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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE PATOS DE MINAS – UNIPAM

CURSO: MEDICINA VETERINÁRIA


DISCIPLINA: PATOLOGIA CIRÚRGICA DE GRANDES ANIMAIS
PROFESSOR: FLÁVIO MOREIRA DE ALMEIDA

PROLAPSO UTERINO E VAGINAL

STEPHANY CRISTINA SILVA

PATOS DE MINAS

2021
Resumo

Alguns dos distúrbios mais comuns que ocorrem durante a gestação, parto e puerpério
são as distocias, retenção de placenta, gestação múltipla, gestação prolongada, infecção
uterina e prolapsos.

A dificuldade de nascimento de bezerros, ou distocia, é um importante problema da


pecuária leiteira, já que geralmente está associada ao aumento na susceptibilidade a doenças e
da mortalidade de bezerros, custos com veterinários e laboratórios, demora no retorno ao
estro, menor grau de concepção e mortalidade da vaca. A distocia pode ter origem materna ou
fetal, ou ainda, ocorrer devido à incompatibilidade no tamanho do feto e da pelve da vaca
(BORGES et al., 2006).

Próximo à época do parto, fêmeas bovinas podem apresentar problemas de prolapso.


Dois tipos de prolapso podem acometer o trato reprodutivo de vacas: o prolapso vaginal e o
uterino. Segundo Prestes et al. (2008), essa patologia ocorre devido a um relaxamento
exagerado do sistema de fixação da vagina (principalmente em fêmeas idosas e durante o
período de involução uterina), piso do estábulo excessivamente inclinado, transportes em que
os animais são sacudidos demasiadamente, defeitos anatômicos, distúrbios hormonais,
obesidade, inflamações na região da vulva e do reto e predisposição hereditária. A patologia
pode levar a edema, hemorragia, necrose e, em casos extremos, gangrena (NASCIMENTO e
SANTOS, 2003).

INTRODUÇÃO

Os prolapsos de vagina, cervix e útero são responsáveis por grandes perdas


econômicas e desequilíbrio na eficiência reprodutiva de bovinos de leite e corte
(BARTOLOMEU et al 1997; MARQUES et al 1991). Pandit et al. (1982) citou que, a maioria
dos animais tratados, com reposição mecânica dos órgãos e sutura de vulva, se tornaram
estéreis após prolapso vaginal/ uterino, mostrando cervicites crônicas, com índice de
reincidência da afecção em 34,88% dos animais.

É designado prolapso vaginal a saída da parede do órgão através da vulva, podendo ser
de maior ou menor grau. A etiologia da afecção está relacionada ao aumento do estrógeno
circulante nas últimas semanas da gestação, o que induz o relaxamento dos ligamentos
pélvicos e perineais, associado ao aumento uterino gravídico, facilitando o prolapso
(BERCHTOLD, 1988; NASCIMENTO & SANTOS, 2003; JACKSON,
2004; ALVARENGA, 2006).

O prolapso é classificado em grau 1, grau 2, grau 3 e grau 4 (SAH & NAKAO,


2003; ALVARENGA, 2006; DIAS, 2007), dependendo da evolução do problema. No
primeiro estágio, ocorre protusão da mucosa vaginal através da vulva, quando o animal está
em decúbito, desaparecendo quando este se levanta. Já no segundo, a protusão da mucosa
vaginal permanece mesmo com o animal na posição quadrupedal. Em seguida, no terceiro
estágio, o prolapso vaginal e cervical permanece constantemente exposto e, no último estágio
(grau 4), apresenta-se com áreas necrosadas (ALVARENGA, 2006).

Prolapso vaginal graus 1, 2 e 3. A) Prolapso vaginal de grau 1 em vaca. B) Prolapso vaginal de grau 2 em vaca. C) Prolapso
cérvico-vaginal de grau 3 em vaca. Fonte: https://www.scielo.br/j/cr/a/FvPQN4ZmZD8zRHj7tb69MTJ/?
format=html&lang=pt

Os sinais clínicos mais observados são a exposição parcial ou total da vagina pela rima
vulvar, inquietação, lesões da porção evertida de leve a grave, dissolução parcial ou total do
tampão mucoso, retenção urinária, prolapso retal secundário ao tenesmo, congestão venosa
passiva com consequente desvitalização da estrutura prolapsada, vulvite, vaginite, cervicite e,
nas fêmeas gestantes, é possível observar abortamento ou morte fetal por contaminação com
enfisema fetal (TONIOLLO & VICENTE, 2003; DIAS, 2007).

Geralmente, o aparecimento dessa afecção ocorre em animais de alto valor comercial


e, desse modo, foram descritas tentativas de redução do prolapso, utilizando-se as técnicas de
Caslick, Bühner ou Flessa, porém, sem o sucesso esperado, devido à recorrência após breve
ou longo período após a retirada dos meios de contenção (TONIOLLO & VICENTE,
2003; RICHARD, 2007; PRESTES et al., 2008).
Prolapso uterino pós-parto em uma vaca da raça holandesa Prolapso uterino pós-parto em uma vaca holandesa com
com sete quatro anos

CAUSAS E TRATAMENTO

O prolapso do útero pode ocorrer em qualquer espécie; porém, ele é mais comum nas
vacas leiteiras e nas porcas, menos frequente nas ovelhas e raro nas éguas, nas cadelas e nas
gatas. A etiologia é obscura e a ocorrência é esporádica (MANUAL MERCK DE
VETERINARIA, 2006).
Segundo o Manual Merck de Veterinária (2006) o decúbito com os quartos posteriores
mais baixos que os quartos anteriores, a invaginação do útero, o excesso de tração para aliviar
uma distocia e a hipocalcemia têm sido todos incriminados como causas contribuintes. O
prolapso do útero geralmente ocorre dentro de poucas horas após o parto, quando a cérvix está
aberta, o útero perdeu o tônus e os ligamentos uterinos encontram-se bastante distendidos.

O prolapso geralmente é completo e a massa do útero geralmente pende por baixo dos
jarretes do animal afetado. Nas vacas, o tratamento envolve a remoção da placenta (se ainda
estiver presa) e a limpeza completa da superfície endometrial. Retorna-se então o útero para a
sua posição normal por um de vários métodos. Primeiro, deve-se administrar uma anestesia
epidural. Se a vaca ficar de pé, deve-se limpar o útero, elevá-lo ao nível da vulva sobre uma
bandeja (ou por meio de uma maca segura por dois assistentes) e então ao colocá-lo por meio
da aplicação de uma pressão anterior
Esquema do ligamento largo do útero, no inicio da gestação de uma Esquema do ligamento largo do útero em gestação avançada de uma
vaca vaca

firme, começando na porção cervical e progredindo gradualmente para o ápice.

Uma vez recolocado o útero, deve-se inserir a mão na extremidade de ambos os cornos
uterinos para se certificar de que não haja uma invaginação remanescente. Se a vaca ficar em
decúbito, deve-se posicioná-la com os quartos posteriores elevados para movimentá-la para

uma área inclinada ou para colocá-la em decúbito


esternal com as patas
traseiras estendidas para
trás. (MANUAL
MERCK DE

VETERINARIA, 2006).

Um método alternativo envolve a elevação dos quartos posteriores com algum tipo de
elevador preso às patas anteriores, colocando assim a vaca em decúbito dorsal. Recoloca-se o
útero como indicado anteriormente.

A fim de impedir possíveis recidivas, utilizam-se métodos de fechamento da vulva,


tais como o de Flessa ou de Bühner, a vulva é untada com pomada de oxido de zinco
adicionado a óleo de fígado de bacalhau. Após seis ou oito dias são retirados os pontos da
sutura.

A sutura de Flessa pode ser feita com a agulha de flessa ou mesmo com a agulha em S,
são feitos pontos de Wolf em dois ou três lugares, dependendo do tamanho da vulva, são
utilizados captons para proteger a pele e evitar corte do fio. A sutura de Bühner é mais
utilizada para vacas de vulva pequena, sendo feita com a agulha de Bühner ou com a agulha
em S, é feito um ponto grande de Wolf na vertical usando captons na parte superior e inferior
da vulva, ficando perpendicular a comissura vulvar, a agulha não se aprofunda tanto quanto
na sutura de Flessa (GRUNERT e BIRGEL, 1982)

O prognóstico depende do grau de lesão e de contaminação do útero. A reposição


imediata de um útero limpo e minimamente traumatizado permite um prognóstico favorável.
Não há tendência da afecção para recidivar nos partos subsequentes. As complicações tendem
a se desenvolver quando ocorrem laceração, necrose e infecção, ou quando se retarda o
tratamento. (MANUAL MERCK DE VETERINARIA, 2006).
Os animais devem ser mantidos no nível do chão, durante o final da prenhez. Os
métodos para impedir um prolapso intermitente no final da prenhez incluem várias técnicas de
sutura ou o uso de um dispositivo de retenção (retentor de prolapso de Johnson).

A ressecção de uma parte da mucosa da parede vaginal, a fixação da parede cervical


ou vaginal e a anestesia epidural com a utilização de álcool para impedir a distensão
constituem outras soluções a longo prazo para o prolapso recidivante.

Após a administração do anestésico epidural, lava-se o órgão com sabão e água e


enxágua-se completamente; se necessário, esvazia-se a bexiga; a congestão e o edema são
reduzidos por meio da aplicação de uma pressão gentil; recoloca-se a vagina e aplica-se um
antibiótico tópico.

Então deve ser retida a vagina na posição. Somente o último procedimento apresenta
uma dificuldade séria. A irritação da mucosa vaginal resulta em um tenesmo extremo, e os
dispositivos de retenção devem ser fortes para impedir a recidiva.

A retenção é conseguida temporária ou permanente por meio de vários métodos de


sutura da vulva. Grampos metálicos de prolapso com botões pesados ou dispositivos
semelhantes também têm sido utilizados. Esses dispositivos são removidos durante o primeiro
estágio do parto (MANUAL MERCK DE VETERINARIA, 2006.).

Como uma complicação rara do prolapso de vagina durante a realização do parto,


foram apresentados alguns casos de fistulas vesico-vaginal, com derrame de urina nos tecidos
circundantes a pelve, formação de abscessos urinários, peritonite séptica e consecutiva morte
do animal (VATTI, 1962).
CONCLUSÃO

Os distúrbios da gestação, parto e puerpério são facilmente encontrados na rotina de


granjas leiteiras. Em geral o prognostico é favorável, mas sempre subordinado ao estado do
órgão. Nos casos graves, quando o animal apresenta lesões severas tais como necrose e
trombose, o prognostico torna-se desfavorável, podendo ocorrer a morte logo após a redução
do prolapso.

Os prolapsos vaginal e cervical se repetirão invariavelmente e se tornarão mais graves


durante as gestações posteriores.

A idade da vaca e a sua ordem de parição, juntamente com o sexo e peso do feto ao
nascer são fatores importantes nos casos de prolapso. Com o conhecimento técnico e estas
informações se pode ter um controle eficaz e manejo adequado dos animais, maximizando
produção evitando perdas econômicas, morte de animais com alto valor zootécnico e
descartes de animais de alta produtividade dos rebanhos.

REFERÊNCIAS

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prolapso vaginal e uterino em vacas atendidas na clinica de bovinos, Campus Garanhuns.
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Caracterização das distocias atendidas no período de 1985 a 2003 na Clínica de Bovinos da
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Anim., v. 7, n. 2, p. 87-93, 2006.

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