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REVISÃO PARA O CONCURSO DE

DELEGADO DE POLÍCIA CIVIL DO


RIO DE JANEIRO
Prof. Márcio André Lopes Cavalcante
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DIREITO PENAL
Se o indivíduo possui contra si uma condenação criminal transitada em julgado, ele não
poderá ser vigilante, mesmo que já tenha cumprido a pena há mais de 5 anos
Viola o princípio da presunção de inocência o impedimento de participação ou registro de curso
de formação ou reciclagem de vigilante, por ter sido verificada a existência de inquérito ou ação
penal não transitada em julgado.
Assim, não havendo sentença condenatória transitada em julgado, o simples fato de existir um
processo penal em andamento não pode ser considerada antecedente criminal para o fim de
impedir que o vigilante se matricule no curso de reciclagem.
STJ. 2ª Turma. REsp 1597088/PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/08/2017.

A existência de condenação criminal transitada em julgado impede o exercício da atividade


profissional de vigilante por ausência de idoneidade moral.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.666.294-DF, Rel. Min. Herman Benjamin, j. em 05/09/2019 (Info 658).

Folha de antecedentes criminais é um documento válido para comprovar maus antecedentes


ou reincidência
Súmula 636-STJ: A folha de antecedentes criminais é documento suficiente a comprovar os maus
antecedentes e a reincidência.

Admite-se o uso de informações processuais extraídas dos sítios eletrônicos dos tribunais,
quando completas, a fim de demonstrar a reincidência do réu
Para fins de comprovação da reincidência, é necessária documentação hábil que traduza o
cometimento de novo crime depois de transitar em julgado a sentença condenatória por crime
anterior, mas não se exige, contudo, forma específica para a comprovação.
Desse modo, é possível que a reincidência do réu seja demonstrada com informações
processuais extraídas dos sítios eletrônicos dos tribunais.
STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 448.972/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
16/08/2018.
STF. 1ª Turma. HC 162548 AgR/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 16/6/2020 (Info 982).

Havendo pluralidade de causas de aumento de pena e sendo apenas uma delas empregada
na terceira fase, as demais podem ser utilizadas nas demais etapas da dosimetria da pena
O deslocamento da majorante sobejante para outra fase da dosimetria, além de não contrariar
o sistema trifásico, é a que melhor se coaduna com o princípio da individualização da pena.
Exemplo: Camila foi condenada pela prática do crime de roubo circunstanciado com o
reconhecimento de três causas de aumento de pena (art. 157, § 2º, II, V e VII).
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O juiz pode empregar a majorante do inciso II (concurso de agentes) na terceira fase da


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dosimetria e utilizar as outras na primeira fase como circunstâncias judiciais negativas.

Revisão de véspera de prova – Concurso de Delegado de Polícia Civil de 2021


STJ. 3ª Seção. HC 463.434-MT, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 25/11/2020
(Info 684).

Condenações anteriores transitadas em julgado não podem ser utilizadas como conduta social
desfavorável
Não é possível a utilização de condenações anteriores com trânsito em julgado como
fundamento para negativar a conduta social.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.760.972-MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 08/11/2018 (Info
639).

Condenações anteriores transitadas em julgado não podem ser utilizadas como personalidade
ou conduta social desfavorável
Eventuais condenações criminais do réu transitadas em julgado e não utilizadas para caracterizar
a reincidência somente podem ser valoradas, na primeira fase da dosimetria, a título de
antecedentes criminais, não se admitindo sua utilização também para desvalorar a
personalidade ou a conduta social do agente.
A conduta social e a personalidade do agente não se confundem com os antecedentes criminais,
porquanto gozam de contornos próprios - referem-se ao modo de ser e agir do autor do delito
-, os quais não podem ser deduzidos, de forma automática, da folha de antecedentes criminais
do réu. Trata-se da atuação do réu na comunidade, no contexto familiar, no trabalho, na
vizinhança (conduta social), do seu temperamento e das características do seu caráter, aos quais
se agregam fatores hereditários e socioambientais, moldados pelas experiências vividas pelo
agente (personalidade social).
Já a circunstância judicial dos antecedentes se presta eminentemente à análise da folha criminal
do réu, momento em que eventual histórico de múltiplas condenações definitivas pode, a
critério do julgador, ser valorado de forma mais enfática, o que, por si só, já demonstra a
desnecessidade de se valorar negativamente outras condenações definitivas nos vetores
personalidade e conduta social.
STJ. 3ª Seção. EAREsp 1.311.636-MS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
10/04/2019 (Info 647).

Vulnerabilidade emocional e psicológica da vítima como circunstância negativa na dosimetria


da pena
O fato de o agente ter se aproveitado, para a prática do crime, da situação de vulnerabilidade
emocional e psicológica da vítima decorrente da morte de seu filho em razão de erro médico
pode constituir motivo idôneo para a valoração negativa de sua culpabilidade.
STJ. 5ª Turma. HC 264.459-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 10/3/2016
(Info 579).

Elevados custos da investigação e enriquecimento do réu não são argumentos para aumentar a
pena-base
Os elevados custos da atuação estatal para apuração da conduta criminosa e o enriquecimento
ilícito obtido pelo agente não constituem motivação idônea para a valoração negativa do vetor
"consequências do crime" na 1ª fase da dosimetria da pena.
Em outras palavras, o fato de o Estado ter gasto muitos recursos para investigar os crimes (no
caso, era uma grande operação policial) e de o réu ter obtido enriquecimento ilícito com as
práticas delituosas não servem como motivo para aumentar a pena-base.
STF. 2ª Turma. HC 134193/GO, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 26/10/2016 (Info 845).
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Juiz não deve decretar o arresto dos bens do condenado como forma de cumprimento forçado
da prestação pecuniária (pena restritiva de direitos)
Em caso de descumprimento injustificado da pena restritiva de direitos (ex: prestação
pecuniária), o CP prevê, como consequência, a reconversão da pena restritiva de direitos em
privativa de liberdade. Logo, o juiz não deve decretar o arresto dos bens do condenado como
forma de cumprimento forçado da pena substitutiva. A possibilidade de reconversão da pena já
é a medida que, por força normativa, atribui coercividade à pena restritiva de direitos.
Ex: João foi condenado a pena de 3 anos de reclusão, tendo o juiz substituída a pena privativa
de liberdade por duas restritivas de direitos. Uma delas foi o pagamento de prestação pecuniária
no valor total de R$ 100 mil, parceladamente em 36 prestações mensais. O Ministério Público
afirmou que o prazo para cumprimento da prestação pecuniária é muito longo e que haveria o
risco de o condenado não pagar. Diante disso, pediu ao juiz que decretasse o arresto dos bens
do sentenciado. Este requerimento deverá ser indeferido.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.699.665-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
07/08/2018 (Info 631).

A reincidência específica tratada no art. 44, § 3º, do Código Penal somente se aplica quando
forem idênticos, e não apenas de mesma espécie, os crimes praticados
REGRA: o condenado que for reincidente em crime doloso, não fará jus à pena restritiva de
direitos (art. 44, II, do CP).
EXCEÇÃO: o juiz poderá conceder a pena restritiva de direitos ao condenado, mesmo ele sendo
reincidente, desde que cumpridos dois requisitos previstos no § 3º do art. 44:
a) a medida (substituição) deve se mostrar socialmente recomendável;
b) a reincidência não pode ocorrer em virtude da prática do mesmo crime (não pode ser
reincidente específico).
Art. 44 (...) § 3º Se o condenado for reincidente, o juiz poderá aplicar a substituição, desde que,
em face de condenação anterior, a medida seja socialmente recomendável e a reincidência não
se tenha operado em virtude da prática do mesmo crime.
O que se entende por reincidente específico para os fins do § 3º do art. 44?
É o indivíduo que cometeu um novo crime doloso idêntico.
• se o condenado tiver praticado um novo crime doloso idêntico: não terá direito à substituição.
Ex: João foi condenado por furto simples. Depois, foi novamente condenado por furto simples.
Não terá direito à substituição porque a reincidência se operou em virtude da prática do mesmo
crime.
• se o condenado tiver praticado um novo crime doloso da mesma espécie (mas que não seja
idêntico): pode ter direito à substituição. Ex: Pedro foi condenado por furto simples (art. 155,
caput). Depois, foi novamente condenado, mas agora por furto qualificado (art. 155, § 4º). Em
tese, o juiz poderia conceder a substituição porque o furto simples e o furto qualificado são
crimes da “mesma espécie”, mas não são o “mesmo crime”.
STJ. 3ª Seção. AREsp 1.716.664-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 25/08/2021 (Info 706).

Reiteração criminosa no crime de descaminho e princípio da insignificância


A reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância nos crimes de
descaminho, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, as instâncias ordinárias
verificarem que a medida é socialmente recomendável.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.217.514-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 9/12/2015
(Info 575).
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Contrabando
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Em regra, é inaplicável o princípio da insignificância ao crime de contrabando, uma vez que o


bem juridicamente tutelado vai além do mero valor pecuniário do imposto elidido, alcançando

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também o interesse estatal de impedir a entrada e a comercialização de produtos proibidos em
território nacional. Trata-se, assim, de um delito pluriofensivo.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1744739/RS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 02/10/2018.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1717048/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 11/09/2018.
STF. 1ª Turma. HC 133958 AgR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 06/09/2016.

Vale ressaltar, no entanto, que o STJ possui alguns precedentes admitindo, de forma
excepcional, a aplicação deste princípio para o caso de contrabando de pequena quantidade de
medicamento para uso próprio:
A importação de pequena quantidade de medicamento destinada a uso próprio denota a
mínima ofensividade da conduta do agente, a ausência de periculosidade social da ação, o
reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica
provocada, tudo a autorizar a excepcional aplicação do princípio da insignificância.
STJ. 5ª Turma. EDcl no AgRg no REsp 1708371/PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em
24/04/2018.

Não se aplica o princípio da insignificância ao:


• Estelionato contra o INSS (estelionato previdenciário)
• Estelionato envolvendo FGTS
• Estelionato envolvendo o seguro-desemprego

Condenação por fato posterior ao crime em julgamento não gera maus antecedentes
Na dosimetria da pena, as condenações por fatos posteriores ao crime em julgamento não
podem ser utilizados como fundamento para valorar negativamente a culpabilidade, a
personalidade e a conduta social do réu.
STJ. 6ª Turma. HC 189.385-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 20/2/2014 (Info 535).

Aumento da pena-base pelo fato de a concussão ter sido praticada por policial
É legítima a utilização da condição pessoal de policial civil como circunstância judicial
desfavorável para fins de exasperação da pena-base aplicada a acusado pela prática do crime de
concussão.
Aquele que está investido de parcela de autoridade pública — como é o caso de um juiz, um
membro do Ministério Público ou uma autoridade policial — deve ser avaliado, no desempenho
da sua função, com maior rigor do que as demais pessoas não ocupantes de tais cargos.
STF. 1ª Turma. HC 132990/PE, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin,
julgado em 16/8/2016 (Info 835).

"Lucro fácil" e “cobiça” não podem ser usados como argumentos para aumentar a pena da
concussão e da corrupção passiva
A obtenção de lucro fácil e a cobiça constituem elementares dos tipos de concussão e corrupção
passiva (arts. 316 e 317 do CP), sendo indevido utilizá-las para aumentar a pena-base alegando
que os “motivos do crime” (circunstância judicial do art. 59 do CP) seriam desfavoráveis.
STJ. 3ª Seção. EDv nos EREsp 1.196.136-RO, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
24/5/2017 (Info 608).

Compensação entre a atenuante da confissão espontânea e a agravante de violência contra a


mulher
O réu praticou o crime com violência contra a mulher. Isso configura uma agravante (art. 61, I,
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"f", do CP). No entanto, ele confessou a prática do crime, o que é uma atenuante (art. 65, III,
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"d"). Diante disso, qual dessas circunstâncias irá prevalecer?

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Nenhuma delas. Elas irão se compensar. Segundo decidiu o STJ, compensa-se a atenuante da
confissão espontânea (art. 65, III, "d", do CP) com a agravante de ter sido o crime praticado com
violência contra a mulher (art. 61, II, "f", do CP).
STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 689.064-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. em
6/8/2015 (Info 568).

Compensação da atenuante da confissão espontânea com a agravante da promessa de


recompensa
É possível compensar a atenuante da confissão espontânea (art. 65, III, "d", do CP) com a
agravante da promessa de recompensa (art. 62, IV).
STJ. 5ª Turma. HC 318.594-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 16/2/2016 (Info 577).

A tenra idade da vítima é fundamento idôneo para a majoração da pena-base do crime de


homicídio pela valoração negativa das consequências do crime
STJ. 3ª Seção. AgRg no REsp 1.851.435-PA, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
12/08/2020 (Info 679).

Bons antecedentes não configuram atenuante inominada


Não caracteriza circunstância relevante anterior ao crime (art. 66 do CP) o fato de o condenado
possuir bons antecedentes criminais. Isso porque os antecedentes criminais são analisados na
1ª fase da dosimetria da pena, na fixação da pena-base, considerando que se trata de uma
circunstância judicial do art. 59 do CP.
STJ. 6ª Turma. REsp 1405989/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. p/ Acórdão Min. Nefi
Cordeiro, julgado em 18/08/2015 (Info 569).

Emprego da confissão qualificada como atenuante


A confissão, mesmo que qualificada, dá ensejo à incidência da atenuante prevista no art. 65, III,
d, do CP, quando utilizada para corroborar o acervo probatório e fundamentar a condenação.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.416.247-GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 22/6/2016 (Info 586).

Súmula 545-STJ: Quando a confissão for utilizada para a formação do convencimento do


julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no artigo 65, III, d, do Código Penal.

Para ter direito à atenuante no caso do crime de tráfico de drogas, é necessário que o réu
admita que traficava, não podendo dizer que era mero usuário
Súmula 630-STJ: A incidência da atenuante da confissão espontânea no crime de tráfico ilícito
de entorpecentes exige o reconhecimento da traficância pelo acusado, não bastando a mera
admissão da posse ou propriedade para uso próprio.

A pena de perdimento deve ser restrita ao cargo ocupado no momento do delito, salvo se o
novo cargo tiver relação com as atribuições anteriores
A pena de perdimento deve ser restrita ao cargo ocupado ou função pública exercida no
momento do delito, à exceção da hipótese em que o magistrado, motivadamente, entender que
o novo cargo ou função guarda correlação com as atribuições anteriores.
STJ. 5ª Turma. REsp 1452935/PE, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 14/03/2017
(Info 599).
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O indulto extingue somente a pena ou medida de segurança, não interferindo nos efeitos
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secundários da condenação

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Súmula 631-STJ: O indulto extingue os efeitos primários da condenação (pretensão executória),
mas não atinge os efeitos secundários, penais ou extrapenais.

Acórdão que confirma ou reduz a pena interrompe a prescrição


Nos termos do inciso IV do artigo 117 do Código Penal, o acórdão condenatório sempre
interrompe a prescrição, inclusive quando confirmatório da sentença de 1º grau, seja mantendo,
reduzindo ou aumentando a pena anteriormente imposta.
A prescrição é, como se sabe, o perecimento da pretensão punitiva ou da pretensão executória
pela inércia do próprio Estado.
No art. 117 do Código Penal, que deve ser interpretado de forma sistemática, todas as causas
interruptivas da prescrição demonstram, em cada inciso, que o Estado não está inerte.
Não obstante a posição de parte da doutrina, o Código Penal não faz distinção entre acórdão
condenatório inicial e acórdão condenatório confirmatório da decisão. Não há,
sistematicamente, justificativa para tratamentos díspares.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 1.668.298-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 12/05/2020 (Info
672).
STF. Plenário. HC 176473/RR, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 27/04/2020.

Motivo torpe e feminicídio: inexistência de bis in idem


Não caracteriza bis in idem o reconhecimento das qualificadoras de motivo torpe e de
feminicídio no crime de homicídio praticado contra mulher em situação de violência doméstica
e familiar.
Isso se dá porque o feminicídio é uma qualificadora de ordem OBJETIVA - vai incidir sempre que
o crime estiver atrelado à violência doméstica e familiar propriamente dita, enquanto que a
torpeza é de cunho subjetivo, ou seja, continuará adstrita aos motivos (razões) que levaram um
indivíduo a praticar o delito.
STJ. 6ª Turma. HC 433.898-RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 24/04/2018 (Info 625).

Difamação pode ser praticada mediante a publicação de vídeo no qual o discurso da vítima
seja editado
Configura difamação a conduta do agente que publica vídeo de um discurso no qual a frase
completa do orador é editada, transmitindo a falsa ideia de que ele estava falando mal de negros
e pobres.
A edição de um vídeo ou áudio tem como objetivo guiar o espectador e, quando feita com o
objetivo de difamar a honra de uma pessoa, configura dolo da prática criminosa.
Vale ressaltar que esta conduta do agente, ainda que praticada por Deputado Federal, não
estará protegida pela imunidade parlamentar.
Caso concreto: durante a reunião de uma CPI, o então Deputado Federal Jean Wyllys proferiu a
seguinte frase: “tem um imaginário impregnado, sobretudo nos agentes das forças de
segurança, de que uma pessoa negra e pobre é potencialmente perigosa. É mais perigosa do
que uma pessoa branca de classe média. Esse é um imaginário que está impregnado na gente”.
O Deputado Federal Eder Mauro publicou, em sua página no Facebook, um vídeo no qual o
discurso de Jean Wyllys é editado. No vídeo publicado, a parte inicial e final da frase são cortadas
e ouve-se apenas: “Uma pessoa negra e pobre é potencialmente perigosa. É mais perigosa do
que uma pessoa branca de classe média”.
Para o STF, essa conduta configurou o crime de difamação agravada.
STF. 1ª Turma. AP 1021/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 18/8/2020 (Info 987).
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A retratação da calúnia, feita antes da sentença, acarreta a extinção da punibilidade do
agente independente de aceitação do ofendido
O art. 143 do CP autoriza que a pessoa acusada do crime de calúnia ou de difamação apresente
retratação e, com isso, tenha extinta a punibilidade:
Art. 143. O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente da calúnia ou da difamação,
fica isento de pena.
Parágrafo único. Nos casos em que o querelado tenha praticado a calúnia ou a difamação
utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos
mesmos meios em que se praticou a ofensa.
A retratação não é ato bilateral, ou seja, não pressupõe aceitação da parte ofendida para surtir
seus efeitos na seara penal, porque a lei não exige isso.
O Código, quando quis condicionar o ato extintivo da punibilidade à aceitação da outra parte, o
fez de forma expressa, como no caso do perdão ofertado pelo querelante depois de instaurada
a ação privada.
O art. 143 do CP exige apenas que a retratação seja cabal, ou seja, deve ser clara, completa,
definitiva e irrestrita, sem remanescer nenhuma dúvida ou ambiguidade quanto ao seu alcance,
que é justamente o de desdizer as palavras ofensivas à honra, retratando-se o ofensor do
malfeito.
STJ. Corte Especial. APn 912/RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 03/03/2021 (Info 687).

A ausência de previsibilidade de que a ofensa chegue ao conhecimento da vítima afasta o dolo


específico do delito de injúria, tornando a conduta atípica
Exemplo: Rita e Adriana trabalhavam em um órgão público. Rita ligou para o ramal telefônico
de Adriana para falar sobre um requerimento de abono de faltas que ela havia solicitado.
Adriana avisou, então, que Reginaldo (chefe do setor) havia indeferido o pedido. Ao saber de tal
fato, Rita passou a proferir ofensas contra ele, afirmando para Adriana: “este macaco, preto sem
vergonha está indeferindo a minha falta”. Vale ressaltar, contudo, que, momentos antes,
Reginaldo, que estava no mesmo setor que Adriana, havia retirado o telefone do gancho para
fazer uma ligação e acabou por ouvir as palavras injuriosas proferidas por Rita. O Ministério
Público ofereceu denúncia contra Rita pela prática do crime de injúria racial (art. 140, § 3º do
CP):
Art. 140 (...) § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia,
religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: Pena - reclusão de
um a três anos e multa.
Para o STJ, não houve crime. Isso porque o delito de injúria se consuma quando a ofensa chega
ao conhecimento da vítima, sendo necessário dolo específico de ofender a honra subjetiva da
vítima.
A acusada não tinha como saber que a vítima estava ouvindo o teor da conversa pela extensão
telefônica.
Como a injúria se consuma com a ofensa à honra subjetiva de alguém, não há que se falar em
dolo específico no caso em que a vítima não era seu interlocutor na conversa telefônica e,
acidentalmente, tomou conhecimento do teor da conversa.
O tipo penal em questão exige que a ofensa seja dirigida ao ofendido com a intenção de
menosprezá-lo, ofendendo-lhe a honra subjetiva.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.765.673-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 26/05/2020 (Info
672).

Esposa tem legitimidade para propor queixa-crime contra autor de postagem que sugere
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relação extraconjugal do marido


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A esposa tem legitimidade para propor queixa-crime contra autor de mensagem que insinua que
o seu marido tem uma relação extraconjugal com outro homem.

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Se alguém alega que um indivíduo casado mantém relação homossexual extraconjugal com
outro homem, a esposa deste indivíduo tem legitimidade para ajuizar queixa-crime por injúria,
alegando que também é ofendida.
Caso concreto: Roberto insinuou que Weverton teria um relacionamento homossexual
extraconjugal com outro homem. A mulher de Weverton tem legitimidade para ajuizar queixa-
crime contra Roberto pela prática do crime de injúria.
STF. 1ª Turma. Pet 7417 AgR/DF, Rel. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Marco Aurélio, julgado em
9/10/2018 (Info 919).

Momento da consumação da concussão e flagrante delito


No crime de concussão, a situação de flagrante delito configura-se no momento da exigência da
vantagem indevida (e não no instante da entrega). Isso porque a concussão é crime FORMAL,
que se consuma com a exigência da vantagem indevida. Assim, a entrega da vantagem indevida
representa mero exaurimento do crime que já se consumou anteriormente.
Ex: funcionário público exige, em razão de sua função, vantagem indevida da vítima; dois dias
depois, quando a vítima entrega a quantia exigida, não há mais situação de flagrância
considerando que o crime se consumou no momento da exigência, ou seja, dois dias antes.
STJ. 5ª Turma. HC 266.460-ES, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 11/6/2015 (Info
564).

Momento consumativo do FURTO


Consuma-se o crime de furto com a posse de fato da res furtiva, ainda que por breve espaço de
tempo e seguida de perseguição ao agente, sendo prescindível a posse mansa e pacífica ou
desvigiada.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.524.450-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 14/10/2015 (recurso
repetitivo) (Info 572).

Momento consumativo do ROUBO


Súmula 582-STJ: Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem mediante
emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em seguida à perseguição
imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo prescindível a posse mansa e pacífica
ou desvigiada.

Hipótese de inaplicabilidade do princípio da consunção com o furto/roubo


O delito de estelionato não será absorvido pelo de roubo na hipótese em que o agente, dias
após roubar um veículo e os objetos pessoais dos seus ocupantes, entre eles um talonário de
cheques, visando obter vantagem ilícita, preenche uma de suas folhas e, diretamente na agência
bancária, tenta sacar a quantia nela lançada. A falsificação da cártula não é mero exaurimento
do crime antecedente. Isso porque há diversidade de desígnios e de bens jurídicos lesados.
Dessa forma, inaplicável o princípio da consunção.
STJ. 5ª Turma. HC 309.939-SP, Rel. Min. Newton Trisotto (Desembargador convocado do TJ-SC),
julgado em 28/4/2015 (Info 562).

A dívida de corrida de táxi não pode ser considerada coisa alheia móvel para fins de
configuração da tipicidade dos delitos patrimoniais
A dívida de corrida táxi não pode ser considerada coisa alheia móvel para fins de configuração
da tipicidade dos delitos patrimoniais.
Ex: João pegou um táxi. Ao final da corrida, ele saiu do carro e disse que não iria pagar a corrida.
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O motorista também saiu do veículo e foi tentar segurá-lo para que ele não fugisse sem quitar
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o débito. João puxou, então, uma faca e desferiu um golpe no taxista, que morreu no local.

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O agente não praticou roubo com resultado morte (art. 157, § 3º, II, do CP). Isso porque não
houve, no contexto delitivo, nenhuma subtração ou tentativa de subtração de coisa alheia
móvel, o que afasta a conduta de roubo qualificado pelo resultado, composto pelo verbo
“subtrair” e pelo complemento “coisa alheia móvel”. O agente se negou a efetuar o pagamento
da corrida de táxi e desferiu um golpe de faca no motorista, sem (tentar) subtrair objeto algum,
de modo a excluir o animus furandi. Não se pode equiparar “dívida de transporte” com a “coisa
alheia móvel” prevista no tipo do art. 157 do Código Penal, sob pena de violação dos princípios
da tipicidade e da legalidade estrita, que regem a aplicação da lei penal.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.757.543-RS, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 24/09/2019
(Info 658).

Furto privilegiado
Súmula 511-STJ: É possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art. 155 do CP
nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o
pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.

Causa de aumento do § 1º pode ser aplicada tanto para furto simples como qualificado
O 1º do art. 155 do CP prevê que a pena do crime de furto será aumentada de um terço, se o
crime é praticado durante o repouso noturno.
A causa de aumento de pena prevista no § 1° pode ser aplicada tanto para os casos de furto
simples (caput) como para as hipóteses de furto qualificado (§ 4°).
Não existe nenhuma incompatibilidade entre a majorante prevista no § 1.° e as qualificadoras
do § 4º. São circunstâncias diversas, que incidem em momentos diferentes da aplicação da pena.
Assim, é possível que o agente seja condenado por furto qualificado (§ 4º) e, na terceira fase da
dosimetria, o juiz aumente a pena em 1/3 se a subtração ocorreu durante o repouso noturno.
STJ. 6ª Turma. HC 306.450-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 4/12/2014
(Info 554).

Para que configure a qualificadora da destreza, é necessário que o agente tenha subtraído o
bem com excepcional habilidade sem ser descoberto
No crime de furto, não deve ser reconhecida a qualificadora da “destreza” (art. 155, § 4º, II, do
CP) caso inexista comprovação de que o agente tenha se valido de excepcional – incomum –
habilidade para subtrair a coisa que se encontrava na posse da vítima sem despertar-lhe a
atenção.
Destreza, para fins de furto qualificado, é a especial habilidade física ou manual que permite ao
agente subtrair bens em poder direto da vítima sem que ela perceba o furto. É o chamado
“punguista”.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.478.648-PR, Rel. para acórdão Min. Newton Trisotto (desembargador
convocado do TJ/SC), julgado em 16/12/2014 (Info 554).

Adulterar o sistema de medição da energia elétrica para pagar menos que o devido:
estelionato (não é furto)
A alteração do sistema de medição, mediante fraude, para que aponte resultado menor do que
o real consumo de energia elétrica configura estelionato.
Ex: as fases “A” e “B” do medidor foram isoladas por um material transparente, que permitia a
alteração do relógio fazendo com que fosse registrada menos energia do que a consumida.
STJ. 5ª Turma. AREsp 1.418.119-DF, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 07/05/2019 (Info
648).
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Cuidado para não confundir:
• agente desvia a energia elétrica por meio de ligação clandestina (“gato”):crime de FURTO (há
subtração e inversão da posse do bem).
• agente altera o sistema de medição para que aponte resultado menor do que o real consumo:
crime de ESTELIONATO.

O pagamento do débito oriundo de furto de energia elétrica antes do recebimento da denúncia


não é causa de extinção da punibilidade
No caso de furto de energia elétrica mediante fraude, o adimplemento do débito antes do
recebimento da denúncia não extingue a punibilidade.
O furto de energia elétrica não pode receber o mesmo tratamento dado ao inadimplemento
tributário, de modo que o pagamento do débito antes do recebimento da denúncia não
configura causa extintiva de punibilidade, mas causa de redução de pena relativa ao
arrependimento posterior (art. 16 do CP). Isso porque nos crimes contra a ordem tributária, o
legislador (Leis nº 9.249/1995 e nº 10.684/2003), ao consagrar a possibilidade da extinção da
punibilidade pelo pagamento do débito, adota política que visa a garantir a higidez do
patrimônio público, somente. A sanção penal é invocada pela norma tributária como forma de
fortalecer a ideia de cumprimento da obrigação fiscal.
Já nos crimes patrimoniais, como o furto de energia elétrica, existe previsão legal específica de
causa de diminuição da pena para os casos de pagamento da “dívida” antes do recebimento da
denúncia. Em tais hipóteses, o Código Penal, em seu art. 16, prevê o instituto do arrependimento
posterior, que em nada afeta a pretensão punitiva, apenas constitui causa de diminuição da
pena.
Outrossim, a jurisprudência se consolidou no sentido de que a natureza jurídica da remuneração
pela prestação de serviço público, no caso de fornecimento de energia elétrica, prestado por
concessionária, é de tarifa ou preço público, não possuindo caráter tributário. Não há como se
atribuir o efeito pretendido aos diversos institutos legais, considerando que o disposto no art.
34 da Lei nº 9.249/1995 e no art. 9º da Lei nº 10.684/2003 fazem referência expressa e, por isso,
taxativa, aos tributos e contribuições sociais, não dizendo respeito às tarifas ou preços públicos.
STJ. 3ª Seção. RHC 101.299-RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado
em 13/03/2019 (Info 645).

ROUBO
Furto de uso: NÃO é crime (fato atípico).
Roubo de uso: É crime (configura o art. 157 do CP).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.323.275-GO, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 24/4/2014 (Info 539).

1) É necessário que a arma de fogo utilizada no roubo seja apreendida e periciada para que
incida a majorante?
NÃO. O reconhecimento da causa de aumento prevista no art. 157, § 2º-A, I, do Código Penal
prescinde (dispensa) da apreensão e da realização de perícia na arma de fogo, desde que
provado o seu uso no roubo por outros meios de prova.
Se o acusado alegar o contrário ou sustentar a ausência de potencial lesivo na arma empregada para
intimidar a vítima, será dele o ônus de produzir tal prova, nos termos do art. 156 do Código de
Processo Penal.

2) Se, após o roubo, foi constatado que a arma de fogo empregada pelo agente apresentava
defeito, incide mesmo assim a majorante?
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Depende:
• Se o defeito faz com que o instrumento utilizado pelo agente seja absolutamente ineficaz,
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não incide a majorante. Ex: revólver que não possui mecanismo necessário para efetuar

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disparos. Nesse caso, o revólver defeituoso servirá apenas como meio para causar a grave
ameaça à vítima, conforme exige o caput do art. 157, sendo o crime o de roubo simples;
• Se o defeito faz com que o instrumento utilizado pelo agente seja relativamente ineficaz,
INCIDE a majorante. Ex: revólver que algumas vezes trava e não dispara. Nesse caso, o
revólver, mesmo defeituoso, continua tendo potencialidade lesiva, de sorte que poderá
causar danos à integridade física, sendo, portanto, o crime o de roubo circunstanciado.

3) O Ministério Público que deve provar que a arma de fogo utilizada estava em perfeitas
condições de uso?
NÃO. Cabe ao réu, se assim for do seu interesse, demonstrar que a arma é desprovida de
potencial lesivo, como na hipótese de utilização de arma de brinquedo, arma defeituosa ou arma
incapaz de produzir lesão (STJ EREsp 961.863/RS).

4) Se, após o roubo, foi constatado que a arma de fogo estava desmuniciada no momento do
crime, incide mesmo assim a majorante?
• STJ: NÃO. O emprego de arma de fogo desmuniciada tem o condão de configurar a grave
ameaça e tipificar o crime de roubo, no entanto NÃO É suficiente para caracterizar a
majorante do emprego de arma, pela ausência de potencialidade lesiva no momento da
prática do crime (STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1536939/SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior,
julgado em 15/10/2015).
• STF: SIM. É irrelevante o fato de estar ou não municiada para que se configure a majorante
do roubo (STF. 2ª Turma. RHC 115077, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 06/08/2013).

5) Além do roubo circunstanciado, o agente responderá também pelo porte ilegal de arma de
fogo (art. 14 ou 16, da Lei n. 10.826/2003)?
Em regra, não. Geralmente, o crime de porte ilegal de arma de fogo é absorvido pelo crime de
roubo circunstanciado. Aplica-se o princípio da consunção, considerando que o porte ilegal de
arma de fogo funciona como crime meio para a prática do roubo (crime fim), sendo por este
absorvido.

Se houver pluralidade de causas de aumento no crime de roubo (art. 157, § 2º do CP), o juiz não
poderá incrementar a pena aplicada com base unicamente no número de majorantes nem se
valer de tabelas com frações matemáticas de aumento.
Para se proceder ao aumento, é necessário que o magistrado apresente fundamentação com
base nas circunstâncias do caso concreto (Súmula 443-STJ).
STF. 2ª Turma. RHC 116676/MG, rel. Min. Ricardo Lewandowski, 20.8.2013.

Nos casos em que se aplica a Lei nº 13.654/2018, é possível a valoração do emprego de arma
branca, no crime de roubo, como circunstância judicial desabonadora
A Lei nº 13.654/2018 entrou em vigor no dia 24/04/2018. Antes dessa Lei, o emprego de arma
branca era considerado causa e aumento de pena no roubo. Essa Lei, contudo, deixou de prever
a arma branca como majorante.
Suponhamos que, no dia 25/04/2018, João, usando um canivete, ameaçou a vítima, subtraindo
dela o telefone celular. O juiz, ao condenar o réu, não poderá, na 3ª fase da dosimetria da pena,
utilizar a “arma branca” como causa de aumento de pena. Diante disso, nada impede que o
magistrado utilize esse fato (emprego de arma branca) como uma circunstância judicial
negativa, aumentando a pena-base na 1ª fase da dosimetria da pena.
Assim, no período de aplicação da Lei nº 13.654/2018, o juiz está proibido de utilizar essa
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circunstância (emprego de arma branca) como causa de aumento de pena, mas nada impede
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que considere isso como circunstância judicial negativa, na fase do art. 59 do CP.
STJ. 5ª Turma. HC 556.629-RJ, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 03/03/2020 (Info 668).

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Abolitio criminis promovida pela Lei 13.654/2018 no roubo
O emprego de arma branca deixou de ser majorante do crime de roubo com a modificação
operada pela Lei nº 13.654/2018, que revogou o inciso I do § 2º do art. 157 do Código Penal.
Diante disso, constata-se que houve abolitio criminis, devendo a Lei nº 13.654/2018 ser aplicada
retroativamente para excluir a referida causa de aumento da pena imposta aos réus condenados
por roubo majorado pelo emprego de arma branca.
Trata-se da aplicação da novatio legis in mellius, prevista no art. 5º, XL, da Constituição Federal.
STJ. 5ª Turma. REsp 1519860/RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 17/05/2018 (Info 626).
STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 1.249.427/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado
em 19/06/2018.

Obs: o emprego de arma branca voltou a ser uma causa de aumento de pena do roubo (inciso
VII do § 2º do art. 157 do CP, com base na Lei 13.964/2019 - "Pacote Anticrime").

O porte de arma branca é conduta que permanece típica na Lei das Contravenções Penais
A previsão do art. 19 da Lei das Contravenções Penais continua válida ainda hoje?
• Em relação à arma de fogo: NÃO. O porte ilegal de arma de fogo caracteriza, atualmente, o
crime previsto nos arts. 14 ou 16 do Estatuto do Desarmamento.
• Em relação à branca: SIM. O art. 19 do Decreto-lei nº 3.688/41 permanece vigente quanto ao
porte de outros artefatos letais, como as armas brancas.
A jurisprudência do STJ é firme no sentido da possibilidade de tipificação da conduta de porte
de arma branca como contravenção prevista no art. 19 do DL 3.688/41, não havendo que se
falar em violação ao princípio da intervenção mínima ou da legalidade.
STJ. 5ª Turma. RHC 56.128-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 10/03/2020 (Info 668).

Grave ameaça/violência contra mais de uma pessoa, mas subtração de um só patrimônio


No delito de roubo, se a intenção do agente é direcionada à subtração de um único patrimônio,
estará configurado apenas um crime, ainda que, no modus operandi (modo de execução), seja
utilizada violência ou grave ameaça contra mais de uma pessoa para a obtenção do resultado
pretendido. Ex: Maria estava saindo do banco, acompanhada de seu segurança. João, de arma
em punho, deu uma coronhada no segurança, causando lesão leve, e subtraiu a mala que
pertencia a Maria. O agente praticou um único roubo majorado pelo emprego de arma de fogo
(art. 157, § 2º-A, I do CP), considerando que somente um patrimônio foi atingido.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.490.894-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/2/2015
(Info 556).

Agente que participou do roubo pode responder por latrocínio ainda que o disparo que matou
a vítima tenha sido efetuado pelo corréu
Aquele que se associa a comparsa para a prática de roubo, sobrevindo a morte da vítima,
responde pelo crime de latrocínio, ainda que não tenha sido o autor do disparo fatal ou que sua
participação se revele de menor importância.
Ex: João e Pedro combinaram de roubar um carro utilizando arma de fogo. Eles abordaram,
então, Ricardo e Maria quando o casal entrava no veículo que estava estacionado. Os assaltantes
levaram as vítimas para um barraco no morro. Pedro ficou responsável por vigiar o casal no
cativeiro enquanto João realizaria outros crimes utilizando o carro subtraído. Depois de João ter
saído, Ricardo e Maria tentaram fugir e Pedro atirou nas vítimas, que acabaram morrendo. João
pretendia responder apenas por roubo majorado alegando que não participou nem queria a
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morte das vítimas, devendo, portanto, ser aplicado o art. 29, § 2º do CP. O STF, contudo, não
acatou a tese. Isso porque João assumiu o risco de produzir resultado mais grave, ciente de que
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atuava em crime de roubo, no qual as vítimas foram mantidas em cárcere sob a mira de arma
de fogo.

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STF. 1ª Turma. RHC 133575/PR, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 21/2/2017 (Info 855).

Latrocínio
Súmula 610-STF: Há crime de latrocínio, quando o homicídio se consuma, ainda que não se
realize o agente a subtração de bens da vítima.

Extorsão
Súmula 96-STJ: O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem
indevida.

Incide a majorante do § 1º do art. 158 do CP no caso da extorsão qualificada pela restrição da


liberdade da vítima (§ 3º)
O § 1º do art. 158 do CP prevê que se a extorsão é cometida por duas ou mais pessoas, ou com
emprego de arma, a pena deverá ser aumentada de um terço até metade.
Essa causa de aumento prevista no § 1º do art. 158 do CP pode ser aplicada tanto para a extorsão
simples (caput do art. 158) como também para o caso de extorsão qualificada pela restrição da
liberdade da vítima (§ 3º).
Assim, é possível que o agente seja condenado por extorsão pela restrição da liberdade da vítima
(§ 3º) e, na terceira fase da dosimetria, o juiz aumente a pena de 1/3 até 1/2 se o crime foi
cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma (§ 1º).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.353.693-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 13/9/2016
(Info 590).

A extorsão pode ser praticada mediante a ameaça feita pelo agente de causar um “mal
espiritual” na vítima
Configura o delito de extorsão (art. 158 do CP) a conduta do agente que submete vítima à grave
ameaça espiritual que se revelou idônea a atemorizá-la e compeli-la a realizar o pagamento de
vantagem econômica indevida.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.299.021-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 14/2/2017 (Info
598).

O novo § 4º do art. 70 do CPP, que trata sobre a competência para julgar o crime de
estelionato, aplica-se imediatamente aos inquéritos policiais que estavam em curso quando
entrou em vigor a Lei nº 14.155/2021
Nos crimes de estelionato, quando praticados mediante depósito, por emissão de cheques sem
suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou por meio
da transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, em
razão da superveniência de Lei nº 14.155/2021, ainda que os fatos tenham sido anteriores à
nova lei.
Veja o § 4º do art. 70 que foi inserido no CPP pela Lei nº 14.155/2021:
Art. 70. (...) § 4º Nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de
1940 (Código Penal), quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem
suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante
transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em
caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção.
STJ. 3ª Seção. CC 180.832-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 25/08/2021 (Info 706).
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Homem que beijou criança de 5 anos de idade, colocando a língua no interior da boca (beijo
lascivo) praticou estupro de vulnerável (art. 217-A do CP), não sendo possível a
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desclassificação para a contravenção penal de molestamento (art. 65 do DL 3.668/41)

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Um homem beijou uma criança de 5 anos de idade, colocando a língua no interior da boca.
O STF entendeu que essa conduta caracteriza o chamado “beijo lascivo”, havendo, portanto, a
prática do crime de estupro de vulnerável, previsto no art. 217-A do Código Penal.
Não é possível desclassificar essa conduta para a contravenção penal de molestamento (art. 65
do Decreto-Lei nº 3.668/41).
Para determinadas idades, a conotação sexual é uma questão de poder, mais precisamente de
abuso de poder e confiança. No caso concreto, estão presentes a conotação sexual e o abuso de
confiança para a prática de ato sexual. Logo, não há como desclassificar a conduta do agente
para a contravenção de molestamento (que não detém essa conotação sexual).
O art. 227, § 4º, da CF/88 exige que a lei imponha punição severa à violação da dignidade sexual
da criança e do adolescente. Além do mais, a prática de qualquer ato libidinoso diverso ou a
conduta de manter conjunção carnal com menor de 14 anos se subsome, em regra, ao tipo penal
de estupro de vulnerável, restando indiferente o consentimento da vítima.
STF. 1ª Turma. HC 134591/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 1/10/2019 (Info 954).

A irmã de vítima do crime de estupro de vulnerável responde por conduta omissiva imprópria
se assume o papel de garantidora
Caso concreto: “J” (30 anos) era casado com “M” (20 anos). “J” praticou, durante anos, estupro
de vulnerável contra a sua cunhada “L” (criança de 6 anos de idade). “L” era irmã de “M”. Os
abusos ocorriam nas vezes em que “L” ia visitar sua irmã. Certo dia, “M” descobriu que os
estupros estavam ocorrendo, mas, apesar disso, não tomou qualquer atitude para impedir que
as condutas criminosas continuassem. Ao contrário, continuou permitindo que a irmã fosse até
a sua casa e que ficasse sozinha na residência com o marido.
“M”, a irmã da vítima, deve responder pelo delito de estupro de vulnerável por omissão
imprópria.
STJ. 5ª Turma. HC 603.195-PR, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 06/10/2020 (Info 681).

O “cliente” da exploração sexual (art. 218-B do CP) pode ser punido sozinho, ou seja, mesmo
que não haja um proxeneta
O delito previsto no art. 218-B, § 2°, inciso I, do Código Penal, na situação de exploração sexual,
não exige a figura do terceiro intermediador.
A configuração do crime do art. 218-B do CP não pressupõe a existência de terceira pessoa,
bastando que o agente, por meio de pagamento, convença a vítima, maior de 14 e menor de 18
anos, a praticar com ele conjunção carnal ou outro ato libidinoso, de modo a satisfazer a sua
própria lascívia.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.530.637/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 24/03/2021 (Info 690).

Lei nº 13.718/2018
A Lei nº 13.718/2018 alterou a redação do art. 225 do CP e passou a prever que todos os crimes
contra a dignidade sexual são de ação pública incondicionada (sempre). Não há exceções! Veja
a nova redação do art. 225 do CP:
Art. 225. Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título, procede-se mediante ação penal
pública incondicionada. (Redação dada pela Lei nº 13.718/2018).

Somente ocorre o delito do art. 229 do CP se houver exploração sexual, ou seja, violação à
dignidade sexual
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Não se tratando de estabelecimento voltado exclusivamente para a prática de mercancia sexual,


tampouco havendo notícia de envolvimento de menores de idade, nem comprovação de que o
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réu tirava proveito, auferindo lucros da atividade sexual alheia mediante ameaça, coerção,

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violência ou qualquer outra forma de violação ou tolhimento à liberdade das pessoas, não há
falar em fato típico a ser punido na seara penal. Não se trata do crime do art. 229 do CP.
Mesmo após as alterações legislativas introduzidas pela Lei nº 12.015/2009, a conduta
consistente em manter “Casa de Prostituição” segue sendo crime tipificado no art. 229 do
Código Penal. Todavia, com a novel legislação, passou-se a exigir a “exploração sexual” como
elemento normativo do tipo, de modo que a conduta consistente em manter casa para fins
libidinosos, por si só, não mais caracteriza crime, sendo necessário, para a configuração do
delito, que haja exploração sexual, assim entendida como a violação à liberdade das pessoas
que ali exercem a mercancia carnal.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.683.375-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
14/08/2018 (Info 631).

DVD pirata
O ato de vender ou expor à venda CDs e DVDs falsificados é conduta formal e materialmente
típica, estando prevista no art. 184, § 2º, do Código Penal.
Assim, não se pode alegar que tal conduta deixou de ser crime por conta do princípio da
adequação social.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.193.196-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
26/9/2012

Súmula 502-STJ: Presentes a materialidade e a autoria, afigura-se típica, em relação ao crime


previsto no artigo 184, parágrafo 2º, do Código Penal, a conduta de expor à venda CDs e DVDs
piratas.

Crime de violação de direito autoral e comprovação da materialidade


Súmula 574-STJ: Para a configuração do delito de violação de direito autoral e a comprovação
de sua materialidade, é suficiente a perícia realizada por amostragem do produto apreendido,
nos aspectos externos do material, e é desnecessária a identificação dos titulares dos direitos
autorais violados ou daqueles que os representem.

Inserir informação falsa em currículo Lattes não configura crime de falsidade ideológica
Não é típica a conduta de inserir, em currículo Lattes, dado que não condiz com a realidade.
Isso não configura falsidade ideológica (art. 299 do CP).
STJ. 6ª Turma. RHC 81.451-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 22/8/2017
(Info 610).

Falsa identidade
Súmula 522-STJ: A conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade policial é típica,
ainda que em situação de alegada autodefesa.

Fita adesiva e art. 311 do CP


Segundo a jurisprudência atual do STJ e do STF, a conduta de colocar uma fita adesiva ou isolante
para alterar o número ou as letras da placa do carro e, assim, evitar multas, pedágio, rodízio etc,
configura o delito do art. 311 do CP.
STF. 2ª Turma. RHC 116371/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 13/8/2013.

Adulterar placa de veículo reboque ou semirreboque não configura o crime do art. 311 do CP
15

O Código Penal prevê o crime de adulteração de sinal identificador de veículo automotor:


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Art. 311. Adulterar ou remarcar número de chassi ou qualquer sinal identificador de veículo
automotor, de seu componente ou equipamento: (...)

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A conduta de adulterar placa de veículo reboque ou semirreboque é formalmente atípica.
O reboque e o semirreboque são veículos, no entanto, não são veículos automotores. Isso
porque veículo automotor é aquele que pode circular por seus próprios meios. O reboque e o
semirreboque não conseguem circular por seus próprios meios. Precisam ser “puxados” por
um veículo automotor.
STJ. 6ª Turma. RHC 98.058-MG, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 24/09/2019 (Info 657).

Atipicidade do peculato de uso


O STF considerou atípica a conduta de “peculato de uso” de um veículo para a realização de
deslocamentos por interesse particular.
STF. 1ª Turma. HC 108433 AgR/MG, rel. Min. Luiz Fux, 25/6/2013.

Configura o crime de peculato-desvio o fomento econômico de candidatura à reeleição por


Governador de Estado com o patrimônio de empresas estatais
Governador do Estado que desvia grande soma de recursos públicos de empresas estatais,
utilizando esse dinheiro para custear sua campanha de reeleição, pratica o crime de peculato-
desvio.
As empresas estatais gozam de autonomia administrativa e financeira. Mesmo assim, pode-se
dizer que o Governador tem a posse do dinheiro neste caso?
É possível. Isso porque a posse necessária para configuração do crime de peculato deve ser
compreendida não só como a disponibilidade direta, mas também como disponibilidade
jurídica, exercida por meio de ordens.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.776.680-MG, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 11/02/2020 (Info 666).

Causa de aumento do art. 327, § 2º


A causa de aumento prevista no § 2º do art. 327 do Código Penal é aplicada aos agentes
detentores de mandato eletivo (agentes políticos).
STF. 2ª Turma. RHC 110513/RJ, rel. Min. Joaquim Barbosa, 29/5/2012.

O simples fato de o réu exercer mandato eletivo não é suficiente para a causa de aumento do
art. 327, § 2º, do CP
O simples fato de o réu exercer um mandato popular não é suficiente para fazer incidir a causa
de aumento do art. 327, § 2º, do CP. É necessário que ele ocupe uma posição de superior
hierárquico (o STF chamou de “imposição hierárquica”).
STF. Plenário. Inq 3983/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 02 e 03/03/2016 (Info 816).

Diretor de organização social é considerado funcionário público por equiparação para fins
penais
O diretor de organização social pode ser considerado funcionário público por equiparação para
fins penais (art. 327, § 1º do CP). Isso porque as organizações sociais que celebram contratos de
gestão com o Poder Público devem ser consideradas “entidades paraestatais”, nos termos do
art. 327, § 1º do CP.
STF. 1ª Turma. HC 138484/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 11/9/2018 (Info 915).

Advogado que atua como advogado dativo, por força de convênio com o Poder Público, é
funcionário público para fins penais
O advogado que, por força de convênio celebrado com o Poder Público, atua de forma
16

remunerada em defesa dos hipossuficientes agraciados com o benefício da assistência judiciária


gratuita, enquadra-se no conceito de funcionário público para fins penais. Sendo equiparado a
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funcionário público, é possível que responda por corrupção passiva (art. 317 do CP).

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STJ. 5ª Turma. HC 264.459-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 10/3/2016
(Info 579).

Prostituta que arranca cordão de cliente que não quis pagar o programa responde por
exercício arbitrário das próprias razões
A prostituta maior de idade e não vulnerável que, considerando estar exercendo pretensão
legítima, arranca cordão do pescoço de seu cliente pelo fato de ele não ter pago pelo serviço
sexual combinado e praticado consensualmente, pratica o crime de exercício arbitrário das
próprias razões (art. 345 do CP) e não roubo (art. 157 do CP).
STJ. 6ª Turma. HC 211.888-TO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 17/5/2016 (Info 584).

O crime de exercício arbitrário das próprias razões é formal e consuma-se com o emprego do
meio arbitrário, ainda que o agente não consiga satisfazer a sua pretensão
O crime do art. 345 do CP pune a conduta de “fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer
pretensão”.
O tipo penal afirma que o sujeito age “para satisfazer”. Logo, conclui-se ser suficiente, para a
consumação do delito, que os atos que buscaram fazer justiça com as próprias mãos tenham
visado obter a pretensão, mas não é necessário que o agente tenha conseguido efetivamente
satisfazê-la, por meio da conduta arbitrária. A satisfação, se ocorrer, constitui mero exaurimento
da conduta.
Ex: o credor encontrou a devedora na rua e tentou tomar o seu aparelho de celular como forma
de satisfazer o débito. Chegou a puxar seu braço e seu cabelo, mas a devedora conseguiu fugir
levando o celular. O crime está consumado mesmo ele não tendo conseguido o resultado
pretendido.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.860.791, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 09/02/2021 (Info 685).

Não configuração do crime de desobediência na hipótese de não atendimento por Defensor


Público-Geral de requisição judicial de nomeação de defensor
Não configura o crime de desobediência (art. 330 do CP) a conduta de Defensor Público Geral
que deixa de atender à requisição judicial de nomeação de defensor público para atuar em
determinada ação penal.
STJ. 6ª Turma. HC 310.901-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 16/6/2016 (Info 586).

Desacato continua sendo crime


Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela continua a ser crime.
O crime de desacato é compatível com a Constituição Federal e com o Pacto de São José da
Costa Rica.
A figura penal do desacato não tolhe o direito à liberdade de expressão, não retirando da
cidadania o direito à livre manifestação, desde que exercida nos limites de marcos civilizatórios
bem definidos, punindo-se os excessos.
STF. 2ª Turma. HC 141949/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 13/3/2018 (Info 894).
STJ. 3ª Seção. HC 379.269/MS, Rel. para acórdão Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em
24/05/2017.

Importação de colete à prova de balas configura contrabando


Configura crime de contrabando (art. 334-A do CP) a importação de colete à prova de balas sem
prévia autorização do Comando do Exército.
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STJ. 6ª Turma. RHC 62.851-PR, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 16/2/2016 (Info 577).
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O falso pode ser absorvido pelo descaminho
Quando o falso se exaure no descaminho, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido,
como crime-fim, condição que não se altera por ser menor a pena a este cominada.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.378.053-PR, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 10/8/2016 (Info 587).

Descaminho é crime formal


O descaminho é crime tributário FORMAL. Logo, para que seja proposta ação penal por
descaminho não é necessária a prévia constituição definitiva do crédito tributário.
Não se aplica a Súmula Vinculante 24 do STF.
O crime se consuma com a simples conduta de iludir o Estado quanto ao pagamento dos tributos
devidos quando da importação ou exportação de mercadorias.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.343.463-BA, Rel. para acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em
20/3/2014 (Info 548).
STF. 2ª Turma. HC 122325, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 27/05/2014.

É dispensada a existência de procedimento administrativo fiscal com a posterior constituição do


crédito tributário para a configuração do crime de descaminho (art. 334 do CP), tendo em conta
sua natureza formal.
STF. 1ª Turma. HC 121798/BA, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 29/5/2018 (Info 904).

Justiça Federal é competente para julgar venda de cigarro importado, permitido pela ANVISA,
desacompanhada de nota fiscal e sem comprovação de pagamento do imposto de importação
Compete à Justiça Federal a condução do inquérito que investiga o cometimento do delito
previsto no art. 334, § 1º, IV, do Código Penal, na hipótese de venda de mercadoria estrangeira,
permitida pela ANVISA, desacompanhada de nota fiscal e sem comprovação de pagamento de
imposto de importação.
STJ. Plenário. CC 159.680-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 08/08/2018
(Info 631).

Justiça Federal é competente para julgar contrabando e descaminho, mesmo que não há prova
da transnacionalidade da conduta
Compete à Justiça Federal o julgamento dos crimes de contrabando e de descaminho, ainda que
inexistentes indícios de transnacionalidade na conduta.
STJ. 3ª Seção. CC 160.748-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 26/09/2018 (Info 635).

O fato de não ter havido indiciamento não é motivo para desclassificar o crime para o art. 340
Se, em razão da comunicação falsa de crime, houve a instauração de inquérito policial, sendo a
falsidade descoberta durante os atos investigatórios nele realizados, o delito cometido é o de
denunciação caluniosa, previsto no art. 339 do CP.
O fato de o indivíduo apontado falsamente como autor do delito inexistente não ter sido
indiciado no curso da investigação não é motivo suficiente para desclassificar a conduta para o
crime do art. 340.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.482.925-MG, Rel. Min. Sebastião Reis, julgado em 6/10/2016 (Info 592).

Introduzir chip de aparelho celular em presídio não caracteriza crime


A conduta de ingressar em estabelecimento prisional com chip de celular não se subsome ao
tipo penal previsto no art. 349-A do Código Penal.
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STJ. 5ª Turma. HC 619.776/DF, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 20/04/2021 (Info 693).
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Cuidado para não confundir:
A posse de chip de telefone celular pelo preso, dentro de estabelecimento prisional, configura
falta disciplinar de natureza grave, ainda que ele não esteja portando o aparelho (STJ. 5ª Turma.
HC 260122-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 21/3/2013).

As revisões de valores previstos na LC 123/2006 não retroagem para descaracterizar o crime


de frustração do caráter competitivo de licitação
As sucessivas revisões dos quantitativos máximos de receita bruta para enquadramento como
ME ou EPP, da LC 123/2006, para fazer frente à inflação, não descaracterizam crimes de inserção
de informação falsa em documento público, para fins de participação em procedimento
licitatório, cometidos anteriormente.
Caso concreto: foi aberta licitação que era restrita a MEs e EPPs. A empresa “X” tinha um
faturamento acima daquilo que a LC 123/2006 estabelecia como sendo o teto para ser
considerada EPP. Desse modo, a empresa “X”, segundo a lei vigente na época, não podia ser
considerada EPP. Mesmo assim, os sócios da empresa “X” forneceram declaração dizendo que
ela se enquadrava como EPP, com o objetivo de fazer com que ela pudesse participar da
licitação. Pouco tempo depois, entrou em vigor a LC 139/2011, que aumentou os valores
máximos para fins de caracterização como ME ou EPP previstos no art. 3º da LC 123/2006. Com
essa mudança, a empresa “X” passou a ser considerada como empresa de pequeno porte.
Essa alteração legislativa não tem eficácia retroativa, não servindo para absolver os réus pela
declaração falsa.
STJ. 5ª Turma. AREsp 1.526.095-RJ, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 08/06/2021 (Info 700).

Qual é o regime inicial de cumprimento de pena do réu que for condenado por crime hediondo
ou equiparado?
O regime inicial nas condenações por crimes hediondos ou equiparados (como é o caso do
tráfico de drogas) não tem que ser obrigatoriamente o fechado, podendo ser também o regime
semiaberto ou aberto, desde que presentes os requisitos do art. 33, § 2º, alíneas “b” e “c”, do
Código Penal.
STF. Plenário. HC 111840/ES, rel. Min. Dias Toffoli, 27/6/2012.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.285.631-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, julgado em 24/10/2012.

É necessária a edição de lei em sentido formal para a tipificação do crime contra a humanidade
trazida pelo Estatuto de Roma, mesmo se cuidando de Tratado internalizado
A definição dos crimes de lesa-humanidade, também chamados de crimes contra a humanidade,
pode ser encontrada no Estatuto de Roma, promulgado no Brasil por força do Decreto nº
4.388/2002.
No Brasil, no entanto, ainda não há lei que tipifique os crimes contra a humanidade. Diante da
ausência de lei interna tipificando os crimes contra a humanidade, não é possível utilizar tipo
penal descrito em tratado internacional para tipificar condutas internamente, sob pena de se
violar o princípio da legalidade (art. 5º, XXXIX, da CF/88).
Dessa maneira, não se mostra possível internalizar a tipificação do crime contra a humanidade
trazida pelo Estatuto de Roma, mesmo se cuidando de Tratado internalizado por meio do
Decreto n. 4.388, porquanto não há lei em sentido formal tipificando referida conduta.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.798.903-RJ, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 25/09/2019
(Info 659).
19

Para que se configure o crime do art. 5º da Lei nº 13.260/2016 (atos preparatórios de


terrorismo) exige-se que o sujeito tenha agido por razões de xenofobia, discriminação ou
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preconceito de raça, cor, etnia e religião

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A tipificação da conduta descrita no art. 5º da Lei Antiterrorismo (atos preparatórios de
terrorismo) exige a motivação por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça,
cor, etnia e religião, expostas no art. 2º do mesmo diploma legal.
STJ. 6ª Turma. HC 537.118-RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 05/12/2019 (Info 663).

O delito do art. 2º, § 1º, da Lei 12.850/2013 é crime material, inclusive na modalidade
embaraçar
A Lei nº 12.850/2013 (Lei de Organização Criminosa), prevê o seguinte delito no § 1º do art. 2º:
Art. 2º (...) Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas
correspondentes às demais infrações penais praticadas.
§ 1º Nas mesmas penas incorre quem impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação
de infração penal que envolva organização criminosa.
O crime do art. 2º, § 1º é formal ou material?
Material. O tipo penal possui dois núcleos (verbos): impedir e embaraçar.
No que tange ao núcleo “impedir”, nunca houve dúvida de que se trata de crime material.
A dúvida estava no verbo “embaraçar”. Alguns doutrinadores afirmavam que, neste ponto, o
delito seria formal. Não foi esta, contudo, a conclusão do STJ.
Tanto no núcleo impedir como embaraçar, o crime do art. 2º, § 1º da Lei nº 12.850/2013 é
material.
A adoção da corrente que classifica o delito como crime material se explica porque o verbo
embaraçar atrai um resultado, ou seja, uma alteração do seu objeto. Na hipótese normativa, o
objeto é a investigação, que pode se dar na fase de inquérito ou na instrução da ação penal. Em
outras palavras, haverá embaraço à investigação se o agente conseguir produzir algum
resultado, ainda que seja momentâneo e reversível.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.817.416-SC, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 03/08/2021 (Info
703).

CRIMINOLOGIA
Aqui, infelizmente, eu não posso ajudá-la(o).

DIREITO PROCESSUAL PENAL


Decisão proferida em audiência de custódia reconhecendo a atipicidade do fato não faz coisa
julgada
A decisão que, na audiência de custódia, determina o relaxamento da prisão em flagrante sob o
argumento de que a conduta praticada é atípica não faz coisa julgada.
Assim, esta decisão não vincula o titular da ação penal, que poderá oferecer acusação contra o
indivíduo narrando os mesmos fatos e o juiz poderá receber essa denúncia.
STF. 1ª Turma. HC 157.306/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25/9/2018 (Info 917).

A audiência de custódia constitui direito público subjetivo, de caráter fundamental


A audiência de custódia (ou de apresentação) constitui direito público subjetivo, de caráter
fundamental, assegurado por convenções internacionais de direitos humanos a que o Estado
brasileiro aderiu, já incorporadas ao direito positivo interno (Convenção Americana de Direitos
Humanos e Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos). Traduz prerrogativa não
suprimível assegurada a qualquer pessoa. Sua imprescindibilidade tem o beneplácito do
20

magistério jurisprudencial (ADPF 347 MC) e do ordenamento positivo doméstico (Lei nº


13.964/2019 e Resolução 213/2015 do CNJ).
Página

STF. HC 188888/MG, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 6/10/2020 (Info 994).

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Depois da Lei nº 13.964/2019 (Pacote Anticrime), não é mais possível que o juiz, de ofício,
converta a prisão em flagrante em prisão preventiva (é indispensável requerimento)
Não é possível a decretação “ex officio” de prisão preventiva em qualquer situação (em juízo ou
no curso de investigação penal), inclusive no contexto de audiência de custódia, sem que haja,
mesmo na hipótese da conversão a que se refere o art. 310, II, do CPP, prévia, necessária e
indispensável provocação do Ministério Público ou da autoridade policial.
A Lei nº 13.964/2019, ao suprimir a expressão “de ofício” que constava do art. 282, § 2º, e do
art. 311, ambos do CPP, vedou, de forma absoluta, a decretação da prisão preventiva sem o
prévio requerimento das partes ou representação da autoridade policial.
Logo, não é mais possível, com base no ordenamento jurídico vigente, a atuação ‘ex officio’ do
Juízo processante em tema de privação cautelar da liberdade.
A interpretação do art. 310, II, do CPP deve ser realizada à luz do art. 282, § 2º e do art. 311,
significando que se tornou inviável, mesmo no contexto da audiência de custódia, a conversão,
de ofício, da prisão em flagrante de qualquer pessoa em prisão preventiva, sendo necessária,
por isso mesmo, para tal efeito, anterior e formal provocação do Ministério Público, da
autoridade policial ou, quando for o caso, do querelante ou do assistente do MP.
STJ. 5ª Turma. HC 590039/GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 20/10/2020.
STF. HC 188888/MG, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 6/10/2020 (Info 994).

O acordo de não persecução penal (ANPP) aplica-se a fatos ocorridos antes da Lei nº
13.964/2019, desde que não recebida a denúncia
A Lei nº 13.964/2019 (“Pacote Anticrime”) inseriu o art. 28-A ao CPP, criando, no ordenamento
jurídico pátrio, o instituto do acordo de não persecução penal (ANPP).
A Lei nº 13.964/2019, no ponto em que institui o ANPP, é considerada lei penal de natureza
híbrida, admitindo conformação entre a retroatividade penal benéfica e o tempus regit actum.
O ANPP se esgota na etapa pré-processual, sobretudo porque a consequência da sua recusa, sua
não homologação ou seu descumprimento é inaugurar a fase de oferecimento e de recebimento
da denúncia.
O recebimento da denúncia encerra a etapa pré-processual, devendo ser considerados válidos
os atos praticados em conformidade com a lei então vigente.
Dessa forma, a retroatividade penal benéfica incide para permitir que o ANPP seja viabilizado a
fatos anteriores à Lei nº 13.964/2019, desde que não recebida a denúncia.
Assim, mostra-se impossível realizar o ANPP quando já recebida a denúncia em data anterior à
entrada em vigor da Lei nº 13.964/2019.
STJ. 5ª Turma. HC 607.003-SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 24/11/2020
(Info 683).
STF. 1ª Turma. HC 191464 AgR, Rel. Roberto Barroso, julgado em 11/11/2020.

O Poder Judiciário não pode impor ao MP a obrigação de ofertar ANPP


O Poder Judiciário não pode impor ao Ministério Público a obrigação de ofertar acordo de não
persecução penal (ANPP).
Não cabe ao Poder Judiciário, que não detém atribuição para participar de negociações na seara
investigatória, impor ao MP a celebração de acordos.
Não se tratando de hipótese de manifesta inadmissibilidade do ANPP, a defesa pode requerer o
reexame de sua negativa, nos termos do art. 28-A, § 14, do CPP, não sendo legítimo, em regra,
que o Judiciário controle o ato de recusa, quanto ao mérito, a fim de impedir a remessa ao órgão
superior no MP. Isso porque a redação do art. 28-A, § 14, do CPP determina a iniciativa da defesa
21

para requerer a sua aplicação.


STF. 2ª Turma. HC 194677/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11/5/2021 (Info 1017).
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Indiciamento
O indiciamento é ato privativo da autoridade policial, segundo sua análise técnico-jurídica do
fato. O juiz não pode determinar que o Delegado de Polícia faça o indiciamento de alguém.
STF. 2ª Turma. HC 115015/SP, rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 27/8/2013.

Conflito de atribuições envolvendo MPE e MPF deve ser dirimido pelo CNMP
Compete ao CNMP dirimir conflitos de atribuições entre membros do MPF e de Ministérios
Públicos estaduais.
STF. Plenário. ACO 843/SP, Rel. para acórdão Min. Alexandre de Moraes, julgado em
05/06/2020.

O MP, no exercício do controle externo da atividade policial, pode ter acesso às OMPs
O Ministério Público, no exercício do controle externo da atividade policial, pode ter acesso a
ordens de missão policial (OMP).
Ressalva: no que se refere às OMPs lançadas em face de atuação como polícia investigativa,
decorrente de cooperação internacional exclusiva da Polícia Federal, e sobre a qual haja acordo
de sigilo, o acesso do Ministério Público não será vedado, mas realizado a posteriori.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.365.910-RS, Rel. Min. Humberto Martins, Rel. para acórdão Min. Mauro
Campbell Marques, julgado em 5/4/2016 (Info 590).

Denúncia anônima
As notícias anônimas ("denúncias anônimas") não autorizam, por si sós, a propositura de ação
penal ou mesmo, na fase de investigação preliminar, o emprego de métodos invasivos de
investigação, como interceptação telefônica ou busca e apreensão. Entretanto, elas podem
constituir fonte de informação e de provas que não podem ser simplesmente descartadas pelos
órgãos do Poder Judiciário.
Procedimento a ser adotado pela autoridade policial em caso de “denúncia anônima”:
1) Realizar investigações preliminares para confirmar a credibilidade da “denúncia”;
2) Sendo confirmado que a “denúncia anônima” possui aparência mínima de procedência,
instaura-se inquérito policial;
3) Instaurado o inquérito, a autoridade policial deverá buscar outros meios de prova que não a
interceptação telefônica (esta é a ultima ratio). Se houver indícios concretos contra os
investigados, mas a interceptação se revelar imprescindível para provar o crime, poderá ser
requerida a quebra do sigilo telefônico ao magistrado.
STF. 1ª Turma. HC 106152/MS, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 29/3/2016 (Info 819).

É possível a deflagração de investigação criminal com base em matéria jornalística


É possível a deflagração de investigação criminal com base em matéria jornalística.
STJ. 6ª Turma. RHC 98.056-CE, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 04/06/2019 (Info
652).

É ilícita a prova obtida por meio de revista íntima realizada com base unicamente em denúncia
anônima
É ilícita a prova obtida por meio de revista íntima realizada com base unicamente em denúncia
anônima.
Caso concreto: a diretora da unidade prisional recebeu uma ligação anônima dizendo que
Rafaela, que iria visitar seu marido João, tentaria entrar no presídio com droga. Diante disso, a
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diretora ordenou que a agente penitenciária fizesse uma revista minuciosa em Rafaela. Na
revista íntima efetuada, a agente penitenciária encontrou droga escondida na vagina da
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visitante. Rafaela confessou que estava levando a droga para seu marido. A prova colhida é
ilícita.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.695.349-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 08/10/2019 (Info
659).

Não é lícita a prova obtida por meio de abertura de carta, telegrama ou qualquer encomenda
postada nos Correios, ante a inviolabilidade do sigilo das correspondências
Sem autorização judicial ou fora das hipóteses legais, é ilícita a prova obtida mediante abertura
de carta, telegrama, pacote ou meio análogo.
STF. Plenário. RE 1116949, Rel. Min. Marco Aurélio, Rel. p/ Acórdão Min. Edson Fachin, julgado
em 18/08/2020 (Repercussão Geral – Tema 1041) (Info 993).

Em regra, a busca em veículo é equiparada à busca pessoal e não precisa de mandado judicial
para a sua realização
A apreensão de documentos no interior de veículo automotor constitui uma espécie de "busca
pessoal" e, portanto, não necessita de autorização judicial quando houver fundada suspeita de
que em seu interior estão escondidos elementos necessários à elucidação dos fatos
investigados.
Exceção: será necessária autorização judicial quando o veículo é destinado à habitação do
indivíduo, como no caso de trailers, cabines de caminhão, barcos, entre outros, quando, então,
se inserem no conceito jurídico de domicílio.
STF. 2ª Turma. RHC 117767/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 11/10/2016 (Info 843).

É incabível a anulação de processo penal em razão de suposta irregularidade verificada em


inquérito policial
A suspeição de autoridade policial não é motivo de nulidade do processo, pois o inquérito é
mera peça informativa, de que se serve o Ministério Público para o início da ação penal.
Assim, é inviável a anulação do processo penal por alegada irregularidade no inquérito, pois,
segundo jurisprudência firmada no STF, as nulidades processuais estão relacionadas apenas a
defeitos de ordem jurídica pelos quais são afetados os atos praticados ao longo da ação penal
condenatória.
STF. 2ª Turma. RHC 131450/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 3/5/2016 (Info 824).

É POSSÍVEL
MOTIVO DO ARQUIVAMENTO
DESARQUIVAR?
1) Ausência de pressuposto processual ou de condição da ação penal SIM
2) Falta de justa causa para a ação penal (não há indícios de autoria ou prova da
SIM
materialidade)
3) Atipicidade (fato narrado não é crime) NÃO
4) Existência manifesta de causa excludente de ilicitude STJ: NÃO
STF: SIM
5) Existência manifesta de causa excludente de culpabilidade NÃO
6) Existência manifesta de causa extintiva da punibilidade NÃO
Exceção:
certidão de
óbito falsa
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O STF pode, de ofício, arquivar inquérito quando, mesmo esgotados os prazos para a conclusão
das diligências, não foram reunidos indícios mínimos de autoria ou materialidade
O STF pode, de ofício, arquivar inquérito quando verificar que, mesmo após terem sido feitas
diligências de investigação e terem sido descumpridos os prazos para a instrução do inquérito,
não foram reunidos indícios mínimos de autoria ou materialidade (art. 231, § 4º, “e”, do RISTF).
A pendência de investigação, por prazo irrazoável, sem amparo em suspeita contundente,
ofende o direito à razoável duração do processo (art. 5º, LXXVIII, da CF/88) e a dignidade da
pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88).
Caso concreto: tramitava, no STF, um inquérito para apurar suposto delito praticado por
Deputado Federal. O Ministro Relator já havia autorizado a realização de diversas diligências
investigatórias, além de ter aceitado a prorrogação do prazo de conclusão das investigações.
Apesar disso, não foram reunidos indícios mínimos de autoria e materialidade. Com o fim do
foro por prerrogativa de função para este Deputado, a PGR requereu a remessa dos autos à 1ª
instância. O STF, contudo, negou o pedido e arquivou o inquérito, de ofício, alegando que já
foram tentadas diversas diligências investigatórias e, mesmo assim, sem êxito. Logo, a
declinação de competência para a 1ª instância a fim de que lá sejam continuadas as
investigações seria uma medida fadada ao insucesso e representaria apenas protelar o
inevitável.
STF. 2ª Turma. Inq 4420/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 21/8/2018 (Info 912).

Crimes contra a honra praticados pelas redes sociais da internet: competência da JUSTIÇA
ESTADUAL (regra geral)
STJ. CC 121.431-SE, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 11/4/2012.

Disponibilizar ou adquirir material pornográfico envolvendo criança ou adolescente


Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes consistentes em disponibilizar ou adquirir
material pornográfico, acessível transnacionalmente, envolvendo criança ou adolescente,
quando praticados por meio da rede mundial de computadores (arts. 241, 241-A e 241-B da Lei
nº 8.069/1990).
STF. Plenário. RE 628624 ED, Rel. Edson Fachin, julgado em 18/08/2020 (Repercussão Geral –
Tema 393) (Info 990).

• Se ficar constatada a internacionalidade da conduta: Justiça FEDERAL. Ex: publicação do


material feita em sites que possam ser acessados por qualquer sujeito, em qualquer parte do
planeta, desde que esteja conectado à internet.
• Nos casos em que o crime é praticado por meio de troca de informações privadas, como nas
conversas via Whatsapp ou por meio de chat na rede social Facebook: Justiça ESTADUAL.
Isso porque tanto no aplicativo WhatsApp quanto nos diálogos (chat) estabelecido na rede social
Facebook, a comunicação se dá entre destinatários escolhidos pelo emissor da mensagem.
Trata-se de troca de informação privada que não está acessível a qualquer pessoa.
Desse modo, como em tais situações o conteúdo pornográfico não foi disponibilizado em um
ambiente de livre acesso, não se faz presente a competência da Justiça Federal.
STJ. 3ª Seção. CC 150.564-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 26/4/2017
(Info 603).

Redução a condição análoga à de escravo: Justiça FEDERAL


Compete à justiça FEDERAL processar e julgar o crime de redução à condição análoga à de
24

escravo (art. 149 do CP).


O tipo previsto no art. 149 do CP caracteriza-se como crime contra a organização do trabalho e,
Página

portanto, atrai a competência da justiça federal (art. 109, VI, da CF/88).

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STF. Plenário. RE 459510/MT, rel. orig. Min. Cezar Peluso, red. p/ o acórdão Min. Dias Toffoli,
julgado em 26/11/2015 (Info 809).

Em regra, cabe à Justiça Estadual processar e julgar os crimes contra o meio ambiente,
excetuando-se apenas os casos em que se demonstre interesse jurídico direto e específico da
União, suas autarquias e fundações.
STJ. 3ª Seção. AgRg no CC 115.159-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 13/6/2012.

Súmula 546-STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de documento falso é
firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento público, não
importando a qualificação do órgão expedidor.

Quem julga, no Brasil, crime cometido por brasileiro no exterior e cuja extradição tenha sido
negada: Justiça Federal
Compete à Justiça Federal o processamento e o julgamento da ação penal que versa sobre
crime praticado no exterior que tenha sido transferida para a jurisdição brasileira, por negativa
de extradição.
STJ. 3ª Seção. CC 154.656-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 25/04/2018 (Info 625).

Em se tratando de cooperação internacional em que o Estado Brasileiro se compromete a


promover o julgamento criminal de indivíduo cuja extradição é inviável em função de sua
nacionalidade, exsurge o interesse da União, o que atrai a competência da Justiça Federal para
o processamento e julgamento da ação penal, conforme preceitua o art. 109, III, da
Constituição Federal.
No caso dos autos, trata-se de imputação da prática dos crimes de homicídio triplamente
qualificado, ocultação de cadáver e roubo, praticados por brasileiro em território português.
Diante desse cenário, faz-se imperiosa a incidência do art. 5º, 1, da Convenção de Extradição
entre os Estados Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, promulgada pelo
Decreto 7.935/2013.
STF. 1ª Turma. RE 1270585 AgR, Rel. Alexandre de Moraes, julgado em 31/08/2020.

Em caso de conexão entre crime de competência da Justiça comum (federal ou estadual) e


crime eleitoral, os delitos serão julgados conjuntamente pela Justiça Eleitoral
Compete à Justiça Eleitoral julgar os crimes eleitorais e os comuns que lhes forem conexos.
Cabe à Justiça Eleitoral analisar, caso a caso, a existência de conexão de delitos comuns aos
delitos eleitorais e, em não havendo, remeter os casos à Justiça competente.
STF. Plenário. Inq 4435 AgR-quarto/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 13 e 14/3/2019 (Info
933).

A Justiça Eleitoral é competente para processar e julgar crime comum conexo com crime
eleitoral, ainda que haja o reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva do delito
eleitoral
Caso concreto: o ex-Governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, com colaboração de outros
agentes políticos, teria desviado recursos públicos e utilizado esse dinheiro para financiar sua
campanha de reeleição no ano de 1998. Vale ressaltar que esse dinheiro utilizado na campanha
não teria sido contabilizado na prestação de contas, caracterizando aquilo que se chama, na
linguagem popular, de “caixa dois”.
25

Em tese, o agente teria praticado os seguintes crimes: a) corrupção passiva (art. 317 do CP); b)
falsidade ideológica (art. 350 do Código Eleitoral); c) lavagem de dinheiro (art. 1º da Lei nº
Página

9.613/98).

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Dois crimes são de competência da Justiça estadual comum e um deles da Justiça Eleitoral. Como
ficará a competência para julgar estes delitos? Serão julgados separadamente ou juntos? Qual
será a Justiça competente? Justiça ELEITORAL. Competirá à Justiça Eleitoral julgar todos os
delitos. Segundo entende o STF: Compete à Justiça Eleitoral julgar os crimes eleitorais e os
comuns que lhes forem conexos (Inq 4435 AgR-quarto/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em
13 e 14/3/2019).
Ocorre que, no caso concreto, há uma peculiaridade: ainda durante o inquérito, ficou
reconhecida a prescrição da pretensão punitiva em relação ao crime eleitoral. Logo, houve
arquivamento do inquérito no que tange ao crime eleitoral. Diante disso, indaga-se: mesmo
assim, a Justiça Eleitoral continuará sendo competente para julgar os demais delitos? SIM.
Mesmo operada a prescrição quanto ao crime eleitoral, subsiste a competência da Justiça
Eleitoral. Trata-se de aplicação lógica do disposto no art. 81 do CPP.
STF. 2ª Turma. RHC 177243/MG, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 29/6/2021 (Info 1024).

Compete à Justiça Federal julgar os crimes de violação de direito autoral e contra a lei de
software relacionados com o card sharing
Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes de violação de direito autoral e contra a
lei de software decorrentes do compartilhamento ilícito de sinal de TV por assinatura, via satélite
ou cabo, por meio de serviços de card sharing.
STJ. 3ª Seção. CC 150.629-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 22/02/2018 (Info 620).

Compete à Justiça Federal processar e julgar o crime de esbulho possessório de imóvel


vinculado ao Programa Minha Casa Minha Vida
O art. 161, § 1º, inciso II, do Código Penal, incrimina a conduta de invadir terreno ou edifício
alheio, para o fim de esbulho possessório, com violência a pessoa ou grave ameaça, ou mediante
concurso de mais de duas pessoas.
A vítima do crime de esbulho possessório, tipificado no art. 161, § 1º, II, do Código Penal é o
possuidor direto, pois é quem exercia o direito de uso e fruição do bem. Na hipótese de imóvel
alienado fiduciariamente, é o devedor fiduciário que ostenta essa condição, pois o credor
fiduciário possui tão-somente a posse indireta.
A Caixa Econômica Federal, enquanto credora fiduciária e, portanto, possuidora indireta, não é
a vítima do referido delito. Contudo, no âmbito cível, a empresa pública federal possui
legitimidade concorrente para propor eventual ação de reintegração de posse, diante do
esbulho ocorrido. A sua legitimação ativa para a ação possessória demonstra a existência de
interesse jurídico na apuração do crime, o que é suficiente para fixar a competência penal
federal, nos termos do art. 109, IV, da CF/88.
Os imóveis que integram o Programa Minha Casa Minha Vida são adquiridos, em parte, com
recursos orçamentários federais. Tal fato evidencia o interesse jurídico da União na apuração do
crime de esbulho possessório em relação a esse bem, ao menos enquanto for ele vinculado ao
mencionado Programa, ou seja, quando ainda em vigência o contrato por meio do qual houve a
compra do bem e no qual houve o subsídio federal, o que é a situação dos autos.
STJ. 3ª Seção. CC 179.467-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 09/06/2021 (Info 700).

Crime praticado em Banco Postal


Compete à Justiça Estadual (e não à Justiça Federal) processar e julgar ação penal na qual se
apurem infrações penais decorrentes da tentativa de abertura de conta corrente mediante a
apresentação de documento falso em agência do Banco do Brasil (BB) localizada nas
26

dependências de agência da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) que funcione


como Banco Postal.
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STJ. 3ª Seção. CC 129.804-PB, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 28/10/2015
(Info 572).

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Restrição ao foro por prerrogativa de função
As normas da Constituição de 1988 que estabelecem as hipóteses de foro por prerrogativa de
função devem ser interpretadas restritivamente, aplicando-se apenas aos crimes que tenham
sido praticados durante o exercício do cargo e em razão dele.
Assim, por exemplo, se o crime foi praticado antes de o indivíduo ser diplomado como Deputado
Federal, não se justifica a competência do STF, devendo ele ser julgado pela 1ª instância mesmo
ocupando o cargo de parlamentar federal.
Além disso, mesmo que o crime tenha sido cometido após a investidura no mandato, se o delito
não apresentar relação direta com as funções exercidas, também não haverá foro privilegiado.
Foi fixada, portanto, a seguinte tese:
O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do
cargo e relacionados às funções desempenhadas.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).

As autoridades listadas no art. 105, I, “a”, da CF/88 somente terão foro por prerrogativa de
função no STJ para os crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções
desempenhadas
As hipóteses de foro por prerrogativa de função perante o STJ restringem-se àquelas em que o
crime for praticado em razão e durante o exercício do cargo ou função.
STJ. Corte Especial. AgRg na APn 866-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 20/06/2018
(Info 630).

Cuidado:
Crime cometido por Desembargador
O Superior Tribunal de Justiça é o tribunal competente para o julgamento nas hipóteses em que,
não fosse a prerrogativa de foro (art. 105, I, da CF/88), o desembargador acusado houvesse de
responder à ação penal perante juiz de primeiro grau vinculado ao mesmo tribunal.
Assim, mesmo que o crime cometido pelo Desembargador não esteja relacionado com as suas
funções, ele será julgado pelo STJ se a remessa para a 1ª instância significar que o réu seria
julgado por um juiz de primeiro grau vinculado ao mesmo tribunal que o Desembargador.
A manutenção do julgamento no STJ tem por objetivo preservar a isenção (imparcialidade e
independência) do órgão julgador.
STJ. Corte Especial. QO na APn 878-DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 21/11/2018
(Info 639).

STJ não é competente para julgar crime praticado por Governador no exercício do mandato se
o agente deixou o cargo e atualmente voltou a ser Governador por força de uma nova eleição
O STJ é incompetente para julgar crime praticado durante mandato anterior de Governador,
ainda que atualmente ocupe referido cargo por força de nova eleição.
Ex: José praticou o crime em 2010, quando era Governador; em 2011 foi eleito Senador; em
2019 assumiu novamente como Governador; esse crime praticado em 2010 será julgado em 1ª
instância (e não pelo STJ).
Como o foro por prerrogativa de função exige contemporaneidade e pertinência temática entre
os fatos em apuração e o exercício da função pública, o término de um determinado mandato
acarreta, por si só, a cessação do foro por prerrogativa de função em relação ao ato praticado
nesse intervalo.
STJ. Corte Especial. QO na APn 874-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 15/05/2019 (Info
27

649).
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Marco para o fim do foro: término da instrução
Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para
apresentação de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será
mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que
ocupava, qualquer que seja o motivo.
STF. Plenário. AP 937 QO/RJ, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 03/05/2018 (Info 900).

Busca e apreensão ordenada contra o marido da Senadora, mas cujo cumprimento ocorreu no
imóvel funcional onde ambos residem: deve-se observar as regras de foro privativo
Paulo Bernardo era investigado e o juiz de 1º grau determinou, contra ele, busca e apreensão.
Ocorre que Paulo Bernardo residia com a sua esposa, a Senadora Gleisi Hoffmann, em um imóvel
funcional cedido pelo Senado.
Desse modo, a busca e apreensão foi realizada neste imóvel funcional.
O STF entendeu que esta prova foi ilícita (art. 5º, LVI, da CF/88) e determinou a sua inutilização
e o desentranhamento dos autos de todas as provas obtidas por meio da referida diligência.
O Supremo entendeu que a ordem judicial de busca e apreensão foi ampla e vaga, sem prévia
individualização dos bens que seriam de titularidade da Senadora e daqueles que pertenciam
ao seu marido.
Diante disso, o STF entendeu que o juiz, ao dar essa ordem genérica, acabou por também
determinar medida de investigação contra a própria Senadora. Logo, como ela tinha foro por
prerrogativa de função no STF (art. 102, I, “b”, da CF/88), somente o Supremo poderia ter
ordenado qualquer medida de investigação contra a parlamentar federal. Isso significa que o
juiz de 1ª instância usurpou uma competência que era do STF.
Reconheceu, por conseguinte, a ilicitude da prova obtida (art. 5º, LVI, da CF/88) e de outras
diretamente dela derivadas.
STF. 2ª Turma. Rcl 24473/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 26/6/2018 (Info 908).

No caso do art. 366 do CPP, o prazo prescricional ficará suspenso pelo tempo de prescrição da
pena máxima em abstrato cominada ao crime
Em caso de inatividade processual decorrente de citação por edital, ressalvados os crimes
previstos na Constituição Federal como imprescritíveis, é constitucional limitar o período de
suspensão do prazo prescricional ao tempo de prescrição da pena máxima em abstrato
cominada ao crime, a despeito de o processo permanecer suspenso.
Art. 366. Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão
suspensos o processo e o curso do prazo prescricional, podendo o juiz determinar a produção
antecipada das provas consideradas urgentes e, se for o caso, decretar prisão preventiva, nos
termos do disposto no art. 312.
STF. Plenário. STF. Plenário. RE 600851, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 04/12/2020
(Repercussão Geral – Tema 438) (Info 1001).
No mesmo sentido: Súmula 415-STJ: O período de suspensão do prazo prescricional é regulado
pelo máximo da pena cominada.

Inconstitucionalidade da condução coercitiva para interrogatório


O CPP, ao tratar sobre a condução coercitiva, prevê o seguinte:
Art. 260. Se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou
qualquer outro ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-
lo à sua presença.
28

O STF declarou que a expressão “para o interrogatório”, prevista no art. 260 do CPP, não foi
recepcionada pela Constituição Federal.
Página

Assim, caso seja determinada a condução coercitiva de investigados ou de réus para


interrogatório, tal conduta poderá ensejar:

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• a responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade
• a ilicitude das provas obtidas
• a responsabilidade civil do Estado.
Modulação dos efeitos: o STF afirmou que o entendimento acima não desconstitui (não invalida)
os interrogatórios que foram realizados até a data do julgamento, ainda que os interrogados
tenham sido coercitivamente conduzidos para o referido ato processual.
STF. Plenário. ADPF 395/DF e ADPF 444/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgados em 13 e
14/6/2018 (Info 906).

O interrogatório é o último ato da instrução também nas ações penais regidas pela Lei nº
8.038/90
Nos processos criminais que tramitam perante o STF e o STJ, cujo procedimento é regido pela
Lei nº 8.038/90, o interrogatório também é o último ato de instrução.
Apesar de não ter havido uma alteração específica do art. 7º da Lei 8.038/90, com base no CPP,
entende-se que o interrogatório é um ato de defesa, mais bem exercido depois de toda a
instrução, porque há possibilidade do contraditório mais amplo.
Assim, primeiro devem ser ouvidas todas as testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa
para, só então, ser realizado o interrogatório.
STF. 1ª Turma. AP 1027/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Luís Roberto Barroso,
julgado em 2/10/2018 (Info 918).

Inquirição de testemunhas pelo magistrado e ausência do MP na audiência de instrução


Não gera nulidade do processo o fato de, em audiência de instrução, o magistrado, após o
registro da ausência do representante do MP (que, mesmo intimado, não compareceu),
complementar a inquirição das testemunhas realizada pela defesa, sem que o defensor tenha
se insurgido no momento oportuno nem demonstrado efetivo prejuízo.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.348.978-SC, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Rel. para acórdão Min. Nefi
Cordeiro, julgado em 17/12/2015 (Info 577).

Indeferimento de oitiva das vítimas e inexistência de cerceamento de defesa


Não há direito absoluto à produção de prova. Em casos complexos, há que se confiar no
prudente arbítrio do juiz da causa, mais próximo dos fatos, quanto à avaliação da pertinência e
relevância das provas requeridas pelas partes.
Assim, não há nulidade se o juiz indefere, de modo fundamentado, a oitiva das vítimas do crime.
Em regra, o ofendido deverá ser ouvido na audiência de instrução. No entanto, a
obrigatoriedade de oitiva da vítima deve ser compreendida à luz da razoabilidade e da utilidade
prática da colheita da referida prova.
STF. 1ª Turma. HC 131158/RS, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 26/4/2016 (Info 823).

O simples fato de o juiz ser “duro” no interrogatório não implica quebra da imparcialidade
A condução do interrogatório do réu de forma firme e até um tanto rude durante o júri não
importa, necessariamente, em quebra da imparcialidade do magistrado e em influência negativa
nos jurados.
STJ. 6ª Turma. HC 410.161-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 17/04/2018
(Info 625).

Não é necessário mandado judicial para que seja realizada a busca por objetos em interior de
29

veículo de propriedade do investigado quando houver fundadas suspeitas de que a pessoa


esteja na posse de material que possa constituir corpo de delito.
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Será, no entanto, indispensável o mandado quando o veículo for utilizado para moradia do
investigado, como é o caso de cabines de caminhão, barcos, trailers.

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STJ. 6ª Turma. HC 216.437-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 20/9/2012.

Os §§ 6º e 7º do art. 7º do Estatuto da OAB preveem que documentos, mídias e objetos


pertencentes a clientes do advogado investigado, bem como demais instrumentos de trabalho
que contenham informações sobre clientes, somente poderão ser utilizados caso estes clientes
estejam sendo formalmente investigados como partícipes ou coautores pela prática do mesmo
crime que deu causa à quebra de inviolabilidade.
STJ. 6ª Turma. HC 227.799-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/4/2012.

A obrigação de revisar, a cada 90 dias, a necessidade de se manter a custódia cautelar (art.


316, parágrafo único, do CPP) é imposta apenas ao juiz ou tribunal que decretar a prisão
preventiva
STJ. 6ª Turma. HC 589.544-SC, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 08/09/2020 (Info 680).

O descumprimento da regra do parágrafo único do art. 316 do CPP NÃO gera, para o preso, o
direito de ser posto imediatamente em liberdade
A inobservância do prazo nonagesimal do art. 316 do Código de Processo Penal não implica
automática revogação da prisão preventiva, devendo o juízo competente ser instado a
reavaliar a legalidade e a atualidade de seus fundamentos.
STF. Plenário. SL 1395 MC Ref/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 14 e 15/10/2020 (Info 995).

O advogado suspenso dos quadros da OAB não tem direito a recolhimento em sala de Estado
Maior
O advogado só terá direito à prisão em sala de Estado-Maior se estiver no livre exercício da
profissão, o que não é o caso se ele estiver suspenso dos quadros da OAB.
Assim, decretada a prisão preventiva de advogado, este não terá direito ao recolhimento
provisório em sala de Estado Maior caso sua inscrição na ordem esteja suspensa.
STJ. 6ª Turma. HC 368.393-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 20/9/2016
(Info 591).

Art. 318-A. A prisão preventiva imposta à mulher gestante ou que for mãe ou responsável por
crianças ou pessoas com deficiência será substituída por prisão domiciliar, desde que:
I - não tenha cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa;
II - não tenha cometido o crime contra seu filho ou dependente.

Art. 318-B. A substituição de que tratam os arts. 318 e 318-A poderá ser efetuada sem prejuízo
da aplicação concomitante das medidas alternativas previstas no art. 319 deste Código.

Pais e outros responsáveis por menor de 12 anos ou por pessoa com deficiência possuem
direito à prisão domiciliar, desde que observados os requisitos do art. 318 do CPP e não tenham
praticado crime com violência ou grave ameaça ou contra os próprios filhos ou dependentes
Tem direito à substituição da prisão preventiva pela prisão domiciliar — desde que observados
os requisitos do art. 318 do Código de Processo Penal e não praticados crimes mediante
violência ou grave ameaça ou contra os próprios filhos ou dependentes — os pais, caso sejam
os únicos responsáveis pelos cuidados de menor de 12 anos ou de pessoa com deficiência, bem
como outras pessoas presas, que não sejam a mãe ou o pai, se forem imprescindíveis aos
cuidados especiais de pessoa menor de 6 anos ou com deficiência.
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STF. 2ª Turma. HC 165704/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 20/10/2020 (Info 996).
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• Rol de impedimentos (art. 252): taxativo.

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• Rol de suspeição (art. 254): exemplificativo.

O magistrado que atuou como corregedor em processo administrativo não está impedido de
julgar o réu em processo criminal
O magistrado que atuou como corregedor em processo administrativo instaurado contra o réu
não está impedido de participar como julgador no processo criminal que tramita contra o
acusado.
A situação não se amolda em nenhuma das hipóteses do art. 252 do CPP.
O STF entende que não é possível criar, por meio de interpretação, novas causas de
impedimento que não estejam descritas expressamente nesse dispositivo.
STF. 2ª Turma. RHC 131735/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 3/5/2016 (Info 824).

É lícita a gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem o conhecimento do


outro
As inovações do Pacote Anticrime na Lei nº 9.296/96 não alteraram o entendimento de que é
lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem
conhecimento do outro.
STJ. 6ª Turma. HC 512.290-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 18/08/2020 (Info 677).

É ilícita a prova obtida em revista pessoal feita por agentes de segurança particular
Caso concreto: o homem passava pela catraca de uma das estações da Companhia Paulista de
Trens Metropolitanos (CPTM), com uma mochila nas costas, quando foi abordado por dois
agentes de segurança privados da empresa. Os seguranças acreditavam que se tratava de
vendedor ambulante e fizeram uma revista, tendo encontrado dois tabletes de maconha na
mochila do passageiro. O homem foi condenado pelo TJ/SP por tráfico de drogas (art. 33 da Lei
nº 11.343/2006).
O STJ, contudo, entendeu que a prova usada na condenação foi ilícita considerando que obtida
mediante revista pessoal ilegal feita pelos agentes da CPTM.
Segundo a CF/88 e o CPP, somente as autoridades judiciais, policiais ou seus agentes, estão
autorizados a realizarem a busca domiciliar ou pessoal.
Diante disso, a 5ª Turma do STJ concedeu habeas corpus para absolver e mandar soltar um
homem acusado de tráfico de drogas e condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo com
base em prova recolhida em revista pessoal feita por agentes de segurança privada da
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
STJ. 5ª Turma. HC 470.937/SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 04/06/2019 (Info 651).

É nulo o interrogatório travestido de entrevista realizado pela autoridade policial com o


investigado, durante a busca e apreensão em sua residência, sem assistência de advogado e
sem a comunicação de seus direitos
É nula a “entrevista” realizada pela autoridade policial com o investigado, durante a busca e
apreensão em sua residência, sem que tenha sido assegurado ao investigado o direito à prévia
consulta a seu advogado e sem que ele tenha sido comunicado sobre seu direito ao silêncio e
de não produzir provas contra si mesmo.
Trata-se de um “interrogatório travestido de entrevista”, havendo violação do direito ao silêncio
e à não autoincriminação.
STF. 2ª Turma. Rcl 33711/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11/6/2019 (Info 944).
31

É possível a fixação de astreintes em desfavor de terceiros, não participantes do processo, pela


demora ou não cumprimento de ordem emanada do Juízo Criminal
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As normas do processo civil aplicam-se de forma subsidiária ao processo penal (art. 3º do CPP).

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O poder geral de cautela do processo civil também pode ser aplicado, em regra, ao processo
penal. O emprego de cautelares inominadas só é proibido no processo penal se atingir a
liberdade de ir e vir do indivíduo.
Diante da finalidade da multa cominatória, que é conferir efetividade à decisão judicial, é
possível sua aplicação em demandas penais.
Assim, o terceiro pode perfeitamente figurar como destinatário da multa.
Vale ressaltar que essa multa não se confunde com a multa por litigância de má-fé. A multa por
litigância de má-fé não é admitida no processo penal.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.568.445-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas,
julgado em 24/06/2020 (Info 677).

É possível ao juízo criminal efetivar o bloqueio via Bacen-Jud ou a inscrição em dívida ativa
dos valores arbitrados a título de astreintes
Por derivar do poder geral de cautela, cabe ao magistrado, diante do caso concreto, avaliar qual
a melhor medida coativa ao cumprimento da determinação judicial, não havendo impedimento
ao emprego do sistema Bacen-Jud.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.568.445-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas,
julgado em 24/06/2020 (Info 677).

A determinação judicial para identificação dos usuários que operaram em determinada área
geográfica, suficientemente fundamentada, não ofende a proteção à privacidade e à
intimidade
A quebra do sigilo de dados armazenados não obriga a autoridade judiciária a indicar
previamente as pessoas que estão sendo investigadas, até porque o objetivo precípuo dessa
medida é justamente de proporcionar a identificação do usuário do serviço ou do terminal
utilizado.
Logo, a ordem judicial para quebra do sigilo dos registros, delimitada por parâmetros de
pesquisa em determinada região e por período de tempo, não se mostra medida
desproporcional, porquanto, tendo como norte a apuração de gravíssimos crimes, não impõe
risco desmedido à privacidade e à intimidade dos usuários possivelmente atingidos por tal
diligência.
STJ. 3ª Seção. RMS 61.302-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 26/08/2020 (Info 678).

Para o acesso a dados telemáticos não é necessário a delimitação temporal para fins de
investigações criminais
Não é necessário especificar a limitação temporal para os acessos requeridos pelo Ministério
Público, por se tratar de dados estáticos, constantes nas plataformas de dados.
Apesar de o art. 22, III, da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) determinar que a
requisição judicial de registro deve conter o período ao qual se referem, tal quesito só é
necessário para o fluxo de comunicações, sendo inaplicável nos casos de dados já armazenados
que devem ser obtidos para fins de investigações criminais.
STJ. 6ª Turma. HC 587.732-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 20/10/2020 (Info 682).

Não é possível aplicar multa contra o WhatsApp pelo fato de a empresa não conseguir
interceptar as mensagens trocadas pelo aplicativo e que são protegidas por criptografia de
ponta a ponta
Caso concreto: o juiz expediu ordem para que o WhatsApp interceptasse as mensagens trocadas
32

por determinados investigados, suspeitos de integrarem uma organização criminosa que


estariam ainda praticando crimes. O WhatsApp respondeu que não consegue cumprir a
Página

determinação judicial por impedimentos de ordem técnica. Isso porque as mensagens trocadas

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via aplicativo são criptografadas de ponta a ponta. O magistrado não concordou com o
argumento e aplicou multa contra a empresa.
Segundo a opinião dos especialistas, realmente não é possível a interceptação de mensagens
criptografadas do WhatsApp devido à adoção de criptografia forte pelo aplicativo.
Ao utilizar a criptografia de ponta a ponta, a empresa está criando um mecanismo de proteção
à liberdade de expressão e de comunicação privada, garantia reconhecida expressamente na
Constituição Federal (art. 5º, IX).
A criptografia é, portanto, um meio de se assegurar a proteção de direitos que, em uma
sociedade democrática, são essenciais para a vida pública.
A criptografia protege os direitos dos usuários da internet, garantindo a privacidade de suas
comunicações. Logo, é do interesse do Estado brasileiro encorajar as empresas e as pessoas a
utilizarem a criptografia e manter o ambiente digital com a maior segurança possível para os
usuários.
Existe, contudo, uma ponderação a ser feita: em alguns casos a criptografia é utilizada para
acobertar a prática de crimes, como, por exemplo, os casos de pornografia infantil e de condutas
antidemocráticas, como manifestações xenófobas, racistas e intolerantes, que ameaçam o
Estado de Direito. A partir daí, indaga-se: o risco à segurança pública representado pelo uso da
criptografia justifica restringir ou proibir a sua adoção pelas empresas?
O tema está sendo apreciado pelo STF na ADPF 403 e na ADI 5527, que foi iniciado com os votos
dos Ministros Edson Fachin e Rosa Weber, tendo sido suspenso em razão de pedido de vista.
Apesar de o julgamento dessas ações constitucionais ainda não ter sido concluído, a 3ª Seção
do STJ, em harmonia com os votos já proferidos pelos Ministros do STF, chegou à conclusão de
que:
O ordenamento jurídico brasileiro não autoriza, em detrimento da proteção gerada pela
criptografia de ponta a ponta, em benefício da liberdade de expressão e do direito à intimidade,
sejam os desenvolvedores da tecnologia multados por descumprirem ordem judicial
incompatível com encriptação.
Os benefícios advindos da criptografia de ponta a ponta se sobrepõem às eventuais perdas pela
impossibilidade de se coletar os dados das conversas dos usuários da tecnologia.
Diante disso, o recurso foi provido para afastar a multa aplicada pelo magistrado ante a
impossibilidade fática, no caso concreto, de cumprimento da ordem judicial, haja vista o
emprego da criptografia de ponta-a-ponta.
STJ. 3ª Seção. RMS 60.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Ribeiro Dantas, julgado em
09/12/2020 (Info 684).

Extração, sem prévia autorização judicial, de dados e de conversas registradas no whatsapp


Sem prévia autorização judicial, são nulas as provas obtidas pela polícia por meio da extração de
dados e de conversas registradas no whatsapp presentes no celular do suposto autor de fato
delituoso, ainda que o aparelho tenha sido apreendido no momento da prisão em flagrante.
Assim, é ilícita a devassa de dados, bem como das conversas de whatsapp, obtidos diretamente
pela polícia em celular apreendido no flagrante, sem prévia autorização judicial.
STJ. 6ª Turma. RHC 51.531-RO, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/4/2016 (Info 583).

Mesmo sem autorização judicial, polícia pode acessar conversas do Whatsapp da vítima
morta, cujo celular foi entregue pela sua esposa
Não há ilegalidade na perícia de aparelho de telefonia celular pela polícia, sem prévia
autorização judicial, na hipótese em que seu proprietário - a vítima - foi morto, tendo o referido
telefone sido entregue à autoridade policial por sua esposa.
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STJ. 6ª Turma. RHC 86.076-MT, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Rel. Acd. Min. Rogerio Schietti
Página

Cruz, julgado em 19/10/2017 (Info 617).

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É nula decisão judicial que autoriza o espelhamento do WhatsApp para que a Polícia
acompanhe as conversas do suspeito pelo WhatsApp Web
É nula decisão judicial que autoriza o espelhamento do WhatsApp via Código QR para acesso no
WhatsApp Web.
Também são nulas todas as provas e atos que dela diretamente dependam ou sejam
consequência, ressalvadas eventuais fontes independentes.
Não é possível aplicar a analogia entre o instituto da interceptação telefônica e o espelhamento,
por meio do WhatsApp Web, das conversas realizadas pelo aplicativo WhatsApp.
STJ. 6ª Turma. RHC 99.735-SC, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 27/11/2018 (Info 640).

Obrigar o suspeito a colocar seu celular em “viva voz” no momento de uma ligação é
considerado prova ilícita, assim como as que derivarem dela
Sem consentimento do réu ou prévia autorização judicial, é ilícita a prova, colhida de forma
coercitiva pela polícia, de conversa travada pelo investigado com terceira pessoa em telefone
celular, por meio do recurso "viva-voz", que conduziu ao flagrante do crime de tráfico ilícito de
entorpecentes.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.630.097-RJ, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 18/4/2017 (Info 603).

É ilícita a prova obtida mediante conduta da autoridade policial que atende, sem autorização,
o telefone móvel do acusado e se passa pela pessoa sob investigação
Não tendo a autoridade policial permissão do titular da linha telefônica, ou mesmo da Justiça,
para ler mensagens nem para atender ao telefone móvel da pessoa sob investigação e travar
conversa por meio do aparelho com qualquer interlocutor que seja se passando por seu dono,
a prova obtida dessa maneira arbitrária é ilícita.
No caso concreto, o policial atendeu ao telefone do condutor, sem autorização para tanto, e
passou-se por ele para fazer a negociação de drogas e provocar o flagrante. Esse policial também
obteve acesso, sem autorização pessoal nem judicial, aos dados do aparelho de telefonia móvel
em questão, lendo as mensagens.
STJ. 6ª Turma. HC 511.484-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 15/08/2019 (Info 655).

É lícito o acesso aos dados armazenados em celular apreendido com base em autorização
judicial
A obtenção do conteúdo de conversas e mensagens armazenadas em aparelho de telefone
celular ou smartphones não se subordina aos ditames da Lei nº 9.296/96.
O acesso ao conteúdo armazenado em telefone celular ou smartphone, quando determinada
judicialmente a busca e apreensão destes aparelhos, não ofende o art. 5º, XII, da CF/88,
considerando que o sigilo a que se refere esse dispositivo constitucional é em relação à
interceptação telefônica ou telemática propriamente dita, ou seja, é da comunicação de dados,
e não dos dados em si mesmos.
Assim, se o juiz determinou a busca e apreensão de telefone celular ou smartphone do
investigado, é lícito que as autoridades tenham acesso aos dados armazenados no aparelho
apreendido, especialmente quando a referida decisão tenha expressamente autorizado o acesso
a esse conteúdo.
STJ. 5ª Turma. RHC 75.800-PR, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 15/9/2016 (Info 590).

Se o réu confessa o crime, mas suas declarações não representam efetiva colaboração com a
investigação policial e com o processo criminal nem fornecem informações eficazes para a
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descoberta da trama delituosa, ele não terá direito ao benefício da delação premiada.
STJ. 6ª Turma. HC 174.286-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/4/2012.
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É ilegal a quebra do sigilo telefônico mediante a habilitação de chip da autoridade policial em
substituição ao do investigado titular da linha
A Lei nº 9.296/96 não autoriza a suspensão do serviço telefônico ou do fluxo da comunicação
telemática mantida pelo usuário, tampouco a substituição do investigado e titular da linha por
agente indicado pela autoridade policial.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.806.792-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 11/05/2021 (Info 696).

É lícito o compartilhamento de dados bancários feito por órgão de investigação do país


estrangeiro para a polícia brasileira, mesmo que, no Estado de origem, essas informações não
tenham sido obtidas com autorização judicial, já que isso não é exigido naquele país
Caso concreto: a Procuradoria de Nova Iorque (EUA) compartilhou com a Polícia Federal do
Brasil uma relação de brasileiros que mantinham contas bancárias nos EUA. A partir dessa
informação, a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar os fatos e representou pela quebra
do sigilo bancário dos investigados. O juiz federal deferiu o pedido e expediu um MLAT aos EUA
solicitando todos os detalhes das contas bancárias mantidas naquele país. Esses dados foram
enviados.
O compartilhamento de dados feito pela Procuradoria de Nova Iorque com a Polícia Federal foi
realizado sem autorização judicial. Mesmo assim, não há nulidade e tais elementos informativos
podem ser utilizados no Brasil, já que, no Estado de origem, não era necessária autorização
judicial.
Assim, não viola a ordem pública brasileira o compartilhamento direto de dados bancários pelos
órgãos investigativos, mesmo que, no Estado de origem, sejam obtidos sem prévia autorização
judicial, se a reserva de jurisdição não é exigida pela legislação daquele local.
Ainda neste mesmo caso concreto, o STJ decidiu que a cooperação internacional feita pelo MLAT
não será nula, ainda que não tenha sido concretizada com a intermediação das autoridades
centrais do Brasil e dos EUA.
Respeitadas as garantias processuais do investigado, não há prejuízo na cooperação direta entre
as agências investigativas, sem a participação das autoridades centrais. A ilicitude da prova ou
do meio de sua obtenção somente poderia ser pronunciada se o réu demonstrasse alguma
violação de suas garantias ou das específicas regras de produção probatória.
STJ. 5ª Turma. AREsp 701.833/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 04/05/2021 (Info 695).

É válida a autorização expressa para busca e apreensão em sede de empresa investigada dada
por pessoa que age como sua representante
É válida, com base na teoria da aparência, a autorização expressa para que os policiais fizessem
a busca e apreensão na sede de empresa investigada, autorização essa dada por pessoa que,
embora tenha deixado de ser sócia formal, continuou assinando documentos como
representante da empresa.
Caso concreto: policiais chegaram até a sede da empresa e, enquanto aguardavam decisão
judicial para entrar no local, foram autorizados a fazer a busca e apreensão no imóvel. Essa
autorização foi concedida por uma mulher que se apresentou como representante da empresa.
A mulher que concedeu a autorização, embora tenha deixado de ser formalmente sócia,
continuou assinando documentos como representante da empresa.
A evidência de que ela ainda agia como representante da empresa é reforçada pelo fato de que
tinha a chave do escritório sede da empresa e livre acesso a ele, não tendo sido barrada por
nenhum dos empregados que estavam no local, nem mesmo pelo advogado da empresa que
acompanhou toda a diligência.
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Diante disso, o STJ afirmou que deveria ser aplicada, no caso concreto, a teoria da aparência.
Embora tal teoria tenha encontrado maior amplitude de aplicação jurisprudencial na seara civil,
Página

processual civil e no CDC, nada há que impeça sua aplicação também na seara penal.

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STJ. 5ª Turma. RMS 57.740-PE, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 23/03/2021
(Info 690).

São ilegais as provas obtidas por policial militar que, designado para coletar dados nas ruas
como agente de inteligência, passa a atuar, sem autorização judicial, como agente infiltrado
em grupo criminoso
Determinado policial militar foi designado para participar, nas ruas, à paisana, de passeatas e
manifestações, a fim de coletar dados para subsidiar a Força Nacional de Segurança em atuação
estratégica diante dos movimentos sociais e dos protestos ocorridos no Brasil em 2014. Para
essa atividade, não se exigia prévia autorização judicial.
No curso de sua atividade originária, o referido policial, percebendo que algumas pessoas
estavam se reunindo para planejar a prática de crimes, aproximou-se desses suspeitos, ganhou
a sua confiança e infiltrou-se no grupo participando das conversas virtuais e das reuniões
presenciais dos envolvidos.
Assim, o policial ultrapassou os limites da sua atribuição original e passou a agir como agente
infiltrado.
Ocorre que a infiltração de agentes somente pode acontecer após prévia autorização judicial, o
que não havia no caso.
Diante disso, o STF declarou a ilicitude e determinou o desentranhamento da infiltração
realizada pelo policial militar e dos depoimentos por ele prestados em sede policial e em juízo,
nos termos do art. 157, § 3º, do CPP.
STF. 2ª Turma. HC 147837/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 26/2/2019 (Info 932).

Não haverá infiltração policial se o agente apenas representa a vítima nas negociações de
extorsão
Não há infiltração policial quando agente lotado em agência de inteligência, sob identidade
falsa, apenas representa o ofendido nas negociações da extorsão, sem se introduzir ou se
infiltrar na organização criminosa com o propósito de identificar e angariar a confiança de seus
membros ou obter provas sobre a estrutura e o funcionamento do bando.
STJ. 6ª Turma. HC 512.290-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 18/08/2020 (Info 677).

Ação controlada do art. 8º, § 1º da Lei nº 12.850/2013 exige apenas comunicação prévia (e
não autorização judicial)
A ação controlada prevista no § 1º do art. 8º da Lei nº 12.850/2013 independe de autorização,
bastando sua comunicação prévia à autoridade judicial.
STJ. 6ª Turma. HC 512.290-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 18/08/2020 (Info 677).

Possibilidade de auxílio da agência de inteligência ao MP estadual


É legal o auxílio da agência de inteligência ao Ministério Público Estadual durante procedimento
criminal instaurado para apurar graves crimes em contexto de organização criminosa.
STJ. 6ª Turma. HC 512.290-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 18/08/2020 (Info 677).

Possibilidade de acordo de colaboração premiada ser celebrado por Delegado de Polícia


O delegado de polícia pode formalizar acordos de colaboração premiada, na fase de inquérito
policial, respeitadas as prerrogativas do Ministério Público, o qual deverá se manifestar, sem
caráter vinculante, previamente à decisão judicial.
Os §§ 2º e 6º do art. 4º da Lei nº 12.850/2013, que preveem essa possibilidade, são
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constitucionais e não ofendem a titularidade da ação penal pública conferida ao Ministério


Público pela Constituição (art. 129, I).
Página

STF. Plenário. ADI 5508/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 20/6/2018 (Info 907).

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Papel do Poder Judiciário no acordo de colaboração premiada
A colaboração é um meio de obtenção de prova cuja iniciativa não se submete à reserva de
jurisdição (não exige autorização judicial), diferentemente do que ocorre nas interceptações
telefônicas ou na quebra de sigilo bancário ou fiscal.
Nesse sentido, as tratativas e a celebração da avença são mantidas exclusivamente entre o
Ministério Público e o pretenso colaborador.
O Poder Judiciário é convocado ao final dos atos negociais apenas para aferir os requisitos legais
de existência e validade, com a indispensável homologação.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Cabe habeas corpus contra a decisão que não homologa ou que homologa apenas
parcialmente o acordo de colaboração premiada
STF. 2ª Turma. HC 192063/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 2/2/2021 (Info 1004).

Competência para homologação do acordo de colaboração premiada se o delatado tiver foro


por prerrogativa de função
Se a delação do colaborador mencionar fatos criminosos que teriam sido praticados por
autoridade (ex: Governador) e que teriam que ser julgados por foro privativo (ex: STJ), este
acordo de colaboração deverá, obrigatoriamente, ser celebrado pelo Ministério Público
respectivo (PGR), com homologação pelo Tribunal competente (STJ).
Assim, se os fatos delatados tiverem que ser julgados originariamente por um Tribunal (foro por
prerrogativa de função), o próprio acordo de colaboração premiada deverá ser homologado por
este respectivo Tribunal, mesmo que o delator não tenha foro privilegiado.
A delação de autoridade com prerrogativa de foro atrai a competência do respectivo Tribunal
para a respectiva homologação e, em consequência, do órgão do Ministério Público que atua
perante a Corte.
Se o delator ou se o delatado tiverem foro por prerrogativa de função, a homologação da
colaboração premiada será de competência do respectivo Tribunal.
STF. 2ª Turma. HC 151605/PR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 20/3/2018 (Info 895).

A colaboração premiada, como meio de obtenção de prova, não constitui critério de


determinação, de modificação ou de concentração da competência
Os elementos de informação trazidos pelo colaborador a respeito de crimes que não sejam
conexos ao objeto da investigação primária devem receber o mesmo tratamento conferido à
descoberta fortuita ou ao encontro fortuito de provas em outros meios de obtenção de prova,
como a busca e apreensão e a interceptação telefônica. A colaboração premiada, como meio de
obtenção de prova, não constitui critério de determinação, de modificação ou de concentração
da competência. Assim, ainda que o agente colaborador aponte a existência de outros crimes e
que o juízo perante o qual foram prestados seus depoimentos ou apresentadas as provas que
corroborem suas declarações ordene a realização de diligências (interceptação telefônica, busca
e apreensão etc.) para sua apuração, esses fatos, por si sós, não firmam sua prevenção.
STF. 2ª Turma. HC 181978 AgR/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 10/11/2020 (Info 999).

Natureza da decisão que homologa o acordo de colaboração premiada


A decisão do magistrado que homologa o acordo de colaboração premiada não julga o mérito
da pretensão acusatória, mas apenas resolve uma questão incidente. Por isso, esta decisão tem
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natureza meramente homologatória, limitando-se ao pronunciamento sobre a regularidade,


legalidade e voluntariedade do acordo (art. 4º, § 7º, da Lei nº 12.850/2013).
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O juiz, ao homologar o acordo de colaboração, não emite juízo de valor a respeito das
declarações eventualmente prestadas pelo colaborador à autoridade policial ou ao Ministério
Público, nem confere o signo da idoneidade a seus depoimentos posteriores.
A análise se as declarações do colaborador são verdadeiras ou se elas se confirmaram com as
provas produzidas será feita apenas no momento do julgamento do processo, ou seja, na
sentença (ou acórdão), conforme previsto no § 11 do art. 4º da Lei.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Na decisão homologatória, magistrado examina se as cláusulas contratuais ofendem


manifestamente o ordenamento jurídico
No ato de homologação da colaboração premiada, não cabe ao magistrado, de forma antecipada
e extemporânea, tecer juízo de valor sobre o conteúdo das cláusulas avençadas, exceto nos
casos de flagrante ofensa ao ordenamento jurídico vigente.
Ex: o Relator poderá excluir ao acordo a cláusula que limite o acesso à justiça, por violar o art.
5º, XXXV, da CF/88.
Neste momento, o Relator não realiza qualquer controle de mérito, limitando-se aos aspectos
formais e legais do acordo.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Em caso colaboração premiada envolvendo investigados ou réus com foro no Tribunal, qual é
o papel do Relator?
É atribuição do Relator homologar, monocraticamente, o acordo de colaboração premiada,
analisando apenas a sua regularidade, legalidade e voluntariedade, nos termos do art. 4º, § 7º
da Lei nº 12.850/2013:
§ 7º Realizado o acordo na forma do § 6º, o respectivo termo, acompanhado das declarações do
colaborador e de cópia da investigação, será remetido ao juiz para homologação, o qual deverá
verificar sua regularidade, legalidade e voluntariedade, podendo para este fim, sigilosamente,
ouvir o colaborador, na presença de seu defensor.
Não há qualquer óbice à homologação do respectivo acordo mediante decisão monocrática.
O art. 21, I e II, do RISTF confere ao Ministro Relator no STF poderes instrutórios para ordenar,
de forma singular, a realização de quaisquer meios de obtenção de provas.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Em caso colaboração premiada envolvendo investigados ou réus com foro no Tribunal, qual é
o papel do órgão colegiado?
Compete ao órgão colegiado, em decisão final de mérito, avaliar o cumprimento dos termos do
acordo homologado e a sua eficácia, conforme previsto no art. 4º, § 11 da Lei nº 12.850/2013:
§ 11. A sentença apreciará os termos do acordo homologado e sua eficácia.
Assim, é possível que o órgão julgador, no momento da sentença ou acórdão, ou seja, após a
conclusão da instrução probatória, avalie se os termos da colaboração foram cumpridos e se os
resultados concretos foram atingidos, o que definirá a sua eficácia.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Acordo de colaboração homologado pelo Relator deve, em regra, produzir seus efeitos, salvo
se presente hipótese de anulabilidade
O acordo de colaboração devidamente homologado individualmente pelo relator deve, em
regra, produzir seus efeitos diante do cumprimento dos deveres assumidos pelo colaborador.
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Vale ressaltar, no entanto, que o órgão colegiado detém a possibilidade de analisar fatos
supervenientes ou de conhecimento posterior que firam a legalidade do acordo, nos termos do
Página

§ 4º do art. 966do CPC/2015:

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§ 4º Os atos de disposição de direitos, praticados pelas partes ou por outros participantes do
processo e homologados pelo juízo, bem como os atos homologatórios praticados no curso da
execução, estão sujeitos à anulação, nos termos da lei.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Direitos do colaborador somente serão assegurados se ele cumprir seus deveres


O direito subjetivo do colaborador nasce e se perfectibiliza na exata medida em que ele cumpre
seus deveres.
Assim, o cumprimento dos deveres pelo colaborador é condição sine qua non para que ele possa
gozar dos direitos decorrentes do acordo.
Por isso diz-se que o acordo homologado como regular, voluntário e legal gera vinculação
condicionada ao cumprimento dos deveres assumidos pela colaboração, salvo ilegalidade
superveniente apta a justificar nulidade ou anulação do negócio jurídico.
STF. Plenário. Pet 7074/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 21, 22, 28 e 29/6/2017 (Info 870).

Análise da legitimidade do delatado para impugnar o acordo de colaboração premiada


Em regra, o delatado não tem legitimidade para impugnar o acordo de colaboração premiada.
Assim, em regra, a pessoa que foi delatada não poderá impetrar um habeas corpus alegando
que esse acordo possui algum vício. Isso porque se trata de negócio jurídico personalíssimo.
Esse entendimento, contudo, não se aplica em caso de homologação sem respeito à
prerrogativa de foro.
Desse modo, é possível que o delatado questione o acordo se a impugnação estiver relacionada
com as regras constitucionais de prerrogativa de foro. Em outras palavras, se o delatado for uma
autoridade com foro por prerrogativa de função e, apesar disso, o acordo tiver sido homologado
em 1ª instância, será permitido que ele impugne essa homologação alegando usurpação de
competência.
STF. 2ª Turma. HC 151605/PR, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 20/3/2018 (Info 895).

O delatado tem o direito de acesso aos termos de colaboração premiada que mencionem seu
nome, desde que já tenham sido juntados aos autos e não prejudiquem diligências em
andamento
O delatado possui o direito de ter acesso às declarações prestadas pelos colaboradores que o
incriminem, desde que já documentadas e que não se refiram à diligência em andamento que
possa ser prejudicada.
STF. 2ª Turma. Rcl 30742 AgR/SP, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 4/2/2020 (Info
965).

Descumprimento de colaboração premiada não justifica, por si só, prisão preventiva


Não se pode decretar a prisão preventiva do acusado pelo simples fato de ele ter descumprido
acordo de colaboração premiada.
Não há, sob o ponto de vista jurídico, relação direta entre a prisão preventiva e o acordo de
colaboração premiada. Tampouco há previsão de que, em decorrência do descumprimento do
acordo, seja restabelecida prisão preventiva anteriormente revogada.
Por essa razão, o descumprimento do que foi acordado não justifica a decretação de nova
custódia cautelar.
É necessário verificar, no caso concreto, a presença dos requisitos da prisão preventiva, não
podendo o decreto prisional ter como fundamento apenas a quebra do acordo.
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STF. 1ª Turma. HC 138207/PR, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 25/4/2017 (Info 862).
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Em ação penal envolvendo réus colaborares e não colaboradores, o réu delatado tem o direito
de apresentar suas alegações finais somente após o réu que firmou acordo de colaboração
premiada
O réu delatado tem o direito de apresentar suas alegações finais somente após o réu delator.
Os réus colaboradores não podem se manifestar por último (ou no mesmo prazo dos réus
delatados) porque as informações trazidas por eles possuem uma carga acusatória.
O direito fundamental ao contraditório e à ampla defesa deve permear todo o processo legal,
garantindo-se sempre a possibilidade de a defesa se manifestar depois do agente acusador. Vale
ressaltar que pouco importa a qualificação jurídica do agente acusador: Ministério Público ou
corréu colaborador. Se é um “agente acusador”, a defesa deve falar depois dele.
Ao se permitir que os réus colaboradores falem por último (ou simultaneamente com os réus
delatados), há uma inversão processual que ocasiona sério prejuízo ao delatado, tendo em vista
que ele não terá oportunidade de repelir os argumentos eventualmente incriminatórios trazidos
pelo réu delator ou para reforçar os favoráveis à sua defesa.
Permitir o oferecimento de memoriais escritos de réus colaboradores, de forma simultânea ou
depois da defesa — sobretudo no caso de utilização desse meio de prova para prolação da
condenação —, compromete o pleno exercício do contraditório, que pressupõe o direito de a
defesa falar por último, a fim de poder reagir às manifestações acusatórias.
STF. 2ª Turma. HC 157627 AgR/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo
Lewandowski, julgado em 27/8/2019 (Info 949).

O advogado do réu delatado deverá, obrigatoriamente, estar presente no interrogatório do


corréu delator
O advogado de um réu deverá, obrigatoriamente, estar presente no interrogatório do corréu
que com ele responde o mesmo processo criminal?
REGRA: não. A presença da defesa técnica é imprescindível durante o interrogatório do réu por
ela representado, não quanto aos demais. Assim, é obrigatória a presença do advogado no
interrogatório do seu cliente. No interrogatório dos demais réus, essa presença é, em regra,
facultativa.
EXCEÇÃO: se o interrogatório é de um corréu delator, a presença do advogado dos réus
delatados é indispensável. Neste caso, deve-se exigir a presença dos advogados dos réus
delatados, pois, na colaboração premiada, o delator adere à acusação em troca de um benefício
acordado entre as partes e homologado pelo julgador natural. Normalmente, o delator presta
contribuições à persecução penal incriminando eventuais corréus, razão pela qual seus
advogados devem acompanhar o ato.
Se o advogado do corréu não comparece ao interrogatório do réu delator, haverá nulidade?
Depende:
• Se o corréu foi delatado no interrogatório e seu advogado não compareceu: sim, haverá
nulidade.
• Se o corréu não foi delatado no interrogatório: não. Isso porque não houve prejuízo.
STF. 2ª Turma. AO 2093/RN, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 3/9/2019 (Info 955).
A interceptação telefônica é subsidiária e excepcional, só podendo ser determinada quando não
houver outro meio para se apurar os fatos tidos por criminosos, nos termos do art. 2º, inc. II, da
Lei n. 9.296/1996.
Desse modo, é ilegal que a interceptação telefônica seja determinada apenas com base em
“denúncia anônima”.
STF. Segunda Turma. HC 108147/PR, rel. Min. Cármen Lúcia, 11/12/2012.
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Se uma autoridade com foro privativo mantém contato telefônico com pessoa que está com seu
Página

telefone “grampeado” por decisão de juiz de 1ª instância, a gravação dessas conversas NÃO é

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nula por violação ao foro por prerrogativa de função considerando que não era a autoridade
quem estava sendo interceptada.
STJ. 6ª Turma. HC 227.263-RJ, Rel. Min. Vasco Della Giustina (Des. convocado do TJ-RS), julgado
em 27/3/2012.

Interceptação telefônica e gravação de conversa do investigado com seu advogado


As comunicações telefônicas do investigado legalmente interceptadas podem ser utilizadas para
formação de prova em desfavor do outro interlocutor, ainda que este seja advogado do
investigado.
STJ. 5ª Turma. RMS 33.677-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 27/5/2014 (Info 541).

Encontro fortuito de provas


A sentença de pronúncia pode ser fundamentada em indícios de autoria surgidos, de forma
fortuita, durante a investigação de outros crimes no decorrer de interceptação telefônica
determinada por juiz diverso daquele competente para o julgamento da ação principal.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.355.432-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, Rel. para acórdão Min. Marco Aurélio
Bellizze, julgado em 21/8/2014 (Info 546).

Crime achado
O réu estava sendo investigado pela prática do crime de tráfico de drogas.
Presentes os requisitos constitucionais e legais, o juiz autorizou a interceptação telefônica para
apurar o tráfico.
Por meio dos diálogos, descobriu-se que o acusado foi o autor de um homicídio.
A prova obtida a respeito da prática do homicídio é LÍCITA, mesmo a interceptação telefônica
tendo sido decretada para investigar outro delito que não tinha relação com o crime contra a
vida.
Na presente situação, tem-se aquilo que o Min. Alexandre de Moraes chamou de “crime
achado”, ou seja, uma infração penal desconhecida e não investigada até o momento em que,
apurando-se outro fato, descobriu-se esse novo delito.
Para o Min. Alexandre de Moraes, a prova é considerada lícita, mesmo que o “crime achado”
não tenha relação (não seja conexo) com o delito que estava sendo investigado, desde que
tenham sido respeitados os requisitos constitucionais e legais e desde que não tenha havido
desvio de finalidade ou fraude.
STF. 1ª Turma. HC 129678/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 13/6/2017 (Info 869).

Segundo o art. 6º, da Lei n. 9.296/96, os procedimentos de interceptação telefônica serão
conduzidos pela autoridade policial (Delegado de Polícia Civil ou Federal).
O STJ e o STF, contudo, entendem que tal acompanhamento poderá ser feito por outros órgãos,
como, por exemplo, a polícia militar, não sendo atribuição exclusiva da autoridade policial.
STF. 2ª Turma. HC 96986/MG, rel. Min. Gilmar Mendes, 15/5/2012.

Em relação às interceptações telefônicas, o prazo de 15 dias, previsto na Lei nº 9.296/96, é


contado a partir do dia em que se iniciou a escuta telefônica e não da data da decisão judicial.
STJ. 6ª Turma. HC 113.477-DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 20/3/2012.

I – As interceptações telefônicas podem ser prorrogadas sucessivas vezes pelo tempo


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necessário, especialmente quando o caso for complexo e a prova indispensável.


Página

II – A fundamentação da prorrogação pode manter-se idêntica à do pedido original, pois a


repetição das razões que justificaram a escuta não constitui, por si só, ilicitude.

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STJ. 5ª Turma. HC 143.805-SP, Rel. originário Min. Adilson Vieira Macabu (Desembargador
Convocado do TJRJ), Rel. para o acórdão Min. Gilson Dipp, julgado em 14/2/2012.

Não é necessária a transcrição integral das conversas interceptadas, desde que possibilitado ao
investigado o pleno acesso a todas as conversas captadas, assim como disponibilizada a
totalidade do material que, direta e indiretamente, àquele se refira, sem prejuízo do poder do
magistrado em determinar a transcrição da integralidade ou de partes do áudio.
STF. Plenário. Inq 3693/PA, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 10/4/2014 (Info 742).

O fato de a denúncia já ter sido recebida não impede o juízo de primeiro grau de, logo após o
oferecimento da resposta do acusado, prevista nos arts. 396 e 396-A do CPP, reconsiderar a
anterior decisão e rejeitar a peça acusatória, ao constatar a presença de uma das hipóteses
elencadas nos incisos do art. 395 do CPP, suscitada pela defesa.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.318.180-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 16/5/2013.

Aplicação analógica do art. 191 do CPC 1973 (art. 229 do CPC 2015) ao processo penal
É cabível a aplicação analógica do art. 191 do CPC 1973 (art. 229 do CPC 2015) ao processo penal.
Se no processo civil, em que se discutem direitos disponíveis, concede-se prazo em dobro, com
mais razão no processo penal, em que está em jogo a liberdade do cidadão.
STF. Plenário. Inq 3983/DF e Inq 4112/DF, rel. orig. Min. Teori Zavascki, red. p/ o acórdão Min.
Luiz Fux, julgado em 3/9/2015 (Info 797).

Não se aplica o prazo em dobro do caput do art. 229 do CPC/2015 aos processos em autos
eletrônicos
Em regra, é cabível a aplicação analógica do prazo em dobro previsto no art. 229 do CPC/2015
ao prazo previsto no art. 4º da Lei nº 8.038/90 (“Apresentada a denúncia ou a queixa ao Tribunal,
far-se-á a notificação do acusado para oferecer resposta no prazo de quinze dias”).
"Art. 229. Os litisconsortes que tiverem diferentes procuradores, de escritórios de advocacia
distintos, terão prazos contados em dobro para todas as suas manifestações, em qualquer juízo
ou tribunal, independentemente de requerimento."
No entanto, não cabe a aplicação subsidiária do art. 229, caput, do CPC/2015 em inquéritos e
ações penais originárias em que os atos processuais das partes são praticados por via eletrônica
e todos os interessados — advogados e membros do Ministério Público — têm acesso amplo e
simultâneo ao inteiro teor dos autos. Incide aqui a regra de exceção do § 2º do art. 229: "§ 2º
Não se aplica o disposto no caput aos processos em autos eletrônicos."
STF. 2ª Turma. Inq 3980 QO/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/6/2016 (Info 829).

Atos infracionais pretéritos podem ser utilizados como fundamento para


decretação/manutenção da prisão preventiva
A prática de atos infracionais anteriores serve para justificar a decretação ou manutenção da
prisão preventiva como garantia da ordem pública, considerando que indicam que a
personalidade do agente é voltada à criminalidade, havendo fundado receio de reiteração.
Não é qualquer ato infracional, em qualquer circunstância, que pode ser utilizado para
caracterizar a periculosidade e justificar a prisão antes da sentença. É necessário que o
magistrado analise:
a) a gravidade específica do ato infracional cometido;
b) o tempo decorrido entre o ato infracional e o crime; e
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c) a comprovação efetiva da ocorrência do ato infracional.


STJ. 3ª Seção. RHC 63.855-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Rogerio Schietti
Página

Cruz, julgado em 11/5/2016 (Info 585).

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A OAB não tem legitimidade para atuar como assistente de defesa de advogado réu em ação
penal
A Ordem dos Advogados do Brasil não tem legitimidade para atuar como assistente de defesa
de advogado réu em ação penal. Isso porque, no processo penal, a assistência é apenas da
acusação, não existindo a figura do assistente de defesa.
STJ. 5ª Turma. RMS 63.393-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 23/06/2020
(Info 675).
STJ. 6ª Turma. REsp 1815460/RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 23/06/2020.

É constitucional a multa imposta ao defensor por abandono do processo, prevista no art. 265
do CPP
É constitucional a multa imposta ao defensor por abandono do processo, prevista no art. 265 do
CPP:
Art. 265. O defensor não poderá abandonar o processo senão por motivo imperioso,
comunicado previamente o juiz, sob pena de multa de 10 (dez) a 100 (cem) salários mínimos,
sem prejuízo das demais sanções cabíveis.
A previsão da multa afigura-se compatível com os princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade.
A multa não se mostra inadequada nem desnecessária. Ao contrário, mostra-se razoável como
meio prévio para evitar o comportamento prejudicial à administração da justiça e ao direito de
defesa do réu, tendo em vista a imprescindibilidade da atuação do profissional da advocacia
para o regular andamento do processo penal.
A multa do art. 265 do CPP não ofende o contraditório, a ampla defesa, o devido processo legal
ou a presunção de não culpabilidade. Não há necessidade de instauração de processo autônomo
e de manifestação prévia do defensor, no entanto, é possível que ele, posteriormente, se
justifique por meio de pedido de reconsideração. Outra alternativa é a impetração de mandado
de segurança.
STF. Plenário. ADI 4398, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 05/08/2020 (Info 993).

Hipótese em que a ausência de intimação pessoal do defensor dativo não gera reconhecimento de
nulidade
Obrigatoriedade de intimação pessoal do Defensor Público e do defensor dativo:
• Em regra, é obrigatória a intimação pessoal do defensor dativo, inclusive a respeito do dia em
que será julgado o recurso (art. 370, § 4º do CPP). Se for feita a sua intimação apenas pela
imprensa oficial, isso é causa de nulidade.
• Exceção: não haverá nulidade se o próprio defensor dativo pediu para ser intimado dos atos
processuais pelo diário oficial.
STJ. 5ª Turma. HC 311.676-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 16/4/2015 (Info 560).

A ausência de afirmação da autoridade policial de sua própria suspeição não eiva de nulidade
o processo judicial por si só, sendo necessária a demonstração do prejuízo suportado pelo réu
Caso concreto: após a condenação, a defesa do réu descobriu que um dos Delegados que
participou das investigações – conduzidas pelo Ministério Público – seria suspeito já que seu pai
também teria envolvimento com a organização criminosa.
Logo, o Delegado deveria ter se declarado suspeito, nos termos do art. 107 do CPP: “Não se
poderá opor suspeição às autoridades policiais nos atos do inquérito, mas deverão elas declarar-
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se suspeitas, quando ocorrer motivo legal.”


Para o STJ, contudo, o descumprimento do art. 107 do CPP - quando a autoridade policial deixa
Página

de afirmar sua própria suspeição - não gera, por si só, a nulidade do processo judicial, sendo
necessária a demonstração do prejuízo suportado pelo réu.

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O inquérito é uma peça de informação, destinada a auxiliar a construção da opinio delicti do MP.
Vale ressaltar, inclusive, que o inquérito é uma peça facultativa. Logo, possíveis irregularidades
ocorridas no inquérito policial não afetam a ação penal.
No caso concreto, dentre as provas que fundamentaram a condenação do réu, apenas a
interceptação telefônica foi realizada com a participação do Delegado suspeito. A defesa,
contudo, não se insurgiu contra o conteúdo material das conversas gravadas nem indicou que
seriam falsas. Assim, como não foi demonstrado qualquer prejuízo causado pela suspeição, é
inviável decretação de nulidade da condenação.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.942.942-RO, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 10/08/2021 (Info 704).

Princípio da correlação (congruência), causa de aumento e emendatio libelli


O princípio da congruência preconiza que o acusado defende-se dos fatos descritos na denúncia
e não da capitulação jurídica nela estabelecida.
Assim, para que esse princípio seja respeitado é necessário apenas que haja a correlação entre
o fato descrito na peça acusatória e o fato pelo qual o réu foi condenado, sendo irrelevante a
menção expressa na denúncia de eventuais causas de aumento ou diminuição de pena.
Ex: o MP ajuizou ação penal contra o réu por sonegação fiscal (art. 1º, I, da Lei nº 8.137/90). Na
denúncia, o MP não pediu expressamente que fosse reconhecida a majorante do art. 12, I.
Pediu-se apenas a condenação do acusado pelo crime do art. 1º, I. No entanto, apesar disso, na
exordial o membro do MP narrou que o réu sonegou tributos em montante superior a R$ 4
milhões. O juiz, na sentença, ao condenar o réu, poderá reconhecer a incidência da causa de
aumento de pena prevista no art. 12, I, porque o fato que ela representa (vultosa quantia
sonegada que gera dano à coletividade) foi narrado, apesar de não haver menção expressa ao
dispositivo legal.
STF. 2ª Turma. HC 129284/PE, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. em 17/10/2017 (Info 882).

Transação penal
Súmula vinculante 35-STF: A homologação da transação penal prevista no artigo 76 da Lei
9.099/1995 não faz coisa julgada material e, descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação
anterior, possibilitando-se ao Ministério Público a continuidade da persecução penal mediante
oferecimento de denúncia ou requisição de inquérito policial.
STF. Plenário. Aprovada em 16/10/2014.

Em caso de transação penal, não se aplicam os efeitos do art. 91 do CP


As consequências jurídicas extrapenais previstas no art. 91 do Código Penal são decorrentes de
sentença condenatória. Tal não ocorre, portanto, quando há transação penal, cuja sentença tem
natureza meramente homologatória, sem qualquer juízo sobre a responsabilidade criminal do
aceitante. As consequências geradas pela transação penal são essencialmente aquelas
estipuladas por modo consensual no respectivo instrumento de acordo.
STF. Plenário. RE 795567/PR, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 28/5/2015 (Info 787).

A concessão do benefício da transação penal impede a impetração de habeas corpus em que


se busca o trancamento da ação penal
A transação penal é um instituto que, por natureza e como regra, ocorre na fase pré-processual.
Seu objetivo é impedir a instauração da persecutio criminis in iudicio (persecução penal em
juízo).
Se a transação penal foi aceita, isso significa que não existe ação penal em curso. Como não
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existe ação penal em curso, não se pode falar em habeas corpus para trancar a ação penal. Ela,
repito, não existe.
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Logo, não se revela viável, após a celebração do acordo, pretender discutir em ação autônoma
(HC) a existência de justa causa para ação penal. Trata-se de decorrência lógica, pois não há ação
penal instaurada que se possa trancar.
STJ. 6ª Turma. HC 495.148-DF, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 24/09/2019 (Info
657).

Revogação do sursis processual após o período de prova


Se descumpridas as condições impostas durante o período de prova da suspensão condicional
do processo, o benefício poderá ser revogado, mesmo se já ultrapassado o prazo legal, desde
que referente a fato ocorrido durante sua vigência.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.498.034-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 25/11/2015
(recurso repetitivo) (Info 574).

O cometimento do crime do art. 28 da Lei de Drogas deve receber o mesmo tratamento que a
contravenção penal, para fins de revogação facultativa da suspensão condicional do processo
A suspensão será obrigatoriamente revogada se, no curso do prazo o beneficiário vier a ser
processado por outro crime (art. 89, § 3º da Lei nº 9.099/95). Trata-se de causa de revogação
obrigatória.
Por outro lado, a suspensão poderá ser revogada pelo juiz se o acusado vier a ser processado,
no curso do prazo, por contravenção (art. 89, § 4º). Trata-se de causa de revogação facultativa.
O processamento do réu pela prática da conduta descrita no art. 28 da Lei de Drogas no curso
do período de prova deve ser considerado como causa de revogação FACULTATIVA da suspensão
condicional do processo.
A contravenção penal tem efeitos primários mais deletérios que o crime do art. 28 da Lei de
Drogas. Assim, mostra-se desproporcional que o mero processamento do réu pela prática do
crime previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/2006 torne obrigatória a revogação da suspensão
condicional do processo, enquanto o processamento por contravenção penal ocasione a
revogação facultativa.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.795.962-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 10/03/2020 (Info 668).

Imposição de obrigações equivalentes a sanções penais


Não há óbice a que se estabeleçam, no prudente uso da faculdade judicial disposta no art. 89, §
2º, da Lei nº 9.099/95, obrigações equivalentes, do ponto de vista prático, a sanções penais (tais
como a prestação de serviços comunitários ou a prestação pecuniária), mas que, para os fins do
sursis processual, se apresentam tão somente como condições para sua incidência.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.498.034-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 25/11/2015
(recurso repetitivo) (Info 574).

Se o acusado se recusa a participar do incidente, não pode ser obrigado a fazer o exame
O incidente de insanidade mental é prova pericial constituída em favor da defesa. Logo, não é
possível determiná-lo compulsoriamente na hipótese em que a defesa se oponha à sua
realização.
STF. 2ª Turma. HC 133.078/RJ, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 6/9/2016 (Info 838).

O reconhecimento da inimputabilidade ou semi-imputabilidade do réu depende da prévia


instauração de incidente de insanidade mental e do respectivo exame médico-legal nele
previsto
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O art. 149 do CPP, ao exigir que o acusado seja submetido a exame médico-legal, não contempla
hipótese de prova legal ou tarifada.
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A despeito disso, a partir de uma interpretação sistemática das normais processuais penais que
regem a matéria, deve-se concluir que o reconhecimento da inimputabilidade ou semi-

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imputabilidade do réu (art. 26, caput e parágrafo único do CP) depende da prévia instauração
de incidente de insanidade mental e do respectivo exame médico-legal nele previsto.
Vale ressaltar, por fim, que o magistrado poderá discordar das conclusões do laudo, desde que
o faça por meio de decisão devidamente fundamentada.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.802.845-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 23/06/2020 (Info
675).

O tempo que o réu ficou submetido à medida cautelar de recolhimento domiciliar com
tornozeleira pode ser descontado da pena imposta na condenação
É possível considerar o tempo submetido à medida cautelar de recolhimento noturno, aos finais
de semana e dias não úteis, supervisionados por monitoramento eletrônico, com o tempo de
pena efetivamente cumprido, para detração da pena.
STJ. 3ª Seção. HC 455.097/PR, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/04/2021 (Info 693).

Intimação da Defensoria Pública quanto ao julgamento do habeas corpus


A intimação pessoal da Defensoria Pública quanto à data de julgamento de habeas corpus só é
necessária se houver pedido expresso para a realização de sustentação oral.
STF. 2ª Turma. HC 134.904/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 13/9/2016 (Info 839).

Não cabimento de MS para atribuir efeito suspensivo a recurso criminal


Súmula 604-STJ: O mandado de segurança não se presta para atribuir efeito suspensivo a
recurso criminal interposto pelo Ministério Público.

Julgamento por órgão colegiado formado por maioria de juízes convocados não viola o juiz
natural
Não viola o princípio do juiz natural o julgamento de apelação por órgão colegiado presidido por
desembargador, sendo os demais integrantes juízes convocados.
STF. 1ª Turma. HC 101473/SP, red. p/ o acórdão Min. Roberto Barroso, julgado em 16/2/2016
(Info 814).

Utilização da justificação criminal para nova oitiva da vítima


A via adequada para nova tomada de declarações da vítima com vistas à possibilidade de sua
retratação é o pedido de justificação (art. 861 do CPC 1973 / art. 381, § 5º do CPC 2015), ainda
que ela já tenha se retratado por escritura pública. Ex: depois de o réu ter sido condenado com
trânsito em julgado, a vítima volta atrás e afirma, em escritura pública lavrada no cartório, que
a pessoa condenada não foi a autora do crime. Será possível neste caso a propositura de revisão
criminal (art. 621, III, do CPP). No entanto, a revisão criminal não pode ser instruída com a
escritura pública. Antes de ajuizar a revisão, o réu deverá propor uma ação de justificação na
qual a vítima será ouvida. Só após esse processo de justificação será possível o manejo da revisão
criminal.
STJ. 6ª Turma. RHC 58.442-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 25/8/2015 (Info 569).

Indenização em razão de equívoco no reconhecimento de reincidência


Os efeitos deletérios da reincidência perduram pelo prazo máximo de cinco anos, contados da
data do cumprimento ou da extinção da pena (art. 64, I, do CP).
No caso em que o reconhecimento da reincidência tenha origem em infração anterior cuja pena
tenha sido cumprida ou extinta há mais de 5 anos, deferido o pedido revisional para diminuir a
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pena equivocadamente fixada, será devida a indenização ao condenado que tenha sofrido
prejuízos em virtude do erro judiciário.
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Ex: João praticou tráfico de drogas, foi condenado e terminou de cumprir sua pena em
02/02/2010. Em 03/03/2015, ou seja, mais de 5 anos depois de ter cumprido a pena, ele comete
novo tráfico de drogas. João foi condenado pelo novo tráfico e na 2ª fase da dosimetria, o juiz
aumentou a pena do réu reconhecendo que ele seria reincidente. Por conta desse
reconhecimento, a pena de João foi aumentada em mais 1 ano. Além disso, como reincidente
específico a execução penal de João ficou submetida a critérios mais rígidos para progressão de
regime (art. 2º, § 2º, da Lei nº 8.072/90). A defesa ingressa com revisão criminal alegando que
a sentença violou o art. 64, I, do CP. O Tribunal, ao julgar procedente a revisão, deverá condenar
o Poder Público a indenizar o réu pelos prejuízos sofridos (art. 630 do CPP).
STJ. 5ª Turma. REsp 1.243.516-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 22/9/2016
(Info 590).

O cumprimento da pena somente pode ter início com o esgotamento de todos os recursos
O art. 283 do CPP, que exige o trânsito em julgado da condenação para que se inicie o
cumprimento da pena, é constitucional, sendo compatível com o princípio da presunção de
inocência, previsto no art. 5º, LVII, da CF/88.
Assim é proibida a chamada “execução provisória da pena”.
Vale ressaltar que é possível que o réu seja preso antes do trânsito em julgado (antes do
esgotamento de todos os recursos), no entanto, para isso, é necessário que seja proferida uma
decisão judicial individualmente fundamentada, na qual o magistrado demonstre que estão
presentes os requisitos para a prisão preventiva previstos no art. 312 do CPP.
Dessa forma, o réu até pode ficar preso antes do trânsito em julgado, mas cautelarmente
(preventivamente), e não como execução provisória da pena.
STF. Plenário. ADC 43/DF, ADC 44/DF, ADC 54/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgados em
07/11/2019.

O STF admitiu a possibilidade de habeas corpus coletivo


STF. 2ª Turma. HC 143641/SP. Rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. em 20/2/2018 (Info 891).

É cabível habeas corpus para questionar a imposição de medidas cautelares diversas da prisão
O habeas corpus pode ser empregado para impugnar medidas cautelares de natureza criminal
diversas da prisão.
STF. 2ª Turma. HC 147426/AP e HC 147303/AP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgados em
18/12/2017 (Info 888).

Não cabe habeas corpus para discutir processo criminal envolvendo o art. 28 da LD
STF. 1ª Turma. HC 127834/MG, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 05/12/2017 (Info 887).

HC não é meio processual adequado para se discutir direito de visita a preso


Não cabe habeas corpus contra decisão que negou direito de familiar de preso internado em
unidade prisional de com ele ter encontro direto, autorizando apenas a visita por meio do
parlatório.
STF. 2ª Turma. HC 133305/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 24/5/2016 (Info 827).
No mesmo sentido, vide STF. 2ª Turma. HC 127685/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em
30/6/2015 (Info 792).
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Não cabimento de HC contra ato de Ministro do STF


NÃO é cabível habeas corpus em face de decisão monocrática proferida por Ministro do STF.
Página

STF. Plenário. HC 105959/DF, red. p/ o acórdão Min. Edson Fachin, j. em 17/2/2016 (Info 814).

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Não cabimento de habeas corpus contra decisão monocrática de Ministro do STJ
Em regra, não cabe habeas corpus para o STF contra decisão monocrática do Ministro do STJ
que não conhece ou denega habeas corpus que havia sido interposto naquele Tribunal. É
necessário que primeiro o impetrante exaure (esgote), no tribunal a quo (no caso, o STJ), as vias
recursais ainda cabíveis (no caso, o agravo regimental).
Exceção: essa regra pode ser afastada em casos excepcionais, quando a decisão atacada se
mostrar teratológica, flagrantemente ilegal, abusiva ou manifestamente contrária à
jurisprudência do STF, situações nas quais o STF poderia conceder de ofício o habeas corpus.
STF. 1ª Turma. HC 139612/MG, Rel. Min. Alexandre de Moraes, j. em 25/4/2017 (Info 862).

LEGISLAÇÃO ESPECIAL
RACISMO
A Lei nº 7.716/89 pode ser aplicada para punir as condutas homofóbicas e transfóbicas
1. Até que sobrevenha lei emanada do Congresso Nacional destinada a implementar os
mandados de criminalização definidos nos incisos XLI e XLII do art. 5º da Constituição da
República, as condutas homofóbicas e transfóbicas, reais ou supostas, que envolvem aversão
odiosa à orientação sexual ou à identidade de gênero de alguém, por traduzirem expressões de
racismo, compreendido este em sua dimensão social, ajustam-se, por identidade de razão e
mediante adequação típica, aos preceitos primários de incriminação definidos na Lei nº 7.716,
de 08.01.1989, constituindo, também, na hipótese de homicídio doloso, circunstância que o
qualifica, por configurar motivo torpe (Código Penal, art. 121, § 2º, I, “in fine”);
2. A repressão penal à prática da homotransfobia não alcança nem restringe ou limita o exercício
da liberdade religiosa, qualquer que seja a denominação confessional professada, a cujos fiéis e
ministros (sacerdotes, pastores, rabinos, mulás ou clérigos muçulmanos e líderes ou celebrantes
das religiões afro-brasileiras, entre outros) é assegurado o direito de pregar e de divulgar,
livremente, pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, o seu pensamento e de
externar suas convicções de acordo com o que se contiver em seus livros e códigos sagrados,
bem assim o de ensinar segundo sua orientação doutrinária e/ou teológica, podendo buscar e
conquistar prosélitos e praticar os atos de culto e respectiva liturgia, independentemente do
espaço, público ou privado, de sua atuação individual ou coletiva, desde que tais manifestações
não configurem discurso de ódio, assim entendidas aquelas exteriorizações que incitem a
discriminação, a hostilidade ou a violência contra pessoas em razão de sua orientação sexual ou
de sua identidade de gênero;
3. O conceito de racismo, compreendido em sua dimensão social, projeta-se para além de
aspectos estritamente biológicos ou fenotípicos, pois resulta, enquanto manifestação de poder,
de uma construção de índole histórico-cultural motivada pelo objetivo de justificar a
desigualdade e destinada ao controle ideológico, à dominação política, à subjugação social e à
negação da alteridade, da dignidade e da humanidade daqueles que, por integrarem grupo
vulnerável (LGBTI+) e por não pertencerem ao estamento que detém posição de hegemonia em
uma dada estrutura social, são considerados estranhos e diferentes, degradados à condição de
marginais do ordenamento jurídico, expostos, em consequência de odiosa inferiorização e de
perversa estigmatização, a uma injusta e lesiva situação de exclusão do sistema geral de
proteção do direito.
STF. Plenário. ADO 26/DF, Rel. Min. Celso de Mello; MI 4733/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgados
em 13/6/2019 (Info 944).
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CRIMES NO ECA
Possibilidade de configuração dos crimes dos arts. 240 e 241-B do ECA mesmo que as vítimas
estivessem vestidas
Fotografar cena e armazenar fotografia de criança ou adolescente em poses nitidamente
sensuais, com enfoque em seus órgãos genitais, ainda que cobertos por peças de roupas, e
incontroversa finalidade sexual e libidinosa, adéquam, respectivamente, aos tipos do art. 240 e
241-B do ECA.
Portanto, configuram os crimes dos arts. 240 e 241-B do ECA quando fica clara a finalidade sexual
e libidinosa de fotografias produzidas e armazenadas pelo agente, com enfoque nos órgãos
genitais de adolescente — ainda que cobertos por peças de roupas —, e de poses nitidamente
sensuais, em que explorada sua sexualidade com conotação obscena e pornográfica.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.543.267-SC, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 3/12/2015
(Info 577).

O delito do art. 240 do ECA é classificado como crime formal, comum, de subjetividade passiva
própria, consistente em tipo misto alternativo
Art. 240. Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de
sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente: (...)
• Crime formal (consumação antecipada): o delito se consuma independentemente da
ocorrência de um resultado naturalístico. Assim, a ocorrência de efetivo abalo psíquico e moral
sofrido pela criança ou adolescente é mero exaurimento do crime, sendo irrelevante para a sua
consumação. De igual forma, se forem filmadas mais de uma criança ou adolescente, no mesmo
contexto fático, haverá crime único.
• Crime comum: o sujeito ativo pode ser qualquer pessoa.
• Crime de subjetividade passiva própria: exige-se uma condição especial da vítima (no caso,
exige-se que a vítima seja criança ou adolescente).
• Tipo misto alternativo: o legislador descreveu duas ou mais condutas (verbos). No entanto, se
o sujeito praticar mais de um verbo, no mesmo contexto fático e contra o mesmo objeto
material, responderá por um único crime, não havendo concurso de crimes nesse caso. Logo, se
o agente fotografou e filmou o ato sexual, no mesmo contexto fático, haverá crime único.
STJ. 5ª Turma. PExt no HC 438.080-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 27/08/2019 (Info
655).

Corrupção de menores (art. 244-B do ECA)


Súmula 500-STJ: A configuração do crime previsto no artigo 244-B do Estatuto da Criança e do
Adolescente independe da prova da efetiva corrupção do menor, por se tratar de delito formal.
STJ. 3ª Seção, DJe 23/10/2013.

Estupro e atentado violento ao pudor são hediondos ainda que praticados na forma simples
Os crimes de estupro e atentado violento ao pudor, mesmo que cometidos antes da edição da
Lei nº 12.015/2009, são considerados hediondos, ainda que praticados na forma simples.
Em outras palavras, seja antes ou depois da Lei nº 12.015/2009, toda e qualquer forma de
estupro (ou atentado violento ao pudor) é considerada crime hediondo, sendo irrelevante que
a prática de qualquer deles tenha causado, ou não, lesões corporais de natureza grave ou morte.
STF. 1ª Turma. HC 100612/SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Roberto
Barroso, julgado em 16/8/2016 (Info 835).
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CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA (LEI 8.137/90)
Tipicidade da omissão na apresentação de declaração ao Fisco
Se o contribuinte deixa de apresentar declaração ao Fisco com o fim de obter a redução ou
supressão de tributo e consegue atingir o resultado almejado, tal conduta consubstancia crime
de sonegação fiscal, na modalidade do inciso I do art. 1º da Lei nº 8.137/90.
A constituição do crédito tributário, por vezes, depende de uma obrigação acessória do
contribuinte, como a declaração do fato gerador da obrigação tributária (lançamento por
declaração). Se o contribuinte não realiza tal ato com vistas a não pagar o tributo devido ou a
reduzir o seu valor, comete o mesmo crime daquele que presta informação incompleta.
A circunstância de o Fisco dispor de outros meios para constituir o crédito tributário, ante a
omissão do contribuinte em declarar o fato gerador, não afasta a tipicidade da conduta; o
arbitramento efetivado é uma medida adotada pelo Fisco para reparar a evasão decorrente da
omissão e uma evidência de que a conduta omissiva foi apta a gerar a supressão ou, ao menos,
a redução do tributo na apuração.
Assim, segundo entendeu o STJ, a omissão na entrega da antiga Declaração de Informações
Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) consubstanciava conduta apta a firmar a tipicidade
do crime de sonegação fiscal previsto no art. 1º, I, da Lei nº 8.137/90, ainda que o Fisco
dispusesse de outros meios para a constituição do crédito tributário. Obs: a DIPJ foi substituída
pela Escrituração Contábil Fiscal (ECF).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.561.442-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 23/2/2016 (Info
579).

Incompatibilidade entre os rendimentos declarados e os valores movimentados caracteriza


omissão de receita
Se há uma incompatibilidade entre os rendimentos informados pelo contribuinte na declaração
de ajuste anual e os valores movimentados no ano calendário em sua conta bancária isso
caracteriza a presunção relativa de omissão de receita, configurando o crime previsto no art. 1º,
I, da Lei nº 8.137/90.
Por se tratar de uma presunção relativa, o réu pode fazer prova em sentido contrário.
O dolo desse tipo penal manifesta-se na conduta dirigida à omissão de receita e à redução do
IRPF, concretizada na apresentação de declaração de imposto de renda sem informar a
realização da respectiva movimentação financeira.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.326.034-PE, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 2/10/2012.

Uso de documento falso em sonegação fiscal


O uso de documento falso é absorvido pelo crime de sonegação fiscal quando constitui
meio/caminho necessário para a sua consumação.
Constitui mero exaurimento do delito de sonegação fiscal a apresentação de recibo
ideologicamente falso à autoridade fazendária, no bojo de ação fiscal, como forma de
comprovar a dedução de despesas para a redução da base de cálculo do imposto de renda de
pessoa física.
STJ. 5ª Turma. HC 131.787-PE, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 14/8/2012.

Simples fato de ser sócio não conduz à responsabilidade criminal


O simples fato de o acusado ser sócio e administrador da empresa constante da denúncia não
pode levar a crer, necessariamente, que ele tivesse participação nos fatos delituosos, a ponto
de se ter dispensado ao menos uma sinalização de sua conduta, ainda que breve, sob pena de
50

restar configurada a repudiada responsabilidade criminal objetiva.


STJ. 6ª Turma. HC 224.728/PE, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 10/06/2014 (Info 543).
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Ajuizamento da ação penal antes da constituição definitiva
Imagine que, mesmo após a edição da SV 24-STF, o Ministério Público tenha oferecido denúncia
contra o réu pelo art. 1º, I sem que tivesse havido constituição definitiva do crédito tributário.
O juiz recebeu a denúncia. O réu impetrou habeas corpus invocando o enunciado. Antes que
fosse julgado o HC, houve lançamento definitivo. O que deverá acontecer nesse caso? A
superveniente constituição definitiva convalida o vício inicial?
NÃO. A constituição do crédito tributário após o recebimento da denúncia não tem o condão de
convalidar a ação penal que foi iniciada em descompasso com as normas jurídicas vigentes e
com a SV24 do STF. Desde o nascedouro, essa ação penal é nula porque referente a atos
desprovidos de tipicidade (STJ. 5ª Turma. HC 238.417/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em
11/03/2014).
Trata-se de vício processual que não é passível de convalidação (STF. 1ª Turma. HC 97854, Rel.
Min. Roberto Barroso, julgado em 11/03/2014).
O MP poderá, no entanto, oferecer nova denúncia após a constituição definitiva.
Obs: se essa denúncia tivesse sido proposta antes da SV 24-STF, então, nesse caso, a solução
poderia diferente e a superveniência da constituição definitiva do crédito tributário poderia
convalidar a ação proposta sem esse pressuposto. Isso porque antes da súmula havia muita
polêmica sobre a matéria, sendo razoável, em nome da segurança jurídica, convalidar esses atos
(STJ. 6ª Turma. REsp 1211481/SP, Rel. p/ Acórdão Ministro Rogerio Schietti Cruz, julgado em
15/10/2013).

Para fazer a prova da constituição definitiva do crédito tributário não se exige a juntada
integral do PAF
Para o início da ação penal, basta a prova da constituição definitiva do crédito tributário (Súmula
Vinculante 24), sendo desnecessária a juntada integral do Procedimento Administrativo Fiscal
correspondente.
STJ. 5ª Turma. RHC 94.288-RJ, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 22/05/2018
(Info 627).

A extinção do crédito tributário pela prescrição não influencia na ação penal por crime contra
a ordem tributária
O reconhecimento de prescrição tributária em execução fiscal não é capaz de justificar o
trancamento de ação penal referente aos crimes contra a ordem tributária previstos nos incisos
I a IV do art. 1º da Lei nº 8.137/90.
A constituição regular e definitiva do crédito tributário é suficiente para tipificar as condutas
previstas no art. 1º, I a IV, da Lei nº 8.137/90, não influenciando em nada, para fins penais, o
fato de ter sido reconhecida a prescrição tributária.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 202.617/DF, Rel. Min. Campos Marques (Des. Conv. do TJ/PR), j.
11/04/2013.
STJ. 6ª Turma. RHC 67.771-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 10/3/2016 (Info 579).

A SV 24 pode ser aplicada a fatos anteriores à sua edição


A Súmula Vinculante 24 tem aplicação aos fatos ocorridos anteriormente à sua edição.
Como a SV 24 representa a mera consolidação da interpretação judicial que já era adotada pelo
STF e pelo STJ mesmo antes da sua edição, entende-se que é possível a aplicação do enunciado
para fatos ocorridos anteriormente à sua publicação.
STF. 1ª Turma. RHC 122774/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 19/5/2015 (Info 786).
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STJ. 3ª Seção. EREsp 1.318.662-PR, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 28/11/2018 (Info 639).
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Extinção da punibilidade pelo pagamento integral de débito
Nos crimes tributários materiais (ex: apropriação indébita previdenciária), o pagamento integral
do débito tributário feito após a condenação, mas antes do trânsito em julgado, interfere na
condenação?
SIM. O pagamento integral do débito tributário feito após a condenação, mas antes do trânsito
em julgado, acarreta a extinção da punibilidade com base no art. 9º, § 2º da Lei 10.684/2003.

E se o pagamento integral ocorrer após o trânsito em julgado, mesmo assim haveria a extinção
da punibilidade?
SIM.

O pagamento integral do imposto sonegado extingue apenas a punibilidade da sonegação


fiscal, mas não influencia no delito de corrupção ativa que foi praticado em conjunto pelo
agente
O pagamento da diferença do imposto devido, antes do recebimento da denúncia, não extingue
a punibilidade pelo crime de corrupção ativa atrelado ao de sonegação fiscal.
Ex: João, sócio de uma empresa, ofereceu e pagou propina ao fiscal para que pudesse recolher
um valor menor de imposto. Assim, em vez de pagar R$ 400 mil de imposto, João pagou apenas
R$ 100 mil. Os fatos foram descobertos. João praticou, em tese, corrupção ativa (art. 333 do CP)
e sonegação fiscal (art. 1º, I, da Lei nº 8.137/90). Antes que a denúncia fosse oferecida, João
pagou a diferença do imposto devido acrescido de multa, juros e correção monetária. Esse
pagamento irá gerar a extinção do crime de sonegação fiscal, mas não da corrução ativa que
deverá ser julgada normalmente.
STJ. 6ª Turma. RHC 95.557-GO, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 21/06/2018
(Info 631).

CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO (LEI 9.503/97)


O fato de o condutor estar com a CNH vencida não se enquadra na causa de aumento do inciso
I do § 1º do art. 302 do CTB
O fato de o autor de homicídio culposo na direção de veículo automotor estar com a CNH
vencida não justifica a aplicação da causa especial de aumento de pena descrita no inciso I do §
1º do art. 302 do CTB.
O inciso I do § 1º do art. 302 pune o condutor que "não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira
de Habilitação". O fato de o condutor estar com a CNH vencida não se amolda a essa previsão
não se podendo aplicá-lo por analogia in malam partem.
STJ. 6ª Turma. HC 226.128-TO, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 7/4/2016 (Info 581).

A causa de aumento prevista no art. 302, § 1º, II, do Código de Trânsito Brasileiro não exige
que o agente esteja trafegando na calçada, sendo suficiente que o ilícito ocorra nesse local
A majorante do art. 302, § 1º, II, do CTB será aplicada tanto quando o agente estiver conduzindo
o seu veículo pela via pública e perder o controle do veículo automotor, vindo a adentrar na
calçada e atingir a vítima, como quando estiver saindo de uma garagem ou efetuando qualquer
manobra e, em razão de sua desatenção, acabar por atingir e matar o pedestre.
Assim, aplica-se a referida causa de aumento de pena na hipótese em que o condutor do veículo
transitava pela via pública e, ao efetuar manobra, perdeu o controle do carro, subindo na
calçada e atropelando a vítima.
STJ. 5ª Turma. AgRg nos EDcl no REsp 1.499.912-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em
52

05/03/2020 (Info 668).


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É constitucional a imposição da pena de suspensão de habilitação para dirigir veículo


automotor ao motorista profissional condenado por homicídio culposo no trânsito

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O crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, tipificado no art. 302 do CTB,
prevê, como uma das penas aplicadas, a “suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a
habilitação para dirigir veículo automotor.”
Se o réu que praticou este crime é motorista profissional, ele pode, mesmo assim, receber essa
sanção ou isso violaria o direito constitucional ao trabalho? Não viola. O condenado pode sim
receber essa sanção, ainda que se trate de motorista profissional.
É constitucional a imposição da pena de suspensão de habilitação para dirigir veículo automotor
ao motorista profissional condenado por homicídio culposo no trânsito.
O direito ao exercício de atividades profissionais (art. 5º, XIII) não é absoluto e a restrição
imposta pelo legislador se mostra razoável.
STF. Plenário. RE 607107/MG, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 12/2/2020 (repercussão
geral – Tema 486) (Info 966).

Homicídio culposo cometido no exercício de atividade de transporte de passageiros


Para a incidência da causa de aumento de pena prevista no art. 302, § 1º, IV, do CTB, é
irrelevante que o agente esteja transportando passageiros no momento do homicídio culposo
cometido na direção de veículo automotor.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.255.562-RS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 4/2/2014
(Info 537).

Denúncia no caso de homicídio culposo deve apontar qual foi a conduta culposa
É inepta a denúncia que imputa a prática de homicídio culposo na direção de veículo automotor
(art. 302 da Lei 9.503/1997) sem descrever, de forma clara e precisa, a conduta negligente,
imperita ou imprudente que teria gerado o resultado morte, sendo insuficiente a simples
menção de que o suposto autor estava na direção do veículo no momento do acidente.
STJ. 6ª Turma. HC 305.194-PB, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 11/11/2014 (Info 553).

Não se aplica o arrependimento posterior em homicídio culposo na direção de veículo


Não se aplica o instituto do arrependimento posterior (art. 16 do CP) para o homicídio culposo
na direção de veículo automotor (art. 302 do CTB) mesmo que tenha sido realizada composição
civil entre o autor do crime a família da vítima.
Para que seja possível aplicar a causa de diminuição de pena prevista no art. 16 do CP é
indispensável que o crime praticado seja patrimonial ou possua efeitos patrimoniais.
O arrependimento posterior exige a reparação do dano e isso é impossível no caso do homicídio.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.561.276-BA, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, j. em 28/6/2016 (Info 590).

O art. 305 do CTB é constitucional e não viola o princípio da não autoincriminação


A regra que prevê o crime do art. 305 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é constitucional,
posto não infirmar o princípio da não incriminação, garantido o direito ao silêncio e ressalvadas
as hipóteses de exclusão da tipicidade e da antijuridicidade.
STF. Plenário. RE 971.959/RS, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 14/11/2018 (repercussão geral)
(Info 923).

Em caso de concurso formal de crimes, o perdão judicial concedido para um deles não
necessariamente deverá abranger o outro
O fato de os delitos terem sido cometidos em concurso formal não autoriza a extensão dos
efeitos do perdão judicial concedido para um dos crimes, se não restou comprovada, quanto ao
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outro, a existência do liame subjetivo entre o infrator e a outra vítima fatal.


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Ex: o réu, dirigindo seu veículo imprudentemente, causa a morte de sua noiva e de um amigo; o
fato de ter sido concedido perdão judicial para a morte da noiva não significará a extinção da
punibilidade no que tange ao homicídio culposo do amigo.
STJ. 6ª Turma. REsp 1444699-RS, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 1/6/2017 (Info 606).

Crime de dirigir sem habilitação é absorvido pela lesão corporal culposa na direção de veículo
Se um indivíduo, que não possui habilitação para dirigir (art. 309 do CTB), conduz seu veículo de
forma imprudente, negligente ou imperita e causa lesão corporal em alguém, ele responderá
pelo crime do art. 303, § 1º, do CTB, ficando o delito do art. 309 do CTB absorvido por força do
princípio da consunção.
O delito de dirigir veículo sem habilitação é crime de ação penal pública incondicionada. Por
outro lado, a lesão corporal culposa (art. 303 do CTB) é crime de ação pública condicionada à
representação. Imagine que a vítima não exerça seu direito de representação no prazo legal.
Diante disso, o Ministério Público poderá denunciar o agente pelo delito do art. 309?
NÃO. O delito do art. 309 já foi absorvido pela conduta de praticar lesão corporal culposa na
direção de veículo automotor, tipificada no art. 303 do CTB, crime de ação pública condicionada
à representação. Como a representação não foi formalizada pela vítima, houve extinção da
punibilidade, que abrange tanto a lesão corporal como a conduta de dirigir sem habilitação.
STF. 2ª Turma. HC 128921/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 25/8/2015 (Info 796).

O crime de entrega de direção de veículo automotor a pessoa não habilitada é de perigo


abstrato
O CTB prevê o seguinte delito:
Art. 310. Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada,
com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por seu estado
de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em condições de conduzi-lo com
segurança. Penas — detenção, de seis meses a um ano, ou multa.
Para a configuração desse crime não é exigida a demonstração de perigo concreto de dano. Isso
porque, no referido artigo, não há previsão, quanto ao resultado, de qualquer dano no mundo
concreto, bastando a mera entrega do veículo a pessoa que se sabe inabilitada, para a
consumação do tipo penal. Trata-se, portanto, de crime de perigo abstrato.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.468.099-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/3/2015 (Info 559).
STJ. 5ª Turma. RHC 48.817/MG, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 20/11/2014.

Súmula 575-STJ: Constitui crime a conduta de permitir, confiar ou entregar a direção de veículo
automotor a pessoa que não seja habilitada, ou que se encontre em qualquer das situações
previstas no art. 310 do CTB, independentemente da ocorrência de lesão ou de perigo de dano
concreto na condução do veículo.

LEI DE CRIMES AMBIENTAIS (LEI 9.605/98)


Responsabilidade penal da pessoa jurídica e abandono da dupla imputação
É possível a responsabilização penal da pessoa jurídica por delitos ambientais
independentemente da responsabilização concomitante da pessoa física que agia em seu nome.
A jurisprudência não mais adota a chamada teoria da “dupla imputação”.
STJ. 6ª Turma. RMS 39.173-BA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 6/8/2015 (Info
566).
STF. 1ª Turma. RE 548181/PR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/8/2013 (Info 714).
54

Assinatura de TAC não impede processo penal


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A assinatura do termo de ajustamento de conduta com órgão ambiental não impede a


instauração de ação penal.

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Isso porque vigora em nosso ordenamento jurídico o princípio da independência das instâncias
penal e administrativa.
STJ. Corte Especial. APn 888-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/05/2018 (Info 625).

Configuração do crime do art. 48 da Lei 9.605/98


A tipificação da conduta descrita no art. 48 da Lei 9.605/98 prescinde de a área ser de
preservação permanente. Isso porque o referido tipo penal descreve como conduta criminosa o
simples fato de "impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e demais formas de
vegetação".
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.498.059-RS, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo
(Desembargador Convocado do TJ/PE), julgado em 17/9/2015 (Info 570).

Crime do art. 54 e desnecessidade de perícia


O delito previsto na primeira parte do artigo 54 da Lei nº 9.605/1998 possui natureza formal,
sendo suficiente a potencialidade de dano à saúde humana para configuração da conduta
delitiva, não se exigindo, portanto, a realização de perícia.
Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar
em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição
significativa da flora. Pena — reclusão, de um a quatro anos, e multa.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1417279/SC, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, j. em 11/04/2018 (Info 624).

Construir uma casa em uma unidade de conservação: crime do art. 64 da Lei 9.605/98 (os
delitos dos arts. 40 e 48 ficam absorvidos)
Absorção do delito do art. 40 pelo crime do art. 64 da Lei nº 9.605/98
O delito de causar dano em unidade de conservação (art. 40 da Lei nº 9.605/98) pode ser
absorvido pelo delito de construir em solo que, por seu valor ecológico, não é edificável (art. 64
da Lei nº 9.605/98).
Para analisar a possibilidade de absorção do crime do art. 40 da Lei nº 9.605/98 pelo do art. 64,
não é relevante a diversidade de bens jurídicos protegidos por cada tipo incriminador; tampouco
impede a consunção o fato de que o crime absorvido tenha pena maior do que a do crime
continente, como se vê na própria Súmula 17/STJ.

Absorção do delito do art. 48 pelo crime do art. 64 da Lei nº 9.605/98


A conduta do art. 48 da Lei nº 9.605/98 é mero pós-fato impunível do ato de construir em local
não edificável.
Afinal, com a própria existência da construção desejada e executada pelo agente - e à qual,
portanto, se dirigia seu dolo -, é inevitável que fique impedida a regeneração da flora antes
existente no mesmo lugar.
Por isso, o princípio da consunção obsta a punição autônoma dos dois delitos.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.925.717-SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 25/05/2021 (Info 698).

ESTATUTO DO DESARMAMENTO (LEI 10.826/2003)


Atipicidade da conduta de posse ilegal de arma de fogo de uso permitido com registro vencido
Não configura o crime de posse ilegal de arma de fogo (art. 12 da Lei nº 10.826/2003) a conduta
do agente que mantém sob guarda, no interior de sua residência, arma de fogo de uso permitido
com registro vencido.
Se o agente já procedeu ao registro da arma, a expiração do prazo é mera irregularidade
55

administrativa que autoriza a apreensão do artefato e aplicação de multa. A conduta, no


entanto, não caracteriza ilícito penal.
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Ex: a Polícia, ao realizar busca e apreensão na casa de João, lá encontrou um revólver, de uso
permitido. João apresentou o registro da arma de fogo localizada, porém ele estava vencido há

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mais de um ano. João não praticou crime de posse ilegal de arma de fogo (art. 12 da Lei nº
10.826/2003).
STJ. Corte Especial. APn 686-AP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 21/10/2015 (Info
572).
STJ. 5ª Turma. HC 294.078/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/08/2014.

Arma de fogo encontrada em caminhão configura porte de arma de fogo (e não posse)
Se a arma de fogo é encontrada no interior do caminhão dirigido por motorista profissional,
trata-se de crime de porte de arma de fogo (art. 14 do Estatuto do Desarmamento).
O veículo utilizado profissionalmente NÃO pode ser considerado “local de trabalho” para
tipificar a conduta como posse de arma de fogo de uso permitido (art. 12).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.219.901-MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 24/4/2012.

Delegado de Polícia que mantém arma em sua casa sem registro no órgão competente pratica
crime de posse irregular de arma de fogo
É típica e antijurídica a conduta de policial civil que, mesmo autorizado a portar ou possuir arma
de fogo, não observa as imposições legais previstas no Estatuto do Desarmamento, que impõem
registro das armas no órgão competente.
STJ. 6ª Turma. RHC 70.141-RJ, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 7/2/2017 (Info 597).

Todos os integrantes das guardas municipais possuem direito a porte de arma de fogo, em
serviço ou mesmo fora de serviço, independentemente do número de habitantes do Município
O art. 6º, III e IV, da Lei nº 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento) somente previa porte de
arma de fogo para os guardas municipais das capitais e dos Municípios com maior número de
habitantes. Assim, os integrantes das guardas municipais dos pequenos Municípios (em termos
populacionais) não tinham direito ao porte de arma de fogo.
O STF considerou que esse critério escolhido pela lei é inconstitucional porque os índices de
criminalidade não estão necessariamente relacionados com o número de habitantes.
Assim, é inconstitucional a restrição do porte de arma de fogo aos integrantes de guardas
municipais das capitais dos estados e dos municípios com mais de 500.000 (quinhentos mil)
habitantes e de guardas municipais dos municípios com mais de 50.000 (cinquenta mil) e menos
de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, quando em serviço.
Com a decisão do STF todos os integrantes das guardas municipais possuem direito a porte de
arma de fogo, em serviço ou mesmo fora de serviço. Não interessa o número de habitantes do
Município.
STF. Plenário. ADC 38/DF, ADI 5538/DF e ADI 5948/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgados
em 27/2/2021 (Info 1007).

Porte/posse de arma desmuniciada


O porte de arma de fogo desmuniciada configura crime?
SIM. O porte de arma de fogo (art. 14 da Lei nº 10.826/03) configura crime, mesmo que esteja
desmuniciada. Trata-se, atualmente, de posição pacífica tanto no STF como no STJ.
Para a jurisprudência, o simples porte de arma, munição ou acessório de uso permitido — sem
autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar — configura o crime
previsto no art. 14 da Lei nº 10.826/2003, por ser delito de perigo abstrato, de forma a ser
irrelevante o fato de a arma apreendida estar desacompanhada de munição, porquanto o bem
jurídico tutelado é a segurança pública e a paz social.
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STJ. 3ª Seção. AgRg nos EAREsp 260.556/SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em
26/03/2014.
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STF. 2ª Turma. HC 95073/MS, red. p/ o acórdão Min. Teori Zavascki, 19/3/2013 (Info 699).

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Porte/posse apenas da munição
A posse ou porte apenas da munição configura crime?
SIM. A posse ou o porte apenas da munição (ou seja, desacompanhada da arma) configura
crime. Isso porque tal conduta consiste em crime de perigo abstrato, para cuja caracterização
não importa o resultado concreto da ação.
O objetivo do legislador foi o de antecipar a punição de fatos que apresentam potencial lesivo à
população, prevenindo a prática de crimes.
STF. 1ª Turma. HC 131771/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 18/10/2016 (Info 844).
STJ. 5ª Turma. HC 432.691/MG, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 21/06/2018.
STJ. 6ª Turma. HC 484.484/RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 02/04/2019.

O entendimento acima exposto configura a regra geral e deve ser adotada nos concursos caso
não seja feito nenhum esclarecimento adicional. No entanto, o STF e o STJ, em alguns casos
concretos, têm reconhecido, excepcionalmente, o princípio da insignificância para o crime de
porte ilegal de pouca quantidade de munição desacompanhada da arma. Confira:
(...) I – Recorrente que guardava no interior de sua residência uma munição de uso permitido,
calibre 22. II – Conduta formalmente típica, nos termos do art. 12 da Lei 10.826/2003. III –
Inexistência de potencialidade lesiva da munição apreendida, desacompanhada de arma de
fogo. Atipicidade material dos fatos. (...)
STF. 2ª Turma. RHC 143449, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 26/09/2017.

A apreensão de ínfima quantidade de munição, aliada à ausência de artefato apto ao disparo,


implica o reconhecimento, no caso concreto, da incapacidade de se gerar de perigo à
incolumidade pública.
Hipótese em que, embora formalmente típica, a conduta de possuir apenas duas munições
destituídas de potencialidade lesiva, desacompanhadas de armamento capaz de deflagrá-las,
não enseja perigo de lesão ou probabilidade de dano aos bens jurídicos tutelados, permitindo-
se o reconhecimento da atipicidade material da conduta.
STJ. 5ª Turma. REsp 1710320/RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 03/05/2018.
STJ. 6ª Turma. AgInt no REsp 1704234/RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 8/2/2018.

No mesmo sentido:
É atípica a conduta daquele que porta, na forma de pingente, munição desacompanhada de
arma.
STF. 2ª Turma. HC 133984/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 17/5/2016 (Info 826).

Portar granada de gás lacrimogêneo ou de pimenta não configura crime do Estatuto do


Desarmamento
A conduta de portar granada de gás lacrimogêneo ou granada de gás de pimenta não se
subsome (amolda) ao delito previsto no art. 16, parágrafo único, III, da Lei nº 10.826/2003. Isso
porque elas não se enquadram no conceito de artefatos explosivos.
STJ. 6ª Turma. REsp 1627028/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
21/02/2017 (Info 599).

LEI 13.870/2019
Art. 5º (...)
§ 5º Aos residentes em área rural, para os fins do disposto no caput deste artigo, considera-se
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residência ou domicílio toda a extensão do respectivo imóvel rural. (Incluído pela Lei nº
13.870/2019)
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Ex: João possui uma fazenda de 2 mil hectares onde cria 10 mil cabeças de gado. Ele possui um
certificado de registro de arma de fogo. Isso significa que ele pode ficar com sua espingarda
dentro da casa onde mora com a família (sede da fazenda) e também pode andar com ela por
toda a extensão dos 2 mil hectares de sua fazenda.

Art. 278-A. O condutor que se utilize de veículo para a prática do crime de receptação,
descaminho, contrabando, previstos nos arts. 180, 334 e 334-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal), condenado por um desses crimes em decisão judicial
transitada em julgado, terá cassado seu documento de habilitação ou será proibido de obter a
habilitação para dirigir veículo automotor pelo prazo de 5 (cinco) anos.
§ 1º O condutor condenado poderá requerer sua reabilitação, submetendo-se a todos os exames
necessários à habilitação, na forma deste Código.
§ 2º No caso do condutor preso em flagrante na prática dos crimes de que trata o caput deste
artigo, poderá o juiz, em qualquer fase da investigação ou da ação penal, se houver necessidade
para a garantia da ordem pública, como medida cautelar, de ofício, ou a requerimento do
Ministério Público ou ainda mediante representação da autoridade policial, decretar, em
decisão motivada, a suspensão da permissão ou da habilitação para dirigir veículo automotor,
ou a proibição de sua obtenção.”

Desnecessidade de perícia
Para que haja condenação pelo crime de posse ou porte é necessário que a arma de fogo tenha
sido apreendida e periciada?
NÃO. É irrelevante (desnecessária) a realização de exame pericial para a comprovação da
potencialidade lesiva do artefato, pois basta o simples porte de arma de fogo, ainda que
desmuniciada, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para a incidência do
tipo penal. Isso porque os crimes previstos no arts. 12, 14 e 16 da Lei 10.826/03 são de perigo
abstrato, cujo objeto jurídico imediato é a segurança coletiva.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1294551/GO, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 07/08/2014.

Atipicidade da conduta de posse/porte ilegal de arma de fogo ineficaz


Para que haja condenação pelo crime de posse ou porte NÃO é necessário que a arma de fogo
tenha sido apreendida e periciada. Assim, é irrelevante a realização de exame pericial para a
comprovação da potencialidade lesiva do artefato. Isso porque os crimes previstos no arts. 12,
14 e 16 da Lei 10.826/2003 são de mera conduta ou de perigo abstrato, cujo objeto jurídico
imediato é a segurança coletiva.
No entanto, se a perícia for realizada na arma e o laudo constatar que a arma não tem nenhuma
condição de efetuar disparos não haverá crime. Para o STJ, não está caracterizado o crime de
porte ilegal de arma de fogo quando o instrumento apreendido sequer pode ser enquadrado no
conceito técnico de arma de fogo, por estar quebrado e, de acordo com laudo pericial,
totalmente inapto para realizar disparos. Assim, demonstrada por laudo pericial a total ineficácia
da arma de fogo e das munições apreendidas, deve ser reconhecida a atipicidade da conduta do
agente que detinha a posse do referido artefato e das aludidas munições de uso proibido, sem
autorização e em desacordo com a determinação legal/regulamentar.
STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 397.473/DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em
19/08/2014 (Info 544).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.451.397-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
15/9/2015 (Info 570).
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Porte de arma de fogo por vigia após o horário de expediente


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O fato de o empregador obrigar seu empregado a portar arma de fogo durante o exercício das
atribuições de vigia não caracteriza coação moral irresistível (art. 22 do CP) capaz de excluir a

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culpabilidade do crime de "porte ilegal de arma de fogo de uso permitido" (art. 14 da Lei nº
10.826/2003) atribuído ao empregado que tenha sido flagrado portando, em via pública, arma
de fogo, após o término do expediente laboral, no percurso entre o trabalho e a sua residência.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.456.633-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 5/4/2016
(Info 581).

O porte ilegal de arma de fogo deve ser absorvido pelo crime de homicídio?
Se o agente, utilizando arma de fogo, atira e mata alguém, haverá homicídio e porte de arma de
fogo ou apenas homicídio? Se uma pessoa pratica homicídio com arma de fogo, a acusação por
porte deverá ser absorvida? Aplica-se o princípio da consunção?
Depende da situação:
• Situação 1: NÃO. O crime de porte não será absorvido se ficar provado nos autos que o agente
portava ilegalmente a arma de fogo em outras oportunidades antes ou depois do homicídio e
que ele não se utilizou da arma tão somente para praticar o assassinato. Ex: a instrução
demonstrou que João adquiriu a arma de fogo três meses antes de matar Pedro e não a comprou
com a exclusiva finalidade de ceifar a vida da vítima.
• Situação 2: SIM. Se não houver provas de que o réu já portava a arma antes do homicídio ou
se ficar provado que ele a utilizou somente para matar a vítima. Ex: o agente compra a arma de
fogo e, em seguida, dirige-se até a casa da vítima, e contra ela desfere dois tiros, matando-a.
No caso concreto julgado pelo STF, ficou provado que o réu havia comprado a arma 3 meses
antes da morte da vítima. Além disso, também se demonstrou pelas testemunhas que o
acusado, várias vezes antes do crime, passou na frente da casa da vítima, mostrando
ostensivamente o revólver utilizado no crime. Desse modo, restou provado que os tipos penais
consumaram-se em momentos distintos e que tinham desígnios autônomos, razão pela qual não
se pode reconhecer o princípio da consunção entre o homicídio e o porte ilegal de arma de fogo.
STF. 1ª Turma. HC 120678/PR, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio,
julgado em 24/2/2015 (Info 775).

Posse ilegal de arma de fogo de uso permitido (art. 12) e posse ilegal de arma de fogo de uso
restrito (art. 16) no mesmo contexto fático: concurso de crimes
Os tipos penais dos arts. 12 e 16 da Lei nº 10.826/2003 tutelam bens jurídicos diversos e, por
essa razão, deve ser aplicado o concurso formal quando apreendidas armas ou munições de uso
permitido e de uso restrito no mesmo contexto fático.
O art. 16 do Estatuto do Desarmamento, além da paz e segurança públicas, também protege a
seriedade dos cadastros do Sistema Nacional de Armas, sendo inviável o reconhecimento de
crime único, pois há lesão a bens jurídicos diversos.
STJ. 5ª Turma. AgRg nos EDcl no AREsp 1122758/MG, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em
24/04/2018.
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1619960/MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em
27/06/2017.

Obs: há decisões afirmando que seria concurso material (STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp
1724649/MG, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 24/04/2018).

Policiais civis aposentados não têm porte de arma


O porte de arma de fogo a que têm direito os policiais civis não se estende aos policiais
aposentados. Isso porque, de acordo com o art. 33 do Decreto 5.123/2004*, que regulamentou
59

o art. 6º da Lei 10.826/2003, o porte de arma de fogo está condicionado ao efetivo exercício das
funções institucionais por parte dos policiais, motivo pelo qual não se estende aos aposentados.
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STJ. 5ª Turma. HC 267.058-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 4/12/2014 (Info 554).

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ATENÇÃO: o tema acima mudou com a edição do novo regulamento do Estatuto do
Desarmamento.
O Decreto nº 9.847/2019 permite que os integrantes das policiais, ABIN etc. continuem a ter o
porte de arma mesmo depois de aposentados.
Deve-se fazer, contudo, uma explicação.
O policial, quando se aposenta, perde direito ao porte de arma que tinha quando era da ativa.
Isso porque o porte como policial da ativa está condicionado ao efetivo exercício das funções
institucionais. Logo, a se aposentar ele perde automaticamente o porte e terá que devolver a
arma da corporação.
No entanto, o art. 30 do Decreto nº 9.847/2019 permite que o aposentado conserve a
autorização de porte de porte de arma de fogo de sua propriedade (arma de fogo particular —
a funcional deve ser devolvida), desde que cumpridos alguns requisitos, como se submeter a
testes de avaliação psicológica, realizados de 10 em 10 anos.

Novidade legislativa
Lei nº 13.870/2019: aos residentes em área rural, para os fins do disposto no caput deste artigo,
considera-se residência ou domicílio toda a extensão do respectivo imóvel rural.

Novidades decorrentes do Pacote anticrime


• Previsão de penas distintas para os casos de arma de fogo de uso restrito e arma de fogo de
uso proibido (art. 16).
• Aumento da pena no crime do art. 17 e previsão de que é considerando crime mesmo que o
indivíduo venda ilegalmente a arma de fogo para um policial disfarçado.
• Aumento da pena no crime do art. 18 e previsão de que é considerando crime mesmo que o
indivíduo venda ou entregue ilegalmente a arma de fogo para um policial disfarçado.
• Acréscimo de mais uma causa de aumento de pena: quando o agente for reincidente específico
em crimes dessa natureza
• Foi inserido o art. 34-A para tratar sobre os dados relacionados à coleta de registros balísticos.

LEI MARIA DA PENHA (LEI 11.340/2006)


Presunção legal da hipossuficiência da mulher vítima de violência doméstica
O fato de a vítima ser figura pública renomada não afasta a competência do Juizado de Violência
Doméstica e Familiar contra a Mulher para processar e julgar o delito. Isso porque a situação de
vulnerabilidade e de hipossuficiência da mulher, envolvida em relacionamento íntimo de afeto,
revela-se ipso facto, sendo irrelevante a sua condição pessoal para a aplicação da Lei Maria da
Penha. Trata-se de uma presunção da Lei.
STJ. 5ª Turma. REsp 1.416.580-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 1º/4/2014 (Info 539).

Lei Maria da Penha: não se aplica o princípio da insignificância


Súmula 589-STJ: É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou contravenções penais
praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas.
Competência para crimes dolosos contra a vida praticados com violência doméstica
A Lei de Organização Judiciária poderá prever que a 1ª fase do procedimento do júri seja
realizada na Vara de Violência Doméstica em caso de crimes dolosos contra a vida praticados no
contexto de violência doméstica. Não haverá usurpação da competência constitucional do júri.
Apenas o julgamento propriamente dito é que, obrigatoriamente, deverá ser feito no Tribunal
do Júri.
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STF. 2ª Turma. HC 102150/SC, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 27/5/2014 (Info 748).
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Descumprimento das medidas impostas ao agressor
O STJ possui entendimento de que o descumprimento reiterado das medidas protetivas da Lei
Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), com risco concreto à integridade física da vítima, justifica
a prisão cautelar do agressor.
Com efeito, nos termos do art. 313, III do CPP, é cabível a decretação da prisão cautelar para
garantir a execução das medidas de urgência em favor da mulher.
STJ. 5ª Turma. RHC 40.567/DF, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 05/12/2013.

Não se pode decretar a preventiva do autor de contravenção penal, mesmo que ele tenha
praticado o fato no âmbito de violência doméstica e mesmo que tenha descumprido medida
protetiva a ele imposta
A prática de contravenção penal, no âmbito de violência doméstica, não é motivo idôneo para
justificar a prisão preventiva do réu.
O inciso III do art. 313 do CPP prevê que será admitida a decretação da prisão preventiva “se o
CRIME envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso,
enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas de
urgência”.
Assim, a redação do inciso III do art. 313 do CPP fala em CRIME (não abarcando contravenção
penal). Logo, não há previsão legal que autorize a prisão preventiva contra o autor de uma
contravenção penal. Decretar a prisão preventiva nesta hipótese representa ofensa ao princípio
da legalidade estrita.
STJ. 6ª Turma. HC 437.535-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. Acd. Min. Rogerio
Schietti Cruz, julgado em 26/06/2018 (Info 632).

Se a mulher vítima de crime de ação pública condicionada comparece ao cartório da vara e


manifesta interesse em se retratar da representação, ainda assim o juiz deverá designar
audiência para que ela confirme essa intenção e seja ouvido o MP, nos termos do art. 16
A Lei Maria da Penha autoriza, em seu art. 16, que, se o crime for de ação pública condicionada
(ex: ameaça), a vítima possa se retratar da representação que havia oferecido, desde que faça
isso em audiência especialmente designada, ouvido o MP. Veja:
Art. 16. Nas ações penais públicas condicionadas à representação da ofendida de que trata esta
Lei, só será admitida a renúncia à representação perante o juiz, em audiência especialmente
designada com tal finalidade, antes do recebimento da denúncia e ouvido o Ministério Público.
Não atende ao disposto neste art. 16 a retratação da suposta ofendida ocorrida em cartório de
Vara, sem a designação de audiência específica necessária para a confirmação do ato.
Em outras palavras, se a vítima comparece ao cartório e manifesta interesse em se retratar,
ainda assim o juiz deverá designar a audiência para ouvir a ofendida e o MP, não podendo
rejeitar a denúncia sem cumprir esse procedimento.
STJ. 5ª Turma. HC 138.143-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 03/09/2019 (Info 656).

Cabimento de HC para questionar a legalidade de medida protetiva da Lei Maria da Penha


Cabe habeas corpus para apurar eventual ilegalidade na fixação de medida protetiva de urgência
consistente na proibição de aproximar-se de vítima de violência doméstica e familiar.
STJ. 5ª Turma. HC 298.499-AL, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 1º/12/2015
(Info 574).

Aplicação das medidas protetivas da Lei Maria da Penha também a ações cíveis
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As medidas protetivas de urgência da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) podem ser aplicadas
em ação cautelar cível satisfativa, independentemente da existência de inquérito policial ou
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processo criminal contra o suposto agressor.


STJ. 4ª Turma. REsp 1.419.421-GO, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. em 11/2/2014 (Info 535).

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Decisão que fixa alimentos em razão da prática de violência doméstica pode ser executada
sob o rito da prisão civil
A decisão proferida em processo penal que fixa alimentos provisórios ou provisionais em favor
da companheira e da filha, em razão da prática de violência doméstica, constitui título hábil para
imediata cobrança e, em caso de inadimplemento, passível de decretação de prisão civil.
STJ. 3ª Turma. RHC 100.446-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, j. em 27/11/2018 (Info 640).

A medida de afastamento do local de trabalho, prevista no art. 9º, § 2º, da Lei é de


competência do Juiz da Vara de Violência Doméstica, sendo caso de interrupção do contrato
de trabalho, devendo a empresa arcar com os 15 primeiros dias e o INSS com o restante
O art. 9º, § 2º da Lei Maria da Penha prevê que:
O juiz assegurará à mulher em situação de violência doméstica e familiar, para preservar sua
integridade física e psicológica, manutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o
afastamento do local de trabalho, por até seis meses.
A competência para determinar essa medida é do Juiz da Vara de Violência Doméstica ou do Juiz
do Trabalho?
Juiz da Vara de Violência Doméstica. O juiz da vara especializada em Violência Doméstica (ou,
caso não haja na localidade, o juízo criminal) tem competência para apreciar pedido de
imposição de medida protetiva de manutenção de vínculo trabalhista, por até seis meses, em
razão de afastamento do trabalho de ofendida decorrente de violência doméstica e familiar. Isso
porque o motivo do afastamento não advém da relação de trabalho, mas sim da situação
emergencial que visa garantir a integridade física, psicológica e patrimonial da mulher.
Qual é a natureza jurídica desse afastamento? Sobre quem recai o ônus do pagamento?
A natureza jurídica do afastamento por até seis meses em razão de violência doméstica e familiar
é de interrupção do contrato de trabalho, incidindo, analogicamente, o auxílio-doença, devendo
a empresa se responsabilizar pelo pagamento dos quinze primeiros dias, ficando o restante do
período a cargo do INSS.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.757.775-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 20/08/2019 (Info 655).

Inaplicabilidade da suspensão condicional do processo e da transação penal


Súmula 536-STJ: A suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na
hipótese de delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 10/06/2015, Dje 15/06/2015.

A transação penal não é aplicável na hipótese de contravenção penal praticada com violência
doméstica e familiar contra a mulher.
STJ. 6ª Turma. HC 280.788-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 3/4/2014 (Info 539).

Novidade Legislativa – Lei nº 13.827/2019


QUEM CONCEDE AS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA DA LEI MARIA DA PENHA?
Regra: só a autoridade judicial pode conceder medidas protetivas de urgência.
Exceção: a medida de afastamento do agressor do lar pode ser determinada pelo Delegado
ou policial se o Município não for sede de comarca.

Se houver risco atual ... o agressor deverá Esse afastamento será determinado:
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ou iminente à vida ser imediatamente 1ª opção: pela autoridade judicial.


ou à integridade afastado do lar, 2ª opção: pelo Delegado de Polícia, se o
Página

física ou psicológica domicílio ou local de Município não for sede de comarca.

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da mulher ou de convivência com a 3ª opção: pelo policial (civil ou militar), se o
seus dependentes... ofendida. Município não for sede de comarca e não
houver Delegado disponível no momento.

Obs: se a medida for concedida por Delegado ou por policial (situações 2 e 3), o Juiz será
comunicado no prazo máximo de 24 horas e decidirá, em igual prazo, sobre a manutenção
ou a revogação da medida aplicada, devendo dar ciência ao Ministério Público
concomitantemente.
Obs2: as demais medidas protetivas deverão ser sempre concedidas pela autoridade judicial
(não há exceções).

Vedação à liberdade provisória


Não será concedida liberdade provisória...
- ao autor de um crime praticado com violência doméstica e familiar contra mulher
- caso esteja demonstrado que a soltura do agente acarretará
- risco à integridade física da vítima ou
- risco à efetividade da medida protetiva de urgência.

Lesão corporal é crime de ação pública incondicionada


Súmula 542-STJ: A ação penal relativa ao crime de lesão corporal resultante de violência
doméstica contra a mulher é pública incondicionada.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 26/8/2015, DJe 31/8/2015.

Não cabe pena restritiva de direitos nos crimes ou contravenções penais cometidos contra a
mulher com violência ou grave ameaça no ambiente doméstico
Súmula 588-STJ: A prática de crime ou contravenção penal contra a mulher com violência ou
grave ameaça no ambiente doméstico impossibilita a substituição da pena privativa de liberdade
por restritiva de direitos.

Fixação do valor mínimo para reparação dos danos morais e Lei Maria da Penha
Nos casos de violência contra a mulher praticados no âmbito doméstico e familiar, é possível a
fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, desde que haja pedido expresso
da acusação ou da parte ofendida, ainda que não especificada a quantia, e independentemente
de instrução probatória.
CPP/Art. 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória: IV - fixará valor mínimo para reparação
dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido.
STJ. 3ª Seção. REsp 1.643.051-MS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 28/02/2018
(recurso repetitivo) (Info 621).

A reconciliação entre a vítima e o agressor, no âmbito da violência doméstica e familiar contra


a mulher, não é fundamento suficiente para afastar a necessidade de fixação do valor mínimo
para reparação dos danos causados pela infração penal
A posterior reconciliação entre a vítima e o agressor não é fundamento suficiente para afastar a
necessidade de fixação do valor mínimo previsto no art. 387, inciso IV, do CPP, seja porque não
há previsão legal nesse sentido, seja porque compete à própria vítima decidir se irá promover a
execução ou não do título executivo, sendo vedado ao Poder Judiciário omitir-se na aplicação
da legislação processual penal que determina a fixação do valor mínimo em favor da ofendida.
63

CPP/Art. 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória: (...) IV - fixará valor mínimo para
Página

reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido;
STJ. 6ª Turma. REsp 1.819.504-MS, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 10/09/2019 (Info 657).

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LEI 13.871/2019
Art. 9º (...)
§ 4º Aquele que, por ação ou omissão, causar lesão, violência física, sexual ou psicológica e dano
moral ou patrimonial a mulher fica obrigado a ressarcir todos os danos causados, inclusive
ressarcir ao Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com a tabela SUS, os custos relativos aos
serviços de saúde prestados para o total tratamento das vítimas em situação de violência
doméstica e familiar, recolhidos os recursos assim arrecadados ao Fundo de Saúde do ente
federado responsável pelas unidades de saúde que prestarem os serviços.
§ 5º Os dispositivos de segurança destinados ao uso em caso de perigo iminente e
disponibilizados para o monitoramento das vítimas de violência doméstica ou familiar
amparadas por medidas protetivas terão seus custos ressarcidos pelo agressor.
§ 6º O ressarcimento de que tratam os §§ 4º e 5º deste artigo não poderá importar ônus de
qualquer natureza ao patrimônio da mulher e dos seus dependentes, nem configurar atenuante
ou ensejar possibilidade de substituição da pena aplicada.

Apreensão da arma de fogo do autor da violência doméstica (Lei nº 13.880/2019)


Em todos os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, depois de fazer o registro
da ocorrência, a autoridade policial deverá adotar uma série de procedimentos.
A Lei nº 13.880/2019 acrescenta uma nova obrigação ao Delegado determinando que ele
verifique se o agressor possui registro de porte ou posse de arma de fogo.
Se o agressor tiver, o Delegado deverá tomar duas providências:
• notificar a ocorrência dessa suposta violência doméstica à instituição responsável pela
concessão do registro ou da emissão do porte;
• informar, no pedido de medidas protetivas que é encaminhado ao juiz, que o agressor possui
esse registro.

O juiz, ao receber os autos, constatando que o suposto agressor possui registro de porte ou
posse de arma de fogo, deverá determinar a apreensão imediata da arma de fogo que está sob
a posse do agressor.

LEI DE DROGAS (LEI 11.343/2006)


O autor da conduta do art. 28 da LD deve ser encaminhado diretamente ao juiz, que irá lavrar
o termo circunstanciado e fará a requisição dos exames e perícias; somente se não houver juiz
é que tais providências serão tomadas pela autoridade policial; essa previsão é constitucional
O STF, interpretando os §§ 2º e 3º do art. 48 da Lei nº 11.343/2006, afirmou que o autor do
crime previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/2006 deve ser encaminhado imediatamente ao juiz e
o próprio magistrado irá lavrar o termo circunstanciado e requisitar os exames e perícias
necessários.
Se não houver disponibilidade do juízo competente, deve o autor ser encaminhado à autoridade
policial, que então adotará essas providências (termo circunstanciado e requisição).
Não há qualquer inconstitucionalidade nessa previsão. Isso porque a lavratura de termo
circunstanciado e a requisição de exames e perícias não são atividades de investigação.
Considerando-se que o termo circunstanciado não é procedimento investigativo, mas sim uma
mera peça informativa com descrição detalhada do fato e as declarações do condutor do
flagrante e do autor do fato, deve-se reconhecer que a possibilidade de sua lavratura pela
autoridade judicial (magistrado) não ofende os §§ 1º e 4º do art. 144 da Constituição, nem
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interfere na imparcialidade do julgador.


As normas dos §§ 2º e 3º do art. 48 da Lei nº 11.343/2006 foram editadas em benefício do
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usuário de drogas, visando afastá-lo do ambiente policial, quando possível, e evitar que seja
indevidamente detido pela autoridade policial.

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STF. Plenário. ADI 3807, Rel. Cármen Lúcia, julgado em 29/06/2020 (Info 986 – clipping).

A condenação pelo art. 28 da Lei 11.343/2006 (porte de droga para uso próprio) NÃO configura
reincidência
O porte de droga para consumo próprio, previsto no art. 28 da Lei nº 11.343/2006, possui
natureza jurídica de crime.
O porte de droga para consumo próprio foi somente despenalizado pela Lei nº 11.343/2006,
mas não descriminalizado.
Obs: despenalizar é a medida que tem por objetivo afastar a pena como tradicionalmente
conhecemos, em especial a privativa de liberdade. Descriminalizar significa deixar de considerar
uma conduta como crime.
Mesmo sendo crime, o STJ entende que a condenação anterior pelo art. 28 da Lei nº
11.343/2006 (porte de droga para uso próprio) NÃO configura reincidência.
Argumento principal: se a contravenção penal, que é punível com pena de prisão simples, não
configura reincidência, mostra-se desproporcional utilizar o art. 28 da LD para fins de
reincidência, considerando que este delito é punido apenas com “advertência”, “prestação de
serviços à comunidade” e “medida educativa”, ou, seja, sanções menos graves e nas quais não
há qualquer possibilidade de conversão em pena privativa de liberdade pelo descumprimento.
Há de se considerar, ainda, que a própria constitucionalidade do art. 28 da LD está sendo
fortemente questionada.
STJ. 5ª Turma. HC 453.437/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 04/10/2018.
STJ. 6ª Turma. REsp 1672654/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
21/08/2018 (Info 632).

A reincidência de que trata o § 4º do art. 28 da Lei nº 11.343/2006 é a específica


O art. 28 da Lei nº 11.343/2006 prevê o crime de porte de drogas para consumo pessoal.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para
consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
Em regra, as penas dos incisos II e III só podem ser aplicadas pelo prazo máximo de 5 meses.
O § 4º prevê que: “em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste
artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.”
A reincidência de que trata o § 4º é a reincidência específica.
Assim, se um indivíduo já condenado definitivamente por roubo, pratica o crime do art. 28, ele
não se enquadra no § 4º. Isso porque se trata de reincidente genérico.
O § 4º ao falar de reincidente, está se referindo ao crime do caput do art. 28.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.771.304-ES, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 10/12/2019 (Info 662).

Atipicidade da importação de pequena quantidade de sementes de maconha


É atípica a conduta de importar pequena quantidade de sementes de maconha.
STJ. 3ª Seção. EREsp 1.624.564-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/10/2020 (Info 683).
STF. 2ª Turma. HC 144161/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11/9/2018 (Info 915).
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A concessão de autorização para o cultivo de maconha depende de critérios técnicos cujo
estudo refoge à competência do juízo criminal, que não pode se imiscuir em temas cuja análise
incumbe à ANVISA
É incabível salvo-conduto para o cultivo da cannabis visando a extração do óleo medicinal, ainda
que na quantidade necessária para o controle da epilepsia, posto que a autorização fica a cargo
da análise do caso concreto pela ANVISA.
STJ. 5ª Turma. RHC 123.402-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 23/03/2021
(Info 690).

Compete ao Juízo Federal do endereço do destinatário da droga, importada via Correio,


processar e julgar o crime de tráfico internacional
No caso de importação da droga via correio, se o destinatário for conhecido porque consta seu
endereço na correspondência, a Súmula 528/STJ deve ser flexibilizada para se fixar a
competência no Juízo do local de destino da droga, em favor da facilitação da fase investigativa,
da busca da verdade e da duração razoável do processo.
Importação da droga via postal (Correios) configura tráfico transnacional de drogas (art. 33 c/c
art. 40, I, da Lei nº 11.343/2006). A competência para julgar esse delito será do local onde a
droga foi apreendida ou do local de destino da droga?
• Entendimento anterior do STJ: local de apreensão da droga
Essa posição estava manifestada na Súmula 528 do STJ, aprovada em 13/05/2015:
Súmula 528-STJ: Compete ao juiz federal do local da apreensão da droga remetida do exterior
pela via postal processar e julgar o crime de tráfico internacional.

• Entendimento atual do STJ: local de destino da droga.


Na hipótese de importação da droga via correio cumulada com o conhecimento do destinatário
por meio do endereço aposto na correspondência, a Súmula 528/STJ deve ser flexibilizada para
se fixar a competência no Juízo do local de destino da droga, em favor da facilitação da fase
investigativa, da busca da verdade e da duração razoável do processo.
STJ. 3ª Seção. CC 177.882-PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 26/05/2021 (Info 698).

Transportar folhas de coca: crime do art. 33, § 1º, I, da Lei nº 11.343/2006


A conduta de transportar folhas de coca melhor se amolda, em tese e para a definição de
competência, ao tipo descrito no § 1º, I, do art. 33 da Lei nº 11.343/2006, que criminaliza o
transporte de matéria-prima destinada à preparação de drogas.
Caso concreto: o agente foi preso com 4,4 kg de folhas de coca, adquiridas na Bolívia, tendo a
substância sido encontrada no estepe do veículo. As folhas seriam transportadas até
Uberlândia/MG para rituais de mascar, fazer infusão de chá e até mesmo bolo, rituais esses
associados à prática religiosa indígena de Instituto ao qual pertenceria o acusado.
A folha de coca não é considerada droga; porém pode ser classificada como matéria-prima ou
insumo para sua fabricação.
STJ. 3ª Seção. CC 172.464-MS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 10/06/2020
(Info 673).

Ônus da prova da traficância


O réu não tem o dever de demonstrar que a droga encontrada consigo seria utilizada apenas
para consumo próprio.
Cabe à acusação comprovar os elementos do tipo penal, ou seja, que a droga apreendida era
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destinada ao tráfico. Ao Estado-acusador incumbe demonstrar a configuração do tráfico, que


não ocorre pelo simples fato dos réus terem comprado e estarem na posse de entorpecente.
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Em suma, se a pessoa é encontrada com drogas, cabe ao Ministério Público comprovar que o
entorpecente era destinado ao tráfico. Não fazendo esta prova, prevalece a versão do réu de
que a droga era para consumo próprio.
STF. 1ª Turma. HC 107448/MG, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, 18.6.2013 (Info 711).

Consumação do crime de tráfico de drogas na modalidade adquirir pelo simples fato de a


droga ter sido negociada por telefone
A conduta consistente em negociar por telefone a aquisição de droga e também disponibilizar o
veículo que seria utilizado para o transporte do entorpecente configura o crime de tráfico de
drogas em sua forma consumada (e não tentada), ainda que a polícia, com base em indícios
obtidos por interceptações telefônicas, tenha efetivado a apreensão do material entorpecente
antes que o investigado efetivamente o recebesse.
Para que configure a conduta de "adquirir", prevista no art. 33 da Lei nº 11.343/2006, não é
necessária a tradição do entorpecente e o pagamento do preço, bastando que tenha havido o
ajuste. Assim, não é indispensável que a droga tenha sido entregue ao comprador e o dinheiro
pago ao vendedor, bastando que tenha havido a combinação da venda.
STJ. 6ª Turma. HC 212.528-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 1º/9/2015 (Info 569).

Tráfico de drogas e juntada do laudo toxicológico definitivo após a condenação


A 1ª Turma do STF decidiu que a nulidade decorrente da juntada extemporânea do laudo
toxicológico definitivo somente pode ser reconhecida se ficar comprovado prejuízo ao réu.
STF. 1ª Turma. RHC 110429/MG, rel. Min. Luiz Fux, 6/3/2012.

Presença de canabinoides na substância é suficiente para ser classificada como maconha,


ainda que não haja THC
Classifica-se como "droga", para fins da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas), a substância
apreendida que possua "canabinoides" (característica da espécie vegetal Cannabis sativa), ainda
que naquela não haja tetrahidrocanabinol (THC).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.444.537-RS,Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 12/4/2016 (Info 582).

O juiz pode negar a aplicação do § 4º usando como argumento o fato de o réu, além do delito
de tráfico (art. 33), ter praticado também o crime de associação para o tráfico (art. 35)
É inaplicável a causa especial de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da Lei nº
11.343/2006 na hipótese em que o réu tenha sido condenado, na mesma ocasião, por tráfico e
pela associação de que trata o art. 35 do mesmo diploma legal.
A aplicação da referida causa de diminuição de pena pressupõe que o agente não se dedique às
atividades criminosas. Desse modo, verifica-se que a redução é logicamente incompatível com
a habitualidade e permanência exigidas para a configuração do delito de associação (art. 35),
cujo reconhecimento evidencia a conduta do agente voltada para o crime e envolvimento
permanente com o tráfico.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.199.671-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 26/2/2013 (Info 517).

A grande quantidade de droga pode justificar o afastamento da causa de diminuição de pena


do art. 33, § 4º da LD
Não é crível que o réu, surpreendido com mais de 500 kg de maconha, não esteja integrado, de
alguma forma, a organização criminosa, circunstância que justifica o afastamento da causa de
diminuição prevista no art. 33, §4º, da Lei de Drogas.
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STF. 1ª Turma. HC 130981/MS, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 18/10/2016 (Info 844).
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O fato de o réu ter ocupação lícita não significa que terá direito, necessariamente, à minorante
do § 4º do art. 33 da LD
Ainda que o réu comprove o exercício de atividade profissional lícita, se, de forma concomitante,
ele se dedicava a atividades criminosas, não terá direito à causa especial de diminuição de pena
prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas).
O tráfico de drogas praticado por intermédio de adolescente que, em troca da mercancia,
recebia comissão, evidencia (demonstra) que o acusado se dedicava a atividades criminosas,
circunstância apta a afastar a incidência da causa especial de diminuição de pena prevista no
art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.380.741-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 12/4/2016 (Info
582).

Não é possível que o juiz negue o benefício do § 4º do art. 33 da LD pelo simples fato de o
acusado ser investigado em inquérito ou réu em outra ação penal que ainda não transitou em
julgado
Não se pode negar a aplicação da causa de diminuição pelo tráfico privilegiado, prevista no art.
33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006, com fundamento no fato de o réu responder a inquéritos
policiais ou processos criminais em andamento, mesmo que estejam em fase recursal, sob pena
de violação ao art. 5º, LIV (princípio da presunção de não culpabilidade).
Não cabe afastar a causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de
Drogas) com base em condenações não alcançadas pela preclusão maior (coisa julgada).
STF. 1ª Turma. HC 166385/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 14/4/2020 (Info 973).
STF. 2ª Turma. RE 1.283.996 AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 11/11/2020.
STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 676.516/SC, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em
19/10/2021.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1936058/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/09/2021.

Associação para fins de tráfico (art. 35)


Segundo o STJ e o STF, para configuração do tipo de associação para o tráfico, é necessário que
haja estabilidade e permanência na associação criminosa.
Dessa forma, é atípica a conduta se não houver ânimo associativo permanente (duradouro), mas
apenas esporádico (eventual).
STJ. 5ª Turma. HC 248.844/GO, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 21/05/2013.
STJ. 6ª Turma. HC 139.942-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 19/11/2012.

Livramento condicional no caso de associação para o tráfico (art. 35)


O art. 83 do CP prevê que o condenado por crime hediondo ou equiparado que não for
reincidente específico poderá obter livramento condicional após cumprir 2/3 da pena. Os
condenados por crimes não hediondos ou equiparados terão direito ao benefício se cumprirem
mais de 1/3 da pena (não sendo reincidentes em crimes dolosos) ou se cumprirem mais de 1/2
da pena (se forem reincidentes em crimes dolosos).
O crime de associação para o tráfico de drogas, previsto no art. 35 da Lei 11.343/2006, não é
hediondo nem equiparado. No entanto, mesmo assim, o prazo para se obter o livramento
condicional é de 2/3 porque este requisito é exigido pelo parágrafo único do art. 44 da Lei de
Drogas.
Dessa forma, aplica-se ao crime do art. 35 da LD o requisito objetivo de 2/3 não por força do art.
83, V, do CP, mas sim em razão do art. 44, parágrafo único, da LD.
68

Vale ressaltar que, no caso do crime de associação para o tráfico, o art. 44, parágrafo único, da
LD prevalece em detrimento da regra do art. 83, V, do CP em virtude de ser dispositivo específico
Página

para os crimes relacionados com drogas (critério da especialidade), além de ser norma posterior
(critério cronológico).

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STJ. 5ª Turma. HC 311.656-RJ, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 25/8/2015 (Info 568).

O confisco de bens apreendidos em decorrência do tráfico pode ocorrer ainda que o bem não
fosse utilizado de forma habitual e mesmo que ele não tenha sido alterado
É possível o confisco de todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência
do tráfico de drogas, sem a necessidade de se perquirir a habitualidade, reiteração do uso do
bem para tal finalidade, a sua modificação para dificultar a descoberta do local do
acondicionamento da droga ou qualquer outro requisito além daqueles previstos
expressamente no art. 243, parágrafo único, da Constituição Federal.
STF. Plenário. RE 638491/PR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 17/5/2017 (repercussão geral) (Info
865).

Financiamento do tráfico e assemelhados (art. 36)


Se o agente financia ou custeia o tráfico, mas não pratica nenhum verbo do art. 33: responderá
apenas pelo art. 36 da Lei de Drogas.
Se o agente, além de financiar ou custear o tráfico, também pratica algum verbo do art. 33:
responderá apenas pelo art. 33 c/c o art. 40, VII da Lei de Drogas (não será condenado pelo art.
36).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.290.296-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. em 17/12/2013
(Info 534).

Informante do tráfico (art. 37)


É possível que alguém seja condenado pelo art. 35 e, ao mesmo tempo, pelo art. 37, da Lei de
Drogas em concurso material, sob o argumento de que o réu era associado ao grupo criminoso
e que, além disso, atuava também como “olheiro”?
NÃO. Segundo decidiu o STJ, nesse caso, ele deverá responder apenas pelo crime do art. 35 (sem
concurso material com o art. 37).
Considerar que o informante possa ser punido duplamente (pela associação e pela colaboração
com a própria associação da qual faça parte), contraria o princípio da subsidiariedade e revela
indevido bis in idem, punindo-se, de forma extremamente severa, aquele que exerce função que
não pode ser entendida como a mais relevante na divisão de tarefas do mundo do tráfico.
STJ. 5ª Turma. HC 224.849-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 11/6/2013 (Info 527).

A conduta prevista no art. 12, § 2º, II da Lei 6.368/76 continua sendo crime na atual Lei de Drogas
A conduta prevista no inciso III do § 2º do art. 12 da Lei nº 6.368/1976 continua sendo típica na
vigência da Lei nº 11.343/2006, estando ela espalhada em mais de um artigo da nova lei. Desse
modo, não houve abolitio criminis quanto à conduta do art. 12, § 2º, III, da Lei nº 6.368/76.
STJ. 6ª Turma. HC 163.545-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 25/6/2013
(Info 527).

Houve abolitio criminis quanto ao art. 18, III, primeira parte, da Lei 6.368/76
Com o advento da Lei nº 11.343/2006, que revogou expressamente a Lei n.º 6.368/1976, não
foi mantida a previsão de majorante pelo concurso eventual para a prática dos delitos da Lei de
Tóxicos, devendo ser reconhecida a abolitio criminis no tocante ao inciso III do art. 18 da vetusta
Lei nº 6.368/76.
STJ. 6ª Turma. HC 202.760-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 26/11/2013
(Info 532).
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Droga transportada em transporte público e causa de aumento do art. 40 da Lei 11.343/2006
O art. 40, III, da Lei de Drogas prevê como causa de aumento de pena o fato de a infração ser
cometida em transportes públicos.
Se o agente leva a droga em transporte público, mas não a comercializa dentro do meio de
transporte, incidirá essa majorante?
NÃO. A majorante do art. 40, II, da Lei 11.343/2006 somente deve ser aplicada nos casos em
que ficar demonstrada a comercialização efetiva da droga em seu interior. É a posição
majoritária no STF e STJ.
STF. 1ª Turma. HC 122258-MS, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 19/08/2014.
STF. 2ª Turma. HC 120624/MS, Red. p/ o acórdão, Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 3/6/2014
(Info 749).
STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.295.786-MS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 18/6/2014
(Info 543).
STJ. 6ª Turma. REsp 1443214-MS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 22/09/2014.

Ocorrendo o tráfico de drogas nas imediações de presídio, incidirá a causa de aumento do art.
40, III, da LD, não importando quem seja o comprador
Se o agente vende a droga nas imediações de um presídio, mas o comprador não era um dos
detentos nem qualquer pessoa que estava frequentando o presídio, ainda assim deverá incidir
a causa de aumento do art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006?
SIM. A aplicação da causa de aumento prevista no art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006 se justifica
quando constatada a comercialização de drogas nas dependências ou imediações de
estabelecimentos prisionais, sendo irrelevante se o agente infrator visa ou não aos
frequentadores daquele local.
Assim, se o tráfico de drogas ocorrer nas imediações de um estabelecimento prisional, incidirá
a causa de aumento, não importando quem seja o comprador do entorpecente.
STF. 2ª Turma. HC 138944/SC, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 21/3/2017 (Info 858).

Não é necessário que a droga passe por dentro do presídio para que incida a majorante
prevista no art. 40, III, da Lei 11.343/2006
João, de dentro da unidade prisional onde cumpre pena, liderava uma organização criminosa.
Com o uso de telefone celular, ele organizava a dinâmica do grupo e comandava o tráfico de
drogas, dando ordens para seus comparsas que, de fora do presídio, executavam a
comercialização do entorpecente. João foi condenado por tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº
11.343/2006). Neste caso, ele deverá ter a sua pena aumentada com base no art. 40, III?
SIM. Se o agente comanda o tráfico de drogas de dentro do presídio, deverá incidir a causa de
aumento de pena do art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006, mesmo que os efeitos destes atos
tenham se manifestado a quilômetros de distância.
Não é necessário que a droga passe por dentro do presídio para que incida a majorante prevista
no art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006. Esse dispositivo não faz a exigência de que as drogas
efetivamente passem por dentro dos locais que se busca dar maior proteção, mas apenas que o
cometimento dos crimes tenha ocorrido em seu interior.
STJ. 5ª Turma. HC 440.888-MS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 15/10/2019 (Info 659).

Tráfico cometido nas dependências de estabelecimento prisional e bis in idem


A circunstância de o crime ter sido cometido nas dependências de estabelecimento prisional
não pode ser utilizada como fator negativo para fundamentar uma pequena redução da pena
70

na aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 e, ao mesmo tempo,


ser empregada para aumentar a pena como majorante do inciso III do art. 40. Utilizar duas vezes
Página

essa circunstância configura indevido bis in idem.

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Desse modo, neste caso, esta circunstância deverá ser utilizada apenas como causa de aumento
do art. 40, III, não sendo valorada negativamente na análise do § 4º do art. 33.
STJ. 5ª Turma. HC 313.677-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 21/6/2016
(Info 586).

Não incide a causa de aumento de pena prevista no inciso III do art. 40 da Lei nº 11.343/2006
em caso de tráfico de drogas cometido nas dependências ou nas imediações de igreja
O tráfico de drogas cometido em local próximo a igrejas não foi contemplado pelo legislador no
rol das majorantes previstas no inciso III do art. 40 da Lei nº 11.343/2006, não podendo,
portanto, ser utilizado com esse fim tendo em vista que no Direito Penal incriminador não se
admite a analogia in
STJ. 6ª Turma. HC 528.851-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 05/05/2020 (Info 671).

Causa de aumento do inciso I do art. 40 não exige a efetiva transposição da fronteira


Súmula 607-STJ: A majorante do tráfico transnacional de drogas (art. 40, I, da Lei nº
11.343/2006) configura-se com a prova da destinação internacional das drogas, ainda que não
consumada a transposição de fronteiras.

Causa de aumento do inciso V do art. 40 não exige a efetiva transposição da fronteira


Súmula 587-STJ: Para a incidência da majorante prevista no artigo 40, V, da Lei 11.343/06, é
desnecessária a efetiva transposição de fronteiras entre estados da federação, sendo suficiente
a demonstração inequívoca da intenção de realizar o tráfico interestadual.

Só poderá incidir a interestadualidade se ficar demonstrado que a intenção do agente era


pulverizar a droga em mais de um Estado-membro
Se o agente importa a droga com objetivo de vendê-la em determinado Estado da Federação,
mas, para chegar até o seu destino, ele tem que passar por outros Estados, incidirá, neste caso,
apenas a causa de aumento da transnacionalidade (art. 40, I), não devendo ser aplicada a
majorante da interestadualidade (art. 40, V) se a intenção do agente não era a de comercializar
o entorpecente em mais de um Estado da Federação.
As causas especiais de aumento da pena relativas à transnacionalidade e à interestadualidade
do delito, previstas, respectivamente, nos incisos I e V do art. 40 da Lei de Drogas, até podem
ser aplicadas simultaneamente, desde que demonstrada que a intenção do acusado que
importou a substância era a de pulverizar a droga em mais de um Estado do território nacional.
Se isso não ficar provado, incide apenas a transnacionalidade.
Assim, é inadmissível a aplicação simultânea das causas de aumento da transnacionalidade (art.
40, I) e da interestadualidade (art. 40, V) quando não ficar comprovada a intenção do importador
da droga de difundi-la em mais de um Estado-membro. O fato de o agente, por motivos de
ordem geográfica, ter que passar por mais de um Estado para chegar ao seu destino final não é
suficiente para caracterizar a interestadualidade.
STJ. 6ª Turma. HC 214.942-MT, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 16/6/2016 (Info 586).

A prática do delito de tráfico de drogas nas proximidades de estabelecimentos de ensino (art.


40, III, da Lei 11.343/06) enseja a aplicação da majorante, sendo desnecessária a prova de que
o ilícito visava atingir os frequentadores desse local.
Para a incidência da majorante prevista no art. 40, inciso III, da Lei nº 11.343/2006 é
desnecessária a efetiva comprovação de que a mercancia tinha por objetivo atingir os
71

estudantes, sendo suficiente que a prática ilícita tenha ocorrido em locais próximos, ou seja, nas
imediações de tais estabelecimentos, diante da exposição de pessoas ao risco inerente à
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atividade criminosa da narcotraficância.


STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1558551/MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 12/09/2017.

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STJ. 6ª Turma. HC 359.088/SP. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 04/10/2016.

Não incide a causa de aumento de pena prevista no art. 40, inciso III, da Lei nº 11.343/2006, se
a prática de narcotraficância ocorrer em dia e horário em que não facilite a prática criminosa e
a disseminação de drogas em área de maior aglomeração de pessoas.
Ex: se o tráfico de drogas é praticado no domingo de madrugada, dia e horário em que o
estabelecimento de ensino não estava funcionando, não deve incidir a majorante.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.719.792-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
13/03/2018 (Info 622).

Aplicação de causa de aumento de pena do inciso VI ao crime de associação para o tráfico de


drogas com criança ou adolescente
A participação do menor pode ser considerada para configurar o crime de associação para o
tráfico (art. 35) e, ao mesmo tempo, para agravar a pena como causa de aumento do art. 40, VI,
da Lei nº 11.343/2006.
Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não,
qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 desta Lei:
Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços,
se:
VI — sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha, por
qualquer motivo, diminuída ou suprimida a capacidade de entendimento e determinação.
STJ. 6ª Turma. HC 250.455-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 17/12/2015 (Info 576).

Aplicação da causa de aumento de pena do art. 40, VI a mais de um crime e em patamar acima do
mínimo
Pedro convidou Lucas (15 anos) para auxiliá-lo, de forma estável e permanente, na prática do
tráfico de drogas. Como contrapartida, prometeu "pagar" pelo serviço dando 100g de cocaína
por semana para que ele consumisse. Foram presos quando estavam vendendo droga. Pedro foi
denunciado por tráfico de drogas (art. 33) e associação para o tráfico (art. 35), com a causa de
aumento do art. 40, VI. Em uma situação assemelhada a esta, o STJ concluiu que:
I — A causa de aumento de pena do art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006 pode ser aplicada tanto
para agravar o crime de tráfico de drogas (art. 33) quanto para agravar o de associação para o
tráfico (art. 35) praticados no mesmo contexto. Não há bis in idem porque são delitos diversos
e totalmente autônomos, com motivação e finalidades distintas.
II — O fato de o agente ter envolvido um menor na prática do tráfico e, ainda, tê-lo retribuído
com drogas, para incentivá-lo à traficância ou ao consumo e dependência, justifica a aplicação,
em patamar superior ao mínimo, da causa de aumento de pena do art. 40, VI, da Lei nº
11.343/2006, ainda que haja fixação de pena-base no mínimo legal. A aplicação da causa de
aumento em patamar acima do mínimo é plenamente válida, desde que fundamentada na
gravidade concreta do delito.
STJ. 6ª Turma. HC 250.455-RJ, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 17/12/2015 (Info 576).

Utilização da natureza e quantidade da droga na dosimetria na pena


A natureza e a quantidade da droga NÃO podem ser utilizadas para aumentar a pena-base do
réu (1ª fase da dosimetria) e também para conceder ao réu uma menor redução de pena na
aplicação do benefício do art. 33, § 4º (3ª fase de dosimetria). Haveria, nesse caso, bis in idem.
Assim, a natureza e a quantidade do entorpecente não podem ser utilizadas na 1ª fase da
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dosimetria, para a fixação da pena-base, e na 3ª fase, para a definição do patamar da causa de


diminuição do § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 em um sexto (menor percentual).
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A valoração da natureza e da quantidade da droga deverá ser realizada na primeira ou na


terceira fase de aplicação da pena, vedada a aplicação conjunta sob pena de bis in idem.

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STF. Plenário. HC 112776/MS e HC 109193/MG, Rel. Min. Teori Zavascki, julgados em
19/12/2013 (Info 733).
STF. 2ª Turma. RHC 122684/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 16/9/2014 (Info 759).

Pureza da droga é irrelevante na dosimetria da pena


O grau de pureza da droga é irrelevante para fins de dosimetria da pena.
De acordo com a Lei nº 11.343/2006, preponderam apenas a natureza e a quantidade da droga
apreendida para o cálculo da dosimetria da pena.
STF. 2ª Turma. HC 132909/SP, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 15/3/2016 (Info 818).

Diminuição no caso de semi-imputabilidade


O art. 46 da Lei de Drogas prevê hipótese de semi-imputabilidade do réu. Assim, a pena aplicada
pode ser reduzida de 1/3 a 2/3 se o agente não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a
plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento.
Se o juiz for aplicar a causa de diminuição em seu grau mínimo (1/3), ele deverá fundamentar a
decisão, expondo algum dado, em concreto, que justifique a adoção dessa fração.
STJ. 5ª Turma. HC 167.376-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 23/9/2014 (Info 547).

Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos


O fato de o tráfico de drogas ser praticado com o intuito de introduzir substâncias ilícitas em
estabelecimento prisional não impede, por si só, a substituição da pena privativa de liberdade
por restritivas de direitos, devendo essa circunstância ser ponderada com os requisitos
necessários para a concessão do benefício.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.359.941-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 4/2/2014
(Info 536).

Tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006) não é crime equiparado a hediondo
O chamado "tráfico privilegiado", previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 (Lei de
Drogas), não deve ser considerado crime equiparado a hediondo.
STF. Plenário. HC 118533, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 23/06/2016 (Info 831).

Hipótese de inocorrência de ação controlada


Ação controlada é uma técnica especial de investigação por meio da qual a autoridade policial
ou administrativa (ex: Receita Federal, corregedorias), mesmo percebendo que existem indícios
da prática de um ato ilícito em curso, retarda (atrasa, adia, posterga) a intervenção neste crime
para um momento posterior, com o objetivo de conseguir coletar mais provas, descobrir
coautores e partícipes da empreitada criminosa, recuperar o produto ou proveito da infração ou
resgatar, com segurança, eventuais vítimas.
Imagine que a Polícia recebeu informações de que determinado indivíduo estaria praticando
tráfico de drogas. A partir daí, passou a vigiá-lo, seguindo seu carro, tirando fotografias e
verificando onde ele morava. Em uma dessas oportunidades, houve certeza de que ele estava
praticando crime e foi realizada a sua prisão em flagrante. A defesa do réu alegou que a Polícia
realizou "ação controlada" e que, pelo fato de não ter havido autorização judicial prévia, ela
teria sido ilegal, o que contaminaria toda prova colhida. A tese da defesa foi aceita pelo STJ?
NÃO. A investigação policial que tem como única finalidade obter informações mais concretas
acerca de conduta e de paradeiro de determinado traficante, sem pretensão de identificar
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outros suspeitos, não configura a ação controlada do art. 53, II, da Lei nº 11.343/2006, sendo
dispensável a autorização judicial para a sua realização.
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STJ. 6ª Turma. RHC 60.251-SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 17/9/2015 (Info 570).

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CRIMES DE RESPONSABILIDADE DOS PREFEITOS (DL 201/67)
O crime do art. 1º, I, é próprio mas admite a participação (art. 29 do CP).
O crime do art. 1º, I, do Decreto-Lei 201/1967 é próprio, somente podendo ser praticado por
prefeito, admitida, porém, a participação, nos termos do art. 29 do CP.
Exemplo: Deputado Federal apresentou emenda parlamentar ao orçamento da União
autorizando o repasse de recursos para o Município “X”, verba destinada à aquisição de uma
ambulância. O recurso foi transferido, foi realizada a licitação, mas o certame foi direcionado
em favor de determinada empresa que superfaturou o preço. Ficou demonstrado que o Prefeito,
o Deputado e os donos da empresa vencedora estavam em conluio para a prática dessa conduta.
Desse modo, todos eles irão responder pelo delito do art. 1º, I, do DL 201/67.
STF. 2ª Turma. Inq 3634/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 2/6/2015 (Info 788).

Pagar remuneração a funcionário fantasma não configura crime


O pagamento de remuneração a funcionários fantasmas não configura apropriação ou desvio
de verba pública, previstos pelo art. 1º, inciso I, do Decreto-Lei nº 201/67.
O pagamento de salário não configura apropriação ou desvio de verba pública, previstos pelo
art. 1º, I, do Decreto-Lei nº 201/67, pois a remuneração é devida, ainda que questionável a
contratação de parentes do Prefeito.
STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 1.162.086-SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 05/03/2020
(Info 667).

O crime previsto no art. 1°, VII, do Decreto-Lei nº 201/1967 se perfectibiliza quando há uma
clara intenção de descumprir os prazos para a prestação de contas
Se tiver havido a entrega da prestação de contas em momento posterior ao estipulado, mas se
não tiver ficado suficientemente demonstrada a intenção de atrasar e de descumprir os prazos
previstos para se prestar contas, não haverá crime por falta de elemento subjetivo (dolo).
Art. 1º São crimes de responsabilidade dos Prefeitos Municipal, sujeitos ao julgamento do Poder
Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores: (...) VII - Deixar
de prestar contas, no devido tempo, ao órgão competente, da aplicação de recursos,
empréstimos subvenções ou auxílios internos ou externos, recebidos a qualquer título;
STJ. 6ª Turma. REsp 1695266/PB, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 23/06/2020 (Info 676).

CRIMES CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO (LEI 8.137/90)


Crime do art. 7º, IX e necessidade de perícia para demonstrar a configuração do delito
O art. 7º, IX, da Lei nº 8.137/90 prevê o seguinte delito:
Art. 7º Constitui crime contra as relações de consumo:
IX — vender, ter em depósito para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma, entregar
matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias ao consumo;
Pena — detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.
Para caracterizar o delito previsto no art. 7º, IX, da Lei 8.137/1990 (crime contra relação de
consumo), é imprescindível a realização de perícia a fim de atestar se as mercadorias
apreendidas estão em condições impróprias para o consumo, não sendo suficiente, para a
comprovação da materialidade delitiva, auto de infração informando a inexistência de registro
do Serviço de Inspeção Estadual (SIE).
STJ. 5ª Turma. AgRg no Resp 1.111.736-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 17/12/2013
(Info 533).
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STJ. 5ª Turma. RHC 49.752-SC, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 14/4/2015 (Info 560).
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Venda de medicamentos vencidos e causa de aumento prevista no art. 12, III, da Lei 8.137/90
Quando o produto vendido for medicamento vencido, será possível aplicar a causa de aumento
prevista no art. 12, III, da Lei nº 8.137/90 na dosimetria da pena do crime previsto no art. 7º, IX,
da mesma Lei.
Art. 7º Constitui crime contra as relações de consumo: IX — vender, ter em depósito para vender ou
expor à venda ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições
impróprias ao consumo;
Art. 12. São circunstâncias que podem agravar de 1/3 (um terço) até a metade as penas previstas
nos arts. 1º, 2º e 4º a 7º: III — ser o crime praticado em relação à prestação de serviços ou ao
comércio de bens essenciais à vida ou à saúde.
STJ. 6ª Turma. REsp 1.207.442-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 1º/12/2015 (Info 574).

É inconstitucional o preceito secundário do art. 273, § 1º-B, I, do CP, devendo ser aplicada a
pena prevista antes da Lei 9.677/98, qual seja, de 1 a 3 anos
É inconstitucional a aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação
dada pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), à hipótese prevista no seu § 1º-
B, I, que versa sobre a importação de medicamento sem registro no órgão de vigilância sanitária.
Para esta situação específica, fica repristinado o preceito secundário do art. 273, na redação
originária (reclusão, de 1 a 3 anos, e multa).
STF. Plenário. RE 979962/RS, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 24/3/2021 (Repercussão
Geral – Tema 1003) (Info 1011).

TEMAS DIVERSOS
Lei nº 7.802/89 (art. 15). Crime de transporte de agrotóxicos
A conduta consistente em transportar, no território nacional, em desacordo com as exigências
estabelecidas na legislação pertinente, agrotóxicos importados por terceiro de forma
clandestina não se adequa ao tipo de importação ilegal de substância tóxica (art. 56 da Lei
9.605/98) caso o agente não tenha ajustado ou posteriormente aderido à importação ilegal
antes da entrada do produto no país, ainda que o autor saiba da procedência estrangeira e ilegal
do produto, subsumindo-se ao tipo de transporte ilegal de agrotóxicos (art. 15 da Lei 7.802/89).
STJ. 6ª Turma. REsp 1.449.266-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 6/8/2015
(Info 568).

Lei de Tortura. Ausência de bis in idem na aplicação do art. 1º, § 4º, II, da Lei de Tortura em
conjunto com a agravante do art. 61, II, "f", do CP
No caso de crime de tortura perpetrado contra criança em que há prevalência de relações
domésticas e de coabitação, não configura bis in idem a aplicação conjunta da causa de aumento
de pena prevista no art. 1º, § 4º, II, da Lei nº 9.455/1997 (Lei de Tortura) e da agravante genérica
estatuída no art. 61, II, "f", do Código Penal.
STJ. 6ª Turma. HC 362.634-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 16/8/2016
(Info 589).

DIREITO ADMINISTRATIVO
PRINCÍPIOS ADMINISTRATIVOS
A nomeação da esposa do prefeito como Secretária Municipal não configura, por si só,
nepotismo e ato de improbidade administrativa
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A nomeação do cônjuge de prefeito para o cargo de Secretário Municipal, por se tratar de cargo
público de natureza política, por si só, não caracteriza ato de improbidade administrativa.
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STF. 2ª Turma. Rcl 22339 AgR/SP, Rel. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes,
julgado em 4/9/2018 (Info 914).

Em regra, a proibição da SV 13 não se aplica para cargos públicos de natureza política, como,
por exemplo, Secretário Municipal.
Assim, a jurisprudência do STF, em regra, tem excepcionado a regra sumulada e garantido a
permanência de parentes de autoridades públicas em cargos políticos, sob o fundamento de
que tal prática não configura nepotismo.
Exceção: poderá ficar caracterizado o nepotismo mesmo em se tratando de cargo político caso
fique demonstrada a inequívoca falta de razoabilidade na nomeação por manifesta ausência de
qualificação técnica ou inidoneidade moral do nomeado.
STF. 1ª Turma. Rcl 28024 AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/05/2018.

Necessidade de garantir contraditório e ampla defesa


A Administração Pública pode anular seus próprios atos quando estes forem ilegais. No entanto,
se a invalidação do ato administrativo repercute no campo de interesses individuais, faz-se
necessária a instauração de procedimento administrativo que assegure o devido processo legal
e a ampla defesa.
Assim, a prerrogativa de a Administração Pública controlar seus próprios atos não dispensa a
observância do contraditório e ampla defesa prévios em âmbito administrativo.
STF. 2ª Turma. RMS 31661/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 10/12/2013 (Info 732).
STF. Plenário. MS 25399/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 15/10/2014 (Info 763).

O prazo decadencial do art. 54 da Lei nº 9.784/99 não se aplica quando o ato a ser anulado
afronta diretamente a Constituição Federal
O prazo decadencial do art. 54 da Lei nº 9.784/99 não se aplica quando o ato a ser anulado
afronta diretamente a Constituição Federal.
STF. Plenário. MS 26860/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 2/4/2014 (Info 741).

ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA
É possível aplicar o regime de precatórios às empresas públicas?
Não se submetem ao regime de precatório as empresas públicas dotadas de personalidade
jurídica de direito privado com patrimônio próprio e autonomia administrativa que exerçam
atividade econômica sem monopólio e com finalidade de lucro.
STF. 1ª Turma. RE 892727/DF, rel. orig. Min. Alexandre de Morais, red. p/ o ac. Min. Rosa Weber,
julgado em 7/8/2018 (Info 910).

Personalidade judiciária das Câmaras Municipais e das Assembleias Legislativas


Súmula 525-STJ: A Câmara de vereadores não possui personalidade jurídica, apenas
personalidade judiciária, somente podendo demandar em juízo para defender os seus direitos
institucionais.

A fundação instituída pelo Estado pode estar sujeita ao regime público ou privado, a
depender do estatuto da fundação e das atividades por ela prestadas
A qualificação de uma fundação instituída pelo Estado como sujeita ao regime público ou
privado depende:
i) do estatuto de sua criação ou autorização e
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ii) das atividades por ela prestadas.


As atividades de conteúdo econômico e as passíveis de delegação, quando definidas como
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objetos de dada fundação, ainda que essa seja instituída ou mantida pelo poder público, podem
se submeter ao regime jurídico de direito privado.

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STF. Plenário. RE 716378/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 1º e 7/8/2019 (repercussão geral)
(Info 946).

RESPONSABILIDADE CIVIL
A vítima somente poderá ajuizar a ação de indenização contra o Estado; se este for condenado,
poderá acionar o servidor que causou o dano em caso de dolo ou culpa; o ofendido não poderá
propor a demanda diretamente contra o agente público
A teor do disposto no art. 37, § 6º, da Constituição Federal, a ação por danos causados por
agente público deve ser ajuizada contra o Estado ou a pessoa jurídica de direito privado
prestadora de serviço público, sendo parte ilegítima para a ação o autor do ato, assegurado o
direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa.
STF. Plenário. RE 1027633/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 14/8/2019 (repercussão
geral) (Info 947).

Responsabilidade civil do Estado em caso de morte de detento


Em caso de inobservância de seu dever específico de proteção previsto no art. 5º, inciso XLIX,
da CF/88, o Estado é responsável pela morte de detento.
STF. Plenário. RE 841526/RS, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 30/3/2016 (repercussão geral) (Info
819).

Em regra, o Estado não tem responsabilidade civil por atos praticados por presos foragidos;
exceção: quando demonstrado nexo causal direto
Nos termos do artigo 37, § 6º, da Constituição Federal, não se caracteriza a responsabilidade
civil objetiva do Estado por danos decorrentes de crime praticado por pessoa foragida do
sistema prisional, quando não demonstrado o nexo causal direto entre o momento da fuga e a
conduta praticada.
STF. Plenário. RE 608880, Rel. Min. Marco Aurélio, Relator p/ Acórdão Alexandre de Moraes,
julgado em 08/09/2020 (Repercussão Geral – Tema 362) (Info 993).

Em regra, o Estado responde de forma objetiva pelos danos causados a profissional de


imprensa ferido, por policiais, durante cobertura jornalística de manifestação pública
O Estado responde de forma objetiva pelos danos causados a profissional de imprensa ferido,
por policiais, durante cobertura jornalística de manifestação pública em que ocorra tumulto ou
conflito, desde que o jornalista não haja descumprido ostensiva e clara advertência quanto ao
acesso a áreas definidas como de grave risco à sua integridade física, caso em que poderá ser
aplicada a excludente da responsabilidade por culpa exclusiva da vítima.
Tese fixada pelo STF: “É objetiva a Responsabilidade Civil do Estado em relação a profissional da
imprensa ferido por agentes policiais durante cobertura jornalística, em manifestações em que
haja tumulto ou conflitos entre policiais e manifestantes. Cabe a excludente da responsabilidade
da culpa exclusiva da vítima, nas hipóteses em que o profissional de imprensa descumprir
ostensiva e clara advertência sobre acesso a áreas delimitadas, em que haja grave risco à sua
integridade física”.
STF. Plenário. RE 1209429/SP, Rel. Min. Marco Aurélio, redator do acórdão Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 10/6/2021 (Repercussão Geral – Tema 1055) (Info 1021).

As ações de indenização por danos morais e materiais decorrentes de perseguição, tortura e


77

prisão, por motivos políticos, ocorridas durante o regime militar, são imprescritíveis
Súmula 647-STJ: São imprescritíveis as ações indenizatórias por danos morais e materiais
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decorrentes de atos de perseguição política com violação de direitos fundamentais ocorridos


durante o regime militar.

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STJ. 1ª Seção. Aprovada em 10/03/2021, DJe 15/03/2021.

Revisão anual de vencimentos não é obrigatória, mas chefe do Executivo deve justificar
O não encaminhamento de projeto de lei de revisão anual dos vencimentos dos servidores
públicos, previsto no inciso X do art. 37 da CF/88, não gera direito subjetivo a indenização. Deve
o Poder Executivo, no entanto, se pronunciar, de forma fundamentada, acerca das razões pelas
quais não propôs a revisão.
STF. Plenário. RE 565089 /SP, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
julgado em 25/9/2019 (repercussão geral – Tema 19) (Info 953).

Judiciário não pode obrigar que o chefe do Poder Executivo encaminhe o projeto de lei para
revisão geral anual dos servidores
O Poder Judiciário não possui competência para determinar ao Poder Executivo a apresentação
de projeto de lei que vise a promover a revisão geral anual da remuneração dos servidores
públicos, tampouco para fixar o respectivo índice de correção.
STF. Plenário. RE 843112, Rel. Luiz Fux, julgado em 22/09/2020 (Repercussão Geral – Tema 624)
(Info 998).

Pessoa jurídica de direito público tem direito à indenização por danos morais relacionados à
violação da honra ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente agredida
e o dano reflexo sobre os demais jurisdicionados em geral for evidente
Suponha, contudo, que uma autarquia foi vítima de grande esquema criminoso que desviou
vultosa quantia e gerou grande repercussão na imprensa, acarretando descrédito em sua
credibilidade institucional. Neste caso, os particulares envolvidos poderiam ser condenados a
pagar indenização por danos morais à autarquia?
SIM. Pessoa jurídica de direito público tem direito à indenização por danos morais relacionados
à violação da honra ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente agredida
e o dano reflexo sobre os demais jurisdicionados em geral for evidente.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.722.423-RJ, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/11/2020 (Info
684).

PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR


Denúncia anônima
Súmula 611-STJ: Desde que devidamente motivada e com amparo em investigação ou
sindicância, é permitida a instauração de processo administrativo disciplinar com base em
denúncia anônima, em face do poder-dever de autotutela imposto à Administração.

Súmula 641-STJ: A portaria de instauração do processo administrativo disciplinar prescinde da


exposição detalhada dos fatos a serem apurados.

Validade da prova emprestada


Súmula 591-STJ: É permitida a “prova emprestada” no processo administrativo disciplinar, desde
que devidamente autorizada pelo juízo competente e respeitados o contraditório e a ampla
defesa.
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Este “empréstimo” da prova é permitido mesmo que o processo penal ainda não tenha
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transitado em julgado.

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Ausência de transcrição integral de dados obtidos por meio de interceptação telefônica não
gera nulidade
Mesmo em matéria penal, a jurisprudência do STF e do STJ é no sentido de que não é necessária
a degravação integral das escutas, sendo bastante que dos autos constem excertos suficientes
a embasar o oferecimento da denúncia.
O servidor processado, que também é réu no processo criminal, tem acesso à integralidade das
interceptações e, se entender necessário, pode juntar no processo administrativo os eventuais
trechos que considera pertinentes ao deslinde da controvérsia.
STF. 1ª Turma. RMS 28774/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Roberto
Barroso, julgado em 9/8/2016 (Info 834).

Monitoramento de e-mail corporativo de servidor público


As informações obtidas por monitoramento de e-mail corporativo de servidor público não
configuram prova ilícita quando relacionadas com aspectos "não pessoais" e de interesse da
Administração Pública e da própria coletividade, especialmente quando exista, nas disposições
normativas acerca do seu uso, expressa menção da sua destinação somente para assuntos e
matérias afetas ao serviço, bem como advertência sobre monitoramento e acesso ao conteúdo
das comunicações dos usuários para cumprir disposições legais ou instruir procedimento
administrativo.
STJ. 2ª Turma. RMS 48.665-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 15/9/2015 (Info 576).

Defesa técnica
Súmula Vinculante nº 5 do STF: A falta de defesa técnica por advogado no processo
administrativo disciplinar não ofende a Constituição.

Desnecessidade de intimação do servidor após o relatório final para alegações finais


Não é obrigatória a intimação do interessado para apresentar alegações finais após o relatório
final de processo administrativo disciplinar.
STF. 1ª Turma. RMS 28774/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Roberto
Barroso, julgado em 9/8/2016 (Info 834).
STJ. 1ª Seção. MS 18.090-DF, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 8/5/2013 (Info 523).

Inexistência de impedimento de que os membros da comissão do primeiro PAD, que foi


anulado, participem da segunda comissão
Respeitados todos os aspectos processuais relativos à suspeição e impedimento dos membros
da Comissão Processante previstos pelas Leis 8.112/90 e 9.784/99, não há qualquer
impedimento ou prejuízo material na convocação dos mesmos servidores que anteriormente
tenham integrado Comissão Processante, cujo relatório conclusivo foi posteriormente anulado
(por cerceamento de defesa), para comporem a segunda Comissão de Inquérito.
Assim, não há qualquer impeditivo legal de que a comissão de inquérito em processo
administrativo disciplinar seja formada pelos mesmos membros de comissão anterior que havia
sido anulada.
STF. 1ª Turma. RMS 28774/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Roberto
Barroso, julgado em 9/8/2016 (Info 834).
STJ. 1ª Seção. MS 16.192/DF, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 10/04/2013.

Aplicação da pena de demissão, em PAD, pela prática de improbidade administrativa


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É possível a demissão de servidor por improbidade administrativa em processo administrativo


disciplinar.
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Infração disciplinar grave que constitui ato de improbidade é causa de demissão do servidor, em
processo administrativo, independente de processo judicial prévio.
STJ. 3ª Seção. MS 14.140-DF, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 26/9/2012.

Excesso de prazo para conclusão do PAD


Súmula 592-STJ: O excesso de prazo para a conclusão do processo administrativo disciplinar só
causa nulidade se houver demonstração de prejuízo à defesa.

Termo inicial do prazo prescricional do PAD


O art. 142, § 2º da Lei nº 8.112/90 prevê que o prazo prescricional da ação disciplinar “começa
a correr da data em que o fato se tornou conhecido”.
Para que o prazo prescricional tenha início, é necessário que a irregularidade praticada pelo
servidor chegue ao conhecimento da autoridade competente para instaurar o PAD ou o prazo
já se inicia caso outras autoridades do serviço público saibam do fato?
O termo inicial da prescrição é a data do conhecimento do fato pela autoridade competente
para instaurar o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e não a ciência de qualquer
autoridade da Administração Pública.
STJ. 1ª Seção. MS 20.615/DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 08/03/2017.

Termo inicial e causa de interrupção do prazo prescricional das infrações administrativas


Súmula 635-STJ: Os prazos prescricionais previstos no art. 142 da Lei nº 8.112/1990 iniciam-se
na data em que a autoridade competente para a abertura do procedimento administrativo toma
conhecimento do fato, interrompem-se com o primeiro ato de instauração válido - sindicância
de caráter punitivo ou processo disciplinar - e voltam a fluir por inteiro, após decorridos 140 dias
desde a interrupção.

É possível a cassação de aposentadoria de servidor público pela prática, na atividade, de falta


disciplinar punível com demissão
A pena de cassação de aposentadoria é compatível com a Constituição Federal, a despeito do
caráter contributivo conferido àquela, especialmente porque nada impede que, na seara
própria, haja o acertamento de contas entre a administração e o servidor aposentado punido.
Assim, constatada a existência de infração disciplinar praticada enquanto o servidor estiver na
ativa, o ato de aposentadoria não se transforma num salvo conduto para impedir o
sancionamento do ilícito pela administração pública. Faz-se necessário observar o regramento
contido na Lei n. 8.112/1990, aplicando-se a penalidade compatível com as infrações apuradas.
STJ. 1ª Seção. MS 23.608-DF, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. Acd. Min. Og Fernandes,
julgado em 27/11/2019 (Info 666).
STF. 2ª Turma. AgR no ARE 1.092.355, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 17/5/2019.

CONCURSOS PÚBLICOS
Estado responde subsidiariamente caso a prova do concurso público seja suspensa ou
cancelada por indícios de fraude; a responsabilidade direta é da instituição organizadora
O Estado responde subsidiariamente por danos materiais causados a candidatos em concurso
público organizado por pessoa jurídica de direito privado (art. 37, § 6º, da CRFB/88), quando os
exames são cancelados por indícios de fraude.
STF. Plenário. RE 662405, Rel. Luiz Fux, julgado em 29/06/2020 (Repercussão Geral – Tema 512)
(Info 986 – clipping).
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Restrição a candidatos com tatuagem
Editais de concurso público não podem estabelecer restrição a pessoas com tatuagem, salvo
situações excepcionais em razão de conteúdo que viole valores constitucionais.
STF. Plenário. RE 898450/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 17/8/2016 (repercussão geral) (Info
835).

Não é legítima a cláusula de edital de concurso público que restrinja a participação de


candidato pelo simples fato de responder a inquérito ou a ação penal, salvo se essa restrição
for instituída por lei e se mostrar constitucionalmente adequada
Sem previsão constitucionalmente adequada e instituída por lei, não é legítima a cláusula de
edital de concurso público que restrinja a participação de candidato pelo simples fato de
responder a inquérito ou a ação penal.
STF. Plenário. RE 560900/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 5 e 6/2/2020 (repercussão
geral – Tema 22) (Info 965).

Surdez unilateral NÃO é considerada deficiência para fins de concurso público.


Cegueira unilateral É considerada deficiência para fins de concurso público.

É possível que o candidato a concurso público consiga a alteração das datas e horários
previstos no edital por motivos religiosos, desde que cumpridos alguns requisitos
Nos termos do art. 5º, VIII, da Constituição Federal, é possível a realização de etapas de concurso
público em datas e horários distintos dos previstos em edital, por candidato que invoca escusa
de consciência por motivo de crença religiosa, desde que presentes a razoabilidade da alteração,
a preservação da igualdade entre todos os candidatos e que não acarrete ônus desproporcional
à Administração Pública, que deverá decidir de maneira fundamentada.
STF. Plenário. RE 611874/DF, rel. orig. Min. Dias Toffoli, red. p/ o ac. Min. Edson Fachin, julgado
em 19/11, 25/11 e 26/11/2020 (Repercussão Geral – Tema 386) (Info 1000).

É válida a alteração na ordem de aplicação das provas do teste físico desde que anunciada
com antecedência
A simples alteração na ordem de aplicação das provas de teste físico em concurso público, desde
que anunciada com antecedência e aplicada igualmente a todos, não viola direito líquido e certo
dos candidatos inscritos.
Ex: o edital inicial dizia que, no dia da prova de esforço físico, o teste de equilíbrio seria o
primeiro e a corrida o último; depois foi publicado um novo edital alterando a ordem.
STJ. 1ª Turma. RMS 36.064-MT, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 13/6/2017 (Info 608).

Teste psicotécnico e exigência de lei


Súmula vinculante 44-STF: Só por lei se pode sujeitar a exame psicotécnico a habilitação de
candidato a cargo público.

Não compete ao Poder Judiciário, no controle de legalidade, substituir banca examinadora


Não compete ao Poder Judiciário, no controle de legalidade, substituir banca examinadora para
avaliar respostas dadas pelos candidatos e notas a elas atribuídas.
Excepcionalmente, é permitido ao Judiciário juízo de compatibilidade do conteúdo das questões
do concurso com o previsto no edital do certame.
STF. Plenário. RE 632853, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 23/04/2015 (repercussão geral)
81

(Info 782)
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Candidato só pode ser excluído de concurso público por não se enquadrar na cota para negros
se houver contraditório e ampla defesa
A exclusão do candidato, que concorre à vaga reservada em concurso público, pelo critério da
heteroidentificação, seja pela constatação de fraude, seja pela aferição do fenótipo ou por
qualquer outro fundamento, exige o franqueamento do contraditório e da ampla defesa.
STJ. 2ª Turma. RMS 62.040-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 17/12/2019 (Info 666).

O prazo para se questionar a preterição de nomeação de candidato em concurso público é de


5 anos, contado da data em que o outro servidor foi nomeado no lugar do aprovado
Nos casos de preterição de candidato na nomeação em concurso público, o termo inicial do
prazo prescricional quinquenal recai na data em que foi nomeado outro servidor no lugar do
aprovado no certame.
STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1.643.048-GO, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em
05/03/2020 (Info 668).

Posse em cargo público por determinação judicial e dever de indenizar


O candidato que teve postergada a assunção em cargo por conta de ato ilegal da Administração
tem direito a receber a remuneração retroativa?
Regra: NÃO. Não cabe indenização a servidor empossado por decisão judicial sob o argumento
de que houve demora na nomeação. Dito de outro modo, a nomeação tardia a cargo público em
decorrência de decisão judicial não gera direito à indenização.
Exceção: será devida indenização se ficar demonstrado, no caso concreto, que o servidor não foi
nomeado logo por conta de uma situação de arbitrariedade flagrante.
Nas exatas palavras do STF: “Na hipótese de posse em cargo público determinada por decisão
judicial, o servidor não faz jus à indenização, sob fundamento de que deveria ter sido investido
em momento anterior, salvo situação de arbitrariedade flagrante.”
STF. Plenário. RE 724347/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o acórdão Min. Roberto
Barroso, julgado em 26/2/2015 (repercussão geral) (Info 775).

A nomeação tardia de candidatos aprovados em concurso público não gera direito à


indenização, ainda que a demora tenha origem em erro reconhecido pela própria Administração
Pública.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.238.344-MG, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 30/11/2017 (Info 617).

Teoria do fato consumado: inaplicabilidade em concurso público


O candidato que toma posse em concurso público por força de decisão judicial precária assume
o risco de posterior reforma desse julgado que, em razão do efeito “ex tunc”, inviabiliza a
aplicação da teoria do fato consumado em tais hipóteses.
A posse ou o exercício em cargo público por força de decisão judicial de caráter provisório não
implica a manutenção, em definitivo, do candidato que não atende a exigência de prévia
aprovação em concurso público (CF, art. 37, II), valor constitucional que prepondera sobre o
interesse individual do candidato, que não pode invocar, na hipótese, o princípio da proteção
da confiança legítima, pois conhece a precariedade da medida judicial.
Em suma, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que assumiram o cargo
público por força de decisão judicial provisória posteriormente revista.
STF. Plenário. RE 608482/RN, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 7/8/2014 (repercussão geral)
(Info 753).
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STF. 1ª Turma. RMS 31538/DF, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio,
julgado em 17/11/2015 (Info 808).
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Não se pode cassar a aposentadoria do servidor que ingressou no serviço público por força de
provimento judicial precário e se aposentou durante o processo, antes da decisão ser
reformada
Em regra, não produzem fato consumado a posse e o exercício em cargo público decorrentes de
decisão judicial tomada à base de cognição não-exauriente.
Em outras palavras, não se aplica a teoria do fato consumado para candidatos que assumiram o
cargo público por força de decisão judicial provisória posteriormente revista. Trata-se do
entendimento firmado no RE 608482/RN (Tema 476).
A situação é diferente, contudo, se a pessoa, após permanecer vários anos no cargo, conseguiu
a concessão de aposentadoria. Neste caso, em razão do elevado grau de estabilidade da situação
jurídica, o princípio da proteção da confiança legítima incide com maior intensidade. Trata-se de
uma excepcionalidade que autoriza a distinção (distinguish) quanto ao leading case do RE
608482/RN (Tema 476).
STF. 1ª Turma. RE 740029 AgR/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 14/8/2018 (Info
911).

Em casos excepcionais, em que a restauração da estrita legalidade ocasionaria mais danos


sociais que a manutenção da situação consolidada pelo decurso do tempo, a jurisprudência do
STJ é firme no sentido de admitir a aplicação da teoria do fato consumado
Em regra, o STJ acompanha o entendimento do STF e decide que é inaplicável a teoria do fato
consumado aos concursos públicos, não sendo possível o aproveitamento do tempo de serviço
prestado pelo servidor que tomou posse por força de decisão judicial precária, para efeito de
estabilidade.
Contudo, em alguns casos, o STJ afirma que existem situações excepcionais nas quais a solução
padronizada ocasionaria mais danos sociais do que a manutenção da situação consolidada,
impondo-se o distinguishing, e possibilitando a contagem do tempo de serviço prestado por
força de decisão liminar, em necessária flexibilização da regra.
STJ. 1ª Turma. AREsp 883.574-MS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 20/02/2020
(Info 666).

Administração Pública deve descontar os dias não trabalhados por servidor público em greve
A administração pública deve proceder ao desconto dos dias de paralisação decorrentes do
exercício do direito de greve pelos servidores públicos, em virtude da suspensão do vínculo
funcional que dela decorre. É permitida a compensação em caso de acordo. O desconto será,
contudo, incabível se ficar demonstrado que a greve foi provocada por conduta ilícita do Poder
Público.
STF. Plenário. RE 693456/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 27/10/2016 (repercussão geral)
(Info 845).

O desconto dos dias parados pode ser feito de forma parcelada


Não se mostra razoável a possibilidade de desconto em parcela única sobre a remuneração do
servidor público dos dias parados e não compensados provenientes do exercício do direito de
greve.
STJ. 2ª Turma. RMS 49.339-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 6/10/2016 (Info 592).

Policiais são proibidos de fazer greve


O exercício do direito de greve, sob qualquer forma ou modalidade, é vedado aos policiais civis
83

e a todos os servidores públicos que atuem diretamente na área de segurança pública.


É obrigatória a participação do Poder Público em mediação instaurada pelos órgãos classistas
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das carreiras de segurança pública, nos termos do art. 165 do CPC, para vocalização dos
interesses da categoria.

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STF. Plenário. ARE 654432/GO, Rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 5/4/2017 (repercussão geral) (Info 860).

Compete à Justiça Comum (estadual ou federal) decidir se a greve realizada por servidor
público é ou não abusiva
A justiça comum, federal ou estadual, é competente para julgar a abusividade de greve de
servidores públicos celetistas da Administração pública direta, autarquias e fundações públicas.
STF. Plenário. RE 846854/SP, rel. orig. Min. Luiz Fux, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgado em 1º/8/2017 (repercussão geral) (Info 871).

O Tribunal de Contas tem o prazo de 5 anos para julgar a legalidade do ato de concessão inicial
de aposentadoria, reforma ou pensão, prazo esse contado da chegada do processo à Corte de
Contas
Em atenção aos princípios da segurança jurídica e da confiança legítima, os Tribunais de Contas
estão sujeitos ao prazo de cinco anos para o julgamento da legalidade do ato de concessão inicial
de aposentadoria, reforma ou pensão, a contar da chegada do processo à respectiva Corte de
Contas.
STF. Plenário. RE 636553/RS, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 19/2/2020 (repercussão geral
– Tema 445) (Info 967).

Se o servidor público recebe remuneração (ou aposentadoria) mais pensão, a soma dos dois
valores não pode ultrapassar o teto
Ocorrida a morte do instituidor da pensão em momento posterior ao da Emenda Constitucional
19/1998, o teto constitucional previsto no inciso XI do art. 37 da Constituição Federal incide
sobre o somatório de remuneração ou provento e pensão percebida por servidor.
STF. Plenário. RE 602584/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 6/8/2020 (Repercussão Geral
– Tema 359) (Info 985).

O pagamento indevido feito ao servidor público e que decorreu de erro administrativo está
sujeito à devolução, salvo se o servidor, no caso concreto, comprovar a sua boa-fé objetiva
Os pagamentos indevidos aos servidores públicos decorrentes de erro administrativo
(operacional ou de cálculo), não embasado em interpretação errônea ou equivocada da lei pela
Administração, estão sujeitos à devolução, ressalvadas as hipóteses em que o servidor, diante
do caso concreto, comprova sua boa-fé objetiva, sobretudo com demonstração de que não lhe
era possível constatar o pagamento indevido.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.769.306/AL, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 10/03/2021
(Recurso Repetitivo – Tema 1009) (Info 688).

IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Ação de improbidade administrativa: ministro de estado e foro competente
Os agentes políticos, com exceção do Presidente da República, encontram-se sujeitos a duplo
regime sancionatório, de modo que se submetem tanto à responsabilização civil pelos atos de
improbidade administrativa quanto à responsabilização político-administrativa por crimes de
responsabilidade.
O foro especial por prerrogativa de função previsto na Constituição Federal em relação às
infrações penais comuns não é extensível às ações de improbidade administrativa.
STF. Plenário. Pet 3240 AgR/DF, rel. Min. Teori Zavascki, red. p/ o ac. Min. Roberto Barroso,
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julgado em 10/5/2018 (Info 901).


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Terceiro
O que é o “terceiro” para fins de improbidade administrativa?
Terceiro é a pessoa física ou jurídica que, mesmo não sendo agente público, induziu ou
concorreu para a prática do ato de improbidade ou dele se beneficiou direta ou indiretamente.
Desse modo, o papel do terceiro no ato de improbidade pode ser o de:
• induzir (instigar, estimular) o agente público a praticar o ato de improbidade;
• concorrer para o ato de improbidade (auxiliar o agente público a praticar);
• ser beneficiário do ato de improbidade (obter vantagem direta ou indireta).

O “terceiro” pode ser uma pessoa jurídica?


SIM. Apesar de existirem vozes em sentido contrário (ex.: Carvalho Filho), prevalece que “as
pessoas jurídicas que participem ou se beneficiem dos atos de improbidade sujeitam-se à Lei
8.429/1992” (STJ. REsp 1.122.177/MT, DJE 27/04/2011).

Impossibilidade de ação apenas contra o terceiro


É possível imaginar que exista ato de improbidade com a atuação apenas do “terceiro” (sem a
participação de um agente público)? É possível que, em uma ação de improbidade
administrativa, o terceiro figure sozinho como réu?
NÃO. Para que o terceiro seja responsabilizado pelas sanções da Lei nº 8.429/92 é indispensável
que seja identificado algum agente público como autor da prática do ato de improbidade.
Assim, não é possível a propositura de ação de improbidade exclusivamente contra o particular,
sem a concomitante presença de agente público no polo passivo da demanda.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.171.017-PA, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 25/2/2014 (Info 535).

Caracterização de tortura como ato de improbidade administrativa


A tortura de preso custodiado em delegacia praticada por policial constitui ato de improbidade
administrativa que atenta contra os princípios da administração pública.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.177.910-SE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 26/8/2015 (Info 577).

Ação de improbidade contra agentes políticos é de competência do juízo de 1ª instância


Para o STJ, a ação de improbidade administrativa deve ser processada e julgada nas instâncias
ordinárias, ainda que proposta contra agente político que tenha foro privilegiado no âmbito
penal e nos crimes de responsabilidade.
STJ. Corte Especial. AgRg na Rcl 12.514-MT, Rel. Min. Ari Pargendler, julgado em 16/9/2013 (Info
527).

A ação de improbidade administrativa deve ser processada e julgada em 1ª instância, ainda que
tenha sido proposta contra agente político que tenha foro privilegiado no âmbito penal e nos
crimes de responsabilidade.
Logo, devem ser julgadas pelo juiz de 1ª instância (e não pelo STJ) as ações de improbidade
administrativa propostas contra:
• Governadores de Estado/DF;
• Desembargadores (TJ, TRF ou TRT);
• Conselheiros dos Tribunais de Contas (dos Estados, do DF ou dos Municípios);
• Membros do MPU que oficiem perante tribunais.
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Mesmo que o ato de improbidade tenha sido praticado em mandato anterior, se o indivíduo
for condenado, a suspensão dos direitos políticos pode ser aplicada para que ele perca o
mandato atual
O agente perde a função pública que estiver ocupando no momento do trânsito em julgado,
ainda que seja diferente daquela que ocupava no momento da prática do ato de improbidade.
A penalidade de perda da função pública imposta em ação de improbidade administrativa atinge
tanto o cargo que o infrator ocupava quando praticou a conduta ímproba quanto qualquer outro
que esteja ocupando ao tempo do trânsito em julgado da sentença condenatória.
A sanção de perda da função pública visa a extirpar da Administração Pública aquele que exibiu
inidoneidade (ou inabilitação) moral e desvio ético para o exercício da função pública,
abrangendo qualquer atividade que o agente esteja exercendo no momento do trânsito em
julgado da condenação.
STJ. 1ª Seção. EREsp 1701967/RS, Rel. para acórdão Min. Francisco Falcão, julgado em
09/09/2020.

Aplica-se às ações de improbidade administrativa o reexame necessário previsto no art. 19 da


lei da ação popular
A sentença que concluir pela carência ou pela improcedência de ação de improbidade
administrativa está sujeita ao reexame necessário, com base na aplicação subsidiária do CPC e
por aplicação analógica da primeira parte do art. 19 da Lei nº 4.717/65.
STJ. 1ª Seção. EREsp 1.220.667-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 24/5/2017 (Info
607).

LEI 13.964/2019 (PACOTE ANTICRIME): ALTERAÇÕES NA LEI DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA


(LEI 8.429/92)
• O § 1º do art. 17 da Lei nº 8.492/92 proibia a realização de a transação, acordo ou conciliação
nas ações de improbidade administrativa.
• A Lei nº 13.964/2019 alterou esse dispositivo para admitir a celebração de acordo de não
persecução cível.
• Nova redação: Art. 17. (...) § 1º As ações de que trata este artigo admitem a celebração de
acordo de não persecução cível, nos termos desta Lei.

O acordo de não persecução cível pode ser celebrado mesmo que a ação de improbidade
administrativa já esteja em fase de recurso
É possível acordo de não persecução cível no âmbito da ação de improbidade administrativa em
fase recursal.
STJ. 1ª Turma. AREsp 1.314.581/SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 23/02/2021 (Info
686).

Prazo prescricional da ação de ressarcimento ao erário


É prescritível a ação de reparação de danos à Fazenda Pública decorrente de ilícito civil.
Dito de outro modo, se o Poder Público sofreu um dano ao erário decorrente de um ilícito civil
e deseja ser ressarcido, ele deverá ajuizar a ação no prazo prescricional previsto em lei.
Vale ressaltar, entretanto, que essa tese não alcança prejuízos que decorram de ato doloso de
improbidade administrativa. São imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas
na prática de ato doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa (RE 852475/SP).
STF. Plenário. RE 669069/MG, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 3/2/2016 (repercussão geral)
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(Info 813).
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Expropriação por cultivo de drogas é afastada somente por falta de culpa do proprietário
A expropriação prevista no art. 243 da Constituição Federal pode ser afastada, desde que o
proprietário comprove que não incorreu em culpa, ainda que in vigilando ou in eligendo.
STF. Plenário. RE 635336/PE, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 14/12/2016 (repercussão geral)
(Info 851).

É possível a delegação do poder de polícia – inclusive da possibilidade de aplicação de multas


– para pessoas jurídicas de direito privado?
É constitucional a delegação do poder de polícia, por meio de lei, a pessoas jurídicas de direito
privado integrantes da Administração Pública indireta de capital social majoritariamente público
que prestem exclusivamente serviço público de atuação própria do Estado e em regime não
concorrencial.
STF. Plenário. RE 633782/MG, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 23/10/2020 (Repercussão Geral –
Tema 532) (Info 996).

Não é possível a manutenção de quiosques e trailers instalados sobre calçadas sem a regular
aprovação estatal
Se o apossamento do espaço urbano público ocorre ilegalmente, incumbe ao administrador, sob
risco de cometimento de improbidade e infração disciplinar, fazer a imediata demolição de
eventuais construções irregulares e a desocupação de bem turbado ou esbulhado.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.846.075-DF, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 03/03/2020 (Info
671).

Judiciário pode determinar que Estado implemente plantão em Delegacia de Atendimento ao


adolescente infrator
A decisão judicial que impõe à Administração Pública o restabelecimento do plantão de 24 horas
em Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e à Juventude não constitui abuso de
poder, tampouco extrapola o controle do mérito administrativo pelo Poder Judiciário.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.612.931-MS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 20/6/2017
(Info 609).

DIREITO CONSTITUCIONAL
Jornal poderá acessar dados sobre mortes registradas em ocorrências policiais
Veículo de imprensa jornalística possui direito líquido e certo de obter dados públicos sobre
óbitos relacionados a ocorrências policiais.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.852.629-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 06/10/2020 (Info 682).

É constitucional lei estadual que responsabiliza Estado-membro por danos causados a pessoas
presas na ditadura
É constitucional a Lei nº 5.751/98, do estado do Espírito Santo, de iniciativa parlamentar, que
versa sobre a responsabilidade do ente público por danos físicos e psicológicos causados a
pessoas detidas por motivos políticos.
STF. Plenário. ADI 3738/ES, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 3/11/2020 (Info 997).

Inviolabilidade de domicílio e flagrante delito


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A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno,
quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas “a posteriori”, que indiquem
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que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar,
civil e penal do agente ou da autoridade, e de nulidade dos atos praticados.

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STF. Plenário. RE 603616/RO, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 4 e 5/11/2015 (repercussão
geral) (Info 806).

Mera intuição de que está havendo tráfico de drogas na casa não autoriza o ingresso sem
mandado judicial ou consentimento do morador
O ingresso regular da polícia no domicílio, sem autorização judicial, em caso de flagrante delito,
para que seja válido, necessita que haja fundadas razões (justa causa) que sinalizem a ocorrência
de crime no interior da residência.
A mera intuição acerca de eventual traficância praticada pelo agente, embora pudesse autorizar
abordagem policial, em via pública, para averiguação, não configura, por si só, justa causa a
autorizar o ingresso em seu domicílio, sem o seu consentimento e sem determinação judicial.
STJ. 6ª Turma. REsp 1574681-RS, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, j. em 20/4/2017 (Info 606).

Falta de mandado não invalida busca e apreensão em apartamento desabitado


Não há nulidade na busca e apreensão efetuada por policiais, sem prévio mandado judicial, em
apartamento que não revela sinais de habitação, nem mesmo de forma transitória ou eventual,
se a aparente ausência de residentes no local se alia à fundada suspeita de que o imóvel é
utilizado para a prática de crime permanente.
STJ. 5ª Turma. HC 588.445-SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 25/08/2020
(Info 678).

Prova do consentimento do morador


A prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento para o ingresso na residência do
suspeito incumbe, em caso de dúvida, ao Estado, e deve ser feita com declaração assinada pela
pessoa que autorizou o ingresso domiciliar, indicando-se, sempre que possível, testemunhas do
ato. Em todo caso, a operação deve ser registrada em áudio-vídeo e preservada a prova
enquanto durar o processo.
STJ. 6ª Turma. HC 598.051/SP, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, julgado em 02/03/2021 (Info 687).

Requisitos para a concessão judicial de medicamentos não previstos pelo SUS


A concessão dos medicamentos não incorporados em atos normativos do SUS exige a presença
cumulativa dos seguintes requisitos:
a) Comprovação, por meio de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por
médico que assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim
como da ineficácia, para o tratamento da moléstia, dos fármacos fornecidos pelo SUS;
b) incapacidade financeira de arcar com o custo do medicamento prescrito;
c) existência de registro do medicamento na ANVISA, observados os usos autorizados pela
agência.
STJ. 1ª Seção. EDcl no REsp 1.657.156-RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 12/09/2018
(recurso repetitivo) (Info 633).

Estado pode ser obrigado a fornecer medicamento não registrado na ANVISA, se a sua
importação estiver autorizada, ele se mostrar imprescindível ao tratamento e houver
incapacidade financeira do paciente
Constatada a incapacidade financeira do paciente, o Estado deve fornecer medicamento que,
apesar de não possuir registro sanitário, tem a importação autorizada pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa). Para tanto, devem ser comprovadas a imprescindibilidade do
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tratamento e a impossibilidade de substituição por outro similar constante das listas oficiais de
dispensação e dos protocolos de intervenção terapêutica do Sistema Único de Saúde (SUS).
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Tese fixada pelo STF:

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Cabe ao Estado fornecer, em termos excepcionais, medicamento que, embora não possua
registro na Anvisa, tem a sua importação autorizada pela agência de vigilância sanitária, desde
que comprovada a incapacidade econômica do paciente, a imprescindibilidade clínica do
tratamento, e a impossibilidade de substituição por outro similar constante das listas oficiais de
dispensação de medicamentos e os protocolos de intervenção terapêutica do SUS.
STF. Plenário. RE 1165959/SP, Rel. Marco Aurélio, redator do acórdão Min. Alexandre de
Moraes, julgado em 18/6/2021 (Repercussão Geral – Tema 1161) (Info 1022).

Imposição de obras emergenciais em estabelecimento prisional


É lícito ao Poder Judiciário impor à Administração Pública obrigação de fazer, consistente na
promoção de medidas ou na execução de obras emergenciais em estabelecimentos prisionais
para dar efetividade ao postulado da dignidade da pessoa humana e assegurar aos detentos o
respeito à sua integridade física e moral, nos termos do que preceitua o art. 5º, XLIX, da CF, não
sendo oponível à decisão o argumento da reserva do possível nem o princípio da separação dos
poderes.
STF. Plenário. RE 592581/RS, rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 13/8/2015 (Info 794).

A omissão injustificada da Administração em providenciar a disponibilização de banho quente


nos estabelecimentos prisionais fere a dignidade de presos sob sua custódia
A omissão injustificada da Administração em providenciar a disponibilização de banho quente
nos estabelecimentos prisionais fere a dignidade de presos sob sua custódia.
A determinação de que o Estado forneça banho quente aos presos está relacionada com a
dignidade da pessoa humana, naquilo que concerne à integridade física e mental a todos
garantida.
O Estado tem a obrigação inafastável e imprescritível de tratar prisioneiros como pessoas, e não
como animais.
O encarceramento configura pena de restrição do direito de liberdade, e não salvo-conduto para
a aplicação de sanções extralegais e extrajudiciais, diretas ou indiretas.
Em presídios e lugares similares de confinamento, ampliam-se os deveres estatais de proteção
da saúde pública e de exercício de medidas de assepsia pessoal e do ambiente, em razão do
risco agravado de enfermidades, consequência da natureza fechada dos estabelecimentos,
propícia à disseminação de patologias.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.537.530-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 27/04/2017 (Info
666).

SIGILO BANCÁRIO
Os órgãos poderão requerer informações bancárias diretamente das instituições
financeiras?
POLÍCIA NÃO. É necessária autorização judicial.
NÃO. É necessária autorização judicial (STJ HC 160.646/SP, Dje
19/09/2011).
Exceção: É lícita a requisição pelo Ministério Público de informações
MP bancárias de contas de titularidade de órgãos e entidades públicas, com
o fim de proteger o patrimônio público, não se podendo falar em quebra
ilegal de sigilo bancário (STJ. 5ª Turma. HC 308.493-CE, j. em
20/10/2015).
NÃO. É necessária autorização judicial (STF MS 22934/DF, DJe de
89

9/5/2012).
TCU Exceção: O envio de informações ao TCU relativas a operações de crédito
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originárias de recursos públicos não é coberto pelo sigilo bancário (STF. MS


33340/DF, j. em 26/5/2015).

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SIM, com base no art. 6º da LC 105/2001. O repasse das informações dos
Receita Federal bancos para o Fisco não pode ser definido como sendo "quebra de sigilo
bancário".
SIM, desde que regulamentem, no âmbito de suas esferas de
Fisco estadual,
competência, o art. 6º da LC 105/2001, de forma análoga ao Decreto
distrital, municipal
Federal 3.724/2001.
SIM (seja ela federal ou estadual/distrital) (art. 4º, § 1º da LC 105/2001).
CPI
Prevalece que CPI municipal não pode.

É possível o compartilhamento, sem autorização judicial, dos relatórios de inteligência


financeira da UIF e do procedimento fiscalizatório da Receita Federal com a Polícia e o
Ministério Público
1. É constitucional o compartilhamento dos relatórios de inteligência financeira do COAF e da
íntegra do procedimento fiscalizatório da Receita Federal do Brasil (RFB), que define o
lançamento do tributo, com os órgãos de persecução penal para fins criminais, sem a
obrigatoriedade de prévia autorização judicial, devendo ser resguardado o sigilo das
informações em procedimentos formalmente instaurados e sujeitos a posterior controle
jurisdicional.
2. O compartilhamento pelo COAF e pela RFB, referente ao item anterior, deve ser feito
unicamente por meio de comunicações formais, com garantia de sigilo, certificação do
destinatário e estabelecimento de instrumentos efetivos de apuração e correção de eventuais
desvios.
STF. Plenário. RE 1055941/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 4/12/2019 (repercussão geral –
Tema 990) (Info 962).

O trancamento da pauta por conta de MPs não votadas no prazo de 45 dias só alcança projetos
de lei que versem sobre temas passíveis de serem tratados por MP
O art. 62, § 6º da CF/88 afirma que “se a medida provisória não for apreciada em até quarenta
e cinco dias contados de sua publicação, entrará em regime de urgência, subsequentemente,
em cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, até que se ultime a
votação, todas as demais deliberações legislativas da Casa em que estiver tramitando”.
Apesar de o dispositivo falar em “todas as demais deliberações”, o STF, ao interpretar esse § 6º,
não adotou uma exegese literal e afirmou que ficarão sobrestadas (paralisadas) apenas as
votações de projetos de leis ordinárias que versem sobre temas que possam ser tratados por
medida provisória.
Assim, por exemplo, mesmo havendo medida provisória trancando a pauta pelo fato de não ter
sido apreciada no prazo de 45 dias (art. 62, § 6º), ainda assim a Câmara ou o Senado poderão
votar normalmente propostas de emenda constitucional, projetos de lei complementar,
projetos de resolução, projetos de decreto legislativo e até mesmo projetos de lei ordinária que
tratem sobre um dos assuntos do art. 62, § 1º, da CF/88. Isso porque a MP somente pode tratar
sobre assuntos próprios de lei ordinária e desde que não incida em nenhuma das proibições do
art. 62, § 1º.
STF. Plenário. MS 27931/DF, Rel. Min. Celso de Mello, julgado em 29/6/2017 (Info 870).

É possível editar medidas provisórias sobre meio ambiente?


É possível a edição de medidas provisórias tratando sobre matéria ambiental, mas sempre
veiculando normas favoráveis ao meio ambiente.
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A proteção ao meio ambiente é um limite material implícito à edição de medida provisória, ainda
que não conste expressamente do elenco das limitações previstas no art. 62, § 1º, da CF/88.
Página

STF. Plenário. ADI 4717/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 5/4/2018 (Info 896).

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Governador não pode ser obrigado a depor em CPI instaurada no Congresso Nacional
Em juízo de delibação, não é possível a convocação de governadores de estados-membros da
Federação por Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada pelo Senado Federal.
A convocação viola o princípio da separação dos Poderes e a autonomia federativa dos estados-
membros.
STF. Plenário. ADPF 848 MC-Ref/DF, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 25/6/2021 (Info 1023).

Não se pode declarar a inconstitucionalidade formal da lei sob o argumento de que houve
mero descumprimento das regras do regimento interno, sendo indispensável o desrespeito às
normas constitucionais que tratam sobre o processo legislativo
O controle judicial de atos “interna corporis” das Casas Legislativas só é cabível nos casos em
que haja desrespeito às normas constitucionais pertinentes ao processo legislativo (arts. 59 a 69
da CF/88).
Tese fixada pelo STF: “Em respeito ao princípio da separação dos poderes, previsto no art. 2º da
Constituição Federal, quando não caracterizado o desrespeito às normas constitucionais
pertinentes ao processo legislativo, é defeso ao Poder Judiciário exercer o controle jurisdicional
em relação à interpretação do sentido e do alcance de normas meramente regimentais das
Casas Legislativas, por se tratar de matéria ‘interna corporis’.”
STF. Plenário. RE 1297884/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 11/6/2021 (Repercussão Geral
– Tema 1120) (Info 1021).

Imunidade do art. 51, I, e art. 86 da CF/88 não se estende para codenunciados que não sejam
Presidente da República, Vice ou Ministro de Estado
A imunidade formal prevista no art. 51, I, e no art. 86, caput, da CF/88 não se estende para os
codenunciados que não se encontrem investidos nos cargos de Presidente da República, Vice-
Presidente da República e Ministro de Estado.
A finalidade dessa imunidade é proteger o exercício regular desses cargos, razão pela qual não
é extensível a codenunciados que não se encontrem ocupando tais funções.
STF. Plenário. Inq 4483 AgR-segundo/DF e Inq 4327 AgR-segundo/DF, rel. Min. Edson Fachin,
julgados em 14 e 19/12/2017 (Info 888).

Não há necessidade de prévia autorização da ALE para que o STJ receba denúncia criminal
contra o Governador do Estado
Não há necessidade de prévia autorização da Assembleia Legislativa para que o STJ receba
denúncia ou queixa e instaure ação penal contra Governador de Estado, por crime comum.
Em outras palavras, não há necessidade de prévia autorização da ALE para que o Governador do
Estado seja processado por crime comum.
Se a Constituição Estadual exigir autorização da ALE para que o Governador seja processado
criminalmente, essa previsão é considerada inconstitucional.
Assim, é vedado às unidades federativas instituir normas que condicionem a instauração de ação
penal contra Governador por crime comum à previa autorização da Casa Legislativa.
Se o STJ receber a denúncia ou queixa-crime contra o Governador, ele ficará automaticamente
suspenso de suas funções no Poder Executivo estadual?
NÃO. O afastamento do cargo não se dá de forma automática.
O STJ, no ato de recebimento da denúncia ou queixa, irá decidir, de forma fundamentada, se há
necessidade de o Governador do Estado ser ou não afastado do cargo.
Vale ressaltar que, além do afastamento do cargo, o STJ poderá aplicar qualquer uma das
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medidas cautelares penais (exs: prisão preventiva, proibição de ausentar-se da comarca, fiança,
monitoração eletrônica etc.).
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STF. Plenário. ADI 5540/MG, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 3/5/2017 (Info 863).

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STF. Plenário. ADI 4764/AC, ADI 4797/MT e ADI 4798/PI, Rel. Min. Celso de Mello, red. p/ o ac.
Min. Roberto Barroso, julgados em 4/5/2017 (Info 863).

Réu em processo criminal não pode assumir, como substituto, o cargo de Presidente da
República
Os substitutos eventuais do Presidente da República a que se refere o art. 80 da CF/88, caso
ostentem a posição de réus criminais perante o STF, ficarão impossibilitados de exercer o ofício
de Presidente da República. No entanto, mesmo sendo réus, podem continuar na chefia do
Poder por eles titularizados.
Ex: o Presidente do Senado Renan Calheiros tornou-se réu em um processo criminal; logo, ele
não poderá assumir a Presidência da República na forma do art. 80 da CF/88; porém, ele pode
continuar normalmente como Presidente do Senado, não precisando ser afastado deste cargo.
STF. Plenário. ADPF 402 MC-REF/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 7/12/2016 (Info 850).

É possível que uma emenda constitucional seja julgada formalmente inconstitucional se ficar
demonstrado que ela foi aprovada com votos “comprados” dos parlamentares e que esse
número foi suficiente para comprometer o resultado da votação
Em tese, é possível o reconhecimento de inconstitucionalidade formal no processo constituinte
reformador quando eivada de vício a manifestação de vontade do parlamentar no curso do
devido processo constituinte derivado, pela prática de ilícitos que infirmam a moralidade, a
probidade administrativa e fragilizam a democracia representativa.
STF. Plenário. ADI 4887/DF, ADI 4888/DF e ADI 4889/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em
10/11/2020 (Info 998).

Possibilidade de decretação, de ofício, da modulação dos efeitos da decisão proferida em ADI


Caso o STF, ao julgar uma ADI, ADC ou ADPF, declare a lei ou ato normativo inconstitucional,
ele poderá, de ofício, fazer a modulação dos efeitos dessa decisão.
Ex: no julgamento de uma ADI, o STF decidiu que determinado artigo de lei é inconstitucional.
Um dos legitimados do art. 103 da CF/88 opôs embargos de declaração pedindo a modulação
dos efeitos. Ocorre que o STF considerou que esses embargos eram intempestivos. O STF,
mesmo não conhecendo dos embargos, poderá decretar a modulação dos efeitos da decisão.
STF. Plenário. ADI 5617 ED/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 2/10/2018 (Info 918).

É possível a impugnação, em sede de controle abstrato de constitucionalidade, de leis


orçamentárias.
STF. Plenário. ADI 5449 MC-Referendo/RR, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 10/3/2016 (Info
817).

Resolução do TSE pode ser objeto de ADI


A Resolução do TSE pode ser impugnada no STF por meio de ADI se, a pretexto de regulamentar
dispositivos legais, assumir caráter autônomo e inovador.
STF. Plenário. ADI 5104 MC/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 21/5/2014 (Info 747).

Não cabe ADI contra decreto regulamentar de lei


A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) é meio processual inadequado para o controle de
decreto regulamentar de lei estadual.
Seria possível a propositura de ADI se fosse um decreto autônomo. Mas sendo um decreto que
92

apenas regulamenta a lei, não é hipótese de cabimento de ADI.


STF. Plenário. ADI 4409/SP, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 6/6/2018 (Info 905).
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Alteração do parâmetro constitucional não prejudica o conhecimento da ADI
A alteração do parâmetro constitucional, quando o processo ainda está em curso, não prejudica
o conhecimento da ADI. Isso para evitar situações em que uma lei que nasceu claramente
inconstitucional volte a produzir, em tese, seus efeitos.
STF. Plenário. ADI 145/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 20/6/2018 (Info 907).

Procuração com poderes específicos para o ajuizamento de ADI


O advogado que assina a petição inicial da ação direta de inconstitucionalidade precisa de
procuração com poderes específicos. A procuração deve mencionar a lei ou ato normativo que
será impugnado na ação. Repetindo: não basta que a procuração autorize o ajuizamento de ADI,
devendo indicar, de forma específica, o ato contra o qual se insurge.
Caso esse requisito não seja cumprido, a ADI não será conhecida.
Vale ressaltar, contudo, que essa exigência constitui vício sanável e que é possível a sua
regularização antes que seja reconhecida a carência da ação.
STF. Plenário. ADI 4409/SP, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 6/6/2018 (Info 905).

Cumulação de ADI com ADC


O legitimado poderá ajuizar uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) requerendo a
inconstitucionalidade do art. XX da Lei ZZZ e, na mesma ação, pedir que o art. YY seja declarado
constitucional? É possível, em uma mesma ação, cumular pedido típico de ADI com pedido típico
de ADC?
SIM. O STF entendeu que é possível a cumulação de pedidos típicos de ADI e ADC em uma única
demanda de controle concentrado.
A cumulação de ações, neste caso, além de ser possível, é recomendável para a promoção dos
fins a que destinado o processo objetivo de fiscalização abstrata de constitucionalidade,
destinado à defesa, em tese, da harmonia do sistema constitucional.
A cumulação objetiva permite o enfrentamento judicial coerente, célere e eficiente de questões
minimamente relacionadas entre si.
Rejeitar a possibilidade de cumulação de ações, além de carecer de fundamento expresso na Lei
9.868/1999, traria como consequência apenas o fato de que o autor iria propor novamente a
demanda, com pedido e fundamentação idênticos, ação que seria distribuída por prevenção.
STF. Plenário. ADI 5316 MC/DF, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 21/5/2015 (Info 786).

O Estado-membro não possui legitimidade para recorrer contra decisões proferidas em sede
de controle concentrado de constitucionalidade
O Estado-membro não possui legitimidade para recorrer contra decisões proferidas em sede de
controle concentrado de constitucionalidade, ainda que a ADI tenha sido ajuizada pelo
respectivo Governador.
A legitimidade para recorrer, nestes casos, é do próprio Governador (previsto como legitimado
pelo art. 103 da CF/88).
Os Estados-membros não se incluem no rol dos legitimados a agir como sujeitos processuais em
sede de controle concentrado de constitucionalidade.
STF. Plenário. ADI 4420 ED-AgR, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 05/04/2018.

Cabe ADPF quando se alega que está havendo uma omissão por parte do poder público
A arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) é instrumento eficaz de
controle da inconstitucionalidade por omissão.
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A ADPF pode ter por objeto as omissões do poder público, quer totais ou parciais, normativas
ou não normativas, nas mesmas circunstâncias em que ela é cabível contra os atos em geral do
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poder público, desde que essas omissões se afigurem lesivas a preceito fundamental, a ponto
de obstar a efetividade de norma constitucional que o consagra.

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STF. Plenário. ADPF 272/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 25/3/2021 (Info 1011).

Judiciário pode impor aos parlamentares as medidas cautelares do art. 319 do CPP, no
entanto, a respectiva Casa legislativa pode rejeitá-las (caso Aécio Neves)
O Poder Judiciário possui competência para impor aos parlamentares, por autoridade própria,
as medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP, seja em substituição de prisão em flagrante
delito por crime inafiançável, por constituírem medidas individuais e específicas menos
gravosas; seja autonomamente, em circunstâncias de excepcional gravidade.
Obs: no caso de Deputados Federais e Senadores, a competência para impor tais medidas
cautelares é do STF (art. 102, I, “b”, da CF/88).
Importante, contudo, fazer uma ressalva: se a medida cautelar imposta pelo STF impossibilitar,
direta ou indiretamente, que o Deputado Federal ou Senador exerça o seu mandato, então,
neste caso, o Supremo deverá encaminhar a sua decisão, no prazo de 24 horas, à Câmara dos
Deputados ou ao Senado Federal para que a respectiva Casa delibere se a medida cautelar
imposta pela Corte deverá ou não ser mantida.
Assim, o STF pode impor a Deputado Federal ou Senador qualquer das medidas cautelares
previstas no art. 319 do CPP. No entanto, se a medida imposta impedir, direta ou indiretamente,
que esse Deputado ou Senador exerça seu mandato, então, neste caso, a Câmara ou o Senado
poderá rejeitar (“derrubar”) a medida cautelar que havia sido determinada pelo Judiciário.
Aplica-se, por analogia, a regra do §2º do art. 53 da CF/88 também para as medidas cautelares
diversas da prisão.
STF. Plenário. ADI 5526/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes,
julgado em 11/10/2017 (Info 881).

Os estados-membros detêm competência administrativa para explorar loterias


A competência da União para legislar exclusivamente sobre sistemas de consórcios e sorteios,
inclusive loterias, não obsta a competência material (administrativa) para a exploração dessas
atividades pelos entes estaduais ou municipais, nem a competência regulamentar dessa
exploração.
Os arts. 1º e 32, caput e § 1º, do Decreto-Lei 204/1967 não foram recepcionados pela
Constituição Federal de 1988.
STF. Plenário. ADPF 492/RJ, ADPF 493/DF e ADI 4986/MT, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgados em
30/9/2020 (Info 993).

Chefe da Polícia Civil tem que ser um Delegado de carreira, mas não se pode limitar aos que
integram a última classe
É inconstitucional dispositivo de CE que exija que o Superintendente da Polícia Civil seja um
delegado de polícia integrante da classe final da carreira.
STF. Plenário. ADI 3077/SE, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 16/11/2016 (Info 847).

Lei estadual não pode prever paridade e integralidade para os policiais civis nem conceder a
eles adicional de final de carreira para que recebam aposentadoria em classe superior ao que
estavam na ativa
É inconstitucional norma que preveja a concessão de aposentadoria com paridade e
integralidade de proventos a policiais civis.
É inconstitucional norma que preveja a concessão de “adicional de final de carreira” a policiais
civis.
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STF. Plenário. ADI 5039/RO, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 10/11/2020 (Info 998).
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EC 104/2019: CRIA AS POLÍCIAS PENAIS
A Polícia Penal é um órgão de segurança pública, federal, estadual ou distrital, vinculado ao
órgão que administra o sistema penal da União ou do Estado/DF sendo responsável pela
segurança dos estabelecimentos penais.
As Polícias Penais estaduais e a Polícia Penal distrital estão subordinadas aos Governadores dos
Estados e do Distrito Federal.
A Polícia Penal fica vinculada ao órgão administrador do sistema penal da unidade federativa a
que pertença.
O preenchimento do quadro de servidores das polícias penais será feito, exclusivamente, por
meio de concurso público e por meio da transformação dos cargos isolados, dos cargos de
carreira dos atuais agentes penitenciários e dos cargos públicos equivalentes.

Lei distrital não pode conferir porte de arma nem determinar o exercício de atividades de
segurança pública a agentes e inspetores de trânsito
A Constituição Federal, nos incisos do art. 144, estabelece quais são os órgãos de segurança
pública. Esse rol é taxativo e de observância obrigatória pelo legislador infraconstitucional.
Como consequência, os Estados-membros não podem atribuir o exercício de atividades de
segurança pública a órgãos diversos daqueles previstos na Constituição Federal.
Assim, a lei distrital, ao estabelecer que os agentes de trânsito exercem atividades de segurança
pública, possui vício de inconstitucionalidade material porque violou o rol taxativo dos órgãos
encarregados da segurança pública previsto no art. 144 da CF/88.
Compete aos órgãos e agentes de trânsito estaduais, distritais e municipais o exercício da
“segurança viária”, que compreende a educação, engenharia e fiscalização de trânsito, além de
outras atividades previstas em lei, que assegurem ao cidadão o direito à mobilidade urbana
eficiente (art. 144, § 10, da CF/88). As atividades de segurança viária não se confundem com
“segurança pública”.
Compete à União, nos termos do art. 21, VI; e 22, I, da Constituição, a definição dos requisitos
para a concessão do porte de arma de fogo e dos possíveis titulares de tal direito, inclusive no
que se refere a servidores públicos estaduais ou municipais, em prol da uniformidade da
regulamentação do tema no país, questão afeta a políticas de segurança pública de âmbito
nacional. Desse modo, é inconstitucional a lei distrital que disponha sobre porte de arma de
fogo, criando hipóteses não previstas na legislação federal de regência, notadamente a Lei
federal nº 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento).
STF. Plenário. ADI 3996, Rel. Luiz Fux, julgado em 15/04/2020 (Info 987 – clipping).

Norma estadual pode proibir a caça em seu território


Não afronta a competência legislativa da União o dispositivo de constituição estadual que proíbe
a caça em seu respectivo território.
STF. Plenário. ADI 350/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 18/6/2021 (Info 1022).

DIREITO CIVIL/EMPRESARIAL
É admissível o retorno ao nome de solteiro do cônjuge ainda na constância do vínculo conjugal.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.873.918-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/03/2021 (Info 687).

Transgênero pode alterar seu prenome e gênero no registro civil mesmo sem fazer cirurgia de
transgenitalização e mesmo sem autorização judicial
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O transgênero tem direito fundamental subjetivo à alteração de seu prenome e de sua


classificação de gênero no registro civil, não se exigindo, para tanto, nada além da manifestação
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de vontade do indivíduo, o qual poderá exercer tal faculdade tanto pela via judicial como
diretamente pela via administrativa.

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Essa alteração deve ser averbada à margem do assento de nascimento, vedada a inclusão do
termo “transgênero”.
Nas certidões do registro não constará nenhuma observação sobre a origem do ato, vedada a
expedição de certidão de inteiro teor, salvo a requerimento do próprio interessado ou por
determinação judicial.
Efetuando-se o procedimento pela via judicial, caberá ao magistrado determinar de ofício ou a
requerimento do interessado a expedição de mandados específicos para a alteração dos demais
registros nos órgãos públicos ou privados pertinentes, os quais deverão preservar o sigilo sobre
a origem dos atos.
STF. Plenário. RE 670422/RS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 15/8/2018 (repercussão geral)
(Info 911).

O ordenamento jurídico brasileiro não consagra o denominado direito ao esquecimento


É incompatível com a Constituição a ideia de um direito ao esquecimento, assim entendido
como o poder de obstar, em razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados
verídicos e licitamente obtidos e publicados em meios de comunicação social analógicos ou
digitais. Eventuais excessos ou abusos no exercício da liberdade de expressão e de informação
devem ser analisados caso a caso, a partir dos parâmetros constitucionais – especialmente os
relativos à proteção da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade em geral – e as
expressas e específicas previsões legais nos âmbitos penal e cível.
STF. Plenário. RE 1010606/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 11/2/2021 (Repercussão Geral
– Tema 786) (Info 1005).

Na exposição pornográfica não consentida, o fato de o rosto da vítima não estar evidenciado
de maneira flagrante é irrelevante para a configuração dos danos morais
A “exposição pornográfica não consentida”, da qual a “pornografia de vingança” é uma espécie,
constituiu uma grave lesão aos direitos de personalidade da pessoa exposta indevidamente,
além de configurar uma grave forma de violência de gênero que deve ser combatida de forma
contundente pelos meios jurídicos disponíveis.
O fato de o rosto da vítima não estar evidenciado nas fotos de maneira flagrante é irrelevante
para a configuração dos danos morais na hipótese, uma vez que a mulher vítima da pornografia
de vingança sabe que sua intimidade foi indevidamente desrespeitada e, igualmente, sua
exposição não autorizada lhe é humilhante e viola flagrantemente seus direitos de
personalidade.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.735.712-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 19/05/2020 (Info 672).

Não se admite a declaração de incapacidade absoluta às pessoas com enfermidade ou


deficiência mental
Depois do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que alterou os arts. 3º e 4º
do Código Civil, não é mais possível declarar como absolutamente incapaz o maior de 16 anos
que, em razão de enfermidade permanente, encontra-se inapto para gerir sua pessoa e
administrar seus bens de modo voluntário e consciente.
A Lei nº 13.146/2015 teve por objetivo assegurar e promover a inclusão social das pessoas com
deficiência física ou psíquica e garantir o exercício de sua capacidade em igualdade de condições
com as demais pessoas.
A partir da entrada em vigor da referida lei, só podem ser considerados absolutamente
incapazes os menores de 16 anos, ou seja, o critério passou a ser apenas etário, tendo sido
96

eliminadas as hipóteses de deficiência mental ou intelectual anteriormente previstas no Código


Civil.
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O instituto da curatela pode ser excepcionalmente aplicado às pessoas com deficiência, ainda
que agora sejam consideradas relativamente capazes, devendo, contudo, ser proporcional às
necessidades e às circunstâncias de cada caso concreto (art. 84, § 3º, da Lei nº 13.146/2015).
STJ. 3ª Turma. REsp 1.927.423/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 27/04/2021 (Info
694).

Requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica no Código Civil


O encerramento das atividades ou dissolução da sociedade, ainda que irregulares, não é causa,
por si só, para a desconsideração da personalidade jurídica prevista no Código Civil.
STJ. 2ª Seção. EREsp 1.306.553-SC, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 10/12/2014 (Info
554).

Desconsideração de sociedade limitada modesta e responsabilização do sócio não gerente


Na hipótese em que tenha sido determinada a desconsideração da personalidade jurídica de
sociedade limitada modesta na qual as únicas sócias sejam mãe e filha, cada uma com metade
das quotas sociais, é possível responsabilizar pelas dívidas dessa sociedade a sócia que, de
acordo com o contrato social, não exerça funções de gerência ou administração.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.315.110-SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 28/5/2013 (Info 524).

Membros do conselho fiscal de uma cooperativa não podem ser atingidos pela
desconsideração da personalidade jurídica se não praticaram nenhum ato de administração
A desconsideração da personalidade jurídica, ainda que com fundamento na Teoria Menor, não
pode atingir o patrimônio pessoal de membros do Conselho Fiscal sem que haja a mínima
presença de indícios de que estes contribuíram, ao menos culposamente e com desvio de
função, para a prática de atos de administração.
Caso concreto: consumidor comprou um imóvel de um cooperativa habitacional, mas este
nunca foi entregue; o consumidor ajuizou ação de cobrança contra a cooperativa, tendo o
pedido sido julgado procedente para devolver os valores pagos; durante o cumprimento de
sentença, o juiz, com base na teoria menor, fez a desconsideração da personalidade jurídica para
atingir o patrimônio pessoal dos membros do Conselho Fiscal da cooperativa; o STJ afirmou que
eles não poderiam ter sido atingidos.
A despeito de não se exigir prova de abuso ou fraude para fins de aplicação da Teoria Menor da
desconsideração da personalidade jurídica, tampouco de confusão patrimonial, o § 5º do art. 28
do CDC não dá margem para admitir a responsabilização pessoal de quem jamais atuou como
gestor da empresa.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.766.093-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, julgado em 12/11/2019 (Info 661).

(I)legitimidade da pessoa jurídica para recorrer contra a decisão que determina a


desconsideração
Em uma execução proposta pelo credor contra a empresa devedora, se o juiz determinar a
desconsideração da personalidade jurídica e a penhora dos bens dos sócios, a pessoa jurídica
tem legitimidade para recorrer contra essa decisão, desde que o recurso seja interposto com o
objetivo de defender a sua autonomia patrimonial, isto é, a proteção da sua personalidade. No
recurso, a pessoa jurídica não pode se imiscuir indevidamente na esfera de direitos dos sócios
ou administradores incluídos no polo passivo por força da desconsideração.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.421.464-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 24/4/2014 (Info 544).
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PRESCRIÇÃO
Prazo prescricional na responsabilidade contratual é de 10 anos e na responsabilidade
extracontratual é de 3 anos
É decenal o prazo prescricional aplicável às hipóteses de pretensão fundamentadas em
inadimplemento contratual.
É adequada a distinção dos prazos prescricionais da pretensão de reparação civil advinda de
responsabilidades contratual e extracontratual.
Nas controvérsias relacionadas à responsabilidade CONTRATUAL, aplica-se a regra geral (art.
205 CC/2002) que prevê 10 anos de prazo prescricional e, quando se tratar de responsabilidade
extracontratual, aplica-se o disposto no art. 206, § 3º, V, do CC/2002, com prazo de 3 anos.
Para fins de prazo prescricional, o termo “reparação civil” deve ser interpretado de forma
restritiva, abrangendo apenas os casos de indenização decorrente de responsabilidade civil
extracontratual.
Resumindo. O prazo prescricional é assim dividido:
• Responsabilidade civil extracontratual (reparação civil): 3 anos (art. 206, § 3º, V, do CC).
• Responsabilidade contratual (inadimplemento contratual): 10 anos (art. 205 do CC).
STJ. 2ª Seção. EREsp 1.280.825-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 27/06/2018 (Info 632).

OBRIGAÇÕES
É possível que o cassino cobre no Brasil por dívidas de jogo contraídas no exterior
A cobrança de dívida de jogo contraída por brasileiro em cassino que funciona legalmente no
exterior é juridicamente possível e não ofende a ordem pública, os bons costumes e a soberania
nacional.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.628.974-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 13/6/2017
(Info 610).

Juros legais
O CC-2002 prevê os juros legais no seu art. 406:
Art. 406. Quando os juros moratórios não forem convencionados, ou o forem sem taxa
estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, serão fixados segundo a taxa que
estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional.
A taxa de juros moratórios a que se refere o art. 406 do Código Civil de 2002, é a SELIC.
A incidência da taxa SELIC como juros moratórios exclui a correção monetária, sob pena de bis
in idem, considerando que a referida taxa já é composta de juros e correção monetária.
STJ. 3ª Turma. EDcl no REsp 1.025.298-RS, Rel. originário Min. Massami Uyeda, Rel. para acórdão
Min. Luis Felipe Salomão, julgados em 28/11/2012 (Info 510).

Na taxa SELIC já está embutida a correção monetária


Em caso de mora, é possível que o credor exija do devedor o pagamento da taxa SELIC (como
juros legais moratórios) e mais a correção monetária?
NÃO. No cálculo da SELIC, além de um percentual a título de juros moratórios, já é embutida a
taxa de inflação estimada para o período. Em outras palavras, a SELIC já engloba a correção
monetária. Logo, se o credor, no caso de inadimplemento do devedor, exigir a dívida principal
acrescida da SELIC e mais a correção monetária, ele estará cobrando duas vezes a correção
monetária, o que configura bis in idem.
STJ. 2ª Seção. EDcl no REsp 1025298/RS, Rel. p/ Acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
28/11/2012.
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Termo inicial dos juros e correção
Termo inicial dos JUROS MORATÓRIOS
(em caso de danos morais ou materiais)
Responsabilidade EXTRACONTRATUAL Responsabilidade CONTRATUAL
• Obrigação líquida: os juros são contados a
partir do VENCIMENTO da obrigação (art.
397). É o caso das obrigações com mora ex
Os juros fluem a partir do EVENTO DANOSO
re.
(art. 398 do CC e Súmula 54 do STJ).
• Obrigação ilíquida: os juros fluem a partir
da CITAÇÃO (art. 405 do CC). É o caso das
obrigações com mora ex persona.

Termo inicial da CORREÇÃO MONETÁRIA


Danos MATERIAIS Danos MORAIS
(Responsabilidade contratual ou (Responsabilidade contratual ou
extracontratual) extracontratual)
Incide correção monetária sobre dívida por A correção monetária do valor da
ato ilícito (contratual ou extracontratual) a indenização do dano moral incide desde a
partir da data do efetivo PREJUÍZO (Súmula data do ARBITRAMENTO (Súmula 362 do
43 do STJ) STJ).

Termo inicial da correção monetária em caso de ato ilícito


Súmula 43-STJ: Incide correção monetária sobre dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo
prejuízo.

Termo inicial da correção monetária em caso de dano moral


Súmula 362-STJ: A correção monetária do valor da indenização do dano moral incide desde a
data do arbitramento.

Termo inicial dos juros moratórios em caso de responsabilidade extracontratual


Súmula 54-STJ: Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de
responsabilidade extracontratual.

Termo inicial de juros moratórios quando fixada pensão mensal a título de responsabilidade
civil extracontratual
Na responsabilidade civil extracontratual, se houver a fixação de pensionamento mensal, os
juros moratórios deverão ser contabilizados a partir do vencimento de cada prestação, e não da
data do evento danoso ou da citação.
Não se aplica ao caso a súmula 54 do STJ, que somente tem incidência para condenações que
são fixadas em uma única parcela. Se a condenação for por responsabilidade extracontratual,
mas o juiz fixar pensão mensal, neste caso, sobre as parcelas já vencidas incidirão juros de mora
a contar da data em que venceu cada prestação. Sobre as parcelas vincendas, em princípio não
haverá juros de mora, a não ser que o devedor atrase o pagamento, situação na qual os juros
irão incidir sobre a data do respectivo vencimento.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.270.983-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 8/3/2016 (Info 580).
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Taxa de juros nos contratos bancários superior ao duodécuplo da mensal


Súmula 541-STJ: A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao duodécuplo
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da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual contratada.

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Taxa de juros nos contratos bancários e impossibilidade de comprovar a taxa de juros
contratada
Súmula 530-STJ: Nos contratos bancários, na impossibilidade de comprovar a taxa de juros
efetivamente contratada — por ausência de pactuação ou pela falta de juntada do instrumento
aos autos —, aplica-se a taxa média de mercado, divulgada pelo Bacen, praticada nas operações
da mesma espécie, salvo se a taxa cobrada for mais vantajosa para o devedor.

Estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% a.a.


Súmula 382-STJ: A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não
indica abusividade.

Responsabilidade civil no caso de ato praticado em estado de necessidade


O ato praticado em estado de necessidade é lícito, conforme previsto no art. 188, II do CC. No
entanto, mesmo sendo lícito, não afasta o dever do autor do dano de indenizar a vítima quando
esta não tiver sido responsável pela criação da situação de perigo (art. 929).
Desse modo, o causador do dano, mesmo tendo agido em estado de necessidade, deverá
indenizar a vítima e, depois, se quiser, poderá cobrar do autor do perigo aquilo que pagou (art.
930).
Vale ressaltar, no entanto, que o valor desta indenização deverá ser fixado com
proporcionalidade, evitando-se a imposição de valores abusivos (desproporcionais) para alguém
que estava agindo de forma lícita.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.292.141-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 4/12/2012 (Info 513).

O fato de ter havido prescrição da pretensão punitiva não impede o ajuizamento ou a


continuidade da ação civil ex delicto
A decretação da prescrição da pretensão punitiva do Estado na ação penal não fulmina o
interesse processual no exercício da pretensão indenizatória a ser deduzida no juízo cível pelo
mesmo fato.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.802.170-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20/02/2020 (Info 666).

Responsabilidade civil dos pais por danos causados por filho menor
A responsabilidade dos pais por filho menor (responsabilidade por ato ou fato de terceiro) é
objetiva, nos termos do art. 932, I, do CC, devendo-se comprovar apenas a culpa na prática do
ato ilícito daquele pelo qual são os pais responsáveis legalmente (ou seja, é necessário provar
apenas a culpa do filho).
Contudo, há uma exceção: os pais só respondem pelo filho incapaz que esteja sob sua
autoridade e em sua companhia; assim, os pais, ou responsável, que não exercem autoridade
de fato sobre o filho, embora ainda detenham o poder familiar, não respondem por ele.
Desse modo, a mãe que, à época de acidente provocado por seu filho menor de idade, residia
permanentemente em local distinto daquele no qual morava o menor — sobre quem apenas o
pai exercia autoridade de fato — não pode ser responsabilizada pela reparação civil advinda do
ato ilícito, mesmo considerando que ela não deixou de deter o poder familiar sobre o filho.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.232.011-SC, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 17/12/2015
(Info 575).

Responsabilidade civil dos genitores pelos danos causados por filho maior esquizofrênico
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Os pais de portador de esquizofrenia paranoide que seja solteiro, maior de idade e more
sozinho, têm responsabilidade civil pelos danos causados durante os recorrentes surtos
agressivos de seu filho, no caso em que eles, plenamente cientes dessa situação, tenham sido
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omissos na adoção de quaisquer medidas com o propósito de evitar a repetição desses fatos,
deixando de tomar qualquer atitude para interditá-lo ou mantê-lo sob sua guarda e companhia.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.101.324-RJ,Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 13/10/2015 (Info
573).

Pessoa jurídica pode sofrer dano moral


Súmula 227-STJ: A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.

Responsabilidade civil em caso de morte de filho


A pensão mensal indenizatória devida aos pais pela morte de filho menor deve ser fixada em
valor equivalente a 2/3 do salário mínimo, dos 14 até os 25 anos de idade da vítima, reduzido,
então, para 1/3 até a data em que o de cujus completaria 65 anos.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.279.173-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 4/4/2013
(Info 519).

O art. 927, parágrafo único, do CC pode ser aplicado para permitir a responsabilização objetiva
do empregador por danos causados ao empregado decorrentes de acidentes de trabalho, não
sendo incompatível com o art. 7º, XXVIII, da CF/88, que prevê responsabilidade subjetiva
O art. 927, parágrafo único, do Código Civil é compatível com o art. 7º, XXVIII, da Constituição
Federal, sendo constitucional a responsabilização objetiva do empregador por danos
decorrentes de acidentes de trabalho nos casos especificados em lei ou quando a atividade
normalmente desenvolvida, por sua natureza, apresentar exposição habitual a risco especial,
com potencialidade lesiva, e implicar ao trabalhador ônus maior do que aos demais membros
da coletividade.
STF. Plenário. RE 828040/DF, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 12/3/2020
(repercussão geral – Tema 932) (Info 969).

Agressões físicas ou verbais praticadas por adulto contra criança geram dano moral in re ipsa
A conduta de um adulto que pratica agressão verbal ou física contra criança ou adolescente
configura elemento caracterizador da espécie do dano moral in re ipsa.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.642.318-MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 7/2/2017 (Info 598).

Acidente de carro sem vítimas: danos morais devem ser provados


Os danos decorrentes de acidentes de veículos automotores sem vítimas não caracterizam dano
moral in re ipsa.
Vale ressaltar que é possível a condenação de danos morais em casos de acidente de trânsito,
no entanto, trata-se de situação excepcional, sendo necessário que a parte demonstre
circunstâncias peculiares que indiquem o extrapolamento da esfera exclusivamente
patrimonial.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.653.413-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 05/06/2018 (Info
627).

Acidente de trânsito, responsabilidade civil e possibilidade de ajuizamento de ação para


complementação das verbas já recebidas por força de acordo extrajudicial
Em regra, a quitação ampla, geral e irrevogável efetivada em acordo extrajudicial deve ser
presumida válida e eficaz, não se autorizando o ingresso na via judicial para ampliar verbas
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indenizatórias anteriormente aceitas e recebidas.


Existem, contudo, exceções a essa regra.
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O curto espaço de tempo entre o acidente e a assinatura do acordo e desconhecimento da
integralidade dos danos constitui exceção à regra de que a quitação plena e geral desautoriza o
ajuizamento de ação para ampliar a verba indenizatória aceita e recebida.
STJ. 4ª Turma. AgInt no REsp 1.833.847-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em
20/04/2020 (Info 671).

O simples fato de o condutor responsável pelo acidente de trânsito ter fugido sem prestar
socorro à vítima não configura dano moral in re ipsa; logo, o dano moral terá que ser
demonstrado para que haja indenização
A omissão de socorro à vítima de acidente de trânsito, por si, não configura hipótese de dano
moral in re ipsa.
A evasão do réu do local do acidente pode, a depender do caso concreto, causar ofensa à
integridade física e psicológica da vítima, no entanto, para isso, deverão ser analisadas as
particularidades envolvidas.
Haverá circunstâncias em que a fuga do réu, sem previamente verificar se há necessidade de
auxílio aos demais envolvidos no acidente, superará os limites do mero aborrecimento e, por
consequência, importará na devida compensação pecuniária do sofrimento gerado. Por outro
lado, é possível conceber situação hipotética em que a evasão do réu do local do sinistro não
causará transtorno emocional ou psicológico à vítima.
Logo, o simples fato de ter havido omissão de socorro não significa, por si só, que houve dano
moral. Não se trata de hipótese de dano moral presumido.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.512.001-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 27/04/2021
(Info 694).

Possibilidade de cumulação de danos morais e danos materiais


Súmula 37-STJ: São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do
mesmo fato.

Possibilidade de cumulação de danos morais e danos estéticos


Súmula 387-STJ: É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral.

Danos morais não estão sujeitos à tarifação por meio de lei


Súmula 281-STJ: A indenização por dano moral não está sujeita à tarifação prevista na Lei de
Imprensa.

Transmissibilidade dos danos morais


Súmula 642-STJ: O direito à indenização por danos morais transmite-se com o falecimento do
titular, possuindo os herdeiros da vítima legitimidade ativa para ajuizar ou prosseguir a ação
indenizatória.
STJ. Corte Especial. Aprovada em 02/12/2020, DJe 07/12/2020.

Dano social não se confunde com dano material, moral ou estético


O dano social é uma nova espécie de dano reparável, que não se confunde com os danos
materiais, morais e estéticos, e que decorre de comportamentos socialmente reprováveis, que
diminuem o nível social de tranquilidade.
Em uma ação individual, o juiz condenou o réu ao pagamento de danos morais e, de ofício,
102

determinou que pagasse também danos sociais em favor de uma instituição de caridade.
O STJ entendeu que essa decisão é nula, por ser “extra petita”.
Para que haja condenação por dano social, é indispensável que haja pedido expresso.
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Vale ressaltar, no entanto, que, no caso concreto, mesmo que houvesse pedido de condenação
em danos sociais na demanda em exame, o pleito não poderia ter sido julgado procedente, pois
esbarraria na ausência de legitimidade para postulá-lo. Isso porque, na visão do STJ, a
condenação por danos sociais somente pode ocorrer em demandas coletivas e, portanto,
apenas os legitimados para a propositura de ações coletivas poderiam pleitear danos sociais.
Em suma, não é possível discutir danos sociais em ação individual.
STJ. 2ª Seção. Rcl 12.062-GO, Rel. Ministro Raul Araújo, j. em 12/11/2014 (recurso repetitivo)
(Info 552).

RESPONSABILIDADE CIVIL E INSTITUIÇÃO BANCÁRIA


Responsabilidade civil do banco por compensação de cheque adulterado
O banco responde objetivamente pelos danos causados ao correntista por conta da
compensação de cheque falsificado (sem culpa do cliente), ainda que a falsificação seja
sofisticada.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.093.440-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 2/4/2013 (Info 520).

RESPONSABILIDADE CIVIL E LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Responsabilidade do autor do escrito e do proprietário do veículo de imprensa
Súmula 221-STJ: São civilmente responsáveis pelo ressarcimento de dano, decorrente de
publicação pela imprensa, tanto o autor do escrito quanto o proprietário do veículo de
divulgação.

RESPONSABILIDADE CIVIL E ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO


Responsabilidade civil e ausência de transferência do veículo
Súmula 132-STJ: A ausência de registro da transferência não implica a responsabilidade do
antigo proprietário por dano resultante de acidente que envolva o veículo alienado.

Veículo locado
Súmula 492-STF: A empresa locadora de veículos responde, civil e solidariamente com o
locatário, pelos danos por este causados a terceiro, no uso do carro locado.

Responsabilidade do transportador
Súmula 187-STF: A responsabilidade contratual do transportador, pelo acidente com o
passageiro, não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva.

Valor recebido de DVPAT deve ser abatido da indenização


Súmula 246-STJ: O valor do seguro obrigatório deve ser deduzido da indenização judicialmente
fixada.

RESPONSABILIDADE CIVIL E INTERNET


Facebook não é obrigado a fornecer os dados de todos os usuários que compartilharam post
contendo fake news
É vedado ao provedor de aplicações de internet fornecer dados de forma indiscriminada dos
usuários que tenham compartilhado determinada postagem, em pedido genérico e coletivo,
sem a especificação mínima de uma conduta ilícita realizada.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.859.665/SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 09/03/2021 (Info
103

688).
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A divulgação pelos interlocutores ou por terceiros de mensagens trocadas via WhatsApp pode
ensejar a responsabilização por eventuais danos decorrentes da difusão do conteúdo
As conversas travadas por meio do WhatsApp são resguardadas pelo sigilo das comunicações.
Assim, terceiros somente podem ter acesso às conversas de WhatsApp se houver
consentimento dos participantes ou autorização judicial.
As mensagens eletrônicas estão protegidas pelo sigilo em razão de o seu conteúdo ser privado,
isto é, restrito aos interlocutores.
Dessa forma, ao enviar mensagem a determinado ou a determinados destinatários, via
WhatsApp, o emissor tem a expectativa de que ela não será lida por terceiros, quanto menos
divulgada ao público, seja por meio de rede social ou da mídia.
Essa expectativa advém não só do fato de ter o indivíduo escolhido a quem enviar a mensagem,
como também da própria encriptação a que estão sujeitas as conversas (criptografia ponta-a-
ponta).
Além disso, se a sua intenção fosse levar ao conhecimento de diversas pessoas o conteúdo da
mensagem, a pessoa que enviou a mensagem teria optado por uma rede social menos restrita
ou mesmo repassado a informação à mídia para que fosse divulgada.
Assim, se o indivíduo divulga ao público uma conversa privada, além de estar quebrando o dever
de confidencialidade, está também violando legítima expectativa, a privacidade e a intimidade
do emissor. Justamente por isso, esse indivíduo pode ser responsabilizado por essa divulgação
caso se configure o dano.
É importante consignar que a ilicitude poderá ser descaracterizada (afastada) quando a
exposição das mensagens tiver como objetivo resguardar um direito próprio do receptor. Nesse
caso, será necessário avaliar as peculiaridades concretas para fins de decidir qual dos direitos
em conflito deverá prevalecer.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.903.273-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 24/08/2021 (Info 706).

Seguro e atraso no pagamento


Súmula 616-STJ: A indenização securitária é devida quando ausente a comunicação prévia do
segurado acerca do atraso no pagamento do prêmio, por constituir requisito essencial para a
suspensão ou resolução do contrato de seguro.

Seguro de vida e suicídio


Súmula 610-STJ: O suicídio não é coberto nos dois primeiros anos de vigência do contrato de
seguro de vida, ressalvado o direito do beneficiário à devolução do montante da reserva
técnica formada.
Está cancelada a súmula 61 do STJ, que tinha a seguinte redação: “O seguro de vida cobre o
suicídio não premeditado”.

Doença preexistente
Súmula 609-STJ: A recusa de cobertura securitária, sob a alegação de doença preexistente, é
ilícita se não houve a exigência de exames médicos prévios à contratação ou a demonstração de
má-fé do segurado.

Cláusula de invalidez total deve abranger a incapacidade de exercer qualquer profissão


O fato de o beneficiário de seguro de vida ter sido reformado pelo Exército em razão de
incapacidade total para sua atividade habitual (serviço militar) não implica, por si só, o direito à
104

percepção de indenização securitária em seu grau máximo quando a apólice de seguro estipula
que esse grau máximo é devido no caso de invalidez total permanente para qualquer atividade
laboral.
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STJ. 3ª Turma. REsp 1.318.639-MS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 26/4/2016
(Info 582).

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Seguro de veículos e transferência sem comunicação à seguradora
Súmula 465-STJ: Ressalvada a hipótese de efetivo agravamento do risco, a seguradora não se
exime do dever de indenizar em razão da transferência do veículo sem a sua prévia
comunicação.

Indenização securitária pelo valor do automóvel no momento do sinistro


No caso de contrato de seguro de automóvel, havendo perda total, a seguradora deverá
indenizar o segurado com base na tabela vigente na data do sinistro, e não na data do efetivo
pagamento (liquidação do sinistro).
É abusiva a cláusula de contrato de seguro de automóvel que, na ocorrência de perda total do
veículo, estabelece a data do efetivo pagamento (liquidação do sinistro) como parâmetro do
cálculo da indenização securitária a ser paga conforme o valor médio de mercado do bem, em
vez da data do sinistro.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.163-GO, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 5/5/2016
(Info 583).

O atraso do segurado em comunicar o seguro que houve um sinistro com o veículo nem sempre
irá gerar a perda da indenização securitária
O art. 771 do CC determina que o segurado deverá comunicar imediatamente à seguradora
quando ocorrer algum sinistro envolvendo o veículo, já que isso possibilita que esta tome
medidas que possam amenizar os prejuízos da realização do risco, bem como a sua propagação.
Esse dispositivo legal prevê que, se não houver esta comunicação imediata, o segurado perderá
o direito à indenização.
Vale ressaltar, no entanto, que, para que ocorra a sanção prevista no art. 771 do CC, é necessário
que fique demonstrada a ocorrência de uma omissão dolosa do segurado, que beire a má-fé, ou
culpa grave e que, com isso, prejudique, de forma desproporcional, a atuação da seguradora.
Assim, se o segurado demorou três dias para comunicar à seguradora que o veículo foi roubado
porque foi ameaçado pelo criminoso, ele não perderá o direito de ser indenizado já que, neste
caso, não poderia ser dele exigido comportamento diverso.
Resumindo: o segurado que, devido às ameaças de morte feitas pelo criminoso a ele e à sua
família, deixou de comunicar prontamente o roubo do seu veículo à seguradora não perde o
direito à indenização securitária (art. 771 do CC).
STJ. 3ª Turma. REsp 1.404.908-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 2/8/2016
(Info 590).

FIANÇA
Fiança prestada por fiador casado sem a autorização do cônjuge
Súmula 332-STJ: A fiança prestada sem autorização de um dos cônjuges implica a ineficácia total
da garantia.

Fiança prestada por fiador convivente em união estável sem a outorga uxória do outro
companheiro
Ainda que a união estável esteja formalizada por meio de escritura pública, é válida a fiança
prestada por um dos conviventes sem a autorização do outro.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.299.866-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 25/2/2014 (Info
105

535).
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Transação ou moratória sem anuência do fiador
Se houver transação e/ou moratória entre credor e devedor, sem a anuência do fiador, este não
responde pelas obrigações resultantes do pacto adicional (o fiador ficará desonerado).
STJ. 4ª Turma. REsp 1.013.436-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 11/9/2012 (Info
504).

DIREITOS REAIS
Invalidade da penhora sobre a integralidade de imóvel submetido a time-sharing
É inválida a penhora da integralidade de imóvel submetido ao regime de multipropriedade
(time-sharing) em decorrência de dívida de condomínio de responsabilidade do organizador do
compartilhamento.
A multipropriedade imobiliária, mesmo não efetivamente codificada, possui natureza jurídica
de direito real, harmonizando-se com os institutos constantes do rol previsto no art. 1.225 do
Código Civil.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.546.165-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. para acórdão Min.
João Otávio de Noronha, julgado em 26/4/2016 (Info 589).

CONDOMÍNIO COMUM
Inaplicabilidade do direito de preferência em contrato de compra e venda celebrado entre
condôminos
O direito de preferência previsto no art. 504 do CC aplica-se ao contrato de compra e venda
celebrado entre condômino e terceiro, e não àquele ajustado entre condôminos.
Art. 504. Não pode um condômino em coisa indivisível vender a sua parte a estranhos, se outro
consorte a quiser, tanto por tanto. O condômino, a quem não se der conhecimento da venda,
poderá, depositando o preço, haver para si a parte vendida a estranhos, se o requerer no prazo
de cento e oitenta dias, sob pena de decadência.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.137.176-PR, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 16/2/2016 (Info 577).

CONDOMÍNIO EDILÍCIO
Condômino inadimplente e direito a voto
O condômino que estiver em débito com as obrigações condominiais não poderá votar nas
assembleias do condomínio (art. 1.335, III, do CC).
No entanto, se o condômino for proprietário de diversas unidades autônomas, ainda que
inadimplente em relação a uma ou algumas destas, terá direito de participação e de voto
relativamente às suas unidades que estejam em dia com as taxas do condomínio.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.375.160-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 1º/10/2013 (Info 530).

Não se pode proibir o condômino inadimplente de usar as áreas comuns do condomínio


O condomínio, independentemente de previsão em regimento interno, não pode proibir, em
razão de inadimplência, condômino e seus familiares de usar áreas comuns, ainda que
destinadas apenas a lazer.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.564.030-MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 9/8/2016 (Info
588).

Aplicação de multas sancionatória e moratória por inadimplência condominial contumaz


Se o condômino descumpre reiteradamente o dever de contribuir para as despesas do
106

condomínio (inciso I do art. 1.336 do CC), o condomínio poderá aplicar contra ele, além da multa
moratória (§ 1º do art. 1.336 do CC), multa sancionatória em razão de comportamento
"antissocial" ou "nocivo" (art. 1.337 do CC).
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Assim, o condômino que deixar de adimplir reiteradamente a importância devida a título de
cotas condominiais poderá, desde que aprovada a sanção em assembleia por deliberação de 3/4
(três quartos) dos condôminos, ser obrigado a pagar multa em até o quíntuplo do valor atribuído
à contribuição para as despesas condominiais, conforme a gravidade da falta e a sua reiteração.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.247.020-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 15/10/2015 (Info
573).

Aplicação de multa a condômino antissocial e direito de defesa


O Código Civil prevê que, se o condômino apresentar reiterado comportamento antissocial,
poderá ser punido com multa (art. 1.337, parágrafo único).
Essa sanção para o comportamento antissocial reiterado de condômino só poderá ser aplicada
se antes foram conferidas ao condômino as garantias da ampla defesa e do contraditório.
Enunciado 92-CJF: Art. 1.337: As sanções do art. 1.337 do novo Código Civil não podem ser
aplicadas sem que se garanta direito de defesa ao condômino nocivo.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.365.279-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 25/8/2015 (Info
570).

ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA


Desnecessidade de registro do contrato de alienação fiduciária de veículos no RTD
Quando for realizada a alienação fiduciária de um veículo, o contrato deverá ser registrado no
DETRAN e esta informação constará no CRV do automóvel.
É desnecessário o registro do contrato de alienação fiduciária de veículos em cartório.
STF. Plenário. RE 611639/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 21/10/2015 (repercussão
geral).
STF. Plenário. ADI 4333/DF e ADI 4227/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgados em 21/10/2015
(Info 804).

Bem que já integrava o patrimônio do devedor


Súmula 28-STJ: O contrato de alienação fiduciária em garantia pode ter por objeto bem que já
integrava o patrimônio do devedor.
Obs: entendimento válido também para as demais espécies de alienação fiduciária.

Notificação do devedor inadimplente


Como é feita a notificação do devedor inadimplente? Precisa ser realizada por intermédio do
Cartório de Títulos e Documentos?
NÃO. Essa notificação é feita por meio de carta registrada com aviso de recebimento. Logo, não
precisa ser realizada por intermédio do Cartório de RTD.

O aviso de recebimento da carta (AR) precisa ser assinado pelo próprio devedor?
NÃO. A Lei nº 13.043/2014 alterou o § 2º do art. 2º do DL 911/69, deixando expresso que não
se exige que a assinatura constante do aviso de recebimento seja a do próprio destinatário.

Súmula 72-STJ: A comprovação da mora é imprescindível à busca e apreensão do bem alienado


fiduciariamente.

Notificação e dispensa de indicação do valor do débito


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Súmula 245-STJ: A notificação destinada a comprovar a mora nas dívidas garantidas por
alienação fiduciária dispensa a indicação do valor do débito.
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Resposta
Em ação de busca e apreensão de bem alienado fiduciariamente, o termo inicial para a contagem
do prazo de 15 dias para o oferecimento de resposta pelo devedor fiduciante é a data de juntada
aos autos do mandado de citação devidamente cumprido (e não a data da execução da medida
liminar).
O mandado de busca e apreensão/citação veicula, simultaneamente, a comunicação ao devedor
acerca da retomada do bem alienado fiduciariamente e sua citação, daí decorrendo dois prazos
diversos:
a) de 5 dias, contados da execução da liminar, para o pagamento da dívida; e
b) de 15 dias, a contar da juntada do mandado aos autos, para o oferecimento de resposta.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.321.052-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 16/8/2016
(Info 588).

Obs1: a resposta poderá ser apresentada ainda que o devedor tenha decidido pagar a
integralidade da dívida, caso entenda ter havido pagamento a maior e deseje a restituição.
Obs2: nesta defesa apresentada pelo devedor, é possível que ele invoque a ilegalidade das
cláusulas contratuais (ex: juros remuneratórios abusivos). Se ficar provado que o contrato era
abusivo, isso justificaria o inadimplemento e descaracterizaria a mora.

Há necessidade de ajuizamento de ação autônoma para pleitear a prestação de contas


relativa à venda extrajudicial em ação de busca e apreensão de bem alienado fiduciariamente
STJ. 3ª Turma. REsp 1.866.230-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 22/09/2020 (Info 680).

Aplicação das regras do DL 911/69 ao leasing


O arrendamento mercantil (também chamado de leasing) é uma espécie de contrato de locação,
no qual o locatário tem a possibilidade de, ao final do prazo do ajuste, comprar o bem pagando
uma quantia chamada de valor residual garantido (VRG).
A Lei nº 6.099/74 dispõe sobre o tratamento tributário das operações de arrendamento
mercantil, mas não trata, de forma detalhada, a respeito das regras e procedimentos aplicáveis
nos casos de leasing.
Pensando nisso, a Lei nº 13.043/2014 determinou que o procedimento adotado pelo DL 911/69
para o caso de inadimplemento do devedor na alienação fiduciária, inclusive o regramento sobre
a ação de busca e apreensão, deveria ser também aplicado para o arrendamento mercantil.
Assim, a partir da Lei nº 13.043/2014 os procedimentos previstos no art. 2º, caput e § 2º e no
art. 3º do DL 911/69 (regras relacionadas com a alienação fiduciária) deverão ser aplicadas às
operações de arrendamento mercantil (leasing).

Alienação fiduciária não anotada no CRV


Súmula 92-STJ: A terceiro de boa-fé não é oponível a alienação fiduciária não anotada no
certificado de registro do veículo automotor.

PROMESSA DE COMPRA E VENDA


Execução compulsória
Súmula 413-STF: O compromisso de compra e venda de imóveis, ainda que não loteados, dá
direito a execução compulsória, quando reunidos os requisitos legais.
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Prévia interpelação para constituir em mora o devedor


Súmula 76-STJ: A falta de registro do compromisso de compra e venda de imóvel não dispensa
a prévia interpelação para constituir em mora o devedor.
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Compromisso de compra e venda com cláusula de arrependimento
Súmula 412-STF: No compromisso de compra e venda com cláusula de arrependimento, a
devolução do sinal, por quem o deu, ou a sua restituição em dobro, por quem o recebeu, exclui
indenização maior a título de perdas e danos, salvo os juros moratórios e os encargos do
processo.

Embargos de terceiro
Súmula 84-STJ: É admissível a oposição de embargos de terceiro fundados em alegação de posse
advinda do compromisso de compra e venda de imóvel, ainda que desprovido do registro.

Adjudicação compulsória e registro de compra e venda


Súmula 239-STJ: O direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do
compromisso de compra e venda no cartório de imóveis.

Hipoteca e promessa de compra e venda


Súmula 308-STJ: A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou
posterior à celebração da promessa de compra e venda, não tem eficácia perante os adquirentes
do imóvel.

BEM DE FAMÍLIA
Bem de família e pessoa que mora sozinha
Súmula 364-STJ: O conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel
pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas.

Impenhorabilidade de bem de família alugado


Súmula 486-STJ: É impenhorável o único imóvel residencial do devedor que esteja locado a
terceiros, desde que a renda obtida com a locação seja revertida para a subsistência ou a
moradia da sua família.

Impenhorabilidade do único imóvel comercial do devedor que esteja alugado


Segundo a redação literal da súmula 486-STJ, "é impenhorável o único imóvel RESIDENCIAL do
devedor que esteja locado a terceiros, desde que a renda obtida com a locação seja revertida
para a subsistência ou a moradia da sua família."
A 2ª Turma do STJ, contudo, ampliou esta proteção e decidiu que também é impenhorável o
único imóvel COMERCIAL do devedor que esteja alugado quando o valor do aluguel é destinado
unicamente ao pagamento de locação residencial por sua entidade familiar.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.616.475-PE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 15/9/2016 (Info 591).

Bem de família ocupado por familiar


Se o executado possui um único imóvel residencial, mas quem mora nele é um parente (ex.:
filho), mesmo assim esse imóvel será considerado como bem de família, sendo impenhorável.
Em outras palavras, constitui bem de família, insuscetível de penhora, o único imóvel residencial
do devedor em que resida seu familiar, ainda que o proprietário nele não habite.
STJ. 2ª Seção. EREsp 1.216.187-SC, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, julgado em 14/5/2014 (Info
543).
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Impenhorabilidade do imóvel em nome da sociedade empresária, mas no qual reside o sócio


A impenhorabilidade do bem de família no qual reside o sócio devedor não é afastada pelo fato
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de o imóvel pertencer à sociedade empresária.


STJ. 4ª Turma. EDcl no AREsp 511.486-SC, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 3/3/2016 (Info 579).

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O crédito oriundo de contrato de empreitada para a construção, ainda que parcial, de imóvel
residencial, encontra-se nas exceções legais à impenhorabilidade do bem de família
O crédito oriundo de contrato de empreitada para a construção, ainda que parcial, de imóvel
residencial, encontra-se nas exceções legais à impenhorabilidade do bem de família.
Ex: João comprou uma casa antiga para reformar e passar a morar ali com a família. Ele
contratou a empresa FB Engenharia para fazer a reforma. A empresa terminou o serviço e João
passou a residir no local. Ocorre que ele não pagou as últimas parcelas do contrato com a
empresa e ficou devendo R$ 40 mil, materializado em notas promissórias. O imóvel onde João
reside poderá ser penhorado para pagar a dívida, sendo essa uma exceção à impenhorabilidade
do bem de família. Fundamento: art. 3º, II, da Lei nº 8.009/90.
Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal,
previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido: (...) II - pelo titular do crédito
decorrente do financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos
créditos e acréscimos constituídos em função do respectivo contrato;
STJ. 4ª Turma. REsp 1.221.372-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 15/10/2019 (Info 658).

Bem de família dado em garantia hipotecária


O bem de família é IMPENHORÁVEL quando for dado em garantia real de dívida por um dos
sócios da pessoa jurídica, cabendo ao credor o ônus da prova de que o proveito se reverteu à
entidade familiar.
O bem de família é PENHORÁVEL quando os únicos sócios da empresa devedora são os titulares
do imóvel hipotecado, sendo ônus dos proprietários a demonstração de que não se
beneficiaram dos valores auferidos. Assim, é possível a penhora de bem de família dado em
garantia hipotecária pelo casal quando os cônjuges forem os únicos sócios da pessoa jurídica
devedora.
STJ. 2ª Seção. EAREsp 848.498-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 25/04/2018 (Info
627).

Bem de família e vaga de garagem


Súmula 449-STJ: A vaga de garagem que possui matrícula própria no registro de imóveis não
constitui bem de família para efeito de penhora.

Bem de família e imóvel rural


Tratando-se de bem de família que se constitua em imóvel rural, é possível que se determine a
penhora da fração que exceda o necessário à moradia do devedor e de sua família.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.237.176-SP, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 4/4/2013 (Info 521).

Possibilidade de penhora do bem de família do fiador


Súmula 549-STJ: É válida a penhora de bem de família pertencente a fiador de contrato de
locação.
STJ. 2ª Seção. Aprovada em 14/10/2015, DJe 19/10/2015.

É possível penhorar a casa do fiador por dívidas decorrentes do contrato de locação?


SIM. É legítima a penhora de bem de família pertencente a fiador de contrato de locação. Isso
porque o art. 3º, VII, da Lei 8.009/90 afirma que a impenhorabilidade do bem de família não se
aplica no caso de dívidas do fiador decorrentes do contrato de locação.
110

O STF decidiu que esse dispositivo é constitucional e não viola o direito à moradia.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.363.368-MS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 12/11/2014
(recurso repetitivo) (Info 552).
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Impenhorabilidade do bem de família e contratos de locação comercial
Não é penhorável o bem de família do fiador no caso de contratos de locação comercial.
Em outras palavras, não é possível a penhora de bem de família do fiador em contexto de
locação comercial.
STF. 1ª Turma. RE 605709/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, red. p/ ac. Min. Rosa Weber, julgado em
12/6/2018 (Info 906).

Hipóteses de penhorabilidade do bem de família devem ser interpretadas restritivamente


Segundo o STJ, as exceções à impenhorabilidade do bem de família, previstas no art. 3º, da Lei
nº 8.009/90, devem ser interpretadas restritivamente.
STJ. 4ª Turma. REsp 997.261-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 15/3/2012.

Penhora do bem de família para pagamento de pensão alimentícia


O bem de família pode ser penhorado para pagar débitos relativos à pensão alimentícia.
Segundo o STJ, esses débitos de pensão alimentícia podem ser decorrentes de relações
familiares, como também os alimentos devidos em razão de obrigação de reparar danos
(obrigação oriunda de ato ilícito).
Assim, a impenhorabilidade do bem de família não pode ser oposta pelo devedor ao credor de
pensão alimentícia decorrente de indenização por ato ilícito.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.186.225-RS, Rel. Min. Massami Uyeda, julgado em 4/9/2012.

Não se pode penhorar o bem de família com base no inciso IV do art. 3º da Lei 8.009/90 se o
débito de natureza tributária está relacionado com outro imóvel que pertencia ao devedor
Para a aplicação da exceção à impenhorabilidade do bem de família prevista no art. 3º, IV, da
Lei nº 8.009/90 é preciso que o débito de natureza tributária seja proveniente do próprio
imóvel que se pretende penhorar.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.332.071-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 18/02/2020
(Info 665).

Penhora do bem de família e garantia de dívida


É possível a penhora do bem de família para execução de hipoteca sobre o imóvel oferecido
como garantia real pelo casal ou pela entidade familiar (inciso V do art. 3º).
A exceção prevista no art. 3º, V, da Lei nº 8.009/90, que deve ser interpretada restritivamente,
somente atinge os bens que foram dados em garantia de dívidas contraídas em benefício da
própria família, não abrangendo bens dados em garantia de terceiros.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.115.265-RS, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 24/4/2012.

Penhorabilidade de bem de família dado em hipoteca não registrada


O art. 3º da Lei nº 8.009/90 traz as hipóteses em que o bem de família legal pode ser penhorado.
O inciso V afirma que o imóvel poderá ser penhorado, mesmo sendo bem de família, se ele foi
dado como hipoteca (garantia real) de uma dívida em favor da entidade familiar e esta,
posteriormente, não foi paga. Neste caso, o bem de família poderá ser alienado e seu produto
utilizado para satisfazer o credor.
Vale ressaltar que não é necessário que a hipoteca esteja registrada no cartório de Registro de
Imóveis. Assim, a ausência de registro da hipoteca em cartório de registro de imóveis não afasta
a exceção à regra de impenhorabilidade prevista no art. 3º, V, da Lei nº 8.009/90.
111

Em outras palavras, o fato de a hipoteca não ter sido registrada não pode ser utilizado como
argumento pelo devedor para evitar a penhora do bem de família.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.455.554-RN, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 14/6/2016
Página

(Info 585).

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Para a incidência da exceção à impenhorabilidade do bem de família, prevista no art. 3º, VI,
da Lei nº 8.009/90, é imprescindível a sentença penal condenatória transitada em julgado
STJ. 3ª Turma. REsp 1.823.159-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 13/10/2020 (Info 681).

Imóvel bem de família oferecido como caução imobiliária em contrato de locação não pode
ser objeto de penhora
STJ. 3ª Turma. REsp 1.873.203-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 24/11/2020 (Info 683).

Executado que aliena o bem de família pratica fraude à execução?


Existe fraude à execução quando o devedor, ciente de que existe execução contra si proposta,
aliena o bem de família?
O tema é polêmico, havendo decisões do STJ nos dois sentidos:
SIM. STJ. 3ª Turma. REsp 1364509/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10/06/2014 (Info
545).
NÃO. STJ. 1ª Turma. AgRg no AREsp 255.799/RS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado
em 17/09/2013; STJ. 4ª Turma. REsp 976.566/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
20/04/2010.

Possibilidade de penhora de bem de família por má-fé do devedor


A renúncia ao bem de família é válida? O devedor pode oferecer seu bem de família para ser
penhorado?
Em regra, NÃO. O STJ possui diversos julgados afirmando que a proteção conferida ao instituto
de bem de família pela Lei 8.009/90 é uma norma cogente, uma questão de ordem pública. Logo,
não se admite que o titular desse benefício renuncie à sua proteção.
Exceção: não se deve desconstituir a penhora de imóvel sob o argumento de se tratar de bem
de família na hipótese em que, mediante acordo homologado judicialmente, o executado tenha
pactuado com o exequente a prorrogação do prazo para pagamento e a redução do valor de
dívida que contraíra em benefício da família, oferecendo o imóvel em garantia e renunciando
expressamente ao oferecimento de qualquer defesa, de modo que, descumprido o acordo, a
execução prosseguiria com a avaliação e praça do imóvel.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.461.301-MT, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 5/3/2015 (Info
558).

Desconsideração da personalidade jurídica e impenhorabilidade do bem de família dos sócios


A desconsideração da personalidade jurídica de sociedade empresária falida que tenha sido
decretada em decorrência de fraude contra a massa falida não implica, por si só, o afastamento
da impenhorabilidade dos bens de família dos sócios.
Em outras palavras, o simples fato de ter sido decretada a desconsideração da personalidade
jurídica, por si só, não permite que seja penhorado o bem de família pertencente aos sócios,
salvo se os atos que ensejaram a desconsideração também se ajustarem às exceções legais
previstas no art. 3º da Lei 8.009/90. Tais exceções devem ser interpretadas restritivamente, não
se podendo, por analogia ou esforço hermenêutico, apanhar situações não previstas em lei, de
modo a superar a proteção conferida à entidade familiar.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.433.636-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 2/10/2014 (Info
549).
112

Bem adquirido com produto de crime é penhorável mesmo que tenha havido extinção da
punibilidade pelo cumprimento do sursis processual
Na execução civil movida pela vítima, não é oponível a impenhorabilidade do bem de família
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adquirido com o produto do crime, ainda que a punibilidade do acusado tenha sido extinta em
razão do cumprimento das condições estipuladas para a suspensão condicional do processo.

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STJ. 4ª Turma. REsp 1.091.236-RJ, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 15/12/2015 (Info 575).

Aplicação da Lei do Bem de família para penhoras anteriores


Súmula 205-STJ: A Lei 8.009/90 aplica-se à penhora realizada antes de sua vigência.

Súmula 475-STJ: Responde pelos danos decorrentes de protesto indevido o endossatário que
recebe por endosso translativo título de crédito contendo vício formal extrínseco ou intrínseco,
ficando ressalvado seu direito de regresso contra os endossantes e avalistas.

Súmula 476-STJ: O endossatário de título de crédito por endosso-mandato só responde por


danos decorrentes de protesto indevido se extrapolar os poderes de mandatário.

Responsabilidade pela baixa após o pagamento


Após o pagamento do título protestado, o credor que foi pago tem a responsabilidade de retirar
o protesto lavrado?
NÃO. Após a quitação da dívida, incumbe ao DEVEDOR, providenciar o cancelamento do
protesto, salvo se foi combinado o contrário entre ele e o credor.
No regime próprio da Lei 9.492/1997, legitimamente protestado o título de crédito ou outro
documento de dívida, salvo inequívoca pactuação em sentido contrário, incumbe ao devedor,
após a quitação da dívida, providenciar o cancelamento do protesto.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.339.436-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. em 10/9/2014 (recurso
repetitivo) (Info 548).

É cabível a indenização por danos morais pela instituição financeira quando o cheque
apresentado fora do prazo legal e já prescrito é devolvido sob o argumento de insuficiência de
fundos.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.297.353-SP, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 16/10/2012.

Ação monitória fundada em cheque prescrito e dispensabilidade da menção ao negócio


jurídico subjacente à emissão da cártula
Súmula 531-STJ: Em ação monitória fundada em cheque prescrito ajuizada contra o emitente, é
dispensável a menção ao negócio jurídico subjacente à emissão da cártula.

SÚMULA 503-STJ: O prazo para ajuizamento de ação monitória em face do emitente de cheque
sem força executiva é quinquenal, a contar do dia seguinte à data de emissão estampada na
cártula.

SÚMULA 504-STJ: O prazo para ajuizamento de ação monitória em face do emitente de nota
promissória sem força executiva é quinquenal, a contar do dia seguinte ao vencimento do título.

Devolução de cheque sem provisão de fundos e responsabilidade civil de instituição bancária


O banco sacado não é parte legítima para figurar no polo passivo de ação ajuizada com o objetivo
de reparar os prejuízos decorrentes da devolução de cheque sem provisão de fundos emitido
por correntista.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.509.178-SC, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 20/10/2015 (Info
113

574).

O contrato de abertura de crédito rotativo, ainda que acompanhado dos extratos relativos à
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movimentação bancária do cliente, não constitui título executivo.

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Aplica-se a Súmula 233 do STJ: O contrato de abertura de crédito, ainda que acompanhado de
extrato da conta-corrente, não é título executivo.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.022.034-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 12/3/2013.

A empresa que utiliza marca internacionalmente reconhecida, ainda que não tenha sido a
fabricante direta do produto defeituoso, enquadra-se na categoria de fornecedor aparente
O conceito legal de “fornecedor” previsto no art. 3º do CDC abrange também a figura do
“fornecedor aparente”, que consiste naquele que, embora não tendo participado diretamente
do processo de fabricação, apresenta-se como tal por ostentar nome, marca ou outro sinal de
identificação em comum com o bem que foi fabricado por um terceiro, assumindo a posição de
real fabricante do produto perante o mercado consumidor.
O fornecedor aparente, em prol das vantagens da utilização de marca internacionalmente
reconhecida, não pode se eximir dos ônus daí decorrentes, em atenção à teoria do risco da
atividade adotada pelo CDC. Dessa forma, reconhece-se a responsabilidade solidária do
fornecedor aparente para arcar com os danos causados pelos bens comercializados sob a
mesma identificação (nome/marca), de modo que resta configurada sua legitimidade passiva
para a respectiva ação de indenização em razão do fato ou vício do produto ou serviço.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.580.432-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 06/12/2018 (Info 642).

Aplicação do CDC aos empreendimentos habitacionais promovidos pelas sociedades


cooperativas
Súmula 602-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável aos empreendimentos
habitacionais promovidos pelas sociedades cooperativas.
STJ. 2ª Seção. Aprovada em 22/2/2018, DJe 26/2/2018.

Indivíduo que contrata serviço de corretagem de valores e títulos mobiliários é considerado


consumidor
Deve ser reconhecida a relação de consumo existente entre a pessoa natural, que visa a atender
necessidades próprias, e as sociedades que prestam, de forma habitual e profissional, o serviço
de corretagem de valores e títulos mobiliários.
Ex: João contratou a empresa “Dinheiro S.A Corretora de Valores” para que esta intermediasse
operações financeiras no mercado de capitais. Em outras palavras, João contratou essa
corretora para investir seu dinheiro na Bolsa de Valores. A relação entre João e a corretora é
uma relação de consumo.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.599.535-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 14/3/2017 (Info 600).

A inobservância do dever de informar e de obter o consentimento informado do paciente viola


o direito à autodeterminação e caracteriza responsabilidade extracontratual
O médico deverá ser condenado a pagar indenização por danos morais ao paciente que teve
sequelas em virtude de complicações ocorridas durante a cirurgia caso ele não tenha explicado
ao paciente os riscos do procedimento.
O dever de informar é dever de conduta decorrente da boa-fé objetiva e sua simples
inobservância caracteriza inadimplemento contratual, fonte de responsabilidade civil per se. A
indenização, nesses casos, é devida pela privação sofrida pelo paciente em sua
autodeterminação, por lhe ter sido retirada a oportunidade de ponderar os riscos e vantagens
de determinado tratamento que, ao final, lhe causou danos que poderiam não ter sido causados
114

caso não fosse realizado o procedimento, por opção do paciente.


O dever de informação é a obrigação que possui o médico de esclarecer o paciente sobre os
riscos do tratamento, suas vantagens e desvantagens, as possíveis técnicas a serem empregadas,
Página

bem como a revelação quanto aos prognósticos e aos quadros clínico e cirúrgico, salvo quando

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tal informação possa afetá-lo psicologicamente, ocasião em que a comunicação será feita a seu
representante legal.
Para que seja cumprido o dever de informação, os esclarecimentos deverão ser prestados de
forma individualizada em relação ao caso do paciente, não se mostrando suficiente a informação
genérica (blanket consent).
O ônus da prova quanto ao cumprimento do dever de informar e obter o consentimento
informado do paciente é do médico ou do hospital, orientado pelo princípio da colaboração
processual, em que cada parte deve contribuir com os elementos probatórios que mais
facilmente lhe possam ser exigidos.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.540.580-DF, Rel. Min. Lázaro Guimarães (Desembargador Convocado do
TRF 5ª Região), Rel. Acd. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 02/08/2018 (Info 632).

O laboratório tem responsabilidade objetiva na ausência de prévia informação qualificada


quanto aos possíveis efeitos colaterais da medicação, ainda que se trate do chamado risco de
desenvolvimento
O fato de o uso de um medicamento causar efeitos colaterais ou reações adversas, por si só, não
configura defeito do produto se o usuário foi prévia e devidamente informado e advertido sobre
tais riscos inerentes, de modo a poder decidir, de forma livre, refletida e consciente, sobre o
tratamento que lhe é prescrito, além de ter a possibilidade de mitigar eventuais danos que
venham a ocorrer em função dele.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.774.372-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/05/2020 (Info 671).

O laboratório responde objetivamente pelos danos morais causados à genitora por falso
resultado negativo de exame de DNA, realizado para fins de averiguação de paternidade
À luz do art. 14, caput e § 1º, do CDC, o fornecedor responde de forma objetiva, ou seja,
independentemente de culpa, pelos danos causados por defeito na prestação do serviço, que
se considera defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar.
Em se tratando da realização de exames médicos laboratoriais, tem-se por legítima a expectativa
do consumidor quanto à exatidão das conclusões lançadas nos laudos respectivos, de modo que
eventual erro de diagnóstico de patologia ou equívoco no atestado de determinada condição
biológica implica defeito na prestação do serviço, a atrair a responsabilidade objetiva do
laboratório.
O simples fato do resultado negativo do exame de DNA agride, ainda, de maneira grave, a honra
e reputação da mãe, ante os padrões culturais que, embora estereotipados, predominam
socialmente. Basta a ideia de que a mulher tenha tido envolvimento sexual com mais de um
homem, ou de que não saiba quem é o pai do seu filho, para que seja questionada sua
honestidade e moralidade.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.700.827-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/11/2019 (Info 660).

É lícita a cobrança de uma “taxa de conveniência” (um valor a mais) pelo fato de o ingresso
estar sendo adquirido pela internet
Algumas empresas especializadas na venda de ingressos cobram dos consumidores um “valor”
adicional pelo fato de eles estarem comprando os ingressos por meio da sua página na internet.
Essa cobrança é lícita, desde que o consumidor seja previamente informado sobre o preço total
da aquisição do ingresso, com o destaque de que está pagando um valor extra a título de “taxa
de conveniência”.
115

É válida a intermediação, pela internet, da venda de ingressos para eventos culturais e de


entretenimento mediante cobrança de “taxa de conveniência”, desde que o consumidor seja
previamente informado do preço total da aquisição do ingresso, com o destaque do valor da
Página

referida taxa.

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STJ. 3ª Turma. EDcl no REsp 1.737.428-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Paulo de
Tarso Sanseverino, julgado em 06/10/2020 (Info 683).

Validade do repasse da comissão de corretagem ao consumidor pela incorporadora imobiliária


mesmo no Programa Minha Casa, Minha Vida
Ressalvada a denominada Faixa 1, em que não há intermediação imobiliária, é válida a cláusula
contratual que transfere ao promitente-comprador a obrigação de pagar a comissão de
corretagem nos contratos de promessa de compra e venda do Programa Minha Casa, Minha
Vida, desde que previamente informado o preço total da aquisição da unidade autônoma, com
o destaque do valor da comissão de corretagem.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.601.149-RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Rel. Acd. Min. Ricardo
Villas Bôas Cueva, julgado em 13/06/2018 (recurso repetitivo) (Info 630).

Participantes ou assistidos de plano de benefício e entidade de previdência complementar


Súmula 563-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às entidades abertas de
previdência complementar, não incidindo nos contratos previdenciários celebrados com
entidades fechadas.

Validade da cláusula de coparticipação


Não é abusiva cláusula contratual de plano privado de assistência à saúde que estabeleça a
coparticipação do usuário nas despesas médico-hospitalares em percentual sobre o custo de
tratamento médico realizado sem internação, desde que a coparticipação não caracterize
financiamento integral do procedimento por parte do usuário, ou fator restritor severo ao
acesso aos serviços.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.566.062-RS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21/6/2016
(Info 586).

Dever de assistência ao neonato durante os trinta primeiros dias após o seu nascimento
Quando o contrato de plano de saúde incluir atendimento obstétrico, a operadora tem o dever
de prestar assistência ao recém-nascido durante os primeiros trinta dias após o parto (art. 12,
III, "a", da Lei nº 9.656/98), independentemente de a operadora ter autorizado a efetivação da
cobertura, ter ou não custeado o parto, tampouco de inscrição do neonato como dependente
nos trinta dias seguintes ao nascimento.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.269.757-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 3/5/2016 (Info 584).

Plano de saúde possui responsabilidade solidária por danos causados pelos médicos e
hospitais próprios ou credenciados
A demora para a autorização da cirurgia indicada como urgente pela equipe médica do hospital
próprio ou credenciado, sem justificativa plausível, caracteriza defeito na prestação do serviço
da operadora do plano de saúde, resultando na sua responsabilização.
A operadora de plano de saúde tem responsabilidade solidária por defeito na prestação de
serviço médico, quando o presta por meio de hospital próprio e médicos contratados, ou por
meio de médicos e hospitais credenciados.
STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1.414.776-SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 11/02/2020 (Info
666).
116

Se não houver previsão contratual expressa, o plano de saúde não é obrigado a custear o
tratamento de fertilização in vitro
Não é abusiva a negativa de custeio, pela operadora do plano de saúde, do tratamento de
Página

fertilização in vitro, quando não houver previsão contratual expressa.

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O art. 10, III, da Lei nº 9.656/98 estabelce que a “inseminação artificial” não é um procedimento
de cobertura obrigatória pelos planos de saúde. Em outras palavras, o contrato pode ou não
prever a cobertura desse tratamento. Se o contrato não cobrir expressamente e o plano de
saúde, em virtude disso, se recusar a custear, essa negativa não será abusiva.
Vale ressaltar que a fertilização in vitro não é mesmo que inseminação artificial. Mesmo assim,
a partir de uma interpretação sistemática e teleológica, que garanta o equilíbrio atuarial do
sistema, deve-se entender que o mesmo raciocínio se aplica para a fertilização in vitro e que
este tratamento também não é de cobertura obrigatória.
Nesse sentido, a Resolução Normativa nº 428/2017, da ANS permite que o plano de saúde não
ofereça inseminação artificial e outras técnicas de reprodução humana assistida. Assim, ao falar
em outras técnicas, pode-se incluir aí a fertilização in vitro.
STJ. 3ª Turma. REsp 1794629/SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, Rel. p/ Acórdão Min. Nancy Andrighi,
julgado em 18/02/2020.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.823.077-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 20/02/2020 (Info 666).

É devida a cobertura, pelo plano de saúde, do procedimento de criopreservação de óvulos de


paciente fértil, até a alta do tratamento quimioterápico, como medida preventiva à
infertilidade
Caso concreto: mulher, que estava fazendo quimioterapia, corria o risco de se tornar infértil em
razão do tratamento que gera falência ovariana. A forma de preservar a capacidade reprodutiva,
nestes casos, é o congelamento dos óvulos (criopreservação). Diante disso, ela pleiteou junto ao
plano de saúde que custeasse esse procedimento, o que foi negado.
Para o STJ, é devida a cobertura, ou seja, o plano de saúde tem que arcar com esse tratamento.
O objetivo de todo tratamento médico, além de curar a doença, é não causar mal. Esse é um
dos princípios milenares da medicina conhecido pela locução “primum, non nocere” (primeiro,
não prejudicar). Esse princípio está consagrado no art. 35-F da Lei nº 9.656/98, segundo o qual
a cobertura dos planos de saúde abrange também a prevenção de doenças, no caso, a
infertilidade.
Vale ressaltar que, depois de obter alta do tratamento quimioterápico, caberá à mulher custear
o tratamento de reprodução assistida, considerando que isso se encontra fora da cobertura do
plano.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.815.796-RJ, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 26/05/2020
(Info 673).

Em caso de resilição unilateral do contrato coletivo, deve ser reconhecido o direito à


portabilidade de carências
Os beneficiários de plano de saúde coletivo, após a resilição unilateral do contrato pela
operadora, têm direito à portabilidade de carências ao contratar novo plano observado o prazo
de permanência no anterior, sem o cumprimento de novos períodos de carência ou de cobertura
parcial temporária e sem custo adicional pelo exercício do direito.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.732.511-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 04/08/2020 (Info 677).

É vedada à operadora de plano de saúde a resilição unilateral imotivada dos contratos de


planos coletivos empresariais com menos de trinta beneficiários
O art. 13, parágrafo único, II, da Lei nº 9.656/98, que veda a resilição unilateral dos contratos de
plano de saúde, não se aplica às modalidades coletivas, tendo incidência apenas nas espécies
117

individuais ou familiares.
No entanto, no caso de planos coletivos empresariais com menos de trinta usuários, em vista da
vulnerabilidade da empresa estipulante, dotada de escasso poder de barganha, não se admite a
Página

simples rescisão unilateral pela operadora de plano de saúde, havendo necessidade de


motivação idônea.

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STJ. 4ª Turma. REsp 1.776.047-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 23/04/2019 (Info
646).

No caso de morte do titular, os membros do grupo familiar - dependentes e agregados - podem


permanecer como beneficiários no plano de saúde coletivo, desde que assumam o pagamento
integral
Falecendo o titular do plano de saúde coletivo, seja este empresarial ou por adesão, nasce para
os dependentes ou agregados o direito de pleitear a sucessão da titularidade, nos termos dos
arts. 30 ou 31 da Lei nº 9.656/98, a depender da hipótese, desde que assumam o seu pagamento
integral.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.841.285/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23/03/2021 (Info 690).

A operadora do plano de saúde tem o dever de custear as despesas de acompanhante do


paciente idoso no caso de internação hospitalar
A operadora do plano de saúde tem o dever de custear as despesas de acompanhante do
paciente idoso no caso de internação hospitalar.
Fundamento: art. 16 do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) e art. 22 da Resolução Normativa
nº 428/2017, da ANS.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.793.840-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 05/11/2019
(Info 660).

Plano de saúde não pode negar tratamento prescrito por médico sob o fundamento de que
sua utilização está fora das indicações descritas na bula (uso off-label)
A operadora de plano de saúde não pode negar o fornecimento de tratamento prescrito pelo
médico sob o pretexto de que a sua utilização em favor do paciente está fora das indicações
descritas na bula/manual registrado na ANVISA (uso off-label).
STJ. 3ª Turma. REsp 1.721.705-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 28/08/2018 (Info 632).

É legítima a recusa do plano de saúde em custear medicação importada não nacionalizada, ou


seja, sem registro vigente na ANVISA
As operadoras de plano de saúde não estão obrigadas a fornecer medicamento não registrado
pela ANVISA.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.712.163-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 08/11/2018 (recurso
repetitivo) (Info 638).

Em regra, o plano de saúde não é obrigado a fornecer medicamentos de uso domiciliar


REGRA: em regra, os planos de saúde não são obrigados a fornecer medicamentos para
tratamento domiciliar.
EXCEÇÕES: Os planos de saúde são obrigados a fornecer:
a) os antineoplásicos orais (e correlacionados);
b) a medicação assistida (home care); e
c) outros fármacos incluídos pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) no rol de
fornecimento obrigatório.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.692.938/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 27/04/2021
(Info 694).
118
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Prazo prescricional para cobrar reembolso de plano de saúde (ou de seguro-saúde) é de 10
anos
É decenal o prazo prescricional aplicável ao exercício da pretensão de reembolso de despesas
médico-hospitalares alegadamente cobertas pelo contrato de plano de saúde (ou de seguro
saúde), mas que não foram adimplidas pela operadora.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.756.283-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 11/03/2020 (Info
673).

Apenas em situações excepcionais é que o plano de saúde será obrigado a reembolsar o


usuário por despesas realizadas fora da rede credenciada
O plano de saúde somente é obrigado a reembolsar as despesas que o usuário teve com
tratamento ou atendimento fora da rede credenciada em hipóteses excepcionais, como por
exemplo, em casos de:
• inexistência ou insuficiência de estabelecimento ou profissional credenciado no local; e
• urgência ou emergência do procedimento.
STJ. 2ª Seção. EAREsp 1.459.849/ES, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 14/10/2020
(Info 684).

Não é abusiva a cláusula de coparticipação para internação superior a 30 dias decorrentes de


transtornos psiquiátricos
Nos contratos de plano de saúde não é abusiva a cláusula de coparticipação expressamente
ajustada e informada ao consumidor, à razão máxima de 50% (cinquenta por cento) do valor das
despesas, nos casos de internação superior a 30 (trinta) dias por ano, decorrente de transtornos
psiquiátricos, preservada a manutenção do equilíbrio financeiro.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.809.486-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 09/12/2020 (Recurso
Repetitivo – Tema 1032) (Info 684).
No mesmo sentido: STJ. 2ª Seção. EAREsp 793.323-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em
10/10/2018 (Info 635).

O ato de vandalismo que resulta no rompimento de cabos elétricos de vagão de trem não
exclui necessariamente a responsabilidade da concessionária/transportadora
Caso concreto: houve uma explosão elétrica no vagão de trem durante o transporte, o que gerou
tumulto e pânico entre os passageiros. Essa explosão decorreu de ato de vandalismo.
Mesmo que o dano tenha sido decorrente de uma conduta de terceiro, persiste a
responsabilidade da concessionária. Isso porque a conduta do terceiro, neste caso, está inserida
no risco do transportador, relacionando-se com a sua atividade. Logo, configura o chamado
fortuito interno, que não é capaz de excluir a responsabilidade.
O contrato de transporte de passageiros envolve a chamada cláusula de incolumidade, segundo
a qual o transportador deve empregar todos os expedientes que são próprios da atividade para
preservar a integridade física do passageiro, contra os riscos inerentes ao negócio, durante todo
o trajeto, até o destino final da viagem.
Assim, o ato de vandalismo que resulta no rompimento de cabos elétricos de vagão de trem não
exclui a responsabilidade da concessionária/transportadora, pois cabe a ela cumprir protocolos
de atuação para evitar tumulto, pânico e submissão dos passageiros a mais situações de perigo.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.786.722-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 09/06/2020 (Info 673).
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Companhia aérea é civilmente responsável por não promover condições dignas de


acessibilidade de pessoa cadeirante ao interior da aeronave
A sociedade empresária atuante no ramo da aviação civil possui a obrigação de providenciar a
Página

acessibilidade do cadeirante no processo de embarque quando indisponível ponte de conexão


ao terminal aeroportuário (“finger”).

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Se não houver meio adequado (com segurança e dignidade) para o acesso do cadeirante ao
interior da aeronave, isso configura defeito na prestação do serviço, ensejando reparação por
danos morais.
Assim, caso a pessoa com deficiência (“cadeirante”) tenha que ser carregado pelos funcionários
da companhia aérea para entrar no avião, este fato configura defeito na prestação do serviço,
gerando indenização por danos morais.
A companhia aérea não se exime do pagamento da indenização alegando que o dever de
fornecer o equipamento para a entrada da pessoa com deficiência na aeronave seria da ANAC.
Isso porque a companhia aérea integra a cadeia de fornecimento, de forma que possui
responsabilidade solidária em caso de fato do serviço, nos termos do art. 14 do CDC. Ademais,
tal alegação não se amolda à excludente de responsabilidade por fato de terceiro (art. 14, § 3º,
II, do CDC).
STJ. 4ª Turma. REsp 1.611.915-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 06/12/2018 (Info 642).

Erro grosseiro de sistema não obriga empresas a emitir passagens compradas a preço muito
baixo
STJ. 3ª Turma. REsp 1.794.991-SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/05/2020 (Info 671).

Alteração do transporte aéreo para terrestre e ocorrência de roubo: dever de indenizar


A alteração substancial e unilateral do contrato firmado de transporte aéreo para terrestre
impede a utilização da excludente de fortuito externo para eximir a empresa de transporte
aéreo da responsabilidade civil por danos causados por roubo ao ônibus.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.728.068-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 05/06/2018 (Info
627).

Súmula 297-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras.

Súmula 381-STJ: Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da


abusividade das cláusulas.

Súmula 608-STJ: Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde,
salvo os administrados por entidades de autogestão.

Súmula 479-STJ: As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por
fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações
bancárias.

A inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC é regra de instrução (e não regra
de julgamento)
A inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor é regra
de instrução e não regra de julgamento, motivo pelo qual a decisão judicial que a determina
deve ocorrer antes da etapa instrutória ou, quando proferida em momento posterior, há que se
garantir à parte a quem foi imposto o ônus a oportunidade de apresentar suas provas, sob pena
de absoluto cerceamento de defesa.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.286.273-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 08/06/2021 (Info 701).
120

Produto de periculosidade inerente e ausência de responsabilidade civil


Em se tratando de produto de periculosidade inerente (medicamento com contraindicações),
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cujos riscos são normais à sua natureza e previsíveis, eventual dano por ele causado ao

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consumidor não enseja a responsabilização do fornecedor. Isso porque, neste caso, não se pode
dizer que o produto é defeituoso.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.599.405-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 4/4/2017 (Info 603).

Nulidade de cláusula de renúncia à entrevista qualificada para contratar plano de saúde


É nula a cláusula inserta por operadora de plano privado de assistência à saúde em formulário
de Declaração de Doenças ou Lesões Preexistentes (Declaração de Saúde) prevendo a renúncia
pelo consumidor contratante à entrevista qualificada orientada por um médico, seguida apenas
de espaço para aposição de assinatura, sem qualquer menção ao fato de tal entrevista se tratar
de faculdade do beneficiário.
A inserção de cláusula de renúncia em declaração de saúde é abusiva por induzir o segurado a
abrir mão do direito ao exercício livre da opção de ser orientado por um médico por ocasião do
preenchimento daquela declaração, notadamente porque se trata de documento que tem o
condão de viabilizar futura negativa de cobertura de procedimento ou tratamento.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.554.448-PE, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 18/2/2016 (Info
578).

Migração de plano de saúde coletivo empresarial para plano individual ou familiar e


inexistência de direito de que o valor da mensalidade permaneça o mesmo
A migração de beneficiário de plano de saúde coletivo empresarial extinto para plano individual
ou familiar não enseja a manutenção dos valores das mensalidades previstos no plano primitivo.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.471.569-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 1º/3/2016
(Info 578).

Saque indevido em conta bancária e dano moral


O banco deve compensar os danos morais sofridos por consumidor vítima de saque fraudulento
que, mesmo diante de grave e evidente falha na prestação do serviço bancário, teve que intentar
ação contra a instituição financeira com objetivo de recompor o seu patrimônio, após frustradas
tentativas de resolver extrajudicialmente a questão.
STJ. 4ª Turma. AgRg no AREsp 395.426-DF, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Rel. para acórdão
Marco Buzzi, julgado em 15/10/2015 (Info 574).

Ausência de dano moral in re ipsa pela mera inclusão de valor indevido na fatura de cartão de
crédito
Não configura dano moral in re ipsa a simples remessa de fatura de cartão de crédito para a
residência do consumidor com cobrança indevida.
Para configurar a existência do dano extrapatrimonial, é necessário que se demonstre que a
operadora de cartão de crédito, além de ter incluído a cobrança na fatura, praticou outras
condutas que configurem dano moral, como por exemplo:
a) reiteração da cobrança indevida mesmo após o consumidor ter reclamado;
b) inscrição do cliente em cadastro de inadimplentes;
c) protesto da dívida;
d) publicidade negativa do nome do suposto devedor; ou
e) cobrança que exponha o consumidor, o submeta à ameaça, coação ou constrangimento.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.550.509-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 3/3/2016 (Info 579).
121

Responsabilidade civil e banco postal


A imposição legal de adoção de recursos de segurança específicos para proteção dos
estabelecimentos que constituam sedes de instituições financeiras (Lei nº 7.102/1983) não
Página

alcança o serviço de correspondente bancário (Banco Postal) realizado pela Empresa Brasileira

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de Correios e Telégrafos (ECT). Isso porque o correspondente bancário não exerce atividade-fim
e primária das instituições financeiras na forma definida no art. 17 da Lei nº 4.595/64.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.497.235-SE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 1º/12/2015
(Info 574).

Responsabilidade da ECT por roubo ocorrido no interior de banco postal


A ECT é responsável pelos danos sofridos por consumidor que foi assaltado no interior de
agência dos Correios na qual é fornecido o serviço de banco postal.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.183.121-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/2/2015 (Info 559).

A lanchonete tem o dever de indenizar o consumidor que sofreu roubo armado na fila do drive-
trhu
A lanchonete responde pela reparação de danos sofridos pelo consumidor que foi vítima de
crime ocorrido no drive-thru do estabelecimento comercial.
A lanchonete, ao disponibilizar o serviço de drive-thru em troca dos benefícios financeiros
indiretos decorrentes desse acréscimo de conforto aos consumidores, assumiu o dever implícito
de lealdade e segurança.
A empresa, ao oferecer essa modalidade de compra, aumentou os seus ganhos, mas, por outro
lado, chamou para si o ônus de fornecer a segurança legitimamente esperada em razão dessa
nova atividade.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.450.434-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/09/2018 (Info
637).

O roubo à mão armada em estacionamento gratuito, externo e de livre acesso configura fortuito
externo, afastando a responsabilização do estabelecimento comercial.
STJ. 2ª Seção. EREsp 1.431.606-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 27/03/2019 (Info
648).

Dever do comerciante de receber e enviar os aparelhos viciados para a assistência técnica ou


para o fabricante
Se o produto que o consumidor comprou apresenta um vício, ele tem o direito de ter esse vício
sanado no prazo de 30 dias (art. 18, § 1º do CDC).
Para tanto, o consumidor pode escolher para quem levará o produto a fim de ser consertado:
a) para o comerciante;
b) para a assistência técnica ou
c) para o fabricante.
Em outras palavras, cabe ao consumidor a escolha para exercer seu direito de ter sanado o vício
do produto em 30 dias: levar o produto ao comerciante, à assistência técnica ou diretamente ao
fabricante.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.634.851-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/09/2017 (Info 619).

Consumidor que, em ação redibitória, recebeu a restituição do valor pago, deve devolver o
veículo com defeito ao vendedor mesmo que na sentença essa obrigação não tenha ficado
expressamente prevista
Caso concreto: consumidor adquiriu veículo, que apresentou diversos problemas após a compra,
tornando-se inadequado ao uso. Consumidor propôs ação redibitória contra a concessionária,
122

pedindo a devolução do preço pago. A sentença foi procedente tendo o juiz determinado a
restituição da quantia gasta com a aquisição do carro. Não falou nada, contudo, sobre a
devolução do carro à concessionária. Com o trânsito em jugado, o consumidor deu início do
Página

cumprimento de sentença. A concessionária restituiu o valor pago e pediu a devolução do

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veículo usado. O juiz negou o pleito afirmando que no título executivo não constou nenhum
comando para que o consumidor devolvesse o automóvel.
Não agiu corretamente o magistrado.
É obrigatória a devolução de veículo considerado inadequado ao uso após a restituição do preço
pelo fornecedor no cumprimento de sentença prolatada em ação redibitória.
Acolhida a pretensão redibitória do consumidor, rescinde-se o contrato de compra e venda,
retornando as partes à situação anterior à sua celebração (status quo ante), sendo uma das
consequências automáticas da sentença a sua eficácia restitutória, com a restituição atualizada
do preço pelo vendedor e devolução da coisa adquirida pelo comprador.
Constitui obrigação do consumidor devolver o veículo viciado à fornecedora, sob pena de
afronta ao princípio que veda o enriquecimento sem causa e à proibição do venire contra factum
proprium.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.823.284-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 13/10/2020
(Info 681).

Prazo prescricional em caso de vício de qualidade e de quantidade em imóvel adquirido por


consumidor
A ação de indenização por danos materiais proposta por consumidor contra construtora em
virtude de vícios de qualidade e de quantidade do imóvel adquirido tem prazo prescricional de
10 anos, com fundamento no art. 205 do CC/2002.
Não se aplica o prazo decadencial do art. 26 do CDC. O art. 26 trata do prazo que o consumidor
possui para exigir uma das alternativas previstas no art. 20 do CDC. Não se trata de prazo
prescricional.
Não se aplica o prazo do art. 27 do CDC porque este se refere apenas a fato do produto.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.534.831-DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Rel. Acd. Min. Nancy
Andrighi, julgado em 20/02/2018 (Info 620).

É válida a recusa das instituições financeiras de concederem empréstimo consignado nos casos
em que a soma da idade do cliente com o prazo de duração do contrato seja superior a 80 anos
A instituição financeira se recusa a fazer empréstimo consignado caso a idade do cliente somada
com o prazo do contrato for maior que 80 anos. Ex: cliente tem 78 anos e o contrato de
empréstimo teria prazo de pagamento de 3 anos. Neste caso, a instituição financeira não aceita
celebrar o pacto.
Essa restrição não representa uma discriminação abusiva contra os idosos.
A adoção de critério etário para distinguir o tratamento da população em geral é válida quando
adequadamente justificada e fundamentada no ordenamento jurídico, sempre atentando-se
para a sua razoabilidade diante dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana.
Esse critério de vedação ao crédito consignado para tais hipóteses não representa discriminação
negativa que coloque em desvantagem exagerada a população idosa, considerando que esta
poderá se valer de outras modalidades de crédito bancário.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.783.731-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23/04/2019 (Info 647).

Validade da cobrança de tarifa bancária a partir do quinto saque mensal


O cliente paga alguma tarifa bancária quando ele saca dinheiro de sua conta? Os bancos adotam
a seguinte prática contratual: o cliente pode fazer até quatro saques por mês sem pagar nada.
A partir do quinto saque, é cobrada uma tarifa bancária.
123

Esta prática bancária é válida? SIM.


É legítima a cobrança, pelas instituições financeiras, de tarifas relativas a saques quando estes
excederem o quantitativo de quatro realizações por mês.
Página

STJ. 3ª Turma. REsp 1.348.154-DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 13/12/2016 (Info
596).

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A instituição pode cobrar tarifa bancária pela liquidação antecipada do saldo devedor?
Nos contratos de arrendamento mercantil, é permitido que a instituição cobre do consumidor
tarifa bancária pela liquidação antecipada (parcial ou total) do saldo devedor?
• Contratos celebrados antes da Resolução CMN nº 3.516/2007 (antes de 10/12/2007): SIM
• Contratos firmados depois da Resolução CMN nº 3.516/2007 (de 10/12/2007 para frente):
NÃO
Assim, para as operações de crédito e arrendamento mercantil contratadas antes de
10/12/2007 (data de publicação da referida Resolução), podem ser cobradas tarifas pela
liquidação antecipada no momento em que for efetivada a liquidação, desde que a cobrança
dessa tarifa esteja claramente identificada no extrato de conferência.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.370.144-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 7/2/2017 (Info
597).

É cabível indenização por danos morais em caso de demora excessiva para atendimento na
fila do banco?
A mera invocação de legislação municipal que estabelece tempo máximo de espera em fila de
banco não é suficiente para ensejar o direito à indenização.
Em outras palavras, o simples fato de a pessoa ter esperado por atendimento bancário por
tempo superior ao previsto na legislação municipal não enseja indenização por danos morais.
Ex: a lei estipulava o máximo de 15 minutos e o consumidor foi atendido em 25 minutos.
No entanto, se a espera por atendimento na fila de banco for excessiva ou associada a outros
constrangimentos, pode ser reconhecida como provocadora de sofrimento moral e ensejar
condenação por dano moral.
STJ. 3ª Turma. REsp 1662808/MT, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/05/2017.
STJ. 4ª Turma. REsp 1647452/RO, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 26/02/2019.

O descumprimento da lei municipal que estabelece parâmetros para a adequada prestação do


serviço de atendimento presencial em agências bancárias é capaz de configurar dano moral
de natureza coletiva.
A violação aos deveres de qualidade do atendimento presencial, exigindo do consumidor tempo
muito superior aos limites fixados pela legislação municipal pertinente, afronta valores
essenciais da sociedade, sendo conduta grave e intolerável, de forma que se mostra suficiente
para a configuração do dano moral coletivo.
A instituição financeira optou por não adequar seu serviço aos padrões de qualidade previstos
em lei municipal e federal, impondo à sociedade o desperdício de tempo útil e acarretando
violação injusta e intolerável ao interesse social de máximo aproveitamento dos recursos
produtivos, o que é suficiente para a configuração do dano moral coletivo.
A condenação em danos morais coletivos cumprirá sua função de sancionar o ofensor, inibir
referida prática ilícita e, ainda, de oferecer reparação indireta à sociedade, por meio da
repartição social dos lucros obtidos com a prática ilegal com a destinação do valor da
compensação ao fundo do art. 13 da Lei nº 7.347/85.
STJ. 2ª Turma. REsp 1402475/SE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 09/05/2017.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.737.412/SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/02/2019 (Info 641).

Atraso na entrega do imóvel e lucros cessantes


O atraso na entrega do imóvel enseja pagamento de indenização por lucros cessantes durante
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o período de mora do promitente vendedor, sendo presumido o prejuízo do promitente


comprador.
Os lucros cessantes serão devidos ainda que não fique demonstrado que o promitente
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comprador tinha finalidade negocial na transação.

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STJ. 2ª Seção. EREsp 1.341.138-SP, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 09/05/2018 (Info
626).

É possível o corte da energia elétrica por fraude no medidor, desde que cumpridos alguns
requisitos
Na hipótese de débito estrito de recuperação de consumo efetivo por fraude no aparelho
medidor atribuída ao consumidor, desde que apurado em observância aos princípios do
contraditório e da ampla defesa, é possível o corte administrativo do fornecimento do serviço
de energia elétrica, mediante prévio aviso ao consumidor, pelo inadimplemento do consumo
recuperado correspondente ao período de 90 (noventa) dias anterior à constatação da fraude,
contanto que executado o corte em até 90 (noventa) dias após o vencimento do débito, sem
prejuízo do direito de a concessionária utilizar os meios judiciais ordinários de cobrança da
dívida, inclusive antecedente aos mencionados 90 (noventa) dias de retroação.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.412.433-RS, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 25/04/2018 (recurso
repetitivo) (Info 634).

Súmula 359-STJ: Cabe ao órgão mantenedor do cadastro de proteção ao crédito a notificação


do devedor antes de proceder à inscrição.

Súmula 404-STJ: É dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao


consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros.

Súmula 385-STJ: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe


indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao
cancelamento.

Súmula 323-STJ: A inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos serviços de proteção ao
crédito por até o prazo máximo de cinco anos, independentemente da prescrição da execução.

SPC/SERASA, quando forem inserir títulos que estão protestados, deverão incluir a data de
vencimento e controlar os prazos máximos que poderão ficar nos bancos de dados
As entidades mantenedoras de cadastros de proteção ao crédito não devem incluir em sua base
de dados informações coletadas dos cartórios de protestos sem a informação do prazo de
vencimento da dívida, sendo responsáveis pelo controle de ambos os limites temporais
estabelecidos no art. 43 da Lei nº 8.078/90.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.630.889-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 11/09/2018 (Info 633).

Súmula 548-STJ: Incumbe ao credor a exclusão do registro da dívida em nome do devedor no


cadastro de inadimplentes no prazo de cinco dias úteis, a partir do integral e efetivo pagamento
do débito.

MEDICINA LEGAL
Aqui, infelizmente, eu não posso ajudá-la(o).
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