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TEORIAS SOCIOLÓGICAS:

Aula introdutória1
Sebastião Merlen2

“Mesmo quando os sociólogos estão de acordo em relação ao objecto


da análise, esta é muitas vezes conduzida a partir de perspectivas
teóricas diferentes”.
[Giddens, 2013: 21]

1. Considerações iniciais

A teoria é uma componente inerente a toda e qualquer ciência. Uma


ciência, não obstante as problemáticas em torno da sua definição 3, poder ser
concebida, por um lado, como uma forma de conhecimento que se distingue
das outras (senso comum, conhecimento teológico, conhecimento filosófico)
por ser factual, racional, rigorosa, metódica, sistemática, verificável e falível e,
por outro lado, como um conjunto de conhecimentos que apresentam as
características referidas anteriormente4.
As ciências sociais são um ramo das ciências5. Não surpreende,
portanto, que a teoria também seja uma componente inerente destas ciências.
Sob a designação “ciências sociais”, enquadra-se um conjunto de ciências ou
áreas do conhecimento que se dedicam ao estudo da sociedade e vários
aspectos da vida dos humanos em sociedade (antropologia, ciência política,
economia, história, psicologia, sociologia, etc.).
Cada uma das ciências sociais lida com o seu objecto de estudo, à luz
de uma ou várias perspectivas teóricas. Na presente aula, vamos ater-nos
apenas à sociologia e às teorias que os seus praticantes desenvolvem. Para
cumprir este desiderato, antes de tecermos considerações a respeito da
sociologia e das teorias sociológicas, é imprescindível que teçamos algumas
considerações a respeito da teoria e da sua utilidade.

1 Anotações para aula de Teorias Sociológicas /2020.


2 Licenciado em Ciências da Educação, opção Ensino da Sociologia, pelo Instituto Superior de
Ciências da Educação (ISCED) de Luanda. Estudante do curso de Mestrado em Sociologia da
Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto. Endereço electrónico:
sebastiao.merlen@yahoo.com .
3 Definir ciência é tarefa penosa e impregnada de problemáticas: existem inúmeras definições e

estas variam ao ritmo das orientações epistemológicas dos seus proponentes [Deshaies, 1997;
Freixo, 2012].
4 Eis aí algumas principais características atribuídas ao conhecimento científico pelas diversas

correntes epistemológicas (construtivismo, empirismo, idealismo, positivismo, pragmatismo,


racionalismo, etc.). Cada corrente epistemológica preconiza um ideal de cientificidade e, por sua
vez, as várias ciências coexistentes representam diferentes formas de realizar tais ideais
[Deshaies, 1997; Santos, 2008; Freixo, 2012].
5 Existem vários sistemas de classificação das ciências. As ciências sociais estão presentes se não

em todos pelo menos na maioria das classificações. Uma classificação muito utilizada é a de
Jean Piaget: ciências lógico-matemáticas; ciências físicas; ciências biológicas e ciências
psicossociológicas [Deshaies, 1997]. Existe um um sistema de classificação genérico que agrupa
as ciências em quatro categorias: (i) ciências matemáticas; (ii) ciências naturais; (iii) ciências
sociais e humanas e (iv) ciências aplicadas [Freixo, 2012].
2. Teoria: O que é e para que serve?

Falar de teoria pressupõe falar de um conceito de difícil definição,


sobretudo, quando se pretende fazê-lo de forma objectiva e com precisão, pois,
existem diferentes concepções sobre o que é uma teoria.
Etimologicamente, a palavra “teoria” provém do grego: theoria. Esta
palavra grega equivale a “contemplação”, “reflexão” e “introspecção”, em
português [Freixo, 2012]. Estes e outros significados contribuem para que, no
linguajar quotidiano, se pense a teoria frequentemente como uma especulação,
i.e, uma análise sem fundamentos empíricos que se baseia, geralmente, no
raciocínio abstrato.
Há, portanto, que se fazer uma distinção entre o uso da expressão
“teoria” no linguajar comum e no linguajar científico. A etimologia da palavra
permite uma polissemia que, no linguajar comum, deturpa o sentido que a
palavra tem para as ciências [Fortin, 2009; Freixo, 2012].
No seu uso comum, a expressão “teoria” ganha significados que a
tornam equivalente de hipótese, de conjectura, de especulação ou de
suposição. É usada por oposição à prática e, frequentemente, tem uma
conotação negativa ou, no mínimo, pejorativa. São exemplos disto expressões
como “Isto é só uma teoria”; “O Fulano é muito teórico”; “Temos de ser mais
práticos e menos teóricos” e tantas outras.
No linguajar científico, atribui-se um significado diferente à palavra
teoria. Todavia, em abono da verdade, antes de nos pronunciarmos a respeito
do uso científico da palavra teoria, cabe-nos dizer que, no campo científico, não
há consenso quanto a o que é uma teoria e a como deve ser. Esta falta de
consenso intensifica-se ainda mais quando se leva em conta a natureza das
explicações nas ciências da natureza e nas ciências sociais [Giddens, 2003;
Fortin, 2009; Freixo, 2012].
Não obstante a falta de consenso quanto ao que é teoria, existe
consenso quanto ao que não é uma teoria: uma teoria não é uma hipótese,
uma conjectura, uma especulação ou uma suposição [Sutton & Saw, 1995].
Há, portanto, a necessidade de procedermos a uma ruptura epistemológica6
entre a expressão “teoria” no seu uso na linguagem comum e no seu uso na
linguagem científica.
Para as ciências, as teorias são ferramentas de análise para
compreender, explicar e fazer previsões sobre um ou vários fenómenos.
Existem várias definições possíveis para teoria. Em síntese, podemos falar que
uma teoria (entenda-se “teoria científica”) é uma explicação de um fenómeno,
obtida a partir da observação ou experimentação dos factos, com base nos
procedimentos científicos aceites pela comunidade científica.
As teorias seguem os princípios do pensamento racional e da lógica.
Daí que se manifestam quase sempre sobre a forma de um sistema de
enunciados lógicos e empiricamente fundamentados susceptível de explicar,
descrever ou prever determinado fenómeno.

6 Sobre as noções de “obstáculo epistemológico”, “ruptura epistemológica” e “vigilância


epistemológica”, ver Bourdieu et al. [2010].
2
A ruptura epistemológica entre a expressão “teoria”, no seu uso
comum e no seu uso científico, pressupõe que se estabeleça as devidas
distinções entre teoria e hipótese, teoria e conjectura, teoria e especulação,
bem como teoria e suposição. Uma explicação científica que carece do apoio de
evidências empíricas é simplesmente uma hipótese (ainda!). Por sua vez,
quando esta hipótese é devidamente testada e comprovada pelos factos, já
podemos considerá-la uma “teoria”.
As teorias e os factos não são diametralmente opostos. Na verdade,
estão intrinsecamente relacionados: “não existe teoria sem ser baseada em
factos; por sua vez, a compilação de factos ao acaso, sem um princípio de
classificação (teoria), não produziria a ciência” [Freixo, 2012: 93]. Ao contrário
do que se preconiza no senso comum, “os factos não falam por si mesmos”:
“somente quando se acham relacionados uns aos outros, ou a ideias gerais,
podem ser reunidos num corpo de conhecimentos científicos” [Chinoy, 2012:
26].
O desenvolvimento das explicações científicas assenta na permanente
inter-relação entre teoria e factos [Freixo, 2012]. A teorização é incompleta
sem a observação empírica, e vice-versa [Harrington, 2005; Derek, 2006;
Chinoy, 2012]. Anthony Giddens [2013: 7] alerta que “a pesquisa factual e as
teorias nunca podem ser completamente separadas”, pois, “só podemos
desenvolver explicações teóricas se as pudermos testar com base em pesquisas
factuais”.
As considerações e concepções teóricas têm, implícita ou
explicitamente, um papel essencial no que diz respeito à direcção da
investigação científica: orientam a observação e guiam a descrição da
investigação científica. Sem conhecimentos teóricos, os problemas práticos
apresentam-se mais difíceis ou impossíveis de solucionar [Beck, 2010]. A rigor,
“sem uma perspectiva teórica, não sabemos o que procurar quando iniciamos
um estudo ou quando estamos a interpretar os dados no final de uma
pesquisa” [Giddens, 2013: 8].
A teorização é uma actividade mental que consiste em desenvolver
ideias que explicam “como” e/ou “por que” os fenómenos ocorrem. As teorias
possuem alguns elementos básicos: conceitos, variáveis,
proposições/enunciados e formatos [Turner, 2014]. Eis o que frequentemente
acontece: os conceitos são definidos; as proposições teóricas estabelecem
relações entre os conceitos; estas proposições são apresentadas sob certos
formatos ou esquemas.
No domínio da epistemologia e filosofia das ciências, a metateoria é
uma área que se dedica ao estudo das teorias: é uma teoria sobre teorias.
Enquanto as teorias pressupõem criar postulados e princípios para uma
determinada área do conhecimento, a metateoria analisa e discute esses
postulados e princípios, bem como as características e/ou propriedades das
teorias [Ritzer, 2001; Zhao, 2005].
Após esta incursão a respeito de o que é uma teoria e sua utilidade,
vamos tratar das teorias a que os praticantes de sociologia recorrem para
explicar, compreender ou descrever os fenómenos sociais e/ou sociológicos

3
com que lidam. Estas teorias podem ser, teorias sociais (num sentido amplo) e
teorias sociológicas (num sentido restrito).

3. Teoria social versus teoria sociológica

As expressões “teoria social” e “teoria sociológica” podem ser


utilizadas em duas acepções. Numa acepção, são utilizadas para se referir às
explicações científicas do mundo social, bem como dos fenómenos (sociais e
sociológicos) que lhe são inerentes. Noutra acepção, as duas expressões são
utilizadas para se referir a uma área do conhecimento que se dedica ao estudo
dos modos de pensar o mundo social e de explicar a realidade social
[Harrington, 2005; Derek, 2006].
A teoria social é mais geral. Integra perspectivas oriundas de uma
pluralidade de ciências sociais. Por sua vez, a teoria sociológica é mais restrita.
Integra apenas as perspectivas sociológicas, i.e, oriundas da sociologia. Pode
dizer-se que a teoria sociológica é um subconjunto da teoria social [Giddens,
2003; Turner, 2009; Outhwaite, 2017].
A teoria social7, enquanto área do conhecimento, “é uma reflexão
relativamente sistemática, abstracta e geral acerca do funcionamento do
mundo social” [Baert & Silva, 2014: 1]. Trata-se, portanto, de uma área
multidisciplinar que se edifica sobre as contribuições de várias ciências sociais.
A teoria social abrange reflexões a respeito do “porquê” e do “como” as
sociedades mudam; reflexões a respeito da natureza humana, do poder, da
estrutura social, da estratificação social, do género, da etnicidade, da
modernidade, da civilização, etc. [Harrington, 2005; Outhwaite, 2017].
As teorias sociais e as sociológicas são ferramentas heurísticas à
disposição dos cientistas sociais (em geral) e dos sociólogos (em específico).
Podem ser usadas para melhor estudar, interpretar e compreender o mundo
social, bem como os fenómenos sociais e/ou sociológicos [Giddens, 2003;
Dillon, 2014; Outhwaite, 2017].
No entender de Giddens [2003: xviii], “a teoria social tem a tarefa de
fornecer concepções da natureza da atividade social humana e do agente
humano que possam ser colocadas a serviço do trabalho empírico”.
Entretanto, Patrick Baert e Filipe Carreira da Silva [2014: 1], alertam-
nos que “algumas teorias mantêm a mais ténue das relações com a investigação
empírica, enquanto outras dependem ou enformam grandemente a sociologia
empírica”. Note-se que a teoria social pode servir de base para a interpretação
sociológica.
As teorias tendem a explicar, descrever ou interpretar fenómenos.
Neste diapasão, uma teoria sociológica8 é um explicação (causal ou de outro

7 Giddens [2003: xviii] alerta que “a expressão „teoria social‟ não é uma expressão que tenha
alguma precisão, mas, apesar de tudo, é muito útil”.
8 É comum fazer uma distinção entre abordagens teóricas e teorias propriamente ditas.

4
tipo) dos fenómenos sociais e/ou sociológicos: propõe-se explicar como o
mundo social funciona; fornece modos de ver, de analisar e de interpretar os
fenómenos sociais e/ou sociológicos [Dillon, 2014].
Numa outra acepção, tal como foi dito anteriormente, a expressão
“teoria sociológica” refere-se a uma subdisciplina ou ramo da sociologia que se
dedicada ao estudo da estrutura conceitual e da história das explicações ou
interpretações sociológicas da realidade social [Giddens, 2003; Outhwaite,
2017].
Tanto as teorias sociais quanto as teorias sociológicas propõem o que
Howard Becker [2009] chama de “relatos sobre a sociedade”, “representações
da sociedade” ou “representações do social”. No entender de Becker [2009:
18], uma “representação da sociedade” é “algo que alguém nos conta sobre
algum aspecto da vida social”. Trata-se de uma definição que abrange um
grande território no interior do qual podemos encontrar os relatos sobre a
sociedade feita por leigos, no curso da vida diária; os relatos sobre a sociedade
feitos por cientista sociais, com base na erudição científica; os relatos sobre a
sociedade presentes nos contos, nos romances, nos filmes, nas peças teatrais,
nas músicas e outras formas de arte9.
Note-se, portanto, que as ciências sociais não têm monopólio do
conhecimento sobre o social10. Existem outras maneiras de representar o
social, para além das utilizadas pelos cientistas sociais [Becker, 2009]. O
estudo sistemático da sociedade é uma empreitada relativamente recente: data
do fim do século XVIII e início do século XIX [Dortier, 2009; Giddens, 2013].
Contudo, antes dessa época, a história da humanidade já havia registado várias
pessoas que reflectiram a respeito da sociedade e de vários aspectos inerentes
ao mundo social. Dissertar sobre a história das teorias sociológicas e da

Abordagens teóricas “são orientações gerais e latas relativamente ao objecto da sociologia” e,


por sua vez, as teorias “são mais específicas e constituem tentativas para explicar determinadas
circunstâncias sociais ou dados tipos de acontecimentos” [Giddens, 2013: 25].
9 Por exemplo, referindo-se aos romances, ensaios e peças teatrais, e dirigindo-se aos sociólogos,

Ely Chinoy [2012: 24], diz o seguinte: “os sociólogos não deveriam ignorar esses mananciais de
penetração e compreensão nem desprezar as peças de Shakespeare, os ensaios de Montaigne, a
obra de romancistas, dramaturgos, críticos literários, filósofos e teólogos”. Todavia, adverte que
“a ciência social não pode satisfazer-se com a penetração literária ou a reflexão filosófica”, pois,
“as conclusões verificadas e comprovadas a que se esforça por chegar o cientista social diferem
acentuadamente das especulações de filósofos e teólogos, dos comentários de observadores
ponderados da cena humana e das impressões de escritos inventivos”.
10 Para o caso da sociologia, pode-se dizer que os sociólogos podem até ter o monopólio da

“imaginação sociológica” [Mills, 1969], mas não têm monopólio do “imaginário social” [Taylor,
2010].
5
sociologia em geral implica proceder a um recuo histórico em busca das
pessoas que pensaram o social antes de existir a sociologia e cujas reflexões,
actualmente, integram o património científico da sociologia. Trataremos disto
no ponto a seguir.

4. História das teorias sociológicas

Pode dizer-se que as teorias sociológicas, no sentido de “relatos sobre


a sociedade feitas pela sociologia”, surgem com a sociologia. O neologismo
“sociologia”11 foi criado, em 1839, por Auguste Comte (1798-1857), mas o
processo de formação desta ciência é anterior a esta data e deveu-se a um
conjunto de situações sociais, políticas, económicas e intelectuais12 que a
Europa vivenciou nos séculos XVIII e XIX [Martins, 1985; Ritzer, 2008].
A procura de explicações racionais e soluções para os diferentes
problemas sociais que afectaram a Europa do século XVIII e do XIX,
consequência das revoluções políticas e económicas, originou um acervo de
conhecimentos (muitos deles inéditos) sobre a sociedade que facultaram o
surgimento da sociologia.
É prática comum apresentar Auguste Comte como o “pai da
sociologia”. Porém, a sociologia é, na verdade, o resultado de uma produção
conjunta e cumulativa [Simon, 1994; Boudon, 1995]. A sociologia não é “obra
de um único filósofo ou cientista”, mas sim “o resultado da elaboração de um
conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas
situações de existência que estavam em curso [nos séculos XVIII e XIX, na
Europa]” [Martins, 1985: 11].
A história das teorias sociológicas (bem como da própria sociologia)
pode ser gizada a partir das reflexões do conjunto diversificado de pensadores
dos séculos XVIII e XIX e outros tantos pensadores de épocas anteriores que
tenham reflectido sobre o mundo social. Não surpreende, portanto, que se
possa encontrar, no “pensamento sociológico”, resquícios do chamado
“pensamento social”, isto é, reflexões sobre o mundo social cuja génese é
anterior ao surgimento da sociologia [Cuin & Gresle, 1995; Lallement, 2008;
Paiva, 2014].
De facto, a “história das ideias” revela que as actuais áreas de
jurisdição da sociologia e os seus temas de predilecção (p. ex., ordem social,
estratificação social, desigualdade, poder, organização social) já tinham sido
objectos de reflexão e de estudo de filósofos, juristas, economistas, políticos,
etc. desde muito antes de a sociologia existir como tal [Ferrari, 1983; Ferreira
et al., 1995; Paiva, 2014].

11 Inicialmente, Comte baptizou como “física social” o ramo do conhecimento que estava a
propor. Posteriormente, como consequência da utilização do termo “física social” por um dos
seus rivais intelectuais (Adolphe de Quetelet), Comte mudou o nome da ciência que propunha:
passou a ser designada como “sociologia” [Cuin & Gresle, 1995; Aron, 2002; Lallement, 2008].
12 É comum atribuir-se o surgimento da sociologia às consequências da encruzilhada de três

revoluções: (i) económica (Revolução Industrial); (ii) política (Revolução Francesa) e (iii)
intelectual (o êxito do racionalismo e da ciência) [Quintaneiro et al., 2003; Molénat, 2011].
6
A respeito deste assunto, Pierre-Jean Simon [1995: 29] assevera que
“já se pode descobrir […] nas obras que nos chegaram de autores que se diziam
ou a quem se chamava filósofos, juristas, historiadores ou escritores […] uma
tentativa de análise dos factos sociais que prefigura aquilo que virá a ser a
abordagem sociológica” e que “toda uma parte da sociologia actual é
constituída pela herança desta tradição pré-sociológica” [Simon, 1995: 29].
Pode-se dizer, portanto, que é nesta “tradição pré-sociológica” onde,
geralmente, são encontrados os chamados “precursores da sociologia”13 (e
consequentemente, “precursores das teorias sociológicas”). A expressão
“precursores da sociologia” é utilizada para se referir aos autores (ou autoras,
caso existam), geralmente, encontrados na pré- e na proto-história da
sociologia cujas contribuições (teóricas e/ou metodológicas) prepararam ou
anunciaram com antecipação a área de conhecimento que, desde 1839, se
chama “sociologia”. Os precursores da sociologia são “sociólogos in fieri”14: as
suas reflexões sobre o social prefiguraram15 o que se tornou conhecido como
“sociologia” [Simon, 1994; Lallement, 2008; Paiva, 2014].
Procurar precursores da sociologia é uma prática isenta de consensos,
dentre os historiadores da sociologia [Ferrari, 1983; Cuin & Gresle, 1995;
Lallement, 2008]. Uns vêem precursores nos filósofos da Grécia Antiga
[McCarthy, 2003]. Outros, nos políticos do Renascimento [Gurvitch, 1977].
Outros ainda, somente nos juristas, economistas, historiadores, escritores e
pensadores sociais do Século das Luzes [Ritzer, 2008].
Tendo em mente a proposta de definição apresentada acima e os
períodos históricos da sociologia, pode-se distinguir os precursores
encontrados na pré-história da sociologia dos encontrados na proto-história
da sociologia [Simon, 1995; Kajibanga, 2003].
Na pré-história da sociologia, enquadram-se, a título de exemplo,
Platão (427-347[?] a.C), Aristóteles (384-322[?] a.C), Santo Agostinho (354-
430), São Tomás de Aquino (1225-1274), Ibn Khaldun (1332-1406), Nicolau
Maquiavel (1469-1527), Thomas Morus (1478-1535), Thomas Campanella
(1568-1639); Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), Baruch
Spinoza (1632-1677). Por sua vez, na proto-história da sociologia, são sonantes,
dentre outros, os nomes de Charles de Montesquieu (1689-1755), Voltaire
(1694-1778), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Adam Ferguson (1723-1816)
e Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1852), Thomas Malthus (1766-1834).
Estes autores estão a ser aqui tomados como precursores e não como
fundadores da sociologia. A geração de fundadores ou pioneiros da sociologia é
marcada por Auguste Comte (1798-1857), Herbert Spencer (1820-1903), Karl

13 Esta postura não é consensual, entre os historiadores da sociologia. Existe uma polémica
distinção entre “precursores” e “fundadores” da sociologia, bem como a respeito da periodização
da história da sociologia. Estas problemáticas serão tratadas ao longo das próximas aulas.
14 Outros nomes comummente utilizados para designar os precursores (e evitar anacronismos)

são “pré-sociólogos” e “protossociólogos”. É comum designar-se como “pré-sociologia” ou


“protossociologia” o conjunto dos trabalhos dos precursores da sociologia [Cuin & Gresle, 1995;
Aron, 2002; Lallement, 2008].
15 A escolha deste verbo foi propositada. Pois, “prefigurar” transmite a ideia de “figurar ou

representar antecipadamente algo que está por vir”.


7
Marx (1818-1883), Émile Durkheim (1858-1917), Max Weber (1864-1920),
Ferdinand Tönnies (1855-1936), George Simmel (1858-1918), etc. É destes
autores que provêm grande parte das chamadas “teorias sociológicas
clássicas”.
Ao narrar a história das teorias sociológicas (bem como da teoria
social), é comum a distinção entre “teorias sociológicas clássicas”, “teorias
sociológicas modernas” e “teorias sociológicas contemporâneas” [Giddens,
1998; Giddens, 2017; Outhwaite, 2017]. No ponto a seguir, vamos debruçar-
nos sinteticamente a respeito deste assunto.

5. Teorias Sociológicas: clássicos versus contemporâneos

Uma das pedras angulares para entendermos a distinção entre “teorias


sociológicas clássicas” e “teorias sociológicas contemporâneas” é a
periodização da história da sociologia propriamente dita utilizada. Porém, não
há consenso quanto à distinção das teorias e dos respectivos períodos.
Seth Abrutyn [2016: 3] alerta-nos que a distinção “teorias clássicas vs.
teorias contemporâneas” era mais fácil na década de 1960: as teorias
desenvolvidas no período pré-Parsons eram as “clássicas” e as desenvolvidas a
partir de Parsons até à década de 1960 eram as “contemporâneas”. De lá para
cá, a linha divisória tornou-se ténue e pouco consensual. O que é
“contemporâneo”? O que se fez depois da década de 1970, de 1990 ou de 2000
para cá? O que é “clássico”? O que se fez da década de 1960 para trás ou da de
1980 para trás?16
Actualmente, é comum optar-se por periodizações trinitárias, i.e, em
três períodos, da história da sociologia propriamente dita [Reed, 2006].
Segundo estas periodizações, a sociologia tem um período clássico, um período
moderno e um período contemporâneo. Geralmente, o período clássico sai de
1839 a 1920; o moderno, da década de 1920 à década de 1980 e o
contemporâneo, da década de 1990 aos dias actuais.
Cada teorização sociológica é adjectivada em consonância com o
período em que foi desenvolvida. Com base nesta lógica, as teorias sociológicas
clássicas são as teorizações desenvolvidas no período clássico da sociologia; as
teorias sociológicas modernas, as desenvolvidas no período moderno da
sociologia; e as teorias sociológicas contemporâneas, as desenvolvidas no
período contemporâneo da sociologia.
Alguns autores usam as expressões “teorias sociológicas modernas” e
“teorias sociológicas contemporâneas” como sinónimas17 [Johnson, 2008;
Elliot, 2009; Outhwaite, 2017]. Para estabelecer distinção, é comum usar-se a
expressão “teorias contemporâneas” para se referir às teorias desenvolvidas

16 “In 1960, classical/contemporary classes made sense: pre-Parsons fi t the former and Parsons
and beyond fi t the latter. Today, what constitutes contemporary? Post 1970? 1990? 2000s and
beyond? What constitutes classical? Pre-1960? Pre-1980?” [Abrutyn, 2016: 3].
17 Quando “modernos” e “contemporâneos” são usados como sinónimos, a periodização da

história da sociologia propriamente dita tende a ser dual, i.e, em dois períodos: clássico e
contemporâneo/moderno. Neste caso, o período contemporâneo (ou moderno) sai de 1920 aos
nossos dias [Johnson, 2008; Elliot, 2009].
8
por teóricos do tempo actual ou que vivem/viveram na mesma época em que se
narra a história das teorias ou em que se estudam as teorias. Por assim dizer, é
nosso “contemporâneo”, o autor (vivo ou falecido recentemente) que teoriza na
nossa época ou numa época próxima à nossa.
As teorias sociológicas contemporâneas (ou modernas, se preferirem)
constroem-se sobre as bases sociológicas deixadas pelos “clássicos”18, numa
relação de ruptura e continuidade, marcada por certa hostilidade para com os
teóricos clássicos [Wallace & Wolf, 1995; Turner, 1999]. Existe um debate
actual em torno do estatuto e da relevância das teorias sociológicas clássicas e
das tentativas de construção de novas teorias [Giddens, 2013].
Dentre os teóricos do período clássico da sociologia (de 1839 a 1920),
destacam-se: Auguste Comte (1798-1857), Karl Marx (1818-1883), Herbert
Spencer (1820-1903), Émile Durkheim (1858-1917), Vilfredo Pareto (1848-
1923), Georg Simmel (1858-1918), Ferdinand Tonnies (1855-1936) e Max
Weber (1864-1920) [Ritzer, 2008].
Dentre os teóricos do período moderno da sociologia (de 1920 a
1980), destacam-se: Alfred Schütz (1899-1959), Talcott Parsons (1902-1979),
Robert K. Merton (1910-2003), Harold Garfinkel (1917-2011), Erving Goffman
(1922-1982) e Howard Becker (n. 1928), etc.
Dentre os teóricos do período contemporâneo da sociologia (de 1990
aos dias actuais), destacam-se: Edgar Morin (n. 1921), Alain Touraine (n.
1925), Zygmunt Bauman (1925-2017), Niklas Luhmann (1927-1998), Jürgen
Habermas (n. 1929), Pierre Bourdieu (1930-2002), Anthony Giddens (n.
1938), Ulrich Beck (1944-2015), Jeffrey Alexander (n. 1947), Raymond Boudon
(1934-2013), Manuel Castells (n. 1942), Michel Maffesoli (n. 1944), etc.

6. Principais tradições e correntes teóricas da sociologia

Existem abordagens teóricas da sociologia que conheceram


desenvolvimento cumulativo e fizeram progressos em direcção a uma maior
sofisticação teórica. Estas tendem a ser consideradas como “tradições
teóricas”. Geralmente, são caracterizadas por uma continuidade temporal e por
uma profundidade de pensamento a que poucas teorias conseguem equiparar-
se.
Segundo António Casimiro Ferreira [1995: 179], em termos de análise
metateórica, a noção de tradição pode ser utilizada em três sentidos, a saber:
(i) “para identificar autores, teorias ou conceitos que moldaram (e moldam) o
desenvolvimento da sociologia”; (ii) “para aferir a influência destes sobre as
gerações de sociólogos subsequentes” e (iii) “para reconhecer o corpo
acumulado de conhecimentos sociológicos sobre o universo social”.
Uma breve revisão das teorias sociológicas contemporâneas revela que
a sociologia possui várias abordagens teóricas e escolas de pensamento. Não

18 Existe uma distinção entre “fundadores” e “clássicos” da sociologia. A problemática dos


clássicos é uma das principais problemáticas da sociologia contemporânea. Esta problemática
(juntamente com a do “cânone sociológico”) será tratada nas aulas a seguir. Ver, por exemplo,
Connell [1997]; Turner [1999]; Sell [2002]; Reed [2006] e Alatas & Sinha [2017].
9
há, portanto, um único modelo teórico para a sociologia. Na verdade, a
sociologia é uma “ciência multiparadigmática”, i.e, possui vários paradigmas
(entenda-se isto no sentido de “modelos teóricos” ou “formas de teorizar”)19
[Giddens & Turner, 1999; Ritzer, 2008].
Tradições, paradigmas e correntes ou escolas teóricas são expressões
muito relacionadas na literatura sociológica. Dificilmente passa despercebido o
facto de as principais correntes teóricas contemporâneas, geralmente, serem
agrupadas em tradições sociológicas20. Muitas destas tradições têm as suas
bases nas teorias sociológicas clássicas.
A vasta bibliografia existente sobre as teorias sociológicas
contemporâneas, não obstante as discórdias e a diversidade na tipologia e
terminologia, aponta o funcionalismo, a teoria do conflito, o interaccionismo
simbólico, a fenomenologia e teoria das escolhas racionais como as principais
tradições sociológicas contemporâneas [Wallace & Wolf, 1995]. Dentre as
teorias sociológicas clássicas, destacam-se o organicismo, o evolucionismo
social, o positivismo, o marxismo, o durkheimismo, o weberianismo, etc.
[Turner, 1999; Ritzer, 2008].
Entretanto, lidar com as tradições e correntes sociológicas
contemporâneas pressupõe um esforço organizativo multidimensional. Trata-
se de classificações voláteis e intercambiáveis. Uma corrente teórica –
dependendo do nível de análise (micro-, meso- ou macro-), da forma como
concebe o comportamento humano (previsível ou criativo) e as suas
motivações (valores ou interesses), bem como a abordagem utilizada (indução
ou dedução) – pode apresentar características conjugadas de diferentes
tradições; pode ser trans-paradigmática [Wallace & Wolf, 1995; Ritzer, 2008].
Tomemos como exemplos as propostas de Jonathan H. Turner [2006]
e de Randall Collins [2009]. Jonathan H. Turner [2006] apresenta uma
classificação das principais tradições sociológicas contemporâneas em que
destaca sete tradições, nomeadamente: (i) a tradição funcionalista
(funcionalismo, neo-funcionalismo e teoria dos sistemas); (ii) a tradição
crítica (Escola de Frankfurt, pós-marxismo, pós-estruturalismo e pós-
modernismo, teorias pós-colonialistas e feministas); (iii) tradição do conflito
(microteoria do conflito e macroteoria do conflito); (iv) a tradição
evolucionista (neo-evolucionismo e análises do sistema-mundo); (v) a
tradição utilitarista (teoria da troca, teoria das redes, teorias da escolha
racional); (vi) a tradição interaccionista (interaccionismo simbólico, teoria
dramatúrgica, fenomenologia, etnometodologia); e (vii) a tradição
estruturalista e pós-estruturalista (teoria da prática, estruturação, abordagem

19 Neste sentido, pode-se dizer que a sociologia não é uma “ciência normal” (no sentido
khuniano do termo), pois, não obedece a um único paradigma [Boudon, 1995; Khun, 2009].
Esta característica, pode fazer dela, na concepção khuniana, uma ciência na fase pré-
paradigmática. Na verdade, há um debate sobre a natureza multiparadigmática da sociologia.
Há quem designa por “o mito da ciência multiparadigmática” [Noguera, 2010].
20 Sobre este assunto, um livro importante e pioneiro, do ponto de vista da sistematização da

análise e sistematização das estruturas teóricas, é The sociological tradition, da autoria de


Robert Nisbet, publicado em 1966.
10
morfogenética, teoria da acção comunicativa, etc.)21.
Por sua vez, Randall Collins [2009] agrupa as abordagens teóricas da
sociologia em quatro grandes tradições teóricas, a saber: (i) a teoria do conflito
(marxismo, Escola de Frankfurt, teoria funcionalista do conflito, teoria da
estratificação, etc.); (ii) a teoria da escolha racional ou utilitarista (teoria da
troca, teoria da escolha racional, teoria dos jogos, teoria da solidariedade
grupal, etc.); (iii) a teoria funcionalista ou durkheimiana (neofuncionalismo;
culturalismo, teoria do capital social, teoria dos rituais de interacção, etc.) e
(iv) a teoria do micro-interacionismo (interacionismo simbólico, sociologia
fenomenológica, construcionismo social, análises de conversação, etc).
Com relação à problemática das tradições e correntes sociológicas,
existe uma outra problemática contemporânea que recai sobre as “tradições
sociológicas nacionais”. A tradição americana, a britânica, a francesa, a
italiana e a alemã são alistadas como as principais tradições sociológicas
nacionais da sociologia clássica (todas elas) e da sociologia contemporânea
(excepto a italiana)22 [Ritzer & Stepnisky, 2005].
No livro Visões da tradição sociológica, Donald N. Levine [1997]
analisa cinco narrativas sobre a tradição sociológica, propõe uma e destaca sete
tradições nacionais. As cinco narrativas analisadas são: (i) a narrativa
positivista; (ii) a narrativa pluralista; (iii) a narrativa sintética; (iv) a
narrativa humanista e (v) a narrativa contextualista. A narrativa que propõe
é a narrativa dialógica, perfazendo um total de seis narrativas. As sete
tradições nacionais que destaca são: (i) a tradição helénica; (ii) a tradição
britânica (Adam Smith, David Ricardo, Herbert Spencer, Harriet Martineau);
(iii) a tradição francesa (Claude Henri Saint-Simon, Auguste Comte e Émile
Durkheim); (iv) a tradição alemã (Immanuel Kant, Georg Wilhelm Friedrich
Hegel, Karl Marx, Max Weber, Georg Simmel, Ferdinand Tönnies, etc.); (v) a
tradição marxista (Karl Marx, Friedrich Engels e outros marxistas); (vi) a
tradição italiana (Antonio Gramsci, Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto, etc.) e (v)
a tradição americana (Albion Small, William G. Sumner, Lester F. Ward,
George Herbert Mead, Charles H. Cooley, Wiiliam James, etc.). Destas
tradições, a tradição marxista tem um carácter transnacional.
Já foi dito que a sociologia é uma ciência teoricamente
multiparadigmática. Note-se que possui várias abordagens teóricas e escolas
de pensamento concorrentes, em constantes discórdias. Estas teorias diferem-
se, dentre outros aspectos, quanto aos níveis de análise do social que priorizam
e quanto às posições que adoptam com relação às antinomias clássicas do
social. Vamos dedicar os dois pontos a seguir a estes dois assuntos: níveis de

21 Em Turner [2014], a sua proposta de classificação é alargada para doze principais tradições ou
correntes teóricas: (i) teorizações funcionalistas; (ii) teorizações do conflito; (iii) teorizações
ecológicas; (iv) teorizações da troca; (v) teorizações simbólico-interaccionistas; (vi) teorizações
dramatúrgicas; (vii) teorizações estruturalistas; (viii) teorizações culturalistas; (ix) teorizações
críticas sobre modernidade e pós-modernidade; (x) teorizações dos modelos de evolução
social; e (xii) teorizações evolucionistas inspiradas pela biologia.
22 Isto é um assunto controverso e representa um dos vários painéis do debate contemporâneo

sobre o eurocentrismo nas ciências sociais e sobre a geopolítica na produção do conhecimento


[Mignolo, 2002; Alatas, 2003; Connell, 2011].
11
análise do social e antinomias clássicas do social.

7. Níveis de análise do social

Os fenómenos sociais e/ou sociológicos podem ser analisados à luz de


perspectivas teóricas diferentes. Grosso modo, os fenómenos estudados pela
sociologia (e pelas outras ciências sociais) são complexos e multifacetados, daí
que é improvável que uma única perspectiva teórica possa abranger todas as
suas vertentes [Giddens, 2013].
Tal como foi dito anteriormente, as perspectivas teóricas diferem-se,
dentre outros aspectos, quanto aos níveis de análise do social que priorizam e
quanto às posições que adoptam com relação às antinomias clássicas do social.
Algumas perspectivas teóricas priorizam o nível microssocial; outras priorizam
o nível macrossocial e outras ainda adoptam abordagens mais integrativas e
sintéticas, actuam num ir-e-vir entre os outros níveis [Smelser, 1997].
Eis aqui os três níveis de análise do social: (i) nível microssocial; (ii) o
nível macrossocial e (iii) o nível mesossocial. Numa abordagem sociológica,
estes níveis de análise do social remetem-nos à microssociologia,
mesossociologia e macrossociologia [Johnson, 2008; Rocher, 2012; Rosado,
2017]. Porém, existem algumas vozes reticentes quanto a esta equiparação23.
O nível microssociológico consiste na análise da unidade básica da
Sociologia: a relação diádica, isto é, a interação entre duas pessoas, desde que
relacionada com os factos sociais [Giddens, 2008; Rosado, 2017].
Corresponde, portanto, ao nível de interação interpessoal. Analisa “as
interações diretas, os mecanismos e os processos simples que existem nos
pequenos agregados sociais” [Rosado, 2017: 40]; “o comportamento
quotidiano em situação de interacção directa” [Giddens, 2013: 26].
O nível mesossociológico lida com “as interações, os mecanismos e os
processos que existem nos médios agregados sociais [famílias, grupos,
organizações, associações, etc.]” [Rosado, 2017: 40].
Por sua vez, o nível macrossociológico lida com “as interações, os
mecanismos e os processos existentes nos grandes agregados sociais e nos
sistemas sociais em grande escala [comunidades, regiões, países, etc.],
enquanto grandes componentes que integram uma determinada sociedade”
[Rosado, 2017: 41].
Constate-se, portanto, que a mesossociologia é um nível intermédio
entre a microssociologia e a macrossociologia. Faz um movimento pendular,
um vai-e-vem, entre a micro- e a macrossociologia. Pois, estes dois níveis não
devem descurar-se: “é tão pouco viável fazer microssociologia sem ter em
conta a tipologia diferencial dos agrupamentos e a tipologia das sociedades

23 Por exemplo, Carlos Eduardo Sell e Josias de Paula Jr. [2016: 9-10] alertam que “o nível
„micro‟ e „macro‟ não devem ser confundidos com as expressões „microssociologia‟ ou
„macrossociologia‟, pois o primeiro par conceitual nos aponta para unidades de análise,
enquanto o segundo [aponta para] focos de análise”; “uma teoria microssociológica não implica
a negação do nível macro, dado que o que a caracteriza é apenas seu interesse analítico, mesmo
raciocínio se aplica para as teorias macrossociológicas”. Existem níveis intermediários: o nível
meso, por exemplo.
12
globais, como fazer macrossociologia descurando a microssociologia” [Rocher,
2012: 15]. Ou, nos dizeres de Giddens [2013: 26-27], “a macro-análise é
essencial para se poder compreender a base institucional da vida quotidiana” e,
por sua vez, os estudos microssociológicos “são necessários para entendermos
padroes institucionais mais amplos”.
Pequenas actividades da vida quotidiana (o que e como comer, o que
assistir, o que e como vestir, onde estudar, onde trabalhar, etc.) são
determinadas por padrões institucionais mais amplos e, por sua vez, estas
actividades reproduzem estes padrões. É a nível da meso-análise que “é
possível verificar a influência e os efeitos tanto dos fenómenos micro como dos
fenómenos macro” [Giddens, 2013: 27].
Alguns nomes sonantes da teorização microssociológica são: Max
Weber (teorização sobre a ação social); George Herbert Mead e Herbert
Blumer (interacionismo simbólico); Erving Goffman (dramaturgia social),
Harold Garfinkel (etnometodologia), Alfred Schutz (fenomenologia social).
Alguns nomes sonantes da teorização macrossociológica são: Karl
Marx, Émile Durkheim, Talcott Parsons (estruturo-funcionalismo) e Niklas
Luhmann (teoria dos sistemas).
Nas décadas de 1980 e 1990, o que estava em voga era a formulação de
teorias que se esforçam para integrar o nível microssocial e o nível
macrossocial. Estas iniciativas ficaram conhecidas como “novo movimento
teórico” [Alexander, 1987], como “novas sociologias” [Corcuff, 2001] ou,
simplesmente, como “movimento de síntese” [Domingues, 2008].
Trata-se de um movimento de síntese teórica, representado por uma
geração de sociólogos que, pretendiam “resolver” e “transcender” as
dicotomias clássicas (sobretudo as dicotomias micro-macro e agência-
estrutura) que permeiam as teorias sociológicas e a teoria social, em geral.
Embora envolvidos em desacordos fundamentais, estas abordagens
possuem pressupostos em relação aos quais todas estão de acordo: a micro e a
macroteoria são igualmente insatisfatórias; ação e estrutura precisam ser
agora, articuladas [Alexander, 1987: 5]. Daí a ênfase sobre a necessidade
“resolver” e “transcender” as dicotomias clássicas e superar a fragmentação
teórica e dos níveis de análise do social que se acentuara nas décadas
anteriores: individualismo metodológico vs. holismo metodológico;
imperialismo do sujeito vs. imperialismo do objecto do social; autonomia do
actor vs. autonomia do social [Alexander, 1987; Corcuff, 2001; Domingues,
2008].
O individualismo metodológico é uma abordagem que confere
prioridade explicativa ao nível micro em detrimento do nível macro; por sua
vez, o holismo metodológico faz o inverso, isto é, prioriza o nível macro na
determinação dos fenómenos sociais, em detrimento do nível micro [Sell &
Paula Jr., 2016]. Em outras palavras, enquanto o holismo “afirma a
anterioridade lógica e ontológica da totalidade social sobre as suas partes
constitutivas”, o individualismo “parte de indivíduos supostos separados,
independentes, autónomos […] e pretende reconstituir a totalidade social nesta
base” [Dupuy, 2001: 36].

13
Com relação a estas duas tendências metodológicas, Gert Albert
[2016] aponta quatro posições sociológicas (ou metodológicas): (i)
individualismo metodológico radical; (ii) individualismo metodológico
moderado; (iii) holismo metodológico radical e (iv) holismo metodológico
moderado.
Por sua vez, Wolfgang Schluchter [2016: 26], entre o individualismo
metodológico e o holismo metodológico, propõe o “relacionismo
metodológico”: um modelo com o qual “nos distanciamos do individualismo
metodológico radical sem recair, por outro lado, na armadilha do holismo
metodológico”.
As principais características das abordagens que integram este
“movimento teórico” confinam-se em três categorias de tentativas: (i) as
tentativas de integração micro-macro (ii) as tentativas de integração
agência-estrutura e (iii) as tentativas de síntese teórica, propriamente dita
[Alexander, 1987; Elisa, 1987; Turner, 2006; Ritzer, 2010].
As duas primeiras categorias de tentativas começaram nas décadas de
1970 e 1980, tendo continuado na década de 1990 [Turner, 2006; Ritzer,
2010]. Segundo George Ritzer [2010], trata-se de duas tentativas paralelas, em
curso em duas tradições sociológicas diferentes: a norte-americana e a
europeia.
Na tradição sociológica norte-americana, eram frequentes as
tentativas de integração micro-macro das teorias e/ou níveis de análise
sociológica: o paradigma da sociologia integrada de George Ritzer, a
sociologia multidimensional de Jeffrey Alexander e a microfundação da
macrossociologia de Randall Collins, são três exemplos destas tentativas. Por
sua vez, na tradição sociológica europeia, estavam em curso as tentativas de
integração agência-estrutura: a teoria da estruturação de Anthony Giddens, a
perspectiva morfogenética de Margareth Archer, o realismo crítico de Roy
Bhaskar, a teoria da acção comunicativa de Jürgen Habermas e teoria da
prática de Pierre Bourdieu, são alguns exemplos sonantes [Turner, 2006;
Domingues, 2008; Ritzer, 2010].
As tentativas de integração micro-macro e de integração agência-
estrutura originaram uma terceira categoria de integração que é a síntese
teórica. Este movimento consistia em sintetizar tendências teóricas divergentes
e, por outro lado, trazer à Sociologia, abordagens de outras ciências. Por
exemplo: a sociobiologia (que tem bases na Biologia); a teoria das escolhas
racionais (que tem bases na Economia) e a teoria dos sistemas (que tem bases
nas ciências exactas) [Turner, 2006; Ritzer, 2008].
As abordagens que integram este “novo movimento teórico” estão
cientes dos perigos que o reducionismo de cada uma das polaridades
conceptuais representa. Daí procurarem fugir dos “turbilhões de Caríbdis” sem
cair nos “escolhos de Cila”, e vice-versa [Oliveira, 2011]. São abordagens com
tendências relacionistas e antireducionistas [Albert, 2016; Schluchter, 2016].
Integram a “terceira sociologia”, proposta por Viktor Vanberg [Schluchter,
2016].
Outra característica importante das abordagens que integram o “novo

14
movimento teórico” é a forma como lidam com os problemas centrais das
teorias sociais e sociológicas, bem como com as antinomias clássicas do social.
Vamos dedicar o ponto a seguir a estes problemas centrais e antinomias
clássicas.

8. Principais eixos estruturantes das teorias sociológicas

Anthony Giddens [2013: 21] informa que “mesmo quando os


sociólogos estão de acordo em relação ao objecto da análise, esta é muitas
vezes conduzida a partir de perspectivas teóricas diferentes”. A maioria das –
se não mesmo todas as – perspectivas teóricas coexistentes e concorrentes
lidam com algumas antinomias clássicas das ciências sociais. Estas antinomias
são polaridades perenes ou pares conceptuais que pressupõem tomadas de
posições epistemológicas. Eis algumas delas: acção vs. estrutura, atomismo
vs. holismo, coletivismo vs. individualismo, consenso vs. conflito, estática vs.
dinâmica, idealismo vs. materialismo, micro vs. macro, positivismo vs.
antipositivismo, sincronia vs. diacronia, subjectividade vs. objectividade,
voluntarismo vs. determinismo, etc. [Turner, 1999; Turner, 2006; Corcuff,
2009; Vandenberghe, 2013].
Estas antinomias são um património teórico perene da sociologia e das
ciências sociais, em geral [Oliveira, 2011; Sell & Paula Jr., 2016]. São os eixos
estruturantes das teorias sociológicas. Alguns teóricos defendem que é
necessário escolher um dos lados da antinomia; outros, por seu turno,
empreendem projetos de síntese teórica das antinomias [Elliot, 2009].
Os esforços para “resolver” ou “superar” as antinomias manifestam-se
como “um dos desenvolvimentos fundamentais da teoria sociológica dos
últimos decénios” e “uma questão central para a sociologia e a teoria social das
últimas décadas do século XX” [Domingues, 2008: 57, 58].
Estas iniciativas, tal como foi dito anteriormente, integram o “novo
movimento teórico”. Estas abordagens teóricas lidam com três problemas
centrais e igualmente clássicos nas ciências sociais, a saber: (i) o problema da
acção; (ii) o problema da ordem e (iii) o problema da mudança. Estes
problemas são “problemas fundantes” da teoria social e sociológica24 [Pires,
1999; Hier, 2005; Sell & Paula Jr., 2016]. Estes problemas podem ser
resumidos sob a forma de perguntas. Ei-las: (i) O que é ação? (ii) O que é
ordem social? e (iii) O que determina a mudança social?
O problema da acção remete-nos à natureza da acção. Discute-se se
acção é racional ou não e são propostos vários tipos-ideais da acção: temos
actores ou egoístas (racionais) ou idealistas (não-racionais); ou instrumentais e
estratégicos (racionais) ou normativos e morais (não-racionais); ou
maximizadores de eficiência (racionais) ou governados pelas emoções e

24 No entender de Giddens [2003: xviii], a teoria social “envolve a análise de questões que
repercutem na filosofia, mas não é primordialmente um esforço filosófico”; alerta que “as
ciências sociais estarão perdidas se não forem diretamente relacionadas com problemas
filosóficos por aqueles que as praticam”, entretanto, realça que “pedir aos cientistas sociais que
estejam atentos para as questões filosóficas não é o mesmo que lançar a ciência social nos braços
daqueles que poderiam pretender ser ela inerentemente mais especulativa do que empírica”.
15
desejos inconscientes (não-racionais) [Alexander, 1987].
O problema da ordem remete-nos à problemática a respeito de como a
ordem social é produzida. Despontam-se duas posições: (i) a colectivista e (ii)
a individualista. Para as posições colectivistas, a ordem social impõe-se aos
indivíduos como um fato estabelecido fora deles (p. ex., os padrões sociais
preexistem a qualquer ato individual específico) [Alexander, 1987]. Por sua
vez, as posições individualistas admitem a existência de estruturas extra-
individuais e de padrões inteligíveis na sociedade, contudo, insistem, que são o
resultado da negociação individual. Trata-se de posições que acreditam que “as
estruturas são não só „portadas‟ pelos indivíduos, mas na realidade produzidas
pelos portadores no curso de suas interações individuais”; daí preconizarem
que “os indivíduos podem alterar os fundamentos da ordem a cada momento
sucessivo no tempo histórico” [Alexander, 1987].
O problema da mudança remete-nos à problemática a respeito de
como a mudança social se processa, de quais são os factores de mudança.
Existem várias teorias sobre a mudança social. Algumas enfatizam um único
factor de mudança; outras enfatizam vários factores. Algumas enfatizam
factores materiais (económicos, técnico-científicos, etc.); outras enfatizam
factores simbólicos (cultura, religião, etc.). Algumas enfatizam factores
endógenos (conflitos raciais, de género e intergeracionais, luta de classes, etc.);
outras enfatizam factores exógenos (guerras, descobertas científicas,
aculturação, etc.) [Rocher, 1989].
Cada teoria adopta uma posição em relação aos pressupostos de cada
um desses problemas (da acção, da ordem e da mudança). As permutações
lógicas entre os pressupostos de cada um desses problemas formam as
tradições fundamentais da sociologia: “formam os eixos mais importantes em
torno dos quais se desenvolve o discurso da ciência social” [Alexander, 1987].
Estas abordagens de síntese pressupõem “um movimento pendular
que detecta e que oscila do colectivo ao individual, do macro ao micro, do
racional ao afetivo – e vice-versa” [Schwartzman, 1987: 31]. E ao procederem
de tal modo, propõem soluções para os dilemas teóricas. Vamos dedicar o
ponto a seguir aos dilemas teóricos da sociologia contemporânea.

9. Dilemas teóricos da sociologia contemporânea

Os três problemas centrais das teorias sociais e sociológicas


apresentados no ponto anterior, bem como as antinomias clássicas do social,
fomentam os debates epistemológicos sobre os quais jazem os dilemas teóricos
da sociologia contemporânea.
Na perspectiva de Anthony Giddens [2013: 89], dilemas teóricos são
“temas de controvérsia contínua ou de disputa”. Estes dilemas expõem as
controvérsias e opiniões (até ao momento) irreconciliáveis da sociologia
contemporânea. Estes dilemas teóricos, no entender de Alexander estão na
base das dinâmicas internas das tradições teóricas e, eventualmente, das
“tensões e conflitos que conduzem a subtradições, a contratradições e à
mudança teórica” [apud Pires, 1999: 39].
Giddens [2013: 89-97] destaca quatro dilemas teóricos: (i) estrutura
16
vs. acção; (ii) consenso vs. conflito; (iii) o problema do género; e (iv) a
formação do mundo moderno.
No dilema estrutura vs. acção, trata-se de explicar se os actores
sociais são criativos e possuem controlo activo das condições das suas vidas, ou
se a maioria do que fazem são resultados dos constrangimentos sociais sobre
as suas acções [Giddens, 2013].
O dilema consenso vs. conflito justapõe duas perspectivas contrárias:
(i) uma perspectiva realça a ordem e a harmonia e aponta a continuidade e o
consenso como as mais evidentes características das sociedades; e (ii) a outra
que destaca os aspectos conflituosos (competições, conflitos de interesses, etc.)
da vida em sociedade [Giddens, 2013].
O dilema a respeito do problema do género consiste na busca de um
modo satisfatório de incorporar a análise do género nas investigações
sociológicas constitui o pano de fundo deste dilema [Giddens, 2008]. Por
exemplo, os papéis sociais dos homens e os das mulheres são sociais ou
naturais? Que aspectos desses papéis são naturais e que aspectos são sociais?
Em outras palavras, trata-se, dentre outras questões, do género como natural e
do género como socialmente construído [Berger & Luckmann, 2013].
Por fim, o dilema a respeito da formação do mundo moderno centra-
se na compreensão dos factores que propiciaram o surgimento da sociedade
moderna. Colocado em forma de pergunta, temos as seguintes: até que ponto o
mundo moderno foi moldado pelos factores económicos realçados por Marx?
De que modo outras influências (sociais, políticos ou culturais) têm moldado o
desenvolvimento social na era moderna? [Giddens, 2013].
A tentativa de resolver estes dilemas teóricos constitui um campo
prolífero das teorias sociológicas contemporâneas. Possibilita o surgimento dos
já referidos movimentos de síntese ou de integração teórica, desejosos de
resolver estes dilemas [Alexander, 2000; Giddens, 2008; Ritzer, 2008;
Corcuff, 2009].

10. Problemáticas e temas centrais da sociologia

A sociologia contemporânea está imbuída de problemáticas. Nos


pontos anteriores, realçámos três problemas centrais das teorias sociais e
sociológicas e as antinomias clássicas do social. Frisámos igualmente que estes
problemas e as antinomias fomentam os debates epistemológicos sobre os
quais jazem os dilemas teóricos da sociologia contemporânea.
Neil J. Smelser [1997], quando proferiu as suas The Georg Simmel
Lectures, em 1995, elegeu as problemáticas à volta da micro-, meso-, macro- e
sociologia global como centrais na teorização sociológica. Na perspectiva deste
autor [1997: 1], “problemáticas” são questões genéricas, recorrentes e
irresolúveis que moldam a forma como praticamos a ciência, como
conversamos e debatemos uns com os outros25. Estas problemáticas trazem à

25 “By problematics, I mean those generic, recurrent, never-solved and never-completely-


resolvable issues that shape how we pursue our work, how we generate theoretical tensions and
conflits in that work, how we converse and debate with one another, and how we engage in that
17
tona questões epistemológicas, metodológicas e ideológicas que permeiam as
práticas e teorias sociológicas.
A modernidade foi um dos temas centrais da sociologia clássica. A
“grande transformação” provocada pela modernidade captou a atenção dos
pensadores do século XIX e o desejo de explicar e compreender a sociedade em
mudança (da tradicional para a moderna) foi um desejo e um esforço
intelectual comum aos integrantes da “geração de fundadores” da sociologia
[Royce, 2015; Giddens, 2017]. A famosa “tríade de clássicos” da sociologia é
composta por três eminentes teóricos da modernidade: Karl Marx, Émile
Durkheim e Max Weber [Giddens, 1998; Sell, 2002].
Os temas centrais da sociologia clássica consubstanciam-se nos
problemas com que as sociedades da época se debateram: o conflito entre
classes sociais, as consequências sociais do capitalismo, da industrialização e
da divisão social do trabalho, as transformações nas consciências sociais e nas
solidariedades sociais, a secularização das crenças religiosas, o processo de
racionalização e burocratização em curso na época, etc. [Giddens, 2013].
Algumas destas questões permanecem em voga na sociologia
contemporânea, porém as sociedades actuais debatem-se igualmente com
novos problemas. Eis alguns: as consequências da globalização, a condição
pós-moderna, a degradação ambiental e o seu impacto na saúde e bem-estar
dos seres humanos, o multiculturalismo, igualdade entre géneros, etc. [Elliot,
2009; Giddens, 2013].
Em síntese, eis alguns temas centrais da sociologia contemporânea: a
relação entre o indivíduo e sociedade (acção vs. estrutura); reflexões sobre
conflito e consenso nas sociedades modernas; o tema da mudança social
(globalização, pós-modernidade, etc.); a questão do género, sexualidade e
identidade; cidadania e participação política; a relação entre a sociologia e os
“estudos interdisciplinares” (estudos culturais, pós-coloniais, pós-modernos,
desconstrucionismo, etc.) [Elliot, 2003; Reed, 2006].

--«»--

Conceitos e noções fundamentais: antinomias clássicas do social, cânone


sociológico, ciência normal, clássicos da sociologia, conjectura, construção
social da realidade, dilemas teóricos, epistemologia, especulação, fenómeno
social, fenómeno sociológico, filosofia das ciências, fundadores da sociologia,
hipótese, iluminismo, imaginação sociológica, imaginário social,
individualismo metodológico, história das ideias, holismo metodológico,
macrossociologia, microssociologia, mesossociologia, metateoria,
modernidade, obstáculo epistemológico, paradigma, pós-modernidade,
precursores da sociologia, renascimento, representação do social, revolução
científica, revolução industrial, revolução francesa, ruptura epistemológica,
sociologia, sociologia clássica, sociologia contemporânea, sociologia
espontânea, suposição, teoria social, teorias sociológicas, vigilância
epistemológica.

complex counterpoint of simultaneous advance, retreat, and repetition in our scholarship”.


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Exercício
1. Discorra a respeito da noção de teoria, da sua utilidade e da sua natureza nas
ciências naturais e nas ciências sociais.
2. Com relação à teoria social e teoria sociológica: (a) estabeleça a distinção
entre ambas e (b) dê exemplos de teorias sociais e de teorias sociológicas.
3. Estabeleça as seguintes distinções: (a) problema social e problema
sociológico e (b) fenómeno social e fenómeno sociológico.
4. Diga o que entende por “antinomias clássicas das ciências sociais”, aponte
dez antinomias e disserte a respeito de cinco.
5. Com base em Bourdieu et al. [2010]: (a) pronuncie-se a respeito das noções
de “obstáculo epistemológico”, “ruptura epistemológica” e “vigilância
epistemológica” e (b) dê exemplo para cada caso.
6. Disserte a respeito do problema da objectividade nas ciências sociais.
7. Defina paradigma e, com base na noção de “ciência normal” proposta por
Thomas Khun, pronuncie-se a respeito facto de a sociologia ser uma “ciência
multiparadigmática”.
8. Aponte os níveis de análise do social e, com base em exemplos do seu
quotidiano, discuta a respeito de cada um deles.
9. Com base em Charles Wright Mills, disserte a respeito da “imaginação
sociológica” e dê exemplos a partir da sua experiência pessoal.
10. Disserte a respeito da noção de “imaginário social” e exemplifique.
11. À luz da noção de “representação do social” de Becker: (a) identifique um
“relato sobre o social” contido num filme (nacional ou internacional), numa
música (de autor nacional) e num romance ou conto (de autor nacional); e (b)
demonstre, para cada caso, que “relatos sobre o social” tais obras de arte
apresentam.
12. Com base em Giddens, defina dilemas teóricos, aponte-os e disserte a
respeito de dois deles.

Observações:
a. Este exercício deve ser resolvido em grupo (de quatro integrantes, no
máximo);
b. Primeiramente, cada integrante deverá resolver individualmente.
Posteriormente, o grupo vai elaborar a resposta conjunta, com base nas
respostas individuais.
c. O texto com as respostas do grupo e as respostas individuais deverão ser
enviados (em formato word), via e-mail, num período de um mês, a contar
a partir do dia em que esta aula foi ministrada.

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