Criação & Design Infografia

Por Denise Ouriques*

O visual da informação – parte 1
Acompanhe a história da infografia, uma parte importante do trabalho do designer gráfico
design gráfico na era da informação só pode resultar em algo apaixonante: infografia. A palavra conduz ao desenho de notícias e novos dados, utilizados quando a informação precisa ser explicada de forma mais dinâmica, como em reportagens, mapas, manuais técnicos etc. É sobre isso que falaremos nesta e nas próximas duas edições da revista Publish. A ideia é apresentar um panorama completo sobre infografia, desde os primórdios, com mapas representados em pedra, argila e peles de animais, até as representações atuais, que complementam matérias jornalísticas, além das últimas tendências, como mapas interativos. À primeira vista, a infografia pode fazer ligação direta a imagens de chatos diagra54

Infográficos
mas, tabelas e planilhas em apresentações cansativas de escritório. Nada disso! Conceitualmente, infografias são representações visuais de informação. Philip Meggs, em seu clássico História do Design Gráfico, chama de infografia tudo que é condizente com este conceito, mas que surge a partir da geometria analítica (de coordenadas ou cartesiana), ou seja, a partir de René Descartes (cerca de 1637). Este francês, pai da teoria dos vórtices, declarou em seu livro Regras para a Direção do Espírito: “... a aritmética e a geometria são muito mais certas que as outras disciplinas: são efetivamente as únicas que lidam com um objeto tão puro e simples que não têm de fazer suposição alguma que a experiência torne

Campanha publicitária da agência FCB, de Portugal

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incerta, e consistem inteiramente em consequências a deduzir racionalmente.” Apesar de toda essa busca por exatidão e pela enorme influência no nosso modo de pensar, este cartesianismo já deixou brechas para pensadores como Buckminster Fuller reformularem o mundo e a geometria de outra forma – mas isso já é tema para outra matéria. Mapas A interpretação acerca dos territórios ou domínios do ser humano sempre esteve presente em desenhos gravados em pedra, argila, pele de animais e outras estruturas. A apreensão do espaço e a elaboração de estruturas abstratas para representá-lo têm sido marca da vida em sociedade.
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Percepção Há muitas maneiras de se experimentar o espaço. A Dimensão Oculta, livro escrito nos anos 60 pelo professor de Antropologia, Edward T. Hall, aborda a utilização do espaço nos âmbitos público e privado, comparando animais e indivíduos humanos em suas relações mais simples e em diferentes culturas. Estes comportamentos e territorialidades podem ser bastante úteis, por exemplo, na organização de espaços comerciais, de exposições, de quaisquer apresentações onde esteja inserido um percurso. Leonardo Da Vinci também estudou a questão espacial humana, mais especialmente dentro da ideia da Geometria Sagrada – baseada em relações de proporções áureas. Seu homem vitruviano, elaborado a partir do trabalho do arquiteto romano Marcus Vitruvio Pollio, descreve um homem em duas combinações de posições, ambas inseridas em um círculo e em um quadrado. Esta figura nos remete à ideia da bolha interpessoal, do espaço territorial de cada um – que deve servir de referência. Fosse pouco, Da Vinci também foi precursor de outros interessantes diagramas, que podem ser considerados a aurora da infografia. Jun Okamoto, em seu excelente livro Percepção Ambiental e Comportamento, entra no assunto dos sentidos, pois é a partir de nossas percepções que poderemos descrever o que vemos, deduzimos ou queremos mostrar de forma bidimensional. Ele cita, por exemplo, que a tendência humana,

ao entrar em qualquer espaço fechado é o movimento da esquerda para a direita, no sentido horário, em direção à periferia do ambiente – você fazia ideia disto? Por que estas informações podem ser úteis? Ora, quem quer comunicar-se precisa entender de que modo a maioria das pessoas vai portar-se aqui no ambiente externo para saber como adequar melhor as informações. Às vezes, elas precisam ser sistematizadas ou seguir um roteiro. Orientação espacial e wayfinding são expressões usadas para tratar de rotas de destino de usuários e de sua localização no espaço. Englobam processos perceptivos, cognitivos e comportamentais. Wayfinding é a habilidade mental da pessoa se imaginar e se configurar espacialmente nessa configuração. Visual thinking intuitivo Voltando atrás no tempo, percebemos que o ser humano já vem se comunicando de forma bem elaborada há bastante tempo. Representação é a base da comunicação; e representar é apresentar novamente. Isso porque, mentalmente, nós já processamos os objetos – em categorias e diferentes graus de abstração. Na história da escrita há algo que se destaca: culturalmente nem todos os povos expressaram-se da mesma maneira. Assim como os índios Ianomâmis, que não conhecem os números, uma tribo de aborígenes australiana não expressa distâncias através deles, por exemplo, mas através de canções. Eles não
Plano de Nippur é considerado por alguns o primeiro infográfico

Mapa de madeira dos Inuit

Imagem: Denise Ouriques Medeiros

O Átlas do espaço eletromagnético, trabalho de José Luis de Vicente, Espanha, exposto no File 2010

O Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci

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conhecem os números, apenas o 1 e o ‘muito’ . Então, da mesma forma, o dia não é marcado por horas, mas pela posição do sol no céu. Um outro exemplo curioso é o dos Inuit, mais conhecidos por nós como esquimós, e narrado por Victor Papanek em The Green Imperative. Habilidosos na escultura de pequenos objetos, eles carregam uma escultura em madeira com o recorte do litoral onde vivem. Práticos de serem levados, estes mapas portáteis flutuam se caírem na água. Interessante é a comparação do mapa feito de forma intuitiva pelos Inuit com o mapa feito tecnologicamente pelos cartógrafos da atualidade. Praticamente se sobrepõem! Para alguns, o plano de Nippur, na antiga Mesopotâmia, do século XIII ou XIV a.C., é considerado o primeiro infográfico.

Mas isso é questionável, se levarmos em consideração imagens de diferentes culturas e o fato dos mapas terem surgido mesmo antes da escrita. Na China e no Egito os mapas do céu eram usados para calcular distâncias e para orientação. Depois de Gutenberg O escocês William Playfair converteu dados estatísticos em gráficos simbólicos. Em 1786 publicou seu Atlas Comercial e Político: com 44 diagramas, introduzia o gráfico em linha e o diagrama de barras. Mais tarde, introduziu também o diagrama do círculo fatiado (gráfico de pizza). Imagem marcante no filme Guerra e Paz, o ataque de Napoleão à Rússia em 1812, teve suas estatísticas projetadas visualmente pelo engenheiro civil aposentado Charles Joseph

Minard. Numa única imagem, ele informa seis tipos de informação: a geografia, o tempo decorrido, a temperatura, o curso e a direção do movimento do exército e, finalmente, o número de soldados restantes. De uma tropa de 422 mil soldados saídos da Polônia, apenas 100 mil chegaram a Moscou e 10 mil retornaram. Em mobilidade e transporte, um dos casos de maior sucesso é o do metrô de Londres (Inglaterra). Ali, a usabilidade fica clara no uso das relações funcionais. Henry Beck, autor do trabalho, baseou-se nos diagramas para os quadros de eletricidade. Este sistema de informação, esquematizado e padronizado, foi adotado nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Japão etc. É só nos anos 1980 que começa de fato a revolução no jornalismo visual, com a entrada dos computadores com programas de interação visual nas agências e redações. Um marco disso é o mapa do tempo de George Rorick, para o USA Today, nos Estados Unidos. Muito divulgado pela cauda longa da internet, o trabalho supostamente apresentado por Charung Gollar, diplomata norueguês, mostra estatísticas usando as bandeiras dos países representados – e teria até concorrido ao Nobel de Marketing Político! Na realidade, a excelente série foi uma campanha publicitária da agência FCB, de Portugal, para a revista Grande Reportagem, do mesmo país. Foi a quinta campanha de imprensa mais premiada do mundo em 2005. Há muito por vir Infográficos são sistemas híbridos de comunicação. Foram usados e vão continuar sendo, adaptando-se às novas possibilidades midiáticas. Os novos exemplos incluem a música e a interatividade, como em alguns dos trabalhos expostos no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File) deste ano. Também está começando a despontar o uso informacional em realidade aumentada. Isso porque nem deu tempo de todo mundo conhecer trabalhos fantásticos, como os mapas interativos do grupo Stamen. Tudo isso não diminui a enorme criatividade existente em tudo que já foi feito até agora. Não foi à toa que a Amazon elegeu o livro The Visual Display of Quantitative Information, de Edward Tufte um dos 100 mais importantes do século XX. Até a próxima.
*Denise Ouriques Medeiros é jornalista, arquiteta e docente da área de design.

Mapa interativo do grupo Stamen

O ataque de Napoleão à Rússia teve estatísticas projetadas em infográficos

Para falar com a autora, escreva para: deniseouriques@yahoo.com.br

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