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ESTUDOS ECOLÓGICOS

DEFINIÇÃO

Unidade de observação é um grupo de pessoas e não o indivíduo


Grupo pertence a uma área geográfica definida → estado, cidade, setor censitário
Freqüentemente realizados combinando-se arquivos de dados existentes em grandes
populações → geralmente mais baratos e mais rápidos
Avaliam o contexto social e ambiental → medidas coletadas no nível individual muitas
vezes são incapazes de refletir adequadamente os processos que ocorrem no nível
coletivo → nível de desorganização social → epidemia mais intensa

OBJETIVOS

Gerar ou testar hipóteses etiológicas → explicar a ocorrência da doença


Avaliar a efetividade de intervenções na população → testar a aplicação de nosso
conhecimento para prevenir doença ou promover saúde

NÍVEIS DE ANÁLISE

Nível individual Nível coletivo


Fator em Doença (Y) Total Fator em Doença (Y) Total
estudo (X) caso não caso estudo (X) caso não caso
Exposto a b e1 Exposto ? ? e1
Não c d e0 Não exposto ? ? e0
exposto Total m1 m0 n
Total m1 m0 n

Num estudo ecológico não temos a informação sobre a distribuição conjunta do fator
em estudo e da doença dentro de cada grupo

Conhecemos o número total de indivíduos expostos (e1) e o número total de casos (m1)
dentro de cada grupo, mas não o número de casos expostos (a)

Na análise ecológica, a variável independente (X) é a proporção de indivíduos expostos


dentro do grupo (e1/n), e a variável dependente (Y) é a taxa (ou risco) da doença (e1/n)
ESTUDOS ECOLÓGICOS

TIPO DE VARIÁVEIS UTILIZADAS

1. Medidas agregadas: agregação das mensurações efetuadas no nível individual →


proporção de fumantes, taxa de incidência de uma doença e renda familiar média
2. Medidas ambientais: características físicas do lugar → poluição do ar, exposição à luz
solar. Cada medida ambiental tem uma análoga no nível individual, entretanto, o nível
de exposição individual pode variar entre os membros de cada grupo
3. Medidas globais: atributos de grupos, organizações ou lugares. Não existem análogos
no nível individual → densidade demográfica, desorganização social

TIPOS DE DESENHO

Desenhos de múltiplos grupos

1. Estudo exploratório: comparação de taxas de doença entre regiões durante o mesmo


período → identificar padrões espaciais → possível etiologia ambiental ou genética.
Freqüentemente, pode conter dois tipos de problemas:
a) Regiões com poucos casos → grande variabilidade na taxa da doença
b) Regiões vizinhas tendem a ser mais semelhantes do que regiões mais distantes →
autocorrelação espacial

2. Estudo analítico: avalia a associação entre o nível de exposição médio e a taxa de


doença entre diferentes grupos → estudo ecológico mais comum
ESTUDOS ECOLÓGICOS

Desenho de séries temporais

1. Estudo exploratório: avalia a evolução das taxas de doença ao longo do tempo em uma
determinada população geograficamente definida → utilizado para prever tendências
futuras da doença ou avaliar o impacto de uma intervenção populacional

2. Estudo analítico: avalia a associação entre as mudanças no tempo do nível médio de


uma exposição e das taxas de doença em uma população geograficamente definida.

Processo de inferência causal dos estudos analíticos de séries temporais pode


apresentar dois problemas:

a) Critérios diagnósticos e de classificação das doenças podem se modificar no tempo


b) Doença com grande período de latência/indução entre a exposição ao fator de risco
e a sua detecção pode dificultar a avaliação entre a associação deste fator e a
ocorrência da doença
ESTUDOS ECOLÓGICOS

Desenhos mistos

1. Estudo exploratório: combina as características básicas dos estudos exploratórios de


múltiplos grupos e de séries temporais → avalia a evolução temporal das taxas de uma
doença em diferentes grupos populacionais
2. Estudo analítico: avalia a associação entre as mudanças no tempo do nível de
exposição média e das taxas de doença entre diferentes grupos populacionais →
potencializa a interpretação dos efeitos estimados → analisa simultaneamente as
mudanças no nível de exposição médio e nas taxas de doença em função do tempo
dentro de grupos e as diferenças entre os grupos

INFERÊNCIA

Limitação para testar hipóteses ecológicas → potencial viés na estimação do efeito


Viés ecológico (falácia ecológica) → inferência causal inadequada sobre fenômenos
individuais na base de observações de grupos → uma associação observada no nível
agregado não necessariamente significa que essa associação exista no nível individual
Principal problema neste tipo de análise → suposição de que os mesmos indivíduos são
simultaneamente portadores do problema de saúde e do atributo associado
Durkheim → províncias européias predominantemente protestantes no séc. XIX →
taxas de suicídio maiores que em províncias predominantemente católicas →
protestantes tenderiam mais ao suicídio → poderiam ser os católicos residentes em
províncias predominantemente protestantes os que mais se suicidavam
Minimização do viés ecológico → utilização de dados agrupados em unidades de
análise geográfica tão menores quanto possível, tornando-as mais homogêneas →
possibilidade de migração dentro do grupo e estimativa de taxas instáveis
Estimar o efeito contextual de uma exposição ecológica no risco individual → efeito da
poluição ambiental na produção de doença respiratória → são fundamentais em
epidemiologia das doenças infecciosas → risco de doença depende da prevalência em
outros indivíduos com os quais se tem contato

ESTIMATIVA DO EFEITO

Muitos estudos epidemiológicos → estimar o efeito de uma exposição na ocorrência de


uma determinada doença em uma população sob risco
Nível individual → efeitos são estimados pela comparação de taxas de incidência da
doença em populações expostas e não expostas → razão ou diferença entre as taxas
Nível ecológico → não se conhece a informação sobre a distribuição conjunta entre
exposição e doença dentro dos grupos → não se pode estimar os efeitos dessa forma
ESTUDOS ECOLÓGICOS

Regressão das taxas de doenças (Y) nos níveis médios de exposição (X) → modelo
linear (mais comum) → equação de predição:
Yˆ = B0 + B1 X ,

onde B0 e B1 são o intercepto estimado e a angulação da reta, respectivamente


Estimativa do efeito da exposição no nível individual → derivada da regressão →
predição de taxas de doença → todos expostos (X = 1) e todos não expostos (X = 0)
Taxa de doença predita ( Yˆ X =1 ) em grupo inteiramente exposto: B0 + B1 (1) = B0 + B1
Taxa de doença predita ( Yˆ X =0 ) em grupo inteiramente não exposto: B0 + B1 (0) = B0
Diferença de taxas estimadas: B0 + B1 - B0 = B1
+
Razão de taxas estimadas: B0 B1 = 1 + B1
B0 B0
Note que o ajuste de um modelo linear poderia levar a uma estimativa negativa da
razão de taxas, quando B1 < −1 , não possuindo qualquer significado biológico ou
B0
ecológico

VANTAGENS

1. Baixo custo e rápida execução → dados disponíveis: SIM, SINASC, SINAN, IBGE
2. Freqüentemente, não é possível medir adequadamente exposições individuais em
grandes populações → nível ecológico
3. Estudos de nível individual não conseguem estimar bem os efeitos de uma exposição,
quando ela varia pouco na área de estudo
4. Mensuração de um efeito ecológico → implantação de um novo programa de saúde ou
uma nova legislação em saúde na melhoria das condições de saúde

LIMITAÇÕES

1. Incapacidade de associar exposição e doença no nível individual


2. Dificuldade de controlar os efeitos de potenciais fatores de confundimento
3. Dados de estudos ecológicos representam níveis de exposição média ao invés de valores
individuais reais
4. Não há acesso a dados individuais
5. Dados de diferentes fontes, o que pode significar qualidade variável da informação
6. Falta de disponibilidade de informações relevantes é um dos mais sérios problemas na
análise ecológica