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Copyright © 2021 Jussara Leal

ALÉM DO AZUL

1ªEdição

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte dessa obra poderá ser


reproduzida ou transmitida por qualquer forma, meios eletrônicos ou
mecânico sem consentimento e autorização por escrito do
autor/editor.

Capa: Designer Tenório


Revisão: Gramaticalizando Assessoria
Diagramação: Veveta Miranda

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e


acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor(a).
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

TEXTO REVISADO SEGUNDO O ACORDO ORTOGRÁFICO


DA LÍNGUA PORTUGUESA.
Queridos leitores, bem-vindos a mais uma história apaixonante.
Antes que inicie a leitura, devo alertá-los que pode conter alguns
gatilhos ao longo da história. Henrico foi abandonado pelo pai,
possui a Síndrome de Asperger, determinados acontecimentos
poderão mexer com alguns de vocês.

Este é um romance erótico, nele é narrado o desenvolvimento


sexual do personagem principal e foi escrita visando quebrar um
pouco do tabu que muitas pessoas possuem em relação ao autismo.

É IMPORTANTE RESSALTAR QUE HÁ VEROSSIMILHANÇA[1]


NESTA HISTÓRIA.

Por favor, não se esqueçam de avaliar. <3

Síndrome de Asperger– Henrico Davi

A síndrome de Asperger está na extremidade leve


do espectro. Pessoas com Asperger são
consideradas de alto funcionamento, com
inteligência normal a acima da média.
Os sinais e sintomas incluem: prejuízo na interação
social; dificuldade em ler expressões faciais,
linguagem corporal e dicas sociais; não
compreender ironia, metáfora ou humor; falta de
contato visual e comportamentos repetitivos.
Sumário
Sinopse
Prólogo
Introdução
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo bônus
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35 - Parte 1
Capítulo 35 - Parte 2
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Eu sou diferente.
Muitas pessoas dizem que está tudo bem em ser "diferente".
Quando me dei conta de que não era "igual" a maior parte
das pessoas, decidi criar o meu próprio universo e me fecheidentro
dele. É confortável e seguro, solitário também. Desde que me
entendo por gente, o medo é meu fiel companheiro, assim como a
solidão. Ser diferente é estranho, mesmo que todas as pessoas
mais próximas tentem me encaixar. Quando você percebe que não
se encaixa, se sente um pouco perdido no início. Até se esforça,
mas, com o tempo, se dá conta de que forçar um encaixe só faz
com que você se sinta ainda mais perdido, e isso aumenta
significativamentea frustração. Na maior parte do tempo, me sinto
como um quebra-cabeça faltando peças. Ou talvez eu apenas seja a
peça que não se encaixa.
Eu não me encaixo a nada ou a qualquer pessoa, mas eu
queria me encaixar nela. Nunca me encaixei a qualquer garota,
porque no universo que construísó há espaço para ela. Nós somos
tão diferentes,ou talvez apenas eu seja diferentenessa história. Ela
é cheia de vida, energia, eletricidade. Ela mergulha em oceanos,
enquanto eu me afogofacilmenteem um copo d’água. Eu morro um
pouco a cada dia imaginando que ela esteja se encaixando em um
alguém que não sou eu. Eu não quero que ela se encaixe em outro
garoto, mas não quero que se limite a um universo que não a
pertence.
Será que eu posso me encaixar no universo dela?
— Você sabia que o azul foi a cor escolhida para representar
o autismo devido o maior número de incidências do caso ser no
sexo masculino? Dados apontam que 80% dos casos de autismo
acontecem com meninos. Esse fato não exime que meninas
também possuam, porém, elas são a minoria. Talvez isso seja bom,
não?
— Eu sei disso, filho — meu pai responde. Pelo seu tom, sei
que está me analisando friamente.
— Você sabia que o Monte Everest é considerado o lugar
mais alto do mundo? Porém, há uma discrepância de ponto de vista.
Se considerarmos de acordo com o níveldo mar, o Monte Everest é
sim o lugar mais alto, mas, se tivermos na mente que a Terra não é
uma esferacem por cento perfeita,e que há alguns pontos onde ela
é mais larga, como na Linha do Equador, o ponto mais próximo do
céu acaba sendo o Monte Chimborazo, no Equador, com 6.384,4km.
O ponto mais baixo é o Mar Morto.
— Olhe para mim e me diga o motivo da sua inquietação
hoje.
— Não quero olhar para você, pai. Me desculpe. Eu sinto
muito, ok? — Sou sincero em minhas palavras. Não quero encará-
lo, uma vez que se eu fizer isso, ele saberá. Ele sempre sabe e
consegue ver tudo. E eu não quero que ele veja nada, porque é
desconfortável e eu tenho vergonha.
— É sobre Sophie? — Não precisei olhar para ele. Entende
como isso é desconcertante? Ele parece ter livre acesso à minha
mente. — É sobre a mudança?
— Um estudo realizado na Europa e nos Estados Unidos,
com milhares de entrevistados, determinou que 17,4 anos é a idade
média em que as pessoas perdem a virgindade. Sabia que as
garotas costumam perder a virgindade antes dos garotos? Segundo
essa pesquisa, os meninos costumam perder com cerca de 17 anos
e meio, e as garotas alguns meses antes. Disseram que o Brasil é o
paísonde se perde a virgindade mais cedo, com uma média de 17,3
anos.
— Filho, isso é apenas um estudo. Acredite, não é bem assim
que as coisas funcionam. De acordo com a minha experiência de
vida, na minha época de estudante, tudo que eu vi é bem diferente
dessa pesquisa. Mas, vamos lá, não acho que tem uma idade ideal
para isso acontecer, Henrico. Acontece quando tem que acontecer.
Não deve haver uma pressão sobre isso. Há muitas pessoas que se
guardam para o casamento, sabia?
— Sabia. Há até mesmo questões religiosas. Algumas
religiões pregam que esse ato só deve acontecer na noite de
núpcias — comento.
— É. Não tem uma idade certa, entende?
— Entendo, pai. É interessante isso, não é mesmo? —
pergunto, pensando na temática.
— O sexo só deve acontecer quando se sentir confortável,
filho. Não aconteceu ainda porque nunca se sentiu confortável.Em
algum momento, isso vai acontecer.
— Pai, você sabe se Sophie já se sentiu confortável com
outro menino? — pergunto sem encará-lo nos olhos. Na verdade,
agora estou até cabisbaixo demais. Porém, eu precisava perguntar.
— Não sei dizer. Por que não pergunta isso a ela? — Isso é
uma brincadeira?!
— O quê? Pai! É a Sophie! Eu não posso perguntar isso a
ela. É absurdo! É falta de educação perguntar isso a uma menina.
Eu a respeito. Como vou perguntar se ela já se sentiu confortável?
Meu Deus! Ela é uma garota normal, não é como eu.
— Ah, então voltamos nisso? Você não é normal? — me
repreende.
— Sou. Sou normal, porém, diferente. Sou diferente de
Sophie, de Samuel, de todos.
— Nada disso, Henrico. Vou relevar suas palavras porque
está abalado. Há algo martelando em sua mente agora e estou aqui
para ouvi-lo e ajudá-lo. Anos atrás você disse que sempre teria
"conversas de menino" comigo, porque sua mãe não saberia
entender "essa coisa de menino" — ele diz, e pelo tom de sua voz,
sei que está sorrindo. — Sou o seu pai, estou aqui para termos
essas conversas.
— Pai, você sabe... Eu estou meio arrependido de ir morar
com Sophie, porque ela já deve ter se sentido confortável com um
menino e eu não quero saber e não quero ver. Eu não gosto de
outros garotos com ela. Ela é uma menina sem limites, pai. Eu sou
um menino limitado. Você acha que ela vai levar alguém para ter
algo confortável em nossa casa?
— Posso apostar que Sophie não fará isso — ele responde,
sorrindo. — Você quer ter algo confortável com Sophie?
— Pai! Não fala isso! — digo, esfregando meu rosto. —
Sophie é minha melhor amiga e ela já beijou garotos. Eu não sei
nada de confortável,você entende... Você sabe, pai, você sabe que
eu não sei. Eu nunca estive com uma menina. Eu nunca beijei e
nunca fiquei confortável.
— Mas? Há um "mas" aí.
— E se ela ver meu corpo reagindo? — Abomino esse tipo de
conversa. Nunca fizcoisas confortáveis,mas isso não significaque
eu não saiba o que é e não reaja.
— Seu corpo reage à Sophie há anos, filho. Me lembro até
hoje de quando aconteceu pela primeira vez — comenta, rindo. — É
normal, cara! Você não é apenas a cor azul, Henrico. Você não é só
o seu autismo. É um homem normal, com um mundo de
possibilidades, um universo de coisas para serem descobertas.
Precisa tirar da sua mente as crenças que te limitam. Elas estão
fazendo com que você se mantenha sempre na zona de conforto.
Sei que essa zona de confortoé importante para você, mas há um
limite e talvez você esteja deixando de enxergar coisas óbvias. Faz
parte do seu crescimento pessoal conseguir identificar algumas
questões. Você vai morar com Sophie em São Roque, será um
rapaz totalmente independente. Sem dúvidas é um dos maiores
passos que está dando, tudo isso sozinho. Já está no caminho para
enxergar algumas coisas e eu espero que consiga. Prometi que
sempre iria te guiar, por isso vou te dar dois conselhos: pare de
pensar pouco de si e observe. — Finalmente levanto minha cabeça
para encará-lo.
— Observar o quê? — indago e ele ficade pé, provavelmente
para me deixar sozinho.
— Observe Sophie e observe que você é muito além do azul.
Sophie...
Eu te amo ao infinito e além!
— Já faz um tempinho, filho. — Meu pai me consola pela
centésima vez. É apenas difícilme esquecer de Clarinha. Ela foi
minha noiva, mãe do meu filho, e eu os perdi. —É hora de continuar
com a sua caminhada. Se está doendo, é porque seu coração ainda
está batendo. Você está vivo para sentir e, se está vivo para sentir,
está vivo para superar. Se esforce. Dói pra caralho vê-lo sofrer
tanto. Sua dor também é a minha dor, é a dor da sua mãe.
Queremos vê-lo bem e feliz,seguindo com a sua vida. Nós também
amávamos a Clarinha, mas aceitamos, assim como aceitamos que
Miguelito tenha partido. Por mais que doa, precisa aceitar. Prometa
que vai se esforçar para ser mais forte?
— Prometo, pai.
— Até porque... há alguém chegando aí amanhã— diz.
— Ah, não... — Fodeu pra caralho!
— Ah, sim... Vai ser bom para vocês passarem um tempo
juntos.
— Ah, não, pai! Eu a amo muito, de verdade, mas... porra!
Sophie é diabólica!
— Viu como ela te faz bem? Sua voz até melhorou! — Puta
merda! Sophie vai colocar São Roque abaixo e eu estou fodido!
— Eu não me responsabilizo por ela. O senhor sabe disso,
não sabe?
— Não se preocupe. Ela está bem instruída. Dei inúmeras
advertências. — Puta merda mesmo! Sophie enrola meu pai com
um profissionalismo surreal. Ele acredita que ela vai seguir ordens.
Ela é filha da minha mãe, neta da minha avó, bisneta da minha
bisavó. Mas... vou dar o braço a torcer. Ela é uma irmãzona, por
mais inconsequente que possa ser. — Seus primos também irão.
— Ah, não!
— Ah, sim! Precisa de um pouco de diversão. Henrico e
Samuel também estão indo. — Ao menos Henrico salva. Pelo
menos alguém sensato e normal nessa merda.
Henrico é autista, sempre na dele. Ele tem hiperfoco em
desenvolver jogos; é poliglota, fala oito idiomas fluentemente;é
mega fera em computação;e um dos homens mais inteligentes que
já conheci. Porém, ele tem um universo só dele, e adentrá-lo é um
pouco difícil.A vinda dele simboliza uma Sophie fingindo que é uma
pessoa centrada, angelical, doce. Significamuitas lágrimas também.
Eu preferia Théo e Eva, mesmo em meio a toda guerra
constante, com toda certeza.
— Pai, eu estou quase pegando o carro e indo para o Rio, só
para não ter que lidar com todo drama da Shophie.
— Fique de olho nela, ok? O que me tranquiliza é a presença
de Henrico. Ela vira outra pessoa quando ele está por perto —
suspira. — Henrico é a minha esperança nessa vida.
É a esperança de todos, mas, como o destino é cruel, eles
são seres completamente opostos.
— Cuidarei dela.
— Espero que sim. Fique com Deus, filho! — Ele encerra a
ligação e eu não sei se rio ou se choro.
A parte boa é que só de saber dessa chegada, já não me
sinto tão miserável. A tristeza é substituída pelo medo da presença
da minha irmã nessa cidade. Por um lado, é bom que Eva não
esteja aqui, porque as duas juntas não dariam algo bom. Eva tende
a ser louca e Sophie é louca por natureza.
Quando me deito para dormir, penso nas palavras do meu
pai, sobre olhar para os lados, para frente. Isso é tão enigmático,
como se ele soubesse que algo bom está por vir. Penso também em
Clarinha, e isso faz meu peito se comprimir. Desde que Théo foi
para a Ilha, essa é a primeira noite em que sinto um pouco de
pânico por estar sozinho; isso faz com que eu levante e tome um
remédio para conseguir pegar no sono. Foi o sexo. Eu estava
conseguindo alguns avanços, até fazeralgo que remetia à Clarinha.
Éramos um casal muito ativo sexualmente e, querendo ou não, acho
que não estava preparado para colocar a fila para andar. O mais
louco é que eu queria muito sexo, mas na hora H algo dentro de
mim paralisou.
Volto para a cama e logo consigo dormir.

De manhã sou desperto por uma maldita música alta e o som


incansável de uma buzina. Não preciso olhar para saber de quem se
trata. Visto uma bermuda e vou até ela.
Sophie se joga em cima de seu jipe e começa com o
festival de sedução barata. Logo em seguida se senta e respira
fundo, como se estivesse sentindo o maravilhoso cheiro da
natureza.
— Você viajou com essa roupa? — pergunto, observando seu
micro short jeans preto, seu minúsculo top e um tênis de salto. Ela
salta do carro sorridente e corre para os meus braços, mas, agora,
exatamente nesse momento, não estou satisfeito. — É sério,
Sophie. Não sou chato em relação às roupas que veste, mas, desde
que veio do Rio de Janeiro pra cá, sozinha, de carro, eu passo a ser.
Você viajou sozinha usando essa roupa?! Sozinha?! Se ao menos
tivesse um dos garotos com você...
— Que garotos? — ela pergunta.
— Henrico ou Samuel. Pensei que viriam juntos.
— O QUÊ?????? — Seu grito escandaloso me fazafastar. —
Henrico está vindo?
— Você não sabia? — Pronto! Acho que meu pai armou essa
merda para tirar o meu sossego.
— Ai, meu Deus!!! Nossa Senhora das periguetes safadas,
me proteja! Eu preciso trocar de roupa!!! — anuncia, correndo para
o carro. Fico observando a tormenta começar.
Ela pega uma mala e sai correndo como uma desesperada,
rumo à casa.
— Misericórdia! Eu tô muito piranha! — grita.
— SOPHIE! — a repreendo, seguindo-a.
— Bel está no carro! Eu a esqueci! Meu Deus do céu, Luiz
Miguel! Meu cu caiu da bunda com essa notícia! Diga-me, há um
hospital aqui?
— Quem é Bel?
— Minha nova cachorrinha! Você precisa resgatá-la! — pede,
arrancando as roupas ainda na sala.
Me retiro, já que ela escolheu a sala para ser seu local de
privacidade.
Busco a tal Bel no carro e ela é a cara da Sophie. Sério,
nunca vi uma cachorrinha parecer tanto com a dona. Essa cachorra
deve ser mimada ao extremo. É um lulu da pomerânia meio
marrom/meio bege e Sophie trouxe até mesmo a casinha dela.
Quando volto à sala, carregado de tralhas, me pergunto onde
está Sophie, porque essa, diante de mim, certamente não é ela. O
short foi substituído por uma calça jeans, o top por uma camisa
preta comportada e há até um lacinho encantador em sua cabeça.
— Estou muito princesa da Disney!
— Você está mesmo parecida com a mamãe. — Sorrio.
— Bom, vou em busca de um quarto. Que horas Henrico
chega? — pergunta, empolgada. Eu disse que Samuel também
viria, mas ela só focou em uma pessoa.
— Não faço ideia. Tudo que sei é que ele e Samuca estão
vindo. — Eu já sei o que vem pela frente.
O amor de Sophie por Henrico é aquele tipo de amor que
carrega todo mundo junto. Ela sofre com isso desde muito jovem. É
como se não existisse qualquer outro homem no mundo além dele,
mesmo que ela saia com outros homens. Ela sofre, chora, mas
nunca revelou abertamente os sentimentos a Henrico. E por falar
nele, nunca o vimos com qualquer garota. É algo bem complexo e
de difícilcompreensão. Ele trata Sophie como um cristal precioso. A
relação dos dois é algo louco.
Ela encontra um quarto e volta para a sala, pulando
diretamente em meus braços.
— Ok. Não vejo Henrico há muitos meses, muitos mesmo,
mas, não vim aqui por ele. Vim por você, rimão! — diz, me dando
um beijo na bochecha. — Eu te amo muito e não quero vê-lo triste
nunca mais na vida. Minha cuzinha virou um anjo e, onde quer que
ela esteja, deve estar triste vendo você sofrer. — As lágrimas
começam a cair dos meus olhos e Sophie me abraça. — Não chora.
Eu prometo te enlouquecer, rimãozinho. — Ela tem essa mania de
me chamar de RIMÃO, e isso me fazsorrir entre lágrimas. — Anda!
Vamos tomar caféna padaria! Faz muitos anos que não venho aqui.
Preciso reconhecer o lugar.
Visto uma roupa decente e saio com Soso. Ela está
parecendo uma garotinha de 12 anos com esse estilo e isso me faz
lembrar bastante da minha mãe. As duas são altamente parecidas,
mas, quando criança, Sophie era a cópia perfeita do meu pai,
fisicamente. Ainda há alguns traços, mas esse narizinho dela é
totalmente idêntico ao da minha mãe.
Incrivelmente, ela sai cumprimentando todas as pessoas que
vê na rua. Até para pra conversar com algumas, como se as
conhecesse. Sophie é maluquinha, mas é bastante fofatambém.
Sinto orgulho vendo-a tão educada.
Compramos lanche na padaria, mas decidimos comer na
pracinha, de frente para igreja, sentados em um banco.
— E aí, não pegou ninguém aqui ainda? — ela pergunta de
boca cheia.
— Fiquei com uma garota ontem, mas foi um desastre. Ela é
gata, bem gostosa, mas eu...
— Brochou? — pergunta, quase gritando.
— Não. Só não consegui obter prazer. — Ela balança a
cabeça em compreensão.
— Isso vai passar, ok? Eu tenho fé em Deus que vai, rimão.
Você vai foder igual britadeira.
— Sophie, quer controlar sua maldita boca?
— Boca foi feita pra falar
, comer e...
— Sophie! — Ela está rindo quando um barulho alto de motor
de carro surge, juntamente com gritos. Por um momento quero
cavar um buraco no chão e me enterrar, só para não lidar com esse
manicômio.
O idiota do Samuel surge, dirigindo sua Lamborghini
Huracán, humilde pra caralho, com a cabeça pra fora da janela,
gritando:
— Aoooossss, menina!!!!!! Aoooo, trem xonado!!!!!! — Ele
nem mesmo nos viu, está apenas mexendo com quem quer que
passe pela rua.
— Isso não pode ser real! — digo enquanto Sophie parece
querer explodir de tanta felicidade.
A sorte da vida é que Henrico está ao lado dele, caso
contrário, eu realmente estaria fodido. Sophie e Samuel parecem
irmãos gêmeos. Quando se juntam, dá até processo. Por falar em
Henrico, ele está com um fone de ouvido, senão daria merda.
— Aooooo, caralho!!!! Vocês estão aí! — o louco diz,
estacionando o carro. Henrico só desperta para o pesadelo quando
Samuel retira o fone dele. E eu apenas fixoo olhar em Sophie, para
ver seus olhos brilhando, mas, antes mesmo que Henrico possa
descer para protagonizar a típicacena de romance com Sophie, um
carro diferente surge atrás e Théo e Eva descem animados,
indicando que mudaram seus planos de ficar na Ilha.
Por que eu sinto que todos estão aqui por mim?

O mundo inteiro para de girar quando vejo Henrico. Até


cumprimento Samuca, mas meu foco está no homem que está
descendo do carro agora. Estou tremendo e há milhares de
borboletas em meu estômago. A velha sensação de sempre, com
acréscimo de uma saudade incontrolável. Eu odeio estereótipos,
mas todas as vezes que estou perto de Henrico, viro o próprio
clichê.
Faz muitos meses desde que o vi, e ele não é amante de
telefones e meios de comunicação. O foco de Henrico está voltado a
computadores e jogos; bate-papo, definitivamente,não está lista de
coisas que ele dedica um tempo.
Ele não parece disposto a socializar. Mas, ao me ver, se
esforça e vem em minha direção. Com seus passos lentos e
calculados, se aproxima e eu não consigo focar em nada além de
sua boca, que é absurdamente perfeita. Eu fico muda por um tempo,
enquanto o vejo me analisar. Quando meus olhos encontram os
dele, eu respiro fundo, levo minhas duas mãos em seu rosto e ele
traz as dele ao meu. É uma mania minha e dele, desde pequenos.
— Olá! — digo baixinho, fazendo carinho em suas
bochechas, enquanto ele faz carinho nas minhas. — Eu estava
morrendo de saudades. Você está tão lindo, companheiro. Está
mais forte também. — Eu queria dizer gostoso, mas temo pela
reação dele.
— Você se parece com uma princesa. — Eu sempre quero
chorar quando o vejo e sempre tenho que travar uma batalha para
isso não acontecer. — Você é a menina mais linda que eu já vi.
— E você é o menino mais lindo que eu já vi — falo,beijando
a ponta do seu nariz. — Está geladinho. — Sorrio.
— O ar-condicionado do carro — responde, sorrindo de volta.
— Vou cumprimentar seu irmão — avisa, me soltando, e eu quase
choro de vontade de agarrá-lo e mantê-lo comigo para sempre.
Tudo parece tão romântico, não é mesmo?
Realmente romântico, mas...
Enquanto ele cumprimenta Miguelito, duas mulheres
escandalosas surgem e juro que sou capaz de ver Henrico
estremecer com o som.
— Luiz Miguel!!! Tem amigos novos!!! — uma loira diz,
escandalosa demais.
Não é que eu não seja escandalosa, mas elas gritam demais.
— Eiiii, me chamo Vanderléia! — uma morena sem-noção diz
de forma gritante e quase se joga em Samuel. Ele é cafajeste, então
gosta da recepção calorosa. Com certeza não vai demorar até que
ele esteja atracado com ela em algum canto. A mulher é bonita,
tenho que confessar.
— E eu sou a Soninha — agora é uma loira dizendo. Tudo vai
bem, até elas se concentrarem em Henrico.
A maneira como a morena, a tal Vanderléia, se joga sobre
ele, me faz fechar as mãos em punhos. Dizem que todas as
pessoas possuem um ponto fraco,Henrico é o meu. Qualquer coisa
que esteja ligada a ele me leva ao limite, principalmente tratando-se
de mulheres. Não tenho direito algum sobre ele, mas também não
consigo controlar meus sentimentos, tampouco meus pensamentos
assassinos.
— Eiiiii, prazer — Vanderléia grita, o abraçando como se
fosse íntima. Quando vejo Henrico paralisado com a ação, interfiro.
— Ok, Vanderléia, com certeza é um prazer conhecê-la —
digo, a afastandodele. — Pode, por favor, parar de gritar? A não ser
que queira ter um problema comigo, aconselho que faça isso.
Sinceramente, mulheres deveriam ser unidas, mas... sempre
tem um "mas". Há apenas algumas que pegamos birra logo de cara,
descartando qualquer possibilidade de união. Não sou o tipo chata e
problemática, faço amizades com muita facilidade, porém, odeio
pessoas dadas, que acham possuir intimidade com quem elas nem
mesmo conhecem.
— Credo! — ela exclama e eu sinto as mãos de Henrico em
minha cintura. Misericórdia! Arranca minhas roupas, pelo amor de
Deus!
— Vanderléia, ela está certa. Se você puder parar de gritar,
eu agradeceria muito — Samuel intervém, jogando seu charme
barato, até mesmo enrolando os cabelos dela em seu dedo.
Cafajeste! O que posso falar? Eu nem presto! — Não gostamos de
grito aqui. — Agora, o que é bonito, eu preciso pontuar também.
Sempre sinto um orgulho imenso pela forma como ele defende
Henrico, independentemente da situação.
— Está tudo bem — Henrico diz em meu ouvido. Nada
demais, eu sei, mas quase solto um gemido de prazer. — Você pode
me levar para casa ou me mostrar qual caminho devo seguir? — me
pede.
Basta descer as mãos um pouco mais. É o iníciodo caminho!
Tesão do caralho!
— Claro que posso levá-lo — concordo, sorrindo como o anjo
que sou, e ele segura minha mão fortemente, como se fosse uma
criança querendo ser guiada para casa.
— Olá! — Théo surge e sou obrigada a me afastar de
Henrico, para conhecer a famosa Eva!
— Ei, que prazer enorme! — digo, a abraçando. — Você é
linda!
— Você tem um piercing no lábio inferior! — Eva exclama,
como se isso fosse algo fantástico.
— No clitóris também! — Todos me encaram e me dou conta
de que Henrico acabou de ouvir essa situação. — Puta merda! Era
brincadeira, eu juro!
— Você tem um piercing no clitóris? — meu irmão questiona,
muito sério. — É sério isso?
Henrico está atento, com um semblante impassível, mas eu
posso jurar que há muito fogo por trás dessa impassividade. Será
que se eu mostrar a ele que não sou um anjo, as coisas podem vir a
evoluir? Eu não sei, mas estou disposta a arriscar, vai que ele liberta
o monstro que certamente habita dentro de si e...
Senhor da glória! Só vem com força!
Todos possuem um lado devasso, ele também deve possuir.
— Ok, eu tenho um piercing no clitóris, mas e daí? O que há
demais nisso? — pergunto, encarando Luiz Miguel.
— Aiiii, meu clitóris! — Eva exclama, como se sentisse dor só
de imaginar.
— Nosso pai sabe disso?
— Ah, nem vem não, Luiz Miguel! Sou maior de idade! Foda-
se se fureimeus lábios, não disse quais! — debocho e ficoséria em
seguida. Henrico, caralho! — Digo... sou maior de idade,
irmãozinho. Não precisa se preocupar com esse simples detalhe.
Foi feitocom uma mulher, relaxa, ninguém mais viu minha xo... meu
clitóris. — Sorrio educadamente. — Amo você, pequeno príncipe.
— Doeu? — Eva pergunta.
— Coloca um que eu vou arrancar no dente, Evadia! — Théo
promete, rindo.
— Não sei dizer. Eu bebi o bastante para poder fazer essa
merda — explico, rindo. Novamente, volto a ficar séria, ao me
lembrar da presença de Henrico. — Água. Não bebo bebida
alcoólica.
— Ahhhh! — Eva exclama, piscando um olho para mim. —
Também não bebo bebida alcoólica.
— Não bebe não. Eva mergulha de cabeça. O álcool entra
até pelas narinas — Théo comenta.
Henrico coloca o fone de ouvido e percebo que preciso me
concentrar em minha santidade.
— Ok, vou ali levar Henrico para conhecer a casa, ver os
animais, o mato... — informo. Só então percebo Samuel afastado,
abraçado com as duas garotas. — Ele é rápido mesmo. Meu
orgulho esse menino! Beleza... Fui...
— Vamos todos! — Théo avisa, abraçando Luiz Miguel.
— Hei, quer ir andando ou de carro? — pergunto após afastar
o fone de Henrico.
— Andando. Samuel dirige como um insano.
Ele segura minha mão novamente e sai me puxando, sem
nem mesmo saber a direção. Eu quero rir, porém, quero chorar
também.
— Estou no caminho certo? — pergunta enquanto me
distraio.
— Quase.
— Me mostra?
— O quê?
— O caminho, Sophie — responde, me observando.
— Ah, sim. Irei conduzi-lo ao caminho correto, não se
preocupe. Com emoção ou sem emoção?
— Com emoção — responde, sorrindo pela primeira vez, e
saímos correndo.
Houve um tempo em que ele não podia sequer andar
sozinho. Agora ele corre comigo.
Apenas comigo.
Eu te amo ao infinito e além, Henrico!

Piercing no clitóris!
Piercing no clitóris!
Piercing no clitóris!
Clitóris!
“Lábios... não disse quais...”
Não, não e não! Eu preciso que a imaginação pare de fluir.
Preciso expulsar todas as imagens que estão brincando em minha
mente agora.
É Sophie! Minha, praticamente, prima! Venho tentando me
convencer disso desde que me entendo por gente. Não deveria
sentir por ela o que sinto, mas não consigo evitar. A cada vez que a
vejo, meu coração parece rasgar o peito e a dor que sinto é
sufocante. Sophie é a menina mais linda do mundo e o meu maior
sonho. Nós fomos muito unidos grande parte da vida, mas, desde os
18 anos, optei por um afastamento e me fechei em meu mundo.
Não é apenas por sermos praticamente primos. Nós somos
opostos completos. Eu tenho meu próprio universo, um montante de
limitações. Sophie é um espírito livre, cheia de vitalidade e
normalidade. Ela gosta de mergulhar em oceanos, enquanto eu
prefiro a segurança de um simples tanque de água.
Péssima hora em que ouvi meus pais e vim nessa viagem! A
ideia deles era que eu me "divertisse" um pouco e saísse do meu
quarto, onde passo meus dias. Possuo um monte de limitações,
coisas que não consigo vencer e que são extremamente difíceisde
lidar. Eles me entendem na maior parte do tempo, por isso, às
vezes, abro mão da minha zona de conforto e socializo para fazê-los
felizes.Mas, sempre que há Sophie no meio da situação, a saídada
zona de conforto torna-se radical o bastante.
Sophie estuda em outro país, então nos distanciamos o
bastante, embora a conexão não tenha sido quebrada nem mesmo
com a distância. Não sei o que existe entre nós, mas sei que existe
algo desde criança. Essa confusãode sentimentos me machuca. É
extremamente difícillidar com o que sinto por ela, e extremamente
difícilvê-la "viver" tão livremente, escutar histórias que despertam
sentimentos ruins e confusos em mim. Por isso, considero essa
distância tanto boa quanto ruim. Boa pelo fato de eu não ter que
acompanhar o desenvolvimento dela em relação a outros garotos,
ruim, porque, querendo ou não, eu gosto de ter meus olhos sobre
ela.
Nossa relação tornou-se muito complexa desde a puberdade.
A transição entre a infância e a adolescência foi bastante
complicada, principalmente quando percebi que tudo em mim reagia
a ela. A descoberta disso foi altamente assustadora e precisei
aprender a controlar o sentimento dentro de mim, buscando conter
as reações. Deixar de ver Sophie como uma criança foifodido. Mais
fodido ainda foi acompanhar ela tornando-se uma mulher. E que
mulher...
É como se não houvesse no mundo qualquer outra mulher
em potencial. Sempre foi, sempre é ela. Não há escapatória ou
chance de fuga dos sentimentos, mas eu fujo sempre que estamos
perto, porque... porque eu não consigo não querer algo que não
posso ter.
Há um grande problema em relação à distância. A cada vez
que nos encontramos, parece ter aumentado o nívelde intensidade
entre nós. É algo que dá para ser notado até mesmo pelos olhares.
Por ser fechado em meu próprio universo, tudo em mim é intenso
demais e, para complicar a minha vida, Sophie possui uma
intensidade natural, e eu apenas não consigo ocultar muito o quanto
isso me afeta. Quando éramos adolescentes, parecia mais fácil,
porém, quanto mais velhos vamos ficando,pior fica.Parece que há
uma tensão sendo construída entre nós há anos e que a qualquer
momento irá explodir. Há alguns poucos momentos em que parece
que ela sente o mesmo que eu, porém, na maior parte do tempo,
acho apenas que é um amor entre "irmãos", já que fomos criados
praticamente juntos e não a imagino tendo pensamentos pervertidos
comigo. Eu penso assim, mas Samuel também sempre foinosso fiel
escudeiro e há uma diferença gigante na maneira como ela o trata.
Minha inexperiência me deixa confusoquase sempre. Não entendo
absolutamente nada sobre esses assuntos do coração; eu
simplesmente sinto o amor, mas não o compreendo e tampouco sei
lidar com ele.
Conforme vamos nos aproximando do sítio, eu vou
relembrando a infância.Nunca fui o garoto de ficarcorrendo com a
turma, mas me recordo desse lugar. Eu era o que ficava quieto,
desenhando e observando os demais subirem em árvores, fazendo
saltos incríveis na piscina. Estar de volta é como obter uma
lembrança viva do passado.
— Chegamos! — Sophie diz, animada. — Se lembra de
quando você dizia que queria morar aqui?
— Sim. Bom, faz todo sentido, não acha? Olha o silêncio
desse lugar! Sons apenas dos pássaros, das quedas d’água, o
cheiro de mato, os animais. Talvez eu ainda tenha esse sonho. —
Sorrio. — Vamos ver se minha hospedagem aqui trará essa vontade
de volta.
— Venha! Pelo amor de Deus, retire esse casaco, está calor!
— Ela sai me puxando para entrar na casa e, assim que entro, retiro
meu casaco sob o olhar, no mínimo, estranho dela.
— A casa foi modificada.
— Sim, está mais moderna agora. Passou por obras,
principalmente antes de Théo vir pra cá — explica. — Você está
malhando?
— Um pouco. Nada excessivo. Por quê?
— Prefiro não responder — ela diz e se joga em meus
braços. — Eu senti tanto a sua falta! Estou tão feliz que esteja aqui.
— Também senti a sua falta. Faz alguns meses que não nos
vemos.
— Ainda estou magoada por ignorar minhas chamadas de
vídeo e ser contra os meios de comunicação.
— Não sou contra os meios de comunicação — afirmo,
sorrindo. — Só não gosto.
— Você está tão go... lindo. Puta merda! — diz, com as duas
mãos em meu rosto. — Você é e sempre será o menino mais lindo.
— A abraço mais forte e beijo seu ombro. — Vamos ficar muito
tempo juntos. — Vai começar a tortura! Ficar muito tempo junto com
ela é uma tortura, parecia fantástico quando criança...
Quando nos afastamos, eu fixo meus olhos em seus lábios.
Há um piercing no lábio inferior, há tatuagens novas, há um combo
destruição nessa menina. Lembrar de piercing me faz pensar em
clitóris, por isso me afasto ainda mais, dando dois passos para trás.
— Chegamos, meu povo! Alô, galera de cowboy!!! Aoooo,
trem que pula!!! — Samuel surge com o restante do pessoal. —
Trouxemos coisas para um churrasco selvagem!
— O que seria um churrasco selvagem? — pergunto.
— Uma festinha doida, para aloprar, com direito a sexo
selvagem no final... — explica e eu balanço a cabeça em negação.
— Passamos no bar do Tião e trouxemos pinga! — Eva
informa, radiante.
— O que eu estou fazendo aqui? Talvez Miguelito seja a
salvação, porque só há loucos.
— Eu não gosto de bebidas, mas quero experimentar a
pinga, com moderação, é claro. Detesto excessos. — Sophie vai até
Eva. A merda está formada e eu já vou logo em busca de um
refúgio.
— Théo, onde tem um quarto isolado nesse lugar? —
pergunto, o fazendo rir.
— Segue o corredor. Última porta à direita. Lá é o local mais
silencioso. Vou levá-lo! — Ele e Luiz Miguel me acompanham e eu
agradeço internamente por isso.
Preciso de um lugar para onde eu possa fugir quando tornar-
se difícildemais. Eu sei que isso vai acontecer por causa do barulho
excessivo e por Sophie... principalmente por Sophie.
A fuga faz parte de mim.
Piercing no clitóris!
A famíliado meu pai é extremamente unida. Se algo ruim
acontece com um membro, todos os demais se compadecem e se
unem para ajudar. Se algo bom acontece, se unem para festejar,
não importa o dia que seja.
Pesquisas feitas por psicólogos mostraram que o tempo de
duração de um luto é de oito meses a um ano, podendo se estender
a dois anos.
Um outro estudo diz que quando a perda é de um cônjuge, as
coisas pioram. Indivíduos que perderam seu cônjuge, têm níveis
mais altos de citocinas pró-inflamatórias (algo que indica inflamação
na corrente sanguínea), e passam a ter uma diminuição da
frequência cardíaca.Isso aumenta o risco de problemas cardíacos.
Nos primeiros seis meses, o risco de morte aumenta para 41%.
Essa diminuição da frequência cardíaca está associada
também à falta de atividade sexual. Sempre ouvi meu pai dizer que
sexo é vida, e talvez faça sentido mesmo. Pelos estudos, uma vez
que você deixa de praticar o ato, sua frequênciacardíacasofre uma
diminuição considerável. É um pouco absurdo para mim, mas há
muitas pesquisas sobre o assunto. Isso me fazpensar que talvez a
minha frequênciacardíacaesteja muito baixa, já que tenho 22 anos
de idade e não façosexo. Será que malhar ajuda? Eu preciso fazer
pesquisas sobre isso. Estou preocupado. Masturbação pode ser
comparada ao sexo?
De qualquer forma, meus problemas agora não importam,
apenas não quero que Luiz Miguel, meu primo de consideração,
morra. Já fazum ano desde que Clarinha nos deixou e ele não está
bem. Estou preocupado que ele vá desenvolver um processo
depressivo. Porém, ver a animação em todos e perceber que eles
são os únicos que podem levar um pouco de alegria para Luiz
Miguel, faz com que eu me sinta um pouco insuficiente. Samuel,
meu irmão, pode fazê-lo rir; Théo, também meu primo de
consideração... Ainda estou conhecendo Théo, mas ele também
parece ser divertido. Soso...
Soso é filha do meu tio Victor e irmã de Luiz Miguel. Na
verdade, ela é mais que isso...
Eu não quero olhar ou pensar nela agora, mas faço e me
arrependo no mesmo instante. Há um elástico em minha mão. Estou
girando-o em meus dedos e os movimentos aumentam
consideravelmente enquanto a observo.
Estamos fazendo um churrasco para o almoço. Eu tentei ficar
no quarto, porém, me lembrei das palavras da minha mãe. Ela pediu
por favor. Pediu que eu me esforçasseum pouco para socializar ao
menos com os meus primos, e eu prometi a ela que faria. Se eu
prometo algo, não consigo deixar de cumprir. Na minha primeira
tentativa de não cumprir a minha promessa, a cobrança mental
surge, repetindo infinitas vezes o juramento que fiz.Todas as vezes
que prometo algo, tento voltar atrás, porém minha mente não deixa.
Eu acho que ela está certa. O mais honesto é você sustentar suas
próprias palavras. Mas, em alguns casos, é apenas difícil.
Nesses casos difíceis sempre há Sophie envolvida.
Sinto uma enorme saudade de todos os momentos onde
ficávamos grudados um ao outro, mas já faz alguns anos que deixou
de ser o paraíso para tornar-se uma quase tormenta; é por isso que
a evito, por mais que doa. A proximidade excessiva ultimamente faz
com que eu tenha que ficarem uma batalha mental exaustiva. E, a
observando envolvida em um biquíni, com os olhos devidamente
fechados, enquanto a água forte da ducha cai sobre seu corpo,
percebo que insistir em ficar aqui, vendo as mais várias cenas
acontecendo bem diante dos meus olhos, apenas para cumprir a
minha promessa, será um erro.
Então por que não saio logo?
Você sabia que chamar uma mulher de gostosa pode ser
considerado um ato de violação? Bom, o que para muitos é visto
como um elogio, para outros é visto quase como um crime.
Esse lance de gostosa é algo que eu tento entender. Sempre
ouvi Samuel, filho do meu pai e meu irmão de consideração,
chamando as garotas de gostosas, mas como funciona isso?
Porque uma torta alemã é gostosa. Ela tem aquele creme que
derrete na boca, que deixa tudo incrível.Um sorvete de creme com
pedaços de doce de leite e caramelo é extremamente gostoso. Uma
lasanha de presunto e queijo é absurdamente gostosa. Qual a
comparação disso com uma mulher? Seios, bunda... eles possuem
um gosto? É meio absurdo, mas acho que se pudesse colocar a
minha boca em Sophie, talvez eu me transformaria em um desses
caras que chamam as mulheres de gostosas. Ela deve ter um gosto
delicioso, eu gostaria de lambê-la por completo.
Sophie é gostosa aos meus olhos. Ela é a mais gostosa, de
acordo com eles.
Quando ela sai da ducha, sua atenção se volta a mim e ela
abre o sorriso mais lindo do mundo. Todas as vezes que ela sorri
para mim, um sorriso cresce em meu rosto. Parece automático.
Sophie sorri, eu sorrio.
— Ei, Sophie, vamos dançar essa música? — Eva, a noiva de
Théo, a chama.
Há uma música baixa tocando, e isso me coloca em um misto
de confusão. Me sinto grato a eles por terem cuidado com coisas
que testam os meus limites, mas, ao mesmo tempo, sinto que
atrapalho um pouco da diversão de todos.
De qualquer forma,parece bom para eles e Sophie se junta à
Eva para dançar. Quando Sophie se vira de costas para mim, desvio
meu olhar. O corpo dela é algo que me causa reações. A única
coisa que me convence a observar a cena é a voz do amigo de Eva.
A diversão termina quando ele sai da piscina e toca a cintura
de Sophie. Os dois começam a dançar juntos e eu passo a engolir
em seco repetidas vezes. Sophie tem um gingado natural desde
criança. Ela é movida à música. A maneira como o corpo dela se
move de acordo com a melodia da canção é incrível. Ela parece
sentir o tom e se entrega a isso.
O amigo de Eva começa a ficar um pouco ousado nos
movimentos e sinto meus batimentos cardíacosatingirem um novo
nívelde frequência. Começo a girar o elástico em minha mão mais
rápido, até que ele se arrebenta, sinalizando que atingi o meu limite.
Não sei explicar como me sinto quando vejo alguém tocá-la. Me
lembro de alguns episódios violentos que tive durante a infância, e
eles parecem voltar com força a cada vez que vejo cenas como
essa.
Não sou um menino violento. Não sou um menino violento.
Não sou um menino violento.
Porém, mesmo que não seja, sinto vontade de me aproximar
e jogar esse garoto a alguns metros de distância. Sinto vontade de
pegar Sophie e escondê-la dos olhos de todos. Sentir todas essas
coisas dói. Dói tanto que, antes que eu não possa mais conter as
minhas emoções, decido me recolher.
Estou caminhando rumo ao quarto quando uma garota
molhada vem correndo e entra na minha frente.
Ela prende meu rosto entre suas mãos, eu prendo o dela
entre as minhas.
— Aonde vai? — pergunta.
— Dormir. Estou cansado da viagem. Pode se divertir. Eu vou
ficar bem.
— Por que não fica mais perto de mim? — ela questiona,
como se sentisse dor. — Você não gosta mais de mim? Não sou
mais a sua melhor amiga? Você tem outra amiga?
— Não tenho outra amiga, Sophie. E nunca terei. Você
sempre será a minha melhor amiga. Só você — afirmo. — Estou
cansado da viagem. Foi longa e passei a madrugada conversando
com Samuel, para mantê-lo desperto enquanto dirigia. Vou dormir e
acordarei mais disposto.
— Promete que vai ficar comigo hoje à noite? Eu não me
importo se não quiser sair, nós podemos assistir um filme, eu posso
fazer pipoca. Eu te amo — ela diz, soltando meu rosto e me
abraçando.
Meu Deus do céu! Sophie está de biquíni e grudada ao meu
corpo! Meu corpo simplesmente precisa não responder a isso,
mas...
Uma ereção começa quando o cérebro envia um sinal para a
medula espinhal através dos nervos que chegam à pelve. Alguns
dos nervos que provocam uma ereção se situam dos dois lados da
glândula prostática. Quando este sinal é recebido, o tecido
esponjoso no interior do pênis relaxa e expande os vasos
sanguíneos, que levam o sangue para o pênis. Com as expansões
das paredes, o sangue no interior pode circular até 50 vezes mais
rápido do que sua velocidade habitual. O sangue preenche dois
tubos esponjosos de tecido no interior do pênis. As veias, que
normalmente drenam o sangue do pênis, ficamfechadas,para que
mais sangue permaneça dentro. Isso faz com que se produza um
grande aumento da pressão dentro do pênis, o que provoca uma
ereção firme. E tudo isso significa que meu cérebro agora está
sendo um completo idiota irresponsável, por estar enviando todos os
sinais para que logo meu pênis fique com uma ereção firme que,
provavelmente, fará com que eu queira abrir um buraco no chão
para me enterrar dentro dele.
Começa a acontecer quando sou obrigado a tocá-la para
retribuir o abraço. Eu posso jurar que a sinto tremer quando minhas
mãos deslizam pela sua cintura. Todos os meus sentidos são
altamente aguçados, por isso, consigo sentir sua pele repleta de
bolinhas. Quanto mais deslizo as minhas mãos, mais reações
surgem no corpo dela. Essa é uma descoberta muito assustadora
para mim, mas que também não quer dizer nada. Eu só saberia que
Sophie está excitada se ela tivesse uma ereção firme, mas ela é
uma garota e possui uma vagina, o que contribui diretamente para
que minhas dúvidas sobre o tipo de reação que ela está sentindo
não sejam esclarecidas.
Me afasto quando a situação torna-se demais e a pego com
as bochechas ruborizadas, mordendo firmemente seu lábio inferior.
Faço uma anotação mental sobre isso e caminho rumo ao quarto,
fechando a porta com chave assim que entro.
Fico alguns minutos andando de um lado para o outro. Tenho
esse tipo de comportamento quando me sinto perdido ou nervoso
demais. Faço isso quando tenho dificuldadepara entender algumas
coisas. E ligo para o meu pai quando preciso de uma opinião menos
científica.
— Filho, está tudo bem? — É a minha mãe quem atende.
— Mãe, está tudo bem. Por que não estaria?
— Só estou perguntando, filho — ela responde, rindo. —
Descansou da viagem?
— Ainda não, mãe. Mas fugi de Sophie e vou tentar
descansar agora. Meu pai está aí?
— Por que fugiu de Sophie?
— Mãe, isso é assunto de meninos. Eu ficaria feliz em falar
com o meu pai — explico a ela.
— Sabe, filho, mamãe entende sobre muitos assuntos de
meninos. E ainda tem o agravante de eu ser menina. Então,
entendo também das atitudes de meninas. Eu posso ajudá-lo
enquanto seu pai está saindo do banho para falar com você.
— Mãe, você tem reações físicasquando papai te abraça?
Você sente arrepios? Sophie me abraçou e eu tive uma ereção
firme, ela teve arrepios quando eu toquei em sua cintura.
— Oh, merda! Digo... LUCCA!!! — ela chama o meu pai. —
Henrico teve uma ereção firme. Se existe alguém que pode falar
com ele sobre ereção firme, esse alguém é você. Eu não tenho
pênis! — diz ao meu pai.
Ok. Por que ele é homem? Ou por que ele tem ereção firme
quando minha mãe o abraça? Não quero imaginar isso, de forma
alguma!
— Graças a Deus, Paula! — ele a responde. — Oi, filho.
— Pai, não é apenas porque estou com uma ereção firme. —
Ele ficaem silêncio por um momento, até finalmente me responder
com uma pergunta. Eu odeio quando me respondem fazendo uma
pergunta, mas isso acontece constantemente. As pessoas me
respondem perguntas com perguntas, como se quisessem se
certificar de algo. Eu não entendo a necessidade disso, mas lidar
com pessoas é complexo demais. Eu sempre vou preferir os
animais. Eles são menos complexos e compreendê-los é
significativamente mais fácil.
— Anos atrás eu te ensinei como lidar com isso, não foi?
— Sim, mas não é sobre lidar com uma ereção. Eu toquei a
cintura nua de Sophie e ela se arrepiou.
— Ela teve uma reação ao seu toque. Talvez seu toque tenha
algum efeito sobre ela. Já imaginou isso? Seria legal, não? Você
gosta de Sophie.
— Pai, não tem como eu saber se a reação que ela sente é
ao menos parecida com a que eu sinto. A excitação em garotas é
diferente. Quando começa a excitação em garotas, a vagina fica
mais longa e mais larga. As células que revestem a vagina secretam
gotículas de líquido ou lubrificante, que fazem com que fique
escorregadia. Como eu poderei saber se isso está acontecendo com
Sophie? É assustador pensar em uma vagina longa e larga.
— Puta merda! Bom, sim, quando uma garota está excitada
nós dizemos que ela fica "molhada". Sua... vagina fica mesmo
úmida e só é possível descobrirmos quando tocamos ou caso ela
decida dizer. Porém, não leve de forma tão literal esse "longa e
larga". Você já viu aqueles filmes educativos, sabe que o órgão
sexual da mulher não modifica durante a excitação, ao menos não
exteriormente. Na verdade, se expande apenas para receber o
nosso... Isso é difícilde ser conversado. — Essa resposta me faz
sentar na cama.
— Nosso pênis.
— Sim, filho. Ela se abre um pouquinho apenas para receber
o nosso pênis.
— Sophie tem um piercing no clitóris. Eu não pude analisar
— confesso.
— Você quer analisar?
— Estou curioso, mas sei que não posso pedir que ela me
mostre. Isso é muito íntimo, e não sou inocente o bastante. Assisti
filmes.Eu fariacom ela tudo o que já vi. Tenho a consciência de que
pedir para ela me mostrar seria como um pré-ato para me sentir
confortável.
— Ah, sim, o confortável. Você não se sente confortável
ainda, então apenas relaxe, filho. Veja filmes educativos, você sabe
o que fazer. Acho que isso será o escape até se sentir confortávelo
bastante para investir pesado.
— Investir pesado? — pergunto.
— Dar um passo em sua relação com Sophie.
— Ela é a minha melhor amiga, pai. Não vai acontecer. Não
quero perdê-la como amiga e ela tem uma rotina mais dentro da
normalidade que eu. De qualquer forma, o arrepio significa que
talvez ela tenha reagido a mim da forma como reajo a ela?
— Tenho certeza que sim. Preste atenção nos mínimos
detalhes, ok?
— Ok. Só mais uma coisa, pai. Há um garoto em torno de
Sophie e eu não gosto dele. Ele disse que Sophie é gostosa. O que
eu devo fazer?
— Mantenha-se perto dela. Não dê chance dele se
aproximar. Quando queremos muito algo, devemos lutar, mesmo
que discretamente. — Ok, manter-se perto, eu posso fazer isso,
mesmo que seja necessário manter uma almofada entre nós.
— Tudo bem.
— Me ligue se precisar, filho. Eu amo você. Sua mãe quer
falar...
— Filho. — Minha mãe está chorando.
— Mãe?
— Eu só queria dizer que é a coisa mais fantásticado mundo
ver sua inocência em assuntos sexuais e assuntos sentimentais.
Você é tão maduro para outras questões, que ver que ainda possui
uma inocência e uma certa inexperiência torna-se algo singelo e
bonito — fala. — Sempre quando o vejo conversando com seu pai,
isso mexe muito comigo. Eu tive a sorte de conhecer o seu pai.
Sophie tem a sorte de ter um homem como você apaixonado por
ela. Estou sonhando com o momento em que ela descobrirá sobre
seus sentimentos. Eu sinto que vocês vão descobrir muitas coisas
juntos e, quando isso acontecer, será o momento mais incrível da
vida dos dois.
— Você acha que um dia ela será a minha namorada? Você
acha que eu sou capaz de namorar?
— Você é muito além de capaz. Só não fez, porque desde
que se entende por gente, só existe uma garota na vida para você.
E sabe o que é mais incrível?Essa garota é a sua melhor amiga.
Ela sabe tudo sobre você, sabe tudo sobre o seu universo, suas
limitações, sua inteligência... Há tanto para você descobrir sobre
tudo que ela sente e sabe.
— Obrigado, mãe.
— Eu quem o agradeço por ser o homem mais incrível do
mundo inteiro e o meu primeiro melhor presente da vida. Eu te amo,
filho. Fique com Deus.
— Você também, mãe.
Mantenha-se perto dela...
Ao invés de ir obter o mínimo de alívio e dormir, controlo o
ânimo, retiro minhas roupas, visto uma sunga boxer preta e volto
para a área externa da casa. Procuro Sophie com os olhos, porém,
assim que a encontro, ela fixa o olhar em mim, escorrega e leva um
tombo feio, o que me faz correr para socorrê-la.
A vida era muito mais fácil quando Henrico usava uma
bermuda para as atividades aquáticas. Ele usando uma sunga, que
mais se parece com uma cueca boxer, é impactante o bastante. Faz
um tempo desde que o vi sem camisa, então é compreensívelmeu
choque.
Henrico costumava ser magro, discreto. Esse homem que me
tem em seus braços agora, é tudo, menos magro e discreto. Eu não
sei dizer bem qual foi a transformaçãoque o corpo dele sofreu. O vi
há mais ou menos uns seis meses, num dia chuvoso e frio,onde ele
estava usando um conjunto largo de moletom. Fora de todas
aquelas roupas se esconde algo que eu sempre quis ver, mas não
me sentia preparada o bastante. Ainda estou em uma disputa
interna entre agradecer a Samuel por incentivá-lo a malhar ou
chutá-lo. É uma bênção e uma tortura.
Coxas grossas, um volume generoso em sua sunga, seis
gomos perfeitos na barriga, pelinhos delicados por todo peitoral e
pelo famoso "caminho da felicidade",e braços fortese com algumas
veias em evidência. Não ajuda que o rosto dele seja perfeito. Eu não
sei descrever o que são esses lábios, tão pouco a barba adornando
cada pedacinho e fazendo com que ele se pareça ainda mais
quente.
Mas...
O lado ruim da vida é quando surge o "MAS".
Henrico não é o garoto que vai me jogar contra a parede e
me consumir por completo. Não é o garoto que "do nada" vai tornar-
se um rompante de safadezae atitude. Eu sei disso e, ao contrário
do que parece, não é decepcionante que ele não seja como a
maioria garotos. É angustiante, principalmente conforme os dias,
meses e anos vão se passando.
Tão angustiante que larguei a faculdade e retornei ao Brasil
há poucos dias, contra a vontade dos meus pais, contra todos,
apenas para estar mais perto dele. O simples fato de estar perto já
consegue preencher alguns dos espaços vazios dentro do meu
coração. Talvez, com cuidado e delicadeza, eu consiga trabalhar e
realizar o maior sonho da minha vida: tê-lo.
Já fui questionada sobre esse sonho, até mesmo julgada.
Enquanto a maioria das mulheres sonha com a independência, com
viagens, com riqueza, poder, eu sonho em possuir o coração do
meu melhor amigo e viver o resto dos meus dias ao lado dele. Tão
poético quanto parece ser, apenas para destoar da imagem de
garota sem limites que todos têm de mim.
Sempre foi Henrico. Sempre será. E nunca houve um só dia
em que eu pensei em desistir ou tentar substituí-lo.Não há qualquer
garoto à altura de tudo que ele é e significa para mim.
Eu choro. Eu choro porque amar em silêncio é doloroso o
bastante. Eu choro porque tenho pressa quando tudo que preciso é
ser paciente. Eu choro porque todas as vezes que digo que o amo,
ele entende como se eu estivesse dizendo que o amo como meu
melhor amigo. Eu choro porque queria estar para sempre em seus
braços e esse "para sempre" nunca chega. Eu choro porque meu
corpo grita por algo que ninguém é capaz de me dar.
Eu rezo pelos mesmos motivos; para que eu possa gritar o
meu amor, para que eu possa mergulhar nele, para que ele entenda
que eu o amo como uma mulher é capaz de amar um homem, para
que ele abra seus braços e me deixe ficarpara sempre, e para que
ele me dê tudo.
Ele me coloca sobre a sua cama e eu consigo vê-lo por
completo, mais perto que nunca. Eu choro pelo desejo de tocá-lo.
— Sophie, eu vou cuidar de você — ele diz de um jeito muito
lindo.
— Ok. Você pode apenas fazerum favorantes de cuidar de
mim?
— Eu posso fazer — responde sério, esperando o meu
pedido.
— Você pode enrolar uma toalha em torno de si? Apenas
para eu não vê-lo de sunga?
— Oh! — exclama, envergonhado, cobrindo o volume em sua
cueca. Nunca quis tanto ser as mãos de alguém. — Me desculpe
por desrespeitá-la, Sophie.
— Não me desrespeitou. Na verdade, eu festejaria bastante
se me desse um "desrespeito" desse. Quer dizer, esqueça o que
estou falando. É apenas porque...
— Eu vou enrolar uma toalha — avisa, indo até ao banheiro,
e eu suspiro, transtornada. Ter o sangue quente é uma maldição às
vezes.
O abençoado surge na porta enrolado em uma toalha branca.
Poderia aliviar o que estou sentindo, mas não alivia nada. Agora ele
molhou os cabelos e há gotículas de água escorrendo pelo seu
peitoral.
— Pronto. Você está sentindo dor? — pergunta.
— Em lugares que você nem imagina. — Henrico se superou
na arte de se tornar gostoso. Eu queria arrancar essa toalha no
dente, abaixar essa sunga e... Santa Josefina,me perdoe por pecar!
— Podemos ir em busca de um hospital.
— Não vai resolver — afirmo.
— Sophie, o que eu posso fazer? Não gosto de te ver
chorando. Meu peito dói. — Ele derruba toda a minha safadeza,
sempre! Até fazcom que eu me sinta levemente culpada por querer
jogá-lo sobre essa cama e matar quem me mata um pouco a cada
dia.
— Desculpe. Estou tendo alucinações. — O observo franzira
testa e me encarar sério. Começo a rir, porque ele sempre leva tudo
para o sentido literal.
— Você me enganou? Minutos atrás estava chorando e agora
está rindo, Sophie. Eu não estou entendendo.
— Machuquei apenas o meu bumbum e torci um pouco meu
pé direito — informo,ficandode pé e caminhando mancando até um
espelho, onde confirominha bunda. Pelo reflexodo espelho, o vejo
com os olhos fixados em minha bunda. Samuel disse que eu deveria
observar mais algumas ações de Henrico, e eu façoisso. Ele desvia
o olhar da minha bunda assim que o encaro através do espelho. —
Não foi nada demais. Só há uma dorzinha no meu pé — aviso e
ando até ele. — Você pode me abraçar muito forte? — peço,
voltando a chorar, e ele faz. Ele me abraça forte e eu deito minha
cabeça em seu ombro direito.
— Não chora, Sophie, por favor.
— Eu te amo. — Ao infinito e além.
— Eu vou cuidar de você. Você quer brigadeiro?
— Quero — respondo, sorrindo entre lágrimas.
— Eu vou fazerpara você, tudo bem? Pode apenas ir tomar
banho e vestir uma roupa decente? É desrespeitoso.
O tema da vez é desrespeito. Acabo de perceber. Sorrindo,
me afasto dele e vou até meu quarto tomar banho e vestir uma
roupa "respeitosa".
— Ei, senhorita, você está bem? — Samuel surge, vestindo
um roupão bem esquisito, quando estou prestes a entrar no quarto.
— Sim, só torci um pouco o pé e meu bumbum está um
pouco dolorido — explico, o abraçando. — Eu te amo até o céu!
— Onde está Henrico?
— No quarto. Pediu que eu viesse tomar banho e vestisse
uma roupa decente para assistirmos filme — comento, sorrindo.
— Podemos conversar um pouco? Em particular.
— Claro que sim. Entre. — Ele entra e fecha a porta.
— Sente-se — pede, apontando para a cama, e eu me sento,
o analisando.
— Fiquei muito "tiporrei"[2] nesse roupão, né? — Reviro meus
olhos e sorrio.
— Extremamente.
— Tô me sentindo muito rei delas! Enfim, quero falar sobre
Henrico e você. — Franzo a testa. — Sophie, todos amam vocês e
sentem medo de vê-los sofrerem por conta dos sentimentos. Eu sou
um pouco protetor, você sabe.
— Perfeitamente.
— A questão agora é que Henrico está numa fase mais...
Como posso dizer? Ele tem estado mais curioso em relação a
algumas questões.
— Questões? — pergunto. — Quais os tipos de questões?
— Não vem ao caso. Eu só queria dizer que ele acordou para
algumas questões apenas agora e está meio perdido, com dúvidas
e curiosidades demais. Sei o que sente por ele, sei que deve estar
cada vez mais difícillidar com isso, mas tenha um pouco mais de
paciência, ok? Está sendo extremamente difícilpara ele também.
Ele se sente diferente, se sente atrasado, se sente insuficiente,
incapaz. Estamos tentando lidar com isso juntos, inseri-lo cada vez
mais em nossa rotina, para que ele perceba que não há nada a
temer. O tipo de abordagem dele é diferente, por exemplo, do meu
tipo de abordagem, e ele é literal demais. Você vai atingir o seu
propósito, posso quase apostar nisso, mas precisa ir com cuidado,
tudo bem?
— Eu sei. Tenho pressa, mas sei que preciso ir a passos
lentos.
— Henrico ainda não sabe que você voltou para o Brasil
definitivamente, não é mesmo?
— Ainda não falamos sobre isso. Mas vou comentar.
— Você é muito mais experiente que Henrico, mas não quero
que se machuque, Sophie. Quando ficardifícilou se sentir perdida,
venha até mim. Seja firme, aguente firme, continue sendo paciente.
— Me levanto e ele abre os braços para me receber. — Sei que
esse amor dói.
— Eu o amo com todas as minhas forças.
— Observe.
— Estou fazendo isso, mas não encontrei nada ainda —
confesso.
— Siga observando. Só se encontraram há poucas horas.
Talvez você ainda não seja capaz de perceber, mas Henrico está
sofrendo mudanças consideráveis. A zona de conforto está
começando a incomodá-lo e o óbvio já não está o satisfazendo
mais. Apenas seja paciente e observadora. O amor dele é puro pra
caralho.
— Eu te amo também.
— Eu também te amo, Sininho. Não quero que sofra. Você tá
na velocidade cinco do créu, Henrico está entrando na primeira.
— Isso significa que Henrico é virgem?
— Eu não disse isso — ele fala, me soltando. — Enfim, vá
tomar banho para assistir filme com ele. Não vá assediar meu irmão!
— Talvez eu dê uma deslizada de mão para saber o que o
futuro me reserva, se é que meu futuro é Henrico — brinco.
— Eu acho que é, hein!
A cada vez que alguém diz isso, me sinto capaz de
conquistá-lo.
Théo me mostra a despensa da casa e eu pego todos os
ingredientes para fazer brigadeiro para Sophie.
Brigadeiro é o doce preferido de Sophie, por isso, aprendi a
fazer aos 13 anos de idade, numa madrugada chuvosa, onde fiz
minha mãe acordar para me ensinar. Na manhã seguinte a fiz me
levar na casa do tio Victor para entregar os doces para Sophie e ela
foi sorridente, sem nem mesmo me repreender por ter perdido uma
noite de sono. Eu me lembro até hoje do sorriso que Sophie deu, foi
o mais bonito do mundo.
Ela é a menina mais bonita do mundo. É verdade.
Assim que termino o brigadeiro, o coloco na geladeira, para
esfriar mais rápido, e volto ao quarto. Ela já está sentada na cama,
me esperando.
— Eu já sei o filme que vamos assistir! — anuncia.
— Eu não gosto de filme de terror.
— Não é de terror. É um lançamento da Netflix.É de máfia —
explica. — Venha! Sei que o brigadeiro vai demorar um pouco...
— Ok. — Apago a luz e me junto a ela na cama, um pouco
distante. Ela parece mais animada que o normal para assistir ao
filme. Ela dá play e se aproxima de mim, puxando meu braço e o
fazendo de travesseiro.
— Você não parece confortável agora — diz.
— Você está confortável agora? — pergunto, apreensivo.
— Sim, muito confortável. Você não?
— Eu nunca fiquei confortável, mas... por que está
confortável?Você não parece confortávelagora — argumento e ela
levanta a cabeça para me observar.
— Estou deitada, relaxada, confortável. V
ocê também está.
— Eu estava pensando em outra coisa, me desculpe. — Ela
sorri e dá play no filme. Se chama 365 Dias e eu não entendo o
motivo de Sophie querer assisti-lo. Logo no início arregalo meus
olhos e a encaro. Ela rola pela cama e começa a gargalhar.
— Merda, Henrico! Você é extremamente engraçado.
— Isso se parece com filmes educativos!
— Filmes educativos? — questiona, rindo. — Está falandode
filme pornô? — Esfrego meu rosto, mortificado pela vergonha. A
mulher do filme começa a gemer, como as mulheres dos filmes
educativos. Sophie volta o olhar para a TV e agora é o homem
gemendo, enquanto parece que há uma mulher fazendo sexo oral
nele. Isso é absurdo! — Socorro, Deus!
— Esse filme é educativo? Não podemos assistir isso juntos.
— Não é filme pornográfico — ela responde, rindo.
— Você fazo que ela estava fazendo?— pergunto e Sophie
para de sorrir. Ela está me olhando de um jeito estranho, não
consigo compreender.
— Não faço. Você faz o que ele faz?
— Não — respondo timidamente.
— Nunca?
— Sophie, isso não é algo que devo conversar com você,
entende? Você é minha amiga — explico.
— Entendo. Mas você sabia que uma pesquisa feita pela
pesquisadora americana, Heidi Reeder, com 300 pessoas de ambos
os sexos, aponta que 20% dos entrevistados já haviam transado
com um amigo ou uma amiga pelo menos uma vez na vida? Destes,
76% disseram que a amizade melhorou depois do sexo. Dentre os
76%, metade começou um relacionamento amoroso com o amigo,
mesmo que essa não fosse sua intenção original. A outra metade
permaneceu apenas na amizade, muitas vezes, colorida — ela
explica. Eu amo muito que ela goste de pesquisas!
— Eu vi uma pesquisa onde 76% dos entrevistados
afirmaram que a amizade ficou ainda melhor após o sexo e essa
pesquisa não foi da mesma pesquisadora. Talvez faça mesmo
sentido. Elas atingiram a mesma porcentagem sobre o assunto.
Porém, há algo muito ruim sobre essa situação de amizade colorida.
Ela pode levar a algo muito mais profundo e íntimo, ou terminar
abruptamente pelo aparecimento de uma terceira pessoa que
determine o fim desse relacionamento. Se surge uma terceira
pessoa, acaba o vínculode amizade e o sexo. Meu Deus, Sophie,
eles estão nus!
— É normal, Henrico.
— Ele é bruto.
— É excitante — afirma.
— O quê? — pergunto, a encarando.
— Vamos assistir, você vai entender em algumas cenas. —
Faço o que ela sugere. — Ei, eu te amo muito. Você é o menino
mais lindo do mundo! — Sorrio e faço um carinho em seu rosto.
— Você é muito princesinha.
Mas não consigo entender o tipo de relação entre o casal do
filme.Eu não gosto do filmeou da situação entre eles. Grande parte
já se passou e o cara parece um viciado em sexo oral. Deve ser
realmente bom. A mulher, eu nem quero falar sobre ela. Eles estão
em um barco agora e está começando uma cena após ela ter caído
no mar. Sophie nem pisca, e eu entendo o motivo. Isso é sim um
filme educativo, mas não sei que tipo de educação ele quer passar.
Os filmes que eu assisto são muito mais leves. O cara cospe na
mulher e...
— Senhor da glória!!! — Sophie exclama.
Meus olhos ficamfixadosna tela, horrorizado o bastante com
a cena. Eu nem consigo respirar durante os próximos minutos.
Quando a cena termina, Sophie solta um gemido e eu dou um salto
da cama, rumo à fuga.
Calço meu chinelo e, assim que abro a porta do quarto para
desaparecer, Samuel cai diretamente no chão do quarto, juntamente
com Théo, Eva, Maicon e Luiz Miguel.
— Vocês estavam fazendo sexo? — eles perguntam juntos.
Henrico está perdido e eu estou rindo.
Samuel tem o dom de ultrapassar os limites da cara de pau.
— Vocês são malucos? — Henrico pergunta, encarando a
todos no chão. Aos poucos eles começam a se levantar. — Por que
estavam atrás da porta? Por que perguntaram se eu e Sophie...
— Porra, Sophie! Eu pensei que você havia concordado em ir
devagar — Samuel diz, se levantando.
— Infelizmente, estou indo devagar. Eu queria ir bem rápido e
forte!
— Onde? — Henrico pergunta e eu ficode pé para protegê-lo
de toda loucura. Sei que agora ele está perdido e assustado.
— Ok, pessoal! Nós só estávamos assistindo um filme, 365
Dias. É de máfia, mas parece pornô, porque tem muito sexo, o
tempo todo. Uma delícia! Digo, um absurdo! Uma falta de respeito
sem tamanho.
— Que tal assistirmos juntos na sala? — Théo convida. —
Será divertido. Topa, Henrico?
— Eu não sei... — Henrico diz, sem graça. — Não acho que
seja legal.
— Vamos lá, cara! Vamos dar algumas risadas juntos! —
Samuel convida, o abraçando. Henrico o acompanha nessa loucura
e eu pego o fonede ouvido dele por medida de segurança, levando-
o comigo até a sala.
Por algum motivo, estou percebendo que, dessa vez, todos
estão um pouco mais insistentes em manter Henrico incluso nas
atividades. Deve haver algum motivo e estou sentindo que perdi
algo, alguma informação. De repente, as palavras de Samuel
começam a fazer sentido. Ele disse que Henrico está se sentindo
desconfortável com a zona de conforto e está se esforçando por
alguma coisa. Eu realmente preciso usar mais do meu poder de
observação. Sinto-me em completa desvantagem agora.
Quando chego na sala, pego Henrico pela mão e o faço se
sentar ao meu lado.
— Você está bem com essa loucura?
— Não sei. Acho que sim. Eu prometi à minha mãe que me
esforçaria — responde, fixado em meu lábio inferior
. — Você beija?
— Você beija? — Devolvo a pergunta apenas por temer a
reação.
— Você já se sentiu confortável? — Eu preciso decifraro que
é esse confortável, porque parece que para ele essa palavra é
utilizada para se referir a algo que não é literal. Isso é bastante
estranho, visto que ele gosta de levar tudo ao pé da letra.
— Você poderia me explicar o que significa se sentir
confortável?Eu não estou compreendendo bem — peço, apertando
as bochechas dele. — Você é perfeito demais.
— Não posso explicar isso. Talvez um dia.
— Tudo bem, eu posso esperar. Sempre vou esperar por
você, ok?
— Ok. — Ele sorri e aperta minhas bochechas também. —
Sempre vou esperar por você.
— Estou aqui agora. Não precisa esperar por mim — digo,
observando seus olhos fixados aos meus.
— Aoooo! Quando eu crescer vou ser igual esse cara! —
Samuel diz, desviando nossa atenção, só então me dou conta de
que o filme já começou.
— Mafioso? — Luiz Miguel pergunta, rindo. Ele está no
mesmo sofá que eu e Henrico, e eu o puxo para um beijo na
bochecha. — Você me lambeu!
— Foi só um beijinho molhado, irmão! — explico, sorrindo.
— Misericórdia, esse filme! — Maicon exclama. — Esse
homem, certamente, jamais seria passivo em uma rodada de sexo
suado.
O que dizer desse ator que eu mal conheço e já considero o
bastante?
— Esse noivo dela é um idiota. A mulher chega pronta para o
ato, cheia de vontade, e o imbecil não dá nem uma atençãozinha?
— Théo comenta. — Evadia, você nunca vai passar necessidade.
Vem quente!
— Por que acha que vou me casar com você? — Eva diz,
sorridente. — Por sexo!
— Um casamento não deve acontecer por sexo — Henrico
comenta, sério. — Sabia que a proporção é de um divórcio a cada
três casamentos? É um número alto. Eu penso que talvez o sexo
não seja o suficientepara manter um relacionamento. Uma vez que
você se casa, você faz sexo. Se sexo fosse o componente
fundamental de uma relação, as pessoas não se divorciavam.
— Você está certo. Eu estava apenas brincando, porque
gosto de irritar o Théo — Eva explica, sorrindo. — Para um
casamento, ou até mesmo um relacionamento dar certo, é preciso
um mix de coisas, a começar por uma amizade, para ambos
desbravarem um ao outro e buscarem o maior número de coisas em
comum, além da compatibilidade e atração. A atração é um
ingrediente importante. O sexo acaba sendo um ingrediente
importante também, porque mantém o casal conectado. Na verdade,
eu considero o sexo o maior ato de conexão entre duas pessoas.
Não é o principal, mas é importante.
— Esse cara é bom, hein?! — Samuel diz. — Me identifico
com ele na pegada.
— Não me julgue, mas essa mulher está feliz da vida com
esse sequestro. É compreensível. Quem não estaria? No filme
parece perfeito — comento e Henrico me encara. — Mentira, acho
abusivo.
— Na vida real não é assim — Luiz Miguel divaga.
A cena do sexo da lancha começa e o povo vai à loucura. Eu
começo a rir quando Samuel fica de pé e simula sexo com o
aparador abaixo da TV.
— Vaiiii, safada! — ele diz de uma maneira engraçada,
fingindo que o móvel é a bunda de uma mulher e distribuindo tapas.
— Foi só a cabecinha! Vou colocar tudo agora! É isso aí... Me
receba, potranca!
A cara de Henrico é impagável, e piora quando Maicon
decide ser a "Laura" de Samuel. Eu quase faço xixi nas calças
quando Samuel agarra os cabelos de Maicon e dá um tapa forte na
bunda dele. O pobrezinho até se assusta, mas segue rindo.
— Me dê o seu MASSIMO — Maicon pede. — Me chama de
Laura e me dá uma cuspida.
— Com cuspe e com jeito, invado o seu estreito! — Samuel
fala. — Aoooo, Laura, Jacinta o orgasmo chegando!
— Que merda! — Luiz Miguel diz, rindo.
— Me desculpem, mas Théo é mais potente que esse
Massimo.
No momento que Laura e Massimo atingem o pico do prazer,
Samuel e Maicon gemem alto, como se estivessem, de fato,
atingindo o orgasmo juntos. Eu estou chorando, mas Henrico está
realmente sério, olhando para a cena. Isso torna tudo ainda mais
engraçado do que realmente é.
— Foi bom para você? — Samuel pergunta a Maicon.
— Essa foi sua melhor performance? — Maicon pergunta, o
que faz com que todos comecem a rir de Samuel.
Os dois se sentam e voltam a assistir ao filme. Olho para o
lado e só assisto um rosto muito lindo, que está bastante corado
agora.
— Ei, há muitos ruídos,eu vou para o meu quarto. Você quer
vir comigo? — Henrico diz baixinho, e eu nem respondo. Seguro a
mão dele e nos levantamos para sair.
Nos acomodamos na cama dele. Ele virado para mim, eu
virada para ele. Ficamos perdidos um no outro por um tempo, até eu
quebrar o silêncio.
— Você gosta de São Roque? — pergunto a ele enquanto
mexo em seus cabelos negros.
— Eu gosto. Quando todos não estão reunidos é bem
silencioso, o ar é mais puro, há muito sons da natureza, não há
muitos carros...
— Abandonei a faculdade— confessoe o vejo franzira testa
ao ouvir.
— Por que fez isso?
— Eu não estava felizmorando tão longe de todos, tão longe
de você. Voltei há poucos dias. Meu pai está um pouco magoado
comigo, mas compreendeu o motivo.
— Então você voltou para o Brasil definitivamente? —
pergunta.
— Sim.
— Eu quero me mudar para São Roque, então acho que
ficaremos um pouco longe. Estou arrependido por querer. Não
imaginei que tivesse voltado.
— Eu quero me mudar para São Roque também. Nós
podemos arrumar um sítiopor perto, podemos morar juntos e ter um
monte de animais — sugiro, sorrindo. — Eu tenho uma nova
cachorrinha, mas ela é dorminhoca. Ela está no quarto de Luiz
Miguel.
— Você quer morar junto comigo? — Henrico está no modo
"analítico" agora. Eu posso ver.
Eu disse que iria devagar, mas sei que posso dar sinais a ele
do que sinto. Posso dar algo que o faça juntar as peças e pensar.
Confesso que é um pouco difícilter que abrir mão de alguns
instintos naturais e ter que abordar todos os assuntos de uma forma
sutil. Se eu pudesse, simplesmente diria abertamente agora todas
as coisas que sinto.
Houve um período em que me revoltei por ninguém interferir
a meu favor. No auge dos meus 15 anos, quando tudo em mim
gritava por ele, eu queria me jogar, queria deixar meus instintos
conduzirem a situação. Foram diversas as vezes em que chorei nos
braços do meu pai, pedindo "pelo amor de Deus" para que ele me
ajudasse a ter o garoto da minha vida. Foram madrugadas em claro
chorando no colo da minha mãe. Houve revolta por eu achar que
ninguém estava me ajudando, mas, na verdade, todos estavam. Se
eu conduzisse a situação da minha maneira impulsiva, eu afastaria
Henrico de mim.
Foi difícilcompreender o motivo pelo qual todos agiam com
total cautela, mas quando tia Paula e tio Lucca sentaram-se comigo
e explicaram a situação, mostrando um ponto de vista sobre o
psicológico de Henrico, toda a minha visão mudou. Os estímulosem
relação a ele devem ser feitos pouco a pouco, da maneira que
demonstre mais naturalidade possível. Tudo que chega até ele de
formacontrária, o fazretroceder ao invés de fazê-loavançar. O mais
engraçado de tudo é que nunca qualquer membro da famíliachegou
até mim e pediu que eu desistisse. Eles sempre disseram "tenha
calma", sempre defenderam que Henrico em algum momento iria
despertar para os meus sentimentos. Meus pais me viam sofrer e
nunca pediram que eu desistisse, ou me incentivaram a ir em busca
de outro garoto. E, neste exato momento, todos esses pequenos
detalhes estão surgindo em minha mente. Talvez eles tenham visto
algo que eu jamais tenha sido capaz de enxergar.
"Observe".
Eu observo pela primeira vez a maneira como ele me olha,
tentando enxergar por um ponto de vista que sempre foi
considerado uma área sensível e perigosa para mim. Percebo que
ele passa muito tempo olhando para os meus lábios, talvez seja
indicativo de algo, ou não.
— Eu quero morar com você — afirmo, tocando em seu
rosto. — Você quer morar comigo?
— Eu preciso pensar sobre isso. Nunca pensei na
possibilidade de morar com você. Não sei como vou me sentir. —
Sempre sincero. — Nós vamos dormir no mesmo quarto?
— Não necessariamente. Só se você quiser e se sentir
confortável.— Só depois de alguns segundos percebo que usei a
palavra "confortável"e que isso será interpretado de uma maneira
que ainda não decifrei.
— Somos amigos, praticamente primos. É errado eu querer
me sentir confortável com você?
— Não somos primos, somos amigos. Nada é errado. Seja lá
o que esteja pensando e o que signifique o confortávelpara você,
não é errado. — Ele engole em seco e se vira, para ficarencarando
o teto. Certamente sua mente está trabalhando muito forte agora e
eu sei que é o momento de ficar em silêncio e deixar que ele
processe o que quer que esteja pensando.
De repente, minha pele está queimando, meu coração está
disparado. Talvez eu precise processar toda a situação também. Eu
sinto que agora estamos indo para um novo nível de amizade,
porém questiono se a minha linha de raciocínioestá me conduzindo
para o lugar certo. Sou aquela garota que se joga de um penhasco
muito facilmente, mas também posso ser a versão que lida com
Henrico portando toda a calmaria do mundo. Na maioria das vezes,
sinto como se existissem duas versões de mim mesma, e nem sei
se isso é possível e como pode ser interpretado.
Confusa, acomodo minha cabeça em seu braço, coloco
minha mão sobre sua barriga e me aconchego em seu corpo. Sou
capaz de sentir a tensão, mas aos poucos ela vai se dissipando, ao
ponto de eu conseguir contar até mesmo todas as suas respirações.
Já ouvi falarem muito sobre a sensação de "lar". Desde
pequena eu só sentia essa sensação quando estava perto dele. É
assim que me sinto agora. Estou em meu lar, no lugar que mais amo
estar.
— Não me sinto bem morando com os meus pais. Eu me
sentia muito bem até pouco tempo atrás, mas agora não mais. Sinto
que estou muito atrasado em relação aos meus primos, em relação
a você — Henrico confessa. — Quero me sentir como um homem
adulto, independente. Eu sei que você não é mais uma menina,
mesmo que eu sempre vá chamá-la de menina, e eu não sou mais
um menino. Eu sou homem, você é mulher. As coisas mudaram. —
Eu gostaria mesmo de compreender onde essas palavras se
encaixam. O raciocínio dele é bem mais rápido que o meu. Ele
estava falando sobre a necessidade de se sentir independente e
agora está dizendo que eu sou uma mulher e ele é um homem.
Deixo para tentar entender isso quando estiver sozinha.
— Você é o homem mais lindo do mundo.
— Eu tenho regras. — Não compreendo.
— Regras?
— Se formos dividir a mesma casa, precisaremos ter regras
— explica. Eu tento controlar a vontade de gritar de alegria pelo fato
dele estar ponderando isso, mas demonstro estar em completa
plenitude e nem um pouco insana pela ansiedade.
— Você pode me dizer?
— Preciso de mais tempo para pensar sobre as regras e
poder repassá-las a você, mas preciso que saiba que eu preciso tê-
las. É importante para mim. Você também pode ter suas regras,
tudo bem?
— Tudo bem. Você sabia que meus pais possuem um
caderninho de acordos? — pergunto, sorrindo com a lembrança.
— Um caderno de acordos?
— Sim, eles anotam tudo. Regras, contratos que inventam
sobre a relação deles, até mesmo assinam os acordos. Eles fazem
isso desde que se tornaram apenas amigos. Quer ter um caderninho
comigo?
— Eu tenho um caderno sobre você — confessa, o que faz
com que eu levante minha cabeça e o encare. — Esqueça isso —
pede, arrependido por ter falado. — Me desculpe, pode esquecer
isso?
— Temporariamente.
— Sophie, por favor.
— Temporariamente, Henrico. Eu vou esquecer sobre isso
temporariamente. — Ele parece contrariado, mas precisa aprender a
lidar com isso. Eu também me sinto contrariada agora,
principalmente porque sempre houve uma expectativa muito grande
em mim sobre ele. Saber que possui um caderno onde escreve
sobre mim desperta toda a curiosidade que possuo. — Bom, por
tudo que acabou de dizer, significa que já tem uma decisão?
— Posso pensar um pouco mais?
— Claro que pode. Só não demore muito, tudo bem? Assim
que tiver uma decisão, seja a hora que for, você pode me chamar e
dizer? — peço.
— Mesmo se for durante a madrugada?
— Mesmo se for. — Sorrio, fazendoum carinho em seu rosto.
— Eu te amo.
— Ao infinito e além.
— É. Promete que vai me chamar a qualquer momento?
— Eu prometo, Sophie.
(***)
Ele cumpre a promessa de me chamar a qualquer momento.
Estou dormindo em meu quarto quando desperto com a
sensação de ter alguém junto de mim na cama. Ele toca minha
bochecha delicadamente e eu sigo com os meus olhos fechados,
querendo descobrir quais serão as suas próximas ações.
— Sophie... você é a menina mais linda do mundo mesmo!
Pode acordar? Soso? — Sorrio e levo minha mão até a dele.
— Ei...
— Eu quero morar com você. — Meu coração dispara, como
se fosse capaz de pular para forado meu peito. Eu quero ficarde pé
e pular na cama, mas preciso me policiar.
— Quer? Tem certeza?
— Tenho. Eu precisava te contar.
— Eu sou a menina mais felizdo mundo agora! — confesso,
beijando sua mão. — Que tal comemorarmos comendo o que
sobrou do brigadeiro?
— São quase cinco da manhã.
— Quem se importa? Vamos ver o sol nascer? — convido e
vejo a sombra de um sorriso em seu rosto.
— Está frio lá fora. Vou vestir roupas quentes e te encontro
na cozinha.
— Também vou vestir roupas quentes — informo,sorrindo. —
Ei, você está feliz?
— Eu sou o menino mais felizdo mundo agora! — responde,
deixando o quarto.
A primeira vez que corri na vida eu estava de mãos dadas
com Sophie, na nossa casa de praia em Búzios. Enquanto o medo
brincava em meus olhos, minha mãe parecia receosa e meu pai
dizia: "se você nunca tentar
, então você nunca saberá se é capaz".
Sophie? Ela só dizia: "eu estou com você, você vai
conseguir". E eu fiz. Sophie nunca soltou a minha mão. Ela correu
ao meu lado e comemorou quando a tentativa foibem-sucedida. Ela
também disse que eu era o menino mais lindo do mundo. Era como
se ela pudesse contornar todos os meus medos, abraçar as minhas
inseguranças, transformar o meu medo em riscos que sempre
valiam a pena. Éramos novos demais, mas essa memória se
manterá eterna dentro de mim, assim como muitas outras.
Enquanto a maioria das crianças pareciam se mover na
velocidade da luz, eu era aquele que lutava internamente para
conseguir dar um passo e me manter firme. Enquanto eles subiam
em árvores, eu me mantinha sentado, para evitar tombos que
resultariam em me machucar fisicamente. De machucados,
bastavam as feridas emocionais, todas as dores que eu sentia. Não
é fácil para uma criança perceber que é diferente dos demais. É
doloroso e, muitas das vezes, eu não aceitava, não sabia como lidar
e me revoltava. Durante a maior parte da vida, eu me questionei:
"por que eu?", e acho que nunca serei capaz de aceitar
completamente. Por falta de opção foi necessário que eu
aprendesse a lidar, que eu me tornasse um especialista em mim
mesmo. Acredite, é extremamente difícilsaber tudo sobre si mesmo,
identificar fraquezas, testar seus próprios limites, descobrir se
possui pontos fortes.
Tive um atraso enorme na coordenação motora, mas, em
compensação, fui uma criança considerada superdotada em muitas
outras questões. Eu desafiava a compreensão até mesmo dos
terapeutas que lidavam comigo. Isso também não foi fácil. Na
escola, era estressante estudar com crianças da minha idade,
quando eu estava infinitamente à frente intelectualmente. Eu vivia
constantemente aborrecido, algumas vezes apresentava episódios
de agressividade; não batia nas pessoas, mas eu destruía objetos
em busca de descarregar todas as frustrações. Enquanto todos os
meus amigos da escola podiam correr, eu podia responder a
qualquer cálculo matemático com uma rapidez assustadora.
Inclusive, foram inúmeras as vezes em que corrigi professores, e até
mesmo minha psicóloga.
Bom, ao menos corrigir a minha psicóloga era engraçado.
Doutora Laura é a minha psicóloga até hoje. Ela é especialista em
autistas. Anos atrás, quando eu estava disposto a provar que
ninguém poderia lidar com a minha mente, ela se perdia em todas
as questões que eu levantava. Confesso, algumas vezes eu fazia
propositalmente, só para vê-la perdida em sua argumentação.
Quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava. Era
extremamente difícillidar com olhares maldosos sobre mim, com as
piadinhas, pessoas me chamando pelos apelidos mais absurdos,
bullying gratuito apenas por eu ter um QI elevado e não gostar de
socializar com qualquer pessoa. Todos os dias eu chegava em casa
extremamente rebelde do colégio com tudo isso, mas insistia em
permanecer no colégio, porque eu teimava que precisava ser como
todos, mesmo carregando em mim a certeza de que eu nunca seria
capaz disso. Foi então que, após uma das maiores crises da minha
vida, meus pais decidiram, contra a minha vontade, que investir em
ensino à distância era a melhor opção. Felizmente, eles tinham
meios de pagar por isso, mas sei que a maioria das pessoas não
têm. Eles fizeramo melhor por mim. Não são todas as pessoas que
se dão bem com a inclusão e acessibilidade em todos os sentidos.
Expert em milhares de coisas, inexperiente para outras. A
mania de me sentir sempre em desvantagem segue me
acompanhando, segue fazendoparte de quem sou. Mas há um lado
bom em sentir esse incômodo. Quanto mais incomodado eu me
sinto, mais aumenta a minha vontade de tentar vencer meus
bloqueios. É isso que estou pensando agora, enquanto Sophie corre
pelo gramado de braços abertos e fala pelos cotovelos.
Ela é a única pessoa no mundo que pode falar pelos
cotovelos sem que eu me incomode. A voz dela é como uma suave
melodia para os meus ouvidos (mesmo quando não está sendo
nada suave). Sophie costuma sempre ponderar suas ações perto de
mim, mas, ocasionalmente, quando está tomada pela adrenalina,
ela acaba perdendo o controle. Eu gosto quando ela mostra quem
de fatoé, e gosto de como ela acredita fortementeque eu a enxergo
da maneira que ela tenta passar para mim. Há duas versões de
Sophie. Eu sou apaixonado por qualquer uma delas, embora eu não
goste de assumir isso em voz alta em minha mente.
Parece que a cada vez que assumo isso internamente, torna-
se mais real. Somos tão diferentes em tantos aspectos, mas tão
parecidos em outros. Eu não foco nos prós, eu foco nos contras.
Talvez seja um erro, talvez não. A cada minuto em que o ponteiro do
relógio gira, mais medo eu tenho de perdê-la para outro garoto. Ela
nunca foi minha, eu não a possuo, mas sou egoísta o bastante para
não querer que nenhum outro a tenha. E eu costumava estar bem
com a possibilidade dela seguir a vida de maneira normal. Qualquer
coisa que a fizessefelizcostumava me confortar. Agora não consigo
mais e não sei como proceder. Sophie é uma mulher, ela deve
namorar, ela deve um monte de coisas. E eu? Eu sou limitado o
bastante para querer me manter dentro de casa. Barulhos me
irritam, não gosto muito das pessoas, odeio festas, tenho pânico de
lugares aglomerados, nunca beijei, nunca toquei em uma garota,
nunca... nunca me senti confortável.
Eu não sei dizer a ela, principalmente por achar que ela
merece muito mais do que posso dar. Não posso dizer, porque ela
pode ir embora e eu posso perdê-la para sempre.
Mas só de pensar em perdê-la, eu me pego a puxando para
os meus braços e a envolvendo em um abraço apertado.
Eu te amo ao infinito e além...
Ela está em meus braços agora, sendo esmagada de uma
maneira que certamente deve estar sendo quase dolorosa. Mas ela
parece não se importar, porque retribui o abraço tão forte quanto é
capaz de retribuir. Isso faz com que meu coração bata de forma
mais apressada e traz lágrimas para meus olhos.
Quando Sophie está em meus braços, eu sinto que tudo
dentro de mim se encaixa. Mas, quando ela se afasta,eu volto a me
sentir em pedaços.
— O que há de errado? — ela pergunta e traz suas mãos
para meu rosto.
— Você tem um namorado? — Eu não penso antes de
perguntar. Esse é um defeito. Tenho mania de dizer tudo que surge
em minha mente, principalmente quando estou nervoso.
— Não tenho um namorado.
— Mas você já teve um namorado. — É uma afirmação.
— Eu nunca tive um namorado. — Ela nunca teve um
namorado? Isso soa estranho e eu acabo deixando a curiosidade
vencer.
— Por quê? Você é uma garota normal.
— Eu não gosto quando fala assim — me repreende,
soltando meu rosto. Ela segura minha mão e me puxa, até nos
sentarmos embaixo de uma árvore. — Não gosto quando suas
palavras dão a entender que você segue se achando diferente, fora
da normalidade. Você é um garoto normal, Henrico. Todos os seres
humanos têm limitações, e você, como eu, como todos os demais,
tem as suas. Nossas limitações são apenas diferentes.
Ela não compreenderá o que quero dizer.
— Por que não tem um namorado?
— Porque... — Ela desvia o olhar do meu. A observo
balançar a cabeça negativamente, antes de dizer: — Porque eu
nunca quis ter um namorado. E você?
— Eu quero ter uma namorada. — Ela parece não gostar da
minha resposta. Vejo lágrimas escorrerem pelo seu rosto. — Sophie,
não chora. Você não está feliz?
— Eu sempre ficareifelizpor você, mesmo que isso custe a
minha própria felicidade — ela fala, dando um sorriso triste. — O
amor é paciente. O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo
suporta. Se você estiver feliz, Henrico, eu também estarei, porque
eu te amo.
— Você quer ter um namorado?
— Sim — responde rapidamente, e eu não gosto disso. Não
gosto de pensar.
— Eu não vou ficar feliz se você tiver um namorado. — Ela
me encara e eu esfrego meu rosto. — Eu odeio o seu namorado.
— Não tenho um namorado.
— Mas eu o odeio antes mesmo dele existir. Eu não quero
que você tenha um namorado.
— Por quê? Não estou entendendo. — Fico de pé e tento
respirar, mas minha respiração agora está falhando, e Sophie
percebe. Eu odeio que ela me veja assim, odeio que ela veja que
eu... eu sou diferente, estranho e fraco... — Você está bem? Fale
comigo, Henrico — ela pede, trazendo suas mãos para meu rosto.

As lágrimas estão simplesmente escorrendo em rompantes


furiosos através dos olhos de Henrico, fazendocom que as minhas
desçam junto. Ele está tremendo, sua respiração está uma bagunça
e nem mesmo a minha tática de segurar seu rosto está funcionando.
— Eu estou com você, respire — peço e ele traz suas mãos
em meu rosto, tocando e fazendoum carinho que me fazfecharos
olhos. Com seus polegares, ele passeia pela minha testa, meus
olhos, minhas bochechas, meus lábios, como se estivesse me lendo
em braile ou tentando memorizar cada parte do meu corpo.
Observe...
Enquanto absorvo o toque delicado de suas mãos, começo a
analisar todas as ações de Henrico desde ontem, quando chegou a
São Roque. Eu vou mais além.
No meu aniversário de 9 anos, Henrico me deu um quadro
feito de uma foto minha, desenhado e pintado por ele mesmo.
Aos 12 anos, ele empurrou um menino que disse que ia se
casar comigo e que eu era a garota mais bonita do mundo.
Aos 13 anos de idade, em uma manhã chuvosa de um
sábado, fui acordada pelo meu pai. Ele disse que havia um alguém
muito especial esperando por mim na sala. Eu soube quem era
antes mesmo dele precisar dizer o nome. Eu saltei da cama e corri
para a sala sem escovar os meus dentes. Henrico estava lá,
acompanhado de tia Paula, carregando um potinho em suas mãos.
Assim que me viu, ele estendeu as mãos e eu corri para pegar o
pote. Quando o abri, encontrei dezenas de brigadeiros feitospor ele,
apenas porque sabia que era meu doce preferido. Tia Paula contou
que ele passou a madrugada fazendo brigadeiro para mim, e eu
agradeci, dizendo que ele era o menino mais bonito do mundo e o
meu melhor amigo. Em todas as festas de família que tinha
brigadeiro, ele sempre arrumava uma maneira de encontrar um pote
e pegar vários para mim, e eu nem precisava pedir.
Quando menstruei pela primeira vez, minha mãe contou a ele
que eu estava doente e ele não sossegou até tio Lucca levá-lo para
me ver. Ele chegou em minha casa com meia dúzia de margaridas
arrancadas do jardim de sua casa, chocolates e um bilhete com um
coração desenhado, que tinha escrito "você é a menina mais bonita
do mundo".
Aos 15 anos, escutei uma conversa entre Samuel e ele. Ele
disse a seguinte frase: "eu sempre vou esperar por ela".
Ontem ele disse: "eu sempre vou esperar por você".
Eu sempre declarei o meu amor a ele. Ele nunca disse que
me amava. Ele só respondia "ao infinito e além". Talvez seja porque
passou uma vida inteira tentando fazer com que eu enxergasse
através de todas as suas ações ou talvez eu apenas esteja
sonhando tanto com esse momento, que estou tendo algum tipo de
alucinação. Henrico nunca foi bom em expressar sentimentos
através de palavras, até mesmo com os próprios pais. Já eu, desde
que me entendo por gente, digo a ele o quanto o amo, além da vida
e além de todos os porquês. Ao infinito e além dele.
Mas ele sempre me tocou, ele sempre permitiu que eu
estivesse próxima, mesmo em crises, quando ninguém mais podia
pensar em se aproximar.
Sinais. Observe...
E enquanto há uma revolução acontecendo em meu interior,
ele segue me tocando. Cada movimento dos seus dedos causa
mais confusão em mim. Se ele soubesse o que a suavidade está
despertando em mim agora... Enquanto ele me toca, tento juntar um
quebra-cabeça de mil peças. Quanto mais eu me esforço, mais
bagunçado tudo fica. Nada parece se encaixar, mas, ainda assim,
tudo parece fazer sentido.
Ele odeia o meu namorado que não existe.
Ele está chorando porque não quer que eu tenha um
namorado.
Eu odeio a namorada dele que não existe.
E eu vou morrer se um dia ele tiver uma namorada.
Nesse momento eu poderia implorar ao céu por sinais. Mas
talvez eu tenha tido todos e nunca tenha conseguido enxergar. Eu
abro meus olhos. E, mesmo sabendo que a única pessoa que pode
destruir meu coração está diante de mim, mesmo sabendo quão
difícilé para ele lidar com determinadas questões, mesmo sabendo
que ele se sente insuficiente e diferente, percebo que não posso
mais implorar por sinais divinos. Estou sofrendo por amá-lo. Ele
parece estar sofrendo também, mas não sei o motivo.
— Você me ama como mulher? — pergunto, tocando suas
mãos sobre meu rosto. — Por favor, me responda isso.
— Eu tenho medo.
— Não tenha medo. Eu estou com você, você vai conseguir.
Diga para mim. Eu ainda estarei aqui segurando suas mãos quando
acabar de dizer. Você não precisa ter medo. Somos eu e você, é o
mundo que construímos só para nós dois. Você está seguro. Nós
estamos seguros.
— Você promete? — pede, tremendo.
— Eu prometo, do fundo do meu coração. Por favor. Por
favor. — Ele fica em silêncio pelo que parece uma eternidade e a
minha alma parece sangrar pela ansiedade. Por favor, apenas me
diga.
— Eu... eu não posso te dizer, Sophie. Me desculpe. Me
desculpe. Eu tenho medo de perdê-la para sempre — ele fala, se
afastando. Virando-se de costas, começa a caminhar. Eu
permaneço no mesmo lugar, incapaz de me mover, vendo o menino
mais bonito do mundo se afastar de mim. Estou chorando,
vulnerável, com medo. Mal sabe ele que estou apavorada.
Seu choro me coloca de joelhos. Seu silêncio me fazsangrar.
Sua ida faz com que eu me sinta vazia.
Ele não é insuficiente. Talvez insuficiente seja eu.
Não importa. Eu nunca vou deixar de amá-lo. Nunca vou
deixar de rezar. Nunca vou deixar de esperar. Nunca vou deixar de
sonhar. Henrico é o encaixe de todas as peças e um dia tudo isso
fará algum sentido.
O vento frio, que bate em meu rosto, não é bem-vindo
quando há lágrimas descendo pelos meus olhos.
Expert em algumas questões, inexperiente em outras. Essa
sou eu, mesmo que as pessoas não percebam. Compreendo
Henrico tão bem, porque eu sei exatamente como é se sentir
"diferente"e tentar se encaixar. Não sou autista, mas amo um desde
sempre. Eu adentrei o universo dele e o transformeiem meu próprio
mundo. Um mundo azul, um mundo só nosso. E ele me recebeu em
seu mundo e me deixou ficar. Fiz de Henrico a minha morada.
Me encaixar em qualquer outro universo sempre foi bastante
difícil, embora eu sempre tenha me esforçado. Tenho muitas
amigas, já fui em muitas festas, estudei fora, mas nada disso
pareceu o suficiente. Eu vivo em constante busca pelo encaixe.
Sempre foi como se eu buscasse a mim mesma em lugares onde
nunca pertenci. Todas as minhas buscas sempre acabavam em uma
completa frustração, porque eu não pertencia, não pertenço, eu
nunca pertenci...
Quando fui estudar fora, tive a esperança de que o tempo
passaria mais rápido e que seria menos doloroso aguardar por
Henrico de longe. De perto, a luta é muito intensa, é preciso abaixar
todas as minhas armas e conter todos os meus instintos. Tudo em
mim quer se jogar sobre ele, mas o tempo dele é diferente do meu,
isso foi explicado a mim desde muito nova, quando comecei a fazer
terapia para lidar com as confusões da minha mente pré-
adolescente.
Acreditei que seria fácil manter-me distante, mas isso não
aconteceu de fatoe comecei a ter crises de ansiedade. Não relatei a
ninguém, apenas à minha psicóloga. Nunca quis que ninguém
descobrisse, porque não queria que qualquer pessoa tentasse
mudar a minha mente. Quando tornou-se demais, optei por voltar.
Ter o mínimo de Henrico é infinitamente melhor do que não ter nada.
Mas não voltei apenas pensando no mínimo.Voltei disposta a correr
riscos, a revelar a ele tudo o que sempre senti e a fazertentativas.
Já não somos mais adolescentes de 13 anos de idade, e agora eu
enxergo isso.
Acho que estive tão ocupada tentando ser tudo para ele,
fazendo tantas coisas para estar por perto, tão focada na espera,
que deixei de enxergar o óbvio. Talvez seja por isso que ainda me
encontro paralisada no meio do nada. Não quero sentir raiva de mim
mesma, mas creio que isso vá acontecer de qualquer jeito, mesmo
que eu saiba que não posso fazer isso comigo mesma. Preciso
pensar por outro lado, pelo lado do Henrico. Samuel me disse que
só agora ele estava acordando para algumas questões, então não
adianta eu me revoltar contra mim mesma por nunca ter sido capaz
de perceber. Mesmo que eu tivesse me dado conta disso antes,
teria sido em vão. Também não quero me culpar caso eu esteja
completamente enganada.
Eu não tenho culpa. Henrico não tem culpa. Não há culpados
nessa história. O destino parece ter moldado tudo, o tempo correto
para todas as coisas. Coincidentemente, ele está acordando para
algumas coisas agora, no mesmo períodoem que acabo de acordar
também. Porém, estamos acordando para questões diferentes, que
acabam tendo algum tipo de ligação. Não é segredo algum que
sempre o amei, mas nunca imaginei que fosse recíproco, e agora
estou seriamente desconfiada de que a reciprocidade sempre
existiu. Pensar nisso fazcom que eu consiga enxergar um certo tipo
de pureza e inocência em mim. Essas duas característicassão tudo
que as pessoas acham que não possuo, e eu gosto disso, gosto de
possuí-las e gosto que as pessoas não desconfiem.
Mesmo com todas as questões, agora eu tenho um grande
incentivo e meu peito está transbordando de esperança. Acabo de
ganhar um pouco mais de motivação para tentar e até mesmo
esperar, se necessário for. Preciso que ele saiba que não vou
desistir, por isso, decido agir e sigo para a casa. O encontro na
varanda, encostado em uma parede, olhando para o nada.
Não vou negar, meu primeiro pensamento é sobre a boca
dele. Eu queria simplesmente beijá-lo, e em seguida queria que
cada parte de mim fosse beijada por ele, porque desconheço
qualquer boca que seja mais perfeita que essa. Não é um exagero
de uma mulher apaixonada. Henrico é absurdamente lindo, todos os
seus traços são altamente marcantes e perfeitos. Mas fodam-se
todos esses pensamentos agora.
Me aproximo dele, primeiro precisando saber se ainda
estamos conectados. Levo minhas mãos até seu rosto e ele traz
suas mãos ao meu; isso faz com que eu consiga voltar a respirar
normalmente. Nós ainda estamos "aqui".
— Me desculpe se pressionei você — peço, fazendocarinho
em suas bochechas.
— Me desculpe por fugir.
— Está tudo bem. Eu ainda estou aqui, estarei esperando.
Nós teremos todo tempo do mundo para descobrirmos mais um do
outro. — Ele suspira com a minha resposta.
— Você ainda quer morar comigo?
— Não há nada nesse mundo que eu queira mais que isso.
— Ele sorri, desliza suas mãos do meu rosto e me abraça. Tudo
volta a fazersentido. É sobre se encaixar. E eu só me encaixo nele.
— Eu sempre vou esperar por você.
— Eu sempre vou esperar por você.
— Estou aqui agora — respondo, sorrindo.
— Eu sei. — Não sei dizer se ele está dizendo no sentido
literal agora, mas, tudo bem.
— Não precisa esperar por mim. Eu só preciso que saiba que
estarei esperando por você.
— Obrigado por isso, Sophie. — Sorrio e o aperto mais forte.
Preciso deixá-lo um pouco só, sei que ele precisa disso. Também
preciso descansar um pouco o corpo e a mente.
— Vou voltar a dormir. Não teve sol, hein? O dia hoje está um
pouco feio.
— Vá. Eu vou resolver algumas questões.
— Tem certeza de que estamos bem? — pergunto, receosa.
— Absoluta, Sophie.
— Eu te amo, menino mais bonito. — Beijo a ponta do seu
nariz e vou para o quarto.

Percebo que perdi a hora quando o meu celular toca. São


quase três da tarde e o nome de tia Paula está piscando na tela.
— Oi, tia! — atendo, ainda um pouco aérea.
— Oi, meu amor. Está tudo bem? Estou com saudades!
— Está tudo bem sim, tia. Também estou com saudades.
Cheguei de viagem e vim praticamente direto para cá — respondo,
sorrindo.
— Sophie, eu preciso conversar algo sério com você e
preciso que seja com privacidade. Existe a possibilidade de
fazermos isso agora? — Pense em uma pessoa curiosa? Sou eu!
Mesmo que não houvesse possibilidade alguma, eu daria um jeito.
— Claro, tia. Vou apenas me vestir e ir em busca de
privacidade. Te faço uma chamada de vídeo, pode ser?
— Perfeito! Estarei aguardando.
Saio correndo feito louca. Vou ao banheiro, faço minhas
necessidades, volto ao quarto e me visto em tempo recorde.
Todos estão na sala quando surjo, mas não deixo que meu
propósito seja desviado. Simplesmente pego a chave do meu carro
e saio em busca do local ideal.
— Sophie, aconteceu algo? — Samuel grita.
— Não! Eu já volto! Vou comprar chocolate! — grito de volta e
acelero, levantando poeira e arrancando mato. Eu amo isso!
Estaciono o carro atrás da igrejinha e ligo para tia Paula. Ela
surge na tela, linda como sempre, mas seus olhos estão vermelhos,
denunciando que esteve chorando.
— Tia, está tudo bem?
— Samuel me ligou. Ele me disse sobre os planos de Henrico
de se mudar para São Roque e morar com você. — Balanço a
cabeça em compreensão. — Primeiramente, não fique chateada
com ele, ok? Samuel quis apenas me preparar, por saber que seria
difícil,e para eu saber como lidar com Henrico e não parecer
assustadora.
— Eu teria feito o mesmo que ele. Tia, eu imagino que seja
difícil para você lidar com isso.
— Você não imagina o quanto — confessa. — Desde o dia
em que Henrico nasceu, estive em torno dele, o protegendo do
mundo, acompanhando cada etapa. Não pense que estou triste,
meu amor. Muito pelo contrário, estou feliz demais. Mas, sou mãe.
Não sabe quanto é difícilter que abrir as asas e deixar que o filho
voe. Foram tantas lutas com Henrico, que torna-se impossível
manter-me cem por cento segura. — Eu a compreendo. — Estou
ligando para você, porque sei que me entende, Sophie. Há muitos
anos você me entende. Acredito no potencial de Henrico. Ele
tornou-se um homem incrível, inteligente, maduro para a maioria
das coisas. Não quero que ele pense que o trato como uma criança,
que o vejo como uma criança, principalmente quando ele está na
fase da vida onde está mais inclinado às mudanças. Se eu chorar,
demonstrar fraqueza ou o mínimo de receio, meu filho vai recuar , ele
vai se sentir insuficientee incapaz, eu acabarei o prejudicando sem
querer.
— Então diga tudo a mim, tia. Estou aqui por você.
— Eu tenho medo, Sophie — diz, chorando. — Mas estou tão
feliz. Estou feliz porque é com você, e porque sei que com você,
seja aonde for, meu filho estará bem. — Agora sou eu chorando. As
palavras dela significam uma imensidão para mim. — Henrico
demorou a acordar para algumas questões que você vai descobrir,
se já não tiver descoberto. De repente, ele quer uma independência,
ele quer o canto dele, ele quer descobrir coisas novas, ele quer viver
o que sente, ele quer correr atrás do que quer sem qualquer
interferência, quer vencer o medo. Ele quer viver o mundo dele
sozinho agora e eu preciso deixá-lo ir. Eu sabia que em algum
momento da vida isso iria acontecer, mas eu não esperava que ele
iria decidir por um lugar tão longe, onde não posso alcançá-lo com a
rapidez que conseguiria se ele ficasse no Rio.
— Ele está encantado com São Roque, tia Paula. Você sabe
que aqui é completamente diferente e que é um lugar ideal para
Henrico. É uma cidadezinha pacata, sem o trânsito caótico, sem
muita poluição, cercada por paisagens incríveis, pela natureza,
silenciosa comparada ao Rio. Há Théo, Luiz Miguel, Eva, haverá eu.
— Samuel propôs a ele que morassem juntos, ele não quis —
fala. — Ele foi enfático em dizer que iria morar com você, sozinho.
Só você, Sophie, para variar um pouco. — Me pego sorrindo entre
lágrimas. — Sei que o ama.
— Imensamente.
— Não sei o que vai acontecer entre vocês, como vai
acontecer, se vai acontecer. Todos sabemos que tudo depende dele.
Mas estou torcendo, vibrando para que aconteça, porque se existe
alguém no mundo para o meu filho, esse alguém também é você,
Sophie. Você o compreende, você é paciente, trata Henrico de igual
para igual, entende as necessidades e as limitações que ele possui,
o vê como o homem em potencial que ele é. Você é um exemplo de
determinação que me choca. É paciente, perseverante, tem uma
esperança que nunca morre. E, o mais importante, você nunca o
enxergou como um garoto inferior ou diferente.
— Porque ele não é, mesmo que insista em dizer que é,
mesmo que tenha suas limitações. Para mim, ele não é. Para mim
ele sempre foi e sempre será o garoto mais incrível do mundo, tia.
— Eu só precisava ouvir essas palavras suas. Elas fazem
com que a aceitação seja mais fácil.Você tem a minha bênção para
o que quer que seja.
— Eu prometo ser tudo o que ele precisar e mais que isso,
tia. Fique tranquila, eu o amo, acho que isso diz muito. Te peço
desculpas por não ter informado nada ainda. Simplesmente tomei a
decisão com Henrico e não pensei em nada mais. Nem mesmo
tivemos um tempinho para lidar com isso da forma correta. Foi no
calor do momento.
— Eu sei como essas coisas são. Sei como é se jogar sem
medo da queda — ela diz. — Bom, vou deixá-la ir. Meu coração está
infinitamente mais leve agora.
Por incrível que pareça, assim que me despeço dela, o meu
coração está mais leve também.
Quando volto ao sítio é que me dou conta do motivo pelo qual
todos estavam reunidos na sala. Henrico está sentado no chão, com
seu notebook sobre a mesinha de centro, trabalhando em alguma
coisa.
— Ei, o que está havendo aí? — pergunto.
— Henrico é um gênio! Você não está entendendo! — Eva
exclama, sorrindo, e eu corro para ver o que é. Ele está trabalhando
em um projeto de uma casa e eu nem sei como.
— O que é isso?
— Esse terreno tem cerca de 2 mil hectares, de acordo com a
planta que meu avô Túlio nos enviou mais cedo — Théo explica. —
Todos querem morar aqui. Decidimos que, ao invés de alugarmos
algum lugar, vamos construir mais 2 casas aqui. Henrico está
fazendouma simulação de como as casas poderão ser distribuídas
e como ficarão.Luiz Miguel e Samuel ficarãocom essa casa, você e
Henrico ficarão com outra, e eu e Eva ficaremos com uma mais
próxima à cachoeira.
Eu e Henrico.
Acho que estou muito emotiva, porque estou chorando
apenas por parecer que é tudo tão real.
— Você também ficará em São Roque? — pergunto a
Samuel.
— Onde vocês forem, eu vou! — Sorrio, radiante com sua
resposta. Como posso ter me tornado a garota mais felizdo mundo
tão de repente?
Eu vou comer e, do balcão da cozinha, observo Henrico
trabalhar, enquanto milhares de perguntas dançam em minha
mente. Ele não é engenheiro, não é arquiteto, não é designer...
Como Henrico está montando o projeto de duas casas? Embora eu
saiba que o que ele está fazendo ainda será repassado aos
profissionais com formaçãona área, eu nunca saberei responder. A
inteligência dele desconhece limites e ele não se parece nada com o
Henrico inexperiente agora. Talvez não seja apenas eu que me
transformo em determinadas situações. Ele vai facilmente de um
garoto puro a um homem altamente profissionale maduro, o que me
encanta.
Ele não me deixa ver a nossa casa, alegando que precisa de
alguns detalhes, mas a da Eva e do Théo ficaperfeita, como a casa
dos sonhos. Estou tão ansiosa sobre tantas coisas de uma só vez,
que chego a estar tonta e sem ação.
— Quanto tempo até essa casa ficar pronta? — pergunto a
Henrico quando ficamos sozinhos na sala.
— Não sei dizer ao certo, há um novo método de construção
chamado Wood Frame. Esse método já é antigo nos Estados
Unidos, porém tem sido utilizado há pouco tempo aqui. Vou explicar
de uma maneira que você consiga entender, muito resumida. —
Sorrio em agradecimento. — Esse modelo é chamado de uma
maneira mais popular de "construção a seco". São montantes e
travessas em madeira revestidos por chapas igualmente feitas de
madeira, é um modelo sustentável por alguns fatores.Essa madeira
utilizada é reproduzida a partir de madeiras de reflorestamento.
Além disso, associam à mão de obra leve e rápida, o que causa
menos impacto ambiental. A utilização desse método reduz cerca de
80% a emissão de gás carbônico. Porém, teremos que edificar a
construção com concreto armado, e então todo o restante poderá
ser feito em Wood Frame. Nesse sistema, nossa casa ficará
devidamente pronta em três meses.
— E há esse tipo de mão de obra no Brasil?
— Há profissionais capacitados sim. Eu vou cuidar de tudo,
não precisa se preocupar com nada, ok? — Há todo um tesão em
mim agora. Inteligência é afrodisíaca mesmo!
— Vamos ter que esperar quase quatro meses para ficarmos
juntos? — indago.
— Não.
— Não?
— Eva está se mudando aqui para o sítio.Nós podemos ficar
aqui ou podemos morar na casa dela por enquanto. O que você
quer?
— Eu acho que amo Eva! Eu escolho morar na casa dela,
sem dúvidas, eu e você... sozinhos. — Pelados, por favor! Meu
Deus! Eu pensei que teria que esperar ainda mais. — Estou curiosa.
Posso ao menos acompanhar tudo?
— Claro que pode, Sophie. É a nossa casa, eu só não te
mostrei ainda porque não terminei. Eu quero que seja perfeita para
você.
— Eu tenho certeza de que será perfeita. Você estará
comigo. Qualquer lugar do mundo fica perfeito com você. Quero a
simplicidade. Eu preciso só que esteja comigo — digo, tocando em
seu rosto e passando a ponta do meu nariz no dele.
— Sophie, você é a menina mais bonita do mundo. Você é
linda.
15 ANOS DE IDADE
Eu odeio o intervalo do colégio. É o momento onde me sinto
mais desconectado e diferente de todos. Com meu abafador de
ruídos, sempre me sento no canto do pátio, tomo uma vitamina e
fico lendo, aguardando o tempo passar. Em alguns momentos, eu
sempre levanto meus olhos para observar como as pessoas
normais agem e, muitas das vezes, eu penso que sou muito mais
normal do que qualquer um deles.
Há muitos garotos beijando garotas, há brigas, choros, alguns
jogam alimentos nos amigos, e isso tudo é estranho demais para
mim. Isso é ser normal? Eu não acho que seja, por isso, volto a ler o
livro em minhas mãos até uma garota aparecer. Não sei se ela
percebeu, mas estou de abafador, portanto, não estou escutando
qualquer uma das palavras que ela está dizendo. Esse fone possui
abafadores potentes, é o melhor do mercado, bom o bastante para
que seja necessário eu retirá-lo para conseguir entender.
— ... ir comigo?
— Me desculpe, mas não viu que estou usando fone? —
pergunto.
— Eu estou nervosa. Sinceramente, não percebi.
— Por que está nervosa?
— Gosto de você — ela diz.
— Eu nem te conheço, você nem me conhece. Como pode
gostar de mim? — questiono, observando-a franzir a testa.
— Você é o garoto mais lindo do colégio — justifica.
— Isso é motivo para gostar de mim?
— Sim — responde.
— Se eu fosse feio você não gostaria de mim?
— Uow! Calma! Por que estamos discutindo isso? — ela
pergunta. — Haverá uma festa na casa da Ana Paula, eu vim
perguntar se você gostaria de ir comigo.
— Eu não quero ir. Não gosto de festas.
— Por que não gosta de festas?
— Música alta, muitas pessoas, luzes, tudo isso me
incomoda bastante — respondo.
— Então... que tal sairmos juntos para outro lugar? — Por
que eu sairia com ela?
— Eu não gosto de sair.
— Você quer ficar comigo?
— Não quero ficar com você. Gosto de ficar sozinho. — A
menina começa a chorar e sou obrigado a fechar meu livro. Não
entendo o motivo pelo qual ela está chorando. — Por que está
chorando?
— Você é grosso! Não poderia ser mais delicado? Eu só
queria beijar a sua boca!
— Eu não quero beijar a sua boca. Isso é nojento! — Ela sai
correndo e isso faz com que todos os olhares se voltem para mim
no momento exato em que o intervalo termina. Embora eu coloque o
abafador, ele não me protege de escutar alguns gritos:
— Ele é um retardado!
— É doente mental. Não tinha que estar no mesmo colégio
que a gente.
Ao invés de voltar para a sala de aula, caminho rumo à saída
do colégio, onde um porteiro me impede de sair.
— Aonde pensa que vai, garoto?
— Embora. Eu preciso passar. — Forço minha passagem e
ele segue impedindo. Meus pais dizem que não devo ser violento,
que devo tentar me controlar, mas não consigo. Não quando a frase
"ele é um retardado" está fixada repetitivamente em minha mente.
Eu me rebato, perco a consciência, entro em uma espécie de
transe. Tudo que vejo é a escuridão e minhas ações passam a ser
em prol de me libertar, o que só acontece quando ouço a voz da
minha mãe. Ela parece brigar, enquanto meu pai me leva para o
carro.
— Filho, o que houve? — meu pai pergunta.
— Uma menina veio falar comigo.
— O que ela disse?
— Ela queria que eu fosseem uma festa,ela disse que gosta
de mim e que queria ficar comigo. Mas eu não gosto de ficar com
ninguém. Eu não a conheço. Gosto de ficar sozinho.
— Oh! Ok. Quando ela disse que queria ficarcom você, não
foi no sentido literal da palavra.
— Não?
— Não. Ela disse no sentido de ter um pouco de intimidade
com você — ele me explica.
— Ela disse algo sobre me beijar, mas é nojento, não a
conheço. Eu disse que não queria, ela começou a chorar e...
— E?
— E todos começaram a rir de mim, disseram que eu era
retardado, que eu não deveria estudar nesse colégio.
— Desgraçados! — meu pai esbraveja, socando o volante. —
Ouça, Henrico, você não é um retardado. Não ouça o que eles
disseram. Você é um garoto incrível, inteligente.
— Mas sou diferente deles. Não sou normal.
— Você não é diferente. Eles é que são todos iguais. Você
não é anormal, você é atípico, Henrico. O que é ser atípico?
— É ser raro.
— É isso. Você não é retardado, filho. Você só vê o mundo
diferente, e isso é incrível, entende? Porque... Veja só esses
garotos... Sinceramente, você queria ser como eles?
— Não.
— Eles são uns idiotas! Que sua mãe não me ouça agora...
Eles não têm pais.
— Os pais deles morreram?
— Não. Mas ser pai não é estar vivo, filho. Ser pai é educar
os filhos de forma que eles consigam lidar e respeitar as diferenças,
é transformar os filhos em seres humanos bons. Quando os pais
não conseguem fazer isso, é porque eles não são bons ou não
estavam preparados para ter filhos — explica e me puxa para um
abraço. — Você é incrívele eu tenho muito orgulho do garoto que
está se tornando. Não absorva o que aqueles garotos disseram, ok?
— Eu não quero mais frequentar o colégio, pai. Eu não
suporto mais.
— Você não vai. Sua mãe está lá dentro resolvendo tudo.
Você é incrível, filho! Incrível demais para conviver com aqueles
garotos.

Todos foram para o bar do Tião. Eu quis ficarpara terminar o


projeto da casa que será minha e de Sophie, e eu termino. Eu fiz
tudo perfeito e preparei dois pontos onde poderemos ver o nascer e
o pôr do sol. Sophie ama o pôr do sol.
Satisfeito com o meu trabalho, fechoo laptop, tomo banho e
resolvo ir contar a ela que terminei. Porém, não gosto nada quando
chego no bar.
Há um homem estranho conversando com Sophie. Ele está
perto demais.
— Ei, camarada! — meu irmão diz, se aproximando, mas não
desvio o olhar de Sophie. — O que há de errado?
— Quem é aquele homem?
— É... Eu esqueci o nome dele. É um babaca que Théo já
bateu. Acho que Madson — explica.
— Sophie vai se sentir confortável com ele? — pergunto sem
mover meus olhos da cena.
— O quê? Lógico que não! — Samuel responde. — Você
quer se sentir confortável com ela, não é mesmo?
— Eu não sei fazer isso — confesso, movendo meu olhar
para ele. — O que tenho que fazer?
— Em primeiro lugar, não tem uma fórmula para ser seguida.
Parece que é da nossa natureza, que está em nós e só falta
descobrir, entende?
— É confuso.
— Na teoria. Na prática não é tão confuso— Samuel explica.
— Bom, mas não é apenas ir e fazer sexo, Henrico, entende?
— Entendo.
— É como se houvesse fases a serem seguidas.
— Uma sequência? Eu gosto de sequências. — Ele sorri,
coloca um braço em meu ombro e sai me puxando para uma praça
que há em frente ao bar. Nos acomodamos em um banco e ele
segue com as explicações.
— Para você chegar ao sexo, primeiro deve haver uma
exploração para descobertas — diz. — Você já viu filmes
educativos, eles nunca chegam direto ao sexo. Tudo começa com
um beijo.
— É verdade.
— Sim. O beijo, o toque, explorar o corpo um do outro...
— Mas eu nunca vi uma mulher nua, apenas nos filmes, eu
quero dizer. Eu nunca vi os seios de Sophie e o piercing no clitóris.
— Nunca viu, campeão. Mas, para chegar nessa etapa,
primeiro você precisa beijá-la.
— Mas a verdade é que não sei se Sophie quer me beijar ou
ficarconfortávelcomigo — confesso,pegando um elástico em meu
bolso. — Eu não sei se ela sente o mesmo.
— Descubra isso.
— E se ela disser que não sente? Ainda poderemos morar
juntos? Eu tenho medo dela se afastar. Eu... não posso perdê-la
para sempre. — Quando uma lágrima escorre dos meus olhos,
Samuel me abraça.
— Sophie te ama, Henrico.
— Como?
— Apenas pergunte a ela, por favor. Pergunte a ela, ok? É
algo dos dois, eu não posso estragar tudo — fala.— Pergunte a ela.
— Se ela disser que sim, o que eu faço?
— Comece com as descobertas. Primeiro o beijo. Não tenha
pressa para se sentir confortável com ela. É importante que não
tenha pressa, ok?
— O beijo.
— É. Vou ser bem sincero com você, um beijo já abre um
leque de oportunidades. Beijos podem ser quentes. Um beijo faz
com que nosso corpo reaja, e sei que vai parecer estranho o que
vou dizer, ganhe vida própria. As ações vão acontecer sem você
nem mesmo se dar conta. Parece que nascemos programados para
o prazer.
— Eu preciso pedir ao tio Victor para beijar Sophie?
— Nem fodendo! Digo, não pense nisso. Isso é algo entre
você e Sophie, não precisam da permissão de ninguém, Henrico.
Você só precisa que ela queira. O resto, deixa para depois. Há muito
para ser descoberto, irmão. Não tenha pressa. Aproveite a fase das
descobertas, ela é única.
— Que tipo de descobertas?
— Sobre seu corpo, sobre o corpo de Sophie. Lugares que
quando você toca são capazes de afetá-la positivamente, assim
como descobrir o que o toque dela causa a você. É fantásticoe só
se vive uma vez. Por sorte, você não é um cafajestecomo eu — ele
diz, balançando a cabeça e rindo. — Algo me diz que Sophie será a
única para você, isso torna tudo ainda mais incrível.
— Eu quero que ela seja a única.
— Sei disso. E assim será, camarada. Agora, acho que é o
momento ideal para você mostrar que ela é sua. O que acha?
— Não sei. Tenho muito medo de perdê-la, de verdade.
— O medo está nublando a sua visão. Você não vai perdê-la,
confie em mim.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Uma vez, no colégio, uma garota me chamou para sair e
depois disse que só queria me beijar — comento. — Eu quero beijar
Sophie, então eu preciso chamá-la para sair?
— É uma boa opção, mas não precisa necessariamente fazer
isso. Porém, você decide como quer fazer. — Balanço a cabeça em
compreensão. — Henrico, você é incrível, cara! Acredite mais no
seu potencial e deixe de medo. O medo nos paralisa. Você quer se
manter parado?
— Não.
— Você disse a seguinte frase para mim "estou cansado da
zona de conforto porque ela não me leva a lugar algum". Acho que
precisa se lembrar dessa frase. Se não der o primeiro passo, não
saberá se Sophie responde aos seus sentimentos.
— Se você nunca tentar, então você nunca saberá se é
capaz — relembro. — Nosso pai disse isso.
— Nosso pai é um homem sábio. — Ele sorri e ficade pé. —
Vamos lá! Há um babaca em cima da sua garota. Vai deixar?
— Não! — exclamo, jogando o elástico fora.
— Mostre que é meu irmão! A possessividade faz parte de
nós!
— Sophie é minha garota.
— É isso!
— E se...
— Sophie é a sua garota, Henrico! Sophie é a sua garota! —
Balanço a cabeça positivamente, pego uma flor no jardim e sigo
para o bar.
Há uma música alta agora, o que me fazparalisar. Todas as
vezes em que entro em um ambiente com muito barulho, meus
pensamentos ficam extremamente confusos, bagunçados. Meus
ouvidos doem, minha cabeça começa a doer, e um desespero forte
começa a surgir dentro de mim. Estou prestes a sair do ambiente
quando vejo meu irmão pular o balcão e desligar o som. Todas as
pessoas olham para ele, enquanto ele fazum sinal de positivo para
que eu siga em frente.Então, logo após ele fazerisso, eu viro o alvo
de todos os olhares, e não gosto disso, mas gosto menos ainda de
ver aquele homem perto de Sophie.
Eu preciso vencer os meus medos, preciso vencer as minhas
limitações. Sophie me faz vencer todas essas dificuldades mesmo
indiretamente. Ela está linda, com a mão no queixo, apoiada no
balcão, com cara de desinteresse.
Me aproximo dela e entro na frente do homem que estava
conversando com ela. Não me importo que ele não vá gostar.
Sophie é a minha garota. Samuel disse.
Vejo suas sobrancelhas se erguerem em surpresa e entendo
que preciso dizer algo.
— Sophie, eu não gosto desse homem, porque ele está perto
de você e isso me incomoda muito. Você aceita sair comigo? — a
convido, entregando a flor que peguei no jardim. — Eu quero te
beijar, para ficarmos confortáveis no futuro. Samuel disse que
preciso ir devagar para chegar no confortável, tenho que seguir
etapas e que devo começar pelo beijo. Por isso, quero que saia
comigo.
— Oh, merda! — Ouço meu irmão dizer. — Eu havia me
esquecido da sinceridade...
— O que é se sentir confortável? — Sophie questiona,
cheirando a flor.
— Não acho que seja prudente dizer aqui.
— É o que estou pensando? — ela pergunta com as
bochechas coradas, com lágrimas em seus olhos. Não fico triste
pelas lágrimas dessa vez, estou hipnotizado agora.
— Meu Deus, Sophie! Você é muito a menina mais bonita do
Universo. Você aceita sair comigo?
— Eu aceito qualquer coisa com você, menino mais bonito —
ela responde, me oferecendosua mão, e eu a pego. — Onde vai me
levar?
— Não sei. Na igreja? — pergunto a ela.
— Henrico, 300 guindastes não serão o suficientepara mim.
Nem meus pais, nem os seus pais, Corpo de Bombeiros, Samu,
polícia... — Ela sorri e balança a cabeça negativamente. —
Definitivamente, na igreja não, meu amor. Eu preciso entender o que
está acontecendo, vamos para o sítio!
Por que ela precisa de guindastes?
Uma vez me peguei pesquisando sobre o AMOR. Eu queria
entender mais sobre esse sentimento e, por mais que meus pais e a
minha terapeuta sempre estivessem dispostos a esclarecer minhas
dúvidas, eu sempre gostei muito de pesquisar e fazer descobertas
sozinho. Em algumas situações, eles falando me deixavam ainda
mais confuso.
Eu descobri que esse sentimento é considerado um
fenômeno. Ele existe. Porém, na pesquisa que fiz, dizia que ele
pode ser um sentimento mensurável e eu não concordei com isso.
Não acredito na teoria de que esse sentimento possa ser medido,
que podemos determinar medidas, como se fosse um terreno. Não
acho que o amor seja necessariamente um estado duradouro e
imutável. Eu acredito que ele pode acabar, assim como pode se
transformar. Eu amei a Sophie de tantas maneiras, e todas elas
alimentam a tese. Primeiro a amei como prima (mesmo tendo a
consciência de não sermos primos legítimos), então como melhor
amiga e agora eu a amo de uma forma diferente, que ainda estou
tentando descobrir. A única certeza é de que seremos eternos
aprendizes.
O amor é algo que tento entender diariamente e não consigo
chegar a uma resposta específica,e isso me deixa um pouco
nervoso. Gosto de respostas específicase não as obter me tira um
pouco do sério. Pesquisas costumam ser consistentes e específicas,
mas todas as pesquisas que li sobre o amor mais parecem
especulações que qualquer outra coisa. Isso deve significarque não
há respostas exatas. Você apenas tem que viver e deixar que tudo
vá fluindo naturalmente.
Eu decidi agir, mas percebo que não vai acontecer. Não
quando Sophie dá os primeiros passos rumo à saída do bar e eu
percebo que ela bebeu.
— Sophie, olhe para mim — peço, fazendocom que ela pare
quando está próxima do carro. — Você bebeu? — pergunto e a olho
fixamente nos olhos. Sei que ela pode mentir, mas os olhos de
Sophie nunca mentem, e ela sabe bem disso.
— Eu... Merda! Eu bebi, mas...
— Está tudo bem. Você pode beber, Sophie. Apenas não
pode dirigir alcoolizada. — Ela começa a chorar e me abraça.
— Nunca imaginei... Eu... estou tão arrependida por ter
bebido. Tão arrependida. Achei que você não viria... Você disse
mesmo que queria me beijar ou é tudo fruto da minha imaginação?
— O que você bebeu?
— Um pouco de vodca e pinga de uva! É viciante aquela
merda, você simplesmente vai bebendo e nem percebe quando fica
bêbada — explica de uma maneira engraçada e traz as mãos para
meu rosto. — Eu sonhei? Responda, por favor, menino mais bonito.
— Sophie, uma vez minha mãe bebeu com a tia Melinda. Eu
escutei meu pai dizendo a ela que nunca a tocaria estando bêbada
e guardei isso em minha mente. A bebida torna as pessoas
vulneráveis. Então não quero mais conversar sobre esse assunto
enquanto está alcoolizada. Você disse de manhã que teríamos todo
o tempo do mundo. Teremos. Agora você pode ficarno bar e beber
mais, ou pode vir embora comigo. Não mando em você, porém não
vou permitir que dirija alcoolizada, independentemente da opção
que escolher.
— Me leva para casa? — pede, me entregando a chave do
carro.
Tenho habilitação, mas não costumo dirigir. Meu pânico de
aglomerações e ruídosimpede, principalmente no trânsito do Rio de
Janeiro. São Roque é uma boa escolha de moradia e contribuirá
positivamente para um avanço em minha qualidade de vida. Eu até
mesmo poderei dirigir por aqui.
Abro a porta e a ajudo a se acomodar. Em seguida entro no
veículo e levo Sophie para casa. Ela parece triste, tanto que não
reluta muito quando a coloco sobre a cama.
— Henrico... — me chama quando estou saindo.
— Oi?
— Foi um sonho? — pergunta e dou um sorriso.
— Foi. Durma, Sophie. Nós teremos tempo.
— Ao infinitoe além? — Volto até ela e deposito um beijo em
sua testa.
— Sim. Ao infinito e além.
— Eu vou guardar essa flor para sempre, menino mais
bonito. — Beijo a ponta de seu nariz e sigo para o meu quarto.
Ao infinito e além!
Assim que abro os olhos, me deparo com o meu pai sentado
em um sofá do quarto. É um pouco assustador, mas o susto passa
rápido.
— Pai? O que está fazendo aqui?
— Vim com o Victor. Ele veio conversar com Sophie e eu vim
junto. Senti que deveria vir. Viemos de jatinho — explica e esfrego
meu rosto. — Você precisa de mim? — Abaixo a minha cabeça.
Ontem à noite eu iria dizer a ela... Estou confuso agora. Ela se
lembrará?
— Você sabia que o azul foi a cor escolhida para representar
o autismo devido o maior número de incidências do caso ser no
sexo masculino? Dados apontam que 80% dos casos de autismo
acontecem com meninos. Esse fato não exime que meninas
também possuam, porém, elas são a minoria. Talvez isso seja bom,
não?
— Eu sei disso, filho — meu pai responde. Pelo seu tom, sei
que está me analisando friamente.
— Você sabia que o Monte Everest é considerado o lugar
mais alto do mundo? Porém, há uma discrepância de ponto de vista.
Se considerarmos de acordo com o níveldo mar, o Monte Everest é
sim o lugar mais alto, mas, se tivermos na mente que a Terra não é
uma esferacem por cento perfeita,e que há alguns pontos onde ela
é mais larga, como na Linha do Equador, o ponto mais próximo do
céu acaba sendo o Monte Chimborazo, no Equador, com 6.384,4km.
O ponto mais baixo é o Mar Morto.
— Olhe para mim e me diga o motivo da sua inquietação
hoje.
— Não quero olhar para você, pai. Me desculpe. Eu sinto
muito, ok? — Sou sincero em minhas palavras. Não quero encará-
lo, uma vez que se eu fizer isso, ele saberá. Ele sempre sabe e
consegue ver tudo. E eu não quero que ele veja nada, porque é
desconfortável e eu tenho vergonha.
— É sobre Sophie? — Não precisei olhar para ele. Entende
como isso é desconcertante? Ele parece ter livre acesso à minha
mente. — É sobre a mudança?
— Um estudo realizado na Europa e nos Estados Unidos,
com milhares de entrevistados, determinou que 17,4 anos é a idade
média em que as pessoas perdem a virgindade. Sabia que as
garotas costumam perder a virgindade antes dos garotos? Segundo
essa pesquisa, os meninos costumam perder com cerca de 17 anos
e meio, e as garotas alguns meses antes. Disseram que o Brasil é o
paísonde se perde a virgindade mais cedo, com uma média de 17,3
anos.
— Filho, isso é apenas um estudo. Acredite, não é bem assim
que as coisas funcionam. De acordo com a minha experiência de
vida, na minha época de estudante, tudo que eu vi é bem diferente
dessa pesquisa. Mas, vamos lá, não acho que tem uma idade ideal
para isso acontecer, Henrico. Acontece quando tem que acontecer.
Não deve haver uma pressão sobre isso. Há muitas pessoas que se
guardam para o casamento, sabia?
— Sabia. Há até mesmo questões religiosas. Algumas
religiões pregam que esse ato só deve acontecer na noite de
núpcias — comento.
— É. Não tem uma idade certa, entende?
— Entendo, pai. É interessante isso, não é mesmo? —
pergunto, pensando na temática.
— O sexo só deve acontecer quando se sentir confortável,
filho. Não aconteceu ainda porque nunca se sentiu confortável.Em
algum momento, isso vai acontecer.
— Pai, você sabe se Sophie já se sentiu confortável com
outro menino? — pergunto sem encará-lo nos olhos. Na verdade,
agora estou até cabisbaixo demais. Porém, eu precisava perguntar.
— Não sei dizer. Por que não pergunta isso a ela? — Isso é
uma brincadeira?!
— O quê? Pai! É a Sophie! Eu não posso perguntar isso a
ela. É absurdo! É falta de educação perguntar isso a uma menina.
Eu a respeito. Como vou perguntar se ela já se sentiu confortável?
Meu Deus! Ela é uma garota normal, não é como eu.
— Ah, então voltamos nisso? Você não é normal? — me
repreende.
— Sou. Sou normal, porém, diferente. Sou diferente de
Sophie, de Samuel, de todos.
— Nada disso, Henrico. Vou relevar suas palavras porque
está abalado. Há algo martelando em sua mente agora e estou aqui
para ouvi-lo e ajudá-lo. Anos atrás você disse que sempre teria
"conversas de menino" comigo, porque sua mãe não saberia
entender "essa coisa de menino" — ele diz, e pelo tom de sua voz,
sei que está sorrindo. — Sou o seu pai, estou aqui para termos
essas conversas.
— Pai, você sabe... Eu estou meio arrependido de ir morar
com Sophie, porque ela já deve ter se sentido confortável com um
menino e eu não quero saber e não quero ver. Eu não gosto de
outros garotos com ela. Ela é uma menina sem limites, pai. Eu sou
um menino limitado. Você acha que ela vai levar alguém para ter
algo confortável em nossa casa?
— Posso apostar que Sophie não fará isso — ele responde,
sorrindo. — Você quer ter algo confortável com Sophie?
— Pai! Não fala isso! — digo, esfregando meu rosto. —
Sophie é minha melhor amiga e ela já beijou garotos. Eu não sei
nada de confortável,você entende... Você sabe, pai, você sabe que
eu não sei. Eu nunca estive com uma menina. Eu nunca beijei e
nunca fiquei confortável.
— Mas? Há um "mas" aí.
— E se ela ver meu corpo reagindo? — Abomino esse tipo de
conversa. Nunca fizcoisas confortáveis,mas isso não significaque
eu não saiba o que é e não reaja.
— Seu corpo reage à Sophie há anos, filho. Me lembro até
hoje de quando aconteceu pela primeira vez — comenta, rindo. — É
normal, cara! Você não é apenas a cor azul, Henrico. Você não é só
o seu autismo. É um homem normal, com um mundo de
possibilidades, um universo de coisas para serem descobertas.
Precisa tirar da sua mente as crenças que te limitam. Elas estão
fazendo com que você se mantenha sempre na zona de conforto.
Sei que essa zona de confortoé importante para você, mas há um
limite e talvez você esteja deixando de enxergar coisas óbvias. Faz
parte do seu crescimento pessoal conseguir identificar algumas
questões. Você vai morar com Sophie em São Roque, será um
rapaz totalmente independente. Sem dúvidas é um dos maiores
passos que está dando, tudo isso sozinho. Já está no caminho para
enxergar algumas coisas e eu espero que consiga. Prometi que
sempre iria te guiar, por isso vou te dar dois conselhos: pare de
pensar pouco de si e observe. — Finalmente levanto minha cabeça
para encará-lo.
— Observar o quê? — indago e ele ficade pé, provavelmente
para me deixar sozinho.
— Observe Sophie e observe que você é muito além do azul.
Sophie...
Eu te amo ao infinito e além!
— Não vá, pai!
— Eu não posso dizer a você como Sophie se sente, mas eu
posso ouvi-lo, filho. — Ao invés de ir embora, ele se acomoda ao
meu lado na cama. — O que está te atormentando?
— Ontem à noite eu iria beijá-la. Samuel me disse que esse
deveria ser o primeiro passo. Eu falei para ela, porém, ela estava
alcoolizada e precisei recuar.
— Fez a coisa certa.
— Por um momento, quando não tinha me dado conta de que
ela estava alcoolizada, eu pensei que iria mesmo acontecer. Mas ela
disse coisas sobre guindastes. 300 não seriam suficientespara ela.
— Meu pai começa a rir.
— Ela é filha da Melinda. Eu deveria saber que seria assim —
comenta, se divertindo. — É uma coisa muito boa, acredite em mim.
— O que significa?
— Significa que ela quer muito ficar com você — responde.
— Ficar no sentido literal ou no sentido de obter um pouco de
intimidade?
— Provavelmente em todos os sentidos. Mas é algo que
somente ela pode responder, Henrico. — Fico em silêncio, tentando
processar as falasde Sophie e as falasdo meu pai. — Você precisa
ficarsozinho para fazeraquela coisa de andar pelo quarto enquanto
pensa?
— Eu preciso disso agora, pai.
— Ok, campeão! Estarei lá fora com o pessoal. Aguardo você
lá. Se precisar de qualquer coisa, sabe onde me encontrar — ele
diz, se levantando e indo.
Ele sai, eu fico de pé e começo a andar pelo quarto, de um
lado para o outro. Pensar que Sophie quer se sentir confortável
comigo é assustador. Pensar que ela pode sentir o mesmo que eu
sou ainda mais assustador. 300 guindastes significamque ela quer
ficar comigo provavelmente em todos os sentidos, meu pai disse.
Estou confuso.Há muitas informaçõesem minha mente para
serem absorvidas.

— Pai??? — Já acordo gritando ao ver meu pai assim que


abro os olhos. Dou um salto rápido da cama e me jogo em seus
braços. — Minha coisinha mais fofinhado Universo! Você está aqui!
Eu te amo, te amo, te amo, te amo, te amo...
— Eu também te amo, mas acho que temos alguns assuntos
pendentes, então não venha me enrolar, porque sei que é isso que
está tentando fazer, filha da Melinda!
— Que ótima maneira de começar o dia!
— Em primeiro lugar, soube que andou bebendo ontem,
prova disso é a roupa que está em seu corpo. — Sim, eu dormi com
a roupa que saí. — Sophie, eu não quero a minha filha se
embriagando! Você quer beber? Beba! Mas beba socialmente. Já
tivemos problemas com bebida uma vez, eu não terei uma segunda
vez. Em segundo lugar, acho que me deve uma satisfação sobre
simplesmente se mudar para São Roque.
— Eu iria comunicar, mas, pelo visto, Luiz Miguel já fez o
serviço. Me desculpe, pai. Não era para ser descoberto assim, eu
iria até o Rio conversar com você e com a minha mãe.
— Só fiquei decepcionado, Sophie. Eu esperava uma
conversa, esperava a sua consideração. Você fezo mesmo quando
decidiu abandonar a universidade e voltou para o Brasil. É como se
eu e sua mãe não merecêssemos satisfações. — Ele está certo.
Mas eu tenho uma explicação. Por isso, seguro suas mãos e o puxo
até a cama. Nos sentamos e eu o encaro, sei que ele vai
compreender.
— Eu errei, pai. Já te pedi desculpas sobre a universidade e
te peço desculpas por ter decidido me mudar. Pai, você ama a
mamãe. Deve ter feito milhões de loucuras por ela. Acho que todas
as pessoas que amam fazem loucuras, e minhas duas últimas
ações foram por amor. Estou pedindo desculpas porque você é o
melhor pai, você e mamãe fazem tudo por mim, por Luiz Miguel.
Mas, preciso ser sincera, eu provavelmente faria tudo outra vez.
Esperei muito por Henrico, pai. Sempre fui paciente, respeitei o
tempo dele e me acostumei a isso. Nunca lutei fortemente, mas
agora eu estou disposta a lutar. Eu amo aquele garoto, pai, e estou
me agarrando a todas as oportunidades que estão surgindo. Não
posso simplesmente ficar sentada, esperando o relógio girar e o
momento ideal surgir. Você e mamãe me ensinaram a lutar para
alcançar os meus objetivos. Preciso fazer isso acontecer e preciso
que me dê sua bênção, pai. Por favor, me dê sua bênção para que
eu possa lutar pelo amor da minha vida. Permita que eu faça isso.
— Você tem a minha bênção — ele diz, emocionado,
enquanto me puxa para um abraço apertado. — Fique e lute pelo
seu menino mais bonito do mundo.
— Obrigada! — o agradeço, chorando.
— Só não esqueça de si mesma e do seu futuro, filha.
Promete para mim?
— Prometo, papai. Eu só...
— Você só precisa conquistar aquele garoto para tudo,
finalmente, fazer sentido. Estarei na torcida. odos
T estão.
— Todos? Por quê? — pergunto, limpando as minhas
lágrimas.
— Porque é épico, Sophie.
— O que é épico?
— É épico o cheiro de café. Está sentindo? — ele
desconversa, ficando de pé. — Não há nada que supere um bom
café mineiro, toda a culinária em geral. Tire essas roupas e venha
tomar café comigo. Estarei te esperando. Sophie, só uma coisa,
ligue para a sua mãe, filha, ok?
— Ligarei, papai.

Meu pai e tio Lucca passam parte do dia no sítioe depois vão
embora. Eu noto um distanciamento de Henrico, como se estivesse
pensando em muitas coisas, por isso, decido que não irei sair com o
pessoal. Opto por ficar respeitando o espaço dele, obviamente.
Entediada, resolvo me arriscar na cozinha. Definitivamente,
cozinhar não é o meu forte, mas não há nada que o Google não
resolva. Seguindo receitas passo a passo, arrisco fazer espaguete
ao molho branco. Enquanto estou aqui, Henrico está perdido lá fora,
e decido invadir um pouquinho o espaço dele, antes de botar a mão
na massa.
Ele está sentado, perdido em pensamentos, observando o
céu estrelado. Por estarmos em um sítio isolado, parece até que se
esticarmos as mãos seremos capazes de tocar nas estrelas. É um
visual de tirar o fôlego.
Está frio, ele está vestindo calça de moletom preta e um
agasalho com touca.
— Ei, eu posso me sentar com você? — peço, atraindo o seu
olhar e, ao invés de permitir que eu me sente, ele fica de pé. Não
sou baixa, mas Henrico de pé fazcom que eu me pareça um pouco
pequena. Ele se torna meu próprio céu estrelado quando levanto
minha cabeça para observá-lo.
— Você se lembra de ontem?
— Eu bebi.
— Apenas isso?
— Eu perdi algo? — pergunto. Ele me analisa por alguns
segundos e traz suas mãos para meu rosto. A maneira como ele
está me encarando faz com que os meus olhos se encham de
lágrimas. Henrico nunca me olhou assim e eu não consigo decifraro
que se passa.
— Estou com medo — confessa, engolindo em seco.
— Não tenha medo. Eu estou aqui com você.
— Promete que será a minha melhor amiga para sempre? —
Entendo que ele precisa dessa promessa agora, para o que quer
que tenha a me dizer.
— Haja o que houver, eu sempre serei sua melhor amiga. Ao
infinito e além, para sempre!
— Você já beijou? — ele repete a pergunta que já me fez
anteriormente. Sentindo vergonha, tento abaixar a minha cabeça
para ocultar o choro, mas ele não permite. Lágrimas também estão
escorrendo de seus olhos agora. — Sophie, você já beijou? —
Lentamente, balanço a minha cabeça.
Eu a balanço negativamente e Henrico solta um soluço de
choro.
— Você nunca beijou?
— Nunca. — É vergonhoso? Eu tenho 21 anos e nunca
beijei.
— Por quê? Sophie, você é uma garota normal! — ele diz,
soltando meu rosto, e eu seguro seus braços. — Por que nunca
beijou?
— Pare de dizer que sou uma maldita garota normal, Henrico!
Pare de pensar que você é totalmente diferente, um alienígena.
Você não é. — Ele ignora as minhas palavras.
— Todos acham que você já beijou, eu já escutei. Acho que
nunca desmentiu isso. Por quê?
— Porque o que os outros pensam de mim nunca foi
importante. Eles podem pensar o que quiser, Henrico, eu não me
importo. Tudo que me importa é o que você pensa de mim, é a
maneira como você me vê.
— Eu te vejo como a menina mais bonita do mundo — fala,
fazendo com que meu coração quase salte para fora.
— Você é o menino mais bonito do mundo e eu sempre vou
esperar por você.
— Por que nunca beijou?
— Porque eu estava esperando por você e eu sempre irei
esperar. Não importa quanto tempo demore, eu seguirei te
esperando — confesso, desabando e o abraçando forte. — Eu
sempre vou esperar por você...
— Você... você esperou por mim? Para beijar? — pergunta,
voltando a segurar meu rosto. Balanço a cabeça positivamente,
ficando preocupada pela forma como ele está respirando com
dificuldade.
— É como se existisse um universo onde somente você e eu
habitamos. O nosso universo, desde pequenos, desde sempre. Eu
não me encaixo em qualquer outro garoto, não me encaixo em
qualquer outro universo que não seja o nosso. Nunca me encaixei.
Eu me encaixo em você, eu sonho com você, e eu rezo por você. Eu
imploro a Deus por você.
— Você me ama? Me ama como... como namorado?
— Eu te amo além da vida.
— Eu te amo muito também, Sophie. Eu te amo como a
minha garota — ele diz, tocando meus lábios com seus polegares.
— Você aceita ser a minha namorada?
O mundo inteiro parece girar diante dos meus olhos,
juntamente com um filmecompleto da minha vida. Eu quero levar as
duas mãos em minha boca e meu corpo parece prestes a
desmoronar no chão. Henrico percebe e sustenta meu corpo,
rodeando um de seus braços em torno da minha cintura. O choro
não permite que eu responda, mesmo querendo dizer que esse
pedido é a resposta de todas as minhas orações. Ele está sofrendo
a cada segundo em que me mantenho silenciosa.
— Sophie, por favor.
— Eu sempre fui a sua namorada, você só precisava
descobrir isso. Eu estive aqui o tempo todo. — Ele engole em seco,
toca meu rosto com sua mão livre e me olha uma última vez antes
de colar seus lábios aos meus.
Um beijo tão puro quanto o que eu imaginei que seria e,
ainda assim, o mais perfeito do Universo. Não existe nada na vida
que seja tão perfeito quanto a sensação de ter os lábios de Henrico
grudados aos meus. Nada. Nos perdemos num simples grudar de
lábios por longos minutos...
Quando ele se afasta, eu nem sei explicar o que acontece.
Ele simplesmente se afasta e sorri, antes de sair andando.
— Sophie, eu preciso só ligar para os meus pais e já volto —
avisa, entrando casa adentro, e eu saio correndo atrás dele.
— Não, senhor! Traz sua linguinha aqui! Foi o beijo mais
perfeito,mas certamente precisamos de mais alguns para podermos
selar a união! Quero a sua língua se envolvendo com a minha,
Henrico! Deus do céu, Henrico! Eu não esperei a vida inteira para te
beijar e você ir falarcom tio Lucca! — Ele bate a porta do quarto e a
fecha com chave. — Caralho, Henrico! 600 guindastes não serão
suficientes! Fique sabendo disso!
Merda, eu preciso ligar para a minha mãe e contar que beijei!
Eu beijei o menino mais bonito do mundo!!!
Quando poderei cantar a versão proibidona de já sei
namorar?
"Já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta
transar..."
Eu preciso muito expulsar essa notícia de dentro de mim,
espalhá-la pelo mundo. Mas, embora eu precise disso, estou
andando como uma barata tonta pela sala, tomada por uma
adrenalina que nunca senti antes e que está se misturando com a
incredulidade do último acontecimento. Cozinhar? Já era! Não tenho
a menor condição de cozinhar quando estou tremendo. É arriscado
que eu acabe colocando fogo na casa. Se calma eu já sou
desastrada, imagine nervosa?!
Ainda estou rodando quando Samuel surge e paralisa ao me
ver.
— O que há? — pergunta.
— O que está fazendo aqui? Seja o que for
, volte para a rua!
— Só vim buscar preservativos.
— O quê?! — questiono, embasbacada.
— Um bom soldado sempre anda prevenido. Esqueci os
preservativos na mochila. Agora me diga o que aconteceu, por favor
.
Parece desorientada.
— Henrico me beijou. — Samuel abre um sorriso enorme. —
Um selinho, mas me beijou.
— Esse é o meu garoto! — exclama, feliz. — E onde ele
está?
— Apenas me deixou e disse que iria ligar para os pais —
comento, rindo. — Não seria Henrico se não fizesse isso. Mas, já
que está aqui, posso perguntar algo?
— Claro.
— Por que todos sabiam e nunca me disseram nada? — Ele
para de sorrir e me puxa para a área externa. Nos acomodamos em
um banco próximo à piscina.
— Sophie, em relação aos sentimentos de Henrico, eu nunca
tive certeza. Havia especulações de todos, mas nenhuma certeza
definitiva. Os seus sentimentos sempre foram mais abertos, você
nunca fez muita questão de esconder isso. A questão é que você,
desde muito jovem, estava preparada para se envolver com
Henrico. Já ele... ele só se abriu há pouco tempo, apenas para mim,
tia Paula e meu pai, ninguém mais. Ah, sim, a psicóloga também,
inclusive ela deve estar louca já — brinca. — Eu poderia ter te dito
anos atrás sobre as minhas desconfianças,mas isso te afetaria de
uma maneira negativa. Você iria viver buscando respostas que ele
não estava pronto para te dar, fora que iria viver em constante
ansiedade. Sem contar que perderia a magia de tê-lo se declarando
e a surpreendendo. Acredite, não foi por maldade, foi pelo bem da
sua saúde mental e pelo bem de Henrico. Ele é autista, tem
algumas dificuldades, estamos constantemente o impulsionando a
novas descobertas. Ele ter descoberto sozinho o que sente, ter
tomado atitude, é um passo enorme. Espero que não fique triste
comigo ou com qualquer outra pessoa da nossa família,Sophie.
Precisava ser como foi, para poder ser perfeito e vocês dois
guardarem na memória.
— Eu sou virgem — confesso ao meu primo, que abre a
boca, em completo choque. — Eu nunca beijei.
— Você está falando sério? Sophie, puta que pariu!
— Eu o amo. Que espécie de amor seria esse se eu não o
esperasse? — questiono. — Não entendo muito sobre esse
sentimento, mas acho que ele é puro, é paciente, como aquele
versículo bíblico. Eu esperei.
— Sophie, todos acham que você é a rainha de experiência
sexual. Tem ideia disso?
— Não me importo que pensem isso. Porém, o que acabei de
te dizer, é segredo, ok? — Ele me abraça forte e eu me sinto
extremamente feliz por tê-lo como meu porto seguro.
— Isso é fantástico, Sophie! Vai muito além de como eu
imaginei que seria. É um momento único na vida dos dois e é muito
incrível saber que vão fazer centenas de descobertas juntos. Eu
tinha certeza de que você passava o rodo — brinca.
— Nunca passei o rodo. Era baladeira, mas é só isso.
— Dois virgens. Puta que pariu! Me desculpe, mas estou
muito chocado com essa notícia. Podia apostar que você ensinaria
tudo a ele, o guiaria quando fossem fazer sexo, e agora descubro
isso. — Me pego sorrindo novamente.
— Enfim, agora eu preciso que ele saia do quarto para eu
pegá-lo de jeito.
— Sophie, sabe que não pode atropelá-lo, não sabe?
— Sei, mas posso fazê-lo querer mais. — Samuel está
fazendo as caras mais engraçadas do mundo. — Não me olhe
assim. Sou virgem, mas não sou tapada, Samuel. Na verdade,
tenho o sangue quente e me encontro como se estivesse prestes a
entrar em erupção. Agora que sei que ele me deseja, que ele me
ama, eu vou jogar com isso. Não se preocupe, não vou ultrapassar
os limites, mas também não ficarei no papel de puritana cem por
cento do tempo. Ele vai entender o quanto quero, mesmo que eu
tenha que esperar. Só vou tirá-lo da zona de conforto
ocasionalmente, tipo hoje. Preciso de mais beijos. Entende o que
quero dizer?
— Eu entendo que Henrico está fodidode todas as maneiras.
Eu sei o que é acordar para o sexo. Haja mão... — Dou um soco no
braço dele enquanto rio. — Acho que nem vou sair mais. Henrico
corre riscos.
— Você tem dois minutos, Samuel. Estou mesmo te
expulsando do sítio. Na verdade, Eva precisa se mudar logo, para
que eu possa viver sob o mesmo teto que Henrico com total
privacidade para jogar. Senhor da glória! Aquela boca dele...
— Adeus! — Ele nem busca os preservativos, foge como se
tivesse sido assombrado, e eu ficorindo. Olho para a piscina e, de
repente, quero ficar nua e me jogar nela.
É muito louco sentir vontade de ficar nua, não é mesmo? É
só pensar em Henrico que já quero arrancar as minhas roupas. Não
que eu seja atirada, ousada. Sei que na hora H muito provavelmente
sentirei receio, mas, por ora, quero continuar agindo como a garota
corajosa e quente. Meu sangue está fervendoe estou prestes a tirar
Henrico de onde quer que ele esteja.
Entendo que não posso fazer nada do que gostaria. Está tudo
bem, de verdade. Sei que sou capaz de me controlar perto dele,
sempre fizisso. A questão é que me sinto como uma garota de 15
anos agora, entrando na fase de descobertas. Eu não tive essa
fase, a bloqueei por completo. Apenas escutava relatos das minhas
amigas e, mesmo que ficassecuriosa, eu dizia em minha mente "um
dia eu vou viver isso com Henrico". Escolhi esperar e não me
arrependo. Porém, quanto mais o tempo vai passando, mais curiosa
vou ficando. Sinto vontade de sentir todas as coisas que já ouvi
minhas amigas relatando, todas as reações que as mulheres
demonstram sentir nos filmes adultos. Sinto vontade de ter Henrico
tocando o meu corpo, descobrindo e fazendocom que eu descubra
meus pontos fracos. Sou sedenta por todas essas sensações, não
posso mentir, e sedenta para descobrir tudo o que posso fazê-lo
sentir, todas as reações que posso causar no menino mais bonito do
mundo.
Meu coração acelera significativamente quando ele surge na
porta, me procurando. Sinto até mesmo minhas bochechas
queimando agora. Talvez minhas reações sejam adolescentes
demais, mas não me importo se irei agir como uma garotinha
envergonhada. Na verdade, eu não sei como agir agora.
— Eu não liguei para os meus pais — ele confessa, se
aproximando.
— Não? Por quê?
— Porque eu tenho 22 anos de idade e... eu preciso enfrentar
as situações sozinho. — O compreendo, mesmo achando que a
ligação teria sido a coisa mais fofado mundo. Noto que ele está
mexendo constantemente nos dedos, isso é um sinal de
nervosismo. Percebo que preciso ocultar meu próprio nervosismo
agora, para poder lidar com o dele.
— Me dê suas mãos — peço e ele me dá. Eu as seguro
fortemente e encaro os olhos mais lindos que já vi. — Sei que está
nervoso, que não sabe como agir, mas posso te revelar um
segredo? — pergunto, o fazendo se sentar ao meu lado.
— Sim.
— Eu também estou nervosa e não sei como agir —
confesso. — Eu quero um monte de coisas, mas não faço ideia de
como fazê-las. Tudo que sei é que quero.
— Eu me sinto assim.
— Viu? Nós somos muito iguais. — Sorrio. — Acho que você
não esperava que eu fosse tão inexperiente.
— Eu queria que fosse,mas é um pouco confuso.Ao mesmo
tempo que queria que fosse inexperiente, eu esperava que você
soubesse conduzir a situação — argumenta. — Acho que seria mais
fácil.
— Provavelmente seria — concordo. — Mas, acredite, é
muito mais interessante que eu simplesmente não saiba o que fazer,
como você. Nós dois agora temos a missão de descobrirmos tudo
juntos. Isso será incrível, consegue imaginar?
— Mas você tem um piercing no clitóris — diz, soltando
minhas mãos, e eu tento não rir da cara que ele faz.— Como você
tem um piercing no clitóris?
— Eu quis ter. Isso independe de ser virgem ou não. E não foi
um garoto quem colocou. Foi a minha tatuadora, uma pessoa em
quem confio — explico, virando-me, sentando de maneira que o
banco fique entre minhas pernas. Henrico repete o meu feito e
ficamoscara a cara. Um pouco mais à frentee eu poderia montá-lo.
Ele está olhando para os meus lábios e eu olho para os dele. Nós
sabemos o que queremos, mas não sabemos como fazer. Agora
estou ainda mais nervosa, e ele percebe.
— Precisamos de regras — anuncia.
— Aham...
— Sophie, é muito difícil ser seu namorado.
— Mas... nós mal começamos — o respondo, subindo meu
olhar para os seus olhos. — Por que é difícil?
— Eu não posso dizer. Seria desrespeitoso. — Ele sempre
tem a capacidade de me fazer sorrir e me encantar com esse
jeitinho único. — Eu posso te beijar novamente?
— Eu mataria por isso! Digo, é claro que você pode, meu
amor. Só vem aqui e me beija. — Ele se aproxima e eu me preparo
para um selinho. Mas não acontece.
Me surpreendo quando ele abre os lábios e os gruda aos
meus. Acompanho suas ações e cada parte de mim se arrepia
quando ele enfia lentamente sua língua em minha boca. Um beijo
menos inocente que o primeiro, embora ele esteja fazendo isso
numa lentidão agoniante. O nosso primeiro beijo de língua é tímido,
como se estivéssemos testando nossa capacidade de beijar. O que
mais me surpreende é a intensidade. É algo novo, que nunca havia
experimentado. Quando Henrico tem seus lábios grudados aos
meus, eu não escuto nada, não vejo nada, nada mais existe,
somente nós e a atmosfera carregada de tensão. É inevitável e
mágico. Tudo agora parece carregado por uma energia sexual,
mesmo sendo um beijo tão puro. Ele é quente, e eu nem preciso ser
pega de um jeito alucinante para saber disso. Há uma onda de calor
emanando de seu corpo, assim como está emanando do meu. Eu
sinto que nós dois juntos seremos muito bons.
Quando se afasta, ele gruda a testa na minha. Sua
respiração ofegante me leva a um novo nível de excitação.
— Eu te amo muito — digo, levando minhas mãos em seu
rosto. — Muito.
— Eu te amo. Eu posso te beijar novamente? — Sorrio.
— Precisamos mesmo de regras, Henrico.
— Me desculpe por pedir mais.
— Não! Nada disso! Pelo amor de Deus! Você entendeu
errado... Eu falei sobre as regras porque elas são importantes —
argumento. — A primeira regra deve ser sobre beijos.
— Tudo bem.
— Somos namorados, você não precisa pedir para me beijar.
Basta vir e me beijar, eu vou amar todas as vezes. E eu também
tenho direito de te beijar quando quiser. De acordo? — Ele balança
a cabeça positivamente e me puxa para mais um beijo. Agora ele
me toca, trazendo suas mãos até meu pescoço. Deixo seu rosto e
me aproximo mais, quase ficando sobre suas pernas. O nosso
terceiro beijo atinge outro nível. Um que é mais torturante que todos
os outros, já não é tão lento, e eu fico perdida entre gostar da
lentidão e gostar desse novo modo mais ousado. Qualquer uma das
opções resulta em minha calcinha úmida e a vontade de arrancar as
roupas. Eu imaginava que beijar era incrível, mas não sabia que
poderia ser tanto. Bem que eu sempre ouvi as pessoas dizendo que
é como andar de bicicleta. Parecemos beijadores profissionais, com
anos de prática. Eu mal cheguei e já quero sentar na "bicicleta" e
sair pedalando muito forte.
— Eu quero beijar você para sempre — ele diz, enquanto
afasta nossos lábios.
— Também quero beijá-lo para sempre. Muito. Seu beijo é
extremamente delicioso.
— Uma pesquisa da Universidade de Oxford, realizada com
900 pessoas, mostrou que os indivíduos que relataram beijar seus
parceiros com maior frequência foram os que mais se mostraram
satisfeitos com o relacionamento. Eu estou satisfeito com você, você
está satisfeita comigo, então nosso relacionamento será satisfatório
— argumenta.
— Você sabia que a dopamina é um neurotransmissor que
tem sua liberação aumentada durante o beijo? Ela é responsável
por essa sensação forte de desejo que estamos sentindo agora —
digo, tocando seu pescoço.
— Sim. Ela estimula partes no cérebro que também são
estimuladas pelas drogas. Por isso, pode ser comparado a um vício.
Talvez eu tenha acabado de me tornar um viciado, porque eu quero
mais beijos e sei que não ficarei satisfeito.
— Nem mesmo eu ficarei satisfeita — sussurro em seu
ouvido, sentindo o corpo dele se retesar com o meu ato. — O beijo
eleva os batimentos cardíacos para aproximadamente 150
batimentos por minuto, e bagunça os hormônios todinhos. Sabia que
o beijo é o queridinho das pessoas nas preliminares?
— Preliminares sexuais?
— Sim — confirmo e ele me observa. — O que foi?
— Eu me sinto envergonhado.
— Regra número 2: não se sentir envergonhado com a sua
namorada, senhor Henrico. — Ele dá um sorriso tímido. — Vamos
combinar algo?
— Sim.
— Tudo o que fizermosserá segredo nosso. Todas as nossas
intimidades serão apenas nossas. Não há espaço para vergonha.
Você pode me dizer o que quiser e nós podemos descobrir tudo
juntos. Eu sou sua para o que quiser fazer.
— Isso é perigoso — afirma, para a minha surpresa.
— Eu confioem você. — Ele pega as minhas duas mãos e as
beija delicadamente.
— Ainda não acredito que você sente o mesmo que eu sinto.
Eu te amo desde que me entendo por gente, Sophie, mas antes...
antes era mais fácilocultar. Eu desejava você, mas de uma maneira
calma, suave, que conseguia controlar. Não tinha pensamentos
indecorosos, mesmo meu corpo reagindo a você. — Uma confissão
encantadora. — Há algum tempo a zona de confortoque criei para
me sentir seguro, de tudo e de todas as emoções, começou a me
incomodar o bastante para querer sair dela. Você ficarpreso em sua
mente, em todas as limitações, não é algo agradável, e demorou
muito para eu compreender isso. Eu não estava protegido como
acreditava, eu estava preso, vendo todas as pessoas viverem
enquanto eu me mantinha isolado, sofrendo em segredo e em
silêncio por querer viver determinadas situações.
"Sophie, eu me sinto diferente, mesmo que todos ao meu
redor tentem me mostrar diariamente que posso me encaixar. Eu
não me encaixo e, muitas das vezes, eu até acho que isso seja algo
bom. Mas, há apenas alguns momentos que não me encaixar
parece ruim o bastante. Por exemplo, agora. Sei do meu potencial
como homem em muitos sentidos, mas não no sentido amoroso e
sexual. Eu me sinto como um jovem de 13 anos, curioso e
inexperiente. Eu não entendo a maioria das coisas sobre isso, mas
eu quero vivê-las, quero descobri-las. Só não sei dizer se isso é o
suficiente para você, se namorar com um homem como eu será o
suficiente. Eu tenho limitações, não gosto de festas, não gosto de
luzes, não gosto de sons altos, tenho pânico de aglomerações,
muitas vezes eu preciso me isolar de tudo e de todos, tenho crises
que me fazem chorar e me encolher, não sei falar abertamente
sobre assuntos de intimidade, sou diferente, Sophie...
Provavelmente, nossa relação não será fácil, mas eu te amo e quero
estar com você. O que eu devo fazer? — pergunta. "
— Eu conheço cada um dos seus tons, menino mais bonito.
Você deve continuar sendo exatamente a pessoa que é, agindo do
modo como age, nada deve mudar. Eu o amo exatamente assim,
com todas as perfeitasimperfeições,com todas as limitações. Estou
entrando nessa relação te conhecendo melhor do que conheço a
mim mesma, Henrico. Portanto, eu respeito a maneira como você é,
respeito suas crises e sempre irei respeitar. Você é mais que
suficiente para mim, porque você é tudo o que eu sempre quis ter.
Não se envergonhe nunca por ser um homem autista. Você é o meu
menino mais bonito atípico e eu amo o seu mundo, amo o nosso
mundo azul, o mundo que criamos apenas para nós. Obrigada por
estar se abrindo comigo. Você nunca foi de se abrir tanto, estou
surpresa e feliz por isso.
— Eu precisava te dizer tudo isso e, para isso, precisei
vencer algumas barreiras. Sei que posso ser mais forte que elas.
— Henrico, é mais fácil quando nos entregamos a alguém
que conhecemos uma vida toda. Também estou com medo, mas
estou tão disposta a enfrentar e sinto que você também está.
— Eu quero ficar confortável com você.
— O que significaisso? — pergunto, fazendocarinho em seu
rosto.
— Tem etapas, Samuel me disse. Começa com beijos, então
eu preciso te beijar muito.
— Então você pode me beijar até se sentir preparado para a
próxima etapa. — Ele sorri e eu sorrio de volta. — Ficar confortável
é sexo? Se for, vamos agora!
— Oh, Sophie! Eu não posso te dizer isso, ok?
— Ok. Eu sempre irei esperar por você. Vamos beijar, mas
podemos continuar com esses beijos lá dentro? Está frio.
— Você pode ir na frente. Eu já vou. Só preciso de um
minuto. — O encaro, não compreendendo.
— Por quê?
— Estou com reações.
— Reações?
— Os beijos. Reações. Por favor, Sophie, não me façafalar.
— Abro a boca em choque quando compreendo.
— Que tesão! Digo, que compreensível! Eu não ligo... Eu
quero... Meu Deus do céu, Henrico! Foda-se a inexperiência! Todos
os guindastes do mundo jamais conseguirão... Ok, eu preciso
esperar. — Sorrio, atordoada, e fico de pé.
— Às vezes parece que você fala outra língua, eu apenas
não consigo compreender.
— Você só precisa saber que muito em breve eu vou
encantar a sua serpente!
Minha vida era bem menos complicada quando eu lidava
apenas com ereções involuntárias; aquelas que ocorrem à noite ou
pela manhã, popularmente chamadas de "tesão de mijo", o que é
um tanto quanto estranho. Sempre passava rápido e a vida seguia
normal. Aos 13 anos de idade, eu tive um tipo de ereção diferente.
Ocorreu na casa da Ilha, enquanto eu observava Sophie dançar
uma música, usando um biquíni. Minha primeira reação foi correr até
o meu pai, principalmente porque não era apenas uma ereção;meu
corpo naquele momento parecia estranho, eu estava sentindo
coisas novas, diferentes, uma necessidade de algo que eu não
sabia o que era. Meu pai também ficouperdido por não saber como
abordar o assunto. Me lembro que ele chamou a minha mãe, nos
trancamos em um quarto e, pacientemente, os dois conversaram
comigo sobre sexualidade, tesão, reações do corpo. Muita
informação para um garoto de 13 anos autista. Mas eles fizeram
isso bem, responderam muitas dúvidas, principalmente sobre
masturbação.
Depois do ocorrido, me lembro de como passei a evitar
Sophie. Havia muito medo em mim. Eu odiava pensar que ela
poderia se assustar se visse meu pau duro.
Pau. Eu ainda acho terrível se referir ao meu órgão genital
dessa maneira, mas meu pai e Samuel falaramque essa é a melhor
palavra, principalmente em momentos de intimidade com uma
garota. Samuel contou que dizer pênis é um pouco brochante, que
as garotas preferem pau. Ele até disse outros nomes, mas são
bizarros o bastante para eu não querer repeti-los.
Enfim. Lembro que passei dias pesquisando sobre tipos de
ereções, e descobri que existem 3 tipos: as ereções psicogênicas,
que acontecem quando vemos ou ouvimos algo que nos atrai, como
fotos de mulheres nuas ou uma linda menina dançando de biquíni;
as ereções noturnas, que ocorrem naturalmente à noite e também
podem ocorrer pela manhã (visto que eu acordo diariamente com
uma ereção assustadora); e as ereções reflexogênicas, que
acontecem quando surge um contato real com o pênis.
Naquela fase,fiqueicom o sexo infiltradona mente. O grande
susto foi quando acordei com um líquido viscoso marcando a minha
cueca, após um sonho com Sophie. Novamente, meu pai foi a
pessoa escolhida por mim. Quando acordei daquela maneira, entrei
em crise. Me sentia ainda mais estranho. Meu pai ficousentado em
minha cama enquanto eu andava de um lado para o outro, tentando
compreender porque aquilo havia acontecido. Eu achava que era
algo anormal, até ele dizer que passou pelo mesmo e que Samuel
também estava passando. Embora ele, minha mãe e minha
terapeuta tivessem me explicado sobre a masturbação, eu nunca
havia feito... Mas, após outra longa conversa esclarecedora, eu me
acalmei e, no final do dia, quando todos dormiram, eu fui em busca
de mais informaçõesna internet. Descobri os filmes educativos. As
cenas eram assustadoras, mas causavam uma reação em mim que
eu não estava capacitado para compreender. Passei a me
masturbar frequentemente, na verdade, eu queria me masturbar o
tempo inteiro, mesmo que guardasse esse segredo apenas para
mim. A sensação do orgasmo sempre foi intensa, reconfortante no
final, e foi suficiente até meses atrás, quando percebi que precisava
de algo mais.
Ocorreu na última vez que vi Sophie. Durante muitos anos
evitei qualquer assunto voltado ao sexo. Minha mente trabalhava em
torno de programações de computador, jogos, pesquisas. Eu me
masturbava ocasionalmente;posso dizer que bem menos do que eu
faziaquando passei pela fase de descobertas. Quando passei a me
masturbar imaginando Sophie, eu descobri que gostava dela de
uma maneira diferente, e perceber isso foi traumático. Sophie era a
garota livre, cheia de amigos, cheia de vontade de viver, que
socializava com todos; enquanto eu era o garoto quieto, silencioso,
que se mantinha isolado e que tinha crises frequentes. Fixei em
minha mente que ela nunca seria minha, primeiro por sermos
melhores amigos e quase primos, segundo por sermos opostos. Se
eu não podia tê-la, eu não queria ter mais qualquer garota, por isso,
tirei da mente o sexo e todas as coisas relacionadas a namoro.
Foram anos sem pensar nisso e parecia confortável para mim.
Há alguns meses, ela veio da Califórnia para comemorar o
aniversário de casamento do tio Victor, na Ilha. Minha mente já
estava devidamente projetada a ignorar qualquer pensamento
ousado relacionado à Sophie, mas falhou quando a peguei em um
biquíni minúsculo, repleta de tatuagens que atiçam a curiosidade,
dançando uma música latina de uma formaque atormentou a minha
mente. A cena podia ser considerada erótica. Eu não consegui
evitar a ereção, mas foi diferente de todas as outras vezes. Dessa
vez parecia ter um monstro dentro de mim, um ser estranhamente
furioso, que precisava pegá-la e fazer todas as cenas que via nos
filmes educativos.
Eu não soube lidar com as reações. Entrei no meu quarto e...
não foi bonito. Eu me peguei repetindo atos que só cometia quando
criança. Quebrando coisas, socando meu pai enquanto ele tentava
me acalmar, e foi necessário receber medicação intravenosa para
conter o meu desespero. Foi uma crise de ansiedade, talvez a pior.
Sophie não sabe disso. Ninguém, além dos meus pais, minha
terapeuta e Samuel, sabe.
Foi Samuel quem me disse que eu poderia namorar com
Sophie, que não era errado, pois não éramos primos. Isso aliviou
um pouco, porque eu me sentia culpado por ter reações tão fortes. E
eu fiquei meses tentando pensar em uma maneira de poder tê-la.
Era torturante. Eu passei a malhar com mais afinco apenas porque o
esporte parecia me ajudar a descarregar um pouco da adrenalina.
Estava dando certo, até eu chegar em São Roque e reencontrá-la.
Ela voltou de vez, nós vamos morar juntos e acabo de descobrir que
ela me ama e me deseja da mesma formaque a amo e a desejo. Há
muitas questões em minha mente agora. Eu me pergunto se lá no
passado, ela também teve essas reações físicase precisou se
masturbar. Me pergunto se ela também está excitada agora, como
eu estou. Como vou lidar com isso? Como vou controlar minhas
ações e reações? Como vou lidar com todas as dúvidas?
Sophie é virgem. Ela esperou por mim, eu esperei por ela.
Mas como faremos isso? Eu não quero pensar em sexo, mas não
consigo evitar as reações. A boca de Sophie na minha causa um
efeito que não consigo descrever. Ela é quente, e sinto que tudo
nela responde a mim. Não foram apenas beijos, houve uma
intensidade que estou tentando entender. Gosto de ter respostas
específicas para tudo e preciso delas agora, para entender o mínimo
de todas as sensações novas que acabo de descobrir.
Agora, talvez seja necessário deixar de ser a pessoa que se
esconde, que teme, que age como um garoto. Não sou apenas eu
enfrentando descobertas. Há Sophie também. Muito provavelmente,
ela encontra-se tão receosa e repleta de perguntas, como eu. Ela
lida mais fácilpor ser extremamente extrovertida e maluquinha, mas
a conheço. Sei que por trás de todas as maluquices, há uma garota
sonhadora e um pouco medrosa. Sei também que vamos precisar
um do outro agora, como nunca. É por isso que ao perceber que
minha ereção está devidamente controlada, me pego criando
coragem para entrar e lidar com mais alguns beijos, e qualquer
coisa que ela precise.

A virgindade de uma garota é um dos maiores tabus impostos


pela sociedade. Acho que nós, meninas, acabamos contribuindo
para que esse tabu vá sobrevivendo ao longo dos anos. Fazemos
isso indiretamente quando decidimos tornar esse assunto um
monstro de sete cabeças, sendo que é algo natural; um processo
que todas (ou quase todas) iremos passar. Não ajuda que, além
disso, ainda sejamos cobradas pela sociedade. Há uma enorme
diferença,uma enorme pressão e uma enorme cobrança sobre nós,
mulheres, se compararmos aos homens. Enquanto eles podem
tudo, nós temos que lutar duramente para termos a mesma
liberdade, e ainda somos julgadas mal.
Virgindade é aquele tipo de assunto que é repleto de
questões sobre moral, tradições, até mesmo políticas de gênero.
Isso acaba tornando-se um assunto tão complexo e complicado, que
muitas das vezes as garotas optam pelo silêncio, apenas para não
precisarem falar sobre sexo. Algo que fazparte da vida de todos os
seres humanos, acaba tornando-se um assunto constrangedor. Se
calar é um erro. Às vezes, por medo de todo tabu em torno disso,
por medo de julgamentos, as pessoas acabam cometendo erros
irreparáveis no início da vida sexual. Erros capazes de marcar a
própria história de uma maneira negativa.
Meus pais me ensinaram que não há tabus e que não deve
haver. Eles são os principais responsáveis pela educação sexual
minha e de Luiz Miguel. A principal preocupação dos dois, foi
principalmente em relação a limites, principalmente com Luiz Miguel.
Durante toda a adolescência era comum estarmos tomando caféda
manhã enquanto debatíamos sobre sexo. Todas as minhas dúvidas
sempre foram devidamente esclarecidas, muitas das vezes pelo
meu pai, que é mais experiente nesse assunto que a minha mãe. É
a coisa mais fantástica do mundo poder falar abertamente sobre
esse assunto com meu pai, afinal,há um tabu também sobre isso. A
maioria das minhas amigas, na adolescência, só conversavam
sobre sexo com as mães, e os pais nem podiam sonhar com esse
tipo de assunto. Lá em casa sempre foi tão diferente. Meu pai,
mesmo ciumento e possessivo, conversava comigo como se fosse
um amigo trocando ideias. Minha mãe também, mas ela acaba
sendo realmente uma menina que nunca cresce. Somos best friends
forever, como ela tem o hábito de dizer. Tão bests, que costumo
saber muitas informações sobre a vida sexual dela e do meu pai.
Acho que sexual vida combinaria mais que vida sexual. É como se o
sexo fosse o principal componente do relacionamento dos dois, e
isso é extremamente cômico. Eles se amam tanto, que não são
capazes de manter as mãos longe um do outro.
Há muitos anos, eu prometi a ele que quando perdesse a
virgindade iria contar. Eu não sei se ele acredita que estou intacta e
por isso não contei, ou se ele pensa que perdi a virgindade e não
quis contar. Todas as vezes que vou para alguma festa, ele faz
questão de me dar preservativos, eu acho isso fofoe engraçado.
Meu pai não dá a mim um tratamento diferente do tratamento que
dá a Luiz Miguel. Ele nunca disse "você é menina" ou nada do tipo.
O mesmo acontece com a minha mãe, porém, todas as vezes em
que ela me pergunta se eu já transei, sempre me esquivo. E estou
pensando nela agora. Pensando se ela e meu pai ficariam felizes
em receber uma ligação onde contarei sobre o meu primeiro beijo.
Eu gostaria de fazer isso.
Enquanto Henrico está lá fora, meu coração vence. Eu me
pego fazendo uma chamada de vídeo para a minha mãe e logo os
dois surgem na tela.
— Minha princesinha da Disney versão Melinda hardcore! —
ele cumprimenta e leva um tapa diretamente na testa. Sorrio.
— Filha, diga que está com saudades da mamãe!
— Estou morrendo de saudades, mãe. — Sorrio. — Bom,
aconteceu algo.
— Puta merda, Melinda! — meu pai exclama. — O que
aconteceu, Sophie?
— Eu e Henrico nos beijamos. — Minha mãe dá um grito
estridente, enquanto meu pai a observa em choque. Ela ri, chora e
comemora, como se fosse o final do Campeonato Carioca, onde o
Flamengo acaba de tornar-se campeão. — Eu nunca tinha beijado
na boca. — Essas palavras fazemela paralisar e meu pai arregalar
os olhos.
— O que você disse? — ele pergunta.
— Eu nunca tinha beijado na boca. Foi a primeira vez.
— Então isso significaque você nunca deu uma pimbada? —
minha mãe pergunta.
— Aoooo, Melinda, satânica! Não fale assim com a minha
princesinha! — Me pego gargalhando.
— Eu nunca desfrutei dos prazeres carnais, mamãe.
— Misericórdia! E eu achando que você era tímida para
contar que havia transado feito uma garota transante. — Ela está
boquiaberta. — Que isso! Eu com 21 anos...
— Quando sua mãe fez21 anos, a levei para ser exorcizada.
Não resolveu — meu pai diz enquanto observo Henrico de longe.
— Ok, eu preciso desligar, porque Henrico está vindo.
Amanhã ligo e nos falamosmais. Beijos, pai. Beijos, mãe. Adeus! —
Encerro a ligação e vejo Henrico puxar os cabelos e voltar a se
sentar.
Não é engraçado, mas é. Deve haver uma bagunça louca na
mente dele agora. A minha também está.
Enquanto muitas garotas possuem infinitos motivos para
temer a perda da virgindade, eu só temo a dor. Como decidi esperar
por Henrico e por conhecê-lo uma vida inteira, não há aqueles
pensamentos sobre ser trocada por outra, medo de perdê-lo, receio
de não está me entregando ao garoto certo ou qualquer coisa do
tipo. Acho que isso torna as coisas mais fáceis. Sei que quando
fizermossexo, será com a segurança de um amor fortee inabalável.
Porém... eu temo a dor. Não deveria. Já fiz tatuagens altamente
dolorosas, tenho piercing no clitóris, no lábio inferior, perder a
virgindade não deve doer mais que uma tatuagem no pé. Não é
possível! Mas, ainda assim, há esse receio. Algo grande invadindo
algo tão pequeno é meio assustador.
Eu quero!
Na verdade, acho que nunca quis tanto algo como quero ter
Henrico totalmente nu sobre o meu corpo, invadindo uma área
nunca invadida antes. Duvido que eu vá me importar com a dor.
Mas é absurdo que eu esteja fixada em sexo. Desde que vi
Henrico, tudo que tenho pensado é em sexo. Não é normal ou
correto, visto que relações não devem ser baseadas em sexo. Estou
levando isso de outra forma. Vamos lá, tudo é justificável e estou
justificando meu desejo sexual com base na minha idade e em
todos os anos em que espero para dar uma sentada nervosa em
Henrico.
Eu decido ajudá-lo. Deixo de ficar pensando caraminholas e
vou até ele dar uma ideia.
— Ei, que tal irmos na praça comer algo? Não tenho
condições emocionais de cozinhar — o convido. — Já resolveu seu
problema? — pergunto, segurando um sorriso.
— Sophie, você não vai se assustar quando isso acontecer,
não é mesmo?
— Não vou. Na verdade, acho que vou gostar bastante. Isso
é normal, Henrico. Não façadisso um problema, meu amor. Quando
ficamos excitados, o corpo reage.
— Namorar é complicado — confessa.
— Acho que nós dois estamos complicando tudo. Só
precisamos parar de pensar, parar de buscar respostas para tudo.
Precisamos apenas deixar fluir.
— Eu nunca toquei em seus seios. — Dou uma gargalhada e
ele me encara, sério.
— Você pode tocá-los. Meu Deus, não me olhe assim! Foi
engraçado. Me dê suas mãos...
— De forma alguma, Sophie. Não vou tocar os seus seios.
Vamos comer algo.
— Ok, senhor. Mas posso dizer algo em seu ouvido? — Ele
me olha desconfiado e balança a cabeça positivamente. O puxo,
grudando seu corpo ao meu. — Eu vou tocar em você.
— Onde?
— Você sabe. — Pisco um olho, observando-o abrir e fechar
a boca. — Agora vamos, antes que eu resolva ficar confortável.
— Sophie Albuquerque!
— Henrico Davi!
— Depois que comermos eu posso te beijar? — pede,
segurando minha mão para caminharmos.
— Você pode fazero que quiser comigo. Só espere que vou
pegar dinheiro.
— Eu tenho dinheiro aqui.
— Ótimo. Você vai pagar tudo para mim. — O abraço e
deposito um beijo demorado em sua bochecha. — Eu te amo,
melhor amigo namorado.
Quando chegamos na praça, todos estão sentados,
observando Samuel, que está de joelhos, segurando a mão de uma
mulher extremamente bonita. É a primeira vez que a vejo e estou
impressionada com a maneira sofisticada que ela está vestida.
— O que está acontecendo? — pergunto a Théo, porque Eva
está rindo tanto, que é incapaz de responder.
— Essa é Hadassa, uma amiga de Eva que acaba de chegar
de Londres. Filha de um fazendeiro aqui de São Roque. Samuel
está há mais ou menos 40 minutos tentando convencê-la a dar uma
chance a ele.
— Por favor, Hadassa! Me arregaça, Hadassa! — Samuel diz
e torna-se impossível não rir. — Já sei. Você aceita se casar
comigo?
— Isso não pode ser real! — Théo exclama.
— Aoooooo, Hadassaaaaaaaaaa! Sorte é "meter" como
pretendente! Você está me desprezando, está jogando sua sorte ao
vento. Eu sou o melhor partido, acredite em mim. Pode me pisar,
mas te garanto, em três dias eu serei o amor da sua vida! — Isso
significaque essa moça diante de nós está fodida a partir de agora.
Samuel não vai sossegar até conseguir, pelo menos, um beijo.
— Perfeito! — exclamo, batendo palmas. — Me digam, aonde
consigo um lanche bem gorduroso nesse lugar?
— Vá ali no Tião e peça a ele o lanche que ele faz para o
Théo. Ele saberá. É o melhor. Vocês vão amar! — Eva indica.
Eu e Henrico lanchamos sob olhares curiosos, voltamos para
casa e decidimos assistir filme. Sigo para o meu quarto, onde
escovo os dentes e visto um pijama de frio. Logo em seguida bato
na porta do quarto dele e nos acomodamos na cama.
Não há beijos ou toda tensão sexual. E, por incrível que
pareça, eu ficoextremamente satisfeita por conseguirmos continuar
sendo nós mesmos. Somos um pacote completo agora.
Quando o filme termina, estamos sonolentos e preguiçosos.
Não quero sair daqui e voltar para o meu quarto, mas não sei se ele
vai se sentir confortável (no sentido literal) com a minha presença na
cama. De qualquer forma, eu arrisco:
— Posso dormir com você? Está gostoso e quentinho aqui.
— Uhum — ele responde, praticamente dormindo. — Boa
noite, Sophie. Você é a menina mais bonita do mundo.
— Boa noite, menino mais bonito do mundo. Hoje é o dia
mais feliz da minha vida.
— É o meu também.

A alegria vem pela manhã, quando acordo antes de Henrico e


descubro que ele é superdotado em mais de um sentido.
Quando acordo e me dou conta de onde estou, o sorriso se
alarga em meu rosto. Me viro de lado cuidadosamente e encontro
Henrico deitado de barriga para cima. Ele é a coisa mais perfeita
desse mundo dormindo. Parece um anjo.
Um anjo em um corpo feito exclusivamente para o pecado.
Sorrateiramente, levanto a coberta, para fazer uma
exploração melhor do homem que me pertence. Isso é muito
possessivo, eu sei. Só não esperava encontrar algo duro, marcando
a calça da forma como está. Não consigo nem me recordar do
ditado, mas sei que há algo sobre a alegria vir pela manhã. É
verdade. Isso é alegria pura. Eu tirei a sorte grande na vida. Com
certeza, Deus está me recompensando por ter esperado tanto.
Henrico é perfeito e bem-dotado. O que mais eu posso querer
nessa vida? Saúde e disposição, é claro.
A piranha que habita em mim, nesse momento está
mostrando o dedo do meio para o meu lado fada sensata e gritando
um CHUPAAAA! Sim, ela está fazendo isso porque acabo de
expulsar a sensatez e estou numa corrida forte contra a paciência.
Não há como se manter sensata diante dessa visão. De repente,
nem sou mais virgem.
Eu sofro de sonambulismo. Acabei de descobrir isso. Se eu
não posso dar o bote como quero, eu posso inventar um modo novo
para aproveitar da situação. Sonambulismo me parece a desculpa
perfeita.
Fecho meus olhos e jogo minha perna direita sobre as pernas
dele delicadamente. Minha mão esquerda ganha vida sozinha, eu
juro. Ela primeiro explora o abdome por cima da camisa e depois
simplesmente desce, sem que eu seja capaz de contê-la. Acho
desrespeitoso, mas não consigo impedi-la quando ela decide se
fecharem torno do pau do meu namorado e dar uma apertada para
explorar a grossura da situação.
Se antes eu tinha medo da dor, acho que agora estou
apavorada. Mas, quero! Quero tanto que estou quase chorando e
ignorando meu sonambulismo.
Enquanto exploro o magnânimo pau do meu namorado, ele
começa a se mexer, sentindo as reações do meu toque. Paraliso
minha mão e finjo estar dormindo quando percebo que ele está
despertando. E arrepio por completo quando ele solta um som
rouco, que faz minha vagina contrair automaticamente.
Quero sorrir quando ele coloca a mão sobre a minha, e quero
gargalhar quando ele simplesmente me joga para o lado e dá um
salto da cama. Por mais que eu tenha uma veia artística natural, não
sei se conseguirei atuar agora.
— Merda! Que susto, Henrico! Meu amor da vida inteira...
— Sophie Albuquerque! — ele exclama, pegando um
travesseiro e cobrindo sua ereção.
— Ei, Henrico Davi. Eu amo acordar com você!
— Sophie, sua mão estava no meu órg... meu pau?! — Dou
um gemido épico e rolo na cama assim que ouço a palavra pau sair
da boca dele.
— Eu sou sonâmbula. Me desculpe por isso.
— Você está mentindo — afirma. — Eu a conheço, Sophie.
Sei quando está mentindo. O seu nariz arrebitado sempre entrega
suas mentiras.
— Não é para tanto, Henrico. Parece que cometi um crime —
me defendo,ficandode joelhos e rastejando até a beirada da cama.
Arranco o travesseiro dele e ele leva as mãos rapidamente para o
local do "crime". O mais lindo é olhar para o rosto dele e pegá-lo
com as bochechas ruborizadas. Meu Henrico é um bebê, tanto que
acabo descendo da cama. — Isso não é um problema, meu amor.
— Sophie, é muito difícil ser seu namorado.
— Está arrependido?
— Não — responde, trazendo as mãos para meu rosto. — Eu
te amo.
— Eu também te amo, menino bonito. Vou respeitar seu
tempo. Não sou mesmo sonâmbula. Só estava curiosa — confesso.
— Me desculpe por ser um pouco safadinha? Apenas há muito
desejo e muita curiosidade. Parabéns.
— Parabéns?
— É incrível!Inclusive, eu gostaria de ver ao vivo e a cores.
— Sorrio. notando-o altamente envergonhado. — Eu avisei que iria
tocá-lo.
— Sim, você avisou. Terei que me acostumar com isso, mas,
em minha defesa, nunca gostei muito de ser tocado. Só aceito
abraços seu, dos meus pais e de Samuel. O que significa que só
estou acostumado com abraços, nada além disso. Sei que vai me
tocar e que é algo normal.
— Muito normal — digo, deslizando minhas mãos por seu
peitoral e invadindo sua camisa. É tão gostoso sentir o calor de sua
pele, eu consigo até mesmo perceber que ele está arrepiado com o
meu toque, desconfortáveltambém, mas tento ignorar isso. — Vai
se acostumar, não vai?
— Sim — responde, tenso, e eu deixo um beijo em seu
pescoço antes de me afastar.
— Te espero na cozinha para tomarmos o caféda manhã —
falo, deslizando a mão de uma só vez e dando uma leve apalpada
no mais novo amor da minha vida. Não dou tempo dele protestar,
simplesmente saio correndo do quarto e trombo diretamente em
meu irmão.
— Você e Henrico... dormiram juntos?
— Sim. Só dormimos mesmo, senhor ciumento! — digo, o
abraçando. — Rimão, eu te amo muito nesse Universo!
— Também te amo.
— Você está bem? Está menos tristinho?
— Não tem como ficar triste perto de Samuel — responde,
sorrindo. — Estou felizpor estarem aqui, felizpor saber que irão se
mudar. Eu me apaixonei por esse lugar, mas faltavaalgo. Descobri
que não era algo, era vocês.
— Você é muito lindo, rimão! Eu vou te perturbar todos os
dias, tem ideia disso? Será incrível!
— Então troque de roupa, tome café e vamos dar uma
corrida, ok?
— Ok! Estou animada para passar a manhã com você! Está
calor hoje... finalmente. Poderei sensualizar! — O beijo e saio
correndo para o meu quarto. Tomo um banho rápido, visto uma
roupa de malhar e saio decidida a ter um dia fantástico.
Eu já sei que Henrico vai se manter no quarto até se sentir
"seguro" para sair, por isso, preparo um café da manhã para ele e
peço a Luiz Miguel para entregar. Como uma salada de frutase saio
com meu irmão para correr.
Encontro Samuel malhando no lado de forada casa, bastante
concentrado.
— Aooo, delícia! — grito para ele, rindo.
— Aoooo, Sophie diabólica! Onde vocês vão? — ele
pergunta.
— Vamos correr. Quer vir?
— Partiu! — exclama, se juntando a mim e a Luiz Miguel.

Não é que eu não tenha um bom preparo físico,mas Samuel


e Luiz Miguel me humilham. Eu passo um aperto para tentar
acompanhá-los e, no final da corrida, volto fazendo Samuel de
cavalinho.
Quando estamos chegando, decido parar na casa de Eva
para trocar umas ideias sexuais. Acho que podemos ser amigas e
acredito que ela pode entender um pouco do momento que estou
vivendo. Théo e Eva perderam a virgindade juntos, quando tinham
15 anos. Théo me contou. Então, acho que ela me ajudará bastante.
Bato na porta e aguardo ansiosa.
— Ei... entra! — ela me convida a entrar.
— Licença. Preciso tirar o tênis?
— Não, fique à vontade. Estava malhando? — pergunta,
simpática.
— Sim, saí para correr com Luiz Miguel e Samuel — explico.
— Eles voltaram para o sítio e eu quis passar aqui.
— Bom, estou no meu quarto arrumando minhas coisas, se
incomoda de ficar lá comigo?
— De forma alguma. Posso ajudar em algo? — me ofereço,
tentando ignorar o fato de que isso significaque muito em breve eu
estarei dividindo essa casa com Henrico.
PUTA MERDA!!! SÓ VEM COM TUDO!
— Não precisa. Só estou empacotando as roupas mesmo. —
Ela sorri. — Então... como estão os avanços com Henrico?
— Estão indo até que bem... Na verdade, eu queria conversar
com você sobre sexo — digo na cara e na coragem.
— O que há?
— Você e Théo perderam a virgindade juntos, não foi?
— Sim. Tínhamos 15 anos de idade.
— Pode me contar como foi? Se não for muito invasivo.
— Você é virgem? — Essa é a pergunta que mais tenho
escutado nos últimos dias. — Ok, isso não é um problema. É incrível
que seja virgem. Acho que estou mais apaixonada por você e por
Henrico agora. Quer dizer, suspeito que ele seja virgem também. Ou
estou errada?
— Ele é virgem também — respondo, envergonhada. —
Bom, eu já conversei sobre sexo com os meus pais e tudo mais,
mas eu queria o relato de alguém que perdeu a virgindade com o
namorado.
— Bom, não éramos exatamente namorados, mas éramos
apaixonados um pelo outro.
— Vocês planejaram?
— Não. Vivíamosnos pegando pelos cantos do sítio, éramos
bem quentes e fogosos — comenta, sorrindo. — Não houve
planejamento. Quando vimos, já estava acontecendo. Embora não
tivéssemos programado, Théo nunca saiu de casa sem um
preservativo. Era engraçado. Enfim. Estávamos voltando da
cachoeira mais distante, perto dos celeiros. Estávamos no auge do
desejo, sabe? Descobrindo os pontos fracos um do outro,
descobrindo toques. Lembro que começou a chuviscar e decidimos
nos esconder no celeiro. Uma coisa levou a outra. Começamos a
nos beijar e simplesmente fluiu. Começamos tirando as peças de
roupas e foi... sem planejar, sem nada.
— Parece ter sido mágico.
— Foi mágico. Me marcou para sempre. Théo foi perfeito
comigo. — Ela se junta a mim na cama, e tudo que vejo é uma
pessoa empenhada em responder minhas questões, em ajudar. —
Bom, você e Henrico estão querendo dar esse passo?
— Eu acho que isso vai acontecer. Lógico que não será hoje,
amanhã, mas quero estar preparada para o momento. Acha que
deve ser combinado?
— De forma alguma. Acho que a expectativa e a ansiedade
são as maiores vilãs desse momento. Quando você combina algo,
aquilo se infiltra na sua mente e você começa a ficaransiosa, tensa,
com expectativas de que será O MOMENTO. Mas a verdade,
Sophie, é que a maioria das garotas não têm uma primeira vez
satisfatória e acabam decepcionadas por depositarem expectativas
demais. Eu considero-me uma garota de sorte. Foi por acaso que
aconteceu, mas foi perfeito, mesmo que no iníciotenha sentido um
pouco de dor. Se tivesse combinado, eu estaria muito mais tensa,
estaria programando na minha mente "eu vou transar, preciso criar
um clima e ficar excitada" e, sinceramente, seria muito planejado,
como um robô. Vou te dar alguns conselhos, mas o maior deles é:
NÃO PROGRAME NADA. Deixe fluir. Quando vocês estiverem no
limite, vai acontecer naturalmente, como foi comigo e com Théo. É
legal chegar ao extremo do tesão, sentir que precisa daquilo para
sobreviver. Vocês precisam estar cem por cento excitados e
desesperados um pelo outro. Te juro, isso ajuda até no alívio da dor.
Você quer tanto aquilo, que a dor é jogada para escanteio. — Sorrio
ao ouvir tudo.
— Ok. Acho que gosto dessa coisa de desespero e
necessidade extrema.
— É a melhor coisa que pode acontecer. Bom, sobre dor,
você sabe que dói, não sabe? Vai doer, Sophie, é fato. Não é nada
de outro mundo, mas há uma dor, há uma ardência no início. Por
isso é extremamente importante esse nível de excitação que eu
disse antes. Você estará mais lubrificada, mais desconectada da
dor. Outra dica, relaxar ajuda. Começou a sentir dor? Identifique
quão tensa você está e tente relaxar, foque em beijos, carícias e
relaxe seu corpo, se entregue ao sexo.
— Melhores dicas! — Me empolgo, batendo palmas.
Realmente foi uma ótima escolha ter vindo aqui.
— Bom, na primeira vez você precisa saber que talvez
Henrico esteja muito no limite e não vá demorar muito para atingir o
orgasmo. E está tudo bem. É importante que esteja ciente para que
não faça disso uma decepção. Da mesma forma que corre o risco
dele atingir o orgasmo cedo, corre o risco de você demorar a atingir
o orgasmo. Há toda aquela questão da dor, entende? Enquanto para
o cara está sendo incrívelno início,para você está sendo um pouco
infernal. A boa notícia é que fica bom. Fica realmente bom. Tanto
que você se torna uma viciada em sexo. Meu Deus... você vai
querer isso o tempo todo e vai precisar se controlar. — Começo a rir,
porque eu nem fiz e já me sinto viciada na parada.
— Espero que Henrico fique viciado também.
— Ah, você é tão fofa, Sophie! Me faz lembrar a
adolescência, onde eu era uma garota sonhadora e tinha esse
espírito selvagem, como você. Sei que já tem 21 anos, mas se
parece com uma garota de 15, cheia de dúvidas e sonhos. Isso é
tão inspirador, tão bonito, que eu mal sou capaz de descrever.
— Eva, muito obrigada por me ajudar.
— Bom, você fazuso de algum método contraceptivo? Quer
ir na médica comigo? Eu tenho uma consulta marcada. Você pode
tirar dúvidas mais teóricas se quiser. Se preparar melhor para esse
momento. Vai que Henrico não seja tão prevenido como Théo?!
Você não vai querer desperdiçar a oportunidade única com o amor
da sua vida. — Nem fodendo eu posso correr esse risco.
— Eu quero sim ir até a médica, mas já faço uso de
anticoncepcional desde os 16 anos, para regular o fluxo e tudo mais.
— Ok, bom, não vou insistir no uso de preservativos, porque
você o conhece, ele é virgem, é de extrema confiança.Se fosse em
qualquer outra situação, eu aconselharia a andar com um
preservativo dentro do sutiã — ela diz, rindo.
Faz sentido. É tudo tão diferente entre nós dois. Eu o
conheço melhor do que conheço a mim, então sei que posso me
entregar com segurança. Isso é uma grande vantagem que eu nem
havia pensado. Mas, provavelmente, ficarei tensa sobre o uso do
preservativo. Meus pais fizeram uma lavagem na minha cabeça e na
de Luiz Miguel. Embora... em algum momento, quero sentir Henrico
sem nada. Quero sua pele queimando contra a minha.
— Bom... posso fazer uma última pergunta?
— Quantas quiser.
— Você acha válido eu... provocar Henrico? Quer dizer, eu
não sei. Tenho medo, mas o desejo com toda a minha alma e
necessidade. Mal começamos e estou ansiosa para podermos ir ao
menos aos toques. Merda, não acredito que estou dizendo isso! —
Cubro meu rosto com as mãos, envergonhada pela pergunta. Eva
começa a rir.
— Não fique tímida. Você está com vergonha porque ainda
não viu como eu e Théo somos despudorados. Enfim, acho que é
válido provocar sim. Fazer com que ele sinta necessidades. É um
bom jogo. Só essa roupa de malhar que você está, já pode ser
provocativa o bastante. Jogue com ele. Só não exagere, caso ele se
sinta desconfortável.Vá com calma. Sorrateiramente. Há desejo no
olhar dele todas as vezes em que olha para você. É algo explícito.
Ele pode ser virgem, inocente, mas não é tolo, Sophie.
— Eu sinto que ele não é nada tolo. Muito obrigada, Eva,
novamente — a agradeço e fico de pé para ir embora.
Essa visita ampliou minha visão. Eu serei eternamente grata
à Eva. É como se ela fosse especialista em algo que estou prestes a
viver: a primeira vez.
Assim que entro no sítio, vou direto para a casa. Encontro
Henrico treinando boxe com Théo e solto um gemido alto. Fico o
observando socar o saco de areia e, a cada soco, dou uma
contraída vaginal involuntária.
— Deu por hoje! — Théo anuncia, retirando as luvas, e bate o
braço no de Henrico, como um cumprimento. Em seguida, ele
caminha até mim, deposita um beijo em minha testa e se vai.
Henrico me analisa de cima a baixo e fecha o semblante no
mesmo instante.
— Só vem aqui me dar um beijinho — digo, sorridente, mas
ele não sorri de volta. Estou fixada nos gominhos da sua barriga...
Meu Deus! Ele me deixa e caminha até o banheiro. Eu vou atrás,
porque não estou conseguindo entender o motivo do mau humor. —
O que há de errado?
— Você foi correr com essa roupa?
— Sim, super confortável— respondo com a minha carinha
mais angelical.
— Ok. Ok. Mas...
— Deixe de ser ciumento. Só vem aqui me dar um beijinho,
senhor mal-humorado. — O puxo pela bermuda.
— Estou suado, Sophie.
— Isso não é nada comparado à maneira que ficará quando...
— Quando?
— Nada. — Sorrio, o observando retirar as luvas. — Eu
lamberia você inteiro agora. Eu amo seu corpo, amo esses
gominhos e esses pelinhos tão delicados.
— Você me lamberia?
— Uhum... — falo, grudando meu corpo ao dele. — Eu quero
você.
— Sophie, eu posso te beijar?
— Temos uma regra que te impede de pedir — comento,
sorrindo, e ele me beija de uma só vez. Quando suas mãos tocam a
minha cintura, eu ofegoe perco a noção dos meus atos. Me esfrego
no corpo dele, o puxo para ficar tão grudado a mim quanto é
possível e o sinto começar a reagir a isso. É uma sensação nova,
diferente. Me leva a um nível de excitação desconhecido. Quando
Henrico nota o que está acontecendo, se afasta abruptamente.
— Me desculpe por desrespeitá-la.
— Eu entendo que você ache isso desrespeitoso, mas
definitivamente não é. Nós vamos conversar sobre isso, não
podemos ficar fugindo das reações. Não quero que fiquemos
afastados porque reagimos um ao outro. Precisamos aprender a
lidar com isso. Não precisamos transar agora, Henrico, mas
podemos namorar. — Ele esfregao rosto, sinal de puro nervosismo.
Ele sempre faz isso.
— Você é muito direta.
— Como prefereque eu diga? Ficar confortável?— pergunto,
afastando suas mãos do rosto e o encarando. — Olhe para mim,
meu amor. Você se sentirá melhor se eu me referir ao sexo como
"ficar confortável" ou "se sentir confortável"? — Ele balança a
cabeça positivamente. — Está tudo bem. Eu entendo você. —
Sorrio. — Não há uma pressão sobre ficarmosconfortáveis, ok? Eu
só quero namorar com você.
— Está bem. Eu te amo — diz, me puxando para um abraço.
— Ao infinito e além.
— Também te amo, menino mais bonito. Vamos tomar
banho? — o convido, me afastando.
— Juntos? — Resolvo ser um pouquinho maquiavélica e
testá-lo.
— Lógico. Nós dois. Nus. Juntos. O sabonete escorregando
entre nossos corpos. Vem forte com emoção...
— Sophie, é muito difícilser seu namorado, ok? Muito difícil!
— protesta e sai andando apressado, gritando "muito difícil".Eu fico
rindo.
Nos EUA, as pessoas costumam usar termos de beisebol
para explicar as fases de uma relação. Temos a primeira base,
segunda base, terceira base e a quarta base, que é conhecida como
home run. Em uma partida de beisebol, o home run é o ponto
culminante. Pode ser comparado ao gol em uma partida de futebol.
A primeira base é como se fosse uma preliminar ao grande
home run. O início da corrida para um fim.Em um relacionamento, a
primeira base é quando os beijos começam. Inofensivos,repleto de
descobertas, nada muito extremo. É como se fosse um teste de
compatibilidade, visto que é através de um beijo que você consegue
captar se há conexão ou não com a pessoa.
Na segunda base é quando as coisas começam a esquentar
de fato. Os beijos tornam-se mais calientes, ousados, é quando os
toques e as explorações começam a acontecer, a respiração
começa a ficar mais ofegante. Onde, possivelmente, eu poderei
tocar os seios de Sophie e sentir seus mamilos. Tenho curiosidades
sobre os mamilos dela.
A terceira base é ainda mais extrema. É quando de fato as
coisas estão prestes a transbordar. O filme passando na TV deixa
de ser notado, a exploração aumenta, há estímulos por todas as
partes, só conseguimos focar nas ações e reações da parceira, e
quando começa uma exploração oral, como sentir o piercing no
clitóris de Sophie entre os meus dedos, sentir o sabor que a vagina
dela possui, ter meu pênis sendo explorado pela boca de Sophie,
masturbações. Mas, ainda assim, não fazemossexo. Eu não sei se
posso suportar essa base. Pensar nisso me faz ter crise de pânico.
A quarta base é a grande corrida. É quando você correu
bravamente por todo o caminho e é chegado o momento de ganhar
uma "medalha": o sexo. Quando eu atingir essa base, significaque
eu e Sophie não seremos mais virgens. E significa que eu terei
vencido todos os medos para esse momento acontecer. Talvez
signifique também que eu me torne um louco obsessivo. Se estou
viciado em beijos, eu imagino como será assim que ficarrealmente
confortávelcom Sophie. Deve haver alguma maneira de controlar e
eu preciso pesquisar sobre esse assunto.
Eu não sei se posso fazer isso. Não sei se posso passar da
primeira base. Estou com medo agora. Sophie tem um erotismo
natural. Ela está disposta a me estimular sexualmente o tempo todo,
de maneira implícita,e parece que todas as vezes que ela faza sua
carinha de anjo, a minha situação piora. A acho extremamente sexy
quando quer passar a imagem de moça comportada, isso é algo que
me desestabiliza e me causa sensações, as quais ainda não estou
habituado. É por isso que é difícilser namorado dela. Ela parece
muito mais preparada que eu.
Eu realmente queria que uma frente fria chegasse em São
Roque com força total, apenas para que ela pudesse vestir roupas
mais comportadas, assim eu conseguiria manter meus olhos e meus
pensamentos seguros. Eu tenho enfrentado pensamentos muito
assustadores em todos os momentos que olho para a minha
namorada. Agora, por exemplo, o sol acaba de se pôr, e ela está
sentada em um banco de madeira, usando um vestido
completamente inapropriado para os meus olhos. Sei que ela está
dizendo coisas, mas o meu focoestá completamente dirigido à alça
do vestido que está caída,deslizando pelo seu braço. Se caísseum
pouco mais, eu poderia ver os seios dela. O pouco que estou vendo
através do decote, é o bastante para me deixar duro. Sem contar
que ela está com as pernas levemente abertas.
Meu Deus! Sophie com as pernas abertas me fazquerer ficar
muito confortável.Eu nem sei para qual parte do corpo dela eu devo
focara minha atenção. Sophie parece gostosa. Muito mais gostosa
que um pedaço de torta de chocolate recheada com leite Ninho.
Estou muito vidrado nos seios dela, tanto que noto que há
algo apontado embaixo do tecido. Os mamilos dela estão
intumescidos. Uma pesquisa que li disse que, se soubermos como
estimular os seios de uma mulher, é provável que ela tenha um
orgasmo intenso durante a penetração ou masturbação. Disse
também que é possível fazer uma mulher atingir o orgasmo se
dedicarmos um tempo a eles. Além disso, aprendi que a área de
sensibilidade não está apenas no mamilo, em torno dele também.
Observá-los, faz com que meu corpo fique quente. Tenho
certeza de que uma gota de suor acaba de escorrer pela minha
nuca.
O mais incrívelé que, sem saber, Sophie fazcom que eu me
sinta normal, como se eu pudesse ser como todos os demais
garotos, como se eu pudesse tê-la como um garoto normal. Talvez
eu seja normal — se sentir todas essas coisas significar isso.
Ela fica de pé, de repente, e eu sinto meus batimentos
cardíacos acelerarem quando ela se vira de costas, deixando-me
frente a frente com sua bunda. Sim, muito mais gostosa que
qualquer comida que eu já tenha provado. Mas compará-la com
alimentos parece inapropriado. Eu não tenho com o quê compará-la,
isso é desconcertante.
Quando ela se vira para mim, praticamente sou pego em
flagrante. Noto isso através do sorriso que ela dá.
— Ei, namorado, todos vão sair essa noite. Que tal
assistirmos um filme?
— No meu quarto? — pergunto por pura curiosidade.
— Sim. Na sua cama.
— Deitados?
— Com certeza sim — ela responde, sorrindo.
— Eu acho melhor sairmos com a turma. Minha mãe pediu
que eu me esforçasse e sinto que é o mais seguro — explico.
— Seguro? Por que é mais seguro sair do que ficarem casa?
Não entendi a lógica.
— Rodeados de pessoas eu não poderei te desrespeitar. Não
poderei ficar excitado. — Ela arregala os olhos e eu não
compreendo. — O que foi?
— Depois você diz que eu quem sou muito direta.
— Sophie, você é muito direta — reafirmo.
— Nós nunca iremos namorar quando estivermos sozinhos?
— Iremos. Vamos morar juntos. — Dizer isso faz com a
perspectiva caia fortemente sobre mim. Como vou morar sob o
mesmo teto que Sophie? — Como iremos morar juntos?
— Morando — ela responde, animada. — Será muito incrível
morar com você. Vamos dormir no mesmo quarto!
— O quê? Não! — digo e ela me puxa pela camisa, fazendo
com que eu fique de pé.
— Por favor?
— Por que você me pede assim? Eu não quero magoá-la,
mas não acho que isso será uma boa ideia. Eu preciso de
privacidade em alguns momentos.
— Para fazer o quê? — pergunta.
— Eu preciso me masturbar. Acontece à noite, na maioria das
vezes.
— Senhor da glória, Henrico! Você não pode falar essas
coisas! — adverte e me sinto completamente constrangido por ter
dito.
— Me desculpe, Sophie. Eu só pensei que se encaixava na
regra número 2, por isso disse.
— Não! Não... É apenas por ser tentador o bastante ouvi-lo
dizer. É claro que se encaixa na regra número 2, não pense que
estou podando suas palavras. Você pode falar isso comigo sempre,
apenas comigo, ok? Ninguém mais pode ouvir essas revelações.
Comigo você não precisa filtrar as palavras, apenas com as demais
pessoas. Somos um casal e isso faz parte da nossa intimidade. —
Balanço a cabeça em concordância. — Casais que moram juntos
costumam dormir juntos. Eu posso te ajudar...
— Me ajudar em quê? — pergunto e ela aproxima sua boca
até o meu ouvido.
— Eu posso tocar você... você pode me tocar também —
sussurra.
— Essa é a terceira base. Nós nem entramos na segunda. Eu
preciso tocar seus seios.
— Eles estão aqui, esperando pelo seu toque — ela diz,
fechando as mãos em torno deles. Franzo minha testa e observo
como ela os aperta. Balanço a minha cabeça, repleto de
pensamentos conflitantes. — Vai, diga que é muito difícilnamorar
comigo.
— É muito difícil namorar com você, Sophie. — Ela sorri e
traz as mãos para meu rosto. — Você é a menina mais gostosa do
mundo. Quer dizer, você é a menina mais bonita do mundo, Sophie.
Me desculpe por ser desres... — Me calo quando ela rouba um
beijo. Toco a cintura dela, mas não me parece o suficiente.
Quando meus lábios estão nos de Sophie e nossas línguas
estão em contato, algo dentro de mim se agita. Os lábios dela são
suaves, e os meus estão dispostos a acabarem com a suavidade.
Meu coração richicoteia forte e eu percebo como um beijo tem a
capacidade de fazer com que eu me sinta vivo, realmente vivo. É
como se todo o meu passado deixasse de existir, como se antes eu
não tivesse vivido. Beijar Sophie me faz renascer para as
descobertas, para a vida. É uma das experiências mais fantásticas
da vida.
A intensidade me fazestacar, eu me pego afastando nossos
lábios quando noto que estamos indo atingir um novo nível. Sophie
gruda a testa na minha, com os olhos fechados,e suspira como se
sentisse dor pelo afastamento. Eu a entendo. Eu sinto dor por
desejá-la tanto, e ela parece sentir também.
— Vamos nos arrumar para sair com a turma, então? —
pergunta ainda com os olhos fechados.
— Sim, vamos.
E é o que fazemos.
Eu tomo um banho frio, visto uma roupa e encontro a turma
toda na sala.
Théo e Eva vão discutindo por todo trajeto até o bar do Tião,
e isso me fazficaratento. Eu me pergunto se eu e Sophie também
iremos discutir.
— Você pode estar grávida, Eva. Está exagerando na merda
da bebida!
— Eu não estou grávida, Théo! Não sou irresponsável e nem
mesmo estou bêbada. Pelo amor de Deus! O que pensa que eu
sou?
— Você pode sim estar grávida! Temos feito sexo
excessivamente, sem proteção alguma. Enquanto estivermos
tentando um bebê, eu acho que você deveria se controlar um pouco.
Já tivemos essa conversa.
— Eu só estava comemorando a chegada de Hadassa, não
bebi mais de três doses pequenas de cachaça, se quer mesmo
saber. Pare de desconfiar de mim o tempo todo. — Eva está
nervosa e eu não quero mais prestar atenção na discussão. É ruim.
— Você quer ter um bebê? — pergunto à Sophie.
— Sim, quero muito.
— Sophie, eu não sei se quero ter um bebê — confesso,
temeroso, e ela sorri enquanto aperta minha mão mais forte.
— Relaxe, menino mais bonito. Eu não quero ter um bebê
agora, sou muito novinha. Quero ser mãe por volta dos 29 anos.
Tenho muito tempo para tentar convencê-lo a me dar um bebê.
— Eu não sei se posso fazer isso, Sophie. É muito confuso
pensar sobre bebês. Preciso comprar preservativos para quando...
você sabe... — Sophie sorri, tira algo de seu bolso e coloca sobre a
minha mão. É um preservativo.
— Eu tenho um — justificaao ver meu olhar questionador. —
Nunca sabemos quando irá acontecer, precisamos estar sempre
prevenidos. Quer usar?
— Oh, merda! — exclamo, aturdido e confuso.
— Esqueça isso, vamos nos divertir, namorado! — Ela pega o
preservativo da minha mão e o guarda novamente no bolso.
Eu sempre escutei meu pai dizendo que minha mãe seria o
motivo da morte dele, acho que posso dizer que Sophie será o
motivo da minha morte.
Quando chegamos no bar, há algumas pessoas. Sophie já
parece familiarizadao bastante. Ela cumprimenta a todos, e eu me
mantenho calado. Não gosto de pessoas que não conheço. Não me
sinto à vontade perto delas. Nem sempre consigo forçar ser
sociável.
Sophie e Eva vão ficarjuntas, enquanto ficocom os garotos.
Eles pedem cerveja, eu peço um suco e nos acomodamos. As duas
garotas escandalosas que conheci quando cheguei a São Roque,
dias atrás, surgem e vêm em nossa direção.
— Olá! Essa é uma mesa de responsa — a garota de cabelos
negros diz.
— Vanderléia, que bom revê-la! — Samuel a cumprimenta.
Elas vão dando beijos no rosto de todos, isso me deixa tenso,
principalmente quando vejo que serei o próximo. Quando se
aproximam de mim, apenas levanto minha mão, as impedindo.
— Não podemos te cumprimentar? — a loira pergunta.
— Não conheço você e não estou interessado em conhecer.
Não gosto de pessoas novas. Me desculpe.
— Credo! Que grosseiro! Você é um idiota?
— Você é uma idiota! — Sophie surge, sentando-se em
minhas pernas. — Ele já disse que não quer conhecê-la, isso não
faz dele um idiota. Talvez faça dele um homem muito esperto e
seletivo. Ninguém é obrigado a socializar com todos.
— Théo, seus novos amigos são muito mal-educados —
Vanderléia diz antes de se afastar com a amiga.
— Você está bem? — Sophie pergunta, segurando meu rosto
entre suas mãos. — Você não é um idiota.
— Eu sei. Estou bem. Eu saberia me defender — comento,
sorrindo.
— Ok, voltarei para Eva. — Ela beija a ponta do meu nariz e
se vai, então todos estão me observando.
— Sabe que está com sérios problemas, não sabe? — Luiz
Miguel pergunta.
— Por quê?
— Sophie é uma mistura muito louca da minha mãe e do meu
pai. Isso significa que há muito ciúme, doses cavalares de
possessividade, excesso de proteção. Ela está lá do outro lado, mas
está atenta a tudo — me explica, rindo. — De qualquer forma,
mesmo sabendo que você está fodido, eu estou feliz que estejam
juntos.
— Obrigado?
— Acho que sim — responde, sorrindo.
— Aoooo, Hadassa!!! Minha esposa!!! — Samuel grita e
olhamos para a mulher que acaba de surgir no bar. É a mesma que
ele estava pedindo em casamento ontem à noite, o que é bastante
estranho. Como ele pode pedir em casamento alguém que ele não
conhece? Eu não entendo algumas ações dos seres humanos.
Hadassa é uma garota bonita, mas ela se veste como se
estivesse em um baile ou algo assim. De qualquer forma, minha
Sophie é muito mais linda nesse mundo.
— Vou te mostrar como as meninas gostam de ser pegas,
Henrico! — meu irmão anuncia, ficandode pé. — Preste atenção e
repita tudo com Sophie. Ela vai gostar.
— Que bosta! — Luiz Miguel parece não gostar da ideia de
Samuel, mas eu gosto. Eu preciso saber como as meninas gostam
de ser "pegas", por isso fico atento a ele.
Ele se aproxima de Hadassa, a puxa pela cintura, leva uma
mão por trás dos cabelos dela e a beija de uma maneira
inapropriada para o ambiente. Observo cada detalhe e como ela
reage a ele. Seus corpos agora se aproximam muito mais, ela tem
as mãos na cintura dele. Eu o vejo praticamente puxar os cabelos
dela e fico um pouco chocado com a ação, principalmente porque
ela parece não sentir dor, e sim gostar do ato. Talvez Sophie vá
gostar se eu puxar os cabelos dela assim, eu preciso experimentar.
A mão livre dele está bem próxima à bunda de Hadassa, e dá
para ver que ela está enrolada em torno do vestido da garota, com
força. Quando ele, de repente, se afasta, ela parece em choque
completo. Eu penso que ele vá levar um tapa na cara, mas não é o
que acontece. A garota o empurra até a parede e então é ela quem
começa a "pegá-lo". Eu chego a cobrir meus olhos quando vejo uma
mão dela avançar para um lugar inapropriado...
— Ok, alguém precisa detê-los. Já passaram dos limites —
Luiz Miguel anuncia, ficando de pé e indo até eles. Eu finalmente
posso abrir meus olhos.
— Uma boa aula, hein? — Théo comenta.
— As mulheres gostam de ser pegas assim? — pergunto,
deixando a vergonha de lado. A curiosidade está sobressaindo
agora. Eu preciso saber.
— Muito. Você não imagina o quanto. Nada mal para um
primeiro beijo deles.
— Esse foi o primeiro beijo deles? — Merda! Eu acho que
meu primeiro beijo foi muito ruim!
— Sim — Théo diz, rindo, mas não há graça. O meu primeiro
beijo não foi nem perto do primeiro beijo de Samuel e Hadassa.
Preciso muito falar com Sophie, mas espero para falar
quando voltarmos para casa.
Ela vai até o quarto vestir um pijama e, quando volta ao meu
quarto, eu a pego pela cintura.
— Deus! — exclama.
— Sophie, você gostou do nosso primeiro beijo?
— Foi apenas o mais perfeitodo mundo, menino mais bonito.
Eu nem saberia como descrevê-lo — responde.
— Ele foi diferente do beijo que Samuel deu em Hadassa.
Aquele foi o primeiro beijo deles.
— Foi diferente, mas eu não trocaria o nosso primeiro beijo
por aquele.
— Eu posso testar? — peço.
— O quê? Como? Você...
— Eu não preciso pedir, está nas regras. Me desculpe por
pedir.
Levo minha mão por entre os cabelos dela, a puxo mais forte
contra o meu corpo e a beijo. É intenso, quente, e Sophie não reage
como Hadassa. Ela é mais ousada e traz suas mãos para dentro da
minha camisa. Estou a beijando, mas atento a todos os toques. Meu
corpo todo responde quando as unhas dela arranham minhas
costas. Me faz ter calafrios e um som rouco escapa da minha
garganta. Ouço Sophie ofegar, e é gostoso. Meu aperto nos cabelos
dela aumenta, e ela afasta nossos lábios para gemer. É muito louco
como me arrepio por completo ao ouvir o som. Quanto mais duro
fico, mais Sophie se esfrega contra o meu corpo, como se isso
pudesse salvá-la de algo. Ter o corpo dela roçando ao meu, quando
estou duro, causa uma sensação diferente. Sinto vontade de levá-la
para a cama, sinto vontade de fazer um monte de coisas que não
me sinto preparado. Me afasto tão ofegante quanto ela está.
— Meu Deus do céu! Santa Josefina! Estou hiperventilando!
Você disse algo sobre base... que base é essa de agora?
— Acho que acabamos de entrar na segunda. É um pouco
mais quente que a primeira.
— Ok, o que podemos fazer nessa segunda base? — ela
questiona, puxando os cabelos com as mãos e andando de um lado
para o outro.
— Beijos mais ousados, alguns toques, mas apenas da
cintura para cima. Eu posso tocar seus seios — explico.
— Tudo bem. Bom, eu posso tocar em você da cintura para
cima, você pode me tocar da cintura para cima. Entendi. E sobre
tocarmos nosso próprio corpo? Não há nenhuma regra sobre você
tocar o próprio corpo e eu tocar o meu próprio corpo da cintura para
baixo, não é mesmo?
— Eu... eu não sei. Posso pesquisar. O que você quer fazer?
— Merda, eu sou um rolo compressor prestes a te atropelar
— choraminga, se jogando na cama. — Eu te amo, Henrico. E amo
a sua inocência também. Me desculpe por ser louca.
— Você não é louca, Sophie. Você é a menina mais bonita do
mundo.
— Oh, meu Deus! Eu te amo tanto!!! — ela grita, saltando da
cama e vindo me abraçar. — Eu te amo, muito, muito, muito mesmo.
Te amo demais. Você é o meu infinito e além dele.
— Você é muito linda.
— Vamos com calma, ok? Vamos procurar um filme? Eu
posso fazer pipoca — sugere.
— Tudo bem. Eu vou apenas tomar um banho.
Só saio do banheiro após conseguir conter a excitação, mas
a calmaria não dura o bastante. Ficar perto de Sophie parece causar
mais reações do que posso lidar.
Meu namorado está fugindo de mim. Me dou conta disso
assim que acordo e descubro que ele não está mais no quarto. Não
fico magoada. Simplesmente começo a rir, porque é a coisa mais
engraçada do Universo ver Henrico desconfortável e fugindo das
"reações", como ele mesmo diz.
Talvez eu seja diabólica demais.
Aliás, ele, o garoto que leva tudo ao "pé da letra" e vive a vida
no sentido literal, anda cheio de novos significados para
determinados termos. Ficar confortável, reagir... essas palavras
ganharam novos significados para mim.
Me levanto, arrumo a cama, façominha higiene matinal e vou
em busca dos seres humanos que habitam esse sítio. Estão todos
reunidos do lado de fora, numa espécie de reunião.
— Eu preciso falar com Sophie antes de ir. — Ouço Henrico
dizer. Ele está no modo "sou um homem de negócios" e isso é muito
surpreendente. Ele vai de maduro à inocente, e eu ficoperdida em
qual versão eu gosto mais.
Ele está vestindo uma camisa branca, calça jeans e tênis.
Está usando boné, óculos estilosos e há uma bandana amarrada em
seu pulso. Ele, o cara que odeia celular, tem um em sua mão agora.
Meu namorado é de longe o mais gostoso e mais bonito do mundo.
Como ninguém me viu, corro para a cozinha e espero que ele
venha me procurar. Enquanto isso, pego um pouco de salada de
frutas e me acomodo em uma banqueta. Logo Henrico surge e um
sorriso se alarga em meu rosto.
— Ei, menino mais bonito.
— Ei — responde, se aproximando e me dando um abraço.
Eu vou mais longe. Retiro seu boné, seus óculos e o puxo para um
beijo na boca, porque não há nada mais tentador que a boca desse
homem. Enquanto suas mãos descansam em meu pescoço, as
minhas estão presas firmemente na camisa dele. Nos beijamos até
perder o fôlego.Quando nossos lábios se afastam,nossas testas se
encontram e tentamos lidar com a intensidade que um único beijo é
capaz de trazer. Não sabia que beijar poderia ser algo tão
arrebatador e intenso, há até lágrimas em meus olhos agora. Ou
talvez isso só aconteça conosco. Não sei absolutamente nada sobre
isso. — Você é muito linda — ele diz, se afastando.
— Você sente a intensidade? — pergunto e ele balança a
cabeça positivamente. — Imaginou que seria assim?
— Não. Por que está chorando?
— Eu não sei — explico, limpando as lágrimas. — Eu te amo.
— Também amo você. Não precisa chorar. — Ele é tão fofo.
— Te amo muito, Sophie. Não chora, tudo bem?
— Tudo bem, meu amor. — Respiro fundo. — Por que está
todo arrumado assim?
— Estava indo te acordar para contar. Eu, Luiz Miguel e
Samuel vamos para o Rio de Janeiro — fala, o que faz com que
meu coração falhe algumas batidas. — Preciso pegar algumas
coisas pessoais para trazer. Só trouxe meu laptop e preciso que
meu computador esteja aqui para eu trabalhar. Eva acabou de trazer
as coisas dela essa manhã. Samuel vai porque precisa falar com a
tia Dandara e também precisa pegar algumas coisas. Você quer ir
ou quer ficar para organizar tudo? — Solto todo o ar que estava
prendendo. Eu não sei se quero ir ou se quero ficar e arrumar a
casa que iremos morar. Agora estou com uma tremenda dúvida.
— Vocês vão de carro?
— Vamos.
— Quantos dias pretendem ficar lá?
— No máximo, dois, ou um pouco mais, se for necessário. —
Eu penso, repenso e chego à conclusão que também preciso pegar
alguns itens pessoais. Além disso, estou com saudade da minha
mãe.
— Eu vou — digo e ele sorri, visivelmente satisfeito com a
notícia. — Podemos ir no meu carro? O carro de Samuel é de
playboy e certamente ficará apertado.
— Podemos. — Salto da banqueta e me jogo nos braços
dele.
— É a nossa primeira viagem assim. Estou animada! Vou
vestir uma roupa e já volto! A propósito, acho que deveria vestir algo
de frio. Só consigo viajar com ar-condicionado ligado — falo,
beijando as bochechas dele e saio correndo.
Nos encontramos meia hora depois, em frente ao meu carro.
— Você quer dirigir? — pergunto a ele.
— Sophie, eu tenho habilitação, mas tenho medo. Você sabe
disso. Eu posso ter uma crise e, quando acontece, minha visão fica
embaralhada e eu fico muito nervoso...
— Geralmente você tem suas crises sozinho, em casa. Aliás,
elas diminuíram muito com o passar dos anos — argumento. — A
questão é que você não acredita em si mesmo e eu entendo isso,
acredito que deva ser extremamente difícilse sentir incapaz, porém,
você não é incapaz. Precisa acreditar mais em si mesmo. Você é
capaz de tudo, Henrico. Não há nada que você não possa fazer.
Que tal começarmos a treinar a sua mente, que é a maior
responsável por se limitar tanto? O que acha de dirigir ao menos até
a saída da cidade?
— Eu posso fazer isso. — Sorrio com a resposta e entrego a
chave para ele.
Sou incapaz de contabilizar quantos avanços Henrico tem
dado. Samuel disse que ele queria sair da zona de conforto,e vê-lo
se esforçando é a coisa mais fantástica. Tia Paula ficaria tão
orgulhosa de acompanhar essa evolução de perto. Sinto que terei
que fazer um resumo completo desses avanços para ela. É algo
lindo de se ver.
Durante muitos anos, Henrico foi um garoto muito fechado.
Vê-lo mais leve e disposto é inspirador. Eu queria saber o que está o
movendo. Mas deixo de pensar nos porquês e me concentro nas
ações. Quando ele começa a dirigir, me sinto extremamente
orgulhosa.
Samuel está no carro à nossa frente, mas ele encosta
quando vê a tal Hadassa. Eu sinto uma tremenda vontade de rir ao
ver a cara que ela fazao ver o carro de Samuel. Não que eu ache
que ela seja interesseira ou algo do tipo. É que a garota é altamente
sofisticadae Samuel é altamente simples, de formaque você nunca
será capaz de imaginar que por trás dessa simplicidade há um
garoto extremamente rico. Acho que ela não imaginava que ele
poderia ter uma Lamborghini. Os carros aqui não são tão
sofisticados. A maioria dos moradores tem picapes, caminhonetes,
Jeeps. Uma Lamborghini é, no mínimo, exótica e chamativa o
bastante.
— Pode seguir, Henrico. Não vamos ficar parados vendo
Samuel namorar. Logo ele nos alcança.
Seguimos viagem e ele nem nota que já passamos da saída
da cidade há alguns minutos. Simplesmente deixarei que ele leve
até onde for capaz. Felizmente, sou boa em lê-lo, saberei caso ele
esteja chegando ao limite.
Henrico ficaquente e gostoso dirigindo. Tudo bem que isso é
uma atividade "normal", mas ele fazparecer sexy. Me pego vidrada
nas mãos dele em torno do volante. É normal sentir tesão
observando mãos?
Que baboseira! Só de Henrico respirar minha calcinha vira a
própria cachoeira do sítio.
Ele dirige por incríveis 4 horas, até fazermos a primeira
parada.
— Uau, Sophie! — ele exclama ao estacionar o carro. — Foi
a vez que mais dirigi.
— Eu disse que você era capaz. Pode ser assustador dirigir
com aquele trânsito horrível do Rio de Janeiro, mas creio que em
São Roque e em estradas, será muito mais descomplicado para
você. Poderá dirigir com maior frequência.
— Sophie, é você — diz, olhando para frente, sem coragem
de me encarar.
— Eu?
— Eu... eu só consegui porque você estava comigo. — Não
vou chorar! — Quando você está comigo, sinto que não há nada
que eu não seja capaz de fazer. Você pode ficar comigo para
sempre?
— É tudo o que mais desejo nessa vida. E eu digo isso do
fundodo meu coração, do fundo da minha alma. Ficar ao seu lado é
tudo que eu mais desejo na vida, Henrico. Sempre foi.Quando você
está comigo, é quando me sinto mais viva.
— Sophie, eu não sei explicar todas as coisas que sinto por
você, ok? É muito complexo — fala, apertando o volante.
— Não preciso de qualquer explicação. Só fica comigo para
sempre, ok? Para sempre!
— Ok. — Sorrio e retiro as mãos dele do volante.
— Respire. Não fique tenso. Vamos comer algo bem
gostoso? Estou com fome.— Ele balança a cabeça positivamente e
descemos do carro.
Samuel e Luiz Miguel logo se juntam a nós. E sou eu quem
dirijo o resto do trajeto.
É noite quando chegamos na casa do tio Lucca, mas Henrico
não parece feliz com isso.
— Chegamos, companheiro de viagem! — digo, sorrindo e
retirando o meu cinto.
— Você não vai descer?
— Meus pais estão esperando por mim e por Luiz Miguel —
explico. — Mas amanhã eu venho roubar alguns beijos. Sou uma
viciada. — Ele segura meu rosto entre as mãos e me beija
delicadamente.
— Eu te amo, Sophie.
— Eu também te amo, menino mais bonito. Ao infinito e além
dele. — Sorrio quando vejo sua relutância em me deixar. Mas ele
faz. Ele desce, pega a mochila no banco de trás e se vai.

Quando chego em casa, saio correndo para os braços da


minha mãe.
— Minha princesinha! — ela diz, radiante, e meu pai se junta
ao abraço. Por obra do destino, Luiz Miguel surge logo em seguida
e damos um abraço de sanduíche,os quatro. — Meus passarinhos
voltaram para o ninho! Um dia vocês terão filhose entenderão o que
significaum momento como esse, agora apenas fiquemaqui, com a
mamãe.
Depois de dias de pura agitação, esse abraço é
reconfortante. A calmaria de estar sob a proteção dos meus pais e
ao lado do meu irmão é bem-vinda!
— AHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!! — O grito da minha mãe
ao me ver é estridente. Faz com que eu cubra automaticamente os
ouvidos. — Me desculpa por gritar, estou tão feliz! — ela diz, me
puxando para um abraço e enchendo meu rosto de beijos. Ela
sempre faz isso, é um pouco estranho, mas não consigo impedi-la.
— Meu parceiro de crime! — Meu pai surge, sorridente, e me
puxa dos braços dela.
Estou nervoso. Não sei se consigo ficar longe de Sophie
agora. Iria viajar sem ela, mas, provavelmente, teria desistido no
meio do caminho. Agora que ela se foi, me sinto claustrofóbico.Ela
não está ao meu alcance.
Meus pais se afastam e eu pego o elástico em meu bolso.
Não me importo com a maneira como eles estão me observando
agora.
— Está tudo bem, filho? — minha mãe pergunta.
— Acho que sim. — Ela sorri, mas sei que sabe que há algo
de errado comigo. Não tenho como dizer a ela. Eu preciso me
esforçar. Minha mãe está com saudades de mim.
— Ok. Que tal jantarmos?
— Olha quem chegou! — A voz da minha irmã preenche o
ambiente e eu quase reviro os meus olhos ao vê-la. Ela vem me
abraçar, mas não consigo retribuir. Ela é estranha. — Eu senti sua
falta,pequeno príncipe.Não quero que vá embora. Não há qualquer
pessoa para eu atormentar agora.
— Por que gosta de me atormentar? — pergunto.
— Porque é divertido — ela responde, rindo. — Não vai me
abraçar?
— Não.
— Mas você abraça Sophie e sei que agora ela é sua
namorada — minha irmã argumenta.
— Mas você é estranha. Sophie não é estranha.
— Ok, Henrico, peça desculpas a sua irmã, agora — minha
mãe ordena. — Não deve chamá-la de estranha!
— Yaya, me desculpe. Mas só estou pedindo desculpa
porque a nossa mãe ordenou. Não me sinto arrependido por nada.
— Eu te desculpo. Sei que me ama — minha irmã fala,
sorrindo, e me dá um beijo molhado na bochecha.
— Isso é nojento! — esbravejo e vou ao banheiro lavar meu
rosto e minhas mãos.
Nós jantamos conversando sobre São Roque, mas, quando
estamos comendo a sobremesa, o assunto muda para Sophie.
— E então, filho, como está sendo namorar? — minha mãe
indaga.
— Estranho — confesso.
— Por que estranho?
— Eu amo Sophie e ela é a minha melhor amiga. Eu me
mantinha um pouco distante porque sentia reações, agora não
tenho como me manter distante mais, porque ela é a minha
namorada. Eu tenho que sentir reações perto dela, é um pouco
desconcertante. — Minha mãe sorri com a resposta.
— Reações seria ficarexcitado? — Yasmin pergunta, para a
minha surpresa.
— Eu não posso falar isso com você.
— Pode sim, sou sua irmã. — Yasmin é estranha. Ela é mais
nova, mas parece mais velha. Eu acho isso muito estranho, ela é
muito adulta. — Vamos lá!
— Acho que sim — digo baixo.
— Vocês já transaram? — pergunta, animada com a temática
do momento.
— Você sabe o que é transar? — questiono e minha irmã
começa a rir.
— Filho, Yasmin namora com Thomaz há quase quatro anos.
Ela e ele têm relações sexuais — minha mãe explica e meu pai faz
um som de desagrado.
— Para minha tristeza, é claro — ele comenta.
— Mas ela só tem 17 anos — argumento.
— Eu estou aqui — minha irmã diz. — E sim, eu tenho 17
anos e não faz muito tempo que tenho relações. Poucos meses —
me explica. — É normal, Henrico. Não tem uma idade certa para
isso.
— Faz sentido, porque em uma das pesquisas que fiz, diz
que as garotas costumam perder a virgindade aos 17 anos de idade
— argumento. — Menos Sophie.
— Você tem 22, Sophie 21. Hein? — minha irmã diz
sugestivamente.
— Eu ainda não me sinto confortável, principalmente para
falar sobre isso com você.
— Tudo bem. Eu sou sua irmã. Se quiser conversar sobre
isso, basta me chamar. Quero ser sua amiga. — A vejo limpar
lágrimas dos olhos antes de nos deixar.
— Por que ela está chorando?
— Filho, Yasmin é sua irmã e você a ignora bastante. Seu
namoro com Sophie foi o assunto que ela encontrou para se
aproximar. Se você está mesmo se esforçandopara sair da zona de
conforto, acho que deveria deixá-la fazer mais parte da sua vida.
Você, melhor que todos nós, sabe como é ruim se sentir um pouco
excluído.Todos sempre fizeram o possível para te incluir em tudo,
por que não retribui ao menos à sua irmã? Yaya te ama. Não vamos
forçá-loa nada, é só uma dica — minha mãe diz. — Agora me diga,
quais os seus planos? Vamos para Ilha amanhã!
— Mas... eu iria embora amanhã ou depois.
— Passe o final de semana na Ilha e depois vá, por favor!
Estou com saudades e nem conversamos direito sobre todas as
mudanças. Por telefone não tem graça — minha mãe suspira. —
Victor e Melinda também vão. Provavelmente, Sophie vai querer ir.
O que acha?
— Aí eu posso ir — respondo e meus pais riem.
— Vem, vamos para a sala. Quero saber tudo sobre você e
Sophie! — Ela sai me puxando para a sala e nos acomodamos no
sofá. Pareço estar sendo entrevistado pelos meus próprios pais. —
Me conte tudo!
— Eu disse a ela que eu a amo como namorada. Ela disse
que me ama também. Nos beijamos. No começo foi estranho. Quer
dizer, foi bom, mas estranho. O segundo beijo foi diferente, teve
língua. E então, apenas fica diferente cada vez mais. Parece mais
intenso e me sinto desesperado.
— Interessante — meu pai fala, sorrindo.
— Isso é normal, não é? — pergunto, receoso.
— É claro que é. O primeiro a gente vai com medo, mas logo
em seguida parecemos ter nascido para beijar e só vai melhorando,
vai ficando mais intenso. Está tudo certo — ele me tranquiliza.
— Eu não posso dizer tudo. Sophie e eu temos regras. Nossa
intimidade é apenas nossa, ninguém pode saber — explico para
eles. — Mas tenho dúvidas.
— Oh, sim. Entendo o que Sophie quis dizer e ela está certa.
A intimidade de um casal deve ser mantida em segredo. Não seria
legal contar para as pessoas sobre a sua intimidade com Sophie,
apenas coisas bobas. Quando digo intimidade, quero dizer sobre a
relação sexual dos dois. Isso deve ser mantido apenas para vocês,
mesmo que talvez não tenha acontecido ainda. Todo o processo até
chegar a esse ponto deve ser mantido apenas entre vocês — meu
pai diz. — Mas, sobre dúvidas, eu e sua mãe estamos sempre aqui.
Você pode tirar dúvidas sobre sexo, só deve resguardar Soso,
porque precisa protegê-la sempre. Sabe que pode nos procurar
sempre, não sabe?
— Eu sei. Eu protejo Sophie, pai. Sempre vou protegê-la.
Mas entendo que algumas descobertas serão apenas nossas e que
não há nada ou qualquer pessoa que possa nos ajudar.
— Sabe, é exatamente isso, filho — minha mãe comenta. —
Não temos um manual para seguir, tampouco as pesquisas podem
ajudar muito. De certa forma, até podem, mas apenas na teoria. Na
prática é tudo muito diferente, é uma descoberta sua e de Soso, e
vai acontecer naturalmente, mesmo que agora pareça assustador
para você. O mais difícil você já fez.
— O quê? Eu não fiz nada ainda.
— Dar o primeiro passo. Você fezisso. Deu o primeiro passo
— explica, sorrindo. — Ter atitude de dar o primeiro passo é uma
das coisas mais difíceisda vida, filho. Não apenas tratando-se de
namoro, mas em tudo na vida. O primeiro passo é tanto o mais
difícil,quanto o mais importante. Ele pode não te levar diretamente
aonde quer chegar, mas ao menos ele te impulsiona a seguir
adiante. No seu caso, ele te tirou da zona de conforto, então tudo
será mais fácil, por mais que não seja capaz de enxergar agora.
Você já se declarou para Sophie, já a beijou, é só continuar
caminhando, entende?
— Sobre base, nós estamos em qual? — meu pai pergunta,
sorrindo. É algo meu e dele, um assunto de garotos. Minha mãe
certamente não entende, porque está nos olhando de uma maneira
estranha.
— Segunda base.
— Ok. Estão indo muito bem em poucos dias, não? Segunda
base é excelente!
— Eu me sinto sofrendo um tipo de tortura nessa base —
confesso.
— Mas é uma tortura gostosa, não é mesmo? — Sorrio
timidamente. Não quero mesmo revelar que essa tortura é muito
gostosa e que em breve irei ver os seios de Sophie.
— Estou um pouco perdida nessa conversa agora. Devo me
manter perdida?
— Deve, mamãe. — Ela sorri com a minha resposta.
— Bom, tudo bem então. Estou muito feliz por você estar
aqui, filho. Muito feliz mesmo.
— Também estou, mãe. Mas eu quero voltar logo para São
Roque e morar com Sophie. Me desculpe. — Eu me sinto mal por
ser muito sincero às vezes. Mas, o que posso fazer? Não consigo
ser controlado ou mentir.
— O que você não sabe é que estou realmente feliz, filho.
Não importa que vá viver um pouco longe, o que importa é que você
está feliz e viverá com a garota dos seus sonhos. Isso me deixa
radiante, principalmente porque e eu e seu pai criamos um garoto
incrível,cheio de valores. Sabemos que você está pronto para dar
esse passo tão grande.
Ficamos conversando um pouco mais e depois resolvemos
dormir. Porém, não consigo dormir. Fico andando de um lado para o
outro, cheio de pensamentos fervilhando em minha mente. De
repente, todas as conversas íntimas que eu e Sophie tivemos nos
últimos dias começam a se embaralhar em minha mente. Esfrego
meu rosto, tentando acalmar a confusão, mas não resolve o
bastante. Dois dias dormindo com ela e eu me tornei um
dependente disso. Não pode ser assim. Sophie me deixa duro o
tempo inteiro e deveríamosdormir separados, mas como fazerisso
se só o fato de pensar em passar uma noite longe dela já é
extremamente ruim?
Uma hora da manhã desisto de ficarandando e resolvo ir até
a cozinha beber água. Parece que não sou o único acordado. Yaya
está sentada na sala, rindo, enquanto digita coisas no celular e
assiste série.
— Ei! — ela diz ao me ver. — Não consegue dormir?
— Não. Sinto falta de Sophie.
— Ownnnnn, isso é fofo, irmãozinho! Que tal mandar
mensagens para ela? Sei que não gosta de celular, mas você pode
fazer uma chamada de vídeo. Eu e Thomaz estamos conversando
pelo celular. Você pode fazerisso também. — Balanço a cabeça em
compreensão e fico dividido. Eu e Yaya não temos muitos
momentos juntos. Eu sou o irmão mais velho e, na maioria das
vezes, pareço infinitamente mais novo que ela.
— Acho que posso esperar até amanhã. Você quer ser minha
amiga? — pergunto a ela. — Nós podemos assistir um filme, se
você quiser. Isso iria me distrair. Acho que vou sentir sua falta
quando eu estiver morando em São Roque. Sei que não sou um
irmão legal, mas é que... você é muito diferente de mim e eu me
sinto um pouco perdido com isso. Me desculpe por ser ruim. É só
que você sempre foi tão espontânea, amorosa, perfeita, e eu
sempre fui o seu oposto. Me sentia envergonhado com as crises,
porque isso mostrava que, mesmo sendo irmãos, éramos
completamente opostos. Você e Samuel eram compatíveis e eu
sentia muito por não ser como vocês — confesso.— Você não tinha
crises, você podia estudar em colégios normais, você tinha muitos
amigos e podia fazerprogramas normais. Eu sempre atrapalhei. Por
minha culpa você tinha que frequentar apenas os lugares onde
havia o mínimo de acessibilidade e onde eu poderia me sentir
incluído. Sentia culpa, medo e... acho que nunca falei tanto antes.
Não gosto de falar muito, mas estou falando agora. Você pode me
perdoar?
— De tudo isso que acabou de falar, sabe o que é mais
bonito?
— Não há nada bonito, Yasmin.
— Há sim. Você disse SENTIA. Isso significaque talvez você
não sinta mais. Não há nada a ser perdoado e você NUNCA ME
ATRAPALHOU em nada. — Ela sorri e me puxa para o sofá. — Eu
quem deveria ficarcheia de paranoias. Você sempre foi melhor que
eu em tudo, Henrico. Mas isso nunca importou antes, nem vai
importar agora. Eu quero ser sua amiga, na verdade, eu sempre fui,
faltava apenas você se esforçar para enxergar isso. Eu te amo,
irmãozinho mais velho. Estou tão feliz que desliguei na cara de
Thomaz! Que série vamos assistir? Tenho uma em mente.
— Qual?
— Sex Education.
— Educação sexual? É sério? — pergunto, achando
engraçado.
— Sim! Vamos, vamos, vamos!
— Tudo bem. Espero que seja boa, irmã mais nova. — Ela
me dá um beijo na bochecha e começamos a assistir. Não demora
muito para ela estar com a cabeça deitada em minhas pernas. Eu
tento me acostumar e ela sorri, percebendo meu desconforto.Mas,
ao invés de se afastar, ela simplesmente segura minha mão e a
beija carinhosamente.
— Ei, você é o melhor irmão do mundo e eu te amo!
— Nunca fui, mas posso tentar ser. Eu nunca disse, mas te
amo também, Yaya. Você é linda e eu não gosto do seu namorado.
— Ela franze a testa e, logo em seguida, começa a gargalhar. Não
entendo, por isso me mantenho quieto. Não há graça. Eu não gosto
dele. Mas, tudo bem...
Yaya foi para Búzios com o namorado logo de manhã. Eu
fiquei com meus pais, arrumando meu computador e algumas
coisas que levarei para São Roque.
Acho que eu nunca havia prestado atenção no namoro da
minha irmã, costumava ignorar tudo que dizia respeito a ela. Agora
há muita curiosidade sobre isso e, enquanto meu pai dirige rumo a
Búzios, eu decido perguntar.
— Mãe, pode me falar mais sobre o namoro de Yaya? —
peço.
— Claro, o que quer saber? Tudo?
— Acho que sim — respondo.
— É um pouco parecido com a sua relação com Sophie.
Thomaz e Yasmin estudaram na mesma escola a vida toda. Ele é
irmão de uma amiga dela. Ele foio primeiro garoto que ela gostou, e
ela foi a primeira garota que ele gostou. Tornaram-se muito amigos,
foram se apaixonando, deram o primeiro beijo juntos. Foi aos 13
anos, e eles decidiram que iriam namorar — ela comenta, sorrindo.
— Era fofo,ele sempre faziacartinhas, dava flores;na verdade, ele
ainda faz isso. No início,achei que seria só coisa de momento, mas,
como você pode ver, eles nunca se largaram. Eles têm feito todas
as descobertas da vida juntos, como você e Soso. São cheios de
primeiras vezes. Thomaz é um garoto incrível, com uma família
ainda mais incrível. Ele tem 18 anos, é divertido, espirituoso,
carinhoso, estudioso, determinado. Acho que deveria tentar ser
amigo dele.
— Você gosta dele, pai?
— Como sua mãe disse, o garoto é incrível. Eu brinco que
não gosto, mas o tenho como um filho. Confio nele, tanto que
entrego minha filha aos cuidados dele. Sei que ele a respeita e que
ela está segura com ele. Os pais dele são advogados, como eu e
sua mãe, somos amigos. — Aceno em compreensão e coloco meu
fone.
Quando chegamos em Búzios, vamos de lancha até a Ilha.
Após deixar minha mochila no quarto, vou em busca de Sophie. A
encontro na área externa, cantando no karaokê e dançando com tia
Melinda e Yasmin, enquanto tio Victor e Thomaz estão na área da
churrasqueira.
Fico escondido, observando a cena. Sempre soube que
Sophie era louca, mas ainda consigo me surpreender. Ela cria
coreografias, joga os cabelos, canta como se estivesse dando um
show, até muda a voz na hora do refrão.
"Tá rocheda, tô nem vendo
Pode crê, você merece um prêmio
De mulher mais bandida do mundo
O coração que é vagabundo, vagabundo
De mulher mais bandida do mundo
O coração que é vagabundo, vagabundo"
— Estou muito bandida hoje! Só vem... — ela grita e tio Victor
a encara. — Desculpa, papai — diz no microfone.— Vamos de funk
agora! — Sophie deixa o microfone, coloca uma música esquisita e
começa a dançar.
"Se você fica cansada
Você desce e para um pouco
Kika uma vez
Kika de novo"
Ela cria os primeiros passos e tia Melinda a segue,
juntamente com a minha irmã. Mas eu não foco em tia Melinda ou
Yasmin. Meu foco é Sophie e eu não consigo desviar o olhar. Ela
está rebolando devagar, de uma maneira bastante erótica, que
remete a alguns filmes educativos que já vi. Eu faço um esforço
enorme para ignorar o que a visão me causa, mas é inútil. Quanto
mais ela dança, mais percebo que não há como fugir das reações.
Sophie parece gostar de provocar, de usar a sensualidade natural
que possui. Não é um problema, mas é.
Não sei namorar com Sophie. É extremamente difícilser
namorado dela quando ela está dançando de biquíni.
— Bota com raiva, com emoção! — ela grita e tio Victor a
encara uma última vez antes de sair correndo atrás dela com um
chinelo na mão. É engraçado, principalmente porque em cinco
segundos ele estará de joelhos pela filha.
Sem me ver, ela vem correndo para o local onde estou e
acaba batendo em meu peitoral.
— Oh, meu Deus! Isso que eu chamo de um forteimpacto! —
diz, gargalhando.
— Sophie! — A voz de tio Victor surge. Ela cobre minha boca
com a mão e sai me empurrando para dentro de um banheiro. Ela
nos tranca dentro do ambiente e faz sua carinha de anjo.
— Ei, namorado.
— Ei.
— Acho que deveria ficarmais à vontade, sem essa camisa.
— Suas mãos fazem o trabalho de retirar a minha camisa e deixar
sobre a pia. A observo morder o lábio inferior enquanto olha para o
meu peitoral e apenas não compreendo suas ações.
— Sophie, você bebeu?
— Suco de laranja e água de coco, apenas — explica. — Por
quê?
— Você está um pouco agitada. Estava te observando. Por
que está me olhando assim?
— Podemos dormir em um dos chalés essa noite? — pede,
sem responder a minha pergunta. Não sei se é uma boa ideia,
porém senti falta dela ontem à noite. Senti falta de acordar com ela
ao meu lado, mesmo que o processo até dormir seja um pouco
torturante.
— Acho que podemos sim, se o tio Victor deixar.
— Oh, nada disso, menino mais bonito. Nada de ir pedir ao
meu pai, ok? Embora eu ache que ele não vá se importar, não quero
ficarpedindo coisas sobre algo que diz respeito a nós dois. Somos
adultos, maiores de idade — explica, brincando com o cordão em
meu pescoço. — Quero te beijar, mas não confio em mim mesma
agora.
— Por quê?
— Porque... porque eu estou um pouco agitada hoje, como
pôde perceber. — Fico observando os olhos dela, tentando decifrar
o significado das palavras que acabou de dizer. Me sinto agitado
desde o momento em que a vi dançando, então é um alívio saber
que ela não vai me beijar agora.
— Eu vou dormir — aviso.
— O quê? Agora? Por que não fica na piscina comigo?
— Eu passei grande parte da noite assistindo TV com Yasmin
e depois não dormi bem. Preciso dormir algumas horas, isso vai
ajudar.
— Vai ajudar o quê?
— Não posso dizer, Sophie. Apenas preciso dormir —
argumento.
— Posso ir com você?
— NÃO! Quer dizer, acho melhor não. Acho que podemos
esperar até a noite para fazer isso. — Sophie começa a rir, segura o
meu rosto e me enche de beijos no nariz, na testa, nas bochechas.
— Eu entendi tudo — diz, sorridente. — Quando acordar
estarei esperando por você. Aliás, Yaya está feliz por ter se
aproximado de você, e eu estou feliz também.
— Ainda é um pouco estranho. Mas prometi me esforçar,
Sophie.
— Ok, bom, então é isso... — fala, se afastando e abrindo a
porta. Eu quase respiro aliviado, mas ela simplesmente se vira e me
beija.
Minhas mãos deslizam pela cintura nua e as mãos dela ficam
fixadasem meu pescoço. Os beijos da segunda base são realmente
calorosos. Sinto vontade de abraçá-la e grudá-la mais ao meu
corpo, mas opto por manter minhas mãos na cintura dela e ficarem
uma distância segura. Quando nos afastamos, estou atordoado o
bastante, dividido entre deixá-la ir ou mantê-la aqui.
Dando um sorriso, ela se aproxima do meu ouvido e eu fecho
meus olhos ao sentir uma mordida em minha orelha. Isso me deixa
ainda mais excitado e eu não fazia ideia de que uma mordida na
orelha teria esse efeito.
— 1.200 guindastes não serão suficientes! — ela sussurra,
enquanto desliza uma mão pelo meu peitoral. — Até mais tarde,
bebecito.

Após tomar um banho frio e ligar o ar-condicionado, me


acomodo em minha cama.
A saída da zona de conforto é um pouco assustadora,
principalmente quando me pego pensando no futuro. Eu não tenho
me permitido viver muito o presente, porque estou constantemente
pensando no que vem a seguir, e isso não é algo bom. Ativa
gatilhos, principalmente relacionados à ansiedade. Minha psicóloga
— devido ao fato de eu viver me autossabotando — me ensinou
algumas práticas para controlar a mente e evitar crises. Eu começo
a exercitar isso por sentir necessidade.
Quando eu era mais jovem e me encontrava em situações
que ativam diretamente a minha ansiedade, eu reagia a isso de uma
maneira muito ruim, destruindo tudo o que estava em minha direção
e ao meu alcance. Atualmente, tento controlar as minhas emoções.
Não é simples e nem sempre eu consigo, mas posso dizer que é
sempre a minha primeira opção.
A primeira coisa que faço é respirar fundo repetidas vezes,
focando toda a minha atenção na entrada e na saída de ar. Após
fazer esse exercício, começo a observar todos os meus
pensamentos para poder então chegar na origem do que está
causando tanta confusão.Inicialmente, é frustrante e dá vontade de
desistir, mas persisto. Conforme vou amadurecendo, vou buscando
informações e tudo vai deixando de ser pesado demais.
Meus pensamentos giram em torno de Sophie. É óbvio.
Perceber isso é um avanço, embora pareça que não. A diferençaé
a seguinte: antes eu estava apenas pensando, agora eu estou
percebendo meus pensamentos e isso ajuda a detectar se eles
estão me fazendo bem ou mal.
Grande parte de mim ainda duvida da minha capacidade de
dar um passo a mais com Sophie, e é nisso que preciso focar.
Preciso deixar de duvidar, preciso substituir os pensamentos
negativos por pensamentos mais otimistas. Está tudo certo. Sou um
homem jovem, saudável, que sente desejo e que tem uma
namorada extremamente bonita. Ela é tão inexperiente quanto eu,
então não há nada a temer, principalmente porque vamos aprender
tudo juntos. Eu preciso dela, ela precisa de mim. É aqui que nos
tornamos iguais. As diferenças deixaram de existir no momento em
que descobri que Sophie esteve esperando por mim uma vida
inteira, assim como eu estive esperando por ela. Se somos iguais
em nossa relação, eu preciso vencer o medo, principalmente
quando a minha namorada parece corajosa o bastante. Não quero
que sejamos diferentes e que eu deixe o medo ser maior que a
minha coragem.
Agora já sei que preciso expulsar o medo, e preciso pensar
que eu e ela estamos em uma fase de descobertas e que é preciso
deixar acontecer. Fugir da realidade torna tudo fantasioso, e a
fantasia não me serve mais. Ela foi boa durante um longo período,
mas, desde que dei um passo, beijei Sophie e nos tornamos
namorados, viver apenas em um universo fantasioso não é válido.
Viu como é bom pensar e perceber os pensamentos? Eu já
consegui identificar o que quero, o que não quero e aonde quero
chegar;tudo isso em poucos minutos, o que mostra que o exercício
de controle mental é extremamente válido e eficaz.Em questão de
minutos, o peso que estava em minha mente desapareceu e estou
satisfeito por ter conseguido sem ajuda de remédios ou sem crises
que, provavelmente, assustariam a minha namorada.
Uma vez que a mente está menos turbulenta, consigo
descansar. Não menti quando disse que não dormi bem, mas esse
fato serviu como desculpa para eu me isolar um pouco e fugir da
intensidade que Sophie possui. Ela parece um furacão,mas decido
que essa comparação não é algo divertido. Um estudo realizado por
pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos,
mostrou e afirmou que furacões com nomes de mulheres matam
mais pessoas que aqueles com nomes masculinos, porque
costumam ser levados menos "a sério" e, consequentemente, há
menos preparação para enfrentá-los. De qualquer forma, eu levo
Sophie muito a sério, e enfrentá-la requer muita preparação. Talvez
ela seja responsável pela minha morte. Meu pai diz isso sobre a
minha mãe e deve fazer sentido.
Quando acordo, vou direto comer algo e sigo em busca de
Sophie.
Ela está na área externa, conversando com Yasmin e
Thomaz, que estão deitados em uma rede. Apenas foco no decote
do top que ela está usando e todo o restante deixa de existir.
— Ei, namorado! — ela diz, vindo até mim.
— Ei, Sophie. Seus seios parecem lindos, imagino que seus
mamilos sejam rosados — falo, sorrindo.
— Uma tarde inteira dormindo te fez bem. Estou animada
agora!
— Animada para? — pergunto.
— Dormir com você, bem entre aspas. Bom, venha, vamos
ficar com Yaya e Thomaz. Eles passaram na nossa frente e já
ficaram confortáveis. alvez
T possamos entrevistá-los.
— Entrevistá-los?
— Sim, vem comigo. — A sigo e ela me joga na outra rede. É
preciso pensar rápido para acompanhar Sophie. Mal me ajeitei na
rede e ela está se acomodando em cima de mim. Isso não é muito
bom. Mas é. Ela pega minhas mãos e coloca pouco acima de sua
barriga, na parte desnuda. Eu tento focar em qualquer outra coisa,
já que ela está praticamente sentada sobre o meu órgão, sobre o
meu pau. — Então, Henrico chegou! Já podem me contar tudo
sobre a primeira vez de vocês. Sem esconder nada.
— Não sei se quero ouvir isso. Não gosto de Thomaz, e
Yasmin é a minha irmã. Eu me sinto ciumento, mesmo achando ela
estranha.
— Pare de me chamar de estranha. Você prometeu —
Yasmin me repreende, rindo. — Por que não gosta de Thomaz?
Você sempre o evitou, nunca conversou com ele para saber que ele
é o garoto mais incrível do mundo.
— Eu não gosto dele porque não o conheço e não sentia
vontade de conhecê-lo.
— Mas agora sente? — Yasmin pergunta.
— Não sei dizer. Talvez seja interessante.
— Eu gosto de você, mesmo você não gostando de mim — o
namorado da minha irmã diz. — Bom, vou contar do início,Sophie.
Yasmin estudava na sala da minha irmã, eram melhores amigas e
estavam constantemente juntas, de forma que acabei me tornando
amigo dela. Ficamos amigos até o dia em que sofri bullying na
escola e ela me defendeu. Por eu ser negro, sempre houve muito
preconceito. Não aceitavam que meus pais tinham condições de
pagar o meu estudo e o estudo da minha irmã naquele colégio.
Havia um garoto que era apaixonado por Yasmin e me odiava por
ser amigo dela. Um dia, ele se revoltou e jogou dezenas de
xingamentos e palavras preconceituosas sobre mim. Yasmin o
chutou diretamente nas bolas e me roubou um beijo diante da
escola inteira.
— Que lindaaaa, minha menininha! — Sophie exclama,
enquanto observo Thomaz. Ele sofreu bullying, como eu sofri. Por
motivo diferente, mas é algo que temos em comum e eu não sabia.
— E como você ficou em meio ao bullying? Deve ter sido doloroso.
— Meus pais sempre passaram muita segurança a mim e a
minha irmã, sempre nos fizeram sentir orgulho da nossa raça, da
nossa cor. Eu não me senti mal por mim, mas me senti mal por
aquele garoto. Eu tive um sentimento parecido com pena. Não me
senti ofendido. Teria me sentido se ele ofendessea minha irmã, mas
ele não fez — Thomaz explica. — Enfim. Eu nunca havia beijado,
Yasmin também não. Nosso primeiro beijo foi um pouco bizarro,
com uma plateia gigante em torno de nós e um garoto caído no
chão, se contorcendo de dor — comenta, rindo. — Desde esse dia
começamos a nos beijar com frequência,nos tornamos namorados
e quero me casar com ela assim que me formar na faculdade.
— Isso é tão romântico e fofo. E a foda?
— Sophie! — Yasmin exclama, gargalhando, enquanto eu me
encontro completamente em choque com a palavra escolhida pela
minha namorada.
— Me desculpe. Não foi isso que eu quis dizer — Sophie se
desculpa, mas sei que não está arrependida.
— Eu falo essa parte. — Yasmin toma frente. — Bom, no
início nosso namoro era muito bobinho, bem bonitinho também.
Mas, com o passar do tempo, as coisas começaram a esquentar.
Mesmo assim nos controlávamos por medo. Fomos nos controlando
até tornar-se bastante difícil,então decidimos que iria acontecer.
Thomaz morre de vergonha disso, mas eu conversei sobre sexo
com os meus pais, expliquei que me sentia pronta e tudo mais. Meu
pai dramatizou no primeiro momento, óbvio. Minha mãe tomou
frente da situação e foi a minha melhor amiga e conselheira. Me
levou até a médica dela, onde obtive explicações mais detalhadas.
Meu pai demorou uma semana para aceitar que eu não era mais
uma princesinha inocente, mas, quando fez,foiemocionante. Ele foi
ao meu quarto uma certa noite e conversou tudo comigo sobre sexo,
mesmo minha mãe já tendo me dado o suporte. Mas ouvir por uma
perspectiva masculina foi bastante diferente, enriquecedor. Nossa
conversa foi bastante diferente, ele foi o meu melhor amigo e
confidente.Então... aconteceu. Foi romântico, não foibem uma foda
na primeira vez.
— Espero que eu e Henrico tenhamos uma fo... — Cubro a
boca de Sophie com a minha mão, antes que ela diga algo que me
traumatize. Acho que ela irá exigir muito de mim, preciso me
preparar para dar o melhor.
— Então vocês programaram o acontecimento? — pergunto.
— Sim, nós programamos e tivemos ajuda dos nossos pais.
Isso foi terrível, mas aconteceu — Thomaz responde, divertido. —
Eu também conversei com os meus pais, então eles se uniram a
Lucca e Paula. Eles nos deixaram passar um final de semana
sozinhos na casa de Ilha Grande. Não aconteceu no primeiro dia
porque estávamos tensos demais, mas aconteceu no segundo. Pior
eram as ligações.
— Oh, sim! Acordávamos diariamente com ligações dos
nossos pais. Quando eu revelei que aconteceu, meu pai desmaiou
— Yasmin conta e eu me pergunto aonde estava que não vi
absolutamente nada disso. Isso faz com que eu me sinta triste por
perceber que costumava ser bem mais limitado do que sou agora.
— E então... — Sophie diz assim que a liberto.
— O quê? Você quer os detalhes sórdidos? — Yasmin
pergunta.
— Não! Por favor, não! — imploro.
— Eu preciso saber! — Sophie insiste.
— Eu só vou dizer que foi incrível, muito incrível mesmo.
Pronto — minha irmã comenta, divertida. — Será incrível, Sophie,
tenho certeza. Não há nada a temer, ok? — Sinto o corpo de Sophie
tremer, denunciando um choro.
— Obrigada — Sophie agradece a eles. — Foi lindo saber de
tudo isso. Vocês dois são muito lindos.
— Não vai dizer nada, irmão mais velho? — Yaya provoca.
— Melhor não. Já recebi todas as informações que não
queria ter recebido de vocês — respondo. — Esclareço minhas
dúvidas com pesquisas, é menos traumático para mim.
— Essa é mesmo uma boa ideia. Acho que podemos fazer
isso essa noite — Sophie comenta.
— O quê? Você está falando sobre pesquisar ou se sentir
confortável? — pergunto.
— Eu topo qualquer parada. Acredite, o que você quiser, eu
quero. Eu me sinto como Atena, a deusa da sabedoria e da guerra,
pronta para a batalha e para fazer justiça com as minhas próprias
mãos.
— Misericórdia, Sophie! Eu espero que Henrico não tenha
entendido! — Yasmin diz, gargalhando.
— Eu realmente não entendi — confesso,um pouco perdido.
— Sophie anda muito espertinha, usando termos que sabe que só
consigo compreender de maneira literal. Ao que parece, há algo a
mais por trás do que acabou de falar. Vai me falar agora ou depois?
— Quer mesmo saber? Eu realmente tenho medo da sua
reação. Não quero que pense que não sou uma garota muito
angelical — Sophie argumenta.
— Quero saber.
— Ok, mas eu não posso explicar isso diante da minha
pricunhada e de Thomaz. É algo íntimo, sobre práticas manuais...
— Isso é sobre punheta? — pergunto, chocado.
— QUE DIABOS!!! — A voz de tio Victor surge e eu sinto a
extrema vontade de fugir.
Eu deveria correr, mas, ao invés de cuidar da minha
segurança, minha mente perdida decide que o melhor a ser feito é
rir. Uma gargalhada escapa de mim. Thomaz e Yasmin estão
praticamente chorando de rir, Henrico está sob tensão e eu
gargalhando na cara do perigo. Perfeito!
— Eu não ouvi essa merda! — meu pai esbraveja e, quanto
mais ele abre sua boca para dizer algo, mais gargalhadas saem de
mim. Talvez esteja aplicando aquela expressão "rindo de nervoso".
Desço da rede e percebo que Henrico está prestes a dizer
algo. O impeço antes que sua sinceridade nos foda. Levo uma mão
sobre a boca dele e o puxo, fazendo com que fique de pé.
— Papai, não entendo sobre leis, nunca tive interesse, como
o senhor bem sabe. Não sei dizer se aqui no Brasil é assim, mas sei
que a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante
que nenhum cidadão pode ser obrigado a testemunhar contra si
mesmo, em qualquer caso criminal.
— O que você não sabe é que uma vez que opta pelo uso da
Quinta Emenda, o seu silêncio poderá ser usado contra si mesma e
esse direito atualmente é bastante relativo. Algumas cortes anulam
esse benefício, dependendo da situação — meu pai me explica.
— Eu acabo de ter um pré-orgasmo observando o meu
marido todo no modo advogado. — Minha mãe surge, o abraçando.
— Pré-orgasmo é a única coisa que terá essa noite, Melinda.
Você sabe que Sophie é sua filha, não sabe?
— Perfeitamente, por isso ela é tão maravilhosa e tem o
narizinho igual ao meu — ela responde, sorridente.
— Nada disso. Significa que é por esse motivo que quando
você me implorava por mais filhos, eu sempre mudava sua mente,
por medo de vir outra Melinda. Essa menina, logo quando nasceu, já
deu os primeiros sinais de que a minha vida não seria fácil.Ainda no
hospital eu soube que estava fodido, porque ela era muito
Melindinha e isso simbolizava PROBLEMAS!
— Nem era. Sophie era uma cópia idêntica sua. Demorou
bastante para ela começar a ficar parecida comigo — minha mãe
argumenta.
— Fisicamente demorou mesmo, mas de resto? Quando ela
completou 2 anos comecei a rezar mais forte e tem sido assim a
vida inteira — meu pai fala. — Agora ela e o namorado ficam
falando de punheta na minha cara. — Henrico retira minha mão de
sua boca e eu começo a temer.
— Tio Victor, eu posso explicar.
— Não, não e não, Henrico! Não acho que deva explicar —
impeço meu namorado.
— E você, Yasmin, não pense que eu não estou te
observando. Sou seu tio dindo! — meu pai adverte e ele está
mesmo sério.
— Tio dindo, sou inocente de todas as acusações — a cara
de pau diz.
— Pai, fala sério, Yasmin tem 17 anos e já...
— Não termine a frase.
— Ela já... — Minha mãe é quem cobre a minha boca agora.
Acho que esse ato está virando um costume.
— Para a minha infelicidade, minha filha cravou um punhal no
meu peito meses atrás. — Tio Lucca se junta a nós. — Deserdada,
onde você vai dormir com esse moleque? — ele pergunta à Yaya.
— Em um dos chalés, não decidimos ainda. Vamos deixar
você e mamãe namorar em paz — ela justifica.
— Nossa! — tio Lucca exclama. — Essa menina é muito
bem-intencionada. Vejam só, ela vai se isolar em um chalé com o
namorado apenas para deixar eu e Paula namorarmos em paz. Que
filha encantadora! Não é à toa que dizem que o inferno está repleto
de boas intenções. Eu devo agradecer aos dois? — Eu quero rir da
cara deles. Deus, estou com uma inveja desesperadora da minha
prima, que vai sentar no namorado a noite inteira. — E você, Sophie
Albuquerque, fique atenta. Se o seu pai é padrinho da minha filha,
eu sou o seu padrinho.
— Estou quieta, tio Lucca. Não está vendo? — me defendo.
— Mas se for pensar de acordo com os interesses do meu
filho... acho que buguei. Fico perdido, devo incentivar ou tentar
boicotar essa noite? Há meu filho e minha afilhada nessa situação
— tio Lucca comenta.
— Meu Deus! Nunca vi duas pessoas mais dramáticas! Ainda
bem que meu sogro não está aqui para se juntar aos dois. Chega de
drama, Victor Albuquerque, e você também Lucca. Vocês não
faziamsexo quando eram mais jovens não, né? E você, Victor, nem
vou dar spoiler a Thomaz e a Henrico sobre o início da nossa
relação. — Eu amo muito a minha mãezinha! Até a puxo para um
abraço carinhoso.
— Vocês também passarão a noite em algum chalé, Sophie e
Henrico? — Yasmin pergunta, rindo. Ela é muito filha da puta, mas
estou morrendo de inveja.
— Uhum... — respondo, soltando minha mãe.
— O quê, Sophie? Eu entendi direito? — meu pai pergunta.
— Eu tenho 21 anos de idade, Yasmin tem 17. Obrigada, de
nada! Eu e Henrico combinamos de fazer pesquisas essa noite.
— Eu não vou pesquisar sobre sexo com você, Sophie! Não
combinamos nada disso. — Oh, merda! Isso deve ser uma
provação!
O que salva é que todos começam a gargalhar quando meu
pai cobre os ouvidos com as mãos.
— É sua culpa, Melinda! — ele exclama e sai andando.
Eu vou atrás dele, porque doutor Victor pode ser bastante
dramático às vezes. Sinto que ele precisa de um momento comigo.
Meu bebê é muito protetor e apegado.
— Eiiii, papai! — digo, saltando nas costas dele e abraçando
seu pescoço. Ele segura minhas pernas e me leva para dentro de
casa de cavalinho.
Quando chegamos na sala, ele me solta e eu simplesmente o
abraço o mais apertado que consigo.
— Te amo muito, amor da minha vida. — Quebro o silêncio
após alguns minutos. — Você é e sempre será o meu super-herói, o
homem que eu mais amo na vida. Tudo bem? — Ele balança a
cabeça em compreensão e sei que está chorando. — Te amo,
papai. Sei que deve ser difícilver sua princesinha crescer, mas
sabia que tenho muito orgulho de mim? Fui moldada por você e pela
mamãe. Sou maluquinha, mas sou incrível, rica de qualidades e
caráter, sou amorosa, sou muito você e sou a mamãe também. Luiz
Miguel é a mesma coisa, e tudo isso é mérito da educação que
recebemos de vocês. Você e mamãe são os melhores pais, os meus
melhores amigos, a minha base, o meu orgulho — declaro. — Mas
entendo você ser ciumento e sentir um pouco o impacto de ter uma
filha crescendo. Acho que é mais difícilquando se trata da sua
princesinha, não é mesmo? Talvez você sinta que está perdendo o
seu lugar, mas não está. Eu amo Henrico com toda a minha alma,
mas de uma maneira completamente diferente do amor que sinto
por você. Eu te amo, papai, te amo muito e para sempre. Mesmo
quando eu estiver velhinha, serei a sua princesinha. Nunca vou
abandoná-lo, nunca vou substituí-lo. E, se quer saber, ainda não
aconteceu nada entre Henrico e eu. Quando acontecer, você será o
primeiro a saber, mesmo que talvez não faça questão.
— Eu faço— afirma, se afastando, e segura meu rosto entre
suas mãos. É por isso que peguei a mania de sempre fazer isso
com Henrico, desde pequenina. — Estou ciumento, mas estou feliz.
O drama fazparte de mim, está incluso no pacote de fazervocê rir.
Confio em você, na criação que eu e sua mãe maluca te demos.
Não conte a ela, mas se você fosse apenas 10% do que Melinda é,
já seria a garota mais incríveldo mundo, e você é muito mais que
10%. Você é um espelho da minha esposa, e ela é fantástica,forte,
determinada, inteligente, generosa, linda pra caralho e tem o
narizinho empinado como o seu. Se você soubesse tudo o que ela
passou e quão forte ela foi para enfrentar... Melinda é uma
princesinha da Disney que teve que manter o castelo de pé sozinha
por um período. E você é filha dela.
— Eu realmente escutei isso. — Minha mãe nos abraça,
chorando. — Eu te amo tanto, sugar daddy.
— Aooo, Melinda, não diga esse apelido na frente da nossa
filha! — Sorrio, emocionada.
— Eu precisei manter o castelo, mas chegou um momento
em que não podia mais fazerisso sozinha, e eu contei com a ajuda
de um príncipe que jurava não ser um bom rapaz — ela diz,
sorrindo, enquanto lágrimas escorrem de seus olhos. — Agora
temos dois lindos filhos e eu sou a mulher mais feliz e mais
realizada do mundo. Acho que fizemos um bom trabalho, sugar
daddy. Nossa filha está bem encaminhada e vai dormir com o
namorado essa noite. Você sabe, dormimos juntos também. Em
minha casa e na casa da Ilha... A segunda noite lá na Ilha foi sob
tensão... Senhor da glória!
— Acabou com o momento, Melinda! Péssima comparação!
— meu pai diz e nós duas começamos a rir. — Tem ideia das
merdas que eu pensava dormindo com você? Agora vou pagar os
pecados todos da vida. Henrico deve ter os mesmos pensamentos,
merda! Não me lembre da segunda noite na Ilha, por gentileza. Não
ouça sua mãe, filha.Ela não sabe o que diz nesse momento. E nem
pergunte sobre o que aconteceu, ok? Pelo amor da Santa Josefina!
— Pode deixar, papai. Não perguntarei nem sob tortura —
respondo, rindo. — Podemos jantar agora? Estou com fome!
— Acho ótimo!

Todos foram dormir, exceto eu, Sophie, minha irmã e


Thomaz.
Estamos deitados em espreguiçadeiras de frente para a
piscina. Apagamos todas as luzes da casa e estamos sendo
iluminados apenas pelas estrelas e pela lua. Sophie, eu e Samuel
sempre fizemos isso desde novinhos, na companhia dos meus pais.
A vida inteira gostei de observar o céu, principalmente
durante a noite. Penso que há muitos mistérios escondidos nele e,
como sou um aficionado por descobertas, um dos meus
passatempos preferidos é pesquisar sobre o sistema solar.
Há algo sobre ficarolhando para o céu e para as estrelas que
me acalma. A cada vez que façoisso, é como se tivesse uma força
maior capaz de mudar meus pensamentos, acalmar minhas
confusõesinternas. Quando me perco olhando as estrelas, sinto-me
fechado dentro de uma bolha, onde só há eu e elas, porém, hoje
estou dividindo essa bolha com mais três pessoas e não está ruim.
— Você acha que existem outras civilizações como a nossa
no Universo? — Sophie pergunta após um longo momento de
silêncio.
— Essa é uma pergunta que muitos pesquisadores fazem,e
uma das mais intrigantes também — respondo, mexendo nos
cabelos dela. — Existem milhares de pesquisas sobre isso, mas
nunca chegaram a uma conclusão. Porém, recentemente, uma
pesquisa elaborada por pesquisadores da Universidade de
Nottingham, sugeriu que mais de 30 civilizações com vida inteligente
podem existir. Eles usaram um método considerando a teoria
evolutiva, em escala cósmica.
— Isso é muito confuso para a minha mente — Sophie
comenta, sorrindo. — Mas é interessante pensar que, neste mesmo
momento, pode haver vida em outros planetas. Qual a maior estrela
existente no mundo?
— VY Canis Majoris. Ela ficaa 5 mil anos-luz da Terra e tem
2,9 bilhões de quilômetros de diâmetro, porte 1.800 a 2.100 vezes
maior que o do Sol.
— Uau! Conseguimos vê-la?
— Infelizmente, não. Ela está morrendo e despejando parte
de sua massa em uma nebulosa[3] que encobre nossa visão. Não
podemos vê-la.
— Ei, pessoal, vamos dormir — Yasmin avisa, ligando uma
lanterna. — Nos vemos amanhã.
— Boa noite, Yaya. Boa noite, Thomaz. Tenham uma boa
noite de não sono — Sophie diz, rindo, e Yasmin vem, do nada, me
dar um beijo molhado no rosto.
— Que nojo! — falo, me limpando.
— Também te amo, irmão mais velho! — Yaya diz.
— Boa noite, pessoal. Foi bom estar com vocês hoje —
Thomaz se despede, pegando minha irmã nos braços.
— A noite é muito linda aqui, bem diferente da cidade, mas
em São Roque deve ser ainda mais bonito ficarna escuridão. Aqui
há muitas casas em outras ilhas. Lá em São Roque é tudo mais
isolado. Poderíamos acampar uma noite, o que acha? — Sophie
sugere.
— Eu gostei da ideia. O máximo que já acampei foi aqui na
Ilha. Sophie, você é mais bonita que todas essas estrelas e a lua. —
Minha garota sorri e beija a minha bochecha. Não é nojento, como
quando Yaya faz.
— Vamos para o chalé? Está esfriando um pouco. Eu amo
você, menino mais bonito do mundo. — Deixo um beijo delicado em
seus lábios e me levanto.
Sophie pega a mochila que separamos com nossas roupas,
coloca e se joga em minhas costas. Ela gosta que eu a carregue e
eu gosto de carregá-la. Suas pernas se envolvem em torno de
minha cintura e seus braços em torno do meu pescoço. Ligo a
lanterna e seguimos rumo ao chalé. É uma pequena viagem, já que
ele fica afastado da casa principal, mas não demoramos muito a
chegar.
Sophie desce das minhas costas e entra animada.
— Vou trocar de roupa e volto — aviso a ela.
— Ok, namorado. Também irei trocar. Você troca no banheiro,
eu troco no quarto.
Eu quero sorrir agora. Sophie é um pouco safadinha, mas
sempre ficaum pouco tensa quando estamos apenas nós dois. Ela
é muito mais corajosa que eu, mas é bom perceber que também
sente receio. Não estou sozinho nessa. Minha namorada diz
palavras sujas, me toca quando estou dormindo, mas, quando
acordo, sua coragem vacila um pouco. É encantadora. Estou
sempre em estado de alerta, aguardando por uma ação louca. Há
uma enorme vantagem em conhecê-la tão bem. Sempre tenho a
certeza de que ela vai aprontar. E ela apronta.
Eu acabo de me trocar, volto ao quarto e ela está encostada
em uma parede, com os cabelos presos em um coque, bebendo o
que eu acredito ser água, vestindo uma calcinha e uma camiseta
curta. É possível ver nos olhos dela a ousadia e o medo,
caminhando juntos.
Se ela pudesse ler os meus olhos, eu nem sei... Eles agora
estão incontroláveis, deslizando por cada detalhe do corpo da minha
namorada. Todas essas tatuagens delicadas, todas as curvas...
Uau! Sophie é demais para mim, tanto que volto a me sentir perdido.
Não sei como agir. Porém, meu corpo parece saber. Desde que
reencontrei Sophie, tenho passado parte dos dias excitado e duro. É
horrível estar constantemente duro, constantemente descontrolado.
Sim, eu não consigo controlar muito essas reações, isso me deixa
um pouco frustrado e até mesmo envergonhado. Agora mesmo
estou ligeiramente envergonhado e um pouco desesperado. Sophie
irá dormir comigo, ela vai me beijar, vai se aproximar e vai perceber
que estou duro. É louco que minutos atrás tudo parecia muito calmo
e meu pau estava sob controle. Em uma fração de segundo tudo
muda.
— Eu posso explicar. Não foi proposital — ela diz, colocando
a caneca em uma mesinha. — Eu juro por Deus! Sei que sou
provocadora, mas dessa vez não foi de caso pensado. — É
verdade. Ela não vestiu isso para me provocar, embora eu saiba que
ela deseja isso. Sei quando Sophie está mentindo. — Esqueci o
meu shortinho de dormir. Esqueci também a minha escova de dente.
Se você não se sentir confortável...quer dizer... eu não posso usar
essa expressão. Se você não...
— Sophie, está tudo bem. Você é a minha namorada — a
tranquilizo. — Você é muito gostosa.
— Oh, merda! Você acha?
— Eu não entendo muito quando chamam uma mulher de
gostosa, mas acho que você se encaixa nisso. Acho que é muito
mais gostosa que todos os meus doces preferidos, e eu sinto
vontade de lamber você.
— Puta merda! Filtro, hein?! — ela diz, rindo.
— Eu acho que deveria apenas me calar. Tenho tendências a
dizer tudo o que penso e talvez isso não seja bom agora.
— Eu gosto de ouvir todas as verdades nuas e cruas que
saem da sua boca perfeita, namorado.
— Você gosta mesmo? — me certifico.
— Gostar é muito pouco. Eu amo de montão. Que tal dormir
de cueca? — sugere.
— Seria extremamente desrespeitoso, acredite em mim.
— Nossa, é um enorme desrespeito mesmo. Parabéns! —
ela fala, olhando para minha calça de moletom, e eu percebo o
motivo. Pego uma almofada na cama e tento esconder as
evidências. Isso faz Sophie gargalhar
.
Ela pega o controle da TV, a liga e apaga as luzes. Enquanto
ela se deita, eu permaneço de pé, sentindo um maldito nervosismo
se instalar.
— Se eu for aí te buscar
, irei tirar sua calça, bebecito.
Começo a pensar em Samuel, mesmo sabendo que isso é
um pouco estranho e ridículo. Samuel certamente tiraria a calça e
ficariade cueca. Cueca é como sunga, Sophie já me viu de sunga.
É isso. Eu não sou uma criança, não sou uma criança, não sou!
Tenho 22 anos de idade. Não pode ser tão difícilvencer esse medo.
Sophie quer que eu fique de cueca, nós somos namorados,
namorados são íntimos.
Deixo a almofada de lado, retiro a minha calça e minha
namorada solta um som íntimo.
— Misericórdia!!! Henrico Davi! Nem se eu subir a escadaria
da Penha de joelhos poderei agradecer a bênção de ter um
namorado do seu porte. Você é gostoso num grauuuu! Sério, já
desisti dos guindastes a essa altura do campeonato. Não há nada
bebecito aí agora. Tira a cueca, por gentileza. Deve ser lindo...
Santa Josefina, eu nunca quis tanto ver algo. — Estou rindo do quão
rápido ela está falando todas as asneiras que eu nem estou
conseguindo entender. — Quer ver os meus seios? Eu te mostro,
você me mostra. Podemos fazer essa troca justa.
— Trocar o quê?
— Nada! Ok, venha para a cama, namorado. Tentarei manter
a nossa pureza. — Eu vou para a cama e Sophie ficacaladinha. Ela
é uma princesa.
— Agora estou tímida.
— Não fique. Vamos fazero quê? Quer assistir algo que não
seja filme de sexo?
— Pode ser qualquer coisa. Não vamos assistir direito
mesmo — comenta desinteressada.
— Por quê?
— Namorados só assistem uns 10 minutos de série, depois
começam os beijos e umas pegadas. Depois que a pegação
começa, a TV só serve para iluminar um pouco. Vi isso em filmes—
explica e percebo que é verdade.
Coloco uma série qualquer e em poucos minutos sou eu
quem a puxo para um beijo. Beijar deitado é ruim. Ficamos um
pouco sem posição e tentamos encontrar uma maneira de fazer ficar
bom. Deixo todo o medo de lado e me movo, ficando entre as
pernas de Sophie. Não é agradável. Tenho que me manter distante
para ela não sentir minha reação, não posso tocá-la, porque é
necessário ficar com os braços apoiados. Não é uma posição
satisfatória quando é voltada apenas para beijos. Sophie percebe,
me empurra e simplesmente me monta.
— Estou chorando por todos os lados agora! — ela
choraminga, mas estou assustado o bastante por ela estar sentada
diretamente em meu pau. Ela se move e sou obrigado a contê-la. É
extremamente bom, e é bem diferentede tudo que já senti antes. —
É normal, amor...
— Eu sei.
— Quer que eu saia?
— Não, Sophie. É bom... — confessotimidamente. — Mas é
uma sensação nova. Você tem um piercing, não vai machucá-la?
— Acho que não. Ele é muito delicado e pequeno, está
escondidinho. — Eu preciso ver. — Se machucar, eu aviso. Ei,
menino mais bonito, não vamos ficar confortáveis agora. Só
estamos nos conhecendo. Também estou com medo.
— Não tenha medo. É idiota eu dizer isso quando estou com
medo, mas não quero que você sinta isso. Eu amo muito você,
saberei o que fazer, saberei cuidar de você no momento... eu
prometo. Sempre cuidei de você, a vida toda.
— Você é perfeito. — Ela dá um sorriso enquanto lágrimas
escorrem de seus olhos. — Eu confio em você, sou sua por
completo. Esperei a vida toda para ter o melhor garoto do mundo.
Deus, você está pulsando, hein?!
Necessitando calar a boca dela, a puxo para um beijo. Tudo
começa a fluir naturalmente. Como andar de bicicleta... Meu pai
disse que seria assim, ele não mentiu. Minhas mãos relaxam e o
corpo de Sophie começa a se mover sobre o meu, fazendo nós dois
ofegarmos e buscarmos o ar juntos. Minhas mãos iniciam uma
aventura arriscada. Toco a cintura de Sophie e então arrisco a tocar
a bunda. Ela gosta, os sons revelam isso. Testo um aperto mais
forte e o som de Sophie fica mais alto.
— Você gosta disso? — pergunto.
— Muito. Está difícil controlar agora...
— Está difícilpara mim também. Mas não temos pressa, não
é mesmo?
— Não temos. Eu prefiro mais forte.
— Percebi. — Sorrio antes de voltar a beijá-la.
Deslizo minhas mãos pelas costas dela, por baixo da blusa.
Todo seu corpo se arrepia com meu toque.
— Preciso te preparar para algo... — ela diz, afastando
nossos lábios.
— O quê? — pergunto.
— Eu terei um orgasmo. — Engulo em seco ao ouvir as
palavras. — Apenas deixe acontecer... não se assuste ou pare, tudo
bem? — Balanço a cabeça em concordância. O impacto agora foi
grande. Sophie terá um orgasmo.
Porra! Sophie terá um orgasmo!
Uma pesquisa feita com 1.370 mulheres, disse que apenas
35% das mulheres têm um orgasmo durante o sexo. 74% delas
alegaram que só têm orgasmos na masturbação. E isso não importa
agora. Sophie não está se masturbando e terá um orgasmo. Ou
esfregar o corpo no meu conta como masturbação? Eu preciso
pesquisar, mas agora não. Talvez eu goze ao vê-la gozar. Não está
muito fácil tê-la roçando em meu pau, por sorte me masturbo o
bastante para conseguir ter uma boa durabilidade. Eu pondero
parar, mas estou curioso o bastante. Quero vê-la tendo um
orgasmo.
Não posso ter todos esses pensamentos agora, por isso a
beijo, precisando expulsá-los da mente. Me afasto apenas para
colocar mais um travesseiro abaixo da minha cabeça e ficar um
pouco mais inclinado para frente,e volto a beijá-la. Beijar Sophie é a
melhor coisa que já fiz na vida, mas quero ver os seios dela. Há
pesquisas sobre orgasmos ao receber beijos nos seios. Eu quero
testar.
— Sophie, eu posso retirar sua camiseta? — peço e a maluca
arranca a camiseta de uma só vez. Minha boca se abre e fecha
inúmeras vezes e me sinto patético observando os seios de Sophie.
Se apenas com a claridade da TV eles já ficamincríveis,com a luz
acesa devem ser a perfeição. Me estico para pegar o controle que
liga a luz, mas minha namorada impede.
— Estou com vergonha.
— Por quê?
— Porque... porque eu nunca fiquei nua com um garoto. —
Eu compreendo.
— Tudo bem. Não se envergonhe, ok? Eu entendo você. —
Ela balança a cabeça positivamente, e agora sim sua carinha de
anjo está de volta. É verdadeira dessa vez. — Você é linda, seus
seios são lindos, seus mamilos são mesmo rosadinhos, mesmo
dando para ver muito pouco.
— Ok, Henrico, é agora que furo um buraco no chão e me
enterro dentro dele?
— Não. — Sorrio. — Me desculpe pela sinceridade. Você
envergonhada é inédito e engraçado. Cadê a garota provocadora e
corajosa?
— Não ria de mim e não conte a ninguém que sou uma farsa
— pede, me abraçando. — Era você quem deveria estar assim, não
eu. Por que está tão corajoso?
— Porque eu quero você e estou vencendo muitos medos
agora, mesmo que eu não esteja falandodeles. Se lembra da minha
primeira viagem de avião?
— Sim.
— Quem estava ao meu lado, segurando a minha mão? —
pergunto.
— Eu.
— É em todos esses momentos que estou pensando. Todas
as vezes que foram necessárias, você estava de mãos dadas
comigo e eu consegui enfrentartodos os medos. Eu posso enfrentar
tudo. — Minha namorada começa a chorar de verdade e eu apenas
sorrio, enquanto sustento seu corpo. Adeus, orgasmo!
No fundo, somos dois adolescentes em fase de descobertas
e temendo dar um passo diferente.Eu gosto muito que esteja sendo
assim. Me faz perceber que não sou tão diferente. Eu e Sophie
somos iguais. Um tentando impulsionar o outro, quando os dois
estão completamente receosos e inseguros.
Eu consigo ligar essa situação ao passado. A única diferença
entre o nosso passado e o presente é que acabo de descobrir que
dessa vez terá que ser eu no controle.
Acordei e começo a não recomendar isso quando imagens da
noite passada invadem minha mente. Percebo que estou sem
camiseta, nua da cintura para cima, porém, coberta com o edredom.
Henrico não está na cama e, pela primeira vez, agradeço por isso. A
raiva que estou sentindo de mim faz com que eu role na cama e
deite de bruços, afogando a cabeça no travesseiro. Não acredito
que fizo que fiz.Meu Deus! Eu sou a garota dos guindastes e fugi
na primeira oportunidade de ir além com o meu namorado. A vida
toda acreditei que seria Henrico a recuar, que seria extremamente
difícil receber ações dele, e o oposto de tudo que acreditava
simplesmente aconteceu e eu recuei.
Nunca vou me perdoar. Santa Josefina, eu sou a garota
safadinha e pra frente. Ou talvez só acreditava ser. Agora estou
perdida. Eram só os seus seios, pelo amor de Deus, Sophie! Eu
queria vê-lo nu, queria que ele retirasse a cueca, mas não suportei a
ideia dele vendo e tocando os meus seios. Isso não faz o menor
sentido. O mais louco de tudo é que quero isso. Quero Henrico me
tocando, quero sexo com ele, muito mesmo. E simplesmente deixei
uma vergonha estúpida tomar conta de mim e chorei por incontáveis
minutos ontem à noite.
Agora minha única vergonha é de encarar o meu namorado.
Não me sinto confortávelcom essa situação, a timidez não me deixa
confortável.É por isso que pego toda a coragem que possuo e me
levanto em busca de Henrico. Sinto a extrema necessidade de
corrigir o que fiz ontem. Aquela não era eu. Era uma menina
assustada e medrosa.
O encontro na varandinha, observando o mar. Reúno toda
coragem, me aproximo e o abraço por trás. Sinto todo seu corpo se
retesar. Nunca posso esquecer que ele é o garoto "NÃO GOSTO
QUE ME TOQUE". Deixo um beijo em seu ombro e ele logo relaxa.
— Ei, namorado.
— Ei, bebecita. — Esse apelido me faz rir. Era ele o meu
bebezinho e não o contrário. Há um motivo pelo qual ele está me
chamando assim essa manhã, mas não quero perguntar ou
descobrir. Certamente deve ser pelo mesmo motivo que eu o chamo
de bebecito. — São os seus mamilos em minhas costas? —
Começamos o dia com a sinceridade que só ele possui.
— Sim, são.
— E você se sente bem com isso? — pergunta, trazendo as
mãos sobre as minhas de uma formaprotetora. Sei que ele quer me
passar segurança, e é bastante admirável.
— Sim. Estou bem.
— Se eu me virar de frente, você ficará bem? É dia, está
claro, eu poderei vê-la nitidamente. — Há algo bom nisso tudo.
Descobri ontem à noite que Henrico pode ser bastante safado em
situações "quentes". O que significa que "quem vê cara, não vê
fogo". Há um fogo natural nesse garoto, que se mantém escondido.
Aos poucos estou captando isso, e é realmente incrívelque ele seja
assim.
Ele é mesmo uma caixinha de surpresas e engana tão bem.
Mergulhar no universo dele é a melhor coisa que já fiz na vida. É
como se somente eu tivesse o privilégio de poder saber exatamente
quem e como, ele é.
— Acho que ficareibem. Na verdade, eu quero você, mesmo
que eu me perca na timidez em alguns momentos. Quero você,
tanto que sinto uma dor profunda por desejá-lo com tanta
intensidade. Só não sei como fazer isso, mas sei que vamos
descobrir juntos. — Me afasto dele e ele espera alguns longos
segundos antes de se virar de frente para mim.
Me surpreendo quando ele olha diretamente em meus olhos.
Há algo intenso na maneira como seu olhar se fixaao meu, é quase
hipnótico, e por um momento me esqueço de estar praticamente
nua. Isso é muito mais quente do que jamais imaginei que poderia
ser.
Eu observo seus olhos descerem lentamente até os meus
seios. Observo também seu pomo de adão subir e descer uma
única vez assim que seus olhos se fixam em meus seios. É tão
intenso, que por um momento sinto vontade de levar as mãos aos
meus seios e cobri-los. Mas não faço. Eu venço isso.
— Você é a menina mais bonita do mundo, você é linda.
Seus seios são os mais bonitos do mundo, Sophie. Eu amo os seus
mamilos — ele diz, completamente sério, e isso me faz rir. Ele
acaba de quebrar a minha tensão sem nem mesmo perceber. Não
existe no mundo qualquer pessoa que seja mais fofa que ele.
— Me desculpe por ontem à noite. — Seus olhos voltam aos
meus e ele quebra a distância entre nós. Fecho meus olhos quando
suas mãos tocam delicadamente o meu rosto.
— Uow, Sophie! Você não precisa me pedir desculpas por
nada. Sou o seu namorado. Você se envergonhou e está tudo bem
com isso. Eu respeito você.
— É por isso que eu estou me entregando a você. — Ele
desliza um polegar pelos meus lábios e solta um suspiro.
— Eu sei.
— Eu sou sua. Por completo. — Não consigo descrever o
impacto do beijo que Henrico me dá agora. Só sei que minhas
pernas vacilam por alguns segundos e que sou obrigada a segurar
nos braços dele. É diferente. Sempre tem sido diferente e cada vez
torna-se mais difícil explicar
.
Deixando seus braços, levo minhas mãos às costas dele e
arranho lentamente. Seu corpo se retesa e um som rouco escapa de
sua garganta. Ele está duro. Eu estou excitada. Nem sei como isso
começou, mas eu quero que ele me leve para a cama e me toque
de todas as maneiras possíveis. Não menti quando disse que o
desejo que sinto por ele dói.
O incrívelé que ele parece ler a minha mente e antes que eu
possa me dar conta, sinto a cama bater na parte posterior das
minhas pernas. Afastandomeus lábios dos lábios dele, me deito sob
seu olhar atento. Henrico me olha com tanta intensidade, que minha
pele queima. A tensão surge quando ele se ajoelha na cama e
caminha para se encaixar entre minhas pernas. Um misto de medo,
com vontade e vergonha, diminui quando sua boca volta à minha,
num beijo mais lento agora.
Quando o beijo termina, agarro a coberta abaixo de mim.
Henrico beija meu pescoço pela primeira vez e eu jamais imaginei
que esse ato pudesse causar um efeito tão gostoso. Um simples
beijo no pescoço é... uau! Mas quando ele desce para o meu ombro
direito, eu começo a tremer. Mordo meu lábio inferior enquanto
espero pelo que está por vir. Ele beija acima dos meus seios e eu
abro a boca, em choque, quando sinto sua língua deslizar no vão
entre eles. Sinto uma imensa vontade de gritar e perguntar aonde
ele aprendeu essa bênção, mas não faço. Não faço porque estou
chocada com sua língua descendo até a beira da minha calcinha.
Até mesmo estou com a cabeça levantada agora, apenas
observando.
QUE PORRA É ESSA, HENRICO?!
CONTINUE...
— SENHOR DA GLÓRIA! — exclamo quando suas mãos se
fechamem meus seios e os aperta forte. Definitivamente,gosto da
pegada forte, porque sinto minha amiga vagina contrair com essa
ousadia do meu namorado.
— Sophie, eu não sei se estou fazendoisso certo. Pode me
ajudar?
— O quê? Te ajudar? Te ajudar em quê?
— Você está se sentindo bem com as minhas ações? — Pior
de tudo é conversarmos enquanto suas mãos permanecem
fechadas em meus seios. Eu gostaria de fazer um milhão de
piadinhas sexuais agora, mas sei que o assustarei com meus
pensamentos insanos.
— Nós estamos em qual base?
— Segunda.
— Como seria a terceira base mesmo? — pergunto.
— É um pouco mais selvagem, acontece o sexo oral e a
masturbação.
— Super topo! Já tirei a blusa, posso tirar a calcinha. —
Henrico arregala os olhos e eu começo a rir. — Você é além de
perfeito, Henrico. Faz com que eu me sinta segura, cuidada e hoje
você parece diferente de como estava ontem à noite. Algo mudou,
mas ainda é cedo para eu conseguir identificar. De qualquer
maneira, o que posso dizer? Você está mais ativo, menos receoso,
eu amo a maneira como suas mãos estão em meus seios, isso
mostra que por trás do garoto doce há um homem mais selvagem,
que gosta de pegar forte em mim. Seus beijos estão parecendo
calculados. Você me beija forte quando quer me deixar excitada, e
me beija delicadamente quando percebe que estou tensa e que
precisa me acalmar, me seduzir. Talvez nem seja proposital e nem
mesmo perceba isso. Eu acho que é um dom natural. — Sorrio.
"Nessa manhã você está se aventurando em mim, sendo
corajoso, parece estar tomando as rédeas e está agindo como se
fosse experiente o bastante. Me encanta a maneira como está
vencendo todos os medos que sei que está sentindo, me encanta
como parece tão preocupado e tão disposto a me dar prazer, me
encanta a maneira como faz com que eu me entregue e me sinta
segura. Nunca tive qualquer experiência na vida para comparar,
mas eu juro por Deus, Henrico, que nem cabe em comparações.
Você precisa saber que eu nunca imaginei que esse envolvimento
poderia ser tão bom. Acreditava ser bom, com tudo que via em
filmes e todos os aprendizados teóricos. Porém, isso que você me
faz sentir vai muito além de todas as expectativas. A cada beijo, a
cada toque, eu percebo o quanto valeu a pena esperar todos esses
anos para ser amada por você. Eu te amo além da vida, além do
azul, além de todas as coisas. Você é o meu menino mais bonito do
mundo e o homem mais incrível."
— Sophie, eu quero ficar com você para sempre e quero te
dar muito prazer. Eu estudei e sei muitas coisas teóricas. Eu farei
com você. — Como ele pode ser tão fofo?Eu me apaixono um
pouco mais a cada segundo.
— O melhor pesquisador sobre sexo do mundo? Eu tenho! —
Ele sorri e olha para os meus seios com uma cara de safadinho. É
pra me matar mesmo! Quando pegarmos o embalo, ninguém mais
vai nos segurar, tenho certeza. Eu preciso preparar a minha vida
para uma quantidade louca de sexo, é isso!
Ele está vindo fazer novas descobertas quando o filho de
uma boa mãe, chamado Samuel, começa a gritar:
— Aoooooo, meu povo! A famíliaestá esperando para a
cerimônia do lençol! — Samuel grita.
— Ele não está fazendoisso! — exclamo, enquanto Henrico
corre para pegar uma roupa para mim. É fofo.
Tudo é fofo!
Eu me visto e abro a porta, revoltada.
— Me dê um motivo para não chutar a sua bunda nesse
momento! — esbravejo.
— Tenho alguns. Sou um pobre garoto abandonado pelos
amigos, minha mãe brigou comigo e vocês estão transando como
canibais ao invés de me dar apoio moral.
— Por que está comparando sexo com canibalismo? —
Henrico pergunta.
— Canibal é um ser humano comer o outro — Samuel
argumenta. — Costumamos chamar sexo de "comer", o que é um
pouco feio, dependendo do contexto. Não podemos falar isso para
qualquer garota, mas é legal quando você tem uma namorada e
uma certa intimidade. Você simplesmente pode chegar para ela e
dizer "quero te comer todinha hoje", ela certamente vai amar. Assim
como uma garota chegar e dizer "me come" é algo excelente.
Sucesso garantido. A maioria das garotas ficam excitadas. É doido
na hora do sexo "me come, desgraçado", você tem até que dar uma
segurada no amigão, porque senão ele faz besteirinha antes da
hora. — Deus do céu, perdoe Samuel, ele não sabe o que diz.
Ou talvez saiba.
— Eu não vou falar que quero comer Sophie. Eu como
alimentos, não a minha namorada.
— Só vem... — digo baixo. Se Henrico solta uma dessas, a
cachoeira de São Roque não vai chegar nem perto do estrago na
minha calcinha.
— Companheiro, companheiro, vem com o pai que vou te dar
umas dicas! — Samuel diz, o puxando.
— Olha, sinceramente? Não acho que Henrico precise de
mais dicas. Só a falta de filtro dele já fazum estrago que você não
tem ideia. É preciso muito controle psicológico para lidar com meu
namorado no modo falante e sincero. Agora, querido namorado,
lembre-se do filtro quando descermos. Lembre-se da nossa regra
sobre intimidade, tudo bem?
— Ok, Sophie. Você é linda demais — Henrico diz, me
oferecendo a mão e saindo do abraço de Samuel.
— As garotas gostam de umas palavras sujas na hora do
sexo — Samuel comenta enquanto andamos rumo à casa.
— Eu imagino seu repertório — comento, rindo.
— Palavras sujas. — Meu garoto "literal" deve estar perdido
nessa.
— Vou te ensinar, namorado. Não ouça Samuel agora. Bom
dia, família! — digo a todos os nossos familiares, que estão
sentados, tomando café da manhã.
Cumprimentamos a todos e nos acomodamos à mesa.
Preparo sanduíches para mim, para Henrico e para Samuel, e
começamos a comer.
— Sophie... — Henrico fala baixinho, quase sussurrando.
— Oi?
— Pode me dar um exemplo de palavra suja? — pede e eu
pressiono os lábios para não rir.
— Agora?
— Sim. Estou curioso e fico nervoso — explica. — Pode?
— Tudo bem. Vem aqui — digo, o puxando para mais perto e
me aproximo de seu ouvido. — Vou chupar seu pau todinho e sentar
nele até gozar. Quero que me foda forte... muito forte... Vou te dar
bem gostoso... — Henrico derruba um copo de iogurte em mim e sai
correndo da mesa.
— Que merda aconteceu?! — tia Paula pergunta,
visivelmente preocupada, e eu só consigo rir. — Ele está bem?
— Provavelmente — respondo, ficando de pé, coberta de
iogurte de morango. — Eu resolvo com ele. É algo... íntimo.
— Ah, puta que pariu mesmo! — meu pai esbraveja.
— Viram em que direção ele foi? — pergunto.
— Ele foi para o quarto, no segundo andar — tia Paula
responde e eu saio apressada. Preciso salvar meu príncipede todos
os pensamentos loucos que devem estar rondando a mente dele
agora.

"Vou chupar seu pau todinho e sentar nele até gozar. Quero
que me foda forte... muito forte... ou
V te dar bem gostoso..."
Essas palavras não saem da minha mente, não saem.
Palavras sujas. Sophie me disse como exemplos ou disse porque...
porque quis dizê-las? Isso é inapropriado e desrespeitoso, mas será
que ela gosta? Samuel diz que as garotas gostam, mas Sophie não
é "as garotas". Sophie é minha garota, e eu não sei se ela gosta
disso.
Não sou um canibal para dizer que vou comê-la. Usar essa
expressão parece repugnante. Eu não sei namorar, é isso. Não sei
ser como Samuel. Eu não posso falar essas palavras.
— Henrico? — A voz da minha namorada surge, mas eu não
quero que ela entre agora. Ela não pode me ver assim, tão
desorientado. Sophie disse que vai chupar o meu pau!
— Sophie, você disse aquelas coisas porque quer fazê-lasou
apenas para dar os exemplos que pedi? — pergunto para ela do
outro lado da porta.
— As duas coisas. Você queria exemplos, eu dei exemplos
do que eu diria a você em um momento de intimidade. O que há
demais nisso? Faz parte da intimidade e acredito que também vá
acontecer naturalmente. Você vê vídeos educativos, não vê?
— Sim.
— Nunca viu nenhum vídeo onde o casal fala esse tipo de
coisa?
— Eu nunca prestei muita atenção nas palavras — confesso.
— Na verdade, eu nunca ouço o som, porque uma vez coloquei em
um vídeo com muitos ruídos e não gostei.
— Ok, ouça, abra a porta. Nós podemos conversar sobre
isso, posso procurar um vídeo que não tenha muitos ruídos e te
mostrar. Podemos descobrir isso juntos. Não se isole ou tenha uma
crise por conta de palavras e de todas as descobertas. Pense que é
tudo novo para mim também e que estamos juntos na fase de
descobertas. Sou eu, Henrico, a sua Sophie. Não precisa ficar
nervoso, envergonhado. Não é desrespeitoso nem nada do tipo.
— Sophie, você vai continuar me amando se eu não disser
essas palavras?
— Eu vou seguir te amando não importa o que aconteça,
Henrico. Mas, se quer mesmo saber, você já disse algumas palavras
sujas, como "quero te lamber".
— Mas você quer que eu diga outras palavras sujas?
— Não façoquestão. — Caminho até a porta e abro. Sophie
entra toda suja de iogurte e com um sorriso no rosto. Ela é
completamente louca, mas absurdamente linda. — Ei, namorado.
Bom, sabe o que percebi? Temos passado muito tempo em meio a
uma tensão sexual. Acho que estamos precisando descansar a
mente um pouco. Podemos deixar a tensão sexual para os
momentos antes de dormir, ao menos por enquanto. Quer dizer,
óbvio que é APENAS POR ENQUANTO mesmo. Enfim, vamos
tentar distrair a mente durante o dia, fazer alguns programas
diferenciados.
— Talvez.
— Vou tomar banho, vestir um biquíni e vamos nos aventurar
pela praia, ok?
— Você de biquíni me faz querer ficar confortável —
confesso,me jogando na cama e cobrindo meu rosto com as mãos.
— Sophie, não sei se posso deixar de pensar em sexo. Ser o seu
namorado é extremamente difícil.É a coisa mais difícilda minha
vida. Eu amo seus seios e sua bunda. Agora que vi os seus
mamilos, eu realmente quero vê-los o tempo todo. Você de biquíni...
vou ficar imaginando seus mamilos e ficarei excitado. Todos vão
notar. Eu acho melhor ficar aqui, quieto.
— E assim disse o garoto que tem pavor de palavras sujas!
— Sophie geme e se joga ao meu lado. — Nós estamos com
problemas, menino mais bonito.
— Quais problemas?
— Estamos com excesso de desejo sexual — responde e eu
viro meu rosto para encontrar o dela.
— O que vamos fazer? — pergunto, atento.
— Só consigo pensar em uma coisa — ela declara,
suspirando.
— O quê?
— Pularmos para a terceira base.
Hiperfoco em sexo. Não preciso da minha terapeuta para
identificar essa questão.
Pessoas como eu, com síndrome de Asperger, tendem a se
concentrar em determinados tópicos quando se tornam um interesse
específico.Isso acaba fazendocom que o tema central acabe sendo
discutido dia e noite (mesmo que internamente, como está
acontecendo comigo). Durante toda a vida tive vários momentos
onde apenas um determinado assunto obtinha toda a minha atenção
e o meu interesse, e sempre foi um pouco difícilpara as pessoas
que têm que conviver diretamente comigo. Acabo me tornando
irritante e, sem querer, comprometo minhas relações sociais por
sentir a extrema necessidade de debater sobre as questões.
O hiperfocoda vez é o sexo, e o que me impede de falar 24
horas desse assunto é a regra que Sophie criou sobre a nossa
intimidade. Eu não estou debatendo sobre sexo, mas estou
pensando. O tempo todo. Isso me deixa nervoso, porque eu gostaria
de debater um pouco mais e gostaria de poder expor todas as novas
sensações que estou conhecendo.
Antes mesmo de iniciar uma relação com Sophie, esse tema
já vinha tomando parte da minha mente e houve muitos debates
com a minha terapeuta, com os meus pais. Demorei um longo
períodopara nutrir um interesse por relações sexuais, porém, desde
quando comecei, não consigo parar. Muitas das vezes sei que os
deixei constrangidos. Quando algo domina o meu interesse,
costumo debater de forma aberta, muitas das vezes imprópria e
inadequada. Não sou como a maioria das pessoas, que conseguem
tratar os assuntos escolhendo as palavras certas e uma maneira
menos agressiva. Falo o que surge em minha mente, sem andar em
círculos (como costumam dizer sobre pessoas que encobrem
determinados assuntos). Pessoas como eu são consideradas
notórias pelo fato de serem extremamente verdadeiras, isso parece
ser o certo. Ser verdadeiro é considerado uma característica
admirável, porém a minha tendência a ser francodemais muitas das
vezes pode deixar as pessoas chocadas, principalmente quando
envolve temas que são considerados tabus e não podem ser
debatidos tão abertamente. É difícilmanter os limites adequados e
controlados.
Desde que comecei com essa curiosidade, já debati sobre os
métodos contraceptivos, gravidez, uso de preservativo, orgasmo,
ejaculação, ejaculação involuntária (conhecida como polução
noturna), já debati sobre doenças sexualmente transmissíveis,
violência sexual, estupro... Eu me tornei um estudioso sobre as
regras sexuais, sobre o que um homem pode ou não fazercom uma
mulher. Mas viver isso é completamente diferente da teoria.
O mais difíciltem sido lidar com os impulsos sexuais. Eles
têm surgido muito ao longo do dia, frequentemente e em momentos
inapropriados. Estou tendo que me esforçar pelo autocontrole
quando sou impulsivo e hipersensível.
Minha terapeuta me deu dicas de como eu poderia abordar o
assunto sexo com Sophie, quando eu criasse coragem para dizer a
ela que a amo e caso ela aceitasse ser a minha namorada. Nós já
fizemosisso. Nos amamos e já somos namorados. Porém, tudo tem
sido diferente da maneira como imaginei que seria. Sophie não é
autista, mas ela parece estar "hiperfocada" em sexo tanto quanto
eu. Ela é quente; em alguns momentos se envergonha, mas em
outros ela parece ousada o bastante. Meus pais conversaram muito
comigo sobre respeitar uma garota, sobre não trazer tanto o assunto
sexual para uma possível relação amorosa, conversaram sobre eu
precisar ser mais delicado em minhas palavras. Mas... minha
namorada, talvez, não seja o tipo de garota que eles estavam
pensando que ela era. Com Sophie, sinto que posso simplesmente
ser eu mesmo, posso falar muito abertamente sem precisar ser tão
delicado em minhas palavras.
E, nas conversas com a minha terapeuta, os debates
seguiam como se ela estivesse falando para qualquer garoto autista.
As dicas foram preciosas, mas não me encaixo em nada daquilo.
Ela falava muito sobre consentimento, sobre limites emocionais e
mais uma série de fatores que eu precisava saber para lidar com
uma garota. Mas Sophie é uma garota sem limites e ela está
consentindo em tudo, e não há limites emocionais para nós, porque
eu sou dela e ela é completamente minha, ela confiaem mim tanto
quanto eu confionela, somos cúmplices e melhores amigos. Isso é
tão confuso. Eu sinto a necessidade de ter um tipo de tratamento
diferenciado para lidar com isso, porque agora eu não sou um
garoto autista querendo perder a virgindade com uma garota que
acabei de conhecer. É Sophie, a minha garota, a menina que eu
conheço desde a infância. Então tudo deve ser tratado com uma
outra perspectiva.
Nós decidimos ir para a terceira base quando chegarmos em
São Roque. É o nosso último dia aqui na Ilha e queremos um tempo
para poder explorar as possibilidades com calma. Decidimos juntos.
Eu gostaria de não debater com ela, mas é um pouco difícilnão
debater e parece importante. Já descobri sobre possíveis palavras
sujas, e sinto a necessidade de descobrir mais coisas sobre os
pensamentos e expectativas da minha namorada. Algo como me
preparar para o futuro. Isso faz parte da minha necessidade de
regras e sequências, onde posso estar completamente infiltrado
dentro de uma zona de conforto que me passe segurança. Mas
deixa de fazer sentido quando coloquei em minha mente que
deveria me arriscar e fugir de tudo que me protege de viver
.
Eu não sei o que estou fazendo,não sei o que dizer, não sei
o que de fatofazer. Mas sei que vou aprender. Vou aprender porque
eu quero Sophie de uma maneira que eu também não consigo
entender. Complexo, como sempre fui. Talvez eu precise pela
primeira vez parar de buscar respostas, focarem sentir e em deixar
acontecer.
Há muitas confusões. Mas, quando vejo Sophie correndo na
areia da praia, a minha mente parece se acalmar. Apenas a mente.
O meu corpo inteiro começa a queimar com a visão, pareço febril
apenas por vê-la. As temidas reações involuntárias.
— Perdido em Sophie? — Minha mãe surge, sorrindo.
— Ela é... eu não posso dizer.
— Sei o que quer dizer. Bom, você é um garoto de muita
sorte, filho. Você tem uma das garotas mais lindas que já vi. Ela te
ama desde que se entende por gente, te entende melhor que você
mesmo se entende, esperou por você todos esses anos.
— Ela tem um corpo muito bonito — comento, analisando. —
Ela é...
— Gostosa — minha mãe conclui e meu rosto queima de
vergonha. — Sophie é linda e toda sua. Veja só que incrível!Como
vocês estão? Está sendo legal namorar com Sophie?
— Está sendo muito bom, porém, difícil. É muito difícil
namorar com Sophie, mãe. Às vezes acho que não posso fazer isso,
porque é muito difícil mesmo.
— Difícil?— Minha mãe não compreende. — Você sabe que
pode se abrir comigo. Sou sua mãe e temos todos os segredos do
mundo.
— Estou com hiperfoco.
— Hiperfoco em Sophie?
— Não, mãe... — Ela fica pensando e então compreende.
— Oh! Eita! Ok! — Sorrio por vê-la sem palavras. — Ok. É...
bom... mas estão se entendendo ou você precisa de ajuda?
— Estamos nos entendendo, mãe. Até o momento estamos
indo bem. Bom, eu preciso ir conversar com o meu pai sobre os
construtores, ok?
— Vá! Vou para a praia com Melinda. Vamos nos juntar à sua
garota.
Eu e Samuel estamos há um tempo conversando sobre
banalidades. Só então me dou conta de que ele disse que estava
com problemas. Como ele acabou zoando o plantão, logo após ter
dito isso, acabei deixando passar.
— Ei, você sabe que essa sua tatuagem fazparecer que tem
um mamilo gigante? — pergunto, referindo-me a uma tatuagem que
ele tem em volta do mamilo direito. É engraçado.
— Você já me falou isso ao menos 50 vezes desde que a viu
— responde, rindo.
— Me conte sobre sua briga com a tia Dandara. — O sorriso
dele desaparece no mesmo instante.
— Ela não quer que eu me mude para São Roque. Ela quer
que eu permaneça no Rio, cursando a faculdade de forma
presencial, disse que a qualidade de ensino cai quando optamos
pelo ensino à distancia e que vou absorver muito mais frequentando
as aulas presenciais. Mas não concordo com ela. Tenho maior
facilidade em aprender estudando sozinho do que com as aulas
dadas pelos professores. Sempre foi assim.
— Eu a entendo. Ela está com a razão, por mais que seja
difícilpara você. Digo razão no sentido de se importar, entende? É
sua mãe, ela quer o melhor para você. Tia Dandara é super
apegada a você. Foi difícillidar com o meu pai também, mas ele só
foi maleável por entender a minha situação com Henrico e por eu
prometer retomar os estudos em breve.
— Acontece que eu vou mudar para São Roque. Nunca fiquei
mais de duas semanas sem ver o meu irmão. Não vou morar longe
de Henrico. — Sorrio, porque Samuel é a coisa mais lindinha desse
mundo. — Não ria, Sophie. Fomos criados juntos, eu não vou ficar
no Rio sem vocês e eu sei que posso ser bem-sucedido estudando
à distância. Tenho comprometimento, tenho maturidade quando
preciso ter. Acabei de conversar com o meu pai e ele confia em
mim, ele confia em minhas promessas e em minha vontade de ser
um advogado bem-sucedido.
— Não acho justo comparar seu pai com a sua mãe. Fica
parecendo que ela é a bruxa má e ele o super-herói.
— Não é isso. Minha mãe é a mulher mais foda do mundo,
Sophie. Eu a amo incondicionalmente, tenho orgulho dela, me
inspiro nela, mas eu preciso voar. Preciso poder fazero que quero,
só que ela quer me manter presa sob o braço.
— Eu acho que todas as mães são assim e acho também
que deve ser imensamente difícilter que abrir as asas e deixar os
filhos voarem. Enfim, minha mãe me ensinou desde pequena um
jeito especial de lidar com o meu pai. Sua mãe é extremamente
parecida com o meu pai. Enquanto ele é o Harvey Specter, sua mãe
é a Jessica Pearson. A diferença é que ela é juíza e a Jéssica
advogada — comento, rindo. — O que quero dizer é que é
necessário ter tato e táticas para lidar com os dois. Eles são muito
imponentes, impenetráveis, rigorosos, acho que a profissão deles
exige isso e algumas vezes acabam não conseguindo separar as
coisas. Eles podem ser maleáveis quando nos abrimos e quando
dialogamos. Para lidar com o meu pai ou sua mãe, requer muito
diálogo. Você precisa chegar para ela e se abrir, como se abriu
comigo, expor seus pensamentos, expor como se sente quando ela
tenta estar no controle de sua vida, precisa passar segurança a ela
de que suas ações estão sendo bem calculadas. Se você chegar e
só dizer: "mãe, quero mudar para São Roque e vou estudar à
distância", não vai resolver, Samuel. Temos que pensar que essas
mudanças não são novas apenas para nós, mas para eles também,
entende? Requer adaptação de ambas as partes.
— Ok, Sophie, quando foi que resolveu ser tão madura e
tratar as situações quase como uma psicóloga de pais?
— Eu não sei. — Sorrio. — É que todas essas mudanças que
estou passando estão me fazendo analisar mais as pessoas,
comportamentos e tudo mais. Eu consigo ver a relutância do meu
pai e o esforço absurdo que ele está fazendo para aceitar que eu
cresci e que preciso caminhar mais sozinha agora. Eu sinto um
pouco de tristeza por vê-lo assim, mas sinto orgulho também, ele
está se esforçando. Minha mãe também está sentida, mas ela é
bem mais leve que o meu pai, então ela está conduzindo mais de
maneira "lúdica", entende? Para ela, eu estou vivendo o meu sonho,
um conto de fadas. Ela não é o tipo de mulher que planeja o futuro,
ela é o tipo de mulher que vive intensamente o presente. O meu pai
já é mais categórico, mais analítico,metódico, calculista. De alguma
forma,os dois se encaixam muito bem e dá certo. Tudo o que posso
te dizer é que acaba não sendo muito fácilpara eles lidarem com o
fato de que estamos indo voar. Precisamos ter paciência para
compreendermos eles e para argumentarmos sobre nossas
vontades. Converse com ela novamente, ao invés de bater os pés
como um garoto mimado, ok? Você quer a independência e quer
voar, então precisa mostrar a ela que está pronto para isso. Batendo
seus pés e teimando, só mostra que é um garoto despreparado, e
sabemos que não é. Passe segurança a ela, Samuca.
— Uau, Sophie! Que porra te deu? De qualquer forma,
obrigado. Eu precisava ouvir isso. Agora eu já sei como agir com a
minha meritíssimamaravilhosíssimamãe. Agora me falesobre você
e meu irmão. Estou curioso.
— O que quer saber? Não transamos ainda. Estamos nos
conhecendo melhor. — Pressiono meus lábios para não entregar
sobre os avanços do meu namorado. — Henrico está diferente.
— Diferente como?
— Ele parece disposto a arriscar, parece disposto a enfrentar
situações onde não há nada sob controle. É curioso, visto que ele
sempre foifechadodentro do próprio universo, onde todas as coisas
sempre foram devidamente calculadas e ele se mantinha seguro de
mudanças. Eu gosto dessa versão e ele tem me surpreendido
bastante quando se mostra muito mais preparado que eu. Nunca
imaginei que Henrico estaria preparado para um passo tão
grandioso, entende? Quando nos imaginávamos juntos, eu acabava
só pensando em como seria difícile em como todos os passos
teriam que ser lentos. Se eu te contar que é ele quem está tendo
que ser um pouco paciente agora, você acreditaria?
— Não.
— Pois é exatamente o que está acontecendo. — Samuel
está me olhando um pouco chocado. É chocante mesmo,
principalmente para nós, que sabemos exatamente como Henrico
sempre conduziu as coisas. Estou feliz que esteja sendo
exatamente dessa maneira. Meu bebecito é o meu maior orgulho da
vida.
Ele se junta a nós, acompanhado de toda a família.
Passamos um dia incrível!

Quando chega a noite, repetimos o ritual de apagar as luzes


e observar as estrelas. Dessa vez, Samuel se junta a nós, mas não
cala a boca nem por um segundo.
— Aoooo, saudade da cremosa!
— Quem é a cremosa? — Yasmin questiona, rindo.
— Hadassa? — pergunto.
— Não. Hadassa arregaça demais. A mulher consegue ser
mais louca que eu. Estou assustado — ele responde.
— Quem é Hadassa? Nome diferente — Thomaz é quem
pergunta agora.
— Uma garota muito louca que foi mandada para São Roque
como castigo — Samuel explica, rindo. — Ela é bonita pra caralho
mesmo. É mais velha que eu, mais louca também. Eu a pedi em
casamento, ela relutou num primeiro momento, mas está na minha.
— Como assim ela foi mandada para São Roque? — Yaya
pergunta.
— O pai dela é fazendeiroe ela morava em Londres, estava
estudando. Parece que ela aloprou o bastante e o pai dela a enviou
de volta para São Roque. Ela odeia — Samuel conta, rindo. — O
pior é que ele acha que seria um castigo, mas a garota está sendo
muito vida louca made in roça. Ela derruba um cabra bebedor na
cachaça muito fácil. Além disso, ela está esperando eu voltar para
pegar meu carro emprestado. Ela tem a mesma paixão que eu,
também tem uma Lamborghini em Londres e está revoltada por
estar sem carro em São Roque. Enfim, é uma história muito louca.
— O pai dela não está em São Roque?
— Não. Ficou em Londres e a deixou sob os cuidados dos
caseiros. Eles devem ter em torno de uns 70 anos de idade, e a
maluca está dando uma rasteira nos dois. — Quanto mais Samuel
fala, mais eu percebo que fodeu. Se ele voltar a São Roque e se
juntar com essa garota, o caos vai se formar
.
— Você precisa ver como ela se veste — comento com Yaya,
sorrindo. — Extremamente chique, parece aquelas patricinhas de
filme, tem um glamour até para ir na padaria. Prada, Gucci, Armani,
Louboutin... são tantas coisas de grife, que eu fico um pouco
perdida. Mas, realmente, a mulher é linda.
— Thomazito, vamos passar uns dias em São Roque? Por
favor!Eu preciso ver meu irmão e essa garota juntos! — Yaya pede
a Thomaz e ele começa a rir.
— Nem fodendo! Eu tenho medo dela, é sério — Samuel diz,
rindo. — Thomaz, você não vai querer ir. Já estou louco para te dar
um tapa na orelha por fazercoisas inapropriadas com a minha irmã!
Ei, cara, não vai falar nada?! — pergunta a Henrico. É preciso ter
raciocínio rápido para lidar com Samuel. Ele é ligado no 220.
— Não estou com vontade de conversar agora — meu
namorado sincero responde e eu decido salvá-lo da loucura.
— Ei, vamos pro chalé? Amanhã viajaremos cedo — sugiro.
— Sim, Sophie.
— Aooo, trem que pula! — Dou um beliscão em Samuel e
todos começam a rir.
O que ninguém sabe é que eu e Henrico decidimos retomar
as coisas apenas quando chegarmos em São Roque. Então, no
quarto, apenas nos deitamos, assistimos um filme, trocamos alguns
beijos e dormimos abraçados.

A parte ruim acontece no dia seguinte, no momento de


voltarmos a São Roque.
Agora sim tudo parece real. Antes parecia que estava
vivendo um sonho, do qual iria acordar a qualquer momento. Mas,
por mais que estejamos indo viver a nossa felicidade,há um pouco
de tristeza por deixar as pessoas que amamos. Há meus pais e
meus tios, porém, de longe, a pessoa que mais está precisando ser
forte é tia Paula. Para ela, essa "despedida" tem um peso maior, e
eu estou surpresa com o quanto ela está lutando para que Henrico
não perceba que há uma devastação em seu interior agora. Tio
Lucca parece segurar a mão dela tão forte quanto é capaz, e isso é
tão bonito. Sei que assim que virarmos as costas, ela vai desabar
com força, e ele será fundamental para mantê-la de pé.
Ela está feliz por nós, mas está dilacerada por saber que
agora o filhonão estará mais ao seu alcance. Foram tantos anos ao
redor de Henrico, anos de preocupação, companheirismo,
acompanhando todas as fases e todas as dificuldades. Há um nó
em minha garganta enquanto a observo. Acho que não quero ser
mãe tão cedo. Requer um preparo emocional absurdo.
Querendo ou não, morei fora e os meus pais já estão um
pouco acostumados com a distância. Mesmo assim, há pesar neles,
em especial no meu pai. Ele sabe o que estou indo viver agora,
sabe que é diferente de uma breve mudança para os estudos.
— Amanhã o jatinho vai levar na cidade vizinha todas as
coisas de vocês. Já está tudo organizado. Luiz Miguel e Samuel vão
amanhã também. Contratamos um transporte que deve chegar por
volta das três da tarde na casa de Eva. — Ele é lindo tentando
ignorar o sofrimento e mostrando-se totalmente controlado.
— Ok, papai — digo, o encarando, e vejo as lágrimas
descerem livremente pelo seu rosto. Eu sabia que ele não
conseguiria ser tão inabalável. — Meu princeso! — falo e o abraço
forte.
— Eu te amo, princesinha da Disney dois. Seja feliz, minha
filha.
— Também te amo. Eu já sou a garota mais felizdo mundo.
Não chore, ok? Vamos nos falar todos os dias! Nada vai mudar. —
Ele balança a cabeça em compreensão e eu vou abraçar minha
mãe. — Mamãe, eu te amo do tamanho do Universo.
— Eu também te amo. Não se esqueça de me ligar todos os
dias e me contar todos os mínimos detalhes da pegação, ok? —
Isso me faz rir. — Prometa para mim que será a menina mais feliz
do mundo?
— Eu já sou. Te amo, princesona da Disney. Você é linda
demais, mamãe. Cuide do nosso bebezão.
— Farei isso. — Ela sorri e me dá um beijo demorado na
testa.
Tio Lucca se afasta um pouco com Henrico, para ter alguma
conversa. Aproveito e me aproximo de tia Paula.
— Não me faça chorar... — ela pede. — Eu não posso chorar
ou Henrico ficará extremamente abalado. Ele não aceita me ver
chorar, entende? Henrico vê o meu choro como um gatilho, e ele
está feliz o bastante.
— Entendo. — Por conta do pai biológico, Henrico
desenvolveu alguns gatilhos muito ruins. — Então eu não a farei
chorar, tia. Só vim dizer para ficartranquila. Henrico está indo viver
comigo, a pessoa que o conhece extremamente bem e que sabe
lidar com todas as questões sobre ele. Eu cuidarei dele com todo o
amor que possuo dentro de mim. Ele estará seguro e bem
amparado. Ele é o amor da minha vida, tia Paula.
— Eu disse para não me fazer chorar.
— Como corrigir isso? Seu filho é um gostoso que tem uma
pegada destruidora e 3.000 guindastes não conseguirão me tirar de
cima dele. Estou ansiosa para chegar logo em São Roque e ficar
confortável com ele. Fica melhor assim? — pergunto e ela
realmente ri. Minha tática dá certo.
— Fica melhor olhando por essa perspectiva. Sophie, eu te
amo demais e jamais serei capaz de agradecer por amar tanto o
meu garoto. Você faz com que a partida seja mais fácil, mais
aceitável. Sejam felizes, descubram um ao outro, desbravem a
sexualidade e o amor. Me deem netos no futuro. Daqui uns dez
anos parece bom para mim.
— Para mim também — falo, rindo. — Fique tranquila, faço
uso de anticoncepcional e tenho um estoque de preservativos. Nada
de bebês tão cedo.
— Cuide dele por mim, ok?
— Por você e por mim, eu prometo. Para sempre! — Sorrio,
me despedindo dela, e volto o olhar para Henrico. Pense em uma
pessoa radiante e empolgada? É o meu namorado. Nunca o vi
dessa maneira, mas é lindo. — Ei, menino mais bonito, vamos?
Quero parar na Casa do Alemão!
— Vamos.
É com um enorme sorriso no rosto que, após se despedir de
todos, Henrico caminha até o carro. E é com um enorme pesar que,
através do retrovisor, eu vejo tio Paula cair de joelhos e chorar.
— Eu te amo, menino mais bonito do mundo.
— Ao infinito e além, Sophie.
— Com emoção ou sem emoção, Henrico Davi?
— Com emoção! — ele exclama e eu acelero rumo aos dias
mais quentes das nossas vidas.
Sei que é inevitável que os filhos cresçam e acabem
abandonando o ninho, mas a partida é dolorosa.
Não importa tudo o que estão me dizendo agora. Por mais
que tenha tentado me preparar para esse momento, não consigo me
manter plena. Minhas forças estão vacilando, porque Henrico
sempre foi o meu ponto mais fracoe todos sabem disso. É a maior
de todas as dores que já senti, mesmo sabendo que meu filho está
feliz.
Enquanto o carro se distancia, eu vejo todo um filme da
minha vida desde o nascimento do meu filho. Agora há uma dor
aguda em meu peito e um mar de dúvidas em minha mente. Tantas
lutas, tantos momentos incríveis. Eu queria mantê-lo para sempre
sob os meus cuidados, só para ter a certeza de que ele jamais será
ferido, jamais sentirá medo, jamais se sentirá desprotegido. A única
coisa que me conforta é saber que ele está com a garota mais
incrível que já tive o privilégio de conhecer: Sophie. São tantas
qualidades que ela possui, que eu ficaria facilmente por horas
enumerando-as.
Certa vez, em uma conversa com a terapeuta de Henrico, ela
me disse que um garoto autista precisa ter a sorte de encontrar uma
parceira na vida que consiga compreender toda a sua adversidade,
seus limites, seu "modus operandi", ela disse também que é quase
como uma questão de sorte encontrar alguém assim e que a maioria
dos garotos sofrem pela dificuldade de se relacionar. Eu entendo
que Henrico é um garoto altamente privilegiado por poder viver o
amor com a garota que parece ser sua alma gêmea. Sempre foi
Sophie, e isso é visível desde quando eles ainda eram apenas
crianças. Sophie mostrou sua grandeza desde o primeiro contato
com o meu filho e tem sido incrível por toda uma vida.
Deveria me confortar, mas não acontece agora.
Dentro de casa, após a partida de Victor e Melinda, Lucca me
entrega um copo de água com açúcar e eu bebo. Do outro lado do
sofá há minha Yaya, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela
ama o irmão, mesmo que ele nunca tenha permitido que ela se
aproximasse muito. Minha filha é a outra garota mais incrível do
mundo, que sempre compreendeu o irmão, mesmo quando era
extremamente difícil.Ela respeitava até mesmo o afastamento e
agora está desolada. Yaya sempre disse que nunca vai nos deixar,
que vai se casar e morar comigo, com o pai e com o irmão.
Certamente, ela acaba de perceber que não teremos um integrante
em nosso time de loucuras familiar.
Lucca é o homem que está tentando passar forças neste
momento, mas sei que até mesmo ele está sofrendo. Henrico
também é o mundo dele. Ele fezde Henrico o seu próprio filho,sem
distinção. Meu marido adaptou toda a nossa vida de acordo com as
necessidades do nosso filho, esteve ao lado dele nos momentos
mais difíceise em todas as conquistas. Ele é a referênciamasculina
do meu filho. E vai além. Ai de quem dizer que Henrico não tem o
sangue dele correndo nas veias...
O máximo que já fiquei longe do meu filho foram dez dias e,
mesmo assim, ligando o tempo todo para saber notícias. Antes de
Lucca, éramos eu e ele contra o mundo. Contava com a ajuda dos
meus pais, mas eu estava em torno do meu filho o tempo inteiro,
com a preocupação de mãe amplificada por todas as dificuldades
que já enfrentamos e pelo fato do pai biológico dele ser um grande
pedaço de merda. Nunca larguei o meu menino, principalmente
depois que casei. Durante cinco anos, fomosapenas eu e ele, eu fui
o pai e a mãe do meu garotinho, nós enfrentamos tantas batalhas...
Eu só queria que o tempo tivesse passado devagar e que eu
ainda pudesse fazê-lo dormir no aconchego dos meus braços,
protegê-lo do mundo. Acho que esse desejo passa pelo coração de
todas as mães ao ver que o momento do voo está se aproximando
ou chegou. São tantas fasesdesde o nascimento de um filho,tantas
descobertas, evoluções, batalhas diárias. Houve períodosonde tudo
o que fazia era impulsioná-lo, e outros períodos onde eu precisava
simplesmente resguardá-lo da maldade humana. Eu nem me dei
conta e o meu filho cresceu, tornou-se um homem, deixou de ser
dependente, começou a sentir a necessidade de tomar as rédeas de
sua própria vida. Agora não sou mais eu quem ocuparei o lugar de
destaque em sua vida, é Sophie. É ela quem estará de frente para
Henrico e eu terei que fazer um outro papel que a maternidade
exige: abrir as minhas asas, deixá-lo voar e rezar para Deus
protegê-lo em todos os momentos em que eu não puder estar perto.
Preciso libertá-lo, permitir que ele busque respostas, que ele
façadescobertas, que ele conheça a independência tão almejada e
desbrave todo o amor que carrega dentro de si. Porque o amor
materno é assim, o verdadeiro amor deve ser alado, mesmo que
seja extremamente difícildeixar um filho voar. E talvez essa seja a
faseda vida onde eu terei que mostrar toda a minha coragem e toda
a minha fé. De repente, parece que todas as batalhas foram
pequenas diante dessa. Essa é uma batalha minha comigo mesma.
Quando digo fé, não é apenas em Deus, é também em mim e em
Lucca, na criação que demos ao nosso garoto. Eu preciso ter fé de
que fizemos a coisa certa e de que não importa aonde Henrico
esteja, nossos ensinamentos sempre estarão com ele.
— Está mais calma, diabinha?
— Eu compreendo que ele tem que ir, que ele está feliz,que
ele precisa voar. Compreendo todas as coisas, Lucca, mas é
extremamente difícil vê-lo ir. Nesse exato momento estou me
perguntando como será a minha vida a partir de agora, porque não
façoideia. Projetamos nossa rotina de acordo com as necessidades
de Henrico, e então ele se foi... Ele se foi e o que faremos? Ele
estará seguro? — Yaya quebra a distância e me abraça forte. —
Minha princesa, daqui a pouco é você indo... — digo, voltando a
chorar. — Meus filhos... Queria vocês para sempre perto de mim.
— Não vou embora, mãe. Já disse. Vou morar aqui, no
mesmo terreno, na casa da piscina — ela diz, me fazendo sorrir
entre lágrimas. — Mãe, Henrico está tão bonitinho com Sophie. Ele
estava tão ansioso para ir e não estava disfarçando. Ele está
extremamente feliz e você deve ficar feliz também. Temos um
jatinho à disposição para chegarmos até ele em poucos minutos,
caso seja necessário ou quando a saudade ficarfortedemais. Não é
o fim, mamãe. É o início de uma nova fase e ele sempre estará
conosco, sempre. Você e meu pai são os alicerces de Henrico, ele
não vai esquecer isso, mesmo que agora esteja hiperfocado em
Sophie. São amores diferentes.
— É isso, diabinha. Eu nem precisei dizer, porque criamos
uma filha tão incrívele tão inteligente quanto a mãe. E Henrico foi
criado da mesma forma, Paula. Vamos sorrir, brindar à felicidadedo
nosso garoto e fazer amor de comemoração? Jacinta a minha
necessidade de te fazer ver estrelas. — Isso me faz rir,
principalmente quando Yasmin faz um som de nojo.
— Ecaaaa!
— Eca é você e aquele moleque. Até deixo ele dormir aqui
essa noite, se quiser — ele diz à nossa filha.
— Não. Eu vou dormir na casa dele e deixar vocês dois a
sós. Acho que hoje o senhor vai concordar que mamãe precisa do
seu "hiperfoco", papai. — Ela está certa. Eu preciso de Lucca. Eu
sempre preciso de Lucca. Na verdade, é meio louco a forma como
eu não sei não precisar de Lucca.
— Você concorda com a deserdada, Paula?
— Acho que sim, bebê Lucca. Podem me abraçar e dizer que
tudo ficará bem com o meu garoto? — Os dois me abraçam e por
um momento eu volto a me sentir confortável,enquanto faço uma
prece silenciosa.
"Senhor, quando meu filho não estiver sob meus olhos, que
ele esteja em Suas mãos. Quando não for possível que ele me
escute, que o Senhor seja, em sua mente, a voz que o aconselha.
Quando eu não estiver presente para apontar-lhe o caminho, que o
Senhor guie suas pernas. Quando não for possíveldar-lhe um colo
de mãe, que o Senhor acalme o coração do meu filho. Quando eu
não puder dizer "leve o casaco", que o Senhor seja o manto que
aquece a sua alma. Quando eu não puder fazer o curativo, que o
Senhor cure suas feridas. Quando não for ao meu alcance enxugar
suas lágrimas, que o Senhor evite que elas caiam. Quando ele se
sentir sozinho, que o Senhor seja a sua companhia, trazendo luz à
sua solidão. E, quando ele estiver feliz, que o Senhor sopre uma
suave brisa sobre seu rosto para que meu filho se lembre do meu
carinho e que, onde ele estiver, eu sempre o amarei. Amém."
— Fizemos um bom trabalho, Paula. Nosso garoto estará
seguro. Tivemos muitas conversas nos últimos dias e posso te dizer,
com garantia, que ele está preparado e é um homem feito agora.
Precisamos deixá-lo viver a vida adulta e precisamos apoiá-lo,
mostrar que confiamose torcemos por ele. É o que ele quer, o que
ele precisa e o que ele espera de nós.
— Estou feliz, mas estou triste.
— Essa frase não costuma fazer muito sentido, mas se
encaixa bem. — Meu marido sorri. — Não quero minhas meninas
chorando. Quero que as duas se arrumem, para eu levá-las para
almoçar e distrair um pouco a mente. De acordo?
— Eu quero apenas me trancar no quarto, só por hoje.
Preciso de comida, um pote de sorvete de sobremesa e...
— Eu realmente estou indo pedir para Thomaz me buscar
antes que você termine a frase, mamãe — Yasmin diz.
— Yasmin, não pense que não estou percebendo você se
aproveitar da situação — Lucca falapara ela. — Só por hoje te darei
essa brecha, deserdada.
— Ok, papai!
Ela se vai, mas volta na parte da noite, com Thomaz ao seu
lado. É engraçado. Enquanto um filho quer sair voando, a outra não
consegue ficar muito tempo longe.
— Ahhhh, a deserdada voltou para o jantar!
— Olá, sogrão! Eu vim junto! — Thomaz diz e Lucca taca um
pano de prato na cara do garoto.
É agora que a loucura começa entre os dois e sei que isso
ocupará a minha mente por um tempo. Por que eu acho que isso foi
combinado? De qualquer forma,eu os amo, mesmo que eu me sinta
um pouco incompleta agora...
Como dizia Madre Tereza de Calcutá:“Os filhossão como as
águias, ensinarás a voar, mas não voarão o teu voo. Ensinarás a
sonhar, mas não sonharão os teus sonhos. Ensinarás a viver, mas
não viverão a tua vida. Mas, em cada voo, em cada sonho e em
cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos
recebidos.”

Viajar com Henrico é engraçado, principalmente quando ele


parece ansioso a viagem inteira.
— Ei, estou cansada de dirigir. Estou há cinco horas nessa
missão. Temos duas opções: você assume a direção ou paramos
em algum lugar para descansar. O que escolhe, bebecito?
— Eu assumo a direção. Quero chegar em casa. — Ele faz a
escolha e eu logo encosto no acostamento, para invertermos os
papéis.
Sou a primeira a descer e dar a volta. Ele desce logo em
seguida. Sorrio maquiavelicamente antes de puxá-lo pela camisa e
beijá-lo de uma forma nada educada. O garoto parece ter um
conector no pau. Encosto no fio de cabelo dele e seu pau endurece
muito rápido, é fantástico isso! Só grudo meu corpo ao dele e
experimento a sensação de ter algo rijo bem grudado em minha
intimidade.
Suas mãos deslizam pelas minhas costas enquanto agarro
sua camisa fortemente. É então que um carro passa buzinando e
nos afastamos rapidamente.
— Senhor da Glória! Ser sua namorada é bem difícil!—
comento, suspirando e entrando no carro.
— Você é um pouco safada, Sophie. Literalmente — Henrico
diz quando começa a dirigir.
— Vamos lá, sinônimo de safada... — Pesquiso no Google.
— Indecorosa, impudica, obscena, depravada, libertina, corrompida,
impura, licenciosa, sórdida, mesquinha, indigna, velhaca, abjeta,
desonrosa, chula, escrota, fúfia,brejeira... Eita! Em qual desses
sentidos, namorado?
— Obscena, impudica, depravada — responde.
— Você acha isso ruim ou bom?
— Eu acho bom, porém é difí
cil de lidar, devido às reações —
explica, centrado na estrada.
— Você tem muitas reações, acontece rapidamente. Eu amo
isso. Ia complementar a frase, mas acho melhor podar as palavras
para não assustá-lo.
— É sobre sexo? — pergunta, curioso.
— É quase isso.
— Eu tenho algumas curiosidades, podemos conversar? —
pede. — Você é minha namorada, íntima,então eu realmente ficaria
feliz em poder conversar sobre sexo com você.
— Podemos conversar. Eu acho que vou amar e me divertir
com isso — confesso, animada.
— Você se masturba? — Minha boca quase vai ao chão com
a pergunta. Ele é muito direto, nem mesmo chega com cuidado ao
ponto. Mas se ele pode ser direto, significaque eu também posso, e
isso é realmente incrível.
— Sim. Às vezes — respondo, envergonhada.
— Como você faz isso?
— Quer que eu te mostre? — pergunto, horrorizada demais
com a situação, porém, quero...
— Não, Sophie, você é maluca? Eu só estou perguntando
teoricamente. — Deus! Eu amo muito o quanto ele pode ser
engraçado.
— Bom, é... Eu toco meu clitóris, faço alguns movimentos
realmente gostosos e uso da imaginação.
— Então é uma masturbação rasa. Nunca penetrou nada. —
Gente... meu ânus acaba de cair da bunda.
— Não mesmo. Só você vai me penetrar.
— Não fale assim, Sophie. É horrível dirigir de pau duro e
imaginando situações.
— Você se masturba? — É a minha vez de perguntar.
— Sim.
— Com que frequência?
— Constantemente. — Sorrio, imaginando, e decido ir além,
já que ele resolveu ser aberto.
— Quando foi a última vez que se masturbou? — pergunto.
— Ontem.
— O quê??? — grito. — Como? Quando? Onde? Por quê?
— No banho, assim que voltamos da praia. Você estava
muito gostosa, sua bunda é perfeita e eu estava imaginando os seus
mamilos. Eu ainda não beijei eles.
— Santa Josefina! E ele não diz palavras sujas... — divago.
Quem precisa de palavras sujas? — Você tem se masturbado
diariamente?
— Sophie, não quero assustá-la, por isso não irei responder.
Quando foi a última vez que se masturbou?
— Já faz um tempo. Eu tenho acumulado tesão, tenho
evitado fazer isso — confesso.
— Com qual finalidade?
— Apenas cansei de fazer isso sozinha, não me sinto tão
bem. Entende?
— Você deve saber que se masturbar é saudável e indicado,
tanto biologicamente quanto psicologicamente. Libera endorfinas e
catecolaminas, diminui os níveis de stress e melhora o humor,
melhora o sono, fortaleceo sistema imunológico e até mesmo alivia
um pouco as dores menstruais. Além disso, é uma forma de
conhecer o próprio corpo, descobrir a potencialidade dele. — Estou
chocada, e, amanhã, nesse mesmo horário, ainda estarei chocada.
— Você sente libido normalmente?
— É claro que sim.
— Então sente vergonha de se masturbar com frequência?
— Na verdade, sinto um pouco de vergonha sim, não apenas
com a frequência. Não me sinto tão confortávelfazendo isso e me
sinto frustrada quando termino. Nem todas as garotas conseguem
ser autossuficientes sexualmente. Acho que espero muito pelo
contato físicoe acredito muito que será dessa forma que chegarei
ao topo do prazer. Eu quero ter um orgasmo e poder sentir o seu
toque, ganhar os seus beijos antes, durante e depois. Gozar sozinha
é... solitário demais, já que é sozinha... dã... acho que você
entendeu — digo, nervosa.
— Entendi. Você é linda, Sophie. Obrigado por conversar
sobre sexo comigo.
— Não tem que me agradecer. Estou gostando, mesmo que
seja embaraçoso. — Sorrio.
— Eu li que a maioria das mulheres que sentem maior prazer
na masturbação, não conseguem muito ter orgasmos durante o
sexo. Acho que há uma deficiência em alguns homens em relação a
conhecer o corpo da mulher e descobrir o que pode causar prazer
nela, como levá-la ao orgasmo. Você não sente muito prazer na
automasturbação, então eu terei que fazercom que sinta prazer no
sexo. Você acha que pode gostar de masturbação se foreu fazendo
em você? — Eu nunca quis tanto chegar em casa. Juro por Deus!
Talvez na hora H eu vá amarelar um pouco, mas, agora, tudo o que
consigo pensar é em ficar nua e pedir para que Henrico me toque.
Eu poderia facilmente implorar por isso. — Está tudo bem se não
quiser responder, Sophie. Me desculpe. É que estou muito curioso
sobre você.
— Está tudo bem. Tenho certeza que vou amar a
masturbação se for você fazendo em mim. Me desculpe, apenas
estou um pouco excitada com essa conversa.
— Agora? Você está excitada agora? — O garoto vai bater o
carro!
— Você não?
— Um pouco. Acho que ficarei mais excitado sabendo que
você está excitada. Seu piercing atrapalha a masturbação?
— Não! Você está sempre falando sobre meu piercing,
parece curioso — comento, sorrindo.
— Eu tenho curiosidade sobre seu piercing e sobre você nua
— confessa. — Eu sonho com você nua, mas nunca parece o
suficientenos sonhos e acabo ficandofrustrado por tentar imaginar.
Estou felizpor iniciarmos a terceira base, eu poderei fazer as duas
coisas de uma só vez. Estou muito ansioso.
— Até o final da semana eu perco o meu lacre. — Era um
pensamento, mas acabei de dizer em voz alta e Henrico até diminui
a velocidade.
— Você tem um lacre?
— Não! — exclamo, rindo. — Me referia à virgindade.
— Então, nesse caso, lacre seria o seu hímen?
— É... — Estou começando a delirar nessa conversa, porque
Henrico parece saber a teoria de todas as coisas relacionadas a
sexo. Ele se cala e parece pensativo o bastante enquanto dirige.
Encosto minha cabeça na janela e vou sorrindo até São Roque.
Há um frio em minha barriga quando entramos na cidade.
Henrico parece sentir o mesmo. Noto pela maneira como ele fecha
as mãos em torno do volante com mais força.Esse simples gesto é
uma revelação involuntária do que está por vir e isso fazum leve frio
na barriga surgir.
— Chegamos, Sophie.
— Aham.
— Você está bem? Está com medo? — Não respondo. —
Não fique com medo, Sophie. Vou cuidar de você, prometo. Eu te
amo para sempre. Você é a menina mais bonita do mundo. Pode
confiar em mim?
— Eu confio. — Henrico segura minhas mãos, as beija e a
ansiedade sufocantese dissipa diante de toda a doçura. Ele beija a
minha boca e toda a coragem volta com força.
Confio nele.
Não confio em nós dois juntos.
Apertem os cintos e sejam bem-vindos à terceira base!
Assim que descemos do carro, Maicon surge, apressado.
Noto que Henrico não gosta dele, porque muda o semblante no
mesmo instante.
— Olha a garota mais gostosa! — Maicon diz, me puxando
para um abraço.
— Olá, você! — o cumprimento, sorrindo.
— Eva e Théo acabaram fazendo uma viagem romântica.
Fiquei responsável por entregar as chaves a vocês. Eva pensou que
vocês chegariam sentindo fome e por isso a geladeira está um
pouco abastecida para essa noite — explica. — Oi, Henrico. Foi
bem de viagem?
— Não gosto de você e não gosto que chame Sophie de
gostosa. — Meu namorado... misericórdia! Ele é sincero demais!
Como amigos era um pouco mais fácil...ou talvez nunca tenha sido
fácil.
— Oh, é por isso que sempre me olha de cara feia? —
Maicon pergunta, rindo. — É mais fácilSophie ter que sentir ciúmes.
Você é extremamente gostoso. — Pressiono meus lábios para não
rir ao notar a cara que Henrico está fazendo para ele agora. — Se
eu deixar de chamá-la de gostosa, nós poderemos ser amigos?
— Não me sinto disposto a fazeramizades. Gosto de não ter
amigos.
— Ah, eu realmente entendo isso, camarada. Bom, eu sei
que você tem autismo e que as relações podem ser um pouco
complicadas. Eu nem tenho e às vezes sinto vontade de mandar
pessoas para o inferno, tudo para não ter que socializar. De
qualquer forma, eu não tenho interesse em sua garota. Sou gay e
espero um dia ser seu amigo, ou ao menos colega. Quem sabe? —
Henrico foi tapeado. Ele agora está analisando as palavras de
Maicon. Quase dá para ver as engrenagens na mente dele.
— Maicon, meu amor, muito obrigada por vir nos receber.
— A casa está pronta para vocês darem o toque pessoal.
Ajudei Eva a retirar toda a personalidade dela. Esperamos que
sejam felizes nessa nova etapa. Conversamos aquele dia e sei que
esperou uma vida inteira para isso. — Meus olhos se enchem de
lágrimas com as palavras dele.
— Uma vida inteira. Muito obrigada pelo carinho. Você é
bem-vindo a nos visitar. Não é mesmo, Henrico? — pergunto ao
meu namorado.
— Não gosto muito de visitas. — Maicon ri com a resposta
dele.
— Deus! Eu acho que amo o Henrico! Ele é muito sincero.
Queria ser como ele. Às vezes surgem umas assombrações na casa
da minha mãe. Dá vontade de expulsá-las dizendo: "não gosto de
visitas, vão embora". Queria poder ser sincerão assim. "Não gosto
de você. Não sinto verdade em você. Acho você, sim, incoerente,
você está onde te convém. Em todos os seus jeitos, falas,
posicionamento e etc.". Muito vibes ser assim. — Fico feliz por
Maicon entender e levar na diversão o jeito do meu emburradinho
sincero. — Bom, vou deixá-los. Se precisar de qualquer coisa, você
tem o meu número, Sophie. Não hesite em me ligar, a qualquer
hora. Vizinhos são o chá da horta. A propósito, estou cuidando da
Bel e só a devolverei amanhã. — Sorrio.
— Obrigada, de coração! — O abraço.
Enquanto vou abrir a porta, Henrico pega nossas malas no
carro. Quando entro, noto tudo diferente. Eva deixou mesmo a casa
preparada para nós e eu nunca serei capaz de agradecê-la o
suficiente.Estou felizpor notar que eu e Henrico teremos que dar o
nosso toque pessoal na casa.
Após deixar as malas na sala, Henrico sai para conhecer a
casa e parece gostar muito.
— Eva não tem vontade de vender essa casa? — pergunta.
— Veja só, há um enorme terreno atrás, a casa é incrível, só um
pouco mal aproveitada.
— Não perguntei isso a ela, mas podemos perguntar. Bom,
há dois quartos e um escritório. Agora precisamos decidir algo
importante...
— O quê?
— Vamos dormir juntos? — Ele volta o olhar para mim e olha
para o quarto principal. Faz isso repetida vezes e parece ponderar.
É tão fofo.
— Eu quero dormir com você, Sophie. Mas...
— Eu sei que às vezes precisa de espaço e está tudo bem.
Nós podemos ficar no mesmo quarto, meu amor. Quando precisar
de espaço, eu saberei respeitar e você poderá ir para o quarto de
hóspedes. O que acha?
— Obrigado por entender e respeitar.
— Eu te conheço, menino mais bonito. Eu te entendo
também. E, acima de tudo, eu te respeito. Sempre irei te respeitar —
digo, o abraçando. — Eu te amo tanto.
— Também te amo. Somos namorados.
— Somos mais que namorados. Bom, vou pegar algumas
roupas na mala, tomar um banho e preparar algo para comermos.
Estou um pouco cansada da viagem, mas é a nossa primeira noite
aqui e precisamos comemorar.
Ele permanece no quarto enquanto estou ligada no 220 da
animação.
Pense em um lugar frio? São Roque! E pense em uma
pessoa que ama frio? Eu! Tudo bem que eu também amo o calor,
mas o frio é diferente, me inspira e me deixa animada. Nesse
momento sou extremamente grata por ter uma lareira ecológica na
sala e nos quartos. Eu as acendo mais que depressa após pegar
minhas roupas.
Há dois banheiros: o social e o da suíte. Eu decido tomar
banho no social hoje, porque sei que Henrico precisa se acostumar
com esse novo nível de intimidade, e o banheiro da suíte não tem
porta.
Quando saio do banho percebo que eu sou uma idiota e que
Henrico está bem à frente de mim. Eu não tomei banho na suíte,
mas ele está tomando, mesmo sabendo que posso entrar a
qualquer momento. Confesso estar curiosa, mas decido respeitar a
privacidade dele apenas por hoje. Ao invés de atacá-lo, ligo para os
meus pais, para avisar que chegamos, e ligo para tio Lucca, que me
fala que Henrico enviou uma mensagem avisando.
Minha segunda tentativa de cozinhar é fracassada.Encontro
na geladeira uma travessa de canelone com um bilhete em cima:
"Leve ao forno por 30 minutinhos e bom apetite. Há um vinho na
adega, fica excelente como acompanhamento. Com amor , Théo e
Eva."
Eles são incríveise eu os agradeço. Levo a travessa ao forno
e vou em busca do vinho. Henrico não tem o costume de beber,
mas, talvez aceite uma taça em comemoração. Estou distraída
quando sinto o cheiro do perfume dele. Juro que até arrepio. O
homem tem que ser gostoso até no perfume? É muita pressão ser
namorada dele.
Ele está vestindo uma calça de moletom preta, uma blusa de
linho bege clarinha, seus cabelos ainda estão levemente molhados
do banho e ele está calçando meias apenas. Eu amo esse modo
"ficar em casa".
— Ei, menino mais bonito.
— Sophie, é muito difícilmorar com você — ele fala, se
acomodando em uma banqueta.
— Mas acabamos de chegar. Como pode ser difícil?
— Eu apenas estava pensando no banho. Será difícilde
qualquer forma. É diferente, porque verei as suas calcinhas e você
verá as minhas cuecas. Não sei como faremos a divisão de
atividades domésticas. É estranho pensar em viver uma vida a dois
com você.
— Entendo. — Sorrio. — Mas você quer isso, não quer?
— É lógico que quero, Sophie. É apenas difícil.Agora parece
real, antes parecia um sonho.
— Eu penso da mesma forma. Agora está muito real. —
Sorrio. — Mas eu sou a menina mais felizdo mundo inteiro. Que tal
um pouco de vinho?
— Você sabe que não gosto de bebidas.
— Eu sei que não, nem quero te levar para esse caminho,
mas achei que poderia tomar apenas um pouquinho, para
comemorarmos a nossa primeira noite morando juntos. — Ele faz
um aceno positivo e sorri.
Sirvo vinho em duas taças e, antes de beber, retiro a massa
do forno.
— Isso está cheirando bem — Henrico comenta.
— Muito bem. Estou faminta.
— Você sabe cozinhar? — pergunta.
— Você sabe que com a ajuda do Google eu cozinho
qualquer coisa.
— É verdade. Por esse motivo gosto de seguir sequências e
receitas. O passo a passo ajuda com que nos tornemos capazes de
tudo. — Sorrio do seu jeitinho metódico e sirvo o canelone em dois
pratos.
— Ou quase tudo. É um pouco ruim que não exista um passo
a passo para todas as coisas da vida. Um manual de instruções —
comento, me juntando a ele. — Vamos brindar? Eu proponho um
brinde à nossa primeira noite morando juntos e a todas as coisas
que não precisam de um manual de instruções.
— Você é linda. — Ele brinda e fazuma cara extremamente
engraçada ao provar o vinho. — Isso é horrível!
— Não é. É apenas questão de costume — explico, rindo. —
Há Coca-Cola na geladeira, quer?
— Qualquer coisa, menos isso. — Ele vai pegar a Coca e se
junta a mim novamente.
Começamos a comer, mas a cada vez que bebo um pouco de
vinho, vejo seu olhar um pouco reprovador.
— Você sabia que uma caneca de 665 ml de cerveja e uma
taça média com 175 ml de vinho possuem praticamente o mesmo
teor alcoólico?
— Não sabia. Nunca tive curiosidade de pesquisar sobre isso
— comento.
— Não me importo que beba. Sei que tenta mentir para mim
sobre bebidas, mas eu sempre fuicapaz de perceber quando estava
alcoolizada. Não quero controlar você de formaalguma e nem estou
falando que já está alcoolizada. Acho que é uma garota livre e que
deve fazer o que quer. Assim como você respeita o meu universo,
eu respeito o seu. Só há uma questão que preciso pontuar, apenas
para que fiquesabendo, visto que é a nossa primeira noite morando
juntos e que somos um casal agora. — Ele está sério enquanto fala.
Henrico e suas nuances...
— Qual questão?
— Eu nunca vou tocá-la quando estiver alcoolizada. Nem
mesmo um único beijo. — Há uma firmeza em seu tom de voz. —
Então é você quem decide se vai seguir bebendo ou se tem outros
planos para essa noite. — O impacto pela maneira como ele acabou
de falar me deixa sem palavras.
Eu deixo o restante de vinho e passo a beber a Coca-Cola do
copo dele. Eu juro notar um vestígio de sorriso em seu rosto, mas
ele disfarça bem dessa vez.
— Desde que nos encontramos, eu só foquei em seduzi-lo.
— Um sorriso tímido escapa do meu namorado. Acabamos de
jantar, escovamos os dentes e agora estamos na sala assistindo um
filme que eu nem sei dizer sobre o que é. — Eu acho que fui uma
péssima amiga, então eu gostaria de saber como tem sido a
faculdade e todas as coisas. Conversamos pouco sobre tudo isso.
— Não foi uma péssima amiga, Sophie. Tudo segue do
mesmo jeito. A faculdade é a parte que mais me deixa frustrado,
porque meus pais e minha terapeuta insistiram que eu deveria
assistir as aulas regularmente, de acordo com o cronograma, como
o garoto normal que eu sou. Mas acontece que não me vejo muito
como um garoto normal e as aulas são um pouco tediosas, porque
estou à frente das matérias. Porém, me esforço,porque estudo on-
line e isso já é algo valioso para mim. Não conseguiria frequentar
uma universidade. — Acho engraçado quando ele diz coisas assim,
me mostra uma outra perspectiva da vida. Nota-se que até mesmo o
excesso de inteligência pode causar alguns pequenos problemas e
insatisfação. Ninguém está imune às frustrações; nem os
inteligentes, nem os bilionários, nem as pessoas excessivamente
belas...
— A sua inteligência é um pouco assustadora. Eu aposto que
corrige os professores nas aulas on-line também.
— Já aconteceu — confessa.— Bom, em algumas aulas eu
simplesmente abaixo o som e vou trabalhar.
— Tem criado muitos jogos?
— Eu cansei um pouco de jogos. Desde que criei um
software para o escritório dos nossos pais, eles têm insistido nisso.
Acabei desenvolvendo algo similar para algumas empresas clientes
do escritório. De qualquer forma, eu decidi dar um tempo de tudo
isso agora. Fiz um bom dinheiro ao longo dos anos e quero você. —
Não consigo acompanhar bem o raciocínio dele agora.
— O quê? Ok, eu só não acompanhei o raciocínio...
— Sophie, eu sei que você largou a faculdadepor um tempo
e imagino que isso tenha algum tipo de ligação comigo. Antes eu
mergulhava de cabeça em estudos e trabalho porque costumavam
ser o meu foco, a minha distração. Agora deixou de ser. Não
significa que eu vá abandonar tudo para viver o nosso
relacionamento. Em alguns momentos meu trabalho será solicitado
e seguirei com a faculdade, porque quero que acabe logo. Porém,
eu quero que a maior parte do meu tempo seja gasto com você. A
parte boa é que estou de férias da faculdade por mais algumas
semanas. — O meu silêncio parece incomodá-lo um pouco, mas
estou em choque. — Há algo errado?
— Não. Não há nada errado. Só estou pensando. — Ele
segue me analisando, como se estivesse esperando por uma
explicação melhorada. Nem sei explicar direito o que de fato estou
pensando agora. Ele está sendo apenas diferente de tudo que eu
imaginava. — Eu sou apenas uma menina. Enxerguei isso agora.
Quer dizer... É que... sabe quando você é surpreendido?
— Sei.
— Aconteceu agora. Eu fui surpreendida ao perceber que
você parece muito mais preparado que eu. Digo... você está no
controle. E eu achei que seria eu no controle. — Dou um sorriso. —
Não é uma reclamação, são apenas pensamentos loucos. Acho que
pelo fato de nunca ter tido um namorado, um relacionamento, ver
que é realmente sério e real me causa um certo impacto. Estou
vendo a realização dos meus sonhos bem diante dos meus olhos,
como se fosse em câmera lenta, só que em uma perspectiva
diferente, porque não esperava você ser a cabeça da relação.
Acreditava que cada passo teria que ser dado de maneira calculada
e lenta, como quando eu te dei a mão e te incentivei lá na infância.
Pensei que seria assim novamente.
— Eu não entendi absolutamente nada — meu namorado
declara. — Só me diga se é algo bom ou ruim, por favor?
— É algo bom. É só que é você me dando a mão dessa vez,
por isso parece diferente para mim. Esqueça todas as merdas que
estou falando — peço, sorrindo, e remexo meus ombros. Eles estão
tensos, doloridos pela viagem e pela ansiedade.
— Está sentindo dor?
— Sim, um pouco. Dirigi por muitas horas e não tem qualquer
relaxante muscular aqui.
— Se você tiver algum creme, talvez eu possa massagear
seus ombros — ele oferece e eu sorrio. — Ajudaria?
— Sim, ajudaria. Vou pegar um creme. — Corro até o quarto,
pego o primeiro creme que encontro e volto para a sala. Estávamos
sentados no tapete, lado a lado, mas agora ele abre as pernas e eu
me sento entre elas, de costas para ele.
Prendo meus cabelos em um coque frouxo e retiro meu
casaco. Por baixo dele estou vestindo uma camiseta de dormir, com
alça fina. A ideia da massagem me deixa ainda mais tensa, presa
em uma expectativa absurda.
Aguardo o toque de Henrico e, quando acontece, mordo meu
lábio com força.Sua respiração no lado direito do meu pescoço faz
com que eu tombe levemente a cabeça. O aperto das mãos dele em
meus ombros é quase uma tortura; não tão forte, nem tão fraco.
Uma pressão que parece ter sido devidamente calculada.
As alças da minha camiseta escorregam no processo e
Henrico massageia meu pescoço, fazendo com que um gemido
escape do fundo da minha garganta. Eu já nem posso afirmar que
ele não nota o que me causa. Já não sei dizer se há ainda tanta
inocência em seus atos, porque ele simplesmente decide fazeruma
trilha de beijos pela minha nuca, até sua boca pairar do outro lado
do meu pescoço. Vejo que há um pouco de insegurança em suas
ações, mas vejo também que ele se arrisca, e tudo o que posso
dizer é que ele está no caminho certo.
O calor de seu hálito fazcom que todo meu corpo se arrepie.
É tão gostoso, que não consigo conter os sons que escapam
involuntariamente. E, sem querer, eles acabam servindo de
combustívelpara incentivar Henrico a continuar. De repente, não há
mais massagem em meus ombros. As mãos dele deslizam pelos
meus seios, por cima da camiseta, e ele os aperta fortemente
enquanto segue beijando meu pescoço. Minhas mãos se juntam as
dele e ele ofega em meu ouvido. A coragem dele acaba tornando-se
uma motivação. É lindo de ver ele vencendo medos e barreiras, isso
fazcom que eu queira vencer também, e é pensando nisso que fico
de pé.
— Me desculpe, Sophie.
— Não — digo, oferecendo minha mão a ele.
Por alguns segundos ele ficaapenas olhando, mas depois a
pega e fica de pé.
— Eu não deveria ter...
— Shiu! — o calo. — Eu só quero ir para o quarto, para a
cama, com você. — Henrico parece surpreso, mas me acompanha
até o quarto. É legal ver um pouco da coragem vacilar. Acho que
oscilamos bem entre a coragem e o medo.
A primeira coisa que faço ao chegar no quarto é beijá-lo
delicadamente, a segunda é retirar o agasalho e a camisa dele.
Feito isso, me afastopara observá-lo e noto a maneira como ele fica
ligeiramente tímido com a minha avaliação. Meu bebecito levemente
inocente.
Ele é EXTREMAMENTE GOSTOSO, MALDIÇÃO!
Me aproximo novamente, vendo a tensão crua. Henrico não
gosta de toques e todo seu corpo se retesa quando levo minhas
mãos em seu peitoral e começo a traçar todas as ondulações de
seu abdome.
Deslizo meu dedo indicador pela linha finade pelinhos abaixo
de seu umbigo e ele segura minha mão antes que eu possa
avançar.
— Sou eu...
— Eu sei. Eu só preciso me acostumar — responde.
— Posso retirar sua calça? — Ele não responde,
simplesmente desliza a peça pelas pernas e fica de cueca. É uma
morte lenta vê-lo de cueca boxer branca. Eu consigo ver muito bem
o pacote duro dentro dela e mal consigo desviar os olhos. Sinto um
misto de tesão, admiração, sorte e receio.
Senhor da glória! Eu sou louca por esse homem e não penso
duas vezes antes de retirar minha camiseta e jogá-la longe. Os
olhos dele também se entregam, fixadosem meus seios. É como se
tudo deixasse de existir e só existissem os meus seios.
Eu retiro minha calça e isso fazcom que ele desvie o olhar e
foque mais abaixo.

Sophie está ficando nua!


Eu sonhei com isso a vida inteira e agora está se realizando.
Por um segundo quero simplesmente pegar a minha calça e
sair correndo para qualquer lugar dessa cidade. Porém, me
mantenho de pé, analisando toda a cena e atento a todos os
movimentos da minha namorada. Eu gostaria de ligar para o meu
pai e dizer a ele que vou ver a minha namorada nua, mas não posso
fazer isso. Faz parte da nossa regra de intimidade.
Felizmente, há a lareira acesa, iluminando o corpo da minha
garota e permitindo que eu seja capaz de ver tudo. E é graças a
essa luminosidade que eu vejo o momento exato em que ela leva as
mãos nas laterais da calcinha e começa a deslizar a peça. Me perco
entre olhar para o rosto dela e questionar o que ela está fazendo, ou
simplesmente deixar que meu olhar acompanhe os movimentos.
Acompanho sua mão e vejo a calcinha voar para o canto do
quarto, só então crio coragem para encarar Sophie. Primeiro
observo seu rosto. Suas bochechas estão levemente avermelhadas
e ela está mordendo fortemente o lábio inferior
.
— Oh, merda! Eu estou mortificada agora!
— Por quê? — pergunto.
— Você deveria ver a maneira como está me olhando — ela
responde e eu sorrio, descendo meu olhar diretamente para os
seios dela.
Olhar os seios de Sophie fazcom que eu sinta uma agitação
interna, mas nada se compara com o que eu sinto assim que desço
meu olhar e vejo a... Vagina é brochante, Samuel disse. De
qualquer forma, meu corpo inteiro queima ao ver a parte íntima de
Sophie. Na verdade, eu nem sou capaz de vê-la direito, porque é
extremamente delicada, e nessa posição eu nem mesmo posso
enxergar o clitóris e o piercing. É muito diferentedas vaginas que eu
via nos vídeos e fotos. Não é assustadora e é muito linda.
Eu preciso de um tempo sozinho para pensar em todas as
coisas, mas sei que agora não será possível.Ela é muito mais linda
do que imaginei e eu não sei lidar com isso. É extremamente difícil
ser namorado de uma Sophie nua.
Quando subo o olhar, vejo que ela está se abraçando,
cobrindo os seios, demonstrando estar completamente
envergonhada pela nudez.
— Sophie, você é a menina nua mais bonita do mundo. Não
fique com vergonha. Sou eu aqui, o seu namorado para sempre. —
Tento passar para ela o mínimo de incentivo. Eu queria que ela se
olhasse no espelho e conseguisse enxergar o que eu enxergo. Não
existe nada mais bonito no mundo.
— Eu quis surpreendê-lo, porque disse que estava curioso
para me ver nua, mas estou envergonhada agora, embora eu queira
— minha namorada responde timidamente.
— Você é muito bonita nua. A mais bonita. E sua vagina não
é assustadora. — Ela começa a rir e eu acabo rindo também. Eu
deveria me manter calado. Estou nervoso e talvez vá dizer coisas
inapropriadas.
Sophie foi corajosa e talvez eu precise ser também. Não sei
como é namorar estando nu com a minha namorada nua e não
chegar ao confortável,mas deve haver uma maneira, e eu preciso
descobrir. Só preciso que ela saiba que não está sozinha.
Confesso que estou com medo agora e que há uma grande
parte de mim querendo recuar. Porém, olhar para Sophie e pensar
na grandiosidade do que ela acabou de fazer, me incentiva a ter a
coragem de ir adiante.
— Meu Deus... você não vai fazer isso... vai? Eu não tenho
roupa para esse evento. Ai, minha Santa Josefina...
— Se você não quiser, eu não farei. — Ela está tremendo e
eu não quero que seja assim. Me acomodo na cama, sentado, e
decido que precisamos conversar. — Venha aqui — a chamo e ela
vem temerosa. Mexo em seus cabelos e deposito um beijo em seu
nariz. É agora que preciso estar no controle, como foi desde a
primeira vez em que ela se mostrou receosa com as descobertas. É
novo para mim também, mas é a minha garota e eu devo cuidar
dela. Ela precisa que eu seja paciente e que segure sua mão para
corrermos juntos. Estou no controle quando nunca achei que seria
capaz de fazer algo assim. Não sou tão insuficiente quanto
acreditava ser. — Não vai acontecer, tudo bem?
— Mas...
— Eu sei que você quer, de verdade. Mas está com medo e
talvez estejamos indo rápido demais. O peso que uma garota sente
ao ficarnua é maior do que o peso que um garoto sente ao ficarnu.
Me sentiria envergonhado nos primeiros segundos, mas isso
passaria muito rapidamente. Já você... você é diferente, minha
princesa. Você não é a garota safada do carro. Acho que muitas
safadezas passam pela sua cabeça, tem facilidade de expor isso,
mas quando está envolvida na situação que poderá nos levar ao
confortável, se sente envergonhada e despreparada.
— Como sabe?
— Eu conheço você, analiso você. Não vamos mais fazeras
coisas devidamente calculadas, tudo bem? Acho que isso está
atrapalhando e acaba criando uma autocobrança em nós. Não tenho
pressa para conhecer o seu piercing, mesmo que esteja curioso.
Não tenho pressa de nada. Mesmo que nossos corpos gritem por
isso, acho que não estamos preparados. Sabe quando estaremos
preparados?
— Não...
— Quando fluir naturalmente. Não vamos banalizar algo tão
importante para nós. Não é banal ou simples — argumento.
— Eu te amo.
— Eu te amo — digo a ela.
— Estou com vergonha por parecer uma criança assustada.
— Eu sei. Mas você não é uma criança assustada. É uma
mulher descobrindo coisas novas e vivendo situações que não está
acostumada. — Sorrio. — Você é gostosa, Sophie! Como não
consegui enxergar o seu piercing e seu clitóris? — Ela rola pela
cama, fica de bruços e cobre a cabeça com um travesseiro.
— Me mata de uma vez! — protesta, chorando.
Enquanto isso, observo a imagem perfeita de sua bunda e
decido que preciso de um banho frio. Quarenta minutos embaixo da
água fria vai resolver. Eu não aguento mais lidar com o meu pau
duro! Ela tem uma marquinha de biquíni muito sensual, que me
causa reações.

Eu só não contava com um encontro, não programado e


bastante tórrido, na cozinha, durante a madrugada. Um encontro
que fazcom que Sophie arranque uma quantia generosa dos meus
cabelos.
Nunca imaginei que um dia eu fingiria estar dormindo para
não ter que enfrentar o meu namorado. Mas é isso que façoaté ver
que Henrico já adormeceu.
Ele certamente se masturbou. Já eu...
Ainda estou tentando entender como funciona esse negócio
de sentir um fogo abrasador nas partes íntimas e fugir na hora do
famoso "vamo vê". Meu bom santinho! Henrico iria ficarnu, a cobra
de um olho só ia saltar livre e provavelmente me metralhar... Eu
quero chorar. Eu chorei, na verdade. É muito difícilser virgem, de
verdade. Todas as garotas deveriam nascer prontas para o
momento. Eu queria ter nascido pronta, como uma lutadora de Muay
Thai, que enfrenta cinco rounds a cada combate. Mas, ao contrário
disso, estou aqui, lutando para vencer meu medo e partir para o
rolamento na aula de judô infantil.
De qualquer forma, a minha vida não é um combate e nada
aqui se trata de luta.
Eu até cochilo um pouco, mas minha mente turbulenta
impede que eu tenha um sono pesado. São três da manhã quando
me canso de ficar na cama e resolvo ir até a cozinha atacar a
geladeira. Há muitas coisas que Eva e Théo deixaram, mas acabo
pegando apenas uma garrafinha de água, uma trufa de leite
condensado, e me sento sobre a mesa para comer. Clarões
iluminam o ambiente e só então me dou conta de que há uma
tempestade caindo lá fora. Eu, como uma amante da natureza, me
encanto com sua força e com os raios. Alguns deles fazem um
barulho assustador.
Estou na segunda mordida da trufa quando meu namorado
sonolento surge. Ele vai direto beber água e então me encontra
sentada na mesa.
— Sophie, por que está acordada?
— Não consigo dormir. E você, bebecito? — pergunto, o
analisando.
— Acordei com o barulho da chuva e estou com sede —
responde, pegando água e bebendo enquanto mantém os olhos em
mim. Eu entendo o motivo.
Depois do ocorrido, tomei banho e vesti apenas uma
camisola. As lareiras esquentam bem o quarto, fazendocom que dê
para dormir mais confortável. E, para acrescentar, estou sentada
com as pernas levemente abertas, as alças da camisola estão
caídas pelos meus braços e estou mostrando quase demais.
É apenas louco que o olhar dele seja capaz de me deixar
com tesão.
— É realmente sério quando digo que é difícilnamorar com
você. E apenas parece ficarmais difícila cada momento — ele diz
sério, sem retirar os olhos de mim. — Sophie, você me provoca o
tempo todo e testa todos os meus limites. Sou paciente,
principalmente porque não tenho confiança total no Universo que
estamos habitando, porém tenho receio de não conseguir me
segurar por muito tempo. Estou ficando...
— Louco? — pergunto.
— Talvez.
Dou um sorriso tímido.
A presença dele, os olhares, tudo tem me deixado muito à flor
da pele, sensível de maneiras que eu desconhecia. Eu me sinto
profana, mas logo em seguida me sinto covarde. O observando sou
capaz de perceber centenas de coisas, dentre elas eu compreendo
que não é apenas meu corpo gritando por ele;minha alma ruge com
ferocidade, implora por todas as coisas — ainda desconhecidas —
que somente o menino mais bonito do mundo poderá dar. Só ele
poderá acalmar todas as minhas confusões. Só ele poderá saciar
meu corpo e a minha alma. Eu queimo de desejo por ele.
— Você pode me beijar? — peço. Ele deixa o copo no balcão
e se aproxima de maneira decidida. Deixo a trufa de lado e me
concentro em puxá-lo para ficar entre as minhas pernas.
Eu percebo que o grande segredo talvez possa estar no
beijo. Enquanto sua boca está na minha, não há espaço para medo,
receios, timidez; e é quando as coisas mais fluem entre nós. Os
beijos do meu namorado estão cada dia melhores e mais ousados.
Tem um efeito tão forte, que eu poderia facilmente gozar apenas
com a boca dele na minha.
Suas mãos deslizam pelas minhas coxas e eu solto um
gemido quando percebo que seus polegares estão perto de uma
área quase perigosa. Isso fazcom que Henrico afastenossos lábios
e me encare.
— O som... — Me dou conta de que é esse o motivo. Ruídos,
sons diferentes, tudo isso o leva ao limite. — Me desculpe.
— Não tem problema — afirma. — Eu odeio muitos sons,
mas os seus eu amo.
— Ama? Então eu posso... gemer assim? — pergunto,
envergonhada.
— Você pode, deve gemer assim — responde, sorrindo. —
Seus gemidos me deixam com tesão. — Ai... essa sinceridade... Eu
simplesmente o puxo mais e o beijo, mas agora consegue ser ainda
mais quente.
Deixo as alças da minha camisola caírem mais e as afasto
das minhas mãos, deixando que meus seios saltem livres e nus.
Henrico novamente afasta nossos lábios e lança seu olhar sobre os
meus seios. Quando seu olhar volta ao meu, percebo que é para
obter a permissão de um pedido silencioso. Balanço lentamente a
minha cabeça, em um sinal para que ele apenas façao que quer, e
ele entende exatamente. Agora uma de suas mãos está entre meus
cabelos, a outra está em meu seio e sua boca está devorando a
minha. É um desejo que dói e que faz com que meus olhos se
encham de lágrimas. E, quando os lábios de Henrico deixam os
meus, eu percebo que estou indo conhecer outras sensações.
Ele beija meu pescoço como se estivesse beijando a minha
boca, traça beijos até estar próximo ao meu peitoral e então desce
de uma só vez ao meu seio direito. O contato de sua língua em meu
mamilo quase me faz cair para trás, principalmente porque pensei
que ele fariaisso lento e com timidez, e não há nada lento ou tímido
aqui. Por um segundo fico puta por ele não parecer virgem, mas
então ele vai até meu seio esquerdo repetir o ato e eu perco a
noção até mesmo dos meus gemidos.
Eu perco a força do meu corpo e, quando estou prestes a cair
sobre a mesa, meu namorado me sustenta enquanto ri.
— Eu estou fazendo isso bem? — ele pergunta e eu começo
a rir com força, enquanto lágrimas escorrem dos meus olhos. Rindo
e chorando por beijos em meus seios. Patética! — Sophie, você
está chorando ou rindo?
— Não saberia dizer.
— E o que significa? Algo bom ou ruim?
— Continue.
— Talvez seja interessante levá-la para a cama — sugere,
sorrindo, e sou pega em seus braços.
A maneira como ele me deita na cama é a mais perfeita. Há
tanto cuidado, que fico encantada. Ele até mesmo ajeita um
travesseiro embaixo da minha cabeça.
Após retirar a minha camisola, ele se encaixa entre minhas
pernas. Noto um cuidado em não encostar nossas partes íntimas,
ele volta a beijar meus seios e me contorço embaixo dele. Minhas
mãos deslizam por suas costas nuas, e eu desço até a bunda dele,
forçando que ele se abaixe e que seu corpo friccioneo meu. Com
relutância, ele se abaixa, e eu sou obrigada a agarrar as cobertas
embaixo de mim quando seu pau esmaga a minha intimidade.
— ISSO É INCRÍVEL! — Praticamente grito e piora quando
Henrico tenta fazer seus testes e meio que rebola. — Aiiiiiii... pelo
amor de Deus! — Volto a agarrar a bunda dele e agora sou eu quem
rebolo.
— Você pode não fazer isso?
— Por quê? É a melhor coisa da vida. Você não tem ideia!!!
Não tem mesmo!!!
— Eu não quero gozar — justifica.
— Mas eu quero! Eu quero gozar e quero que você goze.
Você é extremamente gostoso, Henrico Davi! Se forda sua vontade,
sua filha está pronta!
— O quê? — pergunta, perdido.
— Nada! Apenas continue, amor — choramingo.
— Como você estava cheia de medo horas atrás e agora está
assim... fogosa?
— Não saberia dizer. Nem Freud explica. — Sorrio.
— Então eu posso ver seu piercing, você está safada! — Há
uma animação nele agora, que quase me faz rir. É fofo.Gente,
como ele pode ser fofono sexo que não é sexo? — Sophie, posso
ver o seu piercing? Por favor? Eu deixo você se esfregar em mim.
— Sério? Essa é a coisa mais fofado mundo! Você está
muito negociador e até um pouco chantagista.
— Você deixa eu ver o seu piercing? — pede novamente e eu
aceno positivamente. Como negar? Ele parece uma criança
pedindo: "posso comer o último brigadeiro que sobrou?".
Só que ele é sagaz. Há algo em Henrico que estou tentando
descobrir o que é e não consigo. Ele sabe envolver, seduzir, sabe
fazercom que eu me sinta confortávelcom a situação. Ao invés de
arrancar a minha calcinha fora, ele vem me beijar de um jeito que
sabe que me afeta. Ele é muito mais esperto do que todos pensam.
Estou admirada com isso. Fico mais admirada ainda quando
sorrateiramente ele estica o braço e liga a luminária ao lado da
cama. É agora que eu deveria ficar mortificada, mas não fico. Ele
espertinho é engraçado e surpreendente o bastante.
Ele segue me beijando, mas chega um momento em que
deixa meus lábios e começa a beijar o vão entre os meus seios
lentamente, sem pressa alguma, o que é suficiente para minha
mente viajar longe. Seus lábios deslizam pela minha barriga e
chegam ao topo da minha calcinha, então ele levanta a cabeça e me
dá um último olhar antes de ficar de joelhos, enganchar os dedos
nas laterais da minha calcinha e retirá-la do meu corpo.
Engulo em seco enquanto sinto meu corpo tremer. Estou
envergonhada e tento me manter o máximo fechada.Parece bom e
seguro até o momento que Henrico volta a se ajustar na cama,
levanta as minhas pernas e joga minhas coxas em seus ombros, me
abrindo por completa.
— Estou chocada!
— UAU!!!!! — ele diz. — UAU, SOPHIE! UAUUUUUUUUUU!
— Eu não consigo não rir. — Seu piercing ainda está um pouco
escondido, sua vagina é linda!
— Vagina não, por favor.
— Sophie, eu não gosto de dizer boceta, me perdoe por isso.
— Invente um nome, menos vagina, ok?
— Ok. Por enquanto eu posso dizer boceta, está tudo bem —
ele fala. Nós estamos mesmo conversando enquanto ele analisa a
minha intimidade? Nunca imaginei. — Posso tocar? Não consigo ver
seu piercing direito. Seu clitóris é muito pequenininho.
— Que espécie de vagina você via?
— Assustadoras. Ok, algumas eram mais delicadas, mas
outras eram mesmo assustadoras. Porém, a sua é a mais bonita
que já vi e mais delicada também. Eu estou apaixonado por sua
vagina. Eu a amo. — Estou rindo agora. Rindo para não chorar,
rindo de nervoso. Sua boca está bem próxima, eu posso sentir a
respiração. Quando seus dedos deslizam pelas laterais do meu
clitóris, é preciso que eu lute contra meu impulso para não gritar. —
É lindo, Sophie. Seu piercing é muito pequeno e ficou lindo —
comenta, tocando acima do clitóris, no ponto crucial da situação, o
ponto capaz de me fazer gozar. — Uau... — Ele parece
deslumbrado. Acho que minha vagina é mesmo bonita, nunca
imaginei ser tão exaltada dessa forma. — Eu te amo, Sophie.
Desculpe por parecer idiota agora. É que é novo para mim e você
está molhada, isso significa que está sentindo tesão.
— Eu te amo, e amo ainda mais que tudo isso seja novo para
você e para mim. E sim, eu estou sentindo muito tesão agora.
— Posso te beijar aqui?
— Eu acho que agora me sinto pronta para isso, menino mais
bonito e safado. — Ele sorri e volta a abaixar a cabeça. É uma
morte rápida dessa vez!
Primeiro ele lambe toda a minha intimidade e em seguida
seus lábios se fechamem meu clitóris e eu vou em uma descida de
tobogã diretamente para o inferno! Minhas mãos voam diretamente
para os cabelos de Henrico e eu perco o controle de mim mesma
enquanto os puxo. Minha pélvis ganha vida própria, e eu impulsiono
para a boca dele cada vez mais desesperada. Ele contorna minhas
coxas com os braços, de forma que eu fique mais aberta, e me
devora com beijos e lambidas enérgicas, feitas para destruírem a
sanidade de uma mulher.
Eu sinto algo novo. Um tremor em minha barriga, uma
bambeza diferente em minhas pernas, uma sensação quase
impossívelde descrever e que fazcom que eu solte os cabelos de
Henrico. De repente, sou transportada para a aventura mais intensa
de toda a minha vida, um orgasmo completamente diferente dos
poucos que eu já tive na vida. Arrebatador, intenso e inesquecível!A
melhor sensação amplificada, causada pelo namorado mais incrível
e talentoso do mundo.
Não sou capaz de conter os tremores, eu mal posso respirar
normalmente agora.
— Sophie... — Ele nem precisa dizer mais palavras para eu
saber que está receoso e com medo pelas reações que acabei de
ter.
— Você é além de perfeito. Eu nunca senti nada parecido
com o que acabou de acontecer. Nada se compara a isso. Nada.
— Mas você está tremendo — diz, preocupado.
— Não há como explicar, namorado. Acho que é apenas o
meu corpo desperto, respondendo a sensação mais incrívelque ele
já sentiu.
— Sophie, você deixaria eu beijar a sua boca após ter beijado
você lá embaixo? Li que algumas garotas não gostam.
— Eu li sobre isso e você pode me beijar. Eu não tenho nojo
de mim, do meu corpo ou de você. Você pode me beijar. Mas... só
me responda algo antes, você gostou dessa experiência nova? Há
homens que não gostam e sentem nojinho.
— Eu quero fazer todos os dias, se você deixar. Mas é
extremamente difícilser seu namorado, Sophie. As reações estão
piores agora, eu não consigo evitar.
— Você cuidou de mim, talvez eu possa cuidar de você. O
que acha? — sugiro.
— Não entendi.
— Eu posso beijar você... lá embaixo. Seria mais como
chupar um pirulito... Após esse orgasmo eu me sinto pronta para vê-
lo nu, menino mais bonito.
— Não, Sophie. É tudo sobre você essa madrugada. Eu vou
beijá-la e nós vamos dormir abraçados. — Sorrio e ele segue
cuidando de mim.
Me veste com a sua camisa, me beija, me mantém em seus
braços.
— Obrigado, Sophie — ele sussurra quando estamos quase
dormindo.
— Eu quem deveria agradecer.
— Você não entende. Não é sobre ter deixado eu fazersexo
oral em você — fala.
— É sobre o quê, então?
— Sempre fui inferiorizado pela maioria das pessoas. Os
anos em que estive no colégio foram cruciais para que eu me
sentisse inferior, doente, retardado, como me chamavam. Sempre
me senti incapaz, insuficiente, sem lugar. Por mais que a minha
famíliainsistisse em dizer que eu era um garoto normal, eu sentia
que não era. — Já estou chorando antes dele terminar. — Havia
muitas pessoas dizendo que eu não era, e parecia mais fácil
acreditar em todas elas. Familiares são programados para nos
apoiar, nos elogiar, já aquelas pessoas não, então eu costumava
achar que a minha famíliamentia só para que eu não me sentisse
mal e que eram aquelas pessoas que estavam dizendo a verdade
sobre mim. Só que chegou uma fase em que o que eles pensavam
de mim parou de ter importância, porque me concentrei em me
importar apenas com o que você achava de mim. E você me achava
genial, o seu melhor amigo, isso me acalmou por um tempo. Eu
amava você, mas a minha mente insistia em dizer que eu não era o
suficiente, que não poderia ser o namorado que você precisa,
principalmente se tratando de sexo. Eu pensava que jamais poderia
fazer sexo na vida, tudo parecia tão assustador. Sophie, eu tive
muitas crises por você, porque doía muito pensar que um garoto
normal poderia namorar você, poderia beijar você, poderia te dar
tudo o que eu jamais poderia. Nos últimos anos, todas as vezes que
nos encontramos terminou em crises horríveis.Em uma delas minha
mãe precisou me dar uma injeção de calmante e eu caídesmaiado
no chão da sala. — Pressiono meus olhos fortemente,imaginando o
que ele passou.
— Eu sinto muito...
— Foi difícil criar coragem. Foram necessárias muitas
conversas com a terapeuta, com os meus pais e, principalmente,
com Samuel. Ele foi crucial, de verdade. Mesmo assim eu não fazia
ideia de que você gostava de mim como namorado, então tive muito
medo. Tinha medo de tentar algo e perder a sua amizade. Eu
preferia você sendo minha amiga, do que não tê-la de forma
alguma. Foi então que eu decidi vencer o medo e observá-la. Todos
me mandavam observá-la o tempo todo e, embora eu não
conseguisse entender o motivo, eu observava. Eu percebi que você
era como eu;não se importava muito com o que todos pensavam de
você, importava a maneira como eu te via. Suas mudanças de
comportamento quando eu estava perto mostravam isso. Você
nunca me enganou muito bem, mas eu ficava feliz por você se
importar com o que eu pensava sobre você. E sou felizpor você me
amar como eu te amo. O obrigado é por você mostrar que eu me
encaixo, que eu não sou insuficiente, que as minhas diferenças se
encaixam em você e que eu posso te dar prazer. Obrigado por ter
segurado a minha mão quando eu era criança e ter corrido ao meu
lado. Obrigado por ter esperado por mim. Obrigado pelo primeiro
beijo. Obrigado por fazercom que eu me sinta capaz. Obrigado por
estar descobrindo o sexo junto comigo e por confiar em mim.
Obrigado por todas as descobertas que fizemos nos últimos dias.
Obrigado por ter se entregue a mim. E, principalmente, obrigado por
me amar.
ANOS ATRÁS
Eu odeio festas! Em ocasiões assim as pessoas passam a
manifestarum padrão comportamental que é irritante para mim. Não
há diálogos em um tom baixo, há música alta, gargalhadas, toques o
tempo todo. Me pergunto sempre o motivo pelo qual as pessoas
gostam de conversar tocando umas nas outras.
Não gosto de nada disso, mas é aniversário da minha irmã,
ela está completando 12 anos e me sinto obrigado a enfrentar essa
situação. Tenho 17 anos e sei que não sou um bom irmão para ela,
por isso, ao menos nos aniversários eu tento vencer algumas
barreiras para marcar presença. No início tudo vai bem. Porém,
quanto mais o tempo vai passando, mais a tentativa de me encaixar
e socializar vai tornando-se sufocante.
Yaya é como uma adolescente. Ela não se parece com uma
garota de 12 anos, e seus amigos também não. A decoração da
festamostra o encerramento de um ciclo, um adeus à infânciae aos
temas de princesa. Agora há luzes de led, decorações neon, é tudo
muito estranho.
Piora muito quando apagam as luzes e deixam uma
iluminação que deixa o ambiente parecido com as boates que vejo
em filmes. Eu fico completamente tonto e em pânico quando as
luzes começam a fazer a espécie de um jogo. Meus pés ficam
imóveis e o abafadordeixa de fazerefeito.Adolescentes correm por
todos os lados, esbarram em mim, luzes coloridas invadem meus
olhos e eu começo a lutar para conseguir respirar. Está tudo
amplificado agora, de forma que eu consigo contar quantos
segundos uma gota de suor demora para descer pela minha nuca.
Enquanto todo o ambiente parece girar diante dos meus
olhos e as pessoas parecem rodar em círculos, percebo que o
esforço para me encaixar é completamente em vão e tomo a
decisão de nunca mais participar de qualquer evento festivo.
Enquanto todos os meus primos e primas se divertem, eu sou o
garoto que tem crise de pânico no meio da festa.
— Ei, irmão, você está bem? — Samuel surge, me
perguntando, e eu não consigo respondê-lo. Ele percebe o que está
acontecendo. — Ok. Vamos subir para o seu quarto, beleza? Tudo
ficará bem.
Ele segura minha mão e eu aperto a mão dele com tanta
força que fico envergonhado. O acompanho até o meu quarto,
lutando para conseguir ignorar todas as vozes e toda aglomeração.
Há em mim alívio e vergonha, e só consigo voltar a respirar quando
estou dentro do meu quarto.
— Respire, irmão. Vamos lá, faça os exercícios — ele
incentiva e me acompanha nos exercícios. Eu os faço repetidas
vezes, lutando em busca de encontrar o controle. Demora algum
tempo até que eu consiga encontrar o ritmo certo da respiração.
— Obrigado por me ajudar.
— Não tem que me agradecer, sou seu irmão. Fique aqui,
vou buscar um pouco de água. Mantenha-se calmo, cara. Eu já
volto, tudo bem? — Samuel diz, me deixando sozinho, mas dura
pouco. Minha mãe entra no quarto um pouco desesperada.
— Você está bem? — ela pergunta, segurando meu rosto
entre as mãos. — Me desculpe, filho. A mãe de uma amiguinha da
Yaya me chamou para conversar e simplesmente não parava de
falar.
— Me desculpe por não ser como todos, mãe. Eu não posso
ficar lá. Yaya acha que eu não a amo. Mas ela é estranha, os
amigos dela são estranhos, barulhentos e irritantes.
— Não chame sua irmã de estranha, Henrico! Ela sabe que
você a ama e respeita seu espaço, filho. Eu sou muito felizque não
seja como todos. Você pode achar que isso é um castigo, mas é
uma dádiva. Você é verdadeiro, sincero, carinhoso, especial demais,
filho.Não queira ser como todos os outros. Siga sendo quem você é
— minha mãe diz.
— Ei, posso entrar? — Ouço a voz de Sophie e enxugo as
lágrimas dos meus olhos. Minha mãe abre um sorriso enorme e vejo
seus olhos brilharem em alegria.
— Olha quem chegou!
— Tia, me desculpe, mas eu trouxe uma caixa de comida,
obrigada, de nada! — Sophie responde e há mesmo uma caixa nas
mãos dela. — Ei, menino mais bonito do mundo, podemos ficar
juntos? Eu não gosto daqueles pirralhos, não que eu não seja uma
pirralha, vocês me entendem, não é mesmo? Eu quis dar algumas
voadoras em um garoto, por isso resolvi roubar comida e subir antes
de cometer um ato de violência — ela comenta, já se acomodando
em minha cama.
Às vezes eu queria ser como ela. Espontânea e normal.
— Vou deixá-los fazer uma festa no quarto, então. — Minha
mãe sorri. — Vou mandar mais guloseimas também. Fiquem bem,
meus amores. Eu amo você, Sophie!

ATUALMENTE
— Glória Deuxxxxx! Henrico Davi! Que diabo é isso na sua
mão? — minha namorada pergunta ao me ver com uma foto dela
em mãos. Foi tirada no dia do aniversário de 12 anos da minha irmã,
em meu quarto.
— Você tinha 16 anos — comento, observando a foto. Ela
estava com uma camisa vermelha, tinha os cabelos mais curtos,
usava uma maquiagem estranha e estava sorrindo. Eu a achava
muito linda, mesmo com as bochechas vermelhas de maquiagem.
— E você tem essa aberração? Credo! Olhe para mim... Os
anos fizeram um milagre e tanto! — fala, pegando outras fotos que
ela nem imaginava que eu tivesse. — Oh! Nessa eu estou muito
sexy sem ser vulgar — diz, rindo.
É uma das fotos que eu mais acho bonita. É preta e branca,
Sophie tinha 18 anos. Os cabelos dela estavam jogados para o lado,
sua mão estava próxima à boca e ela já tinha uma tatuagem
delicada de estrela no ombro. Me recordo que a blusa que ela está
usando na foto era bastante decotada e não tinha alças.
— Linda.
— Nessa aqui eu estou menos feia, menino mais bonito.
Porém, na primeira, definitivamente estou muito mais feia que a
noiva do Chucky.
— Não acho, mas tudo bem. Sempre ouvi meu pai dizer que
as mulheres são complexas, agora vejo que faz muito sentido —
comento, recebendo um olhar estranho da minha namorada.
— Está falando que sou complexa?
— É exatamente isso, Sophie! Você é linda, perfeita, é a
menina mais bonita do mundo e cisma que é feia. Não é possível
você se achar feia nessa foto preto e branco. Porém, não vou
obrigá-la a se achar bonita. — Ela sorri e me dá um beijinho na
bochecha. Sophie é muito linda.
— Estou cansada — confessa, fazendo um enorme bico.
Nossas coisas chegaram à tarde e passamos o resto do dia
tentando organizar tudo. Ainda sobrará serviço para amanhã, mas é
o momento de parar.
— Vamos descansar e continuamos amanhã.
— Sabe, eu também tenho fotos sua, só que estão em meu
celular — comenta, me puxando para o sofá. Fico a observando
enquanto busca as imagens no telefone. — Aqui!
Tudo o que vejo é uma foto da minha boca.
— Por que tem uma foto da minha boca? — pergunto a ela,
rindo.
— Oh, querido, você já viu a sua boca? Já! Você a vê todos
os dias. Mas... sua boca tem toda a minha admiração. Aumentou um
pouco depois dessa madrugada. — Fico envergonhado ao lembrar
da madrugada. — Enfim, sua boca é a boca mais perfeita que eu já
vi e precisei registrar isso. Foi no Natal do ano passado, enquanto
você estava distraído. Dei zoom e fizessa obra de arte. Essa outra
também. — Ela me mostra uma outra e eu sorrio da carinha que ela
faz.
— O que foi?
— Você é um absurdo de tão bonito, e tem covinhas
encantadoras — diz, pegando o celular da minha mão. — Todas as
coisas que me disse durante a madrugada mexeram comigo. No
momento não consegui dizer nada, apenas chorei. Mas, menino
mais bonito do mundo, eu nunca duvidei do seu potencial, sempre
soube que era capaz de tudo, até mais capaz que a maioria dos
meros mortais. Eu sempre esperei por você, sempre acreditei em
você, sempre vi muito além de todas as coisas que você era capaz
de ver em si mesmo. E eu sinto muito que sua juventude tenha sido
tão difícil,com tantas confusões internas. Sinto por não ter estado
perto todas as vezes em que passou por determinadas situações.
Sinto muito por ter lidado com pessoas ruins tentando te diminuir.
Saiba que o problema nunca esteve em você, e sim em cada um
deles. Você é incrível, garoto mais bonito. E, sobre sexo...
acabamos de começar, mas o que me fez sentir ontem... — fala
timidamente. — Eu quero sentir aquilo pelo resto da minha vida e eu
vou me lembrar dessa madrugada para sempre. Você é muito
melhor que o meu melhor sonho e é capaz de me dar prazer desde
um simples beijo até um magnífico sexo oral.
— Oh, Sophie! Não diga essas coisas! — peço,
envergonhado.
— Eu precisava dizer. E precisava deixar pontuado que você
é extremamente incrível e que eu quero sua boca em meu corpo
uma, duas, infinitas vezes. Eu não imaginava que poderia sentir
tanto prazer na vida, então sou eu quem devo agradecê-lo.
Obrigada por estar fazendo de mim a garota mais feliz do mundo!

Eu sou muito apaixonada! Acho que posso até vir a morrer de


tanto amor que eu sinto por esse garoto. Os olhinhos dele estão
brilhando, com lágrimas que ele não quer derramar, e eu
simplesmente beijo a ponta do seu nariz.
— Eu te amo, Sophie. Você pode se casar comigo sem
convidados?
— O quê? — Por que ele tem o dom de me chocar assim, do
nada?
— Não gosto de festas, mas quero me casar com você um
dia. Não quero convidados — explica.
— Nem mesmo os nossos pais?
— Somente eles. Minha mãe choraria se não fosse ao nosso
casamento, e eu não gosto de vê-la chorar — explica. — Mas, se
você quiser festa, talvez eu possa me preparar para isso —
argumenta, pegando minhas mãos. — Você vai ficarfelizcom festa,
não é?
— Não. Não me importo com festa. Importo com a lua de mel.
— Uau! Você é bem safadinha, não é mesmo, Sophie? —
Uma gargalhada escapa de mim devido ao tom de voz que ele usou.
Ele falou como se estivesse surpreso.
— Eu sempre idealizei como seria a lua de mel perfeita. Eu
penso em um lugar que façafrio, tenha neve e que possamos ficar
bem grudados para nos aquecer. Você é a minha festa, Henrico,
toda a minha diversão.
— Não entendo como posso ser a sua festa, mas tudo bem.
Combinamos de nos encontrar com Luiz Miguel e Samuel no bar do
Tião, às 20 hrs. Faltam apenas vinte minutos. Precisamos nos
arrumar.
— Então vamos logo. Eu fico com o banheiro social. — Ele
sorri e corremos para o quarto.
Felizmente, não há música alta no bar. Talvez pelo fatode ser
terça-feirae o tempo estar chuvoso e frio.Na verdade, a cidade está
assustadoramente deserta.
Luiz Miguel, Samuel e Hadassa estão sentados em uma
mesa, conversando e tomando algo que parece ser algum tipo de
vitamina. No balcão do bar há Vanderléia, Soninha e Maicon; eles
estão sentados em banquetas, rindo de algo.
Henrico se junta aos garotos, enquanto eu decido pegar
bebidas para nós. Assim que me aproximo, ouço a tal Vanderléia
falando do meu namorado.
— O que ele tem de gostoso e bonito, tem de idiota. Ele é
estranho e grosseiro, mas olha aquele rosto! Olha aquela boca! —
ela diz baixinho, mas não o suficientepara eu não escutar. Eu disse
que a boca de Henrico é um caso à parte... um atrativo e tanto. Mas
é MINHA!
Na verdade, de todas as coisas que ela disse, o que mais me
incomodou foi o fato dela chamar Henrico de idiota. Ele não precisa
mais passar por esse tipo de situação, não após ter passado por
coisas assim durante grande parte da vida, e por isso intervenho.
— Vanderléia, não é mesmo? — pergunto a ela, que me
encara de cima a baixo. — Já nos encontramos, mas não nos
apresentamos formalmente. Sou Sophie, irmã de Luiz Miguel, prima
de Théo e Samuel, namorada do homem que você acabou de
chamar de idiota.
— Ele é grosseiro.
— Ele não é grosseiro. Olha, eu não sou o tipo de garota que
gosta de brigar ou de estar envolvida em confusões.Fui criada em
meio a muito amor, de forma que não estou acostumada com esse
tipo de coisa, até me sinto perdida em meio a uma briga. Estou aqui
para conversar amigavelmente com você e sua amiga — informo.—
Aquele homem, que você também chamou de gostoso, possui um
grau leve de autismo. Mesmo sendo considerado leve, não é nada
"leve" para ele ou para as pessoas que o cercam. E, muitas das
vezes, por falta de informação e conhecimento, as pessoas acabam
julgando mal. Você sabe o que é autismo?
— Já ouvi falar.
— É complexo. Não posso falar por todos, cada pessoa
reage de uma forma, mas posso falar por Henrico. Ele não gosta de
aglomerações, isso causa pânico nele. Ele não pode ouvir sons
altos ou ruídos fortes, não pode lidar com luzes piscando, ele não
tem facilidade em fazeramigos e nem mesmo gosta de tentar. Não
gosta de se arriscar em situações que o tire da zona de conforto,
não gosta que toquem nele, nem mesmo pessoas que ele tem
convivência. Além disso, ele tem um excesso de sinceridade que é
difícilacompanhar e compreender. Às vezes achamos que ele está
sendo grosseiro, mas, na verdade, ele só está sendo sincero e não
faz isso por mal, não faz isso para causar dor nas pessoas. É
apenas o jeito dele ser. Acho que vocês queriam ter sido bem
recebidas por ele, mas talvez isso não vá acontecer. Henrico só se
sente confortável perto de pessoas que conhece. Vocês podem se
esforçar para se aproximar se quiserem, talvez consigam. Sou
ciumenta, mas não me importo se quiserem tentar ser amigas dele.
Meu namorado não é mal-educado, embora tenham pensado isso.
Ele só tem dificuldadeem socializar. Então eu peço desculpas se as
palavras dele magoaram vocês e peço que compreendam que não
foram ditas por mal. É o jeitinho especial dele ser, entende?
— Me desculpe por isso, Sophie. Eu não sabia de todas
essas dificuldades. Eu sinto muito que tenha o chamado de idiota —
ela diz com sinceridade. — Não tinha conhecimento.
— Eu sei. É por isso que quis vir falare explicar o que de fato
acontece. Vocês podem se aproximar, só não sejam tão barulhentas
como da primeira vez e tudo ficará bem.
— Você é muito simpática. Nos desculpe, viu? — A loira,
Soninha, é quem diz agora.
— Está tudo bem, de verdade. Se quiserem se juntar a nós,
sejam bem-vindas. — Sorrio.
— Eva morreria nesse momento — Maicon fala, me puxando
para ficar ao seu lado.
— Por quê?
— Ela vive brigando feio com Vanderléia e Soninha. Na
última briga, elas saíram no tapa. Théo e Luiz Miguel tiveram que
separar — explica, rindo. — Mas elas caçam. Elas não gostam de
Eva pelo fato da minha menina ser querida e mimada por todos da
cidade. Vanderléia dá em cima de Théo descaradamente todas as
vezes que surge uma oportunidade.
— Nossa! Estou um pouco chocada — confesso.
— Você é muito linda, Sophie. Que Henrico não me ouça! Se
parece com uma princesa — ele diz, sorrindo. — Vamos!
Eu nem pego as bebidas, mas Tião logo vem à mesa e
pergunta o que queremos. Pedimos pizzas e refrigerante, e
começamos a conversar.
Hadassa é mesmo um luxo! Ela parece vestida para um
evento chique e é totalmente sofisticada. Enquanto Henrico
conversa com Samuel e Hadassa briga com Maicon por algum
motivo, eu noto meu irmão digitando incansavelmente no celular.
Algo de errado não está certo, principalmente quando ele se assusta
assim que falo.
— Posso saber com quem está conversando? — Me
aproximo e ele tenta esconder o celular. Não é bem-sucedido. Antes
que ele desligue a tela, vejo um nome que fazminha boca abrir em
choque. — É sério?
— Sophie, eu preciso que mantenha a discrição. Não é nada
disso que você está pensando.
— Eu detesto essa fraseclichê de quem está fazendomerda,
principalmente porque é sempre o que estamos pensando. Ela é
menor de idade e isso pode dá uma treta louca, Luiz Miguel. Foi por
causa dela que não foi para a Ilha? — Ele não responde minha
pergunta, simplesmente solta um suspiro frustrado. — Só me diga
uma coisa, você transou com ela?
— Sophie!
— Ela tem 17 anos.
— Fará 18 em poucos meses. E, me desculpe, Sophie, isso
não é da sua conta. Só quero que mantenha o que viu guardado
para si mesma, por favor — pede.
— Vocês estão se pegando? Você transou com ela? Eu
preciso saber, estou curiosa!
— Ficamos, quase transamos, mas consegui parar a tempo.
— Eu quase jogo minha cabeça sobre a mesa. — Não me façame
sentir mais culpado, ok?
— Por que ela?
— Eu tenho me perguntado isso desde o dia em que cheguei
no Rio e a encontrei — ele desabafa. — Rolou um clima. Entre
tantas mulheres no mundo, ela é a única que me interessei de
verdade desde que Clarinha morreu. E sei que não deveria. Eu juro
que estou fazendo algo estúpido, como rever vídeos da Clarinha,
para tirar isso da mente. Não está dando certo. Há uma atração
física forte.
— Puta merda, Luiz Miguel! Você ultrapassou Samuel no
quesito fazer merda!
— Ela vai passar duas semanas das fériasaqui. — Ele joga a
notícia sobre mim e eu juro que quase caio da cadeira.
— PUTA QUE PARIU, LUIZ MIGUEL!
— Eu sei, Sophie!
— O que está acontecendo? — Henrico percebe e me
pergunta.
— Nada, menino mais bonito. Luiz Miguel me contou um caso
e fiquei chocada o bastante. — Sorrio e volto a olhar para o meu
irmão. — Parabéns! Você se superou nessa, rimãozinho! Nós ainda
vamos continuar essa conversa. Eu te amo, mas... Porra! Tudo bem,
ok, eu vou te ajudar, caso seja necessário. Mas farei isso com a
consciência de quem sabe que dará merda em algum momento.
— Não conte a ninguém, em especial ao Henrico — pede
baixinho. — Se ele decide ser sincerão, fodeu!
— Ok, mas se isso formesmo progredir, você terá que contar
a todos.
— Eu sei. — Meu irmão é louco! Logo ele... Era eu a pessoa
considerada a perdida da família, não ele!

— Hadassa vai assistir Metflix lá no sítio. — Ouço Samuel


dizer quando terminamos de comer a pizza.
— Netflix — Henrico o corrige. — Ela é a sua namorada?
— É minha noiva, não é, Hadassa?
— O dia que eu ficarnoiva cairá um dilúvio e um raio atingirá
o Big Ben, transformando-o em milhares de partículas — Hadassa
responde, rindo. — Agora, se quiser um pouco de diversão, talvez
devesse dormir na fazendado meu pai essa noite. O que acha? Lá
tem um ofurô enorme.
— Gente! — exclamo, aplaudindo internamente a ousadia da
garota. Ela é direta.
— Hadassa tinha que se chamar Devassa — Maicon
comenta. — Espero que após uma noite de sexo com Samuel, você
apareça aqui amanhã usando as sandálias da humildade. Nada de
salto alto, lantejoulas, isso aqui não é um desfile de moda, querida.
É São Roque, é espora, bota de montaria, calça jeans marcando as
bolas e berrante... não, berrante não. Estou traumatizado. Sonhei
que Serjão berranteiro tocava o berrante a cada arremetida...
acordei suando frio.
— Eu não tenho bolas, querido — Hadassa o responde.
— Eu tenho, meu amor. Te dou as minhas. — Samuel é tão
engraçadinho.
— Sophie, podemos ir embora? Está frio. Frio é romântico.
Nós podemos acender a lareira, assistir filme, beber Coca-Cola e
comer chocolate.
— Melhor programação! — concordo, empolgada, e já ficode
pé. — Vocês pagam a conta. Obrigada, de nada! Na verdade, meu
irmão vai pagar essa noite, não é mesmo, rimão?
— Não pense que eu também não terei uma conversa com
você amanhã — Luiz Miguel diz e eu mostro o dedo do meio para
ele.
— Te amo, rimão! Adeus para todos!
— Henrico, estamos em qual base? — Samuel pergunta,
para o meu horror completo.
— Terceira — Henrico responde rápido e logo se dá conta de
que fez merda. — Ok, desculpe, Sophie! Foi muito natural responder
isso. Está nas regras, me desculpe, de verdade.
— Se for o que estou pensando, eu não quero ouvir mais! —
meu irmão esbraveja e eu saio puxando Henrico, fugindoda loucura
familiar.
— Sophie, você está brava comigo? Eu não queria magoá-la,
simplesmente respondi automaticamente, ele mal havia acabado de
perguntar e saiu.
— Não estou brava, bebecito. Está tudo bem — respondo,
rindo. — Merda! Isso será um pouco complicado. Apenas não dê
detalhes, tudo bem?
— Tudo bem.

Quando chegamos em casa seguimos o script que Henrico


tinha dito no bar. Assistimos filme, comemos gordices e damos
alguns beijos mais inocentes.
Porém, nós temos algum problema com as madrugadas...
Adormeço no sofá, assistindo série, mas acordo. E quando
isso acontece, ouço o som forte da ducha do quarto. Ontem foi ele
quem cuidou de mim. Hoje é o dia de retribuir o "favor", por isso
uma ideia surge em minha mente pura. Conforme caminho pelo
corredor, vou retirando todas as minhas roupas. Estou
completamente nua quando entro no banheiro para surpreendê-lo,
mas acabo sendo a surpreendida...
Pareceu uma boa ideia fazer isso até eu ver meu namorado
completamente nu pela primeira vez.
O choque é tão grande, que me atrapalho e escorrego no
tapete do banheiro. Porém, antes que eu caia de cara no chão,
estou nos braços do meu namorado, grudada em seu corpo
completamente nu pela primeira vez.
Eu nunca imaginei que ficar nua com meu namorado se
transformaria em uma cena tão sublime. Não imaginei que seria
como se todo o mundo parasse apenas para nós dois vivermos esse
momento e que seria algo doce, sem toda aquela energia louca que
a adrenalina causa. Épico talvez não defina bem o momento.
Emocionante? Também. Diferente de todas as cenas de filmes que
já vi, e diferente de todas as cenas que construí em minha própria
mente, tendo nós dois como protagonistas, tudo que há agora é
uma delicadeza extrema, mais uma descoberta de um jovem casal
completamente apaixonado.
Acho que tudo o que vi e imaginei até hoje, nada mais foique
uma banalização de um momento incrivelmente mágico. Ou talvez
seja mágico apenas para mim — para nós dois. Tudo na vida possui
dois pesos e duas medidas, não é o que dizem? Para mim, o peso
desse momento é incalculável e quase indescritível.Li muito sobre
momentos que são capazes de arrancar o nosso fôlego, percebo
que agora me encontro mergulhada em um desses momentos.
Me falta fôlego, mas me sobra amor. O que era para ser uma
travessura de uma garota curiosa e safadinha, mudou de rumo
assim que olhei nos olhos do meu namorado e compreendi o
significadode estar nua, sendo protegida pelos seus braços fortese
aconchegada em seu corpo nu.
Nós dois. Nus.
Há muitas palavras não ditas sendo expressas através de
olhares medrosos e curiosos — meu e dele. Além disso, parece que
estamos presos no momento e que nem mesmo somos capazes de
respirar normalmente. Mesmo assim eu sinto as batidas ritmadas do
coração dele contra as minhas mãos, que estão paralisadas em seu
peitoral rijo e banhado por centenas de gotículas.
Não me reconheço agora. Porém, quero acreditar que essa
parte minha esteve guardada para Henrico. A minha parte mais
bonita é dele, assim como sei que a parte mais bonita dele é minha.
E é tão perfeito quando nossas partes mais bonitas se unem, parece
tão certo, como um encaixe de peças que foram criadas
exclusivamente umas para as outras.
Henrico me fazpensar em poesia e em todas as coisas mais
puras que existem. Penso em todas as teorias que já ouvi sobre
alma gêmea e percebo que acreditar nelas foiuma aposta certa. Me
sinto segura assim, quando estou completamente entregue para ele.
Mas a segurança não é apenas a única coisa que sinto; sinto-me
honrada, feliz por estarmos descobrindo todas as melhores partes
um do outro, encantada com a visão dele nu e chocada com o fato
de que está muito acima de todas as minhas expectativas.
E, para dar um charme ao momento, meu namorado resolve
usar o seu jeitinho atípicode ser e me encanta assim que profereas
palavras:
— Sophie, você sabia que o quebra-cabeça representa a
complexidade dos transtornos do espectro autista? As peças em
diferentes cores representam a diversidade de pessoas e famílias
que convivem com esse transtorno. — Sorrio, sabendo que agora
ele está nervoso e que esse diálogo é meio que um mecanismo de
defesa. — Minha cor preferida é o azul e essa cor estimula o
equilíbrio e a calma nas pessoas, além de representar as crianças
que possuem sobrecarga sensorial.
— Eu não sabia disso. Na verdade, eu achava que era algo
ligado à inteligência, ao QI mais elevado, pelo fato do quebra-
cabeça possuir muitas peças e precisarmos encontrar o encaixe
correto.
— Apenas alguns autistas apresentam um coeficiente de
inteligência mais elevado — me explica.
— Então você faz parte desse grupo seleto, hein?
— Acho que sim.
— Não é só seu QI que é elevado — digo, sorrindo. — Há
outras coisas bem elevadas.
— Não entendo quando você se expressa dessa maneira,
Sophie. Eu gostaria de entender, mas é um pouco difícil, minha
mente fica perdida. Pode ser mais direta em suas palavras? Eu
prefiro que seja.
— Ok. As pessoas costumam dizer que quem possui o QI
elevado é superdotado, certo?
— Certo.
— Sexualmente falando, quando um homem tem um pênis
avantajado, dizemos que ele é superdotado. — Ele arregala os
olhos ao ouvir as minhas palavras. — É isso que eu quis dizer. Você
é superdotado em mais de um sentido. Na inteligência e no pênis,
que eu prefiro chamar de pau. E eu nem o vi no auge da glória.
— Glória? Você quis dizer que não viu meu pau em um ato
heroico ou que não o viu sendo extraordinário? — Puta merda! É um
pouco difícil.
— Apesar de acreditar que ele estará em um ato heroico
mais cedo ou mais tarde, e ter a certeza de que é extraordinário,
não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer sobre não ter visto seu
pau devidamente ereto — explico, sorrindo.
— Sobre isso, é um pouco difícil.Você está nua em meus
braços e meu pau está começando a ter reações agora que
estamos conversando. Estou tentando controlar isso, mas não
acredito que irei conseguir. Você vai se assustar?
— Essa é uma pergunta complexa — falo,rindo. — Acho que
no primeiro momento talvez eu vá me assustar, porém sei que
morrerei de amores logo em seguida, pelo resto da minha vida.
— Eu entendo você agora. Eu amo a sua vagina. Posso
beijá-la novamente? É gostosa.
— Aqui? — pergunto, curiosa.
— Não! Na cama, Sophie! — Eu amo quando ele responde
meio bravinho, como se não tivesse muita paciência para
principiantes. Até dessa formahá muita fofurana formacomo ele se
comunica.
— Eu também quero conhecer você — confesso.
— Você quer beijar o meu pau?
— Sim, pode ter certeza de que é exatamente isso que quero
— respondo com toda firmeza que possuo.
— Sophie, mas... eu me sinto envergonhado.
— Estamos na terceira base, namorado. Combinamos de
explorar essa base para seguirmos a tão esperada quarta base.
Você já me conheceu na última madrugada, já fez explorações
significativas.Agora é a minha vez, quero conhecer você também.
Não é só você fazendo descobertas. Direitos iguais.
— Eu quero a quarta base e me sentir confortável— afirma.
— Quero transar com você, Sophie.
— Só vem, então...
— Sophie, precisamos nos afastar agora. É realmente sério
— informa, me soltando, e se afasta como se tivesse levado um
choque. Enfim chega o momento de ver ao vivo e a cores, de perto,
o segundo amor da minha vida.
Henrico tem sido delicado sobre as descobertas que tem feito
em mim. Ele sempre fazo possívelpara que eu me sinta confortável
com suas ações. Podemos dizer que ele prepara o terreno antes de
"invadir", ou talvez esse não seja o termo mais apropriado para o
que ele faz,já que não rola uma invasão de fato.De qualquer forma,
neste exato momento invejo o fato dele ser um gentleman. Parte de
mim quer voltar no início,quando tudo estava sendo poético e fofo.
Mas há uma outra parte que simplesmente quer descer o olhar de
uma só vez e agarrar o troféu. Sabe qual das duas partes eu ouço?
A primeira. Meu lado angelical e doce tem vencido constantemente.
Antes que eu possa fazerqualquer coisa, Henrico se vira de
costas, realmente envergonhado. Seria cômico se não fosse...
cômico. Cansei de dizer que ele é fofo!
Mas, PUTA MERDA! A bunda do meu namorado merecia
uma foto, certamente. Ele precisa ter algum defeito... Esse homem
nu, de costas... chega a doer meu peito de tanta admiração.
Sorrindo, repleta de amor e devidamente deslumbrada com a
espécime diante de mim, me aproximo. Seu corpo se retesa quando
delicadamente o abraço por trás.
— Olá, menino mais bonito do mundo.
— Olá, Sophie. — Sorrio e deixo um beijinho abaixo do seu
ombro esquerdo.
— Eu te amo de montão. Ao infinito e além. —
Delicadamente vou passando as mãos pelo seu peitoral e ele segue
ficando tenso a cada movimento. Imagino a luta interna para ceder
aos toques e o esforço é algo bonito de presenciar. Vou descendo
as mãos aos poucos e quanto mais avanço, mais pesada torna sua
respiração. — Sou eu, meu amor. Tudo bem? — Ele balança a
cabeça positivamente. — Eu desejo você da mesma formaque você
me deseja. Eu quero muito isso, muito. Não vou machucá-lo, vou
amá-lo incondicionalmente, de todas as formas. Esse é um passo
para ficarmos confortáveis.
— Eu sei.
— Posso tocá-lo mais embaixo?
— É difícil para mim — confessa.
— Pode me explicar? Havíamos conversado sobre esse
passo lá na Ilha. Mudou algo?
— Eu sei que conversamos sobre isso, porém eu nunca
pensei em obter meu próprio prazer, você me entende? Desde que
começamos com isso, por mais desejo que eu sinta, só me
preocupo com o seu prazer, em conhecê-la, entende? Nunca foi
com a intenção de você me conhecer e me dar prazer. Mas é
confuso, eu sinto muito prazer te dando prazer
, indiretamente.
— Eu entendo você. — Terei um amante nada egoísta, um
amante que pensa em meu prazer acima de todas as coisas. A
recompensa divina por eu ter sido uma garota fiel quando nem
mesmo tinha a esperança de um relacionamento com esse garoto
mais bonito do mundo.
— Acho que me preparei para conhecê-la, mas não me
preparei para você me conhecer. Meu pai e Samuel disseram que
temos que pensar no prazer das garotas primeiro. Porém, mesmo
que eles não tivessem dito, eu ainda teria pensado apenas no seu
prazer, porque eu te amo e te ver sentindo prazer é muito bonito.
Você fica ainda mais bonita. — Sorrio, o apertando mais.
— Eu te amo muito. Mas, preciso dizer algo, o seu prazer
também é importante para mim, menino mais bonito. Eu quero
descobrir você por completo, tocar você da mesma forma que me
toca. Quero que possamos sentir prazer juntos, sei que é possível.
Não quero apenas sentir, quero fazê-lo sentir, quero que sinta prazer
comigo. Deixa?

Estou tremendo, pressionando meus olhos fortemente e


tentando não demonstrar à Sophie que estou sentindo um leve
pânico. Há muitos pensamentos em minha mente agora, e minha
atenção está dividida entre eles, sentir as mãos de Sophie
percorrendo meu peitoral e minha barriga, e os mamilos rijos
tocando minhas costas. De algum modo que não consigo entender
agora, as sensações físicassobressaem aos pensamentos que
querem me prender na zona de conforto.
Disseram-me que ficarconfortávelé como andar de bicicleta,
mas para mim é uma perspectiva diferente disso, principalmente
quando nada na minha vida foi muito fácil. Não foi fácil sustentar
minhas pernas de pé e dar os primeiros passos sozinho, não foifácil
segurar a mão de Sophie e sair correndo, não foi fácil andar de
bicicleta, porque me deixava em pânico. O difícilfazparte da minha
vida desde as minhas primeiras memórias e sinto que me
acompanhará pelo resto dos meus dias.
Não é algo tão fácil e banal como a maioria das pessoas
acham. É um percurso perigoso, principalmente quando você está
em busca de que o momento se transformeem uma memória de um
encaixe perfeito e inesquecível de forma positiva. Não apenas ter
uma ereção, retirar a calcinha de Sophie e enfiar parte do meu
corpo dentro dela. Não é apenas ela ser ousada, tocar uma punheta
e fim. Tudo para mim tem uma intensidade diferente, amplificada,e
tenho que lidar com muitas questões, dentre elas me acostumar a
um novo tipo de toque. Sophie está prestes a se familiarizar com
uma parte de mim que nunca foi tocada por qualquer garota e é
preciso trabalhar o meu psicológico para aceitar isso, mesmo que eu
anseie pela ação.
Todas as vezes em que beijo Sophie, a tensão dissipa por
completo da minha mente. É por isso que volto a me virar de frente
e a pego de uma só vez, ignorando o fato de meu pau estar duro e
pressionado contra ela. É um pouco chocante sentir meu pau
praticamente entre as pernas dela, tocando diretamente sua
intimidade, mas é mais chocante ainda a maneira como minha
mente relaxa e se permite viver o que meu corpo está implorando.
Até tento me afastar um pouco, mas Sophie simplesmente traz as
mãos em meu pescoço e faz com que eu continue a beijando de
forma intensa.
Minhas mãos descem para a cintura dela e vejo seu corpo
tremer. Quando enfimme afasto,o rosto de Sophie está tomado por
algo diferente. Ela parece desesperada por mais... tão desesperada
quanto eu.
— Eu amo você. Você me ama. Não há nada que não
possamos fazer entre quatro paredes. Por favor, eu te quero com a
minha alma, Henrico. É sobre mais do que apenas querer. É sobre
precisar de você para acalmar tudo em mim.
Sophie precisa de mim.
Eu deixo que ela tome o controle da situação, porque somos
feitos de medos e vontades, somos feitos de impulsionar e recuar.
Quando um recua, o outro impulsiona.
Nesse exato momento o meu recuo significa também o
consentimento. Dois passos para trás e minhas costas se chocam
contra a parede. A boca dela volta à minha e eu me permito apenas
sentir. Seus beijos estão desesperados e não ficam apenas em
meus lábios. Ela beija o meu pescoço, meu peitoral, e vai descendo
até cair de joelhos aos meus pés. Penso em desviar meus olhos
dela, apenas para fugir da intensidade desse nível de intimidade.
Porém, sou vencido pela curiosidade e permaneço a encarando,
ofegante, ansioso, medroso.
Ela dá um sorriso antes de fechar as mãos em torno do meu
pau. A sensação é intensa e faz meus batimentos acelerarem de
uma forma quase insuportável. É muito diferente de quando sou eu
me masturbando. A cada movimento que ela faz com as mãos, a
necessidade de mais aumenta. Por fim, percebo que fugir disso
seria um atestado de idiota. É bom, é avassalador, é selvagem e me
faz imaginar uma outra situação que parece prestes a acontecer
.
Quando ela coloca a língua para fora e lambe meu pau, eu
sou obrigado a segurar em seus cabelos.
— Porra, Sophie!
— Eu gosto quando você diz alguns palavrões — ela fala,
sorridente. — Eu vou chupá-lo agora, mas não sei se farei direito. É
a primeira vez. Se for ruim ou machucá-lo, me diga. — Balanço a
cabeça em concordância e ofego quando ela leva parte de mim em
sua boca.
Há uma espécie de revolução em meu interior. Por alguns
segundos me sinto como um animal selvagem querendo sair da
jaula e sons insanos saem da profundezada minha garganta, como
um rugido feroz. A boca de Sophie parece pequena demais agora,
apertada, quente, e eu sinto sua línguapasseando por toda a minha
extensão enquanto me chupa. Não conseguirei me manter firmepor
muito tempo, mas luto por ter um desempenho digno. Meu corpo dá
espasmos involuntários conforme Sophie aumenta a intensidade.
Minhas mãos se perdem por entre os cabelos dela e eu me pego
impulsionando meu pau para a boca dela, perdendo a noção da
delicadeza. Quando percebo que estou prestes a gozar, a afasto
rapidamente.
— Não...
— Sophie...
— Não! — Ela volta a me chupar e vence a batalha quando
gozo em sua boca.
— Pelo amor de Deus... — Ofego, quase perdendo as forças
das minhas pernas. Até chegarmos à quarta base eu desenvolverei
algum problema cardíaco.
— Eu te amo do modo mais louco desse mundo, mas... eu
nunca mais vou engolir isso. Achei que seria interessante avisar. —
Ela ficade pé e corre molhada pelo banheiro, indo direto escovar os
dentes.
— Pesquisas revelam... — Tento conversar enquanto ela
escova os dentes, mas nem consigo ter um raciocínio lógico para
terminar a explicação sobre as pesquisas. — Eu te amo, Sophie.
— Eu também te amo.
— Você chupando o meu pau é a menina mais bonita do
mundo. Você entende? Sem chupar você também é. Você é, de
todas as maneiras, a menina mais bonita do mundo. Puta merda!
Você pode fazer isso de novo? — peço a ela.
— Agora?
— Sim, por favor. Eu me sinto pronto. — Ela começa a
gargalhar e eu a puxo de volta para mim. — Eu quero você de
joelhos, Sophie.
— Pelo amor da Santa Josefina!Eu acabo de ter uma parada
cardíaca!
— Seu coração está batendo, Sophie! Não teve uma parada
cardíaca.Só está respirando com dificuldadedevido à excitação. Ou
está passando mal? Nós precisamos ir ao hospital?
— Shiuuu! Garoto literal, vamos ao segundo round! — Ela
pensa que estamos em uma luta?
Tudo deixa de fazersentido quando ela volta a fazeraquelas
coisas com a língua...

— Vamos, companheiro! — Henrico ri das minhas palavras


enquanto se esforçapara descascar batatas. Ele quer comer arroz,
feijão, bife e batatas fritas, e estamos nos arriscando na cozinha. O
arroz está quase pronto, o feijão está devidamente feito, falta
apenas a carne e as batatas.
Fomos ao mercado pela manhã e foi uma experiência
engraçada por alguns motivos. Primeiro, parecíamosduas crianças
fazendo compras; segundo, Henrico não gosta de socializar;
terceiro, discutimos no caixa para pagar a conta e a mulher não
entendeu absolutamente nada quando Henrico resolveu ser super
sincero.
— Sophie, eu devo pagar a conta. Estou cuidando de você!
— argumenta.
— Eu tenho dinheiro e posso pagar a conta, Henrico Davi.
— Não importa. Eu faço questão, Sophie. Temo me sentir
desconfortável se você pagar
. Você vai se casar comigo.
— Eu adoraria ter um homem para pagar as minhas contas
— a caixa se intromete.
— Viu? Ela adoraria, eu não — rebato.
— A opinião dela não me interessa, Sophie, mesmo tendo me
favorecido. E eu nem a conheço, nem quero conhecê-la. Estou
falando com você.
— Credo! Que falta de... — corto a caixa antes que ela
termine a frase.
— Você paga! — Me dou por vencida e ele sorri.
Ele venceu a guerra, pagou a conta, e agora estamos com
um estoque de besteiras que faria a alegria de qualquer criança.
Temos até aqueles iogurtes que vêm com bolinhas para jogarmos
dentro.
— Isso é muito difícil,Sophie. Você quer que eu tire uma
casca quase invisível da batata e eu não sei fazer assim. Todas
saem com alguns pedaços, não é tão ruim quanto você faz parecer
.
— Ok, quer trocar? Eu descasco a batata e você fica
responsável pela carne. Na verdade, é melhor não! Deixe a comida
comigo, ou ficaremos cinco horas aqui, de tanto rir
.
— Eu acho que posso fazer a carne. Sinto que posso fazer
isso. — Volto a rir, porque ele pode ser extremamente engraçado na
cozinha. — Você vai parar de rir?
— Tentarei. Eu juro.
— Sophie, você é uma gostosa na cozinha. Então vamos
fazer isso logo. — Não vejo sentido no gostosa, mas ignoro a
loucura. Acho que o boquete fez um efeito louco nesse homem.
Desde que acordamos ele já me chamou de gostosa ao menos
umas sete vezes, e está extremamente safado.
— Ei, estava pensando aqui, que tal acampar na sexta-feira
ou sábado? Acho que será uma experiência legal. Podemos ir até a
cidade vizinha comprar tudo que é necessário para uma expedição
— sugiro.
— Eu acho que será muito legal, Sophie. Precisamos verificar
a previsão do tempo e achar o local ideal para passarmos o final de
semana, de preferência perto de alguma cachoeira. Nós vamos
poder fazer sexo oral no acampamento?
— Olha o seu foco, Henrico Davi! — repreendo-o, rindo
enquanto descasco as batatas. — Nós podemos fazersexo oral em
qualquer lugar que haja o mínimode privacidade. Estou tão felizzzz!
Acho que será incrível,bebecito!
— Eu te amo. Tenho certeza de que será incrível.
— Não ligou para os seus pais hoje — comento.
— Não posso ligar para eles — ele diz, concentrado em fatiar
a carne em pedaços menores, tipo iscas.
— Por que não pode ligar para eles?
— Há muitas coisas novas acontecendo entre nós e tenho
receio de jogar todas as informaçõesda nossa intimidade para eles.
Preciso deixar que essa fase passe um pouco, antes de ligar
.
— Ok, eu entendi. Você pode conversar sobre nós com eles,
Henrico. Eu também direi sobre nós aos meus pais, quer dizer, ao
menos para a minha mãe. Não vou contar ao meu pai que fizemos
sexo oral e que não existe nada mais perfeitoque sua boca em meu
corpo. — Sorrio. — Acho que podemos falar sobre nossa intimidade,
só não podemos expor os detalhes mais íntimos. Não acredito que
vamos superar ou esquecer tão facilmente todos esses
acontecimentos, por isso acho que deveria ligar para os seus pais,
como ligarei para os meus. O que eu não posso fazer é chegar no
bar do Tião e dizer que seu pau é grande e gostoso.
— Meu Deus, Sophie!
— Só um exemplo do que não pode — digo, segurando a
vontade de rir. — Mas não é uma mentira. O melhor a ser feito
agora é nos concentrarmos no almoço, menino mais bonito. Quando
começamos a falar de sexo, acabamos nos excedendo. Vamos
acabar na cama, ou talvez eu acabe de joelhos — provoco e recebo
um olhar, no mínimo, curioso.
— É muito difí
cil ser seu namorado. Agora estou imaginando
você de joelhos, Sophie.
Eu também estou. Puta merda! A madrugada foi no mínimo
louca. Henrico perdeu a compostura todinha e juro que meu couro
cabeludo ainda está doendo pela maneira como ele puxou os meus
cabelos. Ele simplesmente gostou bastante de toda ação e a
segunda vez foi ainda mais intensa que a primeira. Ele arremetia
para dentro da minha boca como se estivesse fodendo outra parte
do meu corpo. Em alguns momentos eu quase vomitei, foi chocante
ver lágrimas descendo dos meus olhos e mais chocante ainda a
maneira como ele estava um tanto quanto impiedoso. Quando eu
quase vomitava, ele parava por alguns segundos, esperava eu
respirar e voltava a fazer tudo novamente. Foi excelente, mas
chocante. E ainda teve o agravante dele conseguir ficar sem gozar
por muito tempo na segunda vez. Juntando todas essas
informações,podemos ver que meu namorado é bem parecido com
uma bomba-relógio.
Sei que futuramente serei uma sortuda do caralho, mas agora
apenas tenho um pouco de medo da primeira vez. Se ele for nesse
impulso em outra parte do meu corpo, estarei fodida, literalmente, e
uma cadeira de rodas será pouco. Porém, tenho descoberto que o
prazer pode ser como um vício.Eu sinto prazer quando Henrico me
dá prazer, e sinto prazer quando dou prazer a ele. Estar de joelhos
essa madrugada me deixou tão desesperada, como se fosse ele
com sua cabeça enterrada entre as minhas pernas. Eu quero fazer
isso novamente e quero ir além. Me sinto pronta para o próximo
passo, mesmo com medo. Na verdade, estou ansiando por isso.
Creio que só quando de fato acontecer, iremos nos acalmar um
pouco. Toda essa expectativa pelo sexo está fazendo com que
nossas mentes só trabalhem em torno disso.
Quando idealizava um namoro com Henrico, jamais imaginei
que poderia ser tão arrebatador e voraz, tão quente. Eu imaginava
algo em torno da pureza, da paciência, dos passos lentos. Nos
últimos dois dias temos nos devorados, como famintos e
desesperados. Até pisamos um pouco na parte da pureza, mas logo
pulamos fora e deixamos a voracidade assumir
.
É além do perfeito estar no mundo além do azul com Henrico!
Só por hoje decidimos nos fechar dentro de casa, eu e ele.
Sem visitas, sem idas ao bar, sem lembrar que existe vida do lado
de fora dessa casa.
— Já feza lista? — pergunto a Henrico, enquanto dirijo rumo
às compras.
— Acho que está tudo aqui, Sophie. Barraca de camping,
saco de dormir, isolante térmico, cobertores, lanternas, repelentes,
protetor solar, pilhas reserva, álcool em gel, saco de lixo, papel
higiênico, sabonete, canivete, fita adesiva em caso de necessidade,
lençóis, fronhas, travesseiros, itens para cozinhar, fogareiro,
fósforo...— Ele segue falando e eu sigo me perguntando como
levaremos tudo isso. Henrico não esquece um único detalhe. —
Talvez um colchão inflável seja aconselhável, o que acha?
— Como carregaremos tudo isso?
— Iremos de carro, Sophie. Eu não vou correr o risco de levá-
la para um local qualquer, entende? Vamos procurar um local
adequado, onde possamos ir de carro. Você tem um Jeep, é
excelente para aventuras.
— Ok, mas isso está me saindo muito patricinha e playboy
acampando. Somos melhores que isso, bebecito. Somos radicais e
aventureiros!
— O seu pai vai me matar se qualquer coisa ruim acontecer.
Vamos ser aventureiros, Sophie, mas temos um limite. — Me pego
sorrindo diante de toda seriedade.

Quando chegamos na loja, Henrico toma frente da situação.


Eu fico apenas rindo, enquanto ele dá aula sobre acampamentos
para o atendente. O homem oferece determinada coisa, Henrico o
corrige e pega algo que acha que é melhor do que o que o cara
ofereceu.
Enquanto ele se encarrega das compras, eu vou atender meu
celular. É Samuel.
— Olá, priminho!
— Ei, onde vocês estão? — pergunta.
— Comprando coisas necessárias para irmos acampar. E
você?
— No sítio. Vocês estão indo acampar?
— Vamos daqui dois dias. Não decidimos o local ainda,
primeiro estamos comprando tudo o que precisaremos — explico.
— Minha irmã está chegando. Se não fosse isso, iria com
vocês. Chamaria a Hadassa, mesmo sabendo que ela iria de salto
agulha e que não é uma garota do mato. — Eu nem foco na
segunda coisa que ele disse. A primeira é um tremendo alerta de
perigo se aproximando. Fico até sem palavras. Eu vou matar Luiz
Miguel! — Sophie?
— Oieee... foi mal, acabei me distraindo. Seria incrível se
vocês fossem, iríamos adorar, mesmo correndo o risco de
escutarmos gemidos uns dos outros.
— Que merda! — ele diz, rindo. — Vamos nos encontrar à
noite?
— Vamos sim! Às oito, no bar do Tião, só para variar um
pouco. — Sorrio. Assim que nos despedimos, volto ao meu
bebecito.
Enfim, não foi tão assustador. A maioria das coisas são
pequenas, dobráveis, fáceis de carregar. Acho que será um
programa romântico, com direito a fogueira, frio e céu estrelado.
Estou ansiosa!
— Você está linda, Sophie! — meu namorado diz assim que
surjo na sala, pronta para irmos ao bar do Tião.
— Você está mais lindo ainda, namorado! — digo, o
abraçando.
— Eu te amo muito. Não consigo descrever o quanto. Eu te
amo ao infinito e além, te amo para sempre. — Ele segura meu
rosto entre suas mãos e eu seguro o rosto dele.
— Também te amo além do infinito.

Eu não costumava sair muito de casa. Os últimos dias têm


sido bastante diferentes, fogem completamente da rotina a qual eu
estava acostumado. Não sei até quando poderei fazerisso. Mesmo
que eu esteja entre meus familiares, me sinto um pouco nervoso,
desconfortável.
Sophie está sentada de frente para o balcão do bar,
conversando com o famoso Tião. Já eu estou sentado em uma
mesa com Luiz Miguel, Samuel, Maicon e Hadassa. Não sei se
gosto de Maicon. Ele diz que é gay, mas não confiomuito nisso. Ele
chama a minha namorada de gostosa e gosta de tocar, abraçar, sem
contar que ele é muito animado, barulhento. Não gosto disso.
— Ei, companheiro! — Samuel se senta ao meu lado. — Não
temos conversado muito.
— Eu sei, estou evitando conversar — confesso, vendo-o
franzir a testa.
— Por quê?
— Porque eu e Sophie temos uma regra sobre não falar da
nossa intimidade. Porém, nos últimos dias, os acontecimentos têm
girado em torno da nossa intimidade e não tenho outro assunto para
conversar. — Samuel sorri.
— Ouça, Sophie certamente não quis dizer sobre você nunca
falar sobre os acontecimentos entre vocês. Ela deve ter dito isso no
sentido de dar detalhes íntimos. Por exemplo, você sabe que eu já
transei com várias garotas, mas eu nunca dei detalhes íntimos do
que fizemos entre quatro paredes.
— Você transou com Hadassa?
— Ainda não, mas irei — ele responde, sorrindo. — Estou
enrolando um pouquinho, fugindo disso.
— Por quê?
— Ela combina comigo em muitos sentidos, não quero ser
pego pelas bolas. Preciso ter controle emocional para lidar com ela.
— Eu não entendo bem a resposta dele.
— Vocês, seres humanos, são muito estranhos.
— Ei, você é um ser humano, irmão — me repreende, rindo.
— Mas sou diferente. Não sou tão complicado quando quero
algo. Ou talvez seja.
— Oh, com certeza você é. Pode acreditar em mim — afirma.
— Você e Sophie já transaram?
— Ainda não. Estamos nos conhecendo intimamente. É
normal pensar em sexo o tempo todo?
— Wow! — Samuel ri. — O tempo todo, hein?! É normal sim,
irmão. Acho que você esperou tempo demais e agora descobriu
uma das grandes maravilhas do mundo.
— Sexo não se encaixa nas maravilhas do mundo antigo ou
moderno.
— É apenas modo de dizer. Falamos assim quando algo é
muito maravilhoso. Se tiver perguntas, não fiqueenvergonhado, ok?
Sou seu irmão e melhor amigo.
— Não tenho perguntas. Acho que estou tendo um bom
desempenho. Não há um manual de instruções a ser seguido. Antes
eu achava que deveria haver, agora não mais. Minha mãe me disse
que o primeiro passo era o mais difícile que depois dele as coisas
iriam se ajustar. Ela estava certa. Depois do primeiro passo ficou
mais fácil dar outros passos. Há alguns momentos em que travo;
quando isso acontece, Sophie pega o controle. Há outros momentos
onde é ela a travar, e aí sou eu quem preciso estar no controle. É
uma dinâmica curiosa, mas está dando certo. — Meu irmão me
abraça.
— Eu estou muito felizem ouvir tudo isso, muito felizmesmo!
— Sorrio e busco Sophie com os olhos. Não gosto do que vejo e
Samuel percebe.
O mesmo homem que estava flertando com ela outro dia,
está perto demais. Sophie está conversando com Tião, distraída,
mas noto o homem a observar por completo, de uma maneira que
não gosto.
— Sophie vai saber se defender. Respire. Madson é o idiota
da cidade — Samuel diz, mas não dou importância às palavras dele
agora.
Durante parte da adolescência, evitei Sophie por medo de
como reagiria se a encontrasse com algum garoto ou se a
escutasse falando sobre garotos. Havia o medo da dor, o medo de
perder a cabeça, o medo de surtar diante dela. Todos esses
conflitos foram responsáveis por muitas das crises que eu tinha.
Agora é diferente. Os sentimentos estão intensificados e ela é a
minha garota, minha mulher. Qualquer coisa que ameace isso me
tira da nova zona de conforto que estou construindo, uma onde só
há espaço para nós dois. Eu posso sentir a adrenalina percorrer
meu corpo, até mesmo fecho as minhas mãos em punhos.
Sophie é minha e eu não gosto de qualquer homem perto
dela.
Ela ficade pé, demonstrando um leve incômodo, mas segue
conversando com Tião. Sophie é educada, delicada e sempre tenta
resolver as situações de maneira calma, madura. Sei que é isso que
ela está fazendo. Ainda assim, me incomoda e me coloca em estado
de alerta.
O homem também fica de pé, se aproxima mais, quase a
prendendo sobre o balcão. Ele toca nos cabelos dela. Ela recua. Ele
toca na cintura dela. Ela recua. Ele a puxa contra o corpo dele e eu
fico de pé, tremendo e temendo. Sophie luta para se afastar.
Somente eu, Samuel e Tião estamos cientes do que está
acontecendo. Sei que Tião tenta intervir, mas não consegue. Nem
mesmo Sophie consegue se desvencilhar do aperto e a cena parece
acontecer em câmera lenta. Quando o homem segue mantendo-a
presa, ela pede socorro a Samuel e a mim através de um olhar, e eu
deixo de controlar os meus atos.
A última coisa que ouço é o grito de Sophie.
A última coisa que vejo é sangue.
PASSADO (CONTÉM GATILHOS)
8 ANOS DE IDADE
— Saia daqui, Pablo! — Os gritos da minha mãe ecoam pela
casa. Ela está chorando; um choro forte, desesperado, repleto de
medo. — Ele não quer ir com você. Isso está errado!
— ELE É MEU FILHO E VAI COMIGO! É O MEU DIREITO!
FODA-SE A LEI! EU QUERO E VOU PEGAR O MEU FILHO!
— Ele não quer ir, Pablo! Você é um idiota?! Não percebe
que Henrico não pode passar por situações assim?
Levo minhas mãos aos ouvidos, mas não ajuda o suficiente.
Há gritos dos dois e isso faza minha cabeça doer. Eu não gosto de
ver a minha mãe chorando. E eu odeio Pablo. Ele não é o meu pai!
Ele nunca será o meu pai! Eu o odeio! O odeio muito!
Estou embaixo da mesa, escondido. Daqui eu o vejo segurar
os braços da minha mãe. Eu acho que ele vai bater nela, por isso
pego o telefone e aperto uma tecla que liga para o meu pai. Ele
atende, diz coisas e eu não consigo responder. Meninos não batem
em garotas, meu pai me disse isso. Mesmo assim, Pablo empurra a
minha mãe e ela cai em cima de uma mesa de vidro, que quebra por
completo. Eu sei que ele quer me pegar e que está me procurando.
Eu fico quieto debaixo da mesa, mas, após um tempo, ele me
encontra e me puxa.
— Solte-o! — minha mãe grita, tentando se levantar. Ela está
desesperada.
— Sua mãe é uma vadia! — ele diz a mim e tenta me pegar
em seus braços. Eu não deixo. Um forte choro escapa de mim,
acompanhado de um grito. Eu luto com Pablo, o arranho, dou
chutes, e ele grita. Minha cabeça vai explodir.
Ele está me levando para fora de casa quando um monte de
homens surgem. Há armas. Elas são perigosas, meu pai me disse.
De repente, não estou mais nos braços do Pablo, há um homem
estranho e eu o arranho também, não consigo parar. Minha visão
agora está ruim, mas vejo meu pai correr. Ele me pega dos braços
do homem e me leva para dentro de casa.
Minha mãe está se levantando, chorando e suja de sangue.
Ela não se importa com o meu pai agora. Ela me pega em seus
braços e me abraça forte, mas eu não quero. Eu não quero ser
tocado e me debato. Não quero ouvir sons, não quero ver pessoas,
não quero ser tocado. Minha irmãzinha está chorando e eu odeio o
som dela.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — minha mãe sussurra,
andando comigo para o banheiro. Ela é fortee me mantém firmeem
seu corpo enquanto abre o chuveiro. Retira minhas roupas, entra no
boxe, se senta no chão e me abraça forte enquanto a água
quentinha cai sobre meu corpo. Eu a empurro, me debato, mas
minha mãe é mágica. Ela se mantém abraçada a mim, mesmo eu a
arranhando, e faz carinho em meus cabelos, além de ficar
caladinha, em silêncio. Aos poucos vou me acalmando. Tento me
desvencilhar mais uma vez, mas estou cansado, por isso me
concentro no som da água.
Eu gosto do som da água caindo. Me acalma. O abraço
apertado da minha mãe também me acalma, mas ela está chorando
e tremendo. Eu odeio o Pablo.
— Fique comigo, filho, por favor... — Ela volta a chorar
quando meu corpo fica mole, mas não respondo.

— Eu não sou agressivo — digo ao meu irmão, enquanto ele


lava as minhas mãos no banheiro do bar.
— Você não é. Não é. Eu teria feito o mesmo. Théo já fez.
Apenas respire.
— Não sou agressivo. Não quero que Sophie me veja. Não
quero que ninguém me veja. Ninguém pode me entender — peço.
— Eu entendo você. E Sophie? Ela é a sua garota, irmão. Ela
te entende e te ama.
— Mas eu fui agressivo. Eu não sou agressivo. Ela me viu
sendo agressivo e está assustada — argumento, sentindo um
desespero crescer.
— Você estava apenas a protegendo. Ela entende isso. Onde
está o seu elástico? Vamos lá, você precisa se acalmar. Acha que o
elástico vai resolver? — Nego com a cabeça. Ele entende o que
significa. — Me diga onde está e faremos isso. Apenas respire,
irmão.
— Sophie...
— Ela vai entender. Sophie ama você, Henrico. Você estava
a protegendo. Todos estão orgulhosos. Luiz Miguel teria arrebentado
Madson, só não fez porque Maicon o segurou. — Não acredito em
meu irmão agora. Eu fui agressivo, violento.
— Ele vai morrer?
— Não vai morrer — Samuel responde, rindo. — Ele está
vivo e estão cuidando dele ali fora. Deve ter perdido uns dentes,
quebrado o nariz, o que é merecido para um cara abusivo. Eu teria
feito o mesmo, Henrico, independentemente de ser com Sophie ou
não. Eu iria fazerse você não tivesse visto. Você só protegeu a sua
namorada. Um homem não deve tocar em uma mulher quando ela
diz não, não é isso que nosso pai nos ensinou?
— Não quero que Sophie me veja assim.
— Vou levá-lo para casa e vamos resolver isso. Amanhã você
estará melhor, tudo bem?
— Eu não posso namorar com ela. — Dizer isso fazcom que
lágrimas desçam dos meus olhos. A realidade que eu tento ignorar é
cruel. — Ela não precisa de um garoto como eu... Não posso dar a
ela um relacionamento normal. Sophie é uma garota normal, eu sou
diferente.
— Não diga isso, cara. Você está indo bem, Henrico. Nunca
vi Sophie tão feliz como agora. Todos nós somos diferentes, você
sabe disso. Você só defendeu uma garota. Théo também deu uma
porrada naquele cara e vai se casar com Eva.
— Ele não teve que tomar uma injeção para ficarcontrolado.
— Samuel enxuga as minhas mãos e suspira, sem argumento.
Algumas verdades são mais difíceis que outras.
— Vamos lá, Henrico. Vamos para casa.
— Não acho que eu posso ir.
— Você vai enfrentar todos os seus medos, vai sair da zona
de conforto e vai sair desse banheiro comigo agora. Nós iremos
para a sua casa e tudo ficará bem — Samuel diz, segurando meu
rosto entre as mãos. — Não se envergonhe de proteger uma garota.
Segure a minha mão e vamos sair daqui, tudo bem? — Balanço a
cabeça positivamente e o sigo sem olhar para qualquer pessoa.

— Eu deveria ter agido antes! Mas o idiota estava me


apertando forte — choramingo com o meu irmão, após presenciar
quase um massacre. Henrico parecia transtornado quando
arremessou Madson a metros de distância. Descobri da pior
maneira a força do meu namorado. Ele é extremamente forte,
assustadoramente forte.
— Pare com isso, Sophie. A culpa nunca é de uma mulher
que diz não — Hadassa fala, segurando as minhas mãos, enquanto
vejo meu irmão querendo a morte de Madson. — Esse homem
sempre foi um idiota, desde muito jovem. Pensei que ele mudaria
com os anos. Imagine a minha surpresa ao voltar de Londres e
perceber que nada mudou? Você disse não, ele te tocou sem
consentimento!
— Mas agora Henrico ficará fodido psicologicamente.
— Não os conheço, nem sei como é a relação de vocês, mas,
por tudo que Samuel já disse, vocês saberão lidar com Isso, Sophie.
— Ela se esforça em me ajudar, mas, infelizmente,há algo em mim
que não consegue se acalmar. Piora quando vejo Samuel sair do
banheiro com meu namorado. Me levanto, mas ele faz um aceno
para que eu fique na minha. Eu não sei se posso fazer isso.
Na verdade, eu sei, não posso fazer isso!
Deixo Hadassa e sigo atrás dos dois. No fundo, estou
temendo o que irá acontecer, por isso tenho cautela até mesmo em
meus passos. Eles entram em casa primeiro e, após um tempinho,
entro. Henrico está dizendo coisas, enquanto Samuel tenta acalmá-
lo.
— Não saberei lidar com Sophie depois que acordar. Você
não entende. Como vou olhar para ela?
— Você está levando sua mente para um caminho errado,
Henrico. Não está conseguindo raciocinar neste momento. Assim
que se acalmar conseguirá perceber que não há nada de errado.
Não é legal brigar, agredir, mas algumas situações simplesmente
saem do controle. Já disse, se você não tivesse agido, eu teria,
talvez até mesmo Tião. Onde está? — Não entendo.
— Em um nécessaire na gaveta do banheiro.
— Faremos isso e você irá se acalmar. Amanhã vai acordar
melhor. — O choque me invade, porque agora consigo entender do
que se trata. Não estou disposta a deixar isso acontecer.
Chego no quarto em velocidade recorde. Henrico abaixa a
cabeça ao me ver e Samuel faz uma cara de pura repreensão.
— Sophie...
— Eu vou lidar com o meu namorado — digo baixo, tentando
demonstrar uma calma que não existe agora. — Por favor. —
Samuel, que estava agachado, fica de pé, segura a minha mão e
me puxa para fora do quarto.
— Ele precisa disso, Sophie. Eu prometi para tia Paula que
faria isso, caso fosse necessário.
— Não. Ele não precisa disso agora. Eu vou lidar com a
situação sem que ele precise tomar algo que o fará desmaiar. Confie
em mim, eu vou cuidar dele, Samuel. Tomando ou não, ele terá que
lidar comigo. Somos um casal, não há para onde ele fugir, entende?
Ele pode não lidar comigo agora, mas amanhã ou depois, quando
acordar, eu estarei ao lado dele e de nada terá adiantado fugir.
— É o que ele quer, Sophie. Ele pediu. Ele nunca pede, mas
pediu hoje. A maneira dele enfrentar as situações é diferente,
principalmente quando há a maior fraquezadele no meio de tudo —
meu primo argumenta, me abraçando. — Você só precisa entender
isso.
— Eu tentarei do meu modo. Me desculpe, mas não estou
disposta a deixar isso acontecer, entende? Já o vi sob efeito da
medicação e Henrico deixa de ser ele, é um pouco assustador a
maneira como ele se desintegra. Prometo te ligar se algo der errado.
Só me deixa cuidar dele, por favor. Eu preciso saber lidar com o
meu namorado. Não quero que ele se submeta a algo tão forte. —
Samuel balança a cabeça em concordância.
— Ele provavelmente não vai me perdoar por isso. Me ligue
se precisar de qualquer coisa. — Ele se vai e eu corro para o quarto.
Henrico agora está no banheiro e, para meu choque
completo, há uma seringa em sua mão.
— Não faça isso — peço com todo cuidado que possuo. —
Não faça isso, por favor. Por mim. Não faça isso. — Me aproximo,
seguro sua mão e retiro a seringa da mão dele. Ele não me olha.
Está fazendo aquela coisa de nunca olhar nos olhos da maioria das
pessoas. Eu seguro seu rosto entre minhas mãos e roço meu nariz
no dele. — Sou eu, sua Sophie, meu amor. Estou aqui e te amo
muito. Posso cuidar de você? — Num movimento suave, ele acena
positivamente, para o meu alívio.
Nós podemos fazer isso. Sei que podemos.
Em algumas vagas memórias da infância, me recordo de
quando Henrico tinha crises. Tia Paula retirava as roupas dele, o
abraçava e ficava por longos minutos embaixo do chuveiro,
deixando a água cair sobre o corpinho dele. Isso costumava acalmá-
lo.
Ao invés de ir para o chuveiro, decido colocar a banheira para
encher. Enquanto a água cai com força na mesma, retiro todas as
minhas roupas. Completamente nua, me aproximo de Henrico e
começo a despi-lo. Minha nudez dessa vez parece não afetá-lo
tanto, como tem ocorrido nos últimos dias. Mas a dele me afeta.
Sempre me afeta.
A cada peça de roupa que eu retiro do meu namorado, eu
sinto a chama se acender. É como se eu pudesse enxergar o fogo
dentro de mim e, se pudesse mesmo fazer isso, diria que as chamas
estão dançando através de todas as minhas terminações nervosas.
Quando Henrico está completamente nu, eu não consigo evitar de
olhá-lo por completo. Seu pau não está duro, mas, ainda assim, é
incrívele chamativo o bastante. Nunca pensei que um dia poderia
amar outra pessoa...
Foco, Sophie!
Ele me acompanha até a banheira e eu entro logo em
seguida. Meu namorado ainda não consegue olhar para o meu
rosto, é uma cena de partir o coração. É tão ruim vê-lo com todas as
vulnerabilidades expostas, sentindo-se inferior ou insuficiente.Tudo
para ele tem um peso e uma perspectiva diferente. "Alguns infinitos
são maiores que outros". É exatamente isso. O infinito de Henrico é
maior que muitos outros infinitos, e é por isso que eu coloco minhas
pernas sobre as dele e o puxo para os meus braços. Eu posso lidar
com o infinito dele.
No primeiro instante há um pouco de relutância, mas ele
acaba cedendo, deitando sua cabeça em meu ombro e retribuindo o
abraço. Eu acho que não precisamos de palavras agora, apenas
silêncio e conexão. Quero que ele perceba que sempre estarei aqui,
haja o que houver.
Não sei quantos minutos se passam, mas percebo o corpo
dele devidamente relaxado sobre o meu e isso me deixa um pouco
assustada.
— Henrico?
— Sophie... — Ele está aqui!
— Você está aqui comigo e eu estou aqui com você... — digo
algo que nem eu consigo entender.
— É o que parece. Não tem como eu estar aqui com você e
você não estar comigo, Sophie. — Sorrio.
— Você se sente melhor?
— Não. Eu queria esquecer, o remédio ajudaria. Estou
envergonhado — confessa.
— Você ainda quer o remédio? Os efeitos colaterais dele
demoram a passar. Não gosto da maneira como você fica quando
utiliza aquilo...
— É para casos de urgência. Infelizmente, não tenho como
me desfazer da medicação, Sophie. Evita coisas piores e alivia a
minha mente, me deixa controlado.
— Eu entendo que alguns dos efeitos sejam positivos, mas
há muitos efeitos negativos. Você fica dopado, praticamente
desmaiado por um longo período. Entendo que talvez surja mais
algum momento tenso, onde a medicação seja necessária, mas o
que aconteceu agora... Eu acho que podemos lidar com isso,
Henrico. Podemos conversar, eu posso ser o seu remédio essa
noite. — Finalmente ele levanta a cabeça e me encara, olhos nos
olhos.
— Entendo o que acabou de dizer, Sophie, mas não
romantize uma crise. Eu já destruí um quarto, já quebrei coisas, já
machuquei a minha mãe quando era criança — fala,voltando a ficar
cabisbaixo. — Não quero causar danos emocionais a você. Não
quero que minhas ações te afetem.
— Não estou romantizando, estou tentando fazer com que
você escolha uma maneira menos agressiva para lidar com os
acontecimentos. Uma medicação forte servirá apenas de fuga
momentânea, porque quando você acordar eu ainda estarei aqui e
você terá que enfrentar isso de um jeito ou de outro, entende? Não
tem como fugir de mim, Henrico. Somos namorados, moramos
juntos e talvez um dia seremos marido e mulher. Se você quiser
tomar a medicação, eu mesma irei aplicar. Eu farei qualquer coisa
que seja o melhor para você, mas não vou te deixar nem por um
segundo, e se medicar agora será apenas uma fuga, você estará
evitando o inevitável. Eu sempre vou estar aqui, porque é o que eu
quero e é o que eu escolhi. E, se quer saber, não estou arrependida
e nem irei ficar. Eu não sou uma garota fraca,Henrico. Suportei ficar
longe de você uma vida toda, determinação fazparte de quem sou.
Eu te aplico a injeção, porém, quando você acordar, eu estarei ao
seu lado e não vou deixar que fuja novamente. Somos um casal.
— Eu acabei de agredir um homem — justifica. — Me
perdoe, Sophie. Não sou um garoto violento, agressivo, abusivo. Eu
não sou assim e, muitas das vezes, não sei lidar com os meus
sentimentos... Fica tudo bagunçado dentro de mim e não consigo
encaixar as peças.
— Sei quem você é, Henrico. É justamente por isso, por
saber quem você é, que eu te amo. Não tive medo de você, não o
achei agressivo. Sei que brigar não é a maneira para resolver uma
situação, mas há alguns casos em que é preciso. Não vou julgá-lo
por ter me defendido, eu estava sendo agarrada e não conseguia
me desvencilhar. Você me protegeu, obrigada por cuidar de mim.
— Você merecia um garoto melhor, mas a simples ideia... —
Ele não consegue terminar de falar. Um som estrangulado escapa
de sua garganta.
— Eu não mereço ou quero qualquer garoto. Eu mereço
você, eu te amo desde que me entendo por gente e não há ninguém
nesse mundo que se encaixa tão bem em mim como você — digo,
tocando seu rosto. — Eu sou sua. Só você pode me tocar, só você
pode me amar, só você pode ficar confortável comigo... — Sorrio.
— Você quer isso?
— Sim. Muito. Tanto que dói.
— Você está preparada?
— Estou.
— Não posso fazer sexo agora, Sophie. Minha mente está
muito bagunçada e eu preciso ficarno escuro por um tempo, minha
cabeça está doendo muito. — Uma tristeza me invade ao entender
que ele está querendo a injeção. Eu não o quero no escuro...
— Eu sinto muito, Henrico.
— Você pode apagar todas as luzes e ficarabraçada comigo
na cama? — A esperança renasce de uma só vez. Meu Deus! Agora
é a minha mente que está uma bagunça.
— Sem injeção? — pergunto.
— Sem injeção.
— Eu te amo! Muito obrigada por isso! Eu prometo ficar
caladinha, prometo ser a mulher que precisa que eu seja. Só fique
comigo, tudo bem? — Ele balança a cabeça positivamente e me
afasta para sair da banheira.
Passo o restante da noite na escuridão, com o meu
namorado. Às vezes é necessário sair do azul, mas sei que amanhã
estaremos mais fortes como casal. Eu lido com Henrico desde a
infância,fui eu quem o incentivei a correr... Agora nós faremos toda
e qualquer corrida juntos.
Algo mudou.
Pensei que tivéssemos atingido o limite da intensidade, mas
estava completamente enganada. Agora mudei minha convicção,
passei a acreditar que determinadas situações dispensam limites,
nem mesmo podem ser delimitadas.
Ontem, o dia seguinte ao ocorrido, foi estranho. Henrico se
manteve silencioso e isolado grande parte do dia. Porém, todas as
vezes em que deu o ar da graça, eu recebi os olhares mais intensos
de toda a minha vida.
Cada olhar que foi dirigido a mim tinha o poder de fazercom
que o meu corpo queimasse e se contraísse involuntariamente.
Alimentei uma grande expectativa sobre a madrugada. Achei que
seria tórrida como ocorreu em outras, mas Henrico simplesmente
dormiu a noite inteira. Ele precisava desse descanso mental, por
isso nem arrisquei dar uma provocada.
Hoje também estamos tendo um dia diferente,ele parece que
acordou mais disposto a me deixar louca. Se ontem ele esteve
isolado, hoje ele decidiu marcar presença. E que presença... Parece
que estou em uma espécie de jogo, mas só ele sabe jogar e
manipular a situação.
Estou me sentindo em meio a uma preparação para um
acontecimento maior. Poderia comparar um pouco com a fase onde
eu tinha 17 anos e estava me preparando para a prova que
garantiria minha vaga em uma universidade na Califórnia.A questão
é que agora pareço estar indo garantir uma foda sinistra.
— Sophie, precisamos conversar — meu namorado anuncia,
entrando na cozinha, onde estou conferindo se o brigadeiro que fiz
mais cedo esfriou.
— Sobre?
— Sexo. — Já sei que vou rir. Ou talvez eu chore por todos
os lados. Com Henrico nunca dá para saber se iremos rir ou
"chorar" quando se trata de sexo.
— Claro, vamos conversar. — Pego o prato com o brigadeiro,
duas colheres e carrego para a sala. Ele me acompanha, se
acomoda ao meu lado e rouba uma das colheres da minha mão.
— Quero te comer! — anuncia de uma só vez, fazendocom
que o brigadeiro entre pelo lugar errado e eu engasgue. Ele tenta
me socorrer, dando tapas nas minhas costas, mas estou impactada
o bastante e custo a recuperar a compostura. Puta merda!
— Como assim? — pergunto, tossindo, rindo e chorando de
uma só vez. Chorando por ter me engasgado.
— Me desculpe por ter dito dessa forma, mas desde que
Samuel falou sobre comer, pesquisei e estive pensando que faz
sentido utilizar essa expressão. Se você quiser, eu nunca mais digo
isso. Apenas vi que pode ser excitante para algumas garotas e
resolvi testar com você.
— Você pode dizer, é extremamente excitante. Meu Deus! Só
diz assim, por favor. Eu amei. Só não estava esperando. Foda-me.
Que horas?
— O quê?
— Você disse que quer me comer. Prossiga — digo, me
abanando em busca de ar. Senhor da glória! Eu vou pedir esse
homem em casamento, juro por Deus!
— Então... eu quero te comer. Mas tenho algumas questões.
— Quais questões?
— Você faz uso de anticoncepcional? Estive pesquisando e
sei que algumas garotas, mesmo sendo virgens, acabam utilizando
para regular o ciclo menstrual e os hormônios. Você utiliza? —
Gente, ele me deixa tímida sendo tão direto. Logo eu, a garota que
ri da palavra timidez.
— Faço sim, há alguns anos já. Por quê?
— Sophie, eu tenho problemas — diz, sério. — E não quero
ser pai. Na verdade, somos muito jovens e seu pai me mataria se eu
a engravidasse agora.
— Não vou engravidar tão cedo. Quero ser mãe um dia, mas
espero que seja daqui uns oito anos, talvez nove, quero que seja
algo planejado — explico. — É esse o seu problema?
— Não. Preservativo me deixa desesperado. Aperta muito,
me incomoda. — Lá vamos nós!
— Existem tamanhos especiais.
— Eu sei. Tenho alguns. Mesmo assim me deixa
desesperado, porque aperta, parece um estrangulamento. Se você
quiser, eu posso usar, mas se disser que está tudo bem não
utilizarmos, ficarei aliviado. — Senhor da glória! Só sei sentir esse
impacto violento das palavras dele. — Estava pensando se poderia
te comer sem preservativo. — Santa Josefina, dai-me equilíbrio!
Estou muito perdida entre Senhor da glória e Santa Josefina
agora.
— Pode me comer, querido. Só vem com força! Na força do
ódio! Sua filha está pronta neste exato momento! Com emoção, por
favor.
— Não tenho uma filha, Sophie. Não quero ser pai. Você se
sente pronta para ficar confortável? — pergunta.
— Você oscila muito, né? Em um minuto joga na minha cara
que quer me comer, no outro está tímidoe me pergunta se eu estou
pronta para ficar confortável.
— Sophie, me desculpa. É que fico confuso em como lidar
com você — argumenta. É tão bonitinho! Ele fica mesmo
envergonhado e sério quando me pede desculpas. — Você é muito
delicada e amorosa.
— Deus! Eu te amo um pouco mais a cada segundo,
bebecito. Você é muito perfeito.Sobre a sua pergunta, eu realmente
acho que me sinto pronta para esse grande passo e não me importo
com o uso de preservativo, porque me cuido direitinho. Acho que
podemos fazer isso.
— Sophie, eu prometo cuidar de você, tudo bem? Prometo do
fundo do meu coração.
— Eu sei que você vai cuidar de mim. Você não sabe,
bebecito, mas nasceu para ser meu e para cuidar de mim. — Sorrio.
— Podemos ir agora?
— Ir para onde?
— Transar. — Decido ser direta e ele começa a rir. Henrico
gargalhando é a coisa mais gostosa desse Universo, mas não
entendo a gargalhada agora.
— Você é extremamente engraçada, Sophie. — Sua
gargalhada me faz rir.
— Ok, mas o que eu disse de tão engraçado?
— Fala sério, Soso. Você diz toda corajosa, mas na hora que
de fato for acontecer
, você estará morrendo de medo e de vergonha.
A conheço melhor que qualquer pessoa. Eu estou preparado, você
se sente preparada, então já sabemos que podemos ir para a quarta
base. Mas não será assim. Eu quero que seja especial e romântico.
Só precisava saber se você está pronta. — Sorrio, lambuzo meu
dedo de brigadeiro e passo na ponta do nariz dele. — Isso é
nojento!
— Eu não me importo. Pode ficarnu? Eu gostaria de passar
pelo seu corpo e lamber.
— Eu preciso fazer alguns trabalhos no computador. É para o
escritório e é sigiloso — explica.
— Ok, mas... por que eu estou sentindo que você está
fugindo de mim desde ontem? — pergunto, curiosa, e ele dá um
sorriso.
— Eu disse que irei cuidar de você, menina mais bonita do
mundo. Vamos acampar amanhã e estou adiantando um trabalho
para ficar livre e poder fazer todas as coisas que planejei para o
acampamento. — Faço minha melhor carinha de drama e ele sorri.
— Estou carente de você — falo, o puxando pela camisa e
passando a língua delicadamente pelos lábios mais incríveis do
mundo. — Eu amo sua boca.
— Eu amo você — declara antes de segurar meus cabelos e
beijar a minha boca. Adeus, brigadeiro. Adeus, trabalho.
Ou não.
Quando as coisas esquentam rapidamente, Henrico se
afasta,ficade pé e me deixa ofeganteno sofá.Ele dá um sorriso de
quem sabe o que causa em mim e se vai. Eu me jogo no sofá,
frustrada, porém, feliz.Eu amo cada avanço que ele dá. E ele pode
ser rápido nisso. Acho que há tanto desejo reprimido, que ele está
atropelando os próprios medos para ir em frente.
Ele vai trabalhar e eu decido assistir uma série. Não ajuda a
quantidade de sexo em um único episódio. Mas há algo que preciso
dizer: a atriz interpreta tão bem, que parece real, e deixa os
espectadores com uma vontade louca de transar. Estou me
contorcendo no sofá, lutando contra a vontade de gozar apenas por
ver algo quente. É sério, acho que acabo de decretar o fimda minha
sanidade. Eu não faziaideia que a frustraçãosexual poderia afetar
tão fortemente uma pessoa. Antes de beijar Henrico eu costumava
ser muito tranquila em relação ao desejo. Agora? Eu me sinto o
tempo inteiro à flor da pele, sensível para o sexo, desejando
(mesmo que tenha receios e medos).
Quando obtenho o suficiente, resolvo tomar um banho e
tentar cuidar de mim. De repente, a conversa de Henrico sobre
masturbação faz todo sentido. Eu deveria fazer isso.
Me tranco no banheiro social, entro embaixo da ducha e
tento. Eu me esforço, juro que me esforço, mas não consigo sentir
nada quando sou eu tocando meu próprio corpo. Não me sinto
relaxada. Talvez seja algum tipo de problema. Minhas amigas
sempre falaram sobre masturbação, até se divertiam com esse
tema, exceto eu. Me pego chorando por isso, e acho um tremendo
absurdo chorar por conta de uma masturbação malsucedida. Há
tantas coisas graves nesse mundo, e eu estou chorando por conta
de algo estúpido e bobo. Saio do banheiro diretamente para o
escritório.
— Ei, o que foi? — meu namorado pergunta.
— Você é um estudioso em sexo, não é mesmo? Parece ter
feito muitas pesquisas.
— Fiz pesquisas, não significa que eu saiba tudo — explica.
— Acha que há algo errado comigo? Não consigo me
masturbar.
— Você estava tentando se masturbar? — pergunta, curioso,
e eu balanço a cabeça positivamente. — Agora?
— Sim.
— Uau!!! — Faz o “uau” exagerado, que só ele sabe fazer. —
Por que não conseguiu? Bom, acho que não há nada de errado em
não gostar de se masturbar, mas talvez seja importante pensar no
motivo. Você gosta do seu corpo?
— Eu amo meu corpo. Não que eu seja convencida, mas
acho meu corpo realmente incrívele me acho gostosa. Gostosa e
sexy.
— Você está certa em tudo o que disse — fala, sorrindo. —
Você não tem uma autoestima baixa, gosta do seu corpo, mas será
que você tem paciência para se autodescobrir?
— Como assim?
— Acho que requer paciência e vontade, Sophie. Você
precisa usar a imaginação também. Eu imagino muitas coisas, e são
elas que me fazem atingir o prazer — explica. — Não é
simplesmente "vou me masturbar", é querer, precisar, ser paciente,
usar a imaginação.
— Eu não quero isso — digo. — Quer dizer, eu quero gozar,
mas não quero fazer sozinha. Penso que há algo errado comigo.
— Acho que não há algo errado. Você só quer mais do que
suas próprias mãos. Não acho que há mal nisso.
— Não sinto tesão tocando os meus próprios seios, isso me
desanima logo no início.
— Não os toque, então. Deixe-os para mim e foqueapenas lá
embaixo... Não é obrigatório tocar os seios na masturbação. Eu não
acredito que estou tendo essa conversa com você — comenta,
rindo.
— Nem eu. Me desculpe atrapalhar o trabalho. Não sei o que
há de errado comigo hoje — confesso.
— Está carente, mais que o normal. — Ele fecha o laptop e
vem até mim. — Acho que sei o que fazer, Sophie — diz, me
conduzindo para fora do escritório.
Henrico parece decidido o bastante enquanto andamos pelo
corredor, rumo ao quarto. A expectativa passa a me dominar a cada
passo. Talvez seja sexo, talvez seja algo que me deixará mais
frustrada, não sei dizer. Só sei que ele fecha a porta do quarto assim
que entramos e me conduz até um enorme espelho que há em um
dos cantos. Sou surpreendida quando ele me vira de costas para
ele. Consigo ver um vislumbre de um sorriso perfeito atrás de mim.
— Por que estamos aqui? Quer dizer, sei lá...
— Pensei que poderia ser interessante eu te ajudar na
masturbação. Você quer gozar, e eu, como seu namorado, preciso
garantir o seu prazer. Meu pai me disse que um homem deve
sempre se preocupar com o prazer da mulher. Eu me preocupo com
o seu prazer, muito. — Hoje é o dia que ele escolheu para me
chocar. Eu ficosem palavras. — Vamos descobrir se você pode se
dar prazer com a minha ajuda?
— Eu acho que essa é a coisa mais quente que já propôs,
porém, ainda assim, acho que sua tentativa será fracassada. Não
estou disposta a me dar prazer. Tentei e não obtive sucesso.
— Pode prender seus cabelos daquela forma? Tipo coque?
— pede, ignorando meus argumentos.
Eu faço. Enrolo meus cabelos e os prendo em um coque
frouxo, deixando meu pescoço e minha nuca expostos. Minha pele
inteira se arrepia quando ele desliza lentamente seu indicador pela
minha nuca. Por que ele parece tão experiente? Suas mãos
deslizam pelos meus ombros e ele desce as alças da minha
camisola lentamente por todo meu braço, enquanto acompanho
tudo através do espelho. Eu ficodividida entre olhar os movimentos
das mãos dele e olhar seu rosto. Esse homem é uma bomba
atômica e eu nunca imaginei isso. Me pergunto se os autistas são
diferentes no sexo, tipo, mais intensos. Talvez faça algum sentido.
Negam e lutam contra o toque, mas quando se entregam deve
haver uma intensidade maior, acho que só isso justificariaas ações
do meu namorado. Henrico é muito intenso, de uma maneira que
nem sei descrever. Ele sempre disse que vê o mundo diferente,
talvez veja o sexo de forma diferente também. Eu não posso
acreditar que todas as relações sejam assim, tão intensas. Me
recuso, na verdade.
A camisola cai aos meus pés e eu fico nua da cintura para
cima. Eu sou capaz de notar uma mudança brusca no olhar dele.
Agora está mais quente, mais sombrio, parece que o castanho
transformou-se em negro. É tão poderoso que sinto minha
respiração ficar mais difícil.
— Toque seus seios — ele pede, simples e direto.
Henrico estava certo quando disse que na hora H eu começo
a morrer de medo e vergonha. Não estou com medo agora, mas a
vergonha está aqui, exposta da maneira mais verdadeira possível,e
ele percebe isso. Suas mãos voltam a deslizar pelos meus braços e
capturam as minhas mãos; ele as conduz até os meus seios,
mantendo as próprias mãos sobre as minhas.
— Aperte-os.
— Tem ideia do que está fazendo? Eu não sei lidar com esse
tipo de situação, tampouco sei lidar com você todo dominador. Não
esperava por isso — argumento, nervosa.
— Ei, estamos aprendendo juntos. Eu já te vi nua, já fizemos
sexo oral, agora estamos indo para outro nível. Não precisa se
envergonhar ou ficar nervosa, sou eu, seu namorado. V
amos transar
em breve, Sophie. Se você se sente desconfortável em se tocar
diante de mim, como se sentirá confortável com sexo? E estou
falando confortávelno sentido literal agora. — Ele está muito adulto
agora.
— Ok. Você tem muitos pontos. Mas não sinto prazer tocando
os meus seios. Se eu retirar as minhas mãos e deixar as suas, tudo
vai mudar — digo timidamente, quase como uma sugestão.
— É muito difí
cil ser seu namorado, Sophie — fala antes de
soltar as minhas mãos e segurar fortemente em meus seios. É
surreal, quase mágico, como tudo muda. O toque dele traz uma
onda de calor que me deixa desesperada e fraca. É forte sob
medida e parece queimar a minha pele. — Isso é como uma tortura
lenta para mim.
— Eu amo suas mãos.
— Acho que foi uma má ideia.
— Estou achando excelente agora — confesso, sorrindo.
— Tente lá embaixo. Você pode afastar a calcinha para o lado
ou tirá-la.
— Por que simplesmente não me leva para a cama e acaba
com o nosso sofrimento? Estamos sofrendo de desejo, Henrico.
Minutos atrás eu estava chorando no banheiro.
— Porque eu planejei algo e eu quero que seja perfeito —
responde. — Aliás, acho que se parece com tio Victor em relação ao
drama. Meu pai também é dramático, mas tio Victor supera.
— Eu não... não posso aguentar mais. Quero você.
— Sophie, não pode simplesmente relaxar e deixar que eu
continue com o que estou fazendo? — me repreende.
— O dia que transarmos, Henrico Davi, você estará
assinando a sentença da sua morte. Eu vou viciar tanto em sexo,
tanto, que vou depender da sua rola para respirar. Vou viciar tanto,
que 1.999 guindastes jamais conseguirão me tirar de cima de você.
Vou viciar tanto, que eu fareicom que você emagreça de tanto foder
e...
— Isso está se tornando assustador. Rola? Eu não gosto
desse nome. Poderia substituí-lo por pau? — Solto um gemido de
insatisfação.Ele é muito argumentativo. — Todas as vezes em que
falou sobre guindastes, você estava se referindo a sexo?
— Sim.
— Uau, o número de guindastes tem aumentado, hein? Essa
expressão é um pouco sem nexo, mas fico feliz por ter
compreendido. Agora, por favor, vamos voltar ao que de fato
interessa? É esquisito ficar conversando durante momentos de
intimidade. Aliás, teremos que começar novamente. Não há mais
clima.
— O que faremos?
— Eu tenho uma ideia. — Sorrio amplamente. As ideias dele
são sempre incríveis e insanas, embora ele pareça não perceber
isso. — Quer continuar ou parar?
Qualquer opção será um caminho sem volta...
— Só continue, por gentileza, obrigada. — Ele sorri como se
eu tivesse acabado de cantar a canção perfeita para seus ouvidos.
O observo caminhar confiante pelo quarto, indo na direção da
lareira. Ele a acende, apaga as luzes e a iluminação fica por conta
do fogo. Sob o meu olhar, ele retira a camisa e a calça de moletom.
Automaticamente, passo a língua em meus lábios, sorvendo a
imagem de algo bem duro dentro de uma cueca boxer cinza, tão
indecente quanto se fosse branca.
Me sinto uma tola sem ação, apenas observando e
aguardando que ele decida agir por nós dois. É apenas por ser
inesperado e surpreendente esse tipo de situação, que eu não
estava esperando e jamais imaginei que poderia ocorrer. A surpresa
tem o dom de paralisar as pessoas, e é assim que me sinto agora,
paralisada diante de um homem repleto de fogo.
Algo na maneira como ele me olha me faz querer sair
correndo. Não sei dizer quantas vezes eu já disse essa frase e tive
essa mesma vontade, tornou-se algo rotineiro. Henrico parece um
predador, algo assim. O papel de Chapeuzinho nunca combinou
comigo, mas agora parece que combina. Me sinto prestes a ser
devorada por um garoto que escondeu seu potencial muito bem
escondido. Não me canso de dizer o quanto tenho sido
surpreendida e o quanto todas as ações dele têm sido inesperadas.
Ele traz uma mão ao lado do meu pescoço e me puxa de
uma só vez para um beijo, o que me faz ter que agarrar seus
braços. Minhas costas e minha bunda são pressionadas contra o
espelho frio e eu arfo, inebriada pelo poder controlador natural que
meu namorado possui. De repente, o corpo dele está grudado ao
meu e minhas pernas estão contornando sua cintura. Mais uma
primeira vez inesquecível. Em meus sonhos me imaginava sendo
jogada contra a parede, mas desconhecia o quão bom isso pode ser
— embora não seja uma parede, e sim um espelho neste momento.
Se era clima que ele queria criar, preciso dizer que é um maestro
em fazer isso. É incrívelo bastante para tudo em mim implorar por
algo que só ele pode me dar.
Não sei o que gosto mais, se são as mãos fortes em minha
bunda ou se é sua boca esperta reivindicando a minha. Enquanto
fico nesse duelo de preferências, tento me esfregar ao máximo no
pacote rijo grudado em minha intimidade, buscando o mínimo de
fricçãopara ter o que tanto anseio. Nunca estive tão desesperada
por prazer, por uma libertação. Torna-se mais urgente a cada dia,
como se nada mais pudesse suprir a necessidade de ter mais do
que apenas algumas esfregadas.
Estou quase enlouquecendo quando ele me coloca de volta
ao chão e me vira de costas abruptamente.
— Misericórdia, Henrico Davi!
— Retire sua calcinha — pede. Ele tá cheio das ordens hoje,
e o pior de tudo é que não fazideia do que isso é capaz de causar
em uma pobre sofredora como eu. — Sophie?
— Tá... tudo bem... é só que... você está... — Ele toca meus
seios e eu quase arranco meus cabelos da cabeça. — Oh, Deus do
céu... Henrico... — Uma de suas mãos desce até minha intimidade e
adentra pela minha calcinha. Engulo em seco, sentindo todo meu
corpo se retesar com o toque.
— Eu amo seu piercing. Você está tão molhada — fala,
escorregando os dedos pelas minhas dobras e prendendo meu
clitóris entre eles. Quase perco a capacidade de falar. — Estou
fazendo isso bem? Preciso que me guie.
— Eu quem preciso ser guiada... apenas continue. — Isso o
motiva a ir em frente.
— Sabia que o clitóris possui cerca de 8 mil terminações
nervosas? — pergunta. — É o principal gatilho da excitação
feminina. — Aham... eu nunca estudei tão profundamente sobre um
clitóris e suas terminações nervosas. — Há um pequeno ponto que
provavelmente te colocará de joelhos.
— Há? — Ele não responde, simplesmente leva seus dedos
pouco acima do meu piercing e toca um pontinho que realmente
quase me coloca de joelhos. — Deus, Josefina, glória...
— Existem outros pontos além do ponto G. — É uma aula...
uma aula muito quente. — Existe o ponto A, o ponto U...
— PORRA! — Ele traz sua mão livre até o meu pescoço,
para me manter de pé. — Mais... por favor...
— O ponto A fica localizado bem no fundo do canal vaginal,
onde ele encontra o colo do útero. É uma área muito irrigada, com
muitos vasos e nervos. Para eu atingi-lo, terei que ir bem fundo
dentro de você, segundo pesquisas. Mas nem todos os
pesquisadores acreditam nisso. — Esse homem é um FODEDOR!
— Deus abençoe todas as suas pesquisas, Henrico Davi.
— O ponto U ficaem volta da uretra, entre o clitóris e o canal
vaginal, é feito de um tecido erétil bastante sensível. Para você
conhecê-lo, precisa explorar com os seus dedos, precisa pesquisar
para descobrir, Sophie. Há detalhes importantes para você seguir e
conseguir reconhecê-los em seu próprio corpo. Precisa acariciá-lo
com o dedo bem molhadinho com a sua excitação...
— Deus do céu, Henrico! De onde você saiu? Você não é
essa pessoa!
— Estou te falando sobre pesquisas, estava tudo escrito
detalhadamente — fala com a voz levemente rouca. — Eu posso
fazer isso por você. Posso descobrir esse ponto, se deixar, porém
não será agora. Você está perto de gozar. — Como ele pode saber?
Misericórdia!
Ele aplica mais pressão e faz movimentos bem calculados
com seus dedos, até eu estar gozando. Meu corpo inteiro treme e
torna-se difícilficar de pé. Henrico me sustenta enquanto vejo o
mundo rodar bem diante dos meus olhos. Ele está rindo, e não acho
que tenha graça. Acaba tendo quando ele me leva para a cama.
— Uau, hein, Sophie? — exclama, rindo. Acho que a
convivência comigo está o transformando em um grande
engraçadinho. — Me desculpe por rir.
— Por que está rindo?
— Porque é engraçado vê-la bamba — confessa.— Sophie,
eu jamais imaginei que poderia dar prazer a você, entende? Estou
feliz e acho engraçado conseguir deixá-la bamba. Nunca tive
contato com qualquer garota, você é a primeira e única. Não tinha
experiência, então eu me sinto um pouco feliz por estar conseguindo
fazê-la gozar. Não sei fazer essas coisas... — Imagina se
soubesse?
— Você nasceu com esse dom. De verdade. Nunca fui
tocada, nunca tive contato com outro garoto, não tenho referências,
mas... puta merda, Henrico! Você é extremamente quente e
excelente em fazertodas as coisas sexuais. Eu me sinto bem mais
calma agora, bebecito. Suspenda as pesquisas, se não quiser a
minha morte.
— Eu preciso voltar ao trabalho, Sophie.
— Há um grande problema dentro da sua cueca, que precisa
ser solucionado.
— É só uma ereção, não é um problema ficar ereto — fala,
ficando de pé. Ele se veste e vem me dar um beijo delicado na
testa. — Eu te amo, Sophie. Você é a menina mais bonita do
mundo!
— Também te amo, você sabe, eu poderia muito bem ficarde
joelhos agora e te dar um orgasmo.
— Estou bem, Soso. Está tudo bem. — Que diabos! Eu odeio
o Henrico misterioso. Na verdade, eu detesto esse lance de
surpresa, planos, mistérios, quando se trata de algo relacionado a
mim. Porém, não quero bancar a mimada agora. Já basta eu quase
ter surtado por um orgasmo. Apenas sorrio, com a docilidade
forçada.
— Você está planejando ficar confortávelno acampamento?
— pergunto timidamente. Henrico apenas sorri e se vai, deixando-
me sem resposta.
Após um banho para limpar a safadeza, me deito e acabo
adormecendo.

Já é tarde quando saio do escritório e encontro Sophie


dormindo. Fico alguns minutos apenas a admirando. Em algumas
das pesquisas que fiz,li que orgasmos possuem o poder de acalmar
as pessoas. Sophie está me provando que é real. Ela estava muito
ansiosa, um pouco agitada, e se acalmou bastante após ter um
orgasmo. Foi algo novo o que fizemos.
Estou um pouco ansioso sobre o acampamento, por isso sei
que não conseguirei dormir agora, principalmente quando não estou
com sono. Desde que Sophie sugeriu essa aventura, passei a
imaginar como esses dias serão. Na minha imaginação, nossa
primeira vez irá acontecer no acampamento e isso tem martelado
em minha mente.
Acho que todas as garotas merecem que esse momento seja
mágico, inesquecívele romântico. Minha Sophie merece e há todo
um cenário sendo construído em minha mente. Imagino apenas uma
fogueira, a lua e o céu estrelado nos iluminando. Imagino eu
contando para ela a história de algumas estrelas, a beijando,
explorando cada parte de seu corpo e então surgindo o momento
ideal para ficarmos confortáveis um com o outro. Talvez eu esteja
errado em estar decidindo isso, não sei dizer. Não sei se é errado
querer surpreender, mas é o que o meu coração está pedindo.
Tenho feito muitas autocobranças sobre esse momento.
Sophie esperou por mim a vida toda e eu quero que seja perfeito,
inesquecível e que ela sinta prazer. Sei que o meu prazer será
garantido, mas o dela é algo que terei que buscar, devido ao fatode
haver um rompimento de hímen,que poderá causar dor e incômodo
na primeira relação. Temo que o hímen dela seja complacente...
Eu me sinto surtado e exausto psicologicamente por pensar e
estudar sobre todas essas coisas. Acho que já obtive o suficientede
informaçõessobre sexo e sobre o corpo feminino.Ao mesmo tempo
em que sinto-me saturado, sinto-me incrivelmente satisfeito por
saber muito da parte teórica e por estar conhecendo o corpo da
minha namorada um pouco mais a cada dia, colocando em prática a
teoria e até mesmo testando a veracidade do que aprendi. Até o
momento estou obtendo êxito nos testes e tenho conseguido dar
prazer à minha garota.
Horas atrás nós tivemos um momento bastante memorável e
eu descobri como fazê-la gozar em meus dedos, assim como
descobri outros pontos sensíveis em seu corpo. Um bom
pesquisador gosta de explorar e fazer descobertas. Mas, além de
pesquisar e descobrir, eu tenho focado muito em analisar as
reações de Sophie. Ela gosta das famosas palavras sujas e, todas
as vezes que estou a tocando e digo algo sobre pesquisas que faço,
ela solta sons incríveis e torna-se mais desesperada. Tenho
percebido que minha namorada é uma admiradora da minha
inteligência e que todas as minhas teorias, quando ditas, servem
para deixá-la excitada e são recebidas como um afrodisía
co por ela.
Enquanto eu explicava sobre os pontos A e U, eu pude sentir o
orgasmo dela se aproximando, mesmo sem ter meus dedos
enfiados na parte interna de sua vagina. O corpo dela estava
respondendo com total obediência aos meus comandos e ao meu
toque. Ela gosta quando digo coisas perto do ouvido, e gosta
quando minha voz sai em um tom mais baixo, quase como um
sussurro. Sophie não será uma amante silenciosa quando ficarmos
confortáveis,e tenho certeza que espera o mesmo de mim, minhas
palavras e meus sons também são capazes de afetá-la. Acho que
seremos bons parceiros sexuais e penso que, provavelmente, o
sexo se transformará em um víciopara nós — ao menos no início,
onde tudo é novidade.
Eu já não sei dizer qual é meu hiperfoco:Sophie ou sexo. As
duas possibilidades têm dominado minha mente constantemente. O
melhor de tudo é poder unir as duas coisas em uma. Sophie e sexo,
a combinação mais perfeita que eu jamais imaginei que teria.
Tentando dissipar a tensão e ansiedade, decido pegar um
livro e me acomodo no quarto de hóspedes, para não acordá-la.

Eu planejei tudo para o nosso final de semana ser perfeito,


mas, de um minuto para o outro, algo aconteceu e tudo mudou
drasticamente...
A vida é assim, se vivemos apenas esperando e planejando o
momento perfeito, corremos o risco de nunca conseguir de fato
alcançá-lo. Planejamentos falham e a esperança nem sempre nos
leva a algum lugar.
Estou indo para o mato com o meu namorado, provavelmente
fará um frio do caralho à noite, e estou em uma luta para escolher
as melhores lingeries. Eu já as coloquei e retirei da mochila ao
menos três vezes, e ainda não me decidi. Além disso, há uma
bastante bonita em meu corpo, porque nunca se sabe quando
precisará ficar seminua.
Por falar em lingeries, eu nunca reparei se Henrico é o tipo de
garoto que faz questão disso. Tem tudo acontecido de maneiras
inesperadas e geralmente sou pega desprevenida. É algo que
preciso saber, talvez seja interessante perguntar. Pensar nisso me
fazsorrir. Nunca imaginei que eu e Henrico permaneceríamostendo
a amizade forte. Eu penso que somos muito amigos, o bastante
para debatermos sobre sexo e todas as coisas relacionadas à
intimidade. A diferença é que antes de nos tornarmos namorados,
nossos debates nunca eram sexuais.
É isso. Temos esse nível de amizade, onde sei que posso
chegar e simplesmente perguntar todas as coisas sobre as quais
tenho dúvida a ele. Assim como ele também parece se sentir
confortávelde vir até mim e dizer todas as coisas que se passam
em sua mente esperta.
Pensando em esclarecer algo que está me incomodando, vou
até a sala. Ele está sentado no sofá, acabando de conferira lista de
coisas que separamos para a expedição no mato.
— Ei, posso te perguntar algo? — Ele levanta a cabeça e
acena positivamente.
— Sobre masturbação?
— Não — respondo, rindo. — Sobre lingerie.
— Sophie, eu não entendo muito de lingeries. Mas você pode
perguntar. Se eu puder ajudá-la, ficarei feliz.
— Você gosta de lingeries? Quer dizer... você repara nas
lingeries que uso? — pergunto envergonhada.
— Não reparo. Eu só penso em você nua. — Direto! Sem
enrolação! Esse é o meu menino mais bonito do mundo. — Mesmo
quando não éramos namorados e eu te via de biquíni, não reparava
muito em cores, detalhes, tamanhos, só imaginava você nua. Eu
prefiro você sem lingerie.
— Ok. — Eu não deveria ser tímida, algo de errado não está
certo comigo. Mas, todas as vezes que ele me dá respostas retas,
sinceras e objetivas, eu me envergonho rapidamente.
— Por quê? Você gostaria que eu reparasse? Estou fazendo
isso errado? — indaga.
— Não. Claro que não está fazendo errado. Só perguntei
porque tinha essa dúvida mesmo — explico, sorrindo. — Se quer
saber, eu reparo em suas cuecas. Você fica uma delícia de cueca
branca. Enfim, era só isso, namorado. — Volto ao quarto e decido
não mudar mais as lingeries que havia escolhido. As coloco na
mochila e fecho.
Estou um pouco ansiosa sobre esse acampamento. Algo me
diz que estou vivendo as minhas últimas horas de virgindade.
Henrico não precisa dizer que está preparando algo para essa noite,
está bastante explícito em suas últimas ações. É um pouco
engraçado pensar nisso. Nosso relacionamento é um pouco
diferente.Por exemplo:ele só me toca em momentos de intimidade,
em todos os outros momentos sou eu a estar sempre o tocando. Ele
se declara para mim em algumas ocasiões, mas em outras não
demonstra tanto romantismo. Faz parte de quem ele é, e ver que ele
está se preocupando com alguma questão romântica me toca
bastante. Há tanto esforçosendo feito por ele nos últimos dias, que
me encanta. E, por mais que sejam em momentos de intimidade, eu
sempre sinto aquela leve vontade de ligar para tia Paula e contar
como o filho dela é o garoto mais forte e determinado que já
conheci, fruto de uma criação impecável e de uma base de apoio
fundamental.
A vida do meu namorado não foi muito fácil.Henrico tem um
tipo de autismo que é considerado de grau leve. Síndrome de
Asperger. Durante toda a vida, na infância foi onde ele teve os
maiores desafios e onde esse transtorno ficavamais em evidência.
Ele tinha muita dificuldade na coordenação motora, não conseguia
segurar objetos, não conseguia andar, vivia cercado de profissionais
capacitados para ajudá-lo no desenvolvimento. Atividades que
pareciam tão banais para a maioria das crianças, para ele eram
extremamente complexas, complicadas. E muitas das coisas que
pareciam difíceispara muitas crianças, para ele eram extremamente
fáceis. Eu sabia pular corda muito bem e era péssima em
matemática, já Henrico fazia cálculos sem calculadora em
segundos. Eu falavaalgumas palavras erradas, ele falavatudo com
muita fluência e facilidade.
Com o passar dos anos, algumas questões foram mudando,
porém, outras se mantiveram e provavelmente não mudarão. Ele
sempre recebeu bem o meu toque, mas nunca deu o primeiro passo
para me tocar, apenas retribuía minhas ações. Henrico não é o tipo
de homem que simplesmente vai chegar do nada e me dar carinho,
mas ele está se esforçando pela perfeição e está conseguindo
ultrapassar os limites que construíem minha imaginação. E por que
estou dizendo isso? Porque comparo com situações que presenciei
durante a infânciae que marcaram a minha memória. São situações
diferentes,mas o esforçodele parece o mesmo e não há nada mais
lindo que vê-lo tão empenhado em se superar, em vencer
obstáculos que a sua própria mente impõe.
Quando termino de arrumar todas as minhas coisas, volto à
sala.
— Está tudo pronto aqui — informo a ele.
— Aqui também. Já falei com meus pais, já falou com os
seus?
— Já sim, mais cedo — respondo, sentindo o frio na barriga
aumentar.
— Acho que devemos ir, para conseguirmos aproveitar ao
menos um pouco do dia — sugere.
— Sim, podemos parar para almoçar em algum lugar bonito.
Sei que não gosta...
— Está tudo bem, Sophie. Nós podemos parar para almoçar
sim. Eu posso fazer isso. — Sorrio amplamente.
— Eu vou amar passar o final de semana com você em uma
aventura. É nossa primeira aventura como um casal. Vamos logo!

Henrico coloca todas as nossas coisas dentro do porta-malas


e ri quando pego mais dois edredons por garantia — os deixarei no
carro, caso esfrie muito poderemos pegá-los. Conseguimos reduzir
bastante tudo o que estamos levando, porque teremos que fazer
uma pequena trilha de 300 metros até perto da cachoeira que
iremos acampar.
Não passamos no sítio para nos despedir. Todos sabem da
nossa aventura, por isso não perdemos mais tempo. Eu vou
dirigindo, enquanto meu copiloto vai acompanhando um mapa, e
vamos obtendo ajuda do GPS.
— Eu acho que amo morar aqui — comento, observando a
estrada. Há muito verde por todos os lados, isso traz uma sensação
tão gostosa.
— Podemos conhecer um lugar diferente por final de
semana, o que acha? Há muitas atrações turísticas, muitas
cachoeiras. Quero que nossa segunda expedição seja em Capitólio,
uma cidade que fica a 87 km de São Roque, mais ou menos 1h40
de carro — explica.
— Já ouvi falar e já vi fotos, é incrível! Nem começamos a
primeira e já estou animada para a segunda expedição, bebecito.
— Eu ainda não acredito que você é a minha namorada —
Henrico diz em tom de confissão. — Em alguns momentos acho que
estou sonhando com tudo e sinto medo de acordar. — Queria poder
olhar para ele, mas estamos na estrada e estou atenta à direção. —
Sophie, acha que um dia iremos nos casar e ter filhos? — Me pego
sorrindo com a pergunta.
— Tudo isso depende apenas de você, Henrico. Eu quero
muito ter filhos algum dia, lá no futuro. E casar? Eu casaria com
você hoje. Você é único para mim e é a maior certeza da minha
vida. Você é tudo o que eu quero, tudo que eu sempre quis, e ser
sua namorada é a realização do meu maior sonho. Vou amar ser
sua esposa, vou amar carregar os seus bebês.
— Eu preciso pensar sobre filhos. Tenho receio que meus
filhos herdem o autismo. As chances de se ter um filho autista são
muito grandes, devido ao fatode eu possuir. Eu não quero que você
passe pelo que minha mãe passou — comenta.
— As chances são grandes, mas não significa que vá
acontecer. E, se acontecer, nosso bebê terá muita sorte na vida de
ter os melhores pais. Sim, nós seremos os melhores pais, eu tenho
certeza disso. Vamos amá-lo, sendo autista ou não, porque o amor
entre nós é imenso o bastante, é paciente, é zeloso... Não tenha
medo, meu amor. Teremos muito tempo para nos preparar para
esse momento.
— E se eu nunca quiser?
— Não quero pensar nisso agora. Somos muito jovens ainda.
No momento, só penso em ficar confortávelo máximo de vezes que
conseguirmos, viajar pelo mundo, te encher de beijos, estudar, ser
imensamente feliz. Relaxe e curta o momento, Henrico Davi, meu
namorado e garoto mais bonito do mundo.
— Sophie, eu te amo muito e sinto dor por isso. — Sorrio
novamente.
— Então somos mesmo almas gêmeas, bebecito. Eu sinto
dor por amá-lo e desejá-lo tanto. Eu pararia o carro agora só para te
dar um beijo.
— Não faça isso. Quero chegar logo e ficar confortável. —
Ele quer que um acidente aconteça, no mínimo. — Quer dizer, não
foi bem isso que eu quis dizer. Foi no sentido literal da palavra,
armar a barraca.
— Armar a barraca no sentido literal não parece tão
emocionante quanto em outro sentido — brinco. — Mas eu entendi
o que quis dizer. Vamos comer na próxima parada e então
seguiremos viagem.
(***)
Após almoçarmos em um restaurante pequeno e com uma
comida caseira deliciosa, seguimos rumo à cachoeira. Vamos de
carro até onde é possívele fazemoso restante do trajeto andando.
É extremamente perto, nem mesmo dez minutos de caminhada.
Quando chegamos no local, um UAU escapa de nós dois no
mesmo momento.
— Puta merda, esse lugar é lindo! — exclamo, deixando a
mochila no chão.
É uma cachoeira pequena, com água cristalina, que dá para
ver as pedrinhas na parte mais rasa. Onde é fundo, a água tem um
tom verde fantástico.A queda d'água é linda, é tudo muito perfeito,
regado de pedras e muito verde.
— Não sei você, mas eu estou indo batizar essa cachoeira,
bebecito! — aviso, tirando minhas roupas sob o olhar surpreso do
meu namorado. Quando fico apenas de calcinha e sutiã, noto o
olhar dele correndo por todo meu corpo e me aproximo. — Vem?
— Eu acho que reparo em lingeries — comenta e dou um
sorriso maquiavélico.
— Vemmmmm, namorado! Depois arrumamos tudo!
— De cueca?
— Com certeza. — Sorrio, virando-me e caminhando para a
água.
— Sua bunda é perfeita! Estou indo! — Tudo a ver o que ele
acabou de dizer.
A água está extremamente fria, e causa um contraste e tanto
com o calor do meu corpo. É preciso ir molhando aos poucos, para
que eu consiga me acostumar.
Quando Henrico entra, me jogo nas costas dele e deixo que
nos conduza até a queda d'água. Eu grito com a forçada água em
minha cabeça, enquanto ele ri e deixa que caia somente em suas
costas.
— Isso é muito gostoso. É a primeira vez que tenho coragem
de entrar em uma cachoeira — comenta.
— Bom, lá no sítio tem uma. Nem precisamos sair do quintal
de casa para nos refrescarmosna cachoeira. Poderemos fazerisso
com frequência.
— A única coisa ruim é a temperatura da água. É muito mais
fria do que eu imaginei que seria. Talvez seja o horário. Fizemos
tudo tarde hoje, Sophie. São mais ou menos cinco horas da tarde.
Da próxima vez, sairemos mais cedo. — Sorrio e o abraço,
enrolando minhas pernas em torno de sua cintura.
Henrico afasta os meus cabelos, jogando-os em minhas
costas, e toca meu rosto carinhosamente. Não sei dizer por quanto
tempo ficamos apenas observando um ao outro, mas sei que
apenas esse ato me deixa emocionada, devido à intensidade. Sorrio
timidamente quando se torna demais, mas Henrico não sorri de
volta. Ele segue me encarando de uma maneira intimidante, que me
faz recuar.
Solto sua cintura, me viro de costas e mergulho. Às vezes,
em alguns poucos momentos, eu me sinto muito patética por não
aguentar a intensidade e fugir. Porém, parece que dessa vez isso
não será tão fácil.Henrico segura meus pés e me puxa, impedindo
por completo a minha fuga.
— Por que você foge todas as vezes em que fico te
observando? — pergunta antes mesmo que eu possa me virar de
frente para ele.
— Não fugi — minto.
— Fugiu. Conheço seu narizinho, Sophie. Nunca conseguirá
mentir para mim — afirma. — Está com medo?
— Não. Só ficoum pouco tímidaquando você ficaapenas me
observando de uma maneira intensa. Nada demais — confesso e
ele captura meus lábios em um beijo delicioso.
Minhas mãos descansam em seus ombros, enquanto as
mãos dele estão em minha cintura. Ele não vai muito além. Assim
que percebe as coisas esquentando, é ele quem se afasta e nada
até a queda d'água.
Acampar é um programa romântico para um casal
apaixonado...
Só que não!
Ficamos mais um tempo na água e saímos quando nossos
dedos começam a ficar enrugados. Montamos nossa barraca e
tomamos banho na cachoeira. Quando está quase anoitecendo,
vestimos roupas quentes. Henrico prepara uma fogueira, fazemos
um lanche e escovamos os dentes.
Perfeito demais...
Estamos sentados de frente para a fogueira, ouvindo música
baixinha e conversando. Estou contando para Henrico sobre a
minha estadia na Califórnia, quando ouvimos um barulho
estranhamente forte e alto. Ele faz um sinal para que eu fique
calada e passa a prestar atenção a algo. Como boa medrosa, me
encolho, mas logo entro em estado de alerta. Parece que há algo na
cachoeira, a pressão da água parece mais forte, e vai aumentando
um pouco a cada segundo. Isso me causa medo.
— Ok. Temos um problema — Henrico fala, ficando de pé e
mirando a lanterna em direção à cachoeira. — Um grande problema,
Sophie.
— Você está falando sério?
— Provavelmente uma tromba d'água está se aproximando
— avisa. — Vamos deixar a barraca e levar apenas nossas
mochilas.
— O quê? — pergunto, ainda perdida.
— Não sei onde a água pode alcançar e se a chuva está
vindo para cá. Cachoeiras são muito perigosas. Não há tempo para
eu te explicar sobre isso, mas não podemos ficar aqui. Se a água
conseguir nos alcançar, corremos o risco da correnteza nos levar...
Apenas precisamos ser rápidos, ok? Sem pânico, mas rápido,
Sophie. — Balanço a cabeça em concordância e me apresso em
juntar todas as coisas importantes. Eu não posso acreditar que isso
está acontecendo conosco! Eu quero chorar de frustração, mas
percebo que não há tempo para isso quando sinto algumas gotas de
chuva dando o ar da graça.
PERFEITO PRA CARALHO!
Coloco minha mochila nas costas, Henrico pega a outra
mochila, o cooler pequeno e deixamos todo o restante para trás. Ele
segura minha mão esquerda e com a direita eu vou segurando a
lanterna e iluminando o caminho. É então que um temporal forte
começa, do nada mesmo, como se fosse um carma maldito. Nós
somos obrigados a soltar as mãos para correr.
— Está tudo bem? — Henrico grita para mim.
— Sim, apenas corra! — respondo.
A distância parece muito maior do que quando viemos, mas,
quando achamos o carro, eu finalmente volto a respirar
.
Henrico pega a chave em minha mochila, abre e jogamos
todas as coisas no porta-malas. Quando entramos no carro,
estamos devidamente ensopados.
— Puta merda!
— Eu conferi a previsão do tempo infinitas vezes — ele
suspira, com uma tristeza estampada em seu rosto. — Sinto muito,
Sophie.
— Não é sua culpa, está doido?
— Eu planejei tudo para essa noite ser perfeita, mas não
consegui. — Ele parece desolado. — Nem podemos dirigir. Está
impossível enxergar qualquer coisa.
— Não fique magoado. Às vezes não acontecer conforme
planejamos pode ser infinitamente melhor do que seria se seguisse
de acordo com os nossos planos. Confuso?Talvez seja, mas é isso,
bebecito. Se a vida te dá limões, faça uma limonada.
— Eu não entendi absolutamente nada — confessa. — Mas
eu sonhei com essa noite. — Começo a pensar em maneiras de
fazer com que esse imprevisto não acabe com a nossa noite. Lá
fora o mundo está acabando em água, mas estamos mais seguros
dentro do carro do que estaríamos se estivéssemos na barraca,
mesmo tendo comprado a mais segura e resistente. Nós podemos
salvar essa noite. Sem fogueira, sem céu estrelado, mas quem
disse que precisamos disso para fazer acontecer?
Retiro minhas botas, deixo-as no chão e pulo para a parte de
trás. Pego nossas mochilas no porta-malas e coloco no banco do
motorista. O cooler eu entrego para meu namorado, que está
apenas observando e tentando entender o que estou fazendo.
Quando eu disse que traria cobertas a mais, Henrico riu. Mas, o que
ele não sabe é que essa foi uma das decisões mais sábias que
tomei no dia de hoje. Praticamente a nossa salvação.
Jogo todas as coisas extras que trouxe para frente, aperto um
botão e levo os encostos do banco traseiro para trás, deitando-os
por completo e transformando em uma quase cama.
— Nem tudo está perdido, Henrico Davi! — digo, sorrindo e
arrumando as cobertas na nossa cama improvisada. Sei que em
uma das mochilas há fronhas. Nós poderemos enchê-las com
roupas, para criarmos travesseiros. Perfeito! — Vem! Precisamos
tirar essas roupas molhadas — o convido, jogando meu corpo para
frente e abrindo as mochilas, em busca de roupas secas e tudo mais
que preciso.
É apertado e tenho que fazerquase um contorcionismo para
pegar tudo.
— Não vai vir?
— Você é muito louca, Sophie!
— Vamos fazera nossa aventura ser especial, Henrico Davi!
Temos comida, música, um lugar quentinho e confortável, mesmo
que você tenha 1,85m de altura. Podemos fazer isso funcionar.
Somos abençoados, meu amor. Tudo isso poderia estar sendo pior
— argumento e ele se dá por vencido. Retira os tênis, as roupas
molhadas e vem para trás usando apenas cueca.
Ligo a música em nossa caixinha pequena de som, a coloco
na frente e agora sou eu quem me dispo, ficando apenas de lingerie.
Encho com roupas as fronhas que encontro, formando travesseiros,
e os levo para o final da "cama". Perfeito!
Henrico se ajeita, é engraçado ver um homão desse
buscando seu lugar dentro de um carro apertado. Eu sou mais
pequenina e adaptável. Pego o outro edredom que sobrou e logo
me junto a ele.
— Minha mãe me ensinou a sempre procurar o lado bom das
coisas. Como eu disse antes, poderia estar sendo pior. Nós estamos
seguros, protegidos da chuva, há comida, roupa quentinha, música,
o barulhinho da chuva, eu e você. Nem mesmo um hotel cinco
estrelas seria tão perfeito quanto isso aqui. Esqueça o que planejou
e viva esse momento comigo — falo, o observando.
— O que tudo isso significa?
— Sei que havia planejado a nossa primeira vez. — Ele
engole em seco. — Não existe um lugar ideal, não importa que as
coisas não saiam completamente iguais ao seu planejamento, só
precisamos um do outro.
— Está sugerindo que isso aconteça no carro? Você merece
mais que ter sua primeira vez dentro de um carro, Sophie.
— Serei sincera agora, mesmo que talvez minha sinceridade
vá contra tudo o que planejou, ok? — Ele balança a cabeça
positivamente. — Não quero flores, bombons, luz de velas, nada
disso. Seria bonito? Seria, mas a minha ansiedade ainda seria sobre
transar com você. Uma vez que sua boca estiver na minha e seu
corpo pressionado ao meu, todos esses detalhes desapareceriam
da minha mente. Suas intenções são incríveis, admiráveis. Acho
que todos os garotos deveriam ser exatamente como você é.
Porém, você diz que é diferente, eu também sou. Não me importa
que não tenhamos as estrelas para testemunhar nossa primeira vez,
não importa que eu não esteja deitada em lençóis de fios de ouro e
travesseiros de pena de ganso. Não estarei comendo bombons
quando você estiver deslizando dentro de mim, tampouco estarei
segurando floresou envolvida em uma névoa de romantismo. Eu só
me importo em tê-lo, não importa o lugar, o horário, a ocasião. Só
quero tê-lo dentro de mim. Estou pronta, Henrico. Só existe você, só
existe esse momento, só existe nós. Eu sou sua. E, se isso puder
acontecer agora, você estará fazendode mim a garota mais felizdo
mundo. Não quero que façaamor lento e suave comigo. Quero que
faça sexo e que me pegue da maneira como me pegou ontem à
noite. Só que dessa vez eu quero que vá até o fim.
Se não fosse pelo barulho da chuva torrente caindo lá fora,
tenho certeza de que conseguiria ouvir o som dos meus batimentos
cardíacos. Em minha mente louca, ouço o barulho constante do
ponteiro de um relógio, que nem existe, contabilizando os segundos.
Quase começo uma contagem interna, mas não estou disposta e
me perderia no ato.
Não sei o que Henrico está pensando agora. Temo que
minhas palavras tenham demonstrado algo que eu não queria. Só
estou pedindo pela praticidade, não precisamos dar tantas voltas
para chegarmos às vias de fato. Uma parte importante já ocorreu;
nos familiarizamos com o corpo um do outro nos últimos dias. Agora
sinto que podemos avançar e ter o que nós dois queremos.
Porém, pensando como uma garota madura, não é apenas a
minha vontade que importa. Talvez Henrico queira mesmo um
cenário romântico, pode ser que isso seja importante para ele. Há
pessoas que são ligadas a essas coisas e outras pessoas que são
como eu, ligadas apenas a parte da intimidade, do ato. Estou sendo
corajosa neste momento. Não há muito medo e não consigo
entender porque esse sentimento foi substituído tão rapidamente.
Talvez na hora H mesmo eu vá temer um pouco. Mas, neste
momento, não há, nem mesmo relutância ou timidez.
— Sophie, você ficará muito decepcionada se eu disser que
não?
— Ficarei apenas um pouco triste, mas nada demais. Eu
posso esperar. Esperei todos esses anos. Posso esperar um pouco
mais. — Sorrio, tocando seu rosto. — Está tudo bem, menino mais
bonito.
— Eu não quero que seja assim, mesmo que os planos
tenham falhado, sei que posso fazer melhor. Eu sou alto, está
desconfortável e é a nossa primeira vez. Não há uma posição
agradável nem mesmo para o sexo oral aqui e eu preciso fazerisso,
preciso deixá-la devidamente preparada. — Abençoado é ele. —
Iremos embora quando a chuva passar e eu farei com que seja
melhor do que meu plano anterior. Amanhã à noite, Sophie. Amanhã
à noite você será minha de uma maneira diferente.
— Eu mal posso esperar por isso. Já que não faremossexo e
que nossos planos foram por água abaixo, literalmente, acho que
devemos tentar dormir para chegar logo amanhã. — Henrico sorri e
me puxa para os seus braços.
— Eu te amo além da vida, Sophie. Você é a menina mais
bonita do mundo, e a mais maluca também.

Quando chegamos em São Roque, nos assustamos ao


encontrar Samuel, meu irmão, Hadassa, Théo, Eva e Maicon na
porta da casa, parecendo preocupados. Henrico desce do carro e
Samuel voa sobre ele, como um desesperado, o abraçando
apertado. Samuel até mesmo está chorando agora.
Meu irmão também me puxa para um abraço apertado,
esmagador o bastante.
— O que aconteceu? — pergunto, receosa.
— Puta merda, Sophie! Nós realmente achamos que algo
tinha dado muito errado. Teve uma tempestade horrível, a água da
cachoeira do sítio atingiu um lugar assustador. Seu celular e o
celular do Henrico só davam fora de área. Foi a pior noite da minha
vida! Piorou com Samuel tendo uma crise de choro e querendo ir
atrás de vocês — ele explica, me apertando. — Eu te amo muito,
princesinha da Disney 2. Não posso perdê-la nunca, ok?
— Nunquinha, rimão! — Sorrio. — Não havia sinal. Assim
que vimos que iria começar uma tempestade, pegamos nossas
mochilas e saímos correndo para o carro. Deixamos a barraca,
nossas cobertas... só pegamos mesmo as coisas mais importantes.
Perdemos tudo. Hoje, antes de pegarmos a estrada, fomos conferir.
Não havia nada nosso no local onde decidimos acampar. Se não
tivéssemos sido rápidos, provavelmente algo ruim teria acontecido.
Estamos bem. Improvisamos uma cama no carro e passamos a
noite seguros.
— Graças a Deus! — Eva e Théo dizem juntos.
— Eu te amo, Sophie. Eu morreria se algo tivesse
acontecido. — Abraço meu irmão e o encho de beijos.
— Está tudo bem. Estamos bem — o tranquilizo. — Henrico
foimuito esperto. Ele soube reconhecer que era uma tromba d’água
e isso nos salvou. Kiara não veio?
— Não. O voo foi cancelado devido à instabilidade do tempo.
Ela virá amanhã. Bom, vocês devem estar com fome. Vamos para o
sítio — Théo diz.
— Sophie, posso falar com você? — Henrico pede e eu vou
até ele. — Pode passar o dia inteiro no sítio?
— Por quê?
— Eu quero fazer algo e você não pode estar em casa. É
uma surpresa. — Sorrio. Henrico é mesmo determinado. Quando
ele quer algo, vai até o fim para conseguir que saia como idealizou.
— Ok. Como eu saberei o momento de voltar para casa?
— Eu irei até você. — Ele falando isso é bastante quente. Há
muitas promessas não ditas nessa frase.
Antes de ir, o puxo mais para perto e sussurro em seu ouvido:
— Quero você dentro de mim, bem fundo, e quero montá-lo
bem forte.
— Por Deus, Sophie! Não diga essas coisas, ok? Não diga
nada disso! — avisa, fugindo como um raio.
— Vamos embora, que eu tenho ótimas ideias! — Hadassa o
acompanha, juntamente com Samuel. Que diabos?! Henrico mal
trocou uma palavra com ela antes e está deixando que ela participe
do que quer que ele esteja planejando? Ok. É apenas chocante.
Sigo de carro para o sítio e vou direto dormir. Henrico estava
certo em dizer que seria desconfortável. Agora que ele está
preparando algo, sinto que preciso descansar para ter energia
suficiente.

Passam das três da tarde quando acordo. Fiquei felizquando


Eva disse que guardou comida para mim. Eu devoro um enorme
prato de lasanha, pego minha filha canina e me junto ao pessoal na
sala.
Está frio,chovendo, e todos estão unidos assistindo série. Eu
gosto disso. Eva e Théo são as melhores pessoas, definitivamente.
Eles não têm esse negócio de ficarem fechados apenas no
relacionamento. Eles incluem todos na relação, e isso é algo bonito
e raro de se ver.
Quando está anoitecendo, Eva faz pães de queijo, broa de
fubá com goiabada e eu percebo que nasci para morar em Minas
Gerais. Nem ligo se vou engordar, é impossívelnão repetir todas as
comidas.
São sete e meia da noite quando Samuel surge com um
sorrisinho estranho no rosto.
— Sophie, eu acho que você vai querer se arrumar. Henrico
virá buscá-la em mais ou menos uma hora.
— Eu odeio imaginar o que está indo acontecer — meu irmão
confessa,suspirando. — Mas pelo menos é com Henrico. Isso ajuda
a aliviar a dor.
— Há um excesso de drama nos homens dessa família!—
falo,rindo. — Eu não tenho nada muito bonito para vestir, apenas as
roupas que levei para o acampamento.
— Vem! Eu vou ajudá-la! — Eva diz e sai me arrastando até o
quarto dela e de Théo. — Bom, você é mais voluptuosa que eu, mas
tenho algo que vai servir. Posso perguntar algo?
— Claro que pode.
— Toda essa preparação... Será a primeira de vez de vocês
ou já fizeram sexo desde que conversamos?
— Eu acho que será a nossa primeira e agora estou
extremamente nervosa e ansiosa — confesso. — V
ai doer muito?
— Não é assim, Sophie — Eva diz, rindo. — É apenas um
leve incômodo, um beliscão no início e um pouco desconfortável nos
primeiros movimentos. Você precisa estar relaxada, esquecer esse
negócio louco de dor e estar excitada. Ponto final. Não fique com
esses pensamentos na mente. Talvez você nem sinta dor. Não é
igual para todas as pessoas. Na hora que for acontecer, concentre-
se no tanto que você quer e na excitação. Esqueça todo o restante.
— Tudo bem. Obrigada por mais dicas de sexo — a
agradeço, sorrindo. — Vou tomar banho.
— Vá e volte aqui depois. Qual número você calça?
— 36.
— Perfeito. Vista esse vestido, escolha uma lingerie e volte
aqui para os retoques finais. — Eu faço exatamente o que Eva
mandou.
Tomo banho, me visto e volto ao quarto minutos depois.
— Você deve ficar com esse vestido de presente. Ficou
perfeito em você, Sophie! — ela diz e eu faço uma pose para
sensualizar, que a fazrir. — Henrico surtará se você mantiver tantos
botões abertos. Ficou realmente sexy, Sophie.
— Sou muito sexy sem ser vulgar — brinco.
— Tome, experimente isso! — Eu nunca usei vestido com
bota, mas Eva me faz experimentar e eu amo. Ela me emprestou
uma bota de montaria estilosa, que vai até os joelhos. É marrom e
combinou perfeitamente com o vestido que ela também me
emprestou. Estou pronta e ansiosa agora. E tudo aumenta quando
ouço a voz de Henrico.
— Ai, meu Deus!
— Respire. É só o seu namorado, está tudo bem, não há
nada demais...
— Há... provavelmente faremos sexo. Minha coragem oscila
muito. Por exemplo, agora estou aqui me cagando, daqui a meia
hora, provavelmente, estarei o provocando, até conseguir ir além...
Ai, meu Deus! Eu vou desmaiar! — digo, rodando pelo quarto. —
Deveria ter acontecido no carro, assim eu não iria ficar toda
ansiosa... simplesmente ia escorregar e créu na velocidade
máxima... — Eva está rindo e talvez seja mesmo engraçado.
— Vamos lá! Quanto tempo esperou por esse momento?
— Há muitos anos espero por isso. Muitos.
— Você o ama, ele a ama, será perfeito, Sophie. Esqueça o
possível sexo e relaxe. Saia daqui como se fosse apenas a um
jantar romântico. Deixe acontecer naturalmente. Essas coisas
fluem... — aconselha, segurando minhas mãos. — Vá, Sophie, e
volte aqui amanhã com o semblante de quem foi bem fo... amada.
— Fodida, eu entendi — brinco.
— Sophie, Henrico está te esperando. — Ouço Samuel dizer
do outro lado da porta e respiro fundo antes de sair do quarto. —
Uau! Você está linda pra caralho! — meu primo fala e eu o abraço.
— Te amo, princeso.
— Sophie, se acontecer o que acho que vai acontecer, eu
espero que seja inesquecível. — Fico emocionada e apenas aceno
positivamente com a cabeça. — Vocês são os meus melhores.
— Você é o nosso melhor, Samuca. Obrigada por tudo e por
todas as coisas.
Sigo para a sala e Henrico está todo sério na varanda,
conversando com Théo e Luiz Miguel. Quando ele vira o rosto e me
encontra, eu juro que quase volto para o quarto, tamanha
intensidade.
Primeiro ele foca em meus olhos por longos segundos, logo
em seguida começa a descer seu olhar e eu sinto meu corpo
incendiar. Ele é muito intenso, muito, excessivamente. Agora eu me
sinto como a Chapeuzinho de verdade, porque seu olhar é de um
lobo predador, prestes a me atacar.
Ele fica de pé e me oferece sua mão. Tremendo, a pego e
sorrio.
— Nos falamos amanhã. — Ele se despede antes de sair me
puxando, e eu apenas dou um aceno rápido.
Puta merda, eu vou mesmo desmaiar! Até mesmo sinto
minhas pernas falharem quando paramos na porteira e ele retira
uma venda do bolso.
— Você vai me vendar? — pergunto.
— Sim. É uma surpresa, Sophie. Precisa estar vendada ou
perderá a graça — explica, trazendo a faixa até meus olhos. — V
ocê
está linda, Sophie.
— Você também está lindo, namorado. — Ele venda meus
olhos e isso acaba aumentando meu nível de ansiedade.
Ao invés de me conduzir andando, sou pega em seus braços
e carregada até a casa, como se eu nada pesasse. Não é mentira
quando digo que Henrico é extremamente forte. Ele possui uma
forçadiferenciada.Eu vou rindo até ouvi-lo abrir a porta, então o frio
na barriga volta mais forte que antes quando sou colocada ao chão.
— Sophie, eu espero que goste. Eu te amo muito.
— Nem vi e sei que vou amar cada detalhe, bebecito. Você é
apenas o garoto mais incrível do mundo — digo.
— Estou nervoso, mas sei que posso fazer isso.
— Você pode fazer tudo, Henrico Davi. Tudo! — Ele beija
minha testa e se posiciona atrás de mim. Sinto um arrepio friocom a
proximidade de seu corpo. Cuidadosamente, ele retira minha venda
e eu levo minha mão à boca ao ver a cena mais linda da minha vida.
Parte da sala foi transformada em um acampamento, porém
é tudo muito mais confortável e bonito. Repleto de luzes de pisca-
pisca, almofadas, colchão. Além disso, fora da barraca há milhares
de estrelas no teto, feitas por alguma luminária que não consigo
encontrar. A iluminação está por conta da lareira, das luzes de
pisca-pisca e de algumas velas. De frente para a lareira está a
nossa mesa de jantar, impecavelmente linda.
— Você pode me dizer se gostou?
— Não tenho palavras — falo, tentando conter o choro de
emoção. — Eu nunca imaginei que um dia teria algo tão lindo!
— Eu cozinhei para você. Fiz fondue doce e salgado. Eu
também trouxe as estrelas... Não sei ser romântico, Sophie, mas sei
que posso tentar. Eu te amo ao infinito e além e você é a menina
mais bonita do mundo. Você pode se casar comigo? Merda! Não era
mesmo para ser assim! Era para ser no jantar...
— Oh, meu Deus! — Levo minhas duas mãos à boca quando
ele coloca uma caixinha de veludo diante dos meus olhos.
Novamente sinto que irei desmaiar.
— Sophie, por favor, seja minha noiva? Eu estou nervoso,
ensaiei muitas coisas, mas não consigo dizê-las. Eu fiz isso errado?
— Não fez... é perfeito pra caralho, Henrico! Eu devo estar
sonhando.
— Somos jovens, mas podemos nos casar. Eu não quero
outra garota, só quero você para sempre. — Ele está mesmo
nervoso, eu também estou.
— É claro que eu aceito. Sou sua noiva antes mesmo de
você pedir. — Sorrio, limpando minhas lágrimas, e ele suspira,
aliviado.
— Achei que diria não.
— Eu não sou maluca de dizer não — falo, me jogando nos
braços dele. — Te amo, te amo, te amo, te amo demais, meu
bebecito, meu menino mais bonito do mundo! Não sabemos seguir
muito bem regras ou respeitar o tempo. Em uma semana
alcançamos todas as bases e estou noiva! Isso é muito perfeitoe eu
realmente sou a garota mais feliz do mundo agora. — Encho as
bochechas dele de beijos e ele sorri. Eu amo as covinhas mais
incríveis!
Quando me afasto, ele coloca o anel delicado em meu dedo e
eu me pergunto qual artimanha ele usou para descobrir meu
tamanho. Porém, nada mais importa agora. Eu só quero apreciar o
momento incrível que ele criou para nós dois, por isso, retiro minhas
botas e seguimos para o jantar.
Acabamos de comer o fondue salgado e, puta merda,
Henrico arrasou! É um dos melhores fondues que já comi e nem
consegui comer o doce. Agora estamos sentados no tapete, de
frente para a lareira, conversando e trocando carícias gostosas.
Henrico tem suas costas encostadas no sofá e eu estou entre suas
pernas. É muito romântico e, mesmo que eu não fizessequestão de
tanto romantismo ontem à noite, hoje eu percebo que não ter
acontecido foi a melhor coisa. O romantismo nunca pareceu tão
necessário antes.
— Vou ao banheiro, bebecito — aviso a ele, ficandode pé, e
sigo para o banheiro da nossa suíte. Mais uma vez sou
surpreendida ao ver que ele pensou nos mínimos detalhes. A
banheira está cheia de pétalas de rosa, iluminada pela luz de velas.
Há pétalas também espalhadas pelo chão. Isso tudo é porque ele
não sabe ser romântico. Imagina se soubesse? Ao invés de estar
nervosa, agora me encontro ainda mais apaixonada, como se isso
fosse mesmo possível.
Estou noiva dele!
Noiva!
Eu gostaria de correr São Roque inteira gritando. Mas, ao
invés disso, apenas saio do banheiro mais decidida.
Só que parece que não é apenas eu a decidida neste
momento. Henrico está de pé quando volto à sala, e mal tenho
tempo de respirar quando suas mãos envolvem minha cintura e ele
me rouba um beijo avassalador, que decreta o fim do romantismo.
Só nos afastamos para Henrico retirar o casaco. Ele ficacom
uma camisa, mas eu decido retirá-la para adiantar a situação. Dá
para ver o receio que ele está sentindo, então precisarei mostrar a
ele que estou de fato pronta e ansiosa para o sexo.
Volto a beijá-lo e deslizo minha mão em sua protuberância,
por cima da calça. Ele ofega em minha boca e me empurra até uma
das paredes, prendendo-me com seu corpo. Sua testa se gruda à
minha quando ele afastanossos lábios, e suas mãos deslizam pelos
botões do vestido, abrindo cada um deles e arrancando a peça do
meu corpo. O mais chocante é que ele fazisso como se tivesse feito
sexo mais de 900 vezes nessa vida.
Sorrio quando ele geme ao me ver sem sutiã.
— Gostou?
— Você é gostosa, Sophie! Eu quero mesmo te comer. —
Puta merda!
Enquanto volto a beijá-lo, abro sua calça e a deslizo para
baixo, juntamente com a cueca. Eu sou capaz de sentir toda a pele
do meu noivo coberta de arrepios, isso me faz sorrir. Quando beijo
seu pescoço, ele apoia as mãos na parede e solta um som rouco
capaz de provocar orgasmos. Vou deslizando minha língua por todo
peitoral, lentamente, e beijo cada um dos gominhos salientes. Dou
leve mordidas em sua barriga e me agacho para chupá-lo, enquanto
termino de retirar a calça e a cueca.
Ele chuta as peças e eu passo minha língua por todo seu
comprimento rijo.
— Eu amo chupar seu pau! — confesso e a resposta dele
vem rapidamente. Suas mãos deslizam pelos meus cabelos, porém,
ao invés de apenas impulsionar seu membro para dentro da minha
boca, ele me puxa, fazendo com que eu fique de pé.
— Não hoje — avisa, me pegando em seus braços e me
levando para a cabana improvisada. Sorrio quando ele me deita
delicadamente e retira minha calcinha sem delicadeza. Eu amo que
não esteja sendo tão cuidadoso, acho que ficaria nervosa se ele
fosse tão lento em suas ações.
Deixo meus braços jogados para o alto e fico observando a
maneira como ele está me olhando agora. É tão quente, tão íntima,
mas não sinto vergonha. Talvez seja a taça de vinho que tomamos.
Sim, ele se esforçou para conseguir beber uma taça inteira de vinho,
e isso foi realmente engraçado. Só sei que agora me sinto corajosa
o bastante para abrir as minhas pernas e vê-lo surpreso. Seus olhos
sobem da minha intimidade para o meu rosto. Dou o meu sorriso
mais safado e me remexo sensualmente.
— Você é safada.
— Você também é. Acho que somos o par perfeito na
safadeza. Me sinto corajosa agora,bebecito — digo. — Você não?
Ele se abaixa de uma só vez, diretamente em minha
intimidade. Não há delicadeza na maneira como ele rodeia minhas
pernas com os braços, me abrindo mais e enterrando seu rosto em
minha intimidade. Estou chocada e amanhã eu continuarei chocada.
Eu não sei se arranco meus próprios cabelos ou se arranco os
cabelos dele. Na dúvida, eu escolho os cabelos dele.
Sua língua é devidamente esperta. Ele a pressiona contra
meu clitóris e logo em seguida o chupa. Seus lábios beijam minha
intimidade como se tivessem beijando minha boca. Ele brinca
alguns segundos com meu piercing e volta a fazer maravilhas com
sua boca e seus lábios. Eu entro em um nívelde excitação maior do
que todos que já vivi. Nunca me imaginei rebolando no rosto de
Henrico, mas é o que façoenquanto digo todos os tipos de palavras
indecifráveis. Quando meu orgasmo está se aproximando, ele
simplesmente se afasta e eu penso seriamente em matá-lo.
— Volte!
— Não estou com vontade, Sophie. Já tive o suficiente. —
Super sincero, ele captura meus seios agora. Eu vou enlouquecer,
eu quero gritar alto, quero algo que não consigo explicar. Na
verdade, eu só quero descarregar todas as coisas novas que estou
sentindo agora. Sou um fantoche nas mãos de Henrico, e nem me
importo em ser. Eu sou incapaz de tocá-lo, porque estou muito
concentrada em absorver o que ele está fazendocomigo. O aperto
das mãos dele em meus seios é tão malditamente bom! Enquanto
ele faz isso, impulsiono a parte inferior do meu corpo para cima,
tentando buscar algo que certamente me dará a saciedade que
tanto preciso.
Quando ele deixa os meus seios e captura meus lábios, eu
simplesmente enrolo minhas pernas em torno dele e o puxo para
baixo, causando a melhor de todas as fricções.
— Sophie...
— Nem vem... Quer dizer, só vem... Não quero conversar...
Deus...
— Sophie, é sério — fala, segurando meu rosto entre suas
mãos. Automaticamente, as minhas mãos também vão para o rosto
dele. Ofegante, tento entender o que de tão sério pode ser.
— Estou aqui...
— Você se sente mesmo pronta? Eu posso esperar. Estou
com medo de machucá-la. Promete não chorar? — Só essas
palavras já arrancam minhas lágrimas.
— Não posso prometer isso, porque é muito provável que eu
vá chorar. Como poderia ser diferente? Eu esperei por você a vida
inteira e esse talvez é o momento mais mágico da nossa história —
digo, esfregando lentamente minha intimidade em sua ereção. Isso
é tão bom, que eu nem sou capaz de descrever. — Faça acontecer.
Eu preciso que me guie, preciso que seja você a fazerisso para ser
perfeito. Estou pronta. — Lágrimas escorrem dos olhos dele
também e o vejo engolir em seco.
— Você é o amor da minha vida, Sophie. Me desculpe por ter
que machucá-la agora, tudo bem? Eu prometo te dar carinho — ele
fala, pressionando seu membro em minha intimidade. Meu coração
passa a bater mais acelerado, e eu me sinto tensa agora. — Preciso
que fique mais relaxada. Pense no futuro. — Sorrio. — Pense nos
guindastes.
— Eu acho que faltará guindastes no mundo para me tirar de
cima de você quando finalmente eu estiver livre para o ato. — Ele
sorri também, mas o sinto pressionando mais forte. Pense nos
guindastes...
— Continue falando comigo.
— Você é expert em sexo? Fala sério! Estou ficandomesmo
indignada com o fato de você saber todas as coisas sobre isso.
Você está calmo e agindo como um profissional em tirar virgindades.
— Não estou calmo, só estou no controle. Não sou um
profissional e temo gozar em dez segundos. — Volto a sorrir. —
Sophie, se lembra de quando segurou minha mão para eu correr?
— Sim — respondo e ele pega uma das minhas mãos. Eu
quero voltar a chorar quando ele entrelaça nossos dedos. Tão doce
e incrível.
— Eu apertei muito forte a sua mão aquele dia — relembra.
— Você fez.
— Aperte a minha agora, tudo bem?
— Ok. — Ele empurra de uma só vez para dentro de mim e
eu simplesmente o aperto o mais forte que já apertei algum dia.
PUTA MERDA!
Não posso conter as lágrimas, elas agora são por conta de
uma mistura de dor e emoção. Dói, não vou mentir. Mas certamente
seria pior se ele não tivesse me distraído. Ele fica paradinho,
enquanto meu corpo se acostuma com a invasão. Eu me sinto
sendo alargada por ele.
— Me desculpe... Porra... estou fodido! — Nunca o vi dizer
"estou fodido". — Você está bem, Sophie? Porque eu estou
sofrendo.
— Estou bem... Dói um pouco, mas você está parado,
esperando eu me ajustar. Você é o melhor noivo do mundo e o
menino mais bonito também. — O beijo e a tensão em seu corpo se
acalma.
Tudo muda quando o beijo esquenta e Henrico se move pela
primeira vez. Os primeiros movimentos são dolorosos, mas depois,
simplesmente vai se tornando a melhor sensação que já
experimentei.
Minhas mãos ganham vida, arranhando as costas de Henrico.
Eu surto um pouco quando ele apoia as próprias mãos acima dos
meus ombros, afastanossos lábios e começa a arremeter fortepara
dentro de mim, enquanto solta os sons mais gostosos. É sexy,
quente, selvagem, um misto de coisas alucinantes. Sem contar a
expressão de seriedade e prazer no rosto dele...
E ele disse que duraria só dez segundos...
Levo minhas mãos até a bunda dele e o pressiono ainda mais
contra o meu corpo. O orgasmo que eu nunca imaginei que teria na
primeira vez aparece, trazendo ondas de calor e explodindo minha
mente.
— Oh... meu Deus... Henrico... — choramingo, chamando
seu nome.
— Você está apertando meu pau! — exclama. — Goze
comigo, Sophie — pede como uma súplica desesperada e a magia
acontece. Eu gozo agarrada ao amor da minha vida e sinto-o me
preencher com seu próprio prazer. Quando volto ao planeta Terra,
estou agarrada a ele, como se dependesse disso para viver, e ele
está tão agarrado a mim quanto é possível, porém, chorando. Um
choro baixo, daqueles que os suspiros parecem mais fortes e os
sentimentos mais profundos.
Ele não sai de dentro de mim, mas rola para o lado, me
levando junto.
Eu o entendo...
Ele acaba de fazer a coisa que mais se sentia incapaz de
fazer na vida.
E eu acabo de conquistar algo que sempre sonhei, algo que
só podia ser com ele... sempre ele. Apenas com ele.
— Obrigado, Sophie.
— Não diga isso...
— Você me salvou de mim mesmo, desde criança. Eu te amo
além da vida, além do azul e ao infinito. Podemos fazer isso de
novo? Eu me sinto pronto! — Ele ainda está chorando quando pede
e eu começo a rir. Ele está mesmo pronto dentro de mim.
Não é só Henrico quem está fodido! Alguém, por gentileza,
pode me dizer uma maneira de eu não viciar em sexo? Nada,
absolutamente NADA nessa vida é melhor que sexo! É a minha
opinião e ninguém no mundo conseguirá mudá-la.
HORAS ANTES
Há poucos meses a visão que eu possuía sobre mim era
completamente diferente.Costumava me achar incapacitado, devido
ao fato de ver o mundo de outra maneira, receber novidades de uma
forma diferente e preferir a segurança que a zona de conforto me
proporcionava. Fisicamente, estava tudo certo, mas
psicologicamente não. Havia um grande bloqueio mental em relação
a determinados assuntos. Eu sentia muito, mas acreditava que
jamais poderia conquistar Sophie. Carregava comigo a certeza
absoluta de que ela só me via como primo e melhor amigo, que
éramos diferentes o bastante, até que passei a observar e fui
corajoso para tentar algo. Foi uma grande surpresa saber que ela se
sentia da mesma forma por mim, um risco me aventurar em uma
relação quando me sentia tão incapacitado.
Ainda me sinto assim em alguns momentos. Às vezes, a ideia
de que Sophie precisa de algo que eu não posso oferecer surge e
esse pensamento tanto me deixa com medo quanto desperta uma
coragem recém-descoberta.
Nas duas últimas semanas a minha vida mudou mais do que
mudou em 22 anos. Eu mudei. Sinto como se estivesse sofrendo um
aceleramento. Parece que todos os anos em que estive quase que
em estado vegetativo, em relação aos demais jovens da minha
idade, estão sendo vividos de uma só vez. Agora chegamos ao
estágio de sofrimento físico.Pode parecer exagero para todas as
pessoas que estão de fora da situação, mas para mim e para
Sophie é a realidade. Nós sentimos muito um pelo outro, nos
desejamos muito, e eu estou descobrindo que desejar demais faz
doer. Parece que ela também. Ela se sente pronta, eu me sinto
desesperado. Nós podemos fazerisso. Eu posso fazerisso. Talvez
assim a dor se acalme.
Acho que a partir do momento em que ficarmosconfortáveis,
nossa relação passará por mudanças. Geralmente, não me dou bem
com mudanças, porém, dessa vez, estou disposto a lidar com elas.
Tudo por Sophie. Eu a quero tanto e a amo tanto, que parece mais
fácil e motivador lidar com bloqueios. Se para tê-la eu terei que
enfrentar a mim mesmo, farei isso. Minha mãe sempre disse que
não existe nada no mundo que eu não seja capaz de fazer.
Costumava não concordar com isso, mas eu descobri que tudo
depende do que te motiva. Durante muitos anos não tive algo que
me motivasse tanto, agora eu tenho, e talvez seja exatamente o que
minha mãe sempre disse. Eu sou capaz, ou posso ser capaz.
É por isso que estou preparando uma surpresa para a
Sophie. Ela queria ficar confortável no carro, mas eu nunca faria
aquilo. Nada contra sexo no carro, mas uma primeira vez significa
muito para mim, talvez mais do que signifique para ela, não saberia
dizer. Não se trata apenas de sexo. Trata-se de algo que eu tinha
certeza de que jamais faria na vida. Nunca me interessei por
qualquer outra garota. Sempre foi Sophie. E, caso ela não sentisse
o mesmo por mim, eu jamais tentaria algo com outra. Iria casar com
a imaginação e ser amante dos sonhos. Eu a beijei, a toquei, fiz
coisas que jamais imaginei que pudesse fazer, agora podemos dar
outro passo.
Na verdade, precisamos dar outro passo. Virou questão de
necessidade. É por isso que pedi ajuda a Samuel para dar um dos
maiores passos que já dei na vida. O plano era fazer acontecer no
acampamento, mas não ter ocorrido foi algo bom. Eu não acho que
seria tão incrívelse acontecesse no meio do mato, no desconforto
de uma cabana, e eu nem mesmo teria tempo para preparar o que
de fato Sophie merece ter em sua primeira vez. Há em mim muita
preocupação em relação ao bem-estar dela. Devido às centenas de
pesquisas que fiz, sei que pode ser ruim para as garotas, inclusive
sei que os relatos sobre ter sido satisfatório são mínimos,
comparados aos relatos negativos. Eu quero que Sophie façaparte
do grupo mínimo de garotas que tiveram sua primeira vez
satisfatória e, para fazercom que isso aconteça, preciso que ela se
sinta bem desde o momento em que entrar em casa, nas
preliminares e no ato.
Eu não faço ideia se estou fazendo a coisa certa, mas é o
que acredito ser o melhor. Hadassa me ensinou sobre coisas
românticas que as garotas gostam. Geralmente não gosto de
pessoas novas, mas ela é legal e meu irmão gosta dela.
Samuel me ajudou a construir todo o cenário na sala,
Hadassa me ajudou a decorar a mesa e a banheira, e eu cozinhei
para Sophie.
Quando todo o serviço está pronto, eles se vão e eu fico.
Está perto de acontecer e isso me deixa nervoso. Fico alguns
minutos sentado no sofá da sala, olhando para a barraca iluminada
por pequenas luzes. Eu sinto vontade de desistir quando imagino
Sophie nua, deitada ali, esperando por mim. Tenho medo de não ser
bom ou de machucá-la. Porém, ao mesmo tempo em que estou
passando por vários receios, eu penso no quanto quero me sentir
confortável com ela.
Nervoso o bastante, faço uma chamada de vídeo para os
meus pais. Minha mãe é a primeira a atender.
— Meu filho!
— Mãe, eu vou me sentir confortável com Sophie hoje e
estou nervoso. — Ela fazuma cara estranha, como se estivesse um
pouco chocada com o que eu disse.
— Onde Sophie está? — pergunta.
— No sítio. Eu fiz uma surpresa com ajuda do meu irmão e
da Hadassa.
— Quem é Hadassa?
— É uma garota que Samuel está beijando. Eu acho que ele
não ficou confortável com ela ainda — explico.
— E você fez amizade com ela?
— Acho que sim. Ela me ensinou coisas românticas. Gostei
dela. Samuel gosta, então eu também gosto. — Minha mãe sorri.
— É normal ficar nervoso, filho, mas estou um pouco
chocada. Talvez surpresa seja a melhor palavra para expressar. É
isso, estou surpresa. Será incrível, certamente. Você e Sophie se
amam muito, a vida toda. Não tem como ser ruim ou dar errado.
Confio em você e em seu potencial. Sophie é uma garota de sorte.
Seja delicado e amoroso.
— Serei. Eu amo muito Sophie, mãe. Eu não consigo
explicar.
— Não existem explicações para o amor. Somos capazes de
senti-lo, mas nunca de explicá-lo — minha mãe diz. — Bom, seu pai
está na academia. Direi a ele que você ligou. Me ligue amanhã, ok?
Eu quero saber como foi. Estou imensamente feliz,tanto que estou
praticamente sem palavras para dizer a você. Apenas siga seus
instintos, seja delicado, carinhoso, e tudo dará certo. Acho que seu
pai te guiou de uma maneira diferente nesse assunto, algo mais de
homem para homem. — Ela sorri. — É um grande passo, Henrico.
Não foi só você quem esperou por esse momento. Sophie também,
seu pai, eu, todos que sempre torceram por vocês.
— Tudo bem, mãe. Obrigado.
— Eu te amo muito, meu pequeno gigante. Você é capaz!
Quando vou buscar Sophie no sítio, sinto-me mais corajoso
que nunca. Assim que a vejo, eu sinto vontade de estar sozinho com
ela, apenas para ficarconfortável.Sophie é a menina mais bonita do
mundo, mas não apenas isso. Sophie é gostosa e eu quero comê-la,
mesmo que seja errado dizer essas coisas. Olhar para ela fazcom
que eu fique extremamente ansioso e excitado. Não consigo
controlar as reações.
— Você vai me vendar? — ela pergunta assim que paramos
na porta do sítio e eu pego uma venda do meu bolso.
— Sim. É uma surpresa, Sophie. Precisa estar vendada ou
perderá a graça — explico. — Você está linda, Sophie.
— Você também está lindo, namorado. — Sorrio,
observando-a vendada, e a pego em meus braços. Sophie vai rindo
por todo caminho e eu não consigo entender o que há de tão
divertido. Ela para automaticamente de rir assim que abro a porta de
casa e a coloco no chão. Acho que agora há um pouco de tensão e
eu preciso deixá-la relaxada.
— Sophie, eu espero que goste. Eu te amo muito — me
declaro.
— Nem vi e sei que vou amar cada detalhe, bebecito. Você é
apenas o garoto mais incrível do mundo.
— Estou nervoso, mas sei que posso fazer isso. — Sei que
não deveria fazer essa confissão, mas sai de mim com muita
naturalidade.
— Você pode fazer tudo, Henrico Davi. T
udo! — Me posiciono
atrás dela e retiro a venda. Gosto da reação. Ela leva as mãos à
boca e penso que talvez meu plano de surpreendê-la deva ter
mesmo dado certo.
— Você pode me dizer se gostou? — peço, precisando de
uma confirmação.
— Não tenho palavras. Eu nunca imaginei que um dia teria
algo tão lindo! — Sua reposta me faz feliz.
— Eu cozinhei para você. Fiz fondue doce e salgado. Eu
também trouxe as estrelas... Não sei ser romântico, Sophie, mas sei
que posso tentar. Eu te amo ao infinito e além e você é a menina
mais bonita do mundo. Você pode se casar comigo? Merda! Não era
mesmo para ser assim! Era para ser no jantar... — Durante a
semana enviei uma mensagem para tia Melinda, pedindo o número
de um anel de Sophie. Acho que ela soube para o que era e me
ajudou sem contar nada a ninguém. Hoje mais cedo, eu, Samuel e
Hadassa fomos a uma joalheria em uma cidade vizinha e eu
comprei um anel. Quero me casar com ela e pensei que fazer o
pedido hoje seria importante, para ela se sentir segura das minhas
intenções.
— Oh, meu Deus! — Ela parece muito surpresa, mas tenho
medo de que ela diga não pelo fato de sermos muito jovens.
— Sophie, por favor, seja minha noiva? Eu estou nervoso,
ensaiei muitas coisas, mas não consigo dizê-las. Eu fiz isso errado?
— Não fez... é perfeito pra caralho, Henrico! Eu devo estar
sonhando.
— Somos jovens, mas podemos nos casar. Eu não quero
outra garota, só quero você para sempre — digo, mas sei que
preciso me acalmar. Preciso estar no controle.
— É claro que eu aceito. Sou sua noiva antes mesmo de
você pedir. — Volto a respirar aliviado.
— Achei que diria não.
— Eu não sou maluca de dizer não. — Ela se joga em meus
braços e começa a me encher de beijos. Isso me fazsorrir. Sophie
me ama mesmo. — Te amo, te amo, te amo, te amo demais, meu
bebecito, meu menino mais bonito do mundo! Não sabemos seguir
muito bem regras ou respeitar o tempo. Em uma semana
alcançamos todas as bases e estou noiva! Isso é muito perfeitoe eu
realmente sou a garota mais felizdo mundo agora. — Coloco o anel
em seu dedo e deposito um beijo casto em sua mão. Minha garota
sorri.
Quando acabamos de jantar, ficamos um longo tempo em
frente à lareira. Estou muito satisfeito, porque Sophie gostou do
fondue que preparei. Como sou observador, percebo que ela está
ficando tão impaciente quanto eu.
— Vou ao banheiro, bebecito — informa, ficando de pé, e
meus olhos seguem diretamente para sua bunda. Isso é muito
safado e desrespeitoso, mas eu preciso mesmo ficar confortável
agora. Decido que não há mais motivos para ficar mais tempo em
frente à lareira, é o momento de agir. Fico de pé e decido pegá-la
para mim agora.
É o que faço quando ela volta à sala. Acho que sou um pouco
rude na maneira como a pego, mas não consigo conter. A beijo de
uma maneira inapropriada para um momento que deveria ser
romântico. Só me afasto para retirar meu casaco, porém, antes que
eu a beije novamente, ela retira minha camisa também. Ofego
quando ela pega em meu pau por cima da calça. Isso me fazjogá-la
na parede com um pouco de brutalidade. A beijo, mas logo decido
que preciso dela nua. Com a testa grudada na dela, abro os botões
de seu vestido e a pego sem sutiã. Eu me sinto desesperado ao ver
os seios nus saltando livremente. E Sophie me provoca:
— Gostou?
— Você é gostosa, Sophie! Eu quero mesmo te comer —
digo, sem pensar em minhas palavras. Penso que isso vai assustá-
la, mas parece fazer o efeito contrário. Sophie gosta desse tipo de
palavra. Ela me agarra, abre minha calça e a puxa para baixo
juntamente com a minha cueca. Meu pau está rijo, pulsando de
necessidade, e parece aumentar quando ela beija meu pescoço e
vem distribuindo beijos pela minha barriga.
Chuto minha calça para longe e agarro os cabelos dela
quando sua boca desliza pelo meu pau duro. Eu gosto disso, mas
não estou com vontade agora.
— Eu amo chupar o seu pau! — Acho que também gosto
desse tipo de palavra, porque sinto coisas estranhas ao ouvir
Sophie falar.
A pego em meus braços e a levo para nossa cabana,
deitando-a delicadamente. Minhas mãos deslizam pelas pernas dela
e eu retiro sua calcinha lentamente. Fico de joelhos e a observo
completamente nua e preparada para mim. Ela está sorrindo agora,
muito provocadora. Meu olhar desce quando ela abre as pernas
para mim. Isso me faz querer soltar sons.
— Você é safada — afirmo, observando ela se remexer e se
abrir mais.
— Você também é. Acho que somos o par perfeito na
safadeza. Me sinto corajosa agora, bebecito. Você não? — Eu não
penso mais, tampouco a observo. Desço minha cabeça, seguro
suas pernas e chupo o clitóris delicado. Sophie é mesmo gostosa, e
está molhada de excitação. Não vou precisar fazer com que ela
goze para poder ficar lubrificada o bastante. Por isso, quando
percebo que ela começa a tremer e que seu orgasmo está perto, me
afasto. Não quero que Sophie goze assim. Quero que ela goze
quando eu estiver dentro.
— Volte! — Ela parece frustrada, mas eu não vou mesmo
voltar. Já tive o suficientede sexo oral e estou sendo egoístapor um
bom motivo.
— Não estou com vontade, Sophie. Já tive o suficiente —
informo, capturando seus seios. Eu sou apaixonado pelos seios de
Sophie. Sou apaixonado por cada parte dela. Ela parece tão
desesperada, que está impulsionando seu corpo para cima. Eu beijo
sua boca, tentando acalmá-la, mas não resolve. Ela enrola as
pernas em torno de mim e me puxa para baixo, fazendo com que
meu pau pressione sua vagina.
Boceta.
Ok.
Boceta!
— Sophie... — Preciso saber se ela está bem, porque eu não
estou aguentando mais me segurar. É errado?
— Nem vem... Quer dizer, só vem... Não quero conversar...
Deus... — Ela é maluca.
— Sophie, é sério. — Seguro o rosto dela entre as minhas
mãos, olhando fixamente em seus olhos.
— Estou aqui...
— Você se sente mesmo pronta? Eu posso esperar. Estou
com medo de machucá-la. Promete não chorar? — Por que ela
começa a chorar ao ouvir a minha pergunta? É algo bom ou ruim?
— Não posso prometer isso, porque é muito provável que eu
vá chorar. Como poderia ser diferente? Eu esperei por você a vida
inteira e esse talvez é o momento mais mágico da nossa história. —
Ela está se esfregando em mim e estou prestes a perder o controle.
É gostoso. — Faça acontecer. Eu preciso que me guie, preciso que
seja você a fazerisso para ser perfeito. Estou pronta. — Não quero
chorar, mas me emociono. Ela está preparada e isso irá mesmo
acontecer. Eu sempre sonhei em tê-la dessa maneira. Me
perguntava como seria, se um dia aconteceria, e chorava quando
acreditava que não iria acontecer. Mas agora vai. A realização de
um grande sonho que carrego comigo desde que comecei a reagir a
ela de uma maneira diferente.
— Você é o amor da minha vida, Sophie. Me desculpe por ter
que machucá-la agora, tudo bem? Eu prometo te dar carinho. —
Começo a pressionar mais em sua entrada. — Preciso que fique
mais relaxada. Pense no futuro.— Ela sorri docilmente, mas sei que
está tensa e eu preciso distraí-la. Conversar nesse momento talvez
não seja indicado, mas aposto nisso para fazercom que ela relaxe
para eu conseguir entrar. — Pense nos guindastes.
— Eu acho que faltará guindastes no mundo para me tirar de
cima de você quando finalmente eu estiver livre para o ato. —
Sorrio.
— Continue falando comigo — peço, tremendo de medo e
lutando para ignorar o receio de ir além e feri-la. Não quero
machucá-la, mas acho que isso é um pouco inevitável.
— Você é expert em sexo? Fala sério! Estou ficandomesmo
indignada com o fato de você saber todas as coisas sobre isso.
Você está calmo e agindo como um profissional em tirar virgindades.
— Não estou calmo, só estou no controle. Não sou um
profissional e temo gozar em dez segundos — confesso,a fazendo
sorrir. — Sophie, se lembra de quando segurou minha mão para eu
correr?
— Sim — responde. Pego uma das mãos dela e entrelaço os
nossos dedos. Quero que ela confie em mim e que seja perfeito.
— Eu apertei muito forte a sua mão aquele dia.
— Você fez. — Ela também se lembra. Eu a amo além da
minha vida.
— Aperte a minha agora, tudo bem? — Será agora, sem que
ela esteja esperando. Sophie está relaxada e pronta.
— Ok. — Sua mão aperta a minha fortemente quando a
invado.
Eu nunca senti nada parecido, nem mesmo sabia que poderia
ser assim. É preciso que eu fique parado por dois motivos:para ela
se acostumar e para eu não gozar. A boceta de Sophie está me
apertando muito forte. É quente, causa uma sensação que jamais
imaginei sentir. Eu quero fazerisso rápido, com força,mas também
quero ir devagar.
Agora eu entendo os filmes educativos. Me assustava a
maneira como os homens agiam quando estavam dentro das
mulheres, mas... puta merda! É extremamente difícilser namorado
de Sophie agora.
Noivo.
É isso. Somos noivos e é extremamente difícil ser noivo.
Eu sinto tudo com uma intensidade diferente. Antes eu me
achava estranho por "sentir demais", agora eu acho normal e bom.
A palavra intensidade ultimamente tem tido um peso diferente,
remete ao fogo, ao encaixe, a se sentir completo e vivo como nunca.
É assim que eu me sinto dentro de Sophie. Há um fogo diferente,
uma adrenalina tão forte que chega a tremer meu corpo. Eu me
sinto vivo de uma maneira diferente, parece que estou nascendo
para algo novo e arrebatador, algo que dispensa explicações e que
me fazsentir como nunca me senti antes. Nada que tenhamos feito
se compara a isso, tampouco as sensações. Parece que atingi um
novo nível;um que ao invés de me fazer recuar de medo, me faz
querer ir mais longe do que jamais fui.
— Me desculpe... Porra... estou fodido! — Porra! Eu vou
assustá-la, caralho! — Você está bem, Sophie? Porque eu estou
sofrendo.
— Estou bem... Dói um pouco, mas você está parado,
esperando eu me ajustar. Você é o melhor noivo do mundo e o
menino mais bonito também. — Ela está bem! Ela está mesmo bem!
Isso me causa um alívio absurdo. Minha Sophie está bem! Isso
significa que eu posso me mover.
E eu faço isso enquanto ela me beija. É de longe a maior
tortura da minha vida e a situação que mais exige autocontrole. Não
quero gozar, mas quanto mais me movo, mais próximo eu me sinto
disso.
As mãos de Sophie deslizam pelas minhas costas enquanto
ela geme. Isso mostra que está gostando e me encoraja a seguir em
frente. Levo minhas mãos acima de seus ombros e passo a
arremeter mais forte, precisando sentir mais da boceta da minha
namorada. É gostoso, é bom ir tão fundo, me faz querer gozar
dentro dela e continuar metendo. Não há nada mais gostoso na
vida, tenho certeza. Eu fico atento às reações do corpo dela e sua
boceta parece contrair mais a cada segundo. A cada vez que ela
contrai, eu penso que irei morrer e me sinto um pouco fraco. Sophie
até mesmo traz as mãos em minha bunda, em busca de mais
fricção. Meu coração está tão acelerado agora, que temo passar
mal. Ela está alucinando embaixo do meu corpo, quando eu pensei
que isso jamais iria acontecer em nossa primeira vez. Estou
desesperado de tesão, querendo comê-la mais fortee torcendo para
que isso nunca acabe.
— Oh... meu Deus... Henrico... — Eu gosto de como ela está
chamando o meu nome. Eu vou gozar. Porra... eu não quero isso,
mas não posso mais esperar.
— Você está apertando meu pau! — digo. — Goze comigo,
Sophie. — Meu corpo explode violentamente dentro dela e sou
surpreendido quando ela me acompanha, tendo um orgasmo.
De repente, um choro forte escapa de mim. Me sinto
envergonhado, mas não consigo nem mesmo controlar o choro
mais. Eu sinto um misto de prazer, gratidão, amor e desejo. Todas
essas coisas caíram sobre mim logo neste momento, sem chance
de fuga. Estou chorando após a minha primeira vez, agarrado à
minha namorada e tomado pela vergonha de perder o controle dos
meus sentimentos.
A puxo para o lado e assim ficamos deitados. Ainda estou
dentro dela, sentindo a melhor sensação da vida. Eu poderia dormir
assim, tenho certeza disso. Não consigo parar de chorar, mas sei
que quero mais.
— Obrigado, Sophie. — O meu agradecimento é por todas as
coisas que ela fez nos últimos dias e por ter mudado a minha vida
por completo. Ela me tornou capaz, me salvou quando eu precisava
correr, me salvou quando eu precisava de alguém para segurar a
minha mão, me salvou quando eu me achava diferente e
insuficiente. Ela é tudo e acaba de mostrar que eu sou melhor do
que acreditava ser.
— Não diga isso...
— Você me salvou de mim mesmo, desde criança. Eu te amo
além da vida, além do azul e ao infinito. Podemos fazer isso de
novo? Eu me sinto pronto! — peço, chorando, e ela começa a rir. —
Você está dolorida? Me desculpe por isso, Sophie. É só que... você
é gostosa.
— Estou um pouco dolorida — ela responde enquanto tento
parar de chorar. — Mas posso fazer isso. Eu quero mais de você,
bebecito. — O "dolorida" me faz recuar.
— Não.
— Sim.
— Não, Sophie. Vamos tomar um banho morno, que irá
ajudar um pouco. Se eu machucá-la mais, teremos que ficarmuitos
dias sem... — Ela começa a rir antes que eu termine a frase. Acho
que sou muito pervertido por pensar a longo prazo.
— Você é safado.
— Me desculpe?
— Nem fodendo,Henrico Davi! Foda-me agora! — Porra... eu
me sinto pulsando dentro dela. — Estou viciada já...
— Não diga isso, Sophie — imploro.
— Vou montá-lo.
— Não vai não — falo, fugindo. Sair de dentro dela me faz
arrepiar por completo. Pelo amor de Deus! Eu estou viciado! Mas
preciso pensar no bem-estar de Sophie. — Caralho, Sophie!
— Pare de falar palavrões, Henrico Davi! Isso fode meu
psicológico.
Há um pouco de sangue em meu pau, em Sophie e no lençol.
Ela fica tímida ao ver
.
— Está tudo bem. É assim mesmo — digo, a puxando para
os meus braços. — Sophie, eu te amo. Vamos tomar um banho
gostoso.
— Estou com vergonha agora.
— É a única vez que isso vai acontecer. Da próxima não terá
mais sangue. Eu acho, né. Posso pesquisar. — Ela ri. — Vamos.
Tomamos banho na banheira, vestimos uma roupa e nos
deitamos na cama. Estou exausto por não ter dormido na noite
anterior, mas estou feliz e ficaria por horas acordado, apenas a
observando. Sophie está mesmo dolorida, ela choramingou no
banho algumas vezes. Por isso, estou sendo mais cuidadoso.
Fico fazendo carinho em seu rosto. Sophie é mesmo a garota
mais bonita do Universo inteiro. Ela é um pouco maluca, mas é
muito sensível, doce e carinhosa, precisa do meu carinho.
— Te amo, minha princesa.
— Também amo você. Ao infinito e além. Foi a melhor noite
da minha vida. Obrigada por ser tão cuidadoso e especial. —
Deposito um beijo em sua testa. — Amanhã nem trator me tira de
cima de você! — 1.500 guindastes não vão me tirar de Sophie
amanhã! Eu gostaria de pegá-la de quatro... parece interessante e
eu amo a bunda dela.

Quando Sophie dorme, eu decido que não posso esperar até


amanhecer para ligar para os meus pais.
— Filho? Está tudo bem? — Meu pai fica ligeiramente
apreensivo por receber uma chamada de vídeo no meio da
madrugada. Ligações durante a madrugada costumam girar em
torno de notícias ruins, é compreensível a apreensão na voz dele.
— Eu e Sophi... nós ficamosconfortáveis.Muito confortáveis
— digo timidamente e vejo seu semblante tranquilizar. — É íntimo,
não poderia falar, mas não iria conseguir dormir sem contar, pai.
— Uau, Henrico! — exclama, sorrindo. — Estou muito feliz
que tenha ficado confortável com Sophie. Essa é uma grande e
ótima notícia!
— Sophie teve um orgasmo.
— Sério? Isso é ainda mais incrível.Sabe, a primeira garota
que eu fizsexo não teve um orgasmo. Ela também era virgem e não
foi satisfatório. É uma grande coisa proporcionar um orgasmo para
uma garota logo na primeira vez dela, viu? Quando te aconselhei a
ver vídeose fazer pesquisas, foiacreditando que isso o ajudaria. No
meu caso, faltou pesquisas, mesmo eu vendo pornografia. — Ele ri.
— Enfim, foi bom? — pergunta.
É estranho, só de relembrar fico arrepiado. É a melhor
sensação que já senti em toda a minha vida. Eu não gostava muito
da expressão “frio na barriga”, mas ela parece se encaixar de
alguma forma na atual situação.
— Eu quero fazer mais vezes. Todos os dias — respondo
com seriedade e sinceridade, mesmo assim, meu pai ri.
— É claro que quer. Está no top 3 das melhores coisas da
vida, além disso, é saudável fazer sexo. Nos ajuda em muitas
questões. — Eu sei. — E Sophie, como está? Ela está bem?
— Sim. — Eu iria dizer que ela está dolorida, mas é muito
íntimo. Porém, meu pai parece entender que estou evitando
detalhes.
— É íntimo, não é mesmo? Mas, o "sim" já diz muito. Você é
muito incrível, meu filho. Não vou acordar a sua mãe, direi a ela
amanhã. Estou muito feliz. Sei que havia muito receio, muitas
dúvidas, medos e incertezas sobre isso. Você superou cada uma
das barreiras e foi até o fim;não estava acostumado a lutar muito
para vencer as limitações da sua mente. Parecia confortável para
você se manter isolado. Vê-lo se esforçar foi e é imensamente
satisfatóriopara mim, como seu pai. Eu acho que o segredo sempre
foi Sophie, mesmo que durante alguns anos você tenha se mantido
mais fechado em seu próprio mundo. Aceitar o sentimento que nutre
por Sophie foi o primeiro passo para sair da zona de conforto. E
você foi veloz, filho. Foi há poucos dias que resolveu se abrir com
ela e olha quão longe já foram?! É surpreendente, Henrico! Você é
bom no que faz, você é capaz, você é extremamente foda e vai
muito além ainda. O amor que sente por Sophie é algo que te leva
longe, que te impulsiona, te motiva. Eu costumo dizer que sua mãe
é o meu motivo; Sophie é o seu motivo. Ela é o motivo para todas as
coisas boas.
— Ela é o meu motivo. Eu sou apaixonado por Sophie, pai.
Ela é a menina mais bonita do mundo.
— Sophie é linda por fora e por dentro. Victor e Melinda
fizeram um ótimo trabalho na educação e na formação dela como
ser humano. Ela teve os melhores exemplos para seguir —
argumenta.
— Pai, vou dormir. Sophie quer se sentir confortávelquando
acordarmos. — Meu pai dá uma gargalhada alta e acabo rindo
também. Estou feliz.
— Eu realmente imagino como será a rotina de vocês a partir
de agora. Só não sejam presos por atentado ao pudor. De resto,
aproveitem. Se você soubesse como a vida passa rápido... Não
desperdice um só segundo, filho.
— Não irei.
Após me despedir do meu pai, vou para o escritório.
Durante toda a infância, fui uma criança não verbal. Eu
conversava com meus pais e meus avós, mas era apenas o básico,
respostas curtas e objetivas. A melhor maneira que encontrei para
me expressar foiatravés da pintura. Eu vivia pintando e desenhando
pessoas, lugares, sonhos. Com o passar dos anos, diminuí a
frequência de pinturas e desenhos, mas ainda as faço com a
mesma facilidade de antes.
Durante as próximas horas deixo que a minha mente
comande minhas ações e, quando termino, há um quadro com a
silhueta da minha namorada nua, de costas...
Eu me tornei um pervertido, provavelmente. Me sinto
envergonhado ao ver a imagem, mesmo que o trabalho tenha ficado
bonito. Isso não é muito romântico, na verdade, é desrespeitoso.
Mas Sophie é gostosa pra caralho!
Após esconder a tela atrás de um armário, vou para o quarto
e me junto a ela.

Há o menino mais bonito do mundo desmaiado na cama.


Mais bonito e mais gostoso. Eu não deveria ter dito a ele que amo
cueca branca. Embora ele esteja todo vestido de branco, podendo
parecer com um anjo, posso dizer que não há nada muito angelical
na forma que eu o vejo.
Camisa branca, cueca boxer branca...
Misericórdia! Ter perdido a virgindade me fez um mal do
caralho! Ou não! Ainda sinto que ele esteve dentro de mim, mas não
é algo que posso qualificarcomo dor. Henrico soube me deixar bem
lubrificadae acho que isso foi uma jogada de mestre. Há apenas a
sensação de ter sofrido uma invasão de algo grande em uma parte
tão delicada.
Se possível, estou com mais tesão do que o normal nessa
linda manhã. Acordei assim, com cada parte de mim desejando meu
namorado.
Noivo.
Que noivo!
Me levanto, façoum alongamento e vou até o banheiro fazer
minha higiene matinal e conferir se está tudo certo. Estou bem,
inteira, com a libido em alta, pronta para a segunda vez. Eu só irei
contar até a segunda mesmo, porque depois dela creio que será um
caminho sem volta. Espero que Henrico esteja na mesma linha de
fome sexual que eu estou, não quero parecer ninfomaníaca.
Tudo bem! Eu entendo que mal comecei a minha vida sexual,
que talvez esteja indo com muita sede ao pote, mas que Deus me
perdoe por isso! Eu sinto desejo sexual por Henrico há muitos anos,
desde que me despertei para a safadeza... Dessa água eu beberei
sim, mergulharei sim, me afogarei COM CERTEZA! E é por isso que
volto para a cama ao invés de fazer um café da manhã especial
para o meu bebecito em forma de agradecimento. Acho que posso
agradecer de outra maneira, talvez dando meu corpo a ele.
Me ajeito na cama, mais perto dele que antes, e deslizo
minha mão por dentro da camisa dele, deixando leves arranhões em
suas costas, enquanto beijo seu pescoço. Desço a mão até a bunda
gostosa e dou um aperto firme.
— Sophie. — Meu noivo solta um som que é uma mistura de
gemido com fala e rouquidão.
— Ei, Henrico Davi...
— Você está apertando minha bunda — diz, virando seu
rosto para mim. — Preciso dormir um pouco mais. Deitei há pouco
tempo. — Franzo a testa.
— Por quê?
— Não conseguia dormir. Há praticamente dois dias que não
durmo. Só preciso de mais algumas horas de sono. — Poderia ser
como um balde de água fria, mas não é. Ele está com uma carinha
que demonstra puro cansaço. Prefiro que ele durma mais e que
possamos aproveitar a noite.
— Quer comer algo? Eu posso fazer um café da manhã
especial e você pode voltar a dormir depois de comer.
— Não precisa. Só quero dormir — responde com os olhos
fechados. — Te amo, Sophie.
— Também amo você. Vou arrumar algumas coisas e irei
para o sítio, ok?
— Hummm... — Meu neném volta a adormecer e eu fico
sorrindo.

Quando chego ao sítio, todos estão sentados à mesa, para o


almoço. Eu vejo todas as cabeças virarem para mim. É quase
cômico a maneira como os olhares estão completamente
avaliativos. Talvez estejam aguardando que eu mostre o lençol
ensanguentado para confirmar a consumação da perda do meu
lacre, como Samuel disse na Ilha.
Por falar em lençol, colocá-lo na máquina foi a primeira coisa
que fizassim que saí do quarto. Também arrumei um pouco a casa,
deixei apenas a barraca armada e os itens decorativos.
— Ok, por que estão me olhando dessa maneira? —
pergunto, tentando me manter séria.
— O que fezcom Henrico? Onde ele está? — Samuel... Em
alguns momentos sinto vontade de socá-lo.
— Ele está dormindo. Estava virado há praticamente dois
dias. O que diabos eu poderia fazer com Henrico?!
— Ele é puro — Samuel responde, rindo.
— Só na sua mente. Aquele homem está longe de ser puro.
Na verdade, pense num garoto fodedor?É Henrico Davi, meu noivo!
— MERDA! — meu irmão fala, cobrindo os ouvidos com as
mãos.
— Rimão, que tal falarmos de pureza? — o provoco.
— Acredite, Sophie, eu sou muito mais puro que... a sua
insinuação — Luiz Miguel responde. — Você deveria ficarcaladinha,
rimã.
— Acho que estamos em desvantagem — Théo comenta.
— Eva, sua comida cheira maravilhosamente bem! —
exclamo, me juntando a eles e enchendo um prato com comida. Eu
deveria voltar para o Rio, pois morar em Minas será algo difícil.Eu
amo comida mineira e não consigo resistir. — Estou faminta!
— Foi Théo quem cozinhou hoje. Estou um pouco enjoada da
minha comida — Eva responde, radiante. — Me diga sobre esse
anel em seu dedo, estou curiosa.
— Eu e Henrico estamos noivos. Ele me pediu ontem à noite
— explico, comendo.
— Nosso pai, certamente, terá um ataque cardíaco.Ou talvez
seja necessário que nossa mãe o leve para uma viagem com
duração de 30 dias para Maldivas.
— Rimão, eu acho que meu caso é bem leve... — Luiz Miguel
fica visivelmente puto e eu enfim dou uma gargalhada.
— Aí vocês ficaram noivos e... — Samuel está se corroendo
de curiosidade.
— Não vou contar os detalhes na frente do meu irmão,
melhor amigo. Assim que eu terminar de comer, nós podemos ir lá
fora e eu matarei sua curiosidade.
— Graças a Deus! — Samuca exclama, rindo.
— Não sou idiota, Sophie. Sei o que aconteceu — Luiz
Miguel diz, suspirando. — Você está feliz?
— Sim.
— Então eu estou feliz também. Sabe o que mais? Não
desperdice tempo. Viva tudo com Henrico. A vida passa muito
rápido. Um dia a pessoa que você ama está aqui e logo depois não
está mais. — Sei que ele está se referindo à Clarinha. — E é
horrívelperceber que poderia ter aproveitado mais. É horrívelquerer
voltar no tempo só para fazer aquele programa que ela queria e
você se recusou, ou adiou aquela viagem a dois, deixou de comprar
o sapatinho de bebê que ela queria, com a desculpa de não saber o
sexo... É horrível. — Pronto, agora todos estão praticamente
chorando. Théo o puxa para um abraço. — Está tudo bem. É só
que... Clarinha foi a minha primeira garota, assim como eu fui o
primeiro dela, namoramos muitos anos. É muito parecido com
Sophie e Henrico. Não pude deixar de lembrar.
— Eu oro todos os dias para que você consiga superar e que
encontre alguém que preencha o vazio que ela deixou — digo,
pegando a mão dele por cima da mesa.
— Está tudo bem. — Ele volta a falar, sorrindo.
Por volta das 16h, Henrico surge. Hadassa e Maicon se
juntaram a nós mais cedo. A maneira como Henrico olha para
Maicon ainda é bastante engraçada, mas deixa de ser importante
quando ele fazde mim o seu focoprincipal. Deveria ser proibido ele
me dar esse tipo de olhar em público. Eu posso sentir minhas
bochechas queimando.
Samuel nem o deixa respirar direito, o abraça e sai puxando-
o rumo a uma das espreguiçadeiras do outro lado da piscina. Eu
não quero nem imaginar o que Henrico dirá a ele.
— Agora que temos mais privacidade, pode contar como foia
noite de ontem? — Eva pede.
Estamos eu, ela, Hadassa e Maicon. Théo e Luiz Miguel
estão afastados o bastante.
— Por favor, diga que deu tudo certo?! Eu teria me
apaixonado por Henrico ontem, se não soubesse que ele tem
namorada e que o irmão dele é um gostoso — Hadassa comenta. —
Ele foi incrível, Sophie. E engraçado também. Ele é muito sincero,
eu não estava acostumada com alguém tão sincero dessa maneira.
— Deu tudo certo. Eu não sou mais uma garota virgem —
informo, sorrindo, mas um pouco envergonhada. — Querem
detalhes?
— O básico, pelo menos — Eva pede.
— Bom... Jantamos, tomamos uma taça de vinho, ficamos
em frenteà lareira, conversando, tudo em um clima muito romântico
e fofo.Durou até o momento em que fuiao banheiro. Quando voltei,
Henrico já estava de pé, esperando por mim, devidamente decidido.
Ele me beijou e eu fui parar numa parede... Não foi algo muito
delicado ou romântico. Estávamos afoitos, necessitados demais.
Não houve muita delicadeza, mesmo assim, foi perfeito. Acho que
Henrico é intenso demais para conseguir fazer sexo lento. Quer
dizer, no primeiro momento ele até aguardou que eu me
acostumasse, mas depois... nós fomos um pouco selvagens,
embora eu ache que a segunda vez será mais. Ele é muito intenso,
eu sou muito fogosa... Eu não sei dizer como será essa relação
após termos rompido a barreira.
— Por Deus! A maneira como ele te olha chega a me dar
calafrios. Ele parece prestes a te devorar e te dar uma surra... não
disse de quê — Maicon diz, se abanando, e eu volto a olhar para
Henrico.
Por Deus, digo eu! É muito difícilser namorada de Henrico.
Eu sempre fui a espoleta da família,a garota que fazamizade com
todas as pessoas que encontra pela rua. Meus familiares e amigos
nem mesmo acreditavam que eu pudesse ser virgem. Henrico
parece o único ser humano no Universo que tem o dom de me
intimidar. Por mais que essa timidez passe com o poder mágico de
um beijo, o período que antecede o beijo é confusoo bastante para
mim. Eu fico oscilando entre querer fugir e querer me jogar. Viro
uma bagunça de tremor, coração acelerado, ansiedade. Nem
mesmo consigo mais dar atenção ao assunto rolando diante de
mim. Fico presa nele e ele preso em mim, como uma conexão
extremamente poderosa.
Em questão de segundos, Henrico está diante de mim, como
se só existisse no mundo nós dois.
— Ei, Sophie. — É uma graça como ele me cumprimenta de
forma casual, como se fôssemos conhecidos que se encontraram
em uma loja em mais um dia de compras. Meu menino mais bonito
ainda não consegue demonstrar muito afeto em público, e eu terei
paciência de esperar, porque sei que valerá a pena.
— Ei, Henrico Davi.
— Você é minha noiva — fala, sorrindo.
— E você é meu noivo. Eu amo ser sua noiva.
— Podemos ir para casa assistir um filme? — Alguém está
aprendendo a ser espertinho demais.
— Estou louca para ficar confortável em casa — o provoco.
— Eu estou louco para te... — Cubro a boca dele, antes que
ele fale demais.
— Ninguém entendeu. Está tudo bem. Continuem! — Eva diz,
rindo, enquanto puxa Hadassa e Maicon para longe.
— Me desculpe, Sophie. Eu me esqueci da presença deles.
— Meu bebecito se desculpa, morrendo de vergonha. — Você está
bem?
— Estou bem.
— Sophie, você está dolorida? — Oh, meu Deus! Eu quero
gargalhar pela seriedade dele. É impossível descrever
.
— Não estou.
— Eu quero muito ficar confortável, da mesma intensidade
que eu sempre quis você. Só consigo pensar nisso, Sophie. Eu
quero você nua debaixo do meu corpo, como ontem. Quero você
por cima, para eu poder ver seus seios balançando, acho que deve
ser legal. Quero você de quatro, porque quero ver a sua bunda.
Estou ansioso para fazer essas posições. Podemos transar três
vezes?
Pelo amor da Santa Josefina! Qual é o santo que protege as
namoradas de homens super sinceros?
Aiiii, sei lá, o jeito de Henrico é realmente diferente. Aliás, ser
diferente nunca fez tanto sentido como está fazendo agora. Esse
modo sincero de dizer exatamente o que quer e o que surge em sua
mente é recebido por mim como um afrodisíacopoderoso. Henrico,
definitivamente, não precisa dizer palavras tão sujas. Basta abrir a
boca e despejar sua sinceridade. Acredite, é impossívelnão sentir a
calcinha umedecer ao ouvir uma série de pensamentos safados
saírem de sua boca.
Ele ainda especificou o número de vezes que quer transar.
Isso mistura o fofocom o safado e me deixa perdida entre apertar
as bochechas dele ou apertar uma outra parte do seu corpo. 8 ou
80. Não há meio termo. Eu, que costumava me achar safada,
descobri que posso ser uma santa perto dele. Isso é, no mínimo,
curioso.
— Sophie, estou esperando uma resposta — ele diz após um
longo momento de puro silêncio. Ele quer a resposta sobre as três
rodadas de sexo, é isso! Eu não sou maluca de dizer que não. Ele é
realmente quente e gostoso, eu jamais negaria fogo a esse homem.
— Vamos fazer diferente. Não vamos colocar uma meta.
Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta,
vamos dobrar a meta.
— O quê? Isso que você disse não faz o menor sentido,
Sophie. Se não vamos colocar uma meta, como atingiremos a meta
e a dobraremos? Você não fez o menor sentido agora. Você sabe
que eu fico confuso. — Oh, meu Deus! Eu o abraço forte, bem
apertado. Não queria fazer com que ele se sentisse confuso.
— Não foi a minha intenção. Só estava usando as frases da
antiga presidente do Brasil. Mas não vamos falar disso. Vamos falar
de ir embora para casa e transar três vezes ou quantas vezes
conseguirmos.
— Podemos ir? — pergunta.
— Nem mesmo irei me despedir de qualquer pessoa,
bebecito. — Sorrio maquiavelicamente, antes de segurar a mão dele
e sair puxando-o rumo à felicidade!
Henrico é mesmo uma caixinha de surpresas. Você o vê
caminhando timidamente, sem encarar as pessoas nos olhos,
parecendo um anjo de candura. Quem o vê sendo tão angelical, não
faz ideia da transformação que ocorre entre quatro paredes. Ele
pode não olhar nos olhos das demais pessoas, mas nos meus ele
olha e, todas as vezes que faz esse ato, promessas promíscuassão
ditas silenciosamente.
Essa magia acontece assim que entramos dentro de casa. Eu
juro que posso sentir a atmosferacarregada, uma mudança abrupta.
Henrico fechaa porta com chave e eu quase caio de joelhos quando
ele volta o olhar para mim. Nervosa, mordo meu lábio inferior e fico
paralisada.
Eu nunca me cansarei de dizer o quanto eu jamais imaginei
que seria assim. Não fazsentido na minha mente que Henrico seja
como um predador sexual. E eu não consigo explicar a mim mesma
esse tipo de comportamento intenso do meu namorado. Talvez eu
deva falar com a terapeuta dele, eu sinto que preciso disso.
Henrico Davi agia de maneira completamente diferente. Ele
ainda pode ser diferenteforadessa casa. Aliás, ele era diferenteaté
dias atrás, antes de aumentarmos o nível de intimidade. O Henrico
da terceira base é muito diferente do Henrico da primeira e segunda.
O da quarta base... eu nem sei descrever...
Ele se aproxima, passa o polegar em meus lábios, para que
eu solte o que estava pressionado em meus dentes, e traz suas
mãos em meus quadris. Quando avança para dentro da minha
blusa, sinto meu corpo incendiar de uma só vez. Eu solto um ofego
alto, me dando conta do quão sensível estou aos toques do meu
homem.
— Você está com tesão, Sophie? — ele pergunta, me
analisando.
— Sim...
— Eu só toquei em sua cintura.
— Não precisava me tocar. Eu ainda sentiria tesão sem
precisar fazeresforçoalgum — respondo. — Não é só o seu toque.
É você. Tudo de você. Sua presença. Eu me sinto envergonhada
por me afetar tanto — confesso. — Eu não sabia que seria assim.
No fundo, eu sou só uma menina arrebatada por um homem
decidido. Cuida de mim? Me ensina?
— Eu te amo, Sophie. Nós estamos aprendendo juntos. —
Então por que me sinto em desvantagem? A pergunta desaparece
quando ele me beija delicadamente.
As coisas estão esquentando quando a merda da campainha
toca.
— Puta merda! — exclamo, passando as mãos pelo rosto.
— Não vamos atender.
— É isso! Foda-se! — concordo e agora começamos de fato
a nos agarrar como canibais perfeitos. Henrico parece amar
paredes, porque novamente ele me empurra contra uma e fazcom
que eu enrole as pernas em torno dele. Ele está muito duro, e eu
gostaria de estar nua para sentir o roçar delicioso dos nossos
corpos. A pegada dele faz meu lado devassa surgir numa rapidez
surpreendente. Talvez haja uma bipolaridade em minhas ações. —
Você vai me foder aqui?
— Porra, Sophie! Você pode não falar assim?
— Você diz que quer me comer e eu não posso falar sobre
foder? — pergunto, rindo, e novamente a campainha toca.
— Sophieee! — É a voz da minha mãe e ela não está
sozinha. Isso faz Henrico congelar
.
— Oh, merda! — exclamo. — O que a minha mãe está
fazendo aqui?
— Meu pau está muito duro.
— Estou sentindo, abençoado. — Começo a rir de nervoso e
ele me coloca no chão.
— Eles não saberão que você está molhada para mim, mas
saberão que eu estou duro para você. Então, atenda. Irei tentar
controlar isso e volto. — Até isso me excita... "Molhada para mim",
"duro para você". Ai, meu Deus...
Tento me recompor e atendo a porta. Ela e meu pai. Eu os
amo, mas eles empataram uma foda que, provavelmente, seria
sinistra. Mesmo assim, fico feliz por vê-los.
— Mãeee! Paiiii! — Os abraço junto. — Coisas mais lindas!
Entrem! — Eles entram e já são surpreendidos pela barraca na sala.
É engraçada a maneira como meu pai olha para mim agora. Eles
sorriem, como se tivessem acabado de ter alguma lembrança. — O
que houve?
— Sua mãe gostava de cabaninha. Ela faziaeu criar cabanas
sempre — meu pai responde, sorrindo, até mesmo emocionado. —
Acho que isso passou de mãe para filha, hein?
— Na verdade, foi ideia do Henrico. Fomos acampar, deu
errado, eu fiquei triste e ele fez tudo isso para mim — explico, me
acomodando no sofá, e eles se acomodam também.
— O que deu errado?
— Uma tromba d’água. Tivemos que correr e passar a noite
no carro. Estávamos de frente para uma cachoeira. Henrico
percebeu rápido que, provavelmente, aconteceria algo ruim, e nos
salvou.
— Puta merda, Sophie! — meu pai exclama. — Eu odeio que
não seja uma eterna criança e que não esteja sempre sob o meu
olhar. Se algo tivesse acontecido...
— Não aconteceu. Eu tenho um noivo muito inteligente,
papai.
— Você tem o quê? — ele pergunta e minha mãe fingemexer
no celular. Ela sabe. Henrico precisou da ajuda dela.
— É... eu acho que tenho algo para contar. Esperava fazer
pelo telefone.Acho que seria mais fácil...— Respiro fundo,mas não
consigo conter as lágrimas. Não são de medo ou tristeza, e sim pela
grandeza de ter pais incríveis, em quem posso confiar e contar
todas as coisas. — Papai, mamãe, ontem à noite... ontem... eu tive
a minha primeira vez. — Meu pai engole em seco, enquanto
lágrimas também escorrem de seus olhos. Ele tenta limpá-las de um
jeito fofo, mas eu já as vi de qualquer maneira. — Papai, Henrico é o
menino mais perfeito do mundo, e ele foi muito perfeito para mim em
todos os momentos. Ele cuidou de mim, me amou, foi delicado,
amoroso. Foi a melhor noite da minha vida e valeu a pena ter
esperado todos esses anos. Eu o amo, papai. Ele me fazfeliztodos
os dias e cuida de mim. Ficamos noivos, e talvez você ache muito
cedo, mas não há no mundo qualquer outro menino para mim,
assim como não há outra menina para Henrico. Nosso amor é muito
forte, como o seu e o da mamãe, como o do tio Lucca e da tia
Paula. Eu sou dele, ele é meu. E eu quero muito me casar com ele.
O quero para sempre, papai. Henrico é o amor da minha vida. Eu o
amo além da vida.
Eu não esperava que Henrico estivesse ouvindo, mas
percebo isso quando o olhar do meu pai se volta para trás de mim.
Henrico não demonstra sentimentos com facilidade,
principalmente com plateia, porém, quando o olho, percebo que ele
está chorando. Não sou eu quem o abraço, é o meu pai. E é a
primeira vez que isso acontece. Ninguém pode tocá-lo, ele sempre
recua, mas ele permite que meu pai o toque hoje. Os dois grandes
homens da minha vida se abraçando é muito para o meu coração.
E aqui, ao meu lado agora, está a minha inspiração todinha, a
mulher mais incrível do Universo e mais princesinha também.
— Estou tão feliz! — ela diz, me abraçando. — Quero
detalhes sórdidos! — Ela ri entre lágrimas. — Eu nunca senti aquela
sensação de dever cumprido, mas estou a sentindo agora. É
gratificanteolhar para você e ver a garota que eu e seu pai criamos,
educamos, fizemos de tudo, tornando-se uma mulher tão incrível,
com um coração tão puro. O seu amor por Henrico, Sophie, é a
coisa mais linda que eu já vi em toda a minha existência. Vocês têm
minha bênção para tudo, filha. Vocês merecem a felicidade,porque
foram capazes de esperar, capazes de vencer algumas barreiras,
enfim, eu acredito em alma gêmeas e vocês são.
— Eu sei que somos — afirmo, sorrindo. — Obrigada,
mamãe, por tudo e por todas as coisas!
— Eu quem agradeço, filha. Você é perfeita, princesa, tenho
muito orgulho de você, muito!
Eu gostaria de saber o que meu pai está dizendo a Henrico,
mas é baixo o bastante para eu não ouvir. Só vejo meu noivo
balançar a cabeça positivamente e chorar, junto com o filho do rei do
drama. Eu amo meu avô por ser dramático!
— Estou feliz que estejam aqui, mas por que vieram?
— Viemos trazer Kiara. Na verdade, foi uma desculpa muito
boa para eu matar a saudade dos meus filhotes. — FODEU!
"— Papai, Henrico é o menino mais perfeito do mundo, e ele
foi muito perfeito para mim em todos os momentos. Ele cuidou de
mim, me amou, foi delicado, amoroso. Foi a melhor noite da minha
vida e valeu a pena ter esperado todos esses anos. Eu o amo,
papai. Ele me faz feliz todos os dias e cuida de mim. Ficamos noivos
e talvez você ache muito cedo, mas não há no mundo qualquer
outro menino para mim, assim como não há outra menina para
Henrico. Nosso amor é muito forte, como o seu e o da mamãe,
como o do tio Lucca e da tia Paula. Eu sou dele, ele é meu. E eu
quero muito me casar com ele. O quero para sempre, papai. Henrico
é o amor da minha vida. Eu o amo além da vida."
Sophie trouxe a possibilidade de eu me sentir um homem
capaz. Cresci ouvindo pessoas falarem sobre lutar para conquistar
os ideais, se esforçar, mas eu absorvia tudo de maneira diferente,
devido ao fato de não me sentir capacitado. Enquanto meus
familiares insistiam em dizer que eu era "normal", capacitado,
vinham outras pessoas no colégio que diziam o oposto. Era
estranho ser chamado de aberração por ser inteligente, por não
conseguir socializar, por não olhar nos olhos das pessoas, por odiar
ser tocado, por ter crises por conta de barulho. Para mim, as
palavras daquelas crianças pesavam mais, porque elas sempre
podiam fazermuito mais coisas que eu. Elas eram capacitadas para
atividades que eu não era, então os argumentos delas pareciam
verdadeiros e faziam sentido. Eu acreditava que meus familiares
diziam todas as coisas bonitas apenas por serem... meus familiares.
Não que eu não acreditasse nas palavras deles, mas elas não
faziam muito sentido, devido ao fato de eu possuir dezenas de
limitações e de não poder agir como a maioria das crianças, com as
quais eu convivia.
Acho que a infância é um fator determinante na vida de uma
pessoa. Traumas que sofremos quando crianças marcam a nossa
juventude, a nossa vida adulta, a nossa vida em geral. A palavra
INCAPACIDADE fazia parte de mim, devido a todas as coisas que
vivia e costumava guardar em segredo. Porém, desde que me
arrisquei com Sophie, essa palavra tem se distanciado cada dia
mais do meu vocabulário. Ela ainda me assombra, assim como
muitas outras questões, mas a cada vez que Sophie me diz coisas
bonitas e que vejo que tudo em mim afeta ela de maneira positiva,
eu me sinto o homem mais capacitado do mundo.
A partir de agora comemorarei dois aniversários:o oficiale o
dia do meu renascimento como pessoa. Não que eu tenha
comemorado antes. Não gosto de aniversários, porque são
barulhentos, por isso, sempre me isolei. Mas, na minha mente,
sempre houve uma comemoração, e agora haverá mais uma.
Sophie me fez renascer e segue me fazendo renascer todos os dias.
Eu não vivia antes de me envolver com ela, apenas existia. É um
pouco pesado dizer isso, quando meus pais passaram grande parte
da vida se esforçando por mim, mas sou grato e tenho
reconhecimento. Sei que as ações deles também foram fatores
determinantes, e que eu poderia ter passado por centenas de
dificuldades que não passei, graças a eles, mas foi Sophie quem
radicalizou a minha vida e a minha existência, e acredito que meus
pais tenham por ela a mesma gratidão que eu tenho.
Eu a amo. Eu respiro Sophie. Ela é o motivo e acaba de me
tocar com suas palavras, mesmo que elas não tenham sido dirigidas
diretamente a mim. Nosso amor é muito forte,ela está certa. Eu vivo
Sophie.
Tio Victor me abraça e eu não consigo fugir, não consigo
recuar. Eu estava perdido antes dele me abraçar e, de alguma
forma, seu abraço parece me salvar
. Ele é meu sogro. Pai da mulher
que eu amo. E parece bem com o fato de estarmos noivos e de...
termos feito sexo. Na verdade, ele parece grato, e eu não saberia
responder o motivo pelo qual ele já disse em meu ouvido dezenas
de OBRIGADO. Talvez, se um dia eu for pai, eu vá ser capaz de
compreender.
— Você é o garoto mais fantásticodo mundo! — ele fala. —
Eu dei uma tremenda sorte na vida, por você amar a minha filha e
por ela te amar de volta. Sophie é o meu coração, e entregar o meu
coração a qualquer outra pessoa seria difícilpra caralho. Você faz
isso ser mais fácil.Você a merece, Henrico, e ela o merece também.
Eu te dou o meu coração, porque sei que a fará feliz, sei que
cuidará da minha princesa. — Balanço a cabeça positivamente. —
Sei como sua vida foidifícil,mas, mesmo quando não acreditava em
si mesmo, todas as pessoas acreditavam, todas as pessoas viam o
seu potencial e quem você é. — Meu coração está batendo muito
forte. — Estou realizado, porque você, finalmente, se enxergou,
finalmente está vencendo barreiras, e porque o esforço do meu
irmão e da minha cunhada valeram muito a pena. Você é a grande
realização dos dois, é a grande realização da minha filha, que
esperou por esse momento desde quando ainda era apenas uma
criança. Não vou pedir que a faça feliz, porque você já faz isso.
Apenas siga fazendo,e que ela o façatão felizquanto sei que você
está a fazendo.Eu a entrego a você, do fundodo meu coração. Tem
a minha bênção para se casar com ela.
— Obrigado, tio Victor. Eu... — Tenho dificuldade em
expressar meus sentimentos, mas ele precisa saber. — Eu amo
Sophie.
— Eu sei que ama. Não precisa dizer mais nada. — O
agradeço, acenando a cabeça positivamente. Ele me entende.
— Obrigado, tio Victor.
RIO DE JANEIRO
Assim que olho para Kiara — afilhada do meu pai, irmã do
meu primo —, me sinto um belo de um filho da puta por achá-la
gostosa. Eu estava quieto em casa, até Samuel me aterrorizar para
sair. Agora estou em um pub agitado, de frente para o mar do
Recreio, escutando as lamentações da garota, que acabou de
terminar um "relacionamento". Enquanto me sujeito a esse tipo de
situação, Samuel desapareceu com uma garota e me deixou
responsável pela diabólica irmã dele.
Eu não a via há muitos meses. Kiara não costuma andar com
Samuel e está na fase rebeldia. A cada frase que ela diz, eu sinto
vontade de deitá-la de bruços em minhas pernas e esbofetear sua
bunda com toda a minha força. Ela é muito ditadora, exigente e quer
que os garotos se prestem a atender suas ordens.
— Ok, Kiara. Que tal irmos embora? Seria interessante levá-
la para casa.
— Eu não esperava que você fosse tão careta!
Sinceramente, eu sempre achei que por trás do rosto de anjo havia
um devasso ou um cara ao menos um pouco descolado — ela diz,
tomando meu drinque alcoólico.
— O que tem a devassidão? Não consegui entender o seu
raciocínio sobre eu ser um devasso ou não.
— Você é muito caladinho, perfeitinho, Miguelitinho, inho...
Pensei que seria mais divertido — explica.
— Você quer a sinceridade?
— Não espero menos que isso.
— Esse é um grande programa de merda e eu deveria ter
ficado em casa! Você é chata, mimada, se acha adulta, ditadora e
está enchendo a porra do meu saco essa noite! Você só tem
malditos 17 anos de idade e cisma em agir como uma garota de 25
anos. Entenda uma coisa, nem todas as pessoas no mundo ficam
pelo resto da vida com o primeiro amor. Quem você acha que é o
amor da sua vida, pode morrer ou pode te causar uma decepção.
Não há uma segurança completa em relação às pessoas e ao
tempo de duração delas em nossa vida. Você é jovem, ainda
passará por muita merda até dar sorte de encontrar a pessoa que foi
feita sob medida para você. Pelo amor de Deus! Pare de ficar
falando asneiras, choramingando por conta de um babaca, idiota! É
irritante ver uma mulher se diminuindo por conta de um bosta! Vou
levá-la para casa.
— Não vai não.
— Eu vou sim — afirmo, chamando o garçom e pedindo a
conta.
— Você não manda em mim e eu não sou uma criança. Não
vim com você e não vou embora. Agora posso ser sincera com
você?
— Se é o que você quer... — Me arrependo quando ela
começa a praticamente gritar comigo.
— Você É CHATO, MIMADO, SE ACHA UM MEGA ADULTO
SÓ PORQUE É ALGUNS ANOS MAIS VELHO QUE EU, AGE
COMO UM VELHOTE TIRANO E DITADOR, ESTÁ VIVENDO A
VIDA POR VIVER, DESDE QUE SUA NOIVA FALECEU. É FRACO
POR NEM AO MENOS TENTAR SUPERAR, É EGOÍSTA POR NÃO
PENSAR NA DOR QUE SEUS PAIS SENTEM POR VÊ-LO
FODIDO HÁ MAIS DE UM ANO. QUEM VOCÊ ACHAVA QUE ERA
O AMOR DA SUA VIDA, INFELIZMENTE, FALECEU, MAS VOCÊ
SEGUE VIVO E TEM A OBRIGAÇÃO DE VIVER. ENQUANTO
VOCÊ ESTÁ ENCHENDO O SACO, PORQUE QUER VOLTAR
PARA CASA E SE INFILTRAR NA MERDA DE UMA BOLHA, POR
ESTAR INSATISFEITO COM A VIDA, HÁ FILAS DE PESSOAS
AGUARDANDO POR TRANSPLANTES, PARA TEREM A CHANCE
DE SOBREVIVER. HÁ HOSPITAIS LOTADOS, HÁ FAMÍLIAS
SOFRENDO E REZANDO POR SEUS ENTES ADOENTADOS, HÁ
UMA CARALHADA DE GENTE LUTANDO PELA VIDA,
ENQUANTO VOCÊ ESTÁ A IGNORANDO E SENDO UM PÉ NO
SACO! E QUER SABER MAIS? VOCÊ É LINDO PRA CARALHO
QUANDO ESTÁ COM ESSA CARINHA DE INSATISFAÇÃO. DEIXE
DE SER UM IDIOTA COMPLETO, LUIZ MIGUEL, VIVA A MERDA
DA SUA VIDA! PARE DE VEGETAR. ATÉ HENRICO, COM TODAS
AS LIMITAÇÕES, ESTÁ SE PERMITINDO. VOCÊ TEM TUDO,
MERDA! É RICO, É BONITO, É SAUDÁVEL, VOCÊ TEM MUITO
MAIS QUE A MAIORIA DAS PESSOAS. E CUIDADO AO ME
CHAMAR DE CRIANÇA NOVAMENTE. EU SOU MIMADA APENAS
QUANDO QUERO. NA MAIORIA DAS VEZES, EU ATROPELO
PESSOAS IMPIEDOSAMENTE. E NÃO PRECISA SE
PREOCUPAR, QUE NÃO VOU FALAR DE QUALQUER OUTRO
GAROTO COM VOCÊ, IMBECIL! VOCÊ ACHA QUE EU NÃO
TENHO CORAGEM DE TE DAR TRÊS TAPAS NA CARA AGORA,
NÉ? MEÇA SUAS PALAVRAS... — Eu façoa maior merda da minha
vida quando calo a boca dela com um maldito beijo.
Suas mãos pairam sobre meu peito e eu simplesmente não
consigo parar de beijá-la. Ninguém nunca me disse tanta merda em
um curto intervalo de tempo. É claro, eu estou acostumado com
mulheres muito bem-educadas e meigas. Kiara é até um pouco
educada, mas meiga, certamente, não faz parte de suas
características. Meu pai costuma chamá-la de mini Dandara, eu
temo o significado disso.
Quando me dou conta de que estou duro e de que ela é irmã
do meu primo, me afasto. A merda que pode dar se Samuel
descobrir, não é pouca. Ele é superprotetor pra caralho com Kiara.
Eu não digo nada, ela tampouco. Enquanto tento ignorar, ela
parece afetada de todas as maneiras, e eu simplesmente foco no
garçom, que vem caminhando com a conta. Eu pago, fico de pé e
Kiara fixa o olhar em minha virilha desavergonhadamente. Um
maldito sorriso safado surge em seu rosto e eu respiro fundo.
— Podemos ir?
— Claro! Você já está devidamente pronto — ela responde,
ficando de pé. — Para a sua casa, por favor
.
— O quê?
— Você não me beija e finge que nada aconteceu, senhor
maturidade. Você vai me levar para a sua casa e nós vamos
conversar sobre isso. Sei que meu dindo está em Búzios e que está
sozinho em casa. Não sou descartável, meu amor. Talvez eu nem
mesmo seja o tipo de garota perfeita que está acostumado. Aliás,
parando para pensar, acho que precisa de uma dose de Kiara na
sua vida sem graça... — Começo a rir, enquanto ando rumo ao
carro. Essa garota é engraçada. Eu iria dizer algo muito pesado a
ela, mas decido não fazer, porque aos 17 anos, Clarinha transava
muito comigo. — O seu padrão de exigência é muito alto?
— A minha paciência é muito baixa, Kiara. Não há um padrão
de exigência. Não fale de mim como se me conhecesse.
— Acho que conheço — ela diz, sorridente, se acomodando
no banco do carona. Respiro fundo antes de dar a volta e tomar
frente da direção.
Ela ficarealmente puta quando vê que estou indo em direção
à casa dela.
— Decepcionante.
— O que diabos você quer fazer na minha casa, garota?
— É necessário ser muito idiota para não saber o que quero
fazerna sua casa — responde. — Se você não fizero contorno e ir
para a sua casa, nós vamos discutir em frenteà minha própria casa,
correndo o risco de meus pais ou meus irmãos pegarem. Discutir
comigo pode ser muito quente... O que acha que eles vão pensar?
— Não temos nada a discutir.
— Então você é mais moleque do que eu imaginava, além de
ser frouxo. Meu irmão vai amar saber que me beijou. — Subo o
canteiro de uma avenida, a deixando em choque. Nem mesmo
penso antes de seguir o caminho da minha casa. Pra merda me
chamar de frouxo! Além disso, ela está me ameaçando!
Kiara é a primeira garota que me tira do sério. Nem mesmo
Soninha e Vanderléia conseguiram! Eu até mesmo dirijo acima da
velocidade e, quando chego em casa, soco a porta do carro sem dó.
— Pronto! Estamos em casa! — digo, fechandoa porta atrás
de nós. — Pode começar a discussão.
— Você me beijou — fala, tamborilando os dedos no balcão
da cozinha.
— Eu fiz.
— Por que me beijou? — questiona.
— Para calar a sua boca. Próximo tópico.
— Você beijaria qualquer garota apenas para privá-la do
direito de falar?— pergunta, se aproximando. Novamente, eu quero
rir, até mesmo fecho as mãos em punhos, de tanta raiva.
— O que quer saber, Kiara?
— A verdade. Você sente atração por mim e me beijou
porque não conseguia tirar os olhos da minha boca a noite inteira.
Simples e indolor ser verdadeiro. Não sou idiota, como pensa.
— Você é extremamente bonita, Kiara. Antes eu costumava
vê-la como uma criança, agora você se transformouem uma mulher
e me impactou vê-la. Só se eu fossegay para não sentir atração por
você, mas fica apenas nisso, ok? Me desculpe por tê-la beijado e
por ter sido grosseiro. Só estava sendo irritante ficar ouvindo você
falar asneiras. Eu tenho um pouco de excesso de maturidade às
vezes. Me tornei modelo muito cedo, estive em vários países sem a
companhia dos meus pais, apenas eu e Clara rodando o mundo
desde os 16 anos. Acabei tendo que me tornar maduro, então não
tenho muita paciência para drama adolescente. Não é culpa sua. É
de forma geral, e não é pessoal.
— Gostei de ouvir essas palavras — ela fala, sorridente.
— Eu disse uma série de coisas. Seja mais específica.
— Eu não ouvi metade do que você disse. Só foquei no que
de fato me interessa. Sentiu impacto ao me ver e se sente atraído
por mim. Sabe, é bem recíproco. Eu o via com Clarinha e ficava
imaginando como seria tê-lo.
— O quê? Você não pode estar falando sério.
— Apenas verdades — afirma. — Eu também me sinto
atraída por você. Nós podemos unir o útil ao agradável.
— Kiara, Samuel é muito importante para mim. Ficar com
você não seria apropriado. Ele é um grande amigo, somos família,
você é afilhada dos meus pais e há uma diferença de idade. Quer
dizer, a diferença não importaria se você fosse maior de idade. Só
tem 17 anos, isso torna a situação ainda pior. E... — Agora é ela
quem me beija, e fica difícilfugir. O beijo dela é realmente bom.
Kiara é uma garota quente. Eu vou deixando me levar, porque gosto
da sensação que estou sentindo. Acho que o fato de ser algo
proibido faz com que seja mais gostoso.
Por sorte, meu celular vibra, me trazendo de volta à minha
sanidade. Eu estava prestes a ultrapassar o limite, e sei que isso me
deixaria fodido.
— Vou levá-la embora — aviso de uma maneira que não
deixe possibilidade dela argumentar.
Recuo e caminho rumo à saída. Felizmente, ela parece
entender que não vai acontecer, porém, ainda assim, a filha da mãe
vai sorrindo por todo o caminho até a casa dela.
— Até amanhã, Miguelinhooo... — ela diz ao sair do carro.
— Não haverá... — A batida da porta impede que eu siga
dizendo que não haverá um amanhã.
Mas há!

São três da tarde quando o interfone toca. Eu vejo, pela


câmera, Dandara e Kiara. Começo a me perguntar o que diabos as
duas estão fazendo aqui.
— Ei, tia! — cumprimento Dandara com um abraço, enquanto
Kiara está sorrindo de uma maneira que não gosto. — Oi, Kiki!
— Oi, MigueLINHO. — Quero estrangulá-la.
— Meu amor, vim apenas deixar Kiara. Muito obrigada por se
oferecera ajudá-la — Dandara fala,sorridente, e eu olho para Kiara,
completamente perdido. Ela faz uma carinha de súplica e acabo
sorrindo. Que ótimo!
— Ajudá-la. Claro. Vou ajudá-la sim.
— A prova é amanhã, e se ela não conseguir a pontuação,
passará as férias de castigo. — Prova... Ok. Eu não acredito que
essa merda está acontecendo, mas está!
— Esses adolescentes são complicados — comento, rindo.
— Vou ajudá-la, tia. Pode ficartranquila. Ela vai tirar um 10 enorme.
— Kiara me abraça e me dá um beijo no rosto.
— Você é o melhor primo emprestado do mundo! Se oferecer
para me ajudar quando há um dia lindo e ensolarado lá fora...
Poucos abririam mão da diversão para estudar com uma pirralha
inconsequente. — Pior é ter que ficarsorrindo. Isso é uma maldição!
Não consigo pensar em pecados que cometi, mas estou pagando.
— Fique esperta, Kiara Farai! E preste atenção nas
explicações de Luiz Miguel — Dandara a avisa, muito séria. Dá até
medo. — E você, Luiz Miguel, fique à vontade para repreendê-la.
— Ficarei — afirmo.
Tia Dandara se vai. Enquanto fecho a porta, a louca da
garota retira os sapatos e sai saltitando pela casa.
— Eu amo essa vista!
— Que diabos você está fazendo aqui?! Kiara, sua mãe
confia em mim pra caralho! Tem ideia da merda que está
arrumando?!
— Posso ficar reprovada em química e não terei férias. Mas
não se preocupe, já decorei a matéria, podemos apenas aproveitar.
O dia está lindo! — exclama, vindo até mim e deslizando um dedo
pelo meu peitoral. Eu prendo suas duas mãos em meu peito e a
encaro sério.
— Você não vale nada, não é mesmo?
— Depende muito. Hoje eu não quero valer quase nada. —
Esse jeito dela me deixa duro. Eu não sabia que poderia me sentir
atraído por uma garota maluca e quase vulgar em suas ações. —
Não sou assim, mas quero ser com você.
— Não é uma ninfeta safada?
— Não. Acredite, se eu fosse, não teria problemas em dizer.
Só estou agarrando a oportunidade, jogando de um jeito que
acredito fazer efeito. Está acostumado com meninas boazinhas,
delicadas, florzinhas. Eu sou um cacto que te tira da zona de
conforto. Acho que precisa de uma menina má, e eu estou no
personagem agora. Acho que é uma fantasiaerótica, principalmente
ficar com um garoto alguns anos mais velho. Você deve saber fo...
— Não vou foder você.
— Em três meses você irá — afirma com uma segurança
invejável.
— Você deveria ir embora — digo, observando seu sorriso.
— Você não quer que eu vá. Só tem medo das
consequências. Sabe que não conseguirá se controlar. Eu leio
muitas coisas por trás dos seus olhos azuis. Estou lendo agora que
você está quase no limite...
— Pegue sua bolsa. Nós vamos sair — aviso, indo para o
meu quarto vestir uma roupa decente.
Não vou ficarcom essa garota em casa, ou os três meses se
anteciparão para três minutos.
Eu tento fazeros mais diversos programas infantiscom ela, e
em todos eles ela tenta me levar ao limite. Fomos na sorveteria e
ela chupou o sorvete como se estivesse fazendo um sexo oral.
Fomos no Hot Zone e ela montou em alguns brinquedos como se
estivesse montando em um homem. Fomos na praia e eu descobri
que por baixo da roupa dela havia um biquíni praticamente
indecente, com a calcinha enfiadacom forçaem sua bunda perfeita.
De qualquer forma, nem tudo é tão ruim. Kiara é divertida.
Passar o dia com ela me fez esquecer da vida. Ela é leve,
aventureira, sabe conversar como adulto quando necessário, tem
opiniões firmes, é engenhosa, hiperativa, e por trás de todo
rompante de loucura há uma garota com um coração puro, que
pode ser até mesmo afetuosa e emotiva em alguns momentos.
— Está entregue, senhorita — faloao estacionar na frenteda
casa dela.
— Ei, me desculpe por todas as coisas que eu disse ontem
sobre você. Acho que alguém precisava ter coragem. Nossos pais
são muito próximos e já acompanhei situações onde seus pais
estavam realmente péssimos por vê-lo sofrer tanto. Eu gosto de
você. É um garoto inteligente, amoroso, doce... só queria vê-lo sorrir
com mais frequência, como hoje. Às vezes é bom enlouquecer ...
— É? — A boca dela me atrai e eu a pego para mim.
ERRADO PRA CARALHO! Ela é irmã de Samuel! Tem 17 anos!
— Ei, estamos na frente da minha casa. — Por sorte, ela
recua dessa vez.
— Me desculpe.
— Será divertido passar as férias com você — anuncia,
descendo do carro. — Muito divertido.
— Você não pode estar falando sério, Kiara!
— Vou fazer valer cada segundo... Adeus, Luiz Miguel! Nos
vemos em São Roque na próxima semana! Vou tirar um 10
enorme... — Ela entra e a partir daqui começa um inferno na minha
vida.
Eu perco as contas de quantas mensagens envio, pedindo
que ela desista; perco as contas de quantas fotos ousadas recebo,
perco as contas de quantas vezes eu me masturbo pensando nessa
praga... eu perco o controle da minha sanidade!
Essa garota é o diabo em forma de gente, e ela está vindo
para acabar com a minha vida de vez!
Assim que minha mãe se afasta, Henrico se junta a mim,
após limpar as lágrimas. O garoto que não gosta de demonstrações
públicas de afeto, se acomoda ao meu lado no sofá, pega uma de
minhas mãos, entrelaça seus dedos aos meus e coloca sua outra
mão por cima da minha, fazendo um sanduíche da minha mão. O
aperto de sua mão na minha é forte, demonstra um pouco de
possessividade misturada com proteção. Talvez ele queira
demonstrar para o meu pai que estou segura, não saberia dizer.
— Então vocês vão se casar? — meu pai pergunta, se
juntando à minha mãe.
— Sim, iremos — respondo, sorrindo.
— Quando pensam em fazer isso?
— Na verdade, ainda não conversamos bem sobre isso. Não
discutimos sobre o casamento. De qualquer forma, acho que
deveríamosesperar o casamento de Eva e Théo. Não quero tirar o
foco do momento mágico deles — explico.
— E se casassem juntos? — minha mãe sugere.
— Não. Théo e Eva merecem ter um casamento só deles.
Eles passaram por muitas coisas, muitos momentos difíc
eis. E eu e
Henrico queremos algo discreto, apenas com a presença de vocês e
dos meus tios.
— Sophie, precisamos conversar sobre isso — Henrico diz.
— Se você quiser um evento com mais pessoas, uma festa, eu
posso fazer isso.
— Eu quero que seja perfeito,e sei que não será se fizermos
um evento grande. Quero seguir a linha do intimista, mais discreto,
apenas com os nossos pais e irmãos. As demais pessoas podem
ver fotos, ou talvez possamos fazer uma transmissão ao vivo.
Teremos tempo para decidir — falo, depositando um beijo em sua
bochecha.
— Estaremos felizes com qualquer decisão. Conte conosco,
filha. — Meu pai... Ele é meu herói! — Filha, iremos para o sítio.
Ficaremos até amanhã e faremos um churrasco hoje. V ocês vão?
— Iremos em alguns minutos, tio Victor — Henrico anuncia.
Eu amo quando ele toma as rédeas.
Levamos meus pais até a porta e meu pai me puxa para um
abraço apertado.
— Obrigado por ter confiadoem mim. Significamuito! — ele
sussurra em meu ouvido.
— Você é o melhor amigo do mundo, papai. Obrigada por
todo apoio.
— Só prometa para mim que, em algum momento, vai
retomar os estudos. Por favor — pede.
— Eu vou, e não vai demorar, pai. Fique tranquilo. — Ele
deposita um beijo em minha testa e se vai, com a minha mãe
montada em suas costas. É engraçado como eles parecem
adolescentes apaixonados.
Quando fecho a porta, Henrico me pega em um abraço quase
capaz de esmagar meus ossos. Ele me aperta contra o seu corpo,
tão forte, que eu começo a rir.
— Está me esmagando!
— Sophie, você é muito perfeita para mim. Agora podemos ir
— avisa, me colocando no chão.
— O quê? Como assim? Eu pensei que iríamos transar. —
Henrico começa a rir. — Por favor, eu nunca te pedi nada.
— Sophie, seus pais estão de passagem em São Roque, e
haverá uma comemoração no sítio. Teremos tempo para transar
mais tarde, porém, acho que devemos ir para o sítio. Seu pai foi
extremamente legal conosco minutos atrás. Ele poderia me matar.
Samuel disse.
— Ele não te mataria. Samuel disse isso brincando, não
literalmente — falo, rindo. — Mas você está certo. Vamos nos
arrumar. Sempre temos a noite e a madrugada. Inclusive, eu amo
nossas madrugadas. Elas costumam ser quentes.
— Ainda vamos transar três vezes?
— Eu disse sobre não colocar metas. Somos jovens,
saudáveis, cheios de energia para o sexo, bebecito. — Ele sorri com
a resposta.
— Eu quero muitas vezes, e todos os dias.
— Haverá dias que estarei interditada, Henrico Davi. Meu
período menstrual dura de três a quatro dias, e eu fico um pouco
mal. Sinto muitas dores nas pernas, seios, no corpo em geral. A
parte triste é que está se aproximando. Será nos próximos dias.
— Não tem problema, Soso. Eu vou cuidar de você, tudo
bem? Vou fazer massagem e brigadeiro. Eu já fiz brigadeiro pra
você algumas vezes. — Ah, meu coração se derrete demais...
— E se eu ficar muito chata, chorona ou estressada?
— Vou respeitar o seu momento. Pode ficar tranquila. Eu te
amo muito, vou te dar amor. Pesquisei sobre isso.
— Você pesquisou sobre período menstrual? — pergunto,
quase boquiaberta.
— Claro que pesquisei, Sophie. Eu precisava saber como
lidar com isso — explica. Toco seu rosto e deixo um beijo na
pontinha do seu nariz, só porque ele é muito perfeito. Pesquisar
sobre períodomenstrual foio auge. — Sophie... sobre as coisas que
eu ouvi você dizendo ao seu pai... Obrigado por me amar e por
todas as coisas que tem feito por mim, por nós. Não sou bom com
declarações, como você é, mas...
— Mas não precisa ser. Não precisa dizer nada. Só a
maneira como me trata diz tudo o que você não consegue expressar
com palavras. — Sorrio carinhosamente para ele. — Sabe, há
tantas pessoas que fazem declarações enormes nas redes sociais,
até mesmo pessoalmente, mas maltratam, traem, magoam, não dão
carinho ou o suporte necessário à relação. Você é o oposto. Você
não se declara tanto com palavras, mas está o tempo todo se
declarando com suas atitudes. Eu sei o que sente por mim, sei a
grandeza do sentimento, a grandeza do nosso amor. Eu sou a
garota mais sortuda e mais feliz do mundo há alguns bons dias,
desde que me beijou pela primeira vez. Agora vamos nos arrumar,
bebecito!
Henrico já está praticamente pronto. Só coloca um casaco. Já
eu, visto uma saia de moletom, um tênis, uma regata e pego o
casaquinho de moletom combinando. Faço tranças no cabelo, passo
apenas um rímel e estou devidamente pronta.
— Uau, Sophie!
— Uau, Henrico Davi! — o imito.
— Você fica muito gostosa com essa saia. Você é muito
gostosa, Sophie, com todo respeito, ok? Não quero te desrespeitar.
— Fala sério... Eu sou sua noiva, bebecito. Não é desrespeito
me chamar de gostosa. Gosto quando fala o que pensa. Seus
elogios fazem com que eu me sinta sexy. Você sabe como fazer
com que eu me sinta desejada o tempo todo. Eu gosto disso. É tudo
recíproco. Eu sinto o mesmo por você, te acho gostoso, cada
pedacinho... Eu amo seu corpo, amo tudo em você.
— Qual parte do meu corpo você gosta mais? — pergunta
enquanto caminhamos para sair. Eu paro antes de chegar na porta e
tento pensar.
— Essa é uma pergunta muito difícil.Não acho que posso
citar apenas uma. Eu amo muito sua boca, amo seu peitoral e o V
em sua barriga, amo seu pau. Seu pau é realmente lindo, perfeito...
— Henrico ri. — Acho que amo primeiramente o seu pau.
— Eu amo a sua vagina.
— Sem vagina, caro noivo.
— Eu acho boceta algo muito chulo, Sophie. Não consegui
pensar ainda em outra palavra para substituir vagina — explica com
seu jeitinho sério de ser. — Pensarei em algo.
— Eu aceito vagina, por enquanto. Você dizendo vagina é
sexy sem ser vulgar — comento, rindo. — Qual parte do meu corpo
mais gosta?
— Suas mãos.
— Sério?
— Sim. Desde pequeno. — Eu jurava que vinha algo safado.
— Além da minha mãe, minha avó e meu pai Lucca, seu toque era o
único que me faziabem. Eu gostava de sentir suas mãos em mim e
gostava de como eu me tornava corajoso quando você estava de
mãos dadas comigo. — Perfeito. — Sexualmente falando, eu gosto
dos seus seios, do seu clitóris com piercing, gosto da sua bunda,
gosto de segurar a sua cintura, beijar a sua boca e de você fazendo
sexo oral em mim... Gosto de você inteira. Não tenho como
escolher. Pensei que pudesse fazer uma escolha, mas não posso.
— Meu clitóris com piercing. — Sorrio. — Você gosta mesmo,
não é?
— Muito.
— Eu desistiria de ir para o sítio...
— Eu não. Seu pai está nos esperando. Ele sabe que
ficamos confortáveis. Vão imaginar que ficamos para transar. —
Henrico sempre pensa à frente.
Seguimos para o sítio, e quando chegamos, encontro uma
discussão acalorada entre Samuel, Hadassa e meu pai.
— Eu acho que você é gay e ponto final! — Hadassa diz a
Samuca. Henrico e eu nos aproximamos, porque isso parece
imperdível.
— Eu poderia discutir, usar os mais diversos tipos de
argumentos, mas apenas vou deixar que siga dizendo e acreditando
que sou gay. Não me importo — Samuel a responde, rindo.
— Samuel, te aceitaremos se for gay. Não há preconceitos
em nossa família — meu pai afirma, se divertindo com a situação.
— Ele fogede sexo como o diabo fogeda cruz! — Hadassa o
entrega.
— Eu só não quero transar com você, simples assim. Mas
não fique achando que há algo errado. É só que sexo é muito
íntimo, e a possibilidade de eu me apegar a você é grande — ele
explica a ela e se volta para o meu pai. — Tio Victor, essa garota é
tipo minha versão feminina,e ela mora na porra de Londres. Eu não
conseguirei ser casual com ela e curtir apenas alguns dias de sexo.
Só prefiro me resguardar. Pode não parecer, mas tenho um coração.
Sei que sou galinha, mas não quando encontro a minha versão
feminina.
— Excesso de sentimentalismo! Eu não sou assim! —
Hadassa rebate. — Você é o único solteiro nessa cidade que me
interessa.
— Por que não fazemuma aposta ou algo parecido? — Meu
pai vem com alguma ideia maléfica. — Se Samuel conseguir fazer
com que você se apaixone por ele, você ficará em São Roque,
talvez no Rio de Janeiro, já que é uma garota sofisticada demais
para viver em uma cidadezinha do interior. Caso ele não consiga,
você volta para Londres. É uma boa, hein?
— São Roque, não. Rio de Janeiro, eu amo! — Hadassa
exclama, quase empolgada, enquanto Samuel olha de uma maneira
curiosa para o meu pai, como se tivesse tentando entendê-lo. —
Tenho Louboutins que precisam ser usados...
— Eu não posso abandonar Henrico.
— Podemos nos ver aos finais de semana. — Henrico entra
na conversa. — Sophie vai cuidar de mim.
— Espera aí... Eu sou lerda ou vocês já estão contando com
a vitória de Samuel? — Hadassa pergunta.
— Se eu me propor a isso, você já pode começar a arrumar
as malas, Hadassa — Samuel informa, todo seguro de si. Pior que
ele está certo. Se ele se propor a fazê-la se apaixonar, isso vai
acontecer. Acho que é quase humanamente impossível não se
apaixonar por Samuel quando ele está empenhado a fazer isso
acontecer.
— Não sei se é uma boa ideia. Preciso pensar. A ideia do Rio
de Janeiro me anima bastante. Festas, praias, diversão...
— Quase não é fútil — Samuel debocha.
— Não sou fútil, imbecil! Acha que não posso ser
profissional? Sou formada, estou à sua frente, inclusive, pequeno
estudante de Direito. Sou fútil apenas quando quero ser. Aliás, você
nem me conhece direito. Eu posso ser mil e uma em um só corpo e
uma só mente. Posso te surpreender! — Esse foi um tapa na cara
sem usar as mãos. — Acha que se eu namorar com você, deixarei
de aproveitar a vida? Espero, de verdade, que não pense dessa
forma. Somos jovens e eu não ficarei em casa aos sábados,
assistindo série e comendo chocolate. Se eu aceitar a proposta
agora, faremos sexo?
— Não confio muito. Precisamos fazer isso no papel, com
termos e tudo mais.
— Essa famíliagosta mesmo de contratos e formalidades —
meu pai diz, rindo.
— Preciso da garantia de que ela não está fazendo isso só
para transar.
— Essa juventude é muito perdida — meu pai comenta.
— Estou muito confuso — meu noivo fala, apreensivo. — Não
quero nem explicação sobre o que está acontecendo. Vou ver Théo
— avisa, depositando um beijo em minha testa, e se vai. Ele gosta
mesmo de Théo. Nunca forampróximos, mas parece que agora isso
está acontecendo.
Decido ir atrás do meu irmão e de Kiara. Não encontro ele,
mas encontro-a sentada no chão, conversando com Eva.
— Fui golpeada com essa surra de beleza! — digo, atraindo o
olhar dela.
— Sophie! — Kiara fica de pé e me abraça. — Você está
linda!
— Não tanto quanto você, filhote de Dandara — brinco. — Já
disse que deveria ser modelo. — Vou cumprimentar Eva. — Sabem
do meu irmão? — Kiara dá um sorriso maquiavélico, que indica que
FODEU PRA CARALHO mesmo!
— Foi correr — ela responde. — Ele disse que precisava se
exercitar, gastar energia. Parecia tenso, coitadinho. Está tudo bem
com ele?
— Acho que sim... — respondo, percebendo que essa garota
é foda e que vai bagunçar um pouco a vida do meu irmão. Não sei
dizer se é bom ou ruim. Prefiro pensar que é bom.
— Perfeito, agora me contem sobre o que esperar de São
Roque, por favor! Preciso de um pouco de diversão, e meu irmão vai
pegar no meu pé...

Posso ficarbem em festas,desde que esteja com abafadores


de ruídos ou fone. Hoje estou com fone, escutando uma música
tranquila, que destoa completamente da música louca que as
garotas estão dançando. O som não está alto, mas mesmo assim
me incomoda um pouco, e por isso eu fico mais afastado, apenas
observando.
Observar às vezes é uma missão difícil. Não consigo
observar Sophie dançando sem que meu corpo sofra reações. É
complicado. Ela dança muito bem e parece ter o quadril solto, algo
assim. A maneira como ela se mexe me faz pensar em coisas que
não deveria e, consequentemente, meu corpo reage à visão e aos
pensamentos inapropriados. A sorte é que meu telefone toca e me
distrai. É a minha terapeuta por chamada de vídeo.
— Olá, senhor sumido — ela me cumprimenta, sorridente.
— Oi, tia Ana.
— Encontrei com sua mãe hoje e ela me contou que há
muitas novidades. Há duas semanas não nos falamos bem, Henrico.
— Ela está me repreendendo.
— Eu sei. É que muitas coisas aconteceram e eu não tive
muito tempo para lidar com outras questões.
— Mas sabe que é importante arrumar um tempo, não sabe?
— Sei. Não vou abandonar a terapia — afirmo.
— Então, finalmente se declarou para a sua menina mais
bonita do mundo?
— É. — Sorrio. — Ela é minha noiva. — Tia Ana abre e fecha
a boca repetidas vezes. — Quer que eu explique, não é?
— Por favor.
— Eu disse a ela que a amo, ela disse que me ama, nos
beijamos e foi muito intenso. Eu precisava de regras, e então eu
pesquisei. Meu pai me ensinou sobre bases do baseball e eu fui
seguindo a sequência de coisas que deveriam ser feitas até
transarmos. Eu pedi ela em casamento e ela disse sim.
— Uow! Sexo? Calma, sinto que está atropelando
informações.
— Não estou. Sophie é muito safadinha e intensa, eu acho
que sou também. Nos beijamos, mas queríamos ficar confortáveis.
Então a primeira base era beijo, a segunda beijos mais intensos e
alguns leves toques, terceira base toques mais intensos e sexo oral,
e a quarta base foi o sexo.
— Foi? Então você fez sexo?
— É, fiz ontem. E quero fazer agora, porém Sophie está
ocupada. Iríamos passar a tarde fazendo sexo, mas o pai dela
chegou e só faremos mais tarde.
— Oh, meu Deus! — Ela está rindo muito agora. — Eu amo
você, Henrico Davi!
— Por que eu fiz sexo?
— Porque você é extremamente engraçado e sincero. Tenho
outros pacientes autistas, mas você é o mais sincero de todos. Deve
estar divertida a relação de vocês com toda essa sinceridade. Me
conte, como Sophie é sendo sua namorada? Continuam amigos?
— Sim, ela é a minha melhor amiga. A diferençaé que agora
eu posso beijá-la na boca e fazer sexo. — Volto o olhar para Sophie
e percebo que ela está dando uma espécie de show particular para
mim. Ela está olhando diretamente para mim, enquanto remexe seu
corpo de uma maneira sensual.
— Ei, conte-me como ela é como namorada.
— Sophie é intensa, carinhosa, em alguns momentos sente
medo, como eu sinto. Em um momento ela está muito delicada, em
outro está mais como uma mulher ousada; oscila entre ser muito
corajosa e tremer de medo, mas a coragem sempre vence. Ela
entende tudo sobre mim, até os meus olhares, e respeita minhas
limitações. Gosta de quando eu roubo o controle para mim, em
todas as situações. Além disso, ela me faz ir além. Sophie me
motiva, me incentiva, me provoca, me desafia...ela é a menina mais
bonita do mundo e a mulher mais gostosa.
— Uow! — Ana exclama, com lágrimas nos olhos.
— Desculpa. Eu estava olhando para ela e saiu. Isso é
íntimo, eu não deveria ter dito.
— Você está muito bem, Henrico! Estou tão orgulhosa!
Estamos juntos desde que era apenas um menino, são muitos anos
acompanhando sua evolução, mas a de agora é, sem dúvidas, a
maior de todas. Para um garoto que tinha certeza de que nunca iria
namorar, que era repleto de inseguranças e curiosidades, você foi
longe demais, e agora eu entendo o motivo pelo qual Paula está tão
radiante. Conversar com você me deixou mais tranquila. Estava
preocupada com o afastamento.Não se esqueça, precisamos ter ao
menos dois encontros semanais, mesmo que virtualmente, ok?
— Tudo bem. Vou reorganizar a rotina e acrescentar os dias
para a terapia. Agora vou desligar, porque quero ir pra casa. Até
logo, tia Ana.
— Até logo, meu amor. Estou muito feliz por ter falado com
você. — Encerro a chamada de vídeoe respiro fundo,vendo Sophie
visivelmente me provocar.
Estamos aqui por um bom período. Acho que podemos ir
embora.
Fico de pé e caminho até ela. Enquanto vou me
aproximando, o sorriso vai crescendo em seu rosto. Ela é muito
bonita.
— Bebecito!
— Sophie, podemos ir embora, para transar? — Samuel
cospe a bebida longe e Hadassa começa a rir. — Me desculpe por
isso, Sophie. Foi sem querer.
— Ok. É só Samuel e Hadassa, felizmente. Vamos embora
transar, Henrico Davi! Só não faça esse convite na frente do meu
pai, e nos manteremos a salvo! — Sophie fala,se jogando em meus
braços.
— Chamar para assistir um filme seria uma boa — Samuel
aconselha, rindo.
— Eu não quero assistir um filme. Chamei Sophie para fazer
isso e não para assistir algo. Não gosto de mentir. Não quero ligar a
TV. Eu só disse transar, porque... não sei explicar. Saiu quando olhei
para Sophie. Foi inapropriado e desrespeitoso.
— Só vamos! — Sophie exclama, empolgada. — Vamos nos
despedir dos meus pais. Diga que está com dor de cabeça, ok?
— Eu não estou.
— Mas finja que está, só dessa vez. Não podemos dizer que
estamos indo transar — ela explica.
— Ok. Estou com dor de cabeça. Vamos nos despedir. Eu
posso mentir uma vez, para transar.
— Sophie, na verdade, eu não sei como transar com você na
segunda vez. Há questões em minha mente agora — Henrico
confessa, enquanto caminhamos para casa. Por sorte, ele mentiu
bem para o meu pai, não vacilou em qualquer palavra.
— Me explique.
— Nós vamos entrar arrancando as roupas? Acho isso um
pouco estranho, estamos no início da nossa relação sexual e não
tivemos preliminares hoje. Foi um erro chamá-la especificamente
para transar. Eu não sei se vou conseguir chegar em casa já tendo
uma atitude sexual. Acho que precisamos criar um clima, como
ontem. Seria diferente se já estivéssemos tendo beijos quentes na
rua. Aíchegaríamos em casa um pouco mais desesperados, afoitos.
— Ele pensa nos mínimos detalhes sempre.
— Ei, sei o que fazer... — digo, sorridente, e apresso o passo
para chegar logo em casa.
Henrico me segue, completamente apreensivo até
chegarmos. Eu juro que queria ter o poder de ler pensamentos, só
para saber o que se passa em sua mente agora. Certamente, a
imaginação está fluindo com força total. Meu garoto além do azul
possui uma imaginação bastante fértil.
Ele ficavisivelmente preocupado quando puxo uma cadeira e
o faço se sentar.
— O que é isso? — pergunta.
— Eu reparei que você gosta de me ver dançar — comento,
pegando meu celular, para escolher uma música.
— Você dança muito bem, Sophie. Porém, me incomoda vê-
la dançar, porque tenho reações em locais inapropriados.
— Bom, ao menos agora você está seguro, em um lugar
muito apropriado. — Sorrio. — Você cuidou de mim na noite
passada, agora irei retribuir todos os cuidados, bebecito.
— Sophie, sinceramente, acho que estamos no clima já. —
Quero rir, mas não faço. Por algum motivo que desconheço, estou
corajosa para seguir em frente com o meu plano. Acho que tornou-
se um fetiche dançar para Henrico, desde que o vi me olhando de
uma maneira faminta mais cedo. O olhar dele remetia à luxúria e
muitos outros pecados carnais. É extremamente quente ver o desejo
brilhando através de seus olhos expressivos. Henrico sempre faz
com que eu me sinta a mulher mais sexy e quente do mundo. Quero
ver como será entre quatro paredes, quando estamos apenas nós
dois. Com plateia, ele apenas podia olhar, e agora? Será que ele vai
reagir ou ficará apenas sendo um espectador até o final da dança?
Deixando de lado a timidez que, de repente, quer surgir, tomo
um gole de coragem e aperto o play. Logo nos primeiros segundos
da música, penso que serei eu a desistir dessa dança. Era mais
seguro dançar com plateia, definitivamente.O olhar dele... chega a
intimidar. É muito intenso e avaliativo, cru. Henrico é sincero até no
olhar, e uma pobre mortal como eu fica desconcertada diante disso.
Retiro meu tênis, minhas meias e deixo meu corpo seguir o
ritmo da música. Sempre fui muito apaixonada por dança, por isso,
desde pequena estive nos mais diversos tipos de aulas de dança
possíveis. Desde jazz à dança do ventre. Minha cintura é muito
soltinha, meu corpo inteiro possui uma leveza natural para a dança.
Meu pai costumava dizer que flutuo quando estou dançando, e isso
parece fazer sentido.
Retiro minha camisa, ficando apenas de sutiã e com a saia
de moletom. Os olhos de Henrico se fixam em meus seios. Ele
parece idolatrá-los.
— Sophie, é muito difícilser seu namorado. — Ele não me
olha nos olhos enquanto diz sua típica frase. Quase posso afirmar
que ele está salivando para ter seus lábios em meus seios, e isso
me fazir além. Deslizo minha saia, deixando que ela caia ao chão, e
novamente o olhar dele segue meus atos. É tão incrível vê-lo
afetado, que mal sou capaz de respirar agora. — Uau, Sophie!!!!!
— Gosta do que vê?
— Você é a menina mais bonita e mais gostosa do mundo.
— E se eu tirar todo o restante? — pergunto, levando as
mãos até meu sutiã e o abrindo.
— UAU!!! — Isso é quase infantil, porém, fofo de uma
maneira que não consigo explicar. Eu sou muito louca nesse jeitinho
especial que só ele tem. — Você vai dançar nua?
— Quer?
— Quero — confirma.
Retiro minha calcinha, um pouco desajeitada pelo
nervosismo, mas tudo vale a pena quando o olhar dele corre por
todo meu corpo, incendiando o que já estava em chamas. Não há
mais dança. Me aproximo, sentando-me sobre ele, e o puxo para
um beijo faminto.
Dois insanos, desesperados, loucos... como se fôssemos o
casal sexo selvagem, com anos de prática. Perfeito, até a cadeira
tombar para trás e cairmos juntos com ela. Não nos machucamos, e
tampouco nos importamos com qualquer merda que não seja
relacionado a sexo. Simplesmente nos desvencilhamos da cadeira e
pairamos sobre o tapete.
Desesperada, retiro a camisa de Henrico, enquanto ele chuta
o tênis e as meias para longe. É engraçado nosso desespero para
deixá-lo nu e, quando a magia acontece, sou eu quem digo UAU
bem exageradamente ao vê-lo completamente duro...
— Senhor da glória!
— Sophie, eu não acho que essa posição seja apropriada
para a nossa segunda vez. Eu preciso estar no controle agora, até
você... até seu corpo ter se acostumado mais com o meu...
— Ai, meu Deus! Tem ideia do quanto eu amo você e o
quanto amo o seu jeitinho? Nada, ninguém, se compara a você! É
perfeito de todas as maneiras, bebecito. Você é mesmo diferente,
porque... porque você é tudo de melhor que existe no mundo.
— Sophie, você é mesmo apaixonada por mim — ele fala,
sorrindo.
— Muito, do tamanho do Universo e além dele.
— Eu também sou apaixonado por você, Sophie. Eu te amo
com todas as forças que possuo. — Aqui estou eu, chorando mais
uma vez repentinamente. — Eu acho que posso ser pai um dia.
— Quê?
— Eu acho que posso fazertudo, se for com você. Eu posso
tudo, Sophie.
— Sim, você pode tudo! Tudo! — Sorrio entre lágrimas,
enquanto seguro seu rosto entre as minhas mãos. — Você é a coisa
mais linda do mundo!
— Não agora, tudo bem?
— Não mesmo. Há muito a ser explorado antes de
pensarmos em filhos. Mas, só o fato de você dizer que pode fazer
isso, já significa muito, mesmo que eu nem estivesse pensando
nisso neste momento.
— É porque eu olho para você e me dá vontade de viver
todos os seus sonhos, e sei que um dia quer ter os meus filhos —
explica, olhando em meus olhos. — Eu quero dar tudo a você.
Quero ficar para sempre ao seu lado e quero que seja cem por
cento feliz, realizada.
— Você, por si só, já é a realização do maior sonho da minha
vida. Poder beijá-lo, tocá-lo, acordar ao seu lado todas as manhãs,
sentir uma parte do seu corpo dentro de mim, sentir sua
reciprocidade, a nossa conexão... Você é o meu maior sonho, a
resposta de todas as minhas orações, a realidade mais linda que
estou vivendo. Parece um clichê com excesso de romantismo, mas
que seja clichê... quem se importa? Eu respiro você, Henrico Davi.
Eu vivo você. Eu amo você.
— Sophie, posso levá-la para a cama? — pergunta e eu
balanço a cabeça positivamente.
Meu bebecito é forte e se levanta com muita facilidade, me
carregando junto, grudada ao seu corpo. É incrível a capacidade
que temos de mudar algo que está indo ser feroz,para algo doce e
delicado. Em questão de segundos, tudo ficatão romântico quanto é
possível.O mais lindo é que sei que parte dessa mudança é apenas
pensada no meu bem-estar. Ele tem medo de me machucar, tem o
cuidado incrível de pensar em todos os mínimos detalhes. Será
assim ao menos no início. Sei que há uma fera escondida por trás
das ações de bom rapaz, e sei também que ela virá à tona em
algum momento no futuro. A intensidade dele revela um pouco do
que está por vir. Mas é nobre que ele esteja sendo um gentleman.
Henrico é o meu garoto repleto de atitudes nobres... Receber o
melhor de Henrico sempre me causará essa sensação gostosa, de
ter tirado a sorte grande na vida.
Ele me deita cuidadosamente em nossa cama e cobre meu
corpo com o seu. Eu ofego,não por ter sua ereção grudada contra a
minha intimidade, mas pela maneira como ele está me olhando. Ele
me fazperder o fôlego e me emociona, quando tudo que não quero
é ficar emocionada. Quando eu iria imaginar que poderia existir algo
tão forte como isso? Nem em meus melhores sonhos. Imaginava
algo bonito, mas não imaginava algo tão arrebatador e profundo.
Insuperável.
Sua boca desliza para a minha e poderosamente apaga
todos os pensamentos. Eu só me concentro agora nos toques, no
sabor, nos movimentos perfeitos que causam as mais loucas
sensações em mim. Essa coisa louca de sentir a alma sendo
preenchida tanto quanto meu corpo é algo que jamais serei capaz
de descrever.
Não há preliminares além dos beijos gostosos. Ele
simplesmente vai movendo seu corpo, e pouco a pouco vai me
invadindo. Suas mãos novamente se prendem às minhas e eu as
aperto forte, como se pudessem ser a minha salvação. A cada
centímetrode invasão, sinto-me alargando lentamente para recebê-
lo. Há um pouco de dor, porém, bem menos que ontem, e bem mais
suportável.
Pouco a pouco, até estar por completo em mim...
— Você está bem, Sophie?
— Estou ótima, bebecito. "Bem" não seria o termo adequado
para definir como me sinto agora. — Sorrio para tranquilizá-lo.
— Posso me mover? Estou desesperado, porque é muito
gostoso estar dentro de você.
— Faça isso por nós. Mova-se como e quanto quiser. Eu sou
sua.
Eu queria ser safada... mas Henrico tem o dom de me
transformar em uma garota doce, e eu simplesmente me perco na
forma como ele fazamor comigo. Isso é amor. Não é sexo. É amor,
do mais puro que existe. Inclusive, ele está mais delicado hoje do
que estava ontem, e a percepção que tenho é de que ele está
querendo memorizar ou apreciar melhor o ato, talvez captar com
mais calma as sensações que sente e que causa.
Isso é tão Henrico! E ser tão Henrico me excita tanto, me
encoraja...
— Eu quero experimentar ir por cima... — digo timidamente,
sabendo que provavelmente ficarei mortificada no início.
— Você quer?
— Sim. Eu quero muito. Me sinto pronta para fazer isso. —
Ele balança a cabeça positivamente e sorri. Do nada, ele nos gira e
eu pairo por cima dele, sem desconectar nossos corpos por nem
mesmo um segundo.
Minhas mãos se apoiam no peitoral de Henrico e eu tento me
adaptar à mudança de posição.
— Eu... eu sinto que você pode tocar meu útero — confesso,
rindo de nervoso. Não há nem espaço para timidez diante do
choque. Se na posição anterior eu me sentia completa, eu não sei
dizer como me sinto o montando. Além de completa... puta merda!
Estou nervosa. — Pelo amor da Santa Josefina! Eu nem me movi e
sinto que é a melhor posição de toda a vida! Ai, meu Deus... —
Henrico só me observa, completamente silencioso. Ele parece
perdido em seus próprios pensamentos, tanto que nem se move.
Suas mãos estão fixadas em minha cintura, quentes, firmes, sem
movimento algum. O trabalho sujo será por completo meu, é notável
isso. Henrico parece ter perdido a capacidade de agir. — Você está
bem?
— Uhum.
— Uhum? — questiono.
— Sim.
— Não está bom? Quer que...
— Eu não quero conversar agora, Sophie. É estranho
conversar transando. — Dito isso, ele faz suas mãos se moverem
quando me puxa para um beijo selvagem. Um beijo que faz o fogo
acender de uma só vez e espanta o choque para o inferno.
Meu corpo, repleto de necessidade, se move no ritmo do
beijo. Eu não levanto e desço. Simplesmente me esfregopara frente
e para trás, deslizando pelo pau do meu namorado. Há uma fricção
que eleva meu nível de excitação e me faz querer chorar de tanto
prazer. Eu senti prazer ontem, senti prazer minutos atrás na outra
posição, mas nada se compara a isso. É como se só agora eu
estivesse sendo capaz de perceber as maravilhas do sexo e
descobrindo que não há NADA mesmo melhor que isso. Melhora
muito quando Henrico desliza as mãos pela minha bunda e passa a
forçar os movimentos enquanto a aperta forte. Por um segundo,
quero que ele me encha de tapas, mas acho que seria muito
assustador pedir por isso logo agora. Ele precisa estar mais
confortável sobre a coisa de me causar dor. Não ter tapas não
diminui a maravilhosa sensação.
Me encorajo e afasto os nossos lábios. Apoio minhas mãos
em seu peitoral e, o observando, façouma espécie de dança sobre
meu noivo. Remexo meu quadril, como se estivesse dançando uma
melodia sensual, e isso nos faz gemer juntos. Meu orgasmo se
constrói e eu esqueço do pudor, solto sons desesperados, enquanto
deixo o tesão falar por mim. Quanto mais gemidos dou, mais forte
Henrico aperta minha bunda.
— Porra, Sophie! — exclama com um tom diferente,trazendo
uma das suas mãos até meu pescoço, na tentativa de conter meus
movimentos. Isso apenas faz meu corpo explodir em milhares de
partículas,e é sem dúvidas a sensação mais intensa que já tive até
agora. Parece que encontrei a minha posição na vida, mesmo que
eu só tenha experimentado duas. Até perco as forças dos meus
braços e caio sobre meu noivo. — Uau, Sophie!
— Uauuuu... — sussurro, querendo chorar, completamente
mole. — Eu quero fazer isso todos os dias.
— Eu também quero! Podemos continuar? — Uauuuu, digo
eu mesma!!! Tudo bem que ele não gozou, mas eu me sinto morta.
Porém, foda-se! Eu vou tirar forçasdas profundezase vou satisfazer
o meu noivo gostosão. Não é sacrifícioalgum ter esse homem
enterrado em mim!
— Como você quer agora?
— Quero você de quatro. Por favor, Sophie. Eu preciso de
você de quatro. — Ele precisa... ele não quer. Ele PRECISA.
Me pego saindo de cima dele e deitando de bruços. Respiro
fundo e me movo, posicionando-me da forma como ele quer
.
— Puta merda, Sophie! — Eu o amo falando palavrões,
mesmo que sejam leves, como o "puta merda". — Você é muito
gostosa nessa posição.
— Só vem, então... Bem forte... ok?
— Ok. Eu preciso aprender, porque é outro ângulo para
encaixar... — Eu vou do céu ao inferno enquanto ele desliza seu
membro por toda minha intimidade, tentando se encaixar em mim.
As cobertas embaixo de mim sofrem com o meu aperto
desesperado, e eu praticamente grito quando Henrico me penetra
de uma só vez. — Uau!
— Nossa Senhora da Josefina!!!!!! — choramingo quando ele
começa a se mover forte, levando a sério o que eu disse sobre vir
bem forte.
Bem forte mesmo.
— Meu Deus, Henrico Davi!!!!!!
— Sophie... eu vou gozar muito rápido nessa posição. Eu
gosto e não gosto dela.
— Ok, se quiser me dar uns tapas, fique à vontade. — Eu vou
gozar... e ele nada... isso é injusto! Essa posição é... Ok, eu ainda
prefiro estar por cima, mas essa está em segundo lugar.
— Não vou te bater.
— Tapa de amor, na minha bunda... Pode puxar meus
cabelos, pode... Ai, meu Deus... só faztudo! — Ele não fazo que eu
pedi, mas, em compensação, toma um ritmo muito violento, e eu me
sinto na minha primeira grande foda. Certamente, minha cintura
ficará marcada. As mãos dele estão me apertando tão fortemente
agora... Mordo o travesseiro diante de mim e sinto lágrimas
dançando em meus olhos, num misto de dor, prazer e gratidão. O
mais incrível é sentir o pau de Henrico em toda sua glória,
anunciando que está prestes a explodir. É como se ele crescesse e
pulsasse mais forte dentro de mim. Meu corpo se desfazsegundos
antes e eu não consigo me manter de quatro. Caio de bruços,
fazendo com que Henrico solte a minha cintura, e recebo as
arremetidas desesperadas até ele gozar.
Insano!
Alucinante!
Épico!
Como se tivesse me agradecendo, recebo dezenas de beijos
em minhas costas, que me fazem chorar e sorrir
.
Quando Henrico se afasta, deitando-se ao meu lado, eu me
viro de lado, para encará-lo.
— Você está bem?
— Eu estou muito bem, e você? — pergunto.
— Não tenho palavras. Obrigado, Sophie — fala, me puxando
para os seus braços. Ele me agradece por fazersexo com ele... Eu
não entendo o sentido dele fazer isso, mas sou eu quem deveria
agradecer, de joelhos.
Não digo nada. Se ele quer me agradecer, está tudo bem. Eu
só quero ficarassim, nos braços dele, ouvindo as batidas fortes de
seu coração, recebendo carinho em meus cabelos, pelo resto dos
meus dias.
— As pessoas normais pensam que autistas não podem
fazersexo. A minha terapeuta sabia que eu poderia fazer, mas acho
que ela tinha uma outra perspectiva. Meus pais sabiam e me
incentivavam a fazer, mas eu também acho que eles tinham uma
outra perspectiva. Acho que todos eles imaginavam que eu fazendo
sexo seria muito diferente, que talvez não seria ativo demais, teria
dificuldades em me conectar intimamente ou... não sei explicar,
Sophie. Mas sinto que todos acreditavam que seria diferente,
porque eu também acreditava nisso.
— Você é uma pessoa normal.
— Odeio toques, odeio sons, ruídos, não consigo olhar nos
olhos das pessoas, não consigo me abrir com muita facilidade. Sei
que o sexo exige todas essas ações que são consideradas simples
e comuns para as demais pessoas. Eu faço parte de um grupo de
pessoas que são diferentes, que possuem suas particularidades,
sou atípico. Sempre foi muito difícillidar com o fato de que eu era
diferente, que eu me afastava da normalidade da maioria das
pessoas. Sempre vi isso como algo muito ruim.
— Eu vou completar o que você quer dizer. — Sorrio. — Você
descobriu que ser diferente é incrível, principalmente durante o
sexo.
— Eu sempre senti muito mais que as demais pessoas,
sempre tive um nível de intensidade elevado, incomum. Descobri
que no sexo todas as minhas diferenças parecem ser muito boas.
Porém... — Ele fica silencioso.
— Porém?
— Porém, tudo seria completamente diferente se não fosse
com você. Eu sempre aceitei seus toques, sempre te olhei nos
olhos, sempre gostei de ouvir sua voz, suas gargalhadas, sempre
pude ser sincero. Por mais que eu guardasse dentro de mim que
sentia amor por você, sempre fui aberto... apenas com você. Só
você. Eu seria um fracassado se não tivesse você, Sophie.
— Você nunca seria um fracassado, Henrico. Nunca.
— Seria — afirma.— Eu posso dizer isso com toda a certeza
que tenho dentro de mim. Eu seria um fracassado.Mas você fezde
mim um homem em potencial. Você descobriu um Henrico que eu
nem mesmo sabia que poderia existir, mesmo com todas as
diferenças.
— Apesar de todas as diferenças — corrijo meu garoto
falador. Henrico nunca foi tão falante como tem sido nos últimos
dias. Incomum o bastante, como se quisesse pôr para fora tudo o
que sempre guardou dentro de si.
— Você é a garota mais bonita do mundo, Sophie, e é a mais
importante também. Você é o motivo!
— O motivo? — Sorrio. — Isso foi muito tio Lucca. Eu amo
ser o seu motivo.
— Eu amo que seja. Agora preciso tomar banho e ficar
sozinho — fala, se afastando e ficando de pé. Eu sou uma idiota
apaixonada, que ama até esses rompantes que ele dá.
— Oi? Isso é sério?
— Sophie, eu preciso pensar em muitas questões.
— Nada disso...
— Sophie, é sério — avisa, entrando no banheiro.
— Ah, caralho, Henrico Davi! Nem fodendo! — Me levanto e
vou atrás dele. Uma ova que ele vai pensar depois de ter me tirado
do sítio para fazer sexo.
Entro embaixo da ducha com ele e o ouço dar a gargalhada
mais espetacular que já o vi dar.
— Eu peguei você, Sophie!
— Você está muito pegador, Henrico Davi! — brinco,
enquanto ele traz suas mãos em meu rosto e esfrega o nariz no
meu. — Eu te amo além da vida! Espero que um dia você consiga
se ver como eu te vejo!
— Eu te amo ao infinito e além!
Seria abusivo e desrespeitoso tocar em Sophie enquanto ela
está dormindo, inconsciente, mas eu gostaria de tocá-la agora,
porque nunca vi nada mais perfeito que ela dormindo,
completamente nua. Sinto uma vontade momentânea de pegar uma
tela e desenhá-la em todos os mínimos detalhes, porém, também
seria desrespeitoso fazer isso sem ter um consentimento.
Sou privilegiado, talvez mais do que a maioria dos homens.
Sophie é um peso forte, uma mulher com um potencial imenso e
parece ter roubado toda a beleza do mundo para si. Ela é perfeita
fisicamente, não que exista um padrão de perfeição. Ela é perfeita
para mim. Em todas as curvas, todos os detalhes, cada parte de si.
Ela tem pés lindos, pernas incríveiscom coxas grossas, uma
bunda generosa de tamanho, quadril levemente largo, contrastando
com a cintura fina, seios levemente fartos e totalmente proporcionais
ao corpo, uma boca perfeita, olhos grandes e expressivos, o nariz
arrebitado como o da minha tia Melinda, as mãos delicadas... Eu
amo quando ela pinta as unhas de vermelho. E há também todas as
tatuagens. Eu não saberia dizer quantas ela tem, mas todas elas
são muito bonitas e ficaram perfeitas no corpo da minha garota. A
que eu mais gosto é uma que ela tem acima do quadril, do lado
direito. Ela é sensual, porque é bem baixa, bem próxima ao caminho
que me leva até a vagina de Sophie. Está escrito em espanhol É só
uma questão de tempo. Eu gostaria de saber o significado dessa e
de todas as demais tatuagens. Sempre apreciei, mas nunca
questionei sobre significados. De repente, quero desvendar Sophie
por completo. Essa vontade surge do nada, mas com um desejo
forte. Me pergunto se é possível desvendar uma pessoa por
completo...
Observá-la nua na cama me deixa duro, como se eu não
tivesse feitosexo duas vezes na noite passada. Pensar dessa forma
quase me fazrir. Não acho que a quantidade de sexo seja capaz de
interferir na intensidade do desejo que sinto. Poderíamos ter
passado a noite transando e, ainda assim, eu sentiria desejo ao
acordar e vê-la desprovida de roupas.
Nua, sem maquiagem, com os cabelos bagunçados, os lábios
levemente avermelhados devido à quantidade de beijos e...
— Merda! — Há marcas dos meus dedos em sua cintura, eu
a machuquei. Talvez tenha sido rude demais. Não sei explicar a
transformação que sofro quando estou dentro de Sophie. Me dá
uma vontade absurda de ser rude, de pegá-la forte, de ser
impiedoso. Isso deve ser errado, preciso conversar com o meu pai.
É como se eu possuísseum instinto selvagem ou algo parecido com
isso.
Acho que Sophie possui a mesma coisa. Eu perdi as contas
de quantas vezes ela pediu que eu batesse nela e não sei se seria
correto, embora eu já tenha visto cenas assim em filmeseducativos.
Ela queria que eu batesse em sua bunda, que eu puxasse os seus
cabelos, que a fodesse com descontrole. Porém, se com
autocontrole eu fui capaz de marcá-la, não quero imaginar como
seria se eu deixasse o tesão guiar minhas ações. Sou forte, teria
que saber dosar a minha forçapara dar o que ela pediu, e temo não
conseguir.
Respiro fundo e me levanto. Sigo diretamente para o
banheiro e tento conter as reações, tento mudar meus pensamentos
de direção, mas eles sempre acabam na cama, onde Sophie está.
Após longos minutos, me enxugo, visto uma roupa e decido que
preciso tentar ir até a padaria, comprar algumas coisas para o café
da manhã de Sophie.
Um erro.
Coisas que parecem ser simples para a maioria das pessoas,
são complicadas para mim, extremamente. Tenho conseguido me
comunicar melhor, mas apenas com pessoas que conheço. Por
algum motivo, a rua está um pouco movimentada, e eu não estava
esperando por isso. Eu travo a cada “bom dia” que recebo dos
vizinhos. Não consigo respondê-los, mesmo que eles pareçam
receptivos e acolhedores o bastante. É um bloqueio que não
consigo vencer. No mínimo, serei conhecido como o vizinho mal-
educado.
Pensar em Sophie me motiva a seguir rumo à padaria, mas,
quando paro diante dela, meus pés travam e eu começo a ficar
altamente nervoso. Parece que recebo de uma só vez toda
sobrecarga sensorial que me afeta. De repente, há muitas pessoas
na rua, muitos ruídos, risadas... Minha cabeça começa a doer,
minha visão começa a ficar turva e eu esfrego meus olhos.
Situações como essa me fazempensar sempre no pior, sempre na
incapacidade. Estou entrando em pânico quando duas mãos tocam
meu rosto.
— Estou aqui. Respire — Sophie diz. Eu volto a respirar ao
ouvir sua voz e sentir seu toque. — Você veio comprar coisas para o
café da manhã? — ela pergunta em um tom baixo e repleto de
docilidade.
— Sim.
— Vamos comprar! Sabe, estou faminta depois de todas as
atividades da noite passada — comenta, sorridente, soltando meu
rosto e pegando a minha mão. — Eu comeria dois pães de sal com
mortadela defumada e tomaria um big copo de café com leite. E
você? — Fico um tempo fazendo um exercíciode respiração, antes
de conseguir respondê-la. Sophie me salvou mais uma vez. Eu não
sei dizer como os próximos minutos seriam se ela não surgisse
diante de mim.
— Isso parece bom — respondo e ela começa a caminhar
para dentro da padaria, me levando junto.
Diferente de mim, Sophie sorri para todos e pede uma série
de coisas que quer comer. Eu me sinto um idiota e, infelizmente,
esse sentimento é mais comum do que todos imaginam.
— Ei, amor, eu esqueci o dinheiro. Pode ir no caixa pagar? —
pede, piscando os cílios, e eu pego o papel em suas mãos para
pagar. Eu só me dou conta de que fui até o caixa sozinho e paguei,
quando saímos da padaria e Sophie começa a rir.
— O que foi?
— Nada, bebecito.
— Não estou feliz, Sophie. Eu queria surpreendê-la no café
da manhã e entrei em pânico — confesso.
— Eu vi isso claramente, Henrico Davi, mas você venceu
algo sem perceber. Quando eu pedi para ir pagar, você
simplesmente foi,pagou, sem pânico, sem medo. Eu não quero que
foque nas dificuldades, quero que foque nos avanços. Está visível
em seu rosto que chegará em casa e ficará isolado por um tempo,
até conseguir assimilar que teve uma pequena crise na rua. Mas
não vale a pena, Henrico. É um desperdíciode tempo retroceder. O
que aconteceu é uma limitação sua e você não deve se culpar ou se
sentir mal por não conseguir vencê-la. Faz parte de quem você é e
isso não o inferioriza. É normal ter limitações, não apenas para
autistas, mas para todos os seres humanos. Todo mundo tem ao
menos uma coisa que sente medo pra caralho, que aterroriza. Por
exemplo, há muitas pessoas que não entram em um elevador,
outras que não suportam qualquer tipo de altura, outras que têm
medo de entrar no mar ou até mesmo em piscinas, pessoas que
odeiam escadas rolantes. Você as julgaria mal?
— Não, Sophie... — respondo, a seguindo para dentro de
casa.
— Então não se julgue mal por ter dificuldade em socializar.
Isso te acompanha há anos e, me desculpe dizer isso, talvez nem
sua terapeuta ou os seus pais apoiariam o que vou dizer, mas você
não é obrigado a enfrentartudo e a vencer todas as suas limitações.
Ninguém é. Não é obrigado a ir para uma boate cheia de luzes de
led e música alta, não é obrigado a olhar nos olhos das pessoas,
não é obrigado a se sentir bem em meio a uma multidão. Acho
importante essa coisa de enfrentar os medos, mas nem tudo é
necessário, Henrico. Você precisa aprender a aceitar suas
limitações, a respeitá-las e a ficar bem com isso, sem fazer
comparações com as demais pessoas. Por exemplo, você ama
mergulhar, mas tem pessoas que sentem pânico só de imaginar.
Determinadas questões dispensam comparações.
— Você tem medo de algo?
— Tenho medo de tempestades quando estou sozinha, tenho
medo de mergulhar em lugares muito profundos, por isso sempre
pulo da lancha agarrada a um "macarrão", quando vamos para ilhas
diversas, tenho um pouco de pânico de altura. Quando vou ao
escritório dos nossos pais, sinto um pouco de nervoso de chegar na
janela e olhar lá para baixo. Como a minha mãe, eu tenho medo de
dirigir sozinha à noite, em estradas. Consigo enfrentar agulhas para
fazer tatuagens, mas tenho pânico de pensar em fazer cirurgias.
Morro de medo de dentista. Eu ficariamuitas horas te dizendo todos
os meus medos. — Sophie sorri. — E eu tenho um medo que nunca
contei a ninguém, mas que combina com algo seu...
— O quê?
— Eu me sinto claustrofóbica em lugares fechados e com
aglomeração de pessoas. Os sons e as luzes não me incomodam,
mas ver uma grande quantidade de pessoas me deixa sem ar,
minha pressão até mesmo cai. Confesso que tentei vencer isso
algumas vezes, porque eu me sentia diferente das minhas amigas, e
muita das vezes me esforçava para me encaixar. Mas não era bem-
sucedida. Minhas aventuras por boates não duravam tempo o
bastante. Meu pai ficava puto algumas vezes, porque ele me
deixava na boate, voltava para casa, e antes mesmo de estacionar,
tinha que voltar para me buscar.
— Mas você enfrenta seus medos — argumento, a
observando.
— Nem todos, Henrico. É como eu te disse, alguns medos
são mais fáceis de ser enfrentados, outros não. E não entendo o
meu medo de altura. É difícilchegar na janela do escritório, mas é
fácilvoar em um jatinho. Eu amo voar. Enfim, Henrico Davi, espero
que tenha conseguido te distrair um pouco com todas as minhas
baboseiras e espero que tenha entendido que está tudo bem você
sentir pânico de enfrentar determinadas situações. Você é um
homão do caralho, e ter limitações não diminui isso. Ok... eu falei
muito e muito rápido... — ela diz, bebendo um copo de água muito
rapidamente. — Eu só... só tenho medo.
— Medo?
— Medo que você volte a se sentir inferior. Essa perspectiva
me deixa um pouco desesperada — confessa. — E aí eu começo
uma luta louca para tentar fazer com que você consiga enxergar que
é dono de um potencial absurdo e... — Ela está quase chorando e
eu odeio isso. — Me desculpe por, provavelmente, tê-lo deixado
tonto de tanto falar. Só quis impedir que se isolasse. Por mais que
eu compreenda que precisa de espaço, não estou pronta para me
afastar após o que tivemos nas duas últimas noites. Eu quero você,
preciso de você. Você é incrívelpra caralho, e meu corpo precisa do
seu. — Uau!
— O que tudo isso significa? Pode ser mais direta?
— Significaque precisamos comer logo e voltar para a cama.
Eu quero transar com você a manhã inteira. — Uau! Não tenho uma
resposta para dar à Sophie. Ela realmente foi direta. — Estou um
pouco viciada em sexo. Espero que não seja um problema.
— Eu acredito que não é um problema, mas talvez seja. Não
sei. Estou um pouco confusoagora — confesso,ganhando um lindo
sorriso dela. — Isso é muito difícil, Sophie.
— Sexo?
— Ser seu namorado. Não está sentindo dor? — pergunto,
receoso.
— Você é meu noivo e não estou sentindo nem mesmo um
pouco de dor — responde, se aproximando e enfiando as mãos por
dentro da minha camisa. Sinto meu corpo inteiro se arrepiar quando
ela passa as unhas pelo meu peitoral. — Aliás, eu amaria sentir um
pouco de dor.
— Como assim? Pode explicar?
— Uns tapas, algo mais bruto, eu quero experimentar isso...
— Engulo em seco, sem saber como responder isso. Sophie torna
tudo mais difícil,de verdade. Acabamos de iniciar nossa vida sexual
e ela está me pedindo para ser bruto.
— Sophie, não sei se é correto isso que está me pedindo.
Preciso pensar, ok?
— Ok. Você já é um pouco selvagem, bebecito. Só está se
controlando. Mas eu sempre vou esperar por você. Sempre vale a
pena esperar. Quando resolver ser bruto comigo, eu serei uma
devassa com você. — Abro a boca para respondê-la e fecho logo
em seguida. Sophie está falando coisas sujas e meu corpo inteiro
está reagindo.
O telefone vibrando em meu bolso me fazafastá-la. O nome
do meu pai está piscando na tela, em uma chamada de vídeo,e eu
o atendo prontamente.
— Oi, pai.
— Oi, meu garoto! Como está?
— Confuso— confesso,me afastandoainda mais de Sophie,
seguindo rumo ao escritório.
— O que há?
— Eu temo que Sophie vá ouvir. Depois eu falo.— Ele sorri e
aceita minha resposta.
— Como quiser. Bom, tenho notícias que talvez não sejam
tão boas. Mathew e Joseph indicaram os melhores profissionais
aqui do Brasil, que fazemconstruções com a técnica Wood Frame.
São profissionais muito bons, renomados. Mathew me enviou vários
projetos executados por eles. A questão é que, para se reunir com
eles, você terá que vir ao Rio. Eles fazemquestão de uma reunião
presencial, para captarem o que de fato você quer. A agenda deles
é concorrida, e só conseguimos a reunião porque deviam favores
aos Vincenzos. Não estão se importando com o fatoda obra ser em
São Roque, mas se importam o bastante com a primeira reunião,
antes de aceitar de vez trabalhar no projeto.
— Tudo bem. Quando será a reunião?
— Aí que está o X da questão. A reunião será em dois dias.
Victor e Melinda estão vindo para o Rio no final da tarde. Seria
perfeito se pudesse vir com eles de uma vez. Estamos com
saudades. Sua mãe ficará radiante com essa surpresa.
— Eu posso levar Sophie?
— Que pergunta é essa? É lógico que pode. Fiz a ligação já
contando com a presença de Sophie — responde.
— Ok, pai. Vou falar com ela. Podemos conversar quando eu
chegar?
— Outra pergunta descabida, filho. É claro que podemos
conversar, muito, o quanto quiser e sobre o que quiser. — Isso me
causa um alívio. O teor da conversa me deixa receoso. É sobre
Sophie pedindo um pouco de ação bruta no sexo. É íntimo, mas eu
preciso do meu pai, preciso ouvir o que ele tem a me ensinar sobre
isso.
Encerro a ligação mais tranquilo. Vou até o quarto pegar um
medicamento para a dor de cabeça e retorno para a cozinha,
juntando-me à Sophie para o café da manhã.
— Sophie, a equipe de engenharia, que será responsável
pelas obras, quer se reunir comigo no Rio em dois dias. Como seus
pais estão indo embora hoje, pensei que poderíamos ir com eles de
jatinho e ficar esses dias com os meus pais. O que acha?
— Incrível!!! Vou aproveitar para fazer compras! Estou com
poucas roupas de frio. Podemos transar no seu quarto? É um
fetiche desde que fiquei molhada por você pela primeira vez.
— Você resolveu ter excesso de sinceridade, como eu? —
questiono, quase envergonhado.
— A convivência está me modificando,bebecito. É melhor ser
direta, não acha? Você sempre disse isso. Assim que chegarmos lá,
irei te contar todos os sonhos eróticos que tive com você tendo seu
quarto como cenário.
Concentro-me em comer o lanche, antes que eu coma
Sophie. É muito difícilser namorado dela, mas é mais difícilainda
controlar meus instintos quando ela está fazendo de tudo para me
provocar. Não sou muito bom em captar insinuações ou fazer
adivinhações, mas está evidente que Sophie está tentando testar os
meus limites. Nossa relação tem girado em torno de tensão sexual.
Talvez essa viagem tenha vindo em um bom momento. Se ela quer
me testar, precisa saber que desejo testá-la também. Na verdade,
quero testar nós dois. Quero saber até onde toda a tensão sexual irá
nos levar e o que somos capazes de fazer. Embora eu ache que um
relacionamento não deva girar em torno de sexo, somos jovens e
esperamos muito tempo para nos entregar ao prazer. Há muito
desejo reprimido, muitas curiosidades, muito fogo, muitas
descobertas. As descobertas sempre foram muito importantes para
mim e estou descobrindo o sexo com Sophie. Desrespeitoso ou não,
eu tenho fome e sede de conhecimento.
Dessa vez não é sobre as estrelas ou sobre cálculos
matemáticos...
Silencioso e pensativo, esse é o meu noivo neste momento.
Sinto um enorme desejo de poder ter a chance de descobrir tudo o
que está se passando em sua mente agora. Um milhão de dólares
pelos pensamentos do meu garoto mais bonito do mundo.
Por mais sério que ele esteja, apreensivo, algo me diz que
seus pensamentos são sobre sexo, e isso me fazpensar que talvez
eu esteja indo longe demais em um curto intervalo de tempo. Acho
que estou testando os limites de Henrico de um jeito que não
deveria.
O conheço tão bem, que sei que deveria ser paciente, como
fui uma vida toda. Mas acho que eu não conhecia tão bem a mim
mesma. Eu descobri que sou muito mais quente do que imaginava
ser, e descobri um desejo sexual quase absurdo, um fogo que arde
dentro de mim. Aquela expressão "cio constante" talvez caiba a mim
desde duas noites atrás. Ter perdido a virgindade me afetou. É
como se eu tivesse rompido a única coisa que me separasse da
devassidão completa. É, eu me sinto como uma devassa, querendo
sexo como uma ninfomaníac a, e isso só começou mesmo ontem à
noite, em nossa segunda vez, quando descobri que o incômodo
diminuiu significativamente e quando tive um prazer insano. Acho
que essa coisa de prazer vicia. Estou comparando como acontece
quando estou comendo um chocolate, pois é, sou chocólatra
assumida.
Quando eu como um chocolate, na primeira mordida até
fecho os meus olhos, sentindo intensamente a saciedade que o
doce me proporciona. É assim desde a primeira vez que
experimentei. O chocolate altera meu humor de uma maneira
poderosa e inexplicável. O mesmo está acontecendo com o sexo,
mas em um nível diferente. O sexo me proporciona um prazer
completamente diferente do prazer que sinto ao comer um
chocolate. Ele desperta uma fome, uma vontade louca e
inexplicável, e nada parece o suficiente. Quando a relação sexual
acaba, não há tanta saciedade, devido ao fato de Henrico ser tão
incrivelmente bom e se encaixar tão bem em mim, a ponto de eu
sentir como se não tivesse obtido o suficiente e querer mais. E eu
não sei dizer se é comum ou se acontece com todas as pessoas,
mas está acontecendo comigo. Eu gostaria de ficar um dia inteiro
com Henrico dentro de mim, e me sinto carente disso, como se não
tivesse há dias, e o fato dele ser reservado e fechadonão me ajuda
muito.
Há essa coisa na nossa relação que precisa ser trabalhada.
Eu sabia que ele não seria o garoto cem por cento grude, repleto de
demonstrações afetivas. Então, quando não estamos em um
momento de intimidade, ele fica mais afastado, fechado dentro de si.
É o jeito dele ser, e eu o vejo se esforçando para mudar isso. Eu sou
a garota coração, que quer enchê-lo de beijos, de carinho, sufocá-lo
um pouco com o amor que guardei por tanto tempo dentro de mim.
Esse afastamento comum está acontecendo agora, dentro do
jatinho, enquanto voamos para o Rio. Meus pais estão sentados nas
cadeiras da frente,enquanto eu e ele estamos nas cadeiras de trás.
Henrico está olhando pela janela, com o olhar distante, e eu, como
uma boa maníaca sexual, estou fissurada em uma de suas mãos,
que está sobre a coxa esquerda. Eu amo as mãos dele. Os dedos
compridos, as veias saltadas, tudo tão masculino... Uma louca
completa, sei disso... Mas quem se importa? Estou basicamente
descontrolada, tanto que pego a mão dele e trago até a minha coxa.
A maneira como seu rosto vira e seu olhar se fixa em sua
própria mão depositada sobre a minha coxa, me fazmorder o lábio
inferior de nervoso. Ele perde um tempo avaliando, antes de subir o
olhar e encontrar o meu.
— Sophie, seus pais estão ali na frente — ele diz baixo, em
um tom que somente eu posso ouvi-lo.
— Eles não estão vendo. Você pode me tocar, me beijar.
— Hoje você está me levando ao limite — confessa. —
Desde quando acordou está me provocando. Por que está fazendo
isso?
— Porque eu quero.
— Sophie, eu não sei como agir em situações assim. Tenho
medo de ultrapassar o limite com você. O que quer que eu faça?
— Não me peça para dizer agora. — Sorrio
maquiavelicamente. — Você não sabe ser o meu namorado, não é
mesmo?
— É um pouco difícil.
— Me deixa ensiná-lo?
— Quer a minha sinceridade? — pergunta, me fazendosorrir
e balançar a cabeça positivamente. Eu amo a sinceridade dele e é
tudo que eu quero. — Não confiomuito, você é safada e acho que
vai me ensinar coisas desrespeitosas demais. — Ele diz tudo isso
bastante sério, com a sinceridade estampada claramente em seu
rosto. — Você parece um pouco despudorada desde que transamos
ontem à noite. No primeiro dia você parecia uma princesa, agora
estou com medo.
— O quê? Você está com medo?
— Não é bem medo, mas você tem me provocado
constantemente e não sei até onde meu autocontrole é capaz de ir.
— Interessante.
— Qual o seu medo em relação a perder o controle? —
pergunto, avaliando a situação. Não sou boba, queridos!
— Machucá-la ou parecer abusivo em algum momento. Meu
pai me ensinou a respeitar uma mulher, a tratá-la da melhor forma,
porque mulheres são princesas. — Eu não tenho estrutura para
Henrico. — Mas, desde que começamos com as bases, algo em
mim mudou, Sophie. Descobri sensações novas, desejos novos, um
tipo de adrenalina que não estava acostumado. Eu tinha
familiaridade com meu próprio corpo, me masturbava
constantemente, porém, quando há você por perto, me tocando, é
completamente diferente, parece habitar um outro Henrico bastante
irracional em mim. Um que é descontrolado, que se excede, que
provavelmente ultrapassa limites. Tenho medo disso. Gosto de
regras, de estar no controle, de me sentir seguro, e esse outro
Henrico me traz toda a insegurança que odeio. O sexo mexeu muito
comigo e não decidi se o fatode você ser quente e safadaserá bom
ou ruim.
— Se sentiria mais seguro se eu fosse um pouco frígida

só uma pergunta para eu conseguir compreendê-lo.
— Não. Eu gosto que seja receptiva e quente, mesmo que
isso me desperte alguns medos. É melhor ser muito quente a ser
fria. Sempre fui muito frio, e essa característicasempre assustou as
pessoas, as distanciava. E, mesmo que eu não goste da
proximidade das pessoas, gosto da sua proximidade e não consigo
imaginar receber sua friezaou vê-la em uma posição ruim, em que
sempre estive. Só preciso aprender a lidar com o seu fogo e
descobrir até onde posso ir, até onde é correto ir. Você é delicada e
preciosa para mim, e o sexo é uma zona ainda desconhecida,
recém-habitada por mim. Já descobri tudo sobre o seu corpo, mas
preciso descobrir sobre os limites agora, e não acho que pesquisas
vão me ajudar.
É a coisa mais sexy do mundo debater com Henrico sobre a
nossa relação sexual. Eu acho incrívelquando ele se abre comigo,
incrívelpoder estar por dentro dos pensamentos, das dificuldades,
dos medos, das pesquisas. É surreal acompanhá-lo em pleno
desenvolvimento. Henrico está constantemente alimentando sua
mente com informações, e isso significa que as descobertas estão
longe de acabar. Eu sinto que ele fará todos os testes comigo, e
adoro imaginar que serei sua cobaia para testar os limites sexuais.
A questão é: os limites sexuais existem?
Talvez toda essa análise dele não seja necessária. Henrico
está acostumado com regras, mas não acho que existam regras
para o sexo entre nós dois. Eu sou o tipo de garota que quer tudo
dele entre quatro paredes, e que está disposta a dar tudo. Na minha
mente, é bem simples e descomplicado, mas na dele isso é algo
completamente complexo, porque ele enxerga as coisas de uma
maneira diferente da minha. Isso até me deixaria frustrada se eu
não fosse apaixonada pela maneira como ele enxerga o mundo e
todas as coisas. Eu acho fascinante esse universo azul e todas as
complexidades que rondam a mente de Henrico. Acho fascinante
seu modo de pensar em todos os mínimos detalhes, avaliar tudo,
sentir fome de conhecimento e descobertas, querer sempre fazer
tudo da forma correta, criar suas próprias regras, fazer anotações.
Estou curiosa para saber como ele vai conduzir tudo isso no sexo.
Mas, por enquanto, ficarei apenas aqui, fascinada, analisando os
avanços e a luta interna sendo travada por ele.
O único problema é que tornarei as coisas um pouco difíceis.
Se é para sair da zona de conforto,Henrico precisa saber que não é
apenas a vontade dele prevalecendo e, com todo amor que possuo,
serei um pouco da pedrinha em seu sapato. Afinal, não é apenas ele
que quer e deve testar os limites. Eu também quero e posso,
mereço isso.
— Serei sua cobaia nesse teste? — pergunto, o analisando.
— Cobaia? Essa expressão é um pouco grosseira. — Ele é
um cavalheiro. Só se transforma mesmo quando estamos nus.
— Sei que, provavelmente, conversará com tio Lucca —
comento. — Mas posso te dizer algo que quero na nossa relação?
— Por favor, Sophie. Eu preciso saber o que quer.
— Eu quero que não haja pudor, nem mesmo um pouco.
Pode ser esse gentleman em locais públicos, irei aceitar, é quase
como um fetiche. Quem o vê todo educado, respeitoso, jamais
saberá o que você faz comigo entre quatro paredes. Isso é
instigante. — Sorrio. — Tem meu consentimento para fazerde mim
o que quiser na cama.
— Eu acho que posso fazer isso.
— Eu tenho certeza que pode. Eu disse mais cedo e direi
outra vez: queria que você se enxergasse como eu o enxergo,
Henrico Davi. Eu vejo muitas coisas em você — afirmo. — Já que
estamos discutindo sobre vontades, eu tenho algumas coisas bem
pervertidas em mente.
— Sophie, essa conversa está me dando reações
inapropriadas.
— O perigo me excita. Descobri isso hoje. Desde que me
sentei nesta poltrona, estou imaginando ter seus dedos dentro de
mim, com os meus pais bem ali na frente,podendo olhar para trás a
qualquer momento. Eu iria mascarar o tesão e sorriria para eles,
como um anjo. — Henrico engole em seco, filtrando todas as
minhas palavras. — Queria receber seus toques em público,
discretamente. Desde um toque singelo na coxa a ter sua mão
enfiada por dentro do meu vestido...
— Sophie, pare, por favor.
— Queria que me beijasse em público, porque todos os seus
beijos são intensos e me fazempensar em sexo. — Ele finalmente
aperta minha coxa, e isso traz uma descarga de adrenalina no
mesmo instante. Meu bebecito é quente e sensível.
— Isso tudo é muito pervertido, realmente. Podemos não
falar de sexo? — pede.
— Eu quero sexo.
— Eu não sei como agir ainda, Sophie. Preciso pensar. Você
está jogando todas essas informaçõessobre mim quando seus pais
estão ali, na frente, e estou duro. Não sei como vou sair desse avião
sem que seus pais não notem a marca em minha calça. Sophie,
acho que essa é a vez que mais estou falando sério, é muito difícil
ser seu namorado. Você é excessivamente safada.
— Só pra você. Deveria agradecer, bebecito.
— Eu deveria? Você está me deixando nervoso, Sophie. Está
me fazendo ter um milhão de pensamentos inapropriados e
desrespeitosos, está testando muito forte os limites que nem eu
mesmo conheço, se esqueceu que sou diferente...— Ele quase fala
alto. De repente, se levanta abruptamente e desaparece pelo
corredor, rumo ao banheiro. É a primeira vez que o vejo nervoso
comigo. Dou um sorriso em satisfação.
Ele é realmente diferente... Muito diferente mesmo.
Só sai do banheiro quando aterrissamos no Rio, e vai todo o
trajeto até a casa de tio Lucca em completo silêncio. A parte mais
engraçada ficapara quando meus pais vão embora e tio Lucca abre
a porta. Henrico nem mesmo o cumprimenta, simplesmente sai
andando para dentro de casa e sobe as escadas rumo ao quarto,
deixando tia Paula boquiaberta, tio Lucca chocado e a terapeuta
dele intrigada.
— O que houve? — tia Paula pergunta enquanto tento conter
o riso.
— Sou inocente, tia Paula. Eu juro!
— Se eu não te conhecesse tão bem... — tio Lucca diz, me
abraçando.
— Eu só testei alguns limites, e Henrico está revoltado com
isso. Disse que eu esqueci que ele é diferente — explico
vagamente, indo cumprimentar a doutora Ana, que está sentada em
uma cadeira. — Quanto tempo!
— Você está ainda mais linda, Sophie. É um prazer revê-la.
— Ela sorri, radiante. — Quando soube que viriam, Lucca me
convidou para jantar com vocês, espero que não se incomode.
— De forma alguma. A senhora lida apenas com autistas ou
lida com as namoradas de autistas também? Porque, preciso
confessar, é muito difícilser namorada de Henrico. Estou viciada
nele! Trata de vícios?

— Filho? — A voz do meu pai surge do outro lado da porta,


assim que saio do banho.
Visto uma bermuda rapidamente e a abro para recebê-lo.
Finalmente o abraço, sentindo um pouco de culpa por ter entrado de
maneira abrupta em casa.
— Me desculpe por ter entrado rápido, pai.
— Quer me contar o que aconteceu? — pergunta e eu
balanço a cabeça positivamente, fechando a porta com a chave.
Meu pai se acomoda em minha cama e eu me sento ao lado
dele. Não sei por onde começar.
— É íntimo — declaro, para que ele saiba o teor da conversa.
— Imaginei que seria.
— Sophie... Eu... Não sei como namorar. Talvez eu saiba,
porém, sexualmente é difícil.Sophie tem me provocado, e isso me
causa reações. Agora que ficamos confortáveis, eu quero isso o
tempo todo, e Sophie também parece querer, mas ela é ousada e
quer agressão. — Meu pai abre e fecha a boca repetidas vezes,
então esfrega os olhos, demonstrando nervosismo.
— Eu pensei que já tínhamos chegado no limite, que após o
sexo tudo ficaria mais tranquilo... — divaga, sorrindo. — Vamos lá!
Sophie quer agressão. Defina isso.
— Ela quer tapas e quer que eu seja bruto.
— Você pode dar isso a ela. Filho, algumas garotas gostam
do sexo com uma pegada mais bruta, é normal. Há mulheres que
querem ser... Bom, serei claro aqui... Costumamos dizer "fodidas",
sem muito carinho, sem muito cuidado. É normal e bom. Você pode
dar isso a ela, só precisa dosar a sua força. Tapas de amor, como
costumamos chamar, não ferem. Podem deixar algumas marcas
vermelhas, mas não machucam, causam adrenalina. Algumas
garotas sentem tanto prazer, que até atingem o orgasmo com tapas
na bunda. É tudo questão de controlar a sua força para não
machucá-la. Não é agressão, filho. É sexo um pouco selvagem. —
Enquanto ele explica, vou memorizando as palavras.
— Sophie disse que o perigo a excita. Ela quer um pouco de
demonstrações públicas de afeto e que eu a seduza sem que as
pessoas possam perceber — digo de uma só vez. É, meu pai,
preciso de ajuda.
— Isso é interessante e comum entre os casais. Esquenta a
relação. A sensação de querer e não poder, causa sofrimento, uma
vontade de antecipar situações. Isso é válido, saudável, comum. Só
deve controlar quando, onde e como fazer isso. Todo cuidado para
não expor Sophie é pouco. Tomando cuidado, você deve sim fazer
isso, se é o que ela quer. Faz parte do pacote de satisfação.
— Isso conta para satisfazê-la? Conta para o prazer dela?
Pai, não sei se satisfaço Sophie.
— Henrico, vocês começaram a vida sexual há 48 horas,
filho. Não acha que é cedo para achar isso? Vocês têm muito o que
descobrir ainda. Estão apenas no início. — Meu pai está certo. É
cedo para ter esse tipo de pensamento. Eu a faço gozar, mas não
sei se é o suficiente.
— Ok.
— Filho, sei que regras, pesquisas, controle, são coisas
importantes para você, mas no sexo isso é meio difícilde existir,
exceto em tipos de relacionamentos entre praticantes do BDSM.
Antes que sua curiosidade ative, essa prática não é para você,
tenho certeza absoluta em relação a isso. No seu relacionamento
com Sophie, vale tudo. Só precisa lidar com isso, deixando de lado
o que te limita. Você está pensando, calculando, e não há
necessidade. Sexo é entrega, é uma dança que aos poucos você
pega o ritmo. Só deixe fluir, sem pensar muito. Se gosta de controle,
use-o apenas para controlar sua força e esqueça-o para todo o
resto. Sophie é a sua garota e ela o quer na mesma intensidade.
Não há porque recuar ou temer, apenas deixe seus instintos te
guiarem, juntamente com o prazer.
— Ok, eu entendi, pai. Muito obrigado por isso. Me sinto mais
leve e mais confiante agora. Eu posso fazer isso.
— Claro que pode. — Ele sorri. — Agora vamos descer,
porque Sophie está torturando doutora Ana com um assunto de
vício.
— Vício?
— É, ela disse que precisa de tratamento para controlar o
vício em você. — Sorrio ao ouvir isso. Sophie é a menina mais
bonita do mundo todo!!!
E safada também.
Visto uma camisa e desço com o meu pai. Pegamos uma
conversa bizarra em andamento:
— Ele tem uma veia fodedora, com todo respeito, tia Paula.
Henrico é... Uau! Vocês jamais imaginariam, não é mesmo? Nem
eu!
— Sophie!!! Isso é íntimo! — a repreendo e ela sorri. Muito,
muito a menina mais bonita do mundo todo.
— Acho que precisamos conversar sobre algumas
tendências, fugitivo — doutora Ana diz.
Estou realmente fodido!
Eu me sento para jantar ao lado de Sophie, no mesmo
instante em que minha irmã surge com o namorado. Eles beijam
todos, mas paralisam quando chegam perto de mim. Eu não sei
como agir, então ofereço a minha mão para Thomaz e recebo um
beijo molhado de Yaya. Não me sinto confortável,embora esteja me
esforçando.
— Sophie, é realmente triste te olhar com outros olhos —
meu pai comenta, sentando-se. — É difícilser seu tio, dindo e sogro
ao mesmo tempo. 3 em 1.
— Por que é difícil?— Sophie pergunta, rindo, e meu pai
balança a cabeça negativamente.
— Prefiro guardar essa informação para mim. Só precisa
saber que é realmente difícilpra caralho! Padrinhos são tipo um
segundo pai, é foda... — Não consigo decifrara resposta dele bem,
talvez ele queira se referirao fatode saber coisas íntimassobre ela.
Ao menos ele entende que é muito difícilser qualquer coisa de
Sophie.
— Henrico, sabe que não fugirá de uma boa conversa, não é
mesmo? — minha terapeuta pergunta e eu a encaro.
— Doutora Ana, me desculpe, não estou com vontade de
conversar agora.
— É claro que desculpo. Mas tem que me prometer que
antes de voltar a São Roque, irá tirar alguns minutos para ir até o
consultório. Ao menos uma última consulta presencial antes de
voltarmos a era da tecnologia — argumenta, sorrindo.
— Vou prometer, mas talvez eu não vá.
— Perfeito! — exclama, animada, enquanto Sophie sorri e
deposita um beijo em minha bochecha.
— Você é único, bebecito.
Minha mãe se aproxima e me entrega um prato com comida.
— Quando soube que viria, preparei seu prato especial. Filé
mignon à parmegiana, com arroz branco e fritas— anuncia. Eu amo
mesmo essa refeição.Não é a minha preferida do mundo, mas é a
melhor comida que minha mãe faz.Só o cheiro já basta para que a
fome surja.
Abraço minha mãe e ela deixa um beijo carinhoso em minha
testa, antes de voltar ao seu lugar. Todos começam a comer, porém,
além de comer, me pego analisando os dois casais que estão à
mesa. Meu pai e minha mãe, Thomaz e Yaya. Preciso ver como eles
se portam como namorados.
Enquanto eu e Sophie estamos distantes, os dois casais
estão muito próximos, e isso me deixa intrigado. Talvez eu esteja
fazendo algo errado. Pensar nisso faz com que eu puxe a cadeira
de Sophie e a traga para mais perto de mim.
— O que foi isso? — ela pergunta baixinho.
— Estávamos distantes, eu acho.
— Se quiser, eu posso me acomodar em cima das suas
pernas, sentando sobre determinada coisa... — cochicha, piscando
os olhos e com um sorriso de anjo.
— Você é muito safada, Sophie! — Meu pai se engasga,
cuspindo toda a bebida que estava em sua boca no chão. Só então
percebo que eu disse alto demais. Enquanto minha mãe bate
repetidas vezes nas costas dele, as demais pessoas estão rindo. —
Me desculpe por isso, Sophie.
— Está tudo bem. Não disse uma mentira, bebecito. Só
nunca diga isso na frente do meu pai ou do meu irmão, por favor.
Preciso garantir minha sobrevivência.
— Você não pode ficar falando coisas sujas no jantar — a
repreendo.
— Foi mais forte que eu,bebecito, me desculpe por isso.
— Vou te desculpar dessa vez, Sophie. — Ela dá um sorriso
e eu penso em afastar sua cadeira.
— Puta merda! Ao invés de ser Yasmin, a razão do meu
infarto será Sophie — meu pai diz.
— Vocês agem como se Henrico fosse um verdadeiro santo,
não é mesmo? Eu sou a safada e ele o anjo — Sophie comenta,
rindo. — Eu gostaria de dizer o quanto estão enganados, mas me
manterei silenciosa. E você, Henrico Davi... é melhor eu ficarcalada
neste momento.
Sophie é muito confusa em alguns momentos.
Minha famíliatambém. De um minuto para o outro, eu e
Sophie viramos a atração principal do jantar.
— Nos conte como tem sido morar juntos — minha mãe
pede, demonstrando estar bastante curiosa sobre a minha nova
rotina.
Sophie responde "ótimo" ao mesmo tempo em que eu
respondo "difícil". Isso atiça a curiosidade de todos, infelizmente.
— Ótimo ou difícil?— doutora Ana pergunta, se divertindo
com a situação.
— Ótimo, porém difícil — respondo.
— E como isso se encaixa? — Yaya é quem pergunta agora.
A conversa virou um interrogatório.
— Eu tenho um pouco de dificuldadeem fazeratividades que
são comuns, como ir à padaria, comprar pão sozinho, entre outras.
Por isso, Sophie tem que ir comigo em todos os lugares e isso me
deixa incomodado. Além disso, morar com Sophie é muito difícil,
porque ela usa roupas curtas e coladas. Ela não é muito bagunceira,
estamos aprendendo a cozinhar juntos, e ela é muito bonita quando
acorda nua. Vestida também, mas prefiro nua. É difícilpassar o dia
todo com ela vestindo roupas curtas e coladas, que marcam o
corpo. Todo o restante é muito bom. Ótimo.
— Oh, meu Deus! Isso é a coisa mais fofado mundo! —
minha mãe exclama, sorridente.
— Isso foi safado, porém doce, bebecito — Soso diz,
passando o nariz no meu. — Eu te amo.
— Sophie, eu adoraria ouvir a sua versão agora — meu pai
pede.
— É ótimo. Henrico está se esforçandopara superar algumas
limitações. Às vezes ele tem iniciativas grandiosas e nem mesmo se
dá conta sobre isso. Ele tem se esforçado para ficar comigo
bastante tempo, conversamos o tempo todo. — Ela sorri. — Ele
tornou-se bastante tagarela nos últimos dias e eu amo isso. Porém,
aprecio também quando ele fica em silêncio, fechado e pensativo,
porque acho realmente sexy a expressão dele tomado pela
seriedade. É um pouco difícil
, Henrico descobriu que eu amo cuecas
brancas e vive de cueca branca. É difíciltambém porque fico
alucinada quando ele veste bermuda ou calça de moletom. Sem
contar que, em alguns momentos, ele anda sem camisa pela casa, e
não ajuda que ele seja o garoto mais bonito do mundo e mais
gostoso também. Em geral, a experiência está sendo perfeita de
todas as maneiras possíveis, tio dindo. E Henrico também é lindo
quando acorda, principalmente pela ereção matinal. Obrigada, de
nada!
— Lindos detalhes! — Yaya fala, fazendo uma cara
engraçada. — Sophie resolveu ser sincera demais, não?
— Parece que sim, e isso é mesmo muito complicado para
mim — respondo. — Eu bati em um homem por Sophie ser a
menina mais bonita e gostosa do mundo.
— O quê? — meus pais perguntam juntos.
— Estávamos em um bar, um homem tocou em Sophie sem
o consentimento dela. Sophie é a minha garota, minha e só minha.
Eu perdi a cabeça e bati no homem, mas tudo ficou bem e Sophie
ficou protegida — explico.
— Puta merda, filho! Você não deve brigar — minha mãe
repreende.
— Mãe, eu não sou agressivo. Não sou como o Pablo. Mas
eu estava defendendo uma menina. Meu pai me ensinou que
devemos proteger as meninas, e o homem tocou em Sophie. Ela é
menina e é minha namorada. Eu ia tomar injeção, porque estava
muito nervoso e com medo, mas Sophie me salvou.
— Todos estavam no bar, tia. O idiota do homem chegou a
passar a mão na minha bunda. Henrico me defendeu, ficou muito
nervoso, mas consegui lidar com ele, sem que precisasse aplicar a
injeção. Não falamos antes porque conseguimos resolver tudo, eu,
ele e Samuel. Não queríamos preocupar vocês.
— Nós tomamos banho juntos, como você faziacomigo, mãe
— digo, sorrindo. — Mas tive reações com Sophie.
— Teve — Sophie confirma, rindo. — Oh, meu Deus! Isso é
muito engraçado!
— Sinceramente? Vocês dois se superaram na loucura! É
muito para a minha mente conseguir compreender. Disparado
mesmo, de todos os casais, vocês são o mais louco! O tipo de
loucura de vocês é diferente. Todos que ficamperto acabam sendo
contagiados com esse negócio. É um tipo de loucura que carrega as
pessoas. Vocês misturam inocência com safadeza, transformam
momentos conflituosos em momentos completamente fofos.Quem
está de fora fica escandalizado e morrendo de amores. Eu não
consigo entender essa relação — Yasmin solta um monte de coisas
que tento assimilar. Me assusto quando ela começa a chorar. — Me
desculpe! É só... Eu e Henrico sempre fomos muito distantes. Eu
tinha que ficaro acompanhando de longe, enquanto ele era melhor
amigo do nosso irmão. E agora está tudo tão diferente e eu queria
estar tão perto... e ele simplesmente se mudou para longe. Queria
tanto poder acompanhar o relacionamento de vocês de perto, todos
os avanços do meu irmão. Queria poder ficar com ele em alguns
momentos, já que finalmente permitiu me abraçar, me acolher como
irmã. O respeitei e o compreendi a vida toda, mas agora a distância
parece injusta, sinto que estou perdendo algo e que nossos pais
também estão. Estou imensamente feliz por vocês, por vê-los tão
lindos e tendo algo tão puro, mas estou triste por mim e por nossos
pais. Agora Henrico me deixa abraçá-lo e eu não posso fazer isso
com frequência. Não posso ser amiga dele. — Todos na mesa estão
chorando junto com ela, até mesmo Thomaz. Não sei como reagir,
mas estou triste agora. Não gosto de vê-la chorando.
— Me desculpe, Yaya — peço, ressentido por vê-la sofrer
.
— Por que não fica aqui? Eu não posso ir para lá, porque
estudo, nossos pais não podem ir devido ao trabalho. Eu entendo
que lá seja silencioso e tenha uma maior qualidade de vida para
você, mas... Vivemos por você, Rico. Mamãe fica louca para saber
de novidades, todos ficamloucos querendo acompanhá-lo de perto.
Ligamos para Samuel, Théo e Luiz Miguel todos os dias, em busca
do mínimo de novidade. Sabe, rezávamos tanto para que
conseguisse ir adiante, e você foi longe, porém não estamos
podendo acompanhar isso de perto.
— Filha...
— Não, mãe. Me perdoe, ok? Mas eu guardei isso a vida
inteira. Eu sonhava com os abraços do meu irmão, pedia a Deus
para que ele me enxergasse e me deixasse entrar. No fundo, vocês
se sentem da mesma forma, porém não dizem porque têm medo de
que Henrico sofra um retrocesso. Mas não acho que ele vá sofrer.
Henrico se transformou em outra pessoa desde que começou a se
relacionar com Sophie, e ele é um homem feito, que pode lidar com
algumas verdades — Yasmin desabafa, chorando, e se vira para
mim. — Henrico, você não é diferente. Você é como nós, faz parte
de quem somos. Somos uma famíliae todos estão imensamente
tristes desde que você se foi. E eu não deveria jogar isso sobre
você, mas também não consigo mais guardar dentro de mim.
Espero, de coração, que não te afete negativamente, mas espero,
principalmente, que consiga compreender com o seu coração o que
acabei de dizer. Você é importante, você fazparte de nós, e fazuma
faltaimensa. Eu seria a menina mais felizdo mundo se o tivesse por
perto. Poderia ir morar em outro lugar com Soso, mas seria incrível
tê-lo ao nosso alcance a qualquer momento. Eu queria fazercoisas
de irmãos com você. Eu sempre fiz com Samuel, mas ele não
substitui a falta que você faz,tampouco a importância que você tem
para mim. Eu te amo demais e agora vou sair daqui, porque preciso
chorar sozinha no meu quarto. Falei demais. Me perdoe, papai. Me
perdoe, mamãe. Me perdoe, Rico. — Ela sai da mesa, deixando
todos levemente abalados.
— Bom, eu vou falar com ela — Thomaz anuncia, mas decido
que sou eu quem preciso ir.
— Eu vou — aviso, surpreendendo a todos. — Sophie,
você... — Ela não deixa que eu termine a frase. É como se
soubesse exatamente o que eu iria dizer.
— Você tem a minha permissão para tomar qualquer decisão
que quiser. Eu sempre estarei com você — afirma, segurando a
minha mão. — Você é o meu encaixe, menino mais bonito do
mundo.
— Você é mesmo doce e delicada. Uma princesa — falo,
beijando sua testa, e fico de pé. Minha mãe está quase chorando,
mas não faz enquanto me mantenho presente.
Não sei o que vou falar com a minha irmã, porém, mesmo
assim, me pego subindo as escadas, rumo ao quarto dela. Nunca
conversamos muito, então estou um pouco envergonhado de invadir
o espaço dela. Posso contar nos dedos de uma só mão quantas
vezes entrei no quarto de Yaya, mas agora analiso melhor. É lilás e
branco, cheio de coisas de meninas e, em uma das paredes, há um
painel gigante de fotos que possui fotos minhas. Ela me ama e eu
sou importante, mesmo tendo sido um irmão ruim.
Ela está encolhida na cama, abraçada a uma almofada, e
chorando de verdade. Não gosto de toques, mesmo assim façoum
carinho em seu rosto quando me sento ao seu lado.
— Me desculpe por não ter sido um bom irmão. Eu nunca
soube como desempenhar esse papel com você. Sempre foi
imensamente difícilver como todos eram iguais e como eu era
diferente. Com Samuel foi fácil, apenas porque o conheci quando
era uma criança. Ele e Sophie eram pacientes comigo e eu me
encaixava neles de alguma forma, mesmo em meio às minhas
diferenças. Samuel não morava conosco, então eu não
acompanhava muito o desenvolvimento dele e não captava com
facilidadeo quão diferente éramos. Já você, eu a vi nascer, e você
sempre foi tão perfeita e normal... Será que você entende o que
estou dizendo? Não sou bom em conversar muito e, principalmente,
não sou bom em explicar como me sinto. De qualquer forma, Yaya,
fuidistante de você a vida toda, mas sempre a amei e iria protegê-la
se algum menino te tocasse sem consentimento, igual fizcom Soso.
Eu te amo, mesmo nunca tendo dito e mesmo nunca tendo deixado
você se aproximar muito.
"Sempre achei que todas as pessoas novas que surgiam em
minha vida jamais seriam capazes de compreender que eu era
diferente, que via e absorvia as coisas de uma maneira diferente.
Por isso sempre me mantive dentro da zona de conforto,onde havia
lugar para uma quantidade pequena de pessoas. Infelizmente, a
excluídisso, e agora enxergo que foi um erro. Porém, por favor, me
entenda. Não foi por maldade ou por não gostar de você, foi porque
eu mesmo não aceitava ser diferente de você e não sabia como
introduzi-la em meu mundo. Se parar para observar, estou no
mesmo círculo de confiança uma vida inteira: meus pais, doutora
Ana, Sophie e Samuel. Nem mesmo nossas avós e nossos avôs
estão inclusos nisso. Por mais que tivesse facilidade em conversar
com eles e receber carinho, nunca os permiti ir longe comigo. Você
chegou depois de todos eles. Enfim, Yaya, minha mente é muito
complexa e bastante diferente da sua, por isso acreditava que
jamais poderíamos ter uma convivência mais próxima."
— Obrigada por conversar comigo, por se abrir, mesmo
depois de anos — ela fala, sentando-se e me dando um abraço
esmagador. Tento me sentir calmo com a proximidade. Sophie me
abraça e eu me sinto bem. Posso fazerisso com Yaya. Ela é minha
irmãzinha, por isso, a aceito e retribuo o abraço.
— Eu posso tentar ser seu amigo — afirmo. — Sabe,
descobri que, aonde quer que eu vá, sempre continuarei sendo o
garoto atípico,repleto de limitações. Descobri que nunca será fácil,
como imaginei que poderia ser. Descobri também que não é uma
mudança para um lugar sossegado que vai me transformar, e sim a
motivação. São Roque é silencioso e apenas isso. Todo o restante
continua aqui dentro de mim, me limitando, me incomodando, sendo
parte do meu universo azul. E, sobre motivação, descobri que
Sophie é a minha motivação. Sinto que se ela estiver ao meu lado,
eu posso fazer qualquer coisa. Ela me capacita, me motiva, me
impulsiona. E com tudo isso que acabei de te dizer sobre Soso,
ainda tenho muitas dificuldades, como ficar abraçado com ela em
locais públicos, tocá-la livremente, entre outras questões. É tudo
muito difícilpara mim, Yaya, embora eu esteja tentando de todas as
formasvencer. — Dou um sorriso fraco.— Quero ser o seu irmão, e
Sophie disse que posso tomar qualquer decisão. O que preciso
fazer para isso acontecer? O que te faria feliz? Não fui seu irmão
antes, mas sinto que posso fazer isso agora. Eu posso fazer isso.
— Eu não sei se posso pedir algo — minha irmã diz em um
tom de desabafo.— Não seria justo e, talvez, eu pareceria egoístao
bastante. Só estou dizendo que queria você perto. Todos querem o
mesmo que eu, mas ninguém tem a coragem de dizer. E há algo
mais, só de você estar me permitindo falar, já significa muito.
Estamos tendo a nossa primeira verdadeira conversa, e isso é
extremamente incrível para mim. Há uma imensidão de gratidão
dentro do meu peito agora. Esperei 17 anos para isso. Você pode
me entender ou devo parar de falar?
— Posso te entender. Prossiga. Não precisa ser cautelosa
em suas palavras.
— É só que... a distância agora parece injusta, mesmo que
justa. — Aí complica meu entendimento, porém não tenho coragem
de dizer isso a ela, por isso, apenas ouço. — Todos queremos que
seja feliz e estamos vibrando com cada um dos seus avanços,
muito. Porém, ao mesmo tempo que estamos felizes, estamos
tristes por não estarmos acompanhando tudo de perto. Acho que
principalmente a mamãe. Ela sonhava dia e noite com todas essas
maravilhas que estão acontecendo com você, e simplesmente está
tendo que se adaptar a uma realidade que ela jamais imaginou, e ao
fatode que não estará tão perto para viver essa sua nova fase.Não
me entenda errado, irmão. Por favor. Eu me sinto perdida nisso,
porque é a primeira vez que está deixando eu me aproximar e não
poderei ter um convívio contínuo com você.
Eu entendo o que ela está dizendo. É como se todos
tivessem lutado uma vida toda pelos meus avanços e, agora que
eles finalmente aconteceram, eu resolvi ficar longe, sem que eles
possam acompanhar, como me acompanhavam na fase difícil.Tudo
é questão de ponto de vista, e há vários em todas as coisas que
Yaya está dizendo.
Pensando friamente, não parece justo com os meus pais, em
especial com a minha mãe. Ao que parece, ela está sentindo
bastante o meu distanciamento. Meu pai está mais empolgado por
todas as conquistas, ele sempre foi mais prático. Já a minha mãe é
a mulher do coração, emocional. Todos estão felizes por mim, pelo
meu crescimento, por estar dando passos desafiadores, mas há
uma certa melancolia devido à distância, já que não estão tendo a
oportunidade de conviver com uma nova realidade, que foi
extremamente difícilpara eu conquistar (e que ainda estou tentando
diariamente vencer).
Sobre ser irmão da Yasmin, ainda é difícildar tudo o que ela
quer, mas a compreendo agora. Eu poderia tentar, mas como
faremos isso se estou a muitos quilômetros de distância?
Há muitos pensamentos em minha mente agora. Sei que
Samuel vai retornar ao Rio e, por mais que eu tenha o encorajado,
não sei dizer como será a vida distante dele. Morar em São Roque
pareceu agradável quando acreditei que, ao menos, meu irmão
estaria por lá.
Há agora uma lista de prós e contras em minha mente, e
sinto a súbita necessidade de pegar um bloco de anotações e
pontuar cada item dessa lista. Preciso disso quando minha mente
fica muito confusa e repleta de informações.
Em São Roque não há muito barulho, não há aglomerações e
não há minha base familiar, que foide extrema importância em cada
etapa da minha vida. Não sei tomar uma decisão agora. Porém, sei
que preciso de um tempo sozinho para pensar, escrever e absorver
as questões.
— Me desculpe se disse coisas demais. Para completar,
estou de TPM. Acho que tudo está me levando ao limite. — Minha
irmã se desculpa, trazendo mais um item para questionamento
interno: a TPM de Sophie.
— Ainda não acompanhei a TPM de Sophie, não sei como
lidar com isso de perto — confesso. — Será que ela ficará como
você? Sensível assim? — Y
aya ri, mas estou pensativo agora.
— Provavelmente, ficarámais dengosa. Eu gostaria de vê-lo
lidando com Sophie de TPM.
— Eu não sei se gostarei disso, mas não tenho escolha. Ela é
minha noiva e moramos juntos, então terei que lidar com isso.
Talvez brigadeiro ajude. Eu me lembro de quando éramos mais
jovens. Sophie tinha TPM e ficava deitada por quase dois dias,
então eu faziabrigadeiro e levava na casa dela. Porém, não ficava
perto. Só entregava e ia embora.
— Eu sei, e isso sempre foi muito encantador, Henrico —
Yaya diz. — Entende porque estou tão sensível?Vocês dois já eram
tão lindos antes de "ser".
— Eu não entendo o que quis dizer, mas tudo bem, Yaya.
Entendi um pouco sobre as questões anteriores e preciso ficar um
pouco só, para pensar e obter um entendimento ainda mais amplo.
Há mais alguma coisa que queira dizer?
— Sim! Você acabou de agir como um irmão, e estou muito
feliz por isso. Valeu a pena a espera. Estou orgulhosa do homem
que se tornou e feliz pela nossa proximidade. Eu amo seu jeitinho,
amo que tenha que se isolar para pensar em todas as questões. É
algo que sempre admirei. Você pode ser impulsivo em momentos de
crise, mas em outros momentos você é apenas sensato, racional. É
tão legal ver que conhece os próprios limites e que respeita a si
mesmo, a ponto de saber quando precisa se afastar. Sempre se
achou tão diferente e achava que isso era altamente errado. Rico,
você não sabe de nada. Eu penso que talvez seja você o correto, e
todas as demais pessoas erradas. Você fazas coisas tão certas, e
acho que todos deveriam segui-lo. Com certeza o mundo seria
melhor e mais prático, repleto de verdade, sinceridade,
racionalidade, entre muitas outras coisas. Sempre ouvi nossos
familiares dizendo uns para os outros "você é grande". Hoje sou eu
quem digo a você, irmão, "você é grande" e a maneira como vê e
enfrentao mundo é perfeita!— Yaya me abraça e eu não sei bem o
que dizer a ela agora. Simplesmente me esforçopara retribuir, mas
dura pouco. Me afasto e balanço a cabeça positivamente, antes de
deixá-la no quarto.
Ao invés de voltar para o jantar, sigo para o meu quarto e me
acomodo em minha cama. Completamente imerso na escuridão,
tento refletir sobre todas as coisas e encontrar as respostas que
preciso. É bem difíciltomar decisões. Há muito por trás de todas as
coisas, e isso me deixa muito perdido.

Tia Paula parece prestes a ter um surto. Acho que estou


bastante parecida com Henrico, peguei a mania de observar as
pessoas e tentar desvendá-las, e é isso que estou fazendo neste
momento.
Não sou apta a julgar as pessoas, mas sou apta para tentar
entendê-las, buscar respostas. E, de repente, estou tendo algumas.
Tia Paula tenta proteger Henrico do mundo e isso parece fazer
sentido. Eu, provavelmente, faria o mesmo ou até mesmo farei, se
tiver um filho com autismo e tenha que enfrentar todas as
dificuldades que ela enfrentou.
Ela parece acreditar que Henrico deve ser privado de tudo e
está absurdamente desesperada por Yasmin ter dito tudo o que
disse. Sinceramente, eu sou capaz de compreender a todos aqui,
em especial Yasmin. Eu ficaria muito desesperada se Luiz Miguel
agisse comigo da forma como Henrico agiu com ela a vida toda.
Não é que ele não goste dela, mas, levando em conta que ele
sempre se achou diferente e insuficiente, sempre foi mais fácil
ignorá-la, manter a distância. Henrico sempre achou que ela jamais
o compreenderia.
Tia Paula tenta privá-lo de ouvir algumas verdades e não sei
dizer até onde isso é saudável para Henrico. Acho que por todas as
lutas contra bullying, entre outras questões, ela acabou adquirindo
um mecanismo de defesa do filho e isso certamente deve ser muito
comum entre as mães. Acontece que Yaya soube escolher uma boa
fase para se abrir com o irmão. Henrico está mais calmo, confiante,
maduro, e certamente saberá ouvi-la e lidar com todas questões,
por mais que eu saiba que certamente haverá um distanciamento
dele para pensar e colocar as ideias em ordem.
Não vou julgar a ação de Yasmin. Eu faria o mesmo. E a
entendi muito claramente. O que ela quis dizer é que acompanhou
todas as lutas dos pais e a própria luta, e não acha justo que agora,
finalmentequando Henrico deu o maior passo da vida, nossa família
tenha que acompanhar isso de longe.
É algo que também fazsentido, embora possa ser difícilpara
algumas pessoas compreenderem. Henrico merece a liberdade de ir
e viver como quiser, mas talvez tenha se apressado muito nesta
questão e não tenha dado um tempo de sua famíliaabsorver suas
mudanças, conviver com essas mudanças e se acostumar a elas.
Isso é complexo, não é mesmo? Divide opiniões e talvez nem haja a
coisa certa a ser feita. Acho que dessa vez Henrico terá que seguir
o coração e isso será mais um desafio para o meu garoto racional. E
eu, como boa noiva e amiga, serei a base de apoio, aquela que fará
qualquer coisa que ele decida por nós. Não posso deixar de pensar
em quanto meus pais ficarão felizes se Henrico optar por passar
uma temporada aqui no Rio, ao menos até nossa casa ficarpronta
em São Roque. Essa é uma opção, não? Vou deixar com que ele
decida, mas se ele escolher ficar, a felicidadeirá se apossar de toda
a família, com certeza.
— Tia Paula, me permite dizer algo? — peço, enquanto tio
Lucca tenta acalmá-la.
— Por favor.
— Acho que está sendo pessimista demais agora. Desculpe-
me dizer — falo com a sinceridade que herdei do convívio com
Henrico. — Entendo você, tia. Entendo as dificuldades.Mas, sendo
noiva de Henrico, posso te dizer que ele está preparado para sair da
zona de conforto, tanto que ele subiu para conversar com a irmã,
para tentar compreender o que está de fato acontecendo. Não
convém repreender Yasmin por ter se aberto após tantos anos, e
não convém temer a reação de Henrico. Ouça o que estou dizendo,
ele está preparado para lidar com situações assim, ele não é mais
um garoto tão limitado, muito pelo contrário. Henrico tornou-se um
homem que possui, sim, limitações, mas que está altamente
disposto a enfrentar todas elas. Ele se sairá bem com Yasmin. Eles
mereciam esse momento, por mais que tenha parecido dramático,
tia Paula, não é dramático. É uma conexão que Yaya esperou e
merece ter. É o grande primeiro ato de irmandade entre os dois e
deveria ver isso com olhos positivos.
— Pronto. Não preciso dizer mais nada, Paula — tio Lucca
diz, sorridente. — Sophie expôs todos os meus pensamentos.
— Sophie, que mulher linda você se tornou — tia Paula
elogia, emocionada. — Obrigada pelo entendimento e pelas
palavras. Realmente tem sido difícil me desfazer de velhos
costumes que não cabem mais. Henrico mudou e isso requer que
eu mude minha postura em relação a ele também. Talvez tenha
parecido que não acredito no potencial do meu filho, mas eu
acredito. Porém, com todas as coisas que ele passou na
adolescência, passei a tentar protegê-lo do mundo, a mantê-lo em
uma redoma ou algo assim. Não tenho vergonha de dizer isso. Sou
mãe. Uma mãe que lutou com o filho por 22 anos. Eu sei que estou
pecando pelo excesso, mas tenho tanto medo de que meu filho
tenha uma crise, é como se eu tivesse ficado levemente
traumatizada pelo passado e esteja temendo tudo no presente. —
Está aqui um desabafode uma das mães mais incríveisque já tive o
prazer de conhecer. Não sei se eu teria a força,a determinação e a
garra de tia Paula. É invejável.
— Determinadas situações pedem para que eu deixe a ética
de lado — doutora Ana diz. — Sempre jantamos juntas e nunca
entramos em méritos da psicologia fora do consultório. Mas, há
perdão para mim, para nós. Acompanho Henrico desde o
diagnóstico, tornamo-nos uma família. E eu só vou dizer algo, Paula,
algo que já disse em nossas últimas conversas. Deixe Henrico voar
e confie que ensinou a ele o caminho certo a ser percorrido. Ele teve
uma base que 80% dos meus pacientes não tiveram, então confiee
relaxe. É como Sophie disse, é uma conexão que tanto Yasmin
quanto ele precisam e merecem ter. Vai ser lindo, embora possa ser
confusono início.Ela disse o que estava guardado em seu coração,
deu ao Henrico a mesma sinceridade que ele dá a todos. Foi bonito
vê-la se abrir e bonito vê-lo se levantar desta mesa disposto a
compreendê-la melhor. Há aqui só avanços e motivo algum para
temer. E, Sophie, eu sempre torci muito. Em anos de consulta, tentei
entender o que a fazia tão diferente para Henrico, e agora estou
tendo a resposta. Um ser humano lindo por dentro e por fora, repleta
de compreensão e amor. Pense em uma terapeuta feliz? — Ela
sorri. — Sou eu!
— Obrigada — a agradeço timidamente. — Talvez a senhora
não saiba, mas eu sou grata a tudo o que feze fazpelo meu menino
mais bonito do mundo. Muito dos avanços dele são méritos seu e de
todos que sempre confiaram e o impulsionaram. Obrigada, doutora
Ana.

Na tentativa de dar todo o espaço para Henrico pensar,


acabo ficando na sala, dando a desculpa de que estou sem sono e
de que quero ver filme. Todos vão dormir e estou receosa se há um
momento certo para voltar ao quarto ou se devo apenas dormir por
aqui. É confortável, não seria ruim.
"Confortável". Essa palavra mudou de significado para mim,
definitivamente.Ela me fazpensar em todas as coisas incríveisque
Henrico me fazsentir desde que resolveu ficar"confortável". Eu me
pego mordendo meu lábio e contendo um sorriso de pura satisfação.
Quase morro quando meu celular vibra, informando uma nova
mensagem. O nome de Henrico surge na tela, para a minha
surpresa.
"Oi, Sophie! Boa noite! Posso te perguntar algo? Já que sei que a
resposta é sim, então vou direto à pergunta: com todo respeito, você
já enviou fotos ousadas?"
Começo a gargalhar sozinha, tentando entender o
questionamento e a maneira formal.
"Oi, Henrico Davi. Boa noite! Não. Eu nunca enviei fotos ousadas
para qualquer pessoa, mas ficaria feliz em receber uma foto ousada
sua e retribuí-la com uma foto ousada minha. Atenciosamente,
Sophie Albuquerque."
Fico imaginando os neurônios dele queimando agora.
Meu riso termina por completo quando ele envia uma
mensagem com uma foto e uma legenda que mal leio. Senhor da
glória, Santa Josefina e todos os santos! Ele está enrolando em uma
toalha branca, sem camisa, com todos os músculos expostos.
Abençoado é esse homem e a genética da tia Paula (e do Pablo,
que nasceu pelo cu. Aliás, ele pode até ter nascido pelo cu, mas ele
fez um homão da porra do caralho, que certamente não saiu pelo
orifício anal da tia Paula).
"É a sua vez, Sophie."
Talvez eu nem esteja tão sexy quanto ele, estou descabelada
e com cara de sono, mesmo assim vou até o banheiro e tiro uma
foto qualquer para enviar.
"Uau, Sophie! Você é sexy e muito gostosa. Parabéns. Se me
permite ser sincero, quero comer você. Estou indo buscá-la."
Tudo em mim se desespera ao ler a mensagem.
É incrível como uma frase tem o poder devastador. "Estou
indo buscá-la" abalou meu psicológico e me pego digitando:
"Terá que me encontrar, bebecito."
"É um desafio?"
"Gosto de desafiá-lo."
"É bom ser esperta e se esconder bem, Sophie. Você tem poucos
segundos para fazer isso. Estou indo buscá-la!"
Sorrio amplamente e começo a correr. Brincar de pique-
esconde com Henrico Davi certamente será divertido o bastante...
Estou ansiosa para ser encontrada.
Há uma quantia louca de adrenalina sobre a brincadeira que
acabei de inventar. Eu me sinto como uma mocinha em perigo,
como a Chapeuzinho sob os olhos do Lobo Mau ou algo assim.
Talvez tenha sido uma péssima ideia, mas saiu de mim antes que eu
pudesse processá-la.
Até passa pela minha cabeça ficar no topo da escada, para
mostrar o quanto quero ser pega. Porém, decido que será mais
divertido se eu me esconder. Quero ver a reação de Henrico ao me
pegar. Pensando nisso, saio para a enorme área externa da casa.
Não é à toa que Yaya diz que construirá uma casa aqui. Há espaço
de sobra, e isso significa que há muitos lugares propícios para um
esconde-esconde.
Passo pela academia, pelo salão de festas e decido me
esconder atrás do balcão da área de churrasqueira. O único
problema é que tenho um pouco de medo do escuro quando estou
sozinha e todos estão dormindo. Pondero ligar a lanterna do meu
celular, porém, obviamente, serei descoberta com muita facilidade.
Meu coração agora está acelerado por dois motivos:
adrenalina e medo. Não demora segundos até que uma lanterna é
mirada diretamente em meu rosto.
— Sophie, você é muito bobinha e inocente de se esconder
levando seu celular. Eu sei rastreá-la. Não teve graça — Henrico
diz, rindo, e eu saio correndo para fugir dele.
— Agora tem graça? — pergunto, eufórica, enquanto ele
corre atrás de mim. De repente, temos 10 anos de idade outra vez.
Eu posso relembrar perfeitamente de uma cena exatamente como
essa. A diferença é que, quando ele me pegou, me fez cócegas e
me jogou água. Certamente, não é isso que ele fará desta vez.
Olhando para trás, vejo o momento exato em que ele joga a
lanterna longe e corre mais rápido. Eu corro para dentro do salão de
festas e saio esbarrando em diversas mesas, fazendo um barulho
que não é muito bem-vindo.
Quando ele finalmente está prestes a me pegar, coloco uma
mesa entre nós e fico sorrindo.
— E agora, bebecito?
— Por que tentar fugir? Não há a menor chance de escapar
agora, Soso. — Ele salta a mesa e eu abro a boca em choque. Não
é possível enxergá-lo muito bem, mas sobre sentir... eu sinto tão
bem quando suas mãos deslizam pelo meu rosto. Sinto tão bem
quando sua boca reivindica a minha. Sinto tão bem quando, de
repente, meu corpo se torna uma bagunça de necessidade.
A minha alma grita por Henrico, juntamente com meu coração
e meu corpo.
Ele leva uma de suas mãos até a minha nuca e usa a outra
para apertar meu seio. Eu afasto nossos lábios e gemo de prazer,
esquecendo onde estamos e a chance de sermos pegos. Nada mais
importa, apenas tudo o que ele me faz sentir.
É tão louco sentir o calor surgindo dos meus pés e indo até a
cabeça, varrendo lentamente meu corpo, banhando-o como
chamas. Começa tão lento e em questão de segundos me sinto
queimando por dentro. O calor se mistura com o leve friozinho na
barriga. É quase a mesma sensação de estar em queda livre,
porém, mais intensificada, por haver um homem querendo
exatamente me deixar louca de tesão.
Estou inebriada quando ele me pega em seus braços,
fazendo com que eu rodeie minhas pernas em sua cintura. Nem
digo qualquer palavra, deixo que ele me leve para onde quer que
queira, desde que apague o fogo que acendeu e acalme meu desejo
desesperador.
Ele entra no interior da casa e sobe as escadas rumo ao
quarto dele, então me dou conta de que iremos transar em sua
cama pela primeira vez. A cama onde costumávamos brincar
quando crianças, assistir filmes na adolescência. Quantas vezes eu
me imaginei esparramada por ela, aguardando por ele para me
foder?É quase como um fetiche da adolescência sendo realizado, e
isso me faz sorrir.
Uma vez que ele fecha a porta com chave, eu volto a
esquecer da vida e o beijo como uma desesperada.
Quando Henrico me coloca no chão, levo minhas mãos à sua
camiseta e a retiro rapidamente. Há um sorriso em seu rosto e seus
olhos estão bastante avaliativos. O encarando, levo minhas mãos na
cordinha que prende sua bermuda e desfaçoo nó, logo em seguida
a deslizo até o chão, caindo de joelhos.
— Oh, não, Sophie! — ele diz, agarrando meus cabelos. A
ação me surpreende, não por ele não querer, mas por estar sendo
levemente rude. Isso me deixa com mais tesão e eu não obedeço a
sua ordem.
Levo minhas mãos à barra de elástico da cueca boxer e a
deslizo para baixo, deixando seu pau devidamente livre. Agarrando
meus cabelos, Henrico tenta impedir que eu o leve em minha boca,
mas eu forço e logo seu aperto fraqueja. É tão quente fazer isso o
olhando de baixo e encontrando seu olhar fixado em minha boca.
Deve ser uma visão ruim, ele mal se encaixa em minha boca e é
necessário que eu fique o lambendo, levando apenas uma parte
dentro dos meus lábios. Quando fecho minhas mãos em torno de
sua ereção, Henrico solta um som alto, que fazparte do meu corpo
contrair.
— Sophie, quero você nua em minha cama. Agora! —
ordena, voltando a puxar meus cabelos, e sei que agora não há
mais conversa. Terei que ser uma garota obediente para o meu
bebecito.
Fico de pé e ele não perde tempo em me deixar nua. Me
pergunto se um dia ele irá rasgar minhas calcinhas, mas deixo esse
tópico para um outro momento. Henrico de joelhos, deslizando a
calcinha pelas minhas pernas, é muito mais quente do que se ele
tivesse simplesmente a rasgado. Não satisfeito, quando a retira, ele
se aproxima da minha intimidade e passa a língua lentamente,
fazendo com que eu quase caia para trás.
— Santa glória, Henrico Davi!
— Eu amo o cheiro da sua vagina e o sabor também. —
Aooo, ressentimento! Essa sinceridade e a maneira como ele diz...
isso mata uma menina indefesacomo eu. — Hum, Sophie... — Amo
quando ele fala meu nome em um tom de pura apreciação.
Em um segundo estou de pé e logo no outro estou deitada
em sua cama, ofegante, tentando entender como ele me jogou aqui
tão rápido. Antes que eu processe, mãos fortes agarram minhas
pernas e sou puxada para a beirada da cama, completamente
aberta, exposta. Henrico traz sua boca em minha intimidade de
forma voraz, me devorando com a sua boca como um animal
faminto. Levo minhas mãos em seus cabelos e os puxo com força,
completamente intoxicada de prazer, indo ao delírio completo a cada
vez que ele circula sua língua em meu clitóris.
Minhas pernas vão ficandofracas,minha barriga dá tremores
involuntários e eu me perco entre puxar os cabelos dele ou puxar os
meus. É desesperador, porém, um desespero bom. Eu consigo
sentir a todo momento meu orgasmo se construindo e, para me
enlouquecer, Henrico se afastaquando estou prestes a gozar. Estou
indo reclamar quando seu pau desliza por entre minhas dobras e me
invade fortemente.
— Nossa! — ele exclama, paralisando. — Que gostosa!
— Meu Deus!
— Vou gozar em você, Sophie. — Eu posso senti-lo pulsar
dentro de mim e eu solto um som quase doloroso, tentando me
mover lentamente, me contorcendo de prazer.
A abordagem diferente dele não passa despercebido. Estava
sendo tratada como um cristal precioso e delicado, agora estou
sendo tratada como uma devassa, da forma como eu,
provavelmente, pedi. Minha vontade de ser consumida com
voracidade está além de qualquer coisa. Henrico está me encarando
de uma maneira tão intensa que eu poderia facilmentegozar só de
senti-lo enterrado em mim e me olhando como um predador.
— Mova-se — peço, choramingando, mas ele não faz. Ao
invés de se mover, ele traz sua boca em meu seio direito. Sua
língua rodeia a aréola e seus lábios se fecham em meu mamilo, o
sugando avidamente. — Ai, mais... mais... — imploro, gemendo
como uma descontrolada, e ele repete o mesmo ato em meu seio
esquerdo. Eu vou do céu ao infernoe ele parece gostar. Quando ele
começa a se mover, meu corpo explode em milhares de partículase
eu perco a noção dos sons que solto. Piora quando Henrico começa
a derramar suas palavras sujas sobre mim e soltar sons
indecifráveis.
Ficamos insanos quando ele traz uma de suas mãos em meu
pescoço, como se estivesse prestes a me sufocar. Suas arremetidas
são tão fortes, que a cama range sob meu corpo.
Ele mergulha profundamente dentro de mim e logo em
seguida se afasta, deixando-me vazia. Volta a repetir esse ato
algumas vezes, gemendo a cada vez que faz,rosnando. Suas mãos
agora descem ao meu quadril e apertam fortemente, cravando os
dedos em minha carne. Ele arremete e eu impulsiono para ele,
pedindo mais sem ter que usar as palavras.
— Sophie, você é gostosa pra caralho! Vou gozar e continuar
te comendo, você quer? Me deixa fazerisso? Eu preciso. Estou com
muita vontade.
— Eu sou sua, quero você, o tempo todo.
— Quero bater em você, Sophie — ele rosna. — Você faz
com que eu me sinta como um animal incontrolável.
— Não se controle comigo. Eu quero seus tapas, pedi por
eles.
— Eu te amo além da vida! Eu te amo mais do que amo a
mim mesmo, Sophie.
— É recíproco,meu amor. Você é tudo na minha vida. — De
safadeza ao romance, quem aguenta? Eu choro de prazer e pela
imensidão do amor que sinto. Henrico chora também. Mesmo em
meio a arremetidas desesperadas, algumas lágrimas escorrem em
seu rosto perfeito. É imenso demais o que existe entre nós,
transborda.
E nosso prazer também transborda junto. Henrico me
preenche com o seu gozo e meu corpo traiçoeiro se junta ao dele.
Então sua boca está na minha, tentando acalmar a nós dois.
Ficamos um pouco carinhosos por um tempo, mas muda quando ele
me pega em seus braços sem desconectar nossos corpos e se deita
na cama, deixando-me por cima. Ele traz as mãos em minha bunda
e começa a impulsionar os meus movimentos. Pouco a pouco eu
vou me entregando, movendo-me mais forte, mais confiante. É
então que ele começa a testar os tapas. Inicialmente de maneira
suave, mas os meus gemidos a cada tapa parecem incentivá-lo,
encorajá-lo a ir mais forte. É perfeito e tenho a completa certeza de
que minha bunda ficará devidamente marcada. A cada tapa me
movo mais forte, quase pulando sobre meu noivo. O orgasmo vem
mais uma vez e é Henrico quem se junta a mim ao ver meu corpo
estremecer e contrair sobre o seu.
Suas mãos avançam pela minha nuca e sou beijada com
todo amor que o menino mais bonito do mundo possui.
— Você está bem? Eu a machuquei?
— Você é perfeito, Henrico. Jamais me machucaria. Confio a
minha vida a você.
— Eu posso fazer o que você quiser, Sophie. Você é a minha
motivação. Quando está perto de mim sinto que posso fazer tudo.
Você é minha princesa. — Sorrio, traçando círculos em seu peitoral.
— Você é além do azul e eu sou além de feliz por tê-lo!
— Vamos tomar banho juntos? Eu posso fazer massagem em
você na banheira.
— Eu quero muito, bebecito. Na verdade, preciso das suas
mãos em mim para sempre.
— Para sempre. Ao infinito e além. — Sorrio novamente e
beijo seus lábios castamente. Estou em um momento romance,
mas, no fundo da minha mente, meu lado vadia está vibrando e
gritando: "Henrico fode pra caralho!".
Senhor da glória! Que espécie de relacionamento estamos
construindo? Que Santa Josefina nos abençoe, amém!

Estou relaxando em minha cama quando Paula dá um salto


mortal. Apenas viro a minha cabeça e fico observando suas ações
insanas. A mulher anda rapidamente até a gaveta de uma cômoda e
pega a arma que possui como proteção. Isso fazcom que eu sente
e tente compreender. Maldita hora que deram porte de arma para
Paula!
— Que diabos está acontecendo?!
— Ouvi sons! É melhor ser precavida, bebê Lucca. Eu protejo
você! — avisa, abrindo a porta do quarto e saindo. Parece que sou o
único a não ouvir nada, porque Paula abre a porta já dando de cara
com Yasmin e Thomaz. Agora sim eu ficode pé e começo a pensar
seriamente em uma maneira de tirar a arma da minha mulher. Paula
já é um perigo sem arma...
— O que diabos está havendo? — pergunto e noto as
bochechas da minha filha ruborizadas.
— Então... parece que Henrico tem uma abordagem um
pouco selvagem na cama. Estou um pouco chocada com o nível das
palavras que ele está dizendo à Sophie. Não que sejam incomuns,
mas... ele é sincero sexualmente — Yasmin explica e Paula deixa a
arma no chão, antes de sair correndo para a porta do quarto do
nosso filho. É ridículoe inadequado, mas acabo a seguindo, e isso
faz com que Thomaz e Y
asmin também venham.
— OH, MEU DEUS! MEU HENRICO! MEU BEBÊ! — Paula
exclama, levando as mãos até a boca.
— Quer que eu te coma mais forte? — Meu filho... nunca
mais o olharei com bons olhos, embora eu esteja orgulhoso. Um
orgulho ridículo, eu sei. Mas... foda-se! Ele seguiu meus
ensinamentos e agora a cama está batendo contra a parede
enquanto o moleque...
Merda! Ele está com Sophie, minha sobrinha e afilhada! Eu
limpei a bunda daquela menina! Está muito difícilser sogro de
Sophie. Ela era uma princesinha, sou seu segundo pai, e agora ela
está ali, no quarto, com meu filho, fazendo sexo selvagem. Tento
tirar isso da mente e resolvo perturbar a mais interessada nisso.
— Aoooo, Paula, Jacinta seu filho em ação! — provoco minha
esposa, que parece em transe ouvindo a transa.
— Eu juro que jamais imaginei que meu filho seria um
fodedor do caralho! Não que eu pensasse pouco dele, mas achei
que ele seria do tipo mais calmo entre quatro paredes, calado, que
manda vê em silêncio, qualquer merda... menos isso! Ouça... ele
está batendo nela! Batendo! Meu filho está esbofeteando Sophie! Eu
estou muito chocada! Muito! Acho que nem em mil anos terei
esquecido isso. — Paula está mesmo chocada, tagarelando feito
louca.
— Santa Josefina, Henrico Davi! Já transamos três vezes e
você parece insaciável.
— Quer que eu pare?
— Não! Só vem mais forte!
— Sophie, eu amo que goste de me dar! Sua boceta está...
— Cubro meus ouvidos com as mãos, enquanto vejo Yasmin rindo
pra caralho. Não quero ouvir sobre as partes da minha sobrinha.
Simplesmente os deixo ouvindo o pornô e desço para encher
a cara de cachaça, para esquecer tudo o que ouvi nessa madrugada
picante.
Três vezes! Eles transaram três vezes já...
Aoooo, ressentimento!!!!!!
Logo Paula se junta a mim, coloca um copo em frente ao
meu, enchendo-o com a famosa pinga de Minas Gerais.
— Só bebendo mesmo, Lucca Albuquerque. Eu gosto de
pornô, mas não quando é protagonizado pelo meu filho. Estou feliz e
mortificada. Realmente, ele está preparado para a vida. Não que
fazer sexo selvagem seja sinônimo de preparo, mas... você me
entende? Acho que só agora consegui enxergar que ele cresceu de
vez e que é um homão da porra, pronto para lidar com todas as
situações.
— É isso, diabinha. Mas você está muito falante e estou
tentando esquecer tudo o que acabei de ouvir lá em cima. — Paula
ri e deposita um beijo em minha bochecha.
— Eles são selvagens, como nós.
— Não nos compare com eles, pelo amor de Deus, Paula!
Jacinta minha indignação.
— Você está com ciúmes de Sophie, porque essa raça
Albuquerque é extremamente ciumenta e possessiva. Entendo você,
mas Sophie cresceu e é uma mulher incrível,que está radicalizando
a vida do nosso filho.Não é nada anormal o que acabamos de ouvir,
Lucca. Nossa filha também já tem vida sexual ativa.
— Mas, graças a Deus, eu nunca a ouvi — comento. — Deus
me livre de ouvir Yasmin transando, Paula. Não tenho estrutura.
— Vamo beber e foder, porque... acho que não durmo essa
noite não.
— Aoooo, Paula, te como do avesso! Vamos brincar de
eutrepsemia, safada! — Ela começa a rir e ficamos ao menos uns
quarenta minutos bebendo e falando merda.
Quando subimos para o quarto...
— Puta merda, Henrico Davi! Me mata de foder!
— Misericórdia, Lucca! Você se esqueceu de ensiná-lo a ser
mais silencioso em casa. Imagina se fosse na Ilha e se Victor
escutasse? Faltou essa dica na aula de sexo selvagem. Victor iria
invadir o quarto e cortar o pênis do nosso filho!
— O ensinarei a lidar com mordaça — brinco, para chocar
Paula, mas consigo o efeito contrário: ela concorda comigo.
— Mas ele também precisa ser amordaçado, porque o
menino é falante... — Paula parece pensativa enquanto fecha a
porta do nosso quarto. — Olha, amanhã, neste mesmo horário, eu
ainda estarei chocada! Nem quero mais fazer sexo hoje, de
verdade.
— Acho que traumatizamos, Paula Jacinta. Vamos assistir
um filme e tentar dormir. Quero apagar essa porra da mente.
— É isso! Vamos, bebê Lucca! Já pensou no caféda manhã?
Vou morrer entalada com pão quando Henrico e Sophie se juntarem
a nós — ela diz, gargalhando, e uma ideia surge em minha mente.
— Ah, merda! Fodeu pra caralho! O que está fazendo?
— Convidando Victor para tomar café da manhã em família.
— O quê?!
— Eu perco a sanidade, perco o irmão, mas não perco a
piada! Aooooo, Jacinta a diversão! Só vem, Vitão!
Só tenho paz quando estou dormindo. Uma vez que acordo e
abro os meus olhos, toda tensão volta a surgir. Começo a ganhar
consciência sobre a vida e sobre todas as coisas ao meu redor, isso
inclui a consciência de ter a bunda de Sophie pressionada
fortemente em meu pau duro.
É extremamente difícilser namorado dela. Extremamente
difícil ser eu.
Transamos algumas vezes durante a madrugada e meu
corpo tem a capacidade de reagir a ela como se não tivesse obtido
o suficiente. É confuso, estranho, de difícil entendimento. As
reações simplesmente seguem surgindo e parecem intensificar a
cada dia. Uma vez que meu corpo experimentou a melhor sensação
da vida, sinto-me como um completo viciado em sexo e sei que
talvez isso não seja muito saudável.
Os pensamentos inundam a minha mente enquanto tento
pensar em uma maneira de ter o mínimo de controle sobre as
reações. Tenho medo de exigir muito de Sophie, medo de machucá-
la. O tipo de sexo que fizemos durante a madrugada é um pouco
insano e não fui delicado com ela. Na minha mente, tenho a
consciência de que talvez ela precise de uns dias para se recuperar,
mas na mente dela... acho que passa muitas coisas pervertidas e
nada de uma pausa. Dá para notar neste momento, quando ela está
acordando e ganhando a consciência do meu corpo pressionado no
seu. Sophie solta um daqueles sons que me deixa em estado de
alerta e rebola lentamente.
— Isso é incrível, bebecito! — fala com uma voz
completamente rouca.
Isso me faz pensar que, provavelmente, sou inocente em
relação a ela. É provável que ela tenha tanto desejo quanto eu, ou
talvez mais. Ela parece incansável e insaciável, mais safada do que
costumo dizer. Não imaginava que ela seria assim, mas estou
surpreso. Um surpreso bom, não vou negar isso. Mas há um limite
para a quantidade de sexo? Minhas dúvidas agora giram em torno
dos limites que Sophie parece não possuir.
Parece que ela esteve mesmo esperando uma vida toda por
sexo comigo. Ela experimentou uma vez e agora quer isso o tanto
quanto é possível ter. Há um fogo em Sophie que não consigo
compreender ou descrever. Eu não sei dizer se todas as mulheres
são assim, não há como comparar. Ela realmente gosta das coisas
um pouco brutas e em grande quantidade.
Sigo mudo e quieto, então ela se vira de frentepara mim e dá
o seu sorriso lindo.
— Você é absurdamente bonita — digo assim que ela me
rouba o fôlego. Todas as vezes em que olho para seu rosto perfeito
e seu sorriso, eu sinto um impacto forte, como se nada fosse capaz
de superar essa visão.
— Você é o menino mais bonito do mundo, então somos um
bom casal, não? — Ela sorri, trazendo uma de suas mãos em meu
rosto. — Bom dia, amor da minha vida.
— Bom dia, Sophie. Você está bem?
— Muito bem — responde, com um sorriso de satisfação.—
Eu me sinto tão bem, como nunca me senti antes. Eu amei a nossa
madrugada quente. — Sorrio para ela enquanto levo minha mão em
seu rosto, como ela fez.
— Eu dou prazer a você. — Não é uma pergunta. Eu me
sinto seguro sobre as minhas palavras e a sensação de segurança é
incrível para quem nunca foi tão seguro antes.
— Talvez você imagine o quanto, mas, qualquer quantia de
prazer que imaginar será pouca.
— Você também me dá muito prazer, Sophie. Não sei
explicar como meu corpo se sente quando estou dentro de você. —
Ela traz seus lábios aos meus. Meu autocontrole oscila quando a
beijo e eu me pego querendo mais do que tivemos durante a
madrugada. O que impede é o barulho do lado de fora do quarto,
anunciando que todos já estão devidamente acordados.
Nos afastamos e Sophie fica de pé. Ela está linda vestindo
apenas uma camiseta minha.
— Vamos, bebecito! Não sei você, mas eu estou faminta. Os
esforços da noite passada abriram meu apetite.

Quando Henrico se levanta da cama, meus olhos sonolentos


se abrem por completo, de uma só vez. Há algo tão duro preso
dentro de sua cueca, que dá para ver o elástico se esticando.
Ficamos parados: ele olhando para mim e eu olhando para sua
cueca. O desejo que surge, me faz pensar que talvez eu esteja
doente.
Subo o olhar até seu rosto e encontro bochechas lindamente
ruborizadas, GAME OVER. Com a mesma rapidez que ele levantou,
está na cama, sendo atacado por sua noiva ninfomaníaca.É muito
bom descobrir as maravilhas do sexo matinal e muito bom ter um
noivo que simplesmente permite que eu faça tudo o que quiser,
como arrastá-lo até a cama e saciar o leve desejo que surgiu. Sei
que hoje ou amanhã minha menstruação dará o ar da graça, e
ficaremos ao menos três dias sem sexo, então nem penso muito
antes de montar Henrico como se fosse o último dia das nossas
vidas, provando que rapidinhas podem ser excelentes.

Assim que descemos as escadas, todos os olhares se voltam


para nós e eu sinto a vontade de voltar correndo para o quarto. De
alguma forma, parece que todos sabem o que estávamos fazendo.
Todos, incluindo meus pais, que estão sentados à mesa. O sorriso
no rosto de tia Paula entrega as minhas suspeitas.
— Papai! — Solto a mão de Henrico e vou abraçá-lo.
— Deus do céu, Sophie! Como eu queria que você fosse
aquela menininha de 12 anos que acordava gritando “papai” todas
as manhãs. Agora você acorda gritando “Henrico”... Misericórdia,
não tenho estrutura para ser pai de menina não! — meu pai diz, me
livrando do seu aperto, e vou abraçar minha mãe. Talvez eu esteja
sendo lerda, mas... não entendi nada.
Me acomodo ao lado de Henrico e o noto observando a
todos. A risadinha de Yaya está suspeita, assim como o brilho nos
olhos de tia Paula e o rosto vermelho de tio Lucca, que simboliza
que está segurando o riso.
— Por que estão nos olhando assim? — pergunto e ninguém
parece ter a coragem de responder.
— Henrico, estive pensando aqui sobre nossa conversa, não
precisa mais pensar em morar no Rio, irmão — Yaya diz, rindo. —
Revi meus conceitos e acho que São Roque é o lugar ideal mesmo
para você e Sophie. Nosso pai disse que a casa de Eva não é
geminada ou tão próxima de qualquer outra, disse que possui
bastante privacidade. A não ser que encontremos um lugar isolado
aqui no Rio de Janeiro para vocês.
— Oh, merda! — Yasmin nem precisa dizer mais nada.
Acabei de compreender e, neste momento, estou escondendo meu
rosto no braço do meu namorado, que certamente não
compreendeu. Eu quero cavar um buraco no chão e me enterrar,
principalmente pelo fato dos meus pais estarem à mesa conosco.
— Eu não compreendi. Há algo subliminar no que acabou de
dizer? Eu não gosto disso. Gosto de frases diretas — Henrico
argumenta.
— Oh, parem! Não vamos deixá-los sem graça — tia Paula
pede enquanto sorri.
— Bom que já consegui conter o drama de Victor antes deles
descerem. Vamos lá, não sejamos hipócritas, quem nunca se
exaltou em um algum momento sexual? — minha mãe questiona, se
divertindo, enquanto meu pai soca a cabeça na mesa.
— Sophie, você pode me explicar? — Henrico sussurra em
meu ouvido.
— Fomos um pouco barulhentos no sexo e parece que todos
ouviram, durante a madrugada e agora pela manhã. — Sinto o
corpo de Henrico se retesar por alguns segundos.
— Esse filho da puta chamado Lucca nos chamou para vir
aqui de propósito! Já não basta eu saber que minha filha transa,
agora tenho que escutar também! — meu pai esbraveja.
— Papai, com todo respeito, mas você e mamãe estão muito
longe de serem silenciosos. Não vou dizer que os ouço transar com
frequência,mas, obviamente, já escutei algumas poucas vezes. Em
alguns momentos é normal o casal se exaltar.
— Estava muito bom — Henrico comenta com toda
sinceridade que possui. — Desculpa, tio Victor. Eu não queria que
tivesse ouvido Sophie transando comigo. Peço desculpas a todos.
Tentaremos ser silenciosos essa noite. — Tio Lucca está morrendo
de rir ao lado de tia Paula.
— Olha que merda! — meu pai diz, socando a mesa. — Não
sei porque está rindo, idiota! Olhe para sua filha!
— Pelo menos Yaya é silenciosa — tio Lucca rebate e parece
que eles têm cinco anos de idade. — Aoooo, ressentimento, não é
não?!
— Yaya não é muito silenciosa. Eu que quase a sufoco no
travesseiro — Thomaz comenta e se arrepende logo em seguida. —
Estava só brincando, sogrão. Relaxa. Yasmin é muito silenciosa e
quieta. Um anjo, eu diria.
— Aposto que é um anjo sim, tipo Lúcifer. Yasmin deve ser
pior que eu três vezes! — falo, rindo. — Oh, me diga quem
consegue ficarquieto no sexo? Não é possívelque exista um único
ser humano que não faça o mínimo de barulho! Henrico é muito
comunicativo no sexo e... Senhor da glória!
— Comunicativo? — minha mãe pergunta, sorrindo. —
Conheço alguém comunicativo no sexo.
— É? — meu pai indaga, sorrindo de volta.
— Uhum...
— Hummm... — Ele para de sorrir quando percebe que está
entre pessoas. — Não tem graça alguma, Melinda. É culpa sua essa
menina ser escandalosa. E você, Sophie Albuquerque... fui acordá-
la carinhosamente com flores e ouvi um "Henrico Davi" de uma
maneira que me deixou traumatizado.
— Ok, pessoal! Quando estamos em ação, o nosso lado
racional fica nublado e não há pensamentos que façam muito
sentido. Não imaginei que tivéssemos dando um show para todos,
de verdade. Na hora H pareceu normal, baixo, não dava para ter
uma dimensão real dos sons que estávamos fazendo. Sei que isso é
desrespeitoso e que vocês não precisam ouvir as trocas sexuais de
um casal, principalmente quando abriram as portas da casa para
nos receber. Peço desculpas por mim e por Henrico. Não faremos
mais sexo...
— O quê? Sophie, você está falando sério? Eu espero que
não esteja. Por favor, Sophie, eu esperei anos por sexo com você...
— Todos estão boquiabertos e eu tapo a boca de Henrico com a
minha mão.
— Não faremos mais sexo barulhento. — Termino a frase,
rindo. — Bebecito, fica caladinho um pouquinho só, meu
amorzinho? Meu pai vai arrancar nossos órgãos.
— Eu estou pagando todos os pecados que já cometi na vida!
— meu pai choraminga.
— Bem feito! Ainda me lembro daquela Isabela e daquela
outra piranha na Ilha, como se fosseontem! Bando de puta! Aqui se
faz, aqui se paga, Victor arrombador! — minha mãe rebate.
— Bom, se você se lembra delas na Ilha é porque estava
comigo.
— Você é um safado! Não tinha controle no pau e ficavade
mimimi, que não era um bom rapaz! Foda-se! Pague e pague caro!
Sophie tá é certa! Nem 500 guindastes devem tirá-la de Henrico. —
Começo a rir.
— Sua mãe sabe dos guindastes — meu noivo cochicha. —
Isso é desrespeitoso e íntimo, Sophie.
— Deixamos esse negócio de íntimo para trás depois da
madrugada, bebecito. Todos já sabem que você é um safado.
— Sophie, você que me provoca! Você é uma safada! —
Coloco um biscoito na boca dele antes que ele diga isso alto.
— Sophie, minha linda, está tudo bem. Não fique
constrangida. Vocês são jovens, acabaram de conhecer uma das
maravilhas da vida, estão empolgados, são saudáveis, cheios de
disposição — tia Paula argumenta. — Não vou negar que não é
muito agradável ouvir o filho em ação, mas, sabe de uma coisa?
Ouvi-los mudou algo em mim, ampliou a minha visão sobre o meu
filho. Tudo tem o lado bom e o lado ruim. Eu foquei no lado bom.
Estou feliz que estejam se descobrindo sexualmente, tendo
diversão, tendo uma troca tão íntima, que só o sexo proporciona.
Lucca chamou seu pai aqui para zoar, mas todos estamos
imensamente felizes com a união de vocês. Todos aqui torceram
muito para que um dia os dois ficassem juntos. Não existe no
mundo outra mulher para Henrico, assim como não existe outro
homem para você. — Olho para o meu bebecito e vejo a
personificação de todos os meus melhores sonhos.
Pela primeira vez, ele parece confortávelpara mostrar gestos
de carinho diante de todos. Ele toca meu rosto e traz seu nariz ao
meu, fazendo uma brincadeira, e deposita um beijo em minha testa.
Isso me emociona mais que as palavras de tia Paula. Meu menino
mais bonito e mais reservado do mundo está se permitindo mostrar
afeto diante de todos.
— Henrico e Sophie, o casal que mistura romance com
safadeza — minha mãe fala, rindo.
— Continue, Melinda! — meu pai diz ameaçadoramente e ela
sorri em desafio.
O que era para ser um caos, em poucos minutos transforma-
se em algo bonito. De um minuto para o outro todos se esquecem
do sexo barulhento e começam a conversar loucuras, enquanto eu e
Henrico tomamos nosso café da manhã no mais absoluto silêncio.

Estou pronto para ir para a reunião, porém, nervoso o


bastante. Estou trancado em meu quarto, sozinho, andando de um
lado para o outro, mexendo incansavelmente um elástico em meus
dedos.
Quando meu pai me ligou, falando sobre o encontro com a
equipe de engenharia, acho que estava com a mente tão ocupada
com Sophie, que ignorei o fato de não conseguir lidar muito bem
com pessoas que não fazem parte do meu círculosocial. Eles são
pessoas estranhas e eu não sou bom em lidar com situações onde
tenho que estar no controle diante de desconhecidos. A grande
verdade é que eu gostaria que todas as pessoas no mundo
soubessem exatamente como lidar com autistas, tivessem
consciência das limitações, do jeito diferentede ser e agir. No fundo,
temo que eles me achem mal-educado ou algo pior. Todas as
críticasque ouvi no passado se mantém vivas em minha mente e
surgem sempre quando estou prestes a entrar em uma situação
embaraçosa. Decido descer e falar com meu pai sobre isso. Por
mais que ele vá me acompanhar, me sinto inseguro.
O encontro na sala de estar, conversando com tio Victor.
— Pai, podemos conversar?
— Claro! Em particular? — pergunta e eu olho para tio Victor.
Acho que ele pode ouvir. Ele é meu sogro e sinto que preciso me
esforçar para ser mais próximo.
— Não precisa — respondo, me acomodando no sofá, de
frente para eles. — Estou inseguro. Não sei se posso ir à reunião
com os engenheiros — confesso. — Não sei se posso fazer isso.
— Vamos lá, sua insegurança é referente a quê?
— Não os conheço, a maioria das pessoas têm dificuldade
em compreender o meu raciocínio, eu não sei me expressar tão
bem, não sei colocar meus pensamentos de forma ordenada para
que as demais pessoas entendam, sempre tenho a sensação de
pensar muito além do que as pessoas estão acostumadas. Eu não
conseguirei olhar nos olhos dele, não gosto de toques, eles
pensarão que sou mal-educado.
— Ei, sei que quer conselhos do seu pai, mas posso entrar
no assunto? — tio Victor pergunta e eu aceno positivamente com a
cabeça. — É extremamente difícil conduzir reuniões, enfrentar
pessoas desconhecidas. Isso é mais normal do que você imagina,
Henrico. Sabe, quando eu estava na faculdadede Direito, o que me
salvou foram as aulas de teatro. Na época de colégio eu mal
conseguia apresentar um trabalho na frente da turma, imagina
defender um cliente em um tribunal lotado? Não é fácil e eu sentia
muito medo. Porém, era enfrentar o medo ou ser um péssimo
advogado. Eu o enfrentei.
— Eu não enfrentei isso, filho. Sempre fui muito aberto,
muito... talvez insano se encaixe. — Meu pai sorri. — Porém, a
maior parte da minha turma teve que enfrentar essa dificuldade de
lidar com pessoas, conduzir situações. É comum demais e não
precisa ser autista para se submeter a esse medo.
— Eu não sei se posso fazerisso, pai. Nas últimas semanas
já enfrentei coisas demais e eu me sinto um pouco saturado de
enfrentar coisas novas. O que eles pensarão de mim assim que eu
abrir a boca?
— Que você é um homem extremamente inteligente, que
mesmo sem formação fez quatro projetos de arquitetura e
engenharia de casas impecáveis — responde, sorridente. — Não é
você quem tem que temê-los, são eles. Aqueles homens não sabem
o que espera por eles. Terão que mostrar que são profissionais
mesmo, ou no primeiro erro conhecerão o cara mais inteligente que
eu conheço na vida.
— Me desculpe, acabei escutando sem querer. — Sophie
surge. — Todos os dias ouço você me dizer "eu posso fazer isso,
Sophie". Sabe por que me diz isso? Porque, no fundo, você sabe
que pode fazer tudo. No fundo, a sua vontade de se autossuperar é
grande o bastante. Você vai naquela reunião, vai lidar com eles
como o homem incrível que é e, se tudo correr bem, em breve
estaremos vivendo na casa que você projetou para nós. Como tio
Lucca disse, você é o garoto mais inteligente e mais incrível do
mundo, e pode sim fazerisso e tudo mais que for preciso ser feito.
E, assim que sair da reunião, estarei te esperando na praia.
Estamos precisando de um bronze, bebecito. Enfim, era só isso. Fui!
— Ela sai correndo e eu me pego sorrindo enquanto a observo.
— Agora você teve incentivo o bastante? — tio Victor
pergunta, rindo. — Minha garota é como a mãe, Henrico Davi. Ela
parece inofensiva, mas é como um trator. Ela disse tudo o que
precisava ouvir. Você pode enfrentar uma reunião.
— Pai, eles sabem que sou autista?
— Não. Eles sabem que você é Henrico Davi. É você quem
precisa saber que o autismo não define quem você é. É uma
diversidade, mas você pode ir além. Estarei com você, filho, e sei
que se sairá bem. — Me sinto mais confianteapós ouvir meu pai, tio
Victor e Soso.
Eu posso fazer isso!
Nada nunca foi fácil ou tão simples para mim. Isso não
mudaria do dia para a noite só porque resolvi me arriscar com
Sophie.
Os velhos hábitos de sempre seguem comigo, e hoje, mais
que nunca, estou me dando conta de que há muitas informaçõesem
minha mente precisando ser devidamente processadas.
Desde que fui para São Roque, decidi que atropelar as
minhas limitações era a coisa certa a ser feita.E foi.Mas não posso
deixar de me repreender por não ter me dado o tempo de me isolar
e colocar a mente em ordem. Eu odeio que isso esteja tornando-se
um peso logo hoje. Odeio que minha vontade de autossuperação
esteja caindo sobre mim como um peso ruim.
Há uma reunião importante, há um encontro com Sophie na
praia, há as questões que Yaya me disse ontem, há todos os
acontecimentos das últimas semanas... Há muito em minha mente
para ser processado e estou adiando na tentativa de vencer as
minhas próprias necessidades.
Não adianta. Alguns esforços são recompensados, outros
não. Alguns só servem para pontuar a mim mesmo que a minha
maneira de lidar com as situações é diferente, o meu tempo para
processar acontecimentos é diferente. E, embora eu esteja ciente de
que a minha mente está necessitando de um descanso, me pego
devidamente pronto para encarar o primeiro desafio do dia: a
reunião.
Em alguns momentos me sinto mal por não ser capaz de
conduzir um veículo sozinho pelo Rio de Janeiro. Me causa a
sensação de inferioridade depender das pessoas para ir e vir, ao
mesmo tempo em que me causa também um pouco de alívio ter o
meu pai ao meu lado.
Estou silencioso enquanto subimos até a sala dos
engenheiros. Meu pai respeita isso. Mas, uma vez que chegamos,
percebo que o silêncio não poderá permanecer.
— É um prazer recebê-los. Sou Mauro Muller e esse é meu
irmão, Ricardo Muller — um homem simpático me cumprimenta,
estendendo a mão para um aperto. Demoro a retribuir, na verdade,
me forçoa fazerisso e, quando a mão dele toca a minha, é como se
eu tivesse acabado de ser eletrocutado. O mesmo acontece quando
preciso cumprimentar o irmão dele. Como pode ser tão fácil tocar
Sophie de todas as maneiras e tão difícildar um aperto de mão em
um desconhecido?
É incrível como meu pai faz isso com tanta facilidade. Ele
brinca, sorri, dá a reciprocidade aos engenheiros, enquanto eu
permaneço sério, quieto em meu universo, apenas fazendo o que
faço de melhor: observar e ouvir
.
Eles são inteligentes. Me passam segurança e elogiam os
projetos que criei. Como esperado, os projetos não precisarão
passar por modificações, elogiam até mesmo os meus cálculos.
Eles falam sobre prazos, mão de obra, equipe, e eu só falo quando
é extremamente necessário. Simpatizo com os dois, eles não se
importam com o meu silêncio e respeitam que eu seja fechado.Por
fim, percebo que Mathew Vincenzo fez um bem enorme ao indicá-
los. Eles me passam a segurança que eu precisava e todas as
garantias.
Saio da reunião sentindo-me mal por toda tensão que estar
perto de pessoas desconhecidas me causa. Já meu pai, está
orgulhoso o bastante.
— Você foi incrível, filho! Estou feliz por ter vencido essa
barreira! Tem ideia da dimensão do orgulho que sinto por você?
Você possui uma genialidade surreal, filho! — Não o respondo.
Quero ficar calado por um tempo, sem precisar agradecer, debater
ou dizer qualquer palavra que seja. Por sorte, ele me entende e não
se magoa por eu me manter quieto. Meus pais sempre sabem
quando estou no meu limite.
Como combinado, seguimos de carro pela orla da Barra, para
encontrarmos Sophie, e isso acontece, mas não da maneira como
previ. Sophie está rodeada de amigos, conversando animadamente.
Meu pai estaciona o carro e solta um suspiro que atrai a
minha atenção.
— O que está acontecendo com você hoje? Pensei que seria
um dia incrível, visto que teve uma madrugada bastante ativa. Há
algo de errado.
— Todos escutaram de verdade? — pergunto, o observando,
e ele sorri.
— É. Você e Sophie deixaram o pudor de lado. Mas não é
esse o ponto agora. Embora seja curioso ver que não está
envergonhado.
— Não estou — confirmo. — Eu não fazia ideia de que
escutariam, não percebi que perdemos o controle. Não posso me
envergonhar de algo que aconteceu naturalmente.
— Você está certo. Mas é bom se atentar a isso quando não
estiverem em casa. Por exemplo, em viagens ou na casa do seu
sogro, é necessário controlar os sons. De resto, está tudo bem, filho.
Ter escutado vocês acabou sendo algo bom para a sua mãe. Acho
que ela precisava entender que você é um homem feito agora e os
sons serviram para deixar bem claro.
— Vocês querem que eu volte para o Rio? — pergunto.
— Nós queremos que seja feliz, Henrico. Aqui, em São
Roque, aonde quer que seja. Não vou mentir, amaríamos você e
Soso por perto. Seria perfeito acompanhá-los, estarmos juntos com
frequência. Mas, sendo bastante sincero, acho que visando a
qualidade de vida, São Roque é o melhor lugar para você. Acho que
você se sentirá mais livre, mais leve, mais capaz, longe de todas as
coisas que te causam pânico. Yaya tem motivos para estar emotiva
em torno de você, ela esperou durante anos por uma abertura da
sua parte e acredito que seja um pouco frustrante para ela
conseguir isso quando você decide morar em outro estado. Ela está
um pouco sensível no que diz respeito a você, mas quer sua
felicidade como todos os demais.
— Eu nunca fui capaz de perceber que a fazia sofrer com a
minha indiferença. Apenas não sabia como lidar com ela, pai. Por
isso, preferia não lidar, entende?
— Entendo e sei que, no fundo, ela entende também, tanto
que o respeitou a vida toda.
— Sinto muito. Tentarei recuperar o tempo que perdemos —
afirmo. — Acredito que vocês merecem acompanhar meu
desenvolvimento, pai. Mas... eu gosto do sossego que São Roque
me oferece. Eu consigo dirigir, não há muito trânsito, excesso de
pessoas, é uma cidade pacata, em meio à natureza, e consigo ver
um futuro para Sophie como veterinária lá, consigo ver o meu futuro
longe de tudo que me causa mal. Eu amo vocês, muito. Sinto muito
ter escolhido ir para longe. Não fui por vocês, fui por mim. Fui para
fugir do caos que me incomoda. Está sendo uma experiência
engrandecedora.
— Eu sei que está. — Ele sorri e segura a minha mão. — É
visível.E, se quer mesmo um conselho, permaneça em São Roque,
priorize a sua saúde mental e a qualidade de vida que aquele
lugarejo vai te oferecer. Temos um jatinho aqui, à disposição.
Poderemos estar sempre com vocês. Yaya também.
— Obrigado, pai. Essa conversa tirou um peso enorme de
mim.
— Agora me diga, por que está tão estranho hoje? Por favor
— pede e volto a olhar para frente.
— Há muitas questões em minha mente. Desde que viajei
para São Roque e encontrei com Sophie, deixei de ter meu espaço.
Sophie não é culpada, eu sou. A vontade de estar com ela em todos
os momentos me fez ignorar as necessidades da minha mente. Eu
sou o garoto que precisa de um tempo diário para colocar os
acontecimentos em ordem na minha mente. E quis me tornar o
garoto desordenado para não perder um único segundo com a
garota que amo. De repente, eu me dei conta de que algumas
necessidades são maiores que outras, mas, ainda assim, não são
dispensáveis. Está tudo certo, estou feliz, mas está pesando o fato
de não ter cuidado do meu psicológico nas últimas semanas.
Reconheço que estou errando nisso, ignorando a doutora Ana,
mesmo sabendo que não posso abandonar a terapia. Além disso...
— falo, olhando Sophie à distância. — Olhe como ela é livre, pai.
Como ela socializa facilmente, tem uma enorme facilidade em lidar
com todos, é alegre, divertida, maluca. Não consigo imaginar a
minha vida sem Sophie, mas em alguns momentos me pego
pensando que o nosso relacionamento pode acabar limitando uma
garota que nasceu para a liberdade. Ela é tão jovem e tão cheia de
vida, deve possuir milhares de sonhos, deve querer agir como os
demais jovens da nossa idade e, embora eu tenha dito com
frequência que posso fazer muitas coisas, sabemos que algumas
atividades que são comuns jamais poderão ser desempenhadas por
mim. Por exemplo, eu não posso levá-la em uma boate. As luzes, os
sons, as pessoas... não posso lidar com isso nem mesmo se eu me
esforçar, pai.
— Sophie sabe disso, Henrico. E ela é mais parecida com
você do que imagina. Sophie não é a garota balada. Embora ela
seja muito maluquinha, não é arruaceira, baladeira. Ela o conhece
tanto, que às vezes parece saber lidar com você melhor do que eu
ou sua mãe. Acredite, ela está nesse relacionamento sabendo suas
limitações, sabendo quem realmente você é. Não acho que esteja
limitando Sophie. Na verdade, filho, eu acho que você deu asas a
ela. Sophie está voando desde que se declarou. Você a libertou
para algo novo e não deve ficar pensando em coisas negativas.
Vocês dois sempre tiveram muito diálogo. Tenho certeza de que
Sophie dirá sempre quando algo a incomodá-la ou quando ela
quiser alguma coisa diferente. Como foi no caso da tal agressão...
— Ele ri e eu o acompanho.
— Eu a agredi.
— Não, não, filho. Não fale dessa maneira. Você não a
agrediu, ok? Vocês fizeram sexo selvagem — argumenta, rindo.
— Foi estranho. Sophie gostou muito. Era esperado ela
gostar. Porém, não era esperado que eu iria gostar dessa quase
agressão, e eu gostei. Gostei mais por vê-la insana, me causou
muitas sensações vê-la tão entregue e amando cada segundo. Mas
isso é íntimo demais e eu não devo contar, pai. Me desculpe por
isso. — Ele aperta a minha mão e só então relembro que estamos
de mãos dadas. Receber o toque do meu pai me acalma e me
distrai.
— Ainda há todo um universo a ser explorado. Vocês estão
apenas começando e não há um manual de instruções. É incrível
como nosso próprio corpo vai mostrando necessidades e como
vamos naturalmente fazendodescobertas. Uma coisa vai levando a
outra. Foque nas descobertas e nas coisas maravilhosas que estão
vivendo juntos. Não deixe que o pessimismo façaparte dessa nova
fase da sua vida. Isso não combina com você ou com Soso.
— Tentarei ser confiante, pai.
— Agora, se me permite dizer, há alguns garotos em torno da
sua garota. Um deles está bem saidinho, por sinal. Requer a ação
de um noivo. — Olho para Sophie e percebo que meu pai está certo.
Só há uma questão, não conheço ninguém ali e não sei como agir.
— Não gosto daquele garoto.
— Imaginei que não gostaria. — Meu pai sorri. — Ei, cara,
voltando ao assunto, apenas relaxe. O bom da vida são as
diferenças. Você é diferente de Sophie, eu sou diferente de sua
mãe, ninguém é igual e é exatamente isso que torna a jornada
fantástica. Se todos fôssemos iguais não haveria nada a ser
descoberto, seria chato, morno. São as diferenças que fazem com
que Sophie se encaixe tão bem em você, e vice-versa. Agora vá e
mergulhe em quem faz seu coração errar todas as batidas.
Novamente, digo internamente que posso fazer isso.
Ainda dentro do carro, me desfaço das roupas sociais e
decido pegar a minha garota, ignorando a dificuldade que é ser
noivo dela...

— Sophie!!! — Estou quase dormindo na areia quando ouço


uma voz me chamar. Retiro o chapéu que estava cobrindo meu
rosto e me viro para encontrar alguns antigos amigos do colégio.
Sorrio, fico de pé e vou cumprimentá-los.
— Olá, vocês!
— Cada dia mais, hein? — Pedro Henrique diz, me
abraçando apertado até demais. Desconfortável, me desvencilho
dele e vou cumprimentar os demais. Há Aline, Raíssa, Marcos,
Suelen e PH. Todos estudaram comigo no terceiro ano.
— Você sumiu! — Raíssa diz.
— Sim, fui estudar medicina veterinária na Califórnia. Voltei
recentemente e estou morando em Minas.
— Não vai me dizer que abandonou a universidade? Sempre
foi o seu sonho ser veterinária — agora é Aline quem diz.
— Não abandonei, porém dei uma pausa. Digamos que sou
uma garota sonhadora e que possuía mais de um sonho na vida. E,
em meio a tantos sonhos, um está no topo. Posso dizer que um
sonho depende do outro para fazer sentido. Agora está sendo o
momento onde estou realizando um outro grande sonho que tinha e
tem sido a minha prioridade viver isso. Logo volto à universidade.
Somos jovens, temos muito tempo.
— Vamos sair hoje? Colocar o papo em dia — Pedro sugere.
— Seria divertido sair com vocês para papear, porém, vim
com meu namorado a negócios e visitar nossos familiares, então
eles são prioridades. Quando eu voltar com mais calma, marcamos
algo, sim? Faz muito tempo que não vejo vocês. E por onde anda
Daiane? — pergunto.
— Daiane está morando na Flórida — Marcos responde
cabisbaixo e eu acabo sorrindo. Ele sempre nutriu uma paixão por
Daiane.
— Ah, vamos lá, Sophie! Não vem com essa de namorado.
Você sempre disse que tinha namorado para me afastar, mas esse
namorado nunca apareceu. Você pode dar uma desculpa melhor.
Qual é, eu era considerado o garoto mais bonito do colégio... —
Pedro brinca e então eu vejo o menino mais bonito do mundo
distante, caminhando pela areia.
— Ele realmente existe. — Sorrio, hipnotizada, como se
tivesse passado meses sem ver Henrico. Ele é tão lindo e
impactante, que me rouba o fôlego. Henrico está de bermuda,
havaianas, uma camisa floral e um boné vermelho, todo menininho
estiloso. Lindo de viver! — Na verdade, me acostumei a chamá-lo
de namorado, mas somos noivos agora. — Mostro a minha aliança.
— Uau, Sophie! Mas você é tão novinha... sério que vai se
casar? — Aline pergunta com toda sua curiosidade e doçura.
— Eu esperei por ele a vida toda. Acredite, é o momento
certo. Não há nenhum outro homem no mundo para mim — afirmo,
sorridente. — Bom, pessoal, vou ali encontrá-lo. Espero revê-los em
breve — me despeço de todos e corro para os braços de Henrico,
que agora está mais próximo. — Meu bebecito! — Sorrio, o
enchendo de beijos, e volto ao chão, distanciando para analisá-lo
melhor. Ele não está sorridente.
— Não gosto dos seus amigos. — Curto e direto. Ele tanto
me surpreende quanto me deixa curiosa ao dizer as palavras.
— Por quê?
— Porque eles estavam olhando para a sua bunda quando
você veio até mim. Não gosto deles — justifica.
— Ok, mas a minha bunda é propriedade sua, não é mesmo?
— Volto a me aproximar e brinco com o cordão em seu pescoço. —
Não há motivos para ficarbravo. Eu sou do menino mais bonito do
mundo, que tem os braços mais fortinhos e o corpo mais gostoso.
— É desrespeitoso olhar daquela maneira uma mulher
comprometida.
— Infelizmente, recebo olhares, assim como sua mãe, sua
irmã, minha mãe e as demais mulheres do Universo. E me lembro
bem de receber alguns olhares seu. Antes eu ficava curiosa,
tentando decifrá-los, agora sei que eram pervertidos — brinco.
— Você era solteira e... Sophie, você, desde pequena,
sempre foi a minha menina mais bonita do mundo. Eu nunca olhei
para qualquer garota antes. Sempre foivocê. Não sou um pervertido
completo. Era curioso antes, agora um pervertido sobre você. —
Finalmente um resquício de um sorriso bem safadinho.
— Entendo você, Henrico Davi. A razão está do seu lado.
Porém, nem todos os homens possuem os valores que você possui.
Na verdade, acho que a maioria não presta mesmo. Olhares,
piadinhas, alguns até se excedem. Infelizmente, nós, mulheres,
estamos suscetíveisa esse tipo de comportamento escroto da parte
dos homens. Mas vamos esquecer isso agora? A praia está
devidamente vazia, como você gosta. Que tal aproveitarmos o
restante da tarde? Quero que me conte tudo sobre a reunião,
senhor pervertido!
Ele joga uma mochila ao lado das minhas coisas, retira o
boné, a camisa, o chinelo e vem correndo atrás de mim. Parecemos
duas crianças correndo e brincando de jogar água um no outro.
Tudo o que não fazemos é conversar sobre a reunião. Por um
momento, decidimos nos desconectar de tudo e todos, apenas
aproveitamos o mar, a vida, o nosso relacionamento, como se
houvesse apenas nós dois no mundo.
O programa perfeitopara um casal apaixonado se transforma
em algo muito ruim quando estamos caminhando rumo ao carro,
para ir embora.
— Olha quem está aqui! — Assim que ouço a voz, aumento
meu aperto na mão de Henrico. É o próprio gatilho andando em
nossa direção. — Não vá me dizer que tem uma namorada! Logo
você? Eu jamais imaginei! — Tento puxar Henrico, mas ele parece
incapaz de se mover. Eu nunca o vi olhar tão fixamentepara alguém
dessa maneira. É um gesto incomum. — Não vai cumprimentar seu
pai?
— O que você quer de mim? — Henrico pergunta, enquanto
encontro-me em plena tensão, prevendo crises, agressão, qualquer
merda bastante negativa. Não há como ser diferente. Henrico tem
pânico de Pablo e o cara parece mesmo ter nascido pelo cu, como
tia Paula costuma dizer.
— Quero conversar com você. Sou seu pai, embora não
considere. Você nunca me deu uma chance de poder falar. Eu só
quero conversar. — Sinto uma vontade repentina de socar esse
homem. É surreal ele dizer que Henrico nunca deu chance a ele.
— Sophie, você pode me esperar no carro? — O pedido de
Henrico me pega completamente desprevenida. Juro, jamais
imaginei que ele me pediria algo assim, jamais imaginei que um dia
ele falaria com Pablo. Não sei o que está passando na mente de
Henrico. Especialmente hoje ele parece estranho e a prova disso é
querer conversar com Pablo o que quer que seja.
— Você está mesmo falando sério? — pergunto a ele. — Vai
mesmo falar com esse homem?
— Eu preciso encerrar isso, Sophie. Enquanto não houver um
encerramento, ele não me deixará em paz. Estou pensando no
futuro. Não quero que ele seja uma assombração constante em
nossas vidas. Além disso, tudo que sei sobre ele foidito pelos meus
pais. Gostaria de ouvi-lo por conta própria.
— Isso não vai te afetar? — pergunto, receosa. — Por favor,
eu sei de todas as crises que teve por conta desse homem. Estou
receosa.
— Não há garantias, Sophie. Porém, sou adulto e quero
enfrentar essa situação. Me espere no carro, ok? Estou pedindo.
Confie em mim.
— Eu confioem você. Não confionele. Se ele te fizermal, irei
até o inferno se preciso for
.
— Você não pode ir até o inferno, Sophie. Não seja boba. —
Henrico dá um sorriso leve. — Ficarei bem. Em alguns minutos
estarei com você.
— Por favor... não acho que seja uma boa ideia.
— Preciso que confie em mim — insiste e percebo que ele
está realmente decidido. Não há como eu ir contra essa decisão.
Solto um suspiro frustrado e me afasto contra a minha
vontade, caminhando em direção ao carro de tia Paula. Me
acomodo e então torno-me apenas uma espectadora à distância,
triste por não saber absolutamente nada sobre leitura labial.

Estar diante desse homem me causa repulsa. Não possuo


uma única lembrança boa em relação a ele, embora minha mãe
tenha dito que houve uma época em que ele pareceu querer se
esforçar. O esforço durou pouco, algumas semanas apenas.
Nunca quis confrontá-lo. Ele é responsável pelas piores
crises que já tive na vida e as piores lembranças. Porém, sempre
possuí uma curiosidade sobre o motivo dele ser tão indiferente a
mim e nunca obtive uma resposta concreta. Não quero ser privado
da verdade pelo resto da vida. Quero expulsar todas as dúvidas da
minha mente em relação a Pablo.
Não estou no meu melhor dia. Meu psicológico está
devidamente sobrecarregado e creio que essa conversa apenas vá
piorar as coisas. Mas sinto como se precisasse disso para colocar
um ponto finalnessa relação que nunca existiu. Tenho esperança de
que possa compreender os motivos dele e esperança que depois
dessa conversa ele nunca mais apareça diante de mim.
Meu pai é o Lucca, porém, saber que Pablo tem um laço
sanguíneo comigo me faz querer entender algumas questões. Ele
nunca me fez falta, mas sempre foi como uma sombra em minha
vida. Saber que fui rejeitado por ele desde o início sempre me
afetou. Quem rejeita o próprio filho?
— O que quer tanto falar comigo? — pergunto, tentando me
manter firme. Sei que possuo inúmeras fraquezas, mas não estou
preparado para mostrar isso a ele.
— Você é o meu filho. É a primeira vez que permite que eu
fale com você.
— Eu não sou seu filho. Você nunca foi meu pai. Estou
aceitando sua conversa agora apenas porque preciso entender,
para encerrar de vez essa situação em minha mente — confesso.—
Você nunca me fez falta, porém, ocasionalmente, eu me
questionava sobre o motivo pelo qual você nunca me tratou como
filho e me questionava sobre sua abordagem grosseira e agressiva
com a minha mãe.
— Você é um garoto normal agora? Não é mais autista?
— Autista não é um adjetivo, é uma condição. E eu sou
autista. Autismo não é uma doença para ser curada. Apenas aprendi
a conviver com essa condição dia após dia, com a ajuda da minha
mãe, do meu pai e de todos os profissionaisque sempre tiveram em
torno de mim. — Pablo fica calado, me observando. De algum
modo, estou conseguindo encará-lo, e é horrível perceber que me
pareço um pouco com ele fisicamente.
— Você tem uma linda namorada. Nunca imaginei que um dia
veria meu filho namorar.
— Você não sabe nada sobre mim e nada sobre autismo.
Parece ter uma visão bastante deturpada em relação à minha
condição. — Ele suspira, por um momento até parece com pesar. —
Pode me explicar por que sempre agiu como se eu não fosse seu
filho?
— Eu me perdi no passado. Sabe, quando sua mãe disse
que estava grávida de um menino, fiz inúmeros planos. Confesso
para você, sempre fui um homem machista. Ao saber que teria um
menino, me vangloriei para todos os meus amigos, inclusive para a
turma que eu jogava futebol. Eu queria vê-lo em campo comigo,
mesmo com pouco tamanho. Queria fazer aventuras radicais com
você, ter uma vida normal de garotos. Ter um menino era um sonho,
mas eu queria ter um menino totalmente saudável e normal. Então
você nasceu e com o tempo percebi que havia algo errado, logo
você foi diagnosticado com autismo. Você não conseguia segurar
uma pena em sua mão, não conseguia falar, não conseguia nem
mesmo engatinhar. Teve toda a questão de atraso da coordenação
motora. Os médicos disseram que a partir daquele diagnóstico toda
nossa vida teria que mudar em sua funçãoe eu não levei isso muito
bem. Não me orgulho disso. Eu era um babaca. Sua mãe ficoucom
toda a responsabilidade sozinha, ela tentava fazer com que eu me
encaixasse e nunca era bem-sucedida. Eu era louco por ela,
Henrico, e detestava a quantidade de atenção que você exigia dela.
Começamos a ter brigas constantes, até que a pedi em casamento.
Foi nítido que ela aceitou o pedido na esperança de nos transformar
em uma família.Por alguns momentos tive a mesma esperança e
tentei me encaixar, mas não era para mim. Eu não imaginava a
minha vida cheia de limitações. A deixei no altar no dia do
casamento.
— Foi sua primeira ação sensata.
— Sua mãe sempre foi a favor da família,então achei que
seria perdoado, mas ela foi firme naquela vez. Ela foi para a lua de
mel sozinha e lá conheceu o Lucca. Quando vi que estava perdendo
Paula, eu usei você para tentar reconquistá-la. Tentei ser um bom
pai e até fui durante um curto período. Mas, quando vi que não
estava tendo sucesso e que havia a perdido de vez, não soube lidar
bem com a perda e surtei. Foram anos difíceis,fui obrigado a me
afastar dela e de você judicialmente, não aceitava nenhuma das
duas coisas, perdia a razão sempre que tentava mudar a situação.
Quando me dei conta do que havia feito em todos aqueles anos, já
era tarde demais. Eu me arrependi, Henrico. Todas as vezes em que
via você, Paula, Lucca e a filha deles, eu sentia meu peito rasgar.
Todas as vezes que tentava falar com você e era ignorado, eu
sangrava. — Ele está chorando agora e eu estou com um nó
atravessado em minha garganta, por ouvir toda a verdade. — A
verdade é que nunca soube ser seu pai, nunca soube lidar bem
quando as minhas expectativas eram frustradas, nunca soube
perder e me vi perdendo sua mãe juntamente com você. Eu tenho
consciência de que me transformei em um monstro perverso, mas
não sabia como mudar aquilo. Me perdoe, filho. Me perdoe por não
ter sido seu pai, por não ter sido um bom homem para a sua mãe,
por não ter sido...
— Homem — concluo. — Sinto muito que a minha condição
tenha frustrado as suas expectativas, sinto muito por não ter sido
considerado normal para você, sinto muito que tenha sentido
vergonha por ter um filho portador de autismo. E eu te agradeço
imensamente por ter sido um monstro e não um homem. Minha mãe
é uma mulher feliz e realizada na vida, ela tem um marido que a
ama e a honra, e eu tenho o pai que sempre mereci ter. Eu nunca vi
meu pai gritar com a minha mãe, nunca o vi empurrá-la e jogá-la em
superfícies,nunca o vi agredi-la. Ele a fazrir todos os dias e a ama
com devoção. O meu pai esteve comigo nos momentos mais
difíceis,me consolou em todas as crises que tive por sua culpa. O
meu pai sempre foi o meu super-herói e é o meu melhor amigo. Ele
vibrou quando dei os primeiros passos, participou de todo o meu
desenvolvimento, ele pintava quadros comigo, me defendiade todas
as pessoas que me achavam anormal, como você acha. Ele
percebeu que minha inteligência era avançada, foi meu confidente
em relação à garota que eu amo, me ensinou sobre sexo, me
encaixou em sua vida sem ter qualquer obrigação e me ama com
toda sinceridade que possui. O meu pai sempre acreditou em mim e
fez com que eu acreditasse também.
"Eu não sou anormal, Pablo, ou uma aberração. Sou um
homem feito, que vê o mundo de uma forma diferente. Não posso e
não vou perdoá-lo pelo que fez,mas não pense que é pelo que fez
comigo. Eu nunca vou perdoá-lo pelo que fez com a minha mãe,
nunca vou perdoá-lo por tê-la feitochorar inúmeras vezes e por tê-la
feito sangrar. Sobre o que fez comigo, nunca fez diferença. O meu
pai nunca deixou espaço vazio para eu sentir falta do meu
progenitor. Ele chegou e preencheu a minha vida com amor,
paciência, alegria, compreensão e sempre me amou como qualquer
pai deveria amar um filho. Um dia eu serei pai dos filhos da minha
noiva e é meu pai Lucca quem será a minha inspiração para que eu
desenvolva meu papel como um homem de caráter deve
desenvolver. Sinto muito que esteja te decepcionando agora, mas
parece que não nasci mesmo para suprir suas expectativas, então
está tudo bem. Agora que conversamos, por favor, desista de mim
definitivamente.Na minha vida não há espaço para você, da mesma
forma que não houve espaço na sua quando descobriu que o seu
filho é autista. Sua deficiência é superior à deficiênciaque acha que
possuo."
O deixo sem olhar para trás, certo de que fechei todas as
lacunas que estavam abertas dentro de mim e de que fiz o que
precisava ser feito.
— Está tudo bem? — Sophie questiona quando entro no
carro e eu aceno positivamente com a cabeça.
Não está tudo bem comigo. A minha condição fez o homem
que deveria ser meu pai se afastar de mim, fez com que ele se
envergonhasse, fez minha mãe ser agredida, fez... uma infinidade
de coisas. E, por mais que eu lute para me manter firme, quando
Sophie me abraça eu desmorono como uma criança perdida,
derramando toda a minha dor sobre a garota que eu amo com toda
a minha alma.
Eu nunca serei para os meus filhoso que Pablo foipara mim.
Nunca farei com que eles se sintam deixados de lado, que se sintam
insuficientesou anormais, caso possuam alguma condição especial.
— Eu vou encontrá-lo e destruí-lo!Eu juro por Deus, Henrico!
Vou falar com tio Lucca, com meu pai, com o diabo... Ele vai pagar
por cada lágrima que está escorrendo dos seus olhos agora! —
Sophie ameaça.
Ele já paga. O arrependimento irá consumi-lo pelo resto da
vida. Ele perdeu a mulher mais incrível do mundo e nunca a
conseguirá de volta. Os pecados dele jamais serão perdoados.
Eu só paro de chorar quando o choro de Sophie torna-se
mais forte que o meu.
— Eu te amo com a minha alma, bebecito. A sua dor sempre
será a minha dor. Você é o garoto mais incrível e mais bonito do
mundo! Você é o meu infinito e além dele! Juntos vamos combater
as forças malignas! — Isso me fazsorrir. Sophie é mesmo a garota
mais bonita do mundo, de corpo, alma e coração.
Agora entendo o motivo pelo qual minha mãe diz que Pablo
nasceu pelo cu...
Eu me sinto vendo todas as coisas acontecendo em câmera
lenta. Por alguns instantes parece que perdi a capacidade de falare
agir. Tudo que faço é observar, em estado de choque total.
No fundo, eu sabia que seria exatamente assim. Pablo tem o
forte poder de desestruturar Henrico. Mas ver meu noivo devastado
é mais do que posso suportar. O pior de tudo é que tio Lucca e tia
Paula não sabem o que aconteceu horas atrás. Tio Lucca parece
compreender melhor a necessidade do filho, como se tivesse tido
alguma espécie de conversa particular com ele. Porém, ainda
assim, é visívelque até mesmo o homem que conhece tão bem o
filho parece levemente perdido.
Eu vejo o meu menino mais bonito do mundo implorar para
receber a medicação intravenosa tão temida por mim e o vejo
ameaçar se autoaplicar. O mais assustador é que ele parece
devidamente calmo, mas sei que há uma tempestade em seu
interior. Ele está argumentando de forma clara, objetiva e segura.
Não está tendo nenhuma crise assustadora e acho que isso é o que
mais está assustando tia Paula. É incomum Henrico lidar com uma
crise dessa maneira.
Tio Lucca cede, mostrando-nos que é exatamente o que deve
ser feito. Uma vez que tio Lucca aplica a injeção, Henrico pede para
que todos saiam do quarto, exceto eu. Não faço ideia de como irei
lidar com ele agora, tendo em vista que meu nível de abalo está
altíssimo.
— Sophie, eu só quero pedir desculpas por precisar disso —
fala com a cabeça baixa. — Sei que é difícilpara você lidar com
essa situação, mas não imploraria pela medicação se não tivesse
realmente precisando. Estou tentando privá-la de ver o lado feio de
ter um namorado como eu.
— Não há um lado feio...
— Há, Sophie. Você sabe, todos sabem, eu sei que há.
Minha mente está muito turbulenta e estou evitando uma crise
maior. Só preciso me acalmar, colocar todos os acontecimentos em
ordem em minha mente. Preciso que entenda isso. Sei que me ama,
então vai entender que é para o meu próprio bem. Estou cansado,
Soso. Minha mente está bagunçada — explica com a voz baixa,
prova de que a medicação está começando a fazer efeito. — Não
precisa ficaraqui comigo, tudo bem? Eu acho que deveria ficarum
pouco com os seus pais, ao menos até eu estar bem novamente.
Vamos voltar para São Roque em breve. Aproveite a companhia dos
seus pais.
— Não sei se vou conseguir ir — confesso,lutando contra as
lágrimas e me ajoelhando diante dele, que está sentado sobre a
cama. — Eu amo você, mesmo quando insiste no lado feio.Se esse
lado existe mesmo, eu também o amo. Amo tudo sobre você.
— Eu também amo tudo sobre você, Soso. Você pode me
deixar dormir agora? — Balanço a cabeça positivamente e ele se
deita. É de partir a porra do meu coração em milhares de
pedacinhos. Odeio vê-lo fragilizado, odeio.
Ele tem um apagão rápido diante dos meus olhos. É
assustador e triste. É como ver um gigante sendo derrubado. Fico
de pé e o cubro, tendo a certeza de que ele só acordará amanhã e
ainda estará levemente entorpecido pelo calmante.
Fico sentada ao lado dele, tentando buscar meios de tornar a
vida dele mais fácil. Deve haver algo que eu possa fazer para que
seus dias sejam mais iluminados do que imersos na escuridão.
Quando resolvo deixá-lo, encontro tia Paula e tio Lucca na
sala, conversando sobre o filho. Eu me sinto na obrigação de
explicar a eles o que aconteceu. Eles merecem saber, embora eu
não tenha a mínimaideia do teor da conversa que Henrico teve com
o pai. A única coisa que Henrico disse é que pediu verdades e que
Pablo deu exatamente verdades a ele, sem privá-lo de nada.
— Eu sei o que o levou a implorar por isso — digo, me
acomodando em um sofá diante deles. — Não sei se eu deveria ter
ligado para vocês, se fiz certo em confiar que Henrico suportaria.
— O que houve? — tia Paula pergunta, apreensiva.
— Henrico já estava levemente estranho na praia. Parecia
exausto, não sei bem explicar. Não consegui decifrá-lo tão bem.
Então, quando estávamos indo embora, Pablo surgiu.
— Desgraçado! — tio Lucca esbraveja.
— Ele é um imbecil, insistiu em conversar com Henrico e eu
me surpreendi quando Henrico aceitou conversar com ele.
— Henrico aceitou conversar com Pablo? — tia Paula
pergunta, com a incredulidade estampada em seu rosto.
— Ele quis enfrentá-lo. Disse que precisava disso para fechar
algumas lacunas e seguir em paz — explico. — Eu insisti para
Henrico não fazer, tia Paula, mas ele estava decidido e me pediu
que eu confiasse nele. Confiei, não tinha alternativa. Se eu o
impedisse, ele se sentiria inferior ou qualquer merda do tipo, iria
contra todo o poder que o fizemos enxergar que possui. Fiquei
dentro do carro observando. Eles ficaram cerca de uns 20 minutos
conversando. Pablo falou muito, mas Henrico parece ter falado
mais. Ele voltou para o carro muito abalado, teve uma crise de choro
que nunca o vi ter, mas não quis me dizer o que conversaram. Ele
só disse que pediu verdades a Pablo e que recebeu todas as
verdades, sem cortes. Quando saímos de lá, Pablo ainda estava
sentado no mesmo banco, parecia desestabilizado o bastante.
— Eu vou matá-lo! — tio Lucca diz, ficandode pé. — Aquele
desgraçado só surge para foder tudo!
— Tio, eu entendo sua raiva, mas talvez Henrico precisasse
mesmo ouvir para seguir a vida sem dúvidas sobre o passado. Por
mais triste que seja e por mais que tenha afetado ele, acho que era
o que precisava. Ele sabe que vocês contaram apenas o básico,
que sempre houve muito mais por trás da história e que sempre foi
privado da verdade absoluta. Vocês fizeram o certo, mas ele
cresceu, tornou-se um homem, está em uma nova fase da vida,
cheio de atitudes e desejos. Ele quis saber a fundo e vocês jamais
dariam isso a ele, com razão. Eu faria o mesmo se tivesse no lugar
de vocês. E não creio que tenha sido só essa conversa com Pablo
que o abalou. Ele parecia abalado antes de encontrar com Pablo.
Não sei o que se passa, mas espero obter respostas quando ele
acordar.
— Eu não sei o que dizer ou o que pensar — tia Paula
confessa. Ela parece devastada.
— Vocês devem se acalmar. Temos que esperar Henrico
acordar e esperar que ele queira nos dar mais informações. Não
acho que seja prudente ir atrás de Pablo. Temos que confiar em
Henrico.
— Vamos aguardar. Obrigada por nos contar, Sophie.
Obrigada, do fundo do meu coração — tia Paula diz, fica de pé e
vem até mim, me dar um abraço apertado. — Ainda bem que meu
filho tem você.
— Ainda bem que tem vocês! — exclamo, sorrindo. — Bom,
eu vou me deitar. Estou com uma cólica desgraçada...
— Vai dormir com Henrico?
— Não sou capaz de deixá-lo. Preciso saber que ele está
bem, tio Lucca. Ele sugeriu que eu fosse para a casa dos meus
pais, mas não ficarei em paz — confesso.
— Já tomou algum medicamento? — tia Paula pergunta.
— Sim — respondo e sinto meu telefone vibrar. É o meu
irmão. — Vou atender, é Miguelito.
— Ok, meu amor. Vamos nos deitar. Qualquer coisa nos
chame. Obrigado por tudo, Sophie — tio Lucca agradece e sobe
com tia Paula.
— Oi, rimãozinho!
— Pelo amor de Deus, Sophie! Por favor, volte a São Roque
— pede, quase chorando.
— O quê? Por quê? Alguém morreu?
— Ainda não. Porém, mais dois dias sob o mesmo teto que
Kiara e um de nós sairá morto. Preciso que volte e distraia essa
garota endiabrada que tem pacto com o coisa ruim. Estou
implorando. Por favor, volte, Sophie. — Isso me faz gargalhar alto.
— Não ria, filha da mãe! Ela acaba de expulsar Soninha do bar do
Tião e Samuel está vivendo no mundo da imaginação com Hadassa,
nem vê o que a irmã está aprontando. Théo e Eva estão achando o
auge da diversão, porque os dois são insanos. Não tenho ninguém
para me ajudar. Acordei essa manhã com a menina em cima de
mim, eu quase fiz merda... Samuel vai me matar!
— Meu Deus! É pior do que imaginei, então — comento,
rindo.
— Sophie, estou pedindo pelo amor de Deus! — Senhor da
glória! O que diabos Kiara é?! Ele está pedindo pelo amor de Deus.
Isso é tão engraçado quanto curioso. Estou rindo, mas sentindo uma
leve pitada de preocupação.
— Ouça, as coisas saíram um pouco dos trilhos hoje. Pablo
surgiu, Henrico e ele conversaram... eu não sei como será amanhã.
Iríamos voltar, mas preciso ver como Henrico estará ao acordar.
— Pablo que nasceu pelo cu? É sério?
— Sim. Foi muito difícil,Henrico precisou se medicar, enfim...
— suspiro. — Se ele acordar bem, iremos. Sinto muito que esteja
sendo testado. Quero logo estar aí para acompanhar de perto.
— Não se preocupe mais. Seus problemas são maiores
agora, Sophie. Se precisar de qualquer coisa, me diga. Sou seu
irmão — Luiz Miguel fala, fazendo com que eu sorria.
— Meu rimão mais lindo do mundo! O manterei informado
sobre as coisas aqui. Tranque a porta com chave na hora de dormir.
Não posso acreditar que uma garota de 17 anos está te botando
medo, Luiz Miguel Albuquerque!
— Ela é extremamente louca e bonita na mesma proporção.
Está sendo um inferno, Sophie. Ela finge de santa tão bem... beira
ao absurdo. Em alguns momentos me lembra você no passado,
fingindo para Henrico que era a garota exemplar. — Me pego
sorrindo novamente.
— Rimão, preciso dormir. Minha menstruação desceu agora à
noite e estou fodida. Me mantenha informada, ok? Te manterei
também.
— Ok, espero que fique tudo bem por aí, Sophie. Eu amo
você demais, ok? Me ligue a qualquer hora.
Subo ao quarto, me aconchego ao lado de Henrico e penso
que terei uma boa noite de sono, porém, isso é tudo o que não
acontece...
Os terrores noturnos estão de volta!

— Saia daqui, Pablo! — Os gritos da minha mãe ecoam pela


casa. Ela está chorando; um choro forte, desesperado, repleto de
medo. — Ele não quer ir com você. Isso está errado!
— ELE É MEU FILHO E VAI COMIGO! É O MEU DIREITO!
FODA-SE A LEI! EU QUERO E VOU PEGAR O MEU FILHO.
— Ele não quer ir, Pablo! Você é um idiota?! Não percebe
que Henrico não pode passar por situações assim?
Levo minhas mãos aos ouvidos, mas não ajuda o suficiente.
Há gritos dos dois e isso faza minha cabeça doer. Eu não gosto de
ver a minha mãe chorando. E eu odeio Pablo. Ele não é o meu pai!
Ele nunca será o meu pai! Eu o odeio! O odeio muito!
Estou embaixo da mesa, escondido. Daqui o vejo segurar os
braços da minha mãe. Eu acho que ele vai bater nela, por isso, pego
o telefone e aperto uma tecla que liga para o meu pai. Ele atende,
diz coisas e eu não consigo responder. Meninos não batem em
garotas, meu pai me disse isso. Mesmo assim, Pablo empurra a
minha mãe e ela cai em cima de uma mesa de vidro, que quebra por
completo. Eu sei que ele quer me pegar e que está me procurando.
Eu fico quieto debaixo da mesa, mas, após um tempo, ele me
encontra e me puxa.
— Solte-o! — minha mãe grita, tentando se levantar. Ela está
desesperada.
— Sua mãe é uma vadia! — ele diz a mim e tenta me pegar
em seus braços. Eu não deixo. Um forte choro escapa de mim,
acompanhado de um grito. Eu luto com Pablo, o arranho, dou
chutes, e ele grita. Minha cabeça vai explodir.
Ele está me levando para fora de casa quando um monte de
homens surgem. Há armas. Elas são perigosas, meu pai me disse.
De repente, eu não estou mais nos braços do Pablo, há um homem
estranho e eu o arranho também, não consigo parar. Minha visão
agora está ruim, mas vejo meu pai correr. Ele me pega dos braços
do homem e me leva para dentro de casa.

— Paiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu me sinto como se estivesse dando um passeio em plena
alameda dos sonhos despedaçados; exagero ou não. Ainda estou
tentando processar e digerir os acontecimentos da noite passada. É
difícil.Mas não por ser uma crise, que já era algo esperado, e sim
pela atitude de Henrico durante ela. O fato de eu estar presente,
vivenciando aquilo ao lado dele, não lhe caiu bem. Não sei dizer ao
certo como ele se sentiu;talvez um pouco envergonhado ou inferior.
Houve uma insistência para que eu me afastasse e não o
presenciasse tão quebrado, e, embora eu quisesse permanecer ao
seu lado com todo meu amor e compreensão, não tive opção a não
ser acatar seu pedido. A ideia de relutar e insistir até passou pela
minha cabeça, mas estava bastante evidente que a minha presença
estava contribuindo para deixá-lo ainda mais nervoso.
Agora estou na casa dos meus pais, curtindo a minha TPM e
um enorme aperto no peito, recebendo notícias de Henrico através
da tia Paula e tentando bravamente não surtar.
Até o momento, decidi me manter isolada, sem falar muito e
sem me sentir disposta o bastante para ouvir os conselhos dos
meus pais ou de quem quer que seja. Eu me fechei um pouco na
dor, nos acontecimentos e estou tentando lidar com a confusão
interna.
Torna-se impossívelnão pensar no futuro.Estaremos em São
Roque, distante da maior parte dos nossos familiares, e tenho me
perguntado se Henrico optará por um afastamento com frequência.
Agora é tudo diferente. Não somos mais apenas amigos. Somos
noivos, estamos caminhando para construir um relacionamento
sólido, e não consigo cogitar a hipótese de ter que me afastar
sempre que ele estiver com crises.
Quando combinamos de morar juntos, surgiram as regras e
ele me disse que precisava ter um lugar onde pudesse ficarrecluso
quando necessário. Isso foi super aceitável e compreensível para
mim. Mas a ideia de eu ter que sair de casa ou ele, não é tão
aceitável assim para mim. A questão é que nossa relação ainda está
no início e Henrico não está tão seguro ainda. Essa insegurança
pode vir a complicar as coisas, por mais que eu sempre tente
conduzir tudo pelo lado da compreensão.
É o mar diante dos meus olhos que está fazendocom que eu
não entre em paranoia. Ter o mar diante dos meus olhos, através da
parede de vidro do meu quarto, é uma das coisas que mais sinto
falta. É surreal como ficarobservando as ondas indo e vindo fazum
bem danado para a mente e para o coração.
Por fim,meu coração acaba ficandomais leve após um longo
tempo perdida na natureza magnífica.Eu consigo compreender que
é necessário aceitar que alguns ciclos são mais lentos, que nada
nessa vida é igual, nem mesmo os dias. Entendo que minha
frustração vem do fato de eu ter sido paciente uma vida toda e
esperado para viver esse amor. Agora que eu o tenho, é como se a
paciência tivesse sido extinta do meu vocabulário e da minha vida.
Mesmo sabendo que a lentidão é necessária, eu tenho a sede de
atropelar o mundo e a vontade louca de não perder uma única
batida do coração do meu menino mais bonito do mundo. Mas, esse
novo ciclo também é de aprendizado e a vida está me mostrando
que tudo acontece como deve acontecer, que não adianta sentir
qualquer frustração ou querer agir como um furacão.Sempre soube
que seria assim, vencendo uma batalha por dia, me preparei para
isso, então por que agora tudo parece tão difícil?Não gosto de ser
inconstante em meus pensamentos e sentimentos.
Sinto-me em uma confusa felicidade; radiante por ter
conseguido ir tão longe com Henrico, triste por ele me afastar em
um momento de vulnerabilidade. Acho que o amor é o sentimento
mais desafiador, e se não estivermos preparados para lidar com as
provações com paciência, respeito, resignação e confiança, é
porque não sabemos amar. Amar exige muito e nem todos estão
preparados para vivenciar essa experiência.
Agora eu só preciso acreditar que o fluxo do Universo é
perfeito e que o destino não falha. Não quero acreditar que Henrico
se afastará de mim por completo. Quero me apegar ao fato de que
ele só precisa de um pequeno intervalo para colocar a mente no
lugar e então retomar de onde paramos.
Em geral, sempre fui uma garota muito positivista, confiante,
não quero perder essa essência que me acompanha desde o meu
nascimento. Não é o momento para fraquejar. É o momento onde
devo encontrar toda a minha força e demonstrá-la. Talvez assim
Henrico seja capaz de compreender que sou fortepor mim, por nós,
e que seu jeito atípico de ser não me assusta, me encanta.
As teorias e a fé vacilam no quinto dia de afastamento. É
como se minha mente fosse capaz de contabilizar cada segundo do
dia e não desligasse nem por um momento. A ansiedade e o medo
me fazem comer mais do que suporto. E é exatamente quando
estou devorando uma caixa de bombom no meu quarto, que a porta
se abre e Henrico surge, tão misterioso e sério quanto é possível.
Eu devo ser uma espécie de devassa mesmo. Com todos os
problemas que temos a enfrentar, meu foco vai para as veias
saltadas no braço e no estilo despojado que mexe com todos os
meus chacras. Por um momento quero jogar os bombons longe e
atacá-lo como uma maníaca louca por sexo, mas, por ora, decido
aguardar as ações dele. Não sei como ele está após esses dias,
após a crise. Não sei o que esperar.
— Oi, Sophie — ele me cumprimenta, visivelmente sem
graça.
— Oi, Henrico Davi. Entre — o convido e ele dá alguns
passos até estar dentro do meu quarto. Tomada por um nervosismo
repentino, o observo fechar a porta e se virar de volta para mim.
— Eu não sei como fazer isso. Não sei por onde devo
começar. É tudo novo para mim, confuso.Nunca imaginei que faria
mal a você algum dia e acabei fazendo.Pensar nisso me deixa um
pouco nervoso, me tira da zona de conforto que sempre tive em
nossa relação de amigos. Agora temos outro tipo de vínculo, então é
diferente.
— Comece por onde quiser começar. Estou aqui para ouvir o
que quer que seja, Henrico. Não precisa ficar nervoso. Ainda que
sejamos noivos, a amizade de sempre prevalece. Sou sua amiga
antes de ser sua mulher — argumento, nervosa. — Por que não se
senta? — convido e ele se acomoda em um sofá próximo à minha
cama. De cabeça baixa, mexendo com um elástico nos dedos, ele
simplesmente começa a falar:
— Minha mente estava turbulenta, eu precisava processar
tudo. Porém, errei quando acreditei que era uma espécie de super-
homem capaz de enfrentar todas as situações de uma só vez. Na
tentativa de me encaixar, de querer mostrar que eu poderia ser
como os demais homens, falhei.
— Por que queria mostrar isso? — pergunto. — O seu maior
diferencial é não ser como os demais homens. Embora eu tenha
uma leve impressão do motivo, não consigo entender porque sente
essa necessidade de querer mostrar que pode ser igual quando
você possui um nível de superioridade. V
ocê nunca será como todos
os homens, Henrico, por dois motivos: primeiro, ninguém é igual a
ninguém;segundo, você está acima das expectativas e isso te torna
insuperável.
— Da mesma formaque ninguém é igual, nenhuma pessoa é
insuperável — responde. — Talvez pense que sou um idiota a partir
de agora, repetitivo, mas é difícilser seu namorado, Sophie. Não
apenas sexualmente falando. Eu venho tentando superar os meus
limites, venho forçando uma superação que não sou capaz, venho
tentando lidar com as questões de uma maneira que nunca lidei
antes, tudo para provar que eu sou capaz e para chegar um pouco
mais perto do homem que eu acho que você merece ter. Com isso,
tenho ignorado os alertas da minha mente e não suportei a pressão
de duelar com um passado doloroso. Eu tenho cometido erros
desde que resolvi me autoatropelar.
— Não percebe que nada disso é necessário? — pergunto.
— Não percebe que entrei nessa relação sabendo das suas
limitações, respeitando-o? Eu sei cada um dos seus pontos fracos,
Henrico. Conheço seu jeito, seus trejeitos, suas nuances. Me
preparei uma vida toda para lidar com isso e me encaixo em você
da formacomo é. Eu não quero que seja o homem que acha que eu
mereço. Quero que seja o homem que eu sei que mereço, do
jeitinho especial que é. Não quero que seja como todos os outros,
porque eles estão longe de ser o que e quem você é, estão longe de
possuir todas as qualidades que você possui.
— Estive pensando bastante nos últimos dias, tive ajuda da
minha terapeuta para conseguir entender alguns pontos,
principalmente sobre Pablo. Mas... Sophie... eu não posso trazê-la
para a minha confusão. — Ele segue de cabeça baixa, como se
fosse incapaz de conseguir me olhar nos olhos. — Você se preparou
para um relacionamento comigo, mas eu não me preparei para um
relacionamento com você. Embora seja tudo o que mais quero na
vida, ainda sinto-me incapacitado de...
— Não! — exclamo, cedendo ao choro, tentando evitar a todo
custo que ele diga o que penso que vai dizer. — Não termine de
dizer, ok? — peço, jogando a caixa de bombom longe e me
ajoelhando diante dele. — Não façaisso comigo. Não faça isso com
você. Eu fui paciente a vida toda, esperei por você desde criança,
mas agora eu não serei paciente — falo, tentando olhar em seus
olhos. — Não vou deixar você boicotar sua própria felicidade. Não
depois de vê-lo avançar tanto, dentro dos seus limites. Não vou
permitir. Você verá uma nova versão de mim se continuar insistindo
com isso. Podemos diminuir o ritmo, mas não colocar um ponto
final.Não existe tempo, Henrico. O nosso amor... — Solto um soluço
desesperado. — O nosso amor é a coisa mais fantástica do
Universo. Você é o garoto mais perfeito do Universo para mim. Não
quero que seja diferente...eu quero que seja quem é, quem sempre
foi. Se você me largar... tudo o que vivemos, tudo o que disse a
mim, deixará de fazer sentido.
— Eu nunca menti sobre tudo o que disse a você, o que
quero dizer é que...
— Então fique. Nunca me deixe. Eu sempre darei espaço
para lidar com as suas questões, respeitarei seus limites, serei a
mulher que precisa que eu seja. Mas, se você me deixar, Henrico,
serei miserável de todas as maneiras, porque desde que me
entendo por gente você é o garoto da minha vida e nunca imaginei...
nunca imaginei ser abandonada por você. Podemos ir devagar, não
importa a velocidade. Tudo o que importa é a direção.
— Sophie, ouça...
— Não quero ouvi-lo agora. Ouça você, Henrico. Como pode
parecer tão fácilassim? Como consegue fazerisso? Eu fiquei cinco
dias distante e foi devastador, como se a vida deixasse de fazer
sentido. Eu pensava em tudo, desde os olhares intensos aos toques
carinhosos. Não pode ser fácil abrir mão das coisas que vivemos.
Não é justo que seja. Eu não posso me imaginar sem os seus
beijos, sem o carinho, sem as conversas, sem acordar com você
enroscado em meu corpo, sem os encontros dentro de casa durante
a madrugada, sem o sexo que me dá. E nem sei que diabos estou
fazendo. Não implorar clemência a um homem fez parte da
educação que eu recebi... mas como não fazer isso quando o
homem é você? Ninguém no mundo entenderia...
— Sophie, pare de falar! Minha cabeça está latejando! —
pede, ficando de pé e me encarando. — Não sei o que entendeu,
mas definitivamente não estava falando sobre abandoná-la. —
Essas palavras me fazemficarde pé e limpar o rosto. — Por que é
tão difícil esperar que eu termine de falar?
— Não sei dizer. Acho que...
— O medo. O mesmo medo que me manteve em inércia por
anos — responde. — Como pode pensar que eu a abandonaria?
— Medo... — falo, voltando a chorar.
— Como pode a garota que sempre me encheu de coragem
se mostrar medrosa?
— Não sei dizer.
— Você me cortou três vezes, Sophie — pontua. — Eu iria
dizer que ainda me sinto incapacitado, ainda me sinto inferior. Iria
reafirmar que acho que merece muito mais do que um garoto fodido
como eu, mas que descobri nos últimos dias que estou muito além
do egoísmoquando trata-se de você. Iria dizer que os dias ruins vão
surgir, talvez não com muita frequência,mas, ainda assim, eles vão
acontecer. Porém, eu tentarei ao máximo não te afetar, porque não
quero mesmo trazê-la para a minha confusão. Prestarei mais
atenção aos avisos da minha mente, seguirei com a terapia na
frequênciacorreta, não me afastarei, como foi necessário fazernos
últimos dias. E, o mais importante, iria dizer que precisamos voltar
para São Roque, para a nossa casa, e que quero que sejamos só
nós por alguns dias. Eu senti a sua falta, Sophie. Senti falta da
nossa rotina, senti falta de fazer amor com você e não dormi bem
sem tê-la ao meu lado, grudada em meu corpo. Senti falta das
reações do meu corpo, porque ele pareceu morto durante os últimos
cinco dias e isso nunca aconteceu antes. Você faz tudo em mim
reagir.
— Vamos embora, menino mais bonito do mundo. Vamos
para a nossa casa — falo, me jogando em seus braços e sentindo
todas as peças voltarem a se encaixar. Um abraço e a vida volta a
fazer sentido. Um beijo e meu corpo se aquece, vibra com a
intensidade.
O medo...
Ele sempre será o grande vilão da vida de uma pessoa. Ele
nos paralisa, nos faz enxergar coisas que não existem,
compreender as situações de uma forma negativa, faz nossa fé
vacilar. O medo é, de fato, o maior inimigo do ser humano. E, cada
vez mais, mesmo que cometendo erros por permitir que o medo seja
maior que a minha fé,eu entendo Henrico e o motivo pelo qual esse
sentimento sempre esteve em sua vida.
O mais incrívelé vê-lo reviver junto comigo. Sentir seu corpo
voltando a reagir, seu beijo atingindo um nívelmaior de intensidade,
as sensações afloradas mostrando que precisamos um do outro
para fazer sentido. Que loucura é amar. Quem disse que o amor é
uma revolução está completamente coberto de razão.
— Me desculpe por fazê-lasofrer. Eu só não queria que visse
o pior de mim — sussurra de um jeito que faz meu ventre se
contorcer.
— Não existe o pior de você.
— Sophie, vamos embora? — pergunta, mostrando-se
devidamente afetado e prestes a perder o controle. — Por favor
.
— Vamos!
Quando Sophie surge na sala, completamente pronta para ir, minha
respiração vacila ao analisá-la ao meu modo. Já não sei distinguir quando
é apenas o estilo dela ou quando ela está tentando me provocar com
roupas. A provocação vence, mesmo se não for intencional.
Ela está com um vestidinho preto que possui um decote
extremamente generoso. Deixa visível a tatuagem entre os seios quase
que por completo e isso atrai a minha atenção muito mais do que a
prudência permite. De repente, meus olhos, tão sinceros quanto todo o
restante de mim, não conseguem olhar para nada além do contorno dos
seios de Sophie. É incrível e interessante como meu corpo reage a um
decote de Sophie.
Eu só desvio o olhar quando ouço tio Victor fazerum barulho com a
garganta, demonstrando que fui pego em flagrante e que deveria não
fazer isso diante de seus olhos.
— Me desculpe, tio Victor. Sophie é muito bonita. — Ouço uma
risadinha de meu pai enquanto tio Victor começa a dizer suas baboseiras
que não são tão baboseiras assim.
— Ele ainda tem a capacidade de assumir que estava olhando para
o decote da minha filha!
— Oh, fala sério, sugar daddy, nossa menina é a coisinha mais
perfeita do Universo e é óbvio que atrai olhares. Felizmente, estamos
lidando com o noivo, o que torna tudo compreensível— tia Melinda diz,
massageando os ombros dele.
— Sophie é mesmo a menina mais perfeita do Universo. É a
menina mais bonita do mundo — concordo com tia Melinda. — Estou
ansioso para ir embora, Sophie. Já está tudo certo? — pergunto à minha
noiva, que dá um sorriso que passei a conhecer bem nas últimas
semanas.
— Está tudo certo. Podemos ir. Também estou ansiosa — ela
responde e eu fico de pé.
Confesso estar um pouco envergonhado perante tio Victor;não por
ter sido flagrado admirando os seios da minha noiva, mas por tê-la feito
sofrer ao precisar de um distanciamento. Sophie até compreende, mesmo
se chateando, mas não sei dizer se tio Victor está feliz. Qual pai ficaria
feliz ao ver a filha sofrer? Por mais que ele e tia Melinda estejam me
tratando muito bem, sinto o peso das minhas ações.
É muito complicado ter necessidades de afastamento social em
determinadas crises. Porém, não tinha opção. Havia muitas questões em
minha mente e, após o encontro com Pablo, eu precisei preencher
algumas lacunas de dúvidas que carreguei comigo uma vida inteira. O
meu balanço final é que aquele encontro serviu para eu aprender que
precisamos estar preparados até mesmo para exigir a verdade das
pessoas. Lidar com verdades nem sempre é algo positivo, principalmente
quando não estamos de fato preparados para receber a carga que a
verdade traz consigo.
Minha terapeuta me aconselhou a parar de buscar por verdades.
Ela disse uma frase da Martha Medeiros que me fez passar dois dias
inteiros pensando:"Não quero ter a terrívellimitação de quem vive apenas
do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade
inventada". Por fim, eu compreendi o que ela quis dizer. O autismo fezde
mim um garoto que vive a vida lidando com todas as questões no sentido
literal; desde as mais simples até as mais complexas. Estou sempre
procurando o sentido de todas as coisas. E, a verdade, é que essa busca
em achar sentido, nem sempre faz sentido. É muito confuso, eu sei.
Imagine quão confuso foi para mim entender isso? Sou muito inteligente
para muitas questões, mas tenho dificuldadede compreender as pessoas
e alguns acontecimentos da minha vida. Chegar à conclusão que preciso
ser mais leve em minhas buscas e menos literal, foi desafiador e nem sei
se conseguirei fazer isso tão fácil.
Quero ser menos literal, especialmente com Sophie. Doutora Ana
disse que nem tudo tem que ter respostas específicas,que algumas
coisas devemos apenas nos entregar e viver, sem precisar fazersentido.
Ela me disse que o simples fatode eu sentir, já é a resposta para todas as
minhas dúvidas. E eu sinto. Eu sinto e quero seguir sentindo.
Eu quero sentir Sophie e mergulhar em nosso relacionamento sem
me achar inferior e meu autodepreciar. Também foi difíc
il chegar a essa
decisão, principalmente quando uma parte de mim insistia em apenas
deixá-la seguir sua vida sem toda a complexidade de se envolver com um
garoto como eu. Mas, como eu disse a ela minutos atrás, a cada dia que
passa me descubro mais egoísta e menos disposto a deixá-la livre. Sophie
desperta em mim uma imensa possessividade. Por todo histórico que
vivemos, não merecemos perder um ao outro após tanta espera.
Após despedirmo-nos dos meus sogros, entrelaço meus dedos aos
dela e caminhamos rumo ao aeroporto. Meu pai nos levará até o
aeroporto, onde pegaremos o jatinho. Estive receoso em relação a
magoar minha irmã por decidir fazer o que é melhor para mim, por isso,
horas antes de tomar a decisão de voltar a São Roque, precisei conversar
com ela. Felizmente, ela foi compreensiva e eu descobri o quão doce
Yaya pode ser. É quase vergonhoso perceber isso tão tarde.
— Estão entregues! — meu pai anuncia assim que descemos do
carro no aeroporto.
— Obrigado, pai. Não apenas por nos trazer, mas pelo apoio nos
últimos dias — falo baixo em seu ouvido assim que o abraço.
— O seu presente é lindo, filho. Foque nele e seja feliz.— Meu pai
sorri e vai abraçar Sophie.
Poucos minutos depois, estamos sobrevoando o Rio de Janeiro e
indo rumo a São Roque. Há em mim um certo frio na barriga e
definitivamente não é por estar voando. Há um pouco de medo de ter
quebrado parte da conexão que eu e Sophie construímos.É algo que não
sei explicar e que provavelmente está surgindo em minha mente por conta
da parcela de culpa que estou sentindo pelo afastamento, mesmo ciente
de que foi o melhor.
Meus pensamentos desviam-se por completo quando Sophie torna-
se inquieta. Fico parado, sentado em meu lugar, apenas a observando se
mexer. A encaro e ela me encara de volta. Um sorriso angelical surge em
seu rosto e logo em seguida ela suspira, mexendo em uma mecha de
cabelo. Do nada, ela se põe de pé e vai atrás de água. Porém, ela fazisso
quase esfregando a bunda em meu rosto, visivelmente querendo me
provocar.
Uma pesquisa feita pelo site de relacionamentos britânico, Saucy
Dates, ouviu 11.179 pessoas de todo o mundo, a maior parte no Reino
Unido e nos EUA, e chegou à conclusão que apenas 5% de todos os
entrevistados admitiu já ter feito sexo durante uma viagem de avião. Mas,
78% das pessoas ouvidas revelaram que gostariam de já ter tido esta
experiência. E os demais 17% disseram que não possuem interesse. A
maioria das pessoas escolheu o banheiro como lugar ideal para o sexo,
59% fizeram sexo sobre o lavatório. 31% dos entrevistados fizeram sexo
na própria poltrona e outros 9% fizeramsexo no corredor da aeronave, o
que é para mim muito bizarro. 37% dos entrevistados disseram que
escolheram o parceiro/parceira para fazer sexo no avião. Já 30%
sucumbiram à tentação na hora e transaram com estranhos.
Acho que deve ser interessante, até mesmo deve possuir um nível
de adrenalina diferente transar em uma aeronave, nas alturas. Porém,
após passar dias longe de Sophie, eu não quero que nossa reconexão
sexual seja feitaem um avião apertado e de formarápida, visto que o voo
possui uma curta duração e que estamos quase chegando. É por isso que
ignoro a tentação, mesmo achando extremamente difícillidar com a sua
bunda passando pelo meu rosto uma segunda vez. Opto pelo silêncio e
pelo autocontrole.
Em nossa casa, o autocontrole deixará de existir. Eu preciso comer
Sophie mais do que preciso de oxigênio para respirar. Cansei de reprimir
os meus instintos.

Quanto mais sério Henrico se mantém, mais louca eu fico. Ele não
faz ideia do quanto esse modo sério e fechado me afeta. Se fizesse,
nesse minuto ele estaria conversando e tentando me distrair. Ele não é
tolo, sabe exatamente o que quero e está achando que ignorar minhas
ações fará com que eu fique calma ou sei lá... Como entender o que se
passa na mente dele?
Eu posso não conseguir ler a mente do meu noivo, mas eu leio
muito bem o volume em sua calça, que deixa em evidência que ele está
ligado em tudo e quer o mesmo que eu quero.
— Precisa de ajuda? — pergunto e ele me encara sem entender.
Dou o meu melhor sorriso e aponto para o volume em sua calça. Seguro a
vontade de rir assim que ele solta um som de frustração, de quem foi pego
em flagrante.
— Estou bem, Sophie. Obrigado.
— Eu posso resolver isso ficandode joelhos, como você gosta. Eu
sempre quero ficarde joelhos para você — provoco, passando meu dedo
indicador em seu peitoral, por cima da camisa.
— Em dez minutos estaremos no aeroporto, em meia hora
estaremos em casa. — É a sua resposta.
— Pensei que entraríamos para o Miles High Club — brinco.
— Qual a graça de fazerisso em um voo onde só há nós dois? Não
há muita adrenalina. — Oh, ele entendeu sobre o sexo nas alturas! Isso
me faz sorrir. Bebecito... É incrível como algumas pessoas já pensaram
pouco desse garoto. Ele engana tão bem... ninguém sabe que ele é tão
safado comigo.
— Então, suponhamos que estivéssemos em um voo comercial,
você me levaria até o banheiro e me foderia? — Henrico solta um som
rouco no mesmo instante.
— Não diga essas coisas agora, Sophie... — pede em tom de
sofrimento.
— Mas você faria isso?
— Se você estivesse de acordo, sim. Seria uma nova experiência.
Mas teríamos que ser silenciosos, e isso é um pouco difícilpara nós —
argumenta.
— É extremamente difícil,porque quando você está dentro de mim
sinto uma vontade gigante de gemer e chamar seu nome. Não consigo me
controlar sentindo tanto prazer. Eu não vejo a hora de chegar em casa,
bebecito... — Ele engole em seco e balança a cabeça em concordância.
Sem respostas para mim agora... é engraçado.
Quando enfim aterrissamos na cidade vizinha, somos tomados por
uma mudança drástica de temperatura. Estou batendo o queixo de frio e
agradecida por Samuel estar nos aguardando, acompanhado de Hadassa.
Esses dois simplesmente se aproximaram e tornaram-se inseparáveis.
Enquanto Henrico carrega nossas malas, saio correndo e
interrompo o casal que parece em outro planeta.
— Ok, casal, apenas me levem para o carro com urgência! —
imploro, choramingando, e fico emocionada quando meu primo retira seu
casaco e deposita em minhas costas. — Eu te amooooo! Muito obrigada!
Ele vai cumprimentar Henrico e os dois ficamabraçados, como se
não se vissem há anos. Enquanto isso, cumprimento Hadassa.
— Você sempre está extremamente estilosa! — elogio.
— Samuel está tentando me tirar do salto, mas estou sendo
relutante — explica, sorrindo.
Dentro do carro, não consigo conter a curiosidade.
— Vocês estão namorando? — pergunto.
— Não — os dois respondem ao mesmo tempo.
— Não? Vocês já transaram ao menos?
— Não, graças a Samuel, que resolveu abolir o sexo da vida dele.
Eu não vou implorar mais. Ele já está avisado. Sou sexualmente ativa e
necessito de sexo. Samuel já está ciente disso e ciente de que não
esperarei por muito tempo. Estou atingindo o limite — Hadassa responde,
enquanto meu primo ri.
— Fala sério, Samuel! — exclamo. — É verdade isso? — Logo
Samuel? É surreal acreditar que meu primo, o galinha MOR, está negando
sexo a uma mulher. Samuel é pegador nato, às vezes sem critério.
Preciso de uma explicação lógica para compreender o motivo dele estar
fazendo isso. Nada contra, mas é incomum.
Henrico segue silencioso, apenas atento à conversa.
— Vocês não estão namorando e não fazem sexo, mas ficam
abraçados o dia todo e se beijando. O que significaisso que estão tendo?
— Faço mais uma pergunta e Samuel segue rindo. Estressada, dou um
tapa na cabeça dele.
— Ai, porra!
— Pare de rir, idiota! Eu só estou tentando entender, palhaço do
circo Vitória! — esbravejo e Hadassa é quem ri agora.
— Amei o palhaço! — ela diz.
— Vou começar a perguntar da sua vida sexual com Henrico —
Samuel retruca e eu reviro os olhos.
— Como se não perguntasse ou não soubesse — rebato. — Como
estão todos?
— Tudo parece bem. Eva e Théo estão organizando algo, estavam
apenas esperando vocês voltarem. Parece que eles querem comunicar
alguma coisa — Samuel explica. — Minha irmã se juntou com Maicon e
está aterrorizando São Roque. As mesmas loucuras que sempre
acontecem quando todos se juntam. Nenhuma novidade. Chegamos,
pessoal! — avisa e só então me dou conta de que estamos em frente à
casa. Agora tudo em mim se agita.
Descemos e Samuel pega as nossas malas. Na hora de se
despedir, Henrico me surpreende.
— Eu tive alguns problemas nos últimos dias e acabei ficando
afastado de Sophie. Eu e ela estamos precisando de um tempo. Você
pode dizer ao pessoal que ficaremos ausente por um tempo? — pede a
Samuel, que me olha, pedindo por respostas. Apenas balanço a cabeça
negativamente e ele entende que agora não é o momento para
conversarmos sobre o ocorrido.
— Está tudo bem. Tenham o tempo que precisarem. Se precisarem
de qualquer coisa, me liguem. — Retiro o casaco dele e entro correndo
em casa após me despedir.
É estranho estar de volta aqui, por algum motivo que não sei
explicar. Acho que os cinco dias fizeramseu efeito, há muita tensão entre
nós dois, e não apenas sexual.
— Estamos em casa, bebecito — digo, colocando minha mala na
sala e virando-me para ele.
— Senti falta daqui. Por um breve momento pensei em propor para
continuarmos no Rio, mas não seríamos felizes, Sophie. Eu seria
assombrado pelo passado pelo resto dos meus dias e não teria a
qualidade de vida que esse lugar oferece. Sinto muito por deixar meus
pais, Yaya, por saber que eles se sentem um pouco magoados por não
acompanharem de perto o desenvolver da nossa relação, mas tenho
certeza de que eles ficarão mais felizes sabendo que o lugar onde me
sinto realmente feliz é aqui, nessa cidade, com você; podendo fazer
coisas que me sinto incapacitado de fazer no Rio de Janeiro, como
passear, dirigir, conviver um pouco mais em sociedade. Não quero viver
olhando para trás ou para os lados, para ver se Pablo não vai surgir, como
de costume. Quero a liberdade e tranquilidade.
— Você merece ter tudo o que deseja, bebecito.
— Eu quero você — fala com toda a intensidade que possui.
— Sou sua. Amo você, respeito você e desde sempre estou
esperando por você. Sua para fazer o que quiser, desde que o resultado
das suas ações seja a felicidade mútua.
— Vou recompensar os nossos dias de afastamento — promete.
— Eu sei que vai e estou ansiosa por isso.
Henrico se aproxima para me beijar e, quando ele está a poucos
centímetros dos meus lábios, a maldita campainha toca... adiando um
pouco mais nossos desejos e contrariando por completo a nossa
necessidade de privacidade.
— Que PORRA!
Não fui eu quem disse isso...
Eu amo que Henrico esteja começando a ser rebelde!
— Me desculpe, Sophie. Não sou assim. — Enquanto Henrico se
desculpa pela forma como acabou de falar, eu vibro internamente,
pedindo "vai, continua". Sei que é errado desejar que o garoto tão perfeito
se torne um perdido, mas o que posso fazer? Eu gosto e acho muito
adulto!
Eu o quero insanamente, mas estou diabolicamente querendo adiar
a diversão só para ver como ele irá reagir. Em minha mente maquiavélica,
decido criar meu próprio jogo, mesmo que seja um jogo sujo.
Fazendo minha carinha mais inocente, me aproximo dele, enquanto
a campainha toca incansavelmente.
— Bebecito, parece que teremos que esperar um pouco mais para
dizermos "enfim, sós". — Faço um bico enorme e deixo um beijo delicado
em sua bochecha, sentindo todo seu corpo sob tensão.
Acho que meu bebecito, o menino mais bonito do mundo, resolveu
agir um pouco na maldade no dia de hoje. Ele parece mais que ansioso
para ficar devidamente confortável comigo. Mesmo com a minha quase
nula experiência, acho que posso dizer que não existe nada mais quente
e empolgante do que ter o meu parceiro ansiando por mim, demonstrando
o quanto me quer, desde o olhar às ações. É de um prazer imenso se
sentir desejada dessa maneira. Eu mal consigo descrever, sabendo que
sou o objeto de desejo de Henrico e que ele me quer tão loucamente
quanto eu o quero. Há muitas maneiras de uma mulher se sentir
poderosa, essa certamente é uma delas. Eu posso sentir o poder vibrando
dentro de mim e sou grata a Henrico por estar me proporcionando essa
sensação deliciosa. É algo que desejo a todas as mulheres,
independentemente da orientação sexual.
Me afasto dele para abrir a porta, porém, antes que eu possa
alcançar a maçaneta, ele me puxa pelo braço. Sua ação fazcom que eu
engula em seco e seja inundada por um mix de incredulidade, surpresa e
satisfação. Nada mais gostoso que ter um Henrico cheio de atitude e
regido de coragem.
Não há palavras, tampouco justificativas. Uma vez que nossos
olhos se conectam, encontro a resposta para a sua ação.
Delicadamente, ele traz uma mão em meu rosto e me toca, fazendo
um carinho gostoso com seu polegar em minha bochecha. Fecho meus
olhos e absorvo a mistura de suavidade com o forte calor que está
emanando de sua mão. Um toque em minha bochecha e eu estou
arrepiada da cabeça aos pés.
Seu polegar agora passeia pelos meus lábios, e é insano o frio na
barriga que esse gesto me causa. Eu quero abri-los e pedir por favor, mas
nem mesmo sei qual favoré esse. Quero tantas coisas e sei que nada vai
parecer o suficiente até que eu tenha tudo. A respiração ofegante de
Henrico decreta o fim precoce do meu jogo sujo. Não há uma única
parcela de resistência em mim e, sinceramente, seja o que for ou quem
for, tudo agora pode esperar. Temos necessidades um do outro e essas
necessidades merecem ser saciadas após dias de dor.
Como se soubesse cada um dos meus pensamentos, Henrico cola
seus lábios aos meus e não de uma forma delicada. Ele rouba a minha
sanidade e meu fôlego com um beijo repleto de vontade e desejo
reprimido, um beijo inesperado por mim. Nem mesmo noto a expertise de
Henrico em retirar meu vestido. Quando dou por mim, ele simplesmente
está caindo sobre meus pés e há mãos incríveis cobrindo meus seios.
— Sophie...
— Deus!
— Sophie, eu sou completamente apaixonado pelos seus mamilos.
— Sorrio e me distancio. — Você é a menina mais perfeita do mundo. — A
maneira como ele olha para os meus seios é diferente.
— Feitos para você, bebecito. — A campainha volta a tocar e
Henrico perde o restante da paciência. De uma só vez, ele me pega como
um saco de batatas e me carrega diretamente para o quarto, dando um
chute certeiro na porta assim que entramos. Não é Henrico Davi este
cidadão, mas de alguma maneira eu o amo da mesma forma. Alguma
coisa boa tinha que sair dos cinco dias de afastamento. O aumento de
desejo é visível, não que precisasse ser aumentado. Estávamos como
ninfomaníacosantes, então nada a reclamar. Mas agora está diferente...e
eu vou descobrir como...
Sou colocada ao chão, e movida pela adrenalina, avanço sobre ele
como uma desesperada, jogando seu boné longe e arrancando sua
camisa, enquanto o vejo chutar os tênis para longe. É insano, e eu
simplesmente me entrego à insanidade, caindo de joelhos aos pés dele.
— Você me queria de joelhos, bebecito... — sussurro, alcançando o
fecho de sua calça e abrindo, enquanto expressivos olhos castanhos me
observam. Deslizo a calça por suas pernas, as retiro e sigo para a cueca,
onde há um pacote rijo e uma mancha denunciando o nível elevado de
excitação do meu noivo. Não sei se é assim para todas as mulheres, mas
uma vez que abaixo a cueca de Henrico, toda minha boca se enche de
água, como se estivesse prestes a devorar o doce dos sonhos. É incrível
em todas as dimensões!
Jogo a cueca longe e dou um sorriso angelical antes de dar uma
lambida marota na glande inchada e molhada. Embora o gosto de
esperma não seja nada agradável, o chupo com necessidade e fome,
vendo Henrico devidamente afetado a cada movimento. Meu delicioso
noivo traz suas mãos em meus cabelos e deixa tudo ainda mais excitante
conforme os puxa.
Levo tudo o que consigo em minha boca. Em alguns momentos
simplesmente o masturbo com as minhas mãos, deliciando-me com os
sons roucos que saem de Henrico. Não tenho pressa, mesmo que meu
corpo esteja implorando por um alívio.Nada supera a imagem de Henrico
delirando de tesão.
Ele agarra mais forte os meus cabelos e começa a impulsionar para
a minha boca sem reservas. Palavras desconexas surgem e meus olhos
brilham em lágrimas quando torna-se quase mais do que sou capaz de
suportar. Eu sinto seu membro pulsando e crescendo, então ele me afasta
de uma só vez e começa a se tocar sozinho, sob meu olhar de idolatria.
Eu ficoboquiaberta, vendo a familiaridadedele com seu próprio pau, e é a
coisa mais perfeita do mundo vê-lo dando prazer a si mesmo, tocando
punheta. Jatos de esperma caem ao chão e eu sou incapaz de ficarde pé
diante da cena mais linda que meus olhos já presenciaram. Por algum
motivo, por estarmos na situação que estamos, isso ganha uma proporção
gigantesca dentro de mim. Eu vibro com cada movimento das mãos dele e
os acompanho como se fossem em câmera lenta.
Quando os movimentos diminuem, parece que Henrico volta ao
planeta Terra. Ele abre os olhos e nem mesmo parece capaz de acreditar
que fez isso diante dos meus olhos. É diferente mesmo, de toda a
intimidade que já tivemos. É tão lindo ver as bochechas dele corando em
vergonha e vê-lo tentando encontrar palavras para justificar o que não
precisa ser justificado. Eu quem preciso agir agora, deixando toda a
sujeira para ser limpa depois.
Fico de pé e o empurro para a cama. Ele cai deitado de costas e se
surpreende ao me ver montá-lo. Ainda estou de calcinha, mas agora eu só
preciso beijá-lo e dizer o quanto foi linda a cena que ele acabou de
protagonizar. E eu faço.
Desço até seus lábios e o beijo com ternura, admiração e amor, me
dando conta de que mesmo que tentemos levar tudo para o lado da
safadeza, o amor sempre vai sobressair de alguma maneira.
Aos poucos vou sentindo seu pau voltar à vida sob meu corpo. A
sensação é deliciosa, principalmente quando Henrico leva as mãos em
minha bunda e forçaainda mais o contato. Meu corpo passa a se mover
por conta própria e começamos uma pegação deliciosa, que nos fazrolar
na cama. É ainda mais gostoso ficarse pegando dessa forma, evitando o
inevitável por um tempo. Nossos corpos se impulsionam um para o outro,
conforme nossos lábios permanecem grudados. Somos mãos, corpos,
suor, ofegos...
Perco a sanidade por completo quando Henrico afasta minha
calcinha para o lado e minha intimidade entra em contato com o que mais
anseio. Eu deslizo sobre o membro duro e rolo até estar por cima do meu
noivo novamente. Com as mãos apoiadas em seu peitoral, deslizo e
provoco uma quase penetração.
— Por favor, Sophie! — ele implora, impulsionando sua pélvis para
cima enquanto o provoco. — Por favor... por favor...
— Você quer muito isso?
— Por favor, Sophie. Eu preciso muito. — Eu dou o que queremos.
Lentamente permito deslizá-lo para dentro de mim, sentindo cada parte da
minha intimidade se abrir para recebê-lo. A sensação de preenchimento
surge e só consigo pensar no quão agraciada sou por ter um alguém que
preenche cada parte de mim nos mais diversos sentidos.
Dessa vez somos mais ação e mais silêncio, ambos matando a
saudade um do outro. É perfeito, prazeroso e nos mostra que nossa
conexão é impossível de ser destruída, mesmo que às vezes os
problemas batam à porta.
Nos entregamos ao vai e vem, em alguns momentos com toda
calmaria, em outros com todo desespero e tesão. Henrico brinca de dar
prazer ao meu corpo algumas vezes e eu dou o prazer que ele busca em
mim. E assim passamos o resto do dia, namorando, esquecendo que
existe vida do lado de fora do quarto e esquecendo até mesmo de nos
alimentar. Perfeitos em nossas imperfeições. Perfeitos um para o outro.
Ele é mesmo diferente...
Tudo que ele se dispõe a fazer, faz com maestria, com a
sagacidade que só um gênio possui!
Eu amo meu menino mais bonito do mundo e idolatro o seu mundo
azul!

Há um ditado popular que diz:“Mar calmo nunca fezbom marinheiro. Até


nas mais lindas e mais puras histórias de amor há tempestades. Elas
surgem do nada, colocam à prova o amor e a disposição.
“— Sophie, eu tenho problemas — diz, sério. — E não quero ser pai.”
É uma pena que nem sempre nossa vontade pode ser atendida.
PARTE 2 – LANÇAMENTO PREVISTO PARA
DEZEMBRO/2021 OU JANEIRO/2022
https://www.instagram.com/autorajussaraleal/

[1]
ligação, nexo ou harmonia entre fatos, ideias etc. numa obra literária, ainda que
os elementos imaginosos ou fantásticos sejam determinantes no texto;coerência.

[2]
Uma brincadeira com a frase TIPO REI.
[3]
Nebulosas são grandes nuvens encontradas no espaço interestelar, formadas,
majoritariamente, de poeira cósmica e gases, como hélio e hidrogênio.