicamente viável que
pode contribuir, caso confirmada sua ação, para a preservação desta vegetação.
Neste sentido, o objetivo deste estudo é realizar uma avaliação, in vitro, da ação antimi-
crobiana do extrato das folhas de Spondias tuberosa frente a cepa de Staphylococcus aureus,
buscando fornecer fundamento científico através dos experimentos.

Plantas Medicinais

A utilização de plantas medicinais pela sociedade é um comportamento presente em


todo o mundo, para cada planta manuseada pelo ser humano tem uma forma de preparo dife-
rente, e podem ser empregadas na obtenção de curar doenças, em formas de pomadas e até
chás. (BORGES, 2017).
Entretanto, todas as espécies vegetais contêm componentes químicos, dos quais podem
ser usados como medicamento, mas isto não a tornam medicinais. Alguns autores defendem
que plantas medicinais são aquelas que a população as reconhece com propriedades medici-
nais, ou seja, que servem para prevenir ou combater diversas patologias (COAN, MATIAS,
2013).

Spondias Tuberosa

O Umbuzeiro por nome científico Spondias Tuberosa, é uma espécie que pertence à famí-
lia Anacardiaceae, originário da caatinga brasileira, sendo bem adaptada a região de terra seca.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 146

Seus frutos destacam-se por ser aproveitado tanto para alimentação humana quanto para a adi-
ção alimentar de animais, principalmente caprinos e ovinos que são rebanhos que se destacam
nessa região (ALMEIDA et al.,2011).
O Umbuzeiro é uma árvore de tamanho pequeno a médio porte, tem por volta de 4 a 10
metros de estatura, copa umbeliforme e de cor cinza, as folhas são verdes e as flores brancas,
seu fruto o umbu é pequeno e arredondado com casca lisa ou aveludada (SOUZA, LORENZI,
2012).
É considerada um dos gêneros mais variáveis do semiárido brasileiro, por suas imensas
formas de utilizar suas folhas, frutos, caule, galhos e raízes, tanto para a alimentação humana e
animal, tanto para uso medicinal, além de formar uma sombra que serve como abrigo contra o
escaldante sol da região, também podendo ser uma árvore sagrada para alguns nordestinos,
que dizem que ela pode transferir sorte, boas energias e espantar o mau-olhado. (BARRETO,
CASTRO, 2010; LINS NETO et al., 2010). A Spondias Tuberosa é empregue pela medicina popu-
lar, para tratar doenças sistêmicas. Para a preparação de infusões, garrafadas e decocções, a
casca que reveste o caule é parte mais utilizada, os efeitos benéficos atribuídos a esta planta
estão diretamente associados aos metabólitos secundários como alcaloides, flavonoides, tani-
nos, saponinas e esteroides (OMENA et al., 2012; SILVA et al., 2012).

Staphylococcus aureus

O Staphylococcus aureus, são cocos Gram-positivos, muito recorrente em infecções de


pele e mucosas dos seres humanos. São apresentados como patógenos de alta relevância clínica,
propondo assim o dever de uma análise mais examinada a respeito de tais bactérias (OGAWA
et al., 2012).
A espécie de S.aureus pode ser apontada como a segunda maior causa de infecções san-
guíneas e estão relacionadas com acréscimo da mortalidade e com o período de internação hos-
pitalar (PURELLO et al., 2014). As cepas de S.aureus causam uma vasta gama de infecções como,
espinhas, furúnculos e impetigo, até infecções mais graves como meningite, pericardite, bacte-
remia e síndrome do choque tóxico. A grande preocupação sobre esta bactéria está na aquisição
e transmissão de cepas resistentes principalmente no ambiente hospitalar (CALFEE,2012).

MATERIAIS E MÉTODOS

Foi realizado um estudo de pesquisa quantitativa, exploratória e experimental, o ma-


terial foi coletado no sítio Quixaba localizado na cidade de Serra Branca no Cariri Paraibano e
em seguida, levado ao laboratório de microbiologia do Centro Universitário Maurício de Nassau
em Campina Grande para análise. Vale salientar que Serra Branca está localizada na região do
cariri, estado da Paraíba, sua população em 2014 foi estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística) em 13.637 habitantes, distribuídos em 738 km² de área.
Para a obtenção do extrato da planta Spondias tuberosa, foram utilizadas as folhas, que
após a limpeza, foram deixadas por 7 dias em temperatura ambiente e 2 dias em estufa de ven-
tilação para secagem.
O material vegetal foi então triturado e macerado, colocadas em um recipiente de vidro
(Becker) e adicionado 1500 mL de etanol a 95%. Em seguida, os macerados foram filtrados e
concentrados a baixa pressão de 500°C em evaporador rotatório. O concentrado foi colocado

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 147

em estufa por 24h a 450°C. A partir destes concentrados foram preparadas as soluções para
testes de atividade antimicrobiana.
O microrganismo testado foi a cepa padrão American Type Colection Culture (ATCC) de
Staphyloccoccus aureus (ATCC 25923) cedida pelo LAB/UFPE, recomendadas para testes de
suscetibilidade (CLSI, 2012). Os inóculos foram preparados tomando-se 3 a 4 colônias da cepa,
isolada em ágar Mueller-Hinton e diluídas em solução salina a 0,85% até atingir a turbidez cor-
respondente ao tubo 0,5 da escala de Mac-Farland (CLSI, 2012).
Para avaliação da atividade antimicrobiana do extrato etanólico bruto, foi empregado o
método de disco-difusão em ágar. Cada suspensão de microrganismo foi semeada em placa de
petri, com auxílio de um swab descartável, em toda a superfície do meio ágar Mueller-Hinton.
Em seguida adicionados discos de papel filtro Whatman – tipo 3, de 6 mm de diâmetro, impreg-
nados com 10 mg do extrato da planta testada, em uma concentração de 500 mg/mL dissolvidos
em DMSO (dimetilsulfóxido). Após incubação das placas a 35°C por 24h foi realizada a leitura
dos resultados medindo-se o halo formado ao redor dos discos contendo o extrato. Conside-
rando como resultado do extrato a média das 3 medidas e como suscetível o halo igual ou acima
de 8 mm de diâmetro (PAREKH et al., 2011).
Todos os experimentos foram realizados em triplicata, e os resultados se mostrarão ex-
pressos em média e desvio padrão. As análises estatísticas, as concentrações que inibem a ati-
vidade e a tabela foram tabulados em uma planilha no software MS Excel 2015.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ao observar a tabela 1, constata-se que o extrato da Spondias tuberosa apresentou ação


antimicrobiana sobre o microrganismo testado. (Tabela 1).

TABELA 1 – Concentrações inibitórias do extrato da Spondias tuberosa sobre a bactéria Sta-


phyloccocus aureus.
Concentração (mg/ml) Inibição (%) DP

4 281,4 274,6
3 154,4 158,1
2 215,6 37,1
1 434,8 294,2
0,8 173,7 21,8
0,6 248,8 116,3
0,4 88 3,4
0,2 75,9 1,7
0,1 169,7 12,1
0,05 181,4 85,4
Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Em relação aos percentuais gerais, o gráfico aponta que houve uma variação de medidas
em diferentes concentrações empregues no experimento, apresentando uma maior inibição de
434,8% com 1mg/mL do extrato, e menor inibição, de 75,9% com 0,2 mg/ml do extrato.
Segundo Rios (2005) para que um extrato vegetal seja melhor aplicado como fitoterá-
pico, a concentração eficaz é menor que 1mg.mL-1. No entanto, com porções tão reduzidas

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 148

deste constituinte orgânico, sua efetividade pode não ser favorável, logo, são sugeridos que se
aplique outros recursos para o melhor aproveitamento, tendo como exemplo a combinação de
plantas e antibióticos.

GRÁFICO 1 – Distribuição do extrato da Spondias tuberosa em concentrações inibitórias do


extrato.

Fonte: Dados da pesquisa (2019).

Foram observados resultados semelhantes em um estudo realizado por Rocha e colabo-


radores (2013), com o objetivo de analisar a ação antimicrobiana da Spondias tuberosa frente
aos seguintes micro-organismos Streptococcus mutans (ATCC 25175), S.salivarius (ATCC 7073),
S. oralis (ATCC 10557), S. parasanguis (ATCC 903). O autor concluiu que o extrato obteve ativi-
dade antimicrobiana e anti-inflamatória.
Segundo Silva (2012) em estudos relacionados com as plantas que pertencem a família
das Anacardiaceae, várias espécies possuem atividade antimicrobiana frente ao Staphylococcus
aureus.
Em um experimento realizado por Santos (2015), no município de Campina Grande, Pa-
raíba, com o objetivo de analisar a atividade antimicrobiana da Spondias tuberosa frente a cepa
de Staphylococcus aureus, chegou à conclusão que o extrato apresentou ação bactericida frente
a essa bactéria e que pode ser uma alternativa para o tratamento de infecções causadas por
microrganismos resistentes.
No mesmo sentido, uma pesquisa realizada no município de Altinho, Nordeste do Brasil,
analisou a atividade antibacteriana de extratos de Spondias tuberosa sobre cepas com perfil de
resistência, dentre elas a Staphylococcus aureus resistente a meticilina, chegando à conclusão
que a S. tuberosa apresenta atividade antimicrobiana sozinha ou em associação com fármacos
comerciais, considerando esta espécie um importante recurso terapêutico para o desenvolvi-
mento de novos medicamentos, em especial para o tratamento de infecções provocadas por
micro-organismos resistente (SILVA; CAVALCANTI, 2015).
Corroborando com o presente estudo, Costa e colaboradores (2013) em estudo in vitro
no semiárido do estado da Paraíba, Brasil, com o mesmo objetivo de avaliar a ação antimicro-
biana do extrato etanólico da Spondias tuberosa contra Staphylococcus aureus, utilizou a técnica

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 149

de disco difusão em ágar, em triplicata. Chegando aos resultados que a Spondias tuberosa apre-
senta atividade antimicrobiana contra essa bactéria.
Os fatores que poderiam explicar a atividade antimicrobiana da Spondias tuberosa seria
a presença de compostos formados a partir da necessidade do organismo vegetal em se
defender ou se adaptar ao ambiente em que está exposto, dentre eles a rutina, quercetina e
ácido elágico. Esses compostos tem ação antimicrobiana e são produzidos quando o vegetal é
atacado por microrganismos como fungos e bactérias (SILVA et al., 2012).
Outra explicação, seria através da presença de esteroides, óleos essenciais, saponinas,
terpenos, compostos fenólicos e alcaloides onde a ação desses compostos, podem resultar em
atividade antimicrobiana, além da presença de polifenois, tatinos e flavonoides, substâncias
antioxidantes (OMENA et al. 2012).
Os polifenois atuam sobre a membrana plasmática da bactéria, causando a diminuição
de proteínas presentes na parede celular (COUTINHO et al. 2012). Já taninos agem sobre o
metabolismo nos microrganismos através da inibição de enzimas e da inativação de proteínas
do envelope celular (SCALBERT, 1991; COWAN, 1999). Segundo CUSHINE (2005) as
substâncias flavonoides inibem a síntese dos ácidos nucléicos de forma a impedir a formação
de pontes de hidrogênio entre bases nitrogenadas, além de perturbar as bicamadas lipídicas
penetrando diretamente e interrompendo a função de barreira.

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados obtidos do extrato de Spondias tuberosa concluiu-se que a


planta apresenta ação bactericida significativa contra a cepa gram-positiva de Staphylococcus
aureus. Sendo assim, esta espécie é promissora, e representa um importante recurso terapêu-
tico para o desenvolvimento de novos fitoterápicos para a indústria farmacêutica.
No entanto, sugere-se a realização de novos estudos com o objetivo de avaliar o extrato
do caule e raiz da planta, a fim de identificar outros metabólitos ativos, responsáveis pelo seu
potencial antimicrobiano, e a sua toxidade. Desse modo, estudos mais específicos e métodos in
vivo devem ser realizados com os extratos desta espécie, para incentivar seu interesse biotec-
nológico.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 152

ALOIMUNIZAÇÃO IMUNOHEMATOLÓGICA MATERNO -FETAL –


UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Amanda Monteiro de Oliveira
Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Maria do Socorro do Nascimento Sousa


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Rayana de Sousa Tavares


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Talyta Valéria Siqueira do Monte


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Laura Maria de Araújo Pereira


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

Maria do Socorro Rocha Melo Peixoto


Doutora em Recursos Naturais pela Universidade Federal da Paraíba e Professora da Universi-
dade Federal da Paraíba

José Guedes da Silva Júnior


Doutor em Bioquímica e Fisiologia pela Universidade Federal de Pernambuco e Professor do
Centro Universitário Maurício de Nassau Campina Grande

INTRODUÇÃO

A gestação é uma fase aprazível na vida da mulher, marcado de mudanças fisiológicas,


essas transformações ocasionam vulnerabilidade ao sistema imunológico feminino, necessi-
tando de precauções médicas pertinentes as respostas imunológicas do organismo (COUTINHO
et al., 2014).
De acordo com o Ministério da Saúde (2006) se faz necessário o acompanhamento pré-
natal gestacional, que tem como o principal objetivo “acolher a mulher desde o início da gravi-
dez, assegurando-a até o término de sua gestação, como também o nascimento de uma criança
saudável e a garantia do bem-estar materno e neonatal”. Esse acolhimento ocorre por várias
vertentes, dentre elas pela necessidade dos exames laboratoriais.
O acompanhamento pré-natal através dos exames de imagens e laboratoriais são pri-
mordiais na prevenção e identificação das patologias congênitas e infectocontagiosas da saúde
de ambos, em razão da viabilização das comprovações para decorrentes interferências clínicas

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 153

em fatores de risco, que possam apresentar complicações à saúde materna infantil (NUNES et
al., 2016).
Nos exames de rotina laboratorial do pré-natal, a detecção do sistema ABO e fator Rh
excedem uma importante função, prevenir uma possível Doença Hemolítica do Recém-nascido
(DHRN) também denominada de eritroblastose fetal. A incompatibilidade sanguínea, sobrevém
através dos antígenos eritrocíticos do sistema ABO ou Rh tendo como ênfase ao antígeno D
(HARTWELL, 1998 apud FERREIRA, 2018 p.11).
Mulheres RhD negativas, em primeira gestação, ao gerarem conceptos RhD positivos po-
dem ser sensibilizadas no momento do parto, produzindo anticorpos anti-D sendo esses per-
tencentes à classe das imunoglobulinas IgG, que em uma segunda gestação os anticorpos anti-
D poderão cruzar a barreira placentária, hemolisando os eritrócitos fetais, causando a DHRN
(NUNES et al.,2016).
Os anticorpos pertencentes a classe das imunoglobulinas IgG, são essenciais ao sistema
imunológico do feto, sendo os únicos capazes de atravessar a barreira placentária através da
corrente sanguínea materna por imunidade passiva adquirida (NARDOZZA et al., 2010). Esse
cruzamento da barreira placentária pode-se compreender uma das formas de decorrência do
fenômeno de sensibilização, chamado de aloimunização ou isoimunização, instituído pelo con-
tato de um indivíduo a antígenos não próprios, induzindo uma resposta imune com produção
de anticorpos através de transfusões sanguíneas ou gestação (BAIOCHI, 2009).
Quando a gestante possui Rh negativo, deve-se realizar de forma obrigatória o teste
imuno-hematológico laboratorial na rotina pré-natal, no qual consiste na pesquisa de anticor-
pos irregulares, o exame é denominado de teste de antiglobulina indireta ou Coombs indireto,
com a finalidade de identificar um potencial DHRN, para assim minimizar os efeitos severos
dessa doença (SILVA, 2011). Uma revisão sistemática desse ano afirma que existe um sério de
viés e certeza do declínio das evidências existentes e de estudos observacionais comparativos
que abordam a eficácia ideal da imunoprofilaxia Rh. Trazendo um cuidado aos comitês de de-
senvolvimento de diretrizes sobre a cautela ao avaliar a força das recomendações que infor-
mam e influenciam a prática clínica nesta área (HAMEL et al., 2020).
Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar na literatura científica so-
bre a aloimunização imunohematológica materno-fetal por meio de uma revisão integrativa di-
recionada ao tema.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de um estudo longitudinal, com abordagem qualitativa, de caráter exploratório,


realizado a partir da revisão de Literatura do tipo Revisão Integrativa, que tem como definição,
um método de revisão considerado específico, que objetiva proporcionar uma ampla visão de
um determinado tema e que tenha assim utilidade para a prática (SILVA et. al., 2015; URSI;
GAVÃO, 2006).
Realizou-se uma busca integrativa por estudos em periódicos indexados nas seguintes
bases de dados: Medline, Scielo, Lilacs/BVS, Periódico Capes e Google Acadêmico. Foi realizada
também a busca manual, onde foram observadas as referências dos artigos incluídos nesta pes-
quisa para leitura completa, e das revisões integrativas já existentes sobre essa temática, na
busca de quaisquer outros estudos potencialmente elegíveis.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 154

Foram identificados 282 estudos primários nas respectivas bases de dados eletrônicas,
sendo na MEDLINE (1), LILACS/BVS (130), SciELO (1), Periódico Capes (113) e Google Acadê-
mico (37). Todavia, a amostra foi constituída de todos os estudos encontrados na estratégia de
busca que corresponderam aos critérios de inclusão.
Incluíram-se na pesquisa artigos em qualquer idioma, sem restrição de ano de publica-
ção que avaliaram a aloimunização imunohematológica materno-fetal. Da pesquisa foram ex-
cluídos os artigos de revisão, resultados inconclusivos, com populações diferentes da escolhida,
indisponíveis na íntegra e protocolos de estudos futuros. O levantamento foi realizado no mês
de outubro de 2020.
Todas as buscas foram realizadas em inglês e português, para selecionar os termos e
montar as estratégias de busca foram utilizados termos do DECS (Descritores em Saúde) e pa-
lavras-chaves assim como o operador booleano “AND”. Cada cruzamento foi adaptado con-
forme as exigências de cada base, onde os descritores utilizados foram: “Isoimunização Rh”;
“Imunização anti-D”; “Eritroblastose Fetal”; “Incompatibilidade sanguínea”; "Rh isoimmuniza-
tion"; "Anti-D immunization"; "Fetal erythroblastosis"; "Blood incompatibility".
De acordo com os achados, realizou-se a construção de um fluxograma (figura 1) descre-
vendo o processo de busca e seleção dos artigos na literatura. Foram identificados 282 estudos,
onde 268 foram excluídos por leitura de título e/ou resumo e mediante essa análise não se ade-
quarem aos critérios de elegibilidade. Doze artigos foram eleitos para discussão.

FIGURA 1 – Fluxograma do processo de busca e seleção dos artigos.

Registros identificados Registros após a remoção


através da pesquisa de de duplicatas (n=280)
banco de dados (n= 282)

Registros Excluídos após análise por título e


resumo (n = 268)

Estudos incluídos na sín-


- População diferente da estudada, com in- tese qualitativa (n = 12)
compatibilidade sanguínea por transfusões;
Fonte: Dados da Pesquisa (2020).
- Artigos que não avaliavam os desfechos de
interesse;

- Artigos indisponíveis com base nas plata-


formas selecionadas;
RESULTADOS E DISCUSSÃO

Realizou-se a construção de um quadro sistemático onde foram registrados os autores,


o tipo de estudo, os objetivos inerentes a pesquisa, e os principais resultados descritos pelos
respectivos artigos coletados que estão delineados como pode ser visto na tabela 1 que apre-
senta as características dos estudos selecionados, do total sendo doze (12), apresentados como
cinco (5) ensaios clínicos, dois (2) estudos descritivos, (3) três estudos observacionais, um (1)
estudo epidemiológico e um (1) relato de caso. Diante da diversidade geográfica de realização
das pesquisas não foi sugerido que há influência de fatores culturais sobre os resultados evi-
denciados.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 155

TABELA 1 – Caracterização dos estudos selecionados.

AUTOR/ANO TIPO DE ESTUDO OBJETIVO PRINCIPAIS RESULTADOS


Estudo descritivo. Descrever 54 casos de transfusões intrauterinas Confirmou-se que a transfusão intrauterina é um procedimento
para tratamento da DHPN grave realizados entre ja- seguro também no nosso meio e com o potencial de salvar a vida
neiro de 1992 e outubro de 1997, pelos de muitos fetos que, de outro modo, estariam condenados.
mesmos profissionaisressaltando complicações e
morbimortalidade perinatal associadas ao procedi-
mento.
G Mari; RL Deter; RL Carpenter, Ensaio Clínico. Determinar o valor de medidas não invasivas da ve- Em fetos sem hidropisia que estão em risco por causa da aloimu-
F Rahman; R Zimmerman; KJ locidade do fluxo sanguíneo na artéria cerebral mé- nização de hemácias maternas, anemia moderada e grave pode
Moise Jr; KF Dorman; A Ludo- dia fetal para o diagnóstico de anemia fetal. ser detectada de forma não invasiva por ultrassonografia Doppler
mirsky; R Gonzalez; R Gomez; U com base em um aumento na velocidade de pico do fluxo sanguí-
Oz; L Detti; JA Copel; R Bahado- neo sistólico na artéria cerebral média.
Singh; S Berry; J Martinez-Po-
yer; SCBlackwell/ 2000.
Francimary de oliveira caval- Estudo Retrospec- Verificar a presença de aloanticorpos eritrocitários, A frequência de aloimunização no estudoRetrospectivo (5,6%)
cante/2005. tivo e Prospectivo. regulares e irregulares, em gestantes Rh Negativo. não apresentou diferença significante com a do estudo Prospec-
tivo(3,5%). A frequência de anticorpos fixados às hemácias, nos
recém-nascidos de mães aloimunizadas, foi bastante alta, de 67%
no estudo prospectivo e de 72,7% no estudoretrospectivo. A fre-
quência de aloanticorpos regulares da classe G foi de 87% nas
gestantesdo estudo prospectivo e a incompatibilidade ABO ma-
terno-fetal foi de 17% para as mães O,com filhos A ou B.
FatemehNasseri; Gholam A Teste controlado e Avaliar se o uso de imunoglobulina intravenosa em A eficácia da IVIg foi significativamente melhor na isoimunização
Mamouri, HomaBabaei/ 2006. aleatório. recém-nascidos com icterícia hemolítica isoimune Rh versus ABO. A anemia tardia foi mais comum no grupo IVIg
por incompatibilidade Rh e ABO é um tratamento 11,8% versus 0%, p = 0,48. Os efeitos adversos não foram obser-
eficaz na redução da necessidade de exsanguíneo vados durante a administração de IVIg.
transfusão.
Maria Eduarda Ribeiro Fer- Ensaio Clínico. Discutir a implementação da determinação do ge- A genotipagem fetal é particularmente útil em grávidas RhD ne-
nandes Valente/2009. nótipo fetal antes da administração da Imunoglobu- gativas não sensibilizadas, uma vez que evita a imunoprofilaxia
lina Anti-D, no sentido de se optar pelamelhor me- por recurso a um derivado do plasma humano.
todologia do ponto de vista económico e social na
profilaxiada Aloimunização.

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 156

P. Bricca; E. Guinchard; C. Ensaio clinico. Detectar e monitorar a aloimunização materna e A genotipagem RH1 fetal no plasma materno e a avaliação da
GuittonBliem/ 2011. avaliar as repercussões fetais ou neonatais a fim anemia fetal pelo estudo da velocidade do fluxo sanguíneo da
de estabelecer o tratamento mais adequado. artéria cerebral média como técnicas não invasivas adequadas.
Samuel L Aitken;Eric M Tichy/ Ensaio Clínico. Avaliar as propriedades farmacológicas da imu- A administração de rotina de RhIG demonstrou ser altamente
2015. noglobulina Rhesus e os dados clínicos sobre sua eficaz na prevenção da aloimunização Rh materna, com taxas
eficácia na prevenção da aloimunização do antí- de sensibilização ao antígeno D (na faixa de 0-2,2%).
geno Rh em mulheres grávidas.
Elione dos santos ferreira/ 2016. Estudo descritivo Investigar os aspectos clínicos na incompatibili- Verificou-se uma significância estatística entre a incompatibili-
tipo coorte trans- dade materno-fetal em recém-nascidos na cidade dade materno-fetal ABO e a presença de icterícia em 26,3% dos
versal. de Manaus. casos (p < 0,0001). O resultado do P.A.I. positivo foi de 0,2% do
total de mães, sendo o anti - RhD o único anticorpo irregular
encontrado.

ShyamSundar Mina, Rash- Relato de caso. Relatar um caso de HDN devido a Rh anti-c em um Exames de aloimunização de eritrócitos não anti-D em gestan-
miBhardwaj, Shobhna Gupta/ bebê de mãe Rh-positiva, que necessitou de ex- tes quanto às incompatibilidades de subgrupos são necessários
2017. sanguíneo - transfusão de duplo volume. para melhor predição e diagnóstico precoce de HDN.
Caroline Klein Maranho/2017. Estudo observaci- Determinar a prevalência dos anticorpos irregula- A distribuição do total de anticorpos irregulares para cada ano
onal com coorte res em gestantes atendidas em maternidades pú- demonstrou forte tendência de crescimento linear.
retrospectiva. blicas.
MaríaÁngeles Sánchez-Du- Estudo observaci- Determinar a prevalência dos diferentes aloanti- O anti-D continua sendo o anticorpo mais comum em fetos que
rán,María Teresa Higueras,Ceci- onal restrospec- corpos anti-eritrocíticos, descrever os resultados requerem transfusão intrauterina.
lia Halajdian-Madrid,MayteAvi- tivo. da gravidez de acordo com uma classificação de
lésGarcía, AndreaBernabeu-Gar- baixo e alto risco para anemia fetal e determinar
cía, NereaMaiz, NuriaNoguéseE- os fatores que influenciam os resultados perina-
lena Carreras / 2019. tais adversos.
Valeria Pegoraro ,Ducciocompe- Estudo epidemio- Tentar quantificar a “lacuna” mundial entre o nú- Sugere-se que em torno de 50% das mulheres ao redor do
tUrbinati,GerardHA Visser,Gian lógico. mero anual de doses de IgG anti-Rh (D) que teori- mundo que requerem este tipo de imunoprofilaxia não a rece-
Carlo Di Renzo,AlvinZipur- camente deveriam ser administradas para mini- bem, presumivelmente devido à falta de conhecimento, dispo-
sky,Brie A. Stotler,Steven L. Spi- mizar o risco de sintetização por Rh (D), e o nú- nibilidade e / ou acessibilidade.
talnik/ 2020. mero anual de doses de IgG anti-Rh (D) efetiva-
mente administradas.
Fonte: Dados da Pesquisa (2020)

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 157

Baumgarten (1997) descreve uma pesquisa sobre o incremento médio na taxa de hemo-
globina por transfusão de 5,69 zh 2,02 mg/dl, com um intervalo médio entre a primeira trans-
fusão e o parto de 4,41 3,0 semanas. A principal complicação ocorrida durante o procedimento
é a bradicardia, que reverteu espontaneamente na maioria das vezes e está associada a óbito
fetal em um caso. O tempo- médio de internação do RN no berçário de alto-risco é de 11,3 a 7,2
dias, sendo que 65% (13/20) necessitam receber uma ou mais transfusões no período neonatal.
A taxa de mortalidade perinatal por procedimento é 7,4%, sendo esta taxa semelhante à rela-
tada na literatura mundial. Há 20% de óbitos perinatais e, destes, a maioria (75%) ocorre em
fetos hidrópicos. Confirmou-se que a transfusão intra-uterina é um procedimento seguro tam-
bém no nosso meio e com o potencial de salvar a vida de muitos fetos que, de outro modo, es-
tariam condenados.
Mari e colaboradores (2000) avaliando concentrações de hemoglobina fetal associado
ao aumento da idade gestacional em 265 fetos normais perceberam que entre os 111 fetos em
risco de anemia, 41 fetos não tinham anemia; 35 tiveram anemia leve; 4 tinham anemia mode-
rada; e 31, incluindo 12 com hidropsia, tinham anemia grave. Concluíram que a sensibilidade
de um aumento da velocidade de pico do fluxo sanguíneo sistólico na artéria cerebral média
para a previsão de anemia moderada ou grave de 100% na presença ou na ausência de hidrop-
sia com uma taxa de falsos positivos de 12%, o que confirma que em fetos sem hidropisia que
estão em risco por causa da aloimunização de hemácias maternas, anemia moderada e grave
pode ser detectada de forma não invasiva por ultrassonografia Doppler com base em um au-
mento na velocidade de pico do fluxo sanguíneo sistólico na artéria cerebral média.
Em uma avaliação de frequência de aloimunização no estudo retrospectivo (5,6%) com
a do estudo prospectivo (3,5%) percebeu que não apresentou diferença significante. A frequên-
cia de anticorpos fixados às hemácias, nos recém-nascidos de mães aloimunizadas, foi bastante
alta, de 67% no estudo prospectivo e de 72,7% no estudo retrospectivo. A frequência de aloan-
ticorpos regulares da classe G foi de 87% nas gestantes do estudo prospectivo e a incompatibi-
lidade ABO materno-fetal foi de 17% para as mães O, com filhos A ou B. O que descreve um
índice de aloimunização irregular no PGRhN ainda muito alto, quando comparado aos trabalhos
de outros autores, mostrando que devem estar ocorrendo falhas na prevenção e possíveis erros
na administração da soroterapia, em situações de risco. Ainda é importante ressaltar nesse es-
tudo, a alta freqüência de aloanticorpos regulares da classe G, que podem induzir a Doença He-
molítica do Recém-Nascido (DHRN) por incompatibilidade ABO (CAVALCANTE, 2005).
Nasseri, A Mamouri e Babaei (2006) realizaram um estudo que incluiu uma amostra de
34 bebês isoimunizados Rh e ABO positivos para teste de Coombs direto, Hiperbilirrubinemia
significativa foi definida como crescente por> ou = 0,5 mg / dl por hora. Os bebês foram rando-
micamente selecionados para receber fototerapia com imunoglobulina intravenosa (IVIg) 0,5 g
/ kg durante 4 horas, a cada 12 horas para 3 doses (grupo de estudo) ou fototerapia sozinha
(grupo controle). A transfusão de troca foi realizada em qualquer grupo se a bilirrubina sérica
excedeu> ou = 20mg / dl ou aumentou> ou = 1mg / dl / h. Por meio dos resultados dessa inter-
venção tem-se que a administração de IVIg a recém-nascidos com hiperbilirrubinemia signifi-
cativa por doença hemolítica Rh reduziu a necessidade de exsanguíneo transfusão, mas na do-
ença hemolítica ABO não houve diferença significativa entre IVIg e fototerapia de dupla super-
fície com luz azul como terapêutica.
Valente (2009) a partir de uma amostra de plasma materno, utilizando a técnica de
Polymerase Chain Reaction (PCR) afirma que é possível determinar o grupo RhD fetal numa
fase precoce da gravidez. A genotipagem fetal é particularmente útil em grávidas RhD negativas

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 158

não sensibilizadas, em que é determinada a negatividade do feto ao antigénio D. A implemen-


tação da determinação do grupo RhD fetal antes da imunoprofilaxia na gravidez implica um
investimento a nível económico que é importante quantificar e avaliar em todas as vertentes.
Embora a imunoprofilaxia a todas as mulheres RhD negativo seja atualmente a estratégia mais
rentável, uma das principais vantagens da genotipagem fetal consiste na sua capacidade de aliar
um custo efetivo de forma decrescente com uma redução de riscos desnecessários para a saúde
pública.
Bricca, Guinchard e Bliem (2011) confirmam os achados de Mari e colaboradores (2000)
em sua investigação sobre o manejo das aloimunizações materno-fetais onde apresenta novas
técnicas não invasivas de vigilância pré-natal sendo utilizadas como alternativa de tratamento
em particular a genotipagem RH1 fetal no plasma materno e a avaliação da anemia fetal pelo
estudo da velocidade do fluxo sanguíneo da artéria cerebral média. A necessidade de monito-
ramento pós-natal cuidadoso deve ser reiterada por causa da anemia neonatal potencialmente
prolongada e o ressurgimento da icterícia neonatal grave.
Nos Estados Unidos e em outros países, o uso generalizado de RhIG reduziu significati-
vamente a ocorrência de doença hemolítica do feto e do recém-nascido (HDFN). Por essa afir-
mação Aitken e Tichy (2015) avaliaram a administração de rotina de RhIG em 26-30 semanas
de gestação e novamente dentro de 72 horas após o parto que demonstrou ser altamente eficaz
na prevenção da aloimunização Rh materna, com taxas muito baixas de sensibilização ao antí-
geno D (na faixa de 0-2,2%) relatado em vários estudos de mulheres em risco. O que apoia o
achado de que a administração rotineira de RhIG a mulheres em risco de aloimunização Rh é
clinicamente eficaz e tornou HDFN um evento clínico raro.
Ferreira (2016) afirmou através de seus estudos se tratando da incompatibilidade ma-
terno-fetal do sistema ABO, mesmo com os resultados dos exames T.A.I e T.A.D negativos houve
uma presença elevada de icterícia neonatal, com agravantes hemolíticos. Nos testes de T.A.I
realizados em puérperas RhD negativas os resultados foram identificados positivos, sendo o
anti-RhD responsável por maior positividade.
Mina, Bhardwaj e Gupta (2017) relataram um caso de uma criança tratada com exsan-
guíneo-transfusão de duplo volume e fototerapia com resposta positiva. Embora os testes de
aloimunização de eritrócitos não anti-D em mulheres grávidas em termos de incompatibilida-
des de subgrupos ainda não sejam recomendados rotineiramente na Índia devido à indisponi-
bilidade, os autores afirmam que a avaliação pós-natal deve ser considerada em qualquer bebê
que se manifeste com icterícia grave e características de hemólise. Admitindo dessa forma que
exames de aloimunização de eritrócitos não anti-D em gestantes quanto às incompatibilidades
de subgrupos são necessários para melhor predição e diagnóstico precoce de HDN.
Maranho (2017) em seu estudo analisou as variáveis de anticorpo(s) materno(s) identi-
ficado(s) no teste de relato de amostras com teste de antiglobulina direto positivo; fenotipagem
ABO/RhD da mãe do recém-nascido, e no caso das amostras de gestantes com suspeita de aloi-
munização e mães dos RN’s, avaliaram-se os anticorpos anti eritrocitário(s) identificado(s) e
fenotipagem ABO/RhD da gestante. A população total avaliada foi equivalente a 585, sendo que
o número de casos de anticorpos irregulares maternos na população estudada foi equivalente
a 45. Os dados coletados apontaram a prevalência de 41% do anti-D sob as outras classes de
anticorpos. Além disso, a associação entre o fenótipo RhD da gestante e a realização do teste de
pesquisa de anticorpos irregulares através do T.A.I demonstrou que o fato do fenótipo RhD ser
positivo ou negativo não influencia na execução do teste (p=0,1672; Coeficiente de Cramer

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 159

equivalente a 0,1783), entretanto, foi possível observar uma predominância do número de ca-
sos de testes de PAI não realizados sob os realizados, em especial em gestantes RhD positivo.
Nesse contexto, Sánchez-Durán e colaboradores (2019) exibem que o anti-D continua
sendo o anticorpo mais comum em fetos que requerem transfusão intrauterina. Uma classifica-
ção de baixo ou alto risco para anemia fetal com base no tipo de anticorpo, fenótipo paterno e
antígeno fetal permite o acompanhamento da gravidez de acordo, com bons resultados perina-
tais no grupo de baixo risco. No grupo de alto risco, os resultados perinatais adversos estão
relacionados ao alto MCA-PSV, hidropsia e idade gestacional precoce na primeira transfusão.
Pegoraro e seus respectivos colaboradores (2020) observaram através dos dados epi-
demiológicos apresentados uma crise global mais de 50 anos após a invenção de medidas efi-
cazes para prevenir esta doença em que centenas de milhares de mulheres Rh (D) -negativas
correm o risco de se tornarem sensibilizadas para Rh (D) devido à falta de conhecimento, acesso
e / ou disponibilidade de imunoprofilaxia apropriada. Isso continua a produzir uma carga glo-
bal pesada de doença Rh (D), caracterizada por morte fetal, anemia neonatal grave, hiperbilir-
rubinemia neonatal e kernicterus, com perda auditiva e paralisia cerebral como possíveis con-
sequências.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisar na literatura científica sobre a aloimunização imunohematológica materno-


fetal é possível inferir que apesar dos longos anos de pesquisa sobre o assunto ainda há muitas
dúvidas e nuances sobre os tratamentos e métodos de prevenção quando se trata da eritroblas-
tose fetal, ainda assim é admissível afirmar por meio da maioria dos estudos analisados sua
importância no diagnóstico e auxilio no tratamento como também seus resultados positivos.
Existem divergências metodológicas claras entre os autores relacionadas as formas de
tratamento, aplicação de técnicas coadjuvantes no tratamento e prevenção, além da inexistên-
cia em alguns do grupo controle para o comparativo, dificultando a investigação mais apurada
e estatística nos bancos de dados da literatura pela presença de vieses, e impedindo a afirmação
clara e segura do uso.
Sugere-se as mulheres um acompanhamento médico mais fidedigno com realização de
exames imunohematológicos durante todo o período gestacional para averiguar a eficiência da
imunoprofilaxia e prossigam com a ultrassonografia com doppler para diagnóstico da anemia
precoce no feto, dessa forma, novas pesquisas sobre o assunto com uma metodologia melhor
descrita, como também com níveis superiores de evidência científica, se utilizando de terapêu-
ticas e populações com o menor viés possível considerando suas particularidades, e nesse sen-
tido acatar as características dos sujeitos e dos tratamentos como importantes de forma que a
intervenção possa ser mais relevante e assim ser reproduzida na prática clínica com fidedigni-
dade.

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SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 162

A RELEVÂNCIA DO SISTEMA FAS/FASL NAS NEOPLASIAS HEMATOLÓGICAS:


LEUCEMIA MIELÓIDE CRÔNICA

Iasmyn Dayanne Santos do Nascimento


Graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário São Miguel
Pós Graduanda em Biologia Molecular pela Universidade de Pernambuco

Dener Geruso Costa Mascarenhas


Graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Olinda

Julia Barroso Cirne de Azevedo


Graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário São Miguel

Elane Beatriz de Jesus Oliveira


Graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário São Miguel
Pós Graduanda em Biologia Molecular pela Universidade de Pernambuco

Dinah Victória Araújo da Silva


Graduanda em Biomedicina pelo Centro Universitário São Miguel

Senyra Maria das Neves


Formação Biomédica pela Faculdade Sete de Setembro, Paulo Afonso-BA

Dilma Messias dos Santos


Formação Farmacêutica pela Universidade Tiradentes, Aracaju-SE

Kateane Santos Santana


Formação Farmacêutica pela Universidade Tiradentes, Aracaju-SE

José Guedes da Silva Júnior


Doutor em Bioquímica e Fisiologia pela Universidade Federal de Pernambuco e Professor do
Centro Universitário Maurício de Nassau em Campina Grande

INTRODUÇÃO

O processo de crescimento de células cancerígenas se difere do processo de células sau-


dáveis em nosso corpo, enquanto células normais participam do processo de crescimento, ma-
turação, multiplicação e morte, as células em processo maligno continuam se dividindo de
forma exacerbada, agressiva e rápida (INCA, 2004). O crescimento celular pode se dar de forma

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 163

controlada ou não controlada. Em casos de crescimento controlado, as células aumentam de


tamanho, porém se mantém localizada e delimitada. Pode ser causado por estímulos patológi-
cos ou fisiológicos e suas alterações enquanto forma e função são pequenas, e são reversíveis
após sofrer alterações por estímulos. A Metaplasia (Alteração no tipo celular- adaptação celu-
lar) e hiperplasia (Aumento de número de células) são exemplos de ampliações normais (ABC
DO CÂNCER, INCA, 2011).
Diferente do crescimento normal, nas células cancerígenas tem-se um aumento descon-
trolado e mal delimitado, e permanece mesmo após o estímulo de parada ou morte celular, com
um rápido crescimento, dessa forma, as neoplasias correspondem a esse aumento celular (MI-
NISTÉRIO DA SAÚDE, INCA, 2011). As neoplasias são proliferações celulares que podem ser
classificadas como benignas ou malignas. Em tumores ditos como benignos, o crescimento se
da de forma mais lenta e a margem do tumor é bem delimitada, embora não ocorra infiltração
em outros sítios, pode ocorrer de comprimir órgãos de acordo com a sua localização. Em tumo-
res ditos como malignos onde mesmo após a célula sofrer um estímulo, seja ele fisiológico ou
patológico, ela continua seu processo de divisão de forma mais rápida, disseminada, e pode ter
características invasivas (Metástase), podendo fugir do controle do organismo parcialmente ou
totalmente (ABC DO CÂNCER, INCA, 2011).
As neoplasias hematologias consistem em uma classe de doenças de origem maligna que
atacam a medula óssea e se dão em locais como: sangue, gânglios linfáticos, fígado, baço (LI-
SANA, 2010). Compreende-se em leucemias, mielomas e linfomas e tem como característica al-
terações no sistema imunológico. Que em geral Resulta da conciliação do tratamento para a
neoplasia com fatores da própria doença. Podem afetar: mucosas, peles, componentes da imu-
nidade específica, inespecífica e humoral (BURIGO, 2007).
Atualmente as doenças neoplásicas hematológicas vêm tendo um constante crescimento
na população, de acordo com o INCA (Instituto Nacional do câncer) a estimativa de novos casos
é de 10.810, sendo 5.920 homens e 4.890 mulheres (INCA, 2020) e o número de mortes pela
doença é de 6.837, sendo 3.692 homens e 3.145 mulheres (2015-Atlas de Mortalidade por Cân-
cer). Diversos fatores podem estar associados ao aumento e progressão da doença, desde expo-
sição à radiação ionizante ou benzeno, até fatores genéticos, como alterações cromossômicas,
com a associação desses fatores, genético mais ambiental, teremos um desencadeamento de
alterações fisiológicas na medula óssea na qual teremos o acúmulo de células doentes e a subs-
tituição das células saudáveis do sangue (SANTOS et al,2014).
A leucemia e é caracterizada por alguma alteração na síntese da cadeia dos glóbulos
brancos e glóbulos vermelhos, essas células podem também chegar a atingir outros órgãos não
hematopoiéticos tais como baço e fígado (ANDRADE et al,2013). Segundo a OMS existem mais
de 12 tipos de leucemias, sendo subdivididas em quatro primários como, leucemia mielóide
(que afeta os eritrócitos, monócitos, plaquetas e granulócitos) e linfoide (que afeta os linfócitos,
macrófagos e plasmócitos) e ainda podem ser identificadas na fase aguda (que tem seu curso
mais acelerado) ou crônica (que não é tratada em um tempo curto, e se agrava lentamente),
sendo assim a leucemia mielóide está correlacionada com as células produzidas nas células
tronco pluripotentes, enquanto a leucemia linfoide está ligada as células linfociticas imaturas e
seus progenitores na medula óssea (SILVA et al.2016).
Com o acúmulo de células alteradas na medula óssea, acarretará no impedimento da
produção de células ativamente saudáveis. O paciente apresentará anemia, pela diminuição dos
glóbulos vermelhos, e com isso, fadiga, falta de ar, palpitação e dores de cabeça, além de baixa

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 164

imunidade, pela diminuição dos glóbulos brancos, deixando o paciente sujeito a infecções se-
cundárias a doença. A diminuição das plaquetas também é um problema recorrente, pois irá
ocasionar sangramentos, sendo os mais comuns das gengivas e pelo nariz e também manchas
roxas (equimoses) e/ou pontos roxos (petéquias) na pele (INCA, 2020). Como sintomatologia
o paciente pode apresentar vários indícios, dentre eles gânglios linfáticos inchados, mas sem
dor, principalmente nas axilas e na região do pescoço; febre ou suores noturnos; diminuição do
peso corporal sem motivo aparente; desconforto abdominal (provocado pelo inchaço do baço
ou fígado); dores nos ossos e nas articulações e com a progressão da doença ela pode afetar o
Sistema Nervoso Central (SNC), podendo surgir dores de cabeça, náuseas, vômitos, visão dupla
e desorientação (INCA, 2020).
Depois de instalada, a leucemia pode progredir rapidamente, exigindo que a classifica-
ção entre os vários tipos ocorra de forma precisa e rápida, ajudando no tratamento e na sobre-
vida do paciente. Entre essas neoplasias destaca-se a leucemia mieloide crônica na qual chega
a atingir 20% da população adulta, a LMC causa uma desordem mieloproliferativas onde é ge-
rada uma exacerbação de células granulocíticas. (BARBOZA, 2000), se origina em uma única
célula progenitora multipotente que adquiriu mutação genética. Encaixa-se no grupo de doen-
ças mieloproliferativas crônicas da classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), junto
com a policitemia vera (PT), trombocitemia essencial (TE), mielofibrose idiopática (MF), leoce-
mia neutrofílica crônica (LNC) e leocemia eosinofílica crônica/síndrome hipereosinofílica. (FI-
GUEIREDO, et al. 2011). A LMC possui uma importante peculiaridade genética, que é a presença
do cromossomo Philadelphia caracterizado pela translocação do cromossoma 9 e 22 (BOLL-
MANN et al,2011). Na maioria dos pacientes, o cromossomo Ph é visto pela análise do cariótipo.
Em raros pacientes, a anormalidade Ph não pode ser vista à microscopia, mas o mesmo rear-
ranjo molecular é detectado por técnicas mais sensíveis: hibridização fluorescente in situ
(FISH) ou por PCR, reação em cadeia da polimerase (HOFFBRAND; MOSS, 2013).
Dentro das características principais que temos dentro das leucemias, dois pontos são
bastante estudados, que são o seu grande poder de escape frente ao sistema imunológico e as
suas rápidas alterações no controle de morte celular. Essas características podem estar direta-
mente ligadas a genes específicos. Dentre as pesquisas mais recentes, temos o sistema do re-
ceptor FAS com seu ligante FASL responsável em desencadear o sistema de apoptose (morte
celular programada) das células leucêmicas, esse mesmo mecanismo auxilia no tratamento
desta neoplasia, entre a escolha terapêutica encontra-se o imatinibe cuja sua ação é inibir a
síntese da proteína BCR-ABL desta leucemia (SOSSELA et al, 2017).
Portanto, o objetivo deste trabalho fundamentado nas revisões bibliográficas é contribuir para
um melhor esclarecimento do mecanismo de ação do sistema FAS/FASL na leucemia mielóide
crônica, dentro do contexto clínico da doença, tornando mais fácil e rápida a tomada de decisões
durante a conduta médica, avaliando o impacto que esse sistema tem para possíveis soluções
terapêuticas ou marcadores moleculares.

MÉTODO

Consiste em uma análise bibliográfica visando à obtenção de dados sobre a relevância


do sistema FAS/FASL nas neoplasias hematológicas, especificamente no caso da leucemia mie-
lóide crônica, onde foram utilizadas para busca as palavras chave: leucemias, leucemia mielóie
crônica, cromossoma Philadelphia, apoptose, sistema FAS/FASL, terapia medicamentosa, tera-

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 165

pia inibidora. As fontes utilizadas foram: revistas científicas, nacionais e internacionais nas ba-
ses de dados científicos como a SCIELO, Pubmed, Bibliomed, Bireme, dados da Organização
Mundial de Saúde, do ministério da saúde e do Instituto nacional do câncer. Assim, essa pes-
quisa considerou artigos, monografias, teses, dissertações, livros, e boletins epidemiológicos,
publicados entre os anos de 2001 a 2020, sendo essas publicações nos idiomas português, in-
glês e espanhol.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Cromossomo Philadelphia

O cromossomo Philadelphia resultante de translocações t(9; 22) (q34; q11.2) ou suas


variantes é um evento definidor da leucemia mielóide crônica. Pode ser observado em alguns
tipos de leucemia aguda de novo (termo em latim que significa- recidiva da doença), ou na leu-
cemia linfoblástica B (KURT et al, 2018). Essa translocação gera um gene hídrico chamado
BCR/ABL a qual irá sintetizar a oncogênese, genes relacionados ao crescimento de tumores,
(Figura 1), logo esse mecanismo atuará diretamente no descontrole da divisão celular e na evo-
lução da leucemia mielóide crônica (PEIXOTO, 2017).
O gene BCR pode resultar em diferentes subtipos de BCR/ABL que altera o fenótipo (ca-
racterística observável) da doença. Essa anormalidade citogenética adquirida transcreve RNA,
que codifica uma proteína com atividade tirosina-quinase maior que a proteína produzida pelo
ABL “selvagem”. Dependendo do ponto de quebra no BCR, o produto final da fusão pode ser M-
BCR (major), m-BCR (minor) ou mcBCR. Sendo o M-BCR mais comum na LMC. (FIGUEIREDO,
et al. 2011).

FIGURA 1 – Formação da oncogênese BCR-ABL.

Fonte: MARTINS (2016).

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 166

Durante a translocação t(9;22) entre o cromossomo 9 e 22, resulta em que parte do on-
cogene ABL1 é transferido para o gene BCR no cromossomo 22 e parte do cromossomo 22 é
transferido para o cromossomo 9. Essa translocação reciproca traz a maior parte do gene ABL
no cromossomo 9. O ponto de ruptura do ABL é entre os éxons 1 e 2. O ponto de ruptura no
BCR é em um de dois pontos na região do principal grupo de ruptura (M-BCR) na LMC ou em
alguns casos de LLA Ph+. Isso resulta em uma proteína de fusão de 210 kDa derivada do gene
de fusão BCR-ABL (HOFFBRAND; MOSS, 2013).
Todos os subtipos de transcritos do BCR-ABL codificam proteínas de fusão com atividade tiro-
sina quinase (responsáveis pela fosforilação de substratos proteicos) constitutiva que é essen-
cial para estimular a leucemia através do aumento da proliferação e crescimento de células tu-
morais, reduzindo a adesão ao estroma da medula óssea e promovendo angiogênese (cresci-
mento de novos vasos sanguíneos), metástase e uma resposta apoptótica defeituosa.
A tirosina quinase presente na leucemia mielóide crônica é responsável pela sinalização
tanto da porção BCR da molécula como da sequência ABL, ambas irão interferir conjuntamente
nos mecanismos celulares através de vários estímulos nos quais induzem a medula óssea a pro-
liferar diversas células malignas da linhagem mielóide (REZENDE et al, 2017).
Desta forma os fármacos de inibidores de tirosina quinase possuem uma importante relevância
devido a capacidade de induzir as células leucêmicas a entrarem em processo de apoptose. Uma
compreensão dessa via de sinalização e a sua alteração levou ao desenvolvimento de inibidores
de tirosina quinase e de pequenas moléculas direcionados ao BCR-ABL1, direcionadas especi-
ficamente ao estágio em que se encontra a evolução da leucemia mielóide crônica no paciente.
Essa terapia geneticamente direcionada melhorou drasticamente o resultado de pacientes com
leucemia mielóide crônica (VIEIRA, 2016; KURT et al, 2018).

Sistema FAS/FASL

Apoptose é a morte celular programada que é desencadeada a partir de um feedback


fisiológico, patogênico ou citotóxico, este por sua vez exerce um papel fundamental na manu-
tenção da homeostasia tecidual em condições normais de morte celular e proliferação ou em
determinadas patologias como as neoplasias hematológicas onde ocorre uma desregulação
desse fator (FREITAS,2012). Logo o processo de apoptose é desenvolvido por duas vias que
resultam numa via comum de morte, na qual a ativação da capase e apoptose, entre elas: a via
intrínseca ou mitocondrial (Figura 2), que é caracterizada por alguma lesão no DNA por radia-
ção ou toxinas, aonde essa vida é regulada por proteínas anti e pró-apoptóticas da família BCL-
2 (proteína reguladora da ativação da caspase e desempenha um papel fundamental na morte
celular) que estão localizadas na membrana externa da mitocôndria, no citosol ou na membrana
do Retículo endoplasmático, onde essas proteínas regulam a permeabilização dessas membra-
nas e regulam a liberação de fatores pró-apoptóticos (MEDINA, 2011; NUNES, 2017).
Além das proteínas da família BCL-2, também temos as caspases (um grupo de proteases
baseadas em cisteína, enzimas com um resíduo de cisteína capazes de fragmentar outras pro-
teínas), estão presentes em células saudáveis e são ativas mediante a estímulos, como a irradi-
ação, estão pressentes no ciclo da apoptose e também auxiliam na proliferação celular, po-
dendo ser dividias em iniciadoras e efetoras (MEDINA, 2011). Enquanto a via extrínseca (Figura
2), que é caracterizada através da interação de receptores e seus respectivos ligantes (através

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 167

de sinais externos), e pode ocorrer com ou sem a participação efetiva da mitocôndria. Os recep-
tores de morte celular pertencem à família TNFR (Receptor de fator de necrose tumoral), na
qual o FAS faz parte, juntamente com o seu ligante FASL (MEDINA, 2011; GALLUZZI et al, 2012).

FIGURA 2 – Apoptose: via Intrínseca e via Extrínseca.

Fonte adaptada: MEDINA (2011).

O sistema FAS/FASL (Figura 3) dessa forma, tem se tornado um mecanismo extrema-


mente relevante. Atuam na via extrínseca e a depender da sinalização poderá haver uma des-
regulação na expressão dos genes pró e anti-apoptóticos tornado as células leucêmicas mielói-
des resistente ao processo de apoptose (TOGNOM et al,2013). O FAS também conhecido como
CD95 ou APO-1 é expresso na maioria dos tecidos celulares, sua ligação com o FASL se dá atra-
vés da presença de cisteínas (aminoácido não essencial) nas porções extracelulares (MEDINA,
2011). Para que ocorra o processo de morte celular o FASL (ligante) conecta-se a FAS (recep-
tor), as moléculas presentes no receptor trimerizam-se e se ligam a uma proteína presente no
citosol chamada FADD (cadeia da morte associado ao FAS), que por sua vez ativa as caspases-8
que consequentemente ativa as capases-3, conhecidas como efetoras, pois clivam proteínas da
célula o que resulta na apoptose. Esse sistema é responsável pelo o aumento da expressão das
células neoplásicas devido ao descontrole do processo de apoptose (BERGANTINI et al, 2005;
SANTOS, 2014). A sinalização dessa via pode também estar relacionada ao crescimento e a pro-
liferação celular, pois estas funções parecem estar ligadas aos níveis basais do sistema
FAS/FASL, uma vez que em estudos anteriores com a diminuição dessas moléculas, tiveram

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 168

também a diminuição da massa tumoral. Relacionada a hepatocarcinogênese também vista em


estudos anteriores, com a presença da molécula FAS foi observada uma melhoria na regenera-
ção hepática (MEDINA, 2011).
Por haver uma diminuição do receptor FAS e aumento do seu ligante FASL, faz com que
as células leucêmicas fiquem resistentes a morte celular programada, e em contra posição esse
mecanismo contribui como auxilio terapêutico para os portadores desta neoplasia pelo o fato
de se ter a presença da proteína BCR-ABL, cuja sua elevação poderá direcionar o tratamento
terapêutico (BARROS, 2012).

FIGURA 3 – Processo de sinalização de apoptose FAS/FASL.

Fonte: VOLPE (2016).

Outro importante mecanismo de regulação da morte celular mediado por FAS/FASL é o


controle da expressão do ligante FASL. Enquanto FAS é expresso na superfície de vários tipos
celulares e com abundância particular no timo, fígado e rim, a expressão de FASL é controlada
por interações proteína-DNA específicas, através de alguns fatores regulatórios, de cresci-
mento, repressores e nucleares. Além disso, a modulação desses fatores de transcrição depende
rigorosamente das indicações ambientais, incluindo estresse citotóxico, agentes nocivos ao
DNA e interleucina (IL), que promovem a expressão de FASL, transformando o fator de cresci-
mento beta, ácido retinóico, óxido nítrico e vitamina D3 que reprimem a expressão do ligante
FASL (SILVA, 2012; VOLPE, 2016). A via FAS-FASL tem se mostrado necessária não só na regu-
lação da renovação das células supressoras mielóides, mas também a morte de células T, na
exclusão de células B autorreativas , na hipermutação somática de células B, na citotoxicidade
de células T NK e CD8, na apoptose de células endoteliais e na ativação das funções dos macró-
fagos contra infecções (VOLPE, 2016).

Linhas Terapêuticas

Entre essas linhas terapêuticas encontra-se o uso da hidroxiuréia aonde a mesma ira
atuar na síntese do DNA, cujo seu objetivo é diminuir a proliferação das células leucêmicas e

SUMÁRIO
Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 169

das células normais, consequentemente na diminuição do baço, salienta-se que este fármaco
induz o processo de apoptose por via intrínseca desacelerando a progressão da doença para o
estagio de crise blastica (MEDEIROS, 2014).
Outra terapia utilizada no tratamento da LMC é o interferon alfa cuja sua ação é diminuir o
crescimento e divisão celular mieloide no intuito de potencializar a ativação da apoptose das
células leucêmicas, com isso ocorre uma minimização células neoplásicas no sangue periférico
e uma menor proporção do cromossoma Ph na medula óssea (AVILÉS-VÁZQUEZ et al,2013).
A LMC tem curso clínico constituído por uma fase crônica seguida invariavelmente pela
crise blástica (CB), podendo ou não passar pela fase acelerada. Na FC a doença é controlável
clinicamente com o uso de medicações mielossupressoras como bussulfano ou hidroxiuréia,
que levam a regressão do tamanho do baco e normalização do hemograma, porém com persis-
tência do clone Ph na medula óssea. Já o uso do interferon (alfa-IFN), associado ou não a outras
drogas como citarabina ou hidroxiuréia, pode levar a remissão clínica, hematológica e citoge-
nética cerca de 20% dos pacientes. Nesse caso a pesquisa do cromossomo Ph será negativa pe-
las técnicas habituais e deverá ser confirmada pelo FISH. Há uma graduação de interpretação
do desaparecimento do Ph, sendo considerada boa a resposta quanto há menos de 35% de ce-
lular Ph+, tendo esses pacientes estimativa de sobrevida em média 90% em 5 anos. O PCR tem
sido positivo nos pacientes em remissão citogenética em uso de alfa-IFN, na medida em que não
há erradicação do clone maligno, mas não tem sido associado a recaída iminente (LORENZI,
2011).
O imatinibe foi desenvolvido como um inibidor específico da proteína de fusão BCR-
ABL1 e bloqueia a atividade da tirosinoquinase por competitir com a ligação de trifosfato de
adenosina (ATP). É o fármaco de primeira linha no tratamento da fase crônica da doença. Na
dose de 400 mg/dia, produz uma resposta imunológica completa em quase todos os pacientes,
efeitos colaterais incluem exantema, retenção de líquido, câimbras musculares e náuseas. Po-
dem ocorrer neutropenia e trombocitopenia e pode haver necessidade de redução da dose ou
suspensão do fármaco. As respostas ao tratamento com imatinibe podem ser definidas como
ótima, sobótima ou insatisfatória ao tratamento. Pacientes com resposta ótima continuam o
tratamento recebendo imatinibe, enquanto pacientes com resposta insatisfatória passam a tra-
tamento com uma tirosinoquinase de segunda geração (TKI) ou transplante de células tronco
(TCT). Em pacientes com resposta subótima, pode se sustentar um aumento de dose de imati-
nibe para 600 ou 800 mg/dia, mudança no tratamento com TKI ou TCT precoce (HOFFBRAND;
MOSS, 2013). Um outro ponto a ser destacado em relação a terapia da LMC é o transplante de
medula óssea alogênico, que continua ser um único método de cura, porém para realizar-se este
procedimento é necessário esta na fase crônica da leucemia (PEREIRA; MACHADO, 2014).
O TCT alogênico é um tratamento curativo da LMC estabelecido, mas, devido ao risco, é
reservado para o fracasso do imatinibe. Os resultados são melhores quando o procedimento é
feito na fase crônica, em vez de realizado nas fases aguda ou acelerada. A sobrevida de 5 anos
está em 50 a 70%, embora essa estimativa baixe para aproximadamente 10% se o transplante
for adiado para além de um ano do diagnóstico. Apesar de os arquivos internacionais de doa-
dores de medula óssea terem papel crescente e importante no fornecimento de doadores HLA
compatíveis não relacionados, o TCT alogênico só pode ser oferecido a uma minoria dos paci-
entes. Recidiva da LMC depois do transplante é um problema significativo, mas infusões de leu-
cócitos do doador são bastante eficazes na LMC, sobretudo se a recidiva for diagnosticada pre-
cocemente por detecção molecular do transcrito BCR-ABL1. (HOFFBRAND; MOSS, 2013).

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Fronteiras em Saúde: Uma Abordagem Multiprofissional | 170

Por fim, os fármacos inibidores da tirosina quinase utilizados no tratamento da LMC são
os de primeira e segunda geração, sendo o de primeira geração mais utilizado como padrão
para o tratamento por demonstrar eficácia em todas as fases da leucemia, entre eles destaca-se
o imatinibe que atua diretamente na inibição da proteína BCR-ABL bloqueando as atividades
da tirosina quinase (FRIZZON et al, 2016).

CONCLUSÃO

Esse estudo nos permitiu revisar todo o aspecto clínico e epidemiológico que envolve os
processos leucêmicos, explorando conceitos já estabelecidos, diagnósticos já aplicados e trata-
mentos utilizados. A leucemia mielóide crônica pode ocorrer qualquer idade, embora seja mais
comum entre os 40 e 60 anos, apresentando, portanto, pacientes com a idade mais avançada e
a saúde possivelmente mais fragilizada. Esse trabalho também nos permitiu compreender os
aspectos genéticos que afetam diretamente todo o curso clínico da doença, seu tratamento,
prognóstico e pós-tratamento. Com isso, concluímos que a translocação do cromossomo 9 e 22
que geram o cromossomo Philadelphia e apesar de já ter sido bastante estudado e pautado na
comunidade científica, continua sendo um importante marcador citogenético, assim como o on-
cogêne BCR/ABL, gerado pela translocação, e que está diretamente ligado a codificação de tiro-
sinas quinase, onde estimulam a proliferação e crescimento das células modificadas, continua
sendo um importante marcador molecular. O mecanismo de controle apoptotico FAS/FASL
também alvo desse trabalho, se mostrou também um importante marcador molecular, não só
para a leucemia, mas como para outros tipos de câncer, pois esse sistema faz parte de uma im-
portante via dentro do contexto da apoptose, que é a via extrínseca e a sua ativação se torna
necessária para a ativação das caspases e dessa forma, a morte celular. Esse sistema também é
responsável pelo aumento da expressão das células neoplásicas e seu possível crescimento e se
dentro desse sistema ocorrer um descontrole no seu processo de ligação ocorrerá consequen-
temente uma alteração no processo da apoptose, alterando a homeostasia celular. Com o en-
tendimento desses mecanismos, a conduta terapêutica se torna mais eficiente e geneticamente
especificas, auxiliando em possíveis tratamentos. Com isso, o mecanismo FAS/FASL pode se
tornar um importante aliado na terapia medicamentosa através de fármacos inibidores da tiro-
sina quinase.

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