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6579 CUIDADOS NA SAÚDE MENTAL


Cuidados na saúde mental

Índice

Introdução.................................................................................................................2
Âmbito do manual........................................................................................................................2
Objetivos.......................................................................................................................................2
Carga horária................................................................................................................................3
1.Saúde mental.........................................................................................................4
1.1.Doença mental.......................................................................................................................4
1.2.Principais alterações e perturbações mentais..................................................................12
1.2.1.Alterações do comportamento......................................................................12
1.2.2.Alterações do pensamento............................................................................18
1.2.3.Alterações do humor....................................................................................20
1.2.4.Alterações da comunicação...........................................................................26
2.Cuidar em saúde mental......................................................................................30
2.1.Aspectos específicos nos cuidados ao utente com alterações de saúde mental.........30
2.1.1.Alimentação.................................................................................................30
2.1.2.Eliminação...................................................................................................32
2.1.3.Higiene e hidratação....................................................................................33
2.1.4.Sono e Repouso...........................................................................................34
2.1.5.A manifestação de desconforto e de dor........................................................36
2.2.O/A Técnico/a Auxiliar de Saúde em interação com o individuo que apresenta
alteração ou perturbação mental.............................................................................................37
3.Tarefas que em relação a esta temática se encontram no âmbito de
intervenção do/a Técnico/a Auxiliar de Saúde.....................................................42
3.1.Tarefas que, sob orientação de um enfermeiro, tem de executar sob sua supervisão
direta...........................................................................................................................................42

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Cuidados na saúde mental

3.2.Tarefas que, sob orientação e supervisão de um enfermeiro, pode executar


sozinho/a.....................................................................................................................................44
Bibliografia..............................................................................................................47

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Cuidados na saúde mental

Introdução

Âmbito do manual

O presente manual foi concebido como instrumento de apoio à unidade de formação de


curta duração nº 6579 – Cuidados na saúde mental, de acordo com o Catálogo
Nacional de Qualificações.

Objetivos

 Identificar o conceito de saúde mental.


 Identificar as principais alterações e perturbações mentais.
 Identificar as alterações de comportamento, pensamento, humor e comunicação.
 Identificar as especificidades a ter em conta nos cuidados de alimentação, higiene,
conforto e eliminação em indivíduos com alterações de saúde mental.
 Explicar que as tarefas que se integram no âmbito de intervenção do/a Técnico/a
Auxiliar de Saúde terão de ser sempre executadas com orientação e supervisão de
um profissional de saúde.
 Identificar as tarefas que têm de ser executadas sob supervisão direta do
profissional de saúde e aquelas que podem ser executadas sozinho.
 Explicar as formas de estabelecer uma interação com utentes que apresentam uma
alteração ou perturbação mental e após validação com o profissional de saúde.
 Explicar a importância de demonstrar interesse e disponibilidade na interação com
utentes.
 Explicar a importância de manter autocontrolo em situações críticas e de limite.

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Cuidados na saúde mental

 Explicar o dever de agir em função das orientações do profissional de saúde.


 Explicar o impacte das suas ações na interação e bem-estar emocional de
terceiros.
 Explicar a importância da sua atividade para o trabalho de equipa multidisciplinar.
 Explicar a importância de assumir uma atitude pró-ativa na melhoria contínua da
qualidade, no âmbito da sua ação profissional.
 Explicar a importância de cumprir as normas de segurança, higiene e saúde no
trabalho assim como preservar a sua apresentação pessoal.
 Explicar a importância de agir de acordo com normas e/ou procedimentos
definidos no âmbito das suas atividades.
 Explicar a importância de adequar a sua ação profissional a diferentes públicos e
culturas.
 Explicar a importância de prever e antecipar riscos.
 Explicar a importância de demonstrar segurança durante a execução das suas
tarefas.
 Explicar a importância da concentração na execução das suas tarefas.
 Explicar a importância de desenvolver as suas atividades promovendo a
humanização do serviço.

Carga horária

 25 horas

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Cuidados na saúde mental

1.Saúde mental

1.1.Doença mental

O conceito de saúde e de doença, tal como todos os outros conceitos, são produzidos pela
sociedade, sendo, consequentemente, conceitos relativos e dependentes dos padrões
dominantes nas sociedades.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 200, p.2) saúde é “ um estado positivo
de completo bem-estar físico, mental e social”. Esta definição contraria a do modelo
médico que associa a saúde à “ausência de doença” ou de qualquer tipo de distúrbio
biológico.

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Cuidados na saúde mental

A doença tem repercussões em todas as dimensões do indivíduo (física, psicológica e


social) despoletando desequilíbrio. Desta forma, o contexto familiar, laboral e outros aos
quais o indivíduo pertence é afetado, daí decorre o facto do tratamento da doença não se
poder circunscrever ao indivíduo.

A definição de doença mental é mais complexa uma vez que abrange perturbações que
afetam o funcionamento e o comportamento emocional, social e intelectual. Segundo a
OMS, “ a perturbação mental caracteriza-se por alterações do modo de pensar e das
emoções, ou por desadequação ou deterioração do funcionamento psicológico e social.”

Esta definição determina uma conceção relativa à saúde mental, reconhecendo que esta é
determinada por um conjunto de fatores biológico, psicológicos e sociais. Assim, na
doença mental não existe uma insuficiência mas uma alteração de curta ou longa duração.

A explicação das causas associadas à doença mental estrutura-se em três perspetivas


predominantes:
 A da causalidade orgânica, que explica a perturbação mental como alterações,
quantificáveis e observáveis, do próprio organismo. Esta teoria valoriza os fatores
biológicos, incluindo os hereditários.
 A da causalidade psicológica, que focaliza a explicação em fatores pessoais e nos
sentimentos, emoções, pensamentos e comportamentos. Enfatiza os aspetos
psicológicos de casa indivíduo relacionando-os com a sua história de vida
 A da causalidade social, que perspetiva a perturbação mental enquanto elemento
inseparável do contexto em que surge. Os fatores sociais, segundo esta corrente,
são determinantes na explicação do surgimento e evolução da doença. Desta
forma, propõe-nos uma abordagem sistémica que inclui a dimensão laboral,
familiar, afetiva, escolar, entre outras.

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Cuidados na saúde mental

Importa ressalvar que a análise da doença mental atendendo apenas a uma destas
perspetivas é insuficiente e não permite uma abordagem holística. Daqui decorre a
necessidade de se adotar uma perspetiva psicossocial que explica a doença mental com a
interação dos fatores acima mencionados.

A história da doença mental revela que, desde cedo, as pessoas com comportamentos e
atitudes desajustadas da sociedade e com situações extremas de doença fossem
segregadas e remetidos para prisões onde eram contidas, colocando “a salvo” a sociedade
(e não os doentes). Só muito posteriormente estes viriam a ser alvo de atenção e
intervenção, surgindo neste contexto prisional os primeiros tratamentos médicos
psiquiátricos.

O termo doença mental tem, infelizmente, ainda um sentido pejorativo, por ignorância e
sentimento de ameaça e vulnerabilidade das pessoas. A imagem e conceito de doença são
ainda associados a pessoas violentas, agressivas, incapazes, “tolinhas” ou que só
cometem loucuras. Nada de mais errado. A doença mental é, atualmente, extremamente
comum.

A doença mental não deve ser confundida com a quebra de normas ou funcionamentos
sociais, de sentimentos, de crenças ou valores religiosos ou morais que divirjam deste ou
daquele grupo, sociedade ou cultura.

Há ainda um grande desconhecimento da evolução do diagnóstico e tratamento das


doenças mentais entre os profissionais de saúde (não ligados à saúde mental) e na
sociedade, o que contribui para a estigmatização da doença mental.

Compete aos técnicos de saúde mental estudar, avaliar, tratar e refletir, para que se
consiga evoluir mais e intervir cada vez melhor, bem como informar e alertar a sociedade

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Cuidados na saúde mental

para desmistificar a doença mental. Mas este aspeto também se aplica a outras doenças
que, de igual modo, tiveram que ultrapassar muitas barreiras.

O cancro, por exemplo, foi alvo de grandes campanhas que promoveram o diagnóstico
precoce, apesar do conhecimento científico incompleto e da complexidade e grau de
eficácia insuficiente dos tratamentos, que contribuíram para uma grande evolução nessa
área.

Ainda hoje se verifica que, por motivo de doença mental, a pessoa pode necessitar de
baixa ou estar incapaz de exercer as suas tarefas diárias e ser mal vista pela sociedade.
Ou seja, além de estar doente, tem ainda de enfrentar ou refugiar-se da atitude de
ignorância dos outros.

A doença mental é hoje definida e estudada por profissionais com métodos e rigor
científicos.

O desenvolvimento de critérios de diagnóstico de doença mental dos manuais da


Associação Americana de Psiquiatria ou da Organização Mundial de Saúde vieram definir e
orientar, do ponto de vista clínico, uma uniformidade de conceitos sobre o que é ou não a
doença mental.

Os psiquiatras e outros profissionais de saúde mental têm hoje critérios de diagnóstico,


métodos de intervenção e terapêuticas fundamentados em estudos científicos.

A procura de um serviço de saúde mental não significa necessariamente que se está


doente mentalmente segundo os critérios clínicos, mas tão-somente pode significar que se
está em sofrimento emocional, com dificuldades relacionais ou preocupado com aspetos
profissionais e pessoais, por exemplo.

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Cuidados na saúde mental

A conotação da doença mental com aspetos pessoais e sociais negativos é algo que vem
do passado longínquo e se projeta nos dias de hoje, sem qualquer correspondência com a
realidade atual.

Ao longo dos tempos, o Homem sempre revelou dificuldade em compreender a doença


mental, mas com a evolução científica e a maior oferta de serviços de tratamento da
doença mental, atualmente a pessoa em risco de doença ou com doença mental ou que
sente algum mal-estar ou sofrimento emocional procura muito mais facilmente ajuda,
apoio e tratamento.

O modelo estritamente biomédico considera que a doença mental é equiparável a outras


doenças, com um substrato físico, associado a alterações cerebrais, nomeadamente, de
neurotransmissores, recetores neuronais que provocam sintomas e são tratados com
medicação.

Claro que isto é uma realidade, mas não se pode reduzir a doença e o sofrimento mental
da pessoa apenas ao biológico. A dimensão da doença mental está muito para além do
substrato biológico que está presente em todas as emoções e comportamentos, quer
sejam patológicos ou não.

A doença mental é muito mais complexa e, por isso, coloca dificuldades ao técnico e a
quem dela sofre. Esta complexidade, apesar de ser difícil de compreender, não pode ser
desvalorizada ou negada e, por isso, desviada para aspetos interpessoais, sociais, morais
e culturais.

O termo doença mental tem, ao longo dos tempos, acentuado e contribuído também para
a dualidade mental/físico, o que não é realidade. Nem as doenças físicas são só físicas,
nem as mentais são só mentais. Ambas se manifestam numa pessoa que é
simultaneamente corpo e mente.

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Cuidados na saúde mental

As doenças mentais não são problemas da vida, são um problema na vida do doente.

As pessoas não adoecem porque querem ou escolheram ser doentes. Também não
melhoram apenas com a vontade e desejo pessoal. A pessoa com doença mental
necessita de tratamento como qualquer outra pessoa que sofra de diabetes, cancro ou
hipertensão arterial.

A doença mental deve ser encarada como algo que funciona mal no nosso cérebro e que
provoca a doença, tal como noutras doenças orgânicas ou como resposta a circunstâncias
anormais e, neste caso, constitui uma disfunção psicológica.

Em qualquer dos casos, em que uma ou mais variáveis (disfunção cerebral ou


circunstâncias anormais) estão presentes temos uma doença ou risco de a ter. Caso as
duas variáveis estejam bem teremos provavelmente um estado de saúde mental. Mas nem
sempre.

Temos também de inserir a doença mental no domínio psicológico, em que a pessoa sem
lesão ou sem substrato físico prévio alterado, em determinadas situações de crescimento
psicológico ou acontecimentos de vida pode adoecer mentalmente.

A pessoa pode possuir défices ou mecanismos psicológicos prévios que, mesmo em


circunstâncias aparentemente “normais” , evolui para a doença mental.

Claro que as condições físicas e psicológicas são indissociáveis e a importância de uma ou


de outra muda de doente para doente, não existindo uma sem a outra.

A doença mental não é um desvio do comportamento ou atitude social, mas pode implicar
ou desencadear alterações do comportamento social ou cumprimento de normas sociais.

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A doença mental implica sempre uma disfunção no indivíduo e não apenas uma diferença.

Uma coisa são as normas sociais, isto é, situações em que as pessoas infrinjam ou não
cumpram ou não concordem com determinados valores, outra coisa é uma perturbação do
comportamento ou violação dessas regras por doença mental.

Muitos dos problemas que atualmente diminuem a saúde mental das pessoas são
relevantes em termos de disfunção psicológica, mas não em grau suficiente para que
possam ser considerados doença mental no sentido mais estrito do termo, em que o
componente biológico é determinante ou clinicamente significativo, mas afetam a
qualidade de vida das pessoas e colocam-nas em risco de adoecerem.

A doença mental implica a presença de um conjunto de sinais ou sintomas clinicamente


significativos e que não são uma resposta comum, adequada, inserida no contexto cultural
e social em que a pessoa vive, mas resultado de uma disfunção ou anomalia psicológica,
biológica e social.

São critérios da doença mental mal-estar ou défice funcional clinicamente significativo, um


impacto e prejuízo na vida da pessoa doente, ao nível pessoal, social, ocupacional ou
qualquer outra área importante da vida da pessoa, deteriorar as capacidades ou provocar
uma mudança inequívoca no funcionamento da pessoa.

Outro dos critérios é a duração e persistência dos sintomas.

Não é demais salientar a diferença que existe entre doença mental e as diferentes
emoções, comportamentos, atitudes, reações das pessoas enquanto indivíduos inseridos
nos mais variados grupos, contextos ou cultura.

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As causas das doenças mentais são múltiplas, diferindo de doente para doente.

Um dos aspetos característicos da doença mental é a heterogeneidade dos quadros


clínicos. Podemos ter uma depressão em pessoas muito diferentes, daí a grande
complexidade das apresentações clínicas e dos problemas associados a cada pessoa. As
pessoas sofrem de doença mental e não são “a doença mental”. Por isso, devemos dizer
que a pessoa tem uma depressão e está deprimida e não que é um deprimido.

Atendendo a esta complexidade, os diagnósticos devem ser feitos por profissionais com
formação clínica apropriada, experiência e capacidade de avaliação clínica.

Outro aspeto muito relevante é o facto de, para o mesmo diagnóstico, termos pessoas
com manutenção da capacidade funcional, outras com incapacidade funcional parcial ou
total e, dentro da mesma pessoa e diagnóstico, podemos ter alterações da capacidade
funcional conforme o momento da avaliação.

Por isso, cientificamente e clinicamente temos de nos orientar por critérios de diagnóstico
que vão sendo, como em todas as áreas do conhecimento, revistos e atualizados e têm
contribuído para uma maior objetividade no diagnóstico e tratamento da doença mental.

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1.2.Principais alterações e perturbações mentais

1.2.1.Alterações do comportamento

As alterações da personalidade caracterizam-se por padrões de perceção, de reação e de


relação que são relativamente fixos, inflexíveis e socialmente desadaptados, incluindo uma
variedade de situações.

Cada um tem padrões característicos de perceção e de relação com outras pessoas e


situações (traços pessoais). Dito de outro modo, toda a gente tende a confrontar-se com
situações stressantes com um estilo individual, mas repetitivo.

Por exemplo, algumas pessoas tendem a responder sempre a uma situação problemática
procurando a ajuda de outros. Outras assumem sempre que podem lidar com os
problemas por si próprias. Algumas pessoas minimizam os problemas, outras exageram-
nos. Ainda que as pessoas tendam a responder sempre do mesmo modo a uma situação
difícil, a maioria é propensa a tentar outro caminho se a primeira resposta for ineficaz.

Em contraste, as pessoas com alterações da personalidade são tão rígidas que não se
podem adaptar à realidade, o que debilita a sua capacidade operacional. Os seus padrões
desadaptados de pensamento e de comportamento tornam-se evidentes no início da idade
adulta, frequentemente antes, e tendem a durar toda a vida. São pessoas propensas a ter
problemas nas suas relações sociais e interpessoais e no trabalho.

As pessoas com alterações da personalidade não têm, geralmente, consciência de que o


seu comportamento ou os seus padrões de pensamento são desadequados; pelo
contrário, muitas vezes pensam que os seus padrões são normais e corretos.

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Cuidados na saúde mental

Frequentemente, os familiares ou os assistentes sociais enviam-nos para receber ajuda


psiquiátrica porque o seu comportamento desadequado causa dificuldades aos outros. Por
outro lado, as pessoas com alterações por ansiedade causam problemas a si próprias, mas
não aos outros.

Quando as pessoas com alterações da personalidade procuram ajuda por si mesmas


(frequentemente, por causa de frustrações), tendem a pensar que os seus problemas são
provocados por outras pessoas ou por uma situação particularmente difícil.

As alterações da personalidade incluem os seguintes tipos: paranóide, esquizóide,


esquizotípico, histriónico, narcisista, antissocial, limite, esquivo, dependente, obsessivo-
compulsivo e passivo-agressivo. A alteração de identidade dissociativa, anteriormente
chamada alteração da personalidade múltipla, é uma perturbação completamente
diferente.

Personalidade paranóide
As pessoas com uma personalidade paranóide projetam os seus próprios conflitos e
hostilidades para os outros. São geralmente frias e distantes nas suas relações. Tendem a
encontrar intenções hostis e malévolas por trás de atos triviais, inocentes ou mesmo
positivos de outras pessoas e reagem com suspeição às mudanças nas situações.

Muitas vezes, as suspeitas conduzem a comportamentos agressivos ou à rejeição por


parte dos outros (resultados que parecem justificar os seus sentimentos originais).

Os que têm uma personalidade paranóide tentam frequentemente ações legais contra
outros, especialmente se se sentem indignados com razão. São incapazes de ver o seu
próprio papel dentro de um conflito. Embora costumem trabalhar num isolamento relativo,
podem ser altamente eficientes e conscienciosos.

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Cuidados na saúde mental

Personalidade esquizóide
As pessoas com uma personalidade esquizóide são introvertidas, ensimesmadas e
solitárias. São emocionalmente frias e socialmente distantes. Muitas vezes estão absortas
nos seus próprios pensamentos e sentimentos e são receosas da aproximação e da
intimidade com outros.

Falam pouco, são dadas a sonhar acordadas e preferem a especulação teórica à ação
prática. A fantasia é um modo frequente de se confrontar com a realidade.

Personalidade esquizotípica
As pessoas com uma personalidade esquizotípica, tal como as que têm uma personalidade
esquizóide, encontram-se social e emocionalmente isoladas. Desenvolvem, além disso,
pensamentos, perceções e comunicações insólitas.

Algumas pessoas mostram sinais de pensamento mágico (a ideia de que uma ação
particular pode controlar algo que não tem qualquer relação com ela). Por exemplo, uma
pessoa pode acreditar que vai ter realmente má sorte se passar por debaixo de uma
escada ou que pode provocar dano a outros tendo pensamentos de ira. As pessoas com
uma doença esquizotípica podem ter também ideias paranóides.

Personalidade histriónica
As pessoas com uma personalidade histriónica (histérica) procuram de um modo notório
chamar a atenção e comportam-se teatralmente. As suas maneiras vivamente expressivas
têm como resultado o estabelecimento de relações com facilidade, mas de um modo
superficial.

As emoções parecem muitas vezes exageradas, infantilizadas e idealizadas para provocar


a simpatia ou a atenção (com frequência erótica ou sexual) dos outros. A pessoa com
personalidade histriónica mostra-se inclinada a comportamentos sexualmente

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Cuidados na saúde mental

provocatórios ou a sexualizar as relações não sexuais. Podem não querer, na realidade,


uma relação sexual; antes pelo contrário, muitas vezes os seus comportamentos sedutores
encobrem o seu desejo de dependência e de proteção.

Personalidade narcisista
As pessoas com uma personalidade narcisista têm um sentido de superioridade e uma
crença exagerada no seu próprio valor ou importância, o que os psiquiatras chamam
«grandiosidade».

Como pensam que são superiores nas relações com os outros, esperam ser admirados e,
com frequência, suspeitam que os outros os invejam. Sentem que merecem que as suas
necessidades sejam satisfeitas sem demora e, por isso, exploram os outros, cujas
necessidades ou crenças são consideradas menos importantes. O seu comportamento é
muitas vezes ofensivo para outros, que os acham egocentristas, arrogantes ou
mesquinhos.

Personalidade antissocial
As pessoas com personalidade antissocial (noutro tempo chamada psicopática ou
personalidade sociopática), a maior parte das quais são homens, mostram desprezo
insensível pelos direitos e pelos sentimentos dos outros. Exploram os outros para obter
benefício material ou gratificação pessoal (ao contrário dos narcisistas, que pensam serem
melhores que os outros). Caracteristicamente, tais pessoas exprimem os seus conflitos de
forma impulsiva e irresponsável. Toleram mal a frustração e, por vezes, são hostis e
violentas.

Apesar dos problemas ou do dano que causam a outros pelo seu comportamento
antissocial, não sentem, tipicamente, remorsos ou culpabilidade. Ao contrário,
racionalizam cinicamente o seu comportamento ou culpam os outros. As suas relações

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estão cheias de desonestidades e de enganos. A frustração e o castigo raramente os


levam a modificar os seus comportamentos.

Personalidade limite
As pessoas com uma personalidade limite, a maior parte das quais são mulheres, são
instáveis na perceção da sua própria imagem, no seu humor, no seu comportamento e
nas suas relações interpessoais (que muitas vezes são tempestuosas e intensas). A
personalidade limite torna-se evidente no início da idade adulta, mas a prevalência diminui
com a idade. Estas pessoas foram muitas vezes privadas dos cuidados necessários durante
a infância. Consequentemente, sentem-se vazias, furiosas e merecedoras de cuidados.

Estas pessoas são vistas, muitas vezes, pelos médicos dos cuidados primários de saúde;
tendem a visitar com frequência o médico por crises repetidas ou queixas difusas, mas
não cumprem as recomendações do tratamento. Esta alteração da personalidade é
também a mais frequentemente tratada pelos psiquiatras, porque as pessoas que sofrem
dela procuram incessantemente alguém que cuide delas.

Personalidade esquiva
As pessoas com uma personalidade esquiva são hipersensíveis à rejeição e temem
começar relações ou qualquer outra coisa nova pela possibilidade de rejeição ou de
deceção. Estas pessoas têm um forte desejo de receber afeto e de serem aceites. Sofrem
abertamente pelo seu isolamento e falta de capacidade de se relacionarem comodamente
com os outros.

Ao contrário daquelas que têm uma personalidade limite, as pessoas com uma
personalidade esquiva não respondem com a cólera à rejeição; em vez disso, apresentam-
se tímidas e retraídas. A alteração da personalidade esquiva é semelhante à fobia social.

Personalidade dependente

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Cuidados na saúde mental

As pessoas com uma personalidade dependente transferem as decisões importantes e as


responsabilidades para os outros e permitem que as necessidades daqueles de quem
dependem se anteponham às suas próprias. Não têm confiança em si próprias e
manifestam uma intensa insegurança. Muitas vezes queixam-se de que não podem tomar
decisões e de que não sabem o que fazer nem como fazer. Rejeitam dar opiniões, embora
as tenham, porque temem ofender as pessoas de que necessitam.

As pessoas com outras alterações da personalidade apresentam frequentemente aspetos


da personalidade dependente, mas estes sinais ficam geralmente encobertos pela
predominância da outra perturbação. Alguns adultos com doenças prolongadas
desenvolvem personalidades dependentes.

Personalidade obsessivo-compulsiva
As pessoas com personalidade obsessivo-compulsiva são formais, fiáveis, ordenadas e
metódicas, mas muitas vezes não se podem adaptar às mudanças. São cautelosas e
analisam todos os aspetos de um problema, o que dificulta a tomada de decisões.

Embora estes sinais estejam em consonância com os padrões culturais do Ocidente, os


indivíduos com uma personalidade obsessivo-compulsiva assumem as suas
responsabilidades com tanta seriedade que não toleram os erros e prestam tanta atenção
aos pormenores que não conseguem chegar a completar as suas tarefas.

Personalidade passivo-agressiva
Os comportamentos de uma pessoa com uma personalidade passivo-agressiva
(negativista) têm como objetivo encoberto controlar ou castigar os outros. O
comportamento passivo-agressivo é frequentemente expresso como demorado, ineficiente
e mal-humorado.

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Cuidados na saúde mental

Muitas vezes, os indivíduos com uma personalidade passivo-agressiva aceitam realizar


tarefas que na realidade não desejam fazer e a seguir o seu procedimento é o de minar
subtilmente a concretização dessas tarefas. Esse comportamento geralmente serve para
exprimir uma hostilidade oculta.

1.2.2.Alterações do pensamento

Esquizofrenia
A esquizofrenia é uma perturbação mental grave caracterizada por uma perda de contacto
com a realidade (psicose), alucinações, delírios (crenças falsas), pensamento anormal e
alteração do funcionamento social e laboral.

A esquizofrenia é um problema de saúde pública de primeira grandeza em todo o mundo.


A prevalência da esquizofrenia no mundo parece ser algo inferior a 1 %, embora se
tenham identificado zonas de maior ou de menor prevalência. Em alguns países, as
pessoas com esquizofrenia ocupam cerca de 25 % das camas dos hospitais.

A esquizofrenia tem maior prevalência do que a doença de Alzheimer, a diabetes ou a


esclerose múltipla.

Há várias perturbações que partilham características com a esquizofrenia. As perturbações


que se parecem com a esquizofrenia, mas nas quais os sintomas estiveram presentes
menos de 6 meses, denominam-se perturbações esquizofreniformes. As perturbações nas
quais os episódios de sintomas psicóticos duram pelo menos um dia, mas menos de um
mês, chamam-se perturbações psicóticas breves.

Uma perturbação caracterizada pela presença de sintomas do humor, como a depressão


ou a mania, juntamente com outros sintomas típicos da esquizofrenia, chama-se

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Cuidados na saúde mental

perturbação esquizoafectiva. Uma perturbação da personalidade que pode partilhar


sintomas da esquizofrenia, mas na qual os sintomas não são bastante graves para reunir
os critérios de psicose, chama-se perturbação esquizotípica da personalidade.

Delírio
O delírio caracteriza-se pela presença de uma ou mais crenças falsas que persistem pelo
menos um mês.

Ao contrário da esquizofrenia, o delírio é relativamente pouco frequente e o


funcionamento da pessoa está menos alterado. A perturbação afeta pela primeira vez as
pessoas geralmente na meia-idade ou em idade avançada.

Os delírios tendem a incluir situações que poderiam ocorrer na vida real, como ser
perseguido, envenenado, infetado, amado à distância ou enganado por uma esposa ou
amante. Reconhecem-se vários subtipos de perturbação delirante.

No subtipo erotomaníaco, o tema central do delírio é que outra pessoa está enamorada
pelo doente. Costumam ser correntes os esforços por contactar com a pessoa objeto do
delírio através de chamadas telefónicas, cartas e inclusive vigiá-la e estar à espreita. O
comportamento em relação ao delírio pode criar conflitos com a lei.

No subtipo grandioso, a pessoa está convencida de que tem algum grande talento ou de
que fez alguma descoberta importante.

No subtipo de ciúmes, a pessoa está convencida de que o cônjuge ou o amante lhe são
infiéis. Esta crença é baseada em interpretações incorretas apoiadas em «evidências»
duvidosas. Em tais circunstâncias, a agressão física pode representar um perigo real.

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Cuidados na saúde mental

No subtipo persecutório, a pessoa crê que é objeto de uma conspiração, espiada,


difamada ou hostilizada. A pessoa pode efetuar repetidas tentativas para obter justiça,
apelando para os tribunais e para outras instâncias públicas. Pode surgir a violência como
vingança à perseguição imaginária.

O subtipo somático implica uma preocupação pela função do corpo ou de certos atributos,
como imaginar uma deformação física, um odor ou uma parasitose.

1.2.3.Alterações do humor

A depressão e a mania representam os dois pólos opostos das perturbações do humor. As


perturbações do humor são doenças psiquiátricas nas quais as alterações emocionais
consistem em períodos prolongados de depressão ou de euforia (mania) excessivos.

As perturbações do humor são também chamadas perturbações afetivas. Afetivo significa


estado emocional expresso através de gestos e de expressões faciais.

A tristeza e o júbilo são uma parte das experiências normais da vida diária e são
diferentes da depressão e da mania graves que caracterizam as perturbações do humor. A
tristeza é uma resposta natural à perda, à derrota, ao desengano, ao trauma ou à
catástrofe.

A tristeza pode ser psicologicamente benéfica porque permite a uma pessoa afastar-se de
situações ofensivas ou desagradáveis, o que a pode ajudar a recuperar.

A aflição ou o desconsolo é a reação normal mais habitual perante uma separação ou uma
perda, como a morte de um ente querido, o divórcio ou o desengano amoroso. A privação

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Cuidados na saúde mental

e a perda não costumam provocar depressão persistente e incapacitante, exceto em


pessoas predispostas a sofrer perturbações do humor.

O êxito e os sucessos provocam geralmente sentimentos de júbilo. No entanto, o júbilo


pode ser, por vezes, uma defesa contra a depressão ou uma negação da dor da perda. As
pessoas que estão a morrer têm às vezes períodos de júbilo e de atividade buliçosa e
algumas pessoas que sofreram alguma privação ou perda recentes podem inclusive estar
exultantes mais do que desconsoladas, como seria normal.

Em pessoas predispostas às perturbações do humor, estas reações podem ser o prelúdio


da mania.

Embora 25 % a 30 % das pessoas sofram alguma perturbação excessiva do humor


durante a sua vida, só cerca de 10 % têm uma perturbação suficientemente importante
para requerer cuidados médicos. Destas, um terço tem depressão de longa duração
(crónica) e a maioria dos restantes tem episódios recorrentes de depressão.

As depressões crónicas e recorrentes denominam-se unipolares. Cerca de 2 % da


população tem uma situação conhecida como doença maníaco-depressiva ou perturbação
bipolar, na qual alternam períodos de depressão com outros de mania (ou com períodos
de mania menos intensa conhecida como hipomania).

Depressão
A depressão é um sentimento de tristeza intenso; pode ocorrer depois de uma perda
recente ou de outro facto triste, mas é desproporcionado relativamente à magnitude do
facto e persiste para além de um período justificado.

Depois da ansiedade, a depressão é a perturbação psiquiátrica mais frequente. Estima-se


que cerca de 10 % das pessoas que consultam um médico pensando que têm um

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Cuidados na saúde mental

problema físico sofrem na realidade de depressão. A depressão começa habitualmente


entre os 20 e os 50 anos.

Os nascidos nas últimas décadas do século XX parecem ter uma incidência maior de
depressão do que as gerações anteriores.

Um episódio de depressão dura habitualmente de 6 a 9 meses, mas em 15 % a 20 % dos


doentes dura 2 anos ou mais. Os episódios tendem geralmente a repetir-se várias vezes
ao longo da vida.

A depressão que se produz depois de uma experiência traumática, como a morte de um


ente querido, chama-se depressão reativa. Algumas pessoas podem deprimir-se de modo
temporário como reação a certos períodos de férias (férias tristes) ou aniversários com
certo significado, como o aniversário da morte de um ente querido.

A depressão sem precipitantes aparentes conhece-se como depressão endógena. Estas


distinções, no entanto, não são muito importantes, dado que os efeitos e o tratamento
das depressões são semelhantes.

Existe um número de situações em psiquiatria que podem predispor para a depressão,


como certas perturbações por ansiedade, o alcoolismo e a dependência de outras
substâncias, a esquizofrenia e a fase precoce da demência.

Os pensamentos de morte estão entre os sintomas mais graves de depressão. Muitos


deprimidos querem morrer ou sentem que a sua autoestima é tão escassa que deveriam
morrer. Cerca de 15 % das pessoas com depressão grave têm uma conduta suicida. Uma
ideia de suicídio representa uma situação de emergência e qualquer pessoa nessas
condições deve ser hospitalizada e mantida sob supervisão até que o tratamento reduza o
risco de suicídio.

23
Cuidados na saúde mental

Mania
A mania caracteriza-se por uma atividade física excessiva e sentimentos de euforia
extremos que são muito desproporcionados em relação a qualquer acontecimento
positivo. A hipomania é uma forma leve de mania.

Embora uma pessoa possa ter uma depressão sem episódios maníacos (perturbação
unipolar), a mania apresenta-se, mais frequentemente, como parte de uma doença
maníaco-depressiva (perturbação bipolar).

As poucas pessoas que parecem apresentar só mania podem ter, de facto, episódios
depressivos ligeiros ou limitados no tempo.

A mania e a hipomania são menos frequentes do que a depressão e são também mais
dificilmente identificáveis, porque, enquanto a tristeza intensa e prolongada pode levar a
consultar um médico, a euforia fá-lo com muito menos frequência (dado que as pessoas
com mania não têm consciência de ter um problema no seu estado mental ou no seu
comportamento).

O médico deve excluir a presença de uma doença orgânica subjacente na pessoa que
sofre de mania pela primeira vez, sem episódio depressivo prévio.

Doença maníaco-depressiva
A doença maníaco-depressiva, também chamada perturbação bipolar, é uma situação na
qual os períodos de depressão alternam com períodos de mania ou de algum grau menor
de excitação.

A doença maníaco-depressiva afeta em algum grau um pouco menos de 2 % da


população. Pensa-se que a doença é hereditária, embora se desconheça o defeito genético

24
Cuidados na saúde mental

exato. A doença maníaco-depressiva afeta por igual homens e mulheres e habitualmente


começa entre os 10 e os 40 anos.

A perturbação maníaco-depressiva começa geralmente com depressão e apresenta pelo


menos um período de mania em algum momento durante a doença. Os episódios de
depressão duram habitualmente de 3 a 6 meses.

Na forma mais grave da doença, chamada perturbação bipolar de tipo I, a depressão


alterna com mania intensa. Na forma menos grave, chamada perturbação bipolar de tipo
II, episódios depressivos de curta duração alternam com hipomania. Os sintomas da
perturbação bipolar de tipo II voltam muitas vezes a aparecer em certas estações do ano;
por exemplo, a depressão acontece no Outono e no Inverno e a euforia menor acontece
na Primavera ou no Verão.

Numa forma ainda mais suave da doença maníaco-depressiva, chamada perturbação


ciclotímica, os períodos de euforia e de depressão são menos intensos, duram
habitualmente somente alguns dias e voltam a apresentar-se com bastante frequência
com intervalos irregulares.

Embora as perturbações ciclotímicas possam, em último grau, evoluir para uma doença
maníaco-depressiva, em muitas pessoas esta perturbação nunca conduz a uma grande
depressão ou à mania. Uma perturbação ciclotímica pode contribuir para o êxito nos
negócios, na liderança, na obtenção de objetivos e na criatividade artística.

No entanto, pode também provocar resultados irregulares no trabalho e na escola,


frequentes mudanças de residência, repetidos desenganos amorosos ou separações
matrimoniais e abuso de álcool ou de drogas. Em cerca de um terço das pessoas com
perturbações ciclotímicas, os sintomas podem conduzir a uma perturbação do humor que
requer tratamento.

25
Cuidados na saúde mental

Ansiedade
A ansiedade é um estado emocional desagradável que tem uma causa pouco clara e é
frequentemente acompanhado por alterações fisiológicas e de comportamento
semelhantes às causadas pelo medo. Por causa destas semelhanças, às vezes usam-se os
termos «ansiedade» e «medo» de forma indistinta.

A ansiedade é uma resposta ao stress, como a interrupção de uma relação importante ou


o ver-se exposto a uma situação de desastre com perigo de vida. Uma teoria sustenta que
a ansiedade pode também ser uma reação a impulsos reprimidos, agressivos ou sexuais,
que ameaçam transbordar das defesas psicológicas que, normalmente, os mantêm sob
controlo. Portanto, a ansiedade indica a presença de um conflito psicológico.

A ansiedade pode aparecer subitamente, como o pânico, ou gradualmente ao longo de


minutos, de horas ou de dias. A duração da ansiedade pode ser muito variável, indo de
poucos segundos a vários anos. A sua intensidade pode ir de uma angústia pouco
percetível a um pânico estabelecido.

As pessoas reagem de forma diferente aos acontecimentos. Por exemplo, algumas


pessoas gostam de falar em público enquanto outras ficam apavoradas. A capacidade de
suportar a ansiedade varia segundo as pessoas e pode ser difícil determinar quando se
trata de uma ansiedade anormal.

No entanto, quando a ansiedade se apresenta em momentos inadequados ou é tão


intensa e duradoura que interfere com as atividades normais da pessoa, então é
considerada como uma perturbação. A ansiedade pode ser tão stressante e interferir tanto
com a vida de uma pessoa que pode conduzir à depressão. Algumas pessoas têm uma
perturbação por ansiedade e, ao mesmo tempo, uma depressão. Outras desenvolvem,
primeiro, uma depressão e, depois, uma perturbação por ansiedade.

26
Cuidados na saúde mental

As perturbações por ansiedade são a perturbação psiquiátrica mais frequente. O


diagnóstico de uma perturbação por ansiedade baseia-se, fundamentalmente, nos seus
sintomas.

1.2.4.Alterações da comunicação

Afasia
A afasia é uma perda da capacidade para utilizar a linguagem devido a uma lesão na área
do cérebro que a controla.

As pessoas com afasia estão parcial ou totalmente incapacitadas para compreender ou


exprimir as palavras. Em muitas, o lobo temporal esquerdo e a região adjacente do lobo
frontal são os que controlam a função da linguagem. Qualquer parte desta área reduzida
que sofra uma lesão (por um icto, um tumor, um traumatismo craniano ou uma infeção)
produz uma interferência, pelo menos, em algum aspeto da função da linguagem.

Os problemas da linguagem têm muitas formas. A variedade dos defeitos possíveis reflete
a complexidade da função da linguagem. Uma pessoa pode perder somente a capacidade
para compreender as palavras escritas (alexia), enquanto noutras se observa uma
incapacidade para nomear os objetos ou reconhecer os seus nomes (anomia).

Algumas pessoas com anomia não se recordam em absoluto da palavra correta, outras
podem tê-la na ponta da língua, mas não conseguem exprimi-la. A disartria é uma
perturbação da articulação da linguagem. Embora a disartria pareça um problema de
linguagem, na realidade é causada por uma lesão na parte do cérebro que controla os
músculos utilizados para emitir sons e coordenar os movimentos do aparelho vocal.

27
Cuidados na saúde mental

As pessoas com afasia de Wernicke, uma perturbação que pode ser consequência de uma
lesão do lobo temporal, parecem falar com fluidez, mas as frases expressas são uma série
de palavras sem ordem e confusas (às vezes são referidas como sopa de letras).

De um modo geral, as pessoas com afasia de Broca (afasia de expressão) entendem o que
se lhes diz e sabem como devem responder, mas têm dificuldades em exprimir as
palavras. As suas palavras articulam-se lentamente e com grande esforço e são
frequentemente interrompidas por algumas sem sentido.

Uma lesão que afete ao mesmo tempo o lobo temporal esquerdo e o frontal pode
inicialmente causar o emudecimento quase total. Durante a recuperação desta afasia
completa (global), a pessoa tem dificuldades em falar (disfasia), em escrever (agrafia ou
disgrafia) e em compreender as palavras.

Os terapeutas da linguagem podem ajudar, com frequência, as pessoas que desenvolvem


uma afasia como consequência de um icto, de um traumatismo craniano ou de outra
causa de perturbação da linguagem. De um modo geral, o tratamento inicia-se quando o
estado de saúde da pessoa o permita.

Epilepsia
A epilepsia é uma perturbação caracterizada pela tendência a sofrer convulsões
recidivantes.

Em algum momento, 2 % da população adulta tem uma convulsão. Um terço desse grupo
tem convulsões recorrentes (epilepsia). Em cerca de 25 % dos adultos com epilepsia é
possível conhecer a causa quando se realizam exames como um eletroencefalograma
(EEG), que revela uma atividade elétrica anormal, ou uma ressonância magnética (RM),
que pode revelar cicatrizes em pequenas áreas do cérebro.

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Cuidados na saúde mental

Em alguns casos, estes defeitos podem ser cicatrizes microscópicas como consequência de
uma lesão cerebral durante o nascimento ou depois deste. Alguns tipos de perturbações
convulsivas são hereditárias (como a epilepsia juvenil mioclónica). No resto das pessoas
com epilepsia a doença denomina-se idiopática, isto é, não se evidencia nenhuma lesão
cerebral nem se conhece a causa.

As pessoas com epilepsia idiopática têm, habitualmente, a sua primeira crise convulsiva
entre os 2 e os 14 anos de idade. As convulsões antes dos 2 anos de idade costumam ser
causadas por defeitos cerebrais, desequilíbrios no sangue ou febres elevadas. É mais
provável que as convulsões que se iniciam depois dos 25 anos sejam consequência de um
traumatismo cerebral, um acidente vascular cerebral ou outra doença.

As crises epiléticas podem ser desencadeadas por sons repetitivos, luzes cintilantes,
videojogos ou inclusive tocando em certas partes do corpo. Mesmo um estímulo leve pode
desencadear as convulsões em pessoas com epilepsia. Até nas que não sofrem de
epilepsia, um estímulo muito forte pode desencadeá-la (como certos fármacos, valores
baixos de oxigénio no sangue ou valores muito baixos de açúcar no sangue).

Demências
O termo demência é utilizado geralmente para a deterioração mental. Indica decadência
das funções intelectuais tais como: memória, capacidade de julgamento, poder de decisão
e as várias funções de perceção, associação e execução da mente.

Muitas vezes, os primeiros sinais de demência são tão discretos que passam
despercebidos ao médico e à família. Geralmente inicia-se por um défice de memória,
principalmente da memória a curto prazo. Pode-lhe estar associada a perda de iniciativa,
irritabilidade, dificuldade em tomar decisões e incapacidade na realização de atos comuns.

29
Cuidados na saúde mental

As causas de demência podem ser várias: pode ocorrer após traumatismo, pode estar
associada a lesões cerebrais, ou pode secundar a arteriosclerose, doenças tóxicas como o
alcoolismo e a adição de drogas.

Estes doentes, para além de terem necessidade de ter um acompanhamento médico, não
deverão ser deixados sozinhos. No caso das pessoas idosas, muitas vezes, podem ocorrer
situações graves, como por exemplo esquecerem-se de apagar o lume, saírem para a rua
e perderem-se, ou ingerirem medicamentos em quantidade excessiva. O
acompanhamento por uma pessoa de família ou quem a substitua é, portanto,
indispensável.

Muito embora seja difícil e por vezes impossível ter uma conversa dita “normal” com uma
pessoa demente, deve-se ter o cuidado de não alimentar o discurso incoerente que
apresenta. Assim, deve-se sempre tentar trazer a pessoa para a realidade, explicando o
que efetivamente se passa.

A doença de Alzheimer ou demência senil, é um distúrbio, do qual ainda não se conhecem


as causas, caracterizado por uma perda gradual das funções intelectuais.

Esta doença tem um princípio insidioso, com evolução gradualmente progressiva e que
atualmente é irreversível. A alteração da memória pode ser o único sintoma deficitário,
numa fase inicial da doença. Pouco a pouco, discretas alterações da personalidade podem
surgir e o doente vai-se tornando menos espontâneo, ou seja, mais apático.

Posteriormente aparecem alterações de comportamento, como fugir de casa e não saber o


caminho de volta, como a falta de cuidado com a aparência e a higiene corporal. Mais
tarde surge a depressão e em alguns casos o delírio.

30
Cuidados na saúde mental

Não há tratamento específico para esta doença. O médico vai acompanhando a situação
de forma a minorar ao máximo a sintomatologia presente.

É fundamental o acompanhamento destes doentes, em todas as atividades de vida diária,


não descurando nunca a atenção afetiva, extremamente importante para a não
agudização da doença.

31
Cuidados na saúde mental

2.Cuidar em saúde mental

2.1.Aspectos específicos nos cuidados ao utente com


alterações de saúde mental

2.1.1.Alimentação

O desempenho funcional tem uma forte correlação com a função executiva/atenção. Estes
utentes têm diminuição da capacidade de atenção e concentração e distraem-se com
qualquer estímulo, interrompendo a refeição ou mesmo abandonando o local sem
terminar a refeição, quer com o ruído, quer com atividades que aconteçam em simultâneo
ou perante escolhas que tenham de efetuar, tendo muita dificuldade em se manterem
focalizados na tarefa de se alimentarem.

Algumas vezes não conseguem iniciar a refeição perante um prato com diferentes
alimentos, porque têm dificuldade em escolher. Neste caso, e se a orientação verbal ou

32
Cuidados na saúde mental

gestual não for eficaz, é necessário diminuir a escolha colocando um alimento de cada
vez.

Frequentemente a agnosia visual manifesta-se no facto de a pessoa não comer porque é


incapaz de reconhecer os alimentos; bem como não utilizar os utensílios porque não sabe
o que fazer com eles, mas respondem corretamente quando o cuidador orienta
verbalmente ou imita o gesto.

A apraxia pode surgir desde o estádio inicial. Os doentes podem ter necessidade de ajuda
de mão-na-mão para iniciar ou completar as tarefas. Por exemplo, o talher deve ser
colocado na mão e se o doente não inicia o procedimento, o cuidador deverá com a sua
mão-na-mão guiar o movimento.

Quando a ação está a decorrer, o cuidador pode retirar a sua mão e orientar dando uma
ordem verbal. A perda da capacidade para utilizar utensílios surge em consequência de
alteração cognitiva e alteração motora. Quando sentado à mesa para comer, pode ter
dificuldade em reconhecer os utensílios e lembrar-se como usá-los.

O doente com apraxia pode não conseguir efetuar os movimentos necessários para comer,
como por exemplo encher a colher no prato e conduzi-la à boca e poderá ser mais fácil
utilizar os dedos. Nestas situações é importante que o doente tenha a possibilidade de o
fazer para se alimentar de forma independente.

Frequentemente não reconhecem quando é que terminam de comer. A pessoa esquece-se


que está a comer e abandona a refeição antes de a terminar.

Quando a apraxia se agrava, os pacientes progressivamente deixam de se alimentar a si


próprios e requerem ajuda de outros. Numa fase mais avançada, os reflexos primitivos
podem interferir com o ato de comer, provocando a sucção da colher, progredindo para a

33
Cuidados na saúde mental

dificuldade em mastigar e deglutir podendo a pessoa engasgar-se com alimentos líquidos


ou sólidos e há risco de aspiração.

A orientação verbal, utilizando frases curtas e simples, ou não-verbal são fundamentais


para a realização das tarefas. Está documentado que quando surge compromisso da
linguagem verbal, a utilização da linguagem não-verbal e mesmo da pantomina, do toque
e contacto do olhar podem ser estratégias e constituir elementos eficazes na comunicação
com a pessoa demente durante as refeições.

Os doentes poderão terminar a refeição muito rapidamente ou muito lentamente, havendo


uma correlação inversa entre a capacidade funcional e a duração da refeição.

Numa fase mais avançada, os reflexos primitivos podem interferir com o ato de comer,
provocando a sucção da colher, progredindo para a dificuldade em mastigar e deglutir,
podendo a pessoa engasgar-se com alimentos líquidos ou sólidos com risco de aspiração
pulmonar.

Um estado nutricional satisfatório pode ser mantido por ajustamento da ingestão à


energia despendida, às dificuldades em se alimentar, modificando a consistência dos
alimentos de acordo com a necessidade, utilizando as formas de confeção e condimentos
do agrado do doente e ensinando ao cuidador técnicas de alimentação assistida (quer
para doentes com perturbação da mastigação e ou deglutição, quer para doentes com
recusa alimentar).

2.1.2.Eliminação

Uma parte importante dos cuidados prestados pelo técnico/a de saúde ao paciente, em
saúde mental, centra-se em ajudá-lo a superar as dificuldades de eliminação de fezes e

34
Cuidados na saúde mental

urina. A sua atuação pode consistir em ensinar, supervisionar, ajudar ou realizar


procedimentos. Sempre que possível tornar o paciente autônomo, dando-se especial
importância à higiene e ao conforto.

Antes de se estabelecer qualquer plano de cuidados, deverá ser avaliada a capacidade do


paciente em identificar a localização da casa de banho, chegar até ele, tirar a roupa,
sentar-se na sanita, alcançar e utilizar os utensílios de higiene, levantar-se, voltar e vestir-
se e lavar as mãos.

A autonomia na eliminação é um tipo de autocuidado com as características específicas:


levar a cabo as atividades de eliminação, fazendo a sua própria higiene íntima, limpar-se
depois de urinar ou evacuar, deitar fora os produtos de eliminação, por exemplo puxar o
autoclismo de maneira adequada, no sentido de manter o ambiente limpo e evitar a
infeção.

Há que ter em conta que a medicação utilizada nestes pacientes pode ter uma grande
influência na eliminação, causando sobretudo obstipação.

Habitualmente refere-se a dejeções pouco frequentes, mas também pode traduzir uma
diminuição no volume ou peso das fezes, a necessidade de fazer força («puxar») para
esvaziar incompletamente o reto, ou, ainda, a necessidade do uso de clisteres,
supositórios, laxantes para manter a regularidade do trânsito intestinal.

2.1.3.Higiene e hidratação

É fundamental a importância atribuída ao cuidado, no sentido de trabalhar o resgate da


autonomia dos pacientes, o cuidado de si, higiene, o saber se conhecer e perceber quando
ele necessita ajuda.

35
Cuidados na saúde mental

Trabalho o autocuidado não inclui só tomar banho, escovar os dentes e comer, inclui
saber qual o remédio que tem de tomar e que horas, saber se perceber quando está com
problema ou não, quando dá para desempenhar as tarefas sozinho ou precisa ajuda,
conhecer-se a si próprio e saber cuidar de si.

Estes utentes perdem a perceção dos limites quando muitas vezes não se conseguem
olhar ao espelho ou tocar-se, aspetos que a continuidade dos cuidados pode ir resgatando
no dia-a-dia.

A maior parte das ações que o técnico/ de saúde realiza, deve buscar estimular o paciente
ao autocuidado, visando desenvolver suas capacidades e habilidades para lidar da melhor
forma possível com as dificuldades que possui.

Portanto, as ações de cuidado devem ser organizadas objetivando valorizar o potencial


sadio que cada pessoa possui e capacitá-lo a conviver com os outros, a reconhecer as
suas potencialidades e limites de forma a procurar por tratamento, prevenção e promoção
da sua saúde mental.

O profissional que atua na área de saúde mental deve ser capaz de estabelecer
relacionamentos terapêuticos saudáveis, produzindo novas possibilidades de reabilitação
psicossocial. Isso inclui educar os utentes para o autocuidado, possibilitar a melhoria da
sua auto imagem e atender as suas necessidades básicas.

2.1.4.Sono e Repouso

O sono, cuja principal função essencial é o restauro metabólico do cérebro, é um processo


fisiológico essencial à nossa saúde e bem-estar geral e as queixas de insónia não devem

36
Cuidados na saúde mental

ser menosprezadas, devendo ser alvo de averiguação clínica uma vez que a insónia pode
aumentar o risco de aparecimento de doenças psiquiátricas ou agravar o seu prognóstico.

A insónia trata-se pois de uma avaliação subjetiva por parte do individuo relativamente à
dificuldade em adormecer; o sono não é suficiente em quantidade e em continuidade
(despertares frequentes ou prolongados) ou não se apresenta como reparador, mesmo
quando existe tempo adequado disponível para dormir.

As consequências da privação do sono poderão manifestar-se em sonolência diurna,


alterações do humor, dificuldades na memória, concentração, fadiga acentuada, tonturas,
entre outras consequências que podem aumentar risco de acidentes para além da
diminuição de bem-estar associado.

As alterações do ciclo sono podem pois também impossibilitar a pessoa de cumprir


horários, ter uma atividade profissional, ajustar-se às rotinas sociais, etc.

Alguns fatores predisponentes da perturbação do sono relacionam-se, para além da


relação com o avançar da idade, com a existência de história familiar de insónia,
características da personalidade e determinadas condições médicas ou psiquiátricas.

Deve estimular-se a higiene regular do sono. Se este é imprescindível para repor o


equilíbrio energético entre mente, corpo e emoções, despendido diariamente devido ao
ritmo de vida que levamos, nestes doentes dada a sua venerabilidade as suas
necessidades são maiores, pelo que devem repousar e dormir o mais possível.

Para evitar situações de risco durante o sono e repouso, é necessário tomar alguns
cuidados: conduzir o paciente para a cama o mais tarde possível, assim ele possivelmente
dormirá mais rapidamente.

37
Cuidados na saúde mental

Os pacientes agitados devem ter grades laterais colocadas na cama, ou, caso não seja
possível, o cuidador deve manter um dos lados da cama encostando-se à parede e colocar
colchões no chão, ao lado da cama para reduzir o impacto de quedas caso elas ocorram.
Se possível, permanecer no quarto com o paciente até que ele adormeça.

Para evitar que o paciente troque o dia pela noite evite que ele durma durante o dia,
devem ser providenciadas atividades simples para que o paciente execute e se canse.

2.1.5.A manifestação de desconforto e de dor

A intervenção adequada em estados de crise exige maturidade e controle emocional por


parte de quem atende:
 Ao aproximar-se, observar o utente e aqueles que estiverem com ele.
 Alguns sinais esclarecem certos fatos. Observar o contexto e certificar-se de que o
utente esteja seguro.
 A aproximação deve ser calma, porém firme, com um único técnico servindo de
interlocutor, identificando-se de forma clara, simples e declarando a sua intenção
de ajuda. Mantenha-se a uma distância confortável e segura durante a abordagem.
 Permitir o utente que fale. Mantenha contato visual enquanto o fala.
 Separar o utente de outras pessoas com objetivo de tranquilizar o ambiente. A
ansiedade dos presentes dificulta a abordagem.
 Mostrar-se interessado e não julgar ou criticar.
 Informar claramente ao utente sobre o que será feito para ajudá-lo a sair da crise.
 Não o deixar sozinho nem por um instante.
 Abordar o utente pelo nome e apresentar-se.
 Demonstrar respeito.
 Ouvir o que ele tem a dizer.
 Falar calmamente.

38
Cuidados na saúde mental

 Posicionar-se ao lado do utente, o que é menos ameaçador para ele.


 Manter as mãos visíveis.
 Evitar contato físico, que pode interpretar como ameaça ou assédio.

2.2.O/A Técnico/a Auxiliar de Saúde em interação com o


individuo que apresenta alteração ou perturbação mental

A prestação de cuidados em saúde mental acresce à prática de cuidados gerais, uma


prática que evidencia maior profundidade e leque de conhecimentos, uma maior síntese
de dados, maior complexidade de aptidões e de leque de intervenções com repercussões
no aumento da sua autonomia.

Este cuidar compreende os processos de sofrimento, alteração e perturbação mental do


utente assim como as implicações para o seu projeto de vida, o potencial de recuperação
e a forma como a saúde mental é afetada pelos fatores contextuais.

Esta prática permite estabelecer relações de confiança e parceria com o cliente, assim
como aumentar a visão sobre os problemas e a capacidade de encontrar novas vias de
resolução.

As intervenções visam contribuir para uma adequação das respostas da pessoa doente e
família face aos problemas específicos relacionados com a saúde mental (adesão à
terapêutica, autocuidado, ocupação útil, promoção da autonomia, entre outros), tendo
como objetivo evitar o agravamento da situação e a desinserção social da pessoa doente,
e promover a recuperação e qualidade de vida de toda a família.

39
Cuidados na saúde mental

Ao mobilizar na prática um conjunto de saberes e conhecimentos, técnicos e humanos e


ao demonstrar níveis elevados de julgamento e tomada de decisão, os cuidados de
enfermagem possibilitam também que a pessoa, durante o processo terapêutico, viva
experiências gratificantes quer na relação intrapessoal quer nas relações interpessoais.

Competências do profissional cuidador em saúde mental:


 Detém um elevado conhecimento e consciência de si enquanto pessoa e
enfermeiro, mercê de vivências de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e
profissional;
 Assiste a pessoa ao longo do ciclo de vida, família, grupos e comunidade na
otimização da saúde mental;
 Ajuda a pessoa ao longo do ciclo de via, integrada na família, grupos e
comunidade a recuperar a saúde mental, mobilizando as dinâmicas próprias de
cada contexto;
 Presta cuidados de âmbito psicoterapêutico, socioterapêutico, psicossocial e
psicoeducacional, à pessoa ao longo do ciclo de vida, mobilizando o contexto e
dinâmica individual, familiar de grupo ou comunitário, de forma a manter, melhorar
e recuperar a saúde.

Se em qualquer doente a primeira entrevista é essencial, com estes pacientes o primeiro


contacto é onde se decide o estabelecimento do processo empático e em que existe a
possibilidade de criar a confiança para o futuro.

Assim, no âmbito da entrevista, aquando da sua entrada, o técnico de saúde deve:


 Mostrar empatia a fim de compreender os pensamentos do doente. Não basta
compreendê-los se não formos capazes de o transmitir. Para ser empático, o
técnico deve possuir flexibilidade suficiente para pôr de lado o seu quadro de
referência habitual e inserir-se no doente a fim de identificar e compreender as

40
Cuidados na saúde mental

suas mensagens explícitas e implícitas, identificar não só as emoções como


também o contexto em que as vive.
 Escutar, pois a capacidade de escuta constitui o fulcro da relação de ajuda, pelo
que é indissociável da aquisição das diferentes capacidades (de respeito, empatia,
congruência e clarificação) inerentes a essa relação. É uma arte que todos os
profissionais de saúde devem desenvolver. Escutar, porém, não é simplesmente
ouvir. É descobrir todos os indicadores fornecidos pelo doente. O que requer do
Técnico de Saúde uma grande abertura à comunicação obrigando-o a um
empenhamento total que possa captar todos os indicadores emitidos pelo paciente,
tanto verbal como não verbalmente.
 Aceitá-lo como doente, pois padece de uma doença se bem que a Medicina ainda
não esteja preparada para lhe dar uma solução definitiva.
 Informá-lo de que o seu problema pode ter componentes orgânicos, psicossociais,
mas não desanimar. É importante diminuir-lhe o stress de forma a melhorar a sua
qualidade de vida. Algumas vezes são doentes com baixa autoestima, sentimentos
de menos valia, que tiveram pouco êxito a nível familiar, social ou laboral,
sedentos de afeto e famintos de vida, e por isso a nossa ajuda e carinho são
sempre benéficos.
 Estabelecer uma relação de confiança. O êxito das nossas atuações dependerá
grandemente da perceção que o doente tiver da nossa relação com ele, sendo a
compreensão e empatia imprescindível para facilitar o processo terapêutico
evolutivo.
 Mostrar naturalidade, ambiente sossegado e seguro.
 Promover uma «certa distância», pois não deve existir confusão de papéis e
envolvimento emocional, já que podem ser condicionadores da prática terapêutica
 Facilitar a conduta verbal e não-verbal, ajudando-o a iniciar e prosseguir a
conversa sem indicar nem sugerir conteúdos; respeitando os seus silêncios

41
Cuidados na saúde mental

 Tranquilizá-lo, se necessário informá-lo da natureza e prognóstico da sua doença,


em função do seu grau de compreensão, bem como dos condicionamentos que a
informação lhe pode causar.
 Não lhe criar falsas expectativas. Ajudá-lo a aliviar os sintomas, a diminuir o
sofrimento obtendo, assim, uma qualidade de vida aceitável.
 Desculpabilizá-los, alguns, dado a especificidade da doença, tendem a sentir-se
poderosos, empreendedores e desinibidos.
 Alertar para os principais sintomas de aviso, manifestados por: Nervosismo,
insónia, dificuldade de concentração, isolamento social, perda de interesse por
atividades anteriormente prazerosas, humor depressivo e descuido a nível de
higiene
 Nunca omitir as tomas da medicação e negligenciar as consultas médicas de rotina.
Não obstante, se se esquecer, não deve tomar a dose dupla na toma seguinte.
 Comunicar com um tom de voz suave e baixo através de frases curtas, reiterativas
e simples, porque estão fragilizados, com dificuldade de concentração e retenção
de muita informação.
 Manter proximidade física e mostrar-se o mais natural possível, uma vez que são
sensíveis às relações e emoções, tanto positivas como negativas.
 Ouvir o paciente sem o criticar, não lhe dirigir frases taxativas, “do tipo”: tudo
está na sua cabeça, aceitando a situação dos doentes com depressão tal qual a
descrevem, tentar convencê-los do contrário só serve para deixarem de ter
confiança em nós.

Perante um doente descompensado e possivelmente agressivo não se deve atuar com


autoritarismo ou contra-agressão porque isso pode aumentar a sua violência. Não
obstante, pode ser necessário recorrer ao uso da força, com o propósito de contê-lo em
estado de crise.

42
Cuidados na saúde mental

É importante avaliar objetivamente o que se sabe do doente e não o rotular de «muito


perigoso» quando não há a certeza de o ser. Mas agir sempre com prudência pois é tolice
minimizar os riscos óbvios decorrentes da informação disponível e não se tomarem as
precauções adequadas.

As intervenções de saúde não são estandardizadas porque o que pode ser um êxito para
um, pode não resultar noutro com a mesma doença. A experiência profissional melhora
substancialmente as perícias da comunicação, isto leva a que o profissional se sinta mais
seguro quando tem de enfrentar as dificuldades decorrentes de situações de agressividade
latente em fase de descompensação.

43
Cuidados na saúde mental

3.Tarefas que em relação a esta temática se


encontram no âmbito de intervenção do/a Técnico/a
Auxiliar de Saúde

3.1.Tarefas que, sob orientação de um enfermeiro, tem de


executar sob sua supervisão direta

Constituem atribuições do enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiátrica:


 Acompanhar os utentes nas atividades de vida diária e atividade de vida prática;
 Aplicar, divulgar e disponibilizar normas de biossegurança;
 Atender e orientar os utentes, familiares e comunidade em geral de forma
humanizada;
 Avaliar a qualidade da assistência de enfermagem prestada ao utente;
 Convocar e/ou participar de reuniões multidisciplinares;
 Coordenar as atividades de passagem de turno;
 Coordenar ou participar de atividades de grupo com os utentes, familiares e
técnicos;

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Cuidados na saúde mental

 Coordenar e participar de reuniões com grupos de familiares;


 Cumprir e fazer cumprir normas e rotinas da Instituição;
 Cumprir e fazer cumprir o Código de Ética de Enfermagem
 Elaborar junto com a equipa interdisciplinar o plano terapêutico individualizado;
 Encaminhar altas e transferir os utentes a outras unidades quando necessário,
notificando o procedimento aos familiares;
 Estabelecer relação de ajuda com o utente e familiares;
 Estimular a autonomia e autocuidado do utente;
 Estimular a integração dos membros da equipa multiprofissional.
 Executar e/ou supervisionar as atribuições técnicas pertinentes ao serviço;
 Organizar junto com a equipa interdisciplinar, atividades terapêuticas de carácter
individual e/ou grupal;
 Orientar utentes e/ou acompanhantes no sentido de minimizar a ansiedade, a
insegurança e a angústia decorrentes do internamento;
 Prever e requisitar material de consumo à farmácia;
 Promover um ambiente seguro, confortável e silencioso ao utente;
 Promover um ambiente terapêutico para o utente;
 Promover a observação rigorosa dos utentes com risco de suicídio e dos que
apresentarem agitação psicomotora;
 Providenciar assistência religiosa para o utente quando solicitado;
 Providenciar o encaminhamento dos utentes que serão submetidos a consultas e
exames;
 Realizar o atendimento individual de familiares;
 Realizar consulta de enfermagem;
 Registrar a evolução dos utentes;
 Registrar diariamente as atividades desenvolvidas pela equipa no Relatório de
Enfermagem.

No que respeita à supervisão direta do técnico/a auxiliar de saúde, o enfermeiro deve:

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Cuidados na saúde mental

 Supervisionar e/ou realizar a administração de medicamentos, a verificação dos


sinais vitais e o cuidado com a integridade física do utente;
 Supervisionar e orientar a equipe para os cuidados específicos com utentes em
restrição mecânica;
 Supervisionar a limpeza e desinfeção da área física da unidade;
 Supervisionar a limpeza, desinfeção e esterilização dos diversos materiais da
unidade;
 Supervisionar a validade, diluição, conservação, administração e interação de
medicamentos;
 Supervisionar e manter a ordem da unidade;
 Supervisionar o encaminhamento de exames e recebimento/arquivamento dos
resultados.

3.2.Tarefas que, sob orientação e supervisão de um


enfermeiro, pode executar sozinho/a

O técnico/a auxiliar de saúde, no âmbito dos cuidados em saúde mental, deve


desempenhar com autonomia as seguintes tarefas:
 Administrar e/ou auxiliar na alimentação do utente dependente;
 Acompanhar e encaminhar o utente em atividades recreativas e de terapia
ocupacional;
 Acompanhar e transportar utentes em caso de alta hospitalar e transferência;
 Acompanhar e transportar utentes que serão submetidos a consultas e exames;
 Acompanhar o utente e registar a sua evolução;
 Acompanhar os utentes nas Atividades de Vida Diária e Atividades de Vida Prática;
 Cumprir a prescrição médica e de enfermagem;
 Cumprir e fazer cumprir normas e rotinas da Instituição;

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Cuidados na saúde mental

 Detetar alterações do utente, comunicar ao enfermeiro e anotar no relatório diário;


 Encaminhar e acompanhar o utente na reavaliação médica;
 Estabelecer relação de ajuda com o utente e o familiar;
 Estimular a autonomia e autocuidado do utente;
 Manter a ordem da unidade no que diz respeito à área física, equipamentos e
materiais;
 Observar rigorosamente os utentes com risco de evasão;
 Observar rigorosamente os usuários com risco de suicídio e os que apresentam
agitação psicomotora;
 Organizar e participar de eventos sociais e culturais que visem a ressocialização do
utente e a integração entre o serviço e a comunidade;
 Orientar o utente e realizar coleta de material para exame conforme rotina;
 Orientar e observar o utente para o jejum quando necessário em casos de exames
clínicos;
 Orientar o utente e os familiares na ocasião da licença ou alta hospitalar;
 Orientar utentes e acompanhantes no sentido de minimizara ansiedade,
insegurança e angústia decorrentes do internamento;
 Participar das atividades de passagem de turno de acordo com a rotina;
 Participar de reuniões interdisciplinares;
 Participar junto com a equipa interdisciplinar da elaboração do plano terapêutico
individualizado;
 Participar nos procedimentos de admissão orientando o utente e familiares para o
tratamento e as rotinas da unidade;
 Preparar e administrar medicamentos por via oral, parenteral e tópica;
 Prestar/auxiliar e orientar cuidados de higiene e conforto ao utente;
 Promover um ambiente seguro, confortável e silencioso ao utente;
 Promover um ambiente terapêutico para o utente;
 Promover o conforto e segurança do utente;
 Promover cuidados específicos para os utentes em restrição mecânica;

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Cuidados na saúde mental

 Promover cuidados visando a manutenção da integridade física do utente;


 Realizar e/ou auxiliar na contenção mecânica do utente;
 Realizar limpeza, desinfeção e esterilização dos diversos materiais da unidade;
 Registrar diariamente os procedimentos desenvolvidos em relatório;
 Respeitar e promover a privacidade do utente;
 Verificar sinais vitais;
 Zelar pelo bom uso dos materiais de consumo e equipamentos evitando
desperdício e utilização inadequada;
 Zelar pelos bens patrimoniais da Instituição.

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Cuidados na saúde mental

Bibliografia

AA VV., 100 modos de apoiar a recuperação pessoal: um guia para profissionais da saúde
mental, Ed. Ministério da saúde, 2009

AA VV., Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados Especializados em Saúde


Mental, Ordem dos Enfermeiros, 2011

Aleixo, Fernando, Manual de Enfermagem, Ed. Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio.,


EPE, 2007

Aleixo, Fernando, Manual do Assistente Operacional, Ed. Centro Hospitalar do Barlavento


Algarvio., EPE, 2008

Sites Consultados

 Ordem dos enfermeiros


http://www.ordemenfermeiros.pt/
 Programa Nacional para a Saúde Mental
http://www.saudemental.pt/
 Manual Merck: saúde para a família
http://www.manualmerck.net/

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