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"Quando o mundo estiver


unido na busca do
conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder,
então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um
novo nível."
Título original: Adolf Hitler: A Captivating Guide to the Life of the Führer of Nazi
Germany
 
© Copyright 2019 Captivating History
© da tradução 2020 by Bárbara Novais
 
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(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Adolf Hitler : um guia fascinante da vida do führer da Alemanha nazista / [tradução


Bárbara Novais]. -- 1. ed. -- Rio de Janeiro : Agir, 2021. -- (História em Uma Hora)
 
Título original: Adolf Hitler: A Captivating Guide to the Life of the Führer of Nazi
Germany
ISBN 9786556400938
 
1. Alemanha - História - 1933-1945 2. Biografia 3.Hitler, Adolf, 1889-1945 4.
Nazismo - Alemanha - História I. Novais, Bárbara. II. Série.
 
20-46823 CDD-943

Índices para catálogo sistemático:


1. Hitler, Adolf : Alemanha : História 943
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
Sumário

Capa
Folha de rosto
Créditos
Introdução
Parte I — Origens
O filho de Alois e Klara
Tumbas e suásticas
O verdadeiro jovem Hitler
Uma vida dedicada à arte
A epifania
Parte II — O início
A capital antissemita da Europa
Munique
Primeira Guerra Mundial
Cego de raiva
Parte III — A ascensão
Hitler, o orador exaltado
Tentativa fracassada
Mein Kampf
Duas descobertas
Ascensão ao poder
Parte IV — A queda
Cinquenta anos e no topo
A guerra-relâmpago
À procura de “espaço vital”
A “solução final”
Colapso
Os restos mortais de Adolf Hitler
Referências bibliográficas
Colofão
Introdução

Como alguém sendo perseguido por um caçador durante uma


tempestade de neve, Adolf Hitler passou boa parte da vida tentando apagar
os rastros de seu passado. No entanto, enquanto fazia o possível para
enganar um caçador, outro surgia. Os caçadores, nesse caso, são os
historiadores que, com o surgimento do homem forte na Alemanha — o
estadista que destruía a Europa com a velocidade da luz, mergulhando o
mundo na guerra mais devastadora e dispendiosa, que levou ao genocídio
de judeus, ciganos e outros grupos indesejáveis —, começaram a investigar
o momento e as circunstâncias de sua consagração. De que forma e quando
ele foi capaz de ludibriar uma nação inteira? Como Ian Kershaw indagou,
Hitler foi uma consequência natural da história alemã ou uma aberração?
Não que ele estivesse escondido ou esperando para atacar. O führer vinha
seguindo uma política externa agressiva e selvagem havia quase dez anos e
fora nomeado Pessoa do Ano pela revista Time em 1938.
Por décadas, houve incertezas sobre sua família e infância, como a
respeito da época em que ele era um boêmio e artista fracassado em Viena,
de suas verdadeiras realizações como recruta na Primeira Guerra Mundial e
dos detalhes de sua rápida ascensão política na Alemanha. Todo o seu
passado havia sido repintado com cores gloriosas pela máquina de
propaganda nazista, sem mencionar que o próprio Hitler não dera muito o
que falar em seus primeiros dias. Alguns de seus biógrafos mais
importantes, como Joachim Fest, atribuíram seu zelo obsessivo por apagar o
próprio passado à mente de um propagandista habilidoso. Hoje, com o
apogeu de Hitler já no passado, se ainda resta um personagem na história
estudado nos mínimos detalhes não só por historiadores, mas também por
médicos, psicólogos, artistas, sociólogos e até arquitetos, é ele. Uma ironia
do destino para o homem que demonstrava uma raiva incontrolável quando
alguém publicava uma fotografia de sua família ou trazia à tona algum
aspecto desconhecido de sua juventude conflituosa e depressiva.
Como todo grande líder, Hitler foi produto de forças maiores do que ele
mesmo, mas o führer soube assimilá-las e arremessá-las contra o alvo certo
com a promessa de oferecer uma solução final aos problemas de “seu”
povo, acrescentando dois ingredientes essenciais à fórmula: uma mistura de
medo e admiração. Assim, foi capaz de conduzir uma sociedade
esclarecida, avançada e culta como a Alemanha à barbárie e ao genocídio.
Para os estudiosos dos movimentos de massa, ao descartar a noção absurda
de que Hitler estava possuído ou a explicação simplista de que ele era
louco, é de particular interesse compreender como tal figura, que não
poderia ter feito nada sozinha, conseguiu manipular e submeter a vontade
de uma nação inteira. Como várias vezes foi observado, se os inúmeros
filmes que mostram a excitação e a histeria que ele despertava nas aparições
públicas não existissem, seria difícil acreditar que contasse com o apoio
inegável não só de muitos alemães, mas de várias pessoas em outras partes
do mundo.
O psiquiatra Gustav Jung — que certa vez tentou fazer com que um
médico respeitado declarasse Hitler louco —, depois de vê-lo se dirigir a
uma multidão, comentou que o führer, ao contrário de Mussolini, a quem
Jung via como um homem comum, não
 
carecia de individualidade, (ele foi) confundido com a alma coletiva de
sua nação e possuído pelo Inconsciente Coletivo desta (...). Nem mesmo
pelo Inconsciente Coletivo de uma só nação, mas de uma raça inteira (...)
ele representa a todos, ele fala por todos eles. E, se o faz gritando, é
porque uma nação inteira, uma raça inteira, está se expressando por meio
dele.
 
De sua parte, Hitler escreveu: “A luta permanente é a lei da vida, quem
deseja viver deve lutar.” Pode-se presumir que ele não estava pensando
exclusivamente em questões militares; suas palavras foram influenciadas
pela estrada tortuosa que, como muitos alemães, ele teve de percorrer nas
difíceis primeiras três décadas do século XX.
Este não é um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, e sim sobre o
homem, Adolf Hitler, um dos rostos e nomes que ainda despertam os
sentimentos mais fortes — repulsa, ressentimento e até fanatismo —, mas
que também teve uma infância e uma juventude, pai e mãe, e sobretudo
uma fase da vida em que era inocente, como qualquer outro ser humano.
Este livro trata da estrada para a loucura, começando naquele dia, em agosto
de 1934, no qual ele assumiu o poder absoluto e ordenou fidelidade e
lealdade apenas a ele próprio.
PARTE I
ORIGENS
Assim, desenhei o retrato do jovem Hitler o melhor que pude de memória.
Mas, para a pergunta então desconhecida que pairava acima de nossa
amizade, não encontrei até hoje qualquer resposta: o que Deus queria
dele?

August Kubizek, amigo de infância de Hitler, em The Young Hitler I


Knew
O filho de Alois e Klara

Um dos maiores desafios que qualquer biógrafo de Adolf Hitler


encontra é reconstruir seus primeiros anos com base em fontes confiáveis.
Os relatos de sua juventude quase sempre são filtrados pela lente de seus
atos posteriores. A partir do final do século XX, os historiadores
começaram a dar maior ênfase aos anos de formação de grandes figuras —
na medida em que estivessem disponíveis — não para psicanalisar, mas
para tentar compreender as forças que moldaram quem elas se tornaram.
Descrever as origens do führer requer um trabalho de detetive — a
objetividade foi obscurecida, apesar do tempo relativamente curto
transcorrido desde sua morte, não por falta de fontes, mas porque o
historiador precisa lidar com duas posições igualmente radicais: a primeira,
aqueles que veem em Hitler um monstro em formação desde a infância, o
mal encarnado, uma espécie de anticristo psicológica e espiritualmente
incapacitado, retratado sob a pior luz possível; a segunda, aquela constituída
por alguns simpatizantes nazistas sobreviventes na forma de revisionismo
em vários volumes lançados recentemente, que o apresentam desde a sua
juventude como um adolescente forte, determinado e brilhante a caminho
de se tornar um dos maiores líderes de seu século, e não pior do que outros
estadistas de seu tempo. Nessa reconstrução, deve-se também lidar com o
testemunho do próprio Hitler e sua exagerada autoglorificação em forma de
livro, a autobiografia intitulada Mein Kampf [Minha luta], escrita em uma
prisão de Landsberg.
A história começa em uma cidade muito pequena no nordeste da Áustria
chamada Strones, hoje em dia eliminada do mapa. O pai de Hitler, Alois
Schicklgruber, nasceu lá. O homem de rosto rechonchudo e expressão
severa, cujas pálpebras caídas foram herdadas pelo filho Adolf, vinha de
uma família de camponeses pobres que viviam entre o rio Danúbio e a
fronteira da Boêmia — nos dias de hoje a República Tcheca —, em
pequenas cidades distantes umas das outras, em meio a densas florestas. Os
arquivos da paróquia registraram o nome da mãe de Alois, Maria Anna
Schicklgruber, mas não o de seu pai. Alois era filho natural de Maria Anna.
A identidade e a etnia do pai de Alois têm sido objetos de especulação sem
fim, incluindo que ele era judeu e que Maria Anna trabalhava como criada
em sua casa, mas não são mais do que suposições. A identidade de seu avô
paterno já era, desde quando Hitler era vivo, um enigma e fonte de
aborrecimento para o ditador, como outros aspectos de sua vida familiar.
Maria Schicklgruber casou-se mais tarde com um moleiro chamado Johann
Georg Hiedler, quando Alois tinha cinco anos. Hiedler pode ter sido ou não
o pai de Alois. De qualquer forma, a relação entre os dois deve ter sido
cordial, já que na idade adulta, por volta dos quarenta anos, Alois mudou
oficialmente seu sobrenome, registrando-se como “Hitler”, uma grafia
alternativa para “Hiedler”. Até hoje não está claro por que ele escolheu
alterar essa grafia.
A mãe de Adolf Hitler chamava-se Klara Pölzl. Ela era 23 anos mais
jovem que Alois. Uma garota de aparência gentil com cabelos loiros
espessos, nascida em Spital, na Áustria, ela foi a terceira esposa dele.
Também houve especulações e declarações sensacionalistas sobre Klara,
como o fato comprovado de que Alois a conheceu quando ela trabalhava
como criada em sua casa e a engravidou quando ainda era casado com a
segunda esposa. Quando ficou viúvo, ele concordou em se casar com Klara,
que já exibia uma gravidez visível. Ela também tinha parentesco de segundo
grau com Alois, a quem chamava de “tio”, embora fossem primos. Para
poderem se casar, eles tiveram de pedir dispensa na igreja local. Alois, de
48 anos, era um oficial da alfândega amargurado, rígido e inflexível, com
um temperamento irritadiço e um trabalho que o obrigava a mudar de
residência com frequência. Por causa do trabalho árduo, ele ascendeu na
burocracia austríaca, não para uma posição econômica privilegiada, mas
para a confortável classe média. Por um tempo se tornou apicultor e
fazendeiro, mas essa alegria não durou.
Sua esposa, Klara, nunca superou a relação inicial que os unia, de
inferioridade e servidão; ao longo da vida como casal, ela permaneceu
abaixo dele e cumpriu os deveres de uma criada, frequentou a igreja e
obedeceu às ordens do burocrata irritadiço. A união de Alois e Klara gerou
seis filhos, mas não muitas alegrias. O primeiro, Gustav, nasceu cinco
meses após a cerimônia de casamento, seguido por uma menina chamada
Ida. Ambos morreram de difteria com alguns meses de diferença no inverno
de 1888. Acredita-se que o terceiro filho, Otto, também morreu na infância.
Assim, o casamento de Alois e Klara foi atingido pela morte de todos os
seus filhos, até que a sorte mudou em 1889 com o nascimento de Adolf, no
dia 20 de abril às 18h30.
O quarto filho nasceu em uma casa de três andares em Braunau am Inn,
hoje parte da Áustria, então um vilarejo na fronteira com o Império Alemão.
Klara, uma mulher devota, batizou e consagrou seu filho na Igreja Católica.
Um fato que não passou despercebido por historiadores e psiquiatras é que
durante seus primeiros cinco anos de vida Adolf foi o único filho do casal, o
que lhe rendeu atenção especial tanto da mãe quanto do pai. Isso não
significa que foi necessariamente benéfico para a criança. Para sua mãe,
durante cinco anos cruciais, Adolf foi o filho que sobreviveu; para o pai, o
depósito de todas as suas expectativas.
Tumbas e suásticas

Em 1892 a família estabeleceu-se em Passau, e dois anos depois


Alois comprou uma casa com frontão e quatro janelas, duas de cada lado da
porta, localizada na rua Michaelsbergstrasse, 16, em Leonding, na Áustria.
O menino que morava ali desde os três anos, com os fantasmas dos irmãos
nos ombros, via todos os dias um campo cheio de lápides e cruzes de sua
janela. A casa estava localizada em frente ao cemitério. Hitler frequentou a
escola pública em Fischlham perto de Lambach, um prédio não maior do
que uma casa comum, onde passou seus primeiros dois anos de educação
primária.
Quando ele tinha seis anos, um novo membro chegou, um bebê chamado
Edmund. Embora essa época da vida de Hitler seja sombria, é inegável que
interesses artísticos surgiram na criança. Aos oito anos ele se interessou por
aulas de canto no Junior Choral Institute e participou do coral da igreja, no
qual teve a oportunidade de “embriagar-me com o esplendor solene dos
brilhantes festivais da igreja”, nas palavras dele. Hitler mais tarde lembrou
esse período como o mais feliz de sua vida.
Tanto o jornalista e romancista Norman Mailer quanto o professor de
história da arte Sherree Owens Zalampas, entre outros, mencionam em seus
livros que na entrada do mosteiro onde Hitler cantava quando criança havia
uma suástica esculpida em pedra, o brasão de um velho abade chamado von
Hagen, que tinha presidido a abadia em meados do século XIX. O próprio
von Hagen foi objeto de vários estudos como astrólogo e defensor do
ocultismo. O abade supostamente também usava um anel com uma suástica
(Zalampas, 1990). A possibilidade de o menino Adolf ter ficado
impressionado com as histórias do abade que ouviu durante os ensaios e
apresentações do coral, e a suástica de von Hagen — ainda que não idêntica
à do nazismo — ter sido armazenada em sua memória para uso posterior,
vem sendo objeto de especulação e deleite de vários historiadores, embora
Mailer alerte que não se deve dar muita atenção a esse episódio. No entanto,
em sua autobiografia Hitler certamente admite que por um tempo nutriu o
desejo de se tornar padre. “Como era natural, o abade me parecia (...) o
ideal mais elevado e desejável” (Hitler, 2016).
Ele gostava particularmente das histórias dos antigos heróis alemães, e
tinha um apego especial por um livro muito usado nas escolas da
Alemanha, escrito pelo pastor Gustav Schwab, intitulado Sagen des
Klassischen Altertums [Lendas da Antiguidade Clássica], contendo histórias
de heróis e sagas da mitologia grega. Seu livro favorito era um álbum
ilustrado da Guerra Franco-Prussiana. O jogo favorito de Hitler foi
apelidado por seus amigos de “Boers contra os britânicos”. “Ele sempre
queria ser o líder quando jogávamos”, disse seu amigo de infância Josef
Ransmeir ao correspondente de guerra Robert Richards em 1945, logo após
a morte de Hitler.
 
Se não pudesse liderar, não jogava. Ele gostava de brincar de pega-pega e
às vezes de luta. E sempre quis lutar contra os índios, mas sempre como o
líder. Mesmo quando tinha oito ou nove anos, vi seu rosto (sic) ficar
vermelho e seus olhos arregalarem-se de raiva repentina se outra pessoa
contestasse sua liderança. E, se não pudesse ser o líder, abandonava o jogo
e procurava outros meninos.
 
Em Mein Kampf, Hitler diz que desde muito jovem começou a
desenvolver habilidades de falar em público e liderança. “Eu tinha me
tornado um pequeno líder no meu círculo; na escola, eu aprendia com
facilidade e muito bem naquela época, mas era bastante difícil de lidar.”
Epopeias de guerra, inclinação artística, fascínio pela liderança e obsessão
pelo passado alemão formaram o mundo do jovem Adolf Hitler, porém um
obstáculo quase intransponível estava diante dele: seu pai. As expectativas
de Alois para o filho não poderiam ser mais díspares. Hitler conta como
Alois, o oficial da alfândega, presumiu que seu filho se tornaria um servidor
público, apesar do fato de Adolf ser apaixonado por arte e livros.
 
Bocejei e fiquei com o estômago embrulhado só de pensar em me sentar
em um escritório, privado de minha liberdade; deixar de ser o senhor de
meu próprio tempo e ser compelido a forçar o conteúdo de uma vida
inteira em espaços em branco que tinham de ser preenchidos (Hitler,
2016).
 
Em seu relato, a oposição de vontades foi intensa e incorporou dois
mundos diferentes: a disciplina, a aridez e a rotina simbolizadas por seu pai,
contra a arte, a liderança e o êxtase religioso e artístico que constituíam seus
interesses, embora possivelmente esta seja uma imagem idealizada. Seu
colega de escola Josef Ransmeir lembrava bem o conflito entre pai e filho:
 
Hitler nunca se importou com o pai. Eu (sic) os vi muitas vezes frente a
frente, olhando um para o outro, cada vez que a vontade de seu pai falhou
em dominá-lo. Acho que essa era a maior característica de seu caráter —
ele não suportava ser dominado por ninguém nem por nada. Ele tinha de
estar no topo ou nada feito.
 
Em 1898, a família era composta por Alois, Klara e mais três filhos:
Adolf, nove anos; Edmund, quatro anos; e o novo membro da família,
Paula, de dois anos. Mas, mais uma vez, um raio atingiu a casa dos Hitler.
Quando Adolf tinha seis anos, Edmund adoeceu com sarampo e morreu
pouco depois, em março de 1900. O acontecimento foi um terremoto
emocional na vida de seu irmão mais velho. Hitler tinha 11 anos. Assim,
antes de terminar a escola primária, Adolf Hitler já tinha uma carga
emocional avassaladora em seu inventário de vida: culpa do sobrevivente,
estar ciente de que era o único filho vivo (com exceção de Paula), uma
aguda sensação de solidão, mudanças de casa constantes e confrontos
brutais com seu pai. Como poderia ser esperado, nesses anos ele começou a
mostrar um fraco desempenho na escola e até mesmo mudanças em sua
aparência física.
Alois não apenas tinha sérias discussões com o filho, como também batia
nele — ainda que, verdade seja dita, não fosse muito diferente do pai
comum da época. Uma das entradas do diário de Paula Hitler — descoberto
em 2005 pelos historiadores Timothy Ryback Reich e Florian Beierl,
embora a comunidade acadêmica não tenha dado um veredito final sobre a
autenticidade — revela uma família disfuncional onde a violência era
comum. Se Alois batia no filho Adolf, este, por sua vez, batia na irmã de
sete anos. Em uma das surras, a mãe, Klara, correu para proteger Adolf com
o próprio corpo. Ele estava deitado no chão e ela tentava absorver os chutes
descontrolados do pai. “Eu nunca amei meu pai. Portanto, eu o temia ainda
mais. Ele tinha um temperamento terrível e muitas vezes me chicoteava”,
confessou Hitler na idade adulta (Zalampas, 1990). Em Mein Kampf, ele se
refere ao pai como alcoólatra, embora não abertamente. Mas, pelo menos,
na taverna favorita de Alois havia uma placa receptiva na porta que dizia:
“Seja cristão, pagão ou judeu, temos uma bebida que espera por você” (Life,
1940).
O verdadeiro jovem Hitler

Biografias simpáticas a Hitler, sobretudo sua autobiografia escrita na


prisão, retratam os confrontos com o pai como uma espécie de descida ao
inferno, de onde o menino emergia como um jovem poderoso e
determinado, tudo com o inconfundível sabor da propaganda.
Aparentemente, Adolf era na verdade um menino de gênio difícil que
costumava ter problemas, com um desempenho escolar medíocre. A
maioria dos historiadores concorda que ele era pouco cooperativo e não
tinha capacidade para o trabalho regular, um menino preguiçoso que
inventou o conflito entre o pai burocrata e o filho artista para justificar seu
fraco desempenho acadêmico. Alguns biógrafos, como Fest (2013), supõem
que, embora seja verdade que havia um choque entre os dois
temperamentos, esse fato é mais bem explicado devido à disciplina de ferro
em casa do que por questões vocacionais. O interesse de Alois pela carreira
do filho deve ter sido irrelevante, beirando a indiferença.
O comportamento de Adolf na escola estava se tornando insuportável para
professores e alunos. Ele era insolente, não tinha interesse em cooperar e
começou a desenvolver o hábito de pregar peças em quem cruzava seu
caminho, como soltar baratas na sala de aula e incitar os colegas de classe a
ter um comportamento arrogante com os professores. August Kubizek, um
de seus poucos amigos na adolescência, escreveu na própria autobiografia:
“Adolf era extremamente violento e muito nervoso. Coisas bastante triviais,
como algumas palavras impensadas, podiam produzir nele explosões de
temperamento” (Kubizek, 2011).
Em 1903, alguns anos após sua aposentadoria e desfrutando da nova
liberdade, Alois morreu. O ex-oficial de 66 anos foi dar uma caminhada
matinal, entrou em sua taverna favorita a alguns quarteirões de casa, a
Gasthof Wiesinger, pediu uma taça de vinho e caiu morto no sofá antes que
pudesse provar a bebida. Encontrar a morte em uma taverna certamente foi
um fim cruel para um homem disciplinado. No entanto, sua morte não foi
causada pelo excesso de bebida, mas por uma hemorragia pulmonar
repentina. Hitler chorou pelo pai; o funeral na igreja estava lotado. Ele
podia ter tido um temperamento ruim, mas era um membro respeitado da
comunidade. “Palavras ásperas saíam de seus lábios”, dizia seu obituário
em um jornal de Linz.
A morte de Alois, uma nova tragédia na vida do jovem, também
significou a extinção do que Adolf até então tinha visto como uma força da
natureza bloqueando tudo o que ele queria. Ironicamente, pode ser que a
morte do pai e a consequente ausência de autoridade tenham afetado mais
seu desenvolvimento psicológico e acadêmico. Klara tentou persuadir o
filho a seguir os desejos do pai, mas se deparou com uma obstinação
inabalável e mais apatia em Adolf.
Livre do domínio de Alois, Adolf mudou-se para uma pensão em Linz
para ficar mais perto da Realschule, onde teve aulas de desenho técnico e
aprendeu as habilidades básicas de contabilidade, tudo de que precisava
para se tornar um burocrata ou comerciante. A partir desse momento, há
bons relatos em primeira mão sobre Hitler. Seu amigo August Kubizek, que
escreveu The Young Hitler I Knew [O jovem Hitler que eu conheci],
geralmente dando uma boa impressão do ex-colega de classe, o descreve
por volta de 1904 como um adolescente inteligente, interessado em arte,
mas com saúde debilitada, como um “jovem notavelmente pálido e magro”,
interessado em ópera e teatro, local onde se conheceram. Hitler viu sua
primeira ópera, Lohengrin, aos 12 anos. E ficou extasiado na mesma hora.
Segundo o amigo de infância, ele já tinha a aparência de um estudante
refinado, com uma “bengala preta e um elegante sapato marfim”.
O dr. Franz Jetzinger, ex-membro do parlamento austríaco que se tornou
historiador, acredita que um véu foi lançado sobre a juventude de Hitler em
uma época em que ainda era possível reconstruir sua infância. Ele o retrata
como um jovem frustrado e ressentido, “magro, pálido, sonhador solitário,
obstinado, rebelde, com súbitas explosões de energia que logo se
evaporavam”. Talvez seja esse o motivo pelo qual Adolf não conseguiu
fazer amigos em Linz — exceto por August. Na Realschule, a realidade
simples da sua família contrastava fortemente com a dos outros alunos,
cujos pais eram professores universitários, empresários e funcionários
públicos de nível superior. Hitler raramente falava de sua família. Anos
depois, a dona da pensão lembrou-se dele como um jovem recluso e
estranho que passava horas desenhando e lendo, embora em Mein Kampf
Hitler insista em se retratar como um líder nato seguido pelos colegas,
sempre prontos para aceitar as aventuras que ele sugeria. Kubizek relata ter
ouvido de Hitler que odiava seus colegas, sua escola e que a partir de certo
momento seus professores nem o cumprimentavam mais.
 
Ele tinha uma tendência particular para a preguiça, aliada a uma natureza
obstinada, e estava, portanto, mais interessado e mais preocupado em
seguir sua própria inclinação. Aqui, surpreendentemente, ele provou ser
um fracasso total. Teve de repetir duas vezes uma série, e na terceira vez
foi aprovado apenas após passar em um exame especial. No boletim
escolar, em diligência regularmente lhe atribuíam nota quatro
(insatisfatório). Apenas em conduta, desenho e educação física ele recebia
notas satisfatórias ou boas. Em todas as outras disciplinas, raramente
recebia notas mais altas do que insatisfatórias ou adequadas. Mesmo em
geografia e história, que ele mesmo chamava de suas disciplinas favoritas
e afirmava que “era o melhor aluno da classe”, recebia apenas notas
baixas. No geral seu boletim era tão ruim que ele deixou a escola. (Fest,
2002)
 
No entanto, Hitler pelo menos mostrou um grande interesse por um dos
temas: história, em especial a história da Europa, e desenvolveu uma estima
especial por um professor chamado Leopold Pörsch, cujas aulas e
eloquência o levavam às lágrimas.
O interesse pelas artes não havia desaparecido. Adolf continuou a pintar,
só que agora também escrevia poesia e carregava seus escritos para todos os
lugares. Um de seus lugares favoritos era um banco em Turmleitenweg
onde podia ler seus livros na solidão, fazer esboços de animais e pintar
aquarelas das paisagens urbanas. Quando seu isolamento se aprofundou, ele
mudou o “estúdio ao ar livre” para uma colina nos arredores da cidade, de
onde ele poderia ver o Danúbio.
Uma vida dedicada à arte

Em 1904, a escola pediu a Hitler que deixasse a instituição. Sem


sucesso, sua mãe fez uma última tentativa. Suas notas na Realschule eram
tão ruins que, ao vê-las, Hitler se embebedou e usou o boletim como papel
higiênico (Fest, 2013). Porém, o fato de o jovem poder continuar seus
estudos, e até pagar uma pensão, indica que seu pai não os havia deixado na
pobreza, como Hitler mais tarde quis dar a entender. Em 1905, Klara
finalmente desistiu e deixou o filho abandonar a escola e se dedicar à arte,
como era o desejo dele. Sem dúvida, Hitler tinha ideias românticas sobre o
que constituía a vida de um artista: a busca pelo ideal, o lazer, a liberdade,
seguir impulsos, sem as exigências de um trabalho regular. Mas seu
interesse pela arte era indisciplinado e inconsistente. O jovem teve períodos
delirantes de esboçar e desenhar projetos urbanos que um dia usaria para
remodelar a cidade de Linz. Depois teve aulas de piano, nas quais ficava
entediado, o que o levou à ópera e o fez se deleitar com a música de
Richard Wagner, apenas para retornar às suas aquarelas, vagando pela
cidade ou sonhando acordado no apartamento de Klara, que àquela altura já
havia vendido a velha casa e se mudado para um lugar menor com a filha
Paula.
Em 1905, Hitler iniciou seu período boêmio sem planos para o futuro. Seu
amigo Kubizek disse que ele nunca seguiu uma profissão, embora em Mein
Kampf Hitler desminta a afirmação dizendo que planejava se tornar
arquiteto, e, como qualquer artista indistinto, ele se elogiava
eloquentemente por suas habilidades de desenho, chamando-se de artista
revolucionário. “Meu talento para a pintura foi superado pelo meu talento
para o desenho, sobretudo em quase todos os campos da arquitetura.” Nesse
mesmo ano ele visitou a cidade de Viena pela primeira vez, tentou
inscrever-se na Academia de Belas-Artes de Viena, que realizava os exames
de admissão em outubro, mas foi rejeitado e, por isso, ficou profundamente
deprimido. Na capital da Áustria, Hitler passava o tempo se deliciando com
as coleções no museu, assistindo a óperas como Tristão e Isolda, O
holandês errante e Lohengrin. Supostamente em uma dessas ocasiões, no
Museu de Viena, ele ficou fascinado com um objeto de grande antiguidade:
entre as joias da coroa do Sacro Imperador Romano, ou a Imperial Regalia
de Carlos Magno, estava a chamada Lança do Destino, ou Lança Sagrada, a
relíquia cristã que afirmam ter perfurado o tórax de Jesus Cristo. “Quem
quer que reivindique essa lança e resolva seus segredos tem o destino do
mundo em suas mãos, para o bem ou para o mal”, dizia a lenda (Vazquez,
2017).
Um último infortúnio selou os anos de formação de Adolf Hitler. Um ano
depois de ele deixar a escola, sua mãe, de apenas 46 anos, começou a sentir
dores no peito. Negligente quanto aos cuidados médicos, ela finalmente foi
a um médico judeu chamado Edward Bloch, que a diagnosticou com câncer
de mama. Hitler voltou para casa com a intenção de oferecer o apoio
necessário. Até assumiu as tarefas domésticas quando a mãe passou por
uma mastectomia total, mas o câncer já estava em metástase.
Klara morreu em casa em 21 de dezembro de 1907. Ela foi enterrada no
cemitério de Leonding em uma manhã nublada, dois dias antes do Natal.
Hitler ficou devastado. Segundo o médico, ele nunca tinha visto ninguém
tão desolado por uma morte como Adolf naquele inverno trágico: rejeitado
pela Academia de Belas-Artes, sem dinheiro para pagar o médico — que
generosamente perdoou a maior parte da dívida —, com a herança do pai
gasta em viagens a Viena e agora órfão de pai e mãe. O governo austríaco
concedeu a ele e a Paula uma pensão modesta, mas Hitler cedeu sua parte à
irmã, já que a menina tinha apenas 11 anos. Pelo resto da vida, ele guardou
uma foto de sua amada mãe, a sofredora Klara, sempre preocupada com a
saúde de seu pálido e delicado Adolf.
A epifania

Foi naquela hora sombria que Hitler teve, de acordo com seu amigo
August Kubizek, sua epifania, em uma noite em novembro.
 
Foi a hora mais impressionante que já vivi com meu amigo (...) quando
olho para trás, o que ficou comigo de forma mais nítida e clara na minha
amizade com Adolf Hitler não são os seus discursos nem suas ideias
políticas, mas aquela única hora no Freinberg.
 
Eles tinham visto uma apresentação de Rienzi de Richard Wagner, que
terminou depois da meia-noite. Kubizek caminhava com entusiasmo pelas
ruas desertas de Viena, mas Hitler estava absorto em um silêncio assustador.
Os dois amigos foram até o topo de uma colina para observar as luzes da
cidade. Lá em cima, no Freinberg, em um momento de êxtase místico, com
uma voz diferente da dele, Adolf começou a falar sobre uma missão
especial que iria receber e sobre as visões de um grande futuro para ele e
para o povo alemão. Embora parecesse uma situação bastante estranha na
época, Kubizek afirma que foi ali que seu amigo deixou de ser um simples
aspirante a artista e se tornou um estadista.
 
Quem falou comigo naquela hora estranha foi um jovem cujo nome até
então não significava nada. Ele falou de uma missão especial que um dia
seria confiada a ele, e eu, seu único ouvinte, mal conseguia entender o que
ele queria dizer. Muitos anos se passaram antes que eu percebesse o
significado daquela hora extasiante para meu amigo. Descemos para a
cidade (...) e fiquei espantado ao ver que ele não ia na direção de sua casa,
mas virava de novo em direção às montanhas. “Aonde você está indo
agora?”, perguntei surpreso. Ele respondeu sucintamente: “Quero ficar
sozinho.”
 
Muitos anos depois, de acordo com Kubizek, Hitler admitiu que foi
naquele momento que “tudo começou”. Boa parte dos biógrafos de Hitler
encara esse episódio com extrema cautela, e por um bom motivo, já que
mostra traços do desenvolvimento lendário e da dependência literária de
outra história conhecida: a subida à montanha, o chamado místico, a
incompreensão dos discípulos e, finalmente, o pedido do mestre para ser
deixado em paz. Mas, se é verdade que as metáforas formam a linguagem
natural do pensamento, se a memória (a de Kubizek nesse caso) muitas
vezes assume a forma de parábola e a parábola aponta para uma verdade
mais do que factual, impossível de expressar em palavras, então deve ter
sido naquela época, em Viena, inspirado pelas sagas de grandes guerreiros e
pela música de Wagner, que o jovem Adolf iniciou seu caminho de
transformação de boêmio alienado a estadista monstruoso.
PARTE II
O INÍCIO
Cabe a mim decidir quem é judeu.

Karl Lueger, prefeito de Viena, a chamada capital antissemita da Europa


Em 1907, Hitler mudou-se definitivamente para Viena, e nas
semanas seguintes seu amigo August Kubizek seguiu seus passos. Antes de
partir para a capital do Império Austro-Húngaro, Hitler escreveu uma carta
a August implorando que ele fosse junto; tentou persuadi-lo garantindo-lhe
que eles poderiam conseguir um piano por alguns florins para o
apartamento compartilhado pelos dois. Ele encerrou a carta com um pedido
que mais parecia uma oração: “Imploro de novo, (August), venha logo!”
Mas August e Adolf eram como a noite e o dia. O jovem aspirante a
músico tinha o apoio de uma família afetuosa, havia sido admitido no
conservatório de música e tinha uma disposição mais calorosa e tolerante.
Seus cabelos à la Beethoven e um rosto vagamente parecido com o de
Mozart davam-lhe uma aparência aristocrática. Adolf parecia vir de outro
mundo: o adolescente pálido, frágil e de aparência solitária tornara-se um
homem ressentido que, já residente permanente em Viena, continuava
vagando pelas ruas atormentado por dúvidas sobre sua carreira. Ele evitava
escrever para os parentes para que não perguntassem o que ele fazia da
vida. Pela segunda vez tentou entrar na Academia de Belas-Artes de Viena,
e pela segunda vez foi rejeitado. A escola nem permitiu que ele fizesse o
exame.
De acordo com Kubizek, a essa altura seu amigo tinha um interesse
romântico, mas muito platônico, por uma garota chamada Stefanie. Adolf
nunca teve coragem de se aproximar dela. Em geral, ele era indiferente aos
relacionamentos românticos e, de acordo com Kubizek, vivia de acordo
com a moral católica rígida que não contemplava sexo antes do casamento.
Seu entusiasmo vulcânico pela arte e pela ópera ou seus planos
arquitetônicos para reconstruir a cidade eram seguidos por apatia ou
episódios veementes de raiva. Ele tinha vinte anos e passava longas horas
em cafés lendo, pintando — muitas de suas pinturas são cópias de cartões-
postais vienenses — e fazendo pôsteres comerciais que outro amigo o
ajudava a vender. Os lucros eram distribuídos em partes iguais. Cartazes de
propaganda de antitranspirantes e tônicos capilares pintados por Hitler
foram encontrados. Por ter voluntariamente se isolado para não se misturar
com as pessoas comuns, que sempre considerou inferiores por causa do seu
sentimento de superioridade neurótico, os anos em Viena foram os mais
difíceis, mas também os de maior desenvolvimento intelectual.
Uma das figuras cujo trabalho e personalidade o impressionaram mais
profundamente foi Richard Wagner. O compositor alemão, que passara anos
fugindo das autoridades por seu envolvimento com grupos radicais, fazia
então parte da história recente; sua morte ocorrera apenas seis anos antes do
nascimento de Hitler. Wagner também é conhecido por seu interesse no
glorioso passado alemão. “A música me parecia a rainha das artes”,
escreveu Hitler. Só podemos nos perguntar o que o jovem pensava de
Parsifal, uma das óperas mais polêmicas de Wagner, se ele teve a chance de
vê-la, com seus temas sobre o Santo Graal, a Lança do Destino, a pregação
da castidade e até mesmo — como alguns querem ver — uma postura
antijudaica sutil. Mas foi o estilo e o conceito de “trabalho total” de Wagner
que permearam a mente do jovem Hitler, que segundo seu biógrafo Joachim
Fest antecipou a encenação do nazismo, com seu
 
gosto pelos efeitos massivos, pela pompa, por uma enormidade
esmagadora. A primeira composição importante de Wagner depois de
Rienzi foi uma obra de coral para 1.200 vozes masculinas e uma orquestra
de cem músicos. Essa confiança flagrante nos efeitos de massa (...) na
mistura de elementos pagãos, rituais, dos elementos das grandes salas de
apresentação que hipnotizavam a massa. O estilo das cerimônias públicas
no Terceiro Reich é inconcebível sem essa tradição operística, sem a arte
essencialmente demagógica de Richard Wagner. (Fest, 2013)
 
Hitler concorda que assimilou certa visão de mundo durante esse estágio.
Em Mein Kampf, ele escreve:
 
Nesse período, tomou forma dentro de mim uma imagem de mundo e uma
filosofia que se tornaram a base de granito de todos os meus atos. Hoje
estou firmemente convencido de que basicamente, e em geral, todas as
ideias criativas aparecem em nossa juventude.
 
Mesmo assim, nada o distingue ainda dos milhares de jovens
impressionáveis, radicalizados e idealistas, de todos os tempos. O que
diferenciava esse homem que em apenas três décadas desencadearia a
tempestade mais poderosa que o mundo poderia imaginar? Embora seja
possível vislumbrar alguns elementos em Viena, é impossível saber com
certeza.
A capital antissemita da Europa

Um dos aspectos que os historiadores têm debatido mais


intensamente é quando o virulento antissemitismo de Hitler germinou. Os
biógrafos costumam se dividir entre dois momentos favoritos: o fim da
Primeira Guerra Mundial e os anos em Viena. Não faltam bons argumentos
para defender tanto um quanto o outro.
Na primeira década do século XX, Viena foi a capital elegante, gloriosa e
envelhecida do Império Austro-Húngaro, ainda uma potência industrial,
ainda o epicentro de muitas nacionalidades e ainda sem vestígios de
desaparecimento, embora alguns observadores já vissem sinais de alerta. O
imperador Franz Joseph, tão antigo quanto a monarquia dos Habsburgo,
ocupava o trono havia mais de meio século. E onde um velho reina sobre
várias etnias e grupos furiosamente nacionalistas há ressentimento, angústia
separatista e suspeita. Os alemães, em particular, se sentiam uma minoria,
estranhos em sua própria terra. E os judeus causaram uma inveja peculiar na
Áustria-Hungria. Franz Joseph não apenas decretou direitos iguais para a
população judaica em todo o império, como também revogou as proibições
de formar associações, e no último terço do século XIX os judeus
receberam direitos iguais integralmente. Assim, eles prosperavam em um
ambiente de tolerância; a população de judeus na capital do império
triplicou, proporcionalmente, em menos de uma geração. Em alguns bairros
de Viena, eles eram um terço dos residentes.
Historicamente, o Império Austro-Húngaro tinha apenas uma década de
vida, mas a capital recebeu uma injeção de energia com a eleição do
prefeito Karl Lueger. Quando Hitler chegou em Viena, esse político popular
já estava no cargo havia mais de dez anos, graças a várias reeleições
consecutivas, e não deixaria o cargo até sua morte.
Lueger transformou Viena em uma das primeiras cidades modernas, com
uma distribuição planejada de terrenos para habitação, uso industrial,
agricultura e áreas verdes, um melhor abastecimento de água e a
municipalização de vários serviços públicos. Tudo isso lhe rendeu um
enorme apoio entre os eleitores. A maioria deles, pelo menos. Lueger
percebeu que culpar os judeus pelos problemas da classe média despertava
o entusiasmo das massas. Dentro de suas possibilidades, ele promoveu
medidas para restringir a imigração de judeus da Europa Oriental, e, embora
a comunidade judaica não tenha sofrido exatamente uma perseguição
durante sua administração, Lueger evitou a contratação de trabalhadores
judeus para obras públicas, bem como a aceitação em escolas e
universidades. Sob sua administração, Viena emergiu como a primeira
capital antissemita da Europa. “A religião (cristã) e a pátria clamam pela
libertação (...) chegará o dia da libertação do povo cristão da servidão em
que agora definhamos e o dia da vingança pela desgraça tolerada e sofrida”,
declarou Lueger na cidade natal adotiva do jovem Hitler. Que o aspirante a
pintor ficou impressionado com o político é confirmado pelo fato de que
mais tarde ele o descreveu como o maior prefeito alemão de todos os
tempos.
Em outra ocasião, na Morávia, Lueger afirmou que “a imprensa liberal, às
vezes também chamada de liberal judaica, ou imprensa judaica, é a
imprensa mais insolente do mundo, foi e é a aliada e cúmplice de todos os
roubos e furtos que foram cometidos contra o povo cristão”. Mais tarde, em
uma exposição dos princípios de seu partido, ele enfatizou que “os judeus
não têm o direito de se tornar juízes, funcionários políticos e oficiais e
devem ser repelidos”. Porém, quem estudou a vida de Lueger, um dos
políticos mais ilustres de sua época, concorda que ele foi mais oportunista
do que racista. Infelizmente, muitos o levavam a sério, Adolf Hitler entre
eles.
Ian Kershaw, possivelmente o biógrafo mais proeminente de Hitler,
também chama a atenção para a abundância de revistas de literatura barata e
tabloides que circulavam em Viena durante aqueles anos. Uma dessas
publicações foi a Ostara. Fundada pelo ex-monge e ocultista Josef Lanz,
adepto de publicar teorias fantásticas sobre a luta entre a raça “loira” e os
homens morenos que estupravam mulheres loiras e destruíam a civilização
humana. Ostara recomendava a esterilização ou aniquilação de raças
indesejáveis e a completa submissão das mulheres a seus maridos de “raça
loira”. A publicação também apresentou suásticas eminentes e outros
símbolos mágicos. Lanz afirmava que suas teorias tinham base bíblica: a
queda havia começado desde a época de Eva, a primeira mulher, que
copulou com um demônio e produziu humanos escuros; portanto, as
mulheres deviam ser proibidas de contrair casamentos mistos com homens
morenos. Ironicamente, uma vez no poder, em vez de apoiar Lanz, Hitler
baniu a revista. O editor acusou Hitler de plágio intelectual e de roubo de
suas ideias. Foi mais um caso de Hitler tentando apagar as pegadas do
passado, nesse caso a fim de apresentar como sua própria e original criação.
Munique

Em 1913, mais uma vez, Adolf empacotou seus pertences, deixou


Viena e se estabeleceu em Munique. Aos 24 anos, ele se sentou
furiosamente no trem, enojado, sentindo desprezo por jovens e velhos: por
seus companheiros, que descreveu como imbecis sem ética e moral, pelas
raças mistas e grupos étnicos que se misturavam em Viena, pelas atividades
filantrópicas que ajudavam os elementos “indesejáveis” da sociedade em
vez de eliminá-los, pela falta de coragem para “aplicar os métodos mais
extremos e brutais contra os criminosos que colocavam o Estado em
perigo” e pela inaptidão do Estado austríaco em remover “os tumores
malignos”. Simbolicamente, Adolf deixou o apartamento que dividia com
August sem qualquer indicação de seu paradeiro.
Em Munique, Hitler parecia esperar um tratamento mais benevolente e
uma atmosfera mais condizente com seus esforços artísticos. Ao chegar,
alugou um apartamento localizado no terceiro andar, de um alfaiate
chamado Joseph Popp. Começava a pintar pela manhã, principalmente
cenas da cidade de Munique, e durante a tarde ia aos cafés em busca de
compradores para suas pinturas.
Não há dúvidas de que ele foi um artista prolífico. Um livro de Billy F.
Price (1984) reúne 723 obras produzidas desde a infância até pouco antes da
Segunda Guerra Mundial, incluindo paisagens urbanas, animais, naturezas-
mortas e pessoas. Não faltava qualidade nas pinturas, e algumas delas eram
bastante promissoras, mas os críticos cautelosamente as descreveram como
“precisas, mas sem inspiração, um tanto sem alma” (Kershaw, 1988). O
próprio Hitler chamou seu trabalho de “comum”. A verdade é que muitas
pessoas que as apreciam sem conhecer a identidade do artista de fato
gostam delas.
No entanto, em Munique seus hábitos letárgicos não mudaram. Ele
continuou a trabalhar sem disciplina e evitou misturar-se com qualquer
grupo. Em Viena, recusou-se a se filiar a um sindicato de trabalhadores,
supostamente por idealismo e por sua aversão ao marxismo, mas, de acordo
com um de seus mais ilustres biógrafos, por se sentir humilhado com a mera
ideia de pertencer à classe proletária e afrontado ao ver suas aspirações
artísticas desprezadas em uma cidade que ele passou a considerar repulsiva.
Atrás de sua aparente fuga em busca de ar fresco para uma Munique mais
artística, havia outro motivo mais sombrio, cujos traços ele tornou
impossível apagar depois: a fuga de seus deveres com o Exército austríaco,
ao qual tinha a obrigação de se apresentar em 1909. As autoridades de Linz
abriram uma investigação para encontrar o fugitivo, bateram à porta de sua
irmã, Paula, e finalmente o localizaram em Munique. O jovem de 24 anos
foi detido e levado ao consulado austríaco, correndo o risco de ser preso,
encerrando de uma vez por todas as pretensões de se tornar artista ou
arquiteto.
Em sua biografia de Hitler, Joachim Fest reproduz uma extensa e chorosa
carta que o futuro líder da Alemanha escreveu às autoridades de Linz,
explicando que seus anos em Viena, onde havia trabalhado como artista
freelancer, tinham sido miseráveis, vivendo em perigo e, portanto, ele
ignorou seus deveres militares.
 
Eu era um jovem experiente (...) sem suporte, dependente só de mim (...)
durante dois anos não tive outro amigo senão cuidado e necessidade,
nenhum outro companheiro senão uma fome eternamente roendo.
 
Quando enfim foi levado para o conselho de alistamento em Salzburgo,
fez um exame de aptidão física, mas foi dispensado com um resultado
embaraçoso: “Inapto para o serviço militar e auxiliar. Muito fraco. Incapaz
de carregar armas.” No entanto, Hitler não estava fugindo do Exército, mas
da Áustria — a prova é que, apenas um ano após sua partida de Viena, ele
presenciou com entusiasmo um acontecimento que iria revolucionar sua
vida. Para Hitler, foi uma espécie de segundo nascimento.
O momento foi capturado em uma fotografia que apareceu 18 anos
depois, em 1932, na revista German Illustrated Observer. O lugar é a praça
Odeonsplatz em Munique, onde uma multidão se reuniu. É o dia 2 de
agosto de 1914, e um soldado alemão está lendo a declaração de guerra à
Rússia. As pessoas que lotam a praça comemoram o início da Primeira
Guerra Mundial, sem saber que um dia ela teria esse nome. Para os alemães,
sufocados entre a França, a Rússia e o Império Austro-Húngaro, era o
momento da justiça. A imagem, capturada por Heinrich Hoffmann,
fotógrafo de Munique, ampliada várias vezes, mostra Adolf Hitler no meio
da multidão, com um casaco preto, chapéu escuro na mão e uma expressão
de êxtase. Sua boca aberta em espanto e o olhar intenso mostrando algo
mais próximo de uma explosão de felicidade — sua expressão, congelada
no tempo, é a de quem recebeu boas novas. [ 01 ]
De acordo com sua própria biografia, no dia seguinte, Hitler escreveu uma
carta a Ludwig III, o rei da Baviera, solicitando permissão para servir no
regimento bávaro, ou seja, para o Império Alemão. Ele era austríaco. A
Baviera era o segundo maior estado, mais rico e mais forte do Império
Alemão. Embora a história aumente os fatos, em Mein Kampf Hitler afirma
que recebeu uma resposta no dia seguinte. “Meu coração”, escreveu ele da
prisão muitos anos depois, “transbordou de alegria e orgulho de que
finalmente eu seria capaz de me redimir desse sentimento paralisante (...)
Caí de joelhos e agradeci ao céu com um coração transbordante por me
conceder a sorte de poder viver neste tempo”, referindo-se à Primeira
Guerra Mundial. Segundo a propaganda nazista, toda a Alemanha estava
ansiosa em ir para a guerra. Em seu meticuloso livro sobre Hitler na
Primeira Guerra Mundial, Thomas Weber (2011) aponta que os sentimentos
predominantes entre os alemães com a perspectiva da guerra eram, antes de
tudo, ansiedade, pesar e medo.
Primeira Guerra Mundial

Em agosto de 1914, Hitler foi admitido no Regimento de Infantaria


da Baviera, composto por voluntários, a maioria jovens católicos da zona
rural, fazendeiros, camponeses e trabalhadores não qualificados. Hitler
tinha 25 anos e representava o membro médio do regimento. Talvez seja
possível avaliar a chegada da guerra como uma solução para seus
problemas, já que no momento ele estava sem futuro, sem estudos, sem
carreira e falido — todos os seus planos tinham virado fumaça. Sua
admissão ao regimento deu-lhe, pela primeira vez, direção e um objetivo
claro na vida.
Os soldados do Regimento de Infantaria da Baviera estavam
entusiasmados, mas despreparados para as demandas de uma guerra. O
grupo começou seu treinamento em Munique, onde os homens aprenderam
a atirar, a armar uma barraca corretamente e a preparar comida na linha de
batalha. No final do curso, em outubro, eles foram enviados para sua missão
inicial na Primeira Batalha de Ypres. As tropas desfilaram em frente ao rei
da Baviera, que se despediu delas. Em 21 de outubro, os homens do
Regimento List, ao qual Hitler pertencia, tomaram um trem para Lille, na
França, onde receberiam o batismo de fogo. Dois dias depois, o trem cruzou
a fronteira belga com as luzes apagadas para evitar ser detectado pelas
aeronaves inimigas. O lugar estava em ruínas. Um soldado do regimento
escreveu: “O país parecia terrivelmente sem vida e silencioso. As únicas
aldeias pelas quais passamos não eram nada além de montes de ruínas
escancaradas. Cavalos mortos explodidos como balões nas valas.” E então a
realidade brutal da guerra caiu sobre eles.
Na Batalha de Ypres, que ocorreu de 19 de outubro a 22 de novembro de
1914, eles colidiram com as forças britânicas, belgas e francesas. O
frustrado artista e aspirante a arquiteto teve seu primeiro contato com o
cruel e inédito combate mecanizado que inaugurou a era moderna da guerra.
As baixas nos primeiros trinta dias fora da pátria foram da ordem de cem
mil. O Regimento List foi reduzido de 3.600 para apenas 611 soldados. Ao
verem os cadáveres, os corpos despedaçados, os rostos desfigurados e as
ruínas, os voluntários estremeceram ao compreender o que era uma guerra.
Em 1938, Hitler confessou ao primeiro-ministro britânico Neville
Chamberlain que um soldado inglês chamado Henry Tandey poupou sua
vida naquela batalha. “Aquele homem quase me matou, pensei que nunca
mais veria a minha casa. Foi a providência divina que me salvou do fogo
preciso e diabólico que aqueles jovens ingleses estavam mirando em nós”,
disse Hitler ao político britânico quando as duas nações ainda estavam
tentando evitar a Segunda Guerra Mundial. No entanto, como em muitos
outros casos, não se tratava de um fato histórico, mas de Hitler novamente
tentando moldar um passado glorioso com mentiras. Na verdade, na
Primeira Guerra Mundial ele não estava nas trincheiras, lado a lado com
seus camaradas do regimento, atirando e rezando para que não explodissem
no próximo estrondo. Seu trabalho era muito menos perigoso que o dos
soldados regulares nas trincheiras e com uma taxa de sobrevivência maior:
ele era um cabo mensageiro. A missão de Adolf Hitler era levar
comunicações e ordens entre o posto de comando regimental e os homens
do front, às vezes correndo, às vezes andando de bicicleta, fato que ele
esqueceu de mencionar em Mein Kampf. Além disso, Hitler pertencia ao
grupo denominado mensageiros do regimento, que, ao contrário dos
mensageiros da unidade militar, não precisavam se esquivar de balas ou
pular trincheiras — a maior parte de seus meses na guerra foi longe da ação,
com relativo conforto. Às vezes, ele até tinha tempo para desenhar para seus
companheiros e ler.
Hitler era apreciado por seus superiores, mas para seus companheiros de
regimento era um jovem diferente a quem chamavam de “o artista”, “o
monge” (por seus hábitos pudicos) ou simplesmente “Adi”. Durante anos, a
propaganda nazista e os historiadores da Segunda Guerra Mundial relataram
que Hitler era o líder natural do batalhão List e que seus irmãos de armas o
apoiaram com entusiasmo durante e após a guerra. Novos achados
documentais estabeleceram que, ao contrário, “o artista” foi rotulado, como
outros mensageiros, como um “porco da retaguarda” e, embora ele não
fosse exatamente impopular, sua notoriedade se devia ao fato de ser o
desajustado que não conseguia nem abrir uma lata com a baioneta. Ele
também ficava longe do grupo nas horas de descanso. Contudo, a passagem
de Hitler pela Primeira Guerra Mundial não deve ser esquecida: como
encarregado de transportar comunicados, ele não só teve mais chances de
sobrevivência, mas também recebeu uma educação militar informal, na
medida em que podia estudar o conteúdo das cartas, examinar as ordens e
seguir as estratégias. Ali ele também pôde estudar os movimentos das
tropas, fazer perguntas sobre o processo de tomada de decisão e, em geral,
ter contato com oficiais superiores.
Suas poucas fotos da Primeira Guerra Mundial mostram um jovem magro,
com o bigode comprido da época, ainda com um olhar calmo, até um pouco
vago e distraído. O infame bigode de broxa que o distinguia apareceu mais
tarde durante a guerra devido a uma circunstância curiosa: em resposta aos
ataques de gás mostarda das tropas inglesas, os oficiais ordenaram que os
homens cortassem seus longos bigodes para o estilo de broxa, pois assim as
máscaras de gás se ajustariam melhor. Alexander Moritz, um soldado que
encontrou Hitler no front e escreveu as próprias memórias antes de sua
morte, em 1957, lembra-se dele como
 
um homem alto e pálido abaixado no porão após começarem as primeiras
explosões dos ataques noturnos diários, o medo e a raiva brilhando em
seus olhos. Ele parecia alto porque era muito magro. Um bigode cheio,
que teve de ser aparado depois por causa das novas máscaras de gás,
cobria a fenda feia de sua boca.
 
Adolf não fumava nem bebia, não se interessava por bordéis, nunca
mostrava senso de humor, nem recebia cartas de parentes, portanto também
não escrevia para ninguém. Em uma ocasião, ele repreendeu furiosamente
um companheiro que, brincando, comentou que ele daria qualquer coisa por
sexo com uma mulher francesa: “Você não tem nenhum senso de honra
alemão?”
Isolado dos soldados, que zombavam dele por nunca ter “amado uma
garota”, Hitler, no entanto, encontrou o amor em um amigo inesperado: um
cachorro vira-lata que um dia apareceu no campo. Ele o adotou e o chamou
de Foxl. O mensageiro ensinava alguns truques a Foxl, passava seu tempo
livre com ele e estava mais interessado no cachorro do que nos
companheiros, que considerava brutos. Sua maior satisfação era ver os
pulos e gemidos de alegria do animal ao retornar de uma missão. A amizade
deles terminou abruptamente quando a unidade teve de avançar: Foxl não
foi encontrado e teve de ser deixado para trás. “O porco que o tirou de mim
não sabe o que fez comigo”, ele lamentou mais tarde (Kershaw, 1988).
No final de 1914, ocorreu um acontecimento inusitado cuja rara beleza
ainda é tema de canções e filmes: na véspera de Natal, as tropas de todos os
lados concordaram com uma trégua de dois dias para que soldados alemães,
ingleses e franceses cruzassem as linhas para se abraçar, cantar canções de
Natal e trocar cigarros e presentes. Eles até jogaram futebol na neve. Hitler,
no entanto, se sentiu insultado pelo que chamou de exibição de estupidez.
Cego de raiva

No final de 1916, poucos dias após a segunda Batalha de


Fromelles, uma bomba explodiu em frente à tenda dos mensageiros. Vários
deles morreram. Hitler ficou gravemente ferido e foi transferido para o
hospital da Cruz Vermelha em Berlim. Lá, para sua decepção, ouviu
histórias de soldados que se deixavam ferir de propósito para poder dormir
em uma cama.
Quando foi mandado para casa, ele mais uma vez se refugiou nos museus
de Berlim, resquícios de seu interesse pelas artes. Antes de retornar ao front,
Hitler teve algum tempo livre para visitar Munique, mas ficou desapontado
ao ver o descontentamento generalizado do povo, que ele atribuiu aos
propagandistas judeus.
 
Claramente havia uma miséria terrível em todos os lugares. A cidade
grande estava passando fome. O descontentamento era enorme. Em várias
casas de soldados o tom era o mesmo do hospital (...) achei que não
conseguia mais reconhecer a cidade. Raiva, descontentamento,
xingamentos, onde quer que eu fosse! (...) O clima geral era péssimo. Os
escritórios estavam cheios de judeus. Quase todo escrivão era judeu e
quase todo judeu era escrivão. Fiquei surpreso com o grande número de
guerreiros do povo escolhido e não pude deixar de compará-los com seus
raros representantes na linha de frente.
 
Hitler retornou à guerra em março de 1917. Em agosto do ano seguinte,
quando ficou claro para a Alemanha que a causa estava perdida, ele foi
condecorado com a medalha Cruz de Ferro de primeira classe, “por bravura
demonstrada ao entregar uma mensagem importante”. Ironicamente, a
recomendação veio de um oficial judeu, o tenente Hugo Gutmann. Mas o
exército alemão estava sendo massacrado. “Quase atingimos o limite de
nossas forças de resistência. A guerra devia acabar”, lamentou o kaiser em
Berlim.
Em outubro de 1918, algumas semanas antes do Armistício de
Compiègne, Hitler e outros camaradas foram cegados por um feroz ataque
de gás mostarda em Ypres, na Bélgica. Desesperados, os homens
agarraram-se uns aos outros e seguiram os menos afetados, que ainda
mantinham um pouco de visão. Hitler caiu pela segunda vez com cegueira
temporária em um hospital em Pasewalk, perto da atual fronteira da
Polônia. Em todo o Império, a propaganda oficial insistia, com falso
triunfalismo, na vitória iminente da Alemanha, mas o país já estava
derrotado militar e moralmente, tanto no campo de batalha quanto em casa.
Deserções e capturas de prisioneiros alemães estavam ocorrendo em massa.
Vendo a catástrofe inevitável, a miséria do povo alemão e as tensões
internas, em novembro a guerra civil estourou em Kiel e se espalhou
rapidamente por todo o país. O Império Alemão havia deixado de existir.
Hitler soube da rendição da Alemanha no hospital, graças a um pastor que
o visitava para serviços espirituais. O clérigo informou que a pátria estava
aos pés dos vencedores. Muitos alemães, sobretudo aqueles que estiveram
no campo de batalha, estavam convencidos de que a Alemanha nunca havia
sido derrotada militarmente e que o acordo de rendição fora uma traição
perpetrada por “judeus, marxistas e bolcheviques culturais”, e Hitler
compartilhava dessa versão dos fatos. Ficou traumatizado. Em sua
autobiografia, narra como sofreu um segundo episódio de cegueira ao
receber a notícia no hospital em Pasewalk.
 
Quando aquele senhor idoso tentou prosseguir e começou a nos dizer que
agora devíamos acabar com a longa guerra, sim, que agora que ela estava
perdida e estávamos sendo jogados à mercê dos vencedores e que nossa
pátria iria ser exposta à terrível opressão no futuro, para que o armistício
fosse aceito com confiança na magnanimidade de nossos inimigos
anteriores, não pude mais suportar. Tornou-se impossível ficar parado
mais um minuto. Outra vez, tudo ficou escuro diante dos meus olhos.
Cambaleei e tateei o caminho de volta ao dormitório, me joguei na cama e
enterrei a cabeça em chamas no cobertor e no travesseiro. Desde o dia em
que estive junto ao túmulo de minha mãe não havia chorado.
 
Embora possamos apenas contar com seu testemunho e ele possa estar
contaminado por intenções políticas e propagandísticas subsequentes, não
há dúvida de que o destino da Alemanha, e a ideia de que nunca havia sido
derrotada militarmente, mergulhou Hitler na decepção e no ódio pelos
traidores, reais ou imaginários, que tinham assinado a rendição. Segundo o
historiador Ian Kershaw, a profunda humilhação do povo procurava nos
judeus o bode expiatório; o antissemitismo começou a crescer a níveis
nunca antes vistos. A Revolução Russa contribuiu para esse sentimento que
beirava a paranoia, assim como a ideia, que a história provou ser falsa, de
que os judeus estavam instigando uma série de revoluções ao redor do
mundo. Para Hitler, que havia apoiado entusiasticamente a causa alemã e
encontrado em seu regimento uma razão para viver, foi mais um fracasso
em sua carreira trôpega. Em Mein Kampf, ele dá a entender que foi nesse
momento que decidiu entrar na política.
Seja esse o caso ou não, em termos práticos, no final da guerra o ex-
recruta de 29 anos estava novamente desempregado e sem dinheiro. Seu
capital era de 15 marcos depositados em uma conta bancária em Munique,
para onde voltou em novembro de 1918. Hitler pediu para continuar no
Exército e pôde permanecer em serviço por mais dois anos, até 1920, como
guarda nos campos de prisioneiros russos e na manutenção da ordem em
Munique. Posteriormente, ele foi incumbido da tarefa de distribuir materiais
educativos entre as tropas para “a educação dos soldados” e, depois disso,
foi enviado para espionar as atividades de um grupo político recém-
fundado:
 
Um dia recebi ordens de meu quartel-general para descobrir o que estava
por trás de uma organização aparentemente política que planejava realizar
uma reunião nos próximos dias sob o nome de Partido Alemão dos
Trabalhadores. Disseram-me para ir dar uma olhada na organização e
depois fazer um relatório.
 
Mais um clube do que um partido político (sua lista consistia em apenas
cinquenta membros), o DAP (Deutsche Arbeiterpartei), fundado por um
serralheiro e ferramenteiro chamado Anton Dexler, era apenas uma das
centenas de associações políticas surgidas no caos do período pós-guerra,
fervendo de descontentamento e esperando uma mudança radical para o
país. No entanto, Hitler, o espião, foi seduzido pela retórica xenófoba,
patriota e hostil do fundador do partido. Dexler acreditava que a rendição da
Alemanha fora devido a uma conspiração do judaísmo internacional; ele se
referia aos judeus como seres inferiores e, em uma das reuniões, chamou-os
de “o demônio dissimulado da ruína da humanidade” (Greek, 2014).
Dexler, por sua vez, ficou impressionado com as habilidades retóricas de
Hitler, por isso o convidou a entrar para o partido. Hitler mais tarde obteve
o número de credencial 55. Em reuniões realizadas em cervejarias, cafés e
hotéis, discutia-se política e expunham-se supostas conspirações judaicas
com um discurso antissemita enfurecido. Dexler logo percebeu que Hitler
era superior a ele em todos os sentidos — carisma, oratória e fanatismo.
Hitler, por sua vez, achava que Dexler “não era fanático o suficiente” e que
o partido, como era então, não passava de uma “organização mesquinha,
uma vida de clube do pior tipo”. Pelas costas, Dexler se referia a Hitler
como “um homenzinho absurdo”, mas o homenzinho vinha atraindo um
número cada vez maior de pessoas para as fileiras do DAP. A ascensão de
Hitler foi rápida. Em 1920 ele se tornou o chefe de propaganda. Em
fevereiro, com seu estilo furioso, hipnotizou um público de mais de duas
mil pessoas na Hofbräuhaus am Platzl, uma cervejaria em Munique. Seu
próximo passo foi histórico: como chefe de propaganda do DAP, ele decidiu
mudar o nome do partido para “Partido Nacional Socialista dos
Trabalhadores Alemães”. E o nome de seus membros: nazistas.
Em 1921, Drexler, incapaz de controlar a força esmagadora de seu
concorrente, entregou a presidência do partido. Hitler então se tornou o
único líder.
 
Em três anos, ele estava recebendo uma chuva de cartas de adulação, era
mencionado nos círculos nacionalistas como o Mussolini da Alemanha,
sendo comparado até com Napoleão. E pouco mais de quatro anos depois
alcançou notoriedade nacional, não apenas regional. (Kershaw, 1988)
 
Começava a ascensão do pintor, ex-mensageiro de guerra e agora líder de
um partido político xenófobo radical. Hitler não exagera quando diz que
“no decorrer de minhas palestras conduzi muitas centenas, na verdade
milhares, de camaradas de volta ao seu povo e pátria”. As maneiras rudes,
os gestos furiosos e as palavras ásperas de Hitler eram aquilo de que as
massas humilhadas, ressentidas e aterrorizadas de Munique precisavam; em
pouco tempo, era a nação inteira. “Observe-me, Josef”, disse Hitler a seu
amigo de infância Josef Ransmeir quando visitou sua cidade natal no
mesmo ano. “Eu vou salvar a Alemanha.”
PARTE III
A ASCENSÃO
Sem as mudanças na condição de vida, produto de uma guerra perdida, a
revolução e um sentimento generalizado de humilhação nacional, Hitler
teria permanecido um ninguém.

Ian Kershaw
Em 1920, Adolf Hitler foi dispensado do Exército e passou a dedicar
todo o seu tempo ao Partido Nacional Socialista. Nos primeiros dias, ele e
outros integrantes do partido foram às ruas distribuir panfletos para atrair
mais membros, convidaram seus amigos para as reuniões, pagaram alguns
anúncios de jornal, mas sem resultados promissores. Na reunião seguinte,
os nazistas entrariam na sala para cumprimentar apenas alguns
participantes, quase sempre os mesmos rostos.
 
Ninguém em Munique conhecia o partido nem pelo nome, exceto por seus
poucos apoiadores e pelos poucos amigos. Todas as quartas-feiras
acontecia uma chamada reunião do comitê em um café de Munique, e
uma vez por semana uma palestra noturna. (Fest, 2013)
 
Hitler já entendia o poder da propaganda e intensificou seus esforços.
Anunciou uma reunião do partido em um conhecido jornal antissemita e
sugeriu transferir os comícios para uma sala maior, um porão que poderia
acomodar mais de cem pessoas. Embora com algum ceticismo, ele
finalmente conseguiu o apoio de seus colegas. A quinta-feira seguinte, 16
de outubro de 1919, tornou-se um dia histórico. Hitler foi o primeiro a ser
surpreendido pelo grande público. Após as palavras de boas-vindas de um
dos membros mais antigos, foi a vez de ele falar. Se os companheiros
duvidavam de sua habilidade, ele mesmo não sabia o que esperar quando
chegasse a sua hora. Para a surpresa de todos, Hitler chocou o público com
sua retórica emotiva, enérgica e maníaca. As pessoas ficaram em êxtase.
 
Falei por trinta minutos, e o que antes sentia simplesmente dentro de mim,
sem saber de forma alguma, agora estava comprovado pela realidade: eu
podia falar. Depois de trinta minutos, as pessoas naquela sala pequena
ficaram eletrizadas. (Hitler, 2016)
 
Essa foi a primeira vez que ele se dirigiu a uma audiência — o grande
hipnotizador havia nascido. Tamanho foi o impacto que os presentes
procuravam dinheiro no bolso para doar à causa. Os fundos arrecadados
foram usados para imprimir mais convites.
Quatro meses depois, Hitler pressionou por um grande evento. Seria o
primeiro. Em fevereiro de 1920, diante de uma multidão de seis mil pessoas
— um salto considerável, visto que menos de dois anos antes o público nas
reuniões da DAP podia ser contado nos dedos de uma mão — Hitler expôs
os princípios do partido, que se tornariam o coração de sua ideologia
política, da qual jamais se desviaria: a união de todos os povos de origem
alemã para a restauração de um grande Reich alemão, cuja principal
característica seria a raça de seus habitantes; a necessidade de mais espaço
de convivência para o povo alemão, o que implicaria a expansão territorial
para o Leste; e, em vez do parlamentarismo, que ele via como um sistema
degenerado e inútil, a necessidade de um líder forte a quem a obediência
absoluta deveria ser jurada. No início, a questão mais urgente era desfazer o
severo Tratado de Versalhes, que havia encerrado a Primeira Guerra
Mundial, mas deixara a Alemanha de joelhos. O tratado, segundo Hitler, foi
“fundado em uma mentira monstruosa. Recusamo-nos a cumprir seus
termos por mais tempo. Declaramos às forças estrangeiras: “Façam o que
quiserem! Se desejam a guerra, vão buscá-la! Então, veremos se vocês
podem transformar setenta milhões de alemães em servos e escravos!”
Hitler, o orador exaltado

Hitler revelou-se um nacionalista fervoroso. Menos de um ano após


sua primeira aparição pública, em outubro de 1919, a lista de membros do
partido aumentou para mais de três mil, muitos dos quais compareciam às
reuniões apenas para vê-lo: o inimigo do Tratado de Versalhes, o orador
exaltado perito em culpar, em suas intervenções mordazes, os traidores
bolcheviques pelos infortúnios do país e, especialmente, os judeus. Em
1921, ele declarou, em Munique, diante de um punhado de seguidores:
“Para nós, há apenas duas possibilidades: ou permanecemos alemães ou
ficamos sob o domínio dos judeus. Esta última não deve ocorrer; mesmo
sendo poucos, somos uma força. Um grupo bem organizado pode vencer
um inimigo forte. Se vocês ficarem unidos e continuarem trazendo novas
pessoas, seremos vitoriosos sobre os judeus.”
Em 1922, seu nível de aversão subiu perigosamente: “O judeu não
empobreceu, aos poucos fica mais rico e mais gordo, e se vocês não
acreditam em mim peço-lhes que vão a uma de nossas estâncias
terapêuticas; lá encontrarão dois tipos de visitantes: o alemão que vai até lá,
talvez pela primeira vez em muito tempo, para respirar um pouco de ar puro
e recuperar a saúde, e o judeu que vai lá para emagrecer.” Por volta dessa
época, ele adotou a velha suástica, o símbolo que encontrara no coral da
igreja de Leonding, como o símbolo do Partido Nazista.
Hitler conseguiu ascender meteoricamente porque Munique, uma espécie
de segunda capital da República de Weimar, era um conhecido refúgio de
ultranacionalistas, generais ressentidos, agitadores e inimigos da nascente
democracia com base em Berlim, quase 580 quilômetros ao norte.
Um ano antes, ele fizera sua primeira incursão à capital para atrair
seguidores e experimentar as águas, mas, como ele logo descobriria, sua
autoridade no Partido Nazista ainda era incerta. Em sua ausência, outros
líderes se reuniram para neutralizar o que consideravam, corretamente, uma
atitude ditatorial e ambiciosa de Hitler. Para controlar sua influência
avassaladora, eles decidiram formar uma aliança com um grupo de
socialistas de Augsburg. Mas o tiro saiu pela culatra. Furioso, Hitler voltou
a Munique. Muito consciente do simbolismo de sua ação e como ele era
valioso para o partido, apresentou sua demissão. Então, os líderes recuaram.
Hitler aproveitou o momento para apresentar suas exigências: se queriam
mantê-lo, deveriam nomeá-lo presidente e jurar obediência absoluta a ele.
Na reunião de 29 de julho de 1921, Hitler foi apresentado como o “führer”
(chefe, líder) pela primeira vez. Sob sua liderança, em menos de dois anos o
Partido Nacional Socialista tornou-se uma força considerável em Munique
— mas ainda não tão proeminente —, e mais políticos importantes da
Baviera tomaram conhecimento dos comícios cada vez mais barulhentos do
enigmático líder.
Tentativa fracassada

Em maio de 1923, Hitler conheceu um personagem que se tornaria


parte importante de sua carreira política e sua queda em desgraça, o general
Erich Ludendorff. Desde o primeiro encontro, Hitler percebeu que eles
eram almas gêmeas. O militar, que a certa altura tivera as forças alemãs sob
seu comando na Primeira Guerra Mundial, era um herói na mente de muitos
e um dos principais divulgadores da teoria da “facada pelas costas”, na qual
Hitler acreditava profundamente — a convicção de que o país nunca foi
derrotado no campo de batalha, mas se rendeu por causa das negociações de
traidores no governo, sobretudo judeus e bolcheviques.
Ludendorff era, como Hitler, um nacionalista furioso e acalentava a ideia
de que a Alemanha deveria estar armada até os dentes, pois a paz não
passava de um intervalo entre as guerras. Os acontecimentos pareciam
provar que ele estava certo. Apenas quatro meses antes da reunião, em
janeiro de 1923, a Alemanha havia pedido uma trégua nas sufocantes
reparações de guerra exigidas pelo Tratado de Versalhes, no valor de 132
bilhões de marcos de ouro. A França recusou o pedido e ocupou o Vale do
Ruhr, uma região estratégica da Alemanha. Quando a Alemanha de Weimar
baixou a cabeça e retomou os pagamentos, a indignação de Hitler e seus
partidários atingiu o ponto de ebulição.
No final do ano, o Partido Nazista, com mais de cinquenta mil membros,
era a organização política mais importante do país, e Hitler contava com o
apoio do líder das forças alemãs na Primeira Guerra Mundial, homem
considerado naquele momento o símbolo do nacionalismo radical. Houve
rumores de revoluções. O governo da Baviera designou Gustav von Kahr
como comissário do estado de emergência com poderes ditatoriais.
Pressionado pelos membros do partido, Hitler decidiu que o melhor
caminho era dar o primeiro golpe.
Em 8 de novembro, o comissário do estado da Baviera e todas as figuras
importantes do governo reuniram-se em uma cervejaria chamada
Bügerbräukeller. Quando Gustav von Kahr estava lendo seu discurso, Hitler
fez uma entrada dramática com guardas armados, deu um passo à frente e
atirou no teto para silenciar a multidão. Ele então declarou que a revolução
havia começado. Com uma arma na mão, exigiu que Kahr e os outros
líderes o acompanhassem até a sala ao lado. Lá, ele lhes informou que
lideraria um novo governo com o general Ludendorff. Imediatamente,
Hitler voltou para encarar a multidão, que estava à beira do motim, e fez sua
estreia com um de seus momentos mais brilhantes como manipulador de
massas. Em apenas algumas frases, ele transformou a fúria da multidão em
apoio incondicional: “Posso dizer isto a vocês: ou a revolução alemã
começa esta noite ou estaremos todos mortos ao amanhecer!” O efeito foi
tamanho que Kahr e os outros acabaram apertando a mão de Hitler na frente
da multidão delirante.
O momento era propício para a revolução. A economia alemã estava em
ruínas, a inflação era incontrolável, a taxa de câmbio era de um dólar por
um trilhão de marcos. Os preços e os salários aumentavam tão rapidamente
que era possível entrar em uma fila para comprar uma linguiça por
determinado preço e ter de pagar cinco vezes mais por ela ao chegar ao
balcão. O jornalista Willi Frischauer relatou o que aconteceu ao compositor
Mischa Spoliansky uma semana antes do golpe de Hitler. O famoso músico
queria comprar o jornal para saber quanto custaria a passagem do bonde
naquele dia, mas ficou surpreso ao descobrir que os 28 milhões de marcos
que tinha consigo não o comprariam, porque o preço do jornal havia subido
repentinamente para três bilhões de marcos. Quando Spoliansky pegou o
bonde para ir ao centro de Berlim, seus 28 milhões de marcos só podiam
pagar parte da viagem, e ele teve de descer e percorrer o restante do
caminho a pé. Um editor pagou-lhe 3,5 milhões de marcos por suas
composições musicais, mas na manhã seguinte ele descobriu que um
carrinho de mão de dinheiro não era suficiente para comprar uma garrafa de
leite para sua filha.
Os rebeldes de Hitler tomaram a sede da polícia e alguns prédios do
governo, mas nem o Exército nem a polícia aderiram à revolta. Em meio ao
caos, o comissário estadual Kahr e seu gabinete não foram atendidos. As
autoridades se reagruparam e contra-atacaram. Com acesso a linhas
telefônicas — Hitler e seus companheiros cometeram o erro de não as
controlar —, eles pediram ajuda às guarnições dos vilarejos próximos. Em
pouco tempo, todas as estações de rádio na Alemanha estavam noticiando o
golpe fracassado. Pela manhã, Hitler, percebendo que sua manobra havia
falhado, teve a desesperada ideia de se manifestar pela cidade. Ele esperava
que a presença do ex-herói de guerra Ludendorff fizesse as pessoas
participarem da marcha. Mas calculou mal. Acompanhados por dois mil
homens, ombro a ombro com Ludendorff, eles marcharam até o Ministério
da Defesa, onde foram repelidos por soldados. Vinte pessoas morreram no
tiroteio, 16 delas membros do Partido Nazista. Dois dias depois, Hitler foi
detido e enviado para a prisão. Sua sorte política parecia ter acabado para
sempre.
Mein Kampf

Embora mais de três mil estudantes da Universidade de Munique


tenham se revoltado quando souberam da prisão de Hitler, na prisão o
führer caiu em profunda depressão e expressou desejo de cometer suicídio.
“Estou farto. Acabou. Se eu tivesse um revólver, o usaria” (Kershaw, 1988).
No entanto, ele se recompôs para o julgamento, que começou “em clima
amistoso”, e conseguiu, mais uma vez, transformar o momento em uma
oportunidade de fazer propaganda.
Apareceu em um terno escuro, carregando a medalha de honra que
ganhara na guerra. “Queríamos criar na Alemanha a precondição que, por si
só, tornará possível que as garras de ferro de nossos inimigos sejam
removidas de nós”, disse ele. “Queríamos estabelecer a ordem no Estado,
expulsar os parasitas, lutar contra a escravidão da bolsa internacional,
contra toda a nossa economia ser corroída por fundos, contra a politização
dos sindicatos e, acima de tudo, pelo mais elevado e honroso dever que nós,
alemães, sabemos que deveria ser apresentado mais uma vez — o dever de
portar armas, o serviço militar. E agora eu pergunto: o que queríamos é alta
traição?”
Os juízes leigos, alguns dos quais eram simpatizantes dele, ficaram
impressionados com sua defesa e com a paixão com que falava das próprias
boas intenções para com a Alemanha. Hitler denunciou o comportamento
oportunista de Kahr e, embora tenha recebido uma pena de cinco anos, foi
sob uma das modalidades mais benevolentes, sem trabalho forçado, com
relativo conforto e com permissão para receber quantos visitantes quisesse,
uma pena reservada, de acordo com a lei alemã, para aqueles cujos crimes
“não eram contra a honra”. Longe de ser o fim da carreira de Hitler, seu
julgamento e prisão foram um triunfo da propaganda para os nazistas, que
pela primeira vez entraram no cenário internacional. Jornais estrangeiros se
referiam a ele como “o Bismarck da Baviera” e “mártir”. O correspondente
Bernard Person — que mais tarde seria o informante da Europa ocupada
pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial — escreveu em sua coluna para
jornais americanos:
 
A verdade é que o número de seguidores de Hitler é muito grande.
Curiosamente, cresceu tremendamente desde o colapso do “golpe” de 8 de
novembro. É digno de nota que a maior parte da população da Baviera
não começou a simpatizar com o movimento de Hitler até (...) o agora
famoso “Putsch da Cervejaria” se tornar conhecido, e com ele o papel
duvidoso e complicado do atual ditador von Kahr. Para uma grande parte
dos bávaros, a simpatia para com o encarcerado Hitler significa apenas
ódio contra Kahr, que governa com mãos de ferro. Kahr é hoje o homem
mais odiado de toda a Baviera, e sua conduta fez um mártir de Hitler, que
antes nunca foi levado muito a sério pela massa da população.
 
Hitler foi enviado para a prisão de Landsberg por cinco anos, embora
tenha ficado apenas nove meses. De acordo com documentos do prédio, que
vieram à tona em 2010, o diretor da prisão referiu-se a ele como “sensível,
modesto, humilde e educado com todos — especialmente com os oficiais da
prisão”. Hitler pôde receber visitantes, até mesmo de trinta a quarenta
amigos em seu aniversário de 35 anos. Ele também encontrou tempo para se
dedicar a um projeto demorado: durante seus dias em Landsberg, escreveu
freneticamente um livro gigantesco chamado Mein Kampf. Ele esperava
pagar seus honorários advocatícios com os royalties.
Como escritor, era tão prolixo quanto havia sido prolífico como pintor. A
primeira edição em alemão, publicada em 1925, tinha 720 páginas. O
consenso entre os historiadores é que ele ditou o livro a Rudolf Hess, mas
pesquisas recentes sugerem que ele mesmo o datilografou em uma máquina
de escrever e, uma vez fora da prisão, ditou outra parte a seu editor.
Mein Kampf é parte autobiografia, com uma boa dose de exagero e
fantasia, e parte exposição de sua ideologia e programa político. Do ponto
de vista literário, o livro é uma torrente desorganizada de gêneros: de
extensas memórias pessoais à exposição da história europeia, seguidas de
discurso político e dissertações filosóficas, mas o estilo é eficaz e emotivo.
Ele concebe toda a sua vida e ideologia como uma luta (Kampf). Nas
entrelinhas fica claro que, para o autor, o destino do país e de seu povo
depende do destino pessoal e da luta de Hitler. Mein Kampf é um longo
discurso racista, uma expansão do programa que Hitler já havia formulado
para o Partido Nacional Socialista e, antes de mais nada, uma longa
alocação de responsabilidades, xingamentos e denúncias para as doenças da
Alemanha: os marxistas, o governo da República de Weimar, os vencedores
da Primeira Guerra Mundial, o Parlamento, os sociais-democratas, os
bolcheviques infiltrados no governo e sobretudo os judeus, que ele vê à
frente de uma grande conspiração, a fonte de todo o mal. Praticamente todas
as ideias do livro terminam com Hitler formulando seu ódio racial contra os
judeus.
Existem pistas suficientes em Mein Kampf para suspeitar o que Hitler
faria uma vez no poder? Qualquer leitor cuidadoso teria percebido o que se
escondia na mente do autor. Na lógica de Mein Kampf, “o objetivo mais
elevado da existência humana não é a manutenção de um Estado de
Governo, mas sim a conservação da raça”. Em seguida,
 
se a raça (alemã) corre o risco de ser oprimida ou mesmo exterminada, a
questão da legalidade é apenas de importância secundária. O instinto de
autopreservação sempre justificará, no mais alto grau, o emprego de todos
os recursos possíveis.
 
Mas por que essa ansiedade com a raça alemã? A ameaça é
inequivocamente apontada: “O judeu está destruindo a base racial de nossa
existência e aniquilando nosso povo”, afirma ele e, com uma disposição
horrível, acrescenta: “Sistematicamente, esses parasitas negroides em nosso
corpo nacional corrompem nossas inocentes garotas de cabelos louros e
assim destroem algo que não pode mais ser substituído neste mundo.”
Considerando tudo isso, não há dúvida para o escritor de que “a nação
alemã nunca reviverá a menos que o problema racial seja levado em
consideração e tratado”. Hitler não foi tão ousado na época em revelar qual
seria a solução para aquele horror percebido, mas novamente encontramos
uma pista em uma passagem essencial:
 
No início da Primeira Guerra Mundial, se 12 ou 15 mil desses judeus que
estavam corrompendo a nação fossem forçados a se submeter ao gás
venenoso (...) então os milhões de sacrifícios feitos no front não teriam
sido em vão. Pelo contrário, se 12 mil desses malfeitores tivessem sido
eliminados no tempo adequado, provavelmente a vida de um milhão de
homens decentes (...) poderia ter sido salva.
 
Por fim, “(nós) só teremos sucesso quando, além de toda a luta positiva
pela alma de nosso povo, seus envenenadores internacionais (ou seja, os
judeus) forem exterminados”.
A publicação apareceu em julho de 1925 — oito anos depois, uma edição
resumida em inglês foi publicada — e, embora muitos esperassem um livro
revelador do cérebro do golpe de 1923, o texto pesado e caótico teve vendas
modestas. Foi só quando Hitler chegou ao poder na Alemanha que a obra de
dois volumes se tornou um dos livros mais difundidos. Os recém-casados
recebiam uma cópia como presente de casamento, e cada soldado enviado
ao front ganhava uma cópia do livro que Benito Mussolini confessou ter
achado tão chato que nunca conseguiu ler. Em 1928, Hitler escreveu uma
sequência intitulada Zweites Buch [Segundo livro], que trata de política
externa, mas sua editora se recusou a imprimi-la devido às vendas fracas da
opera prima de Hitler. Mal sabiam a editora e o autor que Mein Kampf se
tornaria o livro mais popular da Alemanha — embora de certo modo à força
— em menos de uma década.
Duas descobertas

Poucos dias antes de 1924, Hitler foi libertado da prisão, antes de


cumprir toda a pena, e voltou para seu pequeno quarto na Thierschstrasse,
41. O tempo na prisão deu-lhe a oportunidade de pôr as ideias em ordem e
rever sua vida: a figura autoritária de seu pai, a morte da mãe, o destino
trágico dos irmãos, os anos miseráveis tentando uma carreira artística, tudo
evidenciado em Mein Kampf. Com mais maturidade, recomeçou evitando
os mesmos erros ou cedendo à pressão dos colegas. Ele decidiu seguir as
regras. A ascensão ao poder seria mais lenta pela rota eleitoral, mas quando
ele chegasse lá ninguém o impediria. Sua primeira missão foi restaurar a
legalidade do Partido Nazista, que havia sido fraturada durante seu período
atrás das grades, bem como interceder por outros nazistas proeminentes que
também estavam cumprindo pena na prisão. Ele se encontrou com Heinrich
Held, o ministro da Baviera, e prometeu que respeitaria sua autoridade, que
se desassociaria do general Ludendorff e nunca mais tentaria tomar o poder
com armas.
Em 27 de fevereiro, Hitler voltou à arena pública para reencontrar o
Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, com um discurso
apaixonado que durou duas horas, em uma grande cervejaria onde cinco mil
pessoas compareceram. O führer havia retornado. Logo o governo da
Baviera, e mais tarde de outras partes da Alemanha, emitiu uma ordem
proibindo Hitler de falar em público. O führer aproveitou o momento para
organizar reuniões privadas, estreitar relações com outros membros e
simpatizantes e trabalhar pela consolidação do partido em outras regiões da
Alemanha.
A proibição a Hitler não durou o suficiente para detê-lo. Os nazistas
continuaram a atrair pessoas com sua retórica inflamada, especialmente as
classes baixa e média, que engoliam a ideia de que grandes corporações
judaicas estavam causando sua ruína. Os nazistas também atraíam jovens
estudantes cativados pela personalidade magnética do ultranacionalista
Hitler, que, ao consolidar sua imagem, também eliminava a competição.
Naquele momento, nada disso se refletiu nas pesquisas; o Partido Nacional
Socialista obteve resultados ruins nas eleições nacionais durante o resto da
década — menos de três por cento dos votos em 1924 e 1928, um período
em que a economia alemã melhorou significativamente. Mas os nazistas
estavam apenas ganhando forças.
Hitler gostava de controlar obsessivamente sua imagem e as das
convenções partidárias nazistas, para fazê-las parecer um fenômeno de
massa e a si mesmo um líder de ferro. Com a intenção de melhorar sua
imagem, contratou o fotógrafo Heinrich Hoffmann, membro do partido
desde 1920. Hoffmann tornou-se a única pessoa autorizada a fotografar
Hitler, sempre vestido a caráter, nunca ingênuo, bobo ou desleixado. Mas
em algumas ocasiões ele mostrou seu lado suave — existem raras fotos de
Hitler sorrindo para crianças ou brincando com cachorros. Hoffmann foi o
arquiteto da imagem de Hitler e seria um elemento estratégico nos próximos
anos. Quando soube que Hoffmann havia tirado fotos da torcida no Odeon-
splatz no início da Primeira Guerra Mundial, o führer visitou seu estúdio
para procurar os negativos da famosa fotografia. Quando examinaram o
quadro, lá estava ele, o jovem pintor de Viena, ouvindo em êxtase a
declaração de guerra.
No estudo, Hitler fez outra descoberta, uma das mais importantes de sua
vida e uma das poucas que lhe deram um lado humano. Na recepção de
Hoffmann, ele viu uma garota de 17 anos chamada Eva Braun. Se a atração
foi imediata, como alguns afirmam, por um tempo os dois mantiveram em
segredo. Naquele mesmo ano, Hitler se mudou para um apartamento novo e
espaçoso na Prinzregentenplatz, 16, em Munique, com sua meia-sobrinha
de 21 anos, uma jovem chamada Geli Raubal, com um sorriso esplêndido e
duas tranças louras. A relação entre eles nunca foi muito clara.
 
Seus complexos (em relação às mulheres) pareceram se afrouxar apenas
depois que Geli Raubal apareceu com sua predileção sentimental e a
princípio, evidentemente, meio infantil por “tio Alf”. Podia ser que ele
ficasse mais tranquilo com alguém de seu próprio sangue. (Fest, 2013)
 
O relacionamento com Geli terminou de forma trágica quando a jovem
cometeu suicídio dois anos depois, no apartamento de Hitler. Mas naquele
momento Eva Braun, mais jovem e mais bela, impressionou notavelmente o
líder do Partido Nacional Socialista.
Ascensão ao poder

Mais uma vez, uma crise nacional aumentaria a sorte de Hitler. A


Grande Depressão de 1929 atingiu duramente a Alemanha. A nação
dependia de empréstimos dos Estados Unidos e exportações para a
América. Em um ano a produção industrial caiu pela metade, e entre 1930 e
1933 o número de desempregados na Alemanha de Weimar aumentou de
1,5 milhão para seis milhões, pouco mais de um quarto da força de trabalho.
Em 1932, Hitler, o dono absoluto do partido, naturalizou-se alemão — ele
era apátrida até aquele momento, tendo perdido a nacionalidade austríaca
depois de servir em um Exército estrangeiro — e se registrou como
candidato à presidência da Alemanha faminta e arruinada. “Exigimos
liberdade e pão”, dizia um pôster do Partido Nazista durante a eleição de
1930 com uma suástica proeminente no topo. Ironicamente, Hitler fez
campanha com uma mensagem claramente antidemocrática: enfatizou a
necessidade de um único homem forte e capaz de tomar decisões. Em
discurso falou sobre a perversão do sistema democrático que, na teoria,
poderia eleger um presidente negro para a Comunidade das Nações e a ideia
da supremacia da raça alemã branca, que por sua superioridade tinha direito
de reivindicar espaço vital para novos assentamentos sem considerações
mesquinhas. Em um discurso histórico pronunciado em fevereiro de 1932,
ele declarou perante dirigentes industriais da Alemanha:
 
A Inglaterra não conquistou a Índia por meio da justiça e da lei: ela
conquistou a Índia sem levar em conta os desejos, as visões dos nativos ou
suas formulações de justiça e, quando necessário, manteve essa
supremacia com a mais brutal crueldade.
 
No final dessa intervenção, os industriais alemães estavam totalmente do
lado de Hitler e, depois de uma reunião secreta, contribuíram com grandes
somas para a campanha dele.
As táticas dos nazistas — sem dúvida nada diferentes das estratégias dos
outros partidos na época — eram cada vez mais violentas à medida que a
ruína política e a guerra civil se aproximavam do país. Hitler permitiu a
campanha não exatamente ortodoxa: além da retórica inflamada, racista e
ultranacionalista, havia o terror espalhado pela ala paramilitar do partido —
a SA ou Tropas de Assalto —, cuja missão oficial era proteger os encontros
de ataques de grupos opostos, mas, informalmente, assediar, espancar e
aterrorizar judeus, eslavos, ciganos e qualquer grupo que considerassem
indesejável. O novo chanceler ordenou a dissolução das tropas de assalto
nazistas em uma última tentativa de deter Hitler.
Embora tenha perdido a presidência para Paul von Hindenburg, candidato
à reeleição, Hitler obteve 32% dos votos nacionais. Os nazistas garantiram
230 cadeiras no Reichstag, o corpo legislativo, tornando-se assim a segunda
força política, e obtiveram popularidade massiva. Além disso, em meio à
tensão crescente, a campanha atingiu uma camada fundamental dos setores
mais importantes do país. Em julho, cinquenta professores fizeram uma
declaração de apoio ao Partido Nazista, seguida por outra, da União
Socioeconômica de Frankfurt. Em novembro veio a mais importante de
todas: uma petição assinada por 22 dirigentes dos setores bancário,
industrial e agrícola, incluindo o presidente da Câmara da Indústria.
Dezenas de banqueiros, industriais e empresários entregaram uma petição
assinada ao presidente Hindenburg solicitando-lhe que nomeasse Hitler
como chanceler, o que formaria um governo de coalizão de fato. A nação
passou a apreciar Hindenburg mais como um herói do que como um
presidente. Foi em decorrência da divisão nacional que ele foi chamado de
volta. E foi em decorrência dessa cisão que Hitler assumiu o cargo,
acabando, aparentemente, com ela. Em janeiro, ele tornou-se chanceler da
Alemanha.
Ele não perdeu tempo e anunciou um programa para reconstruir o país,
para o qual pediu poderes ditatoriais por quatro anos — a Lei de Concessão
de Plenos Poderes, cujo nome completo era “Lei para Sanar a Aflição do
Povo e da Nação”. O ato deu a Hitler o poder de promulgar leis sem
interferência do corpo legislativo. Ele prendeu centenas de pessoas e matou
dezenas de outras para eliminar toda a oposição. Em 1934, o presidente
Hindenburg morreu de câncer no pulmão, e Hitler assumiu o poder
absoluto.
Em um discurso amargo, disse sobre Hindenburg: “Ele é um homem
velho, eu tenho 43 anos, ele tem 84 anos, minha respiração é mais longa
que a dele. Existe uma razão para acreditar que vou viver mais que ele.” Por
viver mais que ele, Hitler queria dizer que em algum momento iria sucedê-
lo como o homem do destino da Alemanha. Imediatamente, ele fez com que
todas as Forças Armadas jurassem lealdade não à Alemanha, mas a Adolf
Hitler.
O maior problema que o führer enfrentou depois de ganhar o poder total
na Alemanha foi uma batalha contra a depressão e o desemprego. Seu
esforço para recuperar os postos de trabalho dos alemães — e ele foi bem-
sucedido em conseguir empregos para cerca de três milhões de pessoas num
período de 18 meses — foi auxiliado por seu programa de rearmamento.
Também desenvolveu uma das organizações de assistência de maior alcance
da história até aquele momento, para cuidar de milhões de alemães durante
os meses de inverno.
O führer tinha hábitos noturnos. Ele era capaz de grandes esforços físicos
e mentais, mas abominava os horários normais de trabalho. A maioria de
suas reuniões acontecia à noite e suas luzes costumavam ficar acesas até o
amanhecer. Ele evitava carne, fumo e bebida, mas consumia imensas
quantidades de doces; era infantil em seus hábitos, dirigindo sempre que
tinha vontade ou abandonando as questões de Estado para passar meio dia
no cinema.
Existem muitas histórias da influência exercida sobre ele por místicos e
videntes. Hitler conversava por muito tempo com eles antes de tomar
qualquer decisão importante. Isso não era raro, entretanto, em outros líderes
mundiais da época, como Churchill, por exemplo. Durante os anos da
ascensão de Hitler ao poder, um hipnotizador e astrólogo chamado Erik Jan
Hanussen o treinou em táticas de palco e ensinou-o a criar efeitos
dramáticos e intimidadores. Em casa, Adolf Hitler tinha uma biblioteca
pessoal composta por milhares de volumes, a maioria com anotações feitas
pelo próprio führer.
O primeiro campo de concentração foi aberto assim que Hitler assumiu o
poder, para deter e torturar oponentes políticos e, mais tarde, “elementos
racialmente indesejáveis”, mas o führer era incapaz de suportar cenas de
crueldade com os animais. “O mundo do futuro será vegetariano”, disse em
certa ocasião. Há fotos de Hitler alimentando veados com as mãos, e ele
gostava principalmente de cachorros. Após a Primeira Guerra Mundial,
tivera um cachorro chamado Prinz, o qual precisou doar por não ter
recursos para mantê-lo. Depois, teve um pastor-alemão chamado Muck e,
mais tarde, o seu favorito, Blondi.
Hitler tinha dado ao mundo várias pistas de suas intenções de se rearmar
quando retirou a Alemanha da Conferência para o Desarmamento na cidade
de Genebra, em 1933, mas o primeiro movimento real foi feito quando
anunciou que uma Força Aérea havia sido criada no Reich. Em 1935, ele
anunciou a introdução do treinamento militar obrigatório — uma violação
ao Tratado de Versalhes —, e no final de maio foi aprovada uma lei que
previa um ano de treinamento do Exército para todos os alemães saudáveis,
embora em discursos ele insistisse que a Alemanha não tinha ambições
territoriais contra seus vizinhos ocidentais. Portanto, o führer precisou agir
rápido. Em 1936, ordenou que as tropas alemãs ocupassem a Renânia, uma
área industrial estratégica onde a Alemanha não tinha permissão para ter
tropas. Ele consolidou completamente o poder sobre as forças de combate
alemãs em 1938. Por coincidência, em novembro do mesmo ano a ala
militar do Partido Nazista e os civis realizaram um pogrom contra a
população judaica que resultou na destruição de sete mil negócios judeus e
o incêndio de mais de mil sinagogas. Casas também foram saqueadas e
trinta mil judeus foram presos. Hitler estava pronto para a guerra e para a
vingança, tanto em casa quanto fora das fronteiras do Reich.
Seu primeiro movimento foi simbólico, seus olhos fixos firmemente no
lugar que ele abominava, onde havia passado os anos mais difíceis de sua
vida — sua pátria mãe, a Áustria. Os piores temores da Europa e do mundo
batiam à porta.
PARTE IV
A QUEDA
Os judeus devem sair da Alemanha, sim, de toda a Europa. Isso vai levar
algum tempo. Mas isso vai e deve acontecer. O führer está firmemente
decidido a isso.

Trecho do diário de Joseph Goebbel, ministro da República da Alemanha


nazista
O chanceler austríaco, Kurt Schuschnigg, dirigiu suas últimas
palavras ao povo austríaco pelo rádio à meia-noite de 11 de março de 1938:
“Deus proteja a Áustria.” Ao amanhecer, tanques alemães cruzaram a
fronteira, enquanto dezenas de aviões lançavam uma chuva de bandeiras,
suásticas e panfletos com a imagem de Hitler sobre Viena e outras cidades.
No dia seguinte, o próprio Hitler cruzou a linha internacional perto de seu
local de nascimento e foi para Viena. A cidade que trinta anos antes o vira
dormir em bancos de parques agora o recebia com fervor quase religioso.
Da sacada do palácio imperial, ele se dirigiu a uma multidão em êxtase. A
maioria da população austríaca, ao que parecia, concordou de boa vontade
em se tornar parte do império alemão em ascensão. O mundo assistia a
Hitler com desconfiança, mas ainda com ingenuidade sobre suas
verdadeiras intenções. Apenas um país no mundo, o México, protestou na
Liga das Nações pelo ato arbitrário, realizado com a bênção de Mussolini
da Itália e a aprovação tácita do resto do continente, que preferiu calar-se
diante do primeiro ato de expansionismo nazista.
 
Para Hitler, a unificação dos dois países “alemães” era uma prioridade por
dois motivos. A Áustria possuía reservas valiosas de ouro e matérias-
primas — o oposto da economia alemã, que se esgotava cada vez mais por
causa dos preparativos para a guerra. Após a anexação, cerca de 2,7
bilhões de xelins em ouro e moeda estrangeira ficaram sob o controle do
Reichsbank alemão. Em segundo lugar, em termos geopolíticos, a Áustria
era um importante ponto de partida para os planos de guerra dos nazistas
(Kraske, 2008).
Cinquenta anos e no topo

Durante cinco anos, Hitler conduziu sua política externa agressiva e


alcançou seus objetivos sem muita interferência dos poderes europeus,
garantindo que as hostilidades não explodissem. Ele tirou proveito da
fraqueza militar e dos interesses divergentes das diferentes nações, suas
inseguranças, suspeitas mútuas e o medo da guerra. Após a Áustria,
continuou sua expansão em direção à região da Tchecoslováquia que os
alemães chamavam de Sudetenland, onde vivia a população étnica alemã —
pessoas que falavam alemão e moravam em cidades com nomes alemães.
As forças de ocupação e os tanques de Hitler foram recebidos com flores.
Até aquele momento, o führer insistia que pretendia apenas devolver à
Alemanha o que era sua posse por direito.
Hitler cruzou para a nova região do império alemão, Sudetenland, onde
foi recebido como um herói pela minoria alemã da Tchecoslováquia. Os
habitantes ofereceram a ele e a Heinrich Himmler dois copos de água
curativa da cidade termal de Franzensbad. Diante das câmeras captando o
momento para a posteridade em um filme, um Hitler feliz segurou uma jarra
de vidro, já usando seu característico casaco longo até o joelho e um quepe
da polícia na cabeça com a insígnia nazista. Na pequena Eger Marktplatz,
Hitler falou a centenas de pessoas que o aplaudiram como seu libertador. O
sonho de uma nova e grande Alemanha cresceu na mente de todos. No
entanto, uma vez que a população de origem alemã foi integrada, Hitler não
parou por aí. Em março do ano seguinte, o führer voltou para a
Tchecoslováquia, mas dessa vez avançou até Praga, a capital. Da janela do
Castelo de Praga, Adolf Hitler proclamou o Protetorado Alemão da Boêmia
e da Morávia. Certamente havia muitas pessoas torcendo por ele, mas, ao
contrário de sua visita anterior, nem todos ficaram felizes. Um dia antes,
Hitler havia chamado o presidente Emil Hácha a Berlim e, depois de fazê-lo
esperar por horas, informou-o de que a Tchecoslováquia seria ocupada no
dia seguinte. Quando Hermann Göring, membro proeminente do Partido
Nazista, ameaçou destruir a cidade de Praga com um avião, Hácha sofreu
um ataque cardíaco.
Hitler retornou a Berlim a tempo de comemorar seu quinquagésimo
aniversário, uma ocasião propícia para organizar uma imponente
demonstração pública de superioridade. Só então o povo alemão e o resto
do mundo perceberam o verdadeiro alcance do programa de rearmamento
dos últimos anos. O desfile demonstrando o novo poderio militar do Reich
foi um lembrete não muito sutil para o resto da Europa. O espetáculo sem
fim de tropas, aviões e veículos militares durou cinco horas. Foi a maior
parada militar da história da Alemanha — cinquenta mil soldados, mil para
cada ano do führer, mísseis de longo alcance, tanques e mais de 150 aviões
de guerra. Hitler passeou em carro aberto pela nova avenida central de
Berlim, o Eixo Leste-Oeste, obra do arquiteto Albert Speer, que se
encarregaria de projetar a nova Berlim, destinada a se tornar a nova capital
do mundo.
Correspondentes de toda a Europa e do mundo inteiro ficaram surpresos
com os “gigantescos novos tipos de artilharia aérea de longo alcance”. Os
jornais americanos noticiaram no dia seguinte que
 
as máquinas de guerra mais sombrias foram vistas com a passagem de um
regimento de artilharia mais pesada. Primeiro vieram caminhões sem fim,
cada um puxando um canhão de seis ou oito polegadas. Em seguida,
vieram quatro imensas peças de artilharia apelidadas pelos repórteres
internacionais de “supercanhões”, cada uma carregada em cinco
caminhões para o suporte e máquina e um para o cano do canhão. A visão
das novas armas formidáveis atraiu um dos maiores aplausos do dia.
Hitler analisou atentamente todo o desfile de uma tribuna com dossel,
erguida ao longo da “Avenida do Esplendor”.
 
Os alemães ficaram surpresos, com uma sensação de alívio e segurança
renovada. A Alemanha não seria mais motivo de riso na Europa nem ficaria
vulnerável às ambições francesas e britânicas. Mas Hitler não estava
pensando em defesa, mas em agressão.
A guerra-relâmpago

Em setembro, Hitler voltou sua atenção para a Polônia e exigiu o


retorno da cidade livre de Danzing, direitos de passagem para a Prússia
Oriental e certos privilégios para a minoria alemã daquele país. Ele rejeitou
as declarações da França e da Inglaterra de que apoiariam a Polônia se a
Alemanha forçasse a situação. No entanto, antes de fazer sua jogada, o
führer começou a fortalecer suas alianças internacionais para isolar a
Polônia. Durante a primavera e o verão, assinou pactos de não agressão com
a Eslováquia, a Lituânia, a Letônia e a Estônia, e um acordo econômico e
garantias de amizade com a Romênia, a Hungria, a Bulgária e a Iugoslávia.
Em maio, negociou com o italiano Mussolini o chamado Pacto de Aço, no
qual os dois líderes prometeram unir seus destinos em caso de guerra. Por
fim, em uma reviravolta prodigiosa da política diplomática, ele celebrou um
tratado de não agressão com seu grande inimigo, a União Soviética, em
agosto de 1939. Uma semana depois, na madrugada de 31 de agosto, Hitler
ordenou que as forças alemãs invadissem a Polônia. Foi o ataque mais
violento que o mundo já viu.
A velocidade e a intensidade da ofensiva alemã por ar e terra
mergulharam as forças polonesas em completa confusão. A chamada
blitzkrieg de Hitler, ou guerra-relâmpago, um ataque coordenado de forças
aéreas, veículos de combate e infantaria, pegou os poloneses de surpresa.
Os caças e bombardeiros alemães varreram a Força Aérea polonesa em
menos de 48 horas, antes que a maioria dos aviões pudesse decolar, e
também destruíram as ferrovias e literalmente ceifaram as colunas de
soldados que avançavam. A guerra-relâmpago alemã também incluiu
elementos psicológicos para causar terror entre as tropas inimigas, como o
uso da chamada Trombeta de Jericó, uma sirene movida pelo vento que
emitia um grito estridente para aterrorizar as pessoas. Além disso, havia
uma quarta coluna paramilitar dedicada exclusivamente a espalhar mentiras,
boatos e pânico entre a população.
Os poloneses lutaram arduamente, mas havia outro fator importante que
os tornava indefesos contra o inimigo: seu armamento e o sistema de
combate estavam desatualizados. Houve um momento em que a cavalaria
polonesa avançou com lanças e sabres contra os tanques alemães.
Hitler visitou o front em um carro aberto, cruzou os campos do país
conquistado de trem e observou de um avião as ruínas deixadas pelo
Exército nazista. Alegre e animado, conversou com os soldados, comeu
com eles, se apresentou como outro soldado em serviço e deu autógrafos,
até mesmo para soldados russos que correram para vê-lo pessoalmente
quando souberam que ele estava ali. Hitler assistiu com seus binóculos ao
ataque final a Varsóvia e viu a cidade queimar a poucos quilômetros do
inferno. Um filme daquele momento preciso foi preservado. Ele se
concentra no rosto de Hitler e então algo surpreendente acontece: um
sorriso malicioso no rosto sempre zangado e impassível do líder alemão.
Duas semanas depois, os russos romperam a fronteira oriental. O pretexto
de Stalin era que ele precisava proteger as minorias de russos e ucranianos
no lado oriental do país invadido. Seu objetivo era, na verdade, levar uma
parte dos despojos da guerra. Sem resistência, as tropas russas encontraram
as colunas alemãs em Brest-Litovsk. Ambas as nações ficaram com sua
parte da Polônia, que, como a Tchecoslováquia e a Áustria, desapareceu do
mapa de um dia para o outro. Ninguém viera em seu auxílio. No entanto,
era impossível para Hitler continuar a enganar a Inglaterra e a França com
sua teoria do espaço vital. As potências entenderam que precisavam se
preparar para novos desafios e iniciaram seus próprios programas de
rearmamento. “Hoje é um dia triste para todos nós”, disse o primeiro-
ministro da Grã-Bretanha na Câmara dos Comuns em Londres. “Tudo pelo
que trabalhei, aquilo em que acreditei, desabou completamente.”
Com a Polônia derrotada, o führer ofereceu-se para estabelecer a paz se a
Inglaterra e a França reconhecessem suas anexações e entregassem algumas
das colônias que a Alemanha possuía antes da Primeira Guerra Mundial.
Mas Hitler já havia planejado a invasão da Europa Ocidental caso sua
proposta fosse rejeitada. Ele calculou que, quando a França capitulasse, a
Inglaterra teria de estabelecer a paz. Uma vez que o flanco ocidental
estivesse em ordem, ele realizaria seu objetivo principal: a expansão do
Reich para o leste, a vastidão da Rússia, que por enquanto teria de esperar.
A Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Após meses de
hesitação, indiferença e, por fim, convicção plena, Hitler também ordenou a
invasão da Dinamarca e da Noruega. Um mês depois, a Holanda e a Bélgica
caíram, oprimidas pela guerra destrutiva. O equilíbrio de poder mudou
drasticamente com a invasão da França. Hitler planejou sua própria
estratégia, às vezes contra as recomendações de seus principais generais,
mas sua cadeia de sucessos avassaladores deu-lhe a confiança de que
precisava para assumir o curso da guerra em suas mãos.
Para Hitler, a queda da França — o vizinho odiado, o carrasco de 1918 —
foi como recuperar a honra. Paris assinou sua rendição em 22 de junho de
1940, na floresta de Compiègne, dentro do vagão ferroviário que se tornou
famoso: a mesma localização geográfica e o mesmo vagão em que a
Alemanha havia assinado sua rendição 22 anos antes. Foi o pequeno
capricho de Hitler, de enorme valor simbólico: a humilhação da Primeira
Guerra havia sido revertida. Afinal, na mente do führer o único propósito
do Estado francês era “a dissolução da Alemanha em uma miscelânea de
pequenos Estados”. A França, a França chauvinista, a nação que havia
“vendido seu povo como mercenários ao judeu internacional” (Hitler,
2016).
O führer tinha de estar lá para ver. No final de junho, após o triunfal
desfile alemão por Paris, Hitler comunicou ao ministro dos Armamentos do
Reich, Albert Speer, sua intenção de fazer um tour pela capital derrotada.
“Passamos pela Madeleine, descemos pela Champs-Élysées em direção ao
Trocadéro e depois para a Torre Eiffel”, escreveu Speer em suas memórias,
“onde Hitler ordenou outra parada. Partindo do Arco do Triunfo no Túmulo
do Soldado Desconhecido, seguimos de carro até o Palácio dos Inválidos,
onde Hitler ficou por muito tempo junto ao Túmulo de Napoleão”. E fecha
seu parágrafo lembrando com sutil compaixão as palavras que Hitler disse
ao final do passeio pelas ruas desertas:
 
Era o sonho da minha vida poder ver Paris. Não posso dizer o quanto
estou feliz por ter esse sonho realizado hoje. Por um momento, senti algo
como pena dele: três horas em Paris, a única vez em que iria vê-la, o
deixaram feliz quando estava no auge de seus triunfos. (Speer, 1970)
 
Depois de se deleitar com a Cidade Luz, Hitler começou a brincar com a
ideia de reduzi-la a ruínas. O general Rommel, famoso por suas campanhas
na África e por se tornar “o bom nazista” da imaginação ocidental,
recomendou a destruição de Paris como um golpe “operacional, político,
econômico e psicologicamente decisivo”. Em 1944, Hitler ordenou que
todos os edifícios históricos e religiosos na cidade fossem dinamitados, uma
ordem que o governador nazista Dietrich von Choltitz se recusou a cumprir
porque, a essa altura, considerava que Hitler tinha enlouquecido.
Com a queda da França em 1940, o líder do Reich praticamente colocou a
Europa de joelhos. Sua obsessão número um, a expansão das fronteiras da
Alemanha, havia atingido o auge — ou quase. A Rússia foi o próximo
passo. Ao mesmo tempo, de uma forma mais secreta e assustadora, porém
conhecida pelos escalões intermediários e superiores de seu governo, Hitler
também havia iniciado sua segunda e mais monstruosa obsessão: um
programa de eutanásia e o extermínio dos judeus, oponentes políticos e
outros elementos indesejáveis que não teriam lugar no Terceiro Reich.
À procura de “espaço vital”

Hitler tinha uma visão indiscutível de um Reich poderoso que


primeiro reuniria todo o povo alemão e então conquistaria mais espaço vital
(Lebensraum) na Europa Oriental, um conceito entusiasticamente apoiado
pelos líderes econômicos e industriais alemães, na medida em que o
“espaço vital” de Hitler poderia ser facilmente traduzido em mercados
maiores. Para conseguir isso, era essencial que Hitler concluísse a
deportação forçada dos judeus para fora do Reich. Mais tarde, conforme a
guerra avançava e as circunstâncias mudavam, foi o extermínio de todos os
judeus europeus, uma operação conhecida como “solução final”. A ideia
não era nova, a novidade era que dessa vez Adolf Hitler tinha os meios para
concretizá-la.
Após a queda da França, prestes a entrar na fase decisiva da guerra, Hitler
começou a desaparecer das vistas do público e ficou menos tempo em
Berlim. Ele gostava de passar os dias quase aposentado em uma casa nos
Alpes da Baviera, que comprara em 1933 com os royalties de Mein Kampf.
Ele a remodelara em uma residência em estilo alpino. Conhecida como
“Berghof”, tornou-se sua sede semioficial, onde recebeu personalidades
importantes como Neville Chamberlain, primeiro-ministro do Reino Unido,
Benito Mussolini, os príncipes de Gales e seu próprio gabinete. Uma
residente quase permanente de Berghof era sua namorada Eva Braun, que
permaneceu anônima para praticamente todos os alemães até o dia de sua
morte. Um grande número de fotos de Hitler, Braun e seus cães na
residência sobreviveram, e outras que mostram Hitler com crianças cuja
visita ele recebeu com genuíno prazer.
Foi em Berghof que as invasões da Polônia e da Rússia foram discutidas.
Entre as reuniões com seus generais, o führer gostava de passear pela
floresta, mas a segurança se tornava mais rígida à medida que a guerra
avançava. Em uma ocasião, os britânicos planejaram enviar um atirador
para matar Hitler durante uma de suas caminhadas. Durante as refeições, ele
fazia extensos monólogos de natureza religiosa, militar, política e artística
que ninguém podia interromper. Albert Speer é contundente em suas
memórias:
 
Hitler era aquele clássico “sabe-tudo”. Sua mente estava atulhada de
pequenas informações e desinformações sobre tudo. Acredito que uma das
razões por que ele reuniu tantos lacaios ao seu redor foi que seu instinto
lhe disse que as pessoas de primeira classe não teriam estômago para os
derramamentos.
 
Em junho de 1941, um ano após a rendição do exército, Hitler ordenou a
mais ambiciosa ofensiva militar de todos os tempos. Ao longo de uma
frente de quase 1.800 quilômetros, três milhões de soldados do Reich
entraram na Europa Oriental na direção de Leningrado (atual São
Petersburgo) e Moscou. Hitler considerava que a conquista de seu maior
inimigo ideológico, a União Soviética, era uma missão histórica para
subjugar os eslavos orientais — chamados de Untermenschen, ou raça
inferior — a fim de adquirir espaço para novos assentamentos alemães.
Dirigindo-se a seus soldados pouco antes da invasão da Rússia, Hitler
lembrou a eles: “Devemos esquecer o conceito de camaradagem entre
soldados. Comunista não é camarada antes ou depois da guerra. Esta é uma
guerra de aniquilação.”
As forças alemãs deslocaram-se a uma velocidade surpreendente e quatro
meses depois a cidade de Moscou estava à vista. Mas foi então que a sorte
de Hitler começou a declinar. A apenas quarenta quilômetros da capital
soviética, açoitado pelo inverno e pelo contra-ataque das tropas russas, o
exército alemão finalmente recebeu a aprovação de Hitler para recuar; ele
culpava seus generais pela derrota. Na verdade, foi um ponto de virada na
guerra. Em 1942, o jornal The Times de Londres publicou profeticamente:
“Nossos sentimentos nos dizem que este ano estamos enfrentando uma
virada decisiva em nossa história.” Hitler ficava sabendo, um relato
angustiante após o outro, da destruição de seus exércitos no Norte da
África, da derrota de seu 6.º Exército em Stalingrado e, finalmente, dos
primeiros bombardeios em cidades alemãs.
 
Tínhamos chegado a um ponto de inflexão em nossa economia de guerra,
pois até o outono de 1941 a liderança econômica baseava sua política em
guerras curtas com longos períodos de paz entre elas. Agora a guerra
permanente estava começando. (Speer, 1970)
A “solução final”

Hitler nunca havia frequentado a escola militar ou feito carreira no


Exército, nem estudara diplomacia, ciência política ou qualquer coisa que o
tornasse adequado para sua posição. Ele era muito bom em oratória e teatro.
Em tudo o mais, foi um autodidata. Essa falta de formação acadêmica e
militar lhe permitiu ignorar as regras do jogo, o que foi, na opinião de
alguns historiadores e pessoas próximas a ele, um dos fatores dos seus
sucessos iniciais. Hitler apostou tudo em vários golpes ousados e venceu.
O führer certamente tinha o hábito de se reunir com especialistas civis e
militares, situações em que podia ser in-crivelmente cordial, mas mostrava
seu limitado horizonte técnico e pouco conhecimento geral dos assuntos de
Estado. Como um homem sem educação formal, tinha uma capacidade
surpreendente de compreender de imediato o cerne da questão apresentada a
ele, mas prestava pouca atenção aos pontos delicados, o que enervava os
especialistas (Speer, 1970). Hitler assumiu o comando da guerra, muitas
vezes ignorando o conselho de seus principais generais, e isso foi a causa de
erros táticos desastrosos, como a estratégia e as datas da invasão da Rússia.
Outro aspecto importante foi o caminho tomado quanto à “Questão
Judaica”. Tem sido amplamente debatido em que ponto, como e quem
mudou o plano original de exílio ou deportação forçada de judeus europeus
para a “solução final”, isto é, o extermínio. Em algum momento, os mais
altos funcionários do Reich cogitaram a ideia de enviar os judeus a
Madagascar. Várias agências dentro do Reich participaram das matanças em
massa, e depois da guerra seus diretores tentaram se distanciar da solução
final, mas não há dúvida de que em algum momento Hitler deu a ordem
para o extermínio em massa de judeus, comunistas, homossexuais e pessoas
com doenças terminais. Para alguns funcionários, como Adolf Eichmann
(que estava encarregado de organizar as deportações em massa), a ordem de
exterminar os judeus foi uma medida excessiva que encerrou toda uma
carreira tentando encontrar um país para os judeus.
 
Nem mesmo Himmler (...) saudou a solução final com grande entusiasmo,
e Eichmann garantiu (...) que seu próprio chefe, Heinrich Miller, nunca
teria proposto algo tão brutal como o extermínio físico. (Arendt, 2006)
 
Himmler foi ordenado a realizar a solução final — o extermínio de todo o
povo judeu — pelo próprio Hitler e “preparar a polícia e a SS (a
Schutzstaffel, uma organização paramilitar dentro do Partido Nazista) para
cumprir tarefas especiais na Rússia”. Durante seu julgamento em Jerusalém,
Adolf Eichmann confessou que seu chefe Reinhard Heydrich dissera que “o
führer ordenou o extermínio físico dos judeus”.
A oposição a Hitler cresceu à medida que se tornou evidente que a ruína
da Alemanha era novamente uma possibilidade real, que nunca haveria uma
coroação inspiradora de Hitler na qual todos os representantes das nações
estariam presentes, que Berlim não seria a capital do mundo, onde todas as
grandes obras de arte seriam reunidas. O general Erwin Rommel
recomendara repetidamente a Hitler que se retirasse do país, consolidasse
suas posições e procurasse a paz. Após o desastre russo, grupos de
nacionalistas dentro do Partido Nazista chegaram à conclusão de que Hitler
deveria ser morto.
 
O que unia esses homens era que eles viam em Hitler um vigarista, um
entusiasta, que sacrificava exércitos inteiros contra os conselhos de seus
especialistas, um “louco” e um “demônio”, a encarnação de todo o mal,
que no contexto alemão significava algo tanto mais quanto menos de
quando o chamavam de “criminoso e tolo”, o que ocasionalmente faziam.
(Arendt, 2006)
 
É possível que a solução final também tenha intensificado a resistência a
Hitler. Em 20 de julho de 1944, uma bomba explodiu na sala de
conferências onde o líder da Alemanha estava se reunindo com oficiais
próximos. A bomba se encontrava dentro de uma pasta, embaixo da mesa à
qual ele estava sentado. No último momento, um dos convidados chutou a
pasta para a extrema direita da mesa, o que salvou a vida de Hitler, assim
como o fato de uma segunda bomba não ter explodido. Suas calças foram
estilhaçadas e seu tímpano estourou, mas, surpreendentemente, ele saiu
ileso. Os três oficiais à sua esquerda foram mortos. Cerca de cinco mil
pessoas suspeitas de fazer parte da resistência foram executadas por um
furioso Hitler após o ataque.
Enquanto as forças aliadas avançavam sobre uma Alemanha condenada,
Hitler deixou de aparecer em público. Seu último discurso importante
diante de uma multidão aconteceu em janeiro de 1942, por ocasião do nono
aniversário de sua chegada ao poder, e em 1943 ele fez um discurso mais
privado na frente de dez mil cadetes. Depois disso, suas mensagens
passaram a ser transmitidas pelo rádio e suas reuniões realizadas em um
forte chamado Toca do Lobo, no meio da floresta, perto da atual cidade de
Kętrzyn, na Polônia. Somente as pessoas mais confiáveis poderiam se
aproximar dele. Hitler também passava parte do tempo em sua residência
nas montanhas da Baviera.
Em 16 de janeiro de 1945, quando as forças alemãs estavam para entrar
em colapso, Hitler estabeleceu residência permanente em um abrigo
antiaéreo em Berlim, junto com seus colaboradores mais próximos, muito
poucos, além do pessoal de apoio, incluindo um secretário, enfermeiras, um
operador de rádio, sua namorada Eva Braun e seu cachorro Blondi. Berlim
já estava sitiada pelas tropas russas, que não apenas tinham derrotado os
alemães em Leningrado, como também avançado para o Ocidente com uma
determinação implacável. Em 20 de abril, dia do aniversário de Hitler, a
destruição aérea de Berlim começou.
Colapso

As duas últimas semanas de abril de 1945, os últimos dias da vida


de Adolf Hitler, foram amplamente documentadas com depoimentos de
testemunhas oculares, entre eles o de seu secretário e outras pessoas que
estavam no abrigo enquanto os bombardeiros russos travavam uma guerra
de destruição em Berlim, não poupando a população civil. Hitler deixou seu
abrigo antiaéreo pela última vez para conceder condecorações a jovens
membros da Juventude de Hitler. Em 22 de abril, com sintomas claros de
mal de Parkinson, problemas cardíacos e sintomas de abstinência (ele era
usuário frequente de drogas), o führer admitiu pela primeira vez que a
guerra estava perdida ao saber que o general Felix Steiner não tinha vindo
para resgatar Berlim.
Na última semana de abril, seus serviços de inteligência interceptaram
uma comunicação entre os Aliados revelando que Heinrich Himmler havia
oferecido a rendição e negociações da Alemanha. Abandonado, relutante
em se render e temendo que acabasse como objeto de museu, Hitler
preparou-se para morrer. Um dia antes de sua morte, à meia-noite, chamou
um juiz ao abrigo e casou-se com Eva Braun, então com 33 anos. Ele tinha
56. Pouco depois, ditou e assinou seus testamentos, um pessoal e outro de
caráter político. Nos documentos, deixou instruções para a distribuição de
alguns de seus pertences pessoais e nomeou um novo gabinete, embora todo
o tom da escrita reflita sua convicção de que a morte, a sua e a do Reich,
estava a apenas algumas horas de distância. Em seu testamento pessoal, ele
explica:
 
Agora, antes do fim da minha vida, decidi tomar como minha esposa a
mulher que, depois de muitos anos de verdadeira amizade, veio para a
cidade, já quase sitiada, por sua própria vontade, para compartilhar o meu
destino. Ela irá para a morte comigo por nossa própria vontade, como
minha esposa. Isso vai nos compensar pelo que nós dois perdemos com
meu trabalho a serviço do meu povo.
 
Em seu testamento político, com o estilo inconfundível de Mein Kampf,
ele escreveu:
 
Depois de seis anos de guerra, que, apesar de todos os contratempos, um
dia ficará para a história como a mais gloriosa e valente demonstração do
propósito de vida de uma nação, não posso abandonar a cidade que é a
capital deste Reich. Como as forças são muito pequenas para fazer
qualquer outra resistência contra o ataque inimigo neste lugar, e nossa
resistência está sendo gradualmente enfraquecida por homens que estão
tão iludidos quanto carentes de iniciativa, eu gostaria, permanecendo nesta
cidade, de compartilhar meu destino com aqueles, os milhões de outros,
que também se encarregaram de fazê-lo.
 
Ciente do destino de Benito Mussolini, que havia sido executado em
público e pendurado de cabeça para baixo com sua amante, apenas para ter
dezenas de italianos profanando o corpo e zombando do cadáver, Hitler
ordenou que seus restos e os da esposa fossem reduzidos a cinzas, um
pedido que também aparece em seu testamento pessoal. No último
momento de sua vida, Hitler mais uma vez pensou em apagar as pegadas na
neve, para permanecer indetectável.
A última linha de sua vontade política ele reservou para destilar seu ódio
pelos judeus e dar uma última ordem: “Resista impiedosamente aos
envenenadores de todas as nações, o judaísmo internacional.” Em seguida,
vem sua assinatura: “Berlim, 20 de abril de 1945, quatro horas, Adolf
Hitler.” Do abrigo saíram três mensageiros para tentar chegar a diferentes
pontos da Europa. Às dez horas da manhã de 30 de abril, os tanques russos
estavam em ambas as extremidades do antigo glorioso Eixo Leste-Oeste.
Quando os mensageiros saíram com o testamento de Hitler, os russos
estavam a trezentos metros da Chancelaria. Hitler se recusou a deixar
Berlim, apesar da insistência de seus últimos oficiais leais. Por fim, às duas
horas da tarde, ele e a nova esposa se retiraram e fecharam a porta de seu
escritório pessoal. Uma hora depois, os últimos habitantes do abrigo
ouviram uma detonação. Hitler havia atirado na têmpora direita com sua
pistola. Eva se envenenara com cianeto. De acordo com seus últimos
desejos, os corpos foram levados para o jardim no exterior da Chancelaria,
onde foram regados com duzentos litros de gasolina e incinerados em frente
à saída de emergência do abrigo. Ao lado de seu corpo também estava o de
Blondi, o cachorro favorito de Hitler. Os últimos homens levantaram as
mãos, saudando, olhando para as chamas e observando a forma que, como
milhões de suas vítimas, Hitler queimava: a mente por trás da guerra mais
cruel e sangrenta que o mundo já viu.
Os restos mortais de Adolf Hitler

Embora uma pequena biblioteca possa estar cheia de livros


registrando a teoria de que o führer não morreu em Berlim e fugiu para
algum país sul-americano, a verdade é que Hitler cometeu suicídio e seu
cadáver foi enterrado na cratera de um projétil de artilharia nos arredores da
Chancelaria do Reich. Quando Stalin soube que Hitler havia tirado a própria
vida, ficou cético no início e ordenou que o Exército Vermelho procurasse
seu corpo. Os soviéticos o encontraram em parte incinerado em 5 de maio
de 1945 e o retiraram, apenas para enterrá-lo novamente em uma floresta
perto de Rathenau, na Alemanha. Oito meses depois, eles o enterraram na
guarnição militar em Magdeburgo. Lá o corpo permaneceu por duas
décadas, sob controle russo, até que a União Soviética entregou a guarnição
às autoridades da República Democrática Alemã em 1970. Seria a última
vez que os ossos do todo-poderoso führer veriam a luz do dia. Os últimos
restos de Hitler foram cremados e reduzidos a cinzas por agentes soviéticos
sob as ordens do então diretor da KGB, Yuri Andropov. Por fim, foram
jogados em um rio. “Os restos mortais foram queimados em uma fogueira
fora da cidade de Shoenebeck, a 11 quilômetros de Magdeburgo, e depois
transformados em cinzas, coletados e jogados no rio Biederitz”, confirmou
o arquivista-chefe do Serviço de Segurança Federal da Rússia
(anteriormente conhecido como KGB), general Vasily Khristoforov, em
2009.
Tal foi a vida, ascensão e ruína do homem que causou uma das maiores
destruições da história da humanidade, uma devastação que certamente teve
muitos colaboradores, mas um grande incentivador. O sonho de Hitler não
era apenas de um grande império alemão, e sim a morte de milhões de
pessoas e um genocídio — ou, sendo mais preciso, muitos genocídios —
cujo número total ainda é desconhecido. Mas Hitler não era sobre-humano.
O mundo continuará a se perguntar, como fez ansiosamente durante os anos
após a guerra, como o “colapso moral total que os nazistas causaram na
respeitável sociedade europeia, não apenas na Alemanha, mas em quase
todos os países, não apenas entre os perseguidores, mas também entre as
vítimas”, foi possível (Arendt, 2006). “A Europa nunca viu tamanha
calamidade em sua civilização, e ninguém pode dizer quando ela começará
a se recuperar de seus efeitos”, escreveu um jornal britânico quando a
poeira finalmente baixou. Julgamentos se seguiriam, compartilhamentos de
culpa, tentativas de desculpar e negar o Holocausto — de judeus, poloneses,
ciganos, homossexuais, doentes, idosos, dissidentes políticos e outros —, a
prisão e absolvição de alguns que tinham resistido genuinamente a Adolf
Hitler, cuja sombra continua lançando um aviso do que pode acontecer
quando o desespero, o caos e a humilhação recaem sobre uma nação, e a
ambição e arrogância dos políticos de ambos os lados — Oriente e Ocidente
— é deixada sem controle. “Você não pode expulsar o Diabo com Belzebu”,
escreveu Hitler em Mein Kampf, talvez uma das poucas verdades que ele
disse em sua vida.
Referências bibliográficas

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Regiment, and the First World War. Reino Unido: Oxford University Press,
2011.
Zalampas, Sherree O. Adolf Hitler: A Psychological Interpretation of His
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DIREÇÃO EDITORIAL
Daniele Cajueiro

EDITORA RESPONSÁVEL
Ana Carla Sousa

PRODUÇÃO EDITORIAL
Adriana Torres

Mariana Bard
Mariana Oliveira

REVISÃO DE TRADUÇÃO
Carolina Leocadio

REVISÃO
Luana Balthazar

CAPA

Leticia Antonio

DIAGRAMAÇÃO
Leticia Fernandez Carvalho

PRODUÇÃO DE EBOOK
S2 Books
[ 01 ] A autenticidade dessa fotografia foi seriamente questionada nos últimos anos. O elemento
suspeito é o bigode de broxa de Hitler, que só começou a ser usado anos depois. Se a imagem for
genuína, então ele era o único alemão a usar aquele bigode. Outras fotos da época o mostram com o
bigode comprido e pontudo que estava, então, na moda.

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