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SONHOS LÚCIDOS

Florinda Donner é uma discípula de Don Juan Matus, um mestre


bruxo do estado de Sonora, México e, por mais de vinte anos, uma
companheira minha nesta aprendizagem. Devido a seus talentos
naturais, Don Juan e duas de suas companheiras feiticeiras, Florinda
Grau e Zuleica A belar, deram a Florinda Donner uma instrução e
cuidados muito especiais. Entre os três a treinaram como
“ensonhadora” e a levaram a desenvolver sua “atenção de em sonho”
a um grau de controle extraordinário.

De acordo com os ensinamentos de Don Juan Matus, os


feiticeiros do antigo México praticavam duas artes: a arte de
espreitar e a arte de ‘ensonhar’. Praticar uma ou outra arte estava
decretado pela atitude inata de cada praticante da feitiçaria.

Ensonhadores eram aqueles que possuíam a habilidade de fixar


o que os bruxos chamam de “atenção de em sonhos”, um aspecto
especial da consciência, nos elementos dos sonhos normais.

Chamavam espreitadores a aqueles que possuíam uma aptidão


inata conhecida c omo a “atenção de espreita”, outro estado especial
da consciência, que permite encontrar os elementos chave de
qualquer situação no mundo cotidiano e fixar essa dita atenção neles,
a fim de alterá-los ou de ajudá-los a permanecer em seu curso.

Através de seus ensinamentos, Don Juan Matus sempre deixou


muito claro que as idéias dos bruxos da antiguidade ainda
permanecem em vigência hoje em dia, e que os bruxos modernos
sempre se reúnem nesses dois grupos tradicionais. Para tanto, seu
esforço como mestre foi inculcar em seus discípulos as idéias e
práticas dos bruxos da antiguidade por meio de um rigoroso
treinamento e uma disciplina férrea.

A idéia dos bruxos é que ao fazer com que a atenção de


“ensonhos” se fixe nos elementos dos sonhos normais, estes sonhos
se transformam de imediato em “ensonhos”. Para eles, os “ensonhos”
são estados únicos da consciência; algo como comportas abertas até
outros mundos reais, porém alheios à mente racional do homem
moderno. Na primeira vez que Don Juan me falou da arte de
“ensonhar”, eu lhe perguntei:

─ Você quer dizer, Don Juan, que um feiticeiro toma a seus


sonhos como se fossem uma realidade?
─ Um feiticeiro não toma nada como se fosse outra coisa ─
contestou. ─ Os sonhos são sonhos. Os “ensonhos” não são algo que
se pode tomar como a realidade: os “ensonhos” são uma realidade a
parte.
─ Como é tudo isso? Me explique.
─ Você tem que entender que um bruxo não é um idiota nem um
transtornado mental. Um bruxo não tem nem o tempo nem a
disposição para enganar a si mesmo, ou para enganar a ninguém, e
menos ainda para dar um passo em falso. O que perderia fazendo
isso é demasiado grande. Perderia sua ordem vital, a qual leva uma
vida inteira para se aperfeiçoar. Um feiticeiro não vai desperdiçar
algo que vale mais que sua vida tomando uma coisa por outra. Os
”ensonhos” são algo real para um bruxo porque neles ele pode atuar
deliberadamente; pode escolher dentro de uma variedade de
possibilidades àquelas que sejam as mais adequadas para levá-lo
aonde ele necessite ir.
─ Então v ocê quer dizer que os “ensonhos” são tão reais c omo o
que estamos fazendo agora?
─ Se prefere comparações, lhe direi que os “ensonhos” são
talvez mais reais. Neles a pessoa tem poder para mudar a natureza
das coisas, ou para mudar o curso dos eventos. Mas tudo isso não é o
importante.
─ O que é então o importante, Don Juan?
─ O jogo da percepção. Ensonhar ou espreitar significa ampliar
o campo do que se pode perceber a um ponto inconcebível para a
mente.

Na opinião dos bruxos, todos nós em geral possuímos dons


naturais de “ensonhadores ou espreitadores”, e a muitos de nós nos
resulta muito fácil ganhar o controle da atenção de “ensonhos” ou o
da atenção de “espreita”, e o fazemos de uma maneira tão hábil e
natural que na maioria das vezes nem nos damos conta de o haver
realizado. Um exemplo disto é a história do treinamento de Florinda
Donner, que precisou de anos inteiros de agonizante trabalho, não
para ganhar o controle de sua atenção de ensonho, e sim para clarear
seus ganhos como ensonhadora e integrá-los ao pensamento linear
de nossa civilização.

Certa vez foi perguntado a Florinda Donner qual era a razão


pela qual escreveu este livro, e ela respondeu que lhe era
indispensável contar suas experiências no processo de enfrentar e
desenvolver a atenção de ensonho a fim de tentar, intrigar ou incitar,
pelo menos intelectualmente, a aqueles que se interessem em levar a
sério as afirmações de Don Juan Matus acerca das ilimitadas
possibilidades da percepção. Don Juan acreditava que no mundo
inteiro não existe, nem talvez já tenha existido, outro sistema, exceto
o dos bruxos do antigo México, que conceda à percepção seu
merecido valor pragmático.

CARLOS CASTANEDA

Download livro -pt.scribd.com/doc/22860765/Florinda-Donner-Grau-03-


Sonhos-Lucidos
Fonte: http://pistasdocaminho.blogspot.com

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