Você está na página 1de 3

PESCADORES E ANZÓIS

“Teorias são redes; somente aqueles que as lançam pescarão alguma coisa.” Karl
Popper escolheu esta frase para o seu livro “A Lógica da Investigação Científica”, onde foi
capaz de visualizar o cientista como um pescador lançando redes e recolhendo os mais
inesperados espécimes, em um mar infinito da realidade.
O cientista faz suas redes com palavras e estas redes construídas com palavras têm o
nome de teorias. Teorias são enunciados acerca do comportamento dos objetos do interesse do
cientista e um cientista é uma pessoa que sabe usar as redes teóricas para apanhar as entidades
que lhe interessam. Toda teoria, da mesma forma como as redes, inclui um pré-julgamento,
um pré-juízo acerca das coisas destituídas de significação.
Galileu, ao propor a matemática como a linguagem a ser usada para traduzir a
natureza, assim sua rede só segurava objetos matematizáveis. As redes de Galileu deixavam
passar, como insignificantes, todas as questões relativas a gosto, cheiro, cor e som. As redes
de Galileu e da nossa ciência moderna querem pegar aquilo que existe antes da tradução dos
sentidos, mesmo quando não há tradução dos sentidos.
Espingardas não fazem caçadores, caniços não fazem pescadores, algemas não fazem
detetives, laboratórios não fazem cientistas. O caçador é caçador pelo seu conhecimento da
caça, ele sabe os hábitos dos animais. O pescador possui uma ciência, uma teoria da sua presa.
O detetive trabalha com uma teoria dos motivos que levam uma pessoa ao crime. Assim, o
que torna certos indivíduos caçadores, pescadores e detetives é o conhecimento que eles
possuem daquela entidade, bicho, peixe ou gente que, mais cedo ou mais tarde, terão de
pegar.
Faz-se necessário comentar que, as redes da física do século XIX exigiam a existência
de uma entidade chamada éter. Assim, dois físicos, Michelson e Morley, prepararam uma
armadilha para pegar o éter, sem sucesso algum. Como o experimento foi interpretado? Os
próprios autores da façanha não fizeram interpretação alguma. Posteriormente, graças à teoria
da relatividade, que afirma que a velocidade da luz é constante, independentemente da
velocidade da fonte emissora, tais resultados puderam ser incorporados numa nova visão de
ordem.
Já a psicologia tradicional pensava que a sua lagoa só continha peixes que nadavam
nas águas do consciente e do racional, até que Freud elaborou uma nova teoria e os peixes
antes rejeitados como repulsivos passaram a ser procurados com empenho. Lapsos, sonhos,
sintomas neuróticos são os ingredientes da nova receita e, por isto mesmo, pescados por suas
redes.
É interessante notar também o caminho seguido por Semmelweis no “caso da febre
puerperal”. Antes de mais nada ele fazia uma hipótese e sua primeira hipótese era: a alta taxa
de mortalidade é devida a condições epidêmicas. Até que, através de um acidente, ele
descobriu que o “responsável pelas mortes” vinha da matéria cadavérica para a matéria viva.
Então, ele preparou uma solução que, segundo o seu julgamento, provocaria uma
limpeza completa de matéria cadavérica. E todas as mãos tiveram que ser lavadas, assim
provando que sua hipótese era verdadeira quando as mortes diminuíram. Mais tarde se
percebeu que a solução de Semmelweis, embora funcionasse bem, não era verdadeira, pois ela
não contava o que realmente acontecia: as redes de Semmelweis não podiam pescar germes.
Ao contrário do que muitos pensam, as ciências da natureza não são, em absoluto,
rigorosas e seus métodos mais precisos que os de outras ciências, apesar de que é possível
prever onde estarão Terra, Sol e Lua daqui a 100.000 anos. O rigor de uma ciência é
diretamente proporcional à rotina do objeto e são as leis os enunciadas da rotina, da falta de
imaginação, da monotonia, do eterno retorno, da igualdade, dos objetos. Assim, nas ciências
da natureza, tudo é tão dominado pela rotina que tudo é previsível, e com este auxílio, o
cientista se transforma num profeta.
Quando é assunto se volta para ciências sociais, há um sem-número de redes. As
ciências do homem também buscam regularidades e monotonias. O fator “liberdade”, porém,
torna difícil fazer uma ciência rigorosa do mundo humano. O problema não está nem nas
teorias, nem nos métodos, o problema está na própria natureza do objeto.
Um indivíduo é um ser único e sobre ele não se pode fazer ciência. Mas o fato é que
todos os indivíduos se encontram localizados em certas entidades sociais, que são sociais
exatamente por serem comuns e universais, onde cada um tem um papel e este papel se deriva
do script que a sociedade nos dá, de acordo com as coisas que temos de fazer.
No campo da física e da química, por exemplo, o ácido sulfúrico é sempre ácido
sulfúrico, seja aqui, seja na China e a luz, não importa onde ela se encontre, é sempre luz. O
que ocorre é que não há variações.
Já no campo da biologia, as coisas se complicam um pouco. Samambaias são as
mesmas, em qualquer parte do mundo, mas há samambaias viçosas e “tristes”. Os cães são
cães em qualquer parte do mundo, mas enquanto alguns são amigos, outros são ferozes. Os
homens são homens em todos os lugares, mas quão diferentes são suas manifestações: música,
guerra, ternura, sadismo e etc.
Estamos perante a possibilidade de variações e dentro do mundo os indivíduos
adquirem a máxima variação e a variação é tão grande que eles podem mesmo se decidir a ser
diferentes do que são, mas são estas variações, entretanto, que jazem fora do campo da
ciência, porque a ciência está em busca de leis e uniformidades.
Podemos definir também que um evento se apresenta como novo quando ele significa
uma intrusão num padrão estabelecido de organização. Só há desordem por oposição a um
padrão de ordem. Sendo assim, só existirá crime e ruptura de ordem, se anteriormente a este
ato houver lei. Um exemplo é o planeta Netuno, que foi descoberto porque Urano quebrou o
padrão de comportamento para ele previsto pela teoria.
O cientista necessita de resultados precisos e específicos e da mesma forma como os
anzóis predeterminam os resultados da pescaria, os métodos predeterminam o resultado da
pesquisa. Porque os métodos são preparados de antemão para pegar aquilo que desejamos
pegar. Logo, se haver uma pesquisa, no campo das ciências sociais, usando-se uma
metodologia marxista, os peixes pescados serão marxistas. Se a metodologia for “capitalista”,
os peixes serão capitalistas.
Desta forma, diante do apresentado, não será verdade que, na ciência, o equívoco
ocorre mais que o acerto? Neste caso, é preciso entender que: ninguém deve deixar-se
hipnotizar, mistificar, enganar, pelas repetidas afirmações acerca das maravilhas do método
científico. Ele é muito importante, pois sem anzóis não há peixes. Cuidado, entretanto, com a
arrogância do pescador que, com um peixinho na mão, pretende haver desvendado o mistério
da lagoa escura.

Você também pode gostar