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A fundamentação do conceito de sujeito e sua relação com a clínica

das psicoses em Lacan

Orientando: Enzo Cléto Pizzimenti


Orientador: Ivan Ramos Estêvão

Resumo: A presente pesquisa parte da premissa de que a maneira como se toma um


conceito interfere radicalmente na forma como a psicanálise será sustentada em seu
tempo. Seja em intensão, como em extensão. Desta forma, pretende-se um retorno à
obra de Lacan, mais especificamente aos escritos dedicados à fundamentação do
conceito de sujeito para a psicanálise, buscando tensioná-los com os impasses clínicos e
políticos apresentados por Lacan referenciados aos paradoxos inerentes ao campo da
fala e da linguagem. O objetivo, então, é investigar quais as possíveis relações entre os
impasses clínico-epistemológicos encontrados na clínica de Lacan e seu percurso de
fundamentação do conceito de sujeito. Indo um pouco além, pretende-se produzir uma
reflexão sobre os desdobramentos que a clínica sustentada frente à loucura produziu e
ainda produz no interior da psicanálise enquanto campo específico de produção de
conhecimento, bem como na forma com que se deu sua inserção junto à Saúde Mental.
A partir desta pesquisa, pretendemos sustentar a hipótese de que, seja no seio do retorno
do discurso manicomial, seja na maneira com que o conceito de sujeito é empregado
como sinônimo de indivíduo, pessoa etc. o que subjaz é um mesmo movimento de
resistência àquilo que Freud, com a descoberta da psicanálise, apontou como uma das
feridas narcísicas desferidas contra o homem e que Lacan, com seu conceito de sujeito
formalizou de maneira inequívoca, a saber: o restabelecimento da verdade no campo da
ciência, na medida em que pela via do retorno do recalcado, ela se impõe, a partir de
seus efeitos no/de sujeito na clínica,

Palavras-chave: Sujeito, Clínica, Lacan, Saúde Mental

Problema e Justificativa de Pesquisa:


A presente pesquisa tem sua pergunta fundamental e justificativa alinhadas à
impressão de Lacan em seu tempo de que, mesmo com os avanços importantes e
substanciais da teoria e clínica freudiana, ainda havia muito o que avançar, sobretudo na
questão dos tratamentos dados às psicoses.
Uma segunda justificativa para a presente pesquisa está na hipótese de que o
mesmo movimento de negação de um lugar específico para o sujeito, seja na psicose,
seja na neurose guarda alguma relação possível, tanto com a resistência à entrada da
psicanálise junto às instituições de saúde, como a resistências destas (a psicanálise e as
políticas públicas) a conferirem um lugar possível para o louco, que não o de uma
organização balizada pela neurose.
Sendo assim, pesquisa e problema de pesquisa se justificam, moebianamente,
pela atualidade da discussão na comunidade acadêmica e psicanalítica sobre diagnóstico
e direção do tratamento, bem como no seio do debate político junto à Reforma
Psiquiátrica que, ainda que com avanços importantes, permanece atravessada por um
certo empuxo à neuronormatividade

Objetivo de Pesquisa
Objetivo Geral: Investigar quais as possíveis relações entre os impasses clínico-
epistemológicos encontrados na clínica de Lacan e seu percurso de fundamentação do
conceito de sujeito.

Objetivos Específicos: O que pretendemos de maneira específica é cernir


possíveis desdobramentos que a clínica proposta por Lacan - junto às psicoses -
produziram na psicanálise de forma geral, tanto em intensão, quanto em extensão.

Hipótese de Pesquisa
Partindo da premissa fundamental de que Lacan foi fiel à letra freudiana –
construindo e justificando seu retorno a partir de impasses encontrados na clínica e no
debate com seus pares – sustentamos a hipótese de que foi a partir de sua disposição em
sustentar um tratamento possível das psicoses, e do encontro com aquilo que nomeou
de paradoxal relação estabelecida entre sujeito, fala e linguagem, na loucura, um dos
determinantes que o precipitou a fundamentar um conceito de sujeito para a psicanálise.
A partir desta pesquisa, pretendemos sustentar a hipótese de que, seja no seio do
retorno do discurso manicomial, seja na maneira com que o conceito de sujeito é
empregado como sinônimo de indivíduo, pessoa etc. o que subjaz é um mesmo
movimento de resistência àquilo que Freud, com a descoberta da psicanálise, apontou
como uma das feridas narcísicas desferidas contra o homem e que Lacan, com seu
conceito de sujeito formalizou de maneira inequívoca, a saber: o restabelecimento da
verdade no campo da ciência, na medida em que pela via do retorno do recalcado, ela se
impõe, a partir de seus efeitos no/de sujeito na clínica.
1. Freud e as perspectivas para a psicanálise: clínica e política dos/nos
impasses freudianos

Partindo da premissa de que a psicanálise figura entre as três profissões


impossíveis, junto ao ato de educar e governar, pretendemos discutir, em um primeiro
momento qual o alcance que Freud sustentou, tendo em vista a prerrogativa da
impossibilidade de se analisar uma pessoa por completo, para a psicanálise em sua
relação com outros campos, mais especificamente aqueles relativos à psiquiatria e
Saúde Mental.
Para este fim, propomos realizar um retorno aos escritos dedicados à discussão
quanto aos impasses que Freud encontrou, seja em âmbito estritamente clínico, seja
naqueles relativos à resistência que o discurso analítico produziu junto à sociedade.
Mais além, pretendemos apresentar e discutir os encaminhamentos possíveis apontadas
por Freud para esses impasses, buscando, com isso, cernir a forma como Freud pode
relacionar os impasses (resistências?) encontrados em sua clínica, com a resistência à
psicanálise na sociedade.
Buscamos, assim, extrair do texto freudiano indicações metodológicas e clínicas
que amparem uma discussão quanto ao alcance, a importância e o relevo dado por
Freud, daquilo que se apreende na clínica, tendo como horizonte o encontro e o debate
com outros campos concernentes ao horizonte subjetivo de seu tempo.
Aqui, a célebre citação de Lacan “Que antes renuncie a isso, portanto, quem não
conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época” (1953/1998, p. 322),
nos ajudará na orientação dada às leituras que pretendemos realizar do texto freudiano.
Já que buscaremos cernir em quais pontos Freud articula a incidência da psicanálise,
como mediadora das questões atinentes à subjetividade de seu tempo, seus limites, e os
encaminhamentos já nesse tempo apontados pelo pai da psicanálise.
Lacan afirma neste trecho que, ao fim de uma análise, o sujeito encontra-se com
a solidão, não qualquer solidão, mas sim uma que paradoxalmente, apresenta-o a uma
dialética que não é individual, sendo assim, o término da análise, para Lacan, aponta
também para o “momento em que a satisfação do sujeito encontra meios de se realizar
na satisfação de cada um, isto é, de todos aqueles com quem ele se associa numa obra
humana”. (1953, p. 322)
É de se sublinhar o fato de ser na sequência desta asserção o momento em que
Lacan ancora a um só tempo a importância do trabalho do psicanalista e a
responsabilidade deste ter como horizonte a subjetividade de sua época, na medida em
que, a partir de sua função, torna-se “o eixo de tantas vidas”. Indicando, por fim, a
importância deste – o psicanalista - saber de que maneira a dialética do desejo o
compromete com o a pessoa que a ele endereça a história de seu sofrimento, bem como
a relevância de situar seu lugar como “intérprete na discórdia das línguas”, não
ofertando, frente aos paradoxos da fala e da linguagem, soluções demasiadas ágeis.
(1953, p. 322)
É esse o caminho que Zygouris aponta para o psicanalista, uma via que nem é
neutra, tampouco cristalizada junto a um único discurso: seja o mítico, que atribuiria a
Deus as intempéries de Babel, seja à adaptação social ou o da psiquiatria biológica.
Trata-se, antes, do pensamento clínico, na medida em que “a clínica é sempre localizada
numa cidade (pólis) e que se inscreve na história da fabricação da subjetividade”. (2011,
p. 25)
Isso nos leva, imediatamente, à questão da weltanschuung, somada aos riscos da
dita Saúde Mental como horizonte de um tratamento. Por um lado, não pretendemos
cair numa terapêutica da compaixão, por outro, não podemos reduzir os efeitos de uma
psicanálise à assunção de um sujeito fabricado por aquilo que Radmila nomeou de
“análise fundamentalista que produz crentes que se tomam por sujeito, porque a teoria
assim os batizou”. (Zygouris, 2011, p. 25)
É por termos em vista esse risco, e nos situarmos nessa outra via, nem a da
compaixão, nem a do lacanian way of life, fazendo referência à Diana Rabinovich, que
sustentamos o retorno ao processo de fundamentação do conceito de sujeito, em Lacan,
para extrairmos – do texto – as referências que apontam para a relação sustentada por
Lacan daquilo que adveio da clínica, e que o impulsionou à colocação “no coração de
sua doutrina e de sua prática uma noção estrangeira a Freud: aquela de sujeito.”
(Askofaré, 2009, p. 166)

Escritos de Freud privilegiados nesse momento:


Método Psicanalítico de Freud (1903); Perspectivas futuras da terapia psicanalítica
(1910); O interesse científico da psicanálise (1913); Conferências Introdutórias sobre a
Psicanálise (Psicanálise e Psiquiatria); Uma dificuldade no caminho da psicanálise
(1917); Caminhos da terapia Psicanalítica (1919); Sobre o ensino da psicanálise nas
Universidades (1919); Dois verbetes de enciclopédia (1923); Conferência XXIV –
Explicações, aplicações e orientações e Conferência XXXV – A questão da
Weltanschauung (1932)

2. Lacan e a fundamentação do sujeito da psicanálise: carência teórica,


abuso de transmissão e impasses na experiência clínica

Proposta: Apresentar os impasses indicados por Lacan que o fizeram se


debruçar sobre a fundamentação de um conceito de sujeito próprio à psicanálise,
buscando enfatizar sua dimensão notadamente clínica em sua relação com o texto
Ciência e Verdade, ponto de chegada apontado por Lacan após “anos de fundamentação
do conceito de sujeito”.

Método: Percorreremos de maneira detida textos célebres à discussão e


elaboração do conceito de Sujeito tal como Formulações sobre a causalidade psíquica
(1948); Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960);
Posição do Inconsciente (1961); Ciência e Verdade (1965) e Do sujeito enfim em
questão (1966), apenas para citar algumas das referências indicadas como ponto de
partida por autores que dedicaram suas pesquisas à questão do Sujeito, como Oglive
(1987); Fink (1995); Elia (2004) e Cabas (2009). De maneira concomitante
retomaremos, sobretudo, os seminários dedicados à retomada e leitura crítica da obra
freudiana (Seminários de 1 a 10), mais especificamente aqueles que enfatizam o sujeito
(2, 4 e 6).
Pretendemos desenvolver um método de leitura e pesquisa que vise atravessar
dois pontos fundamentais: I) as origens/bases epistemológicas do conceito de sujeito; II)
momento em que exista correlações históricas (reuniões científicas, debates com outros
campos do conhecimento que de alguma maneira tomem a clínica como referência)
possíveis entre impasses e proposições lacanianas sobre a fundamentação do conceito
de sujeito em sua relação com os impasses clínicos encontrados na experiência.
1. Freud e as perspectivas para a psicanálise: clínica e política dos/nos
impasses freudianos

Partindo da premissa de que a psicanálise figura entre as três profissões


impossíveis, junto ao ato de educar e governar, pretendemos discutir, qual o alcance que
Freud sustentou para a psicanálise, a partir de seus impasses clínicos, tendo como
horizonte sua relação com outros campos, mais especificamente aqueles relativos à
psiquiatria, por conseguinte, à Saúde Mental.

Gostaríamos, entretanto, de acrescentar um outro ingrediente ao debate, a saber,


a tentativa de relacionar o impossível de psicanalisar, com a dificuldade ressaltada por
Freud (1900; 1905; 1910; 1913; 1917; 1919; 1932; 1937) do início ao fim de sua obra
dedicados à transmissão, diálogo e apresentação dos impasses, dos avanços e das
perspectivas sustentadas por Freud em momentos diferentes de sua obra.
São estes: Perspectivas futuras da terapia psicanalítica (1910/2013); O interesse
da Psicanálise (1913/2012); Conferências Introdutórias – 16. Psicanálise e Psiquiatria
(1917/2014); Caminhos para a terapia psicanalítica (1918-1919/2016); Deve-se
ensinar a psicanálise nas universidades (1919/2010); Uma dificuldade para a
psicanálise (1917/2010) e Novas conferências introdutórias 34. e 35. A questão da
visão de mundo.
Apenas para listar alguns dos campos com os quais Freud buscou algum tipo de
debate, poderíamos apontar: psiquiatria; medicina; ciências da linguagem; filosofia;
biologia; história da evolução e da civilização; estética; sociologia e pedagogia. Isso
para citar aqueles aos quais Freud dedicou um breve artigo escrito em 1913 intitulado O
interesse da psicanálise, dividido em duas partes, a primeira dedicada ao Interesse
psicológico e a segunda ao Interesse da psicanálise para as ciências não psicológicas
Ao longo do ano de 1917, Freud proferiu suas primeiras Conferências
Introdutórias à psicanálise, tendo como publico psicanalistas, médicos e pesquisadores
de outros campos. Ao refletir sobre sua impressão em relação aos opositores, situa
grande parte dos argumentos contrários à psicanálise, ligando esta a um puro
subjetivismo. Este argumento, em linhas gerais ainda muito atual, não diminuiu em
nada o interesse de Freud no que diz respeito à comunicação de seus achados.
Ainda que não compreendesse ao certo quais as motivações de tais posturas,
afirma algo que nos interessa, a saber, que

Talvez ela venha do fato de, em geral, um médico não ter muito
contato com os doentes dos nervos, de não ouvir atentamente o que
têm a dizer, de modo que não considera a possibilidade de extrair algo
de valor de suas manifestações e, portanto, de fazer observações
aprofundadas. (Freud, 1917/2014, p. 327)

O permanente desejo, além da necessidade, em muitas ocasiões, de estabelecer


diálogos com outros trabalhadores do campo da Saúde Mental, estejamos em
instituições de cuidado, na Universidade, ou em nosso consultório, foi parte do
combustível que, a um só tempo, justifica e anima o retorno ao texto freudiano a fim de
extrair deste indicações metodológicas e clínicas que amparem uma discussão quanto ao
alcance, a importância e o relevo dado por Freud, daquilo que se apreende na clínica,
tendo como horizonte o encontro e o debate com outros campos concernentes ao
horizonte subjetivo de seu tempo.
Com isso, pretendemos apresentar e discutir os encaminhamentos possíveis
apontados por Freud para esses impasses, buscando cernir a forma como pode
relacionar os impasses encontrados em sua clínica, com a resistência à psicanálise na
sociedade. Para isso, serão trabalhados pontos de inflexão e aproximação, sobretudo,
com a psiquiatria e a medicina de seu tempo. O enfoque comporta um debate que
sustentamos profícuo e pertinente, na medida em que é, ainda que não exclusivamente,
no e do intercâmbio com os campos da psiquiatria e Saúde Mental que muitos dos
avanços cínicos se deram.
Seja pelo que o próprio Freud anunciou em 1910, nas Perspectivas futuras da
terapia psicanalítica (1910/2013) quanto à importância de termos acesso às mais
variadas formas de sofrimento para o avanço da psicanálise; seja, já em 1919, no
Caminhos para a terapia psicanalítica (1919/2016) quando Freud afirmou ser um
compromisso por sua posição na sociedade, a saber, de psicanalista, “observar em que
direções ela (psicanálise) poderia se desenvolver”, pensando, com isso, a entrada da
psicanálise no rol de tratamentos ofertados em instituições, tanto públicas, quanto
privadas. (Freud, 1919/2016, p. 191)
Buscaremos relacionar de que forma os limites e as possibilidades clínicas da
psicanálise puderam se articular com o que Freud propunha quanto à incidência da
psicanálise como mediadora das questões atinentes à subjetividade de seu tempo e o
legado por Freud deixado para seus sucessores.
Neste ponto é importante trazer, em O interesse da psicanálise, a advertência do
próprio Freud quando traz a interpretação dos sonhos como paradigma que, a um só
tempo, coloca a psicanálise no interior do debate científico de seu tempo, selando “o
destino de opor-se à ciência oficial, que seria próprio da psicanálise.”. Na medida em
que, segundo Freud, a ciência de seu tempo não tinha com o fenômeno do sonho
qualquer compromisso além da tomada como “expressão do órgão psíquico mergulhado
no sono, ante estímulos físicos que levam a um despertar parcial.” (Freud, 1913/2012, p.
335)
Poucos anos depois, em 1917, já em sus Conferências introdutórias, mais
especificamente aquela dedicada à psicanálise e psiquiatria, Freud é ainda mais enfático
ao afirmar que nem tudo o que é mental, corresponde com o que é consciente. Para, na
sequência apontar que, ao contrário do que muitos supunham, no mais das vezes “a
vontade não vai além de seu saber.”, e que o caminho possível para o tratamento está
neste movimento de “voltar para si, para suas profundezas, e conheça antes a si mesmo;
então compreenderá por que tem de ficar doente, e conseguirá talvez não ficar doente.”
(Freud, 1917/2010, pp. 249-250)
Seja a interpretação dos sonhos, seja em sua psicopatologia da vida cotidiana,
seja na forma como o sintoma passa a ser tomado, o que Freud em muitos destes
escritos sustenta é uma aposta na comunicação daquilo que, junto à experiência clínica,
pode também ser verificado no cotidiano, visando produzir

algumas ligeiras mudanças na imagem que se tem do mundo, por mais


insignificantes que sejam os fenômenos observados. Notamos que
também o indivíduo normal é mais frequentemente movido por
tendências contraditórias do que esperávamos. (Freud, 1913/2012, p.
335)

A hipótese que de alguma forma orienta e justifica a existência deste capítulo


dedicado aos textos de Freud é de que é possível pensar em interlocuções e relações
distintas e complementares entre o saber advindo da clínica das neuroses (em Freud) e
das psicoses (em Lacan), com outros campos do conhecimento. Isso levando em conta,
também, o deslocamento ocorrido no contexto das duas Grandes Guerras. 1
O que se teve a partir desse recrudescimento em relação à psicanálise e a
verdade que esta suporta é análogo ao movimento que Lacan aponta, ainda seguindo à
esteira do debate quanto a resistência, como “inversão da escolha legítima que
determina qual sujeito é acolhido na fala” O que, sendo assim, produziria apostas e
efeitos distintos da psicanálise. Seja em intensão, como em extensão. (Lacan,
1955/1998, p. 407)

Em 1910 Freud apresenta suas Perspectivas para o futuro da psicanálise,


abordando a questão do futuro desta atrelada ao fortalecimento de suas bases clínicas e
epistemológicas em três frentes, que nomeou de Progresso interno; Acréscimo em
autoridade e Efeito geral de nosso trabalho. A justificativa de Freud para sua
conferência está no entusiasmo dele próprio pela ampliação da capacidade teórica e
clínica da psicanálise, bem como da “depressão pela grandeza das dificuldades que se
interpõem a nossos esforços” (1910/2013, p. 288).
Extraímos deste escrito um primeiro esquema metodológico que auxiliou e
orientou a leitura dos artigos escolhidos neste tempo da pesquisa. A saber, o
estabelecimento da questão interna ao campo analítico, a maneira como Freud a
abordou em seus escritos, encampando o que nomeou de Progresso Interno,
posteriormente, investigamos de que forma esse progresso interno foi pensado por
Freud em relação ao Acréscimo em Autoridade, para, em um último tempo, pensarmos
sobre o Efeito geral de nosso trabalho, almejado por Freud.
Na primeira parte de seu escrito, divide o progresso interno em duas frentes, a
saber, o avanço em nosso conhecimento analítico e em nossa técnica. Por conhecimento
analítico, Freud aproxima a questão quanto ao diagnóstico e as formulações oriundas do
encontro analítico que, segundo o autor, “tornaria seguro o nosso prognóstico.” (Freud,
1910/2013, p. 291)

1
A primeira atingindo Freud ainda vivo, a segunda, em seu deslocamento e no deslocamento de alguns de
seus sucessores rumo aos Estados Unidos da América, “a conjuntura era forte demais, a oportunidade
sedutora demais para que não se cedesse à tentação oferecida”, afirma Lacan, de abandonar o princípio do
desejo para fazer repousar no mais lucrativo subjugo da demanda. Tornando-se, nas palavras deste,
administradores de almas em um contexto, o estadunidense, mas não só, que requereu destes tal ofício.
(Lacan, 1955/1998, pp. 403-404)
Sobre este ponto específico, importante sublinhar que Freud jamais almejou para
a psicanálise a solução em sua totalidade das questões relativas ao sofrimento psíquico
de maneira geral. Afirma, em 1913, ao situar o interesse pela psicanálise por outros
campos que esta

remete à psicologia a solução de metade do labor psiquiátrico. Mas


seria um grave erro supor que a psicanálise busca ou favorece uma
concepção puramente psicológica dos transtornos anímicos. Ela não
pode ignorar que a outra metade do labor psiquiátrico tem como teor a
influência de fatores orgânicos (mecânicos, tóxicos, infecciosos) no
aparelho psíquico. Na etiologia dos transtornos anímicos, nem mesmo
para os mais leves entre eles, as neuroses, ela reivindica uma origem
puramente psicogênica, procurando sua causa, isto sim, no influxo
sobre a vida psíquica exerce um fator a ser ainda mencionado,
indubitavelmente orgânico. (Freud, 1913/2012, p. 342)

O que se delineará ao longo destes – Perspectivas futuras para a psicanálise


(1910) e Caminhos para a terapia psicanalítica (1919) - e outros escritos de Freud é
uma certa identidade entre eles em relação à prerrogativa clínica, somada a uma
dedicação com o que chamou de acréscimo de autoridade em relação à sociedade, o que
produziria, vindo a ocorrer, um rearranjo necessário para o fortalecimento da psicanálise
em suas perspectivas e alcances clínicos.
Sobre este interesse da psicanálise em outros campos, Estêvão (2018), sustenta
que neste movimento o que ocorre é um ganho substancial no alcance e relevância das
hipóteses e proposições oriundas da psicanálise. Fica, assim, evidente a importância da
psicanálise enquanto metodologia de pesquisa poder avançar em direção a campos que
vão além do binômio clínica/metapsicologia. Isso, é claro, sem perder de vista sua
especificidade epistemológica.
Sendo assim, a aposta nesse debate deve-se ao esteio que o próprio Freud
estabeleceu, a partir da clínica, tendo no diálogo com outros campos parte importante de
seu investimento em comunicações e interlocuções clínico-teóricas. Seja naquilo que a
psicanálise já tinha avançado, por exemplo nos debates quanto à psicopatologia da vida
cotidiana, interpretação dos sonhos, chistes, seja nas questões relativas às psicoses,
terreno onde Freud pisou com maior cuidado, mesmo assim, com a mesma disposição a
pensar como a sua metapsicologia poderia servir para o entendimento de fenômenos
como alucinação e delírio, ainda que questionasse as possibilidades clínicas junto à
psicose.
Isso fica evidente neste fragmento em que discute, ainda com a psiquiatria, sobre
o alcance de seu tratamento

Sabe-se que a nossa terapia psiquiátrica, até o momento, não foi capaz
de exercer influência sobre as ideias delirantes. Poderá fazê-lo a
psicanálise, graças à compreensão que adquiriu desses sintomas? Não,
meus senhores, não pode; contra esse mal, ela é tão impotente quanto
qualquer outra terapia – pelo menos até agora. Conseguimos entender
o que se passou no doente, mas não temos como fazer que o próprio
doente o compreenda. (Freud, 1917/2014, p. 342)
Nestas mesmas conferências, apresenta algumas questões atinentes ao debate
que nos propomos aqui, por serem relativas à centralidade da experiência psicanalítica
como fonte maior desde a qual a psicanálise produz seu conhecimento:

Por outro lado, não pensem que aquilo que lhes apresento como
concepção psicanalítica é um sistema baseado na especulação.
Decorre, isto sim, da experiência, é expressão direta da observação ou
resultado da elaboração da experiência. (Freud, 1917/2014, p. 326)

Este é um problema que Freud irá levantar em praticamente todos os escritos


dedicados à exposição dos achados da psicanálise para outros campos do conhecimento.
Entretanto, não situa a questão apenas na dificuldade de a psicanálise poder demonstrar
suas hipóteses. Freud remete tais dificuldades, também à desconsideração daquilo que o
doente tem a dizer, culminando em uma incapacidade de ir além do fenômeno
observado (delírio, paralisias, alucinações etc):

Talvez ela [dificuldade] venha do fato de, em geral, um médico não


ter muito contato com os doentes dos nervos, de não ouvir
atentamente o que têm a dizer, de modo que não considera a
possibilidade de extrair algo de valor de suas manifestações e,
portanto, de fazer observações aprofundadas. (Freud, 1917/2014, p.
327)

Nestes dois breves fragmentos é possível acompanhar Freud ocupado com a


questão da comunicação de seus achados, ciente da importância destes para a
psiquiatria, mas advertido de que, sem uma certa disposição do médico para escutar
desde outra posição, seria impossível avançar em relação à hereditariedade e uma
“etiologia bastante genérica e distante” como principais justificativas para algumas
manifestações psíquicas.
Entretanto, Freud não sustenta que a solução para este impasse esteja na escolha
de um dos caminhos. Ao contrário, aponta não haver “na essência do trabalho
psiquiátrico, nada que poderia opor à pesquisa psicanalítica.”, sustentando, frente a essa
constatação, que chegará o momento em que “uma psiquiatria dotada de profundidade
científica” só será possível e a partir de um “bom conhecimento dos processos mais
profundos, inconscientes, que se desenvolvem na vida psíquica. (Freud, 1917/2014, p.
341)
O que, no mesmo ano, será apresentado, em seu escrito Deve-se ensinar a
psicanálise na Universiade?, como um dos pontos fundamentais que indicam a
importância do ensino da psicanálise nos cursos de medicina.
Pouco adiante afirma ainda que a psiquiatria, muito atravessada pela religião,
afirma que “esses casos envolvam espíritos maus que se infiltraram na psique, mas
limita-se a dizer, dando de ombros: ‘Degeneração, disposição hereditária, inferioridade
constitucional!’, para, na sequência, afirmar um compromisso que, sem exageros, está
situado no plano ético, a saber

A psicanálise procura esclarecer essas inquietantes doenças; ela


empreende pesquisas longas e acuradas, produz conceitos auxiliares e
construções científicas, e pode enfim dizer ao Eu: ‘Nada estranho se
introduziu em você; uma parte de sua própria psique furtou-se ao seu
conhecimento e ao domínio de sua vontade. (...) Então eles se rebelaram
e tomaram seus próprios obscuros caminhos, a fim de escapar à
repressão, e criaram seus próprios direitos, de uma maneira que você
não pode aprovar’”. (Freud, 1917/2010, pp. 248-249)
Em que pese o recuo de Freud no que diz respeito ao tratamento das psicoses, é
preciso sublinhar que, no ato de afirmar que “Nada estranho se introduziu em você”,
para, na sequência justificar a existência dos delírios e alucinações como retorno de algo
recalcado, nesse sentido tendo alguma identidade com o que ocorre na neurose, situa o
debate freudiano numa perspectiva não-hierarquizante, ainda que este movimento vacile
um pouco ao longo de sua obra.
Neste ponto, vale trazer um breve trecho de seu escrito O Interesse da
psicanálise, que evidencia uma articulação proposta entre um saber oriundo da clínica
com o interesse que outros campos poderiam ter em relação à psicanálise:

O conhecimento das enfermidades neuróticas dos indivíduos


favoreceu nossa compreensão das grandes instituições sociais, pois as
neuroses mesmas se revelaram tentativas de solucionar
individualmente os problemas da compensação dos desejos, que
devem ser resolvidos socialmente pelas instituições. O recuo do fator
social e o prevalecimento do fator sexual fazem com que essas
soluções neuróticas do problema psicológico sejam caricaturas,
inutilizáveis exceto para nosso esclarecimento dessas importantes
questões. (Freud, 1913/2012, p. 359 – grifo nosso)

Interessante, ainda, destacar que essa possibilidade de, a partir do conhecimento


das neuroses, na clínica, podermos produzir algum saber sobre as grandes instituições
sociais, em 1913 tomada por Freud como “inutilizáveis exceto para nosso
esclarecimento dessas importantes questões”, figura, já em 1932, em sua conferências
dedicada à Weltanschauung, impreterível. Chegando ao ponto de afirmar não
compreender, ao pensar o lugar da psicanálise na composição da visão de mundo
científica

como podem ser omitidos fatores psicológicos quando se trata de


reações de seres humanos vivos, pois não apenas esses fatores já
estavam envolvidos na criação de tais relações econômicas, mas
também sob o domínio delas as pessoas não podem senão por as suas
pulsões originais em ação. (Freud, 1932/2010, p. 350)
Isso pode ser visto de maneira muito interessante, quando Freud, ao tratar da
questão do delírio, se pergunta sobre os limites da psiquiatria e da psicanálise em
relação a este, justificando seu interesse no fato mesmo do psiquiatra não conhecer “o
caminho que leve ao esclarecimento de um tal caso. Ele tem de se contentar com esse
diagnóstico e, a despeito de uma rica experiência, com um prognóstico incerto”, pouco
adiante, aponta que, diferente da psiquiatria, a psicanálise poderia oferecer um pouco a
mais. Sustentando, inclusive, que esse ganho não vem de outro lugar que do interesse
em ouvir atentamente o que o analisando tem a dizer. (Freud, 1917/2014, p. 336)
Com Lacan (1932/2011), é possível estabelecer essa mesma relação. Seja
pensando-a como ponto de partida, já que, de sua tese de doutoramento em psiquiatria, e
alguns impasses clínicos mantidos em suspenso, sobretudo no que diz respeito a um
tratamento possível para a psicose, vigorou um importante movimento em direção à
psicanálise. Seja ao lançar-se, já com suas proposições e leituras próprias da psicanálise
e de outros campos como a filosofia, a linguística e a psiquiatria ao debate com
pensadores e pesquisadores destes campos.2
Sobre este ponto específico, não será desviar demais sublinhar duas passagens
interessantes de um Lacan preocupado com o tratamento das psicoses. A primeira data
de 1932, ano em que concluía sua tese de psiquiatria intitulada Da psicose Paranoica
em suas Relações com a Personalidade, nela, Lacan afirmou ser a psicanálise a melhor
indicação para os casos de psicose, observando, na sequência, a parcimônia com que os
psicanalistas tomavam tal tratamento. Pouco mais adiante escreveu:

A técnica psicanalítica conveniente para esses casos ainda não está,


segundo o testemunho dos mestres, madura. Aí está o problema mais
atual da psicanálise, e é preciso esperar que ele encontre sua solução.
Pois uma estagnação dos resultados técnicos no seu alcance atual
acarretaria o desaparecimento da doutrina. (Lacan, 1932/2011, p. 277)

2
Isso fica evidente ao verificar que grande parte dos escritos dedicados à apresentação de sua
proposta de retorno a Freud, bem como os célebre artigos dedicado à questão do sujeito, terem sido
produzidos e apresentados em conferências realizadas em lugares como o a Clínica de Neuropsiquiatria
de Viena (A Coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise, 1955), a Sociedade de
Francesa de Filosofia (A Psicanálise e seu ensino, 1957) e no Colóquio internacional de filosofia
(Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, 1960) , apenas para listar alguns.
Em 1955, Lacan, já tendo dado início ao seu programa de retorno a Freud, abria,
em 16 de novembro seu Seminário As Psicoses, afirmando que naquele ano começou a
questão das psicoses:

Digo a questão, porque não se pode sem mais nem menos falar do
tratamento das psicoses (...) e menos ainda do tratamento da psicose
em Freud, pois ele jamais falou disso, salvo de maneira totalmente
alusiva. Vamos partir da doutrina freudiana para apreciar o que nesta
matéria ela ensina, mas não deixaremos de introduzir as noções que
elaboramos no decorrer dos anos precedentes, nem de tratar todos os
problemas que as psicoses nos suscitam atualmente. Problemas
clínicos e nosográficos (...) de tratamento também, nos quais nosso
trabalho deste ano deverá desembocar – é nosso ponto de mira.
(Lacan, 1955-1956/2008, p. 11)

O investimento em inserir tais fragmentos da obra de Lacan neste momento da


pesquisa está na possibilidade de sublinhar, a um só tempo, a tarefa clínica assumida por
Lacan, desde o momento em que afirmou que a psicanálise seria a melhor proposta para
o tratamento das psicoses, assim como o caráter sustentado como fundamental para que
a psicanálise seguisse existindo ao avançar com vistas aos “resultados técnicos” em
relação aos problemas de seu tempo, à ocasião, o tratamento das psicoses.
O que Freud assegurou em todo seu movimento e, como veremos de maneira
mais detida no próximo capítulo marca, também a posição de Lacan, é uma aposta
muito decidida em relação aos efeitos do quê da clínica ascende como não-saber,
somada à importância de, a partir disso, retomar seu desenvolvimento teórico
assumindo uma posição crítica em relação a este, para, por fim, poder estabelecer
algumas respostas possíveis, e, sempre, perspectivas para o futuro sem as quais a
psicanálise perderia sua pungência. (Freud, 1918-1919/2016)

Após o desenvolvimento deste primeiro ponto, nos dedicaremos agora ao exame


das formas como Freud refletiu sobre questões relativas ao que chamou de Ganho de
Autoridade.
Ao longo deste subitem, Freud insiste na relação entre o lugar que a psicanálise
tem socialmente, de prestígio e confiança, e a possibilidade de esta almejar novas
perspectivas para sua clínica. É nessa conferência que Freud faz a interessante analogia
entre o ginecologista na Turquia e o psicanalista em seu tempo

Pensem na posição de um ginecologista na Turquia e no Ocidente.


Tudo o que um ginecologista pode fazer, na Turquia, é sentir o pulso
de um braço que lhe é estendido através de um buraco na parede; o
êxito médico é proporcional à acessibilidade do objeto. No momento,
o poder de sugestão da sociedade vai ao encontro dos tratamentos
hidroterápicos, dietéticos e elétricos, sem que tais recursos consigam
sobrepujar as neuroses. O tempo dirá se os tratamentos psicanalíticos
são capazes de fazer mais. (1910/2013, p. 296)

Este movimento em direção a um maior alcance da psicanálise figura também


em outro artigo, escrito poucos anos depois, já citado - Caminhos para a terapia
psicanalítica (1919/2016).
Frente à total devastação da Primeira Guerra Mundial, Freud promove uma
convocação aos analistas para que considerem a possibilidade de um avanço no alcance
da psicanálise junto à Saúde Pública. 3 Inicia sua intervenção que em 1919 seria
publicada com o título de Caminhos para a terapia psicanalítica atualizando a máxima
de seu percurso enquanto pesquisador, a saber, um elogio da impossibilidade de um
saber completo e fechado, tanto sobre o humano como também acerca da aposta técnica
no tratamento psicanalítico. Nesse sentido, reitera o caráter inacabado de sua disciplina,
levantando alguns dos questionamentos fundamentais ligados à técnica propostos pelos
seus discípulos, bem como possíveis limites clínicos.4

3
A recente tradução do livro de Elizabeth Ann Danto (2019), intitulado As clínicas públicas de Freud:
psicanálise e justiça social, é mais uma oportunidade de estudo e reflexão, agora por meio de um largo
trabalho historiográfico, sobre o impacto produzido na comunidade psicanalítica a partir do discurso de
Freud em Budapeste e seu decorrente artigo Caminhos para a terapia psicanalítica (1919/2016). A autora
afirma que um dos efeitos fundamentais da Primeira Guerra Mundial fora exatamente a urgência de uma
reflexão séria sobre o papel dos médicos nas sociedades. Em se tratando do campo analítico, cumpre
contextualizar que, à época, a maioria dos psicanalistas eram médicos. Isso posto, reconsiderar suas
posições enquanto médicos passava por rever e de alguma forma atualizar seus posicionamentos enquanto
psicanalistas, já que “se não reconsiderassem sua posição, os psicanalistas poderiam se ver
marginalizados como reacionários do lado errado de um mundo pós-monárquico” (Danto, 2019, p. XX).
4
Numa primeira aproximação entre o caráter inacabado e a potência inerente à honestidade de Freud
frente aos limites da psicanálise, é possível trazer a asserção de Marc Bloch (citado por Farge, 1997)
sobre a “necessidade de ser curioso quanto aos problemas que agitam o mundo, de colocar questões
pertinentes para a comunidade científica”, unindo assim o estudo “dos mortos ao tempo dos vivos” (pp. 8-
9).
Já no segundo parágrafo de seu artigo de 1919, afirma um posicionamento
político importante, na medida em que apresenta o desejo de discutir “o balanço de
nossa terapia – à qual devemos nossa posição na sociedade humana – e ver em que
novas direções ela poderia se desenvolver” (Freud, 1919/2016, p. 280).
O grifo é nosso, e busca destacar a preocupação de Freud no sentido de estarmos
atentos aos rumos que a sociedade toma, tendo em vista as repercussões da esfera social
no plano clínico, bem como as respostas possíveis a partir do que o psicanalista recolhe
de sua clínica indo em direção à pólis.
Freud, então, delega aos psicanalistas “a tarefa de adequar nossa técnica às novas
condições” decorrentes desta entrada da psicanálise na esfera da saúde pública. No
momento em que a importância da às questões relativas ao sofrimento psíquico, tiverem
o mesmo nível de importância e compromisso com o tratamento ofertado pelo Estado
que a tuberculose. Assume, neste ponto, o risco de os psicanalistas serem obrigados,
quando inseridos nestes postos de trabalho junto à saúde pública, “a fundir o ouro puro
da análise [...] com o cobre do sugestionamento direto”, mas não sem que se guarde e se
transmita aquilo que há de mais subversivo no tratamento a ser oferecido nessas
instituições, ou seja, as partes “emprestadas da psicanálise propriamente dita, livre desta
ou daquela tendência” (Freud, 1919/2016, p. 212).
A fim construir seu argumento sobre a atividade do analista, toma como ponto
de partida a clínica, ao mencionar o trabalho de Ferenczi, intitulado Dificuldades
técnicas de uma análise de histeria (1919/2016), sobre a atividade do analista, a fim de
circunscrever aquela que postula como questão de seu artigo, a saber, como o analista
poderia transitar entre intervenções de cunho sugestivo, sem abandonar sua aposta
fundamental na transferência como motor do tratamento.
Nesse contexto, pergunta-se sobre sua assertiva acerca da importância de se
manter em suspenso qualquer satisfação substitutiva durante o processo analítico - a
conhecida regra da abstinência. Afirmando, em pelo menos duas oportunidades que o
analista não deve, em hipótese alguma, adotar como direção do tratamento uma
educação que o tome como exemplo a ser seguido, bem como a tutela de um paciente
entendido como fraco e indefeso frente a um analista que detém um saber sobre a vida.
É nesse sentido que recusa o entendimento de que a psicanálise seria uma visão de
mundo, uma filosofia de vida que enobreceria aquele que a utilizasse como norte.
Assevera, por fim, que “isso é apenas violência, mesmo que encoberta pelas mais
nobres intenções” (Freud, 1919/2016, p. 199).
No já citado trecho em que atribui a atualidade do debate quanto ao tratamento
estar restrito aos “tratamentos hidroterápicos, dietéticos e elétricos”, ainda que estes não
tenham qualquer eficácia, firma em seu horizonte o compromisso de fazer a psicanálise
figurar entre estes, a fim de por em questão “se os tratamentos psicanalíticos serão
capazes de fazer mais.”
O mesmo ocorre quando, por exemplo ao apresentar algumas das contribuições
que fundamentais que a psicanálise trouxe para o debate com a sociologia, ao afirmar
que
Ela (psicanálise) percebeu o caráter associal das neuroses em geral,
que tende a empurrar o indivíduo para fora da sociedade e substituir-
lhe a reclusão monástica de tempos passados pelo isolamento da
doença. (...) Por outro lado, a psicanálise mostrou amplamente o papel
que as condições e exigências sociais têm na causação das neuroses.
(...) A velha afirmação de que o crescente nervosismo é produto da
civilização corresponde pelo menos à metade do verdadeiro estado das
coisas. (Freud, 1913/2012, pp. 360-361)

Em grande parte dos escritos consultados, é possível verificar um movimento


bastante atento de Freud ao que outros campos produziram, sejam em suas questões,
sejam nas respostas. O terreno onde Freud não tergiversa, em momento algum, seja ao
afirmar a centralidade da clínica como lugar privilegiado para a produção de questões e
de saber, seja a discutir a dificuldade da psicanálise ser aceita, é o compromisso
indubitável com o que há de singular em detrimento de quaisquer saberes que
prescindam da escuta do um a um. Segundo Freud está aí a resistência maio à
psicanálise, resistência esta presente nos consultórios, bem como na concessão de
autoridade da sociedade em relação às perspectivas da psicanálise:

A sociedade não se apressará em nos conceder autoridade. Ela tem de


nos oferecer resistência, pois nos comportamos criticamente em
relação a ela; demonstramos-lhe que ela mesma tem grande
participação no surgimento das neuroses. Assim como transformamos
o indivíduo em nosso inimigo (...) também a sociedade não pode
responder com ao implacável desnudamento de seus danos e
deficiências; pelo fato de destruirmos ilusões, acusam-nos de pôr em
perigo os ideais. (1910/2013, p. ?)

Interessante sublinhar que Lacan cita esse mesmo escrito, no momento em que
discute o fechamento do inconsciente como o momento em que “o analista deixa de ser
o portador da fala, por já saber ou acreditar saber o que ela tem a dizer.” (1955/1998, p.
361). À ocasião, Lacan afirma que o próprio Freud previu esta dificuldade, como
mostramos acima, ainda que mantivesse certo otimismo no alcance que os efeitos de
uma análise poderia ter na pólis. Como fica claro no fragmento a seguir
Agora ponham no lugar do indivíduo enfermo a sociedade inteira (...)
O êxito que a terapia pode ter com a pessoa deve suceder igualmente
com a massa. Os doentes não poderão dar a conhecer suas diferentes
neuroses (...) se todos os parentes e desconhecidos dos quais querem
ocultar seus processos psíquicos, conhecerem o sentido geral dos
sintomas, e se eles próprios souberem que nada produzem., em seus
fenômenos patológicos, que os outros não sejam capazes de interpretar
imediatamente. Mas o efeito não se limitará ao ocultamente dos
sintomas – aliás, frequentemente impossível; pois essa necessidade de
ocultamento torna inútil a doença. A comunicação do segredo terá
atacado no ponto mais sensível a “equação etiológica” de que se
originam as neuroses, terá tornado ilusório o ganho obtido com a
doença e, por isso, a consequência última da situação modificada pela
indiscrição do médico só poderá ser o fim da produção da doença.
(Freud, 1910/2013, p 299)

Este empenho freudiano de fazer a psicanálise figurar com todo seu vigor
clínico, na sociedade perde força ao longo dos ano. Entretanto, ainda que, sozinha, de
fato não consiga promover importantes mudanças e rupturas mais substanciais, ao poder
compor com outros campos, é possível verificar o que Freud nomeou como “filiação à
visão de mundo científica” (1932/2010, p. 354), por exemplo, ao resgatar uma
paradigmática construção de Bataglia, psiquiatra que, diferente daqueles do tempo de
Freud esteve disposto a escutar seus pacientes, afirma parecer
impossível – uma vez em contato com o doente mental que se
apresenta em nossas instituições – abstrair-nos da realidade social na
qual vive o mesmo, das incrustações sociais que se sobrepuseram à
doença, dos estereótipos culturais que com ela foram conaturados, de
tudo que a doença é socialmente. Isto nos impede, talvez, de dedicar-
nos à doença real, mas segundo a nossa visão, somos materialmente
impossibilitados de fazê-lo porque não se conseguiu ainda encontra-la
além dos extratos de incrustações que continuamos a raspar e que nos
transfere da violência da nossa instituição à violência de todas as
outras instituições da nossa sociedade.

Aquilo que parece resistir à decifração para Basaglia é o que, na clínica, Freud
pode escutar, seja no que diz respeito à resistência, como também aquilo que pode ser
tomado como chave de leitura para a constituição da moral cultural: a saber, a intrínseca
relação estabelecida entre desejo e moralidade. De outro lado, o que Basaglia nos indica
concernir à violência das instituições, da realidade social e das incrustações é o que
Freud nos adverte que resistirá sempre à concessão de “autoridade à psicanálise”.
Feito este percurso, gostaríamos de apresentar a metodologia extraída de alguns
dos escritos de Freud dedicados às questões quanto ao futuro da psicanálise e sua
relação com campos outros que, sustentamos, ser atinente também à forma como Lacan
estabeleceu seu trabalho junto à psicanálise, seu retorno a Freud e o quê deste retorno
buscou pôr à prova tomando o movimento intelectual de seu tempo como interlocutor:

> Parte-se de uma questão clínica


> Propõe-se uma retomada histórica da técnica
> Estabelece-se bases para a produção de uma reflexão que tenha algum alcance
clínico
> Justifica-se, a partir desse alcance clínico, a importância de a psicanálise
seguir figurando entre outros campos dedicados ao cuidado a fim de, em dois tempos:
a. Poder ofertar tratamentos mais interessantes à população
b. Fazer a psicanálise avançar a partir do encontro com outras formas de
sofrimento, em duas vertentes:
b.1 clínica, na proposição de novos aportes para as diferentes modalidades de
sofrimento;
b. 2 aplicada, na possibilidade de ser tomada como saber a compor com outros
campos da ciência, já que “reivindica o interesse de outros profissionais além dos
psiquiatras, pois toca em vários outros âmbitos da ciência e estabelece inesperadas
relações entre estes e a patologia da vida psíquica.” (Freud, 1913/2012, pp. 329-330)

À guisa de concluir a fundamentação aqui proposta, apresentaremos a última das


três frentes que, para Freud, representam os pilares para o fortalecimento de suas bases
clínicas e epistemológicas, visando algum futuro possível para a psicanálise: Efeito
geral de nosso trabalho.
Neste tempo do trabalho, introduziremos de maneira mais enfática as discussões
propostas por Freud em 1932, nas Novas conferências introdutórias, mais
especificamente na Conferência 34 – Esclarecimentos, explicações e orientações e
Conferência 35 – Acerca de uma visão de mundo (1932/2010) na medida em que, em
ambas, o interesse fundamental de Freud é discutir os limites e as possibilidades dos
efeitos gerais da psicanálise. Além de se tratar de um escrito que teve como mote
retomar e fazer avançar debates propostos nas Conferências Introdutórias de 1917, bem
como por se tratar de um escrito posterior à segunda tópica, nessa medida, atravessado
por considerações sobre a pulsão de morte e o mal-estar na civilização.

Parei aqui, em vermelho está a forma como pretendo terminar o capítulo, abrindo para
o próximo, já com Lacan. Em amarelo o que pretendo articular logo antes de terminar
o capítulo, isso que anunciei aqui em cima, somado aos trecho retirados das Novas
conferências.

Aqui a célebre frase de Lacan “deve renunciar à prática da psicanálise todo


analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época
(1953/1998, p. 322), nos ajudará na orientação dada às leituras que pretendemos.
Sublinhamos, então, um primeiro apontamento a ser feto, a saber que estar à altura de
seu tempo encontra uma primeira identidade em Freud e Lacan na medida em que, em
ambos os casos, diz respeito a um engajamento da psicanálise com os dilemas de seu
tempo, sem, para isso, furtar-se ao debate com outros campos do conhecimento.
Esse estado de tensão e interesse do psicanalista e sua clínica por outros campos
do conhecimento pode ser localizado, com Lacan, quando afirma não caber ao
psicanalista, um certo estado de cristalização junto a qualquer que seja o discurso: seja o
mítico, que atribuiria a Deus as intempéries de Babel, seja a aposta irrestrita no
“substrato biológico do sujeito”, seja, para terminar, uma guinada rumo à “posição
culturalista”. (Lacan, 1958/2003b, p. 174.).
Em linhas gerais, tendo em vista essa metodologia de trabalho extraída dos
textos de Freud, seguida por Lacan, poderíamos propor a seguinte questão: estar à altura
de seu tempo, tendo na psicanálise sua aposta é sustentar uma mesma postura em
relação à clínica, a ciência e a sociedade em Freud e Lacan, tendo em vista os impasses
clínicos com os quais se depararam e fizeram a psicanálise avançar, ou recuar, em um e
outro? Se forem diferentes, seus pressupostos guardam relação com o quê as neuroses
ensinaram a Freud e o quê as psicoses ensinaram a Lacan?

“Eu disse que teríamos muito a esperar do crescimento em autoridade que nos há
de vir no decorrer do tempo. Não preciso lhes falar sobre a importância da autoridade.
Muito poucos indivíduos civilizados são capazes de existir sem apoiar-se nos demais,
ou até mesmo de chegar a um juízo autônomo. Não podemos exagerar a ânsia de
autoridade e inconsistência interior das pessoas.” (Freud, 1910/2013, p. 295)
Chegamos, por fim, no debate junto à

As pessoas simplesmente não acreditavam em mim, tal como hoje ainda acreditam
pouco em nós. Em condições tais, algumas intervenções tinham de fracassar. A fim de
calcular o aumento em nossas perspectivas terapêuticas quando há confiança geral em n
A sociedade não se apressará em nos conceder autoridade. Ela tem de nos oferecer
resistência, pois nos comportamos criticamente em relação a ela; demonstramo-lhe que
ela mesma tem grande participação no surgimento das neuroses.

As verdades mais incisivas são finalmente escutadas e reconhecidas, depois que se


esgotam os interesses por elas feridos e os afetos por elas despertados. Até agora sempre
foi assim, e as verdades indesejáveis que nós, psicanalistas, temos para dizer ao mundo
encontrarão o mesmo destino. Apenas isso não ocorrerá em breve; temos de ser capazes
de esperar. (Freud, 1910/2013, pp. 296 -297)

Recordemo-nos, porém, de que não se pode enfrentar a vida como um higienista ou


terapeuta fanático. (...)
Despeço-me dos senhores, então, garantindo-lhes que cumprem seu dever em
mais um sentido, quando tratam psicanaliticamente os seus doentes. Trabalham não
apenas a serviço da ciência, ao aproveitar a oportunidade única de penetrar os segredos
das neuroses; não apenas proporcionam a seus doentes o tratamento mais eficaz para
seus males que hoje temos à disposição; mas também contribuem pra o esclarecimento
das massas, do qual esperamos a mais abrangente profilaxia das enfermidades
neuróticas, pela via indireta da autoridade social. (Freud, 1910/2013, p. 301)

Quando Freud afirma que “o êxito que a terapia pode ter com a pessoa deve
suceder igualmente com a massa”, ele não afirma tratar-se de uma análise da sociedade,
mas sim que, a partir da possibilidade daqueles que enfrentam importantes níveis de
sofrimento psíquico, poderem dizer daquilo que dói e “conhecer suas diferentes
neuroses”, será possível, também, que “todos os parentes e desconhecidos, dos quais
querem ocultar seus processos psíquicos, conhecerem o sentido geral dos sintomas”,
isto é a dimensão conflitiva inerente ao humano, entre desejo e querer, ou, nas palavras
de Lacan, dos limites entre a fala e a linguagem, os efeitos desta não se limitarão aos
que passaram por um psicanalista, mas sim, à toda sociedade, na medida em que ocultar
o sofrimento, não se mostrar mais necessário, porque comum a cada um de nós.

Mas a explicação psicanalítica dos atos falhos traz algumas ligeiras mudanças na
imagem que se tem do mundo, por mais insignificantes que sejam os fenômenos
observados. Notamos que também o indivíduo normal é mais frequentemente movido
por tendências contraditórias do que esperávamos. (Freud, 1913/2012, p. 334)

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