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Um olhar de gênero e de geração nos

universos rurais
Gênero e geração em contextos à organização de atividades de produção, de
consumo, de comercialização, de sucessão e
rurais. de direitos”.
SCOTT, Parry; CORDEIRO, Rosineide; As organizadoras da coletânea optam
então por dividi-la em três blocos temáticos,
MENEZES, Marilda (Org.). agrupando assim artigos em cada uma dessas
partes. A primeira parte foca a questão do “Poder,
Florianópolis: Mulheres, 2010. política e negociações”, trazendo artigos que
discutem a violência contra a mulher nesse
contexto rural, assim como artigos que procuram
demonstrar o impacto do Pronaf Mulher para as
Fruto de diferentes trajetórias acadêmicas, agricultoras e a importância das políticas
a coletânea Gênero e geração em contextos discutidas no âmbito do Mercosul pensando as
rurais discute temas como gênero e geração mulheres rurais.
no universo rural, em distintos contextos rurais Buscando compreender como se dá a
abrangendo todas as regiões do Brasil. violência contra a mulher, Parry Scott, Ana Cláudia
Abrindo a coletânea, Ellen Woortmann faz Rodriguez e Jeíza Saraiva, em “Onde mal se
uma linha histórica dos estudos feministas no ouvem os gritos de socorro: notas sobre a violência
Brasil, mostrando as principais nuances que esses contra a mulher em contextos rurais, procuram
estudos apontavam e que rumos estão sendo verificar como a violência ocorre em relação às
explorados, fazendo uma breve introdução das mulheres rurais, uma lacuna percebida nos
discussões que na coletânea serão debatidas: estudos e nas pesquisas sobre a temática.
o universo dos estudos rurais e as questões Tendo discutido a questão da violência
relacionadas ao gênero e à geração. contra a mulher no contexto rural e sendo
Parry Scott também faz breves reflexões verificado que o acesso da mulher às políticas
logo no início da coletânea, antecipando assim públicas permite maior autonomia, Carmen
algumas considerações que devem ser Osorio Hernández faz uma análise teórica das
levantadas. Uma primeira consideração mostra políticas públicas para essas agricultoras em
que cada vez mais as mulheres participam “Reconhecimento e autonomia: o impacto do
ativamente dos movimentos sociais e essa Pronaf-Mulher para as mulheres agricultoras”,
participação implica diferenciações nos mostrando algumas mudanças que vêm
contextos familiares, dando maior espaço ocorrendo no cenário rural em decorrência do
também para suas reivindicações. acesso das mulheres a esses benefícios
Outro aspecto visto como importante por governamentais.
Scott é o foco das atenções dos pesquisadores, Esse acesso às políticas públicas pode ser
que cada vez mais se voltam para os jovens, os visto como uma faca de dois gumes; afinal, se
idosos e os próprios adultos que “enfrentam a por um lado pode permitir maior autonomia às
reordenação das relações familiares, associadas mulheres agricultoras, por outro as mulheres

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podem ser vítimas desse acesso. É o caso amazônica”, contexto esse altamente demarca-
daquelas agricultoras que acessaram o crédito do pelas relações familiares na organização da
e realizaram investimentos junto à produção economia doméstica local. Aqui também se
leiteira, atividade proeminentemente feminina, procura revelar mais uma vez que o trabalho da
mas que, à medida que foi incorporando novas mulher não é reconhecido, apesar de funda-
tecnologias, foi se masculinizando. mental dentro da organização familiar.
Andrea Butto e Karla Hora apresentam uma Responsáveis pela alimentação familiar,
última reflexão nesse primeiro bloco temático plantam, cuidam das crianças, participam da
da coletânea, com o ensaio “Integração colheita, preparam as refeições, arrumam e
regional e políticas para as mulheres rurais no limpam a casa, lavam roupas e louças, cuidam
Mercosul”, em que procuram analisar aspectos do quintal e dos animais de pequeno porte,
da formulação e da implementação de políticas carregam ferramentas, limpam os roçados,
públicas para as mulheres rurais no âmbito participam de mutirões, e ainda assim seu trabalho
regional, a partir da Reunião Especializada sobre não é visibilizado, são vistas como estando
Agricultura Familiar (REAF) do Mercosul. apenas “ajudando” seus maridos ou seus pais.
A segunda parte da coletânea trata da Fechando a série de artigos que procura
“Organização produtiva, gênero e divisão do verificar a organização produtiva das unidades
trabalho” e reúne artigos que tratam das relações rurais e a questão de gênero, Hersilia Cadengue
estabelecidas entre gênero, trabalho e Oliveira e Mariomar Almeida enfatizam o papel
pluriatividade, complementaridade de gênero que as agricultoras ocupam nas unidades
e papel da mulher na manutenção da domésticas, verificando as relações de poder
agrobiodiversidade, e também das relações de existentes no âmbito familiar e os projetos de
gênero e poder em assentamentos rurais. vida que traçam em “Relações de gênero e
“As problemáticas de gênero e geração poder no assentamento rural Araraíba da Pedra
nas comunidades rurais de Santa Catarina” são – Cabo de Santo Agostinho – Pernambuco”.
abordadas por Vilênia Aguiar e Valmir Stropasolas, As autoras se concentram em demonstrar
que centram suas atenções nos principais a inserção e a integração das mulheres nas
aspectos relacionados à migração dos jovens políticas públicas voltadas para a agricultura
no contexto rural. familiar e as consequências desse fenômeno no
Há ainda algumas questões ressaltadas no contexto familiar, apresentando um Brasil onde
âmbito do gênero, tais como a falta de preparo ainda se mostra presente a ideia de que a mulher
gerencial ou até mesmo de estímulo para que é um apêndice do homem, especialmente nessa
as mulheres se envolvam com as questões área.
relacionadas à gestão da propriedade, o Tendo estabelecido o papel do gênero
controle contínuo dos pais e sua própria exclusão nas organizações produtivas e a divisão do
dos processos sucessórios. trabalho ali presente, a parte final da coletânea
Essas questões também estão presentes no foca nas questões relacionadas às “Mobilidades,
artigo de Carolina Braz de Castilho Silva e Sergio juventudes e relações interageracionais”. Nela
Schneider, “Gênero, trabalho rural e pluratividade”, são apresentados os diferentes contextos
que procura identificar as formas de inserção migratórios no país, tentando desvelar o impacto
das mulheres rurais no mercado de trabalho em dessa mobilidade generificada para os locais
atividades não agrícolas e fora da propriedade de origem desses migrantes, assim como para
familiar e suas consequências e efeitos sobre a os locais de destino escolhidos.
unidade produtiva. Um primeiro contexto migratório envolvendo
Novamente aqui a invisibilidade do trabalho gênero é apresentado por Marcelo Saturnino Silva
feminino é colocada em evidência na discussão e Marilda Aparecida Menezes em “Homens que
do lugar da mulher e na divisão do trabalho, migram, mulheres que ficam: o cotidiano das
mostrando que as mulheres estão presentes nos esposas, mães e namoradas dos migrantes
trabalhos produtivos dos empreendimentos rurais, sazonais do município de Tavares – PB”,
sim, mas ainda carregam o peso de serem enfocando a migração temporária de homens
concebidas nessa esfera apenas como ajudantes nordestinos para as lavouras de cana do Sudeste,
do trabalhador masculino. retornando a seus locais de origem logo após a
O trabalho das mulheres no contexto rural safra.
é também apreciado por Iraildes Caldas Torres Silva e Menezes demonstram que a
e Luana Mesquita Rodrigues no texto “O trabalho autonomia temporária dada às mulheres que
das mulheres no sistema produtivo da várzea ficam nos roçados enquanto seus homens

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migram é bastante superficial, pois essas negociar quanto e como aplicar na propriedade,
continuam subordinadas a seus pais e maridos, modificando ainda o acesso a direitos, o que
que, mesmo a distância, são os tomadores de anteriormente era inconcebível.
decisões da família no que se refere ao Preocupados também com a juventude
patrimônio e aos investimentos a serem realizados. rural, Rosineide Meira Cordeiro e Marion Teodósio
A análise dessas mulheres que decidem Quadros analisam as jovens agricultoras que
migrar, solteiras ou casadas, e as resultantes engravidaram antes dos 16 anos de idade e
configurações sociais são abordadas por Maria que, por isso, não podem acessar o salário-
Aparecida de Moraes Silva, Beatriz Medeiros maternidade em “Jovens agricultoras, salário-
Melo e Andréia Perez Appolinario em “Vidas em maternidade e o critério idade”. Aqui a idade
trânsito, mulheres dos cocais maranhenses nas mínima imposta às beneficiárias do programa é
periferias das cidades canavieiras paulistas”. questionada, dialogando com algumas ideias
As autoras observaram que muitas das feministas sobre a maternidade, assim como
mulheres que migram não fazem parte da força com legislações que colocam a proteção da
empregada nos canaviais, mas desempenham maternidade sob o prisma da proteção
papéis fundamentais que asseguram a trabalhista e previdenciária.
permanência da família, mantendo os vínculos O debate sobre a gravidez na adolescên-
com os locais de origem, assim como as mulheres cia é também levantado pelas autoras, conside-
que ficam também o fazem.. rando não somente as questões relacionadas à
Focando a juventude, Maria de Assunção idade, mas os diferentes significados da gravidez
Lima Paulo, em “Juventude rural, sexualidade e para os jovens em diferentes contextos.
gênero: uma perspectiva para pensar a identi- Celecina de Maria Veras Sales também foca
dade”, tenta verificar como os jovens rurais se as jovens moças rurais em “Mulheres jovens rurais:
percebem como indivíduos, utilizando-se dos marcando seus espaços”, tentando demonstrar o
questionamentos envolvendo a sexualidade lugar social das mulheres jovens num assenta-
para perceber como essas jovens pensam suas mento rural do sertão cearense. Sales traça um
identidades. breve histórico de como o movimento feminista
Já Arlene Renk, Rosana Maria Badalotti e foi ganhando força e de como as políticas
Silvana Winckler centralizam suas preocupações públicas foram sendo construídas ao longo do
com as mudanças socioculturais ocorridas nas tempo, mostrando a importância das lutas das
relações de gênero em seu artigo “Mudanças mulheres camponesas pelo reconhecimento civil
socioculturais nas relações de gênero e e trabalhista, pelo direito de ter o título da terra e
intergeracionais: o caso do campesinato no por participação política.
Oeste Catarinense”, focando seu estudo nas A condição juvenil só começa a ser
estratégias de reprodução social e de contemplada a partir da década de 1990,
empoderamento das mulheres nessa região. levantada por alguns pesquisadores que
O artigo fala do controle masculino sobre perceberam dificuldades como falta de
as filhas mulheres, vigiando sua reputação moral emprego, violência e outras demandas da
para obter boas alianças matrimoniais, mas juventude que começam a ter visibilidade.
também do controle que a Igreja e a sociedade Procurando analisar as mudanças no
exercem sobre elas. As autoras tentam demonstrar discurso e nas intervenções dos jovens assistidos
ainda como as modificações associativas por uma ONG feminista contra a violência de
modificaram a situação da mulher no contexto gênero, Hulda Stadtler e Marcílio José Silva, em
rural, seja impulsionando a obtenção de “Ações educativas de uma ONG feminista em
documentação, seja na incorporação dessas zona rural e mudanças no discurso local de
mulheres nos grupos e nas lideranças rurais, como jovens”, finalizam a coletânea mostrando uma
o Movimento de Mulheres Agricultoras (atual experiência de sucesso.
Movimento de Mulheres Camponesas) e o MST. Neste artigo, Stadtler e Silva anteveem o
A pluriatividade é também abordada neste poder de atuação que as ONGs assumem na
artigo, vista como uma estratégia que consegue sociedade por estarem em contato direto com
conciliar o trabalho da unidade familiar com a as carências vividas pelas comunidades e como
venda da mão de obra assalariada, provocando a ação de uma ONG de abordagem feminista
alterações nos papéis na família.. Dessa forma, pode ser determinante na mudança dos
os jovens que trazem renda para casa discursos dos jovens da região em que atua.
conquistam um diferente status na relação com Políticas públicas, negociações, organiza-
o chefe da família, com quem passarão a ções produtivas, juventude e mobilidade,,

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considerando gênero e geração, são devida- uma diversidade de mulheres jovens e adultas,
mente aprofundadas na coletânea, mostrando abrindo a discussão para profícuos debates
diversas nuances de um contexto rural tão diversifi- futuros.
cado em sua geografia, mas com similaridades
que ultrapassam fronteiras estaduais e que unem Marie-Anne Stival Pereira e Leal Lozano
Universidade Federal de Santa Catarina

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